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MAQUIAVEL O PRÍNCIPE MAQUIAVEL O PRÍNCIPE Criação ePub Relíquia SUMÁRIO O Príncipe Capítulo I De Quantas Espécies são os Principados e de que Modos se Adquirem Dos Principados Capítulo II Dos Principados Hereditários Capítulo III Dos Principados Mistos Capítulo IV Por Que O Reino de Dario Ocupado por Alexandre Não se Rebelou Contra Seus Sucessores Após A Morte Deste Capítulo V De que Modo se Devam Governar as Cidades ou Principados que Antes de Serem Ocupados Viviam com as Suas Próprias Leis Capítulo VI Dos Principados Novos que se Conquistam com As Armas Próprias e Virtuosamente Capítulo VII Dos Principados Novos que se Conquistam com As Armas e Fortuna dos Outros Capítulo VIII Dos que Chegaram ao Principado Por Meio de Crimes Capítulo IX Do Principado Civil Capítulo X Como se Devem Medir as Forças de Todos os Principados Capítulo XI Dos Principados Eclesiásticos Capítulo XII De Quantas Espécies são as Milícias e dos Soldados Mercenários Capítulo XIII Dos Soldados Auxiliares Mistos e Próprios Capítulo XIV O que Compete a Um Príncipe Acerca da Milícia tropa Capítulo XV Daquelas Coisas Pelas Quais os Homens e Especialmente os Príncipes são Louvados ou Vituperados Capítulo XVI Da Liberalidade e da Parcimônia Capítulo XVII Da Crueldade e Da Piedade Se é Melhor Ser Amado que Temido ou Antes Temido que Amado Capítulo XVIII De Que Modo Os príncipes Devem Manter a Fé da Palavra Dada Capítulo XIX De Como se Deva Evitar o Ser Desprezado e Odiado Capítulo XX Se as Fortalezas e Muitas Outras Coisas que a Cada Dia São Feitas Pelos Príncipes São Úteis ou Não Capítulo XXI O que Convém a Um Príncipe Para Ser Estimado Capítulo XXII Dos Secretários que os Príncipes Têm Junto de Si Capítulo XXIII Como se Afastam os Aduladores Capítulo XXIV Por que Os Príncipes da Itália Perderam Seus Estados Capítulo XXV De Quanto Pode a Fortuna nas Coisas Humanas e De Que Modo se lhe Deva Resistir Capítulo XXVI Exortação para Procurar Tomar a Itália e Libertála das Mãos dos Bárbaros Carta de Machiavelli a Francesco Vettori em Roma O PRÍNCIPE Maquiavel AO MAGNÍFICO LORENZO DE MEDICI NICOLÓ MACHIAVELLI DOS PRINCIPADOS O PRÍNCIPE Costumam o mais das vezes aqueles que desejam conquistar as graças de um Príncipe trazerlhe aquelas coisas que consideram mais caras ou nas quais o vejam encontrar deleite donde se vê amiúde serem a ele oferecidos cavalos armas tecidos de ouro pedras preciosas e outros ornamentos semelhantes dignos de sua grandeza Desejando eu portanto oferecerme a Vossa Magnificência com um testemunho qualquer de minha submissão não encontrei entre os meus cabedais coisa a mim mais cara ou que tanto estime quanto o conhecimento das ações dos grandes homens apreendido através de uma longa experiência das coisas modernas e uma contínua lição das antigas as quais tendo com grande diligência longamente perscrutado e examinado e agora reduzido a um pequeno volume envio a Vossa Magnificência E se bem julgue esta obra indigna da presença de Vossa Magnificência não menos confio que deva ela ser aceita considerado que de minha parte não lhe possa ser feito maior oferecimento senão o darlhe a faculdade de poder em tempo assaz breve compreender tudo aquilo que eu em tantos anos e com tantos incômodos e perigos vim a conhecer Não ornei este trabalho nem o enchi de períodos sonoros ou de palavras pomposas e magníficas ou de qualquer outra figura de retórica ou ornamento extrínseco com os quais muitos costumam desenvolver e enfeitar suas obras e isto porque não quero que outra coisa o valorize a não ser a variedade da matéria e a gravidade do assunto a tornarem no agradável Nem desejo se considere presunção se um homem de baixa e ínfima condição ousa discorrer e estabelecer regras a respeito do governo dos príncipes assim como aqueles que desenham a paisagem se colocam nas baixadas para considerar a natureza dos montes e das altitudes e para observar aquelas se situam em posição elevada sobre os montes também para bem conhecer o caráter do povo é preciso ser príncipe e para bem entender o do príncipe é preciso ser do povo Receba pois Vossa Magnificência este pequeno presente com aquele intuito com que o mando nele se diligentemente considerado e lido encontrará o meu extremo desejo de que lhe advenha aquela grandeza que a fortuna e as outras suas qualidades lhe prometem E se Vossa Magnificência das culminâncias em que se encontra alguma vez volver os olhos para baixo notará quão imerecidamente suporto um grande e contínuo infortúnio CAPÍTULO I DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO OS PRINCIPADOS E DE QUE MODOS SE ADQUIREM QUOT SINT GENERA PRINCIPATUUM ET QUIBUS MODIS ACQUIRANTUR Todos os Estados todos os governos que tiveram e têm autoridade sobre os homens foram e são ou repúblicas ou principados Os principados são ou hereditários quando seu sangue senhorial é nobre há já longo tempo ou novos Os novos podem ser totalmente novos como foi Milão com Francisco Sforza ou o são como membros acrescidos ao Estado hereditário do príncipe que os adquire como é o reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha Estes domínios assim obtidos estão acostumados ou a viver submetidos a um príncipe ou a ser livres sendo adquiridos com tropas de outrem ou com as próprias bem como pela fortuna ou por virtude DOS PRINCIPADOS De Principatibus CAPÍTULO II DOS PRINCIPADOS HEREDITÁRIOS DE PRINCIPATIBUS HEREDITARIIS Não cogitarei aqui das repúblicas porque delas tratei longamente em outra oportunidade Voltarei minha atenção somente para os principados irei delineando os princípios descritos e discutirei como devem ser eles governados e mantidos Digo pois que para a preservação dos Estados hereditários e afeiçoados à linhagem de seu príncipe as dificuldades são assaz menores que nos novos pois é bastante não preterir os costumes dos antepassados e depois contemporizar com os acontecimentos fortuitos de forma que se tal príncipe for dotado de ordinária capacidade sempre se manterá no poder a menos que uma extraordinária e excessiva força dele venha a priválo e uma vez dele destituído ainda que temível seja o usurpador volta a conquistálo Nós temos na Itália como exemplo o Duque de Ferrara que não cedeu aos assaltos dos venezianos em 1484 nem aos do Papa Júlio em 1510 apenas por ser antigo naquele domínio Na verdade o príncipe natural tem menores razões e menos necessidade de ofender donde se conclui dever ser mais amado e se não se faz odiar por desbragados vícios é lógico e natural seja benquisto de todos E na antigüidade e continuação do exercício do poder apagamse as lembranças e as causas das inovações porque uma mudança sempre deixa lançada a base para a ereção de outra CAPÍTULO III DOS PRINCIPADOS MISTOS DE PRINCIPATIBUS MIXTIS Mas é nos principados novos que residem as dificuldades Em primeiro lugar se não é totalmente novo mas sim como membro anexado a um Estado hereditário que em seu conjunto pode chamarse quase misto as suas variações resultam principalmente de uma natural dificuldade inerente a todos os principados novos é que os homens com satisfação mudam de senhor pensando melhorar e esta crença faz com que lancem mão de armas contra o senhor atual no que se enganam porque pela própria experiência percebem mais tarde ter piorado a situação Isso depende de uma outra necessidade natural e ordinária a qual faz com que o novo príncipe sempre precise ofender os novos súditos com seus soldados e com outras infinitas injúrias que se lançam sobre a recente conquista dessa forma tens como inimigos todos aqueles que ofendeste com a ocupação daquele principado e não podes manter como amigos os que te puseram ali por não poderes satisfazêlos pela forma por que tinham imaginado nem aplicarlhes corretivos violentos uma vez que estás a eles obrigado porque sempre mesmo que fortíssimo em exércitos temse necessidade do apoio dos habitantes para penetrar numa província Foi por essas razões que Luís XII rei de França ocupou Milão rapidamente e logo depois o perdeu para tanto bastando inicialmente as forças de Ludovico porque aquelas populações que lhe haviam aberto as portas reconhecendo o erro de seu pensar anterior e descrentes daquele bemestar futuro que haviam imaginado não mais podiam suportar os dissabores ocasionados pelo novo príncipe É bem verdade que reconquistando posteriormente as regiões rebeladas mais dificilmente se as perdem eis que o senhor em razão da rebelião é menos vacilante em assegurarse da punição daqueles que lhe faltaram com a lealdade em investigar os suspeitos e em reparar os pontos mais fracos Assim sendo se para que a França viesse a perder Milão pela primeira vez foi suficiente um Duque Ludovico que fizesse motins nos seus limites já para perdêlo pela segunda vez foi preciso que tivesse contra si o mundo todo e que seus exércitos fossem desbaratados ou expulsos da Itália o que resultou das razões logo acima apontadas Não obstante tanto na primeira como na segunda vez Milão foilhe tomado As razões gerais da primeira foram expostas resta agora falar sobre as da segunda vez e ver de que remédios dispunha a França e de que meios poderá valerse quem venha a encontrarse em circunstâncias tais para poder manterse na posse da conquista melhor do que o fez esse país Digo consequentemente que estes Estados conquistados e anexados a um Estado antigo ou são da mesma província e da mesma língua ou não o são Quando o sejam é sumamente fácil mantêlos sujeitos máxime quando não estejam habituados a viver em liberdade e para dominálos seguramente será bastante terse extinguido a estirpe do príncipe que os governava porque nas outras coisas conservandose suas velhas condições e não existindo alteração de costumes os homens passam a viver tranqüilamente como se viu ter ocorrido com a Borgonha a Bretanha a Gasconha e a Normandia que por tanto tempo estiveram com a França isto a despeito da relativa diversidade de línguas mas graças à semelhança de costumes facilmente se acomodaram entre eles E quem conquista querendo conserválos deve adotar duas medidas a primeira fazer com que a linhagem do antigo príncipe seja extinta a outra aquela de não alterar nem as suas leis nem os impostos por tal forma dentro de mui curto lapso de tempo o território conquistado passa a constituir um corpo todo com o principado antigo Mas quando se conquistam territórios numa província com língua costumes e leis diferentes aqui surgem as dificuldades e é necessário haver muito boa sorte e habilidade para mantêlos E um dos maiores e mais eficientes remédios seria aquele do conquistador ir habitálos Isto tornaria mais segura e mais duradoura a posse adquirida como ocorreu com o Turco da Grécia que a despeito de ter observado todas as leis locais não teria conservado esse território se para aí não tivesse se transferido Isso porque estando no local podese ver nascerem as desordens e rapidamente podem ser elas reprimidas aí não estando delas somente se tem notícia quando já alastradas e não mais passíveis de solução Além disso a província conquistada não é saqueada pelos lugar tenentes os súditos ficam satisfeitos porque o recurso ao príncipe se torna mais fácil donde têm mais razões para amálo querendo ser bons e para temêlo caso queiram agir por forma diversa Quem do exterior desejar assaltar aquele Estado por ele terá maior respeito donde habitandoo o príncipe somente com muita dificuldade poderá vir a perdêlo Outro remédio eficaz é instalar colônias num ou dois pontos que sejam como grilhões postos àquele Estado eis que é necessário ou fazer tal ou aí manter muita tropa Com as colônias não se despende muito e sem grande custo podem ser instaladas e mantidas sendo que sua criação prejudica somente àqueles de quem se tomam os campos e as casas para cedêlos aos novos habitantes os quais constituem uma parcela mínima do Estado conquistado Ainda os assim prejudicados ficando dispersos e pobres não podem causar dano algum enquanto que os não lesados ficam à parte amedrontados devendo aquietarse ao pensamento de que não poderão errar para que a eles não ocorra o mesmo que aconteceu àqueles que foram espoliados Concluo dizendo que estas colônias não são onerosas são mais fiéis ofendem menos e os prejudicados não podem causar mal tornados pobres e dispersos como já foi dito Por onde se depreende que os homens devem ser acarinhados ou eliminados pois se se vingam das pequenas ofensas das graves não podem fazêlo daí decorre que a ofensa que se faz ao homem deve ser tal que não se possa temer vingança Mas mantendo em lugar de colônias forças militares gastase muito mais absorvida toda a arrecadação daquele Estado na guarda aí destacada dessa forma a conquista transformase em perda e ofende muito mais por que danifica todo aquele país com as mudanças do alojamento do exército incômodo esse que todos sentem e que transforma cada habitante em inimigo e são inimigos que podem causar dano ao conquistador pois vencidos ficam em sua própria casa Sob qualquer ponto de vista essa guarda armada é inútil ao passo que a criação de colônias é útil Deve ainda quem se encontre à frente de uma província diferente como foi dito tornarse chefe e defensor dos menos fortes tratando de enfraquecer os poderosos e cuidando que em hipótese alguma aí penetre um forasteiro tão forte quanto ele E sempre surgirá quem seja chamado por aqueles que na província se sintam descontentes seja por excessiva ambição seja por medo como viuse terem os etólios introduzido na Grécia os romanos que aliás em todas as outras províncias que conquistaram fizeramno auxiliados pelos respectivos habitantes E a ordem das coisas é que tão logo um estrangeiro poderoso penetre numa província todos aqueles que nela são mais fracos a ele dêem adesão movidos pela inveja contra quem se tornou poderoso sobre eles tanto assim é que em relação a estes não se torna necessário grande trabalho para obter seu apoio pois logo todos eles voluntariamente formam bloco com o seu Estado conquistado Apenas deve haver o cuidado de não permitir adquiram eles muito poder e muita autoridade podendo o conquistador facilmente com suas forças e com o apoio dos mesmos abater aqueles que ainda estejam fortes para tornarse senhor absoluto daquela província E quem não encaminhar satisfatoriamente esta parte cedo perderá a sua conquista e enquanto puder conservála terá infinitos aborrecimentos e dificuldades Os romanos nas províncias de que se assenhorearam observaram bem estes pontos fundaram colônias conquistaram a amizade dos menos prestigiosos sem lhes aumentar o poder abateram os mais fortes e não deixaram que os estrangeiros poderosos adquirissem conceito Quero tomar como exemplo apenas a província da Grécia Os aqueus e os etólios tornaramse amigos dos romanos foi abatido o reino dos macedônios e daí foi expulso Antíoco mas nem os méritos dos aqueus e dos etólios lhes asseguraram permissão para conquistar algum Estado nem a persuasão de Felipe logrou fazer com que os romanos se tornassem seus amigos e não o diminuíssem nem o poder de Antíoco conseguiu fazer com que os mesmos o autorizassem a manter seu domínio naquela província Isso tudo ocorreu porque os romanos fizeram nesses casos aquilo que todo príncipe inteligente deve fazer não somente vigiar e ter cuidado com as desordens presentes como também com as futuras evitandoas com toda a cautela porque previstas a tempo facilmente se lhes pode opor corretivo mas esperando que se avizinhem o remédio não chega a tempo e o mal já então se tornou incurável Ocorre aqui como no caso do tuberculoso segundo os médicos no princípio é fácil a cura e difícil o diagnóstico mas com o decorrer do tempo se a enfermidade não foi conhecida nem tratada torna se fácil o diagnóstico e difícil a cura Assim também ocorre nos assuntos do Estado porque conhecendo com antecedência os males que o atingem o que não é dado senão a um homem prudente a cura é rápida mas quando por não se os ter conhecido logo vêm eles a crescer de modo a se tornarem do conhecimento de todos não mais existe remédio Contudo os romanos prevendo as perturbações sempre as tolheram e jamais para fugir à guerra permitiram que as mesmas seguissem seu curso pois sabiam que a guerra não se evita mas apenas se adia em benefício dos outros por isso mesmo promoveram a guerra contra Felipe e Antíoco na Grécia para evitar terem de fazêla na Itália e no entanto podiam ter evitado a luta naquele momento se o quisessem Nem em momento algum lhes agradou aquilo que todos os dias está nos lábios dos entendidos de nosso tempo o desejo de gozar do benefício da contemporização mas sim apenas aquilo que resultava de sua própria virtude e prudência na verdade o tempo lança à frente todas as coisas e pode transformar o bem em mal e o mal em bem Mas voltemos à França e examinemos se ela fez alguma das coisas que expomos falando eu de Luís e não de Carlos porque foi daquele que por ter mantido mais prolongado domínio na Itália melhor se viram os progressos e vereis como ele fez o contrário que se deve fazer para conservar um Estado numa província diferente O Rei Luís foi conduzido à Itália pela ambição dos venezianos que por tal meio quiseram ganhar o Estado da Lombardia Não desejo censurar o partido tomado pelo rei porque querendo começar a pôr um pé na Itália e não tendo amigos nesta província sendolhe ao contrário fechadas todas as portas em razão do comportamento do Rei Carlos foi obrigado a servirse daquelas amizades com que podia contar e terlheia resultado bem escolhido esse partido se nos outros manejos não tivesse cometido erro algum Conquistada pois a Lombardia o rei readquiriu prontamente aquela reputação que Carlos perdera Gênova cedeu os florentinos tornaramse seus amigos o marquês de Mantua o duque de Ferrara Bentivoglio a senhora de Forli o senhor de Faenza de Pesaro de Rimini de Camerino de Piombino os Luqueses os Pisanos e os Sieneses todos foram ao seu encontro para tornaremse seus amigos Os venezianos puderam considerar então a temeridade da resolução que haviam adotado pois que para conquistar dois tratos de terra na Lombardia fizeram o rei tornarse senhor de dois terços da Itália Considerese agora com quanta facilidade podia o rei manter a sua reputação na Itália se observadas as normas já referidas tivesse conservado seguros e defendidos todos aqueles seus amigos que por serem em grande número fracos e medrosos uns em relação à Igreja os outros face aos venezianos precisavam sempre estar com ele por meio deles poderia facilmente terse assegurado contra os que ainda se conservavam fortes Mas ele apenas chegado a Milão fez o contrário dando auxilio ao papa Alexandre para que ocupasse a Romanha Nem percebeu que com essa deliberação enfraquecia a si próprio afastando os amigos e aqueles que se lhe tinham lançado aos braços enquanto engrandecia a Igreja acrescentando ao poder espiritual que lhe dá tanta autoridade tamanha força temporal Cometido um primeiro erro foi compelido a seguir praticando outros até que para pôr fim à ambição de Alexandre e evitar que este se tornasse senhor da Toscana teve de vir pessoalmente à Itália Não lhe bastou ter tornado grande a Igreja e perder os amigos por querer o reino de Nápoles dividiuo com o rei da Espanha sendo primeiro o árbitro da Itália aí colocou um companheiro para que os ambiciosos daquela província e os descontentes com ele mesmo tivessem onde recorrer e em vez de deixar naquele reino um soberano a ele sujeito tirouo para em seu lugar colocar um outro que pudesse expulsálo dali É coisa muito natural e comum o desejo de conquistar e sempre quando os homens podem fazêlo serão louvados ou pelo menos não serão censurados mas quando não têm possibilidade e querem fazêlo de qualquer maneira aqui está o erro e consequentemente a censura Se a França pois podia assaltar Nápoles com suas forças devia fazêlo se não podia não devia dividir esse reino E se a divisão que fez com os venezianas sobre a Lombardia mereceu desculpa por ter com ela firmado pé na Itália aquela merece censura em razão de não ser justificada por essa necessidade Tinha pois Luís cometido estes cinco erros eliminou os menos fortes aumentou na Itália o prestígio de um poderoso aí colocou um estrangeiro poderosíssimo não veio habitar no país não instalou colônias Estes erros contudo poderiam não ter causado dano enquanto vivo ele fosse se não houvesse sido cometido o sexto erro tomar os territórios aos venezianos Na verdade se não tivesse tornado grande a Igreja nem introduzido a Espanha na Itália seria bem razoável e necessário enfraquecê los mas tomados que foram aqueles partidos nunca deveriam consentir na ruína dos mesmos pois sendo poderosos teriam sempre mantido aquelas à distância da Lombardia e isso porque os venezianos jamais iriam consentir em qualquer manobra contra esse Estado a menos que eles se tornassem os senhores da mesma forma que os outros não iriam querer tomálo à França para dálo aos venezianos ao mesmo tempo que lhes faltava coragem para entrar em luta com estes e com a França E se alguém dissesse o Rei Luís cedeu a Romanha a Alexandre e o Reino à Espanha para fugir a uma guerra respondo com as razões já anteriormente expostas de que nunca se deve deixar prosseguir uma crise para escapar a uma guerra mesmo porque dela não se foge mas apenas se adia para desvantagem própria E se alguns outros alegassem a palavra que o rei havia dado ao Papa qual a de realizar para ele aquela conquista em troca da dissolução de seu casamento e do chapéu cardinalício para o arcebispo de Ruão respondo com o que mais adiante se dirá acerca da palavra dos príncipes e de como se a deve respeitar Perdeu pois o Rei Luís a Lombardia por não ter respeitado nenhum dos princípios observados por outros que dominaram províncias e quiseram conserválas Não há aqui milagre algum mas é sim muito comum e razoável E deste assunto falei em Nantes ao arcebispo de Ruão quando Valentino assim popularmente chamado César Bórgia filho do Papa Alexandre ocupava a Romanha porque dizendome o cardeal de Ruão que os italianos não entendiam de guerra retruqueilhe que os franceses não entendiam do Estado pois que se de tal compreendessem não teriam deixado que a Igreja alcançasse tanta grandeza E por experiência viuse que a grandeza da Igreja e da Espanha na Itália foi causada pela França e a ruína desta foi acarretada por aquelas Disso se extrai uma regra geral que nunca ou raramente falha quem é causa do poderio de alguém arruinase por que esse poder resulta ou da astúcia ou da força e ambas são suspeitas para aquele que se tornou poderoso CAPÍTULO IV POR QUE O REINO DE DARIO OCUPADO POR ALEXANDRE NÃO SE REBELOU CONTRA SEUS SUCESSORES APÓS A MORTE DESTE CUR DARII REGNUM QUOD ALEXANDER OCCUPAVERAT A SUCCESSORIBUS SUIS POST ALEXANDRI MORTEM NON DEFECIT Consideradas as dificuldades que devem ser enfrentadas para a conservação de um Estado recémconquistado alguém poderia ficar pasmo ante o fato de que tendo se tornado senhor da Ásia em poucos anos não apenas havia terminado sua ocupação Alexandre Magno veio a morrer e a despeito de parecer razoável que todo aquele Estado devesse rebelarse seus sucessores o conservaram e para tanto não encontraram outra dificuldade senão aquela que por ambição pessoal nasceu entre eles mesmos Argumento os principados de que se conserva memória têm sido governados de duas formas diversas ou por um príncipe sendo todos os demais servos que como ministros por graça e concessão sua ajudam a governar o Estado ou por um príncipe e por barões os quais não por graça do senhor mas por antigüidade de sangue têm aquele grau de ministros Estes barões têm Estados e súditos próprios que os reconhecem por senhores e a eles dedicam natural afeição Os Estados que são governados por um príncipe e servos têm aquele com maior autoridade porque em toda a sua província não existe alguém reconhecido como chefe senão ele e se os súditos obedecem a algum outro fazemno em razão de sua posição de ministro e oficial não lhe dedicando o menor amor Os exemplos dessas duas espécies de governo são nos nossos tempos o Turco e o rei de França Toda a monarquia do Turco é dirigida por um senhor os outros são seus servos dividindo o seu reino em sandjaks para aí manda diversos administradores e os muda e varia de acordo com sua própria vontade Mas o rei de França está em meio a uma multidão de antigos senhores que nessa qualidade são reconhecidos pelos seus súditos e por eles amados têm as suas preeminências e não pode o rei priválos das mesmas sem perigo para si próprio Quem tiver em mira pois um e outro desses governos encontrará dificuldades para conquistar o Estado Turco mas vencido que seja este encontrará grande facilidade para conserválo Ao contrário encontrarseá em todos os sentidos maior facilidade para ocupar o Estado de França mas grande dificuldade para mantêlo As razões da dificuldade em ocupar o reino do Turco decorrem de não poder o atacante ser chamado por príncipes daquele reino nem esperar com a rebelião dos que rodeiam o soberano poder ter facilitada a sua empresa é o que resulta das razões referidas Porque sendo todos escravos e obrigados são mais dificilmente corruptíveis e quando fossem subornados pouco de útil poderseia esperar visto não serem eles capazes de arrastar o povo atrás de si pelos motivos já mencionados Logo se alguém assaltar o Estado Turco deve pensar que irá encontrálo todo unido convindo contar mais com suas próprias forças que com as desordens dos outros Mas vencido que seja e uma vez desbaratado em batalha campal de modo que não possa refazer os exércitos não se deve recear outra coisa senão a dinastia do príncipe uma vez extinta esta ninguém mais resta que deva ser temido já que os demais não gozam de prestígio junto ao povo e como o vencedor deste nada podia esperar antes da vitória depois dela não deve receálo O contrário ocorre nos reinos como o de França por que com facilidade podes invadilo em obtendo o apoio de algum barão do reino pois que sempre se encontram descontentes e os que desejam fazer inovações Estes pelas razões referidas podem abrir o acesso àquele Estado e facilitar a vitória Esta depois se desejares manterte arrasta atrás de si infinitas dificuldades seja com aqueles que te ajudaram seja com os que oprimiste Não é bastante extinguir a estirpe do príncipe pois permanecem aqueles senhores que se tornam chefes das novas revoluções e não podendo nem contentálos nem exterminálos perde aquele Estado tão logo surja a oportunidade Ora se for considerado de que natureza era o governo de Dario se o encontrará semelhante ao reino do Turco Para Alexandre foi necessário primeiro encurralálo e desbaratálo em batalha campal sendo que depois da vitória estando morto Dario aquele Estado tornouse seguro para Alexandre pelas razões acima expostas Seus sucessores se tivessem sido unidos poderiam têlo gozado tranqüilamente pois ali não surgiram outros tumultos que não os por eles próprios provocados Mas quanto aos Estados organizados como o da França é impossível possuílos com tanta tranqüilidade Dessa circunstância é que nasceram as freqüentes rebeliões da Espanha da França e da Grécia contra os romanos em decorrência do grande número de principados que havia naqueles Estados e por todo o tempo em que perdurou a sua memória os romanos estiveram inseguros na posse daqueles domínios Mas extinta a lembrança dos principados com o poder e a constância de sua autoridade os romanos tornaram se dominadores seguros Puderam eles também combatendo mais tarde em lutas internas arrastar cada facção para o seu lado parte daquelas províncias segundo a autoridade que havia adquirido junto a elas e essas províncias por não mais existir o sangue de seus antigos senhores não reconheciam senão a soberania dos romanos Consideradas pois todas estas coisas ninguém se maravilhará da facilidade que Alexandre encontrou para conservar o Estado da Ásia e das dificuldades que foram arrostadas pelos outros para manterem o conquistado como Pirro e muitos outros Isso não resultou da muita ou da pouca virtude do vencedor mas sim da diversidade de forma do objeto da conquista CAPÍTULO V DE QUE MODO SE DEVAM GOVERNAR AS CIDADES OU PRINCIPADOS QUE ANTES DE SEREM OCUPADOS VIVIAM COM AS SUAS PRÓPRIAS LEIS QUOMODO ADMINISTRANDAE SUNT CIVITATES VEL PRINCIPATUS QUI ANTEQUAM OCCUPARENTUR SUIS LEGIBUS VIVEBANT Quando aqueles Estados que se conquistam como foi dito estão habituados a viver com suas próprias leis e em liberdade existem três modos de conserválos o primeiro arruinálos o outro ir habitálos pessoalmente o terceiro deixálos viver com suas leis arrecadando um tributo e criando em seu interior um governo de poucos que se conservam amigos porque sendo esse governo criado por aquele príncipe sabe que não pode permanecer sem sua amizade e seu poder e há que fazer tudo por conserválos Querendo preservar uma cidade habituada a viver livre mais facilmente que por qualquer outro modo se a conserva por intermédio de seus cidadãos Como exemplos existem os espartanos e os romanos Os espartanos conservaram Atenas e Tebas nelas criando um governo de poucos todavia perderamnas Os romanos para manterem Cápua Cartago e Numância destruíramnas e não as perderam quiseram conservar a Grécia quase como o fizeram os espartanos tornandoa livre e deixandolhe suas próprias leis e não o conseguiram em razão disso para conservála foram obrigados a destruir muitas cidades daquela província É que em verdade não existe modo seguro para conservar tais conquistas senão a destruição E quem se torne senhor de uma cidade acostumada a viver livre e não a destrua espere ser destruído por ela porque a mesma sempre encontra para apoio de sua rebelião o nome da liberdade e o de suas antigas instituições jamais esquecidas seja pelo decurso do tempo seja por benefícios recebidos Por quanto se faça e se proveja se não se dissolvem ou desagregam os habitantes eles não esquecem aquele nome nem aquelas instituições e logo a cada incidente a eles recorrem como fez Pisa cem anos após estar submetida aos florentinos Mas quando as cidades ou as províncias estão acostumadas a viver sob um príncipe extinta a dinastia sendo de um lado afeitas a obedecer e de outro não tendo o príncipe antigo dificilmente chegam a acordo para escolha de um outro príncipe não sabem enfim viver em liberdade dessa forma são mais lerdas para tomar das armas e com maior facilidade pode um príncipe vencêlas e delas apoderarse Contudo nas repúblicas há mais vida mais ódio mais desejo de vingança não deixam nem podem deixar esmaecer a lembrança da antiga liberdade assim o caminho mais seguro é destruílas ou habitálas pessoalmente CAPÍTULO VI DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SE CONQUISTAM COM AS ARMAS PRÓPRIAS E VIRTUOSAMENTE DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ARMIS PROPRIIS ET VIRTUTE ACQUIRUNTUR Não se admire alguém se na exposição que irei fazer a respeito dos principados completamente novos de príncipe e de Estado apontar exemplos de grandes personagens por que palmilhando os homens quase sempre as estradas batidas pelos outros procedendo nas suas ações por imitações não sendo possível seguir fielmente as trilhas alheias nem alcançar a virtude do que se imita deve um homem prudente seguir sempre pelas sendas percorridas pelos que se tornaram grandes e imitar aqueles que foram excelentes isto para que não sendo possível chegar à virtude destes pelo menos daí venha a auferir algum proveito deve fazer como os arqueiros hábeis que considerando muito distante o ponto que desejam atingir e sabendo até onde vai a capacidade de seu arco fazem mira bem mais alto que o local visado não para alcançar com sua flecha tanta altura mas para poder com o auxílio de tão elevada mira atingir o seu alvo Digo pois que no principado completamente novo onde exista um novo príncipe encontrase menor ou maior dificuldade para mantêlo segundo seja mais ou menos virtuoso quem o conquiste E porque o elevar se de particular a príncipe pressupõe ou virtude ou boa sorte parece que uma ou outra dessas duas razões mitigue em parte muitas dificuldades não obstante temse observado aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente Gera ainda facilidade o fato de por não possuir outros Estados ser o príncipe obrigado a vir habitálo pessoalmente Para reportarme àqueles que pela sua própria virtude e não pela sorte se tornarem príncipes digo que os maiores são Moisés Ciro Rômulo Teseu e outros tais Se bem que de Moisés não se deva cogitar por ter sido ele mero executor daquilo que lhe era ordenado por Deus contudo deve ser admirado somente por aquela graça que o tornava digno de conversar com o Senhor Mas consideremos Ciro e os outros que conquistaram ou fundaram reinos achareis a todos admiráveis E se forem consideradas suas ações e ordens particulares estas parecerão não discrepantes daquelas de Moisés que teve tão grande preceptor E examinando as ações e a vida dos mesmos não se vê que eles tivessem algo de sorte senão a ocasião que lhes forneceu meios para poder adaptar as coisas da forma que melhor lhes aprouve e sem aquela oportunidade o seu valor pessoal terseia apagado e sem essa virtude a ocasião teria surgido em vão Era necessário pois a Moisés encontrar o povo de Israel no Egito escravizado e oprimido pelos egípcios a fim de que aquele para libertarse da escravidão se dispusesse a seguilo Convinha que Rômulo não pudesse ser mantido em Alba fosse exposto ao nascer para que se tornasse rei de Roma e fundador daquela pátria Era preciso que Ciro encontrasse os persas descontentes do império dos medas e estes estivessem amolecidos e efeminados pela prolongada paz Não poderia Teseu demonstrar sua virtude se não encontrasse os atenienses dispersos Essas oportunidades por tanto fizeram esses homens felizes e sua excelente capacidade fez com que aquela ocasião fosse conhecida de cada um em conseqüência sua pátria foi nobilitada e tornouse felicíssima Os que por suas virtudes semelhantes às que aqueles tiveram tornam se príncipes conquistam o principado com dificuldade mas com facilidade o conservam e os obstáculos que se lhes apresentam no conquistar o principado em parte nascem das novas disposições e sistemas de governo que são forçados a introduzir para fundar o seu Estado e estabelecer a sua segurança Devese considerar não haver coisa mais difícil para cuidar nem mais duvidosa a conseguir nem mais perigosa de manejar que tornarse chefe e introduzir novas ordens Isso porque o introdutor tem por inimigos todos aqueles que obtinham vantagens com as velhas instituições e encontra fracos defensores naqueles que das novas ordens se beneficiam Esta fraqueza nasce parte por medo dos adversários que ainda têm as leis conformes a seus interesses parte pela incredulidade dos homens estes em verdade não crêem nas inovações se não as vêem resultar de uma firme experiência Donde decorre que a qualquer momento em que os inimigos tenham oportunidade de atacar o fazem com calor de sectários enquanto os outros defendem fracamente de forma que ao lado deles se corre sério perigo É necessário pois querendo bem expor esta parte examinar se esses inovadores se baseiam sobre forças suas próprias ou se dependem de outros isto é se para levar avante sua obra é preciso que roguem ou se em realidade podem forçar No primeiro caso sempre acabam mal e não realizam coisa alguma mas quando dependem de si mesmos e podem forçar então é que raras vezes perigam Daí resulta que todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram Porque além dos fatos apontados a natureza dos povos é vária sendo fácil persuadilos de urna coisa mas difícil firmálos nessa persuasão Convém assim estar preparado para que quando não acreditarem mais se possa fazêlos crer pela força Moisés Ciro Teseu e Rômulo não teriam conseguido fazer observar por longo tempo as suas constituições se tivessem estado desarmados como ocorreu nos nossos tempos a Frei Girolamo Savonarola que fracassou nas suas reformas quando a multidão começou a nele não mais acreditar e ele não dispunha de meios para manter firmes aqueles que haviam crido nem para fazer com que os descrentes passassem a crer Por isso têm grandes dificuldades no conduzirse e todos os perigos estão no seu caminho convindo que os superem com o valor pessoal mas superado que os tenham quando começam a ser venerados extintos aqueles que tinham inveja de sua condição ficam poderosos seguros honrados felizes A tão altos exemplos quero acrescentar um menor mas que bem terá alguma relação com aqueles e que julgo suficiente para todos os outros semelhantes é Hierão de Siracusa Este de particular tornouse príncipe de Siracusa também ele da sorte somente conheceu a ocasião porque sendo os siracusanos oprimidos o elegeram para seu capitão donde mereceu ser feito príncipe E foi de tanta virtude mesmo na vida privada que quem escreveu a seu respeito dissequod nihil illi deerat ad regnandum praeter regnum Extinguiu a velha milícia organizou a nova abandonou as antigas amizades conquistou novas e como teve amizades e soldados seus pode sobre tais fundamentos erigir as obras que desejou tanto que custoulhe muita fadiga para conquistar e pouca para manter CAPÍTULO VII DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SE CONQUISTAM COM AS ARMAS E FORTUNA DOS OUTROS DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ALIENIS ARMIS ET FORTUNA ACQUIRUNTUR Aqueles que somente por fortuna se tornam de privados em príncipes com pouca fadiga assim se transformam mas só com muito esforço assim se mantêm não encontram nenhuma dificuldade pelo caminho porque atingem o posto a vôo mas toda sorte de dificuldades nasce depois que aí estão São aqueles aos quais é concedido um Estado seja por dinheiro seja por graça do concedente como ocorreu a muitos na Grécia nas cidades da Jônia e do Helesponto onde foram feitos príncipes por Dario a fim de que as conservassem para sua segurança e glória como eram feitos ainda aqueles imperadores que por corrupção dos soldados de privados alcançavam o domínio do Império Estes estão simplesmente submetidos à vontade e à fortuna de quem lhes concedeu o Estado que são duas coisas grandemente volúveis e instáveis e não sabem e não podem manter a sua posição Não sabem porque se não são homens de grande engenho e virtude não é razoável que tendo vivido sempre em ambiente privado saibam comandar não podem porque não têm forças que lhes possam ser amigas e fiéis Ainda os Estados que surgem rapidamente como todas as demais coisas da natureza que nascem e crescem depressa não podem ter raízes e estruturação perfeitas de forma que a primeira adversidade os extingue salvo se aqueles que como foi dito assim repentinamente se tornaram príncipes forem de tanta virtude que saibam desde logo prepararse para conservar aquilo que a fortuna lhes pôs no regaço formando posteriormente as bases que os outros estabeleceram antes de se tornar príncipes Destes dois citados modos de vir a ser príncipe por virtude ou por fortuna quero apontar dois exemplos ocorridos nos dias de nossa memória estes são Francisco Sforza e César Bórgia Francisco pelos meios devidos e com grande virtude de privado tornouse duque de Milão e aquilo que com mil esforços tinha conquistado com pouco trabalho manteve Por outro lado César Bórgia pelo povo chamado Duque Valentino adquiriu o Estado com a fortuna do pai e juntamente com aquela o perdeu isso não obstante fossem por ele utilizados todos os meios e feito tudo aquilo que devia ser efetivado por um homem prudente e virtuoso para lançar raízes naqueles Estados que as armas e a fortuna de outrem lhe tinham concedido Porque como se disse acima quem não lança os alicerces primeiro com uma grande virtude poderá estabelecêlos depois ainda que se façam com aborrecimentos para o construtor e perigo para o edifício Se pois se considerarem todos os progressos do duque verseá ter ele estabelecido grandes alicerces para o futuro poderio os quais não julgo supérfluo descrever pois não saberia que melhores preceitos do que o exemplo de suas ações poderia indicar a um príncipe novo e se as suas disposições não lhe aproveitaram não foi por culpa sua mas sim em resultado de uma extraordinária e extrema má sorte Tinha Alexandre VI ao querer tornar grande o duque seu filho muitas dificuldades presentes e futuras Primeiro não via meio de poder fazêlo senhor de algum Estado que não fosse Estado da Igreja voltandose para tomar um destes sabia que o duque de Milão e os venezianos não lho permitiriam porque Faenza e Rimini estavam já sob a proteção dos venezianos Via além disto as armas da Itália e em especial aquelas de que poderia servirse encontraremse nas mãos daqueles que deviam temer a grandeza do Papa não podia fiarse assim pertencendo todas elas aos Orsíni e Colonna e seus partidários Era pois necessário que se perturbasse aquela organização dos Estados italianos e fossem desarticulados os pertencentes àqueles para poder assenhorearse seguramente de parte dos mesmos Isso foilhe fácil eis que encontrou os venezianos que levados por outras causas tinham se posto a fazer com que os franceses retornassem à Itália ao que não somente não se opôs como também tornou mais fácil com a dissolução do primeiro matrimônio do Rei Luís Passou portanto o rei à Itália com a ajuda dos venezianos e consentimento de Alexandre nem bem era chegado a Milão já o Papa dele obteve tropas para a conquista da Romanha a qual tornouse possível em razão da reputação do rei Tendo ocupado a Romanha e batido os partidários dos Colonna o duque querendo manter a conquista e avançar mais à frente tinha duas coisas que tal lhe impediam uma as suas tropas que não lhe pareciam fiéis a outra a vontade da França isto é temia o duque que lhe falhassem as tropas dos Orsíni das quais se valera não só impedindoo de conquistar como também tomandolhe o conquistado bem como receava que o rei não deixasse de fazerlhe o mesmo Dos Orsíni teve prova quando depois da tomada de Faenza assaltando Bolonha os viu irem friamente a esse assalto acerca do rei conheceu sua disposição quando tomado o ducado de Urbino atacou a Toscana o rei fê lo desistir dessa campanha Em conseqüência de tal o duque deliberou não mais depender das armas e fortuna dos outros Inicialmente enfraqueceu as facções dos Orsíni e dos Colonna em Roma para tanto atraiu para junto de si todos os adeptos dos mesmos que fossem gentishomens fazendoos seus gentishomens dandolhes grandes estipêndios e os honrando Segundo suas qualidades com comandos e governos de forma que em poucos meses a afeição que mantinham pelas facções foi extinta e voltou se toda ela para o duque Depois esperou a ocasião de eliminar os Orsíni dispersos que já estavam os da casa Colonna ocasião que lhe surgiu bem e que ele melhor aproveitou porque tendo percebido os Orsíni tarde porém que a grandeza do duque e da Igreja era a sua ruína organizaram uma conferência em Magione no Perugino Dessa reunião nasceram a rebelião de Urbino os tumultos da Romanha e infinitos perigos para o duque o qual a todos superou com o auxílio dos franceses E readquirida a reputação não confiando na França nem nas outras tropas estrangeiras para não as ter fortalecidas socorreuse da astúcia E tão bem soube dissimular seus sentimentos que os Orsíni por intermédio do Senhor Paulo reconciliaramse com ele para assegurarse melhor deste intermediário o duque não deixou de dispensarlhe cortesia de toda natureza dandolhe dinheiro roupas e cavalos tanto assim que a simplicidade dos Orsíni levouos a Sinigalia às mãos do duque Eliminados pois estes chefes transformados os partidários dos mesmos em amigos seus tinha o duque lançado muito boas bases para o seu poderio possuindo toda a Romanha com o ducado de Urbino parecendolhe ainda ter tornado amiga a Romanha e ganho para si todas aquelas populaçõe que começavam a experimentar o seu bemestar E porque esta parte é digna de ser conhecida e imitada pelos outros não desejo omitila Tomada que foi a Romanha