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Psicologia ·

Psicanálise

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O PRAZER DE LER FREUD Transmissão da Psicanálise diretor Marco Antonio Coutinho Jorge JD Nasio O PRAZER DE LER FREUD Rio de Janeiro Tradução Lucy Magalhães Revisão técnica Marco Antonio Coutinho Jorge Este livro é a versão profundamente remanejada e aumentada do primeiro capítulo de Introdução às obras de Freud Ferenczi Groddeck Klein Winnicott Dolto e Lacan publicada em 1995 por Jorge Zahar Editor em tradução de Vera Ribeiro Título original Le plaisir de lire Freud Tradução autorizada da primeira edição francesa publicada em 1999 por Éditions Payot Rivages de Paris França Copyright 1994 Éditions Rivages Copyright 1999 Éditions Payot Rivages Copyright da edição em língua portuguesa 1999 Jorge Zahar Editor Ltda rua México 31 sobreloja 20031144 Rio de Janeiro RJ tel 21 21080808 fax 21 21080800 email jzezaharcombr site wwwzaharcombr Todos os direitos reservados A reprodução nãoautorizada desta publicação no todo ou em parte constitui violação de direitos autorais Lei 961098 Capa Sérgio Campante Composição TopTextos Edições Gráfi cas Ltda Impressão Cromosete Gráfi ca e Editora Nasio JuanDavid O prazer de ler Freud JD Nasio tradução Lucy Magalhães revisão técnica Marco Antonio Coutinho Jorge Rio de Janeiro Jorge Zahar Ed 1999 Transmissão da Psicanálise Tradução de Le plaisir de lire Freud Contém dados biográfi cos Inclui bibliografi a ISBN 9788571105126 1 Freud Sigmund 18561939 2 Psicanálise I Título II Série CDD 1501952 CDU 1599642 N211p 990688 O que me encanta ao ler Freud quando o compreendo é sua força sua loucura sua força louca e genial de querer explicar qual é a fonte íntima que nos anima a nós humanos O prazer de ler Freud é descobrir que para além das palavras é de nós que ele está falando JD Nasio O Prazer de Ler Freud ZAHAR Jorge Zahar Editor SUMÁRIO Como ler Freud 9 Esquema da lógica do funcionamento psíquico 14 Definições do inconsciente 32 Definição do inconsciente do ponto de vista descritivo Definição do inconsciente do ponto de vista sistemático Definição do inconsciente do ponto de vista dinâmico O conceito de recalcamento Definição do inconsciente do ponto de vista econômico Definição do inconsciente do ponto de vista ético O sentido sexual de nossos atos 44 O conceito psicanalítico de sexualidade 46 Necessidade desejo e amor Os três principais destinos das pulsões sexuais recalcamento sublimação e fantasia O conceito de narcisismo 54 As fases da sexualidade infantil e o complexo de Édipo 60 Observação sobre o Édipo do menino o papel essencial do pai Pulsões de vida e pulsões de morte O desejo ativo do passado 69 A segunda teoria do aparelho psíquico o eu o isso e o supereu 73 O conceito psicanalítico de identificação 80 A transferência é a atualização de uma pulsão cujo objeto fantasiado é o inconsciente do psicanalista 85 Excertos da obra de Sigmund Freud 91 Biografia de Sigmund Freud 100 Seleção bibliográfica 105 Notas 107 Índice geral 109 Como ler Freud Como ler Freud A finalidade deste livro é apresentar o essencial da teoria de Freud cuja obra inspira ainda hoje nossa maneira de praticar a psicanálise nossa maneira de falar e mais genericamente nossa cultura contemporânea Imaginei este trabalho como um instrumento para ler e compreender Freud Ele se divide em três partes uma exposição clara e rigorosa das idéias fundamentais da obra freudiana trechos escolhidos dessa obra e um quadro cronológico dos acontecimentos decisivos da vida de Sigmund Freud Através destas páginas procurei despertar no leitor a von tade de consultar diretamente os textos originais de Freud tendo prazer na sua leitura Esta obra introdutória se destina tanto ao estudante que deseja ter uma chave para abordar Freud quanto ao pro fissional experiente que a exemplo do criador da psi canálise volta incessantemente aos fundamentos da teoria Lembremos os numerosos textos em que Freud retoma as bases da sua doutrina para ressaltar os seus aspectos essenciais como fez por exemplo no seu último escrito Esboço de psicanálise que ele redigiu quando tinha 82 anos O que ocorreu então Algo extraordinário 610993 9 Ao escrever o Esboço Freud inventou ainda novos con ceitos É assim que a volta aos fundamentos comporta muitas vezes a gestação inesperada do novo O ensino se transforma em pesquisa e o saber antigo em verdade nova O princípio que guiou constantemente o meu trabalho de transmissão da psicanálise pode resumirse nesta fór mula vamos procurar dizer bem o que já foi dito e talvez possamos dizer algo novo Foi com essa intenção que escrevi a presente obra A aceitação de processos psíquicos inconscientes o reconhecimento da doutrina da resistência e do recalcamento e a consideração da sexualidade e do complexo de Édipo são os conteúdos principais da psicanálise e os fundamentos de sua teoria e quem não estiver em condições de subscrever todos eles não deve figurar entre os psicanalistas S FREUD Um século e que século nos separa de Freud desde o dia em que ele decidiu abrir seu consultório em Viena e redigir a primeira obra fundadora da psicanálise A interpretação dos sonhos Um século é muito extenso extenso para a história para a ciência e para as técnicas Muito extenso para a vida E no entanto é muito pouco para nossa jovem 10 O prazer de ler Freud ciência a psicanálise A psicanálise admito não progride à maneira dos avanços científicos e sociais Ocupase de coisas simples sumamente simples que são também imen samente complexas Ocupase do amor e do ódio do desejo e da lei dos sofrimentos e do prazer de nossos atos de fala nossos sonhos e nossas fantasias A psicanálise ocu pase das coisas simples e complexas mas eternamente atuais Ocupase delas não apenas por meio de um pensa mento abstrato mas através da experiência humana de uma relação concreta entre dois parceiros analista e analisando em interação permanente Porém um século mais uma vez é muita coisa E no decurso desses cem anos os problemas abordados pela psicanálise foram amiúde conceituados sob diferentes pon tos de vista De fato a experiência sempre singular de cada tratamento analítico obriga o psicanalista que nele se en gaja a repensar em cada situação a teoria que justifica sua prática Entretanto um fio inalterável tecido pelos princípios fundamentais da psicanálise atravessa o século ordena as singularidades do pensamento analítico e asse gura o rigor da teoria Ora qual é esse fio que garante tal continuidade quais são os fundamentos da obra freudiana Esses fundamentos foram comentados resumidos e reafir mados inúmeras vezes Como então transmitilos a vocês de uma nova maneira Como falar de Freud nos dias atuais Optei por lhes submeter minha leitura da obra freudiana a partir de uma questão que habitou em mim durante estes Como ler Freud 11 últimos dias enquanto eu escrevia este texto Pergunteime incessantemente o que mais me impressionava em Freud o que dele vivia em mim no trabalho com meus analisan dos na reflexão teórica que orienta minha escuta e no desejo que me anima de transmitir e fazer a psicanálise existir tal como ela existe neste instante em que vocês lêem estas páginas O que mais me impressiona em Freud aquilo em sua obra que me remete a mim mesmo e que portanto assim transmite à obra sua atualidade viva não é a teoria dele embora eu lhes vá falar sobre isso nem tampouco seu método que aplico em minha prática Não O que me encanta quando leio Freud quando penso nele e lhe dou vida é sua força sua loucura sua força louca e genial de querer captar no interior do outro as causas de seus atos de querer descobrir a fonte íntima que anima um ser Sem dúvida Freud é antes de mais nada uma vontade um desejo ferrenho de saber mas sua genialidade está em outro lugar A genialidade é uma coisa diferente do querer ou do desejo A genialidade de Freud está em ele haver compreendido que para apreender as causas secretas que movem um ser que movem esse outro que sofre e a quem escutamos é preciso primeiro e acima de tudo descobrir essas causas em si mesmo voltar a si sempre mantendo contato com o outro que está diante de nós o caminho que vai de nossos próprios atos a suas causas A genialidade não reside pois no desejo de des vendar um enigma mas em emprestar o próprio eu a esse desejo em fazer de nosso eu o instrumento capaz de se 12 O prazer de ler Freud aproximar da origem velada do sofrimento daquele que fala A vontade de descobrir tão tenaz em Freud conju gada com essa modéstia excepcional de comprometer seu eu para conseguilo isso é o que mais admiro e do que jamais lhes poderei prestar contas plenamente através de palavras e conceitos A genialidade freudiana como toda genialidade não se explica nem se transmite e no entanto está concretamente presente em todos os clínicos que se abrem à escuta de seus pacientes A genialidade freudiana é o salto que todo analista é conclamado a realizar em si mesmo todas as vezes que empresta seu eu para escutar verdadeiramente seu analisando Como ler Freud 13 Esquema da lógica Lógica do funcionamento psíquico do funcionamento psíquico Freud nos deixou uma obra imensa ele foi como sabemos um trabalhador infatigável e toda a sua dou trina é marcada por seu desejo de identificar a origem do sofrimento do outro servindose de seu próprio eu Sem dúvida a obra freudiana é nesse aspecto uma imensa resposta uma resposta inacabada à pergunta qual é a causa de nossos atos Como funciona nossa vida psíquica Eu gostaria justamente de fazêlos compreender o essencial do funcionamento mental tal como é visto pela psicanálise e tal como se confirma na realidade concreta de uma análise A concepção freudiana da vida mental com efeito pode formalizarse num esquema elementar que se evidenciou ao longo de minhas sucessivas releituras dos escritos de Freud À medida que procurei me aproxi mar mais do cerne da teoria vi que ela se transfigurava Primeiro a complexidade reduziuse Depois as diferentes partes imbricaramse umas nas outras para enfim se or denarem numa épura simples de sua relação Se eu lograr transmitirlhes esse esquema terei realizado plenamente meu propósito de introduzilos na obra de Freud porque esse esquema retoma de maneira surpreendente a lógica 14 implícita do conjunto dos textos freudianos Desde o Pro jeto para uma psicologia científica elaborado em 1895 até sua última obra o Esboço de psicanálise escrito em 1938 Freud não parou de reproduzir espontaneamente muitas vezes de modo inadvertido num quaseautomatis mo do pensamento o mesmo esquema básico expresso segundo diversas variantes É precisamente esse esquema lógico essencial que agora tentarei exporlhes Pedirei ao leitor uma vez fechado este livro que faça a seguinte experiência pegar ao acaso um escrito de Freud e lêlo com nosso esquema na cabeça Saberá então se sua compreensão do texto foi mais límpida e menos laboriosa Gostaria que ler Freud fosse um prazer o prazer de pensar e de compreender nosso funcionamento psíquico Procederemos da seguinte maneira começarei por construir com vocês este esquema elementar e o irei mo dificando progressivamente à medida que desenvolvermos os temas fundamentais que são o inconsciente o recalcamen to a sexualidade o complexo de Édipo as três instâncias psíquicas que são o eu o isso e o supereu o conceito de identificação e finalmente a transferência no tratamento analítico Passemos a nosso esquema básico Em que consiste ele Para responder preciso lembrar inicialmente que ele é uma versão adaptada de um modelo conceitual já clássico Lógica do funcionamento psíquico 15 utilizado pela neurofisiologia do século XIX para explicar a circulação do influxo nervoso e batizado de esquema do arco reflexo Esclareço desde logo que o modelo do arco reflexo continua a ser um paradigma ainda fundamen tal da neurologia moderna O esquema neurológico do arco reflexo é muito simples e bastante conhecido Figura 1 Ele comporta duas ex tremidades a da esquerda extremidade sensível em que o sujeito percebe a excitação isto é a injeção de uma quantidade x de energia quando ele recebe por exemplo uma leve martelada médica no joelho A da direita extremidade motora em que o sujeito libera a energia recebida numa resposta imediata do corpo em nosso exemplo a perna reage prontamente com um mo vimento reflexo de extensão Entre as duas extremidades instalase assim uma tensão que aparece com a excitação e desaparece com a descarga motora O princípio que rege esse trajeto em forma de arco é portanto muito claro receber a energia transformála em ação e conseqüente mente reduzir a tensão do circuito 16 O prazer de ler Freud FIGURA 1 Esquema do arco reflexo Resposta motora descarga Lógica do funcionamento psíquico 17 Cremos que o princípio de prazer é cada vez provocado por uma tensão desprazerosa e assume uma direção tal que seu resultado final coincide com uma redução dessa tensão isto é com uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer S FREUD Apliquemos agora esse mesmo esquema reflexo ao fun cionamento do psiquismo Pois bem o psiquismo tenta obedecer a esse princípio que visa a descarga total da tensão mas sem conseguir êxito Na vida psíquica com efeito a tensão nunca se esgota Estamos enquanto vive mos sob constante tensão Esse princípio de redução da tensão que devemos antes considerar como uma tendência e nunca como uma realização efetiva leva em psicanálise o nome de Princípio de desprazerprazer Por que chamá lo dessa maneira desprazerprazer E por que afirmar que o psiquismo está sempre sob tensão Para responder retomemos as duas extremidades do arco reflexo mas imaginando desta vez que se trata dos dois pólos do próprio aparelho psíquico imerso como está no meio composto pela realidade externa A fronteira do aparelho portanto separa um interior de um exterior que o contém Vejamos agora a Figura 2 No pólo esquerdo extremidade sensitiva discernimos duas características próprias do psi quismo 18 O prazer de ler Freud a A excitação é sempre de origem interna e nunca externa Quer se trate de uma excitação proveniente de uma fonte externa como por exemplo o choque provo cado pela visão de um violento acidente de automóvel quer se trate de uma excitação proveniente de uma fonte orgânica como a fome a excitação continua sempre in terna ao psiquismo já que tanto o choque exterior quanto a necessidade interior criam uma marca psíquica à maneira de um selo impresso na cera De fato a fonte da excitação endógena situada no pólo sensitivo do aparelho psíquico é uma marca uma idéia uma imagem ou para empregar o termo apropriado um representante ideativo carregado de energia também chamado representante das pulsões Frisamos que na seqüência do texto empregaremos indi ferentemente as palavras representante e represen tação b Segunda característica esse representante depois de carregado uma primeira vez tem a particularidade de continuar permanentemente excitado e de funcionar como uma chaleira que fervesse eternamente de tal maneira que o aparelho psíquico permanece constantemente excitado Da mesma forma é impossível suprimir completamente uma tensão que se realimenta sem cessar Ora essa estimulação ininterrupta mantém no aparelho um nível elevado de tensão dolorosamente vivenciado pelo sujeito como um apelo premente à descarga É essa tensão penosa que o aparelho psíquico tenta em vão escoar sem nunca chegar verdadeiramente a fazêlo que Freud denomina desprazer Temos assim um estado de despra Lógica do funcionamento psíquico 19 zer efetivo e incontornável e inversamente um estado hipotético de prazer absoluto que seria obtido se o apa relho conseguisse escoar imediatamente toda a energia e eliminar