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1 HISTÓRIA DA PSICANÁLISE SUMÁRIO FACUMINAS Erro Indicador não definido Introdução 2 O surgimento da psicanálise no final do século XIX 4 O inconsciente no surgimento da psicanalise 12 O conceito de trauma no surgimento da psicanálise 22 REFERÊNCIAS 33 Introdução A psicanálise surgiu no final do século XIX Seu fundador considerado o pai da psicanálise Sigmund Freud nasceu em 1856 na cidade de Freibergin Mahren pertencente então ao Império Austríaco Freud foi o primeiro filho do terceiro casamento de Jacob Freud um comerciante de lã não muito bem sucedido com Amalie Nathanson vinte anos mais jovem do que ele O primogênito Freud foi seguido por outros 7 filhos sendo três meninos Julius Dolfi e Alexander e quatro meninas Anna Rosa Marie e Paula Sua família seguia o judaísmo como religião e por problemas financeiros e de saúde aos quatro anos de idade Freud e sua família mudaramse para Viena onde ele morou até 1938 Aos 17 anos entrou para a faculdade de medicina na Universidade de Viena graduando se em 1881 Freud como médico neurologista propôs um método para a compreensão e análise do homem método este que abrangia a investigação do psiquismo e seu funcionamento um sistema teórico sobre o comportamento humano e um tratamento médico voltado para problemas psicológicos que não apresentavam suporte necessariamente biológico para sua compreensão e cura ou seja em síntese propôs uma teoria da personalidade e procedimentos para terapia A concepção sobre o que é ser humano sempre foi motivo de reflexão para nossa espécie É a partir da concepção de homem que são estabelecidas as nossas relações sociais Entretanto é possível afirmar que tal concepção é socialmente construída principalmente pelo fato de que o ser humano só pode existir e se desenvolver em sociedade É inimaginável ou mesmo impossível pensar em um ser humano se desenvolvendo de maneira saudável isolado ou distante de outros seres humanos Portanto é importante reconhecer as relações que propiciam ou inibem o surgimento das diferentes maneiras de pensar sobre o ser humano Assim a psicanálise de um modo bastante amplo não deixa de ser uma maneira de pensar sobre o ser humano e suas relações sociais isto é em como o ser humano se desenvolve e é afetado por toda e qualquer relação social desde a mais remota idade Num primeiro momento será abordado o contexto sociopolíticoeconômico no momento em que a psicanálise surgiu e pensaremos em como tal contexto pode ter afetado as formulações de Sigmund Freud o pai da psicanálise A compreensão do contexto pode ser considerada fundamental para o estabelecimento de relações entre a teoria e a prática psicanalítica isto é sem a influência das relações familiares da religião da profissão da situação econômica e de todas as relações sociais que tanto inspiraram as concepções de Freud no momento de criação da psicanálise não haveria material subjetivo para nenhum tipo de análise Ou seja o ser humano só pode ser compreendido como um todo que se relaciona em várias instâncias e de modo diferenciado com outros seres de sua espécie Assim de modo geral a psicanálise propõe a compreensão das relações estabelecidas entre os seres humanos para que cada um possa desenvolver suas potencialidades com o menor sofrimento possível pois escolhas sempre serão necessárias em qualquer desenvolvimento humano que nunca é somente pessoal mas sempre socioemocional A compreensão do contexto do surgimento da psicanálise auxilia na compreensão da própria psicanálise pois esta se desenvolveu a partir da visão de mundo da modernidade na qual o ser humano é sempre um indivíduo único mas também fruto de seu meio social Portanto é essa individualidade que permite e possibilita seu desenvolvimento tornando necessária a formulação de teorias que tentem explicar tanto sua personalidade quanto as maneiras de resolver os possíveis problemas encontrados durante o desenvolvimento individual E foi justamente para isso que Freud propôs a psicanálise O surgimento da psicanálise no final do século XIX Do ponto de vista dos períodos históricos a visão de mundo da Modernidade abrange tanto a Idade Moderna quanto a Idade Contemporânea A Idade Moderna pode ser considerada de 1453 até 1789 e é caracterizada pelo nascimento do modo capitalista de produção pelos descobrimentos marítimos europeus que vão do séc XV até o séc XVII pela invenção da imprensa séc XVI e pelo Renascimento que vai do fim do séc XIV até o fim do séc XVII com transformações evidentes na cultura na sociedade na economia na política e na religião A Idade Contemporânea vai desde 1789 data do início da Revolução Francesa até praticamente os dias atuais sendo caracterizada pela valorização da razão em detrimento da religiosidade na qual o regime capitalista se consolidou Por definição a Modernidade marcou a ruptura com a tradição medieval dominada por dogmas religiosos caracterizandose pelo estabelecimento da autonomia da razão com reflexos e repercussões sobre a filosofia a cultura e toda a sociedade ocidental Um dos marcos do início da Modernidade foi a publicação do livro Discurso sobre o método em 1637 do filósofo físico e matemático francês René Descartes 15961650 considerado o primeiro pensador moderno A afirmação penso logo existo cogito ergo sum em latim estabeleceu a importância do uso da razão para a compreensão do mundo a sua volta tomando por base a verificação de evidências a análise racional dos fenômenos naturais e a síntese e enumeração de princípios que permitiram ordenar o pensamento e propiciaram o aparecimento e desenvolvimento do método científico O conceito de Ciência foi muito importante para toda a Modernidade seja enquanto afirmação de seu valor para o desenvolvimento social seja enquanto reflexão crítica sobre seus métodos É interessante notar como a palavra concepção surge na Língua Portuguesa no sec XV exatamente num momento de transição entre o modo de produção e visão de mundo feudal e a modernidade Uma possível justificativa é que no mundo feudal o pensamento individual não tinha importância diante dos dogmas religiosos usados para explicar o mundo relembrando que após as invasões bárbaras na Idade Média foram os mosteiros que preservaram o conhecimento nas bibliotecas não queimadas pelos bárbaros nas quais os monges transcreviam à mão mesmo sem entender os livros antigos ou seja era a Igreja enquanto instituição que detinha fisicamente o conhecimento fazendo valer suas interpretações Por exemplo a visão geocentrista do universo na qual a Terra era o centro do mundo era dominante contra a visão heliocentrista que afirmava que a Terra girava em torno do Sol Foi a revolução copernicana isto é a partir das observações do matemático e astrônomo polonês Nicolau Copérnico 14731543 cônego da Igreja Católica que estabeleceu a separação entre o pensamento dogmático religioso e o pensamento científico Na tentativa de manter seu domínio sobre o conhecimento a Santa Inquisição até julgou Galileu Galilei 15641642 personalidade fundamental na revolução científica e que defendia o heliocentrismo fazendoo renunciar publicamente às suas crenças mas não sem reafirmar com uma sua célebre citação que contudo a Terra se move em latim eppur si muove O aspecto religioso sempre foi muito importante para a humanidade e não deixou de ser para Freud um judeu Convém ressaltar o judaísmo como religião monoteísta e origem das várias vertentes do cristianismo além da reforma protestante isto é o movimento reformista cristão do séc XVI que protestou contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica e propôs a reforma do catolicismo da época A visão monoteísta isto é de um único Deus que criou o mundo em sete dias e o homem a sua imagem e semelhança que tudo sabe e tudo vê se contrapõe à das religiões politeístas da antiguidade e de outras regiões não centradas no ocidentalismo Europeu Uma característica importante presente já no judaísmo é a culpa de Adão e Eva pela perda do paraíso por terem comido o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal surgindo assim o pecado original enquanto tendência inata de pecar e como necessidade de resgatar a humanidade presente no ser humano De modo geral toda religião tenta explicar o mundo através de alegorias isto é na forma de parábolas que possam passar algum significado moral e mesmo social para seus seguidores por exemplo retomar as relações existentes entre personagens que não necessariamente existiram na realidade como Adão Eva e seus filhos Freud apresentará essa tendência de sistematização do conhecimento por meio de alegorias por exemplo tanto em relação ao complexo de Édipo como em relação ao Malestar na civilização Mas veremos isso de maneira mais detalhada posteriormente Neste momento é mais importante perceber como tornase possível afirmar de que modo a estrutura familiar é influenciada pela visão de mundo de sua época Por exemplo a família defendida até hoje pela Igreja Católica constituída por um núcleo familiar composto por pai mãe e filhos vivendo numa mesma casa é típica da Modernidade não existindo por exemplo no período feudal no qual a população se organizava em guildas de acordo com as profissões sendo que os filhos estariam destinados a seguir a profissão dos pais aprendendo com estes as habilidades necessárias para sua inserção na sociedade É possível inferir que como os filhos seguiam a profissão dos pais os filhos dos nobres eram nobres e os filhos dos servos continuavam servos e por isso a sociedade tendia a ser mais estável Não havia necessidade de os direitos serem iguais para todos pois o futuro de cada um era determinado por sua própria origem Não havia necessidade de escolas nem de direitos individuais pois as classes sociais eram mais importantes do que os indivíduos Nesse contexto a religião era usada para justificar a organização do mundo Outro importante pensador do séc XIX Karl Marx 18181883 chegou até a afirmar que a religião era o ópio do povo isto é aquilo que manteria a população anestesiada dos verdadeiros problemas sociais Do ponto de vista econômico a Modernidade está diretamente associada ao surgimento e desenvolvimento do modo de produção capitalista Marx ficou conhecido principalmente pelo conjunto de livros denominados O capital sendo que o primeiro foi publicado em 1867 no qual é feita uma análise e crítica da sociedade capitalista Marx pode ser considerado juntamente com Freud e Darwin um dos três principais pensadores do séc XIX isto é os pensadores que mais influenciaram as posteriores transformações sociais O capital é predominantemente um livro de economia mas aborda também aspectos sociais culturais políticos e filosóficos ao apresentar a divisão de classes na sociedade capitalista entre a burguesia e o proletariado em que a burguesia enquanto classe dominante e detentora do poder econômico se apropria do trabalho proletário por meio da maisvalia isto é da diferença entre os custos envolvidos na produção incluído o valor que o empregado recebe pelo trabalho e o valor obtido na venda do produto final que gera o lucro para a classe dominante Contudo foi na Modernidade principalmente a partir da Revolução Francesa movimento de intensa agitação política e social ocorrido entre 1789 e 1799 que se estabeleceu o conceito de cidadão isto é de que todos deveriam ser iguais perante as leis Ou seja o súdito ou vassalo não estaria mais à disposição do monarca da região onde tinha nascido mas tanto o monarca quanto a população de maneira geral deveriam se submeter às mesmas regras sociais elaboradas pelos seres humanos e não mais como no período feudal consideradas como imposições divinas reforçadas pelas organizações religiosas É interessante notar que a palavra cidadão surge na Língua Portuguesa em 1269 fazendo referência àquele que mora nas cidades e não como indivíduo que como membro de um Estado usufrui de direitos civis e políticos garantidos pelo mesmo Estado HOUAISS SALLES 2001 p 714 até porque a palavra indivíduo entrou para a Língua Portuguesa no séc XV mais especificamente em 1619 enquanto ser humano considerado isoladamente na coletividade na comunidade de que faz parte cidadão HOUAISS SALLES 2001 p 1607 Portanto é possível estabelecer relações entre o conceito de cidadão e de indivíduo conceitos formulados na Modernidade principalmente por que o conceito de individualidade relacionado diretamente com o conceito eu é fundamental para a psicanálise Retomando a influência da religião tanto em Freud como na população ocidental de modo geral principalmente considerando o pecado original apregoado desde o judaísmo que determinou a expulsão de Adão e Eva do paraíso ressaltase o acesso ao fruto proibido da árvore do conhecimento ou seja evidenciase o conflito da religião com a Modernidade pois as religiões monoteístas mas não apenas estas não estimulam a busca pelo conhecimento além do que é traçado pela interpretação religiosa A importância de Charles Darwin 18091882 naturalista britânico e o terceiro principal pensador do séc XIX vem justamente do conceito de evolução relacionado às espécies isto é da teoria que as espécies animais e mesmo vegetais evoluíam por meio de uma seleção natural porém não necessariamente do melhor sobre o pior mas daqueles mais adaptados às situações naturais do momento sobre os menos adaptados Considerando os fósseis disponíveis em várias regiões do planeta ao apontar as semelhanças entre homens e macacos e inferindo que ambos possam ter ancestrais comuns a teoria da evolução de Darwin coloca em cheque a justificativa religiosa para existência de Adão e Eva As bases e os procedimentos científicos foram fundamentais para as transformações sociais e influenciaram o desenvolvimento não só da psicanálise mas de toda a Psicologia O desenvolvimento da Ciência é uma das principais características da Modernidade que trouxe consigo a proliferação das escolas fundamentais para todos e o desenvolvimento das universidades Com isso ou como consequência acentuaram se a especialização e a fragmentação dos saberes Com a Modernidade a pesquisa científica passou a ser cada vez mais valorizada e em 1810 foi fundada a Universidade Humbolt de Berlim que enquanto modelo universitário voltado principalmente para a pesquisa influenciou muitas outras universidades europeias e ocidentais A organização universitária levou à separação do conhecimento entre ciências e humanidades reforçando a especialização profissional em subáreas do conhecimento dando origem a institutos e departamentos universitários que promoviam a formação em áreas inicialmente tradicionais como Engenharia Direito e Medicina e posteriormente numa fragmentação cada vez maior de acordo com objetos cada vez mais restritos de pesquisa como