encontrandoa dirigida por senhores impotentes os quais mais depressa haviam espoliado os seus súditos do que os tinham governado dandolhes motivo de desunião ao invés de união tanto que aquela província era toda ela cheia de latrocínios de brigas e de tantas outras causas de insolência o duque julgou necessário para tornála pacífica e obediente ao poder real darlhe bom governo Por isso aí colocou Ramiro de Orco homem cruel e solícito ao qual deu os mais amplos poderes Este em pouco tempo tornoua pacífica e unida com mui grande reputação Depois entendeu o duque não ser necessária tão excessiva autoridade e isso porque não duvidava pudesse vir a mesma a tornarse odiosa instalou um juízo civil no centro da província com um presidente excelentíssimo onde cada cidade tinha o seu advogado E porque sabia que os rigorismos passados tinham dado origem a algum ódio para limpar os espíritos daquelas populações e conquistálos completamente quis mostrar que se alguma crueldade havia ocorrido não nascera dele mas sim da triste e cruel natureza do ministro E servindose da oportunidade fez colocaremno uma manhã na praça pública de Casena cortado em dois pedaços com um pau e uma faca ensangüentada ao lado A ferocidade desse espetáculo fez com que a população ficasse ao mesmo tempo satisfeita e pasmada Mas voltemos ao ponto de partida Digo que encontrandose o duque bastante forte e relativamente garantido contra os perigos presentes por ter se armado a seu modo e ter em boa parte dissolvido aquelas tropas que próximas poderiam molestálo restavalhe querendo prosseguir com as conquistas o temor ao rei de França porque sabia como tal proceder não seria suportado pelo mesmo que tarde havia se apercebido de seu erro Começou por isso a procurar novas amizades e a tergiversar com a França na incursão que os franceses fizeram no reino de Nápoles contra os espanhóis que assediavam Gaeta A sua intenção era garantirse contra eles o que terlheia surtido pronto efeito se Alexandre tivesse continuado vivo Esta foi a sua política quanto às coisas presentes Mas quanto às futuras ele tinha a temer inicialmente que um novo sucessor ao governo da Igreja não fosse seu amigo e procurasse tomarlhe aquilo que Alexandre lhe dera e pensou proceder por quatro modos primeiro extinguir as famílias daqueles senhores que ele tinha espoliado para tolher ao Papa aquela oportunidade segundo conquistar todos os gentishomens de Roma como foi dito para poder com eles manter o Papa tolhido terceiro tornar o Colégio mais seu o quanto possível quarto conquistar tanto poder antes que o pai morresse que pudesse por si mesmo resistir a um primeiro impacto Destas quatro coisas à morte de Alexandre ele havia realizado três estando a quarta quase terminada porque dos senhores despojados ele matou quantos pode alcançar e pouquíssimos se salvaram tinha conseguido o apoio dos gentishomens romanos e no Colégio possuía mui grande parte e quanto à nova conquista resolvera tornarse senhor da Toscana possuía já Perúgia e Piombino e havia tomado a proteção de Pisa Como não mais precisasse ter respeito à França que o desmerecera por estarem já os franceses despojados do Reino pelos espanhóis de forma que cada um deles necessitava comprar a sua amizade saltaria sobre Pisa Depois disso Lucca e Ciena cederiam prontamente parte por inveja dos florentinos parte por medo os florentinos não teriam remédio o que se tivesse acontecido deveria ocorrer no mesmo ano em que Alexandre morreu conferirlheia tantas forças e tanta reputação que ele terseia mantido por si mesmo não mais dependendo da fortuna e das forças dos outros mas sim de sua própria potência e virtude Mas Alexandre morreu cinco anos depois que ele começara a desembainhar a espada Deixouo apenas com o Estado da Romanha consolidado com todos os outros no ar em meio a dois fortíssimos exércitos inimigos e doente de morte Havia no duque tanta bravura indômita e tanta virtude conhecia tão bem como se conquistam ou se perdem os homens e talmente sólidos eram os alicerces que assim em tão pouco tempo havia lançado que se não tivesse tido aqueles exércitos sobre si ou se estivesse são teria vencido qualquer dificuldade E que os seus alicerces fossem bons viuse por que a Romanha esperouo mais de um mês em Roma ainda que apenas meio vivo esteve em segurança e se bem os Baglioni Vitelli e Orsíni viessem a Roma nada puderam fazer contra ele se não pode fazer papa quem queria pelo menos evitou que o fosse quem ele não queria Mas se por ocasião da morte de Alexandre ele tivesse estado são tudo lhe teria sido fácil Disse me ele no dia em que foi eleito Júlio que havia cogitado de tudo aquilo que podia acontecer morrendo o pai e para tudo encontrara remédio mas jamais havia pensado além da morte de seu pai que ele mesmo também pudesse estar para morrer Relatadas assim todas as ações do duque eu não saberia repreendêlo antes penso que como o fiz deva ser proposto à imitação de todos aqueles que por fortuna e com as armas dos outros subiram ao poder Porque tendo grande ânimo e alta intenção ele não podia portarse de outra for ma aos seus desígnios somente se opuseram a brevidade da vida de Alexandre e a sua enfermidade Quem pois julgar necessário no seu principado novo assegurarse contra os inimigos adquirir amigos vencer ou pela força ou pela fraude fazerse amar e temer pelo povo seguir e reverenciar pelos soldados eliminar aqueles que podem ou têm razões para ofender ordenar por novos modos as instituições antigas ser severo e grato magnânimo e liberal extinguir a milícia infiel criar uma nova manter a amizade dos reis e dos príncipes de modo que beneficiem de boa vontade ou ofendam com temor não poderá encontrar exemplos mais recentes que as ações do duque Somente se pode acusálo na criação de Júlio pontífice onde má foi a eleição porque como foi dito não podendo fazer um papa de acordo com seu desejo ele podia impedir fosse feito quem não quisesse e não devia jamais consentir no papado daqueles cardeais que tivessem sido por ele ofendidos ou que tornados papas viessem a temêlo Na verdade os homens ofendem ou por medo ou por ódio Os que ele ofendera eram entre outros San Piero ad Vincula Colonna San Giorgio Ascânio todos os outros tornados papas tinham por que temêlo exceto o de Ruão e os espanhóis estes por afinidade e por obrigações aquele pelo poder e por ter ao seu lado o reino da França Conseqüentemente o duque antes de tudo devia criar para um espanhol e não podendo devia consentir que fosse eleito o cardeal de Ruão e não o de San Piero ad Vincula E quem acreditar que nas grandes personagens os novos benefícios façam esquecer as velhas injúrias enganase Errou pois o duque nessa eleição tornandose ele mesmo a causa de sua ruína final CAPÍTULO VIII DOS QUE CHEGARAM AO PRINCIPADO POR MEIO DE CRIMES DE HIS QUI PER SCELERA AD PRINCIPATUM PERVENERE Mas porque podese tornar príncipe ainda por dois modos que não podem ser atribuídos totalmente à fortuna ou à virtude não me parece acertado pôlos de parte ainda que de um deles se possa mais amplamente cogitar em falando das repúblicas Estes são ou quando por qualquer meio criminoso e nefário se ascende ao principado ou quando um cidadão privado tornase príncipe de sua pátria pelo favor de seus concidadãos E falando do primeiro modo apontarei dois exemplos um antigo e outro atual sem entrar contudo no mérito desta parte pois penso seja suficiente a quem de tal necessitar apenas imitálos Agátocles siciliano não só de privada mas também de ínfima e abjeta condição tornouse rei de Siracusa Filho de um oleiro teve sempre no decorrer de sua juventude vida celerada todavia acompanhou seus atos delituosos de tanto vigor de ânimo e de corpo que tendo ingressado na milícia em razão de atos de maldade chegou a ser pretor de Siracusa Uma vez investido nesse posto tendo deliberado tornarse príncipe e manter pela violência e sem favor dos outros aquilo que por acordo de todos lhe tinha sido concedido depois de acerca desse seu desejo ter estabelecido acordo com Amilcar cartaginês que se encontrava em ação com os seus exércitos na Sicilia reuniu certa manhã o povo e o senado de Siracusa como se tivesse de deliberar sobre assuntos pertinentes à República e a um sinal combinado fez que seus soldados matassem todos os senadores e os mais ricos da cidade mortos estes ocupou e manteve o principado daquela cidade sem qualquer controvérsia civil E se bem por duas vezes os cartagineses tivessem com ele rompido e estabelecido assédio não só pode defender a sua cidade como ainda tendo deixado parte de sua gente na defesa contra o cerco com o restante assaltou a África e em breve tempo libertou Siracusa do sítio levando os cartagineses a extrema dificuldade tiveram de com ele estabelecer acordo e contentarse com as possessões da África deixando a Sicília para Agátocles Quem considere pois as ações e a vida desse príncipe não encontrará coisa ou pouca achará que possa atribuir à fortuna suas ações resultaram como acima se disse não do favor de alguém mas de sua ascensão na milícia obtida com mil aborrecimentos e perigos que lhe permitiu alcançar o principado e depois mantêlo com tantas decisões corajosas e arriscadas Não se pode ainda chamar virtude o matar os seus concidadãos trair os amigos ser sem fé sem piedade sem religião tais modos podem fazer conquistar poder mas não glória Ademais se se considerar a virtude de Agátocles no entrar e no sair dos perigos e a grandeza de seu ânimo no suportar e superar as adversidades não se achará por que deva ser ele julgado inferior a qualquer dos mais excelentes capitães contudo sua exacerbada crueldade e desumanidade com infinitas perversidades não permitem seja ele celebrado entre os homens mais ilustres Não se pode assim atribuir à fortuna ou à virtude aquilo que sem uma e outra foi por ele conseguido Nos nossos tempos reinando Alexandre VI Oliverotto de Fermo tendo anos antes ficado órfão de pai foi criado por um tio materno de nome Giovanni Fogliani nos primeiros anos de sua juventude foi encaminhado à vida militar sob o comando de Paulo Vitelli a fim de que tomado daquela disciplina atingisse algum excelente posto da milícia Morto Paulo militou sob Vitellozzo irmão daquele e em muito pouco tempo por ser engenhoso de físico e ânimo fortes tornouse o primeiro homem de sua milícia Mas parecendolhe coisa servil o estar sob as ordens de outrem com a ajuda de alguns cidadãos de Fermo aos quais era mais cara a servidão que a liberdade de sua pátria e com o favor de Vitellozzo pensou ocupar Fermo E escreveu a Giovanni Fogliani dizendo que por ter estado muitos anos fora de casa desejava ir visitálo e à sua cidade e conhecer o seu patrimônio e como não tinha trabalhado senão para conquistar honras para que seus concidadãos vissem como não tinha gasto o tempo em vão queria chegar com pompa e acompanhado de cem cavalos de amigos e servidores seus pedialhe pois se servisse ordenar fosse ele recebido pelos cidadãos de Fermo com todas as honras o que não somente o dignificaria mas também a Fogliani dado haver sido seu discípulo Não deixou Giovanni de despender esforços em favor de seu sobrinho tendo feito com que os moradores de Fermo o recebessem com honrarias alojouo em suas casas Aí passados alguns dias e pronto para ordenar secretamente aquilo que era necessário à sua futura perfídia Oliverotto promoveu soleníssimo banquete para o qual convidou Giovanni Fogliani e todos os principais homens de Fermo Consumadas que foram as iguarias e após todos os demais entretenimentos usuais em semelhantes ocasiões Oliverotto com habilidade abordou certos assuntos graves falando da grandeza do Papa Alexandre de seu filho César e dos empreendimentos dos mesmos Tendo Giovanni e os demais respondido a tais considerações ele repentinamente ergueuse dizendo ser aquilo assunto para falarse em lugar mais secreto retirandose para um cômodo onde Giovanni e todos os outros foram ter com ele Nem ainda tinham se assentado de lugares ocultos saíram soldados que mataram Giovanni e a todos os demais Depois desse homicídio Oliverotto montou a cavalo correu a cidade acompanhado de seus homens e assediou em seu palácio o supremo magistrado em conseqüência por medo foram obrigados a obedecêlo e formar um governo do qual ele se fez príncipe E mortos todos aqueles que por descontentes poderiam ofendêlo fortaleceuse com novas ordens civis e militares de forma que no período de um ano em que reteve o principado não somente esteve forte na cidade de Fermo como também se tornou causa de pavor para todas as populações vizinhas Teria sido difícil a sua destruição como difícil foi a de Agátocles se não tivesse sido enganado por César Bórgia quando este em Sinigalia como já se disse aprisionou os Orsíni e os Vitelli Ai preso também ele foi estrangulado juntamente com Vitellozzo mestre de suas virtudes e suas perfídias um ano após haver cometido o parricídio Poderia alguém ficar em dúvida sobre a razão por que Agátocles e algum outro a ele semelhante após tantas traições e crueldades puderam viver longamente sem perigo dentro de sua pátria e ainda defenderse dos inimigos externos sem que os seus concidadãos contra eles tivessem conspirado tanto mais notandose que muitos outros não conseguiram manter o Estado mediante a crueldade nos tempos pacíficos e muito menos nos duvidosos tempos de guerra Penso que isto resulte das crueldades serem mal ou bem usadas Bem usadas podese dizer serem aquelas se do mal for lícito falar bem que se fazem instantaneamente pela necessidade do firmarse e depois nelas não se insiste mas sim se as transforma no máximo possível de utilidade para os súditos mal usadas são aquelas que mesmo poucas a princípio com o decorrer do tempo aumentam ao invés de se extinguirem Aqueles que observam o primeiro modo de agir podem remediar sua situação com apoio de Deus e dos homens como ocorreu com Agátocles aos outros tornase impossível a continuidade no poder Por isso é de notarse que ao ocupar um Estado deve o conquistador exercer todas aquelas ofensas que se lhe tornem necessárias fazendoas todas a um tempo só para não precisar renoválas a cada dia e poder assim dar segurança aos homens e conquistálos com benefícios Quem age diversamente ou por timidez ou por mau conselho tem sempre necessidade de conservar a faca na mão não podendo nunca confiar em seus súditos pois que estes nele também não podem ter confiança diante das novas e contínuas injúrias Portanto as ofensas devem ser feitas todas de uma só vez a fim de que pouco degustadas ofendam menos ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos para que sejam melhor apreciados Acima de tudo um príncipe deve viver com seus súditos de modo que nenhum acidente bom ou mau o faça variar porque surgindo pelos tempos adversos a necessidade não estarás em tempo de fazer o mal e o bem que tu fizeres não te será útil eis que julgado forçado não trará gratidão CAPÍTULO IX DO PRINCIPADO CIVIL DE PRINCIPATU CIVILI Mas passando a outra parte quando um cidadão privado não por perfídia ou outra intolerável violência porém com o favor de seus concidadãos tornase príncipe de sua pátria o que se pode chamar principado civil para tal se tornar não é necessária muita virtude ou muita fortuna mas antes uma astúcia afortunada digo que se ascende a esse principado ou com o favor do povo ou com aquele dos grandes Porque em toda cidade se encontram estas duas tendências diversas e isso resulta do fato de que o povo não quer ser mandado nem oprimido pelos poderosos e estes desejam governar e oprimir o povo é destes dois anseios diversos que nasce nas cidades um dos três efeitos ou principado ou liberdade ou desordem O principado é constituído ou pelo povo ou pelos grandes conforme uma ou outra destas partes tenha oportunidade vendo os grandes não lhes ser possível resistir ao povo começam a emprestar prestígio a um dentre eles e o fazem príncipe para poderem sob sua sombra dar expansão ao seu apetite o povo também vendo não poder resistir aos poderosos volta a estima a um cidadão e o faz príncipe para estar defendido com a autoridade do mesmo O que chega ao principado com a ajuda dos grandes se mantém com mais dificuldade daquele que ascende ao posto com o apoio do povo pois se encontra príncipe com muitos ao redor a lhe parecerem seus iguais e por isso não pode nem governar nem manobrar como entender Mas aquele que chega ao principado com o favor popular aí se encontra só e ao seu derredor não tem ninguém ou são pouquíssimos que não estejam preparados para obedecer Além disso sem injúria aos outros não se pode honestamente satisfazer os grandes mas sim podese fazer bem ao povo eis que o objetivo deste é mais honesto daquele dos poderosos querendo estes oprimir enquanto aquele apenas quer não ser oprimido Contra a inimizade do povo um príncipe jamais pode estar garantido por serem muitos dos grandes porém pode se assegurar porque são poucos O pior que pode um príncipe esperar do povo hostil é ser por ele abandonado mas dos poderosos inimigos não só deve temer ser abandonado como também deve recear que os mesmos se lhe voltem contra pois que havendo neles mais visão e maior astúcia contam sempre com tempo para salvarse e procuram adquirir prestígio junto àquele que esperam venha a vencer Ainda o príncipe tem de viver necessariamente sempre com o mesmo povo ao passo que pode bem viver sem aqueles mesmos poderosos uma vez que pode fazer e desfazer a cada dia esse seu poderio dandolhes ou tirando lhes reputação a seu alvedrio E para melhor esclarecer esta parte digo que os grandes devem ser considerados em dois grupos principais ou procedem por forma a se obrigarem totalmente à tua fortuna ou não Os que se obrigam e não são rapaces devem ser considerados e amados Os que não se obrigam devem ser encarados de dois modos se fazem isso por pusilanimidade ou por natural defeito de espírito deverás servirte deles máxime que são bons conselheiros porque na prosperidade isso te honrará e na adversidade não precisarás temêlos Mas quando eles ardilosamente não se obrigam por ambição é sinal que pensam mais em si próprios do que em ti desses deve o príncipe guardarse temendoos como se fossem inimigos declarados porque sempre na adversidade ajudarão a arruinálo Deve pois alguém que se torne príncipe mediante o favor do povo conserválo amigo o que se lhe torna fácil uma vez que não pede ele senão não ser oprimido Mas quem se torne príncipe pelo favor dos grandes contra o povo deve antes de mais nada procurar ganhar este para si o que se lhe torna fácil quando assume a proteção do mesmo E por que os homens quando recebem o bem de quem esperavam somente o mal se obrigam mais ao seu benfeitor tornase o povo desde logo mais seu amigo do que se tivesse sido por ele levado ao principado O príncipe pode ganhar o povo por muitas maneiras que por variarem de acordo com as circunstâncias delas não se pode estabelecer regra certa razão pela qual das mesmas não cogitaremos Concluirei apenas que a um príncipe é necessário ter o povo como amigo pois de outro modo não terá possibilidades na adversidade Nabis príncipe dos espartanos suportou o assédio de toda a Grécia e de um exército romano coberto de vitórias contra eles defendendo sua pátria e seu Estado bastoulhe apenas sobrevindo o perigo garantirse contra poucos o que não seria suficiente se tivesse o povo como inimigo E não surja alguém para refutar esta minha opinião com aquele provérbio bastante conhecido de que quem se apoia no povo firma se na lama porque o mesmo é verdadeiro somente quando um cidadão privado estabelece bases sobre o povo e imagina que o mesmo vá libertálo quando oprimido pelos inimigos ou pelos magistrados neste caso seria possível sentirse freqüentemente enganado como os Gracos em Roma e Messer Giórgio Scali em Florença Mas sendo um príncipe quem se apoie no povo que possa mandar e seja um homem de coragem que não esmoreça nas adversidades não careça de armas e mantenha com seu valor e suas determinações alentado o povo todo jamais se sentirá por ele enganado e constatará ter estabelecido bons fundamentos Amiúde esses principados periclitam quando estão para passar da ordem civil para um governo absoluto porque esses príncipes ou governam por si mesmos ou por intermédio dos magistrados Neste último caso a situação dos mesmos é mais fraca e perigosa porque dependem completamente da vontade dos cidadãos prepostos à magistratura os quais principalmente nos tempos adversos podem tomarlhes o Estado com grande facilidade ou contrariando suas ordens ou não lhes prestando obediência E o príncipe não pode nas ocasiões de perigo assumir em tempo a autoridade absoluta porque os cidadãos e os súditos acostumados a receber as ordens dos magistrados não estão naquelas conjunturas para obedecer às suas determinações havendo sempre ainda nos tempos duvidosos carência de pessoas nas quais ele possa confiar Tal príncipe não pode fundarse naquilo que observa nas épocas de paz quando os cidadãos precisam do Estado porque então todos correm todos prometem e cada um quer morrer por ele enquanto a morte está longe mas na adversidade no momento em que o Estado tem necessidade dos cidadãos então poucos são encontrados E tanto mais é perigosa esta experiência quanto não se a pode fazer senão uma vez Contudo um príncipe hábil deve pensar na maneira pela qual possa fazer com que os seus cidadãos sempre e em qualquer circunstância tenham necessidade do Estado e dele mesmo e estes então sempre lhe serão fiéis CAPÍTULO X COMO SE DEVEM MEDIR AS FORÇAS DE TODOS OS PRINCIPADOS QUOMODO OMNIUM PRINCIPATUUM VIRES PERPENDI DEBEANT Ao examinar as qualidades destes Estados convém fazer uma outra consideração isto é se um príncipe tem Estado tão grande e forte que possa precisando manterse por si mesmo ou então se tem sempre necessidade da defesa de outrem Para esclarecer melhor esta parte digo julgar como podendo manterse por si mesmos aqueles que podem por abundância de homens e de dinheiro organizar um exército à altura do perigo a enfrentar e fazer face a uma batalha contra quem venha assaltálo assim como julgo necessitados da defesa de outrem os que não podem defrontar o inimigo em campo aberto mas são obrigados a refugiarse atrás dos muros da cidade guarnecendoos Quanto ao primeiro caso já foi falado e futuramente diremos o que for necessário relativamente ao segundo não se pode aduzir algo mais do que exortar tais príncipes a fortificarem e a proverem sua cidade não se preocupando com o território que a contorna E quem tiver bem fortificada sua cidade e acerca dos outros assuntos se tenha conduzido para com os súditos como acima foi dito e abaixo se esclarecerá será sempre assaltado com grande temor porque os homens são sempre inimigos dos empreendimentos onde vejam dificuldades e não se pode encontrar facilidade para atacar quem tenha sua cidade forte e não seja odiado pelo povo As cidades da Alemanha gozam de grande liberdade têm pouco território e obedecem ao imperador quando assim querem não temendo nem a este nem a outro poderoso que lhes esteja ao derredor porque são de tal forma fortificadas que todos pensam dever ser enfadonha e difícil sua expugnação Na verdade todas têm fossos e muros adequados possuem artilharia suficiente conservam sempre nos armazéns públicos o necessário para beber comer e arder por um ano além disso para manter a plebe alimentada sem prejuízo do povo têm sempre em comum por um ano meios para lhe dar trabalho naquelas atividades que sejam o nervo e a vida daquelas cidades e das indústrias das quais a plebe se alimente Têm em grande conceito os exercícios militares a respeito dos quais têm muitas leis de regulamentação Um príncipe pois que tenha uma cidade forte e não se faça odiar não pode ser atacado e existindo alguém que o assaltasse retirarseia com vergonha eis que as coisas do mundo são assim tão variadas que é quase impossível alguém pudesse ficar com os exércitos ociosos por um ano a assediálo A quem replicasse que tendo as suas propriedades fora da cidade e vendoas a arder o povo não terá paciência e o longo assédio e a piedade de si mesmo o farão esquecer o príncipe eu responderia que um príncipe poderoso e afoito superará sempre aquelas dificuldades ora dando aos súditos esperança de que o mal não será longo ora incutindo temor da crueldade do inimigo ora assegurandose com destreza daqueles que lhe pareçam muito temerários Além disso é razoável que o inimigo deva queimar o país apenas chegado nos tempos em que o ânimo dos homens está ainda ardente e voluntarioso na defesa por isso o príncipe deve ter pouca dúvida porque depois de alguns dias quando os ânimos estão mais frios os danos já foram causados os males já foram sofridos e não há mais remédio então os súditos vêm se unir ainda mais ao semi príncipe parecendolhes que este lhes deva obrigação uma vez que suas casas foram incendiadas e suas propriedades arruinadas para a defesa do mesmo E a natureza dos homens é aquela de obrigarse tanto pelos benefícios que são feitos como por aqueles que se recebem Donde em se considerando tudo bem não será difícil a um príncipe prudente conservar firmes antes e depois do cerco os ânimos de seus cidadãos desde que não faltem víveres nem meios de defesa CAPÍTULO XI DOS PRINCIPADOS ECLESIÁSTICOS DE PRINCIPATIBUS ECLESIASTICIS Restanos somente agora falar dos principados eclesiásticos nos quais todas as dificuldades existem antes que se os possuam eis que são adquiridos ou pela virtude ou pela fortuna e sem uma e outra se conservam porque são sustentados pelas ordens de há muito estabelecidas na religião estas tornamse tão fortes e de tal natureza que mantêm os seus príncipes sempre no poder seja qual for o modo por que procedam e vivam Só estes possuem Estados e não os defendem súditos e não os governam os Estados por serem indefesos não lhes são tomados os súditos por não serem governados não se preocupam não pensam e nem podem separarse deles Somente estes principados pois são seguros e felizes Mas sendo eles dirigidos por razão superior à qual a mente humana não atinge deixarei de falar a seu respeitomesmo porque sendo engrandecidos e mantidos por Deus seria obra de homem presunçoso e temerário dissertar a seu respeito Contudo se alguém me perguntar donde provém que a Igreja no poder temporal tenha chegado a tanta grandeza pois que antes de Alexandre os potentados italianos e não apenas aqueles que eram ditos potentados mas qualquer barão e senhor mesmo que sem importância pouco valor davam ao poder temporal da Igreja e agora um rei de França treme ela pode expulsálo da Itália e ainda logra arruinar os venezianos apontarei fatos que a despeito de conhecidos não me parece supérfluo reavivar em parte na memória Antes que Carlos rei da França invadisse a Itália esta província encontravase sob o domínio do Papa dos venezianos do rei de Nápoles do duque de Milão e dos florentinos Estes potentados tinham de se haver com dois cuidados principais um que nenhum estrangeiro entrasse na Itália com tropas o outro que nenhum deles ocupasse mais Estado Aqueles dos quais se tinha mais receio eram o Papa e os venezianos Para conter os venezianos tornouse necessária a união de todos os demais como ocorreu na defesa de Ferrara para deter o Papa serviamse dos barões de Roma eis que estando divididos em duas facções Orsíni e Colonna sempre existia motivo de discórdia entre eles e estando de arma em punho sob os olhos do pontífice mantinham o pontificado fraco e inseguro Se bem surgisse vez por outra um Papa animoso como foi Xisto nem a sua fortuna nem o seu saber puderam livrálo desses inconvenientes A brevidade da vida dos pontífices era a causa dessa situação porque nos dez anos que em média vivia um Papa somente com muita dificuldade podia ele enfraquecer uma das facções se por exemplo um deles tivesse quase extinguindo os collonessi surgia um outro inimigo dos Orsíni que os fazia ressurgir sem que tivesse tempo de liquidar os Orsíni Isto tornava o poder temporal do Papa pouco considerado na Itália Surgiu depois Alexandre VI que de todos os pontífices que já existiram foi o que mostrou o quanto um Papa podia com o dinheiro e as tropas para adquirir maior poder e fez com o uso do Duque Valentino como instrumento e com a oportunidade da invasão dos franceses todas aquelas coisas que relatei acima com relação às ações do duque Se bem seu intento não fosse o de tornar grande a Igreja mas sim o duque não obstante tudo o que fez reverteu em favor da grandeza da Igreja a qual após a sua morte extinto o duque se tornou herdeira de sua obra Veio depois o Papa Júlio e encontrou a Igreja grande possuindo toda a Romanha reduzidos à impotência os barões de Roma e pelas perseguições de Alexandre anuladas aquelas facções encontrou ainda o caminho aberto para acumular dinheiro o que jamais havia sido feito antes de Alexandre Júlio não só seguiu tais práticas como as ampliou pensou em conquistar Bolonha extinguir os venezianos e expulsar os franceses da Itália todos esses empreendimentos lhe saíram bem e com tanto maior louvor quanto realizou tudo isso para engrandecer a Igreja e não para favorecer algum cidadão particular Conservou ainda os partidos dos Orsíni e dos Colonna nas mesmas condições em que os encontrara e se bem entre eles houvesse algum chefe capaz de fazer mudar a situação duas coisas os mantiveram quietos uma a grandeza da Igreja que os atemorizava a outra não terem eles cardeais os quais são os causadores dos tumultos entre as facções Nem em tempo algum ficarão quietas essas partes desde que possuam cardeais pois estes sustentam os partidos dentro e fora de Roma e os barões são forçados a defendêlos assim da ambição dos prelados nascem as discórdias e os tumultos entre os barões Sua Santidade o Papa Leão encontrou o pontificado potentíssimo e esperase se aqueles que referimos o fizeram grande pelas armas este o fará ainda maior e mais venerado pela bondade e suas outras infinitas virtudes CAPÍTULO XII DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO AS MILÍCIAS E DOS SOLDADOS MERCENÁRIOS QUOT SINT GENERA MILITIAE ET DE MERCENARIIS MILITIBUS Tendo falado detalhadamente de todas as espécies de principados dos quais já no início me propus comentar e consideradas em alguns pontos as causas do bemestar e do malestar dos mesmos mostrados que foram os modos pelos quais muitos procuraram adquirilos e conserválos restame agora falar de forma genérica dos meios ofensivos e defensivos que em cada um dos citados principados possam ocorrer Dissemos acima como é necessário a um príncipe ter bons fundamentos do contrário necessariamente cairá em ruína Os principais fundamentos que os Estados têm tanto os novos como os velhos ou os mistos são as boas leis e as boas armas E como não pode haver boas leis onde não existam boas armas e onde existam boas armas convém que haja boas leis deixarei de falar das leis e me reportarei apenas às armas Digo pois que as armas com as quais um príncipe defende o seu Estado ou são suas próprias ou são mercenárias ou auxiliares ou mistas As mercenárias e as auxiliares são inúteis e perigosas e se alguém tem o seu Estado apoiado nas tropas mercenárias jamais estará firme e seguro porque elas são desunidas ambiciosas indisciplinadas infiéis galhardas entre os amigos vis entre os inimigos não têm temor a Deus e não têm fé nos homens e tanto se adia a ruína quanto se transfere o assalto na paz se é espoliado por elas na guerra pelos inimigos A razão disto é que elas não têm outro amor nem outra razão que as mantenha em campo a não ser um pouco de soldo o qual não é suficiente para fazer com que queiram morrer por ti Querem muito ser teus soldados enquanto não estás em guerra mas quando esta surge querem fugir ou ir embora Para persuadir de tais coisas não me é necessária muita fadiga eis que a atual ruína da Itália não foi causada por outro fator senão o de ter por espaço de muitos anos repousado sobre as armas mercenárias Elas já fizeram algo em favor de alguns e pareciam galhardas nas lutas entre si mas quando surgiu o estrangeiro mostraramlhe o que eram Por isso foi possível a Carlos rei de França tomar a Itália com o giz e quem disse que a causa disso foram os nossos pecados dizia a verdade se bem que esses pecados não fossem aqueles que ele julgava mas sim esses que eu narrei e como eram pecados de príncipes estes sofreram o castigo Quero demonstrar melhor a infeliz qualidade destas tropas Os capitães mercenários ou são homens excelentes ou não se o forem não podes confiar porque sempre aspirarão à própria grandeza abatendo a ti que és o seu patrão ou oprimindo os outros contra a tua vontade mas se não forem grandes chefes certamente te levarão à ruína E se for respondido que qualquer um que detenha as forças nas mãos fará isso mercenário ou não responderei dizendo como as armas devem ser usadas por um príncipe ou por uma República O príncipe deve ir pessoalmente com as tropas e exercer as atribuições do capitão a República deve mandar seus cidadãos e quando enviar um que não se revele valente deve substituilo quando animoso deve detêlo com as leis para que não avance além do limite Por experiência se vêem príncipes sós e repúblicas armadas fazerem grandes progressos enquanto se vêem tropas mercenárias não causarem mais do que danos Ainda uma República armada de tropas próprias se submete ao domínio de um seu cidadão com muito maior dificuldade do que aquela que esteja protegida por tropas mercenárias ou auxiliares Roma e Esparta foram durante muitos séculos armadas e livres Os suíços são armadíssimos e libérrimos Das armas mercenárias antigas podemos citar como exemplo os cartagineses os quais quase foram oprimidos por seus soldados mercenários ao fim da primeira guerra com os romanos a despeito de terem por chefes os próprios cidadãos de Cartago Felipe da Macedônia foi pelos tebanos feito capitão de sua gente depois da morte de Epaminondas e após a vitória lhes tolheu a liberdade Os milaneses morto o Duque Felipe assalariaram Francisco Sforza para combater os venezianos e o mesmo vencidos os inimigos em Caravaggio a estes se uniu para oprimir os milaneses seus patrões Sforza seu pai estando a serviço da Rainha Joana de Nápoles deixoua repentinamente desarmada por isso ela para não perder o reino foi obrigada a lançarse aos braços do Rei de Aragão E se venezianos e florentinos ao contrário tiveram aumentado o seu domínio com essas tropas e os seus capitães se fizeram príncipes mas os defenderam esclareço que os florentinos neste caso foram favorecidos pela sorte porque dos capitães de valor aos quais podiam temer alguns não venceram ou tiveram de lutar contra antagonistas outros voltaram sua ambição para paragens diversas Quem não venceu foi Giovanni Aucut por isso mesmo não se podendo conhecer de sua fidelidade mas todos estarão concordes que tivesse vencido os florentinos estariam à sua mercê Sforza sempre teve os Braccio contra si vigiandose uns aos outros Francisco voltou sua ambição para a Lombardia Braccio contra a Igreja e o reino de Nápoles Mas vejamos o que ocorreu há pouco tempo Os florentinos fizeram Paulo Vitelli seu capitão homem de muita prudência e que de vida privada havia alcançado mui grande reputação Se ele conquistasse Pisa não haveria quem negasse convir aos florentinos estar sob suas ordens mesmo porque se ele tivesse ficado como soldado de seus inimigos não teriam remédio e tendoo ao seu lado deveriam obedecerlhe Os venezianos se se considerar os seus progressos verseá terem operado segura e gloriosamente enquanto fizeram a guerra sozinhos o que foi antes de voltarem suas vistas para a terra sendo que com o apoio dos gentishomens e com a plebe armada operaram mui galhardamente mas como eles começaram a combater em terra abandonaram essa prudência e seguiram os costumes de guerra da Itália No princípio de sua expansão terrestre por não possuírem muito Estado e por usufruírem alta reputação não precisavam temer muito seus capitães mas quando ampliaram suas conquistas o que ocorreu sob o Carmignola tiveram a prova desse erro Por tanto tendo visto seu valor quando sob seu comando bateram o duque de Milão e sentindo de outra parte quanto ele esfriara no conduzir a guerra julgaram não mais ser possível com ele vencer dada a sua má vontade e não podendo licenciálo para não perder aquilo que tinham adquirido para se garantirem viramse na contingência de matálo Tiveram depois por seus capitães Bartolomeu e Bergamo Roberto de São Severino Conde de Pitigliano e outros parecidos com os quais deviam temer as derrotas e não suas conquistas como ocorreu depois em Vailá onde num dia perderam tudo aquilo que em oitocentos anos com tanta fadiga tinham conquistado Na verdade destas tropas resultam apenas lentas tardias e fracas conquistas mas rápidas e miraculosas perdas E como apresentei estes exemplos da Itália que tem sido por muitos anos dominada por armas mercenárias quero analisar essas tropas por forma mais genérica a fim de que vendo a origem e o desenvolvimento das mesmas se possa melhor corrigir o erro de seu emprego Deveis pois saber como logo que nestes últimos anos o império começou a ser repelido da Itália e o Papa passou a ter reputação no poder temporal a Itália dividiuse em vários Estados Na verdade muitas das maiores cidades tomaram das armas contra seus nobres os quais antes favorecidos pelo imperador as mantinham oprimidas e a Igreja para obter reputação em seu poder temporal as favorecia em tal de muitas outras os seus cidadãos se tornaram príncipes Daí resultar que tendo a Itália quase toda chegado a cair nas mãos da Igreja e de algumas repúblicas não estando aqueles padres e aqueles outros cidadãos habituados ao uso das armas começaram a aliciar mercenários estrangeiros O primeiro que deu fama a essa milícia foi Alberico da Conio natural da Romanha sendo que de sua escola de armas vieram dentre outros Braccio e Sforza nos seus dias os árbitros da Itália Depois destes vieram todos os outros que até nossos tempos têm chefiado essas tropas e o fim do valor das mesmas foi que a Itália viuse percorrida por Carlos saqueada por Luís violentada por Fernando e desonrada pelos suíços A ordem que eles observaram inicialmente foi para dar reputação a si próprios tirar o conceito da infantaria Fizeram isso porque sendo eles sem Estado e vivendo da indústria das armas poucos infantes não lhes dariam fama e sendo muitos não poderiam alimentálos assim limitaramse à cavalaria onde com número suportável as tropas podiam ser nutridas e eles honrados E afinal a situação tornouse tal que em um exército de vinte mil soldados não se encontravam dois mil infantes Tinham além disso usado todos os meios para afastar de si e de seus soldados o cansaço e o medo não se matando nos combates fazendose prisioneiros uns aos outros e libertandose depois sem resgate Não atacavam as cidades muradas e os das cidades não assaltavam os acampamentos não faziam nem estacadas nem fossos não saíam a campo no inverno Todas estas coisas eram permitidas nas suas regras militares por eles encontradas para fugir como foi dito à fadiga e aos perigos foi por isso que arrastaram a Itália à escravidão e à desonra CAPÍTULO XIII DOS SOLDADOS AUXILIARES MISTOS E PRÓPRIOS DE MILITIBUS AUXILIARIIS MIXTIS ET PROPRIIS As tropas auxiliares que são as outras forças inúteis são aquelas que se apresentam quando chamas um poderoso para que com seus exércitos te venha ajudar e defender como fez em tempos recentes o Papa Júlio que tendo visto na campanha de Ferrara a triste figura de suas tropas mercenárias voltouse para as auxiliares e entrou em acordo com Fernando rei da Espanha no sentido de que este com sua gente e armas viesse ajudá lo Estas tropas auxiliares podem ser úteis e boas para si mesmas mas para quem as chame são quase sempre danosas eis que perdendo ficas liquidado vencendo ficas seu prisioneiro E ainda que destes exemplos estejam cheias as antigas histórias não quero abandonar esta recente lição de Júlio II cuja deliberação de entregar se inteiramente às mãos de um estrangeiro por querer Ferrara não podia ter sido mais insensata Mas a boa sorte fez surgir uma terceira circunstância a fim de que não viesse ele a colher o resultado de sua má decisão sendo os seus auxiliares derrotados em Ravenna e surgindo os suíços que contra a expectativa de Júlio e de outros expulsaram os vencedores o Papa não se tornou prisioneiro nem dos vencedores que fugiram nem de suas tropas auxiliares por ter vencido com outras armas que não as delas Os florentinos estando completamente desarmados levaram dez mil franceses a Pisa para atacála resolução essa em razão da qual passaram por maior perigo do que em qualquer tempo de seus próprios trabalhos O imperador de Constantinopla para oporse a seus vizinhos concentrou na Grécia dez mil turcos que terminada a guerra não quiseram abandonar o país o que constitui o início da sujeição da Grécia aos infiéis Assim aquele que queira não poder vencer valhase destas tropas muito mais perigosas do que as mercenárias eis que com estas a ruína é certa dado que são todas unidas todas voltadas à obediência a outrem As mercenárias para te prejudicarem após a vitória contrariamente ao que ocorre com as mistas precisam de mais tempo e maior oportunidade não só por não constituírem um todo como também por terem sido organizadas e pagas por ti ainda um terceiro que nelas tornes chefe não pode desde logo assumir tanta autoridade que te cause dano Enfim enquanto nas tropas mercenárias o mais perigoso é a covardia nas auxiliares é o valor Um príncipe prudente portanto sempre tem fugido a essas tropas para voltarse às suas próprias forças preferindo perder com as suas a vencer com aquelas eis que em verdade não representaria vitória aquela que fosse conquistada com as armas alheias Jamais vacilarei em citar como exemplo César Bórgia e suas ações Este duque entrou na Romanha com tropas auxiliares para aí conduzindo as forças francesas com elas tomando Imola e Forli Mas depois não mais lhe parecendo seguras tais armas voltouse para as mercenárias julgando nelas encontrar menor perigo e tomou a seu serviço os Orsini e os Viteili Posteriormente manejando essas forças e achandoas dúbias infiéis e perigosas extinguiuas e voltouse para as suas próprias tropas Podese ver facilmente a diferença que existe entre umas e outras dessas armas considerando a modificação da reputação do duque entre quando tinha apenas os franceses e depois os Orsíni e Vitelli e quando ele ficou com soldados seus e sob seu próprio comando sempre se a encontrará acrescida e nem foi suficientemente amado senão quando todos viram que ele era o senhor absoluto de suas tropas Eu não queria abandonar os exemplos italianos e mais recentes contudo não desejo esquecer Hierão de Siracusa um dos acima indicados por mim Este como já disse tornado pelos siracusanos chefe dos exércitos logo reconheceu não ser útil a tropa mercenária por serem seus chefes idênticos aos nossos italianos parecendolhe não poder conserválos nem dispensálos fez cortar todos eles em pedaços passando depois a fazer guerra com tropas suas e não com as de outrem Quero ainda trazer à lembrança uma alegoria do Velho Testamento feita a este propósito Oferecendose David a Saul para lutar com Golias provocador filisteu Saul para encorajálo revestiuo com suas próprias armaduras as quais uma vez envergadas por David foram por ele recusadas com elas não poderia bem se valer de si mesmo preferindo enfrentar o inimigo apenas com sua funda e sua faca Enfim as armas de outrem ou te caem de cima ou te pesam ou te constrangem Carlos VII pai de Luís XI tendo com sua fortuna e sua virtude libertado a França dos ingleses conheceu essa necessidade de armarse com forças próprias e organizou em seu reino por forma regular as armas de cavalaria e de infantaria Mais tarde o Rei Luís seu filho extinguiu a infantaria e começou a aliciar os suíços erro esse que seguido de outros tornouse como realmente agora se vê a razão dos perigos daquele reino