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SILVA Adriana Fernandes da LUND Rafael G Dentística Restauradora Do Planejamento à Execução Rio de Janeiro Santos 2016 Ebook pág 83 ISBN 9788527728782 Disponível em httpsintegradaminhabibliotecacombrreaderbooks9788527728782 Acesso em 27 out 2025 Cap 08 Introdução O advento dos sistemas adesivos para uso odontológico em meados do século 20 associado à maior compreensão dos mecanismos de união aos tecidos dentais mineralizados esmalte e dentina não somente determinou significante avanço tecnológico para o desenvolvimento de novos materiais restauradores mas também foi importante para o rompimento de antigos paradigmas que norteavam a prática odontológica Até poucas décadas atrás a confecção de um preparo cavitário retentivo no remanescente dental era necessária para fixar mecanicamente a restauração já que os materiais restauradores disponíveis na época não contavam com mecanismos eficientes de adesão ver Capítulo 3 Desse modo o profissional realizava desgastes de tecido dentário sadio a fim de aumentar a área de contato com o material restaurador eou aprisionálo mecanicamente por meio da confecção de sulcos canaletas pins ou cavidades geometricamente retentivas Esses desgastes hoje considerados excessivos enfraqueciam ainda mais o remanescente já fragilizado fato que não raramente conduzia a fraturas coronárias eou radicular com subsequente perda dental Assim a disponibilidade de materiais e técnicas que propiciavam algum tipo de adesão ao esmalte e à dentina junto com o maior conhecimento histológico desses tecidos e dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento da cárie dental propiciaram a concepção de uma nova filosofia restauradora mais conservadora e biológica por meio de uma prática minimamente invasiva1 A história da adesão é recente na odontologia com seu marco inicial em 1955 quando Buonocore demonstrou que o prétratamento do esmalte dentário com substâncias ácidas proporcionava maior adesão para as restaurações de resina acrílica2 Desde então o estabelecimento de uma união satisfatória entre o material restaurador e os tecidos dentários mineralizados passou a ser investigado resultando na descoberta do complexo mecanismo que envolve a adesão ao esmalte e principalmente à dentina Posteriormente Nakabayashi et al empregando técnicas de microscopia eletrônica descreveram o mecanismo básico de adesão aos tecidos dentários caracterizandoo como um processo que envolve a substituição de uma camada mineral superficial por monômeros resinosos os quais após polimerização in situ permanecem retidos por meio de união micromecânica3 Esse processo foi então denominado hibridização ou formação de camada híbrida Figura 81 Neste capítulo não se pretende esgotar um tema tão abrangente que envolve vários e complexos mecanismos físicos químicos biológicos e suas interações De maneira objetiva serão abordados os principais processos envolvidos na adesão dentária bem como os tipos de sistemas adesivos disponíveis no mercado suas indicações e técnicas de aplicação Princípios da adesão Na odontologia a adesão pode ser compreendida como a união de duas faces por intermédio de um sistema adesivo Essa união cria uma interface que pode apresentarse de duas maneiras ou uma das faces é o próprio adesivo se unindo a uma superfície constituindo assim uma interface adesiva simples ou o adesivo é o material intermediário ligando duas faces entre si caracterizando a formação de uma interface adesiva complexa Figura 824 A maioria dos procedimentos adesivos envolve a formação de uma interface adesiva complexa Para isso o adesivo necessita apresentar algumas características básicas para desempenhar a sua função com propriedade as quais estão ilustradas na Figura 83 e listadas a seguir Aderência conquistada com a limpeza superficial do substrato dentário Molhamento ou seja facilidade em se espalhar superficialmente Adaptação íntima evitando o encapsulamento de ar ou de outros materiais no seu interior Resistência física química e mecânica Nível de polimerização minimizando os processos de degradação higroscópica e hidrolítica Além dessas características que são fundamentais para se obter adesão satisfatória o tipo e a qualidade do substrato dentário influenciam significativamente a qualidade final da interface de união O mecanismo de adesão ao esmalte dentário é consideravelmente diferente do realizado em dentina e isso se deve principalmente a diferenças na proporção entre as fases mineral inorgânica e orgânica Quadro 815 Enquanto o esmalte é formado quase totalmente por minerais a dentina apresenta uma composição mais heterogênea com maior concentração de água e componentes orgânicos o que repercute diretamente no processo adesivo6 Adicionalmente a micromorfologia diferenciada entre esmalte e dentina também influencia o modo de formação da camada híbrida Em razão disso as características desses substratos serão comentadas separadamente Quadro 81 Composição química em massa do esmalte e da dentina Faseconteúdo químico Esmalte Dentina Fase mineral 97 70 Fase orgânica 2 20 Água 1 10 Adesão ao esmalte Histologicamente o esmalte dentário é o tecido mais mineralizado e resistente do corpo humano Ele é constituído por aproximadamente 97 de hidroxiapatita a forma cristalizada do fosfato de cálcio 2 de proteínas não colágenas enamelina e amelogenina e 1 de água ver Quadro 815 O esmalte corresponde à estrutura mais superficial do dente e sua unidade básica é um prisma agrupamento de hidroxiapatita Os prismas têm diferentes direções de acordo com a região do dente entretanto podem estar ausentes na porção mais superficial região denominada de camada aprismática4 A disposição irregular dos prismas torna o esmalte um substrato propício à adesão pois após aplicação de um ácido condicionamento ácido uma dissolução seletiva da superfície é estabelecida tornandoo superficialmente poroso e por consequência favorável ao processo adesivo Assim microrretenções mecânicas são formadas na porção superficial de sua estrutura Figura 842 Além de produzir microporosidades superficiais o condicionamento ácido é responsável pelo aumento da energia superficial do esmalte tornandoo mais receptivo ao adesivo e assim facilitando a difusão de monômeros para o interior desses microporos4 A adesão ao esmalte foi efetivamente obtida em 1955 quando Buonocore propôs a técnica do condicionamento ácido2 e tem demonstrado bons resultados de resistência de união a longo prazo7Contudo o processo de adesão à dentina ainda apresenta alguns desafios principalmente devido à maior complexidade da sua estrutura histológica Isso torna o método adesivo em dentina mais sensível aumentando a dificuldade da técnica operatória Adesão à dentina A dentina é um tecido conjuntivo avascular e mineralizado que forma a parte mais volumosa do dente É um substrato constituído por 70 de matéria inorgânica 20 de compostos orgânicos 17 de fibras colágenas e 3 de outros tipos de fibras e 10 de água ver Quadro 81 embora essas proporções possam variar conforme a idade do indivíduo7 Além do maior conteúdo orgânico a dentina tem uma estrutura morfológica mais complexa que a do esmalte Ela está organizada em pequenos túbulos rodeados por tecido orgânico e inorgânico que compreendem as dentinas peritubular e intertubular Os túbulos dentinários são originados ao contornarem os prolongamentos odontoblásticos que se retraem em direção à polpa com o passar do tempo liberando um espaço por onde circula o fluido dentinário5 O número e o diâmetro dos túbulos variam conforme a localização na dentina Figura 85 e a idade do indivíduo Recobrindo o interior dos túbulos existe uma camada de dentina quase totalmente mineralizada denominada dentina peritubular Já a intertubular porção com grande quantidade de matéria orgânica6 ocupa o restante do corpo da dentina correspondendo à maior parte do volume dentinário8 Na dentina diferentemente do esmalte o condicionamento ácido expõe uma rede de fibras colágenas ao desmineralizar a fase mineral do substrato Assim é por meio do encapsulamento resinoso dessas fibras que a união ao substrato dentinário é obtida porém devido às características inerentes de um conteúdo orgânico elas necessitam de cuidados especiais durante o processo de hibridização As fibras colágenas mantêmse em expansão e por assim dizer aptas à infiltração adesiva somente quando uma situação de umidade ocorre Em caso de secarse totalmente o substrato dentinário após o seu condicionamento ácido essas fibras colabam prejudicando a formação da camada híbrida Por essa razão o processo adesivo necessita de um ambiente úmido pois só assim o adesivo é capaz de infiltrar nas fibras em expansão e nos microporos criados3 A Figura 86 ilustra uma comparação entre o processo adesivo em esmalte e em dentina Atualmente diversos tipos de sistemas adesivos estão à disposição no mercado atuando diferentemente segundo o tipo de substrato dentário A classificação dos sistemas adesivos será discutida adiante Classificação dos sistemas adesivos Ao longo dos anos diferentes classificações surgiram como maneira de padronizar o conhecimento sobre os sistemas adesivos Uma classificação não muito prática denominada classificação por gerações organizouos segundo critérios de composição e ordem cronológica de introdução no mercado6 porém ela se encontra praticamente em desuso Não obstante uma nova classificação surgiu quanto à maneira pela qual o sistema adesivo interage com a smear layer ver Boxe Atenção adiante Atenção Antes do procedimento adesivo o preparo cavitário seja devido à remoção de tecido cariado ou à remoção de uma restauração antiga encontrase em situação tal que restos teciduais esmalte e dentina saliva bactérias sangue e outras substâncias estão presentes e ligados nas dentinas intertubular e peritubular além de vedarem os túbulos dentinários8 Esse conjunto de substâncias é