Leia o texto a seguir.
Estávamos nessa distração de risos e gasosas batizadas, quando a avó Catarina veio me pedir o apito. Eu tinha esquecido de lhe entregar o apito. Naquele tempo, antes de sairmos de casa para o nosso desfile de crianças mascaradas, a disputa era quem ia levar o apito na boca. Esse que tinha poder de apitar fazia a vez daqueles que, no desfile de verdade, vão à frente a marcar o ritmo do grupo. Nesse ano, não sei porquê, ninguém tinha mostrado vontade de apitar, e a avó Catarina tinha me dado o apito. Eu fiquei contente e nervoso, porque se eu não apitasse bem, mais tarde iam me gozar durante bué de semanas. Mas correu tudo bem.
Agora, devagarinho, e sempre falando baixo, a avó Catarina veio me pedir o apito.
– Dá-me o apito, filho, que eu tenho de ir lá a cima ver se deixei as janelas abertas.
Ela parecia ter pressa. Procurei nos bolsos, nada no casaco, nada na calça. Fiquei atrapalhado, pousei o copo com o restinho da gasosa aguada do batismo.
– Espera só, avó – levantei a calça, encontrei o apito escondido na meia. Tinha medo de ser roubado porque já tínhamos voltado para casa quando estava escuro.
Dei-lhe o apito e ela fez uma coisa que fazia poucas vezes: sorriu e fez-me um carinho na bochecha. Nunca disse aos meus primos porque iam me gozar, mas eu não sabia que a mão assim toda enrugadinha da avó Catarina era tão suave. Fechei os olhos. Quando os abri, ela já não estava lá: a avó Catarina era muito rápida a desaparecer.
Ondjaki. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007. p. 63-64. (Fragmento)
As formas verbais destacadas contribuem para a produção de sentido do texto porque expressam:
Escolha uma:
a.
atos já concluídos no instante em que descrevem as ações em questão.
b.
fatos que se realizam simultaneamente ao momento da fala do narrador.
c.
ações habituais e contínuas realizadas pelo narrador e por seus vizinhos.
d.
eventos acontecidos anteriormente aos episódios relatados na narrativa.