Na verdade dando reputação aos suíços Luis aviltou todas as suas tropas já que extinguiu as forças de infantaria e subordinou sua cavalaria às milícias de outrem e a esta acostumada a militar com os suíços pareceu não ser possível vencer sem eles Daí decorre que não bastam os franceses contra os suíços e sem os suíços não tentam a luta contra os outros Os exércitos de França pois têm sido mistos parte de mercenários e parte de tropas próprias forças essas que juntas são muitos melhores que as simples auxiliares ou as meramente mercenárias e muito inferiores ao exército próprio Basta o exemplo citado pois o reino de França seria invencível se a organização militar de Carlos tivesse sido desenvolvida ou conservada Mas a pouca prudência dos homens muitas vezes começa uma coisa que lhe parece boa sem se aperceber do veneno que ela encobre como já disse acima a respeito das febres éticas Portanto aquele que num principado não conhece os males logo no início não é verdadeiramente sábio o que é dado a poucos E se se considerar o início da ruína do Império Romano verseá ter ela resultado do simples começo de aliciamento dos godos eis que foi dai que começaram a declinar as forças do Império Romano e todo aquele valor que se lhe tirava era atribuído a eles Concluo pois que sem ter armas próprias nenhum principado está seguro ao contrário fica ele totalmente sujeito à sorte não havendo virtude que o defenda na adversidade Foi sempre opinião e sentença dos homens sábios quod nihíl sit tam infirmum aut instabile quam fama potentiae non sua vi nixa As forças próprias são aquelas que se constituem de súditos de cidadãos ou de criaturas tuas todas as outras são ou mercenárias ou auxiliares O modo de organizar as tropas próprias será fácil de encontrar se se analisar a organização dos quatro por mim mencionados e se se considerar como Felipe pai de Alexandre Magno e muitas repúblicas e principados se armaram e organizaram a essas organizações eu me reporto inteiramente CAPÍTULO XIV O QUE COMPETE A UM PRÍNCIPE ACERCA DA MILÍCIA TROPA QUOD PRINCIPEM DECEAT CIRCA MILITIAM Deve pois um príncipe não ter outro objetivo nem outro pensamento nem tomar qualquer outra coisa por fazer senão a guerra e a sua organização e disciplina pois que é essa a única arte que compete a quem comanda E é ela de tanta virtude que não só mantém aqueles que nasceram príncipes como também muitas vezes faz os homens de condição privada subirem àquele posto ao contrário vêse que quando os príncipes pensam mais nas delicadezas do que nas armas perdem o seu Estado A primeira causa que te faz perder o governo é negligenciar dessa arte enquanto que a razão que te permite conquistálo é o ser professo da mesma Francisco Sforza por estar armado de cidadão privado que era tornou se duque de Milão os filhos para fugir às fadigas das armas de duques passaram a simples cidadãos privados Em verdade entre outros males que te acarreta o estares desarmado ele te torna vil o que constitui uma daquelas infâmias de que o príncipe se deve guardar como abaixo será exposto Realmente entre um príncipe armado e um desarmado não existe proporção alguma e não é razoável que quem esteja armado obedeça com gosto ao que seja desprovido de armas nem que o desarmado se sinta seguro entre servidores armados eis que existindo desdém de parte de um e suspeita do lado do outro não é possível ajam bem estando juntos Ainda um príncipe que não entende de tropas além dos outros prejuízos referidos sofre aquele de não poder ser estimado pelos seus soldados e nem poder neles confiar Deve o príncipe portanto não desviar um momento sequer o seu pensamento do exercício da guerra o que pode fazer por dois modos um com a ação o outro com a mente Quanto à ação além de manter bem organizadas e exercitadas as suas tropas deve estar sempre em caçadas para acostumar o corpo às fadigas e em parte para conhecer a natureza dos lugares e saber como surgem os montes como embocam os vales como se estendem as planícies e aprender a natureza dos rios e dos pântanos pondo muita atenção em tudo isso Esses conhecimentos são úteis por duas razões primeiro aprendese a conhecer o próprio país e podese melhor identificar as defesas que ele oferece depois em decorrência do conhecimento e prática daqueles sítios com facilidade poderá entender qualquer outra região que venha a ter de observar eis que as colinas os vales as planícies os rios e os pântanos que existem por exemplo na Toscana têm certa semelhança com os das outras províncias de forma que do conhecimento do terreno de uma província se pode passar facilmente ao de outras O príncipe que seja falto dessa perícia está desprovido do elemento principal de que necessita um capitão pois ela ensina a encontrar o inimigo estabelecer os acampamentos conduzir os exércitos ordenar as jornadas fazer incursões pelas terras com vantagem sobre o inimigo Filopémenes príncipe dos Aqueus dentre os louvores que lhe foram endereçados pelos escritores mereceu também aquele de que nos tempos de paz em outra coisa não pensava senão em torno de guerra e quando excursionando pelos campos com os amigos freqüentemente parava e com eles argumentava Se os inimigos estivessem sobre aquela colina e nós nos encontrássemos aqui com nosso exército qual de nós teria vantagem Como se poderia atacálos mantendo a formação da tropa Se quiséssemos nos retirar como deveríamos proceder Se eles se retirassem como faríamos para perseguilos E propunha lhes andando todos os casos que possam ocorrer em um exército ouvia a opinião dos mesmos dava a sua corroborandoa com argumentos de maneira tal que em razão dessas contínuas cogitações jamais poderia comandando os exércitos encontrar pela frente algum imprevisto para o qual não tivesse solução Mas quanto ao exercício da mente deve o príncipe ler as histórias e nelas observar as ações dos grandes homens ver como se conduziram nas guerras examinar as causas de suas vitórias e de suas derrotas para poder fugir às responsáveis por estas e imitar as causadoras daquelas deve fazer sobretudo como em tempos idos fizeram alguns grandes homens que imitaram todo aquele que antes deles foi louvado e glorificado e sempre tiveram em si os gestos e as ações do mesmo como se diz que Alexandre Magno imitava a Aquiles César a Alexandre Cipião a Ciro Quem lê a vida de Ciro escrita por Xenofonte percebe depois na vida de Cipião o quanto lhe valeu para a glória aquela imitação bem como o quanto na castidade afabilidade humanidade e liberalidade Cipião se assemelhava àquilo que Xenofonte escreveu de Ciro Um príncipe inteligente deve observar essa semelhança de proceder nunca ficando ocioso nos tempos de paz mas sim com habilidade procurar formar cabedal para poder utilizálo na adversidade a fim de que quando mudar a fortuna se encontre preparado para resistir CAPÍTULO XV DAQUELAS COISAS PELAS QUAIS OS HOMENS E ESPECIALMENTE OS PRÍNCIPES SÃO LOUVADOS OU VITUPERADOS DE HIS REBUS QUIBUS HOMINES ET PRAESERTIM PRINCIPES LAUDANTUR AUT VITUPERANTUR Resta ver agora quais devam ser os modos e o proceder de um príncipe para com os súditos e os amigos e por que sei que muitos já escreveram a respeito duvido não ser considerado presunçoso escrevendo ainda sobre o mesmo assunto máxime quando irei disputar essa matéria à orientação já por outros dada aos príncipes Mas sendo minha intenção escrever algo de útil para quem por tal se interesse pareceume mais conveniente ir em busca da verdade extraída dos fatos e não à imaginação dos mesmos pois muitos conceberam repúblicas e principados jamais vistos ou conhecidos como tendo realmente existido Em verdade há tanta diferença de como se vive e como se deveria viver que aquele que abandone o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação eis que um homem que queira em todas as suas palavras fazer profissão de bondade perderseá em meio a tantos que não são bons Donde é necessário a um príncipe que queira se manter aprender a poder não ser bom e usar ou não da bondade segundo a necessidade Deixando de parte assim os assuntos relativos a um príncipe imaginário e falando daqueles que são verdadeiros digo que todos os homens máxime os príncipes por situados em posição mais preeminente quando analisados se fazem notar por alguns daqueles atributos que lhes acarretam ou reprovação ou louvor Assim é que alguns são havidos como liberais alguns miseráveis usando um termo toscano porque avaro em nossa língua é ainda aquele que deseja possuir por rapina enquanto miserável chamamos aquele que se abstém em excesso de usar o que possui alguns são tidos como pródigos alguns rapaces alguns cruéis alguns piedosos um fedífrago o outro fiel um efeminado e pusilânime o outro feroz e animoso um humano o outro soberbo um lascivo o outro casto um simples o outro astuto um duro o outro fácil um grave o outro leviano um religioso o outro incrédulo e assim por diante Sei que cada um confessará que seria sumamente louvável encontraremse em um príncipe de todos os atributos acima referidos apenas aqueles que são considerados bons mas desde que não os podem possuir nem inteiramente observálos em razão das contingências humanas não o permitirem é necessário seja o príncipe tão prudente que saiba fugir à infâmia daqueles vícios que o fariam perder o poder cuidando evitar até mesmo aqueles que não chegariam a pôr em risco o seu posto mas não podendo evitar é possível tolerálos se bem que com quebra do respeito devido Ainda não evite o príncipe de incorrer na má faina daqueles vícios que sem eles difícil se lhe torne salvar o Estado pois se bem considerado for tudo sempre se encontrará alguma coisa que parecendo virtude praticada acarretará ruína e alguma outra que com aparência de vício seguida dará origem à segurança e ao bemestar CAPÍTULO XVI DA LIBERALIDADE E DA PARCIMÔNIA DE LIBERALITATE ET PARSIMONIA Começando pois com os primeiros dos já referidos atributos digo que seria um bem o ser havido como liberal Contudo a liberalidade usada por forma que se torne conhecida de todos te prejudica porque se usada virtuosamente e como se a deve usar ela não se torna conhecida e não conseguirás tirar de cima de ti a má fama do seu contrário porém querendo manter entre os homens o nome de liberal é preciso não esquecer nenhuma espécie de suntuosidade de forma tal que um príncipe assim procedendo consumirá em ostentação todas as suas finanças e terá necessidade de ao final se quiser manter o conceito de liberal gravar extraordinariamente o povo de impostos ser duro no fisco e fazer tudo aquilo de que possa se utilizar para obter dinheiro Isso começará a tornálo odioso perante o povo e empobrecendoo fáloá pouco estimado de todos de forma que tendo ofendido a muitos e premiado a poucos com essa sua liberalidade sente mais intensamente qualquer revés inicial e periclita face ao primeiro perigo Percebendo isso e querendo recuar o príncipe incorre desde logo na má fama de miserável Um príncipe pois não podendo usar essa qualidade de liberal sem sofrer dano tornandoa conhecida deve ser prudente deve não se preocupar com a pecha de miserável eis que com o decorrer do tempo será considerado sempre mais liberal uma vez vendo o povo que com sua parcimônia a receita lhe basta pode defenderse de quem lhe mova guerra e tem possibilidade de realizar empreendimentos sem gravar o povo assim agindo vem a usar liberalidade para com todos aqueles dos quais nada tira que são numerosos e a empregar miséria para com todos os outros a quem não dá que são poucos Nos nossos tempos não temos visto grandes realizações senão daqueles que foram havidos por miseráveis enquanto vimos os outros serem extintos O Papa Júlio II como utilizou a fama de liberal para atingir ao papado não pensou depois em conservála para poder fazer guerra o atual rei de França fez tantas guerras sem lançar um tributo extraordinário sobre seus súditos somente porque sobrepôs sua parcimônia às despesas supérfluas O presente rei de Espanha se havido como liberal não teria realizado nem vencido em tantos empreendimentos Portanto um príncipe deve gastar pouco para não precisar roubar seus súditos para poder defenderse para não ficar pobre e desprezado para não ser forçado a tornarse rapace não se importando de incorrer na fama de miserável porque esse é um daqueles defeitos que o fazem reinar E se alguém dissesse que César alcançou o Império pela liberalidade sem contar muitos outros que têm sido ou são considerados liberais e atingiram altíssimos postos eu responderia ou tu já és príncipe ou estás em via de o ser No primeiro caso essa liberalidade é prejudicial no segundo é bem necessário ser considerado liberal e César era um daqueles que queriam ascender ao principado de Roma mas se depois que o alcançou tivesse vivido e não tivesse usado comedimento nas despesas teria destruído o Império E se alguém replicasse que houve muitos príncipes tidos como extremamente liberais que realizaram grandes feitos com seus exércitos responderia ou o príncipe gasta do seu ou de seus súditos ou de outrem no primeiro caso deve ser parcimonioso nos outros não deve deixar de praticar nenhuma liberalidade E aquele príncipe que vai com os exércitos que se mantém de rapinagem de saques e de resgates maneja bens de outros tem necessidade dessa liberalidade porque do contrário não será seguido pelos soldados E daquilo que não é teu nem de súditos teus podes ser o mais generoso doador como o foram Ciro César e Alexandre eis que o despender aquilo que é dos outros não te tira reputação ao contrário a aumenta somente o gastar o teu é que te prejudica E não há coisa que tanto se destrua a si mesma como a liberalidade pois enquanto tu a usas perdes a faculdade de utilizála tornandote pobre e desprezado ou para fugir à pobreza rapace e odioso Dentre todas as coisas de que um príncipe se deve guardar está o ser desprezado e odiado e a liberalidade te conduz a uma e a outra dessas coisas Portanto é mais sabedoria ter a fama de miserável que dá origem a uma infâmia sem ódio do que por querer o conceito de liberal verse na necessidade de incorrer no julgamento de rapace que cria uma má fama com ódio CAPÍTULO XVII DA CRUELDADE E DA PIEDADE SE É MELHOR SER AMADO QUE TEMIDO OU ANTES TEMIDO QUE AMADO DE CRUDELITATE ET PIETATE ET AN SIT MELIUS AMARI QUAM TIMERI VEL E CONTRA Reportandome às outras qualidades já referidas digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel não obstante isso deve ter o cuidado de não usar mal essa piedade César Bórgia era considerado cruel entretanto essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha logrando uníla e pôla em paz e em lealdade O que se bem considerado for mostrará ter sido ele muito mais piedoso do que o povo florentino o qual para fugir à pecha de cruel deixou que Pistóia fosse destruída Um príncipe não deve pois temer a má fama de cruel desde que por ela mantenha seus súditos unidos e leais pois que com mui poucos exemplos ele será mais piedoso do que aqueles que por excessiva piedade deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira enquanto aquelas execuções que emanam do príncipe atingem apenas um indivíduo E dentre todos os príncipes é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel visto serem os Estados novos cheios de perigos Diz Virgílio pela boca de Dido Res duraet regni novitas me talia cogunt moliri et late fines custode tueri O príncipe contudo deve ser lento no crer e no agir não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada com prudência e humanidade buscando evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável Nasce daí uma questão se é melhor ser amado que temido ou o contrário A resposta é de que seria necessário ser uma coisa e outra mas como é difícil reunilas em tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado Isso porque dos homens podese dizer geralmente que são ingratos volúveis simuladores tementes do perigo ambiciosos de ganho e enquanto lhes fizeres bem são todos teus oferecemte o próprio sangue os bens a vida os filhos desde que como se disse acima a necessidade esteja longe de ti quando esta se avizinha porém revoltamse E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras encontrandose destituído de outros meios de defesa está perdido as amizades que se adquirem por dinheiro e não pela grandeza e nobreza de alma são compradas mas com elas não se pode contar e no momento oportuno não se torna possível utilizálas E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação que por serem os homens maus é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha mas o temor é mantido pelo receio de castigo que jamais se abandona Deve o príncipe não obstante fazerse temer de forma que se não conquistar o amor fuja ao ódio mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido e o não ser odiado isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mulheres de seus cidadãos e de seus súditos e em se lhe tornando necessário derramar o sangue de alguém façao quando existir conveniente justificativa e causa manifesta Deve sobretudo absterse dos bens alheios posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio Além disso nunca faltam motivos para justificar as expropriações e aquele que começa a viver de rapinagem sempre encontra razões para apossar se dos bens alheios ao passo que as razões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotamse mais depressa Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu comando uma multidão de soldados então é de todo necessário não se importar com a fama de cruel eis que sem ela jamais se conservará exército unido e disposto a alguma empresa Dentre as admiráveis ações de Aníbal mencionase esta tendo um exército imenso constituído de homens de inúmeras raças conduzido a batalhar em terras alheias nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe tanto na má como na boa fortuna Isso não pode resultar de outra coisa senão daquela sua desumana crueldade que aliada às suas infinitas virtudes o tornou sempre venerado e terrível no conceito de seus soldados sem aquela crueldade as virtudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito e todavia escritores nisto pouco ponderados admiram de um lado essa sua atuação e de outro condenam a principal causa da mesma Para prova de que realmente as outras suas virtudes não seriam bastantes podese considerar o caso de Cipião homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos cujos exércitos se revoltaram na Espanha em conseqüência de sua excessiva piedade pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar Tal fato foilhe censurado no Senado por Fábio Máximo o qual chamouo de corruptor da milícia romana Os locrenses tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião não foram por ele vingados nem a insolência daquele legado foi reprimida resultando tudo isso de sua natureza fácil tanto assim que querendo alguém desculpálo perante o Senado disse haver muitos homens que melhor sabiam não errar do que corrigir os erros Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião tivesse ele perseverado no comando mas vivendo sob o governo do Senado esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu como lhe resultou em glória Concluo pois voltando à questão de ser temido e amado que um príncipe sábio amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como deseja deve apoiarse naquilo que é seu e não no que é dos outros deve apenas empenharse em fugir ao ódio como foi dito CAPÍTULO XVIII DE QUE MODO OS PRÍNCIPES DEVEM MANTER A FÉ DA PALAVRA DADA QUOMODO FIDES A PRINCIPIBUS SIT SERVANDA Quando seja louvável em um príncipe o manter a fé da palavra dada e viver com integridade e não com astúcia todos compreendem contudo vê se nos nossos tempos pela experiência alguns príncipes terem realizado grandes coisas a despeito de terem tido em pouca conta a fé da palavra dada sabendo pela astúcia transtornar a inteligência dos homens no final conseguiram superar aqueles que se firmaram sobre a lealdade Deveis saber então que existem dois modos de combater um com as leis o outro com a força O primeiro é próprio do homem o segundo dos animais mas como o primeiro modo muitas vezes não é suficiente convém recorrer ao segundo Portanto a um príncipe tornase necessário saber bem empregar o animal e o homem Esta matéria aliás foi ensinada aos príncipes veladamente pelos antigos escritores os quais descrevem como Aquiles e muitos outros príncipes antigos foram confiados à educação do centauro Quiron Isso não quer dizer outra coisa o ter por preceptor um ser meio animal e meio homem senão que um príncipe precisa saber usar uma e outra dessas naturezas uma sem a outra não é durável Necessitando um príncipe pois saber bem empregar o animal deve deste tomar como modelos a raposa e o leão eis que este não se defende dos laços e aquela não tem defesa contra os lobos É preciso portanto ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos Aqueles que agem apenas como o leão não conhecem a sua arte Logo um senhor prudente não pode nem deve guardar sua palavra quando isso seja prejudicial aos seus interesses e quando desapareceram as causas que o levaram a empenhála Se todos os homens fossem bons este preceito seria mau mas porque são maus e não observariam a sua fé a teu respeito não há razão para que a cumpras para com eles Jamais faltaram a um príncipe razões legítimas para justificar a sua quebra da palavra Disto poderseia dar inúmeros exemplos modernos mostrar quantas pazes e quantas promessas foram tornadas írritas e vãs pela infidelidade dos príncipes e aquele que com mais perfeição soube agir como a raposa saiuse melhor Mas é necessário saber bem disfarçar esta qualidade e ser grande simulador e dissimulador tão simples são os homens e de tal forma cedem às necessidades presentes que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar Não quero deixar de apontar um dos exemplos recentes Alexandre VI jamais fez outra coisa jamais pensou em outra coisa senão enganar os homens sempre encontrando ocasião para assim poder agir Nunca existiu homem que tivesse maior eficácia em asseverar que com maiores juramentos afirmasse uma coisa e que depois menos a observasse não obstante os enganos sempre lhe resultaram segundo o seu desejo pois bem conhecia este lado do mundo A um príncipe portanto não é essencial possuir todas as qualidades acima mencionadas mas é bem necessário parecer possuílas Antes ousarei dizer que possuindoas e usandoas sempre elas são danosas enquanto que aparentando possuílas são úteis por exemplo parecer piedoso fiel humano íntegro religioso e sêlo realmente mas estar com o espírito preparado e disposto de modo que precisando não sêlo possas e saibas tornarte o contrário Devese compreender que um príncipe e em particular um príncipe novo não pode praticar todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons uma vez que freqüentemente é obrigado para manter o Estado a agir contra a fé contra a caridade contra a humanidade contra a religião Porém é preciso que ele tenha um espírito disposto a voltarse segundo os ventos da sorte e as variações dos fatos o determinem e como acima se disse não apartarse do bem podendo mas saber entrar no mal se necessário Um príncipe portanto deve ter muito cuidado em não deixar escapar de sua boca nada que não seja repleto das cinco qualidades acima mencionadas para parecer ao vêlo e ouvilo todo piedade todo fé todo integridade todo humanidade todo religião e nada existe mais necessário de ser aparentado do que esta última qualidade É que os homens em geral julgam mais pelos olhos do que pelas mãos porque a todos cabe ver mas poucos são capazes de sentir Todos vêem o que tu aparentas poucos sentem aquilo que tu és e esses poucos não se atrevem a contrariar a opinião dos muitos que aliás estão protegidos pela majestade do Estado e nas ações de todos os homens em especial dos príncipes onde não existe tribunal a que recorrer o que importa é o sucesso das mesmas Procure pois um príncipe vencer e manter o Estado os meios serão sempre julgados honrosos e por todos louvados porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados e no mundo não existe senão o vulgo os poucos não podem existir quando os muitos têm onde se apoiar Algum príncipe dos tempos atuais que não convém nomear não prega senão a paz e fé mas de uma e outra é ferrenho inimigo uma e outra se ele as tivesse praticado terlheiam por mais de uma vez tolhido a reputação ou o Estado CAPÍTULO XIX DE COMO SE DEVA EVITAR O SER DESPREZADO E ODIADO DE CONTEMPTU ET ODIO FUGIENDO Porque falei das mais importantes das qualidades acima mencionadas desejo discorrer rapidamente sobre as outras sob estas generalidades que o príncipe pense como acima se disse em parte em fugir àquelas circunstâncias que possam tornálo odioso e desprezível sempre que assim proceder terá cumprido o que lhe compete e não encontrará perigo algum nos outros defeitos Odioso o tornará acima de tudo como já disse o ser rapace e usurpador dos bens e das mulheres dos súditos do que se deve abster e desde que não se tirem nem os bens nem a honra à universalidade dos homens estes vivem felizes e somente se terá de combater a ambição de poucos o que se refreia por muitos modos e com facilidade Desprezível o torna ser considerado volúvel leviano efeminado pusilânime irresoluto do que um príncipe deve guardarse como de um escolho empenhandose para que nas suas ações se reconheça grandeza coragem gravidade e fortaleza com relação às ações privadas dos súditos deve querer que a sua sentença seja irrevogável deve manterse em tal conceito que ninguém possa pensar em enganálo ou traílo O príncipe que dá de si esta opinião é assaz reputado e contra quem é reputado só com muita dificuldade se conspira dificilmente é atacado desde que se considere excelente e seja reverenciado pelos seus Na verdade um príncipe deve ter dois temores um de ordem interna de parte de seus súditos o outro de natureza externa de parte dos potentados estrangeiros Destes se defende com boas armas e bons amigos e sempre que tenha boas armas terá bons amigos A situação interna desde que ainda não perturbada por uma conspiração estará segura sempre que esteja estabilizada a externa mesmo quando esta se agite se o príncipe organizou se e viveu como eu já disse desde que não desanime resistirá a qualquer impacto como salientei ter feito o espartano Nábis Mas a respeito dos súditos quando os negócios externos não se agitam devese temer que conspirem secretamente contra o que o príncipe se assegura firmemente fugindo de ser odiado ou desprezado e mantendo o povo com ele satisfeito isto é de necessidade seja conseguido como já acima se falou longamente Um dos mais poderosos remédios de que um príncipe pode dispor contra as conspirações é não ser odiado pela maioria porque sempre quem conjura pensa com a morte do príncipe satisfazer o povo mas quando considera que com isso irá ofendêlo não se anima a tomar semelhante partido mesmo porque as dificuldades com que os conspiradores têm de se defrontar são infinitas Por experiência vêse que muitas foram as conspirações mas poucas tiveram bom fim pois quem conspira não pode ser sozinho nem pode ter por companheiros senão aqueles que acredite estarem descontentes mas logo que tenhas revelado a um descontente a tua intenção lhe dás motivo para ficar contente porque evidentemente ele pode daí esperar todas as vantagens de forma que vendo o ganho certo de um lado sendo o outro dúbio e cheio de perigo é preciso seja ou extraordi 112 nário amigo teu ou implacável inimigo do príncipe para manterte a palavra empenhada Para reduzir o assunto a termos breves digo que do lado do conspirador não existe senão medo ciúme suspeita de castigo que o atordoa mas do lado do príncipe existe a majestade do principado as leis as barreiras dos amigos e do Estado que o defendem consequentemente somada a tais fatores a benevolência popular é impossível exista alguém tão temerário que venha a conspirar Isso porque geralmente onde um conspirador teme antes da execução do mal se tiver o povo por inimigo deve temer ainda mesmo depois de ocorrido o fato não podendo por isso esperar qualquer amparo Deste assunto poderseia citar inúmeros exemplos porém limitome a apenas um conservado pela recordação de nossos pais Tendo sido messer Aníbal Bentivoglio príncipe em Bolonha e avô do atual messer Aníbal morto pelos caneschi que contra ele haviam conspirado não restando de sua família senão messer Giovanni que era ainda criança de colo logo após esse homicídio o povo levantouse e matou todos os canneschi Isso resultou da benquerença popular que a casa de Bentivoglio desfrutava naqueles tempos benquerença essa tão grande que não restando em Bolonha qualquer membro dessa família em condições de poder governar o Estado após a morte de Anibal e constando haver em Florença um descendente dos Bentivoglio que se julgava até então filho de um artífice os bolonheses foram até essa cidade e lhe confiaram o governo daquela comunidade a qual foi por ele dirigida até que messer Giovanni atingisse a idade conveniente para governar Concluo portanto que um príncipe deve dar pouca importância às conspirações se o povo lhe é benévolo mas quando este lhe seja adverso e o tenha em ódio deve temer tudo e a todos Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis têm com toda a diligência procurado não desesperar os grandes e satisfazer o povo conservandoo contente mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de que um príncipe tenha de tratar Entre os reinos bem organizados e governados nos nossos tempos está aquele de França Nele existem inúmeras boas instituições das quais dependem a liberdade e a segu 113 rança do rei a primeira delas é o Parlamento com a sua autoridade Aquele que organizou esse reino conhecendo a ambição dos poderosos e a sua insolência julgando ser necessário pôr um freio para corrigilos e de outra parte por conhecer o ódio da maioria contra os grandes com base no medo desejando protegêla mas não querendo fosse este particular cuidado do rei buscou dele retirar o peso da odiosidade dos grandes em sendo favorecido o povo ou deste ao dever apoiar os grandes por isso constituiu um terceiro juiz que fosse aquele que sem responsabilidade do rei contivesse os grandes e amparasse os pequenos Essa ordem não podia ser melhor nem mais prudente nem se pode negar seja a maior razão da segurança do rei e do reino Daí pode se extrair outra conclusão digna de nota os príncipes devem atribuir a outrem as coisas odiosas reservando para si aquelas de graça Novamente concluo que um príncipe deve estimar os grandes mas não se fazer odiado pelo povo Talvez a muitos pudesse parecer considerando a vida e a morte de alguns imperadores romanos fossem elas exemplos contrários à minha opinião dado que viveram exemplarmente e demonstraram grandes virtudes e sem embargo disso perderam o Império ou mesmo foram mortos pelos seus que contra eles conspiraram Querendo portanto responder a estas objeções falarei das qualidades de alguns imperadores mostrando as causas de sua ruína não discrepantes daquilo que foi por mim aduzido ao mesmo tempo porei em consideração aqueles fatos que são notáveis para quem lê as ações daqueles tempos Considero suficiente citar todos os imperadores que se sucederam no poder desde Marco o filósofo até Maximino os quais foram Marco seu filho Cômodo Pertinax Juliano Severo seu filho Antonino Caracala Macrino Heliogábalo Alexandre e Maximino Devese notar inicialmente que enquanto nos outros principados temse de lutar apenas contra a ambição dos grandes e a insolência do povo os imperadores romanos encontravam uma terceira dificuldade aquela de terem de suportar a crueldade e a ambição dos soldados Esta terceira dificuldade era de tal forma séria que se tornou a causa da ruína de muitos pois é difícil satisfazer ao mesmo tempo os soldados e o povo este amava a paz e por isso estimava os príncipes moderados enquanto que os soldados amavam o príncipe de ânimo militar que fosse insolente cruel e rapace querendo que o mesmo exercesse tais violências contra as populações para poder ter assim duplicado soldo e expansão à sua rapacidade e crueldade Tais fatos fizeram com que aqueles imperadores que por natureza ou por engenho não desfrutavam uma grande reputação de forma a poder manter freados um e outros sempre se arruinassem a maioria deles principalmente aqueles que como homens novos chegavam ao principado conhecida a dificuldade que resultava desses dois sentimentos diversos propendiam para satisfazer aos soldados pouco se preocupando com o fato de por tal forma ofender o povo Esse partido era necessário porque não podendo o príncipe deixar de ser odiado por alguém deve primeiro buscar não ser odiado por qualquer classe social mas quando não pode conseguir isto deve empenharse em por todos os meios evitar o ódio daquelas classes que são mais poderosas Por isso aqueles imperadores que por serem novos tinham necessidade de favores extraordinários aderiam antes aos soldados que ao povo o que não obstante se lhes tornava útil ou não conforme soubessem ou não conservarse reputados entre eles Das razões mencionadas resultou que Marco Pertinax e Alexandre todos eles de vida modesta amantes da justiça inimigos da crueldade humanos e benignos tiveram a partir de Marco triste fim Somente Marco viveu e morreu honradíssimo visto ter sucedido no império jure hereditário não tendo de agradecêlo nem aos soldados nem ao povo depois sendo dotado de muitas virtudes que o faziam venerando teve sempre enquanto viveu uma ordem e outra dentro de seus limites não sendo jamais odiado ou desprezado Mas Pertinax tornado imperador contra a vontade dos soldados que acostumados a viver licenciosamente sob Cômodo não puderam suportar aquela vida honesta a que o imperador queria reduzilos por isso tendo Pertinax criado ódio contra si e a este ódio acrescido o desprezo por ser já velho arruinouse logo no início de sua administração Devese notar aqui que o ódio se adquire tanto pelas boas como pelas más ações como já disse acima querendo um príncipe conservar o Estado freqüentemente é forçado a não ser bom pois quando aquele elemento mais forte povo soldados ou grandes de que julgas necessitar para manterte é corrompido convém que sigas o seu desejo para satisfazêlo então as boas obras tornamse tuas inimigas Mas passemos a Alexandre o qual foi de tanta bondade que entre outros louvores que lhe são endereçados existe este de que em quatorze anos que conservou o poder não foi executada qualquer pessoa sem julgamento contudo sendo considerado efeminado e homem que se deixava governar pela mãe tornouse desprezado o exército conspirou e ele foi morto Falando agora por outro lado das qualidades de Cômodo Severo Antonino Caracala e Maximino os achareis extremamente cruéis e rapaces para satisfazer os soldados não pouparam nenhuma espécie de injúria que pudesse ser cometida contra o povo todos exceto Severo tiveram triste fim É que Severo possuiu tanto valor que conservando os soldados como seus amigos ainda que o povo fosse por ele oprimido pode sempre reinar com felicidade pois aquelas suas virtudes o tornavam tão admirável no conceito dos soldados e do povo que este ficava por assim dizer atônito e aturdido e aqueles reverentes e satisfeitos E porque as ações do mesmo foram grandes e notáveis num príncipe novo desejo mostrar de forma breve quão bem soube usar a ação da raposa e do leão naturezas essas que disse acima devem ser imitadas pelos príncipes Tendo Severo conhecido a ignávia do Imperador Juliano persuadiu seu exército do qual era capitão na Stiavônia de que era conveniente ir a Roma para vingar a morte de Pertinax assassinado pelos soldados pretorianos sob este pretexto sem demonstrar aspirar o Império conduziu o exército contra Roma chegando à Itália antes que fosse conhecida sua partida Estando em Roma o Senado por temor elegeuo imperador sendo morto Juliano A seguir restavam a Severo duas dificuldades para se assenhorear de todo o Estado uma na Ásia onde Pescênio Nigro chefe dos exércitos asiáticos se fizera aclamar imperador a outra no Poente onde estava Albino que por sua vez também aspirava ao Império Porque julgasse perigoso revelarse inimigo de ambos deliberou atacar Nigro e enganar Albino a quem escreveu que tendo sido pelo Senado eleito imperador desejava com ele compartilhar aquela dignidade envioulhe o título de César e por deliberação do Senado tornouo seu colega Albino aceitou tais coisas como verdadeiras mas depois que venceu e matou Nigro pacificados os negócios orientais e retornado a Roma Severo queixouse ao Senado de que Albino pouco reconhecido dos benefícios dele recebidos tinha dolosamente procurado matálo razão pela qual via necessidade de ir punir sua ingratidão Depois foi ao seu encontro na França e lhe tolheu o governo e a vida Quem examinar portanto minuciosamente as ações deste homem achálo á um ferocíssimo leão e uma astuciosíssima raposa veloá temido e reverenciado por todos e não odiado pelos exércitos não se admirando que ele homem novo tenha podido deter tanto poder a sua alta reputação o defendeu sempre daquele ódio que pelas suas rapinagens o povo contra ele poderia ter concebido Mas Antonino seu filho foi também ele homem que possuía excelentes qualidades que o faziam maravilhoso no conceito do povo e querido pelos soldados era um militar que suportava muito bem quaisquer fadigas desprezava os alimentos delicados e abominava toda e qualquer frouxidão o que o tornava amado por todos os exércitos Contudo sua ferocidade e crueldade foi tanta e tão inaudita tendo mesmo depois de inúmeros assassínios privados morto grande parte da população de Roma e toda aquela de Alexandria que tornouse extremamente odioso para todo o mundo começou a ser temido também por aqueles que o rodeavam de forma que foi morto por um centurião em meio ao seu exército A propósito do referido é de notarse que tais assassinatos decorrentes da deliberação de um espírito obstinado são impossíveis de evitar por parte dos príncipes porque todo aquele que não tema morrer pode golpeálos Todavia o príncipe pouco deve temer porque tais mortes são raras Deve apenas cuidar de não fazer grave injúria a algum daqueles de que se serve e que tem ao seu derredor no serviço do principado como fez Antonino que havia morto vilmente um irmão daquele centurião e ainda ameaçava este diariamente enquanto o conservava na sua própria guarda era resolução temerária e capaz de destruílo como aconteceu Passemos a Cômodo para quem era de grande facilidade manter o Império por possuílo iure hereditario uma vez que era filho de Marco bastavalhe seguir as pegadas do pai e teria satisfeito os soldados e o povo Mas sendo de espírito cruel e bestial para poder usar sua rapacidade contra o povo passou a cativar os exércitos e tornálos licenciosos por outro lado não mantendo a sua dignidade descendo freqüentemente às arenas para combater com os gladiadores fazendo outras coisas extremamente vis e pouco dignas da majestade imperial tornouse desprezível no conceito dos soldados E sendo odiado por uns e desprezado por outros conspiraram contra ele e foi morto Restanos narrar as qualidades de Maximino Este foi homem belicosíssimo e estando os exércitos enfastiados da moleza de Alexandre de quem falei acima morto este elegeramno para o governo Maximino não possuiu o poder por muito tempo pois duas coisas tornaramno odiado e desprezado uma o ser de condição extremamente vil pois já apascentara ovelhas na Trácia fato por todos bastante conhecido e que lhe causava grande depreciação no conceito geral a outra porque tendo no início de seu principado retardado em ir a Roma e tomar posse do trono imperial dera de si impressão de extremamente cruel eis que por intermédio de seus prefeitos em Roma e em muitos pontos do Império praticara numerosas crueldades De modo que agitado todo o mundo pelo desprezo à vileza de seu sangue e tomado de ódio pelo medo à sua ferocidade rebelouse primeiro a África depois o Senado com todo o povo de Roma toda a Itália contra ele conspirou A esse movimento juntouse seu próprio exército que fazendo campanha em Aquiléia e encontrando dificuldade no assédio aborrecido de sua crueldade temendo menos por vêlo com tantos inimigos matouo Não quero falar nem de Heliogábalo nem de Macrino nem de Juliano os quais por serem inteiramente desprezíveis se extinguiram logo passarei pois à conclusão deste assunto Assim digo que os príncipes de nossos tempos têm a menos nos seus governos esta dificuldade de satisfazer extraordinariamente aos soldados eis que não obstante se deva ter para com os mesmos alguma consideração isso se resolve logo pois nenhum destes príncipes tem um exército que seja inveterado com os governos e administrações das províncias como eram os exércitos do Império Romano Porém se então era necessário mais aos soldados do que ao povo isso decorria de que os soldados podiam mais que aquele agora é necessário a todos os príncipes exceto ao Turco e ao Sultão satisfazer mais ao povo que aos militares porque aquele pode mais que estes Faço exceção do Turco em razão de ter ele sempre em torno de si doze mil infantes e quinze mil soldados de cavalaria dos quais dependem a segurança e o poderio do seu reino e é necessário que postergada qualquer outra consideração esse senhor os conserve amigos E deveis notar que este Estado do Sultão é diverso de todos os outros principados ele é semelhante ao pontificado cristão a que não se pode chamar nem principado hereditário nem principado novo posto que não são filhos do príncipe velho que herdam e se tornam senhores mas sim aquele eleito para o posto pelos que têm autoridade E sendo esta uma instituição antiga não se pode chamar de principado novo dado que nela não existem algumas das dificuldades que se encontram nos novos se bem o príncipe seja novo as instituições desse Estado são velhas e ordenadas a recebêlo como se fosse seu senhor hereditário Retornemos porém ao nosso assunto Digo que todo aquele que considere o acima exposto verá o ódio ou o desprezo ter sido a causa da ruína dos imperadores citados e saberá ainda porque procedendo uma parte deles de um modo e a outra parte por forma contrária em qualquer um desses modos de agir alguns deles tiveram fim feliz enquanto os outros terminaram infelizes A Pertinax e Alexandre por serem príncipes novos foi inútil e prejudicial querer imitar Marco que se encontrava no principado iure hereditario igualmente a Caracala Cômodo e Maximino foi pernicioso o imitar Severo por não possuírem tanta virtude que fosse bastante para que pudessem seguir suas pegadas Portanto um príncipe novo num principado novo não pode imitar as ações de Marco e tampouco é necessário seguir as de Severo deve tomar de Severo aquelas qualidades que forem necessárias para fundar seu Estado e de Marco aquelas que forem convenientes e gloriosas para conservar um governo já estabelecido e firme CAPÍTULO XX SE AS FORTALEZAS E MUITAS OUTRAS COISAS QUE A CADA DIA SÃO FEITAS PELOS PRÍNCIPES SÃO ÚTEIS OU NÃO AN ARCES ET MULTA ALIA QUAE COTIDIE A PRINCIPIBUS FIUNT UTILIA AN INUTILIA SINT Para conservar seguramente o Estado alguns príncipes desarmaram os seus súditos outros mantiveram divididas as terras submetidas alguns nutriram inimizades contra si mesmos outros dedicaramse a conquistar o apoio daqueles que lhes eram suspeitos no início de seu governo alguns construíram fortalezas outros as arruinaram e destruíram E se bem não seja possível estabelecer determinado juízo sobre todas essas coisas sem entrar nas particularidades de cada um dos Estados onde devesse ser tomada alguma dessas deliberações falarei de maneira genérica compatível com o assunto Jamais existiu um príncipe novo que desarmasse os seus súditos mas antes sempre que os encontrou desarmados armouos isto porque armandoos essas armas passam a ser tuas tornam fiéis aqueles que te são suspeitos os que eram fiéis assim se conservam e de súditos