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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA FILOSOFIA licenciatura a distância 4 FILOSOFIA DA LINGUAGEM Celso R Braida FILOSOFIA DA LINGUAGEM I Filosofia da Linguagem I Celso R Braida Florianópolis 2009 Catalogação na fonte elaborada na DECTI da Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina Copyright 2009 Licenciaturas a Distância FILOSOFIAEADUFSC Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida transmitida e gravada sem a prévia autorização por escrito da Universidade Federal de Santa Catarina B814f Braida Celso Reni Filosofia da linguagem Celso Reni Braida Florianópolis FILOSOFIAEADUFSC 2009 254p inclui bibliografia Material do Curso de Licenciatura em Filosofia na modalidade a distancia oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina ISBN9788561484125 1Linguagem Filosofia Ensino auxiliado por computador 2 Filosofia Estudo e ensino I Título CDU 8001 Governo Federal Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministro de Educação Fernando Haddad Secretário de Ensino a Distância Carlos Eduardo Bielschowky Coordenador Nacional da Universidade Aberta do Brasil Celso Costa Universidade Federal de Santa Catarina Reitor Alvaro Toubes Prata Vicereitor Carlos Alberto Justo da Silva Secretário de Educação à Distância Cícero Barbosa Próreitora de Ensino de Graduação Yara Maria Rauh Muller Próreitora de Pesquisa e Extensão Débora Peres Menezes Próreitora de PósGraduação Maria Lúcia de Barros Camargo Próreitor de Desenvolvimento Humano e Social Luiz Henrique Vieira da Silva Próreitor de InfraEstrutura João Batista Furtuoso Próreitor de Assuntos Estudantis Cláudio José Amante Centro de Ciências da Educação Wilson Schmidt Curso de Licenciatura em Filosofia na Modalidade a Distância Diretora Unidade de Ensino Roselane Neckel Chefe do Departamento Leo Afonso Staudt Coordenador de Curso Marco Antonio Franciotti Coordenação Pedagógica LANTECCED Coordenação de Ambiente Virtual LAEDCFM Projeto Gráfico Coordenação Prof Haenz Gutierrez Quintana Equipe Henrique Eduardo Carneiro da Cunha Juliana Chuan Lu Laís Barbosa Ricardo Goulart Tredezini Straioto Equipe de Desenvolvimento de Materiais Laboratório de Novas Tecnologias LANTEC CED Coordenação Geral Andrea Lapa Coordenação Pedagógica Roseli Zen Cerny Material Impresso e Hipermídia Coordenação Laura Martins Rodrigues Thiago Rocha Oliveira Adaptação do Projeto Gráfico Laura Martins Rodrigues Thiago Rocha Oliveira Diagramação Karina Silveira Ilustrações Ângelo Bortolini Silveira Tárik Pinto Tratamento de Imagem Karina Silveira Revisão gramatical Isabel Maria Barreiros Luclktenberg Design Instrucional Coordenação Isabella Benfica Barbosa Designer Instrucional Carmelita Schulze Sumário Apresentação 9 Primeira Parte A Filosofia e a linguagem 13 1 A concepção moderna de linguagem 15 11 A teoria dos nomes de Stuart Mill 22 12 A teoria da intencionalidade da consciência e a linguagem 27 Leituras recomendadas 32 Reflita sobre 33 2 Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 35 Leituras Recomendadas 44 Reflita sobre 44 3 A concepção hermenêutica de linguagem 45 31 Schleiermacher e os fundamentos da concepção hermenêutica da linguagem 51 Leituras recomendadas 62 Reflita sobre 62 4 A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 63 41 As teses gerais sobre a linguagem 66 42 Sinal sentido e significado 79 43 O princípio do contexto 83 44 O mapeamento das diferentes funções semânticas 86 Leituras recomendadas 90 Reflita sobre 90 5 A concepção pragmáticointencional de linguagem 91 51 Dizer é fazer 94 52 As implicações do dizer 98 Leituras recomendadas 103 Reflita sobre 103 6 A análise linguística como método de investigação filosófica 105 Leituras recomendadas 116 Reflita sobre 116 Segunda Parte Teorias do significado 117 7 O conceito de significatividade linguística 119 Leituras recomendadas 134 Reflita sobre 134 8 A explanação referencial do significado linguístico 135 81 Alfred Tarski a semântica como teoria das relações entre expressões e objetos 138 82 A semântica como teoria das relações entre intensão e extensão 148 Leituras recomendadas 167 Reflita sobre 167 9 A explanação inferencial do significado linguístico 169 91 Inferencialismo semântico 171 Leituras recomendadas 186 Reflita sobre 187 10 O significado como um complexo estruturado 189 101 O que é expresso pela asserção de uma sentença 192 102 Referência direta e cadeia inferencial 199 103 A complexa estrutura da relação de significação 204 Leituras recomendadas 213 Reflita sobre 213 Referências 215 systemic antihistamines phototherapy bacter ial eradication therapies topical corticosteroids topical calcineurin inhibitors moisturizers and other topical or systemic agents to ameliorate allergic inflammation in AD and alleviate pruritus Among these therapies dupilumab a fully humanized IL4 receptor alpha antagonist has shown promising safety and efficacy in treating moderatetosevere AD13 This monoclonal antibody inhibits the IL4 and IL13 signaling pathways4 which are essential drivers of AD pathogenesis5 IL31 a proinflammatory cytokine secreted by Th2 cells induces and maintains pruritus in AD and plays a key role in the pathogenesis of AD6 Nemolizumab binds to IL31 receptor alpha IL31RA inhibiting IL31 signaling7 and subsequently suppressing pruritus The clinical effect and safety of nemolizumab have been investigated by several randomized controlled trials RCTs in adults with moderatetosevere AD810 showing the promising efficacy and safety profile of nemolizumab The approval and marketing authorization of nemolizumab CIM331 injection has been granted in some countries for patients with moderatetosevere AD including Japan and the Republic of Korea Recently a phase 2b trial11 demonstrated longlasting efficacy of nemolizumab in combination with topical corticosteroids in adults with moderatetosevere AD Adverse events AEs reported in the treatment group include nasopharyngitis peripheral edema exacerbation of AD upper respiratory tract infection and injectionsite reactions Despite rapid and significant reduction in pruritus patients receiving nemolizumab showed limited improvement in eczema or lesions scaling and thickening suggesting selective attenuation on pruritus and scratching behavior with less impact on skin inflammation and AD skin manifestations Thus nemolizumab has the potential to become a promising novel therapy to improve the QoL of AD patients through effective control of pruritus Apresentação Embora os temas e problemas da Filosofia da Linguagem estejam presentes nas discussões filosóficas desde os gregos antigos essa é uma disciplina recente nos currículos de Filosofia Com efeito o poema de Parmênides um dos textos inaugurais do pensamento ocidental já estabelecia uma relação intrínseca entre ser pensar e dizer assim como no livro de Heráclito o tema da linguagem é central Todavia com exceção dos retóricos e gramáticos os filósofos posteriores ain da que sempre considerassem questões relativas à linguagem trata ram esse tópico como secundário e derivado Isso pode ser explicado pela diferença entre tomar algo como objeto e tomar algo como meio ou condição A linguagem as línguas faladas e escritas os sistemas de sinais os códigos os simbolismos sempre foi tematizada como objeto de estudo e consideração pelas diferentes filosofias ao lado de outros objetos como a natureza o humano a história a política o divino etc Todavia com o surgimento da Linguística como ciência que tem como objeto o fenômeno da linguagem as considerações filosóficas deveriam sofrer uma transformação Essa transformação acontece sobretudo a partir do século XIX quando alguns filósofos lógicos e matemáticos entenderam que a linguagem não era apenas um objeto entre outros pois assim argumentaram sem linguagem nós não teríamos consciência pensamento conhecimento julga mento no sentido de que ser consciente pensar conhecer e julgar teria como condição de possibilidade e meio de realização a própria linguagem Essa condição por conseguinte caso fosse aceita invia bilizaria ou ao menos prejudicaria a colocação da linguagem como um objeto entre outros pois o próprio darse dos objetos pressuporia a linguagem Em grande parte foi esse argumento e essa transfor mação do conceito de linguagem que levaram à introdução da dis ciplina Filosofia da Linguagem como uma disciplina primária na formação filosófica e da análise da linguagem como um método de resolver problemas filosóficos O propósito deste texto na sua Primeira Parte é apresentar a Filosofia da Linguagem a partir de perspectivas divergentes mas que têm em comum o fato de abandonarem as concepções moderna e tradicional da linguagem como objeto e colocarem a linguagem como o lugar dos problemas e o meio pelo qual estes se resolvem a abordagem hermenêutica fundada por Friedrich Daniel Ernst Sch leiermacher 17681834 a abordagem lógicosemântica inaugura da por Friedrich Ludwig Gotlob Frege 18481925 e a abordagem pragmática introduzida por Charles Sanders Peirce 18391914 e desenvolvida por John L Austin 19111960 Essas perspectivas te óricas inauguradas no século XIX justificam ainda hoje a necessi dade e a prioridade da consideração e da análise da linguagem na atividade filosófica O objetivo da Segunda Parte é apresentar teo rias e modelos do significado linguístico tendo como foco principal o problema da fixação do conteúdo semântico das expressões e o pro blema da equivalência semântica entre expressões diferentes Essa abordagem da linguagem por meio do conceito de conteúdo semân tico permitirá que se discutam de modo unificado os problemas das três perspectivas apresentadas na Primeira Parte sobretudo no que se refere às relações entre linguagem ação pensamento e mundo O livro está composto de dez capítulos os quais estão estrutura dos para fornecer uma indicação inicial dos temas cuja compreensão pressupõe a leitura dos textos sugeridos ao final de cada capítulo A bibliografia indicada ao final de cada capítulo representa uma coleção de textos cuja leitura permite uma visão compreensiva dos tópicos e problemas ali discutidos e a bibliografia final fornece uma indicação da literatura básica da disciplina Devese ter sempre em mente que os diferentes posicionamentos e as diferentes teorias so bre a linguagem estão fundados em posições metódicas e escolas de pensamento Não se trata meramente de uma diversidade caótica de opiniões mas sim de articulação e configuração de posições teóri cas e procedimentos de investigação que revelam aspectos diferentes e oferecem soluções diversas para problemas diferentes Por isso a pluralidade de opiniões deve sempre ser entendida não apenas como contradições mas antes disso como facetas de um objeto polimorfo que não se deixa esgotar por uma única abordagem metódica Nas diferentes teorias e abordagens importa antes de tudo esclarecer qual o problema as questões e as urgências que o autor quer solucionar fixado o problema devese ir em busca da estratégia ou do método de solução adotado bem como quais são os recursos teóricos con ceitos argumentos esquemas utilizados A solução final tem de ser uma consequência dessas escolhas O importante de uma resposta filosófica não é tanto a própria resposta mas antes o como de sua articulação e justificação a saber a formulação do problema o procedimento de abordagem e a reconfiguração dos dados a trama dos conceitos teses teorias e argumentos mobilizados para tornar essa resposta evidente e adequada Neste livro foram utilizados materiais provenientes dos cursos mi nistrados nos anos de 2007 e 2008 na disciplina de Filosofia da Lin guagem no curso de graduação em Filosofia da UFSC bem como partes dos seguintes textos publicados pelo autor A dúplice raiz da significatividade de 2002 Funções semânticas e complexidade da proposição de 2002 Para uma crítica da semântica inferencial de 2005 e Semântica formal ou ontologia de 2007 THE JOURNAL OF COSMETIC DERMATOLOGY 393 Primeira Parte A Filosofia e a linguagem O propósito desta parte é apresentar a Fi losofia da Linguagem a partir de perspecti vas divergentes mas que têm em comum o fato de abandonarem as concepções moder na e tradicional da linguagem como objeto e colocarem a linguagem como o lugar dos problemas e o meio pelo qual estes se resol vem a abordagem hermenêutica fundada por Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher 17681834 a abordagem lógicosemânti ca inaugurada por Friedrich Ludwig Gotlob Frege 18481925 e a abordagem pragmá tica introduzida por Charles Sanders Peirce 18391914 e desenvolvida por John L Aus tin 19111960 Yu et al 3 Capítulo 1 A concepção moderna de linguagem O objetivo deste capítulo é introduzir o questionamento sobre a linguagem a partir das ideias características da filosofia moder na que tinham no conceito de consciência o seu fundamento Brevemente serão apresen tadas as teorias de Locke Mill e Brentano para os quais a linguagem sempre é pensa da como exterior ao pensamento e como um instrumento de comunicação Em contrapo sição a essas concepções surgirão no século XIX teorias filosóficas acerca da linguagem pelas quais o pensamento e a atividade filo sófica são vistos como dependentes e consti tuídos pela atividade linguística PRODUCT DESCRIPTION Our 45 Farm Tables come in 2 sizes the 60 Dining height or 30 Bar Height Designed for Exteriors and Interiors this Farm Table is Made of Redwood Slats and a Solid Cedar Wood Stretcher The X Legs are precision cut for perfect angles and fit for each table This is a hand made dining table with a frame strong enough to stand up to north Texas weather year round INCLUDING FEET PADS ON THE FRAME TO PROTECT FLOORING Please note the bar height table has a footrest wood under the frame to make it comfortable to lean your feet on while seated Our tables are as is perfect condition for us but please understand that variations in color knots are natural characteristics of hardwood products FINISH SEAL Our tables come raw with a light sand for priming or staining Customer additions to table finish can be done with customers choice of exterior grade wood sealant or oil based stain Oiled finish Mist Exterior grade primer Weatherproof Polyurethane APPLICATIONS Dining tables Restaurant tables Coffee shops Breakfast tables Kitchen tables Bar height tables for outdoor patios Our tables are also perfect for a handful of industrial traditional projects in commercial and residential contracts such as outdoor kitchens garden tables picnic tablesand many others DIMENSIONS 60 LONG 35 WIDE 30 HIGH Bar height dimensions 60 Long 35 Wide 44 High 1 100 wood hand crafted 2 Rustic uneven colors 3 Hand built hand sanded 4 Hardwood solid wood 5 Requires assembly level adjustment with stainless hardware Please be mindful that this is a WOOD BASE product Wood is a living material that responds to the environment moisture temperature air dryness sunlight exposure etc Most will not notice changes with normal care but it is possible to notice changes in wood color slight shrinkage or a healthy natural check crack that wood undergoes with exposure to weather conditions At Magnolia Rustic we embrace the uniqueness of wooden products and take great pride in providing an ecofriendly and natural wood product solution for home and commercial use A concepção moderna de linguagem 17 1 A concepção moderna de linguagem Como foi dito na introdução o tema e os problemas relacionados à linguagem estão presentes já nos primeiros textos reconhecidos pela historiografia da Filosofia A disciplina Filosofia da Linguagem in troduzida em meados do século XX nasce da percepção de que a análise da linguagem poderia dissolver vários problemas clássicos da Filosofia Porém essa percepção nasce de uma reconcepção da ideia mesma de linguagem contraposta às teorias modernas basea das na ideia de consciência e representação O ponto principal está em que para essas teorias a linguagem é exterior ao pensamento e constituise tão somente em um instrumento de comunicação que não afeta a produção das ideias A compreensão moderna da lingua gem está presente em vários autores com nuanças e especificidades tendo como cerne a tese de que a linguagem é um instrumento para a comunicação de pensamentos e ideias os quais são entendidos como internos à mente ou à consciência e inteiramente independentes da linguagem quanto à sua formação e existência O cerne dessa compreensão moderna é a teoria do juízo e do conhecimento que tem como núcleo o conceito de ideia concei to representação como algo mental como um estado da cons ciência As ideias formamse através da percepção e da própria atividade da mente E as palavras são significativas na medida em que expressam ideias não exercendo nenhum papel na sua forma ção De certo modo essa concepção é herdeira da tese de Platão segundo a qual as palavras são para falar e não para conhecer no 18 Filosofia da Linguagem I sentido de que o conhecimento das coisas se dá pelo conhecimen to das ideias e estas embora expressas na linguagem são adquiri das independentemente da linguagem Essa teoria está presente na assim chamada Lógica de Port Royal em que se diz Após termos concebido as coisas por meio de nossas idéias compa ramos essas idéias umas com as outras e verificando que umas con cordam entre si e outras não conectamolas ou separamolas e isso significa afirmar ou negar e dito de modo geral julgar Esse juízo chamase também frase enunciativa e é fácil verificar que esta tem que possuir duas partes uma em relação à qual se afirma ou se nega e que é chamada sujeito e a outra é afirmada ou negada e que é chamada de atributo ou predicado ARNAULD NICOLE La logique ou lart de penser t 2 cap 3 p 57 Nessa passagem fica claro o papel secundário e dependente da linguagem em relação à atividade de pensar e julgar Segundo essa teoria a linguagem é um instrumento de comu nicação e a significação das palavras é uma ideia ou representação mental A linguagem seria algo externo e sensível e o pensamento seria algo interno e nãosensível Além disso um outro pressu posto é de que as ideias existem antes do juízo e por sua vez as palavras são significativas antes de comporem uma frase Essas teses são afirmadas por John Locke As palavras são sinais sensíveis necessários para a comunicação Embo ra o homem tenha uma grande variedade de pensamentos dos quais tanto outros como ele mesmo devem receber proveito e prazer ain da que todos estejam no interior de si mesmos invisíveis e escondidos dos outros e nem possam se manifestar por si mesmos O bemestar e a vantagem da sociedade não sendo realizáveis sem comunicação de pensamentos foi necessário ao homem desvendar certos sinais sensí veis externos por meio dos quais estas idéias invisíveis das quais seus pensamentos são formados pudessem ser conhecidos dos outros LO CKE J Ensaio acerca do entendimento humano livro III cap II O signifi cado das palavras 1 p 223 Notese que a origem da linguagem é explicada por sua utilida de para as interrelações humanas A existência dos pensamentos A concepção moderna de linguagem 19 e das ideias independe da linguagem e a significação linguística depende da ideias e da atividade mental Essas ideias e atividades são internas e invisíveis escondidas no interior de cada um Segundo Locke a linguagem serve para expressar para os outros as ideias que temos na mente as quais se formaram independentemente das palavras e provieram a partir de nossas impressões sensíveis Elas se dão na sequência representada pelos números Porém não há como garantir que essas impressões consigam reproduzir para nós como realmente os objetos são exteriormente a nós apesar de essas impressões existirem em função dos objetos exteriores Por conseguinte As palavras na sua imediata significação são sinais sensíveis de suas idéias para quem as usa Palavras em seu significado primário e imedia to nada significam senão as idéias na mente de quem as usa por mais imperfeita e descuidadamente que estas idéias sejam apreendidas das coisas que elas supostamente representam Quando um homem fala com outro o faz para que possa ser entendido e o fim da fala implica que estes sons como marcas devem tornar conhecidas suas idéias ao ouvin te Estas palavras então são as marcas das idéias de quem fala ninguém pode aplicálas como marcas imediatamente a nenhuma outra coisa ex ceto às idéias que ele mesmo possui já que isto as tornaria sinais de suas próprias concepções e ao contrário aplicálas a outras idéias faria com que elas fossem e não fossem ao mesmo tempo sinais de suas idéias e deste modo não teriam de nenhum modo qualquer significado Sendo as palavras sinais voluntários não podem ser sinais voluntariamente im postos por ele acerca de coisas que não conhece Isto os tornaria sinais de nada sons sem significado Idem cap II 2 p 223 20 Filosofia da Linguagem I Na base da formação das ideias está a sensação A partir dos dados dos sentidos formamse ideias simples como as de quente frio azul pedra e a partir destas formamse as ideias complexas como a de pedra azul fria e também a partir da experiência com objetos particulares como a com pedras azuis verdes brancos por abstração e generalização alcançamse as ideias abstratas de corpo e de cor As ideias não são sensíveis não se dão na sensi bilidade Cada um tem as suas próprias ideias As palavras são as marcas sensíveis pelas quais nós significamos e comunicamos as ideias As ideias propriamente falando são percebidas pela mente tratase aí de uma autopercepção Por isso para Locke as ideias não dependem da linguagem A linguagem é apenas o meio exte rior pelo qual nós podemos comunicar para outrem as ideias que são imperceptíveis pelos sentidos Por conseguinte a relação de dependência é da linguagem em relação às ideias pois a formação das ideias a sua existência e a sua percepção são processos não linguísticos Apenas a expressão e a comunicação das ideias ou a sua exteriorização são dependentes de algum meio sensível e esse meio são os sinais os quais para serem significativos devem estar associados a alguma ideia Essa teoria fornece também uma teoria da compreensão linguísti ca Compreender uma expressão linguística é apreender a ideia ou o pensamento por ela codificados a menos que as palavras de uma pessoa estimulem as mesmas idéias em quem as escuta tornandoas significativas no discurso não fala inteligivelmente Idem cap II 8 p 225 Para Locke isso indica que há uma dupla referência su posta no uso da linguagem a saber a suposição de que as palavras sejam marcas de idéias na mente de outros homens também com as quais se comunicam Idem Cap II 4 p 224 e a suposição de que as palavras significam também a realidade das coisas A linguagem remete ao pensamento ideias e à realidade coisas No entanto adverte Locke essas são apenas suposições do uso da lin guagem pois não há garantia de que essas duas referências sejam efetivas Desse modo coerente com a sua teoria Locke termina por afirmar que as palavras são frequentemente usadas sem significado Essa observação é dirigida sobretudo aos filósofos e contém um pedido que se revelará fatal para muitas teorias dar a significação Ao falar com alguém consigo então transmitir a este alguém as minhas ideias sobre as coisas de que estou falando A concepção moderna de linguagem 21 às próprias palavras O fato é que o mais das vezes repetimos sons articulados conforme a gramática de uso corriqueiro e familiar aprendidos desde a infância sem pensar por conseguinte apenas emitindo ruídos sem significado A advertência de Locke é clara apesar de nem sempre tormarmos o cuidado para examinar ou esta belecer seus significados perfeitamente com frequência ocorre que os homens mesmo quando se aplicam acuradamente a fim de estabe lecer seus pensamentos fixamse mais em palavras do que em coisas Portanto alguns não apenas crianças mas também adultos falam várias palavras de maneira não diversa da dos papagaios apenas porque as aprenderam e foram acostumados a esses sons Idem cap II 7 p 225 A tese geral de Locke é de que o significado apropriado e imedia to das palavras são as ideias na mente de quem fala Não importa o uso que alguém faça das palavras seja qual for a consequência de qualquer pessoa usando palavras diversamente seja com respeito ao seu significado geral seja o sentido particular da pessoa para quem ele as destina é patente que seu significado ao empregálas está limitado por suas ideias e não pode constituir sinais de ne nhuma outra coisa Idem cap II 8 p 225 Essa tese estabelece de saída um problema como podemos saber que utilizamos as palavras para significar as mesmas ideias O surgimento da Filosofia da Linguagem isto é de uma disci plina que valoriza e pensa a linguagem por si mesma passa pelo questionamento de duas consequências e de uma pressuposição dessa teoria de Locke que concebe o significado linguístico como expressão de ideias na mente do falante A primeira consequência é o solipsismo e o ceticismo pois em última análise nós nunca poderemos saber se apreendemos realmente as ideias de outrem e ao contrário também nunca po demos estar seguros de que fomos compreendidos corretamente Cada mente particular tem as suas próprias ideias e apenas através dessas ideias algo pode ser objeto para ela A própria comunicação não é propriamente falando uma transmissão de ideias os signos emitidos por outra mente não trazem as suas ideias mas apenas provocam o surgimento das próprias ideias na mente A segun 22 Filosofia da Linguagem I da consequência é de que o aprendizado da linguagem tornase obscuro pois nas cenas iniciais a criança não pode compreender o que os outros dizem e portanto não pode saber quais palavras estão associadas com quais ideias O pressuposto mais problemá tico é a suposição de que a formação das ideias se dá por abstração e generalização ou seja de que as ideias gerais são alcançadas por isolamento do que é comum na percepção de muitos objetos parti culares Assim a ideia geral de cor seria alcançada pelo isolamento do que é comum a todos os objetos particulares coloridos O pro blema é que assim as ideias que não têm a ver com objetos como as lógicas e muitas das ideias matemáticas ficam sem explicação A partir dessa teoria da linguagem Locke pode explicar o sig nificado de uma enunciação predicativa do tipo Essa pedra está quente e O azul é uma cor Notese que a primeira frase é uma predicação de uma ideia simples de um objeto e que a segunda é a predicação de uma ideia abstrata em relação a uma ideia simples Para Locke em última instância na predicação sempre se estabe lece uma relação entre duas ideias No caso da primeira frase ape nas em aparência se fala de um objeto diretamente Na verdade a expressão Essa pedra indica um dado da sensibilidade uma ideia sensível ou percepção Por meio das palavras e frases nós fa lamos do mundo mas o fazemos porque as palavras e frases ex pressam ideias e essas ideias remetem à experiência com os objetos do mundo Nesse modelo os perceptos e estados da mente são os únicos vínculos e o meio pelo qual o mundo se dá para nós Sub jacente à concepção moderna está a tese aristotélica e agostiniana de que todas as palavras significam do mesmo modo como nomes indiretos de algo nomes de uma ideia que apreende um objeto 11 A teoria dos nomes de Stuart Mill Stuart Mill faz parte da história da formação da Filosofia da Lin guagem por ter defendido uma tese que questiona diretamente o paradigma da representação e da significação linguística exempli ficado por Locke ao mesmo tempo que colocava o estudo da lin guagem como central para a Lógica na sua obra Sistema de lógica dedutiva e indutiva 1843 A importância lógicofilosófica de sua posição foi expressa de modo claro e incontornável Já no primeiro A concepção moderna de linguagem 23 livro denominado Dos nomes e das proposições o primeiro capítu lo diz Da necessidade de começar por uma análise da linguagem e a primeira seção diz Teoria dos nomes parte necessária da lógi ca O qualificativo necessário para a análise da linguagem e para a teoria dos nomes tem de ser lido como dizendo sem isso não temos lógica nem filosofia da lógica Mill com efeito os nomes próprios estão vinculados aos ob jetos em si e não dependem da permanência de qualquer atributo do objeto Ibidem Noutras palavras os nomes não expressam diretamente ideias de objetos e não apanham nem apreendem os objetos por codificarem algum conceito deles mas antes mantêm com eles relações exteriores e contingentes relação esta denomi nada por Mill de denotação Essa relação é direta e nãomediada Todavia há outra relação entre palavras e objetos denominada conotação que consiste em reunir um plexo de notas caracte rísticas as quais selecionam ou não um objeto Considerese a palavra retângulo Muitos objetos são nomeados por essa pala vra isto é podem ser indicados por essa palavra campos de fute bol bandeira do Brasil livros figuras etc Por isso propriamente falando essa palavra não é um nome próprio de um ou de outro objeto mas um nome comum a muitos objetos E ela nomeia vários objetos na medida em que co nota os atributos angular reto quadrilateral e denota aqueles objetos que possuem esses atributos conjuntamente Vêse que os nomes comuns nomeiam de maneira indireta pela mediação das notas características No entanto a tese que será associada ao nome de Mill é a que afirma que os nomes são nomes das coisas mesmas e não de nos sos conceitos ou ideias das coisas e que os nomes próprios de notam os indivíduos a quem dão o nome mas não afirmam nem implicam qualquer atributo como pertencente a esses indivíduos Idem livro I cap II 5 p 101 Essa é uma ideia revolucionária no que se refere às relações entre linguagem consciência e mundo Vou continuar estudando e ver como são segundo Mill as relações entre a mente a linguagem e o mundo 24 Filosofia da Linguagem I A tese de Mill é de que os nomes próprios não têm conotação mas apenas denotação O que significa dizer que um nome pró prio não indica nenhum atributo do objeto nomeado Considere se para isso a diferença entre as palavras humano e Sócrates Ambas podem ser usadas para indicar um determinado objeto de discussão em frases do tipo Ele é humano Ele é Sócrates No entanto a palavra humano ao ser dita de algo implica que esse algo tem vários atributos codificados na definição de humano tais como animal mamífero vertebrado linguageiro capaz de matar gratuitamente etc Já a palavra Sócrates não implica se gundo Mill nenhum atributo Embora essa concepção seja um pouco estranha ela tem base numa percepção do uso dos nomes próprios pois a despeito de os nomes estarem associados a ideias qualquer palavra pode ser um nome mais ainda diferentes ob jetos e pessoas podem ser nomeados por uma mesma expres são sem que isso implique que eles tenham alguma característica em comum A partir da tese de Mill podese levantar as seguintes questões para a teoria moderna o que há de comum entre as pes soas que se chamam José e o que há de comum entre as pessoas denominadas vaidosas Como as palavras do tipo de e para e tanto significam elas são nomes próprios ou nomes comuns Notese que para Locke sempre há uma ideia associada a uma palavra significativa e que se dois objetos têm o mesmo nome em princípio a esse nome deveria estar associada a mesma ideia Não é apenas a correlação entre consciência linguagem e realida de que é modificada pela tese de Mill Essa concepção representa também uma modificação do conceito mesmo de julgar afirmar e negar Conforme a teoria padrão moderna julgar é conectar ou separar ideias como vimos antes Ainda em Kant encontramos essa concepção de juízo Um juízo Urtheil é uma representação da unidade da consciência de diversas representações ou a representa ção da relação entre elas na medida em que constituem um concei to KANT I Manual dos cursos de Lógica Geral 2003 p 201 No plano da linguagem um juízo é expresso normalmente por uma frase declarativa E uma frase declarativa simples compõese de uma ideiasujeito e de uma ideiapredicado Se for aceita a tese de Mill esse esquema deve ser modificado pois sua tese é de que A concepção moderna de linguagem 25 um nome concreto é um nome que está por uma coisa um nome abstrato é um nome que está por um atributo de uma coisa Idem livro I cap II 4 Logo numa frase do tipo Sócrates é humano não temos mais duas ideias sendo unidas mas antes uma ideia a de humanidade sendo atribuída a um objeto Sócrates Se Sócrates possui as determinações conotadas pela palavra humano então a afirmação é verdadeira Dito de modo diferente se Sócrates per tence à classe de indivíduos selecionada pela conotação de huma no a afirmação é verdadeira do contrário é falsa Para Mill a palavra Sócrates tem apenas uma denotação o objeto a que se refere A palavra Humano além de denotar os objetos que são humanos conota os atributos da humanidade animalidade racionalidade etc Contudo a despeito de valorizar a análise da linguagem Mill ainda mantém a concepção do caráter instrumental da linguagem A Lógica é uma parte da arte do pensar a linguagem de acordo com o testemunho de todos os filósofos é evidentemente um dos principais instrumentos úteis ao pensamento Um espírito que sem estar pre viamente instruído sobre a justificação e o justo emprego das diversas classes de palavras empreendesse o estudo dos métodos de filosofar seria como aquele que quisesse chegar a ser observador em astronomia 26 Filosofia da Linguagem I sem ter aprendido a acomodar a distância focal dos instrumentos de ótica para uma visão distinta Idem Introdução cap 1 A ideia revolucionária de Mill está em eliminar o mediador representacional mental e interno como fundamento da signi ficatividade dos nomes próprios Nesse caso a palavra o signo remete à coisa objeto diretamente No entanto a teoria de Mill é incompleta pois ela não explica como então uma palavra pode significar um objeto e sobretudo como é que diferentes falantes podem se fazer compreender usando uma mesma palavra A res posta para essas questões será fornecida pelas teorias do uso e do batismo teoria da referência direta e teoria causal da referência somente em meados do século XX 100 anos depois conferir cap 101 e 102 Outra ideia revolucionária de Mill é a de que as pala vras significam de modo diferente de que há diferentes modos de uma expressão linguística ser significativa Essa ideia será uma das mais fecundas no século XX Todavia a teoria de que os nomes têm apenas denotação refe rência e nenhuma conotação enfrenta várias dificuldades Uma de las é o uso de nomes próprios em textos de ficção Considerese o nome Sócrates Segundo a teoria de Mill esse nome é significativo por denotar um indivíduo seja ele qual for quando não se tem esse indivíduo dado diretamente na experiência A pergunta que surge então é a de que como sabemos a que indivíduo se está a referir quando utilizamos um nome Se a palavra Sócrates por tratarse de um nome próprio não depende de nenhum atributo associado a Sócrates para nomeálo de nenhuma conotação então como se pode saber de qual Sócrates alguém fala quando usa esse nome já que existe mais de uma pessoa chamada Sócrates no mundo Pa rece que a teoria da denotação de Mill pode funcionar bem somente com números já que só existe um 3 no mundo e nomes que no meiam apenas um indivíduo Além disso por contraste considere se o nome Diadorim no texto Grande Sertão Veredas Embora funcione como nome próprio e o texto seja compreensível não há propriamente falando um indivíduo que seja Diadorim Porém se a função semântica dos nomes próprios é tão somente nomear um indivíduo então os nomes tal como Sócrates e Diadorim em bora usados da mesma maneira funcionam de maneira diferente A concepção moderna de linguagem 27 12 A teoria da intencionalidade da consciência e a linguagem Entrementes outro autor havia proposto uma tese semântica que pode ser vista como o oposto exato da tese de Mill Com efei to Bernard Bolzano 17811848 havia defendido contra Kant que havia representações que não representavam nenhuma coisa e conceitos que não se aplicavam a nada embora tivessem uso legí timo na ciência Aplicada essa teoria às expressões linguísticas en tendidas como representações verbais isso implicaria que certas expressões seriam significativas sem que por isso denotassem algo Se a tese de Mill é de que uma expressão pode ser significati va sem a intermediação de ideias ou representações apenas por denotar ou referir diretamente um objeto a tese de Bolzano é de que uma expressão pode ser significativa apenas por compor uma frase significativa e expressar uma ideia ou representação que não se aplica ou representa nenhum objeto Uma reação às teses de Mill e de Bolzano retomando a teoria de uma intermediação entre linguagem e mundo foi desenvolvi da na escola de Franz Brentano 18381917 a partir da tese da intencionalidade da consciência Segundo essa tese todos os atos conscientes estão dirigidos para objetos A cada ato corresponde um conteúdo o qual tem como ingredientes uma representação e um representado A relação entre consciência mente represen tação estados psíquicos e as coisas é direta é da ordem da percepção e a linguagem tal como em Locke é exterior ao pensamento o qual in depende da atividade linguística para se formar e ocorrer Um estado consciente como um desejo é pensado nessa escola como um ato consciente que tem um conteúdo determinado Assim de sejar a laranja da vitrine é diferente de desejar ser feliz A diferença está no conteúdo do desejo pois os diferentes objetos no caso a laranja e a própria felicidade são pensados de certa maneira são visados de um modo que pode ser diferente em 28 Filosofia da Linguagem I diferentes indivíduos Logo devese diferenciar o objeto e o modo de representação do objeto Assim um desejo é um ato com um conteúdo e esse conteúdo tem como ingredientes uma represen tação e um representado Aplicada à linguagem a teoria da intencionalidade concebe as expressões linguísticas como sinais de representações resultantes de atos conscientes representações essas que têm um conteúdo que visa ou está direcionado para um objeto A seguinte passagem de Kasimir Twardowski ilustra bem essa concepção quando apli cada à linguagem 3 Nomes e representações Mesmo se falar e pensar não estejam relacionados um com o outro numa relação de paralelismo completo existe todavia uma analogia entre os fenômenos psíquicos e as formas da linguagem que os desig nam que pode servir para clarear as propriedades dominantes sobre o primeiro domínio ao se mencionar as particularidades que são próprias às manifestações do outro domínio A respeito da distinção em conside ração entre o conteúdo de representação e o objeto de representação é a consideração do nome Namen como o signo lingüístico de uma representação que propiciará a tarefa Uma questão seguidamente já levantada em relação aos nomes forne ce a prova de que sobre uma representação uma tríplice distinção deve ser feita Mill ao tratar dos nomes levantou a questão de se eles devem ser considerados como nomes das coisas Dinge ou de nossas repre sentações das coisas Por coisas ele compreende aqui o mesmo que nós designamoscomo objetos de representação mas com representa ções ele apenas pode significar os conteúdos de representações e não os atos de representação A resposta que Mill dá à questão citada refe rindose a Hobbes pressupõe de maneira nada ambígua uma distinção entre o conteúdo e o objeto de uma representação A palavra sol pen sa Mill é o nome do sol e não o nome de nossa representação do sol entretanto ele não quer negar que unicamente a representação e não a coisa Sache mesma é evocada pelo nome ou comunicada ao ouvinte A função Aufgabe do nome parece como sendo dupla o nome comu nica mitteilt ao ouvinte um conteúdo de representação e ao mesmo tempo nomeia nennt um objeto Mas era um tríplice momento e não dúplice que nós pensávamos dever distinguir em cada representação o ato o conteúdo e o objeto E se o nome oferece uma imagem exata Atente para como a noção de intencionalidade o estar dirigido para um objeto está presente para determinar o que é a linguagem nessa teoria A concepção moderna de linguagem 29 na linguagem das relações psíquicas que lhe correspondem então ele também deve indicar ainda um correlato para o ato de representação De fato este está presente e aos três momentos da representação ao ato ao conteúdo e ao objeto corresponde uma tríplice função que cada nome deve cumprir Compreendese por um nome tudo o que os lógicos antigos denomi naram um signo categoremático Porém signos categoremáticos são todos os meios de designação da linguagem que não são meramente cosignificantes como do pai em redor enquanto isso etc mas que também não formam por si mesmos a expressão completa de um juízo enunciado ou de um sentimento e de uma decisão da vontade etc agradecimentos questões ordens etc mas simplesmente a expres são de uma representação O fundador da ética um filho que ofendeu o pai são nomes Agora qual é a função que os nomes devem cumprir Claramente a de evocar no ouvinte um conteúdo de representação determinado Quem diz um nome pretende evocar no ouvinte o mesmo conteúdo psíquico que ele cumpre para ele mesmo se alguém diz sol lua estrelas pre tende que aqueles que o escutam pensem como ele no sol na lua nas estrelas Mas quando aquele que fala pretende evocar no ouvinte pela denominação de um nome um conteúdo psíquico determinado ele lhe revela ao mesmo tempo que encontra nele mesmo este conteúdo logo ele se representa aquilo mesmo que ele deseja que o ouvinte tam bém se represente Por isso o nome cumpre já duas funções Primeiro ele informa que aquele que emprega o nome se representa algo ele indica a presença de um ato psíquico naquele que fala Segundo ele evoca no ouvinte um conteúdo psíquico determinado Esse conteúdo é o que se compreende pela significação Bedeutung do nome Com isso as funções do nome não estão esgotadas Ele cumpre uma ter ceira a saber a função de denominar objetos Os nomes são nomes de coisas diz Mill e ele apela legitimamente para fundar isto ao fato de que nós nos servimos dos nomes para comunicar algo etwas sobre as coi sas Dinge etc Enquanto terceira função que um nome cumpre apare ce a denominação de objetos As três funções do nome são primeiro a informação dada de um ato de representação que ocorre naquele que fala Segundo a evocação de um conteúdo psíquico da significação do nome naquele a quem a fala se dirige Terceiro a denominação de um objeto que é representado pela representação significada pelo nome 30 Filosofia da Linguagem I A remissão às três funções que cada nome cumpre confirma então de uma maneira perfeita a distinção do conteudo em relação ao objeto de uma representação E graças a consideração do signo lingüístico para a representação nós temos um meio de distinguir um fator do outro que por causa da imperfeição da linguagem que designa como represen tado o conteúdo e também o objeto podem ser facilmente confun didos um com o outro ou bem considerados como sendo uma única coisa TWARDOWSKI K Sobre a doutrina do conteúdo e do objeto das representações Notese em primeiro lugar o primado das representações e dos estados de consciência na constituição da significação linguística Além disso notese também que a linguagem é um intermediador entre consciências as quais cada uma tem as suas próprias repre sentações na linha sugerida por Locke Em última instância cada consciência está isolada das outras consciências e também em rela ção ao mundo apenas pode considerar aquelas coisas das quais tem uma representação ou ideia Isso fica claro na seguinte passagem Uma outra prova em favor da diferença real e não simplesmente lógi ca entre conteúdo e objeto de representação nos é dada por aquilo que se denomina representações intersubstituíveis Wechselvorstellun gen Por estas se compreende conforme a definição habitual repre sentações que têm a mesma extensão mas um conteúdo diferente Por exemplo são representações desse tipo o lugar em que se situava a cidade romana Juvavum e o lugar de nascimento de Mozart Os dois nomes significam bedeuten algo diferente mas eles nomeiam nen nen o mesmo Agora como nós vimos visto que a significação de um nome coincide com o conteúdo da representação designada por ele e que aquilo que é nomeado pelo nome é o objeto da representação en tão as representações intersubstituíveis podem também ser definidas como representações nas quais o conteúdo difere mas pelas quais é o mesmo objeto que é representado Para isso porém a diferença entre conteúdo e objeto já está dada Pois pensase em algo inteiramente diferente com o lugar em que se situava a cidade romana Juvavum e com o lugar de nascimento de Mozart Essas duas representações reú nem partes constitutivas muito diferentes Na primeira aparecem como partes constitutivas a representação de romanos de um lugar antigo de uma cidade fortificada na segunda representação aparecem como partes constitutivas a representação de um compositor de uma relação que o mesmo mantém com sua cidade natal enquanto que a relação A concepção moderna de linguagem 31 com uma colônia antiga que se encontrava sobre este lugar e estava re presentada pela primeira representação não aparece A despeito dessas enormes diferenças nas partes constitutivas dos conteúdos de repre sentação nomeados os dois conteúdos se relacionam entretanto a um único e mesmo objeto As mesmas características que cabem ao lugar de nascimento de Mozart aplicamse também ao lugar que foi a locali zação da cidade romana Juvavum este é idêntico ao lugar de nascimen to de Mozart o objeto das representações é o mesmo o que distingue as duas representações é o seu conteúdo diferente Fácil é aplicar o que foi dito às representações cujo objeto não existe Um círculo no sentido rigorosamente geométrico não existe em ne nhum lugar Contudo podese representálo de maneiras muito dife rentes seja como linha de uma curva constante seja como formação que é expressa pela equação x a2 y b2 r2 ou ainda enquanto linha cujos pontos estão todos à mesma distância de um ponto deter minado Todas essas representações diferentes se referem ao mesmo O mesmo a que elas se referem é o seu objeto aquilo em que elas diferem entre si é o seu conteúdo 6 Fazse assim notar a diferença em relação a Bolzano pois a teoria da intencionalidade explica a propriedade dos atos cons cientes inclusive dos atos linguísticos como sempre direcionados para um objeto mas esse objeto nem sempre é existente Tratase de uma diferença na concepção de objeto e de representação O último parágrafo da passagem acima afirma que o círculo geomé trico não existe e ao mesmo tempo as suas diferentes represen tações inclusive as linguísticas têm um e o mesmo objeto Nesse caso Bolzano diria que se trata de uma representação sem objeto que o que temos aí é apenas uma representação a qual não precisa de um objeto correlato para ser útil e legítima Porém isso contra diz a teoria da intencionalidade Na verdade a teoria original de Brentano era justamente essa a da inexistência irrealidade do objeto intencional Isso se explica pela tese de que o objeto inten cional é primariamente um pensado ou representado sendo indi ferente se ele é real ou não por conseguinte tratase de um obje to imanente à consciência representacional Ou seja para toda representação sempre há um objeto intencional mesmo quando não possa haver um objeto real Esse primado da representação fica claro noutro representante dessa escola Alexius Meinong Note que a teoria da intencionalidade é tanto contrária à teoria da linguagem apresentada por S Mill quanto contrária à teoria de Bolzano 32 Filosofia da Linguagem I para quem toda expressão nominativa designativa ou referencial seja um nome próprio seja uma descrição definida sempre ex pressa uma representação e designa um objeto Toda vivência interior ao menos todas aquelas suficientemente ele mentares tem um tal objeto e na medida em que a vivência chega à expressão Ausdruck e logo às palavras e frases da linguagem a esta expressão corresponde normalmente um significado Bedeutung e este significado sempre é um objeto Por conseguinte também todo saber Wissen naturalmente tem a ver com os objetos Meinong Auto apresentação 1920 Nessa passagem fica claro o caráter secundário da linguagem no sentido de que a formação das representações e a constituição dos objetos de conhecimento independem e são anteriores ao pro cesso de expressão e comunicação Justamente essa relação entre linguagem objeto e pensamento é que será modificada pelas filo sofias linguisticamente orientadas que veremos a seguir O comum a essas novas teorias será justamente o fato de colocarem a lingua gem como condição e meio para a formação de representações e para a constituição de objetos Leituras recomendadas AGOSTINHO De magistro São Paulo Abril Cultural 1980 ARISTÓTELES Categorias In Órganon Tradução do grego textos adicionais e notas de Edson Bini Bauru Edipro 2005a Livros 1 a 4 ARISTÓTELES Da interpretação In Órganon Tradu ção do grego textos adicionais e notas de Edson Bini Bauru Edipro 2005b Livros 1 a 8 LOCKE J Ensaio acerca do entendimento humano São Paulo Abril Cultural 1980 PLATÃO Crátilo Belém Universidade Federal do Pará 1973 Notas e tradução de Carlos Alberto Nunes A concepção moderna de linguagem 33 Reflita sobre A relação entre as sensações os estados mentais as palavras as ideias e as coisas do mundo tendo como base os autores modernos como Descartes Locke Hume e Kant O problema de como duas pessoas podem ter certeza e ga rantir que estão falando e discutindo a mesma ideia e o mes mo objeto HERONS RESIN TABLES We created these unique handcrafted extralarge resin flowers embedded on real wood slabs as statement pieces for interior decoration and art collectors We highlight the beauty of the flowers with size color and design These resin tables combine artistry and craftsmanship reflecting a premium quality aesthetic Capítulo 2 Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental O objetivo deste capítulo é apresentar a tese de que a linguagem é constitutiva do pensa mento ideias e do mundo objetos e que por conseguinte a análise da linguagem e do modo de emprego das expressões linguísticas é um método apropriado para a resolução de problemas filosóficos Cast