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TEXTOS A escuta psicanalítica Silvia Leonor Alonso No alicerce de toda palavra é a pulsão que insiste Seguindo de perto as repetições podese rastrear as pegadas das identificações A escuta adquire um lugar central na psicanálise por ser esta uma coisa de palavras ditas ou silenciadas Palavras que enganam mas que abrem um acesso à significação No entanto a psicanálise ao inaugurar o campo da escuta produz uma verdadeira ruptura epistemológica concernente ao pensamento psiquiátrico do momento Citando Saurí em seu texto compilatório sobre a histeria A trama das crenças no naturalismo contexto no qual a histeria começa a ser estudada cientificamente privilegia o modo visual de conhecer A metáfora da luz domina sua área expressiva e inquisitiva enquanto a necessidade de ver e iluminar guia o esforço dos cientistas O visto e com maior razão o olhado goza de uma prerrogativa relevante Não é pois temerário afirmar que durante a vigência do naturalismo predomina epistemologicamente o campo visual e que a intenção explícita ou tácita de seus seguidores é conhecer olhando Neste contexto o privilegiado são as características visíveis daquilo a conhecer pelo quê os traços ostensivos passam a primeiro plano1 O espaço e a figura a figura olhada sobre um espaço O império da objetividade positivista que recolhe e anota todos os dados que aparecem perante o olhar E o que melhor que a histeria para ser olhada já que esta se mostra com toda espetacularidade Mas próximo à década de noventa chegando ao fim Silvia Leonor Alonso psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae Comunicação apresentada no painel sobre A escuta psicanalítica promovido pela Livraria Pulsional em abril de 1988 do século no interior da Escola de Nancy o relato começa a ocupar um lugar A narrativa de um sujeito após ser hipnotizado começa a interessar Com isto a categoria da recordação se torna presente Citando mais uma vez Saurí escutar refere imediatamente a fala e sua raiz latina vincula o escutado ao ato de ouvir e de montar guarda situação em que o escuta cumprindo ofício de sentinela vigia os sons provenientes de um campo diferente do seu próprio 2 O escuta escuta os ruídos que vêm de fora e também o silêncio que se incorpora ao campo da positividade Se o silêncio não diz diretamente nada algo nele se insinua e quem escuta atentamente recebe as pegadas as marcas que adquirem forma no momento em que germinam as palavras ainda que estas também enganadoras portem em si o silenciado É desde então que o exercício da suspeita se torna presente porque há um a mais do que o dito para ser escutado A hipnose vai sendo substituída pela livre associação A figura vai dando lugar à narrativa Freud pede às histéricas que se deitem fechem os olhos e com isso às vezes auxilia pela pressão frontal as recordações surgem Em todas as direções o campo se estende Isto não só porque não permanece tal como o campo do olhar reduzido ao dado mas ao contrário é no mais lacunar do discurso que um fio de significação vai se tecendo Mas também porque aparecerá a recordação e com isso a história solicita ser levada em conta O que escuta o analista Não pensamos a linguagem como um instrumento de comunicação Também o é Alguém se propõe a comunicar algo e para isso se vale da linguagem Porém até aqui a descoberta freudiana não está presente Ao introduzir o conceito de inconsciente Freud coloca a fala em outro lugar alguém que fala e ao fazêlo diz mais do que aquilo que se propunha Neste falar em certos momentos a lógica consciente se rompe se desvanece e algo diferente se torna presente manifestando uma outra lógica A lógica do processo primário presente no lapso no sonho no chiste no esquecimento na frase contraditória no duplo sentido de uma frase que Freud manda Dora escutar quando lhe diz Memorize você bem suas próprias palavras Talvez tenhamos que voltar a elas Você falou textualmente que durante a noite algo pode acontecer que obrigue alguém a sair do quarto 3 Quando Freud estuda o sentido dos sonhos a psicopatologia da vida cotidiana inclui no espaço do sentido aquilo que até este momento era considerado um sem sentido mostrando assim a positividade do esquecimento da falta do equívoco Quando fala de Catarina diz que a linguagem é demasiadamente pobre para dar expressão às suas sensações e aponta com isto a ampliação do campo do discurso como o caminho do analítico Na instauração da situação analítica ao propor a regra fundamental a livreassociação e o seu reverso a atenção flutuante se produz um desfraldar da palavra No seio da associação livre vaise produzindo um descolamento da imagem TEXTOS cutar alguma coisa Coisa essa que é o inconsciente que no seio da repetição insiste para ser escutado que na trama dos movimentos imaginários se disfarça se fantasia e no entanto vai tecendo o fantasma De que lugar o analista escuta Quem se dispõe a escutar se depara com o inesperado e é isto o que acontece quando no seio do processo de relatar o amor irrompe e tal irrupção surpreende Surpreende a Breuer que assutado cai fora da cena Também a Freud que decide enfrentar os demônios além de surpreender a cada analista quando este se deixa surpreender e não faz da constante tradução interpretação analógica uma tentativa de enquadrar a fera O próprio Freud diz que é na forma surpreendente com a qual irrompe que está a força probatória do fenômeno da transferência O conceito de inconsciente não necessariamente quebra a idéia de exterioridade presente no olhar psiquiátrico Se o inconsciente é entendido como algo que está no sujeito a nível de depósito ou de panela de instintos alguém de fora poderia observar isso que se encontra no sujeito e a sessão analítica poderia converterse em um espaço experimental onde alguém observa o que acontece com o outro e lhe comunica É a noção de transferência que vem romper com esta possibilidade de objetivação A teoria o fantasma a história do analista assim como a história e o presente do movimento psicanalítico podem oferecer possibilidades em relação à escuta mas também podem limitála Sendo o campo da transferência algo que inclui ao mesmo tempo analisando e analista tal montagem não permite mais objetividade É evidente que ainda que os dois estejam incluídos no mesmo campo isso não implica em uma simetria ou em uma igualdade de funções O analisando se dirige ao analista como sendo o único destinatário de sua palavra o que não é mais que a tentativa que o analisando faz de articular seu desejo a uma presença concreta De atribuir ao desejo um objeto para não reconhecer que o desejo em sua impossibilidade de satisfazerse implica em uma falta em uma ausência O analista mantém a transferência mas não se confunde com ela e mediante a não resposta remete o sujeito aos fundamentos infantis do amor A abstinência do analista permite no dizer de Freud subsistir no analisando a necessidade e o desejo como forças que impulsionam o trabalho analítico e que ao evitar querer apaziguar as exigências de tais forças com substitutos remete o sujeito a suas origens inconscientes4 No entanto isto só é possível através de uma renúncia narcísica do analista que lhe permite não ocupar o lugar de amo do desejo convertendo a análise em sugestão não se oferecer como ideal a ser imitado convertendo a análise em pedagogia ou acreditar em uma neutralidade absoluta desconhecendo os obstáculos da escuta que rapidamente se encarrega de atribuir ao analisando como se fossem resistências suas convertendo a análise em uma grande batalha contra estas Conrad Stein em Lenfant imaginaire diz As sessões do paciente têm mais possibilidades de converteremse na sua psicanálise se são para o seu analista o lugar privilegiado de continuação da sua5 Quando Freud trata da transferência recíproca em O futuro da terapia psicanalítica a coloca como um sintoma do analista algo que é despertado pelo discurso do paciente e que toca os pontos cegos do analista expressandose neste como transferência recíproca É devido a isto que se deduz a necessidade da análise pessoal do analista Ainda que a análise pessoal seja condição primordial para tornarse analista tal fato não garante uma escuta Cada novo processo de cura confronta com a necessidade de percorrer as cadeias associativas aproximandose de seu próprio desejo Reencontra assim a possibilidade de ocupar o lugar daquele que põe em andamento o processo de desvelamento do desejo do analisando Este considera o analista como aquele a quem dirige o sintoma neurose de transferência mas que perante a não resposta resignifica a cada momento sua demanda até a finalização da análise Algum tempo atrás um analisando no seu fim de análise refletia Há alguns anos quando cheguei aqui sabia que sofria porém só agora sei porque vim Deve ser o único investimento em que só se sabe porque se veio quando se vai Bela reflexão sobre a questão do O analisando se dirige ao analista como sendo o único destinatário de sua palavra o que não é mais do que a tentativa de articular seu desejo a uma presença concreta Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Resumo O artigo tem por objetivo analisar a importância da escuta na história da psicanálise e no processo analítico Para tanto é feito um percorrido nos aportes freudianos desde os tempos iniciais da psicanálise até as importantes modificações técnicas propostas a partir da introdução do conceito de repetição São consideradas também contribuições de autores atuais que demarcam o campo analítico como um singular espaço de intersubjetividade Unitermos Psicanálise técnica psicanalítica inconsciente escuta intersubjetividade Dois temas ocupam essas páginas a história da minha vida e a história da Psicanálise Elas se acham intimamente entrelaçadas Freud 19401938 p 89 reud inaugura novos tempos o tempo da palavra como forma de acesso por parte do homem ao desconhecido em si mesmo e o tempo da escuta que ressalta a singularidade de sentidos da palavra enunciada Ocupa se em suas produções teóricas e em seu trabalho clínico de palavras que desvelam e velam que produzem primeiro descargas e depois associações Palavras que evidenciam a existência de um outrointerno mas que também proporcionam vias de contato com um outroexterno quando qualificado na sua escuta Esses tempos em Freud inauguram a singularidade de uma situação de comunicação entre paciente e analista Um chega com palavras que demandam um desejo de ser compreendido em sua dor o outro escuta as palavras por ver nestas as vias de acesso ao desconhecido que habita o paciente A situação analítica é por excelência uma situação de comunicação nela circulam demandas nem sempre lógicas ou de fácil deciframento mas as quais em seu cerne comunicam o desejo e a necessidade de serem escutadas F 66 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 A capacidade de ir além da ciência de sua época está intimamente ligada à possibilidade de Freud de buscar nas palavras de seus pacientes e em suas próprias mais do que padrões de adaptação à moral e costumes vigentes uma fala atravessada pelo inconsciente e pela sexualidade mensagens cifradas e enigmáticas que demandaram outra qualidade de escuta para serem compreendidas Ao se deparar com o sofrimento histérico Freud põese a escutar um corpo que fala nos sonhos descobre a capacidade dos elementos se condensarem e se deslocarem criando uma outra cena nos lapsos percebe a expressão de algo via uma inesperada inabilidade na execução de atos ou falas até então exitosas Ao dar cada vez mais espaço para o que escutava de forma diferente no contato com seus pacientes Freud