Enfermagem Psicologia Farmácia Fisioterapia Fonoaudiologia Odontologia Nutrição etc Especificamente em relação à área da Saúde Foucault 2012 faz uma análise interessante de como se deu a evolução do discurso empregado pelos médicos na clínica o qual também ajuda a compreender as relações contextuais entre a sociedade e a profissão médica E considerando o desenvolvimento da Medicina no séc XIX relacionado com a migração a superpopulação das cidades e as precárias condições de vida da classe trabalhadora e que conduziu à medicina social a formação de Freud foi em neurologia na especialidade que trata de distúrbios estruturais do sistema nervoso e não na medicina cientificamente mais avançada para a época e relacionada à teoria microbiana das doenças ou na medicina da evolução das espécies de Darwin ou na medicina da genética de Gregor Mendel 18221884 monge agostiniano botânico e meteorologista austríaco Freud começou sua clínica com o tratamento de pacientes com histeria sob a orientação de JeanMartin Charcot 18251893 médico e cientista francês famoso na área da psiquiatria e neurologia que usava a hipnose como método de tratamento de diversas perturbações psíquicas entre elas e em especial a histeria Segundo Zimmerman 2008 desde épocas primitivas a histeria sempre esteve cercada de mistérios e tabus desde sua origem grega hysteros traduzível por útero esse transtorno psicológico era atribuído apenas às mulheres havendo ainda a crença de que estariam sendo presas de maus espíritos e por isso deveriam ser banidas da comunidade ou submetidas a rituais de exorcismos por meio de torturas ZIMMERMAN 2008 p 184 Ao observar a melhora de pacientes de Charcot Freud elaborou a hipótese de que a causa da doença era psicológica e não orgânica Ao escutar os pacientes ele tentava compreender a natureza do que era conhecido como doenças nervosas funcionais caracterizadas pela impotência da medicina em encontrar uma cura para tais doenças ao buscar explicações em fatos físicoquímicos ou patológicoanatômicos não se preocupando com fatores psíquicos Para Freud os problemas se originavam na não aceitação cultural ou em consequência de desejos reprimidos geralmente associáveis a fantasias de natureza sexual A histeria é um conceito psicanalítico importante e bastante usado que pode aparecer nos textos psicanalíticos com formas e significados bastante distintos ZIMMERMAN 2008 p 184 Em 1895 em parceria com Josef Breuer 18421925 médico e fisiologista também austríaco Freud publicou o livro Estudos sobre a histeria quando ainda esboçava suas ideias psicológicas ligadas ao dinamismo da sexualidade reprimida as quais se chocavam com as ideias da comunidade médica de então que considerava a histeria como uma doença degenerativa causada principalmente pela sífilis De qualquer modo devese considerar que a histeria é tão plástica que a rigor podese dizer que de alguma forma ela está presente em todas as psicopatologias ZIMMERMAN 2008 p 185 Foi com a intenção de compreender o psiquismo que era deixado pelos médicos para filósofos místicos e charlatães e para buscar tratamento e cura dos sintomas neuróticos e histéricos que Freud começou suas investigações sobre os processos mentais A importância de Freud como um dos principais pensadores do séc XIX vai muito além de seus estudos médicos baseados no sistema nervoso a partir do modo tradicional da Medicina Um dos conceitos mais importante é justamente o inconsciente que revela quanto a racionalidade não é suficiente para explicar o comportamento humano Além disso não é possível deixar de considerar a importância que ele deu para o desenvolvimento sexual levando em conta principalmente as críticas surgidas justamente por essa abordagem como também pelo modo como a religião católica anteriormente tentava controlar a população por meio da inibição dos estímulos sexuais O inconsciente foi um conceito fundamental para Freud e constituiu o ponto em torno do qual se sustentou o edifício teórico e técnico da psicanálise Para Freud a maior parte da vida psíquica é inconsciente não dominada pela razão mas regida pela força das pulsões e das paixões O inconsciente no surgimento da psicanalise O reconhecimento do contexto do surgimento da psicanálise foi importante para compreender as bases científicas das quais Freud partiu para elaborar a teoria psicanalítica Por exemplo foi nesse contexto que surgiu o conceito de inconsciente enquanto fenômeno cuja história tem sido pouco ou nada discutida XAVIER 2010 p 54 e deve ser reconhecido como algo que vai além da racionalidade humana isto é por mais que muitos filósofos tenham valorizado a racionalidade como uma das principais características do ser humano nossa espécie não é governada somente pela razão Sua simples menção já suscita certo incômodo contrariando uma ciência que se respalda em princípios como os de razão controle e materialidade abrindose brechas muito interessantes para a exploração de conteúdos que passariam abaixo da superfície dos domínios da ortodoxia científica XAVIER 2010 p 54 Então justamente pelo fator polêmico do conceito é comum se deparar com distorções das origens como também em sua compreensão Apesar de Houaiss e Salles 2001 indicarem que o termo inconsciente apareceu num dicionário de Língua Portuguesa somente em 1873 ele já era usado anteriormente por escritores e pesquisadores CURADO 2012 pois importantes parcelas da atividade mental poderiam furtarse ao controle das atividades conscientes racionais vindo a formar assim a face obscura das paixões da alma de todos os modos homologada aos processos irracionais da mente BARATTO 2002 p 158 Contudo o conceito daquela época era diferente de sua compreensão atual não apresentando ligação com a vida pessoal não influenciando o estado de saúde não dependendo de interpretações pessoais e não sendo decisivo na vida das pessoas isto é apesar de mais amplo e relacionado à natureza era menos influente no sujeito do que a atual noção de inconsciente Foi a partir da conceituação de inconsciente de Freud não mais o oposto simétrico da consciência mas um conceito radicalmente novo em relação ao teorizado por seus predecessores como um ponto de opacidade no interior do psiquismo e com sua irredutibilidade à apreensão conceitual NUNES FERREIRA PERES 2009 que um profundo desconhecimento do sujeito em relação a si mesmo e à realidade que o cerca passou a ser reconhecido Curado 2012 ressalta que a noção de inconsciente faz parte da atual cartografia do espaço interior ainda que ninguém saiba realmente do que se trata nem onde reside Segundo Freud que estudou cientificamente os processos psíquicos inconscientes a equivalência entre o psíquico e o consciente não era só inadequada como também revela uma supervalorização da consciência BARATTO 2009 Entretanto a noção relativa à existência de processos mentais que se desenrolam à margem da consciência é conhecida no pensamento de algumas tradições filosóficas as quais postulam que a consciência poderia submeterse a um processo de divisão BARATTO 2002 p 158 Um problema atual decorrente da falta de compreensão das representações oitocentistas do inconsciente é que o conceito ultrapassado de inconsciente continua a influenciar muitas áreas da vida contemporânea da literatura ao Direito da Psicologia às teorias filosóficas sobre a mente Pior do que tudo não há progresso evidente no conceito de inconsciente nem aliás no conceito de consciência CURADO 2012 p 179 podendo ser encontradas tais influências em amplas aplicações nos tribunais na teoria da educação na prática psicoterapêutica na clínica médica e na explicação dos processos de criatividade artística CURADO 2012 p 180 Portanto é importante compreender a estreita ligação do fenômeno do inconsciente com todas as formas de estado psíquico uma vez que qualquer tipo de transe ou estado alterado de consciência remete o investigador à noção de inconsciente e os pesquisadores de outrora não tinham pudores para encarar de frente estes fenômenos XAVIER 2010 p 61 O termo inconsciente foi compreendido inicialmente como a ligação entre o homem e a natureza um fundamento do ser humano enquanto ser enraizado na vida do universo Ao recuar de 1892 até o início do século XIX é possível encontrar manifestações sobre a noção de inconsciente substancialmente diferentes da que Freud propôs a qual teve luz tão intensa e eclipsou os autores anteriores incluindo autores portugueses pois até em Portugal existiu um grande número de autores que dentro e fora das universidades publicaram obras sobre aspectos da mente humana contribuindo assim para a descoberta da noção de inconsciente CURADO 2012 p 167 Entretanto como o inconsciente é tomado em contraposição à consciência consideremos a relação entre a consciência e o sujeito racional isto é aquele que não somente pensa mas é capaz de apreenderse enquanto ser pensante como formulado por Descartes em Penso logo existo ou seja é próprio da atividade de pensamento ser consciente e portanto racional BARATTO 2002 Assim a consciência seria a superfície estabelecida pelo fluxo de pensamentos na qual as percepções lutariam por emergir não havendo lugar para contradições A disputa entre as ideias é decidida pela intensidade das associações estabelecidas entre elas ou seja o grupo das ideias que se fortalece pelas associações construídas é o que consegue vir à luz da consciência SCHULTZ SCHULTZ 1996 ELLENBERGER 1970 apud XAVIER 2010 p 61 Contudo deve ser ressaltado que para vários pensadores não é a razão que define o gênio e sim o berço último de nossas ideias aquela região subterrânea que nos habita e que será batizada pelos românticos de inconsciente raiz coincidente com o divino verdade última e ponto de partida do homem BORNHEIM 2005 p 82 Porém retomando a revolução no conceito de homem e a valorização da razão e da ciência na Modernidade devemos relembrar que num primeiro momento o homem deixou de ser o centro do universo ao constatar que o Sol não girava em torno da Terra Posteriormente deixou de ser consciente dos próprios atos pois a existência do inconsciente mostrou que era um outro eu inconsciente que determinava muitas das ações humanas Segundo Curado 2012 a partir do final do séc XIX e início do séc XX houve a tendência de privatizar o inconsciente isto é de localizálo com precisão em pessoas concretas que viviam suas vidas de maneira autônoma Esta privatização do inconsciente acompanhou uma idêntica privatização da consciência numa privatização de todo o edifício mental seja consciente seja inconsciente Contudo para alguns pensadores a soberania da razão afastou o homem da natureza afastou o homem de si mesmo uma vez que ele também é natureza XAVIER 2010 p 58 Portanto tais pensadores encaravam a consciência como um acidente ou um obstáculo desagradável e os seres humanos poderiam ser mais felizes se vivessem sem consciência isto é de forma automática de um modo literalmente inconsciente CURADO 2012 p 164 Além de tudo segundo a interpretação de Curado 2012 a respeito de alguns pensadores da época principalmente em relação ao Romantismo a atividade consciente seria um incômodo em relação à vida uma angústia em relação às decisões a tomar Em oposição à valorização do inconsciente e considerando o desenvolvimento da ciência na Modernidade a metáfora estabelecida entre a natureza e o espírito mediada pelo inconsciente ficou condenada a permanecer na obliteração ocasionada pelo Positivismo o movimento que vigorou a partir da segunda metade do século XIX e que consagrou o ideal de ciência moderna XAVIER 2010 p 59 ou seja para muitos cientistas os fenômenos inconscientes não deveriam ser considerados científicos ou se tornar objetos de estudo da ciência Entretanto Freud jamais deixou de considerar a psicanálise como ciência nem tampouco deixou de acreditar na eficácia terapêutica do método analítico ROCHA 2008 p 110 Mas com sua proposta de inconsciente subverteu a concepção clássica de sujeito do conhecimento tal como inaugurada por Descartes pondo em cena uma dupla revolução Primeiramente ao afirmar que o inconsciente produzia pensamentos Freud desalojou a consciência como sede privilegiada do ato de pensar alterando assim o privilégio concedido aos pensamentos racionais Em segundo lugar promoveu uma ruptura ao considerar que o ser e o pensar não se situavam no mesmo lugar BARATTO 2002 O que se desfaz neste momento não é o sonho de fazer da psicanálise uma ciência mas o paradigma neopositivista da ciência ROCHA 2008 p 111 No início de suas formulações Freud estava convencido de que quando as representações inconscientes se tornavam conscientes sob a razão a experiência analítica conseguia transformar a miséria neurótica na infelicidade que é comum a todo ser humano mortal e finito não duvidando que tal transformação seria vantajosa diante do sofrimento emocional de seus pacientes ROCHA 2008 Contudo segundo Roudinesco 2005 a história da teorização da noção de inconsciente pode e deve ser separada da história de sua utilização terapêutica uma vez que a noção de inconsciente teria começado com filósofos da Antiguidade e continuado com as hipóteses dos grandes místicos vindo a ser precisada no século XIX por Arthur Schopenhauer Friedrich Nietzsche e pelos trabalhos da psicologia experimental por exemplo com Johan Friedrich Herbart Hermann Helmholtz e Gustav Fechner A arte de bruxos e xamãs lançava mão ao inconsciente de forma terapêutica provocando no doente a emergência de forças inconscientes sob forma de possessões ou sonhos A figura do médico posteriormente mantém a origem desse processo fazendo algo semelhante Foi no tratamento centrado na doença que Freud elaborou suas teorias e definiu a psicanálise como um método de investigação dos processos psíquicos inconscientes os quais de outro modo permaneceriam para sempre inacessíveis e desconhecidos O método de investigação do inconsciente pôde ser validado no espaço da análise em um trabalho persistente que teve um longo percurso evolutivo e que começou com o método catártico de Breuer Graças a este método a psicanálise pôde fazer constantemente e continua fazendo novas descobertas no campo do psiquismo ROCHA 2008 p 105 Nessa perspectiva uma primeira grande tentativa de integrar a pesquisa do inconsciente à sua utilização terapêutica começou com as experiências de Franz Anton Mesmer iniciador da primeira psiquiatria dinâmica e terminou com Charcot Foi a partir de um magnetismo tornado hipnotismo que surgiu uma segunda psiquiatria dinâmica dividida em quatro grandes correntes a análise psicológica de Pierre Janet centrada na exploração do subconsciente a psicanálise de Freud fundada na teoria do inconsciente a psicologia individual de Adler e a psicologia analítica de Jung ROUDINESCO 2005 p 590 Entre