a tensão Esclareçamos bem o sentido de cada uma dessas duas palavras desprazer significa manutenção ou aumento da tensão e prazer supressão da tensão Todavia observemos que o estado de tensão desprazeroso e penoso não é outra coisa senão a chama vital de nossa atividade mental desprazer e tensão permanecem para sempre sinônimos de vida No psiquismo portanto a tensão nunca desaparece totalmente afirmação esta que pode ser traduzida por no psiquismo o prazer absoluto nunca é obtido uma vez que a descarga absoluta nunca é realizada Mas por que a descarga total jamais é atingida e a tensão sempre premen te Por três razões A primeira vocês já a conhecem a fonte psíquica da excitação é tão inesgotável que a tensão é eternamente reativada A segunda razão concerne ao pólo direito de nosso esquema O psiquismo não pode funcionar como o sistema nervoso e resolver a excitação através de uma resposta motora imediata capaz de evacuar a tensão Não o psiquismo só pode reagir à excitação através de uma metáfora da ação uma imagem um pensamento ou uma fala que represente a ação e não a ação concreta que permitiria a descarga completa da energia No psiquismo toda resposta é inevitavelmente metafórica e a descarga inevitavelmente parcial Do mesmo modo que pusemos no pólo esquerdo o representante psíquico da pulsão excita ção pulsional contínua colocamos no pólo direito o re 20 O prazer de ler Freud presentante psíquico de uma ação Por isso o aparelho psíquico permanece submetido a uma tensão irredutível na porta de entrada o afluxo das excitações é constante e excessivo na saída há apenas um simulacro de resposta uma resposta virtual que implica uma descarga parcial A energia psíquica é compacta na entrada e destilada na saída Mas há ainda uma terceira razão a mais importante e mais interessante para nós que explica por que o psiquismo está sempre sob tensão Ela consiste na intervenção de um fator decisivo que Freud denomina de recalcamento An tes de explicar o que é o recalcamento convém eu escla recer que entre o representanteexcitação pólo esquerdo e o representanteação pólo direito estendese uma rede de muitos outros representantes que tecem a trama de nosso aparelho psíquico A energia que aflui e circula da esquerda para a direita da excitação para a descarga atravessa necessariamente essa rede intermediária Entre tanto a energia não circula da mesma maneira através de todos os representantes da rede Figura 2 Se desenharmos o recalcamento como uma barra que separa nosso esquema em duas partes a rede intermediária ficará assim dividida alguns representantes que reunimos como um grupo majoritário situado à esquerda da barra são muito carregados de energia e se conectam de tal modo que formam o caminho mais curto e mais rápido para tentar chegar à descarga Às vezes organizamse à maneira de um cacho e fazem toda a energia confluir para um único representante condensação outras vezes ligamse um atrás do outro em fila indiana para deixar a energia fluir com mais facilidade deslocamento1 Lógica do funcionamento psíquico 21 FIGURA 2 Esquema do arco reflexo aplicado ao funcionamento do psiquismo 22 O prazer de ler Freud Alguns outros representantes da rede que reunire mos como um grupo mais restrito situado à direita da barra são igualmente carregados de energia e também procuram livrarse dela mas numa descarga lenta e con trolada Estes últimos se opõem à descarga rápida preten dida pelo primeiro grupo majoritário de representantes Instaurase portanto um conflito entre esses dois grupos um deles o da esquerda que quer de imediato o prazer de uma descarga total o prazer é aqui soberano e outro grupo o da direita que se opõe a essa loucura lembra as exigências da realidade e incita à moderação a realidade é aqui soberana Enquanto o princípio que rege esse grupo majoritário de representantes chamase Princí pio de prazerdesprazer aquele que governa o segundo grupo minoritário de representantes se chama Princípio de realidade O primeiro grupo constitui o sistema inconsciente que tem por missão portanto escoar a tensão o mais depressa possível para tentar atingir a descarga total e implicita mente o prazer absoluto Esse sistema tem as seguintes características compõese exclusivamente de uma plura lidade de representantes pulsionais e Freud os denomina de representações inconscientes Essas representações ele também as chama representações de coisa por elas consistirem em imagens acústicas visuais ou tácteis de coisas ou de pedaços de coisa impressas no inconsciente As representações de coisa são de natureza principalmente visual e fornecem a matéria com que se moldam os sonhos e em especial as fantasias Acrescentemos que essas Lógica do funcionamento psíquico 23 imagens ou traços mnêmicos só são denominados de re presentações sob a condição de estarem investidos de energia Por isso um representante psíquico é a conjunção de um traço imajado um traço deixado pela inscrição de fragmentos de coisas ou acontecimentos reais com a ener gia que reaviva esse traço As representações inconscientes de coisa não respeitam as coações da razão da realidade ou do tempo o inconsciente não tem idade Elas atendem a uma única exigência buscar instantaneamente o prazer absoluto Para esse fim o sistema inconsciente funciona segundo os mecanismos de condensação e deslocamento destinados a favorecer uma circulação fluida e rápida da energia A energia é chamada livre uma vez que circula com toda a mobilidade e com poucos entraves na rede inconsciente O segundo grupo de representantes também constitui um sistema o sistema préconscienteconsciente Esse gru po busca igualmente o prazer mas diferindo do incons ciente tem por missão redistribuir a energia energia ligada e escoála lentamente seguindo as indicações do Princípio de realidade Esta energia é dita ligada pois ela investe especifi camente uma representação consciente É o caso da energia que significa o esforço sustentado de uma intensa atividade intelectual Os representantes dessa rede são chamados representações préconscientes e representações cons cientes As primeiras são representações de palavra elas abarcam diferentes aspectos da palavra como sua imagem acústica ao ser pronunciada sua imagem gráfica ou sua 24 O prazer de ler Freud imagem gestual de escrita Quanto às representações cons cientes cada uma é composta de uma representação de coisa agregada à representação da palavra que designa essa coisa A imagem acústica de uma palavra por exemplo maçã associase à representação visual da coisa o fruto maçã para lhe conferir um nome marcar sua qualidade específica e assim tornála consciente Sejamos claros A representação de coisa é inconsciente como dissemos quando não há representação de palavra que se associe a ela e designe a coisa e é consciente quando ao contrário uma representação de palavra vem se ligar a ela A imagem de uma maçã pode errar no inconsciente se nenhuma palavra vier designála mas basta que a palavra maçã apareça para que tenhamos uma idéia consciente desse fruto O que é a consciência senão uma idéia fixa esmiu çada e animada por uma palavra Reforcemos os dois sistemas buscam a descarga ou seja o prazer mas enquanto o primeiro tende ao prazer absoluto e obtém apenas como veremos um prazer parcial o segundo por sua vez visa obter e obtém um prazer moderado Isto posto podemos agora perguntarnos o que é o recal camento isto é o que é essa barra vertical que separa os dois grupos Dentre as definições possíveis proporei a seguinte o recalcamento é um adensamento de energia Lógica do funcionamento psíquico 25 uma chapa energética que impede a passagem dos conteú dos inconscientes para o préconsciente Ora essa barreira não é infalível alguns conteúdos inconscientes e recalca dos vão adiante irrompem abruptamente na consciência sob forma disfarçada e surpreendem o sujeito incapaz de identificar sua origem inconsciente Eles aparecem na consciência portanto mas permanecem incompreensíveis para o sujeito que os vive freqüentemente sob angústia Tomemos o caso de uma jovem que sofre de uma fobia das aranhas Conscientemente ela se angustia à vista do inseto ameaçador sem compreender que a aranha tão te mida é o substituto deformado de um aspecto do pai desejado por meio de suas mãos aveludadas A repre sentação inconsciente e incestuosa do amor pelo pai atra vessou a barreira do recalcamento disfarçandose em repre sentação consciente de angústia das aranhas Essas exteriorizações deturpadas do inconsciente con seguem assim descarregar uma parte da energia pulsional descarga esta que proporciona apenas um prazer parcial e substitutivo comparado ao ideal perseguido de uma satisfação completa e imediata que seria obtida por uma hipotética descarga total A outra parte da energia pulsio nal a que não transpõe o recalcamento continua confinada no inconsciente e realimenta sem cessar a tensão penosa Observemos que esse prazer deve ser compreendido como uma descarga mesmo que essa descarga assuma a forma de um sofrimento ou de uma angústia como no caso da fobia das aranhas 26 O prazer de ler Freud Tínhamos dito que o aparelho psíquico tem por função reduzir a tensão e provocar a descarga de energia Sabendo agora que a estimulação endógena é ininterrupta que a resposta é sempre incompleta e que o recalcamento au menta a tensão e a obriga a buscar expressões deturpadas podemos concluir portanto que existem diferentes tipos de descarga proporcionadores de prazer Uma descarga hipotética imediata e total comple tamente hipotética que se tivesse oportunidade provoca ria um prazer absoluto Essa descarga plena é calcada na descarga da tensão quando de uma resposta motora do corpo Ora para o psiquismo como sabemos essa solução ideal é impossível Todavia quando abordarmos o tema da sexualidade veremos como esse ideal de um prazer absoluto mantémse como objetivo inacessível das pulsões sexuais Uma descarga mediata e controlada pela atividade intelectual pensamento memória juízo atenção etc que proporciona um prazer moderado E por fim uma descarga mediata e parcial obtida quando a energia e os conteúdos do inconsciente transpõem a barreira do recalcamento Essa descarga gera um prazer parcial e substitutivo inerente às formações do incons ciente Esses três tipos de prazer absoluto moderado e parcial estão representados na Figura 2 na página 22 Lógica do funcionamento psíquico 27 Antes de retomarmos e resumirmos nosso esquema do funcionamento psíquico convém fazer alguns esclareci mentos importantes no que concerne à significação da palavra prazer de um lado e à função do recalcamento de outro A propósito do prazer assinalemos que a satis fação parcial e substitutiva ligada às formações do incons ciente terceiro tipo de descarga não é necessariamente sentida pelo sujeito como uma sensação agradável de prazer Muitas vezes sucede até essa satisfação ser vivida paradoxalmente como um desprazer ou até como um sofrimento suportado por um sujeito que esteja às voltas com sintomas neuróticos ou conflitos afetivos Mas sendo assim por que empregar o termo prazer para qualificar o caráter doloroso da manifestação de uma pulsão na cons ciência Acabamos de apresentar o exemplo da fobia das aranhas que considerada do ponto de vista do inconsciente é prazer uma vez que alivia a tensão insuportável de um conflito incestuoso e que considerada do ponto de vista da consciência é uma angústia dolorosa É que a rigor a noção freudiana de prazer deve ser entendida no sentido econômico de baixa da tensão É o sistema inconsciente que através de uma descarga parcial encontraria prazer em aliviar sua tensão Por isso diante de um sintoma que causa sofrimento devemos discernir claramente o sofri mento experimentado pelo paciente e o prazer não sentido conquistado pelo inconsciente Passemos agora ao papel do recalcamento e levantemos o seguinte problema por que tem que haver recalcamento 28 O prazer de ler Freud Por que é preciso que o eu se oponha às solicitações de uma pulsão que apenas pede para se satisfazer e desse modo liberar a tensão desprazerosa que reina no incons ciente Por que barrar a descarga liberadora da pressão inconsciente Por que impedir o alívio de uma tensão penosa Qual é a finalidade do recalcamento O objetivo do recalcamento é evitar o risco extremo que o eu correria ao satisfazer inteiramente e diretamente a exigência pul sional Com efeito a satisfação imediata e total da pressão pulsional destruiria por seu descomedimento o equilíbrio do aparelho psíquico Existem pois duas espécies de satisfações pulsionais Uma total e hipotética que o eu idealiza como um prazer absoluto mas evita graças ao recalcamento como um excesso destrutivo2 A outra satisfação é uma satisfação parcial moderada e isenta de perigos que o eu tolera Podemos agora resumir numa palavra o esquema lógico que perpassa em filigrana a obra de Freud e assim fazendo definir o inconsciente Reportemonos à Figura 3 e for mulemos a pergunta como funciona o psiquismo O essencial da lógica do funcionamento psíquico con siderado do ponto de vista da circulação da energia resu mese pois em quatro tempos Lógica do funcionamento psíquico 29 Primeiro tempo excitação contínua da fonte e movi mentação da energia à procura de uma descarga com pleta nunca atingida Segundo tempo a barreira do recalcamento opõese ao movimento da energia Terceiro tempo a parcela de energia que não transpõe a barreira fica confinada no inconsciente e reativa a fonte de excitação Quarto tempo a parcela de energia que transpõe a barreira do recalcamento exte riorizase sob a forma do prazer parcial inerente às formações do inconsciente Quatro tempos portanto a pressão constante do in consciente o obstáculo que se opõe a ele a energia que resta e a energia que passa É esse o esquema que eu gostaria de lhes propor pedindolhes que o ponham à prova em sua leitura dos textos freudianos Talvez vocês cons tatem o quanto Freud raciocina de acordo com essa lógica essencial dos quatro tempos o que empurra o que detém o que resta e o que passa3 30 O prazer de ler Freud FIGURA 3 Esquema dos 4 tempos do funcionamento psíquico 1 Movimento contínuo da energia em direção ao prazer absoluto 2 Barra do recalcamento que se opõe à movimentação da energia 3 Energia que não transpõe a barra do recalcamento e dá início a uma nova excitação 4 Energia que transpõe a barra do recalcamento e se exterioriza sob a forma do prazer parcial inerente às formações do inconsciente Lógica do funcionamento psíquico 31 O inconsciente Definições do inconsciente Abordemos agora o inconsciente conforme os diferentes pontos de vista estabelecidos por Freud levando em conta os vocábulos particulares que designam os dois extremos do esquema a fonte de excitação tempo 1 e as formações exteriores do inconsciente tempo 4 Cada uma dessas ex tremidades assume um nome diferente conforme a perspec tiva e a terminologia com que Freud define o inconsciente Definição do inconsciente do ponto de vista descritivo Se considerarmos o inconsciente de fora isto é do ponto de vista descritivo de um observador como eu mesmo por exemplo diante de minhas próprias manifestações incons cientes ou das manifestações provenientes do inconsciente do outro perceberemos apenas os produtos rejetons O inconsciente em si continua suposto como um processo obscuro e incognoscível subjacente a essas manifestações Um sujeito comete um lapso por exemplo e logo concluí mos Seu inconsciente está falando Mas nada explicamos 32 sobre o processo subjacente a esse ato o inconsciente en quanto tal permanece desconhecido para nós Assim sendo como referenciar as manifestações do inconsciente Dentre a infinita variedade das expressões e dos