tornamse teus partidários E porque não se pode armar todos os súditos beneficiados aqueles que armas com os outros podes tratar mais seguramente essa diversidade de tratamento que reconhecem em seu favor os torna obrigados para contigo e os outros desculparteão julgando ser necessário tenham aqueles mais recompensas por estarem sujeitos a maiores perigos e maiores obrigações Mas quando os desarmas começas a ofendêlos mostras deles duvidar ou por vileza ou por desconfiança uma ou outra destas opiniões concebe ódio contra ti E por não poderes ficar desarmado tornase necessário que te voltes à milícia mercenária que é daquela qualidade que já foi dita e quando fosse boa não poderia sêlo por forma a defenderte dos inimigos poderosos e dos súditos suspeitos Porém como disse um príncipe novo num principado também novo sempre organizou as forças armadas e destes exemplos a história está repleta Mas quando um príncipe conquista um novo Estado que como membro se agrega ao antigo então é necessário desarmar o conquistado salvo aqueles que nele foram teus partidários na conquista estes mesmos com o tempo e a oportunidade devem ser tornados amolecidos e efeminados procedendose de modo que as armas fiquem somente em poder de teus próprios soldados daqueles que no Estado antigo estavam junto de ti Os nossos antepassados e aqueles que eram considerados entendidos costumavam dizer que Pistóia precisava ser mantida pela divisão do povo e Pisa pelas fortalezas e por isso mesmo em algumas regiões por eles conquistadas mantinham as discórdias entre os partidos para dominá las mais facilmente Isto naqueles tempos em que a Itália apresentava certo equilíbrio devia ser útil Mas não creio se possa admitir tal como preceito hodierno eis que não acredito pudessem as divisões alguma vez acarretar qualquer benefício ao contrário quando o inimigo se avizinha as cidades divididas necessariamente perdemse logo eis que sempre a parte mais fraca aderirá às forças externas e a outra não poderá resistir Os venezianos levados pelas razões acima mencionadas segundo acredito incentivavam as facções guelfas e gibelinas nas cidades a eles submetidas e se bem nunca as deixassem chegar à luta alimentavam entre elas essas divergências para que ocupados os cidadãos naquelas suas diferenças não se unissem contra eles Isso como se viu não lhes aproveitou porque derrotados em Vailá logo algumas daquelas cidades passaram a se insurgir e lhes tomaram todo o Estado Tais atitudes revelam fraqueza do príncipe eis que em um principado poderoso jamais serão permitidas semelhantes divisões úteis somente em tempo de paz eis que por elas podese mais facilmente manejar os súditos mas sobrevindo a guerra tal sistema demonstra sua falácia Sem dúvida alguma os príncipes se tornam grandes quando superam as dificuldades e as oposições que lhes são antepostas porém a fortuna principalmente quando quer tornar grande um príncipe novo que tem mais necessidade de adquirir reputação do que um hereditário o faz nascer dos inimigos e determina que lhe sejam opostos embaraços a fim de que ele tenha oportunidade de superálos e assim possa subir mais alto pela escada que os inimigos lhe oferecem Por isso muitos pensam que um príncipe hábil deve quando tenha ocasião incentivar com astúcia alguma inimizade para eliminada esta continuar a ascensão de sua grandeza Os príncipes particularmente aqueles que são novos têm encontrado mais lealdade e maior utilidade nos homens que no início de seu governo foram considerados suspeitos do que nos que inicialmente eram seus confidentes Pandolfo Petrucci príncipe de Siena dirigia o seu Estado mais com aqueles que lhe foram suspeitos do que com os que não o foram Mas deste assunto não é possível falar em caráter genérico pois o mesmo varia segundo cada caso Somente direi isto os homens que no início de um principado haviam sido inimigos sendo de condição que para manterse precisam de apoio o príncipe poderá sempre com grande facilidade vir a conquistálos e eles tanto mais são forçados a servilo com lealdade quanto reconheçam ser lhes necessário cancelar com obras aquela má opinião que a seu respeito se fazia Assim o príncipe deles obtém sempre maior utilidade do que daqueles que servindoo com excessiva segurança descuram de seus interesses Já que o assunto torna oportuno não quero deixar de recordar aos príncipes que tomaram um Estado novo pelo favor de alguns dos habitantes do mesmo deverem considerar bem qual a razão que determinou assim agissem os que o favoreceram se a mesma não é afeição natural em relação a eles mas sim se o apoio decorreu do fato dos mesmos não estarem satisfeitos com o Estado anterior só com fadiga e grande dificuldade se poderá conserválos amigos dado que é quase impossível possam vir a ser contentados E considerando bem os exemplos que se extraem das coisas antigas e modernas em razão disso verse á ser muito mais fácil ao príncipe tornar amigos aqueles homens que se contentavam com o regime antigo e portanto eram seus inimigos que aqueles que por descontentes fizeramse seus amigos e o favoreceram na conquista Tem sido costume dos príncipes para poder manter seu Estado mais seguramente edificar fortalezas que sejam a brida e o freio postos aos que desejassem enfrentálos bem como um refúgio seguro contra um ataque de surpresa Eu louvo esse proceder porque usado desde tempos remotos não obstante messer Nicoló Vitelli nos tempos atuais destruiu duas fortalezas na Cidade de Castelo para assim conservar o Estado Guido Ubaldo Duque de Urbino tendo retornado ao seu domínio de que havia sido expulso por César Bórgia destruiu desde os alicerces todas as fortalezas daquela província por entender que sem aquelas seria mais difícil perder novamente seu Estado Os Bentivoglio retornados a Bolonha usaram igual expediente Portanto as fortalezas são úteis ou não segundo os tempos se te fazem bem por um lado prejudicamte por outro Podese explicar esta afirmativa pela forma a seguir exposta O príncipe que tiver mais temor de seu povo do que dos estrangeiros deve construir as fortalezas mas aquele que sentir mais medo dos estrangeiros que de seu povo deve abandonálas O castelo de Milão edificado por Francisco Sforza fez e fará mais guerra à casa dos Sforza do que qualquer outra desordem naquele Estado Por isso a melhor fortaleza que possa existir é o não ser odiado pelo povo mesmo que tenham fortificações elas de nada valem se o povo te odeia eis que a este quando tome das armas nunca faltam estrangeiros que o socorram Nos nossos tempos vêse que as fortalezas não têm sido proveitosas a príncipe algum senão à Condessa de Forli quando foi morto o Conde Girolamo seu esposo eis que a mesma refugiandose numa fortificação pode fugir ao ímpeto popular esperar pelo socorro de Milão e recuperar o Estado ademais as circunstâncias eram tais que o estrangeiro não podia socorrer o povo Depois também para ela pouco valeram as fortalezas quando César Bórgia a atacou e o povo seu inimigo aliouse ao estrangeiro Portanto teria sido mais seguro para ela quer então quer antes não ser odiada pelo povo do que possuir fortalezas Consideradas assim todas estas questões louvarei tanto os que fizerem como os que não fizerem as fortalezas e censurarei aquele que fiandose nas fortificações venha a subestimar o fato de ser odiado pelo povo CAPÍTULO XXI O QUE CONVÉM A UM PRÍNCIPE PARA SER ESTIMADO QUOD PRINCIPEM DECEAT UT EGREGIUS HABEATUR Nada faz estimar tanto um príncipe como as grandes empresas e o dar de si raros exemplos Temos nos nossos tempos Fernando de Aragão atual rei de Espanha A este podese chamar quase príncipe novo porque de um rei fraco tornouse por fama e por glória o primeiro rei dos cristãos e se considerardes suas ações as achareis todas grandiosas e algumas mesmo extraordinárias No começo de seu reinado assaltou Granada e esse empreendimento foi o fundamento de seu Estado Primeiro ele o fez isoladamente sem luta com outros Estados e sem receio de ser impedido de tal manteve ocupadas nesse empreendimento as atenções dos barões de Castela que pensando na guerra não cogitavam de inovações e ele por esse meio adquiria reputação e autoridade sobre os mesmos sem que de tal se apercebessem Pode manter exércitos com dinheiro da Igreja e do povo e com tão longa campanha estabeleceu a organização de sua milícia que depois tanto o honrou Além disto para poder encetar maiores empreendimentos servindose sempre da religião dedicouse a uma piedosa crueldade expulsando e livrando seu reino dos marranos ação de que não pode haver exemplo mais miserável nem mais raro Sob essa mesma capa atacou a África fez a campanha da Itália e ultimamente assaltou a França assim sempre fez e urdiu grandes empreendimentos os quais em todo o tempo mantiveram suspensos e admirados os ânimos dos súditos ocupados em esperar o êxito dessas guerras Essas suas ações nasceram umas das outras pelo que entre elas não houve tempo para que os homens pudessem agir contra ele Muito apraz a um príncipe dar de si exemplos raros na forma de comportarse com os súditos semelhantes àqueles que são narrados de messer Barnabò de Milão quando surge a oportunidade de alguém ter realizado alguma coisa extraordinária de bem ou de mal na vida civil obtendo meio de premiálo ou punilo por forma que seja bastante comentada Acima de tudo um príncipe deve empenharse em dar de si com cada ação conceito de grande homem e de inteligência extraordinária Um príncipe é estimado ainda quando verdadeiro amigo e vero inimigo isto é quando sem qualquer consideração se revela em favor de um contra outro Esta atitude é sempre mais útil do que ficar neutro eis que se dois poderosos vizinhos teus entrarem em luta ou são de qualidade que vencendo um deles tenhas a temer o vencedor ou não Em qualquer um destes dois casos será sempre mais útil o definirte e fazer guerra digna porque no primeiro caso se não te definires serás sempre presa do que vencer com prazer e satisfação do que foi vencido e não terás razão ou coisa alguma que te defenda nem quem te receba O vencedor não quer amigos suspeitos ou que não o ajudem nas adversidades quem perde não te recebe por não teres querido correr a sua sorte de armas em punho Antíoco invadiu a Grécia a chamado dos etólios para expulsar os romanos Enviou embaixadores aos aqueus amigos dos romanos para concitálos a ficarem neutros enquanto os romanos os persuadiam a tomar armas ao seu lado Esta matéria veio à deliberação do congresso dos aqueus onde o legado de Antíoco os induzia à neutralidade a isto o representante romano respondeu Quod autem isti dicunt non interponendi vos bello nihil magis alienum rebus vestris est sine gratia sine dignitate praemium victoris eritis Sempre acontecerá que aquele que não é amigo procurará tua neutralidade e aquele que é amigo pedirá que te definas com as armas Os príncipes irresolutos para fugir aos perigos presentes seguem na maioria das vezes o caminho da neutralidade e geralmente caem em ruína Mas quando o príncipe se define galhardamente em favor de uma das partes se aquele a quem aderes vence mesmo que seja tão poderoso que venhas a ficar á sua discrição ele tem obrigação para contigo e está ligado a ti pela amizade e os homens nunca são tão desonestos que com tamanha prova de ingratidão possas vir a ser oprimido Além disso as vitórias nunca são tão brilhantes que o vencedor não deva ter qualquer consideração principalmente para com o que é justo Mas se aquele a quem aderes perder serás amparado por ele e enquanto puder ajudarteá e ficarás associado a uma fortuna que poderá ressurgir No segundo caso quando aqueles que lutam são de classe que não devas temer o vencedor ainda maior prudência é aderir pois causas a ruína de um com a ajuda de quem deveria salválo se fosse sábio vencendo fica à tua mercê e é impossível não vença com o teu auxílio Notese aqui que um príncipe deve ter a cautela de jamais fazer aliança com um mais poderoso que ele para atacar os outros senão quando a necessidade o compelir como se disse acima porque vencendo tornase seu prisioneiro e os príncipes devem fugir o quanto possam de ficar à discrição dos outros Os venezianos aliaramse à França contra o duque de Milão podendo ter evitado essa aliança de que resultou a sua ruína Mas quando não se pode evitála como aconteceu aos florentinos quando o Papa e a Espanha levaram seus exércitos a atacar a Lombardia então deverá o príncipe aderir pelas razões acima expostas Nem julgue algum Estado poder adotar sempre partidos seguros devendo antes pensar ser obrigado a tomar freqüentemente partidos duvidosos vêse na ordem das coisas que nunca se procura fugir a um inconveniente sem incorrer em outro e a prudência consiste em saber conhecer a natureza desses inconvenientes e tomar como bom o menos prejudicial Deve ainda um príncipe mostrarse amante das virtudes dando oportunidade aos homens virtuosos e honrando os melhores numa arte Ao mesmo tempo deve animar os seus cidadãos a exercer pacificamente as suas atividades no comércio na agricultura e em qualquer outra ocupação de forma que o agricultor não tema ornar as suas propriedades por receio de que as mesmas lhe sejam tomadas enquanto o comerciante não deixe de exercer o seu comércio por medo das taxas deve além disso instituir prêmios para os que quiserem realizar tais coisas e os que pensarem em por qualquer forma engrandecer a sua cidade ou o seu Estado Ademais deve nas épocas convenientes do ano distrair o povo com festas e espetáculos E porque toda cidade está dividida em corporações de artes ou grupos sociais deve cuidar dessas corporações e desses grupos reunirse com eles algumas vezes dar de si prova de humanidade e munificência mantendo sempre firme não obstante a majestade de sua dignidade eis que esta não deve faltar em coisa alguma CAPÍTULO XXII DOS SECRETÁRIOS QUE OS PRÍNCIPES TÊM JUNTO DE SI DE HIS QUOS A SECRETIS PRINCIPES HABENT Não é de pouca importância para um príncipe a escolha dos ministros os quais são bons ou não segundo a prudência daquele E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor resulta da observação dos homens que o cercam quando são capazes e fiéis sempre se pode reputálo sábio porque soube reconhecêlos competentes e conserválos Mas quando não são assim sempre se pode fazer mau juízo do príncipe porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha Não houve ninguém que conhecendo messer Antônio de Venafro como ministro de Pandolfo Petruci príncipe de Siena deixasse de julgar este senhor como extremamente valoroso pelo fato de ter aquele por ministro E porque são de três espécies as inteligências uma que entende as coisas por si a outra que discerne o que os outros entendem e a terceira que não entende nem por si nem por intermédio dos outros a primeira excelente a segunda muito boa e a terceira inútil estavam todos acordes que se Pandolfo não se classificava no primeiro grau estava necessariamente no segundo porque toda vez que alguém tem a capacidade de conhecer o bem e o mal que uma pessoa faça ou diga mesmo que por si não tenha capacidade para solucionar os problemas discerne as más e as boas obras do ministro exalta estas e corrige aquelas e o ministro não pode esperar enganálo pelo que se conserva bom Mas para que um príncipe possa conhecer o ministro existe um método que não falha Quando vires o ministro pensar mais em si do que em ti e que em todas as ações procura o seu interesse próprio podes concluir que este jamais será um bom ministro e nele nunca poderás confiar aquele que tem o Estado de outrem em suas mãos não deve pensar nunca em si mas sim e sempre no príncipe não lhe recordando nunca coisa que não seja da sua competência Por outro lado o príncipe para conservá lo bom ministro deve pensar nele honrandoo fazendoo rico obrigando selhe fazendoo participar das honrarias e cargos a fim de que veja que não pode ficar sem sua proteção e que as muitas honras não o façam desejar mais honras as muitas riquezas não o façam desejar maiores riquezas e os muitos cargos o façam temer as mudanças Quando pois os ministros e os príncipes com relação àqueles estão assim preparados podem confiar um no outro quando não for assim o fim será sempre danoso ou para um ou para o outro CAPÍTULO XXIII COMO SE AFASTAM OS ADULADORES QUOMODO ADULATORES SINT FUGIENDI Não quero deixar de tratar de um ponto importante de um erro do qual os príncipes só com muita dificuldade se defendem se não são de extrema prudência ou se não fazem boa escolha Refirome aos aduladores dos quais as cortes estão repletas dado que os homens se comprazem tanto nas suas coisas próprias e de tal modo se iludem que com dificuldade se defendem desta peste e querendo defenderse há o perigo de tornarse menosprezado Não há outro meio de guardarse da adulação a não ser fazendo com que os homens entendam que não te ofendem dizendo a verdade mas quando todos podem dizerte a verdade passam a faltarte com a reverência Portanto um príncipe prudente deve proceder por uma terceira maneira escolhendo em seu Estado homens sábios e somente a eles deve dar a liberdade de falarlhe a verdade daquilo que ele pergunte e nada mais Deve consultálos sobre todos os assuntos e ouvir as suas opiniões depois de liberar por si a seu modo e com estes conselhos e com cada um deles portarse de forma que todos compreendam que quanto mais livremente falarem tanto mais facilmente serão aceitas suas opiniões Fora aqueles não querer ouvir ninguém seguir a deliberação adotada e ser obstinado nas suas decisões Quem procede por outra forma ou é precipitado pelos aduladores ou muda freqüentemente de opinião pela variedade dos pareceres daí resulta a sua desestima Quero a este propósito aduzir um exemplo atual Pe Lucas homem do atual Imperador Maximiliano falando de Sua Majestade disse que ele não se aconselhava com ninguém e não fazia nada a seu modo isso resultava de ter costume contrário ao acima exposto Porque o Imperador é homem discreto não comunica a ninguém os seus desígnios não pede parecer mas como ao serem postos em prática começam a ser conhecidos e descobertos começam a ser contrariados por aqueles que o cercam e ele como é homem de opinião fraca os desfaz Dai resulta que as coisas que faz num dia são destruídas no outro e que não se entenda nunca o que ele quer ou o que deseja fazer não podendo pessoa alguma basearse em suas deliberações Um príncipe portanto deve aconselharse sempre mas quando ele queira e não quando os outros desejem antes deve tolher a todos o desejo de aconselharlhe alguma coisa sem que ele venha a pedir Mas deve ser grande perguntador e depois acerca das coisas perguntadas paciente ouvinte da verdade antes notando que alguém por algum respeito não lhe diga a verdade deve mostrar aborrecimento Há muitos que entendem que o príncipe que dá de si opinião de prudente seja assim considerado não pela sua natureza mas pelos bons conselhos que o rodeiam porém sem dúvida alguma estão enganados eis que esta é uma regra geral que nunca falha um príncipe que não seja sábio por si mesmo não pode ser bem aconselhado a menos que por acaso confiasse em um só que de todo o governasse e fosse homem de extrema prudência Este caso poderia bem acontecer mas duraria pouco porque aquele que efetivamente governasse em pouco tempo lhe tomaria o Estado mas aconselhandose com mais de um um príncipe que não seja sábio não terá nunca os conselhos uniformes e não saberá por si mesmo harmonizálos Cada conselheiro pensará por si e ele não saberá corrigilos nem inteirarse do assunto E não é possível encontrar conselheiros diferentes porque os homens sempre serão maus se por uma necessidade não forem tornados bons Consequentemente se conclui que os bons conselhos venham de onde vierem devem nascer da prudência do príncipe e não a prudência do príncipe resultar dos bons conselhos CAPÍTULO XXIV POR QUE OS PRÍNCIPES DA ITÁLIA PERDERAM SEUS ESTADOS CUR ITALIAE PRINCIPES REGNUM AMISERUNT As coisas já referidas observadas prudentemente fazem um príncipe novo parecer antigo e logo o tornam mais seguro e mais firme no Estado do que se aí fosse um príncipe antigo Porque um príncipe novo é muito mais observado nas suas ações do que um hereditário e quando estas são reconhecidas como virtuosas atraem mais fortemente os homens e os ligam a si muito mais que a tradição do sangue Porque os homens são levados muito mais pelas coisas presentes do que pelas passadas e quando nas presentes encontram o bem ficam satisfeitos e nada mais procuram Antes assumirão toda sua defesa desde que não falte à palavra nas outras coisas Assim terá a dupla glória de ter dado início a um principado novo e de têlo ornado e fortalecido com boas leis boas armas e bons exemplos por outro lado aquele que tendo nascido príncipe veio a perder o Estado por sua pouca prudência terá duplicada a sua vergonha E se se consideraram aqueles senhores que na Itália perderam seus Estados nos nossos tempos como o rei de Nápoles o duque de Milão e outros acharseá neles primeiro um defeito comum quanto às armas pelas razões que já foram expostas depois verseá que alguns deles ou tiveram a inimizade do povo ou tendo o povo por amigo não souberam garantirse contra os grandes eis que sem estes defeitos não se perdem os Estados que tenham tanta força que possam levar a campo um exército Felipe da Macedônia não o pai de Alexandre mas o que foi vencido por Tito Quinto tinha um Estado não muito extenso em comparação com a grandeza dos romanos e da Grécia que o assaltaram não obstante por ser homem de espírito militar que sabia ter o povo como amigo e garantirse contra os grandes sustentou por muitos anos a guerra contra aqueles e se afinal perdeu o domínio de algumas cidades restoulhe todavia o reino Portanto estes nossos príncipes que tinham permanecido muitos anos em seus principados para depois perdêlos não podem acusar a sorte mas sim a sua própria ignávia pois não tendo nunca nos tempos pacíficos pensado que estes poderiam mudar o que é defeito comum dos homens na bonança não se preocupar com a tempestade quando chegaram os tempos adversos preocuparamse em fugir e não em defenderse esperando que as populações cansadas da insolência dos vencedores os chamassem de volta Esse partido é bom quando os outros falham mas é muito mau o ter abandonado os outros remédios por esse pois não irás cair apenas por acreditar encontrar quem te levante isso não acontece ou se acontecer não será para tua segurança dado que aquela defesa tornase vil se não depender de ti As defesas somente são boas certas e duradouras quando dependem de ti próprio e da tua virtude CAPÍTULO XXV DE QUANTO PODE A FORTUNA NAS COISAS HUMANAS E DE QUE MODO SE LHE DEVA RESISTIR QUANTUM FORTUNA IN REBUS HUMANIS POSSIT ET QUOMODO ILLI SIT OCCURREN DUM Não ignoro que muitos têm tido e têm a opinião de que as coisas do mundo sejam governadas pela fortuna e por Deus de forma que os homens com sua prudência não podem modificar nem evitar de forma alguma por isso poderseia pensar não convir insistir muito nas coisas mas deixarse governar pela sorte Esta opinião tornouse mais aceita nos nossos tempos pela grande modificação das coisas que foi vista e que se observa todos os dias independente de qualquer conjetura humana Pensando nisso algumas vezes em parte inclineime em favor dessa opinião Contudo para que o nosso livre arbítrio não seja extinto julgo poder ser verdade que a sorte seja o árbitro da metade das nossas ações mas que ainda nos deixe governar a outra metade ou quase Comparoa a um desses rios torrenciais que quando se encolerizam alagam as planícies destróem as árvores e os edifícios carregam terra de um lugar para outro todos fogem diante dele tudo cede ao seu ímpeto sem poder oporse em qualquer parte E se bem assim ocorra isso não impedia que os homens quando a época era de calma tomassem providências com anteparos e diques de modo que crescendo depois ou as águas corressem por um canal ou o seu ímpeto não fosse tão desenfreado nem tão danoso Da mesma forma acontece com a sorte a qual demonstra o seu poderio onde não existe virtude preparada para resistir e aí volta seu ímpeto em direção ao ponto onde sabe não foram construídos diques e anteparos para contêla E se considerardes a Itália que é a sede destas variações e aquela que lhes deu motivo vereis ser ela uma região sem diques e sem qualquer anteparo eis que se protegida por convenientes forças militares como a Alemanha a Espanha e a França ou esse transbordamento não teria feito as grandes alterações que fez ou não teria ocorrido Penso que isto seja suficiente quanto ao que tinha a dizer acerca da oposição que se pode antepor à sorte em geral Mas restringindome mais ao particular digo por que se vê um príncipe hoje em franco e feliz progresso e amanhã em ruína sem que tenha mudado sua natureza ou as suas qualidades isso resulta segundo creio primeiro das razões que foram longamente expostas mais atrás isto é que o príncipe que se apoia totalmente na sorte arruinase segundo as variações desta Creio ainda seja feliz aquele que acomode o seu modo de proceder com a natureza dos tempos da mesma forma que penso seja infeliz aquele que com o seu proceder entre em choque com o momento que atravessa Isso decorre de verse que os homens naquilo que os conduz ao fim que cada um tem por objetivo isto é glórias e riquezas procedem por formas diversas um com cautela o outro com ímpeto um com violência o outro com astúcia um com paciência e o outro por forma contrária e cada um por esses diversos meios pode alcançar o objetivo Vêse ainda de dois indivíduos cautos um alcançar o seu objetivo o outro não e da mesma maneira dois deles alcançarem igualmente fim feliz com duas tendências diversas sendo por exemplo um cauteloso e o outro impetuoso isso resulta apenas da natureza dos tempos que se adaptam ou não ao proceder dos mesmos Daí decorre aquilo que eu disse isto é que dois indivíduos agindo por formas diversas podem alcançar o mesmo efeito ao passo que de dois que operem igualmente um alcança o seu fim e o outro não Disto depende ainda a variação do conceito de bem porque se alguém se orienta com prudência e paciência e os tempos e as situações se apresentam de modo a que a sua orientação seja boa ele alcança a felicidade mas se os tempos e as circunstâncias se modificam ele se arruina visto não ter mudado seu modo de proceder Nem é possível encontrar homem tão prudente que saiba acomodarse a isso seja porque não pode se desviar daquilo a que a natureza o inclina seja ainda porque tendo alguém prosperado seguindo sempre por um caminho não se consegue persuadilo de abandonálo Por isso o homem cauteloso quando é tempo de passar para o ímpeto não sabe fazêlo e em conseqüência cai em ruína dado que se mudasse de natureza de acordo com os tempos e com as coisas a sua fortuna não se modificaria O Papa Júlio II em todas as suas coisas procedeu impetuosamente e encontrou tanto os tempos como as circunstâncias coincidentes com aquele seu modo de proceder pelo que sempre alcançou feliz êxito Considerai a primeira campanha que encetou contra Bolonha sendo ainda vivo messer Giovanni Bentivoglio Os venezianos estavam descontentes o rei da Espanha nas mesmas condições com a França ainda discutia tal empresa Isso não obstante com ferocidade e ímpeto deu início pessoalmente àquela expedição que uma vez iniciada fez com que ficassem suspensos e parados tanto a Espanha como os venezianos estes por medo aquela pelo desejo de recuperar todo o reino de Nápoles de outra parte arrastou consigo o rei de França porque vendoo esse rei em campanha e desejando tornálo seu amigo para aviltar os venezianos julgou não poder negar lhe a sua gente sem injuriálo por forma manifesta Realizou Júlio portanto com seu movimento impetuoso aquilo que jamais outro pontífice com toda a humana prudência teria feito pois se ele para partir de Roma tivesse esperado estar com todos os planos estabelecidos e todas as coisas assentadas como qualquer outro Papa teria feito nunca teria obtido êxito eis que o rei de França teria apresentado mil desculpas e os outros lhe teriam incutido mil receios Desejo omitir as outras suas ações todas semelhantes e todas com feliz êxito sendo que a brevidade da vida não o deixou experimentar o contrário dado que se tivessem sobrevindo tempos em que se tornasse necessário agir com cautelas surgiria a sua ruína pois jamais ele teria desviado daquele modo de proceder a que a natureza o inclinava Concluo pois que variando a sorte e permanecendo os homens obstinados nos seus modos de agir serão felizes enquanto aquela e estes sejam concordes e infelizes quando surgir a discordância Considero seja melhor ser impetuoso do que dotado de cautela porque a fortuna é mulher e consequentemente se torna necessário querendo dominála baterlhe e contrariála e ela mais se deixa vencer por estes do que por aqueles que procedem friamente A sorte porém como mulher sempre é amiga dos jovens porque são menos cautelosos mais afoitos e com maior audácia a dominam CAPÍTULO XXVI EXORTAÇÃO PARA PROCURAR TOMAR A ITÁLIA E LIBERTÁLA DAS MÃOS DOS BÁRBAROS EXHORTATIO AD CAPESSENDAM ITALIAM IN LIBERTATEMQUE A BARBARIS VINDICANDAM Consideradas pois todas as coisas já expostas pensando comigo mesmo se no momento presente na Itália corriam tempos capazes de honrar um príncipe novo e se havia matéria que assegurasse a alguém prudente e valoroso a oportunidade de nela introduzir nova organização que a ele desse honra e fizesse bem a todo o povo quer me parecer concorrerem tantas circunstâncias favoráveis a um príncipe novo que não sei qual o tempo que poderia ser mais adequado para isto E se como já disse para se conhecer a virtude de Moisés foi necessário que o povo de Israel estivesse escravizado no Egito para conhecer a grandeza do ânimo de Ciro que os persas fossem oprimidos pelos medas e o valor de Teseu que os atenienses estivessem dispersos também no presente querendo conhecer a virtude de um espírito italiano seria necessário que a Itália se reduzisse ao ponto em que se encontra no momento que ela fosse mais escravizada do que os hebreus mais oprimida do que os persas mais desunida do que os atenienses sem chefe sem ordem batida espoliada lacerada invadida e tivesse suportado ruína de toda sorte Se bem tenha surgido até aqui certo vislumbre de esperança em relação a algum príncipe parecendo poder ser julgado como dirigido por Deus para redenção da Itália contudo foi visto depois como no apogeu de suas ações foi abandonado pela sorte De modo que tornada sem vida espera ela por aquele que cure as suas feridas e ponha fim aos saques da Lombardia às mortandades no Reino de Nápoles e na Toscana e a cure daquelas suas chagas já de há muito enfistuladas Vêse como ela implora a Deus lhe envie alguém que a redima dessas crueldades e insolências bárbaras Vêse ainda toda ela pronta e disposta a seguir uma bandeira desde que haja quem a empunhe Nem se vê no presente em quem possa ela confiar a não ser na vossa ilustre casa a qual com a sua fortuna e virtude favorecida por Deus e pela Igreja da qual é agora príncipe poderá tornarse chefe desta redenção Isso não será muito difícil se procurardes seguir as ações e a vida dos acima indicados E se bem aqueles homens sejam raros e maravilhosos sem dúvida foram homens todos eles tiveram menor ocasião que a presente porque os empreendimentos dos mesmos não foram mais justos nem mais fáceis do que este nem foi Deus mais amigo deles do que de vós É de grande justiça o que digo iustum enim est bellum quibus necessarium et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est Aqui há uma grande disposição e onde esta existe não pode haver grande dificuldade desde que se imite o modo de agir daqueles que apontei como exemplo Além disso aqui se vêem acontecimentos extraordinários emanados de Deus o mar se abriu uma nuvem revelou o caminho a pedra verteu água aqui choveu o maná todas as coisas concorreram para a vossa grandeza O restante deve ser feito por vós Deus não quer fazer tudo para não nos tolher o livre arbítrio e parte daquela glória que compete a nós E não é de admirar se algum dos já citados italianos não tenha podido fazer aquilo que se pode esperar faça a vossa ilustre casa e se em tantas revoluções da Itália e em tantas manobras de guerra parecer sempre que nesta a virtude militar esteja extinta Isso resulta de que as suas antigas instituições não eram boas e não houve quem soubesse encontrar outras e nenhuma coisa faz tanta honra a um príncipe novo quanto as novas leis e os novos regulamentos por ele elaborados Estes quando são bem fundados e em si encerrem grandeza tornam o príncipe digno de reverência e admiração na Itália não faltam motivos para introduzirse qualquer reforma Aqui existe grande valor no povo enquanto ele falta nos chefes Observei nos duelos e nos combates individuais o quanto os italianos são superiores na força na destreza ou no engenho Mas quando se passa para os exércitos não comparecem E tudo resulta da fraqueza dos chefes porque aqueles que sabem não são obedecidos e todos julgam saber não tendo surgido até agora alguém que tenha sabido se sobressair pela virtude ou pela fortuna de forma a que os outros cedam Daí decorre que em tanto tempo em tantas guerras feitas nos últimos vinte anos sempre que se formou um exército inteiramente italiano o mesmo deu mau exemplo do que dão prova Taro depois Alexandria Cápua Gênova Vailá Bolonha Mestri Querendo pois a vossa ilustre casa seguir aqueles homens excelentes e redimir suas províncias é necessário antes de toda e qualquer outra coisa como verdadeiro fundamento de qualquer empreendimento proverse de tropas próprias pois não se pode conseguir outras mais fiéis e mais seguras nem melhores soldados E ainda que cada um deles seja bom todos juntos tornarseão ainda melhores quando se virem comandados pelo seu príncipe e por este honrados e mantidos É necessário portanto preparar esses exércitos para poder com a virtude itálica defenderse dos estrangeiros E se bem as infantarias suíças e espanholas sejam consideradas terríveis em ambas existem defeitos pelo que um terceiro tipo de infantaria poderia não somente oporselhes mas confiar em superálas Porque os espanhóis não podem enfrentar a cavalaria e os suíços deverão ter medo dos infantes quando no combate os encontrarem obstinados como eles Já se viu e vêse ainda os espanhóis não poderem enfrentar uma cavalaria francesa e os suíços serem derrotados por uma infantaria espanhola E se bem deste último caso não se tenha tido plena prova contudo viuse uma amostra na campanha de Ravena quando as infantarias espanholas se defrontaram com os batalhões alemães que têm a mesma organização dos suíços aí os espanhóis com a agilidade do corpo e auxílio dos seus pequenos escudos haviamse colocado debaixo dos chuços alemães e estavam certos de ferilos e matálos sem que os mesmos tal pudessem impedir realmente não fosse a cavalaria que os atacou teriam morto todos os inimigos Podese pois conhecido o defeito de uma e de outra dessas infantarias organizar uma diferente que resista à cavalaria e não tenha medo dos infantes o que dará qualidade superior aos exércitos e imporá a mudança de táticas Estas são daquelas coisas que reformadas dão reputação e grandeza a um príncipe novo Não se deve pois deixar passar esta ocasião a fim de que a Itália conheça depois de tanto tempo um seu redentor Nem posso exprimir com que amor ele seria recebido em todas aquelas províncias que têm sofrido por essas invasões estrangeiras com que sede de vingança com que obstinada fé com que piedade com que lágrimas Quais portas se lhe fechariam Quais povos lhe negariam obediência Qual inveja se lhe oporia Qual italiano lhe negaria o seu favor A todos repugna este bárbaro domínio Tome portanto a vossa ilustre casa esta incumbência com aquele ânimo e com aquela esperança com que se abraçam as causas justas a fim de que sob sua insígnia esta pátria seja nobilitada e sob seus auspícios se verifique aquele dito de Petrarca Virtude contra Furor Tomará Armas e Faça o Combater Curto Que o Antigo Valor Nos Itálicos Corações Ainda não é Morto CARTA DE MACHIAVELLI A FRANCESCO VETTORI EM ROMA RELATIVA À OBRA IL PRÍNCIPE Magnifico oratori Florentino Francisco Vectori apud Summum Pontificem et benefactori suo Romae Magnífico embaixador Tardias jamais foram as graças divinas Digo isto porque me parecia não ter perdido mas sim estar esmaecida a vossa graça tendo estado vós muito tempo sem escreverme estava em dúvida de onde pudesse vir a razão de tal E dava pouca importância a todas as causas que vinham à minha mente salvo quando pensava que tivésseis retraído de escreverme porque vos tivesse sido escrito que eu não fosse bom guardião de vossas cartas e eu sabia que afora Filippo e Pagolo outros de minha parte não as tinham visto Readquiri essa graça pela vossa última de 23 do mês passado pelo que fico contentíssimo ao ver quão ordenada e calmamente exerceis essa função pública e eu vos concito a continuar assim porque quem deixa as suas comodidades pelas comodidades dos outros perde as suas e destes não recebe gratidão Desde que a fortuna quer dispor todas as coisas é preciso deixála fazer ficar quieto e não lhe criar embaraço esperando que o tempo lhe permita fazer alguma coisa pelos homens então será bem suportardes maiores fadigas zelar melhor das coisas e a mim convirá partir da vilas e dizer eisme aqui Não posso portanto desejando rendervos iguais graças dizer nesta minha carta outra coisa que não aquilo que seja a minha vida e se julgardes tal que valha trocála com a vossa ficarei contente em mudála Aqui estou na vila depois que ocorreram aqueles meus últimos casos não estive somando todos vinte dias em Florença Até aqui tenho apanhado tordos à mão Levantavame antes do amanhecer preparava a armadilha iame além com um feixe de gaiolas ao ombro que até parecia o Getas quando o mesmo voltava do porto com os livros de Anfitrião apanhava no mínimo dois e no máximo seis tordos E assim passei todo o mês de setembro Depois esse passatempo ainda que desprezível e estranho veio a faltar com desgosto meu Dirvosei qual a minha vida agora Levantome de manhã com o sol e vou a um meu bosque que mandei cortar onde fico duas horas a examinar o trabalho do dia anterior e a passar o tempo com aqueles cortadores que estão sempre às voltas com algum aborrecimento entre si ou com os vizinhos Acerca deste bosque eu teria a dizer vos mil belas coisas que me aconteceram bem como de Frosino de Panzano e dos outros que queriam desta lenha Frosino principalmente mandou buscar certa quantidade sem dizerme nada e na ocasião do pagamento queria reter dez liras que disse ter ganho de mim há quatro anos num jogo de cricca em casa de Antônio Guicciardini Comecei a fazer o diabo queria acusar o carroceiro que fora ali mandado por ele como ladrão Enfim Giovanni Machiaveili interveio e nos pôs de acordo Batista Guicciardini Filippo Ginori Tommaso dei Bene e alguns outros cidadãos quando aqueles maus ventos sopravam cada um me adquiriu uma ruma de lenha Prometi a todos e mandei uma a Tommaso a qual chegou a Florença pela metade porque para empilhála ali estavam ele a mulher as criadas e os filhos os quais pareciam o Gabburra quando na quintafeira com seus rapazes abate um boi De modo que visto em quem eu depositava o meu ganho disse aos outros que não tinha mais lenha todos se encolerizaram e agastaram comigo especialmente Batista que inclui esta entre as demais desgraças de Prato Saindo do bosque vou a uma fonte e daqui ao meu viveiro de tordos Levo um livro comigo ou Dante ou Petrarca ou um desses poetas menores Tíbulo Ovidio e semelhantes leio aquelas suas amorosas paixões e aqueles seus amores lembramme os meus deleitome algum tempo nestes pensamentos Depois vou pela estrada até à hospedaria falo com os que passam pergunto notícias das suas cidades ouço muitas coisas e noto vários gostos e fantasias dos homens Enquanto isso chega a hora do almoço quando com a minha família como aqueles alimentos que esta pobre vila e este pequeno patrimônio comportam Terminado o almoço retorno à hospedaria aqui geralmente estão o estalajadeiro um açougueiro um moleiro e dois padeiros Com estes eu me rebaixo o dia todo jogando cricca trichtach e depois daí nas cem mil contendas e infinitos acintes com palavras injuriosas a maioria das vezes se disputa uma insignificância e contudo somos ouvidos gritar por São Casciano Assim envolvido entre estes piolhos cubro o cérebro de bolor e desabafo a malignidade de minha sorte ficando contente se me encontrásseis nesta estrada para ver se essa malignidade se envergonha Chegada a noite retorno para casa e entro no meu escritório na porta dispo a roupa quotidiana cheia de barro e lodo visto roupas dignas de rei e da corte e vestido assim condignamente penetro nas antigas cortes dos homens do passado onde por eles recebido amavelmente nutrome daquele alimento que é unicamente meu para o qual eu nasci não me envergonho ao falar com eles e perguntarlhes das razões de suas ações Eles por sua humanidade me respondem e eu não sinto durante quatro horas qualquer tédio esqueço todas as aflições não temo a pobreza não me amedronta a morte eu me integro inteiramente neles E porque Dante disse não haver ciência sem que seja retido o que foi apreendido eu anotei aquilo de que por sua conversação fiz capital e compus um opúsculo De Principatibus onde me aprofundo o quanto posso nas cogitações deste assunto discutindo o que é principado de que espécies são como são adquiridos como se mantêm porque são perdidos Se alguma vez vos agradou alguma fantasia minha esta não vos deveria desagradar e um príncipe principalmente um príncipe novo deveria aceitar esse trabalho por isso eu o dedico à magnificência de Juliano Filippo Casavecchia o viu e vos poderá relatar mais ou menos como é e das conversas que tive com ele se bem que freqüentemente eu aumente e corrija o texto Vós desejaríeis magnífico embaixador que eu deixasse esta vida e fosse gozar convosco a vossa Eu o farei de qualquer maneira mas o que me retém por ora são certos negócios que dentro de seis semanas terei ultimado O que me deixa ficar em dúvida é que estão ai aqueles Soderini aos quais eu seria forçado estando aí a visitar e a falar Receio que ao meu retorno pensando apear em casa viesse a desmontar no Bargiello eis que se bem este Estado tenha mui sólidas bases e grande segurança ele é novo e por isso cheio de suspeitas nem faltam sabidos que para aparecer como Pagolo Bertini meteriam outros na prisão e deixariam a meu cargo os aborrecimentos Peçovos me tranqüilizeis deste receio e depois dentro do tempo mencionado irei visitarvos de qualquer modo Discuti com Filippo sobre esse meu opúsculo se convinha dálo ou não e sendo acertado dálo se era mais conveniente que eu o levasse ou que o mandasse Não me fazia dálo o receio de que Juliano não o lesse e que esse Ardinghelli se honrasse com esse meu último trabalho Por outro lado dálo satisfaria a necessidade que me oprime porque estou em ruína e não posso permanecer assim por muito tempo sem que me torne desprezível por pobreza isso além do desejo que teria de que esses senhores Medici passassem a utilizarme se tivesse de começar a fazerme rolar uma pedra porque se depois não conseguisse ganhar o seu favor lamentarmeia de mim mesmo eis que quando fosse lido o opúsculo verseia que os quinze anos que estive no estudo da arte do Estado não os dormi nem brinquei devendo todo homem achar agradável servirse de alguém que a custas de outros fosse cheio de experiência E da minha fidelidade não se deveria duvidar porque tendo sempre observado a lealdade não devo aprender agora a rompêla quem foi fiel e bom durante quarenta e três anos que eu os tenho não deve poder mudar sua natureza da minha lealdade e bondade é testemunho a minha pobreza Desejaria pois que vós ainda me escrevêsseis aquilo que sobre este assunto vos pareça A vós me recomendo Seja feliz 10 de Dezembro de 1513 NICOLÓ MACHIAVELLI Florença
