• Home
  • Chat IA
  • Recursos
  • Guru IA
  • Professores
Home
Recursos
Chat IA
Professores

·

Psicologia ·

Psicanálise

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Texto de pré-visualização

SUBJETIVIDADES Subjetividades 1 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 eISSN 23590777 Estudos Teóricos PSICANÁLISE E FEMINISMO EM KAREN HORNEY A CRÍTICA AO REFERENCIAL MASCULINO Psychoanalysis and Feminism in Karen Horney The Critique of the Male Reference Psicoanálisis y Feminismo en Karen Horney La Crítica al Referencial Masculino Psychanalyse et Féminisme chez Karen Horney La Critique du Référentiel Masculin 10502023590777rsv22i3e12759 Larissa Ramos da Silva Psicóloga e Mestre em Psicanálise Clínica e Cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS Andrea Gabriela Ferrari Professora do Programa de PósGraduação em Psicanálise Clínica e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS Cocoordenadora do Núcleo de Estudo em Psicanálise e Infâncias NEPIs Resumo Karen Horney foi uma psicanalista alemã pioneira da psicanálise que publicou importantes textos nas décadas de 1920 e 1930 notadamente quando uma discussão intensa sobre a feminilidade despontava nos círculos psicanalíticos mobilizando diversos autores e autoras Mesmo assim sua obra é pouco conhecida no Brasil Desse modo o presente artigo tem como objetivo o resgate de algumas de suas principais contribuições no que tange à crítica ao referencial masculino na psicanálise com vistas a apontar sua relevância histórica e as possibilidades de inserção de suas formulações no contexto atual de discussões sobre psicanálise feminismos e estudos de gênero no Brasil Palavraschave teoria psicanalítica feminismo inveja do pênis Karen Horney Abstract Karen Horney was a German psychoanalyst a pioneer of psychoanalysis who published relevant texts in the 1920s and 1930s notably when an intense discussion about femininity was emerging in psychoanalytic circles mobilizing several authors Even so her work is little known in Brazil Therefore this article aims to rescue some of her main contributions regarding the critique of the male reference in psychoanalysis to point out her historical relevance and the possibilities of inserting her formulations in the current context of discussions on psychoanalysis feminisms and gender studies in Brazil Keywords psychoanalytic theory feminism penis envy Karen Horney Resumen Karen Horney fue una psicoanalista alemana precursora del psicoanálisis que publicó importantes textos en las décadas de 1920 y 1930 sobre todo cuando una intensa discusión sobre femenilidad emergía en los círculos psicoanalíticos movilizando diversos autores y autoras Aún así su obra es poco conocida en Brasil De esta manera el objetivo del presente artículo es rescatar algunas de sus principales contribuciones en lo que se refiere al referencial masculino en psicoanálisis con vistas a indicar su relevancia histórica y las posibilidades de inserción de sus formulaciones en el contexto actual de discusiones sobre psicoanálisis feminismo y estudios de género en Brasil Palabras clave teoría psicoanalítica feminismo envidia del pene Karen Horney 2 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari Résumé Karen Horney a été une psychanalyste allemande pionnière de la psychanalyse qui a publié des textes importants dans les décennies 1920 et 1930 notamment lorsquune intense discussion sur la féminité émergeait dans les cercles psychanalytiques en mobilisant plusieurs auteurs et auteures Cependant son travail est peu connu au Brésil Ainsi cet article vise à récupérer certaines de ses principales contributions concernant la critique du référentiel masculin en psychanalyse afin de présenter sa pertinence historique et les possibilités dinsertion de ses formulations dans le contexte actuel des discussions sur la psychanalyse le féminisme et les études de genre au Brésil Motsclés théorie psychanalytique féminisme envie de pénis Karen Horney Karen Horney foi uma médica e psicanalista alemã nascida em 1885 nas imediações de Hamburgo na Alemanha Formouse médica em 1913 pela Universidade de Berlim quando recentemente alguns cursos de medicina na Europa passaram a aceitar alunas mulheres e deu seguimento a seus estudos nas áreas de psiquiatria e psicanálise Natterson 1966 Sayers 1992 Antes mesmo de obter seu diploma de médica já havia se interessado pela psicanálise e fez análise com outros colegas pioneiros como Abraham e Sachs1 Em 1911 começou a frequentar a Sociedade Psicanalítica de Berlim onde atendeu pacientes e apresentou trabalhos e palestras Mais tarde em 1920 foi a primeira mulher a se tornar membro do Instituto Psicanalítico de Berlim que ficou historicamente conhecido por sua policlínica que oferecia atendimentos gratuitos em psicanálise em um esforço de ampliação do campo de ação da clínica psicanalítica Eckardt 2005 Horney lá se ocupava tanto da transmissão da psicanálise treinando novos analistas quanto de atendimentos clínicos Mudouse para os Estados Unidos em 1932 para ser diretora associada do primeiro instituto de psicanálise do país em Chicago a convite de Franz Alexander outro pioneiro nessa área que a conhecera no Instituto Psicanalítico de Berlim e interessouse por sua postura inovadora sua formação e sua fundamentação eminentemente clínica Alexander et al 1966 Em 1934 mudouse para Nova York onde mantinha um consultório e lecionava tanto no Instituto Psicanalítico de Nova York quanto na New School for Social Research instituição fundada em 1919 por intelectuais progressistas para o estudo de humanidades e problemas sociais existente até hoje Suas produções e ideias revolucionárias que se contrapunham a várias premissas de Freud não foram bem aceitas pelo Instituto Psicanalítico de Nova York culminando em sua saída em 1941 depois da qual fundou o Instituto Americano de Psicanálise também existente até hoje Eckardt 2005 Gilman 2001 Falecida vítima de câncer em 1952 em Nova York sua obra inclui diversos textos e livros como A Personalidade Neurótica de Nosso Tempo de 1936 e Novos Rumos na Psicanálise de 1939 Horney costuma ser mencionada como a primeira psicanalista a introduzir críticas feministas na psicanálise tensionando alguns atravessamentos da lógica patriarcal nas teorizações freudianas e de outrosas colegas de sua época Brasil Costa 2018 Garrison 1981 Nas décadas de 1920 e 1930 as discussões sobre feminilidade e sexualidade feminina tomaram lugar central nas produções psicanalíticas notadamente de psicanalistas mulheres Rosa Weinmann 2020 dentre as quais Horney foi a mais enfática em suas críticas ao entendimento psicanalítico hegemônico da época em relação a essa temática Garrison 1981 Malgrado esse tenha sido um importante momento para os enlaces entre psicanálise e feminismo muitas das contribuições de psicanalistas dessa época em especial as mulheres foram esquecidas Rosa Weinmann 2020 levando à falsa noção de que a teorização freudiana sobre feminilidade era amplamente aceita inicialmente e teria sido criticada apenas posteriormente por feministas na década de 1970 e 1980 após as leituras lacanianas de Freud Cabe resgatar portanto as contribuições elaboradas pelas pioneiras para relembrar os traçados históricos dos entrelaçamentos entre feminismo e psicanálise o que torna possível melhor compreender o atual panorama da produção de conhecimento nesse terreno Ou seja se como afirma Winnicott 1975 de que só é possível ser criativo e original a partir de uma tradição entendese como fundamental conhecer as primeiras aproximações desses dois campos nas quais Horney foi central para que possamos avançar em relação a elas hoje Dessa forma podemos prescindir da postura de considerar esses imbricamentos como estritamente contemporâneos mas apontar as construções já elaboradas nesse âmbito há quase um século e a partir delas criar as condições de possibilidade para novas contribuições Assim embora tenha sido uma pioneira da psicanálise contemporânea de Freud e engajada no movimento psicanalítico de sua época Karen Horney é pouco conhecida e estudada no Brasil Enquanto nos Estados Unidos Horney teve influência mais explícita e duradoura tendo fundado instituições e circulado suas obras e ideias mais amplamente em comparação 1 Karl Abraham 18771925 psicanalista alemão e Hanns Sachs 18811947 psicanalista austríaco 3 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino ao Brasil em nosso país é quase que desconhecida em suas elaborações teóricas e raramente lembrada ou mencionada em sua importância histórica no movimento psicanalítico Suas contribuições teóricas são refletidas apenas escassamente na literatura acadêmica no Brasil tendo apenas um artigo científico produção bastante recente que se debruça mais longamente sobre sua obra Tratase de um artigo de Amorim e Belo 2020 que aborda o tema da monogamia em Karen Horney enfatizando as formulações pioneiras da autora sobre o tema No texto os autores pinçam algumas das principais contribuições de Horney sobre a monogamia no sentido de uma problematização desta enquanto ideal e da análise dos problemas no casamento enquanto contrato social monogâmico por excelência que apareciam com frequência em sua clínica Em resumo os autores apontam que Horney por mais que se ancore em alguns pressupostos heteronormativos para suas teorizações aporta também críticas em relação à monogamia que foram importantes para a época como a proposta de relativizar a monogamia enquanto padrão absoluto nas relações A construção dessa crítica se baseia fundamentalmente na demonstração de que dentro do arranjo monogâmico existem diversos desencontros provocados pelos atravessamentos inconscientes indicando a não existência de uma perspectiva real de satisfação dos desejos inconscientes apenas pela via do casamento Ou seja a monogamia enquanto saída ideal para a relação entre parceiros deveria ser reavaliada já que como outros arranjos também abarca inevitáveis conflitos portanto não deveria ser considerada melhor ou pior que os demais formatos de relacionamento através de padrões valorativos morais Por fim o artigo coloca em relevo os apontamentos da autora no sentido de mostrar que os ideais patriarcais da cultura em que vivia traziam exigências maiores para mulheres do que homens no que tange à monogamia por conta da naturalização da mulher como objeto sexual como um bem móvel Amorim Belo 2020 p 259 Se em um relacionamento monogâmico a noção de exigência de amor estaria ligada à exigência de posse a fidelidade estaria mais a serviço da satisfação de impulsos narcísicos e sádicos do que necessariamente da demonstração de amor pelo outro Em uma sociedade patriarcal na qual o ideal de feminilidade designa uma mulher objetalizada cujos anseios limitamse à esfera familiar conjugal isto se impunha mais fortemente às mulheres Neste ponto cabe comentar que a afirmação de Horney converge com aquela feita por Freud 19081977a quando sugere uma moral dupla mais permissiva com homens do que com mulheres em relação às exigências sexuais da vida moderna A quase ausência de conhecimento da obra de Horney em universidades e mesmo em instituições de psicanálise no Brasil contrasta com o aumento das produções acadêmicas com enfoque nos entrelaçamentos entre psicanálise e estudos de gênero ou psicanálise e feminismo tanto na forma de publicações de livros Ambra Silva 2014 Ceccarelli 2019 Mariotto 2018 Martins Silveira 2020 quanto de artigos científicos Cavalheiro Silva 2020 Martins 2021 Santos 2018 Stona Ferrari 2020 a partir dos mais diversos referenciais teóricos e posicionamentos éticopolíticos Surpreende se portanto dada a importância de Karen Horney no estabelecimento das aproximações nessas áreas que a autora seja pouco lembrada e referenciada nas produções acadêmicas do Brasil nessa mesma seara Horney desde momentos muito precoces da psicanálise trouxe variados apontamentos relevantes para grande parte das reflexões em efervescência nesse campo hoje tais como a crítica ao referencial masculino nas teorizações e à universalidade do Édipo a proposição de leituras da feminilidade que não se ancoram em um ideal de sujeito masculino a ênfase na influência da cultura nas produções científicas e na própria subjetividade a necessidade de um olhar para questões culturais na clínica psicanalítica entre tantas outras Horney 19391966 19361977 19231991b Além disso foi uma crítica das generalizações e universalizações no pensamento psicanalítico apontando também a necessidade de não tomarmos teorias produzidas em determinada cultura a partir de diversos atravessamentos sociais específicos como aplicáveis em qualquer contexto Horney 19391966 19351991g A partir disso a autora alertava também que a psicanálise não deveria se tornar uma ferramenta de adequação ao que era considerado normal em uma cultura mas preocuparse com a saúde psíquica do sujeito entendida por ela como a maior liberdade subjetiva possível para usufruir das próprias capacidades Horney 19391966 Em um momento no qual a noção hegemônica sobre feminilidade na psicanálise incluía as ideias de masoquismo feminino passividade inata abandono do clitóris para a sexualidade vaginal inveja do pênis e desvantagemdeficiência biológica Horney teceu críticas pioneiras e proposições que fizeram avançar a psicanálise Garrison 1981 dialogando com estudos recentes à época nas áreas de sociologia filosofia e antropologia por exemplo A autora sugeria que a psicanálise terá de se libertar da herança do passado se desejar desenvolver as suas grandes potencialidades Horney 19391966 p 41 Assim Horney criticava alguns aspectos da psicanálise especialmente no que tange à feminilidade não para execrála ou condenála mas para libertála de certas premissas condicionadas historicamente e das teorias a que deram origem Horney 19391966 p 12 Podese pensar portanto que muitas de suas contribuições se mantêm atuais na produção psicanalítica inclusive abrindo caminhos para os diversos diálogos embates e entrelaçamentos entre psicanálise e feminismo que vieram posteriormente através de outras autoras Sendo assim a relevância de retomar sua obra não se limita apenas à importância de conhecer a tradição das produções nesse campo mas ampliase para pensar algumas das elaborações da autora como ferramentas 4 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari potentes para a psicanálise atualmente Isto é sua obra apesar de datada e limitada em alguns aspectos que serão discutidos neste artigo traz contribuições teóricoclínicas ainda úteis para reflexões contemporâneas Nessa esteira tornase relevante retomar algumas produções da autora para extrair de sua obra concepções que contribuam para as discussões atuais nesse terreno fértil de produções acadêmicas no Brasil Tendo em vista a amplitude e complexidade da obra de Horney tanto em extensão quanto em temáticas abrangidas fazse necessário para o escopo do presente trabalho selecionar um fio condutor para as discussões propostas de forma a possibilitar uma reflexão aprofundada Sendo assim das questões suscitadas mencionadas anteriormente pela autora optouse pelo enfoque nas críticas de Horney ao referencial masculino na psicanálise através da crítica da inveja do pênis enquanto parâmetro para pensar a feminilidade e da proposição de leituras que fogem desse paradigma Esse aspecto da obra da autora será discutido em maior profundidade nas seções a seguir com destaque para os enlaces possíveis entre psicanálise e feminismo A Crítica de Horney ao Referencial Masculino Nas décadas de 1920 e 1930 a discussão sobre sexualidade feminina e feminilidade foi protagonista no campo psicanalítico o que esteve relacionado segundo o próprio Freud 19332006 ao aumento da participação de analistas mulheres na produção teórica neste campo Dentro desse cenário psicanalistas debruçaramse sobre conceitos como inveja do pênis masoquismo feminino e feminilidade normal para citar alguns Nesse contexto Karen Horney não foi a única autora a questionar alguns pressupostos psicanalíticos da época acompanhada de nomes como Jeanne LampldeGroot e Melanie Klein2 entre outras Rosa Weinmann 2020 Contudo foi a primeira a tecer apontamentos enfáticos sobre os atravessamentos da estrutura do patriarcado na produção psicanalítica Garrison 1981 Sayers 1992 assim como muitas outras o fizeram e ainda fazem depois dela Um dos pontos iniciais do qual Horney 19231991b parte nesse empreendimento é o de questionar o que chama de unilateralidade das pesquisas psicanalíticas e até aquele momento apontada pelo próprio Freud 19231996 19332006 salientando que se baseava apenas no ponto de vista do menino tomandoo como referência para presumir alguns aspectos da sexualidade feminina Para tal a autora começa por reconhecer que naquela época os principais pressupostos teóricos da psicanálise foram construídos por homens de uma determinada cultura apontando um viés nos agentes de produção do conhecimento e as possíveis influências disso na psicanálise enquanto corpo teórico A psicanálise é criação de um gênio masculino e quase todos os que desenvolveram as suas ideias são homens É justo que desenvolvam com mais facilidade uma psicologia masculina Horney 19231991b p 51 Em outro texto a autora menciona que o narcisismo masculino poderia ser uma das razões pelas quais alguns conceitos psicanalíticos como a inveja do pênis não fossem problematizados mas tomados como obviedades admitimos como verdade axiomática que as mulheres se sentem em desvantagem por causa de seus órgãos genitais sem que isto seja considerado um problema em si possivelmente devido ao narcisismo masculino isso tenha sido por demais evidente para precisar de explicações Horney 19231991b p 35 Assim ela levanta a questão sobre um possível viés na produção de conhecimento sobre a feminilidade no campo psicanalítico até aquele momento através do apontamento de uma hegemonia no lugar dos agentes de produção do conhecimento psicanalítico Para Horney 19231991b a ideia de neutralidade na produção acadêmica e científica não procede tendo em vista que toda a experiência contém um fator subjetivo Como a psicanálise desde os primórdios se constituiu enquanto corpo teórico a partir da experiência clínica as leituras teóricas possíveis referentes ao que se manifesta em análise não carregam apenas o conteúdo do que foi produzido peloa analisandoa mas também das interpretações que fazemos ou conclusões que tiramos de tudo isto Horney 19231991b p 55 Através desse raciocínio Horney 19231991b afirmava que o fato de a grande maioria dos psicanalistas a teorizar sobre feminilidade até a década de 1920 serem homens produzia limitações em relação ao que poderia ser elaborado enquanto teoria e interpretações de material clínico É interessante notar que a autora para inserir um estranhamento em relação a algumas teorizações psicanalíticas aponta seu lugar de analista mulher Agora como mulher pergunto atônita Horney 19231991b p 56 Partindo da interlocução com as propostas do sociólogo alemão Georg Simmel 18581918 que indicava que toda a noção de civilização era atravessada por sistemas hierárquicos de valorização que traziam o masculino como ideal e o feminino como inferior Horney 19231991b entende que a psicanálise no que se refere à feminilidade também estava sendo medida por padrões masculinos Horney 19231991b p 54 Apoiandose nisso postula a necessidade de um novo 2 Jeanne LampldeGroot 18951987 psicanalista holandesa e Melanie Klein 18821960 5 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino olhar sobre algumas concepções psicanalíticas a fim de evitar que seguíssemos enquadrando tudo o que de novo pudesse surgir na clínica dentro de ideias já definidas sobre feminilidade Se por um lado Horney apontava a perspectiva hegemônica dos autores homens na psicanálise como um aspecto da unilateralidade das pesquisas psicanalíticas por outro destacava o referencial masculino também acerca do objeto de estudo Ou seja como Freud 19231996 19332006 notava que a maior parte das produções psicanalíticas até a metade da década de 1920 baseavamse apenas no desenvolvimento psicossexual do menino inferindo que a menina deveria seguir caminho oposto quase como um negativo do curso da constituição edípica do menino Como efeito disso Horney 19231991b entende que as ideias correntes à época sobre o desenvolvimento feminino quase que não diferiam das ideias típicas que um menino teria sobre uma menina em relação à diferença sexual Isto é se o menino valoriza seu pênis apreende sua ausência nas meninas e faz a leitura de que são castradas e portanto inferiores afirmando que a menina iria valorizar o pênis e invejálo a partir da apreensão de sua ausência em si mesma e se veria como castrada e inferior A autora problematiza essa concordância demasiada e propõe pensar em algo específico da feminilidade que não parta necessariamente de um ideal de sujeito masculino e da noção de primazia do falo sugerida por Freud 19231996 que tomava o falo como referência para compreender a sexualidade de meninos e meninas Sendo este um debate amplo e notório à época Freud 19311977b não se absteve de comentar as contribuições e críticas de Horney e outras autoras Especificamente sobre a inveja do pênis em relação à Horney o autor menciona que não concorda com suas colocações pois entendia que a inveja do pênis era constatável clinicamente além de explicar conceitualmente sob sua perspectiva a repressão enérgica da feminilidade encontrada na clínica e na cultura Além disso ao longo de sua obra em muitos momentos Horney 19391966 19231991b 19311991c 19351991g aponta atravessamentos culturais nos entendimentos psicanalíticos sobre diferença sexual e feminilidade sugerindo que preconceitos advindos do social estavam influenciando algumas teorizações sobre esses temas o que impedia a psicanálise de avançar Esses preconceitos estariam ligados a efeitos do patriarcado como o referencial masculino enquanto ideal a inferiorização das mulheres a expectativa de que mulheres só se interessassem na vida do lar e na maternidade entre outros Horney 19231991b 19341991f O chamado culturalismo da autora tomou espaço notadamente no decorrer de seus textos tornandose mais evidente e enfático em seus trabalhos mais recentesHorney 19391966 19311991c 19341991f 19351991g empenhouse cada vez mais no empreendimento de reconhecer o papel das contingências culturais da vida para o psiquismo e para o trabalho psicanalítico pensando em como engendram as subjetividades de homens e mulheres A mulher norteamericana é diferente da alemã e ambas são diferentes de uma índia da tribo Pueblo A mulher da sociedade de Nova York é diferente da esposa do fazendeiro de Idaho O que esperamos poder compreender é a maneira pela qual condições culturais específicas engendram qualidades e faculdades também específicas tanto no homem quanto na mulher Horney 19391966 p 99 Nessa via a autora alertou para a presença de uma ideologia masculina estruturante da cultura e suas repercussões tanto na teoria psicanalítica quanto na constituição dos sujeitos e na forma como escutamos as manifestações clínicas em análise Cabe ressaltar neste ponto que muito do que Karen Horney propõe em termos de leitura teórica apoiase em sua experiência clínica com mulheres Horney 19261991a 19231991b Partindo de sua escuta de mulheres e do seu próprio lugar de analista mulher como ela mesma sublinha Horney 19231991b propôs a necessidade de questionar por exemplo por que a feminilidade era entendida como referenciada sempre à inveja do pênis como primordial e universal como ponto de partida da sexualidade feminina Na verdade Horney 19391966 chega a afirmar que naquele momento os analistas estavam deixandose levar por um modo de pensar viciado que interpretava qualquer manifestação clínica vinda de pacientes mulheres através da chave de leitura da inveja do pênis As mais diferentes ambições desejos sintomas expressões de sentimentos sonhos tinham seus caminhos traçados até a inveja do pênis Ela conclui De fato são muito poucos os traços do caráter feminino que não são supostos ter origem da inveja do pênis Horney 19391966 p 87 Em variados momentos de sua obra Horney 19391966 19231991b 19311991c 19321991d 19351991g critica o papel central que o conceito de inveja do pênis tomou para pensar a feminilidade Para ela davase pouca importância ao fato de os meninos também frequentemente manifestarem inveja de características físicas atribuídas à mulher tais como os seios e a possibilidade de gestar Ademais Horney 19261991a 19231991b 19311991c 19321991d entendia que a inveja do pênis poderia de fato ser predominante em determinado momento da constituição psíquica quando a menina compara sua capacidade de explorar seus genitais com a do menino que os teria mais visíveis Apontava também que o fato de ao menino ser permitido manipular e explorar seus genitais ao urinar poderia causar a impressão na menina de que a ele era permitido maior gratificação por meio da masturbação o que traria algum nível de ressentimento Entretanto não 6 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari considerava que isso fosse o suficiente para causar na menina ferida narcísica tal que a fizesse sentirse inferior abandonar a masturbação do clitóris e seguir ao longo da vida toda em algum grau buscando compensar a ausência do pênis Uma das razões pelas quais afirmava a insuficiência dessas colocações seria que a partir de premissas da própria psicanálise freudiana dificilmente abandonamos uma fonte de prazer já experimentada Horney 19351991g Portanto a ferida narcísica da menina ao darse conta da ausência do pênis teria de ser intensa e profunda a ponto de causar tal reviravolta na constituição da menina Contudo essa inveja não poderia ser fundamentada a nível biológico tendo em vista o papel da mulher na reprodução que considerava decididamente maior que o do homem devido sua capacidade de gestar e nutrir A autora sustenta que em nível da luta social de reivindicação por maior ocupação dos espaços públicos por mulheres a possibilidade da maternidade poderia ser vista como desvantagem naquele momento cultural Mas aponta que na psicanálise até aquele momento a inveja do pênis era pensada a nível biológico e anatômico e não social Por conseguinte trazia que biologicamente a inveja do pênis não teria como ser sustentada enquanto central na constituição das mulheres A comparação do tamanho do pênis e do clitóris em relação à possibilidade de urinar em pé e de olhar e tocar o membro ao urinar para Horney 19231991b teria um papel limitado de importância prégenital contudo a contrapartida da inveja da mulher seria tão importante ou maior e ao contrário da inveja do pênis não era considerada teoricamente nem encontrava lugar na psicanálise ao pensar o desenvolvimento psicossexual do menino Além disso ainda no âmbito da anatomia a autora apontava as limitações no entendimento do papel da vagina no psiquismo das crianças Freud 19231996 afirmava que a vagina seria desconhecida até a puberdade e mais tarde valorizada justamente como abrigo para o pênis e eventualmente para um bebê visto enquanto substituto do pênis Enquanto isso Horney 19331991e compreendia a partir de sua experiência clínica com mulheres tomando fantasias de suas pacientes que a vagina não era desconhecida causava sensações e era objeto de investimento psíquico das meninas além de suscitar formas específicas de masturbação Também neste ponto discordava de alguns posicionamentos freudianos sobre as consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos pois o autor relacionava a inveja do pênis e a relevância desse órgão para meninos e meninas ao desconhecimento da vagina na infância Para Horney 19231991b 19331991e outra limitação do conceito de inveja do pênis seria essa premissa errônea de que a vagina não teria efeitos psíquicos na infância Na seção seguinte as considerações da autora sobre esse ponto serão analisadas mais detidamente Em resumo em termos biológicos e anatômicos Karen Horney argumentava que a inveja do pênis e o desejo de masculinidade não se sustentavam Não haveria motivos no âmbito estritamente biológico para que a inveja do pênis tivesse papel tão importante no psiquismo das mulheres e a inveja do útero e de outros atributos não tivesse o mesmo papel para homens Aliás se a inveja do pênis só se sustentava em relação a um momento prégenital e a vagina não era desconhecida como afirmou a autora ler a feminilidade com centralidade nesse conceito não se sustentaria Se fosse tomada a nível social a inveja do pênis poderia abrir outras discussões Horney 19231991b 19341991f apontou por exemplo que as mulheres ocidentais de classe média dispunham de menos saídas sublimatórias para a inveja do que os homens tendo muitas esferas da vida limitadas ou restritas por imposições sociais Indicou ainda que a ideologia masculina de que as mulheres são inferiores e de que todos os aspectos valorizados da cultura humana são relacionados ao masculino é introjetada desde cedo fazendo com que as meninas cresçam interiorizando o olhar que as colocam como inferiores Apesar de entender que a inveja do pênis não seria apenas um reflexo desse aspecto da cultura ocidental de seu tempo considerava que era fundamental compreender o complexo cultural que fazia com que ela fosse tão facilmente aceita como central e universal restringindo as possibilidades de pensar a feminilidade para além dela Ademais a autora criticou a generalização do uso do conceito de inveja do pênis amplamente adotado como norteador clínico e teórico à época Horney 19391966 Apontava que a experiência clínica da psicanálise com mulheres neuróticas não refletia necessariamente um paradigma para pensar as mulheres como um todo Defendia que a dita inveja do pênis não poderia ser presumida como universal a partir de um número de experiências limitado com mulheres neuróticas e que talvez não tivesse nenhum papel na vida de mulheres normais Cabe lembrar neste ponto que por mais que a psicanálise tenha borrado as fronteiras entre normal e patológico desde seu início na época em que Horney escrevia seus textos iniciais era comum ainda haver uma certa divisão entre sujeitos neuróticos e normais Ao longo de sua obra em publicações posteriores a autora segue um caminho diferente problematizando os conceitos de neurose e normalidade e discutindo seus atravessamentos na psicanálise Horney 19391966 19361977 Contudo no contexto mencionado anteriormente a afirmação da autora vai em direção de pontuar que a psicanálise não poderia generalizar a inveja do pênis para todas as mulheres a partir da experiência clínica com mulheres em sofrimento que traziam essa problemática Por fim a autora também enfatizava a necessidade de não generalizar o que a psicanálise havia construído como feminilidade por razões culturais A experiência com mulheres inseridas em um determinado complexo cultural que entendia a feminilidade de uma maneira atravessada por diversas pressuposições ideológicas não poderia servir de parâmetro universal para todas as culturas Horney 19391966 19351991g 7 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino A Feminilidade para além da Inveja do Pênis Horney não se limitou às críticas Muitas vezes quando se trabalha com os imbricamentos entre feminismo e psicanálise existe a tendência de um enfoque nas críticas à psicanálise que leva osas psicanalistas a se questionarem então o que resta Geralmente essa pergunta implica que a crítica seria uma destruição da teoria a partir da qual nada se coloca no lugar Podemos entender contudo que o furo discursivo apontado pela crítica abre espaço justamente para novas construções que não seriam possíveis sem ela Outra autora pioneira da psicanálise Sabina Spielrein 19112014 embora não estivesse se referindo a isso especificamente sustentou que a criação pressupõe a destruição Ou seja tomando a destruição como origem do devir sugeriu uma ruptura com a dicotomia destruição versus construçãocriatividade Podemos transpor sua contribuição para o âmbito da construção da teoria entendendo assim que as críticas que sugerem o abandono de alguns pressupostos fazem justamente a teoria avançar como propôs a própria Horney 19391966 p 35 ninguém nem mesmo um gênio podese libertar completamente do seu tempo e que apesar da agudeza da sua visão o seu pensamento é de muitas maneiras influenciado pela mentalidade de sua época Reconhecer esta influência na obra de Freud não só é interessante do ponto de vista histórico como é importante para aqueles que se esforçam para entender com maior profundidade a intrincada e aparentemente obscura estrutura das teorias psicanalíticas Assim podemos pensar que a crítica à teoria freudiana da feminilidade baseada na inveja do pênis foi fundamental para que Karen Horney pudesse avançar em suas produções Poderíamos considerar que essa crítica por si só já foi uma construção inovadora da autora para sua época Não obstante partiu dessas críticas para construir leituras próprias apoiadas e em diálogo com outrosas autoresautoras Cabe ressaltar neste ponto que as produções de Horney tiveram lugar em uma época em que o próprio feminismo estava em destaque na Europa e provocando movimentações sociais importantes e recentes das quais a própria Horney pôde se beneficiar aberturas de turmas que aceitavam mulheres em universidades reivindicações sufragistas maior entrada das mulheres de classe média no mercado de trabalho entre outras Nesse ínterim é importante lembrar que o feminismo branco e europeu do fim do século XIX e início do século XX esteve focado em reivindicar direitos às mulheres e afirmar um lugar de mulher que não fosse ligado apenas a estereótipos de fraqueza e inferioridade Essas considerações são importantes pois mesmo que indiretamente o trabalho de Horney se comunica com essa conjuntura Quando propõe leituras da feminilidade alternativas às mais conhecidas à época Horney produz um movimento de busca de afirmação de uma feminilidade que não estivesse totalmente referenciada no conceito de inveja do pênis Na tentativa de teorizar sobre especificidades da feminilidade a autora incorre em muitos momentos em visões essencialistas e biologizantes sobre feminilidade e diferença sexual Constatamos em sua obra a existência de ideais cisheteronormativos como a ideia de uma suposta linearidade entre feminilidade mulher e úterovagina Assim apesar da grande importância de seus textos para sua época e da possibilidade de utilizarmos algumas de suas formulações como ferramentas teóricoclínicas atuais essa é uma ressalva importante pois alerta para a necessidade de contextualização de suas proposições para que não sejam inadvertidamente replicadas hoje sem leitura crítica Por utilizar o corpo como suporte para certas conceituações quando por exemplo parte do útero e da vagina para algumas teorizações acerca da feminilidade como veremos a seguir podese pensar que algumas lógicas normativas sobre corpo e sexualidade são reforçadas Uma das primeiras propostas teóricas de Horney no sentido de pensar a feminilidade em suas especificidades foi a importância psíquica do útero e da vagina ainda para a criança Ao contrário de Freud Horney 19331991e como referido anteriormente não considerava que a vagina era desconhecida até a puberdade A partir da experiência clínica com mulheres a autora postulou que fantasias inconscientes referentes à vagina fazem parte da experiência infantil bem como a masturbação vaginal além da clitoriana Portanto Horney 19231991b considerava equivocado pensar a masturbação como masculina noção introduzida por Freud 19231996 em relação à organização fálica a partir do correlato pênisclitóris Serão estes fatos tão misteriosos quando falamos de meninas só porque sempre os vimos pelos olhos masculinos É provável quando nem mesmo lhes concedemos forma específica de onanismo e tranquilamente descrevemos como masculinas suas atividades autoeróticas E não vejo porque apesar da evolução não se possa aceitar que o clitóris faça parte integrante do aparelho genital feminino e a ele pertença legitimamente Horney 19231991b p 61 Para Horney 19231991b 19331991e a vagina provocaria consequências psíquicas específicas já na infância Baseada em um modelo edipiano clássico afirma que a menina teria fantasias de penetração em relação ao pai assim como o menino teria fantasias de penetrar a mãe por conta de sensações fisiológicas Para a menina isso implicaria na angústia de castração frente à possibilidade de penetração pelo pênis desproporcionalmente maior do adulto fazendo com que a angústia 8 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari da menina tenha relação com a mutilação física Enquanto isso o menino sofreria de uma angústia narcísica frente à mulher adulta já que seu pênis infantil seria sentido como pequeno demais para a penetração Horney à maneira de Freud propõe então uma consequência psíquica da diferença anatômica entre os sexos porém partindo de pressupostos diversos enquanto Freud se baseia na primazia do falo Horney parte da especificidade de cada órgão Além disso como Freud a autora considera que as fantasias edipianas infantis são acompanhadas de práticas de masturbação No caso da menina Horney 19231991b 19321991d propõe que a angústia de castração vinculada à mutilação corporal é demonstrada nas fantasias de pacientes que acreditavam ter provocado uma ferida interna ou buraco com a masturbação vaginal acompanhadas de culpa pelas fantasias incestuosas em relação ao pai e medo de serem descobertas Horney 19231991b 19311991c afirma ainda que a possibilidade de gestar sugerida pela presença do útero faria com que mulheres tivessem seu papel na reprodução e no avanço da cultura humana garantido através do potencial de criar e nutrir uma nova vida Portanto se a inveja do pênis tinha um lugar psíquico importante na comparação com meninos a nível prégenital a nível genital ela seria superada Os homens ao contrário teriam grandes dificuldades em superar a inveja do útero e dos seios pelo seu papel biológico relativamente menor em relação à mulher Uma parte da razão pela qual os homens insistiam em inferiorizar as mulheres mesmo em âmbito científico segundo a autora seria justamente a forte inveja reprimida e a angústia narcísica frente às mulheres Em termos do desenvolvimento psicossexual e suas influências biológicas e anatômicas essas foram as principais propostas da autora em relação à feminilidade Entretanto com o passar dos anos sua obra foi dando cada vez mais destaque ao papel da cultura notadamente a partir do contato com algumas obras sociológicas e filosóficas além de ginecologistas antropólogos e biólogos e da análise de produções científicas recentes e de criações culturais como teorias religiosas mitologias e obras literárias Ademais o conhecimento de culturas diversas principalmente após sua mudança para os Estados Unidos também teve influência nas movimentações de sua produção A grande emancipação dos pensamentos dogmáticos que encontrei nos EUA facilitoume a tarefa de não aceitar como certas as teorias psicanalíticas e deume a coragem de prosseguir pelo caminho que considerava justo Mais ainda o familiarizarme com uma cultura que em muitos pontos é diferente da europeia ajudoume a compreender que muitos conflitos neuróticos em última análise são determinados por condições culturais Horney 19391966 p 15 Assim suas contribuições mais tardias não apresentam mais uma crítica centralizada no reconhecimento das especificidades do que seria o corpo da mulher e sua constituição psíquica a partir da afirmação de uma feminilidade que não se ampara totalmente no masculino Começaram a aparecer noções sobre um complexo cultural que priorizam ideais tidos como masculinos que transmite às meninas desde cedo a crença de que são inferiores além de estimular manifestações clinicamente interpretadas como masoquistas mais em mulheres que em homens É preciso considerar em particular o fato de que se alguns ou todos os elementos sugeridos estão presentes no complexo cultural podem aparecer certas ideologias fixas quanto à natureza da mulher assim como doutrina de que ela é congenitamente fraca emotiva gosta de ser dependente tem pouca capacidade para trabalhar independentemente e pensar sozinha Ficase tentado a incluir nesta categoria a crença psicanalítica de que a mulher é masoquista por natureza É bastante óbvio que essas ideologias funcionam não só para reconciliar as mulheres com seu papel subordinado apresentandoo como inalterável mas para implantar também a crença de que isto representa realização pela qual elas anseiam ou ideal pelo qual é louvável e desejável que se esforcem Horney 19351991g p 227 Horney 19391966 19351991g propunha ainda que as teorizações psicanalíticas não deveriam ser generalizadas ou tomadas como universais e que contextos culturais diversos do europeu poderiam engendrar noções diferentes sobre feminilidade Criticando algumas ideias correntes à época sobre uma suposta disposição inata das mulheres a voltaremse exclusivamente para os homens e a maternidade chegou a afirmar que os fatores biológicos jamais se manifestam de forma pura e franca mas sempre são modificados pela tradição e o ambiente Horney 19341991f p 181 Ou seja mesmo leituras sobre o biológico ou o inato não revelariam uma pureza ou natureza referentes à feminilidade Dessa forma a autora propôs não apenas uma leitura do biológico que afirmasse uma especificidade do lugar da mulher não ancorada em ser o negativo do homem como abandonou algumas premissas biologizantes para futuramente colocar em relevo o papel da cultura na constituição do que se conhecia por feminilidade e na própria teoria psicanalítica 9 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino Considerações Finais O presente artigo objetivou através de estudo teórico retomar algumas produções de Karen Horney em relação à crítica ao referencial masculina presente em sua obra e suas consequentes produções sobre feminilidade O intuito dessa retomada não consiste em sugerir que suas contribuições devem ser relevadas em detrimento de outras mas em mostrar que as críticas a algumas concepções psicanalíticas sobre diferença e sexual não são recentes e a teoria freudiana sobre o tema não foi aceita unanimemente nos círculos psicanalíticos até poucos anos atrás Na realidade desde os momentos mais iniciais no campo psicanalítico críticas e outras possibilidades de leitura sobre a feminilidade que reconhecessem o atravessamento do patriarcado na construção da própria teoria foram realizadas notadamente por Horney Sublinhase que malgrado suas produções contenham algumas noções cisheteronormativas suas contribuições em relação ao atravessamento de preconceitos de uma cultura patriarcal na teoria psicanalítica e de ideologias masculinas que provocam ruídos para a escuta e a teorização são ferramentas para discussões atuais no campo dos enlaces entre Psicanálise feminismos e estudos de gênero Ademais a atenção prestada à dimensão cultural que atravessa a constituição do psiquismo e a defesa de que psicanalistas se ocupassem dessas questões também se apresenta como concepção que se mantém atual Concluímos assim que tanto em termos históricos quanto em termos de relevância teórica a obra da autora se faz relevante para o campo psicanalítico em suas intersecções com feminismos e estudos de gênero É digno de nota que Karen Horney influenciou diretamente outras autoras que trabalharam nas encruzilhadas desses campos como Gayle Rubin 1975 e Luce Irigaray 2017 A ampliação das perspectivas de leitura que possibilita a aposta na hibridez com outras áreas de conhecimento e no avanço da psicanálise em detrimento da fixidez em determinadas doutrinas atualizamse como contribuições que mesmo datadas em quase um século permanecem vivas e atuais Referências Alexander F Eisenstein S Grotjahn M 1966 Psychoanalytic pioneers A History of Psychoanalysis as seen through the lives and works of its most eminent teachers thinkers and clinicians Basic Books Ambra P E S Silva N Orgs 2014 Histeria e gênero Sexo como desencontro nVersos Amorim P M Belo F R R 2020 A monogamia em Karen Horney Considerações acerca das construções psicanalíticas sobre feminilidade Psicologia em Revista 261 246268 DOI 105752P167895632020v26n1p239260 Brasil M V Costa A B 2018 Psicanálise feminismo e os caminhos para a maternidade Diálogos possíveis Psicologia Clínica 303 427446 Link Cavalheiro R Silva M R 2020 Psicanálise e dissidências de gênero Questões para além da diferença sexual Revista Subjetividades 203 e9793 DOI 10502023590777rsv20i3e9793 Ceccarelli P Org 2019 Psicanálise sexualidade e gênero Um debate em construção Zagodoni Eckardt M H 2005 Karen Horney A portrait The American Journal of Psychoanalysis 652 95101 Link Freud S 1977a Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna In J Strachey Ed Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol 9 Imago Originalmente publicado em 1908 Freud S 1977b Sobre a sexualidade feminina In J Strachey Ed Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol 21 Imago Originalmente publicado em 1931 Freud S 1996 A organização genital infantil Uma interpolação na teoria da sexualidade In J Strachey Ed Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol 19 Imago Originalmente publicado em 1923 Freud S 2006 Feminilidade In J Strachey Ed Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas vol 22 Imago Originalmente publicado em 1933 Garrison D 1981 Karen Horney and feminism Signs Journal of Women in Culture and Society 64 672691 Link 10 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari Gilman S 2001 Karen Horney M D 18851962 The American Journal of Psychiatry 1588 1205 DOI 101176 appiajp15881205 Horney K 1966 Novos rumos na psicanálise Civilização Brasileira Originalmente publicado em 1939 Horney K 1977 A personalidade neurótica do nosso tempo Civilização Brasileira Originalmente publicado em 1936 Horney K 1991a A fuga da feminilidade In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1926 Horney K 1991b A gênese do complexo de castração nas mulheres In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1923 Horney K 1991c A desconfiança entre os sexos In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1931 Horney K 1991d O medo da mulher In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1932 Horney K 1991e A negação da vagina In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1933 Horney K 1991f A supervalorização do amor In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1934 Horney K 1991g O masoquismo feminino In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1935 Irigaray L 2017 Este sexo que não é só um sexo Sexualidade e status social da mulher Editora Senac Natterson J M 1966 Karen Horney The cultural emphasis In F Alexander S Eisenstein M Grotjahn Psychoanalytic pioneers A History of psychoanalysis as seen through the lives and works of its most eminent teachers thinkers and clinicians Basic Books Mariotto R M M Org 2018 Gênero e sexualidade na infância e adolescência Reflexões psicanalíticas Ágalma Martins P G 2021 A norma do falo e a abjeção da mulher na psicanálise Revista Subjetividades 211 e10945 DOI 10502023590777rsv21i1e10945 Martins A A Silveira L Orgs 2020 Freud e o patriarcado Hedra Rosa C T Weinmann A O 2020 A sexualidade feminina em escritos das pioneiras da psicanálise Subjetividades 203 113 DOI 10502023590777rsv20i3e9499 Rubin G 1975 Tráfico de mulheres SOS Corpo Santos B 2018 Normatividade gênero e teoria psicanalítica Uma reflexão sobre a criação de palavras novas Ágora 211 2333 DOI 101590180944142018001003 Sayers J 1992 Mães da psicanálise Helene Deutsch Karen Horney Anna Freud e Melanie Klein Zahar Spielrein S 2014 A destruição como origem do devir In R Cromberg Ed Sabina SpielreIn Uma pioneira da psicanálise vol 1 Livros da Matriz Originalmente publicado em 1911 Stona J Ferrari A G 2020 Transfobias psicanalíticas Revista Subjetividades 201 e9778 DOI 10502023590777 11 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino Recebido em 22062021 Revisado em 09022022 Aceito em 28022022 Publicado online 27122022 Endereço para correspondência Larissa Ramos da Silva Email larissaramos63gmailcom Andrea Gabriela Ferrari Email ferrariaghotmailcom Como citar Silva L R da Ferrari A G 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino Revista Subjetividades 223 e12759 httpdoiorg10502023590777rsv22i3e12759 rsv20i1e9778 Winnicott D W 1975 O brincar e a realidade Imago O MALESTAR NA CULTURA1 Sigmund Freud I É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação isto é de que buscam poder sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida No entanto ao formular qualquer juízo geral desse tipo corremos o risco de esquecer quão variados são o mundo humano e sua vida mental Existem certos homens que não contam com a admiração de seus contemporâneos embora a grandeza deles repouse em atributos e realizações completamente estranhos aos objetivos e aos ideais da multidão Facilmente poderseia ficar inclinado a supor que no final das contas apenas uma minoria aprecia esses grandes homens ao passo que a maioria pouco se importa com eles Contudo devido não só às discrepâncias existentes entre os pensamentos das pessoas e as suas ações como também à diversidade de seus impulsos plenos de desejo as coisas provavelmente não são tão simples assim Um desses seres excepcionais referese a si mesmo como meu amigo nas cartas que me remete Envieilhe o meu pequeno livro que trata a religião como sendo uma ilusão e ele me respondeu que concordava inteiramente com esse meu juízo lamentando porém que eu não tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade Esta diz ele consiste num sentimento peculiar que ele mesmo jamais deixou de ter presente em si que encontra confirmado por muitos outros e que pode imaginar atuante em milhões de pessoas Tratase de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de eternidade um sentimento de algo ilimitado sem fronteiras oceânico por assim dizer Esse sentimento acrescenta configura um fato puramente subjetivo e não um artigo de fé não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam as diversas Igrejas e sistemas religiosos é por eles veiculado para canais específicos e indubitavelmente também por eles exaurido Acredita ele que uma pessoa embora rejeite toda crença e toda ilusão pode corretamente chamarse a si mesma de religiosa com fundamento apenas nesse sentimento oceânicoAs opiniões expressas por esse amigo que tanto respeito e que outrora já louvara a magia da ilusão num poema causaramme não pequena dificuldade Não consigo descobrir em mim esse sentimento oceânico Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos Podese tentar descrever os seus sinais fisiológicos Onde isso não é possível e temo que também o sentimento oceânico desafie esse tipo de caracterização nada resta senão cair no conteúdo ideacional que de forma mais imediata está associado ao sentimento Se compreendi corretamente o meu amigo ele quer significar com esse sentimento a mesma coisa que o consolo oferecido por um dramaturgo original e um tanto excêntrico ao seu herói que enfrenta uma morte autoinfligida Não podemos pular para fora deste mundoIsso equivale a dizer que se trata do sentimento de um vínculo indissolúvel de ser uno com o mundo externo como um todo Posso observar que para mim isto parece antes algo da natureza de uma percepção intelectual que na verdade pode vir acompanhada de um tom de sentimento embora apenas da forma como este se acharia presente em qualquer outro ato de pensamento de igual alcance Segundo minha própria experiência não consegui convencerme da natureza primária desse sentimento isso porém não me dá o direito de negar que ele de fato ocorra em outras pessoas A única questão consiste em verificar se está sendo corretamente interpretado e se deve ser encarado como a fons et origo de toda a necessidade de religião Nada tenho a sugerir que possa exercer influência decisiva na solução desse problema A idéia de os homens receberem uma indicação de sua vinculação com o mundo que os cerca por meio de um sentimento imediato que desde o início é dirigido para esse fim soa de modo tão estranho e se ajusta tão mal ao contexto de nossa psicologia que se torna justificável a tentativa de descobrir uma explicação psicanalítica isto é genética para esse sentimento A linha de pensamento que se segue sugere isso por si mesma Normalmente não nada de que possamos estar mais certos do que do sentimento de nosso eu do nosso próprio ego O ego nos aparece como algo autônomo e unitário distintamente demarcado de tudo o mais Ser essa aparência enganadora apesar de que pelo contrário o ego seja continuado para dentro sem qualquer delimitação nítida por uma entidade mental inconsciente que designamos como id à qual o ego serve como uma espécie de fachada configurou uma descoberta efetuada pela primeira vez através da pesquisa psicanalítica que de resto ainda deve ter muito mais a nos dizer sobre o relacionamento do ego com o id No sentido do exterior porém o ego de qualquer modo parece manter linhas de demarcação bem e claras e nítidas Há somente um estado indiscutivelmente fora o comum embora não possa estigmatizado como patológico em que ele não se apresenta assim No auge do sentimento de amor a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecerContra todas as provas de seus sentidos um homem que se ache enamorado declara que eu e tu são um só e está preparado para se conduzir como se isso constituísse um fato Aquilo que pode ser temporariamente eliminado por uma função fisiológica isto é normal deve também naturalmente estar sujeito a perturbações causadas por processos patológicos A patologia nos familiarizou com grande número de estados em que as linhas fronteiriças entre o ego e o mundo externo se tornam incertas ou nos quais na realidade elas se acham incorretamente traçadas Há casos em que partes do próprio corpo de uma pessoa inclusive partes de sua própria vida mental suas percepções pensamentos e sentimentos lhe parecem estranhas e como não pertencentes a seu ego há outros casos em que a pessoa atribui ao mundo externo coisas que claramente se originam em seu próprio ego e que por este deveriam ser reconhecidas Assim até mesmo o sentimento de nosso próprio ego está sujeito a distúrbios e as fronteiras do ego não são permanentes Uma reflexão mais apurada nos diz que o sentimento do ego do adulto não pode ter sido o mesmo desde o início Deve ter passado por um processo de desenvolvimento que se não pode ser demonstrado pode ser construído com um razoável grau de probabilidade Uma criança recém nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela Aprende gradativamente a fazêlo reagindo a diversos estímulos Ela deve ficar fortemente impressionada pelo fato de certas fontes de excitação que posteriormente identificará como sendo os seus próprios órgãos corporais poderem provêla de sensações a qualquer momento ao passo que de tempos em tempos outras fontes lhe fogem entre as quais se destaca a mais desejada de todas o seio da mãe só reaparecendo como resultado de seus gritos de socorro Desse modo pela primeira vez o ego é contrastado por um objeto sob a forma de algo que existe exteriormente e que só é forçado a surgir através de uma ação especial Um outro incentivo para o desengajamento do ego com relação à massa geral de sensações isto é para o reconhecimento de um exterior de um mundo externo é proporcionado pelas freqüentes múltiplas e inevitáveis sensações de sofrimento e desprazer cujo afastamento e cuja fuga são impostos pelo princípio do prazer no exercício de seu irrestrito domínio Surge então uma tendência a isolar do ego tudo que pode tornarse fonte de tal desprazer a lançálo para fora e a criar um puro ego em busca de prazer que sofre o confronto de um exterior estranho e ameaçador As fronteiras desse primitivo ego em busca de prazer não podem fugir a uma retificação através da experiência Entretanto algumas das coisas difíceis de serem abandonadas por proporcionarem prazer são não ego mas objeto e certos sofrimentos que se procura extirpar mostramse inseparáveis do ego por causa de sua origem interna Assim acabase por aprender um processo através do qual por meio de uma direção deliberada das próprias atividades sensórias e de uma ação muscular apropriada se pode diferenciar entre o que é interno ou seja que pertence ao ego e o que é externo ou seja que emana do mundo externo Desse modo dáse o primeiro passo no sentido da introdução do princípio da realidade que deve dominar o desenvolvimento futuro Essa diferenciação naturalmente serve à finalidade prática de nos capacitar para a defesa contra sensações de desprazer que realmente sentimos ou pelas quais somos ameaçados A fim de desviar certas excitações desagradáveis que surgem do interior o ego não pode utilizar senão os métodos que utiliza contra o desprazer oriundo do exterior e este é o ponto de partida de importantes distúrbios patológicosDesse modo então o ego se separa do mundo externo Ou numa expressão mais correta originalmente o ego inclui tudo posteriormente separa de si mesmo um mundo externo Nosso presente sentimento do ego não passa portanto de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo na verdade totalmente abrangente que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca Supondo que há muitas pessoas em cuja vida mental esse sentimento primário do ego persistiu em maior ou menor grau ele existiria nelas ao lado do sentimento do ego mais estrito e mais nitidamente demarcado da maturidade como uma espécie de correspondente seu Nesse caso o conteúdo ideacional a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o universo as mesmas idéias com que meu amigo elucidou o sentimento oceânico Contudo terei eu o direito de presumir a sobrevivência de algo que já se encontrava originalmente lá lado a lado com o que posteriormente dele se derivou Sem dúvida sim Nada existe de estranho em tal fenômeno tanto no campo mental como em qualquer outro No reino animal atemonos à opinião de que as espécies mais altamente desenvolvidas se originaram das mais baixas no entanto ainda hoje encontramos em existência todas as formas simples A raça dos grandes sáurios se extinguiu e abriu caminho para os mamíferos o crocodilo porém legítimo representante dos sáurios ainda vive entre nós Essa analogia pode ser excessivamente remota além de debilitada pela circunstância de as espécies inferiores sobreviventes não serem em sua maioria os verdadeiros ancestrais das espécies mais altamente desenvolvidas dos dias atuais Via de regra os elos intermediários extinguiramse e só os conhecemos através de reconstruções No domínio da mente por sua vez o elemento primitivo se mostra tão comumente preservado ao lado da versão transformada que dele surgiu que se faz desnecessário fornecer exemplos como prova Quando isso ocorre é geralmente em conseqüência de uma divergência no desenvolvimento determinada parte no sentido quantitativo de uma atitude ou de um impulso instintivo permaneceu inalterada ao passo que outra sofreu um desenvolvimento ulterior Esse fato nos conduz ao problema mais geral da preservação na esfera da mente O assunto mal foi estudado ainda mas é tão atraente e importante que nos será permitido voltarmos um pouco nossa atenção para ele ainda que nossa desculpa seja insuficiente Desde que superamos o erro de supor que o esquecimento com que nos achamos familiarizados significava a destruição do resíduo mnêmico isto é a sua aniquilação ficamos inclinados a assumir o ponto de vista oposto ou seja o de que na vida mental nada do que uma vez se formou pode perecer o de que tudo é de alguma maneira preservado e que em circunstâncias apropriadas quando por exemplo a regressão volta suficientemente atrás pode ser trazido de novo à luz Tentemos apreender o que essa suposição envolve estabelecendo uma analogia com outro campo Escolheremos como exemplo a história da Cidade Eterna Os historiadores nos dizem que a Roma mais antiga foi a Roma Quadrata uma povoação sediada sobre o Palatino Seguiuse a fase dos Septimontium uma federação das povoações das diferentes colinas depois veio a cidade limitada pelo Muro de Sérvio e mais tarde ainda após todas as transformações ocorridas durante os períodos da república e dos primeiros césares a cidade que o imperador Aureliano cercou com as suas muralhas Não acompanharemos mais as modificações por que a cidade passou perguntarnosemos porém o quanto um visitante que imaginaremos munido do mais completo conhecimento histórico e topográfico ainda pode encontrar na Roma de hoje de tudo que restou dessas primeiras etapas À exceção de umas poucas brechas verá o Muro de Aureliano quase intacto Em certas partes poderá encontrar seções do Muro de Sérvio que foram escavadas e trazidas à luz Se souber bastante mais do que a arqueologia atual conhece talvez possa traçar na planta da cidade todo o perímetro desse muro e o contorno da Roma Quadrata Dos prédios que outrora ocuparam essa antiga área nada encontrará ou quando muito restos escassos já que não existem mais No máximo as melhores informações sobre a Roma da era republicana capacitariamno apenas a indicar os locais em que os templos e edifícios públicos daquele período se erguiam Seu sítio achase hoje tomado por ruínas não pelas ruínas deles próprios mas pelas de restaurações posteriores efetuadas após incêndios ou outros tipos de destruição Também fazse necessário observar que todos esses remanescentes da Roma antiga estão mesclados com a confusão de uma grande metrópole que se desenvolveu muito nos últimos séculos a partir da Renascença Sem dúvida já não há nada que seja antigo enterrado no solo da cidade ou sob os edifícios modernos Este é o modo como se preserva o passado em sítios históricos como Roma Permitamnos agora num vôo da imaginação supor que Roma não é uma habitação humana mas uma entidade psíquica com um passado semelhantemente longo e abundante isto é uma entidade onde nada do que outrora surgiu desapareceu e onde todas as fases anteriores de desenvolvimento continuam a existir paralelamente à última Isso significaria que em Roma os palácios dos césares e as Septizonium de Sétimo Severo ainda se estariam erguendo em sua antiga altura sobre o Palatino e que o castelo de Santo Ângelo ainda apresentaria em suas ameias as belas estátuas que o adornavam até a época do cerco pelos godos e assim por diante Mais do que isso no local ocupado pelo Palazzo Cafarelli mais uma vez se ergueria sem que o Palazzo tivesse de ser removido o Templo de Júpiter Capitolino não apenas em sua última forma como os romanos do Império o viam mas também na primitiva quando apresentava formas etruscas e era ornamentado por antefixas de terracota Ao mesmo tempo onde hoje se ergue o Coliseu poderíamos admirar a desaparecida Casa Dourada de Nero Na Praça do Panteão encontraríamos não apenas o atual tal como legado por Adriano mas aí mesmo o edifício original levantado por Agripa na verdade o mesmo trecho de terreno estaria sustentando a Igreja de Santa Maria sobre Minerva e o antigo templo sobre o qual ela foi construída E talvez o observador tivesse apenas de mudar a direção do olhar ou a sua posição para invocar uma visão ou a outra A essa altura não faz sentido prolongarmos nossa fantasia de uma vez que ela conduz a coisas inimagináveis e mesmo absurdas Se quisermos representar a seqüência histórica em termos espaciais só conseguiremos fazêlo pela justaposição no espaço o mesmo espaço não pode ter dois conteúdos diferentes Nossa tentativa parece ser um jogo ocioso Ela conta com apenas uma justificativa Mostra quão longe estamos de dominar as características da vida mental através de sua representação em termos pictóricos Há outra objeção a ser considerada Podese levantar a questão da razão por que escolhemos precisamente o passado de uma cidade para comparálo com o passado da mente A suposição de que tudo o que passou é preservado se aplica mesmo na vida mental só com a condição de que o órgão da mente tenha permanecido intacto e que seus tecidos não tenham sido danificados por trauma ou inflamação Mas influências destrutivas que possam ser comparadas a causas de enfermidade como as citadas acima nunca faltam na história de uma cidade ainda que tenha tido um passado menos diversificado que o de Roma e ainda que como Londres mal tenha sofrido com as visitas de um inimigo Demolições e substituições de prédios ocorrem no decorrer do mais pacífico desenvolvimento de uma cidade Uma cidade é portanto a priori inapropriada para uma comparação desse tipo com um organismo mental Curvamonos ante essa objeção e abandonando nossa tentativa de esboçar um contraste impressivo nos voltaremos para o que afinal de contas constitui um objeto de comparação mais estreitamente relacionado o corpo de um animal ou o de um ser humano Aqui também no entanto encontramos a mesma coisa As primeiras fases do desenvolvimento já não se acham em sentido algum preservadas foram absorvidas pelas fases posteriores às quais forneceram material O embrião não pode ser descoberto no adulto A glândula do timo da infância sendo substituída após a puberdade por tecidos de ligação não mais se apresenta como tal nas medulas ósseas do homem adulto posso sem dúvida traçar o contorno do osso infantil embora este tenha desaparecido alongandose e espessandose até atingir sua forma definitiva Permanecem o fato de que só na mente é possível a preservação de todas as etapas anteriores lado a lado com a forma final e o de que não estamos em condições de representar esse fenômeno em termos pictóricos Talvez estejamos levando longe demais essa reflexão Talvez devêssemos contentarnos em afirmar que o que se passou na vida mental pode ser preservado não sendo necessariamente destruído É sempre possível que mesmo na mente algo do que é antigo seja apagado ou absorvido quer no curso normal das coisas quer como exceção a tal ponto que não possa ser restaurado nem revivescido por meio algum ou que a preservação em geral dependa de certas condições favoráveis É possível mas nada sabemos a esse respeito Podemos apenas prendernos ao fato de ser antes regra e não exceção o passado acharse preservado na vida mental Assim estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento oceânico existe em muitas pessoas e nos inclinamos a fazer sua origem remontar a uma fase primitiva do sentimento do ego Surge então uma nova questão que direito tem esse sentimento de ser considerado como a fonte das necessidades religiosas Esse direito não me parece obrigatório Afinal de contas um sentimento só poderá ser fonte de energia se ele próprio for expressão de uma necessidade intensa A derivação das necessidades religiosas a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta pareceme incontrovertível desde que em particular o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai Dessa maneira o papel desempenhado pelo sentimento oceânico que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado é deslocado de um lugar em primeiro plano A origem da atitude religiosa pode ser remontada em linhas muito claras até o sentimento de desamparo infantil Pode haver algo mais por trás disso mas presentemente ainda está envolto em obscuridade Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente A unidade com o universo que constitui seu conteúdo ideacional soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçálo a partir do mundo externo Permitamme admitir mais uma vez que para mim é muito difícil trabalhar com essas quantidades quase intangíveis Outro amigo meu cuja insaciável vontade de saber o levou a realizar as experiências mais inusitadas acabando por lhe dar um conhecimento enciclopédico asseguroume que através das práticas de ioga pelo afastamento do mundo pela fixação da atenção nas funções corporais e por métodos peculiares de respiração uma pessoa pode de fato evocar em si mesma novas sensações e cenestesias consideradas estas como regressões a estados primordiais da mente que há muito tempo foram recobertos Ele vê nesses estados uma base por assim dizer fisiológica de grande parte da sabedoria do misticismo Não seria difícil descobrir aqui vinculações com certo número de obscuras modificações da vida mental tais como os transes e os êxtases Contudo sou levado a exclamar como nas palavras do mergulhador de Schiller Es freue sich Wer da atmet im rosigten Licht II Em meu trabalho O Futuro de uma Ilusão 1927c estava muito menos interessado nas fontes mais profundas do sentimento religioso do que naquilo que o homem comum entende como sua religião o sistema de doutrinas e promessas que por um lado lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável e que por outro lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará numa existência futura de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens enternecerse com suas preces e aplacarse com os sinais de seu remorso Tudo é tão patentemente infantil tão estranho à realidade que para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e não obstante isso tentam defendêla item por item numa série de lamentáveis atos retrógrados Gostaríamos de nos mesclar às fileiras dos crentes a fim de encontrarmos aqueles filósofos que consideram poder salvar o Deus da religião substituindoo por um princípio impessoal obscuro e abstrato e dirigirmoslhes as seguintes palavras de advertência Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão E se alguns dos grandes homens do passado agiram da mesma maneira de modo nenhum se pode invocar seu exemplo sabemos por que foram obrigados a isso Retornemos ao homem comum e à sua religião a única que deveria levar esse nome A primeira coisa em que pensamos é na bem conhecida expressão de um de nossos maiores poetas e pensadores referindose à relação da religião com a arte e a ciência Wer Wissenschaft und Kunst besitzt hat auch Religion Wer jene beide nicht besitzt der habe Religion Esses dois versos por um lado traçam uma antítese entre a religião e as duas mais altas realizações do homem e por outro asseveram que com relação ao seu valor na vida essas realizações e a religião podem representarse ou substituirse mutuamente Se também nos dispusermos a privar o homem comum que não possui nem ciência nem arte de sua religião é claro que não teremos de nosso lado a autoridade do poeta Escolheremos um caminho específico para nos aproximarmos mais de uma justa apreciação de suas palavras A vida tal como a encontramos é árdua demais para nós proporcionanos muitos sofrimentos decepções e tarefas impossíveis A fim de suportála não podemos dispensar as medidas paliativas Não podemos passar sem construções auxiliares diznos Theodor Fontane Existem talvez três medidas desse tipo derivativos poderosos que nos fazem extrair luz de nossa desgraça satisfações substitutivas que a diminuem e substâncias tóxicas que nos tornam insensíveis a ela Algo desse tipo é indispensável Voltaire tinha os derivativos em mente quando terminou Candide com o conselho para cultivarmos nosso próprio jardim e a atividade científica constitui também um derivativo dessa espécie As satisfações substitutivas tal como as oferecidas pela arte são ilusões em contraste com a realidade nem por isso contudo se revelam menos eficazes psiquicamente graças ao papel que a fantasia assumiu na vida mental As substâncias tóxicas influenciam nosso corpo e alteram a sua química Não é simples perceber onde a religião encontra o seu lugar nessa série Temos de pesquisar mais adiante A questão do propósito da vida humana já foi levantada várias vezes nunca porém recebeu resposta satisfatória e talvez não a admita Alguns daqueles que a formularam acrescentaram que se fosse demonstrado que a vida não tem propósito esta perderia todo valor para eles Tal ameaça porém não altera nada Pelo contrário faz parecer que temos o direito de descartar a questão já que ela parece derivar da presunção humana da qual muitas outras manifestações já nos são familiares Ninguém fala sobre o propósito da vida dos animais a menos talvez que se imagine que ele resida no fato de os animais se acharem a serviço do homem Contudo tampouco essa opinião é sustentável de uma vez que existem muitos animais de que o homem nada pode se aproveitar exceto descrevêlos classificálos e estudálos ainda assim inumeráveis espécies de animais escaparam inclusive a essa utilização pois existiram e se extinguiram antes que o homem voltasse seus olhos para elas Mais uma vez só a religião é capaz de resolver a questão do propósito da vida Dificilmente incorreremos em erro ao concluirmos que a idéia de a vida possuir um propósito se forma e desmorona com o sistema religiosoVoltarnosemos portanto para uma questão menos ambiciosa a que se refere àquilo que os próprios homens por seu comportamento mostram ser o propósito e a intenção de suas vidas O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar A resposta mal pode provocar dúvidas Esforçamse para obter felicidade querem ser felizes e assim permanecer Essa empresa apresenta dois aspectos uma meta positiva e uma meta negativa Por um lado visa a uma ausência de sofrimento e de desprazer por outro à experiência de intensos sentimentos de prazer Em seu sentido mais restrito a palavra felicidade só se relaciona a esses últimos Em conformidade a essa dicotomia de objetivos a atividade do homem se desenvolve em duas direções segundo busque realizar de modo geral ou mesmo exclusivamente um ou outro desses objetivos Como vemos o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início Não pode haver dúvida sobre sua eficácia ainda que o seu programa se encontre em desacordo com o mundo inteiro tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo Não há possibilidade alguma de ele ser executado todas as normas do universo sãolhe contrárias Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja feliz não se acha incluída no plano da Criação O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação de preferência repentina de necessidades represadas em alto grau sendo por sua natureza possível apenas como uma manifestação episódica Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga ela produz tãosomente um sentimento de contentamento muito tênue Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste e muito pouco de um determinado estado de coisas Assim nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar O sofrimento nos ameaça a partir de três direções de nosso próprio corpo condenado à decadência e à dissolução e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência do mundo externo que pode voltarse contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas e finalmente de nossos relacionamentos com os outros homens O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro Tendemos a encarálo como uma espécie de acréscimo gratuito embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes Não admira que sob a pressão de todas essas possibilidades de sofrimento os homens se tenham acostumado a moderar suas reivindicações de felicidade tal como na verdade o próprio princípio do prazer sob a influência do mundo externo se transformou no mais modesto princípio da realidade que um homem pense ser ele próprio feliz simplesmente porque escapou à infelicidade ou sobreviveu ao sofrimento e que em geral a tarefa de evitar o sofrimento coloque a de obter prazer em segundo plano A reflexão nos mostra que é possível tentar a realização dessa tarefa através de caminhos muito diferentes e que todos esses caminhos foram recomendados pelas diversas escolas de sabedoria secular e postos em prática pelos homens Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresentasenos como o método mais tentador de conduzir nossas vidas isso porém significa colocar o gozo antes da cautela acarretando logo o seu próprio castigo Os outros métodos em que a fuga do desprazer constitui o intuito primordial diferenciamse de acordo com a fonte de desprazer para a qual sua atenção está principalmente voltada Alguns desses métodos são extremados outros moderados alguns são unilaterais outros atacam o problema simultaneamente em diversos pontos Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos a defesa mais imediata é o isolamento voluntário o manterse à distância das outras pessoas A felicidade passível de ser conseguida através desse método é como vemos a felicidade da quietude Contra o temível mundo externo só podemos defendernos por algum tipo de afastamento dele se pretendermos solucionar a tarefa por nós mesmos Há é verdade outro caminho e melhor o de tornarse membro da comunidade humana e com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência passar para o ataque à natureza e sujeitála à vontade humana Trabalhase então com todos para o bem de todos Contudo os métodos mais interessantes de evitar o sofrimento são os que procuram influenciar o nosso próprio organismo Em última análise todo sofrimento nada mais é do que sensação só existe na medida em que o sentimos e só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo está reguladoO mais grosseiro embora também o mais eficaz desses métodos de influência é o químico a intoxicação Não creio que alguém compreenda inteiramente o seu mecanismo é fato porém que existem substâncias estranhas as quais quando presentes no sangue ou nos tecidos provocam em nós diretamente sensações prazerosas alterando também tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade que nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis Os dois efeitos não só ocorrem de modo simultâneo como parecem estar íntima e mutuamente ligados No entanto é possível que haja substâncias na química de nossos próprios corpos que apresentem efeitos semelhante pois conhecemos pelo menos um estado patológico a mania no qual uma condição semelhante à intoxicação surge sem administração de qualquer droga intoxicante Além disso nossa vida psíquica normal apresenta oscilações entre uma liberação de prazer relativamente fácil e outra comparativamente difícil paralela à qual ocorre uma receptividade diminuída ou aumentada ao desprazer É extremamente lamentável que até agora esse lado tóxico dos processos mentais tenha escapado ao exame científico O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício que tanto indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar permanente na economia de sua libido Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo pois sabese que com o auxílio desse amortecedor de preocupações é possível em qualquer ocasião afastarse da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio com melhores condições de sensibilidade Sabe se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos São responsáveis em certas circunstâncias pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser empregada para o aperfeiçoamento do destino humano A complicada estrutura de nosso aparelho mental admite contudo um grande número de outras influências Assim como a satisfação do instinto equivale para nós à felicidade assim também um grave sofrimento surge em nós caso o mundo externo nos deixe definhar caso se recuse a satisfazer nossas necessidades Podemos portanto ter esperanças de nos libertarmos de uma parte de nossos sofrimentos agindo sobre os impulsos instintivos Esse tipo de defesa contra o sofrimento se aplica mais ao aparelho sensorial ele procura dominar as fontes internas de nossas necessidades A forma extrema disso é ocasionada pelo aniquilamento dos instintos tal como prescrito pela sabedoria do mundo peculiar ao Oriente e praticada pelo ioga Caso obtenha êxito o indivíduo é verdade abandona também todas as outras atividades sacrifica a sua vida e por outra via mais uma vez atinge apenas a felicidade da quietude Seguimos o mesmo caminho quando os nossos objetivos são menos extremados e simplesmente tentamos controlar nossa vida instintiva Nesse caso os elementos controladores são os agentes psíquicos superiores que se sujeitaram ao princípio da realidade Aqui a meta da satisfação não é de modo algum abandonada mas garantese uma certa proteção contra o sofrimento no sentido de que a nãosatisfação não é tão penosamente sentida no caso dos instintos mantidos sob dependência como no caso dos instintos desinibidos Contra isso existe uma inegável diminuição nas potencialidades de satisfação O sentimento de felicidade derivado da satisfação de um selvagem impulso instintivo não domado pelo ego é incomparavelmente mais intenso do que o