in Clear and Opal Resin and Divided by Walnut Hand Carved Decorative Dividers each slab is unique displaying elegant flower centerpieces These wooden slabs are cut into two vertical pieces and separated by walnut dividers forming an eyecatching resin table Cannot be reordered each piece is unique Made in Texas USA Dimensions 64 x 36 x 3 Designed Cast and Built using quality materials by Magnolia Rustic Texas 2021 A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 37 2 A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental As concepções apresentadas no capítulo anterior embora apre sentem teses e conceitos divergentes têm em comum um modo de tratamento da linguagem que a toma como um objeto entre outros objetos para a consideração filosófica e trata os problemas relati vos à linguagem como problemas externos à própria atividade do pensamento Não fora diferente o modo como Platão e Aristóteles configuraram o pensamento ocidental sobre linguagem durante séculos Esse modo objetificador sofreu mudanças radicais duran te o século XIX e meados do século XX Hum No Capítulo 1 as ideias e a lingua gem eram independentes agora elas são indissociáveis A essa modificação costumase hoje denominar de virada ou transformação linguística da Filosofia O cerne dessa transfor mação está no deslocamento do lugar e do meio em que se dá a Exemplos de texto que demonstram isso são APEL KO Transformação da Filosofia I II São Paulo Martins Fontes 2000 RORTY Richard The Linguistic Turn Essays in Philosophical Method A virada linguística ensaios no método filosófico Chicago University of Chicago Press 1967 TUGENDHAT Ernst Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem Ijuí Unijuí 2006 38 Filosofia da Linguagem I própria atividade do pensamento e por conseguinte na alteração da metodologia filosófica Para ilustrar o começo dessa transformação da posição da lin guagem na consideração filosófica eu vou apresentar muito abre viadamente as teses de três pensadores provenientes de escolas bem diferentes cujas teorias maduras estão na base das filosofias da linguagem atuais Com efeito Friedrich Daniel Schleiermacher Friedrich Wilhelm Nietzsche e Friedrich Gottlob Frege adotando o ponto de vista crítico de Hume e Kant mas se afastando desse ponto de vista em grande medida compreenderam que a linguagem não era apenas um objeto exterior ao pensar e à atividade filosófica mas que esta atividade era propriamente falando uma atividade reali zada na e pela linguagem Eles então afirmaram que os diferentes conceitos básicos da Filosofia como os de ser sujeito e consciência propriedade e relação valor e dever eram na verdade sempre deri vados das funções gramaticais e as diferenças conceituais e catego riais correlatas de diferenças no modo de emprego de expressões linguísticas A tese comum a esses pensadores era de que as filosofias formuladas até então eram epifenômenos da gramática comum da língua e giravam sempre em torno das estruturas gramaticais sujei toaçãoobjeto sujeitopredicado agenteinstrumentopaciente Noutras palavras eles sugeriram que a linguagem exercia um papel bem mais fundamental do que aquele atribuído pelas filosofias tra dicionais na constituição do pensamento e do mundo Nas palavras de Schleiermacher Tudo o que é pressuposto na hermenêutica é apenas linguagem e por sua vez o que alcançamos pela hermenêutica também é linguagem o lugar a que pertencem os outros pressupostos objetivos e subjetivos tem de ser encontrado através e a partir da linguagem SCHLEIERMACHER F Herme nêutica arte e técnica da interpretação Tradução de C R Braida Petrópolis Vozes 1999 De acordo com essa posição pensar e fa lar são uma única operação pois a linguagem é o modo de o pen samento se efetivar Todavia a tese de Schleiermacher chega ao pon to de tornar a linguagem constitutiva do pensamento no sentido de que nós não poderíamos pensar sem a linguagem Por conseguinte a linguagem assim não seria apenas um objeto do pensamento mas o meio e o modo pelo qual nós podemos pensar objetivamente Consulte o livrotexto de Filosofia da Ciência para ter uma boa compreensão do que é hermenêutica A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 39 Essa tese é também defendida por F Nietzsche que afirmava resumindo uma longa série de indicações sobre a linguagem ao longo de sua obra no livro Crepúsculos dos ídolos na medida em que o preconceito racional nos força a por a unidade a identidade a duração a substância a causa a coisidade o ser vemonos por assim dizer enredados no erro coagidos ao erro porque em virtude de um exame estrito estamos seguros de que o erro ali se encontra A linguagem segundo a sua origem inscrevese na época da mais rudi mentar forma de psicologia mergulhamos num feiticismo baço quando trazemos à consciência os pressupostos fundamentais da metafísica da linguagem isto é da razão A consciência vê por toda a parte actores e ação crê na vontade como causa em geral crê no Eu no eu como ser no eu como substância e projecta a fé na substância do eu em todas as coisas e assim cria o conceito coisa O ser é em toda parte pensado presumido como causa da concepção do Eu seguese como derivado o conceito de ser Na realidade nada até agora teve uma força de convicção mais ingênua do que o erro do ser tal como foi por exemplo formulado pelos eleatas tem a seu favor cada palavra cada frase que pronunciamos Mas também os adversários dos eleatas se sujeitavam à sedução do seu conceito de ser Demócrito entre outros quando des cobriu o átomo A razão na linguagem oh que velha mulher enga nadora Receio que não nos livremos de Deus porque ainda cremos na gramática Nietzsche F Crepúsculos dos ídolos p 32 Para Nietzsche a linguagem se interpõe entre o pensamento e o real configurando o modo como nós pensamos o pensado Longe de ser um mero objeto a ser considerado de fora a linguagem instaura um esquematismo que conforma previamente o modo como os ob jetos nos são dados e o modo como os pensamentos são articulados Pensamento Objetos Linguagem Nessa perspectiva a linguagem é o meio pelo qual nós constituímos os objetos Nas palavras de Frege no Diálogo com Pünjer sobre a existência falando do modo como a história da formação da linguagem não segue necessariamente a lógica do conceito essa tese é dita assim A linguagem valeuse de outros meios Para a construção de um con ceito sem conteúdo servese ela da cópula isto é a simples forma do 40 Filosofia da Linguagem I enunciado sem conteúdo Na sentença O céu é azul o enunciado é é azul mas o conteúdo real do enunciado está na palavra azul Se esta é eliminada então obtémse um enunciado sem conteúdo o O céu é restante Desse modo constróise um quaseconceito ser Seiendes sem conteúdo porque de extensão infinita Agora podese dizer Ho mem homem sendo Há homens é o mesmo que Alguns homens são ou Alguns entes são homens O conteúdo real do enunciado não está aqui na palavra ser mas na forma dos enunciados particulares A palavra ser é apenas um expediente da linguagem para poder tornar empregável a forma dos enunciados particulares Quando os filósofos falam do ser absoluto tratase aí propriamente de um endeusamento da cópula Dialog mit Pünjer über Existenz In FREGE G Schriften zur Logik und Sprachphilosophie hrsg von G Gabriel Hamburg Felix Mei Hamburg Felix Mei ner 1978 p 1617 Essas duas últimas passagens são críticas ambas denunciam uma ilusão Nelas os filósofos estão nos advertindo para um pe rigo qual seja o de confundirmos necessidades linguísticas de dicto com necessidades reais de re e nisso eles apenas repetem Aristóteles na sua crítica aos sofismas dos sofistas Nietzsche foi claro na sua posição crítica e no papel da linguagem A crença na gramática no sujeito e no objeto linguístico e nas palavras de atividade subjugou até agora os metafísicos esta crença eu ensino a abjurar KSA XI 35 35 p 526 Todavia para Nietzsche ainda a lingua gem era exterior ao pensamento constituindo apenas um empecilho a não ser ilusoriamente se pensa em palavras pois quem pensa em pa lavras não pensa as coisas os objetos não pensa objetivamente Ge nealogia da moral III 8 p 122 Nesse sentido pensar seria lutar contra as armadilhas da linguagem XI 3584 a luta contra a linguagem XI 25337 visto que estamos habituados onde as palavras nos faltam a não observar com rigor porque é penoso continuar a pensar com rigor e outras vezes concluise automaticamente que onde termina o reino das palavras aí termina o reino da existência Aurora 115 p 107 Por sua vez para Frege a análise da linguagem funcionava como um esforço para livrarse de falsas concepções induzidas pela linguagem Dizia Frege com efeito Vêse aqui como se é induzido facilmente pela linguagem a falsas concepções e qual valor deve ter para a Filosofia livrarse do domínio da linguagem Quando se tenta construir um siste ma de sinais com fundamentos e meios inteiramente diferentes como eu tentei com a construção de minha Conceitografia por assim dizer A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 41 batese com o nariz em falsas analogias da linguagem Diálogo com Pünjer p 22 Nesse sentido foi que Frege lutou para que a estrutura sujeitopredicadoobjeto não fosse sobreposta sobre a estrutura do realpensamento Um pensamento pode ser decomposto de múlti plos modos e por isso algumas vezes aparece uma coisa noutras outra como sujeito ou como predicado O pensamento mesmo não determi na o que deve ser considerado como sujeito A linguagem possui meios para fazer que apareça como sujeito algumas vezes uma parte do pensamento outras vezes outra KS s 173 E ainda Em vez de seguir cegamente a gramática o lógico deveria antes ver a sua tarefa como a de libertarnos dos grilhões da linguagem Porque embora seja verdade que o pensamento pelo menos nas suas formas mais elevadas só é possível por meio da linguagem temos de ter muito cuidado para não nos tornarmos dependentes da linguagem muitos dos erros que ocor rem no raciocínio têm a sua fonte nas imperfeições lógicas da lingua gem Logik NS p 155 ou ainda não se pode confiar na linguagem no que tange a problemas lógicos De fato não é a menor das tarefas do lógico indicar que ciladas a linguagem prepara ao pensador Investiga ções lógicas 2002 A negação p 53 Todavia isso que Frege e Nietzsche apontaram como sendo uma fonte de ilusão para a razão condensada no refrão comum a ambos livrarse das malhas da linguagem foi três ou quatro décadas depois posto como tese positiva e como condição incon tornável e hoje é tida como uma das pressuposições metódicas mais confiáveis para o exercício filosófico Essa proximidade po deria esconder uma diferença fundamental das concepções de Nietzsche e Frege em relação à linguagem em geral diferença essa que está na raiz das querelas e oposições que estão na origem da separação entre Filosofia hermenêutica e Filosofia analítica ou Fi losofia da análise lógicosemântica Diante do diagnóstico de que as linguagens históricas contêm concepções esquemas e conceitos que podem levar a erro e a enganos além de não serem unívocas e suas regras gramaticais não estarem fundadas nas leis lógicas Frege se propõe a construir uma nova linguagem na qual esses problemas seriam evitados Nietzsche ao contrário simples mente admite o problema mas entende que não há como corrigir isso pois de qualquer modo a nova linguagem estaria sujeita aos efeitos da história e da diversidade humana O problema pode ser posto de maneira neutra seria possível uma linguagem intei 42 Filosofia da Linguagem I ramente transparente sem ambiguidades com regras grama ticais logicamente corretas e inteiramente adequadas para ex pressar as coisas e os fatos A aposta de Frege é que sim embora as línguas históricas e linguagens existentes não o sejam seria pos sível construir Aufbauen uma linguagem artificial e estipulada inteiramente transparente quanto ao sentido de suas expressões De certo modo desde então os lógicos e filósofos analíticos têm perseguido esse ideal e em grande parte têm sido bemsucedidos A resposta de Nietzsche no que ele é acompanhado por todos os hermeneutas é que a historicidade a criatividade e a variedade dos interesses humanos implicam que sempre haverá um resto de equivocidade e de opacidade na linguagem o que exigiria um tra balho de interpretação um esforço de exegese até mesmo para as linguagens artificiais de modo que a linguagem restaria sempre intransparente em algum sentido Há algo de válido nessa tese de Nietzsche que se mostra justamente no fato de que a própria lin guagem artificial proposta por Frege hoje apareça como um enig ma obscuro de difícil compreensão e sobretudo no fato de que as linguagens artificiais sempre dependam de uma linguagem natural para serem introduzidas A contraposição pode ser formulada de modo claro em termos de relação entre duas linguagens Admitido o caráter intrínseco da linguisticidade na constituição da realidade e do pensamento e admitido o fato da multiplicidade das linguagens o problema é o da tradutibilidade de um fragmento de uma linguagem num frag mento de outra Como traduzir uma língua natural para uma linguagem artificial sem distorcer os sig nificados Sem levar para a linguagem artifi cial o problema das contingências da língua que se busca sanar Como veremos Frege admite e nisso é seguido pela maioria dos filósofos analíticos lógicos e matemáticos que é possível ex A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 43 pressar o mesmo conteúdo com expressões linguísticas diferen tes A tradição hermenêutica na qual se abrigam Schleiermacher Nietzsche e Heidegger entendem que as diferenças linguísticas são incontornáveis e que elas determinam o conteúdo de tal modo que não é possível dizer a mesma coisa com palavras diferentes O cerne do debate está na separabilidade e na independência ou não entre pensamento mundo e linguagem Ainda assim há uma tese de fundo aceita pelas diferentes cor rentes a saber que toda e qualquer determinação e estruturação da realidade tenha como fonte a linguagem mais precisamente a gramática e que tanto a consciência do mundo quanto a cons ciência de si apenas se nos dão por meio e através das formas e esquematismos linguísticos O que está sendo assim dito é claro o real experimentado en frentado e vivido no curso da existência humana individual e co letiva é ele mesmo estruturado pela consciência que sempre já é perpassada e constituída pela linguagem A partir dessa compre ensão a linguagem foi posta como o indicador do lugare a análise da linguagem como o único modo de se filosofar Com relação ao conhecimento e ao mundo a descrição semântica das expres sões e a análise da linguagem seriam os únicos meios pelos quais se poderia considerálos e esclarecêlos Com efeito a partir da afirmação de Ludwig Wittgenstein de que Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo os limites da linguagem a linguagem que só ela eu entendo significam os li mites de meu mundo logo inferiuse que a pergunta mesma acer ca da essência de um objeto era respondida pela gramática Que espécie de objeto algo é é dito pela gramáticaWITGENSTEIN IF 373 Esse postulado metódico foi estendido para todas as ciências por Rudolf Carnap ao estabelecer o teorema segundo o qual a indicação da essência de um objeto ou o que é o mesmo a indicação do nominatum de um signo de objeto consiste na indi cação dos critérios de verdade para as sentenças nas quais o signo desse objeto pode ocorrer levando a corrente da filosofia analítica à tese de que ser é ser o valor de uma variável de uma linguagem WITTGENSTEIN L Tractatus LogicoPhilosophicus São Paulo EDUSP 1993 e WITTGENSTEIN L Investigações filosóficas São Paulo Victor Civita 1984 Os Pensadores CARNAP R The Logical Structure of the World Pseudoproblems in Philosophy Transl R A George Berkeley University of California Pr 1969 44 Filosofia da Linguagem I regimentada W O Quine Por seu lado a tradição da filosofia hermenêutica partindo da tese da universalidade da linguagem de Schleiermacher alcançou a tese de que é na palavra é na lingua gem que as coisas chegam a ser e são O ponto mais elevado des se movimento foi atingido por um filósofo que sabia muito bem o que estava dizendo e que pretendia fazer ressoar na sua palavra os ditos de Schleiermacher Nietzsche Wittegenstein e Heidegger ao enunciar com segurança e clareza que ser que pode ser com preendido é linguagem GADAMER HG Verdade e método I Petrópolis Vozes 1999 Leituras Recomendadas APEL KO Transformação da Filosofia I II São Paulo Martins Fontes 2000 TUGENDHAT Ernst Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem Ijuí Unijuí 2006 Reflita sobre A compreensão que se tem dos objetos e dos acontecimentos do mundo e sua relação com as formas pelas quais nós fala mos e dizemos o que há e o que acontece A relação entre o conteúdo de nossos julgamentos e pensa mentos por um lado e as palavras e formas linguísticas dis poníveis para expressar esses juízos por outro No livro A caminho da linguagem Heidegger arrematou comentando o verso Nenhuma coisa seja onde a palavra faltar de Stefan George O poder da palavra raia como a condição da coisa como coisa de tal modo que a saga do dizer num mostrar deixa o ente aparecer em seu é há dáse HEIDEGGER p 188 Capítulo 3 A concepção hermenêutica de linguagem Neste capítulo será apresentada a concepção hermenêutica da linguagem tendo como base o pensamento do fundador moderno dessa tradição F Schleiermacher O ponto principal dessa abordagem é a noção de que a signifi cação linguística é dependente da situação de proferimento e do contexto discursivo os quais entrelaçam o que é dito por um discurso com a vida do falante e a história do mundo The Earth is flat The flat earthers are right The globe diameter is 12742 km and the flat earth diameter is also 12742 km A concepção hermenêutica de linguagem 47 3 A concepção hermenêutica de linguagem As teorias filosóficas da linguagem abordadas até aqui estão orientadas para a resolução de problemas relativos à lógica e ao co nhecimento e em geral têm por objetivo resolver os problemas do conceito de representação adequada da realidade Todavia um dos problemas mais antigos em relação à linguagem é o da compreen são do discurso do outro e o da interpretação de textos Em torno dessa problemática surgiu a concepção hermenêutica que tem como foco a linguagem pensada prioritariamente como uma ex pressão do pensamento humano O pensador que inaugura essa forma de pensar é Friedrich D E Schleiermacher 17681834 cuja obra a partir de uma sequência ininterrupta de trabalhos e discus sões instaurouse como uma das mais fecundas correntes filosófi cas ainda hoje atuantes na qual se destacam as seguintes obras F D E Schleiermacher Hermenêutica e crítica 1838 18051829 J G Droysen Historik 1858 W Dilthey Einleitung in die Geisteswissenschaften 1860 Grundlegung der Wissenschaften vom Menschen ca 18701895 M Heidegger Ontologie Hermeneutik der Faktizität 1923 Ser e tempo 1926 A caminho da linguagem 1959 48 Filosofia da Linguagem I E Betti Teoria geral da interpretação 1955 H G Gadamer Verdade e método elementos de uma hermenêutica filosófica 1960 P Ricoeur O conflito das interpretações ensaios de hermenêutica 1969 Do texto à ação ensaios de hermenêutica II 1986 KO Apel A transformação da filosofia 1973 L Pareyson Os problemas da estética 1966 Verdade e interpretação 1971 G Vattimo O fim da modernidade 1985 As aventuras da diferença 1985 Manfred Frank O universal individual 1977 A pergunta pelo sujeito 1988 O estilo em filosofia 1990 Autoconsciência e autoconhecimento 1991 Ernildo J Stein A questão do método na filosofia 1973 Seminário sobre a verdade 1993 Diferença e metafísica 2000 Hans Ineichen Philosophische Hermeneutik 1991 Verstehen und Rationalität 1999 O ponto de partida das teorias hermenêuticas da linguagem é o problema da compreensãoincompreensão do que é dito ou signi ficado nas manifestações linguísticas sígnicas e simbólicas A tradição hermenêutica se constituiu sobretudo a partir da ex periência de interpretação de textos códigos discursos e símbolos cujos autores não estão mais presentes ou seja a experiência da com preensão de manifestações linguísticas fixadas em alguma forma de escrita e que agora exigem o esforço de interpretação para serem compreendidas A partir de Schleiermacher generalizase esse pro blema para toda e qualquer manifestação simbólica cujo sentido es teja em causa tomandose o modelo do diálogo e da conversa como o paradigma da ocorrência de linguagem no sentido preciso de que toda enunciação deveria ser compreendida como uma resposta ou como um pedido de resposta por parte de um autor dirigida a um A concepção hermenêutica de linguagem 49 interlocutor Todavia o próprio diálogo direto será compreendido como demandando um esforço de compreensão e de mediação para eliminar as intransparências e os malentendidos A tese principal é nas palavras de Gadamer de que a hermenêuti ca é Die Kunst sich etwas sagen zu lassen a arte de deixar que algo lhe seja dito A arte de ouvir de prestar e dar atenção ao outro o dei xar vir à fala o que o outro diz seja um texto ou um discurso Nesse sentido a hermenêutica é uma atividade prática cuja finalidade é o perceber corretamente o que é dito Wahrnehmen percepção do que se diz apreensão do que se dá na linguagem e pela linguagem Outro ponto principal da corrente hermenêutica é a histo ricidade da compreensão e da significação no sentido de que a linguagem sempre nos antecede pois participar da linguagem é sempre adentrar numa tradição que nos antecede que sempre já é uma herança o que indica que a língua que usamos vai além de nós está aí antes de nós e permanece aí depois do nosso fim Em termos semânticos os hermeneutas são contextualistas e tomam cada língua como uma singularidade e como um acontecimento mais amplo que os atos dos falantes individuais Daí o problema como compreender a compreensão do discurso em outra língua sem submeter o que está dito na outra língua às estruturas da pró pria língua Tratase do problema da apreensão de sentido do dis curso estranho e em última instância da compreensão de como se pode compreender o outro Notese contudo que a questão her menêutica não é sobre a estrutura e as condições objetivas e subje tivas da linguagem focalizadas na linguística e nas análises lógico semânticas e estruturalistas nem tanto o ato levado à realização pela fala privilegiado pelos pragmatistas O foco dos hermeneutas está naquilo que vem à fala que é dito e apreendido a coisa mes ma o assunto sobre o que e de que se diz o de que se fala que é abordado como um feito e um efeito de linguagem aquilo que faz com que uma palavra não seja uma palavra vazia Uma pa lavra que não é vazia é uma forma significativa que remete tanto ao pensamento e às intenções efetivas do falante quanto ao mundo e aos acontecimentos fazendo assim sentido para o interlocutor leitor ou ouvinte Daí que a filosofia hermenêutica da linguagem considere a linguagem como um meio universal onde mundo e HEIDEGGER M A caminho da linguagem Petrópolis Vozes 2003 GADAMER HG Verdade e método I II Petrópolis Vozes 1999 50 Filosofia da Linguagem I pensamento objetos e ideias fatos e instituições vêm a ser e são e fora desse meio nada seja para nós Tratase de uma tese profunda sobre a re lação entre linguagem e mundo Nas palavras de Gadamer o fenômeno da compreensão e da linguagem não pode ser objetificado pois está na base da constituição da objetividade Ambas não devem ser tomadas apenas como um fato que se pode investigar empiricamente Ambas jamais podem ser um simples objeto abrangem antes tudo o que de um modo ou de outro pode chegar a ser objeto GADA MER HG Verdade e método p 523 O que significa dizer que o mundo é mundo somente na medida em que se exprima em uma língua e também que a língua não tem existência verdadeira senão no fato de que o mundo nela se apresenta GADAMER HG Verdade e método p 523 Desse modo podese perceber a transposição para a linguagem da função atribuída pelos modernos à consciência e às representações A primariedade da linguagem é radicalizada a ponto de tudo o que pode ser dado para nós ser já linguístico Na linguagem é o próprio mundo que apresenta A experiência de mun do feita na linguagem é absoluta Ultrapassa todas as relatividades refe rentes ao poroser Seinsetzung porque abrange todo o ser em si sejam quais forem as relações relatividades em que se mostra A linguistici dade Sprachlichkeit em que acontece a nossa experiência de mundo precede a tudo quanto pode ser reconhecido e interpelado como ente A relação fundamental de linguagem e mundo não significa portanto que o mundo se torne objeto da linguagem Antes aquilo que é objeto do conhecimento e do enunciado já se encontra sempre contido no ho rizonte global da linguagem A linguisticidade da experiência humana de mundo como tal não visa a objetivação do mundo Idem p 581 Como se pode ver nessa passagem no cerne das discussões hermenêuticas está uma tese que se contrapõe tanto ao paradigma ideacional moderno Locke quanto ao modelo de análise lógico semântica Frege Segundo Gadamer não há como se objetivar a linguagem dizer o que ela é e como funciona de modo objetivo porque ela própria será empregada nessa definição o método e o objeto analisado coincidem A condição que possibilita o ter objetos é a própria condição de dizer o que é a linguagem a própria linguagem A concepção hermenêutica de linguagem 51 Embora compartilhem com esse último a noção de sentido os hermeneutas em geral recusam a separabilidade entre forma lin guística e sentido de tal modo que o postulado de Frege de que se pode dizer o mesmo com palavras diferentes é recusado A pressu posição dos hermeneutas é de que a diferença no plano do signo implica uma diferença no plano do sentido Além disso em con traste com as abordagens lógicas os hermeneutas privilegiam as linguagens vivas e históricas recusando as explicações baseadas em linguagens artificiais com base no argumento de que as lin guagens artificiais dependem sempre de uma linguagem natural para serem introduzidas e compreendidas 31 Schleiermacher e os fundamentos da concepção hermenêutica da linguagem A hermenêutica tem uma longa história como arte e técnica de interpretação de textos porém é recente enquanto corrente fi losófica propriamente dita Como toda tradição de pesquisa ela é o resultado de uma história de continuidades e deslocamentos conceituais A história da formação do pensamento filosófico oci dental costumase dizer é apenas um longo comentário da obra de Platão Todavia na verdade quem pressagiara essa história foi bem outro contra o qual Platão já lutava o pensador denominado Górgias de Leontinos Com efeito atribuise a Górgias o Retórico as seguintes teses primeira não há o ser nem o nãoser nem tãopouco o ser e o nãoser segunda ainda que algo pudes se existir não seria reconhecível nem concebível pelos homens e terceira E ainda que se pudesse conhecer não seria comunicá vel a outrem GÓRGIAS Testemunhos e fragmentos Tradução de Manuel Barbosa e Inês Ornellas e Castro Lisboa Colibri 1993 p 3135 Essas teses do sofista Górgias são renegadas pelos filósofos desde Platão E na tentativa de refutálas os filósofos produziram três grandes tipos de filosofias Filosofias que se fundamentam em uma Ontologia filosofias que se fundamentam em uma Teoria do conhecimento e por fim filosofias que se fundamentam em uma Teoria da linguagem Com efeito desde Platão buscase fundar a filosofia e o saber recorrendose a algum conceitochave que fun 52 Filosofia da Linguagem I daria todos os demais Primeiro o conceito de ser e suas varia ções depois a partir de Descartes o que se buscou foi legitimar um conceito de conhecimento e assim justificar a introdução do conceito de ser como objeto ultimamente deixouse o ser e o co nhecimento de lado e foise em busca de um conceito garantido de linguagem e de sentido como um porto seguro a partir do qual o ser e o conhecimento do mundo podem ser pensados Histo ricamente o que sucedeu foi uma concessão cada vez maior a Górgias Não por acaso após a virada linguística fora do âmbi to da linguagem a única maneira ainda possível de sobrevivência filosófica é precisamente o ceticismo que é a suprema e última concessão ao retórico A hermenêutica pertence já ao último tipo Ela quer falar da verdade e da racionalidade e para isso parte do fato da linguagem A tese fundamental da hermenêutica é tanto uma réplica como uma concessão à terceira tese de Górgias pois afirma que é pos sível a comunicação e o entendimento através da linguagem mas concede que essa comunicabilidade não é natural nem automática nem transparente ao contrário deve ser buscada metodicamente e sempre resta problemática A experiência das falhas na compre ensão é o ponto de partida da hermenêutica Como tal a herme nêutica não é ainda uma filosofia Pelo contrário durante séculos ela foi apenas uma técnica auxiliar pela qual era feita a interpre tação de textos considerados canônicos Foi somente quando se pôs a questão da possibilidade da compreensão e da existência de estruturas formais condicionantes da interpretação que propria mente a hermenêutica tornouse filosófica Isto só aconteceu no início do século XIX e somente foi plenamente desenvolvida nos últimos 100 anos Com Friedrich Schleiermacher 17681834 no início do sé culo XIX a hermenêutica recebe uma reformulação pela qual ela definitivamente entra para o âmbito da Filosofia Em seus projetos de hermenêutica colocase uma exigência significativa a exigência de se estabelecer uma hermenêutica geral compreendida como uma teoria geral da compreensão A hermenêutica geral deveria ser capaz de estabelecer os princípios gerais de toda e qualquer compreensão e interpretação de manifestações linguísticas Onde A concepção hermenêutica de linguagem 53 houvesse linguagem ali se aplicaria sempre a interpretação E tudo o que é objeto da compreensão é linguagem Essa afirmação en tretanto mostra todas as suas implicações quando se lhe acres centa esta outra tese de Schleiermacher A linguagem é o modo do pensamento se tornar efetivo Pois não há pensamento sem discurso Ninguém pode pensar sem palavras SCHLEIER MACHER F Hermenêutica e crítica Tradução de A Ruedell Ijuí Unijuí 2005 p 49 Ao postular a unidade de pensamento e lin guagem a tarefa da hermenêutica se torna universal e abarca a totalidade do que importa ao humano A hermenêutica então é uma análise da compreensão a partir da natureza da linguagem e das condições basilares da relação entre o falante e o ouvinte SCHLEIERMACHER F Hermenêutica arte e técnica da interpre tação p 64 Todavia Schleiermacher inverte o procedimeno de investigação Em vez de partir das diversas técnicas de interpretação ele coloca a questão formal o que significa compreender corretamente o discurso de um outro Somente após responder à questão geral da compreensão é que se poderia pensar em normas para interpreta ções particulares jurídicas teológicas estéticas literárias etc A hermenêutica de Schleiermacher parte do pressuposto geral de que a compreensão tem que ser buscada a cada momento isto é que a compreensão resulta de um esforço enquanto que a má compre ensão seria natural e espontânea Isso de tal modo que já haveria aí uma universalidade da tarefa hermenêutica a possibilidade da efetivação da compreensão sempre está por ser realizada enquanto o malentendido é geral Em outras palavras não há manifestações discursivas que não precisam de interpretação mas tão somente di ferentes graus de complexidade interpretativa Assim estabelecese uma primeira definição de hermenêutica em sentido genérico A hermenêutica é a arte de evitar a má compreensãoHermenêutica e crítica p 113 Evitar a má compreensão todas as tarefas estão contidas nesta expressão negativa Idem p 114 Notese que essa atitude consiste em justificar uma determinada proposição de sen tido interpretação para um dado evento expressão a partir do zero de pressuposição quanto à sua significatividade prévia A ati tude natural consiste justamente no contrário pois o tempo todo SCHLEIERMACHER F Hermenêutica arte e técnica da interpretação Tradução de C R Braida Petrópolis Vozes 1999 Hermenêutica e crítica p 91 Die Kunst die Rede eines andern richtig zu verstehen Essa tese de Schleiermacher sugere que a compreensão do discurso alheio nunca é transparente e óbvia 54 Filosofia da Linguagem I pressupomos a significatividade a compreensibilidade e a doação espontânea do sentido das expressões Essa definição tem como esteios os termos arte e má com preensão os quais solicitam um esclarecimento mais detalha do A expressão arte no original Kunst aponta para um aspecto que será determinante para o estabelecimento de uma identidade da corrente hermenêutica em contraste com outras correntes fi losóficas tais como o kantismo e o hegelianismo qual seja que na base da inteligibilidade e da compreensão subjaz algo indeter minado e não apreensível em sua totalidade A interpretação é arte Pois em geral é construção de um determinado finito a partir de um indeterminado infinito Idem p 99 Essa indeter minação infinita é atribuída aos dois polos constitutivos do senti do de uma manifestação discursiva a saber o polo linguístico e o polo psicológico dos quais resulta a dupla tarefa da hermenêutica compreender a linguagem e compreender o falante Para se atingir a completude na interpretação deverseia ter um conhecimento completo da linguagem utilizada e também um conhecimento completo do homem Idem p 100 A determinação do sentido de uma manifestação discursiva desse modo seria realizada através de dois procedimentos com plementares a saber por uma interpretação gramatical conjugada com uma interpretação psicológica Schleiermacher justifica assim essa duplicidade metódica Objetivando para nós a linguagem descobrimos que todos os atos de fala são apenas uma maneira como a linguagem vem à tona em sua natureza peculiar e que cada indivíduo é apenas um lugar onde se dá a linguagem como em escritores importantes voltamos nossa atenção para sua linguagem e vemos neles uma diversidade de estilo Da mes ma forma todo discurso somente pode ser compreendido a partir da vida total à qual está ligado Isso quer dizer que somente é reconhecível enquanto um momento de vida do falante condicionado por todos os seus momentos de vida e isso somente a partir da totalidade de suas circunstâncias Hermenêutica e crítica p 96 Uma determinada manifestação discursiva tem que ser considera da tanto como uma manifestação particular ou um uso individual de Então assim como a apreensão do conteúdo de uma obra de arte é inesgotável a interpretação de um discurso também seria uma tarefa infindável A concepção hermenêutica de linguagem 55 uma linguagem geral quanto como um ato ou momento da vida de seu autor toda compreensão tem dois momentos compreender a fala como um produto da linguagem e compreendela como um ato do pensador Idem p 95 A fórmula positiva que exprime a tarefa completa da hermenêutica foi assim resumida por Schleierma cher A arte pode desenvolver as suas regras apenas por meio de uma forma positiva e esta é reconstruir objetiva e subjetivamente histórica e divinatoriamente profética um dado discurso Idem p 114 Nessa fórmula subjetivo corresponde à interpretação psicoló gica que compreende a manifestação discursiva como um ato do pensamento do autor e objetivo corresponde à interpretação gra matical que compreende o discurso a partir da totalidade da lingua gem Por outro lado essas duas tarefas realizamse de dois modos complementares historicamente e divinatoriamente Divinatório significa a tentativa de transporse no outro de tentar apreender imediatamente o individual Idem p 202 Porém esse apreender o outro de modo imediato jamais pode ser o fundamento da her menêutica como sugerem as leituras feitas por Dilthey e Gadamer Para Schleiermacher o divinatório somente pode ser assegurado em sua certeza através da comparação histórica pois o divinatório alcança a sua certeza apenas através da comparação sem a qual ele sempre poderá ser fantasioso Idem p 203 Por isso infere se que para o hermeneuta a compreensão então é o resultado de um procedimento interpretativo A palavra exata para nomear esse procedimento seria construção de um sentido pressuposto Atente para a diferença entre o procedi mento intuitivodivinatório e o procedimento históricocomparativo na tarefa de compre ensão de um discurso linguístico Disso podemos inferir duas teses gerais sobre o sentido de um discurso qualquer na teoria da linguagem de Schleirma cher Primeiro Todo discurso somente pode ser apreendido sob a pressuposição do entendimento da totalidade da linguagem 56 Filosofia da Linguagem I Idem p 95 Segundo todo discurso somente pode ser compre endido através do conhecimento da inteira vida histórica a qual ele pertence ou através do conhecimento da história de seu começo Ibidem Esses dois momentos de determinação do sentido de uma expressão fundamentamse na dicotomia entre linguagem o momento da identidade e falante o momento da diferença Então num discurso entrecruzamse o universal e o individual Como nenhum dos dois pode ser alcançado completamente então deve se ir de um ao outro e para se fazer isso nenhuma regra se deixa estabelecer O que significa dizer que não se pode calcular dedu zir Por um lado a inteira linguagem não pode ser inferida de um discurso particular e por outro a individualidade desse discurso não pode ser deduzida da linguagem em geral Noutras palavras o juízo hermenêutico é sempre reflexionante nunca determinante isto é a regra geral é estabelecida a partir de cada individualidade a ser compreendida e por conseguinte não vale senão para essa mesma individualidade de tal modo que a última palavra nunca poderá ser a palavra final O aspecto mais significativo dessa teoria é a tese de que o signo linguístico não tem um sentido determinado fora da frase e por sua vez a frase mesma só adquire um sentido definido no contex to de um inteiro discurso Um discurso porém apenas pode ser compreendido quando referido à totalidade da linguagem léxico gramática em uso O discurso seria determinado e compreen dido apenas a partir da prática de uma comunidade linguística de tal modo que dada uma expressão individual seja ela formal ou material o seu sentido determinado tem que ser construído a partir do contexto e da situação de proferimento O que significa dizer que a determinação completa é infinita e somente pode ser realizada por aproximações e sempre resta incerta A unidade do sentido de uma palavra portanto é algo histórico ou dito mais enfaticamente a unidade do sentido não existe pro priamente mas apenas pode ser inferida dos usos particulares os quais são infinitos e históricos Em si mesma cada parte de um discurso é indeterminada tal como as ideias kantianas a unidade do sentido é apenas regulativa no sentido de que é apenas um pos tulado não um fato Tudo isso conduz ao estabelecimento da regra Hermenêutica e crítica p 124 Jeder Theil der Rede materieller sowol als formeller ist an sich unbestimmt Para o hermeneuta Schleirmacher o contexto de um discurso é fundamental para se compreender o que esse discurso quer dizer Pense em como essa ideia ligase aos procedimentos divinatório e histórico nessa teoria A concepção hermenêutica de linguagem 57 geral da determinação do sentido de uma expressão pelo contexto e por conseguinte que a unidade mínima de sentido para a her menêutica é a frase ou sentença Pois é nela e com ela que se pode alcançar um mínimo de determinação de sentido O sentido por tanto não está nos elementos mas na sua concatenação Essas considerações nos permitem esboçar uma teoria geral da significação linguística em Schleiermacher O objeto da interpre tação vai das partículas e palavras isoladas até o inteiro domínio da língua o qual por sua vez é parte do mundo histórico A determi nação de sentido de um elemento em última instância pressupõe o conhecimento da inteira história ou mundo do escritor e do leitor Não obstante a tarefa do intérprete tem como objetivoguia o estabe lecimento da unidade completa da palavra Mais ainda a primeira regra do intérprete exige que o sentido seja determinado a partir do domínio linguístico original comum ao escritor e a seus leitores his tóricos Essa regra longe de desconsiderar a condição histórica de todo intérprete como Gadamer a interpretou indica a historicidade da compreensão uma vez que o ato de compreender pode ser enten dido como a inversão do ato de falar Schleiermacher não obstante afirmar que é a má compreensão a experiência originária da herme nêutica coloca como fim regulador a compreensão e a identificação do sentido intentado pelo autor Esse objetivo porém somente se ria alcançado por aproximação e exigiria uma operação infindável Em suma a linguagem em sentido genérico é intransparente Toda via essa intransparência não impede o entendimento O fato da má compreensão adquire seu sentido unicamente na medida em que há compreensão pois de onde adquirimos a noção de má compreensão senão do fato de sabermos o que é compreender corretamente Com essa exposição sumária das posições hermenêuticas de Schleiermacher tento ilustrar os postulados fundamentais de uma filosofia hermeneuticamente orientada Nesse sentido o projeto de uma hermenêutica geral que Schleiermacher esboçou seria a base iniciadora de uma tradição de pensamento e de pesquisa Essa tradição poderia ser minimamente identificada citando al guns nomes de pensadores e suas obras tais como Schleiermacher Boeck Droysen Friedrich Nietzsche Dilthey Martin Heidegger Paul Ricoeur e HansGeorg Gadamer Entretanto filosoficamente 58 Filosofia da Linguagem I isso seria irrelevante por isso passo a destilar alguns princípios ge rais que determinariam o carácter hermenêutico de uma filosofia tendo como guia as ideias de Schleiermacher mas que podem ser reencontrados nas obras desses autores A tese básica afirma a irredutível linguisticidade do pensamen to O indivíduo é condicionado em seu pensamento através da lin guagem comum e pode apenas pensar os pensamentos que pos suem designação em sua linguagem Aqui encontramos o ponto de viragem de uma filosofia transcendental baseada na aprioricidade necessária de certos conceitos e formas nãolinguísticas em direção a uma filosofia hermeneuticamente orientada Ao deslocar o lugar da produção de racionalidade do pensamento para a linguagem Schleiermacher afastase do purismo da razão vigente de Platão a Kant Não obstante a linguagem passa a ocupar propriamente o lugar do transcendental kantiano cumprindo a mesma função Entretanto a linguagem não tem as mesmas propriedades do transcendental kantiano Primeiro porque a linguagem é variável segundo porque a linguagem é afetada pelo modo como cada in divíduo a usa pois a língua é tanto sistema sprachgesetz virtual como uso sprachgebrauch atual dos indivíduos De tal modo que o sentido de uma elocução ou texto jamais se deixa deduzir a partir do sistema da linguagem usada e do uso passado Assim como a elo cução ou texto é uma produção em que se envolvem um universal e um particular a interpretação é uma reprodução não passível de cálculo ou dedução Tratase de uma tarefa infinita de uma arte O sistema linguístico nunca se constitui como um interpretante final para o emprego atual Isso se infere do fato de que com as regras não se dá ainda o usoaplicação Enfim a linguagem é tanto o universal como também o particular Mais ainda somente pela união do uni versal ao particular é que se realiza a linguagem O geral envolvese no particular e viceversa Não se alcança um sem o outro Temos aqui o assim chamado círculo hermenêutico que não diz outra coisa senão isso que não há um universal separado do particular Com isso está dado o outro elemento central da hermenêutica o princípio da efetividade do tempo em relação ao pensamento e à racionalidade Tratase então de considerar filosoficamente as condições históricas do trabalho do pensamento Pela primei A concepção hermenêutica de linguagem 59 ra vez na história do pensamento ocidental a racionalidade será pensada a partir das condições temporais isto é sem referência ao eterno ao imutável ao divino Schleiermacher não obstante a sua filiação teórica à filosofia transcendental kantiana ao radicalizála historicizando a compreensão opera uma transcendentalização do histórico que implica uma historicização do transcenden tal e da razão SCHNÄDELBACH Philosophie in Deutschland 18311933 p 143 A inserção do pensamento na história mani festa outra pretensão qual seja a de retroceder o momento de constituição do sentido e da racionalidade ao âmbito da práxis Tratase da afirmação radical do carácter prático da razão huma na Não apenas que a racionalidade tem um aspecto prático mas antes que a prática é constitutiva da razão isto é que os fatores práticos constituem a base sobre a qual a razão se constrói Com isso é reforçado o sentido éticopolítico originário do pensamento o que permite ver toda formação discursiva e toda armação con ceitual como expressão de uma tomada de posição prática epocal que inclui tanto uma determinada atitude manipulatória para com o entorno físico como uma determinada atitude éticopolítica re lativa à organização e condução da vida em comum Linguisticidade temporalidade e pragmaticidade da razão im plicam uma revalorização da experiência visto que agora o aconte cer efetivo e histórico da razão a experiência constitui e modifica a própria razão Talvez a hermenêutica seja a única filosofia expe rimental par excellence Experiência aqui tem um sentido mais am plo que o conceito de experiência positivista no sentido de mero confronto com os dados do sentido A experiência é pensada tanto nos seus aspectos que apontam para a regularidade e a repetibili dade como para os aspectos que apontam para a singularidade e a novidade irrepetível Com isso se pretende apenhar a experiên cia fundadora do conhecimento cientifico e também a experiência estética histórica etc No conceito de experiência tornado obri gatório pelo pensamento cientificista apenas a repetibilidade e a generalização possível são consideradas Isso obviamente liquida a arte a poesia a vida enfim o humano Para não abdicar do hu mano a hermenêutica pretende recuperar e trazer para o conceito em sua teoria da compreensão justamente aqueles aspectos cons 60 Filosofia da Linguagem I titutivos da experiência a saber a acumulação e a inovação Para a hermenêutica assim fazer ou sofrer uma experiência não é apenas fazer ou sofrer algo de novo mas fazer e sofrer algo novo inédito A concepção de experiência é peculiar na hermenêutica Esses fatores como determinantes da racionalidade mesma apontam para o aspecto mais assustador da proposta hermenêuti ca a saber a radical e inelidível finitude do humano Cada pessoa existe somente desde o seu nascimento até sua morte ela apenas pode apreender e viver uma parcela limitada da experiência hu mana Desse modo a hermenêutica inserese na tradição crítica do pensamento filosófico pois quer mostrar os limites da compreen são humana ao fazer depender esta da incontornável condição hu mana O que é destruído por esse movimento crítico é a pretensão ao eterno ao incondicionado ao divino e portanto ao ahistórico presente nos conceitos maiores da filosofia ocidental No logos de Heráclito no ser de Parmênides nas ideias de Platão na essên cia de Aristóteles na razão dos estoicos no deus dos cristãos na razão dos modernos de Leibniz a Hegel sempre esteve presente um quê de transcendência de eterno e de divino ou seja um quê de nãohistórico de nãomundano de nãoterrestre A hermenêutica reduz o humano e sua razão à história hori zontal dos homídeos cortando e anulando a relação vertical para cima com o divino e para baixo com a animalidade e é nesse as pecto que a linguagem e os sistemas simbólicos históricos ganham preeminência pois é nesse meio que nós podemos ser e nos reco nhecer como aquilo mesmo que somos Essas considerações nos levam ao ponto central da hermenêu tica filosófica a saber a afirmação do carácter autopoiético da A concepção hermenêutica de linguagem 61 razão da cultura do conhecimento e por conseguinte do huma no Caracterizar algo como resultado de um processo autopoiéti co significa atribuir duas propriedades primeiro a sua existência não é referida a outro ser segundo as características atuais dessa entidade resultam de uma acumulação e transformação de carac terísticas anteriores por meio de atos dessa mesma entidade em confronto com o estranho Assim o humano é reconduzido à sua origem terrena no pleno sentido dessa palavra e além disso é reconduzido à sua história passada Todavia desse modo são ex cluídas as explicações teológicas e transcendentes do humano e simultaneamente as explicações naturalistas e biológicas O hu mano nem é um deus decaído nem um animal superior A razão humana assim não pode ser reduzida ao bioquímicofisiológico mas também não pode ser divinizada A partir dessa perspectiva se explicita novamente a força heurística do círculo hermenêuti co a razão não é algo desde sempre já feito fora da história terre na dos homens mas se fez em sua história autoreferida Falar de humano e de razão sem considerar a história de sua formação e sem a experiência histórica humana seria então sem sentido Esse passo contudo conduz a algo pouco aceitável para o nosso gosto positivista e lógicoanalítico tecnologicista Schleiermacher aceitando plenamente o romantismo coloca na base da razão e da linguagem a capacidade de produção livre ou ato originário criador A linguagem teria a sua origem nessa faculdade espontâ nea e livre nessa força poética de tal modo que se pode distinguir duas forças complementares na linguagem a força lógica e a força poética Assim Lógica e Poesia seriam a plena realização da capa cidade linguística Porém a força poética seria mais originária e simultaneamente a culminação da capacidade linguística Assim Filosofia e Poesia seriam as manifestações dessas duas forças originárias e estariam em relação de complementaridade tendo como fundamento a linguagem como o âmbito no qual se abre a dimensão de sentido em que aquelas operam A hermenêutica assim quer se constituir como o modo racio nal de se filosofar sem renegar a finitude da compreensão humana 62 Filosofia da Linguagem I Essa