conhecido por smear layer ou lama dentinária e forma uma camada que reduz a permeabilidade da dentina e do esmalte6 A interação com a smear layer pode acontecer de duas maneiras dependendo da sua remoção completa ou parcial ou da sua modificação A completa remoção acontece quando se utiliza alguma substância ácida como etapa separada com posterior lavagem da superfície Essa técnica é conhecida como convencional ou condicione e lave etchandrinse As técnicas que removem parcialmente ou modificam a smear layer são denominadas autocondicionantes self etch visto que a etapa de condicionamento ocorre simultaneamente à de infiltração do adesivo9 Assim um sistema adesivo pode ser conceituado como conjunto de substâncias que serão aplicadas durante todo o procedimento adesivo Seus componentes com suas respectivas funções e seus substratos de atuação estão listados no Quadro 82 Condicionador ácido O primeiro componente de um sistema adesivo é o condicionador ácido cuja função é tornar a superfície dentária receptiva à infiltração adesiva Nos sistemas convencionais o material geralmente utilizado nessa etapa é o gel de ácido fosfórico com concentração que pode variar de 30 a 40 embora existam outros tipos de substâncias para a mesma finalidade O mecanismo pelo qual um condicionador ácido atua aumentando a receptividade do substrato dentário ao adesivo se deve principalmente a dois fatores primeiramente essa substância limpa a superfície do dente removendo impurezas smear layer Desse modo ocorre o aumento da aderência do substrato uma das características fundamentais em um agente de união ver Figura 83 finalmente a aplicação dessa substância sobre uma estrutura altamente mineralizada cria microporosidades na superfície o que favorece a formação de retenções micromecânicas que contribuem para aumentar a resistência mecânica de união do adesivo ao dente4 Quadro 82 Componentes dos sistemas adesivos seus respectivos substratos de atuação e suas funções Integrantes dos sistemas adesivos Substrato de atuação Função principal Condicionador ácido Esmaltedentina Tornar o substrato dentário apto a receber o adesivo Primer Dentina Preparar a dentina com monômeros hidrófilos a fim de melhorar a penetração adesiva Adesivo Esmaltedentina Unir o material restaurador ao dente Primer O segundo componente de um sistema adesivo é o primer uma solução constituída basicamente de monômeros hidrófilos e solventes cuja função é favorecer a penetração do adesivo além de manter as fibras colágenas em expansão Após o condicionamento ácido a dentina necessita de um ambiente úmido hidrófilo para ser hibridizada pelo adesivo Em razão de o adesivo ser um material caracteristicamente hidrófobo isto é incompatível com a dentina condicionada o primer que é hidrófilo facilita a infiltração dos monômeros10 além de promover um bom molhamento do adesivo e uma adaptação íntima entre ele e a dentina características necessárias em um procedimento adesivo ver Figura 834 Atenção O primer não precisa ser aplicado no esmalte porque não há fibras colágenas ainda o adesivo hidrófobo consegue penetrar adequadamente nas porosidades criadas pelo condicionamento ácido Adesivo O terceiro e último componente de um sistema adesivo é o adesivo propriamente dito também chamado de adesivo de cobertura Ele é constituído de monômeros hidrófobos geralmente o bisfenol Aglicidil metacrilato bisGMA e algum diluente como o trietilenoglicol dimetacrilato TEGDMA que apresentam compatibilidade tanto com o primercomo com a resina composta7 Pode ser aplicado em dentina e em esmalte porém devido ao caráter hidrófobo não é quimicamente compatível com a dentina úmida11 O adesivo é o material que confere resistência física química e mecânica além de adequado grau de conversão complementando as características necessárias a um sistema adesivo ver Figura 83 O condicionamento ácido do dente e a aplicação do primer eou adesivo de cobertura não necessariamente envolvem etapas operatórias separadas Dependendo de como cada um deles for aplicado sobre o dente ou apresentado comercialmente dois tipos de sistemas adesivos podem ser escolhidos os convencionais e os autocondicionantes Sistemas adesivos convencionais Os sistemas adesivos convencionais são aqueles que empregam o passo operatório de condicionamento da superfície dentária separadamente dos demais passos sendo geralmente realizado com o gel de ácido fosfórico a 37 e posterior lavagem com água e secagem Em seguida a aplicação do sistema adesivo pode ocorrer de duas maneiras 1 aplicação do primer seguida da aplicação do adesivo de cobertura em etapas separadas caracterizando um sistema adesivo convencional de três passos clínicos condicionamento ácido aplicação do primer aplicação do adesivo ou 2 os componentes do primer e do adesivo de cobertura estão misturados em um mesmo recipiente resultando em uma única etapa de aplicação Isso caracteriza um sistema adesivo convencional de dois passos ou sistema convencional simplificado condicionamento ácido aplicação do adesivo Figura 871112 O condicionamento ácido realizado separadamente das demais etapas remove totalmente a smear layer aumentando a permeabilidade do substrato dentário O tempo de aplicação recomendado em esmalte é de 30 segundos enquanto em dentina é de 15 segundos A etapa de condicionamento ácido termina com a remoção do gel realizada com abundante lavagem da superfície spray arágua no mínimo pelo mesmo tempo de aplicação do ácido e com posterior secagem do dente Em esmalte a secagem deve remover qualquer resquício de umidade e para isso um jato de ar por 10 segundos ou a utilização de papel absorvente são meios eficazes Já em dentina a secagem deve ser moderada visto que um pouco de umidade é necessário para manter as fibras colágenas em expansão10 Dessa maneira a secagem com jato de ar deve ser evitada uma vez que tal método é de difícil controle por parte do profissional e depende muito da profundidade e do formato da cavidade dentária Além disso pode ocasionar facilmente o colabamento do colágeno exposto Portanto recomendase a utilização de papel absorvente Figura 88 Figura 87 Apresentação comercial dos sistemas adesivos convencionais O sistema de três passos prevê a aplicação separada do condicionador gel ácido do primer e do adesivo enquanto o sistema de dois passos incorpora os componentes do primere do adesivo em uma única etapa Dependendo do formato da cavidade dentária algumas paredes da dentina serão mais facilmente desidratadas do que outras1314 Devido a isso devese atentar para a existência de regiões com excesso ou falta de água pois qualquer uma dessas situações poderá prejudicar a adesão O sinal clínico de um condicionamento ácido ideal do esmalte no caso da técnica convencional é a aparência foscabrancoopaca obtida com a secagem do substrato Figura 89 Esse aspecto é facilmente alcançado se o gel ácido for aplicado pelo tempo correto exatos 30 segundos Com a lavagem e a posterior secagem a perda de brilho superficial denotando desmineralização do esmalte é a característica visual desejável Contudo existem situações em que o esmalte dentário e a própria dentina são resistentes à ação de ácidos o que dificulta sua desmineralização Por exemplo indivíduos com dentes envelhecidos com alto grau de esclerose ou hipermineralização ou com fluorose apresentam maior concentração de flúor no esmalte e consequentemente mais resistência ao condicionamento da superfície4Dentes decíduos por sua vez geralmente têm esmalte aprismático não desgastado sendo portanto mais insolúveis em meio ácido5 Nesses casos para se obter o condicionamento adequado o aumento do tempo eou a agitação do ácido durante a aplicação são recomendados8 Além disso a asperização do esmalte com pontas diamantadas remove o esmalte acidorresistente mais superficial favorecendo a formação de microporosidades retentivas Figura 88 Confecção dos discos de papel absorvente a partir da perfuração de filtrocoador de café Note que o tamanho do pedaço de papel obtido é condizente com o provável tamanho da maioria das cavidades dentárias a serem restauradas Dica clínica Um tipo de papel absorvente que pode ser utilizado para fins de secagem ideal do substrato dentário é o filtro ou coador de café Para tanto utilizando um perfurador de papel é possível confeccionar pequenos discos desse material ver Figura 88 Contudo antes de ser utilizado no dente cada pedaço de papel deve ser esterilizado em autoclave Em um trabalho em que se avaliou o efeito de diferentes tempos de condicionamento ácido sobre dentes com diversos graus de fluorose dentária constatouse clinicamente que em casos de fluorose leve linhas ou manchas opacas discretas o tempo deve ser igual ao de dentes sem fluorose 30 segundos Em se tratando de fluorose moderada esmalte completamente opaco o tempo deve ser pelo menos dobrado 60 segundos Em casos de fluorose grave dentes manchados ou com perda de tecido mineral o esmalte hipermineralizado mais superficial tem de ser removido então o dente deve ser condicionado por pelo menos 60 segundos15 Figura 89 A Condicionamento ácido do esmalte dentário utilizando gel de ácido fosfórico a 37 BAspecto do esmalte após a lavagem do gel ácido CAparência do esmalte após a secagem com jato de ar por 10 segundos Dentes decíduos têm algumas características diferentes das dos dentes permanentes e com relação à adesão a principal delas é que o esmalte apresenta maior espessura de camada aprismática16Sendo assim o aumento no tempo de condicionamento é indicado mas a exatidão desse tempo tem sido discutida durante vários anos Antigamente recomendavase de 1 a 4 minutos depois o mesmo tempo de aplicação que o aplicado para os dentes permanentes 30 segundos Entretanto o tempo de 15 segundos é suficiente para criar resultados semelhantes ao efeito de 30 segundos1517 A dentina de dentes decíduos apresenta menos rigidez quando comparada à dos dentes permanentes