derivado da satisfação de um instinto que já foi domado A irresistibilidade dos instintos perversos e talvez a atração geral pelas coisas proibidas encontram aqui uma explicação econômica Outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade A tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do mundo externo Para isso ela conta com a assistência da sublimação dos instintos Obtémse o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual Quando isso acontece o destino pouco pode fazer contra nós Uma satisfação desse tipo como por exemplo a alegria do artista em criar em dar corpo às suas fantasias ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades possui uma qualidade especial que sem dúvida um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos Atualmente apenas de forma figurada podemos dizer que tais satisfações parecem mais refinadas e mais altas Contudo sua intensidade se revela muito tênue quando comparada com a que se origina da satisfação de impulsos instintivos grosseiros e primários ela não convulsiona o nosso ser físico E o ponto fraco desse método reside em não ser geralmente aplicável de uma vez que só é acessível a poucas pessoas Pressupõe a posse de dotes e disposições especiais que para qualquer fim prático estão longe de serem comuns E mesmo para os poucos que os possuem o método não proporciona uma proteção completa contra o sofrimento Não cria uma armadura impenetrável contra as investidas do destino e habitualmente falha quando a fonte do sofrimento é o próprio corpo da pessoaEnquanto esse procedimento já mostra claramente uma intenção de nos tornar independentes do mundo externo pela busca da satisfação em processos psíquicos internos o procedimento seguinte apresenta esses aspectos de modo ainda mais intenso Nele a distensão do vínculo com a realidade vai mais longe a satisfação é obtida através de ilusões reconhecidas como tais sem que se verifique permissão para que a discrepância entre elas e a realidade interfira na sua fruição A região onde essas ilusões se originam é a vida da imaginação na época em que o desenvolvimento do senso de realidade se efetuou essa região foi expressamente isentada das exigências do teste de realidade e posta de lado a fim de realizar desejos difíceis de serem levados a termo À frente das satisfações obtidas através da fantasia erguese a fruição das obras de arte fruição que por intermédio do artista é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores As pessoas receptivas à influência da arte não lhe podem atribuir um valor alto demais como fonte de prazer e consolação na vida Não obstante a suave narcose a que a arte nos induz não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais não sendo suficientemente forte para nos levar a esquecer a aflição real Um outro processo opera de modo mais energético e completo Considera a realidade como a única inimiga e a fonte de todo sofrimento com a qual é impossível viver de maneira que se quisermos ser de algum modo felizes temos de romper todas as relações com ela O eremita rejeita o mundo e não quer saber de tratar com ele Podese porém fazer mais do que isso podese tentar recriar o mundo em seu lugar construir um outro mundo no qual os seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por outros mais adequados a nossos próprios desejos Mas quem quer que numa atitude de desafio desesperado se lance por este caminho em busca da felicidade geralmente não chega a nada A realidade é demasiado forte para ele Tornase um louco alguém que a maioria das vezes não encontra ninguém para ajudálo a tornar real o seu delírio Afirmase contudo que cada um de nós se comporta sob determinado aspecto como um paranóico corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade Concedese especial importância ao caso em que a tentativa de obter uma certeza de felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade é efetuada em comum por um considerável número de pessoas As religiões da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse tipo É desnecessário dizer que todo aquele que partilha um delírio jamais o reconhece como tal Não pretendo ter feito uma enumeração completa dos métodos pelos quais os homens se esforçam para conseguir a felicidade e manter afastado o sofrimento sei também que o material poderia ter sido diferentemente disposto Ainda não mencionei um processo não por esquecimento mas porque nos interessará mais tarde em relação a outro assunto E como se poderia esquecer entre todas as outras a técnica da arte de viver Ela se faz visível por uma notável combinação de aspectos característicos Naturalmente visa também a tornar o indivíduo independente do Destino como é melhor chamálo e para esse fim localiza a satisfação em processos mentais internos utilizando ao proceder assim a deslocabilidade da libido que já mencionamosver 1 Mas ela não volta as costas ao mundo externo pelo contrário prendese aos objetos pertencentes a esse mundo e obtém felicidade de um relacionamento emocional com eles Tampouco se contenta em visar a uma fuga do desprazer uma meta poderíamos dizer de cansada resignação passa por ela sem lhe dar atenção e se aferra ao esforço original e apaixonado em vista de uma consecução completa da felicidade Na realidade talvez se aproxime mais dessa meta do que qualquer outro método Evidentemente estou falando da modalidade de vida que faz do amor o centro de tudo que busca toda satisfação em amar e ser amado Uma atitude psíquica desse tipo chega de modo bastante natural a todos nós uma das formas através da qual o amor se manifesta o amor sexual nos proporcionou nossa mais intensa experiência de uma transbordante sensação de prazer fornecendonos assim um modelo para nossa busca da felicidade Há porventura algo mais natural do que persistirmos na busca da felicidade do modo como a encontramos pela primeira vez O lado fraco dessa técnica de viver é de fácil percepção pois do contrário nenhum ser humano pensaria em abandonar esse caminho da felicidade por qualquer outro É que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor Isso porém não liquida com a técnica de viver baseada no valor do amor como um meio de obter felicidade Há muito mais a ser dito a respeito Ver 1 Daqui podemos passar à consideração do interessante caso em que a felicidade na vida é predominantemente buscada na fruição da beleza onde quer que esta se apresente a nossos sentidos e a nosso julgamento a beleza das formas e a dos gestos humanos a dos objetos naturais e das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas A atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento embora possa compensálo bastante A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento tenuemente intoxicante A beleza não conta com um emprego evidente tampouco existe claramente qualquer necessidade cultural sua Apesar disso a civilização não pode dispensála Embora a ciência da estética investigue as condições sob as quais as coisas são sentidas como belas tem sido incapaz de fornecer qualquer explicação a respeito da natureza e da origem da beleza e tal como geralmente acontece esse insucesso vem sendo escamoteado sob um dilúvio de palavras tão pomposas quanto ocas A psicanálise infelizmente também pouco encontrou a dizer sobre a beleza O que parece certo é sua derivação do campo do sentimento sexual O amor da beleza parece um exemplo perfeito de um impulso inibido em sua finalidadeBeleza e atração são originalmente atributos do objeto sexual Vale a pena observar que os próprios órgãos genitais cuja visão é sempre excitante dificilmente são julgados belos a qualidade da beleza ao contrário parece ligarse a certos caracteres sexuais secundários A despeito da deficiência de minha enumeração ver 1 aventurarmeei a algumas observações à guisa de conclusão para nossa investigação O programa de tornarse feliz que o princípio do prazer nos impõever 1não pode ser realizado contudo não devemos na verdade não podemos abandonar nossos esforços de aproximálo da consecução de uma maneira ou de outra Caminhos muito diferentes podem ser tomados nessa direção e podemos conceder prioridades quer ao aspecto positivo do objetivo obter prazer quer ao negativo evitar o desprazer Nenhum desses caminhos nos leva a tudo o que desejamos A felicidade no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível constitui um problema da economia da libido do indivíduo Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo de até onde é levado para tornarse independente dele e finalmente de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo a fim de adaptálo a seus desejos Nisso sua constituição psíquica desempenhará papel decisivo independentemente das circunstâncias externas O homem predominantemente erótico dará preferência aos seus relacionamentos emocionais com outras pessoas o narcisista que tende a ser autosuficiente buscará suas satisfações principais em seus processos mentais internos o homem de ação nunca abandonará o mundo externo onde pode testar sua força Quanto ao segundo desses tipos a natureza de seus talentos e a parcela de sublimação instintiva a ele aberta decidirão onde localizará os seus interesses Qualquer escolha levada a um extremo condena o indivíduo a ser exposto a perigos que surgem caso uma técnica de viver escolhida como exclusiva se mostre inadequada Assim como o negociante cauteloso evita empregar todo seu capital num só negócio assim também talvez a sabedoria popular nos aconselhe a não buscar a totalidade de nossa satisfação numa só aspiração Seu êxito jamais é certo pois depende da convergência de muitos fatores talvez mais do que qualquer outro da capacidade da constituição psíquica em adaptar sua função ao meio ambiente e então explorar esse ambiente em vista de obter um rendimento de prazer Uma pessoa nascida com uma constituição instintiva especialmente desfavorável e que não tenha experimentado corretamente a transformação e a redisposição de seus componentes libidinais indispensáveis às realizações posteriores achará difícil obter felicidade em sua situação externaem especial se vier a se defrontar com tarefas de certa dificuldade Como uma última técnica de vida pelo que menos lhe trará satisfações substitutivas élhe oferecida a fuga para a enfermidade neurótica fuga que geralmente efetua quando ainda é jovem O homem que em anos posteriores vê sua busca da felicidade resultar em nada ainda pode encontrar consolo no prazer oriundo da intoxicação crônica ou então se empenhar na desesperada tentativa de rebelião que se observa na psicose A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação desde que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência A esse preço por fixálas à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastálas a um delírio de massa a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual Dificilmente porém algo mais Existem como dissemos muitos caminhos que podem levar à felicidade passível de ser atingida pelos homens mas nenhum que o faça com toda segurança Mesmo a religião não consegue manter sua promessa Se finalmente o crente se vê obrigado a falar dos desígnios inescrutáveis de Deus está admitindo que tudo que lhe sobrou como último consolo e fonte de prazer possíveis em seu sofrimento foi uma submissão incondicional E se está preparado para isso provavelmente poderia terse poupado o détour que efetuou III Até agora nossa investigação sobre a felicidade não nos ensinou quase nada que já não pertença ao conhecimento comum E mesmo que passemos dela para o problema de saber por que é tão difícil para o homem ser feliz parece que não há maior perspectiva de aprender algo novo Já demos a respostaver 1 pela indicação das três fontes de que nosso sofrimento provém o poder superior da natureza a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família no Estado e na sociedade Quanto às duas primeiras fontes nosso julgamento não pode hesitar muito Ele nos força a reconhecer essas fontes de sofrimento e a nos submeter ao inevitável Nunca dominaremos completamente a natureza e o nosso organismo corporal ele mesmo parte dessa natureza permanecerá sempre como uma estrutura passageira com limitada capacidade de adaptação e realização Esse reconhecimento não possui um efeito paralisador Pelo contrário aponta a direção para a nossa atividade Se não podemos afastar todo sofrimento podemos afastar um pouco dele e mitigar outro tanto a experiência de muitos milhares de anos nos convenceu disso Quanto à terceira fonte a fonte social de sofrimento nossa atitude é diferente Não a admitimos de modo algum não podemos perceber por que os regulamentos estabelecidos por nós mesmos não representam ao contrário proteção e benefício para cada um de nós Contudo quando consideramos o quanto fomos malsucedidos exatamente nesse campo de prevenção do sofrimento surge em nós a suspeita de que também aqui é possível jazer por trás desse fato uma parcela de natureza inconquistável dessa vez uma parcela de nossa própria constituição psíquica Quando começamos a considerar essa possibilidade deparamonos com um argumento tão espantoso que temos de nos demorar nele Esse argumento sustenta que o que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas Chamo esse argumento de espantoso porque seja qual for a maneira por que possamos definir o conceito de civilização constitui fato incontroverso que todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as ameaças oriundas das fontes de sofrimento fazem parte dessa mesma civilização Como foi que tantas pessoas vieram a assumir essa estranha atitude de hostilidade para com a civilização Acredito que seu fundamento consistiu numa longa e duradoura insatisfação com o estado de civilização então existente e que nessa base se construiu uma condenação dela ocasionada por certos acontecimentos históricos específicos Penso saber quais foram a última e a penúltima dessas ocasiões Não sou suficientemente erudito para fazer remontar a origem de sua cadeia o mais distante possível na história da espécie humana mas um fator desse tipo hostil à civilização já devia estar em ação na vitória do cristianismo sobre as religiões pagãs de uma vez que se achava intimamente relacionado à baixa estima dada à vida terrena pela doutrina cristã A penúltima dessas ocasiões se instaurou quando o progresso das viagens de descobrimento conduziu ao contacto com povos e raças primitivos Em conseqüência de uma observação insuficiente e de uma visão equivocada de seus hábitos e costumes eles apareceram aos europeus como se levassem uma vida simples e feliz com poucas necessidades um tipo de vida inatingível por seus visitantes com sua civilização superior A experiência posterior corrigiu alguns desses julgamentos Em muitos casos os observadores haviam erroneamente atribuído à ausência de exigências culturais complicadas o que de fato era devido à generosidade da natureza e à facilidade com que as principais necessidades humanas eram satisfeitas A última ocasião nos é especialmente familiar Surgiu quando as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses que ameaçam solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens civilizados Descobriuse que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe a serviço de seus ideais culturais inferindose disso que a abolição ou redução dessas exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade Existe ainda um fator adicional de desapontamento Durante as últimas gerações a humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica estabelecendo seu controle sobre a natureza de uma maneira jamais imaginada As etapas isoladas desse progresso são do conhecimento comum sendo desnecessário enumerálas Os homens se orgulham de suas realizações e têm todo direito de se orgulharem Contudo parecem ter observado que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo a subjugação das forças da natureza consecução de um anseio que remonta a milhares de anos não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes Reconhecendo esse fato devemos contentarnos em concluir que o poder sobre a natureza não constitui a única precondição da felicidade humana assim como não é o único objetivo do esforço cultural Disso não devemos inferir que o progresso técnico não tenha valor para a economia de nossa felicidade Gostaríamos de perguntar não existe então nenhum ganho no prazer nenhum aumento inequívoco no meu sentimento de felicidade se posso tantas vezes quantas me agrade escutar a voz de um filho meu que está morando a milhares de quilômetros de distância ou saber no tempo mais breve possível depois de um amigo ter atingido seu destino que ele concluiu incólume a longa e difícil viagem Não significa nada que a medicina tenha conseguido não só reduzir enormemente a mortalidade infantil e o perigo de infecção para as mulheres no parto como também na verdade prolongar consideravelmente a vida média do homem civilizado Há uma longa lista que poderia ser acrescentada a esse tipo de benefícios que devemos à tão desprezada era dos progressos científicos e técnicos Aqui porém a voz da crítica pessimista se faz ouvir e nos adverte que a maioria dessas satisfações segue o modelo do prazer barato louvado pela anedota o prazer obtido ao se colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite de inverno e recolhêla novamente Se não houvesse ferrovias para abolir as distâncias meu filho jamais teria deixado sua cidade natal e eu não precisaria de telefone para ouvir sua voz se as viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas meu amigo não teria partido em sua viagem por mar e eu não precisaria de um telegrama para aliviar minha ansiedade a seu respeito Em que consiste a vantagem de reduzir a mortalidade infantil se é precisamente essa redução que nos impõe a maior coerção na geração de filhos de tal maneira que considerando tudo não criamos mais crianças do que nos dias anteriores ao reino da higiene ao passo que ao mesmo tempo criamos condições difíceis para nossa vida sexual no casamento e provavelmente trabalhamos contra os efeitos benéficos da seleção natural Enfim de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual mas é muito difícil formar uma opinião sobre se e em que grau os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão Sempre tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas isto é nos colocarmos com nossas próprias necessidades e sensibilidades nas condições delas e então examinar quais as ocasiões que nelas encontraríamos para experimentar felicidade ou infelicidade Esse método de examinar as coisas que parece objetivo por ignorar as variações na sensibilidade subjetiva é naturalmente o mais subjetivo possível de uma vez que coloca nossos próprios estados mentais no lugar de quaisquer outros por mais desconhecidos que estes possam ser A felicidade contudo é algo essencialmente subjetivo Por mais que nos retraiamos com horror de certas situações a de um escravo de galé na Antiguidade a de um camponês durante a Guerra dos Trinta Anos a de uma vítima da Inquisição a de um judeu à espera de um pogrom para nós sem embargo é impossível nos colocarmos no lugar dessas pessoas adivinhar as modificações que uma obtusidade original da mente um processo gradual de embrutecimento a cessação das esperanças e métodos de narcotização mais grosseiros ou mais refinados produziram sobre a receptividade delas às sensações de prazer e desprazer Além disso no caso da possibilidade mais extrema de sofrimento dispositivos mentais protetores e especiais são postos em funcionamento Pareceme improdutivo levar adiante esse aspecto do problema Já é tempo de voltarmos nossa atenção para a natureza dessa civilização sobre cujo valor como veículo de felicidade foram lançadas dúvidas Não procuraremos uma fórmula que exprima essa natureza em poucas palavras enquanto não tivermos aprendido alguma coisa através de seu exame Mais uma vez portanto nos contentaremos em dizer que a palavra civilização descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais e que servem a dois intuitos a saber o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos A fim de aprendermos mais reuniremos os diversos aspectos singulares da civilização tal como se apresentam nas comunidades humanas Agindo desse modo não hesitaremos em nos deixar guiar pelos hábitos lingüísticos ou como são também chamados sentimento lingüístico na convicção de que assim estamos fazendo justiça e discernimentos internos que ainda desafiam sua expressão em termos abstratos A primeira etapa é fácil Reconhecemos como culturais todas as atividades e recursos úteis aos homens por lhes tornarem a terra proveitosa por protegeremnos contra a violência das forças da natureza e assim por diante Em relação a esse aspecto de civilização dificilmente pode haver qualquer dúvida Se remontarmos suficientemente às origens descobriremos que os primeiros atos de civilização foram a utilização de instrumentos a obtenção do controle sobre o fogo e a construção de habitaçõesEntre estes o controle sobre o fogo sobressai como uma realização extraordinária e sem precedentes ao passo que os outros desbravaram caminhos que o homem desde então passou a seguir e cujo estímulo pode ser facilmente percebido Através de cada instrumento o homem recria seus próprios órgãos motores ou sensoriais ou amplia os limites de seu funcionamento A potência motora coloca forças gigantescas à sua disposição as quais como os seus músculos ele pode empregar em qualquer direção graças aos navios e aos aviões nem a água nem o ar podem impedir seus movimentos por meio de óculos corrige os defeitos das lentes de seus próprios olhos através do telescópio vê a longa distância e por meio do microscópio supera os limites de visibilidade estabelecidos pela estrutura de sua retina Na câmara fotográfica criou um instrumento que retém as impressões visuais fugidias assim como um disco de gramofone retém as auditivas igualmente fugidias ambas são no fundo materializações do poder que ele possui de rememoração isto é sua memória Com o auxílio do telefone pode escutar a distâncias que seriam respeitadas como inatingíveis mesmo num conto de fadas A escrita foi em sua origem a voz de uma pessoa ausente e a casa para moradia constituiu um substituto do útero materno o primeiro alojamento pelo qual com toda probabilidade o homem ainda anseia e no qual se achava seguro e se sentia à vontade Essas coisas que através de sua ciência e tecnologia o homem fez surgir na Terra sobre a qual no princípio ele apareceu como um débilorganismo animal e onde cada indivíduo de sua espécie deve mais uma vez fazer sua entrada oh inch of nature como se fosse um recémnascido desamparado essas coisas não apenas soam como um conto de fadas mas também constituem uma realização efetiva de todos ou quase todos os desejos de contos de fadas Todas essas vantagens ele as pode reivindicar como aquisição cultural sua Há muito tempo atrás ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses A estes atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido Podese dizer portanto que esses deuses constituíam ideais culturais Hoje ele se aproximou bastante da consecução desse ideal ele próprio quase se tornou um deus É verdade que isso só ocorreu segundo o modo como os ideais são geralmente atingidos de acordo com o juízo geral da humanidade Não completamente sob certos aspectos de modo algum sob outros apenas pela metade O homem por assim dizer tornouse uma espécie de Deus de prótese Quando faz uso de todos os seus órgãos auxiliares ele é verdadeiramente magnífico esses órgãos porém não cresceram nele e às vezes ainda lhe causam muitas dificuldades Não obstante ele tem o direito de se consolar pensando que esse desenvolvimento não chegará ao fim exatamente no ano de 1930 AD As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus No interesse de nossa investigação contudo não esqueceremos que atualmente o homem não se sente feliz em seu papel de semelhante a Deus Reconhecemos então que os países atingiram um alto nível de civilização quando descobrimos que neles tudo o que pode ajudar na exploração da Terra pelo homem e na sua proteção contra as forças da natureza tudo emsuma que é útil para ele está disponível e é passível de ser conseguido Nesses países os rios que ameaçam inundar as terras são regulados em seu fluxo e sua água é irrigada através de canais para lugares onde ela é escassa O solo é cuidadosamente cultivado e plantado com a vegetação apropriada e a riqueza mineral subterrânea é assiduamente trazida à superfície e modelada em implementos e utensílios indispensáveis Os meios de comunicação são amplos rápidos e dignos de confiança Os animais selvagens e perigosos foram exterminados e a criação de animais domésticos floresce Além dessas porém exigimos outras coisas da civilização sendo digno de nota o fato de esperarmos encontrálas realizadas nesses mesmos países Como se estivéssemos procurando repudiar a primeira exigência que fizemos reconhecemos igualmente como um sinal de civilização verificar que as pessoas também orientam suas preocupações para aquilo que não possui qualquer valor prático para o que não é lucrativo por exemplo os espaços verdes necessários a uma cidade como playgrounds e reservatórios de ar fresco são também ornados de jardins e as janelas das casas decoradas com vasos de flores De imediato constatamos que essa coisa não lucrativa que esperamos que a civilização valorize é a beleza Exigimos que o homem civilizado reverencie a beleza sempre que a perceba na natureza ou sempre que a crie nos objetos de seu trabalho manual na medida em que é capaz disso Mas isso está longe de exaurir nossas exigências quanto à civilização Esperamos ademais ver sinais de asseio e de ordem Não concebemos uma cidade do interior da Inglaterra na época de Shakespeare como possuidora de um alto nível cultural quando lemos que havia um grande monte de esterco em frente à casa de seu pai em Stratford também ficamos indignados e chamamos de bárbaro o oposto de civilizado quando nos deparamos com as veredas do Wiener Wald cobertas de papéis velhos A sujeira de qualquer espécie nos parece incompatível com a civilização Da mesma forma estendemos nossa exigência de limpeza ao corpo humano Ficamos estupefatos ao saber que o emanava um odor insuportável meneamos a cabeça quando na Isola Bella nos é mostrada a minúscula bacia em que Napoleão se lavava todas as manhãs Na verdade não nos surpreende a idéia de estabelecer o emprego do sabão como um padrão real de civilização Isso é igualmente verdadeiro quanto à ordem Assim como a limpeza ela só se aplica às obrasdo homem Contudo ao passo que não se espera encontrar asseio na natureza a ordem pelo contrário foi imitada a partir dela A observação que o homem fez das grandes regularidades astronômicas não apenas o muniu de um modelo para a introdução da ordem em sua vida mas também lhe forneceu os primeiros pontos de partida para proceder desse modo A ordem é uma espécie de compulsão a ser repetida compulsão que ao se estabelecer um regulamento de uma vez por todas decide quando onde e como uma coisa será efetuada e isso de tal maneira que em todas as circunstâncias semelhantes a hesitação e a indecisão nos são poupadas Os benefícios da ordem são incontestáveis Ela capacita os homens a utilizarem o espaço e o tempo para seu melhor proveito conservando ao mesmo tempo as forças psíquicas deles Deveríamos ter o direito de esperar que ela houvesse ocupado seu lugar nas atividades humanas desde o início e sem dificuldade e podemos ficar admirados de que isso não tenha acontecido de que pelo contrário os seres humanos revelem uma tendência inata para o descuido a irregularidade e a irresponsabilidade em seu trabalho e de que seja necessário um laborioso treinamento para que aprendam a seguir o exemplo de seus modelos celestes Evidentemente a beleza a limpeza e a ordem ocupam uma posição especial entre as exigências da civilização Ninguém sustentará que elas sejam tão importantes para a vida quanto o controle sobre as forças da natureza ou quanto alguns outros fatores com que ainda nos familiarizaremos No entanto ninguém procurará colocálas em segundo plano como se não passassem de trivialidades Que a civilização não se faz acompanhar apenas pelo que é útil já ficou demonstrado pelo exemplo da beleza que não omitimos entre os interesses da civilização A utilidade da ordem é inteiramente evidente Quando à limpeza devemos ter em mente aquilo que também a higiene exige de nós e podemos supor que mesmo anteriormente à profilaxia científica a conexão entre as duas não era de todo estranha ao homem Contudo a utilidade não explica completamente esses esforços deve existir algo mais que se encontre em ação Nenhum aspecto porém parece caracterizar melhor a civilização do que sua estima e seu incentivo em relação às mais elevadas atividades mentais do homem suas realizações intelectuais científicas e artísticas e o papel fundamental que atribui às idéias na vida humana Entre essas idéias em primeiro lugar se encontram os sistemas religiosos cuja complicada estrutura já me esforcei por esclarecer em outra oportunidade A seguir vêm as especulações da filosofia e finalmente o que se poderia chamar de ideaisdo homem suas idéias a respeito de uma possível perfeição dos indivíduos dos povos ou da humanidade como um todo e as exigências estabelecidas com fundamento nessas idéias O fato de essas criações do homem não serem mutuamente independentes mas pelo contrário se acharem estreitamente entrelaçadas aumenta a dificuldade não apenas de descrevêlas como também de traçar sua derivação psicológica Se de modo bastante geral supusermos que a força motivadora de todas as atividades humanas é um esforço desenvolvido no sentido de duas metas confluentes a de utilidade e a de obtenção de prazer teremos de supor que isso também é verdadeiro quanto às manifestações da civilização que acabamos de examinar embora só seja facilmente visível nas atividades científicas e estéticas Não se pode porém duvidar de que as outras atividades também correspondem a fortes necessidades dos homens talvez a necessidades que só se achem desenvolvidas numa minoria Tampouco devemos permitir sermos desorientados por juízos de valor referentes a qualquer religião qualquer sistema filosófico ou qualquer ideal Quer pensemos encontrar neles as mais altas realizações do espírito humano quer os deploremos como aberrações não podemos deixar de reconhecer que onde eles se acham presentes e em especial onde eles são dominantes está implícito um alto nível de civilização Resta avaliar o último mas decerto não o menos importante dos aspectos característicos da civilização a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens seus relacionamentos sociais são regulados relacionamentos estes que afetam uma pessoa como próximo como fonte de auxílio como objeto sexual de outra pessoa como membro de uma família e de um Estado Aqui é particularmente difícil manterse isento de exigências ideais específicas e perceber aquilo que é civilizado em geral Talvez possamos começar pela explicação de que o elemento de civilização entra em cena com a primeira tentativa de regular esses relacionamentos sociais Se essa tentativa não fosse feita os relacionamentos ficariam sujeitos à vontade arbitrária do indivíduo o que equivale a dizer que o homem fisicamente mais forte decidiria a respeito deles no sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos Nada se alteraria se por sua vez esse homem forte encontrasse alguém mais forte do que ele A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados O poder dessa comunidade é então estabelecido como direito em oposição ao poder do indivíduo condenado como força bruta A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização Sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem em suas possibilidades de satisfaçãoao passo que o indivíduo desconhece tais restrições A primeira exigência da civilização portanto é a da justiça ou seja a garantia de que uma lei uma vez criada não será violada em favor de um indivíduo Isso não acarreta nada quanto ao valor ético de tal lei O curso ulterior do desenvolvimento cultural parece tender no sentido de tornar a lei não mais expressão da vontade de uma pequena comunidade uma casta ou camada de uma população ou grupo racial que por sua vez se comporta como um indivíduo violento frente a outros agrupamentos de pessoas talvez mais numerosos O resultado final seria um estatuto legal para o qual todos exceto os incapazes de ingressar numa comunidade contribuíram com um sacrifício de seus instintos que não deixa ninguém novamente com a mesma exceção à mercê da força bruta A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização Ela foi maior antes da existência de qualquer civilização muito embora é verdade naquele então não possuísse na maior parte valor já que dificilmente o indivíduo se achava em posição de defendêla O desenvolvimento da civilização impõe restrições a ela e a justiça exige que ninguém fuja a essas restrições O que se faz sentir numa comunidade humana como desejo de liberdade pode ser sua revolta contra alguma injustiça existente e desse modo esse desejo pode mostrarse favorável a um maior desenvolvimento da civilização pode permanecer compatível com a civilização Entretanto pode também originarse dos remanescentes de sua personalidade original que ainda não se acha domada pela civilização e assim nela tornarse a base da hostilidade à civilização O impulso de liberdade portanto é dirigido contra formas e exigências específicas da civilização ou contra a civilização em geral Não parece que qualquer influência possa induzir o homem a transformar sua natureza na de uma térmita Indubitavelmente ele sempre defenderá sua reivindicação à liberdade individual contra a vontade do grupo Grande parte das lutas da humanidade centralizamse em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente isto é uma acomodação que traga felicidade entre essa reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se esse conflito é irreconciliável Permitindo que o sentimento comum assumisse o papel de nosso guia quanto a decidir sobre quais aspectos da vida humana devem ser encarados como civilizados conseguimos esboçar uma impressão bastante clara do quadro geral da civilização contudo é verdade que até agora não descobrimos nada que já não fosse universalmente conhecido Ao mesmo tempo tivemos o cuidado de não concordar com o preconceito de que civilização ésinônimo de aperfeiçoamento de que constitui a estrada para a perfeição preordenada para os homens Agora porém apresentase um ponto de vista que pode conduzir numa direção diferente O desenvolvimento da civilização nos aparece como um processo peculiar que a humanidade experimenta e no qual diversas coisas nos impressionam como familiares Podemos caracterizar esse processo referindoo às modificações que ele ocasiona nas habituais disposições instintivas dos seres humanos para satisfazer o que em suma constitui a tarefa econômica de nossas vidas Alguns desses instintos são empregados de tal maneira que em seu lugar aparece algo que num indivíduo descrevemos como um traço de caráter O exemplo mais notável desse processo é encontrado no erotismo anal das crianças Seu interesse original pela função excretória por seus órgãos e produtos transformase no decurso do crescimento num grupo de traços que nos são familiares tais como a parcimônia o sentido da ordem e da limpeza qualidades que embora valiosas e desejáveis em si mesmas podem ser intensificadas até se tornarem acentuadamente dominantes e produzirem o que se chama de caráter anal Não sabemos como isso acontece mas não há dúvida sobre a exatidão da descoberta Ora vimos que a ordem e a limpeza constituem exigências importantes de civilização embora sua necessidade vital não seja muito aparente da mesma forma que revelam indesejáveis como fonte de prazer Nesse ponto não podemos deixar de ficar impressionados pela semelhança existente entre os processos civilizatórios e o desenvolvimento libidinal do indivíduo Outros instintos além do erotismo anal são induzidos a deslocar as condições de sua satisfação a conduzilas para outros caminhos Na maioria dos casos esse processo coincide com o da sublimação dos fins instintivos com que nos achamos familiarizados noutros porém pode diferenciarse dele A sublimação do instinto constitui um aspecto particularmente evidente do desenvolvimento cultural é ela que torna possível às atividades psíquicas superiores científicas artísticas ou ideológicas o desempenho de um papel tão importante na vida civilizada Se nos rendêssemos a uma primeira impressão diríamos que a sublimação constitui uma vicissitude que foi imposta aos instintos de forma total pela civilização Seria prudente refletir um pouco mais sobre isso Em terceiro lugar finalmente e isso parece o mais importante de tudo é impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto o quanto ela pressupõe exatamente a nãosatisfação pela opressão repressão ou algum outro meio de instintos poderosos Essa frustração cultural domina o grande campo dos relacionamentos sociais entre os seres humanos Como já sabemos é a causa da hostilidade contra a qual todas as civilizações têm de lutar Também ela fará exigências severas à nossa obra científica e muito teremos a explicar aqui Não é fácil entender como pode ser possível privar de satisfação um instinto Não se faz isso impunemente Se a perda não for economicamente compensada podese ficar certo de que sérios distúrbios decorrerão disso Mas se quisermos saber qual o valor que pode ser atribuído à nossa opinião de que o desenvolvimento da civilização constitui um processo especial comparável à maturação normal do indivíduo temos claramente de atacar o problema Devemos perguntarnos a que influência o desenvolvimento da civilização deve sua origem como ela surgiu e o que determinou o seu curso IV A tarefa parece imensa e frente a ela é natural que se sinta falta de confiança Mas aqui estão as conjecturas que pude efetuar Depois que o homem primevo descobriu que estava literalmente em suas mãos melhorar a sua sorte na Terra através do trabalho não lhe pode ter sido indiferente que outro homem trabalhasse com ele ou contra ele Esse outro homem adquiriu para ele o valor de um companheiro de trabalho com quem era útil conviver Em época ainda anterior em sua préhistória simiesca o homem adotara o hábito de formar famílias e provavelmente os membros de sua família foram os seus primeiros auxiliares Podese supor que a formação de famílias deveuse ao fato de ter ocorrido um momento em que a necessidade de satisfação genital não apareceu mais como um hóspede que surge repentinamente e do qual após a partida não mais se ouve falar por longo tempo mas que pelo contrário se alojou como um inquilino permanente Quando isso aconteceu o macho adquiriu um motivo para conservar a fêmea junto de si ou em termos mais gerais seus objetos sexuais a seu lado ao passo que a fêmea não querendo separarse de seus rebentos indefesos viuse obrigada no interesse deles a permanecer com o macho mais forte Na família primitiva falta ainda uma característica essencial da civilização A vontade arbitrária de seu chefe o pai era irrestrita Em Totem e Tabu 191213 tentei demonstrar o caminho que vai dessa família à etapa subseqüente a da vida comunal sob a forma de grupos de irmãos Sobrepujando o pai os filhos descobriram que uma combinação pode ser mais forte do que um indivíduo isolado A cultura totêmica baseiase nas restrições que os filhos tiveram de imporse mutuamente a fim de conservar esse novo estado de coisas Os preceitos do tabu constituíram o primeiro direito ou lei A vida comunitária dos seres humanos teve portanto um fundamento duplo a compulsão para o trabalho criada pela necessidade externa e o poder do amor que fez o homem relutar em privarse de seu objeto sexual a mulher e a mulher em privarse daquela parte de si própria que dela fora separada seu filho Eros e Ananke Amor e Necessidade se tornaram os pais também da civilização humana O primeiro resultado da civilização foi que mesmo um número bastante grande de pessoas podia agora viver reunido numa comunidade E como esses dois grandes poderes cooperaram para isso poder seia esperar que o desenvolvimento ulterior da civilização progredisse sem percalços no sentido de um controle ainda melhor sobre o mundo externo e no de uma ampliação do número de pessoasincluídas na comunidade É difícil compreender como essa civilização pode agir sobre os seus participantes de outro modo senão o de tornálos felizes Antes de continuarmos a indagar sobre de que direção uma interferência poderia surgir o reconhecimento do amor como um dos fundamentos da civilização pode servir de pretexto para uma digressão que nos capacitará a preencher uma lacuna por nós deixada num exame anteriorver 1 Mencionáramos então que a descoberta feita pelo homem de que o amor sexual genital lhe proporcionava as mais intensas experiências de satisfação fornecendolhe na realidade o protótipo de toda felicidade deve terlhe sugerido que continuasse a buscar a satisfação da felicidade em sua vida seguindo o caminho das relações sexuais e que tornasse o erotismo genital o ponto central dessa mesma vida Prosseguimos dizendo que fazendo assim ele se tornou dependente de uma forma muito perigosa de uma parte do mundo externo isto é de seu objeto amoroso escolhido expondo se a um sofrimento extremo caso fosse rejeitado por esse objeto ou o perdesse através da infidelidade ou da morte Por essa razão os sábios de todas as épocas nos advertiram enfaticamente contra tal modo de vida apesar disso ele não perdeu seu atrativo para grande número de pessoas Apesar de tudo uma pequena minoria de pessoas achase capacitada por sua constituição a encontrar felicidade no caminho do amor Fazemse necessárias porém alterações mentais de grande alcance na função do amor antes que isso possa acontecer Essas pessoas se tornam independentes da aquiescência de seu objeto deslocando o que mais valorizam do ser amado para o amar protegemse contra a perda do objeto voltando seu amor não para objetos isolados mas para todos os homens e do mesmo modo evitam as incertezas e as decepções do amor genital desviandose de seus objetivos sexuais e transformando o instinto num impulso com uma finalidade inibida Ocasionam assim nelas mesmas um estado de sentimento imparcialmente suspenso constante e afetuoso que tem pouca semelhança externa com as tempestuosas agitações do amor genital do qual não obstante se deriva Talvez São Francisco de Assis tenha sido quem mais longe foi na utilização do amor para beneficiar um sentimento interno de felicidade Além disso aquilo que identificamos como sendo uma das técnicas para realizar o princípio do prazer foi amiúde vinculado à religião essa vinculação pode residir nas remotas regiões em que a distinção entre o ego e os objetos ou entre os próprios objetos é desprezada De acordo com determinado ponto de vista ético cuja motivação mais profunda se nos tornará clara dentro em pouco essa disposição para o amor universal pela humanidade e pelo mundo representa o ponto mais alto que o homem pode alcançar Mesmo nessa etapapreliminar da discussão gostaria de apresentar minhas duas principais objeções a essa opinião Um amor que não discrimina me parece privado de uma parte de seu próprio valor por fazer uma injustiça a seu objeto e em segundo lugar nem todos os homens são dignos de amor O amor que fundou a família continua a operar na civilização tanto em sua forma original em que não renuncia à satisfação sexual direta quanto em sua forma modificada como afeição inibida em sua finalidade Em cada uma delas continua a realizar sua função de reunir consideráveis quantidades de pessoas de um modo mais intensivo do que o que pode ser efetuado através do interesse pelo trabalho em comum A maneira descuidada com que a linguagem utiliza a palavra amor conta com uma justificação genética As pessoas dão o nome de amor ao relacionamento entre um homem e uma mulher cujas necessidades genitais os levaram a fundar uma família também dão esse nome aos sentimentos positivos existentes entre pais e filhos e entre os irmãos e as irmãs de uma família embora nós sejamos obrigados a descrever isso como amor inibido em sua finalidade ou afeição O amor com uma finalidade inibida foi de fato originalmente amor plenamente sensual e ainda o é no inconsciente do homem Ambos o amor plenamente sensual e o amor inibido em sua finalidade estendemse exteriormente à família e criam novos vínculos com pessoas anteriormente estranhas O amor genital conduz à formação de novas famílias e o amor inibido em sua finalidade a amizades que se tornam valiosas de um ponto de vista cultural por fugirem a algumas das limitações do amor genital como por exemplo à sua exclusividade No decurso do desenvolvimento porém a relação do amor com a civilização perde sua falta de ambigüidade Por um lado o amor se coloca em oposição aos interesses da civilização por outro esta ameaça o amor com restrições substanciais Essa incompatibilidade entre amor e civilização parece inevitável e sua razão não é imediatamente reconhecível Expressase a princípio como um conflito entre a família e a comunidade maior a que o indivíduo pertence Já percebemos que um dos principais esforços da civilização é reunir as pessoas em grandes unidades Mas a família não abandona o indivíduo Quanto mais estreitamente os membros de uma família se achem mutuamente ligados com mais freqüência tendem a se apartarem dos outros e mais difícil lhes é ingressar no círculo mais amplo da cidade O modo de vida em comum que é filogeneticamente o mais antigo e o único que existe na infância não se deixará sobrepujar pelo modo cultural de vida adquirido depois Separarse da família tornase umatarefa com que todo jovem se defronta e a sociedade freqüentemente o auxilia na solução disso através dos ritos de puberdade e de iniciação Ficamos com a impressão de que se trata de dificuldades inerentes a todo desenvolvimento psíquico e em verdade no fundo a todo desenvolvimento orgânico Além do mais as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora as mesmas mulheres que de início estabeleceram os fundamentos da civilização pelas reivindicações de seu amor As mulheres representam os interesses da família e da vida sexual O trabalho de civilização tornouse cada vez mais um assunto masculino confrontando os homens com tarefas cada vez mais difíceis e compelindoos a executarem sublimações instintivas de que as mulheres são pouco capazes Já que o homem não dispõe de quantidades ilimitadas de energia psíquica tem de realizar suas tarefas efetuando uma distribuição conveniente de sua libido Aquilo que emprega para finalidades culturais em grande parte o extrai das mulheres e da vida sexual Sua constante associação com outros homens e a dependência de seus relacionamentos com eles o alienam inclusive de seus deveres de marido e de pai Dessa maneira a mulher se descobre relegada a segundo plano pelas exigências da civilização e adota uma atitude hostil para com ela A tendência por parte da civilização em restringir a vida sexual não é menos clara do que sua outra tendência em ampliar a unidade cultural Sua primeira fase totêmica já traz com ela a proibição de uma escolha incestuosa de objeto o que constitui talvez a mutilação mais drástica que a vida erótica do homem em qualquer época já experimentou Os tabus as leis e os costumes impõem novas restrições que influenciam tanto homens quanto mulheres Nem todas as civilizações vão igualmente longe nisso e a estrutura econômica da sociedade também influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente Aqui como já sabemos a civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica visto que uma grande quantidade da energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem de ser retirada da sexualidade Com relação a isso a civilização se comporta diante da sexualidade da mesma forma que um povo ou uma de suas camadas sociais procede diante de outros que estão submetidos à sua exploração O temor a uma revolta por parte dos elementos oprimidos a conduz à utilização de medidas de precaução mais estritas Um ponto culminante nesse desenvolvimento foi atingido em nossa civilização ocidental européia Uma comunidade cultural achase do ponto de vista psicológico perfeitamente justificada em começar por proscrever as manifestações da vida sexual das crianças pois não haveria perspectiva de submeter os apetites sexuais dos adultos se os fundamentospara isso não tivessem sido lançados na infância Contudo uma comunidade desse tipo de modo algum pode ser justificada se vai até o ponto de realmente repudiar essas manifestações facilmente demonstráveis e na verdade notáveis Quanto ao indivíduo sexualmente maduro a escolha de um objeto restringese ao sexo oposto estando as satisfações extragenitais em sua maioria proibidas como perversão A exigência demonstrada nessas proibições de que haja um tipo único de vida sexual para todos não leva em consideração as dessemelhanças inatas ou adquiridas na constituição sexual dos seres humanos cerceia em bom número deles o gozo sexual tornandose assim fonte de grave injustiça O resultado de tais medidas restritivas poderia ser que nas pessoas normais que não se acham impedidas por sua constituição a totalidade dos seus interesses sexuais fluísse sem perdas para os canais que são deixados abertos No entanto o próprio amor genital heterossexual que permaneceu isento de proscrição é restringido por outras limitações apresentadas sob a forma da insistência na legitimidade e na monogamia A civilização atual deixa claro que só permite os relacionamentos sexuais na base de um vínculo único e indissolúvel entre um só homem e uma só mulher e que não é de seu agrado a sexualidade como fonte de prazer por si própria só se achando preparada para tolerála porque até o presente para ela não existe substituto como meio de propagação da raça humana Naturalmente isso configura um quadro extremado Todos sabem que ele se mostrou inxeqüível mesmo por períodos muito breves Apenas os fracos se submeteram a uma usurpação tão ampla de sua liberdade sexual e as naturezas mais fortes só o fizeram mediante uma condição compensatória que será posteriormente mencionada A sociedade civilizada viuse obrigada a silenciar sobre muitas transgressões que segundo os seus próprios princípios deveria ter punido Mas por um outro lado não devemos errar supondo que por não alcançar todos os seus objetivos uma atitude desse tipo por parte da sociedade seja inteiramente inócua A vida sexual do homem civilizado encontrase não obstante severamente prejudicada dá às vezes a impressão de estar em processo de involução enquanto função tal como parece acontecer com nossos dentes e cabelos Provavelmente justificase supor que sua importância enquanto fonte de sentimentos de felicidade e portanto na realização de nosso objetivo na vida diminuiu sensivelmente Às vezes somos levados a pensar que nãose trata apenas da pressão da civilização mas de algo da natureza da própria função que nos nega satisfação completa e nos incita a outros caminhos Isso pode estar errado é difícil decidir V O trabalho psicanalítico nos mostrou que as frustrações da vida sexual são precisamente aquelas que as pessoas conhecidas como neuróticas não podem tolerar O neurótico cria em seus sintomas satisfações substitutivas para si e estas ou lhe causam sofrimento em si próprias ou se lhe tornam fontes de sofrimento pela criação de dificuldades em seus relacionamentos com o meio ambiente e a sociedade a que pertence Esse último fato é fácil de compreender o primeiro nos apresenta um novo problema A civilização porém exige outros sacrifícios além do da satisfação sexual Abordamos a dificuldade do desenvolvimento cultural como sendo uma dificuldade geral de desenvolvimento fazendo sua origem remontar à inércia da libido à falta de inclinação desta para abandonar uma posição antiga por outra nova Dizemos quase a mesma coisa quando fazemos a antítese entre civilização e sexualidade derivar da circunstância de o amor sexual constituir um relacionamento entre dois indivíduos no qual um terceiro só pode ser supérfluo ou perturbador ao passo que a civilização depende de relacionamentos entre um considerável número de indivíduos Quando um relacionamento amoroso se encontra em seu auge não resta lugar para qualquer outro interesse pelo ambiente um casal de amantes se basta a si mesmo sequer necessitam do filho que têm em comum para tornálos felizes Em nenhum outro caso Eros revela tão claramente o âmago do seu ser o seu intuito de de mais de um fazer um único contudo quando alcança isso da maneira proverbial ou seja através do amor de dois seres humanos recusase a ir além Até aqui podemos imaginar perfeitamente uma comunidade cultural que consista em indivíduos duplos como este que libidinalmente satisfeitos em si mesmos se vinculem uns aos outros através dos elos do trabalho comum e dos interesses comuns Se assim fosse a civilização não teria que extrair energia alguma da sexualidade Contudo esse desejável estado de coisas não existe nem nunca existiu A realidade nos mostra que a civilização não se contenta com as ligações que até agora lhe concedemos Visa a unir entre si os membros da comunidade também de maneira libidinal e para tanto emprega todos os meios Favorece todos os caminhos pelos quais identificações fortes possam ser estabelecidas entre os membros da comunidade e na mais ampla escala convoca a libido inibida em sua finalidade demodo a fortalecer o vínculo comunal através das relações de amizade Para que esses objetivos sejam realizados fazse inevitável uma restrição à vida sexual Não conseguimos porém entender qual necessidade força a civilização a tomar esse caminho necessidade que provoca o seu antagonismo à sexualidade Deve haver algum fator de perturbação que ainda não descobrimos A pista pode ser fornecida por uma das exigências ideais tal como as denominamos da sociedade civilizada Diz ela Amarás a teu próximo como a ti mesmo Essa exigência conhecida em todo o mundo é indubitavelmente mais antiga que o cristianismo que a apresenta como sua reivindicação mais gloriosa No entanto ela não é decerto excessivamente antiga mesmo já em tempos históricos ainda era estranha à humanidade Se adotarmos uma atitude ingênua para com ela como se a estivéssemos ouvindo pela primeira vez não poderemos reprimir um sentimento de surpresa e perplexidade Por que deveremos agir desse modo Que bem isso nos trará Acima de tudo como conseguiremos agir desse modo Como isso pode ser possível Meu amor para mim é algo de valioso que eu não devo jogar fora sem reflexão A máxima me impõe deveres para cujo cumprimento devo estar preparado e disposto a efetuar sacrifícios Se amo uma pessoa ela tem de merecer meu amor de alguma maneira Não estou levando em consideração o uso que dela posso fazer nem sua possível significação para mim como objeto sexual de uma vez que nenhum desses dois tipos de relacionamento entra em questão onde o preceito de amar meu próximo se acha em jogo Ela merecerá meu amor se for de tal modo semelhante a mim em aspectos importantes que eu me possa amar nela merecêloá também se for de tal modo mais perfeita do que eu que nela eu possa amar meu ideal de meu próprio eu self Terei ainda de amála se for o filho de meu amigo já que o sofrimento que este sentiria se algum dano lhe ocorresse seria meu sofrimento também eu teria de partilhálo Mas se essa pessoa for um estranho para mim e não conseguir atrairme por um de seus próprios valores ou por qualquer significação que já possa ter adquirido para a minha vida emocional me será muito difícil amála Na verdade eu estaria errado agindo assim pois meu amor é valorizado por todos os meus como um sinal de minha preferência por eles e seria injusto para com eles colocar um estranho no mesmo plano em que eles estão Se no entanto devo amálo com esse amor universal meramente porque ele também é um habitante da Terra assim como o são um inseto uma minhoca ou uma serpente receio então que sóuma pequena quantidade de meu amor caberá à sua parte e não em hipótese alguma tanto quanto pelo julgamento de minha razão tenho o direito de reter para mim Qual é o sentido de um preceito enunciado com tanta solenidade se seu cumprimento não pode ser recomendado como razoável Através de um exame mais detalhado descubro ainda outras dificuldades Não meramente esse estranho é em geral indigno de meu amor honestamente tenho de confessar que ele possui mais direito a minha hostilidade e até mesmo meu ódio Não parece apresentar o mais leve traço de amor por mim e não demonstra a mínima consideração para comigo Se disso ele puder auferir uma vantagem qualquer não hesitará em me prejudicar tampouco pergunta a si mesmo se a vantagem assim obtida contém alguma proporção com a extensão do dano que causa em mim Na verdade não precisa nem mesmo auferir alguma vantagem se puder satisfazer qualquer tipo de desejo com isso não se importará em escarnecer de mim em me insultar me caluniar e me mostrar a superioridade de seu poder e quanto mais seguro se sentir e mais desamparado eu for mais com certeza posso esperar que se comporte dessa maneira para comigo Caso se conduza de modo diferente caso mostre consideração e tolerância como um estranho estou pronto a tratálo da mesma forma em todo e qualquer caso e inteiramente fora de todo e qualquer preceito Na verdade se aquele imponente mandamento dissesse Ama a teu próximo como este te ama eu não lhe faria objeções E há um segundo mandamento que me parece mais incompreensível ainda e que desperta em mim uma oposição mais forte ainda Tratase do mandamento Ama os teus inimigos Refletindo sobre ele no entanto percebo que estou errado em considerálo como uma imposição maior No fundo é a mesma coisa Acho que agora posso ouvir uma voz solene me repreendendo É precisamente porque teu próximo não é digno de amor mas pelo contrário é teu inimigo que deves amálo como a ti mesmo Compreendo então que se trata de um caso semelhante ao do Credo quia absurdumOra é muito provável que meu próximo quando lhe for prescrito que me ame como a si mesmo responda exatamente como o fiz e me rejeite pelas mesmas razões Espero que não tenha os mesmos fundamentos objetivos para fazêlo mas terá a mesma idéia que tenho Ainda assim o comportamento dos seres humanos apresenta diferenças que a ética desprezando o fato de que tais diferenças são determinadas classifica como boas ou más Enquanto essas inegáveis diferenças não forem removidas a obediência às elevadas exigências éticas acarreta prejuízos aos objetivos da civilização por incentivar o ser mau Não podemos deixar de lembrar um incidente ocorrido na câmara dos deputados francesa quando a pena capital estava em debate Um dos membros acabara de defender apaixonadamente a abolição dela e seu discurso estava sendo recebido com tumultuosos aplausos quando uma voz vinda do plenário exclamou Que messieurs les assassins commencent O elemento de verdade por trás disso tudo elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que no máximo podem defender se quando atacadas pelo contrário são criaturas entre cujos dotes instintivos devese levar em conta uma poderosa quota de agressividade Em resultado disso o seu próximo é para eles não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação utilizálo sexualmente sem o seu consentimento apoderarse de suas posses humilhálo causarlhe sofrimento torturálo e matálo Homo homini lupus Quem em face de toda sua experiência da vida e da história terá a coragem de discutir essa asserção Via de regra essa cruel agressividade espera por alguma provocação ou se coloca a serviço de algum outro intuito cujo objetivo também poderia ter sido alcançado por medidas mais brandas Em circunstâncias que lhe são favoráveis quando as forças mentais contrárias que normalmente a inibem se encontram fora de ação ela também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem a quem a consideração para com sua própria espécie é algo estranho Quem quer que relembre as atrocidades cometidas durante as migrações raciais ou as invasões dos hunos ou pelos povos conhecidos como mongóis sob a chefia de Gengis Khan e Tamerlão ou na captura de Jerusalém pelos piedosos cruzados ou mesmo na verdade os horrores da recente guerra mundialquem quer que relembre tais coisas terá de se curvar humildemente ante a verdade dessa opinião A existência da inclinação para a agressão que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio de energia Em conseqüência dessa mútua hostilidade primária dos seres humanos a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração O interesse pelo trabalho em comum não a manteria unida as paixões instintivas são mais fortes que os interesses razoáveis A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas Daí portanto o emprego de métodos destinados a incitar as pessoas a identificações e relacionamentos amorosos inibidos em sua finalidade daí a restrição à vida sexual e daí também o mandamento ideal de amar ao próximo como a si mesmo mandamento que é realmente justificado pelo fato de nada mais ir tão fortemente contra a natureza original do homem A despeito de todos os esforços esses empenhos da civilização até hoje não conseguiram muito Esperase impedir os excessos mais grosseiros da violência brutal por si mesma supondose o direito de usar a violência contra os criminosos no entanto a lei não é capaz de deitar a mão sobre as manifestações mais cautelosas e refinadas da agressividade humana Chega a hora em que cada um de nós tem de abandonar como sendo ilusões as esperanças que na juventude depositou em seus semelhantes e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles Ao mesmo tempo seria injusto censurar a civilização por tentar eliminar da atividade humana a luta e a competição Elas são indubitavelmente indispensáveis Mas oposição não é necessariamente inimizade simplesmente ela é mal empregada e tornada uma ocasião para a inimizade Os comunistas acreditam ter descoberto o caminho para nos livrar de nossos males Segundo eles o homem é inteiramente bom e bem disposto para como seu próximo mas a instituição da propriedade privada corrompeulhe a natureza A propriedade da riqueza privada confere poder ao indivíduo e com ele a tentação de maltratar o próximo ao passo que o homem excluído da posse está fadado a se rebelar hostilmente contra seu opressor Se a propriedade privada fosse abolida possuída em comum toda a riqueza e permitida a todos a partilha de sua fruição a má vontade e a hostilidade desapareceriam entre os homens Como as necessidades de todos seriam satisfeitas ninguém teria razão alguma para encarar outrem comoinimigo todos de boa vontade empreenderiam o trabalho que se fizesse necessário Não estou interessado em nenhuma crítica econômica do sistema comunista não posso investigar se a abolição da propriedade privada é conveniente ou vantajosa Mas sou capaz de reconhecer que as premissas psicológicas em que o sistema se baseia são uma ilusão insustentável Abolindo a propriedade privada privamos o amor humano da agressão de um de seus instrumentos decerto forte embora decerto também não o mais forte de maneira alguma porém alteramos as diferenças em poder e influência que são mal empregadas pela agressividade nem tampouco alteramos nada em sua natureza A agressividade não foi criada pela propriedade Reinou quase sem limites nos tempos primitivos quando a propriedade ainda era muito escassa e já se apresenta no quarto das crianças quase antes que a propriedade tenha abandonado sua forma anal e primária constitui a base de toda relação de afeto e amor entre pessoas com a única exceção talvez do relacionamento da mãe com seu filho homem Se eliminamos os direitos pessoais sobre a riqueza material ainda permanecem no campo dos relacionamentos sexuais prerrogativas fadadas a se tornarem a fonte da mais intensa antipatia e da mais violenta hostilidade entre homens que sob outros aspectos se encontram em pé de igualdade Se também removermos esse fator permitindo a liberdade completa da vida sexual e assim abolirmos a família célula germinal da civilização não podemos é verdade prever com facilidade quais os novos caminhos que o desenvolvimento da civilização vai tomar uma coisa porém podemos esperar é que nesse caso essa característica indestrutível da natureza humana seguirá a civilização Evidentemente não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão Sem ela eles não se sentem confortáveis A vantagem que um grupo cultural comparativamente pequeno oferece concedendo a esse instinto um escoadouro sob a forma de hostilidade contra intrusos não é nada desprezível É sempre possível unir um considerávelnúmero de pessoas no amor enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade Em outra ocasião examinei o fenômeno no qual são precisamente comunidades com territórios adjacentes e mutuamente relacionadas também sob outros aspectos que se empenham em rixas constantes ridicularizandose umas às outras como os espanhóis e os portugueses por exemplo os alemães do Norte e os alemães do Sul os ingleses e os escoceses e assim por diante Dei a esse fenômeno o nome de narcisismo das pequenas diferenças denominação que não ajuda muito a explicálo Agora podemos ver que se trata de uma satisfação conveniente e relativamente inócua da inclinação para a agressão através da qual a coesão entre os membros da comunidade é tornada mais fácil Com respeito a isso o povo judeu espalhado por toda a parte prestou os mais úteis serviços às civilizações dos países que os acolheram infelizmente porém todos os massacres de judeus na Idade Média não bastaram para tornar o período mais pacífico e mais seguro para seus semelhantes cristãos Quando outrora o Apóstolo Paulo postulou o amor universal entre os homens como o fundamento de sua comunidade cristã uma extrema intolerância por parte da cristandade para com os que permaneceram fora dela tornouse uma conseqüência inevitável Para os romanos que não fundaram no amor sua vida comunal como Estado a intolerância religiosa era algo estranho embora entre eles a religião fosse do interesse do Estado e este se achasse impregnado dela Tampouco constituiu uma possibilidade inexeqüível que o sonho de um domínio mundial germânico exigisse o antisemitismo como seu complemento sendo portanto compreensível que a tentativa de estabelecer uma civilização nova e comunista na Rússia encontre o seu apoio psicológico na perseguição aos burgueses Não se pode senão imaginar com preocupação sobre o que farão os soviéticos depois que tiverem eliminado seus burgueses Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes não apenas à sexualidade do homem mas também à sua agressividade podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização Na realidade o homem primitivo se achava em situação melhor sem conhecer restrições de instinto Em contrapartida suas perspectivas de desfrutar dessa felicidade por qualquer período de tempo eram muito tênues O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança Não devemos esquecer contudo que na família primeva apenas o chefe desfrutava da liberdade instintiva o resto vivia em opressão servilNaquele período primitivo da civilização o contraste entre uma minoria que gozava das vantagens da civilização e uma maioria privada dessas vantagens era portanto levada a seus extremos Quanto aos povos primitivos que ainda hoje existem pesquisas cuidadosas mostraram que sua vida instintiva não é de maneira alguma passível de ser invejada por causa de sua liberdade Está sujeita a restrições de outra espécie talvez mais severas do que aquelas que dizem respeito ao homem moderno Quando com toda justiça consideramos falho o presente estado de nossa civilização por atender de forma tão inadequada às nossas exigências de um plano de vida que nos torne felizes e por permitir a existência de tanto sofrimento que provavelmente poderia ser evitado quando com crítica impiedosa tentamos pôr à mostra as raízes de sua imperfeição estamos indubitavelmente exercendo um direito justo e não nos mostrando inimigos da civilização Podemos esperar efetuar gradativamente em nossa civilização alterações tais que satisfaçam melhor nossas necessidades e escapem às nossas críticas Mas talvez possamos também nos familiarizar com a idéia de existirem dificuldades ligadas à natureza da civilização que não se submeterão a qualquer tentativa de reforma Além e acima das tarefas de restringir os instintos para as quais estamos preparados reivindica nossa atenção o perigo de um estado de coisas que poderia ser chamado de pobreza psicológica dos grupos Esse perigo é mais ameaçador onde os vínculos de uma sociedade são principalmente constituídos pelas identificações dos seus membros uns com os outros enquanto que indivíduos do tipo de um líder não adquirem a importância que lhes deveria caber na formação de um grupo O presente estado cultural dos Estados Unidos da América nos proporcionaria uma boa oportunidade para estudar o prejuízo à civilização que assim é de se temer Evitarei porém a tentação de ingressar numa crítica da civilização americana não desejo dar a impressão de que eu mesmo estou empregando métodos americanos VI Em nenhum de meus trabalhos anteriores tive tão forte quanto agora a impressão de que o que estou descrevendo pertence ao conhecimento comum e de que estou desperdiçando papel e tinta ao mesmo tempo que usando o trabalho e o material do tipógrafo e do impressor para expor coisas que na realidade são evidentes por si mesmas Por essa razão ficaria feliz em desenvolver o tema se isso levasse à conclusão de que o reconhecimento de um instinto agressivo especial e independente significa uma alteração da teoria psicanalítica dos instintos Veremos no entanto que a coisa não é bem assim e que se trata simplesmente de focalizar de modo mais nítido uma mudança de pensamento há muito tempo introduzida seguindoa até suas últimas conseqüências De todas as partes lentamente desenvolvidas da teoria analítica a teoria dos instintos foi a que mais penosa e cautelosamente progrediu Contudo essa teoria era tão indispensável a toda a estrutura que algo tinha de ser colocado em seu lugar No que constituía a princípio minha completa perplexidade tomei como ponto de partida uma expressão do poetafilósofo Schiller são a fome e o amor que movem o mundo A fome podia ser vista como representando os instintos que visam a preservar o indivíduo ao passo que o amor se esforça na busca de objetos e sua principal função favorecida de todos os modos pela natureza é a preservação da espécie Assim de início os instintos do ego e os instintos objetais se confrontavam mutuamente Foi para denotar a energia destes últimos e somente deles que introduzi o termo libido Assim a antítese se verificou entre os instintos do ego e os instintos libidinais do amor em seu sentido mais amplo que eram dirigidos a um objeto Um desses instintos objetais o instinto sádico destacouse do restante é verdade pelo fato de o seu objetivo estar muito longe de ser o amar Ademais ele se encontrava obviamente ligado sob certos aspectos aos instintos do ego pois não podia ocultar sua estreita afinidade com os instintos de domínio que não possuem propósito libidinal Mas essas discrepâncias foram superadas afinal de contas o sadismo fazia claramente parte da vidasexual em cujas atividades a afeição podia ser substituída pela crueldade A neurose foi encarada como o resultado de uma luta entre o interesse de autopreservação e as exigências da libido luta da qual o ego saiu vitorioso ainda que ao preço de graves sofrimentos e renúncias Todo analista admitirá que ainda hoje essa opinião não soa como um erro há muito tempo abandonado Não obstante alterações nela se tornaram essenciais à medida que nossas investigações progrediam das forças reprimidas para as repressoras dos instintos objetais para o ego O decisivo passo à frente consistiu na introdução do conceito de narcisismo isto é a descoberta de que o próprio ego se acha catexizado pela libido de que o ego na verdade constitui o reduto original dela e continua a ser até certo ponto seu quartelgeneral Essa libido narcísica se volta para os objetos tornandose assim libido objetal e podendo transformarse novamente em libido narcísica O conceito do narcisismo possibilitou a obtenção de uma compreensão analítica das neuroses traumáticas de várias das afecções fronteiriças às psicoses bem como destas últimas Não foi necessário abandonar nossa interpretação das neuroses de transferência como se fossem tentativas feitas pelo ego para se defender contra a sexualidade mas o conceito de libido ficou ameaçado Como os instintos do ego também são libidinais pareceu por certo tempo inevitável que tivéssemos de fazer a libido coincidir com a energia instintiva em geral como C G Jung já advogara anteriormente Não obstante ainda permanecia em mim uma espécie de convicção para a qual ainda não me considerava capaz de encontrar razões de que os instintos não podiam ser todos da mesma espécie Meu passo seguinte foi dado em Mais Além do Princípio do Prazer 1920g quando pela primeira vez a compulsão para repetir e o caráter conservador da vida instintiva atraíram minha atenção Partindo de especulações sobre o começo da vida e de paralelos biológicos concluí que ao lado do instinto para preservar a substância viva e para reunila em unidades cada vez maiores deveria haver outro instinto contrário àquele buscando dissolver essas unidades e conduzilas de volta a seu estado primevo e inorgânico Isso equivalia a dizer que assim como Eros existia também um instinto de morte Os fenômemos da vida podiam ser explicados pela ação concorrente ou mutuamente oposta desses dois instintos Não era fácil contudo demonstrar as atividades desse suposto instintode morte As manifestações de Eros eram visíveis e bastante ruidosas Poderseia presumir que o instinto de morte operava silenciosamente dentro do organismo no sentido de sua destruição mas isso naturalmente não constituía uma prova Uma idéia mais fecunda era a de que uma parte do instinto é desviada no sentido do mundo externo e vem à luz como um instinto de agressividade e destrutividade Dessa maneira o próprio instinto podia ser compelido para o serviço de Eros no caso de o organismo destruir alguma outra coisa inanimada ou animada em vez de destruir o seu próprio eu self Inversamente qualquer restrição dessa agressividade dirigida para fora estaria fadada a aumentar a autodestruição a qual em todo e qualquer caso prossegue Ao mesmo tempo podese suspeitar a partir desse exemplo que os dois tipos de instinto raramente talvez nunca aparecem isolados um do outro mas que estão mutuamente mesclados em proporções variadas e muito diferentes tornandose assim irreconhecíveis para nosso julgamento No sadismo há muito tempo de nós conhecido como instinto componente da sexualidade teríamos à nossa frente um vínculo desse tipo particularmente forte isto é um vínculo entre as tendências para o amor e o instinto destrutivo ao passo que sua contrapartida o masoquismo constituiria uma união entre a destrutividade dirigida para dentro e a sexualidade união que transforma aquilo que de outro modo é uma tendência imperceptível numa outra conspícua e tangível A afirmação da existência de um instinto de morte ou de destruição deparouse com resistências inclusive em círculos analíticos estou ciente de que existe antes uma inclinação freqüente a atribuir o que é perigoso e hostil no amor a uma bipolaridade original de sua própria natureza A princípio foi apenas experimentalmente que apresentei as opiniões aqui desenvolvidas mas com o decorrer do tempo elas conseguiram tal poder sobre mim que não posso mais pensar de outra maneira Para mim elas são muito mais úteis de um ponto de vista teórico do que quaisquer outras possíveis fornecem aquela simplificação sem ignorar ou violentar os fatos pela qual nos esforçamos no trabalho científico Sei que no sadismo e no masoquismo sempre vimos diante de nós manifestações do instinto destrutivo dirigidas para fora e para dentro fortemente mescladas ao erotismo mas não posso mais entender como foi que pudemos ter desprezado a ubiqüidade da agressividade e da destrutividade não eróticas e falhado em concederlhe o devido lugar em nossa interpretação da vida O desejo de destruição quando dirigido para dentro de fato foge grandemente à nossa percepção a menos que estejarevestido de erotismo Recordo minha própria atitude defensiva quando a idéia de um instinto de destruição surgiu pela primeira vez na literatura psicanalítica e quanto tempo levou até que eu me tornasse receptivo a ela Que outros tenham demonstrado e ainda demonstrem a mesma atitude de rejeição surpreendeme menos pois as criancinhas não gostam quando se fala na inata inclinação humana para a ruindade a agressividade e a destrutividade e também para a crueldade Deus nos criou à imagem de Sua própria perfeição ninguém deseja que lhe lembrem como é difícil reconciliar a inegável existência do mal a despeito dos protestos da Christian Science com o Seu poder e a Sua bondade O Demônio seria a melhor saída como desculpa para Deus dessa maneira ele estaria desempenhando o mesmo papel como agente de descarga econômica que o judeu desempenha no mundo do ideal ariano Mas ainda assim podese responsabilizar Deus pela existência do Demônio bem como pela existência da malignidade que este corporifica Em vista dessas dificuldades sernosá mais aconselhável nas ocasiões apropriadas fazer uma profunda reverência à natureza profundamente moral da humanidade isso nos ajudará a sermos populares e por causa disso muita coisa nos será perdoada O nome libido pode mais uma vez ser utilizado para denotar as manifestações do poder de Eros a fim de distinguilas da energia do instinto de morte Devese confessar que temos uma dificuldade muito maior em apreender esse instinto podemos apenas suspeitálo por assim dizer como algo situado em segundo plano por trás de Eros fugindo à detecção a menos que sua presença seja traída pelo fato de estar ligado a Eros É no sadismo onde o instinto de morte deforma o objetivo erótico em seu próprio sentido embora ao mesmo tempo satisfaça integralmente o impulso erótico que conseguimos obter a mais clara compreensão interna insight de sua natureza e de sua relação com Eros Contudo mesmo onde ele surge sem qualquer intuito sexual na mais cega fúria de destrutividade não podemos deixar de reconhecer que a satisfação do instinto se faz acompanhar por um grau extraordinariamente alto de fruição narcísica devido ao fato de presentear o ego com a realização de antigos desejos de onipotência deste último O instinto de destruição moderado e domado e por assim dizer inibido em sua finalidade deve quando dirigido para objetos proporcionar ao ego a satisfação de suas necessidades vitais e o controle sobre a natureza Como a afirmação da existência do instinto se baseia principalmente em fundamentos teóricos temos também de admitir que ela não se acha inteiramente imune a objeções teóricas Mas é assim que as coisas se nos apresentam atualmente no presente estado de nosso conhecimento a pesquisa e a reflexão futuras indubitavelmente trarão novas luzes decisivas para esse tema Em tudo o que se segue adoto portanto o ponto de vista de que a inclinação para a agressão constitui no homem uma disposição instintiva original e autosubsistente e retorno à minha opiniãover 1 de que ela é o maior impedimento à civilização Em determinado ponto do decorrer dessa investigação ver 1 fui conduzido à idéia de que a civilização constituía um processo especial que a humanidade experimenta e ainda me acho sob a influência dela Posso agora acrescentar que a civilização constitui um processo a serviço de Eros cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados depois famílias e depois ainda raças povos e nações numa únicagrande unidade a unidade da humanidade Porque isso tem de acontecer não sabemos o trabalho de Eros é precisamente este Essas reuniões de homens devem estar libidinalmente ligadas umas às outras A necessidade as vantagens do trabalho em comum por si sós não as manterão unidas Mas o natural instinto agressivo do homem a hostilidade de cada um contra todos e a de todos contra cada um se opõe a esse programa da civilização Esse instinto agressivo é o derivado