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MAQUIAVEL O PRÍNCIPE MAQUIAVEL O PRÍNCIPE Criação ePub Relíquia SUMÁRIO O Príncipe Capítulo I De Quantas Espécies são os Principados e de que Modos se Adquirem Dos Principados Capítulo II Dos Principados Hereditários Capítulo III Dos Principados Mistos Capítulo IV Por Que O Reino de Dario Ocupado por Alexandre Não se Rebelou Contra Seus Sucessores Após A Morte Deste Capítulo V De que Modo se Devam Governar as Cidades ou Principados que Antes de Serem Ocupados Viviam com as Suas Próprias Leis Capítulo VI Dos Principados Novos que se Conquistam com As Armas Próprias e Virtuosamente Capítulo VII Dos Principados Novos que se Conquistam com As Armas e Fortuna dos Outros Capítulo VIII Dos que Chegaram ao Principado Por Meio de Crimes Capítulo IX Do Principado Civil Capítulo X Como se Devem Medir as Forças de Todos os Principados Capítulo XI Dos Principados Eclesiásticos Capítulo XII De Quantas Espécies são as Milícias e dos Soldados Mercenários Capítulo XIII Dos Soldados Auxiliares Mistos e Próprios Capítulo XIV O que Compete a Um Príncipe Acerca da Milícia tropa Capítulo XV Daquelas Coisas Pelas Quais os Homens e Especialmente os Príncipes são Louvados ou Vituperados Capítulo XVI Da Liberalidade e da Parcimônia Capítulo XVII Da Crueldade e Da Piedade Se é Melhor Ser Amado que Temido ou Antes Temido que Amado Capítulo XVIII De Que Modo Os príncipes Devem Manter a Fé da Palavra Dada Capítulo XIX De Como se Deva Evitar o Ser Desprezado e Odiado Capítulo XX Se as Fortalezas e Muitas Outras Coisas que a Cada Dia São Feitas Pelos Príncipes São Úteis ou Não Capítulo XXI O que Convém a Um Príncipe Para Ser Estimado Capítulo XXII Dos Secretários que os Príncipes Têm Junto de Si Capítulo XXIII Como se Afastam os Aduladores Capítulo XXIV Por que Os Príncipes da Itália Perderam Seus Estados Capítulo XXV De Quanto Pode a Fortuna nas Coisas Humanas e De Que Modo se lhe Deva Resistir Capítulo XXVI Exortação para Procurar Tomar a Itália e Libertála das Mãos dos Bárbaros Carta de Machiavelli a Francesco Vettori em Roma O PRÍNCIPE Maquiavel AO MAGNÍFICO LORENZO DE MEDICI NICOLÓ MACHIAVELLI DOS PRINCIPADOS O PRÍNCIPE Costumam o mais das vezes aqueles que desejam conquistar as graças de um Príncipe trazerlhe aquelas coisas que consideram mais caras ou nas quais o vejam encontrar deleite donde se vê amiúde serem a ele oferecidos cavalos armas tecidos de ouro pedras preciosas e outros ornamentos semelhantes dignos de sua grandeza Desejando eu portanto oferecerme a Vossa Magnificência com um testemunho qualquer de minha submissão não encontrei entre os meus cabedais coisa a mim mais cara ou que tanto estime quanto o conhecimento das ações dos grandes homens apreendido através de uma longa experiência das coisas modernas e uma contínua lição das antigas as quais tendo com grande diligência longamente perscrutado e examinado e agora reduzido a um pequeno volume envio a Vossa Magnificência E se bem julgue esta obra indigna da presença de Vossa Magnificência não menos confio que deva ela ser aceita considerado que de minha parte não lhe possa ser feito maior oferecimento senão o darlhe a faculdade de poder em tempo assaz breve compreender tudo aquilo que eu em tantos anos e com tantos incômodos e perigos vim a conhecer Não ornei este trabalho nem o enchi de períodos sonoros ou de palavras pomposas e magníficas ou de qualquer outra figura de retórica ou ornamento extrínseco com os quais muitos costumam desenvolver e enfeitar suas obras e isto porque não quero que outra coisa o valorize a não ser a variedade da matéria e a gravidade do assunto a tornarem no agradável Nem desejo se considere presunção se um homem de baixa e ínfima condição ousa discorrer e estabelecer regras a respeito do governo dos príncipes assim como aqueles que desenham a paisagem se colocam nas baixadas para considerar a natureza dos montes e das altitudes e para observar aquelas se situam em posição elevada sobre os montes também para bem conhecer o caráter do povo é preciso ser príncipe e para bem entender o do príncipe é preciso ser do povo Receba pois Vossa Magnificência este pequeno presente com aquele intuito com que o mando nele se diligentemente considerado e lido encontrará o meu extremo desejo de que lhe advenha aquela grandeza que a fortuna e as outras suas qualidades lhe prometem E se Vossa Magnificência das culminâncias em que se encontra alguma vez volver os olhos para baixo notará quão imerecidamente suporto um grande e contínuo infortúnio CAPÍTULO I DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO OS PRINCIPADOS E DE QUE MODOS SE ADQUIREM QUOT SINT GENERA PRINCIPATUUM ET QUIBUS MODIS ACQUIRANTUR Todos os Estados todos os governos que tiveram e têm autoridade sobre os homens foram e são ou repúblicas ou principados Os principados são ou hereditários quando seu sangue senhorial é nobre há já longo tempo ou novos Os novos podem ser totalmente novos como foi Milão com Francisco Sforza ou o são como membros acrescidos ao Estado hereditário do príncipe que os adquire como é o reino de Nápoles em relação ao rei da Espanha Estes domínios assim obtidos estão acostumados ou a viver submetidos a um príncipe ou a ser livres sendo adquiridos com tropas de outrem ou com as próprias bem como pela fortuna ou por virtude DOS PRINCIPADOS De Principatibus CAPÍTULO II DOS PRINCIPADOS HEREDITÁRIOS DE PRINCIPATIBUS HEREDITARIIS Não cogitarei aqui das repúblicas porque delas tratei longamente em outra oportunidade Voltarei minha atenção somente para os principados irei delineando os princípios descritos e discutirei como devem ser eles governados e mantidos Digo pois que para a preservação dos Estados hereditários e afeiçoados à linhagem de seu príncipe as dificuldades são assaz menores que nos novos pois é bastante não preterir os costumes dos antepassados e depois contemporizar com os acontecimentos fortuitos de forma que se tal príncipe for dotado de ordinária capacidade sempre se manterá no poder a menos que uma extraordinária e excessiva força dele venha a priválo e uma vez dele destituído ainda que temível seja o usurpador volta a conquistálo Nós temos na Itália como exemplo o Duque de Ferrara que não cedeu aos assaltos dos venezianos em 1484 nem aos do Papa Júlio em 1510 apenas por ser antigo naquele domínio Na verdade o príncipe natural tem menores razões e menos necessidade de ofender donde se conclui dever ser mais amado e se não se faz odiar por desbragados vícios é lógico e natural seja benquisto de todos E na antigüidade e continuação do exercício do poder apagamse as lembranças e as causas das inovações porque uma mudança sempre deixa lançada a base para a ereção de outra CAPÍTULO III DOS PRINCIPADOS MISTOS DE PRINCIPATIBUS MIXTIS Mas é nos principados novos que residem as dificuldades Em primeiro lugar se não é totalmente novo mas sim como membro anexado a um Estado hereditário que em seu conjunto pode chamarse quase misto as suas variações resultam principalmente de uma natural dificuldade inerente a todos os principados novos é que os homens com satisfação mudam de senhor pensando melhorar e esta crença faz com que lancem mão de armas contra o senhor atual no que se enganam porque pela própria experiência percebem mais tarde ter piorado a situação Isso depende de uma outra necessidade natural e ordinária a qual faz com que o novo príncipe sempre precise ofender os novos súditos com seus soldados e com outras infinitas injúrias que se lançam sobre a recente conquista dessa forma tens como inimigos todos aqueles que ofendeste com a ocupação daquele principado e não podes manter como amigos os que te puseram ali por não poderes satisfazêlos pela forma por que tinham imaginado nem aplicarlhes corretivos violentos uma vez que estás a eles obrigado porque sempre mesmo que fortíssimo em exércitos temse necessidade do apoio dos habitantes para penetrar numa província Foi por essas razões que Luís XII rei de França ocupou Milão rapidamente e logo depois o perdeu para tanto bastando inicialmente as forças de Ludovico porque aquelas populações que lhe haviam aberto as portas reconhecendo o erro de seu pensar anterior e descrentes daquele bemestar futuro que haviam imaginado não mais podiam suportar os dissabores ocasionados pelo novo príncipe É bem verdade que reconquistando posteriormente as regiões rebeladas mais dificilmente se as perdem eis que o senhor em razão da rebelião é menos vacilante em assegurarse da punição daqueles que lhe faltaram com a lealdade em investigar os suspeitos e em reparar os pontos mais fracos Assim sendo se para que a França viesse a perder Milão pela primeira vez foi suficiente um Duque Ludovico que fizesse motins nos seus limites já para perdêlo pela segunda vez foi preciso que tivesse contra si o mundo todo e que seus exércitos fossem desbaratados ou expulsos da Itália o que resultou das razões logo acima apontadas Não obstante tanto na primeira como na segunda vez Milão foilhe tomado As razões gerais da primeira foram expostas resta agora falar sobre as da segunda vez e ver de que remédios dispunha a França e de que meios poderá valerse quem venha a encontrarse em circunstâncias tais para poder manterse na posse da conquista melhor do que o fez esse país Digo consequentemente que estes Estados conquistados e anexados a um Estado antigo ou são da mesma província e da mesma língua ou não o são Quando o sejam é sumamente fácil mantêlos sujeitos máxime quando não estejam habituados a viver em liberdade e para dominálos seguramente será bastante terse extinguido a estirpe do príncipe que os governava porque nas outras coisas conservandose suas velhas condições e não existindo alteração de costumes os homens passam a viver tranqüilamente como se viu ter ocorrido com a Borgonha a Bretanha a Gasconha e a Normandia que por tanto tempo estiveram com a França isto a despeito da relativa diversidade de línguas mas graças à semelhança de costumes facilmente se acomodaram entre eles E quem conquista querendo conserválos deve adotar duas medidas a primeira fazer com que a linhagem do antigo príncipe seja extinta a outra aquela de não alterar nem as suas leis nem os impostos por tal forma dentro de mui curto lapso de tempo o território conquistado passa a constituir um corpo todo com o principado antigo Mas quando se conquistam territórios numa província com língua costumes e leis diferentes aqui surgem as dificuldades e é necessário haver muito boa sorte e habilidade para mantêlos E um dos maiores e mais eficientes remédios seria aquele do conquistador ir habitálos Isto tornaria mais segura e mais duradoura a posse adquirida como ocorreu com o Turco da Grécia que a despeito de ter observado todas as leis locais não teria conservado esse território se para aí não tivesse se transferido Isso porque estando no local podese ver nascerem as desordens e rapidamente podem ser elas reprimidas aí não estando delas somente se tem notícia quando já alastradas e não mais passíveis de solução Além disso a província conquistada não é saqueada pelos lugar tenentes os súditos ficam satisfeitos porque o recurso ao príncipe se torna mais fácil donde têm mais razões para amálo querendo ser bons e para temêlo caso queiram agir por forma diversa Quem do exterior desejar assaltar aquele Estado por ele terá maior respeito donde habitandoo o príncipe somente com muita dificuldade poderá vir a perdêlo Outro remédio eficaz é instalar colônias num ou dois pontos que sejam como grilhões postos àquele Estado eis que é necessário ou fazer tal ou aí manter muita tropa Com as colônias não se despende muito e sem grande custo podem ser instaladas e mantidas sendo que sua criação prejudica somente àqueles de quem se tomam os campos e as casas para cedêlos aos novos habitantes os quais constituem uma parcela mínima do Estado conquistado Ainda os assim prejudicados ficando dispersos e pobres não podem causar dano algum enquanto que os não lesados ficam à parte amedrontados devendo aquietarse ao pensamento de que não poderão errar para que a eles não ocorra o mesmo que aconteceu àqueles que foram espoliados Concluo dizendo que estas colônias não são onerosas são mais fiéis ofendem menos e os prejudicados não podem causar mal tornados pobres e dispersos como já foi dito Por onde se depreende que os homens devem ser acarinhados ou eliminados pois se se vingam das pequenas ofensas das graves não podem fazêlo daí decorre que a ofensa que se faz ao homem deve ser tal que não se possa temer vingança Mas mantendo em lugar de colônias forças militares gastase muito mais absorvida toda a arrecadação daquele Estado na guarda aí destacada dessa forma a conquista transformase em perda e ofende muito mais por que danifica todo aquele país com as mudanças do alojamento do exército incômodo esse que todos sentem e que transforma cada habitante em inimigo e são inimigos que podem causar dano ao conquistador pois vencidos ficam em sua própria casa Sob qualquer ponto de vista essa guarda armada é inútil ao passo que a criação de colônias é útil Deve ainda quem se encontre à frente de uma província diferente como foi dito tornarse chefe e defensor dos menos fortes tratando de enfraquecer os poderosos e cuidando que em hipótese alguma aí penetre um forasteiro tão forte quanto ele E sempre surgirá quem seja chamado por aqueles que na província se sintam descontentes seja por excessiva ambição seja por medo como viuse terem os etólios introduzido na Grécia os romanos que aliás em todas as outras províncias que conquistaram fizeramno auxiliados pelos respectivos habitantes E a ordem das coisas é que tão logo um estrangeiro poderoso penetre numa província todos aqueles que nela são mais fracos a ele dêem adesão movidos pela inveja contra quem se tornou poderoso sobre eles tanto assim é que em relação a estes não se torna necessário grande trabalho para obter seu apoio pois logo todos eles voluntariamente formam bloco com o seu Estado conquistado Apenas deve haver o cuidado de não permitir adquiram eles muito poder e muita autoridade podendo o conquistador facilmente com suas forças e com o apoio dos mesmos abater aqueles que ainda estejam fortes para tornarse senhor absoluto daquela província E quem não encaminhar satisfatoriamente esta parte cedo perderá a sua conquista e enquanto puder conservála terá infinitos aborrecimentos e dificuldades Os romanos nas províncias de que se assenhorearam observaram bem estes pontos fundaram colônias conquistaram a amizade dos menos prestigiosos sem lhes aumentar o poder abateram os mais fortes e não deixaram que os estrangeiros poderosos adquirissem conceito Quero tomar como exemplo apenas a província da Grécia Os aqueus e os etólios tornaramse amigos dos romanos foi abatido o reino dos macedônios e daí foi expulso Antíoco mas nem os méritos dos aqueus e dos etólios lhes asseguraram permissão para conquistar algum Estado nem a persuasão de Felipe logrou fazer com que os romanos se tornassem seus amigos e não o diminuíssem nem o poder de Antíoco conseguiu fazer com que os mesmos o autorizassem a manter seu domínio naquela província Isso tudo ocorreu porque os romanos fizeram nesses casos aquilo que todo príncipe inteligente deve fazer não somente vigiar e ter cuidado com as desordens presentes como também com as futuras evitandoas com toda a cautela porque previstas a tempo facilmente se lhes pode opor corretivo mas esperando que se avizinhem o remédio não chega a tempo e o mal já então se tornou incurável Ocorre aqui como no caso do tuberculoso segundo os médicos no princípio é fácil a cura e difícil o diagnóstico mas com o decorrer do tempo se a enfermidade não foi conhecida nem tratada torna se fácil o diagnóstico e difícil a cura Assim também ocorre nos assuntos do Estado porque conhecendo com antecedência os males que o atingem o que não é dado senão a um homem prudente a cura é rápida mas quando por não se os ter conhecido logo vêm eles a crescer de modo a se tornarem do conhecimento de todos não mais existe remédio Contudo os romanos prevendo as perturbações sempre as tolheram e jamais para fugir à guerra permitiram que as mesmas seguissem seu curso pois sabiam que a guerra não se evita mas apenas se adia em benefício dos outros por isso mesmo promoveram a guerra contra Felipe e Antíoco na Grécia para evitar terem de fazêla na Itália e no entanto podiam ter evitado a luta naquele momento se o quisessem Nem em momento algum lhes agradou aquilo que todos os dias está nos lábios dos entendidos de nosso tempo o desejo de gozar do benefício da contemporização mas sim apenas aquilo que resultava de sua própria virtude e prudência na verdade o tempo lança à frente todas as coisas e pode transformar o bem em mal e o mal em bem Mas voltemos à França e examinemos se ela fez alguma das coisas que expomos falando eu de Luís e não de Carlos porque foi daquele que por ter mantido mais prolongado domínio na Itália melhor se viram os progressos e vereis como ele fez o contrário que se deve fazer para conservar um Estado numa província diferente O Rei Luís foi conduzido à Itália pela ambição dos venezianos que por tal meio quiseram ganhar o Estado da Lombardia Não desejo censurar o partido tomado pelo rei porque querendo começar a pôr um pé na Itália e não tendo amigos nesta província sendolhe ao contrário fechadas todas as portas em razão do comportamento do Rei Carlos foi obrigado a servirse daquelas amizades com que podia contar e terlheia resultado bem escolhido esse partido se nos outros manejos não tivesse cometido erro algum Conquistada pois a Lombardia o rei readquiriu prontamente aquela reputação que Carlos perdera Gênova cedeu os florentinos tornaramse seus amigos o marquês de Mantua o duque de Ferrara Bentivoglio a senhora de Forli o senhor de Faenza de Pesaro de Rimini de Camerino de Piombino os Luqueses os Pisanos e os Sieneses todos foram ao seu encontro para tornaremse seus amigos Os venezianos puderam considerar então a temeridade da resolução que haviam adotado pois que para conquistar dois tratos de terra na Lombardia fizeram o rei tornarse senhor de dois terços da Itália Considerese agora com quanta facilidade podia o rei manter a sua reputação na Itália se observadas as normas já referidas tivesse conservado seguros e defendidos todos aqueles seus amigos que por serem em grande número fracos e medrosos uns em relação à Igreja os outros face aos venezianos precisavam sempre estar com ele por meio deles poderia facilmente terse assegurado contra os que ainda se conservavam fortes Mas ele apenas chegado a Milão fez o contrário dando auxilio ao papa Alexandre para que ocupasse a Romanha Nem percebeu que com essa deliberação enfraquecia a si próprio afastando os amigos e aqueles que se lhe tinham lançado aos braços enquanto engrandecia a Igreja acrescentando ao poder espiritual que lhe dá tanta autoridade tamanha força temporal Cometido um primeiro erro foi compelido a seguir praticando outros até que para pôr fim à ambição de Alexandre e evitar que este se tornasse senhor da Toscana teve de vir pessoalmente à Itália Não lhe bastou ter tornado grande a Igreja e perder os amigos por querer o reino de Nápoles dividiuo com o rei da Espanha sendo primeiro o árbitro da Itália aí colocou um companheiro para que os ambiciosos daquela província e os descontentes com ele mesmo tivessem onde recorrer e em vez de deixar naquele reino um soberano a ele sujeito tirouo para em seu lugar colocar um outro que pudesse expulsálo dali É coisa muito natural e comum o desejo de conquistar e sempre quando os homens podem fazêlo serão louvados ou pelo menos não serão censurados mas quando não têm possibilidade e querem fazêlo de qualquer maneira aqui está o erro e consequentemente a censura Se a França pois podia assaltar Nápoles com suas forças devia fazêlo se não podia não devia dividir esse reino E se a divisão que fez com os venezianas sobre a Lombardia mereceu desculpa por ter com ela firmado pé na Itália aquela merece censura em razão de não ser justificada por essa necessidade Tinha pois Luís cometido estes cinco erros eliminou os menos fortes aumentou na Itália o prestígio de um poderoso aí colocou um estrangeiro poderosíssimo não veio habitar no país não instalou colônias Estes erros contudo poderiam não ter causado dano enquanto vivo ele fosse se não houvesse sido cometido o sexto erro tomar os territórios aos venezianos Na verdade se não tivesse tornado grande a Igreja nem introduzido a Espanha na Itália seria bem razoável e necessário enfraquecê los mas tomados que foram aqueles partidos nunca deveriam consentir na ruína dos mesmos pois sendo poderosos teriam sempre mantido aquelas à distância da Lombardia e isso porque os venezianos jamais iriam consentir em qualquer manobra contra esse Estado a menos que eles se tornassem os senhores da mesma forma que os outros não iriam querer tomálo à França para dálo aos venezianos ao mesmo tempo que lhes faltava coragem para entrar em luta com estes e com a França E se alguém dissesse o Rei Luís cedeu a Romanha a Alexandre e o Reino à Espanha para fugir a uma guerra respondo com as razões já anteriormente expostas de que nunca se deve deixar prosseguir uma crise para escapar a uma guerra mesmo porque dela não se foge mas apenas se adia para desvantagem própria E se alguns outros alegassem a palavra que o rei havia dado ao Papa qual a de realizar para ele aquela conquista em troca da dissolução de seu casamento e do chapéu cardinalício para o arcebispo de Ruão respondo com o que mais adiante se dirá acerca da palavra dos príncipes e de como se a deve respeitar Perdeu pois o Rei Luís a Lombardia por não ter respeitado nenhum dos princípios observados por outros que dominaram províncias e quiseram conserválas Não há aqui milagre algum mas é sim muito comum e razoável E deste assunto falei em Nantes ao arcebispo de Ruão quando Valentino assim popularmente chamado César Bórgia filho do Papa Alexandre ocupava a Romanha porque dizendome o cardeal de Ruão que os italianos não entendiam de guerra retruqueilhe que os franceses não entendiam do Estado pois que se de tal compreendessem não teriam deixado que a Igreja alcançasse tanta grandeza E por experiência viuse que a grandeza da Igreja e da Espanha na Itália foi causada pela França e a ruína desta foi acarretada por aquelas Disso se extrai uma regra geral que nunca ou raramente falha quem é causa do poderio de alguém arruinase por que esse poder resulta ou da astúcia ou da força e ambas são suspeitas para aquele que se tornou poderoso CAPÍTULO IV POR QUE O REINO DE DARIO OCUPADO POR ALEXANDRE NÃO SE REBELOU CONTRA SEUS SUCESSORES APÓS A MORTE DESTE CUR DARII REGNUM QUOD ALEXANDER OCCUPAVERAT A SUCCESSORIBUS SUIS POST ALEXANDRI MORTEM NON DEFECIT Consideradas as dificuldades que devem ser enfrentadas para a conservação de um Estado recémconquistado alguém poderia ficar pasmo ante o fato de que tendo se tornado senhor da Ásia em poucos anos não apenas havia terminado sua ocupação Alexandre Magno veio a morrer e a despeito de parecer razoável que todo aquele Estado devesse rebelarse seus sucessores o conservaram e para tanto não encontraram outra dificuldade senão aquela que por ambição pessoal nasceu entre eles mesmos Argumento os principados de que se conserva memória têm sido governados de duas formas diversas ou por um príncipe sendo todos os demais servos que como ministros por graça e concessão sua ajudam a governar o Estado ou por um príncipe e por barões os quais não por graça do senhor mas por antigüidade de sangue têm aquele grau de ministros Estes barões têm Estados e súditos próprios que os reconhecem por senhores e a eles dedicam natural afeição Os Estados que são governados por um príncipe e servos têm aquele com maior autoridade porque em toda a sua província não existe alguém reconhecido como chefe senão ele e se os súditos obedecem a algum outro fazemno em razão de sua posição de ministro e oficial não lhe dedicando o menor amor Os exemplos dessas duas espécies de governo são nos nossos tempos o Turco e o rei de França Toda a monarquia do Turco é dirigida por um senhor os outros são seus servos dividindo o seu reino em sandjaks para aí manda diversos administradores e os muda e varia de acordo com sua própria vontade Mas o rei de França está em meio a uma multidão de antigos senhores que nessa qualidade são reconhecidos pelos seus súditos e por eles amados têm as suas preeminências e não pode o rei priválos das mesmas sem perigo para si próprio Quem tiver em mira pois um e outro desses governos encontrará dificuldades para conquistar o Estado Turco mas vencido que seja este encontrará grande facilidade para conserválo Ao contrário encontrarseá em todos os sentidos maior facilidade para ocupar o Estado de França mas grande dificuldade para mantêlo As razões da dificuldade em ocupar o reino do Turco decorrem de não poder o atacante ser chamado por príncipes daquele reino nem esperar com a rebelião dos que rodeiam o soberano poder ter facilitada a sua empresa é o que resulta das razões referidas Porque sendo todos escravos e obrigados são mais dificilmente corruptíveis e quando fossem subornados pouco de útil poderseia esperar visto não serem eles capazes de arrastar o povo atrás de si pelos motivos já mencionados Logo se alguém assaltar o Estado Turco deve pensar que irá encontrálo todo unido convindo contar mais com suas próprias forças que com as desordens dos outros Mas vencido que seja e uma vez desbaratado em batalha campal de modo que não possa refazer os exércitos não se deve recear outra coisa senão a dinastia do príncipe uma vez extinta esta ninguém mais resta que deva ser temido já que os demais não gozam de prestígio junto ao povo e como o vencedor deste nada podia esperar antes da vitória depois dela não deve receálo O contrário ocorre nos reinos como o de França por que com facilidade podes invadilo em obtendo o apoio de algum barão do reino pois que sempre se encontram descontentes e os que desejam fazer inovações Estes pelas razões referidas podem abrir o acesso àquele Estado e facilitar a vitória Esta depois se desejares manterte arrasta atrás de si infinitas dificuldades seja com aqueles que te ajudaram seja com os que oprimiste Não é bastante extinguir a estirpe do príncipe pois permanecem aqueles senhores que se tornam chefes das novas revoluções e não podendo nem contentálos nem exterminálos perde aquele Estado tão logo surja a oportunidade Ora se for considerado de que natureza era o governo de Dario se o encontrará semelhante ao reino do Turco Para Alexandre foi necessário primeiro encurralálo e desbaratálo em batalha campal sendo que depois da vitória estando morto Dario aquele Estado tornouse seguro para Alexandre pelas razões acima expostas Seus sucessores se tivessem sido unidos poderiam têlo gozado tranqüilamente pois ali não surgiram outros tumultos que não os por eles próprios provocados Mas quanto aos Estados organizados como o da França é impossível possuílos com tanta tranqüilidade Dessa circunstância é que nasceram as freqüentes rebeliões da Espanha da França e da Grécia contra os romanos em decorrência do grande número de principados que havia naqueles Estados e por todo o tempo em que perdurou a sua memória os romanos estiveram inseguros na posse daqueles domínios Mas extinta a lembrança dos principados com o poder e a constância de sua autoridade os romanos tornaram se dominadores seguros Puderam eles também combatendo mais tarde em lutas internas arrastar cada facção para o seu lado parte daquelas províncias segundo a autoridade que havia adquirido junto a elas e essas províncias por não mais existir o sangue de seus antigos senhores não reconheciam senão a soberania dos romanos Consideradas pois todas estas coisas ninguém se maravilhará da facilidade que Alexandre encontrou para conservar o Estado da Ásia e das dificuldades que foram arrostadas pelos outros para manterem o conquistado como Pirro e muitos outros Isso não resultou da muita ou da pouca virtude do vencedor mas sim da diversidade de forma do objeto da conquista CAPÍTULO V DE QUE MODO SE DEVAM GOVERNAR AS CIDADES OU PRINCIPADOS QUE ANTES DE SEREM OCUPADOS VIVIAM COM AS SUAS PRÓPRIAS LEIS QUOMODO ADMINISTRANDAE SUNT CIVITATES VEL PRINCIPATUS QUI ANTEQUAM OCCUPARENTUR SUIS LEGIBUS VIVEBANT Quando aqueles Estados que se conquistam como foi dito estão habituados a viver com suas próprias leis e em liberdade existem três modos de conserválos o primeiro arruinálos o outro ir habitálos pessoalmente o terceiro deixálos viver com suas leis arrecadando um tributo e criando em seu interior um governo de poucos que se conservam amigos porque sendo esse governo criado por aquele príncipe sabe que não pode permanecer sem sua amizade e seu poder e há que fazer tudo por conserválos Querendo preservar uma cidade habituada a viver livre mais facilmente que por qualquer outro modo se a conserva por intermédio de seus cidadãos Como exemplos existem os espartanos e os romanos Os espartanos conservaram Atenas e Tebas nelas criando um governo de poucos todavia perderamnas Os romanos para manterem Cápua Cartago e Numância destruíramnas e não as perderam quiseram conservar a Grécia quase como o fizeram os espartanos tornandoa livre e deixandolhe suas próprias leis e não o conseguiram em razão disso para conservála foram obrigados a destruir muitas cidades daquela província É que em verdade não existe modo seguro para conservar tais conquistas senão a destruição E quem se torne senhor de uma cidade acostumada a viver livre e não a destrua espere ser destruído por ela porque a mesma sempre encontra para apoio de sua rebelião o nome da liberdade e o de suas antigas instituições jamais esquecidas seja pelo decurso do tempo seja por benefícios recebidos Por quanto se faça e se proveja se não se dissolvem ou desagregam os habitantes eles não esquecem aquele nome nem aquelas instituições e logo a cada incidente a eles recorrem como fez Pisa cem anos após estar submetida aos florentinos Mas quando as cidades ou as províncias estão acostumadas a viver sob um príncipe extinta a dinastia sendo de um lado afeitas a obedecer e de outro não tendo o príncipe antigo dificilmente chegam a acordo para escolha de um outro príncipe não sabem enfim viver em liberdade dessa forma são mais lerdas para tomar das armas e com maior facilidade pode um príncipe vencêlas e delas apoderarse Contudo nas repúblicas há mais vida mais ódio mais desejo de vingança não deixam nem podem deixar esmaecer a lembrança da antiga liberdade assim o caminho mais seguro é destruílas ou habitálas pessoalmente CAPÍTULO VI DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SE CONQUISTAM COM AS ARMAS PRÓPRIAS E VIRTUOSAMENTE DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ARMIS PROPRIIS ET VIRTUTE ACQUIRUNTUR Não se admire alguém se na exposição que irei fazer a respeito dos principados completamente novos de príncipe e de Estado apontar exemplos de grandes personagens por que palmilhando os homens quase sempre as estradas batidas pelos outros procedendo nas suas ações por imitações não sendo possível seguir fielmente as trilhas alheias nem alcançar a virtude do que se imita deve um homem prudente seguir sempre pelas sendas percorridas pelos que se tornaram grandes e imitar aqueles que foram excelentes isto para que não sendo possível chegar à virtude destes pelo menos daí venha a auferir algum proveito deve fazer como os arqueiros hábeis que considerando muito distante o ponto que desejam atingir e sabendo até onde vai a capacidade de seu arco fazem mira bem mais alto que o local visado não para alcançar com sua flecha tanta altura mas para poder com o auxílio de tão elevada mira atingir o seu alvo Digo pois que no principado completamente novo onde exista um novo príncipe encontrase menor ou maior dificuldade para mantêlo segundo seja mais ou menos virtuoso quem o conquiste E porque o elevar se de particular a príncipe pressupõe ou virtude ou boa sorte parece que uma ou outra dessas duas razões mitigue em parte muitas dificuldades não obstante temse observado aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente Gera ainda facilidade o fato de por não possuir outros Estados ser o príncipe obrigado a vir habitálo pessoalmente Para reportarme àqueles que pela sua própria virtude e não pela sorte se tornarem príncipes digo que os maiores são Moisés Ciro Rômulo Teseu e outros tais Se bem que de Moisés não se deva cogitar por ter sido ele mero executor daquilo que lhe era ordenado por Deus contudo deve ser admirado somente por aquela graça que o tornava digno de conversar com o Senhor Mas consideremos Ciro e os outros que conquistaram ou fundaram reinos achareis a todos admiráveis E se forem consideradas suas ações e ordens particulares estas parecerão não discrepantes daquelas de Moisés que teve tão grande preceptor E examinando as ações e a vida dos mesmos não se vê que eles tivessem algo de sorte senão a ocasião que lhes forneceu meios para poder adaptar as coisas da forma que melhor lhes aprouve e sem aquela oportunidade o seu valor pessoal terseia apagado e sem essa virtude a ocasião teria surgido em vão Era necessário pois a Moisés encontrar o povo de Israel no Egito escravizado e oprimido pelos egípcios a fim de que aquele para libertarse da escravidão se dispusesse a seguilo Convinha que Rômulo não pudesse ser mantido em Alba fosse exposto ao nascer para que se tornasse rei de Roma e fundador daquela pátria Era preciso que Ciro encontrasse os persas descontentes do império dos medas e estes estivessem amolecidos e efeminados pela prolongada paz Não poderia Teseu demonstrar sua virtude se não encontrasse os atenienses dispersos Essas oportunidades por tanto fizeram esses homens felizes e sua excelente capacidade fez com que aquela ocasião fosse conhecida de cada um em conseqüência sua pátria foi nobilitada e tornouse felicíssima Os que por suas virtudes semelhantes às que aqueles tiveram tornam se príncipes conquistam o principado com dificuldade mas com facilidade o conservam e os obstáculos que se lhes apresentam no conquistar o principado em parte nascem das novas disposições e sistemas de governo que são forçados a introduzir para fundar o seu Estado e estabelecer a sua segurança Devese considerar não haver coisa mais difícil para cuidar nem mais duvidosa a conseguir nem mais perigosa de manejar que tornarse chefe e introduzir novas ordens Isso porque o introdutor tem por inimigos todos aqueles que obtinham vantagens com as velhas instituições e encontra fracos defensores naqueles que das novas ordens se beneficiam Esta fraqueza nasce parte por medo dos adversários que ainda têm as leis conformes a seus interesses parte pela incredulidade dos homens estes em verdade não crêem nas inovações se não as vêem resultar de uma firme experiência Donde decorre que a qualquer momento em que os inimigos tenham oportunidade de atacar o fazem com calor de sectários enquanto os outros defendem fracamente de forma que ao lado deles se corre sério perigo É necessário pois querendo bem expor esta parte examinar se esses inovadores se baseiam sobre forças suas próprias ou se dependem de outros isto é se para levar avante sua obra é preciso que roguem ou se em realidade podem forçar No primeiro caso sempre acabam mal e não realizam coisa alguma mas quando dependem de si mesmos e podem forçar então é que raras vezes perigam Daí resulta que todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram Porque além dos fatos apontados a natureza dos povos é vária sendo fácil persuadilos de urna coisa mas difícil firmálos nessa persuasão Convém assim estar preparado para que quando não acreditarem mais se possa fazêlos crer pela força Moisés Ciro Teseu e Rômulo não teriam conseguido fazer observar por longo tempo as suas constituições se tivessem estado desarmados como ocorreu nos nossos tempos a Frei Girolamo Savonarola que fracassou nas suas reformas quando a multidão começou a nele não mais acreditar e ele não dispunha de meios para manter firmes aqueles que haviam crido nem para fazer com que os descrentes passassem a crer Por isso têm grandes dificuldades no conduzirse e todos os perigos estão no seu caminho convindo que os superem com o valor pessoal mas superado que os tenham quando começam a ser venerados extintos aqueles que tinham inveja de sua condição ficam poderosos seguros honrados felizes A tão altos exemplos quero acrescentar um menor mas que bem terá alguma relação com aqueles e que julgo suficiente para todos os outros semelhantes é Hierão de Siracusa Este de particular tornouse príncipe de Siracusa também ele da sorte somente conheceu a ocasião porque sendo os siracusanos oprimidos o elegeram para seu capitão donde mereceu ser feito príncipe E foi de tanta virtude mesmo na vida privada que quem escreveu a seu respeito dissequod nihil illi deerat ad regnandum praeter regnum Extinguiu a velha milícia organizou a nova abandonou as antigas amizades conquistou novas e como teve amizades e soldados seus pode sobre tais fundamentos erigir as obras que desejou tanto que custoulhe muita fadiga para conquistar e pouca para manter CAPÍTULO VII DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SE CONQUISTAM COM AS ARMAS E FORTUNA DOS OUTROS DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ALIENIS ARMIS ET FORTUNA ACQUIRUNTUR Aqueles que somente por fortuna se tornam de privados em príncipes com pouca fadiga assim se transformam mas só com muito esforço assim se mantêm não encontram nenhuma dificuldade pelo caminho porque atingem o posto a vôo mas toda sorte de dificuldades nasce depois que aí estão São aqueles aos quais é concedido um Estado seja por dinheiro seja por graça do concedente como ocorreu a muitos na Grécia nas cidades da Jônia e do Helesponto onde foram feitos príncipes por Dario a fim de que as conservassem para sua segurança e glória como eram feitos ainda aqueles imperadores que por corrupção dos soldados de privados alcançavam o domínio do Império Estes estão simplesmente submetidos à vontade e à fortuna de quem lhes concedeu o Estado que são duas coisas grandemente volúveis e instáveis e não sabem e não podem manter a sua posição Não sabem porque se não são homens de grande engenho e virtude não é razoável que tendo vivido sempre em ambiente privado saibam comandar não podem porque não têm forças que lhes possam ser amigas e fiéis Ainda os Estados que surgem rapidamente como todas as demais coisas da natureza que nascem e crescem depressa não podem ter raízes e estruturação perfeitas de forma que a primeira adversidade os extingue salvo se aqueles que como foi dito assim repentinamente se tornaram príncipes forem de tanta virtude que saibam desde logo prepararse para conservar aquilo que a fortuna lhes pôs no regaço formando posteriormente as bases que os outros estabeleceram antes de se tornar príncipes Destes dois citados modos de vir a ser príncipe por virtude ou por fortuna quero apontar dois exemplos ocorridos nos dias de nossa memória estes são Francisco Sforza e César Bórgia Francisco pelos meios devidos e com grande virtude de privado tornouse duque de Milão e aquilo que com mil esforços tinha conquistado com pouco trabalho manteve Por outro lado César Bórgia pelo povo chamado Duque Valentino adquiriu o Estado com a fortuna do pai e juntamente com aquela o perdeu isso não obstante fossem por ele utilizados todos os meios e feito tudo aquilo que devia ser efetivado por um homem prudente e virtuoso para lançar raízes naqueles Estados que as armas e a fortuna de outrem lhe tinham concedido Porque como se disse acima quem não lança os alicerces primeiro com uma grande virtude poderá estabelecêlos depois ainda que se façam com aborrecimentos para o construtor e perigo para o edifício Se pois se considerarem todos os progressos do duque verseá ter ele estabelecido grandes alicerces para o futuro poderio os quais não julgo supérfluo descrever pois não saberia que melhores preceitos do que o exemplo de suas ações poderia indicar a um príncipe novo e se as suas disposições não lhe aproveitaram não foi por culpa sua mas sim em resultado de uma extraordinária e extrema má sorte Tinha Alexandre VI ao querer tornar grande o duque seu filho muitas dificuldades presentes e futuras Primeiro não via meio de poder fazêlo senhor de algum Estado que não fosse Estado da Igreja voltandose para tomar um destes sabia que o duque de Milão e os venezianos não lho permitiriam porque Faenza e Rimini estavam já sob a proteção dos venezianos Via além disto as armas da Itália e em especial aquelas de que poderia servirse encontraremse nas mãos daqueles que deviam temer a grandeza do Papa não podia fiarse assim pertencendo todas elas aos Orsíni e Colonna e seus partidários Era pois necessário que se perturbasse aquela organização dos Estados italianos e fossem desarticulados os pertencentes àqueles para poder assenhorearse seguramente de parte dos mesmos Isso foilhe fácil eis que encontrou os venezianos que levados por outras causas tinham se posto a fazer com que os franceses retornassem à Itália ao que não somente não se opôs como também tornou mais fácil com a dissolução do primeiro matrimônio do Rei Luís Passou portanto o rei à Itália com a ajuda dos venezianos e consentimento de Alexandre nem bem era chegado a Milão já o Papa dele obteve tropas para a conquista da Romanha a qual tornouse possível em razão da reputação do rei Tendo ocupado a Romanha e batido os partidários dos Colonna o duque querendo manter a conquista e avançar mais à frente tinha duas coisas que tal lhe impediam uma as suas tropas que não lhe pareciam fiéis a outra a vontade da França isto é temia o duque que lhe falhassem as tropas dos Orsíni das quais se valera não só impedindoo de conquistar como também tomandolhe o conquistado bem como receava que o rei não deixasse de fazerlhe o mesmo Dos Orsíni teve prova quando depois da tomada de Faenza assaltando Bolonha os viu irem friamente a esse assalto acerca do rei conheceu sua disposição quando tomado o ducado de Urbino atacou a Toscana o rei fê lo desistir dessa campanha Em conseqüência de tal o duque deliberou não mais depender das armas e fortuna dos outros Inicialmente enfraqueceu as facções dos Orsíni e dos Colonna em Roma para tanto atraiu para junto de si todos os adeptos dos mesmos que fossem gentishomens fazendoos seus gentishomens dandolhes grandes estipêndios e os honrando Segundo suas qualidades com comandos e governos de forma que em poucos meses a afeição que mantinham pelas facções foi extinta e voltou se toda ela para o duque Depois esperou a ocasião de eliminar os Orsíni dispersos que já estavam os da casa Colonna ocasião que lhe surgiu bem e que ele melhor aproveitou porque tendo percebido os Orsíni tarde porém que a grandeza do duque e da Igreja era a sua ruína organizaram uma conferência em Magione no Perugino Dessa reunião nasceram a rebelião de Urbino os tumultos da Romanha e infinitos perigos para o duque o qual a todos superou com o auxílio dos franceses E readquirida a reputação não confiando na França nem nas outras tropas estrangeiras para não as ter fortalecidas socorreuse da astúcia E tão bem soube dissimular seus sentimentos que os Orsíni por intermédio do Senhor Paulo reconciliaramse com ele para assegurarse melhor deste intermediário o duque não deixou de dispensarlhe cortesia de toda natureza dandolhe dinheiro roupas e cavalos tanto assim que a simplicidade dos Orsíni levouos a Sinigalia às mãos do duque Eliminados pois estes chefes transformados os partidários dos mesmos em amigos seus tinha o duque lançado muito boas bases para o seu poderio possuindo toda a Romanha com o ducado de Urbino parecendolhe ainda ter tornado amiga a Romanha e ganho para si todas aquelas populaçõe que começavam a experimentar o seu bemestar E porque esta parte é digna de ser conhecida e imitada pelos outros não desejo omitila Tomada que foi a Romanha