Consequentemente o tempo de condicionamento deve ser menor 7 segundos fato demonstrado por Sardella et al18 que compararam a resistência de união entre material restaurador e substrato dentinário após aplicação de ácido fosfórico a 37 em diferentes tempos 7 e 15 segundos Os autores junto com outro trabalho19sugeriram que o tempo de 7 segundos é suficiente para hibridizar a dentina O Quadro 83 ilustra os tempos recomendados para o condicionamento ácido de dentes permanentes e decíduos em diferentes substratos e situações clínicas Independentemente do caso que motive o aumento no tempo de condicionamento ácido dos tecidos dentários um cuidado especial deve ser considerado acerca da dentina pois esse substrato é sensível ao sobrecondicionamento Em caso de o preparo cavitário estenderse até a dentina a mesma deve estar sempre protegida da sobreexposição ácida e não deve ultrapassar 15 segundos em dentes permanentes e 7 segundos em dentes decíduos Após o condicionamento ácido do dente o primer poderá ser aplicado separada e previamente ao adesivo sistema de três passos ou como uma etapa única em que os componentes hidrófilos e hidrófobos estão misturados em uma única solução sistema de dois passos As particularidades de cada um desses sistemas adesivos serão descritas a seguir Quadro 83 Tempo de condicionamento dos substratos dentários em diferentes situações clínicas Dentição Substrato Tempo de condicionamento segundos Permanente Esmalte normal Dentina Esmalte acidorresistente 30 15 60 Decídua Esmalte normal Dentina Esmalte acidorresistente 15 7 30 Sistemas adesivos de três passos O esmalte e a dentina são substratos morfologicamente diferentes e por isso necessitam de estratégias específicas para serem adequadamente hibridizados O primer com uma composição hidrófila facilita a infiltração do adesivo na dentina úmida e portanto deve ser aplicado separadamente deste último O adesivo de cobertura com uma composição hidrófoba é quimicamente compatível com o esmalte condicionado o qual dispensa a aplicação prévia de um primer Assim um sistema adesivo de três passos embora tenha maior número de etapas clínicooperatórias e seja tecnicamente mais complexo é um dos sistemas ideais para promover adesão às diferentes estruturas dentárias20 Se o adesivo de cobertura for aplicado diretamente sobre a dentina parcial ou totalmente úmida sem o uso prévio do primer algumas complicações podem acontecer a natureza hidrófoba do adesivo sobre a condição úmida da dentina pode provocar um fenômeno de separação de fases21 devido à incompatibilidade física existente forças de atração e repulsão de moléculas outro possível problema é a penetração insuficiente de monômeros por entre as fibras colágenas21 o que acarreta perda de qualidade da camada híbrida formada além de facilitar a retenção de água no interior da interface adesiva favorecendo a degradação hidrolítica e a redução da longevidade da união22 Além dos monômeros hidrófilos o primertambém é constituído de grande concentração de solventes orgânicos como etanol acetona água ou a combinação desses O solvente tem as funções de facilitar a evaporação do conteúdo de água residual remanescente do processo de hibridização aumentar a hidrofilicidade da composição e fluidificar os monômeros Dependendo do tipo de solvente utilizado e do seu valor de tensão superficial de água maior eficiência ou não em volatilizar a água residual poderá ser esperada23Dessa maneira percebese a importância de aplicar o primer separadamente do adesivo de cobertura já que este último não tem solvente na sua composição e por isso não é capaz de volatilizar as moléculas residuais de água Recomendase aplicar o primer com um pincel Microbrush sobre a dentina por aproximadamente 20 segundos Em seguida com um jato de ar afastado cerca de 10 cm da cavidade devese secála facilitando assim a evaporação do solvente e da água residual Os sistemas adesivos convencionais de três passos são considerados o padrãoouro da adesão e vários são os trabalhos que demonstram sua superioridade em relação aos sistemas de dois passos11122024 Um exemplo de marca comercial é a Scotchbond MultiPurpose da 3M ESPE Figura 810 Sistemas adesivos de dois passos Há muito considerase a adesão ao esmalte uma técnica simples porém o processo adesivo em dentina não é tão previsível assim Primeiramente o substrato dentinário condicionado requer a manutenção de umidade suficiente para preservar a expansão das fibras colágenas pois só assim a infiltração do adesivo é possível Para tanto são necessários cuidados especiais durante a lavagem do agente condicionador e a secagem da superfície Em seguida a aplicação do primer deve ser criteriosa a fim de que se evapore o máximo possível de solvente e água residual presente na dentina superficial Devese atentar ainda para o fato de que dependendo do tipo de solvente o grau de evaporação será diferente Figura 810 Sistema adesivo convencional de três passos Scotchbond MultiPurpose da 3M ESPE Não obstante o adesivo de cobertura deve ser aplicado em quantidades equivalentes às dimensões da cavidade pois a aplicação em grandes volumes pode comprometer a polimerização do material além de facilitar o manchamento das margens da restauração Percebese então que o protocolo técnico de um sistema adesivo convencional de três passos descrito anteriormente também envolve cuidados especiais2527 Como maneira de simplificar o processo adesivo em dentina os sistemas de dois passos surgiram no mercado ver Figura 87 Neles os constituintes do primer e do adesivo de cobertura estão misturados em solução única ou seja monômeros hidrófilos hidrófobos e solventes Essa concepção reduziu uma etapa clínica de aplicação e com isso a sensibilidade da técnica operatória por parte do profissional embora tal redução seja apenas em parte já que os cuidados póscondicionamento ainda são fundamentais Além disso o aumento na concentração de solventes orgânicos nos sistemas de dois passos e a consequente redução da fração de monômeros resultou na necessidade de aplicar várias camadas do adesivo intercalando com a secagem da superfície para evaporação da água e do solvente a fim de se obter um substrato suficientemente saturado de monômeros Assim em alguns casos os fabricantes recomendam a aplicação de até seis camadas do adesivo para uma interface adesiva satisfatória Todavia se a ideia inicial era simplificar a técnica adesiva em dentina percebese que embora a quantidade de frascos tenha sido reduzida verFigura 87 a de passos operatórios aumentou Assim à semelhança dos sistemas de três passos a técnica não melhorou quanto à praticidade de uso Alguns exemplos comerciais de sistemas adesivos convencionais de dois passos estão ilustrados na Figura 811 Independentemente do protocolo de aplicação os sistemas adesivos de dois passos têm algumas desvantagens quando comparados aos de três passos A mistura de componentes hidrófilos e hidrófobos em uma mesma solução pode causar o fenômeno de separação de fases devido à imiscibilidade entre compostos polares e apolares28Esse fenômeno pode ocorrer tanto dentro do frasco de armazenamento como in situ após aplicação na superfície dentária21 Desse modo poderá ocorrer a formação de uma camada híbrida heterogênea em parte constituída pelos componentes hidrófilos e em parte pelos hidrófobos Adicionalmente os monômeros hidrófilos por serem quimicamente polares tendem a sofrer processos de degradação hidrolítica mais rápido que os monômeros hidrófobos22 Por conseguinte eles absorvem grande quantidade de moléculas de água o que pode direta e indiretamente enfraquecer a resistência mecânica da resina adesiva29 eou facilitar o manchamento e a pigmentação das margens das restaurações Sistemas adesivos autocondicionantes Diferentemente dos sistemas convencionais os sistemas adesivos autocondicionantes dispensam o condicionamento prévio da superfície dentária com ácido fosfórico pois apresentam um primercontendo monômeros ácidos que removem ou modificam a smear layer desmineralizando parcialmente a superfície dentária De modo simultâneo os monômeros resinosos penetram na rede de fibras de colágeno quando em dentina e nas microporosidades criadas no esmalte30hibridizando superficialmente os tecidos dentários Figura 811 Sistemas adesivos convencionais de dois passos Prime Bond 21 da Dentsply Adper Single Bond 2 da 3M ESPE e Magic Bond DE da Vigodent Esses agentes de união podem ser encontrados no formato de dois passos em que o primer ácido é aplicado previamente ao adesivo de cobertura ou no formato simplificado de passo único em que todos os componentes tanto do primer ácido como do adesivo monômeros ácidos hidrófilos e hidrófobos solventes e diluentes são misturados em solução31 O formato de passo único o mais simplificado de todos pode apresentarse em frasco único no qual todos os componentes estão dissolvidos em um mesmo recipiente ou em dois frascos diferentes cujos conteúdos devem ser misturados previamente à aplicação do adesivo Figura 812 A grande vantagem dos adesivos autocondicionantes em relação aos convencionais é a eliminação da etapa de condicionamento prévio da superfície dentária principalmente quanto aos cuidados de remover o excesso de umidade da dentina32 Por isso esses adesivos são menos sensíveis tecnicamente o que os torna vantajosos em determinadas situações como no caso de uma restauração envolvendo esmalte e dentina em que a ausência e a presença de umidade respectivamente não são mais necessárias a esses substratos Por outro lado a não lavagem do ácido junto com a menor agressividade do primerautocondicionante impede a total remoção da smear layer tornandoa constituinte da camada híbrida Além disso a infiltração dos monômeros resinosos ocorre ao mesmo tempo que a desmineralização provocada pelo primer ácido e isso é responsável por criar uma camada híbrida mais homogênea se comparada com a hibridização da técnica