e o principal representante do instinto de morte que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo Agora penso eu o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte entre o instinto de vida e o instinto de destruição tal como ela se elabora na espécie humana Nessa luta consiste essencialmente toda a vida e portanto a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida E é essa batalha de gigantes que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar sobre o Céu VII Por que nossos parentes os animais não apresentam uma luta cultural desse tipo Não sabemos Provavelmente alguns deles as abelhas as formigas as térmitas batalharam durante milhares de anos antes de chegarem às instituições estatais à distribuição de funções e às restrições ao indivíduo pelas quais hoje os admiramos Constitui um sinal de nossa condição atual o fato de sabermos por nossos próprios sentimentos que não nos sentiríamos felizes em quaisquer desses Estados animais ou em qualquer dos papéis neles atribuídos ao indivíduo No caso das outras espécies animais pode ser que um equilíbrio temporário tenha sido alcançado entre as influências de seu meio ambiente e os instintos mutuamente conflitantes dentro delas havendo ocorrido assim uma cessação de desenvolvimento Pode ser que no homem primitivo um novo acréscimo de libido tenha provocado um surto renovado de atividade por parte do instinto destrutivo Temos aqui muitas questões para as quais ainda não existe resposta Outra questão nos interessa mais de perto Quais os meios que a civilização utiliza para inibir a agressividade que se lhe opõe tornála inócua ou talvez livrarse dela Já nos familiarizamos com alguns desses métodos mas ainda não com aquele que parece ser o mais importante Podemos estudálo na história do desenvolvimento do indivíduo O que acontece neste para tornar inofensivo seu desejo de agressão Algo notável que jamais teríamos adivinhado e que não obstante é bastante óbvio Sua agressividade é introjetada internalizada ela é na realidade enviada de volta para o lugar de onde proveio isto é dirigida no sentido de seu próprio ego Aí é assumida por uma parte do ego que se coloca contra o resto do ego como superego e que então sob a forma de consciência está pronta para pôr em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos a ele estranhos A tensão entre o severo superego e o ego que a ele se acha sujeito é por nós chamada de sentimento de culpa expressase como uma necessidade de punição A civilização portanto consegue dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo enfraquecendoo desarmandoo e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele como uma guarnição numa cidade conquistada Quanto à origem do sentimento de culpa as opiniões do analista diferem das dos outros psicólogos embora também ele não ache fácil descrevêlo Inicialmente se perguntarmos como uma pessoa vem a ter sentimento deculpa chegaremos a uma resposta indiscutível uma pessoa sentese culpada os devotos diriam pecadora quando fez algo que sabe ser mau Reparamos porém em quão pouco essa resposta nos diz Talvez após certa hesitação acrescentemos que mesmo quando a pessoa não fez realmente uma coisa má mas apenas identificou em si uma intenção de fazêla ela pode encarar se como culpada Surge então a questão de saber por que a intenção é considerada equivalente ao ato Ambos os casos contudo pressupõem que já se tenha reconhecido que o que é mau é repreensível é algo que não deve ser feito Como se chega a esse julgamento Podemos rejeitar a existência de uma capacidade original por assim dizer natural de distinguir o bom do mau O que é mau freqüentemente não é de modo algum o que é prejudicial ou perigoso ao ego pelo contrário pode ser algo desejável pelo ego e prazeroso para ele Aqui portanto está em ação uma influência estranha que decide o que deve ser chamado de bom ou mau De uma vez que os próprios sentimentos de uma pessoa não a conduziriam ao longo desse caminho ela deve ter um motivo para submeterse a essa influência estranha Esse motivo é facilmente descoberto no desamparo e na dependência dela em relação a outras pessoas e pode ser mais bem designado como medo da perda de amor Se ela perde o amor de outra pessoa de quem é dependente deixa também de ser protegida de uma série de perigos Acima de tudo fica exposta ao perigo de que essa pessoa mais forte mostre a sua superioridade sob forma de punição De início portanto mau é tudo aquilo que com a perda do amor nos faz sentir ameaçados Por medo dessa perda devese evitálo Esta também é a razão por que faz tão pouca diferença que já se tenha feito a coisa má ou apenas se pretenda fazêla Em qualquer um dos casos o perigo só se instaura se e quando a autoridade descobrilo e em ambos a autoridade se comporta da mesma maneira Esse estado mental é chamado de má consciência na realidade porém não merece esse nome pois nessa etapa o sentimento de culpa é claramente apenas um medo da perda de amor uma ansiedade social Em crianças ele nunca pode ser mais do que isso e em muitos adultos ele só se modifica até o ponto em que o lugar do pai ou dos dois genitores é assumido pela comunidade humana mais ampla Por conseguinte tais pessoas habitualmente se permitem fazer qualquer coisa má que lhes prometa prazer enquanto se sentem seguras de que a autoridade nada saberá a respeito ou não poderá culpálas por isso só têm medo de serem descobertas A sociedade atual geralmente vêse obrigada a levar em conta esse estado mental Uma grande mudança só se realiza quando a autoridade é internalizada através do estabelecimento de um superego Os fenômenos da consciência atingem então um estágio mais elevado Na realidade então devemos falar de consciência ou de sentimento de culpa Nesse ponto também o medo de ser descoberto se extingue além disso a distinção entre fazer algo mau e desejar fazêlo desaparece inteiramente já que nada pode ser escondido do superego sequer os pensamentos É verdade que a seriedade da situação de um ponto de vista real se dissipou pois a nova autoridade o superego ao que saibamos não tem motivos para maltratar o ego com o qual está intimamente ligado contudo a influência genética que conduz à sobrevivência do que passou e foi superado fazse sentir no fato de fundamentalmente as coisas permanecerem como eram de início O superego atormenta o ego pecador com o mesmo sentimento de ansiedade e fica à espera de oportunidades para fazêlo ser punido pelo mundo externo Nesse segundo estágio de desenvolvimento a consciência apresenta uma peculiaridade que se achava ausente do primeiro e que não é mais fácil de explicar pois quanto mais virtuoso um homem é mais severo e desconfiado é o seu comportamento de maneira que em última análise são precisamente as pessoas que levaram mais longe a santidade as que se censuram da pior pecaminosidade Isso significa que a virtude perde direito a uma certa parte da recompensa prometida o ego dócil e continente não desfruta da confiança de seu mentor e é em vão que se esforça segundo parece por adquirila Farseá imediatamente a objeção de que essas dificuldades são artificiais e dirseà que uma consciência mais estrita e mais vigilante constitui precisamente a marca distintiva de um homem moral Além disso quando os santos se chamam a si próprios de pecadores não estão errados considerandose as tentações à satisfação instintiva a que se encontram expostos em grau especialmente alto já que como todossabem as tentações são simplesmente aumentadas pela frustração constante ao passo que a sua satisfação ocasional as faz diminuir ao menos por algum tempo O campo da ética tão cheio de problemas nos apresenta outro fato a má sorte isto é a frustração externa acentua grandemente o poder da consciência no superego Enquanto tudo corre bem com um homem a sua consciência é lenitiva e permite que o ego faça todo tipo de coisas entretanto quando o infortúnio lhe sobrevém ele busca sua alma reconhece sua pecaminosidade eleva as exigências de sua consciência impõese abstinência e se castiga com penitências Povos inteiros se comportaram dessa maneira e ainda se comportam Isso contudo é facilmente explicado pelo estágio infantil original da consciência o qual como vemos não é abandonado após a introjeção no superego persistindo lado a lado e por trás dele O Destino é encarado como um substituto do agente parental Se um homem é desafortunado isso significa que não é mais amado por esse poder supremo e ameaçado por essa falta de amor mais uma vez se curva ao representante paterno em seu superego representante que em seus dias de boa sorte estava pronto a desprezar Esse fato se torna especialmente claro quando o Destino é encarado segundo o sentido estritamente religioso de nada mais ser do que uma expressão da Vontade Divina O povo de Israel acreditava ser o filho favorito de Deus e quando o grande Pai fez com que infortúnios cada vez maiores desabassem sobre seu povo jamais a crença em Seu relacionamento com eles se abalou nem o Seu poder ou justiça foi posto em dúvida Pelo contrário foi então que surgiram os profetas que apontaram a pecaminosidade desse povo e de seu sentimento de culpa criaramse os mandamentos superestritos de sua religião sacerdotal É digno de nota o comportamento tão diferente do homem primitivo Se ele se defronta com um infortúnio não atribui a culpa a si mesmo mas a seu fetiche que evidentemente não cumpriu o dever e dálhe uma surra em vez de se punir a si mesmo Conhecemos assim duas origens do sentimento de culpa uma que surge do medo de uma autoridade e outra posterior que surge do medo dosuperego A primeira insiste numa renúncia às satisfações instintivas a segunda ao mesmo tempo em que faz isso exige punição de uma vez que a continuação dos desejos proibidos não pode ser escondida do superego Aprendemos também o modo como a severidade do superego as exigências da consciência deve ser entendida Tratase simplesmente de uma continuação da severidade da autoridade externa à qual sucedeu e que em parte substituiu Percebemos agora em que relação a renúncia ao instinto se acha com o sentimento de culpa Originalmente renúncia ao instinto constituía o resultado do medo de uma autoridade externa renunciavase às próprias satisfação para não se perder o amor da autoridade Se se efetuava essa renúncia ficavase por assim dizer quite com a autoridade e nenhum sentimento de culpa permaneceria Quanto ao medo do superego porém o caso é diferente Aqui a renúncia instintiva não basta pois o desejo persiste e não pode ser escondido do superego Assim a despeito da renúncia efetuada ocorre um sentimento de culpa Isso representa uma grande desvantagem econômica na construção de um superego ou como podemos dizer na formação de uma consciência Aqui a renúncia instintiva não possui mais um efeito completamente liberador a continência virtuosa não é mais recompensada com a certeza do amor Uma ameaça de infelicidade externa perda de amor e castigo por parte da autoridade externa foi permutada por uma permanente infelicidade interna pela tensão do sentimento de culpa Essas interrelações são tão complicadas e ao mesmo tempo tão importantes que ao risco de me repetir as abordarei ainda de outro ângulo A seqüência cronológica então seria a seguinte Em primeiro lugar vem a renúncia ao instinto devido ao medo de agressão por parte da autoridade externa É a isso naturalmente que o medo da perda de amor equivale pois o amor constitui proteção contra essa agressão punitiva Depois vem a organização de uma autoridade interna e a renúncia ao instinto devido ao medo dela ou seja devido ao medo da consciência Nessa segunda situação as más intenções são igualadas às más ações e daí surgem sentimento de culpa e necessidade de punição A agressividade da consciência continua a agressividade da autoridade Até aqui sem dúvida as coisas são claras mas onde é que isso deixa lugar para a influência reforçadora do infortúnio da renúncia imposta de foraver 1 e para a extraordinária severidade da consciência nas pessoas melhores e mais dóceis ver 1Já explicamos essasparticularidades da consciência mas provavelmente ainda temos a impressão de que essas explicações não atingem o fundo da questão e deixam ainda inexplicado um resíduo Aqui por fim surge uma idéia que pertence inteiramente à psicanálise sendo estranha ao modo comum de pensar das pessoas Essa idéia é de um tipo que nos capacita a compreender por que o tema geral estava fadado a nos parecer confuso e obscuro pois nos diz que de início a consciência ou de modo mais correto a ansiedade que depois se torna consciência é na verdade a causa da renúncia instintiva mas que posteriormente o relacionamento se inverte Toda renúncia ao instinto tornase agora uma fonte dinâmica de consciência e cada nova renúncia aumenta a severidade e a intolerância desta última Se pudéssemos colocar isso mais em harmonia com o que já sabemos sobre a história da origem da consciência ficaríamos tentados a defender a afirmativa paradoxal de que a consciência é o resultado da renúncia instintiva ou que a renúncia instintiva imposta a nós de fora cria a consciência a qual então exige mais renúncias instintivas A contradição entre essa afirmativa e o que anteriormente dissemos sobre a gênese da consciência não é na realidade tão grande e vemos uma maneira de reduzila ainda mais A fim de facilitar nossa exposição tomemos como exemplo o instinto agressivo e suponhamos que a renúncia em estudo seja sempre uma renúncia à agressão Isso naturalmente só deve ser tomado como uma suposição temporária O efeito da renúncia instintiva sobre a consciência então é que cada agressão de cuja satisfação o indivíduo desiste é assumida pelo superego e aumenta a agressividade deste contra o ego Isso não se harmoniza bem com o ponto de vista segundo o qual a agressividade original da consciência é uma continuação da severidade da autoridade externa não tendo portanto nada a ver com a renúncia Mas a discrepância se anulará se postularmos uma derivação diferente para essa primeira instalação da agressividade do superego É provável que na criança se tenha desenvolvido uma quantidade considerável de agressividade contra a autoridade que a impede de ter suas primeiras e também mais importantes satisfações não importando o tipo de privação instintiva que dela possa ser exigida Ela porém é obrigada a renunciar à satisfação dessa agressividade vingativa e encontra saída para essa situação economicamente difícil com o auxílio de mecanismos familiares Através da identificação incorpora a si a autoridade inatacável Esta transformase então em seu superego entrando na posse de toda a agressividade que a criança gostaria de exercer contra ele O ego da criança tem de contentarse com o papel infeliz da autoridade o pai que foi assim degradada Aqui como tão freqüentemente acontece a situação real é invertida Se eu fosse o pai e você fosse a criança eu otrataria muito mal O relacionamento entre o superego e o ego constitui um retorno deformado por um desejo dos relacionamentos reais existentes entre o ego ainda individido e um objeto externo Isso também é típico A diferença essencial porém é que a severidade original do superego não representa ou não representa tanto a severidade que dele do objeto se experimentou ou que se lhe atribui Representa antes nossa própria agressividade para com ele Se isso é correto podemos verdadeiramente afirmar que de início a consciência surge através da repressão de um impulso agressivo sendo subseqüentemente reforçada por novas repressões do mesmo tipo Qual destes dois pontos de vista é correto O primeiro que geneticamente parecia tão inexpugnável ou o último que de maneira tão bemvinda apara as arestas da teoria Claramente e também pelas provas de observações diretas ambos se justificam Não contradizem mutuamente e até mesmo coincidem em determinado ponto pois a agressividade vingativa da criança será em parte determinada pela quantidade de agressão punitiva que espera do pai A experiência mostra contudo que a severidade do superego que uma criança desenvolve de maneira nenhuma corresponde à severidade de tratamento com que ela própria se defrontou A severidade do primeiro parece ser independente da do último Uma criança criada de forma muito suave pode adquirir uma consciência muito estrita No entanto também seria errado exagerar essa independência não é difícil nos convencermos de que a severidade da criação também exerce uma forte influência na formação do superego da criança Isso significa que na formação do superego e no surgimento da consciência fatores constitucionais inatos e influências do ambiente real atuam de forma combinada O que de modo algum é surpreendente ao contrário tratase de uma condição etiológica universal para todos os processos desse tipo Podese também asseverar que quando uma criançareage às suas primeiras grandes frustrações instintivas com uma agressividade excessivamente forte e um superego correspondentemente severo ela está seguindo um modelo filogenético e indo além da reação que seria correntemente justificada pois o pai dos tempos pré históricos era indubitavelmente terrível e uma quantidade extrema de agressividade lhe pode ser atribuída Assim se passarmos do desenvolvimento individual para o desenvolvimento filogenético as diferenças entre as duas teorias da gênese da consciência ficam menores ainda Por outro lado uma nova e importante diferença aparece entre esses dois processos de desenvolvimento Não podemos afastar a suposição de que o sentimento de culpa do homem se origina do complexo edipiano e foi adquirido quando da morte do pai pelos irmãos reunidos em bando Naquela ocasião um ato de agressão não foi suprimido mas executado foi porém o mesmo ato de agressão cuja repressão na criança se imagina ser a fonte de seu sentimento de culpa Nesse ponto não me surpreenderei se o leitor exclamar com raiva Então não faz diferença que se mate o pai ou não ficase com um sentimento de culpa do mesmo jeito Pedimos licença para levantar algumas dúvidas Ou não é verdade que o sentimento de culpa provém da agressividade reprimida ou então toda a história da morte do pai é uma ficção e os filhos do homem primevo não mataram os pais mais do que as crianças o fazem atualmente Além disso se não for ficção mas fato histórico plausível seria o caso de acontecer algo que todos esperam que aconteça ou melhor uma pessoa se sentir culpada porque realmente fez algo que não pode ser justificado E para esse evento que afinal de contas constitui uma ocorrência cotidiana a psicanálise ainda não forneceu qualquer explicação Tudo isso é verdade e temos de corrigir a omissão Tampouco existe qualquer grande segredo quanto ao assunto Quando se fica com um sentimento de culpa depois de ter praticado uma má ação e por causa dela o sentimento deveria mais propriamente ser chamado de remorso Este se refere apenas a um ato que foi cometido e naturalmente pressupõe que uma consciência a presteza em se sentir culpado já existia antes que o ato fosse praticado Um remorso desse tipo portanto jamais pode ajudarnos a descobrir a origem da consciência e do sentimento de culpa em geral O que acontece nesses casos cotidianos é geralmente o seguinte uma necessidade instintiva adquire intensidade para alcançar satisfação a despeito da consciência que afinal de contas é limitada em sua força e com o debilitamentonatural da necessidade devido a ter sido satisfeita o equilíbrio anterior de forças é restaurado A psicanálise encontra assim uma justificativa para excluir do presente exame o caso do sentimento de culpa devido ao remorso por mais freqüentemente que tais casos ocorram e por grande que seja sua importância prática Mas se o sentimento humano de culpa remonta à morte do pai primevo tratase afinal de contas de um caso de remorso Por ventura não devemos supor que nessa época uma consciência e um sentimento de culpa como pressupomos já existiam antes daquele feito Se não existiam de onde então proveio o remorso Não há dúvida de que esse caso nos explicaria o segredo do sentimento de culpa e poria fim às nossas dificuldades E acredito que o faz Esse remorso constituiu o resultado da ambivalência primordial de sentimentos para com o pai Seus filhos o odiavam mas também o amavam Depois que o ódio foi satisfeito pelo ato de agressão o amor veio para o primeiro plano no remorso dos filhos pelo ato Criou o superego pela identificação com o pai deu a esse agente o poder paterno como uma punição pelo ato de agressão que haviam cometido contra aquele e criou as restrições destinadas a impedir uma repetição do ato E visto que a inclinação à agressividade contra o pai se repetiu nas gerações seguintes o sentimento de culpa também persistiu cada vez mais fortalecido por cada parcela de agressividade que era reprimida e transferida para o superego Ora penso eu finalmente podemos apreender duas coisas de modo perfeitamente claro o papel desempenhado pelo amor na origem da consciência e a fatal inevitabilidade do sentimento de culpa Matar o próprio pai ou absterse de matálo não é realmente a coisa decisiva Em ambos os casos todos estão fadados a sentir culpa porque o sentimento de culpa é expressão tanto do conflito devido à ambivalência quanto da eterna luta entre Eros e o instinto de destruição ou morte Esse conflito é posto em ação tão logo os homens se defrontem com a tarefa de viverem juntos Enquanto a comunidade não assume outra forma que não seja a da família o conflito está fadado a se expressar no complexo edipiano a estabelecer a consciência e a criar o primeiro sentimento de culpa Quando se faz uma tentativa para ampliar a comunidade o mesmo conflito continua sob formas que dependem do passado é fortalecido e resulta numa intensificação adicional do sentimento de culpa Visto que a civilização obedece a um impulso erótico interno que leva os seres humanos a se unirem num grupo estreitamente ligado ela só pode alcançar seu objetivo através de um crescente fortalecimento do sentimento de culpa O que começou em relação ao pai é completado em relação ao grupo Se a civilização constitui o caminho necessário de desenvolvimento da família à humanidade como um todo então em resultado do conflito inato surgido da ambivalência da eterna luta entre as tendências de amor e de morte achase a ele inextricavelmente ligado um aumento do sentimento de culpa que talvez atinja alturas que o indivíduo considere difíceis de tolerar Aqui somos lembrados da comovente denúncia dos Poderes Celestes feita pelo grande poeta lhr führt ins Leben uns hineinlhr lasst den Armen schuldig werdenDann überlasst lhr den PeinDenn iede Schuld rächt sich auf Erden E bem podemos suspirar aliviados ante o pensamento de que apesar de tudo a alguns é concedido salvar sem esforço do torvelinho de seus próprios sentimentos as mais profundas verdades em cuja direção o resto de nós tem de encontrar o caminho por meio de uma incerteza atormentadora e com um intranqüilo tatear VIII Chegando ao fim de sua jornada o autor se vê obrigado a pedir o perdão dos leitores por não ter sido um guia mais hábil e por não lhes ter poupado as regiões mais ásperas da estrada e os desconfortáveis détours Não há dúvida de que isso poderia ter sido feito de forma melhor Tentarei já findando o dia proceder a algumas correções Em primeiro lugar desconfio que o leitor tem a impressão de que nosso exame do sentimento de culpa quebra a estrutura deste ensaio que ocupa espaço demais de maneira que o resto do tema geral ao qual não se acha sempre estreitamente vinculado é posto de lado Isso pode ter prejudicado a estrutura do trabalho mas corresponde fielmente à minha intenção de representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização e de demonstrar que o preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensifica ção do sentimento de culpaQualquer coisa que ainda soe estranha a respeito dessa afirmação que constitui a conclusão final de nossa investigação pode ser provavelmente localizada no relacionamento bastante peculiar até agora completamente inexplicado que o sentimento de culpa mantém com nossa consciência No caso comum de remorso que encaramos como normal esse sentimento se torna claramente perceptível para a consciência Na verdade estamos habituados a falar de uma consciência de culpa em vez de um sentimento de culpa Nosso estudo das neuroses ao qual afinal decontas devemos as mais valiosas indicações para uma compreensão das condições normais nos leva de encontro a certas contradições Numa des sas afecções a neurose obsessiva o sentimento de culpa fazse ruidosamente ouvido na consciência domina o quadro clínico e também a vida do paciente mal permitindo que apareça algo mais ao lado dele Entretanto na maioria dos outros casos e formas de neurose ele permanece completamente inconsciente sem que por isso produza efeitos menos importantes Nossos pacientes não acreditam em nós quando lhes atribuímos um sentimento de culpa inconsciente A fim de nos tornarmos inteligíveis para eles falamoslhes de uma necessidade inconsciente de punição na qual o sentimento de culpa encontra expressão Apesar disso sua vinculação a uma forma específica de neurose não deve ser superestimada Mesmo na neurose obsessiva há tipos de pacientes que não se dão conta de seu sentimento de culpa ou que apenas o sentem como um malestar atormentador uma espécie de ansiedade se impedidos de praticar certas ações Deveria ser possível chegar a compreender essas coisas mas até agora não nos foi possível Aqui talvez nos possamos alegrar por termos assinalado que no fundo o sentimento de culpa nada mais é do que uma variedade topográfica da ansiedade em suas fases posteriores coincide completamente com o medo do superego E as relações da ansiedade com a consciência apresentam as mesmas e extraordinárias variações A ansiedade está sempre presente num lugar ou outro por trás de todo sintoma em determinada ocasião porém toma ruidosamente posse da totalidade da consciência ao passo que em outra se oculta tão completamente que somos obrigados a falar de ansiedade inconsciente ou se desejamos ter uma consciência psicológica mais clara visto a ansiedade ser no primeiro caso simplesmente um sentimento das possibilidades de ansiedade Por conseguinte é bastante concebível que tampouco o sentimen to de culpa produzido pela civilização seja percebido como tal e em grande parte permaneça inconsciente ou apareça como uma espécie de malestar uma insatisfação para a qual as pessoas buscam outras motivações As religiões pelo menos nunca desprezaram o papel desempenhado na civilização pelo sentimento de culpa Ademais ponto que deixei de apreciar em outro trabalho elas alegam redimir a humanidade desse sentimento de culpa a que chamam de pecado Da maneira pela qual no cristianismo essa redenção é conseguida pela morte sacrificial de uma pessoa isolada que desse modo toma sobre si mesma a culpa comum a todos consegui mos inferir qual pode ter sido a primeira ocasião em que essa culpa primária que constitui também o primórdio da civilização foi adquirida Embora talvez não seja de grande importância não é supérfluo elucidar o significado de certas palavras tais como superego consciência sentimento de culpa necessidade de punição e remorso as quais é possível que muitas vezes tenhamos utilizado de modo frouxo e intercambiável Todas se relacionam ao mesmo estado de coisas mas denotam diferentes aspectos seus O superego é um agente que foi por nós inferido e a consciência constitui uma função que entre outras atribuímos a esse agente A função consiste em manter a vigilância sobre as ações e as intenções do ego e julgálas exercendo sua censura O sentimento de culpa a severidade do superego é portanto o mesmo que a severidade da consciência É a percepção que o ego tem de estar sendo vigiado dessa maneira a avaliação da tensão entre os seus próprios esforços e as exigências do superego O medo desse agente crítico medo que está no fundo de todo relacionamento a necessidade de punição constitui uma manifestação instintiva por parte do ego que se tornou masoquista sob a influência de um superego sádico é por assim dizer uma parcela do instinto voltado para a destruição interna presente no ego empregado para formar uma ligação erótica com o superego Não devemos falar de consciência até que um superego se ache demonstravelmente presente Quanto ao sentimento de culpa temos de admitir que existe antes do superego e portanto antes da consciência também Nessa ocasião ele é expressão imediata do medo da autoridade externa um reconhecimento da tensão existente entre o ego e essa autoridade É o derivado direto do conflito entre a necessidade do amor da autoridade e o impulso no sentido da satisfação instintiva cuja inibição produz a inclinação para a agressão A superposição desses dois estratos do sentimento de culpa um oriundo do medo da autoridade externa o outro do medo da autoridade interna dificultou nossa compreensão interna insight da posição da consciência por certo número de maneiras Remorso é um termo geral para designar a reação do ego num caso de sentimento de culpa Contém emforma pouco alterada o material sensorial da ansiedade que opera por trás do sentimento de culpa ele próprio é uma punição ou pode incluir a necessidade de punição podendo portanto ser também mais antigo do que a consciência Tampouco fará mal que passemos mais uma vez em revista as contradições que nos confundiram durante algum tempo no correr de nossa investigação Assim em determinado ponto o sentimento de culpa era a conseqüência dos atos de agressão de que alguém se abstivera em outro porém exatamente em seu começo histórico a morte do pai constituía a conseqüência de um ato de agressão que fora executadover 1 Encontrouse uma saída para essa dificuldade pois a instituição da autoridade interna o superego alterou radicalmente a situação Antes disso o sentimento de culpa coincidia com o remorso Podemos observar incidentalmente que o termo remorso deveria ser reservado para a reação que surge depois de um ato de agressão ter sido realmente executado Posteriormente devido à onisciência do superego a diferença entre uma agressão pretendida e uma agressão executada perdeu sua força Daí por diante o sentimento de culpa podia ser produzido não apenas por um ato de violência realmente efetuado como todos sabem mas também por um ato simplesmente pretendido como a psicanálise descobriu Independentemente dessa alteração na situação psicológica o conflito que surge da ambivalência o conflito entre os dois instintos primitivos deixa atrás de si o mesmo resultadover 1 Somos tentados a procurar aqui a solução do problema da relação variável em que o sentimento de culpa se acha para com a consciência Podese pensar que o sentimento de culpa surgido do remorso por uma ação má deve ser sempre consciente ao passo que o sentimento de culpa originado da percepção de um impulso mau pode permanecer inconsciente Contudo a resposta não é tão simples assim A neurose obsessiva fala energicamente contra ela A segunda contradição se referia à energia agressiva da qual supomos dotado o superego Segundo determinado ponto de vista essa energia simplesmente continua a energia punitiva da autoridade externa e a mantém viva na mentever 1 ao passo que de acordo com outra opinião ela consiste pelo contrário na própria energia agressiva que não foi uti lizada e que agora se dirige contra essa autoridade inibidoraver 1 A primeira visão parecia ajustarse melhor à história e a segunda à teoria do sentimento de culpa Uma reflexão mais adequada resolveu essa contradição aparentemente irreconciliável de modo quase excessivamente completo o que restou como fator essencial e comum foi que em cada caso se lida com uma agressividadedeslocada para dentro A observação clínica ademais nos permite de fato distinguir duas fontes para a agressividade que atribuímos ao superego ou uma ou outra exerce o efeito mais forte em qualquer caso determinado mas em geral operam em harmonia É este penso eu o lugar para apresentar a uma consideração séria uma opinião que anteriormente recomendei para aceitação provisória Na literatura analítica mais recente mostrase predileção pela idéia de que qualquer tipo de frustração qualquer satisfação instintiva frustrada resulta ou pode resultar numa elevação do sentimento de culpa Acho que se conseguirá uma grande simplificação teórica se se encarar isso como sendo aplicável apenas aos instintos agressivos e não se encontrará quase nada que contradiga essa afirmação Pois como devemos explicar em fundamentos dinâmicos e econômicos um aumento no sentimento de culpa que aparece no lugar de uma exigência erótica não satisfeita Isso só parece possível de maneira indireta se supusermos que a prevenção de uma satisfação erótica exige uma agressividade contra a pessoa que interferiu na satisfação e que essa própria agressividade por sua vez tem de ser recalcada Se as coisas se passam assim é em suma apenas a agressividade que é transformada em sentimento de culpa por ter sido recalcada e transmitida para o superego Estou convencido de que muitos processos admitirão exposição mais simples e mais clara se as descobertas da psicanálise sobre a derivação do sentimento de culpa forem restringidas aos instintos agressivos O exame do material clínico não nos fornece aqui uma resposta inequívoca porque como nossa hipótese nos diz os dois tipos de instinto dificilmente aparecem em forma pura isolados um do outro e uma investigação dos casos extremos provavelmente apontaria para a direção por mim prevista Sintome tentado a extrair uma primeira vantagem dessa visão mais restrita do caso aplicandoa ao processo da repressão Conforme aprendemos os sintomas neuróticos são em sua essência satisfações substitutivas para desejos sexuais não realizados No decorrer de nosso trabalho analítico descobrimos para nossa surpresa que talvez toda neurose oculte uma quota de sentimento inconsciente de culpa o qual por sua vez fortifica os sintomas fazendo uso deles como punição Agora parece plausível formular a seguinte proposição quando uma tendência instintiva experimenta a repressão seus elementos libidinais são transformadosem sintomas e seus componentes agressivos em sentimento de culpa Mesmo que essa proposição não passe de uma aproximação mediana à verdade é digna de nosso interesse Alguns leitores deste trabalho podem ainda ter a impressão de que já ouviram de modo demasiado freqüente a fórmula sobre a luta entre Eros e o instinto de morte Ela foi não só empregada para caracterizar o processo de civilização que a humanidade sofrever 1mas também vinculada ao desenvolvimento do indivíduo ver 1 e além disso dela se disse que revelou o segredo da vida orgânica em geralver 1 Acho que não podemos deixar de penetrar nas relações existentes entre esses três processos A repetição da mesma fórmula se justifica pela consideração de que tanto o processo da civilização humana quanto o do desenvolvimento do indivíduo são também processos vitais o que equivale a dizer que devem partilhar a mesma característica mais geral da vida Por outro lado as provas da presença dessa característica geral pela razão mesma de sua natureza geral fracassam em nos ajudar a estabelecer qualquer diferenciação entre os processos enquanto não for reduzida por limitações especiais Só podemos ficar satisfeitos portanto afirmando que o processo civilizatório constitui uma modificação que o processo vital experimenta sob a influência de uma tarefa que lhe é atribuída por Eros e incentivada por Ananké pelas exigências da realidade e que essa tarefa é a de unir indivíduos isolados numa comunidade ligada por vínculos libidinais Quando porém examinamos a relação existente entre o processo desenvolvimental ou educativo dos seres humanos individuais devemos concluir sem muita hesitação que os dois apresentam uma natureza muito semelhante caso não sejam o mesmo processo aplicado a tipos diferentes de objeto O processo da civilização da espécie humana é naturalmente uma abstração de ordem mais elevada do que a do desenvolvimento do indivíduo sendo portanto de mais difícil apreensão em termos concretos tampouco devemos perseguir as analogias a um extremo obsessivo Contudo diante da semelhança entre os objetivos dos dois processos num dos casos a integração de um indivíduo isolado num grupo humano no outro a criação de um grupo unificado a partir de muitos indivíduos não podemos surpreendernos com a similaridade entre os meios empregados e os fenômenos resultantes Em vista de sua excepcional importância não devemos adiar mais a menção de determinado aspecto que estabelece a distinção entre os dois processos No processo de desenvolvimento do indivíduo o programa do princípio do prazer que consiste em encontrar a satisfação da felicidade é mantido como objetivo principal A integração numa comunidade humanaou a adaptação a ela aparece como uma condição dificilmente evitável que tem de ser preenchida antes que esse objetivo de felicidade possa ser alcançado Talvez fosse preferível que isso pudesse ser feito sem essa condição Em outras palavras o desenvolvimento do indivíduo nos parece ser um produto da interação entre duas premências a premência no sentido da felicidade que geralmente chamamos de egoísta e a premência no sentido da união com os outros da comunidade que chamamos de altruísta Nenhuma dessas descrições desce muito abaixo da superfície No processo de desenvolvimento individual como dissemos a ênfase principal recai sobretudo na premência egoísta ou a premência no sentido da felicidade ao passo que a outra premência que pode ser descrita como cultural geralmente se contenta com a função de impor restrições No processo civilizatório porém as coisas se passam de modo diferente Aqui de longe o que mais importa é o objetivo de criar uma unidade a partir dos seres humanos individuais É verdade que o objetivo da felicidade ainda se encontra aí mas relegado ao segundo plano Quase parece que a criação de uma grande comunidade humana seria mais bemsucedida se não se tivesse de prestar atenção à felicidade do indivíduo Assim pode se esperar que o processo desenvolvimental do indivíduo apresente aspectos especiais próprios dele que não são reproduzidos no processo da civilização humana É apenas na medida em que está em união com a comunidade como objetivo seu que o primeiro desses processos precisa coincidir com o segundo Assim como um planeta gira em torno de um corpo central enquanto roda em torno de seu próprio eixo assim também o indivíduo humano participa do curso do desenvolvimento da humanidade ao mesmo tempo que persegue o seu próprio caminho na vida Para nossos olhos enevoados porém o jogo de forças nos céus parece fixado numa ordem que jamais muda no campo da vida orgânica ainda podemos perceber como as forças lutam umas com as outras e como os efeitos desse conflito estão em permanente mudança Assim também as duas premências a que se volta para a felicidade pessoal e a que se dirige para a união com os outros seres humanos devem lutar entre si em todo indivíduo e assim também os dois processos de desenvolvimento o individual e o cultural têm de colocarse numa oposição hostil um para com o outro e disputarse mutuamente a posse do terreno Contudo essa luta entre o indivíduo e a sociedade não constitui um derivado da contradição provavelmente irreconciliável entre os instintos primevos de Eros e da morte Tratase de uma luta dentro da economia da libido comparável àquela referente à distribuição da libido entre o ego e os objetos admitindo uma acomodação final no indivíduo tal como podese esperar também o fará no futuro da civilização por mais que atualmente essa civilização possa oprimir a vida do indivíduo A analogia entre o processo civilizatório e o caminho do desenvolvimento individual é passível de ser ampliada sob um aspecto importante Podese afirmar que também a comunidade desenvolve um superego sob cuja influência se produz a evolução cultural Constituiria tarefa tentadora para todo aquele que tenha um conhecimento das civilizações humanas acompanhar pormenorizadamente essa analogia Limitarmeei a apresentar alguns pontos mais notáveis O superego de uma época de civilização tem origem semelhante à do superego de um indivíduo Ele se baseia na impressão deixada atrás de si pelas personalidades dos grandes líderes homens de esmagadora força de espírito ou homens em quem um dos impulsos humanos encontrou sua expressão mais forte e mais pura e portanto quase sempre mais unilateral Em muitos casos a analogia vai mais além como no fato de durante a sua vida essas figuras com bastante freqüência ainda que não sempre terem sido escarnecidas e maltratadas por outros e até mesmo liquidadas de maneira cruel Do mesmo modo na verdade o pai primevo não atingiu a divindade senão muito tempo depois de ter encontrado a morte pela violência O exemplo mais evidente dessa conjunção fatídica pode ser visto na figura de Jesus Cristo se em verdade essa figura não faz parte da mitologia que a conclamou à existência a partir de uma obscura lembrança daquele evento primevo Outro ponto de concordância entre o superego cultural e o individual é que o primeiro tal como o último estabelece exigências ideais estritas cuja desobediência é punida pelo medo da consciênciaver 1 Aqui em verdade nos deparamos com a notável circunstância de que na realidade os processos mentais relacionados são mais familiares para nós e mais acessíveis à consciência tal como vistos no grupo do que o podem ser no indivíduo Neste quando a tensão cresce é apenas a agressividade do superego que sob a forma de censuras se faz ruidosamente ouvida com freqüência suas exigências reais permanecem inconscientes no segundo plano Se as trazemos ao conhecimento consciente descobrimos que elas coincidem com os preceitos do superego cultural predominante Neste ponto os dois processos o do desenvolvimento cultural do grupo e o do desenvolvimento cultural do indivíduo se acham por assim dizer sempre interligados Daí algumas das manifestações e propriedades do superego poderem ser mais facilmente detectadas em seu comportamento na comunidade cultural do que no indivíduo isoladoO superego cultural desenvolveu seus ideais e estabeleceu suas exigências Entre estas aquelas que tratam das relações dos seres humanos uns com os outros estão abrangidas sob o título de ética As pessoas em todos os tempos deram o maior valor à ética como se esperassem que ela de modo específico produzisse resultados especialmente importantes De fato ela trata de um assunto que pode ser facilmente identificado como sendo o ponto mais doloroso de toda civilização A ética deve portanto ser considerada como uma tentativa terapêutica como um esforço por alcançar através de uma ordem do superego algo até agora não conseguido por meio de quaisquer outras atividades culturais Como já sabemos o problema que temos pela frente é saber como livrarse do maior estorvo à civilização isto é a inclinação constitutiva dos seres humanos para a agressividade mútua por isso mesmo estamos particularmente interessados naquela que é provavelmente a mais recente das ordens culturais do superego o mandamento de amar ao próximo como a si mesmoVer 1 Em nos sa pesquisa de uma neurose e em sua terapia somos levados a fazer duas censuras contra o superego do indivíduo Na severidade de suas ordens e proibições ele se preocupa muito pouco com a felicidade do ego já que considera de modo insuficiente as resistências contra a obrigação de obedecêlas a força instintiva do id em primeiro lugar e as dificuldades apresentadas pelo meio ambiente externo real em segundo Por conseguinte somos freqüentemente obrigados por propósitos terapêuticos a nos opormos ao superego e a nos esforçarmos por diminuir suas exigências Exatamente as mesmas objeções podem ser feitas contra as exigências éticas do superego cultural Ele também não se preocupa de modo suficiente com os fatos da constituição mental dos seres humanos Emite uma ordem e não pergunta se é possível às pessoas obedecêla Pelo contrário presume que o ego de um homem é psicologicamente capaz de tudo que lhe é exigido que o ego desse homem dispõe de um domínio ilimitado sobre seu id Tratase de um equívoco e mesmo naquelas que são conhecidas como pessoas normais o id não pode ser controlado além de certos limites Caso se exija mais de um homem produzirseá nele uma revolta ou uma neurose ou ele se tornará infeliz O mandamento Ama a teu próximo como a ti mesmo constitui a defesa mais forte contra a agressividade humana e um excelente exemplo dos procedimentos não psicológicos do superego cultural É impossível cumprir esse mandamento uma inflação tão enorme de amor só pode rebaixar seu valor sem se livrar da dificuldade A civilização não presta atenção a tudo isso ela meramente nos adverte que quanto mais difícil é obedecer ao preceito mais meritório é proceder assim Contudo todo aquele que nacivilização atual siga tal preceito só se coloca em desvantagem frente à pessoa que despreza esse mesmo preceito Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade A ética natural tal como é chamada nada tem a oferecer aqui exceto a satisfação narcísica de se poder pensar que se é melhor do que os outros Nesse ponto a ética baseada na religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte Enquanto porém a virtude não for recompensada aqui na Terra a ética imagino eu pregará em vão Acho também bastante certo que nesse sentido uma mudança real nas relações dos seres humanos com a propriedade seria de muito mais ajuda do que quaisquer ordens éticas mas o reconhecimento desse fato entre os socialistas foi obscurecido e tornado inútil para fins práticos por uma nova e idealista concepção equivocada da natureza humanaVer 1 Creio que a linha de pensamento que procura descobrir nos fenômenos de desenvolvimento cultural o papel desempenhado por um superego promete ainda outras descobertas Apressome a chegar ao fim mas há uma questão a que dificilmente posso fugir Se o desenvolvimento da civilização possui uma semelhança de tão grande alcance com o desenvolvimento do indivíduo e se emprega os mesmos métodos não temos nós justificativa em diagnosticar que sob a influência de premências culturais algumas civilizações ou algumas épocas da civilização possivelmente a totalidade da humanidade se tornaram neuróticas Uma dissecação analítica de tais neuroses poderia levar a recomendações terapêuticas passíveis de reivindicarem um grande interesse prático Eu não diria que uma tentativa desse tipo de transportar a psicanálise para a comunidade cultural seja absurda ou que esteja fadada a ser infrutífera Mas teríamos de ser muito cautelosos e não esquecer que em suma estamos lidando apenas com analogias e que é perigoso não somente para os homens mas também para os conceitos arrancálos da esfera em que se originaram e se desenvolveram Além disso a diagnose das neuroses comunais se defronta com uma dificuldade especial Numa neurose individual tomamos como nosso ponto de partida o contraste que distingue o paciente do seu meio ambiente o qual se presume ser normal Para um grupo de que todos os membros estejam afetados pelo mesmo distúrbio não poderia existir esse pano de fundo ele teria de ser buscado em outro lugar E quanto à aplicação terapêutica de nosso conhecimento qual seria a utilidade da mais corretaanálise das neuroses sociais se não se possui autoridade para impor essa terapia ao grupo No entanto e a despeito de todas essas dificuldades podemos esperar que um dia alguém se aventure a se empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais Por uma ampla gama de razões está muito longe de minha intenção exprimir uma opinião sobre o valor da civilização humana Esforceime por resguardarme contra o preconceito entusiástico que sustenta ser a nossa civilização a coisa mais preciosa que possuímos ou poderíamos adquirir e que seu caminho necessariamente conduzirá a ápices de perfeição inimaginada Posso pelo menos ouvir sem indignação o crítico cuja opinião diz que quando alguém faz o levantamento dos objetivos do esforço cultural e dos meios que este emprega está fadado a concluir que não vale a pena todo esse esforço e que seu resultado só pode ser um estado de coisas que o indivíduo será incapaz de tolerar Minha imparcialidade se torna mais fácil para mim na medida em que conheço muito pouco a respeito dessas coisas Sei que apenas uma delas é certa é que os juízos de valor do homem acompanham diretamente os seus desejos de felicidade e que por conseguinte constituem uma tentativa de apoiar com argumentos as suas ilusões Acharia muito compreensível que alguém assinalasse a natureza obrigatória do curso da civilização humana e que dissesse por exemplo que as tendências para uma restrição da vida sexual ou para a instituição de um ideal humanitário à custa da seleção natural foram tendências de desenvolvimento impossíveis de serem desviadas ou postas de lado e às quais é melhor para nós nos submetermos como se constituíssem necessidades da natureza Também estou a par da objeção que pode ser levantada contra isso objeção segundo a qual na história da humanidade tendências como estas consideradas insuperáveis freqüentemente foram relegadas e substituídas por outras Assim não tenho coragem de me erguer diante de meus semelhantes como um profeta curvome à sua censura de que não lhes posso oferecer consolo algum pois no fundo é isso que todos estão exigindo e os mais arrebatados revolucionários não menos apaixonadamente do que os mais virtuosos crentes A questão fatídica para a espécie humana pareceme ser saber se e até que ponto seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição Talvez precisamente com relação a isso a época atual mereça um interesse especial Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle que com sua ajuda não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros até o último homem Sabem disso e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação de sua infelicidade e de sua ansiedade Agora só nos resta esperar que o outro dos dois Poderes Celestes ver 1 o eterno Eros desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário Mas quem pode prever com que sucesso e com que resultado NOTAS 1 Esta tradução é a versão corrente no Brasil da Editora Imago que tem o direito sobre as obras de Freud somente o título foi modificado Como pode ser percebido nas observações abaixo da edição inglesa essa tradução para a língua portuguesa foi feita sobre a tradução inglesa que não respeitou uma diferenciação básica na sociologia e filosofia alemã relativa aos conceitos de cultura Kultur e civilização Zivilisation o argumento utilizado pelos tradutores é obtido no próprio Freud Desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização Enquanto kultur define uma esfera caracterizada por valores éticos estéticos e políticos um estilo de vida pessoal um universal espiritual interior natural orgânico tipicamente alemão zivilisation designa o progresso material técnicoeconômico exterior mecânico artificial de origem anglofrancesa Löwy Michael A evolução política de Lukács p 42 Para uma estudo históricosociológico aprofundado dessa oposição ver Elias Nobert O processo civilizador vol 1 para uma interpretação crítica dessa oposição na filosofia alemã ver Adorno e Horkheimer Cultura e Civilização Temas Básicos de sociologia NOTA DO EDITOR INGLÊS DAS UNBEHAGEN IN DER KULTUR a EDIÇÕES ALEMÃS 1930 Viena Internationaler Psychoanalytischer Verlag 136 págs 1931 2ª ed Reimpressão da 1ª ed com alguns acréscimos 1934 GS 12 29114 1948 GW 14 421506 b TRADUÇÃO INGLESA Civilization and its Discontents 1930 Londres Hogarth Press e Institute of PsychoAnalysis Nova Iorque Cape and Smith 144 págs Trad de Joan Riviere A atual tradução baseiase na publicada em 1930 O primeiro capítulo do original alemão foi publicado pouco antes do resto do livro em Psychoanal Bewegung1 4 novembrodezembro de 1929 O quinto capítulo apareceu separadamente no número seguinte do mesmo periódico 2 1 janeirofevereiro de 1930 Duas ou três notas de rodapé a mais foram incluídas na edição de 1931 e uma frase final foi acrescentada à obra Nenhum desses acréscimos apareceram na primeira versão da tradução inglesa Freud terminara O Futuro de uma Ilusão no outono de 1927 Durante os dois anos seguintes principalmente sem dúvida por causa de sua doença produziu muito pouco No verão de 1929 porém começou a escrever outro livro mais uma vez sobre um assunto sociológico O primeiro esboço foi terminado por volta de fins de julho o livro foi enviado à gráfica no começo de novembro e realmente publicado antes do fim do ano embora trouxesse a data de 1930 em sua página de rosto Jones 1957 1578 O título original para ele escolhido por Freud foi Das Unglück in der Kultur A Infelicidade na Civilização mas Unglück foi posteriormente alterado para Unbehagen palavra para a qual foi difícil escolher um equivalente inglês embora o francês malaise pudesse ter servido Numa carta à sua tradutora a Sra Riviere Freud sugeriu O Desconforto do Homem na Civilização mas foi ela própria que descobriu a solução ideal para a dificuldade no título finalmente adotado O tema principal do livro o antagonismo irremediável entre as exigências do instinto e as restrições da civilização pode ter sua origem remontada a alguns dos mais antigos trabalhos psicológicos de Freud Assim em 31 de maio de 1897 escreveu a Fliess que o incesto é antisocial e a civilização consiste numa progressiva renúncia a ele Freud 1950a Rascunho N e um ano depois no artigo Sexuality in the Aetiology of the Neuroses 1898a escreveu que podemos com justiça responsabilizar nossa civilização pela disseminação da neurastenia Não obstante em seus primeiros trabalhos Freud não parece ter considerado a repressão como sendo inteiramente devida a influências sociais externas Embora em seus Três Ensaios 1905d fale da relação inversa que existe entre a civilização e o livre desenvolvimento da sexualidade Edição Standard Brasileira Vol VII pág 250 IMAGO Editora 1972 em outra passagem da mesma obra fez o seguinte comentário sobre as barreiras opostas ao instinto sexual surgidas durante o período de latência Temse das crianças civilizadas uma impressão de que a construção dessas barreiras é um produto da educação e sem dúvida a educação muito tem a ver com ela Mas na realidade este desenvolvimento é organicamente determinado e fixado pela hereditariedade e pode ocasionalmente ocorrer sem qualquer auxílio da educação Ibid pág 157 A noção de haver uma repressão orgânica que prepara o caminho para a civilização noção expandida nas duas longas notas de rodapé ao início e ao final do Capítulo IV pág 77 e seg e 57 e segs adiante remonta ao mesmo período anterior Numa carta a Fliess em 14 de novembro de 1897 Freud escreveu que freqüentemente suspeitou que algo orgânico desempenhou um papel na repressão Freud 1950a Carta 75 Prossegue no mesmo sentido daquelas notas de rodapé sugerindo a importância como fatores de repressão da adoção de uma postura ereta e da substituição do olfato pela vista como sentido dominante Uma alusão ainda mais precoce à mesma idéia ocorre numa carta de 11 de janeiro de 1897 ibid Carta 55 Nos trabalhos publicados de Freud as únicas menções dessas idéias antes do atual parecem ser uma breve passagem na análise do Rat Man 1909d Satndard Ed 10 2478 e outra ainda mais sucinta no segundo artigo sobre a psicologia do amor 1912d Edição Standard Brasileira Vol XI pág172 IMAGO Editora 1972 De modo particular nenhuma análise das origens internas mais profundas da civilização pode ser encontrada naquilo que é de longe o mais longo dos primeiros estudos de Freud sobre o assunto ou seja o artigo Civilized Sexual Morality and Modern Nervous Illness 1908d que dá a impressão de as restrições da civilização serem algo imposto desde fora Na verdade contudo não foi possível nenhuma avaliação clara do papel desempenhado nessas restrições pelas influências internas e externas e seus efeitos recíprocos até que as investigações realizadas por Freud sobre a psicologia do ego o conduziram às hipóteses sobre o superego e sua origem nas mais antigas relações objetais do indivíduo É devido a isso que uma parte tão grande da presente obra especialmente nos Capítulos VII e VIII se interessa pela exploração e clarificação ulteriores da natureza do sentimento de culpa e que Freud ver 1 declara sua intenção de representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização E isso por sua vez constitui o fundamento para o segundo tema lateral de importância da obra embora nenhum deles seja na verdade um tema lateral a saber o instinto de destruição A história das opiniões de Freud sobre o instinto da agressão ou de destruição é complicada e só resumidamente pode ser indicada aqui Através de todos os seus primeiros escritos o contexto em que ele predominantemente o encarou foi o do sadismo Seus primeiros estudos mais longos sobre ele ocorreram nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade 1905d onde surgiu como um dos instintos componentes ou parciais do instinto sexual Assim escreveu ele na Seção 2 B do primeiro ensaio o sadismo corresponderia a um componente agressivo do instinto sexual que se tornou independente e exagerado e por deslocamento usurpou a posição dominante Edição Standard Brasileira Vol VII IMAGO Editora 1972 págs 15960 Não obstante posteriormente na Seção 4 do segundo ensaio a independência original dos impulsos agressivos foi reconhecida Podese presumir que os impulsos de crueldade surgem de fontes que são na realidade independentes da sexualidade mas podem unirse a ela num estágio prematuro ibid 198n As fontes independentes indicadas deveriam ter sua origem remontada aos instintos autopreservativos Essa passagem foi alterada na edição de 1915 onde se declarou que o impulso da crueldade surge do instinto de domínio e a frase sobre ser ele independente da sexualidade foi omitida Mas já em 1909 no decorrer do combate às teorias de Adler Freud fizera um pronunciamento muito mais amplo Na Seção II do terceiro capítulo da história clínica do Pequeno Hans 1909b Freud escreveu Não consigo convencerme da existência de um instinto agressivo especial ao lado dos instintos familiares de autopreservação e sexo e em pé de igualdade com eles ibid 10 140 A relutância em aceitar um instinto agressivo independente da libido foi auxiliada pela hipótese do narcisismo Os impulsos de agressividade e de ódio também desde o início pareceram pertencer ao instinto autopreservativo e visto que este se achava agora incluído na libido não se exigia qualquer instinto agressivo independente E assim era a despeito da bipolaridade das relações objetais das freqüentes misturas de amor e ódio e da complexa origem do próprio ódio Ver Instincts and their Vicissitudes 1915c Standard Ed 14 1389 Foi somente após a hipótese formulada por Freud de um instinto de morte que um instinto agressivo verdadeiramente independente apareceu em Beyond the Pleasure Principle 1920g Ver especificamente o Capítulo VI ibid 18 525 Mas é de notar que mesmo aí e nos escritos posteriores de Freud por exemplo no Capítulo IV de The Ego and the Id o instinto agressivo ainda era algo secundário derivado do instinto de morte autodestrutivo e primário Isso é verdadeiro ainda quanto à presente obra embora aqui a ênfase esteja colocada mais nas manifestações do instinto de morte voltadas para fora e também quanto aos estudos ulteriores do problema na última parte da Conferência XXXIII das New Introductory Lectures 1922a e em mais de um ponto do Esboço da Psicanálise 1940a 1938 Pequena Coleção das Obras de Freud Livro 7 IMAGO Editora 1974 de publicação póstumaSem embargo é tentador citar um par de frases de uma carta escrita por Freud em 27 de maio de 1937 à Princesa Marie Bonaparte na qual parece aludir a uma maior independência original da destrutividade externa A interiorização do instinto agressivo é naturalmente o correspondente da exteriorização da libido quando ela se transfere do ego para os objetos Teríamos um quadro esquemático nítido se supuséssemos que originalmente ao início da vida toda a libido era dirigida para o interior e toda a agressividade para o exterior e que no decorrer da vida isso gradativamente se alterava Mas talvez isso possa não ser correto É justo acrescentar que em sua carta seguinte Freud escrevia Peçolhe para não dar muito valor às minhas observações sobre o instinto de destruição Elas só foram feitas fortuitamente e teriam de ser cuidadosamente pensadas antes de publicadas Ademais pouco há de novo nelas É óbvio portanto que O MalEstar na Civilização é uma obra cujo interesse ultrapassa bastante a sociologia Partes consideráveis da primeira tradução 1930 do presente trabalho foram incluídas em Civilization War and Death Selections from Three Works by Sigmund Freud 1939 2681 da autoria de Rickman Identidades opressões e o inconsciente Gustavo Pessoa Resumo A psicologia analítica emerge entre o fim do século XIX e o início do século XX junto à psicanálise e a outras psicologias no contexto histórico social e político da Europa daqueles anos A hipótese do inconsciente compartilhada com a Psicanálise e com outras psicologias é redefinida e expandida por C G Jung em um giro epistemológico que amplia o pensamento analítico da época Algumas questões do sofrimento humano contemporâneo bem exemplificadas pelas questões de gênero e da opressão baseada em identidades de gênero pedem uma nova reflexão acerca dessa concepção de inconsciente para avançarmos nas discussões sobre como escutar o que pessoas em sofrimento na nossa época têm a nos dizer Este artigo pretende contribuir com essa discussão a partir do exame das identidades de gênero de pessoas LGBT e das masculinidades Analista membro da SBPA Psicólogo mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela USP atuando como analista em São Paulo SP Contato gustavompessoagmailcom Palavraschave identidade opressão inconsciente gênero psicologia analítica Identidades opressões e o inconsciente A psicologia constituiuse como disciplina área do conhecimento e da pesquisa organizada pela metodologia científica europeia ainda no século XIX O objetivo primeiro era atuar em instituições como escolas presídios e hospitais promovendo uma compreensão de indivíduo que possibilitasse o controle dos corpos por meio do mapeamento de como eles se comportavam Nesse sentido a psicologia emerge como um campo marcado pelo pensamento europeu liberal que sustentava a primazia do indivíduo ao mesmo tempo em que tentava disciplinálo para o suposto progresso da sociedade Figueiredo Santi 2003 A efervescência intelectual europeia dos fins do século XIX às primeiras décadas do século XX deu à luz a psicanálise e outros campos férteis de escuta individual como por exemplo a orientação fenomenológica de Binswanger e afinal a psicologia analítica de C G Jung Este último relacionouse com a psicanálise entre 1906 e 1912 como sabemos seguindo deste ano em diante um caminho próprio na elaboração de ideias Em comum com a psicanálise a psicologia analítica partilha a hipótese do Inconsciente Entre as muitas divergências das propostas psicanalíticas contudo está a própria noção do inconsciente do qual se tenta falar A proposta de C G Jung de inconsciente não consistiria meramente nos conteúdos reprimidos pelo sujeito que precisariam constituir um outro espaço psíquico Para Jung 2015 vol VII2 o Inconsciente seria formado a partir de três vetores a saber o reprimido de Freud e da Psicanálise os conteúdos esquecidos por falhas da memória tudo o que é desconhecido Esta noção de Inconsciente é formulada a partir de uma oposição à Consciência trazendo uma ideia final de que o desconhecido o esquecido e o reprimido estão de alguma forma unidos constituindo o grande inconsciente O interesse de Jung em ampliar a ideia de Inconsciente que transitava pela Psicanálise no começo do século XX justificase pelo seu trabalho com pacientes psicóticos e pela observação nos sonhos nos relatos e nas produções manuais desses pacientes de imagens que remetiam a motivos presentes em religiões e em mitologias Ao reconhecer tais imagens aparentemente sem conexão umas com as outras em diferentes culturas Jung 2014 vol IX1 par 711 postula o conceito de inconsciente coletivo uma disposição capaz de produzir em todos os tempos e todos os lugares os mesmos símbolos ou pelo menos muito semelhantes entre si Não devemos deixar de notar ainda os experimentos de associação de palavras de Jung 2012 vol II os quais deram um lugar mais destacado à ideia de esquecimento que poderia ser ou uma derivação do reprimido no caso de se esquecer daquilo que não se deseja lembrar ou um esquecimento trivial relegado ao inconsciente da memória É importante que pausemos a reflexão aqui para reconhecer o giro epistemológico junguiano na hipótese de inconsciente coletivo Até publicar a tese dos arquétipos e do inconsciente coletivo primeiramente vista em público em Símbolos da Transformação os debates na Psicanálise tratavam de um inconsciente como efeito de certas experiências do indivíduo em nossa sociedade Quando Jung elabora o inconsciente como uma disposição capaz de produzir algo neste caso símbolos há uma drástica virada lógica na concepção do que é a psique Para Jung ao contrário da Psicanálise o inconsciente se torna uma causa que produz efeitos os complexos Neste sentido tornase compreensível que Jung 2015 vol VII2 trate o ego como um complexo porque ele é também um efeito da produção inconsciente como qualquer outro complexo Jung propõe em seguida que cabe ao eu a jornada de individuação a qual se constituirá como processo que levará o sujeito à singularidade dele ou nas palavras de Jung 2015 vol VII2 a individuação tornará o sujeito um indivíduo único aquele que não é dividido A ideia de divisão está presente tanto na Psicanálise quanto na psicologia analítica mas a sugestão de um processo de individuação leva a imaginar que essa divisão possa ser superada de alguma forma por uma outra organização psíquica Como se fosse utópico imaginar um ser indiviso Jung propõe em vez disso que os elementos psíquicos possam se reorganizar de outra maneira que não seja uma tensão entre opostos Nessa ideia está implícita a noção de que o eu seria abalado por uma divisão entre dois termos que se tensionam entre si Jung 2013 vol VIII2 então diz que suportada essa tensão um terceiro elemento solucionador do conflito pode emergir e assim reconfigurar a forma como a psique se relaciona com aqueles aspectos alcançando a reelaboração que dissolveria o conflito Novamente o papel dado ao eu é de uma espécie de observador participante sem que seja a causa ou a forçamotriz do próprio processo de individuação Ainda que imaginemos uma atitude egoica ativa que precise ser exercida para a elaboração de conteúdos inconscientes mais uma vez o inconsciente figura como causa de uma transformação na consciência cabendo ao eu um papel de observação de facilitação e de interação com a ação do inconsciente no processo Na psicologia analítica dois atos importantes são designados ao eu consciente o reconhecimento do próprio inconsciente e a capacidade de suportar os conflitos que os conteúdos inconscientes provocam quando tensionados Com o giro epistemológico no qual o inconsciente deixa de ser efeito e pode ser reimaginado como produtor dos processos psíquicos Jung fissura um ponto da ideologia liberal que fundou a própria psicologia na concepção junguiana não há força de vontade ou afirmação do desejo individuais que bastem para transformar uma situação É preciso a ação do inconsciente para que uma transformação se efetive ou nas palavras do próprio autor é necessário o deo concedente Jung 2014 vol IX1 Ao formular a hipótese de inconsciente coletivo ampliando as fronteiras da própria compreensão de inconsciente e propondo o eu como efeito do inconsciente a ideia liberal de garra e de perseverança do eu perde força e tornase necessário reposicionar a vontade do eu frente a inúmeros elementos que o constituirão Entretanto essa nova proposição de inconsciente trará também um problema esse inconsciente coletivo amplo e magnânimo que produz e não é produzido onde se localizaria Qual seria o modo de ação dele a partir do qual ele pode ser concebido Seria o inconsciente um sujeito um tipo de força com capacidade de agir sobre o mundo Jung 2013 Vol VIII sugere em certa altura que o arquétipo é psicoide isto é está além da psique Em outro momento trata o inconsciente coletivo como uma espécie de repositório da memória da espécie humana remetendo a um aspecto algo genético dos arquétipos Jung 2014 vol IX1 Ao não elaborar propriamente essas ideias o autor abre margem para uma interpretação transcendental da hipótese dele o que poderia nos levar a uma concepção religiosa da psique Como Butler 2003 aponta a tentativa universalizante de expansão de um conceito tem a vantagem de fornecer consistência e unidade àquela proposição entretanto às expensas do desafio lógico de prosseguir com a discussão se o inconsciente faz quem ou do que ele se trata Quem o criou como sujeito capaz de agir sobre o mundo Evitar o prosseguimento da discussão nos paralisa no nível transcendental que nos leva à resposta mais óbvia do apelo a uma entidade superior ou a outras categorias universalizantes que pouco descrevem e que detêm reduzida nitidez tais como a vida o universo ou deus Se levarmos adiante essa discussão de uma hipótese biológica hereditária ou genética para o inconsciente colocaríamos em questão a constituição da memória da espécie a partir de even tos vividos por ela ao longo de milênios de existência Tais eventos que ficaram supostamente registrados nesse grande repositório coletivo de imagens e de símbolos compõem um processo histórico da espécie humana que se organizou ao longo do tempo por meio de diversas formas sociais e políticas cultivando meios de subsistência e de sobrevivência da própria espécie Em outras palavras a formação psicoide dos arquétipos e do inconsciente coletivo não poderia ser outra que não fossem os aspectos sociais políticos e culturais desenvolvidos pela humanidade ao longo da história Se admitimos essa proposição nos afastamos suficientemente de uma premissa transcendental como fundamentadora da hipótese do inconsciente coletivo Ainda nos restaria pensar o que leva imagens e símbolos a sobreviverem na memória a ponto de se constituírem como algo coletivo tão potentes que seriam capazes de persistir no tempo e de atravessar gerações ao longo de nosso processo histórico Aqui faz sentido nos aliarmos a Dantas 2019 que nos lembra que o arquétipo é determinado pela presença da numinosidade isto é pelo impacto do fascínio intenso ou do terror inigualável que uma experiência arquetípica pode provocar O numinoso por sua vez se determinaria pela carga afetiva a qual produz um efeito acachapante no indivíduo suficiente para um potente registro dessa experiência em si mesmo Ao articularmos uma teoria dos afetos à tentativa de tornar o inconsciente coletivo algo histórico podemos imaginálo como algo outro que não seja regido pela metafísica da substância Além disso a ideia de uma carga afetiva presente ou residual nos auxilia na compreensão da ideia de ação do inconsciente o qual seria movimentado pelos afetos comuns que proporcionam experiências tipicamente humanas tal como a vivência do cuidado promovido pelo outro que nos leva à concepção de maternidade ou o impulso social para organizar relações grupos e comunidades que institui a maioria das leituras modernas sobre a função paterna do ponto de vista simbólico Butler 2003 ao discutir a concepção de gênero formula a ideia de metafísica da substância para designar os processos pelos quais algo é repetido ad infinitum em determinadas culturas para gerar uma aparência de naturalização a respeito de algo que é de fato historica e socialmente construído afirmando que certas configurações de gênero assumem o lugar do real e consolidam e incrementam sua hegemonia por meio de uma auto naturalização apta e bemsucedida Butler 2003 p 69 O inconsciente coletivo se vislumbrado sem a lente reificadora da metafísica da substância pode ser imaginado como o conjunto de aspectos inconscientes isto é reprimidos esquecidos e desconhecidos segundo a concepção de Jung ao longo dos processos históricos das culturas de nossa espécie A carga afetiva presente em certas experiências carregaas pelo fio da nossa história através das gerações Nesse contexto a ideia de arquétipo psicoide se conectaria a todos os eventos e a todas as experiências que de fato não são propriamente nossos e nossas nem compõe precisamente a nossa psique mas que estiveram presentes nesse fio interminável de ancestralidade a que pertence nosso processo histórico A vantagem de imaginar um inconsciente coletivo histórico reside justamente na possibilidade de filtrarmos por meio da ideia de metafísica da substância tudo aquilo que foi considerado arquetípico sem um exame mais detido e aprofundado a respeito do que isso implicaria Um bom exemplo dessa situação são os conceitos de anima e animus em Jung 2014 vol IX os quais alçaram o gênero à dimensão arquetípica Como pode ser observado em Pessoa 2021 o gênero é melhor tratado se compreendido como um complexo cultural de modo que possamos localizar e explicititar os atravessamentos históricos sociais e políticos que levam a algumas concepções de gênero serem esperadas ou consideradas ideais enquanto outras performances de gênero são designadas como inadequadas ou patológicas Considerando que ao nascer a psicologia tinha objetivos centrados em catalo gar e normatizar é compreensível que uma psicologia do gênero formulada ainda nas primeiras décadas do século XX seja pensada também a partir dos mesmos parâmetros Para avançarmos sobre o tema e compreendermos por que o gênero é causador de enorme sofrimento entre as pessoas constituindose portanto como tema relevante para a psicologia é necessário que elaboremos outras formas de pensar o gênero Evidentemente aqui o gênero é também um exemplo de muitos outros fenômenos que podem ter sido indevidamente considerados como arquetípicos As discussões no campo de estudos de gênero são especialmente interessantes para a psicologia porque ao lado das categorias de raça e classe indica terrenos férteis para discutirmos a questão das identidades Como nos conta Dantas 2019 em Jung a divisão inicial do humano parece ficar metaforizada como aquela entre masculino e feminino O par masculinofeminino daria de alguma forma o contorno de uma tensão originária entre opostos Essa visão se historicamente posicionada pode ser compreendida como um efeito do contexto histórico e cultural do pensamento europeu como elaborado em Pessoa 2022 O uso do gênero como marcador principal da diferença entre humanos é como nos mostra Oyeumi 2021 algo tipicamente europeu não é reproduzido em outras culturas Por exemplo ao relatar a história do povo iorubá ao sul da Nigéria Oyeumi 2021 ensinanos que o marcador fundamental da diferença naquela sociedade é a idade Para o que compreendemos como o povo ocidental isto é para os povos europeus e os povos brutalmente colonizados e reconstituidos pelos europeus a fala de Oyeumi 2021 deixa claro que compreender o gênero é inexorável Do mesmo modo para os povos profundamente atravessados pela história de violenta colonização europeia é inevitável compreender as categorias de raça e de classe além de como essas nos afetam Para tentar avançar na compreensão das identidades de gênero nesse contexto abordarei duas experiências distintas as identidades de pessoas LGBT e as masculinidades A experiência de pessoas LGBT e as imagens dos armários A partir da segunda metade do século XIX as pessoas LGBT começam a se organizar social e politicamente de forma mais clara Quinalha 2022 A compreensão de que a sexualidade dissidente isto é distinta da norma heterossexual se configura como uma identidade é um fenômeno que vem emergindo ao longo do século XX e que ganha força após os anos 2000 No fim da década de 1980 intelectuais que se identificam como pessoas LGBT iniciam produções acadêmicas marcantes assumindo na produção do conhecimento o lugar de sujeitos em vez de objetos de pesquisas de pessoas heterossexuais e constituindo pela primeira vez uma teoria Três obras são consideradas seminais para a emergência do que hoje é conhecido como teoria queer segundo Preciado 2020 Queer Theory artigo de Teresa de Lauretis Problemas de Gênero livro de Judith Butler e finalmente Epistemologia do Armário publicação de Eve Sedgwick Sedgwick 2008 explora as especificidades da constituição da identidade de pessoas LGBT A homossexualidade é atravessada por um torturante sistema de duplos vínculos oprimindo sistematicamente as pessoas identidades e atos gays Sedgwick 2008 p 26 Da mesma forma segundo a autora a homossexualidade é tratada como assunto simultaneamente público e privado sobre o qual ao mesmo tempo em que não desejam conhecer detalhadamente suas práticas pessoas heterossexuais são autorizadas a opinar O argumento principal de Sedgwick é de que as identidades LGBT repousam sobre o manto do segredo funcionando como um eterno armário entreaberto que embora tenha a existência conhecida é negado Mensagens de duplo sentido são enviadas e recebidas a todo momento convidando a pessoa LGBT a se expor ao mesmo tempo em que se nega a legitimidade da forma como ela se identifica subjetivamente A autora afirma Cada uma dessas possibilidades complicadoras deriva pelo menos em parte da pluralidade e da incoerência cumulativa das formas modernas de conceituar o desejo pelo mesmo sexo e portanto a identidade gay Passam a vêla como uma função de definições estáveis de identidade de tal modo que a estrutura da personalidade de alguém pode marcálo como homossexual mesmo na ausência de qualquer atividade genital Sedgwick 2008 p 42 A teoria queer de modo mais amplo advogará pela instabilidade das identidades a partir da compreensão das identidades LGBTs Este é um dos argumentos promissores de Butler 2003 quando a autora propõe que a identidade da mulher e por extensão todas as demais identidades embasadas no campo do gênero e da sexualidade são instáveis A identidade como uma identificação em relação a uma certa categoria é algo performativo que se estabelecerá pela repetição no corpo de certos atos Por isso Butler 2003 cunhará o termo performatividade de gênero para descrever como o gênero e as identidades de gênero ocorrem no corpo e existem na medida em que são performados nos corpos Dessa forma identidades são expressões de si mesmo que podem se dissolver se transformar e que possuirão por definição contradições e incoerências constitutivas que darão contorno à própria identidade A identidade não se resume ao grupo ou à cultura com a qual uma pessoa se identifica Por sua existência política inefável a identidade também diz de como uma pessoa é identificada pela cultura e pelos outros Butler 2003 critica a ideia do gênero naturalizado como já vimos no conceito de metafísica da substância Diz a autora que o gênero é a estilização repetida do corpo um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura altamente rígida a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância uma classe natural de ser Butler 2003 p 69 A estrutura altamente rígida a que a autora se refere é o patriarcado ou heteropatriarcado na concepção de Preciado 2017 É nesse regime histórico social político e cultural que as pessoas tentam expressarse no corpo em forma de comportamentos desejos e imaginações profundamente atravessadas pelas experiências dentro da rigidez de nossa sociedade Há pouca margem para manobras individuais embora Butler 2003 reconheça e nomeie como agência a capacidade do eu de efetivamente realizar escolhas e de agir fora da estrutura que o condiciona Eribon 2008 formula as identidades de pessoas LGBT como emergentes do insulto e da ofensa Para o autor antes de se reconhecerem propriamente muitas vezes ainda crianças pessoas LGBT são insultadas e ofendidas por outras crianças e adultos e assim iniciam seu processo de autorreconhecimento A noção de simesmo é iniciada por meio de um valor negativo sendo as pessoas LGBT primeiramente nomeadas como aquilo que não é bom não é desejado ou não é adequado Além das ideias de duplo sentido e de contradição entra em jogo aqui a inferiorização como atributo da identidade A discussão das identidades de pessoas LGBT coloca em pauta a instabilidade das identidades em