pôde construir tanto um novo ramo do conhecimento quanto um método terapêutico 19401938 p 91 A psicanálise surge e se desenvolve na escuta e a partir da escuta singular à qual se propõe Buscamos neste artigo resgatar e percorrer a história e o desenvolvimento do processo de escuta como recurso da técnica psicanalítica e suas implicações na psicanálise como teoria À medida que o campo psíquico pode ser equiparado a um sistema aberto a escuta destacase como ponto fundamental no campo intersubjetivo característico do encontro analítico A palavra que se impõe A psicanálise surge em reação ao niilismo terapêutico dominante na psiquiatria alemã do final do século XIX que preconizava a observação do enfermo sem escutálo e a classificação da patologia sem o intuito de oferecerlhe tratamento Roudinesco e Plon 1998 Freud inquietase com tal conduta Mesmo tendo formação médica e estando imerso em um contexto científico de caráter positivista a conduta psiquiátrica da época não o satisfaz Freud propõe a todo tempo e desde o início de sua experiência clínica no Hospital Salpêtrière com Charcot que o paciente fosse escutado Embora ainda distante de fundar a psicanálise já começa a demarcar o importante papel que atribuiria à palavra Cabe ressaltar que estamos falando de uma palavra que lhe abriria novas possibilidades de compreensão do sofrimento humano Desta forma dois trabalhos se impõem o de escutar a palavra do outro e o de produzir palavras que viessem ao encontro dessa demanda de ajuda Talvez se demarque desde esses tempos iniciais uma característica essencial da psicanálise como método e técnica estar aberta à singularidade desse outro que fala seja na dimensão referente a seu sofrimento e pedido de ajuda seja A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 67 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 no que diz respeito ao efeito de sua ação terapêutica sobre ele Ao abrir caminhos para que o homem repense sua história a própria psicanálise escreve sua história de transformações e ampliações Os tempos iniciais são os de emprego da hipnose Em estado hipnótico o paciente descreve cenas conectase com o material traumático Cabe ao médico então comunicarlhe o que havia sido dito e descrito uma vez que retornando do transe o paciente de nada se lembra Os sintomas são esbatidos pelo uso desse método mas o sujeito não se apropria ativamente de sua história Então no decorrer de seus trabalhos Freud vai abandonando a hipnose e se direcionando à necessidade de criar outra forma de escutar Surge a associação livre Também no trabalho de desconstrução e construção a palavra do paciente tem um efeito na teoria e na técnica Emmy Von N lhe pediu certa vez que não a tocasse não a olhasse e nada falasse queria apenas ser escutada A palavra se impõe apontando uma mudança no caminho de Freud a cura viria por ela mas não mais a palavra de um sujeito ausente que delegava ao terapeuta uma função de memória de seus conteúdos traumáticos e que colocava em ação um recurso que priorizava a sugestão Agora é por meio das narrativas ativas de um sujeito acordado de seu discurso cheio de lacunas da presença e ausência da palavra que o paciente passa a ser escutado Ao retirar a palavra do que a nosografia diz sobre o paciente Freud entrega a palavra ao próprio paciente para que ele fale sobre si mesmo Surge então a psicanálise marcada pelo convite a que o analisando em uma posição ativa diante de seu processo de cura comuniquese e associe livremente Introduzindo o conceito de inconsciente Freud desloca a fala até um outro lugar muito além da intenção consciente de comunicar algo ao falar o sujeito comunica muito mais do que aquilo a que inicialmente se propôs O inconsciente busca ser escutado e ter seus desejos satisfeitos comunicandose por meio de complexas formações sonhos sintomas lapsos chistes atosfalhos fenômenos que apontam para esse desconhecido que habita o sujeito E assim abrese na palavra a dimensão do que escapa ao próprio enunciante O campo da patologia é o primeiro espaço no qual Freud observa a existência do inconsciente ao focar o olhar sobre os sintomas durante seus trabalhos com as histéricas Anos depois essa observação ampliase abrangendo também o que é da ordem dos processos psicológicos normais os sonhos apontam para a existência universal do inconsciente Por meio deles Freud deparase com a imperiosa necessidade da escuta na prática clínica são as 68 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 associações do paciente que possibilitam o acesso aos significados de seus sonhos Distanciase assim a psicanálise de uma idéia de código universal de deciframento uma vez que no processo de compreensão das produções do inconsciente a palavra terá que ser dada ao paciente Ao tratar da psicopatologia da vida cotidiana Freud escreve a respeito de falhas que operam no discurso palavras esquecidas palavras trocadas palavras suprimidas palavras equivocadas E o inconsciente mostrase operante não apenas no dormir mas também na vida de vigília Ao tratar dos chistes Freud detémse em trocadilhos piadas aforismos palavras que sob a égide da comédia podem ser ditas E o inconsciente mostrase operante na vida de vigília não somente por meio da falha mas também como criador de novidade Hornstein 2003 p 151 Os textos freudianos dessa primeira década da psicanálise retratam em última análise o domínio permanente do inconsciente sobre a totalidade da vida consciente E assim a associação livre ganha destaque fundamental De fato a análise dos fenômenos psicológicos normais e patológicos só se mostra possível por meio dela exigindo do analista em contrapartida uma capacidade de escuta que não reduza os espaços simbólicos que a associação livre viabiliza Ao paciente cabe comunicar tudo o que lhe ocorre sem deixar de revelar algo que lhe pareça insignificante vergonhoso ou doloroso enquanto que ao analista cabe escutar o paciente sem o privilégio a priori de qualquer elemento de seu discurso Na efetivação dessa regra fundamental instaurase a situação analítica abrindo possibilidades do desvelamento da palavra No seio da associação livre vai se produzindo um deslocamento da imagem do fato como fixo e este vai se incluindo em múltiplas imagens caleidoscópicas cujas combinações possíveis se multiplicam e onde o ritmo a cadência a intensidade maior de alguns fonemas a excitação explícita no gaguejar de uma palavra o sentido duvidoso de uma frase mal construída tudo isso vai dando tonalidades diferentes a estas figuras que não passam desapercebidas à escuta sutil da atenção flutuante Ao mesmo tempo ao ser escutado pelo analista o próprio sujeito que fala se escuta Alonso 1988 p 2 Associando o paciente fala de um outro o inconsciente que lhe é desconhecido e irrompe em sua fala quando a lógica consciente se rompe Tornase presente em algum determinado momento da fala do paciente a lógica do inconsciente do processo primário A partir de sonhos atosfalhos chistes esquecimentos ambigüidades contradições essa lógica vai se desvelando e os conteúdos sendo significados com a ajuda da interpretação A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 69 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 Nestes primeiros tempos da psicanálise Freud apresenta o aparelho psíquico dentro de um modelo tópico composto de três lugares consciente préconsciente e inconsciente que se organizam em dois sistemas com princípios reguladores e de funcionamento completamente distintos Esses construtos teóricos sustentam uma técnica psicanalítica a qual designa ao analista o trabalho de tornar consciente o inconsciente O analista atua como um decifrador que com seus recursos técnicos é capaz de traduzir e revelar ao sujeito seus desejos fornecendolhe sentido desconhecido A escuta analítica sob este preceito técnico de tornar consciente o inconsciente fica revestida de um saber e de um poder ou utilizando a expressão lacaniana o analista fica em um lugar de sujeito do suposto saber Lugar que quando delegado pelo paciente pode nos momentos iniciais da análise auxiliar que palavras sejam enunciadas a esse outro visto pelo paciente como possuidor de um saber pleno e absoluto Entretanto na medida em que o processo avança cabe ao analista a recusa da ocupação desse lugar A condução do processo analítico deve possibilitar a descoberta por parte do paciente de que ele é quem sabe de si um saber que é patrimônio de um território desconhecido de si mesmo Para alcançálo além de ser escutado o paciente deverá escutar se É somente ao assumir a posição de quem não sabe a respeito de quem chega com uma demanda de ajuda que o analista poderá efetivamente exercitar a escuta analítica À medida que avança em suas formulações teóricas Freud vai construindo modificando e reconstruindo concepções técnicas de forma a garantir a validade da psicanálise como método terapêutico Em seus artigos sobre a técnica psicanalítica podemos acompanhar seus dilemas Como pensar regras para os procedimentos psicanalíticos sem cair em uma esterilização da técnica Como construir um método caminho a seguir sem perder de vista a singularidade do encontro entre paciente e analista O risco era o de propor regras que passassem a ser tomadas como verdades absolutas às quais não caberia nenhum questionamento levando a um distanciamento dos preceitos de autonomia liberdade e singularidade da psicanálise De fato Freud sempre salienta que o domínio da técnica é alcançado principalmente pela experiência clínica a qual não diz respeito apenas ao atendimento de pacientes mas também e fundamentalmente à experiência clínica da análise pessoal O cuidado com a escuta de si mesmo aparece no texto freudiano como condição sine qua non para a possibilidade de exercer uma escuta em relação ao outro 70 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 De uma arte interpretativa à escuta da repetição São as aventuras clínicas com seus fracassos e sucessos terapêuticos e as aventuras da psicanálise aplicada1 que vão conduzindo Freud a importantes formulações teóricas A introdução de conceitos como narcisismo e transferência bem como a constatação do fenômeno da repetição são decisivos para evolução a um novo tempo da técnica psicanalítica Em Além do princípio do prazer Freud analisa essa evolução salientando que no princípio a psicanálise era acima de tudo uma arte interpretativa Isto é o intento do psicanalista reduziase em descobrir decifrar reunir e comunicar o material inconsciente do paciente combatendo permanentemente as resistências imbuídas a esse processo Tornouse cada vez mais claro que o objetivo que fora estabelecido que o inconsciente deve tornarse consciente não era completamente atingível através desse método O paciente não pode recordar a totalidade do que nele se acha recalcado e o que não é possível recordar pode ser exatamente a parte essencial 1920 p 31 A conceitualização da pulsão de morte e da compulsão à repetição como sua manifestação clínica impuseram uma nova demanda técnica além de ter alcance sobre o que não é acessível devido ao recalcamento é preciso alcançar também o que é inacessível por ser desligado não representado E assim a escuta psicanalítica transformase e ampliase radicalmente a tarefa do psicanalista não mais consiste em recuperar uma história mas também em possibilitar simbolizações estruturantes Neste sentido a transferência ganha força como espaço privilegiado do trabalho analítico Nela a palavra dirigida ao analista terá que ser remetida às suas originais determinações evidenciando o valor de uma história sempre única e singular Talvez aí se faça presente com mais