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Memórias Póstumas de Brás Cubas Textofonte Obra Completa Machado de Assis Rio de Janeiro Editora Nova Aguilar 1994 Publicado originalmente em folhetins a partir de março de 1880 na Revista Brasileira Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas Prólogo da terceira edição A primeira edição destas Memórias Póstumas de Brás Cubas foi feita aos pedaços na Revista Brasileira pelos anos de 1880 Postas mais tarde em livro corrigi o texto em vários lugares Agora que tive de o rever para a terceira edição emendei ainda alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas Assim composta sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no público Capistrano de Abreu noticiando a publicação do livro perguntava As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance Macedo Soares em carta que me escreveu por esse tempo recordava amigamente as Viagens na minha terra Ao primeiro respondia já o defunto Brás Cubas como o leitor viu e verá no prólogo dele que vai adiante que sim e que não que era romance para uns e não o era para outros Quanto ao segundo assim se explicou o finado Trata se de uma obra difusa na qual eu Brás Cubas se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo Toda essa gente viajou Xavier de Maistre à roda do quarto Garret na terra dele Sterne na terra dos outros De Brás Cubas se pode dizer que viajou à roda da vida O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama rabugens de pessimismo Há na alma deste livro por mais risonho que pareça um sentimento amargo e áspero que está longe de vir de seus modelos É taça que pode ter lavores de igual escola mas leva outro vinho Não digo mais para não entrar na crítica de um defunto que se pintou a si e a outros conforme lhe pareceu melhor e mais certo Machado de Assis AO LEITOR Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores coisa é que admira e consterna O que não admira nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal nem cinqüenta nem vinte e quando muito dez Dez Talvez cinco Tratase na verdade de uma obra difusa na qual eu Brás Cubas se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo Pode ser Obra de finado Escrevia com a pena da galhofa e a tinta da melancolia e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual eilo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos que são as duas colunas máximas da opinião Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo O melhor prólogo é o que contém menos coisas ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado Conseguintemente evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias trabalhadas cá no outro mundo Seria curioso mas nimiamente extenso e aliás desnecessário ao entendimento da obra A obra em si mesma é tudo se te agradar fino leitor pagome da tarefa se te não agradar pagote com um piparote e adeus Brás Cubas CAPÍTULO PRIMEIRO ÓBITO DO AUTOR Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim isto é se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento duas considerações me levaram a adotar diferente método a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor para quem a campa foi outro berço a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo Moisés que também contou a sua morte não a pôs no intróito mas no cabo diferença radical entre este livro e o Pentateuco Dito isto expirei às duas horas da tarde de uma sextafeira do mês de agosto de 1869 na minha bela chácara de Catumbi Tinha uns sessenta e quatro anos rijos e prósperos era solteiro possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos Onze amigos Verdade é que não houve cartas nem anúncios Acresce que chovia peneirava uma chuvinha miúda triste e constante tão constante e tão triste que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova Vós que o conhecestes meus senhores vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade Este ar sombrio estas gotas do céu aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado Bom e fiel amigo Não não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe mas pausado e trôpego como quem se retira tarde do espetáculo Tarde e aborrecido Viram me ir umas nove ou dez pessoas entre elas três senhoras minha irmã Sabina casada com o Cotrim a filha um lírio do vale e Tenham paciência daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora Contentemse de saber que essa anônima ainda que não parenta padeceu mais do que as parentas É verdade padeceu mais Não digo que se carpisse não digo que se deixasse rolar pelo chão convulsa Nem o meu óbito era coisa altamente dramática Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia E dado que sim o que menos convinha a essa anônima era aparentálo De pé à cabeceira da cama com os olhos estúpidos a boca entreaberta a triste senhora mal podia crer na minha extinção Morto morto dizia consigo E a imaginação dela como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilisso às ribas africanas sem embargo das ruínas e dos tempos a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil Deixála ir lá iremos mais tarde lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos Agora quero morrer tranqüilamente metodicamente ouvindo os soluços das damas as falas baixas dos homens a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora à porta de um correeiro Jurolhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa A vida estrebuchavame no peito com uns ímpetos de vaga marinha esvaíaseme a consciência eu descia à imobilidade física e moral e o corpo faziaseme planta e pedra e lodo e coisa nenhuma Morri de uma pneumonia mas se lhe disser que foi menos a pneumonia do que uma idéia grandiosa e útil a causa da minha morte é possível que o leitor me não creia e todavia é verdade Vou exporlhe sumariamente o caso Julgueo por si mesmo CAPÍTULO II O EMPLASTO Com efeito um dia de manhã estando a passear na chácara pendurouseme uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro Uma vez pendurada entrou a bracejar a pernear a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim que é possível crer Eu deixeime estar a contemplála Súbito deu um grande salto estendeu os braços e as pernas até tomar a forma de um X deciframe ou devorote Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime um emplastro antihipocondríaco destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade Na petição de privilégio que então redigi chamei a atenção do governo para esse resultado verdadeiramente cristão Todavia não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos Agora porém que estou cá do outro lado da vida posso confessar tudo o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais mostradores folhetos esquinas e enfim nas caixinhas do remédio estas três palavras Emplasto Brás Cubas Para que negálo Eu tinha a paixão do arruído do cartaz do foguete de lágrimas Talvez os modestos me argúam esse defeito fio porém que esse talento me hão de reconhecer os hábeis Assim a minha idéia trazia duas faces como as medalhas uma virada para o público outra para mim De um lado filantropia e lucro de outro lado sede de nomeada Digamos amor da glória Um tio meu cônego de prebenda inteira costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas que só devem cobiçar a glória eterna Ao que retorquia outro tio oficial de um dos antigos terços de infantaria que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem e conseguintemente a sua mais genuína feição Decida o leitor entre o militar e o cônego eu volto ao emplasto CAPÍTULO III GENEALOGIA Mas já que falei nos meus dois tios deixemme fazer aqui um curto esboço genealógico O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas que floresceu na primeira metade do século XVIII Era tanoeiro de ofício natural do Rio de Janeiro onde teria morrido na penúria e na obscuridade se somente exercesse a tanoaria Mas não fezse lavrador plantou colheu permutou o seu produto por boas e honradas patacas até que morreu deixando grosso cabedal a um filho licenciado Luís Cubas Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós dos avós que a minha família sempre confessou porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro e talvez mau tanoeiro ao passo que o Luís Cubas estudou em Coimbra primou no Estado e foi um dos amigos particulares do vicerei Conde da Cunha Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria alegava meu pai bisneto de Damião que o dito apelido fora dado a um cavaleiro herói nas jornadas da África em prêmio da façanha que praticou arrebatando trezentas cubas aos mouros Meu pai era homem de imaginação escapou à tanoaria nas asas de um calembour Era um bom caráter meu pai varão digno e leal como poucos Tinha é verdade uns fumos de pacholice mas quem não é um pouco pachola nesse mundo Releva notar que ele não recorreu à inventiva senão depois de experimentar a falsificação primeiramente entroncouse na família daquele meu famoso homônimo o capitãomor Brás Cubas que fundou a vila de São Vicente onde morreu em 1592 e por esse motivo é que me deu o nome de Brás Opôsselhe porém a família do capitãomor e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas Vivem ainda alguns membros de minha família minha sobrinha Venância por exemplo o lírio do vale que é a flor das damas do seu tempo vive o pai o Cotrim um sujeito que Mas não antecipemos os sucessos acabemos de uma vez com o nosso emplasto CAPÍTULO IV A IDÉIA FIXA A minha idéia depois de tantas cabriolas constituírase idéia fixa Deus te livre leitor de uma idéia fixa antes um argueiro antes uma trave no olho Vê o Cavour foi a idéia fixa da unidade italiana que o matou Verdade é que Bismarck não morreu mas cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a história uma eterna loureira Por exemplo Suetônio deunos um Cláudio que era um simplório ou uma abóbora como lhe chamou Sêneca e um Tito que mereceu ser as delícias de Roma Veio modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois césares o delicioso o verdadeiro delicioso foi o abóbora de Sêneca E tu madama Lucrécia flor dos Bórgias se um poeta te pintou como a Messalina católica apareceu um Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade e se não vieste a lírio também não ficaste pântano Eu deixome estar entre o poeta e o sábio Viva pois a história a volúvel história que dá para tudo e tornando à idéia fixa direi que é ela a que faz os varões fortes e os doidos a idéia móbil vaga ou furtacor é a que faz os Cláudios fórmula Suetônio Era fixa a minha idéia fixa como Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo talvez a lua talvez as pirâmides do Egito talvez a finada dieta germânica Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar vejaa e não esteja daí a torcerme o nariz só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias Lá iremos Creio que prefere a anedota à reflexão como os outros leitores seus confrades e acho que faz muito bem Pois lá iremos Todavia importa dizer que este livro é escrito com pachorra com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século obra supinamente filosófica de uma filosofia desigual agora austera logo brincalhona coisa que não edifica nem destrói não inflama nem regala e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado Vamos lá retifique o seu nariz e tornemos ao emplasto Deixemos a história com os seus caprichos de dama elegante Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina nenhum escreveu a confissão de Augsburgo pela minha parte se alguma vez me lembro de Cromwell é só pela idéia de que Sua Alteza com a mesma mão que trancara o parlamento teria imposto aos ingleses o emplasto Brás Cubas Não se riam dessa vitória comum da farmácia e do puritanismo Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande pública ostensiva há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares que se hasteiam e flutuam à sombra daquela e não poucas vezes lhe sobrevivem Mal comparando é como a arraiamiúda que se acolhia à sombra do castelo feudal caiu este e a arraia ficou Verdade é que se fez graúda e castelã Não a comparação não presta CAPÍTULO V EM QUE APARECE A ORELHA DE UMA SENHORA Senão quando estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção recebi em cheio um golpe de ar adoeci logo e não me tratei Tinha o emplasto no cérebro trazia comigo a idéia fixa dos doidos e dos fortes Viame ao longe ascender do chão das turbas e remontar ao Céu como uma águia imortal e não é diante de tão excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o punge No outro dia estava pior trateime enfim mas incompletamente sem método nem cuidado nem persistência tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade Sabem já que morri numa sextafeira dia aziago e creio haver provado que foi a minha invenção que me matou Há demonstrações menos lúcidas e não menos triunfantes Não era impossível entretanto que eu chegasse a galgar o cimo de um século e a figurar nas folhas públicas entre macróbios Tinha saúde e robustez Suponhase que em vez de estar lançando os alicerces de uma invenção farmacêutica tratava de coligir os elementos de uma instituição política ou de uma reforma religiosa Vinha a corrente de ar que vence em eficácia o cálculo humano e lá se ia tudo Assim corre a sorte dos homens Com esta reflexão me despedi eu da mulher não direi mais discreta mas com certeza mais formosa entre as contemporâneas suas a anônima do primeiro capítulo a tal cuja imaginação à semelhança das cegonhas do Ilisso Tinha então 54 anos era uma ruína uma imponente ruína Imagine o leitor que nos amamos ela e eu muitos anos antes e que um dia já enfermo vejoa assomar à porta da alcova CAPÍTULO VI CHIMÈNE QUI LEÛT DIT RODRIGUE QUI LEÛT CRU Vejoa assomar à porta da alcova pálida comovida trajada de preto e ali ficar durante um minuto sem ânimo de entrar ou detida pela presença de um homem que estava comigo Da cama onde jazia contempleia durante esse tempo esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto Havia já dois anos que nos não víamos e eu viaa agora não qual era mas qual fora quais fôramos ambos porque um Ezequias misterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis Recuou o sol sacudi todas as misérias e este punhado de pó que a morte ia espalhar na eternidade do nada pôde mais do que o tempo que é o ministro da morte Nenhuma água de Juventa igualaria ali a simples saudade Creiamme o menos mau é recordar ninguém se fie da felicidade presente há nela uma gota da baba de Caim Corrido o tempo e cessado o espasmo então sim então talvez se pode gozar deveras porque entre uma e outra dessas duas ilusões melhor é a que se gosta sem doer Não durou muito a evocação a realidade dominou logo o presente expeliu o passado Talvez eu exponha ao leitor em algum canto deste livro a minha teoria das edições humanas O que por agora importa saber é que Virgília chamavase Virgília entrou na alcova firme com a gravidade que lhe davam as roupas e os anos e veio até o meu leito O estranho levantouse e saiu Era um sujeito que me visitava todos os dias para falar do câmbio da colonização e da necessidade de desenvolver a viação férrea nada mais interessante para um moribundo Saiu Virgília deixouse estar de pé durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro sem articular palavra Quem diria De dois grandes namorados de duas paixões sem freio nada mais havia ali vinte anos depois havia apenas dois corações murchos devastados pela vida e saciados dela não sei se em igual dose mas enfim saciados Virgília tinha agora a beleza da velhice um ar austero e maternal estava menos magra do que quando a vi pela última vez numa festa de São João na Tijuca e porque era das que resistem muito só agora começavam os cabelos escuros a intercalarse com alguns fios de prata Anda visitando os defuntos disselhe eu Ora defuntos respondeu Virgília com um muxoxo E depois de me apertar as mãos Ando a ver se ponho os vadios para a rua Não tinha a carícia lacrimosa de outro tempo mas a voz era amiga e doce Sentouse Eu estava só em casa com um simples enfermeiro podíamos falar um ao outro sem perigo Virgília deume longas notícias de fora narrandoas com graça com um certo travo de má língua que era o sal da palestra eu prestes a deixar o mundo sentia um prazer satânico em mofar dele em persuadirme que não deixava nada Que idéias essas interrompeume Virgília um tanto zangada Olhe que não volto mais Morrer Todos nós havemos de morrer basta estarmos vivos E vendo o relógio Jesus são três horas Voume embora Já Já virei amanhã ou depois Não sei se faz bem retorqui o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras Sua mana Há de vir cá passar uns dias mas não pode ser antes de sábado Virgília refletiu um instante levantou os ombros e disse com gravidade Estou velha Ninguém mais repara em mim Mas para cortar dúvidas virei com o Nhonhô Nhonhô era um bacharel único filho de seu casamento que na idade de cinco anos fora cúmplice inconsciente de nossos amores Vieram juntos dois dias depois e confesso que ao vêlos ali na minha alcova fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder logo às palavras afáveis do rapaz Virgília adivinhoume e disse ao filho Nhonhô não repares nesse grande manhoso que aí está não quer falar para fazer crer que está à morte Sorriu o filho eu creio que também sorri e tudo acabou em pura galhofa Virgília estava serena e risonha tinha o aspecto das vidas imaculadas Nenhum olhar suspeito nenhum gesto que pudesse denunciar nada uma igualdade de palavra e de espírito uma dominação sobre si mesma que pareciam e talvez fossem raras Como tocássemos casualmente nuns amores ilegítimos meio secretos meio divulgados via falar com desdém e um pouco de indignação da mulher de que se tratava aliás sua amiga O filho sentiase satisfeito ouvindo aquela palavra digna e forte e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões se Buffon tivesse nascido gavião Era o meu delírio que começava CAPÍTULO VII O DELÍRIO Que me conste ainda ninguém relatou o seu próprio delírio façoo eu e a ciência mo agradecerá Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais pode saltar o capítulo vá direito à narração Mas por menos curioso que seja sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos Primeiramente tomei a figura de um barbeiro chinês bojudo destro escanhoando um mandarim que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos caprichos de mandarim Logo depois sentime transformado na Suma Teológica de São Tomás impressa num volume e encadernada em marroquim com fechos de prata e estampas idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade e ainda agora me lembra que sendo as minhas mãos os fechos do livro e cruzandoas eu sobre o ventre alguém as descruzava Virgília decerto porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto Ultimamente restituído à forma humana vi chegar um hipopótamo que me arrebatou Deixeime ir calado não sei se por medo ou confiança mas dentro em pouco a carreira de tal modo se tornou vertiginosa que me atrevi a interrogálo e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino Enganase replicou o animal nós vamos à origem dos séculos Insinuei que deveria ser muitíssimo longe mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu se é que não fingiu uma dessas coisas e perguntandolhe visto que ele falava se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão retorquiume com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes abanou as orelhas Pela minha parte fechei os olhos e deixeime ir à ventura Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade por saber onde ficava a origem dos séculos se era tão misteriosa como a origem do Nilo e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos reflexões de cérebro enfermo Como ia de olhos fechados não via o caminho lembrame só que a sensação de frio aumentava com a jornada e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos Com efeito abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície branca de neve e vários animais grandes e de neve Tudo neve chegava a gelarnos um sol de neve Tentei falar mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa Onde estamos Já passamos o Éden Bem paremos na tenda de Abraão Mas se nós caminhamos para trás redargüiu motejando a minha cavalgadura Fiquei vexado e aturdido A jornada entrou e parecerme enfadonha e extravagante o frio incômodo a condução violenta e o resultado impalpável E depois cogitações do enfermo dado que chegássemos ao fim indicado não era impossível que os séculos irritados com lhes devassarem a origem me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como eles Enquanto assim pensava íamos devorando caminho e a planície voava debaixo dos nossos pés até que o animal estacou e pude olhar mais tranqüilamente em torno de mim Olhar somente nada vi além da imensa brancura da neve que desta vez invadira o próprio céu até ali azul Talvez a espaços me parecia uma ou outra planta enorme brutesca meneando ao vento as suas largas folhas O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro disserase que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem Caiu do ar destacouse da terra não sei sei que um vulto imenso uma figura de mulher me apareceu então fitandome uns olhos rutilantes como o sol Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas e tudo escapava à compreensão do olhar humano porque os contornos perdiamse no ambiente e o que parecia espesso era muita vez diáfano Estupefato não disse nada não cheguei sequer a soltar um grito mas ao cabo de algum tempo que foi breve perguntei quem era e como se chamava curiosidade de delírio Chamame Natureza ou Pandora sou tua mãe e tua inimiga Ao ouvir esta última palavra recuei um pouco tomado de susto A figura soltou uma gargalhada que produziu em torno de nós o efeito de um tufão as plantas torceramse e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas Não te assustes disse ela minha inimizade não mata é sobretudo pela vida que se afirma Vives não quero outro flagelo Vivo perguntei eu enterrando as unhas nas mãos como para certificarme da existência Sim verme tu vives Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho provarás ainda por algumas horas o pão da dor e o vinho da miséria Vives agora mesmo que ensandeceste vives e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade tu dirás que queres viver Dizendo isto a visão estendeu o braço seguroume pelos cabelos e levantoume ao ar como se fora uma pluma Só então pude verlhe de perto o rosto que era enorme Nada mais quieto nenhuma contorção violenta nenhuma expressão de ódio ou ferocidade a feição única geral completa era a da impassibilidade egoísta a da eterna surdez a da vontade imóvel Raivas se as tinha ficavam encerradas no coração Ao mesmo tempo nesse rosto de expressão glacial havia um ar de juventude mescla de força e viço diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres Entendesteme disse ela no fim de algum tempo de mútua contemplação Não respondi nem quero entenderte tu és absurda tu és uma fábula Estou sonhando decerto ou se é verdade que enlouqueci tu não passas de uma concepção de alienado isto é uma coisa vã que a razão ausente não pode reger nem palpar Natureza tu a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga não faz da vida um flagelo nem como tu traz esse rosto indiferente como o sepulcro E por que Pandora Porque levo na minha bolsa os bens e os males e o maior de todos a esperança consolação dos homens Tremes Sim o teu olhar fasciname Creio eu não sou somente a vida sou também a morte e tu estás prestes a devolverme o que te emprestei Grande lascivo esperate a voluptuosidade do nada Quando esta palavra ecoou como um trovão naquele imenso vale afigurouseme que era o último som que chegava a meus ouvidos pareceume sentir a decomposição súbita de mim mesmo Então encareia com olhos súplices e pedi mais alguns anos Pobre minuto exclamou Para que queres tu mais alguns instantes de vida Para devorar e seres devorado depois Não estás farto do espetáculo e da luta Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo o alvor do dia a melancolia da tarde a quietação da noite os aspectos da Terra o sono enfim o maior benefício das minhas mãos Que mais queres tu sublime idiota Viver somente não te peço mais nada Quem me pôs no coração este amor da vida senão tu e se eu amo a vida por que te hás de golpear a ti mesma matandome Porque já não preciso de ti Não importa ao tempo o minuto que passa mas o minuto que vem O minuto que vem é forte jucundo supõe trazer em si a eternidade e traz a morte e perece como o outro mas o tempo subsiste Egoísmo dizes tu Sim egoísmo não tenho outra lei Egoísmo conservação A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver e se o novilho é tenro tanto melhor eis o estatuto universal Sobe e olha Isto dizendo arrebatoume ao alto de uma montanha Inclinei os olhos a uma das vertentes e contemplei durante um tempo largo ao longe através de um nevoeiro uma coisa única Imagina tu leitor uma redução dos séculos e um desfilar de todos eles as raças todas todas as paixões o tumulto dos Impérios a guerra dos apetites e dos ódios a destruição recíproca dos seres e das coisas Tal era o espetáculo acerbo e curioso espetáculo A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos Para descrevêla seria preciso fixar o relâmpago Os séculos desfilavam num turbilhão e não obstante porque os olhos do delírio são outros eu via tudo o que passava diante de mim flagelos e delícias desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria e via o amor multiplicando a miséria e via a miséria agravando a debilidade Aí vinham a cobiça que devora a cólera que inflama a inveja que baba e a enxada e a pena úmidas de suor e a ambição a fome a vaidade a melancolia a riqueza o amor e todos agitavam o homem como um chocalho até destruílo como um farrapo Eram as formas várias de um mal que ora mordia a víscera ora mordia o pensamento e passeava eternamente as suas vestes de arlequim em derredor da espécie humana A dor cedia alguma vez mas cedia à indiferença que era um sono sem sonhos ou ao prazer que era uma dor bastarda Então o homem flagelado e rebelde corria diante da fatalidade das coisas atrás de uma figura nebulosa e esquiva feita de retalhos um retalho de impalpável outro de improvável outro de invisível cosidos todos a ponto precário com a agulha da imaginação e essa figura nada menos que a quimera da felicidade ou lhe fugia perpetuamente ou deixavase apanhar pela fralda e o homem a cingia ao peito e então ela ria como um escárnio e sumiase como uma ilusão Ao contemplar tanta calamidade não pude reter um grito de angústia que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir e não sei por que lei de transtorno cerebral fui eu que me pus a rir de um riso descompassado e idiota Tens razão disse eu a coisa é divertida e vale a pena talvez monótona mas vale a pena Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo Vamos lá Pandora abre o ventre e digereme a coisa é divertida mas digereme A resposta foi compelirme fortemente a olhar para baixo e a ver os séculos que continuavam a passar velozes e turbulentos as gerações que se superpunham às gerações umas tristes como os Hebreus do cativeiro outras alegres como os devassos de Cômodo e todas elas pontuais na sepultura Quis fugir mas uma força misteriosa me retinha os pés então disse comigo Bem os séculos vão passando chegará o meu e passará também até o último que me dará a decifração da eternidade E fixei os olhos e continuei a ver as idades que vinham chegando e passando já então tranqüilo e resoluto não sei até se alegre Talvez alegre Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz de apatia e de combate de verdade e de erro e o seu cortejo de sistemas de idéias novas de novas ilusões cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera e amareleciam depois para remoçar mais tarde Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário faziase a história e a civilização e o homem nu e desarmado armavase e vestiase construía o tugúrio e o palácio a rude aldeia e Tebas de cem portas criava a ciência que perscruta e a arte que enleva faziase orador mecânico filósofo corria a face do globo descia ao ventre da Terra subia à esfera das nuvens colaborando assim na obra misteriosa com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo Meu olhar enfarado e distraído viu enfim chegar o século presente e atrás deles os futuros Aquele vinha ágil destro vibrante cheio de si um pouco difuso audaz sabedor mas ao cabo tão miserável como os primeiros e assim passou e assim passaram os outros com a mesma rapidez e igual monotonia Redobrei de atenção fitei a vista ia enfim ver o último o último mas então já a rapidez da marcha era tal que escapava a toda a compreensão ao pé dela o relâmpago seria um século Talvez por isso entraram os objetos a trocaremse uns cresceram outros minguaram outros perderamse no ambiente um nevoeiro cobriu tudo menos o hipopótamo que ali me trouxera e que aliás começou a diminuir a diminuir a diminuir até ficar do tamanho de um gato Era efetivamente um gato Encareio bem era o meu gato Sultão que brincava à porta da alcova com uma bola de papel CAPÍTULO VIII RAZÃO CONTRA SANDICE Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa e convidava a Sandice a sair clamando e com melhor jus as palavras de Tartufo La maison est à moi cest à vous den sortir Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias de modo que apenas senhora de uma dificilmente lha farão despejar É sestro não se tira daí há muito que lhe calejou a vergonha Agora se advertirmos no imenso número de casas que ocupa umas de vez outras durante as suas estações calmosas concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários No nosso caso houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro porque a adventícia não queria entregar a casa e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu Afinal já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão Não senhora replicou a Razão estou cansada de lhe ceder sótãos cansada e experimentada o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar daí à de visitas e ao resto Está bem deixeme ficar algum tempo mais estou na pista de um mistério Que mistério De dois emendou a Sandice o da vida e o da morte peçolhe só uns dez minutos A Razão pôsse a rir Hás de ser sempre a mesma coisa sempre a mesma coisa sempre a mesma coisa E dizendo isto travoulhe dos pulsos e arrastoua para fora depois entrou e fechouse A Sandice ainda gemeu algumas súplicas grunhiu algumas zangas mas desenganouse depressa deitou a língua de fora em ar de surriada e foi andando CAPÍTULO IX TRANSIÇÃO E vejam agora com que destreza com que arte faço eu a maior transição deste livro Vejam o meu delírio começou em presença de Virgília Virgília foi o meu grão pecado da juventude não há juventude sem meninice meninice supõe nascimento e eis aqui como chegamos nós sem esforço ao dia 20 de outubro de 1805 em que nasci Viram Nenhuma juntura aparente nada que divirta a atenção pausada do leitor nada De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método sem a rigidez do método Na verdade era tempo Que isto de método sendo como é uma coisa indispensável todavia é melhor têlo sem gravata nem suspensórios mas um pouco à fresca e à solta como quem não se lhe dá da vizinha fronteira nem do inspetor de quarteirão É como a eloqüência que há uma genuína e vibrante de uma arte natural e feiticeira e outra tesa engomada e chocha Vamos ao dia 20 de outubro CAPÍTULO X NAQUELE DIA Naquele dia a árvore dos Cubas brotou uma graciosa flor Nasci recebeume nos braços a Pascoela insigne parteira minhota que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos Não é impossível que meu pai lhe ouvisse tal declaração creio todavia que o sentimento paterno é que o induziu a gratificála com duas meias dobras Lavado e enfaixado fui desde logo o herói da nossa casa Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor Meu tio João o antigo oficial de infantaria achavame um certo olhar de Bonaparte coisa que meu pai não pôde ouvir sem náuseas meu tio Ildefonso então simples padre farejava me cônego Cônego é o que ele há de ser e não digo mais por não parecer orgulho mas não me admiraria nada se Deus o destinasse a um bispado É verdade um bispado não é coisa impossível Que diz você mano Bento Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse e alçavame ao ar como se intentasse mostrarme à cidade e ao mundo perguntava a todos se eu me parecia com ele se era inteligente bonito Digo essas coisas por alto segundo as ouvi narrar anos depois ignoro a mor parte dos pormenores daquele famoso dia Sei que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar o recémnascido e que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa Não houve cadeirinha que não trabalhasse aventouse muita casaca e muito calção Se não conto os mimos os beijos as admirações as bênçãos é porque se os contasse não acabaria mais o capítulo e é preciso acabálo Item não posso dizer nada do meu batizado porque nada me referiram a tal respeito a não ser que foi uma das mais galhardas festas do ano seguinte 1806 batizeime na igreja de São Domingos uma terçafeira de março dia claro luminoso e puro sendo padrinhos o Coronel Rodrigues de Matos e sua senhora Um e outro descendiam de velhas famílias do Norte e honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias outrora derramado na guerra contra Holanda Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras coisas que aprendi e certamente os dizia com muita graça ou revelava algum talento precoce porque não havia pessoa estranha diante de quem me não obrigassem a recitálos Nhonhô diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho Meu padrinho é o Excelentíssimo Senhor Coronel Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos minha madrinha é a Excelentíssima Senhora D Maria Luísa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos É muito esperto o seu menino exclamavam os ouvintes Muito esperto concordava meu pai e os olhos babavamselhe de orgulho e ele espalmava a mão sobre a minha cabeça fitavame longo tempo namorado cheio de si Item comecei a andar não sei bem quando mas antes do tempo Talvez por apressar a natureza obrigavamme cedo a agarrar às cadeiras pegavamme da fralda davamme carrinhos de pau Só só nhonhô só só diziame a mucama E eu atraído pelo chocalho de lata que minha mãe agitava diante de mim lá ia para a frente cai aqui cai acolá e andava provavelmente mal mas andava e fiquei andando CAPÍTULO XI O MENINO É PAI DO HOMEM Cresci e nisso é que a família não interveio cresci naturalmente como crescem as magnólias e os gatos Talvez os gatos são menos matreiros e com certeza as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância Um poeta dizia que o menino é pai do homem Se isto é verdade vejamos alguns lineamentos do menino Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de menino diabo e verdadeiramente não era outra coisa fui dos mais malignos do meu tempo arguto indiscreto traquinas e voluntarioso Por exemplo um dia quebrei a cabeça de uma escrava porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo e não contente com o malefício deitei um punhado de cinza ao tacho e não satisfeito da travessura fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce por pirraça e eu tinha apenas seis anos Prudêncio um moleque de casa era o meu cavalo de todos os dias punha as mãos no chão recebia um cordel nos queixos à guisa de freio eu trepava lhe ao dorso com uma varinha na mão fustigavao dava mil voltas a um e outro lado e ele obedecia algumas vezes gemendo mas obedecia sem dizer palavra ou quando muito um ai nhonhô ao que eu retorquia Cala a boca besta Esconder os chapéus das visitas deitar rabos de papel a pessoas graves puxar pelo rabicho das cabeleiras dar beliscões nos braços das matronas e outras muitas façanhas deste jaez eram mostras de um gênio indócil mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto porque meu pai tinhame em grande admiração e se às vezes me repreendia à vista de gente faziao por simples formalidade em particular davame beijos Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconderlhes os chapéus mas opiniático egoísta e algo contemptor dos homens isso fui se não passei o tempo a esconderlhes os chapéus alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras Outrossim afeiçoeime à contemplação da injustiça humana inclinei me a atenuála a explicála a classifiqueia por partes a entendêla não segundo um padrão rígido mas ao sabor das circunstâncias e lugares Minha mãe doutrinavame a seu modo faziame decorar alguns preceitos e orações mas eu sentia que mais do que as orações me governavam os nervos e o sangue e a boa regra perdia o espírito que a faz viver para se tornar uma vã fórmula De manhã antes do mingau e de noite antes da cama pedia a Deus que me perdoasse assim como eu perdoava aos meus devedores mas entre a manhã e a noite fazia uma grande maldade e meu pai passado o alvoroço davame pancadinhas na cara e exclamava a rir Ah brejeiro ah brejeiro Sim meu pai adoravame Minha mãe era uma senhora fraca de pouco cérebro e muito coração assaz crédula sinceramente piedosa caseira apesar de bonita e modesta apesar de abastada temente às trovoadas e ao marido O marido era na Terra o seu deus Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação que se tinha alguma coisa boa era no geral viciosa incompleta e em partes negativa Meu tio cônego fazia às vezes alguns reparos ao irmão dizialhe que ele me dava mais liberdade do que ensino e mais afeição do que emenda mas meu pai respondia que aplicava na minha educação um sistema inteiramente superior ao sistema usado e por este modo sem confundir o irmão iludiase a si próprio De envolta com a transmissão e a educação houve ainda o exemplo estranho o meio doméstico Vimos os pais vejamos os tios Um deles o João era um homem de língua solta vida galante conversa picaresca Desde os onze anos entrou a admitirme às anedotas reais ou não eivadas todas de obscenidade ou imundície Não me respeitava a adolescência como não respeitava a batina do irmão com a diferença que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso Eu não deixavame estar sem entender nada a princípio depois entendendo e enfim achandolhe graça No fim de certo tempo quem o procurava era eu e ele gostava muito de mim davame doces levavame a passeio Em casa quando lá ia passar alguns dias não poucas vezes me aconteceu achálo no fundo da chácara no lavadouro a palestrar com as escravas que batiam roupa aí é que era um desfiar de anedotas de ditos de perguntas e um estalar de risadas que ninguém podia ouvir porque o lavadouro ficava muito longe de casa As pretas com uma tanga no ventre a arregaçarlhes um palmo dos vestidos umas dentro do tanque outras fora inclinadas sobre as peças de roupa a batêlas a ensaboálas a torcêlas iam ouvindo e redargüindo às pilhérias do tio João e a comentálas de quando em quando com esta palavra Cruz diabo Este sinhô João é o diabo Bem diferente era o tio cônego Esse tinha muita austeridade e pureza tais dotes contudo não realçavam um espírito superior apenas compensavam um espírito medíocre Não era homem que visse a parte substancial da igreja via o lado externo a hierarquia as preeminências as sobrepelizes as circunflexões Vinha antes da sacristia que do altar Uma lacuna no ritual excitavao mais do que uma infração dos mandamentos Agora a tantos anos de distância não estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano ou expor sem titubear a história do símbolo de Nicéia mas ninguém nas festas cantadas sabia melhor o número e casos das cortesias que se deviam ao oficiante Cônego foi a única ambição de sua vida e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar Piedoso severo nos costumes minucioso na observância das regras frouxo acanhado subalterno possuía algumas virtudes em que era exemplar mas carecia absolutamente da força de as incutir de as impor aos outros Não digo nada de minha tia materna D Emerenciana e aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim essa diferençavase grandemente dos outros mas viveu pouco tempo em nossa companhia uns dois anos Outros parentes e alguns íntimos não merecem a pena de ser citados não tivemos uma vida comum mas intermitente com grandes claros de separação O que importa é a expressão geral do meio doméstico e essa aí fica indicada vulgaridade de caracteres amor das aparências rutilantes do arruído frouxidão da vontade domínio do capricho e o mais Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor CAPÍTULO XII UM EPISÓDIO DE 1814 Mas eu não quero passar adiante sem contar sumariamente um galante episódio de 1814 tinha nove anos Napoleão quando eu nasci estava já em todo o esplendor da glória e do poder era imperador e granjeara inteiramente a admiração dos homens Meu pai que à força de persuadir os outros da nossa nobreza acabara persuadindose a si próprio nutria contra ele um ódio puramente mental Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa porque meu tio João não sei se por espírito de classe e simpatia de ofício perdoava no déspota o que admirava no general meu tio padre era inflexível contra o corso os outros parentes dividiamse daí as controvérsias e as rusgas Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão houve naturalmente grande abalo em nossa casa mas nenhum chasco ou remoque Os vencidos testemunhas do regozijo público julgaram mais decoroso o silêncio alguns foram além e bateram palmas A população cordialmente alegre não regateou demonstrações de afeto à real família houve iluminações salvas Te Deum cortejo e aclamações Figurei nesses dias com um espadim novo que meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio e francamente interessavame mais o espadim do que a queda de Bonaparte Nunca me esqueceu esse fenômeno Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão E notem que eu ouvi muito discurso quando era vivo li muita página rumorosa de grandes idéias e maiores palavras mas não sei por que no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado Vaite embora tu só cuidas do espadim Não se contentou a minha família em ter um quinhão anônimo no regozijo público entendeu oportuno e indispensável celebrar a destituição do imperador com um jantar e tal jantar que o ruído das aclamações chegasse aos ouvidos de Sua Alteza ou quando menos de seus ministros Dito e feito Veio abaixo toda a velha prataria herdada do meu avô Luís Cubas vieram as toalhas de Flandres as grandes jarras da Índia matouse um capado encomendaramse às madres da Ajuda as compotas e as marmeladas lavaramse arearamse poliramse as salas escadas castiçais arandelas as vastas mangas de vidro todos os aparelhos do luxo clássico Dada a hora achouse reunida uma sociedade seleta o juizdefora três ou quatro oficiais militares alguns comerciantes e letrados vários funcionários da administração uns com suas mulheres e filhas outros sem elas mas todos comungando no desejo de atolar a memória de Bonaparte no papo de um peru Não era um jantar mas um TeDeum foi o que pouco mais ou menos disse um dos letrados presentes o Dr Vilaça glosador insigne que acrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas Lembrame como se fosse ontem lembrame de o ver erguerse com a sua longa cabeleira de rabicho casaca de seda uma esmeralda no dedo pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote e repetido o mote cravar os olhos na testa de uma senhora depois tossir alçar a mão direita toda fechada menos o dedo índice que apontava para o teto e assim posto e composto devolver o mote glosado Não fez uma glosa mas três depois jurou aos seus deuses não acabar mais Pedia um mote davamlho ele glosavao prontamente e logo pedia outro e mais outro a tal ponto que uma das senhoras presentes não pôde calar a sua grande admiração A senhora diz isso retorquia modestamente o Vilaça porque nunca ouviu o Bocage como eu ouvi no fim do século em Lisboa Aquilo sim que facilidade e que versos Tivemos lutas de uma e duas horas no botequim do Nicola a glosarmos no meio de palmas e bravos Imenso talento o do Bocage Era o que me dizia há dias a senhora Duquesa de Cadaval E estas três palavras últimas expressas com muita ênfase produziram em toda a assembléia um frêmito de admiração e pasmo Pois esse homem tão dado tão simples além de pleitear com poetas discreteava com duquesas Um Bocage e uma Cadaval Ao contato de tal homem as damas sentiamse superfinas os varões olhavamno com respeito alguns com inveja não raros com incredulidade Ele entretanto ia caminho a acumular adjetivo sobre adjetivo advérbio sobre advérbio a desfiar todas as rimas de tirano e de usurpador Era à sobremesa ninguém já pensava em comer No intervalo das glosas corria um burburinho alegre um palavrear de estômagos satisfeitos os olhos moles e úmidos ou vivos e cálidos espreguiçavamse ou saltitavam de uma ponta à outra da mesa atulhada de doces e frutas aqui o ananás em fatias ali o melão em talhadas as compoteiras de cristal deixando ver o doce de coco finamente ralado amarelo como uma gema ou então o melado escuro e grosso não longe do queijo e do cará De quando em quando um riso jovial amplo desabotoado um riso de família vinha quebrar a gravidade política do banquete No meio do interesse grande e comum agitavamse também os pequenos e particulares As moças falavam das modinhas que haviam de cantar ao cravo e do minuete e do solo inglês nem faltava matrona que prometesse bailar um oitavado de compasso só para mostrar como folgara nos seus bons tempos de criança Um sujeito ao pé de mim dava a outro notícia recente dos negros novos que estavam a vir segundo cartas que recebera de Loanda uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças e outra carta em que Trazia as justamente na algibeira mas não as podia ler naquela ocasião O que afiançava é que podíamos contar só nessa viagem uns cento e vinte negros pelo menos Trás trás trás fazia o Vilaça batendo com as mãos uma na outra O rumor cessava de súbito como um estacado de orquestra e todos os olhos se voltavam para o glosador Quem ficava longe aconcheava a mão atrás da orelha para não perder palavra a mor parte antes mesmo da glosa tinha já um meio riso de aplauso trivial e cândido Quanto a mim lá estava solitário e deslembrado a namorar certa compota da minha paixão No fim de cada glosa ficava muito contente esperando que fosse a última mas não era e a sobremesa continuava intata Ninguém se lembrava de dar a primeira voz Meu pai à cabeceira saboreava a goles extensos a alegria dos convivas miravase todo nos carões alegres nos pratos nas flores deliciava se com a familiaridade travada entre os mais distantes espíritos influxo de um bom jantar Eu via isso porque arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota como a pedirlhe que ma servisse mas faziao em vão Ele não via nada viase a si mesmo E as glosas sucediamse como bátegas dágua obrigandome a recolher o desejo e o pedido Pacientei quanto pude e não pude muito Pedi em voz baixa o doce enfim bradei berrei bati com os pés Meu pai que seria capaz de me dar o sol se eu lho exigisse chamou um escravo para me servir o doce mas era tarde A tia Emerenciana arrancarame da cadeira e entregarame a uma escrava não obstante os meus gritos e repelões Não foi outro o delito do glosador retardara a compota e dera causa à minha exclusão Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança qualquer que fosse mas grande e exemplar coisa que de alguma maneira o tornasse ridículo Que ele era um homem grave o Dr Vilaça medido e lento quarenta e sete anos casado e pai Não me contentava o rabo de papel nem o rabicho da cabeleira havia de ser coisa pior Entrei a espreitálo durante o resto da tarde a seguilo na chácara aonde todos desceram a passear Vio conversar com D Eusébia irmã do sargentomor Domingues uma robusta donzelona que se não era bonita também não era feia Estou muito zangada com o senhor dizia ela Por quê Porque não sei por quê porque é a minha sina creio às vezes que é melhor morrer Tinham penetrado numa pequena moita era luscofusco eu segui os O Vilaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volúpia Deixeme disse ela Ninguém nos vê Morrer meu anjo Que idéias são essas Você sabe que eu morrerei também que digo morro todos os dias de paixão de saudades D Eusébia levou o lenço aos olhos O glosador vasculhava na memória algum pedaço literário e achou este que mais tarde verifiquei ser de uma das óperas do Judeu Não chores meu bem não queiras que o dia amanheça com duas auroras Disse isto puxoua para si ela resistiu um pouco mas deixouse ir uniram os rostos e eu ouvi estalar muito ao de leve um beijo o mais medroso dos beijos O Dr Vilaça deu um beijo em D Eusébia bradei eu correndo pela chácara Foi um estouro esta minha palavra a estupefação imobilizou a todos os olhos espraiavamse a uma e outra banda trocavamse sorrisos segredos à socapa as mães arrastavam as filhas pretextando o sereno Meu pai puxoume as orelhas disfarçadamente irritado deveras com a indiscrição mas no dia seguinte ao almoço lembrando o caso sacudiume o nariz a rir Ah brejeiro ah brejeiro CAPÍTULO XIII UM SALTO Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola a enfadonha escola onde aprendi a ler escrever contar dar cacholetas apanhálas e ir fazer diabruras ora nos morros ora nas praias onde quer que fosse propício a ociosos Tinha amarguras esse tempo tinha os ralhos os castigos as lições árduas e longas e pouco mais muito pouco e muito leve Só era pesada a palmatória e ainda assim Ó palmatória terror dos meus dias pueris tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre ossudo e calvo me incutiu no cérebro o alfabeto a prosódia a sintaxe e o mais que ele sabia benta palmatória tão praguejada dos modernos quem me dera ter ficado sob o teu jugo com a minha alma imberbe as minhas ignorâncias e o meu espadim aquele espadim de 1814 tão superior à espada de Napoleão Que querias tu afinal meu velho mestre de primeiras letras Lição de cor e compostura na aula nada mais nada menos do que quer a vida que é das últimas letras com a diferença que tu se me metias medo nunca me meteste zanga Vejote ainda agora entrar na sala com as tuas chinelas de couro branco capote lenço na mão calva à mostra barba rapada vejote sentar bufar grunhir absorver uma pitada inicial e chamarnos depois à lição E fizeste isto durante vinte e três anos calado obscuro pontual metido numa casinha da Rua do Piolho sem enfadar o mundo com a tua mediocridade até que um dia deste o grande mergulho nas trevas e ninguém te chorou salvo um preto velho ninguém nem eu que te devo os rudimentos da escrita Chamavase Ludgero o mestre quero escreverlhe o nome todo nesta página Ludgero Barata um nome funesto que servia aos meninos de eterno mote a chufas Um de nós o Quincas Borba esse então era cruel com o pobre homem Duas três vezes por semana havia de lhe deixar na algibeira das calças umas largas calças de enfiar ou na gaveta da mesa ou ao pé do tinteiro uma barata morta Se ele a encontrava ainda nas horas da aula dava um pulo circulava os olhos chamejantes dizianos os últimos nomes éramos sevandijas capadócios malcriados moleques Uns tremiam outros rosnavam o Quincas Borba porém deixavase estar quieto com os olhos espetados no ar Uma flor o Quincas Borba Nunca em minha infância nunca em toda a minha vida achei um menino mais gracioso inventivo e travesso Era a flor e não já da escola senão de toda a cidade A mãe viúva com alguma coisa de seu adorava o filho e traziao amimado asseado enfeitado com um vistoso pajem atrás um pajem que nos deixava gazear a escola ir caçar ninhos de pássaros ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição ou simplesmente arruar à toa como dois peraltas sem emprego E de imperador Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espírito Santo De resto nos nossos jogos pueris ele escolhia sempre um papel de rei ministro general uma supremacia qualquer que fosse Tinha garbo o traquinas e gravidade certa magnificência nas atitudes nos meneios Quem diria que Suspendamos a pena não adiantemos os sucessos Vamos de um salto a 1822 data da nossa independência política e do meu primeiro cativeiro pessoal CAPÍTULO XIV O PRIMEIRO BEIJO Tinha dezessete anos pungiame um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode Os olhos vivos e resolutos eram a minha feição verdadeiramente máscula Como ostentasse certa arrogância não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem se um homem com ares de menino Ao cabo era um lindo garção lindo e audaz que entrava na vida de botas e esporas chicote na mão e sangue nas veias cavalgando um corcel nervoso rijo veloz como o corcel das antigas baladas que o romantismo foi buscar ao castelo medieval para dar com ele nas ruas do nosso século O pior é que o estafaram a tal ponto que foi preciso deitálo à margem onde o realismo o veio achar comido de lazeira e vermes e por compaixão o transportou para os seus livros Sim eu era esse garção bonito airoso abastado e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa ou levantou para mim os olhos cobiçosos De todas porém a que me cativou logo foi uma uma não sei se diga este livro é casto ao menos na intenção na intenção é castíssimo Mas vá lá ou se há de dizer tudo ou nada A que me cativou foi uma dama espanhola Marcela a linda Marcela como lhe chamavam os rapazes do tempo E tinham razão os rapazes Era filha de um hortelão das Astúrias dissemo ela mesma num dia de sinceridade porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri vítima da invasão francesa ferido encarcerado espingardeado quando ela tinha apenas doze anos Cosas de España Quem quer que fosse porém o pai letrado ou hortelão a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica e mal chegava a entender a moral do código Era boa moça lépida sem escrúpulos um pouco tolhida pela austeridade do tempo que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas luxuosa impaciente amiga de dinheiro e de rapazes Naquele ano morria de amores por um certo Xavier sujeito abastado e tísico uma pérola Via pela primeira vez no Rocio Grande na noite das luminárias logo que constou a declaração da independência uma festa de primavera um amanhecer da alma pública Éramos dois rapazes o povo e eu vínhamos da infância com todos os arrebatamentos da juventude Via sair de uma cadeirinha airosa e vistosa um corpo esbelto ondulante um desgarre alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras Segueme disse ela ao pajem E eu seguia tão pajem como o outro como se a ordem me fosse dada deixeime ir namorado vibrante cheio das primeiras auroras A meio caminho chamaramlhe linda Marcela lembroume que ouvira tal nome a meu tio João e fiquei confesso que fiquei tonto Três dias depois perguntoume meu tio em segredo se queria ir a uma ceia de moças nos Cajueiros Fomos era em casa de Marcela O Xavier com todos os seus tubérculos presidia ao banquete noturno em que eu pouco ou nada comi porque só tinha olhos para a dona da casa Que gentil que estava a espanhola Havia mais uma meia dúzia de mulheres todas de partido e bonitas cheias de graça mas a espanhola O entusiasmo alguns goles de vinho o gênio imperioso estouvado tudo isso me levou a fazer uma coisa única à saída à porta da rua disse a meu tio que esperasse um instante e tornei a subir as escadas Esqueceu alguma coisa perguntou Marcela de pé no patamar O lenço Ela ia abrirme caminho para tornar à sala eu segureilhe nas mãos puxeia para mim e deilhe um beijo Não sei se ela disse alguma coisa se gritou se chamou alguém não sei nada sei que desci outra vez as escadas veloz como um tufão e incerto como um ébrio CAPÍTULO XV MARCELA Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela não já cavalgando o corcel do cego desejo mas o asno da paciência a um tempo manhoso e teimoso Que em verdade há dois meios de granjear a vontade das mulheres o violento como o touro de Europa e o insinuativo como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Danae três inventos do Padre Zeus que por estarem fora da moda aí ficam trocados no cavalo e no asno Não direi as traças que urdi nem as peitas nem as alternativas de confiança e temor nem as esperas baldadas nem nenhuma outra dessas coisas preliminares Afirmolhes que o asno foi digno do corcel um asno de Sancho deveras filósofo que me levou à casa dela no fim do citado período apeeime batilhe na anca e mandeio pastar Primeira comoção da minha juventude que doce que me foste Tal devia ser na criação bíblica o efeito do primeiro sol Imagina tu esse efeito do primeiro sol a bater de chapa na face de um mundo em flor Pois foi a mesma coisa leitor amigo e se alguma vez contaste dezoito anos deves lembrarte que foi assim mesmo Teve duas fases a nossa paixão ou ligação ou qualquer outro nome que eu de nomes não curo teve a fase consular e a fase imperial Na primeira que foi curta regemos o Xavier e eu sem que ele jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma mas quando a credulidade não pôde resistir à evidência o Xavier depôs as insígnias e eu concentrei todos os poderes na minha mão foi a fase cesariana Era meu o universo mas ai triste não o era de graça Foime preciso coligir dinheiro multiplicálo inventálo Primeiro explorei as larguezas de meu pai ele davame tudo o que eu lhe pedia sem repreensão sem demora sem frieza dizia a todos que eu era rapaz e que ele o fora também Mas a tal extremo chegou o abuso que ele restringiu um pouco as franquezas depois mais depois mais Então recorri a minha mãe e induzia a desviar alguma coisa que me dava às escondidas Era pouco lancei mão de um recurso último entrei a sacar sobre a herança de meu pai a assinar obrigações que devia resgatar um dia com usura Em verdade diziame Marcela quando eu lhe levava alguma seda alguma jóia em verdade você quer brigar comigo Pois isto é coisa que se faça um presente tão caro E se era jóia dizia isto a contemplála entre os dedos a procurar melhor luz a ensaiála em si e a rir e a beijarme com uma reincidência impetuosa e sincera mas protestando derramavase lhe a felicidade dos olhos e eu sentiame feliz com vêla assim Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro e eu levavalhe quantas podia obter Marcela juntavaas todas dentro de uma caixinha de ferro cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava escondiaa por medo dos escravos A casa em que morava nos Cajueiros era própria Eram sólidos e bons os móveis de jacarandá lavrado e todas as demais alfaias espelhos jarras baixela uma linda baixela da Índia que lhe doara um desembargador Baixela do diabo desteme grandes repelões aos nervos Disseo muita vez à própria dona não lhe dissimulava o tédio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho Ela ouviame e ria com uma expressão cândida cândida e outra coisa que eu nesse tempo não entendia bem mas agora relembrando o caso penso que era um riso misto como devia ter a criatura que nascesse por exemplo de uma bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock Não sei se me explico E porque tinha notícia dos meus zelos tardios parece que gostava de os açular mais Assim foi que um dia como eu lhe não pudesse dar certo colar que ela vira num joalheiro retorquiume que era um simples gracejo que o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo Não lhe perdôo se você fizer de mim essa triste idéia concluiu ameaçandome com o dedo E logo súbita como um passarinho espalmou as mãos cingiume com elas o rosto puxoume a si e fez um trejeito gracioso um momo de criança Depois reclinada na marquesa continuou a falar daquilo com simplicidade e franqueza Jamais consentiria que lhe comprassem os afetos Vendera muita vez as aparências mas a realidade guardavaa para poucos Duarte por exemplo o alferes Duarte que ela amara deveras dois anos antes só a custo conseguia darlhe alguma coisa de valor como me acontecia a mim ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso preço como a cruz de ouro que lhe deu uma vez de festas Esta cruz Dizia isto metendo a mão no seio e tirando uma cruz fina de ouro presa a uma fita azul e pendurada ao colo Mas essa cruz observei eu não me disseste que era teu pai que Marcela abanou a cabeça com um ar de lástima Não percebeste que era mentira que eu dizia isso para te não molestar Vem cá chiquito não sejas assim desconfiado comigo Amei a outro que importa se acabou Um dia quando nos separarmos Não digas isso bradei eu Tudo cessa Um dia Não pôde acabar um soluço estranguloulhe a voz estendeu as mãos tomou das minhas conchegoume ao seio e sussurroume baixo ao ouvido Nunca nunca meu amor Eu agradecilho com os olhos úmidos No dia seguinte leveilhe o colar que havia recusado Para te lembrares de mim quando nos separarmos disse eu Marcela teve primeiro um silêncio indignado depois fez um gesto magnífico tentou atirar o colar à rua Eu retivelhe o braço pedilhe muito que não me fizesse tal desfeita que ficasse com a jóia Sorriu e ficou Entretanto pagavame à farta os sacrifícios espreitava os meus mais recônditos pensamentos não havia desejo a que não acudisse com alma sem esforço por uma espécie de lei da consciência e necessidade do coração Nunca o desejo era razoável mas um capricho puro uma criancice vêla trajar de certo modo com tais e tais enfeites este vestido e não aquele ir a passeio ou outra coisa assim e ela cedia a tudo risonha e palreira Você é das Arábias diziame E ia a pôr o vestido a renda os brincos com uma obediência de encantar CAPÍTULO XVI UMA REFLEXÃO IMORAL Ocorreme uma reflexão imoral que é ao mesmo tempo uma correção de estilo Cuido haver dito no capítulo XIV que Marcela morria de amores pelo Xavier Não morria vivia Viver não é a mesma coisa que morrer assim o afirmam todos os joalheiros deste mundo gente muito vista na gramática Bons joalheiros que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer a qual é ainda mais obscura do que imoral porque não se entende bem o que eu quero dizer O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela se a cingir um diadema de pedras finas nem menos bela nem menos amada Marcela por exemplo que era bem bonita Marcela amoume CAPÍTULO XVII DO TRAPÉZIO E OUTRAS COISAS Marcela amoume durante quinze meses e onze contos de réis nada menos Meu pai logo que teve aragem dos onze contos sobressaltouse deveras achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil Desta vez disse ele vais para a Europa vais cursar uma Universidade provavelmente Coimbra querote para homem sério e não para arruador e gatuno E como eu fizesse um gesto de espanto Gatuno sim senhor não é outra coisa um filho que me faz isto Sacou da algibeira os meus títulos de dívida já resgatados por ele e sacudiumos na cara Vês peralta é assim que um moço deve zelar o nome dos seus Pensas que eu e meus avós ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas Pelintra Desta vez ou tomas juízo ou ficas sem coisa nenhuma Estava furioso mas de um furor temperado e curto Eu ouvio calado e nada opus à ordem da viagem como de outras vezes fizera ruminava a idéia de levar Marcela comigo Fui ter com ela expuslhe a crise e fizlhe a proposta Marcela ouviume com os olhos no ar sem responder logo como insistisse disseme que ficava que não podia ir para a Europa Por que não Não posso disse ela com ar dolente não posso ir respirar aqueles ares enquanto me lembrar de meu pobre pai morto por Napoleão Qual deles o hortelão ou o advogado Marcela franziu a testa cantarolou uma seguidilha entre dentes depois queixouse do calor e mandou vir um copo de aluá Trouxe lho a mucama numa salva de prata que fazia parte dos meus onze contos Marcela ofereceume polidamente o refresco minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva entornouselhe o líquido no regaço a preta deu um grito eu bradeilhe que se fosse embora Ficando a sós derramei todo o desespero de meu coração disselhe que ela era um monstro que jamais me tivera amor que me deixara descer a tudo sem ter ao menos a desculpa da sinceridade chamei lhe muitos nomes feios fazendo muitos gestos descompostos Marcela deixarase estar sentada a estalar as unhas nos dentes fria como um pedaço de mármore Tive ímpetos de a estrangular de a humilhar ao menos subjugandoa a meus pés Ia talvez fazêlo mas a ação trocouse noutra fui eu que me atirei aos pés dela contrito e súplice beijeilhos recordei aqueles meses da nossa felicidade solitária repetilhe os nomes queridos de outro tempo sentado no chão com a cabeça entre os joelhos dela apertandolhe muito as mãos ofegante desvairado pedilhe com lágrimas que me não desamparasse Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim calados ambos até que brandamente me desviou e com um ar enfastiado Não me aborreça disse Levantouse sacudiu o vestido ainda molhado e caminhou para a alcova Não bradei eu não hás de entrar não quero Ia a lançarlhe as mãos era tarde ela entrara e fecharase Saí desatinado gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais excêntricos e desertos onde fosse difícil dar comigo Ia mastigando o meu desespero com uma espécie de gula mórbida evocava os dias as horas os instantes de delírio e ora me comprazia em crer que eles eram eternos que tudo aquilo era um pesadelo ora enganandome a mim mesmo tentava rejeitálos de mim como um fardo inútil Então resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades e deleitavame com a idéia de que Marcela sabendo da partida ficaria ralada de saudades e remorsos Que ela amarame a tonta devia de sentir alguma coisa uma lembrança qualquer como do alferes Duarte Nisto o dente do ciúme enterravaseme no coração toda a natureza bradava que era preciso levar Marcela comigo Por força por força dizia eu ferindo o ar com uma punhada Enfim tive uma idéia salvadora Ah trapézio dos meus pecados trapézio das concepções abstrusas A idéia salvadora trabalhou nele como a do emplasto capítulo II Era nada menos que fascinála fascinála muito deslumbrála arrastála lembroume pedirlhe por um meio mais concreto do que a súplica Não medi as conseqüências recorri a um derradeiro empréstimo fui à Rua dos Ourives comprei a melhor jóia da cidade três diamantes grandes encastoados num pente de marfim corri à casa de Marcela Marcela estava reclinada numa rede o gesto mole e cansado uma das pernas pendentes a verselhe o pezinho calçado de meia de seda os cabelos soltos derramados o olhar quieto e sonolento Vem comigo disse eu arranjei recursos temos muito dinheiro terás tudo o que quiseres Olha toma E mostreilhe o pente com os diamantes Marcela teve um leve sobressalto ergueu metade do corpo e apoiada num cotovelo olhou para o pente durante alguns instantes curtos depois retirou os olhos tinhase dominado Então eu lanceilhe as mãos aos cabelos coligi os enlaceios à pressa improvisei um toucado sem nenhum alinho e remateio com o pente de diamantes recuei tornei a aproximar me corrigilhe as madeixas abaixeias de um lado busquei alguma simetria naquela desordem tudo com uma minuciosidade e um carinho de mãe Pronto disse eu Doudo foi a sua primeira resposta A segunda foi puxarme para si e pagarme o sacrifício com um beijo o mais ardente de todos Depois tirou o pente admirou muito a matéria e o lavor olhando a espaços para mim e abanando a cabeça com um ar de repreensão Ora você dizia Vens comigo Marcela refletiu um instante Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede e da parede para a jóia mas toda a má impressão se desvaneceu quando ela me respondeu resolutamente Vou Quando embarcas Daqui a dois ou três dias Vou Agradecilho de joelhos Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias e disselho ela sorriu e foi guardar a jóia enquanto eu descia a escada CAPÍTULO XVIII VISÃO DO CORREDOR No fim da escada ao fundo do corredor escuro parei alguns instantes para respirar apalparme convocar as idéias dispersas reaverme enfim no meio de tantas sensações profundas e contrárias Achavame feliz Certo é que os diamantes corrompiam me um pouco a felicidade mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes E depois eu confiava na minha boa Marcela podia ter defeitos mas amava me Um anjo murmurei olhando para o teto do corredor E aí como um escárnio vi o olhar de Marcela aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança o qual chispava de cima de um nariz que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu Pobre namorado das Mil e Uma Noites Vite ali mesmo correr atrás da mulher do vizir ao longo da galeria ela a acenarte com a posse e tu a correr a correr a correr até a alameda comprida donde saíste à rua onde todos os correeiros te apuparam e desancaram Então pareceume que o corredor de Marcela era a alameda e que a rua era a de Bagdá Com efeito olhando para a porta vi na calçada três dos correeiros um de batina outro de libré outro à paisana os quais todos três entraram no corredor tomaram me pelos braços meteramme numa sege meu pai à direita meu tio cônego à esquerda o da libré na boléia e lá me levaram à casa do intendente de polícia donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa Imaginem se resisti mas toda a resistência era inútil Três dias depois segui barra fora abatido e mudo Não chorava sequer tinha uma idéia fixa Malditas idéias fixas A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano repetindo o nome de Marcela CAPÍTULO XIX A BORDO Éramos onze passageiros um homem doido acompanhado pela mulher dois rapazes que iam a passeio quatro comerciantes e dois criados Meu pai recomendoume a todos começando pelo capitão do navio que aliás tinha muito que cuidar de si porque além do mais levava a mulher tísica em último grau Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto ou se meu pai o pôs de sobreaviso sei que não me tirava os olhos de cima chamavame para toda a parte Quando não podia estar comigo levavame para a mulher A mulher ia quase sempre numa camilha rasa a tossir muito e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa Não estava magra estava transparente era impossível que não morresse de uma hora para outra O capitão fingia não crer na morte próxima talvez por enganarse a si mesmo Eu não sabia nem pensava nada Que me importava a mim o destino de uma mulher tísica no meio do oceano O mundo para mim era Marcela Uma noite logo no fim de uma semana achei ensejo propício para morrer Subi cauteloso mas encontrei o capitão que junto à amurada tinha os olhos fitos no horizonte Algum temporal disse eu Não respondeu ele estremecendo não admiro o esplendor da noite Veja está celestial O estilo desmentia da pessoa assaz rude e aparentemente alheia a locuções rebuscadas Fiteio ele pareceu saborear o meu espanto No fim de alguns segundos pegoume na mão e apontou para a lua perguntandome por que não fazia uma ode à noite respondilhe que não era poeta O capitão rosnou alguma coisa deu dois passos meteu a mão no bolso sacou um pedaço de papel muito amarrotado depois à luz de uma lanterna leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida marítima Eram versos dele Que tal Não me lembra o que lhe disse lembrame que ele me apertou a mão com muita força e muitos agradecimentos logo depois recitou me dois sonetos ia recitarme outro quando o vieram chamar da parte da mulher Lá vou disse ele e recitoume o terceiro soneto com pausa com amor Fiquei só mas a musa do capitão varrerame do espírito os pensamentos maus preferi dormir que é um modo interino de morrer No dia seguinte acordamos debaixo de um temporal que meteu medo a toda a gente menos ao doido esse entrou a dar pulos a dizer que a filha o mandava buscar numa berlinda a morte de uma filha fora a causa da loucura Não nunca me há de esquecer a figura hedionda do pobre homem no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão a cantarolar e a bailar com os olhos a saltaremlhe da cara pálido cabelo arrepiado e longo Às vezes parava erguia ao ar as mãos ossudas fazia umas cruzes com os dedos depois um xadrez depois umas argolas e ria muito desesperadamente A mulher não podia já cuidar dele entregue ao terror da morte rezava por si mesma a todos os santos do Céu Enfim a tempestade amainou Confesso que foi uma diversão excelente à tempestade do meu coração Eu que meditava ir ter com a morte não ousei fitála quando ela veio ter comigo O capitão perguntoume se tivera medo se estivera em risco se não achara sublime o espetáculo tudo isso com um interesse de amigo Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar o capitão perguntoume se não gostava de idílios piscatórios eu respondilhe ingenuamente que não sabia o que era Vai ver respondeu E recitoume um poemazinho depois outro uma égloga e enfim cinco sonetos com os quais rematou nesse dia a confidência literária No dia seguinte antes de me recitar nada explicoume o capitão que só por motivos graves abraçara a profissão marítima porque a avó queria que ele fosse padre e com efeito possuía algumas letras latinas não chegou a ser padre mas não deixou de ser poeta que era a sua vocação natural Para proválo recitoume logo de corpo presente uma centena de versos Notei um fenômeno os ademanes que ele usava eram tais que uma vez me fizeram rir mas o capitão quando recitava de tal sorte olhava para dentro de si mesmo que não viu nem ouviu nada Os dias passavam e as águas e os versos e com eles ia também passando a vida da mulher Estava por pouco Um dia logo depois do almoço disseme o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da semana Já exclamei Passou muito mal a noite Fui vêla acheia na verdade quase moribunda mas falando ainda de descansar em Lisboa alguns dias antes de ir comigo a Coimbra porque era seu propósito levarme à Universidade Deixeia consternado fui achar o marido a olhar para as vagas que vinham morrer no costado do navio e tratei de o consolar ele agradeceu me relatoume a história dos seus amores elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher relembrou os versos que lhe fez e recitoumos Neste ponto vieram buscálo da parte dela corremos ambos era uma crise Esse e o dia seguinte foram cruéis o terceiro foi o da morte eu fugi ao espetáculo tinhalhe repugnância Meia hora depois encontrei o capitão sentado num molho de cabos com a cabeça nas mãos disselhe alguma coisa de conforto Morreu como uma santa respondeu ele e para que estas palavras não pudessem ser levadas à conta de fraqueza ergueuse logo sacudiu a cabeça e fitou o horizonte com um gesto longo e profundo Vamos continuou entreguemola à cova que nunca mais se abre Efetivamente poucas horas depois era o cadáver lançado ao mar com as cerimônias do costume A tristeza murchara todos os rostos o do viúvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo raio Grande silêncio A vaga abriu o ventre acolheu o despojo fechouse uma leve ruga e a galera foi andando Eu deixeime estar alguns minutos à popa com os olhos naquele ponto incerto do mar em que ficava um de nós Fui dali ter com o capitão para distraílo Obrigado disseme ele compreendendo a intenção creia que nunca me esquecerei dos seus bons serviços Deus é que lhos há de pagar Pobre Leocádia tu te lembrarás de nós no Céu Enxugou com a manga uma lágrima importuna eu busquei um derivativo na poesia que era a paixão dele Faleilhe dos versos que me lera e oferecime para imprimilos Os olhos do capitão animaramse um pouco Talvez aceite disse ele mas não sei são bem frouxos versos Jureilhe que não pedi que os reunisse e mos desse antes do desembarque Pobre Leocádia murmurou sem responder ao pedido Um cadáver o mar o céu o navio No dia seguinte veio lerme um epicédio composto de fresco em que estavam memoradas as circunstâncias da morte e da sepultura da mulher leumo com a voz comovida deveras e a mão trêmula no fim perguntoume se os versos eram dignos do tesouro que perdera São disse eu Não haverá estro ponderou ele no fim de um instante mas ninguém me negará sentimento se não é que o próprio sentimento prejudicou a perfeição Não me parece acho os versos perfeitos Sim eu creio que Versos de marujo De marujo poeta Ele levantou os ombros olhou para o papel e tornou a recitar a composição mas já então sem tremuras acentuando as intenções literárias dando relevo às imagens e melodia aos versos No fim confessoume que era a sua obra mais acabada eu disselhe que sim ele apertoume muito a mão e predisseme um grande futuro CAPÍTULO XX BACHARELOME Um grande futuro Enquanto esta palavra me batia no ouvido devolvia eu os olhos ao longe no horizonte misterioso e vago Uma idéia expelia outra a ambição desmontava Marcela Grande futuro Talvez naturalista literato arqueólogo banqueiro político ou até bispo bispo que fosse uma vez que fosse um cargo uma preeminência uma grande reputação uma posição superior A ambição dado que fosse águia quebrou nessa ocasião o ovo e desvendou a pupila fulva e penetrante Adeus amores adeus Marcela dias de delírio jóias sem preço vida sem regímen adeus Cá me vou às fadigas e à glória deixovos com as calcinhas da primeira idade E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra A Universidade esperavame com as suas matérias árduas estudeias muito mediocremente e nem por isso perdi o grau de bacharel derammo com a solenidade do estilo após os anos da lei uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades principalmente de saudades Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião era um acadêmico estróina superficial tumultuário e petulante dado às aventuras fazendo romantismo prático e liberalismo teórico vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas No dia em que a Universidade me atestou em pergaminho uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro confesso que me achei de algum modo logrado ainda que orgulhoso Explicome o diploma era uma carta de alforria se me dava a liberdade davame a responsabilidade Guardeio deixei as margens do Mondego e vim por ali fora assaz desconsolado mas sentindo já uns ímpetos uma curiosidade um desejo de acotovelar os outros de influir de gozar de viver de prolongar a Universidade pela vida adiante CAPÍTULO XXI O ALMOCREVE Vai então empacou o jumento em que eu vinha montado fustiguei o ele deu dois corcovos depois mais três enfim mais um que me sacudiu fora da sela com tal desastre que o pé esquerdo me ficou preso no estribo tento agarrarme ao ventre do animal mas já então espantado disparou pela estrada fora Digo mal tentou disparar e efetivamente deu dois saltos mas um almocreve que ali estava acudiu a tempo de lhe pegar na rédea e detêlo não sem esforço nem perigo Dominado o bruto desvencilheime do estribo e pusme de pé Olhe do que vosmecê escapou disse o almocreve E era verdade se o jumento corre por ali fora contundiame deveras e não sei se a morte não estaria no fim do desastre cabeça partida uma congestão qualquer transtorno cá dentro lá se me ia a ciência em flor O almocreve salvarame talvez a vida era positivo eu sentiano no sangue que me agitava o coração Bom almocreve enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo ele cuidava de consertar os arreios do jumento com muito zelo e arte Resolvi dar lhe três moedas de ouro das cinco que trazia comigo não porque tal fosse o preço da minha vida essa era inestimável mas porque era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou Está dito doulhe as três moedas Pronto disse ele apresentandome a rédea da cavalgadura Daqui a nada respondi deixame que ainda não estou em mim Ora qual Pois não é certo que ia morrendo Se o jumento corre por aí fora é possível mas com a ajuda do Senhor viu vosmecê que não aconteceu nada Fui aos alforjes tirei um colete velho em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação se não bastavam duas moedas Talvez uma Com efeito uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria Examineilhe a roupa era um pobrediabo que nunca jamais vira uma moeda de ouro Portanto uma moeda Tireia via reluzir à luz do sol não a viu o almocreve porque eu tinhalhe voltado as costas mas suspeitouo talvez entrou a falar ao jumento de um modo significativo davalhe conselhos dizialhe que tomasse juízo que o senhor doutor podia castigálo um monólogo paternal Valhame Deus até ouvi estalar um beijo era o almocreve que lhe beijava a testa Olé exclamei Queira vosmecê perdoar mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça Rime hesitei metilhe na mão um cruzado em prata cavalguei o jumento e segui a trote largo um pouco vexado melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha Mas a algumas braças de distância olhei para trás o almocreve faziame grandes cortesias com evidentes mostras de contentamento Adverti que devia ser assim mesmo eu pagaralhe bem pagaralhe talvez demais Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre eram os vinténs que eu devera ter dado ao almocreve em lugar do cruzado em prata Porque enfim ele não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude cedeu a um impulso natural ao temperamento aos hábitos do ofício acresce que a circunstância de estar não mais adiante nem mais atrás mas justamente no ponto do desastre parecia constituílo simples instrumento da Providência e de um ou de outro modo o mérito do ato era positivamente nenhum Fiquei desconsolado com esta reflexão chameime pródigo lancei o cruzado à conta das minhas dissipações antigas tive por que não direi tudo tive remorsos CAPÍTULO XXII VOLTA AO RIO Jumento de uma figa cortasteme o fio às reflexões Já agora não digo o que pensei dali até Lisboa nem o que fiz em Lisboa na península e em outros lugares da Europa da velha Europa que nesse tempo parecia remoçar Não não direi que assisti às alvoradas do romantismo que também eu fui fazer poesia efetiva no regaço da Itália não direi coisa nenhuma Teria de escrever um diário de viagem e não umas memórias como estas são nas quais só entra a substância da vida Ao cabo de alguns anos de peregrinação atendi às súplicas de meu pai Vem dizia ele na última carta se não vieres depressa acharás tua mãe morta Esta última palavra foi para mim um golpe Eu amava minha mãe tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias da última bênção que ela me dera a bordo do navio Meu triste filho nunca mais te verei soluçava a pobre senhora apertandome ao peito E essas palavras ressoavamme agora como uma profecia realizada Notese que eu estava em Veneza ainda recendente aos versos de lord Byron lá estava mergulhado em pleno sonho revivendo o pretérito crendome na Sereníssima República É verdade uma vez aconteceume perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia Que doge signor mio Caí em mim mas não confessei a ilusão disselhe que a minha pergunta era um gênero de charada americana ele mostrou compreender e acrescentou que gostava muito das charadas americanas Era um locandeiro Pois deixei tudo isso o locandeiro o doge a Ponte dos Suspiros a gôndola