comportamentos humanos quais identificar como manifestações do inconsciente Quando podemos afirmar aqui há inconsciente As formações do inconsciente apre sentamse diante de nós como atos falas ou imagens inesperados que surgem abruptamente e transcendem nos sas intenções e nosso saber consciente Esses atos podem ser condutas corriqueiras como por exemplo os atos falhos os esquecimentos os sonhos ou mesmo o apare cimento repentino desta ou daquela idéia ou a invenção improvisada de um poema ou de um conceito abstrato ou ainda certas manifestações patológicas que fazem sofrer como os sintomas neuróticos ou psicóticos Mas sejam eles normais ou patológicos os produtos do inconsciente são sempre atos surpreendentes e enigmáticos para a cons ciência do sujeito e para a do psicanalista A partir desses produtos observáveis supomos a existência de um proces so inconsciente obscuro e ativo que atua em nós sem que o saibamos Estamos no que tange ao inconsciente diante de um fenômeno que se consuma independentemente de nós e que no entanto determina aquilo que somos Na presença de um ato não intencional postulamos a existên cia do inconsciente não apenas como o processo que causa esse ato mas também como a essência mesma do psiquis mo o psiquismo em si O consciente portanto seria apenas O inconsciente 33 um epifenômeno um efeito secundário do processo psí quico inconsciente Convém ver no inconsciente diznos Freud a base de toda a vida psíquica O inconsciente assemelhase a um grande círculo que encerrasse o cons ciente como um círculo menor O inconsciente é o psíquico em si e sua realidade essencial4 Definição do inconsciente do ponto de vista sistemático Já definimos o inconsciente como um sistema ao abordar mos a estrutura da rede das representações Nessa pers pectiva a fonte de excitação chamase representação de coisa e os produtos finais são manifestações deturpadas do inconsciente O sonho é o melhor exemplo disso Definição do inconsciente do ponto de vista dinâmico O conceito de recalcamento A teoria do recalcamento é o pilar sobre o qual repousa o edifício da psicanálise S FREUD Se agora definirmos o inconsciente do ponto de vista dinâmico isto é do ponto de vista da luta entre a moção 34 O prazer de ler Freud que impulsiona e o recalcamento que resiste a fonte de excitação receberá o nome de representantes recalcados e as produções finais corresponderão a escapadas dissimu ladas do inconsciente subtraídas à ação do recalcamento5 Esses derivados mascarados do recalcado chamamse re tornos do recalcado produtos do recalcado ou ainda produtos do inconsciente Produtos no sentido de jovens brotos do inconsciente que a despeito da capa do recal camento eclodem disfarçados na superfície da consciên cia Os exemplos mais freqüentes desses produtos defor mados do recalcado são os sintomas neuróticos Lembro me de um analisando que ao volante de seu carro foi subitamente assaltado pela imagem obsedante de uma cena em que se via deliberadamente atropelando uma mulher idosa que atravessava a rua Essa idéia fixa repetitiva que o fazia sofrer e que muitas vezes o impedia de utilizar seu veículo revelou no correr da análise ser o produto consciente e dissimulado do amor incestuoso e inconscien te que ele sentia por sua mãe Assim a representação inconsciente amor incestuoso transpôs a barra do recal camento e transformouse em seu contrário ou seja numa imagem obsedante de um impulso assassino contra uma mãe encarnada na realidade por uma velha atravessando a rua Notese que essas aparições conscientes do recalcado inconsciente esses retornos do recalcado podem ser igual mente concebidos como soluções de compromisso no con flito que opõe o impulso do recalcado em direção à cons O inconsciente 35 ciência e o recalcamento que resiste Solução de compro misso significa que o retorno do recalcado é uma mistura que se compõe em parte do recalcado inconsciente que transpôs a barra do recalcamento e em parte de um elemento consciente que o mascara Em outras palavras o retorno do recalcado é um disfarce consciente do recal cado porém incapaz apesar disso de mascarálo por completo Assim em nosso exemplo a figura da vítima encarnada pela velha deixava transparecer sob os traços de uma mulher idosa a figura recalcada da mãe Outra ilustração dos traços visíveis do recalcado no retorno do recalcado foinos proposta por Freud quando ele comen tou uma célebre gravura de Félicien Rops Nela o artista figurou a situação de um asceta que para rechaçar a tentação da carne o recalcado refugiouse aos pés da Cruz recalcamento e viu surgir horrorizado a imagem de uma mulher nua crucificada retorno do no lugar de Cristo O retorno do recalcado nesse caso foi um com promisso entre a mulher nua parte visível do recalcado e a cruz que a sustentava recalcamento Por outro lado acrescentemos que os produtos do inconsciente uma vez chegados à consciência podem sofrer uma nova contraofensiva do recalcamento que os manda de volta para o inconsciente o chamado recalca mento secundário ou recalcamento a posteriori Vêse aqui a flexibilidade da intervenção da barra do recalca mento capaz não apenas de impedir compactamente a passagem global dos elementos provenientes do incons 36 O prazer de ler Freud ciente como também capaz de interpelar um a um ele mentos fugitivos isolados que já forçaram a barragem Resta dizermos uma palavra para justificar a definição de recalcamento que propusemos anteriormente como sen do uma chapa de energia que impede a passagem dos conteúdos inconscientes para o préconsciente Com efei to Freud nunca renunciou a considerar o recalcamento como um jogo complexo de movimentos de energia Um jogo destinado de um lado a conter e fixar nos recônditos do inconsciente as representações recalcadas e de outro a reconduzir ao inconsciente as representações fugitivas que chegam ao préconsciente ou à consciência depois de haverem burlado a vigilância do recalcamento Por isso Freud distinguiu dois tipos de recalcamento um recalca mento primário que contém e fixa as representações re calcadas no solo do inconsciente e um recalcamento se cundário que recalca no sentido literal de fazer retro ceder no sistema inconsciente os produtos précons cientes do recalcado O inconsciente 37 Os elementos recalcados que atravessam a barreira do recalcamento podem ser a representação munida de sua carga energética ou então o que Freud privilegiou apenas a carga desligada de sua representação Mais adiante examinaremos a primeira eventualidade a da passagem para o consciente da representação investida de sua carga Quanto à segunda eventualidade a da passagem apenas da carga Freud vislumbrou quatro destinos possíveis permanecer inteiramente recalcada atravessar a barreira do recalcamento e se comutar em angústia fóbica atravessar a barreira e se converter em distúrbios somáticos na histeria ou ainda atravessar a barra e se transformar em angústia moral na obsessão O recalcamento primário o mais primitivo é não ape nas uma fixação das representações recalcadas no solo do inconsciente como também um tapume energético que o préconsciente e o consciente erguem contra a pressão de energia livre oriunda do inconsciente Esse tapume é cha mado contrainvestimento ou seja um investimento con trário que o sistema PréconscienteConsciente opõe às tentativas de investimento da pressão inconsciente O segundo tipo de recalcamento cujo objetivo é restituir o produto a seu lugar de origem é também um movimento de energia porém mais complexo Em essência ele se resu me nas seguintes operações centradas em torno do produto consciente ou préconsciente do recalcado Primeiro retirada da carga préconscienteconscien te de energia ligada que o produto havia adquirido enquan to estava no préconsciente ou no consciente Uma vez desprendido de sua carga préconscien teconsciente e vendo reativada sua antiga carga incons ciente o produto fragilizado é atraído como que imantado pelas outras representações fixadas no sistema inconscien te pelo recalcamento primário O produto fugitivo retorna então ao âmago do inconsciente Definição do inconsciente do ponto de vista econômico Se desta vez definirmos o inconsciente do ponto de vista econômico aquele que adotamos para desenvolver nosso 38 O prazer de ler Freud esquema do funcionamento psíquico a fonte de excitação se chamará representante das pulsões e as produções finais do inconsciente serão fantasias ou mais exatamen te comportamentos afetivos e escolhas amorosas espontâ neos escorados em fantasias Explicarei dentro em pouco a natureza dessas fantasias mas antes é preciso ser mais preciso quanto à sua localização em nosso esquema que levanta o seguinte problema As fantasias podem não ape nas aparecer na consciência e nos comportamentos coti dianos como acabamos de dizer sob a forma por exemplo de vínculos afetivos espontâneos ou mais par ticularmente como devaneios diurnos e formações deli rantes elas podem também permanecer enfurnadas e re calcadas no inconsciente Mas as fantasias podem ainda desempenhar o papel de defesas do eu contra a pressão inconsciente Ou seja uma fantasia tanto pode assumir o papel de um produto do recalcado de um conteúdo in consciente recalcado ou ainda de uma defesa recalcante Em nosso esquema localizamos a fantasia tanto aquém da barra do recalcamento tempo 1 quanto no nível da barra tempo 2 ou ainda além da barra tempo 4 Definição do inconsciente do ponto de vista ético Se por fim definirmos o inconsciente do ponto de vista ético iremos chamálo de desejo O que é o desejo O desejo é o inconsciente considerado do ponto de vista da O inconsciente 39 sexualidade isto é do ponto de vista do prazer sexual Voltarei adiante sobre o desejo a sexualidade e o prazer sexual mas é preciso que eu adiante uma primeira defini ção do desejo para fazêlos compreender o estatuto ético do inconsciente O que é então desejo É uma pulsão da qual não temos consciência que teria por objetivo ideal o prazer absoluto em um relação incestuosa O desejo é o inconsciente em busca do incesto Insisto em que esse incesto é um objetivo ideal puramente mítico e sem ne nhuma relação com as relações incestuosas patológicas e proibidas pela lei que podem se produzir em uma família Não o incesto de que falamos é ao contrário o objetivo último e universal do desejo humano Bem antes da psi canálise sabiase que as sociedades humanas eram orga nizadas em torno do interdito do incesto mas com a psicanálise compreendemos que o interdito do incesto é o avesso indissociável do desejo inconsciente de incesto Eis o que gostaria de transmitirlhes visto sob o ângulo do inconsciente o incesto é a coisa mais desejada o valor supremo de um soberano Bem que orienta e decide da vida de cada um dos sujeitos desejantes que somos Pois bem o estatuto ético do inconsciente se resume no fato de que é um desejo movido pelo soberano Bem que seria o gozo incestuoso Depois de mostrar o funcionamento do aparelho psíquico segundo a lógica de um esquema espacial eu lhes propus 40 O prazer de ler Freud uma visão descritiva sistemática dinâmica econômica e ética do inconsciente Mas todas essas abordagens estariam incompletas se não inscrevêssemos nosso aparelho no fio do tempo e não o incluíssemos no universo do outro Dois fatores emolduram a vida psíquica o tempo e os outros Figura 4 O tempo primeiramente pois o funcionamento psíquico não pára de se renovar ao longo de toda a história de um sujeito a ponto de escapar à mensuração do tempo O inconsciente é extratemporal ou seja é perpétuo no tempo histórico Silencioso aqui ele reaparece ali e não definha nunca É só tentar fazêlo calarse para que ele reviva prontamente voltando a desabrochar em novas ma nifestações Por isso seja qual for a idade o inconsciente continua a ser um processo irreprimivelmente ativo e ines gotável em suas produções Quer vocês tenham dois dias de vida ou 83 anos ele persevera em seu ímpeto e sempre consegue fazerse ouvir Mas devemos ainda compreender que a vida psíquica está imersa no mundo dos outros no mundo daqueles a quem estamos ligados pela linguagem por nossas fantasias e nossos afetos Nosso psiquismo prolonga necessaria mente o psiquismo do outro com quem nos relacionamos As fontes de nossas excitações são os vestígios deixados O inconsciente 41 O movimento do inconsciente excitação descarga pode também ser visto como a tendência do inconsciente em se fazer ouvir como um Outro que fala em nós e surpreendenos Jacques Lacan resumiu bem essa parti cularidade do inconsciente numa fórmula célebre Isso fala FIGURA 4 As produções do inconsciente do outro estimulam as fontes de meu inconsciente E minhas próprias produções estimulam as fontes do inconsciente do outro 42 O prazer de ler Freud em nós pelo impacto do desejo do outro daquele ou daqueles que nos têm por objeto de seu desejo É como se a seta do tempo 4 do esquema do aparelho psíquico do outro estimulasse a fonte de excitação de nosso próprio aparelho E como se reciprocamente nossas produções estimulassem por sua vez a fonte de excitação do outro De fato existe apenas uma única corrente de desejo que circula e liga os dois parceiros da relação desejante O inconsciente 43 Encontramos aqui em termos energéticos minha tese sobre a existência no seio da relação analítica de um inconsciente único que liga e envolve os dois parceiros analíticos Não existe um inconsciente que seria próprio do analista e um outro próprio do analisando mas apenas um único inconsciente produzido no momento mesmo em que um acontecimento transferencial sobrevém na sessão Essa tese que data de 1977 foi desen volvida em meu livro Os olhos de Laura Tranferência objeto a e topologia na teoria de J Lacan Porto Alegre Artes Médicas A sexualidade O sentido sexual de nossos atos Estamos agora em condições de formular a premissa fun dadora da psicanálise Nossos atos involuntários aqueles que nos escapam não somente são determinados por um processo inconsciente mas sobretudo têm um sentido Eles significam algo diferente daquilo que exprimem à primeira vista Antes de Freud os atos falhos passavam por atos anódinos e desprezíveis ao passo que hoje em dia encon trar um sentido para as condutas e as palavras que nos escapam tornouse um reação banal Basta alguém cometer um lapso para logo sorrir ou quem sabe às vezes corar considerandose traído pela revelação de um desejo de um sentido até então velado Mas o que é um sentido Qual o sentido de um ato involuntário A significação de um ato involuntário reside no fato de ele ser o substituto de um ato ideal de uma ação impossível que em termos absolutos deveria terse produzido mas não ocorreu Quando o psicanalista inter preta e desvenda a significação oculta de um sonho por exemplo que faz ele senão mostrar que o ato espontâneo que é o sonho é o substituto de um outro ato que não veio à tona que aquilo que é é o substituto daquilo que não foi realizado Vamos adiante Um ato espontâneo é um 44 acontecimento que guarda um sentido Mas o que é preciso fazer para revelar esse sentido oculto Pois bem é preciso que o analista ou mesmo a analisando vincule o dito acontecimento a outros acontecimentos antigos que o inscreva em uma história e o considere o substituto atual de um acontecimento passado não realizado ou até ine xistente insituável no tempo É justamente a história que confere a um acontecimento atual seu estatuto de ato portador de um sentido Deixemos bem claro que essa referência do atual ao antigo só tem valor no seio de uma relação humana em que um dos parceiros o analisando fala a um outro o analista que escuta e inscreve essa fala em uma história Coloquemos agora a questão do sentido O que é então o sentido É referir o