clareza o que está além da palavra escutada no processo analítico a transferência como ferramenta técnica fundamental só é possível na medida em que Freud vai valorizando o complexo encontro que ocorre entre o paciente e o analista Fora do papel de decifrador o analista deparase com um psiquismo aberto que produz e reproduz continuamente efeitos de uma história Em Análise terminável e interminável Freud 1937 aponta o efeito da escuta no campo analítico a análise é um processo terminável enquanto se refere ao uso da capacidade de escuta do analista mas interminável enquanto se refere à capacidade adquirida pelo paciente de escutarse O processo analítico a partir da escuta do psicanalista envolve a instrumentalização da escuta do paciente em relação a si mesmo A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 71 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 O encontro na clínica psicanalítica Luis Hornstein 2003 psicanalista argentino ao trabalhar as relações entre intersubjetividade e clínica psicanalítica ressalta o quão importantes são os suportes teóricos do analista uma que vez que são eles que caracterizam e sustentam a práxis É desde seus preceitos teóricos que o analista enxerga o paciente como ser psíquico e sustenta sua escuta diante dele A ciência em um primeiro momento preconizava a possibilidade de predizer toda a realidade do mundo à medida que fossem estabelecidas as leis gerais de funcionamento da natureza Entretanto a física ciência da qual Freud se vale para suas formulações sobre o funcionamento do aparelho psíquico passa desde a época freudiana por transformações radicais em muitos de seus construtos abrindo espaço para o quântico o relativo o complexo o instável o criativo Transformações que levam ao questionamento da visão determinista do mundo ao renascimento da noção de imprevisto e à incorporação pela ciência da noção de probabilidade Transformações que levam à quebra do paradigma do determinismo o qual minimiza a criação e a liberdade Conduzindo tais transformações e suas implicações ao terreno psicanalítico é possível compreender o psiquismo como um sistema aberto que tem uma organização determinada mas que pode modificarse e adquirir novas propriedades Pensar o sujeito como um sistema aberto à intersubjetividade não somente no passado senão na atualidade exige refletir sobre as tramas relacionais e seus efeitos constitutivos da subjetividade Hornstein 2003 p 97 O que é da ordem da relação ganha destaque acima de tudo a partir de seus efeitos sobre o sujeito uma vez que esta concepção de psiquismo como sistema aberto pressupõe um permanente intercâmbio e uma complexa rede de interrelações entre sujeito e objeto A busca pela historização do indivíduo tornase imprescindível Freud sempre manteve a aspiração de recuperar a verdade histórica a partir da narrativa do paciente Hornstein aponta para a possibilidade de articulação dos acontecimentos históricos significativos com as montagens fantasmáticas que acompanham suas representações psíquicas Encontrar relações entre circunstâncias reais e fantasmáticas e articulálas com a interpretação que o sujeito elaborou acerca do vivenciado Historizar implica considerar que a história não é uma estrutura invariável nem um conjunto de acontecimentos imprevisíveis Desde a primeira sessão a história oficial é confrontada com aquela que o analista ajuda a construir analisando as formações de compromisso Os testemunhos do 72 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 passado são os sintomas as transferências as repetições as formações de caráter os sonhos e também as recordações 2003 p 102 Justificase então a análise dos suportes teóricos que sustentam a práxis do analista Considerar o psiquismo como um sistema aberto considerar que o psiquismo produz e reproduz continuamente efeitos de uma história implica colocar a escuta em um campo intersubjetivo ou seja no campo da transferência Entretanto ainda que analista e analisando estejam incluídos no mesmo campo não há entre eles uma relação de simetria É a capacidade de escuta do analista que garante a assimetria necessária ao processo Escuta da pulsão que insiste no alicerce de cada palavra Escuta da pulsão evocada em cada palavra Vivência pulsional reatualizada repetida insistente na busca por satisfação Escuta que mantém a transferência mas não se confunde com ela não cede à convocatória constante do paciente O analisando se dirige ao analista como sendo o único destinatário de sua palavra o que não é mais que a tentativa que o analisando faz de articular seu desejo a uma presença concreta De atribuir ao desejo um objeto para não reconhecer que o desejo em sua impossibilidade de satisfazerse implica em uma falta em uma ausência Alonso 1988 p 3 Escuta que pressupõe a abstinência do analista impedindo uma satisfação substituta do desejo e remetendo o sujeito às origens infantis de seu amor Desejos que ao não serem satisfeitos abrem a possibilidade de ressignificação Análise interjogo de possibilidades e limites da escuta A importância da escuta na psicanálise vai se evidenciando na medida em que percorremos os textos freudianos As recomendações da técnica assim como os desenvolvimentos teóricos apontam sempre para a preocupação de Freud de que a psicanálise não perca o que a diferenciava das demais possibilidades terapêuticas o valor dado ao autoconhecimento e à liberdade pessoal O que visa ser escutado na psicanálise resulta em uma psicanálise da escuta Os lapsos os sonhos as repetições os sintomas enfim as formas de subjetividade livres de uma classificação ou de rótulos abrem espaços de singularidade A teoria psicanalítica não pode ocupar o lugar da história de vida do paciente Os fantasmas do analista não podem ensurdecêlo no encontro com o paciente Desta forma o famoso tripé formação teórica atividade de supervisionarse e análise pessoal constitui os recursos na qualificação do A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 73 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 processo de escutar o outro A própria história da psicanálise nos relatos clínicos de Anna O e Dora atestam os riscos da surdez do analista Como bem assinala Hornstein É possível pretender que fórmulas simples permitam compreender o processo analítico Não analisar é hipercomplexo escutar com atenção flutuante representar fantasiar experimentar afetos identificarse recordar autoanalisarse conter assinalar interpretar e construir 2003 p 105 De fato a preocupação com a formação do analista está presente desde os tempos iniciais Quando Jung a partir de seu trabalho em parceria com Bleuer na Clínica do Burghölzli tem a idéia de tratar os alunos como pacientes Roudinesco e Plon 1998 p 17 está lançada a semente para o que depois tornarseia a exigência da análise didática na formação de futuros analistas É fundamental destacar porém que em 1925 quando foi instituída na Associação Psicanalítica Internacional IPA a obrigatoriedade da análise pessoal para a formação psicanalítica visava a socialização entre professor e aluno e o afastamento das práticas de idolatria e imitação a Freud Parece que todavia o intuito inicial distorceuse já que ao longo dos anos a IPA se havia transformado num vasto aparelho atormentado pelo culto da personalidade Reencontrouse assim na análise didática o poder da sugestão que Freud havia banido da prática da Psicanálise Em conseqüência disso seus herdeiros passaram a correr o risco de se transformar em discípulos devotos de mestres medíocres quer por se tomarem por novos profetas quer por aceitarem em silêncio a esclerose institucional p 18 Talvez aí tenha se perdido o que deveria ser o ponto maior de identificação com Freud a liberdade de pensamento Percebese assim que na intenção de criar regras de qualificação do analista em sua escuta clínica outros temas foram se interpondo entre o processo de ser escutado para ser um psicanalista e o cumprimento das exigências para ter autorização de ser um psicanalista Mas criamse sombras frente aos temas que aludem à questão da análise pessoal e que tentam permanecer disfarçadas atrás dela Sombras que uma vez existentes parecem transformála muito mais em uma busca em atender expectativas préestabelecidas e institucionais do que em uma busca em cuidar de si próprio como condição fundante da própria capacidade analítica Alonso 1988 demarca com propriedade que os mesmos fatores que podem oferecer possibilidades ao analista em relação à sua escuta também podem limitála Em torno do analista estão seu fantasma sua história pessoal sua teoria e ainda a história e a atualidade do movimento psicanalítico 74 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 Escutarse de fato em sua análise pessoal permite a instrumentalização do analista e oferece conseqüentemente a possibilidade de utilização de todos estes fatores como recursos que incrementam sua capacidade de escuta e de verdadeira sustentação do seu lugar Em contrapartida a adesão dogmática e a conversão em um estereótipo de psicanalista provocam inevitavelmente a limitação o fantasma tornase limite para a escuta nos pontos cegos A teoria passa a ser limitadora da escuta quando entra na sessão para ser aplicada ou confirmada p 5 Assim o alcance da escuta do analista também está intrinsecamente vinculado a um processo de historização a qual implica a apropriação de um fazerse psicanalista a compreensão que este é um processo complexo contínuo e interminável E o reconhecimento que a possibilidade de escuta está no próprio desejo do analista recuperado a cada momento pelo trânsito das associações que lhe permitem reconhecer seu desejo pessoal em jogo para poder a ele renunciar levandoo a não ter a necessidade de querer assegurar seu lugar nem pela rigidez do setting nem pela rigidez do gesto p 4 Ao propormos percorrer a história da escuta na psicanálise chegamos à escuta da psicanálise Ao lançarmos nosso olhar para a importância dada pelo analista às palavras de seu analisando demarcouse o fundamental papel da escuta do analista em relação a si próprio em sua análise pessoal De fato a escuta da psicanálise encontra sua vitalidade na capacidade do analista reconhecer o valor e a necessidade de ser ele próprio escutado promovendo em si uma capacidade que está fora do domínio da rigidez ou da padronização e que por isto abre vias de acesso à escuta do outro Assim recuperase no tempo de cada analista a criatividade e a vitalidade dos novos tempos inaugurados por Freud o reconhecimento do inconsciente e dos recursos de acesso à compreensão de seus efeitos Nota 1 A psicanálise aplicada referese à utilização dos aportes psicanalíticos como meio de compreensão e interpretação em diversos campos do saber podendo abranger por exemplo a interpretação de obras em função da vida do autor ou uma interpretação psicanalítica de textos literários O objetivo primordial de Freud no emprego da psicanálise aplicada era impedir sua restrição ao campo médico ao procedimento terapêutico Em todos os seus trabalhos considerados da esfera da psicanálise aplicada com efeito podemos constatar a existência de um segundo objetivo este puramente teórico Assim o estudo sobre A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 75 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 Leonardo Da Vinci afastase das psicobiografias habituais marcando um passo adiante na teoria da sexualidade Do mesmo modo Totem e tabu ultrapassa os limites de suas referências etnológicas Roudinesco e Plon 1998 p 607608 Referências Bibliográficas ALONSO S L 1988 A escuta psicanalítica Disponível emwwwuolcombrpercursomais