é a sua pretensão positiva quer dizer a hermenêutica mesma como saber ou filosofia desde sempre já abdicou da eternidade e da justificação absoluta E por outro lado a hermenêutica preten de mostrar que o humano não obstante a sua origem terrena não pode ser reduzido à mera atividade bioquímicofísica justamente no sentido de que o humano apenas pode ser explicado por uma recorrência à dimensão de sentido que se explicita na prática lin guística O ponto principal a ser retido dessa lição sobre a concep ção hermenêutica é a ideia de que a significação precede os nossos atos conscientes e está ancorada nas relações mais primárias de constituição do mundo objetivo e subjetivo Não é o significado linguístico que é explicado em termos de verdade conhecimento e realidade mas ao contrário são esses conceitos que são produtos da instauração da dizibilidade por meio de uma comunidade de linguagemfala Leituras recomendadas GADAMER HG Verdade e método I Petrópolis Vozes 2005 SCHLEIERMACHER F Hermenêutica arte e técnica da inter pretação Tradução de C R Braida Petrópolis Vozes 1999 Reflita sobre O papel da linguagem na formação da consciência e nas inte rações humanas que perfazem as instituições O problema da tradução entre línguas diferentes e a compre ensibilidade de textos pertencentes a outras culturas e épocas Capítulo 4 A análise lógico semântica de linguagem e as teorias de G Frege O objetivo deste capítulo é apresentar a concepção da análise lógicosemântica da linguagem Para isso faremos uma exposi ção das principais teorias de G Frege bem como dos fundamentos do procedimento de análise lógicosemântica The globe is round because Earth is a sphere A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 65 4 A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege A segunda concepção de linguagem que está na origem da Fi losofia da Linguagem foi inaugurada por Friedrich L G Frege e podese dizer com segurança é a que mais determinou a discussão filosófica nos últimos tempos A partir dos trabalhos revolucioná rios de Frege em Lógica e Filosofia da Matemática uma série inin terrupta de discussão e teorias se desenvolveu em grande parte sob a rubrica Filosofia Analítica da Linguagem com a contribui ção decisiva dos trabalhos de Bertrand Russell e Ludwig Wittgens tein nas primeiras décadas do século XX Algumas das principais obras dessa corrente são F G Frege Os fundamentos da aritmética 1884 As leis básicas da aritmética 1893 Lógica e filosofia da linguagem 18901900 Investigações lógicas 191821 B Russell Sobre a denotação 1905 Logic and Knowledge 1956 L Wittgenstein Tractatus logicophilosophicus 1921 Investigações filosóficas 1953 R Carnap Logical Syntax of Language 1935 Meaning and Necessity 1947 A Tarski A concepção semântica da verdade e os fundamentos da semântica 1936 66 Filosofia da Linguagem I P Strawson Sobre o referir Individuals 1959 W Quine De um ponto de vista lógico 1953 Word and Object 1960 Filosofia da lógica 1970 Austin Quando dizer é fazer 1962 P Grice Studies in the Way of Words 1991 J Searle Atos de fala 1969 Expressão e significado 1979 S Kripke Naming and Necessity 1972 M Dummett Frege Philosophy of Language 1973 The Seas of Language 1990 D Davidson Inquires into Truth and Interpretation 1984 Truth Language History 2005 R Brandom Making it explicit 1994 Articulating Reasons 2000 P Horwich Truth 1998 Meaning 1998 41 As teses gerais sobre a linguagem A teoria da linguagem de Frege tem como cerne uma recusa bem dirigida da tese moderna sobre a significação linguística mas também pode ser vista como uma recusa da solução de Mill em bora compartilhe com este vários pontos Frege tanto irá negar o papel central das ideias ou representações mentais quanto o papel das coisas ou objetos na constituição da significação linguística A estratégia teórica central de Frege consiste em distinguir dife rentes ingredientes da significação de uma expressão em seu empre go ou uso para se fazer uma enunciação que possa entrar em relação de pressuposição e consequência com outras enunciações Inver tendo completamente a ordem de prioridade Frege irá tomar como unidade semântica a frase e não as palavras que a compõem Além disso ele se posicionará ao lado de Bolzano na defesa da tese de que o pensamento expresso por certas sentenças indepen A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 67 de dos estados mentais do falante e pode ser apreendido como o mesmo por várias consciências e também ao lado de Mill quando este diz que usamos expressões linguísticas para falar das coisas mesmas e não dos nossos estados subjetivos A intuição de Frege era de que uma mesma expressão pode ser usada por diferentes falantes ou seja pode ser usada em diferen tes ocasiões e diferentes enunciações com representações men tais diferentes para indicar o mesmo objeto e com representações mentais idênticas para indicar objetos diferentes em cada caso e assim mesmo ser significativa e compreensível Isso indica que talvez haja outro fator na composição do conteúdo semântico das expressões Frege reservou a palavra alemã Sinn sentido para designar o ingrediente objetivo da significação objetivo na me dida em que esse elemento seria o responsável pela possibilidade de dois ou mais falantes compreenderem que estão falando da mesma coisa no mesmo sentido e também o responsável pela relação objetiva entre os sinais e aquilo de que se fala por meio deles O sentido faria a ponte entre as visadas subjetivas instau rando uma dimensão intersubjetiva em que diferentes pontos de vistas poderiam ser comensurados e avaliados Em termos prá ticos o sentido é o que habilitaria diferentes pessoas primeira segunda terceira a constituíremse em um nós enfim numa comunidade linguística Decisivo é a distinção entre o sinal e suas propriedades o sen tido e suas propriedades e o significado e suas propriedades sobretudo no que se refere às sentenças Uma coisa é o que uma sentença diz outro é o seu significado ou valor Embora essa seja uma distinção corrente a sua fixação conceitual foi muito demo rada Frege a estabelece como um princípio metodológico Notese que essa distinção é essencial para a prática da discussão objetiva Primeiro uma coisa é a frase ou sinal outra coisa o que se diz com o seu proferimento outra ainda o seu valor de verdade Ora essa separação está subjacente às práticas de discussão racional poder dizer o mesmo com uma frase diferente poder compreender o sentido de uma frase e discordar do valor de verdade que o falante atribui a ela atribuir um sentido diferente a uma expressão e ainda assim se referir ao mesmo significado todas essas práticas pressu 68 Filosofia da Linguagem I põem a separabilidade entre o sinal o seu sentido e o valor ou sig nificado Frege transforma isso em um postulado metodológico Ao que parece atualmente tendese a exagerar o alcance do princípio de que diferentes expressões linguísticas nunca são totalmente equi valentes e de que uma palavra nunca pode traduzirse exatamente em outra língua Talvez se poderia ir mais além todavia e afirmar que nem sequer a mesma palavra é concebida de maneira idêntica por todos os que falam a mesma língua Não vou investigar o que há de verdade nes tas afirmações mas apenas quero dizer que contudo não poucas vezes há algo de comum nas diferentes expressões isto é o que eu chamo o sentido e para os enunciados em particular o pensamento com outras palavras não se deve desconhecer que se pode expressar de maneira diferente o mesmo sentido o mesmo pensamento com o que pois a diferença não é do sentido mas apenas da concepção a ilustração a matização do sentido e esta não entra em consideração para a lógica É possível que um enunciado não forneça nem mais nem menos infor mação que outro e apesar de toda a diversidade das línguas a huma nidade tem um tesouro comum de pensamentos Se se quisesse proibir qualquer transformação da expressão sob o pretexto de que assim se modificaria também o conteúdo a lógica ficaria totalmente paralizada pois a sua tarefa é certamente insolúvel se não se faz o esforço para redescobrir o pensamento em suas diversas roupagens Também qual quer definição deveria ser rechachada como falsa FREGE F G Sobre o conceito e o objeto em Lógica e filosofia da linguagem Nota 7 p 93 Esse ponto é retomado na sua obra principal As leis básicas da aritmética agora justamente apontando para a necessidade de ha ver algo comum distinto dos estados mentais e das representações subjetivas particulares a cada falante para poder haver discordân cia entre os falantes O número um por exemplo não é facilmente considerado como efeti vo wirklich se não se é seguidor de J S Mill Por outra parte é impos sível atribuir a cada homem o seu próprio um pois primeiro haveria que se investigar até que ponto coincidem as propriedades destes uns E se alguém dissesse um vezes um é um e outro dissesse um vezes um é dois apenas se poderia constatar a diferença e dizer o teu um tem esta propriedade o meu esta outra Não teria nenhum sentido uma discussão acerca de quem tem razão nem também a tentativa de ensinar pois para isto faltaria uma comunidade de objeto Eviden temente isto é totalmente contrário ao sentido da palavra um e ao A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 69 sentido do enunciado um vezes um é um Dado que o um enquanto que é o mesmo para todos apresentase a todos do mesmo modo é tão impossível investigálo por meio da observação psicológica quanto a Lua Se bem que existem representações do um nas mentes indivi duais estas devem ser distinguidas do um do mesmo modo que as representações da Lua devem ser distinguidas da Lua mesma FREGE F G Prólogo As leis básicas da aritmética Grundgesetze der Arithmetik Begriffsschriftlich abgeleitet Zweite unveränderte Auflage Hildesheim Georg Olms 1962 p vxxvi A pressuposição é de que se pode distinguir os ingredientes subjetivos as representações e os estados psicológicos particula res a um falante dos ingredientes objetivos da significação aqueles ingredientes que podem ser compartilhados e comunicados para vários falantes Além disso Frege distinguia os ingredientes da significação ou conteúdo semântico em relação ao modo como a expressão é usada ou força da enunciação asserir pedir perguntar ordenar e exclamar são exemplos de modos de emprego de uma expres são Assim em português coloquial se pode empregar a expres são Fogo para realizar diferentes atos linguísticos Fogo para alertar sobre um incêndio Fogo para perguntar se alguém quer que se lhe acenda o cigarro Fogo para ordenar um batalhão a atirar Fogo para responder afirmativamente que se trata de fogo mesmo Embora o conteúdo dessa expressão do ponto de vista da representação subjetiva e objetiva possa ser o mesmo em todos esses usos as condições de verdade e de veracidade são muito di ferentes Frege mesmo não explorou esses aspectos os quais são analisados nas teorias pragmáticas da linguagem Frege é considerado o inaugurador da Filosofia da Linguagem Isso se deve a duas teses fundamentais presentes na sua obra mais conhecida Os fundamentos da aritmética de 1884 A primeira é a identificação entre pensamento e sentido de uma frase A segun da é a ideia de que certos objetos apenas podem se dar por meio da linguagem Entretanto essas teses ainda hoje são discutíveis e foram expostas em meio à introdução de vários conceitos e dis tinções com o objetivo de fornecer uma fundamentação rigorosa 70 Filosofia da Linguagem I para as verdades matemáticas Com relação à significação de uma frase Frege distinguiu vários aspectos o significado ou aquilo que é referido ou aquilo de que se fala por meio da frase a força ou o modo com que a frase é usada o tom ou a tonalidade emocional com que a frase é proferida o contexto linguístico e a situação de proferimento a representação subjetiva ou as ideias que um falante parti cular associa à frase o sentido ou modo como se fala ou pensa aquilo de que se fala Considerese para exemplificar a frase Florianópolis fica numa ilha Essa frase pode significar muitas coisas a depender do contexto e da situação em que é proferida Ela pode ser usada para informar a localização geográfica da capital do estado de Santa Ca tariana ou para dizer para alguém que ele deverá atravessar uma ponte ou pegar um barco para chegar até Florianópolis etc Essa frase pode ser usada com a força assertórica de uma afirmação ou então de uma descoberta ou ainda de pergunta Além disso uma pessoa pode dizer essa frase com surpresa com medo com satis fação com entusiasmo ou com tristeza Por sua vez há diferentes imagens mentais de Florianópolis e de ilha e diferentes pessoas podem associar diferentes ideias ou representações subjetivas a essa frase Todos esses aspectos são variáveis e podem se alterar de um uso para outro Frege entretanto defendeu que em qual quer dos casos um sentido objetivo deve ser expresso por essa frase nos seus usos efetivos Esse elemento da significação seria o responsável pela compreensão intersubjetiva e aquilo que permi tirá a diferentes falantes concordarem ou discordarem acerca do que foi dito Notese que para Frege uma mesma expressão lin guística pode ser usada em diferentes sentidos e por conseguinte ter diferentes significados A sua alegação é de que se a expressão é compreensível então deve poder ser explicitado em qual sentido ela foi usada em determinada ocasião Distanciandose de Kant Frege determina os conceitos de sub jetivo objetivo e efetivo apenas como aspectos do sentido de uma A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 71 expressão numa frase semanticamente determinada isto é com sentido e com valor de verdade e não mais como provindos da interrelação das faculdades mentais Além disso ele operou uma desobstrução da objetividade em relação ao espaçotemporal isto é em relação às formas da sensibilidade admitindo objetos nãosen síveis nãoespaciais e nãotemporais Isso significa que a noção de objeto e de objetividade é diferenciada e tornada indepen dente em relação à noção de dados da sensibilidade Desse modo Frege abandona o empirismo e o idealismo por meio de um único gesto a consideração da linguagem como constitutiva da objetiva ção Nesse ponto Frege segue Bolzano ao admitir que a objetivida de de uma proposição isto é o ser sobre algo determinado e o ter um significado e um valor de verdade determinados independe dos estados subjetivos do falante e da remissão à sensibilidade A crítica ao empirismo e ao idealismo é feita com um único lance a significatividade das expressões de uma linguagem nem é mera remissão às sensações nem é mera codificação de ideias e representações mentais A significatividade das expressões lin guísticas é pensada em vez disso como relacional e na descrição do conteúdo ou significação de uma expressão procurase isolar os ingredientes objetivos passíveis de compartilhamento e de ajui zamento intersubjetivo A teoria padrão contestada por essa cor rente provém de Aristóteles e sobretudo de Locke para quem as palavras significam por codificarem ideias e as ideias são pensa das como estados mentais ou representações de uma consciência Além disso está em questão a teoria do juízo de Kant segundo a qual a forma do juízo é pensada como uma concatenação de re presentações impressões conceitos e ideias e os juízos básicos como constituídos por afirmações ou negações da inclusão de uma representação o predicado em outra o sujeito A primeira ruptura com esse modelo moderno foi realizada por S Mill ao defender que algumas palavras ao menos não significam por expressarem ideias ou representações mas antes por significa rem as coisas ou objetos em si mesmos A sua tese era de que os no mes nomeiam as coisas mesmas e não as representações ou ideias Ainda assim a linguagem era vista como um instrumento exterior ao pensamento A posição de Frege era diferente Ele revolucionou Conferir os Capítulos 1 2 e 3 do livro Ontologia II 72 Filosofia da Linguagem I a lógica mas também transformou a tarefa o método e o objeto da Filosofia O objetivo da análise filosófica seria a análise da estrutura do pensamento Analyse der Struktur des Denkens mas exigia a distinção metódica do pensamento em relação à atividade psicoló gica do pensar Para isso ele propunha como um novo método de análise do pensamento não mais a introspecção moderna mas a análise da linguagem Analyse der Sprache na medida em que a estruturação de um determinado conteúdo seria obra da linguagem Também os conceitos são agora derivados da atividade linguística Sem sinais nós dificilmente nos elevaríamos ao pensamento conceitual Atribuindo o mesmo sinal a coisas semelhantes designamos propria mente falando não a coisa singular mas o que é comum o conceito E apenas obtemos este conceito ao designálo pois sendo em si mesmo nãointuitivo carece de um representante intuitivo para que possa apa recer para nós Desse modo o sensível abrenos o mundo do nãosensí vel Unsinnlichen Sobre a justificação científica de uma conceitografia 1882 São Paulo Abril Cultural 1980 p 18990 O pensamento atividade essencialmente conceitual por conse guinte não é mais concebido como um estado ou representação mental mas antes como o sentido de uma sentença Der Gedanke ist der Sinn des Satzes O conceito de sentido por sua vez contra põese aos conceitos de conceito Begriff e objeto Gegenstand os quais constituem os elementos objetivos do conteúdo semânti co e ao conceito de representação Vorstellung idea que indica o elemento subjetivo ou mental da significação Objeto conceito e representação são os fatores reais concretos e abstratos enquanto o sentido é o modo de darse Gegebenheitsweise de desses fatores Para um mesmo objeto conceito verdade ou falsidade Frege defen deu que haveria inumeráveis sentidos ou modos de apresentação Todavia essas noções todas são introduzidas para a explicita ção do que é dito pela enunciação de uma frase com pretensões de verdade de modo que o âmbito em que tais fatores devem ser avaliados e no qual opera a Filosofia é o âmbito aberto pelo dis curso onde enunciações se contrapõem são avaliadas e julgadas no espaço público onde a regra é a explicitação completa Não confunda então o conceito de cavalo com o cavalo muito menos com a palavra cavalo A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 73 O método da análise lógicosemântica significa tomar a ideia de linguagem e de papéis e funções semânticas como forma de ex plicitar e introduzir os conceitos de pensamento conhecimento mundo objeto fato ficção etc ou seja os conceitos com os quais o filósofo explica critica ou refuta são agora conceitos lógicos ou semânticos isto é ou conceitos formais estruturais sem conteú do ou conceitos que explicitam as funções semânticas das expres sões usadas para se dizer um determinado conteúdo O ponto principal do método é o mapeamento dos aspectos in ferenciais e de implicação verofuncionais das enunciações e dos discursos O conteúdo semântico de uma expressão X é fixado ao se estabelecerem as relações de implicação entre as frases em que ela ocorre tomadas como verdades e outras frases O ponto de partida são os conceitos de atribuição de sentido de verdade e falsidade a enunciações A introdução e a definição dos conceitos de pensamento mundo objeto propriedade relação existência ser conhecimento realidade irrealidade ficção etc é agora ape nas permitidas a partir da análise lógicosemântica da prática de tomar como significativos e de atribuição de valores de verdade para proposições isto é para explanação das relações de implica ção e consequência entre proposições Entretanto um ponto central dessa metodologia é que a lin guagem natural pela sua livre produtividade e arbitrariedade não fornece nenhuma garantia para a correção do pensamento e dos raciocínios O argumento de Frege é de que as palavras significa tivas e as estruturas gramaticalmente corretas podem não ter um único sentido e nem uma referência objetiva ou seja de que a lin guagem natural permite a construção de frases gramaticalmente corretas sem sentido ou com sentido mas impossíveis de serem avaliadas ou compreendidas seja porque não há como apreender os seus vínculos com o que está dado no mundo seja porque o seu sentido é relativo ao falante particular que a pronunciou Então falta um significado intersubjetivo a essa frase Todavia ao mesmo tempo partese da ideia de que não há outro meio ou âmbito de evidências e de doações que não seja o linguístico Nesse sentido Frege aceita a tese de Occam Você dirá eu não quero falar das palavras mas apenas das coisas eu responderei que embora você 74 Filosofia da Linguagem I só queira falar das coisas isso só será possível com a mediação das palavras ou de outros signos DOCKHAM Guillaume Escritos sobre o primeiro livro de sentenças 1973 Além disso Frege aceita e tira todas as consequências da tese geral da arbitrariedade do signo linguístico O vocabulário é decorrente do uso gebrauchen tanto quanto a associação com esse ou aquele sentido com cada item do léxico As regras gramaticais também são decorrentes do uso de modo que nem o vocabulário nem as regras são fixos mas todo usuário pode modificálos em certa medida ou seja nem as regras de uso nem o léxico fixam a linguagem O que Frege quer dizer é que não há a priori gramatical mas apenas o inte resse em fazerse entender Por isso Frege pode dizer que A linguagem mostrase deficiente quando se trata de prevenir os erros de pensamento 1 ela já não satisfaz a primeira exigência a de univocidade A mesma palavra serve para designar um conceito e um objeto individual que cai sob ele De modo geral não se imprime nenhuma diferença entre conceitos e indivíduos 2 A linguagem não é regida por leis lógicas de modo que a obediência à gramática já ga rantisse a correção formal do curso do pensamento 3 Não existe na linguagem um conjunto rigorosamente delimitado de formas de racio cínio de modo a não se poder distinguir pela forma lingüística uma passagem sem lacunas de uma que omite membros intermediários Embora isso possa ser visto como uma deficiência na verdade por trás dessa situação está em uma certa maleabilidade e mutabilidade da lin guagem que é por sua vez a condição de sua capacidade de desenvol vimento e de sua aplicabilidade variada Sob este aspecto a linguagem pode compararse à mão que apesar de sua capacidade de se acomo dar às mais diferentes tarefas não nos basta Sobre a justificação cientí fica de uma conceitografia 1882 1980 p 190191 A origem da linguagem é a prática da enunciação da ação da fala e da comunicação Por isso mesmo a frase enunciativa é ante rior à significação das palavras isoladas Um sinal ou palavra tem sentido ou é significativo na medida em que pode ser usado no jogo ou na prática comunicativa e expressiva entre falantes so bretudo como parte de uma frase enunciativa isto é na medida em que pode exercer uma função semântica e assim ter um valor semântico determinado no contexto de uma interação discursiva Lembrese para Frege o significado das palavras depende do modo como nós as usamos A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 75 O modelo teórico de Frege que lhe permitia dizer isso das lín guas naturais e ao mesmo tempo propor a construção de lingua gens artificiais capazes de evitar os malentendidos e os erros de raciocínio tem como núcleo as seguintes distinções e suposições primeiro uma expressão significativa sempre resulta de um ato o qual pode ser realizado de diferentes maneiras Frege chamava essas maneiras de força do proferimento asserir perguntar or denar convidar etc As diferentes expressões linguísticas são sig nificativas apenas quando usadas gebrauchen para realizar um ato semântico completo ou seja como partes de uma frase usada como declaração pergunta ordem convite Uma mesma expres são pode ter significados diferentes a depender da função semân tica com que ela é agenciada num determinado ato Considerese o meu exemplo favorito Quem casa quer casa A expressão casa deve necessariamente ter dois sentidos diferentes nessa frase mas apenas se essa frase tem sentido ou seja se com ela alguém realiza um ato semântico determinado Um ato semântico com uma determinada força sempre teria um conteúdo O conteúdo ou significação porém tem diferentes ingredientes Frege introduziu os conceitos de conteúdo judicá vel ou conceitual e de representação para separar os ingredientes objetivos dos ingredientes subjetivos O conteúdo de uma frase declarativa é analisado no que eu chamo pensamento Gedanken e valor de verdade Wahrheistwerth Isso é conseqüência da distinção entre sentido Sinn e signi ficado Bedeutung de um sinal Zeichen Nesse caso o sentido do enunciado Satzes é o pensamento e seu significado o valor de verdade A isto se soma ainda o reconhecimento de que o valor de verdade é o verdadeiro Com efeito eu distingo dois valores de verdade o verdadeiro e o falso Prólogo As leis bá sicas da aritmética 1962 p vxxvi Todavia não há uma correlação imediata e direta entre as par tes da estrutura frasal as palavras e as partes lógicas da estrutura do conteúdo expresso Frege formulou essa tese como um princípio semântico apenas no contexto de uma frase uma palavra tem um sentido determinado Considerese a palavrinha é nas seguintes frases 1 João é um professor 2 João é o professor de teoria dos solos e 3 João é calvo Embora a função gramatical seja a 76 Filosofia da Linguagem I mesma o sentido de é em 1 difere do sentido em 2 e 3 no primeiro caso essa palavra expressa a relação de inclusão de classe no segundo ela expressa a relação de identidade e no terceiro a de instanciação de uma propriedade Em termos da teoria de Frege em cada um desses contextos embora a função gramatical seja a mesma verbo de ligação o é significa em cada um deles um conceito di ferente portanto é usado com diferentes sentidos Como alguém pode ter um conceito sem ter o outro e ainda como um conceito pode ser apreendido de diferentes maneiras Frege defendeu que o é tem vários sentidos e isso para ele valia para qualquer palavra Daí que a atribuição de um sentido determinado a uma palavra ape nas possa ser feito no contexto de uma frase determinada A suposição de Frege é de que a prática linguística implica que as frases enunciativas codifiquem conteúdos ou significações que podem ser apreendidos pelos interlocutores e julgados intersub jetivamente Esse conteúdo porém nem sempre está completa mente determinado pela frase pela estrutura gramatical pois há casos de frases cujo conteúdo é contextual e noutros que é subje tivo Isso quer dizer que para se apreender o seu conteúdo semân tico e poder julgar a sua verdade ou falsidade ou seja beleza es tética ou adequação retórica temse que explicitar o contexto de proferimento eou o falante em pessoa Exemplos de frases desse tipo são as frases Hoje está chovendo e Eu estou cansado Para sabermos o que foi efetivamente dito com o proferimento de uma dessas frases não basta analisarmos a frase e seus componentes precisamos saber em que dia a primeira foi proferida e em que local e também quem proferiu a segunda e o que ela entende por cansado Notese que no seu uso cotidiano a primeira independe do falante e a segunda independe da situação todavia essa inde pendência será questionada pelas teorias hermenêuticas e prag máticas da linguagem O que Frege queria defender porém era que a prática linguís tica implica que em alguns casos ao menos haja um conteúdo objetivo determinado passível de ser considerado e julgado pelos interlocutores Para ele esse é o caso dos enunciados científicos lógicos matemáticos jurídicos e práticos A objetividade semânti ca de um enunciado implica que se pode determinar e explicitar o A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 77 conteúdo posto para ser avaliado sobretudo aquilo de que se fala e o que se diz disso de que se fala de modo que diferentes interlo cutores possam julgar o mesmo contéudo As noções de formas e operações lógicas de objeto e de conceito seriam aquelas com as quais se explicitaria a estrutura do contéudo asserido Contudo Frege entendia que muitos usos da linguagem apenas pressupõem que as expressões tenham sentido mas não significa do isto é tais usos não implicam nem requerem que as expressões designem objetos ou expressem conceitos determinados nem que as frases assertóricas tenham um valor de verdade Esse seria o caso da poesia e da literatura Ainda para vastos âmbitos da prática discursiva nem sequer um sentido objetivo pode ser fixado como no caso da ética da re ligião e da estética Nesses âmbitos da experiência humana seria impossível alcançar a objetividade embora isso não implique que não sejam importantes e compreensíveis sendo significativos no sentido de terem valor humano Para Frege o mundo e o pensamento apenas podem ser acessa dos intersubjetivamente por meio de uma linguagem A verdade o conhecimento os fatos etc para ele esses conceitos indicam tão somente frases significativas validadas por uma comunidade O problema está no fato de que o uso natural e as gramáticas das lín guas naturais não permitem distinguir claramente e explicitamen te sempre e em todos os casos em que sentido uma determinada expressão está sendo usada A compreensão linguística no mais das vezes depende da empatia com o falante do conhecimento do contexto e da situação de proferimento dos hábitos e costumes de uma determinada comunidade histórica etc Tanto os pensamen tos do falante quanto aquilo de que e aquilo que ele fala embora codificados nas suas palavras podem ser malentendidos Para garantir a clareza no dizer e no raciocinar e a explicita ção completa dos conteúdos asseridos a proposta de Frege foi a de criar uma linguagem artificial para uso nas ciências com o objetivo de propiciar uma linguagem capaz de refletir e explicitar na sua própria forma os pensamentos de modo que não se pre 78 Filosofia da Linguagem I cisasse recorrer seja ao falante seja ao contexto de proferimento bastando apenas a expressão linguística Essa linguagem por suas próprias regras e uso deveria mostrar na própria forma o seu con teúdo Esse modelo tornouse o paradigma das linguagens lógicas e matemáticas Para isso porém é necessário o mapeamento das formas básicas do pensamento ou ao menos de um número de for mas básicas com as quais fosse possível expressar a maior parte dos nossos pensamentos Frege propos já na sua primeira obra uma tal linguagem artificial que ele denominou Conceitografia Bergriffs chrift A partir dessa proposta iniciase a longa discussão ainda inacabada acerca das funções semânticas básicas que compõem o conteúdo semântico das diferentes frases As teorias que explici tam e explicam conceitualmente esse conteúdo são chamadas de teorias do significado ou teorias semânticas que serão objeto de apresentação na segunda parte deste livro O cerne do argumento para a prioridade e a primariedade da linguagem é do tipo condiçãocondicionado Frege argumenta a partir daquilo que não pode ser recusado pelo interlocutor ou seja a dimensão de sentido que permite o jogo de afirmações e ne gações de proposições e contraproposições Por isso a evidência última que ele utiliza para introduzir ou eliminar um conceito ou uma proposição não é a introspecção nem a experiência sensível e as relações causais nem o ser ou a essência nem a autoridade de uma deusa mas sempre a noção de sentidosem sentido que se dá na interação linguística A força desse argumento está no fato de que por um lado a argumentação realizase ela mesma a partir daquilo que o interlocutor pode por ele mesmo compreender e testar e por outro a argumentação não pode ser recusada senão por um gesto ele mesmo linguístico de modo que nos dois casos pressupõese uma interação com sentido Esse ponto se mostra inclusive na própria forma de argumenta ção de Frege Na sua teoria o conceito de sentido é central Agora no uso direto de uma frase expressase um pensamento o sentido da frase e referese a um valor de verdade Quando Celso pronun cia a frase A Lua orbita ao redor da Terra essas palavras expres sam um pensamento isto é um estado de coisas que pode ser ver dadeiro ou falso ou seja ao dizer essa frase Celso se compromete A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 79 com o interlocutor e ele pode julgar esse compromisso pois ou ele diz uma verdade ou diz uma falsidade Todavia quando Lunice diz Celso disse que a Lua orbita ao redor da Terra essa frase tem outro sentido e outra referência pois ao dizer isso e usar a frase a Lua orbita ao redor da Terra ela não se compromete com a sua verdade ou falsidade mas tão somente a usa para se referir ao pensamento de Celso ou seja ao sentido que ele expressou ao pro nunciar essa frase Notese que Lunice poderia indicar o pensa mento de Celso usando outra frase por exemplo uma em japonês Manifestase aqui novamente o princípio de que o significado de uma expressão linguística depende do contexto pois a mesma fra se tem significados diferentes quando Celso a pronuncia e quando Lunice a pronuncia A frase é a mesma mas o seu uso é diferente Isso mostra duas características fundamentais da noção de sen tido e pensamento fregeanas Primeira o sentido apenas pode ser expresso e apreendido por meio de uma linguagem Segunda diferentes expressões linguísticas até mesmo de diferentes lingua gens podem ser usadas para expressar o mesmo sentido Essas ca racterísticas são determinantes para a necessidade de introduzir e distinguir dois tipos de linguagem a linguagem usada pelo filósofo para fazer a sua análise e a linguagem analisada Frege claramente distinguiu entre a linguagem usada por ele o alemão e a lingua gem por ele criada a Begriffschrift conceitografia No entanto para Frege esse fenômeno apenas indicava que nós não podemos sair da linguagem Mais tarde Tarski vai distinguir explicitamente entre linguagem objeto e metalinguagem com outros propósitos 42 Sinal sentido e significado O núcleo da teoria fregeana está nas distinções semânticas pos tas como fundamentais para se evitarem confusões lógicas A base dessas distinções é a diferenciação entre o sinal e o sentido em que esse sinal é usado e ainda o significado aquilo designado por ele que pode ser um objeto concreto um objeto abstrato ou um concei to O ponto de partida é a distinção clara entre o nome e a coisa no meada Pela teoria de Locke um sinal é significativo se expressa uma ideia para Mill um sinal pode ser significativo se nomear um objeto Em contraste com a teoria de Mill Frege no texto Sobre o sentido Confira o Capítulo 8 deste livrotexto 80 Filosofia da Linguagem I e a referência de 1892 defendeu que os nomes vinculamse aos ob jetos pela mediação de um sentido e este sentido tem a ver com os atributos do objeto nomeado pois no sentido está um modo de apre sentação daquilo mesmo que é nomeado Porém diferentemente de Locke Frege não concebia esse elemento intermediador como uma ideia ou representação mental Além disso foi Frege quem salientou o aspecto lógico dos nomes a saber de poderem ladear um sinal de identidade o que indica sua função semântica como termo singular Esse artigo começa justamente perguntando como se deve entender um enunciado de identidade Considerese o seguinte enunciado 1 Florianópolis é a capital de Santa Catarina Se compreendermos a palavra é como significando a relação de identidade e abreviarmos a expressão Florianópolis para F e a capital de Santa Catariana para C obtemos o enunciado 1 F C Esse enunciado pode ser interpretado como significando três pensamentos diferentes a relação de identidade entre duas ideias como sugere a teoria de Locke a relação de identidade entre dois objetos como sugere a teoria de Mill ou simplesmente a relação de identidade entre dois sinais ou expressões Para Frege nenhuma dessas respostas apreende o sentido da frase 1 Primeiro quem faz essa afirmação em geral não quer falar de suas ideias ou representa ções mas sim quer falar algo objetivo E se quisesse falar das ideias indicadas pela expressão sujeito e pela expressão predicado essas ideias seriam claramente diferentes logo o enunciado seria falso Por sua vez dizer como Mill que esse enunciado é sobre os obje tos nomeados por essas expressões gera uma dificuldade pois se o enunciado é verdadeiro se trata do mesmo objeto mas quem sabe que Florianópolis é Florianópolis pode não saber que Florianópolis é a capital de Santa Catarina Logo há uma diferença cognitiva que se perderia A explicação em termos de identidade entre os sinais também não é satisfatória pois em geral não é isso que se quer dizer quando se usa esse tipo de frase E por outro se fosse esse o caso o enunciado seria claramente falso para não dizer sem sentido A estratégia de Frege pede que consideremos dois tipos de enunciados do seguinte modo A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 81 1 Florianópolis é a capital de Santa Catarina 2 Florianópolis é Florianópolis O segundo é um enunciado de identidade do tipo x x já o primeiro é do tipo x y Notese que esses dois enunciados têm condições cognitivas bem distintas podese saber que 2 é verda deiro o que se segue do princípio de identidade sem que se saiba se o primeiro é ou não verdadeiro Em outras palavras o segundo enunciado é analítico necessariamente verdadeiro sob qualquer condição já o primeiro pode ora ser ora não ser verdadeiro e o conhecimento de sua verdade ou falsidade depende de algo que não está dado no próprio enunciado Para explicar essa diferença Frege introduziu a distinção en tre sentido e significado Além do sinal o nome ou a expressão Zeichen e daquilo que é significado Bedeutung por ele haveria um terceiro elemento o sentido Sinn que seria o modo de apre sentação Art von Gegebenseins o modo de darse do significado No caso de nosso exemplo nós temos dois sinais Florianópolis e a capital de Santa Catarina um significado uma cidade o qual é apresentado de dois modos diferentes Isso pode parecer estranho mas imagine alguém que não conhece a cidade de que estamos falando Há várias maneiras de apresentála ou introduzi la Podemos lhe dizer Essa cidade é Florianópolis ou Essa cida de é a capital de Santa Catarina ou Essa cidade é a cidade onde fica a UFSC ou Essa cidade é a cidade que fica numa ilha com 27 praias ou ainda Essa cidade é a aquela em que estamos agora Todos esses são modos pelos quais alguém pode indicar e direcio nar dar um sentido que se seguido levaria a encontrar a cidade acerca da qual se fala ou seja um sentido é um modo de apre sentação de algo ou ainda um modo de identificação que per mite determinar do que se fala Daí que embora seja um enun ciado de identidade Florianópolis é a capital de Santa Catarina é informativo pois nos informa que há dois sentidos diferentes que levam ao mesmo objeto ou dito ao contrário que um mesmo ob jeto se apresenta e identificase por meio de dois modos diferentes Notese que para Frege os nomes próprios também têm sentido Agora qual é o sentido com que alguém emprega um nome como Florianópolis irá depender justamente desse modo de emprego 82 Filosofia da Linguagem I O ideal para efeitos de compreensão e raciocínio seria que todos o utilizassem com o mesmo sentido A tese de Frege é que o sentido é um ingrediente da significa ção e que é esse ingrediente que possibilita a compreensão mútua ou seja a comunicação objetiva Por isso ele insiste que o sentido de uma expressão é totalmente diferente das representações ou dos estados subjetivos associados a ela O sentido é aquele aspecto da sig nificação que é 1 passível de expressão numa linguagem e por isso 2 compartilhável por diferentes sujeitos Isso fica claro no exemplo usado por Frege No transcorrer dos dias e das noites há um corpo celeste que é o primeiro corpo celeste luminoso a aparecer no iní cio da noite e há um que é o último a desaparecer no início do dia Esses são dois modos objetivos no sentido de serem intersubjetiva mente constatáveis qualquer pessoa pode compreender e verificar esses fenômenos Os nomes Estrela Vespertina e Estrela Matutina indicam esses corpos celestes Em algum momento da história des cobriuse que essas duas estrelas eram na verdade a mesma estrela que na verdade não é uma estrela mas sim um planeta o planeta Vênus Assim quando alguém enuncia A estrela vespertina é a es trela matutina há um conteúdo semântico que pode ser apreendido pelo interlocutor e julgado Frege denominava isso de conteúdo ju dicável ou pensamento Gedanken Agora qual é esse conteúdo Representemos o conteúdo judicável entre colchetes para dife renciar das expressões Pela teoria de Locke Hume e Kant o con teúdo judicável de A estrela vespertina é a estrela matutina seria um complexo resultante da síntese de duas ideias ou representa ções Ideia 1 Ideia 2 pela teoria de Mill são os próprios objetos que compõem o significado ora se se trata do mesmo objeto logo o conteúdo teria essa estrutura Objeto Objeto Para Frege ne nhum desses esquemas representa adequadamente o sentido do enunciado isto é o que é posto para ser julgado pelo enunciado A estrela vespertina é a estrela matutina pois argumenta que não se trata apenas de julgar uma relação entre ideias e também de dizer que o objeto é o mesmo objeto O que se quer dizer é que o mesmo objeto é apreensível de duas maneiras diferentes que há duas ma neiras de identificar Vênus como a última estrela a desaparecer no fim da noite e a primeira estrela a aparecer no início da noite Em outras palavras seguindo a teoria de Frege haveria dois modos de apresentação diferentes para um mesmo objeto Atente para essa definição Ela é muito importante na explicação fregeana de como através da linguagem se consegue estabelecer uma comunicação objetiva entre diferentes pessoas A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 83 Frege postulou que todas as expressões designadoras de obje tos os termos singulares da lógica tais como os nomes próprios as descrições definidas e os pronomes expressariam um sentido e designariam um objeto E isso valeria também para as expres sões predicativas os verbos os nomes comuns e as descrições in definidas os termos gerais Essas expressões também expressariam um sentido mas designariam conceitos Muitas vezes a mesma palavra é usada para indicar o objeto e o conceito como é o caso da palavra planeta que tanto pode ocupar a posição de sujeito quanto de predicado Nas frases O planeta é e é um planeta a diferença gramatical está no uso do artigo definido o e do artigo indefinido um indicadores de que ora se designa um objeto ora um conceito Desse modo na frase Vênus é um planeta usase o nome Vênus para indicar o objeto de que se fala e predicase dele o conceito designado pela palavra planeta Além disso Frege argu mentou que a inteira frase também tem um sentido o pensamento expresso e um significado que seria o seu valor de verdade Porém nessa parte da teoria fregeana devemos ter claro que os conceitos de sinal sentido significado conceito e objeto são todos eles con ceitos introduzidos para a descrição e a explicitação dos conteúdos judicáveis ou pensamentos expressos por frases completas 43 O princípio do contexto Com efeito a principal tese de Frege sobre a linguagem é a que afirma que as palavras isoladas não têm sentido determinado e por conseguinte não se pode saber o que elas significam Con trariando as teses clássicas de Platão Aristóteles Agostinho Lo cke e Mill e retomando uma tese cara aos hermeneutas conferir Cap 3 Frege enuncia inicialmente essa tese como uma exigência metodológica devese perguntar pelo significado das palavras no contexto da frase e não isoladamente Os fundamentos da arit mética p 202 p 246247 e p 274 Porém depois ela se torna um princípio semântico apenas no contexto de uma frase as palavras têm significado o assim chamado Princípio do contexto Esse princípio indica que as palavras e os sinais o léxico são agenciados por um modo de emprego e somente assim adquirem propriedades semânticas Tratase de uma consequência da tese da 84 Filosofia da Linguagem I arbitrariedade do signo linguístico no sentido de que a significa tividade não é uma propriedade natural ou causal dos sinais eles mesmos mas antes uma propriedade adquirida pela sua subsunção no sistema de regras e usos que instaura a linguagem Além disso o princípio do contexto pretende solucionar o problema da expli cação da multiplicidade de significações e usos de um mesmo sinal como é o caso das palavras de casa banco etc ao indicar que a significação particular e determinada de uma palavra depende do contexto de emprego Em termos mais técnicos o que o princípio do contexto diz é que a função o conteúdo e o valor semânticos de uma palavra são determinados pelo lugar que a palavra ocu pa na estrutura frasal não fazendo sentido perguntar pelo sentido ou significado de uma palavra isoladamente como sugerem os di cionários Além disso o ponto principal do princípio do contexto é o estabelecimento de um domínio de objetividade inteiramente constituído pela linguagem e unicamente acessável pela compreen são do sentido de frases como é o caso dos objetos da aritmética O argumento de Frege é que a verdade de juízos de identidade e de frases quantificadas e predicativas é suficiente para a identificação de entidades ou objetos como é o caso dos números Todavia a teoria fregeana da linguagem tem outro princípio que parece dizer exatamente o contrário do que diz o princípio do contexto tratase da tese de que o sentido e o significado de uma expressão composta são uma função do sentido e do signifi cado de suas partes componentes Esse princípio está na base das linguagens artificiais pois em geral elas fixam de antemão um vo cabulário uma interpretação e regras de construção de frases e assim permitem sempre a explicitação do que foi dito por uma das frases geradas nessa linguagem O princípio da composicionalidade e o princípio do contexto têm sua formulação nos trabalhos de Frege A exigência devese perguntar pelo significado das palavras no contexto da proposição e não isoladamente Os fundamentos da aritmética p 202 p 246 247 e p 274 está colocada explicitamente como regra para a aná lise visando à elisão de concepções físicas e psicológicas do objeto número ou seja como argumento em favor de uma posição onto lógica A noção de composicionalidade por sua vez encontrase A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 85 em seus escritos mais tardios mas de certo modo estava implícita no seu modelo sintático pelo qual se supõe que os pensamentos sejam compostos de partes simples e a estas se as faz corresponder por sua vez com partes simples da sentença Idem p 114 Esse tópico é central na ideia mesma de análise Por análise em geral se entende um processo que através de distinções de partes de um complexo chega a elementos simples não mais decomponí veis os primitivos ou átomos e à forma de composição A tradi ção analítica por influência de Russell e Wittgenstein identifica se pelo ideal de análise que levaria à exposição da forma lógica e dos elementos simples do pensamento Esse ideal foi denominado de atomismo lógico e tinha como princípio a ideia de que um pen samento e uma frase com sentido determinado deveria poder ser analisado em sua forma lógica e seus componentes simples e isso apenas de uma única maneira Embora Frege seja considerado o iniciador dessa forma de pen sar e tenha proposto um modelo de análise e uma linguagem em que se cumprem esses desideratas na sua obra principal As leis básicas da aritmética ele sempre trabalhou com a ideia de que um pensamento poderia ser analisado de múltiplas formas Eu não creio que para todo conteúdo judicável haja apenas uma maneira de o decompor ou que uma das maneiras possíveis de decompor possa pretender uma prioridade real Recusando explicitamente o atomismo no plano do pensamento descartando como ilusória a analogia com as frases que sempre são decomponíveis em palavras e estas em letras ele insistiu que o pensamento não é estruturado mas que a estrutura provém da forma de expressão de acordo com a análise tal ou tal elemento é o sujeito ou predicado O pensamen to não determina ele mesmo o que se deve tomar como sujeito A sua tese era de que o pensamento e o domínio conceitual não são constituídos de partes isoláveis e atômicas Por isso diz ele em vez de obter o juízo unindo um indivíduo como sujeito com um conceito já formado como predicado eu ao contrário decomponho o conteúdo judicável para obter o conceito Sem dúvida que a expressão de um conteúdo judicável para poder ser assim decomposta tem que ser ela mesma articulada Podese inferir que as propriedades e relações que não podem ser mais decompostas devem ter uma designação ele Lógica e Filosofia da Linguagem p 77 Investigações lógicas p 114 144 Essa é uma tese apresentada pela obra fregeana Sobre o conceito e o objeto 86 Filosofia da Linguagem I mentar própria Mas não se segue que as representações destas pro priedades e relações são formadas independentemente das coisas ao contrário elas nascem ao mesmo tempo que o primeiro julgamento pelo qual elas são atribuídas às coisas Por conseqüência a sua desig nação não é apresentada separadamente na conceitografia mas sem pre nas combinações que exprimem conteúdos judicáveis FREGE G Schriften zur Logik und Sprachphilosophie hrsg von G Gabriel Ham burg Felix Meiner 1978b p 18 O principal relativamente à relação entre linguagem e o plano do pensamento e dos conceitos é que esses não são pensados como existindo previamente ao ato de frase e asserir A sua tese era de que a formação dos conceitos não pode preceder os juízos pois isso pressuporia uma existência independente dos conceitos selbstän diges Bestehen Ao contrário Frege defendia que os conceitos for mamse por meio da análise do conteúdo judicável por conseguin te pressupõe a existência de juízos frases afirmativas e negativas 44 O mapeamento das diferentes funções semânticas Um dos principais objetivos da abordagem lógicosemântica inaugurada por Frege é o mapeamento e a explicitação das funções e operações lógicas sobre conteúdos ou pensamentos Implícito nessa forma de abordar a linguagem está o princípio da analisabi lidade do conteúdo semântico em termos de diferentes funções se mânticas de cuja conjugação uma frase é formada e um contéudo judicável é composto Bertrand Russell acentua como justificação principal para a