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Copyright © 1998 by Otilia B. Fiori Arantes Dados Internacionais de Catalogacao na Publicacao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Arantes, Otilia B. Fiori Urbanismo em Fim de Linha e Outros Estudos sobre o Colapso da Modernizacao Arquitetonica / Otilia Beatriz Fiori Arantes.—Sao Paulo: Edicoes da Universidade de Sao Paulo, 1998. ISBN: 85-314-0465-7 1. Arquitetura Moderna — Seculo 20 2. Arquitetura Moderna — Seculo 20 — Brasil 3. Cidade 4. Urbani- zacao 5. Urbanismo I. Título. 98-3656 CDD-724 Indices para catalogo sistematico: 1. Arquitetura moderna e urbanismo 724 Licencas reservadas à Edusp —: Editora da Universidade de Sao Paulo Av. Prof. Luciano Gualberto, Travessa J, 374 4° andar — Ed. da Antiga Reitoria — Cidade Universitria 05508-010 — Sao Paulo — SP — Brasil Tel. (011) 818-4155 Tel. (011) 818-4056 / 818-4156 e-mail: edusp@edu.usp.br Printed in Brazil 1998 Foi feito o depósito legal SUMÁRIO Apresentação ........................................................9 PARTE I O Envelhecimento do Novo ......................................19 Arquitetura no Presente: Uma Questão de História? ...........41 A Sobrevida da Arquitetura Moderna segundo Jürgen Habermas ......55 Arquitetura Nova Antigamente: O que Fazer? .................79 Do Universalismo Moderno ao Regionalismo Pós-crítico ..........99 PARTE II Urbanismo em Fim de Linha .................................129 Cultura da Cidade: Animação sem Frase .......................143 APÊNDICES Minimalismo ou Anacronismo? ...............................191 Pobre Cidade Grande .........................................209 OTILIA ARANTES urbanismo em fim de linha e outros estudos sobre o colapso da modernização arquitetônica [ed usp] O ENVELHECIMENTO DO NOVO Marcel Duchamp, O Grande Vidro, ou A noiva posta a nu por seus ce1ibatários, mesmos, 1915-1923 O novo é evidentemente o moderno, e quando este declina ao esbarrar nos seus limites imanentes, o primeiro se degrada, o seu efeito de choque se amortecendo, e a novidade torna-se moda, cuja obsolescência é industrialmente programada. Na origem dessa reviravolta portanto, a perda de tensão das obras, configurando o que já foi denominado de conformismo modernista. Desse envelhecimento procede o novo (no que se há de ultrapassar e tornar obsoleto pela novidade do próximo estágio) dão notícia observações como as seguintes de Enzenberger, acerca da vocação autológica da historicidade moderna: “a história deverá sempre com velocidade crescente as obras que ela amadurece”; ou ainda: “o triunfo do capitalismo achou por converter a historicidade da arte em um fenômeno econômico”. * Prova escrita apresentada no Concurso de Livre-docência no Departamento de Filosofia da FFLCH-USP em 5 de novembro de 1982. Mantenha a forma literária um tanto livre, que…e inspiração do momento, mas que obedece também à disciplina do exercício de uma professora que durante anos abordou tais questões. Em se tratando de uma sistematização dos problemas relativos ao processo de regeneração do projeto moderno, importante em toda a minha reflexão sobre os destinos su arquitatura deste século — afirma refletida neste texto — achei que poderia ser uma boa introdução aos demais capítulos. O Envelhecimento do Novo 22 co tangível, introduzindo-o no mercado”. Quer dizer: a valorização moder- nista do transitório, do efêmero, do fugaz, do dinamismo enquanto fim em si mesmo, acabou transformando o futuro, do qual emergia o novo, num valor cotado em bolsa, num bem de consumo descartável etc. Por isso as vanguardas não podem sobreviver às condições históricas que as tornaram possíveis – já não se pode mais conspirar em nome das artes. Mas o choque do novo não foi neutralizado porque os tempos muda- ram, e sim porque cumpriu o seu ciclo. É como se dizer compreensível o juízo de Adorno acerca das barreiras internas que precipitaram o envelhe- cimento da Música Nova; por estrita fidelidade ao princípio de racionaliza- ção progressiva – ou seja, o declínio do moderno deveu-se à tendência para uma racionalização absoluta, aquela que define