pcs01artigo0120htm Acesso em 24052003 BARROS FALCÃO C KRUG J MACEDO M Do passado à atualidade a psique pede passagem In MACEDO M org Neurose leituras psicanalíticas Porto Alegre EDIPUCRS 2002 HORNSTEIN L Intersuibjetividad Y clínica Buenos Aires Paidós 2003 FREUD S 1920 Além do princípio do prazer In Obras completas Rio de Janeiro Imago 1976 vol XVIII 1937 Análise terminável e interminável In Obras completas Rio de Janeiro Imago 1976 vol XXIII 1940 1938 Esboço de psicanálise In Obras completas Rio de Janeiro Imago 1976 vol XXIII MACEDO MK Transferência uma esperada visita inesperada In org Neurose leituras psicanalíticas Porto Alegre EDIPUCRS 2002 ROUDINESCO E PLON M Dicionário de psicanálise Rio de Janeiro Jorge Zahar 1998 STRACHEY J 1969 Artigos sobre técnica introdução do editor inglês In FREUD S Obras completas Rio de Janeiro Imago 1976 vol XII Listening in Psychoanalysis and Psychoanalysis of Listening Abstract This article aims to analyze the importance of listening in the history of Psychoanalysis and in the analytical process In order to do that a review of Freudian approaches is done from the beginning of Psychoanalysis up to the important technical modifications intended with the concept of repetition The contribution of contemporary authors that circumscribes the analytical field as a unique space of intersubjectivity is also considered Keywords Psychoanalysis psychoanalytic technique unconscious listening intersubjectivity 76 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 Mônica Medeiros Kother Macedo Psicanalista Mestre em Educação Doutoranda em Psicologia PUCRS Coordenadora e Professora do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Psicologia PUC RS Membro Pleno da Sociedad Psicoanalitica del Sur de Buenos Aires Rua Florêncio Ygartua 69 307 90430010 Moinhos de Vento Porto AlegreRS tel 51 33336697 email ricmonmacedocpovonet Carolina Neumann de Barros Falcão Psicóloga Mestranda em Psicologia Clínica PUCRS Psicanalista em Formação pelo Núcleo de Estudos Sigmund Freud Rua Tobias da Silva 253 403 90570020 Moinhos de Vento Porto AlegreRS tel 51 30234259 email carolfalcaoyahoocom recebido em 100804 versão revisada recebida em 081104 aprovado em101204 corpo saudável valorizando o culto do eu Procurando salvar o homem das ilusões de um narcisismo destruidor quis erradicar a loucura a marginalidade a neurose cotidiana para se converter numa terapia da felicidade individual a serviço da livre iniciativa A partir de 1970 a psicanálise americana enfrentou um verdadeiro declínio Sua abordagem considerada frágil e empírica além de estar fortemente ligada ao saber médico da época não conseguiu competir com o avanço da farmacologia Os medicamentos começaram a ser vistos como soluções mais eficazes para a melancolia e os problemas sociais minando a relevância da psicanálise como ferramenta terapêutica fazer morte 1923 seu médico detectar um tumor canceroso na mandíbula foram 16 anos de sofrimento No dia 21 de setembro Freud pede a seu médico que ajude a morrer no dia 23 de setembro seu médico aplicalhe uma última dose de morfina propondo que a mente fosse dividida não apenas por pulsões como vida e morte sexualidade e agressão mas também de forma geográfica Nesse modelo o Id é a parte inacessível diretamente manifestandose indiretamente por meio de lapsos sonhos e sintomas O Ego por sua vez é tanto consciente quanto inconsciente e lida com o domínio do mundo externo Já o superego é a parte moral da psique e representa os valores da sociedade Essas concepções sobre forças fundamentais em oposição ajudaram a explicar o funcionamento mental embora tenham encontrado resistência entre seus discípulos A ascensão do nazismo forçou uma transformação significativa na psicanálise levando os discípulos de Freud a modificar sua teoria impregnandoa de metafísica e pessimismo A psicanálise foi reformulada na América para se concentrar na adaptação do indivíduo à sociedade Os psicanalistas americanos exaltavam o ideal higienista e religioso do homem saudável em um corpo saudável valorizando o culto do eu Procurando salvar o homem das ilusões de um narcisismo destruidor quis erradicar a loucura a marginalidade a neurose cotidiana para se converter numa terapia da felicidade individual a serviço da livre iniciativa o desejo reprimido que essas jovens da alta sociedade vienense condenadas a uma vida rígida e tradicional carregavam Elas aspiravam secretamente por outra vida mas ninguém as escutava incapazes de enfrentarem suas aspirações não realizadas elas adoeciam e a histeria passava a ser a linguagem desse desejo reprimido no âmbito da razão Freud acreditava que nenhuma experiência de laboratório poderia resolver essa questão com a criação da psicanálise os gritos e movimentos da carne poderiam finalmente ser ouvidos e verbalizados transformandose em linguagem O documentário aborda também as dificuldades e os preconceitos que Freud enfrentou no campo acadêmico e médico Os histéricos são privados da simpatia do médico portanto Eles vêem como pessoas que infringem as leis de sua ciência tal como os fiéis vêem os heréticos julgaos capazes de todo mal acusaos de exagero e de fingimento e os pune subtraindolhes seu interesse Freud 1910 p 170 A psicanálise no entanto contesta esse niilismo terapêutico propondo ouvir o paciente como meio para cura assim através da associação livre a palavra tenta dar sentido à loucura particular ESCUTA Com o início da Primeira Guerra Mundial o caminho para o primeiro auxílio terapêutico significativo para a histeria Durante a hipnose quando a paciente recordava e exteriorizava afetos relacionados às situações em que os sintomas apareceram pela primeira vez conseguiam fazer desaparecer sintomas patológicos Logo verificouse que mediante essa limpeza psíquica poderia se alcançar mais que a eliminação temporária das frequentes perturbações também se conseguia fazer desaparecer sintomas patológicos Freud 1910 p 171 Trabalhando com Anna O Breuer desenvolveu o que se tornaria a terapia pela fala um avanço crucial na abordagem das doenças nervosas concluindo que os sintomas histéricos estavam intimamente ligados à vida dos pacientes A partir da observação do trabalho de Charcot e Breuer e inspirado pelo teatro da histeria Freud aprofundou seus estudos sobre essa condição Como observou Peter 1997 Eis a doença da qual Freud se apoderou na virada do século para alertar os homens sobre suas feridas originais Peter 1997 Neste contexto a psicanálise surge como um modo particular para falar da angústia do esquecimento No hospital de Salpêtrière o sexo das mulheres falava através das convulsões revelando o desejo reprimido que essas jovens da alta sociedade vienense condenadas a uma vida rígida e tradicional caminho para o primeiro auxílio terapêutico significativo para a histeria Durante a hipnose quando a paciente recordava e exteriorizava afetos relacionados às situações em que os sintomas apareceram pela primeira vez conseguiam fazer desaparecer sintomas patológicos Logo verificouse que mediante essa limpeza psíquica poderia se alcançar mais que a eliminação temporária das frequentes perturbações também se conseguia fazer desaparecer sintomas patológicos Freud 1910 p 171 Trabalhando com Anna O Breuer desenvolveu o que se tornaria a terapia pela fala um avanço crucial na abordagem das doenças nervosas concluindo que os sintomas histéricos estavam intimamente ligados à vida dos pacientes A partir da observação do trabalho de Charcot e Breuer e inspirado pelo teatro da histeria Freud aprofundou seus estudos sobre essa condição Como observou Peter 1997 Eis a doença da qual Freud se apoderou na virada do século para alertar os homens sobre suas feridas originais Peter 1997 Neste contexto a psicanálise surge como um modo particular para falar da angústia do esquecimento No hospital de Salpêtrière o sexo das mulheres falava através das convulsões revelando o desejo reprimido que essas jovens da alta sociedade vienense condenadas a uma vida rígida e tradicional carregavam Elas aspiravam Essas mulheres serviam como material de estudo para Charcot e outros psicanalistas da época que usavam essas manifestações para desenvolver suas pesquisas Além de Charcot Freud conhece no instituto de fisiologia de Viena Joseph Breuer médico especialista em doenças nervosas que virá a ser para ele uma figura paternal Breuer apresenta a Freud um caso de histeria tratado por ele ocorrido em 1882 envolvendo uma paciente conhecida como Anna O ou Bertha Pappenheim A paciente do Dr Breuer uma moça de 21 anos e com elevados dotes intelectuais desenvolveu ao longo de sua doença que já durava mais de dois anos uma série de distúrbios físicos e psíquicos que requeriam atenção Freud 1910 p 168 Conforme a histórica clínica a doença apareceu quando ela cuidava do pai que muito amava durante a grave doença que o levou à morte Breuer observou que Anna O em seus estados de ausência murmurava algumas palavras desconexas intrigado com a situação decidi colocar a paciente em estado hipnótico e repetir essas palavras visando ajudála a associ experiências específicas Esse método abriu caminho para o primeiro auxílio onde estudou medicina Elizabeth Roudinesco 1997 vai descrevêlo como um homem sombrio complicado ambicioso de uma inteligência extraordinária e com enorme desejo de fazer grandes descobertas Nutria profundo interesse pelas doenças psíquicas então conhecidas como histeria por isso iniciou sua vida profissional como neurologista buscando aliviar o sofrimento dos pacientes neuróticos já que considerava que os métodos de tratamento utilizados na época eram inadequados pois viam tal enfermidade como resultado de um processo puramente físico Buscando aprofundar seus estudos sobre a neurose histérica em 1885 Freud deixa em Viena sua amada noiva Martha Bernays mulher que viria a se tornar sua esposa e se dirige à Paris com o objetivo de realizar estudos com JeanMartin Charcot um importante neurologista da época no hospital de Salpêtrière Em tal hospital haviam de 5 a 6 mil mulheres isoladas acorrentadas e abandonadas seminuas em meio a imundices tais mulheres possuíam histeria Conhecida desde a antiguidade a histeria era entendida pelos cientistas da época como uma doença do útero que afetava o corpo das mulheres caracterizandose por uma tendência a encenar o sofrimento alheio e manifestações como risos tragédias e lágrimas Essas mulheres serviam como material de estudo RESENHA DO DOCUMENTÁRIO A INVENÇÃO DA PSICANÁLISE 1997 O documentário A Invenção da Psicanálise 1997 dirigido por Elisabeth Kapnist é uma produção artística francesa que tem como finalidade apresentar o desenvolvimento do método analítico de Sigmund Freud a psicanálise bem como sua trajetória de vida compreendendo os primórdios da criação da psicanálise A obra é construída através da narração e dos comentários de Elisabeth Roudinesco historiadora e psicanalista e Peter Gay biógrafo de Freud além de depoimentos reflexões e imagens de momentos íntimos de Freud e sua família A partir do documentário podemos examinar aspectos cruciais na trajetória da psicanálise tais como a formação acadêmica de Freud suas influências iniciais o desenvolvimento das primeiras teorias psicanalíticas suas obras fundamentais os conflitos enfrentados com a comunidade médica a criação da Sociedade Psicanalítica de Viena e a expansão internacional da psicanálise influenciando a cultura e a arte Sigmund Freud o primogênito de oito filhos do casal de judeus Jakob Freud e Amalia Nathansohn viveu durante meio século em Viena onde estudou medicina Elisabeth