os versos do lorde as damas do Rialto deixei tudo e disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro Vim Mas não não alonguemos este capítulo Às vezes esqueçome a escrever e a pena vai comendo papel com grave prejuízo meu que sou autor Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões e nós não somos um público infolio mas in12 pouco texto larga margem tipo elegante corte dourado e vinhetas Não não alonguemos o capítulo CAPÍTULO XXIII TRISTE MAS CURTO Vim Não nego que ao avistar a cidade natal tive uma sensação nova Não era efeito da minha pátria política erao do lugar da infância a rua a torre o chafariz da esquina a mulher de mantilha o preto do ganho as coisas e cenas da meninice buriladas na memória Nada menos que uma renascença O espírito como um pássaro não se lhe deu da corrente dos anos arrepiou o vôo na direção da fonte original e foi beber da água fresca e pura ainda não mesclada do enxurro da vida Reparando bem há aí um lugarcomum Outro lugarcomum tristemente comum foi a consternação da família Meu pai abraçou me com lágrimas Tua mãe não pode viver disseme Com efeito não era já o reumatismo que a matava era um cancro no estômago A infeliz padecia de um modo cru porque o cancro é indiferente às virtudes do sujeito quando rói rói roer é o seu ofício Minha irmã Sabina já então casada com o Cotrim andava a cair de fadiga Pobre moça dormia três horas por noite nada mais O próprio tio João estava abatido e triste D Eusébia e algumas outras senhoras lá estavam também não menos tristes e não menos dedicadas Meu filho A dor suspendeu por um pouco as tenazes um sorriso alumiou o rosto da enferma sobre o qual a morte batia a asa eterna Era menos um rosto do que uma caveira a beleza passara como um dia brilhante restavam os ossos que não emagrecem nunca Mal poderia conhecêla havia oito ou nove anos que nos não víamos Ajoelhado ao pé da cama com as mãos dela entre as minhas fiquei mudo e quieto sem ousar falar porque cada palavra seria um soluço e nós temíamos avisála do fim Vão temor Ela sabia que estava prestes a acabar dissemo verificamolo na seguinte manhã Longa foi a agonia longa e cruel de uma crueldade minuciosa fria repisada que me encheu de dor e estupefação Era a primeira vez que eu via morrer alguém Conhecia a morte de outiva quando muito tinhaa visto já petrificada no rosto de algum cadáver que acompanhei ao cemitério ou trazialhe a idéia embrulhada nas amplificações de retórica dos professores de coisas antigas a morte aleivosa de César a austera de Sócrates a orgulhosa de Catão Mas esse duelo do ser e do não ser a morte em ação dolorida contraída convulsa sem aparelho político ou filosófico a morte de uma pessoa amada essa foi a primeira vez que a pude encarar Não chorei lembrame que não chorei durante o espetáculo tinha os olhos estúpidos a garganta presa a consciência boquiaberta Quê uma criatura tão dócil tão meiga tão santa que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto mãe carinhosa esposa imaculada era força que morresse assim trateada mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro incongruente insano Triste capítulo passemos a outro mais alegre CAPÍTULO XXIV CURTO MAS ALEGRE Fiquei prostrado E contudo era eu nesse tempo um fiel compêndio de trivialidade e presunção Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro nunca até esse dia me debruçara sobre o abismo do Inexplicável faltavame o essencial que é o estímulo a vertigem Para lhes dizer a verdade toda eu refletia as opiniões de um cabeleireiro que achei em Módena e que se distinguia por não as ter absolutamente Era a flor dos cabeleireiros por mais demorada que fosse a operação do toucado não enfadava nunca ele intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas cheios de um pico de um sabor Não tinha outra filosofia Nem eu Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma mas eu decoreilhe só as fórmulas o vocabulário o esqueleto Trateia como tratei o latim embolsei três versos de Virgílio dois de Horácio uma dúzia de locuções morais e políticas para as despesas da conversação Tratei os como tratei a história e a jurisprudência Colhi de todas as coisas a fraseologia a casca a ornamentação Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto Na vida o olhar da opinião o contraste dos interesses a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos a disfarçar os rasgões e os remendos a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência e o melhor da obrigação é quando à força de embaçar os outros embaçase um homem a si mesmo porque em tal caso poupase o vexame que é uma sensação penosa e a hipocrisia que é um vício hediondo Mas na morte que diferença que desabafo que liberdade Como a gente pode sacudir fora a capa deitar ao fosso as lantejoulas despregarse despintarse desafeitar se confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser Porque em suma já não há vizinhos nem amigos nem inimigos nem conhecidos nem estranhos não há platéia O olhar da opinião esse olhar agudo e judicial perde a virtude logo que pisamos o território da morte não digo que ele se não estenda para cá e nos não examine e julgue mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento Senhores vivos não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados CAPÍTULO XXV NA TIJUCA Ui Lá me ia a pena a escorregar para o enfático Sejamos simples como era simples a vida que levei na Tijuca durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe No sétimo dia acabada a missa fúnebre travei de uma espingarda alguns livros roupa charutos um moleque o Prudêncio do capítulo XI e fui meterme numa velha casa de nossa propriedade Meu pai forcejou por me torcer a resolução mas eu é que não podia nem queria obedecerlhe Sabina desejava que eu fosse morar com ela algum tempo duas semanas ao menos meu cunhado esteve a ponto de me levar à fina força Era um bom rapaz este Cotrim passara de estróina a circunspecto Agora comerciava em gêneros de estiva labutava de manhã até à noite com ardor com perseverança De noite sentado à janela a encaracolar as suíças não pensava em outra coisa Amava a mulher e um filho que então tinha e que lhe morreu alguns anos depois Diziam que era avaro Renunciei tudo tinha o espírito atônito Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria essa flor amarela solitária e mórbida de um cheiro inebriante e sutil Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção confesso que senti em mim um eco um eco delicioso Lembrame que estava sentado debaixo de um tamarineiro com o livro do poeta aberto nas mãos e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a figura ou jururu como dizemos das galinhas tristes Apertava ao peito a minha dor taciturna com uma sensação única uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento Volúpia do aborrecimento decora esta expressão leitor guardaa examinaa e se não chegares a entendêla podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo Às vezes caçava outras dormia outras lia lia muito outras enfim não fazia nada deixavame atoar de idéia em idéia de imaginação em imaginação como uma borboleta vadia ou faminta As horas iam pingando uma a uma o sol caía as sombras da noite velavam a montanha e a cidade Ninguém me visitava recomendei expressamente que me deixassem só Um dia dois dias três dias uma semana inteira passada assim sem dizer palavra era bastante para sacudirme da Tijuca fora e restituirme ao bulício Com efeito ao cabo de sete dias estava farto da solidão a dor aplacara o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros nem com a vista do arvoredo e do céu Reagia a mocidade era preciso viver Meti no baú o problema da vida e da morte os hipocondríacos do poeta as camisas as meditações as gravatas e ia fechálo quando o moleque Prudêncio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na véspera para uma casa roxa situada a duzentos passos da nossa Quem Nhonhô talvez não se lembre mais de D Eusébia Lembrame É ela Ela e a filha Vieram ontem de manhã Ocorreume logo o episódio de 1814 e sentime vexado mas adverti que os acontecimentos tinhamme dado razão Na verdade fora impossível evitar as relações íntimas do Vilaça com a irmã do sargentomor antes mesmo do meu embarque já se boquejava misteriosamente no nascimento de uma menina Meu tio João mandoume dizer depois que o Vilaça ao morrer deixara um bom legado a D Eusébia coisa que deu muito que falar em todo o bairro O próprio tio João guloso de escândalos não tratou de outro assunto na carta aliás de muitas folhas Tinhamme dado razão os acontecimentos Ainda porém que ma não dessem 1814 lá ia longe e com ele a travessura e o Vilaça e o beijo da moita finalmente nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela Fiz comigo essa reflexão e acabei de fechar o baú Nhonhô não vai visitar sinhá D Eusébia perguntoume o Prudêncio Foi ela quem vestiu o corpo da minha defunta senhora Lembreime que a vira entre outras senhoras por ocasião da morte e do enterro ignorava porém que ela houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obséquio A ponderação do moleque era razoável eu devialhe uma visita determinei fazêla imediatamente e descer CAPÍTULO XXVI O AUTOR HESITA Súbito ouço uma voz Olá meu rapaz isto não é vida Era meu pai que chegava com duas propostas na algibeira Senteime no baú e recebio sem alvoroço Ele esteve alguns instantes de pé a olhar para mim depois estendeume a mão com um gesto comovido Meu filho conformate com a vontade de Deus Já me conformei foi a minha resposta e beijeilhe a mão Não tinha almoçado almoçamos juntos Nenhum de nós aludiu ao triste motivo da minha reclusão Uma só vez falamos nisso de passagem quando meu pai fez recair a conversa na Regência foi então que aludiu à carta de pêsames que um dos Regentes lhe mandara Trazia a carta consigo já bastante amarrotada talvez por havêla lido a muitas outras pessoas Creio haver dito que era de um dos Regentes Leuma duas vezes Já lhe fui agradecer este sinal de consideração concluiu meu pai e acho que deves ir também Eu Tu é um homem notável faz hoje as vezes de imperador Demais trago comigo uma idéia um projeto ou sim digote tudo trago dois projetos um lugar de deputado e um casamento Meu pai disse isto com pausa e não no mesmo tom mas dando às palavras um jeito e disposição cujo fim era caválas mais profundamente no meu espírito A proposta porém desdizia tanto das minhas sensações últimas que eu cheguei a não entendêla bem Meu pai não fraqueou e repetiua encareceu o lugar e a noiva Aceitas Não entendo de política disse eu depois de um instante quanto à noiva deixeme viver como um urso que sou Mas os ursos casamse replicou ele Pois tragame uma ursa Olhe a UrsaMaior Riuse meu pai e depois de rir tornou a falar sério Erame necessária a carreira política dizia ele por vinte e tantas razões que deduziu com singular volubilidade ilustrandoas com exemplos de pessoas do nosso conhecimento Quanto à noiva bastava que eu a visse se a visse iria logo pedila ao pai logo sem demora de um dia Experimentou assim a fascinação depois a persuasão depois a intimação eu não dava resposta afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão a sorrir ou a refletir e para tudo dizer nem dócil nem rebelde à proposta Sentiame aturdido Uma parte de mim mesmo dizia que sim que uma esposa formosa e uma posição política eram bens dignos de apreço outra dizia que não e a morte de minha mãe me aparecia como um exemplo da fragilidade das coisas das afeições da família Não vou daqui sem uma resposta definitiva disse meu pai Defi nitiva repetiu batendo as sílabas com o dedo Bebeu o último gole de café repoltreouse e entrou a falar de tudo do Senado da Câmara da Regência da restauração do Evaristo de um coche que pretendia comprar da nossa casa de Matacavalos Eu deixavame estar ao canto da mesa a escrever desvairadamente num pedaço de papel com uma ponta de lápis traçava uma palavra uma frase um verso um nariz um triângulo e repetiaos muitas vezes sem ordem ao acaso assim arma virumque cano A Arma virumque cano arma virumque cano arma virumque arma virumque cano virumque Maquinalmente tudo isto e não obstante havia certa lógica certa dedução por exemplo foi o virumque que me fez chegar ao nome do próprio poeta por causa da primeira sílaba ia a escrever virumque e saime Virgílio então continuei Vir Virgílio Virgílio Virgílio Virgílio Virgílio Meu pai um pouco despeitado com aquela indiferença ergueuse veio a mim lançou os olhos ao papel Virgílio exclamou És tu meu rapaz a tua noiva chamase justamente Virgília CAPÍTULO XXVII VIRGÍLIA Virgília Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois A mesma era justamente a senhora que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias e que antes muito antes teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça e com certeza a mais voluntariosa Não digo que ia lhe coubesse a primazia da beleza entre as mocinhas do tempo porque isto não é romance em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha não Era bonita fresca saía das mãos da natureza cheia daquele feitiço precário e eterno que o indivíduo passa a outro indivíduo para os fins secretos da criação Era isto Virgília e era clara muito clara faceira ignorante pueril cheia de uns ímpetos misteriosos muita preguiça e alguma devoção devoção ou talvez medo creio que medo Aí tem o leitor em poucas linhas o retrato físico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida era aquilo com dezesseis anos Tu que me lês se ainda fores viva quando estas páginas vierem à luz tu que me lês Virgília amada não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi Crê que era tão sincero então como agora a morte não me tornou rabugento nem injusto Mas dirás tu como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo e exprimila depois de tantos anos Ah indiscreta ah ignorantona Mas é isso mesmo que nos faz senhores da Terra é esse poder de restaurar o passado para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante Não é uma errata pensante isso sim Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior e que será corrigida também até a edição definitiva que o editor dá de graça aos vermes CAPÍTULO XXVIII CONTANTO QUE Virgília interrompi eu Sim senhor é o nome da noiva Um anjo meu pateta um anjo sem asas Imagina uma moça assim desta altura viva como um azougue e uns olhos filha do Dutra Que Dutra O Conselheiro Dutra não conheces uma influência política Vamos lá aceitas Não respondi logo fitei por alguns segundos a ponta do botim declarei depois que estava disposto a examinar as duas coisas a candidatura e o casamento contanto que Contanto quê Contanto que não fique obrigado a aceitar as duas creio que posso ser separadamente homem casado ou homem público Todo o homem público deve ser casado interrompeu sentenciosamente meu pai Mas seja como queres estou por tudo fico certo de que a vista fará fé Demais a noiva e o Parlamento são a mesma coisa isto é não saberás depois Vá aceito a dilação contanto que Contanto quê interrompi eu imitandolhe a voz Ah brejeiro Contanto que não te deixes ficar aí inútil obscuro e triste não gastei dinheiro cuidados empenhos para te não ver brilhar como deves e te convém e a todos nós é preciso continuar o nosso nome continuálo e ilustrálo ainda mais Olha estou com sessenta anos mas se fosse necessário começar vida nova começava sem hesitar um só minuto Teme a obscuridade Brás foge do que é ínfimo Olha que os homens valem por diferentes modos e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens Não estragues as vantagens da tua posição os teus meios E foi por diante o mágico a agitar diante de mim um chocalho como me faziam em pequeno para eu andar depressa e a flor da hipocondria recolheuse ao botão para deixar a outra flor menos amarela e nada mórbida o amor da nomeada o emplasto Brás Cubas CAPÍTULO XXIX A VISITA Vencera meu pai dispusme a aceitar o diploma e o casamento Virgília e a Câmara dos Deputados As duas Virgílias disse ele num assomo de ternura política Aceiteios meu pai deume dois fortes abraços Era o seu próprio sangue que ele enfim reconhecia Desces comigo Desço amanhã Vou fazer primeiramente uma visita a D Eusébia Meu pai torceu o nariz mas não disse nada despediuse e desceu Eu na tarde desse mesmo dia fui visitar D Eusébia Acheia a repreender um preto jardineiro mas deixou tudo para vir falarme com um alvoroço um prazer tão sincero que me desacanhou logo Creio que chegou a cingirme com o seu par de braços robustos Fez me sentar ao pé de si na varanda entre muitas exclamações de contentamento Ora o Brasinho Um homem Quem diria há anos Um homenzarrão E bonito Qual Você não se lembra de mim Disselhe que sim que não era possível esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa D Eusébia começou a falar de minha mãe com muitas saudades com tantas saudades que me cativou logo posto me entristecesse Ela percebeuo nos meus olhos e torceu a rédea à conversação pediume que lhe contasse a viagem os estudos os namoros Sim os namoros também confessoume que era uma velha patusca Nisto recordeime do episódio de 1814 ela o Vilaça a moita o beijo o meu grito e estando a recordálo ouço um ranger de porta um farfalhar de saias e esta palavra Mamãe mamãe CAPÍTULO XXX A FLOR DA MOITA A voz a as saias pertenciam a uma mocinha morena que se deteve à porta alguns instantes ao ver gente estranha Silêncio curto e constrangido D Eusébia quebrouo enfim com resolução e franqueza Vem cá Eugênia disse ela cumprimenta o Dr Brás Cubas filho do Sr Cubas veio da Europa E voltandose para mim Minha filha Eugênia Eugênia a flor da moita mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz olhoume admirada e acanhada e lentamente se aproximou da cadeira da mãe A mãe arranjoulhe uma das tranças do cabelo cuja ponta se desmanchara Ah travessa dizia Não imagina doutor o que isto é E beijoua com tão expansiva ternura que me comoveu um pouco lembroume minha mãe e direi tudo tive umas cócegas de ser pai Travessa disse eu Pois já não está em idade própria ao que parece Quantos lhe dá Dezessete Menos um Dezesseis Pois então é uma moça Não pôde Eugênia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra mas emendouse logo e ficou como dantes ereta fria e muda Em verdade parecia ainda mais mulher do que era seria criança nos seus folgares de moça mas assim quieta impassível tinha a compostura da mulher casada Talvez essa circunstância lhe diminuía um pouco da graça virginal Depressa nos familiarizamos a mãe fazialhe grandes elogios eu escutavaos de boa sombra e ela sorria com os olhos fúlgidos como se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante Digo lá dentro porque cá fora o que esvoaçou foi uma borboleta preta que subitamente penetrou na varanda e começou a bater as asas em derredor de D Eusébia D Eusébia deu um grito levantou se praguejou umas palavras soltas Tesconjuro Sai diabo Virgem Nossa Senhora Não tenha medo disse eu e tirando o lenço expeli a borboleta D Eusébia sentouse outra vez ofegante um pouco envergonhada a filha pode ser que pálida de medo dissimulava a impressão com muita força de vontade Aperteilhes a mão e saí a rir comigo da superstição das duas mulheres um rir filosófico desinteressado superior De tarde vi passar a cavalo a filha de D Eusébia seguida de um pajem fezme um cumprimento com a ponta do chicote Confesso que me lisonjeei com a idéia de que alguns passos adiante ela voltaria a cabeça para trás mas não voltou CAPÍTULO XXXI A BORBOLETA PRETA Na dia seguinte como eu estivesse a prepararme para descer entrou no meu quarto uma borboleta tão negra como a outra e muito maior do que ela Lembroume o caso da véspera e rime entrei logo a pensar na filha de D Eusébia no susto que tivera e na dignidade que apesar dele soube conservar A borboleta depois de esvoaçar muito em torno de mim pousoume na testa Sacudia ela foi pousar na vidraça e porque eu a sacudisse de novo saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai Era negra como a noite O gesto brando com que uma vez posta começou a mover as asas tinha um certo ar escarninho que me aborreceu muito Dei de ombros saí do quarto mas tornando lá minutos depois e achandoa ainda no mesmo lugar senti um repelão dos nervos lancei mão de uma toalha batilhe e ela caiu Não caiu morta ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça Apiedeime tomeia na palma da mão e fui depôla no peitoril da janela Era tarde a infeliz expirou dentro de alguns segundos Fiquei um pouco aborrecido incomodado Também por que diabo não era ela azul disse comigo E esta reflexão uma das mais profundas que se tem feito desde a invenção das borboletas me consolou do malefício e me reconciliou comigo mesmo Deixeime estar a contemplar o cadáver com alguma simpatia confesso Imaginei que ela saíra do mato almoçada e feliz A manhã era linda Veio por ali fora modesta e negra espairecendo as suas borboletices sob a vasta cúpula de um céu azul que é sempre azul para todas as asas Passa pela minha janela entra e dá comigo Suponho que nunca teria visto um homem não sabia portanto o que era o homem descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo e viu que me movia que tinha olhos braços pernas um ar divino uma estatura colossal Então disse consigo Este é provavelmente o inventor das borboletas A idéia subjugoua aterroua mas o medo que é também sugestivo insinuoulhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá lo na testa e beijoume na testa Quando enxotada por mim foi pousar na vidraça viu dali o retrato de meu pai e não é impossível que descobrisse meia verdade a saber que estava ali o pai do inventor das borboletas e voou a pedirlhe misericórdia Pois um golpe de toalha rematou a aventura Não lhe valeu a imensidade azul nem a alegria das flores nem a pompa das folhas verdes contra uma toalha de rosto dois palmos de linho cru Vejam como é bom ser superior às borboletas Porque é justo dizêlo se ela fosse azul ou cor de laranja não teria mais segura a vida não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete para recreio dos olhos Não era Esta última idéia restituiume a consolação uni o dedo grande ao polegar despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim Era tempo aí vinham já as próvidas formigas Não volto à primeira idéia creio que para ela era melhor ter nascido azul CAPÍTULO XXXII COXA DE NASCENÇA Fui dali acabar os preparativos da viagem Já agora não me demoro mais Desço imediatamente desço ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação Ai não contava com D Eusébia Estava pronto quando me entrou por casa Vinha convidarme para transferir a descida e ir lá jantar nesse dia Cheguei a recusar mas instou tanto tanto tanto que não pude deixar de aceitar demais eralhe devida aquela compensação fui Eugênia desataviouse nesse dia por minha causa Creio que foi por minha causa se é que não andava muita vez assim Sem as bichas de ouro que trazia na véspera lhe pendiam agora das orelhas duas orelhas finamente recortadas numa cabeça de ninfa Um simples vestido branco de cassa sem enfeites tendo ao colo em vez de broche um botão de madrepérola e outro botão nos punhos fechando as mangas e nem sombra de pulseira Era isso no corpo não era outra coisa no espírito Idéias claras maneiras chãs certa graça natural um ar de senhora e não sei se alguma outra coisa sim a boca exatamente a boca da mãe a qual me lembrava o episódio de 1814 e então davame ímpetos de glosar o mesmo mote à filha Agora vou mostrarlhe a chácara disse a mãe logo que esgotamos o último gole de café Saímos à varanda dali à chácara e foi então que notei uma circunstância Eugênia coxeava um pouco tão pouco que eu cheguei a perguntarlhe se machucara o pé A mãe calouse a filha respondeu sem titubear Não senhor sou coxa de nascença Mandeime a todos os diabos chameime desastrado grosseirão Com efeito a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada Então lembroume que da primeira vez que a vi na véspera a moça chegarase lentamente à cadeira da mãe e que naquele dia já a achei à mesa de jantar Talvez fosse para encobrir o defeito mas por que razão o confessava agora Olhei para ela e reparei que ia triste Tratei de apagar os vestígios de meu desazo não me foi difícil porque a mãe era segundo confessara uma velha patusca e prontamente travou de conversa comigo Vimos toda a chácara árvores flores tanque de patos tanque de lavar uma infinidade de coisas que ela me ia mostrando e comentando ao passo que eu de soslaio perscrutava os olhos de Eugênia Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo mas direito perfeitamente são vinha de uns olhos pretos e tranqüilos Creio que duas ou três vezes baixaram estes um pouco turvados mas duas ou três vezes somente em geral fitavamme com franqueza sem temeridade nem biocos CAPÍTULO XXXIII BEMAVENTURADOS OS QUE NÃO DESCEM O pior é que era coxa Uns olhos tão lúcidos uma boca tão fresca uma compostura tão senhoril e coxa Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio Por que bonita se coxa por que coxa se bonita Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa de noite sem atinar com a solução do enigma O melhor que há quando se não resolve um enigma é sacudilo pela janela fora foi o que eu fiz lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta que me adejava no cérebro Fiquei aliviado e fui dormir Mas o sonho que é uma fresta do espírito deixou novamente entrar o bichinho e aí fiquei eu a noite toda a cavar o mistério sem explicálo Amanheceu chovendo transferi a descida mas no outro dia a manhã era límpida e azul e apesar disso deixeime ficar não menos que no terceiro dia e no quarto até o fim da semana Manhãs bonitas frescas convidativas lá embaixo a família a chamarme e a noiva e o Parlamento e eu sem acudir a coisa nenhuma enlevado ao pé da minha Vênus Manca Enlevado é uma maneira de realçar o estilo não havia enlevo mas gosto uma certa satisfação física e moral Querialhe é verdade ao pé dessa criatura tão singela filha espúria e coxa feita de amor e desprezo ao pé dela sentiame bem e ela creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim E isto na Tijuca Uma simples égloga D Eusébia vigiavanos mas pouco temperava a necessidade com a conveniência A filha nessa primeira explosão da natureza entregavame a alma em flor O senhor desce amanhã disseme ela no sábado Pretendo Não desça Não desci e acrescentei um versículo ao Evangelho Bem aventurados os que não descem porque deles é o primeiro beijo das moças Com efeito foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara e não furtado ou arrebatado mas candidamente entregue como um devedor honesto paga uma dívida Pobre Eugênia Se tu soubesses que idéias me vagavam pela mente fora naquela ocasião Tu trêmula de comoção com os braços nos meus ombros a contemplar em mim o teu bemvindo esposo e eu com os olhos de 1814 na moita no Vilaça e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue à tua origem D Eusébia entrou inesperadamente mas não tão súbita que nos apanhasse ao pé um do outro Eu fui até à janela Eugênia sentouse a concertar uma das tranças Que dissimulação graciosa que arte infinita e delicada que tartufice profunda e tudo isso natural vivo não estudado natural como o apetite natural como o sono Tanto melhor D Eusébia não suspeitou nada CAPÍTULO XXXIV A UMA ALMA SENSÍVEL Há aí entre as cinco ou dez pessoas que me lêem há aí uma alma sensível que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior começa a tremer pela sorte de Eugênia e talvez sim talvez lá no fundo de si mesma me chame cínico Eu cínico alma sensível Pela coxa de Diana esta injúria merecia ser lavada com sangue se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo Não alma sensível eu não sou cínico eu fui homem meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero o drama sacro o austero o piegas a comédia louçã a desgrenhada farsa os autos as bufonerias um pandemônio alma sensível uma barafunda de coisas e pessoas em que podias ver tudo desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono Cruzavamse nele pensamentos de vária casta e feição Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beijaflor havia também a da lesma e do sapo Retira pois a expressão alma sensível castiga os nervos limpa os óculos que isso às vezes é dos óculos e acabemos de uma vez com esta flor da moita CAPÍTULO XXXV O CAMINHO DE DAMASCO Ora aconteceu que oito dias depois como eu estivesse no caminho de Damasco ouvi uma voz misteriosa que me sussurrou as palavras da Escritura At IX 7 Levantate e entra na cidade Essa voz saía de mim mesmo e tinha duas origens a piedade que me desarmava ante a candura da pequena e o terror de vir a amar deveras e desposála Uma mulher coxa Quanto a este motivo da minha descida não há duvidar que ela o achou e mo disse Foi na varanda na tarde de uma segundafeira ao anunciarlhe que na seguinte manhã viria para baixo Adeus suspirou ela estendendo me a mão com simplicidade faz bem E como eu nada dissesse continuou Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo Ia dizer lhe que não ela retirouse lentamente engolindo as lágrimas Alcanceia a poucos passos e jureilhe por todos os santos do Céu que eu era obrigado a descer mas que não deixava de lhe querer e muito tudo hipérboles frias que ela escutou sem dizer nada Acreditame perguntei eu no fim Não e digolhe que faz bem Quis retêla mas o olhar que me lançou não foi já de súplica senão de império Desci da Tijuca na manhã seguinte um pouco amargurado outro pouco satisfeito Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai que era conveniente abraçar a carreira política que a constituição que a minha noiva que o meu cavalo CAPÍTULO XXXVI A PROPÓSITO DE BOTAS Meu pai que me não esperava abraçoume cheio de ternura e agradecimento Agora é deveras disse ele Posso enfim Deixeio nessa reticência e fui descalçar as botas que estavam apertadas Uma vez aliviado respirei à larga e deiteime a fio comprido enquanto os pés e todo eu atrás deles entrávamos numa relativa bemaventurança Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra porque fazendo doer os pés dão azo ao prazer de as descalçar Mortifica os pés desgraçado desmortificaos depois e aí tens a felicidade barata ao sabor dos sapateiros e de Epicuro Enquanto esta idéia me trabalhava no famoso trapézio lançava eu os olhos para a Tijuca e via a aleijadinha perderse no horizonte do pretérito e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas E descalçou as o lascivo Quatro ou cinco dias depois saboreava esse rápido inefável e incoercível momento de gozo que sucede a uma dor pungente a uma preocupação a um incômodo Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos porque só aguça a fome com o fim de deparar a ocasião de comer e não inventou os calos senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas Tu minha Eugênia é que não as descalçaste nunca foste aí pela estrada da vida manquejando da perna e do amor triste como os enterros pobres solitária calada laboriosa até que vieste também para esta outra margem O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século Quem sabe Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana CAPÍTULO XXXVII ENFIM Enfim eis aqui Virgília Antes de ir à casa do Conselheiro Dutra perguntei a meu pai se havia algum ajuste prévio de casamento Nenhum ajuste Há tempos conversando com ele a teu respeito confesseilhe o desejo que tinha de te ver deputado e de tal modo falei que ele prometeu fazer alguma coisa e creio que o fará Quanto à noiva é o nome que dou a uma criaturinha que é uma jóia uma flor uma estrela uma coisa rara é a filha dele imaginei que se casasses com ela mais depressa serias deputado Só isto Só isto Fomos dali à casa do Dutra Era uma pérola esse homem risonho jovial patriota um pouco irritado com os males públicos mas não desesperando de os curar depressa Achou que a minha candidatura era legítima convinha porém esperar alguns meses E logo me apresentou à mulher uma estimável senhora e à filha que não desmentiu em nada o panegírico de meu pai Jurovos que em nada Relede o capítulo XXVII Eu que levava idéias a respeito da pequena fiteia de certo modo ela que não sei se as tinha não me fitou de modo diferente e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal No fim de um mês estávamos íntimos CAPÍTULO XXXVIII A QUARTA EDIÇÃO Venha cá jantar amanhã disseme o Dutra uma noite Aceitei o convite No dia seguinte mandei que a sege me esperasse no Largo de São Francisco de Paula e fui dar várias voltas Lembra vos ainda a minha teoria das edições humanas Pois sabei que naquele tempo estava eu na quarta edição revista e emendada mas ainda inçada de descuidos e barbarismos defeito que aliás achava alguma compensação no tipo que era elegante e na encadernação que era luxuosa Dadas as voltas ao passar pela Rua dos Ourives consulto o relógio e caime o vidro na calçada Entro na primeira loja que tinha à mão era um cubículo pouco mais empoeirado e escuro Ao fundo por trás do balcão estava sentada uma mulher cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo à primeira vista mas logo que se destacava era um espetáculo curioso Não podia ter sido feia ao contrário viase que fora bonita e não pouco bonita mas a doença e uma velhice precoce destruíamlhe a flor das graças As bexigas tinham sido terríveis os sinais grandes e muitos faziam saliências e encarnas declives e aclives e davam uma sensação de lixa grossa enormemente grossa Eram os olhos a melhor parte do vulto e aliás tinham uma expressão singular e repugnante que mudou entretanto logo que eu comecei a falar Quanto ao cabelo estava ruço e quase tão poento como os portais da loja Num dos dedos da mão esquerda fulgialhe um diamante Crêloeis pósteros essa mulher era Marcela Não a conheci logo era difícil ela porém conheceume apenas lhe dirigi a palavra Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra meio doce e meio triste Vilhe um movimento como para esconderse ou fugir era o instinto da vaidade que não durou mais de um instante Marcela acomodouse e sorriu Quer comprar alguma coisa disse ela estendendome a mão Não respondi nada Marcela compreendeu a causa do meu silêncio não era difícil e só hesitou creio eu em decidir o que dominava mais se o assombro do presente se a memória do passado Deume uma cadeira e com o balcão permeio faloume longamente de si da vida que levara das lágrimas que eu lhe fizera verter das saudades dos desastres enfim das bexigas que lhe escalavraram o rosto e do tempo que ajudou a moléstia adiantandolhe a decadência Verdade é que tinha a alma decrépita Vendera tudo quase tudo um homem que a amara outrora e lhe morreu nos braços deixaralhe aquela loja de ourivesaria mas para que a desgraça fosse completa era agora pouco buscada a loja talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher Em seguida pediume que lhe contasse a minha vida Gastei pouco tempo em dizerlha não era longa nem interessante Casou disse Marcela no fim de minha narração Ainda não respondi secamente Marcela lançou os olhos para a rua com a atonia de quem reflete ou relembra eu deixeime ir então ao passado e no meio das recordações e saudades perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino Não era esta certamente a Marcela de 1822 mas a beleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrifícios Era o que eu buscava saber interrogando o rosto de Marcela O rosto diziame que não ao mesmo tempo os olhos me contavam que já outrora como hoje ardia neles a flama da cobiça Os meus é que não souberam verlha eram olhos da primeira edição Mas por que entrou aqui viume da rua perguntou ela saindo daquela espécie de torpor Não supunha entrar numa casa de relojoeiro queria comprar um vidro para este relógio vou a outra parte desculpeme tenho pressa Marcela suspirou com tristeza A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido ao mesmo tempo e ansiava por me ver fora daquela casa Marcela entretanto chamou um moleque deulhe o relógio e apesar da minha oposição mandouo a uma loja na vizinhança comprar o vidro Não havia remédio senteime outra vez Disse ela então que desejava ter a proteção dos conhecidos de outro tempo ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse e afiançou que me daria finas jóias por preços baratos Não disse preços baratos mas usou uma metáfora delicada e transparente Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre salvo a moléstia que tinha o dinheiro a bom recado e que negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro que era o verme roedor daquela existência foi isso mesmo que me disseram depois CAPÍTULO XXXIX O VIZINHO Enquanto eu fazia comigo mesmo aquela reflexão entrou na loja um sujeito baixo sem chapéu trazendo pela mão uma menina de quatro anos Como passou de hoje de manhã disse ele a Marcela Assim assim Vem cá Maricota O sujeito levantou a criança pelos braços e passoua para dentro do balcão Anda disse ele pergunta a D Marcela como passou a noite Estava ansiosa por vir cá mas a mãe não tinha podido vestila Então Maricota Toma a bênção Olha a vara de marmelo Assim Não imagina o que ela é lá em casa fala na senhora a todos os instantes e aqui parece uma pamonha Ainda ontem Digo Maricota Não diga não papai Então foi alguma coisa feia perguntou Marcela batendo na cara da menina Eu lhe digo a mãe ensinalhe a rezar todas as noites um padre nosso e uma avemaria oferecidos a Nossa Senhora mas a pequena ontem veio pedirme com voz muito humilde imagine o quê que queria oferecêlos a Santa Marcela Coitadinha disse Marcela beijandoa É um namoro uma paixão como a senhora não imagina A mãe diz que é feitiço Contou mais algumas coisas o sujeito todas muito agradáveis até que saiu levando a menina não sem deitarme um olhar interrogativo ou suspeitoso Perguntei a Marcela quem era ele É um relojoeiro da vizinhança um bom homem a mulher também e a filha é galante não Parecem gostar muito de mim é boa gente Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura CAPÍTULO XL NA SEGE Nisto entrou o moleque trazendo o relógio com o vidro novo Era tempo já me custava estar ali dei uma moedinha de prata ao moleque disse a Marcela que voltaria noutra ocasião e saí a passo largo Para dizer tudo devo confessar que o coração me batia um pouco mas era uma espécie de dobre de finados O espírito ia travado de impressões opostas Notem que aquele dia amanhecera alegre para mim Meu pai ao almoço repetiume por antecipação o primeiro discurso que eu tinha de proferir na Câmara dos Deputados rimonos muito e o sol também que estava brilhante como nos mais belos dias do mundo do mesmo modo que Virgília devia rir quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço Vai senão quando caime o vidro do relógio entro na primeira loja que me fica à mão e eis me surge o passado eilo que me lacera e beija eilo que me interroga com um rosto cortado de saudades e bexigas Lá o deixei metime às pressas na sege que me esperava no Largo de São Francisco de Paula e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fora O boleeiro atiçou as bestas a sege entrou a sacolejarme as molas gemiam as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente e tudo isso me parecia estar parado Não há às vezes um certo vento morno não forte nem áspero mas abafadiço que nos não leva o chapéu da cabeça nem rodomoinha nas saias das mulheres e todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma e outra coisa porque abate afrouxa e como que dissolve os espíritos Pois eu tinha esse vento comigo e certo de que ele me soprava por acharme naquela espécie de garganta entre o passado e o presente almejava por sair à planície do futuro O pior é que a sege não andava João bradei eu ao boleeiro Esta sege anda ou não anda Uê nhonhô Já estamos parados na porta de sinhô conselheiro CAPÍTULO XLI A ALUCINAÇÃO Era verdade Entrei apressado achei Virgília ansiosa mau humor fronte nublada A mãe que era surda estava na sala com ela No fim dos cumprimentos disseme a moça com sequidão Esperávamos que viesse mais cedo Defendime do melhor modo falei do cavalo que empacara e de um amigo que me detivera De repente morreme a voz nos lábios fico tolhido de assombro Virgília seria Virgília aquela moça Fiteia muito e a sensação foi tão penosa que recuei um passo e desviei a vista Tornei a olhála As bexigas tinhamlhe comido o rosto a pele ainda na véspera tão fina rosada e pura apareciame agora amarela estigmada pelo mesmo flagelo que devastara o rosto da espanhola Os olhos que eram travessos fizeramse murchos tinha o lábio triste e a atitude cansada Olheia bem pegueilhe na mão e chameia brandamente a mim Não me enganava eram as bexigas Creio que fiz um gesto de repulsa Virgília afastouse e foi sentarse no sofá Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés Devia sair ou ficar Rejeitei o primeiro alvitre que era simplesmente absurdo e encaminheime para Virgília que lá estava sentada e calada Céus Era outra vez a fresca a juvenil a florida Virgília Em vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença nenhum havia era a pele fina e branca do costume Nunca me viu perguntou Virgília vendo que a encarava com insistência Tão bonita nunca Senteime enquanto Virgília calada fazia estalar as unhas Seguiramse alguns segundos de pausa Faleilhe de coisas estranhas ao incidente ela porém não me respondia nada nem olhava para mim Menos o estalido era a estátua do Silêncio Uma só vez me deitou os olhos mas muito de cima soerguendo a pontinha esquerda do lábio contraindo as sobrancelhas ao ponto de as unir todo esse conjunto de coisas davalhe ao rosto uma expressão média entre cômica e trágica Havia alguma afetação naquele desdém era um arrebique do gesto Lá dentro ela padecia e não pouco ou fosse mágoa pura ou só despeito e porque a dor que se dissimula dói mais é muito provável que Virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer Creio que isto é metafísica CAPÍTULO XLII QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES Outra coisa que também me parece metafísica é isto Dáse movimento a uma bola por exemplo rola esta encontra outra bola transmitelhe o impulso e eis a segunda boa a rolar como a primeira rolou Suponhamos que a primeira bola se chama Marcela é uma simples suposição a segunda Brás Cubas a terceira Virgília Temos que Marcela recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas o qual cedendo à força impulsiva entrou a rolar também até esbarrar em Virgília que não tinha nada com a primeira bola e eis aí como pela simples transmissão de uma força se tocam os extremos sociais e se estabelece uma coisa que poderemos chamar solidariedade do aborrecimento humano Como é que este capítulo escapou a Aristóteles CAPÍTULO XLIII MARQUESA PORQUE EU SEREI MARQUÊS Positivamente era um diabrete Virgília um diabrete angélico se querem mas erao e então Então apareceu o Lobo Neves um homem que não era mais esbelto que eu nem mais elegante nem mais lido nem mais simpático e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura dentro de poucas semanas com um ímpeto verdadeiramente cesariano Não precedeu nenhum despeito não houve a menor violência de família Dutra veio dizerme um dia que esperasse outra aragem porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências Cedi tal foi o começo da minha derrota Uma semana depois Virgília perguntou ao Lobo Neves a sorrir quando seria ele ministro Pela minha vontade já pelas dos outros daqui a um ano Virgília replicou Promete que algum dia me fará baronesa Marquesa porque eu serei marquês Desde então fiquei perdido Virgília comparou a águia e o pavão e elegeu a águia deixando o pavão com o seu espanto o seu despeito e três ou quatro beijos que lhe dera Talvez cinco beijos mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila que esterilizava o solo em que batia é justamente o contrário CAPÍTULO XLIV UM CUBAS Meu pai ficou atônito com o desenlace e querme parecer que não morreu de outra coisa Eram tantos os castelos que engenhara tantos e tantíssimos os sonhos que não podia vêlos assim esboroados sem padecer um forte abalo no organismo A princípio não quis crêlo Um Cubas um galho da árvore ilustre dos Cubas E dizia isto com tal convicção que eu já então informado da nossa tanoaria esqueci um instante a volúvel dama para só contemplar aquele fenômeno não raro mas curioso uma imaginação graduada em consciência Um Cubas repetiame ele na seguinte manhã ao almoço Não foi alegre o almoço eu próprio estava a cair de sono Tinha velado uma parte da noite De amor Era impossível não se ama duas vezes a mesma mulher e eu que tinha de amar aquela tempos depois não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo além de uma fantasia passageira alguma obediência e muita fatuidade E isto basta a explicar a vigília era despeito um despeitozinho agudo como ponta de alfinete o qual se desfez com charutos murros leituras truncadas até romper a aurora a mais tranqüila das auroras Mas eu era moço tinha o remédio em mim mesmo Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada Pensando bem pode ser que não morresse precisamente do desastre mas que o desastre lhe complicou as últimas dores é positivo Morreu daí a quatro meses acabrunhado triste com uma preocupação intensa e contínua à semelhança de remorso um desencanto mortal que lhe substituiu os reumatismos e tosses Teve ainda meia hora de alegria foi quando um dos ministros o visitou Vilhe lembrame bem vilhe o grato sorriso de outro tempo e nos olhos uma concentração de 1uz que era por assim dizer o último lampejo da alma expirante Mas a tristeza tornou logo a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto como aliás me cabia Um Cubas Morreu alguns dias depois da visita do ministro uma manhã de maio entre os dois filhos Sabina e eu e mais o tio Ildefonso e meu cunhado Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos nem o nosso amor nem os cuidados que foram muitos nem coisa nenhuma tinha de morrer morreu Um Cubas CAPÍTULO XLV NOTAS Soluços lágrimas casa armada veludo preto nos portais um homem que veio vestir o cadáver outro que tomou a medida do caixão caixão essa tocheiros convites convidados que entravam lentamente a passo surdo e apertavam a mão à família alguns tristes todos sérios e calados padre e sacristão rezas aspersões dágua benta o fechar do caixão a prego e martelo seis pessoas que o tomam da essa e o levantam e o descem a custo pela escada não obstante os gritos soluços e novas lágrimas da família e vão até o coche fúnebre e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias o rodar do coche o rodar dos carros um a um Isto que parece um simples inventário eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo CAPÍTULO XLVI A HERANÇA Vejanos agora o leitor oito dias depois da morte de meu pai minha irmã sentada num sofá pouco adiante Cotrim de pé encostado a um consolo com os braços cruzados e a morder o bigode eu a passear de um lado para outro com os olhos no chão Luto pesado Profundo silêncio Mas afinal disse Cotrim esta casa pouco mais pode valer de trinta contos demos que valha trinta e cinco Vale cinqüenta ponderei Sabina sabe que custou cinqüenta e oito Podia custar até sessenta tornou Cotrim mas não se segue que os valesse e menos ainda que os valha hoje Você sabe que as casas aqui há anos baixaram muito Olhe se esta vale os cinqüenta contos quantos não vale a que você deseja para si a do Campo Não fale nisso Uma casa velha Velha exclamou Sabina levantando as mãos ao teto Parecelhe nova aposto Ora mano deixese dessas coisas disse Sabina erguendose do sofá podemos arranjar tudo em boa amizade e com lisura Por exemplo Cotrim não aceita os pretos quer só o boleeiro de papai e o Paulo O boleeiro não acudi eu fico com a sege e não hei de ir comprar outro Bem fico com o Paulo e o Prudêncio O Prudêncio está livre Livre Há dois anos Livre Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa sem dar parte a ninguém Está direito Quanto à prata creio que não libertou a prata Tínhamos falado na prata a velha prataria do tempo de D José I a porção mais grave da herança já pelo lavor já pela vetustez já pela origem da propriedade dizia meu pai que o Conde da Cunha quando vicerei do Brasil a dera de presente a meu bisavô Luís Cubas Quanto à prata continuou Cotrim eu não faria questão nenhuma se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ela e acholhe razão Sabina é casada e precisa de uma copa digna apresentável Você é solteiro não recebe não Mas posso casar Para quê interrompeu Sabina Era tão sublime esta pergunta que por alguns instantes me fez esquecer os interesses Sorri peguei na mão de Sabina batilhe levemente na palma tudo isso com tão boa sombra que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência e agradeceumo Que é lá redargüi não cedi coisa nenhuma nem cedo Nem cede Abanei a cabeça Deixa Cotrim disse minha irmã ao marido vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo é só o que falta Não falta mais nada Quer a sege quer o boleeiro quer a prata quer tudo Olhe é muito mais sumário citarnos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã que eu não sou seu cunhado e que Deus não é Deus Faça isto e não perde nada nem uma colherinha Ora meu amigo outro ofício Estava tão agastado e eu não menos que entendi oferecer um meio de conciliação dividir a prata Riuse e perguntoume a quem caberia o bule e a quem o açucareiro e depois desta pergunta declarou que teríamos tempo de liquidar a pretensão quando menos em juízo Entretanto Sabina fora até à janela que dava para a chácara e depois de um instante voltou e propôs ceder o Paulo e outro preto com a condição de ficar com a prata eu ia dizer que não me convinha mas Cotrim adiantouse e disse a mesma coisa Isso nunca não faço esmolas disse ele Jantamos tristes Meu tio cônego apareceu à sobremesa e ainda presenciou uma pequena altercação Meus filhos disse ele lembremse que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos Mas Cotrim Creio creio A questão porém não é de pão é de manteiga Pão seco é que eu não engulo Fizeramse finalmente as partilhas mas nós estávamos brigados E digolhes que ainda assim custoume muito a brigar com Sabina Éramos tão amigos Jogos pueris fúrias de criança risos e tristezas da idade adulta dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria irmãmente como bons irmãos que éramos Mas estávamos brigados Tal qual a beleza de Marcela que se esvaiu com as bexigas CAPÍTULO XLVII O RECLUSO Marcela Sabina Virgília aí estou eu a fundir todos os contrastes como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos de ser da minha afeição interior Pena de maus costumes ata uma gravata ao estilo vestelhe um colete menos sórdido e depois sim depois vem comigo entra nessa casa estirate nessa rede que me embalou a melhor parte dos anos que decorreram desde o inventário de meu pai até 1842 Vem se te cheirar a algum aroma de toucador não cuides que o mandei derramar para meu regalo é um vestígio da N ou da Z ou da U que todas essas letras maiúsculas embalaram aí a sua elegante abjeção Mas se além do aroma quiseres outra coisa ficate com o desejo porque eu não guardei retratos nem cartas nem memórias a mesma comoção esvaiuse e só me ficaram as letras iniciais Vivi meio recluso indo de longe em longe a algum baile ou teatro ou palestra mas a maior parte do tempo passeia comigo mesmo Vivia deixavame ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias ora buliçoso ora apático entre a ambição e o desânimo Escrevia política e fazia literatura Mandava artigos e versos para as folhas públicas e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta Quando me lembrava do Lobo Neves que era já deputado e de Virgília futura marquesa perguntava a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves eu que valia mais muito mais do que ele e dizia isto a olhar para a ponta do nariz CAPÍTULO XLVIII UM PRIMO DE VIRGÍLIA Sabe quem chegou ontem de São Paulo perguntoume uma noite Luís Dutra Luís Dutra era um primo de Virgília que também privava com as musas Os versos dele agradavam e valiam mais do que os meus mas ele tinha necessidade da sanção de alguns que lhe confirmasse o aplauso dos outros Como fosse acanhado não interrogava a ninguém mas deleitavase com ouvir alguma palavra de apreço então criava novas forças e arremetia juvenilmente ao trabalho Pobre Luís Dutra Apenas publicava alguma coisa corria à minha casa e entrava a girar em volta de mim à espreita de um juízo de uma palavra de um gesto que lhe aprovasse a recente produção e eu falavalhe de mil coisas diferentes do último baile do Catete da discussão das câmaras de berlindas e cavalos de tudo menos dos seus versos ou prosas Ele respondiame a princípio com animação depois mais frouxo torcia a rédea da conversa para o seu assunto dele abria um livro perguntavame se tinha algum trabalho novo e eu dizialhe que sim ou que não mas torcia a rédea para o outro lado e lá ia ele atrás de mim até que empacava de todo e saía triste Minha intenção era fazêlo duvidar de si mesmo desanimálo eliminálo E tudo isto a olhar para a ponta do nariz CAPÍTULO XLIX A PONTA DO NARIZ Nariz consciência sem remorsos tu me valeste muito na vida Já meditaste alguma vez no destino do nariz amado leitor A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz foi criado para uso dos óculos e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva mas veio um dia em que estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia atinei com a única verdadeira e definitiva explicação Com efeito bastoume atentar no costume do faquir Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz com o fim único de ver a luz celeste Quando ele finca os olhos na ponta do nariz perde o sentimento das coisas externas embelezase no invisível aprende o impalpável desvinculase da terra dissolvese eterizase Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente é universal Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz para o fim de ver a luz celeste e tal contemplação cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente constitui o equilíbrio das sociedades Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros o gênero humano não chegaria a durar dois séculos extinguiase com as primeiras tribos Ouço daqui uma objeção do leitor Como pode ser assim diz ele se nunca jamais ninguém não viu estarem os homens a contemplar o seu próprio nariz Leitor obtuso isso prova que nunca entraste no cérebro de um chapeleiro Um chapeleiro passa por uma loja de chapéus é a loja de um rival que a abriu há dois anos tinha então duas portas hoje tem quatro promete ter seis a oito Nas vidraças ostentamse os chapéus do rival pelas portas entram os fregueses do rival o chapeleiro compara aquela loja com a sua que é mais antiga e tem só duas portas e aqueles chapéus com os seus menos buscados ainda que de igual preço Mortificase naturalmente mas vai andando concentrado com os olhos para baixo ou para a frente a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu próprio atraso quando ele chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz A conclusão portanto é que há duas forças capitais o amor que multiplica a espécie e o nariz que a subordina ao indivíduo Procriação equilíbrio CAPÍTULO L VIRGÍLIA CASADA Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília casada com o Lobo Neves continuou Luís Dutra Ah E só hoje é que eu soube uma coisa seu maganão Que foi Que você quis casar com ela Idéias de meu pai Quem lhe disse isso Ela mesma Faleilhe muito em você e ela então contoume tudo No dia seguinte estando na Rua do Ouvidor à porta da tipografia do Plancher vi assomar a distância uma mulher esplêndida Era ela só a reconheci a poucos passos tão outra estava a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o último apuro Cortejamonos ela seguiu entrou com o marido na carruagem que os esperava um pouco acima fiquei atônito Oito dias depois encontreia num baile creio que chegamos a trocar duas ou três palavras Mas noutro baile dado daí a um mês em casa de uma senhora que ornara os salões do primeiro reinado e não desornava então os do segundo a aproximação foi maior e mais longa porque conversamos e valsamos A valsa é uma deliciosa coisa Valsamos não nego que ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico tive uma singular sensação uma sensação de homem roubado Está muito calor disse ela logo que acabamos Vamos ao terraço Não pode constiparse Vamos a outra sala Na outra sala estava Lobo Neves que me fez muitos cumprimentos acerca dos meus escritos políticos acrescentando que nada dizia dos literários por não entender deles mas os políticos eram excelentes bem pensados e bem escritos Respondilhe com iguais esmeros de cortesia e separamonos contentes um do outro Cerca de três semanas depois recebi um convite dele para uma reunião íntima Fui Virgília recebeume com esta graciosa palavra O senhor hoje há de valsar comigo Em verdade eu tinha fama e era valsista emérito não admira que ela me preferisse Valsamos uma vez e mais outra vez Um livro perdeu Francesca cá foi a valsa que nos perdeu Creio que essa noite aperteilhe a mão com muita força e ela deixoua ficar como esquecida e eu a abraçála e todos com os olhos em nós e nos outros que também se abraçavam e giravam Um delírio CAPÍTULO LI É MINHA É minha disse eu comigo logo que a passei a outro cavalheiro e confesso que durante o resto da noite foiseme a idéia entranhando no espírito não à força de martelo mas de verruma que é mais insinuativa É minha dizia eu ao chegar à porta de casa Mas aí como se o destino ou o acaso ou o que quer que fosse se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios luziume no chão uma coisa redonda e amarela Abaixeime era uma moeda de ouro uma meia dobra É minha repeti eu a rirme e metia no bolso Nessa noite não pensei mais na moeda mas no dia seguinte recordando o caso senti uns repelões da consciência e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara mas somente achara na rua Evidentemente não era minha era de outro daquele que a perdera rico ou pobre e talvez fosse pobre algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos mas se fosse rico o meu dever ficava o mesmo Cumpria restituir a moeda e o melhor meio o único meio era fazêlo por intermédio de um anúncio ou da polícia Enviei uma carta ao chefe de polícia remetendolhe o achado e rogandolhe que pelos meios a seu alcance fizesse devolvêlo às mãos do verdadeiro dono Mandei a carta e almocei tranqüilo posso até dizer que jubiloso Minha consciência valsara tanto na véspera que chegou a ficar sufocada sem respiração mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral entrou uma onda de ar puro e a pobre dama respirou à larga Ventilai as consciências não vos digo mais nada Todavia despido de quaisquer outras circunstâncias o meu ato era bonito porque exprimia um justo escrúpulo um sentimento de alma delicada Era o que me dizia a minha dama interior com um modo austero e meigo a um tempo é o que ela me dizia reclinada ao peitoril da janela aberta Fizeste bem Cubas andaste perfeitamente Este ar não é só puro é balsâmico é uma transpiração dos eternos jardins Queres ver o que fizeste Cubas E a boa dama sacou um espelho e abriumo diante dos olhos Vi claramente vista a meia dobra da véspera redonda brilhante multiplicandose por si mesma ser dez depois trinta depois quinhentas exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato reviame nele achavame bom talvez grande Uma simples moeda hem Vejam o que é ter valsado um poucochinho mais Assim eu Brás Cubas descobri uma lei sublime a lei da equivalência das janelas e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência Talvez não entendas o que aí fica talvez queiras uma coisa mais concreta um embrulho por exemplo um embrulho misterioso Pois toma lá o embrulho misterioso CAPÍTULO LII O EMBRULHO MISTERIOSO Foi o caso que alguns dias depois indo eu a Botafogo tropecei num embrulho que estava na praia Não digo bem houve menos tropeção que pontapé Vendo um embrulho pão grande mas limpo e corretamente feito atado com um barbante rijo uma coisa que parecia alguma coisa lembroume baterlhe com o pé assim por experiência e bati e o embrulho resistiu Relanceei os olhos em volta de mim a praia estava deserta ao longe uns meninos brincavam um pescador curava as redes ainda mais longe ninguém que pudesse ver a minha ação inclineime apanhei o embrulho e segui Segui mas não sem receio Podia ser uma pulha de rapazes Tive idéia de devolver o achado à praia mas apalpeio e rejeitei a idéia Um pouco adiante desandei o caminho e guiei para casa Vejamos disse eu ao entrar no gabinete E hesitei um instante creio que por vergonha assaltoume outra vez o receio da pulha É certo que não havia ali nenhuma testemunha externa mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto que havia de assobiar guinchar grunhir patear apupar cacarejar fazer o diabo se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma dúzia de lenços velhos ou duas dúzias de goiabas podres Era tarde a curiosidade estava aguçada como deve estar a do leitor desfiz o embrulho e vi achei contei recontei nada menos de cinco contos de réis Nada menos Talvez uns dez milréis mais Cinco contos em boas notas e moedas tudo asseadinho e arranjadinho um achado raro Embrulheias de novo Ao jantar pareceume que um dos moleques falara a outro com os olhos Termeiam espreitado Interrogueios discretamente e concluí que não Sobre o jantar fui outra vez ao gabinete examinei o dinheiro e rime dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos eu que era abastado Para não pensar mais naquilo fui de noite à casa do Lobo Neves que instara muito comigo não deixasse de freqüentar as recepções da mulher Lá encontrei o chefe de polícia fuilhe apresentado ele lembrouse logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias antes Aventou o caso Virgília pareceu saborear o meu procedimento e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota análoga que eu ouvi com impaciência de mulher histérica De noite no dia seguinte em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária Gostava de falar de todas as coisas menos de dinheiro e principalmente de dinheiro achado todavia não era crime achar dinheiro era uma felicidade um bom acaso era talvez um lance da Providência Não podia ser outra coisa Não se perdem cinco contos como se perde um lenço de tabaco Cinco contos levamse com trinta mil sentidos apalpamse a miúdo não se lhes tiram os olhos de cima nem as mãos nem o pensamento e para se perderem assim tolamente numa praia é necessário que Crime é que não podia ser o achado nem crime nem desonra nem nada que embaciasse o caráter de um homem Era um achado um acerto feliz como a sorte grande como as apostas de cavalo como os ganhos de um jogo honesto e até direi que a minha felicidade era merecida porque eu não me sentia mau nem indigno dos benefícios da Providência Estes cinco contos dizia eu comigo três semanas depois hei de empregálos em alguma ação boa talvez um dote a alguma menina pobre ou outra coisa assim hei de ver Nesse mesmo dia leveios ao Banco do Brasil Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento respondi enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo louvaramme então a modéstia e porque eu me encolerizasse replicaramme que era simplesmente grande CAPÍTULO LIII Virgília é que já se não lembrava da meia dobra toda ela estava concentrada em mim nos meus olhos na minha vida no meu pensamento era o que dizia e era verdade Há umas plantas que nascem e crescem depressa outras são tardias e pecas O nosso amor era daquelas brotou com tal ímpeto e tanta seiva que dentro em pouco era a mais vasta folhuda e exuberante criatura dos bosques Não lhes poderei dizer ao certo os dias que durou esse crescimento Lembrame sim que em certa noite abotoouse a flor ou o beijo se assim lhe quiserem chamar um beijo que ela me deu trêmula coitadinha trêmula de medo porque era ao portão da chácara Uniunos esse beijo único breve como a ocasião ardente como o amor prólogo de uma vida de delícias de terrores de remorsos de prazeres que rematavam em dor de aflições que desabrochavam em alegria uma hipocrisia paciente e sistemática único freio de uma paixão sem freio vida de agitações de cóleras de desesperos e de ciúmes que uma hora pagava à farta e de sobra mas outra hora vinha e engolia aquela como tudo mais para deixar à tona as agitações e o resto e o resto do resto que é o fastio e a saciedade tal foi o livro daquele prólogo CAPÍTULO LIV A PÊNDULA Saí dali a saborear o beijo Não pude dormir estireime na cama é certo mas foi o mesmo que nada Ouvi as horas todas da noite Usualmente quando eu perdia o sono o bater da pêndula faziame muito mal esse tiquetaque soturno vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida Imaginava então um velho diabo sentado entre dois sacos o da vida e o da morte a tirar as moedas da vida para dálas à morte e a contálas assim Outra de menos Outra de menos Outra de menos Outra de menos O mais singular é que se o relógio parava eu davalhe corda para que ele não deixasse de bater nunca e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos Invenções há que se transformam ou acabam as mesmas instituições morrem o relógio é definitivo e perpétuo O derradeiro homem ao despedirse do sol frio e gasto há de ter um relógio na algibeira para saber a hora exata em que morre Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado mas outra e deleitosa As fantasias tumultuavamme cá dentro vinham umas sobre outras à semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjocantor das procissões Não ouvia os instantes perdidos mas os minutos ganhados De certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma porque o meu pensamento ardiloso e traquinas saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília Aí achou no peitoril de uma janela o pensamento de Virgília saudaram se e ficaram de palestra Nós a rolarmos na cama talvez com frio necessitados de repouso e os dois vadios ali postos a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva CAPÍTULO LV O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA CAPÍTULO LVI O MOMENTO OPORTUNO Mas com a breca quem me explicará a razão desta diferença Um dia vimonos tratamos o casamento desfizemolo e separamonos a frio sem dor porque não houvera paixão nenhuma mordeume apenas algum despeito e nada mais Correm anos torno a vêla damos três ou quatro giros de valsa e eisnos a amar um ao outro com delírio A beleza de Virgília chegara é certo a um alto grau de apuro mas nós éramos substancialmente os mesmos e eu à minha parte não me tornara mais bonito nem mais elegante Quem me explicará a razão dessa diferença A razão não podia ser outra senão o momento oportuno Não era oportuno o primeiro momento porque se nenhum de nós estava verde para o amor ambos o estávamos para o nosso amor distinção fundamental Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos Esta explicação acheia eu mesmo dois anos depois do beijo um dia em que Virgília se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava Que importuno dizia ela fazendo uma careta de raiva Estremeci fiteia vi que a indignação era sincera então ocorreume que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma careta e compreendi logo toda a grandeza da minha evolução Tinha vindo de importuno a oportuno CAPÍTULO LVII DESTINO Sim senhor amávamos Agora que todas as leis sociais nolo impediam agora é que nos amávamos deveras Achávamonos jungidos um ao outro como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório Di pari come buoi che vanno a giogo e digo mal comparandonos a bois porque nós éramos outra espécie de animal menos tardo mais velhaco e lascivo Eisnos a caminhar sem saber até onde nem por que estradas escusas problema que me assustou durante algumas semanas mas cuja solução entreguei ao destino Pobre Destino Onde andarás agora grande procurador dos negócios humanos Talvez estejas a criar pele nova outra cara outras maneiras outro nome e não é impossível que Já me não lembra onde estava Ah nas estradas escusas Disse eu comigo que já agora seria o que Deus quisesse Era a nossa sorte amarnos se assim não fora como explicaríamos a valsa e o resto Virgília pensava a mesma coisa Um dia depois de me confessar que tinha momentos de remorsos como eu lhe dissesse que se tinha remorsos é porque me não tinha amor Virgília cingiume com os seus magníficos braços murmurando Amote é a vontade do Céu E esta palavra não vinha à toa Virgília era um pouco religiosa Não ouvia missa aos domingos é verdade e creio até que só ia às igrejas em dia de festa e quando havia lugar vago em alguma tribuna Mas rezava todas as noites com fervor ou pelo menos com sono Tinha medo às trovoadas nessas ocasiões tapava os ouvidos e resmoneava todas as orações do catecismo Na alcova dela havia um oratoriozinho de jacarandá obra de talha de três palmos de altura com três imagens dentro mas não falava dele às amigas ao contrário tachava de beatas as que eram só religiosas Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame de crer e que a sua religião era uma espécie de camisa de flanela preservativa e clandestina mas evidentemente era engano meu CAPÍTULO LVIII CONFIDÊNCIA Lobo Neves a princípio metiame grandes sustos Pura ilusão Como adorasse a mulher não se vexava de mo dizer muitas vezes achava que Virgília era a perfeição mesma um conjunto de qualidades sólidas e finas amorável elegante austera um modelo E a confiança não parava aí De fresta que era chegou a porta escancarada Um dia confessoume que trazia uma triste carcoma na existência faltavalhe a glória pública Animeio disselhe muitas coisas bonitas que ele ouviu com aquela unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer então compreendi que a ambição dele andava cansada de bater as asas sem poder abrir o vôo Dias depois disseme todos os seus tédios e desfalecimentos as amarguras engolidas as raivas sopitadas contoume que a vida política era um tecido de invejas despeitos intrigas perfídias interesses vaidades Evidentemente havia aí uma crise de melancolia tratei de combatêla Sei o que lhe digo replicoume com tristeza Não pode imaginar o que tenho passado Entrei na política por gosto por família por ambição e um pouco por vaidade Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública faltoume só o interesse de outra natureza Vira o teatro pelo lado da platéia e palavra que era bonito Soberbo cenário vida movimento e graça na representação Escritureime deramme um papel que Mas para que o estou a fatigar com isto Deixeme ficar com as minhas amofinações Creia que tenho passado horas e dias Não há constância de sentimentos não há gratidão não há nada nada nada Calouse profundamente abatido com os olhos no ar parecendo não ouvir coisa nenhuma a não ser o eco de seus próprios pensamentos Após alguns instantes ergueuse e estendeume a mão O senhor há de rirse de mim disse ele mas desculpe aquele desabafo tinha um negócio que me mordia o espírito E ria de um jeito sombrio e triste depois pediume que não referisse a ninguém o que se passara entre nós pondereilhe que a rigor não se passara nada Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia Lobo Neves recebeu os com alegria a princípio um tanto postiça mas logo depois natural No fim de meia hora ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens conversava chasqueava e ria e riam todos CAPÍTULO LIX UM ENCONTRO Deve ser um vinho enérgico a política dizia eu comigo ao sair da casa de Lobo Neves e fui andando fui andando até que na Rua dos Barbonos vi uma sege e dentro um dos ministros meu antigo companheiro de colégio Cortejamonos afetuosamente a sege seguiu e eu fui andando andando andando Por que não serei eu ministro Esta idéia rútila e grande trajada ao bizarro como diria o Padre Bernardes esta idéia começou uma vertigem de cabriolas e eu deixeime estar com os olhos nela a acharlhe graça Não pensei mais na tristeza de Lobo Neves sentia a atração do abismo Recordei aquele companheiro de colégio as correrias nos morros as alegrias e travessuras e comparei o menino com o homem e perguntei a mim mesmo por que não seria eu como ele Entrava então no Passeio Público e tudo me parecia dizer a mesma coisa Por que não serás ministro Cubas Cubas por que não serás ministro de Estado Ao ouvilo uma deliciosa sensação me refrescava todo o organismo Entrei fui sentarme num banco a remoer aquela idéia E Virgília que havia de gostar Alguns minutos depois vejo encaminharse para mim uma cara que não me pareceu desconhecida Conheciaa fosse donde fosse Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos alto magro e pálido As roupas salvo o feitio pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia o chapéu era contemporâneo do de Gessler Imaginem agora uma sobrecasaca mais larga do que pediam as carnes ou literalmente os ossos da pessoa a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho o pêlo desaparecia aos poucos dos oito primitivos botões restavam três As calças de brim pardo tinham duas fortes joelheiras enquanto as bainhas eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores ambas desmaiadas apertando um colarinho de oito dias Creio que trazia também colete um colete de seda escura roto a espaços e desabotoado Aposto que me não conhece Sr Dr Cubas disse ele Não me lembra Sou o Borba o Quincas Borba Recuei espantado Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira para contar tamanha desolação Era o Quincas Borba o gracioso menino de outro tempo o meu companheiro de colégio tão inteligente e abastado Quincas Borba Não impossível não pode ser Não podia acabar de crer que essa figura esquálida essa barba pintada de branco esse maltrapilho avelhentado que toda essa ruína fosse o Quincas Borba Mas era Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo e o sorriso não perdera certo ar escarninho que lhe era peculiar Entretanto ele suportava com firmeza o meu espanto No fim de algum tempo arredei os olhos se a figura repelia a comparação acabrunhava Não é preciso contarlhe nada disse ele enfim o senhor adivinha tudo Uma vida de misérias de atribulações e de lutas Lembrase das nossas festas em que eu figurava de rei Que trambolhão Acabo mendigo E alçando a mão direita e os ombros com um ar de indiferença parecia resignado aos golpes da fortuna e não sei até se contente Talvez contente Com certeza impassível Não havia nele a resignação cristã nem a conformidade filosófica Parece que a miséria lhe calejara a alma a ponto de lhe tirar a sensação de lama Arrastava os andrajos como outrora a púrpura com certa graça indolente Procureme disse eu poderei arranjarlhe alguma coisa Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios Não é o primeiro que me promete alguma coisa replicou e não sei se será o último que não me fará nada E para quê Eu nada peço a não ser dinheiro dinheiro sim porque é necessário comer e as casas de pasto não fiam Nem as quitandeiras Uma coisa de nada uns dois vinténs de angu nem isso fiam as malditas quitandeiras Um inferno meu ia dizer meu amigo Um inferno o diabo todos os diabos Olhe ainda hoje não almocei Não Não saí muito cedo de casa Sabe onde moro No terceiro degrau das escadas de São Francisco à esquerda de quem sobe não precisa bater na porta Casa fresca extremamente fresca Pois saí cedo e ainda não comi Tirei a carteira escolhi uma nota de cinco milréis a menos limpa e deilha Ele recebeuma com os olhos cintilantes de cobiça Levantou a nota ao ar e agitoua entusiasmado In hoc signo vinces bradou E depois beijoua com muitos ademanes de ternura e tão ruidosa expansão que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima Ele que era arguto entendeume ficou sério grotescamente sério e pediume desculpa da alegria dizendo que era alegria de pobre que não via desde muitos anos uma nota de cinco milréis Pois está em suas mãos ver outras muitas disse eu Sim acudiu ele dando um bote para mim Trabalhando concluí eu Fez um gesto de desdém calouse alguns instantes depois disseme positivamente que não queria trabalhar Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste e prepareime para sair Não vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da miséria disse ele escarranchandose diante de mim CAPÍTULO LX O ABRAÇO Cuidei que o pobre diabo estivesse doido e ia afastarme quando ele me pegou no pulso e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo Sentilhe na mão uns estremeções de cobiça uns pruridos de posse Magnífico disse ele Depois começou a andar à roda de mim e a examinarme muito O senhor tratase disse ele Jóias roupa fina elegante e Compare esses sapatos aos meus que diferença Pudera não Digo lhe que se trata E moças Como vão elas Está casado Não Nem eu Moro na rua Não quero saber onde mora atalhou Quincas Borba Se alguma vez nos virmos dême outra nota de cinco milréis mas permitame que não a vá buscar à sua casa É uma espécie de orgulho Agora adeus vejo que está impaciente Adeus E obrigado Deixame agradecerlhe de mais perto E dizendo isto abraçoume com tal ímpeto que não pude evitálo Separamonos finalmente eu a passo largo com a camisa amarrotada do abraço enfadado e triste Já não dominava em mim a parte simpática da sensação mas a outra Quisera verlhe a miséria digna Contudo não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora entristecerme e encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo Ora adeus Vamos jantar disse comigo Meto a mão no colete e não acho o relógio Última desilusão O Borba furtaramo no abraço CAPÍTULO LXI UM PROJETO Jantei triste Não era a falta do relógio que me pungia era a imagem do autor do furto e as reminiscências de criança e outra vez a comparação e a conclusão Desde a sopa começou a abrir em mim a flor amarela e mórbida do capítulo XXV e então jantei depressa para correr à casa de Virgília Virgília era o presente eu queria refugiarme nele para escapar às opressões do passado porque o encontro do Quincas Borba tornarame aos olhos o passado não qual fora deveras mas um passado roto abjeto mendigo e gatuno Saí de casa mas era cedo iria achálos à mesa Outra vez pensei no Quincas Borba e tive então um desejo de tornar ao Passeio Público a ver se o achava a idéia de o regenerar surgiume como uma forte necessidade Fui mas já não o achei Indaguei do guarda disseme que efetivamente esse sujeito ia por ali às vezes A que horas Não tem hora certa Não era impossível encontrálo noutra ocasião prometi a mim mesmo lá voltar A necessidade de o regenerar de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchiame o coração eu começava a sentir um bemestar uma elevação uma admiração de mim próprio Nisto caía a noite fui ter com Virgília CAPÍTULO LXII O TRAVESSEIRO Fui ter com Virgília depressa esqueci o Quincas Borba Virgília era o travesseiro do meu espírito um travesseiro mole tépido aromático enfronhado em cambraia e bruxelas Era ali que ele costumava repousar de todas as sensações más simplesmente enfadonhas ou até dolorosas E bem pesadas as coisas não era outra a razão da existência de Virgília não podia ser Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba cinco minutos de uma contemplação mútua com as mãos presas umas nas outras cinco minutos e um beijo E lá se foi a lembrança do Quincas Borba Escrófula da vida andrajo do passado que me importa que existas que molestes os olhos dos outros se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino para fechar os olhos e dormir CAPÍTULO LXIII FUJAMOS Ai Nem sempre dormir Três semanas depois indo à casa de Virgília eram quatro horas da tarde acheia triste e abatida Não me quis dizer o que era mas como eu instasse muito Creio que o Damião desconfia alguma coisa Noto agora umas esquisitices nele Não sei Tratame bem não há dúvida mas o olhar parece que não é o mesmo Durmo mal ainda esta noite acordei aterrada estava sonhando que ele me ia matar Talvez seja ilusão mas eu penso que ele desconfia Tranqüilizeia como pude disse que podiam ser cuidados políticos Virgília concordou que seriam mas ficou ainda muito excitada e nervosa Estávamos na sala de visitas que dava justamente para a chácara onde trocáramos o beijo inicial Uma janela aberta deixava entrar o vento que sacudia frouxamente as cortinas e eu fiquei a olhar para as cortinas sem as ver Empunhara o binóculo da imaginação lobrigava ao longe uma casa nossa uma vida nossa um mundo nosso em que não havia Lobo Neves nem casamento nem moral nem nenhum outro liame que nos tolhesse a expansão da vontade Esta idéia embriagoume eliminados assim o mundo a moral e o marido bastava penetrar naquela habitação dos anjos Virgília disse eu proponhote uma coisa Que é Amasme Oh suspirou ela cingindome os braços ao pescoço Virgília amavame com fúria aquela resposta era a verdade patente Com os braços ao meu pescoço calada respirando muito deixouse ficar a olhar para mim com os seus grandes e belos olhos que davam uma sensação singular de luz úmida eu deixeime estar a vê los a namorarlhe a boca fresca como a madrugada e insaciável como a morte A beleza de Virgília tinha agora um tom grandioso que não possuíra antes de casar Era dessas figuras talhadas em pentélico de um lavor nobre rasgado e puro tranqüilamente bela como as estátuas mas não apática nem fria Ao contrário tinha o aspecto das naturezas cálidas e podiase dizer que na realidade resumia todo o amor Resumiao sobretudo naquela ocasião em que exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana Mas o tempo urgia deslaceilhe as mãos pegueilhe nos pulsos e fito nela perguntei se tinha coragem De quê De fugir Iremos para onde nos for mais cômodo uma casa grande ou pequena à tua vontade na roça ou na cidade ou na Europa onde te parecer onde ninguém nos aborreça e não haja perigos para ti onde vivamos um para o outro Sim fujamos Tarde ou cedo ele pode descobrir alguma coisa e estarás perdidaouves perdida morta e ele também porque eu o matarei jurote Interrompime Virgília empalidecera muito deixou cair os braços e sentouse no canapé Esteve assim alguns instantes sem me dizer palavra não sei se vacilante na escolha se aterrada com a idéia da descoberta e da morte Fuime a ela insisti na proposta disselhe todas as vantagens de uma vida a sós sem zelos nem terrores nem aflições Virgília ouviame calada depois disse Não escaparíamos talvez ele iria ter comigo e matavame do mesmo modo Mostreilhe que não O mundo era assaz vasto e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol ele não chegaria até lá só as grandes paixões são capazes de grandes ações e ele não a amava tanto que pudesse ir buscála se ela estivesse longe Virgília fez um gesto de espanto e quase indignação murmurou que o marido gostava muito dela Pode ser respondi eu pode ser que sim Fui até a janela e comecei a rufar com os dedos no peitoril Virgília chamoume deixeime estar a remoer os meus zelos a desejar