diversidade de funções semânticas que não há apenas uma relação de significação entre as palavras e o que elas representam mas existem tantas relações de significação cada uma de um tipo lógico diferente quantos são os tipos lógi cos entre os objetos para os quais existem palavras Logik and Knowledge London Routledge 1989 p 232233 Daí a ideia de que significar se perfaz de múltiplos modos e o pla no de investigação sobre quais são as funções semânticas básicas Em lógica geralmente são utilizadas expressões marcadas como fa zendo o papel semântico de quantificadores determinantes desig nadores predicadores descritores conectores gramatical preposi A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 87 ções conectivos lógicos proposicional operadores indexadores dêitico indexadores anafórico demonstrativos etc O principal do método das análises lógicosemânticas nas suas diferentes ten dências consiste na proposta de i uma explicitação das funções lógicas e semânticas objetivas e controláveis do conteúdo expres so por uma expressão palavra ou frase O objetivo é alcançar ii uma clareza tal que permita o cálculo ou raciocínio controlado e explícito em todos os seus passos e operações Para isso fazse ne cessária iii a construção de uma linguagem formal regimentada com um vocabulário de expressões unívocas com uma gramática finita e estipulada bem como de uma relação de interpretação em relação a um domínio de referência determinado Cf MORTARI Cezar A Introdução à lógica São Paulo EDUNESP 2001 A explicitação das funções semânticas atribuídas às expressões da linguagem formal e a explicitação da estrutura do domínio de referência desse modo poderiam ser realizadas de modo explícito em geral numa outra linguagem uma linguagem conceitual ou filosófica ou na linguagem natural que permitiria uma tradução entre diferentes linguagens O ideal inicial dessa corrente filosófica era a exclusão de todo e qualquer elemento subjetivo psicológi co mental na explanação do pensamento e raciocínio discursivo restanto apenas conceitos lógicos semânticos e contextuais obje tivos Ao final restam apenas três elementos as palavras as coisas e as regras de concatenação Uma teoria analítica composicional caracterizadora das con cepções lógicosemânticas da linguagem tem como objetivo es pecificar uma série de funções e operações semânticas que seriam associadas a determinadas expressões e fórmulas O propósito é o estabelecimento de um algoritmo ou cálculo que permita a ex pressão exata de conteúdos e a completa explicitação das relações entre diferentes expressões linguísticas sobretudo as relações de pressuposição e consequência lógicas entre sentenças de uma dada linguagem em relação a um dado domínio de referência Podese elencar os seguintes postulados dessas teorias 1 Há fatos semânticos palavras e sentenças são significativas e têm re ferência e as pessoas realizam atos semânticos referir predicar asserir perguntar ordenar proferindo tais expressões 88 Filosofia da Linguagem I 2 Sentenças declarativas codificam peças de informação denomina das proposições A proposição veiculada por uma sentença com res peito a um dado contexto é o seu conteúdo semântico com respeito aquele contexto 3 O conteúdo semântico de uma sentença com respeito a um dado contexto é uma entidade complexa e ordenada algo como uma se quencia cujos constituintes são semanticamente correlacionados siste maticamente com expressões componentes da sentença tipicamente as expressões simples não compostas Exceções acontecem em cone xão com marcas de citação e dispositivos similares 4 O valor semântico a contribuição para o conteúdo informativo com respeito a um dado contexto c de todo termo singular simples é o seu referente com respeito a c e o tempo de c e o mundo de c 5 Toda expressão pode ser pensada como referindo com respeito a um dado contexto tempo e mundo possível a sua extensão com respeito a um dado contexto tempo e mundo possível 6 O valor semântico com respeito a um dado contexto c de um predi cado simples de nlugares de primeira ordem é um atributo de nluga res uma propriedade se n1 uma nenária relação se n1 ordinaria mente um atributo atribuído aos referentes do termo singular acoplado Exceções para marcas de citação e similares 7 O valor semântico relativo a um contexto de um conectivo senten cial de nlugares é um atributo comumente do tipo de coisas que serve como referente para sentenças compostas valor de verdade 8 O valor semântico de um quantificador de nlugares ou predicado de segunda ordem é um nenário atributo comumente do tipo de coisas que serve de referente para predicados de primeira ordem compostos 9 O valor semântico com respeito a um dado contexto de uma expres são composta típica se houver é uma entidade complexa e ordenada algo como uma sequencia cujos constituintes são semanticamente correlacionados sistematicamente com expressões componentes da expressão composta tipicamente expressões simples não compostas Exceções para marcas de citação e similares 10 O valor semântico relativo a um dado contexto de uma sentença assertórica é o seu conteúdo informativo a proposição veiculadacodi ficada a qual determina uma extensão isto é um conjunto de mundos possíveis ou situações em que ela é verdadeira A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 89 Desse modo podese interpretar diferentes frases e encadea mentos de frases de uma dada linguagem artifical e até mesmo mapear as suas traduções numa outra linguagem Além disso em geral se trabalha com princípios semânticos que orientam a cons trução e a interpretação das linguagens artificiais 11 O conteúdo semântico de uma sentença é uma função do conteúdo semântico de suas partes componentes 12 Para quaisquer sentenças S e P se S é verdadeira e P falsa S e P têm que diferir quanto à significação Diferenças nas condições de verdade implicam diferenças de significatividade 13 Para quaisquer sentenças S e P se S e P têm o mesmo valor de ver dade em todas as circunstâncias de avaliação então S e P têm a mesma significação A identidade de valor de verdade implica a identidade de condições de verdade e esta implica a identidade de significação 14 O conteúdo semântico de uma expressão entendido como sua in tensão determina o seu valor semântico entendido como sua exten são O sentido determina o significado 15 Para duas expressões a e b ab expressa uma proposição verdadei ra somente se a substituição de b por a preserva o valor de verdade do inteiro contexto Na base operase com as seguintes pressuposições tanto os si nais linguísticos quanto os significados são isoláveis em unidades atômicas e para cada parte de um sinal complexo devese encon trar um ou uma parte no plano do significado Os significados podem ser coisas dados sensoriais ações intenções conjuntos subconjuntos informações valores de verdade etc Fica claro as sim que a concepção lógicosemântica estabelece uma conexão estreita entre significado verdade e referência no sentido de que a explanação do significado de uma sentença consiste em explicitar as condições sob as quais essa sentença seria verdadeira e falsa e o valor de verdade verdadeira ou falsa determinase somente a partir da fixação da referência Em outras palavras a referencia lidade ou objetividade da sentença lhe habilita a ter um valor de verdade e essa condição seria o cerne de seu significado 90 Filosofia da Linguagem I Leituras recomendadas FREGE G Sobre o sentido e a referência In Lógica e Filosofia da Linguagem São Paulo Cultrix EDUSP 1978a FREGE G Digressões sobre o sentido e a referência In Lógica e Filosofia da Linguagem São Paulo Cultrix EDUSP 1978b FREGE G Sobre o conceito e o objeto In Lógica e Filo sofia da Linguagem São Paulo Cultrix EDUSP 1978c RUSSELL Bertrand Da denotação Tradução de Pablo Rú ben Mariconda São Paulo Abril Cultural 1978 p 314 Os Pensadores WITTGENSTEIN L Tractatus LogicoPhilosophicus São Pau lo EDUSP 1993 Reflita sobre Toda linguagem natural teria uma teoria do significado com posicional correta Toda teoria do significado composicional correta para uma linguagem L é também uma semântica veritativofuncional para L Ou seja além de gerar um significado para cada sen tença significativa de L a teoria também gera uma condição de verdade para cada asserçãoenunciado em L As atitudes proposicionais crer pensar saber dizer etc po dem ser interpretadas sempre como relacionais no sentido de que a forma X acredita y onde y está por uma proposição ou conteúdo expresso por uma sentença e X por um sujeito Seja S João acredita que 224 e P João acredita que a raiz quadrada de 16 é 4 Pode acontecer uma circunstância de avaliação em que S seja verdadeira e P seja falsa Como com patibilizar esse fato com os princípios e postulados adotados pela análise lógicosemântica Capítulo 5 A concepção pragmático intencional de linguagem Neste capítulo é apresentada a teoria prag mática da linguagem Para isso são expostos as teorias e os conceitos de Austin Grice e Searle com o objetivo de mostrar que a lin guagem pode ser pensada a partir dos con ceitos de ação e interação e não somente a partir dos conceitos de representação e co nhecimento O ponto principal é a distinção semântica entre o que se disse e o que se quis dizer ao se pronunciar uma frase a qual está fundada na distinção entre o que se disse e o que se faz ao dizer The globe is flat because Earth is flat A concepção pragmáticointencional de linguagem 93 5 A concepção pragmático intencional de linguagem Até aqui se trabalhou a noção de linguagem em relação ao pen samento e à realidade e a ideia de conteúdo semântico de uma expressão linguística em termos de representação seja de estados de coisas seja de conteúdo conceitual Todavia no mais das vezes o proferimento de uma frase não visa propriamente falando re presentar o mundo nem expressar pensamentos e ideias mas antes interagir com e orientar o interlocutor no plano do agir As teo rias da linguagem ditas pragmáticas tomam essa função como primitiva e dela derivam todas as demais funções semânticas O ponto principal da concepção pragmática da linguagem é a tese de que a significação linguística tem como ingrediente princi pal e fundante o agir e não o sentir e o pensar no sentido de que o proferimento de uma expressão significativa é prioritariamente um ato que visa realizar uma ação e não representar um objeto ou expressar uma ideia ato diante do qual a resposta exigida também é uma ação e cujas condições de realização não têm a ver com con dições de verdade mas sim com condições de sucesso e eficácia A teoria dos nomes próprios de Stuart Mill já havia proposto a eliminação dos intermediários representacionais e mentais e Fre ge já havia chamado a atenção para os aspectos pragmáticos da força assertórica e da determinação do conteúdo semântico para Atenção a concepção pragmática altera o modo tradicional de pensar a linguagem Agora o que importa é o agir não o sentir ou o pensar 94 Filosofia da Linguagem I muitas expressões mas nenhum deles desenvolveu uma teoria compreensiva da linguagem capaz de explicála em termos pura mente não representacionais Essa concepção é creditada a vários autores importantes em parte às teses do pragmatismo americano nas teorias seminais de Charles S Peirce William James e John Dewey e principalmente a Ludwig Wittgenstein na fase das Investigações filosóficas No en tanto foram as obra de John L Austin Quando dizer é fazer pala vras e ações publicada em 1962 e a obra de John R Searle Atos de fala publicada em 1969 que estabeleceram o paradigma teórico da análise pragmática da linguagem Hoje a sua melhor expres são encontrase nas obras de Robert Brandom Making it Explicit 1994 e Between Saying and Doing 2008 51 Dizer é fazer Alguns dos principais conceitos dessa corrente foram estabe lecidos por John L Austin 19111960 na obra Quando dizer é fazer palavras e ação publicada postumamente em 1962 A tese principal de Austin é de que a linguagem é uma forma de ação e não de representação da realidade Por isso a análise da linguagem deve explicitar as condições de uso da expressão que determinam o seu significado A primeira distinção que assim se estabelece é entre frases ou enunciados constativos enunciados de relato ava liados quanto à verdade ou falsidade e performativos os quais não podem ser analisados quanto à verdade ou falsidade mas quanto às condições de sucesso Desse modo operase uma sepa ração no tratamento semântico de frases como as exemplificadas nos enunciados 1 e 2 1 Um litro de água pesa um quilograma ao nível do mar 2 Aposto cem reais como vai chover amanhã Se é adequado analisar o primeiro em termos de representação adequada da realidade e de condições em que seria verdadeiro ou falso não parece ser o caso para o segundo pois quem profere uma tal frase não está descrevendo ou representando o modo como o mundo é mas sim fazendo algo a saber fazendo uma aposta Em outras palavras o enunciado 2 não pode ser analisado em ter A concepção pragmáticointencional de linguagem 95 mos de verdade e falsidade Com efeito por meio de proferimen tos nós fazemos várias coisas prometemos pedimos ordenamos etc Austin denominou este tipo de enunciado de performativo e justificou assim Evidentemente que este nome é derivado do ver bo inglês to perform verbo correlato do substantivo ação e indica que ao se emitir o proferimento estáse realizando uma ação não sendo consequentemente considerado um mero equivalente a di zer algo AUSTIN J L Quando dizer é fazer Porto Alegre Artes Médicas 1990 p 25 A partir da ideia óbvia mas pouco explorada antes de que ao dizer algo estamos fazendo algo de que por dizer fazemos algo de fato os aspectos performativos da linguagem sempre foram reco nhecidos mas relegados sempre ou como extrínseco ou como algo a ser teorizado no plano do uso retórico Isso fica evidente nesse comentário de Ammonio ao Da interpretação de Aristóteles Posto que o discurso mantém uma dupla relação como mostrou o filó sofo Teofrasto uma com o ouvinte para o qual tem significado e outra com as coisas das quais o falante pretende convencer o ouvinte a partir da relação com os ouvintes surgem a Poética e a Retórica e com respeito à relação do discurso com as coisas o filósofo cuidará prefe rencialmente de refutar o falso e demonstrar o verdadeiro ARISTOTELIS De Interpretatione Commentarius ed de A Busse Berlin 1887 p 65 Z 3166 Z 10 Nessa perspectiva Austin distinguiu diferentes tipos de enun ciados quanto à sua força ilocucionária ação realizada chegando a três tipos de ação linguística Em primeiro lugar distinguimos um conjunto de coisas que fazemos ao dizer algo que sintetizamos dizendo que realizamos um ato locucioná rio o que equivale a grosso modo a proferir determinada sentença com determinado sentido e referência o que por sua vez equivale a grosso modo a significado no sentido tradicional do termo Em segundo lugar dissemos que também realizamos atos ilocucionários tais como infor mar ordenar prevenir avisar comprometerse etc isto é proferimen tos que tem uma certa força convencional Em terceiro lugar também podemos realizar atos perlocucionários os quais produzimos porque dizemos algo tais como convencer persuadir impedir ou mesmo sur preender ou confundir Aqui temos três sentidos ou dimensões diferen 96 Filosofia da Linguagem I tes senão mais até da frase o uso de uma sentença ou o uso da lin guagem e naturalmente há outras também Todas esses três classes de ações estão sujeitas simplesmente por serem ações às dificuldades e reservas costumeiras que consistem em distinguir uma tentativa de um ato consumado um ato intencional de um nãointencional e coisas semelhantes Quando dizer é fazer 1990 p 95 Desse modo podemos fixar a distinção entre diferentes atos as sociados ao uso de uma expressão linguística o ato de dizer algo o ato que se realiza no dizer algo e o ato que se realiza porque se disse algo respectivamente Ato locucionário enunciado com pretensão de sentido ou referência Ato ilocucionário enunciado em que o falante atribui ao conteúdo proposicional uma determinada força de realiza ção de uma afirmação de oferecimento de promessa de or dem etc num determinado contexto Ato perlocucionário enunciado por meio do qual o falante exerce certos efeitos sobre o ouvinte Notese que em grande medida Austin seguia de perto as análi ses de Frege mas ao priorizar os aspectos performativos e inten cionais da linguagem ele subsumiu o aspecto referencial conteu dístico privilegiado por Frege a uma forma de ação linguística entre outras Além disso a noção de ter significação para uma expressão linguística é alargada para dar conta daqueles usos em que propriamente os falantes não estão representando ou dizendo como o mundo está ou não Esse alargamento implicou que a significação não poderia mais ser reduzida à codificação de condições e cláusulas para a verdade ou a falsidade e menos ainda tão somente para a adequada representação das coisas Seguindo a proposta de Austin John Searle nas obras Os actos de fala e Significação e expressão propôs a seguinte classificação das condições de sucesso dos atos de fala 1 Condição preparatória o ouvinte O é capaz de fazer A 2 Condição de sinceridade O falante F quer que o ouvinte O faça A ato A compreensão da diferença entre esses atos é fundamental para a compreensão de todo este capítulo A concepção pragmáticointencional de linguagem 97 3 Conteúdo proposicional O falante F pressupõe um futuro ato A por parte do ouvinte O 4 Condição essencial Conta como uma tentativa do falante F em fazer com que o ouvinte O faça A A partir disso Searle ampliou a classificação dos diferentes tipos de atos de fala ou seja dos diferentes tipos de significação ou uso de uma sentença 1 Representativo compromete o falante com a verdade da proposição expressa dizer asseverar 2 Diretivo tenta levar o interlocutor a fazer algo pedir man dar ordenar 3 Compromissivo compromete o falante como uma ação fu tura prometer ameaçar 4 Expressivo expressa um estado psicológico agradecer congratular 5 Declarativo muda o estado institucional tende a se apoiar em instituições extralinguísticas excomungar declarar guerra condenar demitir Notese que o ponto desse tipo de análise centrase sempre no que o falante faz ao proferir uma determinada sentença A ênfase é no aspecto da linguagem que a coloca no plano do agir e não tanto no plano do sentir e do pensar A abordagem pragmática da linguagem inaugurou um tipo de teorização que modificou substancialmente a estratégia de argu mentação filosófica em muitos campos ao deslocar o foco da aná lise do âmbito do conhecimento e da verdade para o âmbito da ação e da correção e pertinência das ações Esse tipo de abordagem permite uma reconsideração de vários temas e problemas no plano da ética e da política como atestam os trabalhos de KarlOtto Apel sobretudo o texto O a priori da comunidade de comunicação e os fundamentos da Ética de 1972 e os trabalhos de Jürgen Habermas sobretudo a obra Consciência moral e agir comunicativo de 1983 98 Filosofia da Linguagem I Para Habermas alguém que faz um proferimento presume que o que foi dito pode ser justificado em quatro planos de va lidação Primeiro que o que foi é dito é inteligível quer dizer que forma utilizadas regras semânticas inteligíveis pelos outros se gundo que o conteúdo do que foi dito é verdadeiro terceiro que o falante pode garantir em termos sociais e normativos correntes no uso do idioma estar autorizado a dizer o que diz e quarto que o falante é sincero no que diz não engana o receptor Uma situa ção de fala em que se cumprem esses quatro quesitos seria o que Habermas denominou de comunicação não distorcida A partir disso se pode falar de condições pragmáticas e normativas para o discurso de uma ética da comunicação que estaria na base de todas as interrelações humanas Essa teoria do agir comunicativo deu origem a várias novas teorias inclusive uma nova definição de verdade de caráter universal e ao estabelecimento das bases para uma teoria ética e política 52 As implicações do dizer Em grande parte esse novo tipo de abordagem da linguagem se deve também aos trabalhos do filósofo inglês Henry Paul Grice 19131988 sobretudo os texto Meaning 1972 e Logic and conversation 1967 que estabeleceram a distinção entre o sig nificado do falante speakers meaning e a significação literal literal meaning bem como a teoria das implicaturas conversa cionais Nesses textos Grice propôs um modelo de análise das ma nifestações linguísticas e das práticas de conversação que se tornou paradigmático O ponto de partida da análise de Grice é que nos sas interações linguísticas são principalmente em certa medida esforços cooperativos em que cada interlocutor reconhece em si e nos demais um propósito ou conjunto de propósitos comuns em que cada ato linguístico é concebido como uma contribuição nes se esforço cooperativo Tornase evidente nessa abordagem a ênfa se no pensamento e no querer dizer em detrimento da ênfase na linguagem Grice aborda a linguagem como veículo de expressão das intenções do falante retomando o sentido do verbo inglês to mean significar dar a entender querer dizer pretender Caso tenha problemas para entender essa expressão releia a parte do livrotexto de Filosofia da Ciência que trata da teoria de Thomas Kuhn A concepção pragmáticointencional de linguagem 99 A partir dessa ideia podese explicitar regras ou máximas que regulam a prática da interação linguística A significação ou conteúdo de um proferimento dependerá das regras implícitas que regem o tipo de cooperação em andamento assim como da intenção ou propósito que o falante tem ao proferir uma frase No cerne dessa abordagem está a ideia de que a interação e a cooperação linguística possuem graus de eficiência e condições de realização Grice sugere que há regras derivadas justamente da finalidade da interação nas suas diferentes formas fornecer in formações interrogar ordenar avisar etc A partir dessa ideia ele sugeriu máximas da prática de conversação máximas essas que ao não serem seguidas prejudicariam ou até inviabilizariam o proces so comunicacional A regra mais geral pode ser assim formulada faça sua contribuição do modo que se espera que ela aconteça no momento em que ela deva ocorrer e de acordo com o objetivo ou direção da interação em andamento Em outras palavras bem comuns no vernáculo não fale sem propósito espere sua vez de falar e preste atenção ao assunto da conversa Deixando o gracejo de lado a teoria de Grice isola quatro princípios da cooperação de qualidade de quantidade de relação e de modo a partir dos quais se estabelecem quatro máxi mas conversacionais 1 Qualidade Não diga o que acredita ser falso Não diga aqui lo para o que você não pode fornecer evidência adequada 2 Quantidade Faça com que sua contribuição seja tão infor mativa quanto requerida Não faça sua contribuição mais in formativa do que é requerida 3 Relação Seja relevante seja pertinente 4 Modo ou Maneira Seja claro evite obscuridade evite ambi guidade seja breve seja ordenado A última máxima deveria ser a regra de ouro dos escritos filo sóficos e científicos Ela envolve quesitos como evite obscuridade de expressão não utilizando termos que não expõem o sentido da mensagem para o leitor evite ambiguidade usando palavras e ex 100 Filosofia da Linguagem I pressões com sentido definido e bem delimitado para que se possa obter uma interpretação unívoca evite prolixidade desnecessária produzindo uma mensagem com o máximo de informação e o mí nimo de palavras e evite a desordem organizando as informações num encadeamento temporal espacial e lógico Obviamente essas máximas valem para as interações discursivas com propósitos práti cos sendo desnecessário dizer que elas não valem para a maior par te dos nossos discursos notese que ao usar essa frase eu já não me adequo às máximas Problema qual das máximas eu não cumpri Como exemplo da análise que esse modelo propicia usando a máxima da relação podemos compreender o significado da ex pressão Que calor proferida em determinado contexto S1 e S2 encontramse em ambiente completamente fechado conversando S1 diz a S2 Que calor não S2 diz Espere e abre as janelas A teoria de Grice explica qual foi o raciocínio implícito ou a compreensão de S2 que o levou a dar essa resposta e sobretudo a fazer o que fez Implicitamente e tacitamente S2 pensou Eu sei que está quente aqui e ambos sabemos disso Então a frase não é apenas informativa Janelas e portas fechadas aumentam o calor da sala Então o propósito da frase é o pedido para abrirmos as janelas e portas Logo a resposta adequada não é Sim está muito quente aqui mas a ação de abrir as janelas Notese que essa análise combina de modo muito apropria do a abordagem pragmática e a abordagem intencional dos atos linguísticos A compreensão de um proferimento mesmo quando se trata explicitamente de uma sentença afirmativa considerando a situação em que o que se disse e as máximas conversacionais des loca a resposta do plano da representação e do conhecimento para o plano da ação e das práticas Isso revela que a resposta adequada para um enunciado é um revelador do seu conteúdo semântico Como no caso da frase Você tem horas a resposta adequada não é Sim mas a informação das horas o que revela que a frase não tinha um propósito cognitivo mas prático Isso sugere que o signi A concepção pragmáticointencional de linguagem 101 ficado ou conteúdo de uma expressão nem sempre seja uma repre sentação ou descrição da realidade e que com a linguagem se pode fazer outras coisas do que expressar ideias e representações No bojo da abordagem de Grice está uma teoria da significação linguística inovadora pois essa conjunção de conteúdo informativo e interação prática implica uma remodelação da noção mesma de significado a partir das ideias de implicitar implicate implicatura implicature e implicitado implicatum O significado linguístico será então analisado como uma função da intenção do enunciador e do reconhecimento dessa intenção pelo ouvinte em processos de interação cooperativa A questão do significado é portanto funda mentalmente pragmática pois se trata de analisar a relação prática entre falantes e interlocutores Nesse processo os participantes de um processo interativo utilizam as expressões e os sinais disponí veis na linguagem na maioria das vezes ancoradas no contexto e na situação de proferimento para dar a entender e significar de um modo que difere e extrapola em muito o significado literal das pala vras A abordagem pragmática ganha toda a sua força de evidência justamente ao mostrar que uma frase proferida em um contexto significa mais do que o literalmente dito e depois ao mostrar que há regras que permitem a um falante dizer esse a mais para um ou vinte e o ouvinte compreender o que foi dito Grice ilustra esse fato com o seguinte exemplo Maria e José es tão conversando sobre João Maria pergunta a José sobre como está João no seu emprego José responde Eu penso que ele está bem ele se dá bem com seus colegas e ainda não foi preso Notese que José responde à pergunta de Maria mas diz algo mais isto é além de dizer que João está bem no emprego a sua resposta signi fica ou traz implicada outra informação qual seja a de que João costuma ter problemas com os colegas e ser preso Para explicar esse tipo de significação Grice introduziu o conceito de implica tura conversacional que permite compreender como um inter locutor pode apreender um significado informação ou conteúdo semântico que concretamente não foi dito Esse conceito toma como base a ideia de que nas interações linguísticas se trata de um processo cooperativo baseado num conjunto de regras ou princí pios de cooperação implícitos O domínio dessas regras habilita A intenção do falante e o reconhecimento dessa intenção por parte do ouvinte são a chave da teoria de Grice 102 Filosofia da Linguagem I os falantes e ouvintes a se compreenderem mutuamente para além do que explicitamente é dito A partir disso o uso por um falante de uma expressão linguística com significado implica 1 produzir um efeito uma crença estado mental ou ação em quem o ouve e 2 fazer com que aquele que o ouve reconheça que o falante tem a intenção de produzir esse efeito Isso nos leva à distinção introduzida por Grice entre o que se diz o explícito ou o significado literal e o que se quer dizer o implícito ou implicado que nem sempre é um conteúdo representacional Em termos mais técnicos tratase de diferenciar o 1 significado literal explícito o expresso pelas palavras que é o significado se mântico dependente das convenções do 2 significado entendi do implícito o que as palavras dão a entender no contexto e na si tuação que é o significado do falante ocasional e dependente dos propósitos do falante no contexto e na situação de proferimento O conceitochave é o de implicação o qual tem duas direções bem definidas Um falante pode dar a entender um significado isto é um significado pode estar implicado no que o falante diz em função das convenções linguísticas em uso ou em função do contexto da conversa Nos dois casos estamos diante de algo que concretamente não foi dito mas é entendido ou seja distinguir entre 1 implicação convencional algo que não é dito mas se dá a entender utilizando as convenções linguísticas e 2 implicação conversacional algo que não é dito mas se dá a entender utilizan do o contexto conversacional Em geral costumase fazer essa dis tinção através da diferenciação entre pressuposto e implicatura Considerese o seguinte exemplo A filha mais velha de João se separou do marido Esse enunciado tem como pressupostos a que João tem mais de uma filha e b que a mais velha era casada Nenhuma dessas informações está explicitamente dita em i mas tem de ser ver dadeira para que i tenha sentido e seja verdadeiro Agora se esse enunciado é dito para alguém que está interessado na filha mais velha de João o significado implicado é que ela está livre agora O falante não o diz mas espera que o ouvinte infira que ela está dis ponível Notese que o significado implicado pode mudar radical A concepção pragmáticointencional de linguagem 103 mente se forem mudados o contexto e a situação de proferimento mas os pressupostos não Apresentamos nesta lição os principais conceitos da abordagem pragmática da linguagem O cerne dessa teorização é a compreen são de que o fenômeno linguístico faz parte do âmbito da ação e da interação humana Tratase de uma prática por isso os conceitos clássicos todos derivados da relação cognitiva e representacional são deixados de lado A significação linguística é explanada em termos atos e propósitos no contexto da ação humana e não tanto em termos de verdade conhecimento adequação à realidade So bretudo a conexão entre significação e verdade é substituída pela conexão entre significação e ação bemsucedida Leituras recomendadas HABERMAS Hürgen Guinada pragmática In Pensa mento pósmetafísico Tradução de F B Siebeneinchler Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1990 MOURA Heronides M Significação e contexto uma introdu ção a questões de semântica e pragmática Florianópolis Insu lar 1999 SEARLE John R Intencionalidade Tradução de J Fisher e T R Bueno São Paulo Martins Fontes 1995 WITTGENSTEIN Ludwig Investigações filosóficas São Paulo Victor Civita 1984 Os Pensadores Reflita sobre A relação de prioridade entre dizer algo sentir algo pensar algo e fazer algo A hipótese de que talvez as diferentes concepções de lin guagem sejam a tentativa de mostrar que o fundamento da significatividade de uma expressão linguística estaria ora no sentir ora no pensar ora no agir ora no dizer A very important day for the village Yet not everyone can be moved by it No matter how many festivities no matter what the occasion there is always something missing Capítulo 6 A análise linguística como método de investigação filosófica Este capítulo tem o objetivo de mostrar como a análise da linguagem passou a ser usada como metodologia filosófica A par tir das ideias de E Tugendhat mostraremos como os problemas tradicionais da Filosofia são agora trabalhados a partir de conside rações sobre o modo de funcionamento da linguagem Uncle Rokuro says everyone who walks this earth is born with the spirit of someone else inside them A análise linguística como método de investigação filosófica 107 6 A análise linguística como método de investigação filosófica A metodologia da filosofia da análise lógica da linguagem des loca e reorienta as antigas problemáticas filosóficas para o âmbito da linguagem e do sentido linguisticamente apreensível O cerne dessa metodologia está no processo mesmo de autolegitimação do método da análise da linguagem para a solução dos problemas fi losóficos Ao caracterizarse a Filosofia como da linguagem indica se antes de mais nada uma orientação metódica da própria tarefa da Filosofia Ernst Tugendhat enunciou com clareza essa modifi cação Para ele a Filosofia consiste no esclarecimento conceitual e os conceitos de que se trata aí são os conceitos constitutivos da nossa compreensão aqueles que em toda compreensão nós sem pre já devemos compreender Philosophische Aufsätze p 261 A via de acesso a tais conceitos a priori na perspectiva do método da análise da linguagem desenvolvido a partir de Frege Moore e Wit tgenstein é a suposição de que todo conceito consiste no modo de emprego de uma expressão lingüística Idem p 265 Notese que agora os conceitos os elementos do discurso filosófico se dão por meio da linguagem Essa posição de método é reafirmada de um modo esclarecedor no artigo Sprache und Ethik O material com o qual se lida na reflexão filosófica tratese da ciência ou da ética ou da estética ou da fé consiste em expressões linguísticas e o primeiro passo não pode ser outro que não o esclarecimento do que nós queremos dizer com aquele tipo de expressão linguística e Esta tese está presente em Philosophische Aufsätze Frankfurt am Main Suhrkamp 1992 Überlegungen zur Methode der Philosophie aus analytischer Sicht p 261 108 Filosofia da Linguagem I ali onde se trata da questão de como um determinado tipo de frase é fundamentado ou não deve ser fundamentado nós e qualquer modo nos remetemos à estrutura semântica dessas frases A análise filosófica é uma análise conceitual e uma vez que nós não encontramos os concei tos numa intuição intelectual mas apenas no uso de nossas expressões linguísticas a análise filosófica apenas pode ser pensada como análise semântica Ibidem p 277 Nessa perspectiva já nas Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem de 1976 Tugendhat abordava a tradição ocidental que concebe a Filosofia primeiramente como ontologia a partir da análise dos conceitos de ente Seiende e de objeto Gegenstand afirmando que esses dois conceitos apenas poderiam ser esclareci dos por meio de uma reflexão no emprego das respectivas expres sões linguísticas cuja função semântica seria a de referir a objetos e entes os assim chamados em teoria semântica termos singula res Idem p 40 Nisso consistiria o específico da nova metódica que a objetalidade dos objetos ou a entidade dos entes não mais deveria ser tematizada seja apelandose para a experiência seja a um processo de abstração Nas palavras de Tugendhat o especí fico da posição analíticolingüística consiste em que o discurso de conceitos apenas pode ser esclarecido pelo recurso ao emprego de predicados e também o discurso de objetos apenas pelo recurso ao emprego de termos singulares Idem p 41 Desse modo as questões filosóficas são respondidas através de investigações linguísticas uma vez que é apenas pelo uso da linguagem que as noções de realidade objeto entidade e proprie dade podem ser explicitadas No entanto não são apenas as noções conteudísticas referentes aos vários conceitos e objetos que foram em algum momento reificadas mas também as noções de termos proposicionais da nova lógica Aplicada à noção de termo proposi cional a tese tornase ainda mais explícita pois também essas no ções são esclarecidas pela análise da linguagem no sentido de que somente se pode esclarecer a noção de termo geral e de conceito lógico recorrendose ao uso de expressões predicativas e por sua vez a noção de termo singular e de objeto lógico apenas se ex planando o uso de expressões designadoras Termos singulares e termos gerais bem como a noção mesma de proposição são agora Tugendhat E Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische Philosophie Frankfurt aM Suhrkamp 1976 Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem Ijuí Unijuí 2006 A análise linguística como método de investigação filosófica 109 explicados linguisticamente e assim também as noções correlatas de conceito objeto estados de coisas operadores e conectivos O procedimento da análise da linguagem na versão de Tugen dhat é ainda mais forte pois ele pressupõe um princípio de ima nência segundo o qual objetos apenas podem nos ser dados via linguagem Em outros termos que apenas podemos falar de ob jetos seja para referilos seja para predicar alguma coisa deles no contexto de uma sentença de alguma linguagem isto é pelo uso de expressões que se tornam significativas na exata medida em que são usadas num contexto linguístico Mais ainda aquilo que se predica deles também é dependente de uma dada linguagem Os predicados são relativos a uma linguagem e à sua significatividade isto é a capacidade de exercer uma função semântica no contexto de uma sentença não implica a existência de algo conceito pro priedade etc mas tão somente regras de uso que remetem sem pre ao uso de outras expressões O ponto está na eliminação de qualquer vínculo direto da consciência e também da linguagem com entidades ou objetos Ora a função semântica codificada no sistema de expressões dêiti cas ou seja expressões do tipo eu aqui isto está diretamente relacionada com essa conexão de enunciados com a realidade so bretudo no caso dos enunciados de existência singulares Por isso embora se aceite que sem a indicação de objetos não há enuncia dos de existência indicação esta implicitamente contida em toda sentença de realidade mesmo ali onde ela não aparece explicita mente K BÜHLER Sprachtheorie die Darstellungsfunktion der Sprache Stuttgart Fischer Verlag 1982 25 p 385 apesar de reconhecer a relevância filosófica dessas expressões quando se mostra que sem elas em geral é impossível referirse a um objeto individual particular Tugendhat defende a tese de que as expres sões dêiticas como termos singulares apenas podem funcionar se forem usadas em conjunção com uma expressão categorial Idem p 498 as quais em última análise remetem ao emprego de predi cados e descrições Desse modo ficase livre de qualquer recurso a conceitos ontológicos objeto ente referente ou mentais ideia representação intenção para o esclarecimento dos termos pro posicionais e das funções semânticas das diferentes expressões Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische Philosophie p 388 110 Filosofia da Linguagem I linguísticas e sobretudo eliminase a problemática ideia de uma relação direta entre linguagem e mundo O argumento parte da seguinte premissa fregeana de que não existe uma referência a um objeto a um particular livre de signos Idem p 482 Essa ideia é expandida e posta como tese geral acerca da consciência de objetos A idéia tradicional de uma relação sujeitoobjeto livre de linguagem mostrouse como vazia de sentido Não existe referên cia a um objeto fora do contexto de uma sentença Idem p 498 A argumentação por conseguinte passa pela resposta à pergunta sobre como objetos podem se dar para nós O campo de apareci mento sobre o qual refletese foi apreendido na filosofia moderna clássica como Consciência como uma dimensão da representa ção enquanto que na nova concepção é apreendido como domí nio da compreensão das nossas expressões linguísticasIdem p 16 Nesse sentido a tese é acerca do modo como nos são dados objetos e diz que é por meio das formas e funções semânticas da linguagem Esse é o resultado da subsunção da função semântica dos termos singulares e sobretudo das expressões dêiticas à fun ção semântica dos predicados juntamente com a adoção da teoria descritivista da significação linguística pela qual a referência a um objeto se dá por meio de descrições A conclusão é de que mes mo os enunciados existenciais singulares que parecem ser sobre particulares são na verdade enunciados gerais Idem p 378 Por conseguinte objetos apenas podem se dar para nós através de al gum mediador e esse mediador consiste na estrutura semântica da linguagem a sua forma lógicogramatical A posição metódica de resolver os problemas filosóficos por meio de uma análise da linguagem Analyse der Sprache iniciada por Frege baseada na tese fundante da filosofia analíticolinguísti ca de que apenas existe um apriori analítico linguístico compre endida como tese contrária à representação de um ver espiritual intuição intelectual Vorlesung zur Einführung in die spracha nalytische Philosophie p 20 pode ser compreendida a partir de duas raízes que se confundem na obra de Tugendhat a tradição lógicoanalítica e a tradição hermenêutica Por um lado HansGe org Gadamer Verdade e método 1960 e KarlOtto Apel Die Idee der Sprache 1963 já haviam colocado a ontologia nos limites da A análise linguística como método de investigação filosófica 111 linguagem Apel afirma explicitamente que a Filosofia da Lingua gem é a filosofia primeira ocupando agora o lugar antes reservado à ontologia e à teoria da consciência Por outro lado Rudolf Car nap e W Quine também haviam posto a teoria semântica como chave para a discussão dos problemas filosóficos Essas raízes podem ser perseguidas ainda mais fundo pois o aparato conceitual utilizado por Tugendhat foi construído a par tir do início do século XIX dentro da assim chamada tradição se manticista em lógica e filosofia Todavia dentro dessa tradição existem duas posições bem definidas e opostas por uma delas a objetividade dos objetos é independente da significatividade das expressões da linguagem utilizada para dizêlo A outra ao con trário defende que as noções mesmas de objeto e entidade são um subproduto da significatividade linguística Stuart Mill Sistema de lógica como vimos no Capítulo 1 defendeu uma tese espantosa em sua época e até hoje mal digerida qual seja a de que certas expressões linguísticas referemse às próprias coisas objetos e en tidades sem a mediação de representações ideias e conceitos Essa tese é uma negação explícita daquilo que se costuma chamar princípio de imanência Princípio este que afirma que objetos ape nas podem nos ser dados por meio de uma representação ideia ou conceito e que era aceito por Hume e por Kant Desse modo Mill concedeu à linguagem uma posição que ela jamais tivera na Lógica e na Filosofia pois ela tornavase um medium de acesso para o pen samento considerar objetos diretamente Friedrich G Frege Über Sinn und Bedeutung entretanto em parte reafirmou o kantismo e o princípio de imanência ao defender que as expressões linguísticas apenas podem referir objetos e entidades por meio de um sentido e esse sentido obviamente não era linguístico embora apenas pu desse ser expresso e apreendido por meio da linguagem Todavia Frege defendeu sempre que podemos ter em consideração objetos e entidades dos quais não temos nenhuma representação aceitando desse modo a tese de Mill A tese de Frege é que pode haver algo que não é uma ideia de alguém e ainda assim ser objeto de con sideração do pensar Porém essa posição de Frege não foi ouvida de tal modo que de Frege a Dummett passando por Wittgenstein e Carnap o princípio de imanência na sua versão linguística se FREGE G Investigações lógicas O pensamento p 31 Atente para o que significa o princípio de imanência e sua relação com as teorias linguísticas aqui estudadas 112 Filosofia da Linguagem I fortaleceu e tomou forma na tese de que objetos apenas podem nos ser dados por uma descrição que é a posição de Tugendhat A tese de que todo conteúdo filosófico em última instância pode ser esclarecido por meio de uma explicitação do sentido e do uso de expressões linguísticas explicase por meio dos conceitos semânti cos de consequência lógica e de satisfação de uma proposição in troduzidos por Alfred Tarski os quais remontam a Bolzano e sua noção de objetividade conjuntamente com o método de análise derivado da distinção fregeanatarskiana entre metalinguagem e linguagem objeto A partir dessa concepção semântica os concei tos passíveis de análise são todos eles relativos à linguagem objeto porém expressos com os recursos de uma linguagem mais rica a metalinguagem As noções da ontologia da ética da estética etc por conseguinte são todas elas metalinguísticas e têm como refe rência primária os termos significativos de uma linguagem obje to a qual pode ser uma linguagem histórica como a língua por tuguesa Em outras palavras os conceitos ontológicofilosóficos de objeto entidade ser existência propriedade relação etc são apenas construtos metalinguísticos usados para esclarecer o uso das expressões da linguagem objeto Todavia as teses semânticas de Bolzano Frege e Tarski jamais subjugaram o inteiro âmbito do objetivo e do significativo à semântica pois sempre ressaltaram a diferença entre signo e significado linguagem e mundo A concepção de que os objetos e conteúdos filosóficos são eles mesmos linguísticos ou dito metodologicamente que o esclareci mento filosófico sobre qualquer assunto é sempre um esclarecimento na linguagem foi explicitamente defendida por Ludwig Wittgens tein na sua primeira obra o Tratactus LogicoPhilosophicus de 1918 Nessa obra com efeito a linguagem assume o papel de transcen dental de condição de possibilidade para a realização da tarefa da Filosofia o que significa que o esclarecimento do que é isso a lin guagem tornase uma precondição para o exercício da Filosofia e ao mesmo tempo o único lugar e objeto das considerações filosóficas Toda filosofia é crítica da linguagem TLP 40031 pois os dois âmbitos clássicos de problemas em filosofia o pensamento e a rea lidade são apenas apreensíveis em frases de uma dada linguagem FREGE G Was ist eine Funktion In Kleine Schriften p 278 Funktion und Begriff p 126 Grundgesetze der Arithmetik 1 p 5 CARNAP R The Logical Syntax of Language 41 42 QUINE W Ontological Relativity p 15 Essa distinção foi incorporada por A Tarski na própria definição da semântica formal como teoria metalinguística sobre as relações entre expressões da linguagem objeto e um domínio de objetos The Establishment of Scientific Semantics p 401 A análise linguística como método de investigação filosófica 113 Por um lado O pensamento é a frase com sentido 4 por outro A frase é uma figuração da realidade 4001 sendo que A totali dade das frases é a linguagem 4001 Entretanto a atitude crítica é necessária visto que A linguagem disfarça o pensamento 4002 Todavia nesse ponto já havia uma história prévia pois a lin guagem havia sido reposta no cerne da Filosofia por Johann G Hamann 17301788 amigo de Kant que desde a sua aparição afastouse criticamente em relação à Crítica da razão pura com a obra de 1783 Metakritik über den Purismus der Vernunft Nessa obra a linguagem era posta como pressuposição fundante de todo conhecimento humano Contra Kant Hamann defendeu que a sensibilidade e a razão pressupõem já uma linguagem de tal modo que a linguagem seria o único primeiro e último meio e também critério da própria razão Não foi diferente nem mais ousada a conclusão proposta por KO Apel ao sintetizar os mo vimentos analíticos e hermenêuticos de priorização da linguagem no procedimento filosófico Com efeito Apel termina por dizer que a Filosofia da Linguagem foi tomada como prima philoso phia isto é essa disciplina agora ocuparia o lugar que a partir de Kant a teoria do conhecimento ocupava a qual por sua vez já ha via usurpado o lugar antes reservado à Ontologia por Aristóteles A Filosofia da Linguagem por assim dizer e o seu cerne a te oria semântica agora fundariam tanto a teoria do conhecimento quanto à ontologia as quais diante daquela são subprodutos de rivados pois antes que se possa discutir sobre o ser como tal e so bre o conhecimento como tal hoje se pergunta pelas condições de possibilidade subjacentes na linguagem de construir sentenças com sentido e desse modo referirse a algo o que significa tomar a linguagem como um transcendental forte no sentido de Kant A linguagem na medida em que ela não é um objeto pertencen te ao mundo seria antes a condição de possibilidade de consti tuição de objetos Por conseguinte a análise da linguagem agora seria a própria metódica filosófica Todavia as expressões aná lise da linguagem e análise linguística recolocam a linguagem como algo como um ente no mesmo movimento que pretende indispôla como objeto ao denominaremna meio universal de constituição de objetos APEL KarlOtto Die Idee der Sprache in der Tradition des Humanismus Von Dante bis Vico Bonn Bouvier 1963 p 22 114 Filosofia da Linguagem I Na origem dessa concepção está a decisão metódica de explanar o conteúdo semântico das asserções apenas em termos de suposi ções e consequência segundo a qual o que é referido é dependente das propriedades internas de uma linguagem A filosofia da aná lise da linguagem supõe seguindo Dummett que seguia o mote de Wittgenstein para que os limites da linguagem a linguagem que só ela eu compreendo significam os limites do meu mundo Tractaus 562 que a linguagem é significativa pelas regras de uso e que essas regras são independentes da relação com objetos pois para eles a relação com objetos é dependente e derivada da com petência linguística A relevância dessa concepção está no fato de que ela ampara se em interpretações do conteúdo das noções semânticas basea das na confluência de várias teses Primeiro a tese de que o sen tido determina a referência interpretada inferencialmente de tal modo que os sentidos sejam agora intralinguísticos conjugada com uma leitura peculiar do princípio do contexto de Frege pela qual os objetos mesmos são feitos dependentes dos contextos lin guísticos Essas alegações redundam na tese de que é apenas com referência à verdade de uma proposição que é possível determinar a referência de um termo singular interpretada como implicando que é apenas pela referência à verdade de uma proposição que