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TEXTOS A escuta psicanalítica Silvia Leonor Alonso No alicerce de toda palavra é a pulsão que insiste Seguindo de perto as repetições podese rastrear as pegadas das identificações A escuta adquire um lugar central na psicanálise por ser esta uma coisa de palavras ditas ou silenciadas Palavras que enganam mas que abrem um acesso à significação No entanto a psicanálise ao inaugurar o campo da escuta produz uma verdadeira ruptura epistemológica concernente ao pensamento psiquiátrico do momento Citando Saurí em seu texto compilatório sobre a histeria A trama das crenças no naturalismo contexto no qual a histeria começa a ser estudada cientificamente privilegia o modo visual de conhecer A metáfora da luz domina sua área expressiva e inquisitiva enquanto a necessidade de ver e iluminar guia o esforço dos cientistas O visto e com maior razão o olhado goza de uma prerrogativa relevante Não é pois temerário afirmar que durante a vigência do naturalismo predomina epistemologicamente o campo visual e que a intenção explícita ou tácita de seus seguidores é conhecer olhando Neste contexto o privilegiado são as características visíveis daquilo a conhecer pelo quê os traços ostensivos passam a primeiro plano1 O espaço e a figura a figura olhada sobre um espaço O império da objetividade positivista que recolhe e anota todos os dados que aparecem perante o olhar E o que melhor que a histeria para ser olhada já que esta se mostra com toda espetacularidade Mas próximo à década de noventa chegando ao fim Silvia Leonor Alonso psicanalista membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae Comunicação apresentada no painel sobre A escuta psicanalítica promovido pela Livraria Pulsional em abril de 1988 do século no interior da Escola de Nancy o relato começa a ocupar um lugar A narrativa de um sujeito após ser hipnotizado começa a interessar Com isto a categoria da recordação se torna presente Citando mais uma vez Saurí escutar refere imediatamente a fala e sua raiz latina vincula o escutado ao ato de ouvir e de montar guarda situação em que o escuta cumprindo ofício de sentinela vigia os sons provenientes de um campo diferente do seu próprio 2 O escuta escuta os ruídos que vêm de fora e também o silêncio que se incorpora ao campo da positividade Se o silêncio não diz diretamente nada algo nele se insinua e quem escuta atentamente recebe as pegadas as marcas que adquirem forma no momento em que germinam as palavras ainda que estas também enganadoras portem em si o silenciado É desde então que o exercício da suspeita se torna presente porque há um a mais do que o dito para ser escutado A hipnose vai sendo substituída pela livre associação A figura vai dando lugar à narrativa Freud pede às histéricas que se deitem fechem os olhos e com isso às vezes auxilia pela pressão frontal as recordações surgem Em todas as direções o campo se estende Isto não só porque não permanece tal como o campo do olhar reduzido ao dado mas ao contrário é no mais lacunar do discurso que um fio de significação vai se tecendo Mas também porque aparecerá a recordação e com isso a história solicita ser levada em conta O que escuta o analista Não pensamos a linguagem como um instrumento de comunicação Também o é Alguém se propõe a comunicar algo e para isso se vale da linguagem Porém até aqui a descoberta freudiana não está presente Ao introduzir o conceito de inconsciente Freud coloca a fala em outro lugar alguém que fala e ao fazêlo diz mais do que aquilo que se propunha Neste falar em certos momentos a lógica consciente se rompe se desvanece e algo diferente se torna presente manifestando uma outra lógica A lógica do processo primário presente no lapso no sonho no chiste no esquecimento na frase contraditória no duplo sentido de uma frase que Freud manda Dora escutar quando lhe diz Memorize você bem suas próprias palavras Talvez tenhamos que voltar a elas Você falou textualmente que durante a noite algo pode acontecer que obrigue alguém a sair do quarto 3 Quando Freud estuda o sentido dos sonhos a psicopatologia da vida cotidiana inclui no espaço do sentido aquilo que até este momento era considerado um sem sentido mostrando assim a positividade do esquecimento da falta do equívoco Quando fala de Catarina diz que a linguagem é demasiadamente pobre para dar expressão às suas sensações e aponta com isto a ampliação do campo do discurso como o caminho do analítico Na instauração da situação analítica ao propor a regra fundamental a livreassociação e o seu reverso a atenção flutuante se produz um desfraldar da palavra No seio da associação livre vaise produzindo um descolamento da imagem TEXTOS cutar alguma coisa Coisa essa que é o inconsciente que no seio da repetição insiste para ser escutado que na trama dos movimentos imaginários se disfarça se fantasia e no entanto vai tecendo o fantasma De que lugar o analista escuta Quem se dispõe a escutar se depara com o inesperado e é isto o que acontece quando no seio do processo de relatar o amor irrompe e tal irrupção surpreende Surpreende a Breuer que assutado cai fora da cena Também a Freud que decide enfrentar os demônios além de surpreender a cada analista quando este se deixa surpreender e não faz da constante tradução interpretação analógica uma tentativa de enquadrar a fera O próprio Freud diz que é na forma surpreendente com a qual irrompe que está a força probatória do fenômeno da transferência O conceito de inconsciente não necessariamente quebra a idéia de exterioridade presente no olhar psiquiátrico Se o inconsciente é entendido como algo que está no sujeito a nível de depósito ou de panela de instintos alguém de fora poderia observar isso que se encontra no sujeito e a sessão analítica poderia converterse em um espaço experimental onde alguém observa o que acontece com o outro e lhe comunica É a noção de transferência que vem romper com esta possibilidade de objetivação A teoria o fantasma a história do analista assim como a história e o presente do movimento psicanalítico podem oferecer possibilidades em relação à escuta mas também podem limitála Sendo o campo da transferência algo que inclui ao mesmo tempo analisando e analista tal montagem não permite mais objetividade É evidente que ainda que os dois estejam incluídos no mesmo campo isso não implica em uma simetria ou em uma igualdade de funções O analisando se dirige ao analista como sendo o único destinatário de sua palavra o que não é mais que a tentativa que o analisando faz de articular seu desejo a uma presença concreta De atribuir ao desejo um objeto para não reconhecer que o desejo em sua impossibilidade de satisfazerse implica em uma falta em uma ausência O analista mantém a transferência mas não se confunde com ela e mediante a não resposta remete o sujeito aos fundamentos infantis do amor A abstinência do analista permite no dizer de Freud subsistir no analisando a necessidade e o desejo como forças que impulsionam o trabalho analítico e que ao evitar querer apaziguar as exigências de tais forças com substitutos remete o sujeito a suas origens inconscientes4 No entanto isto só é possível através de uma renúncia narcísica do analista que lhe permite não ocupar o lugar de amo do desejo convertendo a análise em sugestão não se oferecer como ideal a ser imitado convertendo a análise em pedagogia ou acreditar em uma neutralidade absoluta desconhecendo os obstáculos da escuta que rapidamente se encarrega de atribuir ao analisando como se fossem resistências suas convertendo a análise em uma grande batalha contra estas Conrad Stein em Lenfant imaginaire diz As sessões do paciente têm mais possibilidades de converteremse na sua psicanálise se são para o seu analista o lugar privilegiado de continuação da sua5 Quando Freud trata da transferência recíproca em O futuro da terapia psicanalítica a coloca como um sintoma do analista algo que é despertado pelo discurso do paciente e que toca os pontos cegos do analista expressandose neste como transferência recíproca É devido a isto que se deduz a necessidade da análise pessoal do analista Ainda que a análise pessoal seja condição primordial para tornarse analista tal fato não garante uma escuta Cada novo processo de cura confronta com a necessidade de percorrer as cadeias associativas aproximandose de seu próprio desejo Reencontra assim a possibilidade de ocupar o lugar daquele que põe em andamento o processo de desvelamento do desejo do analisando Este considera o analista como aquele a quem dirige o sintoma neurose de transferência mas que perante a não resposta resignifica a cada momento sua demanda até a finalização da análise Algum tempo atrás um analisando no seu fim de análise refletia Há alguns anos quando cheguei aqui sabia que sofria porém só agora sei porque vim Deve ser o único investimento em que só se sabe porque se veio quando se vai Bela reflexão sobre a questão do O analisando se dirige ao analista como sendo o único destinatário de sua palavra o que não é mais do que a tentativa de articular seu desejo a uma presença concreta Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Resumo O artigo tem por objetivo analisar a importância da escuta na história da psicanálise e no processo analítico Para tanto é feito um percorrido nos aportes freudianos desde os tempos iniciais da psicanálise até as importantes modificações técnicas propostas a partir da introdução do conceito de repetição São consideradas também contribuições de autores atuais que demarcam o campo analítico como um singular espaço de intersubjetividade Unitermos Psicanálise técnica psicanalítica inconsciente escuta intersubjetividade Dois temas ocupam essas páginas a história da minha vida e a história da Psicanálise Elas se acham intimamente entrelaçadas Freud 19401938 p 89 reud inaugura novos tempos o tempo da palavra como forma de acesso por parte do homem ao desconhecido em si mesmo e o tempo da escuta que ressalta a singularidade de sentidos da palavra enunciada Ocupa se em suas produções teóricas e em seu trabalho clínico de palavras que desvelam e velam que produzem primeiro descargas e depois associações Palavras que evidenciam a existência de um outrointerno mas que também proporcionam vias de contato com um outroexterno quando qualificado na sua escuta Esses tempos em Freud inauguram a singularidade de uma situação de comunicação entre paciente e analista Um chega com palavras que demandam um desejo de ser compreendido em sua dor o outro escuta as palavras por ver nestas as vias de acesso ao desconhecido que habita o paciente A situação analítica é por excelência uma situação de comunicação nela circulam demandas nem sempre lógicas ou de fácil deciframento mas as quais em seu cerne comunicam o desejo e a necessidade de serem escutadas F 66 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 A capacidade de ir além da ciência de sua época está intimamente ligada à possibilidade de Freud de buscar nas palavras de seus pacientes e em suas próprias mais do que padrões de adaptação à moral e costumes vigentes uma fala atravessada pelo inconsciente e pela sexualidade mensagens cifradas e enigmáticas que demandaram outra qualidade de escuta para serem compreendidas Ao se deparar com o sofrimento histérico Freud põese a escutar um corpo que fala nos sonhos descobre a capacidade dos elementos se condensarem e se deslocarem criando uma outra cena nos lapsos percebe a expressão de algo via uma inesperada inabilidade na execução de atos ou falas até então exitosas Ao dar cada vez mais espaço para o que escutava de forma diferente no contato com seus pacientes Freud pôde construir tanto