estrangular o marido se o tivesse ali à mão Justamente nesse instante apareceu na chácara o Lobo Neves Não tremas assim leitora pálida descansa que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue Logo que apareceu na chácara fizlhe um gesto amigo acompanhado de uma palavra graciosa Virgília retirouse apressadamente da sala onde ele entrou daí a três minutos Está cá há muito tempo disseme ele Não Entrara sério pesado derramando os olhos de um modo distraído costume seu que trocou logo por uma verdadeira expansão de jovialidade quando viu chegar o filho o Nhonhô o futuro bacharel do capítulo VI tomouo nos braços levantouo ao ar beijouo muitas vezes Eu que tinha ódio ao menino afasteime de ambos Virgília tornou à sala Ah respirou Lobo Neves sentandose preguiçosamente no sofá Cansado perguntei eu Muito aturei duas maçadas de primeira ordem uma na câmara e outra na rua E ainda temos terceira acrescentou olhando para a mulher Que é perguntou Virgília Um Adivinha Virgília sentarase ao lado dele pegoulhe numa das mãos compôs lhe a gravata e tornou a perguntar o que era Nada menos que um camarote Para a Candiani Para a Candiani Virgília bateu palmas levantouse deu um beijo no filho com um ar de alegria pueril que destoava muito da figura depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro consultou o marido em voz baixa acerca da toilette que faria da ópera que se cantava e de não sei que outras coisas Você janta conosco doutor disseme Lobo Neves Veio para isso mesmo confirmou a mulher diz que você possui o melhor vinho do Rio de Janeiro Nem por isso bebe muito Ao jantar desmentio bebi mais do que costumava ainda assim menos do que era preciso para perder a razão Já estava excitado fiquei um pouco mais Era a primeira grande cólera que eu sentia contra Virgília Não olhei uma só vez para ela durante o jantar falei de política da imprensa do ministério creio que falaria de teologia se a soubesse ou se me lembrasse Lobo Neves acompanhavame com muita placidez e dignidade e até com certa benevolência superior e tudo aquilo me irritava também e me tornava mais amargo e longo o jantar Despedime apenas nos levantamos da mesa Até logo não perguntou Lobo Neves Pode ser E saí CAPÍTULO LXIV A TRANSAÇÃO Vaguei pelas ruas e recolhime às nove horas Não podendo dormir atireime a ler e escrever Às onze horas estava arrependido de não ter ido ao teatro consultei o relógio quis vestirme e sair Julguei porém que chegaria tarde demais era dar prova de fraqueza Evidentemente Virgília começava a aborrecerse de mim pensava eu E esta idéia fezme sucessivamente desesperado e frio disposto a esquecêla e a matála Viaa dali mesmo reclinada no camarote com os seus magníficos braços nus os braços que eram meus só meus fascinando os olhos de todos com o vestido soberbo que havia de ter o colo de leite os cabelos postos em bandos à maneira do tempo e os brilhantes menos luzidios que os olhos dela Viaa assim e doíame que a vissem outros Depois começava a despila a pôr de lado as jóias e sedas a despenteála com as minhas mãos sôfregas e lascivas a tornála não sei se mais bela se mais natural a tornála minha somente minha unicamente minha No dia seguinte não me pude ter fui cedo à casa de Virgília acheia com os olhos vermelhos de chorar Que houve perguntei Você não me ama foi a sua resposta nunca me teve a menor soma de amor Tratoume ontem como se me tivesse ódio Se eu ao menos soubesse o que é que fiz Mas não sei Não me dirá o que foi Que foi o quê Creio que não houve nada Nada Tratoume como não se trata um cachorro A esta palavra pegueilhe nas mãos beijeias e duas lágrimas rebentaramlhe dos olhos Acabou acabou disse eu Não tive ânimo de argüir e aliás argüila de quê Não era culpa dela se o marido a amava Disselhe que não me fizera coisa nenhuma que eu tinha necessariamente ciúmes do outro que nem sempre o podia suportar de cara alegre acrescentei que talvez houvesse nele muita dissimulação e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e às dissensões era aceitar a minha idéia da véspera Pensei nisso acudiu Virgília uma casinha só nossa solitária metida num jardim em alguma rua escondida não é Acho a idéia boa mas para que fugir Disse isto com o tom ingênuo e preguiçoso de quem não cuida em mal e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de candidez Então afastandome respondi Você é que nunca me teve amor Eu Sim é uma egoísta prefere verme padecer todos os dias é uma egoísta sem nome Virgília desatou a chorar e para não atrair gente metia o lenço na boca recalcava os soluços explosão que me desconcertou Se alguém a ouvisse perdiase tudo Inclineime para ela traveilhe dos pulsos sussurreilhe os nomes mais doces da nossa intimidade mostreilhe o perigo o terror apaziguoua Não posso disse ela daí a alguns instantes não deixo meu filho se o levar estou certa de que ele me irá buscar ao fim do mundo Não posso mateme você se o quiser ou deixeme morrer Ah meu Deus meu Deus Sossegue olhe que podem ouvila Que ouçam Não me importa Estava ainda excitada pedilhe que esquecesse tudo que me perdoasse que eu era um doido mas que a minha insânia provinha dela e com ela acabaria Virgília enxugou os olhos e estendeume a mão Sorrimos ambos minutos depois tornávamos ao assunto da casinha solitária em alguma rua escusa CAPÍTULO LXV OLHEIROS E ESCUTAS Interrompeunos o rumor de um carro na chácara Veio um escravo dizer que era a baronesa X Virgília consultoume com os olhos Se a senhora está assim com dor de cabeça disse eu parece que o melhor é não receber Já se apeou perguntou Virgília ao escravo Já se apeou diz que precisa muito de falar com sinhá Que entre A baronesa entrou daí a pouco Não sei se contava comigo na sala mas era impossível mostrar maior alvoroço Bons olhos o vejam exclamou Onde se mete o senhor que não aparece em parte nenhuma Pois olhe ontem admiroume não o ver no teatro A Candiani esteve deliciosa Que mulher Gosta da Candiani É natural Os senhores são todos os mesmos O barão dizia ontem no camarote que uma só italiana vale por cinco brasileiras Que desaforo e desaforo de velho que é pior Mas por que é que o senhor não foi ontem ao teatro Uma enxaqueca Qual Algum namoro não acha Virgília Pois meu amigo apressese porque o senhor deve estar com quarenta anos ou perto disso Não tem quarenta anos Não lhe posso dizer com certeza respondi eu mas se me dá licença vou consultar a certidão de batismo Vá vá E estendendome a mão Até quando Sábado ficamos em casa o barão está com umas saudades suas Chegando à rua arrependime de ter saído A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós Cinqüenta e cinco anos que pareciam quarenta macia risonha vestígios de beleza porte elegante e maneiras finas Não falava muito nem sempre possuía a grande arte de escutar os outros espiandoos reclinavase então na cadeira desembainhava um olhar afiado e comprido e deixavase estar Os outros não sabendo o que era falavam olhavam gesticulavam ao tempo que ela olhava só ora fixa ora móbil levando a astúcia ao ponto de olhar às vezes para dentro de si porque deixava cair as pálpebras mas como as pestanas eram rótulas o olhar continuava o seu ofício remexendo a alma e a vida dos outros A segunda pessoa era um parente de Virgília o Viegas um cangalho de setenta invernos chupado e amarelado que padecia de um reumatismo teimoso de uma asma não menos teimosa e de uma lesão de coração era um hospital concentrado Os olhos porém luziam de muita vida e saúde Virgília nas primeiras semanas lhe tinha medo nenhum diziame que quando o Viegas parecia espreitar com o olhar fixo estava simplesmente contando dinheiro Com efeito era um grande avaro Havia ainda o primo de Virgília o Luís Dutra que eu agora desarmava à força de lhe falar nos versos e prosas e de o apresentar aos conhecidos Quando estes ligando o nome à pessoa se mostravam contentes da apresentação não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade mas eu curavame da felicidade com a esperança de que ele nos não denunciasse nunca Havia enfim umas duas ou três senhoras vários gamenhos e os fâmulos que naturalmente se desforravam assim da condição servil e tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas por entre os quais tínhamos de resvalar com a tática e maciez das cobras CAPÍTULO LXVI AS PERNAS Ora enquanto eu pensava naquela gente iamme pernas levando ruas abaixo de modo que insensivelmente me achei à porta do Hotel Pharoux De costume jantava aí mas não tendo deliberadamente andado nenhum merecimento da ação me cabe e sim às pernas que a fizeram Abençoadas pernas E há quem vos trate com desdém ou indiferença Eu mesmo até então tinhavos em má conta zangavame quando vos fatigáveis quando não podíeis ir além de certo ponto e me deixáveis com o desejo a avoaçar à semelhança de galinha atada pelos pés Aquele caso porém foi um raio de luz Sim pernas amigas vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília e dissestes uma à outra Ele precisa comer são horas de jantar vamos leválo ao Pharoux dividamos a consciência dele uma parte fique lá com a dama tomemos nós a outra para que ele vá direito não abalroe as gentes e as carroças tire o chapéu aos conhecidos e finalmente chegue são e salvo ao hotel E cumpristes à risca o vosso propósito amáveis pernas o que me obriga a imortalizarvos nesta página CAPÍTULO LXVII A CASINHA Jantei e fui a casa Lá achei uma caixa de charutos que me mandara o Lobo Neves embrulhada em papel de seda e ornada de fitinhas corderosa Entendi abria e tirei este bilhete Meu B Desconfiam de nós tudo está perdido esqueçame para sempre Não nos veremos mais Adeus esqueça se da infeliz Va Foi um golpe esta carta não obstante apenas fechou a noite corri à casa de Virgília Era tempo estava arrependida Ao vão de uma janela contoume o que se passara com a baronesa A baronesa disselhe francamente que se falara muito no teatro na noite anterior a propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves tinham comentado as minhas relações na casa em suma éramos objeto da suspeita pública Concluiu dizendo que não sabia que fazer O melhor é fugirmos insinuei Nunca respondeu ela abanando a cabeça Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas o nosso amor e a consideração pública Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens e a fuga só lhe deixava uma Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito mas as comoções daqueles dois dias eram já muitas e o despeito morreu depressa Vá lá arranjemos a casinha Com efeito acheia dias depois expressamente feita em um recanto da Gamboa Um brinco Nova caiada de fresco com quatro janelas na frente e duas de cada lado todas com venezianas cor de tijolo trepadeira nos cantos jardim na frente mistério e solidão Um brinco Convencionamos que iria morar ali uma mulher conhecida de Virgília em cuja casa fora costureira e agregada Virgília exercia sobre ela verdadeira fascinação Não se lhe diria tudo ela aceitaria facilmente o resto Para mim era aquilo uma situação nova do nosso amor uma aparência de posse exclusiva de domínio absoluto alguma coisa que me faria adormecer a consciência e resguardar o decoro Já estava cansado das cortinas do outro das cadeiras do tapete do canapé de todas essas coisas que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade Agora podia evitar os jantares freqüentes o chá de todas as noites enfim a presença do filho deles meu cúmplice e meu inimigo A casa resgatavame tudo o mundo vulgar terminaria à porta dali para dentro era o infinito um mundo eterno superior excepcional nosso somente nosso sem leis sem instituições sem baronesas sem olheiros sem escutas um só mundo um só casal uma só vida uma só vontade uma só afeição a unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram contrárias CAPÍTULO LXVIII O VERGALHO Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo por aquele Valongo fora logo depois de ver e ajustar a casa Interrompeumas um ajuntamento era um preto que vergalhava outro na praça O outro não se atrevia a fugir gemia somente estas únicas palavras Não perdão meu senhor meu senhor perdão Mas o primeiro não fazia caso e a cada súplica respondia com uma vergalhada nova Toma diabo dizia ele toma mais perdão bêbado Meu senhor gemia o outro Cala a boca besta replicava o vergalho Parei olhei Justos céus Quem havia de ser o do vergalho Nada menos que o meu moleque Prudêncio o que meu pai libertara alguns anos antes Chegueime ele detevese logo e pediume a bênção pergunteilhe se aquele preto era escravo dele É sim nhonhô Fezte alguma coisa É um vadio e um bêbado muito grande Ainda hoje deixei ele na quitanda enquanto eu ia lá embaixo na cidade e ele deixou a quitanda para ir na venda beber Está bom perdoalhe disse eu Pois não nhonhô Nhonhô manda não pede Entra para casa bêbado Saí do grupo que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas Segui caminho a desfiar uma infinidade de reflexões que sinto haver inteiramente perdido aliás seria matéria para um bom capítulo e talvez alegre Eu gosto dos capítulos alegres é o meu fraco Exteriormente era torvo o episódio do Valongo mas só exteriormente Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei lhe um miolo gaiato fino e até profundo Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas transmitindoas a outro Eu em criança montavao punhalhe um freio na boca e desancavao sem compaixão ele gemia e sofria Agora porém que era livre dispunha de si mesmo dos braços das pernas podia trabalhar folgar dormir desagrilhoado da antiga condição agora é que ele se desbancava comprou um escravo e ia lhe pagando com alto juro as quantias que de mim recebera Vejam as sutilezas do maroto CAPÍTULO LXIX UM GRÃO DE SANDICE Este caso fazme lembrar um doido que conheci Chamavase Romualdo e dizia ser Tamerlão Era a sua grande e única mania e tinha uma curiosa maneira de a explicar Eu sou o ilustre Tamerlão dizia ele Outrora fui Romualdo mas adoeci e tomei tanto tártaro tanto tártaro tanto tártaro que fiquei Tártaro e até rei dos Tártaros O tártaro tem a virtude de fazer Tártaros Pobre Romualdo A gente ria da resposta mas é provável que o leitor não se ria e com razão eu não lhe acho graça nenhuma Ouvida tinha algum chiste mas assim contada no papel e a propósito de um vergalho recebido e transferido força é confessar que é muito melhor voltar à casinha da Gamboa deixemos os Romualdos e Prudêncios CAPÍTULO LXX D PLÁCIDA Voltemos à casinha Não serias capaz de lá entrar hoje curioso leitor envelheceu enegreceu apodreceu e o proprietário deitoua abaixo para substituíla por outra três vezes maior mas jurote que muito menor que a primeira O mundo era estreito para Alexandre um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas Vê agora a neutralidade deste globo que nos leva através dos espaços como uma lancha de náufragos que vai dar à costa dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados Amanhã pode lá dormir um eclesiástico depois um assassino depois um ferreiro depois um poeta e todos abençoarão esse canto de Terra que lhes deu algumas ilusões Virgília fez daquilo um brinco designou as alfaias mais idôneas e dispôlas com a intuição estética da mulher elegante eu levei para lá alguns livros e tudo ficou sob a guarda de D Plácida suposta e a certos respeitos verdadeira dona da casa Custoulhe muito a aceitar a casa farejara a intenção e doíalhe o ofício mas afinal cedeu Creio que chorava a princípio tinha nojo de si mesma Ao menos é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dois meses falavame com eles baixos séria carrancuda às vezes triste Eu queria angariála e não me dava por ofendido tratavaa com carinho e respeito forcejava por obterlhe a benevolência depois a confiança Quando obtive a confiança imaginei uma história patética dos meus amores com Virgília um caso anterior ao casamento a resistência do pai a dureza do marido e não sei que outros toques de novela D Plácida não rejeitou uma só página da novela aceitouas todas Era uma necessidade da consciência Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que D Plácida era minha sogra Não fui ingrato fizlhe um pecúlio de cinco contos os cinco contos achados em Botafogo como um pão para a velhice D Plácida agradeceume com lágrimas nos olhos e nunca mais deixou de rezar por mim todas as noites diante de uma imagem da Virgem que tinha no quarto Foi assim que lhe acabou o nojo CAPÍTULO LXXI O SENÃO DO LIVRO Começo a arrependerme deste livro Não que ele me canse eu não tenho que fazer e realmente expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade Mas o livro é enfadonho cheira a sepulcro traz certa contração cadavérica vício grave e aliás ínfimo porque o maior defeito deste livro és tu leitor Tu tens pressa de envelhecer e o livro anda devagar tu amas a narração direta e nutrida o estilo regular e fluente e este livro e o meu estilo são como os ébrios guinam à direita e à esquerda andam e param resmungam urram gargalham ameaçam o céu escorregam e caem E caem Folhas misérrimas do meu cipreste heis de cair como quaisquer outras belas e vistosas e se eu tivesse olhos darvosia uma lágrima de saudade Esta é a grande vantagem da morte que se não deixa boca para rir também não deixa olhos para chorar Heis de cair CAPÍTULO LXXII O BIBLIÔMANO Talvez suprima o capítulo anterior entre outros motivos há aí nas últimas linhas uma frase muito parecida com despropósito e eu não quero dar pasto à crítica do futuro Olhai daqui a setenta anos um sujeito magro amarelo grisalho que não ama nenhuma outra coisa além dos livros inclinase sobre a página anterior a ver se lhe descobre o despropósito lê relê treslê desengonça as palavras saca uma sílaba depois outra mais outra e as restantes examinaas por dentro e por fora por todos os lados contra a luz espanejaas esfregaas no joelho lavaas e nada não acha o despropósito É um bibliômano Não conhece o autor este nome de Brás Cubas não vem nos seus dicionários biográficos Achou o volume por acaso no pardieiro de um alfarrabista Comprouo por duzentos réis Indagou pesquisou esgaravatou e veio a descobrir que era um exemplar único Único Vós que não só amais os livros senão que padeceis a mania deles vós sabeis muito bem o valor desta palavra e adivinhais portanto as delícias de meu bibliômano Ele rejeitaria a coroa das Índias o papado todos os museus da Itália e da Holanda se os houvesse de trocar por esse único exemplar e não porque seja o das minhas Memórias faria a mesma coisa com o Almanaque de Laemmert uma vez que fosse único O pior é o despropósito Lá continua o homem inclinado sobre a página com uma lente no olho direito todo entregue à nobre e áspera função de decifrar o despropósito Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade se a houver por baixo daquela frase obscura Ao cabo não descobre nada e contentase com a posse Fecha o livro mirao remirao chegase à janela e mostrao ao sol Um exemplar único Nesse momento passalhe por baixo da janela um César ou um Cromwell a caminho do poder Ele dá de ombros fecha a janela estirase na rede e folheia o livro devagar com amor aos goles Um exemplar único CAPÍTULO LXXIII O LUNCHEON O despropósito fezme perder outro capítulo Que melhor não era dizer as coisas lisamente sem todos estes solavancos Já comparei o meu estilo ao andar dos ébrios Se a idéia vos parece indecorosa direi que ele é o que eram as minhas refeições com Virgília na casinha da Gamboa onde às vezes fazíamos a nossa patuscada o nosso luncheon Vinho fruta compotas Comíamos é verdade mas era um comer virgulado de palavrinhas doces de olhares ternos de criancices uma infinidade desses apartes do coração aliás o verdadeiro o ininterrupto discurso do amor Às vezes vinha o arrufo temperar o nímio adocicado da situação Ela deixavame refugiava se num canto do canapé ou ia para o interior ouvir as denguices de Dona Plácida Cinco ou dez minutos depois reatávamos a palestra como eu reato a narração para desatála outra vez Notese que longe de termos horror ao método era nosso costume convidálo na pessoa de D Plácida a sentarse conosco à mesa mas D Plácida não aceitava nunca Você parece que não gosta mais de mim disselhe um dia Virgília Virgem Nossa Senhora exclamou a boa dama alçando as mãos para o teto Não gosto de Iaiá Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo E pegandolhe nas mãos olhoua fixamente fixamente fixamente até molharemselhe os olhos de tão fixo que era Virgília acaricioua muito eu deixeilhe uma pratinha na algibeira do vestido CAPÍTULO LXXIV HISTÓRIA DE D PLÁCIDA Não te arrependas de ser generoso a pratinha rendeume uma confidência de D Plácida e conseguintemente este capítulo Dias depois como eu a achasse só em casa travamos palestra e ela contoume em breves termos a sua história Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fora Perdeu o pai aos dez anos Já então ralava coco e fazia não sei que outros trabalhos de doceira compatíveis com a idade Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate que morreu tísico algum tempo depois deixandolhe uma filha Viúva e moça ficaram a seu cargo a filha com dois anos e a mãe cansada de trabalhar Tinha de sustentar a três pessoas Fazia doces que era o seu ofício mas cosia também de dia e de noite com afinco para três ou quatro lojas e ensinava algumas crianças do bairro a dez tostões por mês Com isto iamse passando os anos não a beleza porque não a tivera nunca Apareceramlhe alguns namoros propostas seduções a que resistia Se eu pudesse encontrar outro marido disseme ela creia que me teria casado mas ninguém queria casar comigo Um dos pretendentes conseguiu fazerse aceito não sendo porém mais delicado que os outros D Plácida despediuo do mesmo modo e depois de o despedir chorou muito Continuou a coser para fora e a escumar os tachos A mãe tinha a rabugem do temperamento dos anos e da necessidade mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de empréstimo e de ocasião que lha pediam E bradava Queres ser melhor do que eu Não sei donde te vêm essas fidúcias de pessoa rica Minha camarada a vida não se arranja à toa não se come vento Ora esta Moços tão bons como o Policarpo da venda coitado Esperas algum fidalgo não é D Plácida juroume que não esperava fidalgo nenhum Era gênio Queria ser casada Sabia muito bem que a mãe o não fora e conhecia algumas que tinham só o seu moço delas mas era gênio e queria ser casada Não queria também que a filha fosse outra coisa Trabalhava muito queimando os dedos ao fogão e os olhos ao candeeiro para comer e não cair Emagreceu adoeceu perdeu a mãe enterroua por subscrição e continuou a trabalhar A filha estava com quatorze anos mas era muito fraquinha e não fazia nada a não ser namorar os capadócios que lhe rondavam a rótula D Plácida vivia com imensos cuidados levandoa consigo quando tinha de ir entregar costuras A gente das lojas arregalava e piscava os olhos convencida de que ela a levava para colher marido ou outra coisa Alguns diziam graçolas faziam cumprimentos a mãe chegou a receber propostas de dinheiro Interrompeuse um instante e continuou logo Minha filha fugiume foi com um sujeito nem quero saber Deixoume só mas tão triste tão triste que pensei morrer Não tinha ninguém mais no mundo e estava quase velha e doente Foi por esse tempo que conheci a família de Iaiá boa gente que me deu que fazer e até chegou a me dar casa Estive lá muitos meses um ano mais de um ano agregada costurando Saí quando Iaiá casou Depois vivi como Deus foi servido Olhe os meus dedos olhe estas mãos E mostroume as mãos grossas e gretadas as pontas dos dedos picadas da agulha Não se cria isto à toa meu senhor Deus sabe como é que isto se cria Felizmente Iaiá me protegeu e o senhor doutor também Eu tinha um medo de acabar na rua pedindo esmola Ao soltar a última frase D Plácida teve um calafrio Depois como se tornasse a si pareceu atentar na inconveniência daquela confissão ao amante de uma mulher casada e começou a rir a desdizerse a chamarse tola cheia de fidúcias como lhe dizia a mãe enfim cansada do meu silêncio retirouse da sala Eu fiquei a olhar para a ponta do botim CAPÍTULO LXXV COMIGO Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capítulo anterior observo que é preciso lêlo para entender o que eu disse comigo logo depois que D Plácida saiu da sala O que eu disse foi isto Assim pois o sacristão da Sé um dia ajudando à missa viu entrar a dama que devia ser sua colaboradora na vida de D Plácida Viua outros dias durante semanas inteiras gostou disselhe alguma graça pisoulhe o pé ao acender os altares nos dias de festa Ela gostou dele acercaramse amaramse Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou D Plácida É de crer que D Plácida não falasse ainda quando nasceu mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias Aqui estou Para que me chamastes E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam Chamamoste para queimar os dedos nos tachos os olhos na costura comer mal ou não comer andar de um lado para outro na faina adoecendo e sarando com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez triste agora logo desesperada amanhã resignada mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura até acabar um dia na lama ou no hospital foi para isso que te chamamos num momento de simpatia CAPÍTULO LXXVI O ESTRUME Súbito deume a consciência um repelão acusoume de ter feito capitular a probidade de D Plácida obrigandoa a um papel torpe depois de uma longa vida de trabalho e privações Medianeira não era melhor que concubina e eu tinhaa baixado a esse ofício à custa de obséquios e dinheiros Foi o que me disse a consciência fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a excostureira da gratidão desta enfim da necessidade Notou a resistência de D Plácida as lágrimas dos primeiros dias as caras feias os silêncios os olhos baixos e a minha arte em suportar tudo isso até vencêla E repuxoume outra vez de um modo irritado e nervoso Concordei que assim era mas aleguei que a velhice de D Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade era uma compensação Se não fossem os meus amores provavelmente D Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã A consciência concordou e eu fui abrir a porta a Virgília CAPÍTULO LXXVII ENTREVISTA Virgília entrou risonha e sossegada Os tempos tinham levado os sustos e vexames Que doce que era vêla chegar nos primeiros dias envergonhada e trêmula Ia de sege velado o rosto envolvida numa espécie de mantéu que lhe disfarçava as ondulações do talhe Da primeira vez deixouse cair no canapé ofegante escarlate com os olhos no chão e palavra em nenhuma outra ocasião a achei tão bela talvez porque nunca me senti mais lisonjeado Agora porém como eu dizia tinham acabado os sustos e vexames as entrevistas entravam no período cronométrico A intensidade do amor era a mesma a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituirse um simples feixe de raios tranqüilo e constante como nos casamentos Estou muito zangada com você disse ela sentandose Por quê Por que não foi lá ontem como me tinha dito O Damião perguntou muitas vezes se você não iria ao menos tomar chá Por que é que não foi Com efeito eu havia faltado à palavra que dera e a culpa era toda de Virgília Questão de ciúmes Essa mulher esplêndida sabia que o era e gostava de o ouvir dizer fosse em voz alta ou baixa Na antevéspera em casa da baronesa valsara duas vezes com o mesmo peralta depois de lhe escutar as cortesanices ao canto de uma janela Estava tão alegre tão derramada tão cheia de si Quando descobriu entre as minhas sobrancelhas a ruga interrogativa e ameaçadora não teve nenhum sobressalto nem ficou subitamente séria mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices Veio depois a mim tomoume o braço e levoume a outra sala menos povoada onde se me queixou de cansaço e disse muitas outras coisas com o ar pueril que costumava ter em certas ocasiões e eu ouvia quase sem responder nada Agora mesmo custavame responder alguma coisa mas enfim conteilhe o motivo da minha ausência Não eternas estrelas nunca vi olhos mais pasmados A boca semiaberta as sobrancelhas arqueadas uma estupefação visível tangível que se não podia negar tal foi a primeira réplica de Virgília abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura que inteiramente me confundiu Ora você E foi tirar o chapéu lépida jovial como a menina que torna do colégio depois veio a mim que estava sentado deume pancadinha na testa com um só dedo a repetir Isto isto e eu não tive remédio senão rir também e tudo acabou em galhofa Era claro que me enganara CAPÍTULO LXXVIII A PRESIDÊNCIA Certo dia meses depois entrou Lobo Neves em casa dizendo que iria talvez ocupar uma presidência de província Olhei para Virgília que empalideceu ele que a viu empalidecer perguntoulhe A modo que não gostaste Virgília Virgília abanou a cabeça Não me agrada muito foi a sua resposta Não se disse mais nada mas de noite Lobo Neves insistiu no projeto um pouco mais resolutamente do que de tarde dois dias depois declarou à mulher que a presidência era coisa definitiva Virgília não pôde dissimular a repugnância que isto lhe causava O marido respondia a tudo com as necessidades políticas Não posso recusar o que me pedem é até conveniência nossa do nosso futuro dos teus brasões meu amor porque eu prometi que serias marquesa e nem baronesa estás Dirás que sou ambicioso Souo deveras mas é preciso que me não ponhas um peso nas asas da ambição Virgília ficou desorientada No dia seguinte acheia triste na casa da Gamboa à minha espera tinha dito tudo a D Plácida que buscava consolála como podia Não fiquei menos abatido Você há de ir conosco disseme Virgília Está doida Seria uma insensatez Mas então Então é preciso desfazer o projeto É impossível Já aceitou Parece que sim Levanteime atirei o chapéu a uma cadeira e entrei a passear de um lado para outro sem saber o que faria Cogitei largamente e não achei nada Enfim chegueime a Virgília que estava sentada e traveilhe da mão D Plácida foi à janela Nesta pequenina mão está toda a minha existência disse eu você é responsável por ela faça o que lhe parecer Virgília teve um gesto aflitivo eu fui encostarme ao consolo fronteiro Decorreram alguns instantes de silêncio ouvíamos somente o latir de um cão e não sei se o rumor da água que morria na praia Vendo que não falava olhei para ela Virgília tinha os olhos no chão parados sem luz as mãos deixadas sobre os joelhos com os dedos cruzados na atitude da suprema desesperança Noutra ocasião por diferente motivo é certo que eu me lançaria aos pés dela e a ampararia com a minha razão e a minha ternura agora porém era preciso compelila ao esforço de si mesma ao sacrifício à responsabilidade da nossa vida comum e conseguintemente desamparála deixála e sair foi o que fiz Repito a minha felicidade está nas tuas mãos disse eu Virgília quis agarrarme mas eu já estava fora da porta Cheguei a ouvir um prorromper de lágrimas e digolhes que estive a ponto de voltar para as enxugar com um beijo mas subjugueime e saí CAPÍTULO LXXIX COMPROMISSO Não acabaria se houvesse de contar pelo miúdo o que padeci nas primeiras horas Vacilava entre um querer e um não querer entre a piedade que me empuxava à casa de Virgília e outro sentimento egoísmo supunhamos que me dizia Fica deixaa a sós com o problema deixaa que ela o resolverá no sentido do amor Creio que essas duas forças tinham igual intensidade investiam e resistiam ao mesmo tempo com ardor com tenacidade e nenhuma cedia definitivamente Às vezes sentia um dentezinho de remorso parecia me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada sem nada sacrificar nem arriscar de mim próprio e quando ia a capitular vinha outra vez o amor e me repetia o conselho egoísta e eu ficava irresoluto e inquieto desejoso de a ver e receoso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução Por fim interveio um compromisso entre o egoísmo e a piedade eu iria vêla em casa e só em casa em presença do marido para lhe não dizer nada à véspera do efeito da minha intimação Deste modo poderia conciliar as duas forças Agora que isto escrevo querme parecer que o compromisso era uma burla que essa piedade era ainda uma forma de egoísmo e que a resolução de ir consolar Virgília não passava de uma sugestão de meu próprio padecimento CAPÍTULO LXXX DE SECRETÁRIO Na noite seguinte fui efetivamente à casa do Lobo Neves estavam ambos Virgília muito triste ele muito jovial Juro que ela sentiu certo alívio quando os nossos olhos se encontraram cheios de curiosidade e ternura Lobo Neves contoume os planos que levava para a presidência as dificuldades locais as esperanças as resoluções estava tão contente tão esperançado Virgília ao pé da mesa fingia ler um livro mas por cima da página olhavame de quando em quando interrogativa e ansiosa O pior disseme de repente o Lobo Neves é que ainda não achei secretário Não Não e tenho uma idéia Ah Uma idéia Quer você dar um passeio ao Norte Não sei o que lhe disse Você é rico continuou ele não precisa de um magro ordenado mas se quisesse obsequiarme ia de secretário comigo Meu espírito deu um salto para trás como se descobrisse uma serpente diante de si Encarei o Lobo Neves fixamente imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto Nem sombra disso o olhar vinha direito e franco a placidez do rosto era natural não violenta uma placidez salpicada de alegria Respirei e não tive ânimo de olhar para Virgília senti por cima da página o olhar dela que me pedia também a mesma coisa e disse que sim que iria Na verdade um presidente uma presidenta um secretário era resolver as coisas de um modo administrativo CAPÍTULO LXXXI A RECONCILIAÇÃO Contudo ao sair de lá tive umas sombras de dúvida cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgília se não haveria outro meio razoável de combinar o Estado e a Gamboa Não achei nada No dia seguinte ao levantarme da cama trazia o espírito feito e resoluto a aceitar a nomeação Ao meiodia veio o criado dizerme que estava na sala uma senhora coberta com um véu Corro era minha irmã Sabina Isto não pode continuar assim disse ela é preciso que de uma vez por todas façamos as pazes Nossa família está acabando não havemos de ficar como dois inimigos Mas se eu não te peço outra coisa mana bradei estendendolhe os braços Senteia ao pé de mim faleilhe do marido da filha dos negócios de tudo Tudo ia bem a filha estava linda como os amores O marido viria mostrarma se eu consentisse Ora essa irei eu mesmo vêla Sim Palavra Tanto melhor respirou Sabina É tempo de acabar com isto Acheia mais gorda e talvez mais moça Parecia ter vinte anos e contava mais de trinta Graciosa afável nenhum acanhamento nenhum ressentimento Olhávamos um para o outro com as mãos seguras falando de tudo e de nada como dois namorados Era minha infância que ressurgia fresca travessa e loura os anos iam caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas com que eu brincava em pequeno e deixavamme ver a nossa casa a nossa família as nossas festas Suportei a recordação com algum esforço mas um barbeiro da vizinhança lembrouse de zangarrear na clássica rabeca e essa voz porque até então a recordação era muda essa voz do passado fanhosa e saudosa a tal ponto me comoveu que Os olhos dela estavam secos Sabina não herdara a flor amarela e mórbida Que importa Era minha irmã meu sangue um pedaço de minha mãe e eu disselho com ternura com sinceridade Súbito ouço bater à porta da sala vou abrir era um anjinho de cinco anos Entra Sara disse Sabina Era minha sobrinha Apanheia do chão beijeia muitas vezes a pequena espantada empurravame o ombro com a mãozinha quebrando o corpo para descer Nisto apareceme à porta um chapéu e logo um homem o Cotrim nada menos que o Cotrim Eu estava tão comovido que deixei a filha e lanceime aos braços do pai Talvez essa efusão o desconcertou um pouco é certo que me pareceu acanhado Simples prólogo Daí a pouco falávamos como bons amigos velhos Nenhuma alusão ao passado muitos planos de futuro promessa de jantarmos em casa um do outro Não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção porque eu andava com idéias de uma viagem ao Norte Sabina olhou para o Cotrim o Cotrim para Sabina ambos concordaram que essas idéias não tinham senso comum Que diacho podia eu achar no Norte Pois não era na corte em plena corte que devia continuar a luzir a meter num chinelo os rapazes do tempo Que na verdade nenhum havia que se me comparasse ele Cotrim acompanhavame de longe e não obstante uma briga ridícula teve sempre interesse orgulho vaidade nos meus triunfos Ouvia o que se dizia a meu respeito nas ruas e nas salas era um concerto de louvores e admirações E deixase isso para ir passar alguns meses na província sem necessidade sem motivo sério A menos que não fosse política Justamente política disse eu Nem assim replicou ele daí a um instante E depois de outro silêncio Seja como for venha jantar hoje conosco Certamente que vou mas amanhã ou depois hão de vir jantar comigo Não sei não sei objetou Sabina casa de homem solteiro Você precisa casar mano Também eu quero uma sobrinha ouviu Cotrim reprimiua com um gesto que não entendi bem Não importa a reconciliação de uma família vale bem um gesto enigmático CAPÍTULO LXXXII QUESTÃO DE BOTÂNICA Digam o que quiserem dizer os hipocondríacos a vida é uma coisa doce Foi o que eu pensei comigo ao ver Sabina o marido e a filha descerem de tropel as escadas dizendo muitas palavras afetuosas para cima onde eu ficava no patamar a dizerlhes outras tantas para baixo Continuei a pensar que na verdade era feliz Amavame uma mulher tinha a confiança do marido ia por secretário de ambos reconciliavame com os meus Que podia desejar mais em vinte e quatro horas Nesse mesmo dia tratando de aparelhar os ânimos comecei a espalhar que talvez fosse para o Norte como secretário de província a fim de realizar certos desígnios políticos que me eram pessoais Disseo na Rua do Ouvidor repetio no dia seguinte no Pharoux e no teatro Alguns ligando a minha nomeação à do Lobo Neves que já andava em boatos sorriam maliciosamente outros batiamme no ombro No teatro disseme uma senhora que era levar muito longe o amor da escultura Referiase às belas formas de Virgília Mas a alusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina três dias depois Fêla um certo Garcez velho cirurgião pequenino trivial e grulha que podia chegar aos setenta aos oitenta aos noventa anos sem adquirir jamais aquela compostura austera que é a gentileza do ancião A velhice ridícula é porventura a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana Já sei desta vez vai ler Cícero disseme ele ao saber da viagem Cícero exclamou Sabina Pois então Seu mano é um grande latinista Traduz Virgílio de relance Olhe que é Virgílio e não Virgília não confunda E ria de um riso grosso rasteiro e frívolo Sabina olhou para mim receosa de alguma réplica mas sorriu quando me viu sorrir e voltou o rosto para disfarçálo As outras pessoas olhavamme com um ar de curiosidade indulgência e simpatia era transparente que não acabavam de ouvir nenhuma novidade O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor Entretanto sorri um sorriso curto fugitivo e guloso palreiro como as pegas de Sintra Virgília era um belo erro e é tão fácil confessar um belo erro Costumava ficar carrancudo a princípio quando ouvia alguma alusão aos nossos amores mas palavra de honra sentia cá dentro uma impressão suave e lisonjeira Uma vez porém aconteceume sorrir e continuei a fazêlo das outras vezes Não sei se há aí alguém que explique o fenômeno Eu explicoo assim a princípio o contentamento sendo interior era por assim dizer o mesmo sorriso mas abotoado andando o tempo desabotoouse em flor e apareceu aos olhos do próximo Simples questão de botânica CAPÍTULO LXXXIII 13 Cotrim tiroume daquele gozo levandome à janela Você quer que lhe diga uma coisa perguntou ele não faça essa viagem é insensata é perigosa Por quê Você bem sabe por que tornou ele é sobretudo perigosa muito perigosa Aqui na corte um caso desses perdese na multidão da gente e dos interesses mas na província muda de figura e tratando se de personagens políticos é realmente insensatez As gazetas de oposição logo que farejarem o negócio passam a imprimilo com todas as letras e aí virão as chufas os remoques as alcunhas Mas não entendo Entende entende Em verdade seria bem pouco amigo nosso se me negasse o que toda a gente sabe Eu sei disso há longos meses Repito não faça semelhante viagem suporte a ausência que é melhor e evite algum grande escândalo e maior desgosto Disse isto e foi para dentro Eu deixeime estar com os olhos no lampião da esquina um antigo lampião de azeite triste obscuro e recurvado como um ponto de interrogação Que me cumpria fazer Era o caso de Hamlet ou dobrarme à fortuna ou lutar com ela e subjugála Por outros termos embarcar ou não embarcar Esta era a questão O lampião não me dizia nada As palavras do Cotrim ressoavamme aos ouvidos da memória de um modo muito diverso do das palavras do Garcez Talvez Cotrim tivesse razão mas podia eu separarme de Virgília Sabina veio ter comigo e perguntoume em que estava pensando Respondi que em coisa nenhuma que tinha sono e ia para casa Sabina esteve um instante calada O que você precisa sei eu é uma noiva Deixe que eu ainda arranjo uma noiva para você Saí de lá opresso desorientado Tudo pronto para embarcar espírito e coração e eis aí me surge esse porteiro das conveniências que me pede o cartão de ingresso Dei ao diabo as conveniências e com elas a constituição o corpo legislativo o ministério tudo No dia seguinte abro uma folha política e leio a notícia de que por decretos de 13 tínhamos sido nomeados presidente e secretário da província de o Lobo Neves e eu Escrevi imediatamente a Virgília e segui duas horas depois para a Gamboa Coitada de D Plácida Estava cada vez mais aflita perguntoume se esqueceríamos a nossa velha se a ausência era grande e se a província ficava longe Consoleia mas eu próprio precisava de consolações a objeção de Cotrim afligiame Virgília chegou daí a pouco lépida como uma andorinha mas ao verme triste ficou muito séria Que aconteceu Vacilo disse eu não sei se devo aceitar Virgília deixouse cair no canapé a rir Por quê disse ela Não é conveniente dá muito na vista Mas nós não já vamos Como assim Contoume que o marido ia recusar a nomeação e por motivo que só lhe disse a ela pedindolhe o maior segredo não podia confessálo a ninguém mais É pueril observou ele é ridículo mas em suma é um motivo poderoso para mim Referiulhe que o decreto trazia a data de 13 e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre O pai morreu num dia 13 treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas A casa em que morrera a mãe tinha o n 13 Et coetera Era um algarismo fatídico Não podia alegar semelhante coisa ao ministro dirlheia que tinha razões particulares para não aceitar Eu fiquei como há de estar o leitor um pouco assombrado com esse sacrifício a um número mas sendo ele ambicioso o sacrifício devia ser sincero CAPÍTULO LXXXIV O CONFLITO Número fatídico lembraste que te abençoei muitas vezes Assim também as virgens ruivas de Tebas deviam abençoar a égua de ruiva crina que as substituiu no sacrifício de Pelópidas uma donosa égua que lá morreu coberta de flores sem que ninguém lhe desse nunca uma palavra de saudade Pois douta eu égua piedosa não só pela morte havida como porque entre as donzelas escapas não é impossível que figurasse uma avó dos Cubas Número fatídico tu foste a nossa salvação Não me confessou o marido a causa da recusa disseme também que eram negócios particulares e o rosto sério convencido com que eu o escutei fez honra à dissimulação humana Ele é que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava falava pouco absorviase metiase em casa a ler Outras vezes recebia e então conversava e ria muito com estrépito e afetação Oprimiamno duas coisas a ambição que um escrúpulo desasara e logo depois a dúvida e talvez o arrependimento mas um arrependimento que viria outra vez se repetisse a hipótese porque o fundo supersticioso existia Duvidava da superstição sem chegar a rejeitála Essa persistência de um sentimento que repugna ao mesmo indivíduo era um fenômeno digno de alguma atenção Mas eu preferia a pura ingenuidade de D Plácida quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar Que tem isso perguntavalhe eu Faz mal era a sua resposta Isto somente esta única resposta que valia para ela o livro dos sete selos Faz mal Disseramlhe isso em criança sem outra explicação e ela contentavase com a certeza do mal Já não acontecia mesma coisa quando se falava de apontar uma estrela com o dedo aí sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga Ou verruga ou outra coisa que valia isso para quem não perde uma presidência de província Tolerase uma superstição gratuita ou barata é insuportável a que leva uma parte da vida Este era o caso do Lobo Neves com o acréscimo da dúvida e do terror de haver sido ridículo E mais este outro acréscimo que o ministro não acreditou nos motivos particulares atribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos políticos ilusão complicada de algumas aparências tratouo mal comunicou a desconfiança aos colegas sobrevieram incidentes enfim com o tempo o presidente resignatário foi para a oposição CAPÍTULO LXXXV O CIMO DA MONTANHA Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade Entrei a amar Virgília com muito mais ardor depois que estive a pique de a perder e a mesma coisa lhe aconteceu a ela Assim a presidência não fez mais do que avivar a afeição primitiva foi a droga com que tornamos mais saboroso o nosso amor e mais prezado também Nos primeiros dias depois daquele incidente folgávamos de imaginar a dor da separação se houvesse separação a tristeza de um e de outro à proporção que o mar como uma toalha elástica se fosse dilatando entre nós e semelhantes às crianças que se achegam ao regaço das mães para fugir a uma simples careta fugíamos do suposto perigo apertandonos com abraços Minha boa Virgília Meu amor Tu és minha não Tua tua E assim reatamos o fio da aventura como a sultana Scheherazade o dos seus contos Esse foi cuido eu o ponto máximo do nosso amor o cimo da montanha donde por algum tempo divisamos os vale de leste e de oeste e por cima de nós o céu tranqüilo e azul Repousado esse tempo começamos a descer a encosta com as mãos presas ou soltas mas a descer a descer CAPÍTULO LXXXVI O MISTÉRIO Serra abaixo como eu a visse um pouco diferente não sei se abatida ou outra coisa pergunteilhe o que tinha calouse fez um gesto de enfado de malestar de fadiga ateimei ela disseme que Um fluido sutil percorreu todo o meu corpo sensação forte rápida singular que eu não chegarei jamais a fixar no papel Traveilhe das mãos puxeia levemente a mim e beijeia na testa com uma delicadeza de zéfiro e uma gravidade de Abraão Ela estremeceu colheume a cabeça entre as palmas fitoume os olhos depois afagoume com um gesto maternal Eis aí um mistério deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mistério CAPÍTULO LXXXVII GEOLOGIA Sucedeu por esse tempo um desastre a morte do Viegas O Viegas passou aí de relance com os seus setenta anos abafados de asma desconjuntados de reumatismo e uma lesão de coração por quebra Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura Virgília nutria grandes esperanças em que esse velho parente avaro como um sepulcro lhe amparasse o futuro do filho com algum legado e se o marido tinha iguais pensamentos encobriaos ou estrangulavaos Tudo se deve dizer havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental uma camada de rocha que resistia ao comércio dos homens As outras as camadas de cima terra solta e areia levou lhas a vida que é um enxurro perpétuo Se o leitor ainda se lembra do capítulo XXIII observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro mas também há de reparar que desta vez acrescentolhe um adjetivo perpétuo E Deus sabe a força de um adjetivo principalmente em países novos e cálidos O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves e provavelmente a do cavalheiro que me está lendo Sim essas camadas de caráter que a vida altera conserva ou dissolve conforme a resistência delas essas camadas mereceriam um capítulo que eu não escrevo por não alongar a narração Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacó Medeiros ou Jacó Valadares não me recorda bem o nome Talvez fosse Jacó Rodrigues em suma Jacó Era a probidade em pessoa podia ser rico violentando um pequenino escrúpulo e não quis deixou ir pelas mãos fora nada menos de uns quatrocentos contos tinha a probidade tão exemplar que chegava a ser miúda e cansativa Um dia como nos achássemos a sós em casa dele em boa palestra vieram dizer que o procurava o Dr B um sujeito enfadonho Jacó mandou dizer que não estava em casa Não pega bradou uma voz do corredor cá estou de dentro E com efeito era o Dr B que apareceu logo à porta da sala Jacó foi recebêlo afirmando que cuidava ser outra pessoa e não ele e acrescentando que tinha muito prazer com a visita o que nos rendeu hora e meia de enfado mortal e isto mesmo porque Jacó tirou o relógio o Dr B perguntoulhe então se ia sair Com minha mulher disse Jacó Retirouse o Dr B e respiramos Uma vez respirados disse eu ao Jacó que ele acabava de mentir quatro vezes em menos de duas horas a primeira negandose a segunda alegrandose com a presença do importuno a terceira dizendo que ia sair a quarta acrescentando que com a mulher Jacó refletiu um instante depois confessou a justeza da minha observação mas desculpouse dizendo que a veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas Ah lembrame agora chamavase Jacó Tavares CAPÍTULO LXXXVIII O ENFERMO Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina com os mais elementares argumentos mas ele estava tão vexado do meu reparo que resistiu até o fim mostrando certo calor fictício talvez para atordoar a consciência O caso de Virgília tinha alguma gravidade mais Ela era menos escrupulosa que o marido manifestava claramente as esperanças que trazia no legado cumulava o parente de todas as cortesias atenções e afagos que poderiam render pelo menos um codicilo Propriamente adulavao mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma coisa que a dos homens Esta orça pela servilidade a outra confundese com a afeição As formas graciosamente curvas a palavra doce a mesma fraqueza física dão à ação lisonjeira da mulher uma cor local um aspecto legítimo Não importa a idade do adulado a mulher há de ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã ou ainda de enfermeira outro ofício feminil em que o mais hábil dos homens carecerá sempre de um quid um fluido alguma coisa Era o que eu pensava comigo quando Virgília se desfazia toda em afagos ao velho parente Ela ia recebêlo à porta falando e rindo tiravalhe o chapéu e a bengala davalhe o braço e levavao a uma cadeira ou à cadeira porque havia lá em casa a cadeira do Viegas obra especial conchegada feita para gente enferma ou anciã Ia fechar a janela próxima se havia alguma brisa ou abrila se estava calor mas com cuidado combinando de modo que lhe não desse um golpe de ar Então Hoje está mais fortezinho Qual Passei mal a noite o diabo da asma não me deixa E bufava o homem repousando a pouco e pouco do cansaço da entrada e da subida não do caminho porque ia sempre de sege Ao lado um pouco mais para a frente sentavase Virgília numa banquinha com as mãos nos joelhos do enfermo Entretanto o nhonhô chegava à sala sem os pulos do costume mas discreto meigo sério Viegas gostava muito dele Vem cá nhonhô dizialhe e a custo introduzia a mão na ampla algibeira tirava uma caixinha de pastilhas metia uma na boca e dava outra ao pequeno Pastilhas antiasmáticas O pequeno dizia que eram muito boas Repetiase isto com variantes Como o Viegas gostasse de jogar damas Virgília cumprialhe o desejo aturandoo por largo tempo a mover as pedras com a mão frouxa e tarda Outras vezes desciam a passear na chácara dandolhe ela o braço que ele nem sempre aceitava por dizerse rijo e capaz de andar uma légua Iam sentavamse tornavam a ir a falar de coisas várias ora de um negócio de família ora de uma bisbilhotice de sala ora enfim de uma casa que ele meditava construir para residência própria casa de feitio moderno porque a dele era das antigas contemporânea de el rei D João VI à maneira de algumas que ainda hoje creio eu se podem ver no bairro de São Cristóvão com as suas grossas colunas na frente Parecialhe que o casarão em que morava podia ser substituído e já tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama Ah então sim então é que Virgília chegaria a ver o que era um velho de gosto Falava como se pode supor lentamente e a custo intervalado de uma arfagem incômoda para ele e para os outros De quando em quando vinha um acesso de tosse curvo gemendo levava o lenço à boca e investigavao passado o acesso tornava ao plano da casa que devia ter tais e tais quartos um terraço cachoeira um primor CAPÍTULO LXXXIX IN EXTREMIS Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas disseme ela uma vez Coitado não tem ninguém Viegas caíra na cama definitivamente a filha casada adoecera justamente agora e não podia fazerlhe companhia Virgília ia lá de quando em quando Eu aproveitei a circunstância para passar todo aquele dia ao pé dela Eram duas horas da tarde quando cheguei Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito no intervalo dos acessos debatia o preço de uma casa com um sujeito magro O sujeito oferecia trinta contos Viegas exigia quarenta O comprador instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro mas Viegas não cedia recusou primeiramente os trinta contos depois mais dois depois mais três enfim teve um forte acesso que lhe tolheu a fala durante quinze minutos O comprador acarinhouo muito arranjoulhe os travesseiros ofereceulhe trinta e seis contos Nunca gemeu o enfermo Mandou buscar um maço de papéis à escrivaninha não tendo forças para tirar a fita de borracha que prendia os papéis pediume que os deslaçasse filo Eram as contas das despesas com a construção da casa contas de pedreiro de carpinteiro de pintor contas do papel da sala de visitas da sala de jantar das alcovas dos gabinetes contas das ferragens custo do terreno Ele abriaas uma por uma com a mão trêmula e pediame que as lesse e eu liaas Veja mil e duzentos papel de mil e duzentos a peça Dobradiças francesas Veja é de graça concluiu ele depois de lida a última conta Pois bem mas Quarenta contos não lhe dou por menos Só os juros faça a conta dos juros Vinham tossidas estas palavras às golfadas às sílabas como se fossem migalhas de um pulmão desfeito Nas órbitas fundas rolavam os olhos lampejantes que me faziam lembrar a lamparina da madrugada Sob o lençol desenhavase a estrutura óssea do corpo pontudo em dois lugares nos joelhos e nos pés a pele amarelada bamba rugosa revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão uma carapuça de algodão branco cobrialhe o crânio rapado pelo tempo Então disse o sujeito magro Fizlhe sinal para que não insistisse e ele calouse por alguns instantes O doente ficou a olhar para o teto calado a arfar muito Virgília empalideceu levantouse foi até à janela Suspeitara a morte e tinha medo Eu procurei falar de outras coisas O sujeito magro contou uma anedota e tornou a tratar da casa alteando a proposta Trinta e oito contos disse ele Ahn gemeu o enfermo O sujeito magro aproximouse da cama pegoulhe na mão e sentiu a fria Eu achegueime ao doente pergunteilhe se sentia alguma coisa se queria tomar um cálice de vinho Não não quar quaren quar quar Teve um acesso de tosse e foi o último daí a pouco expirava ele com grande consternação do sujeito magro que me confessou depois a disposição em que estava de oferecer os quarenta contos mas era tarde CAPÍTULO XC O VELHO COLÓQUIO DE ADÃO E CAIM Nada Nenhuma lembrança testamentária uma pastilha que fosse com que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido Nada Virgília travou raivosa esse malogro e dissemo com certa cautela não pela coisa em si senão porque entendia com o filho de quem sabia que eu não gostava muito nem pouco Insinueilhe que não devia pensar mais em semelhante negócio O melhor de tudo era esquecer o defunto um lorpa um cainho sem nome e tratar de coisas alegres o nosso filho por exemplo Lá me escapou a decifração do mistério esse doce mistério de algumas semanas antes quando Virgília me pareceu um pouco diferente do que era Um filho Um ser tirado do meu ser Esta era a minha preocupação exclusiva daquele tempo Olhos do mundo zelos do marido morte do Viegas nada me interessava por então nem conflitos políticos nem revoluções nem terremotos nem nada Eu só pensava naquele embrião anônimo de obscura paternidade e uma voz secreta me dizia é teu filho Meu filho E repetia estas duas palavras com certa voluptuosidade indefinível e não sei que assomos de orgulho Sentiame homem O melhor é que conversávamos os dois o embrião e eu falávamos de coisas presentes e futuras O maroto amavame era um pelintra gracioso davame pancadinhas na cara com as mãozinhas gordas ou então traçava a beca de bacharel porque ele havia de ser bacharel e fazia um discurso na Câmara dos Deputados E o pai a ouvilo de uma tribuna com os olhos rasos de lágrimas De bacharel passava outra vez à escola pequenino lousa e livros debaixo do braço ou então caía no berço para tornar a erguerse homem Em vão buscava fixar no espírito uma idade uma atitude esse embrião tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos ele mamava ele escrevia ele valsava ele era o interminável nos limites de um quarto de hora baby e deputado colegial e pintalegrete Às vezes ao pé de Virgília esqueciame dela e de tudo Virgília sacudiame reprochavame o silêncio dizia que eu já lhe não queria nada A verdade é que estava em diálogo com o embrião era o velho colóquio de Adão e Caim uma conversa sem palavras entre a vida e a vida o mistério e o mistério CAPÍTULO XCI UMA CARTA EXTRAORDINÁRIA Por esse tempo recebi uma carta extraordinária acompanhada de um objeto não menos extraordinário Eis o que a carta dizia Meu caro Brás Cubas Há tempos no Passeio Público tomeilhe de empréstimo um relógio Tenho a satisfação de restituir lho com esta carta A diferença é que não é o mesmo porém outro não digo superior mas igual ao primeiro Que voulezvous monseigneur como dizia Fígaro cest la misère Muitas coisas se deram depois do nosso encontro irei contálas pelo miúdo se me não fechar a porta Saiba que já não trago aquelas botas caducas nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos Cedi o meu degrau da escada de São Francisco finalmente almoço Dito isto peço licença para ir um dia destes exporlhe um trabalho fruto de longo estudo um novo sistema de filosofia que não só explica e descreve a origem e a consumação das coisas como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sêneca cujo estoicismo era um verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha receita moral É singularmente espantoso esse meu sistema retifica o espírito humano suprime a dor assegura a felicidade e enche de imensa glória o nosso país Chamolhe Humanitismo de Humanitas princípio das coisas Minha primeira idéia revelava uma grande enfatuação era chamarlhe borbismo de Borba denominação vaidosa além de rude e molesta E com certeza exprimia menos Verá meu caro Brás Cubas verá que é deveras um monumento e se alguma coisa há que possa fazerme esquecer as amarguras da vida é o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade Eilas na minha mão essas duas esquivas após tantos séculos de lutas pesquisas descobertas sistemas e quedas eilas nas mãos do homem Até breve meu caro Brás Cubas Saudades do V e l h o a m i g o J O A Q U I M B O R B A D O S S A N T O S Li esta carta sem entendêla Vinha com ela uma boceta contendo um bonito relógio com as minhas iniciais gravadas e esta frase Lembrança do velho Quincas Voltei à carta relia com pausa com atenção A restituição do relógio excluía toda a idéia de burla a lucidez a serenidade a convicção um pouco jactanciosa é certo pareciam excluir a suspeita de insensatez Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas e a abastança devolveralhe a primitiva dignidade Não digo tanto há coisas que se não podem reaver integralmente mas enfim a regeneração não era impossível Guardei a carta e o relógio e esperei a filosofia CAPÍTULO XCII UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO Já agora acabo com as coisas extraordinárias Vinha de guardar a carta e o relógio quando me procurou um homem magro e meão com um bilhete do Cotrim convidandome para jantar O portador era casado com uma irmã do Cotrim chegara poucos dias antes do Norte chamavase Damasceno e fizera a revolução de 1831 Foi ele mesmo que me disse isto no espaço de cinco minutos Saíra do Rio de Janeiro por desacordo com o Regente que era um asno pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele De resto a revolução estava outra vez às portas Neste ponto conquanto trouxesse as idéias políticas um pouco baralhadas consegui organizar e formular o governo de suas preferências era um despotismo temperado não por cantigas como dizem alhures mas por penachos da guarda nacional Só não pude alcançar se ele queria o despotismo de um de três de trinta ou de trezentos Opinava por várias coisas entre outras o desenvolvimento do tráfico dos africanos e a expulsão dos ingleses Gostava muito de teatro logo que chegou foi ao Teatro de São Pedro onde viu um drama soberbo a Maria Joana e uma comédia muito interessante Kettly ou a volta à Suíça Também gostara muito da Deperini na Safo ou na Ana Bolena não se lembrava bem Mas a Candiani sim senhor era papafina Agora queria ouvir o Ernani que a filha dele cantava em casa ao piano Ernani Ernani involami E dizia isto levantando se e cantarolando a meia voz No Norte essas coisas chegavam como um eco A filha morria por ouvir todas as óperas Tinha uma voz muito mimosa a filha E gosto muito gosto Ah ele estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro Já havia corrido a cidade toda com umas saudades Palavra em alguns lugares teve vontade de chorar Mas não embarcaria mais Enjoara muito a bordo como todos os outros passageiros exceto um inglês Que os levasse o diabo os ingleses Isto não ficava direito sem irem todos eles barra fora Que é que a Inglaterra podia fazernos Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade era obra de uma noite a expulsão de tais godemes Graças a Deus tinha patriotismo e batia no peito o que não admirava porque era de família descendia de um antigo capitãomor muito patriota Sim não era nenhum pérapado Viesse a ocasião e ele havia de mostrar de que pau era a canoa Mas faziase tarde ia dizer que eu não faltaria ao jantar e lá me esperava para maior palestra Leveio até à porta da sala ele parou dizendo que simpatizava muito comigo Quando casara estava eu na Europa Conheceu meu pai um homem às direitas com quem dançara num célebre baile da Praia Grande Coisas coisas Falaria depois faziase tarde tinha de ir levar a resposta ao Cotrim Saiu fecheilhe a porta CAPÍTULO XCIII O JANTAR Que suplício que foi o jantar Felizmente Sabina fezme sentar ao pé da filha do Damasceno uma D Eulália ou mais familiarmente Nhã loló moça graciosa um tanto acanhada a princípio mas só a princípio Faltavalhe elegância mas compensavaa com os olhos que eram soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim exceto quando desciam ao prato mas Nhãloló comia tão pouco que quase não olhava para o prato De noite cantou a voz era como dizia o pai muito mimosa Não obstante esquiveime Sabina veio até à porta e perguntoume que tal achara a filha do Damasceno Assim assim Muito simpática não é acudiu ela faltalhe um pouco mais de corte Mas que coração é uma pérola Bem boa noiva para você Não gosto de pérolas Casmurro Para quando é que você se guarda para quando estiver a cair de maduro já sei Pois meu rico quer você queira quer não há de casar com Nhãloló E dizia isto a baterme na face com os dedos meiga como uma pomba e ao mesmo tempo intimativa e resoluta Santo Deus seria esse o motivo da reconciliação Fiquei um pouco desconsolado com a idéia mas uma voz misteriosa chamavame à casa do Lobo Neves disse adeus a Sabina e às suas ameaças CAPÍTULO XCIV A CAUSA SECRETA Como está a minha querida mamãe A esta palavra Virgília amuouse como sempre Estava ao canto de uma janela sozinha a olhar para a lua e recebeume alegremente mas quando lhe falei no nosso filho amuouse Não gostava de semelhante alusão aborreciamlhe as minhas antecipadas carícias paternais Eu para quem ela era já uma pessoa sagrada uma âmbula divina deixavaa estar quieta Supus a princípio que o embrião esse perfil do incógnito projetandose na nossa aventura lhe restituíra a consciência do mal Enganavame Nunca Virgília me parecera mais expansiva mais sem reservas menos preocupada dos outros e do marido Não eram remorsos Imaginei também que a concepção seria um puro invento um modo de prenderme a ela recurso sem longa eficácia que talvez começava de oprimila Não era absurda esta hipótese a minha doce Virgília mentia às vezes com tanta graça Naquela noite descobri a causa verdadeira Era medo do parto e vexame da gravidez Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho e essa hora feita de minutos de vida e minutos de morte davalhe já imaginariamente os calafrios do patíbulo Quanto ao vexame complicavase ainda da forçada privação de certos hábitos da vida elegante Com certeza era isso mesmo deilho a entender repreendendoa um pouco em nome dos meus direitos de pai Virgília fitoume em seguida desviou os olhos e sorriu de um jeito incrédulo CAPÍTULO XCV FLORES DE ANTANHO Onde estão elas as flores de antanho Uma tarde após algumas semanas de gestação esboroouse todo o edifício das minhas quimeras paternais Foise o embrião naquele ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga Tive a notícia por boca do Lobo Neves que me deixou na sala e acompanhou o médico à alcova da frustrada mãe Eu encosteime à janela a olhar para a chácara onde verdejavam as laranjeiras sem flores Onde iam elas as flores de antanho CAPÍTULO XCVI A CARTA ANÔNIMA Senti tocarme no ombro era Lobo Neves Encaramonos alguns instantes mudos inconsoláveis Indaguei de Virgília depois ficamos a conversar uma meia hora No fim desse tempo vieram trazerlhe uma carta ele leua empalideceu muito e fechoua com a mão trêmula Creio que lhe vi fazer um gesto como se quisesse atirarse sobre mim mas não me lembra bem O que me lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeume frio e taciturno Enfim Virgília contoume tudo daí a dias na Gamboa O marido mostroulhe a carta logo que ela se restabeleceu Era anônima e denunciavanos Não dizia tudo não falava por exemplo das nossas entrevistas externas limitavase a precavêlo contra a minha intimidade e acrescentava que a suspeita era pública Virgília leu a carta e disse com indignação que era uma calúnia infame Calúnia perguntou Lobo Neves Infame O marido respirou mas tornando à carta parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo cada letra bradava contra a indignação da mulher Esse homem aliás intrépido era agora a mais frágil das criaturas Talvez a imaginação lhe mostrou ao longe o famoso olho da opinião a fitálo sarcasticamente com um ar de pulha talvez uma boca invisível lhe repetiu ao ouvido as chufas que ele escutara ou dissera outrora Instou com a mulher que lhe confessasse tudo porque tudo lhe perdoaria Virgília compreendeu que estava salva mostrouse irritada com a insistência jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia A carta havia de ser de algum namorado semventura E citou alguns um que a galanteara francamente durante três semanas outro que lhe escrevera uma carta e ainda outros e outros Citavaos pelo nome com circunstâncias estudando os olhos do marido e concluiu dizendo que para não dar margem à calúnia tratarmeia de maneira que eu não voltaria lá Ouvi tudo isto um pouco turbado não pelo acréscimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante até afastarme inteiramente da casa do Lobo Neves mas pela tranqüilidade moral de Virgília pela falta de comoção de susto de saudades e até de remorsos Virgília notou a minha preocupação levantoume a cabeça porque eu olhava então para o soalho e disseme com certa amargura Você não merece os sacrifícios que lhe faço Não lhe disse nada era ocioso ponderarlhe que um pouco de desespero e terror daria à nossa situação o sabor cáustico dos primeiros dias mas se lho dissesse não é impossível que ela chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e terror Não lhe disse nada Ela batia nervosamente com a ponta do pé no chão aproximeime e beijeia na testa Virgília recuou como se fosse um beijo de defunto CAPÍTULO XCVII ENTRE A BOCA E A TESTA Sinto que o leitor estremeceu ou devia estremecer Naturalmente a última palavra sugeriulhe três ou quatro reflexões Veja bem o quadro numa casinha da Gamboa duas pessoas que se amam há muito tempo uma inclinada para a outra a darlhe um beijo na testa e a outra a recuar como se sentisse o contato de uma boca de cadáver Há aí no breve intervalo entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo há aí largo espaço para muita coisa a contração de um ressentimento a ruga da desconfiança ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade CAPÍTULO XCVIII SUPRIMIDO Separamonos alegremente Jantei reconciliado com a situação A carta anônima restituía à nossa aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo e afinal foi bem bom que Virgília não perdesse naquela crise a posse de si mesma De noite fui ao teatro de São Pedro representavase uma grande peça em que a Estela arrancava lágrimas Entro corro os olhos pelos camarotes vejo em um deles Damasceno e a família Trajava a filha com outra elegância e certo apuro coisa difícil de explicar porque o pai ganhava apenas o necessário para endividarse e daí talvez fosse por isso mesmo No intervalo fui visitálos Damasceno recebeume com muitas palavras a mulher com muitos sorrisos Quanto a Nhãloló não tirou mais os olhos de mim Pareciame agora mais bonita que no dia do jantar Acheilhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas expressão vaga e condigna de um capítulo em que tudo há de ser vago Realmente não sei como lhes diga que não me senti mal ao pé da moça trajando garridamente um vestido fino um vestido que me dava cócegas de Tartufo Ao contemplálo cobrindo casta e redondamente o joelho foi que eu fiz uma descoberta sutil a saber que a natureza previu a vestidura humana condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie A nudez habitual dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos ao passo que o vestuário negaceando a natureza aguça e atrai as vontades ativa as reprodulas e conseguintemente faz andar a civilização Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos Estou com vontade de suprimir este capítulo O declive é perigoso Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não as tuas leitor pacato Ao pé da graciosa donzela pareciame tomado de uma sensação dupla e indefinível Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal lange et la bête com a diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas naturezas ao passo que elas aí estavam bem juntinhas lange que dizia algumas coisas do Céu e la bête que Não decididamente suprimo este capítulo CAPÍTULO XCIX NA PLATÉIA Na platéia achei Lobo Neves de conversa com alguns amigos falamos por alto a frio constrangidos um e outro Mas no intervalo seguinte prestes a levantar o pano encontramonos num dos corredores em que não havia ninguém Ele veio a mim com muita afabilidade e riso puxoume a um dos óculos do teatro e falamos muito principalmente ele que parecia o mais tranqüilo dos homens Cheguei a perguntarlhe pela mulher respondeu que estava boa mas torceu logo a conversação para assuntos gerais expansivo quase risonho Adivinhe quem quiser a causa da diferença eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do camarote Não ouvi nada do seguinte ato nem as palavras dos atores nem as palmas do público Reclinado na cadeira apanhava de memória os retalhos da conversação do Lobo Neves refazia as maneiras dele e concluía que era muito melhor a nova situação Bastavanos a Gamboa A freqüência da outra casa aguçaria as invejas Rigorosamente podíamos dispensarnos de falar todos os dias era até melhor metia a saudade de permeio nos amores Ao demais eu galgara os quarenta anos e não era nada nem simples eleitor de paróquia Urgia fazer alguma coisa ainda por amor de Virgília que havia de ufanarse quando visse luzir o meu nome Creio que nessa ocasião houve grandes aplausos mas não juro eu pensava em outra coisa Multidão cujo amor cobicei até à morte era assim que eu me vingava às vezes de ti deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana sem a ouvir como o Prometeu de Ésquilo fazia aos seus verdugos Ah tu cuidavas encadearme ao rochedo da tua frivolidade da tua indiferença ou da tua agitação Frágeis cadeias amiga minha eu rompiaas de um gesto de Gulliver Vulgar coisa é ir considerar no ermo O voluptuoso o esquisito é insularse o homem no meio de um mar de gestos e palavras de nervos e paixões decretarse alheado inacessível ausente O mais que podem dizer quando ele torna a si isto é quando torna aos outros é que baixa do mundo da lua mas o mundo da lua esse desvão luminoso e recatado do cérebro que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual Vive Deus eis um bom fecho de capítulo CAPÍTULO C O CASO PROVÁVEL Se esse mundo não fosse uma região de espíritos desatentos era escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis quando as possuo deveras em relação a outras restrinjome à admissão da probabilidade Um exemplo da segunda classe constitui o presente capítulo cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo dos fenômenos sociais Segundo parece e não é improvável existe entre os fatos da vida pública e os da vida particular uma certa ação recíproca regular e talvez periódica ou para usar de uma imagem há alguma coisa semelhante às marés da Praia do Flamengo e de outras igualmente marulhosas Com efeito quando a onda investe a praia alagaa muitos palmos a dentro mas essa mesma água torna ao mar com variável força e vai engrossar a onda que há de vir e que terá de tornar como a primeira Esta é a imagem vejamos a aplicação Deixei dito noutra página que o Lobo Neves nomeado presidente de província recusou a nomeação por motivo da data do decreto que era 13 ato grave cuja conseqüência foi separar do ministério o marido de Virgília Assim o fato particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da dissidência política Resta ver como tempos depois um ato político determinou na vida particular uma cessação de movimento Não convindo ao método deste livro descrever imediatamente esse outro fenômeno limitome a dizer por ora que o Lobo Neves quatro meses depois de nosso encontro no teatro reconciliouse com o ministério fato que o leitor não deve perder de vista se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento CAPÍTULO CI A REVOLUÇAO DÁLMATA Foi Virgília quem me deu notícia da viravolta política do marido certa manhã de outubro entre onze e meiodia faloume de reuniões de conversas de um discurso De maneira que desta vez fica você baronesa interrompi eu Ela derreou os cantos da boca e moveu a cabeça a um e outro lado mas esse gesto de indiferença era desmentido por alguma coisa menos definível menos clara uma expressão de gosto e de esperança Não sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia atraíla à virtude não digo pela virtude em si mesma mas por gratidão ao marido Que ela amava cordialmente a nobreza Um dos maiores desgostos de nossa vida foi o aparecimento de certo pelintra de legação da legação da Dalmácia suponhamos o Conde B V que a namorou durante três meses Esse homem vero fidalgo de raça transtornara um pouco a cabeça de Virgília que além do mais possuía a vocação diplomática Não chego a alcançar o que seria de mim se não rebentasse na Dalmácia uma revolução que derrocou o governo e purificou as embaixadas Foi sangrenta a revolução dolorosa formidável os jornais a cada navio que chegava da Europa transcreviam os horrores mediam o sangue contavam as cabeças toda a gente fremia de indignação e piedade Eu não eu abençoava interiormente essa tragédia que me tirara uma pedrinha do sapato E depois a Dalmácia era tão longe CAPÍTULO CII DE REPOUSO Mas este mesmo homem que se alegrou com a partida do outro praticou daí a tempos Não não hei de contálo nesta página fique esse capítulo para repouso do meu vexame Uma ação grosseira baixa sem explicação possível Repito não contarei o caso nesta página CAPÍTULO CIII DISTRAÇÃO Não senhor doutor isto não se faz Perdoeme isto não se faz Tinha razão D Plácida Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama Entrei esbaforido Virgília tinha ido embora D Plácida contoume que ela esperara muito que se irritara que chorara que jurara votarme ao desprezo e outras mais coisas que a nossa caseira dizia com lágrimas na voz pedindome que não desamparasse Iaiá que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificara tudo Expliqueilhe então que um equívoco E não era cuido que foi simples distração Um dito uma conversa uma anedota qualquer coisa simples distração Coitada de D Plácida Estava aflita deveras Andava de um lado para outro abanando a cabeça suspirando com estrépito espiando pela rótula Coitada de D Plácida Com que arte conchegava as roupas bafejava as faces acalentava as manhas do nosso amor que imaginação fértil em tornar as horas mais aprazíveis e breves Flores doces os bons doces de outros dias e muito riso muito afago riso e afago que cresciam com o tempo como se ela quisesse fixar a nossa aventura ou restituirlhe a primeira flor Nada esquecia a nossa confidente e caseira nada nem a mentira porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciara nada nem a calúnia porque uma vez chegou a atribuirme uma paixão nova Você sabe que não posso gostar de outra mulher foi a minha resposta quando Virgília me falou em semelhante coisa E esta só palavra sem nenhum protesto ou admoestação dissipou o aleive de D Plácida que ficou triste Está bem disselhe eu depois de um quarto de hora Virgília há de reconhecer que não tive culpa nenhuma Quer você levarlhe uma carta agora mesmo Ela há de estar bem triste coitadinha Olhe eu não desejo a morte de ninguém mas se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Iaiá então sim é que há de ver o anjo que ela é Lembrame que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder ou ainda às que recearem encarar a pupila de outros olhos Em tais casos alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas outros adotam o recurso de assobiar a Norma eu atenho me ao gesto indicado é mais simples exige menos esforço Três dias depois estava tudo explicado Suponho que Virgília ficou um pouco admirada quando lhe pedi desculpas das lágrimas que derramara naquela triste ocasião Nem me lembra se interiormente as atribuí a D Plácida Com efeito podia acontecer que D Plácida chorasse ao vêla desapontada e por um fenômeno da visão as lágrimas que tinha nos próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgília Fosse como fosse tudo estava explicado mas não perdoado e menos ainda esquecido Virgília diziame uma porção de coisas duras ameaçavame com a separação enfim louvava o marido Esse sim era um homem digno muito superior a mim delicado um primor de cortesia e afeição é o que ela dizia enquanto eu sentado com os braços fincados nos joelhos olhava para o chão onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé Pobre mosca pobre formiga Mas você não diz nada nada perguntou Virgília parando diante de mim Que hei de dizer Já expliquei tudo você teima em zangarse que hei de dizer Sabe que me parece Pareceme que você está enfastiada que se aborrece que quer acabar Justamente Foi dali pôr o chapéu com a mão trêmula raivosa Adeus D Plácida bradou ela para dentro Depois foi até à porta correu o fecho ia sair agarreia pela cintura Está bom está bom disse lhe Virgília ainda forcejou por sair Eu retivea pedilhe que ficasse que esquecesse ela afastouse da porta e foi cair no canapé Sentei me ao pé dela disselhe muitas coisas meigas outras humildes outras graciosas Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia ou ainda menos é matéria controversa Lembrame sim que na agitação caiu um brinco de Virgília que eu inclineime a apanhálo e que a mosca de há pouco trepou ao brinco levando sempre a formiga no pé Então eu com a delicadeza nativa de um homem do nosso século pus na palma da mão aquele casal de mortificados calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num episódio tão mofino Se concluis daí que eu era um bárbaro enganaste porque eu pedi um grampo a Virgília a fim de separar os dois insetos mas a mosca farejou a minha intenção abriu as asas e foise embora Pobre mosca pobre formiga E Deus viu que isto era bom como se diz na Escritura CAPÍTULO CIV ERA ELE Restituí o grampo a Virgília que o repregou nos cabelos e preparou se para sair Era tarde tinham dado três horas Tudo estava esquecido e perdoado D Plácida que espreitava a ocasião idônea para a saída fecha subitamente a janela e exclama Virgem Nossa Senhora aí vem o marido de Iaiá O momento de terror foi curto mas completo Virgília fezse da cor das rendas do vestido correu até a porta da alcova D Plácida que fechara a rótula queria fechar também a porta de dentro eu dispus me a esperar o Lobo Neves Esse curto instante passou Virgília tornou a si empurroume para a alcova disse a D Plácida que voltasse à janela a confidente obedeceu Era ele D Plácida abriulhe a porta com muitas exclamações de pasmo O senhor por aqui honrando a casa de sua velha Entre faça favor Adivinhe quem está cá Não tem que adivinhar não veio por outra coisa Apareça Iaiá Virgília que estava a um canto atirouse ao marido Eu espreitava os pelo buraco da fechadura O Lobo Neves entrou lentamente pálido frio quieto sem explosão sem arrebatamento e circulou um olhar em volta da sala Que é isto exclamou Virgília Você por aqui Ia passando vi D Plácida à janela e vim cumprimentála Muito obrigada acudiu esta E digam que as velhas não valem alguma coisa Olhai gentes Iaiá parece estar com ciúmes E acariciandoa muito Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Plácida Coitadinha é mesmo a cara da mãe Sentese senhor doutor Não me demoro Você vai para casa disse Virgília Vamos juntos Vou Dê cá o meu chapéu D Plácida Está aqui D Plácida foi buscar um espelho abriuo diante dela Virgília punha o chapéu atava as fitas arranjava os cabelos falando ao marido que não respondia nada A nossa boa velha tagarelava demais era um modo de disfarçar as tremuras do corpo Virgília dominado o primeiro instante tornara à posse de si mesma Pronta disse