acontecimento de hoje a todos os acontecimentos passados e para além disso a um hipoté tico acontecimento Inicial que jamais ocorreu O sentido do ato que realizamos inconscientemente se funda no fato de que esse ato substitui a todos os atos passados de nossa história ou rigorosamente a todo primeiro ato ideal na origem de nossa história Precisemos que esse ato ideal pode ser suposto não apenas como o ponto mais recuado de nossa história mas também como o ponto mais longín quo no horizonte Seja o mais antigo no passado seja o mais esperado no futuro o acontecimento ideal constitui o ato não realizado de que todos nossos atos involuntários são substitutos Nossos atos involuntários têm um sentido portanto produzido por sua substituição por um ideal não realizado A sexualidade 45 Mas como qualificar esse sentido Qual é o teor do sentido oculto de nossos atos A resposta a essa pergunta constitui a grande descoberta da psicanálise Que diz ela Que a significação de nossos atos falhos é uma significação se xual Por que sexual Reportemonos à Figura 6 e vejamos de que natureza é a fonte da tendência pulsional e de que natureza é o objetivo ideal a que essa tendência aspira isto é a ação ideal e impossível que não se deu e da qual nossos atos são os substitutos Marquemos então o ponto de partida e o ponto de chegada ideal da linha pulsional O que constatamos Que o sentido de nossos atos é um sentido sexual porque a fonte e o objetivo dessas tendên cias são sexuais A fonte é um representante pulsional cujo conteúdo representativo corresponde a uma região do cor po muito sensível e excitável chamada zona erógena Quanto ao objetivo sempre ideal é o prazer perfeito de uma ação perfeita de uma perfeita união entre dois sexos cuja imagem mítica e universal seria o incesto O conceito psicanalítico de sexualidade Essas tendências que nascem em uma zona erógena do corpo aspiram ao ideal impossível de uma satisfação 46 O prazer de ler Freud sexual absoluta esbarram no recalcamento e finalmente exteriorizamse por atos substitutivos do impossível ato incestuoso essas tendências chamamse pulsões se xuais As pulsões sexuais são múltiplas povoam o terri tório do inconsciente e sua existência remonta a um ponto longínquo de nossa história desde o estado embrionário só vindo a cessar com a morte Suas manifestações mais marcantes aparecem durante os primeiros cinco anos de nossa infância Freud decompõe a pulsão sexual em quatro elementos Deixando de lado a fonte de onde ela brota zona erógena a força que a move e o objetivo que a atrai a pulsão servese de um objeto por meio do qual tenta chegar a seu objetivo ideal Esse objeto pode ser uma coisa ou uma pessoa ora a própria pessoa ora uma outra mas é sempre um objeto fantasiado e não real Isso é importante para compreender que os atos substitutivos através dos quais as pulsões sexuais se exprimem uma palavra inesperada um gesto involuntário ou laços afetivos que não escolhe mos são atos moldados em fantasias e organizados em torno de um objeto fantasiado Mas devo ainda acrescentar um elemento essencial que caracteriza essas pulsões a saber o prazer particular que A sexualidade 47 O leitor de Lacan pensará aqui no célebre aforismo A relação sexual é impossível ou ainda Não existe relação sexual De acordo com nossas afirmações ele poderá completar a fórmula da seguinte maneira Não existe relação sexual incestuosa há apenas relações sexuais substitutivas elas proporcionam Não o prazer absoluto que visam mas o prazer limitado que obtêm um prazer parcial qualificado de sexual Ora o que é o prazer sexual E em termos mais gerais o que é a sexualidade Do ponto de vista da psicanálise a sexualidade humana não se reduz ao contato dos órgãos genitais de dois indivíduos nem à estimulação de sensações genitais Não o conceito de sexual reves tese em psicanálise de uma acepção muito mais ampla que a de genital Foram as crianças e os perversos que mostraram a Freud a vasta extensão da idéia de sexuali dade Chamamos sexual a toda conduta que partindo de uma região erógena do corpo boca ânus olhos voz pele etc e apoiandose numa fantasia proporciona um certo tipo de prazer Que prazer Um prazer que apresenta dois aspectos Primeiro distinguese nitidamente daquele outro prazer pela satisfação de uma necessidade fisiológica co mer eliminar dormir etc O prazer de mamar do bebê por exemplo seu prazer da sucção corresponde do ponto de vista psicanalítico a um prazer sexual que não se confunde com o alívio de saciar a fome Alívio e prazer por certo estão associados mas o prazer sexual de sucção logo se transforma numa satisfação buscada por si mesma fora da necessidade natural Sem dúvida a mamada é uma absorção de alimento mas o bebezinho irá querer continuar a sugar mesmo saciado descobrindo assim que mamar é em si uma fonte de prazer Segundo aspecto o prazer sexual bem distinto portanto do prazer orgânico polarizado em torno de uma zona erógena obtido graças 48 O prazer de ler Freud à mediação de um objeto fantasiado e não de um objeto real é encontrado entre os diferentes prazeres das preli minares ao coito em si prazer de olhar de se mostrar de acariciar de sentir o cheiro do outro etc Para conservar nosso exemplo o prazer de sucção do bebê irá prolongarse na vida adulta como prazer preliminar de abraçar o corpo do ser amado Se devêssemos resumir a passagem do prazer orgânico para o prazer sexual diríamos prazer orgânico de beber o leite maternal prazer sexual de mamar o seio prazer sexual de chupar o polegar ou a teta prazer sexual de abraçar o corpo do amado Vêse bem por que os psicanalistas condensam todas essas etapas e concluem simplesmente dizendo que o seio materno é nosso primeiro objeto sexual Necessidade desejo e amor Para melhor situar a diferença entre prazer orgânico e prazer sexual detenhamonos por um instante e definamos com clareza as noções de necessidade desejo e amor A necessidade é a exigência de um órgão cuja satisfação se dá realmente com um objeto concreto o alimento por exemplo e não com uma fantasia O prazer de bemestar proveniente daí nada tem de sexual O desejo em contra partida é uma expressão da pulsão sexual ou melhor é a própria pulsão sexual quando esta respeita duas condições primeiro o objetivo é o absoluto do incesto e o meio de A sexualidade 49 NECESSIDADE TENDÊNCIA Tendência orgânica ZONA CORPORAL Zona orgânica EXCITAÇÃO CORPORAL Excitação pontual OBJETIVO Autoconservação MEIO OBJETO Objeto real alimento por ext PRAZER OBTIDO Prazer da saciação O OUTRO Um exemplo do Outro da necessidade a mãe alimentadora FIGURA 5 Diferença entre Necessidade Desejo e Amor 50 O prazer de ler Freud DESEJO AMOR Tendência cujo objetivo é o incesto e o objeto a fantasia do corpo desejante do outro Tendência cujo objetivo é a fusão com o amado Zona erógena definida Zona erógena indefinida Excitação contínua Os excitantes são símbolos e imagens Objetivo ideal o incesto Objetivo ideal fundir com o amado Objeto fantasia do corpo desejante do outro Objeto imaginário meu semelhante idealizado Prazer sexual limitado Prazer sexual sublimado Um exemplo do Outro do desejo a mãe desejante e desejada Um exemplo do Outro do amor a mãe ideal A sexualidade 51 aí chegar é o corpo excitado de um outro que seja Sejamos claros uma pulsão pode ser considerada um desejo quando o objeto do qual ela se serve para se satisfazer é o corpo de uma pessoa que ela também deseja Digamos então que diferentemente da necessidade o desejo nasce de uma zona erógena de meu corpo e que diferentemente dos outros tipos de pulsões se satisfaz parcialmente com uma fantasia cujo objeto é o corpo excitado de um outro dese jante Assim o apego ao outro desejado equivale ao apego a um objeto fantasiado polarizado em torno de uma zona erógena situada no corpo do outro boca seio ânus va gina pênis pele olhar olfação etc Finalmente o amor é também um apego ao outro mas de maneira global e sem o suporte de uma zona erógena definida Esses três estados naturalmente entendido imbricamse e se confun dem em toda relação amorosa Figura 5 52 O prazer de ler Freud FIGURA 6 As pulsões sexuais seus 3 principais destinos recalcamento sublimação fantasia e suas exteriorizações A sexualidade 53 A sexualidade Os três principais destinos das pulsões sexuais recalcamento sublimação e fantasia O conceito de narcisismo Nós havíamos dito que o prazer obtido pelas pulsões sexuais era apenas um prazer limitado Seja Mas por que limitado E também por que as pulsões sexuais se contentam com objetos fantasiados e não com objetos concretos e reais Para responder reportemonos à Figura 6 Vemos aí as pulsões sexuais obterem apenas um prazer limitado pois é o único prazer que puderam desfrutar com autoridade depois de terem se desvencilhado das defesas do eu Que defesas Em primeiro lugar o recalcamento Ora o recalcamento é também à sua maneira uma força ou melhor ainda uma pulsão do eu Isso significaria que há dois grupos de pulsões opostas o grupo das pulsões que tendem à descarga pulsões sexuais e o grupo das pulsões que se opõem a isso pulsões do eu Sim é justamente a primeira teoria das pulsões proposta por Freud no início de sua obra antes de introduzir o conceito de narcisismo em 1914 Logo veremos qual é a segunda teoria complementar à primeira formulada a partir dessa data mas por ora distingamos duas tendências pul sionais antagônicas as pulsões sexuais recalcadas e as pulsões do eu recalcantes As primeiras buscam o prazer 54 sexual absoluto ao passo que as segundas a isso se opõem O resultado desse conflito consiste precisamente nesse prazer derivado e parcial que chamamos prazer sexual Se vocês houverem se assenhoreado da lógica em quatro tempos do funcionamento psíquico facilmente admitirão que o destino das pulsões sexuais é sempre o mesmo elas estão condenadas a se deparar sempre no caminho de seu objetivo ideal com a oposição das pulsões do eu isto é com o obstáculo do recalcamento Mas além do recalca mento o eu opõe duas outras obstruções às pulsões se xuais a sublimação e a fantasia A sublimação O primeiro desses entraves consiste em desviar o trajeto da pulsão mudando seu objetivo essa manobra é chamada sublimação e reside na substituição do objetivo sexual ideal incesto por um outro objetivo não sexual de valor social As realizações culturais e artísticas as relações de ternura entre pais e filhos os sentimentos de amizade e os laços sentimentais do casal são todos eles expressões sociais das pulsões sexuais desviadas de seu objetivo vir tual A amizade por exemplo é alimentada por uma pulsão sexual desviada em direção a um objetivo social A sexualidade 55 A fantasia A outra barreira imposta pelo eu é mais complicada porém a compreensão de seu mecanismo nos permitirá explicar por que os objetos com que a pulsão obtém prazer sexual são objetos fantasiados e não reais Esse outro obstáculo que o eu opõe às pulsões sexuais consiste não numa mudança de objetivo como foi o caso da sublimação mas numa mudança de objeto No lugar de um objeto real o eu instala um objeto fantasiado como se para deter o ímpeto da pulsão sexual o eu contentasse a pulsão enga nandoa com a ilusão de um objeto fantasiado Mas como o eu consegue realizar esse truque Pois bem para transformar o objeto real num objeto fantasiado ele precisa primeiro incorporar dentro de si o objeto real até transformálo em fantasia Tomemos um exemplo e decomponhamos artificialmente esse estratagema do eu em seis etapas 1 Imaginemos uma relação afetiva com alguém que nos atraia Suponhamos que essa pessoa seja o objeto real em direção ao qual a pulsão sexual se orienta 2 Nós isto é o eu freqüentamos essa pessoa até incorporála pouco a pouco dentro de nós e transformála em uma parte de nós mesmos 3 Agora que o ser amado está dentro de nós nós o tratamos com um amor ainda mais poderoso do que aquele que lhe votávamos quando ele era real Por que isso Porque tornado uma parte de mim eu gosto dele como de mim mesmo Amar o outro é sempre amar a si próprio 56 O prazer de ler Freud 4 É então que a pessoa amada deixa de estar do lado de fora e vive dentro de nós como um objeto fantasiado que mantém e reaviva constantemente nossas pulsões se xuais Assim a pessoa real passa a não mais existir para nós senão sob a forma de uma fantasia mesmo que con tinuemos a reconhecer nela uma existência autônoma no mundo Por conseguinte quando amamos sempre amamos um ser misto feito ao mesmo tempo do estofo da fantasia e da pessoa real que existe do lado de fora 5 A relação amorosa está portanto fundada em um fantasia que aplaca a sede da pulsão proporcionando um prazer parcial que qualificamos genericamente de sexual 6 Amaremos ou odiaremos nosso próximo conforme o modo que tivermos de gostar ou odiar dentro de nós seu duplo fantasiado Todas as nossas relações afetivas e em particular a relação que se estabelece entre o paciente e seu psicanalista amor de transferência todas essas relações conformamse aos moldes da fantasia fantasia que mobiliza a atividade das pulsões sexuais e proporciona prazer O conceito de narcisismo Entretanto nas seqüências que acabamos de distinguir não demos destaque ao gesto essencial do eu que lhe permite transformar o amado real em objeto fantasiado Que gesto A sexualidade 57 é esse É uma torção do eu chamada narcisismo O nar cisismo é o estado singular do eu quando a fim de incorporar o outro real e transformálo em fantasia ele toma o lugar do objeto sexual e se faz amar e desejar pela pulsão sexual Antes de fazer do amado um objeto fanta siado ele se faz ele próprio objeto fantasiado É como se o eu para domar a pulsão a desviasse de seu objetivo ideal e a enganasse dizendolhe Já que você está pro curando um objeto para chegar a seus fins sexuais venha sirvase de mim A dificuldade teórica do conceito de narcisismo é justamente compreender que as pulsões se xuais e o eu identificado com o objeto fantasiado constituem duas partes de nós mesmos O eupulsão sexual ama o euobjetofantasiado Assim é que podemos formu lar o eupulsão ama a si mesmo como a um objeto sexual O narcisismo não se define de maneira alguma por um simples voltarse para si num amar a si mesmo mas por um amar a si mesmo como objeto sexual o eupulsão sexual ama o euobjetofantasiadosexual Deixemos bem claro que o eu é um objeto fantasiado por sua natureza ilusória e um objeto sexual pelo prazer que suscita ao satisfazer parcialmente a pulsão De fato o amor narcísico do eu por ele mesmo enquanto objeto sexual está na base da formação de todas as nossas fantasias Por isso pode mos concluir que em toda fantasia mais exatamente em cada personagem fantasístico o clínico deve identificar a presença do eu 58 O prazer de ler Freud Para resumir esse aparte sobre os diferentes destinos das pulsões sexuais digamos que elas podem ser recalca das sublimadas ou ainda enganadas pela fantasia A sexualidade 59 A sexualidade As fases da sexualidade infantil e o complexo de Édipo Mas as pulsões sexuais remontam a um ponto longínquo em nossa infância Têm uma história que pontua o desen volvimento de nosso corpo de criança Sua evolução co meça desde o nascimento e culmina entre os três e cinco anos com o aparecimento do complexo de Édipo que marca o apego da criança àquele dos pais que é do sexo oposto ao dela e sua hostilidade para com o do mesmo sexo A maioria dos acontecimentos sobrevindos durante esses primeiros anos da vida são surpreendidos por um esquecimento que Freud chama amnésia infantil Podemos destacar sucintamente três fases na história das pulsões sexuais infantis Três fases que se distinguem de acordo com a dominância da zona erógena a fase oral em que a zona dominante é a boca a fase anal em que é o