encontrandoa dirigida por senhores impotentes os quais mais depressa haviam espoliado os seus súditos do que os tinham governado dandolhes motivo de desunião ao invés de união tanto que aquela província era toda ela cheia de latrocínios de brigas e de tantas outras causas de insolência o duque julgou necessário para tornála pacífica e obediente ao poder real darlhe bom governo Por isso aí colocou Ramiro de Orco homem cruel e solícito ao qual deu os mais amplos poderes Este em pouco tempo tornoua pacífica e unida com mui grande reputação Depois entendeu o duque não ser necessária tão excessiva autoridade e isso porque não duvidava pudesse vir a mesma a tornarse odiosa instalou um juízo civil no centro da província com um presidente excelentíssimo onde cada cidade tinha o seu advogado E porque sabia que os rigorismos passados tinham dado origem a algum ódio para limpar os espíritos daquelas populações e conquistálos completamente quis mostrar que se alguma crueldade havia ocorrido não nascera dele mas sim da triste e cruel natureza do ministro E servindose da oportunidade fez colocaremno uma manhã na praça pública de Casena cortado em dois pedaços com um pau e uma faca ensangüentada ao lado A ferocidade desse espetáculo fez com que a população ficasse ao mesmo tempo satisfeita e pasmada Mas voltemos ao ponto de partida Digo que encontrandose o duque bastante forte e relativamente garantido contra os perigos presentes por ter se armado a seu modo e ter em boa parte dissolvido aquelas tropas que próximas poderiam molestálo restavalhe querendo prosseguir com as conquistas o temor ao rei de França porque sabia como tal proceder não seria suportado pelo mesmo que tarde havia se apercebido de seu erro Começou por isso a procurar novas amizades e a tergiversar com a França na incursão que os franceses fizeram no reino de Nápoles contra os espanhóis que assediavam Gaeta A sua intenção era garantirse contra eles o que terlheia surtido pronto efeito se Alexandre tivesse continuado vivo Esta foi a sua política quanto às coisas presentes Mas quanto às futuras ele tinha a temer inicialmente que um novo sucessor ao governo da Igreja não fosse seu amigo e procurasse tomarlhe aquilo que Alexandre lhe dera e pensou proceder por quatro modos primeiro extinguir as famílias daqueles senhores que ele tinha espoliado para tolher ao Papa aquela oportunidade segundo conquistar todos os gentishomens de Roma como foi dito para poder com eles manter o Papa tolhido terceiro tornar o Colégio mais seu o quanto possível quarto conquistar tanto poder antes que o pai morresse que pudesse por si mesmo resistir a um primeiro impacto Destas quatro coisas à morte de Alexandre ele havia realizado três estando a quarta quase terminada porque dos senhores despojados ele matou quantos pode alcançar e pouquíssimos se salvaram tinha conseguido o apoio dos gentishomens romanos e no Colégio possuía mui grande parte e quanto à nova conquista resolvera tornarse senhor da Toscana possuía já Perúgia e Piombino e havia tomado a proteção de Pisa Como não mais precisasse ter respeito à França que o desmerecera por estarem já os franceses despojados do Reino pelos espanhóis de forma que cada um deles necessitava comprar a sua amizade saltaria sobre Pisa Depois disso Lucca e Ciena cederiam prontamente parte por inveja dos florentinos parte por medo os florentinos não teriam remédio o que se tivesse acontecido deveria ocorrer no mesmo ano em que Alexandre morreu conferirlheia tantas forças e tanta reputação que ele terseia mantido por si mesmo não mais dependendo da fortuna e das forças dos outros mas sim de sua própria potência e virtude Mas Alexandre morreu cinco anos depois que ele começara a desembainhar a espada Deixouo apenas com o Estado da Romanha consolidado com todos os outros no ar em meio a dois fortíssimos exércitos inimigos e doente de morte Havia no duque tanta bravura indômita e tanta virtude conhecia tão bem como se conquistam ou se perdem os homens e talmente sólidos eram os alicerces que assim em tão pouco tempo havia lançado que se não tivesse tido aqueles exércitos sobre si ou se estivesse são teria vencido qualquer dificuldade E que os seus alicerces fossem bons viuse por que a Romanha esperouo mais de um mês em Roma ainda que apenas meio vivo esteve em segurança e se bem os Baglioni Vitelli e Orsíni viessem a Roma nada puderam fazer contra ele se não pode fazer papa quem queria pelo menos evitou que o fosse quem ele não queria Mas se por ocasião da morte de Alexandre ele tivesse estado são tudo lhe teria sido fácil Disse me ele no dia em que foi eleito Júlio que havia cogitado de tudo aquilo que podia acontecer morrendo o pai e para tudo encontrara remédio mas jamais havia pensado além da morte de seu pai que ele mesmo também pudesse estar para morrer Relatadas assim todas as ações do duque eu não saberia repreendêlo antes penso que como o fiz deva ser proposto à imitação de todos aqueles que por fortuna e com as armas dos outros subiram ao poder Porque tendo grande ânimo e alta intenção ele não podia portarse de outra for ma aos seus desígnios somente se opuseram a brevidade da vida de Alexandre e a sua enfermidade Quem pois julgar necessário no seu principado novo assegurarse contra os inimigos adquirir amigos vencer ou pela força ou pela fraude fazerse amar e temer pelo povo seguir e reverenciar pelos soldados eliminar aqueles que podem ou têm razões para ofender ordenar por novos modos as instituições antigas ser severo e grato magnânimo e liberal extinguir a milícia infiel criar uma nova manter a amizade dos reis e dos príncipes de modo que beneficiem de boa vontade ou ofendam com temor não poderá encontrar exemplos mais recentes que as ações do duque Somente se pode acusálo na criação de Júlio pontífice onde má foi a eleição porque como foi dito não podendo fazer um papa de acordo com seu desejo ele podia impedir fosse feito quem não quisesse e não devia jamais consentir no papado daqueles cardeais que tivessem sido por ele ofendidos ou que tornados papas viessem a temêlo Na verdade os homens ofendem ou por medo ou por ódio Os que ele ofendera eram entre outros San Piero ad Vincula Colonna San Giorgio Ascânio todos os outros tornados papas tinham por que temêlo exceto o de Ruão e os espanhóis estes por afinidade e por obrigações aquele pelo poder e por ter ao seu lado o reino da França Conseqüentemente o duque antes de tudo devia criar para um espanhol e não podendo devia consentir que fosse eleito o cardeal de Ruão e não o de San Piero ad Vincula E quem acreditar que nas grandes personagens os novos benefícios façam esquecer as velhas injúrias enganase Errou pois o duque nessa eleição tornandose ele mesmo a causa de sua ruína final CAPÍTULO VIII DOS QUE CHEGARAM AO PRINCIPADO POR MEIO DE CRIMES DE HIS QUI PER SCELERA AD PRINCIPATUM PERVENERE Mas porque podese tornar príncipe ainda por dois modos que não podem ser atribuídos totalmente à fortuna ou à virtude não me parece acertado pôlos de parte ainda que de um deles se possa mais amplamente cogitar em falando das repúblicas Estes são ou quando por qualquer meio criminoso e nefário se ascende ao principado ou quando um cidadão privado tornase príncipe de sua pátria pelo favor de seus concidadãos E falando do primeiro modo apontarei dois exemplos um antigo e outro atual sem entrar contudo no mérito desta parte pois penso seja suficiente a quem de tal necessitar apenas imitálos Agátocles siciliano não só de privada mas também de ínfima e abjeta condição tornouse rei de Siracusa Filho de um oleiro teve sempre no decorrer de sua juventude vida celerada todavia acompanhou seus atos delituosos de tanto vigor de ânimo e de corpo que tendo ingressado na milícia em razão de atos de maldade chegou a ser pretor de Siracusa Uma vez investido nesse posto tendo deliberado tornarse príncipe e manter pela violência e sem favor dos outros aquilo que por acordo de todos lhe tinha sido concedido depois de acerca desse seu desejo ter estabelecido acordo com Amilcar cartaginês que se encontrava em ação com os seus exércitos na Sicilia reuniu certa manhã o povo e o senado de Siracusa como se tivesse de deliberar sobre assuntos pertinentes à República e a um sinal combinado fez que seus soldados matassem todos os senadores e os mais ricos da cidade mortos estes ocupou e manteve o principado daquela cidade sem qualquer controvérsia civil E se bem por duas vezes os cartagineses tivessem com ele rompido e estabelecido assédio não só pode defender a sua cidade como ainda tendo deixado parte de sua gente na defesa contra o cerco com o restante assaltou a África e em breve tempo libertou Siracusa do sítio levando os cartagineses a extrema dificuldade tiveram de com ele estabelecer acordo e contentarse com as possessões da África deixando a Sicília para Agátocles Quem considere pois as ações e a vida desse príncipe não encontrará coisa ou pouca achará que possa atribuir à fortuna suas ações resultaram como acima se disse não do favor de alguém mas de sua ascensão na milícia obtida com mil aborrecimentos e perigos que lhe permitiu alcançar o principado e depois mantêlo com tantas decisões corajosas e arriscadas Não se pode ainda chamar virtude o matar os seus concidadãos trair os amigos ser sem fé sem piedade sem religião tais modos podem fazer conquistar poder mas não glória Ademais se se considerar a virtude de Agátocles no entrar e no sair dos perigos e a grandeza de seu ânimo no suportar e superar as adversidades não se achará por que deva ser ele julgado inferior a qualquer dos mais excelentes capitães contudo sua exacerbada crueldade e desumanidade com infinitas perversidades não permitem seja ele celebrado entre os homens mais ilustres Não se pode assim atribuir à fortuna ou à virtude aquilo que sem uma e outra foi por ele conseguido Nos nossos tempos reinando Alexandre VI Oliverotto de Fermo tendo anos antes ficado órfão de pai foi criado por um tio materno de nome Giovanni Fogliani nos primeiros anos de sua juventude foi encaminhado à vida militar sob o comando de Paulo Vitelli a fim de que tomado daquela disciplina atingisse algum excelente posto da milícia Morto Paulo militou sob Vitellozzo irmão daquele e em muito pouco tempo por ser engenhoso de físico e ânimo fortes tornouse o primeiro homem de sua milícia Mas parecendolhe coisa servil o estar sob as ordens de outrem com a ajuda de alguns cidadãos de Fermo aos quais era mais cara a servidão que a liberdade de sua pátria e com o favor de Vitellozzo pensou ocupar Fermo E escreveu a Giovanni Fogliani dizendo que por ter estado muitos anos fora de casa desejava ir visitálo e à sua cidade e conhecer o seu patrimônio e como não tinha trabalhado senão para conquistar honras para que seus concidadãos vissem como não tinha gasto o tempo em vão queria chegar com pompa e acompanhado de cem cavalos de amigos e servidores seus pedialhe pois se servisse ordenar fosse ele recebido pelos cidadãos de Fermo com todas as honras o que não somente o dignificaria mas também a Fogliani dado haver sido seu discípulo Não deixou Giovanni de despender esforços em favor de seu sobrinho tendo feito com que os moradores de Fermo o recebessem com honrarias alojouo em suas casas Aí passados alguns dias e pronto para ordenar secretamente aquilo que era necessário à sua futura perfídia Oliverotto promoveu soleníssimo banquete para o qual convidou Giovanni Fogliani e todos os principais homens de Fermo Consumadas que foram as iguarias e após todos os demais entretenimentos usuais em semelhantes ocasiões Oliverotto com habilidade abordou certos assuntos graves falando da grandeza do Papa Alexandre de seu filho César e dos empreendimentos dos mesmos Tendo Giovanni e os demais respondido a tais considerações ele repentinamente ergueuse dizendo ser aquilo assunto para falarse em lugar mais secreto retirandose para um cômodo onde Giovanni e todos os outros foram ter com ele Nem ainda tinham se assentado de lugares ocultos saíram soldados que mataram Giovanni e a todos os demais Depois desse homicídio Oliverotto montou a cavalo correu a cidade acompanhado de seus homens e assediou em seu palácio o supremo magistrado em conseqüência por medo foram obrigados a obedecêlo e formar um governo do qual ele se fez príncipe E mortos todos aqueles que por descontentes poderiam ofendêlo fortaleceuse com novas ordens civis e militares de forma que no período de um ano em que reteve o principado não somente esteve forte na cidade de Fermo como também se tornou causa de pavor para todas as populações vizinhas Teria sido difícil a sua destruição como difícil foi a de Agátocles se não tivesse sido enganado por César Bórgia quando este em Sinigalia como já se disse aprisionou os Orsíni e os Vitelli Ai preso também ele foi estrangulado juntamente com Vitellozzo mestre de suas virtudes e suas perfídias um ano após haver cometido o parricídio Poderia alguém ficar em dúvida sobre a razão por que Agátocles e algum outro a ele semelhante após tantas traições e crueldades puderam viver longamente sem perigo dentro de sua pátria e ainda defenderse dos inimigos externos sem que os seus concidadãos contra eles tivessem conspirado tanto mais notandose que muitos outros não conseguiram manter o Estado mediante a crueldade nos tempos pacíficos e muito menos nos duvidosos tempos de guerra Penso que isto resulte das crueldades serem mal ou bem usadas Bem usadas podese dizer serem aquelas se do mal for lícito falar bem que se fazem instantaneamente pela necessidade do firmarse e depois nelas não se insiste mas sim se as transforma no máximo possível de utilidade para os súditos mal usadas são aquelas que mesmo poucas a princípio com o decorrer do tempo aumentam ao invés de se extinguirem Aqueles que observam o primeiro modo de agir podem remediar sua situação com apoio de Deus e dos homens como ocorreu com Agátocles aos outros tornase impossível a continuidade no poder Por isso é de notarse que ao ocupar um Estado deve o conquistador exercer todas aquelas ofensas que se lhe tornem necessárias fazendoas todas a um tempo só para não precisar renoválas a cada dia e poder assim dar segurança aos homens e conquistálos com benefícios Quem age diversamente ou por timidez ou por mau conselho tem sempre necessidade de conservar a faca na mão não podendo nunca confiar em seus súditos pois que estes nele também não podem ter confiança diante das novas e contínuas injúrias Portanto as ofensas devem ser feitas todas de uma só vez a fim de que pouco degustadas ofendam menos ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos para que sejam melhor apreciados Acima de tudo um príncipe deve viver com seus súditos de modo que nenhum acidente bom ou mau o faça variar porque surgindo pelos tempos adversos a necessidade não estarás em tempo de fazer o mal e o bem que tu fizeres não te será útil eis que julgado forçado não trará gratidão CAPÍTULO IX DO PRINCIPADO CIVIL DE PRINCIPATU CIVILI Mas passando a outra parte quando um cidadão privado não por perfídia ou outra intolerável violência porém com o favor de seus concidadãos tornase príncipe de sua pátria o que se pode chamar principado civil para tal se tornar não é necessária muita virtude ou muita fortuna mas antes uma astúcia afortunada digo que se ascende a esse principado ou com o favor do povo ou com aquele dos grandes Porque em toda cidade se encontram estas duas tendências diversas e isso resulta do fato de que o povo não quer ser mandado nem oprimido pelos poderosos e estes desejam governar e oprimir o povo é destes dois anseios diversos que nasce nas cidades um dos três efeitos ou principado ou liberdade ou desordem O principado é constituído ou pelo povo ou pelos grandes conforme uma ou outra destas partes tenha oportunidade vendo os grandes não lhes ser possível resistir ao povo começam a emprestar prestígio a um dentre eles e o fazem príncipe para poderem sob sua sombra dar expansão ao seu apetite o povo também vendo não poder resistir aos poderosos volta a estima a um cidadão e o faz príncipe para estar defendido com a autoridade do mesmo O que chega ao principado com a ajuda dos grandes se mantém com mais dificuldade daquele que ascende ao posto com o apoio do povo pois se encontra príncipe com muitos ao redor a lhe parecerem seus iguais e por isso não pode nem governar nem manobrar como entender Mas aquele que chega ao principado com o favor popular aí se encontra só e ao seu derredor não tem ninguém ou são pouquíssimos que não estejam preparados para obedecer Além disso sem injúria aos outros não se pode honestamente satisfazer os grandes mas sim podese fazer bem ao povo eis que o objetivo deste é mais honesto daquele dos poderosos querendo estes oprimir enquanto aquele apenas quer não ser oprimido Contra a inimizade do povo um príncipe jamais pode estar garantido por serem muitos dos grandes porém pode se assegurar porque são poucos O pior que pode um príncipe esperar do povo hostil é ser por ele abandonado mas dos poderosos inimigos não só deve temer ser abandonado como também deve recear que os mesmos se lhe voltem contra pois que havendo neles mais visão e maior astúcia contam sempre com tempo para salvarse e procuram adquirir prestígio junto àquele que esperam venha a vencer Ainda o príncipe tem de viver necessariamente sempre com o mesmo povo ao passo que pode bem viver sem aqueles mesmos poderosos uma vez que pode fazer e desfazer a cada dia esse seu poderio dandolhes ou tirando lhes reputação a seu alvedrio E para melhor esclarecer esta parte digo que os grandes devem ser considerados em dois grupos principais ou procedem por forma a se obrigarem totalmente à tua fortuna ou não Os que se obrigam e não são rapaces devem ser considerados e amados Os que não se obrigam devem ser encarados de dois modos se fazem isso por pusilanimidade ou por natural defeito de espírito deverás servirte deles máxime que são bons conselheiros porque na prosperidade isso te honrará e na adversidade não precisarás temêlos Mas quando eles ardilosamente não se obrigam por ambição é sinal que pensam mais em si próprios do que em ti desses deve o príncipe guardarse temendoos como se fossem inimigos declarados porque sempre na adversidade ajudarão a arruinálo Deve pois alguém que se torne príncipe mediante o favor do povo conserválo amigo o que se lhe torna fácil uma vez que não pede ele senão não ser oprimido Mas quem se torne príncipe pelo favor dos grandes contra o povo deve antes de mais nada procurar ganhar este para si o que se lhe torna fácil quando assume a proteção do mesmo E por que os homens quando recebem o bem de quem esperavam somente o mal se obrigam mais ao seu benfeitor tornase o povo desde logo mais seu amigo do que se tivesse sido por ele levado ao principado O príncipe pode ganhar o povo por muitas maneiras que por variarem de acordo com as circunstâncias delas não se pode estabelecer regra certa razão pela qual das mesmas não cogitaremos Concluirei apenas que a um príncipe é necessário ter o povo como amigo pois de outro modo não terá possibilidades na adversidade Nabis príncipe dos espartanos suportou o assédio de toda a Grécia e de um exército romano coberto de vitórias contra eles defendendo sua pátria e seu Estado bastoulhe apenas sobrevindo o perigo garantirse contra poucos o que não seria suficiente se tivesse o povo como inimigo E não surja alguém para refutar esta minha opinião com aquele provérbio bastante conhecido de que quem se apoia no povo firma se na lama porque o mesmo é verdadeiro somente quando um cidadão privado estabelece bases sobre o povo e imagina que o mesmo vá libertálo quando oprimido pelos inimigos ou pelos magistrados neste caso seria possível sentirse freqüentemente enganado como os Gracos em Roma e Messer Giórgio Scali em Florença Mas sendo um príncipe quem se apoie no povo que possa mandar e seja um homem de coragem que não esmoreça nas adversidades não careça de armas e mantenha com seu valor e suas determinações alentado o povo todo jamais se sentirá por ele enganado e constatará ter estabelecido bons fundamentos Amiúde esses principados periclitam quando estão para passar da ordem civil para um governo absoluto porque esses príncipes ou governam por si mesmos ou por intermédio dos magistrados Neste último caso a situação dos mesmos é mais fraca e perigosa porque dependem completamente da vontade dos cidadãos prepostos à magistratura os quais principalmente nos tempos adversos podem tomarlhes o Estado com grande facilidade ou contrariando suas ordens ou não lhes prestando obediência E o príncipe não pode nas ocasiões de perigo assumir em tempo a autoridade absoluta porque os cidadãos e os súditos acostumados a receber as ordens dos magistrados não estão naquelas conjunturas para obedecer às suas determinações havendo sempre ainda nos tempos duvidosos carência de pessoas nas quais ele possa confiar Tal príncipe não pode fundarse naquilo que observa nas épocas de paz quando os cidadãos precisam do Estado porque então todos correm todos prometem e cada um quer morrer por ele enquanto a morte está longe mas na adversidade no momento em que o Estado tem necessidade dos cidadãos então poucos são encontrados E tanto mais é perigosa esta experiência quanto não se a pode fazer senão uma vez Contudo um príncipe hábil deve pensar na maneira pela qual possa fazer com que os seus cidadãos sempre e em qualquer circunstância tenham necessidade do Estado e dele mesmo e estes então sempre lhe serão fiéis CAPÍTULO X COMO SE DEVEM MEDIR AS FORÇAS DE TODOS OS PRINCIPADOS QUOMODO OMNIUM PRINCIPATUUM VIRES PERPENDI DEBEANT Ao examinar as qualidades destes Estados convém fazer uma outra consideração isto é se um príncipe tem Estado tão grande e forte que possa precisando manterse por si mesmo ou então se tem sempre necessidade da defesa de outrem Para esclarecer melhor esta parte digo julgar como podendo manterse por si mesmos aqueles que podem por abundância de homens e de dinheiro organizar um exército à altura do perigo a enfrentar e fazer face a uma batalha contra quem venha assaltálo assim como julgo necessitados da defesa de outrem os que não podem defrontar o inimigo em campo aberto mas são obrigados a refugiarse atrás dos muros da cidade guarnecendoos Quanto ao primeiro caso já foi falado e futuramente diremos o que for necessário relativamente ao segundo não se pode aduzir algo mais do que exortar tais príncipes a fortificarem e a proverem sua cidade não se preocupando com o território que a contorna E quem tiver bem fortificada sua cidade e acerca dos outros assuntos se tenha conduzido para com os súditos como acima foi dito e abaixo se esclarecerá será sempre assaltado com grande temor porque os homens são sempre inimigos dos empreendimentos onde vejam dificuldades e não se pode encontrar facilidade para atacar quem tenha sua cidade forte e não seja odiado pelo povo As cidades da Alemanha gozam de grande liberdade têm pouco território e obedecem ao imperador quando assim querem não temendo nem a este nem a outro poderoso que lhes esteja ao derredor porque são de tal forma fortificadas que todos pensam dever ser enfadonha e difícil sua expugnação Na verdade todas têm fossos e muros adequados possuem artilharia suficiente conservam sempre nos armazéns públicos o necessário para beber comer e arder por um ano além disso para manter a plebe alimentada sem prejuízo do povo têm sempre em comum por um ano meios para lhe dar trabalho naquelas atividades que sejam o nervo e a vida daquelas cidades e das indústrias das quais a plebe se alimente Têm em grande conceito os exercícios militares a respeito dos quais têm muitas leis de regulamentação Um príncipe pois que tenha uma cidade forte e não se faça odiar não pode ser atacado e existindo alguém que o assaltasse retirarseia com vergonha eis que as coisas do mundo são assim tão variadas que é quase impossível alguém pudesse ficar com os exércitos ociosos por um ano a assediálo A quem replicasse que tendo as suas propriedades fora da cidade e vendoas a arder o povo não terá paciência e o longo assédio e a piedade de si mesmo o farão esquecer o príncipe eu responderia que um príncipe poderoso e afoito superará sempre aquelas dificuldades ora dando aos súditos esperança de que o mal não será longo ora incutindo temor da crueldade do inimigo ora assegurandose com destreza daqueles que lhe pareçam muito temerários Além disso é razoável que o inimigo deva queimar o país apenas chegado nos tempos em que o ânimo dos homens está ainda ardente e voluntarioso na defesa por isso o príncipe deve ter pouca dúvida porque depois de alguns dias quando os ânimos estão mais frios os danos já foram causados os males já foram sofridos e não há mais remédio então os súditos vêm se unir ainda mais ao semi príncipe parecendolhes que este lhes deva obrigação uma vez que suas casas foram incendiadas e suas propriedades arruinadas para a defesa do mesmo E a natureza dos homens é aquela de obrigarse tanto pelos benefícios que são feitos como por aqueles que se recebem Donde em se considerando tudo bem não será difícil a um príncipe prudente conservar firmes antes e depois do cerco os ânimos de seus cidadãos desde que não faltem víveres nem meios de defesa CAPÍTULO XI DOS PRINCIPADOS ECLESIÁSTICOS DE PRINCIPATIBUS ECLESIASTICIS Restanos somente agora falar dos principados eclesiásticos nos quais todas as dificuldades existem antes que se os possuam eis que são adquiridos ou pela virtude ou pela fortuna e sem uma e outra se conservam porque são sustentados pelas ordens de há muito estabelecidas na religião estas tornamse tão fortes e de tal natureza que mantêm os seus príncipes sempre no poder seja qual for o modo por que procedam e vivam Só estes possuem Estados e não os defendem súditos e não os governam os Estados por serem indefesos não lhes são tomados os súditos por não serem governados não se preocupam não pensam e nem podem separarse deles Somente estes principados pois são seguros e felizes Mas sendo eles dirigidos por razão superior à qual a mente humana não atinge deixarei de falar a seu respeitomesmo porque sendo engrandecidos e mantidos por Deus seria obra de homem presunçoso e temerário dissertar a seu respeito Contudo se alguém me perguntar donde provém que a Igreja no poder temporal tenha chegado a tanta grandeza pois que antes de Alexandre os potentados italianos e não apenas aqueles que eram ditos potentados mas qualquer barão e senhor mesmo que sem importância pouco valor davam ao poder temporal da Igreja e agora um rei de França treme ela pode expulsálo da Itália e ainda logra arruinar os venezianos apontarei fatos que a despeito de conhecidos não me parece supérfluo reavivar em parte na memória Antes que Carlos rei da França invadisse a Itália esta província encontravase sob o domínio do Papa dos venezianos do rei de Nápoles do duque de Milão e dos florentinos Estes potentados tinham de se haver com dois cuidados principais um que nenhum estrangeiro entrasse na Itália com tropas o outro que nenhum deles ocupasse mais Estado Aqueles dos quais se tinha mais receio eram o Papa e os venezianos Para conter os venezianos tornouse necessária a união de todos os demais como ocorreu na defesa de Ferrara para deter o Papa serviamse dos barões de Roma eis que estando divididos em duas facções Orsíni e Colonna sempre existia motivo de discórdia entre eles e estando de arma em punho sob os olhos do pontífice mantinham o pontificado fraco e inseguro Se bem surgisse vez por outra um Papa animoso como foi Xisto nem a sua fortuna nem o seu saber puderam livrálo desses inconvenientes A brevidade da vida dos pontífices era a causa dessa situação porque nos dez anos que em média vivia um Papa somente com muita dificuldade podia ele enfraquecer uma das facções se por exemplo um deles tivesse quase extinguindo os collonessi surgia um outro inimigo dos Orsíni que os fazia ressurgir sem que tivesse tempo de liquidar os Orsíni Isto tornava o poder temporal do Papa pouco considerado na Itália Surgiu depois Alexandre VI que de todos os pontífices que já existiram foi o que mostrou o quanto um Papa podia com o dinheiro e as tropas para adquirir maior poder e fez com o uso do Duque Valentino como instrumento e com a oportunidade da invasão dos franceses todas aquelas coisas que relatei acima com relação às ações do duque Se bem seu intento não fosse o de tornar grande a Igreja mas sim o duque não obstante tudo o que fez reverteu em favor da grandeza da Igreja a qual após a sua morte extinto o duque se tornou herdeira de sua obra Veio depois o Papa Júlio e encontrou a Igreja grande possuindo toda a Romanha reduzidos à impotência os barões de Roma e pelas perseguições de Alexandre anuladas aquelas facções encontrou ainda o caminho aberto para acumular dinheiro o que jamais havia sido feito antes de Alexandre Júlio não só seguiu tais práticas como as ampliou pensou em conquistar Bolonha extinguir os venezianos e expulsar os franceses da Itália todos esses empreendimentos lhe saíram bem e com tanto maior louvor quanto realizou tudo isso para engrandecer a Igreja e não para favorecer algum cidadão particular Conservou ainda os partidos dos Orsíni e dos Colonna nas mesmas condições em que os encontrara e se bem entre eles houvesse algum chefe capaz de fazer mudar a situação duas coisas os mantiveram quietos uma a grandeza da Igreja que os atemorizava a outra não terem eles cardeais os quais são os causadores dos tumultos entre as facções Nem em tempo algum ficarão quietas essas partes desde que possuam cardeais pois estes sustentam os partidos dentro e fora de Roma e os barões são forçados a defendêlos assim da ambição dos prelados nascem as discórdias e os tumultos entre os barões Sua Santidade o Papa Leão encontrou o pontificado potentíssimo e esperase se aqueles que referimos o fizeram grande pelas armas este o fará ainda maior e mais venerado pela bondade e suas outras infinitas virtudes CAPÍTULO XII DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO AS MILÍCIAS E DOS SOLDADOS MERCENÁRIOS QUOT SINT GENERA MILITIAE ET DE MERCENARIIS MILITIBUS Tendo falado detalhadamente de todas as espécies de principados dos quais já no início me propus comentar e consideradas em alguns pontos as causas do bemestar e do malestar dos mesmos mostrados que foram os modos pelos quais muitos procuraram adquirilos e conserválos restame agora falar de forma genérica dos meios ofensivos e defensivos que em cada um dos citados principados possam ocorrer Dissemos acima como é necessário a um príncipe ter bons fundamentos do contrário necessariamente cairá em ruína Os principais fundamentos que os Estados têm tanto os novos como os velhos ou os mistos são as boas leis e as boas armas E como não pode haver boas leis onde não existam boas armas e onde existam boas armas convém que haja boas leis deixarei de falar das leis e me reportarei apenas às armas Digo pois que as armas com as quais um príncipe defende o seu Estado ou são suas próprias ou são mercenárias ou auxiliares ou mistas As mercenárias e as auxiliares são inúteis e perigosas e se alguém tem o seu Estado apoiado nas tropas mercenárias jamais estará firme e seguro porque elas são desunidas ambiciosas indisciplinadas infiéis galhardas entre os amigos vis entre os inimigos não têm temor a Deus e não têm fé nos homens e tanto se adia a ruína quanto se transfere o assalto na paz se é espoliado por elas na guerra pelos inimigos A razão disto é que elas não têm outro amor nem outra razão que as mantenha em campo a não ser um pouco de soldo o qual não é suficiente para fazer com que queiram morrer por ti Querem muito ser teus soldados enquanto não estás em guerra mas quando esta surge querem fugir ou ir embora Para persuadir de tais coisas não me é necessária muita fadiga eis que a atual ruína da Itália não foi causada por outro fator senão o de ter por espaço de muitos anos repousado sobre as armas mercenárias Elas já fizeram algo em favor de alguns e pareciam galhardas nas lutas entre si mas quando surgiu o estrangeiro mostraramlhe o que eram Por isso foi possível a Carlos rei de França tomar a Itália com o giz e quem disse que a causa disso foram os nossos pecados dizia a verdade se bem que esses pecados não fossem aqueles que ele julgava mas sim esses que eu narrei e como eram pecados de príncipes estes sofreram o castigo Quero demonstrar melhor a infeliz qualidade destas tropas Os capitães mercenários ou são homens excelentes ou não se o forem não podes confiar porque sempre aspirarão à própria grandeza abatendo a ti que és o seu patrão ou oprimindo os outros contra a tua vontade mas se não forem grandes chefes certamente te levarão à ruína E se for respondido que qualquer um que detenha as forças nas mãos fará isso mercenário ou não responderei dizendo como as armas devem ser usadas por um príncipe ou por uma República O príncipe deve ir pessoalmente com as tropas e exercer as atribuições do capitão a República deve mandar seus cidadãos e quando enviar um que não se revele valente deve substituilo quando animoso deve detêlo com as leis para que não avance além do limite Por experiência se vêem príncipes sós e repúblicas armadas fazerem grandes progressos enquanto se vêem tropas mercenárias não causarem mais do que danos Ainda uma República armada de tropas próprias se submete ao domínio de um seu cidadão com muito maior dificuldade do que aquela que esteja protegida por tropas mercenárias ou auxiliares Roma e Esparta foram durante muitos séculos armadas e livres Os suíços são armadíssimos e libérrimos Das armas mercenárias antigas podemos citar como exemplo os cartagineses os quais quase foram oprimidos por seus soldados mercenários ao fim da primeira guerra com os romanos a despeito de terem por chefes os próprios cidadãos de Cartago Felipe da Macedônia foi pelos tebanos feito capitão de sua gente depois da morte de Epaminondas e após a vitória lhes tolheu a liberdade Os milaneses morto o Duque Felipe assalariaram Francisco Sforza para combater os venezianos e o mesmo vencidos os inimigos em Caravaggio a estes se uniu para oprimir os milaneses seus patrões Sforza seu pai estando a serviço da Rainha Joana de Nápoles deixoua repentinamente desarmada por isso ela para não perder o reino foi obrigada a lançarse aos braços do Rei de Aragão E se venezianos e florentinos ao contrário tiveram aumentado o seu domínio com essas tropas e os seus capitães se fizeram príncipes mas os defenderam esclareço que os florentinos neste caso foram favorecidos pela sorte porque dos capitães de valor aos quais podiam temer alguns não venceram ou tiveram de lutar contra antagonistas outros voltaram sua ambição para paragens diversas Quem não venceu foi Giovanni Aucut por isso mesmo não se podendo conhecer de sua fidelidade mas todos estarão concordes que tivesse vencido os florentinos estariam à sua mercê Sforza sempre teve os Braccio contra si vigiandose uns aos outros Francisco voltou sua ambição para a Lombardia Braccio contra a Igreja e o reino de Nápoles Mas vejamos o que ocorreu há pouco tempo Os florentinos fizeram Paulo Vitelli seu capitão homem de muita prudência e que de vida privada havia alcançado mui grande reputação Se ele conquistasse Pisa não haveria quem negasse convir aos florentinos estar sob suas ordens mesmo porque se ele tivesse ficado como soldado de seus inimigos não teriam remédio e tendoo ao seu lado deveriam obedecerlhe Os venezianos se se considerar os seus progressos verseá terem operado segura e gloriosamente enquanto fizeram a guerra sozinhos o que foi antes de voltarem suas vistas para a terra sendo que com o apoio dos gentishomens e com a plebe armada operaram mui galhardamente mas como eles começaram a combater em terra abandonaram essa prudência e seguiram os costumes de guerra da Itália No princípio de sua expansão terrestre por não possuírem muito Estado e por usufruírem alta reputação não precisavam temer muito seus capitães mas quando ampliaram suas conquistas o que ocorreu sob o Carmignola tiveram a prova desse erro Por tanto tendo visto seu valor quando sob seu comando bateram o duque de Milão e sentindo de outra parte quanto ele esfriara no conduzir a guerra julgaram não mais ser possível com ele vencer dada a sua má vontade e não podendo licenciálo para não perder aquilo que tinham adquirido para se garantirem viramse na contingência de matálo Tiveram depois por seus capitães Bartolomeu e Bergamo Roberto de São Severino Conde de Pitigliano e outros parecidos com os quais deviam temer as derrotas e não suas conquistas como ocorreu depois em Vailá onde num dia perderam tudo aquilo que em oitocentos anos com tanta fadiga tinham conquistado Na verdade destas tropas resultam apenas lentas tardias e fracas conquistas mas rápidas e miraculosas perdas E como apresentei estes exemplos da Itália que tem sido por muitos anos dominada por armas mercenárias quero analisar essas tropas por forma mais genérica a fim de que vendo a origem e o desenvolvimento das mesmas se possa melhor corrigir o erro de seu emprego Deveis pois saber como logo que nestes últimos anos o império começou a ser repelido da Itália e o Papa passou a ter reputação no poder temporal a Itália dividiuse em vários Estados Na verdade muitas das maiores cidades tomaram das armas contra seus nobres os quais antes favorecidos pelo imperador as mantinham oprimidas e a Igreja para obter reputação em seu poder temporal as favorecia em tal de muitas outras os seus cidadãos se tornaram príncipes Daí resultar que tendo a Itália quase toda chegado a cair nas mãos da Igreja e de algumas repúblicas não estando aqueles padres e aqueles outros cidadãos habituados ao uso das armas começaram a aliciar mercenários estrangeiros O primeiro que deu fama a essa milícia foi Alberico da Conio natural da Romanha sendo que de sua escola de armas vieram dentre outros Braccio e Sforza nos seus dias os árbitros da Itália Depois destes vieram todos os outros que até nossos tempos têm chefiado essas tropas e o fim do valor das mesmas foi que a Itália viuse percorrida por Carlos saqueada por Luís violentada por Fernando e desonrada pelos suíços A ordem que eles observaram inicialmente foi para dar reputação a si próprios tirar o conceito da infantaria Fizeram isso porque sendo eles sem Estado e vivendo da indústria das armas poucos infantes não lhes dariam fama e sendo muitos não poderiam alimentálos assim limitaramse à cavalaria onde com número suportável as tropas podiam ser nutridas e eles honrados E afinal a situação tornouse tal que em um exército de vinte mil soldados não se encontravam dois mil infantes Tinham além disso usado todos os meios para afastar de si e de seus soldados o cansaço e o medo não se matando nos combates fazendose prisioneiros uns aos outros e libertandose depois sem resgate Não atacavam as cidades muradas e os das cidades não assaltavam os acampamentos não faziam nem estacadas nem fossos não saíam a campo no inverno Todas estas coisas eram permitidas nas suas regras militares por eles encontradas para fugir como foi dito à fadiga e aos perigos foi por isso que arrastaram a Itália à escravidão e à desonra CAPÍTULO XIII DOS SOLDADOS AUXILIARES MISTOS E PRÓPRIOS DE MILITIBUS AUXILIARIIS MIXTIS ET PROPRIIS As tropas auxiliares que são as outras forças inúteis são aquelas que se apresentam quando chamas um poderoso para que com seus exércitos te venha ajudar e defender como fez em tempos recentes o Papa Júlio que tendo visto na campanha de Ferrara a triste figura de suas tropas mercenárias voltouse para as auxiliares e entrou em acordo com Fernando rei da Espanha no sentido de que este com sua gente e armas viesse ajudá lo Estas tropas auxiliares podem ser úteis e boas para si mesmas mas para quem as chame são quase sempre danosas eis que perdendo ficas liquidado vencendo ficas seu prisioneiro E ainda que destes exemplos estejam cheias as antigas histórias não quero abandonar esta recente lição de Júlio II cuja deliberação de entregar se inteiramente às mãos de um estrangeiro por querer Ferrara não podia ter sido mais insensata Mas a boa sorte fez surgir uma terceira circunstância a fim de que não viesse ele a colher o resultado de sua má decisão sendo os seus auxiliares derrotados em Ravenna e surgindo os suíços que contra a expectativa de Júlio e de outros expulsaram os vencedores o Papa não se tornou prisioneiro nem dos vencedores que fugiram nem de suas tropas auxiliares por ter vencido com outras armas que não as delas Os florentinos estando completamente desarmados levaram dez mil franceses a Pisa para atacála resolução essa em razão da qual passaram por maior perigo do que em qualquer tempo de seus próprios trabalhos O imperador de Constantinopla para oporse a seus vizinhos concentrou na Grécia dez mil turcos que terminada a guerra não quiseram abandonar o país o que constitui o início da sujeição da Grécia aos infiéis Assim aquele que queira não poder vencer valhase destas tropas muito mais perigosas do que as mercenárias eis que com estas a ruína é certa dado que são todas unidas todas voltadas à obediência a outrem As mercenárias para te prejudicarem após a vitória contrariamente ao que ocorre com as mistas precisam de mais tempo e maior oportunidade não só por não constituírem um todo como também por terem sido organizadas e pagas por ti ainda um terceiro que nelas tornes chefe não pode desde logo assumir tanta autoridade que te cause dano Enfim enquanto nas tropas mercenárias o mais perigoso é a covardia nas auxiliares é o valor Um príncipe prudente portanto sempre tem fugido a essas tropas para voltarse às suas próprias forças preferindo perder com as suas a vencer com aquelas eis que em verdade não representaria vitória aquela que fosse conquistada com as armas alheias Jamais vacilarei em citar como exemplo César Bórgia e suas ações Este duque entrou na Romanha com tropas auxiliares para aí conduzindo as forças francesas com elas tomando Imola e Forli Mas depois não mais lhe parecendo seguras tais armas voltouse para as mercenárias julgando nelas encontrar menor perigo e tomou a seu serviço os Orsini e os Viteili Posteriormente manejando essas forças e achandoas dúbias infiéis e perigosas extinguiuas e voltouse para as suas próprias tropas Podese ver facilmente a diferença que existe entre umas e outras dessas armas considerando a modificação da reputação do duque entre quando tinha apenas os franceses e depois os Orsíni e Vitelli e quando ele ficou com soldados seus e sob seu próprio comando sempre se a encontrará acrescida e nem foi suficientemente amado senão quando todos viram que ele era o senhor absoluto de suas tropas Eu não queria abandonar os exemplos italianos e mais recentes contudo não desejo esquecer Hierão de Siracusa um dos acima indicados por mim Este como já disse tornado pelos siracusanos chefe dos exércitos logo reconheceu não ser útil a tropa mercenária por serem seus chefes idênticos aos nossos italianos parecendolhe não poder conserválos nem dispensálos fez cortar todos eles em pedaços passando depois a fazer guerra com tropas suas e não com as de outrem Quero ainda trazer à lembrança uma alegoria do Velho Testamento feita a este propósito Oferecendose David a Saul para lutar com Golias provocador filisteu Saul para encorajálo revestiuo com suas próprias armaduras as quais uma vez envergadas por David foram por ele recusadas com elas não poderia bem se valer de si mesmo preferindo enfrentar o inimigo apenas com sua funda e sua faca Enfim as armas de outrem ou te caem de cima ou te pesam ou te constrangem Carlos VII pai de Luís XI tendo com sua fortuna e sua virtude libertado a França dos ingleses conheceu essa necessidade de armarse com forças próprias e organizou em seu reino por forma regular as armas de cavalaria e de infantaria Mais tarde o Rei Luís seu filho extinguiu a infantaria e começou a aliciar os suíços erro esse que seguido de outros tornouse como realmente agora se vê a razão dos perigos daquele reino Na