se pode determinar o que é e como é um objeto A ilação retirada vai ainda mais além pois a conclusão é de que a existência do objeto é derivada da verdade de uma proposição invertendose portanto a relação entre existência e verdade Segundo a tese de R Carnap pela qual as questões de existência passíveis de serem discutidas e resolvidas são internas a uma armação teórica ou linguística de modo que a posição de objetos é uma questão de articulação de um linguistic framework Por fim e conciliando essas duas pri meiras a tese de Quine da relatividade ontológica pela qual os objetos necessários para dar conta dos aspectos referenciais do discurso são relativos ao linguistic framework que ampara esse discurso Estas três alegações implicam a subsunção da categoria objeto à categoria expressão linguística ou ao termo o que signi fica dizer que a explicitação do que é dito existir e de como é dito existir passa a ser uma tarefa que apenas pode ser feita através da Atente para compreender o que é a linguagem como constituição de possibilidade da constituição dos objetos A análise linguística como método de investigação filosófica 115 elucidação prévia do que é que pode ser dito e de como é que se diz alguma coisa em uma linguagem Essa linha de raciocínio não fica apenas nisso porém Afirma se que a própria pergunta acerca do que é que algo que é apenas pode ser respondida pela explanação das propriedades semânticas das expressões utilizadas para referilo e para enunciar algo sobre ele Essas injunções conduzem à tese que Tugendhat defende a qual Dummett expõe assim Minha alegação é que essas questões metafísicas tornamse questões sobre a teoria do significado correta para nossa linguagem Nós não devemos ten tar resolver as questões metafísicas primeiro e então construir uma teoria do significado à luz dessas resoluções Nós deveríamos investigar como nossa lin guagem realmente funciona e como nós podemos construir uma descrição sistemática manuseável de como ela funciona as respostas a essas questões irão determinar as respostas as questões metafísicas Logical Basis of Metafhy sics Cambridge Harvard UP 1993a p 338 cf Ainda p 12 e p 15 Nas palavras de Brandom ditas como explanação do mote de Wittgenstein acima citado Fazer a questão por que há termos singulares é um modo de fazer a questão por que há objetos Making it explicit Cambridge Harvard UP 1994 p 404 Uma vez aceito que apenas podemos especificar o que é o conceito filosófico de objeto por meio do recurso aos termos singulares da palavra algo e de outros pronomes então a explanação da entidade dos diferentes objetos ou das coisas apenas é realizável pela reflexão no uso das expressões linguísticas utilizadas para dizer os objetos a objetualidade dos objetos não pode ser tematizada independen temente do significado dos termos singulares Idem p 50 Nas palavras tanto conclusivas quanto programáticas de Tugendhat A Ontologia está completamente absorvida e preservada na Semântica formal Isto vale não apenas para as partes da Ontologia tradicional nas quais algo as determinações predicativas fora ilegitimamente objetifi cado Vale também para a Teoria dos objetos que agora se mostra como uma parte da Semântica formal Idem p 48 Desse modo segundo esses filósofos para investigar o real e o pensamento nós deveríamos analisar o nosso modo de dizer o real e de expressar o pensamento o que é resumido na hipótese 116 Filosofia da Linguagem I clara do herdeiro desse modo de pensar D Davidson que tanto leu Frege quanto Gadamer de que é plausível defender que estu dando os aspectos mais gerais da linguagem estaremos a estudar os aspectos mais gerais da realidade The Method of Truth in Me taphysics Inquiries into Truth and Interpretation p 201 Leituras recomendadas BRAIDA C R KRAUSE D Ontologia II Florianópolis FILO SOFIAEADUFSC 2008 pp 127151 187202 STRAWSON P F Análise e metafísica São Paulo Discurso Edi torial 2002 TUGENDHAT E Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem Ijuí Unijuí 2006 Reflita sobre A relação entre pensamento e linguagem e o modo como nós podemos apreender um conceito ou um pensamento O fato de diferentes filosofias terem diferentes metodologias e procedimentos de justificação de suas teses e de como isso afeta as suas pretensões de validade e verdade O fato de que as filosofias linguisticamente orientadas pauta remse pela tese metodológica geral de que o meio de acesso e o lugar dos conceitos e do pensamento ser a linguagem Segunda Parte Teorias do significado O objetivo desta Segunda Parte é apre sentar as teorias e os modelos do significa do linguístico tendo como foco principal o problema da fixação do conteúdo semântico das expressões e o problema da equivalência semântica entre diferentes expressões Essa abordagem da linguagem por meio do con ceito de conteúdo semântico permitirá que se discutam de modo unificado os problemas das perspectivas apresentadas na Primeira Parte sobretudo no que se refere às relações entre linguagem ação pensamento e mundo Para isso apresentamse a questão do signi ficado e as duas vias clássicas de explanação do significado linguístico We were born with nothing so we have to work hard to be recognized by others That is the true meaning of life Those who wish to prove themselves will have to struggle a little more Capítulo 7 O conceito de significatividade linguística Neste capítulo é apresentado o problema de a noção de significado linguístico partir da teoria da linguagem de Karl Bühler O objetivo é mostrar que a linguagem tem sido concebida a partir de dois modelos opostos um dos quais concebe o significado das ex pressões como proveniente de uma relação entre linguagem e mundo e o outro como proveniente das interrelações das expressões de uma linguagem entre si Community Chest Pay Poor Tax of 15 O conceito de significatividade linguística 121 7 O conceito de significatividade linguística Com o objetivo de alcançar um patamar teórico mínimo de onde se possa discutir o conceito de significatividade de expressões linguísticas fazemse necessárias algumas distinções e suposições iniciais que deverão ser reavalidas ao longo da exposição A pri meira suposição é a de que há fenômenos semânticos isto é que se pode isolar e classificar certos elementos da experiência como expressões ou signos aos quais se atribui significação utilizados para a realização de atos semânticos dizer expressar comunicar etc A segunda dito abreviadamente de que a fonte da significati vidade linguística é a atividade de um ser senciente agente e social em um meio circundante Desse modo o fenômeno da linguagem teria como fatores emergentes os utentes um sistema de expressão ou linguagem o entorno ou situação esses três fatores são mani festos ou sensíveis na cena em que um ato discursivo se realiza A tarefa de uma teoria do significado ou teoria semântica seria a de repor teoricamente a propriedade geral da significação associada às expressões e aos signos Denominemos significatividade essa hipotética propriedaderelação e os objetos aos quais ela é atribu ída chamemos expressões A tarefa primeira da semântica é a de fornecer uma explicação da significatividade das expressões de tal modo que essa significatividade não seja por um lado redutível a uma propriedade ou relação causalnatural e por outro não seja algo puramente relativo ao arbítrio de uma subjetividade 122 Filosofia da Linguagem I Tomese como ponto de partida a seguinte caracterização do cerne da semântica fornecida por K Bühler na obra Sprachtheo rie die Darstellungsfunktion der Sprache de 1934 em que ele de fendeu que a significatividade de uma expressão é a resultante de dois fatores o contexto e a situação de proferimento O ponto de partida é uma esquematização da significação como uma relação tripartite cujos fatores constitutivos são o utente o ouvinte e a situação objetiva Desse modo uma expressão Zeichen é um símbolo em virtude de sua coordenação com objetos e estados de coisas sintoma indicação indício em virtude de sua dependência em relação ao falante cuja interioridade ele expressa e sinal em virtude de seu apelo ao ouvinte cuja atitude externa ou interna ele direciona Sprachtheorie die Darstellungsfunktion der Sprache 2 p 28 Nessa passagem estão expostos os fatores que compõem a situação de uso da expressão a qual inclui os utentes da expressão e o entorno objetivo Bühler a partir disso concebe a significação da expressão linguística como constituída de três funções as funções de expressar Ausdruck de apelar Appell e de representar Darstellung Esses três conceitos básicos são definidos todos como semânticos pois eles entram como fatores determinantes do significar como ingredientes constituintes da significatividade de uma expressão Nesse modelo é notável que as expressões sejam visadas isola damente como se elas pudessem significar sem estarem associa das às outras expressões e como se apenas uma única expressão pudesse efetivar um ato semântico Porém se levarmos em consideração o sistema de ex pressão ao qual uma expressão pertence então fazse necessário acrescentar um quarto fator ligado à sequência discursiva Desse modo no estabelecimento da significatividade de uma expressão também haveria que se levar em consideração o contexto discursivo isto é a ocorrência concomitante de outras expressões significativas Uma vez que os utentes falantes e ouvintes são também objetos de referência e juntamente com os demais objetos compõem a situação de proferimento podemos sintetizar Idem p 29 Tal explanação tripartite é adotada por R LARSON e G SEGAL no livro Knowledge of Meaning Cambridge MIT Pr 1995 acerca dos fatos semânticos Primeiro há fatos sobre as próprias expressões linguísticas incluindo as várias propriedades que elas têm e as diversas relações que ocorrem entre elas Segundo há fatos sobre as relações entre as expressões linguísticas e o mundo em que nós vivemos discutimos e algumas vezes argumentamos E finalmente há fatos sobre a relação entre as expressões linguísticas e os falantes que as usam para formular pensamentos comunicar idéias persuadir e agir p 1 Atente para cada elemento constitutivo desse modelo os quais você acompanhará na sequência A compreensão da definição de cada um deles e da relação que cada um possui com o outro é fundamental O conceito de significatividade linguística 123 as relações envolvidas em todo ato semântico chegandose à tese de Bühler Situação e contexto são pois grosso modo as duas fontes a partir das quais se alimenta em todos os casos a interpre tação precisa das expressões lingüísticas Sprachtheorie die Dars tellungsfunktion der Sprache cap III p 149 Essas duas noções de situação e de contexto pensadas como rela tivas à determinação da significação estão associadas a dois conceitos importantes na teorização de Bühler a saber os conceitos de campo de remissão ou sistema de indicação demonstrativa e anafórica e de campo discursivo ou recursos descritivos da linguagem concei tos esses que englobariam tudo o que pode ser objeto de discurso e todos os modos de indicação desses objetos configurando o âmbito de sentido Ao primeiro pertenceriam as expressões do tipo Aqui Agora eu tu este e aquele ao segundo pertenceriam as ex pressões do tipo verde pesado João e água Estes dois campos constituem a versão linguísticodiscursiva da situação nãolinguísti ca e do contexto discursivo Idem p 149 Considerados enquanto campos discursivos eles estabelecem o campo ou espaço de possibi lidades primitivos que as diferentes expressões apreendem e expres sam com os quais se pode expressar de que se está a falar e o que se está a dizer e desse modo exercem ou a função de introdução de um objeto ou de uma caracterização de objeto no discurso Notese que no interior do discurso tanto a situação como o contexto apenas podem ser dados por meio das diferentes expressões e das diferentes funções discursivas que essas expressões podem exercer No discurso não há um fora tudo está no discurso ou como parte do campo de remissão ou como parte do campo discursivo o que não significa em absoluto que o discurso não seja no mais das vezes sobre algo não discursivo Em termos mais simples apenas expressões ou palavras podem fazer parte de uma frase significativa O esquema de Bühler prevê ainda outro fator o intencionalpsi cológico relativo às intenções dos usuários da linguagem implica dos na situação discursiva Todavia sob uma análise mais precisa esse fator ou é dado por meio de atos expressivos ou por meio de objetos manifestos na situação discursiva Por isso no final a tese de Bühler estabelece que os fatores constitutivos da significativida de reduzemse à situação de proferimento e ao contexto discursivo 124 Filosofia da Linguagem I A tese da dupla remissão como fonte da significatividade desen volvida por K Bühler tem sido retomada de maneira simplificada por autores contemporâneos Com efeito segundo J Higginbo tham no texto Elucidations of Meaning de 1989 a propriedade da significação de uma expressão é apreensível para o ouvinte ou para o aprendiz por meio de um duplo remetimento As significações das palavras não são e talvez não podem estar sim plesmente dadas para o aprendiz antes elas tem de ser extraídas do ambiente sintático e semântico e do ambiente circundante no curso de maturação normal Os aspectos perceptuais desse ambiente tanto linguísticos quanto nãolinguísticos serve como evidência para aquilo que as palavras significam e o que as pessoas podem querer dizer com elas HIGGINBOTHAM 1989 p 466 As noções de ambiente sintático e semântico e ambiente cir cundante são aí utilizadas para apanhar os aspectos linguísticos e nãolinguísticos da situação de fala os quais constituem as cir cunstâncias de uso de uma expressão e estabelecem a tarefa da teo ria semântica geral repor tais vínculos na forma de uma teoria ou aparato conceitual capaz de prever as propriedades e relações en volvidas no uso da linguagem tanto do ponto de vista do ouvinte como do ponto de vista daquele em processo de aprendizado a tal ponto que fique explícita teoricamente a significatividade determi nada das expressões Nessa mesma linha de raciocínio R Cann na obra Formal Se mantics de 1993 sugere que dois aspectos ou vínculos determi nam os critérios de adequação de uma teoria semântica de tal modo que uma teoria minimamente adequada teria que 1 a capturar para qualquer linguagem a natureza do significado das palavras frases e sentenças e explicar a natureza das relações entre elas b ser capaz de prever as ambiguidades nas expressões da linguagem caracterizar e explicar as relações de significado sistemáticas entre as palavras as frases e as sentenças de uma linguagem 2 providenciar um tratamento das relações entre as expressões linguís ticas e as coisas acerca de que elas podem ser usadas para falar CANN 1993 p 1 O conceito de significatividade linguística 125 O que esses dois autores estão a dizer é que o ser significativo de um sinal compõese de uma dupla remissão ao contexto lin guístico e ao entorno o que de certo modo é uma retomada da tese principal de Bühler Todavia diferentemente daquele nessas propostas a semântica não mais tem que dar conta das intenções do falante Dessas propostas podese retirar as seguintes proposições se mânticas 1 os ingredientes da significatividade são a remissão ao contexto e a remissão à situação 2 as noções semânticas são definíveis em termos de funções que articulam essas duas remis sões 3 o conteúdo expresso pelo proferimento de uma expressão qualquer pode ser descrito e exposto unicamente por meio dessas duas formas de remissão e 4 as diferentes expressões e sobretu do as diferentes funções semânticas atribuíveis às expressões em uso são descritíveis com um aparato conceitual definido a partir dessas formas de remissão Notese que dessa maneira o fenôme no da significatividade linguística é pensado como um fenômeno mundano enraizado nas atividades de agentes sencientes capazes de fazerem e relacionaremse por meio de sinais cuja compreen são é realizável por conceitos e esquemas relativos ao entorno na tural e aos atos desses agentes Nenhum fator transcendente por conseguinte imiscuise na teoria da descrição semântica A partir dessas considerações introdutórias podese caracterizar o conteúdo e a tarefa de uma teoria semântica do seguinte modo Supondose o conceito de dizer como um conceito primitivo isto é que o conceito de ato semântico de alguém dizer alguma coisa a alguém acerca de algo em uma linguagem em uma situação está dado podemos isolar três subconceitos 1 o de agentes semânticos falantes e ouvintes 2 os de objeto e de situa ção acerca de que se fala e 3 o de sistema de expressão ou linguagem em que se fala A partir disso se pode ainda distinguir quatro relações básicas 1 a prática entre falantes e objetos 2 a pragmática entre falantes 3 a semânti ca entre linguagem e objetos e 4 a sintática Lembrese dos conceitos pelos quais nós explicamos a significação linguística 126 Filosofia da Linguagem I entre as expressões linguísticas Por sua vez cada uma dessas rela ções pode ser concebida a partir de cada um dos polos envolvidos gerandose assim os vários tipos de perspectivas teóricas acerca da ação significatória Essas relações espelham a complexa estrutu ra subjacente ao ato semântico que contém relações pragmáticas entre primeiras pessoas discursivas eu tu nós vós semânticas entre aqueles que falam e aquilo de que se fala ou seja os compo nentes da situação como referidos e não como pessoas discursi vas as coisas e os eventos as terceiras pessoas ele eles que não participam da conversa e ainda sintáticas e anafóricas entre um enunciado ou expressão e outros enunciados e expressões Entretanto enfocandose a significatividade de uma expressão como uma propriedade de um sinal instaurada por um comple xo de relações as quais reaparecem como fatores constituintes ou determinantes inseparáveis o ser significativo de um sinal é cons tituído pelos fatores associados à situação objetiva que inclui os falantesouvintes e os objetos os fatores associados ao contexto discursivo o meio de expressão ou linguagem e os atos semânti cos prévios e posteriores A tarefa da semântica em suma consis te na reposição e na elucidação teórica desse triplo entrelaçamento de remissões inerente à significatividade das expressões Na figura a seguir as setas indicam as diferentes remissões vigentes a cada vez que um sinal é usado de modo significativo Contexto discursivo gramática usos recorrentes de sinais proferimentos implicações Sinal Ouvinte Falante Situação de proferimento entorno objetivo Para fixar uma terminologia provisoriamente classificamse as remissões entre os itens do sistema de expressão como anafórico O conceito de significatividade linguística 127 inferenciais e aquelas que se estabelecem entre os itens linguísticos e os objetos da situação de referenciais Notese que inferir significa geralmente apenas a relação de consequentia entre duas frases en tretanto essa palavra significa originalmente levarlançar a e le varlançar contra o que permite o seu uso no sentido genérico de uma expressão qualquer remeter ou reenviar a outra expressão no interior do sistema de expressão inferir em oposição à relação de remeter ou reenviar a um objeto nãolinguístico referir Com essas duas noções procurase trazer para o conceito o contexto lin guístico e a situação objetiva em que toda expressão é utilizada e pelos quais adquire sentido e pode ser compreendida pelos utentes seguindo o princípio de que numa frase apenas palavras podem en trar como componentes semânticos A significatividade de uma ex pressão sendo assim pode agora ser explanada em termos de nexos inferenciais do seu significado com o significado de outras expres sões e de nexos referenciais do significado da expressão com ob jetos e estados de coisas da situação de proferimento As remissões inferenciais e referenciais por sua vez constituem classes de modos de significação ou correlação que estão por detrás dos diferentes papéis ou funções sintáticosemânticas atribuíveis às diferentes ex pressões que compõem um fragmento discursivo Desse modo as noções de designação predicação verdade descrição implicação nomeação sinonímia etc podem ser definidas de maneira preci sa com a utilização dessas duas noções primitivas O que importa perceber é que uma palavra ou frase ao ser usada como palavra estabelece um plexo de relações de remissão com outras palavras e frases relações estas que perfazem o seu conteúdo semântico Se chove há nuvens Gotas caem do céu Se é chuva as gotas são água Vamos nos abrigar Há nuvens no céu É verdade E está forte contexto Chove ref realsituação anaf inf 128 Filosofia da Linguagem I Essas distinções conceituais fazem parte da teoria que explicita o conteúdo valor e função semântico o assim chamado significa do de uma expressão de uma dada linguagem o qual se constitui pelas relações que tal expressão entretém com outras expressões e com o domínio de referência ou situação objetiva Esses víncu los obviamente não ocorrem independentes dos fatores práticos e pragmáticos O que se supõe entretanto na teoria semântica é que eles podem ser isolados e definidos autonomamente Esse modo de conceber a semântica porém implica um afastamento em relação a três posições padrão exclusivistas uma que entende a semântica como uma teoria das relações internas a um sistema de expressão outra que a concebe como uma teoria das relações entre o sistema de expressão e o mundo ou sistema de objetos e por fim outra que entende que a semântica é redundante e supérflua sendo redutível ao uso que seria inefável O ponto de vista aqui defendido consiste em duas hipóteses uma negativa que é a recusa dessas alternativas como parciais e inadequadas no sentido de que as três envolveriam uma redução da complexidade da significatividade pelo privilegiamento de uma das relações envolvidas no ato semântico A outra hipótese a positiva consiste em defender que as noções semânticas expõem os dois nexos ou relações referencial e inferencial o que significa que uma teoria semântica tem como tarefa a articulação de uma trama conceitual capaz de explicar tanto as relações inferenciais como as referenciais codificadas em um sistema de expressão sem reduzilas uma a outra Essa estratégia segue o molde da proposta de A Tarski para a definição das noções semânticas Embora Tar ski tenha restringido as suas considerações semânticas às lingua gens formalizadas eu penso que o cerne de sua estratégia de con ceituação e definição pode ser retomado e aplicado na elucidação das noções de uma semântica geral Porém diante das interpreta ções ora referencialistas ora deflacionistas da proposta de Tarski mesmo essa retomada tem que ser argumentada Essa alternativa está fundada na concepção do nexo semântico como uma relação complexa e estruturada A partir dessas considerações podemos distinguir três tipos básicos de explanação da significatividade das expressões linguís O conceito de significatividade linguística 129 ticas a referencialista a inferencialista e a deflacionista Dada uma expressão qualquer símbolo nome descrição predicado senten ça etc a teoria semântica referencialista Frege Russell Carnap e Kripke visa à explicação do modo como reenvia para coisas ou refere e a inferencialista Frege Wittgenstein Sellars Dummett e Brandom enfoca o modo como reenvia ou infere para outras expressões significativas internas ao sistema de expressão Dizer que uma expressão é significativa tanto pode ser entendido num como noutro sentido Isso está de acordo com as nossas práticas pois tanto introduzimos uma expressão indicando o objeto a que se refere quanto explicando o seu sentido por meio de outras pa lavras Porém a opção por uma dessas duas maneiras de abordar a significatividade refletese diretamente na definição de conceitos fundamentais da semântica tais como os conceitos de significado sentido verdade implicação e comprometimento discursivos De um ponto de vista o conteúdo apanhado pelas noções se mânticas está determinado pelas relações e propriedades que se estabelecem entre objetos linguísticos e objetos nãolinguísticos do outro a semântica investiga as relações e as propriedades lin guísticas e considera os objetos apenas enquanto expressos ou di tos através das expressões significativas A primeira supõe a relação de remissão a objetos e dessa relação deriva e explica o conteúdo e as propriedades semânticas das diferentes expressões e cumpre seu objetivo ao definir a partir do conceito primitivo as noções de verdade consequência equivalência etc A segunda de modo inverso supõe a significatividade das expressões e dessa proprie dade deriva e explica a noção de referência a objetos de equivalên cia e consequência entre expressões etc Contra esses dois modos de explanação semântica os deflacionistas Ramsey Wittgenstein Quine Field e Horwich defendem que a significatividade não é nem uma relação nem uma propriedade O referencialismo consiste na tese de que ser significativo é estar ou poder estar correlacionado com algo diferente A significativi dade como propriedade de um sistema simbólico não é senão a correlação com um sistema de objetos Essa tese pode ser estendida para a noção de linguagem ser linguagem é estar correlacionado com algo nãolinguístico Essa tese aparece explicitamente tanto 130 Filosofia da Linguagem I na tradição semanticista em Linguística como na tradição lógico semântica em Filosofia Ser significativo é estar confrontado e cor relacionado com algo diferente intuição fundante que sugere uma condição determinadora da noção de linguagem a linguagem supõe sempre outra coisa que ela própria Embora dito em ter mos mais técnicos essa mesma alegação aparece em proposições feitas por teóricos da tradição lógicosemântica o problema é que para que nossa linguagem decole deve haver objetos publicamente acessíveis bem como instrumentos de referência direta indepen dente de descrição Essa tese aparece sob a forma das exigências primeiro de sempre distinguir entre sinal e significado ou entre palavra e objeto segundo de diferenciar estritamente as proprieda des da expressão designante das propriedades do que é designado jamais confundindo o objeto com sua descrição linguística Nessa perspectiva de conceituação a linguagem é concebida como um sistema de objetos significantes cuja significância é uma propriedade decorrente de uma relação de remissão a outro sistema de objetos relação esta que bem pode ser denominada referencial Por isso denominase essa forma de conceituação de referencia lismo semântico o qual tem como cerne a tese de que a remissão a entidades é constitutiva da significatividade Para a teoria semân tica valeria a caracterização fornecida por Danto Sentenças que são sobre as relações entre o mundo e as sentenças eu as denomino como semânticas Relações dentro do mundo encontram expressão verbal em sentenças descritivas Relações entre o mundo e as descrições encontram expressão verbal nas sentenças semânticas DANTO A Analytical Theory of Knowledge Cambridge Cambridge UP 1968 p X A definição de semântica nessa perspectiva põe como concei tochave uma relação de remissão A conceituação dessa remissão seria em termos de uma relação entre duas entidades ou objetos distintos um do outro Todavia outro modo de conceituar a relação de remissão é cor rente em teoria semântica pela qual a remissão é interna entre as expressões de um sistema simbólico O cerne dessa tese é de que MARTIN R Pour une logique du sens Paris PUF 1992 p 238 MARCUS R B Modalities philosophical essays Oxford Oxford UP 1993 p 205 O conceito de significatividade linguística 131 Através de sua significação um enunciado não reenvia a objetos do mundo exterior mas a outros discursos de que ele é a continua ção ou suscetíveis de serem sua continuação Nessa visão a língua não reenvia a nada diferente do que ela mesma ANSCOMBRE JC Théorie des topoï Paris Kimé 1995 p 33 Nessa forma de conceituação as relações de remissão continuam jogando um pa pel essencial na teoria semântica Porém agora elas são pensadas como sendo de natureza anafóricoinferencial A explanação do conteúdo semântico realizase unicamente pela exposição dos ne xos inferenciais Denominase por isso essa alternativa de inferen cialismo semântico e o seu cerne é a tese de que a significatividade envolve apenas relações que se estabelecem entre as expressões de um sistema simbólico no sentido preciso de relações de implica ção e consequência entre as asserções das sentenças geráveis nesse sistema de expressão A definição paradigmática encontrase na Begriffschrift de Frege Há dois modos pelos quais o conteúdo de dois juízos pode diferir pode ou pode não ser o caso que todas as inferências que podem ser retira das do primeiro quando combinado com outros juízos podem sempre também ser retiradas do segundo quando combinado com os mesmos outros juízos As duas proposições os gregos derrotaram os persas em Platea e os persas foram derrotados pelos gregos em Platea diferem ao primeiro modo mesmo se uma pequena diferença de sentido é discer nível a concordância de sentido é preponderante Agora eu denomino aquela parte do conteúdo que é a mesma em ambas de conteúdo con ceitual Apenas este tem importância para nossa linguagem conceitual Begriffsschrift Hildesheim Olms 2007 3 pp 23 Notese que Frege entende que há algo que se mantém idêntico apesar da modificação das expressões linguísticas o que ele de nomina aqui contéudo conceitual e que a depender do contex to também é indicado pelas palavras sentido e pensamento O problema principal de uma teoria do significado ou teoria semân tica é fornecer uma explicação clara desse ingrediente O referencialismo e o inferencialismo operam ambos com a no ção de remissão como essencial para a significatividade linguística por conseguinte não obstante as diferenças de conceituação elas adotam uma teoria relacional da significatividade Essas alternativas 132 Filosofia da Linguagem I entretanto têm sido colocadas sob suspeita a partir de uma perspec tiva ainda mais crítica orientada para o total descomprometimento da teoria semântica com qualquer suposição em outros domínios teóricos que está fundada na intuição de que a significatividade não é uma relação ou propriedade A objeção de que a significatividade não é uma relação é o motor do deflacionismo semântico cuja tese é formulável em poucas palavras a significatividade de uma expres são não é senão o seu estar sendo usada como expressão em um sis tema de expressão da mesma forma como a explanação semântica é tão somente a descrição desse sistema em outro sistema de expres são Em termos conceituais os deflacionistas afirmam que as noções semânticas não expressam propriedades e relações reais mas tão so mente indicam a tradução de uma sentença em outra sentença Des se modo ao usar o conceito semântico de verdade para caracterizar uma frase como no enunciado A sentença Chove é verdadeira apenas se estaria indicando que se pode afirmar a frase Chove Essas três perspectivas de conceituação da semântica estão por detrás da disputa acerca das relações entre Semântica e Ontologia Nessa disputa três posições são claramente distinguíveis as noções ontológicas são anteriores e delas dependem as noções semânticas as noções semânticas são anteriores e delas dependem as noções on tológicas e as noções semânticas e as noções ontológicas são inde pendentes Denominemos essas posições respectivamente tese da superveniência tese da precedência e tese da independência das no ções semânticas em relação às ontológicas No contexto da discussão da semântica tarskiana essa disputa aparece sob a forma da alegação de que a teoria semântica é neutra em relação à teoria ontológica Todavia a alegação da neutralidade configurase de maneira distinta conforme seja concebida e interpretada a explanação tarskiana re sultando daí que as posições acima delineadas por vezes sejam vistas como compatíveis por vezes não Podese dizer que cada uma delas reclama ser a melhor interpretação para o procedimento de análise semântica desenvolvido por Tarski o qual aparece como um marco conceitual a partir de onde as diferentes posições se estabelecem As questões relativas à explicitação do conteúdo semântico das expressões e o problema das conexões entre teoria semântica e teoria ontológica recebem soluções diferentes conforme se adote TARSKI A A concepção semântica da verdade Cap 3 18 p 189 Uma teoria do significado tem reflexos nas teorias acerca do que há e do que não há O conceito de significatividade linguística 133 uma ou outra dessas conceituações A diferença mostrase na defi nição de conceitos como os de verdade conteúdo expresso objeto de referência e equivalência semântica de sentenças assertóricas o que é uma decorrência do fato de as diferentes perspectivas se mânticas operarem com uma relação de remissão diferente uma interna ou inferencial e outra externa ou referencial A noção de objeto decorrente da versão inferencialista é explícita Os objetos que a língua parece colocar em jogo são de fato criados por e para o discurso ANSCONBRE Op Cit p 31 Para a tradi ção referencialista no entanto a noção de objeto tem uma defini ção diversa valendo a noção de objeto definida por Frege segundo a qual o objeto sempre é algo distinto tanto das expressões utilizadas para referilo quanto dos conceitos utilizados para descrevêlo ou classificálo Do ponto de vista da descrição semântica a diferença tornase evidente na conceituação do valor semântico de expressões dêiticas para os inferencialistas esse valor determinase no interior do discurso para os referencialistas o discurso apenas pode indicar algo que está dado de antemão Essas definições ensejam duas estra tégias de solução para o problema da conexão entre noções semânti cas e noções ontológicas O inferencialismo tenderá a manter que as noções ontológicas são derivadas de noções semânticas e que a rela ção de remissão implícita na significatividade é interna à linguagem uma expressão sempre remetendo apenas a outra expressão A disputa concerne à conexão da noção de objeto como valor e ingrediente do conteúdo semântico de uma expressão com as demais noções semânticas O inferencialismo defende que tal noção é derivada e secundária em relação às noções de verdade designação equivalência etc alternativa esta que remonta tam bém ao modo como Frege definia a semântica não em termos de relações linguagemmundo mas em termos de relações entre os sentidos das expressões linguísticas os quais não necessariamente estão conectados com objetos A tese central é de que a relação de remissão a objetos é mediada sempre por entidades ou fato res já linguísticos que não é possível falar de um objeto sem de algum modo utilizar uma expressão para designálo Os funda mentos da aritmética 47 A tese assim formulada parece trivial não é possível utilizar uma linguagem falar para expressar algo 134 Filosofia da Linguagem I sobre conceito algo objeto sem utilizar uma expressão linguís tica nome Todavia o que se quer dizer é muito mais forte e nada trivial a saber que objetos não podem ser dados senão via linguagem Nessa versão porém já se deixou Frege de lado pois essa interpretação para ele apenas seria aplicável a objetos muito particulares a saber os objetos abstratos Com efeito a tese básica da perspectiva inferencialista em semân tica é que os conceitos semânticos podem ser definidos de modo satisfatório sem recorrerse às noções de domínio de referência e de satisfação ou denotação bastando a noção de valoração de um conjunto de sentenças primitivas Nessa maneira de conceituar a linguagem é concebida como o meio pelo qual se pode constituir um objeto Os objetos seriam uma decorrência ou efeito do modo pelo qual a linguagem significa ou é utilizada Ao referencialismo todavia resta contraargumentar que desse modo é impossível darse conta da própria linguagem pois ela também se apresenta como um objeto E além disso que a descrição semântica na linha proposta por Tarski está essencialmente ligada à ideia de exemplifi cação e modelagem a qual consiste em correlacionar as expressões geráveis em uma linguagem com algo diferente um modelo e que apenas através dessa correlação as propriedades lógicosemânticas da linguagem se deixam explicitar e definir inteiramente Leituras recomendadas RUSSELL B Sobre a denotação São Paulo Abril Cultural 1980 Os Pensadores RYLE G Ensaios São Paulo Abril Cultural 1980a Os Pensado res A teoria da significação e Sobre o referir Reflita sobre O que é denominado o significado e o dito em frases do tipo O significado do que ele disse é que não haverá aula amanhã e O que ele disse é que não haverá aula amanhã Como explicar em termos conceituais a propriedade de ser significativo para expressões gestos inscrições etc Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische Philosophie cf pp 50 482 338 Capítulo 8 A explanação referencial do significado linguístico Neste capítulo será apresentada a teoria referencial do significado Para isso serão ex postas as teorias de Tarski Carnap e Lewis O ponto principal dessas teorias é a expla nação do significado em termos de relações entre expressões e objetos de um domínio de referência If you land on or pass GO collect 200 A explanação referencial do significado linguístico 137 8 A explanação referencial do significado linguístico O propósito desta lição é a análise de duas teorias semânticas ancoradas na tese de que a relação referencial é a noção fundamen tal para a explicitação do significado a teoria de A Tarski e a teo ria da intensão e da extensão proposta por R Carnap e ampliada por D Lewis A caracterização dessas teorias como referencialis tas devese ao fato de que a descrição semântica de uma sentença propiciada por essas teorias inclui noções retiradas da relação en tre expressões e objetos Os postulados básicos do referencialismo partem de uma estipulação de referência a qual estabelece uma função de remissão entre expressões linguísticas e itens em um do mínio sejam esses objetos propriedades indivíduos conjuntos conceitos Para essas teorias é em virtude do vínculo referencial que uma expressão tem significado e contribui para a formação do significado de uma expressão composta e quando a expressão não é propriamente referencial como as expressões lógicas e de formação de frase ela significa uma operação sobre a extensão re ferência das expressões a ela ligadas Essa pressuposição em geral aparece como um postulado acerca da linguagem objeto qual seja o postulado de que os termos primitivos da linguagem sempre re ferem a algo Outro aspecto comum e complementar dessas teorias é a adesão forte ao princípio da composicionalidade para o signi ficado sentencial segundo o qual as propriedades semânticas de uma sentença são uma consequência das propriedades semânticas Você pode conferir essa tese de Taski em MORTARI C A DUTRA L H Org A concepção semântica da verdade textos clássicos de Tarski São Paulo EDUNESP 2007 Já a referida tese de Carnap em CARNAP R Meaning and Necessity A Study in Semantics and Modal Logic 2 ed Chicago UC Press 1958 CARNAP R Introduction to Semantics and Formalization of Logic Cambridge Harvard Univ Pr 1975 The Logical Structure of the World Pseudoproblems in Philosophy 1969 E a referida tese de Lewis em LEWIS D General Semantics Synthese 22 p 1867 1970 138 Filosofia da Linguagem I de suas partes componentes A conjugação desses dois princípios está na base da adoção do critério de substitutividade preserva dora de referência como modo de determinação de equivalência semântica e parâmetro para as operações envolvendo o conteúdo semântico de expressões 81 Alfred Tarski a semântica como teoria das relações entre expressões e objetos Tarski caracteriza o objeto da semântica como sendo a relação entre as expressões e os objetos Na sua teoria os conceitos se mânticos expressam certas conexões entre as expressões de uma linguagem e os objetos e estados de coisas referidos por estas ex pressões p 149 O conceito primitivo dessa conceituação apa nha justamente esse nexo entre expressões e objetos e é ele que estará na base da definição do conceito de satisfazibilidade que será o conceito semântico a partir do qual todas as propriedades e relações semânticas serão explanadas Uma vez estabelecido o conceito de satisfazibilidade definemse o conceito de sentença verdadeira e as relações entre as sentenças tais como consequên cia equivalência e as propriedades da linguagem a saber con sistência completude etc Todavia a posição de Tarski é mais matizada e os intérpretes em geral se dividem pois por um lado a teoria tarskiana parece resistir a uma interpretação referencial e por outro podese dizer que os principais resultados da proposta não dependem da relação de referência Todavia os conceitos pri mitivos são explicitamente referenciais e constituemse a partir da relação de remissão da linguagem a algo distinto dela Nós vamos entender por semântica a totalidade de considerações con cernentes aqueles conceitos que falando grosseiramente expressam certas conexões entre as expressões de uma linguagem e os objetos e estados de coisas referidos por estas expressões Como exemplo típico de conceitos semânticos nós podemos mencionar os conceitos de de notação satisfação e definição A Tarski A concepção semântica da verdade O estabelecimento da semântica científica p 149 Cf ainda A concepção semântica da verdade e os fundamentos da semântica 5 p 164 A explanação referencial do significado linguístico 139 Não obstante a tarefa principal da semântica é a definição do conceito de verdade sentencial para linguagens formalizadas e a definição dos conceitos lógicos de verdade consequência consis tência etc os quais têm a ver com relações inferenciais E é justamente nesse passo que se revela a estratégia referencia lista pois tais conceitos na articulação que Tarski forneceu têm uma natureza lógica diferente mas derivada em relação às noções de designação satisfazibilidade e definibilidade A concepção se mântica da verdade p 164 A interpretação referencial da proposta de Tarski pode ser con testada porque o seu conceito básico não é o de referência ou de designação A relação fundamental da semântica tarskiana é a de satisfazibilidade com a qual se estabelece inclusive o modo como um nome designa um objeto Porém a satisfazibilidade é concebi da como uma relação entre objetos e certas expressões denominadas funções sentenciais No que diz respeito à noção de satisfazibilidade poderíamos tentar definila dizendo que objetos dados satisfazem uma função dada se esta última tornase uma sentença verdadeira quando nela substituímos variáveis livres por nomes desses objetos Todavia nessa formulação supõese a noção de verdade e também a noção de sentença Por isso Tarski recorre a outra definição Indicamos quais os objetos que satisfazem as funções sentenciais mais simples e depois estabelecemos as condições sob as quais objetos da dos satisfazem uma função composta supondo que sabemos quais os objetos que satisfazem as funções mais simples a partir das quais a fun ção composta foi construída Idem p 175 Naquilo que interessa à semântica dois momentos estão aí en volvidos O primeiro a definição de satisfação de funções simples por objetos e o segundo com o uso dessa definição a definição de satisfação de funções compostas Para a definição de funções sim ples o esperado seria a utilização de noções como denotação e refe rência E é isso mesmo que Tarski faz em apresentações mais livres De fato conceitos semânticos expressam certas relações entre objetos e estados de coisas referidos na linguagem em discussão e expressões da linguagem referindo a esses objetos Logo os enunciados que estabele A noção de satisfazibilidade traz consigo embutida a noção de preenchimento de Husserl bem como a noção de saturação de uma expressão insaturada por um argumento de Frege A explicitação dessas metáforas faz parte da teoria semântica desde os seus começos e por meio delas resolvese o problema da relação entre o âmbito dos conceitos e o âmbito dos objetos 140 Filosofia da Linguagem I cem as propriedades essenciais dos conceitos semânticos devem con ter tanto a designação dos objetos referidos portanto as expressões da própria linguagem e os termos que são usados na descrição estrutural dessa linguagem O estabelecimento da semântica científica p 151 Notese que a caracterização da semântica como dizendo respeito às relações entre expressões e objetos está aqui especificada os enun ciados que estabelecem as propriedades essenciais dos conceitos se mânticos têm que conter tanto as expressões da linguagem usadas para designar objetos quanto as expressões usadas para designar ou descrever a estrutura gramatical dessa linguagem Esse tipo de afir mação mostra que em última instância todo o aparato conceitual da teoria semântica está fundado em enunciados da metalinguagem que relacionam expressões da linguagem objeto No entanto a ênfa se da referida passagem é dada ao fato de que os termos da lingua gem em questão são tomados como remetendo a objetos e estados de coisas além disso os enunciados mesmos supõem a relação de referência entre as expressões e os termos usados na descrição estru tural sem os quais eles não teriam nenhum sentido A relação entre as expressões da linguagem objeto e os objetos bem como entre tais expressões e as suas descrições estruturais não é senão a relação de designação que no esquema tarskiano é explanada a partir dos conceitos de satisfação e função sentencial dizer que o nome x denota um dado objeto a é o mesmo que estipular que o objeto a satisfaz uma função sentencial de um tipo particu lar Em linguagem coloquial isso seria uma função que consiste de três partes na seguinte ordem uma variável a palavra é e um dado nome x Idem 3 p 62 n 42 Portanto não é o conceito de designação que explica o de satis fação mas sim o contrário é que é o caso O problema então é a explicitação do que se quer dizer com estipular que um objeto satisfaz uma função sentencial sem se recorrer a algum tipo de relação de referência ou designação Considerese qual é o papel do sinal a na citação A resposta é tanto simples quanto proble mática a é o próprio objeto isto é a primeira letra do alfabeto ocidental não está ali como signo ou símbolo mas sim como si nal ou marca enfim como objeto Por sua vez a letra x está ali sendo indicada como signo ou nome do objeto a A explanação referencial do significado linguístico 141 Disso resulta que uma função sentencial utilizada para a insti tuição de um nome para um objeto seguindo a sugestão de Tarski é algo do tipo é x em que os parênteses indicam o lugar do objeto de um domínio qualquer e a letra x por sua vez é uma variável que se substitui por possíveis nomes de objeto Por exem plo tomando o alfabeto ocidental como domínio de referência podemos construir a seguinte sentença a é alfa Tal sentença es tipula que o objeto a seja a marca de tinta ou o tipo de marca de tinta denominase alfa isto é o objeto a satisfaz a função é alfa Notese que alfa antes dessa sentença era ape nas uma marca ou objeto tal como a e torna se uma expressão pela asserção da verdade da sentença que a estipula como nome de a Toda via essas frases são claramente problemáticas pois um objeto não pode fazer parte de uma sentença Logo a marca a está ali já como expressão significativa isto é como nome e não como objeto Por conseguinte o processo está viciado desde o início Desse modo o aparato todo depende da noção de atribuição de um objeto no domínio a uma variável livre Uma variável pode ser ligada ora a um ora a outro objeto do domínio A vari ável é um recurso para trazer ao discurso um objeto qualquer do domínio mas se ela é utilizada para explicar os nomes ela mesma não é um nome Resta uma única alternativa nas sentenças insti tuidoras ou estipulatórias o objeto mesmo faz parte da sentença e a variável apenas marca lugar para os diferentes objetos para os quais os nomes estão sendo estipulados Do contrário o objeto a teria que ser visto como um nome ou expressão mas desse modo o procedimento inteiro seria circular A unidade de significação fica reduzida desse modo a algo do tipo Algum objeto é branco ou melhor é branco o que é uma evidência de que a base da significatividade é concebida como deri vada da noção de instanciação ou aplicabilidade de um conceito e não da noção de nome e da relação de designação Os sinais linguís ticos são objetos e se significativos codificam conceitos ou funções Então como um sinal que é um objeto tornase um signo de objeto 142 Filosofia da Linguagem I que se calhar apanham objetos Para um objeto x ser o nome de um objeto a todavia é necessário que se estipule que o objeto a seja uma instância do conceito serdenominado x Isso é uma decor rência da teoria dos tipos que prevê a distinção apenas entre 0 objetos 1 conceitos e relações de objetos 2 conceitos e relações de conceitos etc As noções semânticas surgem a partir do primei ro nível Designação e satisfação estão no primeiro nível verdade equivalência consequência já seriam conceitos de segundo nível Essa leitura porém não é capaz de explicar completamente a estratégia tarskiana pois seguidamente ali é dito que os predica dos nomeiam subconjuntos no domínio Isso é uma consequência da indistinção das relações de remissão a objetos todas as expres sões significativas nomeiam aquilo a que remetem seja a indiví duos classes relações etc Idem 1 p 24 n 3 As expressões conceituais ou predicativas nomeiam no sentido de que o nexo que se estabelece entre elas e os objetos é fruto de uma estipulação Não há nada de especial diferenciando por exemplo as expressões é doente e é uma letra do alfabeto a não ser o fato de elas por estipulação nomearem ou denotarem diferentes conjuntos de objetos E a diferença delas em relação a é José não está na sua função semântica pois as três remetem a um conjunto de objetos mas sim no fato de que uma expressão remete a um conjunto e a outro a um elemento que pode pertencer a vários conjuntos Com o conceito de satisfazibilidade de uma função senten cial definemse os conceitos de verdade de consequência e de equivalência lógicas As noções de consequência e equivalência caem sob a noção de relação ou propriedade