ânus que prevalece e a fase fálica com a primazia do órgão genital masculino falo A fase oral abrange os primeiros seis meses do bebê a boca é a zona erógena preponderante e proporciona ao 60 bebê não apenas a satisfação de se alimentar mas sobre tudo o prazer de sugar isto é de pôr em movimento os lábios a língua e o palato numa alternância ritmada Quando empregamos a expressão pulsão oral ou prazer oral devemos afastar qualquer relação exclusiva com o alimento O prazer oral é fundamentalmente o prazer de exercer uma sucção sobre um objeto que se tem na boca ou que se leva à boca e que obriga a cavidade bucal a se contrair e se relaxar sucessivamente No bebê como vimos esse ganho de prazer à margem da saciação deve ser qualificado de sexual O objeto da pulsão oral não é portanto o leite que ele ingere como alimento mas o afluxo de leite quente que excita a mucosa ou então o mamilo do seio materno a mamadeira e algum tempo depois uma parte do próprio corpo na maioria das vezes os dedos e em especial o polegar que são todos eles objetos reais que mantêm o movimento cadenciado da sucção E que são todos objetospretexto nos quais as fantasias se enxertam Quando observamos uma criança que chupa o polegar bem apoiado contra a concavidade do palato com seu olhar sonhador deduzimos que nesse momento ela está experimentando psicanaliticamente falando um intenso prazer sexual Não nos esqueçamos de que o apego aos objetos reais é acima de tudo um apego a objetos fantasiados e que esses objetos fantasiados são o próprio eu Assim o polegar real que a criança suga é na verdade um objeto fantasiado que ela acaricia ou seja ela mesma narcisismo Para concluir acrescentemos A sexualidade 61 que existe ainda uma fase oral tardia que começa por volta do sexto mês de vida com o surgimento dos primeiros dentes O prazer sexual de morder às vezes com raiva completa o prazer da sucção A fase anal desenvolvese durante o segundo e terceiro anos O orifício anal é a zona erógena dominante e as fezes constituem o objeto real que materializa o objeto fantasiado das pulsões anais Do mesmo modo que havía mos distinguido o prazer de comer do prazer sexual da sucção devemos aqui separar o prazer orgânico de defecar aliviandose de uma necessidade corporal do prazer sexual de reter as fezes para em seguida expulsálas bruscamen te A excitação sexual da mucosa anal é provocada antes de mais nada por um ritmo particular do esfíncter quando ele se contrai para reter e se dilata para evacuar Originalmente conhecemos apenas objetos sexuais a psicanálise nos mostra que as pessoas a quem acreditamos apenas respeitar e estimar podem para nosso inconsciente continuar a ser objetos sexuais S FREUD A fase fálica precede o estado final do desenvolvimento sexual isto é a organização genital definitiva Entre a fase fálica que se estende dos três aos cinco anos e a organi 62 O prazer de ler Freud zação genital propriamente dita que aparece quando da puberdade intercalase um período chamado de latência durante o qual as pulsões sexuais são inibidas No curso da fase fálica o órgão genital masculino pênis desempenha o papel dominante Na menina o clitóris é considerado segundo Freud um atributo fálico fonte de excitação À semelhança das outras fases o objeto real serve de base para o objeto fantasiado Aqui o pênis e o clitóris são apenas os suportes concretos e reais de um objeto fantasiado chamado falo6 De fato não é o órgão peniano que prevalece nessa fase mas a fantasia desse órgão ou seja sua superestimação enquanto símbolo do poder Quanto ao prazer sexual ele resulta nessa fase das carícias masturbatórias e dos toques ritmados das partes genitais tão ritmados quanto podem ser os movimentos alternados da sucção no prazer oral e os da retençãoex pulsão no prazer anal No começo dessa fase fálica meninos e meninas acre ditam que todos os seres humanos têm ou deveriam ter um falo A diferença entre os sexos homemmulher é então percebida pela criança como uma oposição entre os possuidores do falo e os seres privados do falo castrados Depois a menina e o menino seguirão vias diferentes até a aquisição de sua identidade sexual definitiva na época da puberdade Essas vias são diferentes porque o objeto fantasiado falo com o qual a pulsão fálica se satisfaz assume num e noutro valores distintos Para o menino o objeto da pulsão ou seja o falo é a pessoa da mãe ou A sexualidade 63 melhor a mãe fantasiada e às vezes curiosamente como veremos o pai fantasiado Para a menina o objeto é inicialmente a mãe fantasiada e depois num segundo tempo o pai O garotinho entra no Édipo e começa a manipular seu pênis entregandose ao mesmo tempo a fantasias ligadas à sua mãe Depois sob o efeito combi nado da ameaça de castração proferida pelo pai e da angústia provocada pela percepção do corpo feminino privado de falo o menino acaba renunciando a possuir o objetomãe O afeto em torno do qual o Édipo masculino se organiza culmina e chega ao desenlace é a angústia a chamada angústia de castração isto é o medo de ser privado daquela parte do corpo que nessa idade o menino tem por objeto mais estimável seu pênisfalo Na menina a passagem da mãe para o pai é mais complexa O grande acontecimento durante o Édipo femi nino é a decepção que a menina sente ao constatar a falta do falo de que ela acreditava ter sido dotada Esse senti mento de decepção onde se misturam rancor e nostalgia assumirá a forma acabada de um afeto de inveja a inveja do pênisfalo O afeto em torno do qual gravita o Édipo feminino não é portanto a angústia como no menino mas a inveja Inveja ciumenta do pênis que logo se trans formará no desejo de ter um filho do pai e mais tarde quando a menina se houver transformado em mulher no desejo de ter um filho do homem eleito Mas vamos deixar claro que Freud muito depois complementou a teoria da castração na menina reconhecendo que a inveja ciumenta 64 O prazer de ler Freud não era a única resposta à castração que ela acreditava já e definitivamente consumada em virtude de sua falta de pênis Existe ainda na mulher um outro afeto edipiano diferente da inveja o da angústia não de perder o pê nisfalo que ela jamais possuiu mas de perder esse outro falo inestimável que é o amor vindo do amado A an gústia de castração na mulher não é outra coisa portanto senão a angústia de perder o amor do ser amado Numa palavra os dois grandes afetos que decidirão sobre o desfecho do Édipo feminino são a inveja ciumenta do pênisfalo e a angústia de perder o amor Observação sobre o Édipo do menino o papel essencial do pai Gostaria de desfazer aqui um freqüente malentendido concernente ao Édipo do menino e em particular ao papel que o pai desempenha nele Habitualmente como nós mesmos acabamos de fazer enfatizamos o apego do me nino à mãe como objeto sexual e seu ódio pelo pai Pois bem sem renegar essa configuração clássica do Édipo Freud privilegiou tanto a relação do menino com o pai que não hesitaremos em fazer do pai e não da mãe o personagem principal do Édipo masculino Eis o argumen to para isso Na primeira etapa da formação do Édipo A sexualidade 65 reconhecemos dois tipos de ligação afetiva do menino um apego desejante pela mãe considerada como objeto sexual e sobretudo um apego ao pai como modelo a ser imitado O menino faz de seu pai um ideal em que ele próprio gostaria de se transformar Enquanto o vínculo com a mãe objeto sexual se nutre do ímpeto de um desejo o vínculo com o pai objeto ideal repousa num senti mento de amor produzido pela identificação com um ideal Esses dois sentimentos o desejo pela mãe e o amor pelo pai diznos Freud aproximamse um do outro acabam por se encontrar e é desse encontro que resulta o complexo de Édipo normal7 Ora o que se passa durante esse encontro O menino fica incomodado com a presença da pessoa do pai que barra seu impulso desejante dirigido à mãe A identificação amorosa com o pai ideal transforma se então numa atitude hostil e acaba em uma identificação com o pai como homem da mãe O menino quer de fato substituir o pai junto da mãe considerada como objeto sexual e tornarse o parceiro eleito de sua mãe Natural mente todos esses afetos dirigidos ao pai cruzamse e combinamse numa mescla de ternura pelo ideal animo sidade em relação ao intruso e vontade de possuir os atributos do homem Entretanto pode ainda suceder ao Édipo inverterse de forma curiosa O verdadeiro Édipo invertido expressão muito usada e raramente bem compreendida consiste numa mudança radical do estatuto do objetopai o pai aparece aos olhos do menino como um objeto sexual 66 O prazer de ler Freud desejável Tudo sofre uma reviravolta De objeto ideal que despertava admiração ternura e amor o pai transformase então num objeto sexual que excita o desejo Antes o pai era aquilo que se queria ser um ideal agora o pai é o que se gostaria de ter um objeto sexual Numa palavra para o menino o pai se apresenta sob três imagens dife rentes amado como um ideal odiado como um rival e desejado como um objeto sexual É isso que nos empe nhamos em sublinhar o essencial do Édipo masculino são as vicissitudes da relação do menino com o pai e não como se costuma acreditar com a mãe pois é no vínculo perturbado com o pai que reside a causa mais freqüente da neurose no homem adulto Mais uma palavra para destacar as particularidades da fase fálica tão essencial em relação às fases precedentes já que de seu desfecho dependerá a futura identidade sexual da criança transformada em adulto Aqui estão os aspectos a serem guardados Primeiro notese que nessa fase o objeto fantasiado da pulsão não se apóia como antes numa parte do corpo do indivíduo como o polegar ou os excre mentos e agora o pênis ou o clitóris mas numa pessoa O objeto fantasiado da pulsão falo assume então a ima gem de uma mãe ou de um pai eles mesmos às voltas com desejos e pulsões Assim a mãe é percebida pelo menino da fase fálica através da fantasia de uma mãe desejante o mesmo é claro acontece para o pai A sexualidade 67 Observese ainda que no decorrer dessa fase a criança pela primeira vez tem a experiência de perder o objeto da pulsão não como seqüência de uma evolução natural como nos estágios precedentes o desmame por exemplo mas em resposta a uma obrigação incontornável O menino perde seu objetomãe para se submeter à lei universal da proibição do incesto Lei que o pai lhe ordena respeitar sob pena de priválo de seu pênisfalo Por último observese que a fase fálica é a única que se conclui pela resolução de uma opção decisiva o menino terá de escolher entre salvar uma parte de seu próprio corpo ou salvar o objeto de sua pulsão Essa alternativa equivale definitivamente a eleger uma ou outra forma de falo ou o pênis ou a mãe O menino terá que decidir entre preservar seu corpo da ameaça da castração isto é pre servar o pênis ou conservar o objeto de sua pulsão ou seja a mãe Terá que escolher entre salvar seu pênis e renunciar à mãe ou não renunciar à mãe mas sacrificar seu pênis Sem dúvida o desfecho normal consiste em renunciar ao objeto e salvar a integridade de sua pessoa O amor narcísico tem primazia sobre o amor objetal Essa alternativa que apresento como o drama que seria vivido por uma criança mítica é na verdade a mesma alternativa que todos atravessamos em certos momentos de nossa existência quando somos forçados a tomar decisões em que o que está em jogo é perder aquilo que nos é mais caro Então para preservar o ser é freqüentemente o objeto que abandonamos O ser humano é por natureza governado por sua tendência egoísta à autopreservação 68 O prazer de ler Freud Pulsões vidamorte Pulsões de vida e pulsões de morte O desejo ativo do passado Anuncieilhes que Freud havia modificado sua primeira teoria das pulsões que opõe pulsões recalcantes do eu a pulsões sexuais O motivo principal disso foi a descoberta do narcisismo Com efeito lembremonos de que para enganar as pulsões o eu tornouse um objeto sexual fan tasiado já não há distinções a estabelecer entre um suposto objeto sexual exterior sobre o qual incidiria a libido das pulsões e o próprio eu O objeto sexual exterior o objeto sexual fantasiado e o eu são uma só e mesma coisa que chamamos objeto da pulsão Desse ponto de vista pode mos afirmar o eu ama a si mesmo como objeto das pulsões Mas se a libido das pulsões sexuais pode incidir sobre esse objeto único que é o eu já não há por que reconhecer no eu uma vontade consciente de censura com respeito a pulsões sexuais Por conseguinte as pulsões do eu desa parecem da teoria de Freud e com elas o par de opostos pulsões do eupulsões sexuais Freud propõe então reagru par os movimentos libidinais que incidem tanto no eu quanto nos objetos sexuais sob a expressão única pulsões de vida opondoa à expressão pulsões de morte O objetivo das pulsões de vida é a ligação libidinal isto é o atamento 69 dos laços por intermédio da libido entre nosso psiquismo nosso corpo os seres e as coisas As pulsões de vida tendem a investir tudo libidinalmente e a garantir a coesão das diferentes partes do mundo vivo Em contrapartida as pulsões de morte visam o desprendimento da libido dos objetos seu desligamento e o retorno inelutável do ser vivo à tensão zero ao estado inorgânico No tocante a isso esclarecemos que a morte que rege essas pulsões nem sempre é sinônimo de destruição guerra ou agressão As pulsões de morte representam a tendência do ser vivo a encontrar a calma da morte o repouso e o silêncio É verdade que podem também estar na origem das mais mortíferas ações quando a tensão busca aliviarse no mundo externo Entretanto quando as pulsões de morte permanecem dentro de nós elas são profundamente bené ficas e regeneradoras Notese que esses dois grupos de pulsões agem não apenas de comum acordo mas compartilham um traço comum Eu gostaria de me deter nisso porque esse traço constitui um conceito absolutamente novo um salto no pensamento freudiano Qual é esse traço comum às pulsões de vida e de morte Qual é esse novo conceito Para além de sua diferença tanto a pulsão de vida quanto a pulsão de morte visam restabelecer um estado anterior no tempo Seja a pulsão de vida que ligando os seres e as coisas aumenta a tensão seja a pulsão de morte que aspira à calma e ao retorno a zero ambas tendem a reproduzir e a repetir uma situação passada quer tenha sido agradável 70 O prazer de ler Freud ou desagradável prazerosa ou desprazerosa serena ou agitada Aqueles que nos falam nossos pacientes com freqüência têm tendência a repetir seus fracassos e sofri mentos com uma força mais poderosa às vezes do que a que nos leva a reencontrar os acontecimentos agradáveis do passado É o caso do executivo sempre criativo que não consegue impedirse de ver seus projetos assim que realizados desmoronarem implacavelmente como se esti vessem condenados pela fatalidade Em suma o novo conceito introduzido por Freud com a segunda teoria das pulsões foi o da compulsão à repetição no tempo8 A exigência de repetir o passado doloroso é mais forte do que a busca do prazer no acontecimento futuro A compulsão a repetir é uma pulsão primária e fundamental a pulsão das pulsões já não se trata de um princípio que orienta mas de uma tendência que exige voltar atrás para reencontrar aquilo que já aconteceu O desejo ativo do passado mesmo que o passado tenha sido ruim para o eu explicase por essa compulsão a retomar o que não foi concluído com vontade de completálo Havíamos demonstrado que nossos atos involuntários eram substitutos de uma ação ideal e não consumada Por isso a compulsão à repetição seria o desejo de retornar ao passado e rematar sem entraves e sem desvios a ação que ficara em suspenso como se as pulsões inconscientes nunca se resignassem a ser condenadas ao