os anos de 1893 a 1899 quando Freud iniciava suas teorizações a hipnose era método utilizado no tratamento da histeria A hipnose era considerada uma manifestação do inconsciente e descrita como um fenômeno que havia sido anteriormente denominado magnetismo magnetismo animal mesmerismo fariismo e braidismo muitas vezes associado à busca da resolução de problemas de ordem afetiva cognitiva ou comportamental CURADO 2012 p 158 Foi nesse momento histórico que fenômenos como o sonambulismo os transes hipnóticos e as personalidades múltiplas passaram a ser estudados de forma sistemática e o filósofo e médico francês Pierre Janet tornouse o primeiro a propor um sistema de psiquiatria que acabou por substituir o conceito anterior ligado ao magnetismo animal Em sua teoria por não serem controláveis pela consciência Janet considerava tais fenômenos como formas inferiores da vida mental assim como a catalepsia os sonhos os hábitos os instintos e as paixões Segundo a teoria de Janet a personalidade seria constituída de uma instância que conservava as organizações do passado e de outra que sintetizava e organizava os fenômenos do presente devendo funcionar de forma harmônica e integrada em condições normais Fenômenos como alucinações delírios e obsessões seriam decorrentes do fracasso na capacidade de síntese do psiquismo rompendo a arquitetura intrapsíquica habitual ao permitir a emergência de atividade mental inconsciente ou seja em condições normais as chamadas formas inferiores da vida mental se encontrariam presentes no indivíduo mas submetidas ao controle de sua livre vontade A pesquisa sobre histeria e hipnose interessava não apenas a especialistas mas também ao conjunto de intelectuais e homens de ciência da época e Freud reconheceu em 1925 que as obras de Janet anteciparam resultados que ele e Breuer haviam encontrado durante o emprego do método catártico em pacientes histéricas No período em que o método da sugestão hipnótica foi utilizado o objetivo da terapia era identificar a origem dos sintomas O trabalho buscava localizar as causas que haviam determinado o sintoma que segundo Freud era causado pela lembrança de um trauma que não tinha sido abreagido isto é não tinha sido devidamente simbolizado pela linguagem e integrado ao sistema simbólico do sujeito permanecendo no aparelho psíquico e atuando como um corpo estranho ao próprio sujeito o que justificava a importância de procurar a origem dos sintomas pois as ideias não integradas à consciência não eram eliminadas mas apenas isoladas no inconsciente Vale ressaltar a distância no tempo entre o evento traumático e o surgimento dos sintomas pois o sintoma não surgia imediatamente após a ocorrência do trauma permanecendo em atividade constante no psiquismo Contudo apesar da lembrança continuar no aparelho psíquico o paciente não recordava de sua ação ao produzir os sintomas BARATTO 2009 Usando a hipnose Freud buscava aliviar o sofrimento do paciente ao promover a catarse pela abreação procurando identificar a causa que desencadeava o sintoma e o momento em que o trauma ocorreu pois os acontecimentos traumáticos não ab reagidos precisavam estabelecer a expressão verbal para serem agregados à consciência Portanto a catarse possibilitava que o inconsciente local em que as lembranças não abreagidas se encontravam se tornasse consciente ou seja a abreação a partir da verbalização conseguia liberar a emoção estrangulada pela integração simbólica da linguagem A catarse era como uma purificação identificada desde a antiga Grécia com a ideia de purgação apaziguamento e eliminação de tensões Contudo Freud identificou a resistência no paciente que impedia as ideias inconscientes de se tornarem conscientes Portanto para acessar o inconsciente era preciso romper a resistência pela sugestão hipnótica que temporariamente a suspendia permitindo ao sujeito sob hipnose elaborar com palavras as lembranças associadas ao sintoma Todavia Freud descobriu que os métodos sugestivos desencadeavam as resistências e tornavam o desejo inconsciente ainda mais inacessível podendo também conduzir a alienação imaginária do sujeito a outro objeto do inconsciente ao qual o paciente passava a se submeter Por isso a hipnose não continuou sendo usada na prática clínica de Freud pois os resultados obtidos não duravam ao longo do tempo Diante da resistência o pressuposto do estado de dupla consciência foi reelaborado como uma teoria da defesa que posteriormente originou a teoria do recalque ou repressão A repressão tornouse um dos principais conceitos da psicanálise e passou a ser descrita como uma operação na qual as representações de desejo eram inscritas no inconsciente Enquanto Breuer foi o responsável pela noção de estados hipnoides e enfatizava a existência da divisão da consciência em estados análogos aos produzidos nos estados de hipnose Freud desenvolveu os conceitos de defesa recalque e resistência A introdução da teoria do recalque por Freud o levou a divergências teóricas com Breuer as quais atingiram seu ponto culminante quando Freud relacionou as ideias carregadas de conteúdo sexual com o recalcamento o qual seria o responsável pela existência de grupos de ideias situadas à margem da cadeia associativa consciente causando assim a divisão da consciência Ao introduzir a repressão como causa da divisão psíquica e processo pelo qual as representações do desejo eram expulsas da consciência em direção ao inconsciente Freud colocou a teoria da repressão como fundamento da teoria psicanalítica Era por meio da repressão que as lembranças traumáticas se tornavam inacessíveis à consciência A repressão não eliminava a representação traumática indesejável mas a isolava psiquicamente Assim as ideias de caráter aflitivo formavam um grupo externo à consciência delimitado pela resistência o qual se organizava com leis diferentes daquelas da consciência impondo ao sujeito uma luta permanente contra o retorno daquilo que fora recalcado por meio de substitutos oriundos do inconsciente Freud concluiu que os sintomas não eram determinados por uma única ideia patogênica mas pela sucessão de traumas entrelaçados e parciais os quais formavam uma cadeia de ideias e sequências de pensamentos associadas umas com as outras organizadas em torno de um núcleo E ao redor dos núcleos existia abundante material psíquico que se estruturava de maneira relacional e estratificada em três formas diferentes de organizar as ideias Então Freud apresentou sua primeira tópica do aparelho psíquico como um arquivo de memórias que não obedecia a relações cronológicas ou temporais nem se organizava por semelhança temática Nessa primeira tópica Freud certo da existência de pensamentos inconscientes e de que estes poderiam ser traduzidos em símbolos linguísticos apresentou o aparelho psíquico dividido em consciente préconsciente e inconsciente no qual a associação de ideias ocorria por meio de fios lógicos que mantinham as ideias e os núcleos ligados entre si não em ordem temática concêntrica mas em forma de ramificações de modo a possibilitar o acesso ao inconsciente pela técnica da associação livre Com essa concepção aquilo que era interditado da memória consciente devido à ação da repressão não eram os eventos mas os fios de articulações lógicas estabelecidos entre os sintomas manifestos e as cadeias de representações do desejo inconsciente Assim o sujeito tornavase incapaz de estabelecer relações entre os atos da vida cotidiana e os pensamentos inconscientes E pelo método da associação livre as resistências podiam ser superadas e novos fios lógicos eram produzidos ligando as representações inconscientes entre si além de associar palavras ao potencial de expressar pensamentos inconscientes possibilitando tornálos conscientes O conceito de trauma no surgimento da psicanálise O conceito de trauma perpassa todo o percurso teórico de Freud e é recomendado que todo estudante de Psicologia e não só aquele com interesse em relação à psicanálise o entenda profundamente compreendendo tanto sua evolução quanto as possíveis relações com a prática O conceito de trauma no início da psicanálise estava diretamente ligado a acontecimentos externos reais que sobrepujavam a capacidade do indivíduo de processar a angústia e a dor psíquica provocados por um evento traumático De modo geral o trauma psicológico é o resultado de uma experiência de dor ou sofrimento emocionalfísico que como um dano emocional pode acarretar a exacerbação de emoções negativas e envolver mudanças físicas no cérebro além de também afetar o comportamento e até mesmo o pensamento da pessoa que fará de tudo para afastar qualquer lembrança do evento traumático O termo trauma apareceu pela primeira vez nas obras de Freud por volta de 1893 enquanto fazia seus estudos com pacientes histéricas relacionandoo a uma primitiva sedução sexual perpetrada pelo pai contra a paciente Posteriormente reconheceu também o trauma do nascimento do impacto da cena primária da angústia da castração e em 1926 reconheceu o trauma representado pelas perdas precoces como a perda do amor da mãe ou de outras pessoas significativas ZIMMERMAN 2008 p 419420 O trauma que em grego quer dizer ferida é um conceito essencialmente econômico em relação à energia psíquica pois indica uma frustração na qual o ego sofre uma injúria que não consegue processar recaindo num estado de desamparo e atordoamento além de gerar também angústia excedente que será escoada por meio de sintomas corporais Múltiplos traumas podem ser precocemente impingidos às crianças tanto sob a forma de separações traumáticas quanto de modo invasivo e decorrente de violências de várias naturezas os quais podem repercutir seriamente no psiquismo da criança ficando impressos sob a forma de vazios isto é como uma vivência de desamparo e de feridas abertas A teoria do trauma foi importante no nascimento da psicanálise pois Freud considerou que a causa dos sintomas da histeria estaria na lembrança de um trauma não abreagido isto é que não tenha sido devidamente simbolizado pela linguagem e integrado ao sistema simbólico do sujeito Em seus primeiros textos o trauma foi abordado como um incremento da excitação no sistema nervoso mediante o qual não se tinha ação ou palavras que permitissem sua dissipação ainda se ligado a um fato real Ao tentar promover a simbolização do evento traumático pelo método hipnocatártico Freud chegou à associação livre abandonando posteriormente a hipnose no tratamento da histeria devido ao retorno dos sintomas em consequência de um provável deslocamento da causa Foi justamente o deslocamento da causa que levou Freud a levantar a hipótese de que o evento traumático não era suficiente para explicar o surgimento dos sintomas e que tal evento não era necessariamente real isto é não teria realmente ocorrido mas poderia ser causado por fantasias da paciente na tentativa de chamar a atenção sobre a figura paterna De qualquer forma um trauma mesmo se real tende a ser utilizado de forma defensiva servindo como álibi para explicar as perturbações presentes obstruindo o caminho para identificar a causa verdadeira e limitando as possibilidades de questionamento e transformação Assim Freud logo se deu conta de que por trás das histórias contadas por seus pacientes havia muita fantasia e passou a se interessar mais pelo significado do que era trazido do que pelo contexto real como relatado Ele também já tinha passado a supor que a temporalidade do trauma era posterior à ocorrência da impressão relatada a qual não podia ser significada no momento da percepção mas era fixada e retornava posteriormente em outros eventos De 1905 a 1920 Freud começou a elaborar os conceitos da metapsicologia psicanalítica a partir do desenvolvimento sexual infantil no qual o paradigma da situação traumática passou a ser as fantasias originárias isto é aquelas que envolvem angústias de sedução e castração são relativas à cena primária etc Com isso o trauma concebido como decorrente de um fator ambiental saturado de energia libidinal que não conseguia descarregála passou a ser compreendido em função da urgência e da pressão das pulsões sexuais A sedução sexual apresentouse como um paradigma para a situação traumática No entanto tendo percebido a falta de eficácia do tratamento a longo prazo Freud também estranhou a alta frequência com que cenas com a situação traumática eram relatadas com semelhança por suas pacientes levantando a hipótese de que talvez os relatos não tivessem realmente acontecido o que o levou à compreensão do mecanismo de repressão e da importância da fantasia para a vida psíquica Então os conflitos e as vivências traumáticas passaram a ser compreendidos a partir das fantasias inconscientes e da realidade psíquica interna chegando ao ponto de ser possível afirmar que a única realidade válida tanto para o paciente como para o analista seria a realidade psíquica A partir de 1920 Freud começou a reformular sua concepção do aparelho psíquico e extraiu da Embriologia a metáfora de vesícula viva cuja camada mais externa se transformaria em um escudo protetor argumentando que os estímulos traumáticos seriam aqueles que conseguiriam atravessar o escudo protetor devido à falta de preparo do eu e a fatores diversos como surpresa ou susto e o trauma adquiriu uma dimensão essencialmente intersistêmica e pulsional Posteriormente por volta de 1925 Freud propôs uma nova teoria da angústia que relacionava o trauma à perda de um objeto de afeto fazendo distinção entre as situações traumáticas uma automática enquanto sinalização sobre situações de perigo e aproximação do trauma e outra relacionada com a ideia da angústia que diante de uma experiência de desamparo proporcionava excesso de excitação Já em torno de 1934 é possível encontrar uma descrição mais pormenorizada do trabalho do trauma definido como impressões primitivas da infância da época em que a criança começa a falar e o conteúdo se relaciona principalmente a impressões de natureza sexual e agressiva como experiências sobre o próprio corpo ou percepções dos sentidos de algo visto e ouvido as quais provocam alterações comparáveis a cicatrizes no psiquismo Como a criança estaria começando a falar a linguagem ainda não estaria plenamente desenvolvida não deixando lembranças no inconsciente mas apenas traços não percebidos na superfície mas registrados em camada mais profunda Em 1940 no livro Esboço de psicanálise Freud comparou o efeito de um trauma psicológico ao de uma agulha perfurando um embrião humano pois se uma agulhada em um organismo desenvolvido é inofensiva numa massa de células em divisão celular poderá promover relevantes alterações naquele ser em desenvolvimento Tirou ainda conclusões sobre a universalidade do trauma e sobre as repressões originadas