inferencial pois o que está em questão é uma relação entre sentenças O que não era esperado no entanto era que o conceito de verdade também esti vesse entre tais noções sobretudo tendose em vista a proposta de uma definição estritamente semântica e a sugestão de que tal de finição recuperaria o cerne das definições clássicas em termos de correspondência e existência No entanto Tarski apenas desloca a noção de verdade para um nível superior defendendo simultanea mente a possibilidade de definila e a sua vinculação com a relação de remissão entre o linguístico e o extralinguístico Com efeito na teoria tarskiana como será mostrado agora todos esses conceitos A explanação referencial do significado linguístico 143 são definidos empregandose uma estratégia semântica na qual o conceito de satisfação de uma função sentencial por um único objeto ou por uma sequência de objetos é decisivo e primitivo Portanto a conclusão de Tarski é de que não obstante o caráter secundário de tais conceitos e relações todos eles dependem do nexo semântico referencial para a sua definição Notese que um dos objetivos de Tarski era o de eliminar de sua definição qualquer conceito semântico nãodefinido o que para ele significava ou definilo em termos de outros conceitos se mânticos já definidos ou reduzilo a um conceito nãosemântico Os conceitos nãosemânticos por ele utilizados foram os da teoria dos conjuntos elemento conjunto e relação de pertencimento Não é porém a teoria dos conjuntos que importa mas sim a estrutura formal dos conjuntos Essa estrutura servirá de modelo ou domí nio de referência para a definição das propriedades semânticas das expressões de uma linguagem formal L qualquer principalmente para a definição de uma relação de remissão determinadora das extensões para as expressões primitivas e por recursão das ex pressões compostas Embora essa relação de remissão seja a chave da definição de satisfazibilidade isso de modo algum implica que ela seja semântica pelo contrário tal relação é exterior e anterior à linguagem significativa pressuposta no inteiro procedimento A estrutura formal delineada pela teoria dos conjuntos fornece os objetos de que Tarski precisa para deslanchar a sua teorização Tendo os objetos já determinados e independentes da linguagem L basta estipular que objeto satisfaz qual função sentencial no minativa do tipo x é X onde x é uma variável de objetos e X é uma variável de nomes Os objetos que ocuparão o lugar da variá vel são elementos de conjuntos conjuntos e conjuntos de conjun tos Desse modo a relação fundamental da semântica tarskiana seja ela denominada designação ou satisfação é na verdade uma estipulação de uma relação entre duas séries de objetos os objetos expressões primitivos de L e os objetos de um modelo ou estrutu ra no caso a estrutura propiciada pela teoria dos conjuntos O desenvolvimento desse aparato conceitual culmina na definição de modelo ou interpretação Um modelo constituise basicamen te na formalização de uma função de remetimento entre expressões O estabelecimento da semântica científica p 153154 144 Filosofia da Linguagem I de uma linguagem e um domínio de referência o que significa di zer por um lado que os objetos e também propriedades e relações referidos pelas expressões estão determinados independentemente do sistema de expressão e por outro que a relação de referência é exterior tanto à linguagem como ao domínio de referência Um mo delo basicamente constituise na estipulação de um domínio uma extensão e numa função de atribuição de extensões às expressões primitivas da linguagem em questão A definição de modelo dáse do seguinte modo dado um sistema formal SF com uma linguagem L um modelo para SF é um par U A D onde A é um conjunto e D é uma função que atribui para as constantes primitivas não lógicas de L t1 t2 elementos ou construtos de elementos em A se ti é uma constante individual Dti é um membro de A se ti é um predicado de primeira ordem nádico Dti é uma relação nádica inclusa em An etc Dizse que a função D atribui para os termos ts denotações em A Cada par de um conjunto A e uma função de denotação D determina um modelo para SF Dada uma teoria T em um sistema formal SF com uma linguagem L dizse que um mode lo U para SF é um modelo de T se e somente se toda afirmação de T é verdadeira em U e que U é um modelo de uma sentença S de L se e somente se S é verdadeira em U Com esse aparato chegase à definição de verdade Mais espe cificamente o que é explanado é o conceito de uma sentença S de L é verdadeira em um modelo U para SF o que é feito em termos de satisfação S é verdadeira em U se e somente se toda atribui ção de elementos em A para as variáveis de L satisfaz S em U Do mesmo modo para os conceitos de consequência e verdade lógica uma sentença S é consequência lógica de um conjunto G de sen tenças se e apenas se todo modelo de G é também um modelo de S e uma sentença S é logicamente verdadeira se e apenas se todo modelo é um modelo para S Genericamente portanto um modelo consiste numa estipula ção de um conjunto nãovazio chamado de domínio de referência de objetos e na interpretação de uma linguagem pela estipulação de uma função de remissão denotação para cada termo primiti vo da linguagem para as constantes individuais algum membro do domínio de interpretação e para cada símbolo funcional uma fun A explanação referencial do significado linguístico 145 ção com argumentos e valores no domínio e para cada símbolo predicativo alguma propriedade ou relação definida para objetos no domínio Esses termos são separados dos termos complexos ou sentenças para as quais é atribuído um ou outro mas não ambos valor de verdade verdade e falsidade Além disso os símbolos ló gicos os quais determinam os possíveis arranjos sentenciais rece bem a sua interpretação usual em termos de funções de verdade e os quantificadores são lidos como se referindo exclusivamente aos membros do domínio de interpretação Com isso fica claro que é a partir dessas especificações que se define a noção formal de satisfação uma sentença S é satisfeita se há um modelo em que ela é verdadeira uma função sentencial é denotativa se ela se torna uma sentença verdadeira quando se substitui a variável por um objeto do domínio Disso se segue a explanação do conteúdo semântico de uma sentença asserida o conteúdo expresso é um conjunto de condições de satisfação A especificação exata das condições de satisfação para as sentenças de uma lingua gem é essencial para uma teoria semântica referencialista Estas condições determinam um conjunto de modelos estru turas extensionais na qual a sentença é satisfeita ou verdadeira Ou ainda o expresso pela asserção de uma sentença é uma função de modelos para valores de verdade O que é expresso por uma sentença na teoria tarskiana portanto é uma função de modelos para valores de verdade Isso é evidenciado pela definição pro posta das propriedades e relações entre as sentenças tal como a relação de implicação entre sentenças em que apenas as noções de satisfação e modelo são utilizadas Todavia devese notar que propriamente falando o procedimento tarskiano não trata as sen tenças como expressando algo ou como tendo um conteúdo pois o que o procedimento supõe é que simplesmente haja uma rela 146 Filosofia da Linguagem I ção de remissão formal entre a lista das expressões e a lista de ob jetos ou mais precisamente uma correlação entre as expressões da linguagem e as da metalinguagem No início deste item foi sugerido que a semântica tarskiana tor na as relações e propriedades inferenciais secundárias e derivadas das relações referenciais Esse ponto tornase evidente na definição da noção de equivalência lógica entre sentenças a qual é essencial mente uma relação entre expressões e está diretamente ligada às propriedades referenciais de um sistema de expressão Tal noção é definida por Tarski a partir do conceito de implicação lógica duas sentenças S e S são logicamente equivalentes se e apenas se S logicamente implica S e S logicamente implica S Ora o concei to de implicação lógica está definido em termos de satisfação por modelos uma sentença S implica logicamente uma sentença S se e apenas se todo modelo de S é um modelo de S Por conseguinte em última análise a relação de equivalência entre duas sentenças é dependente daquela relação de remissão referencial O caráter semântico das explanações tarskianas não é senão a utilização da relação de remissão para a definição de toda e qual quer propriedade ou relação inferencial Seja qual for a proprieda de inferencial ou relação entre expressões substitutividade equi valência implicação etc é a noção de satisfazibilidade que em última análise será utilizada como termo definidor E essa não é senão a formalização da relação de remissão entre as expressões de uma linguagem e um domínio de objetos Podese dizer que a semântica tarskiana é uma teoria semânti ca muito restrita pois ela propriamente não explicita o conteúdo semântico das sentenças segundo os modos de significação mas tão somente mapeia as relações entre as extensões das diferentes expressões Em outras palavras a semântica utilizada por Tarski não distingue o modo como uma expressão denota ela apenas leva em consideração o que essa expressão denota Ademais as distinções entre as diferentes expressões não são relativas ao modo de significação mas sim às diferenças entre o que elas significam ou então aquelas distinções são relativas às diferenças morfoló gicas das próprias expressões Isso fica claro quando se focaliza o cerne da proposta tarskiana a saber a sua teoria da denotação Essa importante definição que de um modo geral resume a teoria semântica tarskiana da linguagem foi exposta no artigo Sobre o conceito de consequência lógica Op Cit p 240 A explanação referencial do significado linguístico 147 para nomes predicados e funções a qual se reduz à estipulação de um sinal para um objeto ou sequência de objetos O objetivo da teoria tarskiana é a determinação das proprieda des lógicosemânticas de sentenças e funções sentenciais e não a exposição do conteúdo semântico das expressões muito menos a explicação sobre como as expressões significam ou seja a proprie dade semântica que Tarski pressupõe é que as expressões signifi cam isto é têm denotações e a tarefa da semântica que ele pre tende cumprir é mostrar como outras propriedades semânticas dependem e podem ser derivadas dessa significatividade poden do ser definidas precisamente Isso está dito expressamente nós não estamos interessados aqui em ciências e linguagens formais num sentido especial de formal a saber ciência de signos e expressões aos quais nenhum significado é atribuído Nós sempre atribuiremos significados bem concretos e para nós inteligíveis aos signos que ocor rem nas linguagens que nós consideraremos O conceito de verdade nas linguagens formalizadas Op Cit p 34 A expressão meaning não deve ser entendida como significa ção mas sim como remissão a um objeto O que significa dizer que as elucidações semânticas fornecidas são desenhadas para uma linguagem em que as denotações dos nomes e das funções bem como as extensões dos predicados estão previamente garantidas e determinadas Todas as expressões são tratadas como designati vas Sobre esse pressuposto ele então define outras propriedades semânticas mostrando assim como se relacionam as noções se mânticas sobretudo como se dá a aplicação precisa do predicado verdade para sentenças e do predicado consequência para conjun tos de sentenças e uma sentença etc A teoria semântica tarskiana explicita as relações e proprieda des das expressões de uma linguagem já significativa portanto ela pressupõe que as expressões envolvidas tenham significado isto é que os nomes nomeiem algo que as funções sentenciais sejam sa tisfeitas por objetos e sequências de objetos e que os predicados te nham extensões determinadas Desse modo o predicado verdade tal como foi introduzido por Tarski aplicase a uma sentença na medida em que esta tenha uma determinada estrutura semântica estrutura esta decorrente de propriedades semânticas da linguagem A definição de BolzanoTarski introduz em todo argumento uma premissa tácita de que todo nome de fato nomeia algo HODGES W Elementary Predicate Logic p 56 In GABBAY GUENTHNER 1983 148 Filosofia da Linguagem I utilizada A definição do predicado verdade estabelece uma relação entre a sentença verdadeira e as propriedades semânticas das suas partes componentes de tal modo que dizer que uma sentença é verdadeira pode ser compreendido em termos de uma explicação da contribuição semântica de cada uma de suas partes relevantes Por conseguinte o aparato desenvolvido por Tarski apenas expli cita as relações formais entre certas propriedades semânticas pres supondoas como constituídas isto é pressupondo uma linguagem significativa como dada Tal aparato apesar de explicitar como al gumas propriedades semânticas são interdependentes não é uma explicação da significatividade das expressões linguísticas e muito menos é capaz de expor o conteúdo semântico de uma sentença Todavia a teoria tarskiana tem um aspecto que não pode ser negligenciado a saber a sua capacidade de mostrar como as pro priedades semânticas de uma expressão complexa são deriváveis de propriedades semânticas mais primitivas associadas às suas partes componentes Com efeito podese dizer que essa é a principal vir tude de tal teoria pois ao mostrar como definir conceitos semân ticos superiores na hierarquia dos tipos através de praticamente um único conceito o de satisfação de uma função sentencial por uma sequência de objetos Tarski realizou o ideal da composicio nalidade que prevê que as propriedades semânticas de uma expres são complexa dependam e sejam derivadas das propriedades das expressões componentes 82 A semântica como teoria das relações entre intensão e extensão A explanação das noções semânticas a partir da noção de refe rência formal em um modelo tem uma limitação bastante evidente quando estendida às linguagens naturais pois ela supõe que o con teúdo semântico das expressões esteja fixado através de uma função de denotação para cada termo da linguagem exigindo uma prede terminação tanto das expressões pertencentes à linguagem como dos objetos de referência o que parece não ser o caso para as lingua gens em geral Rudolf Carnap na obra Meaning and Necessity pro A explanação referencial do significado linguístico 149 curou formular uma semântica formal nos moldes de Tarski capaz de lidar com a variabilidade do conteúdo semântico o que é possibi litado pela introdução da distinção entre intensão e extensão A in trodução desses conceitos como será mostrado permitiu a Carnap estabelecer distinções mais precisas sobretudo no que se refere à noção de equivalência semântica para sentenças tornando possível diferenciar no que é expresso pelo proferimento de uma sentença em uma situação e em um contexto conteúdo e valor semântico O que essas noções proporcionam é justamente o que não há na semântica tarskiana a saber a distinção de modos de signifi cação e a possibilidade de uma exposição do conteúdo semântico das expressões de maneira a explicitarse o modo como uma ex pressão significa isto é o modo como se conecta com a sua exten são ou valor semântico Para apresentar a explanação do conteúdo semântico segundo o método de descrição baseado nas noções de intensão e extensão vou seguir primeiro o texto de Carnap e depois o texto General Semantics de D Lewis ainda com o ob jetivo de explicitar a estratégia referencialista na explanação do conteúdo semântico sentencial A posição de Carnap explicase em parte pela retomada da distinção fregeana entre sentido e significado distinção essa au sente das considerações de Tarski Essa retomada porém é feita por meio da assimilação das noções de sentido e de significado aos conceitos de intensão e extensão Além disso ao introduzir o seu método de análise semântica Carnap distingue dois modos de diferenciar a intensão e a extensão Os dois modos são um parte da distinção entre 1 a distribuição de valores de uma função proposicional e a própria função propo sicional e o outro distingue 2 a entidade cujo nome é a expres são um nome e o significado ou sentido da expressãoMeaning and Necessity 29 p 127 Carnap adota como paradigma o pri meiro modo nossa distinção entre extensão e intensão é como que uma explicação do mesmo par de conceitos 1 relativamente aos predicados e simultaneamente como um alargamento do do mínio de aplicação dos conceitos comuns a outros tipos de desig Synthese 22 p 1867 1970 150 Filosofia da Linguagem I nadores Ibidem Com essa opção Carnap de certo modo não apenas retoma o ponto principal da semântica tarskiana qual seja o de colocar a noção de função proposicional como primitiva mas também mantém a abordagem referencialista no sentido de que estende para todas as expressões a noção de designação Porém na medida em que a operação primitiva é a de uma fun ção proposicional para que se constitua uma expressão designa tiva fazse necessário ter como verdadeira uma sentença Isso se expressa no postulado de que a unidade semântica básica é a sen tença E por isso os primeiros conceitos definidos são por um lado os de verdade falsidade equivalência implicação e por ou tro os conceitos propriamente lógicos ou analíticos de Lverdade Lfalsidade Limplicação e Lequivalência os quais são uma expli citação da noção de intensão para uma linguagem L qualquer A suposição tarskiana da linguagem como já significativa é re tomada por Carnap na forma da postulação de regras semânticas que determinam a designação das constantes individuais e dos pre dicados e de regras de verdade para as sentenças simples e com postas Estas regras por sua vez não são parte da linguagem sendo consideradas pseudossentenças e fazem parte da sintaxe Devese notar que as regras semânticas não são em si mesmas nem verdadeiras nem falsas pois são elas que permitem a definição de verdadeiro e falso Elas porém determinam as propriedades in tencionais de qualquer expressão e assim constituem a chave para a apreensão do conteúdo semântico de qualquer expressão Uma vez estabelecida uma linguagem por meio de suas regras semânticas Carnap passa a definir os conceitos propriamente ló gicos Estes serão definidos a partir da noção de statedescription a qual joga um papel semelhante ao de modelo ou interpretação na teoria tarskiana Porém uma descriçãodeestado é um conjunto de sentenças em uma linguagem que contém para cada senten ça atômica ou esta sentença ou a sua negação mas não ambas e nenhuma outra sentença Uma vez que tal conjunto fornece uma descrição completa de um possível estado do universo de indiví duos com respeito a todas as propriedades e relações expressas por predicados do sistema ela equivale a um mundo possível Uma sentença será então logicamente verdadeira Ltruth se e apenas A explanação referencial do significado linguístico 151 se ela pertencer a toda e qualquer descriçãodeestado possíveis na linguagem Dessa definição chegase à definição de implicação e equivalência lógica Uma sentença S implica logicamente outra S se e apenas se a sentença S implica S for verdadeira logica mente Disso resulta que se uma sentença S implica logicamente a sentença S então S pertence a toda descriçãodeestado a que S pertence Duas sentenças S e S serão logicamente equivalentes se e apenas se a sentença S equivale a S for logicamente verdadeira O cerne da proposta de Carnap porém é a definição de in tensão A noção de intensão é pensada como uma função determi nante de extensões em conformidade com a tese fregeana de que o sentido determina o significado O que é denotado por uma ex pressão a sua extensão varia em função dos mundos possíveis ou descrições de estado Na distinção clássica entre a intensão e a ex tensão de um termo conceitual estavam mescladas as duas relações semânticas antes mencionadas a inferencial e a referencial Com efeito a formulação moderna dessa distinção articula de um lado a relação entre um conceito e outros conceitos e de outro a relação entre um conceito e os objetos aos quais ele aplicase A partir disso se pode falar das relações entre as intensões de dois conceitos e também das relações entre as extensões desses mesmos conceitos Todavia na proposta de Carnap ambos os conceitos são esta belecidos para dar conta das propriedades referenciais Para os termos subsentenciais extensão e intensão definemse resumida mente assim dos termos designadores a intensão é um conceito individual e a extensão um indivíduo Para os termos gerais ou predicadores a extensão é a classe determinada pela propriedade ou sua intensão No que se refere às sentenças a extensão é o seu valor de verdade e a sua intensão é o que tradicionalmente se de nominou proposição Propriedade conceito individual e propo sição são marcados como entidades marcação esta também utili zada para designar classes indivíduos e qualquer coisa que possa ser uma extensão Meaning and Necessity 4 p 2223 Disso se seguem as definições a intensão de um predicado Q para um interlocutor I é a condição geral que um objeto y deve satisfazer de modo que I esteja disposto a aplicar o predicado Q a y Meaning and Necessity p 242 Que um predicado Q numa 152 Filosofia da Linguagem I linguagem L tem a propriedade F como sua intensão para I signi fica que entre as disposições de I que constituem a linguagem L existe a disposição de aplicar o predicado Q a qualquer objeto y se e somente se y tem a propriedade F Idem p 242 Duas expres sões são sinônimas na linguagem L para I no momento t se elas têm a mesma intensão em L para I no momento t Uma sentença é analítica em L para I no momento t se sua intensão ou domínio ou condição de verdade em L para I no momento t compreende todos os casos possíveis Idem p 243 Essas definições supõem que as expressões ditas descritivas te nham a sua contribuição semântica controlada por regras deter minadoras de suas propriedades o que é garantido pelo fato de que o seu uso na linguagem é condicionado por postulados ou regras semânticas mais especificamente por regras de designa ção O uso dessas regras semânticas é central nesse procedimen to Através delas Carnap consegue operar formalmente com os termos nãológicos ou descritivos ao expressar o seu conteúdo extensional no vocabulário lógico Em outras palavras as regras semânticas estabelecem restrições para os possíveis modelos a par tir da restrição das possíveis inferências pois as regras semânticas que instituem uma linguagem não são senão a determinação das relações das expressões umas com as outras e elas o fazem com base na preservação das relações extensionais isto é referenciais À primeira vista a noção de intensão desenvolvida por Carnap é apenas um reflexo formal da extensão de uma expressão isto é das suas relações referenciais pois não se fornece nenhum crité rio para distinguir duas intensões senão em termos de diferença de extensão Todavia a noção de extensão não pode ser explicada apenas pela relação de referência pois aquela noção está associada à noção de implicação e a determinação da relação de referência não é suficiente para determinar as relações de implicação ou re lações inferenciais As relações de referência e de implicação cons tituem uma explicação do par complementar extensãointensão apenas se for estabelecida a conexão entre ter uma determinada extensão com as relações de implicação de um termo Classica mente isso é feito pela suposição de que para quaisquer termos C e C se C implica C então 1 para todo objeto o se C aplicase Isto é aquelas regras que interpretam as diferentes expressões de uma linguagem em um domínio A explanação referencial do significado linguístico 153 a o então C aplicase a o e 2 para todo termo C se C implica C então C implica C do que se segue que C aplicase a o Essa correlação no entanto tem uma direção pois a exigência mínima para ela é a de que se a intensão de um conceito é igual a de outro então a extensão de ambos deve ser a mesma no mesmo contex to mas não viceversa Da igualdade entre as extensões como se sabe não se segue a igualdade das intensões Carnap transpõe a distinção entre extensão e intensão aplicada aos conceitos para as expressões designadoras Por conseguinte na noção de termo designador deve estar incluso mais do que a simples relação de referência visto não ser essa relação ela mesma suficiente para dar conta de todas as suas propriedades semânti cas as quais determinam as suas propriedades inferenciais isto é suas relações de implicação com os demais termos da linguagem O problema está em como definir a noção de intensão de tal modo que ela seja capaz de elucidar tanto as propriedades referenciais como as inferenciais e sobretudo a relação entre essas proprieda des para expressões de uma linguagem A posição de Carnap aproximase daquela defendida por C I Lewis Para este a intensão deve ser definida tendose em vista a totalidade da linguagem pois conforme ele a intensão é ela pró pria a conjunção de todos os outros termos aplicáveis àquilo a que o termo em questão é corretamente aplicável sendo determina da pela definição desse termo The Modes of Meaning p 238 A extensão por sua vez definese em termos referenciais como a classe das coisas reais às quais o termo se aplica Todavia desse modo não fica decidido qual é o conceito primitivo ou seja se é a intensão que determina a extensão ou viceversa Carnap decide se pela tese de que a intensão determina a extensão mas conce be a intensão como um determinável de modo que a extensão de uma expressão varia em função dos mundos possíveis ou situações de uso Isso acontece porque são os estados de coisas ou mundos possíveis que satisfazem ou não uma determinada estrutura in tensional codificada por uma sentença em um determinado con texto de uso Do que se segue que a extensão de uma expressão não seria determinada apenas pela sua intensão pois a situação de uso também contribui para a fixação dessa extensão 154 Filosofia da Linguagem I Dada uma expressão qualquer a sua extensão os objetos que ela designa depende de sua intensão Todavia uma mesma ex pressão com uma significação determinada tem sua extensão al terada em função da situação de utilização por exemplo o sentido da expressão O presidente da República brasileira está deter minado por uma série de regras desde a fundação da República regras essas derivadas de fatos e atos nãosemânticos os quais subjazem e constituem a significação da expressão o que consti tui a tese de que as propriedades semânticas têm a sua origem no âmbito nãolinguístico A cada uso dessa expressão ela tem uma extensão definida Entretanto o indivíduo que é a extensão dessa expressão varia conforme a situação de uso Numa ocasião ela de signa Fernando Henrique Cardoso noutra ela designa Luiz Inácio da Silva noutra Juscelino etc O conceito de intensão pretende apanhar esse fato Nesse conceito estariam articulados os fatores designativos da significação de uma expressão os quais determi nam a extensão da expressão em uso Para isso os fatores contex tuais e situacionais são incorporados como parte do conteúdo semântico isto é da intensão Esse aspecto porém no que se refere aos sistemas formais é determinado pelas regras semânticas instituidoras por cujo meio são especificados tipos de remissão en tre expressões e os elementos do domínio de referência A proposta de Carnap mostra o seu caráter referencial na exata medida em que explana a significatividade das diferentes expres sões atribuindolhes uma intensão que não é senão o fator desig nativo o que vale também para as sentenças Ao distinguir entre extensão e intensão como noções descritivas da contribuição se mântica de termos designadores e ao conceber as sentenças como termos designadores Carnap tem que explicar como aquele par de conceitos aplicase às sentenças Seguindo a orientação fregeana ele distingue entre o valor de verdade de uma sentença e o que é expresso pela sentença O que é expresso por uma sentença é uma proposição e esta é concebida como a intensão da sentença O conteúdo semântico sentencial será então elucidado a partir dos conceitos de estrutura intensional e de isomorfismo intensional O que é expresso pelas sentenças são entidades que elas mesmas são extralinguísticas mas que se elas encontram expressão na lin A explanação referencial do significado linguístico 155 guagem são expressas por sentenças declarativas Meaning and Necessity 6 p 27 O que é expresso por uma sentença entretan to é uma resultante da composição das intensões das suas partes componentes o que sugere que a proposição é uma estrutura in tensional Idem 9 p 4041 se duas sentenças são compostas do mesmo modo por designadores correspondentes com as mes mas intensões então nós diremos que elas tem a mesma estrutura intensional Idem 14 p 56 A noção de estrutura intensional retoma o que está afirmado na noção de composicionalidade semântica a saber que as expres sões compostas têm o seu conteúdo semântico determinado pela articulação dos conteúdos semânticos das partes componentes Duas sentenças possuem a mesma estrutura intensional se suas partes componentes tiverem cada uma a mesma intensão e estas partes forem articuladas segundo a mesma forma Nessa carac terização nada é dito acerca do modo como as partes significam Todavia a noção de estrutura intensional apenas é manuseável se tanto as unidades nas quais as expressões compostas se deixam analisar quanto essas expressões mesmas sejam semanticamente designadores Idem 1 p 67 14 p 57 Do contrário o iso morfismo intensional não garantiria a equivalência extensional O expresso ou o que é dito pela asserção de uma sentença pode agora ser explanado nos seguintes termos Uma sentença designa a sua extensão um valor de verdade e expressa a sua intensão uma proposição Duas sentenças codificam o mesmo conteúdo semântico isto é expressam a mesma proposição se elas são in tensionalmente isomórficas isto é se elas podem ser analisadas em termos componentes com a mesma intensão e esses termos estejam articulados do mesmo modo E uma vez que a intensão de uma sentença determina uma classe de mundos possíveis em que ela é satisfeita ou seja é verdadeira dizse que o que é expresso por uma sentença o seu conteúdo semântico é um conjunto de mundos possíveis modelos ou descrições de estado A teoria semântica defendida por D Lewis 1970 concebe a significação como uma função de contextos de proferimento para condições de verdade de sentenças usadas no contexto Interessa nos apenas o núcleo diferencial de tal teoria a saber interessanos 156 Filosofia da Linguagem I o modo como nela analisase e explanase a significatividade das expressões e como a partir disso explicase o conteúdo semân tico das sentenças Não nos interessa uma reconstrução histórica exaustiva O ponto de partida de Lewis em General Semantics é que a teoria semântica tem que fornecer uma explanação das condições em que uma sentença é verdadeira sob a suposição de que a significação meaning de uma sentença é algo que determi na as condições sob as quais ela é verdadeira ou falsa e de que as relações genuinamente semânticas são as relações entre expressões symbols e o mundo de nãoexpressões Nessa proposta a semân tica é a descrição de linguagens possíveis ou gramáticas como sis temas semânticos abstratos em que símbolos são associados com aspectos do mundo Idem Introduction p 1819 A significação de uma sentença entendida em termos de con dição de verdade contém como ingredientes todos os fatores que podem interferir na determinação do valor de verdade Os fatores envolvidos são todos derivados das relações que a sentença matém com a situação de uso e o contexto discursivo estadosdecoisas possíveis tempo lugar falantes e ouvintes contexto discursivo etc Esses fatores ingredientes estão codificados ou são veiculados pelas expressões componentes da sentença e conformam a sua intensão A semântica de D Lewis contudo visa tornar explícitas as ex tensões das diferentes expressões e o modo como se articulam e podem ser manipuladas A extensão da sentença é o seu valor de verdade dos nomes a coisa nomeada e dos nomes comuns o con junto de coisas a que eles se aplicam A significação de um nome assim determina que entidade se alguma ele nomeia nos vários estados de coisas possíveis em vários tempos lugares etc Os va lores determinados pela significação de cada expressão constituem a sua extensão o valor de verdade para as sentenças a coisa no meada para o nome o conjunto de coisas para os nomes comuns Seguindo o modelo de Carnap Lewis introduz mais dois con ceitos os quais refinam a noção de significação o conjunto de fa tores relevantes para a determinação da extensão denominado de índice index e a função desses índices para as extensões de uma sentença nome ou nome comum denominada intensão Idem p 23 Como em Carnap a intensão realiza somente uma parte Synthese 22 p 1867 1970 A explanação referencial do significado linguístico 157 do que é realizado pela inteira significação pois explicitamente ela apenas apanha os aspectos designativos da significação No en tanto as funções determinadoras de extensão carnapianas tinham como argumento modelos ou descrições de estado representando mundos possíveis Na proposta de Lewis tais funções têm como argumento um pacote de vários fatores relevantes para a deter minação da extensão A proposta de Lewis inclui portanto mais fatores na determinação da extensão Diante dela a intensão car napiana aparece com uma função parcial indefinida em alguns dos índices considerados por Lewis Idem p 25 Um índice é uma sequência finita de vários itens que determi nam a extensão para além da significação Tais itens coordenam a expressão aos mundos possíveis contexto situação de proferi mento tempo falante audiência contexto discursivo etc Um índice é tentativamente qualquer óctupla em que a primeira coor denada é um mundo possível a segunda coordenada é um momento de tempo a terceira é um lugar a quarta é uma pessoa ou outra criatura capaz de ser um falante a quinta é um conjunto de pessoas ou outras criaturas capazes de ser uma audiência a sexta é um conjunto pode ser vazio de coisas concretas capaz de ser indicado a sétima é um seg mento de discurso e a oitava coordenada é uma sequencia infinita de coisas Idem p 25 Desse modo a pergunta pelo referente de uma expressão a sua extensão é resolvida pela equação de sua significação mais a si tuação e o contexto discursivo codificados pelos índices A sig nificação porém é o que articula os fatores ligados à situação e ao contexto através dela é que se dá a conexão semântica Sendo assim o componente designativo ou intensão de uma expressão não se confunde com a significação pois duas sentenças podem ter a mesma intensão e significações diferentes Lewis concebe a seguinte hierarquia A categoria de um significado é a categoria encontrada como o pri meiro componente de seu nó mais alto A intensão de um significado é a intensão encontrada como o segundo componente de seu nó mais alto A extensão em um índice i de um significado sentencial significado de um nome próprio ou de um nome comum é o valor da intensão do significado para o argumento i Um significado sentencial é verdadeiro 158 Filosofia da Linguagem I ou falso em I conforme a sua extensão em i é a verdade ou a falsidade um significado de nome próprio em I é aquela coisa que é a sua exten são em i e o significado de um nome comum aplicase em I a qualquer coisa que pertença a sua extensão em i Idem p 33 Notese que nessa proposta a inteira significação de uma ex pressão resulta de seu vínculo com o domínio de referência com a sua extensão incluído aí o modo como esse vínculo está codificado nos índices e na intensão A significatividade portanto é pensada como referencialidade Propriamente falando a intensão é apenas uma parte da significação de uma expressão mas ela constitui o con teúdo expresso na medida em que determina um valor semântico O modelo proposto por Lewis incorpora vários fatores antes atribuídos aos aspectos intensionalinferenciais do conteúdo se mântico de uma sentença de modo que seja possível fornecerse uma descrição semântica em termos puramente extensionais A ideia é fazer todas as propriedades e relações inferenciais e inten sionais decaírem e dependerem de fatores referencialextensionais Algumas propriedades inferenciais são resolvidas em termos de relações de inclusão entre extensões de expressões Todavia essa estratégia é insuficiente pois não resolve o problema da variação da extensão em função dos fatores contextualsituacionais Para resolver este problema Lewis reformula a noção carnapiana de intensão a qual representa uma noção mais potente de conteúdo semântico As propriedades mais inferenciais e mais sutis isto é mais sensíveis ao contexto e à situação são tratadas através da rela ção de inclusão entre conjuntos que servem como domínio e âm bito de variação das funções de intensão Isso se dá em dois níveis começase com extensões e chegase a intensões como funções de finidas naquelas A significação inferencial o potencial inferencial de proposições particulares em contextos e situações particulares não tem nenhum papel semântico para além do que se determina extensionalmente Em vez de significações inferenciais variando de falante para falante há extensões variando de mundos possíveis talvez conjuntamente com outros índices para mundos possíveis A descrição da significatividade em termos de intensão exten são e índices tem como consequência a definição de proposição como um conjunto de mundos possíveis A explanação referencial do significado linguístico 159 Eu identifico proposições com certas propriedades a saber com aque las que são instanciadas apenas por inteiros mundos possíveis Então se propriedades são conjuntos dessas instanciações uma proposição é um conjunto de mundos possíveis Uma proposição vale em um mundo ou seja é verdadeira nesse mundo A proposição é a mesma coisa que a propriedade de ser um mundo em que aquela proposição vale e isso é a mesma coisa que o conjunto de mundos onde aquela proposição vale Uma proposição vale apenas naqueles mundos que são membros dela LEWIS D On the Plurality of Worlds Oxford Blackwell 1986 p 5354 Essa definição nos dá uma noção do conteúdo semântico de uma sentença proferida em um contexto como uma função de um conjun to mais propriamente uma propriedade de mundos possíveis para valores de verdade Essa estrutura do que é expresso entre um con junto de mundos possíveis e um conjunto de valores de verdade na medida em que considera apenas a extensão faz desaparecer todas as demais diferenças tornando impossível distinguir duas proposições ou dois conteúdos expressos quando eles têm a mesma extensão Isso significa dizer que o modo como esses conteúdos foram expressos desaparece na descrição ou em nada contribui para a sua identidade o que é uma consequência prevista pela tese da independência da proposição em relação aos meios e aos modos de expressão O método da intensão e da extensão resolve o problema da ex plicitação da significatividade das expressões através da postulação de dois tipos de denotação ou referente para as expressões uma denotação extensional e outra intensional Todas as expressões re ferem e referem a sua extensão E quando não têm propriamente referência é a sua intensão a qual é também uma entidade que é referida No caso das sentenças elas não apenas referem como referem algo que é uma extensão isto é um valor de verdade Caso elas não sejam asseridas é a sua intensão que é denotada isto é a proposição expressa As constantes individuais extensionalmente denotam entidades no domínio e intensionalmente denotam con ceitos individuais Os predicados unários denotam conjuntos de entidades e intensionalmente propriedades de entidades As fór mulas denotam valores de verdade e intensionalmente proposi ções Notese que as expressões conceito individual proprieda de e proposições são nomes de funções que são tratadas como entidades tanto por Carnap quanto por D Lewis 160 Filosofia da Linguagem I Da exposição do método podese retirar que o conteúdo semân tico de uma sentença declarativa definese do seguinte modo uma sentença expressa uma proposição isto é uma intensão composta a partir da intensão das suas partes componentes e que determina um conjunto de mundos possíveis em que a sentença é verdadei ra Em termos formais a denotação intensional de uma senten ça é uma função de índices mundo tempo etc para valores de verdade E porque tal função especifica o valor de verdade em qualquer situação dada no modelo ou mundo possível ela tam bém recebe o tradicional nome proposição O conteúdo semân tico de uma sentença é uma proposição e esta é concebida como um conjunto de mundos possíveis A semântica da intensão e da extensão enfrenta dificuldades ligadas à explanação da substitutividade de equivalentes inten sionais Admitida a definição das relações entre extensão e inten são duas sentenças logicamente válidas não apenas têm a mesma extensão como denotam intensionalmente a mesma proposição não importando o quanto sejam diferentes As verdades lógicas são verdadeiras em todos os índices e portanto todas elas deno tam a mesma função a saber a função característica que mapeia todos os possíveis índices W x I em V O que significa dizer que existe apenas uma proposição logicamente verdadeira Em outras palavras implica dizer que quem acredita pensa diz ouve etc qualquer sentença expressando uma proposição necessária acre dita ou pensa todas as proposições necessárias Esse é um resul tado pouco plausível pois sugere que elas têm o mesmo conteúdo e valor semânticos A fonte desse resultado é a conceituação do conteúdo semântico que deriva as mesmas condições de verda de explicitadas em termos de conjunto de mundos possíveis que satisfazem as sentenças mesmo que as sentenças sejam claramen te distinguíveis Uma conclusão imediata é de que a intensão não esgota toda significatividade das expressões como o próprio D Lewis previa e que portanto o que é expresso pelo proferimento de uma sentença vai além das condições de verdade em termos de intensões determinadoras de extensões pois isso inclui também o modo como a intensão é expressa e a extensão designada Toda via talvez todo o paradigma da semântica sentencial em termos de intensão extensão e mundos possíveis seja inadequado A explanação referencial do significado linguístico 161 O problema está no fato de que os conceitos de extensão e in tensão baseados nas noções de índices e mundos possíveis não permitem distinguir o expresso por duas sentenças diferentes com a mesma extensão mesmo valor de verdade e mesmo conjunto de mundos possíveis e a mesma intensão mesma função de índices para valores de verdade Por exemplo as sentenças 1 José caça fantasmas ou José não caça fantasma e 2 p q r p q p r teriam a mesma intensão isto é uma função K que mapeia os mundos possíveis w em valores de verdade a qual para qualquer w K w verdade porém obviamente essas sentenças diferem no modo como expressam tal função A diferença entre tais sentenças seria portanto meramente linguística e desaparece ria completamente na construção teórica utilizada para explicitar as suas propriedades semânticas Para poder apesar desse resultado explicitar a diferença semânti ca dessas sentenças utilizamse as noções de isomorfismo intensional e de estrutura intensional desenvolvidas por R Carnap noções essas cujo cerne está em se transferir para a proposição expressa algo da estrutura da sentença que a codifica Isso permite distinções precisas o suficiente para distinguir por exemplo entre o conteúdo expresso pela asserção de que 5 7 12 e o conteúdo da asserção de que 7 5 12 Além disso ao invocar o modo como uma determinada propo sição é expressa como fazendo parte de sua individuação a noção de estrutura intensional permite distinguir o caminho inferencial pelo qual se alcançou uma determinada proposição ou conteúdo semân tico Isso acontece porque na explicitação da estrutura intensional apelase para o modo como uma intensão foi derivada ou compos ta isto é na exposição da árvore de formação da intensão expressa por uma sentença utilizase o modo como a intensão da expressão relacionase com outras expressões sentenciais e subsentenciais Por conseguinte a solução encontrada faz com que a estrutura sentencial apareça na codificação da intensão sentencial de tal modo que duas sentenças logicamente verdadeiras sejam distinguidas não propria mente pelas intensões componentes mas pelo modo como as inten sões componentes são expressas e foram derivadas O recurso à estrutura intensional foi forjado para dar conta de sentenças diferentes com propriedades semânticas extensionais 162 Filosofia da Linguagem I equivalentes ou idênticas sob a suposição de que as expressões em questão eram de algum modo complexas ou internamente estrutu radas O truque consiste em se transferir para o expresso a estrutura do meio utilizado para expressálo no caso a estrutura gramatical da sentença para a intensão codificada A questão agora é até onde se deve levar essa transposição isto é qual é o limite de mimetização da estrutura gramatical na especificação do conteúdo semântico Se aplicarmos esse recurso para distinguir as propriedades se mânticas de expressões subsentenciais simples chegase a resulta dos inesperados Consideremse duas expressões com intensões que determinam extensões vazias por exemplo Unicórnio e Centauro Pelas teorias semânticas em questão essas duas ex pressões são correferenciais e codificam a mesma função isto é uma que em todos os mundos possíveis leva sempre ao conjun to vazio Extensionalmente elas são indistinguíveis e como são simples não podem ser distinguidas na análise semântica pela estrutura intensional embora as suas significações sejam intuiti vamente diferentes pois a verdade da sentença José procura um unicórnio é destruída se substituímos nela unicórnio por cen tauro Em analogia à transposição da estrutura gramatical para o conteúdo semântico das expressões compostas é de se supor que se leve em consideração na especificação de sua contribuição se mântica também das expressões simples o modo como codificam a sua intensão do que resultaria não serem elas equivalentes Isso porém ainda não satisfaria aquele que deseja uma distinção direta entre a intensão Unicórnio e a intensão Centauro como dis positivos conceituais ou nocionais mobilizados para apanhar ou determinar uma extensão sobretudo porque esse recurso faria so çobrar a independência da estruturação do domínio das intensões em relação à estruturação da linguagem utilizada para o expressar Os problemas têm origem no modo como se conceitua a noção mesma de intensão sobretudo na transposição dessa noção para dar conta de propriedades semânticas de expressões linguísticas Na medida em que as intensões não são linguísticas e também não são os próprios objetos e estados de coisas as operações sobre elas apenas podem garantir a preservação das relações extensional referenciais se a relação entre uma intensão e uma extensão for Atente para a diferença entre equivalência extensional e equivalência intensional A explanação referencial do significado linguístico 163 direta especular o que Carnap procurou garantir supondo que em última análise todas as expressões seriam designadores Toda via mesmo concebendo a relação entre intensão e extensão como sendo de designação a teoria não consegue garantir que sentenças com propriedades semânticas distintas sejam distinguidas no mo mento da descrição semântica Consideremse os seguintes pares de sentenças Dois é igual a dois e Dois é igual ao primo par Todo quadrado tem mais que três ângulos e Todo paralelogramo com quadro lados iguais e qua tro ângulos retos tem mais que três ângulos Se a descrição semânti ca for em termos de satisfação em descrições de estado ou em mun dos possíveis ambas as sentenças de cada par serão verdadeiras nos mesmos estados isto é a sua intensão a função de mundos possíveis para valores de verdade é idêntica E na medida em que o descrito por elas é explanado em termos de conjuntos de estados em que elas são verdadeiras e em que elas são falsas essas sentenças serão in distinguíveis tanto em relação ao conteúdo ou intensão quanto em relação ao valor ou extensão Em outras palavras aqueles pares de sentenças teriam que ser considerados sinônimos segundo a aná lise de B Mates Das definições fornecidas por Carnap depreende se que as sentenças logicamente equivalentes que necessariamente têm o mesmo conjuntoverdade ou seja o mesmo conjunto de mo delos em que a sentença é satisfeita expressam a mesma proposição e por conseguinte são sinônimas Porém não apenas as sentenças pois também as expressões Quadrado e Paralelogramo com qua dro lados iguais e quatro ângulos retos têm que ser marcadas como sinônimas assim como dois e primo par Por conseguinte as sen tenças Dois é dois e Dois é o primo par são indistinguíveis do ponto de vista da semântica carnapiana pois elas têm a mesma in tensão e a mesma extensão a não ser que se levem em consideração as próprias expressões na descrição semântica A admissão de que aspectos da estrutura sentencial sejam re levantes para a individuação do conteúdo expresso porém acaba por dissolver a distinção forte essencial ao impulso referencialista entre os meios de expressão e o que é expresso entre os meios uti lizados para falar e aquilo de que se fala As dificuldades da semân tica referencialista tornamse evidentes através justamente de ar Synonymy p 125 A mesma crítica é desenvolvida por J Katz mas aponta como origem do problema o paradigma designacional conjugado com a tese atomista segundo a qual as expressões simples contribuem semanticamente com simples KATZ 1996 p 612 164 Filosofia da Linguagem I gumentos que foram forjados para defendêla Argumentos foram desenvolvidos para mostrar que em algum momento ela conduz a uma nãodistinção do que é diferente a teoria dos modelos não conseguiria distinguir semanticamente as sentenças verdadeiras em todos os modelos a teoria dos mundos possíveis não distin guiria sentenças verdadeiras em todos os mundos possíveis e por fim a descrição semântica em termos de intensões estruturadas não obstante ter sido desenvolvida precisamente