convencional Ademais a espessura dessa camada é menor pois os primersautocondicionantes são menos agressivos que o ácido fosfórico Sabese que diferentes tipos e concentrações de monômeros ácidos alteram o pH do primer que pode ser leve moderado ou de forte acidez Assim a capacidade de remoçãomodificação da smear layer e desmineralização do substrato dentário pode ocorrer em diferentes graus e padrões8 Figura 812 Apresentação comercial dos sistemas adesivos autocondicionantes Os sistemas de dois passos incluem a aplicação separada do primerácido e do adesivo de cobertura enquanto o de passo único pode ser aplicado via frasco único com todos os componentes misturados ou via dois frascos que devem ser misturados previamente à aplicação do adesivo Sistemas adesivos autocondicionantes de dois passos O sistema autocondicionante de dois passos envolve primeiramente a aplicação de um primerconstituído de monômeros ácidos cuja função é desmineralizar a estrutura dental monômeros hidrófilos que atuam na infiltração resinosa pelo colágeno exposto e solventes responsáveis pela remoção das moléculas de água residuais do preparo cavitário e por manter os componentes em solução homogênea O primer autocondicionante deve ser aplicado com agitação por aproximadamente 20 segundos a fim de promover melhor dispersão e infiltração dos monômeros nos microporos formados bem como favorecer a ação dos monômeros ácidos na estrutura dentária Ao contrário dos sistemas convencionais o primer ácido atua modificando a smear layer até alcançar a camada de dentina superficial zona responsável pela hibridização propriamente dita Após a aplicação do primer devese secar a superfície por no mínimo 10 segundos visando à volatilização dos solventes Em seguida a aplicação do adesivo de cobertura aumenta a concentração de monômeros hidrófobos promovendo a formação de uma camada híbrida com melhores propriedades mecânicas411 Finalmente a fotopolimerização do adesivo é realizada pelo tempo recomendado pelos fabricantes Um exemplo de produto comercial é o Clearfil SE Bond da Kuraray Medical Inc Figura 813 Em termos de durabilidade das restaurações adesivas utilizando sistemas autocondicionantes de dois passos os resultados dos estudos clínicos apontam para índices de falha anual e longevidade semelhante aos apresentados pelos sistemas convencionais de três passos padrão ouro quando o preparo cavitário envolve a dentina11 Isso se deve provavelmente ao fato de o primer ser aplicado previamente ao adesivo de cobertura o qual desempenha um papel diferencial33 Contudo os mesmos resultados não são observados quando a adesão é realizada exclusivamente em esmalte pois o primer ácido não é capaz de desmineralizar suficientemente a camada aprismática superficial ou mesmo os prismas subjacentes8 Entretanto segundo Kanemura et al34 a asperização superficial do esmalte com pontas diamantadas antes da aplicação do sistema autocondicionante de dois passos resulta em aumento significativo na resistência de união Figura 813 Sistema adesivo autocondicionante de dois passos Clearfil SE Bond da Kuraray Medical Inc constituído de um primer ácido e um adesivo de cobertura Sistemas adesivos de passo único Os sistemas adesivos autocondicionantes de passo único também conhecidos como allin one foram desenvolvidos com o intuito de reduzir ainda mais o tempo e a sensibilidade da técnica operatória pois envolvem a aplicação de uma única solução contendo todos os componentes necessários à adesão dentária Assim a mesma solução realizará o condicionamento do substrato dental bem como a infiltração dos monômeros hidrófilos e hidrófobos Esses sistemas são apresentados de duas maneiras frasco único e dois frascos cujas soluções devem ser misturadas previamente à aplicação ver Figura 812 Os sistemas de passo único têm a vantagem de reduzir significativamente os passos operatórios o que é interessante ao profissional para economia de tempo clínico No entanto os resultados obtidos com esses adesivos são bastante variados pois a mistura de monômeros ácidos com solventes e monômeros de diferentes composições químicas provoca instabilidade físico química11 Um exemplo de marca comercial é a Adper Prompt da 3M ESPE ver Figura 814 Devido a isso alguns fabricantes lançaram sistemas adesivos mais versáteis que permitem escolher qual estratégia de adesão utilizar convencional ou autocondicionante Essa nova família foi chamada de adesivos universais ou multimodo e representa a mais recente geração de adesivos disponíveis no mercado3537 Foram desenvolvidos sob o conceito dos adesivos de passo único autocondicionantes mas possuem a versatilidade de ser adaptáveis à situação clínica podendo ser aplicados de três formas principais com condicionamento ácido prévio em dentina e esmalte condicionamento total com condicionamento ácido prévio apenas em esmalte condicionamento seletivo e sem condicionamento ácido prévio autocondicionante3537 Essa versatilidade permite ao cirurgiãodentista decidir qual protocolo adesivo é mais adequado para a cavidade que está sendo preparada O primeiro a ser lançado no mercado foi o Single Bond Universal 3M ESPE Na literatura existem diversos trabalhos comparando a longevidade de restaurações realizadas com sistemas adesivos convencionais ou autocondicionantes Uma lista de vantagens e desvantagens desses sistemas está no Quadro 84 Adicionalmente a técnica operatória de um sistema adesivo convencional de três passos está demonstrada na Figura 815 Figura 814 Sistema adesivo autocondicionante de passo único Adper Prompt da 3M ESPE cuja mistura do líquido A com o líquido B resulta na etapa única de aplicação Indicações e limitações de uso Apesar das diversas aplicações técnicas dos sistemas adesivos atuais nem todas estão indicadas para qualquer situação clínica Sistemas adesivos simplificados convencionais de dois passos e autocondicionantes de passo único por exemplo são incompatíveis com materiais duais dupla ativação ou ativados quimicamente que utilizam aminas terciárias como agentes de iniciação da polimerização811 Isso se deve porque ambos os sistemas adesivos são caracteristicamente ácidos e dessa maneira a camada mais superficial que não se polimeriza em razão da inibição pelo contato com o oxigênio reage com a amina terciária base existente no material resinoso que será aplicado logo acima do adesivo Consequentemente a interface de união entre adesivo e resina é mal estabelecida e isso é prejudicial ao processo adesivo38 A explicação para esse fenômeno é de que a camada não polimerizada do adesivo superficial tem grande quantidade de íons oriundos dos monômeros ácidos não reagidos o que torna a interface adesiva hipertônica em relação ao tecido dentinário subjacente Essa diferença no gradiente osmótico possibilita a movimentação de moléculas de água da dentina para o adesivo resultando em formação de bolhas na interface adesivoresina o que compromete a qualidade da camada híbrida8 Assim em caso de utilização de resinas ou cimentos resinosos duais ou de ativação química os sistemas adesivos mais indicados são os convencionais de três passos e os autocondicionantes de dois passos pois fornecem uma camada final de adesivo de cobertura que não é caracteristicamente ácida compatível com tais materiais Quadro 84 Vantagens e desvantagens dos sistemas adesivos convencionais e autocondicionantes Sistema adesivo Vantagens Desvantagens Convencional de três passos Ótimos resultados de resistência de união ao esmalte e à dentina Durabilidade da adesão Componentes hidrófilos e hidrófobos separados Compatibilidade com materiais de presa dualquímica Várias etapas de aplicação vários frascos Técnica operatória sensível Convencional de dois passos Esmalte normal Dentina Esmalte acidorresistente Componentes hidrófilos e hidrófobos misturados Aplicação de múltiplas camadas Incompatibilidade com cimentos e resinas duais Tendência de pigmentação dos bordos da cavidade dentária Autocondicionante de dois passos Desmineralização e infiltração monomérica simultâneas Bons resultados de resistência de união à dentina Dispensa a etapa de lavagem da cavidade Desmineralização suave Resistência de união ao esmalte pouco satisfatória Poucos estudos clínicos de avaliação do desempenho Autocondicionante de um passo Única aplicação Técnica pouco sensível Tempo clínico reduzido Resistência de união ao longo do tempo insatisfatória Componentes hidrófilos e hidrófobos misturados Figura 815 Protocolo de aplicação de um sistema adesivo convencional de três passos A Preparo cavitário B Condicionamento ácido do esmalte por 15 segundos C Condicionamento ácido da dentina por 15 segundos e mais 15 segundos do esmalte DLavagem do ácido por no mínimo 15 segundos Secagem da dentina com papel absorvente e do esmalte com jato de ar Note o aspecto brancoopaco do esmalte E Aparência levemente úmida da dentina F Aplicação do primer em esmalte e dentina por 20 segundos G Secagem com jato de ar por 10 segundos H Aplicação do adesivo de cobertura por 10 segundos IFotoativação de acordo com as recomendações do fabricante J Aspecto brilhante da superfície dentária K Confecção da restauração com resina composta L Aspecto final do dente ver Capítulo 9 A aplicação de um sistema adesivo convencional de dois passos é semelhante porém devese aplicar o adesivo conforme as recomendações do fabricante com secagem depois de cada camada aplicada e fotoativação somente após a aplicação da última camada REIS Alessandra Materiais Dentários Diretos Dos Fundamentos à Aplicação Clínica 2 ed Rio de Janeiro Santos 2021 Ebook p143 ISBN 9788527737470 Disponível em httpsintegradaminhabibliotecacombrreaderbooks9788527737470 Acesso em 27 out 2025 Cap 06 BARATIERI Luiz N Odontologia Restauradora Fundamentos Técnicas Rio de Janeiro Santos 2010 Ebook p97 ISBN 9788541203074 Disponível em httpsintegradaminhabibliotecacombrreaderbooks9788541203074 Acesso em 27 out 2025 Cap 05
