Passei metade da minha vida correndo atrás de um diploma. Não era, porém, uma tese de doutorado, dessas que se desenvolvem durante a vida inteira e por fim coroam uma brilhante carreira universitária: não, era apenas um modesto diploma de assistente social.
[...] Garotinha, eu cantava com fervor o nosso herói [Fidèle Rwambuka, primeiro autóctone a se diplomar em Ruanda], meu peito pequeno se inflava de orgulho, como eu poderia imaginar que em 1992 seria ele o primeiro a organizar o massacre dos tutsis em Nyamata, prelúdio do genocídio de 1994?
Quando eu voltava da escola, meu pai logo mandava que eu guardasse meu uniforme e cantasse para ele mais uma vez a famosa canção. De fato, ela servia de introdução a um de seus eternos discursos sobre a necessidade de ir à escola e obter um diploma. Ele nunca especificava qual, e da minha parte, eu não sabia exatamente o que encobria essa palavra mágica, idipolomi. “Em todo caso”, concluía papai, “é um papel, se você algum dia possuí-lo e vier a precisar dele, idipolomi nziza, um belo diploma, é ele que te salvará da morte que nos é destinada, guarde-o sempre consigo como um talismã, seu passaporte para a vida.”
MUKASONGA, S. Um belo diploma. Tradução de Raquel Camargo, São Paulo: Editora Nós, 2020, p. 5-6.
1. Que características do trecho indicam que se trata de uma narrativa de memórias?
2. Por que a autora escolheu falar do diploma para narrar suas memórias?