a lógica mesma da Aufklärung social. Compreende-se então que a arte tenha perdido sua força de contradição. Esse o passo da forma artística autônoma ao formalismo, principal sintoma do envelhecimento da arte nova. Tentemos reconstituir o trajeto percorrido pela arte moderna, em que a busca do novo era a garantia de sua autenticidade, até a sua dissolu- ção final na pura novidade pós-moderna. A principal característica da arte na idade moderna é sem dúvida a autonomia. A ordem burguesa não só liberou a arte de suas tutelas tradicio- ais (da Igreja e da Corte), assimilação num mundo à parte, muito além do domínio material da reprodução da vida. Graças a essa transcendência ontológica, ela é chamada a preencher um plano ímpar, de reflexividade concreta da obra segundo sua legalidade interna. De acordo com a teoria da modernização social de Max Weber, ciência, moral e arte, cada uma dota- da de uma lógica específica de validação, constituiriam os momentos inde- pendentes em que se decompôs a razão objetiva da sociedade pré-capitalis- ta. Esse desmembramento seria garantia de progresso e penhor da modernidade em marcha. A arte autônoma deve portanto sua emancipação à racionalização capitalista da dimensão cultural. Pois este mesmo processo se encarregará de neutralizar a autonomia que gerou à medida em que for consolidando a arte como uma instituição positiva. Cumprindo seu destino moderno, a arte verá sua autonomia converter-se em princípio de dissolução. Urbanismo em Fim de Linha Exoreengen & Háneen cun inices da Tiempo hacióna,... 1842 @ gravura da zeienas guros On Ádeveniras de Victor Háge Édouard Manet, Un Philosophe sur la route, 1876 (óleo sobre tela, detalle) Desde o início deste percurso de dupla face, uma tal conversão vem alimentando as promessas da dialética. Hegel foi o primeiro a isolar o fenômeno quando percebeu que a arte enquanto valor de culto chegara ao fim no momento mesmo em que a recém-conquistada autonomia anunciava sua dissolução já em curso. É que a lógica iluminista da autonomia "exteriorizara integralmente os conteúdos nas formas artísticas", consagrando em consequência o primado da instância técnica, ela mesma expressão da preponderância do novo sujeito estético. Este é o caminho que a arte romântica mais avançada estava convertendo os momentos de obra em tema objetivo da obra de arte. Constatada a reviravolta, Hegel acreditava que a arte passaria a girar em falso. Faltou dialética no momento do desse novo passo na história da arte. Hegel não viu que essa subjetivação que rebaixava os conteúdos estava, ao mesmo tempo, liberando as forças produtivas da arte. Mas é verdade que, ingressando no domínio da racionalidade moderna, a arte autônoma (como foi dito acima) captava o mundo diante de si, e se afirmava tomando distância máxima: à medida em que cumpria essa lei formal vai incorporando modos cada vez mais racionais. O novo na arte cede lugar às inovações da ciência material, da qual deriva o novo. O diagnóstico hegeliano acerca da dissolução da arte, em virtude de tais injunções externas que acabavam por absolutizar os meios, antecipava no outro extremo o choque vanguardista com a instituição arte. Nesse meio tempo, a autonomia elevava a si mesma à revolta do domínio estético do belo regraria até o letchismo da forma. Acresce que onde há diferenciação também há reificação, e consequente aspiração à fluidificação das barreiras que comprimem o mundo da vida. Arte autônoma é arte separada, enrijecida na positividade (como diria o jovem Hegel). Daí o programa vanguardista de superação da arte, forçando a abertura do domínio estético represado pela compartimentação moderna, retardando a comunicação com o mundo empobrecido pela racionalização instrumental. De fato, não poderiam ser mais ambivalentes as relações da arte autônoma com a modernidade que ao mesmo tempo a promovia e inviabilizava, tornando proibitiva sua sobrevida mais exigente. Adorno, que sustentava que o cumprimento mais estrito da lei tecnológica interna na obra de arte era garantia do seu distanciamento crítico, tinha plena consciência de O Esvaziamento do Novo