um novo ramo do conhecimento quanto um método terapêutico 19401938 p 91 A psicanálise surge e se desenvolve na escuta e a partir da escuta singular à qual se propõe Buscamos neste artigo resgatar e percorrer a história e o desenvolvimento do processo de escuta como recurso da técnica psicanalítica e suas implicações na psicanálise como teoria À medida que o campo psíquico pode ser equiparado a um sistema aberto a escuta destacase como ponto fundamental no campo intersubjetivo característico do encontro analítico A palavra que se impõe A psicanálise surge em reação ao niilismo terapêutico dominante na psiquiatria alemã do final do século XIX que preconizava a observação do enfermo sem escutálo e a classificação da patologia sem o intuito de oferecerlhe tratamento Roudinesco e Plon 1998 Freud inquietase com tal conduta Mesmo tendo formação médica e estando imerso em um contexto científico de caráter positivista a conduta psiquiátrica da época não o satisfaz Freud propõe a todo tempo e desde o início de sua experiência clínica no Hospital Salpêtrière com Charcot que o paciente fosse escutado Embora ainda distante de fundar a psicanálise já começa a demarcar o importante papel que atribuiria à palavra Cabe ressaltar que estamos falando de uma palavra que lhe abriria novas possibilidades de compreensão do sofrimento humano Desta forma dois trabalhos se impõem o de escutar a palavra do outro e o de produzir palavras que viessem ao encontro dessa demanda de ajuda Talvez se demarque desde esses tempos iniciais uma característica essencial da psicanálise como método e técnica estar aberta à singularidade desse outro que fala seja na dimensão referente a seu sofrimento e pedido de ajuda seja A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 67 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 no que diz respeito ao efeito de sua ação terapêutica sobre ele Ao abrir caminhos para que o homem repense sua história a própria psicanálise escreve sua história de transformações e ampliações Os tempos iniciais são os de emprego da hipnose Em estado hipnótico o paciente descreve cenas conectase com o material traumático Cabe ao médico então comunicarlhe o que havia sido dito e descrito uma vez que retornando do transe o paciente de nada se lembra Os sintomas são esbatidos pelo uso desse método mas o sujeito não se apropria ativamente de sua história Então no decorrer de seus trabalhos Freud vai abandonando a hipnose e se direcionando à necessidade de criar outra forma de escutar Surge a associação livre Também no trabalho de desconstrução e construção a palavra do paciente tem um efeito na teoria e na técnica Emmy Von N lhe pediu certa vez que não a tocasse não a olhasse e nada falasse queria apenas ser escutada A palavra se impõe apontando uma mudança no caminho de Freud a cura viria por ela mas não mais a palavra de um sujeito ausente que delegava ao terapeuta uma função de memória de seus conteúdos traumáticos e que colocava em ação um recurso que priorizava a sugestão Agora é por meio das narrativas ativas de um sujeito acordado de seu discurso cheio de lacunas da presença e ausência da palavra que o paciente passa a ser escutado Ao retirar a palavra do que a nosografia diz sobre o paciente Freud entrega a palavra ao próprio paciente para que ele fale sobre si mesmo Surge então a psicanálise marcada pelo convite a que o analisando em uma posição ativa diante de seu processo de cura comuniquese e associe livremente Introduzindo o conceito de inconsciente Freud desloca a fala até um outro lugar muito além da intenção consciente de comunicar algo ao falar o sujeito comunica muito mais do que aquilo a que inicialmente se propôs O inconsciente busca ser escutado e ter seus desejos satisfeitos comunicandose por meio de complexas formações sonhos sintomas lapsos chistes atosfalhos fenômenos que apontam para esse desconhecido que habita o sujeito E assim abrese na palavra a dimensão do que escapa ao próprio enunciante O campo da patologia é o primeiro espaço no qual Freud observa a existência do inconsciente ao focar o olhar sobre os sintomas durante seus trabalhos com as histéricas Anos depois essa observação ampliase abrangendo também o que é da ordem dos processos psicológicos normais os sonhos apontam para a existência universal do inconsciente Por meio deles Freud deparase com a imperiosa necessidade da escuta na prática clínica são as 68 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 associações do paciente que possibilitam o acesso aos significados de seus sonhos Distanciase assim a psicanálise de uma idéia de código universal de deciframento uma vez que no processo de compreensão das produções do inconsciente a palavra terá que ser dada ao paciente Ao tratar da psicopatologia da vida cotidiana Freud escreve a respeito de falhas que operam no discurso palavras esquecidas palavras trocadas palavras suprimidas palavras equivocadas E o inconsciente mostrase operante não apenas no dormir mas também na vida de vigília Ao tratar dos chistes Freud detémse em trocadilhos piadas aforismos palavras que sob a égide da comédia podem ser ditas E o inconsciente mostrase operante na vida de vigília não somente por meio da falha mas também como criador de novidade Hornstein 2003 p 151 Os textos freudianos dessa primeira década da psicanálise retratam em última análise o domínio permanente do inconsciente sobre a totalidade da vida consciente E assim a associação livre ganha destaque fundamental De fato a análise dos fenômenos psicológicos normais e patológicos só se mostra possível por meio dela exigindo do analista em contrapartida uma capacidade de escuta que não reduza os espaços simbólicos que a associação livre viabiliza Ao paciente cabe comunicar tudo o que lhe ocorre sem deixar de revelar algo que lhe pareça insignificante vergonhoso ou doloroso enquanto que ao analista cabe escutar o paciente sem o privilégio a priori de qualquer elemento de seu discurso Na efetivação dessa regra fundamental instaurase a situação analítica abrindo possibilidades do desvelamento da palavra No seio da associação livre vai se produzindo um deslocamento da imagem do fato como fixo e este vai se incluindo em múltiplas imagens caleidoscópicas cujas combinações possíveis se multiplicam e onde o ritmo a cadência a intensidade maior de alguns fonemas a excitação explícita no gaguejar de uma palavra o sentido duvidoso de uma frase mal construída tudo isso vai dando tonalidades diferentes a estas figuras que não passam desapercebidas à escuta sutil da atenção flutuante Ao mesmo tempo ao ser escutado pelo analista o próprio sujeito que fala se escuta Alonso 1988 p 2 Associando o paciente fala de um outro o inconsciente que lhe é desconhecido e irrompe em sua fala quando a lógica consciente se rompe Tornase presente em algum determinado momento da fala do paciente a lógica do inconsciente do processo primário A partir de sonhos atosfalhos chistes esquecimentos ambigüidades contradições essa lógica vai se desvelando e os conteúdos sendo significados com a ajuda da interpretação A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 69 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 Nestes primeiros tempos da psicanálise Freud apresenta o aparelho psíquico dentro de um modelo tópico composto de três lugares consciente préconsciente e inconsciente que se organizam em dois sistemas com princípios reguladores e de funcionamento completamente distintos Esses construtos teóricos sustentam uma técnica psicanalítica a qual designa ao analista o trabalho de tornar consciente o inconsciente O analista atua como um decifrador que com seus recursos técnicos é capaz de traduzir e revelar ao sujeito seus desejos fornecendolhe sentido desconhecido A escuta analítica sob este preceito técnico de tornar consciente o inconsciente fica revestida de um saber e de um poder ou utilizando a expressão lacaniana o analista fica em um lugar de sujeito do suposto saber Lugar que quando delegado pelo paciente pode nos momentos iniciais da análise auxiliar que palavras sejam enunciadas a esse outro visto pelo paciente como possuidor de um saber pleno e absoluto Entretanto na medida em que o processo avança cabe ao analista a recusa da ocupação desse lugar A condução do processo analítico deve possibilitar a descoberta por parte do paciente de que ele é quem sabe de si um saber que é patrimônio de um território desconhecido de si mesmo Para alcançálo além de ser escutado o paciente deverá escutar se É somente ao assumir a posição de quem não sabe a respeito de quem chega com uma demanda de ajuda que o analista poderá efetivamente exercitar a escuta analítica À medida que avança em suas formulações teóricas Freud vai construindo modificando e reconstruindo concepções técnicas de forma a garantir a validade da psicanálise como método terapêutico Em seus artigos sobre a técnica psicanalítica podemos acompanhar seus dilemas Como pensar regras para os procedimentos psicanalíticos sem cair em uma esterilização da técnica Como construir um método caminho a seguir sem perder de vista a singularidade do encontro entre paciente e analista O risco era o de propor regras que passassem a ser tomadas como verdades absolutas às quais não caberia nenhum questionamento levando a um distanciamento dos preceitos de autonomia liberdade e singularidade da psicanálise De fato Freud sempre salienta que o domínio da técnica é alcançado principalmente pela experiência clínica a qual não diz respeito apenas ao atendimento de pacientes mas também e fundamentalmente à experiência clínica da análise pessoal O cuidado com a escuta de si mesmo aparece no texto freudiano como condição sine qua non para a possibilidade de exercer uma escuta em relação ao outro 70 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 De uma arte interpretativa à escuta da repetição São as aventuras clínicas com seus fracassos e sucessos terapêuticos e as aventuras da psicanálise aplicada1 que vão conduzindo Freud a importantes formulações teóricas A introdução de conceitos como narcisismo e transferência bem como a constatação do fenômeno da repetição são decisivos para evolução a um novo tempo da técnica psicanalítica Em Além do princípio do prazer Freud analisa essa evolução salientando que no princípio a psicanálise era acima de tudo uma arte interpretativa Isto é o intento do psicanalista reduziase em descobrir decifrar reunir e comunicar o material inconsciente do paciente combatendo permanentemente as resistências imbuídas a esse processo Tornouse cada vez mais claro que o objetivo que fora estabelecido que o inconsciente deve tornarse consciente não era completamente atingível através desse método O paciente não pode recordar a totalidade do que nele se acha recalcado e o que não é possível recordar pode ser exatamente a parte essencial 1920 p 31 A conceitualização da pulsão de morte e da compulsão à repetição como sua manifestação clínica impuseram uma nova demanda técnica além de ter alcance sobre o que não é acessível devido ao recalcamento é preciso alcançar também o que é inacessível por ser desligado não representado E assim a escuta psicanalítica transformase e ampliase radicalmente a tarefa do psicanalista não mais consiste em recuperar uma história mas também em possibilitar simbolizações estruturantes Neste sentido a transferência ganha força como espaço privilegiado do trabalho analítico Nela a palavra dirigida ao analista terá que ser remetida às suas originais determinações evidenciando o valor de uma história sempre única e singular Talvez aí se faça presente com mais clareza o que está