geral nomeando a opressão como fator de registro de uma insegurança permanente a respeito de quem se é Os autores da teoria queer esclarecem que a identidade antes de ser vista como lugar seguro para identificações e laços sociais é ela mesma um problema pela inconsistência e pela permeabilidade alternadas com experiências de rigidez e de inflexibilidade Aqui há um outro giro epistemológico semelhante ao que vimos anteriormente ao advogar contra a metafísica da substância a teoria queer nos mostra que a identidade não é uma força interior produtora de autenticidade no sujeito antes ela é um efeito das opressões vividas por cada um de nós em nossas histórias de vida Em sua trama de identificações pode ocasional mente proporcionar a sensação de pertencimento e de guarida em momentos de dificuldades Em sua rigidez e sua inflexibilidade tornase um cobertor demasiado curto para que possa descrever quem somos em nossas singularidades No fio da história das lutas de pessoas LGBT e do movimento LGBT pode ser resgatado algo criativo dos meandros da identidade uma história compartilhada uma ancestralidade formada a partir de uma comunidade que resiste Sobre as masculinidades As discussões sobre as identidades masculinas mostramse também produtivas para compreendermos como se formam as identidades e quais são os desafios que trazem Nesse campo de estudo destacamse as pesquisas de Connell 2005 e Kimmel 2016 Connell 2005 formula a categoria de masculinidade hegemônica descrita como um conjunto de traços atribuídos à masculinidade e desejados pela maioria dos homens mas desempenhado efetivamente por muito poucos Segundo Zanello 2018 podemos compreender esses ideais masculinos por meio de dois dispositivos a virilidade sexual e a virilidade laboral A masculinidade hegemônica relacionase ao homem de corpo apto bom desempenho sexual conquistador de mulheres desejado por elas e admirado por eles Em termos de virilidade laboral temos o homens bem sucedidos nas carreiras e nas finanças desempenhando o papel do provedor e também a figura do winner norteamericano ou seja aquele que venceu na vida Kimmel 2016 contribui com o debate adicionando o eixo da competitividade em concodrância com o conceito da instabilidade de identidades trazido por Butler 2003 Para o autor é necessário ao homem provarse homem o tempo inteiro em uma competição infinita consigo próprio Além disso Kimmel 2016 afirma que as masculinidades se constituem por duas negativas o homem é aquele que não é mulher e é aquele que não é homossexual Cabe a ele também o tempo todo falar sobre aquilo que ele não é Diz o autor sobre as pesquisas que realizou com homens identificados como heterossexuais Agora alterando a pergunta e imaginando o que um homem heterossexual faz para assegurar que ninguém possivelmente tenha uma ideia errada sobre ele As respostas tipicamente se referiam aos estereótipos originais desta vez um conjunto de regras negativas acerca de comportamento Nunca se vista deste modo Nunca converse ou ande desse modo Nunca mostre seus sentimentos ou seja emocional Sempre esteja preparado para demonstrar interesse sexual em mulheres que você encontra portanto é impossível para que qualquer mulher tenha uma ideia errada sobre você Nesse sentido homofobia o medo de ser percebido como gay como não sendo um homem de verdade mantém homens exagerando todas as regras tradicionais de masculinidade incluindo sexo predatório com as mulheres A homofobia e o sexismo andam de mãos dadas Kimmel 2016 p 114 Os estudos sobre masculinidades apontam que essas identidades também se mostram frágeis instáveis e contraditórias O homem alterna entre o lógicoracional da pessoa bem sucedida em uma sociedade heteropatriarcal e o animalesco e predatório aparentemente não satisfeito de modo pleno em nenhuma de suas performances Ao discorrer sobre seus estudos clínicos a respeito das identidades de meninos e de adolescentes Tyminski 2018 relata a dificuldade desses jovens em acompanharem mudanças sociais e a tentativa de retornarem a uma identidade mais genérica dada por estereótipos de gênero que perpetuam o viés agressivo de muitas identidades masculinas ou que alternativamente produzem um sentimento agudo de inadequação levando ao isolamento desses jovens Ao contrário das identidades LGBTs as identidades masculinas aparentemente dispõem de uma porta de saída das opressões mais agudas da sociedade o privilégio de ser homem em uma sociedade assustadoramente sexista O problema como afirma Connell 2005 é que o exercício desse privilégio é geralmente reservado aos poucos que acumulam categorias de poder em nossa sociedade não basta ser homem é preciso ser branco cisgênero heterossexual rico atlético não ser pessoa com deficiência e os requisitos continuam de modo que a masculinidade hegemônica se torna mais um ideal do que uma vivência propriamente experimentada pela imensa maioria dos homens O risco aqui é a disposição masculina para agir a qualquer custo para tentar obter e sedimentar esse privilégio o que tipicamente inicia mais um ciclo de violência Neste sentido novamente vemos as identidades se tornando efeito das opressões a maioria dos homens constituise por aquilo que eles não são se voltarmos às categorias mencionadas no parágrafo anterior A possibilidade de elaboração desse sofrimento é uma alternativa embora mais comumente vejamos os homens perseguindo esses ideais inatingíveis de uma masculinidade privilegiada e reservada a poucos Considerações finais Este artigo buscou explicitar como o contexto histórico que possibilitou a emergência da psicologia analítica leva a uma noção de inconsciente que sem a devida cautela pode incorrer no que Butler 2003 apontou como a metafísica da substância Tal leitura da psicologia analítica é indesejável porque leva a concepções naturalizantes que são a base do sofrimento de muitas pessoas o que fica evidenciado particularmente quando adentramos na discussão a respeito das identidades Ao mencionar brevemente as identidades de pessoas LGBT e as identidades masculinas procurei demonstrar que tomar traços e características como constitutivos de uma interioridade genuína e espontânea sem a devida consideração dos contextos sóciopolítico histórico e cultural pode nos levar a uma interpretação transcendental a respeito de como o sofrimento das pessoas é produzido e de quais caminhos podem ser eficazes em sua elaboração A identidade fazse a partir de uma repetição dos atos no seio das interações sociais em vez de caracterizarse por uma coleção de traços intrapsíquicos descritivos de uma personalidade os quais passam a existir a posteriori da constituição das identidades Finalmente enfatizei dois giros epistemológicos em primeiro lugar quando Jung afirma que o inconsciente produz consciência em vez de ser o efeito desta Em segundo lugar o giro de Butler que afirma que as identidades não são forças criativas interiores naturalizadas mas performances instáveis que se dão dentro de um sistema social rígido Tais afirmações foram usadas para a consideração de que as identidades são também elas efeitos da opressão em vez de suas causas Neste sentido pretendo negar asserções do tipo fui oprimido porque sou assim em vez disso proponho que somos o resultado de uma multiplicidade de experiências que vão de encontro ao polimorfismo da nossa libido produzindo nossas identidades a partir ainda que não somente de nossas opressões e de como nós as elaboramos Recebido 03012024 Revisão 18092024 Abstract Identities oppressions and the unconscious Analytical Psychology emerged between the end of the 19th century and the beginning of the 20th century alongside Psychoanalysis and other psychologies in the historical social and political context of Europe at that time The hypothesis of the unconscious shared with Psychoanalysis and other psychologies has its idea of the unconscious redefined and expanded by C G Jung in an epistemological turn that expands the analytical thinking of the time Some issues of contemporary human suffering well exemplified by issues of gender and oppression based on gender identities call for a new reflection on this conception of the unconscious to advance discussions on how to listen to what suffering people in our time have to tell us This article aims to contribute to this discussion by examining the gender identities of LGBT people and masculinities Keywords identity oppression unconscious gender analytical psychology Resumen Identidades opresiones y el inconsciente La Psicología Analítica surgió entre finales del siglo XIX y principios del XX junto al Psicoanálisis y otras psicologías en el contexto histórico social y político de la Europa de aquel momento La hipótesis del inconsciente compartida con el Psicoanálisis y otras psicologías tiene su idea de inconsciente redefinida y ampliada por C G Jung en un giro epistemológico que amplía el pensamiento analítico de la época Algunas cuestiones del sufrimiento humano contemporáneo bien ejemplificadas por las cuestiones de género y la opresión basada en las identidades de género exigen una nueva reflexión sobre esta concepción del inconsciente para avanzar en los debates sobre cómo escuchar lo que las personas que sufren en nuestro tiempo tienen que decirnos Este artículo pretende contribuir a esta discusión examinando las identidades de género de las personas LGBT y de las masculinidades Palabrasclave identidad opresión inconsciente género psicología analítica Referências Butler J 2003 Problemas de gênero Feminismo e subversão da identidade Civilização Brasileira Connell R 2005 Masculinities University of California Press Dantas A 2019 Psicologia dialética Uma crítica interna à psicologia junguiana Clube dos Autores Eribon D 2008 Reflexões sobre a questão gay Campo Matêmico Figueiredo L C M Santi P L R 2003 Psicologia Uma nova introdução Educ Jung C G 2012 Estudos experimentais Obras Completas vol XII Vozes Jung C G 2013 A natureza da psique Obras Completas vol VIII Vozes Jung C G 2014 Os arquétipos e o inconsciente coletivo Obras Completas vol IX1 Vozes Jung C G 2015 O eu e o inconsciente Obras Completas vol VII2 Vozes Kimmel M 2016 Masculinidade como homofobia medo vergonha e silêncio na construção da identidade de gênero Revista Equatorial 3 4 pp 97124 Oyeumi O 2021 A invenção das mulheres Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero Bazar do Tempo Pessoa G 2021 O complexo heteropatriarcal Uma contribuição para o estudo da sexualidade na psicologia analítica a partir da Teoria Social Revista Junguiana 39 2 pp 89102 Pessoa G 2022 A psicologia do outro O truque da diversidade e a dificuldade em falar de si mesmo Revista Junguiana 40 3 pp 1124 Preciado P B 2017 Manifesto contrassexual n1 edições Preciado P B 2020 Epílogo In Hocquenghem G O desejo homossexual Bolha Quinalha R 2022 Movimento LGBTI Uma breve história do século XIX aos nossos dias Autêntica Sedgwick E 2008 Epistemology of the closet University of California Press Tyminski R 2018 Male alienation at the crossroads of culture identity and cyberspace Routledge Zanello V 2018 Saúde mental gênero e dispositivos Cultura e processo de subjetivação Appris Racismo um Trauma Coletivo não Considerado Marisa Corrêa da Silva1 1 Médica psiquiatra e psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e articuladora do Grupo de Trabalho Estudo e Pesquisa A Cor do Mal Estar da Invisibilidade do Trauma ao Letramento no mesmo Departamento Formação psicanalítica título e membro pelo Instituto Psicanalítico Berlin PaIB cariocasilvahotmailcom Resumo As relações étnicoraciais no Brasil são caracterizadas por um racismo que apesar de existir de modo institucional e estrutural não é identificado como um fator nocivo nas possibilidades e perspectivas de vida social política econômica profissional do sujeito O racismo determina uma imensa desigualdade de oportunidades alimentando um ciclo vicioso de relações permeadas por dominação e subserviência Igualmente não é considerado um fator que influence o desenvolvimento psicosocial do sujeito através de efeitos traumáticos graves individuais e coletivos Essa desconsideração do racismo como agente responsável por doença é definitivamente uma lacuna que precisa ser entendida elaborada e sanada Este artigo intenciona abordar a importância de identificar a relação da vivência e da prática do racismo com determinados traços de personalidade comportamentos sofrimentos inibições de ação enfim com determinados comprometimentos das funções egoicas dos sujeitos na nossa sociedade seja ele o que sofre ou o que pratica o racismo Neste contexto tornase essencial elucidar que a interrelação entre racismo e saúde mental não é uma questão de responsabilidade apenas da população negra mas sim de toda a sociedade A população branca racializou a população negra mas com isso não se isentou de também vivenciar os maléficos do racismo A complexidade e abrangência desta abordagem é muito mais ampla do que muitas vezes somos capazes de acessar Em um país estrutural e institucionalmente racista não podemos falar de uma situação de trauma enquanto um episódio isolado e pontual mas sim de um processo traumático secular que acomete toda a população de um modo complexo e com frequência despercebido Um processo que adoece o sujeito sem alcançar uma representação psíquica Identificar comprometimentos da saúde mental e da saúde geral que possam estar relacionados com esse processo propicia a simbolização a elaboração e o consequente cuidado destes focos traumáticos Por ser uma questão já cronificada e naturalizada na nossa sociedade nem sempre se consegue sequer identificar que esteja havendo um sofrimento ou um comprometimento Não se consegue simbolizar esse sofrimento Como em todo traumatismo grave a maneira como cada sujeito lida com esse traumatismo também vai depender das características e recursos individuais inerentes a ele e dos recebidos na sua relação com o meio Outro aspecto importante é o entendimento dos processos de internalização e projeção do racismo tanto por quem o sofre como de quem o pratica ou com ele compactua o quanto muitas vezes a própria vítima é culpabilizada culpabilizase e entra em conformidade com a prática e postura racista viceversa o algoz se vitimiza e preconiza a punição violenta da vítima o exercício de poder e a manutenção de privilégios A transmissão transgeracional deste traumático representa um aspecto reconhecido e identificado através de pesquisas atuais e precisa ser considerado e incluído no entendimento do comportamento psíquico Como psicanalista enfatizo a importância do terapeuta igualmente fazer um trabalho de confrontação e elaboração do racismo nele internalizado para que ocorra a necessária consideração dos aspectos acima elencados tanto na escuta terapêutica como no processo transferencial e contratransferencial analítico e dessa forma facilite a construção da representação do que não pode sequer ser simbolizado dada a gravidade do trauma Palavras chaves Racismo Trauma Introjeção Racism an Unconsidered Collective Trauma Abstract Ethnicracial relations in Brazil are characterized by racism which despite existing in an institutional and structural way is not identified as a harmful factor in the possibilities and perspectives of the subjects social political economic and professional life Racism determines an immense inequality of opportunities feeding a vicious cycle of relationships permeated by domination and subservience Likewise it is not considered a factor that influences the psychosocial development of the subject through serious individual and collective traumatic effects This disregard for racism as an agent responsible for disease is definitely a gap that needs to be understood elaborated and remedied This article intends to address the importance of identifying the relationship of the experience and practice of racism with certain personality traits behaviors sufferings action inhibitions in short with certain impairments of the egoic functions of subjects in our society being who suffers or who practices racism In this context it is essential to elucidate that the interrelationship between racism and mental health is not a matter of responsibility only for the black population but for the entire society The white population racialized the black population but with this it did not exempt itself from also experiencing the harms of racism The complexity and scope of this approach is much broader than we are often able to access In a structurally and institutionally racist country we cannot speak of a trauma situation as an isolated and punctual episode but of a secular traumatic process that affects the entire population in a complex and often unnoticed way A process that sickens the subject without reaching a psychic representation Identifying mental health and general health impairments which may be related to this process provides the symbolization elaboration and consequent care of these traumatic outbreaks As it is an issue that is already chronic and naturalized in our society it is not always possible to even identify that whether there is suffering or compromise This suffering cannot be symbolize As in all serious trauma the way each subject deals with this trauma will also depend on the individual characteristics and resources inherent to the individual and those received in its relationship with the environment Another important aspect is the understanding of the processes of internalization and projection of racism both by those who suffer it and those who practice or condone it how often the victim is blamed blames herself and enters into compliance with the racist practice and posture vice versa the perpetrator victimizes himself and advocates the violent punishment of the victim the exercise of power and the maintenance of privileges The transgenerational transmission of this trauma represents an aspect recognized and identified through current research and needs to be considered and included in the understanding of psychic behavior As a psychoanalyst I emphasize the importance of the therapist also doing a work of confrontation and elaboration of internalized rascism in it so that the necessary consideration of the abovelisted aspects occurs both in therapeutic listening and in the transferential and countertransferential analytical process and thus facilitate the construction of the representation of what cannot even be symbolized given the seriousness of the trauma Keywords Racism Trauma Introjection Estamos diante da tarefa de obter uma compreensão tão abrangente quanto possível da destruição e das consequências da violência e do traumaA concretude de toda experiência humana não pode ser entendida sem a participação da construção social nem pode ser inteiramente definida social e intersubjetivamente O trauma rompe o manto protetor que forma a estrutura psicológica do significado É inscrito no corpo e tem um efeito direto no substrato orgânico do funcionamento mental As especificidades do trauma que devem ser apropriadamente descritas psicologicamente situamse na estrutura dos processos perceptivos afetivos e os vivenciados de tal modo que o espaço psíquico é rompido e a simbolização destruída A experiência se apresenta avassaladora para o núcleo psíquico do sujeito Bohleber WernerDie Entwicklung der Traumatheorie in der Psychoanalyse Psyche 54 Jahrgang Heft 910 2000 psychosozial verlagde Introdução Parte deste texto foi apresentado no dia 13 de maio de 2021 na mesa de abertura do Congresso Internacional do Trauma organizado pelo Instituto de Bioenergética Libertas Aproveitei o fato de 13 de maio ser a data em que é comemorada a Abolição da Escravidão para estabelecer um nexo entre a representação desta data e o tema da minha fala Há uma relação direta entre ambos a chamada lei Áurea já impõe pelo nome lei de ouro uma associação simbólica com algo de grande valor Penso que a intenção na época era colocar um brilho especial para chamar a atenção de que o Brasil estaria dando um grande passo na direção de eliminar um processo desumano como a escravidão A lei no entanto foi um engodo uma tentativa de dourar a pílula amarga do criminoso regime escravagista existente Tanto que não propiciou a emancipação da população negra e muito menos a reparação pelos anos de tanta violência pelo contrário lançou à própria sorte a população que restava escravizada o mesmo que já acontecia com os alforriados os quais inclusive já eram em maioria na época Este foi um segundo engodo pois quando a lei foi assinada cerca de 90 dos escravizados já estavam alforriados A promulgação oficial da abolição não garantiu o reconhecimento pelo Estado de que houve um crime hediondo e de que autorizou uma violência continuada Esse crime foi camuflado omitido negado Quando a escravidão e o racismo são negados enquanto feitos violentos não sendo criminalizados marcas traumáticas são reinscritas transcendendo as violências cometidas A negação do ato traumático funciona como um segundo momento do trauma No caso da escravidão e do racismo ainda houve o agravante de terem sido justificados pela afirmação de que um sujeito negro não é necessariamente um sujeito é praticamente uma coisa Dessa forma o dominador intenciona se abster da responsabilidade pela execução desta violência garantir seus privilégios e a dominação O comprometimento obvio da saúde mental do sujeito abusado pode gerar transtornos de comportamentos que resultem em ações danosas para si e para outros O dominador que nega o seu papel de algoz também nega a correlação entre este comprometimento da saude mental com a violência executada e sofrida distorce os fatos e responsabiliza o sujeito violentado de modo absoluto pelas ações auto e hetero destrutivas Inscreve dessa forma neste sujeito o estigma de um ser pernicioso para a sociedade fechando o ciclo ao se eximir da responsabilidade e culpabilizar de forma projetiva o sujeito abusado de ser o algoz de si mesmo Esta é uma outra falácia traduzida nos dias de hoje pela hedionda afirmação bandido bom é bandido morto Ou pela afirmação não melhora de vida porque não se esforça Os que hoje apoiam esse paradigma não refletem sobre as origens deste descalabro sóciopolítico que incrimina os que por longos séculos sofreram abusos arbitrários sem trégua e sem o direito sequer de ter essa arbitrariedade reconhecida como crime Portanto essa negação projeção distorção da realidade e isenção de responsabilidade retraumatizam potencializando o trauma já instituído pela violência Este é o segundo momento do trauma onde quem o sofre vêse em total desamparo tomado pelo pavor e pela impotência com consequente prejuízo na capacidade de reagir adequadamente a seu favor Até hoje presenciamos trabalhadores domésticos que são subremunerados explorados com demanda excessiva de trabalho mas que se conformam com a situação como se entendessem que é aquilo que lhes cabe Da mesma forma escutamos com frequência pessoas dizendo Meu bisavô tinha escravos mas os tratava bem Ou seja tanto no imaginário do exescravizado como o do descendente do escravagista escravizar ou sub empregar não são considerados tratar mal Em ambos os comportamentos podese identificar mecanismos inconscientes ou subconscientes de defesa como clivagem negação recusa Mais adiante aprofundarei um pouco sobre o papel dos mecanismos de defesa na dinâmica dessa relação de dominação Uma outra vertente da mesma expressão anterior Os escravos do meu avô preferiram continuar trabalhando na fazenda mesmo depois da abolição permite identificar uma outra falácia que ignora o fato dos escravizados não terem para onde ir e para onde quer que fossem sofreriam alijamento exploração humilhação Podemos entender neste contexto que as relações étnicoraciais no Brasil sejam caracterizadas por um racismo inscrito de modo institucional e estrutural não sendo identificado como um fator nocivo para as possibilidades e perspectivas de vida social política econômica profissional do sujeito A consequente desigualdade de oportunidades e modos de vida assim geradas alimenta um ciclo vicioso de relações permeadas por dominação e subserviência que consequentemente influencia o desenvolvimento psicosocial do sujeito através de graves efeitos traumáticos individuais e coletivos Vivemos portanto uma sociedade marcada por uma enorme discrepância social econômica e cultural com a qual nos confrontamos diariamente Podemos falar de no mínimo duas realidades distintas diversas em seus hábitos suas experiências de vida seus parâmetros e referenciais O país em que vivemos abriga no mesmo contexto políticosocial mundos que não conversam entre si Em um deles vivem as pessoas que mandam porque podem e no outro as que obedecem porque têm juízo Este dito popular denuncia o apartheid estabelecido na nossa sociedade Enquanto analistas terapeutas e cidadãos não podemos desconsiderar na nossa prática psicanalítica e terapêutica os aspectos raciais sociais culturais políticos em que estamos inseridos Na prática no entanto observamos em relação ao racismo que carateriza a nossa sociedade há mais do que uma desconsideração há uma verdadeira recusa em incluílo tanto na abordagem psicanalítica como na maioria das abordagens clínicas sejam elas preventivas curativas ou de reabilitação A desconsideração da violência do racismo como um fator causador de doença é definitivamente uma lacuna que precisa ser entendida elaborada e sanada Entendo que o racismo tem uma dimensão traumática para toda a sociedade qualquer que seja a etnia dos cidadãos desta sociedade já que ele está integrado na dinâmica social do país há séculos a partir de uma mentalidade escravocrata ainda atual Objetivo O resgate do fato histórico da libertação dos escravos agregado à intencional recusa e usurpação das oportunidades de trabalho aos exescravizados é importante para aprofundarmos o entendimento da relação do racismo e da escravidão com o traumático individual e coletivo na nossa sociedade Entender a vivência e a prática de racismo estabelecidas em nossa sociedade de modo estrutural e institucional como uma vivência e uma prática de violência que causam e inscrevem traumas graves é o objetivo principal deste artigo Considerações teóricas Como podemos entender mais detalhadamente que a prática continuada e autorizada de violência leva à consequências traumáticas e como essas consequências traumáticas podem se manifestar no sujeito e na coletividade Como entender de que modo uma vivência traumática age na contramão da produção de saúde mental Somos constituídos entre outros aspectos principalmente a partir da relação que estabelecemos com o meio melhor dizendo com os objetos com os quais nos relacionamos e viceversa Essa relação se dá em conexão com os nossos recursos internos que propiciam a individualidade de como vivenciamos e introjetamos essa relação Os conceitos atuais psicanalíticos apontam para definir Introjeção como uma forma de Internalização das vivências das relações objetais A relação é que seria internalizada e não o objeto Rosenberg Frank 2010 Em vivências não traumáticas de relação objetal a introjeção evolui temporal e processualmente para uma Identificação secundária madura Se a relação objetal não tiver sido traumática as introjeções terão uma função de amadurecimento do aparelho psíquico caso contrário terão uma função muito mais defensiva Em vivências traumáticas avassaladoras é como se o sujeito saísse do seu corpo e se vivesse como um sujeito externo ao que acontece com o seu corpo como se esse corpo não fosse o seu A partir disso há o desenvolvimento de transtornos das funções do Eu de aprender de modo integrado temporalmente ordenado organizado coerente as funções sensoriais os afetos o pragmatismo e as funções cognitivas A consequência são os processos dissociativos destrutivos que levam a processos de regressão que comprometem a capacidade de simbolização e vivência de identidade consigo mesmo assim como a capacidade de perceber que a apreensão de si mesmo e a apreensão do objeto estão relacionadas Nesses casos de introjeções traumáticas o fenômeno dissociativo se daria como se o pedaço do Eu que saiu do corpo ficasse como observador do outro pedaço do Eu que sofreu o trauma e vivesse esse pedaço do Eu traumatizado totalmente estranho e nocivo como o objeto que exerceu o traumatismo A gravidade das consequências se dá a partir do quanto essa vivência permanece estranha ou coerente Com ou sem entendimento e simbolização do acontecimento traumático 43 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc O quanto o Eu ou parte dele é vivenciado como um estranho não pertencente e como a outra parte do Eu lida com essa parte estranha Rosenberg Frank 2010 É importante frisar que a sensação de vivenciar em si mesmo varias partes do Eu como estranhas pode acontecer mesmo sem a presença de episódios traumáticos mesmo num desenvolvimento psíquico com relações objetais normais Pelo menos temporariamente o Eu pode se dividir ao exercer suas diversas funções pode se observar se criticar Freud 1933 XV S64 Em vivências traumáticas onde as relações objetais não podem ser integradas psiquicamente há uma tentativa de defesa contra os efeitos lesivos dessa relação objetal traumática através da clivagem e da negação Com isso as Introjeções traumáticas não são integradas num Super Eu ou num Ideal de Eu maduros Permanecem clivadas e depositadas na Introjeção Em processos posteriores de elaboração ao longo do desenvolvimento acontece uma Identificação secundária imatura global e rígida do Eu com esse Introjetado devido à não possibilidade de integração O Introjetado traumático seria um lugar apartado no aparelho psíquico do qual o Eu pensante a parte funcional do Eu tenta simbolizar usando mecanismos de clivagem e negação para se manter separado distanciado desse Introjetado traumático O introjetado traumático seria o resultado de uma Introjeção que não pode ser transformada numa Representação com funcionalidade simbólica A agressão imposta pelo agressor à vítima é introjetada junto com um sentimento de culpa que a sobrecarrega e tortura de modo intrusivo e com o qual a vítima se identifica libertando assim o agressor deste sentimento real de culpa Com essa identificação secundaria e liberação do agressor da sua culpa a vítima pode ter esse agressor como um objeto parcial positivo e amado além de manter algo em comum um pertencimento ao necessário objeto de ligação Essa relação objetal traumática introjetada gera um ciclo vicioso uma parte do Super Eu rejeita essa identificação e a outra parte aceita A parte que rejeita condena o Eu pela cumplicidade com o agressor gerando igualmente culpa e desvalia no Self confirmando dessa forma a culpa e a desvalia introjetada Um problema que por si só pode ser insolúvel O Eu garante também com essa introjeção do agressor a ilusão de introjetar junto o poder de dominação do agressor e com isso sentirse forte e potente Por um lado o Eu se sente forte e narcisicamente inatacável mas por outro sentese recriminado pelo Super Eu 44 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc O autor Rosenberg propõe que o Ideal de Eu tenha também um papel importante principalmente para a identificação narcísica com introjeções traumáticas e que Super Eu e Ideal de Eu possam entrar em conflitos graves entre si O paciente se fixa paradoxalmente nesta introjeção por um lado a vivencia como torturante ameaçadora e invasiva por outro lado como objeto interno forte onipotente e inatingível possuidor de um poder que passa a desejar para si mesmo Este fenômeno aparece no trabalho analítico como uma resistência narcísica dentro do processo transferencial A fixação na manutenção da relação com o agressor deve ser entendida como uma tentativa de preservar a necessária relação parcial com o objeto O processo de Introjeção traumática se caracteriza por 2 planos um é o plano externo onde a vítima sofre as agressões e violências pelo agressor no outro denominado Externalização o agressor ocupa o espaço da relação com o objeto interno Seria um processo de identificação projetiva onde a violência é tanta que a vítima se vê a à mercê do agressor A vítima se vê absolutamente sobrecarregada com a agressão regredindo para um estado onde não consegue mais diferenciar quem é ela e quem é o agressor No plano corporal podem acontecer fenômenos dissociativos como anestesia de partes do corpo excitação sexual durante abuso sexual Assim como adoecimentos por somatização com descargas nocivas hormonais de neurotransmissores e de outros reguladores fisiológicos gerando quadros clínicos como a diabetes a hipertensão arterial a obesidade Neste sentido podemos apontar a importância do trabalho corporal como facilitador de acesso a esse trauma não simbolizado No plano psíquico podem acontecer processos regressivos dos mais diversos como distorção e fragmentação da apreensão da realidade dificuldade de impor limites Em processos traumáticos duradouros há regressão das estruturas do Super Eu com comprometimento patológico do desenvolvimento do Ideal de Eu A relação traumática se dá por constantes fenômenos projetivos e introjetivos O agressor projeta partes nocivas na vítima que as introjeta Além disso rouba da vítima a introjeção boapositiva Ou seja o agressor aniquila por introjeção o lado bom da criança por exemplo sua inocência sua auto confiança e confiança no mundo sua felicidade e sua auto estima Do ponto de vista psicodinâmico o termo Trauma seria um título maior onde se diferencia o que é experimentado na situação traumática o contexto do fator traumático o 45 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc processo de introjeção e elaboração da vivência traumática Na introjeção incluemse as construções introjetadas os conflitos os sintomas e as mudanças estruturais advindas da introjeção traumática Essa visão psicodinâmica entende que a traumatização não é superada não termina com o fim do episódio traumático O trauma é um processo dinâmico daí o autor Rosenberg Frank preferir usar a terminologia Traumatização em vez de Trauma Cabe dizer que se trata aqui do trauma classificado na psicotraumatologia como tipo II considerado como um trauma de relacionamento onde recorrentes ou crônicas investidas traumáticas são realizadas por pessoas muitas vezes por pessoas com as quais se tem uma relação de vínculo ou de dependência A partir desta consideração identificamos o quanto o racismo se encaixa na definição de trauma tipo II Uma distinção importante a ser feita é entre a vivência de um traumatismo o estado traumático e as alterações patológicas duradouras O entendimento dessas distinções importa pois as consequências diretas de vivenciar uma situação traumática podem ser patogênicas embora não necessariamente Nem todas as situações traumáticas têm o mesmo efeito em todas as pessoas assim como fatores predisponentes também devem ser levados em consideração A duração e a intensidade dos eventos traumáticos precisam igualmente ser consideradas bem como a época de vida em que o trauma ocorre Trauma é um conceito que vincula um evento externo com suas consequências específicas para a realidade psíquica interna Nessa medida é um termo relacional Fischer e Riedesser 1998 in Bohleber Werner 2000 O trauma psíquico é um acontecimento que arrebata abruptamente a capacidade do Eu de proporcionar uma sensação mínima de segurança e plenitude integradora resultando que o Eu vivencie medo ou impotência avassaladores o suficiente para se sentir ameaçado provocando modificações permanentes na organização psíquica Cooper1986 p 44 in Bohleber Werner 2000 Um fator essencial nessa definição é a característica repentina disruptiva e incontrolável do evento traumático e a experiência de tornar o Eu indefeso A experiência traumática confronta o Eu com um fato consumado Furst 1977 p 349 in Bohleber Werner 2000 As reações do Eu chegam tarde demais Elas não acontecem como resposta a um perigo iminente mas somente depois que ele se tornou realidade e o Eu foi passivamente rendido a esse perigo Krystal 1978 in Bohleber Werner 2000 fala em trauma catastrófico onde o fator central é o desamparo desencadeado por sua avaliação subjetiva 46 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc Se o perigo é visto como inevitável o desamparo se transforma em um desistir de si mesmo As reações de autossubsistência estão prejudicadas Para Krystal esse ataque ao psiquismo do sujeito pelo agente traumático que lesiona a função de defesa e a função expressiva do medo levando à inibição de ambas as funções seria o verdadeiro evento traumático Nesse caso a função de auto preservação de valorização da própria vida permanece bastante prejudicada muitas vezes inibida É impossível para o Eu integrar mentalmente a experiência traumática A atribuição de significado é interrompida porque o fortuito e inesperado do evento não pode ser absorvido por estruturas de significado anteriores Um efeito duradouro e não temporário importante para a definição de trauma é que a confiança básica é destruída e leva a um estilhaçamento permanente da compreensão de si mesmo e do mundo Fischer e Riedesser 1998 p 79 em Bohleber Werner 2000 Enquanto estivermos com consciência de auto preservação e reagindo a nosso favor em relação aos nossos medos não estaremos aprisionados no estado traumático Essa traumatização é caracterizada por um acontecimento objetivo que atinge o sujeito de modo inesperado súbito violento e ameaçador a tal ponto de impossibilitar o sujeito de se adequar de reagir e de elaborar a situação O estímulo violento externo se apresenta completamente estranho ao sujeito Esse estímulo não se orienta nem aos interesses e estágios de desenvolvimento do sujeito nem às suas necessidades narcísicas e sendo introduzido á força nele de tal forma que esse suspeito não tem chance de se defender do ataque Pelo contrário é forçado a assimilar a interação com esse ataque dentro de si Ao mesmo tempo esse sujeito é confrontado com um stress interno reativo e uma sobrecarga de afeto Em caso de uma concomitante subestimulação deste sujeito com pouco recebimento de cuidado de ajuda de proteção de acolhimento atenção e dedicação como se vê frequentemente em casos de abandono privação e desamparo pelos objetos cuidadores a vítima é colocada em condição de total impotência à mercê do agressor Neste sentido a experiência traumática modifica a relação do sujeito consigo mesmo e com o seu entorno não só no momento traumático atual como ao longo dos processos sucessivos da sua vida Os acometidos pelo trauma se sentem fora de condições de tomar atitudes ter comportamentos dar conta do seu dia a dia de maneira suficiente apresentando uma disfunção global de vida caindo num vazio 47 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc O sujeito traumatizado se encontra num estado de choque e horror tomado por um estado global de medo O Eu é tomado por um estado de total impotência e desamparo Esse traumático não tem possibilidade de ser simbolizadorepresentado psiquicamente e portanto não pode ser integrado ao processo biográfico de desenvolvimento do sujeito Ou seja não acontece uma integração e tampouco uma adaptação do aparelho psíquico à situação traumática Paralelamente a isso o sujeito tem que se haver com a avalanche de sentimentos relativos ao acontecimento traumático De tal forma que o Self se sente sobrecarregado pelo traumático externo e pelos sentimentos igualmente traumáticos internos a ponto de não conseguir diferenciar o que é externo e o que é interno Através da dominação violenta o agressor descarrega na vítima os próprios sentimentos de culpa vergonha inveja ódio e deficiência funcional do Eu e do Super Eu Enquanto isso a vítima está ocupada em com a própria sobrevivência e sobrecarregadaafogada por sentimentos arcaicos de tal modo que as funções egoicas e super egoicas desabam regredindo o sujeito à situação de não ver mais saída para nada Essa regressão será maior na dependência dos seguintes fatores quanto mais frequente a experiência traumática ocorrer quanto mais frágil for a estrutura egoica quanto maior for o grau de ligação e dependência ao agressor quanto maior a ameaça vital da violência traumática quanto mais imprevisível for o episódio traumático quanto menor for a proteção o acolhimento e a sustentação recebida A regressão na direção de uma infantilização em fase de tenra idade onde a vítima se vivencia em total dependência do agressor e do seu cuidado com a convicção de que só ele que começou a agressão pode acabar com ela Vivencia o agressor como onipotente obrigandoa a se curvar a ele a se subjugar a ele adivinhar as suas expectativas e preenchêlas incondicionalmente Desta apreensão regredida da realidade a vitima constrói a demanda de ter que ser consolada pelo agressor e este ser o único capaz de acabar com o sofrimento dela Com isso há uma rejeição da ajuda de um terceiro Os limites entre ataque e defesa do próprio narcisismo se misturam o que leva à uma baixa capacidade de diferenciação entre o self e o objeto assim como dificuldade de regular aproximação e distância há uma baixa diferenciação entre o mundo interno e o externo baixo limite entre fantasia e realidade 48 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc Há uma ameaça de regressão do processo secundário para o processo primário A vivência traumática ataca a estrutura do Self de modo integral gerando um medo de perda do Self e do Objeto Com isso o sentimento de poder ter continuidade de ser é gravemente abalado e a demanda em ter uma vida protegida e segura é abandonada por não haver mais esperança nem perspectiva nem possibilidades de realizar essa demanda Rosenberg Frank Porém a complexidade no caso do racismo no meu entender é que há muitas nuances entre o estado de aprisionamento traumático onde há quase uma paralisia e um desistir de si mesmo e o estado de um funcionamento mental saudável e favorável a si mesmo A constância a cronificação e o efeito cumulativo das vivências traumáticas devidas ao secular racismo cotidiano interferem nos mecanismos de defesa e nas expressões reativas ao medo Esses que deveriam agir a nosso favor podem já não funcionar como de fato deveriam no cuidado da auto preservação e como geradores de bem estar e plenitude Como se o Eu reconhecesse determinados ataques nocivos como normatizados e toleráveis que não resultam necessariamente numa paralisia mas causam inibições e restrições ao seu funcionamento que passam despercebidas Como se ainda estivéssemos nos movimentando com grilhões no corpo e nos expressando com uma mordaça na boca sem nos dar conta disso Diretamente relacionado aos aspectos acima descritos é o caráter transgeracional deste racismo traumático ou seja as consequências lesivas são transmitidas de modo inconsciente de gerações a gerações por séculos de modo a se integrarem muitas vezes no modo de funcionamento do sujeito sem possibilidades de serem identificadas na sua relação causa e efeito como se sujeito já viesse ao mundo com uma dívida que não contraiu Existem diversos estudos demonstrando que modificações epigenéticas devido a vivências traumatizantes podem ser transmitidas para as gerações seguintes Da mesma forma que experiências traumáticas podem provocar modificações epigenéticas Gapp K et al 2020 ressignificações e elaborações dessas experiências por exemplo através de um trabalho analíticoterapêutico também podem transformar essas modificações epigenéticas na direção de uma reparação desta transmissão traumática Vinkers Christian H et al 2021 Cito nas referências bibliográficas esses 2 estudos para ilustrar e fomentar leituras sobre esse tema já que o seu detalhamento extrapola as possibilidades deste artigo 49 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc Abordagem Clínica e Resultados Vou apresentar resumidamente um caso clínico que exemplifica os efeitos subjetivos traumáticos do racismo com aspectos inter e transgeracionais e de somatização O principal método usado no trabalho analítico deste caso foi a escuta e a observação cuidadosa que poderíamos denominar de uma escuta inclusiva racial Não quero dizer com isso que seja uma escuta e uma observação só da população negra e sim uma escuta que atente para a relação de determinados aspectos do funcionamento psicodinâmico do sujeito criado em uma estrutura sociopolítica racista que violenta tanto a população negra como a branca Essa escuta visa construir junto com o paciente um entendimento desta relação do racismo com a saúde mental O racismo permeia a população negra enquanto objeto que o sofre e a população branca enquanto seu agente Portanto a violência estabelecida nesta relação respinga para os dois lados ainda que com características diversas Estou generalizando sujeitos negros e brancos com a única intenção de simplificar no pequeno espaço deste texto uma realidade que certamente é bem mais complexa composta de sujeitos únicos com posturas individuais diante do racismo Vou porém manter a denominação generalizada de negros e brancos com a finalidade de representar um imaginário racista estabelecido no coletivo da nossa sociedade O racismo está internalizado em todos os que vivem em uma sociedade estruturalmente racista Refirome a um processo muitas vezes inconsciente naturalizado e aceito dentro de uma normalidade social como os esteriótipos Esse aspecto é de extrema importância na prática clínica terapêutica Para que a relação pacienteterapeuta facilite o acesso a representação e a elaboração das consequências traumáticas do racismo essa relação precisa permitir que processos intra e interpsíquicos de elaboração e simbolização aconteçam tanto com o paciente como com o terapeuta Ou seja ambos vão precisar se confrontar com o seu racismo internalizado Levandose em consideração que a maioria dos profissionais psicanalistas e terapeutas em geral não é constituída por negros como consequência da própria discriminação racial que dificulta a ascensão sóciocultural da população negra e pobre é muito importante que o analista não negro atente para que a relação analíticaterapêutica não reencene 50 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc comportamentos racistas O mesmo se aplica a um analista negro que passe a ocupar uma posição até então praticamente exclusiva da privilegiada população branca Enquanto psicanalista posso me referir a uma técnica que trabalha principalmente com e na relação transferencial Mas seja qual for a técnica ou as técnicas se cogitarmos a pertinência de um trabalho multidisciplinar tal trabalho precisa ser realizado com muita delicadeza constância de sustentação acolhimento além do respeito aos limites e às possibilidades individuais de confrontação com as experiências traumáticas Por motivos de sigilo vou omitir detalhes que possam levar à identificação da paciente Tratase de uma paciente do sexo feminino autodeclarada de cor preta heterossexual idade de adulta jovem criada por mulheres de duas gerações com irmãos e primos do sexo masculino sendo ela a única menina As figuras masculinas adultas ou eram ou ausentes ou pouco presentes ou dependentes ou ainda autoritárias e desvalorizadoras das figuras femininas Nenhuma das figuras femininas havia cursado nível superior sendo a paciente a primeira mulher da família a ter uma profissão diferenciada com ganho econômico cultural e intelectual significativo Neste contexto a paciente refere e vivencia a sua ascensão como um movimento compensatório a uma vivência de desvalorização pelo meio por ser além de negra gorda Quem quer brincar com uma criança gorda A família super valorizava práticas desportivas apontandoas como sendo a única oportunidade de um negro subir na vida Por ela ser gorda e desajeitada no esporte a família falou é melhor você estudar e ser muito boa nisso pois nesse riscado as chances do negro são mínimas Paralelamente era muito cobrada em casa para ajudar nos serviços domésticos além de vivenciar muita submissão das mulheres ao comportamento masculino e mesmo que esse comportamento fosse nocivo seja pela precária presença ou pela presença autoritária havia a postura ruim com eles pior sem eles A desvalorização do papel da mulher negra acima descrita é condizente com a mentalidade escravocrata inserida no nosso cotidiano onde a mulher negra serve para o sexo e o trabalho doméstico usada todo o tempo como objeto que executa funções vitais tanto no aspecto objetivo como no aspecto subjetivo Recebe com frequência a sobrecarga de suprir as necessidades domésticas e afetivas tanto da própria família bem como da família branca onde trabalha Muitas vezes supre até mesmo a maternagem da criança branca Porém não recebe a devida consideração nem na própria família nem na família do branco Os cuidados com a própria família são precarizados por despender a maior parte do seu dia incluindo tempo de 51 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc locomoção trabalhando sob condições exploradoras na casa alheia onde recebe como máximo de reconhecimento o ser considerada praticamente da família No caso da paciente em questão mesmo o estudar e a ascensão social cultural e econômica não receberam a devida valorização pela família de como um ganho na qualidade de vida de uma mudança de paradigma a seu favor mas sim como uma alternativa compensatória à deficiência de ter um corpo negro gordo e desajeitado para o esporte ascensão máxima que cabe a um negro Até recentemente a sua família usufruía quase abusava do crescimento econômico dela contraindo dívidas financeiras às suas custas A paciente apresentava uma dificuldade grande em colocar limites conforme descrito teoricamente acima por uma relação deficitária objetal que a deixava em situação de dependência e carência afetiva como se precisasse comprar a atenção e a valorização da família A introjeção de um objeto interno negativado pelo racismo também se faz reconhecível no comportamento de abdicação das próprias demandas A identificação com a imagem feminina e o lugar da mulher negra na sociedade apregoada pelo dominador pelo colonizador se reproduz nitidamente pela repetição de comportamento dessas mulheres cuidadoras e solitárias tendo muitas vezes que sustentar alguns homens da família ser amante de outros tolerar as amantes de outros ou tolerar o autoritarismo de outros A paciente mesmo tendo quebrado uma parte importante desta repetição inter e transgeracional de mulher objeto reproduz no seu primeiro relacionamento uma vida em que o companheiro a trai com outras mulheres traz os filhos dele com essas mulheres para ela cuidar e depende financeiramente dela Durante este relacionamento a paciente desenvolve uma doença autoimune atualmente considerada com possibilidades etiológicas de influência psíquicas A dissolução deste relacionamento foi um processo arrastado e vivenciado com culpa e vergonha eu sou a primeira nesta família de negros a ser uma mulher independente bem sucedida profissional e intelectualmente e ainda vou querer ter um relacionamento satisfatório com um homem Acho que seria demais de uma só vez Após esse relacionamento ousou ter um relacionamento com um homem branco onde vivenciou situações de retraumatismo por racismo não pelo namorado branco mas nos espaços públicos que frequentava com ele onde era vítima de olhares invasivos recriminados e ofensivos vivenciando muitas vezes situações abusivas corporalmente O namorado branco reagiu muitas vezes indignado e fragilizado nessas situações onde vivenciaram essas violências racistas mostrandose muitas vezes culpado e envergonhado por ignorar a existência desse racismo estrutural na sociedade em que vivia Ele se sentia muitas vezes impotente e fragilizado próximo a ela E neste contexto a paciente verbaliza Uma mulher branca pode contar com um homem que segure a onda dela se for necessário pode se entregar confiando na estabilidade emocional e financeira dele uma mulher negra nunca Em relação ao desespreparo do namorado branco acima descrito vou tecer a seguir algumas considerações sobre o traumático de um sujeito branco que presenciou e presencia toda essa violência secular Como uma criança branca por exemplo vivencia ser cuidada receber maternagem de uma mãe preta materializada na figura da babá em geral uma mulher negra Esta criança sabe ter uma mãe biológica branca representante de uma sociedade que violenta despreza e coisifica essa mãe preta mas que entrega a sua própria cria aos cuidados de uma mulher estranha e coisificada Podese imaginar neste exemplo de uma prática secular que esta criança no mínimo vivencie um conflito de lealdade e uma quebra de segurança afetiva na relação com a mãe biológica Como se a criança se perguntasse por qual razão a mãe a entrega a aos cuidados de alguém que ela considera uma coisa subalterna Poderia essa mulher negra que amamenta alimenta cuida e acolhe também suscitar desejos inclusive libidinosos que mesmo realizados de modo coercitivo ou não permaneçam conflit uosos Essa maternagem também pode vir carregada de mágoas ressentimentos raiva já que tanto a mãe preta escravizada como a babá subempregada dos dias atuais vivenciam a incoerência de terem que descuidar dos seus filhos biológicos para cuidar dos filhos privilegiados Isso não afetaria a criança que está sendo cuidada O mesmo fenômeno presenciamos em relação à convivência do branco com vários outros serviçais motorista porteiro faxineiro cozinheira etc dos quais é muitas vezes dependente mas pelos quais alimenta o sentimento de serem pessoas de segunda categoria Convive e depende de pessoas que muitas vezes lhe evocam medo ojeriza estranhamento e das quais quer manter distância Um confronto diário com um inimigo perigoso mas necessário por lhe prestar serviços essenciais e com baixa remuneração Não seria isso um comportamento quase perverso equivalente a um comportamento dissociativo onde mecanismos de defesa como a clivagem a negação a projeção e a identificação projetiva predominam O trabalho analítico com a paciente se mostrou eficaz até o presente momento principalmente pela transferência positiva que construiu comigo durante o processo O fato de eu ter identificado desde o início o componente traumático racista apontálo com muita delicadeza compreensão e conhecimento de sua existência certamente contribuiu para esse vínculo transferencial positivo Ao longo do trabalho analítico consegue admitir que emocionalmente não se sente em condições de se autorizar triunfante em relação à sua ascensão social cultural intelectual e econômica Pelo contrário fantasia isso quase como uma derrota já que ocupou o lugar compensatório da falha e do defeito de cor e de corpo Identifica o quanto muitas vezes usa este desempenho de ascensão como um escudo impeditivo do desejo de uma relação amorosa e companheira Identifica a sua crença de que não lhe é possível enquanto mulher negra construir uma relação amorosa nos padrões que imagina acontecer com uma mulher branca E dessa forma o escudo a protegeria do sofrimento pela frustração deste desejo Identifica em seguida que esta ascensão também simboliza e determina poder circular no meio branco o que lhe gera culpa vergonha e medo de distanciamento das suas deficientes precárias e contraditórias raízes Aponto para ela o quanto viver no meio branco pode significar uma retraumatização através de práticas racistas sutis através das quais ela mais uma vez não se vê pertencente Com esta intervenção a paciente identifica o quanto naturalizou situações de mal estar entendendo que faziam compulsoriamente parte do seu destino de mulher negra A paciente sentiuse bastante aliviada ao identificar essas questões ao longo da análise Assim como a identificação da somatização em forma de doença auto imune Ela se deu conta de que aprendeu a rejeitar seu corpo associálo a um corpo estranho indesejável inclusive pela família e incompatível para preencher o seu desejo amoroso O entendimento de que a introjeção do discurso racista de desvalia e exclusão introjetado ao menos em parte pela própria familia foi movida por medo e significou garantir a sobrevivência ao racismo ao longo de várias gerações possibilitou construir caminhos de enfrentamento e reconciliação com um Super Eu recriminador e um Ideal de Eu inalcançável A paciente vem adquirindo autoconfiança e autocredibilidade para continuar ousando e desejando uma vida digna de um sujeito e não se conformando em ter uma vida objetal Conclusões Esse breve relato de alguns aspectos de um caso clínico pretende ilustrar e embasar a importância de identificar práticas e heranças de racismo no desenvolvimento psíquico do sujeito negro e branco De identificar o racismo como um componente traumático causador de doença A escuta o olhar e a confrontação cuidadosa do papel do componente racial nos comportamentos funcionais e disfuncionais da paciente facilitou o seu movimento na direção de se conscientizar da improcedência da sua culpa e vergonha Permitiu que se autorizasse na diferenciação em relação às mulheres da sua família assim como permitiu melhor regulação de aproximação e distância que queria ter com as pessoas da sua relação Atualmente está estável em relação à doença autoimune assim como se mostra valorizando e destacando o seu lado subjetivo e o seu visual feminino negro Insisto que para a construção de uma atuação antirracista é imprescindível que se tematize igualmente a branquitude seu lugar de privilégio e seu comportamento racista Penso ser imprescindível questionar as introjeções traumáticas do branco que compactua com a manutenção de uma sociedade tão desigual insistindo em viver na dicotomia de dois mundos tão diversos negando a brutal discriminação e a exclusão social pelo racismo e sua grande participação na precariedade socioeconômica cultural e política em que vivemos Perpetua uma mentalidade arbitrária autoritária e predadora Essa prática usual e tolerada no nosso país compromete a qualidade de vida da sociedade como um todo e não só da população negra e pobre A população branca também é acometida por essa irresponsabilidade políticosocial que separa e classifica arbitrariamente seres humanos em dignos e indignos desumaniza as vidas indignas Essa desumanização respinga diretamente nas vidas dignas já que um ser coisificado dificilmente conseguirá contribuir construtivamente tendendo a uma participação destrutiva ou a uma participação praticamente pouco significativa no funcionamento da sociedade A instituição e manutenção de dois mundos que não conversam criou uma dinâmica de fantasias e representações de um mundo em relação ao outro que não são necessariamente verificadas e entendidas nos seus contextos históricos políticos e sociais Se pensarmos nos estereótipos construídos pela classe dominante sobre a população negra como por exemplo negro é sujo ladrão burro preguiçoso e negro é bom de cama de samba e de futebol vemos representações de dois polos o primeiro com a representação do indesejável em nós mesmos projetado nos negros pois precisa ser extirpado e depositado fora de nós O segundo com a representação do desejável porém muitas vezes proibido e recalcado que igualmente precisa ser depositado fora de nós Assim podemos abstrair o entendimento do medo da confrontação com o estranho que habita em nós como bem descreve Freud em Das Unheimliche quando somos acometidos por sentimentos contraditórios como medo ódio desprezo mas também cobiça inveja despeito Por outro lado há também uma representação estereotipada do mundo branco como um mundo idealizado positivamente onde só existem coisas admiráveis a serem desejadas e muitas vezes transformadas em padrões de medida do que é belo e do que é bom Vemos contudo que no mundo digno confortável e privilegiado a vida se dá em uma bolha frágil e com enormes restrições como se transcorresse em uma gaiola de ouro uma vida com privilégios mas permeada de angústias fantasias paranóicas e ilusões narcísicas que fomentam um comportamento de negação e alienação ante a gravidade da existência desses dois mundos A análise de aspectos presentes no comportamento da população privilegiada é fundamental também para responsabilizar e incluir essa população no processo de reparação deste trauma O discurso de que o racismo é um problema só dos negros é definitivamente inaceitável por configurar um modo de fuga da própria responsabilidade na prática da conjuntura traumatizante Uma população afrodescendente em maioria numérica que se mantém em posição socialmente minoritária bloqueada pelas lesões decorrentes do horror traumático reflete o que eu chamaria de personalidade aprisionada pelo horror do traumático Propiciar a simbolização do trauma intencionando a elaboração do mesmo é um desafio mas também um caminho para a libertação da personalidade de ambas as populações negra e branca A atuação antirracista portanto faz uma conexão direta com a produção de saúde mental assumindo não só uma função curativa como também preventiva tanto na clínica como no cotidiano social e político de todos nós Sem uma atuação antirracista enquanto cidadãos não conseguiremos construir uma sociedade saudável e de fato humanizada Referências Abud C C Kon N M e Silva M L Ed 2017 O Racismo e o Negro no Brasil Questões para a Psicanálise São Paulo Brasil Perspectiva Bento MAS Carone I Ed 2016 Psicologia Social do Racismo estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil Petrópolis Brasil Editora Vozes Bion Wilfred R 1992 Lernen durch Erfahrung Frankfurt a M Germany Suhrkamp Bohleber Werner 2000 Die Entwicklung der Traumatheorie in der Psychoanalyse Psyche 54 Jahrgang Heft 910 psychosozial verlagde Davis M Fakhry 2011 Internal Racism New York USA Palgrave Macmillan Fannon F 2008 Pele Negra Máscaras Brancas Salvador Brasil Edufba Freud Sigmund 1991 Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse Frankfurt aM Germany Band 10432 Taschenbuch Fischer Verlag Freud Sigmund 1919 Das Unheimliche In Imago Zeitschrift für Anwendung der Psychoanalyse auf die Geisteswissenschaften Jg 5 H 56 S 297324 Gapp K et al 2020 Alterations in sperm long RNA contribute to the epigenetic inheritance of the effects of postnatal trauma Molecular Psychiatry vol 25 pages 21622174 Green A 1988 Narcisismo de Vida Narcisismo de Morte São Paulo Brasil Escuta Maldonado G Cardoso M R 2009 O Trauma Psíquico e o Paradoxo das Narrativas Impossíveis mas Necessárias Rio de Janeiro Brasil vol 21 N1 p 45 57 Psic Clin Rio de Janeiro Brasil Miranda MA 2004 A beleza negra na subjetividade das meninas um caminho para as MariazinhasConsiderações psicanalíticas dissertação de mestrado USP São Paulo Brasil Nogueira IB 1988 Significações do Corpo Negro tese de doutorado USP São Paulo Brasil Reis E Schueler 2004 Corpo e Memória Traumática texto apresentado no I Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e VII Congresso Brasileiro de Psicologia Fundamental Rio de Janeiro Brasil Rosenberg Frank 2010 Introjekt und Trauma Frankfurt am Main Germany Brandes Appel Verlag GmbH Schulze Sylvia Januar 2018 Schwarz und Weiß im analytischen Raum über rassistische innere Objekte Germany PSYCHE 72 Jahrgang Heft 1 Seidler Günter H 1995 Der Blick des Anderen Stuttgart Germany Verlag Internationale Psychoanalyse Souza N S 1983 Tornarse Negro As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social Rio de Janeiro Brasil Graal Steiner John 1998 Narzisstische Objektbeziehungen und pathologische Persönlichkeitsorganisationen aus Orte des seelischen Rückzugs Stuttgart Germany KlettCotta Vinkers Christiaan H et al 2021 Successful treatment of posttraumatic stress disorder reverses DNA methylation marks Molecular Psychiatry volume 26 4 pages 12641271 Williams Gianna 2003 Über Introjektionsprozesse die Hypothese einer OmegaFunktion aus Innenwelt und Fremdkörper Stuttgart Germany KlettCotta Winnicott D W 1992 Fear of Breakdown from Psychoanalytic Explorations Cambridge Massachusetts USA Harvard University Press Your Text is Human Written A Psicanalise Freudiana e os Fenômenos sociais Resumo Este trabalho investiga à luz da teoria freudiana do MalEstar na Civilização como os sofrimentos psíquicos se atualizam em contextos marcados por racismo feminismo e lutas identitárias A partir de revisão bibliográfica relaciona conceitos como narcisismo das pequenas diferenças repressão e superego às opressões contemporâneas Os resultados apontam que tais discursos sociais revelam formas específicas de dor psíquica vinculadas à exclusão e à negação simbólica Concluise que a psicanálise quando articulada a essas esferas permite uma leitura crítica do sofrimento enquanto fenômeno individual e coletivo ampliando o entendimento das tensões entre desejo norma e identidade Palavras chave Freud Psicanalise Narcisismo Introdução O MalEstar na Civilização de Sigmund Freud representa um horizonte letrado dos sofrimentos humanos diante da pressão social e moral da vida em comum Nas palavras de Freud há uma infeliz oposição entre os anseios individuais de cada homem e as exigências culturais da comunidade Portanto parte considerável de todo malestar psíquico se dá em razão da repressão dessas tendências Desse modo é cabível estabelecer uma ligação entre os diagnósticos freudianos e os discursos contemporâneos sobre o tema apresentados em racistas feminista e 0 AI GPT ZeroGPT luta de identidades Tais campos tematizam sofrimento em medidas diversas mas todos incidindo no inconsciente do sujeito moderno A incorporação do discurso freudiano permite uma análise dos modos especificadamente contemporâneos que o sofrimento encontra em cada um Partindo dessa perspectiva o presente trabalho tem como problemática central a forma como os sofrimentos psíquicos descritos por Freud decorrentes da repressão imposta pela civilização podem ser reinterpretados à luz das experiências de dor e exclusão vividas por sujeitos marcados por pertencimentos sociais específicos notadamente em contextos de racismo feminismo e lutas identitárias O objetivo portanto é investigar como essas esferas discursivas contemporâneas expressam atualizam e de certo modo desdobram o malestar freudiano revelando a persistência de uma tensão inconsciente entre o indivíduo e a norma coletiva Ao fazer essa interlocução entre a psicanálise e as demandas sociais atuais buscase lançar luz sobre os modos como o sofrimento encontra novas formas de manifestação e resistência na sociedade contemporânea Capítulo 1 Racismo e o narcisismo das pequenas diferenças Freud ao abordar o conceito de narcisismo das pequenas diferenças referese à propensão dos grupos humanos a acentuarem distinções mínimas entre si como forma de demarcação e exclusão Tal conceito pode ser relacionado diretamente ao modo como o racismo opera socialmente Conforme aponta Silva 2022 o racismo não apenas exclui mas também produz subjetividades atravessadas pela rejeição e pela inferiorização do outro Ao se valer de diferenças fenotípicas e culturais o discurso racista cristaliza uma ilusão de superioridade que serve como recurso narcísico para a identidade branca Essa dinâmica é profundamente marcada por uma tentativa de assegurar coesão grupal em torno de uma identidade hegemônica Como indica Freud 1930 as pequenas diferenças ganham relevo simbólico e afetivo justamente porque funcionam como elementos de projeção das angústias internas O outro racializado tornase então um bode expiatório psíquico e social Esse mecanismo de defesa reforça a estrutura de domínio e ao mesmo tempo encobre as fragilidades da identidade do grupo dominante A história social brasileira evidencia como o racismo é estruturante e se manifesta de forma sistemática inclusive na formação das subjetividades A repressão às expressões culturais negras assim como a negação das dores históricas da população afrodescendente mostram como a culpa coletiva é recalcada Freud sugere que a culpa quando não elaborada tende a retornar sob formas sintomáticas o que pode ser visto em violências institucionais e na perpetuação de desigualdades Capítulo 2 Feminismo superego e repressão No pensamento freudiano o superego representa a instância psíquica que internaliza as normas e expectativas sociais Essa estrutura está na origem dos sentimentos de culpa pois confronta os impulsos do id com exigências morais No caso das mulheres essa tensão ganha contornos específicos A psicanalista Karen Horney em crítica à leitura freudiana aponta a tendência da teoria clássica a reduzir a feminilidade a um ideal masculino Silva Ferrari 2022 A repressão dos desejos femininos histórica e culturalmente promovida gera profundas marcas subjetivas O ideal de submissão somado à culpabilização da mulher por seu desejo alimenta uma estrutura psíquica pautada pela renúncia O superego feminino formado em um contexto de moral patriarcal tende a ser mais punitivo o que intensifica o sofrimento psíquico Freud 1930 afirma que a civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional e essa exigência recai de forma desigual sobre os gêneros A luta feminista ao questionar esses valores internalizados busca não apenas uma transformação social mas também uma elaboração subjetiva das dores e das culpas produzidas por essa repressão histórica O movimento oferece uma via de reconstrução de identidades femininas a partir de experiências singulares rejeitando modelos impostos Como mostram Silva Ferrari 2022 as contribuições de Horney abrem espaço para uma escuta da subjetividade feminina fora do paradigma da inveja do pênis Capítulo 3 Identidades opressões e o malestar A identidade longe de ser um dado fixo é constituída por atravessamentos históricos culturais e inconscientes Freud ao tratar da relação entre civilização e sofrimento aponta que a tentativa de padronização dos sujeitos em moldes normativos produz um conflito insolúcvel entre o que se deseja e o que se exige Essa fissura é fonte permanente de angústia Pessoa 2021 ressalta que as opressões se inscrevem no corpo e na linguagem atravessando os processos de constituição do eu A repressão dos impulsos não aceitos socialmente é o mecanismo central que Freud identifica como gerador de malestar No entanto em contextos de opressão sistematizada esse mecanismo é amplificado O sujeito que se reconhece fora das normas impostas pela cultura como acontece com pessoas negras LGBTQIA ou mulheres em contextos de violência simbólica tende a experimentar uma forma agravada de sofrimento psíquico Essa dor se associa à exclusão e ao silenciamento Freud argumenta que a civilização exige uma contenção das pulsões Mas essa contenção quando não mediada pela simbolização transformase em padecimento A produção de subjetividades à margem da norma reativa mecanismos de resistência mas também de sofrimento crônico Pessoa 2021 aponta que o inconsciente não é imune às violências sociais e ao contrário é atravessado por elas muitas vezes reproduzindoas no próprio sujeito Portanto a leitura do MalEstar na Civilização torna claro que o sofrimento devido à identidade e à opressão não é apenas o resultado da luta interna entre libido e superego Ele também é causado pela pressão das circunstâncias externas pelo igualitarismo e pelas condições com que a sociedade viral faz e impacto no ID para criar sua agressão contra o eu Conclusão A articulação entre os conceitos freudianos e as questões sociais contemporâneas mostra que o sofrimento psíquico longe de ser apenas uma questão individual está enraizado em estruturas culturais que perpetuam desigualdades e exigem renúncias desiguais O narcisismo das pequenas diferenças o papel do superego e a repressão das pulsões compõem um panorama em que as tensões entre o sujeito e a sociedade resultam em formas diversas de dor Ao reconhecer a presença das opressões no inconsciente ampliase a escuta clínica e a compreensão das subjetividades marcadas por violências simbólicas Freud não oferece soluções fáceis mas sua obra segue como convite para refletir sobre a civilização que se constrói à custa do sofrimento de muitos Highlighted text is suspected to be most likely generated by AI 8183 Characters 1205 Words 1 A Psicanalise Freudiana e os Fenômenos sociais Seu nome Nome da Universidade Nome do professor Data 2 Resumo Este trabalho investiga à luz da teoria freudiana do MalEstar na Civilização como os sofrimentos psíquicos se atualizam em contextos marcados por racismo feminismo e lutas identitárias A partir de revisão bibliográfica relaciona conceitos como narcisismo das pequenas diferenças repressão e superego às opressões contemporâneas Os resultados apontam que tais discursos sociais revelam formas específicas de dor psíquica vinculadas à exclusão e à negação simbólica Concluise que a psicanálise quando articulada a essas esferas permite uma leitura crítica do sofrimento enquanto fenômeno individual e coletivo ampliando o entendimento das tensões entre desejo norma e identidade Palavras chave Freud Psicanalise Narcisismo Introdução O MalEstar na Civilização de Sigmund Freud representa um horizonte letrado dos sofrimentos humanos diante da pressão social e moral da vida em comum Nas palavras de Freud há uma infeliz oposição entre os anseios individuais de cada homem e as exigências culturais da comunidade Portanto parte considerável de todo malestar psíquico se dá em razão da repressão dessas tendências Desse modo é cabível estabelecer uma ligação entre os diagnósticos freudianos e os discursos contemporâneos sobre o tema apresentados em racistas feminista e luta de identidades Tais campos tematizam sofrimento em medidas diversas mas todos incidindo no inconsciente do sujeito moderno A incorporação do discurso freudiano permite uma análise dos modos especificadamente contemporâneos que o sofrimento encontra em cada um Partindo dessa perspectiva o presente trabalho tem como problemática central a forma como os sofrimentos psíquicos descritos por Freud decorrentes da repressão imposta pela civilização podem ser reinterpretados à luz das experiências de dor e exclusão vividas 3 por sujeitos marcados por pertencimentos sociais específicos notadamente em contextos de racismo feminismo e lutas identitárias O objetivo portanto é investigar como essas esferas discursivas contemporâneas expressam atualizam e de certo modo desdobram o malestar freudiano revelando a persistência de uma tensão inconsciente entre o indivíduo e a norma coletiva Ao fazer essa interlocução entre a psicanálise e as demandas sociais atuais buscase lançar luz sobre os modos como o sofrimento encontra novas formas de manifestação e resistência na sociedade contemporânea Capítulo 1 Racismo e o narcisismo das pequenas diferenças Freud ao abordar o conceito de narcisismo das pequenas diferenças referese à propensão dos grupos humanos a acentuarem distinções mínimas entre si como forma de demarcação e exclusão Tal conceito pode ser relacionado diretamente ao modo como o racismo opera socialmente Conforme aponta Silva 2022 o racismo não apenas exclui mas também produz subjetividades atravessadas pela rejeição e pela inferiorização do outro Ao se valer de diferenças fenotípicas e culturais o discurso racista cristaliza uma ilusão de superioridade que serve como recurso narcísico para a identidade branca Essa dinâmica é profundamente marcada por uma tentativa de assegurar coesão grupal em torno de uma identidade hegemônica Como indica Freud 1930 as pequenas diferenças ganham relevo simbólico e afetivo justamente porque funcionam como elementos de projeção das angústias internas O outro racializado tornase então um bode expiatório psíquico e social Esse mecanismo de defesa reforça a estrutura de domínio e ao mesmo tempo encobre as fragilidades da identidade do grupo dominante 4 A história social brasileira evidencia como o racismo é estruturante e se manifesta de forma sistemática inclusive na formação das subjetividades A repressão às expressões culturais negras assim como a negação das dores históricas da população afrodescendente mostram como a culpa coletiva é recalcada Freud sugere que a culpa quando não elaborada tende a retornar sob formas sintomáticas o que pode ser visto em violências institucionais e na perpetuação de desigualdades Capítulo 2 Feminismo superego e repressão No pensamento freudiano o superego representa a instância psíquica que internaliza as normas e expectativas sociais Essa estrutura está na origem dos sentimentos de culpa pois confronta os impulsos do id com exigências morais No caso das mulheres essa tensão ganha contornos específicos A psicanalista Karen Horney em crítica à leitura freudiana aponta a tendência da teoria clássica a reduzir a feminilidade a um ideal masculino Silva Ferrari 2022 A repressão dos desejos femininos histórica e culturalmente promovida gera profundas marcas subjetivas O ideal de submissão somado à culpabilização da mulher por seu desejo alimenta uma estrutura psíquica pautada pela renúncia O superego feminino formado em um contexto de moral patriarcal tende a ser mais punitivo o que intensifica o sofrimento psíquico Freud 1930 afirma que a civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional e essa exigência recai de forma desigual sobre os gêneros A luta feminista ao questionar esses valores internalizados busca não apenas uma transformação social mas também uma elaboração subjetiva das dores e das culpas produzidas por essa repressão histórica O movimento oferece uma via de reconstrução de identidades femininas a partir de experiências singulares rejeitando modelos impostos Como mostram Silva Ferrari 2022 as contribuições de Horney abrem espaço para uma escuta da subjetividade feminina fora do paradigma da inveja do pênis 5 Capítulo 3 Identidades opressões e o malestar A identidade longe de ser um dado fixo é constituída por atravessamentos históricos culturais e inconscientes Freud ao tratar da relação entre civilização e sofrimento aponta que a tentativa de padronização dos sujeitos em moldes normativos produz um conflito insolúcvel entre o que se deseja e o que se exige Essa fissura é fonte permanente de angústia Pessoa 2021 ressalta que as opressões se inscrevem no corpo e na linguagem atravessando os processos de constituição do eu A repressão dos impulsos não aceitos socialmente é o mecanismo central que Freud identifica como gerador de malestar No entanto em contextos de opressão sistematizada esse mecanismo é amplificado O sujeito que se reconhece fora das normas impostas pela cultura como acontece com pessoas negras LGBTQIA ou mulheres em contextos de violência simbólica tende a experimentar uma forma agravada de sofrimento psíquico Essa dor se associa à exclusão e ao silenciamento Freud argumenta que a civilização exige uma contenção das pulsões Mas essa contenção quando não mediada pela simbolização transformase em padecimento A produção de subjetividades à margem da norma reativa mecanismos de resistência mas também de sofrimento crônico Pessoa 2021 aponta que o inconsciente não é imune às violências sociais e ao contrário é atravessado por elas muitas vezes reproduzindoas no próprio sujeito Portanto a leitura do MalEstar na Civilização torna claro que o sofrimento devido à identidade e à opressão não é apenas o resultado da luta interna entre libido e superego Ele também é causado pela pressão das circunstâncias externas pelo igualitarismo e pelas condições com que a sociedade viral faz e impacto no ID para criar sua agressão contra o eu 6 Conclusão A articulação entre os conceitos freudianos e as questões sociais contemporâneas mostra que o sofrimento psíquico longe de ser apenas uma questão individual está enraizado em estruturas culturais que perpetuam desigualdades e exigem renúncias desiguais O narcisismo das pequenas diferenças o papel do superego e a repressão das pulsões compõem um panorama em que as tensões entre o sujeito e a sociedade resultam em formas diversas de dor Ao reconhecer a presença das opressões no inconsciente ampliase a escuta clínica e a compreensão das subjetividades marcadas por violências simbólicas Freud não oferece soluções fáceis mas sua obra segue como convite para refletir sobre a civilização que se constrói à custa do sofrimento de muitos Referências Freud S 1930 O malestar na civilização Obras completas v 21 São Paulo Companhia das Letras Pessoa G 2021 Identidades opressões e o inconsciente Revista Brasileira de Psicanálise e Sociedade 293 4563 Silva M C 2022 Racismo um trauma coletivo não considerado Revista Psicologia e Cultura 142 101117 Silva L T Ferrari A G 2022 Psicanálise e o feminismo em Karen Horney Revista Subjetividades 223 e12759 httpsdoiorg10502023590777rsv22i3e12759