para contornar tais problemas apenas evita tais indistinções sob o preço de sola par o princípio basilar referencialista da separação entre sistema de expressão conteúdo e valor semânticos pois tal solução termi na por fazer a identidade e a diferença dos conteúdos dependerem do modo pelo qual eles são expressos As propostas de Tarski Carnap e Lewis têm em comum a conceituação das noções semânticas como relativas às relações entre uma linguagem e um domínio de referência Elas também têm como cerne a explicação da significatividade das sentenças como que constituída pelas condições de verdade isto é pelas condições codificadas na sentença em termos de uma função que mapeia os possíveis domínios de referência nos valores de verda de Em termos de valor e conteúdo o valor semântico de uma sen tença seria o conjunto de modelos descrições de estado mundos possíveis nos quais ela é verdadeira e o conteúdo da sentença no caso de Carnap e Lewis corresponderia à sua intensão O percur so que vai de A Tarski a D Lewis é o da complexificação tanto da função de remissão como do domínio de referência mas a natu reza das noções semânticas permanece referencial no sentido de que é pela correlação entre expressões e objetos que as noções são analisadas ou seja as operações semânticas são todas elas avalia das em termos de manutenção do vínculo com a extensão Esse ponto aparece na teoria como o postulado de que todos os termos designam e designam do mesmo modo todos os itens linguísticos referem do mesmo modo Todas as diferenças que eles mostram são o resultado de seu referir a diferentes referentes in divíduos conjuntos propriedades valores de verdade entidades fictícias HORNSTEIN Logic as Grammar An Approach to Meaning in Natural Language Cambridge MIT Pr 1984 p 141 A explanação referencial do significado linguístico 165 E na medida em que a significatividade é explanada em termos re ferenciais a existência do referente é condição para que as expres sões nãocompostas sejam semanticamente relevantes Por conse guinte essa estratégia de elucidação das propriedades semânticas exige não apenas uma interpretação objetual das sentenças quan tificadas mas sobretudo que tais sentenças codifiquem alegações de existência Uma interpretação é referencial se e somente se sob essa interpretação uma sentença existencial quantificada car rega implicações de existência BALDWIN Th Interpretations of quantifiers Mind v 88 p 215240 1979 p 232 A própria formulação da teoria começa pela postulação da existência de um domínio de referência em geral embutida na suposição de que os termos primitivos denotam postulação esta que apenas tem senti do se for interpretada objetualmente mesmo que a interpretação substitucional seja utilizada para explanar posteriormente as sen tenças complexas geráveis na linguagem em questão Todavia há dois modos clássicos de conceituar essa alegação de existência disponíveis para uma semântica referencialista os quais configuram dois modos básicos de introduzir um objeto no dis curso ou de responder de que é que se está a falar ou sobre o que é um determinado discurso duas maneiras de conceituar a conexão entre linguagem e mundo uma descritiva e outra designativa Na primeira é a relação entre uma função e um argumento ou en tre um conceito e um objeto a relação de ser verdadeira de ou aplicarse a que responde pela conexão Na segunda é a relação entre um nome e um objeto entre nome comum e um conceito ou seja a relação de ser um nome de ou designação que responde pela conexão Esses dois modos são atribuídos respectivamente a Tarski e FregeCarnap EVANS Collected Papers Oxford Claren don Press 1985 p 8184 Embora essa diferença possa ser relegada para o âmbito da epis temologia ela não se dá sem consequências semânticas Com efei to esses dois modos refletemse na conceituação da noção de ostensão ou dêixis a qual serve como paradigma de como um objeto é introduzido no discurso Considerese a introdução do objeto através das sentenças 1 e 2 1 Isto é um asterisco 166 Filosofia da Linguagem I 2 A marca entre a palavra objeto e a palavra através na pe núltima frase é um asterisco Ambas introduzem um objeto em uma sentença por meio de uma expressão mas o fazem agenciando funções semânticas distintas A sentença 1 usa uma expressão dêitica enquanto que 2 emprega uma descrição Disputase há muito sobre qual delas é mais primi tiva sobretudo porque tais sentenças têm propriedades inferenciais distintas No entanto no que diz respeito à semântica referencialista o que importa é que Isto e A marca entre a palavra objeto e a pa lavra através na penúltima frase tenham como referente um obje to e apenas secundariamente conta o modo de referência utilizado Como dissemos no início o cerne das semânticas referencia listas consiste na tese da secundariedade e na dependência das propriedades inferenciais em relação às relações referenciais das expressões de uma linguagem com um domínio de objetos Essa tese pode ser vista como uma elaboração da intuição da nãoin dependência da semântica em relação à existência e a remissão a entidades Isso que implica a diferenciação e a separação do valor semântico em relação ao aparato linguístico que o exprime de tal modo que os valores semânticos sejam considerados entidades se paradas e independentes em relação aos meios utilizados para a sua expressão As propostas de Carnap e Lewis ainda acrescentam uma segunda separação pois entendem que o que é expresso tem uma natureza homogênea conceitual e distinta tanto da lingua gem que o exprime como daquilo ao que ele o expresso se aplica O expresso é uma propriedade veiculada pelas expressões linguís ticas e que se aplica ou não aos objetos acerca de que se fala Nesse caso é possível distinguirse claramente o conteúdo semântico das expressões sua intensão do seu valor semântico sua extensão A raiz dos problemas das semânticas referencialistas no ponto que interessa à discussão filosófica da linguagem e da semântica é a interpretação equivocada de uma suposição correta a saber de que a significatividade das expressões linguísticas não é linguís tica Com efeito ao suporem que a remissão a um referente é o cerne da significatividade tais semânticas compreendem o signi ficado como sendo o conteúdo judicável e que este é inteiramen te nãolinguístico Todavia o ser significativo de uma expressão A explanação referencial do significado linguístico 167 ou gesto nem sempre implica em conteúdo judicável nem que ela seja designadora de um referente nãolinguístico Isso nos leva às alternativas ao referencialismo semântico a saber às teorias infe renciais e pragmáticas do significado linguístico Leituras recomendadas TARSKI A A concepção semântica da verdade textos clássicos Org De MORTARI C A DUTRA L H São Paulo EDUNESP 2007 QUINE W Sobre o que há São Paulo Abril Cultural 1980 Os Pensadores Reflita sobre O que significa dizer que uma sentença é verdadeira e como isso se relaciona com o significado de suas partes componen tes nas teorias referencialistas A relação entre dizer que uma expressão significa e dizer que ela nomeia algo Chance Advance to GO Collect 200 Capítulo 9 A explanação inferencial do significado linguístico Neste capítulo será apresentada a teoria inferencial do significado linguístico Essa teoria fornece uma explicação da significa tividade e sobretudo do conteúdo semân tico das expressões sem recorrer a nexos referenciais os quais não são eliminados mas sim concebidos como exteriores à se mântica e derivados das relações inferen ciais O ponto de partida dessa proposta é a priorização da noção de conteúdo semântico sentencial o expresso pelo proferimento de uma sentença como um elo numa cadeia comunicacionalinferencial Timbre spectrum of the same fundamental frequency on different instruments A explanação inferencial do significado linguístico 171 9 A explanação inferencial do significado linguístico A hipótese central da concepção inferencialista do significado linguístico é de que o conceito de conteúdo judicável de uma sen tença introduzido por Frege se deixa especificar inteiramente a partir da exposição das premissas ou condições de sua asserção e das consequências de sua asserção A explanação dessas condições e consequências esgotaria o conteúdo asserível em questão 91 Inferencialismo semântico A justificação e a exposição da teoria inferencial do conteúdo semântico começam pela explanação da relação entre um juízo e os conceitos nos quais ele pode ser decomposto ou entre uma sen tença e as palavras nela articuladas ou entre a proposição expressa e os termos proposicionais A ideia básica é conceituar a proposi ção por um lado como a unidade pela qual se pode realizar um ato semântico como o que é asserido que é afirmado negado questionado solicitado etc e por outro como algo inferencial mente articulado isto é como algo que estabelece uma rede de implicações em termos de condições e consequências Essa ideia remetenos a Frege pois ele ao introduzir a noção de conteú do conceitual no Begriffsschrift de 1879 efetivamente não utiliza a no ção de referência mas antes a noção de potencial inferencial Em minha linguagem conceitual apenas aquilo que afeta as possíveis inferências 172 Filosofia da Linguagem I é levado em consideração Tudo o que é necessário para uma inferên cia correta é expresso completamente o que não é em geral não é in dicado Begriffsschrift 3 p 12 Frege buscava estabelecer um modo rigoroso de expressar pensamentos isto é a sua preocupação desde o início era com a relação entre uma expressão linguística e um conteúdo conceitual begrifflichen Inhalt O objetivo visado era o de expressar um conteúdo através de sinais escritos de um modo mais preciso e contro lável de modo a tornar explícitas as relações internas de uma sequencia inferencial Begriffsschrift Preface p 58 A semântica fregeana esta va constituída a partir da noção de conteúdo asserível beurtheilbarer Inhalt na medida em que esta esclarece as propriedades semânticas de uma cadeia de raciocínio Este privilégio do valor inferencial é justificado por Frege justamente através da tese da prioridade lógica do juízo sobre os conceitos nos quais ele pode ser decomposto As matrizes semânticas seriam as relações que se estabelecem no interior de uma cadeia discur siva ou de uma sequencia inferencial pelo fato de que é o juízo que tem precedência lógica sobre as partes Assim eu não começo com concei tos e colocoos juntos para formar um pensamento ou juízo eu chego às partes de um pensamento por análise Zerfällung do pensamento ou ainda Eu começo a partir de juízos e seus conteúdos e não a partir de conceitos Ao invés de por um juízo a partir da composição de um individual tomado como sujeito e de um conceito previamente dado como predicado nós fazemos o oposto e chegamos ao conceito por meio da separação do conteúdo de um possível juízo Robert B BRAN DOM um dos defensores mais coerentes da semântica inferencialista assim o avalia Frege completa a inversão da clássica prioridade dos con ceitos em relação aos juízos e dos juízos em relação aos silogismos ao tomar o conteúdo das sentenças juízos no sentido do que é julgado an tes que do julgar como definido em termos do papel inferencial em que elas estão envolvidas Conceitos são abstraídos de tais juízos isolandose invariantes de papéis inferenciais que pertencem apenas aos juízos sob várias substituições de componentes discrimináveis possivelmente não juízos do juízo BRANDOM Freges Technical Concepts 1986 p 256257 Por conseguinte ter conteúdo semântico ou conteúdo concei tual não é ser uma representação de algo nem referir a algo mas antes ter um papel ou valor inferencial no interior de uma cadeia de asserções encadeadas em termos pressuposição e consequência ter conteúdo conceitual é apenas jogar um papel no jogo inferen cial de fazer alegações e dar e pedir por razões Apreender ou compre A explanação inferencial do significado linguístico 173 ender um tal conceito é ter domínio prático sobre as inferências em que ele está envolvido saber no sentido prático de ser capaz de distinguir um tipo de sabercomo o que se segue da aplicação de um conceito e de ela se se segue BRANDOM Articulating Reasons Cambridge Har vard UP 2000 p 48 e p 221 Os conceitos semânticos pelos quais são explanadas as proprie dades das expressões como significativas são definidos a partir das propriedades inferenciais O conteúdo semântico é determi nado primeiramente para aquelas expressões que podem ser veí culos de uma asserção ou juízo e ainda assim apenas na medida em que elas são postas em correlação com outras sentenças isto é apenas na medida em que são postas numa relação de equivalên cia ou nãoequivalência inferencial com outras sentenças segun do o modelo inaugurado por Frege Há dois modos pelos quais o conteúdo de dois juízos pode diferir pode ou pode não ser o caso que todas as inferências que podem ser retira das do primeiro quando combinado com outros juízos podem sempre também ser retiradas do segundo quando combinado com os mesmos outros juízos As duas proposições os gregos derrotaram os persas em Platea e os persas foram derrotados pelos gregos em Platea diferem ao primeiro modo mesmo se uma pequena diferença de sentido é discer nível a concordância de sentido é preponderante Agora eu denomino aquela parte do conteúdo que é a mesma em ambas conteúdo con ceitual Apenas este tem importância para nossa linguagem conceitual Begriffsschrift 3 Disso se segue que a especificação do conteúdo semântico de uma sentença apenas é completada pelo mapeamento de seu potencial inferencial isto é daquilo que permite e daquilo que se segue de sua asserção junto com outras asserções Além disso o princípio da prioridade lógica da proposição determina que as expressões subsentenciais apenas tenham uma significação determinada no contexto de uma sentença o que é em geral enunciado recorrendo se ao princípio do contexto fregeano apenas no contexto de uma proposição Satz uma palavra tem um significado Bedeutung O que significa dizer que o significado ou valor semântico de uma expressão subsentencial é definido pela determinação da sua con tribuição semântica para os contextos em que ela ocorre Os fundamentos da aritmética Introdução 46 60 e 62 174 Filosofia da Linguagem I Desse modo qualificar uma semântica como inferencial signi fica dizer que nela a relação entre as expressões significativas e so bretudo a relação entre os valores de verdade das expressões sen tenciais são tomadas como decisivas no momento de determinar o que uma dada expressão significa ou expressa A significatividade das expressões e mais precisamente o seu conteúdo semântico têm que ser compreendidos e explanados em termos de papéis in ferenciais em vez de o ser em termos referenciais O uso de uma expressão com um determinado conteúdo implica o endosso dos comprometimentos inferenciais materiais das condições autori zadoras premissas e das consequências do seu uso A determi nação do conteúdo semântico não é senão a especificação dessas condições e dessas consequências Uma vez que a proposição tem precedência sobre as suas partes a determinação das suas proprie dades semânticas precede logicamente a determinação da função semântica das partes Essa posição é às vezes denominada conse quencialismo e associada a Wittgenstein Antes que uma proposi ção possa ter sentido tem que ser estabelecido completamente que proposições seguemse dela WITTGENSTEIN Prototractatus 3 201023 conforme Platts 1997 p 6870 e também Ramsey The Foundations of Mathematics p 123 A partir disso podese mostrar que a semântica baseada na teoria da prova Prooftheore tic semantics tal como é defendida por Sundholm 1994 e Pra witz 1977 constituise como uma explanação inferencialista ao defender que o significado de uma sentença é determinado pelo modo como pode ser provada desde que a noção de prova seja pensada em termos intralinguísticos O ponto central da tese inferencialista está na definição da significatividade a qual é definida e explanada com a noção de relação entre as expressões que compõem uma linguagem Para definir o sentido de uma palavra é suficiente definir as relações de sentido que ela mantém com outras expressões da linguagem isto é identificar os seus homônimos hipônimos superordenados e opostos bem qualquer outra propriedade seletiva que ela possa ter CANN 1993 p 21718 Essa tese é uma decorrência natural daquilo que pode ser con siderado o cerne diferencial desse tipo de semântica a saber a de A explanação inferencial do significado linguístico 175 finição da significatividade a partir de noções semânticas primi tivas nãoreferenciais especificamente concernentes às relações anafóricoinferenciais existentes entre as expressões componentes de uma linguagem Esse cerne está constituído por uma suposição em geral apresentada como princípio que é a exata negação da tese referencialista Com efeito a tese referencialista diz que a significa ção das sentenças é inteiramente determinada pelas propriedades referenciais nelas articuladas Por sua vez as propriedades referen ciais das expressões constituintes são decorrentes das suas relações com coisas no mundo nãolinguístico A tese inferencialista par te da suposição inversa a saber que as propriedades inferenciais de uma expressão constituem o seu significado isto é a partir da negação do primado da relação de referência na constituição do conteúdo semântico sem notese logo negar a referencialidade da linguagem A significatividade de uma expressão seria constituída e determinada apenas pelo papel inferencial que ela exerce ou seja pelo modo como a sua ocorrência afeta as relações de implicação e consequência no interior de uma sequência discursiva Desse modo a tarefa de uma teoria semântica estaria limitada à exploração das potencialidades inferenciais de uma determinada linguagem Dito de outro modo a proposta inferencialista cons tituise como a tentativa de definir a dimensão extensional do discurso em termos de comprometimentos substitucionaisinfe renciais e que esses comprometimentos podem ser explanados unicamente em termos de relações intralinguísticas Isso implica que as noções semânticas são relacionais mas que as relações ex plicitadas pelo discurso semântico expõem a trama de relações internas entre a significação das expressões componentes de uma linguagem Por conseguinte a definição do conteúdo semântico sentencial em uma semântica inferencialista constróise a par tir de noções que envolvem a determinação das relações entre as expressões significativas Isso se aplica a todos os tipos de expres sões sentenças termos partículas etc sobretudo a significação do proferimento de uma sentença é explanada através do enca deamento discursivo que ela implica em termos de condições e consequências Essas relações porém são explanadas em termos de relações entre os valores de verdade atribuídos às sentenças e BRANDOM Making it explicit Cambridge Harvard UP 1994 p 484 176 Filosofia da Linguagem I não mais em termos de referência em um domínio O que se reali za nesse tipo de semântica é o dogma segundo o qual a referência a verdade ao Verdadeiro precede a referência a outros objetos A semântica passa a ser uma exposição das regras de combinação de elementos significativos em que as noções de referência objeto e propriedade são secundárias e derivadas Essas noções são vistas como que de dentro ou a partir da linguagem isto é tais noções fazem sentido apenas através da linguagem não sendo exteriores a ela nem independentes dela uma relação com objetos fora do contexto de uma sentença não se dá O significado na teoria inferencial é explicado em termos de conexões entre expressões significativas de uma linguagem O que seja o significado fora das conexões inferenciais substitu cionais e anafóricas não é explanável pois para isso deveria ser possível dizer sem significar Nesse sentido a semântica é inefável o que se pode esclarecer é apenas o modo de relação das diferen tes expressões pertencentes a uma linguagem já significativa ou mais precisamente em uso A explicação para uma palavra contar como significando um objeto como tendo referência diz respeito apenas ao estabelecimento das condições que devem ser preen chidas para uma expressão contar como tendo introduzido um objeto ser compreendida como um termo singular ou como um dêitico com uma referência definida e não em ter uma relação estranha com uma entidade nãolinguística A explanação do significado de um termo referencial em vez de recorrer a relações com o extralinguístico recorre às relações de substituição e de anáfora entre as expressões o que significa dizer que o uso de uma expressão referencial é explanado por meio da postulação de um enunciado de identidade do seguinte modo o re ferente da expressão Leibniz é idêntico a o referente da expres são O autor da Monadologia A primeira ocorrência da expressão Leibniz em uma sentença requer apenas que ela seja substituível por outra expressão já significativa usada para compor uma enun ciação Nem todos os casos são assim explanados Se esse procedi mento não está disponível e o termo foi introduzido então tratase ou de um iniciador anafórico ou de um designador canônico Di gamos que estamos na situação de batismo e a seguinte frase é pro TUGENDHAT 1976 p 482 e p 498 A explanação inferencial do significado linguístico 177 nunciada Esta criança chamarseá Leibniz A expressão Leib niz tornase significativa designadora em função do vínculo com o dêitico Esta o qual propriamente não tem um valor semântico determinado senão na situaçãocontexto em que foi utilizada Essa explicação apenas dá conta da intenção de referir não explicando a referência bemsucedida A referência bemsucedida implicaria a existência de um referente Porém a existência é algo que está para além dos domínios da explanação semântica Por isso o aparato semântico inferencialista apenas fornece uma explicação dos com prometimentos referenciais e existenciais decorrentes do profe rimento de uma expressão designadora em termos de um tipo de comprometimento substitucional Os compromentimentos existenciais são equivalentes à alegação disjuntiva de que alguma identidade dessa forma é verdadeira A sig nificação do compromentimento exisntencial deve ser entendida e sua propriedade apreendida em termos da classe de substitutos supridos por identidades BRANDOM 1994 p 441 Afirmar que Leibniz tem o significado de referir a uma de terminada pessoa é apenas dizer que essa palavra pode ser subs tituída por outras expressões que podem ladear enunciados de identidade Os comprometimentos existenciais porém não são completamente expurgados Não obstante serem a fonte da signifi catividade das expressões designativas eles pertencem ao domínio pragmático estando para além da semântica O que se pode dizer em termos semânticos é que a noção de referência ou designação é explanada em termos de uma remissão anafórica Em termos semânticos a função de referir explanase como um operador anafórico complexo formador de pronomes Por conseguinte o uso de frases quantificadas e de expressões referenciais é explicado em termos de comprometimentos inferenciais e substitucionais O racional de tal procedimento está na tese da primariedade das relações anafóricas as quais estão na base da definição da função semântica dos termos designadores As cadeias anafóricas são ex planadas com a noção de recorrência de uma ocorrência primitiva seja de um iniciador anafórico seja de um designador canônico Esses são os conceitos que propriamente podem explanar o que é ser uma expressão referencial 178 Filosofia da Linguagem I Com efeito os nexos anafóricos e por conseguinte os nexos inferenciais têm seu ponto de parada em dois tipos de expressão com uma função semântica primitiva e doadora de significativida de para toda a cadeia os designadores canônicos e os iniciado res anafóricos Os designadores canônicos foram definidos como expressões cuja boa formação é suficiente para garantir que eles designam um objeto Já os iniciadores anafóricos foram definidos como aquelas ocorrências de expressões nas quais a ocorrência de outras expressões pode ser ancorada e que não dependem da ocor rência de outras expressões sendo basicamente constituídos pelos nomes próprios descrições definidas dêiticos e demonstrativos Essa explanação dos termos primitivos implica que a função semântica de indicar um objeto é derivada em relação à função semântica de remeter a outra expressão ou anáfora A suposição é de que a descrição semântica da dêixis pressupõe a noção de aná fora Deixis pressupõe anáfora Nenhuma ocorrência pode ter a significação de demonstrativo a menos que outros tenham a signi ficação de dependentes anafóricos usar uma expressão como um demonstrativo é usála como um tipo especial de iniciador anafó rico Como já foi estabelecido o conteúdo inferencial por conse guinte o inteiro conteúdo semântico de uma expressão está cons tituído e determinado pelas relações materiais com as demais expressões da linguagem e em nenhum momento a relação com o que não seja linguístico exerce alguma função na explanação semântica Desse modo entretanto recaise outra vez na suposi ção da verdade dos contextos sentenciais em que tais expressões ocorrem A alegação de que o procedimento substitucional está ancorado em última instância em identidades remetenos para a questão do papel atribuído à noção de verdade pois a substituição é autorizada na medida em que a asserção de identidade entre os termos é tida como verdadeira Uma vez que a noção de verdade joga o papel de definidor dos papéis semânticos e esses são definidos em termos inferenciais ela não pode ser simplesmente definida em termos inferenciais sob pena de toda a explicação tornarse circular e não esclare cedora pois em uma cadeia inferencial a verdade ou a falsidade de uma determinada asserção está fundada na relação desta com Idem p 373 e p 384 Tugendhat não hesita em atribuir essa circularidade ao procedimento substitucional mas avalia que ela é benigna 1976 p 215 A explanação inferencial do significado linguístico 179 as demais Esse processo para ser eficaz como explicação deve parar em alguma sentença que não tenha o seu valor de verdade determinado pelas relações inferenciais Porém admitir isso signi ficaria admitir que certas sentenças não têm todas as suas proprie dades semânticas constituídas pelas suas relações intralinguísticas e sobretudo que algumas sentenças não dependeriam quanto ao seu valor de verdade do valor de verdade de outras sentenças A solução adotada pelo inferencialista retoma a tese fregeana segundo a qual nada é acrescentado ao pensamento pela atribui ção a ele da propriedade da verdade Em vez de explicar a verdade e a falsidade em termos referenciais e existenciais essas noções são explicadas em termos deflacionistas anafóricos isto é em termos de relações entre frases e expressões Na explicação anafórica embora é verdade tenha a forma sintática superficial de um predicado e referese a a forma sintática de uma locução relacional o papel gramatical e semântico dessas expressões não são esses de locuções predicativas e relacionais A sua gramática é bem diferente elas são operadores formadores de dependentes anafó ricos a saber protosentenças e descrições anaforicamente indiretas BRANDOM 1994 p 323 Observações ordinárias sobre o que é verdade e falso e sobre o que alguma expressão refere estão em perfeita ordem como elas são usadas a explicação anafórica explica como elas devem ser entendidas Mas verdade e referência são ficções filosóficas geradas por mácompre ensão gramatical Tomar uma alegação como verdadeira deve ser entendido em primeiro lugar como a adoção de uma atitude normativa isto é assumindo a alegação e assim reconhecendo um compromisso Idem p 324 A relação entre essas caracterizações está no fato de que ao interpretar o uso da expressão verdade e suas derivadas como sendo anafórico implica que a predicação da verdade de uma sen tença é tão somente uma reposição dessa sentença em reafirmála pois essencialmente a retomada anafórica não acrescenta nada ao seu antecedente As noções de verdade e falsidade por conseguin te não apanham uma propriedade de sentenças ou proposições assim como a noção de referência não apanha uma relação entre palavras e coisas Verdade e falsidade não são propriedades de pro Idem p 83 p 118 e p 121 180 Filosofia da Linguagem I posições ou de enunciados sentenças etc A atribuição de ver dade a uma sentença não introduz nenhuma informação nova que já não estivesse contida na simples asserção da sentença mesma Para compreender uma sentença do tipo S é P é verdadeira nós já deveríamos compreender o que é para S ser P ou seja a predica ção da verdade é redundante e nãoinformativa mas mesmo assim é suficiente para definir as relações e as propriedades semânticas A conexão semântica entre uma sentença e as expressões é verda deira ou é falsa é de uma anáfora prossentencial e não de refe rência ou satisfação Isso significa que o conteúdo das expressões é verdadeira e é falsa depende da sentença antecedente da qual elas são uma retomada Portanto essa estratégia é compatível com a proposta de Fre ge da indefinibilidade e primariedade da verdade da qual se de preende que o uso predicativo é redundante bem como com as interpretações disquotational de W Quine e deflacionista de H Field e P Horwich QUINE W Pursuit of Truth Cambridge Harvard UP 1992 HORWICH P Truth 2 ed Oxford Clarendon Press 1998b FIELD H The Deflationary Conception of Truth The Journal of Philosophy v LXIX n 13 1972 Todavia essas podem ser vistas como momentos que conduzem e preparam para a de finição da verdade como um operador prosentencial pois a de finição de verdade inferencialista é deflacionista visto que ela implica 1 verdade aplicase apenas às sentenças significativas que já se compreendem 2 para qualquer sentença S significativa a asserção que S é verdadeira é equivalente à asserção de S as quais constituem a base da tese deflacionista Porém o inferencialista ainda acrescenta o motivo pelo qual esses dois quesitos esgotam o conceito de verdade que é a interpretação anafórica da verda de como um operador prossentencial Embora os inferencialistas tentem oferecer uma definição de verdade que preserve o compo sicionalismo uma consequência natural de suas teses semânticas é a definição coerencial da verdade Porém o coerentismo na de finição da verdade apenas é consistente na medida em que não se empregue a noção de verdade assim estabelecida para definir os demais conceitos semânticos Do contrário chegase à versão ho lista da verdade pela qual a verdade de uma sentença depende da A explanação inferencial do significado linguístico 181 verdade ou falsidade de todas as demais sentenças da linguagem que em última instância é equivalente à tese da indefinibilidade da verdade A explanação inferencial da verdade e da falsidade ao contrário dissolve tais noções nas relações anafóricas e na noção de comprometerse com uma alegação O conceito primitivo por conseguinte é o de julgamento ou asserção isto é o conceito de julgar um conteúdo asserível como verdadeiro Entendase bem o conceito primitivo não é a noção de verdade ou de satisfação em um modelo mas a noção de julgar uma proposição como verdadeira ou simplesmente de assumir uma sentença como verdadeira a qual é exterior à semântica pois ela é essencialmente um ato um fato pragmático Isso fica claro quando a noção de verdade é explanada em termos de redun dância asserir que uma sentença é verdadeira equivale a asserir a própria sentença ou seja assumila e comprometerse com o que ela significa O conteúdo da expressão é verdadeira é o conteúdo da sentença que a antecede mais a expressão de um compromisso O objetivo da tese inferencialista com efeito é o da explicita ção do significado sem recorrer à relação da linguagem com algo distinto dela tomado como domínio de referência mantendose fiel à tese de que a referência não é um ingrediente essencial do significado As propriedades e relações semânticas de uma expressão são descritas e compreendidas apenas através dos nexos de remissão que essa expressão mantém com as demais expressões da lingua gem em questão O vocabulário semântico por conseguinte tem que ser explanado em termos que não envolvam relações com algo extralinguístico Ao abdicarem da relação de referência e por conseguinte da noção de modelo ou domínio as semânticas inferencialistas têm um problema para resolver como definir as propriedades semânticas em um sistema formal ou cálculo lógico A solução formal para esse problema é desenvolvida nas assim de nominadas Truthvalue semantics O ponto de partida consiste em delimitar a tarefa da semântica às relações entre as sentenças permitidas por uma determinada linguagem supondose que tais LEBLANC H Alternatives to Standart firstorder Semantics In GABBAY D M GUENTHNER F Handbook of Philosophical Logic Dordrecht D Reidel 1983 v I PEREGRIN J Language and its Models Is Model Theory a Theory of Semantics Nordic Journal of Philosophical Logic v 2 n 1 p 123 1997 182 Filosofia da Linguagem I sentenças têm valores de verdade isto é supondose que o proble ma de como as sentenças adquirem um ou outro valor de verdade seja extrínseco à teoria lógicosemântica por que não assumir com Beth Schütte e outros que enunciados atô micos tem valores de verdade seja lá como eles o adquiram e proceder com os problemas de real importância lógica Assim nasceu a semân tica de valorações truthvalue semantics uma semântica que dispen sa os domínios de referência e por conseguinte a referência por mais crucial que seja esta noção alhures E dispensando a referência a se mântica das valorações pode focalizar uma única noção verdade Numa das suas versões a de atribuição de valor de verdade para enunciados atômicos e uma avaliação de quando enunciados compostos são ver dadeiros com base naqueles LEBLANC 1983 p 260261 O problema de como as sentenças adquirem esse ou aquele va lor de verdade e também de como uma expressão designadora refere a esse ou aquele objeto etc é deixado de lado por pertencer ao campo da pragmática O argumento justificador desse proce dimento é de que uma teoria semântica apenas pode correlacio nar expressões com expressões apenas a prática ou ação pode de algum modo correlacionar expressões com coisas Isso significa conceituar a significatividade da linguagem analisada apenas em termos das sentenças que ela pode gerar e de uma função de re missão a valores de verdade uma linguagem é considerada como uma classe de sentenças mais o espaço de suas valorações Idem p 9 A semântica nesse sentido não é senão a explicitação das possíveis valorações das sentenças de uma dada linguagem isto é tem por tarefa explorar que consequências seguemse da atribui ção de valores de verdade a uma ou mais sentenças em termos de condições e consequências ou seja explicitando como essa valo ração afeta outras possíveis asserções nós podemos ver a expli cação semântica de uma linguagem como a delimitação do espaço das suas possíveis atribuições de valores de verdade Ibidem O ponto principal é o privilegiamento da sentença como unida de lógicosemântica para além da qual nada se pode dizer Cabe ria à semântica a tarefa de explicitar as relações e as propriedades decorrentes da atribuição de valores de verdade às sentenças bá sicas e as consequências da articulação em sentenças complexas Atente para o que significa essa expressão A explanação inferencial do significado linguístico 183 A tarefa da semântica consistiria no estabelecimento da relação de consequência entendido como exploração de um espaço de possibilidades qualquer explanação da relação de consequência é eo ipso uma explanação do espaço de possíveis valorações e vice versa Ibidem De outro ponto de vista podese dizer que tais semânticas estão erigidas sobre a separação entre por um lado a teoria semântica e por outro a teoria da referência A definição das noções semânticas dáse desse modo sem o recurso às noções de referência de modelo e de mundos possíveis pois a semântica dos valores de verdade é um tipo de semântica não referencial ela dispensa os modelos LEBLANC 1983 p 189 e p 209210 Isso não significa que as noções de referência e modelo não pos sam ser utilizadas nas explanações semânticas Unicamente o que é alegado é que essas noções são derivadas das noções semânticas definidas em termos inferenciais e substitucionais isto é que tais noções são explanáveis em termos de potencial inferencial classes de substituição e relações anafóricas A teoria semântica pode fornecer o significado das expressões de uma linguagem mas apenas dada uma meta linguagem que é to mada como um fundo inquestionado Por conseguinte as asserções semânticas da forma designa e é verdadeira estabelecem apenas uma correlação entre duas séries de expressões De modo algum elas explicitam a significatividade das expressões pelo recur so a algum tipo de remissão a um domínio nãolinguístico O que elas fazem é estabelecer uma correlação com outra linguagem ou com outras expressões da mesma linguagem Essa proposta teórica está diretamente ligada a uma tomada de posição acerca do proble ma do comprometimento conceitual entre Semântica e Ontologia Com efeito a justificativa para esse tipo de abordagem consiste na alegação da neutralidade das considerações lógicosemânticas nós estamos fazendo lógica ou filosofia da linguagem e portanto não deve haver o desejo de prejulgar temas metafísicos ao dogmatizar sobre a natureza das entidades que nós assumimos Esta é a atitude nos seus extremos que resulta da assim chamada semântica das valorações na qual os valores de verdade são atribuídos diretamente às fórmulas sem o problema de ter domínios de referência e mundos possíveis são pen sados como um certo tipo de conjuntos de fórmulas Isto é pensado Esse termo já foi objeto de explanação anteriormente aqui assim se tiver dúvidas sobre seu significado releia tal trecho 184 Filosofia da Linguagem I para livrar o lógico de qualquer embaraçante compromisso ontológico CRESSWELL Logics and Languages London Methuen 1973 p 37 Por conseguinte a ideia de que a semântica trataria de noções acerca de relações entre expressões e um domínio de objetos é solapada e tornase semsentido uma vez que ela pressuporia a possibilidade de um discurso que contivesse de um lado expres sões de uma linguagem e de outro objetos relações e propriedades em si mesmas Porém isso seria francamente agramatical sem sentido Isso requer uma reconsideração da definição mesma das noções semânticas abandonase aqui a suposição de que a teoria semântica teria que dar conta tanto dos fatores ligados à situação nãolinguística quanto dos fatores ligados ao contexto linguístico Na semântica dos valores de verdade inferencialista desaparece a consideração dos fatores da situação e ficam apenas os contex tuais Na medida em que as noções relativas à situação que nas semânticas referencialistas são elaboradas na noção de domínio de referência e modelo têm a ver com a noção de objeto e de exis tência as semânticas inferencialistas são obrigadas a fornecer uma conceituação dessas noções em outros termos A solução para esse problema R Carnap forneceu já há algum tempo em consonância com a solução fregeana Falando estritamente a questão não deve ser fraseada como O que é o nominatum deste signo de objeto mas assim Quais sentenças em que este signo de objeto pode ocorrer são verdadeiras Nós podemos fazer uma avaliação apenas da verdade ou falsidade de uma sentença não do nominatum de um signo nem mesmo de um signo de objeto Portanto a indicação da essência de um objeto ou o que é o mesmo a indicação do nominatum de um signo de objeto consiste na indicação dos critérios de verdade para aquelas sentenças nas quais o signo desse objeto pode ocorrer Se a essência construcional de um objeto tem que ser indicada o critério consiste na construçãofórmula do objeto que é uma regra de transformação que nos permite traduzir passo a passo toda sentença na qual o signo de objeto ocorre em sentenças sobre objetos de um nível construcional mais baixo e finalmente em uma sentença sobre as relações básicas apenas The Logical Structure of the World Pseudoproblems in Philosophy 161 p 256257 No que diz respeito à significatividade isso implica dizer que a linguagem está ligada à informação ou discurso sobre o mundo e A explanação inferencial do significado linguístico 185 não ao mundo mesmo A relação entre linguagem e mundo é então intermediada pela série de informações codificadas nas sentenças que em dado momento do uso da linguagem são aceitas como ver dadeiras A semântica inferencialista interpretada em seu sentido forte consegue explicitar os fatores envolvidos no fluxo discursivo ou inferencial mas apenas consegue dar conta das informações sobre o mundo tornando esse um aspecto da informação discursi va Isso fica claro pelo menos em dois pontos já apresentados Pri meiro no privilegiamento das relações inferencialanafóricas em detrimento das referenciais segundo na interpretação da dêixis em termos anafóricosubstitucionais Essa interpretação da signi ficatividade conduz a eliminação da situação e a absolutização do contexto A situação é concebida como derivada do contexto o qual é definido como o conjunto de proposições sentenças cren ças etc assumidas como verdadeiras o que implica no que se refere à definição dos termos adotar uma definição contextual para todos os termos significativos da linguagem Tratase pois de uma semântica nãoobjetual sem domínio de referência Isso soa antinômico pois em geral definese a Se mântica a partir de uma relação da linguagem com algo distinto dela Todavia também se insiste no fato de que a relação entre as expressões deve ser considerada O que os teóricos inferencialis tas fazem é privilegiar as relações anafóricoinferenciais e tratar a questão da referencialidade ou como derivada ou como exter na No caso da semântica da valoração o que temos é a tese de que o modo como uma sentença é valorada como verdadeira ou como falsa é algo externo à teoria semântica Agora que se trata de construir nas semânticas da valoração um esquema ou algo ritmo utilizável para dar conta dos aspectos formais da semântica de linguagens artificiais isso fica evidente a partir dos propósitos e das aplicações dos seus autores Entretanto a pretensão filosófica de uma justificação mais ampla a partir de razões linguísticas e evidências lógicosemânticas não é de todo descartada como in dica a passagem de Carnap anterior Além disso os inferencialistas invocam uma concepção de linguagem em geral devida a Witt genstein e a Carnap segundo a qual a linguagem estaria limitada quanto à capacidade de explicitar a sua própria significatividade 186 Filosofia da Linguagem I Como anota Wittgenstein os limites da linguagem mostramse na impossibilidade de se descreverem os fatos aos quais uma sentença corresponde sem novamente reutilizar a sentença A saída pela via da metalinguagem tão somente confirmaria esse ponto A tese central da semântica inferencial diz que para a deter minação do conteúdo de uma asserção há que se determinarem as suas conexões inferenciais com outras asserções As noções de referência descrição e verdade em vez de serem explanadas em termos de remissões a objetos recebem uma explanação em termos de anáfora e substituição entre expressões de tal modo que as remissões à situação são explanadas pelas relações de remissão ao contexto discursivo Desse modo tal estratégia de explanação realiza o projeto de manterse fiel à tese da autonomia da semânti ca em relação à existência e à referencialidade cumprindo o desi derato de conceituar a significatividade de um modo nãoobjetual O cerne da justificação inferencialista está na transformação dos fatores da situação de proferimento em componentes propo sicionais do contexto discursivo pois é apenas na medida em que os fatores relativos à situação de proferimento sejam transpostos para o discurso na forma de pressuposições que aparecem como premissas e regras implícitas ou explícitas portanto como fazendo parte do contexto discursivo comum é que eles podem ter algum papel semântico Com efeito a intuição fundamental orientadora dessas teorizações é a da autonomia da significatividade em relação à referência e à existência o que quer dizer que tendo em vista a distinção entre situação nãolinguística e contexto linguístico os inferencialistas abdicam dos fatores ligados à situação em favor dos fatores contextuais pois em última instância toda e qualquer inferência é um contexto discursivo o que implica dizer que nas cadeias inferenciais apenas comparecem elementos linguísticos Leituras recomendadas MOURA Heronides M Significação e contexto uma introdução a questões de semântica e pragmática Florianópolis Insular 1999 PENCO C Introdução à Filosofia da Linguagem Petrópolis Vozes 2006 Parte V A explanação inferencial do significado linguístico 187 Reflita sobre Como compreender a diferença do significado de expressões como Isto Este e Ele em frases do tipo Hoje o sol está muito forte Isto não é bom para as plantas Maria encon trou João Este ficou pasmo e João estava nu Ele havia sido assaltado Como explicar as relações de oposição concordância regên cia etc que ocorrem entre expressões de um mesmo contex to linguístico The sum of first 4 partials Capítulo 10 O significado como um complexo estruturado O objetivo deste capítulo é apresentar as teorias do conteúdo semântico que o conce bem como um complexo estruturado O cer ne dessas teorias está na concepção de que o significado de uma sentença constituise de diferentes ingredientes os quais têm diferen tes papéis semânticos e diferentes modos de significação Spectrum of sound of Poi Varied pitch 180 Hz to 9 KHz with a strong fundamental and lower partials Spectrum of the Branch Lef varied pitch 358 Hz to 5 KHz with strong fundamental and first 2 partials augmented Spectrum of the Hand drum the fundamental and a greater number of partials with a distribution of decreasing magnitude except a stronger third the spectrum changes over time Spectrum of the Mouth bow fundamental and 3 partials only with almost equal magnitude not as the harp sound Spectrum of the Bow varied pitch 45 to 9000 Hz fundamental some partials and some extra components spectrum changes over time due to the modifying actions by the performers Spectrum of a triple flute seemingly 3 instruments played simultaneously separate frequencies each with a strong fundamental and lower partials range 200 to 2000 Hz the spectrum does not change over time O significado como um complexo estruturado 191 10 O significado como um complexo estruturado As propostas de explanação do significado em termos de uma única relação referencial ou inferencial conduzem a dificuldades e recorrem a algum tipo de redução ou pressuposição contrain tuitiva sobretudo porque têm de fazer colapsar conteúdo e valor semântico em algum ponto da descrição do conteúdo semântico sentencial Nesta lição tendo em vista a conjugação das conside rações feitas nas lições precedentes será apresentada uma teoria semântica que articula ambos os tipos de fatores referenciais e inferenciais sem reduzir um ao outro baseada na tese de que o conteúdo semântico sentencial é estruturado nãohomogêneo e distinto do conteúdo semântico das partes subsentenciais Uma teoria semântica capaz de cumprir o objetivo de expla nar o conteúdo semântico sentencial sem reduzilo ao modo de significação de uma ou outra das partes subsentenciais é a teoria da proposição estruturada de extração russelliana que será agora objeto de consideração O objetivo da lição é por um lado propor essa teoria como a forma mais adequada de explanação das noções semânticas e por outro mostrar que unicamente uma conceituação em que se con juguem os aspectos inferenciais e referenciais de maneira nãoho mogênea e nãounidimensional seria capaz de tornála consisten 192 Filosofia da Linguagem I te Esse último ponto não é defendido explicitamente pelos seus propositores pois em geral a proposta é defendida em termos referencialistas Amparado nas considerações tecidas nas lições precedentes mostrarseá que por um lado na medida em que as propriedades inferenciais não esgotam a significatividade fa zemse necessários nexos referenciais diretos mas que por outro se não podemos dispensar tais nexos referenciais eles não cons tituem inteiramente a base da significatividade linguística Esse aspecto refletese na explanação do conteúdo semântico tendo como consequência que a descrição do conteúdo semântico sen tencial seja um híbrido em que se conjugam aspectos linguísticos e aspectos nãolinguísticos inferenciais e referenciais 101 O que é expresso pela asserção de uma sentença A teoria é denominada de semântica das atitudes proposicio nais porque concebe a significação como uma função de con textos de proferimento para o que é dito pelas sentenças nesses contextos a partir da análise da semântica das atitudes proposi cionais Também é denominada de semântica das proposições estruturadas porque concebe o que é dito por uma sentença a proposição como um complexo estruturado tendo suas raízes na teoria da proposição de B Russell todavia diferenciandose des ta pela utilização da noção de referência direta desenvolvida nos anos 1960 sobretudo por R B Marcus e S Kripke O ponto básico dessa teoria é constituído pelas alegações de que o valor semântico de uma sentença é a proposição expressa no contexto e de que as proposições são complexos estruturados tal como as sentenças que as expressam A motivação principal da teoria advém dos problemas derivados da conceitualização da noção do que é dito por uma sentença em um contexto Pela teoria da intensão e da extensão apresentada no Capítulo 8 o que é dito por uma sentença é explicitado pela exposição das condi ções de verdade relativas ao contexto de proferimento as quais são pensadas como o conjunto de mundos possíveis em que a sentença O significado como um complexo estruturado 193 tal como usada no contexto é verdadeira A teoria da proposição estruturada diferenciase da semântica dos mundos possíveis em pelo menos três pontos básicos a na consideração das atitudes proposicionais b na teoria da referência e c na concepção