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SILVA Adriana Fernandes da LUND Rafael G Dentística Restauradora Do Planejamento à Execução Rio de Janeiro Santos 2016 Ebook pág 83 ISBN 9788527728782 Disponível em httpsintegradaminhabibliotecacombrreaderbooks9788527728782 Acesso em 27 out 2025 Cap 08 Introdução O advento dos sistemas adesivos para uso odontológico em meados do século 20 associado à maior compreensão dos mecanismos de união aos tecidos dentais mineralizados esmalte e dentina não somente determinou significante avanço tecnológico para o desenvolvimento de novos materiais restauradores mas também foi importante para o rompimento de antigos paradigmas que norteavam a prática odontológica Até poucas décadas atrás a confecção de um preparo cavitário retentivo no remanescente dental era necessária para fixar mecanicamente a restauração já que os materiais restauradores disponíveis na época não contavam com mecanismos eficientes de adesão ver Capítulo 3 Desse modo o profissional realizava desgastes de tecido dentário sadio a fim de aumentar a área de contato com o material restaurador eou aprisionálo mecanicamente por meio da confecção de sulcos canaletas pins ou cavidades geometricamente retentivas Esses desgastes hoje considerados excessivos enfraqueciam ainda mais o remanescente já fragilizado fato que não raramente conduzia a fraturas coronárias eou radicular com subsequente perda dental Assim a disponibilidade de materiais e técnicas que propiciavam algum tipo de adesão ao esmalte e à dentina junto com o maior conhecimento histológico desses tecidos e dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento da cárie dental propiciaram a concepção de uma nova filosofia restauradora mais conservadora e biológica por meio de uma prática minimamente invasiva1 A história da adesão é recente na odontologia com seu marco inicial em 1955 quando Buonocore demonstrou que o prétratamento do esmalte dentário com substâncias ácidas proporcionava maior adesão para as restaurações de resina acrílica2 Desde então o estabelecimento de uma união satisfatória entre o material restaurador e os tecidos dentários mineralizados passou a ser investigado resultando na descoberta do complexo mecanismo que envolve a adesão ao esmalte e principalmente à dentina Posteriormente Nakabayashi et al empregando técnicas de microscopia eletrônica descreveram o mecanismo básico de adesão aos tecidos dentários caracterizandoo como um processo que envolve a substituição de uma camada mineral superficial por monômeros resinosos os quais após polimerização in situ permanecem retidos por meio de união micromecânica3 Esse processo foi então denominado hibridização ou formação de camada híbrida Figura 81 Neste capítulo não se pretende esgotar um tema tão abrangente que envolve vários e complexos mecanismos físicos químicos biológicos e suas interações De maneira objetiva serão abordados os principais processos envolvidos na adesão dentária bem como os tipos de sistemas adesivos disponíveis no mercado suas indicações e técnicas de aplicação Princípios da adesão Na odontologia a adesão pode ser compreendida como a união de duas faces por intermédio de um sistema adesivo Essa união cria uma interface que pode apresentarse de duas maneiras ou uma das faces é o próprio adesivo se unindo a uma superfície constituindo assim uma interface adesiva simples ou o adesivo é o material intermediário ligando duas faces entre si caracterizando a formação de uma interface adesiva complexa Figura 824 A maioria dos procedimentos adesivos envolve a formação de uma interface adesiva complexa Para isso o adesivo necessita apresentar algumas características básicas para desempenhar a sua função com propriedade as quais estão ilustradas na Figura 83 e listadas a seguir Aderência conquistada com a limpeza superficial do substrato dentário Molhamento ou seja facilidade em se espalhar superficialmente Adaptação íntima evitando o encapsulamento de ar ou de outros materiais no seu interior Resistência física química e mecânica Nível de polimerização minimizando os processos de degradação higroscópica e hidrolítica Além dessas características que são fundamentais para se obter adesão satisfatória o tipo e a qualidade do substrato dentário influenciam significativamente a qualidade final da interface de união O mecanismo de adesão ao esmalte dentário é consideravelmente diferente do realizado em dentina e isso se deve principalmente a diferenças na proporção entre as fases mineral inorgânica e orgânica Quadro 815 Enquanto o esmalte é formado quase totalmente por minerais a dentina apresenta uma composição mais heterogênea com maior concentração de água e componentes orgânicos o que repercute diretamente no processo adesivo6 Adicionalmente a micromorfologia diferenciada entre esmalte e dentina também influencia o modo de formação da camada híbrida Em razão disso as características desses substratos serão comentadas separadamente Quadro 81 Composição química em massa do esmalte e da dentina Faseconteúdo químico Esmalte Dentina Fase mineral 97 70 Fase orgânica 2 20 Água 1 10 Adesão ao esmalte Histologicamente o esmalte dentário é o tecido mais mineralizado e resistente do corpo humano Ele é constituído por aproximadamente 97 de hidroxiapatita a forma cristalizada do fosfato de cálcio 2 de proteínas não colágenas enamelina e amelogenina e 1 de água ver Quadro 815 O esmalte corresponde à estrutura mais superficial do dente e sua unidade básica é um prisma agrupamento de hidroxiapatita Os prismas têm diferentes direções de acordo com a região do dente entretanto podem estar ausentes na porção mais superficial região denominada de camada aprismática4 A disposição irregular dos prismas torna o esmalte um substrato propício à adesão pois após aplicação de um ácido condicionamento ácido uma dissolução seletiva da superfície é estabelecida tornandoo superficialmente poroso e por consequência favorável ao processo adesivo Assim microrretenções mecânicas são formadas na porção superficial de sua estrutura Figura 842 Além de produzir microporosidades superficiais o condicionamento ácido é responsável pelo aumento da energia superficial do esmalte tornandoo mais receptivo ao adesivo e assim facilitando a difusão de monômeros para o interior desses microporos4 A adesão ao esmalte foi efetivamente obtida em 1955 quando Buonocore propôs a técnica do condicionamento ácido2 e tem demonstrado bons resultados de resistência de união a longo prazo7Contudo o processo de adesão à dentina ainda apresenta alguns desafios principalmente devido à maior complexidade da sua estrutura histológica Isso torna o método adesivo em dentina mais sensível aumentando a dificuldade da técnica operatória Adesão à dentina A dentina é um tecido conjuntivo avascular e mineralizado que forma a parte mais volumosa do dente É um substrato constituído por 70 de matéria inorgânica 20 de compostos orgânicos 17 de fibras colágenas e 3 de outros tipos de fibras e 10 de água ver Quadro 81 embora essas proporções possam variar conforme a idade do indivíduo7 Além do maior conteúdo orgânico a dentina tem uma estrutura morfológica mais complexa que a do esmalte Ela está organizada em pequenos túbulos rodeados por tecido orgânico e inorgânico que compreendem as dentinas peritubular e intertubular Os túbulos dentinários são originados ao contornarem os prolongamentos odontoblásticos que se retraem em direção à polpa com o passar do tempo liberando um espaço por onde circula o fluido dentinário5 O número e o diâmetro dos túbulos variam conforme a localização na dentina Figura 85 e a idade do indivíduo Recobrindo o interior dos túbulos existe uma camada de dentina quase totalmente mineralizada denominada dentina peritubular Já a intertubular porção com grande quantidade de matéria orgânica6 ocupa o restante do corpo da dentina correspondendo à maior parte do volume dentinário8 Na dentina diferentemente do esmalte o condicionamento ácido expõe uma rede de fibras colágenas ao desmineralizar a fase mineral do substrato Assim é por meio do encapsulamento resinoso dessas fibras que a união ao substrato dentinário é obtida porém devido às características inerentes de um conteúdo orgânico elas necessitam de cuidados especiais durante o processo de hibridização As fibras colágenas mantêmse em expansão e por assim dizer aptas à infiltração adesiva somente quando uma situação de umidade ocorre Em caso de secarse totalmente o substrato dentinário após o seu condicionamento ácido essas fibras colabam prejudicando a formação da camada híbrida Por essa razão o processo adesivo necessita de um ambiente úmido pois só assim o adesivo é capaz de infiltrar nas fibras em expansão e nos microporos criados3 A Figura 86 ilustra uma comparação entre o processo adesivo em esmalte e em dentina Atualmente diversos tipos de sistemas adesivos estão à disposição no mercado atuando diferentemente segundo o tipo de substrato dentário A classificação dos sistemas adesivos será discutida adiante Classificação dos sistemas adesivos Ao longo dos anos diferentes classificações surgiram como maneira de padronizar o conhecimento sobre os sistemas adesivos Uma classificação não muito prática denominada classificação por gerações organizouos segundo critérios de composição e ordem cronológica de introdução no mercado6 porém ela se encontra praticamente em desuso Não obstante uma nova classificação surgiu quanto à maneira pela qual o sistema adesivo interage com a smear layer ver Boxe Atenção adiante Atenção Antes do procedimento adesivo o preparo cavitário seja devido à remoção de tecido cariado ou à remoção de uma restauração antiga encontrase em situação tal que restos teciduais esmalte e dentina saliva bactérias sangue e outras substâncias estão presentes e ligados nas dentinas intertubular e peritubular além de vedarem os túbulos dentinários8 Esse conjunto de substâncias é