ela Adeus D Plácida não se esqueça de aparecer ouviu A outra prometeu que sim e abriulhes a porta CAPÍTULO CV EQUIVALÊNCIA DAS JANELAS D Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira Eu deixei imediatamente a alcova e dei dois passos para sair à rua com o fim de arrancar Virgília ao marido foi o que disse e em bem que o disse porque D Plácida deteveme por um braço Tempo houve em que cheguei a supor que não dissera aquilo senão para que ela me detivesse mas a simples reflexão basta para mostrar que depois dos dez minutos da alcova o gesto mais genuíno e cordial não podia ser senão esse E isto por aquela famosa lei da equivalência das janelas que eu tive a satisfação de descobrir e formular no capítulo LI Era preciso arejar a consciência A alcova foi uma janela fechada eu abri outra com o gesto de sair e respirei CAPÍTULO CVI JOGO PERIGOSO Respirei e senteime D Plácida atroava a sala com exclamações e lástimas Eu ouvia sem lhe dizer coisa nenhuma refletia comigo se não era melhor ter fechado Virgília na alcova e ficado na sala mas adverti logo que seria pior confirmaria a suspeita chegaria o fogo à pólvora e uma cena de sangue Foi muito melhor assim Mas depois que ia acontecer em casa de Virgília matálaia o marido espancálaia encerrálaia expulsálaia Estas interrogações percorriam lentamente o meu cérebro como os pontinhos e vírgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados Iam e vinham com o seu aspecto seco e trágico e eu não podia agarrar um deles e dizer és tu tu e não outro De repente vejo um vulto negro era D Plácida que fora dentro enfiara a mantinha e vinha oferecerseme para ir à casa do Lobo Neves Ponderei que era arriscado porque ele desconfiaria da visita tão próxima Sossegue interrompeu ela eu saberei arranjar as coisas Se ele estiver em casa não entro Saiu eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqüências possíveis Ao cabo pareciame jogar um jogo perigoso e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer Sentiame tomado de uma saudade do casamento de um desejo de canalizar a vida Por que não Meu coração tinha ainda que explorar não me sentia incapaz de um amor casto severo e puro Em verdade as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida isto é a exceção eu estava enfarado delas não sei até se me pungia algum remorso Mal pensei naquilo deixeime ir atrás da imaginação vime logo casado ao pé de uma mulher adorável diante de um baby que dormia no regaço da ama todos nós no fundo de uma chácara sombria e verde a espiarmos através da chácara uma nesga do céu azul extremamente azul CAPÍTULO CVII BILHETE Não houve nada mas ele suspeita alguma coisa está muito sério e não fala agora saiu Sorriu uma vez somente para Nhonhô depois de o fitar muito tempo carrancudo Não me tratou mal nem bem Não sei o que vai acontecer Deus queira que isto passe Muita cautela por ora muita cautela CAPÍTULO CVIII QUE SE NÃO ENTENDE Eis aí o drama eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare Esse retalhinho de papel garatujado em partes machucado das mãos era um documento de análise que eu não farei neste capítulo nem no outro nem talvez em todo o resto do livro Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa e por trás delas a tempestade de outro cérebro a raiva dissimulada o desespero que se constrange e medita porque tem de resolverse na lama ou no sangue ou nas lágrimas Quanto a mim se vos disser que li o bilhete três ou quatro vezes naquele dia acreditaio que é verdade se vos disser mais que o reli no dia seguinte antes e depois do almoço podeis crêlo é a realidade pura Mas se vos disser a comoção que tive duvidai um pouco da asserção e não a aceiteis sem provas Nem então nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei Era medo e não era medo era dó e não era dó era vaidade e não era vaidade enfim era amor sem amor isto é sem delírio e tudo isso dava uma combinação assaz complexa e vaga uma coisa que não podereis entender como eu não entendi Suponhamos que não disse nada CAPÍTULO CIX O FILÓSOFO Sabido que reli a carta antes e depois do almoço sabido fica que almocei e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas da minha vida um ovo uma fatia de pão uma xícara de chá Não me esqueceu esta circunstância mínima no meio de tanta coisa importante obliterada escapou esse almoço A razão principal poderia ser justamente o meu desastre mas não foi a principal razão foi a reflexão que me fez o Quincas Borba cuja visita recebi naquele dia Disseme ele que a frugalidade não era necessária para entender o Humanitismo e menos ainda praticálo que esta filosofia acomodavase facilmente com os prazeres da vida inclusive a mesa o espetáculo e os amores e que ao contrário a frugalidade podia indicar certa tendência para o ascetismo o que era a expressão acabada de tolice humana Veja São João continuou ele mantinhase de gafanhotos no deserto em vez de engordar tranqüilamente na cidade e fazer emagrecer o farisaísmo na sinagoga Deus me livre de contar a história do Quincas Borba que aliás ouvi toda naquela triste ocasião uma história longa complicada mas interessante E se não conto a história dispensome outrossim de descreverlhe a figura aliás muito diversa da que me apareceu no Passeio Público Calome digo somente que se a principal característica do homem não são as feições mas os vestuários ele não era o Quincas Borba era um desembargador sem beca um general sem farda um negociante sem deficit Noteilhe a perfeição da sobrecasaca a alvura da camisa o asseio das botas A mesma voz roufenha outrora parecia restituída à primitiva sonoridade Quanto à gesticulação sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo não tinha já a desordem sujeitavase a um certo método Mas eu não quero descrevêlo Se falasse por exemplo no botão de ouro que trazia ao peito e na qualidade do couro das botas iniciaria uma descrição que omito por brevidade Contentemse de saber que as botas eram de verniz Saibam mais que ele herdara alguns pares de contos de réis de um velho tio de Barbacena Meu espírito permitamme aqui uma comparação de criança meu espírito era naquela ocasião uma espécie de peteca A narração do Quincas Borba davalhe uma palmada ele subia quando ia a cair o bilhete de Virgília davalhe outra palmada e ele era de novo arremessado aos ares descia e o episódio do Passeio Público recebiao com outra palmada igualmente rija e eficaz Cuido que não nasci para situações complexas Esse puxar e empuxar de coisas opostas desequilibravame tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba e Lobo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia e mandálos de presente a Aristóteles Contudo era instrutiva a narração do nosso filósofo admiravalhe sobretudo o talento de observação com que descrevia a gestação e o crescimento do vício as lutas interiores as capitulações vagarosas o uso da lama Olhe observou ele a primeira noite que passei na escada de São Francisco dormia inteira como se fosse a mais fina pluma Por quê Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau do quarto próprio ao corpo da guarda do corpo da guarda à rua Quis exporme finalmente a filosofia pedilhe que não Estou muito preocupado hoje e não poderia atendêlo venha depois estou sempre em casa Quincas Borba sorriu de um modo malicioso talvez soubesse da minha aventura mas não acrescentou nada Só me disse estas últimas palavras à porta Venha para o Humanitismo ele é o grande regaço dos espíritos o mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade Os gregos faziamna sair de um poço Que concepção mesquinha Um poço Mas é por isso mesmo que nunca atinaram com ela Gregos subgregos antigregos toda a longa série dos homens temse debruçado sobre o poço para ver sair a verdade que não está lá Gastaram cordas e caçambas alguns mais afoitos desceram ao fundo e trouxeram um sapo Eu fui diretamente ao mar Venha para o Humanitismo CAPÍTULO CX 31 Uma semana depois Lobo Neves foi nomeado presidente de província Agarreime à esperança da recusa se o decreto viesse outra vez datado de 13 trouxe porém a data de 31 e esta simples transposição de algarismos eliminou deles a substância diabólica Que profundas que são as molas da vida CAPÍTULO CXI O MURO Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada contarei nesta página o caso do muro Eles estavam prestes a embarcar Entrando em casa de D Plácida vi um papelinho dobrado sobre a mesa era um bilhete de Virgília dizia que me esperava à noite na chácara sem falta E concluía O muro é baixo do lado do beco Fiz um gesto de desagrado A carta pareceume descomunalmente audaciosa mal pensada e até ridícula Não era só convidar o escândalo era convidálo de parceria com a risota Imagineime a saltar o muro embora baixo e do lado do beco e quando ia a galgá lo viame agarrado por um pedestre de polícia que me levava ao corpo da guarda O muro é baixo E que tinha que fosse baixo Naturalmente Virgília não soube o que fez era possível que já estivesse arrependida Olhei para o papel um pedaço de papel amarrotado mas inflexível Tive comichões de o rasgar em trinta mil pedaços e atirálos ao vento como o último despojo da minha aventura mas recuei a tempo o amorpróprio o vexame da fuga a idéia do medo Não havia remédio senão ir Digalhe que vou Aonde perguntou D Plácida Onde ela disse que me espera Não me disse nada Neste papel D Plácida arregalou os olhos Mas esse papel acheio hoje de manhã nesta sua gaveta e pensei que Tive uma sensação esquisita Reli o papel mireio remireio era em verdade um antigo bilhete de Virgília recebido no começo dos nossos amores uma certa entrevista na chácara que me levou efetivamente a saltar o muro um muro baixo e discreto Guardei o papel e Tive uma sensação esquisita CAPÍTULO CXII A OPINIÃO Mas estava escrito que esse dia devia ser o dos lances dúbios Poucas horas depois encontrei Lobo Neves na Rua do Ouvidor falamos da presidência e da política Ele aproveitou o primeiro conhecido que nos passou à ilharga e deixoume depois de muitos cumprimentos Lembrame que estava retraído mas de um retraimento que forcejava por dissimular Pareceume então e peço perdão à crítica se este meu juízo for temerário pareceume que ele tinha medo não medo de mim nem de si nem do código nem da consciência tinha medo da opinião Supus que esse tribunal anônimo e invisível em que cada membro acusa e julga era o limite posto à vontade do Lobo Neves Talvez já não amasse a mulher e assim pode ser que o coração fosse estranho à indulgência dos seus últimos atos Cuido e de novo insto pela boa vontade da crítica cuido que ele estaria pronto a separarse da mulher como o leitor se terá separado de muitas relações pessoais mas a opinião essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas que abriria minucioso inquérito acerca do caso que coligiria uma a uma todas as circunstâncias antecedências induções provas que as relataria na palestra das chácaras desocupadas essa terrível opinião tão curiosa das alcovas obstou à dispersão da família Ao mesmo tempo tornou impossível o desforço que seria a divulgação Ele não podia mostrarse ressentido comigo sem igualmente buscar a separação conjugal teve então de simular a mesma ignorância de outrora e por dedução iguais sentimentos Que lhe custasse creio naqueles dias principalmente vio de modo que devia custarlhe muito Mas o tempo e é outro ponto em que eu espero a indulgência dos homens pensadores o tempo caleja a sensibilidade e oblitera a memória das coisas era de supor que os anos lhe despontassem os espinhos que a distância dos fatos apagasse os respectivos contornos que uma sombra de dúvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade enfim que a opinião se ocupasse um pouco com outras aventuras O filho crescendo buscaria satisfazer as ambições do pai seria o herdeiro de todos os seus afetos Isso e a atividade externa e o prestígio público e a velhice depois a doença o declínio a morte um responso uma notícia biográfica e estava fechado o livro da vida sem nenhuma página de sangue CAPÍTULO CXIII A SOLDA A conclusão se há alguma no capítulo anterior é que a opinião é uma boa solda das instituições domésticas Não é impossível que eu desenvolva este pensamento antes de acabar o livro mas também não é impossível que o deixe como está De um ou de outro modo é uma boa solda a opinião e tanto na ordem doméstica como na política Alguns metafísicos biliosos têm chegado ao extremo de a darem como simples produto da gente chocha ou medíocre mas é evidente que ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta bastava considerar os efeitos salutares da opinião para concluir que ela é a obra superfina da flor dos homens a saber do maior número CAPÍTULO CXIV FIM DE UM DIÁLOGO Sim é amanhã Você vai a bordo Está doida É impossível Então adeus Adeus Não se esqueça de D Plácida Vá vêla algumas vezes Coitada Foi ontem despedirse de nós chorou muito disse que eu não a veria mais É uma boa criatura não é Certamente Se tivermos de escrever ela receberá as cartas Agora até daqui a Talvez dois anos Qual ele diz que é só até fazer as eleições Sim então até breve Olhe que estão olhando para nós Quem Ali no sofá Separemonos Custame muito Mas é preciso adeus Virgília Até breve Adeus CAPÍTULO CXV O ALMOÇO Não a vi partir mas à hora marcada senti alguma coisa que não era dor nem prazer uma coisa mista alívio e saudade tudo misturado em iguais doses Não se irrite o leitor com esta confissão Eu bem sei que para titilarlhe os nervos da fantasia devia padecer um grande desespero derramar algumas lágrimas e não almoçar Seria romanesco mas não seria biográfico A realidade pura é que eu almocei como nos demais dias acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura e ao estômago com os acepipes de M Prudhon Velhos do meu tempo acaso vos lembrais desse mestre cozinheiro do Hotel Pharoux um sujeito que segundo dizia o dono da casa havia servido nos famosos Véry e Véfour de Paris e mais nos palácios do Conde Molé e do Duque de la Rochefoucauld Era insigne Entrou no Rio de Janeiro com a polca A polca M Prudhon o Tivoli o baile dos estrangeiros o Cassino eis algumas das melhores recordações daquele tempo mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos Eram e naquela manhã parece que o diabo do homem adivinhara a nossa catástrofe Jamais o engenho e a arte lhe foram tão propícios Que requinte de temperos que tenrura de carnes que rebuscado de formas Comiase com a boca com os olhos com o nariz Não guardei a conta desse dia sei que foi cara Ai dor erame preciso enterrar magnificamente os meus amores Eles lá iam mar em fora no espaço e no tempo e eu ficavame ali numa ponta de mesa com os meus quarenta e tantos anos tão vadios e tão vazios ficavame para os não ver nunca mais porque ela poderia tornar e tornou mas o eflúvio da manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde CAPÍTULO CXVI FILOSOFIA DAS FOLHAS VELHAS Fiquei tão triste com o fim do último capítulo que estava capaz de não escrever este descansar um pouco purgar o espírito da melancolia que o empacha e continuar depois Mas não não quero perder tempo A partida de Virgília deume uma amostra da viuvez Nos primeiros dias metime em casa a fisgar moscas como Domiciano se não mente o Suetônio mas a fisgálas de um modo particular com os olhos Fisgavaas uma a uma no fundo de uma sala grande estirado na rede com um livro aberto entre as mãos Era tudo saudades ambições um pouco de tédio e muito devaneio solto Meu tio cônego morreu nesse intervalo item dois primos Não me dei por abalado leveios ao cemitério como quem leva dinheiro a um banco Que digo como quem leva cartas ao correio selei as cartas metias na caixinha e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão própria Foi também por esse tempo que nasceu minha sobrinha Venância filha do Cotrim Morriam uns nasciam outros eu continuava às moscas Outras vezes agitavame Ia às gavetas entornava as cartas antigas dos amigos dos parentes das namoradas até as de Marcela e abriaas todas liaas uma a uma e recompunha o pretérito Leitor ignaro se não guardas as cartas da juventude não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas não gostarás o prazer de verte ao longe na penumbra com um chapéu de três bicos botas de sete léguas e longas barbas assírias a bailar ao som de uma gaita anacreôntica Guarda as tuas cartas da juventude Ou se te não apraz o chapéu de três bicos empregarei a locução de um velho marujo familiar da casa de Cotrim direi que se guardares as cartas da juventude acharás ocasião de cantar uma saudade Parece que os nossos marujos dão este nome às cantigas de terra entoadas no alto mar Como expressão poética é o que se pode exigir mais triste CAPÍTULO CXVII O HUMANITISMO Duas forças porém além de uma terceira compeliamme a tornar à vida agitada do costume Sabina e Quincas Borba Minha irmã encaminhou a candidatura conjugal de Nhãloló de um modo verdadeiramente impetuoso Quando dei por mim estava com a moça quase nos braços Quanto ao Quincas Borba expôsme enfim o Humanitismo sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas Humanitas dizia ele o princípio das coisas não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens Conta três fases Humanitas a estática anterior a toda a criação a expansiva começo das coisas a dispersiva aparecimento do homem e contará mais uma a contrativa absorção do homem e das coisas A expansão iniciando o universo sugeriu a Humanitas o desejo de o gozar e daí a dispersão que não é mais do que a multiplicação personificada da substância original Como me não aparecesse assaz clara esta exposição Quincas Borba desenvolveua de um modo profundo fazendo notar as grandes linhas do sistema Explicoume que por um lado o Humanitismo ligavase ao Bramanismo a saber na distribuição dos homens pelas diferentes partes do corpo de Humanitas mas aquilo que na religião indiana tinha apenas uma estreita significação teológica e política era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal Assim descender do peito ou dos rins de Humanitas isto é ser um forte não era o mesmo que descender dos cabelos ou da ponta do nariz Daí a necessidade de cultivar e temperar o músculo Hércules não foi senão um símbolo antecipado do Humanitismo Neste ponto Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado à verdade se se não houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mitos Nada disso acontecerá com o Humanitismo Nesta igreja nova não há aventuras fáceis nem quedas nem tristezas nem alegrias pueris O amor por exemplo é um sacerdócio a reprodução um ritual Como a vida é o maior benefício do universo e não há mendigo que não prefira a miséria à morte o que é um delicioso influxo de Humanitas seguese que a transmissão da vida longe de ser uma ocasião de galanteio é a hora suprema da missa espiritual Porquanto verdadeiramente há só uma desgraça é não nascer Imagina por exemplo que eu não tinha nascido continuou o Quincas Borba é positivo que não teria agora o prazer de conversar contigo comer esta batata ir ao teatro e para tudo dizer numa só palavra viver Nota que eu não faço do homem um simples veículo de Humanitas não ele é ao mesmo tempo veículo cocheiro e passageiro ele é o próprio Humanitas reduzido daí a necessidade de adorarse a si próprio Queres uma prova da superioridade do meu sistema Contempla a inveja Não há moralista grego ou turco cristão ou muçulmano que não troveje contra o sentimento da inveja O acordo é universal desde os campos da Iduméia até o alto da Tijuca Ora bem abre mão dos velhos preconceitos esquece as retóricas rafadas e estuda a inveja esse sentimento tão sutil e tão nobre Sendo cada homem uma redução de Humanitas é claro que nenhum homem é fundamentalmente oposto a outro homem quaisquer que sejam as aparências contrárias Assim por exemplo o algoz que executa o condenado pode excitar o vão clamor dos poetas mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infração da lei de Humanitas O mesmo direi do indivíduo que estripa a outro é uma manifestação da força de Humanitas Nada obsta e há exemplos que ele seja igualmente estripado Se entendeste bem facilmente compreenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta e sendo a luta a grande função do gênero humano todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade Daí vem que a inveja é uma virtude Para que negálo eu estava estupefato A clareza da exposição a lógica dos princípios o rigor das conseqüências tudo isso parecia superiormente grande e foime preciso suspender a conversa por alguns minutos enquanto digeria a filosofia nova Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo Tinha uma asa de frango no prato e trincavaa com filosófica serenidade Eu fizlhe ainda algumas objeções mas tão frouxas que ele não gastou muito tempo em destruílas Para entender bem o meu sistema concluiu ele importa não esquecer nunca o princípio universal repartido e resumido em cada homem Olha a guerra que parece uma calamidade é uma operação conveniente como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas a fome e ele chupava filosoficamente a asa do frango a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema senão este mesmo frango Nutriuse de milho que foi plantado por um africano suponhamos importado de Angola Nasceu esse africano cresceu foi vendido um navio o trouxe um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens levado por velas que oito ou dez homens teceram sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico Assim este frango que eu almocei agora mesmo é o resultado de uma multidão de esforços e lutas executados com o único fim de dar mate ao meu apetite Entre o queijo e o café demonstroume Quincas Borba que o seu sistema era a destruição da dor A dor segundo o Humanitismo é uma pura ilusão Quando a criança é ameaçada por um pau antes mesmo de ter sido espancada fecha os olhos e treme essa predisposição é que constitui a base da ilusão humana herdada e transmitida Não basta certamente a adoção do sistema para acabar logo com a dor mas é indispensável o resto é a natural evolução das coisas Uma vez que o homem se compenetre bem de que ele é o próprio Humanitas não tem mais do que remontar o pensamento à substância original para obstar qualquer sensação dolorosa A evolução porém é tão profunda que mal se lhe podem assinar alguns milhares de anos Quincas Borba leume daí a dias a sua grande obra Eram quatro volumes manuscritos de cem páginas cada um com letra miúda e citações latinas O último volume compunhase de um tratado político fundado no Humanitismo era talvez a parte mais enfadonha do sistema posto que concebida com um formidável rigor de lógica Reorganizada a sociedade pelo método dele nem por isso ficavam eliminadas a guerra a insurreição o simples murro a facada anônima a miséria a fome as doenças mas sendo esses supostos flagelos verdadeiros equívocos do entendimento porque não passariam de movimentos externos da substância interior destinados a não influir sobre o homem senão como simples quebra da monotonia universal claro estava que a sua existência não impediria a felicidade humana Mas ainda quando tais flagelos o que era radicalmente falso correspondessem no futuro à concepção acanhada de antigos tempos nem por isso ficava destruído o sistema e por dois motivos 1 porque sendo Humanitas a substância criadora e absoluta cada indivíduo deveria achar a maior delícia do mundo em sacrificarse ao princípio de que descende 2 porque ainda assim não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a Terra inventada unicamente para seu recreio dele como as estrelas as brisas as tâmaras e o ruibarbo Pangloss diziame ele ao fechar o livro não era tão tolo como o pintou Voltaire CAPÍTULO CXVIII A TERCEIRA FORÇA A terceira força que me chamava ao bulício era o gosto de luzir e sobretudo a incapacidade de viver só A multidão atraíame o aplauso namoravame Se a idéia do emplasto me tem aparecido nesse tempo quem sabe não teria morrido logo e estaria célebre Mas o emplasto não veio Veio o desejo de agitarme em alguma coisa com alguma coisa e por alguma coisa CAPÍTULO CXIX PARÊNTESES Quero deixar aqui entre parêntesis meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo São bocejos de enfado podem servir de epígrafe a discursos sem assunto Suportase com paciência a cólica do próximo Matamos o tempo o tempo nos enterra Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto se todos andassem de carruagem Crê em ti mas nem sempre duvides dos outros Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitálo com um pedaço de pau Esta reflexão é de um joalheiro Não te irrites se te pagarem mal um benefício antes cair das nuvens que de um terceiro andar CAPÍTULO CXX COMPELLE INTRARE Não senhor agora quer você queira quer não há de casar disse me Sabina Que belo futuro Um solteirão sem filhos Sem filhos A idéia de ter filhos deume um sobressalto percorreu me outra vez o fluido misterioso Sim cumpria ser pai A vida celibata podia ter certas vantagens próprias mas seriam tênues e compradas a troco da solidão Sem filhos Não impossível Dispus me a aceitar tudo ainda a aliança do Damasceno Sem filhos Como já então depositasse grande confiança em Quincas Borba fui ter com ele e expuslhe os movimentos internos da minha paternidade O filósofo ouviume com alvoroço declaroume que Humanitas se agitava em meu seio animoume ao casamento ponderou que eram mais alguns convivas que batiam à porta etc Compelle intrare como dizia Jesus E não me deixou sem provar que o apólogo evangélico não era mais do que um prenúncio do Humanitismo erradamente interpretado pelos padres CAPÍTULO CXXI MORRO ABAIXO No fim de três meses ia tudo à maravilha O fluido Sabina os olhos da moça os desejos do pai eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimônio A lembrança de Virgília aparecia de quando em quando à porta e com ela um diabo negro que me metia à cara um espelho no qual eu via ao longe Virgília desfeita em lágrimas mas outro diabo vinha corderosa com outro espelho em que se refletia a figura de Nhãloló terna luminosa angélica Não falo dos anos Não os sentia acrescentarei até que os deitara fora certo domingo em que fui à missa na capela do Livramento Como o Damasceno morava nos Cajueiros eu acompanhavaos muitas vezes à missa O morro estava ainda nu de habitações salvo o velho palacete do alto onde era a capela Pois um domingo ao descer com Nhãloló pelo braço não sei que fenômeno se deu que fui deixando aqui dois anos ali quatro logo adiante cinco de maneira que quando cheguei abaixo estava com vinte anos apenas tão lépidos como tinham sido Agora se querem saber em que circunstância se deu o fenômeno bastalhes ler este capítulo até o fim Vínhamos da missa ela o pai e eu No meio do morro achamos um grupo de homens Damasceno que vinha ao pé de nós percebeu o que era e adiantouse alvoroçado nós fomos atrás dele E vimos isto homens de todas as idades tamanhos e cores uns em mangas de camisa outros de jaqueta outros metidos em sobrecasacas esfrangalhadas atitudes diversas uns de cócaras outros com as mãos apoiadas nos joelhos estes sentados em pedras aqueles encostados ao muro e todos com os olhos fixos no centro e as almas debruçadas das pupilas Que é perguntoume Nhãloló Fizlhe sinal que se calasse abri sutilmente caminho e todos me foram cedendo espaço sem que positivamente ninguém me visse O centro tinhalhes atado os olhos Era uma briga de galos Vi os dois contendores dois galos de esporão agudo olho de fogo e bico afiado Ambos agitavam as cristas em sangue o peito de um e de outro estava desplumado e rubro invadiaos o cansaço Mas lutavam ainda assim olhos fitos nos olhos bico abaixo bico acima golpe deste golpe daquele vibrantes e raivosos Damasceno não sabia mais nada o espetáculo eliminou para ele todo o universo Em vão lhe disse que era tempo de descer ele não respondia não ouvia concentrarase no duelo A briga de galos era uma de suas paixões Foi nessa ocasião que Nhãloló me puxou brandamente pelo braço dizendo que nos fôssemos embora Aceitei o conselho e vim com ela por ali abaixo Já disse que o morro era então desabitado disselhes também que vínhamos da missa e não lhes tendo dito que chovia era claro que fazia bom tempo um sol delicioso E forte Tão forte que eu abri logo o guardasol segureio pelo centro do cabo e inclineio por modo que ajuntei uma página à filosofia do Quincas Borba Humanitas osculou Humanitas Foi assim que os anos me vieram caindo pelo morro abaixo Ao sopé detivemonos alguns minutos à espera de Damasceno ele veio daí a pouco rodeado dos apostadores a comentar com eles a briga Um destes tesoureiro das apostas distribuía um velho maço de notas de dez tostões que os vencedores recebiam duplamente alegres Quanto aos galos vinham sobraçados pelo respectivo dono Um deles trazia a crista tão comida e ensangüentada que vi logo nele o vencido mas era engano o vencido era o outro que não trazia crista nenhuma Ambos tinham o bico aberto respirando a custo esfalfados Os apostadores ao contrário vinham alegres sem embargo das fortes comoções da luta biografavam os contendores relembravam as proezas de ambos Eu fui andando vexado Nhãloló vexadíssima CAPÍTULO CXXII UMA INTENÇÃO MUITO FINA O que vexava a Nhãloló era o pai A facilidade com que ele se metera com os apostadores punha em relevo antigos costumes e afinidades sociais e Nhãloló chegara a temer que tal sogro me parecesse indigno Era notável a diferença que ela fazia de si mesma estudavase e estudavame A vida elegante e polida atraíaa principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas Nhãloló observava imitava adivinhava ao mesmo tempo davase ao esforço de mascarar a inferioridade da família Naquele dia porém a manifestação do pai foi tamanha que a entristeceu grandemente Eu busquei então divertila do assunto dizendolhe muitas chanças e motes de bomtom vãos esforços que não a alegravam mais Era tão profundo o abatimento tão expressivo o desânimo que cheguei a atribuir a Nhãloló a intenção positiva de separar no meu espírito a sua causa da causa do pai Este sentimento pareceume de grande elevação era uma afinidade mais entre nós Não há remédio disse eu comigo vou arrancar esta flor a este pântano CAPÍTULO CXXIII O VERDADEIRO COTRIM Não obstante os meus quarenta e tantos anos como eu amasse a harmonia da família entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim Ele ouviume e respondeume seriamente que não tinha opinião em negócio de parentes seus Podiam suporlhe algum interesse se acaso louvasse as raras prendas de Nhãloló por isso calavase Mais estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão mas se ela o consultasse o seu conselho seria negativo Não era levado por nenhum ódio apreciava as minhas boas qualidades não se fartava de as elogiar como era de justiça e pelo que respeita a Nhãloló não chegaria jamais a negar que era noiva excelente mas daí a aconselhar o casamento ia um abismo Lavo inteiramente as mãos concluiu ele Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes Isso é outro negócio Acho que é indispensável casar principalmente tendo ambições políticas Saiba que na política o celibato é uma remora Agora quanto à noiva não posso ter voto não quero não devo não é de minha honra Pareceme que Sabina foi além fazendolhe certas confidências segundo me disse mas em todo caso ela não é tia carnal de Nhãloló como eu Olhe mas não não digo Diga Não não digo nada Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai Reconheço que era um modelo Argüiamno de avareza e cuide que tinham razão mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude e as virtudes devem ser como os orçamentos melhor é o saldo que o deficit Como era muito seco de maneiras tinha inimigos que chegavam a acusálo de bárbaro O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço donde eles desciam a escorrer sangue mas além de que ele só mandava os perversos e os fujões ocorre que tendo longamente contrabandeado em escravos habituarase de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontravase no seu amor aos filhos e na dor que padeceu quando lhe morreu Sara dali a alguns meses prova irrefutável acho eu e não única Era tesoureiro de uma confraria e irmão de várias irmandades e até irmão remido de uma destas o que não se coaduna muito com a reputação da avareza verdade é que o benefício não caíra no chão a irmandade de que ele fora juiz mandaralhe tirar o retrato a óleo Não era perfeito decerto tinha por exemplo o sestro de mandar para os jornais a notícia de um ou outro benefício que praticava sestro repreensível ou não louvável concordo mas ele desculpavase dizendo que as boas ações eram contagiosas quando públicas razão a que se não pode negar algum peso Creio mesmo e nisto faço o seu maior elogio que ele não praticava de quando em quando esses benefícios senão com o fim de espertar a filantropia dos outros e se tal era o intuito força é confessar que a publicidade tornavase uma condição sine qua non Em suma poderia dever algumas atenções mas não devia um real a ninguém CAPÍTULO CXXIV VÁ DE INTERMÉDIO Que há entre a vida e a morte Uma curta ponte Não obstante se eu não compusesse este capítulo padeceria o leitor um forte abalo assaz danoso ao efeito do livro Saltar de um retrato a um epitáfio pode ser real e comum o leitor entretanto não se refugia no livro senão para escapar à vida Não digo que este pensamento seja meu digo que há nele uma dose de verdade e que ao menos a forma é pinturesca E repito não é meu CAPÍTULO CXXV EPITÁFIO AQUI JAZ D EULÁLIA DAMASCENA DE BRITO MORTA AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE ORAI POR ELA CAPÍTULO CXXVI DESCONSOLAÇÃO O epitáfio diz tudo Vale mais do que se lhes narrasse a moléstia de Nhãloló a morte o desespero da família o enterro Ficam sabendo que morreu acrescentarei que foi por ocasião da primeira entrada da febre amarela Não digo mais nada a não ser que a acompanhei até o último jazigo e me despedi triste mas sem lágrimas Concluí que talvez não a amasse deveras Vejam agora a que excessos pode levar uma inadvertência doeume um pouco a cegueira da epidemia que matando à direita e à esquerda levou também uma jovem dama que tinha de ser minha mulher não cheguei a entender a necessidade da epidemia menos ainda daquela morte Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes Quincas Borba porém explicoume que epidemias eram úteis à espécie embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos fezme notar que por mais horrendo que fosse o espetáculo havia uma vantagem de muito peso a sobrevivência do maior número Chegou a perguntarme se no meio do luto geral não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado às garras da peste mas esta pergunta era tão insensata que ficou sem resposta Se não contei a morte não conto igualmente a missa do sétimo dia A tristeza do Damasceno era profunda esse pobre homem parecia uma ruína Quinze dias depois estive com ele continuava inconsolável e dizia que a dor grande com que Deus o castigara fora ainda aumentada com a que lhe infligiram os homens Não me disse mais nada Três semanas depois tornou ao assunto e então confessoume que no meio do desastre irreparável quisera ter a consolação da presença dos amigos Doze pessoas apenas e três quartas partes amigos do Cotrim acompanharam à cova o cadáver de sua querida filha E ele fizera expedir oitenta convites Ponderei lhe que as perdas eram tão gerais que bem se podia desculpar essa desatenção aparente Damasceno abanava a cabeça de um modo incrédulo e triste Qual gemia ele desampararamme Cotrim que estava presente Vieram os que deveras se interessam por você e por nós Os oitenta viriam por formalidade falariam da inércia do governo das panacéias dos boticários do preço das casas ou uns dos outros Damasceno ouviu calado abanou outra vez a cabeça e suspirou Mas viessem CAPÍTULO CXXVII FORMALIDADE Grande coisa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria o dom de achar as relações das coisas a faculdade de as comparar e o talento de concluir Eu tive essa distinção psíquica eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulcro De fato o homem vulgar que ouvisse a última palavra do Damasceno não se lembraria dela quando tempos depois houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas Pois eu lembrei me Eram seis damas de Constantinopla modernas em trajos de rua cara tapada não com um espesso pano que as cobrisse deveras mas com um véu tenuíssimo que simulava descobrir somente os olhos e na realidade descobria a cara inteira E eu achei graça a essa esperteza da faceirice muçulmana que assim esconde o rosto e cumpre o uso mas não o esconde e divulga a beleza Aparentemente nada há entre as damas turcas e o Damasceno mas se tu és um espírito profundo e penetrante e duvido muito que me negues isso compreenderás que tanto num como noutro caso surge aí a orelha de uma rígida e meiga companheira do homem social Amável Formalidade tu és sim o bordão da vida o bálsamo dos corações a medianeira entre os homens o vínculo da Terra e do Céu tu enxugas as lágrimas de um pai tu captas a indulgência de um Profeta Se a dor adormece e a consciência se acomoda a quem senão a ti devem esse imenso benefício A estima que passa de chapéu na cabeça não diz nada à alma mas a indiferença que corteja deixalhe uma deleitosa impressão A razão é que ao contrário de uma velha fórmula absurda não é a letra que mata a letra dá vida o espírito é que é objeto de controvérsia de dúvida de interpretação e conseguintemente de luta e de morte Vive tu amável Formalidade para sossego do Damasceno e glória de Muamede CAPÍTULO CXXVIII NA CÂMARA E notai bem que eu vi a gravura turca dois anos depois das palavras de Damasceno e via na Câmara dos Deputados em meio de grande burburinho enquanto um deputado discutia um parecer da comissão do orçamento sendo eu também deputado Para quem há lido este livro é escusado encarecer a minha satisfação e para os outros é igualmente inútil Era deputado e vi a gravura turca recostado na minha cadeira entre um colega que contava uma anedota e outro que tirava a lápis nas costas de uma sobrecarta o perfil de orador O orador era o Lobo Neves A onda da vida trouxenos à mesma praia como duas botelhas de náufragos ele contendo o seu ressentimento eu devendo conter o meu remorso e emprego esta forma suspensiva dubitativa ou condicional para o fim de dizer que efetivamente não continha nada a não ser a ambição de ser ministro CAPÍTULO CXXIX SEM REMORSOS Não tinha remorsos Se possuísse os aparelhos próprios incluía neste livro uma página de química porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos com o fim de saber de um modo positivo e concludente por que razão Aquiles passeia à roda de Tróia o cadáver do adversário e lady Macbeth passeia à volta da sala a sua mancha de sangue Mas eu não tenho aparelhos químicos como não tinha remorsos tinha vontade de ser ministro de Estado Contudo se hei de acabar este capítulo direi que não quisera ser Aquiles nem lady Macbeth e que a ser alguma coisa antes Aquiles antes passear ovante o cadáver do que a mancha ouvemse no fim as súplicas de Príamo e ganhase uma bonita reputação militar e literária Eu não ouvia as súplicas de Príamo mas o discurso do Lobo Neves e não tinha remorsos CAPÍTULO CXXX PARA INTERCALAR NO CAP CXXIX A primeira vez que pude falar a Virgília depois da presidência foi num baile em 1855 Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul e ostentava às luzes o mesmo par de ombros de outro tempo Não era a frescura da primeira idade ao contrário mas ainda estava formosa de uma formosura outoniça realçada pela noite Lembra me que falamos muito sem aludir a coisa nenhuma do passado Subentendiase tudo Um dito remoto vago ou então um olhar e mais nada Pouco depois retirouse eu fui vêla descer as escadas e não sei por que fenômeno de ventriloquismo cerebral perdoemme os filólogos essa frase bárbara murmurei comigo esta palavra profundamente retrospectiva Magnífica Convém intercalar este capítulo entre a primeira oração e a segunda do capítulo CXXIX CAPÍTULO CXXXI DE UMA CALÚNIA Como eu acabava de dizer aquilo pelo processo ventríloquocerebral o que era simples opinião e não remorso senti que alguém me punha a mão no ombro Volteime era um antigo companheiro oficial de marinha jovial um pouco despejado de maneiras Ele sorriu maliciosamente e disseme Seu maganão Recordações do passado hein Viva o passado Você naturalmente foi reintegrado no emprego Salta pelintra disse eu ameaçandoo com o dedo Confesso que este diálogo era uma indiscrição principalmente a última réplica E com tanto maior prazer o confesso quanto que as mulheres é que têm fama de indiscretas e não quero acabar o livro sem retificar essa noção do espírito humano Em pontos de aventura amorosa achei homens que sorriam ou negavam a custo de um modo frio monossilábico etc ao passo que as parceiras não davam por si e jurariam aos Santos Evangelhos que era tudo uma calúnia A razão desta diferença é que a mulher salva a hipótese do capítulo CI e outras entregase por amor ou seja o amorpaixão de Stendhal ou o puramente físico de algumas damas romanas por exemplo ou polinésias lapônias cafres e pode ser que outras raças civilizadas mas o homem falo do homem de uma sociedade culta e elegante o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento Além disso e refirome sempre aos casos defesos a mulher quando ama outro homem parecelhe que mente a um dever e portanto tem de dissimular com arte maior tem de refinar a aleivosia ao passo que o homem sentindose causa da infração e vencedor de outro homem fica legitimamente orgulhoso e logo passa a outro sentimento menos ríspido e menos secreto essa boa fatuidade que é a transpiração luminosa do mérito Mas seja ou não verdadeira a minha explicação bastame deixar escrito nesta página para uso dos séculos que a indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens em amor pelo menos elas são um verdadeiro sepulcro Perdemse muita vez por desastradas por inquietas por não saberem resistir aos gestos aos olhares e é por isso que uma grande dama e fino espírito a rainha de Navarra empregou algures esta metáfora para dizer que toda a aventura amorosa vinha descobrirse por força mais tarde ou mais cedo Não há cachorrinho tão adestrado que alfim lhe não ouçamos o latir CAPÍTULO CXXXII QUE NÃO É SÉRIO Citando o dito da rainha de Navarra ocorreme que entre o nosso povo quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada costuma perguntarlhe Gentes quem matou seus cachorrinhos como se dissesse quem lhe levou os amores as aventuras secretas etc Mas este capítulo não é sério CAPÍTULO CXXXIII O PRINCÍPIO DE HELVETIUS Estávamos no ponto em que o oficial de marinha me arrancou a confissão dos amores de Virgília e aqui emendo eu o princípio de Helvetius ou por outra explicoo O meu interesse era calar confirmar a suspeita de uma coisa antiga fora provocar algum ódio sopitado dar origem a um escândalo quando menos adquirir a reputação de indiscreto Era esse o interesse e entendendose o princípio de Helvetius de um modo superficial isso é o que devia ter feito Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina antes daquele interesse de segurança havia outro o do desvanecimento que é mais íntimo mais imediato o primeiro era reflexivo supunha um silogismo anterior o segundo era espontâneo instintivo vinha das entranhas do sujeito finalmente o primeiro tinha o efeito remoto o segundo próximo Conclusão o princípio de Helvetius é verdadeiro no meu caso a diferença é que não era o interesse aparente mas o recôndito CAPÍTULO CXXXIV CINQÜENTA ANOS Não lhes disse ainda mas digoo agora que quando Virgília descia a escada e o oficial de marinha me tocava no ombro tinha eu cinqüenta anos Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo ou a melhor parte ao menos uma parte cheia de prazeres de agitações de sustos capeada de dissimulação e duplicidade mas enfim a melhor se devemos falar a linguagem usual Se porém empregarmos outra mais sublime a melhor parte foi a restante como eu terei a honra de lhes dizer nas poucas páginas deste livro Cinqüenta anos Não era preciso confessálo Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias Naquela ocasião cessado o diálogo com o oficial de marinha que enfiou a capa e saiu confesso que fiquei um pouco triste Voltei à sala lembroume dançar uma polca embriagarme das luzes das flores dos cristais dos olhos bonitos e do burburinho surdo e ligeiro das conversas particulares E não me arrependo remocei Mas meia hora depois quando me retirei do baile às quatro da manhã o que é que fui achar no fundo do carro Os meus cinqüenta anos Lá estavam eles os teimosos não tolhidos de frio nem reumáticos mas cochilando a sua fadiga um pouco cobiçosos de cama e de repouso Então e vejam até que ponto pode ir a imaginação de um homem com sono então pareceume ouvir de um morcego escarapitado no tejadilho Sr Brás Cubas a rejuvenescência estava na sala nos cristais nas luzes nas sedas enfim nos outros CAPÍTULO CXXXV OBLIVION E agora sinto que se alguma dama tem seguido estas páginas fecha o livro e não lê as restantes Para ela extinguiuse o interesse da minha vida que era o amor Cinqüenta anos Não é ainda a invalidez mas já não é a frescura Venham mais dez e eu entenderei o que um inglês dizia entenderei que coisa é não achar já quem se lembre de meus pais e de que modo me há de encarar o próprio ESQUECIMENTO Vai em versaletes esse nome OBLIVION Justo é que se dêem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno conviva da última hora mas certo Sabeo a dama que luziu na aurora do atual reinado e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministério Paraná porque esta achase mais perto do triunfo e sente já que outras lhe tomaram o carro Então se é digna de si mesma não teima em espertar a lembrança morta ou expirante não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de ontem quando eram outros os que encetavam a marcha da vida de alma alegre e pé veloz Tempora mutantur Compreende que este turbilhão é assim mesmo leva as folhas do mato e os farrapos do caminho sem exceção nem piedade e se tiver um pouco de filosofia não inveja mas lastima as que lhe tomaram o carro porque também elas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION Espetáculo cujo fim é divertir o planeta Saturno que anda muito aborrecido CAPÍTULO CXXXVI INUTlLIDADE Mas ou muito me engano ou acabo de escrever um capítulo inútil CAPÍTULO CXXXVII A BARRETINA E daí não ele resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba acrescentando que me sentia acabrunhado e mil outras coisas tristes Mas esse filósofo com o elevado tino de que dispunha bradoume que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia Meu caro Brás Cubas não te deixes vencer desses vapores Que diacho é preciso ser homem ser forte lutar vencer brilhar influir dominar Cinqüenta anos é a idade da ciência e do governo Ânimo Brás Cubas não me sejas palerma Que tens tu com essa sucessão de ruína a ruína ou de flor a flor Trata de saborear a vida e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramigas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas O ofício delas é não parar nunca acomodate com a lei e trata de aproveitála Vêse nas menores coisas o que vale a autoridade de um grande filósofo As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir o torpor moral e mental em que andava Vamos lá façamonos governo é tempo Eu não havia intervindo até então nos grandes debates Cortejava a pasta por meio de rapapés chás comissões e votos e a pasta não vinha Urgia apoderarme da tribuna Comecei devagar Três dias depois discutindose o orçamento da justiça aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava útil diminuir a barretina da guarda nacional Não tinha vasto alcance o objeto da pergunta mas ainda assim demonstrei que não era indigno das cogitações de um homem de Estado e citei Filopémen que ordenou a substituição dos broquéis de suas tropas que eram pequenos por outros maiores e bem assim as lanças que eram demasiado leves fato que a história não achou que desmentisse a gravidade de suas páginas O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um corte profundo não só por serem deselegantes mas também por serem antihigiênicas Nas paradas ao sol o excesso de calor produzido por elas podia ser fatal Sendo certo que um dos preceitos de Hipócrates era trazer a cabeça fresca parecia cruel obrigar um cidadão por simples consideração de uniforme a arriscar a saúde e a vida e conseqüentemente o futuro da família A Câmara e o governo deviam lembrarse que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independência e que o cidadão chamado a um serviço gratuito freqüente e penoso tinha direito a que se lhe diminuísse o ônus decretando um uniforme leve e maneiro Acrescia que a barretina por seu peso abatia a cabeça dos cidadãos e a pátria precisava de cidadãos cuja fronte pudesse levantarse altiva e serena diante do poder e concluí com esta idéia O chorão que inclina os seus galhos para a terra é árvore de cemitério a palmeira ereta e firme é árvore do deserto das praças e dos jardins Vária foi a impressão deste discurso Quanto à forma ao rapto eloqüente à parte literária e filosófica a opinião foi só uma disseramme todos que era completo e que de uma barretina ninguém ainda conseguira tirar tantas idéias Mas a parte política foi considerada por muitos deplorável alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar enfim vieram dizerme que outros me davam já em oposição entrando nesse número os oposicionistas da Câmara que chegaram a insinuar a conveniência de uma moção de desconfiança Repeli energicamente tal interpretação que não era só errônea mas caluniosa à vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete acrescentei que a necessidade de diminuir a barretina não era tamanha que não pudesse esperar alguns anos e que em todo caso eu transigiria na extensão do corte contentando me com três quartos de polegada ou menos enfim dado mesmo que a minha idéia não fosse adotada bastavame têla iniciado no parlamento Quincas Borba porém não fez restrição alguma Não sou homem político disseme ele ao jantar não sei se andaste bem ou mal sei que fizeste um excelente discurso E então notou as partes mais salientes as belas imagens os argumentos fortes com esse comedimento de louvor que tão bem fica a um grande filósofo depois tomou o assunto à sua conta e impugnou a barretina com tal força com tamanha lucidez que acabou convencendome efetivamente do seu perigo CAPÍTULO CXXXVIII A UM CRÍTICO Meu caro crítico Algumas páginas atrás dizendo eu que tinha cinqüenta anos acrescentei Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias Talvez aches esta frase incompreensível sabendose o meu atual estado mas eu chamo a tua atenção para a sutileza daquele pensamento O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro A morte não envelhece Quero dizer sim que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente Valhame Deus é preciso explicar tudo CAPÍTULO CXXXIX DE COMO NÃO FUI MINISTRO DESTADO CAPÍTULO CXL QUE EXPLICA O ANTERIOR Há coisas que melhor se dizem calando tal é a matéria do capítulo anterior Podem entendêlo os ambiciosos malogrados Se a paixão do poder é a mais forte de todas como alguns inculcam imaginem o desespero a dor o abatimento do dia em que perdi a cadeira da Câmara dos Deputados Iamseme as esperanças todas terminava a carreira política E notem que o Quincas Borba por induções filosóficas que fez achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do poder mas um capricho um desejo de folgar Na opinião dele este sentimento não sendo mais profundo que o outro amofina muito mais porque orça pelo amor que as mulheres têm às rendas e toucados Um Cromwell ou um Bonaparte acrescentava ele por isso mesmo que os queima a paixão do poder lá chegam à fina força ou pela escada da direita ou pela da esquerda Não era assim o meu sentimento este não tendo em si a mesma força não tem a mesma certeza do resultado e daí a maior aflição o maior desencanto a maior tristeza O meu sentimento segundo o Humanitismo Vai para o diabo com o teu Humanitismo interrompio estou farto de filosofias que me não levam a coisa nenhuma A dureza da interrupção tratandose de tamanho filósofo equivalia a um desacato mas ele próprio desculpou a irritação com que lhe falei Trouxeramnos café era uma hora da tarde estávamos na minha sala de estudo uma bela sala que dava para o fundo da chácara bons livros objetos darte um Voltaire entre eles um Voltaire de bronze que nessa ocasião parecia acentuar o risinho de sarcasmo com que me olhava o ladrão cadeiras excelentes fora o sol um grande sol que o Quincas Borba não sei se por chalaça ou poesia chamou um dos ministros da natureza corria um vento fresco o céu estava azul De cada janela eram três pendia uma gaiola com pássaros que chilreavam as suas óperas rústicas Tudo tinha a aparência de uma conspiração das coisas contra o homem e conquanto eu estivesse na minha sala olhando para a minha chácara sentado na minha cadeira ouvindo os meus pássaros ao pé dos meus livros alumiado pelo meu sol não chegava a curarme das saudades daquela outra cadeira que não era minha CAPÍTULO CXLI OS CÃES Mas enfim que pretendes fazer agora perguntoume Quincas Borba indo pôr a xícara vazia no parapeito de uma das janelas Não sei vou meterme na Tijuca fugir aos homens Estou envergonhado aborrecido Tantos sonhos meu caro Borba tantos sonhos e não sou nada Nada interrompeume Quincas Borba com um gesto de indignação Para distrairme convidoume a sair saímos para os lados do Engenho Velho Íamos a pé filosofando as coisas Nunca me há de esquecer o benefício desse passeio A palavra daquele grande homem era o cordial da sabedoria Disseme ele que eu não podia fugir ao combate se me fechavam a tribuna cumpriame abrir um jornal Chegou a usar uma expressão menos elevada mostrando assim que a língua filosófica podia uma ou outra vez retemperarse no calão do povo Funda um jornal disseme ele e desmancha toda esta igrejinha Magnífica idéia Vou fundar um jornal vou escachálos vou Lutar Podes escachálos ou não o essencial é que lutes Vida é luta Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal Daí a pouco demos com uma briga de cães fato que aos olhos de um homem vulgar não teria valor Quincas Borba fezme parar e observar os cães Eram dois Notou que ao pé deles estava um osso motivo da guerra e não deixou de chamar a minha atenção para a circunstância de que o osso não tinha carne Um simples osso nu Os cães mordiamse rosnavam com o furor nos olhos Quincas Borba meteu a bengala debaixo do braço e parecia em êxtase Que belo que isto é dizia ele de quando em quando Quis arrancálo dali mas não pude ele estava arraigado ao chão e só continuou a andar quando a briga cessou inteiramente e um dos cães mordido e vencido foi levar a sua fome a outra parte Notei que ficara sinceramente alegre posto contivesse a alegria segundo convinha a um grande filósofo Fezme observar a beleza do espetáculo relembrou o objeto da luta concluiu que os cães tinham fome mas a privação do alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetáculo mais é grandioso as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis luta que se complica muito porque entra em ação a inteligência do homem com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos etc CAPÍTULO CXLII O PEDIDO SECRETO Quanta coisa num minuete como dizia o outro Quanta coisa numa briga de cães Mas eu não era um discípulo servil ou medroso que deixasse de fazer uma ou outra objeção adequada Andando disse lhe que tinha uma dúvida não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães Ele respondeume com excepcional brandura Disputála aos outros homens é mais lógico porque a condição dos contendores é a mesma e leva o osso o que for mais forte Mas por que não será um espetáculo grandioso disputálo aos cães Voluntariamente comemse gafanhotos como o Precursor ou coisa pior como Ezequiel logo o ruim é comível resta saber se é mais digno do homem disputálo por virtude de uma necessidade natural ou preferilo para obedecer a uma exaltação religiosa isto é modificável ao passo que a fome é eterna como a vida e como a morte Estávamos à porta de casa deramme uma carta dizendo que vinha de uma senhora Entramos e o Quincas Borba com a discrição própria de um filósofo foi ler a lombada dos livros de uma estante enquanto eu lia a carta que era de Virgília Meu bom amigo D Plácida está muito mal Peçolhe o favor de fazer alguma coisa por ela mora no Beco das Escadinhas veja se alcança metêla na Misericórdia S u a a m i g a s i n c e r a Não era a letra fina e correta de Virgília mas grossa e desigual o V da assinatura não passava de um rabisco sem intenção alfabética de maneira que se a carta aparecesse era muito difícil atribuirlhe a autoria Virei e revirei o papel Pobre D Plácida Mas eu tinhalhe deixado os cinco contos da praia de Botafogo e não podia compreender que Vais compreender disse Quincas Borba tirando um livro da estante O quê perguntei espantado A imagem vinculada não pode ser exibida Talvez o arquivo tenha sido movido renomeado ou excluído Verifique se o vínculo aponta para o arquivo e o local corretos Vais compreender que eu só te disse a verdade Pascal é um dos meus avôs espirituais e conquanto a minha filosofia valha mais que a dele não posso negar que era um grande homem Ora que diz ele nesta página E chapéu na cabeça bengala sobraçada apontava o lugar com o dedo Que diz ele Diz que o homem tem uma grande vantagem sobre o resto do universo sabe que morre ao passo que o universo ignorao absolutamente Vês Logo o homem que disputa o osso a um cão tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome e é isto que torna grandiosa a luta como eu dizia Sabe que morre é uma expressão profunda creio todavia que é mais profunda a minha expressão sabe que tem fome Porquanto o fato da morte limita por assim dizer o entendimento humano a consciência da extinção dura um breve instante e acaba para nunca mais ao passo que a fome tem a vantagem de voltar de prolongar o estado consciente Pareceme se não vai nisso alguma imodéstia que a fórmula de Pascal é inferior à minha sem todavia deixar de ser um grande pensamento e Pascal um grande homem CAPÍTULO CXLIII NÃO VOU Enquanto ele restituía o livro à estante relia eu o bilhete Ao jantar vendo que eu falava pouco mastigava sem acabar de engolir fitava o canto da sala a ponta da mesa um prato uma cadeira uma mosca invisível disseme ele Tens alguma coisa aposto que foi aquela carta Foi Realmente sentiame aborrecido incomodado com o pedido de Virgília Tinha dado a D Plácida cinco contos de réis duvido muito que ninguém fosse mais generoso do que eu nem tanto Cinco contos E que fizera deles Naturalmente botouos fora comeuos em grandes festas e agora toca para a Misericórdia e eu que a leve Morrese em qualquer parte Acresce que eu não sabia ou não me lembrava do tal Beco das Escadinhas mas pelo nome pareciame algum recanto estreito e escuro da cidade Tinha de lá ir chamar a atenção dos vizinhos bater à porta etc Que maçada Não vou CAPÍTULO CXLIV UTILIDADE RELATIVA Mas a noite que é boa conselheira ponderou que a cortesia mandava obedecer aos desejos da minha antiga dama Letras vencidas urge pagálas disse eu ao levantarme Depois do almoço fui à casa de D Plácida achei um molho de ossos envolto em molambos estendido sobre um catre velho e nauseabundo deilhe algum dinheiro No dia seguinte fila transportar para a Misericórdia onde ela morreu uma semana depois Minto amanheceu morta saiu da vida às escondidas tal qual entrara Outra vez perguntei a mim mesmo como no capítulo LXXV se era para isto que o sacristão da Sé e a doceira trouxeram Dona Plácida à luz num momento de simpatia específica Mas adverti logo que se não fosse D Plácida talvez os meus amores com Virgília tivessem sido interrompidos ou imediatamente quebrados em plena efervescência tal foi portanto a utilidade da vida de D Plácida Utilidade relativa convenho mas que diacho há absoluto nesse mundo CAPÍTULO CXLV SIMPLES REPETIÇÃO Quanto aos cinco contos não vale a pena dizer que um canteiro da vizinhança fingiuse enamorado de D Plácida logrou espertarlhe os sentidos ou a vaidade e casou com ela no fim de alguns meses inventou um negócio vendeu as apólices e fugiu com o dinheiro Não vale a pena É o caso dos cães do Quincas Borba Simples repetição de um capítulo CAPÍTULO CXLVI O PROGRAMA Urgia fundar o jornal Redigi o programa que era uma aplicação política do Humanitismo somente como o Quincas Borba não houvesse ainda publicado o livro que aperfeiçoava de ano em ano assentamos de lhe não fazer nenhuma referência Quincas Borba exigiu apenas uma declaração autógrafa e reservada de que alguns princípios novos aplicados à política eram tirados do livro dele ainda inédito Era a fina flor dos programas prometia curar a sociedade destruir os abusos defender os sãos princípios de liberdade e conservação fazia um apelo ao comércio e à lavoura citava Guizot e LedruRollin e acabava com esta ameaça que o Quincas Borba achou mesquinha e local A nova doutrina que professamos há de inevitavelmente derrubar o atual ministério Confesso que nas circunstâncias políticas da ocasião o programa pareceume uma obraprima A ameaça do fim que o Quincas Borba achou mesquinha demonstrei lhe que era saturada do mais puro Humanitismo e ele mesmo o confessou depois Porquanto o Humanitismo não excluía nada as guerras de Napoleão e uma contenda de cabras eram segundo a nossa doutrina a mesma sublimidade com a diferença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam coisa que aparentemente não acontece às cabras Ora eu não fazia mais do que aplicar às circunstâncias a nossa fórmula filosófica Humanitas queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas Tu és o meu discípulo amado o meu califa bradou Quincas Borba com uma nota de ternura que até então lhe não ouvira Posso dizer como o grande Muamede nem que venham agora contra mim o sol e a lua não recuarei das minhas idéias Crê meu caro Brás Cubas que esta é a verdade eterna anterior aos mundos posterior aos séculos CAPÍTULO CXLVII O DESATINO Mandei logo para a imprensa uma notícia discreta dizendo que provavelmente começaria a publicação de um jornal oposicionista daí a algumas semanas redigido pelo Dr Brás Cubas Quincas Borba a quem li a notícia pegou da pena e acrescentou ao meu nome com uma fraternidade verdadeiramente humanística esta frase um dos mais gloriosos membros da passada Câmara No dia seguinte entrame em casa o Cotrim Vinha um pouco transtornado mas dissimulava afetando sossego e até alegria Vira a notícia do jornal e achou que devia como amigo e parente dissuadirme de semelhante idéia Era um erro um erro fatal Mostrou que eu ia colocarme numa situação difícil e de certa maneira trancar as portas do parlamento O ministério não só lhe parecia excelente o que aliás podia não ser a minha opinião mas com certeza viveria muito e que podia eu ganhar com indispôlo contra mim Sabia que alguns dos ministros me eram afeiçoados não era impossível uma vaga e Interrompio nesse ponto para lhe dizer que meditara muito o passo que ia dar e não podia recuar uma linha Cheguei a proporlhe a leitura do programa mas ele recusou energicamente dizendo que não queria ter a mínima parte no meu desatino É um verdadeiro desatino repetiu ele pense ainda alguns dias e verá que é um desatino A mesma coisa disse Sabina à noite no teatro Deixou a filha no camorote com o Cotrim e trouxeme ao corredor Mano Brás que é que você vai fazer perguntoume aflita Que idéia é essa de provocar o governo sem necessidade quando podia Expliqueilhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento que a minha idéia era derrubar o ministério por não me parecer adequado à situação e a certa fórmula filosófica afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortês embora enérgica A violência não era especiaria do meu paladar Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos abanou a cabeça e tornou ao assunto com um ar de súplica e ameaça alternadamente eu disselhe que não que não e que não Desenganada lançoume em rosto preferi os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido Pois siga o que lhe parecer concluiu nós cumprimos a nossa obrigação Deume as costas e voltou ao camarote CAPÍTULO CXLVIII O PROBLEMA INSOLÚVEL Publiquei o jornal Vinte e quatro horas depois aparecia em outros uma declaração do Cotrim dizendo em substância que posto não militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a pátria achava conveniente deixar bem claro que não tinha influência nem parte direta ou indireta na folha de seu cunhado o Dr Brás Cubas cujas idéias e procedimento político inteiramente reprovava O atual ministério como aliás qualquer outro composto de iguais capacidades parecialhe destinado a promover a felicidade pública Não podia acabar de crer nos meus olhos Esfregueios uma e duas vezes e reli a declaração inoportuna insólita e enigmática Se ele nada tinha com os partidos que lhe importava um incidente tão vulgar como a publicação de uma folha Nem todos os cidadãos que acham bom ou mau um ministério fazem declarações tais pela imprensa nem são obrigados a fazêlas Realmente era um mistério a intrusão do Cotrim neste negócio não menos que a sua agressão pessoal Nossas relações até então tinham sido lhanas e benévolas não me lembrava nenhum dissentimento nenhuma sombra nada depois da reconciliação Ao contrário as recordações eram de verdadeiros obséquios assim por exemplo sendo eu deputado pude obterlhe uns fornecimentos para o arsenal de marinha fornecimentos que ele continuava a fazer com a maior pontualidade e dos quais me dizia algumas semanas antes que no fim de mais três anos podiam darlhe uns duzentos contos Pois a lembrança de tamanho obséquio não teve força para obstar que ele viesse a público enxovalhar o cunhado Devia ser muito poderoso e motivo da declaração que o fazia cometer ao mesmo tempo um destempero e uma ingratidão confesso que era um problema insolúvel CAPÍTULO CXLIX TEORIA DO BENEFÍCIO Tão insolúvel que o Quincas Borba não pôde dar com ele apesar de estudálo longamente e com boa vontade Ora adeus concluiu nem todos os problemas valem cinco minutos de atenção Quanto à censura de ingratidão Quincas Borba rejeitoua inteiramente não como improvável mas como absurda por não obedecer às conclusões de uma boa filosofia humanística Não me podes negar um fato disse ele é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado Que é o benefício é um ato que faz cessar certa privação do beneficiado Uma vez produzido o efeito essencial isto é uma vez cessada a privação torna o organismo ao estado anterior ao estado indiferente Supõe que tens apertado em demasia o cós das calças para fazer cessar o incômodo desabotoas o cós respiras saboreias um instante de gozo o organismo torna à indiferença e não te lembras dos teus dedos que praticaram o ato Não havendo nada que perdure é natural que a memória se esvaeça porque ela não é uma planta aérea precisa de chão A esperança de outros favores é certo conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro mas este fato aliás um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho explicase pela memória da privação ou usando de outra fórmula pela privação continuada na memória que repercute a dor passada e aconselha a precaução do remédio oportuno Não digo que ainda sem esta circunstância não aconteça algumas vezes persistir a memória do obséquio acompanhada de certa afeição mais ou menos intensa mas são verdadeiras aberrações sem nenhum valor aos olhos de um filósofo Mas repliquei eu se nenhuma razão há para que perdure a memória do obséquio no obsequiado menos há de haver em relação ao obsequiador Quisera que me explicasses este ponto Não se explica o que é de sua natureza evidente retorquiu o Quincas Borba mas eu direi alguma coisa mais A persistência do benefício na memória de quem o exerce explicase pela natureza mesma do benefício e seus efeitos Primeiramente há o sentimento de uma boa ação e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações em segundo lugar recebese uma convicção de superioridade sobre outra criatura superioridade no estado e nos meios e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis segundo as melhores opiniões ao organismo humano Erasmo que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas coisas boas chamou a atenção para a complacência com que dois burros se coçam um ao outro Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo mas direi o que ele não disse a saber que se um dos burros coçar melhor o outro esse há de ter nos olhos algum indício especial de satisfação Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho senão porque se acha bonita e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias A consciência é a mesma coisa remirase a miúdo quando se acha bela Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda Não esqueças que sendo tudo uma simples irradiação de Humanitas o benefício e seus efeitos são fenômenos perfeitamente admiráveis CAPÍTULO CL ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃO Há em cada empresa afeição ou idade um ciclo inteiro da vida humana O primeiro número do meu jornal encheume a alma de uma vasta aurora corooume de verduras restituiume a lepidez da mocidade Seis meses depois batia a hora da velhice e daí a duas semanas a da morte que foi clandestina como a de D Plácida No dia em que o jornal amanheceu morto respirei como um homem que vem de longo caminho De modo que se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas mais ou menos efêmeras como o corpo alimenta os seus parasitas creio não dizer uma coisa inteiramente absurda Mas para não arriscar essa figura menos nítida e adequada prefiro uma imagem astronômica o homem executa à roda do grande mistério um movimento duplo de rotação e translação tem os seus dias desiguais como os de Júpiter e deles compõe o seu ano mais ou menos longo No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação concluía Lobo Neves o seu movimento de translação Morria com o pé na escada ministerial Correu ao menos durante algumas semanas que ele ia ser ministro e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja não é impossível que a notícia da morte me deixasse alguma tranqüilidade alívio e um ou dois minutos de prazer Prazer é muito mas é verdade juro aos séculos que é a pura verdade Fui ao enterro Na sala mortuária achei Virgília ao pé do féretro a soluçar Quando levantou a cabeça vi que chorava deveras Ao sair o enterro abraçouse ao caixão aflita vieram tirála e levála para dentro Digovos que as lágrimas eram verdadeiras Eu fui ao cemitério e para dizer tudo não tinha muita vontade de falar levava uma pedra na garganta ou na consciência No cemitério principalmente quando deixei cair a pá de cal sobre o caixão no fundo da cova o baque surdo da cal deume um estremecimento passageiro é certo mas desagradável e depois a tarde tinha o peso e a cor do chumbo o cemitério as roupas pretas CAPÍTULO CLI FILOSOFIA DOS EPITÁFIOS Saí afastandome dos grupos e fingindo ler os epitáfios E aliás gosto dos epitáfios eles são entre a gente civilizada uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou Daí vem talvez a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum parecelhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos CAPÍTULO CLII A MOEDA DE VESPASIANO Tinham ido todos só o meu carro esperava pelo dono Acendi um charuto afasteime do cemitério Não podia sacudir dos olhos a cerimônia do enterro nem dos ouvidos os soluços de Virgília Os soluços principalmente tinham o som vago e misterioso de um problema Virgília traíra o marido com sinceridade e agora chorava o com sinceridade Eis uma combinação difícil que não pude fazer em todo o trajeto em casa porém apeandome do carro suspeitei que a combinação era possível e até fácil Meiga Natura A taxa da dor é como a moeda de Vespasiano não cheira à origem e tanto se colhe do mal como do bem A moral repreenderá porventura a minha cúmplice é o que te não importa implacável amiga uma vez que lhe recebeste pontualmente as lágrimas Meiga três vezes Meiga Natura CAPÍTULO CLIII O ALIENISTA Começo a ficar patético e prefiro dormir Dormi sonhei que era nababo e acordei com a idéia de ser nababo Eu gostava às vezes de imaginar esses contrastes de região estado e credo Alguns dias antes tinha pensado na hipótese de uma revolução social religiosa e política que transferisse o arcebispo de Cantuária a simples coletor de Petrópolis e fiz longos cálculos para saber se o coletor eliminaria o arcebispo ou se o arcebispo rejeitaria o coletor ou que porção de arcebispo pode jazer num coletor ou que soma de coletor pode combinar com um arcebispo etc Questões insolúveis aparentemente mas na realidade perfeitamente solúveis desde que se atenda que pode haver num arcebispo dois arcebispos o da bula e o outro Está dito vou ser nababo Era um simples gracejo disseo todavia ao Quincas Borba que olhou para mim com certa cautela e pena levando a sua bondade a comunicarme que eu estava doido Rime a princípio mas a nobre convicção do filósofo incutiume certo medo A única objeção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doido mas não tendo geralmente os doidos outro conceito de si mesmos tal objeção ficava sem valor E vede se há algum fundamento na crença popular de que os filósofos são homens alheios às coisas mínimas No dia seguinte mandoume o Quincas Borba um alienista Conheciao fiquei aterrado Ele porém houvese com a maior delicadeza e habilidade despedindose tão alegremente que me animou a perguntarlhe se deveras me não achava doido Não disse ele sorrindo raros homens terão tanto juízo como o senhor Então o Quincas Borba enganouse Redondamente E depois Ao contrário se é amigo dele peço lhe que o distraia que Justos céus Parecelhe Um homem de tamanho espírito um filósofo Não importa a loucura entra em todas as casas Imaginem a minha aflição O alienista vendo o efeito de suas palavras reconheceu que eu era amigo do Quincas Borba e tratou de diminuir a gravidade da advertência Observou que podia não ser nada e acrescentou até que um grãozinho de sandice longe de fazer mal dava certo pico à vida Como eu rejeitasse com horror esta opinião o alienista sorriu e disseme uma coisa tão extraordinária tão extraordinária que não merece menos de um capítulo CAPÍTULO CLIV OS NAVIOS DO PIREU Há de lembrarse disseme o alienista daquele famoso maníaco ateniense que supunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade Não passava de um pobretão que talvez não tivesse para dormir a cuba de Diógenes mas a posse imaginária dos navios valia por todas as dracmas da Hélade Ora bem há em todos nós um maníaco de Atenas e quem jurar que não possuiu alguma vez mentalmente dois ou três patachos pelo menos pode crer que jura falso Também o senhor pergunteilhe Também eu Também eu Também o senhor e o seu criado não menos se é seu criado esse homem que ali está sacudindo os tapetes à janela De fato era um dos meus criados que batia os tapetes enquanto nós falávamos no jardim ao lado O alienista notou então que ele escancarara as janelas todas deste longo tempo que alçara as cortinas que devassara o mais possível a sala ricamente alfaiada para que a vissem de fora e concluiu Este seu criado tem a mania do ateniense crê que os navios são dele uma hora de ilusão que lhe dá a maior felicidade da Terra CAPÍTULO CLV REFLEXÃO CORDIAL Se o alienista tem razão disse eu comigo não haverá muito que lastimar o Quincas Borba é uma questão de mais ou de menos Contudo é justo cuidar dele e evitar que lhe entrem no cérebro maníacos de outras paragens CAPÍTULO CLVI ORGULHO DA SERVILIDADE Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu criado Podese por imagem disse ele atribuir ao teu criado a mania do ateniense mas imagens não são idéias nem observações tomadas à natureza O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo é o orgulho da servilidade A intenção dele é mostrar que não é criado de qualquer Depois chamou a minha atenção para os cocheiros de casa grande mais empertigados que o amo para os criados de hotel cuja solicitude obedece às variações sociais da freguesia etc E concluiu que era tudo a expressão daquele sentimento delicado e nobre prova cabal de que muitas vezes o homem ainda a engraxar botas é sublime CAPÍTULO CLVII FASE BRILHANTE Sublime és tu bradei eu lançandolhe os braços ao pescoço Com efeito era impossível crer que um homem tão profundo chegasse à demência foi o que lhe disse após o meu abraço denunciandolhe a suspeita do alienista Não posso descrever a impressão que lhe fez a denúncia lembrame que ele estremeceu e ficou muito pálido Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim sem chegar a saber a causa do dissentimento Reconciliação oportuna porque a solidão pesavame e a vida era para mim a pior das fadigas que é a fadiga sem trabalho Pouco depois fui convidado por ele a filiarme numa Ordem Terceira o que eu não fiz sem consultar o Quincas Borba Vai se queres disseme este mas temporariamente Eu trato de anexar à minha filosofia uma parte dogmática e litúrgica O Humanitismo há de ser também uma religião a do futuro a única verdadeira O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos e as outras religiões não valem mais do que essa orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza O paraíso cristão é um digno êmulo do paraíso muçulmano e quanto ao nirvana de Buda não passa de uma concepção de paralíticos Verás o que é a religião humanística A absorção final a fase contrativa é a reconstituição da substância não o seu aniquilamento etc Vai aonde te chamam não esqueças porém que és o meu califa E vede agora a minha modéstia filieime na Ordem Terceira de exerci ali alguns cargos foi essa a fase mais brilhante da minha vida Não obstante calome não digo nada não conto os meus serviços o que fiz aos pobres e aos enfermos nem as recompensas que recebi nada não digo absolutamente nada Talvez a economia social pudesse ganhar alguma coisa se eu mostrasse como todo e qualquer prêmio estranho vale pouco ao lado do prêmio subjetivo e imediato mas seria romper o silêncio que jurei guardar neste ponto Demais os fenômenos da consciência são de difícil análise por outro lado se contasse um teria de contar todos os que a ele se prendessem e acabava fazendo um capítulo de psicologia Afirmo somente que foi a fase mais brilhante da minha vida Os quadros eram tristes tinham a monotonia da desgraça que é tão aborrecida como a do gozo e talvez pior Mas a alegria que se dá à alma dos doentes e dos pobres é recompensa de algum valor e não me digam que é negativa por só recebêla o obsequiado Não eu recebiaa de um modo reflexo e ainda assim grande tão grande que me dava excelente idéia de mim mesmo CAPÍTULO CLVIII DOIS ENCONTROS No fim de alguns anos três ou quatro estava enfarado do ofício e deixeio não sem um donativo importante que me deu direito ao retrato na sacristia Não acabarei porém o capítulo sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem adivinhem quem a linda Marcela e via morrer no mesmo dia em que visitando um cortiço para distribuir esmolas achei Agora é que não são capazes de adivinhar achei a flor da moita Eugênia a filha de D Eusébia e do Vilaça tão coxa como a deixara e ainda mais triste Esta ao reconhecerme ficou pálida e baixou os olhos mas foi obra de um instante Ergueu logo a cabeça e fitoume com muita dignidade Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira e estendilhe a mão como faria à esposa de um capitalista Cortejoume e fechouse no cubículo Nunca mais a vi não soube nada da vida dela nem se a mãe era morta nem que desastre a trouxera a tamanha miséria Sei que continuava coxa e triste Foi com esta impressão profunda que cheguei ao hospital onde Marcela entrara na véspera e onde a vi expirar meia hora depois feia magra decrépita CAPÍTULO CLIX SEMIDEMÊNCIA Compreendi que estava velho e precisava de uma força mas o Quincas Borba partira seis meses antes para Minas Gerais e levou consigo a melhor das filosofias Voltou quatro meses depois e entroume em casa certa manhã quase no estado em que eu o vira no Passeio Público A diferença é que o olhar era outro Vinha demente Contoume que para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo queimara o manuscrito todo e ia recomeçálo A parte dogmática ficava completa embora não escrita era a verdadeira religião do futuro Juras por Humanitas perguntoume Sabes que sim A voz mal podia sairme do peito e aliás não tinha descoberto toda a cruel verdade Quincas Borba não só estava louco mas sabia que estava louco e esse resto de consciência como uma frouxa lamparina no meio das trevas complicava muito o horror da situação Sabiao e não se irritava contra o mal ao contrário diziame que era ainda uma prova de Humanitas que assim brincava consigo mesmo Recitavame longos capítulos do livro e antífonas e litanias espirituais chegou até a reproduzir uma dança sacra que inventara para as cerimônias do Humanitismo A graça lúgubre com que ele levantava e sacudia as pernas era singularmente fantástica Outras vezes amuavase a um canto com os olhos fitos no ar uns olhos em que de longe em longe fulgurava um raio persistente da razão triste como uma lágrima Morreu pouco tempo depois em minha casa jurando e repetindo sempre que a dor era uma ilusão e que Pangloss o caluniado Pangloss não era tão tolo como o supôs Voltaire CAPÍTULO CLX DAS NEGATIVAS Entre a morte do Quincas Borba e a minha mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas que morreu comigo por causa da moléstia que apanhei Divino emplasto tu me darias o primeiro lugar entre os homens acima da ciência e da riqueza porque eras a genuína e direta inspiração do Céu O caso determinou o contrário e aí vos ficais eternamente hipocondríacos Este último capítulo é todo de negativas Não alcancei a celebridade do emplasto não fui ministro não fui califa não conheci o casamento Verdade é que ao lado dessas faltas coubeme a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto Mais não padeci a morte de D Plácida nem a semidemência do Quincas Borba Somadas umas coisas e outras qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra e conseguintemente que saí quite com a vida E imaginará mal porque ao chegar a este outro lado do mistério acheime com um pequeno saldo que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria FIM