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Copyright © 1998 by Otilia B. Fiori Arantes Dados Internacionais de Catalogacao na Publicacao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Arantes, Otilia B. Fiori Urbanismo em Fim de Linha e Outros Estudos sobre o Colapso da Modernizacao Arquitetonica / Otilia Beatriz Fiori Arantes.—Sao Paulo: Edicoes da Universidade de Sao Paulo, 1998. ISBN: 85-314-0465-7 1. Arquitetura Moderna — Seculo 20 2. Arquitetura Moderna — Seculo 20 — Brasil 3. Cidade 4. Urbani- zacao 5. Urbanismo I. Título. 98-3656 CDD-724 Indices para catalogo sistematico: 1. Arquitetura moderna e urbanismo 724 Licencas reservadas à Edusp —: Editora da Universidade de Sao Paulo Av. Prof. Luciano Gualberto, Travessa J, 374 4° andar — Ed. da Antiga Reitoria — Cidade Universitria 05508-010 — Sao Paulo — SP — Brasil Tel. (011) 818-4155 Tel. (011) 818-4056 / 818-4156 e-mail: edusp@edu.usp.br Printed in Brazil 1998 Foi feito o depósito legal SUMÁRIO Apresentação ........................................................9 PARTE I O Envelhecimento do Novo ......................................19 Arquitetura no Presente: Uma Questão de História? ...........41 A Sobrevida da Arquitetura Moderna segundo Jürgen Habermas ......55 Arquitetura Nova Antigamente: O que Fazer? .................79 Do Universalismo Moderno ao Regionalismo Pós-crítico ..........99 PARTE II Urbanismo em Fim de Linha .................................129 Cultura da Cidade: Animação sem Frase .......................143 APÊNDICES Minimalismo ou Anacronismo? ...............................191 Pobre Cidade Grande .........................................209 OTILIA ARANTES urbanismo em fim de linha e outros estudos sobre o colapso da modernização arquitetônica [ed usp] O ENVELHECIMENTO DO NOVO Marcel Duchamp, O Grande Vidro, ou A noiva posta a nu por seus ce1ibatários, mesmos, 1915-1923 O novo é evidentemente o moderno, e quando este declina ao esbarrar nos seus limites imanentes, o primeiro se degrada, o seu efeito de choque se amortecendo, e a novidade torna-se moda, cuja obsolescência é industrialmente programada. Na origem dessa reviravolta portanto, a perda de tensão das obras, configurando o que já foi denominado de conformismo modernista. Desse envelhecimento procede o novo (no que se há de ultrapassar e tornar obsoleto pela novidade do próximo estágio) dão notícia observações como as seguintes de Enzenberger, acerca da vocação autológica da historicidade moderna: “a história deverá sempre com velocidade crescente as obras que ela amadurece”; ou ainda: “o triunfo do capitalismo achou por converter a historicidade da arte em um fenômeno econômico”. * Prova escrita apresentada no Concurso de Livre-docência no Departamento de Filosofia da FFLCH-USP em 5 de novembro de 1982. Mantenha a forma literária um tanto livre, que…e inspiração do momento, mas que obedece também à disciplina do exercício de uma professora que durante anos abordou tais questões. Em se tratando de uma sistematização dos problemas relativos ao processo de regeneração do projeto moderno, importante em toda a minha reflexão sobre os destinos su arquitatura deste século — afirma refletida neste texto — achei que poderia ser uma boa introdução aos demais capítulos. O Envelhecimento do Novo 22 co tangível, introduzindo-o no mercado”. Quer dizer: a valorização moder- nista do transitório, do efêmero, do fugaz, do dinamismo enquanto fim em si mesmo, acabou transformando o futuro, do qual emergia o novo, num valor cotado em bolsa, num bem de consumo descartável etc. Por isso as vanguardas não podem sobreviver às condições históricas que as tornaram possíveis – já não se pode mais conspirar em nome das artes. Mas o choque do novo não foi neutralizado porque os tempos muda- ram, e sim porque cumpriu o seu ciclo. É como se dizer compreensível o juízo de Adorno acerca das barreiras internas que precipitaram o envelhe- cimento da Música Nova; por estrita fidelidade ao princípio de racionaliza- ção progressiva – ou seja, o declínio do moderno deveu-se à tendência para uma racionalização absoluta, aquela que define