conhecido por smear layer ou lama dentinária e forma uma camada que reduz a permeabilidade da dentina e do esmalte6 A interação com a smear layer pode acontecer de duas maneiras dependendo da sua remoção completa ou parcial ou da sua modificação A completa remoção acontece quando se utiliza alguma substância ácida como etapa separada com posterior lavagem da superfície Essa técnica é conhecida como convencional ou condicione e lave etchandrinse As técnicas que removem parcialmente ou modificam a smear layer são denominadas autocondicionantes self etch visto que a etapa de condicionamento ocorre simultaneamente à de infiltração do adesivo9 Assim um sistema adesivo pode ser conceituado como conjunto de substâncias que serão aplicadas durante todo o procedimento adesivo Seus componentes com suas respectivas funções e seus substratos de atuação estão listados no Quadro 82 Condicionador ácido O primeiro componente de um sistema adesivo é o condicionador ácido cuja função é tornar a superfície dentária receptiva à infiltração adesiva Nos sistemas convencionais o material geralmente utilizado nessa etapa é o gel de ácido fosfórico com concentração que pode variar de 30 a 40 embora existam outros tipos de substâncias para a mesma finalidade O mecanismo pelo qual um condicionador ácido atua aumentando a receptividade do substrato dentário ao adesivo se deve principalmente a dois fatores primeiramente essa substância limpa a superfície do dente removendo impurezas smear layer Desse modo ocorre o aumento da aderência do substrato uma das características fundamentais em um agente de união ver Figura 83 finalmente a aplicação dessa substância sobre uma estrutura altamente mineralizada cria microporosidades na superfície o que favorece a formação de retenções micromecânicas que contribuem para aumentar a resistência mecânica de união do adesivo ao dente4 Quadro 82 Componentes dos sistemas adesivos seus respectivos substratos de atuação e suas funções Integrantes dos sistemas adesivos Substrato de atuação Função principal Condicionador ácido Esmaltedentina Tornar o substrato dentário apto a receber o adesivo Primer Dentina Preparar a dentina com monômeros hidrófilos a fim de melhorar a penetração adesiva Adesivo Esmaltedentina Unir o material restaurador ao dente Primer O segundo componente de um sistema adesivo é o primer uma solução constituída basicamente de monômeros hidrófilos e solventes cuja função é favorecer a penetração do adesivo além de manter as fibras colágenas em expansão Após o condicionamento ácido a dentina necessita de um ambiente úmido hidrófilo para ser hibridizada pelo adesivo Em razão de o adesivo ser um material caracteristicamente hidrófobo isto é incompatível com a dentina condicionada o primer que é hidrófilo facilita a infiltração dos monômeros10 além de promover um bom molhamento do adesivo e uma adaptação íntima entre ele e a dentina características necessárias em um procedimento adesivo ver Figura 834 Atenção O primer não precisa ser aplicado no esmalte porque não há fibras colágenas ainda o adesivo hidrófobo consegue penetrar adequadamente nas porosidades criadas pelo condicionamento ácido Adesivo O terceiro e último componente de um sistema adesivo é o adesivo propriamente dito também chamado de adesivo de cobertura Ele é constituído de monômeros hidrófobos geralmente o bisfenol Aglicidil metacrilato bisGMA e algum diluente como o trietilenoglicol dimetacrilato TEGDMA que apresentam compatibilidade tanto com o primercomo com a resina composta7 Pode ser aplicado em dentina e em esmalte porém devido ao caráter hidrófobo não é quimicamente compatível com a dentina úmida11 O adesivo é o material que confere resistência física química e mecânica além de adequado grau de conversão complementando as características necessárias a um sistema adesivo ver Figura 83 O condicionamento ácido do dente e a aplicação do primer eou adesivo de cobertura não necessariamente envolvem etapas operatórias separadas Dependendo de como cada um deles for aplicado sobre o dente ou apresentado comercialmente dois tipos de sistemas adesivos podem ser escolhidos os convencionais e os autocondicionantes Sistemas adesivos convencionais Os sistemas adesivos convencionais são aqueles que empregam o passo operatório de condicionamento da superfície dentária separadamente dos demais passos sendo geralmente realizado com o gel de ácido fosfórico a 37 e posterior lavagem com água e secagem Em seguida a aplicação do sistema adesivo pode ocorrer de duas maneiras 1 aplicação do primer seguida da aplicação do adesivo de cobertura em etapas separadas caracterizando um sistema adesivo convencional de três passos clínicos condicionamento ácido aplicação do primer aplicação do adesivo ou 2 os componentes do primer e do adesivo de cobertura estão misturados em um mesmo recipiente resultando em uma única etapa de aplicação Isso caracteriza um sistema adesivo convencional de dois passos ou sistema convencional simplificado condicionamento ácido aplicação do adesivo Figura 871112 O condicionamento ácido realizado separadamente das demais etapas remove totalmente a smear layer aumentando a permeabilidade do substrato dentário O tempo de aplicação recomendado em esmalte é de 30 segundos enquanto em dentina é de 15 segundos A etapa de condicionamento ácido termina com a remoção do gel realizada com abundante lavagem da superfície spray arágua no mínimo pelo mesmo tempo de aplicação do ácido e com posterior secagem do dente Em esmalte a secagem deve remover qualquer resquício de umidade e para isso um jato de ar por 10 segundos ou a utilização de papel absorvente são meios eficazes Já em dentina a secagem deve ser moderada visto que um pouco de umidade é necessário para manter as fibras colágenas em expansão10 Dessa maneira a secagem com jato de ar deve ser evitada uma vez que tal método é de difícil controle por parte do profissional e depende muito da profundidade e do formato da cavidade dentária Além disso pode ocasionar facilmente o colabamento do colágeno exposto Portanto recomendase a utilização de papel absorvente Figura 88 Figura 87 Apresentação comercial dos sistemas adesivos convencionais O sistema de três passos prevê a aplicação separada do condicionador gel ácido do primer e do adesivo enquanto o sistema de dois passos incorpora os componentes do primere do adesivo em uma única etapa Dependendo do formato da cavidade dentária algumas paredes da dentina serão mais facilmente desidratadas do que outras1314 Devido a isso devese atentar para a existência de regiões com excesso ou falta de água pois qualquer uma dessas situações poderá prejudicar a adesão O sinal clínico de um condicionamento ácido ideal do esmalte no caso da técnica convencional é a aparência foscabrancoopaca obtida com a secagem do substrato Figura 89 Esse aspecto é facilmente alcançado se o gel ácido for aplicado pelo tempo correto exatos 30 segundos Com a lavagem e a posterior secagem a perda de brilho superficial denotando desmineralização do esmalte é a característica visual desejável Contudo existem situações em que o esmalte dentário e a própria dentina são resistentes à ação de ácidos o que dificulta sua desmineralização Por exemplo indivíduos com dentes envelhecidos com alto grau de esclerose ou hipermineralização ou com fluorose apresentam maior concentração de flúor no esmalte e consequentemente mais resistência ao condicionamento da superfície4Dentes decíduos por sua vez geralmente têm esmalte aprismático não desgastado sendo portanto mais insolúveis em meio ácido5 Nesses casos para se obter o condicionamento adequado o aumento do tempo eou a agitação do ácido durante a aplicação são recomendados8 Além disso a asperização do esmalte com pontas diamantadas remove o esmalte acidorresistente mais superficial favorecendo a formação de microporosidades retentivas Figura 88 Confecção dos discos de papel absorvente a partir da perfuração de filtrocoador de café Note que o tamanho do pedaço de papel obtido é condizente com o provável tamanho da maioria das cavidades dentárias a serem restauradas Dica clínica Um tipo de papel absorvente que pode ser utilizado para fins de secagem ideal do substrato dentário é o filtro ou coador de café Para tanto utilizando um perfurador de papel é possível confeccionar pequenos discos desse material ver Figura 88 Contudo antes de ser utilizado no dente cada pedaço de papel deve ser esterilizado em autoclave Em um trabalho em que se avaliou o efeito de diferentes tempos de condicionamento ácido sobre dentes com diversos graus de fluorose dentária constatouse clinicamente que em casos de fluorose leve linhas ou manchas opacas discretas o tempo deve ser igual ao de dentes sem fluorose 30 segundos Em se tratando de fluorose moderada esmalte completamente opaco o tempo deve ser pelo menos dobrado 60 segundos Em casos de fluorose grave dentes manchados ou com perda de tecido mineral o esmalte hipermineralizado mais superficial tem de ser removido então o dente deve ser condicionado por pelo menos 60 segundos15 Figura 89 A Condicionamento ácido do esmalte dentário utilizando gel de ácido fosfórico a 37 BAspecto do esmalte após a lavagem do gel ácido CAparência do esmalte após a secagem com jato de ar por 10 segundos Dentes decíduos têm algumas características diferentes das dos dentes permanentes e com relação à adesão a principal delas é que o esmalte apresenta maior espessura de camada aprismática16Sendo assim o aumento no tempo de condicionamento é indicado mas a exatidão desse tempo tem sido discutida durante vários anos Antigamente recomendavase de 1 a 4 minutos depois o mesmo tempo de aplicação que o aplicado para os dentes permanentes 30 segundos Entretanto o tempo de 15 segundos é suficiente para criar resultados semelhantes ao efeito de 30 segundos1517 A dentina de dentes decíduos apresenta menos rigidez quando comparada à dos dentes permanentes