além da palavra escutada no processo analítico a transferência como ferramenta técnica fundamental só é possível na medida em que Freud vai valorizando o complexo encontro que ocorre entre o paciente e o analista Fora do papel de decifrador o analista deparase com um psiquismo aberto que produz e reproduz continuamente efeitos de uma história Em Análise terminável e interminável Freud 1937 aponta o efeito da escuta no campo analítico a análise é um processo terminável enquanto se refere ao uso da capacidade de escuta do analista mas interminável enquanto se refere à capacidade adquirida pelo paciente de escutarse O processo analítico a partir da escuta do psicanalista envolve a instrumentalização da escuta do paciente em relação a si mesmo A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 71 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 O encontro na clínica psicanalítica Luis Hornstein 2003 psicanalista argentino ao trabalhar as relações entre intersubjetividade e clínica psicanalítica ressalta o quão importantes são os suportes teóricos do analista uma que vez que são eles que caracterizam e sustentam a práxis É desde seus preceitos teóricos que o analista enxerga o paciente como ser psíquico e sustenta sua escuta diante dele A ciência em um primeiro momento preconizava a possibilidade de predizer toda a realidade do mundo à medida que fossem estabelecidas as leis gerais de funcionamento da natureza Entretanto a física ciência da qual Freud se vale para suas formulações sobre o funcionamento do aparelho psíquico passa desde a época freudiana por transformações radicais em muitos de seus construtos abrindo espaço para o quântico o relativo o complexo o instável o criativo Transformações que levam ao questionamento da visão determinista do mundo ao renascimento da noção de imprevisto e à incorporação pela ciência da noção de probabilidade Transformações que levam à quebra do paradigma do determinismo o qual minimiza a criação e a liberdade Conduzindo tais transformações e suas implicações ao terreno psicanalítico é possível compreender o psiquismo como um sistema aberto que tem uma organização determinada mas que pode modificarse e adquirir novas propriedades Pensar o sujeito como um sistema aberto à intersubjetividade não somente no passado senão na atualidade exige refletir sobre as tramas relacionais e seus efeitos constitutivos da subjetividade Hornstein 2003 p 97 O que é da ordem da relação ganha destaque acima de tudo a partir de seus efeitos sobre o sujeito uma vez que esta concepção de psiquismo como sistema aberto pressupõe um permanente intercâmbio e uma complexa rede de interrelações entre sujeito e objeto A busca pela historização do indivíduo tornase imprescindível Freud sempre manteve a aspiração de recuperar a verdade histórica a partir da narrativa do paciente Hornstein aponta para a possibilidade de articulação dos acontecimentos históricos significativos com as montagens fantasmáticas que acompanham suas representações psíquicas Encontrar relações entre circunstâncias reais e fantasmáticas e articulálas com a interpretação que o sujeito elaborou acerca do vivenciado Historizar implica considerar que a história não é uma estrutura invariável nem um conjunto de acontecimentos imprevisíveis Desde a primeira sessão a história oficial é confrontada com aquela que o analista ajuda a construir analisando as formações de compromisso Os testemunhos do 72 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 passado são os sintomas as transferências as repetições as formações de caráter os sonhos e também as recordações 2003 p 102 Justificase então a análise dos suportes teóricos que sustentam a práxis do analista Considerar o psiquismo como um sistema aberto considerar que o psiquismo produz e reproduz continuamente efeitos de uma história implica colocar a escuta em um campo intersubjetivo ou seja no campo da transferência Entretanto ainda que analista e analisando estejam incluídos no mesmo campo não há entre eles uma relação de simetria É a capacidade de escuta do analista que garante a assimetria necessária ao processo Escuta da pulsão que insiste no alicerce de cada palavra Escuta da pulsão evocada em cada palavra Vivência pulsional reatualizada repetida insistente na busca por satisfação Escuta que mantém a transferência mas não se confunde com ela não cede à convocatória constante do paciente O analisando se dirige ao analista como sendo o único destinatário de sua palavra o que não é mais que a tentativa que o analisando faz de articular seu desejo a uma presença concreta De atribuir ao desejo um objeto para não reconhecer que o desejo em sua impossibilidade de satisfazerse implica em uma falta em uma ausência Alonso 1988 p 3 Escuta que pressupõe a abstinência do analista impedindo uma satisfação substituta do desejo e remetendo o sujeito às origens infantis de seu amor Desejos que ao não serem satisfeitos abrem a possibilidade de ressignificação Análise interjogo de possibilidades e limites da escuta A importância da escuta na psicanálise vai se evidenciando na medida em que percorremos os textos freudianos As recomendações da técnica assim como os desenvolvimentos teóricos apontam sempre para a preocupação de Freud de que a psicanálise não perca o que a diferenciava das demais possibilidades terapêuticas o valor dado ao autoconhecimento e à liberdade pessoal O que visa ser escutado na psicanálise resulta em uma psicanálise da escuta Os lapsos os sonhos as repetições os sintomas enfim as formas de subjetividade livres de uma classificação ou de rótulos abrem espaços de singularidade A teoria psicanalítica não pode ocupar o lugar da história de vida do paciente Os fantasmas do analista não podem ensurdecêlo no encontro com o paciente Desta forma o famoso tripé formação teórica atividade de supervisionarse e análise pessoal constitui os recursos na qualificação do A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 73 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 processo de escutar o outro A própria história da psicanálise nos relatos clínicos de Anna O e Dora atestam os riscos da surdez do analista Como bem assinala Hornstein É possível pretender que fórmulas simples permitam compreender o processo analítico Não analisar é hipercomplexo escutar com atenção flutuante representar fantasiar experimentar afetos identificarse recordar autoanalisarse conter assinalar interpretar e construir 2003 p 105 De fato a preocupação com a formação do analista está presente desde os tempos iniciais Quando Jung a partir de seu trabalho em parceria com Bleuer na Clínica do Burghölzli tem a idéia de tratar os alunos como pacientes Roudinesco e Plon 1998 p 17 está lançada a semente para o que depois tornarseia a exigência da análise didática na formação de futuros analistas É fundamental destacar porém que em 1925 quando foi instituída na Associação Psicanalítica Internacional IPA a obrigatoriedade da análise pessoal para a formação psicanalítica visava a socialização entre professor e aluno e o afastamento das práticas de idolatria e imitação a Freud Parece que todavia o intuito inicial distorceuse já que ao longo dos anos a IPA se havia transformado num vasto aparelho atormentado pelo culto da personalidade Reencontrouse assim na análise didática o poder da sugestão que Freud havia banido da prática da Psicanálise Em conseqüência disso seus herdeiros passaram a correr o risco de se transformar em discípulos devotos de mestres medíocres quer por se tomarem por novos profetas quer por aceitarem em silêncio a esclerose institucional p 18 Talvez aí tenha se perdido o que deveria ser o ponto maior de identificação com Freud a liberdade de pensamento Percebese assim que na intenção de criar regras de qualificação do analista em sua escuta clínica outros temas foram se interpondo entre o processo de ser escutado para ser um psicanalista e o cumprimento das exigências para ter autorização de ser um psicanalista Mas criamse sombras frente aos temas que aludem à questão da análise pessoal e que tentam permanecer disfarçadas atrás dela Sombras que uma vez existentes parecem transformála muito mais em uma busca em atender expectativas préestabelecidas e institucionais do que em uma busca em cuidar de si próprio como condição fundante da própria capacidade analítica Alonso 1988 demarca com propriedade que os mesmos fatores que podem oferecer possibilidades ao analista em relação à sua escuta também podem limitála Em torno do analista estão seu fantasma sua história pessoal sua teoria e ainda a história e a atualidade do movimento psicanalítico 74 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 Escutarse de fato em sua análise pessoal permite a instrumentalização do analista e oferece conseqüentemente a possibilidade de utilização de todos estes fatores como recursos que incrementam sua capacidade de escuta e de verdadeira sustentação do seu lugar Em contrapartida a adesão dogmática e a conversão em um estereótipo de psicanalista provocam inevitavelmente a limitação o fantasma tornase limite para a escuta nos pontos cegos A teoria passa a ser limitadora da escuta quando entra na sessão para ser aplicada ou confirmada p 5 Assim o alcance da escuta do analista também está intrinsecamente vinculado a um processo de historização a qual implica a apropriação de um fazerse psicanalista a compreensão que este é um processo complexo contínuo e interminável E o reconhecimento que a possibilidade de escuta está no próprio desejo do analista recuperado a cada momento pelo trânsito das associações que lhe permitem reconhecer seu desejo pessoal em jogo para poder a ele renunciar levandoo a não ter a necessidade de querer assegurar seu lugar nem pela rigidez do setting nem pela rigidez do gesto p 4 Ao propormos percorrer a história da escuta na psicanálise chegamos à escuta da psicanálise Ao lançarmos nosso olhar para a importância dada pelo analista às palavras de seu analisando demarcouse o fundamental papel da escuta do analista em relação a si próprio em sua análise pessoal De fato a escuta da psicanálise encontra sua vitalidade na capacidade do analista reconhecer o valor e a necessidade de ser ele próprio escutado promovendo em si uma capacidade que está fora do domínio da rigidez ou da padronização e que por isto abre vias de acesso à escuta do outro Assim recuperase no tempo de cada analista a criatividade e a vitalidade dos novos tempos inaugurados por Freud o reconhecimento do inconsciente e dos recursos de acesso à compreensão de seus efeitos Nota 1 A psicanálise aplicada referese à utilização dos aportes psicanalíticos como meio de compreensão e interpretação em diversos campos do saber podendo abranger por exemplo a interpretação de obras em função da vida do autor ou uma interpretação psicanalítica de textos literários O objetivo primordial de Freud no emprego da psicanálise aplicada era impedir sua restrição ao campo médico ao procedimento terapêutico Em todos os seus trabalhos considerados da esfera da psicanálise aplicada com efeito podemos constatar a existência de um segundo objetivo este puramente teórico Assim o estudo sobre A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta 75 Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 Leonardo Da Vinci afastase das psicobiografias habituais marcando um passo adiante na teoria da sexualidade Do mesmo modo Totem e tabu ultrapassa os limites de suas referências etnológicas Roudinesco e Plon 1998 p 607608 Referências Bibliográficas ALONSO S L 1988 A escuta psicanalítica Disponível emwwwuolcombrpercursomais pcs01artigo0120htm