a lógica mesma da Aufklärung social. Compreende-se então que a arte tenha perdido sua força de contradição. Esse o passo da forma artística autônoma ao formalismo, principal sintoma do envelhecimento da arte nova. Tentemos reconstituir o trajeto percorrido pela arte moderna, em que a busca do novo era a garantia de sua autenticidade, até a sua dissolu- ção final na pura novidade pós-moderna. A principal característica da arte na idade moderna é sem dúvida a autonomia. A ordem burguesa não só liberou a arte de suas tutelas tradicio- ais (da Igreja e da Corte), assimilação num mundo à parte, muito além do domínio material da reprodução da vida. Graças a essa transcendência ontológica, ela é chamada a preencher um plano ímpar, de reflexividade concreta da obra segundo sua legalidade interna. De acordo com a teoria da modernização social de Max Weber, ciência, moral e arte, cada uma dota- da de uma lógica específica de validação, constituiriam os momentos inde- pendentes em que se decompôs a razão objetiva da sociedade pré-capitalis- ta. Esse desmembramento seria garantia de progresso e penhor da modernidade em marcha. A arte autônoma deve portanto sua emancipação à racionalização capitalista da dimensão cultural. Pois este mesmo processo se encarregará de neutralizar a autonomia que gerou à medida em que for consolidando a arte como uma instituição positiva. Cumprindo seu destino moderno, a arte verá sua autonomia converter-se em princípio de dissolução. Urbanismo em Fim de Linha Exoreengen & Háneen cun inices da Tiempo hacióna,... 1842 @ gravura da zeienas guros On Ádeveniras de Victor Háge Édouard Manet, Un Philosophe sur la route, 1876 (óleo sobre tela, detalle) Desde o início deste percurso de dupla face, uma tal conversão vem alimentando as promessas da dialética. Hegel foi o primeiro a isolar o fenômeno quando percebeu que a arte enquanto valor de culto chegara ao fim no momento mesmo em que a recém-conquistada autonomia anunciava sua dissolução já em curso. É que a lógica iluminista da autonomia "exteriorizara integralmente os conteúdos nas formas artísticas", consagrando em consequência o primado da instância técnica, ela mesma expressão da preponderância do novo sujeito estético. Este é o caminho que a arte romântica mais avançada estava convertendo os momentos de obra em tema objetivo da obra de arte. Constatada a reviravolta, Hegel acreditava que a arte passaria a girar em falso. Faltou dialética no momento do desse novo passo na história da arte. Hegel não viu que essa subjetivação que rebaixava os conteúdos estava, ao mesmo tempo, liberando as forças produtivas da arte. Mas é verdade que, ingressando no domínio da racionalidade moderna, a arte autônoma (como foi dito acima) captava o mundo diante de si, e se afirmava tomando distância máxima: à medida em que cumpria essa lei formal vai incorporando modos cada vez mais racionais. O novo na arte cede lugar às inovações da ciência material, da qual deriva o novo. O diagnóstico hegeliano acerca da dissolução da arte, em virtude de tais injunções externas que acabavam por absolutizar os meios, antecipava no outro extremo o choque vanguardista com a instituição arte. Nesse meio tempo, a autonomia elevava a si mesma à revolta do domínio estético do belo regraria até o letchismo da forma. Acresce que onde há diferenciação também há reificação, e consequente aspiração à fluidificação das barreiras que comprimem o mundo da vida. Arte autônoma é arte separada, enrijecida na positividade (como diria o jovem Hegel). Daí o programa vanguardista de superação da arte, forçando a abertura do domínio estético represado pela compartimentação moderna, retardando a comunicação com o mundo empobrecido pela racionalização instrumental. De fato, não poderiam ser mais ambivalentes as relações da arte autônoma com a modernidade que ao mesmo tempo a promovia e inviabilizava, tornando proibitiva sua sobrevida mais exigente. Adorno, que sustentava que o cumprimento mais estrito da lei tecnológica interna na obra de arte era garantia do seu distanciamento crítico, tinha plena consciência de O Esvaziamento do Novo