verdade dando reputação aos suíços Luis aviltou todas as suas tropas já que extinguiu as forças de infantaria e subordinou sua cavalaria às milícias de outrem e a esta acostumada a militar com os suíços pareceu não ser possível vencer sem eles Daí decorre que não bastam os franceses contra os suíços e sem os suíços não tentam a luta contra os outros Os exércitos de França pois têm sido mistos parte de mercenários e parte de tropas próprias forças essas que juntas são muitos melhores que as simples auxiliares ou as meramente mercenárias e muito inferiores ao exército próprio Basta o exemplo citado pois o reino de França seria invencível se a organização militar de Carlos tivesse sido desenvolvida ou conservada Mas a pouca prudência dos homens muitas vezes começa uma coisa que lhe parece boa sem se aperceber do veneno que ela encobre como já disse acima a respeito das febres éticas Portanto aquele que num principado não conhece os males logo no início não é verdadeiramente sábio o que é dado a poucos E se se considerar o início da ruína do Império Romano verseá ter ela resultado do simples começo de aliciamento dos godos eis que foi dai que começaram a declinar as forças do Império Romano e todo aquele valor que se lhe tirava era atribuído a eles Concluo pois que sem ter armas próprias nenhum principado está seguro ao contrário fica ele totalmente sujeito à sorte não havendo virtude que o defenda na adversidade Foi sempre opinião e sentença dos homens sábios quod nihíl sit tam infirmum aut instabile quam fama potentiae non sua vi nixa As forças próprias são aquelas que se constituem de súditos de cidadãos ou de criaturas tuas todas as outras são ou mercenárias ou auxiliares O modo de organizar as tropas próprias será fácil de encontrar se se analisar a organização dos quatro por mim mencionados e se se considerar como Felipe pai de Alexandre Magno e muitas repúblicas e principados se armaram e organizaram a essas organizações eu me reporto inteiramente CAPÍTULO XIV O QUE COMPETE A UM PRÍNCIPE ACERCA DA MILÍCIA TROPA QUOD PRINCIPEM DECEAT CIRCA MILITIAM Deve pois um príncipe não ter outro objetivo nem outro pensamento nem tomar qualquer outra coisa por fazer senão a guerra e a sua organização e disciplina pois que é essa a única arte que compete a quem comanda E é ela de tanta virtude que não só mantém aqueles que nasceram príncipes como também muitas vezes faz os homens de condição privada subirem àquele posto ao contrário vêse que quando os príncipes pensam mais nas delicadezas do que nas armas perdem o seu Estado A primeira causa que te faz perder o governo é negligenciar dessa arte enquanto que a razão que te permite conquistálo é o ser professo da mesma Francisco Sforza por estar armado de cidadão privado que era tornou se duque de Milão os filhos para fugir às fadigas das armas de duques passaram a simples cidadãos privados Em verdade entre outros males que te acarreta o estares desarmado ele te torna vil o que constitui uma daquelas infâmias de que o príncipe se deve guardar como abaixo será exposto Realmente entre um príncipe armado e um desarmado não existe proporção alguma e não é razoável que quem esteja armado obedeça com gosto ao que seja desprovido de armas nem que o desarmado se sinta seguro entre servidores armados eis que existindo desdém de parte de um e suspeita do lado do outro não é possível ajam bem estando juntos Ainda um príncipe que não entende de tropas além dos outros prejuízos referidos sofre aquele de não poder ser estimado pelos seus soldados e nem poder neles confiar Deve o príncipe portanto não desviar um momento sequer o seu pensamento do exercício da guerra o que pode fazer por dois modos um com a ação o outro com a mente Quanto à ação além de manter bem organizadas e exercitadas as suas tropas deve estar sempre em caçadas para acostumar o corpo às fadigas e em parte para conhecer a natureza dos lugares e saber como surgem os montes como embocam os vales como se estendem as planícies e aprender a natureza dos rios e dos pântanos pondo muita atenção em tudo isso Esses conhecimentos são úteis por duas razões primeiro aprendese a conhecer o próprio país e podese melhor identificar as defesas que ele oferece depois em decorrência do conhecimento e prática daqueles sítios com facilidade poderá entender qualquer outra região que venha a ter de observar eis que as colinas os vales as planícies os rios e os pântanos que existem por exemplo na Toscana têm certa semelhança com os das outras províncias de forma que do conhecimento do terreno de uma província se pode passar facilmente ao de outras O príncipe que seja falto dessa perícia está desprovido do elemento principal de que necessita um capitão pois ela ensina a encontrar o inimigo estabelecer os acampamentos conduzir os exércitos ordenar as jornadas fazer incursões pelas terras com vantagem sobre o inimigo Filopémenes príncipe dos Aqueus dentre os louvores que lhe foram endereçados pelos escritores mereceu também aquele de que nos tempos de paz em outra coisa não pensava senão em torno de guerra e quando excursionando pelos campos com os amigos freqüentemente parava e com eles argumentava Se os inimigos estivessem sobre aquela colina e nós nos encontrássemos aqui com nosso exército qual de nós teria vantagem Como se poderia atacálos mantendo a formação da tropa Se quiséssemos nos retirar como deveríamos proceder Se eles se retirassem como faríamos para perseguilos E propunha lhes andando todos os casos que possam ocorrer em um exército ouvia a opinião dos mesmos dava a sua corroborandoa com argumentos de maneira tal que em razão dessas contínuas cogitações jamais poderia comandando os exércitos encontrar pela frente algum imprevisto para o qual não tivesse solução Mas quanto ao exercício da mente deve o príncipe ler as histórias e nelas observar as ações dos grandes homens ver como se conduziram nas guerras examinar as causas de suas vitórias e de suas derrotas para poder fugir às responsáveis por estas e imitar as causadoras daquelas deve fazer sobretudo como em tempos idos fizeram alguns grandes homens que imitaram todo aquele que antes deles foi louvado e glorificado e sempre tiveram em si os gestos e as ações do mesmo como se diz que Alexandre Magno imitava a Aquiles César a Alexandre Cipião a Ciro Quem lê a vida de Ciro escrita por Xenofonte percebe depois na vida de Cipião o quanto lhe valeu para a glória aquela imitação bem como o quanto na castidade afabilidade humanidade e liberalidade Cipião se assemelhava àquilo que Xenofonte escreveu de Ciro Um príncipe inteligente deve observar essa semelhança de proceder nunca ficando ocioso nos tempos de paz mas sim com habilidade procurar formar cabedal para poder utilizálo na adversidade a fim de que quando mudar a fortuna se encontre preparado para resistir CAPÍTULO XV DAQUELAS COISAS PELAS QUAIS OS HOMENS E ESPECIALMENTE OS PRÍNCIPES SÃO LOUVADOS OU VITUPERADOS DE HIS REBUS QUIBUS HOMINES ET PRAESERTIM PRINCIPES LAUDANTUR AUT VITUPERANTUR Resta ver agora quais devam ser os modos e o proceder de um príncipe para com os súditos e os amigos e por que sei que muitos já escreveram a respeito duvido não ser considerado presunçoso escrevendo ainda sobre o mesmo assunto máxime quando irei disputar essa matéria à orientação já por outros dada aos príncipes Mas sendo minha intenção escrever algo de útil para quem por tal se interesse pareceume mais conveniente ir em busca da verdade extraída dos fatos e não à imaginação dos mesmos pois muitos conceberam repúblicas e principados jamais vistos ou conhecidos como tendo realmente existido Em verdade há tanta diferença de como se vive e como se deveria viver que aquele que abandone o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação eis que um homem que queira em todas as suas palavras fazer profissão de bondade perderseá em meio a tantos que não são bons Donde é necessário a um príncipe que queira se manter aprender a poder não ser bom e usar ou não da bondade segundo a necessidade Deixando de parte assim os assuntos relativos a um príncipe imaginário e falando daqueles que são verdadeiros digo que todos os homens máxime os príncipes por situados em posição mais preeminente quando analisados se fazem notar por alguns daqueles atributos que lhes acarretam ou reprovação ou louvor Assim é que alguns são havidos como liberais alguns miseráveis usando um termo toscano porque avaro em nossa língua é ainda aquele que deseja possuir por rapina enquanto miserável chamamos aquele que se abstém em excesso de usar o que possui alguns são tidos como pródigos alguns rapaces alguns cruéis alguns piedosos um fedífrago o outro fiel um efeminado e pusilânime o outro feroz e animoso um humano o outro soberbo um lascivo o outro casto um simples o outro astuto um duro o outro fácil um grave o outro leviano um religioso o outro incrédulo e assim por diante Sei que cada um confessará que seria sumamente louvável encontraremse em um príncipe de todos os atributos acima referidos apenas aqueles que são considerados bons mas desde que não os podem possuir nem inteiramente observálos em razão das contingências humanas não o permitirem é necessário seja o príncipe tão prudente que saiba fugir à infâmia daqueles vícios que o fariam perder o poder cuidando evitar até mesmo aqueles que não chegariam a pôr em risco o seu posto mas não podendo evitar é possível tolerálos se bem que com quebra do respeito devido Ainda não evite o príncipe de incorrer na má faina daqueles vícios que sem eles difícil se lhe torne salvar o Estado pois se bem considerado for tudo sempre se encontrará alguma coisa que parecendo virtude praticada acarretará ruína e alguma outra que com aparência de vício seguida dará origem à segurança e ao bemestar CAPÍTULO XVI DA LIBERALIDADE E DA PARCIMÔNIA DE LIBERALITATE ET PARSIMONIA Começando pois com os primeiros dos já referidos atributos digo que seria um bem o ser havido como liberal Contudo a liberalidade usada por forma que se torne conhecida de todos te prejudica porque se usada virtuosamente e como se a deve usar ela não se torna conhecida e não conseguirás tirar de cima de ti a má fama do seu contrário porém querendo manter entre os homens o nome de liberal é preciso não esquecer nenhuma espécie de suntuosidade de forma tal que um príncipe assim procedendo consumirá em ostentação todas as suas finanças e terá necessidade de ao final se quiser manter o conceito de liberal gravar extraordinariamente o povo de impostos ser duro no fisco e fazer tudo aquilo de que possa se utilizar para obter dinheiro Isso começará a tornálo odioso perante o povo e empobrecendoo fáloá pouco estimado de todos de forma que tendo ofendido a muitos e premiado a poucos com essa sua liberalidade sente mais intensamente qualquer revés inicial e periclita face ao primeiro perigo Percebendo isso e querendo recuar o príncipe incorre desde logo na má fama de miserável Um príncipe pois não podendo usar essa qualidade de liberal sem sofrer dano tornandoa conhecida deve ser prudente deve não se preocupar com a pecha de miserável eis que com o decorrer do tempo será considerado sempre mais liberal uma vez vendo o povo que com sua parcimônia a receita lhe basta pode defenderse de quem lhe mova guerra e tem possibilidade de realizar empreendimentos sem gravar o povo assim agindo vem a usar liberalidade para com todos aqueles dos quais nada tira que são numerosos e a empregar miséria para com todos os outros a quem não dá que são poucos Nos nossos tempos não temos visto grandes realizações senão daqueles que foram havidos por miseráveis enquanto vimos os outros serem extintos O Papa Júlio II como utilizou a fama de liberal para atingir ao papado não pensou depois em conservála para poder fazer guerra o atual rei de França fez tantas guerras sem lançar um tributo extraordinário sobre seus súditos somente porque sobrepôs sua parcimônia às despesas supérfluas O presente rei de Espanha se havido como liberal não teria realizado nem vencido em tantos empreendimentos Portanto um príncipe deve gastar pouco para não precisar roubar seus súditos para poder defenderse para não ficar pobre e desprezado para não ser forçado a tornarse rapace não se importando de incorrer na fama de miserável porque esse é um daqueles defeitos que o fazem reinar E se alguém dissesse que César alcançou o Império pela liberalidade sem contar muitos outros que têm sido ou são considerados liberais e atingiram altíssimos postos eu responderia ou tu já és príncipe ou estás em via de o ser No primeiro caso essa liberalidade é prejudicial no segundo é bem necessário ser considerado liberal e César era um daqueles que queriam ascender ao principado de Roma mas se depois que o alcançou tivesse vivido e não tivesse usado comedimento nas despesas teria destruído o Império E se alguém replicasse que houve muitos príncipes tidos como extremamente liberais que realizaram grandes feitos com seus exércitos responderia ou o príncipe gasta do seu ou de seus súditos ou de outrem no primeiro caso deve ser parcimonioso nos outros não deve deixar de praticar nenhuma liberalidade E aquele príncipe que vai com os exércitos que se mantém de rapinagem de saques e de resgates maneja bens de outros tem necessidade dessa liberalidade porque do contrário não será seguido pelos soldados E daquilo que não é teu nem de súditos teus podes ser o mais generoso doador como o foram Ciro César e Alexandre eis que o despender aquilo que é dos outros não te tira reputação ao contrário a aumenta somente o gastar o teu é que te prejudica E não há coisa que tanto se destrua a si mesma como a liberalidade pois enquanto tu a usas perdes a faculdade de utilizála tornandote pobre e desprezado ou para fugir à pobreza rapace e odioso Dentre todas as coisas de que um príncipe se deve guardar está o ser desprezado e odiado e a liberalidade te conduz a uma e a outra dessas coisas Portanto é mais sabedoria ter a fama de miserável que dá origem a uma infâmia sem ódio do que por querer o conceito de liberal verse na necessidade de incorrer no julgamento de rapace que cria uma má fama com ódio CAPÍTULO XVII DA CRUELDADE E DA PIEDADE SE É MELHOR SER AMADO QUE TEMIDO OU ANTES TEMIDO QUE AMADO DE CRUDELITATE ET PIETATE ET AN SIT MELIUS AMARI QUAM TIMERI VEL E CONTRA Reportandome às outras qualidades já referidas digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel não obstante isso deve ter o cuidado de não usar mal essa piedade César Bórgia era considerado cruel entretanto essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha logrando uníla e pôla em paz e em lealdade O que se bem considerado for mostrará ter sido ele muito mais piedoso do que o povo florentino o qual para fugir à pecha de cruel deixou que Pistóia fosse destruída Um príncipe não deve pois temer a má fama de cruel desde que por ela mantenha seus súditos unidos e leais pois que com mui poucos exemplos ele será mais piedoso do que aqueles que por excessiva piedade deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira enquanto aquelas execuções que emanam do príncipe atingem apenas um indivíduo E dentre todos os príncipes é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel visto serem os Estados novos cheios de perigos Diz Virgílio pela boca de Dido Res duraet regni novitas me talia cogunt moliri et late fines custode tueri O príncipe contudo deve ser lento no crer e no agir não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada com prudência e humanidade buscando evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável Nasce daí uma questão se é melhor ser amado que temido ou o contrário A resposta é de que seria necessário ser uma coisa e outra mas como é difícil reunilas em tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado Isso porque dos homens podese dizer geralmente que são ingratos volúveis simuladores tementes do perigo ambiciosos de ganho e enquanto lhes fizeres bem são todos teus oferecemte o próprio sangue os bens a vida os filhos desde que como se disse acima a necessidade esteja longe de ti quando esta se avizinha porém revoltamse E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras encontrandose destituído de outros meios de defesa está perdido as amizades que se adquirem por dinheiro e não pela grandeza e nobreza de alma são compradas mas com elas não se pode contar e no momento oportuno não se torna possível utilizálas E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação que por serem os homens maus é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha mas o temor é mantido pelo receio de castigo que jamais se abandona Deve o príncipe não obstante fazerse temer de forma que se não conquistar o amor fuja ao ódio mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido e o não ser odiado isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mulheres de seus cidadãos e de seus súditos e em se lhe tornando necessário derramar o sangue de alguém façao quando existir conveniente justificativa e causa manifesta Deve sobretudo absterse dos bens alheios posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio Além disso nunca faltam motivos para justificar as expropriações e aquele que começa a viver de rapinagem sempre encontra razões para apossar se dos bens alheios ao passo que as razões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotamse mais depressa Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu comando uma multidão de soldados então é de todo necessário não se importar com a fama de cruel eis que sem ela jamais se conservará exército unido e disposto a alguma empresa Dentre as admiráveis ações de Aníbal mencionase esta tendo um exército imenso constituído de homens de inúmeras raças conduzido a batalhar em terras alheias nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe tanto na má como na boa fortuna Isso não pode resultar de outra coisa senão daquela sua desumana crueldade que aliada às suas infinitas virtudes o tornou sempre venerado e terrível no conceito de seus soldados sem aquela crueldade as virtudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito e todavia escritores nisto pouco ponderados admiram de um lado essa sua atuação e de outro condenam a principal causa da mesma Para prova de que realmente as outras suas virtudes não seriam bastantes podese considerar o caso de Cipião homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos cujos exércitos se revoltaram na Espanha em conseqüência de sua excessiva piedade pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar Tal fato foilhe censurado no Senado por Fábio Máximo o qual chamouo de corruptor da milícia romana Os locrenses tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião não foram por ele vingados nem a insolência daquele legado foi reprimida resultando tudo isso de sua natureza fácil tanto assim que querendo alguém desculpálo perante o Senado disse haver muitos homens que melhor sabiam não errar do que corrigir os erros Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião tivesse ele perseverado no comando mas vivendo sob o governo do Senado esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu como lhe resultou em glória Concluo pois voltando à questão de ser temido e amado que um príncipe sábio amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como deseja deve apoiarse naquilo que é seu e não no que é dos outros deve apenas empenharse em fugir ao ódio como foi dito CAPÍTULO XVIII DE QUE MODO OS PRÍNCIPES DEVEM MANTER A FÉ DA PALAVRA DADA QUOMODO FIDES A PRINCIPIBUS SIT SERVANDA Quando seja louvável em um príncipe o manter a fé da palavra dada e viver com integridade e não com astúcia todos compreendem contudo vê se nos nossos tempos pela experiência alguns príncipes terem realizado grandes coisas a despeito de terem tido em pouca conta a fé da palavra dada sabendo pela astúcia transtornar a inteligência dos homens no final conseguiram superar aqueles que se firmaram sobre a lealdade Deveis saber então que existem dois modos de combater um com as leis o outro com a força O primeiro é próprio do homem o segundo dos animais mas como o primeiro modo muitas vezes não é suficiente convém recorrer ao segundo Portanto a um príncipe tornase necessário saber bem empregar o animal e o homem Esta matéria aliás foi ensinada aos príncipes veladamente pelos antigos escritores os quais descrevem como Aquiles e muitos outros príncipes antigos foram confiados à educação do centauro Quiron Isso não quer dizer outra coisa o ter por preceptor um ser meio animal e meio homem senão que um príncipe precisa saber usar uma e outra dessas naturezas uma sem a outra não é durável Necessitando um príncipe pois saber bem empregar o animal deve deste tomar como modelos a raposa e o leão eis que este não se defende dos laços e aquela não tem defesa contra os lobos É preciso portanto ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos Aqueles que agem apenas como o leão não conhecem a sua arte Logo um senhor prudente não pode nem deve guardar sua palavra quando isso seja prejudicial aos seus interesses e quando desapareceram as causas que o levaram a empenhála Se todos os homens fossem bons este preceito seria mau mas porque são maus e não observariam a sua fé a teu respeito não há razão para que a cumpras para com eles Jamais faltaram a um príncipe razões legítimas para justificar a sua quebra da palavra Disto poderseia dar inúmeros exemplos modernos mostrar quantas pazes e quantas promessas foram tornadas írritas e vãs pela infidelidade dos príncipes e aquele que com mais perfeição soube agir como a raposa saiuse melhor Mas é necessário saber bem disfarçar esta qualidade e ser grande simulador e dissimulador tão simples são os homens e de tal forma cedem às necessidades presentes que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar Não quero deixar de apontar um dos exemplos recentes Alexandre VI jamais fez outra coisa jamais pensou em outra coisa senão enganar os homens sempre encontrando ocasião para assim poder agir Nunca existiu homem que tivesse maior eficácia em asseverar que com maiores juramentos afirmasse uma coisa e que depois menos a observasse não obstante os enganos sempre lhe resultaram segundo o seu desejo pois bem conhecia este lado do mundo A um príncipe portanto não é essencial possuir todas as qualidades acima mencionadas mas é bem necessário parecer possuílas Antes ousarei dizer que possuindoas e usandoas sempre elas são danosas enquanto que aparentando possuílas são úteis por exemplo parecer piedoso fiel humano íntegro religioso e sêlo realmente mas estar com o espírito preparado e disposto de modo que precisando não sêlo possas e saibas tornarte o contrário Devese compreender que um príncipe e em particular um príncipe novo não pode praticar todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons uma vez que freqüentemente é obrigado para manter o Estado a agir contra a fé contra a caridade contra a humanidade contra a religião Porém é preciso que ele tenha um espírito disposto a voltarse segundo os ventos da sorte e as variações dos fatos o determinem e como acima se disse não apartarse do bem podendo mas saber entrar no mal se necessário Um príncipe portanto deve ter muito cuidado em não deixar escapar de sua boca nada que não seja repleto das cinco qualidades acima mencionadas para parecer ao vêlo e ouvilo todo piedade todo fé todo integridade todo humanidade todo religião e nada existe mais necessário de ser aparentado do que esta última qualidade É que os homens em geral julgam mais pelos olhos do que pelas mãos porque a todos cabe ver mas poucos são capazes de sentir Todos vêem o que tu aparentas poucos sentem aquilo que tu és e esses poucos não se atrevem a contrariar a opinião dos muitos que aliás estão protegidos pela majestade do Estado e nas ações de todos os homens em especial dos príncipes onde não existe tribunal a que recorrer o que importa é o sucesso das mesmas Procure pois um príncipe vencer e manter o Estado os meios serão sempre julgados honrosos e por todos louvados porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados e no mundo não existe senão o vulgo os poucos não podem existir quando os muitos têm onde se apoiar Algum príncipe dos tempos atuais que não convém nomear não prega senão a paz e fé mas de uma e outra é ferrenho inimigo uma e outra se ele as tivesse praticado terlheiam por mais de uma vez tolhido a reputação ou o Estado CAPÍTULO XIX DE COMO SE DEVA EVITAR O SER DESPREZADO E ODIADO DE CONTEMPTU ET ODIO FUGIENDO Porque falei das mais importantes das qualidades acima mencionadas desejo discorrer rapidamente sobre as outras sob estas generalidades que o príncipe pense como acima se disse em parte em fugir àquelas circunstâncias que possam tornálo odioso e desprezível sempre que assim proceder terá cumprido o que lhe compete e não encontrará perigo algum nos outros defeitos Odioso o tornará acima de tudo como já disse o ser rapace e usurpador dos bens e das mulheres dos súditos do que se deve abster e desde que não se tirem nem os bens nem a honra à universalidade dos homens estes vivem felizes e somente se terá de combater a ambição de poucos o que se refreia por muitos modos e com facilidade Desprezível o torna ser considerado volúvel leviano efeminado pusilânime irresoluto do que um príncipe deve guardarse como de um escolho empenhandose para que nas suas ações se reconheça grandeza coragem gravidade e fortaleza com relação às ações privadas dos súditos deve querer que a sua sentença seja irrevogável deve manterse em tal conceito que ninguém possa pensar em enganálo ou traílo O príncipe que dá de si esta opinião é assaz reputado e contra quem é reputado só com muita dificuldade se conspira dificilmente é atacado desde que se considere excelente e seja reverenciado pelos seus Na verdade um príncipe deve ter dois temores um de ordem interna de parte de seus súditos o outro de natureza externa de parte dos potentados estrangeiros Destes se defende com boas armas e bons amigos e sempre que tenha boas armas terá bons amigos A situação interna desde que ainda não perturbada por uma conspiração estará segura sempre que esteja estabilizada a externa mesmo quando esta se agite se o príncipe organizou se e viveu como eu já disse desde que não desanime resistirá a qualquer impacto como salientei ter feito o espartano Nábis Mas a respeito dos súditos quando os negócios externos não se agitam devese temer que conspirem secretamente contra o que o príncipe se assegura firmemente fugindo de ser odiado ou desprezado e mantendo o povo com ele satisfeito isto é de necessidade seja conseguido como já acima se falou longamente Um dos mais poderosos remédios de que um príncipe pode dispor contra as conspirações é não ser odiado pela maioria porque sempre quem conjura pensa com a morte do príncipe satisfazer o povo mas quando considera que com isso irá ofendêlo não se anima a tomar semelhante partido mesmo porque as dificuldades com que os conspiradores têm de se defrontar são infinitas Por experiência vêse que muitas foram as conspirações mas poucas tiveram bom fim pois quem conspira não pode ser sozinho nem pode ter por companheiros senão aqueles que acredite estarem descontentes mas logo que tenhas revelado a um descontente a tua intenção lhe dás motivo para ficar contente porque evidentemente ele pode daí esperar todas as vantagens de forma que vendo o ganho certo de um lado sendo o outro dúbio e cheio de perigo é preciso seja ou extraordi 112 nário amigo teu ou implacável inimigo do príncipe para manterte a palavra empenhada Para reduzir o assunto a termos breves digo que do lado do conspirador não existe senão medo ciúme suspeita de castigo que o atordoa mas do lado do príncipe existe a majestade do principado as leis as barreiras dos amigos e do Estado que o defendem consequentemente somada a tais fatores a benevolência popular é impossível exista alguém tão temerário que venha a conspirar Isso porque geralmente onde um conspirador teme antes da execução do mal se tiver o povo por inimigo deve temer ainda mesmo depois de ocorrido o fato não podendo por isso esperar qualquer amparo Deste assunto poderseia citar inúmeros exemplos porém limitome a apenas um conservado pela recordação de nossos pais Tendo sido messer Aníbal Bentivoglio príncipe em Bolonha e avô do atual messer Aníbal morto pelos caneschi que contra ele haviam conspirado não restando de sua família senão messer Giovanni que era ainda criança de colo logo após esse homicídio o povo levantouse e matou todos os canneschi Isso resultou da benquerença popular que a casa de Bentivoglio desfrutava naqueles tempos benquerença essa tão grande que não restando em Bolonha qualquer membro dessa família em condições de poder governar o Estado após a morte de Anibal e constando haver em Florença um descendente dos Bentivoglio que se julgava até então filho de um artífice os bolonheses foram até essa cidade e lhe confiaram o governo daquela comunidade a qual foi por ele dirigida até que messer Giovanni atingisse a idade conveniente para governar Concluo portanto que um príncipe deve dar pouca importância às conspirações se o povo lhe é benévolo mas quando este lhe seja adverso e o tenha em ódio deve temer tudo e a todos Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis têm com toda a diligência procurado não desesperar os grandes e satisfazer o povo conservandoo contente mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de que um príncipe tenha de tratar Entre os reinos bem organizados e governados nos nossos tempos está aquele de França Nele existem inúmeras boas instituições das quais dependem a liberdade e a segu 113 rança do rei a primeira delas é o Parlamento com a sua autoridade Aquele que organizou esse reino conhecendo a ambição dos poderosos e a sua insolência julgando ser necessário pôr um freio para corrigilos e de outra parte por conhecer o ódio da maioria contra os grandes com base no medo desejando protegêla mas não querendo fosse este particular cuidado do rei buscou dele retirar o peso da odiosidade dos grandes em sendo favorecido o povo ou deste ao dever apoiar os grandes por isso constituiu um terceiro juiz que fosse aquele que sem responsabilidade do rei contivesse os grandes e amparasse os pequenos Essa ordem não podia ser melhor nem mais prudente nem se pode negar seja a maior razão da segurança do rei e do reino Daí pode se extrair outra conclusão digna de nota os príncipes devem atribuir a outrem as coisas odiosas reservando para si aquelas de graça Novamente concluo que um príncipe deve estimar os grandes mas não se fazer odiado pelo povo Talvez a muitos pudesse parecer considerando a vida e a morte de alguns imperadores romanos fossem elas exemplos contrários à minha opinião dado que viveram exemplarmente e demonstraram grandes virtudes e sem embargo disso perderam o Império ou mesmo foram mortos pelos seus que contra eles conspiraram Querendo portanto responder a estas objeções falarei das qualidades de alguns imperadores mostrando as causas de sua ruína não discrepantes daquilo que foi por mim aduzido ao mesmo tempo porei em consideração aqueles fatos que são notáveis para quem lê as ações daqueles tempos Considero suficiente citar todos os imperadores que se sucederam no poder desde Marco o filósofo até Maximino os quais foram Marco seu filho Cômodo Pertinax Juliano Severo seu filho Antonino Caracala Macrino Heliogábalo Alexandre e Maximino Devese notar inicialmente que enquanto nos outros principados temse de lutar apenas contra a ambição dos grandes e a insolência do povo os imperadores romanos encontravam uma terceira dificuldade aquela de terem de suportar a crueldade e a ambição dos soldados Esta terceira dificuldade era de tal forma séria que se tornou a causa da ruína de muitos pois é difícil satisfazer ao mesmo tempo os soldados e o povo este amava a paz e por isso estimava os príncipes moderados enquanto que os soldados amavam o príncipe de ânimo militar que fosse insolente cruel e rapace querendo que o mesmo exercesse tais violências contra as populações para poder ter assim duplicado soldo e expansão à sua rapacidade e crueldade Tais fatos fizeram com que aqueles imperadores que por natureza ou por engenho não desfrutavam uma grande reputação de forma a poder manter freados um e outros sempre se arruinassem a maioria deles principalmente aqueles que como homens novos chegavam ao principado conhecida a dificuldade que resultava desses dois sentimentos diversos propendiam para satisfazer aos soldados pouco se preocupando com o fato de por tal forma ofender o povo Esse partido era necessário porque não podendo o príncipe deixar de ser odiado por alguém deve primeiro buscar não ser odiado por qualquer classe social mas quando não pode conseguir isto deve empenharse em por todos os meios evitar o ódio daquelas classes que são mais poderosas Por isso aqueles imperadores que por serem novos tinham necessidade de favores extraordinários aderiam antes aos soldados que ao povo o que não obstante se lhes tornava útil ou não conforme soubessem ou não conservarse reputados entre eles Das razões mencionadas resultou que Marco Pertinax e Alexandre todos eles de vida modesta amantes da justiça inimigos da crueldade humanos e benignos tiveram a partir de Marco triste fim Somente Marco viveu e morreu honradíssimo visto ter sucedido no império jure hereditário não tendo de agradecêlo nem aos soldados nem ao povo depois sendo dotado de muitas virtudes que o faziam venerando teve sempre enquanto viveu uma ordem e outra dentro de seus limites não sendo jamais odiado ou desprezado Mas Pertinax tornado imperador contra a vontade dos soldados que acostumados a viver licenciosamente sob Cômodo não puderam suportar aquela vida honesta a que o imperador queria reduzilos por isso tendo Pertinax criado ódio contra si e a este ódio acrescido o desprezo por ser já velho arruinouse logo no início de sua administração Devese notar aqui que o ódio se adquire tanto pelas boas como pelas más ações como já disse acima querendo um príncipe conservar o Estado freqüentemente é forçado a não ser bom pois quando aquele elemento mais forte povo soldados ou grandes de que julgas necessitar para manterte é corrompido convém que sigas o seu desejo para satisfazêlo então as boas obras tornamse tuas inimigas Mas passemos a Alexandre o qual foi de tanta bondade que entre outros louvores que lhe são endereçados existe este de que em quatorze anos que conservou o poder não foi executada qualquer pessoa sem julgamento contudo sendo considerado efeminado e homem que se deixava governar pela mãe tornouse desprezado o exército conspirou e ele foi morto Falando agora por outro lado das qualidades de Cômodo Severo Antonino Caracala e Maximino os achareis extremamente cruéis e rapaces para satisfazer os soldados não pouparam nenhuma espécie de injúria que pudesse ser cometida contra o povo todos exceto Severo tiveram triste fim É que Severo possuiu tanto valor que conservando os soldados como seus amigos ainda que o povo fosse por ele oprimido pode sempre reinar com felicidade pois aquelas suas virtudes o tornavam tão admirável no conceito dos soldados e do povo que este ficava por assim dizer atônito e aturdido e aqueles reverentes e satisfeitos E porque as ações do mesmo foram grandes e notáveis num príncipe novo desejo mostrar de forma breve quão bem soube usar a ação da raposa e do leão naturezas essas que disse acima devem ser imitadas pelos príncipes Tendo Severo conhecido a ignávia do Imperador Juliano persuadiu seu exército do qual era capitão na Stiavônia de que era conveniente ir a Roma para vingar a morte de Pertinax assassinado pelos soldados pretorianos sob este pretexto sem demonstrar aspirar o Império conduziu o exército contra Roma chegando à Itália antes que fosse conhecida sua partida Estando em Roma o Senado por temor elegeuo imperador sendo morto Juliano A seguir restavam a Severo duas dificuldades para se assenhorear de todo o Estado uma na Ásia onde Pescênio Nigro chefe dos exércitos asiáticos se fizera aclamar imperador a outra no Poente onde estava Albino que por sua vez também aspirava ao Império Porque julgasse perigoso revelarse inimigo de ambos deliberou atacar Nigro e enganar Albino a quem escreveu que tendo sido pelo Senado eleito imperador desejava com ele compartilhar aquela dignidade envioulhe o título de César e por deliberação do Senado tornouo seu colega Albino aceitou tais coisas como verdadeiras mas depois que venceu e matou Nigro pacificados os negócios orientais e retornado a Roma Severo queixouse ao Senado de que Albino pouco reconhecido dos benefícios dele recebidos tinha dolosamente procurado matálo razão pela qual via necessidade de ir punir sua ingratidão Depois foi ao seu encontro na França e lhe tolheu o governo e a vida Quem examinar portanto minuciosamente as ações deste homem achálo á um ferocíssimo leão e uma astuciosíssima raposa veloá temido e reverenciado por todos e não odiado pelos exércitos não se admirando que ele homem novo tenha podido deter tanto poder a sua alta reputação o defendeu sempre daquele ódio que pelas suas rapinagens o povo contra ele poderia ter concebido Mas Antonino seu filho foi também ele homem que possuía excelentes qualidades que o faziam maravilhoso no conceito do povo e querido pelos soldados era um militar que suportava muito bem quaisquer fadigas desprezava os alimentos delicados e abominava toda e qualquer frouxidão o que o tornava amado por todos os exércitos Contudo sua ferocidade e crueldade foi tanta e tão inaudita tendo mesmo depois de inúmeros assassínios privados morto grande parte da população de Roma e toda aquela de Alexandria que tornouse extremamente odioso para todo o mundo começou a ser temido também por aqueles que o rodeavam de forma que foi morto por um centurião em meio ao seu exército A propósito do referido é de notarse que tais assassinatos decorrentes da deliberação de um espírito obstinado são impossíveis de evitar por parte dos príncipes porque todo aquele que não tema morrer pode golpeálos Todavia o príncipe pouco deve temer porque tais mortes são raras Deve apenas cuidar de não fazer grave injúria a algum daqueles de que se serve e que tem ao seu derredor no serviço do principado como fez Antonino que havia morto vilmente um irmão daquele centurião e ainda ameaçava este diariamente enquanto o conservava na sua própria guarda era resolução temerária e capaz de destruílo como aconteceu Passemos a Cômodo para quem era de grande facilidade manter o Império por possuílo iure hereditario uma vez que era filho de Marco bastavalhe seguir as pegadas do pai e teria satisfeito os soldados e o povo Mas sendo de espírito cruel e bestial para poder usar sua rapacidade contra o povo passou a cativar os exércitos e tornálos licenciosos por outro lado não mantendo a sua dignidade descendo freqüentemente às arenas para combater com os gladiadores fazendo outras coisas extremamente vis e pouco dignas da majestade imperial tornouse desprezível no conceito dos soldados E sendo odiado por uns e desprezado por outros conspiraram contra ele e foi morto Restanos narrar as qualidades de Maximino Este foi homem belicosíssimo e estando os exércitos enfastiados da moleza de Alexandre de quem falei acima morto este elegeramno para o governo Maximino não possuiu o poder por muito tempo pois duas coisas tornaramno odiado e desprezado uma o ser de condição extremamente vil pois já apascentara ovelhas na Trácia fato por todos bastante conhecido e que lhe causava grande depreciação no conceito geral a outra porque tendo no início de seu principado retardado em ir a Roma e tomar posse do trono imperial dera de si impressão de extremamente cruel eis que por intermédio de seus prefeitos em Roma e em muitos pontos do Império praticara numerosas crueldades De modo que agitado todo o mundo pelo desprezo à vileza de seu sangue e tomado de ódio pelo medo à sua ferocidade rebelouse primeiro a África depois o Senado com todo o povo de Roma toda a Itália contra ele conspirou A esse movimento juntouse seu próprio exército que fazendo campanha em Aquiléia e encontrando dificuldade no assédio aborrecido de sua crueldade temendo menos por vêlo com tantos inimigos matouo Não quero falar nem de Heliogábalo nem de Macrino nem de Juliano os quais por serem inteiramente desprezíveis se extinguiram logo passarei pois à conclusão deste assunto Assim digo que os príncipes de nossos tempos têm a menos nos seus governos esta dificuldade de satisfazer extraordinariamente aos soldados eis que não obstante se deva ter para com os mesmos alguma consideração isso se resolve logo pois nenhum destes príncipes tem um exército que seja inveterado com os governos e administrações das províncias como eram os exércitos do Império Romano Porém se então era necessário mais aos soldados do que ao povo isso decorria de que os soldados podiam mais que aquele agora é necessário a todos os príncipes exceto ao Turco e ao Sultão satisfazer mais ao povo que aos militares porque aquele pode mais que estes Faço exceção do Turco em razão de ter ele sempre em torno de si doze mil infantes e quinze mil soldados de cavalaria dos quais dependem a segurança e o poderio do seu reino e é necessário que postergada qualquer outra consideração esse senhor os conserve amigos E deveis notar que este Estado do Sultão é diverso de todos os outros principados ele é semelhante ao pontificado cristão a que não se pode chamar nem principado hereditário nem principado novo posto que não são filhos do príncipe velho que herdam e se tornam senhores mas sim aquele eleito para o posto pelos que têm autoridade E sendo esta uma instituição antiga não se pode chamar de principado novo dado que nela não existem algumas das dificuldades que se encontram nos novos se bem o príncipe seja novo as instituições desse Estado são velhas e ordenadas a recebêlo como se fosse seu senhor hereditário Retornemos porém ao nosso assunto Digo que todo aquele que considere o acima exposto verá o ódio ou o desprezo ter sido a causa da ruína dos imperadores citados e saberá ainda porque procedendo uma parte deles de um modo e a outra parte por forma contrária em qualquer um desses modos de agir alguns deles tiveram fim feliz enquanto os outros terminaram infelizes A Pertinax e Alexandre por serem príncipes novos foi inútil e prejudicial querer imitar Marco que se encontrava no principado iure hereditario igualmente a Caracala Cômodo e Maximino foi pernicioso o imitar Severo por não possuírem tanta virtude que fosse bastante para que pudessem seguir suas pegadas Portanto um príncipe novo num principado novo não pode imitar as ações de Marco e tampouco é necessário seguir as de Severo deve tomar de Severo aquelas qualidades que forem necessárias para fundar seu Estado e de Marco aquelas que forem convenientes e gloriosas para conservar um governo já estabelecido e firme CAPÍTULO XX SE AS FORTALEZAS E MUITAS OUTRAS COISAS QUE A CADA DIA SÃO FEITAS PELOS PRÍNCIPES SÃO ÚTEIS OU NÃO AN ARCES ET MULTA ALIA QUAE COTIDIE A PRINCIPIBUS FIUNT UTILIA AN INUTILIA SINT Para conservar seguramente o Estado alguns príncipes desarmaram os seus súditos outros mantiveram divididas as terras submetidas alguns nutriram inimizades contra si mesmos outros dedicaramse a conquistar o apoio daqueles que lhes eram suspeitos no início de seu governo alguns construíram fortalezas outros as arruinaram e destruíram E se bem não seja possível estabelecer determinado juízo sobre todas essas coisas sem entrar nas particularidades de cada um dos Estados onde devesse ser tomada alguma dessas deliberações falarei de maneira genérica compatível com o assunto Jamais existiu um príncipe novo que desarmasse os seus súditos mas antes sempre que os encontrou desarmados armouos isto porque armandoos essas armas passam a ser tuas tornam fiéis aqueles que te são suspeitos os que eram fiéis assim se conservam e de súditos