Consequentemente o tempo de condicionamento deve ser menor 7 segundos fato demonstrado por Sardella et al18 que compararam a resistência de união entre material restaurador e substrato dentinário após aplicação de ácido fosfórico a 37 em diferentes tempos 7 e 15 segundos Os autores junto com outro trabalho19sugeriram que o tempo de 7 segundos é suficiente para hibridizar a dentina O Quadro 83 ilustra os tempos recomendados para o condicionamento ácido de dentes permanentes e decíduos em diferentes substratos e situações clínicas Independentemente do caso que motive o aumento no tempo de condicionamento ácido dos tecidos dentários um cuidado especial deve ser considerado acerca da dentina pois esse substrato é sensível ao sobrecondicionamento Em caso de o preparo cavitário estenderse até a dentina a mesma deve estar sempre protegida da sobreexposição ácida e não deve ultrapassar 15 segundos em dentes permanentes e 7 segundos em dentes decíduos Após o condicionamento ácido do dente o primer poderá ser aplicado separada e previamente ao adesivo sistema de três passos ou como uma etapa única em que os componentes hidrófilos e hidrófobos estão misturados em uma única solução sistema de dois passos As particularidades de cada um desses sistemas adesivos serão descritas a seguir Quadro 83 Tempo de condicionamento dos substratos dentários em diferentes situações clínicas Dentição Substrato Tempo de condicionamento segundos Permanente Esmalte normal Dentina Esmalte acidorresistente 30 15 60 Decídua Esmalte normal Dentina Esmalte acidorresistente 15 7 30 Sistemas adesivos de três passos O esmalte e a dentina são substratos morfologicamente diferentes e por isso necessitam de estratégias específicas para serem adequadamente hibridizados O primer com uma composição hidrófila facilita a infiltração do adesivo na dentina úmida e portanto deve ser aplicado separadamente deste último O adesivo de cobertura com uma composição hidrófoba é quimicamente compatível com o esmalte condicionado o qual dispensa a aplicação prévia de um primer Assim um sistema adesivo de três passos embora tenha maior número de etapas clínicooperatórias e seja tecnicamente mais complexo é um dos sistemas ideais para promover adesão às diferentes estruturas dentárias20 Se o adesivo de cobertura for aplicado diretamente sobre a dentina parcial ou totalmente úmida sem o uso prévio do primer algumas complicações podem acontecer a natureza hidrófoba do adesivo sobre a condição úmida da dentina pode provocar um fenômeno de separação de fases21 devido à incompatibilidade física existente forças de atração e repulsão de moléculas outro possível problema é a penetração insuficiente de monômeros por entre as fibras colágenas21 o que acarreta perda de qualidade da camada híbrida formada além de facilitar a retenção de água no interior da interface adesiva favorecendo a degradação hidrolítica e a redução da longevidade da união22 Além dos monômeros hidrófilos o primertambém é constituído de grande concentração de solventes orgânicos como etanol acetona água ou a combinação desses O solvente tem as funções de facilitar a evaporação do conteúdo de água residual remanescente do processo de hibridização aumentar a hidrofilicidade da composição e fluidificar os monômeros Dependendo do tipo de solvente utilizado e do seu valor de tensão superficial de água maior eficiência ou não em volatilizar a água residual poderá ser esperada23Dessa maneira percebese a importância de aplicar o primer separadamente do adesivo de cobertura já que este último não tem solvente na sua composição e por isso não é capaz de volatilizar as moléculas residuais de água Recomendase aplicar o primer com um pincel Microbrush sobre a dentina por aproximadamente 20 segundos Em seguida com um jato de ar afastado cerca de 10 cm da cavidade devese secála facilitando assim a evaporação do solvente e da água residual Os sistemas adesivos convencionais de três passos são considerados o padrãoouro da adesão e vários são os trabalhos que demonstram sua superioridade em relação aos sistemas de dois passos11122024 Um exemplo de marca comercial é a Scotchbond MultiPurpose da 3M ESPE Figura 810 Sistemas adesivos de dois passos Há muito considerase a adesão ao esmalte uma técnica simples porém o processo adesivo em dentina não é tão previsível assim Primeiramente o substrato dentinário condicionado requer a manutenção de umidade suficiente para preservar a expansão das fibras colágenas pois só assim a infiltração do adesivo é possível Para tanto são necessários cuidados especiais durante a lavagem do agente condicionador e a secagem da superfície Em seguida a aplicação do primer deve ser criteriosa a fim de que se evapore o máximo possível de solvente e água residual presente na dentina superficial Devese atentar ainda para o fato de que dependendo do tipo de solvente o grau de evaporação será diferente Figura 810 Sistema adesivo convencional de três passos Scotchbond MultiPurpose da 3M ESPE Não obstante o adesivo de cobertura deve ser aplicado em quantidades equivalentes às dimensões da cavidade pois a aplicação em grandes volumes pode comprometer a polimerização do material além de facilitar o manchamento das margens da restauração Percebese então que o protocolo técnico de um sistema adesivo convencional de três passos descrito anteriormente também envolve cuidados especiais2527 Como maneira de simplificar o processo adesivo em dentina os sistemas de dois passos surgiram no mercado ver Figura 87 Neles os constituintes do primer e do adesivo de cobertura estão misturados em solução única ou seja monômeros hidrófilos hidrófobos e solventes Essa concepção reduziu uma etapa clínica de aplicação e com isso a sensibilidade da técnica operatória por parte do profissional embora tal redução seja apenas em parte já que os cuidados póscondicionamento ainda são fundamentais Além disso o aumento na concentração de solventes orgânicos nos sistemas de dois passos e a consequente redução da fração de monômeros resultou na necessidade de aplicar várias camadas do adesivo intercalando com a secagem da superfície para evaporação da água e do solvente a fim de se obter um substrato suficientemente saturado de monômeros Assim em alguns casos os fabricantes recomendam a aplicação de até seis camadas do adesivo para uma interface adesiva satisfatória Todavia se a ideia inicial era simplificar a técnica adesiva em dentina percebese que embora a quantidade de frascos tenha sido reduzida verFigura 87 a de passos operatórios aumentou Assim à semelhança dos sistemas de três passos a técnica não melhorou quanto à praticidade de uso Alguns exemplos comerciais de sistemas adesivos convencionais de dois passos estão ilustrados na Figura 811 Independentemente do protocolo de aplicação os sistemas adesivos de dois passos têm algumas desvantagens quando comparados aos de três passos A mistura de componentes hidrófilos e hidrófobos em uma mesma solução pode causar o fenômeno de separação de fases devido à imiscibilidade entre compostos polares e apolares28Esse fenômeno pode ocorrer tanto dentro do frasco de armazenamento como in situ após aplicação na superfície dentária21 Desse modo poderá ocorrer a formação de uma camada híbrida heterogênea em parte constituída pelos componentes hidrófilos e em parte pelos hidrófobos Adicionalmente os monômeros hidrófilos por serem quimicamente polares tendem a sofrer processos de degradação hidrolítica mais rápido que os monômeros hidrófobos22 Por conseguinte eles absorvem grande quantidade de moléculas de água o que pode direta e indiretamente enfraquecer a resistência mecânica da resina adesiva29 eou facilitar o manchamento e a pigmentação das margens das restaurações Sistemas adesivos autocondicionantes Diferentemente dos sistemas convencionais os sistemas adesivos autocondicionantes dispensam o condicionamento prévio da superfície dentária com ácido fosfórico pois apresentam um primercontendo monômeros ácidos que removem ou modificam a smear layer desmineralizando parcialmente a superfície dentária De modo simultâneo os monômeros resinosos penetram na rede de fibras de colágeno quando em dentina e nas microporosidades criadas no esmalte30hibridizando superficialmente os tecidos dentários Figura 811 Sistemas adesivos convencionais de dois passos Prime Bond 21 da Dentsply Adper Single Bond 2 da 3M ESPE e Magic Bond DE da Vigodent Esses agentes de união podem ser encontrados no formato de dois passos em que o primer ácido é aplicado previamente ao adesivo de cobertura ou no formato simplificado de passo único em que todos os componentes tanto do primer ácido como do adesivo monômeros ácidos hidrófilos e hidrófobos solventes e diluentes são misturados em solução31 O formato de passo único o mais simplificado de todos pode apresentarse em frasco único no qual todos os componentes estão dissolvidos em um mesmo recipiente ou em dois frascos diferentes cujos conteúdos devem ser misturados previamente à aplicação do adesivo Figura 812 A grande vantagem dos adesivos autocondicionantes em relação aos convencionais é a eliminação da etapa de condicionamento prévio da superfície dentária principalmente quanto aos cuidados de remover o excesso de umidade da dentina32 Por isso esses adesivos são menos sensíveis tecnicamente o que os torna vantajosos em determinadas situações como no caso de uma restauração envolvendo esmalte e dentina em que a ausência e a presença de umidade respectivamente não são mais necessárias a esses substratos Por outro lado a não lavagem do ácido junto com a menor agressividade do primerautocondicionante impede a total remoção da smear layer tornandoa constituinte da camada híbrida Além disso a infiltração dos monômeros resinosos ocorre ao mesmo tempo que a desmineralização provocada pelo primer ácido e isso é responsável por criar uma camada híbrida mais homogênea se comparada com a hibridização da técnica