recalcamento Por conseguinte podemos afirmar que a compulsão a repetir no tempo é ainda mais irresistível que a de buscar Pulsões vidamorte 71 o prazer A tendência conservadora a de voltar atrás própria às pulsões de vida e de morte prevalece sobre a outra tendência igualmente conservadora regida pelo princípio de prazer a de reencontrar um estado sem tensão Por isso Freud considerou a compulsão à repetição como uma força que ultrapassa os limites do princípio de prazer que vai além da busca do prazer Não obstante o par de pulsões de vida e de morte continua a ser regido pela ação conjunta desses dois princípios fundamentais do funcionamento mental encontrar o passado e encontrar o prazer 72 O prazer de ler Freud Eu isso e supereu A segunda teoria do aparelho psíquico o eu o isso e o supereu O aparelho psíquico se divide em um isso que é o portador das moções pulsionais um eu que constitui a parte mais superficial do isso modificada pela influência do mundo exterior e um supereu que saindo do isso domina o eu e representa as inibições da pulsão características do homem S FREUD A dificuldade teórica que levou Freud a estabelecer uma nova concepção do psiquismo foi o problema do recalca mento Sua experiência de terapeuta lhe mostrou que o recalcamento não se expressava clinicamente como uma censura que o paciente exerceria conscientemente sobre as suas pulsões Não o recalcamento não é uma recusa cons ciente do desejo e das pulsões inconscientes mas uma barragem de regulação que opera sem que o sujeito saiba Assim as resistências do analisando ao progresso do tra tamento não são absolutamente intencionais o paciente resiste mas não sabe por que nem como resiste O mal estar dos analisandos durante as sessões suas queixas freqüentes ou o empobrecimento de suas associações de idéias mostraram a Freud que o recalcamento e mais 73 geralmente o conjunto dos mecanismos de defesa do eu trabalham a serviço do inconsciente Freud deduziu então que o recalcamento é um gesto do eu tão inconsciente quanto as representações inconscientes que ele recalca Com essa hipótese tornase impossível continuar a pensar que haveria um eu consciente que recalca e um recalcado inconsciente que brota Doravante devemos reconhecer que o eu é uma instância mista na qual coexistem partes e funções ao mesmo tempo conscientes préconscientes e inconscientes Assim sendo não podemos mais identificar o eu com a consciência e afirmar que o eu seria a cons ciência de si Não o eu é uma das três instâncias do aparelho psíquico cuja parte consciente é bastante redu zida Notese que uma outra instância o supereu também pode não só fazerse ouvir na consciência mas induzir insidiosa e inconscientemente os comportamentos do su jeito9 Com essas reformulações teóricas o inconsciente adota um novo estatuto Já que os três componentes do aparelho psíquico podem ser inconscientes o inconsciente deixa de ser uma entidade plena e tornase uma propriedade de cada uma dessas instâncias Vamos recapitular até aqui distin guimos o sistema préconscienteconsciente do sistema inconsciente sendo este último considerado como sinôni mo do recalcado Ora a partir do momento em que se constata que o recalcamento também é inconsciente não é mais possível assimilar inconsciente e recalcado O in 74 O prazer de ler Freud consciente é simultaneamente recalcamento e recalcado Freud renunciou assim no meio de sua obra por volta de 1920 a conceber o inconsciente como um sistema autô nomo e privilegiou a acepção descritiva do termo incons ciente que definiu como uma qualidade atribuível a cada uma das instâncias do aparelho psíquico Entretanto das três instâncias psíquicas é o isso que no novo mapa do psiquismo tornase a região mais facil mente identificável ao inconsciente Sem dúvida o incons ciente é um atributo das três instâncias psíquicas mas é o isso que é a mais marcada pelo traço específico do incons ciente Escutemos Freud Assim não utilizaremos mais inconsciente no sentido sistemático e daremos ao que era até agora designado assim um nome melhor que não se presta mais a malentendidos o isso Esse pronome impessoal parece particularmente adequado para expressar o caráter principal dessa província psíquica o inconscien te seu caráter de ser estranho ao eu10 Nesse trecho é importante destacar a idéia de que no próprio coração do eu palpita todavia a coisa mais estranha ao eu Quer o inconsciente se chame sistema como na primeira teoria quer se chame isso como na segunda ele continua sendo o núcleo central do nosso ser e ao mesmo tempo o mais impessoal e heterogêneo possível Compreendese então como o pronome demonstrativo isso é perfeitamente adequado para designar essa coisa em nós tão íntima que nos faz agir e paradoxalmente tão obscura primitiva e inapreensível Eu isso e supereu 75 O que é pois o isso É um conceito inventado por Groddeck e retomado por Freud para exprimir a sobrede terminação exercida pelo eu por uma força desconhecida e ao mesmo tempo íntima Afirmo escreve Groddeck que o homem é animado pelo Desconhecido uma força maravilhosa que dirige o que ele faz e o que lhe advém A proposição eu vivo é apenas parcialmente correta pois diz somente um aspecto do vivido Na verdade O homem é vivido pelo isso Mais abaixo diz É uma mentira e uma deformação dizer eu penso eu vivo Deveríamos dizer Isso pensa isso vive Isso quer dizer o grande mistério do mundo11 Mas se é verdade que o inconsciente enquanto sistema é intrinsecamente assimilável ao isso existem algumas diferenças que podemos resumir assim No isso encontramos não só representações incons cientes de coisas gravadas no psiquismo sob o impacto do desejo dos outros mas também representações inatas pró prias da espécie humana inscritas e transmitidas filogene ticamente Ao contrário do inconsciente o isso se apresenta como o grande reservatório da libido narcísica e objetal em que o eu e o supereu encontram a sua energia para alimentar suas ações respectivas Mas a distinção mais importante entre o isso e o inconsciente é a capacidade espantosa do isso de perceber no interior de si mesmo as variações da tensão pulsional Freud qualifica esse fenômeno curioso de autopercepção 76 O prazer de ler Freud endopsíquica Acrescentese que as modificações da tensão pulsional autopercebidas pelo isso serão traduzidas na consciência sob a forma de sentimentos de prazer ou desprazer Uma palavra ainda sobre o eu Na psicanálise o eu não designa o indivíduo ou a pessoa mas uma instância do aparelho psíquico afetada pelos seguintes traços uma organização muito estruturada das representa ções majoritariamente inconscientes mas também pré conscientes e conscientes uma localização espacial excepcional entre dois mundos que lhe são basicamente estranhos o mundo do dentro o isso e o mundo do fora a realidade exterior uma sensibilidade que faz dele a antena do psiquis mo o órgão de percepção de todas as excitações quer elas sejam provenientes do dentro variações da tensão pulsio nal quer provenham do fora Essa função de radar se completa com outra função que é integrar e adaptar a vida pulsional interna às exigências do mundo externo uma gênese particular pois o eu nasceu do isso como um pedaço que se teria soltado deste um desenvolvimento cujo percurso é marcado pelas identificações sucessivas com os diversos objetos pulsio nais visados pelo isso objetos sexuais e fantasiados Eu isso e supereu 77 e enfim uma relação exclusiva com o corpo na medida em que o eu se define como a projeção mental da superfície do corpo próprio mais exatamente como a projeção mental dos contornos do nosso corpo Entretanto para apreender melhor esse conceito abs trato que é o eu devemos imaginálo na dupla figura de um personagem sucessivamente ativo e angustiado Ativo ele cumpre não apenas funções perceptivas adaptativas e de síntese mas principalmente obtém do isso a maior parte da sua libido e até como Freud repetiu muitas vezes ambiciona apropriarse do reino obscuro do isso civilizar o isso Onde estava o isso escreveu Freud o eu deve advir ou ainda A psicanálise é um processo que facilita para o eu a conquista progressiva do isso A outra figura do eu passiva e angustiada é a que ele adota para defenderse das excitações perigosas que pro vêm do isso e do mundo exterior As excitações pulsionais internas estimulam o eu de modo direto ou indireto A via direta é a das exigências pulsionais urgentes e inconside radas enquanto a via indireta passa pelo supereu para fazer ouvir as exigências do isso À célebre fórmula de Lacan O isso fala seria conveniente acrescentar O isso fala com a boca a voz e as palavras do supereu pois é realmente o supereu que grita para o eu as exigências do isso Mas seja qual for o tipo de excitações percebidas pelo eu este sente as exigências do isso como um perigo ameaçador que o angustia Ele se angustia porque respon der a excitações tão intensas equivaleria a desaparecer e 78 O prazer de ler Freud também se angustia com o temor de ser punido por deso bedecer às ordens do supereu Resta ainda um terceiro motivo de angústia para o eu isto é as coações inerentes à realidade exterior Enumeramos assim três variedades de angústia do eu a angústia diante do isso de ser aniqui lado a angústia diante do supereu de ser punido e enfim a angústia diante do real de ser impotente Eu isso e supereu 79 O conceito psicanalíticoO conceito de identificação de identificação A obra de Freud é permeada pela problemática da Identi ficação Por isso queremos apresentar ao leitor estas pá ginas sobre o conceito psicanalítico de identificação12 Para começar vamos lembrar as duas acepções da palavra identificação na linguagem comum A primeira acepção é a que adotamos quando dizemos que encontra mos ou reconhecemos alguma coisa Por exemplo um perito em pintura identifica isto é reconhece a origem de um quadro Ou ainda quando usamos a sigla OVNI para dizer que vimos no céu um objeto voador não identifica do A segunda acepção é a que nos interessa mais na psicanálise Ela corresponde à forma reflexiva do verbo identificar isto é identificarse Diremos que um sujeito se identifica com alguém ou alguma coisa quando ele se confunde com esse alguém ou essa coisa quando ele vai até o outro para assimilálo e assimilarse a ele até tornarse idêntico O melhor exemplo é o mimetismo Um animal como o camaleão se torna semelhante aparentemente ao seu meio ambiente Para escapar aos predadores ele se confunde isto é identificase com as rochas ou vegetais que o cercam Ou então o exemplo de 80 um peixe que se assemelha tanto às pedras e corais pró ximos que só recentemente os zoólogos o descobriram Também gostaria de enfatizar que identificarse com é uma ação um ato o movimento ativo de um sujeito que quer tornarse idêntico a outro diferente de si próprio E chegamos então à psicanálise Muito bem O conceito psicanalítico de identificação corresponde à segunda defi nição segundo a qual identificarse é um movimento em direção ao outro uma necessidade de absorvêlo de comêlo ou até de devorálo Ora uma pessoa pode iden tificarse com alguém ou alguma coisa de duas maneiras diferentes Vamos tomar o caso simples de um filho que se identifica com o pai Ele pode fazêlo de duas maneiras A primeira é uma vontade consciente de ser como o pai É o caso do menino de sete anos que sonha ser tão forte quanto o pai e faz tudo para imitálo É também a atitude dos fãs que tentam assemelharse ao seu ídolo falando vestindose ou penteandose como ele Notese que essa identificação com um ídolo pode ocasionar a criação de um clube de fãs e até mesmo o nascimento de uma verdadeira comunidade de uma verdadeira família orga nizada em torno de uma identificação coletiva com uma única figura ideal Mas tratese do menino que quer ser como o pai ou do jovem que quer se parecer com seu cantor preferido estamos diante de uma vontade conscien te de ser como o outro Entretanto há uma segunda maneira de identificarse com o outro na qual o processo não é consciente Sem dúvida estamos no mesmo movimento ativo de ir em O conceito de identificação 81 direção ao outro para assimilálo e deixarse assimilar por ele mas tratase de um impulso espontâneo irrefletido de identificação Quero ser o outro e quero ser no outro mas não tenho consciência dessa vontade Ora na psica nálise essa vontade não se chama vontade mas desejo Mais exatamente desejo inconsciente de ser o outro Tam bém se pode chamar esse desejo inconsciente de identi ficação inconsciente Retomando o exemplo do pai e do filho diremos que o filho se identifica inconscientemente com o pai Assim sendo com que parte do pai o filho se identifica Ele pode identificarse isto é incorporar dois aspectos distintos do pai Pode identificarse com os traços visíveis do pai adotar seu modo de andar reproduzir seus gestos e às vezes na idade adulta exercer a profissão paterna Em todos esses exemplos o filho se assemelha ao pai sem esforçarse para isso e sem ter consciência disso Diremos então que o filho se identificou inconscien temente com os traços visíveis do pai Longe de ser uma imitação consciente a semelhança resulta de uma identi ficação inconsciente Ora o sujeito pode também identificarse sempre sem saber não com uma determinada particularidade exterior e visível do outro mas com emoções sentimentos afetos desejos e até fantasias ocultos na vida interior desse outro Tão ocultos que algumas vezes essas emoções esses desejos ou essas fantasias são ignoradas pelo outro E pode acontecer que o sujeito no nosso caso o filho se identifique inconscientemente com sentimentos de 82 O prazer de ler Freud sejos e fantasias que são desconhecidos pelo próprio pai Desejo insistir nessa idéia pois ela está no centro do conceito psicanalítico de identificação Se me pedirem uma definição de identificação do ponto de vista analítico direi que a identificação é o movimento ativo e inconsciente de um sujeito isto é o desejo inconsciente de um sujeito de apropriarse dos sentimentos e fantasias inconscientes do outro Essa definição que poderia parecer demasiado abs trata traduz bem todavia as turbulências e os movimentos muito vivos das forças íntimas que circulam entre dois seres e os aproximam sem que eles saibam Um filho por exemplo pode se identificar tão inconscientemente e tão intensamente com um erro que seu pai cometeu ou acre ditou ter cometido um dia que se sentirá culpado como se o tivesse cometido ele próprio Vamos tomar outro exemplo do filho de um agricultor que participa ao pai a sua decisão de deixar definitivamente o campo para tor narse marinheiro Na sua tristeza o pai se lembra subita mente de que também ele na juventude sonhou navegar e ligar o seu destino ao mar Sem saber disso um filho pode assim realizar trinta anos depois um velho desejo esquecido do pai Desejaria concluir com duas observações que são talvez o essencial do que eu tinha a dizer Sem dúvida ficou compreendido que falar da identificação de uma pessoa com outra equivale simplesmente a falar do amor pois só posso me identificar com um outro se esse outro for o meu eleito Ou com mais precisão identificarme com o outro O conceito de identificação 83 assimilálo e deixarme assimilar por ele é exatamente amálo A identificação é a palavra que nomeia o processo do amor Mas a identificação designa também um processo tão essencial quanto o do amor isto é o processo de formação do eu Explicome fazendo uma última pergunta quem somos nós do ponto de vista do nosso psiquismo O que é o eu Isto é de que substância é feito o nosso eu Pois bem a resposta da psicanálise é muito clara somos feitos de todas as marcas que deixam em nós os seres e as coisas que amamos fortemente agora ou que amamos fortemente no