Texto 1
O homem que não tem o que fazer*
Encontrei ontem a consultar o relógio, muito nervoso, o Clodomiro Gomes. Era em plena avenida. Como bom brasileiro tive uma exclamação de surpresa, apesar de vê-lo diariamente. E como bom brasileiro – (ou melhor, porque compreendo os próprios erros) – caminhei para Clodomiro, de braços abertos, disposto ao abraço fatal e a uma palestra sem motivo algum.
— Que fazes?
— Espero um táxi. Estou cheio de pressa!
— Tu, meu rapaz, riquíssimo, a quem o pai deixou dois mil contos...
— Que tens com isso?
— A quem a madrinha deixou três mil...
— Não, estou a dizer que um homem com dez mil contos, pelo menos, não tem o direito de ter pressa, porque não tem o que fazer!
Clodomiro Gomes olhou para mim com fúria.
— Não me digas isso. O meu mal é não ser como vocês, e não ter que trabalhar à sério para ganhar o meu sustento. Por isso ando cheio de preocupações, sem tempo, sem calma, sem alegria. Sabes lá o que é um homem não ter o que fazer? A minha vida é uma tortura! Positivamente. Sou rico? Desde manhã trabalho para matar o tempo, em coisas que para os outros não passam de distrações. As distrações são penas! Arrastado de festa em festa, figura obrigatória dos salões e dos teatros e dos chás – quero não ir e tenho pena de não ir, porque não saberia o que fazer, se não continuasse a ir. Vivo ressequido, curvado ao peso das diversões. Horror!
— Mas o amor?
— O amor para quem não tem o que fazer é o trabalho de gastar dinheiro com a falsidade.
— Mas os estudos?
— Para o homem que não tem o que fazer é – amadorismo.
— Ora! Sempre tens o gozo, o prazer...
— Trabalhos forçados para quem vive neles...
— Não estejas a brincar!
— Antes brinques...
Mas o que é ter o que fazer obriga-te a tanto trabalho, por que não trabalhas efetivamente? És rico. Monta uma empresa, protege a indústria, tem fábricas, cumpre a tua obrigação de açúcar como o ministro Bezerra ou já teve uma fábrica. Acorda às 6 da manhã, veste uma blusa. Todos precisam.