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Texto de pré-visualização

SUBJETIVIDADES Subjetividades 1 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 eISSN 23590777 Estudos Teóricos PSICANÁLISE E FEMINISMO EM KAREN HORNEY A CRÍTICA AO REFERENCIAL MASCULINO Psychoanalysis and Feminism in Karen Horney The Critique of the Male Reference Psicoanálisis y Feminismo en Karen Horney La Crítica al Referencial Masculino Psychanalyse et Féminisme chez Karen Horney La Critique du Référentiel Masculin 10502023590777rsv22i3e12759 Larissa Ramos da Silva Psicóloga e Mestre em Psicanálise Clínica e Cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS Andrea Gabriela Ferrari Professora do Programa de PósGraduação em Psicanálise Clínica e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS Cocoordenadora do Núcleo de Estudo em Psicanálise e Infâncias NEPIs Resumo Karen Horney foi uma psicanalista alemã pioneira da psicanálise que publicou importantes textos nas décadas de 1920 e 1930 notadamente quando uma discussão intensa sobre a feminilidade despontava nos círculos psicanalíticos mobilizando diversos autores e autoras Mesmo assim sua obra é pouco conhecida no Brasil Desse modo o presente artigo tem como objetivo o resgate de algumas de suas principais contribuições no que tange à crítica ao referencial masculino na psicanálise com vistas a apontar sua relevância histórica e as possibilidades de inserção de suas formulações no contexto atual de discussões sobre psicanálise feminismos e estudos de gênero no Brasil Palavraschave teoria psicanalítica feminismo inveja do pênis Karen Horney Abstract Karen Horney was a German psychoanalyst a pioneer of psychoanalysis who published relevant texts in the 1920s and 1930s notably when an intense discussion about femininity was emerging in psychoanalytic circles mobilizing several authors Even so her work is little known in Brazil Therefore this article aims to rescue some of her main contributions regarding the critique of the male reference in psychoanalysis to point out her historical relevance and the possibilities of inserting her formulations in the current context of discussions on psychoanalysis feminisms and gender studies in Brazil Keywords psychoanalytic theory feminism penis envy Karen Horney Resumen Karen Horney fue una psicoanalista alemana precursora del psicoanálisis que publicó importantes textos en las décadas de 1920 y 1930 sobre todo cuando una intensa discusión sobre femenilidad emergía en los círculos psicoanalíticos movilizando diversos autores y autoras Aún así su obra es poco conocida en Brasil De esta manera el objetivo del presente artículo es rescatar algunas de sus principales contribuciones en lo que se refiere al referencial masculino en psicoanálisis con vistas a indicar su relevancia histórica y las posibilidades de inserción de sus formulaciones en el contexto actual de discusiones sobre psicoanálisis feminismo y estudios de género en Brasil Palabras clave teoría psicoanalítica feminismo envidia del pene Karen Horney 2 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari Résumé Karen Horney a été une psychanalyste allemande pionnière de la psychanalyse qui a publié des textes importants dans les décennies 1920 et 1930 notamment lorsquune intense discussion sur la féminité émergeait dans les cercles psychanalytiques en mobilisant plusieurs auteurs et auteures Cependant son travail est peu connu au Brésil Ainsi cet article vise à récupérer certaines de ses principales contributions concernant la critique du référentiel masculin en psychanalyse afin de présenter sa pertinence historique et les possibilités dinsertion de ses formulations dans le contexte actuel des discussions sur la psychanalyse le féminisme et les études de genre au Brésil Motsclés théorie psychanalytique féminisme envie de pénis Karen Horney Karen Horney foi uma médica e psicanalista alemã nascida em 1885 nas imediações de Hamburgo na Alemanha Formouse médica em 1913 pela Universidade de Berlim quando recentemente alguns cursos de medicina na Europa passaram a aceitar alunas mulheres e deu seguimento a seus estudos nas áreas de psiquiatria e psicanálise Natterson 1966 Sayers 1992 Antes mesmo de obter seu diploma de médica já havia se interessado pela psicanálise e fez análise com outros colegas pioneiros como Abraham e Sachs1 Em 1911 começou a frequentar a Sociedade Psicanalítica de Berlim onde atendeu pacientes e apresentou trabalhos e palestras Mais tarde em 1920 foi a primeira mulher a se tornar membro do Instituto Psicanalítico de Berlim que ficou historicamente conhecido por sua policlínica que oferecia atendimentos gratuitos em psicanálise em um esforço de ampliação do campo de ação da clínica psicanalítica Eckardt 2005 Horney lá se ocupava tanto da transmissão da psicanálise treinando novos analistas quanto de atendimentos clínicos Mudouse para os Estados Unidos em 1932 para ser diretora associada do primeiro instituto de psicanálise do país em Chicago a convite de Franz Alexander outro pioneiro nessa área que a conhecera no Instituto Psicanalítico de Berlim e interessouse por sua postura inovadora sua formação e sua fundamentação eminentemente clínica Alexander et al 1966 Em 1934 mudouse para Nova York onde mantinha um consultório e lecionava tanto no Instituto Psicanalítico de Nova York quanto na New School for Social Research instituição fundada em 1919 por intelectuais progressistas para o estudo de humanidades e problemas sociais existente até hoje Suas produções e ideias revolucionárias que se contrapunham a várias premissas de Freud não foram bem aceitas pelo Instituto Psicanalítico de Nova York culminando em sua saída em 1941 depois da qual fundou o Instituto Americano de Psicanálise também existente até hoje Eckardt 2005 Gilman 2001 Falecida vítima de câncer em 1952 em Nova York sua obra inclui diversos textos e livros como A Personalidade Neurótica de Nosso Tempo de 1936 e Novos Rumos na Psicanálise de 1939 Horney costuma ser mencionada como a primeira psicanalista a introduzir críticas feministas na psicanálise tensionando alguns atravessamentos da lógica patriarcal nas teorizações freudianas e de outrosas colegas de sua época Brasil Costa 2018 Garrison 1981 Nas décadas de 1920 e 1930 as discussões sobre feminilidade e sexualidade feminina tomaram lugar central nas produções psicanalíticas notadamente de psicanalistas mulheres Rosa Weinmann 2020 dentre as quais Horney foi a mais enfática em suas críticas ao entendimento psicanalítico hegemônico da época em relação a essa temática Garrison 1981 Malgrado esse tenha sido um importante momento para os enlaces entre psicanálise e feminismo muitas das contribuições de psicanalistas dessa época em especial as mulheres foram esquecidas Rosa Weinmann 2020 levando à falsa noção de que a teorização freudiana sobre feminilidade era amplamente aceita inicialmente e teria sido criticada apenas posteriormente por feministas na década de 1970 e 1980 após as leituras lacanianas de Freud Cabe resgatar portanto as contribuições elaboradas pelas pioneiras para relembrar os traçados históricos dos entrelaçamentos entre feminismo e psicanálise o que torna possível melhor compreender o atual panorama da produção de conhecimento nesse terreno Ou seja se como afirma Winnicott 1975 de que só é possível ser criativo e original a partir de uma tradição entendese como fundamental conhecer as primeiras aproximações desses dois campos nas quais Horney foi central para que possamos avançar em relação a elas hoje Dessa forma podemos prescindir da postura de considerar esses imbricamentos como estritamente contemporâneos mas apontar as construções já elaboradas nesse âmbito há quase um século e a partir delas criar as condições de possibilidade para novas contribuições Assim embora tenha sido uma pioneira da psicanálise contemporânea de Freud e engajada no movimento psicanalítico de sua época Karen Horney é pouco conhecida e estudada no Brasil Enquanto nos Estados Unidos Horney teve influência mais explícita e duradoura tendo fundado instituições e circulado suas obras e ideias mais amplamente em comparação 1 Karl Abraham 18771925 psicanalista alemão e Hanns Sachs 18811947 psicanalista austríaco 3 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino ao Brasil em nosso país é quase que desconhecida em suas elaborações teóricas e raramente lembrada ou mencionada em sua importância histórica no movimento psicanalítico Suas contribuições teóricas são refletidas apenas escassamente na literatura acadêmica no Brasil tendo apenas um artigo científico produção bastante recente que se debruça mais longamente sobre sua obra Tratase de um artigo de Amorim e Belo 2020 que aborda o tema da monogamia em Karen Horney enfatizando as formulações pioneiras da autora sobre o tema No texto os autores pinçam algumas das principais contribuições de Horney sobre a monogamia no sentido de uma problematização desta enquanto ideal e da análise dos problemas no casamento enquanto contrato social monogâmico por excelência que apareciam com frequência em sua clínica Em resumo os autores apontam que Horney por mais que se ancore em alguns pressupostos heteronormativos para suas teorizações aporta também críticas em relação à monogamia que foram importantes para a época como a proposta de relativizar a monogamia enquanto padrão absoluto nas relações A construção dessa crítica se baseia fundamentalmente na demonstração de que dentro do arranjo monogâmico existem diversos desencontros provocados pelos atravessamentos inconscientes indicando a não existência de uma perspectiva real de satisfação dos desejos inconscientes apenas pela via do casamento Ou seja a monogamia enquanto saída ideal para a relação entre parceiros deveria ser reavaliada já que como outros arranjos também abarca inevitáveis conflitos portanto não deveria ser considerada melhor ou pior que os demais formatos de relacionamento através de padrões valorativos morais Por fim o artigo coloca em relevo os apontamentos da autora no sentido de mostrar que os ideais patriarcais da cultura em que vivia traziam exigências maiores para mulheres do que homens no que tange à monogamia por conta da naturalização da mulher como objeto sexual como um bem móvel Amorim Belo 2020 p 259 Se em um relacionamento monogâmico a noção de exigência de amor estaria ligada à exigência de posse a fidelidade estaria mais a serviço da satisfação de impulsos narcísicos e sádicos do que necessariamente da demonstração de amor pelo outro Em uma sociedade patriarcal na qual o ideal de feminilidade designa uma mulher objetalizada cujos anseios limitamse à esfera familiar conjugal isto se impunha mais fortemente às mulheres Neste ponto cabe comentar que a afirmação de Horney converge com aquela feita por Freud 19081977a quando sugere uma moral dupla mais permissiva com homens do que com mulheres em relação às exigências sexuais da vida moderna A quase ausência de conhecimento da obra de Horney em universidades e mesmo em instituições de psicanálise no Brasil contrasta com o aumento das produções acadêmicas com enfoque nos entrelaçamentos entre psicanálise e estudos de gênero ou psicanálise e feminismo tanto na forma de publicações de livros Ambra Silva 2014 Ceccarelli 2019 Mariotto 2018 Martins Silveira 2020 quanto de artigos científicos Cavalheiro Silva 2020 Martins 2021 Santos 2018 Stona Ferrari 2020 a partir dos mais diversos referenciais teóricos e posicionamentos éticopolíticos Surpreende se portanto dada a importância de Karen Horney no estabelecimento das aproximações nessas áreas que a autora seja pouco lembrada e referenciada nas produções acadêmicas do Brasil nessa mesma seara Horney desde momentos muito precoces da psicanálise trouxe variados apontamentos relevantes para grande parte das reflexões em efervescência nesse campo hoje tais como a crítica ao referencial masculino nas teorizações e à universalidade do Édipo a proposição de leituras da feminilidade que não se ancoram em um ideal de sujeito masculino a ênfase na influência da cultura nas produções científicas e na própria subjetividade a necessidade de um olhar para questões culturais na clínica psicanalítica entre tantas outras Horney 19391966 19361977 19231991b Além disso foi uma crítica das generalizações e universalizações no pensamento psicanalítico apontando também a necessidade de não tomarmos teorias produzidas em determinada cultura a partir de diversos atravessamentos sociais específicos como aplicáveis em qualquer contexto Horney 19391966 19351991g A partir disso a autora alertava também que a psicanálise não deveria se tornar uma ferramenta de adequação ao que era considerado normal em uma cultura mas preocuparse com a saúde psíquica do sujeito entendida por ela como a maior liberdade subjetiva possível para usufruir das próprias capacidades Horney 19391966 Em um momento no qual a noção hegemônica sobre feminilidade na psicanálise incluía as ideias de masoquismo feminino passividade inata abandono do clitóris para a sexualidade vaginal inveja do pênis e desvantagemdeficiência biológica Horney teceu críticas pioneiras e proposições que fizeram avançar a psicanálise Garrison 1981 dialogando com estudos recentes à época nas áreas de sociologia filosofia e antropologia por exemplo A autora sugeria que a psicanálise terá de se libertar da herança do passado se desejar desenvolver as suas grandes potencialidades Horney 19391966 p 41 Assim Horney criticava alguns aspectos da psicanálise especialmente no que tange à feminilidade não para execrála ou condenála mas para libertála de certas premissas condicionadas historicamente e das teorias a que deram origem Horney 19391966 p 12 Podese pensar portanto que muitas de suas contribuições se mantêm atuais na produção psicanalítica inclusive abrindo caminhos para os diversos diálogos embates e entrelaçamentos entre psicanálise e feminismo que vieram posteriormente através de outras autoras Sendo assim a relevância de retomar sua obra não se limita apenas à importância de conhecer a tradição das produções nesse campo mas ampliase para pensar algumas das elaborações da autora como ferramentas 4 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari potentes para a psicanálise atualmente Isto é sua obra apesar de datada e limitada em alguns aspectos que serão discutidos neste artigo traz contribuições teóricoclínicas ainda úteis para reflexões contemporâneas Nessa esteira tornase relevante retomar algumas produções da autora para extrair de sua obra concepções que contribuam para as discussões atuais nesse terreno fértil de produções acadêmicas no Brasil Tendo em vista a amplitude e complexidade da obra de Horney tanto em extensão quanto em temáticas abrangidas fazse necessário para o escopo do presente trabalho selecionar um fio condutor para as discussões propostas de forma a possibilitar uma reflexão aprofundada Sendo assim das questões suscitadas mencionadas anteriormente pela autora optouse pelo enfoque nas críticas de Horney ao referencial masculino na psicanálise através da crítica da inveja do pênis enquanto parâmetro para pensar a feminilidade e da proposição de leituras que fogem desse paradigma Esse aspecto da obra da autora será discutido em maior profundidade nas seções a seguir com destaque para os enlaces possíveis entre psicanálise e feminismo A Crítica de Horney ao Referencial Masculino Nas décadas de 1920 e 1930 a discussão sobre sexualidade feminina e feminilidade foi protagonista no campo psicanalítico o que esteve relacionado segundo o próprio Freud 19332006 ao aumento da participação de analistas mulheres na produção teórica neste campo Dentro desse cenário psicanalistas debruçaramse sobre conceitos como inveja do pênis masoquismo feminino e feminilidade normal para citar alguns Nesse contexto Karen Horney não foi a única autora a questionar alguns pressupostos psicanalíticos da época acompanhada de nomes como Jeanne LampldeGroot e Melanie Klein2 entre outras Rosa Weinmann 2020 Contudo foi a primeira a tecer apontamentos enfáticos sobre os atravessamentos da estrutura do patriarcado na produção psicanalítica Garrison 1981 Sayers 1992 assim como muitas outras o fizeram e ainda fazem depois dela Um dos pontos iniciais do qual Horney 19231991b parte nesse empreendimento é o de questionar o que chama de unilateralidade das pesquisas psicanalíticas e até aquele momento apontada pelo próprio Freud 19231996 19332006 salientando que se baseava apenas no ponto de vista do menino tomandoo como referência para presumir alguns aspectos da sexualidade feminina Para tal a autora começa por reconhecer que naquela época os principais pressupostos teóricos da psicanálise foram construídos por homens de uma determinada cultura apontando um viés nos agentes de produção do conhecimento e as possíveis influências disso na psicanálise enquanto corpo teórico A psicanálise é criação de um gênio masculino e quase todos os que desenvolveram as suas ideias são homens É justo que desenvolvam com mais facilidade uma psicologia masculina Horney 19231991b p 51 Em outro texto a autora menciona que o narcisismo masculino poderia ser uma das razões pelas quais alguns conceitos psicanalíticos como a inveja do pênis não fossem problematizados mas tomados como obviedades admitimos como verdade axiomática que as mulheres se sentem em desvantagem por causa de seus órgãos genitais sem que isto seja considerado um problema em si possivelmente devido ao narcisismo masculino isso tenha sido por demais evidente para precisar de explicações Horney 19231991b p 35 Assim ela levanta a questão sobre um possível viés na produção de conhecimento sobre a feminilidade no campo psicanalítico até aquele momento através do apontamento de uma hegemonia no lugar dos agentes de produção do conhecimento psicanalítico Para Horney 19231991b a ideia de neutralidade na produção acadêmica e científica não procede tendo em vista que toda a experiência contém um fator subjetivo Como a psicanálise desde os primórdios se constituiu enquanto corpo teórico a partir da experiência clínica as leituras teóricas possíveis referentes ao que se manifesta em análise não carregam apenas o conteúdo do que foi produzido peloa analisandoa mas também das interpretações que fazemos ou conclusões que tiramos de tudo isto Horney 19231991b p 55 Através desse raciocínio Horney 19231991b afirmava que o fato de a grande maioria dos psicanalistas a teorizar sobre feminilidade até a década de 1920 serem homens produzia limitações em relação ao que poderia ser elaborado enquanto teoria e interpretações de material clínico É interessante notar que a autora para inserir um estranhamento em relação a algumas teorizações psicanalíticas aponta seu lugar de analista mulher Agora como mulher pergunto atônita Horney 19231991b p 56 Partindo da interlocução com as propostas do sociólogo alemão Georg Simmel 18581918 que indicava que toda a noção de civilização era atravessada por sistemas hierárquicos de valorização que traziam o masculino como ideal e o feminino como inferior Horney 19231991b entende que a psicanálise no que se refere à feminilidade também estava sendo medida por padrões masculinos Horney 19231991b p 54 Apoiandose nisso postula a necessidade de um novo 2 Jeanne LampldeGroot 18951987 psicanalista holandesa e Melanie Klein 18821960 5 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino olhar sobre algumas concepções psicanalíticas a fim de evitar que seguíssemos enquadrando tudo o que de novo pudesse surgir na clínica dentro de ideias já definidas sobre feminilidade Se por um lado Horney apontava a perspectiva hegemônica dos autores homens na psicanálise como um aspecto da unilateralidade das pesquisas psicanalíticas por outro destacava o referencial masculino também acerca do objeto de estudo Ou seja como Freud 19231996 19332006 notava que a maior parte das produções psicanalíticas até a metade da década de 1920 baseavamse apenas no desenvolvimento psicossexual do menino inferindo que a menina deveria seguir caminho oposto quase como um negativo do curso da constituição edípica do menino Como efeito disso Horney 19231991b entende que as ideias correntes à época sobre o desenvolvimento feminino quase que não diferiam das ideias típicas que um menino teria sobre uma menina em relação à diferença sexual Isto é se o menino valoriza seu pênis apreende sua ausência nas meninas e faz a leitura de que são castradas e portanto inferiores afirmando que a menina iria valorizar o pênis e invejálo a partir da apreensão de sua ausência em si mesma e se veria como castrada e inferior A autora problematiza essa concordância demasiada e propõe pensar em algo específico da feminilidade que não parta necessariamente de um ideal de sujeito masculino e da noção de primazia do falo sugerida por Freud 19231996 que tomava o falo como referência para compreender a sexualidade de meninos e meninas Sendo este um debate amplo e notório à época Freud 19311977b não se absteve de comentar as contribuições e críticas de Horney e outras autoras Especificamente sobre a inveja do pênis em relação à Horney o autor menciona que não concorda com suas colocações pois entendia que a inveja do pênis era constatável clinicamente além de explicar conceitualmente sob sua perspectiva a repressão enérgica da feminilidade encontrada na clínica e na cultura Além disso ao longo de sua obra em muitos momentos Horney 19391966 19231991b 19311991c 19351991g aponta atravessamentos culturais nos entendimentos psicanalíticos sobre diferença sexual e feminilidade sugerindo que preconceitos advindos do social estavam influenciando algumas teorizações sobre esses temas o que impedia a psicanálise de avançar Esses preconceitos estariam ligados a efeitos do patriarcado como o referencial masculino enquanto ideal a inferiorização das mulheres a expectativa de que mulheres só se interessassem na vida do lar e na maternidade entre outros Horney 19231991b 19341991f O chamado culturalismo da autora tomou espaço notadamente no decorrer de seus textos tornandose mais evidente e enfático em seus trabalhos mais recentesHorney 19391966 19311991c 19341991f 19351991g empenhouse cada vez mais no empreendimento de reconhecer o papel das contingências culturais da vida para o psiquismo e para o trabalho psicanalítico pensando em como engendram as subjetividades de homens e mulheres A mulher norteamericana é diferente da alemã e ambas são diferentes de uma índia da tribo Pueblo A mulher da sociedade de Nova York é diferente da esposa do fazendeiro de Idaho O que esperamos poder compreender é a maneira pela qual condições culturais específicas engendram qualidades e faculdades também específicas tanto no homem quanto na mulher Horney 19391966 p 99 Nessa via a autora alertou para a presença de uma ideologia masculina estruturante da cultura e suas repercussões tanto na teoria psicanalítica quanto na constituição dos sujeitos e na forma como escutamos as manifestações clínicas em análise Cabe ressaltar neste ponto que muito do que Karen Horney propõe em termos de leitura teórica apoiase em sua experiência clínica com mulheres Horney 19261991a 19231991b Partindo de sua escuta de mulheres e do seu próprio lugar de analista mulher como ela mesma sublinha Horney 19231991b propôs a necessidade de questionar por exemplo por que a feminilidade era entendida como referenciada sempre à inveja do pênis como primordial e universal como ponto de partida da sexualidade feminina Na verdade Horney 19391966 chega a afirmar que naquele momento os analistas estavam deixandose levar por um modo de pensar viciado que interpretava qualquer manifestação clínica vinda de pacientes mulheres através da chave de leitura da inveja do pênis As mais diferentes ambições desejos sintomas expressões de sentimentos sonhos tinham seus caminhos traçados até a inveja do pênis Ela conclui De fato são muito poucos os traços do caráter feminino que não são supostos ter origem da inveja do pênis Horney 19391966 p 87 Em variados momentos de sua obra Horney 19391966 19231991b 19311991c 19321991d 19351991g critica o papel central que o conceito de inveja do pênis tomou para pensar a feminilidade Para ela davase pouca importância ao fato de os meninos também frequentemente manifestarem inveja de características físicas atribuídas à mulher tais como os seios e a possibilidade de gestar Ademais Horney 19261991a 19231991b 19311991c 19321991d entendia que a inveja do pênis poderia de fato ser predominante em determinado momento da constituição psíquica quando a menina compara sua capacidade de explorar seus genitais com a do menino que os teria mais visíveis Apontava também que o fato de ao menino ser permitido manipular e explorar seus genitais ao urinar poderia causar a impressão na menina de que a ele era permitido maior gratificação por meio da masturbação o que traria algum nível de ressentimento Entretanto não 6 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari considerava que isso fosse o suficiente para causar na menina ferida narcísica tal que a fizesse sentirse inferior abandonar a masturbação do clitóris e seguir ao longo da vida toda em algum grau buscando compensar a ausência do pênis Uma das razões pelas quais afirmava a insuficiência dessas colocações seria que a partir de premissas da própria psicanálise freudiana dificilmente abandonamos uma fonte de prazer já experimentada Horney 19351991g Portanto a ferida narcísica da menina ao darse conta da ausência do pênis teria de ser intensa e profunda a ponto de causar tal reviravolta na constituição da menina Contudo essa inveja não poderia ser fundamentada a nível biológico tendo em vista o papel da mulher na reprodução que considerava decididamente maior que o do homem devido sua capacidade de gestar e nutrir A autora sustenta que em nível da luta social de reivindicação por maior ocupação dos espaços públicos por mulheres a possibilidade da maternidade poderia ser vista como desvantagem naquele momento cultural Mas aponta que na psicanálise até aquele momento a inveja do pênis era pensada a nível biológico e anatômico e não social Por conseguinte trazia que biologicamente a inveja do pênis não teria como ser sustentada enquanto central na constituição das mulheres A comparação do tamanho do pênis e do clitóris em relação à possibilidade de urinar em pé e de olhar e tocar o membro ao urinar para Horney 19231991b teria um papel limitado de importância prégenital contudo a contrapartida da inveja da mulher seria tão importante ou maior e ao contrário da inveja do pênis não era considerada teoricamente nem encontrava lugar na psicanálise ao pensar o desenvolvimento psicossexual do menino Além disso ainda no âmbito da anatomia a autora apontava as limitações no entendimento do papel da vagina no psiquismo das crianças Freud 19231996 afirmava que a vagina seria desconhecida até a puberdade e mais tarde valorizada justamente como abrigo para o pênis e eventualmente para um bebê visto enquanto substituto do pênis Enquanto isso Horney 19331991e compreendia a partir de sua experiência clínica com mulheres tomando fantasias de suas pacientes que a vagina não era desconhecida causava sensações e era objeto de investimento psíquico das meninas além de suscitar formas específicas de masturbação Também neste ponto discordava de alguns posicionamentos freudianos sobre as consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos pois o autor relacionava a inveja do pênis e a relevância desse órgão para meninos e meninas ao desconhecimento da vagina na infância Para Horney 19231991b 19331991e outra limitação do conceito de inveja do pênis seria essa premissa errônea de que a vagina não teria efeitos psíquicos na infância Na seção seguinte as considerações da autora sobre esse ponto serão analisadas mais detidamente Em resumo em termos biológicos e anatômicos Karen Horney argumentava que a inveja do pênis e o desejo de masculinidade não se sustentavam Não haveria motivos no âmbito estritamente biológico para que a inveja do pênis tivesse papel tão importante no psiquismo das mulheres e a inveja do útero e de outros atributos não tivesse o mesmo papel para homens Aliás se a inveja do pênis só se sustentava em relação a um momento prégenital e a vagina não era desconhecida como afirmou a autora ler a feminilidade com centralidade nesse conceito não se sustentaria Se fosse tomada a nível social a inveja do pênis poderia abrir outras discussões Horney 19231991b 19341991f apontou por exemplo que as mulheres ocidentais de classe média dispunham de menos saídas sublimatórias para a inveja do que os homens tendo muitas esferas da vida limitadas ou restritas por imposições sociais Indicou ainda que a ideologia masculina de que as mulheres são inferiores e de que todos os aspectos valorizados da cultura humana são relacionados ao masculino é introjetada desde cedo fazendo com que as meninas cresçam interiorizando o olhar que as colocam como inferiores Apesar de entender que a inveja do pênis não seria apenas um reflexo desse aspecto da cultura ocidental de seu tempo considerava que era fundamental compreender o complexo cultural que fazia com que ela fosse tão facilmente aceita como central e universal restringindo as possibilidades de pensar a feminilidade para além dela Ademais a autora criticou a generalização do uso do conceito de inveja do pênis amplamente adotado como norteador clínico e teórico à época Horney 19391966 Apontava que a experiência clínica da psicanálise com mulheres neuróticas não refletia necessariamente um paradigma para pensar as mulheres como um todo Defendia que a dita inveja do pênis não poderia ser presumida como universal a partir de um número de experiências limitado com mulheres neuróticas e que talvez não tivesse nenhum papel na vida de mulheres normais Cabe lembrar neste ponto que por mais que a psicanálise tenha borrado as fronteiras entre normal e patológico desde seu início na época em que Horney escrevia seus textos iniciais era comum ainda haver uma certa divisão entre sujeitos neuróticos e normais Ao longo de sua obra em publicações posteriores a autora segue um caminho diferente problematizando os conceitos de neurose e normalidade e discutindo seus atravessamentos na psicanálise Horney 19391966 19361977 Contudo no contexto mencionado anteriormente a afirmação da autora vai em direção de pontuar que a psicanálise não poderia generalizar a inveja do pênis para todas as mulheres a partir da experiência clínica com mulheres em sofrimento que traziam essa problemática Por fim a autora também enfatizava a necessidade de não generalizar o que a psicanálise havia construído como feminilidade por razões culturais A experiência com mulheres inseridas em um determinado complexo cultural que entendia a feminilidade de uma maneira atravessada por diversas pressuposições ideológicas não poderia servir de parâmetro universal para todas as culturas Horney 19391966 19351991g 7 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino A Feminilidade para além da Inveja do Pênis Horney não se limitou às críticas Muitas vezes quando se trabalha com os imbricamentos entre feminismo e psicanálise existe a tendência de um enfoque nas críticas à psicanálise que leva osas psicanalistas a se questionarem então o que resta Geralmente essa pergunta implica que a crítica seria uma destruição da teoria a partir da qual nada se coloca no lugar Podemos entender contudo que o furo discursivo apontado pela crítica abre espaço justamente para novas construções que não seriam possíveis sem ela Outra autora pioneira da psicanálise Sabina Spielrein 19112014 embora não estivesse se referindo a isso especificamente sustentou que a criação pressupõe a destruição Ou seja tomando a destruição como origem do devir sugeriu uma ruptura com a dicotomia destruição versus construçãocriatividade Podemos transpor sua contribuição para o âmbito da construção da teoria entendendo assim que as críticas que sugerem o abandono de alguns pressupostos fazem justamente a teoria avançar como propôs a própria Horney 19391966 p 35 ninguém nem mesmo um gênio podese libertar completamente do seu tempo e que apesar da agudeza da sua visão o seu pensamento é de muitas maneiras influenciado pela mentalidade de sua época Reconhecer esta influência na obra de Freud não só é interessante do ponto de vista histórico como é importante para aqueles que se esforçam para entender com maior profundidade a intrincada e aparentemente obscura estrutura das teorias psicanalíticas Assim podemos pensar que a crítica à teoria freudiana da feminilidade baseada na inveja do pênis foi fundamental para que Karen Horney pudesse avançar em suas produções Poderíamos considerar que essa crítica por si só já foi uma construção inovadora da autora para sua época Não obstante partiu dessas críticas para construir leituras próprias apoiadas e em diálogo com outrosas autoresautoras Cabe ressaltar neste ponto que as produções de Horney tiveram lugar em uma época em que o próprio feminismo estava em destaque na Europa e provocando movimentações sociais importantes e recentes das quais a própria Horney pôde se beneficiar aberturas de turmas que aceitavam mulheres em universidades reivindicações sufragistas maior entrada das mulheres de classe média no mercado de trabalho entre outras Nesse ínterim é importante lembrar que o feminismo branco e europeu do fim do século XIX e início do século XX esteve focado em reivindicar direitos às mulheres e afirmar um lugar de mulher que não fosse ligado apenas a estereótipos de fraqueza e inferioridade Essas considerações são importantes pois mesmo que indiretamente o trabalho de Horney se comunica com essa conjuntura Quando propõe leituras da feminilidade alternativas às mais conhecidas à época Horney produz um movimento de busca de afirmação de uma feminilidade que não estivesse totalmente referenciada no conceito de inveja do pênis Na tentativa de teorizar sobre especificidades da feminilidade a autora incorre em muitos momentos em visões essencialistas e biologizantes sobre feminilidade e diferença sexual Constatamos em sua obra a existência de ideais cisheteronormativos como a ideia de uma suposta linearidade entre feminilidade mulher e úterovagina Assim apesar da grande importância de seus textos para sua época e da possibilidade de utilizarmos algumas de suas formulações como ferramentas teóricoclínicas atuais essa é uma ressalva importante pois alerta para a necessidade de contextualização de suas proposições para que não sejam inadvertidamente replicadas hoje sem leitura crítica Por utilizar o corpo como suporte para certas conceituações quando por exemplo parte do útero e da vagina para algumas teorizações acerca da feminilidade como veremos a seguir podese pensar que algumas lógicas normativas sobre corpo e sexualidade são reforçadas Uma das primeiras propostas teóricas de Horney no sentido de pensar a feminilidade em suas especificidades foi a importância psíquica do útero e da vagina ainda para a criança Ao contrário de Freud Horney 19331991e como referido anteriormente não considerava que a vagina era desconhecida até a puberdade A partir da experiência clínica com mulheres a autora postulou que fantasias inconscientes referentes à vagina fazem parte da experiência infantil bem como a masturbação vaginal além da clitoriana Portanto Horney 19231991b considerava equivocado pensar a masturbação como masculina noção introduzida por Freud 19231996 em relação à organização fálica a partir do correlato pênisclitóris Serão estes fatos tão misteriosos quando falamos de meninas só porque sempre os vimos pelos olhos masculinos É provável quando nem mesmo lhes concedemos forma específica de onanismo e tranquilamente descrevemos como masculinas suas atividades autoeróticas E não vejo porque apesar da evolução não se possa aceitar que o clitóris faça parte integrante do aparelho genital feminino e a ele pertença legitimamente Horney 19231991b p 61 Para Horney 19231991b 19331991e a vagina provocaria consequências psíquicas específicas já na infância Baseada em um modelo edipiano clássico afirma que a menina teria fantasias de penetração em relação ao pai assim como o menino teria fantasias de penetrar a mãe por conta de sensações fisiológicas Para a menina isso implicaria na angústia de castração frente à possibilidade de penetração pelo pênis desproporcionalmente maior do adulto fazendo com que a angústia 8 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari da menina tenha relação com a mutilação física Enquanto isso o menino sofreria de uma angústia narcísica frente à mulher adulta já que seu pênis infantil seria sentido como pequeno demais para a penetração Horney à maneira de Freud propõe então uma consequência psíquica da diferença anatômica entre os sexos porém partindo de pressupostos diversos enquanto Freud se baseia na primazia do falo Horney parte da especificidade de cada órgão Além disso como Freud a autora considera que as fantasias edipianas infantis são acompanhadas de práticas de masturbação No caso da menina Horney 19231991b 19321991d propõe que a angústia de castração vinculada à mutilação corporal é demonstrada nas fantasias de pacientes que acreditavam ter provocado uma ferida interna ou buraco com a masturbação vaginal acompanhadas de culpa pelas fantasias incestuosas em relação ao pai e medo de serem descobertas Horney 19231991b 19311991c afirma ainda que a possibilidade de gestar sugerida pela presença do útero faria com que mulheres tivessem seu papel na reprodução e no avanço da cultura humana garantido através do potencial de criar e nutrir uma nova vida Portanto se a inveja do pênis tinha um lugar psíquico importante na comparação com meninos a nível prégenital a nível genital ela seria superada Os homens ao contrário teriam grandes dificuldades em superar a inveja do útero e dos seios pelo seu papel biológico relativamente menor em relação à mulher Uma parte da razão pela qual os homens insistiam em inferiorizar as mulheres mesmo em âmbito científico segundo a autora seria justamente a forte inveja reprimida e a angústia narcísica frente às mulheres Em termos do desenvolvimento psicossexual e suas influências biológicas e anatômicas essas foram as principais propostas da autora em relação à feminilidade Entretanto com o passar dos anos sua obra foi dando cada vez mais destaque ao papel da cultura notadamente a partir do contato com algumas obras sociológicas e filosóficas além de ginecologistas antropólogos e biólogos e da análise de produções científicas recentes e de criações culturais como teorias religiosas mitologias e obras literárias Ademais o conhecimento de culturas diversas principalmente após sua mudança para os Estados Unidos também teve influência nas movimentações de sua produção A grande emancipação dos pensamentos dogmáticos que encontrei nos EUA facilitoume a tarefa de não aceitar como certas as teorias psicanalíticas e deume a coragem de prosseguir pelo caminho que considerava justo Mais ainda o familiarizarme com uma cultura que em muitos pontos é diferente da europeia ajudoume a compreender que muitos conflitos neuróticos em última análise são determinados por condições culturais Horney 19391966 p 15 Assim suas contribuições mais tardias não apresentam mais uma crítica centralizada no reconhecimento das especificidades do que seria o corpo da mulher e sua constituição psíquica a partir da afirmação de uma feminilidade que não se ampara totalmente no masculino Começaram a aparecer noções sobre um complexo cultural que priorizam ideais tidos como masculinos que transmite às meninas desde cedo a crença de que são inferiores além de estimular manifestações clinicamente interpretadas como masoquistas mais em mulheres que em homens É preciso considerar em particular o fato de que se alguns ou todos os elementos sugeridos estão presentes no complexo cultural podem aparecer certas ideologias fixas quanto à natureza da mulher assim como doutrina de que ela é congenitamente fraca emotiva gosta de ser dependente tem pouca capacidade para trabalhar independentemente e pensar sozinha Ficase tentado a incluir nesta categoria a crença psicanalítica de que a mulher é masoquista por natureza É bastante óbvio que essas ideologias funcionam não só para reconciliar as mulheres com seu papel subordinado apresentandoo como inalterável mas para implantar também a crença de que isto representa realização pela qual elas anseiam ou ideal pelo qual é louvável e desejável que se esforcem Horney 19351991g p 227 Horney 19391966 19351991g propunha ainda que as teorizações psicanalíticas não deveriam ser generalizadas ou tomadas como universais e que contextos culturais diversos do europeu poderiam engendrar noções diferentes sobre feminilidade Criticando algumas ideias correntes à época sobre uma suposta disposição inata das mulheres a voltaremse exclusivamente para os homens e a maternidade chegou a afirmar que os fatores biológicos jamais se manifestam de forma pura e franca mas sempre são modificados pela tradição e o ambiente Horney 19341991f p 181 Ou seja mesmo leituras sobre o biológico ou o inato não revelariam uma pureza ou natureza referentes à feminilidade Dessa forma a autora propôs não apenas uma leitura do biológico que afirmasse uma especificidade do lugar da mulher não ancorada em ser o negativo do homem como abandonou algumas premissas biologizantes para futuramente colocar em relevo o papel da cultura na constituição do que se conhecia por feminilidade e na própria teoria psicanalítica 9 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino Considerações Finais O presente artigo objetivou através de estudo teórico retomar algumas produções de Karen Horney em relação à crítica ao referencial masculina presente em sua obra e suas consequentes produções sobre feminilidade O intuito dessa retomada não consiste em sugerir que suas contribuições devem ser relevadas em detrimento de outras mas em mostrar que as críticas a algumas concepções psicanalíticas sobre diferença e sexual não são recentes e a teoria freudiana sobre o tema não foi aceita unanimemente nos círculos psicanalíticos até poucos anos atrás Na realidade desde os momentos mais iniciais no campo psicanalítico críticas e outras possibilidades de leitura sobre a feminilidade que reconhecessem o atravessamento do patriarcado na construção da própria teoria foram realizadas notadamente por Horney Sublinhase que malgrado suas produções contenham algumas noções cisheteronormativas suas contribuições em relação ao atravessamento de preconceitos de uma cultura patriarcal na teoria psicanalítica e de ideologias masculinas que provocam ruídos para a escuta e a teorização são ferramentas para discussões atuais no campo dos enlaces entre Psicanálise feminismos e estudos de gênero Ademais a atenção prestada à dimensão cultural que atravessa a constituição do psiquismo e a defesa de que psicanalistas se ocupassem dessas questões também se apresenta como concepção que se mantém atual Concluímos assim que tanto em termos históricos quanto em termos de relevância teórica a obra da autora se faz relevante para o campo psicanalítico em suas intersecções com feminismos e estudos de gênero É digno de nota que Karen Horney influenciou diretamente outras autoras que trabalharam nas encruzilhadas desses campos como Gayle Rubin 1975 e Luce Irigaray 2017 A ampliação das perspectivas de leitura que possibilita a aposta na hibridez com outras áreas de conhecimento e no avanço da psicanálise em detrimento da fixidez em determinadas doutrinas atualizamse como contribuições que mesmo datadas em quase um século permanecem vivas e atuais Referências Alexander F Eisenstein S Grotjahn M 1966 Psychoanalytic pioneers A History of Psychoanalysis as seen through the lives and works of its most eminent teachers thinkers and clinicians Basic Books Ambra P E S Silva N Orgs 2014 Histeria e gênero Sexo como desencontro nVersos Amorim P M Belo F R R 2020 A monogamia em Karen Horney Considerações acerca das construções psicanalíticas sobre feminilidade Psicologia em Revista 261 246268 DOI 105752P167895632020v26n1p239260 Brasil M V Costa A B 2018 Psicanálise feminismo e os caminhos para a maternidade Diálogos possíveis Psicologia Clínica 303 427446 Link Cavalheiro R Silva M R 2020 Psicanálise e dissidências de gênero Questões para além da diferença sexual Revista Subjetividades 203 e9793 DOI 10502023590777rsv20i3e9793 Ceccarelli P Org 2019 Psicanálise sexualidade e gênero Um debate em construção Zagodoni Eckardt M H 2005 Karen Horney A portrait The American Journal of Psychoanalysis 652 95101 Link Freud S 1977a Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna In J Strachey Ed Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol 9 Imago Originalmente publicado em 1908 Freud S 1977b Sobre a sexualidade feminina In J Strachey Ed Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol 21 Imago Originalmente publicado em 1931 Freud S 1996 A organização genital infantil Uma interpolação na teoria da sexualidade In J Strachey Ed Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol 19 Imago Originalmente publicado em 1923 Freud S 2006 Feminilidade In J Strachey Ed Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas vol 22 Imago Originalmente publicado em 1933 Garrison D 1981 Karen Horney and feminism Signs Journal of Women in Culture and Society 64 672691 Link 10 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Larissa Ramos da Silva e Andrea Gabriela Ferrari Gilman S 2001 Karen Horney M D 18851962 The American Journal of Psychiatry 1588 1205 DOI 101176 appiajp15881205 Horney K 1966 Novos rumos na psicanálise Civilização Brasileira Originalmente publicado em 1939 Horney K 1977 A personalidade neurótica do nosso tempo Civilização Brasileira Originalmente publicado em 1936 Horney K 1991a A fuga da feminilidade In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1926 Horney K 1991b A gênese do complexo de castração nas mulheres In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1923 Horney K 1991c A desconfiança entre os sexos In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1931 Horney K 1991d O medo da mulher In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1932 Horney K 1991e A negação da vagina In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1933 Horney K 1991f A supervalorização do amor In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1934 Horney K 1991g O masoquismo feminino In K Horney Psicologia feminina Bertrand Brasil Originalmente publicado em 1935 Irigaray L 2017 Este sexo que não é só um sexo Sexualidade e status social da mulher Editora Senac Natterson J M 1966 Karen Horney The cultural emphasis In F Alexander S Eisenstein M Grotjahn Psychoanalytic pioneers A History of psychoanalysis as seen through the lives and works of its most eminent teachers thinkers and clinicians Basic Books Mariotto R M M Org 2018 Gênero e sexualidade na infância e adolescência Reflexões psicanalíticas Ágalma Martins P G 2021 A norma do falo e a abjeção da mulher na psicanálise Revista Subjetividades 211 e10945 DOI 10502023590777rsv21i1e10945 Martins A A Silveira L Orgs 2020 Freud e o patriarcado Hedra Rosa C T Weinmann A O 2020 A sexualidade feminina em escritos das pioneiras da psicanálise Subjetividades 203 113 DOI 10502023590777rsv20i3e9499 Rubin G 1975 Tráfico de mulheres SOS Corpo Santos B 2018 Normatividade gênero e teoria psicanalítica Uma reflexão sobre a criação de palavras novas Ágora 211 2333 DOI 101590180944142018001003 Sayers J 1992 Mães da psicanálise Helene Deutsch Karen Horney Anna Freud e Melanie Klein Zahar Spielrein S 2014 A destruição como origem do devir In R Cromberg Ed Sabina SpielreIn Uma pioneira da psicanálise vol 1 Livros da Matriz Originalmente publicado em 1911 Stona J Ferrari A G 2020 Transfobias psicanalíticas Revista Subjetividades 201 e9778 DOI 10502023590777 11 Revista Subjetividades 223 e12759 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino Recebido em 22062021 Revisado em 09022022 Aceito em 28022022 Publicado online 27122022 Endereço para correspondência Larissa Ramos da Silva Email larissaramos63gmailcom Andrea Gabriela Ferrari Email ferrariaghotmailcom Como citar Silva L R da Ferrari A G 2022 Psicanálise e Feminismo em Karen Horney A Crítica ao Referencial Masculino Revista Subjetividades 223 e12759 httpdoiorg10502023590777rsv22i3e12759 rsv20i1e9778 Winnicott D W 1975 O brincar e a realidade Imago O MALESTAR NA CULTURA1 Sigmund Freud I É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação isto é de que buscam poder sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida No entanto ao formular qualquer juízo geral desse tipo corremos o risco de esquecer quão variados são o mundo humano e sua vida mental Existem certos homens que não contam com a admiração de seus contemporâneos embora a grandeza deles repouse em atributos e realizações completamente estranhos aos objetivos e aos ideais da multidão Facilmente poderseia ficar inclinado a supor que no final das contas apenas uma minoria aprecia esses grandes homens ao passo que a maioria pouco se importa com eles Contudo devido não só às discrepâncias existentes entre os pensamentos das pessoas e as suas ações como também à diversidade de seus impulsos plenos de desejo as coisas provavelmente não são tão simples assim Um desses seres excepcionais referese a si mesmo como meu amigo nas cartas que me remete Envieilhe o meu pequeno livro que trata a religião como sendo uma ilusão e ele me respondeu que concordava inteiramente com esse meu juízo lamentando porém que eu não tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade Esta diz ele consiste num sentimento peculiar que ele mesmo jamais deixou de ter presente em si que encontra confirmado por muitos outros e que pode imaginar atuante em milhões de pessoas Tratase de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de eternidade um sentimento de algo ilimitado sem fronteiras oceânico por assim dizer Esse sentimento acrescenta configura um fato puramente subjetivo e não um artigo de fé não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam as diversas Igrejas e sistemas religiosos é por eles veiculado para canais específicos e indubitavelmente também por eles exaurido Acredita ele que uma pessoa embora rejeite toda crença e toda ilusão pode corretamente chamarse a si mesma de religiosa com fundamento apenas nesse sentimento oceânicoAs opiniões expressas por esse amigo que tanto respeito e que outrora já louvara a magia da ilusão num poema causaramme não pequena dificuldade Não consigo descobrir em mim esse sentimento oceânico Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos Podese tentar descrever os seus sinais fisiológicos Onde isso não é possível e temo que também o sentimento oceânico desafie esse tipo de caracterização nada resta senão cair no conteúdo ideacional que de forma mais imediata está associado ao sentimento Se compreendi corretamente o meu amigo ele quer significar com esse sentimento a mesma coisa que o consolo oferecido por um dramaturgo original e um tanto excêntrico ao seu herói que enfrenta uma morte autoinfligida Não podemos pular para fora deste mundoIsso equivale a dizer que se trata do sentimento de um vínculo indissolúvel de ser uno com o mundo externo como um todo Posso observar que para mim isto parece antes algo da natureza de uma percepção intelectual que na verdade pode vir acompanhada de um tom de sentimento embora apenas da forma como este se acharia presente em qualquer outro ato de pensamento de igual alcance Segundo minha própria experiência não consegui convencerme da natureza primária desse sentimento isso porém não me dá o direito de negar que ele de fato ocorra em outras pessoas A única questão consiste em verificar se está sendo corretamente interpretado e se deve ser encarado como a fons et origo de toda a necessidade de religião Nada tenho a sugerir que possa exercer influência decisiva na solução desse problema A idéia de os homens receberem uma indicação de sua vinculação com o mundo que os cerca por meio de um sentimento imediato que desde o início é dirigido para esse fim soa de modo tão estranho e se ajusta tão mal ao contexto de nossa psicologia que se torna justificável a tentativa de descobrir uma explicação psicanalítica isto é genética para esse sentimento A linha de pensamento que se segue sugere isso por si mesma Normalmente não nada de que possamos estar mais certos do que do sentimento de nosso eu do nosso próprio ego O ego nos aparece como algo autônomo e unitário distintamente demarcado de tudo o mais Ser essa aparência enganadora apesar de que pelo contrário o ego seja continuado para dentro sem qualquer delimitação nítida por uma entidade mental inconsciente que designamos como id à qual o ego serve como uma espécie de fachada configurou uma descoberta efetuada pela primeira vez através da pesquisa psicanalítica que de resto ainda deve ter muito mais a nos dizer sobre o relacionamento do ego com o id No sentido do exterior porém o ego de qualquer modo parece manter linhas de demarcação bem e claras e nítidas Há somente um estado indiscutivelmente fora o comum embora não possa estigmatizado como patológico em que ele não se apresenta assim No auge do sentimento de amor a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecerContra todas as provas de seus sentidos um homem que se ache enamorado declara que eu e tu são um só e está preparado para se conduzir como se isso constituísse um fato Aquilo que pode ser temporariamente eliminado por uma função fisiológica isto é normal deve também naturalmente estar sujeito a perturbações causadas por processos patológicos A patologia nos familiarizou com grande número de estados em que as linhas fronteiriças entre o ego e o mundo externo se tornam incertas ou nos quais na realidade elas se acham incorretamente traçadas Há casos em que partes do próprio corpo de uma pessoa inclusive partes de sua própria vida mental suas percepções pensamentos e sentimentos lhe parecem estranhas e como não pertencentes a seu ego há outros casos em que a pessoa atribui ao mundo externo coisas que claramente se originam em seu próprio ego e que por este deveriam ser reconhecidas Assim até mesmo o sentimento de nosso próprio ego está sujeito a distúrbios e as fronteiras do ego não são permanentes Uma reflexão mais apurada nos diz que o sentimento do ego do adulto não pode ter sido o mesmo desde o início Deve ter passado por um processo de desenvolvimento que se não pode ser demonstrado pode ser construído com um razoável grau de probabilidade Uma criança recém nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela Aprende gradativamente a fazêlo reagindo a diversos estímulos Ela deve ficar fortemente impressionada pelo fato de certas fontes de excitação que posteriormente identificará como sendo os seus próprios órgãos corporais poderem provêla de sensações a qualquer momento ao passo que de tempos em tempos outras fontes lhe fogem entre as quais se destaca a mais desejada de todas o seio da mãe só reaparecendo como resultado de seus gritos de socorro Desse modo pela primeira vez o ego é contrastado por um objeto sob a forma de algo que existe exteriormente e que só é forçado a surgir através de uma ação especial Um outro incentivo para o desengajamento do ego com relação à massa geral de sensações isto é para o reconhecimento de um exterior de um mundo externo é proporcionado pelas freqüentes múltiplas e inevitáveis sensações de sofrimento e desprazer cujo afastamento e cuja fuga são impostos pelo princípio do prazer no exercício de seu irrestrito domínio Surge então uma tendência a isolar do ego tudo que pode tornarse fonte de tal desprazer a lançálo para fora e a criar um puro ego em busca de prazer que sofre o confronto de um exterior estranho e ameaçador As fronteiras desse primitivo ego em busca de prazer não podem fugir a uma retificação através da experiência Entretanto algumas das coisas difíceis de serem abandonadas por proporcionarem prazer são não ego mas objeto e certos sofrimentos que se procura extirpar mostramse inseparáveis do ego por causa de sua origem interna Assim acabase por aprender um processo através do qual por meio de uma direção deliberada das próprias atividades sensórias e de uma ação muscular apropriada se pode diferenciar entre o que é interno ou seja que pertence ao ego e o que é externo ou seja que emana do mundo externo Desse modo dáse o primeiro passo no sentido da introdução do princípio da realidade que deve dominar o desenvolvimento futuro Essa diferenciação naturalmente serve à finalidade prática de nos capacitar para a defesa contra sensações de desprazer que realmente sentimos ou pelas quais somos ameaçados A fim de desviar certas excitações desagradáveis que surgem do interior o ego não pode utilizar senão os métodos que utiliza contra o desprazer oriundo do exterior e este é o ponto de partida de importantes distúrbios patológicosDesse modo então o ego se separa do mundo externo Ou numa expressão mais correta originalmente o ego inclui tudo posteriormente separa de si mesmo um mundo externo Nosso presente sentimento do ego não passa portanto de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo na verdade totalmente abrangente que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca Supondo que há muitas pessoas em cuja vida mental esse sentimento primário do ego persistiu em maior ou menor grau ele existiria nelas ao lado do sentimento do ego mais estrito e mais nitidamente demarcado da maturidade como uma espécie de correspondente seu Nesse caso o conteúdo ideacional a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o universo as mesmas idéias com que meu amigo elucidou o sentimento oceânico Contudo terei eu o direito de presumir a sobrevivência de algo que já se encontrava originalmente lá lado a lado com o que posteriormente dele se derivou Sem dúvida sim Nada existe de estranho em tal fenômeno tanto no campo mental como em qualquer outro No reino animal atemonos à opinião de que as espécies mais altamente desenvolvidas se originaram das mais baixas no entanto ainda hoje encontramos em existência todas as formas simples A raça dos grandes sáurios se extinguiu e abriu caminho para os mamíferos o crocodilo porém legítimo representante dos sáurios ainda vive entre nós Essa analogia pode ser excessivamente remota além de debilitada pela circunstância de as espécies inferiores sobreviventes não serem em sua maioria os verdadeiros ancestrais das espécies mais altamente desenvolvidas dos dias atuais Via de regra os elos intermediários extinguiramse e só os conhecemos através de reconstruções No domínio da mente por sua vez o elemento primitivo se mostra tão comumente preservado ao lado da versão transformada que dele surgiu que se faz desnecessário fornecer exemplos como prova Quando isso ocorre é geralmente em conseqüência de uma divergência no desenvolvimento determinada parte no sentido quantitativo de uma atitude ou de um impulso instintivo permaneceu inalterada ao passo que outra sofreu um desenvolvimento ulterior Esse fato nos conduz ao problema mais geral da preservação na esfera da mente O assunto mal foi estudado ainda mas é tão atraente e importante que nos será permitido voltarmos um pouco nossa atenção para ele ainda que nossa desculpa seja insuficiente Desde que superamos o erro de supor que o esquecimento com que nos achamos familiarizados significava a destruição do resíduo mnêmico isto é a sua aniquilação ficamos inclinados a assumir o ponto de vista oposto ou seja o de que na vida mental nada do que uma vez se formou pode perecer o de que tudo é de alguma maneira preservado e que em circunstâncias apropriadas quando por exemplo a regressão volta suficientemente atrás pode ser trazido de novo à luz Tentemos apreender o que essa suposição envolve estabelecendo uma analogia com outro campo Escolheremos como exemplo a história da Cidade Eterna Os historiadores nos dizem que a Roma mais antiga foi a Roma Quadrata uma povoação sediada sobre o Palatino Seguiuse a fase dos Septimontium uma federação das povoações das diferentes colinas depois veio a cidade limitada pelo Muro de Sérvio e mais tarde ainda após todas as transformações ocorridas durante os períodos da república e dos primeiros césares a cidade que o imperador Aureliano cercou com as suas muralhas Não acompanharemos mais as modificações por que a cidade passou perguntarnosemos porém o quanto um visitante que imaginaremos munido do mais completo conhecimento histórico e topográfico ainda pode encontrar na Roma de hoje de tudo que restou dessas primeiras etapas À exceção de umas poucas brechas verá o Muro de Aureliano quase intacto Em certas partes poderá encontrar seções do Muro de Sérvio que foram escavadas e trazidas à luz Se souber bastante mais do que a arqueologia atual conhece talvez possa traçar na planta da cidade todo o perímetro desse muro e o contorno da Roma Quadrata Dos prédios que outrora ocuparam essa antiga área nada encontrará ou quando muito restos escassos já que não existem mais No máximo as melhores informações sobre a Roma da era republicana capacitariamno apenas a indicar os locais em que os templos e edifícios públicos daquele período se erguiam Seu sítio achase hoje tomado por ruínas não pelas ruínas deles próprios mas pelas de restaurações posteriores efetuadas após incêndios ou outros tipos de destruição Também fazse necessário observar que todos esses remanescentes da Roma antiga estão mesclados com a confusão de uma grande metrópole que se desenvolveu muito nos últimos séculos a partir da Renascença Sem dúvida já não há nada que seja antigo enterrado no solo da cidade ou sob os edifícios modernos Este é o modo como se preserva o passado em sítios históricos como Roma Permitamnos agora num vôo da imaginação supor que Roma não é uma habitação humana mas uma entidade psíquica com um passado semelhantemente longo e abundante isto é uma entidade onde nada do que outrora surgiu desapareceu e onde todas as fases anteriores de desenvolvimento continuam a existir paralelamente à última Isso significaria que em Roma os palácios dos césares e as Septizonium de Sétimo Severo ainda se estariam erguendo em sua antiga altura sobre o Palatino e que o castelo de Santo Ângelo ainda apresentaria em suas ameias as belas estátuas que o adornavam até a época do cerco pelos godos e assim por diante Mais do que isso no local ocupado pelo Palazzo Cafarelli mais uma vez se ergueria sem que o Palazzo tivesse de ser removido o Templo de Júpiter Capitolino não apenas em sua última forma como os romanos do Império o viam mas também na primitiva quando apresentava formas etruscas e era ornamentado por antefixas de terracota Ao mesmo tempo onde hoje se ergue o Coliseu poderíamos admirar a desaparecida Casa Dourada de Nero Na Praça do Panteão encontraríamos não apenas o atual tal como legado por Adriano mas aí mesmo o edifício original levantado por Agripa na verdade o mesmo trecho de terreno estaria sustentando a Igreja de Santa Maria sobre Minerva e o antigo templo sobre o qual ela foi construída E talvez o observador tivesse apenas de mudar a direção do olhar ou a sua posição para invocar uma visão ou a outra A essa altura não faz sentido prolongarmos nossa fantasia de uma vez que ela conduz a coisas inimagináveis e mesmo absurdas Se quisermos representar a seqüência histórica em termos espaciais só conseguiremos fazêlo pela justaposição no espaço o mesmo espaço não pode ter dois conteúdos diferentes Nossa tentativa parece ser um jogo ocioso Ela conta com apenas uma justificativa Mostra quão longe estamos de dominar as características da vida mental através de sua representação em termos pictóricos Há outra objeção a ser considerada Podese levantar a questão da razão por que escolhemos precisamente o passado de uma cidade para comparálo com o passado da mente A suposição de que tudo o que passou é preservado se aplica mesmo na vida mental só com a condição de que o órgão da mente tenha permanecido intacto e que seus tecidos não tenham sido danificados por trauma ou inflamação Mas influências destrutivas que possam ser comparadas a causas de enfermidade como as citadas acima nunca faltam na história de uma cidade ainda que tenha tido um passado menos diversificado que o de Roma e ainda que como Londres mal tenha sofrido com as visitas de um inimigo Demolições e substituições de prédios ocorrem no decorrer do mais pacífico desenvolvimento de uma cidade Uma cidade é portanto a priori inapropriada para uma comparação desse tipo com um organismo mental Curvamonos ante essa objeção e abandonando nossa tentativa de esboçar um contraste impressivo nos voltaremos para o que afinal de contas constitui um objeto de comparação mais estreitamente relacionado o corpo de um animal ou o de um ser humano Aqui também no entanto encontramos a mesma coisa As primeiras fases do desenvolvimento já não se acham em sentido algum preservadas foram absorvidas pelas fases posteriores às quais forneceram material O embrião não pode ser descoberto no adulto A glândula do timo da infância sendo substituída após a puberdade por tecidos de ligação não mais se apresenta como tal nas medulas ósseas do homem adulto posso sem dúvida traçar o contorno do osso infantil embora este tenha desaparecido alongandose e espessandose até atingir sua forma definitiva Permanecem o fato de que só na mente é possível a preservação de todas as etapas anteriores lado a lado com a forma final e o de que não estamos em condições de representar esse fenômeno em termos pictóricos Talvez estejamos levando longe demais essa reflexão Talvez devêssemos contentarnos em afirmar que o que se passou na vida mental pode ser preservado não sendo necessariamente destruído É sempre possível que mesmo na mente algo do que é antigo seja apagado ou absorvido quer no curso normal das coisas quer como exceção a tal ponto que não possa ser restaurado nem revivescido por meio algum ou que a preservação em geral dependa de certas condições favoráveis É possível mas nada sabemos a esse respeito Podemos apenas prendernos ao fato de ser antes regra e não exceção o passado acharse preservado na vida mental Assim estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento oceânico existe em muitas pessoas e nos inclinamos a fazer sua origem remontar a uma fase primitiva do sentimento do ego Surge então uma nova questão que direito tem esse sentimento de ser considerado como a fonte das necessidades religiosas Esse direito não me parece obrigatório Afinal de contas um sentimento só poderá ser fonte de energia se ele próprio for expressão de uma necessidade intensa A derivação das necessidades religiosas a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta pareceme incontrovertível desde que em particular o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai Dessa maneira o papel desempenhado pelo sentimento oceânico que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado é deslocado de um lugar em primeiro plano A origem da atitude religiosa pode ser remontada em linhas muito claras até o sentimento de desamparo infantil Pode haver algo mais por trás disso mas presentemente ainda está envolto em obscuridade Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente A unidade com o universo que constitui seu conteúdo ideacional soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçálo a partir do mundo externo Permitamme admitir mais uma vez que para mim é muito difícil trabalhar com essas quantidades quase intangíveis Outro amigo meu cuja insaciável vontade de saber o levou a realizar as experiências mais inusitadas acabando por lhe dar um conhecimento enciclopédico asseguroume que através das práticas de ioga pelo afastamento do mundo pela fixação da atenção nas funções corporais e por métodos peculiares de respiração uma pessoa pode de fato evocar em si mesma novas sensações e cenestesias consideradas estas como regressões a estados primordiais da mente que há muito tempo foram recobertos Ele vê nesses estados uma base por assim dizer fisiológica de grande parte da sabedoria do misticismo Não seria difícil descobrir aqui vinculações com certo número de obscuras modificações da vida mental tais como os transes e os êxtases Contudo sou levado a exclamar como nas palavras do mergulhador de Schiller Es freue sich Wer da atmet im rosigten Licht II Em meu trabalho O Futuro de uma Ilusão 1927c estava muito menos interessado nas fontes mais profundas do sentimento religioso do que naquilo que o homem comum entende como sua religião o sistema de doutrinas e promessas que por um lado lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável e que por outro lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará numa existência futura de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens enternecerse com suas preces e aplacarse com os sinais de seu remorso Tudo é tão patentemente infantil tão estranho à realidade que para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e não obstante isso tentam defendêla item por item numa série de lamentáveis atos retrógrados Gostaríamos de nos mesclar às fileiras dos crentes a fim de encontrarmos aqueles filósofos que consideram poder salvar o Deus da religião substituindoo por um princípio impessoal obscuro e abstrato e dirigirmoslhes as seguintes palavras de advertência Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão E se alguns dos grandes homens do passado agiram da mesma maneira de modo nenhum se pode invocar seu exemplo sabemos por que foram obrigados a isso Retornemos ao homem comum e à sua religião a única que deveria levar esse nome A primeira coisa em que pensamos é na bem conhecida expressão de um de nossos maiores poetas e pensadores referindose à relação da religião com a arte e a ciência Wer Wissenschaft und Kunst besitzt hat auch Religion Wer jene beide nicht besitzt der habe Religion Esses dois versos por um lado traçam uma antítese entre a religião e as duas mais altas realizações do homem e por outro asseveram que com relação ao seu valor na vida essas realizações e a religião podem representarse ou substituirse mutuamente Se também nos dispusermos a privar o homem comum que não possui nem ciência nem arte de sua religião é claro que não teremos de nosso lado a autoridade do poeta Escolheremos um caminho específico para nos aproximarmos mais de uma justa apreciação de suas palavras A vida tal como a encontramos é árdua demais para nós proporcionanos muitos sofrimentos decepções e tarefas impossíveis A fim de suportála não podemos dispensar as medidas paliativas Não podemos passar sem construções auxiliares diznos Theodor Fontane Existem talvez três medidas desse tipo derivativos poderosos que nos fazem extrair luz de nossa desgraça satisfações substitutivas que a diminuem e substâncias tóxicas que nos tornam insensíveis a ela Algo desse tipo é indispensável Voltaire tinha os derivativos em mente quando terminou Candide com o conselho para cultivarmos nosso próprio jardim e a atividade científica constitui também um derivativo dessa espécie As satisfações substitutivas tal como as oferecidas pela arte são ilusões em contraste com a realidade nem por isso contudo se revelam menos eficazes psiquicamente graças ao papel que a fantasia assumiu na vida mental As substâncias tóxicas influenciam nosso corpo e alteram a sua química Não é simples perceber onde a religião encontra o seu lugar nessa série Temos de pesquisar mais adiante A questão do propósito da vida humana já foi levantada várias vezes nunca porém recebeu resposta satisfatória e talvez não a admita Alguns daqueles que a formularam acrescentaram que se fosse demonstrado que a vida não tem propósito esta perderia todo valor para eles Tal ameaça porém não altera nada Pelo contrário faz parecer que temos o direito de descartar a questão já que ela parece derivar da presunção humana da qual muitas outras manifestações já nos são familiares Ninguém fala sobre o propósito da vida dos animais a menos talvez que se imagine que ele resida no fato de os animais se acharem a serviço do homem Contudo tampouco essa opinião é sustentável de uma vez que existem muitos animais de que o homem nada pode se aproveitar exceto descrevêlos classificálos e estudálos ainda assim inumeráveis espécies de animais escaparam inclusive a essa utilização pois existiram e se extinguiram antes que o homem voltasse seus olhos para elas Mais uma vez só a religião é capaz de resolver a questão do propósito da vida Dificilmente incorreremos em erro ao concluirmos que a idéia de a vida possuir um propósito se forma e desmorona com o sistema religiosoVoltarnosemos portanto para uma questão menos ambiciosa a que se refere àquilo que os próprios homens por seu comportamento mostram ser o propósito e a intenção de suas vidas O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar A resposta mal pode provocar dúvidas Esforçamse para obter felicidade querem ser felizes e assim permanecer Essa empresa apresenta dois aspectos uma meta positiva e uma meta negativa Por um lado visa a uma ausência de sofrimento e de desprazer por outro à experiência de intensos sentimentos de prazer Em seu sentido mais restrito a palavra felicidade só se relaciona a esses últimos Em conformidade a essa dicotomia de objetivos a atividade do homem se desenvolve em duas direções segundo busque realizar de modo geral ou mesmo exclusivamente um ou outro desses objetivos Como vemos o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início Não pode haver dúvida sobre sua eficácia ainda que o seu programa se encontre em desacordo com o mundo inteiro tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo Não há possibilidade alguma de ele ser executado todas as normas do universo sãolhe contrárias Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja feliz não se acha incluída no plano da Criação O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação de preferência repentina de necessidades represadas em alto grau sendo por sua natureza possível apenas como uma manifestação episódica Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga ela produz tãosomente um sentimento de contentamento muito tênue Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste e muito pouco de um determinado estado de coisas Assim nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar O sofrimento nos ameaça a partir de três direções de nosso próprio corpo condenado à decadência e à dissolução e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência do mundo externo que pode voltarse contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas e finalmente de nossos relacionamentos com os outros homens O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro Tendemos a encarálo como uma espécie de acréscimo gratuito embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes Não admira que sob a pressão de todas essas possibilidades de sofrimento os homens se tenham acostumado a moderar suas reivindicações de felicidade tal como na verdade o próprio princípio do prazer sob a influência do mundo externo se transformou no mais modesto princípio da realidade que um homem pense ser ele próprio feliz simplesmente porque escapou à infelicidade ou sobreviveu ao sofrimento e que em geral a tarefa de evitar o sofrimento coloque a de obter prazer em segundo plano A reflexão nos mostra que é possível tentar a realização dessa tarefa através de caminhos muito diferentes e que todos esses caminhos foram recomendados pelas diversas escolas de sabedoria secular e postos em prática pelos homens Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresentasenos como o método mais tentador de conduzir nossas vidas isso porém significa colocar o gozo antes da cautela acarretando logo o seu próprio castigo Os outros métodos em que a fuga do desprazer constitui o intuito primordial diferenciamse de acordo com a fonte de desprazer para a qual sua atenção está principalmente voltada Alguns desses métodos são extremados outros moderados alguns são unilaterais outros atacam o problema simultaneamente em diversos pontos Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos a defesa mais imediata é o isolamento voluntário o manterse à distância das outras pessoas A felicidade passível de ser conseguida através desse método é como vemos a felicidade da quietude Contra o temível mundo externo só podemos defendernos por algum tipo de afastamento dele se pretendermos solucionar a tarefa por nós mesmos Há é verdade outro caminho e melhor o de tornarse membro da comunidade humana e com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência passar para o ataque à natureza e sujeitála à vontade humana Trabalhase então com todos para o bem de todos Contudo os métodos mais interessantes de evitar o sofrimento são os que procuram influenciar o nosso próprio organismo Em última análise todo sofrimento nada mais é do que sensação só existe na medida em que o sentimos e só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo está reguladoO mais grosseiro embora também o mais eficaz desses métodos de influência é o químico a intoxicação Não creio que alguém compreenda inteiramente o seu mecanismo é fato porém que existem substâncias estranhas as quais quando presentes no sangue ou nos tecidos provocam em nós diretamente sensações prazerosas alterando também tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade que nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis Os dois efeitos não só ocorrem de modo simultâneo como parecem estar íntima e mutuamente ligados No entanto é possível que haja substâncias na química de nossos próprios corpos que apresentem efeitos semelhante pois conhecemos pelo menos um estado patológico a mania no qual uma condição semelhante à intoxicação surge sem administração de qualquer droga intoxicante Além disso nossa vida psíquica normal apresenta oscilações entre uma liberação de prazer relativamente fácil e outra comparativamente difícil paralela à qual ocorre uma receptividade diminuída ou aumentada ao desprazer É extremamente lamentável que até agora esse lado tóxico dos processos mentais tenha escapado ao exame científico O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício que tanto indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar permanente na economia de sua libido Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo pois sabese que com o auxílio desse amortecedor de preocupações é possível em qualquer ocasião afastarse da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio com melhores condições de sensibilidade Sabe se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos São responsáveis em certas circunstâncias pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser empregada para o aperfeiçoamento do destino humano A complicada estrutura de nosso aparelho mental admite contudo um grande número de outras influências Assim como a satisfação do instinto equivale para nós à felicidade assim também um grave sofrimento surge em nós caso o mundo externo nos deixe definhar caso se recuse a satisfazer nossas necessidades Podemos portanto ter esperanças de nos libertarmos de uma parte de nossos sofrimentos agindo sobre os impulsos instintivos Esse tipo de defesa contra o sofrimento se aplica mais ao aparelho sensorial ele procura dominar as fontes internas de nossas necessidades A forma extrema disso é ocasionada pelo aniquilamento dos instintos tal como prescrito pela sabedoria do mundo peculiar ao Oriente e praticada pelo ioga Caso obtenha êxito o indivíduo é verdade abandona também todas as outras atividades sacrifica a sua vida e por outra via mais uma vez atinge apenas a felicidade da quietude Seguimos o mesmo caminho quando os nossos objetivos são menos extremados e simplesmente tentamos controlar nossa vida instintiva Nesse caso os elementos controladores são os agentes psíquicos superiores que se sujeitaram ao princípio da realidade Aqui a meta da satisfação não é de modo algum abandonada mas garantese uma certa proteção contra o sofrimento no sentido de que a nãosatisfação não é tão penosamente sentida no caso dos instintos mantidos sob dependência como no caso dos instintos desinibidos Contra isso existe uma inegável diminuição nas potencialidades de satisfação O sentimento de felicidade derivado da satisfação de um selvagem impulso instintivo não domado pelo ego é incomparavelmente mais intenso do que o derivado da satisfação de um instinto que já foi domado A irresistibilidade dos