tornamse teus partidários E porque não se pode armar todos os súditos beneficiados aqueles que armas com os outros podes tratar mais seguramente essa diversidade de tratamento que reconhecem em seu favor os torna obrigados para contigo e os outros desculparteão julgando ser necessário tenham aqueles mais recompensas por estarem sujeitos a maiores perigos e maiores obrigações Mas quando os desarmas começas a ofendêlos mostras deles duvidar ou por vileza ou por desconfiança uma ou outra destas opiniões concebe ódio contra ti E por não poderes ficar desarmado tornase necessário que te voltes à milícia mercenária que é daquela qualidade que já foi dita e quando fosse boa não poderia sêlo por forma a defenderte dos inimigos poderosos e dos súditos suspeitos Porém como disse um príncipe novo num principado também novo sempre organizou as forças armadas e destes exemplos a história está repleta Mas quando um príncipe conquista um novo Estado que como membro se agrega ao antigo então é necessário desarmar o conquistado salvo aqueles que nele foram teus partidários na conquista estes mesmos com o tempo e a oportunidade devem ser tornados amolecidos e efeminados procedendose de modo que as armas fiquem somente em poder de teus próprios soldados daqueles que no Estado antigo estavam junto de ti Os nossos antepassados e aqueles que eram considerados entendidos costumavam dizer que Pistóia precisava ser mantida pela divisão do povo e Pisa pelas fortalezas e por isso mesmo em algumas regiões por eles conquistadas mantinham as discórdias entre os partidos para dominá las mais facilmente Isto naqueles tempos em que a Itália apresentava certo equilíbrio devia ser útil Mas não creio se possa admitir tal como preceito hodierno eis que não acredito pudessem as divisões alguma vez acarretar qualquer benefício ao contrário quando o inimigo se avizinha as cidades divididas necessariamente perdemse logo eis que sempre a parte mais fraca aderirá às forças externas e a outra não poderá resistir Os venezianos levados pelas razões acima mencionadas segundo acredito incentivavam as facções guelfas e gibelinas nas cidades a eles submetidas e se bem nunca as deixassem chegar à luta alimentavam entre elas essas divergências para que ocupados os cidadãos naquelas suas diferenças não se unissem contra eles Isso como se viu não lhes aproveitou porque derrotados em Vailá logo algumas daquelas cidades passaram a se insurgir e lhes tomaram todo o Estado Tais atitudes revelam fraqueza do príncipe eis que em um principado poderoso jamais serão permitidas semelhantes divisões úteis somente em tempo de paz eis que por elas podese mais facilmente manejar os súditos mas sobrevindo a guerra tal sistema demonstra sua falácia Sem dúvida alguma os príncipes se tornam grandes quando superam as dificuldades e as oposições que lhes são antepostas porém a fortuna principalmente quando quer tornar grande um príncipe novo que tem mais necessidade de adquirir reputação do que um hereditário o faz nascer dos inimigos e determina que lhe sejam opostos embaraços a fim de que ele tenha oportunidade de superálos e assim possa subir mais alto pela escada que os inimigos lhe oferecem Por isso muitos pensam que um príncipe hábil deve quando tenha ocasião incentivar com astúcia alguma inimizade para eliminada esta continuar a ascensão de sua grandeza Os príncipes particularmente aqueles que são novos têm encontrado mais lealdade e maior utilidade nos homens que no início de seu governo foram considerados suspeitos do que nos que inicialmente eram seus confidentes Pandolfo Petrucci príncipe de Siena dirigia o seu Estado mais com aqueles que lhe foram suspeitos do que com os que não o foram Mas deste assunto não é possível falar em caráter genérico pois o mesmo varia segundo cada caso Somente direi isto os homens que no início de um principado haviam sido inimigos sendo de condição que para manterse precisam de apoio o príncipe poderá sempre com grande facilidade vir a conquistálos e eles tanto mais são forçados a servilo com lealdade quanto reconheçam ser lhes necessário cancelar com obras aquela má opinião que a seu respeito se fazia Assim o príncipe deles obtém sempre maior utilidade do que daqueles que servindoo com excessiva segurança descuram de seus interesses Já que o assunto torna oportuno não quero deixar de recordar aos príncipes que tomaram um Estado novo pelo favor de alguns dos habitantes do mesmo deverem considerar bem qual a razão que determinou assim agissem os que o favoreceram se a mesma não é afeição natural em relação a eles mas sim se o apoio decorreu do fato dos mesmos não estarem satisfeitos com o Estado anterior só com fadiga e grande dificuldade se poderá conserválos amigos dado que é quase impossível possam vir a ser contentados E considerando bem os exemplos que se extraem das coisas antigas e modernas em razão disso verse á ser muito mais fácil ao príncipe tornar amigos aqueles homens que se contentavam com o regime antigo e portanto eram seus inimigos que aqueles que por descontentes fizeramse seus amigos e o favoreceram na conquista Tem sido costume dos príncipes para poder manter seu Estado mais seguramente edificar fortalezas que sejam a brida e o freio postos aos que desejassem enfrentálos bem como um refúgio seguro contra um ataque de surpresa Eu louvo esse proceder porque usado desde tempos remotos não obstante messer Nicoló Vitelli nos tempos atuais destruiu duas fortalezas na Cidade de Castelo para assim conservar o Estado Guido Ubaldo Duque de Urbino tendo retornado ao seu domínio de que havia sido expulso por César Bórgia destruiu desde os alicerces todas as fortalezas daquela província por entender que sem aquelas seria mais difícil perder novamente seu Estado Os Bentivoglio retornados a Bolonha usaram igual expediente Portanto as fortalezas são úteis ou não segundo os tempos se te fazem bem por um lado prejudicamte por outro Podese explicar esta afirmativa pela forma a seguir exposta O príncipe que tiver mais temor de seu povo do que dos estrangeiros deve construir as fortalezas mas aquele que sentir mais medo dos estrangeiros que de seu povo deve abandonálas O castelo de Milão edificado por Francisco Sforza fez e fará mais guerra à casa dos Sforza do que qualquer outra desordem naquele Estado Por isso a melhor fortaleza que possa existir é o não ser odiado pelo povo mesmo que tenham fortificações elas de nada valem se o povo te odeia eis que a este quando tome das armas nunca faltam estrangeiros que o socorram Nos nossos tempos vêse que as fortalezas não têm sido proveitosas a príncipe algum senão à Condessa de Forli quando foi morto o Conde Girolamo seu esposo eis que a mesma refugiandose numa fortificação pode fugir ao ímpeto popular esperar pelo socorro de Milão e recuperar o Estado ademais as circunstâncias eram tais que o estrangeiro não podia socorrer o povo Depois também para ela pouco valeram as fortalezas quando César Bórgia a atacou e o povo seu inimigo aliouse ao estrangeiro Portanto teria sido mais seguro para ela quer então quer antes não ser odiada pelo povo do que possuir fortalezas Consideradas assim todas estas questões louvarei tanto os que fizerem como os que não fizerem as fortalezas e censurarei aquele que fiandose nas fortificações venha a subestimar o fato de ser odiado pelo povo CAPÍTULO XXI O QUE CONVÉM A UM PRÍNCIPE PARA SER ESTIMADO QUOD PRINCIPEM DECEAT UT EGREGIUS HABEATUR Nada faz estimar tanto um príncipe como as grandes empresas e o dar de si raros exemplos Temos nos nossos tempos Fernando de Aragão atual rei de Espanha A este podese chamar quase príncipe novo porque de um rei fraco tornouse por fama e por glória o primeiro rei dos cristãos e se considerardes suas ações as achareis todas grandiosas e algumas mesmo extraordinárias No começo de seu reinado assaltou Granada e esse empreendimento foi o fundamento de seu Estado Primeiro ele o fez isoladamente sem luta com outros Estados e sem receio de ser impedido de tal manteve ocupadas nesse empreendimento as atenções dos barões de Castela que pensando na guerra não cogitavam de inovações e ele por esse meio adquiria reputação e autoridade sobre os mesmos sem que de tal se apercebessem Pode manter exércitos com dinheiro da Igreja e do povo e com tão longa campanha estabeleceu a organização de sua milícia que depois tanto o honrou Além disto para poder encetar maiores empreendimentos servindose sempre da religião dedicouse a uma piedosa crueldade expulsando e livrando seu reino dos marranos ação de que não pode haver exemplo mais miserável nem mais raro Sob essa mesma capa atacou a África fez a campanha da Itália e ultimamente assaltou a França assim sempre fez e urdiu grandes empreendimentos os quais em todo o tempo mantiveram suspensos e admirados os ânimos dos súditos ocupados em esperar o êxito dessas guerras Essas suas ações nasceram umas das outras pelo que entre elas não houve tempo para que os homens pudessem agir contra ele Muito apraz a um príncipe dar de si exemplos raros na forma de comportarse com os súditos semelhantes àqueles que são narrados de messer Barnabò de Milão quando surge a oportunidade de alguém ter realizado alguma coisa extraordinária de bem ou de mal na vida civil obtendo meio de premiálo ou punilo por forma que seja bastante comentada Acima de tudo um príncipe deve empenharse em dar de si com cada ação conceito de grande homem e de inteligência extraordinária Um príncipe é estimado ainda quando verdadeiro amigo e vero inimigo isto é quando sem qualquer consideração se revela em favor de um contra outro Esta atitude é sempre mais útil do que ficar neutro eis que se dois poderosos vizinhos teus entrarem em luta ou são de qualidade que vencendo um deles tenhas a temer o vencedor ou não Em qualquer um destes dois casos será sempre mais útil o definirte e fazer guerra digna porque no primeiro caso se não te definires serás sempre presa do que vencer com prazer e satisfação do que foi vencido e não terás razão ou coisa alguma que te defenda nem quem te receba O vencedor não quer amigos suspeitos ou que não o ajudem nas adversidades quem perde não te recebe por não teres querido correr a sua sorte de armas em punho Antíoco invadiu a Grécia a chamado dos etólios para expulsar os romanos Enviou embaixadores aos aqueus amigos dos romanos para concitálos a ficarem neutros enquanto os romanos os persuadiam a tomar armas ao seu lado Esta matéria veio à deliberação do congresso dos aqueus onde o legado de Antíoco os induzia à neutralidade a isto o representante romano respondeu Quod autem isti dicunt non interponendi vos bello nihil magis alienum rebus vestris est sine gratia sine dignitate praemium victoris eritis Sempre acontecerá que aquele que não é amigo procurará tua neutralidade e aquele que é amigo pedirá que te definas com as armas Os príncipes irresolutos para fugir aos perigos presentes seguem na maioria das vezes o caminho da neutralidade e geralmente caem em ruína Mas quando o príncipe se define galhardamente em favor de uma das partes se aquele a quem aderes vence mesmo que seja tão poderoso que venhas a ficar á sua discrição ele tem obrigação para contigo e está ligado a ti pela amizade e os homens nunca são tão desonestos que com tamanha prova de ingratidão possas vir a ser oprimido Além disso as vitórias nunca são tão brilhantes que o vencedor não deva ter qualquer consideração principalmente para com o que é justo Mas se aquele a quem aderes perder serás amparado por ele e enquanto puder ajudarteá e ficarás associado a uma fortuna que poderá ressurgir No segundo caso quando aqueles que lutam são de classe que não devas temer o vencedor ainda maior prudência é aderir pois causas a ruína de um com a ajuda de quem deveria salválo se fosse sábio vencendo fica à tua mercê e é impossível não vença com o teu auxílio Notese aqui que um príncipe deve ter a cautela de jamais fazer aliança com um mais poderoso que ele para atacar os outros senão quando a necessidade o compelir como se disse acima porque vencendo tornase seu prisioneiro e os príncipes devem fugir o quanto possam de ficar à discrição dos outros Os venezianos aliaramse à França contra o duque de Milão podendo ter evitado essa aliança de que resultou a sua ruína Mas quando não se pode evitála como aconteceu aos florentinos quando o Papa e a Espanha levaram seus exércitos a atacar a Lombardia então deverá o príncipe aderir pelas razões acima expostas Nem julgue algum Estado poder adotar sempre partidos seguros devendo antes pensar ser obrigado a tomar freqüentemente partidos duvidosos vêse na ordem das coisas que nunca se procura fugir a um inconveniente sem incorrer em outro e a prudência consiste em saber conhecer a natureza desses inconvenientes e tomar como bom o menos prejudicial Deve ainda um príncipe mostrarse amante das virtudes dando oportunidade aos homens virtuosos e honrando os melhores numa arte Ao mesmo tempo deve animar os seus cidadãos a exercer pacificamente as suas atividades no comércio na agricultura e em qualquer outra ocupação de forma que o agricultor não tema ornar as suas propriedades por receio de que as mesmas lhe sejam tomadas enquanto o comerciante não deixe de exercer o seu comércio por medo das taxas deve além disso instituir prêmios para os que quiserem realizar tais coisas e os que pensarem em por qualquer forma engrandecer a sua cidade ou o seu Estado Ademais deve nas épocas convenientes do ano distrair o povo com festas e espetáculos E porque toda cidade está dividida em corporações de artes ou grupos sociais deve cuidar dessas corporações e desses grupos reunirse com eles algumas vezes dar de si prova de humanidade e munificência mantendo sempre firme não obstante a majestade de sua dignidade eis que esta não deve faltar em coisa alguma CAPÍTULO XXII DOS SECRETÁRIOS QUE OS PRÍNCIPES TÊM JUNTO DE SI DE HIS QUOS A SECRETIS PRINCIPES HABENT Não é de pouca importância para um príncipe a escolha dos ministros os quais são bons ou não segundo a prudência daquele E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor resulta da observação dos homens que o cercam quando são capazes e fiéis sempre se pode reputálo sábio porque soube reconhecêlos competentes e conserválos Mas quando não são assim sempre se pode fazer mau juízo do príncipe porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha Não houve ninguém que conhecendo messer Antônio de Venafro como ministro de Pandolfo Petruci príncipe de Siena deixasse de julgar este senhor como extremamente valoroso pelo fato de ter aquele por ministro E porque são de três espécies as inteligências uma que entende as coisas por si a outra que discerne o que os outros entendem e a terceira que não entende nem por si nem por intermédio dos outros a primeira excelente a segunda muito boa e a terceira inútil estavam todos acordes que se Pandolfo não se classificava no primeiro grau estava necessariamente no segundo porque toda vez que alguém tem a capacidade de conhecer o bem e o mal que uma pessoa faça ou diga mesmo que por si não tenha capacidade para solucionar os problemas discerne as más e as boas obras do ministro exalta estas e corrige aquelas e o ministro não pode esperar enganálo pelo que se conserva bom Mas para que um príncipe possa conhecer o ministro existe um método que não falha Quando vires o ministro pensar mais em si do que em ti e que em todas as ações procura o seu interesse próprio podes concluir que este jamais será um bom ministro e nele nunca poderás confiar aquele que tem o Estado de outrem em suas mãos não deve pensar nunca em si mas sim e sempre no príncipe não lhe recordando nunca coisa que não seja da sua competência Por outro lado o príncipe para conservá lo bom ministro deve pensar nele honrandoo fazendoo rico obrigando selhe fazendoo participar das honrarias e cargos a fim de que veja que não pode ficar sem sua proteção e que as muitas honras não o façam desejar mais honras as muitas riquezas não o façam desejar maiores riquezas e os muitos cargos o façam temer as mudanças Quando pois os ministros e os príncipes com relação àqueles estão assim preparados podem confiar um no outro quando não for assim o fim será sempre danoso ou para um ou para o outro CAPÍTULO XXIII COMO SE AFASTAM OS ADULADORES QUOMODO ADULATORES SINT FUGIENDI Não quero deixar de tratar de um ponto importante de um erro do qual os príncipes só com muita dificuldade se defendem se não são de extrema prudência ou se não fazem boa escolha Refirome aos aduladores dos quais as cortes estão repletas dado que os homens se comprazem tanto nas suas coisas próprias e de tal modo se iludem que com dificuldade se defendem desta peste e querendo defenderse há o perigo de tornarse menosprezado Não há outro meio de guardarse da adulação a não ser fazendo com que os homens entendam que não te ofendem dizendo a verdade mas quando todos podem dizerte a verdade passam a faltarte com a reverência Portanto um príncipe prudente deve proceder por uma terceira maneira escolhendo em seu Estado homens sábios e somente a eles deve dar a liberdade de falarlhe a verdade daquilo que ele pergunte e nada mais Deve consultálos sobre todos os assuntos e ouvir as suas opiniões depois de liberar por si a seu modo e com estes conselhos e com cada um deles portarse de forma que todos compreendam que quanto mais livremente falarem tanto mais facilmente serão aceitas suas opiniões Fora aqueles não querer ouvir ninguém seguir a deliberação adotada e ser obstinado nas suas decisões Quem procede por outra forma ou é precipitado pelos aduladores ou muda freqüentemente de opinião pela variedade dos pareceres daí resulta a sua desestima Quero a este propósito aduzir um exemplo atual Pe Lucas homem do atual Imperador Maximiliano falando de Sua Majestade disse que ele não se aconselhava com ninguém e não fazia nada a seu modo isso resultava de ter costume contrário ao acima exposto Porque o Imperador é homem discreto não comunica a ninguém os seus desígnios não pede parecer mas como ao serem postos em prática começam a ser conhecidos e descobertos começam a ser contrariados por aqueles que o cercam e ele como é homem de opinião fraca os desfaz Dai resulta que as coisas que faz num dia são destruídas no outro e que não se entenda nunca o que ele quer ou o que deseja fazer não podendo pessoa alguma basearse em suas deliberações Um príncipe portanto deve aconselharse sempre mas quando ele queira e não quando os outros desejem antes deve tolher a todos o desejo de aconselharlhe alguma coisa sem que ele venha a pedir Mas deve ser grande perguntador e depois acerca das coisas perguntadas paciente ouvinte da verdade antes notando que alguém por algum respeito não lhe diga a verdade deve mostrar aborrecimento Há muitos que entendem que o príncipe que dá de si opinião de prudente seja assim considerado não pela sua natureza mas pelos bons conselhos que o rodeiam porém sem dúvida alguma estão enganados eis que esta é uma regra geral que nunca falha um príncipe que não seja sábio por si mesmo não pode ser bem aconselhado a menos que por acaso confiasse em um só que de todo o governasse e fosse homem de extrema prudência Este caso poderia bem acontecer mas duraria pouco porque aquele que efetivamente governasse em pouco tempo lhe tomaria o Estado mas aconselhandose com mais de um um príncipe que não seja sábio não terá nunca os conselhos uniformes e não saberá por si mesmo harmonizálos Cada conselheiro pensará por si e ele não saberá corrigilos nem inteirarse do assunto E não é possível encontrar conselheiros diferentes porque os homens sempre serão maus se por uma necessidade não forem tornados bons Consequentemente se conclui que os bons conselhos venham de onde vierem devem nascer da prudência do príncipe e não a prudência do príncipe resultar dos bons conselhos CAPÍTULO XXIV POR QUE OS PRÍNCIPES DA ITÁLIA PERDERAM SEUS ESTADOS CUR ITALIAE PRINCIPES REGNUM AMISERUNT As coisas já referidas observadas prudentemente fazem um príncipe novo parecer antigo e logo o tornam mais seguro e mais firme no Estado do que se aí fosse um príncipe antigo Porque um príncipe novo é muito mais observado nas suas ações do que um hereditário e quando estas são reconhecidas como virtuosas atraem mais fortemente os homens e os ligam a si muito mais que a tradição do sangue Porque os homens são levados muito mais pelas coisas presentes do que pelas passadas e quando nas presentes encontram o bem ficam satisfeitos e nada mais procuram Antes assumirão toda sua defesa desde que não falte à palavra nas outras coisas Assim terá a dupla glória de ter dado início a um principado novo e de têlo ornado e fortalecido com boas leis boas armas e bons exemplos por outro lado aquele que tendo nascido príncipe veio a perder o Estado por sua pouca prudência terá duplicada a sua vergonha E se se consideraram aqueles senhores que na Itália perderam seus Estados nos nossos tempos como o rei de Nápoles o duque de Milão e outros acharseá neles primeiro um defeito comum quanto às armas pelas razões que já foram expostas depois verseá que alguns deles ou tiveram a inimizade do povo ou tendo o povo por amigo não souberam garantirse contra os grandes eis que sem estes defeitos não se perdem os Estados que tenham tanta força que possam levar a campo um exército Felipe da Macedônia não o pai de Alexandre mas o que foi vencido por Tito Quinto tinha um Estado não muito extenso em comparação com a grandeza dos romanos e da Grécia que o assaltaram não obstante por ser homem de espírito militar que sabia ter o povo como amigo e garantirse contra os grandes sustentou por muitos anos a guerra contra aqueles e se afinal perdeu o domínio de algumas cidades restoulhe todavia o reino Portanto estes nossos príncipes que tinham permanecido muitos anos em seus principados para depois perdêlos não podem acusar a sorte mas sim a sua própria ignávia pois não tendo nunca nos tempos pacíficos pensado que estes poderiam mudar o que é defeito comum dos homens na bonança não se preocupar com a tempestade quando chegaram os tempos adversos preocuparamse em fugir e não em defenderse esperando que as populações cansadas da insolência dos vencedores os chamassem de volta Esse partido é bom quando os outros falham mas é muito mau o ter abandonado os outros remédios por esse pois não irás cair apenas por acreditar encontrar quem te levante isso não acontece ou se acontecer não será para tua segurança dado que aquela defesa tornase vil se não depender de ti As defesas somente são boas certas e duradouras quando dependem de ti próprio e da tua virtude CAPÍTULO XXV DE QUANTO PODE A FORTUNA NAS COISAS HUMANAS E DE QUE MODO SE LHE DEVA RESISTIR QUANTUM FORTUNA IN REBUS HUMANIS POSSIT ET QUOMODO ILLI SIT OCCURREN DUM Não ignoro que muitos têm tido e têm a opinião de que as coisas do mundo sejam governadas pela fortuna e por Deus de forma que os homens com sua prudência não podem modificar nem evitar de forma alguma por isso poderseia pensar não convir insistir muito nas coisas mas deixarse governar pela sorte Esta opinião tornouse mais aceita nos nossos tempos pela grande modificação das coisas que foi vista e que se observa todos os dias independente de qualquer conjetura humana Pensando nisso algumas vezes em parte inclineime em favor dessa opinião Contudo para que o nosso livre arbítrio não seja extinto julgo poder ser verdade que a sorte seja o árbitro da metade das nossas ações mas que ainda nos deixe governar a outra metade ou quase Comparoa a um desses rios torrenciais que quando se encolerizam alagam as planícies destróem as árvores e os edifícios carregam terra de um lugar para outro todos fogem diante dele tudo cede ao seu ímpeto sem poder oporse em qualquer parte E se bem assim ocorra isso não impedia que os homens quando a época era de calma tomassem providências com anteparos e diques de modo que crescendo depois ou as águas corressem por um canal ou o seu ímpeto não fosse tão desenfreado nem tão danoso Da mesma forma acontece com a sorte a qual demonstra o seu poderio onde não existe virtude preparada para resistir e aí volta seu ímpeto em direção ao ponto onde sabe não foram construídos diques e anteparos para contêla E se considerardes a Itália que é a sede destas variações e aquela que lhes deu motivo vereis ser ela uma região sem diques e sem qualquer anteparo eis que se protegida por convenientes forças militares como a Alemanha a Espanha e a França ou esse transbordamento não teria feito as grandes alterações que fez ou não teria ocorrido Penso que isto seja suficiente quanto ao que tinha a dizer acerca da oposição que se pode antepor à sorte em geral Mas restringindome mais ao particular digo por que se vê um príncipe hoje em franco e feliz progresso e amanhã em ruína sem que tenha mudado sua natureza ou as suas qualidades isso resulta segundo creio primeiro das razões que foram longamente expostas mais atrás isto é que o príncipe que se apoia totalmente na sorte arruinase segundo as variações desta Creio ainda seja feliz aquele que acomode o seu modo de proceder com a natureza dos tempos da mesma forma que penso seja infeliz aquele que com o seu proceder entre em choque com o momento que atravessa Isso decorre de verse que os homens naquilo que os conduz ao fim que cada um tem por objetivo isto é glórias e riquezas procedem por formas diversas um com cautela o outro com ímpeto um com violência o outro com astúcia um com paciência e o outro por forma contrária e cada um por esses diversos meios pode alcançar o objetivo Vêse ainda de dois indivíduos cautos um alcançar o seu objetivo o outro não e da mesma maneira dois deles alcançarem igualmente fim feliz com duas tendências diversas sendo por exemplo um cauteloso e o outro impetuoso isso resulta apenas da natureza dos tempos que se adaptam ou não ao proceder dos mesmos Daí decorre aquilo que eu disse isto é que dois indivíduos agindo por formas diversas podem alcançar o mesmo efeito ao passo que de dois que operem igualmente um alcança o seu fim e o outro não Disto depende ainda a variação do conceito de bem porque se alguém se orienta com prudência e paciência e os tempos e as situações se apresentam de modo a que a sua orientação seja boa ele alcança a felicidade mas se os tempos e as circunstâncias se modificam ele se arruina visto não ter mudado seu modo de proceder Nem é possível encontrar homem tão prudente que saiba acomodarse a isso seja porque não pode se desviar daquilo a que a natureza o inclina seja ainda porque tendo alguém prosperado seguindo sempre por um caminho não se consegue persuadilo de abandonálo Por isso o homem cauteloso quando é tempo de passar para o ímpeto não sabe fazêlo e em conseqüência cai em ruína dado que se mudasse de natureza de acordo com os tempos e com as coisas a sua fortuna não se modificaria O Papa Júlio II em todas as suas coisas procedeu impetuosamente e encontrou tanto os tempos como as circunstâncias coincidentes com aquele seu modo de proceder pelo que sempre alcançou feliz êxito Considerai a primeira campanha que encetou contra Bolonha sendo ainda vivo messer Giovanni Bentivoglio Os venezianos estavam descontentes o rei da Espanha nas mesmas condições com a França ainda discutia tal empresa Isso não obstante com ferocidade e ímpeto deu início pessoalmente àquela expedição que uma vez iniciada fez com que ficassem suspensos e parados tanto a Espanha como os venezianos estes por medo aquela pelo desejo de recuperar todo o reino de Nápoles de outra parte arrastou consigo o rei de França porque vendoo esse rei em campanha e desejando tornálo seu amigo para aviltar os venezianos julgou não poder negar lhe a sua gente sem injuriálo por forma manifesta Realizou Júlio portanto com seu movimento impetuoso aquilo que jamais outro pontífice com toda a humana prudência teria feito pois se ele para partir de Roma tivesse esperado estar com todos os planos estabelecidos e todas as coisas assentadas como qualquer outro Papa teria feito nunca teria obtido êxito eis que o rei de França teria apresentado mil desculpas e os outros lhe teriam incutido mil receios Desejo omitir as outras suas ações todas semelhantes e todas com feliz êxito sendo que a brevidade da vida não o deixou experimentar o contrário dado que se tivessem sobrevindo tempos em que se tornasse necessário agir com cautelas surgiria a sua ruína pois jamais ele teria desviado daquele modo de proceder a que a natureza o inclinava Concluo pois que variando a sorte e permanecendo os homens obstinados nos seus modos de agir serão felizes enquanto aquela e estes sejam concordes e infelizes quando surgir a discordância Considero seja melhor ser impetuoso do que dotado de cautela porque a fortuna é mulher e consequentemente se torna necessário querendo dominála baterlhe e contrariála e ela mais se deixa vencer por estes do que por aqueles que procedem friamente A sorte porém como mulher sempre é amiga dos jovens porque são menos cautelosos mais afoitos e com maior audácia a dominam CAPÍTULO XXVI EXORTAÇÃO PARA PROCURAR TOMAR A ITÁLIA E LIBERTÁLA DAS MÃOS DOS BÁRBAROS EXHORTATIO AD CAPESSENDAM ITALIAM IN LIBERTATEMQUE A BARBARIS VINDICANDAM Consideradas pois todas as coisas já expostas pensando comigo mesmo se no momento presente na Itália corriam tempos capazes de honrar um príncipe novo e se havia matéria que assegurasse a alguém prudente e valoroso a oportunidade de nela introduzir nova organização que a ele desse honra e fizesse bem a todo o povo quer me parecer concorrerem tantas circunstâncias favoráveis a um príncipe novo que não sei qual o tempo que poderia ser mais adequado para isto E se como já disse para se conhecer a virtude de Moisés foi necessário que o povo de Israel estivesse escravizado no Egito para conhecer a grandeza do ânimo de Ciro que os persas fossem oprimidos pelos medas e o valor de Teseu que os atenienses estivessem dispersos também no presente querendo conhecer a virtude de um espírito italiano seria necessário que a Itália se reduzisse ao ponto em que se encontra no momento que ela fosse mais escravizada do que os hebreus mais oprimida do que os persas mais desunida do que os atenienses sem chefe sem ordem batida espoliada lacerada invadida e tivesse suportado ruína de toda sorte Se bem tenha surgido até aqui certo vislumbre de esperança em relação a algum príncipe parecendo poder ser julgado como dirigido por Deus para redenção da Itália contudo foi visto depois como no apogeu de suas ações foi abandonado pela sorte De modo que tornada sem vida espera ela por aquele que cure as suas feridas e ponha fim aos saques da Lombardia às mortandades no Reino de Nápoles e na Toscana e a cure daquelas suas chagas já de há muito enfistuladas Vêse como ela implora a Deus lhe envie alguém que a redima dessas crueldades e insolências bárbaras Vêse ainda toda ela pronta e disposta a seguir uma bandeira desde que haja quem a empunhe Nem se vê no presente em quem possa ela confiar a não ser na vossa ilustre casa a qual com a sua fortuna e virtude favorecida por Deus e pela Igreja da qual é agora príncipe poderá tornarse chefe desta redenção Isso não será muito difícil se procurardes seguir as ações e a vida dos acima indicados E se bem aqueles homens sejam raros e maravilhosos sem dúvida foram homens todos eles tiveram menor ocasião que a presente porque os empreendimentos dos mesmos não foram mais justos nem mais fáceis do que este nem foi Deus mais amigo deles do que de vós É de grande justiça o que digo iustum enim est bellum quibus necessarium et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est Aqui há uma grande disposição e onde esta existe não pode haver grande dificuldade desde que se imite o modo de agir daqueles que apontei como exemplo Além disso aqui se vêem acontecimentos extraordinários emanados de Deus o mar se abriu uma nuvem revelou o caminho a pedra verteu água aqui choveu o maná todas as coisas concorreram para a vossa grandeza O restante deve ser feito por vós Deus não quer fazer tudo para não nos tolher o livre arbítrio e parte daquela glória que compete a nós E não é de admirar se algum dos já citados italianos não tenha podido fazer aquilo que se pode esperar faça a vossa ilustre casa e se em tantas revoluções da Itália e em tantas manobras de guerra parecer sempre que nesta a virtude militar esteja extinta Isso resulta de que as suas antigas instituições não eram boas e não houve quem soubesse encontrar outras e nenhuma coisa faz tanta honra a um príncipe novo quanto as novas leis e os novos regulamentos por ele elaborados Estes quando são bem fundados e em si encerrem grandeza tornam o príncipe digno de reverência e admiração na Itália não faltam motivos para introduzirse qualquer reforma Aqui existe grande valor no povo enquanto ele falta nos chefes Observei nos duelos e nos combates individuais o quanto os italianos são superiores na força na destreza ou no engenho Mas quando se passa para os exércitos não comparecem E tudo resulta da fraqueza dos chefes porque aqueles que sabem não são obedecidos e todos julgam saber não tendo surgido até agora alguém que tenha sabido se sobressair pela virtude ou pela fortuna de forma a que os outros cedam Daí decorre que em tanto tempo em tantas guerras feitas nos últimos vinte anos sempre que se formou um exército inteiramente italiano o mesmo deu mau exemplo do que dão prova Taro depois Alexandria Cápua Gênova Vailá Bolonha Mestri Querendo pois a vossa ilustre casa seguir aqueles homens excelentes e redimir suas províncias é necessário antes de toda e qualquer outra coisa como verdadeiro fundamento de qualquer empreendimento proverse de tropas próprias pois não se pode conseguir outras mais fiéis e mais seguras nem melhores soldados E ainda que cada um deles seja bom todos juntos tornarseão ainda melhores quando se virem comandados pelo seu príncipe e por este honrados e mantidos É necessário portanto preparar esses exércitos para poder com a virtude itálica defenderse dos estrangeiros E se bem as infantarias suíças e espanholas sejam consideradas terríveis em ambas existem defeitos pelo que um terceiro tipo de infantaria poderia não somente oporselhes mas confiar em superálas Porque os espanhóis não podem enfrentar a cavalaria e os suíços deverão ter medo dos infantes quando no combate os encontrarem obstinados como eles Já se viu e vêse ainda os espanhóis não poderem enfrentar uma cavalaria francesa e os suíços serem derrotados por uma infantaria espanhola E se bem deste último caso não se tenha tido plena prova contudo viuse uma amostra na campanha de Ravena quando as infantarias espanholas se defrontaram com os batalhões alemães que têm a mesma organização dos suíços aí os espanhóis com a agilidade do corpo e auxílio dos seus pequenos escudos haviamse colocado debaixo dos chuços alemães e estavam certos de ferilos e matálos sem que os mesmos tal pudessem impedir realmente não fosse a cavalaria que os atacou teriam morto todos os inimigos Podese pois conhecido o defeito de uma e de outra dessas infantarias organizar uma diferente que resista à cavalaria e não tenha medo dos infantes o que dará qualidade superior aos exércitos e imporá a mudança de táticas Estas são daquelas coisas que reformadas dão reputação e grandeza a um príncipe novo Não se deve pois deixar passar esta ocasião a fim de que a Itália conheça depois de tanto tempo um seu redentor Nem posso exprimir com que amor ele seria recebido em todas aquelas províncias que têm sofrido por essas invasões estrangeiras com que sede de vingança com que obstinada fé com que piedade com que lágrimas Quais portas se lhe fechariam Quais povos lhe negariam obediência Qual inveja se lhe oporia Qual italiano lhe negaria o seu favor A todos repugna este bárbaro domínio Tome portanto a vossa ilustre casa esta incumbência com aquele ânimo e com aquela esperança com que se abraçam as causas justas a fim de que sob sua insígnia esta pátria seja nobilitada e sob seus auspícios se verifique aquele dito de Petrarca Virtude contra Furor Tomará Armas e Faça o Combater Curto Que o Antigo Valor Nos Itálicos Corações Ainda não é Morto CARTA DE MACHIAVELLI A FRANCESCO VETTORI EM ROMA RELATIVA À OBRA IL PRÍNCIPE Magnifico oratori Florentino Francisco Vectori apud Summum Pontificem et benefactori suo Romae Magnífico embaixador Tardias jamais foram as graças divinas Digo isto porque me parecia não ter perdido mas sim estar esmaecida a vossa graça tendo estado vós muito tempo sem escreverme estava em dúvida de onde pudesse vir a razão de tal E dava pouca importância a todas as causas que vinham à minha mente salvo quando pensava que tivésseis retraído de escreverme porque vos tivesse sido escrito que eu não fosse bom guardião de vossas cartas e eu sabia que afora Filippo e Pagolo outros de minha parte não as tinham visto Readquiri essa graça pela vossa última de 23 do mês passado pelo que fico contentíssimo ao ver quão ordenada e calmamente exerceis essa função pública e eu vos concito a continuar assim porque quem deixa as suas comodidades pelas comodidades dos outros perde as suas e destes não recebe gratidão Desde que a fortuna quer dispor todas as coisas é preciso deixála fazer ficar quieto e não lhe criar embaraço esperando que o tempo lhe permita fazer alguma coisa pelos homens então será bem suportardes maiores fadigas zelar melhor das coisas e a mim convirá partir da vilas e dizer eisme aqui Não posso portanto desejando rendervos iguais graças dizer nesta minha carta outra coisa que não aquilo que seja a minha vida e se julgardes tal que valha trocála com a vossa ficarei contente em mudála Aqui estou na vila depois que ocorreram aqueles meus últimos casos não estive somando todos vinte dias em Florença Até aqui tenho apanhado tordos à mão Levantavame antes do amanhecer preparava a armadilha iame além com um feixe de gaiolas ao ombro que até parecia o Getas quando o mesmo voltava do porto com os livros de Anfitrião apanhava no mínimo dois e no máximo seis tordos E assim passei todo o mês de setembro Depois esse passatempo ainda que desprezível e estranho veio a faltar com desgosto meu Dirvosei qual a minha vida agora Levantome de manhã com o sol e vou a um meu bosque que mandei cortar onde fico duas horas a examinar o trabalho do dia anterior e a passar o tempo com aqueles cortadores que estão sempre às voltas com algum aborrecimento entre si ou com os vizinhos Acerca deste bosque eu teria a dizer vos mil belas coisas que me aconteceram bem como de Frosino de Panzano e dos outros que queriam desta lenha Frosino principalmente mandou buscar certa quantidade sem dizerme nada e na ocasião do pagamento queria reter dez liras que disse ter ganho de mim há quatro anos num jogo de cricca em casa de Antônio Guicciardini Comecei a fazer o diabo queria acusar o carroceiro que fora ali mandado por ele como ladrão Enfim Giovanni Machiaveili interveio e nos pôs de acordo Batista Guicciardini Filippo Ginori Tommaso dei Bene e alguns outros cidadãos quando aqueles maus ventos sopravam cada um me adquiriu uma ruma de lenha Prometi a todos e mandei uma a Tommaso a qual chegou a Florença pela metade porque para empilhála ali estavam ele a mulher as criadas e os filhos os quais pareciam o Gabburra quando na quintafeira com seus rapazes abate um boi De modo que visto em quem eu depositava o meu ganho disse aos outros que não tinha mais lenha todos se encolerizaram e agastaram comigo especialmente Batista que inclui esta entre as demais desgraças de Prato Saindo do bosque vou a uma fonte e daqui ao meu viveiro de tordos Levo um livro comigo ou Dante ou Petrarca ou um desses poetas menores Tíbulo Ovidio e semelhantes leio aquelas suas amorosas paixões e aqueles seus amores lembramme os meus deleitome algum tempo nestes pensamentos Depois vou pela estrada até à hospedaria falo com os que passam pergunto notícias das suas cidades ouço muitas coisas e noto vários gostos e fantasias dos homens Enquanto isso chega a hora do almoço quando com a minha família como aqueles alimentos que esta pobre vila e este pequeno patrimônio comportam Terminado o almoço retorno à hospedaria aqui geralmente estão o estalajadeiro um açougueiro um moleiro e dois padeiros Com estes eu me rebaixo o dia todo jogando cricca trichtach e depois daí nas cem mil contendas e infinitos acintes com palavras injuriosas a maioria das vezes se disputa uma insignificância e contudo somos ouvidos gritar por São Casciano Assim envolvido entre estes piolhos cubro o cérebro de bolor e desabafo a malignidade de minha sorte ficando contente se me encontrásseis nesta estrada para ver se essa malignidade se envergonha Chegada a noite retorno para casa e entro no meu escritório na porta dispo a roupa quotidiana cheia de barro e lodo visto roupas dignas de rei e da corte e vestido assim condignamente penetro nas antigas cortes dos homens do passado onde por eles recebido amavelmente nutrome daquele alimento que é unicamente meu para o qual eu nasci não me envergonho ao falar com eles e perguntarlhes das razões de suas ações Eles por sua humanidade me respondem e eu não sinto durante quatro horas qualquer tédio esqueço todas as aflições não temo a pobreza não me amedronta a morte eu me integro inteiramente neles E porque Dante disse não haver ciência sem que seja retido o que foi apreendido eu anotei aquilo de que por sua conversação fiz capital e compus um opúsculo De Principatibus onde me aprofundo o quanto posso nas cogitações deste assunto discutindo o que é principado de que espécies são como são adquiridos como se mantêm porque são perdidos Se alguma vez vos agradou alguma fantasia minha esta não vos deveria desagradar e um príncipe principalmente um príncipe novo deveria aceitar esse trabalho por isso eu o dedico à magnificência de Juliano Filippo Casavecchia o viu e vos poderá relatar mais ou menos como é e das conversas que tive com ele se bem que freqüentemente eu aumente e corrija o texto Vós desejaríeis magnífico embaixador que eu deixasse esta vida e fosse gozar convosco a vossa Eu o farei de qualquer maneira mas o que me retém por ora são certos negócios que dentro de seis semanas terei ultimado O que me deixa ficar em dúvida é que estão ai aqueles Soderini aos quais eu seria forçado estando aí a visitar e a falar Receio que ao meu retorno pensando apear em casa viesse a desmontar no Bargiello eis que se bem este Estado tenha mui sólidas bases e grande segurança ele é novo e por isso cheio de suspeitas nem faltam sabidos que para aparecer como Pagolo Bertini meteriam outros na prisão e deixariam a meu cargo os aborrecimentos Peçovos me tranqüilizeis deste receio e depois dentro do tempo mencionado irei visitarvos de qualquer modo Discuti com Filippo sobre esse meu opúsculo se convinha dálo ou não e sendo acertado dálo se era mais conveniente que eu o levasse ou que o mandasse Não me fazia dálo o receio de que Juliano não o lesse e que esse Ardinghelli se honrasse com esse meu último trabalho Por outro lado dálo satisfaria a necessidade que me oprime porque estou em ruína e não posso permanecer assim por muito tempo sem que me torne desprezível por pobreza isso além do desejo que teria de que esses senhores Medici passassem a utilizarme se tivesse de começar a fazerme rolar uma pedra porque se depois não conseguisse ganhar o seu favor lamentarmeia de mim mesmo eis que quando fosse lido o opúsculo verseia que os quinze anos que estive no estudo da arte do Estado não os dormi nem brinquei devendo todo homem achar agradável servirse de alguém que a custas de outros fosse cheio de experiência E da minha fidelidade não se deveria duvidar porque tendo sempre observado a lealdade não devo aprender agora a rompêla quem foi fiel e bom durante quarenta e três anos que eu os tenho não deve poder mudar sua natureza da minha lealdade e bondade é testemunho a minha pobreza Desejaria pois que vós ainda me escrevêsseis aquilo que sobre este assunto vos pareça A vós me recomendo Seja feliz 10 de Dezembro de 1513 NICOLÓ MACHIAVELLI Florença