pelo evento traumático Posteriormente Lacan reafirmou essa universalidade mas de outro modo apontando que todo ser falante é traumatizado e isso é um fato de estrutura como aquilo que há de inassimilável no real sobre a sexualidade Esse inassimilável lacaniano pode ser correlacionado ao umbigo dos sonhos descrito por Freud no capítulo VII da Interpretação dos sonhos 1900 trecho que tem que ser deixado na obscuridade emaranhado de pensamentos oníricos que não se deixa desenredar ponto onde ele mergulha no desconhecido Entretanto esse inassimilável pode desorientar o sujeito e produzir efeitos e afetos plenos de angústia que o arrancam da cena simbólica e tiramlhe as palavras da boca Portanto só resta ao sujeito construir um saber possível que dê de alguma forma vazão ao afeto aprisionado Assim a fantasia tornase uma possibilidade de pôr fim à vivência trazida pelo trauma de não ser de não ter desejo Depois de abandonar a perspectiva da sedução como algo realmente acontecido Freud passou a considerar os relatos de sedução como provenientes da fantasia como uma forma mítica a nível individual de abordar a questão da origem dos transtornos Além disso observou também que a criança em crescimento durante suas brincadeiras substituía os objetos reais pela fantasia construindo castelos no ar e criando o que foi chamado de devaneio propondo que como no sonho a fantasia expressaria a realização de um desejo fornecendo ao sujeito uma satisfação independente da realidade FREUD 2006 Freud percebeu que a fantasia assim como o sonho o lapso o sintoma e os atos falhos seria uma produção do inconsciente e portanto sua lógica de funcionamento não seria determinada nem pela racionalidade nem pelo tempo cronológico mas insubordinada a qualquer ordenação coexistindo passado presente e futuro enlaçados no devaneio pelo desejo como um fio condutor Portanto no psiquismo a conexão de uma experiência passada com uma situação atual teria condições de produzir o por vir sempre a serviço do desejo e assim as fantasias seriam motivadas pelas frustrações impostas pela vida cotidiana funcionando como um modo natural de aceitar e enfrentar as próprias frustrações Contudo a possibilidade de fantasiar não é idêntica em todas as pessoas Freud 2006 aponta por exemplo que os homens adultos se envergonham de suas fantasias e que apresentam muita dificuldade de revelálas fora da situação terapêutica Portanto a fantasia pode ser considerada como uma válvula de escape para as pulsões inconscientes Contudo diante da impossibilidade de fantasiar seja por qualquer motivo podem ocorrer outras possibilidades menos saudáveis e o adoecer está entre elas Mas doença é um termo muito genérico que implica o conhecimento exato dos mecanismos envolvidos e suas causas e como em psiquiatria e em psicologia apenas em poucos quadros clínicos mentais todas as características biológicas e funcionais são conhecidas os termos transtornos perturbações disfunções ou distúrbios são mais usados até porque o conceito de transtorno foge à norma do conhecimento e se associa a um comportamento desviante anormal Os transtornos mentais formam um campo de investigação interdisciplinar que envolve áreas como a psicologia a psiquiatria e a neurologia São usados para referenciar anormalidades ou o comprometimento de ordem psicológica no indivíduo sendo caracterizados pela contrariedade decepção e atitudes que revelam desarranjo ou desordem neurológica Contudo podem também em alguns casos se referir a qualquer perturbação na saúde do paciente O tratamento pode ser feito com o acompanhamento de psicoterapeuta psiquiatra ou equipes de profissionais de saúde mental incluindo sempre psicólogos e psiquiatras além de por exemplo enfermeiros terapeutas ocupacionais musicoterapeutas e assistentes sociais Considerando desde a gênese até as manifestações os transtornos mentais são fenômenos muito complexos e podem ser classificados em três tipos 1 As neuroses caracterizadas pela tensão excessiva e prolongada de um conflito persistente ou de uma necessidade prolongadamente frustrada a qual leva a modificações na personalidade mas não a desestrutura nem compromete a percepção da realidade ou seja são transtornos que não afetam o ser humano em si pois por não apresentarem base orgânica o paciente continua consciente e com percepção clara da realidade não confundindo a experiência subjetiva com a realidade exterior 2 As psicoses caracterizadas pela oscilação entre estados de depressão e de extrema euforia e agitação que influenciam o modo de agir e se comportar num claro indício de desestruturação da personalidade além de apresentar alterações no juízo da realidade a partir do que o paciente passa a perceber a realidade de maneira diferenciada mas com convicção de que suas percepções apesar de parecerem irreais para os outros são apoiadas na lógica e na razão sendo comuns as alucinações provenientes de alterações dos órgãos dos sentidos como ouvir vozes ver coisas sentir cheiros ou toques os e delírios provenientes de alterações do pensamento sob forma de conspirações perseguição grandeza riqueza onipotência ou predestinação ou seja são transtornos que afetam o ser humano como um todo e prejudicam as funções psíquicas em nível tão acentuado que a consciência o contato com a realidade e a capacidade de corresponder às exigências da vida se tornam perturbados 3 As psicopatias ou perversões como chamadas por Freud são caracterizadas por falha na construção da personalidade mas sem desestruturála totalmente Podem apresentar a ausência de alucinações e manifestações neuróticas a presença de um bom nível de inteligência e de baixa capacidade afetiva a incapacidade de adiar satisfações a intolerância a esforços rotineiros a busca por fortes estimulações a ausência de empatia decorrente da incapacidade de envolvimento emocional a falta de confiança tanto em si como e principalmente nos outros a falta de capacidade de aprender com os próprios erros por não reconhecêlos e a diminuição ou ausência da consciência moral que leva a problemas na diferenciação entre certo e errado ou o permitido e o proibido fazendo com que o simular dissimular enganar roubar assaltar ou matar não causem nenhum tipo de sentimento como repulsa ou remorso seja na própria imaginação ou em ações reais uma vez que são apenas considerados os próprios interesses O termo neurose foi inventado por William Cullen na segunda metade do séc XVIII quando a abertura de cadáveres passou a ser considerada um método científico para a observação direta e post mortem de órgãos que tinham sofrido de alguma patologia A ideia foi criar uma palavra genérica para designar o conjunto dos problemas da sensibilidade e da motricidade os quais não apresentavam relação com nenhum órgão construindo uma descrição metódica pela negação para incluir o domínio das doenças que não encontravam nenhuma explicação orgânica na medicina anatomopatológica daquela época Philippe Pinel logo retomou o termo ao organizar uma rede de hospitais psiquiátricos supostamente voltados para a saúde mental e um século depois Jean Martin Charcot o popularizou ao definir a histeria como uma doença funcional relacionada ao útero portanto uma neurose Após o encontro de Freud com Charcot a histeria continuou a ser considerada uma neurose desvinculada da presunção uterina mas associada à etiologia sexual e ao enraizamento no inconsciente A partir do discurso psicanalítico a histeria tornou se um modelo para a neurose e esta passou a ser definida como uma doença nervosa relacionada a um trauma Posteriormente com o abandono da teoria da sedução a neurose tornouse uma doença ligada a um conflito psíquico inconsciente de origem infantil e dotada de causa sexual resultado de um mecanismo de defesa contra a angústia por meio da formação de compromisso entre a defesa e a possibilidade de realização de um desejo As neuroses podem ser classificadas em perturbação obsessivacompulsiva transtorno do pânico transtornos de ansiedade fobias depressão distimia síndrome de Burnout entre outras O termo psicose foi usado em 1845 pelo psiquiatra austríaco Ernst von Feuchtersleben para substituir o vocábulo loucura e definir os doentes da alma numa perspectiva psiquiátrica As psicoses enquanto conceito proveniente do saber psiquiátrico e pautado na ideia de alienação e perda da razão foram uma oposição da medicina manicomial às neuroses tendo designado inicialmente o conjunto de todas as doenças mentais Mas posteriormente a psicose se restringiu às três grandes formas modernas da loucura a esquizofrenia a paranoia e a psicose maníacodepressiva Freud retomou o conceito a partir de 1894 usandoo para designar a reconstrução inconsciente de uma realidade delirante ou alucinatória Entretanto Freud dedicou mais atenção à neurose pois julgava a psicose quase sempre incurável É na correspondência com Jung que melhor se apreende a maneira como entre 1909 e 1911 foi elaborada a doutrina da psicose a qual propunha a ideia de dissociação da consciência e privilegiou o conceito de paranoia em oposição à noção de esquizofrenia Assim a paranoia tornouse o modelo estrutural da psicose em geral de maneira semelhante à da histeria em relação à neurose Em 1911 Freud lançou as Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia Dementia paranoides enunciando uma teoria quase completa do mecanismo do conhecimento paranoico na qual definiu a psicose como um distúrbio entre o eu e o mundo externo inscrevendo a psicose numa estrutura tripartite em relação à neurose e à perversão Assim como a neurose a psicose surgiria do resultado de um conflito intrapsíquico enquanto a perversão se apresentaria como uma negação da castração Ao diferenciar a psicose da perversão e da neurose Freud também apagou o abismo criado pela psiquiatria entre norma e patologia A psicopatia ou perversão como chamada por Freud designa um transtorno psíquico que se manifesta no plano de uma conduta antissocial podendo ser tomada como um defeito moral Segundo o saber psiquiátrico do séc XIX as perversões eram práticas sexuais tão diversificadas quanto o incesto a homossexualidade a zoofilia a pedofilia a pederastia o fetichismo o sadomasoquismo o travestismo o narcisismo o autoerotismo a coprofilia a necrofilia o exibicionismo o voyeurismo e as mutilações sexuais Contudo Freud passou a definilas como a reconstrução de uma realidade alucinatória na qual o sujeito ficava unicamente voltado para si mesmo numa situação sexual autoerótica ao tomar o próprio corpo ou parte deste como objeto de amor sem nenhum tipo de alteridade possível A partir de 1896 Freud adotou o conceito de perversão sem qualquer conotação pejorativa ou valorizadora conservando a ideia de desvio sexual em relação a uma norma O termo perversão abrangia um campo mais amplo que a neurose e a psicose pois tanto as fantasias quanto as práticas e os comportamentos por ele englobados eram apreendidos em relação à norma social estando geralmente ligada às formas de arte erótica tanto ocidentais quanto orientais Segundo tal interpretação a estruturação psicopática se manifestava acompanhada pela falta de responsabilidade e ausência de culpa por meio de três características básicas 1 impulsividade 2 repetitividade compulsiva conhecida atualmente como repetitividade obsessiva compulsiva e 3 uso predominante de atuações de natureza maligna Apesar de traços da psicopatia serem inerentes à natureza humana suas três características tornavamse um fim em si mesmas acompanhadas por uma total falta de consideração pelas pessoas cúmplices no jogo psicopático Considerando a prática psicanalítica os psicopatas dificilmente entram espontaneamente em análise e quando o fazem mostram propensão para atuações e para o abandono do tratamento não só pela dificuldade de ingressarem numa posição depressiva como também pela predominância da pulsão de morte e seus derivados que os obriga a uma conduta hetero e autodestrutiva Além disso diante da característica ausência de culpa em sua própria mania de grandeza o psicopata sentese como se estivesse sempre certo não reconhecendo qualquer necessidade de terapia mas atribuindo essa necessidade aos outros num comportamento típico de soberba como era chamado antigamente De qualquer modo ainda hoje se fala de possíveis ocorrências traumáticas como algo que marca profundamente um sujeito e o leva a sentimentos e comportamentos inusitados algo externo que desresponsabiliza o sujeito tornandoo vítima de um infortúnio Ainda que a humanidade tenha passado por muitas mudanças desde a época de Freud parece que o ser humano segue traumatizado e apesar de toda a suposta liberação sexual da atualidade podese dizer que segue recalcado REFERÊNCIAS AGUIAR A O corpo e o risco a atualidade de o lugar da psicanálise na medicina Opção Lacaniana OnLine v 5 n 13 p 113 2014 APA DSM 5 manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais 5 ed Porto Alegre Artmed 2014 BARATTO G A descoberta do inconsciente e o percurso histórico de sua elaboração Psicologia Ciência e Profissão v 29 n 1 p 7487 2009 BARATTO G Descobrindo o encobrimento da descoberta freudiana a psicanálise e a Ego Psychology Estilos da Clínica v 7 n 12 p 156177 2002 BORNHEIM G Filosofia do romantismo In GUINSBURG J Org O romantismo 2 ed São Paulo Perspectiva 2005 p 75111 COUTINHO L M S et al Prevalência de transtornos mentais comuns e contexto social análise multinível do São Paulo Ageing Health Study SPAH Cadernos de Saúde Pública v 30 n 9 p 18751883 2014 CURADO M A descoberta do inconsciente no século XIX Português Revista Diacrítica v 26 n 2 p 157182 2012 FRANÇA NETO O Psicopatologia entre a psicanálise e a psiquiatria Revista Affectio Societatis v 12 n 22 p 113127 2015 FREUD S Gradiva de Jensen e outros trabalhos 19061908 Rio de Janeiro Imago 2006 LACAN J Seminário 11 os quatro conceitos fundamentais da psicanálise 1964 2 ed Rio de Janeiro Jorge Zahar 1996 Campo Freudiano no Brasil NUNES T R FERREIRA R W G PERES W G A suspeita em Freud o estatuto da interpretação em psicanálise Psico Rio Grande do Sul v 40 n 4 p 443448 2009 OMS Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID 10 Porto Alegre Artmed 1993 ROCHA Z A experiência psicanalítica seus desafios e vicissitudes hoje e amanhã Ágora Estudos em Teoria Psicanalítica Rio de Janeiro v 11 n 1 p 101116 jun 2008 ROUDINESCO É Henri Ellenberger e a descoberta do inconsciente Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental São Paulo v 8 n 4 p 587595 dez 2005 ROUDINESCO E PLON M Dicionário de psicanálise Rio de Janeiro Zahar 1998 XAVIER C R A história do inconsciente ou a inconsciência de uma história Revista da Abordagem Gestáltica v 16 n 1 p 5463 jun 2010 ZIMMERMAN D Vocabulário contemporâneo de psicanálise Porto Alegre Artmed 2008