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Memórias Póstumas de Brás Cubas Textofonte Obra Completa Machado de Assis Rio de Janeiro Editora Nova Aguilar 1994 Publicado originalmente em folhetins a partir de março de 1880 na Revista Brasileira Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas Prólogo da terceira edição A primeira edição destas Memórias Póstumas de Brás Cubas foi feita aos pedaços na Revista Brasileira pelos anos de 1880 Postas mais tarde em livro corrigi o texto em vários lugares Agora que tive de o rever para a terceira edição emendei ainda alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas Assim composta sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no público Capistrano de Abreu noticiando a publicação do livro perguntava As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance Macedo Soares em carta que me escreveu por esse tempo recordava amigamente as Viagens na minha terra Ao primeiro respondia já o defunto Brás Cubas como o leitor viu e verá no prólogo dele que vai adiante que sim e que não que era romance para uns e não o era para outros Quanto ao segundo assim se explicou o finado Trata se de uma obra difusa na qual eu Brás Cubas se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo Toda essa gente viajou Xavier de Maistre à roda do quarto Garret na terra dele Sterne na terra dos outros De Brás Cubas se pode dizer que viajou à roda da vida O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama rabugens de pessimismo Há na alma deste livro por mais risonho que pareça um sentimento amargo e áspero que está longe de vir de seus modelos É taça que pode ter lavores de igual escola mas leva outro vinho Não digo mais para não entrar na crítica de um defunto que se pintou a si e a outros conforme lhe pareceu melhor e mais certo Machado de Assis AO LEITOR Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores coisa é que admira e consterna O que não admira nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal nem cinqüenta nem vinte e quando muito dez Dez Talvez cinco Tratase na verdade de uma obra difusa na qual eu Brás Cubas se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo Pode ser Obra de finado Escrevia com a pena da galhofa e a tinta da melancolia e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual eilo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos que são as duas colunas máximas da opinião Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo O melhor prólogo é o que contém menos coisas ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado Conseguintemente evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias trabalhadas cá no outro mundo Seria curioso mas nimiamente extenso e aliás desnecessário ao entendimento da obra A obra em si mesma é tudo se te agradar fino leitor pagome da tarefa se te não agradar pagote com um piparote e adeus Brás Cubas CAPÍTULO PRIMEIRO ÓBITO DO AUTOR Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim isto é se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento duas considerações me levaram a adotar diferente método a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor para quem a campa foi outro berço a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo Moisés que também contou a sua morte não a pôs no intróito mas no cabo diferença radical entre este livro e o Pentateuco Dito isto expirei às duas horas da tarde de uma sextafeira do mês de agosto de 1869 na minha bela chácara de Catumbi Tinha uns sessenta e quatro anos rijos e prósperos era solteiro possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos Onze amigos Verdade é que não houve cartas nem anúncios Acresce que chovia peneirava uma chuvinha miúda triste e constante tão constante e tão triste que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova Vós que o conhecestes meus senhores vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade Este ar sombrio estas gotas do céu aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à Natureza as mais íntimas entranhas tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado Bom e fiel amigo Não não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe mas pausado e trôpego como quem se retira tarde do espetáculo Tarde e aborrecido Viram me ir umas nove ou dez pessoas entre elas três senhoras minha irmã Sabina casada com o Cotrim a filha um lírio do vale e Tenham paciência daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora Contentemse de saber que essa anônima ainda que não parenta padeceu mais do que as parentas É verdade padeceu mais Não digo que se carpisse não digo que se deixasse rolar pelo chão convulsa Nem o meu óbito era coisa altamente dramática Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia E dado que sim o que menos convinha a essa anônima era aparentálo De pé à cabeceira da cama com os olhos estúpidos a boca entreaberta a triste senhora mal podia crer na minha extinção Morto morto dizia consigo E a imaginação dela como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilisso às ribas africanas sem embargo das ruínas e dos tempos a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil Deixála ir lá iremos mais tarde lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos Agora quero morrer tranqüilamente metodicamente ouvindo os soluços das damas as falas baixas dos homens a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora à porta de um correeiro Jurolhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa A vida estrebuchavame no peito com uns ímpetos de vaga marinha esvaíaseme a consciência eu descia à imobilidade física e moral e o corpo faziaseme planta e pedra e lodo e coisa nenhuma Morri de uma pneumonia mas se lhe disser que foi menos a pneumonia do que uma idéia grandiosa e útil a causa da minha morte é possível que o leitor me não creia e todavia é verdade Vou exporlhe sumariamente o caso Julgueo por si mesmo CAPÍTULO II O EMPLASTO Com efeito um dia de manhã estando a passear na chácara pendurouseme uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro Uma vez pendurada entrou a bracejar a pernear a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim que é possível crer Eu deixeime estar a contemplála Súbito deu um grande salto estendeu os braços e as pernas até tomar a forma de um X deciframe ou devorote Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime um emplastro antihipocondríaco destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade Na petição de privilégio que então redigi chamei a atenção do governo para esse resultado verdadeiramente cristão Todavia não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos Agora porém que estou cá do outro lado da vida posso confessar tudo o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais mostradores folhetos esquinas e enfim nas caixinhas do remédio estas três palavras Emplasto Brás Cubas Para que negálo Eu tinha a paixão do arruído do cartaz do foguete de lágrimas Talvez os modestos me argúam esse defeito fio porém que esse talento me hão de reconhecer os hábeis Assim a minha idéia trazia duas faces como as medalhas uma virada para o público outra para mim De um lado filantropia e lucro de outro lado sede de nomeada Digamos amor da glória Um tio meu cônego de prebenda inteira costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas que só devem cobiçar a glória eterna Ao que retorquia outro tio oficial de um dos antigos terços de infantaria que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem e conseguintemente a sua mais genuína feição Decida o leitor entre o militar e o cônego eu volto ao emplasto CAPÍTULO III GENEALOGIA Mas já que falei nos meus dois tios deixemme fazer aqui um curto esboço genealógico O fundador da minha família foi um certo Damião Cubas que floresceu na primeira metade do século XVIII Era tanoeiro de ofício natural do Rio de Janeiro onde teria morrido na penúria e na obscuridade se somente exercesse a tanoaria Mas não fezse lavrador plantou colheu permutou o seu produto por boas e honradas patacas até que morreu deixando grosso cabedal a um filho licenciado Luís Cubas Neste rapaz é que verdadeiramente começa a série de meus avós dos avós que a minha família sempre confessou porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro e talvez mau tanoeiro ao passo que o Luís Cubas estudou em Coimbra primou no Estado e foi um dos amigos particulares do vicerei Conde da Cunha Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria alegava meu pai bisneto de Damião que o dito apelido fora dado a um cavaleiro herói nas jornadas da África em prêmio da façanha que praticou arrebatando trezentas cubas aos mouros Meu pai era homem de imaginação escapou à tanoaria nas asas de um calembour Era um bom caráter meu pai varão digno e leal como poucos Tinha é verdade uns fumos de pacholice mas quem não é um pouco pachola nesse mundo Releva notar que ele não recorreu à inventiva senão depois de experimentar a falsificação primeiramente entroncouse na família daquele meu famoso homônimo o capitãomor Brás Cubas que fundou a vila de São Vicente onde morreu em 1592 e por esse motivo é que me deu o nome de Brás Opôsselhe porém a família do capitãomor e foi então que ele imaginou as trezentas cubas mouriscas Vivem ainda alguns membros de minha família minha sobrinha Venância por exemplo o lírio do vale que é a flor das damas do seu tempo vive o pai o Cotrim um sujeito que Mas não antecipemos os sucessos acabemos de uma vez com o nosso emplasto CAPÍTULO IV A IDÉIA FIXA A minha idéia depois de tantas cabriolas constituírase idéia fixa Deus te livre leitor de uma idéia fixa antes um argueiro antes uma trave no olho Vê o Cavour foi a idéia fixa da unidade italiana que o matou Verdade é que Bismarck não morreu mas cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a história uma eterna loureira Por exemplo Suetônio deunos um Cláudio que era um simplório ou uma abóbora como lhe chamou Sêneca e um Tito que mereceu ser as delícias de Roma Veio modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois césares o delicioso o verdadeiro delicioso foi o abóbora de Sêneca E tu madama Lucrécia flor dos Bórgias se um poeta te pintou como a Messalina católica apareceu um Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade e se não vieste a lírio também não ficaste pântano Eu deixome estar entre o poeta e o sábio Viva pois a história a volúvel história que dá para tudo e tornando à idéia fixa direi que é ela a que faz os varões fortes e os doidos a idéia móbil vaga ou furtacor é a que faz os Cláudios fórmula Suetônio Era fixa a minha idéia fixa como Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo talvez a lua talvez as pirâmides do Egito talvez a finada dieta germânica Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar vejaa e não esteja daí a torcerme o nariz só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias Lá iremos Creio que prefere a anedota à reflexão como os outros leitores seus confrades e acho que faz muito bem Pois lá iremos Todavia importa dizer que este livro é escrito com pachorra com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século obra supinamente filosófica de uma filosofia desigual agora austera logo brincalhona coisa que não edifica nem destrói não inflama nem regala e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado Vamos lá retifique o seu nariz e tornemos ao emplasto Deixemos a história com os seus caprichos de dama elegante Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina nenhum escreveu a confissão de Augsburgo pela minha parte se alguma vez me lembro de Cromwell é só pela idéia de que Sua Alteza com a mesma mão que trancara o parlamento teria imposto aos ingleses o emplasto Brás Cubas Não se riam dessa vitória comum da farmácia e do puritanismo Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande pública ostensiva há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares que se hasteiam e flutuam à sombra daquela e não poucas vezes lhe sobrevivem Mal comparando é como a arraiamiúda que se acolhia à sombra do castelo feudal caiu este e a arraia ficou Verdade é que se fez graúda e castelã Não a comparação não presta CAPÍTULO V EM QUE APARECE A ORELHA DE UMA SENHORA Senão quando estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção recebi em cheio um golpe de ar adoeci logo e não me tratei Tinha o emplasto no cérebro trazia comigo a idéia fixa dos doidos e dos fortes Viame ao longe ascender do chão das turbas e remontar ao Céu como uma águia imortal e não é diante de tão excelso espetáculo que um homem pode sentir a dor que o punge No outro dia estava pior trateime enfim mas incompletamente sem método nem cuidado nem persistência tal foi a origem do mal que me trouxe à eternidade Sabem já que morri numa sextafeira dia aziago e creio haver provado que foi a minha invenção que me matou Há demonstrações menos lúcidas e não menos triunfantes Não era impossível entretanto que eu chegasse a galgar o cimo de um século e a figurar nas folhas públicas entre macróbios Tinha saúde e robustez Suponhase que em vez de estar lançando os alicerces de uma invenção farmacêutica tratava de coligir os elementos de uma instituição política ou de uma reforma religiosa Vinha a corrente de ar que vence em eficácia o cálculo humano e lá se ia tudo Assim corre a sorte dos homens Com esta reflexão me despedi eu da mulher não direi mais discreta mas com certeza mais formosa entre as contemporâneas suas a anônima do primeiro capítulo a tal cuja imaginação à semelhança das cegonhas do Ilisso Tinha então 54 anos era uma ruína uma imponente ruína Imagine o leitor que nos amamos ela e eu muitos anos antes e que um dia já enfermo vejoa assomar à porta da alcova CAPÍTULO VI CHIMÈNE QUI LEÛT DIT RODRIGUE QUI LEÛT CRU Vejoa assomar à porta da alcova pálida comovida trajada de preto e ali ficar durante um minuto sem ânimo de entrar ou detida pela presença de um homem que estava comigo Da cama onde jazia contempleia durante esse tempo esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto Havia já dois anos que nos não víamos e eu viaa agora não qual era mas qual fora quais fôramos ambos porque um Ezequias misterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis Recuou o sol sacudi todas as misérias e este punhado de pó que a morte ia espalhar na eternidade do nada pôde mais do que o tempo que é o ministro da morte Nenhuma água de Juventa igualaria ali a simples saudade Creiamme o menos mau é recordar ninguém se fie da felicidade presente há nela uma gota da baba de Caim Corrido o tempo e cessado o espasmo então sim então talvez se pode gozar deveras porque entre uma e outra dessas duas ilusões melhor é a que se gosta sem doer Não durou muito a evocação a realidade dominou logo o presente expeliu o passado Talvez eu exponha ao leitor em algum canto deste livro a minha teoria das edições humanas O que por agora importa saber é que Virgília chamavase Virgília entrou na alcova firme com a gravidade que lhe davam as roupas e os anos e veio até o meu leito O estranho levantouse e saiu Era um sujeito que me visitava todos os dias para falar do câmbio da colonização e da necessidade de desenvolver a viação férrea nada mais interessante para um moribundo Saiu Virgília deixouse estar de pé durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro sem articular palavra Quem diria De dois grandes namorados de duas paixões sem freio nada mais havia ali vinte anos depois havia apenas dois corações murchos devastados pela vida e saciados dela não sei se em igual dose mas enfim saciados Virgília tinha agora a beleza da velhice um ar austero e maternal estava menos magra do que quando a vi pela última vez numa festa de São João na Tijuca e porque era das que resistem muito só agora começavam os cabelos escuros a intercalarse com alguns fios de prata Anda visitando os defuntos disselhe eu Ora defuntos respondeu Virgília com um muxoxo E depois de me apertar as mãos Ando a ver se ponho os vadios para a rua Não tinha a carícia lacrimosa de outro tempo mas a voz era amiga e doce Sentouse Eu estava só em casa com um simples enfermeiro podíamos falar um ao outro sem perigo Virgília deume longas notícias de fora narrandoas com graça com um certo travo de má língua que era o sal da palestra eu prestes a deixar o mundo sentia um prazer satânico em mofar dele em persuadirme que não deixava nada Que idéias essas interrompeume Virgília um tanto zangada Olhe que não volto mais Morrer Todos nós havemos de morrer basta estarmos vivos E vendo o relógio Jesus são três horas Voume embora Já Já virei amanhã ou depois Não sei se faz bem retorqui o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras Sua mana Há de vir cá passar uns dias mas não pode ser antes de sábado Virgília refletiu um instante levantou os ombros e disse com gravidade Estou velha Ninguém mais repara em mim Mas para cortar dúvidas virei com o Nhonhô Nhonhô era um bacharel único filho de seu casamento que na idade de cinco anos fora cúmplice inconsciente de nossos amores Vieram juntos dois dias depois e confesso que ao vêlos ali na minha alcova fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu corresponder logo às palavras afáveis do rapaz Virgília adivinhoume e disse ao filho Nhonhô não repares nesse grande manhoso que aí está não quer falar para fazer crer que está à morte Sorriu o filho eu creio que também sorri e tudo acabou em pura galhofa Virgília estava serena e risonha tinha o aspecto das vidas imaculadas Nenhum olhar suspeito nenhum gesto que pudesse denunciar nada uma igualdade de palavra e de espírito uma dominação sobre si mesma que pareciam e talvez fossem raras Como tocássemos casualmente nuns amores ilegítimos meio secretos meio divulgados via falar com desdém e um pouco de indignação da mulher de que se tratava aliás sua amiga O filho sentiase satisfeito ouvindo aquela palavra digna e forte e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões se Buffon tivesse nascido gavião Era o meu delírio que começava CAPÍTULO VII O DELÍRIO Que me conste ainda ninguém relatou o seu próprio delírio façoo eu e a ciência mo agradecerá Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais pode saltar o capítulo vá direito à narração Mas por menos curioso que seja sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos Primeiramente tomei a figura de um barbeiro chinês bojudo destro escanhoando um mandarim que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos caprichos de mandarim Logo depois sentime transformado na Suma Teológica de São Tomás impressa num volume e encadernada em marroquim com fechos de prata e estampas idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade e ainda agora me lembra que sendo as minhas mãos os fechos do livro e cruzandoas eu sobre o ventre alguém as descruzava Virgília decerto porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto Ultimamente restituído à forma humana vi chegar um hipopótamo que me arrebatou Deixeime ir calado não sei se por medo ou confiança mas dentro em pouco a carreira de tal modo se tornou vertiginosa que me atrevi a interrogálo e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino Enganase replicou o animal nós vamos à origem dos séculos Insinuei que deveria ser muitíssimo longe mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu se é que não fingiu uma dessas coisas e perguntandolhe visto que ele falava se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão retorquiume com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes abanou as orelhas Pela minha parte fechei os olhos e deixeime ir à ventura Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade por saber onde ficava a origem dos séculos se era tão misteriosa como a origem do Nilo e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos reflexões de cérebro enfermo Como ia de olhos fechados não via o caminho lembrame só que a sensação de frio aumentava com a jornada e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos Com efeito abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície branca de neve e vários animais grandes e de neve Tudo neve chegava a gelarnos um sol de neve Tentei falar mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa Onde estamos Já passamos o Éden Bem paremos na tenda de Abraão Mas se nós caminhamos para trás redargüiu motejando a minha cavalgadura Fiquei vexado e aturdido A jornada entrou e parecerme enfadonha e extravagante o frio incômodo a condução violenta e o resultado impalpável E depois cogitações do enfermo dado que chegássemos ao fim indicado não era impossível que os séculos irritados com lhes devassarem a origem me esmagassem entre as unhas que deviam ser tão seculares como eles Enquanto assim pensava íamos devorando caminho e a planície voava debaixo dos nossos pés até que o animal estacou e pude olhar mais tranqüilamente em torno de mim Olhar somente nada vi além da imensa brancura da neve que desta vez invadira o próprio céu até ali azul Talvez a espaços me parecia uma ou outra planta enorme brutesca meneando ao vento as suas largas folhas O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro disserase que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem Caiu do ar destacouse da terra não sei sei que um vulto imenso uma figura de mulher me apareceu então fitandome uns olhos rutilantes como o sol Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas e tudo escapava à compreensão do olhar humano porque os contornos perdiamse no ambiente e o que parecia espesso era muita vez diáfano Estupefato não disse nada não cheguei sequer a soltar um grito mas ao cabo de algum tempo que foi breve perguntei quem era e como se chamava curiosidade de delírio Chamame Natureza ou Pandora sou tua mãe e tua inimiga Ao ouvir esta última palavra recuei um pouco tomado de susto A figura soltou uma gargalhada que produziu em torno de nós o efeito de um tufão as plantas torceramse e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas Não te assustes disse ela minha inimizade não mata é sobretudo pela vida que se afirma Vives não quero outro flagelo Vivo perguntei eu enterrando as unhas nas mãos como para certificarme da existência Sim verme tu vives Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho provarás ainda por algumas horas o pão da dor e o vinho da miséria Vives agora mesmo que ensandeceste vives e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade tu dirás que queres viver Dizendo isto a visão estendeu o braço seguroume pelos cabelos e levantoume ao ar como se fora uma pluma Só então pude verlhe de perto o rosto que era enorme Nada mais quieto nenhuma contorção violenta nenhuma expressão de ódio ou ferocidade a feição única geral completa era a da impassibilidade egoísta a da eterna surdez a da vontade imóvel Raivas se as tinha ficavam encerradas no coração Ao mesmo tempo nesse rosto de expressão glacial havia um ar de juventude mescla de força e viço diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres Entendesteme disse ela no fim de algum tempo de mútua contemplação Não respondi nem quero entenderte tu és absurda tu és uma fábula Estou sonhando decerto ou se é verdade que enlouqueci tu não passas de uma concepção de alienado isto é uma coisa vã que a razão ausente não pode reger nem palpar Natureza tu a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga não faz da vida um flagelo nem como tu traz esse rosto indiferente como o sepulcro E por que Pandora Porque levo na minha bolsa os bens e os males e o maior de todos a esperança consolação dos homens Tremes Sim o teu olhar fasciname Creio eu não sou somente a vida sou também a morte e tu estás prestes a devolverme o que te emprestei Grande lascivo esperate a voluptuosidade do nada Quando esta palavra ecoou como um trovão naquele imenso vale afigurouseme que era o último som que chegava a meus ouvidos pareceume sentir a decomposição súbita de mim mesmo Então encareia com olhos súplices e pedi mais alguns anos Pobre minuto exclamou Para que queres tu mais alguns instantes de vida Para devorar e seres devorado depois Não estás farto do espetáculo e da luta Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo o alvor do dia a melancolia da tarde a quietação da noite os aspectos da Terra o sono enfim o maior benefício das minhas mãos Que mais queres tu sublime idiota Viver somente não te peço mais nada Quem me pôs no coração este amor da vida senão tu e se eu amo a vida por que te hás de golpear a ti mesma matandome Porque já não preciso de ti Não importa ao tempo o minuto que passa mas o minuto que vem O minuto que vem é forte jucundo supõe trazer em si a eternidade e traz a morte e perece como o outro mas o tempo subsiste Egoísmo dizes tu Sim egoísmo não tenho outra lei Egoísmo conservação A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver e se o novilho é tenro tanto melhor eis o estatuto universal Sobe e olha Isto dizendo arrebatoume ao alto de uma montanha Inclinei os olhos a uma das vertentes e contemplei durante um tempo largo ao longe através de um nevoeiro uma coisa única Imagina tu leitor uma redução dos séculos e um desfilar de todos eles as raças todas todas as paixões o tumulto dos Impérios a guerra dos apetites e dos ódios a destruição recíproca dos seres e das coisas Tal era o espetáculo acerbo e curioso espetáculo A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos Para descrevêla seria preciso fixar o relâmpago Os séculos desfilavam num turbilhão e não obstante porque os olhos do delírio são outros eu via tudo o que passava diante de mim flagelos e delícias desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria e via o amor multiplicando a miséria e via a miséria agravando a debilidade Aí vinham a cobiça que devora a cólera que inflama a inveja que baba e a enxada e a pena úmidas de suor e a ambição a fome a vaidade a melancolia a riqueza o amor e todos agitavam o homem como um chocalho até destruílo como um farrapo Eram as formas várias de um mal que ora mordia a víscera ora mordia o pensamento e passeava eternamente as suas vestes de arlequim em derredor da espécie humana A dor cedia alguma vez mas cedia à indiferença que era um sono sem sonhos ou ao prazer que era uma dor bastarda Então o homem flagelado e rebelde corria diante da fatalidade das coisas atrás de uma figura nebulosa e esquiva feita de retalhos um retalho de impalpável outro de improvável outro de invisível cosidos todos a ponto precário com a agulha da imaginação e essa figura nada menos que a quimera da felicidade ou lhe fugia perpetuamente ou deixavase apanhar pela fralda e o homem a cingia ao peito e então ela ria como um escárnio e sumiase como uma ilusão Ao contemplar tanta calamidade não pude reter um grito de angústia que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir e não sei por que lei de transtorno cerebral fui eu que me pus a rir de um riso descompassado e idiota Tens razão disse eu a coisa é divertida e vale a pena talvez monótona mas vale a pena Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo Vamos lá Pandora abre o ventre e digereme a coisa é divertida mas digereme A resposta foi compelirme fortemente a olhar para baixo e a ver os séculos que continuavam a passar velozes e turbulentos as gerações que se superpunham às gerações umas tristes como os Hebreus do cativeiro outras alegres como os devassos de Cômodo e todas elas pontuais na sepultura Quis fugir mas uma força misteriosa me retinha os pés então disse comigo Bem os séculos vão passando chegará o meu e passará também até o último que me dará a decifração da eternidade E fixei os olhos e continuei a ver as idades que vinham chegando e passando já então tranqüilo e resoluto não sei até se alegre Talvez alegre Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz de apatia e de combate de verdade e de erro e o seu cortejo de sistemas de idéias novas de novas ilusões cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera e amareleciam depois para remoçar mais tarde Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário faziase a história e a civilização e o homem nu e desarmado armavase e vestiase construía o tugúrio e o palácio a rude aldeia e Tebas de cem portas criava a ciência que perscruta e a arte que enleva faziase orador mecânico filósofo corria a face do globo descia ao ventre da Terra subia à esfera das nuvens colaborando assim na obra misteriosa com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo Meu olhar enfarado e distraído viu enfim chegar o século presente e atrás deles os futuros Aquele vinha ágil destro vibrante cheio de si um pouco difuso audaz sabedor mas ao cabo tão miserável como os primeiros e assim passou e assim passaram os outros com a mesma rapidez e igual monotonia Redobrei de atenção fitei a vista ia enfim ver o último o último mas então já a rapidez da marcha era tal que escapava a toda a compreensão ao pé dela o relâmpago seria um século Talvez por isso entraram os objetos a trocaremse uns cresceram outros minguaram outros perderamse no ambiente um nevoeiro cobriu tudo menos o hipopótamo que ali me trouxera e que aliás começou a diminuir a diminuir a diminuir até ficar do tamanho de um gato Era efetivamente um gato Encareio bem era o meu gato Sultão que brincava à porta da alcova com uma bola de papel CAPÍTULO VIII RAZÃO CONTRA SANDICE Já o leitor compreendeu que era a Razão que voltava à casa e convidava a Sandice a sair clamando e com melhor jus as palavras de Tartufo La maison est à moi cest à vous den sortir Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias de modo que apenas senhora de uma dificilmente lha farão despejar É sestro não se tira daí há muito que lhe calejou a vergonha Agora se advertirmos no imenso número de casas que ocupa umas de vez outras durante as suas estações calmosas concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários No nosso caso houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro porque a adventícia não queria entregar a casa e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu Afinal já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão Não senhora replicou a Razão estou cansada de lhe ceder sótãos cansada e experimentada o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar daí à de visitas e ao resto Está bem deixeme ficar algum tempo mais estou na pista de um mistério Que mistério De dois emendou a Sandice o da vida e o da morte peçolhe só uns dez minutos A Razão pôsse a rir Hás de ser sempre a mesma coisa sempre a mesma coisa sempre a mesma coisa E dizendo isto travoulhe dos pulsos e arrastoua para fora depois entrou e fechouse A Sandice ainda gemeu algumas súplicas grunhiu algumas zangas mas desenganouse depressa deitou a língua de fora em ar de surriada e foi andando CAPÍTULO IX TRANSIÇÃO E vejam agora com que destreza com que arte faço eu a maior transição deste livro Vejam o meu delírio começou em presença de Virgília Virgília foi o meu grão pecado da juventude não há juventude sem meninice meninice supõe nascimento e eis aqui como chegamos nós sem esforço ao dia 20 de outubro de 1805 em que nasci Viram Nenhuma juntura aparente nada que divirta a atenção pausada do leitor nada De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método sem a rigidez do método Na verdade era tempo Que isto de método sendo como é uma coisa indispensável todavia é melhor têlo sem gravata nem suspensórios mas um pouco à fresca e à solta como quem não se lhe dá da vizinha fronteira nem do inspetor de quarteirão É como a eloqüência que há uma genuína e vibrante de uma arte natural e feiticeira e outra tesa engomada e chocha Vamos ao dia 20 de outubro CAPÍTULO X NAQUELE DIA Naquele dia a árvore dos Cubas brotou uma graciosa flor Nasci recebeume nos braços a Pascoela insigne parteira minhota que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração inteira de fidalgos Não é impossível que meu pai lhe ouvisse tal declaração creio todavia que o sentimento paterno é que o induziu a gratificála com duas meias dobras Lavado e enfaixado fui desde logo o herói da nossa casa Cada qual prognosticava a meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor Meu tio João o antigo oficial de infantaria achavame um certo olhar de Bonaparte coisa que meu pai não pôde ouvir sem náuseas meu tio Ildefonso então simples padre farejava me cônego Cônego é o que ele há de ser e não digo mais por não parecer orgulho mas não me admiraria nada se Deus o destinasse a um bispado É verdade um bispado não é coisa impossível Que diz você mano Bento Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse e alçavame ao ar como se intentasse mostrarme à cidade e ao mundo perguntava a todos se eu me parecia com ele se era inteligente bonito Digo essas coisas por alto segundo as ouvi narrar anos depois ignoro a mor parte dos pormenores daquele famoso dia Sei que a vizinhança veio ou mandou cumprimentar o recémnascido e que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa Não houve cadeirinha que não trabalhasse aventouse muita casaca e muito calção Se não conto os mimos os beijos as admirações as bênçãos é porque se os contasse não acabaria mais o capítulo e é preciso acabálo Item não posso dizer nada do meu batizado porque nada me referiram a tal respeito a não ser que foi uma das mais galhardas festas do ano seguinte 1806 batizeime na igreja de São Domingos uma terçafeira de março dia claro luminoso e puro sendo padrinhos o Coronel Rodrigues de Matos e sua senhora Um e outro descendiam de velhas famílias do Norte e honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias outrora derramado na guerra contra Holanda Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras coisas que aprendi e certamente os dizia com muita graça ou revelava algum talento precoce porque não havia pessoa estranha diante de quem me não obrigassem a recitálos Nhonhô diga a estes senhores como é que se chama seu padrinho Meu padrinho é o Excelentíssimo Senhor Coronel Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos minha madrinha é a Excelentíssima Senhora D Maria Luísa de Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos É muito esperto o seu menino exclamavam os ouvintes Muito esperto concordava meu pai e os olhos babavamselhe de orgulho e ele espalmava a mão sobre a minha cabeça fitavame longo tempo namorado cheio de si Item comecei a andar não sei bem quando mas antes do tempo Talvez por apressar a natureza obrigavamme cedo a agarrar às cadeiras pegavamme da fralda davamme carrinhos de pau Só só nhonhô só só diziame a mucama E eu atraído pelo chocalho de lata que minha mãe agitava diante de mim lá ia para a frente cai aqui cai acolá e andava provavelmente mal mas andava e fiquei andando CAPÍTULO XI O MENINO É PAI DO HOMEM Cresci e nisso é que a família não interveio cresci naturalmente como crescem as magnólias e os gatos Talvez os gatos são menos matreiros e com certeza as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância Um poeta dizia que o menino é pai do homem Se isto é verdade vejamos alguns lineamentos do menino Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de menino diabo e verdadeiramente não era outra coisa fui dos mais malignos do meu tempo arguto indiscreto traquinas e voluntarioso Por exemplo um dia quebrei a cabeça de uma escrava porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo e não contente com o malefício deitei um punhado de cinza ao tacho e não satisfeito da travessura fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce por pirraça e eu tinha apenas seis anos Prudêncio um moleque de casa era o meu cavalo de todos os dias punha as mãos no chão recebia um cordel nos queixos à guisa de freio eu trepava lhe ao dorso com uma varinha na mão fustigavao dava mil voltas a um e outro lado e ele obedecia algumas vezes gemendo mas obedecia sem dizer palavra ou quando muito um ai nhonhô ao que eu retorquia Cala a boca besta Esconder os chapéus das visitas deitar rabos de papel a pessoas graves puxar pelo rabicho das cabeleiras dar beliscões nos braços das matronas e outras muitas façanhas deste jaez eram mostras de um gênio indócil mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto porque meu pai tinhame em grande admiração e se às vezes me repreendia à vista de gente faziao por simples formalidade em particular davame beijos Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconderlhes os chapéus mas opiniático egoísta e algo contemptor dos homens isso fui se não passei o tempo a esconderlhes os chapéus alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras Outrossim afeiçoeime à contemplação da injustiça humana inclinei me a atenuála a explicála a classifiqueia por partes a entendêla não segundo um padrão rígido mas ao sabor das circunstâncias e lugares Minha mãe doutrinavame a seu modo faziame decorar alguns preceitos e orações mas eu sentia que mais do que as orações me governavam os nervos e o sangue e a boa regra perdia o espírito que a faz viver para se tornar uma vã fórmula De manhã antes do mingau e de noite antes da cama pedia a Deus que me perdoasse assim como eu perdoava aos meus devedores mas entre a manhã e a noite fazia uma grande maldade e meu pai passado o alvoroço davame pancadinhas na cara e exclamava a rir Ah brejeiro ah brejeiro Sim meu pai adoravame Minha mãe era uma senhora fraca de pouco cérebro e muito coração assaz crédula sinceramente piedosa caseira apesar de bonita e modesta apesar de abastada temente às trovoadas e ao marido O marido era na Terra o seu deus Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação que se tinha alguma coisa boa era no geral viciosa incompleta e em partes negativa Meu tio cônego fazia às vezes alguns reparos ao irmão dizialhe que ele me dava mais liberdade do que ensino e mais afeição do que emenda mas meu pai respondia que aplicava na minha educação um sistema inteiramente superior ao sistema usado e por este modo sem confundir o irmão iludiase a si próprio De envolta com a transmissão e a educação houve ainda o exemplo estranho o meio doméstico Vimos os pais vejamos os tios Um deles o João era um homem de língua solta vida galante conversa picaresca Desde os onze anos entrou a admitirme às anedotas reais ou não eivadas todas de obscenidade ou imundície Não me respeitava a adolescência como não respeitava a batina do irmão com a diferença que este fugia logo que ele enveredava por assunto escabroso Eu não deixavame estar sem entender nada a princípio depois entendendo e enfim achandolhe graça No fim de certo tempo quem o procurava era eu e ele gostava muito de mim davame doces levavame a passeio Em casa quando lá ia passar alguns dias não poucas vezes me aconteceu achálo no fundo da chácara no lavadouro a palestrar com as escravas que batiam roupa aí é que era um desfiar de anedotas de ditos de perguntas e um estalar de risadas que ninguém podia ouvir porque o lavadouro ficava muito longe de casa As pretas com uma tanga no ventre a arregaçarlhes um palmo dos vestidos umas dentro do tanque outras fora inclinadas sobre as peças de roupa a batêlas a ensaboálas a torcêlas iam ouvindo e redargüindo às pilhérias do tio João e a comentálas de quando em quando com esta palavra Cruz diabo Este sinhô João é o diabo Bem diferente era o tio cônego Esse tinha muita austeridade e pureza tais dotes contudo não realçavam um espírito superior apenas compensavam um espírito medíocre Não era homem que visse a parte substancial da igreja via o lado externo a hierarquia as preeminências as sobrepelizes as circunflexões Vinha antes da sacristia que do altar Uma lacuna no ritual excitavao mais do que uma infração dos mandamentos Agora a tantos anos de distância não estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano ou expor sem titubear a história do símbolo de Nicéia mas ninguém nas festas cantadas sabia melhor o número e casos das cortesias que se deviam ao oficiante Cônego foi a única ambição de sua vida e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar Piedoso severo nos costumes minucioso na observância das regras frouxo acanhado subalterno possuía algumas virtudes em que era exemplar mas carecia absolutamente da força de as incutir de as impor aos outros Não digo nada de minha tia materna D Emerenciana e aliás era a pessoa que mais autoridade tinha sobre mim essa diferençavase grandemente dos outros mas viveu pouco tempo em nossa companhia uns dois anos Outros parentes e alguns íntimos não merecem a pena de ser citados não tivemos uma vida comum mas intermitente com grandes claros de separação O que importa é a expressão geral do meio doméstico e essa aí fica indicada vulgaridade de caracteres amor das aparências rutilantes do arruído frouxidão da vontade domínio do capricho e o mais Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor CAPÍTULO XII UM EPISÓDIO DE 1814 Mas eu não quero passar adiante sem contar sumariamente um galante episódio de 1814 tinha nove anos Napoleão quando eu nasci estava já em todo o esplendor da glória e do poder era imperador e granjeara inteiramente a admiração dos homens Meu pai que à força de persuadir os outros da nossa nobreza acabara persuadindose a si próprio nutria contra ele um ódio puramente mental Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa porque meu tio João não sei se por espírito de classe e simpatia de ofício perdoava no déspota o que admirava no general meu tio padre era inflexível contra o corso os outros parentes dividiamse daí as controvérsias e as rusgas Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão houve naturalmente grande abalo em nossa casa mas nenhum chasco ou remoque Os vencidos testemunhas do regozijo público julgaram mais decoroso o silêncio alguns foram além e bateram palmas A população cordialmente alegre não regateou demonstrações de afeto à real família houve iluminações salvas Te Deum cortejo e aclamações Figurei nesses dias com um espadim novo que meu padrinho me dera no dia de Santo Antônio e francamente interessavame mais o espadim do que a queda de Bonaparte Nunca me esqueceu esse fenômeno Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão E notem que eu ouvi muito discurso quando era vivo li muita página rumorosa de grandes idéias e maiores palavras mas não sei por que no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado Vaite embora tu só cuidas do espadim Não se contentou a minha família em ter um quinhão anônimo no regozijo público entendeu oportuno e indispensável celebrar a destituição do imperador com um jantar e tal jantar que o ruído das aclamações chegasse aos ouvidos de Sua Alteza ou quando menos de seus ministros Dito e feito Veio abaixo toda a velha prataria herdada do meu avô Luís Cubas vieram as toalhas de Flandres as grandes jarras da Índia matouse um capado encomendaramse às madres da Ajuda as compotas e as marmeladas lavaramse arearamse poliramse as salas escadas castiçais arandelas as vastas mangas de vidro todos os aparelhos do luxo clássico Dada a hora achouse reunida uma sociedade seleta o juizdefora três ou quatro oficiais militares alguns comerciantes e letrados vários funcionários da administração uns com suas mulheres e filhas outros sem elas mas todos comungando no desejo de atolar a memória de Bonaparte no papo de um peru Não era um jantar mas um TeDeum foi o que pouco mais ou menos disse um dos letrados presentes o Dr Vilaça glosador insigne que acrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas Lembrame como se fosse ontem lembrame de o ver erguerse com a sua longa cabeleira de rabicho casaca de seda uma esmeralda no dedo pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote e repetido o mote cravar os olhos na testa de uma senhora depois tossir alçar a mão direita toda fechada menos o dedo índice que apontava para o teto e assim posto e composto devolver o mote glosado Não fez uma glosa mas três depois jurou aos seus deuses não acabar mais Pedia um mote davamlho ele glosavao prontamente e logo pedia outro e mais outro a tal ponto que uma das senhoras presentes não pôde calar a sua grande admiração A senhora diz isso retorquia modestamente o Vilaça porque nunca ouviu o Bocage como eu ouvi no fim do século em Lisboa Aquilo sim que facilidade e que versos Tivemos lutas de uma e duas horas no botequim do Nicola a glosarmos no meio de palmas e bravos Imenso talento o do Bocage Era o que me dizia há dias a senhora Duquesa de Cadaval E estas três palavras últimas expressas com muita ênfase produziram em toda a assembléia um frêmito de admiração e pasmo Pois esse homem tão dado tão simples além de pleitear com poetas discreteava com duquesas Um Bocage e uma Cadaval Ao contato de tal homem as damas sentiamse superfinas os varões olhavamno com respeito alguns com inveja não raros com incredulidade Ele entretanto ia caminho a acumular adjetivo sobre adjetivo advérbio sobre advérbio a desfiar todas as rimas de tirano e de usurpador Era à sobremesa ninguém já pensava em comer No intervalo das glosas corria um burburinho alegre um palavrear de estômagos satisfeitos os olhos moles e úmidos ou vivos e cálidos espreguiçavamse ou saltitavam de uma ponta à outra da mesa atulhada de doces e frutas aqui o ananás em fatias ali o melão em talhadas as compoteiras de cristal deixando ver o doce de coco finamente ralado amarelo como uma gema ou então o melado escuro e grosso não longe do queijo e do cará De quando em quando um riso jovial amplo desabotoado um riso de família vinha quebrar a gravidade política do banquete No meio do interesse grande e comum agitavamse também os pequenos e particulares As moças falavam das modinhas que haviam de cantar ao cravo e do minuete e do solo inglês nem faltava matrona que prometesse bailar um oitavado de compasso só para mostrar como folgara nos seus bons tempos de criança Um sujeito ao pé de mim dava a outro notícia recente dos negros novos que estavam a vir segundo cartas que recebera de Loanda uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças e outra carta em que Trazia as justamente na algibeira mas não as podia ler naquela ocasião O que afiançava é que podíamos contar só nessa viagem uns cento e vinte negros pelo menos Trás trás trás fazia o Vilaça batendo com as mãos uma na outra O rumor cessava de súbito como um estacado de orquestra e todos os olhos se voltavam para o glosador Quem ficava longe aconcheava a mão atrás da orelha para não perder palavra a mor parte antes mesmo da glosa tinha já um meio riso de aplauso trivial e cândido Quanto a mim lá estava solitário e deslembrado a namorar certa compota da minha paixão No fim de cada glosa ficava muito contente esperando que fosse a última mas não era e a sobremesa continuava intata Ninguém se lembrava de dar a primeira voz Meu pai à cabeceira saboreava a goles extensos a alegria dos convivas miravase todo nos carões alegres nos pratos nas flores deliciava se com a familiaridade travada entre os mais distantes espíritos influxo de um bom jantar Eu via isso porque arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota como a pedirlhe que ma servisse mas faziao em vão Ele não via nada viase a si mesmo E as glosas sucediamse como bátegas dágua obrigandome a recolher o desejo e o pedido Pacientei quanto pude e não pude muito Pedi em voz baixa o doce enfim bradei berrei bati com os pés Meu pai que seria capaz de me dar o sol se eu lho exigisse chamou um escravo para me servir o doce mas era tarde A tia Emerenciana arrancarame da cadeira e entregarame a uma escrava não obstante os meus gritos e repelões Não foi outro o delito do glosador retardara a compota e dera causa à minha exclusão Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança qualquer que fosse mas grande e exemplar coisa que de alguma maneira o tornasse ridículo Que ele era um homem grave o Dr Vilaça medido e lento quarenta e sete anos casado e pai Não me contentava o rabo de papel nem o rabicho da cabeleira havia de ser coisa pior Entrei a espreitálo durante o resto da tarde a seguilo na chácara aonde todos desceram a passear Vio conversar com D Eusébia irmã do sargentomor Domingues uma robusta donzelona que se não era bonita também não era feia Estou muito zangada com o senhor dizia ela Por quê Porque não sei por quê porque é a minha sina creio às vezes que é melhor morrer Tinham penetrado numa pequena moita era luscofusco eu segui os O Vilaça levava nos olhos umas chispas de vinho e de volúpia Deixeme disse ela Ninguém nos vê Morrer meu anjo Que idéias são essas Você sabe que eu morrerei também que digo morro todos os dias de paixão de saudades D Eusébia levou o lenço aos olhos O glosador vasculhava na memória algum pedaço literário e achou este que mais tarde verifiquei ser de uma das óperas do Judeu Não chores meu bem não queiras que o dia amanheça com duas auroras Disse isto puxoua para si ela resistiu um pouco mas deixouse ir uniram os rostos e eu ouvi estalar muito ao de leve um beijo o mais medroso dos beijos O Dr Vilaça deu um beijo em D Eusébia bradei eu correndo pela chácara Foi um estouro esta minha palavra a estupefação imobilizou a todos os olhos espraiavamse a uma e outra banda trocavamse sorrisos segredos à socapa as mães arrastavam as filhas pretextando o sereno Meu pai puxoume as orelhas disfarçadamente irritado deveras com a indiscrição mas no dia seguinte ao almoço lembrando o caso sacudiume o nariz a rir Ah brejeiro ah brejeiro CAPÍTULO XIII UM SALTO Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola a enfadonha escola onde aprendi a ler escrever contar dar cacholetas apanhálas e ir fazer diabruras ora nos morros ora nas praias onde quer que fosse propício a ociosos Tinha amarguras esse tempo tinha os ralhos os castigos as lições árduas e longas e pouco mais muito pouco e muito leve Só era pesada a palmatória e ainda assim Ó palmatória terror dos meus dias pueris tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre ossudo e calvo me incutiu no cérebro o alfabeto a prosódia a sintaxe e o mais que ele sabia benta palmatória tão praguejada dos modernos quem me dera ter ficado sob o teu jugo com a minha alma imberbe as minhas ignorâncias e o meu espadim aquele espadim de 1814 tão superior à espada de Napoleão Que querias tu afinal meu velho mestre de primeiras letras Lição de cor e compostura na aula nada mais nada menos do que quer a vida que é das últimas letras com a diferença que tu se me metias medo nunca me meteste zanga Vejote ainda agora entrar na sala com as tuas chinelas de couro branco capote lenço na mão calva à mostra barba rapada vejote sentar bufar grunhir absorver uma pitada inicial e chamarnos depois à lição E fizeste isto durante vinte e três anos calado obscuro pontual metido numa casinha da Rua do Piolho sem enfadar o mundo com a tua mediocridade até que um dia deste o grande mergulho nas trevas e ninguém te chorou salvo um preto velho ninguém nem eu que te devo os rudimentos da escrita Chamavase Ludgero o mestre quero escreverlhe o nome todo nesta página Ludgero Barata um nome funesto que servia aos meninos de eterno mote a chufas Um de nós o Quincas Borba esse então era cruel com o pobre homem Duas três vezes por semana havia de lhe deixar na algibeira das calças umas largas calças de enfiar ou na gaveta da mesa ou ao pé do tinteiro uma barata morta Se ele a encontrava ainda nas horas da aula dava um pulo circulava os olhos chamejantes dizianos os últimos nomes éramos sevandijas capadócios malcriados moleques Uns tremiam outros rosnavam o Quincas Borba porém deixavase estar quieto com os olhos espetados no ar Uma flor o Quincas Borba Nunca em minha infância nunca em toda a minha vida achei um menino mais gracioso inventivo e travesso Era a flor e não já da escola senão de toda a cidade A mãe viúva com alguma coisa de seu adorava o filho e traziao amimado asseado enfeitado com um vistoso pajem atrás um pajem que nos deixava gazear a escola ir caçar ninhos de pássaros ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição ou simplesmente arruar à toa como dois peraltas sem emprego E de imperador Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Espírito Santo De resto nos nossos jogos pueris ele escolhia sempre um papel de rei ministro general uma supremacia qualquer que fosse Tinha garbo o traquinas e gravidade certa magnificência nas atitudes nos meneios Quem diria que Suspendamos a pena não adiantemos os sucessos Vamos de um salto a 1822 data da nossa independência política e do meu primeiro cativeiro pessoal CAPÍTULO XIV O PRIMEIRO BEIJO Tinha dezessete anos pungiame um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode Os olhos vivos e resolutos eram a minha feição verdadeiramente máscula Como ostentasse certa arrogância não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem se um homem com ares de menino Ao cabo era um lindo garção lindo e audaz que entrava na vida de botas e esporas chicote na mão e sangue nas veias cavalgando um corcel nervoso rijo veloz como o corcel das antigas baladas que o romantismo foi buscar ao castelo medieval para dar com ele nas ruas do nosso século O pior é que o estafaram a tal ponto que foi preciso deitálo à margem onde o realismo o veio achar comido de lazeira e vermes e por compaixão o transportou para os seus livros Sim eu era esse garção bonito airoso abastado e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa ou levantou para mim os olhos cobiçosos De todas porém a que me cativou logo foi uma uma não sei se diga este livro é casto ao menos na intenção na intenção é castíssimo Mas vá lá ou se há de dizer tudo ou nada A que me cativou foi uma dama espanhola Marcela a linda Marcela como lhe chamavam os rapazes do tempo E tinham razão os rapazes Era filha de um hortelão das Astúrias dissemo ela mesma num dia de sinceridade porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madri vítima da invasão francesa ferido encarcerado espingardeado quando ela tinha apenas doze anos Cosas de España Quem quer que fosse porém o pai letrado ou hortelão a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica e mal chegava a entender a moral do código Era boa moça lépida sem escrúpulos um pouco tolhida pela austeridade do tempo que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas luxuosa impaciente amiga de dinheiro e de rapazes Naquele ano morria de amores por um certo Xavier sujeito abastado e tísico uma pérola Via pela primeira vez no Rocio Grande na noite das luminárias logo que constou a declaração da independência uma festa de primavera um amanhecer da alma pública Éramos dois rapazes o povo e eu vínhamos da infância com todos os arrebatamentos da juventude Via sair de uma cadeirinha airosa e vistosa um corpo esbelto ondulante um desgarre alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras Segueme disse ela ao pajem E eu seguia tão pajem como o outro como se a ordem me fosse dada deixeime ir namorado vibrante cheio das primeiras auroras A meio caminho chamaramlhe linda Marcela lembroume que ouvira tal nome a meu tio João e fiquei confesso que fiquei tonto Três dias depois perguntoume meu tio em segredo se queria ir a uma ceia de moças nos Cajueiros Fomos era em casa de Marcela O Xavier com todos os seus tubérculos presidia ao banquete noturno em que eu pouco ou nada comi porque só tinha olhos para a dona da casa Que gentil que estava a espanhola Havia mais uma meia dúzia de mulheres todas de partido e bonitas cheias de graça mas a espanhola O entusiasmo alguns goles de vinho o gênio imperioso estouvado tudo isso me levou a fazer uma coisa única à saída à porta da rua disse a meu tio que esperasse um instante e tornei a subir as escadas Esqueceu alguma coisa perguntou Marcela de pé no patamar O lenço Ela ia abrirme caminho para tornar à sala eu segureilhe nas mãos puxeia para mim e deilhe um beijo Não sei se ela disse alguma coisa se gritou se chamou alguém não sei nada sei que desci outra vez as escadas veloz como um tufão e incerto como um ébrio CAPÍTULO XV MARCELA Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela não já cavalgando o corcel do cego desejo mas o asno da paciência a um tempo manhoso e teimoso Que em verdade há dois meios de granjear a vontade das mulheres o violento como o touro de Europa e o insinuativo como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Danae três inventos do Padre Zeus que por estarem fora da moda aí ficam trocados no cavalo e no asno Não direi as traças que urdi nem as peitas nem as alternativas de confiança e temor nem as esperas baldadas nem nenhuma outra dessas coisas preliminares Afirmolhes que o asno foi digno do corcel um asno de Sancho deveras filósofo que me levou à casa dela no fim do citado período apeeime batilhe na anca e mandeio pastar Primeira comoção da minha juventude que doce que me foste Tal devia ser na criação bíblica o efeito do primeiro sol Imagina tu esse efeito do primeiro sol a bater de chapa na face de um mundo em flor Pois foi a mesma coisa leitor amigo e se alguma vez contaste dezoito anos deves lembrarte que foi assim mesmo Teve duas fases a nossa paixão ou ligação ou qualquer outro nome que eu de nomes não curo teve a fase consular e a fase imperial Na primeira que foi curta regemos o Xavier e eu sem que ele jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma mas quando a credulidade não pôde resistir à evidência o Xavier depôs as insígnias e eu concentrei todos os poderes na minha mão foi a fase cesariana Era meu o universo mas ai triste não o era de graça Foime preciso coligir dinheiro multiplicálo inventálo Primeiro explorei as larguezas de meu pai ele davame tudo o que eu lhe pedia sem repreensão sem demora sem frieza dizia a todos que eu era rapaz e que ele o fora também Mas a tal extremo chegou o abuso que ele restringiu um pouco as franquezas depois mais depois mais Então recorri a minha mãe e induzia a desviar alguma coisa que me dava às escondidas Era pouco lancei mão de um recurso último entrei a sacar sobre a herança de meu pai a assinar obrigações que devia resgatar um dia com usura Em verdade diziame Marcela quando eu lhe levava alguma seda alguma jóia em verdade você quer brigar comigo Pois isto é coisa que se faça um presente tão caro E se era jóia dizia isto a contemplála entre os dedos a procurar melhor luz a ensaiála em si e a rir e a beijarme com uma reincidência impetuosa e sincera mas protestando derramavase lhe a felicidade dos olhos e eu sentiame feliz com vêla assim Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro e eu levavalhe quantas podia obter Marcela juntavaas todas dentro de uma caixinha de ferro cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava escondiaa por medo dos escravos A casa em que morava nos Cajueiros era própria Eram sólidos e bons os móveis de jacarandá lavrado e todas as demais alfaias espelhos jarras baixela uma linda baixela da Índia que lhe doara um desembargador Baixela do diabo desteme grandes repelões aos nervos Disseo muita vez à própria dona não lhe dissimulava o tédio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho Ela ouviame e ria com uma expressão cândida cândida e outra coisa que eu nesse tempo não entendia bem mas agora relembrando o caso penso que era um riso misto como devia ter a criatura que nascesse por exemplo de uma bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock Não sei se me explico E porque tinha notícia dos meus zelos tardios parece que gostava de os açular mais Assim foi que um dia como eu lhe não pudesse dar certo colar que ela vira num joalheiro retorquiume que era um simples gracejo que o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo Não lhe perdôo se você fizer de mim essa triste idéia concluiu ameaçandome com o dedo E logo súbita como um passarinho espalmou as mãos cingiume com elas o rosto puxoume a si e fez um trejeito gracioso um momo de criança Depois reclinada na marquesa continuou a falar daquilo com simplicidade e franqueza Jamais consentiria que lhe comprassem os afetos Vendera muita vez as aparências mas a realidade guardavaa para poucos Duarte por exemplo o alferes Duarte que ela amara deveras dois anos antes só a custo conseguia darlhe alguma coisa de valor como me acontecia a mim ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso preço como a cruz de ouro que lhe deu uma vez de festas Esta cruz Dizia isto metendo a mão no seio e tirando uma cruz fina de ouro presa a uma fita azul e pendurada ao colo Mas essa cruz observei eu não me disseste que era teu pai que Marcela abanou a cabeça com um ar de lástima Não percebeste que era mentira que eu dizia isso para te não molestar Vem cá chiquito não sejas assim desconfiado comigo Amei a outro que importa se acabou Um dia quando nos separarmos Não digas isso bradei eu Tudo cessa Um dia Não pôde acabar um soluço estranguloulhe a voz estendeu as mãos tomou das minhas conchegoume ao seio e sussurroume baixo ao ouvido Nunca nunca meu amor Eu agradecilho com os olhos úmidos No dia seguinte leveilhe o colar que havia recusado Para te lembrares de mim quando nos separarmos disse eu Marcela teve primeiro um silêncio indignado depois fez um gesto magnífico tentou atirar o colar à rua Eu retivelhe o braço pedilhe muito que não me fizesse tal desfeita que ficasse com a jóia Sorriu e ficou Entretanto pagavame à farta os sacrifícios espreitava os meus mais recônditos pensamentos não havia desejo a que não acudisse com alma sem esforço por uma espécie de lei da consciência e necessidade do coração Nunca o desejo era razoável mas um capricho puro uma criancice vêla trajar de certo modo com tais e tais enfeites este vestido e não aquele ir a passeio ou outra coisa assim e ela cedia a tudo risonha e palreira Você é das Arábias diziame E ia a pôr o vestido a renda os brincos com uma obediência de encantar CAPÍTULO XVI UMA REFLEXÃO IMORAL Ocorreme uma reflexão imoral que é ao mesmo tempo uma correção de estilo Cuido haver dito no capítulo XIV que Marcela morria de amores pelo Xavier Não morria vivia Viver não é a mesma coisa que morrer assim o afirmam todos os joalheiros deste mundo gente muito vista na gramática Bons joalheiros que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer a qual é ainda mais obscura do que imoral porque não se entende bem o que eu quero dizer O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela se a cingir um diadema de pedras finas nem menos bela nem menos amada Marcela por exemplo que era bem bonita Marcela amoume CAPÍTULO XVII DO TRAPÉZIO E OUTRAS COISAS Marcela amoume durante quinze meses e onze contos de réis nada menos Meu pai logo que teve aragem dos onze contos sobressaltouse deveras achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil Desta vez disse ele vais para a Europa vais cursar uma Universidade provavelmente Coimbra querote para homem sério e não para arruador e gatuno E como eu fizesse um gesto de espanto Gatuno sim senhor não é outra coisa um filho que me faz isto Sacou da algibeira os meus títulos de dívida já resgatados por ele e sacudiumos na cara Vês peralta é assim que um moço deve zelar o nome dos seus Pensas que eu e meus avós ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas Pelintra Desta vez ou tomas juízo ou ficas sem coisa nenhuma Estava furioso mas de um furor temperado e curto Eu ouvio calado e nada opus à ordem da viagem como de outras vezes fizera ruminava a idéia de levar Marcela comigo Fui ter com ela expuslhe a crise e fizlhe a proposta Marcela ouviume com os olhos no ar sem responder logo como insistisse disseme que ficava que não podia ir para a Europa Por que não Não posso disse ela com ar dolente não posso ir respirar aqueles ares enquanto me lembrar de meu pobre pai morto por Napoleão Qual deles o hortelão ou o advogado Marcela franziu a testa cantarolou uma seguidilha entre dentes depois queixouse do calor e mandou vir um copo de aluá Trouxe lho a mucama numa salva de prata que fazia parte dos meus onze contos Marcela ofereceume polidamente o refresco minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva entornouselhe o líquido no regaço a preta deu um grito eu bradeilhe que se fosse embora Ficando a sós derramei todo o desespero de meu coração disselhe que ela era um monstro que jamais me tivera amor que me deixara descer a tudo sem ter ao menos a desculpa da sinceridade chamei lhe muitos nomes feios fazendo muitos gestos descompostos Marcela deixarase estar sentada a estalar as unhas nos dentes fria como um pedaço de mármore Tive ímpetos de a estrangular de a humilhar ao menos subjugandoa a meus pés Ia talvez fazêlo mas a ação trocouse noutra fui eu que me atirei aos pés dela contrito e súplice beijeilhos recordei aqueles meses da nossa felicidade solitária repetilhe os nomes queridos de outro tempo sentado no chão com a cabeça entre os joelhos dela apertandolhe muito as mãos ofegante desvairado pedilhe com lágrimas que me não desamparasse Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim calados ambos até que brandamente me desviou e com um ar enfastiado Não me aborreça disse Levantouse sacudiu o vestido ainda molhado e caminhou para a alcova Não bradei eu não hás de entrar não quero Ia a lançarlhe as mãos era tarde ela entrara e fecharase Saí desatinado gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais excêntricos e desertos onde fosse difícil dar comigo Ia mastigando o meu desespero com uma espécie de gula mórbida evocava os dias as horas os instantes de delírio e ora me comprazia em crer que eles eram eternos que tudo aquilo era um pesadelo ora enganandome a mim mesmo tentava rejeitálos de mim como um fardo inútil Então resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades e deleitavame com a idéia de que Marcela sabendo da partida ficaria ralada de saudades e remorsos Que ela amarame a tonta devia de sentir alguma coisa uma lembrança qualquer como do alferes Duarte Nisto o dente do ciúme enterravaseme no coração toda a natureza bradava que era preciso levar Marcela comigo Por força por força dizia eu ferindo o ar com uma punhada Enfim tive uma idéia salvadora Ah trapézio dos meus pecados trapézio das concepções abstrusas A idéia salvadora trabalhou nele como a do emplasto capítulo II Era nada menos que fascinála fascinála muito deslumbrála arrastála lembroume pedirlhe por um meio mais concreto do que a súplica Não medi as conseqüências recorri a um derradeiro empréstimo fui à Rua dos Ourives comprei a melhor jóia da cidade três diamantes grandes encastoados num pente de marfim corri à casa de Marcela Marcela estava reclinada numa rede o gesto mole e cansado uma das pernas pendentes a verselhe o pezinho calçado de meia de seda os cabelos soltos derramados o olhar quieto e sonolento Vem comigo disse eu arranjei recursos temos muito dinheiro terás tudo o que quiseres Olha toma E mostreilhe o pente com os diamantes Marcela teve um leve sobressalto ergueu metade do corpo e apoiada num cotovelo olhou para o pente durante alguns instantes curtos depois retirou os olhos tinhase dominado Então eu lanceilhe as mãos aos cabelos coligi os enlaceios à pressa improvisei um toucado sem nenhum alinho e remateio com o pente de diamantes recuei tornei a aproximar me corrigilhe as madeixas abaixeias de um lado busquei alguma simetria naquela desordem tudo com uma minuciosidade e um carinho de mãe Pronto disse eu Doudo foi a sua primeira resposta A segunda foi puxarme para si e pagarme o sacrifício com um beijo o mais ardente de todos Depois tirou o pente admirou muito a matéria e o lavor olhando a espaços para mim e abanando a cabeça com um ar de repreensão Ora você dizia Vens comigo Marcela refletiu um instante Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede e da parede para a jóia mas toda a má impressão se desvaneceu quando ela me respondeu resolutamente Vou Quando embarcas Daqui a dois ou três dias Vou Agradecilho de joelhos Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias e disselho ela sorriu e foi guardar a jóia enquanto eu descia a escada CAPÍTULO XVIII VISÃO DO CORREDOR No fim da escada ao fundo do corredor escuro parei alguns instantes para respirar apalparme convocar as idéias dispersas reaverme enfim no meio de tantas sensações profundas e contrárias Achavame feliz Certo é que os diamantes corrompiam me um pouco a felicidade mas não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes E depois eu confiava na minha boa Marcela podia ter defeitos mas amava me Um anjo murmurei olhando para o teto do corredor E aí como um escárnio vi o olhar de Marcela aquele olhar que pouco antes me dera uma sombra de desconfiança o qual chispava de cima de um nariz que era ao mesmo tempo o nariz de Bakbarah e o meu Pobre namorado das Mil e Uma Noites Vite ali mesmo correr atrás da mulher do vizir ao longo da galeria ela a acenarte com a posse e tu a correr a correr a correr até a alameda comprida donde saíste à rua onde todos os correeiros te apuparam e desancaram Então pareceume que o corredor de Marcela era a alameda e que a rua era a de Bagdá Com efeito olhando para a porta vi na calçada três dos correeiros um de batina outro de libré outro à paisana os quais todos três entraram no corredor tomaram me pelos braços meteramme numa sege meu pai à direita meu tio cônego à esquerda o da libré na boléia e lá me levaram à casa do intendente de polícia donde fui transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa Imaginem se resisti mas toda a resistência era inútil Três dias depois segui barra fora abatido e mudo Não chorava sequer tinha uma idéia fixa Malditas idéias fixas A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano repetindo o nome de Marcela CAPÍTULO XIX A BORDO Éramos onze passageiros um homem doido acompanhado pela mulher dois rapazes que iam a passeio quatro comerciantes e dois criados Meu pai recomendoume a todos começando pelo capitão do navio que aliás tinha muito que cuidar de si porque além do mais levava a mulher tísica em último grau Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto ou se meu pai o pôs de sobreaviso sei que não me tirava os olhos de cima chamavame para toda a parte Quando não podia estar comigo levavame para a mulher A mulher ia quase sempre numa camilha rasa a tossir muito e a afiançar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa Não estava magra estava transparente era impossível que não morresse de uma hora para outra O capitão fingia não crer na morte próxima talvez por enganarse a si mesmo Eu não sabia nem pensava nada Que me importava a mim o destino de uma mulher tísica no meio do oceano O mundo para mim era Marcela Uma noite logo no fim de uma semana achei ensejo propício para morrer Subi cauteloso mas encontrei o capitão que junto à amurada tinha os olhos fitos no horizonte Algum temporal disse eu Não respondeu ele estremecendo não admiro o esplendor da noite Veja está celestial O estilo desmentia da pessoa assaz rude e aparentemente alheia a locuções rebuscadas Fiteio ele pareceu saborear o meu espanto No fim de alguns segundos pegoume na mão e apontou para a lua perguntandome por que não fazia uma ode à noite respondilhe que não era poeta O capitão rosnou alguma coisa deu dois passos meteu a mão no bolso sacou um pedaço de papel muito amarrotado depois à luz de uma lanterna leu uma ode horaciana sobre a liberdade da vida marítima Eram versos dele Que tal Não me lembra o que lhe disse lembrame que ele me apertou a mão com muita força e muitos agradecimentos logo depois recitou me dois sonetos ia recitarme outro quando o vieram chamar da parte da mulher Lá vou disse ele e recitoume o terceiro soneto com pausa com amor Fiquei só mas a musa do capitão varrerame do espírito os pensamentos maus preferi dormir que é um modo interino de morrer No dia seguinte acordamos debaixo de um temporal que meteu medo a toda a gente menos ao doido esse entrou a dar pulos a dizer que a filha o mandava buscar numa berlinda a morte de uma filha fora a causa da loucura Não nunca me há de esquecer a figura hedionda do pobre homem no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão a cantarolar e a bailar com os olhos a saltaremlhe da cara pálido cabelo arrepiado e longo Às vezes parava erguia ao ar as mãos ossudas fazia umas cruzes com os dedos depois um xadrez depois umas argolas e ria muito desesperadamente A mulher não podia já cuidar dele entregue ao terror da morte rezava por si mesma a todos os santos do Céu Enfim a tempestade amainou Confesso que foi uma diversão excelente à tempestade do meu coração Eu que meditava ir ter com a morte não ousei fitála quando ela veio ter comigo O capitão perguntoume se tivera medo se estivera em risco se não achara sublime o espetáculo tudo isso com um interesse de amigo Naturalmente a conversa versou sobre a vida do mar o capitão perguntoume se não gostava de idílios piscatórios eu respondilhe ingenuamente que não sabia o que era Vai ver respondeu E recitoume um poemazinho depois outro uma égloga e enfim cinco sonetos com os quais rematou nesse dia a confidência literária No dia seguinte antes de me recitar nada explicoume o capitão que só por motivos graves abraçara a profissão marítima porque a avó queria que ele fosse padre e com efeito possuía algumas letras latinas não chegou a ser padre mas não deixou de ser poeta que era a sua vocação natural Para proválo recitoume logo de corpo presente uma centena de versos Notei um fenômeno os ademanes que ele usava eram tais que uma vez me fizeram rir mas o capitão quando recitava de tal sorte olhava para dentro de si mesmo que não viu nem ouviu nada Os dias passavam e as águas e os versos e com eles ia também passando a vida da mulher Estava por pouco Um dia logo depois do almoço disseme o capitão que a enferma talvez não chegasse ao fim da semana Já exclamei Passou muito mal a noite Fui vêla acheia na verdade quase moribunda mas falando ainda de descansar em Lisboa alguns dias antes de ir comigo a Coimbra porque era seu propósito levarme à Universidade Deixeia consternado fui achar o marido a olhar para as vagas que vinham morrer no costado do navio e tratei de o consolar ele agradeceu me relatoume a história dos seus amores elogiou a fidelidade e a dedicação da mulher relembrou os versos que lhe fez e recitoumos Neste ponto vieram buscálo da parte dela corremos ambos era uma crise Esse e o dia seguinte foram cruéis o terceiro foi o da morte eu fugi ao espetáculo tinhalhe repugnância Meia hora depois encontrei o capitão sentado num molho de cabos com a cabeça nas mãos disselhe alguma coisa de conforto Morreu como uma santa respondeu ele e para que estas palavras não pudessem ser levadas à conta de fraqueza ergueuse logo sacudiu a cabeça e fitou o horizonte com um gesto longo e profundo Vamos continuou entreguemola à cova que nunca mais se abre Efetivamente poucas horas depois era o cadáver lançado ao mar com as cerimônias do costume A tristeza murchara todos os rostos o do viúvo trazia a expressão de um cabeço rijamente lascado pelo raio Grande silêncio A vaga abriu o ventre acolheu o despojo fechouse uma leve ruga e a galera foi andando Eu deixeime estar alguns minutos à popa com os olhos naquele ponto incerto do mar em que ficava um de nós Fui dali ter com o capitão para distraílo Obrigado disseme ele compreendendo a intenção creia que nunca me esquecerei dos seus bons serviços Deus é que lhos há de pagar Pobre Leocádia tu te lembrarás de nós no Céu Enxugou com a manga uma lágrima importuna eu busquei um derivativo na poesia que era a paixão dele Faleilhe dos versos que me lera e oferecime para imprimilos Os olhos do capitão animaramse um pouco Talvez aceite disse ele mas não sei são bem frouxos versos Jureilhe que não pedi que os reunisse e mos desse antes do desembarque Pobre Leocádia murmurou sem responder ao pedido Um cadáver o mar o céu o navio No dia seguinte veio lerme um epicédio composto de fresco em que estavam memoradas as circunstâncias da morte e da sepultura da mulher leumo com a voz comovida deveras e a mão trêmula no fim perguntoume se os versos eram dignos do tesouro que perdera São disse eu Não haverá estro ponderou ele no fim de um instante mas ninguém me negará sentimento se não é que o próprio sentimento prejudicou a perfeição Não me parece acho os versos perfeitos Sim eu creio que Versos de marujo De marujo poeta Ele levantou os ombros olhou para o papel e tornou a recitar a composição mas já então sem tremuras acentuando as intenções literárias dando relevo às imagens e melodia aos versos No fim confessoume que era a sua obra mais acabada eu disselhe que sim ele apertoume muito a mão e predisseme um grande futuro CAPÍTULO XX BACHARELOME Um grande futuro Enquanto esta palavra me batia no ouvido devolvia eu os olhos ao longe no horizonte misterioso e vago Uma idéia expelia outra a ambição desmontava Marcela Grande futuro Talvez naturalista literato arqueólogo banqueiro político ou até bispo bispo que fosse uma vez que fosse um cargo uma preeminência uma grande reputação uma posição superior A ambição dado que fosse águia quebrou nessa ocasião o ovo e desvendou a pupila fulva e penetrante Adeus amores adeus Marcela dias de delírio jóias sem preço vida sem regímen adeus Cá me vou às fadigas e à glória deixovos com as calcinhas da primeira idade E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra A Universidade esperavame com as suas matérias árduas estudeias muito mediocremente e nem por isso perdi o grau de bacharel derammo com a solenidade do estilo após os anos da lei uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades principalmente de saudades Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião era um acadêmico estróina superficial tumultuário e petulante dado às aventuras fazendo romantismo prático e liberalismo teórico vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas No dia em que a Universidade me atestou em pergaminho uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro confesso que me achei de algum modo logrado ainda que orgulhoso Explicome o diploma era uma carta de alforria se me dava a liberdade davame a responsabilidade Guardeio deixei as margens do Mondego e vim por ali fora assaz desconsolado mas sentindo já uns ímpetos uma curiosidade um desejo de acotovelar os outros de influir de gozar de viver de prolongar a Universidade pela vida adiante CAPÍTULO XXI O ALMOCREVE Vai então empacou o jumento em que eu vinha montado fustiguei o ele deu dois corcovos depois mais três enfim mais um que me sacudiu fora da sela com tal desastre que o pé esquerdo me ficou preso no estribo tento agarrarme ao ventre do animal mas já então espantado disparou pela estrada fora Digo mal tentou disparar e efetivamente deu dois saltos mas um almocreve que ali estava acudiu a tempo de lhe pegar na rédea e detêlo não sem esforço nem perigo Dominado o bruto desvencilheime do estribo e pusme de pé Olhe do que vosmecê escapou disse o almocreve E era verdade se o jumento corre por ali fora contundiame deveras e não sei se a morte não estaria no fim do desastre cabeça partida uma congestão qualquer transtorno cá dentro lá se me ia a ciência em flor O almocreve salvarame talvez a vida era positivo eu sentiano no sangue que me agitava o coração Bom almocreve enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo ele cuidava de consertar os arreios do jumento com muito zelo e arte Resolvi dar lhe três moedas de ouro das cinco que trazia comigo não porque tal fosse o preço da minha vida essa era inestimável mas porque era uma recompensa digna da dedicação com que ele me salvou Está dito doulhe as três moedas Pronto disse ele apresentandome a rédea da cavalgadura Daqui a nada respondi deixame que ainda não estou em mim Ora qual Pois não é certo que ia morrendo Se o jumento corre por aí fora é possível mas com a ajuda do Senhor viu vosmecê que não aconteceu nada Fui aos alforjes tirei um colete velho em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro e durante esse tempo cogitei se não era excessiva a gratificação se não bastavam duas moedas Talvez uma Com efeito uma moeda era bastante para lhe dar estremeções de alegria Examineilhe a roupa era um pobrediabo que nunca jamais vira uma moeda de ouro Portanto uma moeda Tireia via reluzir à luz do sol não a viu o almocreve porque eu tinhalhe voltado as costas mas suspeitouo talvez entrou a falar ao jumento de um modo significativo davalhe conselhos dizialhe que tomasse juízo que o senhor doutor podia castigálo um monólogo paternal Valhame Deus até ouvi estalar um beijo era o almocreve que lhe beijava a testa Olé exclamei Queira vosmecê perdoar mas o diabo do bicho está a olhar para a gente com tanta graça Rime hesitei metilhe na mão um cruzado em prata cavalguei o jumento e segui a trote largo um pouco vexado melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha Mas a algumas braças de distância olhei para trás o almocreve faziame grandes cortesias com evidentes mostras de contentamento Adverti que devia ser assim mesmo eu pagaralhe bem pagaralhe talvez demais Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti umas moedas de cobre eram os vinténs que eu devera ter dado ao almocreve em lugar do cruzado em prata Porque enfim ele não levou em mira nenhuma recompensa ou virtude cedeu a um impulso natural ao temperamento aos hábitos do ofício acresce que a circunstância de estar não mais adiante nem mais atrás mas justamente no ponto do desastre parecia constituílo simples instrumento da Providência e de um ou de outro modo o mérito do ato era positivamente nenhum Fiquei desconsolado com esta reflexão chameime pródigo lancei o cruzado à conta das minhas dissipações antigas tive por que não direi tudo tive remorsos CAPÍTULO XXII VOLTA AO RIO Jumento de uma figa cortasteme o fio às reflexões Já agora não digo o que pensei dali até Lisboa nem o que fiz em Lisboa na península e em outros lugares da Europa da velha Europa que nesse tempo parecia remoçar Não não direi que assisti às alvoradas do romantismo que também eu fui fazer poesia efetiva no regaço da Itália não direi coisa nenhuma Teria de escrever um diário de viagem e não umas memórias como estas são nas quais só entra a substância da vida Ao cabo de alguns anos de peregrinação atendi às súplicas de meu pai Vem dizia ele na última carta se não vieres depressa acharás tua mãe morta Esta última palavra foi para mim um golpe Eu amava minha mãe tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias da última bênção que ela me dera a bordo do navio Meu triste filho nunca mais te verei soluçava a pobre senhora apertandome ao peito E essas palavras ressoavamme agora como uma profecia realizada Notese que eu estava em Veneza ainda recendente aos versos de lord Byron lá estava mergulhado em pleno sonho revivendo o pretérito crendome na Sereníssima República É verdade uma vez aconteceume perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia Que doge signor mio Caí em mim mas não confessei a ilusão disselhe que a minha pergunta era um gênero de charada americana ele mostrou compreender e acrescentou que gostava muito das charadas americanas Era um locandeiro Pois deixei tudo isso o locandeiro o doge a Ponte dos Suspiros a gôndola os versos do lorde as damas do Rialto deixei tudo e disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro Vim Mas não não alonguemos este capítulo Às vezes esqueçome a escrever e a pena vai comendo papel com grave prejuízo meu que sou autor Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões e nós não somos um público infolio mas in12 pouco texto larga margem tipo elegante corte dourado e vinhetas Não não alonguemos o capítulo CAPÍTULO XXIII TRISTE MAS CURTO Vim Não nego que ao avistar a cidade natal tive uma sensação nova Não era efeito da minha pátria política erao do lugar da infância a rua a torre o chafariz da esquina a mulher de mantilha o preto do ganho as coisas e cenas da meninice buriladas na memória Nada menos que uma renascença O espírito como um pássaro não se lhe deu da corrente dos anos arrepiou o vôo na direção da fonte original e foi beber da água fresca e pura ainda não mesclada do enxurro da vida Reparando bem há aí um lugarcomum Outro lugarcomum tristemente comum foi a consternação da família Meu pai abraçou me com lágrimas Tua mãe não pode viver disseme Com efeito não era já o reumatismo que a matava era um cancro no estômago A infeliz padecia de um modo cru porque o cancro é indiferente às virtudes do sujeito quando rói rói roer é o seu ofício Minha irmã Sabina já então casada com o Cotrim andava a cair de fadiga Pobre moça dormia três horas por noite nada mais O próprio tio João estava abatido e triste D Eusébia e algumas outras senhoras lá estavam também não menos tristes e não menos dedicadas Meu filho A dor suspendeu por um pouco as tenazes um sorriso alumiou o rosto da enferma sobre o qual a morte batia a asa eterna Era menos um rosto do que uma caveira a beleza passara como um dia brilhante restavam os ossos que não emagrecem nunca Mal poderia conhecêla havia oito ou nove anos que nos não víamos Ajoelhado ao pé da cama com as mãos dela entre as minhas fiquei mudo e quieto sem ousar falar porque cada palavra seria um soluço e nós temíamos avisála do fim Vão temor Ela sabia que estava prestes a acabar dissemo verificamolo na seguinte manhã Longa foi a agonia longa e cruel de uma crueldade minuciosa fria repisada que me encheu de dor e estupefação Era a primeira vez que eu via morrer alguém Conhecia a morte de outiva quando muito tinhaa visto já petrificada no rosto de algum cadáver que acompanhei ao cemitério ou trazialhe a idéia embrulhada nas amplificações de retórica dos professores de coisas antigas a morte aleivosa de César a austera de Sócrates a orgulhosa de Catão Mas esse duelo do ser e do não ser a morte em ação dolorida contraída convulsa sem aparelho político ou filosófico a morte de uma pessoa amada essa foi a primeira vez que a pude encarar Não chorei lembrame que não chorei durante o espetáculo tinha os olhos estúpidos a garganta presa a consciência boquiaberta Quê uma criatura tão dócil tão meiga tão santa que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto mãe carinhosa esposa imaculada era força que morresse assim trateada mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro incongruente insano Triste capítulo passemos a outro mais alegre CAPÍTULO XXIV CURTO MAS ALEGRE Fiquei prostrado E contudo era eu nesse tempo um fiel compêndio de trivialidade e presunção Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro nunca até esse dia me debruçara sobre o abismo do Inexplicável faltavame o essencial que é o estímulo a vertigem Para lhes dizer a verdade toda eu refletia as opiniões de um cabeleireiro que achei em Módena e que se distinguia por não as ter absolutamente Era a flor dos cabeleireiros por mais demorada que fosse a operação do toucado não enfadava nunca ele intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas cheios de um pico de um sabor Não tinha outra filosofia Nem eu Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma mas eu decoreilhe só as fórmulas o vocabulário o esqueleto Trateia como tratei o latim embolsei três versos de Virgílio dois de Horácio uma dúzia de locuções morais e políticas para as despesas da conversação Tratei os como tratei a história e a jurisprudência Colhi de todas as coisas a fraseologia a casca a ornamentação Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto Na vida o olhar da opinião o contraste dos interesses a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos a disfarçar os rasgões e os remendos a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência e o melhor da obrigação é quando à força de embaçar os outros embaçase um homem a si mesmo porque em tal caso poupase o vexame que é uma sensação penosa e a hipocrisia que é um vício hediondo Mas na morte que diferença que desabafo que liberdade Como a gente pode sacudir fora a capa deitar ao fosso as lantejoulas despregarse despintarse desafeitar se confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser Porque em suma já não há vizinhos nem amigos nem inimigos nem conhecidos nem estranhos não há platéia O olhar da opinião esse olhar agudo e judicial perde a virtude logo que pisamos o território da morte não digo que ele se não estenda para cá e nos não examine e julgue mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento Senhores vivos não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados CAPÍTULO XXV NA TIJUCA Ui Lá me ia a pena a escorregar para o enfático Sejamos simples como era simples a vida que levei na Tijuca durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe No sétimo dia acabada a missa fúnebre travei de uma espingarda alguns livros roupa charutos um moleque o Prudêncio do capítulo XI e fui meterme numa velha casa de nossa propriedade Meu pai forcejou por me torcer a resolução mas eu é que não podia nem queria obedecerlhe Sabina desejava que eu fosse morar com ela algum tempo duas semanas ao menos meu cunhado esteve a ponto de me levar à fina força Era um bom rapaz este Cotrim passara de estróina a circunspecto Agora comerciava em gêneros de estiva labutava de manhã até à noite com ardor com perseverança De noite sentado à janela a encaracolar as suíças não pensava em outra coisa Amava a mulher e um filho que então tinha e que lhe morreu alguns anos depois Diziam que era avaro Renunciei tudo tinha o espírito atônito Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria essa flor amarela solitária e mórbida de um cheiro inebriante e sutil Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção confesso que senti em mim um eco um eco delicioso Lembrame que estava sentado debaixo de um tamarineiro com o livro do poeta aberto nas mãos e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a figura ou jururu como dizemos das galinhas tristes Apertava ao peito a minha dor taciturna com uma sensação única uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento Volúpia do aborrecimento decora esta expressão leitor guardaa examinaa e se não chegares a entendêla podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo Às vezes caçava outras dormia outras lia lia muito outras enfim não fazia nada deixavame atoar de idéia em idéia de imaginação em imaginação como uma borboleta vadia ou faminta As horas iam pingando uma a uma o sol caía as sombras da noite velavam a montanha e a cidade Ninguém me visitava recomendei expressamente que me deixassem só Um dia dois dias três dias uma semana inteira passada assim sem dizer palavra era bastante para sacudirme da Tijuca fora e restituirme ao bulício Com efeito ao cabo de sete dias estava farto da solidão a dor aplacara o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros nem com a vista do arvoredo e do céu Reagia a mocidade era preciso viver Meti no baú o problema da vida e da morte os hipocondríacos do poeta as camisas as meditações as gravatas e ia fechálo quando o moleque Prudêncio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na véspera para uma casa roxa situada a duzentos passos da nossa Quem Nhonhô talvez não se lembre mais de D Eusébia Lembrame É ela Ela e a filha Vieram ontem de manhã Ocorreume logo o episódio de 1814 e sentime vexado mas adverti que os acontecimentos tinhamme dado razão Na verdade fora impossível evitar as relações íntimas do Vilaça com a irmã do sargentomor antes mesmo do meu embarque já se boquejava misteriosamente no nascimento de uma menina Meu tio João mandoume dizer depois que o Vilaça ao morrer deixara um bom legado a D Eusébia coisa que deu muito que falar em todo o bairro O próprio tio João guloso de escândalos não tratou de outro assunto na carta aliás de muitas folhas Tinhamme dado razão os acontecimentos Ainda porém que ma não dessem 1814 lá ia longe e com ele a travessura e o Vilaça e o beijo da moita finalmente nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela Fiz comigo essa reflexão e acabei de fechar o baú Nhonhô não vai visitar sinhá D Eusébia perguntoume o Prudêncio Foi ela quem vestiu o corpo da minha defunta senhora Lembreime que a vira entre outras senhoras por ocasião da morte e do enterro ignorava porém que ela houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obséquio A ponderação do moleque era razoável eu devialhe uma visita determinei fazêla imediatamente e descer CAPÍTULO XXVI O AUTOR HESITA Súbito ouço uma voz Olá meu rapaz isto não é vida Era meu pai que chegava com duas propostas na algibeira Senteime no baú e recebio sem alvoroço Ele esteve alguns instantes de pé a olhar para mim depois estendeume a mão com um gesto comovido Meu filho conformate com a vontade de Deus Já me conformei foi a minha resposta e beijeilhe a mão Não tinha almoçado almoçamos juntos Nenhum de nós aludiu ao triste motivo da minha reclusão Uma só vez falamos nisso de passagem quando meu pai fez recair a conversa na Regência foi então que aludiu à carta de pêsames que um dos Regentes lhe mandara Trazia a carta consigo já bastante amarrotada talvez por havêla lido a muitas outras pessoas Creio haver dito que era de um dos Regentes Leuma duas vezes Já lhe fui agradecer este sinal de consideração concluiu meu pai e acho que deves ir também Eu Tu é um homem notável faz hoje as vezes de imperador Demais trago comigo uma idéia um projeto ou sim digote tudo trago dois projetos um lugar de deputado e um casamento Meu pai disse isto com pausa e não no mesmo tom mas dando às palavras um jeito e disposição cujo fim era caválas mais profundamente no meu espírito A proposta porém desdizia tanto das minhas sensações últimas que eu cheguei a não entendêla bem Meu pai não fraqueou e repetiua encareceu o lugar e a noiva Aceitas Não entendo de política disse eu depois de um instante quanto à noiva deixeme viver como um urso que sou Mas os ursos casamse replicou ele Pois tragame uma ursa Olhe a UrsaMaior Riuse meu pai e depois de rir tornou a falar sério Erame necessária a carreira política dizia ele por vinte e tantas razões que deduziu com singular volubilidade ilustrandoas com exemplos de pessoas do nosso conhecimento Quanto à noiva bastava que eu a visse se a visse iria logo pedila ao pai logo sem demora de um dia Experimentou assim a fascinação depois a persuasão depois a intimação eu não dava resposta afiava a ponta de um palito ou fazia bolas de miolo de pão a sorrir ou a refletir e para tudo dizer nem dócil nem rebelde à proposta Sentiame aturdido Uma parte de mim mesmo dizia que sim que uma esposa formosa e uma posição política eram bens dignos de apreço outra dizia que não e a morte de minha mãe me aparecia como um exemplo da fragilidade das coisas das afeições da família Não vou daqui sem uma resposta definitiva disse meu pai Defi nitiva repetiu batendo as sílabas com o dedo Bebeu o último gole de café repoltreouse e entrou a falar de tudo do Senado da Câmara da Regência da restauração do Evaristo de um coche que pretendia comprar da nossa casa de Matacavalos Eu deixavame estar ao canto da mesa a escrever desvairadamente num pedaço de papel com uma ponta de lápis traçava uma palavra uma frase um verso um nariz um triângulo e repetiaos muitas vezes sem ordem ao acaso assim arma virumque cano A Arma virumque cano arma virumque cano arma virumque arma virumque cano virumque Maquinalmente tudo isto e não obstante havia certa lógica certa dedução por exemplo foi o virumque que me fez chegar ao nome do próprio poeta por causa da primeira sílaba ia a escrever virumque e saime Virgílio então continuei Vir Virgílio Virgílio Virgílio Virgílio Virgílio Meu pai um pouco despeitado com aquela indiferença ergueuse veio a mim lançou os olhos ao papel Virgílio exclamou És tu meu rapaz a tua noiva chamase justamente Virgília CAPÍTULO XXVII VIRGÍLIA Virgília Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois A mesma era justamente a senhora que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias e que antes muito antes teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça e com certeza a mais voluntariosa Não digo que ia lhe coubesse a primazia da beleza entre as mocinhas do tempo porque isto não é romance em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha não Era bonita fresca saía das mãos da natureza cheia daquele feitiço precário e eterno que o indivíduo passa a outro indivíduo para os fins secretos da criação Era isto Virgília e era clara muito clara faceira ignorante pueril cheia de uns ímpetos misteriosos muita preguiça e alguma devoção devoção ou talvez medo creio que medo Aí tem o leitor em poucas linhas o retrato físico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida era aquilo com dezesseis anos Tu que me lês se ainda fores viva quando estas páginas vierem à luz tu que me lês Virgília amada não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi Crê que era tão sincero então como agora a morte não me tornou rabugento nem injusto Mas dirás tu como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo e exprimila depois de tantos anos Ah indiscreta ah ignorantona Mas é isso mesmo que nos faz senhores da Terra é esse poder de restaurar o passado para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante Não é uma errata pensante isso sim Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior e que será corrigida também até a edição definitiva que o editor dá de graça aos vermes CAPÍTULO XXVIII CONTANTO QUE Virgília interrompi eu Sim senhor é o nome da noiva Um anjo meu pateta um anjo sem asas Imagina uma moça assim desta altura viva como um azougue e uns olhos filha do Dutra Que Dutra O Conselheiro Dutra não conheces uma influência política Vamos lá aceitas Não respondi logo fitei por alguns segundos a ponta do botim declarei depois que estava disposto a examinar as duas coisas a candidatura e o casamento contanto que Contanto quê Contanto que não fique obrigado a aceitar as duas creio que posso ser separadamente homem casado ou homem público Todo o homem público deve ser casado interrompeu sentenciosamente meu pai Mas seja como queres estou por tudo fico certo de que a vista fará fé Demais a noiva e o Parlamento são a mesma coisa isto é não saberás depois Vá aceito a dilação contanto que Contanto quê interrompi eu imitandolhe a voz Ah brejeiro Contanto que não te deixes ficar aí inútil obscuro e triste não gastei dinheiro cuidados empenhos para te não ver brilhar como deves e te convém e a todos nós é preciso continuar o nosso nome continuálo e ilustrálo ainda mais Olha estou com sessenta anos mas se fosse necessário começar vida nova começava sem hesitar um só minuto Teme a obscuridade Brás foge do que é ínfimo Olha que os homens valem por diferentes modos e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens Não estragues as vantagens da tua posição os teus meios E foi por diante o mágico a agitar diante de mim um chocalho como me faziam em pequeno para eu andar depressa e a flor da hipocondria recolheuse ao botão para deixar a outra flor menos amarela e nada mórbida o amor da nomeada o emplasto Brás Cubas CAPÍTULO XXIX A VISITA Vencera meu pai dispusme a aceitar o diploma e o casamento Virgília e a Câmara dos Deputados As duas Virgílias disse ele num assomo de ternura política Aceiteios meu pai deume dois fortes abraços Era o seu próprio sangue que ele enfim reconhecia Desces comigo Desço amanhã Vou fazer primeiramente uma visita a D Eusébia Meu pai torceu o nariz mas não disse nada despediuse e desceu Eu na tarde desse mesmo dia fui visitar D Eusébia Acheia a repreender um preto jardineiro mas deixou tudo para vir falarme com um alvoroço um prazer tão sincero que me desacanhou logo Creio que chegou a cingirme com o seu par de braços robustos Fez me sentar ao pé de si na varanda entre muitas exclamações de contentamento Ora o Brasinho Um homem Quem diria há anos Um homenzarrão E bonito Qual Você não se lembra de mim Disselhe que sim que não era possível esquecer uma amiga tão familiar de nossa casa D Eusébia começou a falar de minha mãe com muitas saudades com tantas saudades que me cativou logo posto me entristecesse Ela percebeuo nos meus olhos e torceu a rédea à conversação pediume que lhe contasse a viagem os estudos os namoros Sim os namoros também confessoume que era uma velha patusca Nisto recordeime do episódio de 1814 ela o Vilaça a moita o beijo o meu grito e estando a recordálo ouço um ranger de porta um farfalhar de saias e esta palavra Mamãe mamãe CAPÍTULO XXX A FLOR DA MOITA A voz a as saias pertenciam a uma mocinha morena que se deteve à porta alguns instantes ao ver gente estranha Silêncio curto e constrangido D Eusébia quebrouo enfim com resolução e franqueza Vem cá Eugênia disse ela cumprimenta o Dr Brás Cubas filho do Sr Cubas veio da Europa E voltandose para mim Minha filha Eugênia Eugênia a flor da moita mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz olhoume admirada e acanhada e lentamente se aproximou da cadeira da mãe A mãe arranjoulhe uma das tranças do cabelo cuja ponta se desmanchara Ah travessa dizia Não imagina doutor o que isto é E beijoua com tão expansiva ternura que me comoveu um pouco lembroume minha mãe e direi tudo tive umas cócegas de ser pai Travessa disse eu Pois já não está em idade própria ao que parece Quantos lhe dá Dezessete Menos um Dezesseis Pois então é uma moça Não pôde Eugênia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra mas emendouse logo e ficou como dantes ereta fria e muda Em verdade parecia ainda mais mulher do que era seria criança nos seus folgares de moça mas assim quieta impassível tinha a compostura da mulher casada Talvez essa circunstância lhe diminuía um pouco da graça virginal Depressa nos familiarizamos a mãe fazialhe grandes elogios eu escutavaos de boa sombra e ela sorria com os olhos fúlgidos como se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante Digo lá dentro porque cá fora o que esvoaçou foi uma borboleta preta que subitamente penetrou na varanda e começou a bater as asas em derredor de D Eusébia D Eusébia deu um grito levantou se praguejou umas palavras soltas Tesconjuro Sai diabo Virgem Nossa Senhora Não tenha medo disse eu e tirando o lenço expeli a borboleta D Eusébia sentouse outra vez ofegante um pouco envergonhada a filha pode ser que pálida de medo dissimulava a impressão com muita força de vontade Aperteilhes a mão e saí a rir comigo da superstição das duas mulheres um rir filosófico desinteressado superior De tarde vi passar a cavalo a filha de D Eusébia seguida de um pajem fezme um cumprimento com a ponta do chicote Confesso que me lisonjeei com a idéia de que alguns passos adiante ela voltaria a cabeça para trás mas não voltou CAPÍTULO XXXI A BORBOLETA PRETA Na dia seguinte como eu estivesse a prepararme para descer entrou no meu quarto uma borboleta tão negra como a outra e muito maior do que ela Lembroume o caso da véspera e rime entrei logo a pensar na filha de D Eusébia no susto que tivera e na dignidade que apesar dele soube conservar A borboleta depois de esvoaçar muito em torno de mim pousoume na testa Sacudia ela foi pousar na vidraça e porque eu a sacudisse de novo saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai Era negra como a noite O gesto brando com que uma vez posta começou a mover as asas tinha um certo ar escarninho que me aborreceu muito Dei de ombros saí do quarto mas tornando lá minutos depois e achandoa ainda no mesmo lugar senti um repelão dos nervos lancei mão de uma toalha batilhe e ela caiu Não caiu morta ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça Apiedeime tomeia na palma da mão e fui depôla no peitoril da janela Era tarde a infeliz expirou dentro de alguns segundos Fiquei um pouco aborrecido incomodado Também por que diabo não era ela azul disse comigo E esta reflexão uma das mais profundas que se tem feito desde a invenção das borboletas me consolou do malefício e me reconciliou comigo mesmo Deixeime estar a contemplar o cadáver com alguma simpatia confesso Imaginei que ela saíra do mato almoçada e feliz A manhã era linda Veio por ali fora modesta e negra espairecendo as suas borboletices sob a vasta cúpula de um céu azul que é sempre azul para todas as asas Passa pela minha janela entra e dá comigo Suponho que nunca teria visto um homem não sabia portanto o que era o homem descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo e viu que me movia que tinha olhos braços pernas um ar divino uma estatura colossal Então disse consigo Este é provavelmente o inventor das borboletas A idéia subjugoua aterroua mas o medo que é também sugestivo insinuoulhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá lo na testa e beijoume na testa Quando enxotada por mim foi pousar na vidraça viu dali o retrato de meu pai e não é impossível que descobrisse meia verdade a saber que estava ali o pai do inventor das borboletas e voou a pedirlhe misericórdia Pois um golpe de toalha rematou a aventura Não lhe valeu a imensidade azul nem a alegria das flores nem a pompa das folhas verdes contra uma toalha de rosto dois palmos de linho cru Vejam como é bom ser superior às borboletas Porque é justo dizêlo se ela fosse azul ou cor de laranja não teria mais segura a vida não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete para recreio dos olhos Não era Esta última idéia restituiume a consolação uni o dedo grande ao polegar despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim Era tempo aí vinham já as próvidas formigas Não volto à primeira idéia creio que para ela era melhor ter nascido azul CAPÍTULO XXXII COXA DE NASCENÇA Fui dali acabar os preparativos da viagem Já agora não me demoro mais Desço imediatamente desço ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação Ai não contava com D Eusébia Estava pronto quando me entrou por casa Vinha convidarme para transferir a descida e ir lá jantar nesse dia Cheguei a recusar mas instou tanto tanto tanto que não pude deixar de aceitar demais eralhe devida aquela compensação fui Eugênia desataviouse nesse dia por minha causa Creio que foi por minha causa se é que não andava muita vez assim Sem as bichas de ouro que trazia na véspera lhe pendiam agora das orelhas duas orelhas finamente recortadas numa cabeça de ninfa Um simples vestido branco de cassa sem enfeites tendo ao colo em vez de broche um botão de madrepérola e outro botão nos punhos fechando as mangas e nem sombra de pulseira Era isso no corpo não era outra coisa no espírito Idéias claras maneiras chãs certa graça natural um ar de senhora e não sei se alguma outra coisa sim a boca exatamente a boca da mãe a qual me lembrava o episódio de 1814 e então davame ímpetos de glosar o mesmo mote à filha Agora vou mostrarlhe a chácara disse a mãe logo que esgotamos o último gole de café Saímos à varanda dali à chácara e foi então que notei uma circunstância Eugênia coxeava um pouco tão pouco que eu cheguei a perguntarlhe se machucara o pé A mãe calouse a filha respondeu sem titubear Não senhor sou coxa de nascença Mandeime a todos os diabos chameime desastrado grosseirão Com efeito a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada Então lembroume que da primeira vez que a vi na véspera a moça chegarase lentamente à cadeira da mãe e que naquele dia já a achei à mesa de jantar Talvez fosse para encobrir o defeito mas por que razão o confessava agora Olhei para ela e reparei que ia triste Tratei de apagar os vestígios de meu desazo não me foi difícil porque a mãe era segundo confessara uma velha patusca e prontamente travou de conversa comigo Vimos toda a chácara árvores flores tanque de patos tanque de lavar uma infinidade de coisas que ela me ia mostrando e comentando ao passo que eu de soslaio perscrutava os olhos de Eugênia Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo mas direito perfeitamente são vinha de uns olhos pretos e tranqüilos Creio que duas ou três vezes baixaram estes um pouco turvados mas duas ou três vezes somente em geral fitavamme com franqueza sem temeridade nem biocos CAPÍTULO XXXIII BEMAVENTURADOS OS QUE NÃO DESCEM O pior é que era coxa Uns olhos tão lúcidos uma boca tão fresca uma compostura tão senhoril e coxa Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio Por que bonita se coxa por que coxa se bonita Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa de noite sem atinar com a solução do enigma O melhor que há quando se não resolve um enigma é sacudilo pela janela fora foi o que eu fiz lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta que me adejava no cérebro Fiquei aliviado e fui dormir Mas o sonho que é uma fresta do espírito deixou novamente entrar o bichinho e aí fiquei eu a noite toda a cavar o mistério sem explicálo Amanheceu chovendo transferi a descida mas no outro dia a manhã era límpida e azul e apesar disso deixeime ficar não menos que no terceiro dia e no quarto até o fim da semana Manhãs bonitas frescas convidativas lá embaixo a família a chamarme e a noiva e o Parlamento e eu sem acudir a coisa nenhuma enlevado ao pé da minha Vênus Manca Enlevado é uma maneira de realçar o estilo não havia enlevo mas gosto uma certa satisfação física e moral Querialhe é verdade ao pé dessa criatura tão singela filha espúria e coxa feita de amor e desprezo ao pé dela sentiame bem e ela creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim E isto na Tijuca Uma simples égloga D Eusébia vigiavanos mas pouco temperava a necessidade com a conveniência A filha nessa primeira explosão da natureza entregavame a alma em flor O senhor desce amanhã disseme ela no sábado Pretendo Não desça Não desci e acrescentei um versículo ao Evangelho Bem aventurados os que não descem porque deles é o primeiro beijo das moças Com efeito foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia o primeiro que nenhum outro varão jamais lhe tomara e não furtado ou arrebatado mas candidamente entregue como um devedor honesto paga uma dívida Pobre Eugênia Se tu soubesses que idéias me vagavam pela mente fora naquela ocasião Tu trêmula de comoção com os braços nos meus ombros a contemplar em mim o teu bemvindo esposo e eu com os olhos de 1814 na moita no Vilaça e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue à tua origem D Eusébia entrou inesperadamente mas não tão súbita que nos apanhasse ao pé um do outro Eu fui até à janela Eugênia sentouse a concertar uma das tranças Que dissimulação graciosa que arte infinita e delicada que tartufice profunda e tudo isso natural vivo não estudado natural como o apetite natural como o sono Tanto melhor D Eusébia não suspeitou nada CAPÍTULO XXXIV A UMA ALMA SENSÍVEL Há aí entre as cinco ou dez pessoas que me lêem há aí uma alma sensível que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior começa a tremer pela sorte de Eugênia e talvez sim talvez lá no fundo de si mesma me chame cínico Eu cínico alma sensível Pela coxa de Diana esta injúria merecia ser lavada com sangue se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo Não alma sensível eu não sou cínico eu fui homem meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero o drama sacro o austero o piegas a comédia louçã a desgrenhada farsa os autos as bufonerias um pandemônio alma sensível uma barafunda de coisas e pessoas em que podias ver tudo desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono Cruzavamse nele pensamentos de vária casta e feição Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beijaflor havia também a da lesma e do sapo Retira pois a expressão alma sensível castiga os nervos limpa os óculos que isso às vezes é dos óculos e acabemos de uma vez com esta flor da moita CAPÍTULO XXXV O CAMINHO DE DAMASCO Ora aconteceu que oito dias depois como eu estivesse no caminho de Damasco ouvi uma voz misteriosa que me sussurrou as palavras da Escritura At IX 7 Levantate e entra na cidade Essa voz saía de mim mesmo e tinha duas origens a piedade que me desarmava ante a candura da pequena e o terror de vir a amar deveras e desposála Uma mulher coxa Quanto a este motivo da minha descida não há duvidar que ela o achou e mo disse Foi na varanda na tarde de uma segundafeira ao anunciarlhe que na seguinte manhã viria para baixo Adeus suspirou ela estendendo me a mão com simplicidade faz bem E como eu nada dissesse continuou Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo Ia dizer lhe que não ela retirouse lentamente engolindo as lágrimas Alcanceia a poucos passos e jureilhe por todos os santos do Céu que eu era obrigado a descer mas que não deixava de lhe querer e muito tudo hipérboles frias que ela escutou sem dizer nada Acreditame perguntei eu no fim Não e digolhe que faz bem Quis retêla mas o olhar que me lançou não foi já de súplica senão de império Desci da Tijuca na manhã seguinte um pouco amargurado outro pouco satisfeito Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai que era conveniente abraçar a carreira política que a constituição que a minha noiva que o meu cavalo CAPÍTULO XXXVI A PROPÓSITO DE BOTAS Meu pai que me não esperava abraçoume cheio de ternura e agradecimento Agora é deveras disse ele Posso enfim Deixeio nessa reticência e fui descalçar as botas que estavam apertadas Uma vez aliviado respirei à larga e deiteime a fio comprido enquanto os pés e todo eu atrás deles entrávamos numa relativa bemaventurança Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra porque fazendo doer os pés dão azo ao prazer de as descalçar Mortifica os pés desgraçado desmortificaos depois e aí tens a felicidade barata ao sabor dos sapateiros e de Epicuro Enquanto esta idéia me trabalhava no famoso trapézio lançava eu os olhos para a Tijuca e via a aleijadinha perderse no horizonte do pretérito e sentia que o meu coração não tardaria também a descalçar as suas botas E descalçou as o lascivo Quatro ou cinco dias depois saboreava esse rápido inefável e incoercível momento de gozo que sucede a uma dor pungente a uma preocupação a um incômodo Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos porque só aguça a fome com o fim de deparar a ocasião de comer e não inventou os calos senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas Tu minha Eugênia é que não as descalçaste nunca foste aí pela estrada da vida manquejando da perna e do amor triste como os enterros pobres solitária calada laboriosa até que vieste também para esta outra margem O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século Quem sabe Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana CAPÍTULO XXXVII ENFIM Enfim eis aqui Virgília Antes de ir à casa do Conselheiro Dutra perguntei a meu pai se havia algum ajuste prévio de casamento Nenhum ajuste Há tempos conversando com ele a teu respeito confesseilhe o desejo que tinha de te ver deputado e de tal modo falei que ele prometeu fazer alguma coisa e creio que o fará Quanto à noiva é o nome que dou a uma criaturinha que é uma jóia uma flor uma estrela uma coisa rara é a filha dele imaginei que se casasses com ela mais depressa serias deputado Só isto Só isto Fomos dali à casa do Dutra Era uma pérola esse homem risonho jovial patriota um pouco irritado com os males públicos mas não desesperando de os curar depressa Achou que a minha candidatura era legítima convinha porém esperar alguns meses E logo me apresentou à mulher uma estimável senhora e à filha que não desmentiu em nada o panegírico de meu pai Jurovos que em nada Relede o capítulo XXVII Eu que levava idéias a respeito da pequena fiteia de certo modo ela que não sei se as tinha não me fitou de modo diferente e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal No fim de um mês estávamos íntimos CAPÍTULO XXXVIII A QUARTA EDIÇÃO Venha cá jantar amanhã disseme o Dutra uma noite Aceitei o convite No dia seguinte mandei que a sege me esperasse no Largo de São Francisco de Paula e fui dar várias voltas Lembra vos ainda a minha teoria das edições humanas Pois sabei que naquele tempo estava eu na quarta edição revista e emendada mas ainda inçada de descuidos e barbarismos defeito que aliás achava alguma compensação no tipo que era elegante e na encadernação que era luxuosa Dadas as voltas ao passar pela Rua dos Ourives consulto o relógio e caime o vidro na calçada Entro na primeira loja que tinha à mão era um cubículo pouco mais empoeirado e escuro Ao fundo por trás do balcão estava sentada uma mulher cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo à primeira vista mas logo que se destacava era um espetáculo curioso Não podia ter sido feia ao contrário viase que fora bonita e não pouco bonita mas a doença e uma velhice precoce destruíamlhe a flor das graças As bexigas tinham sido terríveis os sinais grandes e muitos faziam saliências e encarnas declives e aclives e davam uma sensação de lixa grossa enormemente grossa Eram os olhos a melhor parte do vulto e aliás tinham uma expressão singular e repugnante que mudou entretanto logo que eu comecei a falar Quanto ao cabelo estava ruço e quase tão poento como os portais da loja Num dos dedos da mão esquerda fulgialhe um diamante Crêloeis pósteros essa mulher era Marcela Não a conheci logo era difícil ela porém conheceume apenas lhe dirigi a palavra Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra meio doce e meio triste Vilhe um movimento como para esconderse ou fugir era o instinto da vaidade que não durou mais de um instante Marcela acomodouse e sorriu Quer comprar alguma coisa disse ela estendendome a mão Não respondi nada Marcela compreendeu a causa do meu silêncio não era difícil e só hesitou creio eu em decidir o que dominava mais se o assombro do presente se a memória do passado Deume uma cadeira e com o balcão permeio faloume longamente de si da vida que levara das lágrimas que eu lhe fizera verter das saudades dos desastres enfim das bexigas que lhe escalavraram o rosto e do tempo que ajudou a moléstia adiantandolhe a decadência Verdade é que tinha a alma decrépita Vendera tudo quase tudo um homem que a amara outrora e lhe morreu nos braços deixaralhe aquela loja de ourivesaria mas para que a desgraça fosse completa era agora pouco buscada a loja talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher Em seguida pediume que lhe contasse a minha vida Gastei pouco tempo em dizerlha não era longa nem interessante Casou disse Marcela no fim de minha narração Ainda não respondi secamente Marcela lançou os olhos para a rua com a atonia de quem reflete ou relembra eu deixeime ir então ao passado e no meio das recordações e saudades perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino Não era esta certamente a Marcela de 1822 mas a beleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrifícios Era o que eu buscava saber interrogando o rosto de Marcela O rosto diziame que não ao mesmo tempo os olhos me contavam que já outrora como hoje ardia neles a flama da cobiça Os meus é que não souberam verlha eram olhos da primeira edição Mas por que entrou aqui viume da rua perguntou ela saindo daquela espécie de torpor Não supunha entrar numa casa de relojoeiro queria comprar um vidro para este relógio vou a outra parte desculpeme tenho pressa Marcela suspirou com tristeza A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido ao mesmo tempo e ansiava por me ver fora daquela casa Marcela entretanto chamou um moleque deulhe o relógio e apesar da minha oposição mandouo a uma loja na vizinhança comprar o vidro Não havia remédio senteime outra vez Disse ela então que desejava ter a proteção dos conhecidos de outro tempo ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse e afiançou que me daria finas jóias por preços baratos Não disse preços baratos mas usou uma metáfora delicada e transparente Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre salvo a moléstia que tinha o dinheiro a bom recado e que negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro que era o verme roedor daquela existência foi isso mesmo que me disseram depois CAPÍTULO XXXIX O VIZINHO Enquanto eu fazia comigo mesmo aquela reflexão entrou na loja um sujeito baixo sem chapéu trazendo pela mão uma menina de quatro anos Como passou de hoje de manhã disse ele a Marcela Assim assim Vem cá Maricota O sujeito levantou a criança pelos braços e passoua para dentro do balcão Anda disse ele pergunta a D Marcela como passou a noite Estava ansiosa por vir cá mas a mãe não tinha podido vestila Então Maricota Toma a bênção Olha a vara de marmelo Assim Não imagina o que ela é lá em casa fala na senhora a todos os instantes e aqui parece uma pamonha Ainda ontem Digo Maricota Não diga não papai Então foi alguma coisa feia perguntou Marcela batendo na cara da menina Eu lhe digo a mãe ensinalhe a rezar todas as noites um padre nosso e uma avemaria oferecidos a Nossa Senhora mas a pequena ontem veio pedirme com voz muito humilde imagine o quê que queria oferecêlos a Santa Marcela Coitadinha disse Marcela beijandoa É um namoro uma paixão como a senhora não imagina A mãe diz que é feitiço Contou mais algumas coisas o sujeito todas muito agradáveis até que saiu levando a menina não sem deitarme um olhar interrogativo ou suspeitoso Perguntei a Marcela quem era ele É um relojoeiro da vizinhança um bom homem a mulher também e a filha é galante não Parecem gostar muito de mim é boa gente Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura CAPÍTULO XL NA SEGE Nisto entrou o moleque trazendo o relógio com o vidro novo Era tempo já me custava estar ali dei uma moedinha de prata ao moleque disse a Marcela que voltaria noutra ocasião e saí a passo largo Para dizer tudo devo confessar que o coração me batia um pouco mas era uma espécie de dobre de finados O espírito ia travado de impressões opostas Notem que aquele dia amanhecera alegre para mim Meu pai ao almoço repetiume por antecipação o primeiro discurso que eu tinha de proferir na Câmara dos Deputados rimonos muito e o sol também que estava brilhante como nos mais belos dias do mundo do mesmo modo que Virgília devia rir quando eu lhe contasse as nossas fantasias do almoço Vai senão quando caime o vidro do relógio entro na primeira loja que me fica à mão e eis me surge o passado eilo que me lacera e beija eilo que me interroga com um rosto cortado de saudades e bexigas Lá o deixei metime às pressas na sege que me esperava no Largo de São Francisco de Paula e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fora O boleeiro atiçou as bestas a sege entrou a sacolejarme as molas gemiam as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara a chuva recente e tudo isso me parecia estar parado Não há às vezes um certo vento morno não forte nem áspero mas abafadiço que nos não leva o chapéu da cabeça nem rodomoinha nas saias das mulheres e todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma e outra coisa porque abate afrouxa e como que dissolve os espíritos Pois eu tinha esse vento comigo e certo de que ele me soprava por acharme naquela espécie de garganta entre o passado e o presente almejava por sair à planície do futuro O pior é que a sege não andava João bradei eu ao boleeiro Esta sege anda ou não anda Uê nhonhô Já estamos parados na porta de sinhô conselheiro CAPÍTULO XLI A ALUCINAÇÃO Era verdade Entrei apressado achei Virgília ansiosa mau humor fronte nublada A mãe que era surda estava na sala com ela No fim dos cumprimentos disseme a moça com sequidão Esperávamos que viesse mais cedo Defendime do melhor modo falei do cavalo que empacara e de um amigo que me detivera De repente morreme a voz nos lábios fico tolhido de assombro Virgília seria Virgília aquela moça Fiteia muito e a sensação foi tão penosa que recuei um passo e desviei a vista Tornei a olhála As bexigas tinhamlhe comido o rosto a pele ainda na véspera tão fina rosada e pura apareciame agora amarela estigmada pelo mesmo flagelo que devastara o rosto da espanhola Os olhos que eram travessos fizeramse murchos tinha o lábio triste e a atitude cansada Olheia bem pegueilhe na mão e chameia brandamente a mim Não me enganava eram as bexigas Creio que fiz um gesto de repulsa Virgília afastouse e foi sentarse no sofá Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés Devia sair ou ficar Rejeitei o primeiro alvitre que era simplesmente absurdo e encaminheime para Virgília que lá estava sentada e calada Céus Era outra vez a fresca a juvenil a florida Virgília Em vão procurei no rosto dela algum vestígio da doença nenhum havia era a pele fina e branca do costume Nunca me viu perguntou Virgília vendo que a encarava com insistência Tão bonita nunca Senteime enquanto Virgília calada fazia estalar as unhas Seguiramse alguns segundos de pausa Faleilhe de coisas estranhas ao incidente ela porém não me respondia nada nem olhava para mim Menos o estalido era a estátua do Silêncio Uma só vez me deitou os olhos mas muito de cima soerguendo a pontinha esquerda do lábio contraindo as sobrancelhas ao ponto de as unir todo esse conjunto de coisas davalhe ao rosto uma expressão média entre cômica e trágica Havia alguma afetação naquele desdém era um arrebique do gesto Lá dentro ela padecia e não pouco ou fosse mágoa pura ou só despeito e porque a dor que se dissimula dói mais é muito provável que Virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer Creio que isto é metafísica CAPÍTULO XLII QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES Outra coisa que também me parece metafísica é isto Dáse movimento a uma bola por exemplo rola esta encontra outra bola transmitelhe o impulso e eis a segunda boa a rolar como a primeira rolou Suponhamos que a primeira bola se chama Marcela é uma simples suposição a segunda Brás Cubas a terceira Virgília Temos que Marcela recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas o qual cedendo à força impulsiva entrou a rolar também até esbarrar em Virgília que não tinha nada com a primeira bola e eis aí como pela simples transmissão de uma força se tocam os extremos sociais e se estabelece uma coisa que poderemos chamar solidariedade do aborrecimento humano Como é que este capítulo escapou a Aristóteles CAPÍTULO XLIII MARQUESA PORQUE EU SEREI MARQUÊS Positivamente era um diabrete Virgília um diabrete angélico se querem mas erao e então Então apareceu o Lobo Neves um homem que não era mais esbelto que eu nem mais elegante nem mais lido nem mais simpático e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura dentro de poucas semanas com um ímpeto verdadeiramente cesariano Não precedeu nenhum despeito não houve a menor violência de família Dutra veio dizerme um dia que esperasse outra aragem porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências Cedi tal foi o começo da minha derrota Uma semana depois Virgília perguntou ao Lobo Neves a sorrir quando seria ele ministro Pela minha vontade já pelas dos outros daqui a um ano Virgília replicou Promete que algum dia me fará baronesa Marquesa porque eu serei marquês Desde então fiquei perdido Virgília comparou a águia e o pavão e elegeu a águia deixando o pavão com o seu espanto o seu despeito e três ou quatro beijos que lhe dera Talvez cinco beijos mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila que esterilizava o solo em que batia é justamente o contrário CAPÍTULO XLIV UM CUBAS Meu pai ficou atônito com o desenlace e querme parecer que não morreu de outra coisa Eram tantos os castelos que engenhara tantos e tantíssimos os sonhos que não podia vêlos assim esboroados sem padecer um forte abalo no organismo A princípio não quis crêlo Um Cubas um galho da árvore ilustre dos Cubas E dizia isto com tal convicção que eu já então informado da nossa tanoaria esqueci um instante a volúvel dama para só contemplar aquele fenômeno não raro mas curioso uma imaginação graduada em consciência Um Cubas repetiame ele na seguinte manhã ao almoço Não foi alegre o almoço eu próprio estava a cair de sono Tinha velado uma parte da noite De amor Era impossível não se ama duas vezes a mesma mulher e eu que tinha de amar aquela tempos depois não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo além de uma fantasia passageira alguma obediência e muita fatuidade E isto basta a explicar a vigília era despeito um despeitozinho agudo como ponta de alfinete o qual se desfez com charutos murros leituras truncadas até romper a aurora a mais tranqüila das auroras Mas eu era moço tinha o remédio em mim mesmo Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada Pensando bem pode ser que não morresse precisamente do desastre mas que o desastre lhe complicou as últimas dores é positivo Morreu daí a quatro meses acabrunhado triste com uma preocupação intensa e contínua à semelhança de remorso um desencanto mortal que lhe substituiu os reumatismos e tosses Teve ainda meia hora de alegria foi quando um dos ministros o visitou Vilhe lembrame bem vilhe o grato sorriso de outro tempo e nos olhos uma concentração de 1uz que era por assim dizer o último lampejo da alma expirante Mas a tristeza tornou logo a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto como aliás me cabia Um Cubas Morreu alguns dias depois da visita do ministro uma manhã de maio entre os dois filhos Sabina e eu e mais o tio Ildefonso e meu cunhado Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos nem o nosso amor nem os cuidados que foram muitos nem coisa nenhuma tinha de morrer morreu Um Cubas CAPÍTULO XLV NOTAS Soluços lágrimas casa armada veludo preto nos portais um homem que veio vestir o cadáver outro que tomou a medida do caixão caixão essa tocheiros convites convidados que entravam lentamente a passo surdo e apertavam a mão à família alguns tristes todos sérios e calados padre e sacristão rezas aspersões dágua benta o fechar do caixão a prego e martelo seis pessoas que o tomam da essa e o levantam e o descem a custo pela escada não obstante os gritos soluços e novas lágrimas da família e vão até o coche fúnebre e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias o rodar do coche o rodar dos carros um a um Isto que parece um simples inventário eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo CAPÍTULO XLVI A HERANÇA Vejanos agora o leitor oito dias depois da morte de meu pai minha irmã sentada num sofá pouco adiante Cotrim de pé encostado a um consolo com os braços cruzados e a morder o bigode eu a passear de um lado para outro com os olhos no chão Luto pesado Profundo silêncio Mas afinal disse Cotrim esta casa pouco mais pode valer de trinta contos demos que valha trinta e cinco Vale cinqüenta ponderei Sabina sabe que custou cinqüenta e oito Podia custar até sessenta tornou Cotrim mas não se segue que os valesse e menos ainda que os valha hoje Você sabe que as casas aqui há anos baixaram muito Olhe se esta vale os cinqüenta contos quantos não vale a que você deseja para si a do Campo Não fale nisso Uma casa velha Velha exclamou Sabina levantando as mãos ao teto Parecelhe nova aposto Ora mano deixese dessas coisas disse Sabina erguendose do sofá podemos arranjar tudo em boa amizade e com lisura Por exemplo Cotrim não aceita os pretos quer só o boleeiro de papai e o Paulo O boleeiro não acudi eu fico com a sege e não hei de ir comprar outro Bem fico com o Paulo e o Prudêncio O Prudêncio está livre Livre Há dois anos Livre Como seu pai arranjava estas coisas cá por casa sem dar parte a ninguém Está direito Quanto à prata creio que não libertou a prata Tínhamos falado na prata a velha prataria do tempo de D José I a porção mais grave da herança já pelo lavor já pela vetustez já pela origem da propriedade dizia meu pai que o Conde da Cunha quando vicerei do Brasil a dera de presente a meu bisavô Luís Cubas Quanto à prata continuou Cotrim eu não faria questão nenhuma se não fosse o desejo que sua irmã tem de ficar com ela e acholhe razão Sabina é casada e precisa de uma copa digna apresentável Você é solteiro não recebe não Mas posso casar Para quê interrompeu Sabina Era tão sublime esta pergunta que por alguns instantes me fez esquecer os interesses Sorri peguei na mão de Sabina batilhe levemente na palma tudo isso com tão boa sombra que o Cotrim interpretou o gesto como de aquiescência e agradeceumo Que é lá redargüi não cedi coisa nenhuma nem cedo Nem cede Abanei a cabeça Deixa Cotrim disse minha irmã ao marido vê se ele quer ficar também com a nossa roupa do corpo é só o que falta Não falta mais nada Quer a sege quer o boleeiro quer a prata quer tudo Olhe é muito mais sumário citarnos a juízo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã que eu não sou seu cunhado e que Deus não é Deus Faça isto e não perde nada nem uma colherinha Ora meu amigo outro ofício Estava tão agastado e eu não menos que entendi oferecer um meio de conciliação dividir a prata Riuse e perguntoume a quem caberia o bule e a quem o açucareiro e depois desta pergunta declarou que teríamos tempo de liquidar a pretensão quando menos em juízo Entretanto Sabina fora até à janela que dava para a chácara e depois de um instante voltou e propôs ceder o Paulo e outro preto com a condição de ficar com a prata eu ia dizer que não me convinha mas Cotrim adiantouse e disse a mesma coisa Isso nunca não faço esmolas disse ele Jantamos tristes Meu tio cônego apareceu à sobremesa e ainda presenciou uma pequena altercação Meus filhos disse ele lembremse que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos Mas Cotrim Creio creio A questão porém não é de pão é de manteiga Pão seco é que eu não engulo Fizeramse finalmente as partilhas mas nós estávamos brigados E digolhes que ainda assim custoume muito a brigar com Sabina Éramos tão amigos Jogos pueris fúrias de criança risos e tristezas da idade adulta dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria irmãmente como bons irmãos que éramos Mas estávamos brigados Tal qual a beleza de Marcela que se esvaiu com as bexigas CAPÍTULO XLVII O RECLUSO Marcela Sabina Virgília aí estou eu a fundir todos os contrastes como se esses nomes e pessoas não fossem mais do que modos de ser da minha afeição interior Pena de maus costumes ata uma gravata ao estilo vestelhe um colete menos sórdido e depois sim depois vem comigo entra nessa casa estirate nessa rede que me embalou a melhor parte dos anos que decorreram desde o inventário de meu pai até 1842 Vem se te cheirar a algum aroma de toucador não cuides que o mandei derramar para meu regalo é um vestígio da N ou da Z ou da U que todas essas letras maiúsculas embalaram aí a sua elegante abjeção Mas se além do aroma quiseres outra coisa ficate com o desejo porque eu não guardei retratos nem cartas nem memórias a mesma comoção esvaiuse e só me ficaram as letras iniciais Vivi meio recluso indo de longe em longe a algum baile ou teatro ou palestra mas a maior parte do tempo passeia comigo mesmo Vivia deixavame ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias ora buliçoso ora apático entre a ambição e o desânimo Escrevia política e fazia literatura Mandava artigos e versos para as folhas públicas e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta Quando me lembrava do Lobo Neves que era já deputado e de Virgília futura marquesa perguntava a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves eu que valia mais muito mais do que ele e dizia isto a olhar para a ponta do nariz CAPÍTULO XLVIII UM PRIMO DE VIRGÍLIA Sabe quem chegou ontem de São Paulo perguntoume uma noite Luís Dutra Luís Dutra era um primo de Virgília que também privava com as musas Os versos dele agradavam e valiam mais do que os meus mas ele tinha necessidade da sanção de alguns que lhe confirmasse o aplauso dos outros Como fosse acanhado não interrogava a ninguém mas deleitavase com ouvir alguma palavra de apreço então criava novas forças e arremetia juvenilmente ao trabalho Pobre Luís Dutra Apenas publicava alguma coisa corria à minha casa e entrava a girar em volta de mim à espreita de um juízo de uma palavra de um gesto que lhe aprovasse a recente produção e eu falavalhe de mil coisas diferentes do último baile do Catete da discussão das câmaras de berlindas e cavalos de tudo menos dos seus versos ou prosas Ele respondiame a princípio com animação depois mais frouxo torcia a rédea da conversa para o seu assunto dele abria um livro perguntavame se tinha algum trabalho novo e eu dizialhe que sim ou que não mas torcia a rédea para o outro lado e lá ia ele atrás de mim até que empacava de todo e saía triste Minha intenção era fazêlo duvidar de si mesmo desanimálo eliminálo E tudo isto a olhar para a ponta do nariz CAPÍTULO XLIX A PONTA DO NARIZ Nariz consciência sem remorsos tu me valeste muito na vida Já meditaste alguma vez no destino do nariz amado leitor A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz foi criado para uso dos óculos e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva mas veio um dia em que estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia atinei com a única verdadeira e definitiva explicação Com efeito bastoume atentar no costume do faquir Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz com o fim único de ver a luz celeste Quando ele finca os olhos na ponta do nariz perde o sentimento das coisas externas embelezase no invisível aprende o impalpável desvinculase da terra dissolvese eterizase Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente é universal Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz para o fim de ver a luz celeste e tal contemplação cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente constitui o equilíbrio das sociedades Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros o gênero humano não chegaria a durar dois séculos extinguiase com as primeiras tribos Ouço daqui uma objeção do leitor Como pode ser assim diz ele se nunca jamais ninguém não viu estarem os homens a contemplar o seu próprio nariz Leitor obtuso isso prova que nunca entraste no cérebro de um chapeleiro Um chapeleiro passa por uma loja de chapéus é a loja de um rival que a abriu há dois anos tinha então duas portas hoje tem quatro promete ter seis a oito Nas vidraças ostentamse os chapéus do rival pelas portas entram os fregueses do rival o chapeleiro compara aquela loja com a sua que é mais antiga e tem só duas portas e aqueles chapéus com os seus menos buscados ainda que de igual preço Mortificase naturalmente mas vai andando concentrado com os olhos para baixo ou para a frente a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu próprio atraso quando ele chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz A conclusão portanto é que há duas forças capitais o amor que multiplica a espécie e o nariz que a subordina ao indivíduo Procriação equilíbrio CAPÍTULO L VIRGÍLIA CASADA Quem chegou de São Paulo foi minha prima Virgília casada com o Lobo Neves continuou Luís Dutra Ah E só hoje é que eu soube uma coisa seu maganão Que foi Que você quis casar com ela Idéias de meu pai Quem lhe disse isso Ela mesma Faleilhe muito em você e ela então contoume tudo No dia seguinte estando na Rua do Ouvidor à porta da tipografia do Plancher vi assomar a distância uma mulher esplêndida Era ela só a reconheci a poucos passos tão outra estava a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o último apuro Cortejamonos ela seguiu entrou com o marido na carruagem que os esperava um pouco acima fiquei atônito Oito dias depois encontreia num baile creio que chegamos a trocar duas ou três palavras Mas noutro baile dado daí a um mês em casa de uma senhora que ornara os salões do primeiro reinado e não desornava então os do segundo a aproximação foi maior e mais longa porque conversamos e valsamos A valsa é uma deliciosa coisa Valsamos não nego que ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico tive uma singular sensação uma sensação de homem roubado Está muito calor disse ela logo que acabamos Vamos ao terraço Não pode constiparse Vamos a outra sala Na outra sala estava Lobo Neves que me fez muitos cumprimentos acerca dos meus escritos políticos acrescentando que nada dizia dos literários por não entender deles mas os políticos eram excelentes bem pensados e bem escritos Respondilhe com iguais esmeros de cortesia e separamonos contentes um do outro Cerca de três semanas depois recebi um convite dele para uma reunião íntima Fui Virgília recebeume com esta graciosa palavra O senhor hoje há de valsar comigo Em verdade eu tinha fama e era valsista emérito não admira que ela me preferisse Valsamos uma vez e mais outra vez Um livro perdeu Francesca cá foi a valsa que nos perdeu Creio que essa noite aperteilhe a mão com muita força e ela deixoua ficar como esquecida e eu a abraçála e todos com os olhos em nós e nos outros que também se abraçavam e giravam Um delírio CAPÍTULO LI É MINHA É minha disse eu comigo logo que a passei a outro cavalheiro e confesso que durante o resto da noite foiseme a idéia entranhando no espírito não à força de martelo mas de verruma que é mais insinuativa É minha dizia eu ao chegar à porta de casa Mas aí como se o destino ou o acaso ou o que quer que fosse se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios luziume no chão uma coisa redonda e amarela Abaixeime era uma moeda de ouro uma meia dobra É minha repeti eu a rirme e metia no bolso Nessa noite não pensei mais na moeda mas no dia seguinte recordando o caso senti uns repelões da consciência e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara mas somente achara na rua Evidentemente não era minha era de outro daquele que a perdera rico ou pobre e talvez fosse pobre algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos mas se fosse rico o meu dever ficava o mesmo Cumpria restituir a moeda e o melhor meio o único meio era fazêlo por intermédio de um anúncio ou da polícia Enviei uma carta ao chefe de polícia remetendolhe o achado e rogandolhe que pelos meios a seu alcance fizesse devolvêlo às mãos do verdadeiro dono Mandei a carta e almocei tranqüilo posso até dizer que jubiloso Minha consciência valsara tanto na véspera que chegou a ficar sufocada sem respiração mas a restituição da meia dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral entrou uma onda de ar puro e a pobre dama respirou à larga Ventilai as consciências não vos digo mais nada Todavia despido de quaisquer outras circunstâncias o meu ato era bonito porque exprimia um justo escrúpulo um sentimento de alma delicada Era o que me dizia a minha dama interior com um modo austero e meigo a um tempo é o que ela me dizia reclinada ao peitoril da janela aberta Fizeste bem Cubas andaste perfeitamente Este ar não é só puro é balsâmico é uma transpiração dos eternos jardins Queres ver o que fizeste Cubas E a boa dama sacou um espelho e abriumo diante dos olhos Vi claramente vista a meia dobra da véspera redonda brilhante multiplicandose por si mesma ser dez depois trinta depois quinhentas exprimindo assim o benefício que me daria na vida e na morte o simples ato da restituição E eu espraiava todo o meu ser na contemplação daquele ato reviame nele achavame bom talvez grande Uma simples moeda hem Vejam o que é ter valsado um poucochinho mais Assim eu Brás Cubas descobri uma lei sublime a lei da equivalência das janelas e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência Talvez não entendas o que aí fica talvez queiras uma coisa mais concreta um embrulho por exemplo um embrulho misterioso Pois toma lá o embrulho misterioso CAPÍTULO LII O EMBRULHO MISTERIOSO Foi o caso que alguns dias depois indo eu a Botafogo tropecei num embrulho que estava na praia Não digo bem houve menos tropeção que pontapé Vendo um embrulho pão grande mas limpo e corretamente feito atado com um barbante rijo uma coisa que parecia alguma coisa lembroume baterlhe com o pé assim por experiência e bati e o embrulho resistiu Relanceei os olhos em volta de mim a praia estava deserta ao longe uns meninos brincavam um pescador curava as redes ainda mais longe ninguém que pudesse ver a minha ação inclineime apanhei o embrulho e segui Segui mas não sem receio Podia ser uma pulha de rapazes Tive idéia de devolver o achado à praia mas apalpeio e rejeitei a idéia Um pouco adiante desandei o caminho e guiei para casa Vejamos disse eu ao entrar no gabinete E hesitei um instante creio que por vergonha assaltoume outra vez o receio da pulha É certo que não havia ali nenhuma testemunha externa mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto que havia de assobiar guinchar grunhir patear apupar cacarejar fazer o diabo se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma dúzia de lenços velhos ou duas dúzias de goiabas podres Era tarde a curiosidade estava aguçada como deve estar a do leitor desfiz o embrulho e vi achei contei recontei nada menos de cinco contos de réis Nada menos Talvez uns dez milréis mais Cinco contos em boas notas e moedas tudo asseadinho e arranjadinho um achado raro Embrulheias de novo Ao jantar pareceume que um dos moleques falara a outro com os olhos Termeiam espreitado Interrogueios discretamente e concluí que não Sobre o jantar fui outra vez ao gabinete examinei o dinheiro e rime dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos eu que era abastado Para não pensar mais naquilo fui de noite à casa do Lobo Neves que instara muito comigo não deixasse de freqüentar as recepções da mulher Lá encontrei o chefe de polícia fuilhe apresentado ele lembrouse logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias antes Aventou o caso Virgília pareceu saborear o meu procedimento e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota análoga que eu ouvi com impaciência de mulher histérica De noite no dia seguinte em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária Gostava de falar de todas as coisas menos de dinheiro e principalmente de dinheiro achado todavia não era crime achar dinheiro era uma felicidade um bom acaso era talvez um lance da Providência Não podia ser outra coisa Não se perdem cinco contos como se perde um lenço de tabaco Cinco contos levamse com trinta mil sentidos apalpamse a miúdo não se lhes tiram os olhos de cima nem as mãos nem o pensamento e para se perderem assim tolamente numa praia é necessário que Crime é que não podia ser o achado nem crime nem desonra nem nada que embaciasse o caráter de um homem Era um achado um acerto feliz como a sorte grande como as apostas de cavalo como os ganhos de um jogo honesto e até direi que a minha felicidade era merecida porque eu não me sentia mau nem indigno dos benefícios da Providência Estes cinco contos dizia eu comigo três semanas depois hei de empregálos em alguma ação boa talvez um dote a alguma menina pobre ou outra coisa assim hei de ver Nesse mesmo dia leveios ao Banco do Brasil Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento respondi enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo louvaramme então a modéstia e porque eu me encolerizasse replicaramme que era simplesmente grande CAPÍTULO LIII Virgília é que já se não lembrava da meia dobra toda ela estava concentrada em mim nos meus olhos na minha vida no meu pensamento era o que dizia e era verdade Há umas plantas que nascem e crescem depressa outras são tardias e pecas O nosso amor era daquelas brotou com tal ímpeto e tanta seiva que dentro em pouco era a mais vasta folhuda e exuberante criatura dos bosques Não lhes poderei dizer ao certo os dias que durou esse crescimento Lembrame sim que em certa noite abotoouse a flor ou o beijo se assim lhe quiserem chamar um beijo que ela me deu trêmula coitadinha trêmula de medo porque era ao portão da chácara Uniunos esse beijo único breve como a ocasião ardente como o amor prólogo de uma vida de delícias de terrores de remorsos de prazeres que rematavam em dor de aflições que desabrochavam em alegria uma hipocrisia paciente e sistemática único freio de uma paixão sem freio vida de agitações de cóleras de desesperos e de ciúmes que uma hora pagava à farta e de sobra mas outra hora vinha e engolia aquela como tudo mais para deixar à tona as agitações e o resto e o resto do resto que é o fastio e a saciedade tal foi o livro daquele prólogo CAPÍTULO LIV A PÊNDULA Saí dali a saborear o beijo Não pude dormir estireime na cama é certo mas foi o mesmo que nada Ouvi as horas todas da noite Usualmente quando eu perdia o sono o bater da pêndula faziame muito mal esse tiquetaque soturno vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida Imaginava então um velho diabo sentado entre dois sacos o da vida e o da morte a tirar as moedas da vida para dálas à morte e a contálas assim Outra de menos Outra de menos Outra de menos Outra de menos O mais singular é que se o relógio parava eu davalhe corda para que ele não deixasse de bater nunca e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos Invenções há que se transformam ou acabam as mesmas instituições morrem o relógio é definitivo e perpétuo O derradeiro homem ao despedirse do sol frio e gasto há de ter um relógio na algibeira para saber a hora exata em que morre Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado mas outra e deleitosa As fantasias tumultuavamme cá dentro vinham umas sobre outras à semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjocantor das procissões Não ouvia os instantes perdidos mas os minutos ganhados De certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma porque o meu pensamento ardiloso e traquinas saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília Aí achou no peitoril de uma janela o pensamento de Virgília saudaram se e ficaram de palestra Nós a rolarmos na cama talvez com frio necessitados de repouso e os dois vadios ali postos a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva CAPÍTULO LV O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA BRÁS CUBAS VIRGÍLIA CAPÍTULO LVI O MOMENTO OPORTUNO Mas com a breca quem me explicará a razão desta diferença Um dia vimonos tratamos o casamento desfizemolo e separamonos a frio sem dor porque não houvera paixão nenhuma mordeume apenas algum despeito e nada mais Correm anos torno a vêla damos três ou quatro giros de valsa e eisnos a amar um ao outro com delírio A beleza de Virgília chegara é certo a um alto grau de apuro mas nós éramos substancialmente os mesmos e eu à minha parte não me tornara mais bonito nem mais elegante Quem me explicará a razão dessa diferença A razão não podia ser outra senão o momento oportuno Não era oportuno o primeiro momento porque se nenhum de nós estava verde para o amor ambos o estávamos para o nosso amor distinção fundamental Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos Esta explicação acheia eu mesmo dois anos depois do beijo um dia em que Virgília se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava Que importuno dizia ela fazendo uma careta de raiva Estremeci fiteia vi que a indignação era sincera então ocorreume que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma careta e compreendi logo toda a grandeza da minha evolução Tinha vindo de importuno a oportuno CAPÍTULO LVII DESTINO Sim senhor amávamos Agora que todas as leis sociais nolo impediam agora é que nos amávamos deveras Achávamonos jungidos um ao outro como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório Di pari come buoi che vanno a giogo e digo mal comparandonos a bois porque nós éramos outra espécie de animal menos tardo mais velhaco e lascivo Eisnos a caminhar sem saber até onde nem por que estradas escusas problema que me assustou durante algumas semanas mas cuja solução entreguei ao destino Pobre Destino Onde andarás agora grande procurador dos negócios humanos Talvez estejas a criar pele nova outra cara outras maneiras outro nome e não é impossível que Já me não lembra onde estava Ah nas estradas escusas Disse eu comigo que já agora seria o que Deus quisesse Era a nossa sorte amarnos se assim não fora como explicaríamos a valsa e o resto Virgília pensava a mesma coisa Um dia depois de me confessar que tinha momentos de remorsos como eu lhe dissesse que se tinha remorsos é porque me não tinha amor Virgília cingiume com os seus magníficos braços murmurando Amote é a vontade do Céu E esta palavra não vinha à toa Virgília era um pouco religiosa Não ouvia missa aos domingos é verdade e creio até que só ia às igrejas em dia de festa e quando havia lugar vago em alguma tribuna Mas rezava todas as noites com fervor ou pelo menos com sono Tinha medo às trovoadas nessas ocasiões tapava os ouvidos e resmoneava todas as orações do catecismo Na alcova dela havia um oratoriozinho de jacarandá obra de talha de três palmos de altura com três imagens dentro mas não falava dele às amigas ao contrário tachava de beatas as que eram só religiosas Algum tempo desconfiei que havia nela certo vexame de crer e que a sua religião era uma espécie de camisa de flanela preservativa e clandestina mas evidentemente era engano meu CAPÍTULO LVIII CONFIDÊNCIA Lobo Neves a princípio metiame grandes sustos Pura ilusão Como adorasse a mulher não se vexava de mo dizer muitas vezes achava que Virgília era a perfeição mesma um conjunto de qualidades sólidas e finas amorável elegante austera um modelo E a confiança não parava aí De fresta que era chegou a porta escancarada Um dia confessoume que trazia uma triste carcoma na existência faltavalhe a glória pública Animeio disselhe muitas coisas bonitas que ele ouviu com aquela unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer então compreendi que a ambição dele andava cansada de bater as asas sem poder abrir o vôo Dias depois disseme todos os seus tédios e desfalecimentos as amarguras engolidas as raivas sopitadas contoume que a vida política era um tecido de invejas despeitos intrigas perfídias interesses vaidades Evidentemente havia aí uma crise de melancolia tratei de combatêla Sei o que lhe digo replicoume com tristeza Não pode imaginar o que tenho passado Entrei na política por gosto por família por ambição e um pouco por vaidade Já vê que reuni em mim só todos os motivos que levam o homem à vida pública faltoume só o interesse de outra natureza Vira o teatro pelo lado da platéia e palavra que era bonito Soberbo cenário vida movimento e graça na representação Escritureime deramme um papel que Mas para que o estou a fatigar com isto Deixeme ficar com as minhas amofinações Creia que tenho passado horas e dias Não há constância de sentimentos não há gratidão não há nada nada nada Calouse profundamente abatido com os olhos no ar parecendo não ouvir coisa nenhuma a não ser o eco de seus próprios pensamentos Após alguns instantes ergueuse e estendeume a mão O senhor há de rirse de mim disse ele mas desculpe aquele desabafo tinha um negócio que me mordia o espírito E ria de um jeito sombrio e triste depois pediume que não referisse a ninguém o que se passara entre nós pondereilhe que a rigor não se passara nada Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia Lobo Neves recebeu os com alegria a princípio um tanto postiça mas logo depois natural No fim de meia hora ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens conversava chasqueava e ria e riam todos CAPÍTULO LIX UM ENCONTRO Deve ser um vinho enérgico a política dizia eu comigo ao sair da casa de Lobo Neves e fui andando fui andando até que na Rua dos Barbonos vi uma sege e dentro um dos ministros meu antigo companheiro de colégio Cortejamonos afetuosamente a sege seguiu e eu fui andando andando andando Por que não serei eu ministro Esta idéia rútila e grande trajada ao bizarro como diria o Padre Bernardes esta idéia começou uma vertigem de cabriolas e eu deixeime estar com os olhos nela a acharlhe graça Não pensei mais na tristeza de Lobo Neves sentia a atração do abismo Recordei aquele companheiro de colégio as correrias nos morros as alegrias e travessuras e comparei o menino com o homem e perguntei a mim mesmo por que não seria eu como ele Entrava então no Passeio Público e tudo me parecia dizer a mesma coisa Por que não serás ministro Cubas Cubas por que não serás ministro de Estado Ao ouvilo uma deliciosa sensação me refrescava todo o organismo Entrei fui sentarme num banco a remoer aquela idéia E Virgília que havia de gostar Alguns minutos depois vejo encaminharse para mim uma cara que não me pareceu desconhecida Conheciaa fosse donde fosse Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos alto magro e pálido As roupas salvo o feitio pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia o chapéu era contemporâneo do de Gessler Imaginem agora uma sobrecasaca mais larga do que pediam as carnes ou literalmente os ossos da pessoa a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho o pêlo desaparecia aos poucos dos oito primitivos botões restavam três As calças de brim pardo tinham duas fortes joelheiras enquanto as bainhas eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores ambas desmaiadas apertando um colarinho de oito dias Creio que trazia também colete um colete de seda escura roto a espaços e desabotoado Aposto que me não conhece Sr Dr Cubas disse ele Não me lembra Sou o Borba o Quincas Borba Recuei espantado Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira para contar tamanha desolação Era o Quincas Borba o gracioso menino de outro tempo o meu companheiro de colégio tão inteligente e abastado Quincas Borba Não impossível não pode ser Não podia acabar de crer que essa figura esquálida essa barba pintada de branco esse maltrapilho avelhentado que toda essa ruína fosse o Quincas Borba Mas era Os olhos tinham um resto da expressão de outro tempo e o sorriso não perdera certo ar escarninho que lhe era peculiar Entretanto ele suportava com firmeza o meu espanto No fim de algum tempo arredei os olhos se a figura repelia a comparação acabrunhava Não é preciso contarlhe nada disse ele enfim o senhor adivinha tudo Uma vida de misérias de atribulações e de lutas Lembrase das nossas festas em que eu figurava de rei Que trambolhão Acabo mendigo E alçando a mão direita e os ombros com um ar de indiferença parecia resignado aos golpes da fortuna e não sei até se contente Talvez contente Com certeza impassível Não havia nele a resignação cristã nem a conformidade filosófica Parece que a miséria lhe calejara a alma a ponto de lhe tirar a sensação de lama Arrastava os andrajos como outrora a púrpura com certa graça indolente Procureme disse eu poderei arranjarlhe alguma coisa Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios Não é o primeiro que me promete alguma coisa replicou e não sei se será o último que não me fará nada E para quê Eu nada peço a não ser dinheiro dinheiro sim porque é necessário comer e as casas de pasto não fiam Nem as quitandeiras Uma coisa de nada uns dois vinténs de angu nem isso fiam as malditas quitandeiras Um inferno meu ia dizer meu amigo Um inferno o diabo todos os diabos Olhe ainda hoje não almocei Não Não saí muito cedo de casa Sabe onde moro No terceiro degrau das escadas de São Francisco à esquerda de quem sobe não precisa bater na porta Casa fresca extremamente fresca Pois saí cedo e ainda não comi Tirei a carteira escolhi uma nota de cinco milréis a menos limpa e deilha Ele recebeuma com os olhos cintilantes de cobiça Levantou a nota ao ar e agitoua entusiasmado In hoc signo vinces bradou E depois beijoua com muitos ademanes de ternura e tão ruidosa expansão que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima Ele que era arguto entendeume ficou sério grotescamente sério e pediume desculpa da alegria dizendo que era alegria de pobre que não via desde muitos anos uma nota de cinco milréis Pois está em suas mãos ver outras muitas disse eu Sim acudiu ele dando um bote para mim Trabalhando concluí eu Fez um gesto de desdém calouse alguns instantes depois disseme positivamente que não queria trabalhar Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste e prepareime para sair Não vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da miséria disse ele escarranchandose diante de mim CAPÍTULO LX O ABRAÇO Cuidei que o pobre diabo estivesse doido e ia afastarme quando ele me pegou no pulso e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo Sentilhe na mão uns estremeções de cobiça uns pruridos de posse Magnífico disse ele Depois começou a andar à roda de mim e a examinarme muito O senhor tratase disse ele Jóias roupa fina elegante e Compare esses sapatos aos meus que diferença Pudera não Digo lhe que se trata E moças Como vão elas Está casado Não Nem eu Moro na rua Não quero saber onde mora atalhou Quincas Borba Se alguma vez nos virmos dême outra nota de cinco milréis mas permitame que não a vá buscar à sua casa É uma espécie de orgulho Agora adeus vejo que está impaciente Adeus E obrigado Deixame agradecerlhe de mais perto E dizendo isto abraçoume com tal ímpeto que não pude evitálo Separamonos finalmente eu a passo largo com a camisa amarrotada do abraço enfadado e triste Já não dominava em mim a parte simpática da sensação mas a outra Quisera verlhe a miséria digna Contudo não pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora entristecerme e encarar o abismo que separa as esperanças de um tempo da realidade de outro tempo Ora adeus Vamos jantar disse comigo Meto a mão no colete e não acho o relógio Última desilusão O Borba furtaramo no abraço CAPÍTULO LXI UM PROJETO Jantei triste Não era a falta do relógio que me pungia era a imagem do autor do furto e as reminiscências de criança e outra vez a comparação e a conclusão Desde a sopa começou a abrir em mim a flor amarela e mórbida do capítulo XXV e então jantei depressa para correr à casa de Virgília Virgília era o presente eu queria refugiarme nele para escapar às opressões do passado porque o encontro do Quincas Borba tornarame aos olhos o passado não qual fora deveras mas um passado roto abjeto mendigo e gatuno Saí de casa mas era cedo iria achálos à mesa Outra vez pensei no Quincas Borba e tive então um desejo de tornar ao Passeio Público a ver se o achava a idéia de o regenerar surgiume como uma forte necessidade Fui mas já não o achei Indaguei do guarda disseme que efetivamente esse sujeito ia por ali às vezes A que horas Não tem hora certa Não era impossível encontrálo noutra ocasião prometi a mim mesmo lá voltar A necessidade de o regenerar de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchiame o coração eu começava a sentir um bemestar uma elevação uma admiração de mim próprio Nisto caía a noite fui ter com Virgília CAPÍTULO LXII O TRAVESSEIRO Fui ter com Virgília depressa esqueci o Quincas Borba Virgília era o travesseiro do meu espírito um travesseiro mole tépido aromático enfronhado em cambraia e bruxelas Era ali que ele costumava repousar de todas as sensações más simplesmente enfadonhas ou até dolorosas E bem pesadas as coisas não era outra a razão da existência de Virgília não podia ser Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba cinco minutos de uma contemplação mútua com as mãos presas umas nas outras cinco minutos e um beijo E lá se foi a lembrança do Quincas Borba Escrófula da vida andrajo do passado que me importa que existas que molestes os olhos dos outros se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino para fechar os olhos e dormir CAPÍTULO LXIII FUJAMOS Ai Nem sempre dormir Três semanas depois indo à casa de Virgília eram quatro horas da tarde acheia triste e abatida Não me quis dizer o que era mas como eu instasse muito Creio que o Damião desconfia alguma coisa Noto agora umas esquisitices nele Não sei Tratame bem não há dúvida mas o olhar parece que não é o mesmo Durmo mal ainda esta noite acordei aterrada estava sonhando que ele me ia matar Talvez seja ilusão mas eu penso que ele desconfia Tranqüilizeia como pude disse que podiam ser cuidados políticos Virgília concordou que seriam mas ficou ainda muito excitada e nervosa Estávamos na sala de visitas que dava justamente para a chácara onde trocáramos o beijo inicial Uma janela aberta deixava entrar o vento que sacudia frouxamente as cortinas e eu fiquei a olhar para as cortinas sem as ver Empunhara o binóculo da imaginação lobrigava ao longe uma casa nossa uma vida nossa um mundo nosso em que não havia Lobo Neves nem casamento nem moral nem nenhum outro liame que nos tolhesse a expansão da vontade Esta idéia embriagoume eliminados assim o mundo a moral e o marido bastava penetrar naquela habitação dos anjos Virgília disse eu proponhote uma coisa Que é Amasme Oh suspirou ela cingindome os braços ao pescoço Virgília amavame com fúria aquela resposta era a verdade patente Com os braços ao meu pescoço calada respirando muito deixouse ficar a olhar para mim com os seus grandes e belos olhos que davam uma sensação singular de luz úmida eu deixeime estar a vê los a namorarlhe a boca fresca como a madrugada e insaciável como a morte A beleza de Virgília tinha agora um tom grandioso que não possuíra antes de casar Era dessas figuras talhadas em pentélico de um lavor nobre rasgado e puro tranqüilamente bela como as estátuas mas não apática nem fria Ao contrário tinha o aspecto das naturezas cálidas e podiase dizer que na realidade resumia todo o amor Resumiao sobretudo naquela ocasião em que exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana Mas o tempo urgia deslaceilhe as mãos pegueilhe nos pulsos e fito nela perguntei se tinha coragem De quê De fugir Iremos para onde nos for mais cômodo uma casa grande ou pequena à tua vontade na roça ou na cidade ou na Europa onde te parecer onde ninguém nos aborreça e não haja perigos para ti onde vivamos um para o outro Sim fujamos Tarde ou cedo ele pode descobrir alguma coisa e estarás perdidaouves perdida morta e ele também porque eu o matarei jurote Interrompime Virgília empalidecera muito deixou cair os braços e sentouse no canapé Esteve assim alguns instantes sem me dizer palavra não sei se vacilante na escolha se aterrada com a idéia da descoberta e da morte Fuime a ela insisti na proposta disselhe todas as vantagens de uma vida a sós sem zelos nem terrores nem aflições Virgília ouviame calada depois disse Não escaparíamos talvez ele iria ter comigo e matavame do mesmo modo Mostreilhe que não O mundo era assaz vasto e eu tinha os meios de viver onde quer que houvesse ar puro e muito sol ele não chegaria até lá só as grandes paixões são capazes de grandes ações e ele não a amava tanto que pudesse ir buscála se ela estivesse longe Virgília fez um gesto de espanto e quase indignação murmurou que o marido gostava muito dela Pode ser respondi eu pode