instintos perversos e talvez a atração geral pelas coisas proibidas encontram aqui uma explicação econômica Outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade A tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do mundo externo Para isso ela conta com a assistência da sublimação dos instintos Obtémse o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual Quando isso acontece o destino pouco pode fazer contra nós Uma satisfação desse tipo como por exemplo a alegria do artista em criar em dar corpo às suas fantasias ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades possui uma qualidade especial que sem dúvida um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos Atualmente apenas de forma figurada podemos dizer que tais satisfações parecem mais refinadas e mais altas Contudo sua intensidade se revela muito tênue quando comparada com a que se origina da satisfação de impulsos instintivos grosseiros e primários ela não convulsiona o nosso ser físico E o ponto fraco desse método reside em não ser geralmente aplicável de uma vez que só é acessível a poucas pessoas Pressupõe a posse de dotes e disposições especiais que para qualquer fim prático estão longe de serem comuns E mesmo para os poucos que os possuem o método não proporciona uma proteção completa contra o sofrimento Não cria uma armadura impenetrável contra as investidas do destino e habitualmente falha quando a fonte do sofrimento é o próprio corpo da pessoaEnquanto esse procedimento já mostra claramente uma intenção de nos tornar independentes do mundo externo pela busca da satisfação em processos psíquicos internos o procedimento seguinte apresenta esses aspectos de modo ainda mais intenso Nele a distensão do vínculo com a realidade vai mais longe a satisfação é obtida através de ilusões reconhecidas como tais sem que se verifique permissão para que a discrepância entre elas e a realidade interfira na sua fruição A região onde essas ilusões se originam é a vida da imaginação na época em que o desenvolvimento do senso de realidade se efetuou essa região foi expressamente isentada das exigências do teste de realidade e posta de lado a fim de realizar desejos difíceis de serem levados a termo À frente das satisfações obtidas através da fantasia erguese a fruição das obras de arte fruição que por intermédio do artista é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores As pessoas receptivas à influência da arte não lhe podem atribuir um valor alto demais como fonte de prazer e consolação na vida Não obstante a suave narcose a que a arte nos induz não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais não sendo suficientemente forte para nos levar a esquecer a aflição real Um outro processo opera de modo mais energético e completo Considera a realidade como a única inimiga e a fonte de todo sofrimento com a qual é impossível viver de maneira que se quisermos ser de algum modo felizes temos de romper todas as relações com ela O eremita rejeita o mundo e não quer saber de tratar com ele Podese porém fazer mais do que isso podese tentar recriar o mundo em seu lugar construir um outro mundo no qual os seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por outros mais adequados a nossos próprios desejos Mas quem quer que numa atitude de desafio desesperado se lance por este caminho em busca da felicidade geralmente não chega a nada A realidade é demasiado forte para ele Tornase um louco alguém que a maioria das vezes não encontra ninguém para ajudálo a tornar real o seu delírio Afirmase contudo que cada um de nós se comporta sob determinado aspecto como um paranóico corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade Concedese especial importância ao caso em que a tentativa de obter uma certeza de felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade é efetuada em comum por um considerável número de pessoas As religiões da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse tipo É desnecessário dizer que todo aquele que partilha um delírio jamais o reconhece como tal Não pretendo ter feito uma enumeração completa dos métodos pelos quais os homens se esforçam para conseguir a felicidade e manter afastado o sofrimento sei também que o material poderia ter sido diferentemente disposto Ainda não mencionei um processo não por esquecimento mas porque nos interessará mais tarde em relação a outro assunto E como se poderia esquecer entre todas as outras a técnica da arte de viver Ela se faz visível por uma notável combinação de aspectos característicos Naturalmente visa também a tornar o indivíduo independente do Destino como é melhor chamálo e para esse fim localiza a satisfação em processos mentais internos utilizando ao proceder assim a deslocabilidade da libido que já mencionamosver 1 Mas ela não volta as costas ao mundo externo pelo contrário prendese aos objetos pertencentes a esse mundo e obtém felicidade de um relacionamento emocional com eles Tampouco se contenta em visar a uma fuga do desprazer uma meta poderíamos dizer de cansada resignação passa por ela sem lhe dar atenção e se aferra ao esforço original e apaixonado em vista de uma consecução completa da felicidade Na realidade talvez se aproxime mais dessa meta do que qualquer outro método Evidentemente estou falando da modalidade de vida que faz do amor o centro de tudo que busca toda satisfação em amar e ser amado Uma atitude psíquica desse tipo chega de modo bastante natural a todos nós uma das formas através da qual o amor se manifesta o amor sexual nos proporcionou nossa mais intensa experiência de uma transbordante sensação de prazer fornecendonos assim um modelo para nossa busca da felicidade Há porventura algo mais natural do que persistirmos na busca da felicidade do modo como a encontramos pela primeira vez O lado fraco dessa técnica de viver é de fácil percepção pois do contrário nenhum ser humano pensaria em abandonar esse caminho da felicidade por qualquer outro É que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor Isso porém não liquida com a técnica de viver baseada no valor do amor como um meio de obter felicidade Há muito mais a ser dito a respeito Ver 1 Daqui podemos passar à consideração do interessante caso em que a felicidade na vida é predominantemente buscada na fruição da beleza onde quer que esta se apresente a nossos sentidos e a nosso julgamento a beleza das formas e a dos gestos humanos a dos objetos naturais e das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas A atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento embora possa compensálo bastante A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento tenuemente intoxicante A beleza não conta com um emprego evidente tampouco existe claramente qualquer necessidade cultural sua Apesar disso a civilização não pode dispensála Embora a ciência da estética investigue as condições sob as quais as coisas são sentidas como belas tem sido incapaz de fornecer qualquer explicação a respeito da natureza e da origem da beleza e tal como geralmente acontece esse insucesso vem sendo escamoteado sob um dilúvio de palavras tão pomposas quanto ocas A psicanálise infelizmente também pouco encontrou a dizer sobre a beleza O que parece certo é sua derivação do campo do sentimento sexual O amor da beleza parece um exemplo perfeito de um impulso inibido em sua finalidadeBeleza e atração são originalmente atributos do objeto sexual Vale a pena observar que os próprios órgãos genitais cuja visão é sempre excitante dificilmente são julgados belos a qualidade da beleza ao contrário parece ligarse a certos caracteres sexuais secundários A despeito da deficiência de minha enumeração ver 1 aventurarmeei a algumas observações à guisa de conclusão para nossa investigação O programa de tornarse feliz que o princípio do prazer nos impõever 1não pode ser realizado contudo não devemos na verdade não podemos abandonar nossos esforços de aproximálo da consecução de uma maneira ou de outra Caminhos muito diferentes podem ser tomados nessa direção e podemos conceder prioridades quer ao aspecto positivo do objetivo obter prazer quer ao negativo evitar o desprazer Nenhum desses caminhos nos leva a tudo o que desejamos A felicidade no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível constitui um problema da economia da libido do indivíduo Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo de até onde é levado para tornarse independente dele e finalmente de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo a fim de adaptálo a seus desejos Nisso sua constituição psíquica desempenhará papel decisivo independentemente das circunstâncias externas O homem predominantemente erótico dará preferência aos seus relacionamentos emocionais com outras pessoas o narcisista que tende a ser autosuficiente buscará suas satisfações principais em seus processos mentais internos o homem de ação nunca abandonará o mundo externo onde pode testar sua força Quanto ao segundo desses tipos a natureza de seus talentos e a parcela de sublimação instintiva a ele aberta decidirão onde localizará os seus interesses Qualquer escolha levada a um extremo condena o indivíduo a ser exposto a perigos que surgem caso uma técnica de viver escolhida como exclusiva se mostre inadequada Assim como o negociante cauteloso evita empregar todo seu capital num só negócio assim também talvez a sabedoria popular nos aconselhe a não buscar a totalidade de nossa satisfação numa só aspiração Seu êxito jamais é certo pois depende da convergência de muitos fatores talvez mais do que qualquer outro da capacidade da constituição psíquica em adaptar sua função ao meio ambiente e então explorar esse ambiente em vista de obter um rendimento de prazer Uma pessoa nascida com uma constituição instintiva especialmente desfavorável e que não tenha experimentado corretamente a transformação e a redisposição de seus componentes libidinais indispensáveis às realizações posteriores achará difícil obter felicidade em sua situação externaem especial se vier a se defrontar com tarefas de certa dificuldade Como uma última técnica de vida pelo que menos lhe trará satisfações substitutivas élhe oferecida a fuga para a enfermidade neurótica fuga que geralmente efetua quando ainda é jovem O homem que em anos posteriores vê sua busca da felicidade resultar em nada ainda pode encontrar consolo no prazer oriundo da intoxicação crônica ou então se empenhar na desesperada tentativa de rebelião que se observa na psicose A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação desde que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência A esse preço por fixálas à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastálas a um delírio de massa a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual Dificilmente porém algo mais Existem como dissemos muitos caminhos que podem levar à felicidade passível de ser atingida pelos homens mas nenhum que o faça com toda segurança Mesmo a religião não consegue manter sua promessa Se finalmente o crente se vê obrigado a falar dos desígnios inescrutáveis de Deus está admitindo que tudo que lhe sobrou como último consolo e fonte de prazer possíveis em seu sofrimento foi uma submissão incondicional E se está preparado para isso provavelmente poderia terse poupado o détour que efetuou III Até agora nossa investigação sobre a felicidade não nos ensinou quase nada que já não pertença ao conhecimento comum E mesmo que passemos dela para o problema de saber por que é tão difícil para o homem ser feliz parece que não há maior perspectiva de aprender algo novo Já demos a respostaver 1 pela indicação das três fontes de que nosso sofrimento provém o poder superior da natureza a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família no Estado e na sociedade Quanto às duas primeiras fontes nosso julgamento não pode hesitar muito Ele nos força a reconhecer essas fontes de sofrimento e a nos submeter ao inevitável Nunca dominaremos completamente a natureza e o nosso organismo corporal ele mesmo parte dessa natureza permanecerá sempre como uma estrutura passageira com limitada capacidade de adaptação e realização Esse reconhecimento não possui um efeito paralisador Pelo contrário aponta a direção para a nossa atividade Se não podemos afastar todo sofrimento podemos afastar um pouco dele e mitigar outro tanto a experiência de muitos milhares de anos nos convenceu disso Quanto à terceira fonte a fonte social de sofrimento nossa atitude é diferente Não a admitimos de modo algum não podemos perceber por que os regulamentos estabelecidos por nós mesmos não representam ao contrário proteção e benefício para cada um de nós Contudo quando consideramos o quanto fomos malsucedidos exatamente nesse campo de prevenção do sofrimento surge em nós a suspeita de que também aqui é possível jazer por trás desse fato uma parcela de natureza inconquistável dessa vez uma parcela de nossa própria constituição psíquica Quando começamos a considerar essa possibilidade deparamonos com um argumento tão espantoso que temos de nos demorar nele Esse argumento sustenta que o que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas Chamo esse argumento de espantoso porque seja qual for a maneira por que possamos definir o conceito de civilização constitui fato incontroverso que todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as ameaças oriundas das fontes de sofrimento fazem parte dessa mesma civilização Como foi que tantas pessoas vieram a assumir essa estranha atitude de hostilidade para com a civilização Acredito que seu fundamento consistiu numa longa e duradoura insatisfação com o estado de civilização então existente e que nessa base se construiu uma condenação dela ocasionada por certos acontecimentos históricos específicos Penso saber quais foram a última e a penúltima dessas ocasiões Não sou suficientemente erudito para fazer remontar a origem de sua cadeia o mais distante possível na história da espécie humana mas um fator desse tipo hostil à civilização já devia estar em ação na vitória do cristianismo sobre as religiões pagãs de uma vez que se achava intimamente relacionado à baixa estima dada à vida terrena pela doutrina cristã A penúltima dessas ocasiões se instaurou quando o progresso das viagens de descobrimento conduziu ao contacto com povos e raças primitivos Em conseqüência de uma observação insuficiente e de uma visão equivocada de seus hábitos e costumes eles apareceram aos europeus como se levassem uma vida simples e feliz com poucas necessidades um tipo de vida inatingível por seus visitantes com sua civilização superior A experiência posterior corrigiu alguns desses julgamentos Em muitos casos os observadores haviam erroneamente atribuído à ausência de exigências culturais complicadas o que de fato era devido à generosidade da natureza e à facilidade com que as principais necessidades humanas eram satisfeitas A última ocasião nos é especialmente familiar Surgiu quando as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses que ameaçam solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens civilizados Descobriuse que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe a serviço de seus ideais culturais inferindose disso que a abolição ou redução dessas exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade Existe ainda um fator adicional de desapontamento Durante as últimas gerações a humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica estabelecendo seu controle sobre a natureza de uma maneira jamais imaginada As etapas isoladas desse progresso são do conhecimento comum sendo desnecessário enumerálas Os homens se orgulham de suas realizações e têm todo direito de se orgulharem Contudo parecem ter observado que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo a subjugação das forças da natureza consecução de um anseio que remonta a milhares de anos não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes Reconhecendo esse fato devemos contentarnos em concluir que o poder sobre a natureza não constitui a única precondição da felicidade humana assim como não é o único objetivo do esforço cultural Disso não devemos inferir que o progresso técnico não tenha valor para a economia de nossa felicidade Gostaríamos de perguntar não existe então nenhum ganho no prazer nenhum aumento inequívoco no meu sentimento de felicidade se posso tantas vezes quantas me agrade escutar a voz de um filho meu que está morando a milhares de quilômetros de distância ou saber no tempo mais breve possível depois de um amigo ter atingido seu destino que ele concluiu incólume a longa e difícil viagem Não significa nada que a medicina tenha conseguido não só reduzir enormemente a mortalidade infantil e o perigo de infecção para as mulheres no parto como também na verdade prolongar consideravelmente a vida média do homem civilizado Há uma longa lista que poderia ser acrescentada a esse tipo de benefícios que devemos à tão desprezada era dos progressos científicos e técnicos Aqui porém a voz da crítica pessimista se faz ouvir e nos adverte que a maioria dessas satisfações segue o modelo do prazer barato louvado pela anedota o prazer obtido ao se colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite de inverno e recolhêla novamente Se não houvesse ferrovias para abolir as distâncias meu filho jamais teria deixado sua cidade natal e eu não precisaria de telefone para ouvir sua voz se as viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas meu amigo não teria partido em sua viagem por mar e eu não precisaria de um telegrama para aliviar minha ansiedade a seu respeito Em que consiste a vantagem de reduzir a mortalidade infantil se é precisamente essa redução que nos impõe a maior coerção na geração de filhos de tal maneira que considerando tudo não criamos mais crianças do que nos dias anteriores ao reino da higiene ao passo que ao mesmo tempo criamos condições difíceis para nossa vida sexual no casamento e provavelmente trabalhamos contra os efeitos benéficos da seleção natural Enfim de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual mas é muito difícil formar uma opinião sobre se e em que grau os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão Sempre tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas isto é nos colocarmos com nossas próprias necessidades e sensibilidades nas condições delas e então examinar quais as ocasiões que nelas encontraríamos para experimentar felicidade ou infelicidade Esse método de examinar as coisas que parece objetivo por ignorar as variações na sensibilidade subjetiva é naturalmente o mais subjetivo possível de uma vez que coloca nossos próprios estados mentais no lugar de quaisquer outros por mais desconhecidos que estes possam ser A felicidade contudo é algo essencialmente subjetivo Por mais que nos retraiamos com horror de certas situações a de um escravo de galé na Antiguidade a de um camponês durante a Guerra dos Trinta Anos a de uma vítima da Inquisição a de um judeu à espera de um pogrom para nós sem embargo é impossível nos colocarmos no lugar dessas pessoas adivinhar as modificações que uma obtusidade original da mente um processo gradual de embrutecimento a cessação das esperanças e métodos de narcotização mais grosseiros ou mais refinados produziram sobre a receptividade delas às sensações de prazer e desprazer Além disso no caso da possibilidade mais extrema de sofrimento dispositivos mentais protetores e especiais são postos em funcionamento Pareceme improdutivo levar adiante esse aspecto do problema Já é tempo de voltarmos nossa atenção para a natureza dessa civilização sobre cujo valor como veículo de felicidade foram lançadas dúvidas Não procuraremos uma fórmula que exprima essa natureza em poucas palavras enquanto não tivermos aprendido alguma coisa através de seu exame Mais uma vez portanto nos contentaremos em dizer que a palavra civilização descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais e que servem a dois intuitos a saber o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos A fim de aprendermos mais reuniremos os diversos aspectos singulares da civilização tal como se apresentam nas comunidades humanas Agindo desse modo não hesitaremos em nos deixar guiar pelos hábitos lingüísticos ou como são também chamados sentimento lingüístico na convicção de que assim estamos fazendo justiça e discernimentos internos que ainda desafiam sua expressão em termos abstratos A primeira etapa é fácil Reconhecemos como culturais todas as atividades e recursos úteis aos homens por lhes tornarem a terra proveitosa por protegeremnos contra a violência das forças da natureza e assim por diante Em relação a esse aspecto de civilização dificilmente pode haver qualquer dúvida Se remontarmos suficientemente às origens descobriremos que os primeiros atos de civilização foram a utilização de instrumentos a obtenção do controle sobre o fogo e a construção de habitaçõesEntre estes o controle sobre o fogo sobressai como uma realização extraordinária e sem precedentes ao passo que os outros desbravaram caminhos que o homem desde então passou a seguir e cujo estímulo pode ser facilmente percebido Através de cada instrumento o homem recria seus próprios órgãos motores ou sensoriais ou amplia os limites de seu funcionamento A potência motora coloca forças gigantescas à sua disposição as quais como os seus músculos ele pode empregar em qualquer direção graças aos navios e aos aviões nem a água nem o ar podem impedir seus movimentos por meio de óculos corrige os defeitos das lentes de seus próprios olhos através do telescópio vê a longa distância e por meio do microscópio supera os limites de visibilidade estabelecidos pela estrutura de sua retina Na câmara fotográfica criou um instrumento que retém as impressões visuais fugidias assim como um disco de gramofone retém as auditivas igualmente fugidias ambas são no fundo materializações do poder que ele possui de rememoração isto é sua memória Com o auxílio do telefone pode escutar a distâncias que seriam respeitadas como inatingíveis mesmo num conto de fadas A escrita foi em sua origem a voz de uma pessoa ausente e a casa para moradia constituiu um substituto do útero materno o primeiro alojamento pelo qual com toda probabilidade o homem ainda anseia e no qual se achava seguro e se sentia à vontade Essas coisas que através de sua ciência e tecnologia o homem fez surgir na Terra sobre a qual no princípio ele apareceu como um débilorganismo animal e onde cada indivíduo de sua espécie deve mais uma vez fazer sua entrada oh inch of nature como se fosse um recémnascido desamparado essas coisas não apenas soam como um conto de fadas mas também constituem uma realização efetiva de todos ou quase todos os desejos de contos de fadas Todas essas vantagens ele as pode reivindicar como aquisição cultural sua Há muito tempo atrás ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses A estes atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido Podese dizer portanto que esses deuses constituíam ideais culturais Hoje ele se aproximou bastante da consecução desse ideal ele próprio quase se tornou um deus É verdade que isso só ocorreu segundo o modo como os ideais são geralmente atingidos de acordo com o juízo geral da humanidade Não completamente sob certos aspectos de modo algum sob outros apenas pela metade O homem por assim dizer tornouse uma espécie de Deus de prótese Quando faz uso de todos os seus órgãos auxiliares ele é verdadeiramente magnífico esses órgãos porém não cresceram nele e às vezes ainda lhe causam muitas dificuldades Não obstante ele tem o direito de se consolar pensando que esse desenvolvimento não chegará ao fim exatamente no ano de 1930 AD As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus No interesse de nossa investigação contudo não esqueceremos que atualmente o homem não se sente feliz em seu papel de semelhante a Deus Reconhecemos então que os países atingiram um alto nível de civilização quando descobrimos que neles tudo o que pode ajudar na exploração da Terra pelo homem e na sua proteção contra as forças da natureza tudo emsuma que é útil para ele está disponível e é passível de ser conseguido Nesses países os rios que ameaçam inundar as terras são regulados em seu fluxo e sua água é irrigada através de canais para lugares onde ela é escassa O solo é cuidadosamente cultivado e plantado com a vegetação apropriada e a riqueza mineral subterrânea é assiduamente trazida à superfície e modelada em implementos e utensílios indispensáveis Os meios de comunicação são amplos rápidos e dignos de confiança Os animais selvagens e perigosos foram exterminados e a criação de animais domésticos floresce Além dessas porém exigimos outras coisas da civilização sendo digno de nota o fato de esperarmos encontrálas realizadas nesses mesmos países Como se estivéssemos procurando repudiar a primeira exigência que fizemos reconhecemos igualmente como um sinal de civilização verificar que as pessoas também orientam suas preocupações para aquilo que não possui qualquer valor prático para o que não é lucrativo por exemplo os espaços verdes necessários a uma cidade como playgrounds e reservatórios de ar fresco são também ornados de jardins e as janelas das casas decoradas com vasos de flores De imediato constatamos que essa coisa não lucrativa que esperamos que a civilização valorize é a beleza Exigimos que o homem civilizado reverencie a beleza sempre que a perceba na natureza ou sempre que a crie nos objetos de seu trabalho manual na medida em que é capaz disso Mas isso está longe de exaurir nossas exigências quanto à civilização Esperamos ademais ver sinais de asseio e de ordem Não concebemos uma cidade do interior da Inglaterra na época de Shakespeare como possuidora de um alto nível cultural quando lemos que havia um grande monte de esterco em frente à casa de seu pai em Stratford também ficamos indignados e chamamos de bárbaro o oposto de civilizado quando nos deparamos com as veredas do Wiener Wald cobertas de papéis velhos A sujeira de qualquer espécie nos parece incompatível com a civilização Da mesma forma estendemos nossa exigência de limpeza ao corpo humano Ficamos estupefatos ao saber que o emanava um odor insuportável meneamos a cabeça quando na Isola Bella nos é mostrada a minúscula bacia em que Napoleão se lavava todas as manhãs Na verdade não nos surpreende a idéia de estabelecer o emprego do sabão como um padrão real de civilização Isso é igualmente verdadeiro quanto à ordem Assim como a limpeza ela só se aplica às obrasdo homem Contudo ao passo que não se espera encontrar asseio na natureza a ordem pelo contrário foi imitada a partir dela A observação que o homem fez das grandes regularidades astronômicas não apenas o muniu de um modelo para a introdução da ordem em sua vida mas também lhe forneceu os primeiros pontos de partida para proceder desse modo A ordem é uma espécie de compulsão a ser repetida compulsão que ao se estabelecer um regulamento de uma vez por todas decide quando onde e como uma coisa será efetuada e isso de tal maneira que em todas as circunstâncias semelhantes a hesitação e a indecisão nos são poupadas Os benefícios da ordem são incontestáveis Ela capacita os homens a utilizarem o espaço e o tempo para seu melhor proveito conservando ao mesmo tempo as forças psíquicas deles Deveríamos ter o direito de esperar que ela houvesse ocupado seu lugar nas atividades humanas desde o início e sem dificuldade e podemos ficar admirados de que isso não tenha acontecido de que pelo contrário os seres humanos revelem uma tendência inata para o descuido a irregularidade e a irresponsabilidade em seu trabalho e de que seja necessário um laborioso treinamento para que aprendam a seguir o exemplo de seus modelos celestes Evidentemente a beleza a limpeza e a ordem ocupam uma posição especial entre as exigências da civilização Ninguém sustentará que elas sejam tão importantes para a vida quanto o controle sobre as forças da natureza ou quanto alguns outros fatores com que ainda nos familiarizaremos No entanto ninguém procurará colocálas em segundo plano como se não passassem de trivialidades Que a civilização não se faz acompanhar apenas pelo que é útil já ficou demonstrado pelo exemplo da beleza que não omitimos entre os interesses da civilização A utilidade da ordem é inteiramente evidente Quando à limpeza devemos ter em mente aquilo que também a higiene exige de nós e podemos supor que mesmo anteriormente à profilaxia científica a conexão entre as duas não era de todo estranha ao homem Contudo a utilidade não explica completamente esses esforços deve existir algo mais que se encontre em ação Nenhum aspecto porém parece caracterizar melhor a civilização do que sua estima e seu incentivo em relação às mais elevadas atividades mentais do homem suas realizações intelectuais científicas e artísticas e o papel fundamental que atribui às idéias na vida humana Entre essas idéias em primeiro lugar se encontram os sistemas religiosos cuja complicada estrutura já me esforcei por esclarecer em outra oportunidade A seguir vêm as especulações da filosofia e finalmente o que se poderia chamar de ideaisdo homem suas idéias a respeito de uma possível perfeição dos indivíduos dos povos ou da humanidade como um todo e as exigências estabelecidas com fundamento nessas idéias O fato de essas criações do homem não serem mutuamente independentes mas pelo contrário se acharem estreitamente entrelaçadas aumenta a dificuldade não apenas de descrevêlas como também de traçar sua derivação psicológica Se de modo bastante geral supusermos que a força motivadora de todas as atividades humanas é um esforço desenvolvido no sentido de duas metas confluentes a de utilidade e a de obtenção de prazer teremos de supor que isso também é verdadeiro quanto às manifestações da civilização que acabamos de examinar embora só seja facilmente visível nas atividades científicas e estéticas Não se pode porém duvidar de que as outras atividades também correspondem a fortes necessidades dos homens talvez a necessidades que só se achem desenvolvidas numa minoria Tampouco devemos permitir sermos desorientados por juízos de valor referentes a qualquer religião qualquer sistema filosófico ou qualquer ideal Quer pensemos encontrar neles as mais altas realizações do espírito humano quer os deploremos como aberrações não podemos deixar de reconhecer que onde eles se acham presentes e em especial onde eles são dominantes está implícito um alto nível de civilização Resta avaliar o último mas decerto não o menos importante dos aspectos característicos da civilização a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens seus relacionamentos sociais são regulados relacionamentos estes que afetam uma pessoa como próximo como fonte de auxílio como objeto sexual de outra pessoa como membro de uma família e de um Estado Aqui é particularmente difícil manterse isento de exigências ideais específicas e perceber aquilo que é civilizado em geral Talvez possamos começar pela explicação de que o elemento de civilização entra em cena com a primeira tentativa de regular esses relacionamentos sociais Se essa tentativa não fosse feita os relacionamentos ficariam sujeitos à vontade arbitrária do indivíduo o que equivale a dizer que o homem fisicamente mais forte decidiria a respeito deles no sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos Nada se alteraria se por sua vez esse homem forte encontrasse alguém mais forte do que ele A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados O poder dessa comunidade é então estabelecido como direito em oposição ao poder do indivíduo condenado como força bruta A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização Sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem em suas possibilidades de satisfaçãoao passo que o indivíduo desconhece tais restrições A primeira exigência da civilização portanto é a da justiça ou seja a garantia de que uma lei uma vez criada não será violada em favor de um indivíduo Isso não acarreta nada quanto ao valor ético de tal lei O curso ulterior do desenvolvimento cultural parece tender no sentido de tornar a lei não mais expressão da vontade de uma pequena comunidade uma casta ou camada de uma população ou grupo racial que por sua vez se comporta como um indivíduo violento frente a outros agrupamentos de pessoas talvez mais numerosos O resultado final seria um estatuto legal para o qual todos exceto os incapazes de ingressar numa comunidade contribuíram com um sacrifício de seus instintos que não deixa ninguém novamente com a mesma exceção à mercê da força bruta A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização Ela foi maior antes da existência de qualquer civilização muito embora é verdade naquele então não possuísse na maior parte valor já que dificilmente o indivíduo se achava em posição de defendêla O desenvolvimento da civilização impõe restrições a ela e a justiça exige que ninguém fuja a essas restrições O que se faz sentir numa comunidade humana como desejo de liberdade pode ser sua revolta contra alguma injustiça existente e desse modo esse desejo pode mostrarse favorável a um maior desenvolvimento da civilização pode permanecer compatível com a civilização Entretanto pode também originarse dos remanescentes de sua personalidade original que ainda não se acha domada pela civilização e assim nela tornarse a base da hostilidade à civilização O impulso de liberdade portanto é dirigido contra formas e exigências específicas da civilização ou contra a civilização em geral Não parece que qualquer influência possa induzir o homem a transformar sua natureza na de uma térmita Indubitavelmente ele sempre defenderá sua reivindicação à liberdade individual contra a vontade do grupo Grande parte das lutas da humanidade centralizamse em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente isto é uma acomodação que traga felicidade entre essa reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se esse conflito é irreconciliável Permitindo que o sentimento comum assumisse o papel de nosso guia quanto a decidir sobre quais aspectos da vida humana devem ser encarados como civilizados conseguimos esboçar uma impressão bastante clara do quadro geral da civilização contudo é verdade que até agora não descobrimos nada que já não fosse universalmente conhecido Ao mesmo tempo tivemos o cuidado de não concordar com o preconceito de que civilização ésinônimo de aperfeiçoamento de que constitui a estrada para a perfeição preordenada para os homens Agora porém apresentase um ponto de vista que pode conduzir numa direção diferente O desenvolvimento da civilização nos aparece como um processo peculiar que a humanidade experimenta e no qual diversas coisas nos impressionam como familiares Podemos caracterizar esse processo referindoo às modificações que ele ocasiona nas habituais disposições instintivas dos seres humanos para satisfazer o que em suma constitui a tarefa econômica de nossas vidas Alguns desses instintos são empregados de tal maneira que em seu lugar aparece algo que num indivíduo descrevemos como um traço de caráter O exemplo mais notável desse processo é encontrado no erotismo anal das crianças Seu interesse original pela função excretória por seus órgãos e produtos transformase no decurso do crescimento num grupo de traços que nos são familiares tais como a parcimônia o sentido da ordem e da limpeza qualidades que embora valiosas e desejáveis em si mesmas podem ser intensificadas até se tornarem acentuadamente dominantes e produzirem o que se chama de caráter anal Não sabemos como isso acontece mas não há dúvida sobre a exatidão da descoberta Ora vimos que a ordem e a limpeza constituem exigências importantes de civilização embora sua necessidade vital não seja muito aparente da mesma forma que revelam indesejáveis como fonte de prazer Nesse ponto não podemos deixar de ficar impressionados pela semelhança existente entre os processos civilizatórios e o desenvolvimento libidinal do indivíduo Outros instintos além do erotismo anal são induzidos a deslocar as condições de sua satisfação a conduzilas para outros caminhos Na maioria dos casos esse processo coincide com o da sublimação dos fins instintivos com que nos achamos familiarizados noutros porém pode diferenciarse dele A sublimação do instinto constitui um aspecto particularmente evidente do desenvolvimento cultural é ela que torna possível às atividades psíquicas superiores científicas artísticas ou ideológicas o desempenho de um papel tão importante na vida civilizada Se nos rendêssemos a uma primeira impressão diríamos que a sublimação constitui uma vicissitude que foi imposta aos instintos de forma total pela civilização Seria prudente refletir um pouco mais sobre isso Em terceiro lugar finalmente e isso parece o mais importante de tudo é impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto o quanto ela pressupõe exatamente a nãosatisfação pela opressão repressão ou algum outro meio de instintos poderosos Essa frustração cultural domina o grande campo dos relacionamentos sociais entre os seres humanos Como já sabemos é a causa da hostilidade contra a qual todas as civilizações têm de lutar Também ela fará exigências severas à nossa obra científica e muito teremos a explicar aqui Não é fácil entender como pode ser possível privar de satisfação um instinto Não se faz isso impunemente Se a perda não for economicamente compensada podese ficar certo de que sérios distúrbios decorrerão disso Mas se quisermos saber qual o valor que pode ser atribuído à nossa opinião de que o desenvolvimento da civilização constitui um processo especial comparável à maturação normal do indivíduo temos claramente de atacar o problema Devemos perguntarnos a que influência o desenvolvimento da civilização deve sua origem como ela surgiu e o que determinou o seu curso IV A tarefa parece imensa e frente a ela é natural que se sinta falta de confiança Mas aqui estão as conjecturas que pude efetuar Depois que o homem primevo descobriu que estava literalmente em suas mãos melhorar a sua sorte na Terra através do trabalho não lhe pode ter sido indiferente que outro homem trabalhasse com ele ou contra ele Esse outro homem adquiriu para ele o valor de um companheiro de trabalho com quem era útil conviver Em época ainda anterior em sua préhistória simiesca o homem adotara o hábito de formar famílias e provavelmente os membros de sua família foram os seus primeiros auxiliares Podese supor que a formação de famílias deveuse ao fato de ter ocorrido um momento em que a necessidade de satisfação genital não apareceu mais como um hóspede que surge repentinamente e do qual após a partida não mais se ouve falar por longo tempo mas que pelo contrário se alojou como um inquilino permanente Quando isso aconteceu o macho adquiriu um motivo para conservar a fêmea junto de si ou em termos mais gerais seus objetos sexuais a seu lado ao passo que a fêmea não querendo separarse de seus rebentos indefesos viuse obrigada no interesse deles a permanecer com o macho mais forte Na família primitiva falta ainda uma característica essencial da civilização A vontade arbitrária de seu chefe o pai era irrestrita Em Totem e Tabu 191213 tentei demonstrar o caminho que vai dessa família à etapa subseqüente a da vida comunal sob a forma de grupos de irmãos Sobrepujando o pai os filhos descobriram que uma combinação pode ser mais forte do que um indivíduo isolado A cultura totêmica baseiase nas restrições que os filhos tiveram de imporse mutuamente a fim de conservar esse novo estado de coisas Os preceitos do tabu constituíram o primeiro direito ou lei A vida comunitária dos seres humanos teve portanto um fundamento duplo a compulsão para o trabalho criada pela necessidade externa e o poder do amor que fez o homem relutar em privarse de seu objeto sexual a mulher e a mulher em privarse daquela parte de si própria que dela fora separada seu filho Eros e Ananke Amor e Necessidade se tornaram os pais também da civilização humana O primeiro resultado da civilização foi que mesmo um número bastante grande de pessoas podia agora viver reunido numa comunidade E como esses dois grandes poderes cooperaram para isso poder seia esperar que o desenvolvimento ulterior da civilização progredisse sem percalços no sentido de um controle ainda melhor sobre o mundo externo e no de uma ampliação do número de pessoasincluídas na comunidade É difícil compreender como essa civilização pode agir sobre os seus participantes de outro modo senão o de tornálos felizes Antes de continuarmos a indagar sobre de que direção uma interferência poderia surgir o reconhecimento do amor como um dos fundamentos da civilização pode servir de pretexto para uma digressão que nos capacitará a preencher uma lacuna por nós deixada num exame anteriorver 1 Mencionáramos então que a descoberta feita pelo homem de que o amor sexual genital lhe proporcionava as mais intensas experiências de satisfação fornecendolhe na realidade o protótipo de toda felicidade deve terlhe sugerido que continuasse a buscar a satisfação da felicidade em sua vida seguindo o caminho das relações sexuais e que tornasse o erotismo genital o ponto central dessa mesma vida Prosseguimos dizendo que fazendo assim ele se tornou dependente de uma forma muito perigosa de uma parte do mundo externo isto é de seu objeto amoroso escolhido expondo se a um sofrimento extremo caso fosse rejeitado por esse objeto ou o perdesse através da infidelidade ou da morte Por essa razão os sábios de todas as épocas nos advertiram enfaticamente contra tal modo de vida apesar disso ele não perdeu seu atrativo para grande número de pessoas Apesar de tudo uma pequena minoria de pessoas achase capacitada por sua constituição a encontrar felicidade no caminho do amor Fazemse necessárias porém alterações mentais de grande alcance na função do amor antes que isso possa acontecer Essas pessoas se tornam independentes da aquiescência de seu objeto deslocando o que mais valorizam do ser amado para o amar protegemse contra a perda do objeto voltando seu amor não para objetos isolados mas para todos os homens e do mesmo modo evitam as incertezas e as decepções do amor genital desviandose de seus objetivos sexuais e transformando o instinto num impulso com uma finalidade inibida Ocasionam assim nelas mesmas um estado de sentimento imparcialmente suspenso constante e afetuoso que tem pouca semelhança externa com as tempestuosas agitações do amor genital do qual não obstante se deriva Talvez São Francisco de Assis tenha sido quem mais longe foi na utilização do amor para beneficiar um sentimento interno de felicidade Além disso aquilo que identificamos como sendo uma das técnicas para realizar o princípio do prazer foi amiúde vinculado à religião essa vinculação pode residir nas remotas regiões em que a distinção entre o ego e os objetos ou entre os próprios objetos é desprezada De acordo com determinado ponto de vista ético cuja motivação mais profunda se nos tornará clara dentro em pouco essa disposição para o amor universal pela humanidade e pelo mundo representa o ponto mais alto que o homem pode alcançar Mesmo nessa etapapreliminar da discussão gostaria de apresentar minhas duas principais objeções a essa opinião Um amor que não discrimina me parece privado de uma parte de seu próprio valor por fazer uma injustiça a seu objeto e em segundo lugar nem todos os homens são dignos de amor O amor que fundou a família continua a operar na civilização tanto em sua forma original em que não renuncia à satisfação sexual direta quanto em sua forma modificada como afeição inibida em sua finalidade Em cada uma delas continua a realizar sua função de reunir consideráveis quantidades de pessoas de um modo mais intensivo do que o que pode ser efetuado através do interesse pelo trabalho em comum A maneira descuidada com que a linguagem utiliza a palavra amor conta com uma justificação genética As pessoas dão o nome de amor ao relacionamento entre um homem e uma mulher cujas necessidades genitais os levaram a fundar uma família também dão esse nome aos sentimentos positivos existentes entre pais e filhos e entre os irmãos e as irmãs de uma família embora nós sejamos obrigados a descrever isso como amor inibido em sua finalidade ou afeição O amor com uma finalidade inibida foi de fato originalmente amor plenamente sensual e ainda o é no inconsciente do homem Ambos o amor plenamente sensual e o amor inibido em sua finalidade estendemse exteriormente à família e criam novos vínculos com pessoas anteriormente estranhas O amor genital conduz à formação de novas famílias e o amor inibido em sua finalidade a amizades que se tornam valiosas de um ponto de vista cultural por fugirem a algumas das limitações do amor genital como por exemplo à sua exclusividade No decurso do desenvolvimento porém a relação do amor com a civilização perde sua falta de ambigüidade Por um lado o amor se coloca em oposição aos interesses da civilização por outro esta ameaça o amor com restrições substanciais Essa incompatibilidade entre amor e civilização parece inevitável e sua razão não é imediatamente reconhecível Expressase a princípio como um conflito entre a família e a comunidade maior a que o indivíduo pertence Já percebemos que um dos principais esforços da civilização é reunir as pessoas em grandes unidades Mas a família não abandona o indivíduo Quanto mais estreitamente os membros de uma família se achem mutuamente ligados com mais freqüência tendem a se apartarem dos outros e mais difícil lhes é ingressar no círculo mais amplo da cidade O modo de vida em comum que é filogeneticamente o mais antigo e o único que existe na infância não se deixará sobrepujar pelo modo cultural de vida adquirido depois Separarse da família tornase umatarefa com que todo jovem se defronta e a sociedade freqüentemente o auxilia na solução disso através dos ritos de puberdade e de iniciação Ficamos com a impressão de que se trata de dificuldades inerentes a todo desenvolvimento psíquico e em verdade no fundo a todo desenvolvimento orgânico Além do mais as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora as mesmas mulheres que de início estabeleceram os fundamentos da civilização pelas reivindicações de seu amor As mulheres representam os interesses da família e da vida sexual O trabalho de civilização tornouse cada vez mais um assunto masculino confrontando os homens com tarefas cada vez mais difíceis e compelindoos a executarem sublimações instintivas de que as mulheres são pouco capazes Já que o homem não dispõe de quantidades ilimitadas de energia psíquica tem de realizar suas tarefas efetuando uma distribuição conveniente de sua libido Aquilo que emprega para finalidades culturais em grande parte o extrai das mulheres e da vida sexual Sua constante associação com outros homens e a dependência de seus relacionamentos com eles o alienam inclusive de seus deveres de marido e de pai Dessa maneira a mulher se descobre relegada a segundo plano pelas exigências da civilização e adota uma atitude hostil para com ela A tendência por parte da civilização em restringir a vida sexual não é menos clara do que sua outra tendência em ampliar a unidade cultural Sua primeira fase totêmica já traz com ela a proibição de uma escolha incestuosa de objeto o que constitui talvez a mutilação mais drástica que a vida erótica do homem em qualquer época já experimentou Os tabus as leis e os costumes impõem novas restrições que influenciam tanto homens quanto mulheres Nem todas as civilizações vão igualmente longe nisso e a estrutura econômica da sociedade também influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente Aqui como já sabemos a civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica visto que uma grande quantidade da energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem de ser retirada da sexualidade Com relação a isso a civilização se comporta diante da sexualidade da mesma forma que um povo ou uma de suas camadas sociais procede diante de outros que estão submetidos à sua exploração O temor a uma revolta por parte dos elementos oprimidos a conduz à utilização de medidas de precaução mais estritas Um ponto culminante nesse desenvolvimento foi atingido em nossa civilização ocidental européia Uma comunidade cultural achase do ponto de vista psicológico perfeitamente justificada em começar por proscrever as manifestações da vida sexual das crianças pois não haveria perspectiva de submeter os apetites sexuais dos adultos se os fundamentospara isso não tivessem sido lançados na infância Contudo uma comunidade desse tipo de modo algum pode ser justificada se vai até o ponto de realmente repudiar essas manifestações facilmente demonstráveis e na verdade notáveis Quanto ao indivíduo sexualmente maduro a escolha de um objeto restringese ao sexo oposto estando as satisfações extragenitais em sua maioria proibidas como perversão A exigência demonstrada nessas proibições de que haja um tipo único de vida sexual para todos não leva em consideração as dessemelhanças inatas ou adquiridas na constituição sexual dos seres humanos cerceia em bom número deles o gozo sexual tornandose assim fonte de grave injustiça O resultado de tais medidas restritivas poderia ser que nas pessoas normais que não se acham impedidas por sua constituição a totalidade dos seus interesses sexuais fluísse sem perdas para os canais que são deixados abertos No entanto o próprio amor genital heterossexual que permaneceu isento de proscrição é restringido por outras limitações apresentadas sob a forma da insistência na legitimidade e na monogamia A civilização atual deixa claro que só permite os relacionamentos sexuais na base de um vínculo único e indissolúvel entre um só homem e uma só mulher e que não é de seu agrado a sexualidade como fonte de prazer por si própria só se achando preparada para tolerála porque até o presente para ela não existe substituto como meio de propagação da raça humana Naturalmente isso configura um quadro extremado Todos sabem que ele se mostrou inxeqüível mesmo por períodos muito breves Apenas os fracos se submeteram a uma usurpação tão ampla de sua liberdade sexual e as naturezas mais fortes só o fizeram mediante uma condição compensatória que será posteriormente mencionada A sociedade civilizada viuse obrigada a silenciar sobre muitas transgressões que segundo os seus próprios princípios deveria ter punido Mas por um outro lado não devemos errar supondo que por não alcançar todos os seus objetivos uma atitude desse tipo por parte da sociedade seja inteiramente inócua A vida sexual do homem civilizado encontrase não obstante severamente prejudicada dá às vezes a impressão de estar em processo de involução enquanto função tal como parece acontecer com nossos dentes e cabelos Provavelmente justificase supor que sua importância enquanto fonte de sentimentos de felicidade e portanto na realização de nosso objetivo na vida diminuiu sensivelmente Às vezes somos levados a pensar que nãose trata apenas da pressão da civilização mas de algo da natureza da própria função que nos nega satisfação completa e nos incita a outros caminhos Isso pode estar errado é difícil decidir V O trabalho psicanalítico nos mostrou que as frustrações da vida sexual são precisamente aquelas que as pessoas conhecidas como neuróticas não podem tolerar O neurótico cria em seus sintomas satisfações substitutivas para si e estas ou lhe causam sofrimento em si próprias ou se lhe tornam fontes de sofrimento pela criação de dificuldades em seus relacionamentos com o meio ambiente e a sociedade a que pertence Esse último fato é fácil de compreender o primeiro nos apresenta um novo problema A civilização porém exige outros sacrifícios além do da satisfação sexual Abordamos a dificuldade do desenvolvimento cultural como sendo uma dificuldade geral de desenvolvimento fazendo sua origem remontar à inércia da libido à falta de inclinação desta para abandonar uma posição antiga por outra nova Dizemos quase a mesma coisa quando fazemos a antítese entre civilização e sexualidade derivar da circunstância de o amor sexual constituir um relacionamento entre dois indivíduos no qual um terceiro só pode ser supérfluo ou perturbador ao passo que a civilização depende de relacionamentos entre um considerável número de indivíduos Quando um relacionamento amoroso se encontra em seu auge não resta lugar para qualquer outro interesse pelo ambiente um casal de amantes se basta a si mesmo sequer necessitam do filho que têm em comum para tornálos felizes Em nenhum outro caso Eros revela tão claramente o âmago do seu ser o seu intuito de de mais de um fazer um único contudo quando alcança isso da maneira proverbial ou seja através do amor de dois seres humanos recusase a ir além Até aqui podemos imaginar perfeitamente uma comunidade cultural que consista em indivíduos duplos como este que libidinalmente satisfeitos em si mesmos se vinculem uns aos outros através dos elos do trabalho comum e dos interesses comuns Se assim fosse a civilização não teria que extrair energia alguma da sexualidade Contudo esse desejável estado de coisas não existe nem nunca existiu A realidade nos mostra que a civilização não se contenta com as ligações que até agora lhe concedemos Visa a unir entre si os membros da comunidade também de maneira libidinal e para tanto emprega todos os meios Favorece todos os caminhos pelos quais identificações fortes possam ser estabelecidas entre os membros da comunidade e na mais ampla escala convoca a libido inibida em sua finalidade demodo a fortalecer o vínculo comunal através das relações de amizade Para que esses objetivos sejam realizados fazse inevitável uma restrição à vida sexual Não conseguimos porém entender qual necessidade força a civilização a tomar esse caminho necessidade que provoca o seu antagonismo à sexualidade Deve haver algum fator de perturbação que ainda não descobrimos A pista pode ser fornecida por uma das exigências ideais tal como as denominamos da sociedade civilizada Diz ela Amarás a teu próximo como a ti mesmo Essa exigência conhecida em todo o mundo é indubitavelmente mais antiga que o cristianismo que a apresenta como sua reivindicação mais gloriosa No entanto ela não é decerto excessivamente antiga mesmo já em tempos históricos ainda era estranha à humanidade Se adotarmos uma atitude ingênua para com ela como se a estivéssemos ouvindo pela primeira vez não poderemos reprimir um sentimento de surpresa e perplexidade Por que deveremos agir desse modo Que bem isso nos trará Acima de tudo como conseguiremos agir desse modo Como isso pode ser possível Meu amor para mim é algo de valioso que eu não devo jogar fora sem reflexão A máxima me impõe deveres para cujo cumprimento devo estar preparado e disposto a efetuar sacrifícios Se amo uma pessoa ela tem de merecer meu amor de alguma maneira Não estou levando em consideração o uso que dela posso fazer nem sua possível significação para mim como objeto sexual de uma vez que nenhum desses dois tipos de relacionamento entra em questão onde o preceito de amar meu próximo se acha em jogo Ela merecerá meu amor se for de tal modo semelhante a mim em aspectos importantes que eu me possa amar nela merecêloá também se for de tal modo mais perfeita do que eu que nela eu possa amar meu ideal de meu próprio eu self Terei ainda de amála se for o filho de meu amigo já que o sofrimento que este sentiria se algum dano lhe ocorresse seria meu sofrimento também eu teria de partilhálo Mas se essa pessoa for um estranho para mim e não conseguir atrairme por um de seus próprios valores ou por qualquer significação que já possa ter adquirido para a minha vida emocional me será muito difícil amála Na verdade eu estaria errado agindo assim pois meu amor é valorizado por todos os meus como um sinal de minha preferência por eles e seria injusto para com eles colocar um estranho no mesmo plano em que eles estão Se no entanto devo amálo com esse amor universal meramente porque ele também é um habitante da Terra assim como o são um inseto uma minhoca ou uma serpente receio então que sóuma pequena quantidade de meu amor caberá à sua parte e não em hipótese alguma tanto quanto pelo julgamento de minha razão tenho o direito de reter para mim Qual é o sentido de um preceito enunciado com tanta solenidade se seu cumprimento não pode ser recomendado como razoável Através de um exame mais detalhado descubro ainda outras dificuldades Não meramente esse estranho é em geral indigno de meu amor honestamente tenho de confessar que ele possui mais direito a minha hostilidade e até mesmo meu ódio Não parece apresentar o mais leve traço de amor por mim e não demonstra a mínima consideração para comigo Se disso ele puder auferir uma vantagem qualquer não hesitará em me prejudicar tampouco pergunta a si mesmo se a vantagem assim obtida contém alguma proporção com a extensão do dano que causa em mim Na verdade não precisa nem mesmo auferir alguma vantagem se puder satisfazer qualquer tipo de desejo com isso não se importará em escarnecer de mim em me insultar me caluniar e me mostrar a superioridade de seu poder e quanto mais seguro se sentir e mais desamparado eu for mais com certeza posso esperar que se comporte dessa maneira para comigo Caso se conduza de modo diferente caso mostre consideração e tolerância como um estranho estou pronto a tratálo da mesma forma em todo e qualquer caso e inteiramente fora de todo e qualquer preceito Na verdade se aquele imponente mandamento dissesse Ama a teu próximo como este te ama eu não lhe faria objeções E há um segundo mandamento que me parece mais incompreensível ainda e que desperta em mim uma oposição mais forte ainda Tratase do mandamento Ama os teus inimigos Refletindo sobre ele no entanto percebo que estou errado em considerálo como uma imposição maior No fundo é a mesma coisa Acho que agora posso ouvir uma voz solene me repreendendo É precisamente porque teu próximo não é digno de amor mas pelo contrário é teu inimigo que deves amálo como a ti mesmo Compreendo então que se trata de um caso semelhante ao do Credo quia absurdumOra é muito provável que meu próximo quando lhe for prescrito que me ame como a si mesmo responda exatamente como o fiz e me rejeite pelas mesmas razões Espero que não tenha os mesmos fundamentos objetivos para fazêlo mas terá a mesma idéia que tenho Ainda assim o comportamento dos seres humanos apresenta diferenças que a ética desprezando o fato de que tais diferenças são determinadas classifica como boas ou más Enquanto essas inegáveis diferenças não forem removidas a obediência às elevadas exigências éticas acarreta prejuízos aos objetivos da civilização por incentivar o ser mau Não podemos deixar de lembrar um incidente ocorrido na câmara dos deputados francesa quando a pena capital estava em debate Um dos membros acabara de defender apaixonadamente a abolição dela e seu discurso estava sendo recebido com tumultuosos aplausos quando uma voz vinda do plenário exclamou Que messieurs les assassins commencent O elemento de verdade por trás disso tudo elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que no máximo podem defender se quando atacadas pelo contrário são criaturas entre cujos dotes instintivos devese levar em conta uma poderosa quota de agressividade Em resultado disso o seu próximo é para eles não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação utilizálo sexualmente sem o seu consentimento apoderarse de suas posses humilhálo causarlhe sofrimento torturálo e matálo Homo homini lupus Quem em face de toda sua experiência da vida e da história terá a coragem de discutir essa asserção Via de regra essa cruel agressividade espera por alguma provocação ou se coloca a serviço de algum outro intuito cujo objetivo também poderia ter sido alcançado por medidas mais brandas Em circunstâncias que lhe são favoráveis quando as forças mentais contrárias que normalmente a inibem se encontram fora de ação ela também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem a quem a consideração para com sua própria espécie é algo estranho Quem quer que relembre as atrocidades cometidas durante as migrações raciais ou as invasões dos hunos ou pelos povos conhecidos como mongóis sob a chefia de Gengis Khan e Tamerlão ou na captura de Jerusalém pelos piedosos cruzados ou mesmo na verdade os horrores da recente guerra mundialquem quer que relembre tais coisas terá de se curvar humildemente ante a verdade dessa opinião A existência da inclinação para a agressão que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio de energia Em conseqüência dessa mútua hostilidade primária dos seres humanos a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração O interesse pelo trabalho em comum não a manteria unida as paixões instintivas são mais fortes que os interesses razoáveis A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas Daí portanto o emprego de métodos destinados a incitar as pessoas a identificações e relacionamentos amorosos inibidos em sua finalidade daí a restrição à vida sexual e daí também o mandamento ideal de amar ao próximo como a si mesmo mandamento que é realmente justificado pelo fato de nada mais ir tão fortemente contra a natureza original do homem A despeito de todos os esforços esses empenhos da civilização até hoje não conseguiram muito Esperase impedir os excessos mais grosseiros da violência brutal por si mesma supondose o direito de usar a violência contra os criminosos no entanto a lei não é capaz de deitar a mão sobre as manifestações mais cautelosas e refinadas da agressividade humana Chega a hora em que cada um de nós tem de abandonar como sendo ilusões as esperanças que na juventude depositou em seus semelhantes e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles Ao mesmo tempo seria injusto censurar a civilização por tentar eliminar da atividade humana a luta e a competição Elas são indubitavelmente indispensáveis Mas oposição não é necessariamente inimizade simplesmente ela é mal empregada e tornada uma ocasião para a inimizade Os comunistas acreditam ter descoberto o caminho para nos livrar de nossos males Segundo eles o homem é inteiramente bom e bem disposto para como seu próximo mas a instituição da propriedade privada corrompeulhe a natureza A propriedade da riqueza privada confere poder ao indivíduo e com ele a tentação de maltratar o próximo ao passo que o homem excluído da posse está fadado a se rebelar hostilmente contra seu opressor Se a propriedade privada fosse abolida possuída em comum toda a riqueza e permitida a todos a partilha de sua fruição a má vontade e a hostilidade desapareceriam entre os homens Como as necessidades de todos seriam satisfeitas ninguém teria razão alguma para encarar outrem comoinimigo todos de boa vontade empreenderiam o trabalho que se fizesse necessário Não estou interessado em nenhuma crítica econômica do sistema comunista não posso investigar se a abolição da propriedade privada é conveniente ou vantajosa Mas sou capaz de reconhecer que as premissas psicológicas em que o sistema se baseia são uma ilusão insustentável Abolindo a propriedade privada privamos o amor humano da agressão de um de seus instrumentos decerto forte embora decerto também não o mais forte de maneira alguma porém alteramos as diferenças em poder e influência que são mal empregadas pela agressividade nem tampouco alteramos nada em sua natureza A agressividade não foi criada pela propriedade Reinou quase sem limites nos tempos primitivos quando a propriedade ainda era muito escassa e já se apresenta no quarto das crianças quase antes que a propriedade tenha abandonado sua forma anal e primária constitui a base de toda relação de afeto e amor entre pessoas com a única exceção talvez do relacionamento da mãe com seu filho homem Se eliminamos os direitos pessoais sobre a riqueza material ainda permanecem no campo dos relacionamentos sexuais prerrogativas fadadas a se tornarem a fonte da mais intensa antipatia e da mais violenta hostilidade entre homens que sob outros aspectos se encontram em pé de igualdade Se também removermos esse fator permitindo a liberdade completa da vida sexual e assim abolirmos a família célula germinal da civilização não podemos é verdade prever com facilidade quais os novos caminhos que o desenvolvimento da civilização vai tomar uma coisa porém podemos esperar é que nesse caso essa característica indestrutível da natureza humana seguirá a civilização Evidentemente não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão Sem ela eles não se sentem confortáveis A vantagem que um grupo cultural comparativamente pequeno oferece concedendo a esse instinto um escoadouro sob a forma de hostilidade contra intrusos não é nada desprezível É sempre possível unir um considerávelnúmero de pessoas no amor enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade Em outra ocasião examinei o fenômeno no qual são precisamente comunidades com territórios adjacentes e mutuamente relacionadas também sob outros aspectos que se empenham em rixas constantes ridicularizandose umas às outras como os espanhóis e os portugueses por exemplo os alemães do Norte e os alemães do Sul os ingleses e os escoceses e assim por diante Dei a esse fenômeno o nome de narcisismo das pequenas diferenças denominação que não ajuda muito a explicálo Agora podemos ver que se trata de uma satisfação conveniente e relativamente inócua da inclinação para a agressão através da qual a coesão entre os membros da comunidade é tornada mais fácil Com respeito a isso o povo judeu espalhado por toda a parte prestou os mais úteis serviços às civilizações dos países que os acolheram infelizmente porém todos os massacres de judeus na Idade Média não bastaram para tornar o período mais pacífico e mais seguro para seus semelhantes cristãos Quando outrora o Apóstolo Paulo postulou o amor universal entre os homens como o fundamento de sua comunidade cristã uma extrema intolerância por parte da cristandade para com os que permaneceram fora dela tornouse uma conseqüência inevitável Para os romanos que não fundaram no amor sua vida comunal como Estado a intolerância religiosa era algo estranho embora entre eles a religião fosse do interesse do Estado e este se achasse impregnado dela Tampouco constituiu uma possibilidade inexeqüível que o sonho de um domínio mundial germânico exigisse o antisemitismo como seu complemento sendo portanto compreensível que a tentativa de estabelecer uma civilização nova e comunista na Rússia encontre o seu apoio psicológico na perseguição aos burgueses Não se pode senão imaginar com preocupação sobre o que farão os soviéticos depois que tiverem eliminado seus burgueses Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes não apenas à sexualidade do homem mas também à sua agressividade podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização Na realidade o homem primitivo se achava em situação melhor sem conhecer restrições de instinto Em contrapartida suas perspectivas de desfrutar dessa felicidade por qualquer período de tempo eram muito tênues O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança Não devemos esquecer contudo que na família primeva apenas o chefe desfrutava da liberdade instintiva o resto vivia em opressão servilNaquele período primitivo da civilização o contraste entre uma minoria que gozava das vantagens da civilização e uma maioria privada dessas vantagens era portanto levada a seus extremos Quanto aos povos primitivos que ainda hoje existem pesquisas cuidadosas mostraram que sua vida instintiva não é de maneira alguma passível de ser invejada por causa de sua liberdade Está sujeita a restrições de outra espécie talvez mais severas do que aquelas que dizem respeito ao homem moderno Quando com toda justiça consideramos falho o presente estado de nossa civilização por atender de forma tão inadequada às nossas exigências de um plano de vida que nos torne felizes e por permitir a existência de tanto sofrimento que provavelmente poderia ser evitado quando com crítica impiedosa tentamos pôr à mostra as raízes de sua imperfeição estamos indubitavelmente exercendo um direito justo e não nos mostrando inimigos da civilização Podemos esperar efetuar gradativamente em nossa civilização alterações tais que satisfaçam melhor nossas necessidades e escapem às nossas críticas Mas talvez possamos também nos familiarizar com a idéia de existirem dificuldades ligadas à natureza da civilização que não se submeterão a qualquer tentativa de reforma Além e acima das tarefas de restringir os instintos para as quais estamos preparados reivindica nossa atenção o perigo de um estado de coisas que poderia ser chamado de pobreza psicológica dos grupos Esse perigo é mais ameaçador onde os vínculos de uma sociedade são principalmente constituídos pelas identificações dos seus membros uns com os outros enquanto que indivíduos do tipo de um líder não adquirem a importância que lhes deveria caber na formação de um grupo O presente estado cultural dos Estados Unidos da América nos proporcionaria uma boa oportunidade para estudar o prejuízo à civilização que assim é de se temer Evitarei porém a tentação de ingressar numa crítica da civilização americana não desejo dar a impressão de que eu mesmo estou empregando métodos americanos VI Em nenhum de meus trabalhos anteriores tive tão forte quanto agora a impressão de que o que estou descrevendo pertence ao conhecimento comum e de que estou desperdiçando papel e tinta ao mesmo tempo que usando o trabalho e o material do tipógrafo e do impressor para expor coisas que na realidade são evidentes por si mesmas Por essa razão ficaria feliz em desenvolver o tema se isso levasse à conclusão de que o reconhecimento de um instinto agressivo especial e independente significa uma alteração da teoria psicanalítica dos instintos Veremos no entanto que a coisa não é bem assim e que se trata simplesmente de focalizar de modo mais nítido uma mudança de pensamento há muito tempo introduzida seguindoa até suas últimas conseqüências De todas as partes lentamente desenvolvidas da teoria analítica a teoria dos instintos foi a que mais penosa e cautelosamente progrediu Contudo essa teoria era tão indispensável a toda a estrutura que algo tinha de ser colocado em seu lugar No que constituía a princípio minha completa perplexidade tomei como ponto de partida uma expressão do poetafilósofo Schiller são a fome e o amor que movem o mundo A fome podia ser vista como representando os instintos que visam a preservar o indivíduo ao passo que o amor se esforça na busca de objetos e sua principal função favorecida de todos os modos pela natureza é a preservação da espécie Assim de início os instintos do ego e os instintos objetais se confrontavam mutuamente Foi para denotar a energia destes últimos e somente deles que introduzi o termo libido Assim a antítese se verificou entre os instintos do ego e os instintos libidinais do amor em seu sentido mais amplo que eram dirigidos a um objeto Um desses instintos objetais o instinto sádico destacouse do restante é verdade pelo fato de o seu objetivo estar muito longe de ser o amar Ademais ele se encontrava obviamente ligado sob certos aspectos aos instintos do ego pois não podia ocultar sua estreita afinidade com os instintos de domínio que não possuem propósito libidinal Mas essas discrepâncias foram superadas afinal de contas o sadismo fazia claramente parte da vidasexual em cujas atividades a afeição podia ser substituída pela crueldade A neurose foi encarada como o resultado de uma luta entre o interesse de autopreservação e as exigências da libido luta da qual o ego saiu vitorioso ainda que ao preço de graves sofrimentos e renúncias Todo analista admitirá que ainda hoje essa opinião não soa como um erro há muito tempo abandonado Não obstante alterações nela se tornaram essenciais à medida que nossas investigações progrediam das forças reprimidas para as repressoras dos instintos objetais para o ego O decisivo passo à frente consistiu na introdução do conceito de narcisismo isto é a descoberta de que o próprio ego se acha catexizado pela libido de que o ego na verdade constitui o reduto original dela e continua a ser até certo ponto seu quartelgeneral Essa libido narcísica se volta para os objetos tornandose assim libido objetal e podendo transformarse novamente em libido narcísica O conceito do narcisismo possibilitou a obtenção de uma compreensão analítica das neuroses traumáticas de várias das afecções fronteiriças às psicoses bem como destas últimas Não foi necessário abandonar nossa interpretação das neuroses de transferência como se fossem tentativas feitas pelo ego para se defender contra a sexualidade mas o conceito de libido ficou ameaçado Como os instintos do ego também são libidinais pareceu por certo tempo inevitável que tivéssemos de fazer a libido coincidir com a energia instintiva em geral como C G Jung já advogara anteriormente Não obstante ainda permanecia em mim uma espécie de convicção para a qual ainda não me considerava capaz de encontrar razões de que os instintos não podiam ser todos da mesma espécie Meu passo seguinte foi dado em Mais Além do Princípio do Prazer 1920g quando pela primeira vez a compulsão para repetir e o caráter conservador da vida instintiva atraíram minha atenção Partindo de especulações sobre o começo da vida e de paralelos biológicos concluí que ao lado do instinto para preservar a substância viva e para reunila em unidades cada vez maiores deveria haver outro instinto contrário àquele buscando dissolver essas unidades e conduzilas de volta a seu estado primevo e inorgânico Isso equivalia a dizer que assim como Eros existia também um instinto de morte Os fenômemos da vida podiam ser explicados pela ação concorrente ou mutuamente oposta desses dois instintos Não era fácil contudo demonstrar as atividades desse suposto instintode morte As manifestações de Eros eram visíveis e bastante ruidosas Poderseia presumir que o instinto de morte operava silenciosamente dentro do organismo no sentido de sua destruição mas isso naturalmente não constituía uma prova Uma idéia mais fecunda era a de que uma parte do instinto é desviada no sentido do mundo externo e vem à luz como um instinto de agressividade e destrutividade Dessa maneira o próprio instinto podia ser compelido para o serviço de Eros no caso de o organismo destruir alguma outra coisa inanimada ou animada em vez de destruir o seu próprio eu self Inversamente qualquer restrição dessa agressividade dirigida para fora estaria fadada a aumentar a autodestruição a qual em todo e qualquer caso prossegue Ao mesmo tempo podese suspeitar a partir desse exemplo que os dois tipos de instinto raramente talvez nunca aparecem isolados um do outro mas que estão mutuamente mesclados em proporções variadas e muito diferentes tornandose assim irreconhecíveis para nosso julgamento No sadismo há muito tempo de nós conhecido como instinto componente da sexualidade teríamos à nossa frente um vínculo desse tipo particularmente forte isto é um vínculo entre as tendências para o amor e o instinto destrutivo ao passo que sua contrapartida o masoquismo constituiria uma união entre a destrutividade dirigida para dentro e a sexualidade união que transforma aquilo que de outro modo é uma tendência imperceptível numa outra conspícua e tangível A afirmação da existência de um instinto de morte ou de destruição deparouse com resistências inclusive em círculos analíticos estou ciente de que existe antes uma inclinação freqüente a atribuir o que é perigoso e hostil no amor a uma bipolaridade original de sua própria natureza A princípio foi apenas experimentalmente que apresentei as opiniões aqui desenvolvidas mas com o decorrer do tempo elas conseguiram tal poder sobre mim que não posso mais pensar de outra maneira Para mim elas são muito mais úteis de um ponto de vista teórico do que quaisquer outras possíveis fornecem aquela simplificação sem ignorar ou violentar os fatos pela qual nos esforçamos no trabalho científico Sei que no sadismo e no masoquismo sempre vimos diante de nós manifestações do instinto destrutivo dirigidas para fora e para dentro fortemente mescladas ao erotismo mas não posso mais entender como foi que pudemos ter desprezado a ubiqüidade da agressividade e da destrutividade não eróticas e falhado em concederlhe o devido lugar em nossa interpretação da vida O desejo de destruição quando dirigido para dentro de fato foge grandemente à nossa percepção a menos que estejarevestido de erotismo Recordo minha própria atitude defensiva quando a idéia de um instinto de destruição surgiu pela primeira vez na literatura psicanalítica e quanto tempo levou até que eu me tornasse receptivo a ela Que outros tenham demonstrado e ainda demonstrem a mesma atitude de rejeição surpreendeme menos pois as criancinhas não gostam quando se fala na inata inclinação humana para a ruindade a agressividade e a destrutividade e também para a crueldade Deus nos criou à imagem de Sua própria perfeição ninguém deseja que lhe lembrem como é difícil reconciliar a inegável existência do mal a despeito dos protestos da Christian Science com o Seu poder e a Sua bondade O Demônio seria a melhor saída como desculpa para Deus dessa maneira ele estaria desempenhando o mesmo papel como agente de descarga econômica que o judeu desempenha no mundo do ideal ariano Mas ainda assim podese responsabilizar Deus pela existência do Demônio bem como pela existência da malignidade que este corporifica Em vista dessas dificuldades sernosá mais aconselhável nas ocasiões apropriadas fazer uma profunda reverência à natureza profundamente moral da humanidade isso nos ajudará a sermos populares e por causa disso muita coisa nos será perdoada O nome libido pode mais uma vez ser utilizado para denotar as manifestações do poder de Eros a fim de distinguilas da energia do instinto de morte Devese confessar que temos uma dificuldade muito maior em apreender esse instinto podemos apenas suspeitálo por assim dizer como algo situado em segundo plano por trás de Eros fugindo à detecção a menos que sua presença seja traída pelo fato de estar ligado a Eros É no sadismo onde o instinto de morte deforma o objetivo erótico em seu próprio sentido embora ao mesmo tempo satisfaça integralmente o impulso erótico que conseguimos obter a mais clara compreensão interna insight de sua natureza e de sua relação com Eros Contudo mesmo onde ele surge sem qualquer intuito sexual na mais cega fúria de destrutividade não podemos deixar de reconhecer que a satisfação do instinto se faz acompanhar por um grau extraordinariamente alto de fruição narcísica devido ao fato de presentear o ego com a realização de antigos desejos de onipotência deste último O instinto de destruição moderado e domado e por assim dizer inibido em sua finalidade deve quando dirigido para objetos proporcionar ao ego a satisfação de suas necessidades vitais e o controle sobre a natureza Como a afirmação da existência do instinto se baseia principalmente em fundamentos teóricos temos também de admitir que ela não se acha inteiramente imune a objeções teóricas Mas é assim que as coisas se nos apresentam atualmente no presente estado de nosso conhecimento a pesquisa e a reflexão futuras indubitavelmente trarão novas luzes decisivas para esse tema Em tudo o que se segue adoto portanto o ponto de vista de que a inclinação para a agressão constitui no homem uma disposição instintiva original e autosubsistente e retorno à minha opiniãover 1 de que ela é o maior impedimento à civilização Em determinado ponto do decorrer dessa investigação ver 1 fui conduzido à idéia de que a civilização constituía um processo especial que a humanidade experimenta e ainda me acho sob a influência dela Posso agora acrescentar que a civilização constitui um processo a serviço de Eros cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados depois famílias e depois ainda raças povos e nações numa únicagrande unidade a unidade da humanidade Porque isso tem de acontecer não sabemos o trabalho de Eros é precisamente este Essas reuniões de homens devem estar libidinalmente ligadas umas às outras A necessidade as vantagens do trabalho em comum por si sós não as manterão unidas Mas o natural instinto agressivo do homem a hostilidade de cada um contra todos e a de todos contra cada um se opõe a esse programa da civilização Esse instinto agressivo é o derivado e o principal representante do instinto de morte que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo Agora penso eu o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte entre o instinto de vida e o instinto de destruição tal como ela se elabora na espécie humana Nessa luta consiste essencialmente toda a vida e portanto a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida E é essa batalha de gigantes que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar sobre o Céu VII Por que nossos parentes os animais não apresentam uma luta cultural desse tipo Não sabemos Provavelmente alguns deles as abelhas as formigas as térmitas batalharam durante milhares de anos antes de chegarem às instituições estatais à distribuição de funções e às restrições ao indivíduo pelas quais hoje os admiramos Constitui um sinal de nossa condição atual o fato de sabermos por nossos próprios sentimentos que não nos sentiríamos felizes em quaisquer desses Estados animais ou em qualquer dos papéis neles atribuídos ao indivíduo No caso das outras espécies animais pode ser que um equilíbrio temporário tenha sido alcançado entre as influências de seu meio ambiente e os instintos mutuamente conflitantes dentro delas havendo ocorrido assim uma cessação de desenvolvimento Pode ser que no homem primitivo um novo acréscimo de libido tenha provocado um surto renovado de atividade por parte do instinto destrutivo Temos aqui muitas questões para as quais ainda não existe resposta Outra questão nos interessa mais de perto Quais os meios que a civilização utiliza para inibir a agressividade que se lhe opõe tornála inócua ou talvez livrarse dela Já nos familiarizamos com alguns desses métodos mas ainda não com aquele que parece ser o mais importante Podemos estudálo na história do desenvolvimento do indivíduo O que acontece neste para tornar inofensivo seu desejo de agressão Algo notável que jamais teríamos adivinhado e que não obstante é bastante óbvio Sua agressividade é introjetada internalizada ela é na realidade enviada de volta para o lugar de onde proveio isto é dirigida no sentido de seu próprio ego Aí é assumida por uma parte do ego que se coloca contra o resto do ego como superego e que então sob a forma de consciência está pronta para pôr em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos a ele estranhos A tensão entre o severo superego e o ego que a ele se acha sujeito é por nós chamada de sentimento de culpa expressase como uma necessidade de punição A civilização portanto consegue dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo enfraquecendoo desarmandoo e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele como uma guarnição numa cidade conquistada Quanto à origem do sentimento de culpa as opiniões do analista diferem das dos outros psicólogos embora também ele não ache fácil descrevêlo Inicialmente se perguntarmos como uma pessoa vem a ter sentimento deculpa chegaremos a uma resposta indiscutível uma pessoa sentese culpada os devotos diriam pecadora quando fez algo que sabe ser mau Reparamos porém em quão pouco essa resposta nos diz Talvez após certa hesitação acrescentemos que mesmo quando a pessoa não fez realmente uma coisa má mas apenas identificou em si uma intenção de fazêla ela pode encarar se como culpada Surge então a questão de saber por que a intenção é considerada equivalente ao ato Ambos os casos contudo pressupõem que já se tenha reconhecido que o que é mau é repreensível é algo que não deve ser feito Como se chega a esse julgamento Podemos rejeitar a existência de uma capacidade original por assim dizer natural de distinguir o bom do mau O que é mau freqüentemente não é de modo algum o que é prejudicial ou perigoso ao ego pelo contrário pode ser algo desejável pelo ego e prazeroso para ele Aqui portanto está em ação uma influência estranha que decide o que deve ser chamado de bom ou mau De uma vez que os próprios sentimentos de uma pessoa não a conduziriam ao longo desse caminho ela deve ter um motivo para submeterse a essa influência estranha Esse motivo é facilmente descoberto no desamparo e na dependência dela em relação a outras pessoas e pode ser mais bem designado como medo da perda de amor Se ela perde o amor de outra pessoa de quem é dependente deixa também de ser protegida de uma série de perigos Acima de tudo fica exposta ao perigo de que essa pessoa mais forte mostre a sua superioridade sob forma de punição De início portanto mau é tudo aquilo que com a perda do amor nos faz sentir ameaçados Por medo dessa perda devese evitálo Esta também é a razão por que faz tão pouca diferença que já se tenha feito a coisa má ou apenas se pretenda fazêla Em qualquer um dos casos o perigo só se instaura se e quando a autoridade descobrilo e em ambos a autoridade se comporta da mesma maneira Esse estado mental é chamado de má consciência na realidade porém não merece esse nome pois nessa etapa o sentimento de culpa é claramente apenas um medo da perda de amor uma ansiedade social Em crianças ele nunca pode ser mais do que isso e em muitos adultos ele só se modifica até o ponto em que o lugar do pai ou dos dois genitores é assumido pela comunidade humana mais ampla Por conseguinte tais pessoas habitualmente se permitem fazer qualquer coisa má que lhes prometa prazer enquanto se sentem seguras de que a autoridade nada saberá a respeito ou não poderá culpálas por isso só têm medo de serem descobertas A sociedade atual geralmente vêse obrigada a levar em conta esse estado mental Uma grande mudança só se realiza quando a autoridade é internalizada através do estabelecimento de um superego Os fenômenos da consciência atingem então um estágio mais elevado Na realidade então devemos falar de consciência ou de sentimento de culpa Nesse ponto também o medo de ser descoberto se extingue além disso a distinção entre fazer algo mau e desejar fazêlo desaparece inteiramente já que nada pode ser escondido do superego sequer os pensamentos É verdade que a seriedade da situação de um ponto de vista real se dissipou pois a nova autoridade o superego ao que saibamos não tem motivos para maltratar o ego com o qual está intimamente ligado contudo a influência genética que conduz à sobrevivência do que passou e foi superado fazse sentir no fato de fundamentalmente as coisas permanecerem como eram de início O superego atormenta o ego pecador com o mesmo sentimento de ansiedade e fica à espera de oportunidades para fazêlo ser punido pelo mundo externo Nesse segundo estágio de desenvolvimento a consciência apresenta uma peculiaridade que se achava ausente do primeiro e que não é mais fácil de explicar pois quanto mais virtuoso um homem é mais severo e desconfiado é o seu comportamento de maneira que em última análise são precisamente as pessoas que levaram mais longe a santidade as que se censuram da pior pecaminosidade Isso significa que a virtude perde direito a uma certa parte da recompensa prometida o ego dócil e continente não desfruta da confiança de seu mentor e é em vão que se esforça segundo parece por adquirila Farseá imediatamente a objeção de que essas dificuldades são artificiais e dirseà que uma consciência mais estrita e mais vigilante constitui precisamente a marca distintiva de um homem moral Além disso quando os santos se chamam a si próprios de pecadores não estão errados considerandose as tentações à satisfação instintiva a que se encontram expostos em grau especialmente alto já que como todossabem as tentações são simplesmente aumentadas pela frustração constante ao passo que a sua satisfação ocasional as faz diminuir ao menos por algum tempo O campo da ética tão cheio de problemas nos apresenta outro fato a má sorte isto é a frustração externa acentua grandemente o poder da consciência no superego Enquanto tudo corre bem com um homem a sua consciência é lenitiva e permite que o ego faça todo tipo de coisas entretanto quando o infortúnio lhe sobrevém ele busca sua alma reconhece sua pecaminosidade eleva as exigências de sua consciência impõese abstinência e se castiga com penitências Povos inteiros se comportaram dessa maneira e ainda se comportam Isso contudo é facilmente explicado pelo estágio infantil original da consciência o qual como vemos não é abandonado após a introjeção no superego persistindo lado a lado e por trás dele O Destino é encarado como um substituto do agente parental Se um homem é desafortunado isso significa que não é mais amado por esse poder supremo e ameaçado por essa falta de amor mais uma vez se curva ao representante paterno em seu superego representante que em seus dias de boa sorte estava pronto a desprezar Esse fato se torna especialmente claro quando o Destino é encarado segundo o sentido estritamente religioso de nada mais ser do que uma expressão da Vontade Divina O povo de Israel acreditava ser o filho favorito de Deus e quando o grande Pai fez com que infortúnios cada vez maiores desabassem sobre seu povo jamais a crença em Seu relacionamento com eles se abalou nem o Seu poder ou justiça foi posto em dúvida Pelo contrário foi então que surgiram os profetas que apontaram a pecaminosidade desse povo e de seu sentimento de culpa criaramse os mandamentos superestritos de sua religião sacerdotal É digno de nota o comportamento tão diferente do homem primitivo Se ele se defronta com um infortúnio não atribui a culpa a si mesmo mas a seu fetiche que evidentemente não cumpriu o dever e dálhe uma surra em vez de se punir a si mesmo Conhecemos assim duas origens do sentimento de culpa uma que surge do medo de uma autoridade e outra posterior que surge do medo dosuperego A primeira insiste numa renúncia às satisfações instintivas a segunda ao mesmo tempo em que faz isso exige punição de uma vez que a continuação dos desejos proibidos não pode ser escondida do superego Aprendemos também o modo como a severidade do superego as exigências da consciência deve ser entendida Tratase simplesmente de uma continuação da severidade da autoridade externa à qual sucedeu e que em parte substituiu Percebemos agora em que relação a renúncia ao instinto se acha com o sentimento de culpa Originalmente renúncia ao instinto constituía o resultado do medo de uma autoridade externa renunciavase às próprias satisfação para não se perder o amor da autoridade Se se efetuava essa renúncia ficavase por assim dizer quite com a autoridade e nenhum sentimento de culpa permaneceria Quanto ao medo do superego porém o caso é diferente Aqui a renúncia instintiva não basta pois o desejo persiste e não pode ser escondido do superego Assim a despeito da renúncia efetuada ocorre um sentimento de culpa Isso representa uma grande desvantagem econômica na construção de um superego ou como podemos dizer na formação de uma consciência Aqui a renúncia instintiva não possui mais um efeito completamente liberador a continência virtuosa não é mais recompensada com a certeza do amor Uma ameaça de infelicidade externa perda de amor e castigo por parte da autoridade externa foi permutada por uma permanente infelicidade interna pela tensão do sentimento de culpa Essas interrelações são tão complicadas e ao mesmo tempo tão importantes que ao risco de me repetir as abordarei ainda de outro ângulo A seqüência cronológica então seria a seguinte Em primeiro lugar vem a renúncia ao instinto devido ao medo de agressão por parte da autoridade externa É a isso naturalmente que o medo da perda de amor equivale pois o amor constitui proteção contra essa agressão punitiva Depois vem a organização de uma autoridade interna e a renúncia ao instinto devido ao medo dela ou seja devido ao medo da consciência Nessa segunda situação as más intenções são igualadas às más ações e daí surgem sentimento de culpa e necessidade de punição A agressividade da consciência continua a agressividade da autoridade Até aqui sem dúvida as coisas são claras mas onde é que isso deixa lugar para a influência reforçadora do infortúnio da renúncia imposta de foraver 1 e para a extraordinária severidade da consciência nas pessoas melhores e mais dóceis ver 1Já explicamos essasparticularidades da consciência mas provavelmente ainda temos a impressão de que essas explicações não atingem o fundo da questão e deixam ainda inexplicado um resíduo Aqui por fim surge uma idéia que pertence inteiramente à psicanálise sendo estranha ao modo comum de pensar das pessoas Essa idéia é de um tipo que nos capacita a compreender por que o tema geral estava fadado a nos parecer confuso e obscuro pois nos diz que de início a consciência ou de modo mais correto a ansiedade que depois se torna consciência é na verdade a causa da renúncia instintiva mas que posteriormente o relacionamento se inverte Toda renúncia ao instinto tornase agora uma fonte dinâmica de consciência e cada nova renúncia aumenta a severidade e a intolerância desta última Se pudéssemos colocar isso mais em harmonia com o que já sabemos sobre a história da origem da consciência ficaríamos tentados a defender a afirmativa paradoxal de que a consciência é o resultado da renúncia instintiva ou que a renúncia instintiva imposta a nós de fora cria a consciência a qual então exige mais renúncias instintivas A contradição entre essa afirmativa e o que anteriormente dissemos sobre a gênese da consciência não é na realidade tão grande e vemos uma maneira de reduzila ainda mais A fim de facilitar nossa exposição tomemos como exemplo o instinto agressivo e suponhamos que a renúncia em estudo seja sempre uma renúncia à agressão Isso naturalmente só deve ser tomado como uma suposição temporária O efeito da renúncia instintiva sobre a consciência então é que cada agressão de cuja satisfação o indivíduo desiste é assumida pelo superego e aumenta a agressividade deste contra o ego Isso não se harmoniza bem com o ponto de vista segundo o qual a agressividade original da consciência é uma continuação da severidade da autoridade externa não tendo portanto nada a ver com a renúncia Mas a discrepância se anulará se postularmos uma derivação diferente para essa primeira instalação da agressividade do superego É provável que na criança se tenha desenvolvido uma quantidade considerável de agressividade contra a autoridade que a impede de ter suas primeiras e também mais importantes satisfações não importando o tipo de privação instintiva que dela possa ser exigida Ela porém é obrigada a renunciar à satisfação dessa agressividade vingativa e encontra saída para essa situação economicamente difícil com o auxílio de mecanismos familiares Através da identificação incorpora a si a autoridade inatacável Esta transformase então em seu superego entrando na posse de toda a agressividade que a criança gostaria de exercer contra ele O ego da criança tem de contentarse com o papel infeliz da autoridade o pai que foi assim degradada Aqui como tão freqüentemente acontece a situação real é invertida Se eu fosse o pai e você fosse a criança eu otrataria muito mal O relacionamento entre o superego e o ego constitui um retorno deformado por um desejo dos relacionamentos reais existentes entre o ego ainda individido e um objeto externo Isso também é típico A diferença essencial porém é que a severidade original do superego não representa ou não representa tanto a severidade que dele do objeto se experimentou ou que se lhe atribui Representa antes nossa própria agressividade para com ele Se isso é correto podemos verdadeiramente afirmar que de início a consciência surge através da repressão de um impulso agressivo sendo subseqüentemente reforçada por novas repressões do mesmo tipo Qual destes dois pontos de vista é correto O primeiro que geneticamente parecia tão inexpugnável ou o último que de maneira tão bemvinda apara as arestas da teoria Claramente e também pelas provas de observações diretas ambos se justificam Não contradizem mutuamente e até mesmo coincidem em determinado ponto pois a agressividade vingativa da criança será em parte determinada pela quantidade de agressão punitiva que espera do pai A experiência mostra contudo que a severidade do superego que uma criança desenvolve de maneira nenhuma corresponde à severidade de tratamento com que ela própria se defrontou A severidade do primeiro parece ser independente da do último Uma criança criada de forma muito suave pode adquirir uma consciência muito estrita No entanto também seria errado exagerar essa independência não é difícil nos convencermos de que a severidade da criação também exerce uma forte influência na formação do superego da criança Isso significa que na formação do superego e no surgimento da consciência fatores constitucionais inatos e influências do ambiente real atuam de forma combinada O que de modo algum é surpreendente ao contrário tratase de uma condição etiológica universal para todos os processos desse tipo Podese também asseverar que quando uma criançareage às suas primeiras grandes frustrações instintivas com uma agressividade excessivamente forte e um superego correspondentemente severo ela está seguindo um modelo filogenético e indo além da reação que seria correntemente justificada pois o pai dos tempos pré históricos era indubitavelmente terrível e uma quantidade extrema de agressividade lhe pode ser atribuída Assim se passarmos do desenvolvimento individual para o desenvolvimento filogenético as diferenças entre as duas teorias da gênese da consciência ficam menores ainda Por outro lado uma nova e importante diferença aparece entre esses dois processos de desenvolvimento Não podemos afastar a suposição de que o sentimento de culpa do homem se origina do complexo edipiano e foi adquirido quando da morte do pai pelos irmãos reunidos em bando Naquela ocasião um ato de agressão não foi suprimido mas executado foi porém o mesmo ato de agressão cuja repressão na criança se imagina ser a fonte de seu sentimento de culpa Nesse ponto não me surpreenderei se o leitor exclamar com raiva Então não faz diferença que se mate o pai ou não ficase com um sentimento de culpa do mesmo jeito Pedimos licença para levantar algumas dúvidas Ou não é verdade que o sentimento de culpa provém da agressividade reprimida ou então toda a história da morte do pai é uma ficção e os filhos do homem primevo não mataram os pais mais do que as crianças o fazem atualmente Além disso se não for ficção mas fato histórico plausível seria o caso de acontecer algo que todos esperam que aconteça ou melhor uma pessoa se sentir culpada porque realmente fez algo que não pode ser justificado E para esse evento que afinal de contas constitui uma ocorrência cotidiana a psicanálise ainda não forneceu qualquer explicação Tudo isso é verdade e temos de corrigir a omissão Tampouco existe qualquer grande segredo quanto ao assunto Quando se fica com um sentimento de culpa depois de ter praticado uma má ação e por causa dela o sentimento deveria mais propriamente ser chamado de remorso Este se refere apenas a um ato que foi cometido e naturalmente pressupõe que uma consciência a presteza em se sentir culpado já existia antes que o ato fosse praticado Um remorso desse tipo portanto jamais pode ajudarnos a descobrir a origem da consciência e do sentimento de culpa em geral O que acontece nesses casos cotidianos é geralmente o seguinte uma necessidade instintiva adquire intensidade para alcançar satisfação a despeito da consciência que afinal de contas é limitada em sua força e com o debilitamentonatural da necessidade devido a ter sido satisfeita o equilíbrio anterior de forças é restaurado A psicanálise encontra assim uma justificativa para excluir do presente exame o caso do sentimento de culpa devido ao remorso por mais freqüentemente que tais casos ocorram e por grande que seja sua importância prática Mas se o sentimento humano de culpa remonta à morte do pai primevo tratase afinal de contas de um caso de remorso Por ventura não devemos supor que nessa época uma consciência e um sentimento de culpa como pressupomos já existiam antes daquele feito Se não existiam de onde então proveio o remorso Não há dúvida de que esse caso nos explicaria o segredo do sentimento de culpa e poria fim às nossas dificuldades E acredito que o faz Esse remorso constituiu o resultado da ambivalência primordial de sentimentos para com o pai Seus filhos o odiavam mas também o amavam Depois que o ódio foi satisfeito pelo ato de agressão o amor veio para o primeiro plano no remorso dos filhos pelo ato Criou o superego pela identificação com o pai deu a esse agente o poder paterno como uma punição pelo ato de agressão que haviam cometido contra aquele e criou as restrições destinadas a impedir uma repetição do ato E visto que a inclinação à agressividade contra o pai se repetiu nas gerações seguintes o sentimento de culpa também persistiu cada vez mais fortalecido por cada parcela de agressividade que era reprimida e transferida para o superego Ora penso eu finalmente podemos apreender duas coisas de modo perfeitamente claro o papel desempenhado pelo amor na origem da consciência e a fatal inevitabilidade do sentimento de culpa Matar o próprio pai ou absterse de matálo não é realmente a coisa decisiva Em ambos os casos todos estão fadados a sentir culpa porque o sentimento de culpa é expressão tanto do conflito devido à ambivalência quanto da eterna luta entre Eros e o instinto de destruição ou morte Esse conflito é posto em ação tão logo os homens se defrontem com a tarefa de viverem juntos Enquanto a comunidade não assume outra forma que não seja a da família o conflito está fadado a se expressar no complexo edipiano a estabelecer a consciência e a criar o primeiro sentimento de culpa Quando se faz uma tentativa para ampliar a comunidade o mesmo conflito continua sob formas que dependem do passado é fortalecido e resulta numa intensificação adicional do sentimento de culpa Visto que a civilização obedece a um impulso erótico interno que leva os seres humanos a se unirem num grupo estreitamente ligado ela só pode alcançar seu objetivo através de um crescente fortalecimento do sentimento de culpa O que começou em relação ao pai é completado em relação ao grupo Se a civilização constitui o caminho necessário de desenvolvimento da família à humanidade como um todo então em resultado do conflito inato surgido da ambivalência da eterna luta entre as tendências de amor e de morte achase a ele inextricavelmente ligado um aumento do sentimento de culpa que talvez atinja alturas que o indivíduo considere difíceis de tolerar Aqui somos lembrados da comovente denúncia dos Poderes Celestes feita pelo grande poeta lhr führt ins Leben uns hineinlhr lasst den Armen schuldig werdenDann überlasst lhr den PeinDenn iede Schuld rächt sich auf Erden E bem podemos suspirar aliviados ante o pensamento de que apesar de tudo a alguns é concedido salvar sem esforço do torvelinho de seus próprios sentimentos as mais profundas verdades em cuja direção o resto de nós tem de encontrar o caminho por meio de uma incerteza atormentadora e com um intranqüilo tatear VIII Chegando ao fim de sua jornada o autor se vê obrigado a pedir o perdão dos leitores por não ter sido um guia mais hábil e por não lhes ter poupado as regiões mais ásperas da estrada e os desconfortáveis détours Não há dúvida de que isso poderia ter sido feito de forma melhor Tentarei já findando o dia proceder a algumas correções Em primeiro lugar desconfio que o leitor tem a impressão de que nosso exame do sentimento de culpa quebra a estrutura deste ensaio que ocupa espaço demais de maneira que o resto do tema geral ao qual não se acha sempre estreitamente vinculado é posto de lado Isso pode ter prejudicado a estrutura do trabalho mas corresponde fielmente à minha intenção de representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização e de demonstrar que o preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensifica ção do sentimento de culpaQualquer coisa que ainda soe estranha a respeito dessa afirmação que constitui a conclusão final de nossa investigação pode ser provavelmente localizada no relacionamento bastante peculiar até agora completamente inexplicado que o sentimento de culpa mantém com nossa consciência No caso comum de remorso que encaramos como normal esse sentimento se torna claramente perceptível para a consciência Na verdade estamos habituados a falar de uma consciência de culpa em vez de um sentimento de culpa Nosso estudo das neuroses ao qual afinal decontas devemos as mais valiosas indicações para uma compreensão das condições normais nos leva de encontro a certas contradições Numa des sas afecções a neurose obsessiva o sentimento de culpa fazse ruidosamente ouvido na consciência domina o quadro clínico e também a vida do paciente mal permitindo que apareça algo mais ao lado dele Entretanto na maioria dos outros casos e formas de neurose ele permanece completamente inconsciente sem que por isso produza efeitos menos importantes Nossos pacientes não acreditam em nós quando lhes atribuímos um sentimento de culpa inconsciente A fim de nos tornarmos inteligíveis para eles falamoslhes de uma necessidade inconsciente de punição na qual o sentimento de culpa encontra expressão Apesar disso sua vinculação a uma forma específica de neurose não deve ser superestimada Mesmo na neurose obsessiva há tipos de pacientes que não se dão conta de seu sentimento de culpa ou que apenas o sentem como um malestar atormentador uma espécie de ansiedade se impedidos de praticar certas ações Deveria ser possível chegar a compreender essas coisas mas até agora não nos foi possível Aqui talvez nos possamos alegrar por termos assinalado que no fundo o sentimento de culpa nada mais é do que uma variedade topográfica da ansiedade em suas fases posteriores coincide completamente com o medo do superego E as relações da ansiedade com a consciência apresentam as mesmas e extraordinárias variações A ansiedade está sempre presente num lugar ou outro por trás de todo sintoma em determinada ocasião porém toma ruidosamente posse da totalidade da consciência ao passo que em outra se oculta tão completamente que somos obrigados a falar de ansiedade inconsciente ou se desejamos ter uma consciência psicológica mais clara visto a ansiedade ser no primeiro caso simplesmente um sentimento das possibilidades de ansiedade Por conseguinte é bastante concebível que tampouco o sentimen to de culpa produzido pela civilização seja percebido como tal e em grande parte permaneça inconsciente ou apareça como uma espécie de malestar uma insatisfação para a qual as pessoas buscam outras motivações As religiões pelo menos nunca desprezaram o papel desempenhado na civilização pelo sentimento de culpa Ademais ponto que deixei de apreciar em outro trabalho elas alegam redimir a humanidade desse sentimento de culpa a que chamam de pecado Da maneira pela qual no cristianismo essa redenção é conseguida pela morte sacrificial de uma pessoa isolada que desse modo toma sobre si mesma a culpa comum a todos consegui mos inferir qual pode ter sido a primeira ocasião em que essa culpa primária que constitui também o primórdio da civilização foi adquirida Embora talvez não seja de grande importância não é supérfluo elucidar o significado de certas palavras tais como superego consciência sentimento de culpa necessidade de punição e remorso as quais é possível que muitas vezes tenhamos utilizado de modo frouxo e intercambiável Todas se relacionam ao mesmo estado de coisas mas denotam diferentes aspectos seus O superego é um agente que foi por nós inferido e a consciência constitui uma função que entre outras atribuímos a esse agente A função consiste em manter a vigilância sobre as ações e as intenções do ego e julgálas exercendo sua censura O sentimento de culpa a severidade do superego é portanto o mesmo que a severidade da consciência É a percepção que o ego tem de estar sendo vigiado dessa maneira a avaliação da tensão entre os seus próprios esforços e as exigências do superego O medo desse agente crítico medo que está no fundo de todo relacionamento a necessidade de punição constitui uma manifestação instintiva por parte do ego que se tornou masoquista sob a influência de um superego sádico é por assim dizer uma parcela do instinto voltado para a destruição interna presente no ego empregado para formar uma ligação erótica com o superego Não devemos falar de consciência até que um superego se ache demonstravelmente presente Quanto ao sentimento de culpa temos de admitir que existe antes do superego e portanto antes da consciência também Nessa ocasião ele é expressão imediata do medo da autoridade externa um reconhecimento da tensão existente entre o ego e essa autoridade É o derivado direto do conflito entre a necessidade do amor da autoridade e o impulso no sentido da satisfação instintiva cuja inibição produz a inclinação para a agressão A superposição desses dois estratos do sentimento de culpa um oriundo do medo da autoridade externa o outro do medo da autoridade interna dificultou nossa compreensão interna insight da posição da consciência por certo número de maneiras Remorso é um termo geral para designar a reação do ego num caso de sentimento de culpa Contém emforma pouco alterada o material sensorial da ansiedade que opera por trás do sentimento de culpa ele próprio é uma punição ou pode incluir a necessidade de punição podendo portanto ser também mais antigo do que a consciência Tampouco fará mal que passemos mais uma vez em revista as contradições que nos confundiram durante algum tempo no correr de nossa investigação Assim em determinado ponto o sentimento de culpa era a conseqüência dos atos de agressão de que alguém se abstivera em outro porém exatamente em seu começo histórico a morte do pai constituía a conseqüência de um ato de agressão que fora executadover 1 Encontrouse uma saída para essa dificuldade pois a instituição da autoridade interna o superego alterou radicalmente a situação Antes disso o sentimento de culpa coincidia com o remorso Podemos observar incidentalmente que o termo remorso deveria ser reservado para a reação que surge depois de um ato de agressão ter sido realmente executado Posteriormente devido à onisciência do superego a diferença entre uma agressão pretendida e uma agressão executada perdeu sua força Daí por diante o sentimento de culpa podia ser produzido não apenas por um ato de violência realmente efetuado como todos sabem mas também por um ato simplesmente pretendido como a psicanálise descobriu Independentemente dessa alteração na situação psicológica o conflito que surge da ambivalência o conflito entre os dois instintos primitivos deixa atrás de si o mesmo resultadover 1 Somos tentados a procurar aqui a solução do problema da relação variável em que o sentimento de culpa se acha para com a consciência Podese pensar que o sentimento de culpa surgido do remorso por uma ação má deve ser sempre consciente ao passo que o sentimento de culpa originado da percepção de um impulso mau pode permanecer inconsciente Contudo a resposta não é tão simples assim A neurose obsessiva fala energicamente contra ela A segunda contradição se referia à energia agressiva da qual supomos dotado o superego Segundo determinado ponto de vista essa energia simplesmente continua a energia punitiva da autoridade externa e a mantém viva na mentever 1 ao passo que de acordo com outra opinião ela consiste pelo contrário na própria energia agressiva que não foi uti lizada e que agora se dirige contra essa autoridade inibidoraver 1 A primeira visão parecia ajustarse melhor à história e a segunda à teoria do sentimento de culpa Uma reflexão mais adequada resolveu essa contradição aparentemente irreconciliável de modo quase excessivamente completo o que restou como fator essencial e comum foi que em cada caso se lida com uma agressividadedeslocada para dentro A observação clínica ademais nos permite de fato distinguir duas fontes para a agressividade que atribuímos ao superego ou uma ou outra exerce o efeito mais forte em qualquer caso determinado mas em geral operam em harmonia É este penso eu o lugar para apresentar a uma consideração séria uma opinião que anteriormente recomendei para aceitação provisória Na literatura analítica mais recente mostrase predileção pela idéia de que qualquer tipo de frustração qualquer satisfação instintiva frustrada resulta ou pode resultar numa elevação do sentimento de culpa Acho que se conseguirá uma grande simplificação teórica se se encarar isso como sendo aplicável apenas aos instintos agressivos e não se encontrará quase nada que contradiga essa afirmação Pois como devemos explicar em fundamentos dinâmicos e econômicos um aumento no sentimento de culpa que aparece no lugar de uma exigência erótica não satisfeita Isso só parece possível de maneira indireta se supusermos que a prevenção de uma satisfação erótica exige uma agressividade contra a pessoa que interferiu na satisfação e que essa própria agressividade por sua vez tem de ser recalcada Se as coisas se passam assim é em suma apenas a agressividade que é transformada em sentimento de culpa por ter sido recalcada e transmitida para o superego Estou convencido de que muitos processos admitirão exposição mais simples e mais clara se as descobertas da psicanálise sobre a derivação do sentimento de culpa forem restringidas aos instintos agressivos O exame do material clínico não nos fornece aqui uma resposta inequívoca porque como nossa hipótese nos diz os dois tipos de instinto dificilmente aparecem em forma pura isolados um do outro e uma investigação dos casos extremos provavelmente apontaria para a direção por mim prevista Sintome tentado a extrair uma primeira vantagem dessa visão mais restrita do caso aplicandoa ao processo da repressão Conforme aprendemos os sintomas neuróticos são em sua essência satisfações substitutivas para desejos sexuais não realizados No decorrer de nosso trabalho analítico descobrimos para nossa surpresa que talvez toda neurose oculte uma quota de sentimento inconsciente de culpa o qual por sua vez fortifica os sintomas fazendo uso deles como punição Agora parece plausível formular a seguinte proposição quando uma tendência instintiva experimenta a repressão seus elementos libidinais são transformadosem sintomas e seus componentes agressivos em sentimento de culpa Mesmo que essa proposição não passe de uma aproximação mediana à verdade é digna de nosso interesse Alguns leitores deste trabalho podem ainda ter a impressão de que já ouviram de modo demasiado freqüente a fórmula sobre a luta entre Eros e o instinto de morte Ela foi não só empregada para caracterizar o processo de civilização que a humanidade sofrever 1mas também vinculada ao desenvolvimento do indivíduo ver 1 e além disso dela se disse que revelou o segredo da vida orgânica em geralver 1 Acho que não podemos deixar de penetrar nas relações existentes entre esses três processos A repetição da mesma fórmula se justifica pela consideração de que tanto o processo da civilização humana quanto o do desenvolvimento do indivíduo são também processos vitais o que equivale a dizer que devem partilhar a mesma característica mais geral da vida Por outro lado as provas da presença dessa característica geral pela razão mesma de sua natureza geral fracassam em nos ajudar a estabelecer qualquer diferenciação entre os processos enquanto não for reduzida por limitações especiais Só podemos ficar satisfeitos portanto afirmando que o processo civilizatório constitui uma modificação que o processo vital experimenta sob a influência de uma tarefa que lhe é atribuída por Eros e incentivada por Ananké pelas exigências da realidade e que essa tarefa é a de unir indivíduos isolados numa comunidade ligada por vínculos libidinais Quando porém examinamos a relação existente entre o processo desenvolvimental ou educativo dos seres humanos individuais devemos concluir sem muita hesitação que os dois apresentam uma natureza muito semelhante caso não sejam o mesmo processo aplicado a tipos diferentes de objeto O processo da civilização da espécie humana é naturalmente uma abstração de ordem mais elevada do que a do desenvolvimento do indivíduo sendo portanto de mais difícil apreensão em termos concretos tampouco devemos perseguir as analogias a um extremo obsessivo Contudo diante da semelhança entre os objetivos dos dois processos num dos casos a integração de um indivíduo isolado num grupo humano no outro a criação de um grupo unificado a partir de muitos indivíduos não podemos surpreendernos com a similaridade entre os meios empregados e os fenômenos resultantes Em vista de sua excepcional importância não devemos adiar mais a menção de determinado aspecto que estabelece a distinção entre os dois processos No processo de desenvolvimento do indivíduo o programa do princípio do prazer que consiste em encontrar a satisfação da felicidade é mantido como objetivo principal A integração numa comunidade humanaou a adaptação a ela aparece como uma condição dificilmente evitável que tem de ser preenchida antes que esse objetivo de felicidade possa ser alcançado Talvez fosse preferível que isso pudesse ser feito sem essa condição Em outras palavras o desenvolvimento do indivíduo nos parece ser um produto da interação entre duas premências a premência no sentido da felicidade que geralmente chamamos de egoísta e a premência no sentido da união com os outros da comunidade que chamamos de altruísta Nenhuma dessas descrições desce muito abaixo da superfície No processo de desenvolvimento individual como dissemos a ênfase principal recai sobretudo na premência egoísta ou a premência no sentido da felicidade ao passo que a outra premência que pode ser descrita como cultural geralmente se contenta com a função de impor restrições No processo civilizatório porém as coisas se passam de modo diferente Aqui de longe o que mais importa é o objetivo de criar uma unidade a partir dos seres humanos individuais É verdade que o objetivo da felicidade ainda se encontra aí mas relegado ao segundo plano Quase parece que a criação de uma grande comunidade humana seria mais bemsucedida se não se tivesse de prestar atenção à felicidade do indivíduo Assim pode se esperar que o processo desenvolvimental do indivíduo apresente aspectos especiais próprios dele que não são reproduzidos no processo da civilização humana É apenas na medida em que está em união com a comunidade como objetivo seu que o primeiro desses processos precisa coincidir com o segundo Assim como um planeta gira em torno de um corpo central enquanto roda em torno de seu próprio eixo assim também o indivíduo humano participa do curso do desenvolvimento da humanidade ao mesmo tempo que persegue o seu próprio caminho na vida Para nossos olhos enevoados porém o jogo de forças nos céus parece fixado numa ordem que jamais muda no campo da vida orgânica ainda podemos perceber como as forças lutam umas com as outras e como os efeitos desse conflito estão em permanente mudança Assim também as duas premências a que se volta para a felicidade pessoal e a que se dirige para a união com os outros seres humanos devem lutar entre si em todo indivíduo e assim também os dois processos de desenvolvimento o individual e o cultural têm de colocarse numa oposição hostil um para com o outro e disputarse mutuamente a posse do terreno Contudo essa luta entre o indivíduo e a sociedade não constitui um derivado da contradição provavelmente irreconciliável entre os instintos primevos de Eros e da morte Tratase de uma luta dentro da economia da libido comparável àquela referente à distribuição da libido entre o ego e os objetos admitindo uma acomodação final no indivíduo tal como podese esperar também o fará no futuro da civilização por mais que atualmente essa civilização possa oprimir a vida do indivíduo A analogia entre o processo civilizatório e o caminho do desenvolvimento individual é passível de ser ampliada sob um aspecto importante Podese afirmar que também a comunidade desenvolve um superego sob cuja influência se produz a evolução cultural Constituiria tarefa tentadora para todo aquele que tenha um conhecimento das civilizações humanas acompanhar pormenorizadamente essa analogia Limitarmeei a apresentar alguns pontos mais notáveis O superego de uma época de civilização tem origem semelhante à do superego de um indivíduo Ele se baseia na impressão deixada atrás de si pelas personalidades dos grandes líderes homens de esmagadora força de espírito ou homens em quem um dos impulsos humanos encontrou sua expressão mais forte e mais pura e portanto quase sempre mais unilateral Em muitos casos a analogia vai mais além como no fato de durante a sua vida essas figuras com bastante freqüência ainda que não sempre terem sido escarnecidas e maltratadas por outros e até mesmo liquidadas de maneira cruel Do mesmo modo na verdade o pai primevo não atingiu a divindade senão muito tempo depois de ter encontrado a morte pela violência O exemplo mais evidente dessa conjunção fatídica pode ser visto na figura de Jesus Cristo se em verdade essa figura não faz parte da mitologia que a conclamou à existência a partir de uma obscura lembrança daquele evento primevo Outro ponto de concordância entre o superego cultural e o individual é que o primeiro tal como o último estabelece exigências ideais estritas cuja desobediência é punida pelo medo da consciênciaver 1 Aqui em verdade nos deparamos com a notável circunstância de que na realidade os processos mentais relacionados são mais familiares para nós e mais acessíveis à consciência tal como vistos no grupo do que o podem ser no indivíduo Neste quando a tensão cresce é apenas a agressividade do superego que sob a forma de censuras se faz ruidosamente ouvida com freqüência suas exigências reais permanecem inconscientes no segundo plano Se as trazemos ao conhecimento consciente descobrimos que elas coincidem com os preceitos do superego cultural predominante Neste ponto os dois processos o do desenvolvimento cultural do grupo e o do desenvolvimento cultural do indivíduo se acham por assim dizer sempre interligados Daí algumas das manifestações e propriedades do superego poderem ser mais facilmente detectadas em seu comportamento na comunidade cultural do que no indivíduo isoladoO superego cultural desenvolveu seus ideais e estabeleceu suas exigências Entre estas aquelas que tratam das relações dos seres humanos uns com os outros estão abrangidas sob o título de ética As pessoas em todos os tempos deram o maior valor à ética como se esperassem que ela de modo específico produzisse resultados especialmente importantes De fato ela trata de um assunto que pode ser facilmente identificado como sendo o ponto mais doloroso de toda civilização A ética deve portanto ser considerada como uma tentativa terapêutica como um esforço por alcançar através de uma ordem do superego algo até agora não conseguido por meio de quaisquer outras atividades culturais Como já sabemos o problema que temos pela frente é saber como livrarse do maior estorvo à civilização isto é a inclinação constitutiva dos seres humanos para a agressividade mútua por isso mesmo estamos particularmente interessados naquela que é provavelmente a mais recente das ordens culturais do superego o mandamento de amar ao próximo como a si mesmoVer 1 Em nos sa pesquisa de uma neurose e em sua terapia somos levados a fazer duas censuras contra o superego do indivíduo Na severidade de suas ordens e proibições ele se preocupa muito pouco com a felicidade do ego já que considera de modo insuficiente as resistências contra a obrigação de obedecêlas a força instintiva do id em primeiro lugar e as dificuldades apresentadas pelo meio ambiente externo real em segundo Por conseguinte somos freqüentemente obrigados por propósitos terapêuticos a nos opormos ao superego e a nos esforçarmos por diminuir suas exigências Exatamente as mesmas objeções podem ser feitas contra as exigências éticas do superego cultural Ele também não se preocupa de modo suficiente com os fatos da constituição mental dos seres humanos Emite uma ordem e não pergunta se é possível às pessoas obedecêla Pelo contrário presume que o ego de um homem é psicologicamente capaz de tudo que lhe é exigido que o ego desse homem dispõe de um domínio ilimitado sobre seu id Tratase de um equívoco e mesmo naquelas que são conhecidas como pessoas normais o id não pode ser controlado além de certos limites Caso se exija mais de um homem produzirseá nele uma revolta ou uma neurose ou ele se tornará infeliz O mandamento Ama a teu próximo como a ti mesmo constitui a defesa mais forte contra a agressividade humana e um excelente exemplo dos procedimentos não psicológicos do superego cultural É impossível cumprir esse mandamento uma inflação tão enorme de amor só pode rebaixar seu valor sem se livrar da dificuldade A civilização não presta atenção a tudo isso ela meramente nos adverte que quanto mais difícil é obedecer ao preceito mais meritório é proceder assim Contudo todo aquele que nacivilização atual siga tal preceito só se coloca em desvantagem frente à pessoa que despreza esse mesmo preceito Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade A ética natural tal como é chamada nada tem a oferecer aqui exceto a satisfação narcísica de se poder pensar que se é melhor do que os outros Nesse ponto a ética baseada na religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte Enquanto porém a virtude não for recompensada aqui na Terra a ética imagino eu pregará em vão Acho também bastante certo que nesse sentido uma mudança real nas relações dos seres humanos com a propriedade seria de muito mais ajuda do que quaisquer ordens éticas mas o reconhecimento desse fato entre os socialistas foi obscurecido e tornado inútil para fins práticos por uma nova e idealista concepção equivocada da natureza humanaVer 1 Creio que a linha de pensamento que procura descobrir nos fenômenos de desenvolvimento cultural o papel desempenhado por um superego promete ainda outras descobertas Apressome a chegar ao fim mas há uma questão a que dificilmente posso fugir Se o desenvolvimento da civilização possui uma semelhança de tão grande alcance com o desenvolvimento do indivíduo e se emprega os mesmos métodos não temos nós justificativa em diagnosticar que sob a influência de premências culturais algumas civilizações ou algumas épocas da civilização possivelmente a totalidade da humanidade se tornaram neuróticas Uma dissecação analítica de tais neuroses poderia levar a recomendações terapêuticas passíveis de reivindicarem um grande interesse prático Eu não diria que uma tentativa desse tipo de transportar a psicanálise para a comunidade cultural seja absurda ou que esteja fadada a ser infrutífera Mas teríamos de ser muito cautelosos e não esquecer que em suma estamos lidando apenas com analogias e que é perigoso não somente para os homens mas também para os conceitos arrancálos da esfera em que se originaram e se desenvolveram Além disso a diagnose das neuroses comunais se defronta com uma dificuldade especial Numa neurose individual tomamos como nosso ponto de partida o contraste que distingue o paciente do seu meio ambiente o qual se presume ser normal Para um grupo de que todos os membros estejam afetados pelo mesmo distúrbio não poderia existir esse pano de fundo ele teria de ser buscado em outro lugar E quanto à aplicação terapêutica de nosso conhecimento qual seria a utilidade da mais corretaanálise das neuroses sociais se não se possui autoridade para impor essa terapia ao grupo No entanto e a despeito de todas essas dificuldades podemos esperar que um dia alguém se aventure a se empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais Por uma ampla gama de razões está muito longe de minha intenção exprimir uma opinião sobre o valor da civilização humana Esforceime por resguardarme contra o preconceito entusiástico que sustenta ser a nossa civilização a coisa mais preciosa que possuímos ou poderíamos adquirir e que seu caminho necessariamente conduzirá a ápices de perfeição inimaginada Posso pelo menos ouvir sem indignação o crítico cuja opinião diz que quando alguém faz o levantamento dos objetivos do esforço cultural e dos meios que este emprega está fadado a concluir que não vale a pena todo esse esforço e que seu resultado só pode ser um estado de coisas que o indivíduo será incapaz de tolerar Minha imparcialidade se torna mais fácil para mim na medida em que conheço muito pouco a respeito dessas coisas Sei que apenas uma delas é certa é que os juízos de valor do homem acompanham diretamente os seus desejos de felicidade e que por conseguinte constituem uma tentativa de apoiar com argumentos as suas ilusões Acharia muito compreensível que alguém assinalasse a natureza obrigatória do curso da civilização humana e que dissesse por exemplo que as tendências para uma restrição da vida sexual ou para a instituição de um ideal humanitário à custa da seleção natural foram tendências de desenvolvimento impossíveis de serem desviadas ou postas de lado e às quais é melhor para nós nos submetermos como se constituíssem necessidades da natureza Também estou a par da objeção que pode ser levantada contra isso objeção segundo a qual na história da humanidade tendências como estas consideradas insuperáveis freqüentemente foram relegadas e substituídas por outras Assim não tenho coragem de me erguer diante de meus semelhantes como um profeta curvome à sua censura de que não lhes posso oferecer consolo algum pois no fundo é isso que todos estão exigindo e os mais arrebatados revolucionários não menos apaixonadamente do que os mais virtuosos crentes A questão fatídica para a espécie humana pareceme ser saber se e até que ponto seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição Talvez precisamente com relação a isso a época atual mereça um interesse especial Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle que com sua ajuda não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros até o último homem Sabem disso e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação de sua infelicidade e de sua ansiedade Agora só nos resta esperar que o outro dos dois Poderes Celestes ver 1 o eterno Eros desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário Mas quem pode prever com que sucesso e com que resultado NOTAS 1 Esta tradução é a versão corrente no Brasil da Editora Imago que tem o direito sobre as obras de Freud somente o título foi modificado Como pode ser percebido nas observações abaixo da edição inglesa essa tradução para a língua portuguesa foi feita sobre a tradução inglesa que não respeitou uma diferenciação básica na sociologia e filosofia alemã relativa aos conceitos de cultura Kultur e civilização Zivilisation o argumento utilizado pelos tradutores é obtido no próprio Freud Desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização Enquanto kultur define uma esfera caracterizada por valores éticos estéticos e políticos um estilo de vida pessoal um universal espiritual interior natural orgânico tipicamente alemão zivilisation designa o progresso material técnicoeconômico exterior mecânico artificial de origem anglofrancesa Löwy Michael A evolução política de Lukács p 42 Para uma estudo históricosociológico aprofundado dessa oposição ver Elias Nobert O processo civilizador vol 1 para uma interpretação crítica dessa oposição na filosofia alemã ver Adorno e Horkheimer Cultura e Civilização Temas Básicos de sociologia NOTA DO EDITOR INGLÊS DAS UNBEHAGEN IN DER KULTUR a EDIÇÕES ALEMÃS 1930 Viena Internationaler Psychoanalytischer Verlag 136 págs 1931 2ª ed Reimpressão da 1ª ed com alguns acréscimos 1934 GS 12 29114 1948 GW 14 421506 b TRADUÇÃO INGLESA Civilization and its Discontents 1930 Londres Hogarth Press e Institute of PsychoAnalysis Nova Iorque Cape and Smith 144 págs Trad de Joan Riviere A atual tradução baseiase na publicada em 1930 O primeiro capítulo do original alemão foi publicado pouco antes do resto do livro em Psychoanal Bewegung1 4 novembrodezembro de 1929 O quinto capítulo apareceu separadamente no número seguinte do mesmo periódico 2 1 janeirofevereiro de 1930 Duas ou três notas de rodapé a mais foram incluídas na edição de 1931 e uma frase final foi acrescentada à obra Nenhum desses acréscimos apareceram na primeira versão da tradução inglesa Freud terminara O Futuro de uma Ilusão no outono de 1927 Durante os dois anos seguintes principalmente sem dúvida por causa de sua doença produziu muito pouco No verão de 1929 porém começou a escrever outro livro mais uma vez sobre um assunto sociológico O primeiro esboço foi terminado por volta de fins de julho o livro foi enviado à gráfica no começo de novembro e realmente publicado antes do fim do ano embora trouxesse a data de 1930 em sua página de rosto Jones 1957 1578 O título original para ele escolhido por Freud foi Das Unglück in der Kultur A Infelicidade na Civilização mas Unglück foi posteriormente alterado para Unbehagen palavra para a qual foi difícil escolher um equivalente inglês embora o francês malaise pudesse ter servido Numa carta à sua tradutora a Sra Riviere Freud sugeriu O Desconforto do Homem na Civilização mas foi ela própria que descobriu a solução ideal para a dificuldade no título finalmente adotado O tema principal do livro o antagonismo irremediável entre as exigências do instinto e as restrições da civilização pode ter sua origem remontada a alguns dos mais antigos trabalhos psicológicos de Freud Assim em 31 de maio de 1897 escreveu a Fliess que o incesto é antisocial e a civilização consiste numa progressiva renúncia a ele Freud 1950a Rascunho N e um ano depois no artigo Sexuality in the Aetiology of the Neuroses 1898a escreveu que podemos com justiça responsabilizar nossa civilização pela disseminação da neurastenia Não obstante em seus primeiros trabalhos Freud não parece ter considerado a repressão como sendo inteiramente devida a influências sociais externas Embora em seus Três Ensaios 1905d fale da relação inversa que existe entre a civilização e o livre desenvolvimento da sexualidade Edição Standard Brasileira Vol VII pág 250 IMAGO Editora 1972 em outra passagem da mesma obra fez o seguinte comentário sobre as barreiras opostas ao instinto sexual surgidas durante o período de latência Temse das crianças civilizadas uma impressão de que a construção dessas barreiras é um produto da educação e sem dúvida a educação muito tem a ver com ela Mas na realidade este desenvolvimento é organicamente determinado e fixado pela hereditariedade e pode ocasionalmente ocorrer sem qualquer auxílio da educação Ibid pág 157 A noção de haver uma repressão orgânica que prepara o caminho para a civilização noção expandida nas duas longas notas de rodapé ao início e ao final do Capítulo IV pág 77 e seg e 57 e segs adiante remonta ao mesmo período anterior Numa carta a Fliess em 14 de novembro de 1897 Freud escreveu que freqüentemente suspeitou que algo orgânico desempenhou um papel na repressão Freud 1950a Carta 75 Prossegue no mesmo sentido daquelas notas de rodapé sugerindo a importância como fatores de repressão da adoção de uma postura ereta e da substituição do olfato pela vista como sentido dominante Uma alusão ainda mais precoce à mesma idéia ocorre numa carta de 11 de janeiro de 1897 ibid Carta 55 Nos trabalhos publicados de Freud as únicas menções dessas idéias antes do atual parecem ser uma breve passagem na análise do Rat Man 1909d Satndard Ed 10 2478 e outra ainda mais sucinta no segundo artigo sobre a psicologia do amor 1912d Edição Standard Brasileira Vol XI pág172 IMAGO Editora 1972 De modo particular nenhuma análise das origens internas mais profundas da civilização pode ser encontrada naquilo que é de longe o mais longo dos primeiros estudos de Freud sobre o assunto ou seja o artigo Civilized Sexual Morality and Modern Nervous Illness 1908d que dá a impressão de as restrições da civilização serem algo imposto desde fora Na verdade contudo não foi possível nenhuma avaliação clara do papel desempenhado nessas restrições pelas influências internas e externas e seus efeitos recíprocos até que as investigações realizadas por Freud sobre a psicologia do ego o conduziram às hipóteses sobre o superego e sua origem nas mais antigas relações objetais do indivíduo É devido a isso que uma parte tão grande da presente obra especialmente nos Capítulos VII e VIII se interessa pela exploração e clarificação ulteriores da natureza do sentimento de culpa e que Freud ver 1 declara sua intenção de representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização E isso por sua vez constitui o fundamento para o segundo tema lateral de importância da obra embora nenhum deles seja na verdade um tema lateral a saber o instinto de destruição A história das opiniões de Freud sobre o instinto da agressão ou de destruição é complicada e só resumidamente pode ser indicada aqui Através de todos os seus primeiros escritos o contexto em que ele predominantemente o encarou foi o do sadismo Seus primeiros estudos mais longos sobre ele ocorreram nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade 1905d onde surgiu como um dos instintos componentes ou parciais do instinto sexual Assim escreveu ele na Seção 2 B do primeiro ensaio o sadismo corresponderia a um componente agressivo do instinto sexual que se tornou independente e exagerado e por deslocamento usurpou a posição dominante Edição Standard Brasileira Vol VII IMAGO Editora 1972 págs 15960 Não obstante posteriormente na Seção 4 do segundo ensaio a independência original dos impulsos agressivos foi reconhecida Podese presumir que os impulsos de crueldade surgem de fontes que são na realidade independentes da sexualidade mas podem unirse a ela num estágio prematuro ibid 198n As fontes independentes indicadas deveriam ter sua origem remontada aos instintos autopreservativos Essa passagem foi alterada na edição de 1915 onde se declarou que o impulso da crueldade surge do instinto de domínio e a frase sobre ser ele independente da sexualidade foi omitida Mas já em 1909 no decorrer do combate às teorias de Adler Freud fizera um pronunciamento muito mais amplo Na Seção II do terceiro capítulo da história clínica do Pequeno Hans 1909b Freud escreveu Não consigo convencerme da existência de um instinto agressivo especial ao lado dos instintos familiares de autopreservação e sexo e em pé de igualdade com eles ibid 10 140 A relutância em aceitar um instinto agressivo independente da libido foi auxiliada pela hipótese do narcisismo Os impulsos de agressividade e de ódio também desde o início pareceram pertencer ao instinto autopreservativo e visto que este se achava agora incluído na libido não se exigia qualquer instinto agressivo independente E assim era a despeito da bipolaridade das relações objetais das freqüentes misturas de amor e ódio e da complexa origem do próprio ódio Ver Instincts and their Vicissitudes 1915c Standard Ed 14 1389 Foi somente após a hipótese formulada por Freud de um instinto de morte que um instinto agressivo verdadeiramente independente apareceu em Beyond the Pleasure Principle 1920g Ver especificamente o Capítulo VI ibid 18 525 Mas é de notar que mesmo aí e nos escritos posteriores de Freud por exemplo no Capítulo IV de The Ego and the Id o instinto agressivo ainda era algo secundário derivado do instinto de morte autodestrutivo e primário Isso é verdadeiro ainda quanto à presente obra embora aqui a ênfase esteja colocada mais nas manifestações do instinto de morte voltadas para fora e também quanto aos estudos ulteriores do problema na última parte da Conferência XXXIII das New Introductory Lectures 1922a e em mais de um ponto do Esboço da Psicanálise 1940a 1938 Pequena Coleção das Obras de Freud Livro 7 IMAGO Editora 1974 de publicação póstumaSem embargo é tentador citar um par de frases de uma carta escrita por Freud em 27 de maio de 1937 à Princesa Marie Bonaparte na qual parece aludir a uma maior independência original da destrutividade externa A interiorização do instinto agressivo é naturalmente o correspondente da exteriorização da libido quando ela se transfere do ego para os objetos Teríamos um quadro esquemático nítido se supuséssemos que originalmente ao início da vida toda a libido era dirigida para o interior e toda a agressividade para o exterior e que no decorrer da vida isso gradativamente se alterava Mas talvez isso possa não ser correto É justo acrescentar que em sua carta seguinte Freud escrevia Peçolhe para não dar muito valor às minhas observações sobre o instinto de destruição Elas só foram feitas fortuitamente e teriam de ser cuidadosamente pensadas antes de publicadas Ademais pouco há de novo nelas É óbvio portanto que O MalEstar na Civilização é uma obra cujo interesse ultrapassa bastante a sociologia Partes consideráveis da primeira tradução 1930 do presente trabalho foram incluídas em Civilization War and Death Selections from Three Works by Sigmund Freud 1939 2681 da autoria de Rickman Identidades opressões e o inconsciente Gustavo Pessoa Resumo A psicologia analítica emerge entre o fim do século XIX e o início do século XX junto à psicanálise e a outras psicologias no contexto histórico social e político da Europa daqueles anos A hipótese do inconsciente compartilhada com a Psicanálise e com outras psicologias é redefinida e expandida por C G Jung em um giro epistemológico que amplia o pensamento analítico da época Algumas questões do sofrimento humano contemporâneo bem exemplificadas pelas questões de gênero e da opressão baseada em identidades de gênero pedem uma nova reflexão acerca dessa concepção de inconsciente para avançarmos nas discussões sobre como escutar o que pessoas em sofrimento na nossa época têm a nos dizer Este artigo pretende contribuir com essa discussão a partir do exame das identidades de gênero de pessoas LGBT e das masculinidades Analista membro da SBPA Psicólogo mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela USP atuando como analista em São Paulo SP Contato gustavompessoagmailcom Palavraschave identidade opressão inconsciente gênero psicologia analítica Identidades opressões e o inconsciente A psicologia constituiuse como disciplina área do conhecimento e da pesquisa organizada pela metodologia científica europeia ainda no século XIX O objetivo primeiro era atuar em instituições como escolas presídios e hospitais promovendo uma compreensão de indivíduo que possibilitasse o controle dos corpos por meio do mapeamento de como eles se comportavam Nesse sentido a psicologia emerge como um campo marcado pelo pensamento europeu liberal que sustentava a primazia do indivíduo ao mesmo tempo em que tentava disciplinálo para o suposto progresso da sociedade Figueiredo Santi 2003 A efervescência intelectual europeia dos fins do século XIX às primeiras décadas do século XX deu à luz a psicanálise e outros campos férteis de escuta individual como por exemplo a orientação fenomenológica de Binswanger e afinal a psicologia analítica de C G Jung Este último relacionouse com a psicanálise entre 1906 e 1912 como sabemos seguindo deste ano em diante um caminho próprio na elaboração de ideias Em comum com a psicanálise a psicologia analítica partilha a hipótese do Inconsciente Entre as muitas divergências das propostas psicanalíticas contudo está a própria noção do inconsciente do qual se tenta falar A proposta de C G Jung de inconsciente não consistiria meramente nos conteúdos reprimidos pelo sujeito que precisariam constituir um outro espaço psíquico Para Jung 2015 vol VII2 o Inconsciente seria formado a partir de três vetores a saber o reprimido de Freud e da Psicanálise os conteúdos esquecidos por falhas da memória tudo o que é desconhecido Esta noção de Inconsciente é formulada a partir de uma oposição à Consciência trazendo uma ideia final de que o desconhecido o esquecido e o reprimido estão de alguma forma unidos constituindo o grande inconsciente O interesse de Jung em ampliar a ideia de Inconsciente que transitava pela Psicanálise no começo do século XX justificase pelo seu trabalho com pacientes psicóticos e pela observação nos sonhos nos relatos e nas produções manuais desses pacientes de imagens que remetiam a motivos presentes em religiões e em mitologias Ao reconhecer tais imagens aparentemente sem conexão umas com as outras em diferentes culturas Jung 2014 vol IX1 par 711 postula o conceito de inconsciente coletivo uma disposição capaz de produzir em todos os tempos e todos os lugares os mesmos símbolos ou pelo menos muito semelhantes entre si Não devemos deixar de notar ainda os experimentos de associação de palavras de Jung 2012 vol II os quais deram um lugar mais destacado à ideia de esquecimento que poderia ser ou uma derivação do reprimido no caso de se esquecer daquilo que não se deseja lembrar ou um esquecimento trivial relegado ao inconsciente da memória É importante que pausemos a reflexão aqui para reconhecer o giro epistemológico junguiano na hipótese de inconsciente coletivo Até publicar a tese dos arquétipos e do inconsciente coletivo primeiramente vista em público em Símbolos da Transformação os debates na Psicanálise tratavam de um inconsciente como efeito de certas experiências do indivíduo em nossa sociedade Quando Jung elabora o inconsciente como uma disposição capaz de produzir algo neste caso símbolos há uma drástica virada lógica na concepção do que é a psique Para Jung ao contrário da Psicanálise o inconsciente se torna uma causa que produz efeitos os complexos Neste sentido tornase compreensível que Jung 2015 vol VII2 trate o ego como um complexo porque ele é também um efeito da produção inconsciente como qualquer outro complexo Jung propõe em seguida que cabe ao eu a jornada de individuação a qual se constituirá como processo que levará o sujeito à singularidade dele ou nas palavras de Jung 2015 vol VII2 a individuação tornará o sujeito um indivíduo único aquele que não é dividido A ideia de divisão está presente tanto na Psicanálise quanto na psicologia analítica mas a sugestão de um processo de individuação leva a imaginar que essa divisão possa ser superada de alguma forma por uma outra organização psíquica Como se fosse utópico imaginar um ser indiviso Jung propõe em vez disso que os elementos psíquicos possam se reorganizar de outra maneira que não seja uma tensão entre opostos Nessa ideia está implícita a noção de que o eu seria abalado por uma divisão entre dois termos que se tensionam entre si Jung 2013 vol VIII2 então diz que suportada essa tensão um terceiro elemento solucionador do conflito pode emergir e assim reconfigurar a forma como a psique se relaciona com aqueles aspectos alcançando a reelaboração que dissolveria o conflito Novamente o papel dado ao eu é de uma espécie de observador participante sem que seja a causa ou a forçamotriz do próprio processo de individuação Ainda que imaginemos uma atitude egoica ativa que precise ser exercida para a elaboração de conteúdos inconscientes mais uma vez o inconsciente figura como causa de uma transformação na consciência cabendo ao eu um papel de observação de facilitação e de interação com a ação do inconsciente no processo Na psicologia analítica dois atos importantes são designados ao eu consciente o reconhecimento do próprio inconsciente e a capacidade de suportar os conflitos que os conteúdos inconscientes provocam quando tensionados Com o giro epistemológico no qual o inconsciente deixa de ser efeito e pode ser reimaginado como produtor dos processos psíquicos Jung fissura um ponto da ideologia liberal que fundou a própria psicologia na concepção junguiana não há força de vontade ou afirmação do desejo individuais que bastem para transformar uma situação É preciso a ação do inconsciente para que uma transformação se efetive ou nas palavras do próprio autor é necessário o deo concedente Jung 2014 vol IX1 Ao formular a hipótese de inconsciente coletivo ampliando as fronteiras da própria compreensão de inconsciente e propondo o eu como efeito do inconsciente a ideia liberal de garra e de perseverança do eu perde força e tornase necessário reposicionar a vontade do eu frente a inúmeros elementos que o constituirão Entretanto essa nova proposição de inconsciente trará também um problema esse inconsciente coletivo amplo e magnânimo que produz e não é produzido onde se localizaria Qual seria o modo de ação dele a partir do qual ele pode ser concebido Seria o inconsciente um sujeito um tipo de força com capacidade de agir sobre o mundo Jung 2013 Vol VIII sugere em certa altura que o arquétipo é psicoide isto é está além da psique Em outro momento trata o inconsciente coletivo como uma espécie de repositório da memória da espécie humana remetendo a um aspecto algo genético dos arquétipos Jung 2014 vol IX1 Ao não elaborar propriamente essas ideias o autor abre margem para uma interpretação transcendental da hipótese dele o que poderia nos levar a uma concepção religiosa da psique Como Butler 2003 aponta a tentativa universalizante de expansão de um conceito tem a vantagem de fornecer consistência e unidade àquela proposição entretanto às expensas do desafio lógico de prosseguir com a discussão se o inconsciente faz quem ou do que ele se trata Quem o criou como sujeito capaz de agir sobre o mundo Evitar o prosseguimento da discussão nos paralisa no nível transcendental que nos leva à resposta mais óbvia do apelo a uma entidade superior ou a outras categorias universalizantes que pouco descrevem e que detêm reduzida nitidez tais como a vida o universo ou deus Se levarmos adiante essa discussão de uma hipótese biológica hereditária ou genética para o inconsciente colocaríamos em questão a constituição da memória da espécie a partir de even tos vividos por ela ao longo de milênios de existência Tais eventos que ficaram supostamente registrados nesse grande repositório coletivo de imagens e de símbolos compõem um processo histórico da espécie humana que se organizou ao longo do tempo por meio de diversas formas sociais e políticas cultivando meios de subsistência e de sobrevivência da própria espécie Em outras palavras a formação psicoide dos arquétipos e do inconsciente coletivo não poderia ser outra que não fossem os aspectos sociais políticos e culturais desenvolvidos pela humanidade ao longo da história Se admitimos essa proposição nos afastamos suficientemente de uma premissa transcendental como fundamentadora da hipótese do inconsciente coletivo Ainda nos restaria pensar o que leva imagens e símbolos a sobreviverem na memória a ponto de se constituírem como algo coletivo tão potentes que seriam capazes de persistir no tempo e de atravessar gerações ao longo de nosso processo histórico Aqui faz sentido nos aliarmos a Dantas 2019 que nos lembra que o arquétipo é determinado pela presença da numinosidade isto é pelo impacto do fascínio intenso ou do terror inigualável que uma experiência arquetípica pode provocar O numinoso por sua vez se determinaria pela carga afetiva a qual produz um efeito acachapante no indivíduo suficiente para um potente registro dessa experiência em si mesmo Ao articularmos uma teoria dos afetos à tentativa de tornar o inconsciente coletivo algo histórico podemos imaginálo como algo outro que não seja regido pela metafísica da substância Além disso a ideia de uma carga afetiva presente ou residual nos auxilia na compreensão da ideia de ação do inconsciente o qual seria movimentado pelos afetos comuns que proporcionam experiências tipicamente humanas tal como a vivência do cuidado promovido pelo outro que nos leva à concepção de maternidade ou o impulso social para organizar relações grupos e comunidades que institui a maioria das leituras modernas sobre a função paterna do ponto de vista simbólico Butler 2003 ao discutir a concepção de gênero formula a ideia de metafísica da substância para designar os processos pelos quais algo é repetido ad infinitum em determinadas culturas para gerar uma aparência de naturalização a respeito de algo que é de fato historica e socialmente construído afirmando que certas configurações de gênero assumem o lugar do real e consolidam e incrementam sua hegemonia por meio de uma auto naturalização apta e bemsucedida Butler 2003 p 69 O inconsciente coletivo se vislumbrado sem a lente reificadora da metafísica da substância pode ser imaginado como o conjunto de aspectos inconscientes isto é reprimidos esquecidos e desconhecidos segundo a concepção de Jung ao longo dos processos históricos das culturas de nossa espécie A carga afetiva presente em certas experiências carregaas pelo fio da nossa história através das gerações Nesse contexto a ideia de arquétipo psicoide se conectaria a todos os eventos e a todas as experiências que de fato não são propriamente nossos e nossas nem compõe precisamente a nossa psique mas que estiveram presentes nesse fio interminável de ancestralidade a que pertence nosso processo histórico A vantagem de imaginar um inconsciente coletivo histórico reside justamente na possibilidade de filtrarmos por meio da ideia de metafísica da substância tudo aquilo que foi considerado arquetípico sem um exame mais detido e aprofundado a respeito do que isso implicaria Um bom exemplo dessa situação são os conceitos de anima e animus em Jung 2014 vol IX os quais alçaram o gênero à dimensão arquetípica Como pode ser observado em Pessoa 2021 o gênero é melhor tratado se compreendido como um complexo cultural de modo que possamos localizar e explicititar os atravessamentos históricos sociais e políticos que levam a algumas concepções de gênero serem esperadas ou consideradas ideais enquanto outras performances de gênero são designadas como inadequadas ou patológicas Considerando que ao nascer a psicologia tinha objetivos centrados em catalo gar e normatizar é compreensível que uma psicologia do gênero formulada ainda nas primeiras décadas do século XX seja pensada também a partir dos mesmos parâmetros Para avançarmos sobre o tema e compreendermos por que o gênero é causador de enorme sofrimento entre as pessoas constituindose portanto como tema relevante para a psicologia é necessário que elaboremos outras formas de pensar o gênero Evidentemente aqui o gênero é também um exemplo de muitos outros fenômenos que podem ter sido indevidamente considerados como arquetípicos As discussões no campo de estudos de gênero são especialmente interessantes para a psicologia porque ao lado das categorias de raça e classe indica terrenos férteis para discutirmos a questão das identidades Como nos conta Dantas 2019 em Jung a divisão inicial do humano parece ficar metaforizada como aquela entre masculino e feminino O par masculinofeminino daria de alguma forma o contorno de uma tensão originária entre opostos Essa visão se historicamente posicionada pode ser compreendida como um efeito do contexto histórico e cultural do pensamento europeu como elaborado em Pessoa 2022 O uso do gênero como marcador principal da diferença entre humanos é como nos mostra Oyeumi 2021 algo tipicamente europeu não é reproduzido em outras culturas Por exemplo ao relatar a história do povo iorubá ao sul da Nigéria Oyeumi 2021 ensinanos que o marcador fundamental da diferença naquela sociedade é a idade Para o que compreendemos como o povo ocidental isto é para os povos europeus e os povos brutalmente colonizados e reconstituidos pelos europeus a fala de Oyeumi 2021 deixa claro que compreender o gênero é inexorável Do mesmo modo para os povos profundamente atravessados pela história de violenta colonização europeia é inevitável compreender as categorias de raça e de classe além de como essas nos afetam Para tentar avançar na compreensão das identidades de gênero nesse contexto abordarei duas experiências distintas as identidades de pessoas LGBT e as masculinidades A experiência de pessoas LGBT e as imagens dos armários A partir da segunda metade do século XIX as pessoas LGBT começam a se organizar social e politicamente de forma mais clara Quinalha 2022 A compreensão de que a sexualidade dissidente isto é distinta da norma heterossexual se configura como uma identidade é um fenômeno que vem emergindo ao longo do século XX e que ganha força após os anos 2000 No fim da década de 1980 intelectuais que se identificam como pessoas LGBT iniciam produções acadêmicas marcantes assumindo na produção do conhecimento o lugar de sujeitos em vez de objetos de pesquisas de pessoas heterossexuais e constituindo pela primeira vez uma teoria Três obras são consideradas seminais para a emergência do que hoje é conhecido como teoria queer segundo Preciado 2020 Queer Theory artigo de Teresa de Lauretis Problemas de Gênero livro de Judith Butler e finalmente Epistemologia do Armário publicação de Eve Sedgwick Sedgwick 2008 explora as especificidades da constituição da identidade de pessoas LGBT A homossexualidade é atravessada por um torturante sistema de duplos vínculos oprimindo sistematicamente as pessoas identidades e atos gays Sedgwick 2008 p 26 Da mesma forma segundo a autora a homossexualidade é tratada como assunto simultaneamente público e privado sobre o qual ao mesmo tempo em que não desejam conhecer detalhadamente suas práticas pessoas heterossexuais são autorizadas a opinar O argumento principal de Sedgwick é de que as identidades LGBT repousam sobre o manto do segredo funcionando como um eterno armário entreaberto que embora tenha a existência conhecida é negado Mensagens de duplo sentido são enviadas e recebidas a todo momento convidando a pessoa LGBT a se expor ao mesmo tempo em que se nega a legitimidade da forma como ela se identifica subjetivamente A autora afirma Cada uma dessas possibilidades complicadoras deriva pelo menos em parte da pluralidade e da incoerência cumulativa das formas modernas de conceituar o desejo pelo mesmo sexo e portanto a identidade gay Passam a vêla como uma função de definições estáveis de identidade de tal modo que a estrutura da personalidade de alguém pode marcálo como homossexual mesmo na ausência de qualquer atividade genital Sedgwick 2008 p 42 A teoria queer de modo mais amplo advogará pela instabilidade das identidades a partir da compreensão das identidades LGBTs Este é um dos argumentos promissores de Butler 2003 quando a autora propõe que a identidade da mulher e por extensão todas as demais identidades embasadas no campo do gênero e da sexualidade são instáveis A identidade como uma identificação em relação a uma certa categoria é algo performativo que se estabelecerá pela repetição no corpo de certos atos Por isso Butler 2003 cunhará o termo performatividade de gênero para descrever como o gênero e as identidades de gênero ocorrem no corpo e existem na medida em que são performados nos corpos Dessa forma identidades são expressões de si mesmo que podem se dissolver se transformar e que possuirão por definição contradições e incoerências constitutivas que darão contorno à própria identidade A identidade não se resume ao grupo ou à cultura com a qual uma pessoa se identifica Por sua existência política inefável a identidade também diz de como uma pessoa é identificada pela cultura e pelos outros Butler 2003 critica a ideia do gênero naturalizado como já vimos no conceito de metafísica da substância Diz a autora que o gênero é a estilização repetida do corpo um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura altamente rígida a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância uma classe natural de ser Butler 2003 p 69 A estrutura altamente rígida a que a autora se refere é o patriarcado ou heteropatriarcado na concepção de Preciado 2017 É nesse regime histórico social político e cultural que as pessoas tentam expressarse no corpo em forma de comportamentos desejos e imaginações profundamente atravessadas pelas experiências dentro da rigidez de nossa sociedade Há pouca margem para manobras individuais embora Butler 2003 reconheça e nomeie como agência a capacidade do eu de efetivamente realizar escolhas e de agir fora da estrutura que o condiciona Eribon 2008 formula as identidades de pessoas LGBT como emergentes do insulto e da ofensa Para o autor antes de se reconhecerem propriamente muitas vezes ainda crianças pessoas LGBT são insultadas e ofendidas por outras crianças e adultos e assim iniciam seu processo de autorreconhecimento A noção de simesmo é iniciada por meio de um valor negativo sendo as pessoas LGBT primeiramente nomeadas como aquilo que não é bom não é desejado ou não é adequado Além das ideias de duplo sentido e de contradição entra em jogo aqui a inferiorização como atributo da identidade A discussão das identidades de pessoas LGBT coloca em pauta a instabilidade das identidades em geral nomeando a opressão como fator de registro de uma insegurança permanente a respeito de quem se é Os autores da teoria queer esclarecem que a identidade antes de ser vista como lugar seguro para identificações e laços sociais é