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1 HISTÓRIA DA PSICANÁLISE SUMÁRIO FACUMINAS Erro Indicador não definido Introdução 2 O surgimento da psicanálise no final do século XIX 4 O inconsciente no surgimento da psicanalise 12 O conceito de trauma no surgimento da psicanálise 22 REFERÊNCIAS 33 Introdução A psicanálise surgiu no final do século XIX Seu fundador considerado o pai da psicanálise Sigmund Freud nasceu em 1856 na cidade de Freibergin Mahren pertencente então ao Império Austríaco Freud foi o primeiro filho do terceiro casamento de Jacob Freud um comerciante de lã não muito bem sucedido com Amalie Nathanson vinte anos mais jovem do que ele O primogênito Freud foi seguido por outros 7 filhos sendo três meninos Julius Dolfi e Alexander e quatro meninas Anna Rosa Marie e Paula Sua família seguia o judaísmo como religião e por problemas financeiros e de saúde aos quatro anos de idade Freud e sua família mudaramse para Viena onde ele morou até 1938 Aos 17 anos entrou para a faculdade de medicina na Universidade de Viena graduando se em 1881 Freud como médico neurologista propôs um método para a compreensão e análise do homem método este que abrangia a investigação do psiquismo e seu funcionamento um sistema teórico sobre o comportamento humano e um tratamento médico voltado para problemas psicológicos que não apresentavam suporte necessariamente biológico para sua compreensão e cura ou seja em síntese propôs uma teoria da personalidade e procedimentos para terapia A concepção sobre o que é ser humano sempre foi motivo de reflexão para nossa espécie É a partir da concepção de homem que são estabelecidas as nossas relações sociais Entretanto é possível afirmar que tal concepção é socialmente construída principalmente pelo fato de que o ser humano só pode existir e se desenvolver em sociedade É inimaginável ou mesmo impossível pensar em um ser humano se desenvolvendo de maneira saudável isolado ou distante de outros seres humanos Portanto é importante reconhecer as relações que propiciam ou inibem o surgimento das diferentes maneiras de pensar sobre o ser humano Assim a psicanálise de um modo bastante amplo não deixa de ser uma maneira de pensar sobre o ser humano e suas relações sociais isto é em como o ser humano se desenvolve e é afetado por toda e qualquer relação social desde a mais remota idade Num primeiro momento será abordado o contexto sociopolíticoeconômico no momento em que a psicanálise surgiu e pensaremos em como tal contexto pode ter afetado as formulações de Sigmund Freud o pai da psicanálise A compreensão do contexto pode ser considerada fundamental para o estabelecimento de relações entre a teoria e a prática psicanalítica isto é sem a influência das relações familiares da religião da profissão da situação econômica e de todas as relações sociais que tanto inspiraram as concepções de Freud no momento de criação da psicanálise não haveria material subjetivo para nenhum tipo de análise Ou seja o ser humano só pode ser compreendido como um todo que se relaciona em várias instâncias e de modo diferenciado com outros seres de sua espécie Assim de modo geral a psicanálise propõe a compreensão das relações estabelecidas entre os seres humanos para que cada um possa desenvolver suas potencialidades com o menor sofrimento possível pois escolhas sempre serão necessárias em qualquer desenvolvimento humano que nunca é somente pessoal mas sempre socioemocional A compreensão do contexto do surgimento da psicanálise auxilia na compreensão da própria psicanálise pois esta se desenvolveu a partir da visão de mundo da modernidade na qual o ser humano é sempre um indivíduo único mas também fruto de seu meio social Portanto é essa individualidade que permite e possibilita seu desenvolvimento tornando necessária a formulação de teorias que tentem explicar tanto sua personalidade quanto as maneiras de resolver os possíveis problemas encontrados durante o desenvolvimento individual E foi justamente para isso que Freud propôs a psicanálise O surgimento da psicanálise no final do século XIX Do ponto de vista dos períodos históricos a visão de mundo da Modernidade abrange tanto a Idade Moderna quanto a Idade Contemporânea A Idade Moderna pode ser considerada de 1453 até 1789 e é caracterizada pelo nascimento do modo capitalista de produção pelos descobrimentos marítimos europeus que vão do séc XV até o séc XVII pela invenção da imprensa séc XVI e pelo Renascimento que vai do fim do séc XIV até o fim do séc XVII com transformações evidentes na cultura na sociedade na economia na política e na religião A Idade Contemporânea vai desde 1789 data do início da Revolução Francesa até praticamente os dias atuais sendo caracterizada pela valorização da razão em detrimento da religiosidade na qual o regime capitalista se consolidou Por definição a Modernidade marcou a ruptura com a tradição medieval dominada por dogmas religiosos caracterizandose pelo estabelecimento da autonomia da razão com reflexos e repercussões sobre a filosofia a cultura e toda a sociedade ocidental Um dos marcos do início da Modernidade foi a publicação do livro Discurso sobre o método em 1637 do filósofo físico e matemático francês René Descartes 15961650 considerado o primeiro pensador moderno A afirmação penso logo existo cogito ergo sum em latim estabeleceu a importância do uso da razão para a compreensão do mundo a sua volta tomando por base a verificação de evidências a análise racional dos fenômenos naturais e a síntese e enumeração de princípios que permitiram ordenar o pensamento e propiciaram o aparecimento e desenvolvimento do método científico O conceito de Ciência foi muito importante para toda a Modernidade seja enquanto afirmação de seu valor para o desenvolvimento social seja enquanto reflexão crítica sobre seus métodos É interessante notar como a palavra concepção surge na Língua Portuguesa no sec XV exatamente num momento de transição entre o modo de produção e visão de mundo feudal e a modernidade Uma possível justificativa é que no mundo feudal o pensamento individual não tinha importância diante dos dogmas religiosos usados para explicar o mundo relembrando que após as invasões bárbaras na Idade Média foram os mosteiros que preservaram o conhecimento nas bibliotecas não queimadas pelos bárbaros nas quais os monges transcreviam à mão mesmo sem entender os livros antigos ou seja era a Igreja enquanto instituição que detinha fisicamente o conhecimento fazendo valer suas interpretações Por exemplo a visão geocentrista do universo na qual a Terra era o centro do mundo era dominante contra a visão heliocentrista que afirmava que a Terra girava em torno do Sol Foi a revolução copernicana isto é a partir das observações do matemático e astrônomo polonês Nicolau Copérnico 14731543 cônego da Igreja Católica que estabeleceu a separação entre o pensamento dogmático religioso e o pensamento científico Na tentativa de manter seu domínio sobre o conhecimento a Santa Inquisição até julgou Galileu Galilei 15641642 personalidade fundamental na revolução científica e que defendia o heliocentrismo fazendoo renunciar publicamente às suas crenças mas não sem reafirmar com uma sua célebre citação que contudo a Terra se move em latim eppur si muove O aspecto religioso sempre foi muito importante para a humanidade e não deixou de ser para Freud um judeu Convém ressaltar o judaísmo como religião monoteísta e origem das várias vertentes do cristianismo além da reforma protestante isto é o movimento reformista cristão do séc XVI que protestou contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica e propôs a reforma do catolicismo da época A visão monoteísta isto é de um único Deus que criou o mundo em sete dias e o homem a sua imagem e semelhança que tudo sabe e tudo vê se contrapõe à das religiões politeístas da antiguidade e de outras regiões não centradas no ocidentalismo Europeu Uma característica importante presente já no judaísmo é a culpa de Adão e Eva pela perda do paraíso por terem comido o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal surgindo assim o pecado original enquanto tendência inata de pecar e como necessidade de resgatar a humanidade presente no ser humano De modo geral toda religião tenta explicar o mundo através de alegorias isto é na forma de parábolas que possam passar algum significado moral e mesmo social para seus seguidores por exemplo retomar as relações existentes entre personagens que não necessariamente existiram na realidade como Adão Eva e seus filhos Freud apresentará essa tendência de sistematização do conhecimento por meio de alegorias por exemplo tanto em relação ao complexo de Édipo como em relação ao Malestar na civilização Mas veremos isso de maneira mais detalhada posteriormente Neste momento é mais importante perceber como tornase possível afirmar de que modo a estrutura familiar é influenciada pela visão de mundo de sua época Por exemplo a família defendida até hoje pela Igreja Católica constituída por um núcleo familiar composto por pai mãe e filhos vivendo numa mesma casa é típica da Modernidade não existindo por exemplo no período feudal no qual a população se organizava em guildas de acordo com as profissões sendo que os filhos estariam destinados a seguir a profissão dos pais aprendendo com estes as habilidades necessárias para sua inserção na sociedade É possível inferir que como os filhos seguiam a profissão dos pais os filhos dos nobres eram nobres e os filhos dos servos continuavam servos e por isso a sociedade tendia a ser mais estável Não havia necessidade de os direitos serem iguais para todos pois o futuro de cada um era determinado por sua própria origem Não havia necessidade de escolas nem de direitos individuais pois as classes sociais eram mais importantes do que os indivíduos Nesse contexto a religião era usada para justificar a organização do mundo Outro importante pensador do séc XIX Karl Marx 18181883 chegou até a afirmar que a religião era o ópio do povo isto é aquilo que manteria a população anestesiada dos verdadeiros problemas sociais Do ponto de vista econômico a Modernidade está diretamente associada ao surgimento e desenvolvimento do modo de produção capitalista Marx ficou conhecido principalmente pelo conjunto de livros denominados O capital sendo que o primeiro foi publicado em 1867 no qual é feita uma análise e crítica da sociedade capitalista Marx pode ser considerado juntamente com Freud e Darwin um dos três principais pensadores do séc XIX isto é os pensadores que mais influenciaram as posteriores transformações sociais O capital é predominantemente um livro de economia mas aborda também aspectos sociais culturais políticos e filosóficos ao apresentar a divisão de classes na sociedade capitalista entre a burguesia e o proletariado em que a burguesia enquanto classe dominante e detentora do poder econômico se apropria do trabalho proletário por meio da maisvalia isto é da diferença entre os custos envolvidos na produção incluído o valor que o empregado recebe pelo trabalho e o valor obtido na venda do produto final que gera o lucro para a classe dominante Contudo foi na Modernidade principalmente a partir da Revolução Francesa movimento de intensa agitação política e social ocorrido entre 1789 e 1799 que se estabeleceu o conceito de cidadão isto é de que todos deveriam ser iguais perante as leis Ou seja o súdito ou vassalo não estaria mais à disposição do monarca da região onde tinha nascido mas tanto o monarca quanto a população de maneira geral deveriam se submeter às mesmas regras sociais elaboradas pelos seres humanos e não mais como no período feudal consideradas como imposições divinas reforçadas pelas organizações religiosas É interessante notar que a palavra cidadão surge na Língua Portuguesa em 1269 fazendo referência àquele que mora nas cidades e não como indivíduo que como membro de um Estado usufrui de direitos civis e políticos garantidos pelo mesmo Estado HOUAISS SALLES 2001 p 714 até porque a palavra indivíduo entrou para a Língua Portuguesa no séc XV mais especificamente em 1619 enquanto ser humano considerado isoladamente na coletividade na comunidade de que faz parte cidadão HOUAISS SALLES 2001 p 1607 Portanto é possível estabelecer relações entre o conceito de cidadão e de indivíduo conceitos formulados na Modernidade principalmente por que o conceito de individualidade relacionado diretamente com o conceito eu é fundamental para a psicanálise Retomando a influência da religião tanto em Freud como na população ocidental de modo geral principalmente considerando o pecado original apregoado desde o judaísmo que determinou a expulsão de Adão e Eva do paraíso ressaltase o acesso ao fruto proibido da árvore do conhecimento ou seja evidenciase o conflito da religião com a Modernidade pois as religiões monoteístas mas não apenas estas não estimulam a busca pelo conhecimento além do que é traçado pela interpretação religiosa A importância de Charles Darwin 18091882 naturalista britânico e o terceiro principal pensador do séc XIX vem justamente do conceito de evolução relacionado às espécies isto é da teoria que as espécies animais e mesmo vegetais evoluíam por meio de uma seleção natural porém não necessariamente do melhor sobre o pior mas daqueles mais adaptados às situações naturais do momento sobre os menos adaptados Considerando os fósseis disponíveis em várias regiões do planeta ao apontar as semelhanças entre homens e macacos e inferindo que ambos possam ter ancestrais comuns a teoria da evolução de Darwin coloca em cheque a justificativa religiosa para existência de Adão e Eva As bases e os procedimentos científicos foram fundamentais para as transformações sociais e influenciaram o desenvolvimento não só da psicanálise mas de toda a Psicologia O desenvolvimento da Ciência é uma das principais características da Modernidade que trouxe consigo a proliferação das escolas fundamentais para todos e o desenvolvimento das universidades Com isso ou como consequência acentuaram se a especialização e a fragmentação dos saberes Com a Modernidade a pesquisa científica passou a ser cada vez mais valorizada e em 1810 foi fundada a Universidade Humbolt de Berlim que enquanto modelo universitário voltado principalmente para a pesquisa influenciou muitas outras universidades europeias e ocidentais A organização universitária levou à separação do conhecimento entre ciências e humanidades reforçando a especialização profissional em subáreas do conhecimento dando origem a institutos e departamentos universitários que promoviam a formação em áreas inicialmente tradicionais como Engenharia Direito e Medicina e posteriormente numa fragmentação cada vez maior de acordo com objetos cada vez mais restritos de pesquisa como