ser que sim Fui até a janela e comecei a rufar com os dedos no peitoril Virgília chamoume deixeime estar a remoer os meus zelos a desejar estrangular o marido se o tivesse ali à mão Justamente nesse instante apareceu na chácara o Lobo Neves Não tremas assim leitora pálida descansa que não hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue Logo que apareceu na chácara fizlhe um gesto amigo acompanhado de uma palavra graciosa Virgília retirouse apressadamente da sala onde ele entrou daí a três minutos Está cá há muito tempo disseme ele Não Entrara sério pesado derramando os olhos de um modo distraído costume seu que trocou logo por uma verdadeira expansão de jovialidade quando viu chegar o filho o Nhonhô o futuro bacharel do capítulo VI tomouo nos braços levantouo ao ar beijouo muitas vezes Eu que tinha ódio ao menino afasteime de ambos Virgília tornou à sala Ah respirou Lobo Neves sentandose preguiçosamente no sofá Cansado perguntei eu Muito aturei duas maçadas de primeira ordem uma na câmara e outra na rua E ainda temos terceira acrescentou olhando para a mulher Que é perguntou Virgília Um Adivinha Virgília sentarase ao lado dele pegoulhe numa das mãos compôs lhe a gravata e tornou a perguntar o que era Nada menos que um camarote Para a Candiani Para a Candiani Virgília bateu palmas levantouse deu um beijo no filho com um ar de alegria pueril que destoava muito da figura depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro consultou o marido em voz baixa acerca da toilette que faria da ópera que se cantava e de não sei que outras coisas Você janta conosco doutor disseme Lobo Neves Veio para isso mesmo confirmou a mulher diz que você possui o melhor vinho do Rio de Janeiro Nem por isso bebe muito Ao jantar desmentio bebi mais do que costumava ainda assim menos do que era preciso para perder a razão Já estava excitado fiquei um pouco mais Era a primeira grande cólera que eu sentia contra Virgília Não olhei uma só vez para ela durante o jantar falei de política da imprensa do ministério creio que falaria de teologia se a soubesse ou se me lembrasse Lobo Neves acompanhavame com muita placidez e dignidade e até com certa benevolência superior e tudo aquilo me irritava também e me tornava mais amargo e longo o jantar Despedime apenas nos levantamos da mesa Até logo não perguntou Lobo Neves Pode ser E saí CAPÍTULO LXIV A TRANSAÇÃO Vaguei pelas ruas e recolhime às nove horas Não podendo dormir atireime a ler e escrever Às onze horas estava arrependido de não ter ido ao teatro consultei o relógio quis vestirme e sair Julguei porém que chegaria tarde demais era dar prova de fraqueza Evidentemente Virgília começava a aborrecerse de mim pensava eu E esta idéia fezme sucessivamente desesperado e frio disposto a esquecêla e a matála Viaa dali mesmo reclinada no camarote com os seus magníficos braços nus os braços que eram meus só meus fascinando os olhos de todos com o vestido soberbo que havia de ter o colo de leite os cabelos postos em bandos à maneira do tempo e os brilhantes menos luzidios que os olhos dela Viaa assim e doíame que a vissem outros Depois começava a despila a pôr de lado as jóias e sedas a despenteála com as minhas mãos sôfregas e lascivas a tornála não sei se mais bela se mais natural a tornála minha somente minha unicamente minha No dia seguinte não me pude ter fui cedo à casa de Virgília acheia com os olhos vermelhos de chorar Que houve perguntei Você não me ama foi a sua resposta nunca me teve a menor soma de amor Tratoume ontem como se me tivesse ódio Se eu ao menos soubesse o que é que fiz Mas não sei Não me dirá o que foi Que foi o quê Creio que não houve nada Nada Tratoume como não se trata um cachorro A esta palavra pegueilhe nas mãos beijeias e duas lágrimas rebentaramlhe dos olhos Acabou acabou disse eu Não tive ânimo de argüir e aliás argüila de quê Não era culpa dela se o marido a amava Disselhe que não me fizera coisa nenhuma que eu tinha necessariamente ciúmes do outro que nem sempre o podia suportar de cara alegre acrescentei que talvez houvesse nele muita dissimulação e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e às dissensões era aceitar a minha idéia da véspera Pensei nisso acudiu Virgília uma casinha só nossa solitária metida num jardim em alguma rua escondida não é Acho a idéia boa mas para que fugir Disse isto com o tom ingênuo e preguiçoso de quem não cuida em mal e o sorriso que lhe derreava os cantos da boca trazia a mesma expressão de candidez Então afastandome respondi Você é que nunca me teve amor Eu Sim é uma egoísta prefere verme padecer todos os dias é uma egoísta sem nome Virgília desatou a chorar e para não atrair gente metia o lenço na boca recalcava os soluços explosão que me desconcertou Se alguém a ouvisse perdiase tudo Inclineime para ela traveilhe dos pulsos sussurreilhe os nomes mais doces da nossa intimidade mostreilhe o perigo o terror apaziguoua Não posso disse ela daí a alguns instantes não deixo meu filho se o levar estou certa de que ele me irá buscar ao fim do mundo Não posso mateme você se o quiser ou deixeme morrer Ah meu Deus meu Deus Sossegue olhe que podem ouvila Que ouçam Não me importa Estava ainda excitada pedilhe que esquecesse tudo que me perdoasse que eu era um doido mas que a minha insânia provinha dela e com ela acabaria Virgília enxugou os olhos e estendeume a mão Sorrimos ambos minutos depois tornávamos ao assunto da casinha solitária em alguma rua escusa CAPÍTULO LXV OLHEIROS E ESCUTAS Interrompeunos o rumor de um carro na chácara Veio um escravo dizer que era a baronesa X Virgília consultoume com os olhos Se a senhora está assim com dor de cabeça disse eu parece que o melhor é não receber Já se apeou perguntou Virgília ao escravo Já se apeou diz que precisa muito de falar com sinhá Que entre A baronesa entrou daí a pouco Não sei se contava comigo na sala mas era impossível mostrar maior alvoroço Bons olhos o vejam exclamou Onde se mete o senhor que não aparece em parte nenhuma Pois olhe ontem admiroume não o ver no teatro A Candiani esteve deliciosa Que mulher Gosta da Candiani É natural Os senhores são todos os mesmos O barão dizia ontem no camarote que uma só italiana vale por cinco brasileiras Que desaforo e desaforo de velho que é pior Mas por que é que o senhor não foi ontem ao teatro Uma enxaqueca Qual Algum namoro não acha Virgília Pois meu amigo apressese porque o senhor deve estar com quarenta anos ou perto disso Não tem quarenta anos Não lhe posso dizer com certeza respondi eu mas se me dá licença vou consultar a certidão de batismo Vá vá E estendendome a mão Até quando Sábado ficamos em casa o barão está com umas saudades suas Chegando à rua arrependime de ter saído A baronesa era uma das pessoas que mais desconfiavam de nós Cinqüenta e cinco anos que pareciam quarenta macia risonha vestígios de beleza porte elegante e maneiras finas Não falava muito nem sempre possuía a grande arte de escutar os outros espiandoos reclinavase então na cadeira desembainhava um olhar afiado e comprido e deixavase estar Os outros não sabendo o que era falavam olhavam gesticulavam ao tempo que ela olhava só ora fixa ora móbil levando a astúcia ao ponto de olhar às vezes para dentro de si porque deixava cair as pálpebras mas como as pestanas eram rótulas o olhar continuava o seu ofício remexendo a alma e a vida dos outros A segunda pessoa era um parente de Virgília o Viegas um cangalho de setenta invernos chupado e amarelado que padecia de um reumatismo teimoso de uma asma não menos teimosa e de uma lesão de coração era um hospital concentrado Os olhos porém luziam de muita vida e saúde Virgília nas primeiras semanas lhe tinha medo nenhum diziame que quando o Viegas parecia espreitar com o olhar fixo estava simplesmente contando dinheiro Com efeito era um grande avaro Havia ainda o primo de Virgília o Luís Dutra que eu agora desarmava à força de lhe falar nos versos e prosas e de o apresentar aos conhecidos Quando estes ligando o nome à pessoa se mostravam contentes da apresentação não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade mas eu curavame da felicidade com a esperança de que ele nos não denunciasse nunca Havia enfim umas duas ou três senhoras vários gamenhos e os fâmulos que naturalmente se desforravam assim da condição servil e tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas por entre os quais tínhamos de resvalar com a tática e maciez das cobras CAPÍTULO LXVI AS PERNAS Ora enquanto eu pensava naquela gente iamme pernas levando ruas abaixo de modo que insensivelmente me achei à porta do Hotel Pharoux De costume jantava aí mas não tendo deliberadamente andado nenhum merecimento da ação me cabe e sim às pernas que a fizeram Abençoadas pernas E há quem vos trate com desdém ou indiferença Eu mesmo até então tinhavos em má conta zangavame quando vos fatigáveis quando não podíeis ir além de certo ponto e me deixáveis com o desejo a avoaçar à semelhança de galinha atada pelos pés Aquele caso porém foi um raio de luz Sim pernas amigas vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília e dissestes uma à outra Ele precisa comer são horas de jantar vamos leválo ao Pharoux dividamos a consciência dele uma parte fique lá com a dama tomemos nós a outra para que ele vá direito não abalroe as gentes e as carroças tire o chapéu aos conhecidos e finalmente chegue são e salvo ao hotel E cumpristes à risca o vosso propósito amáveis pernas o que me obriga a imortalizarvos nesta página CAPÍTULO LXVII A CASINHA Jantei e fui a casa Lá achei uma caixa de charutos que me mandara o Lobo Neves embrulhada em papel de seda e ornada de fitinhas corderosa Entendi abria e tirei este bilhete Meu B Desconfiam de nós tudo está perdido esqueçame para sempre Não nos veremos mais Adeus esqueça se da infeliz Va Foi um golpe esta carta não obstante apenas fechou a noite corri à casa de Virgília Era tempo estava arrependida Ao vão de uma janela contoume o que se passara com a baronesa A baronesa disselhe francamente que se falara muito no teatro na noite anterior a propósito da minha ausência do camarote do Lobo Neves tinham comentado as minhas relações na casa em suma éramos objeto da suspeita pública Concluiu dizendo que não sabia que fazer O melhor é fugirmos insinuei Nunca respondeu ela abanando a cabeça Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas o nosso amor e a consideração pública Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens e a fuga só lhe deixava uma Talvez senti alguma coisa semelhante a despeito mas as comoções daqueles dois dias eram já muitas e o despeito morreu depressa Vá lá arranjemos a casinha Com efeito acheia dias depois expressamente feita em um recanto da Gamboa Um brinco Nova caiada de fresco com quatro janelas na frente e duas de cada lado todas com venezianas cor de tijolo trepadeira nos cantos jardim na frente mistério e solidão Um brinco Convencionamos que iria morar ali uma mulher conhecida de Virgília em cuja casa fora costureira e agregada Virgília exercia sobre ela verdadeira fascinação Não se lhe diria tudo ela aceitaria facilmente o resto Para mim era aquilo uma situação nova do nosso amor uma aparência de posse exclusiva de domínio absoluto alguma coisa que me faria adormecer a consciência e resguardar o decoro Já estava cansado das cortinas do outro das cadeiras do tapete do canapé de todas essas coisas que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade Agora podia evitar os jantares freqüentes o chá de todas as noites enfim a presença do filho deles meu cúmplice e meu inimigo A casa resgatavame tudo o mundo vulgar terminaria à porta dali para dentro era o infinito um mundo eterno superior excepcional nosso somente nosso sem leis sem instituições sem baronesas sem olheiros sem escutas um só mundo um só casal uma só vida uma só vontade uma só afeição a unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram contrárias CAPÍTULO LXVIII O VERGALHO Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo por aquele Valongo fora logo depois de ver e ajustar a casa Interrompeumas um ajuntamento era um preto que vergalhava outro na praça O outro não se atrevia a fugir gemia somente estas únicas palavras Não perdão meu senhor meu senhor perdão Mas o primeiro não fazia caso e a cada súplica respondia com uma vergalhada nova Toma diabo dizia ele toma mais perdão bêbado Meu senhor gemia o outro Cala a boca besta replicava o vergalho Parei olhei Justos céus Quem havia de ser o do vergalho Nada menos que o meu moleque Prudêncio o que meu pai libertara alguns anos antes Chegueime ele detevese logo e pediume a bênção pergunteilhe se aquele preto era escravo dele É sim nhonhô Fezte alguma coisa É um vadio e um bêbado muito grande Ainda hoje deixei ele na quitanda enquanto eu ia lá embaixo na cidade e ele deixou a quitanda para ir na venda beber Está bom perdoalhe disse eu Pois não nhonhô Nhonhô manda não pede Entra para casa bêbado Saí do grupo que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas Segui caminho a desfiar uma infinidade de reflexões que sinto haver inteiramente perdido aliás seria matéria para um bom capítulo e talvez alegre Eu gosto dos capítulos alegres é o meu fraco Exteriormente era torvo o episódio do Valongo mas só exteriormente Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei lhe um miolo gaiato fino e até profundo Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas transmitindoas a outro Eu em criança montavao punhalhe um freio na boca e desancavao sem compaixão ele gemia e sofria Agora porém que era livre dispunha de si mesmo dos braços das pernas podia trabalhar folgar dormir desagrilhoado da antiga condição agora é que ele se desbancava comprou um escravo e ia lhe pagando com alto juro as quantias que de mim recebera Vejam as sutilezas do maroto CAPÍTULO LXIX UM GRÃO DE SANDICE Este caso fazme lembrar um doido que conheci Chamavase Romualdo e dizia ser Tamerlão Era a sua grande e única mania e tinha uma curiosa maneira de a explicar Eu sou o ilustre Tamerlão dizia ele Outrora fui Romualdo mas adoeci e tomei tanto tártaro tanto tártaro tanto tártaro que fiquei Tártaro e até rei dos Tártaros O tártaro tem a virtude de fazer Tártaros Pobre Romualdo A gente ria da resposta mas é provável que o leitor não se ria e com razão eu não lhe acho graça nenhuma Ouvida tinha algum chiste mas assim contada no papel e a propósito de um vergalho recebido e transferido força é confessar que é muito melhor voltar à casinha da Gamboa deixemos os Romualdos e Prudêncios CAPÍTULO LXX D PLÁCIDA Voltemos à casinha Não serias capaz de lá entrar hoje curioso leitor envelheceu enegreceu apodreceu e o proprietário deitoua abaixo para substituíla por outra três vezes maior mas jurote que muito menor que a primeira O mundo era estreito para Alexandre um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas Vê agora a neutralidade deste globo que nos leva através dos espaços como uma lancha de náufragos que vai dar à costa dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados Amanhã pode lá dormir um eclesiástico depois um assassino depois um ferreiro depois um poeta e todos abençoarão esse canto de Terra que lhes deu algumas ilusões Virgília fez daquilo um brinco designou as alfaias mais idôneas e dispôlas com a intuição estética da mulher elegante eu levei para lá alguns livros e tudo ficou sob a guarda de D Plácida suposta e a certos respeitos verdadeira dona da casa Custoulhe muito a aceitar a casa farejara a intenção e doíalhe o ofício mas afinal cedeu Creio que chorava a princípio tinha nojo de si mesma Ao menos é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dois meses falavame com eles baixos séria carrancuda às vezes triste Eu queria angariála e não me dava por ofendido tratavaa com carinho e respeito forcejava por obterlhe a benevolência depois a confiança Quando obtive a confiança imaginei uma história patética dos meus amores com Virgília um caso anterior ao casamento a resistência do pai a dureza do marido e não sei que outros toques de novela D Plácida não rejeitou uma só página da novela aceitouas todas Era uma necessidade da consciência Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que D Plácida era minha sogra Não fui ingrato fizlhe um pecúlio de cinco contos os cinco contos achados em Botafogo como um pão para a velhice D Plácida agradeceume com lágrimas nos olhos e nunca mais deixou de rezar por mim todas as noites diante de uma imagem da Virgem que tinha no quarto Foi assim que lhe acabou o nojo CAPÍTULO LXXI O SENÃO DO LIVRO Começo a arrependerme deste livro Não que ele me canse eu não tenho que fazer e realmente expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade Mas o livro é enfadonho cheira a sepulcro traz certa contração cadavérica vício grave e aliás ínfimo porque o maior defeito deste livro és tu leitor Tu tens pressa de envelhecer e o livro anda devagar tu amas a narração direta e nutrida o estilo regular e fluente e este livro e o meu estilo são como os ébrios guinam à direita e à esquerda andam e param resmungam urram gargalham ameaçam o céu escorregam e caem E caem Folhas misérrimas do meu cipreste heis de cair como quaisquer outras belas e vistosas e se eu tivesse olhos darvosia uma lágrima de saudade Esta é a grande vantagem da morte que se não deixa boca para rir também não deixa olhos para chorar Heis de cair CAPÍTULO LXXII O BIBLIÔMANO Talvez suprima o capítulo anterior entre outros motivos há aí nas últimas linhas uma frase muito parecida com despropósito e eu não quero dar pasto à crítica do futuro Olhai daqui a setenta anos um sujeito magro amarelo grisalho que não ama nenhuma outra coisa além dos livros inclinase sobre a página anterior a ver se lhe descobre o despropósito lê relê treslê desengonça as palavras saca uma sílaba depois outra mais outra e as restantes examinaas por dentro e por fora por todos os lados contra a luz espanejaas esfregaas no joelho lavaas e nada não acha o despropósito É um bibliômano Não conhece o autor este nome de Brás Cubas não vem nos seus dicionários biográficos Achou o volume por acaso no pardieiro de um alfarrabista Comprouo por duzentos réis Indagou pesquisou esgaravatou e veio a descobrir que era um exemplar único Único Vós que não só amais os livros senão que padeceis a mania deles vós sabeis muito bem o valor desta palavra e adivinhais portanto as delícias de meu bibliômano Ele rejeitaria a coroa das Índias o papado todos os museus da Itália e da Holanda se os houvesse de trocar por esse único exemplar e não porque seja o das minhas Memórias faria a mesma coisa com o Almanaque de Laemmert uma vez que fosse único O pior é o despropósito Lá continua o homem inclinado sobre a página com uma lente no olho direito todo entregue à nobre e áspera função de decifrar o despropósito Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade se a houver por baixo daquela frase obscura Ao cabo não descobre nada e contentase com a posse Fecha o livro mirao remirao chegase à janela e mostrao ao sol Um exemplar único Nesse momento passalhe por baixo da janela um César ou um Cromwell a caminho do poder Ele dá de ombros fecha a janela estirase na rede e folheia o livro devagar com amor aos goles Um exemplar único CAPÍTULO LXXIII O LUNCHEON O despropósito fezme perder outro capítulo Que melhor não era dizer as coisas lisamente sem todos estes solavancos Já comparei o meu estilo ao andar dos ébrios Se a idéia vos parece indecorosa direi que ele é o que eram as minhas refeições com Virgília na casinha da Gamboa onde às vezes fazíamos a nossa patuscada o nosso luncheon Vinho fruta compotas Comíamos é verdade mas era um comer virgulado de palavrinhas doces de olhares ternos de criancices uma infinidade desses apartes do coração aliás o verdadeiro o ininterrupto discurso do amor Às vezes vinha o arrufo temperar o nímio adocicado da situação Ela deixavame refugiava se num canto do canapé ou ia para o interior ouvir as denguices de Dona Plácida Cinco ou dez minutos depois reatávamos a palestra como eu reato a narração para desatála outra vez Notese que longe de termos horror ao método era nosso costume convidálo na pessoa de D Plácida a sentarse conosco à mesa mas D Plácida não aceitava nunca Você parece que não gosta mais de mim disselhe um dia Virgília Virgem Nossa Senhora exclamou a boa dama alçando as mãos para o teto Não gosto de Iaiá Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo E pegandolhe nas mãos olhoua fixamente fixamente fixamente até molharemselhe os olhos de tão fixo que era Virgília acaricioua muito eu deixeilhe uma pratinha na algibeira do vestido CAPÍTULO LXXIV HISTÓRIA DE D PLÁCIDA Não te arrependas de ser generoso a pratinha rendeume uma confidência de D Plácida e conseguintemente este capítulo Dias depois como eu a achasse só em casa travamos palestra e ela contoume em breves termos a sua história Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fora Perdeu o pai aos dez anos Já então ralava coco e fazia não sei que outros trabalhos de doceira compatíveis com a idade Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate que morreu tísico algum tempo depois deixandolhe uma filha Viúva e moça ficaram a seu cargo a filha com dois anos e a mãe cansada de trabalhar Tinha de sustentar a três pessoas Fazia doces que era o seu ofício mas cosia também de dia e de noite com afinco para três ou quatro lojas e ensinava algumas crianças do bairro a dez tostões por mês Com isto iamse passando os anos não a beleza porque não a tivera nunca Apareceramlhe alguns namoros propostas seduções a que resistia Se eu pudesse encontrar outro marido disseme ela creia que me teria casado mas ninguém queria casar comigo Um dos pretendentes conseguiu fazerse aceito não sendo porém mais delicado que os outros D Plácida despediuo do mesmo modo e depois de o despedir chorou muito Continuou a coser para fora e a escumar os tachos A mãe tinha a rabugem do temperamento dos anos e da necessidade mortificava a filha para que tomasse um dos maridos de empréstimo e de ocasião que lha pediam E bradava Queres ser melhor do que eu Não sei donde te vêm essas fidúcias de pessoa rica Minha camarada a vida não se arranja à toa não se come vento Ora esta Moços tão bons como o Policarpo da venda coitado Esperas algum fidalgo não é D Plácida juroume que não esperava fidalgo nenhum Era gênio Queria ser casada Sabia muito bem que a mãe o não fora e conhecia algumas que tinham só o seu moço delas mas era gênio e queria ser casada Não queria também que a filha fosse outra coisa Trabalhava muito queimando os dedos ao fogão e os olhos ao candeeiro para comer e não cair Emagreceu adoeceu perdeu a mãe enterroua por subscrição e continuou a trabalhar A filha estava com quatorze anos mas era muito fraquinha e não fazia nada a não ser namorar os capadócios que lhe rondavam a rótula D Plácida vivia com imensos cuidados levandoa consigo quando tinha de ir entregar costuras A gente das lojas arregalava e piscava os olhos convencida de que ela a levava para colher marido ou outra coisa Alguns diziam graçolas faziam cumprimentos a mãe chegou a receber propostas de dinheiro Interrompeuse um instante e continuou logo Minha filha fugiume foi com um sujeito nem quero saber Deixoume só mas tão triste tão triste que pensei morrer Não tinha ninguém mais no mundo e estava quase velha e doente Foi por esse tempo que conheci a família de Iaiá boa gente que me deu que fazer e até chegou a me dar casa Estive lá muitos meses um ano mais de um ano agregada costurando Saí quando Iaiá casou Depois vivi como Deus foi servido Olhe os meus dedos olhe estas mãos E mostroume as mãos grossas e gretadas as pontas dos dedos picadas da agulha Não se cria isto à toa meu senhor Deus sabe como é que isto se cria Felizmente Iaiá me protegeu e o senhor doutor também Eu tinha um medo de acabar na rua pedindo esmola Ao soltar a última frase D Plácida teve um calafrio Depois como se tornasse a si pareceu atentar na inconveniência daquela confissão ao amante de uma mulher casada e começou a rir a desdizerse a chamarse tola cheia de fidúcias como lhe dizia a mãe enfim cansada do meu silêncio retirouse da sala Eu fiquei a olhar para a ponta do botim CAPÍTULO LXXV COMIGO Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capítulo anterior observo que é preciso lêlo para entender o que eu disse comigo logo depois que D Plácida saiu da sala O que eu disse foi isto Assim pois o sacristão da Sé um dia ajudando à missa viu entrar a dama que devia ser sua colaboradora na vida de D Plácida Viua outros dias durante semanas inteiras gostou disselhe alguma graça pisoulhe o pé ao acender os altares nos dias de festa Ela gostou dele acercaramse amaramse Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou D Plácida É de crer que D Plácida não falasse ainda quando nasceu mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias Aqui estou Para que me chamastes E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam Chamamoste para queimar os dedos nos tachos os olhos na costura comer mal ou não comer andar de um lado para outro na faina adoecendo e sarando com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez triste agora logo desesperada amanhã resignada mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura até acabar um dia na lama ou no hospital foi para isso que te chamamos num momento de simpatia CAPÍTULO LXXVI O ESTRUME Súbito deume a consciência um repelão acusoume de ter feito capitular a probidade de D Plácida obrigandoa a um papel torpe depois de uma longa vida de trabalho e privações Medianeira não era melhor que concubina e eu tinhaa baixado a esse ofício à custa de obséquios e dinheiros Foi o que me disse a consciência fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a excostureira da gratidão desta enfim da necessidade Notou a resistência de D Plácida as lágrimas dos primeiros dias as caras feias os silêncios os olhos baixos e a minha arte em suportar tudo isso até vencêla E repuxoume outra vez de um modo irritado e nervoso Concordei que assim era mas aleguei que a velhice de D Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade era uma compensação Se não fossem os meus amores provavelmente D Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã A consciência concordou e eu fui abrir a porta a Virgília CAPÍTULO LXXVII ENTREVISTA Virgília entrou risonha e sossegada Os tempos tinham levado os sustos e vexames Que doce que era vêla chegar nos primeiros dias envergonhada e trêmula Ia de sege velado o rosto envolvida numa espécie de mantéu que lhe disfarçava as ondulações do talhe Da primeira vez deixouse cair no canapé ofegante escarlate com os olhos no chão e palavra em nenhuma outra ocasião a achei tão bela talvez porque nunca me senti mais lisonjeado Agora porém como eu dizia tinham acabado os sustos e vexames as entrevistas entravam no período cronométrico A intensidade do amor era a mesma a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituirse um simples feixe de raios tranqüilo e constante como nos casamentos Estou muito zangada com você disse ela sentandose Por quê Por que não foi lá ontem como me tinha dito O Damião perguntou muitas vezes se você não iria ao menos tomar chá Por que é que não foi Com efeito eu havia faltado à palavra que dera e a culpa era toda de Virgília Questão de ciúmes Essa mulher esplêndida sabia que o era e gostava de o ouvir dizer fosse em voz alta ou baixa Na antevéspera em casa da baronesa valsara duas vezes com o mesmo peralta depois de lhe escutar as cortesanices ao canto de uma janela Estava tão alegre tão derramada tão cheia de si Quando descobriu entre as minhas sobrancelhas a ruga interrogativa e ameaçadora não teve nenhum sobressalto nem ficou subitamente séria mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices Veio depois a mim tomoume o braço e levoume a outra sala menos povoada onde se me queixou de cansaço e disse muitas outras coisas com o ar pueril que costumava ter em certas ocasiões e eu ouvia quase sem responder nada Agora mesmo custavame responder alguma coisa mas enfim conteilhe o motivo da minha ausência Não eternas estrelas nunca vi olhos mais pasmados A boca semiaberta as sobrancelhas arqueadas uma estupefação visível tangível que se não podia negar tal foi a primeira réplica de Virgília abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura que inteiramente me confundiu Ora você E foi tirar o chapéu lépida jovial como a menina que torna do colégio depois veio a mim que estava sentado deume pancadinha na testa com um só dedo a repetir Isto isto e eu não tive remédio senão rir também e tudo acabou em galhofa Era claro que me enganara CAPÍTULO LXXVIII A PRESIDÊNCIA Certo dia meses depois entrou Lobo Neves em casa dizendo que iria talvez ocupar uma presidência de província Olhei para Virgília que empalideceu ele que a viu empalidecer perguntoulhe A modo que não gostaste Virgília Virgília abanou a cabeça Não me agrada muito foi a sua resposta Não se disse mais nada mas de noite Lobo Neves insistiu no projeto um pouco mais resolutamente do que de tarde dois dias depois declarou à mulher que a presidência era coisa definitiva Virgília não pôde dissimular a repugnância que isto lhe causava O marido respondia a tudo com as necessidades políticas Não posso recusar o que me pedem é até conveniência nossa do nosso futuro dos teus brasões meu amor porque eu prometi que serias marquesa e nem baronesa estás Dirás que sou ambicioso Souo deveras mas é preciso que me não ponhas um peso nas asas da ambição Virgília ficou desorientada No dia seguinte acheia triste na casa da Gamboa à minha espera tinha dito tudo a D Plácida que buscava consolála como podia Não fiquei menos abatido Você há de ir conosco disseme Virgília Está doida Seria uma insensatez Mas então Então é preciso desfazer o projeto É impossível Já aceitou Parece que sim Levanteime atirei o chapéu a uma cadeira e entrei a passear de um lado para outro sem saber o que faria Cogitei largamente e não achei nada Enfim chegueime a Virgília que estava sentada e traveilhe da mão D Plácida foi à janela Nesta pequenina mão está toda a minha existência disse eu você é responsável por ela faça o que lhe parecer Virgília teve um gesto aflitivo eu fui encostarme ao consolo fronteiro Decorreram alguns instantes de silêncio ouvíamos somente o latir de um cão e não sei se o rumor da água que morria na praia Vendo que não falava olhei para ela Virgília tinha os olhos no chão parados sem luz as mãos deixadas sobre os joelhos com os dedos cruzados na atitude da suprema desesperança Noutra ocasião por diferente motivo é certo que eu me lançaria aos pés dela e a ampararia com a minha razão e a minha ternura agora porém era preciso compelila ao esforço de si mesma ao sacrifício à responsabilidade da nossa vida comum e conseguintemente desamparála deixála e sair foi o que fiz Repito a minha felicidade está nas tuas mãos disse eu Virgília quis agarrarme mas eu já estava fora da porta Cheguei a ouvir um prorromper de lágrimas e digolhes que estive a ponto de voltar para as enxugar com um beijo mas subjugueime e saí CAPÍTULO LXXIX COMPROMISSO Não acabaria se houvesse de contar pelo miúdo o que padeci nas primeiras horas Vacilava entre um querer e um não querer entre a piedade que me empuxava à casa de Virgília e outro sentimento egoísmo supunhamos que me dizia Fica deixaa a sós com o problema deixaa que ela o resolverá no sentido do amor Creio que essas duas forças tinham igual intensidade investiam e resistiam ao mesmo tempo com ardor com tenacidade e nenhuma cedia definitivamente Às vezes sentia um dentezinho de remorso parecia me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada sem nada sacrificar nem arriscar de mim próprio e quando ia a capitular vinha outra vez o amor e me repetia o conselho egoísta e eu ficava irresoluto e inquieto desejoso de a ver e receoso de que a vista me levasse a compartir a responsabilidade da solução Por fim interveio um compromisso entre o egoísmo e a piedade eu iria vêla em casa e só em casa em presença do marido para lhe não dizer nada à véspera do efeito da minha intimação Deste modo poderia conciliar as duas forças Agora que isto escrevo querme parecer que o compromisso era uma burla que essa piedade era ainda uma forma de egoísmo e que a resolução de ir consolar Virgília não passava de uma sugestão de meu próprio padecimento CAPÍTULO LXXX DE SECRETÁRIO Na noite seguinte fui efetivamente à casa do Lobo Neves estavam ambos Virgília muito triste ele muito jovial Juro que ela sentiu certo alívio quando os nossos olhos se encontraram cheios de curiosidade e ternura Lobo Neves contoume os planos que levava para a presidência as dificuldades locais as esperanças as resoluções estava tão contente tão esperançado Virgília ao pé da mesa fingia ler um livro mas por cima da página olhavame de quando em quando interrogativa e ansiosa O pior disseme de repente o Lobo Neves é que ainda não achei secretário Não Não e tenho uma idéia Ah Uma idéia Quer você dar um passeio ao Norte Não sei o que lhe disse Você é rico continuou ele não precisa de um magro ordenado mas se quisesse obsequiarme ia de secretário comigo Meu espírito deu um salto para trás como se descobrisse uma serpente diante de si Encarei o Lobo Neves fixamente imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto Nem sombra disso o olhar vinha direito e franco a placidez do rosto era natural não violenta uma placidez salpicada de alegria Respirei e não tive ânimo de olhar para Virgília senti por cima da página o olhar dela que me pedia também a mesma coisa e disse que sim que iria Na verdade um presidente uma presidenta um secretário era resolver as coisas de um modo administrativo CAPÍTULO LXXXI A RECONCILIAÇÃO Contudo ao sair de lá tive umas sombras de dúvida cogitei se não ia expor insanamente a reputação de Virgília se não haveria outro meio razoável de combinar o Estado e a Gamboa Não achei nada No dia seguinte ao levantarme da cama trazia o espírito feito e resoluto a aceitar a nomeação Ao meiodia veio o criado dizerme que estava na sala uma senhora coberta com um véu Corro era minha irmã Sabina Isto não pode continuar assim disse ela é preciso que de uma vez por todas façamos as pazes Nossa família está acabando não havemos de ficar como dois inimigos Mas se eu não te peço outra coisa mana bradei estendendolhe os braços Senteia ao pé de mim faleilhe do marido da filha dos negócios de tudo Tudo ia bem a filha estava linda como os amores O marido viria mostrarma se eu consentisse Ora essa irei eu mesmo vêla Sim Palavra Tanto melhor respirou Sabina É tempo de acabar com isto Acheia mais gorda e talvez mais moça Parecia ter vinte anos e contava mais de trinta Graciosa afável nenhum acanhamento nenhum ressentimento Olhávamos um para o outro com as mãos seguras falando de tudo e de nada como dois namorados Era minha infância que ressurgia fresca travessa e loura os anos iam caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas com que eu brincava em pequeno e deixavamme ver a nossa casa a nossa família as nossas festas Suportei a recordação com algum esforço mas um barbeiro da vizinhança lembrouse de zangarrear na clássica rabeca e essa voz porque até então a recordação era muda essa voz do passado fanhosa e saudosa a tal ponto me comoveu que Os olhos dela estavam secos Sabina não herdara a flor amarela e mórbida Que importa Era minha irmã meu sangue um pedaço de minha mãe e eu disselho com ternura com sinceridade Súbito ouço bater à porta da sala vou abrir era um anjinho de cinco anos Entra Sara disse Sabina Era minha sobrinha Apanheia do chão beijeia muitas vezes a pequena espantada empurravame o ombro com a mãozinha quebrando o corpo para descer Nisto apareceme à porta um chapéu e logo um homem o Cotrim nada menos que o Cotrim Eu estava tão comovido que deixei a filha e lanceime aos braços do pai Talvez essa efusão o desconcertou um pouco é certo que me pareceu acanhado Simples prólogo Daí a pouco falávamos como bons amigos velhos Nenhuma alusão ao passado muitos planos de futuro promessa de jantarmos em casa um do outro Não deixei de dizer que essa troca de jantares podia ser que tivesse uma curta interrupção porque eu andava com idéias de uma viagem ao Norte Sabina olhou para o Cotrim o Cotrim para Sabina ambos concordaram que essas idéias não tinham senso comum Que diacho podia eu achar no Norte Pois não era na corte em plena corte que devia continuar a luzir a meter num chinelo os rapazes do tempo Que na verdade nenhum havia que se me comparasse ele Cotrim acompanhavame de longe e não obstante uma briga ridícula teve sempre interesse orgulho vaidade nos meus triunfos Ouvia o que se dizia a meu respeito nas ruas e nas salas era um concerto de louvores e admirações E deixase isso para ir passar alguns meses na província sem necessidade sem motivo sério A menos que não fosse política Justamente política disse eu Nem assim replicou ele daí a um instante E depois de outro silêncio Seja como for venha jantar hoje conosco Certamente que vou mas amanhã ou depois hão de vir jantar comigo Não sei não sei objetou Sabina casa de homem solteiro Você precisa casar mano Também eu quero uma sobrinha ouviu Cotrim reprimiua com um gesto que não entendi bem Não importa a reconciliação de uma família vale bem um gesto enigmático CAPÍTULO LXXXII QUESTÃO DE BOTÂNICA Digam o que quiserem dizer os hipocondríacos a vida é uma coisa doce Foi o que eu pensei comigo ao ver Sabina o marido e a filha descerem de tropel as escadas dizendo muitas palavras afetuosas para cima onde eu ficava no patamar a dizerlhes outras tantas para baixo Continuei a pensar que na verdade era feliz Amavame uma mulher tinha a confiança do marido ia por secretário de ambos reconciliavame com os meus Que podia desejar mais em vinte e quatro horas Nesse mesmo dia tratando de aparelhar os ânimos comecei a espalhar que talvez fosse para o Norte como secretário de província a fim de realizar certos desígnios políticos que me eram pessoais Disseo na Rua do Ouvidor repetio no dia seguinte no Pharoux e no teatro Alguns ligando a minha nomeação à do Lobo Neves que já andava em boatos sorriam maliciosamente outros batiamme no ombro No teatro disseme uma senhora que era levar muito longe o amor da escultura Referiase às belas formas de Virgília Mas a alusão mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina três dias depois Fêla um certo Garcez velho cirurgião pequenino trivial e grulha que podia chegar aos setenta aos oitenta aos noventa anos sem adquirir jamais aquela compostura austera que é a gentileza do ancião A velhice ridícula é porventura a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana Já sei desta vez vai ler Cícero disseme ele ao saber da viagem Cícero exclamou Sabina Pois então Seu mano é um grande latinista Traduz Virgílio de relance Olhe que é Virgílio e não Virgília não confunda E ria de um riso grosso rasteiro e frívolo Sabina olhou para mim receosa de alguma réplica mas sorriu quando me viu sorrir e voltou o rosto para disfarçálo As outras pessoas olhavamme com um ar de curiosidade indulgência e simpatia era transparente que não acabavam de ouvir nenhuma novidade O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor Entretanto sorri um sorriso curto fugitivo e guloso palreiro como as pegas de Sintra Virgília era um belo erro e é tão fácil confessar um belo erro Costumava ficar carrancudo a princípio quando ouvia alguma alusão aos nossos amores mas palavra de honra sentia cá dentro uma impressão suave e lisonjeira Uma vez porém aconteceume sorrir e continuei a fazêlo das outras vezes Não sei se há aí alguém que explique o fenômeno Eu explicoo assim a princípio o contentamento sendo interior era por assim dizer o mesmo sorriso mas abotoado andando o tempo desabotoouse em flor e apareceu aos olhos do próximo Simples questão de botânica CAPÍTULO LXXXIII 13 Cotrim tiroume daquele gozo levandome à janela Você quer que lhe diga uma coisa perguntou ele não faça essa viagem é insensata é perigosa Por quê Você bem sabe por que tornou ele é sobretudo perigosa muito perigosa Aqui na corte um caso desses perdese na multidão da gente e dos interesses mas na província muda de figura e tratando se de personagens políticos é realmente insensatez As gazetas de oposição logo que farejarem o negócio passam a imprimilo com todas as letras e aí virão as chufas os remoques as alcunhas Mas não entendo Entende entende Em verdade seria bem pouco amigo nosso se me negasse o que toda a gente sabe Eu sei disso há longos meses Repito não faça semelhante viagem suporte a ausência que é melhor e evite algum grande escândalo e maior desgosto Disse isto e foi para dentro Eu deixeime estar com os olhos no lampião da esquina um antigo lampião de azeite triste obscuro e recurvado como um ponto de interrogação Que me cumpria fazer Era o caso de Hamlet ou dobrarme à fortuna ou lutar com ela e subjugála Por outros termos embarcar ou não embarcar Esta era a questão O lampião não me dizia nada As palavras do Cotrim ressoavamme aos ouvidos da memória de um modo muito diverso do das palavras do Garcez Talvez Cotrim tivesse razão mas podia eu separarme de Virgília Sabina veio ter comigo e perguntoume em que estava pensando Respondi que em coisa nenhuma que tinha sono e ia para casa Sabina esteve um instante calada O que você precisa sei eu é uma noiva Deixe que eu ainda arranjo uma noiva para você Saí de lá opresso desorientado Tudo pronto para embarcar espírito e coração e eis aí me surge esse porteiro das conveniências que me pede o cartão de ingresso Dei ao diabo as conveniências e com elas a constituição o corpo legislativo o ministério tudo No dia seguinte abro uma folha política e leio a notícia de que por decretos de 13 tínhamos sido nomeados presidente e secretário da província de o Lobo Neves e eu Escrevi imediatamente a Virgília e segui duas horas depois para a Gamboa Coitada de D Plácida Estava cada vez mais aflita perguntoume se esqueceríamos a nossa velha se a ausência era grande e se a província ficava longe Consoleia mas eu próprio precisava de consolações a objeção de Cotrim afligiame Virgília chegou daí a pouco lépida como uma andorinha mas ao verme triste ficou muito séria Que aconteceu Vacilo disse eu não sei se devo aceitar Virgília deixouse cair no canapé a rir Por quê disse ela Não é conveniente dá muito na vista Mas nós não já vamos Como assim Contoume que o marido ia recusar a nomeação e por motivo que só lhe disse a ela pedindolhe o maior segredo não podia confessálo a ninguém mais É pueril observou ele é ridículo mas em suma é um motivo poderoso para mim Referiulhe que o decreto trazia a data de 13 e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre O pai morreu num dia 13 treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas A casa em que morrera a mãe tinha o n 13 Et coetera Era um algarismo fatídico Não podia alegar semelhante coisa ao ministro dirlheia que tinha razões particulares para não aceitar Eu fiquei como há de estar o leitor um pouco assombrado com esse sacrifício a um número mas sendo ele ambicioso o sacrifício devia ser sincero CAPÍTULO LXXXIV O CONFLITO Número fatídico lembraste que te abençoei muitas vezes Assim também as virgens ruivas de Tebas deviam abençoar a égua de ruiva crina que as substituiu no sacrifício de Pelópidas uma donosa égua que lá morreu coberta de flores sem que ninguém lhe desse nunca uma palavra de saudade Pois douta eu égua piedosa não só pela morte havida como porque entre as donzelas escapas não é impossível que figurasse uma avó dos Cubas Número fatídico tu foste a nossa salvação Não me confessou o marido a causa da recusa disseme também que eram negócios particulares e o rosto sério convencido com que eu o escutei fez honra à dissimulação humana Ele é que mal podia encobrir a tristeza profunda que o minava falava pouco absorviase metiase em casa a ler Outras vezes recebia e então conversava e ria muito com estrépito e afetação Oprimiamno duas coisas a ambição que um escrúpulo desasara e logo depois a dúvida e talvez o arrependimento mas um arrependimento que viria outra vez se repetisse a hipótese porque o fundo supersticioso existia Duvidava da superstição sem chegar a rejeitála Essa persistência de um sentimento que repugna ao mesmo indivíduo era um fenômeno digno de alguma atenção Mas eu preferia a pura ingenuidade de D Plácida quando confessava não poder ver um sapato voltado para o ar Que tem isso perguntavalhe eu Faz mal era a sua resposta Isto somente esta única resposta que valia para ela o livro dos sete selos Faz mal Disseramlhe isso em criança sem outra explicação e ela contentavase com a certeza do mal Já não acontecia mesma coisa quando se falava de apontar uma estrela com o dedo aí sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga Ou verruga ou outra coisa que valia isso para quem não perde uma presidência de província Tolerase uma superstição gratuita ou barata é insuportável a que leva uma parte da vida Este era o caso do Lobo Neves com o acréscimo da dúvida e do terror de haver sido ridículo E mais este outro acréscimo que o ministro não acreditou nos motivos particulares atribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos políticos ilusão complicada de algumas aparências tratouo mal comunicou a desconfiança aos colegas sobrevieram incidentes enfim com o tempo o presidente resignatário foi para a oposição CAPÍTULO LXXXV O CIMO DA MONTANHA Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade Entrei a amar Virgília com muito mais ardor depois que estive a pique de a perder e a mesma coisa lhe aconteceu a ela Assim a presidência não fez mais do que avivar a afeição primitiva foi a droga com que tornamos mais saboroso o nosso amor e mais prezado também Nos primeiros dias depois daquele incidente folgávamos de imaginar a dor da separação se houvesse separação a tristeza de um e de outro à proporção que o mar como uma toalha elástica se fosse dilatando entre nós e semelhantes às crianças que se achegam ao regaço das mães para fugir a uma simples careta fugíamos do suposto perigo apertandonos com abraços Minha boa Virgília Meu amor Tu és minha não Tua tua E assim reatamos o fio da aventura como a sultana Scheherazade o dos seus contos Esse foi cuido eu o ponto máximo do nosso amor o cimo da montanha donde por algum tempo divisamos os vale de leste e de oeste e por cima de nós o céu tranqüilo e azul Repousado esse tempo começamos a descer a encosta com as mãos presas ou soltas mas a descer a descer CAPÍTULO LXXXVI O MISTÉRIO Serra abaixo como eu a visse um pouco diferente não sei se abatida ou outra coisa pergunteilhe o que tinha calouse fez um gesto de enfado de malestar de fadiga ateimei ela disseme que Um fluido sutil percorreu todo o meu corpo sensação forte rápida singular que eu não chegarei jamais a fixar no papel Traveilhe das mãos puxeia levemente a mim e beijeia na testa com uma delicadeza de zéfiro e uma gravidade de Abraão Ela estremeceu colheume a cabeça entre as palmas fitoume os olhos depois afagoume com um gesto maternal Eis aí um mistério deixemos ao leitor o tempo de decifrar este mistério CAPÍTULO LXXXVII GEOLOGIA Sucedeu por esse tempo um desastre a morte do Viegas O Viegas passou aí de relance com os seus setenta anos abafados de asma desconjuntados de reumatismo e uma lesão de coração por quebra Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura Virgília nutria grandes esperanças em que esse velho parente avaro como um sepulcro lhe amparasse o futuro do filho com algum legado e se o marido tinha iguais pensamentos encobriaos ou estrangulavaos Tudo se deve dizer havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental uma camada de rocha que resistia ao comércio dos homens As outras as camadas de cima terra solta e areia levou lhas a vida que é um enxurro perpétuo Se o leitor ainda se lembra do capítulo XXIII observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro mas também há de reparar que desta vez acrescentolhe um adjetivo perpétuo E Deus sabe a força de um adjetivo principalmente em países novos e cálidos O que é novo neste livro é a geologia moral do Lobo Neves e provavelmente a do cavalheiro que me está lendo Sim essas camadas de caráter que a vida altera conserva ou dissolve conforme a resistência delas essas camadas mereceriam um capítulo que eu não escrevo por não alongar a narração Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacó Medeiros ou Jacó Valadares não me recorda bem o nome Talvez fosse Jacó Rodrigues em suma Jacó Era a probidade em pessoa podia ser rico violentando um pequenino escrúpulo e não quis deixou ir pelas mãos fora nada menos de uns quatrocentos contos tinha a probidade tão exemplar que chegava a ser miúda e cansativa Um dia como nos achássemos a sós em casa dele em boa palestra vieram dizer que o procurava o Dr B um sujeito enfadonho Jacó mandou dizer que não estava em casa Não pega bradou uma voz do corredor cá estou de dentro E com efeito era o Dr B que apareceu logo à porta da sala Jacó foi recebêlo afirmando que cuidava ser outra pessoa e não ele e acrescentando que tinha muito prazer com a visita o que nos rendeu hora e meia de enfado mortal e isto mesmo porque Jacó tirou o relógio o Dr B perguntoulhe então se ia sair Com minha mulher disse Jacó Retirouse o Dr B e respiramos Uma vez respirados disse eu ao Jacó que ele acabava de mentir quatro vezes em menos de duas horas a primeira negandose a segunda alegrandose com a presença do importuno a terceira dizendo que ia sair a quarta acrescentando que com a mulher Jacó refletiu um instante depois confessou a justeza da minha observação mas desculpouse dizendo que a veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas Ah lembrame agora chamavase Jacó Tavares CAPÍTULO LXXXVIII O ENFERMO Não é preciso dizer que refutei tão perniciosa doutrina com os mais elementares argumentos mas ele estava tão vexado do meu reparo que resistiu até o fim mostrando certo calor fictício talvez para atordoar a consciência O caso de Virgília tinha alguma gravidade mais Ela era menos escrupulosa que o marido manifestava claramente as esperanças que trazia no legado cumulava o parente de todas as cortesias atenções e afagos que poderiam render pelo menos um codicilo Propriamente adulavao mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma coisa que a dos homens Esta orça pela servilidade a outra confundese com a afeição As formas graciosamente curvas a palavra doce a mesma fraqueza física dão à ação lisonjeira da mulher uma cor local um aspecto legítimo Não importa a idade do adulado a mulher há de ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã ou ainda de enfermeira outro ofício feminil em que o mais hábil dos homens carecerá sempre de um quid um fluido alguma coisa Era o que eu pensava comigo quando Virgília se desfazia toda em afagos ao velho parente Ela ia recebêlo à porta falando e rindo tiravalhe o chapéu e a bengala davalhe o braço e levavao a uma cadeira ou à cadeira porque havia lá em casa a cadeira do Viegas obra especial conchegada feita para gente enferma ou anciã Ia fechar a janela próxima se havia alguma brisa ou abrila se estava calor mas com cuidado combinando de modo que lhe não desse um golpe de ar Então Hoje está mais fortezinho Qual Passei mal a noite o diabo da asma não me deixa E bufava o homem repousando a pouco e pouco do cansaço da entrada e da subida não do caminho porque ia sempre de sege Ao lado um pouco mais para a frente sentavase Virgília numa banquinha com as mãos nos joelhos do enfermo Entretanto o nhonhô chegava à sala sem os pulos do costume mas discreto meigo sério Viegas gostava muito dele Vem cá nhonhô dizialhe e a custo introduzia a mão na ampla algibeira tirava uma caixinha de pastilhas metia uma na boca e dava outra ao pequeno Pastilhas antiasmáticas O pequeno dizia que eram muito boas Repetiase isto com variantes Como o Viegas gostasse de jogar damas Virgília cumprialhe o desejo aturandoo por largo tempo a mover as pedras com a mão frouxa e tarda Outras vezes desciam a passear na chácara dandolhe ela o braço que ele nem sempre aceitava por dizerse rijo e capaz de andar uma légua Iam sentavamse tornavam a ir a falar de coisas várias ora de um negócio de família ora de uma bisbilhotice de sala ora enfim de uma casa que ele meditava construir para residência própria casa de feitio moderno porque a dele era das antigas contemporânea de el rei D João VI à maneira de algumas que ainda hoje creio eu se podem ver no bairro de São Cristóvão com as suas grossas colunas na frente Parecialhe que o casarão em que morava podia ser substituído e já tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama Ah então sim então é que Virgília chegaria a ver o que era um velho de gosto Falava como se pode supor lentamente e a custo intervalado de uma arfagem incômoda para ele e para os outros De quando em quando vinha um acesso de tosse curvo gemendo levava o lenço à boca e investigavao passado o acesso tornava ao plano da casa que devia ter tais e tais quartos um terraço cachoeira um primor CAPÍTULO LXXXIX IN EXTREMIS Amanhã vou passar o dia em casa do Viegas disseme ela uma vez Coitado não tem ninguém Viegas caíra na cama definitivamente a filha casada adoecera justamente agora e não podia fazerlhe companhia Virgília ia lá de quando em quando Eu aproveitei a circunstância para passar todo aquele dia ao pé dela Eram duas horas da tarde quando cheguei Viegas tossia com tal força que me fazia arder o peito no intervalo dos acessos debatia o preço de uma casa com um sujeito magro O sujeito oferecia trinta contos Viegas exigia quarenta O comprador instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro mas Viegas não cedia recusou primeiramente os trinta contos depois mais dois depois mais três enfim teve um forte acesso que lhe tolheu a fala durante quinze minutos O comprador acarinhouo muito arranjoulhe os travesseiros ofereceulhe trinta e seis contos Nunca gemeu o enfermo Mandou buscar um maço de papéis à escrivaninha não tendo forças para tirar a fita de borracha que prendia os papéis pediume que os deslaçasse filo Eram as contas das despesas com a construção da casa contas de pedreiro de carpinteiro de pintor contas do papel da sala de visitas da sala de jantar das alcovas dos gabinetes contas das ferragens custo do terreno Ele abriaas uma por uma com a mão trêmula e pediame que as lesse e eu liaas Veja mil e duzentos papel de mil e duzentos a peça Dobradiças francesas Veja é de graça concluiu ele depois de lida a última conta Pois bem mas Quarenta contos não lhe dou por menos Só os juros faça a conta dos juros Vinham tossidas estas palavras às golfadas às sílabas como se fossem migalhas de um pulmão desfeito Nas órbitas fundas rolavam os olhos lampejantes que me faziam lembrar a lamparina da madrugada Sob o lençol desenhavase a estrutura óssea do corpo pontudo em dois lugares nos joelhos e nos pés a pele amarelada bamba rugosa revestia apenas a caveira de um rosto sem expressão uma carapuça de algodão branco cobrialhe o crânio rapado pelo tempo Então disse o sujeito magro Fizlhe sinal para que não insistisse e ele calouse por alguns instantes O doente ficou a olhar para o teto calado a arfar muito Virgília empalideceu levantouse foi até à janela Suspeitara a morte e tinha medo Eu procurei falar de outras coisas O sujeito magro contou uma anedota e tornou a tratar da casa alteando a proposta Trinta e oito contos disse ele Ahn gemeu o enfermo O sujeito magro aproximouse da cama pegoulhe na mão e sentiu a fria Eu achegueime ao doente pergunteilhe se sentia alguma coisa se queria tomar um cálice de vinho Não não quar quaren quar quar Teve um acesso de tosse e foi o último daí a pouco expirava ele com grande consternação do sujeito magro que me confessou depois a disposição em que estava de oferecer os quarenta contos mas era tarde CAPÍTULO XC O VELHO COLÓQUIO DE ADÃO E CAIM Nada Nenhuma lembrança testamentária uma pastilha que fosse com que do todo em todo não parecesse ingrato ou esquecido Nada Virgília travou raivosa esse malogro e dissemo com certa cautela não pela coisa em si senão porque entendia com o filho de quem sabia que eu não gostava muito nem pouco Insinueilhe que não devia pensar mais em semelhante negócio O melhor de tudo era esquecer o defunto um lorpa um cainho sem nome e tratar de coisas alegres o nosso filho por exemplo Lá me escapou a decifração do mistério esse doce mistério de algumas semanas antes quando Virgília me pareceu um pouco diferente do que era Um filho Um ser tirado do meu ser Esta era a minha preocupação exclusiva daquele tempo Olhos do mundo zelos do marido morte do Viegas nada me interessava por então nem conflitos políticos nem revoluções nem terremotos nem nada Eu só pensava naquele embrião anônimo de obscura paternidade e uma voz secreta me dizia é teu filho Meu filho E repetia estas duas palavras com certa voluptuosidade indefinível e não sei que assomos de orgulho Sentiame homem O melhor é que conversávamos os dois o embrião e eu falávamos de coisas presentes e futuras O maroto amavame era um pelintra gracioso davame pancadinhas na cara com as mãozinhas gordas ou então traçava a beca de bacharel porque ele havia de ser bacharel e fazia um discurso na Câmara dos Deputados E o pai a ouvilo de uma tribuna com os olhos rasos de lágrimas De bacharel passava outra vez à escola pequenino lousa e livros debaixo do braço ou então caía no berço para tornar a erguerse homem Em vão buscava fixar no espírito uma idade uma atitude esse embrião tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos ele mamava ele escrevia ele valsava ele era o interminável nos limites de um quarto de hora baby e deputado colegial e pintalegrete Às vezes ao pé de Virgília esqueciame dela e de tudo Virgília sacudiame reprochavame o silêncio dizia que eu já lhe não queria nada A verdade é que estava em diálogo com o embrião era o velho colóquio de Adão e Caim uma conversa sem palavras entre a vida e a vida o mistério e o mistério CAPÍTULO XCI UMA CARTA EXTRAORDINÁRIA Por esse tempo recebi uma carta extraordinária acompanhada de um objeto não menos extraordinário Eis o que a carta dizia Meu caro Brás Cubas Há tempos no Passeio Público tomeilhe de empréstimo um relógio Tenho a satisfação de restituir lho com esta carta A diferença é que não é o mesmo porém outro não digo superior mas igual ao primeiro Que voulezvous monseigneur como dizia Fígaro cest la misère Muitas coisas se deram depois do nosso encontro irei contálas pelo miúdo se me não fechar a porta Saiba que já não trago aquelas botas caducas nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos Cedi o meu degrau da escada de São Francisco finalmente almoço Dito isto peço licença para ir um dia destes exporlhe um trabalho fruto de longo estudo um novo sistema de filosofia que não só explica e descreve a origem e a consumação das coisas como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sêneca cujo estoicismo era um verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha receita moral É singularmente espantoso esse meu sistema retifica o espírito humano suprime a dor assegura a felicidade e enche de imensa glória o nosso país Chamolhe Humanitismo de Humanitas princípio das coisas Minha primeira idéia revelava uma grande enfatuação era chamarlhe borbismo de Borba denominação vaidosa além de rude e molesta E com certeza exprimia menos Verá meu caro Brás Cubas verá que é deveras um monumento e se alguma coisa há que possa fazerme esquecer as amarguras da vida é o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade Eilas na minha mão essas duas esquivas após tantos séculos de lutas pesquisas descobertas sistemas e quedas eilas nas mãos do homem Até breve meu caro Brás Cubas Saudades do V e l h o a m i g o J O A Q U I M B O R B A D O S S A N T O S Li esta carta sem entendêla Vinha com ela uma boceta contendo um bonito relógio com as minhas iniciais gravadas e esta frase Lembrança do velho Quincas Voltei à carta relia com pausa com atenção A restituição do relógio excluía toda a idéia de burla a lucidez a serenidade a convicção um pouco jactanciosa é certo pareciam excluir a suspeita de insensatez Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas e a abastança devolveralhe a primitiva dignidade Não digo tanto há coisas que se não podem reaver integralmente mas enfim a regeneração não era impossível Guardei a carta e o relógio e esperei a filosofia CAPÍTULO XCII UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO Já agora acabo com as coisas extraordinárias Vinha de guardar a carta e o relógio quando me procurou um homem magro e meão com um bilhete do Cotrim convidandome para jantar O portador era casado com uma irmã do Cotrim chegara poucos dias antes do Norte chamavase Damasceno e fizera a revolução de 1831 Foi ele mesmo que me disse isto no espaço de cinco minutos Saíra do Rio de Janeiro por desacordo com o Regente que era um asno pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele De resto a revolução estava outra vez às portas Neste ponto conquanto trouxesse as idéias políticas um pouco baralhadas consegui organizar e formular o governo de suas preferências era um despotismo temperado não por cantigas como dizem alhures mas por penachos da guarda nacional Só não pude alcançar se ele queria o despotismo de um de três de trinta ou de trezentos Opinava por várias coisas entre outras o desenvolvimento do tráfico dos africanos e a expulsão dos ingleses Gostava muito de teatro logo que chegou foi ao Teatro de São Pedro onde viu um drama soberbo a Maria Joana e uma comédia muito interessante Kettly ou a volta à Suíça Também gostara muito da Deperini na Safo ou na Ana Bolena não se lembrava bem Mas a Candiani sim senhor era papafina Agora queria ouvir o Ernani que a filha dele cantava em casa ao piano Ernani Ernani involami E dizia isto levantando se e cantarolando a meia voz No Norte essas coisas chegavam como um eco A filha morria por ouvir todas as óperas Tinha uma voz muito mimosa a filha E gosto muito gosto Ah ele estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro Já havia corrido a cidade toda com umas saudades Palavra em alguns lugares teve vontade de chorar Mas não embarcaria mais Enjoara muito a bordo como todos os outros passageiros exceto um inglês Que os levasse o diabo os ingleses Isto não ficava direito sem irem todos eles barra fora Que é que a Inglaterra podia fazernos Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade era obra de uma noite a expulsão de tais godemes Graças a Deus tinha patriotismo e batia no peito o que não admirava porque era de família descendia de um antigo capitãomor muito patriota Sim não era nenhum pérapado Viesse a ocasião e ele havia de mostrar de que pau era a canoa Mas faziase tarde ia dizer que eu não faltaria ao jantar e lá me esperava para maior palestra Leveio até à porta da sala ele parou dizendo que simpatizava muito comigo Quando casara estava eu na Europa Conheceu meu pai um homem às direitas com quem dançara num célebre baile da Praia Grande Coisas coisas Falaria depois faziase tarde tinha de ir levar a resposta ao Cotrim Saiu fecheilhe a porta CAPÍTULO XCIII O JANTAR Que suplício que foi o jantar Felizmente Sabina fezme sentar ao pé da filha do Damasceno uma D Eulália ou mais familiarmente Nhã loló moça graciosa um tanto acanhada a princípio mas só a princípio Faltavalhe elegância mas compensavaa com os olhos que eram soberbos e só tinham o defeito de se não arrancarem de mim exceto quando desciam ao prato mas Nhãloló comia tão pouco que quase não olhava para o prato De noite cantou a voz era como dizia o pai muito mimosa Não obstante esquiveime Sabina veio até à porta e perguntoume que tal achara a filha do Damasceno Assim assim Muito simpática não é acudiu ela faltalhe um pouco mais de corte Mas que coração é uma pérola Bem boa noiva para você Não gosto de pérolas Casmurro Para quando é que você se guarda para quando estiver a cair de maduro já sei Pois meu rico quer você queira quer não há de casar com Nhãloló E dizia isto a baterme na face com os dedos meiga como uma pomba e ao mesmo tempo intimativa e resoluta Santo Deus seria esse o motivo da reconciliação Fiquei um pouco desconsolado com a idéia mas uma voz misteriosa chamavame à casa do Lobo Neves disse adeus a Sabina e às suas ameaças CAPÍTULO XCIV A CAUSA SECRETA Como está a minha querida mamãe A esta palavra Virgília amuouse como sempre Estava ao canto de uma janela sozinha a olhar para a lua e recebeume alegremente mas quando lhe falei no nosso filho amuouse Não gostava de semelhante alusão aborreciamlhe as minhas antecipadas carícias paternais Eu para quem ela era já uma pessoa sagrada uma âmbula divina deixavaa estar quieta Supus a princípio que o embrião esse perfil do incógnito projetandose na nossa aventura lhe restituíra a consciência do mal Enganavame Nunca Virgília me parecera mais expansiva mais sem reservas menos preocupada dos outros e do marido Não eram remorsos Imaginei também que a concepção seria um puro invento um modo de prenderme a ela recurso sem longa eficácia que talvez começava de oprimila Não era absurda esta hipótese a minha doce Virgília mentia às vezes com tanta graça Naquela noite descobri a causa verdadeira Era medo do parto e vexame da gravidez Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho e essa hora feita de minutos de vida e minutos de morte davalhe já imaginariamente os calafrios do patíbulo Quanto ao vexame complicavase ainda da forçada privação de certos hábitos da vida elegante Com certeza era isso mesmo deilho a entender repreendendoa um pouco em nome dos meus direitos de pai Virgília fitoume em seguida desviou os olhos e sorriu de um jeito incrédulo CAPÍTULO XCV FLORES DE ANTANHO Onde estão elas as flores de antanho Uma tarde após algumas semanas de gestação esboroouse todo o edifício das minhas quimeras paternais Foise o embrião naquele ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga Tive a notícia por boca do Lobo Neves que me deixou na sala e acompanhou o médico à alcova da frustrada mãe Eu encosteime à janela a olhar para a chácara onde verdejavam as laranjeiras sem flores Onde iam elas as flores de antanho CAPÍTULO XCVI A CARTA ANÔNIMA Senti tocarme no ombro era Lobo Neves Encaramonos alguns instantes mudos inconsoláveis Indaguei de Virgília depois ficamos a conversar uma meia hora No fim desse tempo vieram trazerlhe uma carta ele leua empalideceu muito e fechoua com a mão trêmula Creio que lhe vi fazer um gesto como se quisesse atirarse sobre mim mas não me lembra bem O que me lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeume frio e taciturno Enfim Virgília contoume tudo daí a dias na Gamboa O marido mostroulhe a carta logo que ela se restabeleceu Era anônima e denunciavanos Não dizia tudo não falava por exemplo das nossas entrevistas externas limitavase a precavêlo contra a minha intimidade e acrescentava que a suspeita era pública Virgília leu a carta e disse com indignação que era uma calúnia infame Calúnia perguntou Lobo Neves Infame O marido respirou mas tornando à carta parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo um sinal negativo cada letra bradava contra a indignação da mulher Esse homem aliás intrépido era agora a mais frágil das criaturas Talvez a imaginação lhe mostrou ao longe o famoso olho da opinião a fitálo sarcasticamente com um ar de pulha talvez uma boca invisível lhe repetiu ao ouvido as chufas que ele escutara ou dissera outrora Instou com a mulher que lhe confessasse tudo porque tudo lhe perdoaria Virgília compreendeu que estava salva mostrouse irritada com a insistência jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortesia A carta havia de ser de algum namorado semventura E citou alguns um que a galanteara francamente durante três semanas outro que lhe escrevera uma carta e ainda outros e outros Citavaos pelo nome com circunstâncias estudando os olhos do marido e concluiu dizendo que para não dar margem à calúnia tratarmeia de maneira que eu não voltaria lá Ouvi tudo isto um pouco turbado não pelo acréscimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante até afastarme inteiramente da casa do Lobo Neves mas pela tranqüilidade moral de Virgília pela falta de comoção de susto de saudades e até de remorsos Virgília notou a minha preocupação levantoume a cabeça porque eu olhava então para o soalho e disseme com certa amargura Você não merece os sacrifícios que lhe faço Não lhe disse nada era ocioso ponderarlhe que um pouco de desespero e terror daria à nossa situação o sabor cáustico dos primeiros dias mas se lho dissesse não é impossível que ela chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e terror Não lhe disse nada Ela batia nervosamente com a ponta do pé no chão aproximeime e beijeia na testa Virgília recuou como se fosse um beijo de defunto CAPÍTULO XCVII ENTRE A BOCA E A TESTA Sinto que o leitor estremeceu ou devia estremecer Naturalmente a última palavra sugeriulhe três ou quatro reflexões Veja bem o quadro numa casinha da Gamboa duas pessoas que se amam há muito tempo uma inclinada para a outra a darlhe um beijo na testa e a outra a recuar como se sentisse o contato de uma boca de cadáver Há aí no breve intervalo entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo há aí largo espaço para muita coisa a contração de um ressentimento a ruga da desconfiança ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade CAPÍTULO XCVIII SUPRIMIDO Separamonos alegremente Jantei reconciliado com a situação A carta anônima restituía à nossa aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo e afinal foi bem bom que Virgília não perdesse naquela crise a posse de si mesma De noite fui ao teatro de São Pedro representavase uma grande peça em que a Estela arrancava lágrimas Entro corro os olhos pelos camarotes vejo em um deles Damasceno e a família Trajava a filha com outra elegância e certo apuro coisa difícil de explicar porque o pai ganhava apenas o necessário para endividarse e daí talvez fosse por isso mesmo No intervalo fui visitálos Damasceno recebeume com muitas palavras a mulher com muitos sorrisos Quanto a Nhãloló não tirou mais os olhos de mim Pareciame agora mais bonita que no dia do jantar Acheilhe certa suavidade etérea casada ao polido das formas terrenas expressão vaga e condigna de um capítulo em que tudo há de ser vago Realmente não sei como lhes diga que não me senti mal ao pé da moça trajando garridamente um vestido fino um vestido que me dava cócegas de Tartufo Ao contemplálo cobrindo casta e redondamente o joelho foi que eu fiz uma descoberta sutil a saber que a natureza previu a vestidura humana condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie A nudez habitual dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos ao passo que o vestuário negaceando a natureza aguça e atrai as vontades ativa as reprodulas e conseguintemente faz andar a civilização Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos Estou com vontade de suprimir este capítulo O declive é perigoso Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não as tuas leitor pacato Ao pé da graciosa donzela pareciame tomado de uma sensação dupla e indefinível Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal lange et la bête com a diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas naturezas ao passo que elas aí estavam bem juntinhas lange que dizia algumas coisas do Céu e la bête que Não decididamente suprimo este capítulo CAPÍTULO XCIX NA PLATÉIA Na platéia achei Lobo Neves de conversa com alguns amigos falamos por alto a frio constrangidos um e outro Mas no intervalo seguinte prestes a levantar o pano encontramonos num dos corredores em que não havia ninguém Ele veio a mim com muita afabilidade e riso puxoume a um dos óculos do teatro e falamos muito principalmente ele que parecia o mais tranqüilo dos homens Cheguei a perguntarlhe pela mulher respondeu que estava boa mas torceu logo a conversação para assuntos gerais expansivo quase risonho Adivinhe quem quiser a causa da diferença eu fujo ao Damasceno que me espreita ali da porta do camarote Não ouvi nada do seguinte ato nem as palavras dos atores nem as palmas do público Reclinado na cadeira apanhava de memória os retalhos da conversação do Lobo Neves refazia as maneiras dele e concluía que era muito melhor a nova situação Bastavanos a Gamboa A freqüência da outra casa aguçaria as invejas Rigorosamente podíamos dispensarnos de falar todos os dias era até melhor metia a saudade de permeio nos amores Ao demais eu galgara os quarenta anos e não era nada nem simples eleitor de paróquia Urgia fazer alguma coisa ainda por amor de Virgília que havia de ufanarse quando visse luzir o meu nome Creio que nessa ocasião houve grandes aplausos mas não juro eu pensava em outra coisa Multidão cujo amor cobicei até à morte era assim que eu me vingava às vezes de ti deixava burburinhar em volta do meu corpo a gente humana sem a ouvir como o Prometeu de Ésquilo fazia aos seus verdugos Ah tu cuidavas encadearme ao rochedo da tua frivolidade da tua indiferença ou da tua agitação Frágeis cadeias amiga minha eu rompiaas de um gesto de Gulliver Vulgar coisa é ir considerar no ermo O voluptuoso o esquisito é insularse o homem no meio de um mar de gestos e palavras de nervos e paixões decretarse alheado inacessível ausente O mais que podem dizer quando ele torna a si isto é quando torna aos outros é que baixa do mundo da lua mas o mundo da lua esse desvão luminoso e recatado do cérebro que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual Vive Deus eis um bom fecho de capítulo CAPÍTULO C O CASO PROVÁVEL Se esse mundo não fosse uma região de espíritos desatentos era escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis quando as possuo deveras em relação a outras restrinjome à admissão da probabilidade Um exemplo da segunda classe constitui o presente capítulo cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo dos fenômenos sociais Segundo parece e não é improvável existe entre os fatos da vida pública e os da vida particular uma certa ação recíproca regular e talvez periódica ou para usar de uma imagem há alguma coisa semelhante às marés da Praia do Flamengo e de outras igualmente marulhosas Com efeito quando a onda investe a praia alagaa muitos palmos a dentro mas essa mesma água torna ao mar com variável força e vai engrossar a onda que há de vir e que terá de tornar como a primeira Esta é a imagem vejamos a aplicação Deixei dito noutra página que o Lobo Neves nomeado presidente de província recusou a nomeação por motivo da data do decreto que era 13 ato grave cuja conseqüência foi separar do ministério o marido de Virgília Assim o fato particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da dissidência política Resta ver como tempos depois um ato político determinou na vida particular uma cessação de movimento Não convindo ao método deste livro descrever imediatamente esse outro fenômeno limitome a dizer por ora que o Lobo Neves quatro meses depois de nosso encontro no teatro reconciliouse com o ministério fato que o leitor não deve perder de vista se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento CAPÍTULO CI A REVOLUÇAO DÁLMATA Foi Virgília quem me deu notícia da viravolta política do marido certa manhã de outubro entre onze e meiodia faloume de reuniões de conversas de um discurso De maneira que desta vez fica você baronesa interrompi eu Ela derreou os cantos da boca e moveu a cabeça a um e outro lado mas esse gesto de indiferença era desmentido por alguma coisa menos definível menos clara uma expressão de gosto e de esperança Não sei por que imaginei que a carta imperial da nomeação podia atraíla à virtude não digo pela virtude em si mesma mas por gratidão ao marido Que ela amava cordialmente a nobreza Um dos maiores desgostos de nossa vida foi o aparecimento de certo pelintra de legação da legação da Dalmácia suponhamos o Conde B V que a namorou durante três meses Esse homem vero fidalgo de raça transtornara um pouco a cabeça de Virgília que além do mais possuía a vocação diplomática Não chego a alcançar o que seria de mim se não rebentasse na Dalmácia uma revolução que derrocou o governo e purificou as embaixadas Foi sangrenta a revolução dolorosa formidável os jornais a cada navio que chegava da Europa transcreviam os horrores mediam o sangue contavam as cabeças toda a gente fremia de indignação e piedade Eu não eu abençoava interiormente essa tragédia que me tirara uma pedrinha do sapato E depois a Dalmácia era tão longe CAPÍTULO CII DE REPOUSO Mas este mesmo homem que se alegrou com a partida do outro praticou daí a tempos Não não hei de contálo nesta página fique esse capítulo para repouso do meu vexame Uma ação grosseira baixa sem explicação possível Repito não contarei o caso nesta página CAPÍTULO CIII DISTRAÇÃO Não senhor doutor isto não se faz Perdoeme isto não se faz Tinha razão D Plácida Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o espera a sua dama Entrei esbaforido Virgília tinha ido embora D Plácida contoume que ela esperara muito que se irritara que chorara que jurara votarme ao desprezo e outras mais coisas que a nossa caseira dizia com lágrimas na voz pedindome que não desamparasse Iaiá que era ser muito injusto com uma moça que me sacrificara tudo Expliqueilhe então que um equívoco E não era cuido que foi simples distração Um dito uma conversa uma anedota qualquer coisa simples distração Coitada de D Plácida Estava aflita deveras Andava de um lado para outro abanando a cabeça suspirando com estrépito espiando pela rótula Coitada de D Plácida Com que arte conchegava as roupas bafejava as faces acalentava as manhas do nosso amor que imaginação fértil em tornar as horas mais aprazíveis e breves Flores doces os bons doces de outros dias e muito riso muito afago riso e afago que cresciam com o tempo como se ela quisesse fixar a nossa aventura ou restituirlhe a primeira flor Nada esquecia a nossa confidente e caseira nada nem a mentira porque a um e outro referia suspiros e saudades que não presenciara nada nem a calúnia porque uma vez chegou a atribuirme uma paixão nova Você sabe que não posso gostar de outra mulher foi a minha resposta quando Virgília me falou em semelhante coisa E esta só palavra sem nenhum protesto ou admoestação dissipou o aleive de D Plácida que ficou triste Está bem disselhe eu depois de um quarto de hora Virgília há de reconhecer que não tive culpa nenhuma Quer você levarlhe uma carta agora mesmo Ela há de estar bem triste coitadinha Olhe eu não desejo a morte de ninguém mas se o senhor doutor algum dia chegar a casar com Iaiá então sim é que há de ver o anjo que ela é Lembrame que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder ou ainda às que recearem encarar a pupila de outros olhos Em tais casos alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas outros adotam o recurso de assobiar a Norma eu atenho me ao gesto indicado é mais simples exige menos esforço Três dias depois estava tudo explicado Suponho que Virgília ficou um pouco admirada quando lhe pedi desculpas das lágrimas que derramara naquela triste ocasião Nem me lembra se interiormente as atribuí a D Plácida Com efeito podia acontecer que D Plácida chorasse ao vêla desapontada e por um fenômeno da visão as lágrimas que tinha nos próprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virgília Fosse como fosse tudo estava explicado mas não perdoado e menos ainda esquecido Virgília diziame uma porção de coisas duras ameaçavame com a separação enfim louvava o marido Esse sim era um homem digno muito superior a mim delicado um primor de cortesia e afeição é o que ela dizia enquanto eu sentado com os braços fincados nos joelhos olhava para o chão onde uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o pé Pobre mosca pobre formiga Mas você não diz nada nada perguntou Virgília parando diante de mim Que hei de dizer Já expliquei tudo você teima em zangarse que hei de dizer Sabe que me parece Pareceme que você está enfastiada que se aborrece que quer acabar Justamente Foi dali pôr o chapéu com a mão trêmula raivosa Adeus D Plácida bradou ela para dentro Depois foi até à porta correu o fecho ia sair agarreia pela cintura Está bom está bom disse lhe Virgília ainda forcejou por sair Eu retivea pedilhe que ficasse que esquecesse ela afastouse da porta e foi cair no canapé Sentei me ao pé dela disselhe muitas coisas meigas outras humildes outras graciosas Não afirmo se os nossos lábios chegaram à distância de um fio de cambraia ou ainda menos é matéria controversa Lembrame sim que na agitação caiu um brinco de Virgília que eu inclineime a apanhálo e que a mosca de há pouco trepou ao brinco levando sempre a formiga no pé Então eu com a delicadeza nativa de um homem do nosso século pus na palma da mão aquele casal de mortificados calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num episódio tão mofino Se concluis daí que eu era um bárbaro enganaste porque eu pedi um grampo a Virgília a fim de separar os dois insetos mas a mosca farejou a minha intenção abriu as asas e foise embora Pobre mosca pobre formiga E Deus viu que isto era bom como se diz na Escritura CAPÍTULO CIV ERA ELE Restituí o grampo a Virgília que o repregou nos cabelos e preparou se para sair Era tarde tinham dado três horas Tudo estava esquecido e perdoado D Plácida que espreitava a ocasião idônea para a saída fecha subitamente a janela e exclama Virgem Nossa Senhora aí vem o marido de Iaiá O momento de terror foi curto mas completo Virgília fezse da cor das rendas do vestido correu até a porta da alcova D Plácida que fechara a rótula queria fechar também a porta de dentro eu dispus me a esperar o Lobo Neves Esse curto instante passou Virgília tornou a si empurroume para a alcova disse a D Plácida que voltasse à janela a confidente obedeceu Era ele D Plácida abriulhe a porta com muitas exclamações de pasmo O senhor por aqui honrando a casa de sua velha Entre faça favor Adivinhe quem está cá Não tem que adivinhar não veio por outra coisa Apareça Iaiá Virgília que estava a um canto atirouse ao marido Eu espreitava os pelo buraco da fechadura O Lobo Neves entrou lentamente pálido frio quieto sem explosão sem arrebatamento e circulou um olhar em volta da sala Que é isto exclamou Virgília Você por aqui Ia passando vi D Plácida à janela e vim cumprimentála Muito obrigada acudiu esta E digam que as velhas não valem alguma coisa Olhai gentes Iaiá parece estar com ciúmes E acariciandoa muito Este anjinho é que nunca se esqueceu da velha Plácida Coitadinha é mesmo a cara da mãe Sentese senhor doutor Não me demoro Você vai para casa disse Virgília Vamos juntos Vou Dê cá o meu chapéu D Plácida Está aqui D Plácida foi buscar um espelho abriuo diante dela Virgília punha o chapéu atava as fitas