passado e às vezes perdemos Isto é os seres e as coisas com os quais nos identificamos Então quem sou eu Sou a memória viva daqueles que amo hoje e daqueles que amei outrora e depois perdi A identificação é aquilo que me faz amar e ser o que sou 84 O prazer de ler Freud A transferência é a atualizaçãoA transferência de uma pulsão cujo objeto fantasiado é o inconsciente do psicanalista Para concluir este livro pedirei a vocês agora que entrem no consultório do psicanalista Ali constatarão a que ponto a relação do paciente com seu terapeuta pode ser entendida como uma expressão clínica da vida das pulsões A relação analítica tem um vínculo com o nível elementar das pul sões mesmo que estas só se exprimam sob a cobertura das fantasias Desde o apego mais apaixonado até a mais aberta hostilidade o vínculo analistapaciente retira todas as suas particularidades das fantasias que alimentaram as relações afetivas outrora vividas pelo analisando Esse é o fenôme no da transferência O que é a transferência A transfe rência é uma repetição bem particular em lugar de reme morar o passado o analisando o repete como uma expe riência vivida no presente do tratamento analítico igno rando que se trata de uma repetição O paciente transfere suas emoções infantis do passado para o presente e de seus pais para o analista No entanto devemos deixar bem claro que o vínculo transferencial com o analista não é a simples reprodução no presente dos laços afetivos e de sejantes do passado A transferência é antes de mais nada a atualização no presente das fantasias que outrora alimen 85 taram os primeiros laços afetivos Portanto convém en tender que a transferência não é a simples repetição de uma antiga relação concreta mas a atualização de uma fantasia permanente Ora o manejo da transferência requer do analista não só uma grande habilidade e experiência mas também uma constante atividade de autopercepção das fantasias que o perpassam quando ele escuta O instrumento do psicana lista não é apenas o saber mas acima de tudo seu próprio inconsciente único meio de que ele dispõe para captar o inconsciente do paciente Se no complexo de Édipo o objeto da pulsão fálica é a mãe postularemos que na transferência o objeto da pulsão analítica vamos cha málo assim é o inconsciente do psicanalista Dito de outra forma a transferência é a atualização de uma pulsão cujo objeto fantasiado é o inconsciente do psicanalista A disponibilidade do analista para a escuta que lhe permite agir com seu inconsciente mas também exporse ao inconsciente do outro explica por que as produções do inconsciente surgidas ao longo do tratamento podem apa recer alternadamente num ou noutro dos parceiros da análise Foi o reconhecimento dessa alternância que me levou a propor a tese de um inconsciente único Não há dois inconscientes um pertencente ao analista e outro ao analisando mas um só e único inconsciente As formações do inconsciente cujo aparecimento se alterna entre analista e analisando podem ser legitimamente consideradas como a dupla expressão de um único inconsciente o da relação analítica 86 O prazer de ler Freud A psicanálise não é um sistema fechado à maneira de uma construção abstrata Ela é obrigada a se abrir cons tantemente e a avançar de modo tateante porque ela deve permanentemente levar em conta ensinamentos que o pis canalista tira de sua prática Esse fato o simples fato de haver pacientes que exprimem sua dor incita o psicanalista a voltar constantemente aos fundamentos da psicanálise para retomálos e atualizálos como acabo de fazer neste livro A psicanálise diversamente de outras disciplinas do espírito é inevitavelmente aberta por ser ininterruptamen te submetida à prova da verdade que é a escuta daquele que sofre e diz seu sofrimento A transferência 87 Pitchers Mound 60FooT 9Inch Distance Pitchers rubber line Excertos da obra de Sigmund Freud Biografia de Sigmund Freud Seleção bibliográfica Home Plate 12Inch Square Back Plates parallel with each other on the same surface Each leg on either side of the plate forms a 90 angle First Base is the corner on the leg the batter runs toward Third Base is the corner on leg the batter runs away from Bases First Second Third 15Inch Corners are rounded on the base towards the inside of the diamond Second base only is set with 40inch side parallel to the baseline the other side at a 45degree angle adjacent to the diamond Base Line The distance between bases is 90 feet Strike Zone Strike zone extends downward from midpoint between the batters shoulders and the top of pants to the bottom of knees 60Feet 6Inches Distance from Pitchers rubber to Back Point 90 Feet 12Inch Square Home Plate First Base Second Base Third Base Distance between bases 60Feet 6Inch Distance from Pitchers rubber to Back Point facing Batter Base Line The distance between bases is 90 Feet Ball Pitch to Plate 17Inch Diameter Home Base 12Inch Square Pitchers Rubber Plate distance Excertos Excertos da obra de Sigmund Freud A psicanálise é um procedimento um método e a teoria daí derivada Psicanálise é o nome 1 de um método de investigação dos processos psíquicos que de outro modo são pratica mente inacessíveis 2 de um método de tratamento dos distúrbios neuróticos que se fundamenta nessa investiga ção 3 de uma série de concepções psicológicas adquiridas por esse meio 1 O conhecimento favorece o tratamento e o tratamento nos ensina novamente há outra coisa que sei Houve na psicanálise desde o começo uma estreita união entre tratamento e pesquisa o 91 As traduções aqui constantes dos excertos de S Freud correspondem às citações fornecidas em francês no original deste livro não seguindo os textos traduzidos na ESB cujos títulos e volumes são indicados para facilitar a consulta pelos leitores NE conhecimento levava ao sucesso e era impossível tratar sem aprender alguma coisa nova não se adquiria nenhum esclarecimento sem experimentar sua ação benéfica Nosso procedimento analítico é o único em que essa preciosa conjunção se conservou2 Quais são os conteúdos da teoria psicanalítica Agruparei mais uma vez os fatores que constituem o conteúdo dessa teoria São eles a ênfase colocada na vida pulsional afetividade na dinâmica psíquica na signifi cância e no determinismo gerais inclusive dos fenômenos psíquicos aparentemente mais obscuros e mais arbitrários a doutrina do conflito psíquico e da natureza patogênica do recalcamento a concepção dos sintomas mórbidos como satisfação substitutiva e o reconhecimento da im portância etiológica da vida sexual em particular a dos primórdios da sexualidade infantil3 O tempo 4 e o tempo 3 de nosso esquema Uma parte das moções pulsionais sexuais apresenta a preciosa propriedade de se deixar desviar de seus alvos imediatos e assim como tendências sublimadas de co 92 O prazer de ler Freud locar sua energia à disposição da evolução cultural nosso tempo 4 Mas outra parte permanece no inconsciente como moção de desejo insatisfeita e pressiona à satisfação seja ela qual for mesmo que deturpada nosso tempo 34 Aquilo que é é o substituto do que não foi Os sintomas nascem em situações que contêm um im pulso para uma ação um impulso que fora reprimido É justamente no lugar dessas ações não ocorridas que surgem os sintomas5 O recalcamento primário é uma fixação do representante psíquico no solo do inconsciente É lícito portanto admitirmos um recalcamento originário uma primeira fase do recalcamento que consiste em que ao representante psíquico representanterepresentação da pulsão é recusado o acesso ao consciente Com ele se produz uma fixação o representante correspondente sub siste de maneira inalterável e a pulsão continua ligada a ele6 Excertos 93 Depois que o recalcado chega à consciência sob a forma de produtos o recalcamento secundário é o recalcamento que reconduz esses produtos a seu lugar de origem isto é ao inconsciente O recalcamento secundário pode também se chamar propriamente dito ou a posteriori O segundo estádio do recalcamento o recalcamento pro priamente dito concerne aos produtos psíquicos do repre sentante recalcado O recalcamento propriamente dito portanto é um recalcamento a posteriori7 O recalcado é apenas uma parte do inconsciente sendo a outra parte constituída pelo próprio recalcamento Todo recalcado permanece necessariamente inconsciente mas insistimos em colocar de saída que o recalcado não recobre todo o insconciente O inconsciente tem uma exten são mais ampla o recalcado é uma parte do inconsciente8 O recalcado dita nossos atos e determina nossas escolhas afetivas Tudo o que uma criança de dois anos já viu sem com preender pode muito bem nunca mais voltar a sua memória 94 O prazer de ler Freud a não ser em sonhos Mas num dado momento estes últimos acontecimentos dotados de grande força com pulsiva podem surgir na vida do sujeito ditarlhe seus atos determinar suas simpatias ou antipatias e muitas vezes decidir sobre sua escolha amorosa embora essa escolha como é muito freqüente seja indefensável do ponto de vista racional9 As crianças e os perversos ensinaram a Freud que a sexua lidade humana ultrapassa largamente os limites do genital Chegouse até a fazer à psicanálise a extravagante censura de explicar tudo pela sexualidade No que concerne à extensão dada por nós à idéia de sexualidade extensão esta que nos foi imposta pela psicanálise das crianças e por aqueles a quem chamamos perversos res pondemos aos que de sua altivez lançam um olhar de desprezo à psicanálise que eles deveriam lembrarse do quanto a idéia de uma sexualidade mais ampla se aproxima do Eros do divino Platão10 O prazer sexual de sugar e o prazer de aplacar a fome são duas satisfações inicialmente associadas que depois vêm a se separar Excertos 95 A criança quando suga busca nesse ato um prazer já experimentado e que agora voltalhe à memória Ao sugar ritmicamente uma parte da epiderme ou da mucosa a criança se satisfaz Diríamos que os lábios da criança desempenham o papel de uma zona erógena e que a excitação causada pelo afluxo do leite quente provoca o prazer No começo a satisfação da zona erógena está estreitamente ligada ao aplacamento da fome A atividade sexual apóiase a princípio numa função que serve para preservar a vida da qual ela só se torna independente mais tarde11 No Édipo masculino o pai apresentase aos olhos do menino sob três imagens diferentes amado como um ideal odiado como um rival e desejado como um objeto sexual Neste último caso não só o menino toma o pai como objeto sexual mas também se oferece a ele a exemplo da mãe como objeto sexual A relação do menino com o pai é uma relação ambiva lente Ao lado do ódio que gostaria de eliminar o pai enquanto rival um certo grau de ternura para com ele também costuma estar presente Outra complicação sobrevém quando a ameaça que a castração faz pesar sobre a masculinidade reforça a inclinação do menino a se desviar em direção à feminilidade colocarse no lugar 96 O prazer de ler Freud da mãe e assumir o papel dela como objeto de amor do pai12 No Édipo feminino o afeto que predomina não é como no menino a angústia de castração mas a inveja ciumenta do pênis As coisas são diferentes na menina Ela julga e decide prontamente Viu aquilo sabe que não o tem e quer têlo A menina recusase a aceitar a realidade de sua castra ção obstinase em sua convicção de que realmente possui um pênis e em seguida é forçada a se comportar como se fosse um homem As conseqüências psíquicas da inveja do pênis são múltiplas e têm grande alcance13 O outro afeto que predomina no complexo de castração da mulher não é a angústia de ser castrada pois ela já o é em sua fantasia mas a angústia de perder o amor do ser amado no caso da mulher a situação de perigo que permanece mais ativa parece ser a da perda do objeto Podemos introduzir nessa situação determinadora de angústia a seguinte pequena modificação a saber que já não se trata Excertos 97 da ausência do objeto ou de sua perda real mas ao contrário da perda de amor por parte do objeto14 O que é próprio da psicanálise não é a transferência mas o desvelamento da transferência sua destruição e seu re nascimento Não se deve supor que o fenômeno da transferência seja criado pela influência psicanalítica A transferência se estabelece espontaneamente em todas as relações humanas tal como na relação do doente com o médico ela transmite por toda parte a influência terapêutica e age com força tanto maior quanto menos se suspeita de sua existência A psicanálise não a cria portanto apenas a desvenda15 O tratamento analítico não cria a transferência só faz desmascarála como aos outros fenômenos psíquicos ocul tos No tratamento psicanalítico todas as tendências mesmo as hostis devem ser despertadas e utilizadas na análise mediante sua conscientização assim se destrói de novo reiteradamente a transferência A transferência des tinada a ser o maior obstáculo à psicanálise tornase seu mais poderoso auxiliar quando conseguimos adivinhála em todas as ocasiões e traduzir seu sentido para o doente16 98 O prazer de ler Freud Referências dos excertos citados 1 Psychanalyse et théorie de la libido in Résultats idées problèmes II Paris PUF 1985 p51 Dois verbetes de enciclopédia Psicanálise e Teoria da libido Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ESB XVIII Rio de Janeiro Imago 2 La question de lanalyse profane Paris Gallimard 1985 p150 1 A questão da análise leiga ESB XX 3 Petit abrégé de psychanalyse in Résultats idées problèmes II opcit p104 Uma breve descrição da psicanálise ESB XIX 4 Ibid p115 5 Ibid p100 6 Le refoulement in Métapsychologie Paris Gallimard 1968 p48 Repressão ESB XIV 7 Ibid p489 8 Linconscient in Métapsychologie opcit p65 O incons ciente ESB XIV 9 Moïse et le monothéisme Paris Gallimard 1948 p16970 Moisés e o monoteísmo ESB XXIII 10 Trois essais sur la théorie sexuelle Paris Gallimard 1987 p323 Três ensaios sobre a teoria da sexualidade ESB VII 11 Ibid p105 12 Dostoïevski et le parricide in Résultats idées problèmes II opcit p168 Dostoiévski e o parricídio ESB XXI 13 Différence anatomique entre les sexes in La vie sexuelle Paris PUF 1969 p127 Algumas conseqüências psíquicas da dife rença anatômica entre os sexos ESB XIX 14 Inhibition symptôme et angoisse Paris PUF 1965 p68 Ini bições sintomas e ansiedade ESB XX 15 Cinq leçons sur la psychanalyse Paris Payot 1987 p612 Cinco lições de psicanálise ESB XI 16 Cinq psychanalyses Paris PUF 1954 p878 Fragmento da análise de um caso de histeria Posfácio ESB VII Excertos 99 Biografia Biografia de Sigmund Freud 1856 6 de maio nascimento de Sigismund Freud em Freiberg na Morávia num meio formado por pequenos comerciantes judeus Quando Freud veio à luz já tinha dois meioirmãos de 20 e 24 anos vindos do primeiro casamento do pai Esses meioirmãos tinham mais ou menos a mesma idade da mãe de Freud 1860 Toda a família passa a residir em Viena 1873 Ingresso na universidade e descoberta do anti semitismo Leitura de Goethe Assiste às aulas de filosofia de Brentano teórico do conceito de consciência 1876 Entrada no laboratório de Brücke para estudar o sistema nervoso dos peixes 1878 Trava conhecimento com Breuer Estudos de neuropsiquiatria 188586 Estada em Paris Bolsa de estudos para trabalhar com Charcot 100 1886 Freud abre seu consultório em Viena Traduz as Lições de terçafeira de Charcot Estudos de neuropsiquiatria infantil Casamento com Martha Bernays 1887 Conhece Fliess Pratica hipnose Reside na França em Nancy para trabalhar com Bernheim 1890 Pratica com seus pacientes o método catártico 1891 Instala seu consultório na Berggasse em Viena Freud ficaria ali por quase cinqüenta anos até sua partida para a Inglaterra 1893 Redação com Breuer dos Estudos sobre a his teria