Enfermagem Psicologia Farmácia Fisioterapia Fonoaudiologia Odontologia Nutrição etc Especificamente em relação à área da Saúde Foucault 2012 faz uma análise interessante de como se deu a evolução do discurso empregado pelos médicos na clínica o qual também ajuda a compreender as relações contextuais entre a sociedade e a profissão médica E considerando o desenvolvimento da Medicina no séc XIX relacionado com a migração a superpopulação das cidades e as precárias condições de vida da classe trabalhadora e que conduziu à medicina social a formação de Freud foi em neurologia na especialidade que trata de distúrbios estruturais do sistema nervoso e não na medicina cientificamente mais avançada para a época e relacionada à teoria microbiana das doenças ou na medicina da evolução das espécies de Darwin ou na medicina da genética de Gregor Mendel 18221884 monge agostiniano botânico e meteorologista austríaco Freud começou sua clínica com o tratamento de pacientes com histeria sob a orientação de JeanMartin Charcot 18251893 médico e cientista francês famoso na área da psiquiatria e neurologia que usava a hipnose como método de tratamento de diversas perturbações psíquicas entre elas e em especial a histeria Segundo Zimmerman 2008 desde épocas primitivas a histeria sempre esteve cercada de mistérios e tabus desde sua origem grega hysteros traduzível por útero esse transtorno psicológico era atribuído apenas às mulheres havendo ainda a crença de que estariam sendo presas de maus espíritos e por isso deveriam ser banidas da comunidade ou submetidas a rituais de exorcismos por meio de torturas ZIMMERMAN 2008 p 184 Ao observar a melhora de pacientes de Charcot Freud elaborou a hipótese de que a causa da doença era psicológica e não orgânica Ao escutar os pacientes ele tentava compreender a natureza do que era conhecido como doenças nervosas funcionais caracterizadas pela impotência da medicina em encontrar uma cura para tais doenças ao buscar explicações em fatos físicoquímicos ou patológicoanatômicos não se preocupando com fatores psíquicos Para Freud os problemas se originavam na não aceitação cultural ou em consequência de desejos reprimidos geralmente associáveis a fantasias de natureza sexual A histeria é um conceito psicanalítico importante e bastante usado que pode aparecer nos textos psicanalíticos com formas e significados bastante distintos ZIMMERMAN 2008 p 184 Em 1895 em parceria com Josef Breuer 18421925 médico e fisiologista também austríaco Freud publicou o livro Estudos sobre a histeria quando ainda esboçava suas ideias psicológicas ligadas ao dinamismo da sexualidade reprimida as quais se chocavam com as ideias da comunidade médica de então que considerava a histeria como uma doença degenerativa causada principalmente pela sífilis De qualquer modo devese considerar que a histeria é tão plástica que a rigor podese dizer que de alguma forma ela está presente em todas as psicopatologias ZIMMERMAN 2008 p 185 Foi com a intenção de compreender o psiquismo que era deixado pelos médicos para filósofos místicos e charlatães e para buscar tratamento e cura dos sintomas neuróticos e histéricos que Freud começou suas investigações sobre os processos mentais A importância de Freud como um dos principais pensadores do séc XIX vai muito além de seus estudos médicos baseados no sistema nervoso a partir do modo tradicional da Medicina Um dos conceitos mais importante é justamente o inconsciente que revela quanto a racionalidade não é suficiente para explicar o comportamento humano Além disso não é possível deixar de considerar a importância que ele deu para o desenvolvimento sexual levando em conta principalmente as críticas surgidas justamente por essa abordagem como também pelo modo como a religião católica anteriormente tentava controlar a população por meio da inibição dos estímulos sexuais O inconsciente foi um conceito fundamental para Freud e constituiu o ponto em torno do qual se sustentou o edifício teórico e técnico da psicanálise Para Freud a maior parte da vida psíquica é inconsciente não dominada pela razão mas regida pela força das pulsões e das paixões O inconsciente no surgimento da psicanalise O reconhecimento do contexto do surgimento da psicanálise foi importante para compreender as bases científicas das quais Freud partiu para elaborar a teoria psicanalítica Por exemplo foi nesse contexto que surgiu o conceito de inconsciente enquanto fenômeno cuja história tem sido pouco ou nada discutida XAVIER 2010 p 54 e deve ser reconhecido como algo que vai além da racionalidade humana isto é por mais que muitos filósofos tenham valorizado a racionalidade como uma das principais características do ser humano nossa espécie não é governada somente pela razão Sua simples menção já suscita certo incômodo contrariando uma ciência que se respalda em princípios como os de razão controle e materialidade abrindose brechas muito interessantes para a exploração de conteúdos que passariam abaixo da superfície dos domínios da ortodoxia científica XAVIER 2010 p 54 Então justamente pelo fator polêmico do conceito é comum se deparar com distorções das origens como também em sua compreensão Apesar de Houaiss e Salles 2001 indicarem que o termo inconsciente apareceu num dicionário de Língua Portuguesa somente em 1873 ele já era usado anteriormente por escritores e pesquisadores CURADO 2012 pois importantes parcelas da atividade mental poderiam furtarse ao controle das atividades conscientes racionais vindo a formar assim a face obscura das paixões da alma de todos os modos homologada aos processos irracionais da mente BARATTO 2002 p 158 Contudo o conceito daquela época era diferente de sua compreensão atual não apresentando ligação com a vida pessoal não influenciando o estado de saúde não dependendo de interpretações pessoais e não sendo decisivo na vida das pessoas isto é apesar de mais amplo e relacionado à natureza era menos influente no sujeito do que a atual noção de inconsciente Foi a partir da conceituação de inconsciente de Freud não mais o oposto simétrico da consciência mas um conceito radicalmente novo em relação ao teorizado por seus predecessores como um ponto de opacidade no interior do psiquismo e com sua irredutibilidade à apreensão conceitual NUNES FERREIRA PERES 2009 que um profundo desconhecimento do sujeito em relação a si mesmo e à realidade que o cerca passou a ser reconhecido Curado 2012 ressalta que a noção de inconsciente faz parte da atual cartografia do espaço interior ainda que ninguém saiba realmente do que se trata nem onde reside Segundo Freud que estudou cientificamente os processos psíquicos inconscientes a equivalência entre o psíquico e o consciente não era só inadequada como também revela uma supervalorização da consciência BARATTO 2009 Entretanto a noção relativa à existência de processos mentais que se desenrolam à margem da consciência é conhecida no pensamento de algumas tradições filosóficas as quais postulam que a consciência poderia submeterse a um processo de divisão BARATTO 2002 p 158 Um problema atual decorrente da falta de compreensão das representações oitocentistas do inconsciente é que o conceito ultrapassado de inconsciente continua a influenciar muitas áreas da vida contemporânea da literatura ao Direito da Psicologia às teorias filosóficas sobre a mente Pior do que tudo não há progresso evidente no conceito de inconsciente nem aliás no conceito de consciência CURADO 2012 p 179 podendo ser encontradas tais influências em amplas aplicações nos tribunais na teoria da educação na prática psicoterapêutica na clínica médica e na explicação dos processos de criatividade artística CURADO 2012 p 180 Portanto é importante compreender a estreita ligação do fenômeno do inconsciente com todas as formas de estado psíquico uma vez que qualquer tipo de transe ou estado alterado de consciência remete o investigador à noção de inconsciente e os pesquisadores de outrora não tinham pudores para encarar de frente estes fenômenos XAVIER 2010 p 61 O termo inconsciente foi compreendido inicialmente como a ligação entre o homem e a natureza um fundamento do ser humano enquanto ser enraizado na vida do universo Ao recuar de 1892 até o início do século XIX é possível encontrar manifestações sobre a noção de inconsciente substancialmente diferentes da que Freud propôs a qual teve luz tão intensa e eclipsou os autores anteriores incluindo autores portugueses pois até em Portugal existiu um grande número de autores que dentro e fora das universidades publicaram obras sobre aspectos da mente humana contribuindo assim para a descoberta da noção de inconsciente CURADO 2012 p 167 Entretanto como o inconsciente é tomado em contraposição à consciência consideremos a relação entre a consciência e o sujeito racional isto é aquele que não somente pensa mas é capaz de apreenderse enquanto ser pensante como formulado por Descartes em Penso logo existo ou seja é próprio da atividade de pensamento ser consciente e portanto racional BARATTO 2002 Assim a consciência seria a superfície estabelecida pelo fluxo de pensamentos na qual as percepções lutariam por emergir não havendo lugar para contradições A disputa entre as ideias é decidida pela intensidade das associações estabelecidas entre elas ou seja o grupo das ideias que se fortalece pelas associações construídas é o que consegue vir à luz da consciência SCHULTZ SCHULTZ 1996 ELLENBERGER 1970 apud XAVIER 2010 p 61 Contudo deve ser ressaltado que para vários pensadores não é a razão que define o gênio e sim o berço último de nossas ideias aquela região subterrânea que nos habita e que será batizada pelos românticos de inconsciente raiz coincidente com o divino verdade última e ponto de partida do homem BORNHEIM 2005 p 82 Porém retomando a revolução no conceito de homem e a valorização da razão e da ciência na Modernidade devemos relembrar que num primeiro momento o homem deixou de ser o centro do universo ao constatar que o Sol não girava em torno da Terra Posteriormente deixou de ser consciente dos próprios atos pois a existência do inconsciente mostrou que era um outro eu inconsciente que determinava muitas das ações humanas Segundo Curado 2012 a partir do final do séc XIX e início do séc XX houve a tendência de privatizar o inconsciente isto é de localizálo com precisão em pessoas concretas que viviam suas vidas de maneira autônoma Esta privatização do inconsciente acompanhou uma idêntica privatização da consciência numa privatização de todo o edifício mental seja consciente seja inconsciente Contudo para alguns pensadores a soberania da razão afastou o homem da natureza afastou o homem de si mesmo uma vez que ele também é natureza XAVIER 2010 p 58 Portanto tais pensadores encaravam a consciência como um acidente ou um obstáculo desagradável e os seres humanos poderiam ser mais felizes se vivessem sem consciência isto é de forma automática de um modo literalmente inconsciente CURADO 2012 p 164 Além de tudo segundo a interpretação de Curado 2012 a respeito de alguns pensadores da época principalmente em relação ao Romantismo a atividade consciente seria um incômodo em relação à vida uma angústia em relação às decisões a tomar Em oposição à valorização do inconsciente e considerando o desenvolvimento da ciência na Modernidade a metáfora estabelecida entre a natureza e o espírito mediada pelo inconsciente ficou condenada a permanecer na obliteração ocasionada pelo Positivismo o movimento que vigorou a partir da segunda metade do século XIX e que consagrou o ideal de ciência moderna XAVIER 2010 p 59 ou seja para muitos cientistas os fenômenos inconscientes não deveriam ser considerados científicos ou se tornar objetos de estudo da ciência Entretanto Freud jamais deixou de considerar a psicanálise como ciência nem tampouco deixou de acreditar na eficácia terapêutica do método analítico ROCHA 2008 p 110 Mas com sua proposta de inconsciente subverteu a concepção clássica de sujeito do conhecimento tal como inaugurada por Descartes pondo em cena uma dupla revolução Primeiramente ao afirmar que o inconsciente produzia pensamentos Freud desalojou a consciência como sede privilegiada do ato de pensar alterando assim o privilégio concedido aos pensamentos racionais Em segundo lugar promoveu uma ruptura ao considerar que o ser e o pensar não se situavam no mesmo lugar BARATTO 2002 O que se desfaz neste momento não é o sonho de fazer da psicanálise uma ciência mas o paradigma neopositivista da ciência ROCHA 2008 p 111 No início de suas formulações Freud estava convencido de que quando as representações inconscientes se tornavam conscientes sob a razão a experiência analítica conseguia transformar a miséria neurótica na infelicidade que é comum a todo ser humano mortal e finito não duvidando que tal transformação seria vantajosa diante do sofrimento emocional de seus pacientes ROCHA 2008 Contudo segundo Roudinesco 2005 a história da teorização da noção de inconsciente pode e deve ser separada da história de sua utilização terapêutica uma vez que a noção de inconsciente teria começado com filósofos da Antiguidade e continuado com as hipóteses dos grandes místicos vindo a ser precisada no século XIX por Arthur Schopenhauer Friedrich Nietzsche e pelos trabalhos da psicologia experimental por exemplo com Johan Friedrich Herbart Hermann Helmholtz e Gustav Fechner A arte de bruxos e xamãs lançava mão ao inconsciente de forma terapêutica provocando no doente a emergência de forças inconscientes sob forma de possessões ou sonhos A figura do médico posteriormente mantém a origem desse processo fazendo algo semelhante Foi no tratamento centrado na doença que Freud elaborou suas teorias e definiu a psicanálise como um método de investigação dos processos psíquicos inconscientes os quais de outro modo permaneceriam para sempre inacessíveis e desconhecidos O método de investigação do inconsciente pôde ser validado no espaço da análise em um trabalho persistente que teve um longo percurso evolutivo e que começou com o método catártico de Breuer Graças a este método a psicanálise pôde fazer constantemente e continua fazendo novas descobertas no campo do psiquismo ROCHA 2008 p 105 Nessa perspectiva uma primeira grande tentativa de integrar a pesquisa do inconsciente à sua utilização terapêutica começou com as experiências de Franz Anton Mesmer iniciador da primeira psiquiatria dinâmica e terminou com Charcot Foi a partir de um magnetismo tornado hipnotismo que surgiu uma segunda psiquiatria dinâmica dividida em quatro grandes correntes a análise psicológica de Pierre Janet centrada na exploração do subconsciente a psicanálise de Freud fundada na teoria do inconsciente a psicologia individual de Adler e a psicologia analítica de Jung ROUDINESCO 2005 p 590 Entre