ela mesma um problema pela inconsistência e pela permeabilidade alternadas com experiências de rigidez e de inflexibilidade Aqui há um outro giro epistemológico semelhante ao que vimos anteriormente ao advogar contra a metafísica da substância a teoria queer nos mostra que a identidade não é uma força interior produtora de autenticidade no sujeito antes ela é um efeito das opressões vividas por cada um de nós em nossas histórias de vida Em sua trama de identificações pode ocasional mente proporcionar a sensação de pertencimento e de guarida em momentos de dificuldades Em sua rigidez e sua inflexibilidade tornase um cobertor demasiado curto para que possa descrever quem somos em nossas singularidades No fio da história das lutas de pessoas LGBT e do movimento LGBT pode ser resgatado algo criativo dos meandros da identidade uma história compartilhada uma ancestralidade formada a partir de uma comunidade que resiste Sobre as masculinidades As discussões sobre as identidades masculinas mostramse também produtivas para compreendermos como se formam as identidades e quais são os desafios que trazem Nesse campo de estudo destacamse as pesquisas de Connell 2005 e Kimmel 2016 Connell 2005 formula a categoria de masculinidade hegemônica descrita como um conjunto de traços atribuídos à masculinidade e desejados pela maioria dos homens mas desempenhado efetivamente por muito poucos Segundo Zanello 2018 podemos compreender esses ideais masculinos por meio de dois dispositivos a virilidade sexual e a virilidade laboral A masculinidade hegemônica relacionase ao homem de corpo apto bom desempenho sexual conquistador de mulheres desejado por elas e admirado por eles Em termos de virilidade laboral temos o homens bem sucedidos nas carreiras e nas finanças desempenhando o papel do provedor e também a figura do winner norteamericano ou seja aquele que venceu na vida Kimmel 2016 contribui com o debate adicionando o eixo da competitividade em concodrância com o conceito da instabilidade de identidades trazido por Butler 2003 Para o autor é necessário ao homem provarse homem o tempo inteiro em uma competição infinita consigo próprio Além disso Kimmel 2016 afirma que as masculinidades se constituem por duas negativas o homem é aquele que não é mulher e é aquele que não é homossexual Cabe a ele também o tempo todo falar sobre aquilo que ele não é Diz o autor sobre as pesquisas que realizou com homens identificados como heterossexuais Agora alterando a pergunta e imaginando o que um homem heterossexual faz para assegurar que ninguém possivelmente tenha uma ideia errada sobre ele As respostas tipicamente se referiam aos estereótipos originais desta vez um conjunto de regras negativas acerca de comportamento Nunca se vista deste modo Nunca converse ou ande desse modo Nunca mostre seus sentimentos ou seja emocional Sempre esteja preparado para demonstrar interesse sexual em mulheres que você encontra portanto é impossível para que qualquer mulher tenha uma ideia errada sobre você Nesse sentido homofobia o medo de ser percebido como gay como não sendo um homem de verdade mantém homens exagerando todas as regras tradicionais de masculinidade incluindo sexo predatório com as mulheres A homofobia e o sexismo andam de mãos dadas Kimmel 2016 p 114 Os estudos sobre masculinidades apontam que essas identidades também se mostram frágeis instáveis e contraditórias O homem alterna entre o lógicoracional da pessoa bem sucedida em uma sociedade heteropatriarcal e o animalesco e predatório aparentemente não satisfeito de modo pleno em nenhuma de suas performances Ao discorrer sobre seus estudos clínicos a respeito das identidades de meninos e de adolescentes Tyminski 2018 relata a dificuldade desses jovens em acompanharem mudanças sociais e a tentativa de retornarem a uma identidade mais genérica dada por estereótipos de gênero que perpetuam o viés agressivo de muitas identidades masculinas ou que alternativamente produzem um sentimento agudo de inadequação levando ao isolamento desses jovens Ao contrário das identidades LGBTs as identidades masculinas aparentemente dispõem de uma porta de saída das opressões mais agudas da sociedade o privilégio de ser homem em uma sociedade assustadoramente sexista O problema como afirma Connell 2005 é que o exercício desse privilégio é geralmente reservado aos poucos que acumulam categorias de poder em nossa sociedade não basta ser homem é preciso ser branco cisgênero heterossexual rico atlético não ser pessoa com deficiência e os requisitos continuam de modo que a masculinidade hegemônica se torna mais um ideal do que uma vivência propriamente experimentada pela imensa maioria dos homens O risco aqui é a disposição masculina para agir a qualquer custo para tentar obter e sedimentar esse privilégio o que tipicamente inicia mais um ciclo de violência Neste sentido novamente vemos as identidades se tornando efeito das opressões a maioria dos homens constituise por aquilo que eles não são se voltarmos às categorias mencionadas no parágrafo anterior A possibilidade de elaboração desse sofrimento é uma alternativa embora mais comumente vejamos os homens perseguindo esses ideais inatingíveis de uma masculinidade privilegiada e reservada a poucos Considerações finais Este artigo buscou explicitar como o contexto histórico que possibilitou a emergência da psicologia analítica leva a uma noção de inconsciente que sem a devida cautela pode incorrer no que Butler 2003 apontou como a metafísica da substância Tal leitura da psicologia analítica é indesejável porque leva a concepções naturalizantes que são a base do sofrimento de muitas pessoas o que fica evidenciado particularmente quando adentramos na discussão a respeito das identidades Ao mencionar brevemente as identidades de pessoas LGBT e as identidades masculinas procurei demonstrar que tomar traços e características como constitutivos de uma interioridade genuína e espontânea sem a devida consideração dos contextos sóciopolítico histórico e cultural pode nos levar a uma interpretação transcendental a respeito de como o sofrimento das pessoas é produzido e de quais caminhos podem ser eficazes em sua elaboração A identidade fazse a partir de uma repetição dos atos no seio das interações sociais em vez de caracterizarse por uma coleção de traços intrapsíquicos descritivos de uma personalidade os quais passam a existir a posteriori da constituição das identidades Finalmente enfatizei dois giros epistemológicos em primeiro lugar quando Jung afirma que o inconsciente produz consciência em vez de ser o efeito desta Em segundo lugar o giro de Butler que afirma que as identidades não são forças criativas interiores naturalizadas mas performances instáveis que se dão dentro de um sistema social rígido Tais afirmações foram usadas para a consideração de que as identidades são também elas efeitos da opressão em vez de suas causas Neste sentido pretendo negar asserções do tipo fui oprimido porque sou assim em vez disso proponho que somos o resultado de uma multiplicidade de experiências que vão de encontro ao polimorfismo da nossa libido produzindo nossas identidades a partir ainda que não somente de nossas opressões e de como nós as elaboramos Recebido 03012024 Revisão 18092024 Abstract Identities oppressions and the unconscious Analytical Psychology emerged between the end of the 19th century and the beginning of the 20th century alongside Psychoanalysis and other psychologies in the historical social and political context of Europe at that time The hypothesis of the unconscious shared with Psychoanalysis and other psychologies has its idea of the unconscious redefined and expanded by C G Jung in an epistemological turn that expands the analytical thinking of the time Some issues of contemporary human suffering well exemplified by issues of gender and oppression based on gender identities call for a new reflection on this conception of the unconscious to advance discussions on how to listen to what suffering people in our time have to tell us This article aims to contribute to this discussion by examining the gender identities of LGBT people and masculinities Keywords identity oppression unconscious gender analytical psychology Resumen Identidades opresiones y el inconsciente La Psicología Analítica surgió entre finales del siglo XIX y principios del XX junto al Psicoanálisis y otras psicologías en el contexto histórico social y político de la Europa de aquel momento La hipótesis del inconsciente compartida con el Psicoanálisis y otras psicologías tiene su idea de inconsciente redefinida y ampliada por C G Jung en un giro epistemológico que amplía el pensamiento analítico de la época Algunas cuestiones del sufrimiento humano contemporáneo bien ejemplificadas por las cuestiones de género y la opresión basada en las identidades de género exigen una nueva reflexión sobre esta concepción del inconsciente para avanzar en los debates sobre cómo escuchar lo que las personas que sufren en nuestro tiempo tienen que decirnos Este artículo pretende contribuir a esta discusión examinando las identidades de género de las personas LGBT y de las masculinidades Palabrasclave identidad opresión inconsciente género psicología analítica Referências Butler J 2003 Problemas de gênero Feminismo e subversão da identidade Civilização Brasileira Connell R 2005 Masculinities University of California Press Dantas A 2019 Psicologia dialética Uma crítica interna à psicologia junguiana Clube dos Autores Eribon D 2008 Reflexões sobre a questão gay Campo Matêmico Figueiredo L C M Santi P L R 2003 Psicologia Uma nova introdução Educ Jung C G 2012 Estudos experimentais Obras Completas vol XII Vozes Jung C G 2013 A natureza da psique Obras Completas vol VIII Vozes Jung C G 2014 Os arquétipos e o inconsciente coletivo Obras Completas vol IX1 Vozes Jung C G 2015 O eu e o inconsciente Obras Completas vol VII2 Vozes Kimmel M 2016 Masculinidade como homofobia medo vergonha e silêncio na construção da identidade de gênero Revista Equatorial 3 4 pp 97124 Oyeumi O 2021 A invenção das mulheres Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero Bazar do Tempo Pessoa G 2021 O complexo heteropatriarcal Uma contribuição para o estudo da sexualidade na psicologia analítica a partir da Teoria Social Revista Junguiana 39 2 pp 89102 Pessoa G 2022 A psicologia do outro O truque da diversidade e a dificuldade em falar de si mesmo Revista Junguiana 40 3 pp 1124 Preciado P B 2017 Manifesto contrassexual n1 edições Preciado P B 2020 Epílogo In Hocquenghem G O desejo homossexual Bolha Quinalha R 2022 Movimento LGBTI Uma breve história do século XIX aos nossos dias Autêntica Sedgwick E 2008 Epistemology of the closet University of California Press Tyminski R 2018 Male alienation at the crossroads of culture identity and cyberspace Routledge Zanello V 2018 Saúde mental gênero e dispositivos Cultura e processo de subjetivação Appris Racismo um Trauma Coletivo não Considerado Marisa Corrêa da Silva1 1 Médica psiquiatra e psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e articuladora do Grupo de Trabalho Estudo e Pesquisa A Cor do Mal Estar da Invisibilidade do Trauma ao Letramento no mesmo Departamento Formação psicanalítica título e membro pelo Instituto Psicanalítico Berlin PaIB cariocasilvahotmailcom Resumo As relações étnicoraciais no Brasil são caracterizadas por um racismo que apesar de existir de modo institucional e estrutural não é identificado como um fator nocivo nas possibilidades e perspectivas de vida social política econômica profissional do sujeito O racismo determina uma imensa desigualdade de oportunidades alimentando um ciclo vicioso de relações permeadas por dominação e subserviência Igualmente não é considerado um fator que influence o desenvolvimento psicosocial do sujeito através de efeitos traumáticos graves individuais e coletivos Essa desconsideração do racismo como agente responsável por doença é definitivamente uma lacuna que precisa ser entendida elaborada e sanada Este artigo intenciona abordar a importância de identificar a relação da vivência e da prática do racismo com determinados traços de personalidade comportamentos sofrimentos inibições de ação enfim com determinados comprometimentos das funções egoicas dos sujeitos na nossa sociedade seja ele o que sofre ou o que pratica o racismo Neste contexto tornase essencial elucidar que a interrelação entre racismo e saúde mental não é uma questão de responsabilidade apenas da população negra mas sim de toda a sociedade A população branca racializou a população negra mas com isso não se isentou de também vivenciar os maléficos do racismo A complexidade e abrangência desta abordagem é muito mais ampla do que muitas vezes somos capazes de acessar Em um país estrutural e institucionalmente racista não podemos falar de uma situação de trauma enquanto um episódio isolado e pontual mas sim de um processo traumático secular que acomete toda a população de um modo complexo e com frequência despercebido Um processo que adoece o sujeito sem alcançar uma representação psíquica Identificar comprometimentos da saúde mental e da saúde geral que possam estar relacionados com esse processo propicia a simbolização a elaboração e o consequente cuidado destes focos traumáticos Por ser uma questão já cronificada e naturalizada na nossa sociedade nem sempre se consegue sequer identificar que esteja havendo um sofrimento ou um comprometimento Não se consegue simbolizar esse sofrimento Como em todo traumatismo grave a maneira como cada sujeito lida com esse traumatismo também vai depender das características e recursos individuais inerentes a ele e dos recebidos na sua relação com o meio Outro aspecto importante é o entendimento dos processos de internalização e projeção do racismo tanto por quem o sofre como de quem o pratica ou com ele compactua o quanto muitas vezes a própria vítima é culpabilizada culpabilizase e entra em conformidade com a prática e postura racista viceversa o algoz se vitimiza e preconiza a punição violenta da vítima o exercício de poder e a manutenção de privilégios A transmissão transgeracional deste traumático representa um aspecto reconhecido e identificado através de pesquisas atuais e precisa ser considerado e incluído no entendimento do comportamento psíquico Como psicanalista enfatizo a importância do terapeuta igualmente fazer um trabalho de confrontação e elaboração do racismo nele internalizado para que ocorra a necessária consideração dos aspectos acima elencados tanto na escuta terapêutica como no processo transferencial e contratransferencial analítico e dessa forma facilite a construção da representação do que não pode sequer ser simbolizado dada a gravidade do trauma Palavras chaves Racismo Trauma Introjeção Racism an Unconsidered Collective Trauma Abstract Ethnicracial relations in Brazil are characterized by racism which despite existing in an institutional and structural way is not identified as a harmful factor in the possibilities and perspectives of the subjects social political economic and professional life Racism determines an immense inequality of opportunities feeding a vicious cycle of relationships permeated by domination and subservience Likewise it is not considered a factor that influences the psychosocial development of the subject through serious individual and collective traumatic effects This disregard for racism as an agent responsible for disease is definitely a gap that needs to be understood elaborated and remedied This article intends to address the importance of identifying the relationship of the experience and practice of racism with certain personality traits behaviors sufferings action inhibitions in short with certain impairments of the egoic functions of subjects in our society being who suffers or who practices racism In this context it is essential to elucidate that the interrelationship between racism and mental health is not a matter of responsibility only for the black population but for the entire society The white population racialized the black population but with this it did not exempt itself from also experiencing the harms of racism The complexity and scope of this approach is much broader than we are often able to access In a structurally and institutionally racist country we cannot speak of a trauma situation as an isolated and punctual episode but of a secular traumatic process that affects the entire population in a complex and often unnoticed way A process that sickens the subject without reaching a psychic representation Identifying mental health and general health impairments which may be related to this process provides the symbolization elaboration and consequent care of these traumatic outbreaks As it is an issue that is already chronic and naturalized in our society it is not always possible to even identify that whether there is suffering or compromise This suffering cannot be symbolize As in all serious trauma the way each subject deals with this trauma will also depend on the individual characteristics and resources inherent to the individual and those received in its relationship with the environment Another important aspect is the understanding of the processes of internalization and projection of racism both by those who suffer it and those who practice or condone it how often the victim is blamed blames herself and enters into compliance with the racist practice and posture vice versa the perpetrator victimizes himself and advocates the violent punishment of the victim the exercise of power and the maintenance of privileges The transgenerational transmission of this trauma represents an aspect recognized and identified through current research and needs to be considered and included in the understanding of psychic behavior As a psychoanalyst I emphasize the importance of the therapist also doing a work of confrontation and elaboration of internalized rascism in it so that the necessary consideration of the abovelisted aspects occurs both in therapeutic listening and in the transferential and countertransferential analytical process and thus facilitate the construction of the representation of what cannot even be symbolized given the seriousness of the trauma Keywords Racism Trauma Introjection Estamos diante da tarefa de obter uma compreensão tão abrangente quanto possível da destruição e das consequências da violência e do traumaA concretude de toda experiência humana não pode ser entendida sem a participação da construção social nem pode ser inteiramente definida social e intersubjetivamente O trauma rompe o manto protetor que forma a estrutura psicológica do significado É inscrito no corpo e tem um efeito direto no substrato orgânico do funcionamento mental As especificidades do trauma que devem ser apropriadamente descritas psicologicamente situamse na estrutura dos processos perceptivos afetivos e os vivenciados de tal modo que o espaço psíquico é rompido e a simbolização destruída A experiência se apresenta avassaladora para o núcleo psíquico do sujeito Bohleber WernerDie Entwicklung der Traumatheorie in der Psychoanalyse Psyche 54 Jahrgang Heft 910 2000 psychosozial verlagde Introdução Parte deste texto foi apresentado no dia 13 de maio de 2021 na mesa de abertura do Congresso Internacional do Trauma organizado pelo Instituto de Bioenergética Libertas Aproveitei o fato de 13 de maio ser a data em que é comemorada a Abolição da Escravidão para estabelecer um nexo entre a representação desta data e o tema da minha fala Há uma relação direta entre ambos a chamada lei Áurea já impõe pelo nome lei de ouro uma associação simbólica com algo de grande valor Penso que a intenção na época era colocar um brilho especial para chamar a atenção de que o Brasil estaria dando um grande passo na direção de eliminar um processo desumano como a escravidão A lei no entanto foi um engodo uma tentativa de dourar a pílula amarga do criminoso regime escravagista existente Tanto que não propiciou a emancipação da população negra e muito menos a reparação pelos anos de tanta violência pelo contrário lançou à própria sorte a população que restava escravizada o mesmo que já acontecia com os alforriados os quais inclusive já eram em maioria na época Este foi um segundo engodo pois quando a lei foi assinada cerca de 90 dos escravizados já estavam alforriados A promulgação oficial da abolição não garantiu o reconhecimento pelo Estado de que houve um crime hediondo e de que autorizou uma violência continuada Esse crime foi camuflado omitido negado Quando a escravidão e o racismo são negados enquanto feitos violentos não sendo criminalizados marcas traumáticas são reinscritas transcendendo as violências cometidas A negação do ato traumático funciona como um segundo momento do trauma No caso da escravidão e do racismo ainda houve o agravante de terem sido justificados pela afirmação de que um sujeito negro não é necessariamente um sujeito é praticamente uma coisa Dessa forma o dominador intenciona se abster da responsabilidade pela execução desta violência garantir seus privilégios e a dominação O comprometimento obvio da saúde mental do sujeito abusado pode gerar transtornos de comportamentos que resultem em ações danosas para si e para outros O dominador que nega o seu papel de algoz também nega a correlação entre este comprometimento da saude mental com a violência executada e sofrida distorce os fatos e responsabiliza o sujeito violentado de modo absoluto pelas ações auto e hetero destrutivas Inscreve dessa forma neste sujeito o estigma de um ser pernicioso para a sociedade fechando o ciclo ao se eximir da responsabilidade e culpabilizar de forma projetiva o sujeito abusado de ser o algoz de si mesmo Esta é uma outra falácia traduzida nos dias de hoje pela hedionda afirmação bandido bom é bandido morto Ou pela afirmação não melhora de vida porque não se esforça Os que hoje apoiam esse paradigma não refletem sobre as origens deste descalabro sóciopolítico que incrimina os que por longos séculos sofreram abusos arbitrários sem trégua e sem o direito sequer de ter essa arbitrariedade reconhecida como crime Portanto essa negação projeção distorção da realidade e isenção de responsabilidade retraumatizam potencializando o trauma já instituído pela violência Este é o segundo momento do trauma onde quem o sofre vêse em total desamparo tomado pelo pavor e pela impotência com consequente prejuízo na capacidade de reagir adequadamente a seu favor Até hoje presenciamos trabalhadores domésticos que são subremunerados explorados com demanda excessiva de trabalho mas que se conformam com a situação como se entendessem que é aquilo que lhes cabe Da mesma forma escutamos com frequência pessoas dizendo Meu bisavô tinha escravos mas os tratava bem Ou seja tanto no imaginário do exescravizado como o do descendente do escravagista escravizar ou sub empregar não são considerados tratar mal Em ambos os comportamentos podese identificar mecanismos inconscientes ou subconscientes de defesa como clivagem negação recusa Mais adiante aprofundarei um pouco sobre o papel dos mecanismos de defesa na dinâmica dessa relação de dominação Uma outra vertente da mesma expressão anterior Os escravos do meu avô preferiram continuar trabalhando na fazenda mesmo depois da abolição permite identificar uma outra falácia que ignora o fato dos escravizados não terem para onde ir e para onde quer que fossem sofreriam alijamento exploração humilhação Podemos entender neste contexto que as relações étnicoraciais no Brasil sejam caracterizadas por um racismo inscrito de modo institucional e estrutural não sendo identificado como um fator nocivo para as possibilidades e perspectivas de vida social política econômica profissional do sujeito A consequente desigualdade de oportunidades e modos de vida assim geradas alimenta um ciclo vicioso de relações permeadas por dominação e subserviência que consequentemente influencia o desenvolvimento psicosocial do sujeito através de graves efeitos traumáticos individuais e coletivos Vivemos portanto uma sociedade marcada por uma enorme discrepância social econômica e cultural com a qual nos confrontamos diariamente Podemos falar de no mínimo duas realidades distintas diversas em seus hábitos suas experiências de vida seus parâmetros e referenciais O país em que vivemos abriga no mesmo contexto políticosocial mundos que não conversam entre si Em um deles vivem as pessoas que mandam porque podem e no outro as que obedecem porque têm juízo Este dito popular denuncia o apartheid estabelecido na nossa sociedade Enquanto analistas terapeutas e cidadãos não podemos desconsiderar na nossa prática psicanalítica e terapêutica os aspectos raciais sociais culturais políticos em que estamos inseridos Na prática no entanto observamos em relação ao racismo que carateriza a nossa sociedade há mais do que uma desconsideração há uma verdadeira recusa em incluílo tanto na abordagem psicanalítica como na maioria das abordagens clínicas sejam elas preventivas curativas ou de reabilitação A desconsideração da violência do racismo como um fator causador de doença é definitivamente uma lacuna que precisa ser entendida elaborada e sanada Entendo que o racismo tem uma dimensão traumática para toda a sociedade qualquer que seja a etnia dos cidadãos desta sociedade já que ele está integrado na dinâmica social do país há séculos a partir de uma mentalidade escravocrata ainda atual Objetivo O resgate do fato histórico da libertação dos escravos agregado à intencional recusa e usurpação das oportunidades de trabalho aos exescravizados é importante para aprofundarmos o entendimento da relação do racismo e da escravidão com o traumático individual e coletivo na nossa sociedade Entender a vivência e a prática de racismo estabelecidas em nossa sociedade de modo estrutural e institucional como uma vivência e uma prática de violência que causam e inscrevem traumas graves é o objetivo principal deste artigo Considerações teóricas Como podemos entender mais detalhadamente que a prática continuada e autorizada de violência leva à consequências traumáticas e como essas consequências traumáticas podem se manifestar no sujeito e na coletividade Como entender de que modo uma vivência traumática age na contramão da produção de saúde mental Somos constituídos entre outros aspectos principalmente a partir da relação que estabelecemos com o meio melhor dizendo com os objetos com os quais nos relacionamos e viceversa Essa relação se dá em conexão com os nossos recursos internos que propiciam a individualidade de como vivenciamos e introjetamos essa relação Os conceitos atuais psicanalíticos apontam para definir Introjeção como uma forma de Internalização das vivências das relações objetais A relação é que seria internalizada e não o objeto Rosenberg Frank 2010 Em vivências não traumáticas de relação objetal a introjeção evolui temporal e processualmente para uma Identificação secundária madura Se a relação objetal não tiver sido traumática as introjeções terão uma função de amadurecimento do aparelho psíquico caso contrário terão uma função muito mais defensiva Em vivências traumáticas avassaladoras é como se o sujeito saísse do seu corpo e se vivesse como um sujeito externo ao que acontece com o seu corpo como se esse corpo não fosse o seu A partir disso há o desenvolvimento de transtornos das funções do Eu de aprender de modo integrado temporalmente ordenado organizado coerente as funções sensoriais os afetos o pragmatismo e as funções cognitivas A consequência são os processos dissociativos destrutivos que levam a processos de regressão que comprometem a capacidade de simbolização e vivência de identidade consigo mesmo assim como a capacidade de perceber que a apreensão de si mesmo e a apreensão do objeto estão relacionadas Nesses casos de introjeções traumáticas o fenômeno dissociativo se daria como se o pedaço do Eu que saiu do corpo ficasse como observador do outro pedaço do Eu que sofreu o trauma e vivesse esse pedaço do Eu traumatizado totalmente estranho e nocivo como o objeto que exerceu o traumatismo A gravidade das consequências se dá a partir do quanto essa vivência permanece estranha ou coerente Com ou sem entendimento e simbolização do acontecimento traumático 43 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc O quanto o Eu ou parte dele é vivenciado como um estranho não pertencente e como a outra parte do Eu lida com essa parte estranha Rosenberg Frank 2010 É importante frisar que a sensação de vivenciar em si mesmo varias partes do Eu como estranhas pode acontecer mesmo sem a presença de episódios traumáticos mesmo num desenvolvimento psíquico com relações objetais normais Pelo menos temporariamente o Eu pode se dividir ao exercer suas diversas funções pode se observar se criticar Freud 1933 XV S64 Em vivências traumáticas onde as relações objetais não podem ser integradas psiquicamente há uma tentativa de defesa contra os efeitos lesivos dessa relação objetal traumática através da clivagem e da negação Com isso as Introjeções traumáticas não são integradas num Super Eu ou num Ideal de Eu maduros Permanecem clivadas e depositadas na Introjeção Em processos posteriores de elaboração ao longo do desenvolvimento acontece uma Identificação secundária imatura global e rígida do Eu com esse Introjetado devido à não possibilidade de integração O Introjetado traumático seria um lugar apartado no aparelho psíquico do qual o Eu pensante a parte funcional do Eu tenta simbolizar usando mecanismos de clivagem e negação para se manter separado distanciado desse Introjetado traumático O introjetado traumático seria o resultado de uma Introjeção que não pode ser transformada numa Representação com funcionalidade simbólica A agressão imposta pelo agressor à vítima é introjetada junto com um sentimento de culpa que a sobrecarrega e tortura de modo intrusivo e com o qual a vítima se identifica libertando assim o agressor deste sentimento real de culpa Com essa identificação secundaria e liberação do agressor da sua culpa a vítima pode ter esse agressor como um objeto parcial positivo e amado além de manter algo em comum um pertencimento ao necessário objeto de ligação Essa relação objetal traumática introjetada gera um ciclo vicioso uma parte do Super Eu rejeita essa identificação e a outra parte aceita A parte que rejeita condena o Eu pela cumplicidade com o agressor gerando igualmente culpa e desvalia no Self confirmando dessa forma a culpa e a desvalia introjetada Um problema que por si só pode ser insolúvel O Eu garante também com essa introjeção do agressor a ilusão de introjetar junto o poder de dominação do agressor e com isso sentirse forte e potente Por um lado o Eu se sente forte e narcisicamente inatacável mas por outro sentese recriminado pelo Super Eu 44 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc O autor Rosenberg propõe que o Ideal de Eu tenha também um papel importante principalmente para a identificação narcísica com introjeções traumáticas e que Super Eu e Ideal de Eu possam entrar em conflitos graves entre si O paciente se fixa paradoxalmente nesta introjeção por um lado a vivencia como torturante ameaçadora e invasiva por outro lado como objeto interno forte onipotente e inatingível possuidor de um poder que passa a desejar para si mesmo Este fenômeno aparece no trabalho analítico como uma resistência narcísica dentro do processo transferencial A fixação na manutenção da relação com o agressor deve ser entendida como uma tentativa de preservar a necessária relação parcial com o objeto O processo de Introjeção traumática se caracteriza por 2 planos um é o plano externo onde a vítima sofre as agressões e violências pelo agressor no outro denominado Externalização o agressor ocupa o espaço da relação com o objeto interno Seria um processo de identificação projetiva onde a violência é tanta que a vítima se vê a à mercê do agressor A vítima se vê absolutamente sobrecarregada com a agressão regredindo para um estado onde não consegue mais diferenciar quem é ela e quem é o agressor No plano corporal podem acontecer fenômenos dissociativos como anestesia de partes do corpo excitação sexual durante abuso sexual Assim como adoecimentos por somatização com descargas nocivas hormonais de neurotransmissores e de outros reguladores fisiológicos gerando quadros clínicos como a diabetes a hipertensão arterial a obesidade Neste sentido podemos apontar a importância do trabalho corporal como facilitador de acesso a esse trauma não simbolizado No plano psíquico podem acontecer processos regressivos dos mais diversos como distorção e fragmentação da apreensão da realidade dificuldade de impor limites Em processos traumáticos duradouros há regressão das estruturas do Super Eu com comprometimento patológico do desenvolvimento do Ideal de Eu A relação traumática se dá por constantes fenômenos projetivos e introjetivos O agressor projeta partes nocivas na vítima que as introjeta Além disso rouba da vítima a introjeção boapositiva Ou seja o agressor aniquila por introjeção o lado bom da criança por exemplo sua inocência sua auto confiança e confiança no mundo sua felicidade e sua auto estima Do ponto de vista psicodinâmico o termo Trauma seria um título maior onde se diferencia o que é experimentado na situação traumática o contexto do fator traumático o 45 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc processo de introjeção e elaboração da vivência traumática Na introjeção incluemse as construções introjetadas os conflitos os sintomas e as mudanças estruturais advindas da introjeção traumática Essa visão psicodinâmica entende que a traumatização não é superada não termina com o fim do episódio traumático O trauma é um processo dinâmico daí o autor Rosenberg Frank preferir usar a terminologia Traumatização em vez de Trauma Cabe dizer que se trata aqui do trauma classificado na psicotraumatologia como tipo II considerado como um trauma de relacionamento onde recorrentes ou crônicas investidas traumáticas são realizadas por pessoas muitas vezes por pessoas com as quais se tem uma relação de vínculo ou de dependência A partir desta consideração identificamos o quanto o racismo se encaixa na definição de trauma tipo II Uma distinção importante a ser feita é entre a vivência de um traumatismo o estado traumático e as alterações patológicas duradouras O entendimento dessas distinções importa pois as consequências diretas de vivenciar uma situação traumática podem ser patogênicas embora não necessariamente Nem todas as situações traumáticas têm o mesmo efeito em todas as pessoas assim como fatores predisponentes também devem ser levados em consideração A duração e a intensidade dos eventos traumáticos precisam igualmente ser consideradas bem como a época de vida em que o trauma ocorre Trauma é um conceito que vincula um evento externo com suas consequências específicas para a realidade psíquica interna Nessa medida é um termo relacional Fischer e Riedesser 1998 in Bohleber Werner 2000 O trauma psíquico é um acontecimento que arrebata abruptamente a capacidade do Eu de proporcionar uma sensação mínima de segurança e plenitude integradora resultando que o Eu vivencie medo ou impotência avassaladores o suficiente para se sentir ameaçado provocando modificações permanentes na organização psíquica Cooper1986 p 44 in Bohleber Werner 2000 Um fator essencial nessa definição é a característica repentina disruptiva e incontrolável do evento traumático e a experiência de tornar o Eu indefeso A experiência traumática confronta o Eu com um fato consumado Furst 1977 p 349 in Bohleber Werner 2000 As reações do Eu chegam tarde demais Elas não acontecem como resposta a um perigo iminente mas somente depois que ele se tornou realidade e o Eu foi passivamente rendido a esse perigo Krystal 1978 in Bohleber Werner 2000 fala em trauma catastrófico onde o fator central é o desamparo desencadeado por sua avaliação subjetiva 46 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc Se o perigo é visto como inevitável o desamparo se transforma em um desistir de si mesmo As reações de autossubsistência estão prejudicadas Para Krystal esse ataque ao psiquismo do sujeito pelo agente traumático que lesiona a função de defesa e a função expressiva do medo levando à inibição de ambas as funções seria o verdadeiro evento traumático Nesse caso a função de auto preservação de valorização da própria vida permanece bastante prejudicada muitas vezes inibida É impossível para o Eu integrar mentalmente a experiência traumática A atribuição de significado é interrompida porque o fortuito e inesperado do evento não pode ser absorvido por estruturas de significado anteriores Um efeito duradouro e não temporário importante para a definição de trauma é que a confiança básica é destruída e leva a um estilhaçamento permanente da compreensão de si mesmo e do mundo Fischer e Riedesser 1998 p 79 em Bohleber Werner 2000 Enquanto estivermos com consciência de auto preservação e reagindo a nosso favor em relação aos nossos medos não estaremos aprisionados no estado traumático Essa traumatização é caracterizada por um acontecimento objetivo que atinge o sujeito de modo inesperado súbito violento e ameaçador a tal ponto de impossibilitar o sujeito de se adequar de reagir e de elaborar a situação O estímulo violento externo se apresenta completamente estranho ao sujeito Esse estímulo não se orienta nem aos interesses e estágios de desenvolvimento do sujeito nem às suas necessidades narcísicas e sendo introduzido á força nele de tal forma que esse suspeito não tem chance de se defender do ataque Pelo contrário é forçado a assimilar a interação com esse ataque dentro de si Ao mesmo tempo esse sujeito é confrontado com um stress interno reativo e uma sobrecarga de afeto Em caso de uma concomitante subestimulação deste sujeito com pouco recebimento de cuidado de ajuda de proteção de acolhimento atenção e dedicação como se vê frequentemente em casos de abandono privação e desamparo pelos objetos cuidadores a vítima é colocada em condição de total impotência à mercê do agressor Neste sentido a experiência traumática modifica a relação do sujeito consigo mesmo e com o seu entorno não só no momento traumático atual como ao longo dos processos sucessivos da sua vida Os acometidos pelo trauma se sentem fora de condições de tomar atitudes ter comportamentos dar conta do seu dia a dia de maneira suficiente apresentando uma disfunção global de vida caindo num vazio 47 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc O sujeito traumatizado se encontra num estado de choque e horror tomado por um estado global de medo O Eu é tomado por um estado de total impotência e desamparo Esse traumático não tem possibilidade de ser simbolizadorepresentado psiquicamente e portanto não pode ser integrado ao processo biográfico de desenvolvimento do sujeito Ou seja não acontece uma integração e tampouco uma adaptação do aparelho psíquico à situação traumática Paralelamente a isso o sujeito tem que se haver com a avalanche de sentimentos relativos ao acontecimento traumático De tal forma que o Self se sente sobrecarregado pelo traumático externo e pelos sentimentos igualmente traumáticos internos a ponto de não conseguir diferenciar o que é externo e o que é interno Através da dominação violenta o agressor descarrega na vítima os próprios sentimentos de culpa vergonha inveja ódio e deficiência funcional do Eu e do Super Eu Enquanto isso a vítima está ocupada em com a própria sobrevivência e sobrecarregadaafogada por sentimentos arcaicos de tal modo que as funções egoicas e super egoicas desabam regredindo o sujeito à situação de não ver mais saída para nada Essa regressão será maior na dependência dos seguintes fatores quanto mais frequente a experiência traumática ocorrer quanto mais frágil for a estrutura egoica quanto maior for o grau de ligação e dependência ao agressor quanto maior a ameaça vital da violência traumática quanto mais imprevisível for o episódio traumático quanto menor for a proteção o acolhimento e a sustentação recebida A regressão na direção de uma infantilização em fase de tenra idade onde a vítima se vivencia em total dependência do agressor e do seu cuidado com a convicção de que só ele que começou a agressão pode acabar com ela Vivencia o agressor como onipotente obrigandoa a se curvar a ele a se subjugar a ele adivinhar as suas expectativas e preenchêlas incondicionalmente Desta apreensão regredida da realidade a vitima constrói a demanda de ter que ser consolada pelo agressor e este ser o único capaz de acabar com o sofrimento dela Com isso há uma rejeição da ajuda de um terceiro Os limites entre ataque e defesa do próprio narcisismo se misturam o que leva à uma baixa capacidade de diferenciação entre o self e o objeto assim como dificuldade de regular aproximação e distância há uma baixa diferenciação entre o mundo interno e o externo baixo limite entre fantasia e realidade 48 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc Há uma ameaça de regressão do processo secundário para o processo primário A vivência traumática ataca a estrutura do Self de modo integral gerando um medo de perda do Self e do Objeto Com isso o sentimento de poder ter continuidade de ser é gravemente abalado e a demanda em ter uma vida protegida e segura é abandonada por não haver mais esperança nem perspectiva nem possibilidades de realizar essa demanda Rosenberg Frank Porém a complexidade no caso do racismo no meu entender é que há muitas nuances entre o estado de aprisionamento traumático onde há quase uma paralisia e um desistir de si mesmo e o estado de um funcionamento mental saudável e favorável a si mesmo A constância a cronificação e o efeito cumulativo das vivências traumáticas devidas ao secular racismo cotidiano interferem nos mecanismos de defesa e nas expressões reativas ao medo Esses que deveriam agir a nosso favor podem já não funcionar como de fato deveriam no cuidado da auto preservação e como geradores de bem estar e plenitude Como se o Eu reconhecesse determinados ataques nocivos como normatizados e toleráveis que não resultam necessariamente numa paralisia mas causam inibições e restrições ao seu funcionamento que passam despercebidas Como se ainda estivéssemos nos movimentando com grilhões no corpo e nos expressando com uma mordaça na boca sem nos dar conta disso Diretamente relacionado aos aspectos acima descritos é o caráter transgeracional deste racismo traumático ou seja as consequências lesivas são transmitidas de modo inconsciente de gerações a gerações por séculos de modo a se integrarem muitas vezes no modo de funcionamento do sujeito sem possibilidades de serem identificadas na sua relação causa e efeito como se sujeito já viesse ao mundo com uma dívida que não contraiu Existem diversos estudos demonstrando que modificações epigenéticas devido a vivências traumatizantes podem ser transmitidas para as gerações seguintes Da mesma forma que experiências traumáticas podem provocar modificações epigenéticas Gapp K et al 2020 ressignificações e elaborações dessas experiências por exemplo através de um trabalho analíticoterapêutico também podem transformar essas modificações epigenéticas na direção de uma reparação desta transmissão traumática Vinkers Christian H et al 2021 Cito nas referências bibliográficas esses 2 estudos para ilustrar e fomentar leituras sobre esse tema já que o seu detalhamento extrapola as possibilidades deste artigo 49 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc Abordagem Clínica e Resultados Vou apresentar resumidamente um caso clínico que exemplifica os efeitos subjetivos traumáticos do racismo com aspectos inter e transgeracionais e de somatização O principal método usado no trabalho analítico deste caso foi a escuta e a observação cuidadosa que poderíamos denominar de uma escuta inclusiva racial Não quero dizer com isso que seja uma escuta e uma observação só da população negra e sim uma escuta que atente para a relação de determinados aspectos do funcionamento psicodinâmico do sujeito criado em uma estrutura sociopolítica racista que violenta tanto a população negra como a branca Essa escuta visa construir junto com o paciente um entendimento desta relação do racismo com a saúde mental O racismo permeia a população negra enquanto objeto que o sofre e a população branca enquanto seu agente Portanto a violência estabelecida nesta relação respinga para os dois lados ainda que com características diversas Estou generalizando sujeitos negros e brancos com a única intenção de simplificar no pequeno espaço deste texto uma realidade que certamente é bem mais complexa composta de sujeitos únicos com posturas individuais diante do racismo Vou porém manter a denominação generalizada de negros e brancos com a finalidade de representar um imaginário racista estabelecido no coletivo da nossa sociedade O racismo está internalizado em todos os que vivem em uma sociedade estruturalmente racista Refirome a um processo muitas vezes inconsciente naturalizado e aceito dentro de uma normalidade social como os esteriótipos Esse aspecto é de extrema importância na prática clínica terapêutica Para que a relação pacienteterapeuta facilite o acesso a representação e a elaboração das consequências traumáticas do racismo essa relação precisa permitir que processos intra e interpsíquicos de elaboração e simbolização aconteçam tanto com o paciente como com o terapeuta Ou seja ambos vão precisar se confrontar com o seu racismo internalizado Levandose em consideração que a maioria dos profissionais psicanalistas e terapeutas em geral não é constituída por negros como consequência da própria discriminação racial que dificulta a ascensão sóciocultural da população negra e pobre é muito importante que o analista não negro atente para que a relação analíticaterapêutica não reencene 50 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc comportamentos racistas O mesmo se aplica a um analista negro que passe a ocupar uma posição até então praticamente exclusiva da privilegiada população branca Enquanto psicanalista posso me referir a uma técnica que trabalha principalmente com e na relação transferencial Mas seja qual for a técnica ou as técnicas se cogitarmos a pertinência de um trabalho multidisciplinar tal trabalho precisa ser realizado com muita delicadeza constância de sustentação acolhimento além do respeito aos limites e às possibilidades individuais de confrontação com as experiências traumáticas Por motivos de sigilo vou omitir detalhes que possam levar à identificação da paciente Tratase de uma paciente do sexo feminino autodeclarada de cor preta heterossexual idade de adulta jovem criada por mulheres de duas gerações com irmãos e primos do sexo masculino sendo ela a única menina As figuras masculinas adultas ou eram ou ausentes ou pouco presentes ou dependentes ou ainda autoritárias e desvalorizadoras das figuras femininas Nenhuma das figuras femininas havia cursado nível superior sendo a paciente a primeira mulher da família a ter uma profissão diferenciada com ganho econômico cultural e intelectual significativo Neste contexto a paciente refere e vivencia a sua ascensão como um movimento compensatório a uma vivência de desvalorização pelo meio por ser além de negra gorda Quem quer brincar com uma criança gorda A família super valorizava práticas desportivas apontandoas como sendo a única oportunidade de um negro subir na vida Por ela ser gorda e desajeitada no esporte a família falou é melhor você estudar e ser muito boa nisso pois nesse riscado as chances do negro são mínimas Paralelamente era muito cobrada em casa para ajudar nos serviços domésticos além de vivenciar muita submissão das mulheres ao comportamento masculino e mesmo que esse comportamento fosse nocivo seja pela precária presença ou pela presença autoritária havia a postura ruim com eles pior sem eles A desvalorização do papel da mulher negra acima descrita é condizente com a mentalidade escravocrata inserida no nosso cotidiano onde a mulher negra serve para o sexo e o trabalho doméstico usada todo o tempo como objeto que executa funções vitais tanto no aspecto objetivo como no aspecto subjetivo Recebe com frequência a sobrecarga de suprir as necessidades domésticas e afetivas tanto da própria família bem como da família branca onde trabalha Muitas vezes supre até mesmo a maternagem da criança branca Porém não recebe a devida consideração nem na própria família nem na família do branco Os cuidados com a própria família são precarizados por despender a maior parte do seu dia incluindo tempo de 51 REVISTA LATINOAMERICANA DE PSICOLOGIA CORPORAL No 11 p3857 Setembro2021 ISSN 23579692 Edição eletrônica em httppsicorporalemnuvenscombrrbpc locomoção trabalhando sob condições exploradoras na casa alheia onde recebe como máximo de reconhecimento o ser considerada praticamente da família No caso da paciente em questão mesmo o estudar e a ascensão social cultural e econômica não receberam a devida valorização pela família de como um ganho na qualidade de vida de uma mudança de paradigma a seu favor mas sim como uma alternativa compensatória à deficiência de ter um corpo negro gordo e desajeitado para o esporte ascensão máxima que cabe a um negro Até recentemente a sua família usufruía quase abusava do crescimento econômico dela contraindo dívidas financeiras às suas custas A paciente apresentava uma dificuldade grande em colocar limites conforme descrito teoricamente acima por uma relação deficitária objetal que a deixava em situação de dependência e carência afetiva como se precisasse comprar a atenção e a valorização da família A introjeção de um objeto interno negativado pelo racismo também se faz reconhecível no comportamento de abdicação das próprias demandas A identificação com a imagem feminina e o lugar da mulher negra na sociedade apregoada pelo dominador pelo colonizador se reproduz nitidamente pela repetição de comportamento dessas mulheres cuidadoras e solitárias tendo muitas vezes que sustentar alguns homens da família ser amante de outros tolerar as amantes de outros ou tolerar o autoritarismo de outros A paciente mesmo tendo quebrado uma parte importante desta repetição inter e transgeracional de mulher objeto reproduz no seu primeiro relacionamento uma vida em que o companheiro a trai com outras mulheres traz os filhos dele com essas mulheres para ela cuidar e depende financeiramente dela Durante este relacionamento a paciente desenvolve uma doença autoimune atualmente considerada com possibilidades etiológicas de influência psíquicas A dissolução deste relacionamento foi um processo arrastado e vivenciado com culpa e vergonha eu sou a primeira nesta família de negros a ser uma mulher independente bem sucedida profissional e intelectualmente e ainda vou querer ter um relacionamento satisfatório com um homem Acho que seria demais de uma só vez Após esse relacionamento ousou ter um relacionamento com um homem branco onde vivenciou situações de retraumatismo por racismo não pelo namorado branco mas nos espaços públicos que frequentava com ele onde era vítima de olhares invasivos recriminados e ofensivos vivenciando muitas vezes situações abusivas corporalmente O namorado branco reagiu muitas vezes indignado e fragilizado nessas situações onde vivenciaram essas violências racistas mostrandose muitas vezes culpado e envergonhado por ignorar a existência desse racismo estrutural na sociedade em que vivia Ele se sentia muitas vezes impotente e fragilizado próximo a ela E neste contexto a paciente verbaliza Uma mulher branca pode contar com um homem que segure a onda dela se for necessário pode se entregar confiando na estabilidade emocional e financeira dele uma mulher negra nunca Em relação ao desespreparo do namorado branco acima descrito vou tecer a seguir algumas considerações sobre o traumático de um sujeito branco que presenciou e presencia toda essa violência secular Como uma criança branca por exemplo vivencia ser cuidada receber maternagem de uma mãe preta materializada na figura da babá em geral uma mulher negra Esta criança sabe ter uma mãe biológica branca representante de uma sociedade que violenta despreza e coisifica essa mãe preta mas que entrega a sua própria cria aos cuidados de uma mulher estranha e coisificada Podese imaginar neste exemplo de uma prática secular que esta criança no mínimo vivencie um conflito de lealdade e uma quebra de segurança afetiva na relação com a mãe biológica Como se a criança se perguntasse por qual razão a mãe a entrega a aos cuidados de alguém que ela considera uma coisa subalterna Poderia essa mulher negra que amamenta alimenta cuida e acolhe também suscitar desejos inclusive libidinosos que mesmo realizados de modo coercitivo ou não permaneçam conflit uosos Essa maternagem também pode vir carregada de mágoas ressentimentos raiva já que tanto a mãe preta escravizada como a babá subempregada dos dias atuais vivenciam a incoerência de terem que descuidar dos seus filhos biológicos para cuidar dos filhos privilegiados Isso não afetaria a criança que está sendo cuidada O mesmo fenômeno presenciamos em relação à convivência do branco com vários outros serviçais motorista porteiro faxineiro cozinheira etc dos quais é muitas vezes dependente mas pelos quais alimenta o sentimento de serem pessoas de segunda categoria Convive e depende de pessoas que muitas vezes lhe evocam medo ojeriza estranhamento e das quais quer manter distância Um confronto diário com um inimigo perigoso mas necessário por lhe prestar serviços essenciais e com baixa remuneração Não seria isso um comportamento quase perverso equivalente a um comportamento dissociativo onde mecanismos de defesa como a clivagem a negação a projeção e a identificação projetiva predominam O trabalho analítico com a paciente se mostrou eficaz até o presente momento principalmente pela transferência positiva que construiu comigo durante o processo O fato de eu ter identificado desde o início o componente traumático racista apontálo com muita delicadeza compreensão e conhecimento de sua existência certamente contribuiu para esse vínculo transferencial positivo Ao longo do trabalho analítico consegue admitir que emocionalmente não se sente em condições de se autorizar triunfante em relação à sua ascensão social cultural intelectual e econômica Pelo contrário fantasia isso quase como uma derrota já que ocupou o lugar compensatório da falha e do defeito de cor e de corpo Identifica o quanto muitas vezes usa este desempenho de ascensão como um escudo impeditivo do desejo de uma relação amorosa e companheira Identifica a sua crença de que não lhe é possível enquanto mulher negra construir uma relação amorosa nos padrões que imagina acontecer com uma mulher branca E dessa forma o escudo a protegeria do sofrimento pela frustração deste desejo Identifica em seguida que esta ascensão também simboliza e determina poder circular no meio branco o que lhe gera culpa vergonha e medo de distanciamento das suas deficientes precárias e contraditórias raízes Aponto para ela o quanto viver no meio branco pode significar uma retraumatização através de práticas racistas sutis através das quais ela mais uma vez não se vê pertencente Com esta intervenção a paciente identifica o quanto naturalizou situações de mal estar entendendo que faziam compulsoriamente parte do seu destino de mulher negra A paciente sentiuse bastante aliviada ao identificar essas questões ao longo da análise Assim como a identificação da somatização em forma de doença auto imune Ela se deu conta de que aprendeu a rejeitar seu corpo associálo a um corpo estranho indesejável inclusive pela família e incompatível para preencher o seu desejo amoroso O entendimento de que a introjeção do discurso racista de desvalia e exclusão introjetado ao menos em parte pela própria familia foi movida por medo e significou garantir a sobrevivência ao racismo ao longo de várias gerações possibilitou construir caminhos de enfrentamento e reconciliação com um Super Eu recriminador e um Ideal de Eu inalcançável A paciente vem adquirindo autoconfiança e autocredibilidade para continuar ousando e desejando uma vida digna de um sujeito e não se conformando em ter uma vida objetal Conclusões Esse breve relato de alguns aspectos de um caso clínico pretende ilustrar e embasar a importância de identificar práticas e heranças de racismo no desenvolvimento psíquico do sujeito negro e branco De identificar o racismo como um componente traumático causador de doença A escuta o olhar e a confrontação cuidadosa do papel do componente racial nos comportamentos funcionais e disfuncionais da paciente facilitou o seu movimento na direção de se conscientizar da improcedência da sua culpa e vergonha Permitiu que se autorizasse na diferenciação em relação às mulheres da sua família assim como permitiu melhor regulação de aproximação e distância que queria ter com as pessoas da sua relação Atualmente está estável em relação à doença autoimune assim como se mostra valorizando e destacando o seu lado subjetivo e o seu visual feminino negro Insisto que para a construção de uma atuação antirracista é imprescindível que se tematize igualmente a branquitude seu lugar de privilégio e seu comportamento racista Penso ser imprescindível questionar as introjeções traumáticas do branco que compactua com a manutenção de uma sociedade tão desigual insistindo em viver na dicotomia de dois mundos tão diversos negando a brutal discriminação e a exclusão social pelo racismo e sua grande participação na precariedade socioeconômica cultural e política em que vivemos Perpetua uma mentalidade arbitrária autoritária e predadora Essa prática usual e tolerada no nosso país compromete a qualidade de vida da sociedade como um todo e não só da população negra e pobre A população branca também é acometida por essa irresponsabilidade políticosocial que separa e classifica arbitrariamente seres humanos em dignos e indignos desumaniza as vidas indignas Essa desumanização respinga diretamente nas vidas dignas já que um ser coisificado dificilmente conseguirá contribuir construtivamente tendendo a uma participação destrutiva ou a uma participação praticamente pouco significativa no funcionamento da sociedade A instituição e manutenção de dois mundos que não conversam criou uma dinâmica de fantasias e representações de um mundo em relação ao outro que não são necessariamente verificadas e entendidas nos seus contextos históricos políticos e sociais Se pensarmos nos estereótipos construídos pela classe dominante sobre a população negra como por exemplo negro é sujo ladrão burro preguiçoso e negro é bom de cama de samba e de futebol vemos representações de dois polos o primeiro com a representação do indesejável em nós mesmos projetado nos negros pois precisa ser extirpado e depositado fora de nós O segundo com a representação do desejável porém muitas vezes proibido e recalcado que igualmente precisa ser depositado fora de nós Assim podemos abstrair o entendimento do medo da confrontação com o estranho que habita em nós como bem descreve Freud em Das Unheimliche quando somos acometidos por sentimentos contraditórios como medo ódio desprezo mas também cobiça inveja despeito Por outro lado há também uma representação estereotipada do mundo branco como um mundo idealizado positivamente onde só existem coisas admiráveis a serem desejadas e muitas vezes transformadas em padrões de medida do que é belo e do que é bom Vemos contudo que no mundo digno confortável e privilegiado a vida se dá em uma bolha frágil e com enormes restrições como se transcorresse em uma gaiola de ouro uma vida com privilégios mas permeada de angústias fantasias paranóicas e ilusões narcísicas que fomentam um comportamento de negação e alienação ante a gravidade da existência desses dois mundos A análise de aspectos presentes no comportamento da população privilegiada é fundamental também para responsabilizar e incluir essa população no processo de reparação deste trauma O discurso de que o racismo é um problema só dos negros é definitivamente inaceitável por configurar um modo de fuga da própria responsabilidade na prática da conjuntura traumatizante Uma população afrodescendente em maioria numérica que se mantém em posição socialmente minoritária bloqueada pelas lesões decorrentes do horror traumático reflete o que eu chamaria de personalidade aprisionada pelo horror do traumático Propiciar a simbolização do trauma intencionando a elaboração do mesmo é um desafio mas também um caminho para a libertação da personalidade de ambas as populações negra e branca A atuação antirracista portanto faz uma conexão direta com a produção de saúde mental assumindo não só uma função curativa como também preventiva tanto na clínica como no cotidiano social e político de todos nós Sem uma atuação antirracista enquanto cidadãos não conseguiremos construir uma sociedade saudável e de fato humanizada Referências Abud C C Kon N M e Silva M L Ed 2017 O Racismo e o Negro no Brasil Questões para a Psicanálise São Paulo Brasil Perspectiva Bento MAS Carone I Ed 2016 Psicologia Social do Racismo estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil Petrópolis Brasil Editora Vozes Bion Wilfred R 1992 Lernen durch Erfahrung Frankfurt a M Germany Suhrkamp Bohleber Werner 2000 Die Entwicklung der Traumatheorie in der Psychoanalyse Psyche 54 Jahrgang Heft 910 psychosozial verlagde Davis M Fakhry 2011 Internal Racism New York USA Palgrave Macmillan Fannon F 2008 Pele Negra Máscaras Brancas Salvador Brasil Edufba Freud Sigmund 1991 Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse Frankfurt aM Germany Band 10432 Taschenbuch Fischer Verlag Freud Sigmund 1919 Das Unheimliche In Imago Zeitschrift für Anwendung der Psychoanalyse auf die Geisteswissenschaften Jg 5 H 56 S 297324 Gapp K et al 2020 Alterations in sperm long RNA contribute to the epigenetic inheritance of the effects of postnatal trauma Molecular Psychiatry vol 25 pages 21622174 Green A 1988 Narcisismo de Vida Narcisismo de Morte São Paulo Brasil Escuta Maldonado G Cardoso M R 2009 O Trauma Psíquico e o Paradoxo das Narrativas Impossíveis mas Necessárias Rio de Janeiro Brasil vol 21 N1 p 45 57 Psic Clin Rio de Janeiro Brasil Miranda MA 2004 A beleza negra na subjetividade das meninas um caminho para as MariazinhasConsiderações psicanalíticas dissertação de mestrado USP São Paulo Brasil Nogueira IB 1988 Significações do Corpo Negro tese de doutorado USP São Paulo Brasil Reis E Schueler 2004 Corpo e Memória Traumática texto apresentado no I Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e VII Congresso Brasileiro de Psicologia Fundamental Rio de Janeiro Brasil Rosenberg Frank 2010 Introjekt und Trauma Frankfurt am Main Germany Brandes Appel Verlag GmbH Schulze Sylvia Januar 2018 Schwarz und Weiß im analytischen Raum über rassistische innere Objekte Germany PSYCHE 72 Jahrgang Heft 1 Seidler Günter H 1995 Der Blick des Anderen Stuttgart Germany Verlag Internationale Psychoanalyse Souza N S 1983 Tornarse Negro As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social Rio de Janeiro Brasil Graal Steiner John 1998 Narzisstische Objektbeziehungen und pathologische Persönlichkeitsorganisationen aus Orte des seelischen Rückzugs Stuttgart Germany KlettCotta Vinkers Christiaan H et al 2021 Successful treatment of posttraumatic stress disorder reverses DNA methylation marks Molecular Psychiatry volume 26 4 pages 12641271 Williams Gianna 2003 Über Introjektionsprozesse die Hypothese einer OmegaFunktion aus Innenwelt und Fremdkörper Stuttgart Germany KlettCotta Winnicott D W 1992 Fear of Breakdown from Psychoanalytic Explorations Cambridge Massachusetts USA Harvard University Press Your Text is Human Written A Psicanalise Freudiana e os Fenômenos sociais Resumo Este trabalho investiga à luz da teoria freudiana do MalEstar na Civilização como os sofrimentos psíquicos se atualizam em contextos marcados por racismo feminismo e lutas identitárias A partir de revisão bibliográfica relaciona conceitos como narcisismo das pequenas diferenças repressão e superego às opressões contemporâneas Os resultados apontam que tais discursos sociais revelam formas específicas de dor psíquica vinculadas à exclusão e à negação simbólica Concluise que a psicanálise quando articulada a essas esferas permite uma leitura crítica do sofrimento enquanto fenômeno individual e coletivo ampliando o entendimento das tensões entre desejo norma e identidade Palavras chave Freud Psicanalise Narcisismo Introdução O MalEstar na Civilização de Sigmund Freud representa um horizonte letrado dos sofrimentos humanos diante da pressão social e moral da vida em comum Nas palavras de Freud há uma infeliz oposição entre os anseios individuais de cada homem e as exigências culturais da comunidade Portanto parte considerável de todo malestar psíquico se dá em razão da repressão dessas tendências Desse modo é cabível estabelecer uma ligação entre os diagnósticos freudianos e os discursos contemporâneos sobre o tema apresentados em racistas feminista e 0 AI GPT ZeroGPT luta de identidades Tais campos tematizam sofrimento em medidas diversas mas todos incidindo no inconsciente do sujeito moderno A incorporação do discurso freudiano permite uma análise dos modos especificadamente contemporâneos que o sofrimento encontra em cada um Partindo dessa perspectiva o presente trabalho tem como problemática central a forma como os sofrimentos psíquicos descritos por Freud decorrentes da repressão imposta pela civilização podem ser reinterpretados à luz das experiências de dor e exclusão vividas por sujeitos marcados por pertencimentos sociais específicos notadamente em contextos de racismo feminismo e lutas identitárias O objetivo portanto é investigar como essas esferas discursivas contemporâneas expressam atualizam e de certo modo desdobram o malestar freudiano revelando a persistência de uma tensão inconsciente entre o indivíduo e a norma coletiva Ao fazer essa interlocução entre a psicanálise e as demandas sociais atuais buscase lançar luz sobre os modos como o sofrimento encontra novas formas de manifestação e resistência na sociedade contemporânea Capítulo 1 Racismo e o narcisismo das pequenas diferenças Freud ao abordar o conceito de narcisismo das pequenas diferenças referese à propensão dos grupos humanos a acentuarem distinções mínimas entre si como forma de demarcação e exclusão Tal conceito pode ser relacionado diretamente ao modo como o racismo opera socialmente Conforme aponta Silva 2022 o racismo não apenas exclui mas também produz subjetividades atravessadas pela rejeição e pela inferiorização do outro Ao se valer de diferenças fenotípicas e culturais o discurso racista cristaliza uma ilusão de superioridade que serve como recurso narcísico para a identidade branca Essa dinâmica é profundamente marcada por uma tentativa de assegurar coesão grupal em torno de uma identidade hegemônica Como indica Freud 1930 as pequenas diferenças ganham relevo simbólico e afetivo justamente porque funcionam como elementos de projeção das angústias internas O outro racializado tornase então um bode expiatório psíquico e social Esse mecanismo de defesa reforça a estrutura de domínio e ao mesmo tempo encobre as fragilidades da identidade do grupo dominante A história social brasileira evidencia como o racismo é estruturante e se manifesta de forma sistemática inclusive na formação das subjetividades A repressão às expressões culturais negras assim como a negação das dores históricas da população afrodescendente mostram como a culpa coletiva é recalcada Freud sugere que a culpa quando não elaborada tende a retornar sob formas sintomáticas o que pode ser visto em violências institucionais e na perpetuação de desigualdades Capítulo 2 Feminismo superego e repressão No pensamento freudiano o superego representa a instância psíquica que internaliza as normas e expectativas sociais Essa estrutura está na origem dos sentimentos de culpa pois confronta os impulsos do id com exigências morais No caso das mulheres essa tensão ganha contornos específicos A psicanalista Karen Horney em crítica à leitura freudiana aponta a tendência da teoria clássica a reduzir a feminilidade a um ideal masculino Silva Ferrari 2022 A repressão dos desejos femininos histórica e culturalmente promovida gera profundas marcas subjetivas O ideal de submissão somado à culpabilização da mulher por seu desejo alimenta uma estrutura psíquica pautada pela renúncia O superego feminino formado em um contexto de moral patriarcal tende a ser mais punitivo o que intensifica o sofrimento psíquico Freud 1930 afirma que a civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional e essa exigência recai de forma desigual sobre os gêneros A luta feminista ao questionar esses valores internalizados busca não apenas uma transformação social mas também uma elaboração subjetiva das dores e das culpas produzidas por essa repressão histórica O movimento oferece uma via de reconstrução de identidades femininas a partir de experiências singulares rejeitando modelos impostos Como mostram Silva Ferrari 2022 as contribuições de Horney abrem espaço para uma escuta da subjetividade feminina fora do paradigma da inveja do pênis Capítulo 3 Identidades opressões e o malestar A identidade longe de ser um dado fixo é constituída por atravessamentos históricos culturais e inconscientes Freud ao tratar da relação entre civilização e sofrimento aponta que a tentativa de padronização dos sujeitos em moldes normativos produz um conflito insolúcvel entre o que se deseja e o que se exige Essa fissura é fonte permanente de angústia Pessoa 2021 ressalta que as opressões se inscrevem no corpo e na linguagem atravessando os processos de constituição do eu A repressão dos impulsos não aceitos socialmente é o mecanismo central que Freud identifica como gerador de malestar No entanto em contextos de opressão sistematizada esse mecanismo é amplificado O sujeito que se reconhece fora das normas impostas pela cultura como acontece com pessoas negras LGBTQIA ou mulheres em contextos de violência simbólica tende a experimentar uma forma agravada de sofrimento psíquico Essa dor se associa à exclusão e ao silenciamento Freud argumenta que a civilização exige uma contenção das pulsões Mas essa contenção quando não mediada pela simbolização transformase em padecimento A produção de subjetividades à margem da norma reativa mecanismos de resistência mas também de sofrimento crônico Pessoa 2021 aponta que o inconsciente não é imune às violências sociais e ao contrário é atravessado por elas muitas vezes reproduzindoas no próprio sujeito Portanto a leitura do MalEstar na Civilização torna claro que o sofrimento devido à identidade e à opressão não é apenas o resultado da luta interna entre libido e superego Ele também é causado pela pressão das circunstâncias externas pelo igualitarismo e pelas condições com que a sociedade viral faz e impacto no ID para criar sua agressão contra o eu Conclusão A articulação entre os conceitos freudianos e as questões sociais contemporâneas mostra que o sofrimento psíquico longe de ser apenas uma questão individual está enraizado em estruturas culturais que perpetuam desigualdades e exigem renúncias desiguais O narcisismo das pequenas diferenças o papel do superego e a repressão das pulsões compõem um panorama em que as tensões entre o sujeito e a sociedade resultam em formas diversas de dor Ao reconhecer a presença das opressões no inconsciente ampliase a escuta clínica e a compreensão das subjetividades marcadas por violências simbólicas Freud não oferece soluções fáceis mas sua obra segue como convite para refletir sobre a civilização que se constrói à custa do sofrimento de muitos Highlighted text is suspected to be most likely generated by AI 8183 Characters 1205 Words 1 A Psicanalise Freudiana e os Fenômenos sociais Seu nome Nome da Universidade Nome do professor Data 2 Resumo Este trabalho investiga à luz da teoria freudiana do MalEstar na Civilização como os sofrimentos psíquicos se atualizam em contextos marcados por racismo feminismo e lutas identitárias A partir de revisão bibliográfica relaciona conceitos como narcisismo das pequenas diferenças repressão e superego às opressões contemporâneas Os resultados apontam que tais discursos sociais revelam formas específicas de dor psíquica vinculadas à exclusão e à negação simbólica Concluise que a psicanálise quando articulada a essas esferas permite uma leitura crítica do sofrimento enquanto fenômeno individual e coletivo ampliando o entendimento das tensões entre desejo norma e identidade Palavras chave Freud Psicanalise Narcisismo Introdução O MalEstar na Civilização de Sigmund Freud representa um horizonte letrado dos sofrimentos humanos diante da pressão social e moral da vida em comum Nas palavras de Freud há uma infeliz oposição entre os anseios individuais de cada homem e as exigências culturais da comunidade Portanto parte considerável de todo malestar psíquico se dá em razão da repressão dessas tendências Desse modo é cabível estabelecer uma ligação entre os diagnósticos freudianos e os discursos contemporâneos sobre o tema apresentados em racistas feminista e luta de identidades Tais campos tematizam sofrimento em medidas diversas mas todos incidindo no inconsciente do sujeito moderno A incorporação do discurso freudiano permite uma análise dos modos especificadamente contemporâneos que o sofrimento encontra em cada um Partindo dessa perspectiva o presente trabalho tem como problemática central a forma como os sofrimentos psíquicos descritos por Freud decorrentes da repressão imposta pela civilização podem ser reinterpretados à luz das experiências de dor e exclusão vividas 3 por sujeitos marcados por pertencimentos sociais específicos notadamente em contextos de racismo feminismo e lutas identitárias O objetivo portanto é investigar como essas esferas discursivas contemporâneas expressam atualizam e de certo modo desdobram o malestar freudiano revelando a persistência de uma tensão inconsciente entre o indivíduo e a norma coletiva Ao fazer essa interlocução entre a psicanálise e as demandas sociais atuais buscase lançar luz sobre os modos como o sofrimento encontra novas formas de manifestação e resistência na sociedade contemporânea Capítulo 1 Racismo e o narcisismo das pequenas diferenças Freud ao abordar o conceito de narcisismo das pequenas diferenças referese à propensão dos grupos humanos a acentuarem distinções mínimas entre si como forma de demarcação e exclusão Tal conceito pode ser relacionado diretamente ao modo como o racismo opera socialmente Conforme aponta Silva 2022 o racismo não apenas exclui mas também produz subjetividades atravessadas pela rejeição e pela inferiorização do outro Ao se valer de diferenças fenotípicas e culturais o discurso racista cristaliza uma ilusão de superioridade que serve como recurso narcísico para a identidade branca Essa dinâmica é profundamente marcada por uma tentativa de assegurar coesão grupal em torno de uma identidade hegemônica Como indica Freud 1930 as pequenas diferenças ganham relevo simbólico e afetivo justamente porque funcionam como elementos de projeção das angústias internas O outro racializado tornase então um bode expiatório psíquico e social Esse mecanismo de defesa reforça a estrutura de domínio e ao mesmo tempo encobre as fragilidades da identidade do grupo dominante 4 A história social brasileira evidencia como o racismo é estruturante e se manifesta de forma sistemática inclusive na formação das subjetividades A repressão às expressões culturais negras assim como a negação das dores históricas da população afrodescendente mostram como a culpa coletiva é recalcada Freud sugere que a culpa quando não elaborada tende a retornar sob formas sintomáticas o que pode ser visto em violências institucionais e na perpetuação de desigualdades Capítulo 2 Feminismo superego e repressão No pensamento freudiano o superego representa a instância psíquica que internaliza as normas e expectativas sociais Essa estrutura está na origem dos sentimentos de culpa pois confronta os impulsos do id com exigências morais No caso das mulheres essa tensão ganha contornos específicos A psicanalista Karen Horney em crítica à leitura freudiana aponta a tendência da teoria clássica a reduzir a feminilidade a um ideal masculino Silva Ferrari 2022 A repressão dos desejos femininos histórica e culturalmente promovida gera profundas marcas subjetivas O ideal de submissão somado à culpabilização da mulher por seu desejo alimenta uma estrutura psíquica pautada pela renúncia O superego feminino formado em um contexto de moral patriarcal tende a ser mais punitivo o que intensifica o sofrimento psíquico Freud 1930 afirma que a civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional e essa exigência recai de forma desigual sobre os gêneros A luta feminista ao questionar esses valores internalizados busca não apenas uma transformação social mas também uma elaboração subjetiva das dores e das culpas produzidas por essa repressão histórica O movimento oferece uma via de reconstrução de identidades femininas a partir de experiências singulares rejeitando modelos impostos Como mostram Silva Ferrari 2022 as contribuições de Horney abrem espaço para uma escuta da subjetividade feminina fora do paradigma da inveja do pênis 5 Capítulo 3 Identidades opressões e o malestar A identidade longe de ser um dado fixo é constituída por atravessamentos históricos culturais e inconscientes Freud ao tratar da relação entre civilização e sofrimento aponta que a tentativa de padronização dos sujeitos em moldes normativos produz um conflito insolúcvel entre o que se deseja e o que se exige Essa fissura é fonte permanente de angústia Pessoa 2021 ressalta que as opressões se inscrevem no corpo e na linguagem atravessando os processos de constituição do eu A repressão dos impulsos não aceitos socialmente é o mecanismo central que Freud identifica como gerador de malestar No entanto em contextos de opressão sistematizada esse mecanismo é amplificado O sujeito que se reconhece fora das normas impostas pela cultura como acontece com pessoas negras LGBTQIA ou mulheres em contextos de violência simbólica tende a experimentar uma forma agravada de sofrimento psíquico Essa dor se associa à exclusão e ao silenciamento Freud argumenta que a civilização exige uma contenção das pulsões Mas essa contenção quando não mediada pela simbolização transformase em padecimento A produção de subjetividades à margem da norma reativa mecanismos de resistência mas também de sofrimento crônico Pessoa 2021 aponta que o inconsciente não é imune às violências sociais e ao contrário é atravessado por elas muitas vezes reproduzindoas no próprio sujeito Portanto a leitura do MalEstar na Civilização torna claro que o sofrimento devido à identidade e à opressão não é apenas o resultado da luta interna entre libido e superego Ele também é causado pela pressão das circunstâncias externas pelo igualitarismo e pelas condições com que a sociedade viral faz e impacto no ID para criar sua agressão contra o eu 6 Conclusão A articulação entre os conceitos freudianos e as questões sociais contemporâneas mostra que o sofrimento psíquico longe de ser apenas uma questão individual está enraizado em estruturas culturais que perpetuam desigualdades e exigem renúncias desiguais O narcisismo das pequenas diferenças o papel do superego e a repressão das pulsões compõem um panorama em que as tensões entre o sujeito e a sociedade resultam em formas diversas de dor Ao reconhecer a presença das opressões no inconsciente ampliase a escuta clínica e a compreensão das subjetividades marcadas por violências simbólicas Freud não oferece soluções fáceis mas sua obra segue como convite para refletir sobre a civilização que se constrói à custa do sofrimento de muitos Referências Freud S 1930 O malestar na civilização Obras completas v 21 São Paulo Companhia das Letras Pessoa G 2021 Identidades opressões e o inconsciente Revista Brasileira de Psicanálise e Sociedade 293 4563 Silva M C 2022 Racismo um trauma coletivo não considerado Revista Psicologia e Cultura 142 101117 Silva L T Ferrari A G 2022 Psicanálise e o feminismo em Karen Horney Revista Subjetividades 223 e12759 httpsdoiorg10502023590777rsv22i3e12759

Sua Nova Sala de Aula

Sua Nova Sala de Aula

Empresa

Contato Blog

Legal

Termos de uso Política de privacidade Política de cookies Código de honra

Baixe o app

4,8
(35.000 avaliações)
© 2026 Meu Guru® • 42.269.770/0001-84