convencional Ademais a espessura dessa camada é menor pois os primersautocondicionantes são menos agressivos que o ácido fosfórico Sabese que diferentes tipos e concentrações de monômeros ácidos alteram o pH do primer que pode ser leve moderado ou de forte acidez Assim a capacidade de remoçãomodificação da smear layer e desmineralização do substrato dentário pode ocorrer em diferentes graus e padrões8 Figura 812 Apresentação comercial dos sistemas adesivos autocondicionantes Os sistemas de dois passos incluem a aplicação separada do primerácido e do adesivo de cobertura enquanto o de passo único pode ser aplicado via frasco único com todos os componentes misturados ou via dois frascos que devem ser misturados previamente à aplicação do adesivo Sistemas adesivos autocondicionantes de dois passos O sistema autocondicionante de dois passos envolve primeiramente a aplicação de um primerconstituído de monômeros ácidos cuja função é desmineralizar a estrutura dental monômeros hidrófilos que atuam na infiltração resinosa pelo colágeno exposto e solventes responsáveis pela remoção das moléculas de água residuais do preparo cavitário e por manter os componentes em solução homogênea O primer autocondicionante deve ser aplicado com agitação por aproximadamente 20 segundos a fim de promover melhor dispersão e infiltração dos monômeros nos microporos formados bem como favorecer a ação dos monômeros ácidos na estrutura dentária Ao contrário dos sistemas convencionais o primer ácido atua modificando a smear layer até alcançar a camada de dentina superficial zona responsável pela hibridização propriamente dita Após a aplicação do primer devese secar a superfície por no mínimo 10 segundos visando à volatilização dos solventes Em seguida a aplicação do adesivo de cobertura aumenta a concentração de monômeros hidrófobos promovendo a formação de uma camada híbrida com melhores propriedades mecânicas411 Finalmente a fotopolimerização do adesivo é realizada pelo tempo recomendado pelos fabricantes Um exemplo de produto comercial é o Clearfil SE Bond da Kuraray Medical Inc Figura 813 Em termos de durabilidade das restaurações adesivas utilizando sistemas autocondicionantes de dois passos os resultados dos estudos clínicos apontam para índices de falha anual e longevidade semelhante aos apresentados pelos sistemas convencionais de três passos padrão ouro quando o preparo cavitário envolve a dentina11 Isso se deve provavelmente ao fato de o primer ser aplicado previamente ao adesivo de cobertura o qual desempenha um papel diferencial33 Contudo os mesmos resultados não são observados quando a adesão é realizada exclusivamente em esmalte pois o primer ácido não é capaz de desmineralizar suficientemente a camada aprismática superficial ou mesmo os prismas subjacentes8 Entretanto segundo Kanemura et al34 a asperização superficial do esmalte com pontas diamantadas antes da aplicação do sistema autocondicionante de dois passos resulta em aumento significativo na resistência de união Figura 813 Sistema adesivo autocondicionante de dois passos Clearfil SE Bond da Kuraray Medical Inc constituído de um primer ácido e um adesivo de cobertura Sistemas adesivos de passo único Os sistemas adesivos autocondicionantes de passo único também conhecidos como allin one foram desenvolvidos com o intuito de reduzir ainda mais o tempo e a sensibilidade da técnica operatória pois envolvem a aplicação de uma única solução contendo todos os componentes necessários à adesão dentária Assim a mesma solução realizará o condicionamento do substrato dental bem como a infiltração dos monômeros hidrófilos e hidrófobos Esses sistemas são apresentados de duas maneiras frasco único e dois frascos cujas soluções devem ser misturadas previamente à aplicação ver Figura 812 Os sistemas de passo único têm a vantagem de reduzir significativamente os passos operatórios o que é interessante ao profissional para economia de tempo clínico No entanto os resultados obtidos com esses adesivos são bastante variados pois a mistura de monômeros ácidos com solventes e monômeros de diferentes composições químicas provoca instabilidade físico química11 Um exemplo de marca comercial é a Adper Prompt da 3M ESPE ver Figura 814 Devido a isso alguns fabricantes lançaram sistemas adesivos mais versáteis que permitem escolher qual estratégia de adesão utilizar convencional ou autocondicionante Essa nova família foi chamada de adesivos universais ou multimodo e representa a mais recente geração de adesivos disponíveis no mercado3537 Foram desenvolvidos sob o conceito dos adesivos de passo único autocondicionantes mas possuem a versatilidade de ser adaptáveis à situação clínica podendo ser aplicados de três formas principais com condicionamento ácido prévio em dentina e esmalte condicionamento total com condicionamento ácido prévio apenas em esmalte condicionamento seletivo e sem condicionamento ácido prévio autocondicionante3537 Essa versatilidade permite ao cirurgiãodentista decidir qual protocolo adesivo é mais adequado para a cavidade que está sendo preparada O primeiro a ser lançado no mercado foi o Single Bond Universal 3M ESPE Na literatura existem diversos trabalhos comparando a longevidade de restaurações realizadas com sistemas adesivos convencionais ou autocondicionantes Uma lista de vantagens e desvantagens desses sistemas está no Quadro 84 Adicionalmente a técnica operatória de um sistema adesivo convencional de três passos está demonstrada na Figura 815 Figura 814 Sistema adesivo autocondicionante de passo único Adper Prompt da 3M ESPE cuja mistura do líquido A com o líquido B resulta na etapa única de aplicação Indicações e limitações de uso Apesar das diversas aplicações técnicas dos sistemas adesivos atuais nem todas estão indicadas para qualquer situação clínica Sistemas adesivos simplificados convencionais de dois passos e autocondicionantes de passo único por exemplo são incompatíveis com materiais duais dupla ativação ou ativados quimicamente que utilizam aminas terciárias como agentes de iniciação da polimerização811 Isso se deve porque ambos os sistemas adesivos são caracteristicamente ácidos e dessa maneira a camada mais superficial que não se polimeriza em razão da inibição pelo contato com o oxigênio reage com a amina terciária base existente no material resinoso que será aplicado logo acima do adesivo Consequentemente a interface de união entre adesivo e resina é mal estabelecida e isso é prejudicial ao processo adesivo38 A explicação para esse fenômeno é de que a camada não polimerizada do adesivo superficial tem grande quantidade de íons oriundos dos monômeros ácidos não reagidos o que torna a interface adesiva hipertônica em relação ao tecido dentinário subjacente Essa diferença no gradiente osmótico possibilita a movimentação de moléculas de água da dentina para o adesivo resultando em formação de bolhas na interface adesivoresina o que compromete a qualidade da camada híbrida8 Assim em caso de utilização de resinas ou cimentos resinosos duais ou de ativação química os sistemas adesivos mais indicados são os convencionais de três passos e os autocondicionantes de dois passos pois fornecem uma camada final de adesivo de cobertura que não é caracteristicamente ácida compatível com tais materiais Quadro 84 Vantagens e desvantagens dos sistemas adesivos convencionais e autocondicionantes Sistema adesivo Vantagens Desvantagens Convencional de três passos Ótimos resultados de resistência de união ao esmalte e à dentina Durabilidade da adesão Componentes hidrófilos e hidrófobos separados Compatibilidade com materiais de presa dualquímica Várias etapas de aplicação vários frascos Técnica operatória sensível Convencional de dois passos Esmalte normal Dentina Esmalte acidorresistente Componentes hidrófilos e hidrófobos misturados Aplicação de múltiplas camadas Incompatibilidade com cimentos e resinas duais Tendência de pigmentação dos bordos da cavidade dentária Autocondicionante de dois passos Desmineralização e infiltração monomérica simultâneas Bons resultados de resistência de união à dentina Dispensa a etapa de lavagem da cavidade Desmineralização suave Resistência de união ao esmalte pouco satisfatória Poucos estudos clínicos de avaliação do desempenho Autocondicionante de um passo Única aplicação Técnica pouco sensível Tempo clínico reduzido Resistência de união ao longo do tempo insatisfatória Componentes hidrófilos e hidrófobos misturados Figura 815 Protocolo de aplicação de um sistema adesivo convencional de três passos A Preparo cavitário B Condicionamento ácido do esmalte por 15 segundos C Condicionamento ácido da dentina por 15 segundos e mais 15 segundos do esmalte DLavagem do ácido por no mínimo 15 segundos Secagem da dentina com papel absorvente e do esmalte com jato de ar Note o aspecto brancoopaco do esmalte E Aparência levemente úmida da dentina F Aplicação do primer em esmalte e dentina por 20 segundos G Secagem com jato de ar por 10 segundos H Aplicação do adesivo de cobertura por 10 segundos IFotoativação de acordo com as recomendações do fabricante J Aspecto brilhante da superfície dentária K Confecção da restauração com resina composta L Aspecto final do dente ver Capítulo 9 A aplicação de um sistema adesivo convencional de dois passos é semelhante porém devese aplicar o adesivo conforme as recomendações do fabricante com secagem depois de cada camada aplicada e fotoativação somente após a aplicação da última camada REIS Alessandra Materiais Dentários Diretos Dos Fundamentos à Aplicação Clínica 2 ed Rio de Janeiro Santos 2021 Ebook p143 ISBN 9788527737470 Disponível em httpsintegradaminhabibliotecacombrreaderbooks9788527737470 Acesso em 27 out 2025 Cap 06 BARATIERI Luiz N Odontologia Restauradora Fundamentos Técnicas Rio de Janeiro Santos 2010 Ebook p97 ISBN 9788541203074 Disponível em httpsintegradaminhabibliotecacombrreaderbooks9788541203074 Acesso em 27 out 2025 Cap 05