os anos de 1893 a 1899 quando Freud iniciava suas teorizações a hipnose era método utilizado no tratamento da histeria A hipnose era considerada uma manifestação do inconsciente e descrita como um fenômeno que havia sido anteriormente denominado magnetismo magnetismo animal mesmerismo fariismo e braidismo muitas vezes associado à busca da resolução de problemas de ordem afetiva cognitiva ou comportamental CURADO 2012 p 158 Foi nesse momento histórico que fenômenos como o sonambulismo os transes hipnóticos e as personalidades múltiplas passaram a ser estudados de forma sistemática e o filósofo e médico francês Pierre Janet tornouse o primeiro a propor um sistema de psiquiatria que acabou por substituir o conceito anterior ligado ao magnetismo animal Em sua teoria por não serem controláveis pela consciência Janet considerava tais fenômenos como formas inferiores da vida mental assim como a catalepsia os sonhos os hábitos os instintos e as paixões Segundo a teoria de Janet a personalidade seria constituída de uma instância que conservava as organizações do passado e de outra que sintetizava e organizava os fenômenos do presente devendo funcionar de forma harmônica e integrada em condições normais Fenômenos como alucinações delírios e obsessões seriam decorrentes do fracasso na capacidade de síntese do psiquismo rompendo a arquitetura intrapsíquica habitual ao permitir a emergência de atividade mental inconsciente ou seja em condições normais as chamadas formas inferiores da vida mental se encontrariam presentes no indivíduo mas submetidas ao controle de sua livre vontade A pesquisa sobre histeria e hipnose interessava não apenas a especialistas mas também ao conjunto de intelectuais e homens de ciência da época e Freud reconheceu em 1925 que as obras de Janet anteciparam resultados que ele e Breuer haviam encontrado durante o emprego do método catártico em pacientes histéricas No período em que o método da sugestão hipnótica foi utilizado o objetivo da terapia era identificar a origem dos sintomas O trabalho buscava localizar as causas que haviam determinado o sintoma que segundo Freud era causado pela lembrança de um trauma que não tinha sido abreagido isto é não tinha sido devidamente simbolizado pela linguagem e integrado ao sistema simbólico do sujeito permanecendo no aparelho psíquico e atuando como um corpo estranho ao próprio sujeito o que justificava a importância de procurar a origem dos sintomas pois as ideias não integradas à consciência não eram eliminadas mas apenas isoladas no inconsciente Vale ressaltar a distância no tempo entre o evento traumático e o surgimento dos sintomas pois o sintoma não surgia imediatamente após a ocorrência do trauma permanecendo em atividade constante no psiquismo Contudo apesar da lembrança continuar no aparelho psíquico o paciente não recordava de sua ação ao produzir os sintomas BARATTO 2009 Usando a hipnose Freud buscava aliviar o sofrimento do paciente ao promover a catarse pela abreação procurando identificar a causa que desencadeava o sintoma e o momento em que o trauma ocorreu pois os acontecimentos traumáticos não ab reagidos precisavam estabelecer a expressão verbal para serem agregados à consciência Portanto a catarse possibilitava que o inconsciente local em que as lembranças não abreagidas se encontravam se tornasse consciente ou seja a abreação a partir da verbalização conseguia liberar a emoção estrangulada pela integração simbólica da linguagem A catarse era como uma purificação identificada desde a antiga Grécia com a ideia de purgação apaziguamento e eliminação de tensões Contudo Freud identificou a resistência no paciente que impedia as ideias inconscientes de se tornarem conscientes Portanto para acessar o inconsciente era preciso romper a resistência pela sugestão hipnótica que temporariamente a suspendia permitindo ao sujeito sob hipnose elaborar com palavras as lembranças associadas ao sintoma Todavia Freud descobriu que os métodos sugestivos desencadeavam as resistências e tornavam o desejo inconsciente ainda mais inacessível podendo também conduzir a alienação imaginária do sujeito a outro objeto do inconsciente ao qual o paciente passava a se submeter Por isso a hipnose não continuou sendo usada na prática clínica de Freud pois os resultados obtidos não duravam ao longo do tempo Diante da resistência o pressuposto do estado de dupla consciência foi reelaborado como uma teoria da defesa que posteriormente originou a teoria do recalque ou repressão A repressão tornouse um dos principais conceitos da psicanálise e passou a ser descrita como uma operação na qual as representações de desejo eram inscritas no inconsciente Enquanto Breuer foi o responsável pela noção de estados hipnoides e enfatizava a existência da divisão da consciência em estados análogos aos produzidos nos estados de hipnose Freud desenvolveu os conceitos de defesa recalque e resistência A introdução da teoria do recalque por Freud o levou a divergências teóricas com Breuer as quais atingiram seu ponto culminante quando Freud relacionou as ideias carregadas de conteúdo sexual com o recalcamento o qual seria o responsável pela existência de grupos de ideias situadas à margem da cadeia associativa consciente causando assim a divisão da consciência Ao introduzir a repressão como causa da divisão psíquica e processo pelo qual as representações do desejo eram expulsas da consciência em direção ao inconsciente Freud colocou a teoria da repressão como fundamento da teoria psicanalítica Era por meio da repressão que as lembranças traumáticas se tornavam inacessíveis à consciência A repressão não eliminava a representação traumática indesejável mas a isolava psiquicamente Assim as ideias de caráter aflitivo formavam um grupo externo à consciência delimitado pela resistência o qual se organizava com leis diferentes daquelas da consciência impondo ao sujeito uma luta permanente contra o retorno daquilo que fora recalcado por meio de substitutos oriundos do inconsciente Freud concluiu que os sintomas não eram determinados por uma única ideia patogênica mas pela sucessão de traumas entrelaçados e parciais os quais formavam uma cadeia de ideias e sequências de pensamentos associadas umas com as outras organizadas em torno de um núcleo E ao redor dos núcleos existia abundante material psíquico que se estruturava de maneira relacional e estratificada em três formas diferentes de organizar as ideias Então Freud apresentou sua primeira tópica do aparelho psíquico como um arquivo de memórias que não obedecia a relações cronológicas ou temporais nem se organizava por semelhança temática Nessa primeira tópica Freud certo da existência de pensamentos inconscientes e de que estes poderiam ser traduzidos em símbolos linguísticos apresentou o aparelho psíquico dividido em consciente préconsciente e inconsciente no qual a associação de ideias ocorria por meio de fios lógicos que mantinham as ideias e os núcleos ligados entre si não em ordem temática concêntrica mas em forma de ramificações de modo a possibilitar o acesso ao inconsciente pela técnica da associação livre Com essa concepção aquilo que era interditado da memória consciente devido à ação da repressão não eram os eventos mas os fios de articulações lógicas estabelecidos entre os sintomas manifestos e as cadeias de representações do desejo inconsciente Assim o sujeito tornavase incapaz de estabelecer relações entre os atos da vida cotidiana e os pensamentos inconscientes E pelo método da associação livre as resistências podiam ser superadas e novos fios lógicos eram produzidos ligando as representações inconscientes entre si além de associar palavras ao potencial de expressar pensamentos inconscientes possibilitando tornálos conscientes O conceito de trauma no surgimento da psicanálise O conceito de trauma perpassa todo o percurso teórico de Freud e é recomendado que todo estudante de Psicologia e não só aquele com interesse em relação à psicanálise o entenda profundamente compreendendo tanto sua evolução quanto as possíveis relações com a prática O conceito de trauma no início da psicanálise estava diretamente ligado a acontecimentos externos reais que sobrepujavam a capacidade do indivíduo de processar a angústia e a dor psíquica provocados por um evento traumático De modo geral o trauma psicológico é o resultado de uma experiência de dor ou sofrimento emocionalfísico que como um dano emocional pode acarretar a exacerbação de emoções negativas e envolver mudanças físicas no cérebro além de também afetar o comportamento e até mesmo o pensamento da pessoa que fará de tudo para afastar qualquer lembrança do evento traumático O termo trauma apareceu pela primeira vez nas obras de Freud por volta de 1893 enquanto fazia seus estudos com pacientes histéricas relacionandoo a uma primitiva sedução sexual perpetrada pelo pai contra a paciente Posteriormente reconheceu também o trauma do nascimento do impacto da cena primária da angústia da castração e em 1926 reconheceu o trauma representado pelas perdas precoces como a perda do amor da mãe ou de outras pessoas significativas ZIMMERMAN 2008 p 419420 O trauma que em grego quer dizer ferida é um conceito essencialmente econômico em relação à energia psíquica pois indica uma frustração na qual o ego sofre uma injúria que não consegue processar recaindo num estado de desamparo e atordoamento além de gerar também angústia excedente que será escoada por meio de sintomas corporais Múltiplos traumas podem ser precocemente impingidos às crianças tanto sob a forma de separações traumáticas quanto de modo invasivo e decorrente de violências de várias naturezas os quais podem repercutir seriamente no psiquismo da criança ficando impressos sob a forma de vazios isto é como uma vivência de desamparo e de feridas abertas A teoria do trauma foi importante no nascimento da psicanálise pois Freud considerou que a causa dos sintomas da histeria estaria na lembrança de um trauma não abreagido isto é que não tenha sido devidamente simbolizado pela linguagem e integrado ao sistema simbólico do sujeito Em seus primeiros textos o trauma foi abordado como um incremento da excitação no sistema nervoso mediante o qual não se tinha ação ou palavras que permitissem sua dissipação ainda se ligado a um fato real Ao tentar promover a simbolização do evento traumático pelo método hipnocatártico Freud chegou à associação livre abandonando posteriormente a hipnose no tratamento da histeria devido ao retorno dos sintomas em consequência de um provável deslocamento da causa Foi justamente o deslocamento da causa que levou Freud a levantar a hipótese de que o evento traumático não era suficiente para explicar o surgimento dos sintomas e que tal evento não era necessariamente real isto é não teria realmente ocorrido mas poderia ser causado por fantasias da paciente na tentativa de chamar a atenção sobre a figura paterna De qualquer forma um trauma mesmo se real tende a ser utilizado de forma defensiva servindo como álibi para explicar as perturbações presentes obstruindo o caminho para identificar a causa verdadeira e limitando as possibilidades de questionamento e transformação Assim Freud logo se deu conta de que por trás das histórias contadas por seus pacientes havia muita fantasia e passou a se interessar mais pelo significado do que era trazido do que pelo contexto real como relatado Ele também já tinha passado a supor que a temporalidade do trauma era posterior à ocorrência da impressão relatada a qual não podia ser significada no momento da percepção mas era fixada e retornava posteriormente em outros eventos De 1905 a 1920 Freud começou a elaborar os conceitos da metapsicologia psicanalítica a partir do desenvolvimento sexual infantil no qual o paradigma da situação traumática passou a ser as fantasias originárias isto é aquelas que envolvem angústias de sedução e castração são relativas à cena primária etc Com isso o trauma concebido como decorrente de um fator ambiental saturado de energia libidinal que não conseguia descarregála passou a ser compreendido em função da urgência e da pressão das pulsões sexuais A sedução sexual apresentouse como um paradigma para a situação traumática No entanto tendo percebido a falta de eficácia do tratamento a longo prazo Freud também estranhou a alta frequência com que cenas com a situação traumática eram relatadas com semelhança por suas pacientes levantando a hipótese de que talvez os relatos não tivessem realmente acontecido o que o levou à compreensão do mecanismo de repressão e da importância da fantasia para a vida psíquica Então os conflitos e as vivências traumáticas passaram a ser compreendidos a partir das fantasias inconscientes e da realidade psíquica interna chegando ao ponto de ser possível afirmar que a única realidade válida tanto para o paciente como para o analista seria a realidade psíquica A partir de 1920 Freud começou a reformular sua concepção do aparelho psíquico e extraiu da Embriologia a metáfora de vesícula viva cuja camada mais externa se transformaria em um escudo protetor argumentando que os estímulos traumáticos seriam aqueles que conseguiriam atravessar o escudo protetor devido à falta de preparo do eu e a fatores diversos como surpresa ou susto e o trauma adquiriu uma dimensão essencialmente intersistêmica e pulsional Posteriormente por volta de 1925 Freud propôs uma nova teoria da angústia que relacionava o trauma à perda de um objeto de afeto fazendo distinção entre as situações traumáticas uma automática enquanto sinalização sobre situações de perigo e aproximação do trauma e outra relacionada com a ideia da angústia que diante de uma experiência de desamparo proporcionava excesso de excitação Já em torno de 1934 é possível encontrar uma descrição mais pormenorizada do trabalho do trauma definido como impressões primitivas da infância da época em que a criança começa a falar e o conteúdo se relaciona principalmente a impressões de natureza sexual e agressiva como experiências sobre o próprio corpo ou percepções dos sentidos de algo visto e ouvido as quais provocam alterações comparáveis a cicatrizes no psiquismo Como a criança estaria começando a falar a linguagem ainda não estaria plenamente desenvolvida não deixando lembranças no inconsciente mas apenas traços não percebidos na superfície mas registrados em camada mais profunda Em 1940 no livro Esboço de psicanálise Freud comparou o efeito de um trauma psicológico ao de uma agulha perfurando um embrião humano pois se uma agulhada em um organismo desenvolvido é inofensiva numa massa de células em divisão celular poderá promover relevantes alterações naquele ser em desenvolvimento Tirou ainda conclusões sobre a universalidade do trauma e sobre as repressões originadas