Publicação de Algumas considerações para o estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas Descoberta dos conceitos de defesa e recalca mento 1894 Rompimento com Breuer Descoberta do con ceito de transferência 1895 Concepção do Projeto para uma psicologia cien tífica Nascimento de seu quinto filho uma menina Anna Freud que se tornaria uma célebre psica nalista de crianças Biografia 101 1896 1907 Durante esses onze anos Freud viajou à Itália muitas vezes para passar suas férias de verão 1896 A palavra psicanálise é empregada pela pri meira vez Morte do pai de Freud 1897 Descoberta do conceito do Édipo Começo da autoanálise A interpretação dos sonhos Primeira teoria do aparelho psíquico como um aparelho reflexo Descoberta do inconsciente como um sistema 1900 Análise da jovem histérica Dora 1902 Steckel um discípulo de Freud começa a prati car a psicanálise 1903 Fundação do primeiro grupo de psicanalistas a Sociedade Psicológica das Quartasfeiras Descoberta da primeira teoria das pulsões pulsão sexual e pulsão do Eu Sobre a psicopatologia da vida cotidiana 1904 Grécia Atenas e a Acrópole 1905 Conhece Jung Descoberta dos estádios de de senvolvimento da sexualidade infantil Três ensaios sobre a teoria da sexualidade O chiste e suas relações com o inconsciente 1908 Trava conhecimento com Sándor Ferenczi e Er 102 O prazer de ler Freud nest Jones Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise em Salzburgo Descoberta do complexo de castração 1909 Viagem à América com Jung e Ferenczi Cinco conferências de iniciação na psicanálise na Uni versidade Clark as Cinco lições de psicanálise 1911 Descoberta do conceito de narcisismo graças ao estudo da psicose paranóica 1913 Rompimento com Jung 1920 Fundação da policlínica de Berlim e do Inter national Journal of Psychoanalysis Segunda teoria do aparelho psíquico Isso Eu Supereu e Mundo externo Segunda teoria das pulsões pulsão de vida e pulsão de morte Além do princípio do prazer Descoberta do conceito de compulsão à repetição 1923 Instauração do conceito de falo Diagnóstico do câncer da mandíbula Primeira cirurgia Morte de seu neto mais amado Heinz Importância do conceito do Isso como o campo mais impessoal e mais estranho ao Eu O Eu e o Isso 1926 Inibição sintoma e angústia Biografia 103 Ano da fundação da Sociedade Psicanalítica de Paris 1929 Rompimento com Ferenczi 1931 Agravamento do câncer da mandíbula 1936 Maio 80 anos bodas de ouro 1938 O Anschluss Roosevelt e Mussolini intervêm em favor de Freud Ele se exila em Londres acom panhado da mulher e da filha Anna Ali recebe pacientes quase até o fim da vida Dois últimos livros Um esboço de psicanálise e Moisés e o monoteísmo 1939 23 de setembro morte de Sigmund Freud aos 83 anos 1951 Morte de Martha Freud 104 O prazer de ler Freud Seleção bibliográfica Seleção bibliográfica TEXTOS EM QUE FREUD SINTETIZA O ESSENCIAL DE SUA OBRA A história do movimento psicanalítico ESB XIV Conferências introdutórias sobre psicanálise ESB XV e XVI Um estudo autobiográfico ESB XX A questão da análise leiga ESB XX Um esboço de psicanálise ESB XXIII ASSOUN PL Psychanalyse Paris PUF 1998 AZOURI C La Psychanalyse à lécoute de linconscient Paris Marabout 1993 DELBARY F La Psychanalyse Une anthologie Les concepts psychanalytiques Lexpérience psychanalytique t1 e 2 Paris Ago ra Pocket 1996 LANDMAN P Freud Paris Les Belles Lettres 1996 LAPLANCHE J e PONTALIS JB Vocabulário da psicanálise São Paulo Martins Fontes 1985 MIJOLLA de A MIJOLLA MELLOR de S orgs Psychanalyse PUF 1996 NASIO JD Lições sobre 7 conceitos cruciais da psicanálise Rio de Janeiro Jorge Zahar 1989 Enseignement de 7 nouveaux concepts cruciaux de la psychanalyse Paris DésirPayot a sair 105 ROUDINESCO E PLON M Dicionário de psicanálise Rio de Janeiro Jorge Zahar 1998 VANIER A Éléments dintroduction à la psychanalyse Paris Nathan 1996 106 O prazer de ler Freud Notas Notas 1 Essa visão econômica do movimento da energia pode ser traduzida em uma visão semiótica segundo a qual a energia que investe uma repre sentação corresponde à significação da representação Assim o mecanismo da condensação da energia corresponde à figura retórica da metonímia na qual uma única representação concentra todas as significações e o mecanismo do deslocamento à figura retórica da metáfora na qual as representações se vêem atribuir uma por uma sucessivamente toda a significação Observemos aliás que para Lacan essa relação é invertida a condensação corresponde à metáfora e o deslocamento à metonímia 2 Essa tese que considera o prazer absoluto como um perigo jamais foi formulada tão explicitamente por Freud Nós a desenvolvemos a partir das proposições freudianas sobre o recalcamento esclarecido que estamos pelo conceito lacaniano de gozo A esse respeito ver nossas colocações em A histeria teoria e clínica psicanalítica Rio de Janeiro Jorge Zahar 1991 e O inconsciente e o gozo in Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan Rio de Janeiro Jorge Zahar 1993 3 Essa lógica em quatro tempos nos foi bastante útil para pensar os conceitos lacanianos de gozo e de objeto a Ver nosso livro Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan opcit 4 S Freud A interpretação dos sonhos ESB vol 5 As fontes dos conceitos freudianos de recalcamento e de representação provêm em parte da obra de um filósofo e psicólogo alemão do século XIX Joan Friedrich Herbart Podemos ter acesso à sua obra lendo uma antiga obra de Marcel Mauxion La Métaphysique de Herbart et la critique de Kant Paris Hachette 1894 6 Para aprofundar nossas formulações sobre o estágio fálico o leitor poderá se reportar aos capítulos O conceito de castração e O conceito de falo in Lições sobre 7 conceitos cruciais da psicanálise Rio de Janeiro Jorge Zahar 1989 assim como a nossas longas digressões sobre o Édipo do menino e da menina em Lições sobre 7 novos conceitos cruciais da psicanálise a sair 7 Lidentification in Essais de psychanalyse Payot 1981 p1678 8 Ver o capítulo intitulado O conceito de compulsão à repetição em nosso Lições sobre 7 novos conceitos cruciais da psicanálise a sair 107 9 Ver nosso estudo sobre O conceito de supereu in Lições sobre 7 conceitos cruciais da psicanálise opcit 10 S Freud Novas conferências introdutórias à psicanálise ESB vol 22 11 G Groddeck La Maladie lart et le symbole Gallimard 1984 p1001 12 Para aprofundar o estudo do conceito de identificação o leitor poderá se reportar ao capítulo O conceito de identificação in Lições sobre 7 conceitos cruciais da psicanálise opcit 108 O prazer de ler Freud Índice geral Como ler Freud Esquema da lógica do funcionamento psíquico Definições do inconsciente Definição do inconsciente do ponto de vista descritivo Definição do inconsciente do ponto de vista sistemático Definição do inconsciente do ponto de vista dinâmico O conceito de recalcamento Definição do inconsciente do ponto de vista econômico Definição do inconsciente do ponto de vista ético O sentido sexual de nossos atos O conceito psicanalítico de sexualidade Necessidade desejo e amor Os três principais destinos das pulsões sexuais Recalcamento sublimação e fantasia O conceito de narcisismo As fases da sexualidade infantil e o complexo de Édipo Observação sobre o Édipo do menino o papel essencial do pai Pulsões de vida e pulsões de morte O desejo ativo do passado A segunda teoria do aparelho psíquico o eu o isso e o supereu O conceito psicanalítico de identificação A transferência é a atualização de uma pulsão cujo objeto fantasiado é o inconsciente do psicanalista Excertos da obra de Sigmund Freud Biografia de Sigmund Freud Seleção bibliográfica Notas Índice geral Linguagem e Psicanálise Lingüística e Inconsciente Freud Saussure Pichon Lacan Michel Arrivé Fundamentos da Psicanálise De Freud a Lacan vol1 As bases conceituais Marco Antonio Coutinho Jorge série especial Os Três Tempos da Lei O mandamento siderante a injunção do supereu e a invocação musical Alain DidierWeill A Criança do Espelho Françoise Dolto e JD Nasio O Pai e sua Função em Psicanálise Joël Dor Freud a Judeidade A vocação do exílio Betty Fuks série especial Clínica da Primeira Entrevista EvaMarie Golder Escritos Clínicos Serge Leclaire Elas não Sabem o que Dizem Virginia Woolf as mulheres e a psicanálise Maud Mannoni Freud uma biografi a ilustrada Octave Mannoni série especial Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan JD Nasio Como Trabalha um Psicanalista JD Nasio Os Grandes Casos de Psicose JD Nasio A Histeria Teoria e clínica psicanalítica JD Nasio Introdução às Obras de Freud Ferenczi Groddeck Klein Winnicott Dolto Lacan JD Nasio dir Lições sobre os 7 Conceitos Cruciais da Psicanálise JD Nasio O Livro da Dor e do Amor JD Nasio O Olhar em Psicanálise JD Nasio O Prazer de Ler Freud JD Nasio Psicossomática As formações do objeto a JD Nasio A Foraclusão Presos do lado de fora Solal Rabinovitch COLEÇÃO TRANSMISSÃO DA PSICANÁLISE As Cidades de Freud Itinerários emblemas e horizontes de um viajante Giancarlo Ricci Guimarães Rosa e a Psicanálise Ensaios sobre imagem e escrita Tania Rivera A Força do Desejo O âmago da psicanálise Guy Rosolato A Análise e o Arquivo Elisabeth Roudinesco O Paciente o Terapeuta e o Estado Elisabeth Roudinesco A Parte Obscura de Nós Mesmos Uma história dos perversos Elisabeth Roudinesco Pulsão e Linguagem Esboço de uma concepção psicanalítica do ato Ana Maria Rudge O Inconsciente a Céu Aberto da Psicose Colette Soler O Que Lacan Dizia das Mulheres Colette Soler As Dimensões do Gozo Do mito da pulsão à deriva do gozo Patrick Valas Resenha Crítica de O Prazer de Ler Freud por Juan DavidNasio Entre a vasta quantidade de livros sobre Psicanálise O Prazer de Ler Freud de Juan DavidNasio se destaca como uma obra notável por sua clareza riqueza e capacidade de instigar um interesse genuíno nas obras de Sigmund Freud O livro tem sido um sucesso evidenciado pela escassez de exemplares e pela dificuldade em adquirilo para esta resenha Desde o início Nasio um psicanalista argentino radicado na França expõe seus objetivos com precisão apresentar o essencial da teoria freudiana e fornecer uma ferramenta para que os leitores possam ler e compreender Freud de maneira mais eficaz Embora muitos possam questionar a possibilidade de condensar a vasta teoria psicanalítica em poucas páginas Nasio consegue sem dúvida guiar o leitor de forma precisa e cativante através de conceitos fundamentais o que é extremamente valioso para estudantes de psicologia Nasio contemporâneo de Jacques Lacan e autor de diversas obras como A Histeria Como Trabalha um Psicanalista O Olhar em Psicanálise e Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan tem uma habilidade única ele trata de temas complexos com uma escrita acessível sem cair na armadilha da simplificação excessiva Ele transmite a psicanálise através de um diálogo contínuo com leitores uma abordagem que lembra o estilo de Freud que frequentemente usava exemplos cotidianos em seus textos O objetivo de Nasio é proporcionar prazer na leitura de Freud o prazer de pensar e compreender nosso funcionamento psíquico p15 Para isso ele destaca conceitos fundamentais que formam a base do edifício freudiano o inconsciente o recalque a sexualidade o complexo de Édipo as três instâncias psíquicas id ego e superego a identificação e a transferência no tratamento analítico E como transmitir esses conceitos de maneira acessível Nasio demonstra grande habilidade em encontrar palavras que exprimam com clareza aspectos surpreendentes da psicanálise Um exemplo notável é sua explicação sobre o recalque ilustrada pelo caso de uma jovem com fobia de aranhas cuja aversão na verdade remetia a um desejo proibido pelo pai que tinha mãos aveludadas como o dorso de uma aranha Essa abordagem não apenas segue os passos de Freud que também usava exemplos clínicos e cotidianos mas também encanta o leitor que pode se inspirar a escrever sobre suas próprias experiências O autor descreve aplicação do esquema reflexo ao funcionamento do psiquismo destacando que o psiquismo busca reduzir a tensão embora nunca consiga eliminála completamente Essa tendência conhecida como Princípio de desprazerprazer descreve como a excitação psíquica sempre interna cria uma marca psíquica que perpetua a tensão Esta tensão dolorosamente sentida como desprazer nunca se esgota totalmente pois a excitação é constantemente reativada e o psiquismo não pode descarregar a energia de forma completa e imediata mas apenas através de respostas metafóricas A tensão persistente no psiquismo é também influenciada pelo recalcamento que divide os representantes psíquicos em dois grupos o sistema inconsciente regido pelo Princípio de prazerdesprazer que busca a descarga rápida da energia para alcançar o prazer absoluto e o sistema préconscienteconsciente regido pelo Princípio de realidade que modera essa descarga para obter um prazer controlado Assim o psiquismo está sempre sob tensão pois a energia é constantemente reativada e a descarga completa nunca é atingida mantendo uma busca contínua por prazer moderado Freud considerava o recalcamento como um processo complexo de movimentos de energia que contém as representações recalcadas no inconsciente e tenta reconduzir ao inconsciente as representações fugitivas que burlam a vigilância do recalcamento Ele distinguiu dois tipos de recalcamento o primário que fixa as representações no inconsciente e o secundário que retorna ao inconsciente os produtos do préconsciente ou consciente que escaparam Elementos recalcados podem passar para o consciente com sua carga energética ou apenas a carga pode se converter em angústia fóbica distúrbios somáticos ou angústia moral O inconsciente do ponto de vista econômico é a fonte de excitação chamada representante das pulsões que resulta em fantasias e comportamentos afetivos Estas fantasias podem emergir na consciência como devaneios e comportamentos cotidianos ou permanecer recalcadas podendo também atuar como defesas contra a pressão inconsciente Do ponto de vista ético o inconsciente é definido pelo desejo sexual buscando um prazer absoluto idealizado no incesto que é um objetivo mítico e universal do desejo humano O inconsciente visto como um desejo movido pelo prazer incestuoso permanece ativo e inesgotável ao longo da vida interagindo constantemente com o desejo dos outros criando uma corrente contínua de desejo compartilhado Os principais temas abordados no livro incluem o inconsciente o recalque o narcisismo a sexualidade as pulsões de vida e de morte o complexo de Édipo as três instâncias psíquicas id ego e superego a identificação e a transferência no tratamento analítico Ao explorar esses conceitos Nasio consegue fazer com que o leitor atento internalize a base da teoria psicanalítica fornecendo ferramentas essenciais para o desenvolvimento de um saber teórico que no momento oportuno será fundamental para embasar o conhecimento clínico Nasio finaliza o livro de maneira prática com citações e excertos que considera de grande relevância na obra de Freud Assim ele transforma a publicação em uma espécie de guia para que possamos ler interpretar e compreender os escritos do grande mestre da psicanálise Esta obra é clara direta e eficaz em despertar ainda mais a curiosidade e o fascínio pelos escritos de Sigmund Freud NÁSIO JD O Prazer de Ler Freud Rio de Janeiro J Zahar 1999 POLI M C MasculinoFeminino A Diferença Sexual em Psicanálise Rio de Janeiro J Zahar 2007 PONTALIS JB Perder de Vista Da Fantasia de Recuperação do Objeto Perdido Rio de Janeiro J Zahar 1991 ROUDINESCO E PLON M Dicionário de psicanálise Rio de Janeiro J Zahar 1998 SCHOPENHAUER A Metafísica do Amor Metafísica da Morte São Paulo Martins Fontes 2000