Acesso em 24052003 BARROS FALCÃO C KRUG J MACEDO M Do passado à atualidade a psique pede passagem In MACEDO M org Neurose leituras psicanalíticas Porto Alegre EDIPUCRS 2002 HORNSTEIN L Intersuibjetividad Y clínica Buenos Aires Paidós 2003 FREUD S 1920 Além do princípio do prazer In Obras completas Rio de Janeiro Imago 1976 vol XVIII 1937 Análise terminável e interminável In Obras completas Rio de Janeiro Imago 1976 vol XXIII 1940 1938 Esboço de psicanálise In Obras completas Rio de Janeiro Imago 1976 vol XXIII MACEDO MK Transferência uma esperada visita inesperada In org Neurose leituras psicanalíticas Porto Alegre EDIPUCRS 2002 ROUDINESCO E PLON M Dicionário de psicanálise Rio de Janeiro Jorge Zahar 1998 STRACHEY J 1969 Artigos sobre técnica introdução do editor inglês In FREUD S Obras completas Rio de Janeiro Imago 1976 vol XII Listening in Psychoanalysis and Psychoanalysis of Listening Abstract This article aims to analyze the importance of listening in the history of Psychoanalysis and in the analytical process In order to do that a review of Freudian approaches is done from the beginning of Psychoanalysis up to the important technical modifications intended with the concept of repetition The contribution of contemporary authors that circumscribes the analytical field as a unique space of intersubjectivity is also considered Keywords Psychoanalysis psychoanalytic technique unconscious listening intersubjectivity 76 Mônica Medeiros Kother Macedo Carolina Neumann de Barros Falcão Psychê Ano IX nº 15 São Paulo janjun2005 p 6576 Mônica Medeiros Kother Macedo Psicanalista Mestre em Educação Doutoranda em Psicologia PUCRS Coordenadora e Professora do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Psicologia PUC RS Membro Pleno da Sociedad Psicoanalitica del Sur de Buenos Aires Rua Florêncio Ygartua 69 307 90430010 Moinhos de Vento Porto AlegreRS tel 51 33336697 email ricmonmacedocpovonet Carolina Neumann de Barros Falcão Psicóloga Mestranda em Psicologia Clínica PUCRS Psicanalista em Formação pelo Núcleo de Estudos Sigmund Freud Rua Tobias da Silva 253 403 90570020 Moinhos de Vento Porto AlegreRS tel 51 30234259 email carolfalcaoyahoocom recebido em 100804 versão revisada recebida em 081104 aprovado em101204 corpo saudável valorizando o culto do eu Procurando salvar o homem das ilusões de um narcisismo destruidor quis erradicar a loucura a marginalidade a neurose cotidiana para se converter numa terapia da felicidade individual a serviço da livre iniciativa A partir de 1970 a psicanálise americana enfrentou um verdadeiro declínio Sua abordagem considerada frágil e empírica além de estar fortemente ligada ao saber médico da época não conseguiu competir com o avanço da farmacologia Os medicamentos começaram a ser vistos como soluções mais eficazes para a melancolia e os problemas sociais minando a relevância da psicanálise como ferramenta terapêutica fazer morte 1923 seu médico detectar um tumor canceroso na mandíbula foram 16 anos de sofrimento No dia 21 de setembro Freud pede a seu médico que ajude a morrer no dia 23 de setembro seu médico aplicalhe uma última dose de morfina propondo que a mente fosse dividida não apenas por pulsões como vida e morte sexualidade e agressão mas também de forma geográfica Nesse modelo o Id é a parte inacessível diretamente manifestandose indiretamente por meio de lapsos sonhos e sintomas O Ego por sua vez é tanto consciente quanto inconsciente e lida com o domínio do mundo externo Já o superego é a parte moral da psique e representa os valores da sociedade Essas concepções sobre forças fundamentais em oposição ajudaram a explicar o funcionamento mental embora tenham encontrado resistência entre seus discípulos A ascensão do nazismo forçou uma transformação significativa na psicanálise levando os discípulos de Freud a modificar sua teoria impregnandoa de metafísica e pessimismo A psicanálise foi reformulada na América para se concentrar na adaptação do indivíduo à sociedade Os psicanalistas americanos exaltavam o ideal higienista e religioso do homem saudável em um corpo saudável valorizando o culto do eu Procurando salvar o homem das ilusões de um narcisismo destruidor quis erradicar a loucura a marginalidade a neurose cotidiana para se converter numa terapia da felicidade individual a serviço da livre iniciativa o desejo reprimido que essas jovens da alta sociedade vienense condenadas a uma vida rígida e tradicional carregavam Elas aspiravam secretamente por outra vida mas ninguém as escutava incapazes de enfrentarem suas aspirações não realizadas elas adoeciam e a histeria passava a ser a linguagem desse desejo reprimido no âmbito da razão Freud acreditava que nenhuma experiência de laboratório poderia resolver essa questão com a criação da psicanálise os gritos e movimentos da carne poderiam finalmente ser ouvidos e verbalizados transformandose em linguagem O documentário aborda também as dificuldades e os preconceitos que Freud enfrentou no campo acadêmico e médico Os histéricos são privados da simpatia do médico portanto Eles vêem como pessoas que infringem as leis de sua ciência tal como os fiéis vêem os heréticos julgaos capazes de todo mal acusaos de exagero e de fingimento e os pune subtraindolhes seu interesse Freud 1910 p 170 A psicanálise no entanto contesta esse niilismo terapêutico propondo ouvir o paciente como meio para cura assim através da associação livre a palavra tenta dar sentido à loucura particular ESCUTA Com o início da Primeira Guerra Mundial o caminho para o primeiro auxílio terapêutico significativo para a histeria Durante a hipnose quando a paciente recordava e exteriorizava afetos relacionados às situações em que os sintomas apareceram pela primeira vez conseguiam fazer desaparecer sintomas patológicos Logo verificouse que mediante essa limpeza psíquica poderia se alcançar mais que a eliminação temporária das frequentes perturbações também se conseguia fazer desaparecer sintomas patológicos Freud 1910 p 171 Trabalhando com Anna O Breuer desenvolveu o que se tornaria a terapia pela fala um avanço crucial na abordagem das doenças nervosas concluindo que os sintomas histéricos estavam intimamente ligados à vida dos pacientes A partir da observação do trabalho de Charcot e Breuer e inspirado pelo teatro da histeria Freud aprofundou seus estudos sobre essa condição Como observou Peter 1997 Eis a doença da qual Freud se apoderou na virada do século para alertar os homens sobre suas feridas originais Peter 1997 Neste contexto a psicanálise surge como um modo particular para falar da angústia do esquecimento No hospital de Salpêtrière o sexo das mulheres falava através das convulsões revelando o desejo reprimido que essas jovens da alta sociedade vienense condenadas a uma vida rígida e tradicional caminho para o primeiro auxílio terapêutico significativo para a histeria Durante a hipnose quando a paciente recordava e exteriorizava afetos relacionados às situações em que os sintomas apareceram pela primeira vez conseguiam fazer desaparecer sintomas patológicos Logo verificouse que mediante essa limpeza psíquica poderia se alcançar mais que a eliminação temporária das frequentes perturbações também se conseguia fazer desaparecer sintomas patológicos Freud 1910 p 171 Trabalhando com Anna O Breuer desenvolveu o que se tornaria a terapia pela fala um avanço crucial na abordagem das doenças nervosas concluindo que os sintomas histéricos estavam intimamente ligados à vida dos pacientes A partir da observação do trabalho de Charcot e Breuer e inspirado pelo teatro da histeria Freud aprofundou seus estudos sobre essa condição Como observou Peter 1997 Eis a doença da qual Freud se apoderou na virada do século para alertar os homens sobre suas feridas originais Peter 1997 Neste contexto a psicanálise surge como um modo particular para falar da angústia do esquecimento No hospital de Salpêtrière o sexo das mulheres falava através das convulsões revelando o desejo reprimido que essas jovens da alta sociedade vienense condenadas a uma vida rígida e tradicional carregavam Elas aspiravam Essas mulheres serviam como material de estudo para Charcot e outros psicanalistas da época que usavam essas manifestações para desenvolver suas pesquisas Além de Charcot Freud conhece no instituto de fisiologia de Viena Joseph Breuer médico especialista em doenças nervosas que virá a ser para ele uma figura paternal Breuer apresenta a Freud um caso de histeria tratado por ele ocorrido em 1882 envolvendo uma paciente conhecida como Anna O ou Bertha Pappenheim A paciente do Dr Breuer uma moça de 21 anos e com elevados dotes intelectuais desenvolveu ao longo de sua doença que já durava mais de dois anos uma série de distúrbios físicos e psíquicos que requeriam atenção Freud 1910 p 168 Conforme a histórica clínica a doença apareceu quando ela cuidava do pai que muito amava durante a grave doença que o levou à morte Breuer observou que Anna O em seus estados de ausência murmurava algumas palavras desconexas intrigado com a situação decidi colocar a paciente em estado hipnótico e repetir essas palavras visando ajudála a associ experiências específicas Esse método abriu caminho para o primeiro auxílio onde estudou medicina Elizabeth Roudinesco 1997 vai descrevêlo como um homem sombrio complicado ambicioso de uma inteligência extraordinária e com enorme desejo de fazer grandes descobertas Nutria profundo interesse pelas doenças psíquicas então conhecidas como histeria por isso iniciou sua vida profissional como neurologista buscando aliviar o sofrimento dos pacientes neuróticos já que considerava que os métodos de tratamento utilizados na época eram inadequados pois viam tal enfermidade como resultado de um processo puramente físico Buscando aprofundar seus estudos sobre a neurose histérica em 1885 Freud deixa em Viena sua amada noiva Martha Bernays mulher que viria a se tornar sua esposa e se dirige à Paris com o objetivo de realizar estudos com JeanMartin Charcot um importante neurologista da época no hospital de Salpêtrière Em tal hospital haviam de 5 a 6 mil mulheres isoladas acorrentadas e abandonadas seminuas em meio a imundices tais mulheres possuíam histeria Conhecida desde a antiguidade a histeria era entendida pelos cientistas da época como uma doença do útero que afetava o corpo das mulheres caracterizandose por uma tendência a encenar o sofrimento alheio e manifestações como risos tragédias e lágrimas Essas mulheres serviam como material de estudo RESENHA DO DOCUMENTÁRIO A INVENÇÃO DA PSICANÁLISE 1997 O documentário A Invenção da Psicanálise 1997 dirigido por Elisabeth Kapnist é uma produção artística francesa que tem como finalidade apresentar o desenvolvimento do método analítico de Sigmund Freud a psicanálise bem como sua trajetória de vida compreendendo os primórdios da criação da psicanálise A obra é construída através da narração e dos comentários de Elisabeth Roudinesco historiadora e psicanalista e Peter Gay biógrafo de Freud além de depoimentos reflexões e imagens de momentos íntimos de Freud e sua família A partir do documentário podemos examinar aspectos cruciais na trajetória da psicanálise tais como a formação acadêmica de Freud suas influências iniciais o desenvolvimento das primeiras teorias psicanalíticas suas obras fundamentais os conflitos enfrentados com a comunidade médica a criação da Sociedade Psicanalítica de Viena e a expansão internacional da psicanálise influenciando a cultura e a arte Sigmund Freud o primogênito de oito filhos do casal de judeus Jakob Freud e Amalia Nathansohn viveu durante meio século em Viena onde estudou medicina Elisabeth