pelo evento traumático Posteriormente Lacan reafirmou essa universalidade mas de outro modo apontando que todo ser falante é traumatizado e isso é um fato de estrutura como aquilo que há de inassimilável no real sobre a sexualidade Esse inassimilável lacaniano pode ser correlacionado ao umbigo dos sonhos descrito por Freud no capítulo VII da Interpretação dos sonhos 1900 trecho que tem que ser deixado na obscuridade emaranhado de pensamentos oníricos que não se deixa desenredar ponto onde ele mergulha no desconhecido Entretanto esse inassimilável pode desorientar o sujeito e produzir efeitos e afetos plenos de angústia que o arrancam da cena simbólica e tiramlhe as palavras da boca Portanto só resta ao sujeito construir um saber possível que dê de alguma forma vazão ao afeto aprisionado Assim a fantasia tornase uma possibilidade de pôr fim à vivência trazida pelo trauma de não ser de não ter desejo Depois de abandonar a perspectiva da sedução como algo realmente acontecido Freud passou a considerar os relatos de sedução como provenientes da fantasia como uma forma mítica a nível individual de abordar a questão da origem dos transtornos Além disso observou também que a criança em crescimento durante suas brincadeiras substituía os objetos reais pela fantasia construindo castelos no ar e criando o que foi chamado de devaneio propondo que como no sonho a fantasia expressaria a realização de um desejo fornecendo ao sujeito uma satisfação independente da realidade FREUD 2006 Freud percebeu que a fantasia assim como o sonho o lapso o sintoma e os atos falhos seria uma produção do inconsciente e portanto sua lógica de funcionamento não seria determinada nem pela racionalidade nem pelo tempo cronológico mas insubordinada a qualquer ordenação coexistindo passado presente e futuro enlaçados no devaneio pelo desejo como um fio condutor Portanto no psiquismo a conexão de uma experiência passada com uma situação atual teria condições de produzir o por vir sempre a serviço do desejo e assim as fantasias seriam motivadas pelas frustrações impostas pela vida cotidiana funcionando como um modo natural de aceitar e enfrentar as próprias frustrações Contudo a possibilidade de fantasiar não é idêntica em todas as pessoas Freud 2006 aponta por exemplo que os homens adultos se envergonham de suas fantasias e que apresentam muita dificuldade de revelálas fora da situação terapêutica Portanto a fantasia pode ser considerada como uma válvula de escape para as pulsões inconscientes Contudo diante da impossibilidade de fantasiar seja por qualquer motivo podem ocorrer outras possibilidades menos saudáveis e o adoecer está entre elas Mas doença é um termo muito genérico que implica o conhecimento exato dos mecanismos envolvidos e suas causas e como em psiquiatria e em psicologia apenas em poucos quadros clínicos mentais todas as características biológicas e funcionais são conhecidas os termos transtornos perturbações disfunções ou distúrbios são mais usados até porque o conceito de transtorno foge à norma do conhecimento e se associa a um comportamento desviante anormal Os transtornos mentais formam um campo de investigação interdisciplinar que envolve áreas como a psicologia a psiquiatria e a neurologia São usados para referenciar anormalidades ou o comprometimento de ordem psicológica no indivíduo sendo caracterizados pela contrariedade decepção e atitudes que revelam desarranjo ou desordem neurológica Contudo podem também em alguns casos se referir a qualquer perturbação na saúde do paciente O tratamento pode ser feito com o acompanhamento de psicoterapeuta psiquiatra ou equipes de profissionais de saúde mental incluindo sempre psicólogos e psiquiatras além de por exemplo enfermeiros terapeutas ocupacionais musicoterapeutas e assistentes sociais Considerando desde a gênese até as manifestações os transtornos mentais são fenômenos muito complexos e podem ser classificados em três tipos 1 As neuroses caracterizadas pela tensão excessiva e prolongada de um conflito persistente ou de uma necessidade prolongadamente frustrada a qual leva a modificações na personalidade mas não a desestrutura nem compromete a percepção da realidade ou seja são transtornos que não afetam o ser humano em si pois por não apresentarem base orgânica o paciente continua consciente e com percepção clara da realidade não confundindo a experiência subjetiva com a realidade exterior 2 As psicoses caracterizadas pela oscilação entre estados de depressão e de extrema euforia e agitação que influenciam o modo de agir e se comportar num claro indício de desestruturação da personalidade além de apresentar alterações no juízo da realidade a partir do que o paciente passa a perceber a realidade de maneira diferenciada mas com convicção de que suas percepções apesar de parecerem irreais para os outros são apoiadas na lógica e na razão sendo comuns as alucinações provenientes de alterações dos órgãos dos sentidos como ouvir vozes ver coisas sentir cheiros ou toques os e delírios provenientes de alterações do pensamento sob forma de conspirações perseguição grandeza riqueza onipotência ou predestinação ou seja são transtornos que afetam o ser humano como um todo e prejudicam as funções psíquicas em nível tão acentuado que a consciência o contato com a realidade e a capacidade de corresponder às exigências da vida se tornam perturbados 3 As psicopatias ou perversões como chamadas por Freud são caracterizadas por falha na construção da personalidade mas sem desestruturála totalmente Podem apresentar a ausência de alucinações e manifestações neuróticas a presença de um bom nível de inteligência e de baixa capacidade afetiva a incapacidade de adiar satisfações a intolerância a esforços rotineiros a busca por fortes estimulações a ausência de empatia decorrente da incapacidade de envolvimento emocional a falta de confiança tanto em si como e principalmente nos outros a falta de capacidade de aprender com os próprios erros por não reconhecêlos e a diminuição ou ausência da consciência moral que leva a problemas na diferenciação entre certo e errado ou o permitido e o proibido fazendo com que o simular dissimular enganar roubar assaltar ou matar não causem nenhum tipo de sentimento como repulsa ou remorso seja na própria imaginação ou em ações reais uma vez que são apenas considerados os próprios interesses O termo neurose foi inventado por William Cullen na segunda metade do séc XVIII quando a abertura de cadáveres passou a ser considerada um método científico para a observação direta e post mortem de órgãos que tinham sofrido de alguma patologia A ideia foi criar uma palavra genérica para designar o conjunto dos problemas da sensibilidade e da motricidade os quais não apresentavam relação com nenhum órgão construindo uma descrição metódica pela negação para incluir o domínio das doenças que não encontravam nenhuma explicação orgânica na medicina anatomopatológica daquela época Philippe Pinel logo retomou o termo ao organizar uma rede de hospitais psiquiátricos supostamente voltados para a saúde mental e um século depois Jean Martin Charcot o popularizou ao definir a histeria como uma doença funcional relacionada ao útero portanto uma neurose Após o encontro de Freud com Charcot a histeria continuou a ser considerada uma neurose desvinculada da presunção uterina mas associada à etiologia sexual e ao enraizamento no inconsciente A partir do discurso psicanalítico a histeria tornou se um modelo para a neurose e esta passou a ser definida como uma doença nervosa relacionada a um trauma Posteriormente com o abandono da teoria da sedução a neurose tornouse uma doença ligada a um conflito psíquico inconsciente de origem infantil e dotada de causa sexual resultado de um mecanismo de defesa contra a angústia por meio da formação de compromisso entre a defesa e a possibilidade de realização de um desejo As neuroses podem ser classificadas em perturbação obsessivacompulsiva transtorno do pânico transtornos de ansiedade fobias depressão distimia síndrome de Burnout entre outras O termo psicose foi usado em 1845 pelo psiquiatra austríaco Ernst von Feuchtersleben para substituir o vocábulo loucura e definir os doentes da alma numa perspectiva psiquiátrica As psicoses enquanto conceito proveniente do saber psiquiátrico e pautado na ideia de alienação e perda da razão foram uma oposição da medicina manicomial às neuroses tendo designado inicialmente o conjunto de todas as doenças mentais Mas posteriormente a psicose se restringiu às três grandes formas modernas da loucura a esquizofrenia a paranoia e a psicose maníacodepressiva Freud retomou o conceito a partir de 1894 usandoo para designar a reconstrução inconsciente de uma realidade delirante ou alucinatória Entretanto Freud dedicou mais atenção à neurose pois julgava a psicose quase sempre incurável É na correspondência com Jung que melhor se apreende a maneira como entre 1909 e 1911 foi elaborada a doutrina da psicose a qual propunha a ideia de dissociação da consciência e privilegiou o conceito de paranoia em oposição à noção de esquizofrenia Assim a paranoia tornouse o modelo estrutural da psicose em geral de maneira semelhante à da histeria em relação à neurose Em 1911 Freud lançou as Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia Dementia paranoides enunciando uma teoria quase completa do mecanismo do conhecimento paranoico na qual definiu a psicose como um distúrbio entre o eu e o mundo externo inscrevendo a psicose numa estrutura tripartite em relação à neurose e à perversão Assim como a neurose a psicose surgiria do resultado de um conflito intrapsíquico enquanto a perversão se apresentaria como uma negação da castração Ao diferenciar a psicose da perversão e da neurose Freud também apagou o abismo criado pela psiquiatria entre norma e patologia A psicopatia ou perversão como chamada por Freud designa um transtorno psíquico que se manifesta no plano de uma conduta antissocial podendo ser tomada como um defeito moral Segundo o saber psiquiátrico do séc XIX as perversões eram práticas sexuais tão diversificadas quanto o incesto a homossexualidade a zoofilia a pedofilia a pederastia o fetichismo o sadomasoquismo o travestismo o narcisismo o autoerotismo a coprofilia a necrofilia o exibicionismo o voyeurismo e as mutilações sexuais Contudo Freud passou a definilas como a reconstrução de uma realidade alucinatória na qual o sujeito ficava unicamente voltado para si mesmo numa situação sexual autoerótica ao tomar o próprio corpo ou parte deste como objeto de amor sem nenhum tipo de alteridade possível A partir de 1896 Freud adotou o conceito de perversão sem qualquer conotação pejorativa ou valorizadora conservando a ideia de desvio sexual em relação a uma norma O termo perversão abrangia um campo mais amplo que a neurose e a psicose pois tanto as fantasias quanto as práticas e os comportamentos por ele englobados eram apreendidos em relação à norma social estando geralmente ligada às formas de arte erótica tanto ocidentais quanto orientais Segundo tal interpretação a estruturação psicopática se manifestava acompanhada pela falta de responsabilidade e ausência de culpa por meio de três características básicas 1 impulsividade 2 repetitividade compulsiva conhecida atualmente como repetitividade obsessiva compulsiva e 3 uso predominante de atuações de natureza maligna Apesar de traços da psicopatia serem inerentes à natureza humana suas três características tornavamse um fim em si mesmas acompanhadas por uma total falta de consideração pelas pessoas cúmplices no jogo psicopático Considerando a prática psicanalítica os psicopatas dificilmente entram espontaneamente em análise e quando o fazem mostram propensão para atuações e para o abandono do tratamento não só pela dificuldade de ingressarem numa posição depressiva como também pela predominância da pulsão de morte e seus derivados que os obriga a uma conduta hetero e autodestrutiva Além disso diante da característica ausência de culpa em sua própria mania de grandeza o psicopata sentese como se estivesse sempre certo não reconhecendo qualquer necessidade de terapia mas atribuindo essa necessidade aos outros num comportamento típico de soberba como era chamado antigamente De qualquer modo ainda hoje se fala de possíveis ocorrências traumáticas como algo que marca profundamente um sujeito e o leva a sentimentos e comportamentos inusitados algo externo que desresponsabiliza o sujeito tornandoo vítima de um infortúnio Ainda que a humanidade tenha passado por muitas mudanças desde a época de Freud parece que o ser humano segue traumatizado e apesar de toda a suposta liberação sexual da atualidade podese dizer que segue recalcado REFERÊNCIAS AGUIAR A O corpo e o risco a atualidade de o lugar da psicanálise na medicina Opção Lacaniana OnLine v 5 n 13 p 113 2014 APA DSM 5 manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais 5 ed Porto Alegre Artmed 2014 BARATTO G A descoberta do inconsciente e o percurso histórico de sua elaboração Psicologia Ciência e Profissão v 29 n 1 p 7487 2009 BARATTO G Descobrindo o encobrimento da descoberta freudiana a psicanálise e a Ego Psychology Estilos da Clínica v 7 n 12 p 156177 2002 BORNHEIM G Filosofia do romantismo In GUINSBURG J Org O romantismo 2 ed São Paulo Perspectiva 2005 p 75111 COUTINHO L M S et al Prevalência de transtornos mentais comuns e contexto social análise multinível do São Paulo Ageing Health Study SPAH Cadernos de Saúde Pública v 30 n 9 p 18751883 2014 CURADO M A descoberta do inconsciente no século XIX Português Revista Diacrítica v 26 n 2 p 157182 2012 FRANÇA NETO O Psicopatologia entre a psicanálise e a psiquiatria Revista Affectio Societatis v 12 n 22 p 113127 2015 FREUD S Gradiva de Jensen e outros trabalhos 19061908 Rio de Janeiro Imago 2006 LACAN J Seminário 11 os quatro conceitos fundamentais da psicanálise 1964 2 ed Rio de Janeiro Jorge Zahar 1996 Campo Freudiano no Brasil NUNES T R FERREIRA R W G PERES W G A suspeita em Freud o estatuto da interpretação em psicanálise Psico Rio Grande do Sul v 40 n 4 p 443448 2009 OMS Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID 10 Porto Alegre Artmed 1993 ROCHA Z A experiência psicanalítica seus desafios e vicissitudes hoje e amanhã Ágora Estudos em Teoria Psicanalítica Rio de Janeiro v 11 n 1 p 101116 jun 2008 ROUDINESCO É Henri Ellenberger e a descoberta do inconsciente Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental São Paulo v 8 n 4 p 587595 dez 2005 ROUDINESCO E PLON M Dicionário de psicanálise Rio de Janeiro Zahar 1998 XAVIER C R A história do inconsciente ou a inconsciência de uma história Revista da Abordagem Gestáltica v 16 n 1 p 5463 jun 2010 ZIMMERMAN D Vocabulário contemporâneo de psicanálise Porto Alegre Artmed 2008