arranjava os cabelos falando ao marido que não respondia nada A nossa boa velha tagarelava demais era um modo de disfarçar as tremuras do corpo Virgília dominado o primeiro instante tornara à posse de si mesma Pronta disse ela Adeus D Plácida não se esqueça de aparecer ouviu A outra prometeu que sim e abriulhes a porta CAPÍTULO CV EQUIVALÊNCIA DAS JANELAS D Plácida fechou a porta e caiu numa cadeira Eu deixei imediatamente a alcova e dei dois passos para sair à rua com o fim de arrancar Virgília ao marido foi o que disse e em bem que o disse porque D Plácida deteveme por um braço Tempo houve em que cheguei a supor que não dissera aquilo senão para que ela me detivesse mas a simples reflexão basta para mostrar que depois dos dez minutos da alcova o gesto mais genuíno e cordial não podia ser senão esse E isto por aquela famosa lei da equivalência das janelas que eu tive a satisfação de descobrir e formular no capítulo LI Era preciso arejar a consciência A alcova foi uma janela fechada eu abri outra com o gesto de sair e respirei CAPÍTULO CVI JOGO PERIGOSO Respirei e senteime D Plácida atroava a sala com exclamações e lástimas Eu ouvia sem lhe dizer coisa nenhuma refletia comigo se não era melhor ter fechado Virgília na alcova e ficado na sala mas adverti logo que seria pior confirmaria a suspeita chegaria o fogo à pólvora e uma cena de sangue Foi muito melhor assim Mas depois que ia acontecer em casa de Virgília matálaia o marido espancálaia encerrálaia expulsálaia Estas interrogações percorriam lentamente o meu cérebro como os pontinhos e vírgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados Iam e vinham com o seu aspecto seco e trágico e eu não podia agarrar um deles e dizer és tu tu e não outro De repente vejo um vulto negro era D Plácida que fora dentro enfiara a mantinha e vinha oferecerseme para ir à casa do Lobo Neves Ponderei que era arriscado porque ele desconfiaria da visita tão próxima Sossegue interrompeu ela eu saberei arranjar as coisas Se ele estiver em casa não entro Saiu eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqüências possíveis Ao cabo pareciame jogar um jogo perigoso e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer Sentiame tomado de uma saudade do casamento de um desejo de canalizar a vida Por que não Meu coração tinha ainda que explorar não me sentia incapaz de um amor casto severo e puro Em verdade as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida isto é a exceção eu estava enfarado delas não sei até se me pungia algum remorso Mal pensei naquilo deixeime ir atrás da imaginação vime logo casado ao pé de uma mulher adorável diante de um baby que dormia no regaço da ama todos nós no fundo de uma chácara sombria e verde a espiarmos através da chácara uma nesga do céu azul extremamente azul CAPÍTULO CVII BILHETE Não houve nada mas ele suspeita alguma coisa está muito sério e não fala agora saiu Sorriu uma vez somente para Nhonhô depois de o fitar muito tempo carrancudo Não me tratou mal nem bem Não sei o que vai acontecer Deus queira que isto passe Muita cautela por ora muita cautela CAPÍTULO CVIII QUE SE NÃO ENTENDE Eis aí o drama eis aí a ponta da orelha trágica de Shakespeare Esse retalhinho de papel garatujado em partes machucado das mãos era um documento de análise que eu não farei neste capítulo nem no outro nem talvez em todo o resto do livro Poderia eu tirar ao leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza a perspicácia e o ânimo dessas poucas linhas traçadas à pressa e por trás delas a tempestade de outro cérebro a raiva dissimulada o desespero que se constrange e medita porque tem de resolverse na lama ou no sangue ou nas lágrimas Quanto a mim se vos disser que li o bilhete três ou quatro vezes naquele dia acreditaio que é verdade se vos disser mais que o reli no dia seguinte antes e depois do almoço podeis crêlo é a realidade pura Mas se vos disser a comoção que tive duvidai um pouco da asserção e não a aceiteis sem provas Nem então nem ainda agora cheguei a discernir o que experimentei Era medo e não era medo era dó e não era dó era vaidade e não era vaidade enfim era amor sem amor isto é sem delírio e tudo isso dava uma combinação assaz complexa e vaga uma coisa que não podereis entender como eu não entendi Suponhamos que não disse nada CAPÍTULO CIX O FILÓSOFO Sabido que reli a carta antes e depois do almoço sabido fica que almocei e só resta dizer que essa refeição foi das mais parcas da minha vida um ovo uma fatia de pão uma xícara de chá Não me esqueceu esta circunstância mínima no meio de tanta coisa importante obliterada escapou esse almoço A razão principal poderia ser justamente o meu desastre mas não foi a principal razão foi a reflexão que me fez o Quincas Borba cuja visita recebi naquele dia Disseme ele que a frugalidade não era necessária para entender o Humanitismo e menos ainda praticálo que esta filosofia acomodavase facilmente com os prazeres da vida inclusive a mesa o espetáculo e os amores e que ao contrário a frugalidade podia indicar certa tendência para o ascetismo o que era a expressão acabada de tolice humana Veja São João continuou ele mantinhase de gafanhotos no deserto em vez de engordar tranqüilamente na cidade e fazer emagrecer o farisaísmo na sinagoga Deus me livre de contar a história do Quincas Borba que aliás ouvi toda naquela triste ocasião uma história longa complicada mas interessante E se não conto a história dispensome outrossim de descreverlhe a figura aliás muito diversa da que me apareceu no Passeio Público Calome digo somente que se a principal característica do homem não são as feições mas os vestuários ele não era o Quincas Borba era um desembargador sem beca um general sem farda um negociante sem deficit Noteilhe a perfeição da sobrecasaca a alvura da camisa o asseio das botas A mesma voz roufenha outrora parecia restituída à primitiva sonoridade Quanto à gesticulação sem que houvesse perdido a viveza de outro tempo não tinha já a desordem sujeitavase a um certo método Mas eu não quero descrevêlo Se falasse por exemplo no botão de ouro que trazia ao peito e na qualidade do couro das botas iniciaria uma descrição que omito por brevidade Contentemse de saber que as botas eram de verniz Saibam mais que ele herdara alguns pares de contos de réis de um velho tio de Barbacena Meu espírito permitamme aqui uma comparação de criança meu espírito era naquela ocasião uma espécie de peteca A narração do Quincas Borba davalhe uma palmada ele subia quando ia a cair o bilhete de Virgília davalhe outra palmada e ele era de novo arremessado aos ares descia e o episódio do Passeio Público recebiao com outra palmada igualmente rija e eficaz Cuido que não nasci para situações complexas Esse puxar e empuxar de coisas opostas desequilibravame tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba e Lobo Neves e o bilhete de Virgília na mesma filosofia e mandálos de presente a Aristóteles Contudo era instrutiva a narração do nosso filósofo admiravalhe sobretudo o talento de observação com que descrevia a gestação e o crescimento do vício as lutas interiores as capitulações vagarosas o uso da lama Olhe observou ele a primeira noite que passei na escada de São Francisco dormia inteira como se fosse a mais fina pluma Por quê Porque fui gradualmente da cama de esteira ao catre de pau do quarto próprio ao corpo da guarda do corpo da guarda à rua Quis exporme finalmente a filosofia pedilhe que não Estou muito preocupado hoje e não poderia atendêlo venha depois estou sempre em casa Quincas Borba sorriu de um modo malicioso talvez soubesse da minha aventura mas não acrescentou nada Só me disse estas últimas palavras à porta Venha para o Humanitismo ele é o grande regaço dos espíritos o mar eterno em que mergulhei para arrancar de lá a verdade Os gregos faziamna sair de um poço Que concepção mesquinha Um poço Mas é por isso mesmo que nunca atinaram com ela Gregos subgregos antigregos toda a longa série dos homens temse debruçado sobre o poço para ver sair a verdade que não está lá Gastaram cordas e caçambas alguns mais afoitos desceram ao fundo e trouxeram um sapo Eu fui diretamente ao mar Venha para o Humanitismo CAPÍTULO CX 31 Uma semana depois Lobo Neves foi nomeado presidente de província Agarreime à esperança da recusa se o decreto viesse outra vez datado de 13 trouxe porém a data de 31 e esta simples transposição de algarismos eliminou deles a substância diabólica Que profundas que são as molas da vida CAPÍTULO CXI O MURO Não sendo meu costume dissimular ou esconder nada contarei nesta página o caso do muro Eles estavam prestes a embarcar Entrando em casa de D Plácida vi um papelinho dobrado sobre a mesa era um bilhete de Virgília dizia que me esperava à noite na chácara sem falta E concluía O muro é baixo do lado do beco Fiz um gesto de desagrado A carta pareceume descomunalmente audaciosa mal pensada e até ridícula Não era só convidar o escândalo era convidálo de parceria com a risota Imagineime a saltar o muro embora baixo e do lado do beco e quando ia a galgá lo viame agarrado por um pedestre de polícia que me levava ao corpo da guarda O muro é baixo E que tinha que fosse baixo Naturalmente Virgília não soube o que fez era possível que já estivesse arrependida Olhei para o papel um pedaço de papel amarrotado mas inflexível Tive comichões de o rasgar em trinta mil pedaços e atirálos ao vento como o último despojo da minha aventura mas recuei a tempo o amorpróprio o vexame da fuga a idéia do medo Não havia remédio senão ir Digalhe que vou Aonde perguntou D Plácida Onde ela disse que me espera Não me disse nada Neste papel D Plácida arregalou os olhos Mas esse papel acheio hoje de manhã nesta sua gaveta e pensei que Tive uma sensação esquisita Reli o papel mireio remireio era em verdade um antigo bilhete de Virgília recebido no começo dos nossos amores uma certa entrevista na chácara que me levou efetivamente a saltar o muro um muro baixo e discreto Guardei o papel e Tive uma sensação esquisita CAPÍTULO CXII A OPINIÃO Mas estava escrito que esse dia devia ser o dos lances dúbios Poucas horas depois encontrei Lobo Neves na Rua do Ouvidor falamos da presidência e da política Ele aproveitou o primeiro conhecido que nos passou à ilharga e deixoume depois de muitos cumprimentos Lembrame que estava retraído mas de um retraimento que forcejava por dissimular Pareceume então e peço perdão à crítica se este meu juízo for temerário pareceume que ele tinha medo não medo de mim nem de si nem do código nem da consciência tinha medo da opinião Supus que esse tribunal anônimo e invisível em que cada membro acusa e julga era o limite posto à vontade do Lobo Neves Talvez já não amasse a mulher e assim pode ser que o coração fosse estranho à indulgência dos seus últimos atos Cuido e de novo insto pela boa vontade da crítica cuido que ele estaria pronto a separarse da mulher como o leitor se terá separado de muitas relações pessoais mas a opinião essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas que abriria minucioso inquérito acerca do caso que coligiria uma a uma todas as circunstâncias antecedências induções provas que as relataria na palestra das chácaras desocupadas essa terrível opinião tão curiosa das alcovas obstou à dispersão da família Ao mesmo tempo tornou impossível o desforço que seria a divulgação Ele não podia mostrarse ressentido comigo sem igualmente buscar a separação conjugal teve então de simular a mesma ignorância de outrora e por dedução iguais sentimentos Que lhe custasse creio naqueles dias principalmente vio de modo que devia custarlhe muito Mas o tempo e é outro ponto em que eu espero a indulgência dos homens pensadores o tempo caleja a sensibilidade e oblitera a memória das coisas era de supor que os anos lhe despontassem os espinhos que a distância dos fatos apagasse os respectivos contornos que uma sombra de dúvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade enfim que a opinião se ocupasse um pouco com outras aventuras O filho crescendo buscaria satisfazer as ambições do pai seria o herdeiro de todos os seus afetos Isso e a atividade externa e o prestígio público e a velhice depois a doença o declínio a morte um responso uma notícia biográfica e estava fechado o livro da vida sem nenhuma página de sangue CAPÍTULO CXIII A SOLDA A conclusão se há alguma no capítulo anterior é que a opinião é uma boa solda das instituições domésticas Não é impossível que eu desenvolva este pensamento antes de acabar o livro mas também não é impossível que o deixe como está De um ou de outro modo é uma boa solda a opinião e tanto na ordem doméstica como na política Alguns metafísicos biliosos têm chegado ao extremo de a darem como simples produto da gente chocha ou medíocre mas é evidente que ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta bastava considerar os efeitos salutares da opinião para concluir que ela é a obra superfina da flor dos homens a saber do maior número CAPÍTULO CXIV FIM DE UM DIÁLOGO Sim é amanhã Você vai a bordo Está doida É impossível Então adeus Adeus Não se esqueça de D Plácida Vá vêla algumas vezes Coitada Foi ontem despedirse de nós chorou muito disse que eu não a veria mais É uma boa criatura não é Certamente Se tivermos de escrever ela receberá as cartas Agora até daqui a Talvez dois anos Qual ele diz que é só até fazer as eleições Sim então até breve Olhe que estão olhando para nós Quem Ali no sofá Separemonos Custame muito Mas é preciso adeus Virgília Até breve Adeus CAPÍTULO CXV O ALMOÇO Não a vi partir mas à hora marcada senti alguma coisa que não era dor nem prazer uma coisa mista alívio e saudade tudo misturado em iguais doses Não se irrite o leitor com esta confissão Eu bem sei que para titilarlhe os nervos da fantasia devia padecer um grande desespero derramar algumas lágrimas e não almoçar Seria romanesco mas não seria biográfico A realidade pura é que eu almocei como nos demais dias acudindo ao coração com as lembranças da minha aventura e ao estômago com os acepipes de M Prudhon Velhos do meu tempo acaso vos lembrais desse mestre cozinheiro do Hotel Pharoux um sujeito que segundo dizia o dono da casa havia servido nos famosos Véry e Véfour de Paris e mais nos palácios do Conde Molé e do Duque de la Rochefoucauld Era insigne Entrou no Rio de Janeiro com a polca A polca M Prudhon o Tivoli o baile dos estrangeiros o Cassino eis algumas das melhores recordações daquele tempo mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos Eram e naquela manhã parece que o diabo do homem adivinhara a nossa catástrofe Jamais o engenho e a arte lhe foram tão propícios Que requinte de temperos que tenrura de carnes que rebuscado de formas Comiase com a boca com os olhos com o nariz Não guardei a conta desse dia sei que foi cara Ai dor erame preciso enterrar magnificamente os meus amores Eles lá iam mar em fora no espaço e no tempo e eu ficavame ali numa ponta de mesa com os meus quarenta e tantos anos tão vadios e tão vazios ficavame para os não ver nunca mais porque ela poderia tornar e tornou mas o eflúvio da manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde CAPÍTULO CXVI FILOSOFIA DAS FOLHAS VELHAS Fiquei tão triste com o fim do último capítulo que estava capaz de não escrever este descansar um pouco purgar o espírito da melancolia que o empacha e continuar depois Mas não não quero perder tempo A partida de Virgília deume uma amostra da viuvez Nos primeiros dias metime em casa a fisgar moscas como Domiciano se não mente o Suetônio mas a fisgálas de um modo particular com os olhos Fisgavaas uma a uma no fundo de uma sala grande estirado na rede com um livro aberto entre as mãos Era tudo saudades ambições um pouco de tédio e muito devaneio solto Meu tio cônego morreu nesse intervalo item dois primos Não me dei por abalado leveios ao cemitério como quem leva dinheiro a um banco Que digo como quem leva cartas ao correio selei as cartas metias na caixinha e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão própria Foi também por esse tempo que nasceu minha sobrinha Venância filha do Cotrim Morriam uns nasciam outros eu continuava às moscas Outras vezes agitavame Ia às gavetas entornava as cartas antigas dos amigos dos parentes das namoradas até as de Marcela e abriaas todas liaas uma a uma e recompunha o pretérito Leitor ignaro se não guardas as cartas da juventude não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas não gostarás o prazer de verte ao longe na penumbra com um chapéu de três bicos botas de sete léguas e longas barbas assírias a bailar ao som de uma gaita anacreôntica Guarda as tuas cartas da juventude Ou se te não apraz o chapéu de três bicos empregarei a locução de um velho marujo familiar da casa de Cotrim direi que se guardares as cartas da juventude acharás ocasião de cantar uma saudade Parece que os nossos marujos dão este nome às cantigas de terra entoadas no alto mar Como expressão poética é o que se pode exigir mais triste CAPÍTULO CXVII O HUMANITISMO Duas forças porém além de uma terceira compeliamme a tornar à vida agitada do costume Sabina e Quincas Borba Minha irmã encaminhou a candidatura conjugal de Nhãloló de um modo verdadeiramente impetuoso Quando dei por mim estava com a moça quase nos braços Quanto ao Quincas Borba expôsme enfim o Humanitismo sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas Humanitas dizia ele o princípio das coisas não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens Conta três fases Humanitas a estática anterior a toda a criação a expansiva começo das coisas a dispersiva aparecimento do homem e contará mais uma a contrativa absorção do homem e das coisas A expansão iniciando o universo sugeriu a Humanitas o desejo de o gozar e daí a dispersão que não é mais do que a multiplicação personificada da substância original Como me não aparecesse assaz clara esta exposição Quincas Borba desenvolveua de um modo profundo fazendo notar as grandes linhas do sistema Explicoume que por um lado o Humanitismo ligavase ao Bramanismo a saber na distribuição dos homens pelas diferentes partes do corpo de Humanitas mas aquilo que na religião indiana tinha apenas uma estreita significação teológica e política era no Humanitismo a grande lei do valor pessoal Assim descender do peito ou dos rins de Humanitas isto é ser um forte não era o mesmo que descender dos cabelos ou da ponta do nariz Daí a necessidade de cultivar e temperar o músculo Hércules não foi senão um símbolo antecipado do Humanitismo Neste ponto Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado à verdade se se não houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mitos Nada disso acontecerá com o Humanitismo Nesta igreja nova não há aventuras fáceis nem quedas nem tristezas nem alegrias pueris O amor por exemplo é um sacerdócio a reprodução um ritual Como a vida é o maior benefício do universo e não há mendigo que não prefira a miséria à morte o que é um delicioso influxo de Humanitas seguese que a transmissão da vida longe de ser uma ocasião de galanteio é a hora suprema da missa espiritual Porquanto verdadeiramente há só uma desgraça é não nascer Imagina por exemplo que eu não tinha nascido continuou o Quincas Borba é positivo que não teria agora o prazer de conversar contigo comer esta batata ir ao teatro e para tudo dizer numa só palavra viver Nota que eu não faço do homem um simples veículo de Humanitas não ele é ao mesmo tempo veículo cocheiro e passageiro ele é o próprio Humanitas reduzido daí a necessidade de adorarse a si próprio Queres uma prova da superioridade do meu sistema Contempla a inveja Não há moralista grego ou turco cristão ou muçulmano que não troveje contra o sentimento da inveja O acordo é universal desde os campos da Iduméia até o alto da Tijuca Ora bem abre mão dos velhos preconceitos esquece as retóricas rafadas e estuda a inveja esse sentimento tão sutil e tão nobre Sendo cada homem uma redução de Humanitas é claro que nenhum homem é fundamentalmente oposto a outro homem quaisquer que sejam as aparências contrárias Assim por exemplo o algoz que executa o condenado pode excitar o vão clamor dos poetas mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infração da lei de Humanitas O mesmo direi do indivíduo que estripa a outro é uma manifestação da força de Humanitas Nada obsta e há exemplos que ele seja igualmente estripado Se entendeste bem facilmente compreenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta e sendo a luta a grande função do gênero humano todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade Daí vem que a inveja é uma virtude Para que negálo eu estava estupefato A clareza da exposição a lógica dos princípios o rigor das conseqüências tudo isso parecia superiormente grande e foime preciso suspender a conversa por alguns minutos enquanto digeria a filosofia nova Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo Tinha uma asa de frango no prato e trincavaa com filosófica serenidade Eu fizlhe ainda algumas objeções mas tão frouxas que ele não gastou muito tempo em destruílas Para entender bem o meu sistema concluiu ele importa não esquecer nunca o princípio universal repartido e resumido em cada homem Olha a guerra que parece uma calamidade é uma operação conveniente como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas a fome e ele chupava filosoficamente a asa do frango a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema senão este mesmo frango Nutriuse de milho que foi plantado por um africano suponhamos importado de Angola Nasceu esse africano cresceu foi vendido um navio o trouxe um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens levado por velas que oito ou dez homens teceram sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico Assim este frango que eu almocei agora mesmo é o resultado de uma multidão de esforços e lutas executados com o único fim de dar mate ao meu apetite Entre o queijo e o café demonstroume Quincas Borba que o seu sistema era a destruição da dor A dor segundo o Humanitismo é uma pura ilusão Quando a criança é ameaçada por um pau antes mesmo de ter sido espancada fecha os olhos e treme essa predisposição é que constitui a base da ilusão humana herdada e transmitida Não basta certamente a adoção do sistema para acabar logo com a dor mas é indispensável o resto é a natural evolução das coisas Uma vez que o homem se compenetre bem de que ele é o próprio Humanitas não tem mais do que remontar o pensamento à substância original para obstar qualquer sensação dolorosa A evolução porém é tão profunda que mal se lhe podem assinar alguns milhares de anos Quincas Borba leume daí a dias a sua grande obra Eram quatro volumes manuscritos de cem páginas cada um com letra miúda e citações latinas O último volume compunhase de um tratado político fundado no Humanitismo era talvez a parte mais enfadonha do sistema posto que concebida com um formidável rigor de lógica Reorganizada a sociedade pelo método dele nem por isso ficavam eliminadas a guerra a insurreição o simples murro a facada anônima a miséria a fome as doenças mas sendo esses supostos flagelos verdadeiros equívocos do entendimento porque não passariam de movimentos externos da substância interior destinados a não influir sobre o homem senão como simples quebra da monotonia universal claro estava que a sua existência não impediria a felicidade humana Mas ainda quando tais flagelos o que era radicalmente falso correspondessem no futuro à concepção acanhada de antigos tempos nem por isso ficava destruído o sistema e por dois motivos 1 porque sendo Humanitas a substância criadora e absoluta cada indivíduo deveria achar a maior delícia do mundo em sacrificarse ao princípio de que descende 2 porque ainda assim não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a Terra inventada unicamente para seu recreio dele como as estrelas as brisas as tâmaras e o ruibarbo Pangloss diziame ele ao fechar o livro não era tão tolo como o pintou Voltaire CAPÍTULO CXVIII A TERCEIRA FORÇA A terceira força que me chamava ao bulício era o gosto de luzir e sobretudo a incapacidade de viver só A multidão atraíame o aplauso namoravame Se a idéia do emplasto me tem aparecido nesse tempo quem sabe não teria morrido logo e estaria célebre Mas o emplasto não veio Veio o desejo de agitarme em alguma coisa com alguma coisa e por alguma coisa CAPÍTULO CXIX PARÊNTESES Quero deixar aqui entre parêntesis meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo São bocejos de enfado podem servir de epígrafe a discursos sem assunto Suportase com paciência a cólica do próximo Matamos o tempo o tempo nos enterra Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto se todos andassem de carruagem Crê em ti mas nem sempre duvides dos outros Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitálo com um pedaço de pau Esta reflexão é de um joalheiro Não te irrites se te pagarem mal um benefício antes cair das nuvens que de um terceiro andar CAPÍTULO CXX COMPELLE INTRARE Não senhor agora quer você queira quer não há de casar disse me Sabina Que belo futuro Um solteirão sem filhos Sem filhos A idéia de ter filhos deume um sobressalto percorreu me outra vez o fluido misterioso Sim cumpria ser pai A vida celibata podia ter certas vantagens próprias mas seriam tênues e compradas a troco da solidão Sem filhos Não impossível Dispus me a aceitar tudo ainda a aliança do Damasceno Sem filhos Como já então depositasse grande confiança em Quincas Borba fui ter com ele e expuslhe os movimentos internos da minha paternidade O filósofo ouviume com alvoroço declaroume que Humanitas se agitava em meu seio animoume ao casamento ponderou que eram mais alguns convivas que batiam à porta etc Compelle intrare como dizia Jesus E não me deixou sem provar que o apólogo evangélico não era mais do que um prenúncio do Humanitismo erradamente interpretado pelos padres CAPÍTULO CXXI MORRO ABAIXO No fim de três meses ia tudo à maravilha O fluido Sabina os olhos da moça os desejos do pai eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimônio A lembrança de Virgília aparecia de quando em quando à porta e com ela um diabo negro que me metia à cara um espelho no qual eu via ao longe Virgília desfeita em lágrimas mas outro diabo vinha corderosa com outro espelho em que se refletia a figura de Nhãloló terna luminosa angélica Não falo dos anos Não os sentia acrescentarei até que os deitara fora certo domingo em que fui à missa na capela do Livramento Como o Damasceno morava nos Cajueiros eu acompanhavaos muitas vezes à missa O morro estava ainda nu de habitações salvo o velho palacete do alto onde era a capela Pois um domingo ao descer com Nhãloló pelo braço não sei que fenômeno se deu que fui deixando aqui dois anos ali quatro logo adiante cinco de maneira que quando cheguei abaixo estava com vinte anos apenas tão lépidos como tinham sido Agora se querem saber em que circunstância se deu o fenômeno bastalhes ler este capítulo até o fim Vínhamos da missa ela o pai e eu No meio do morro achamos um grupo de homens Damasceno que vinha ao pé de nós percebeu o que era e adiantouse alvoroçado nós fomos atrás dele E vimos isto homens de todas as idades tamanhos e cores uns em mangas de camisa outros de jaqueta outros metidos em sobrecasacas esfrangalhadas atitudes diversas uns de cócaras outros com as mãos apoiadas nos joelhos estes sentados em pedras aqueles encostados ao muro e todos com os olhos fixos no centro e as almas debruçadas das pupilas Que é perguntoume Nhãloló Fizlhe sinal que se calasse abri sutilmente caminho e todos me foram cedendo espaço sem que positivamente ninguém me visse O centro tinhalhes atado os olhos Era uma briga de galos Vi os dois contendores dois galos de esporão agudo olho de fogo e bico afiado Ambos agitavam as cristas em sangue o peito de um e de outro estava desplumado e rubro invadiaos o cansaço Mas lutavam ainda assim olhos fitos nos olhos bico abaixo bico acima golpe deste golpe daquele vibrantes e raivosos Damasceno não sabia mais nada o espetáculo eliminou para ele todo o universo Em vão lhe disse que era tempo de descer ele não respondia não ouvia concentrarase no duelo A briga de galos era uma de suas paixões Foi nessa ocasião que Nhãloló me puxou brandamente pelo braço dizendo que nos fôssemos embora Aceitei o conselho e vim com ela por ali abaixo Já disse que o morro era então desabitado disselhes também que vínhamos da missa e não lhes tendo dito que chovia era claro que fazia bom tempo um sol delicioso E forte Tão forte que eu abri logo o guardasol segureio pelo centro do cabo e inclineio por modo que ajuntei uma página à filosofia do Quincas Borba Humanitas osculou Humanitas Foi assim que os anos me vieram caindo pelo morro abaixo Ao sopé detivemonos alguns minutos à espera de Damasceno ele veio daí a pouco rodeado dos apostadores a comentar com eles a briga Um destes tesoureiro das apostas distribuía um velho maço de notas de dez tostões que os vencedores recebiam duplamente alegres Quanto aos galos vinham sobraçados pelo respectivo dono Um deles trazia a crista tão comida e ensangüentada que vi logo nele o vencido mas era engano o vencido era o outro que não trazia crista nenhuma Ambos tinham o bico aberto respirando a custo esfalfados Os apostadores ao contrário vinham alegres sem embargo das fortes comoções da luta biografavam os contendores relembravam as proezas de ambos Eu fui andando vexado Nhãloló vexadíssima CAPÍTULO CXXII UMA INTENÇÃO MUITO FINA O que vexava a Nhãloló era o pai A facilidade com que ele se metera com os apostadores punha em relevo antigos costumes e afinidades sociais e Nhãloló chegara a temer que tal sogro me parecesse indigno Era notável a diferença que ela fazia de si mesma estudavase e estudavame A vida elegante e polida atraíaa principalmente porque lhe parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas Nhãloló observava imitava adivinhava ao mesmo tempo davase ao esforço de mascarar a inferioridade da família Naquele dia porém a manifestação do pai foi tamanha que a entristeceu grandemente Eu busquei então divertila do assunto dizendolhe muitas chanças e motes de bomtom vãos esforços que não a alegravam mais Era tão profundo o abatimento tão expressivo o desânimo que cheguei a atribuir a Nhãloló a intenção positiva de separar no meu espírito a sua causa da causa do pai Este sentimento pareceume de grande elevação era uma afinidade mais entre nós Não há remédio disse eu comigo vou arrancar esta flor a este pântano CAPÍTULO CXXIII O VERDADEIRO COTRIM Não obstante os meus quarenta e tantos anos como eu amasse a harmonia da família entendi não tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim Ele ouviume e respondeume seriamente que não tinha opinião em negócio de parentes seus Podiam suporlhe algum interesse se acaso louvasse as raras prendas de Nhãloló por isso calavase Mais estava certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixão mas se ela o consultasse o seu conselho seria negativo Não era levado por nenhum ódio apreciava as minhas boas qualidades não se fartava de as elogiar como era de justiça e pelo que respeita a Nhãloló não chegaria jamais a negar que era noiva excelente mas daí a aconselhar o casamento ia um abismo Lavo inteiramente as mãos concluiu ele Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes Isso é outro negócio Acho que é indispensável casar principalmente tendo ambições políticas Saiba que na política o celibato é uma remora Agora quanto à noiva não posso ter voto não quero não devo não é de minha honra Pareceme que Sabina foi além fazendolhe certas confidências segundo me disse mas em todo caso ela não é tia carnal de Nhãloló como eu Olhe mas não não digo Diga Não não digo nada Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai Reconheço que era um modelo Argüiamno de avareza e cuide que tinham razão mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude e as virtudes devem ser como os orçamentos melhor é o saldo que o deficit Como era muito seco de maneiras tinha inimigos que chegavam a acusálo de bárbaro O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço donde eles desciam a escorrer sangue mas além de que ele só mandava os perversos e os fujões ocorre que tendo longamente contrabandeado em escravos habituarase de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontravase no seu amor aos filhos e na dor que padeceu quando lhe morreu Sara dali a alguns meses prova irrefutável acho eu e não única Era tesoureiro de uma confraria e irmão de várias irmandades e até irmão remido de uma destas o que não se coaduna muito com a reputação da avareza verdade é que o benefício não caíra no chão a irmandade de que ele fora juiz mandaralhe tirar o retrato a óleo Não era perfeito decerto tinha por exemplo o sestro de mandar para os jornais a notícia de um ou outro benefício que praticava sestro repreensível ou não louvável concordo mas ele desculpavase dizendo que as boas ações eram contagiosas quando públicas razão a que se não pode negar algum peso Creio mesmo e nisto faço o seu maior elogio que ele não praticava de quando em quando esses benefícios senão com o fim de espertar a filantropia dos outros e se tal era o intuito força é confessar que a publicidade tornavase uma condição sine qua non Em suma poderia dever algumas atenções mas não devia um real a ninguém CAPÍTULO CXXIV VÁ DE INTERMÉDIO Que há entre a vida e a morte Uma curta ponte Não obstante se eu não compusesse este capítulo padeceria o leitor um forte abalo assaz danoso ao efeito do livro Saltar de um retrato a um epitáfio pode ser real e comum o leitor entretanto não se refugia no livro senão para escapar à vida Não digo que este pensamento seja meu digo que há nele uma dose de verdade e que ao menos a forma é pinturesca E repito não é meu CAPÍTULO CXXV EPITÁFIO AQUI JAZ D EULÁLIA DAMASCENA DE BRITO MORTA AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE ORAI POR ELA CAPÍTULO CXXVI DESCONSOLAÇÃO O epitáfio diz tudo Vale mais do que se lhes narrasse a moléstia de Nhãloló a morte o desespero da família o enterro Ficam sabendo que morreu acrescentarei que foi por ocasião da primeira entrada da febre amarela Não digo mais nada a não ser que a acompanhei até o último jazigo e me despedi triste mas sem lágrimas Concluí que talvez não a amasse deveras Vejam agora a que excessos pode levar uma inadvertência doeume um pouco a cegueira da epidemia que matando à direita e à esquerda levou também uma jovem dama que tinha de ser minha mulher não cheguei a entender a necessidade da epidemia menos ainda daquela morte Creio até que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes Quincas Borba porém explicoume que epidemias eram úteis à espécie embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos fezme notar que por mais horrendo que fosse o espetáculo havia uma vantagem de muito peso a sobrevivência do maior número Chegou a perguntarme se no meio do luto geral não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado às garras da peste mas esta pergunta era tão insensata que ficou sem resposta Se não contei a morte não conto igualmente a missa do sétimo dia A tristeza do Damasceno era profunda esse pobre homem parecia uma ruína Quinze dias depois estive com ele continuava inconsolável e dizia que a dor grande com que Deus o castigara fora ainda aumentada com a que lhe infligiram os homens Não me disse mais nada Três semanas depois tornou ao assunto e então confessoume que no meio do desastre irreparável quisera ter a consolação da presença dos amigos Doze pessoas apenas e três quartas partes amigos do Cotrim acompanharam à cova o cadáver de sua querida filha E ele fizera expedir oitenta convites Ponderei lhe que as perdas eram tão gerais que bem se podia desculpar essa desatenção aparente Damasceno abanava a cabeça de um modo incrédulo e triste Qual gemia ele desampararamme Cotrim que estava presente Vieram os que deveras se interessam por você e por nós Os oitenta viriam por formalidade falariam da inércia do governo das panacéias dos boticários do preço das casas ou uns dos outros Damasceno ouviu calado abanou outra vez a cabeça e suspirou Mas viessem CAPÍTULO CXXVII FORMALIDADE Grande coisa é haver recebido do céu uma partícula da sabedoria o dom de achar as relações das coisas a faculdade de as comparar e o talento de concluir Eu tive essa distinção psíquica eu a agradeço ainda agora do fundo do meu sepulcro De fato o homem vulgar que ouvisse a última palavra do Damasceno não se lembraria dela quando tempos depois houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas turcas Pois eu lembrei me Eram seis damas de Constantinopla modernas em trajos de rua cara tapada não com um espesso pano que as cobrisse deveras mas com um véu tenuíssimo que simulava descobrir somente os olhos e na realidade descobria a cara inteira E eu achei graça a essa esperteza da faceirice muçulmana que assim esconde o rosto e cumpre o uso mas não o esconde e divulga a beleza Aparentemente nada há entre as damas turcas e o Damasceno mas se tu és um espírito profundo e penetrante e duvido muito que me negues isso compreenderás que tanto num como noutro caso surge aí a orelha de uma rígida e meiga companheira do homem social Amável Formalidade tu és sim o bordão da vida o bálsamo dos corações a medianeira entre os homens o vínculo da Terra e do Céu tu enxugas as lágrimas de um pai tu captas a indulgência de um Profeta Se a dor adormece e a consciência se acomoda a quem senão a ti devem esse imenso benefício A estima que passa de chapéu na cabeça não diz nada à alma mas a indiferença que corteja deixalhe uma deleitosa impressão A razão é que ao contrário de uma velha fórmula absurda não é a letra que mata a letra dá vida o espírito é que é objeto de controvérsia de dúvida de interpretação e conseguintemente de luta e de morte Vive tu amável Formalidade para sossego do Damasceno e glória de Muamede CAPÍTULO CXXVIII NA CÂMARA E notai bem que eu vi a gravura turca dois anos depois das palavras de Damasceno e via na Câmara dos Deputados em meio de grande burburinho enquanto um deputado discutia um parecer da comissão do orçamento sendo eu também deputado Para quem há lido este livro é escusado encarecer a minha satisfação e para os outros é igualmente inútil Era deputado e vi a gravura turca recostado na minha cadeira entre um colega que contava uma anedota e outro que tirava a lápis nas costas de uma sobrecarta o perfil de orador O orador era o Lobo Neves A onda da vida trouxenos à mesma praia como duas botelhas de náufragos ele contendo o seu ressentimento eu devendo conter o meu remorso e emprego esta forma suspensiva dubitativa ou condicional para o fim de dizer que efetivamente não continha nada a não ser a ambição de ser ministro CAPÍTULO CXXIX SEM REMORSOS Não tinha remorsos Se possuísse os aparelhos próprios incluía neste livro uma página de química porque havia de decompor o remorso até os mais simples elementos com o fim de saber de um modo positivo e concludente por que razão Aquiles passeia à roda de Tróia o cadáver do adversário e lady Macbeth passeia à volta da sala a sua mancha de sangue Mas eu não tenho aparelhos químicos como não tinha remorsos tinha vontade de ser ministro de Estado Contudo se hei de acabar este capítulo direi que não quisera ser Aquiles nem lady Macbeth e que a ser alguma coisa antes Aquiles antes passear ovante o cadáver do que a mancha ouvemse no fim as súplicas de Príamo e ganhase uma bonita reputação militar e literária Eu não ouvia as súplicas de Príamo mas o discurso do Lobo Neves e não tinha remorsos CAPÍTULO CXXX PARA INTERCALAR NO CAP CXXIX A primeira vez que pude falar a Virgília depois da presidência foi num baile em 1855 Trazia um soberbo vestido de gorgorão azul e ostentava às luzes o mesmo par de ombros de outro tempo Não era a frescura da primeira idade ao contrário mas ainda estava formosa de uma formosura outoniça realçada pela noite Lembra me que falamos muito sem aludir a coisa nenhuma do passado Subentendiase tudo Um dito remoto vago ou então um olhar e mais nada Pouco depois retirouse eu fui vêla descer as escadas e não sei por que fenômeno de ventriloquismo cerebral perdoemme os filólogos essa frase bárbara murmurei comigo esta palavra profundamente retrospectiva Magnífica Convém intercalar este capítulo entre a primeira oração e a segunda do capítulo CXXIX CAPÍTULO CXXXI DE UMA CALÚNIA Como eu acabava de dizer aquilo pelo processo ventríloquocerebral o que era simples opinião e não remorso senti que alguém me punha a mão no ombro Volteime era um antigo companheiro oficial de marinha jovial um pouco despejado de maneiras Ele sorriu maliciosamente e disseme Seu maganão Recordações do passado hein Viva o passado Você naturalmente foi reintegrado no emprego Salta pelintra disse eu ameaçandoo com o dedo Confesso que este diálogo era uma indiscrição principalmente a última réplica E com tanto maior prazer o confesso quanto que as mulheres é que têm fama de indiscretas e não quero acabar o livro sem retificar essa noção do espírito humano Em pontos de aventura amorosa achei homens que sorriam ou negavam a custo de um modo frio monossilábico etc ao passo que as parceiras não davam por si e jurariam aos Santos Evangelhos que era tudo uma calúnia A razão desta diferença é que a mulher salva a hipótese do capítulo CI e outras entregase por amor ou seja o amorpaixão de Stendhal ou o puramente físico de algumas damas romanas por exemplo ou polinésias lapônias cafres e pode ser que outras raças civilizadas mas o homem falo do homem de uma sociedade culta e elegante o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento Além disso e refirome sempre aos casos defesos a mulher quando ama outro homem parecelhe que mente a um dever e portanto tem de dissimular com arte maior tem de refinar a aleivosia ao passo que o homem sentindose causa da infração e vencedor de outro homem fica legitimamente orgulhoso e logo passa a outro sentimento menos ríspido e menos secreto essa boa fatuidade que é a transpiração luminosa do mérito Mas seja ou não verdadeira a minha explicação bastame deixar escrito nesta página para uso dos séculos que a indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens em amor pelo menos elas são um verdadeiro sepulcro Perdemse muita vez por desastradas por inquietas por não saberem resistir aos gestos aos olhares e é por isso que uma grande dama e fino espírito a rainha de Navarra empregou algures esta metáfora para dizer que toda a aventura amorosa vinha descobrirse por força mais tarde ou mais cedo Não há cachorrinho tão adestrado que alfim lhe não ouçamos o latir CAPÍTULO CXXXII QUE NÃO É SÉRIO Citando o dito da rainha de Navarra ocorreme que entre o nosso povo quando uma pessoa vê outra pessoa arrufada costuma perguntarlhe Gentes quem matou seus cachorrinhos como se dissesse quem lhe levou os amores as aventuras secretas etc Mas este capítulo não é sério CAPÍTULO CXXXIII O PRINCÍPIO DE HELVETIUS Estávamos no ponto em que o oficial de marinha me arrancou a confissão dos amores de Virgília e aqui emendo eu o princípio de Helvetius ou por outra explicoo O meu interesse era calar confirmar a suspeita de uma coisa antiga fora provocar algum ódio sopitado dar origem a um escândalo quando menos adquirir a reputação de indiscreto Era esse o interesse e entendendose o princípio de Helvetius de um modo superficial isso é o que devia ter feito Mas eu já dei o motivo da indiscrição masculina antes daquele interesse de segurança havia outro o do desvanecimento que é mais íntimo mais imediato o primeiro era reflexivo supunha um silogismo anterior o segundo era espontâneo instintivo vinha das entranhas do sujeito finalmente o primeiro tinha o efeito remoto o segundo próximo Conclusão o princípio de Helvetius é verdadeiro no meu caso a diferença é que não era o interesse aparente mas o recôndito CAPÍTULO CXXXIV CINQÜENTA ANOS Não lhes disse ainda mas digoo agora que quando Virgília descia a escada e o oficial de marinha me tocava no ombro tinha eu cinqüenta anos Era portanto a minha vida que descia pela escada abaixo ou a melhor parte ao menos uma parte cheia de prazeres de agitações de sustos capeada de dissimulação e duplicidade mas enfim a melhor se devemos falar a linguagem usual Se porém empregarmos outra mais sublime a melhor parte foi a restante como eu terei a honra de lhes dizer nas poucas páginas deste livro Cinqüenta anos Não era preciso confessálo Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias Naquela ocasião cessado o diálogo com o oficial de marinha que enfiou a capa e saiu confesso que fiquei um pouco triste Voltei à sala lembroume dançar uma polca embriagarme das luzes das flores dos cristais dos olhos bonitos e do burburinho surdo e ligeiro das conversas particulares E não me arrependo remocei Mas meia hora depois quando me retirei do baile às quatro da manhã o que é que fui achar no fundo do carro Os meus cinqüenta anos Lá estavam eles os teimosos não tolhidos de frio nem reumáticos mas cochilando a sua fadiga um pouco cobiçosos de cama e de repouso Então e vejam até que ponto pode ir a imaginação de um homem com sono então pareceume ouvir de um morcego escarapitado no tejadilho Sr Brás Cubas a rejuvenescência estava na sala nos cristais nas luzes nas sedas enfim nos outros CAPÍTULO CXXXV OBLIVION E agora sinto que se alguma dama tem seguido estas páginas fecha o livro e não lê as restantes Para ela extinguiuse o interesse da minha vida que era o amor Cinqüenta anos Não é ainda a invalidez mas já não é a frescura Venham mais dez e eu entenderei o que um inglês dizia entenderei que coisa é não achar já quem se lembre de meus pais e de que modo me há de encarar o próprio ESQUECIMENTO Vai em versaletes esse nome OBLIVION Justo é que se dêem todas as honras a um personagem tão desprezado e tão digno conviva da última hora mas certo Sabeo a dama que luziu na aurora do atual reinado e mais dolorosamente a que ostentou suas graças em flor sob o ministério Paraná porque esta achase mais perto do triunfo e sente já que outras lhe tomaram o carro Então se é digna de si mesma não teima em espertar a lembrança morta ou expirante não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de ontem quando eram outros os que encetavam a marcha da vida de alma alegre e pé veloz Tempora mutantur Compreende que este turbilhão é assim mesmo leva as folhas do mato e os farrapos do caminho sem exceção nem piedade e se tiver um pouco de filosofia não inveja mas lastima as que lhe tomaram o carro porque também elas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION Espetáculo cujo fim é divertir o planeta Saturno que anda muito aborrecido CAPÍTULO CXXXVI INUTlLIDADE Mas ou muito me engano ou acabo de escrever um capítulo inútil CAPÍTULO CXXXVII A BARRETINA E daí não ele resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba acrescentando que me sentia acabrunhado e mil outras coisas tristes Mas esse filósofo com o elevado tino de que dispunha bradoume que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia Meu caro Brás Cubas não te deixes vencer desses vapores Que diacho é preciso ser homem ser forte lutar vencer brilhar influir dominar Cinqüenta anos é a idade da ciência e do governo Ânimo Brás Cubas não me sejas palerma Que tens tu com essa sucessão de ruína a ruína ou de flor a flor Trata de saborear a vida e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramigas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas O ofício delas é não parar nunca acomodate com a lei e trata de aproveitála Vêse nas menores coisas o que vale a autoridade de um grande filósofo As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir o torpor moral e mental em que andava Vamos lá façamonos governo é tempo Eu não havia intervindo até então nos grandes debates Cortejava a pasta por meio de rapapés chás comissões e votos e a pasta não vinha Urgia apoderarme da tribuna Comecei devagar Três dias depois discutindose o orçamento da justiça aproveitei o ensejo para perguntar modestamente ao ministro se não julgava útil diminuir a barretina da guarda nacional Não tinha vasto alcance o objeto da pergunta mas ainda assim demonstrei que não era indigno das cogitações de um homem de Estado e citei Filopémen que ordenou a substituição dos broquéis de suas tropas que eram pequenos por outros maiores e bem assim as lanças que eram demasiado leves fato que a história não achou que desmentisse a gravidade de suas páginas O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um corte profundo não só por serem deselegantes mas também por serem antihigiênicas Nas paradas ao sol o excesso de calor produzido por elas podia ser fatal Sendo certo que um dos preceitos de Hipócrates era trazer a cabeça fresca parecia cruel obrigar um cidadão por simples consideração de uniforme a arriscar a saúde e a vida e conseqüentemente o futuro da família A Câmara e o governo deviam lembrarse que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independência e que o cidadão chamado a um serviço gratuito freqüente e penoso tinha direito a que se lhe diminuísse o ônus decretando um uniforme leve e maneiro Acrescia que a barretina por seu peso abatia a cabeça dos cidadãos e a pátria precisava de cidadãos cuja fronte pudesse levantarse altiva e serena diante do poder e concluí com esta idéia O chorão que inclina os seus galhos para a terra é árvore de cemitério a palmeira ereta e firme é árvore do deserto das praças e dos jardins Vária foi a impressão deste discurso Quanto à forma ao rapto eloqüente à parte literária e filosófica a opinião foi só uma disseramme todos que era completo e que de uma barretina ninguém ainda conseguira tirar tantas idéias Mas a parte política foi considerada por muitos deplorável alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar enfim vieram dizerme que outros me davam já em oposição entrando nesse número os oposicionistas da Câmara que chegaram a insinuar a conveniência de uma moção de desconfiança Repeli energicamente tal interpretação que não era só errônea mas caluniosa à vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete acrescentei que a necessidade de diminuir a barretina não era tamanha que não pudesse esperar alguns anos e que em todo caso eu transigiria na extensão do corte contentando me com três quartos de polegada ou menos enfim dado mesmo que a minha idéia não fosse adotada bastavame têla iniciado no parlamento Quincas Borba porém não fez restrição alguma Não sou homem político disseme ele ao jantar não sei se andaste bem ou mal sei que fizeste um excelente discurso E então notou as partes mais salientes as belas imagens os argumentos fortes com esse comedimento de louvor que tão bem fica a um grande filósofo depois tomou o assunto à sua conta e impugnou a barretina com tal força com tamanha lucidez que acabou convencendome efetivamente do seu perigo CAPÍTULO CXXXVIII A UM CRÍTICO Meu caro crítico Algumas páginas atrás dizendo eu que tinha cinqüenta anos acrescentei Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias Talvez aches esta frase incompreensível sabendose o meu atual estado mas eu chamo a tua atenção para a sutileza daquele pensamento O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro A morte não envelhece Quero dizer sim que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente Valhame Deus é preciso explicar tudo CAPÍTULO CXXXIX DE COMO NÃO FUI MINISTRO DESTADO CAPÍTULO CXL QUE EXPLICA O ANTERIOR Há coisas que melhor se dizem calando tal é a matéria do capítulo anterior Podem entendêlo os ambiciosos malogrados Se a paixão do poder é a mais forte de todas como alguns inculcam imaginem o desespero a dor o abatimento do dia em que perdi a cadeira da Câmara dos Deputados Iamseme as esperanças todas terminava a carreira política E notem que o Quincas Borba por induções filosóficas que fez achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do poder mas um capricho um desejo de folgar Na opinião dele este sentimento não sendo mais profundo que o outro amofina muito mais porque orça pelo amor que as mulheres têm às rendas e toucados Um Cromwell ou um Bonaparte acrescentava ele por isso mesmo que os queima a paixão do poder lá chegam à fina força ou pela escada da direita ou pela da esquerda Não era assim o meu sentimento este não tendo em si a mesma força não tem a mesma certeza do resultado e daí a maior aflição o maior desencanto a maior tristeza O meu sentimento segundo o Humanitismo Vai para o diabo com o teu Humanitismo interrompio estou farto de filosofias que me não levam a coisa nenhuma A dureza da interrupção tratandose de tamanho filósofo equivalia a um desacato mas ele próprio desculpou a irritação com que lhe falei Trouxeramnos café era uma hora da tarde estávamos na minha sala de estudo uma bela sala que dava para o fundo da chácara bons livros objetos darte um Voltaire entre eles um Voltaire de bronze que nessa ocasião parecia acentuar o risinho de sarcasmo com que me olhava o ladrão cadeiras excelentes fora o sol um grande sol que o Quincas Borba não sei se por chalaça ou poesia chamou um dos ministros da natureza corria um vento fresco o céu estava azul De cada janela eram três pendia uma gaiola com pássaros que chilreavam as suas óperas rústicas Tudo tinha a aparência de uma conspiração das coisas contra o homem e conquanto eu estivesse na minha sala olhando para a minha chácara sentado na minha cadeira ouvindo os meus pássaros ao pé dos meus livros alumiado pelo meu sol não chegava a curarme das saudades daquela outra cadeira que não era minha CAPÍTULO CXLI OS CÃES Mas enfim que pretendes fazer agora perguntoume Quincas Borba indo pôr a xícara vazia no parapeito de uma das janelas Não sei vou meterme na Tijuca fugir aos homens Estou envergonhado aborrecido Tantos sonhos meu caro Borba tantos sonhos e não sou nada Nada interrompeume Quincas Borba com um gesto de indignação Para distrairme convidoume a sair saímos para os lados do Engenho Velho Íamos a pé filosofando as coisas Nunca me há de esquecer o benefício desse passeio A palavra daquele grande homem era o cordial da sabedoria Disseme ele que eu não podia fugir ao combate se me fechavam a tribuna cumpriame abrir um jornal Chegou a usar uma expressão menos elevada mostrando assim que a língua filosófica podia uma ou outra vez retemperarse no calão do povo Funda um jornal disseme ele e desmancha toda esta igrejinha Magnífica idéia Vou fundar um jornal vou escachálos vou Lutar Podes escachálos ou não o essencial é que lutes Vida é luta Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal Daí a pouco demos com uma briga de cães fato que aos olhos de um homem vulgar não teria valor Quincas Borba fezme parar e observar os cães Eram dois Notou que ao pé deles estava um osso motivo da guerra e não deixou de chamar a minha atenção para a circunstância de que o osso não tinha carne Um simples osso nu Os cães mordiamse rosnavam com o furor nos olhos Quincas Borba meteu a bengala debaixo do braço e parecia em êxtase Que belo que isto é dizia ele de quando em quando Quis arrancálo dali mas não pude ele estava arraigado ao chão e só continuou a andar quando a briga cessou inteiramente e um dos cães mordido e vencido foi levar a sua fome a outra parte Notei que ficara sinceramente alegre posto contivesse a alegria segundo convinha a um grande filósofo Fezme observar a beleza do espetáculo relembrou o objeto da luta concluiu que os cães tinham fome mas a privação do alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetáculo mais é grandioso as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis luta que se complica muito porque entra em ação a inteligência do homem com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos etc CAPÍTULO CXLII O PEDIDO SECRETO Quanta coisa num minuete como dizia o outro Quanta coisa numa briga de cães Mas eu não era um discípulo servil ou medroso que deixasse de fazer uma ou outra objeção adequada Andando disse lhe que tinha uma dúvida não estava bem certo da vantagem de disputar a comida aos cães Ele respondeume com excepcional brandura Disputála aos outros homens é mais lógico porque a condição dos contendores é a mesma e leva o osso o que for mais forte Mas por que não será um espetáculo grandioso disputálo aos cães Voluntariamente comemse gafanhotos como o Precursor ou coisa pior como Ezequiel logo o ruim é comível resta saber se é mais digno do homem disputálo por virtude de uma necessidade natural ou preferilo para obedecer a uma exaltação religiosa isto é modificável ao passo que a fome é eterna como a vida e como a morte Estávamos à porta de casa deramme uma carta dizendo que vinha de uma senhora Entramos e o Quincas Borba com a discrição própria de um filósofo foi ler a lombada dos livros de uma estante enquanto eu lia a carta que era de Virgília Meu bom amigo D Plácida está muito mal Peçolhe o favor de fazer alguma coisa por ela mora no Beco das Escadinhas veja se alcança metêla na Misericórdia S u a a m i g a s i n c e r a Não era a letra fina e correta de Virgília mas grossa e desigual o V da assinatura não passava de um rabisco sem intenção alfabética de maneira que se a carta aparecesse era muito difícil atribuirlhe a autoria Virei e revirei o papel Pobre D Plácida Mas eu tinhalhe deixado os cinco contos da praia de Botafogo e não podia compreender que Vais compreender disse Quincas Borba tirando um livro da estante O quê perguntei espantado A imagem vinculada não pode ser exibida Talvez o arquivo tenha sido movido renomeado ou excluído Verifique se o vínculo aponta para o arquivo e o local corretos Vais compreender que eu só te disse a verdade Pascal é um dos meus avôs espirituais e conquanto a minha filosofia valha mais que a dele não posso negar que era um grande homem Ora que diz ele nesta página E chapéu na cabeça bengala sobraçada apontava o lugar com o dedo Que diz ele Diz que o homem tem uma grande vantagem sobre o resto do universo sabe que morre ao passo que o universo ignorao absolutamente Vês Logo o homem que disputa o osso a um cão tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome e é isto que torna grandiosa a luta como eu dizia Sabe que morre é uma expressão profunda creio todavia que é mais profunda a minha expressão sabe que tem fome Porquanto o fato da morte limita por assim dizer o entendimento humano a consciência da extinção dura um breve instante e acaba para nunca mais ao passo que a fome tem a vantagem de voltar de prolongar o estado consciente Pareceme se não vai nisso alguma imodéstia que a fórmula de Pascal é inferior à minha sem todavia deixar de ser um grande pensamento e Pascal um grande homem CAPÍTULO CXLIII NÃO VOU Enquanto ele restituía o livro à estante relia eu o bilhete Ao jantar vendo que eu falava pouco mastigava sem acabar de engolir fitava o canto da sala a ponta da mesa um prato uma cadeira uma mosca invisível disseme ele Tens alguma coisa aposto que foi aquela carta Foi Realmente sentiame aborrecido incomodado com o pedido de Virgília Tinha dado a D Plácida cinco contos de réis duvido muito que ninguém fosse mais generoso do que eu nem tanto Cinco contos E que fizera deles Naturalmente botouos fora comeuos em grandes festas e agora toca para a Misericórdia e eu que a leve Morrese em qualquer parte Acresce que eu não sabia ou não me lembrava do tal Beco das Escadinhas mas pelo nome pareciame algum recanto estreito e escuro da cidade Tinha de lá ir chamar a atenção dos vizinhos bater à porta etc Que maçada Não vou CAPÍTULO CXLIV UTILIDADE RELATIVA Mas a noite que é boa conselheira ponderou que a cortesia mandava obedecer aos desejos da minha antiga dama Letras vencidas urge pagálas disse eu ao levantarme Depois do almoço fui à casa de D Plácida achei um molho de ossos envolto em molambos estendido sobre um catre velho e nauseabundo deilhe algum dinheiro No dia seguinte fila transportar para a Misericórdia onde ela morreu uma semana depois Minto amanheceu morta saiu da vida às escondidas tal qual entrara Outra vez perguntei a mim mesmo como no capítulo LXXV se era para isto que o sacristão da Sé e a doceira trouxeram Dona Plácida à luz num momento de simpatia específica Mas adverti logo que se não fosse D Plácida talvez os meus amores com Virgília tivessem sido interrompidos ou imediatamente quebrados em plena efervescência tal foi portanto a utilidade da vida de D Plácida Utilidade relativa convenho mas que diacho há absoluto nesse mundo CAPÍTULO CXLV SIMPLES REPETIÇÃO Quanto aos cinco contos não vale a pena dizer que um canteiro da vizinhança fingiuse enamorado de D Plácida logrou espertarlhe os sentidos ou a vaidade e casou com ela no fim de alguns meses inventou um negócio vendeu as apólices e fugiu com o dinheiro Não vale a pena É o caso dos cães do Quincas Borba Simples repetição de um capítulo CAPÍTULO CXLVI O PROGRAMA Urgia fundar o jornal Redigi o programa que era uma aplicação política do Humanitismo somente como o Quincas Borba não houvesse ainda publicado o livro que aperfeiçoava de ano em ano assentamos de lhe não fazer nenhuma referência Quincas Borba exigiu apenas uma declaração autógrafa e reservada de que alguns princípios novos aplicados à política eram tirados do livro dele ainda inédito Era a fina flor dos programas prometia curar a sociedade destruir os abusos defender os sãos princípios de liberdade e conservação fazia um apelo ao comércio e à lavoura citava Guizot e LedruRollin e acabava com esta ameaça que o Quincas Borba achou mesquinha e local A nova doutrina que professamos há de inevitavelmente derrubar o atual ministério Confesso que nas circunstâncias políticas da ocasião o programa pareceume uma obraprima A ameaça do fim que o Quincas Borba achou mesquinha demonstrei lhe que era saturada do mais puro Humanitismo e ele mesmo o confessou depois Porquanto o Humanitismo não excluía nada as guerras de Napoleão e uma contenda de cabras eram segundo a nossa doutrina a mesma sublimidade com a diferença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam coisa que aparentemente não acontece às cabras Ora eu não fazia mais do que aplicar às circunstâncias a nossa fórmula filosófica Humanitas queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas Tu és o meu discípulo amado o meu califa bradou Quincas Borba com uma nota de ternura que até então lhe não ouvira Posso dizer como o grande Muamede nem que venham agora contra mim o sol e a lua não recuarei das minhas idéias Crê meu caro Brás Cubas que esta é a verdade eterna anterior aos mundos posterior aos séculos CAPÍTULO CXLVII O DESATINO Mandei logo para a imprensa uma notícia discreta dizendo que provavelmente começaria a publicação de um jornal oposicionista daí a algumas semanas redigido pelo Dr Brás Cubas Quincas Borba a quem li a notícia pegou da pena e acrescentou ao meu nome com uma fraternidade verdadeiramente humanística esta frase um dos mais gloriosos membros da passada Câmara No dia seguinte entrame em casa o Cotrim Vinha um pouco transtornado mas dissimulava afetando sossego e até alegria Vira a notícia do jornal e achou que devia como amigo e parente dissuadirme de semelhante idéia Era um erro um erro fatal Mostrou que eu ia colocarme numa situação difícil e de certa maneira trancar as portas do parlamento O ministério não só lhe parecia excelente o que aliás podia não ser a minha opinião mas com certeza viveria muito e que podia eu ganhar com indispôlo contra mim Sabia que alguns dos ministros me eram afeiçoados não era impossível uma vaga e Interrompio nesse ponto para lhe dizer que meditara muito o passo que ia dar e não podia recuar uma linha Cheguei a proporlhe a leitura do programa mas ele recusou energicamente dizendo que não queria ter a mínima parte no meu desatino É um verdadeiro desatino repetiu ele pense ainda alguns dias e verá que é um desatino A mesma coisa disse Sabina à noite no teatro Deixou a filha no camorote com o Cotrim e trouxeme ao corredor Mano Brás que é que você vai fazer perguntoume aflita Que idéia é essa de provocar o governo sem necessidade quando podia Expliqueilhe que não me convinha mendigar uma cadeira no parlamento que a minha idéia era derrubar o ministério por não me parecer adequado à situação e a certa fórmula filosófica afiancei que empregaria sempre uma linguagem cortês embora enérgica A violência não era especiaria do meu paladar Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos abanou a cabeça e tornou ao assunto com um ar de súplica e ameaça alternadamente eu disselhe que não que não e que não Desenganada lançoume em rosto preferi os conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido Pois siga o que lhe parecer concluiu nós cumprimos a nossa obrigação Deume as costas e voltou ao camarote CAPÍTULO CXLVIII O PROBLEMA INSOLÚVEL Publiquei o jornal Vinte e quatro horas depois aparecia em outros uma declaração do Cotrim dizendo em substância que posto não militasse em nenhum dos partidos em que se dividia a pátria achava conveniente deixar bem claro que não tinha influência nem parte direta ou indireta na folha de seu cunhado o Dr Brás Cubas cujas idéias e procedimento político inteiramente reprovava O atual ministério como aliás qualquer outro composto de iguais capacidades parecialhe destinado a promover a felicidade pública Não podia acabar de crer nos meus olhos Esfregueios uma e duas vezes e reli a declaração inoportuna insólita e enigmática Se ele nada tinha com os partidos que lhe importava um incidente tão vulgar como a publicação de uma folha Nem todos os cidadãos que acham bom ou mau um ministério fazem declarações tais pela imprensa nem são obrigados a fazêlas Realmente era um mistério a intrusão do Cotrim neste negócio não menos que a sua agressão pessoal Nossas relações até então tinham sido lhanas e benévolas não me lembrava nenhum dissentimento nenhuma sombra nada depois da reconciliação Ao contrário as recordações eram de verdadeiros obséquios assim por exemplo sendo eu deputado pude obterlhe uns fornecimentos para o arsenal de marinha fornecimentos que ele continuava a fazer com a maior pontualidade e dos quais me dizia algumas semanas antes que no fim de mais três anos podiam darlhe uns duzentos contos Pois a lembrança de tamanho obséquio não teve força para obstar que ele viesse a público enxovalhar o cunhado Devia ser muito poderoso e motivo da declaração que o fazia cometer ao mesmo tempo um destempero e uma ingratidão confesso que era um problema insolúvel CAPÍTULO CXLIX TEORIA DO BENEFÍCIO Tão insolúvel que o Quincas Borba não pôde dar com ele apesar de estudálo longamente e com boa vontade Ora adeus concluiu nem todos os problemas valem cinco minutos de atenção Quanto à censura de ingratidão Quincas Borba rejeitoua inteiramente não como improvável mas como absurda por não obedecer às conclusões de uma boa filosofia humanística Não me podes negar um fato disse ele é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado Que é o benefício é um ato que faz cessar certa privação do beneficiado Uma vez produzido o efeito essencial isto é uma vez cessada a privação torna o organismo ao estado anterior ao estado indiferente Supõe que tens apertado em demasia o cós das calças para fazer cessar o incômodo desabotoas o cós respiras saboreias um instante de gozo o organismo torna à indiferença e não te lembras dos teus dedos que praticaram o ato Não havendo nada que perdure é natural que a memória se esvaeça porque ela não é uma planta aérea precisa de chão A esperança de outros favores é certo conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro mas este fato aliás um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho explicase pela memória da privação ou usando de outra fórmula pela privação continuada na memória que repercute a dor passada e aconselha a precaução do remédio oportuno Não digo que ainda sem esta circunstância não aconteça algumas vezes persistir a memória do obséquio acompanhada de certa afeição mais ou menos intensa mas são verdadeiras aberrações sem nenhum valor aos olhos de um filósofo Mas repliquei eu se nenhuma razão há para que perdure a memória do obséquio no obsequiado menos há de haver em relação ao obsequiador Quisera que me explicasses este ponto Não se explica o que é de sua natureza evidente retorquiu o Quincas Borba mas eu direi alguma coisa mais A persistência do benefício na memória de quem o exerce explicase pela natureza mesma do benefício e seus efeitos Primeiramente há o sentimento de uma boa ação e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações em segundo lugar recebese uma convicção de superioridade sobre outra criatura superioridade no estado e nos meios e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis segundo as melhores opiniões ao organismo humano Erasmo que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas coisas boas chamou a atenção para a complacência com que dois burros se coçam um ao outro Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo mas direi o que ele não disse a saber que se um dos burros coçar melhor o outro esse há de ter nos olhos algum indício especial de satisfação Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho senão porque se acha bonita e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias A consciência é a mesma coisa remirase a miúdo quando se acha bela Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda Não esqueças que sendo tudo uma simples irradiação de Humanitas o benefício e seus efeitos são fenômenos perfeitamente admiráveis CAPÍTULO CL ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃO Há em cada empresa afeição ou idade um ciclo inteiro da vida humana O primeiro número do meu jornal encheume a alma de uma vasta aurora corooume de verduras restituiume a lepidez da mocidade Seis meses depois batia a hora da velhice e daí a duas semanas a da morte que foi clandestina como a de D Plácida No dia em que o jornal amanheceu morto respirei como um homem que vem de longo caminho De modo que se eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas mais ou menos efêmeras como o corpo alimenta os seus parasitas creio não dizer uma coisa inteiramente absurda Mas para não arriscar essa figura menos nítida e adequada prefiro uma imagem astronômica o homem executa à roda do grande mistério um movimento duplo de rotação e translação tem os seus dias desiguais como os de Júpiter e deles compõe o seu ano mais ou menos longo No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação concluía Lobo Neves o seu movimento de translação Morria com o pé na escada ministerial Correu ao menos durante algumas semanas que ele ia ser ministro e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja não é impossível que a notícia da morte me deixasse alguma tranqüilidade alívio e um ou dois minutos de prazer Prazer é muito mas é verdade juro aos séculos que é a pura verdade Fui ao enterro Na sala mortuária achei Virgília ao pé do féretro a soluçar Quando levantou a cabeça vi que chorava deveras Ao sair o enterro abraçouse ao caixão aflita vieram tirála e levála para dentro Digovos que as lágrimas eram verdadeiras Eu fui ao cemitério e para dizer tudo não tinha muita vontade de falar levava uma pedra na garganta ou na consciência No cemitério principalmente quando deixei cair a pá de cal sobre o caixão no fundo da cova o baque surdo da cal deume um estremecimento passageiro é certo mas desagradável e depois a tarde tinha o peso e a cor do chumbo o cemitério as roupas pretas CAPÍTULO CLI FILOSOFIA DOS EPITÁFIOS Saí afastandome dos grupos e fingindo ler os epitáfios E aliás gosto dos epitáfios eles são entre a gente civilizada uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou Daí vem talvez a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum parecelhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos CAPÍTULO CLII A MOEDA DE VESPASIANO Tinham ido todos só o meu carro esperava pelo dono Acendi um charuto afasteime do cemitério Não podia sacudir dos olhos a cerimônia do enterro nem dos ouvidos os soluços de Virgília Os soluços principalmente tinham o som vago e misterioso de um problema Virgília traíra o marido com sinceridade e agora chorava o com sinceridade Eis uma combinação difícil que não pude fazer em todo o trajeto em casa porém apeandome do carro suspeitei que a combinação era possível e até fácil Meiga Natura A taxa da dor é como a moeda de Vespasiano não cheira à origem e tanto se colhe do mal como do bem A moral repreenderá porventura a minha cúmplice é o que te não importa implacável amiga uma vez que lhe recebeste pontualmente as lágrimas Meiga três vezes Meiga Natura CAPÍTULO CLIII O ALIENISTA Começo a ficar patético e prefiro dormir Dormi sonhei que era nababo e acordei com a idéia de ser nababo Eu gostava às vezes de imaginar esses contrastes de região estado e credo Alguns dias antes tinha pensado na hipótese de uma revolução social religiosa e política que transferisse o arcebispo de Cantuária a simples coletor de Petrópolis e fiz longos cálculos para saber se o coletor eliminaria o arcebispo ou se o arcebispo rejeitaria o coletor ou que porção de arcebispo pode jazer num coletor ou que soma de coletor pode combinar com um arcebispo etc Questões insolúveis aparentemente mas na realidade perfeitamente solúveis desde que se atenda que pode haver num arcebispo dois arcebispos o da bula e o outro Está dito vou ser nababo Era um simples gracejo disseo todavia ao Quincas Borba que olhou para mim com certa cautela e pena levando a sua bondade a comunicarme que eu estava doido Rime a princípio mas a nobre convicção do filósofo incutiume certo medo A única objeção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doido mas não tendo geralmente os doidos outro conceito de si mesmos tal objeção ficava sem valor E vede se há algum fundamento na crença popular de que os filósofos são homens alheios às coisas mínimas No dia seguinte mandoume o Quincas Borba um alienista Conheciao fiquei aterrado Ele porém houvese com a maior delicadeza e habilidade despedindose tão alegremente que me animou a perguntarlhe se deveras me não achava doido Não disse ele sorrindo raros homens terão tanto juízo como o senhor Então o Quincas Borba enganouse Redondamente E depois Ao contrário se é amigo dele peço lhe que o distraia que Justos céus Parecelhe Um homem de tamanho espírito um filósofo Não importa a loucura entra em todas as casas Imaginem a minha aflição O alienista vendo o efeito de suas palavras reconheceu que eu era amigo do Quincas Borba e tratou de diminuir a gravidade da advertência Observou que podia não ser nada e acrescentou até que um grãozinho de sandice longe de fazer mal dava certo pico à vida Como eu rejeitasse com horror esta opinião o alienista sorriu e disseme uma coisa tão extraordinária tão extraordinária que não merece menos de um capítulo CAPÍTULO CLIV OS NAVIOS DO PIREU Há de lembrarse disseme o alienista daquele famoso maníaco ateniense que supunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade Não passava de um pobretão que talvez não tivesse para dormir a cuba de Diógenes mas a posse imaginária dos navios valia por todas as dracmas da Hélade Ora bem há em todos nós um maníaco de Atenas e quem jurar que não possuiu alguma vez mentalmente dois ou três patachos pelo menos pode crer que jura falso Também o senhor pergunteilhe Também eu Também eu Também o senhor e o seu criado não menos se é seu criado esse homem que ali está sacudindo os tapetes à janela De fato era um dos meus criados que batia os tapetes enquanto nós falávamos no jardim ao lado O alienista notou então que ele escancarara as janelas todas deste longo tempo que alçara as cortinas que devassara o mais possível a sala ricamente alfaiada para que a vissem de fora e concluiu Este seu criado tem a mania do ateniense crê que os navios são dele uma hora de ilusão que lhe dá a maior felicidade da Terra CAPÍTULO CLV REFLEXÃO CORDIAL Se o alienista tem razão disse eu comigo não haverá muito que lastimar o Quincas Borba é uma questão de mais ou de menos Contudo é justo cuidar dele e evitar que lhe entrem no cérebro maníacos de outras paragens CAPÍTULO CLVI ORGULHO DA SERVILIDADE Quincas Borba divergiu do alienista em relação ao meu criado Podese por imagem disse ele atribuir ao teu criado a mania do ateniense mas imagens não são idéias nem observações tomadas à natureza O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo é o orgulho da servilidade A intenção dele é mostrar que não é criado de qualquer Depois chamou a minha atenção para os cocheiros de casa grande mais empertigados que o amo para os criados de hotel cuja solicitude obedece às variações sociais da freguesia etc E concluiu que era tudo a expressão daquele sentimento delicado e nobre prova cabal de que muitas vezes o homem ainda a engraxar botas é sublime CAPÍTULO CLVII FASE BRILHANTE Sublime és tu bradei eu lançandolhe os braços ao pescoço Com efeito era impossível crer que um homem tão profundo chegasse à demência foi o que lhe disse após o meu abraço denunciandolhe a suspeita do alienista Não posso descrever a impressão que lhe fez a denúncia lembrame que ele estremeceu e ficou muito pálido Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim sem chegar a saber a causa do dissentimento Reconciliação oportuna porque a solidão pesavame e a vida era para mim a pior das fadigas que é a fadiga sem trabalho Pouco depois fui convidado por ele a filiarme numa Ordem Terceira o que eu não fiz sem consultar o Quincas Borba Vai se queres disseme este mas temporariamente Eu trato de anexar à minha filosofia uma parte dogmática e litúrgica O Humanitismo há de ser também uma religião a do futuro a única verdadeira O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos e as outras religiões não valem mais do que essa orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza O paraíso cristão é um digno êmulo do paraíso muçulmano e quanto ao nirvana de Buda não passa de uma concepção de paralíticos Verás o que é a religião humanística A absorção final a fase contrativa é a reconstituição da substância não o seu aniquilamento etc Vai aonde te chamam não esqueças porém que és o meu califa E vede agora a minha modéstia filieime na Ordem Terceira de exerci ali alguns cargos foi essa a fase mais brilhante da minha vida Não obstante calome não digo nada não conto os meus serviços o que fiz aos pobres e aos enfermos nem as recompensas que recebi nada não digo absolutamente nada Talvez a economia social pudesse ganhar alguma coisa se eu mostrasse como todo e qualquer prêmio estranho vale pouco ao lado do prêmio subjetivo e imediato mas seria romper o silêncio que jurei guardar neste ponto Demais os fenômenos da consciência são de difícil análise por outro lado se contasse um teria de contar todos os que a ele se prendessem e acabava fazendo um capítulo de psicologia Afirmo somente que foi a fase mais brilhante da minha vida Os quadros eram tristes tinham a monotonia da desgraça que é tão aborrecida como a do gozo e talvez pior Mas a alegria que se dá à alma dos doentes e dos pobres é recompensa de algum valor e não me digam que é negativa por só recebêla o obsequiado Não eu recebiaa de um modo reflexo e ainda assim grande tão grande que me dava excelente idéia de mim mesmo CAPÍTULO CLVIII DOIS ENCONTROS No fim de alguns anos três ou quatro estava enfarado do ofício e deixeio não sem um donativo importante que me deu direito ao retrato na sacristia Não acabarei porém o capítulo sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem adivinhem quem a linda Marcela e via morrer no mesmo dia em que visitando um cortiço para distribuir esmolas achei Agora é que não são capazes de adivinhar achei a flor da moita Eugênia a filha de D Eusébia e do Vilaça tão coxa como a deixara e ainda mais triste Esta ao reconhecerme ficou pálida e baixou os olhos mas foi obra de um instante Ergueu logo a cabeça e fitoume com muita dignidade Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira e estendilhe a mão como faria à esposa de um capitalista Cortejoume e fechouse no cubículo Nunca mais a vi não soube nada da vida dela nem se a mãe era morta nem que desastre a trouxera a tamanha miséria Sei que continuava coxa e triste Foi com esta impressão profunda que cheguei ao hospital onde Marcela entrara na véspera e onde a vi expirar meia hora depois feia magra decrépita CAPÍTULO CLIX SEMIDEMÊNCIA Compreendi que estava velho e precisava de uma força mas o Quincas Borba partira seis meses antes para Minas Gerais e levou consigo a melhor das filosofias Voltou quatro meses depois e entroume em casa certa manhã quase no estado em que eu o vira no Passeio Público A diferença é que o olhar era outro Vinha demente Contoume que para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo queimara o manuscrito todo e ia recomeçálo A parte dogmática ficava completa embora não escrita era a verdadeira religião do futuro Juras por Humanitas perguntoume Sabes que sim A voz mal podia sairme do peito e aliás não tinha descoberto toda a cruel verdade Quincas Borba não só estava louco mas sabia que estava louco e esse resto de consciência como uma frouxa lamparina no meio das trevas complicava muito o horror da situação Sabiao e não se irritava contra o mal ao contrário diziame que era ainda uma prova de Humanitas que assim brincava consigo mesmo Recitavame longos capítulos do livro e antífonas e litanias espirituais chegou até a reproduzir uma dança sacra que inventara para as cerimônias do Humanitismo A graça lúgubre com que ele levantava e sacudia as pernas era singularmente fantástica Outras vezes amuavase a um canto com os olhos fitos no ar uns olhos em que de longe em longe fulgurava um raio persistente da razão triste como uma lágrima Morreu pouco tempo depois em minha casa jurando e repetindo sempre que a dor era uma ilusão e que Pangloss o caluniado Pangloss não era tão tolo como o supôs Voltaire CAPÍTULO CLX DAS NEGATIVAS Entre a morte do Quincas Borba e a minha mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas que morreu comigo por causa da moléstia que apanhei Divino emplasto tu me darias o primeiro lugar entre os homens acima da ciência e da riqueza porque eras a genuína e direta inspiração do Céu O caso determinou o contrário e aí vos ficais eternamente hipocondríacos Este último capítulo é todo de negativas Não alcancei a celebridade do emplasto não fui ministro não fui califa não conheci o casamento Verdade é que ao lado dessas faltas coubeme a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto Mais não padeci a morte de D Plácida nem a semidemência do Quincas Borba Somadas umas coisas e outras qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra e conseguintemente que saí quite com a vida E imaginará mal porque ao chegar a este outro lado do mistério acheime com um pequeno saldo que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria FIM