do que é dito ou expresso por uma sentença em um contexto A primeira diferença referese à explicação da semântica das sentenças que expressam atitudes proposicionais em termos de uma relação entre um falante e um conteúdo Na semântica dos mundos possíveis a explicação fornecida diz que se trata de uma relação entre um falante e as condições de verdade de uma sen tença condições estas pensadas como uma estrutura intensional Essas condições de verdade são explicitadas em termos de con juntos de mundos metafisicamente possíveis valores de verdade e extensões de termos O conteúdo ao qual as atitudes proposicio nais se relacionam é uma proposição mas essa é entendida como um conjunto de circunstâncias em que a sentença é verdadeira ou como um conjunto de mundos possíveis em que ela é verdadeira isto é em que as extensões dos termos componentes são deter minadas o que termina por implicar que sentenças logicamente equivalentes mesmo com estruturas gramaticais diferentes ex pressem a mesma proposição Na semântica das proposições estruturadas a explicação da rela ção embutida na noção de atitude proposicional é conceitualizada como uma relação entre um falante e o conteúdo expresso por uma sentença o qual é pensado como um objeto complexo estruturado que determina conjuntos de circunstâncias em que a sentença é verdadeira mas que não se identifica com tais circunstâncias de tal modo que sentenças logicamente equivalentes podem expres sar proposições distintas embora o conjunto de circunstâncias ou mundos possíveis em que elas são verdadeiras seja idêntico Por tanto a solução consiste em abandonar o princípio fundamental das semânticas das condições de verdade No seu lugar devese colocar uma concepção dos conte údos semânticos como objetos complexos que codificam muito da es trutura das sentenças que os expressam e que determinam conjuntos de circunstâncias suportadoras de verdade sem serem identificadas com elas Ibidem SOAMES Direct Reference Propositional Attitudes and Semantic Content Philosophical Topics v XV n 1 p 4787 1987a p 50 194 Filosofia da Linguagem I O abandono da abordagem em termos de condições de verdade tem origem por um lado no colapso produzido por sentenças neces sariamente equivalentes em um contexto em que têm de ser descritas como dizendo a mesma coisa isto é como tendo o mesmo conteúdo do ponto de vista extensional ou referencial Já se mostrou que esse é um problema também para os inferencialistas e que tem origem na unidimensionalização e homogeneização da significatividade O cer ne da argumentação em favor da modificação do aparato semântico se baseia na constatação de que o aparato da semântica dos mundos possíveis é incapaz de distinguir entre equivalência necessária rela tiva a um contexto e dizer a mesma coisa A consequência dessa incapacidade é que todas as sentenças necessariamente equivalentes não obstante as diferenças internas têm de ser descritas como ex pressando ou dizendo a mesma coisa e também que a conjunção de uma sentença com qualquer consequência necessária dela teria de ser descrita como dizendo a mesma coisa que ela mesma Por outro lado o abandono é também motivado pela dificul dade de se conciliar a semântica das condições de verdade com a noção de referência direta Caso se admita que nomes variáveis e dêiticos refiram diretamente a algo então o conteúdo semântico das sentenças relativamente a contextos não pode ser conjuntos de circunstâncias que as tornem verdadeiras Tratase de uma dife rença concernente à teoria da referência Na semântica dos mun dos possíveis o valor semântico de uma sentença relativamente a um contexto de proferimento é o conjunto das circunstâncias que suportam a sua verdade Por sua vez esse valor semântico é determinado pela sua intensão a qual é uma resultante das inten sões das partes componentes Do que se segue que a contribuição semântica dessas expressões é uma função ou conceito e esta é o que determina a sua referência ou valor semântico no contexto Com efeito a partir dos trabalhos de R B Marcus S Kripke K Donnellan e D Kaplan tais semânticas podem ser questiona das de uma maneira imprevista Tais autores desenvolvem a partir de diferentes questionamentos uma teoria semântica baseada na noção de referência direta que envolve uma reconsideração da contribuição semântica dos nomes próprios e das expressões in dexadoras para os contextos em que ocorrem O significado como um complexo estruturado 195 Esses dois pontos a noção de referência direta e a semântica das atitudes proposicionais segundo Scott Soames colocam em ques tão a adequabilidade da concepção de conteúdo semântico da sentença em termos de funções de conjuntos de mundos possíveis ou de situações a valores de verdade O resultado é uma proposta distinta sobre o valor semântico sentencial que para acomodar a contribuição de termos com referência direta tem que postular uma entidade internamente estruturada O valor semântico das sentenças são coleções de circunstâncias suportadoras de verdade mas antes entidades singulares compostas com estruturas relacio nadas às sentenças que as expressam SOAMES Lost Innocence Linguistic and Philosophy v 8 p 5971 1985 p 63 A denomina ção proposições russellianas pretende indicar um tipo de conte údo semântico em que o referente dos termos designadores seja parte componente juntamente com propriedades e relações do expresso As proposições seriam constituídas por entidades a saber indivíduos propriedades e relações seriam partes consti tuintes do complexo proposicional A conceitualização tradicional nomeava tais entidades com a expressão fatos os quais seriam entidades dúbias ora entendidos como partes do mundo ou domí nio de referência ora como entidades intensionais ora idênticos às proposições expressas Para tornar explícitas essas diferenças vamos adotar uma nota ção mais elaborada para descrever e explicitar o conteúdo semân tico o que é dito por uma sentença Usaremos expressões em ne grito e para indicar indivíduos ou objetos referidos colchetes para indicar propriedades parênteses para indicar proposições ou conteúdos a estrutura I para indicar inten sões a barra para indicar instanciação de um conceito por um objeto a barra invertida para indicar determinação o hífen para indicar designação Desse modo a sentença Marte é ver melho receberia a seguinte análise quanto ao conteúdo russellia no conforme a interpretação de S Soames e J Perry Marte servermelho Essa fórmula mostra as várias relações e funções semânticas co dificadas na sentença gramatical Marte é vermelho sobretudo ela indica que as palavras Marte e vermelho têm funções semânti termos singulares que referem diretamente podem ser usados para mostrar que o conteúdo semântico de sentenças relativo a contextos não pode ser um conjunto de circunstâncias suportadoras da verdade não importando quão refinadas o sejam Idem p 52 196 Filosofia da Linguagem I cas diferenciadas e que a expressão é estabelece uma relação en tre um objeto e uma propriedade Para contraste observese que na concepção do método da intensão e da extensão tal sentença expressaria um conteúdo um pouco diferente assim explicitado IMarte Ivermelho Esse conteúdo é inteiramente intensional conceitual visto que as palavras da sentença codificam intensões e relações entre inten sões Esse conteúdo por sua vez de modo extrínseco é remetido ao planeta Marte que não faz parte do conteúdo semântico no sentido de que ele não seria parte da proposição expressa pela sen tença Em outras palavras nessa concepção o planeta Marte não é um ingrediente do conteúdo semântico aspecto este também de fendido pelos inferencialistas Do conteúdo proposicional fariam parte apenas itens conceitualintensionais tal como defendia Fre ge os quais seriam intermediários e responsáveis pela determina ção da referência como modos de apresentação dos referentes A teoria da proposição estruturada retoma a conceituação russellia na segundo a qual há relações nãomediadas entre expressões e objetos e chega à seguinte caracterização do conteúdo semântico que na terminologia do autor é denominado valor semântico os valores semânticos das sentenças como proposições com estruturas relacionadas à sentença que os expressa No caso de sentenças simples as proposições são construídas de propriedades correspondentes aos predicados e indivíduos correspondendo ao termos referenciais dire tos Em casos mais complexos operadores como e ou não descrições definidas e indefinidas e quantificadores contribuem com elementos de ordem superior para proposições estruturalmente complexas cujos constituintes são os valores semânticos de constituintes sintáticos das sentenças que os expressam SOAMES 1987 p 64 Nessa forma de análise a descrição do conteúdo semântico in clui além dos referentes o modo como esse é expresso Precisa mente a função semântica das expressões utilizadas para compor a sentença é explanada apresentandose os objetos de referência ou valor semântico bem como o meio linguístico utilizado para codificálo Assim a sentença Marte é vermelho recebe uma análise em que seu conteúdo fica assim explicitado Marte Marte é vermelho servermelho O significado como um complexo estruturado 197 Esse objeto estruturado produto de uma análise semântica descreve o conteúdo semântico veiculado pelo proferimento da sentença Marte é vermelho em dado contexto e situação Desse modo a diferença entre as sentenças utilizadas para codificar um mesmo conteúdo aparece na descrição desse conteúdo Não há confusão entre significante e significado entre sentença e pro posição isto é não é o caso que agora o conteúdo seja posto como nãoindependente da linguagem Pelo contrário conteúdo e forma de expressão podem ainda ser separados mas o rastro inferencial e intralinguístico pelo qual se chega a um determinado conteúdo é agora explicitado na descrição semântica de tal modo que os co lapsos antes apontados não mais têm lugar A modificação teórica portanto diz respeito à descrição semântica e visa à preservação da distinção do que é distinto Para explicitar o uso desse dispositivo de análise considerese a significatividade da expressão sentencial Aristóteles é inteligen te quando proferida por Airton Marcos e João João profere essa sentença ao descrever o que ouviu em uma aula de Filosofia grega sobre a explicação da diferença entre humanos e animais segun do o filósofo Aristóteles Airton muito irônico com a Filosofia proferea para elogiar o seu cão chamado Aristóteles e Marcos tendo apenas ouvido as duas frases conta para Catharina que Air ton e João pensam que Aristóteles é inteligente Descrita a situa ção assim não é difícil mostrar que o conteúdo semântico da frase Aristóteles é inteligente no proferimento de Marcos é duplo pois reenvia tanto ao proferimento de Airton quanto ao de João Se o vestígio anafóricoinferencial segue o proferimento de João e o dito na aula de Filosofia chegase ao filósofo grego e sua perspicácia seguindo o caminho anafóricoinferencial do proferimento de Air ton chegase ao viralata que Airton pensa que é um pastor alemão genuíno e que o nomeou Aristóteles porque para ele Aristóteles era um genuíno filósofo alemão A expressão Aristóteles é inte ligente é significativa no contextosituação nunca isoladamente e essa significatividade determinase pela especificação dos nexos anafóricos inferenciais referenciais e pragmáticos A aparente am biguidade da expressão é tão somente um efeito de um enfoque limitado Isso se mostra na possibilidade aberta a Marcos de ex plicitar para Catharina o imbróglio dizendo que João estava a falar Atente para como essa noção de significado difere das noções propostas nos capítulos anteriores Releia esses capítulos e anote os pressupostos teóricos que as diferenciam 198 Filosofia da Linguagem I de seu filósofo preferido e Airton muito espirituoso ironizandoo concordou com ele repetindo que Aristóteles era sim muito inteli gente enquanto afagava o seu cão chamado Aristóteles Essa noção de conteúdo semântico delineada a partir das pro posições russellianas continua conceituandoo como constituído de indivíduos relações e propriedades A introdução na descrição de indicações acerca da sentença que expressa esse conteúdo não muda esse fato Ela é o resultado da exigência referencialista de que todos os termos tenham de alguma forma um tipo de referente Ora seguindo as indicações fornecidas nas lições anteriores o que importa na especificação do conteúdo semântico é a determinação dos nexos referenciais e inferenciais do que retiramos que ao in dicarmos tais nexos estamos especificando a proposição expressa e não é preciso acrescentar mais nada No modelo neorusselliano a proposição era uma entidade correlata à sentença que o expres sa e estruturalmente assemelhada Na proposta dos defensores da noção de proposição estruturada a proposição espelha a sentença que a expressa em algum nível de composição semântica O fato é que apenas em relação aos termos designadores diretos a teo ria da proposição estruturada abdica da mediação feita por uma intensão Isso porém cria uma anomalia na descrição semântica pois implica que certas expressões propriamente falando sejam consideradas diferentes das outras quanto ao modo de significa ção sem que isso apareça no patamar descritivo Pelo contrário eu penso que se substituímos esse vocabulário expressão intensão extensão por outro em termos de expressão conteúdo função e valor essa anomalia desaparece Tanto os designadores diretos como os indiretos assim como as demais expressões serão descri tos em termos de conteúdo semântico cujos ingredientes são a sua função e o seu valor semânticos no contextosituação O objetivo dessa nova proposta portanto é que restem apenas as expressões linguísticas significativas e os aspectos e objetos que compõem a situação objetiva de proferimento a qual inclui o con texto discursivo A proposição o conteúdo expresso não se consti tui como um terceiro elemento mas antes é o modo pelo qual uma determinada sentença é capaz de ser informativa em relação à situ ação isto é a proposição é o entrelaçamento de fatores referenciais KING Structured Propositions and Sentence Structure Journal of Philosophical Logic v 25 p 495521 1996 p 495 SOAMES 1987a p 111 1987b p 75 O significado como um complexo estruturado 199 e inferenciais codificados nas expressões componentes pelo agen ciamento de modos de significação O fato de que certas expressões sejam referenciais não as destitui de conteúdo inferencial e o fato de uma expressão ser inteiramente inferencial não a destitui de signifi catividade nem a desconecta da referencialidade pois se ela de al gum modo não contribui para a determinação da referencialidade seja do contexto em que ela ocorre seja de uma expressão particular concomitante então ela seria dispensável nãosignificativa 102 Referência direta e cadeia inferencial A motivação principal da semântica das proposições estrutu radas é sem dúvida a tese de que certas expressões têm como in grediente um componente indexicador defendida por Kripke e Putnam a admissão de um componente indexicador implicaria admitir a contribuição do entorno da situação na constituição da significação não passível de explanação anafóricoinferencial Uma decorrência natural dessa tese é a ideia de que nomes pró prios e comuns incluem um componente ou marcador semântico da ordem da dêixis e que portanto a significatividade de tais ex pressões seria dependente da situação de proferimento isto é do modo de introdução da expressão na cadeia discursiva de uma tal maneira que o conteúdo expresso pelas sentenças em que os indexadores ocorrem incluiria aspectos ou elementos da situação Isto posto no sentido de que as ocorrências posteriores teriam seu conteúdo semântico determinado pela retomada da primeira ocorrência e esta contribuiria para o contexto discursivo com a remissão a um objeto ou aspecto da situação Esse ponto desenvolvese na tese de que as condições de ver dade não se confundem com a proposição expressa A explana ção dessa tese supõe que se compreendam três alegações que a proposição expressa por uma sentença não se define em termos das circunstâncias nas quais a sentença é verdadeira que teorias do significado não podem adequadamente ser identificadas com teorias das condições de verdade e que compreender uma sen tença não pode ser analisado adequadamente como conhecer as condições nas quais a sentença é verdadeira Dito de outro modo o isomorfismo sintático entre duas expressões não é garantia de No artigo The Meaning of Meaning em Mind Language and Reality Philosophical Papers Volume 2 215271 Cambridge Cambridge University Press 1975 Putnam argumenta em favor da tese de que expressões classicamente explanadas em termos descritivos teriam componentes indexicadores Nossa teoria pode ser resumida como dizendo que palavras como água tem um componente indexical implícito p 234 p 243245 RECANATI F Direct Reference From Language to Thought Oxford Balckwell 1997 p 2628 200 Filosofia da Linguagem I um isomorfismo semântico ou equivalência de conteúdo semânti co pois também cabe dizer de uma sentença que ela veicula o seu conteúdo sob um modo de apresentação linguístico que pode di ferir do modo como outra sentença o faz Essa tese capta o mote hermenêutico de que não se pode dizer a mesma coisa com pala vras diferentes e afastase em parte da tese de Frege As condições de verdade de Cícero era calvo explanamse pela determinação de um indivíduo i em um instante t fazer parte da extensão de um predicado C Podese perfeitamente apreender essa condição portanto compreender a sentença que teria a seguinte for ma na notação antes introduzida aCalvície sem que isso impli que a apreensão da proposição expressa ou seja do fato de alguém saber o que é para Cícero ter sido calvo não se segue que ele sempre seja capaz de identificar de quem se está a falar e por conseguinte sem condições de determinar o valor de verdade do que foi expresso A noção de modos de significação ou papéis semânticos nos ajuda a compreender esse fenômeno Um mesmo conteúdo se mântico uma proposição expressa pode ser veiculado por di ferentes sentenças Além disso podese mesmo assim dizer que essas sentenças têm diferentes significações pois elas expressam o conteúdo de modos diferentes O que as torna diferentes é o modo de apresentação do conteúdo semântico Consideremse as sentenças Cícero era calvo e Túlio era calvo Uma vez que os nomes Cícero e Túlio designam o mesmo indivíduo ambas expressam a mesma proposição aCalvície mas o fazem por meios de expressão diferentes embora as funções semânticas e a estrutura sintática nelas agenciadas sejam idênticas Uma sentença como Ele é calvo também poderia ser utilizada para codificar a mesma proposição não obstante a diferença de função semânti ca do termo designador Ele Essas diferenças nas sentenças im plicam condições de verdade distintas pois um ouvinte qualquer poderia aceitar uma delas como verdadeira e recusar a verdade das outras Não obstante tratase da mesma proposição pois Ele é calvo pode ser usada também para predicar a propriedade da calvície daquele que é chamado Túlio e Cícero em frases como 1 Esse cara aí calvo chamase Cícero e também Túlio 2 O senador romano Cícero ou Túlio ele era calvo O significado como um complexo estruturado 201 A teoria da proposição estruturada conformase a essa descri ção e está ancorada na tese fundamental de que sentenças expres sam proposições e que proposições são entidades complexas em que se apresentam as propriedades e relações semânticas básicas O ponto mais relevante nessa proposta é a formulação mais re finada da noção de valor semântico sentencial que permite dis tinguir o valor semântico de duas sentenças que têm a mesma ex tensão e as mesmas condições de verdade em termos de mundos possíveis Isso é feito na definição mesma de proposição a qual inclui uma referência à estrutura sintática da sentença utilizada para expressála Uma proposição nessa perspectiva é uma estrutura que tem como constituintes indivíduos propriedades e relações Além dis so essa estrutura reflete a estrutura das sentenças que a expres sam de modo que mesmo que duas sentenças diferentes tenham as mesmas condições de satisfação em modelos ou em mundos possíveis ainda assim se pode diferenciar o seu conteúdo semân tico Em vez de se conceber o conteúdo semântico das sentenças a partir das noções de intensão e extensão veritativofuncionais tomamse proposições como objetos complexos que se estruturam à maneira das sentenças que os expressam e que determinam con juntos de circunstâncias determinantes de verdade sem se identifi carem com tais circunstâncias A definição fica assim o significado de uma expressão é uma função de contextos para cons tituintes proposicionais O significado de uma sentença é uma função composicional de contextos para proposições estruturadas Intensões e extensões de expressões relativo a contextos e circunstâncias deri vamse de intenções e extensões de proposições e constituintes pro posicionais Estes por sua vez podem ser alcançados a partir de uma caracterização recursiva da verdade com respeito a circunstâncias para proposições SOAMES 1987 p 74 As proposições são concebidas como objetos internamente estruturados para os quais é possível distinguir partes e modos de combinação Duas proposições podem ter diferentes relações possuírem a mesma forma e diferentes partes ou possuírem as 202 Filosofia da Linguagem I mesmas partes mas sob uma forma diferente Por sua vez a re lação entre a sentença e a estrutura da proposição expressa não é direta pois a proposição expressa por uma sentença depende também do contexto de uso Em tal conceituação o princípio da composicionalidade é central no sentido de que a significação das expressões componentes é uma função de contextos para partes proposicionais Na formulação de King a estrutura da proposição é conceituada da seguinte forma ser a estrutura da proposição expressa por uma sentença uma fun ção da estrutura da sentença deve ser entendido como significando que a estrutura de uma proposição expressa por uma sentença é uma função da estrutura da contribuição semântica Semantic Imput da sentença dizer que uma proposição é estruturada é dizer que seus constituíntes estão em alguma relação complexa que perfaz a estrutura da proposição que uma sentença esteja associada com uma con tribuição semântica ou mais de uma se a sentença é estruturalmen te ambígua que consiste de itens lexicais numa determinada relação complexa e que esta contribuição semântica pode ser mapeada em uma proposição que consiste de constituintes proposicionais KING 1996 p 497498 Esse modo de conceituar o conteúdo proposicional produz uma dificuldade todavia Considerese o problema posto por Frege Se a e b são nomes próprios para o mesmo objeto seguin do a definição de proposição e de referência direta as sentenças a a e a b veiculam a mesma proposição não obstante as diferenças dos meios de expressão Conjugado com a tese de que as expressões referenciais diretas não possuem um intermediário intensional isso teria como consequência a indistinção semântica dessas sentenças no sentido de que a sua contribuição semântica semantic imput seria idêntica A solução proposta consiste em admitir que não basta a inclusão do contexto e da estrutura se mântica para a especificação do que é expresso fazendose neces sário levar em consideração também a expressão utilizada isto é o modo de apresentação linguístico utilizado para codificar a propo sição Desse modo mesmo quando duas sentenças sejam constitu ídas por expressões com função e valor semânticos idênticos seria possível ainda assim distinguirse o conteúdo expresso pois a di ferença das expressões componentes refletirseia na explicitação O significado como um complexo estruturado 203 desse conteúdo pois o modo como cada expressão foi introduzida no discurso teria que ser explicitado Em suma na especificação do conteúdo semântico sentencial daquilo que é expresso tornase imprescindível recorrer aos com ponentes linguísticos empregados pois faz diferença o meio de expressão ou linguagem e de elementos pertencentes à situação nãolinguística pois a mesma sentença veicula diferentes propo sições em diferentes situações de proferimento Notese que a ca racterização do conteúdo semântico como composto de elemen tos linguísticos e nãolinguísticos dispensa a postulação de uma terceira entidade para além da linguagem e aquém do real Pelo contrário significa justamente não postular tal entidade a signifi catividade consistindo na correlação entre um sistema simbólico e um domínio de referência correlação esta que tem origem no modo como os agentes sencientes lidam com o entorno Quando dizemos que uma sentença S tem sentido essa correlação já se deu caso contrário diríamos tratarse não de uma sentença mas de uma sequência de sinais semsentido ou ruído Isso está de acordo com a tese fregeana segundo a qual o con teúdo mesmo é um todo indiferenciado que apenas se estrutura na sua exposiçãoexpressão em uma linguagem Sem a inter venção de uma linguagem o conteúdo não poderia ser objeto de discurso havendo múltiplas formas sob as quais ele poderia ser codificado o que não implica dizer que a situação e seus elementos também não existiriam ou seja o que se está a dizer é que parte do conteúdo sentencial é essencialmente semântico ou relacional no caso das proposições singulares A presença da expressão na exposição do conteúdo semântico pode causar espécie mas note se logo esse recurso tem como objetivo tão somente a indicação e a marcação do caminho inferencial pelo qual tal conteúdo foi veiculado na situação de proferimento Essa estratégia de expla nação do conteúdo semântico também é compatível com a noção de referência direta sem contudo estar aberto às objeções que se levantam contra essa tese O argumento de Kripke em favor da re ferência direta pode ser visto pelo seu lado semântico e inferencial se a referencialidade de um termo designador fosse garantida pela intermediação de algum tipo de intensão conceito sentido asso 204 Filosofia da Linguagem I ciado a tal termo e que no contextosituação apanhasse o objeto referido então nas retomadas anafóricas não haveria garantia de preservação da referencialidade A diferença no modo de apresentação linguística Cícero Tú lio O maior orador romano etc não é suficiente para indicar a diferença de intensão sentido conceito do mesmo modo que a identidade do referente não é garantia da identidade de intensão Por isso a consideração da situação de proferimento e do contex to discursivo é indispensável O ponto visado pela introdução da noção de referência direta é a eliminação dos correlatos objetivos fatos estados de coisas pensamentos enquanto intermediários entre a sentença e o real efetivo agora dispensáveis como instru mentos de análise O visado com o termo fato continua lá como aspecto determinado do real efetivo mesmo o visado com os ter mos pensamento e sentido continua lá como propriedade de uma sequência de sinais enquanto estes são utilizados por um agente em uma situação Apenas todavia eles não são entificados e pos tos como independentes da linguagem e do falante Eles são agora modos ou aspectos dessa articulação complexa que é a relação de significatividade A significatividade é agora pensada como um modo de articulação de um sistema de sinais para apanhar aspec tos da situação o que se mostra no momento da especificação do conteúdo semântico de uma sentença no qual aparecem tanto as remissões entre expressões como a remissão aos referentes 103 A complexa estrutura da relação de significação Um aspecto essencial dos enigmas e problemas bem como dos argumentos e das soluções em torno das atitudes proposicionais é a conexão entre as relações referenciais e as propriedades inferen ciais das sentenças que as expressam Os colapsos na descrição semântica em geral podem ser vistos como um sintoma de que a explicitação dos aspectos referenciais termina por obscurecer e não dar conta dos aspectos inferenciais e viceversa e as soluções são como que tentativas de assegurar a harmonia entre ambas O significado como um complexo estruturado 205 Harmonia esta que não é senão a condição da significatividade isto é a condição para que uma expressão seja significativa fazendo parte assim de uma linguagem em que algo possa ser dito de uma situação e disso se possa inferir outras coisas que também poderiam ser ditas naquela circunstância é justamente que ela faça nexos ana fóricoinferenciais com outras expressões e faça nexos referenciais com o mundo Nas atitudes proposicionais essa harmonia é premen te sobretudo pela interconexão entre referencialidade e inferenciali dade que elas agenciam ao unirem num único lance o querer dizer algo e o comprometerse com pressuposições e consequências Ora não obstante Soames Salmon e King fornecerem uma sé rie de argumentos e objeções contra a semântica das condições de verdade ancorada na ideia de referência em mundos possíveis eles compartilham com esta uma pressuposição questionável qual seja a suposição de que todas as propriedades e relações semânti cas podem ser reduzidas ou formalizadas em termos de uma única relação a saber a de designação O modelo de análise do signifi cado sentencial da teoria da proposição estruturada fornece um aparato teórico capaz de lidar com diversos problemas da tradição mas ele é ainda uma versão sofisticada da tese de que todas as no ções semânticas são redutíveis à referencialidade O nexo semân tico que está na origem da estrutura semântica e do qual todas as demais propriedades e relações semânticas se originam composi cionalmente é a relação de designação A definição estrutural do conteúdo semântico faz com que a estrutura da sentença seja pro jetada na estrutura da proposição evitandose assim o colapso das sentenças equivalentes em um único conteúdo semântico Toda via essa reduplicação é questionável sobretudo porque introduz um terceiro termo entre o que expressa e o que é expresso Uma alternativa seria defender que o caráter de estrutura do expresso é uma consequência do fato de que aquilo que é expresso seja um plexo de relações entre um objeto complexo a senten ça e outro objeto complexo a situação objetiva relativamente a um falante Não consiste portanto em que o que é expresso mimetize a estrutura sentencial pois tal metáfora sugere que o expresso subsiste para além da sentença que o expressa e aquém da situação que ele significa Ao insistirmos que o expresso incor Seria mesmo necessário introduzir um terceiro elemento entre as palavras e as coisas 206 Filosofia da Linguagem I pora tanto elementos linguísticos quanto elementos da situação queremos justamente enfatizar que o expresso se constitui nessa relação de remissão entre duas entidades complexas Portanto a descrição do conteúdo semântico expresso por uma expressão tem de apresentar esses vínculos mas isso de modo algum im plica introduzir uma entidade extra Ora a distinção entre componentes referenciais e componentes inferenciais já antecipa o caráter nãomimético e a nãoduplicação As relações inferenciais são determinadas pela linguagem tendo em vista que as expressões formam um sistema e exercem diferen tes funções sintáticas e papéis semânticos quando concomitantes por sua vez as relações referenciais determinamse a partir da si tuação Todavia a referencialidade mesmo ali onde ela é direta fazse pelo agenciamento daquelas funções sintáticas e papéis se mânticos disponíveis na linguagem Disso resulta que ao expla narmos os fatores linguísticoinferencialanafóricodescritivos e os fatores situacionalreferencialextensionais de uma expressão já esgotamos o seu conteúdo semântico qual seja esse conteúdo no caso das sentenças a proposição expressa A proposição esgo tase nos fatores anafóricos inferenciais e referenciais nem mais mas também não menos que esses fatores Considerese a explanação das assim chamadas proposições singulares como proposições com uma expressão referencial envolvendo um objeto particular indivíduo e não um concei to individual ou modo de apresentação isto é sem a mediação de um sentido fregeano que constituem o ponto de partida da semântica da proposição estruturada Vamos chamar essas putativas proposições proposições singulares O ponto é que se o componente na proposição ou passo na constru ção da proposição que corresponde ao termo singular é determinado pelo indivíduo ao invés de o indivíduo ser determinado pelo termo singular então nós temos o que chamo de proposição singular proposições singulares são os blocos essenciais de todas as proposições KAPLAN Demonstratives in ALMOG et al eds Themes From Kaplan Oxford Oxford UP 1989 p 483484 Notese que essa proposta sugere que as coisas façam parte da proposição expressa Ao propor que a coisa indivíduo mesma O significado como um complexo estruturado 207 faça parte da proposição parece que se está a fazer confusão entre a descrição semântica e a especificação do que está envolvido na atribuição de significatividade a uma expressão O objeto mesmo não afetaria a trama inferencial por isso a expressão utilizada para introduzilo no discurso é decisiva e não pode ser ignorada Em vez de se dizer que o objeto mesmo é parte do expresso melhor se ria dizer que a relação com o objeto faz parte da especificação do conteúdo semântico das proposições singulares e que essa relação de remissão ao objeto desencadeia a significatividade mas apenas enquanto a expressão que a codifica exerce uma função semântica no contexto da asserção A hipostasia da proposição como um complexo entre a senten ça e a circunstância de avaliação é o que dá sentido à tese segundo a qual o objeto mesmo faz parte do que é expresso Uma vez que essa hipostasia é evitada não mais faz sentido descrever a semân tica sentencial nesses termos Em vez disso é preferível descrever o conteúdo em termos de funções referenciais e inferenciais ana fóricas e pragmáticas Embora ainda correlacione conteúdo se mântico e existência a descrição semântica de sentenças com ter mos referenciais diretos tornase inofensiva o conteúdo de uma sentença singular asserida depende dos vínculos indexicais com a situação de tal modo que a existência do objeto referido está implicada no que é expresso no sentido de que se o objeto não existir o conteúdo expresso tornase incompleto O que importa portanto é a atribuição da função referencial à expressão designa dora e não dizer que o objeto mesmo faz parte do que é expresso A distinção entre fatores referenciais e fatores inferenciais por conseguinte permite recuperar as distinções que a teoria das pro posições estruturadas quer salvar sem se comprometer com as consequências indesejadas Em vez de conceitualizar a referência direta em termos de inclusão do objeto no conteúdo proposicional penso ser mais correto pensála como uma relação de remissão ao nãolinguístico pois é suficiente conceitualizar a função semânti ca dessas expressões como sendo referencial pura e simplesmente no sentido de que a inexistência do objeto impede que elas rea lizem a sua função no interior da sentença Dito de modo mais preciso do ponto de vista da descrição semântica a contribuição Embora o uso da expressão contexto para designar as circunstâncias nãolinguísticas da linguagem esteja generalizado apesar de essa expressão ser ambígua pois tanto indica a situação não linguística quanto o contexto linguístico Não seguimos esse hábito e utilizaremos a expressão situação para designar tais circunstâncias e reservaremos a expressão contexto apenas para designar as circunstâncias linguísticas de uma asserção 208 Filosofia da Linguagem I semântica das expressões referenciais é dependente da existência de um objeto Caso o objeto não exista a sentença fica prejudicada no que se refere ao seu conteúdo semântico Portanto a introdução da noção de remissão direta a objetos é tão somente para dar conta de alguns tipos de expressão cujo papel semântico é fazer ancorar a cadeia discursiva em pontos de refe rência da situação isto é cujo papel é remeter o discurso ao não linguístico através de uma relação nãomediada Para usar um exemplo esse tipo de relação é o que torna significativo e permite compreender as inscrições Você está aqui dos mapas e das indi cações de localização Essas inscrições não têm sentido nem como informação nem como indicação dentro do mapa nem fora dele mas valem apenas como nexo entre o mapa e a situação para um observador ou seja essas expressões pressupõem a capacidade de um sujeito de ligar um item de uma expressão simbólica comple xa o mapa a um item ou aspecto de um objeto complexo uma ci dade por exemplo Uma cadeia discursiva não é propriamente um mapa da situação sem dúvida não obstante o uso de uma expres são indexadora amarra toda a sequência discursiva a um ponto na situação fazendo com que tanto a sequência quanto a situação se abram uma para a outra Assim como o Você está aqui não tem conteúdo além da conexão entre o mapa e a situação o componen te referencial também não tem outro conteúdo senão vincular um ponto da cadeia discursiva a um ponto na situação Uma vez conceitualizado assim o conteúdo semântico a ques tão acerca do estatuto ontológico da proposição tornase premen te Qual é o estatuto dessa entidade que se supõe constituir o conteúdo semântico expresso pelo proferimento de sentenças O que é isso o que é dito Há algo que seja isso o que é dito por uma sentença A alternativa aqui adotada é clara a significativi dade é uma propriedade relacional complexa pois as expressões possuemna na medida em que façam parte de um sistema de si nais e sejam usadas em uma situaçãocontexto As propriedades semânticas são relacionais Podese então dizer que a proposição é uma relação entre uma sequência de sinais a sentença um determinado contexto de uso um uso ou ato discursivo e uma situação Enquanto tal a proposição não é um terceiro elemento O significado como um complexo estruturado 209 para além da linguagem e aquém da situação Esse modo de conceber a proposição constitui uma explicação do peculiar estatuto ontológi co das proposições por um lado elas não são linguísticas mas dependem da linguagem para existir e não apenas para serem expressas E por outro lado elas não são entidades embo ra dependam das entidades componentes da situação para existirem O estatuto ontológico da proposição é o de serem relações entre dois tipos de entidades os sinais e os sinalizados Essa é uma consequência natural da abor dagem aqui adotada que toma a proposição como aquilo que é expresso ou seja o conteúdo semântico codificado por uma sentença como sendo constituído tanto pelos nexos referenciais como pelos inferenciais Nessa pro posta o expresso por uma sentença é descrito como uma relação complexa entre as partes sentenciais e aquilo de que se fala postas em relação pelos utentes da sentença Essa relação é um comple xo nãohomogêneo visto articular itens de diferentes categorias semânticas e de ser o resultado da junção de nexos referenciais e nexos inferenciais Ao conceitualizar a significatividade como relação complexa evitase a entificação do que é expresso como algo para além das expressões e aquém da realidade Lekton dos estoicos Satzansich de Bolzano Gedanke de Frege Objektive de Meinong Sacheverhalt de Husserl proposition de Russell etc A hipostasiação faziase para garantir a objetividade a independên cia em relação à subjetividade do falante e em relação à linguagem Todavia essa independência apenas tem sentido na descrição se mântica e ali a entificação é tão somente um recurso dispensável e perfeitamente substituível pela conceitualização em termos de relação complexa constituída da articulação de funções e papéis semânticos em termos de nexos referenciais e inferenciais Relembremos o caminho feito até aqui nessa segunda parte Começamos com a pergunta pelo modo adequado de explana ção do significado e especificamente do conteúdo semântico sen tencial Após estabelecer que a significatividade engloba tanto as Atente para como o conteúdo semântico codificado por uma sentença é constituído tanto pelos nexos referenciais como pelos inferências dessa sentença 210 Filosofia da Linguagem I propriedades referenciais quanto as propriedades inferenciais que uma expressão pode adquirir em um contexto discursivo em uma situação de proferimento e distinguir os diversos modos de sig nificação e os tipos de expressões explorei duas perspectivas a referencialista e a inferencialista para chegar à noção de conteúdo semântico como um complexo estruturado Dada uma sentença simples temos pelo menos quatro possíveis modos de analisar o seu conteúdo A saber como expressando uma 1 relação entre um indivíduo e uma propriedade Marte Vermelho 2 relação entre um conceito sentido intensão e outro concei to Vermelho Marte 3 relação entre um indivíduo e um conceito Marte Verme lho e 4 relação entre um conceito e uma propriedade Marte Vermelho Admitese que apenas a situação e o contexto discursivo permi tem determinar qual é o conteúdo efetivo pois as expressões elas mesmas não têm um ou outro conteúdo semântico específico Este é um resultado da admissão de diferentes modos de significação basicamente indicação descrição e designação conjugadas com a admissão da complexidade inferencialreferencial do que é expres so Que a expressão Marte seja referencial isto é que ela indique o planeta solar ou inferencial isto é que ela expresse o conceito planetasolarx depende de como essa expressão é introduzida no contexto discursivo e da situação em que esse contexto se dá o que é ilustrado pelos exemplos a seguir Contexto I O quarto planeta solar tem dois satélites naturais é chamado Marte e também Planeta vermelho Os satélites de Marte são Fobos e Deimos Contexto II O quarto planeta solar está na casa de Sagitário Marte acaba de surgir no horizonte A diferença entre esses dois contextos não é suficiente para mostrar que nas sentenças Os satélites de Marte são Fobos e Dei O significado como um complexo estruturado 211 mos e Marte acaba de surgir no horizonte a expressão Marte é referencial ou inferencial referese a um objeto ou expressa um conceito não obstante as diferenças de funções gramaticais Ape nas com o acréscimo de uma situação de fala com objetos e falan tes e um contexto anafóricoinferencial podese elucidar isso A condição para que tais sentenças sejam significativas isto é para que elas sejam partes de uma linguagem ou melhor para que elas sejam expressões não impõe que a leitura referencial de um con texto implique a leitura referencial do outro Unicamente o que é exigido é que a descrição semântica de uma ocorrência da expres são Marte esteja em harmonia faça nexo com o modo como foi introduzida no contextosituação Mais ainda do fato de que tal expressão tenha sido introduzida referencialmente por exemplo pela asserção de que Marte é este planeta no qual acabamos de pousar não se segue que a expressão posteriormente não possa ser utilizada inferencialmente e viceversa Muito pelo contrário essa é justamente a condição para que tal sinal seja uma expressão lin guística pois não basta que a expressão Marte denote um objeto mas para ser um nome significativo ele deve contraporse e fazer nexos com as demais expressões já em uso na linguagem no sen tido de que se deve saber se é dizer o mesmo ou não afirmar Esse é Marte e Esse é Mercúrio ou Marte é um planeta e Marte é número Disso não se segue que a regimentação para fins de for malização não possa estabelecer um modo uniforme de resolver essas questões mas isto é justamente denominado estipulação Desse modo resolvese a tese da nãoindependência em relação à existência que está na base da intuição referencialista O ponto a ser acentuado para concluir referese ao emprego na explanação semântica de nexos referenciais com elementos da situação de tal modo que a significatividade apareça como uma fusão de lingua gem e situação de proferimento Essa caracterização do conteúdo semântico sentencial torna explícita a complementaridade das re lações inferenciais e referenciais em conformidade com o deside rato de que a explanação semântica mostrasse a interdependência entre os aspectos referencialextensionais e os aspectos inferen cialintensionais isto é que a semântica tanto respondesse pelas relações de remissão ao extralinguístico quanto pelas relações de remissão intralinguísticas A atribuição de significatividade a 212 Filosofia da Linguagem I uma expressão inclui portanto a determinação dos nexos refe renciais e inferenciais e também a sua interdependência Notese que isso é feito sempre que se introduz um novo termo na linguagem se uma determinada expressão é introduzida por exem plo Blituri para que essa introdução seja bemsucedida fazse ne cessário indicar suas propriedades referenciais e inferenciais ora a teoria aqui defendida é que não é possível fazer uma coisa sem já fazer a outra Se Blituri for introduzida como nome de um objeto mesmo que apenas isso seja informado então já se a correlacionou com todos os outros nomes de objetos se ainda for especificado qual objeto é o seu referente na medida em que para essa especificação o objeto deverá ser identificado e distinguido mais correlações dessa expressão com outras serão agenciadas e isso significa que o seu uso implicará pressuposições e consequências inferenciais Para resumir em um mote em vez de dizer que a competência lingüística representa nossa habilidade em conectar palavras a sentidos e assim a objetos podemos concluir que antes a lin guagem surge da habilidade de se conectarem objetos a objetos e assim codificar e expressar isto é instituir a significatividade a qual não é senão o modo de conexão de objetos Portanto a dis tinção requerida não é entre sentença linguagem e proposição sentido ou fato complexo como entidades independentes e co nectadas por algum tipo de ato A distinção é entre uma sentença e o que ela expressa isto é entre a sentença e o seu conteúdovalor semântico em uma situaçãocontexto Na situação de fala signi ficativa o que encontramos são três tipos de entidades falantes um entorno circundante e uma linguagem ou sistema simbólico Os objetos intermediários a saber fatos estados de coisas pensa mentos sentidos conceitos etc são agora pensados como recur sos teóricos introduzidos pelo filósofo no momento de explanação da significatividade e assim dependentes do discurso semântico ou seja são conceitos e não entidades Na teoria aqui defendida eles deixam de ser objetos e se tornam simulacros da complexa relação que é a significatividade a descrição semântica é a expo sição da relação complexa cujos elementos são um entorno e uma linguagem e cuja origem é a ação dos utentes YOURGRAU Frege on Truth and Reference Notre Dame Journal Of Symbolic Logic v 28 n 1 p 1328 1987 p 208 O significado como um complexo estruturado 213 Leituras recomendadas MOURA Heronides M Significação e contexto uma introdu ção a questões de semântica e pragmática Florianópolis Insular 1999 PENCO C Linguagem e representação e Linguagem e comu nicação In Introdução à Filosofia da Linguagem Pe trópolis Vozes 2006 pp 53122 181216 Reflita sobre Quais os aspectos que devem ser considerados para dizer que uma expressão significa o mesmo que outra expressão e possa substituíla em todos os contextos O que está envolvido no que é dito pelo proferimento de uma sentença em determinada situação discursiva Unleash your productivity with Trello Trello helps you organize everything from the big picture to the minute details Add boards lists and cards Move cards between lists as your priorities change Customize cards with labels due dates images attachments checklists and more Invite friends family colleagues or classmates to collaborate on your boards Use Trellos search and filtering tools to find and prioritize whats important Trello is free simple and incredibly flexible Make Trello your task management tool and start getting things done Personal trellocom Business trellocompricing Teams trellocomenterprise Trello Trello G Suite Marketplace lets you work on from wherever you are 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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA FILOSOFIA licenciatura a distância 4 FILOSOFIA DA LINGUAGEM Celso R Braida FILOSOFIA DA LINGUAGEM I Filosofia da Linguagem I Celso R Braida Florianópolis 2009 Catalogação na fonte elaborada na DECTI da Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina Copyright 2009 Licenciaturas a Distância FILOSOFIAEADUFSC Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida transmitida e gravada sem a prévia autorização por escrito da Universidade Federal de Santa Catarina B814f Braida Celso Reni Filosofia da linguagem Celso Reni Braida Florianópolis FILOSOFIAEADUFSC 2009 254p inclui bibliografia Material do Curso de Licenciatura em Filosofia na modalidade a distancia oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina ISBN9788561484125 1Linguagem Filosofia Ensino auxiliado por computador 2 Filosofia Estudo e ensino I Título CDU 8001 Governo Federal Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministro de Educação Fernando Haddad Secretário de Ensino a Distância Carlos Eduardo Bielschowky Coordenador Nacional da Universidade Aberta do Brasil Celso Costa Universidade Federal de Santa Catarina Reitor Alvaro Toubes Prata Vicereitor Carlos Alberto Justo da Silva Secretário de Educação à Distância Cícero Barbosa Próreitora de Ensino de Graduação Yara Maria Rauh Muller Próreitora de Pesquisa e Extensão Débora Peres Menezes Próreitora de PósGraduação Maria Lúcia de Barros Camargo Próreitor de Desenvolvimento Humano e Social Luiz Henrique Vieira da Silva Próreitor de InfraEstrutura João Batista Furtuoso Próreitor de Assuntos Estudantis Cláudio José Amante Centro de Ciências da Educação Wilson Schmidt Curso de Licenciatura em Filosofia na Modalidade a Distância Diretora Unidade de Ensino Roselane Neckel Chefe do Departamento Leo Afonso Staudt Coordenador de Curso Marco Antonio Franciotti Coordenação Pedagógica LANTECCED Coordenação de Ambiente Virtual LAEDCFM Projeto Gráfico Coordenação Prof Haenz Gutierrez Quintana Equipe Henrique Eduardo Carneiro da Cunha Juliana Chuan Lu Laís Barbosa Ricardo Goulart Tredezini Straioto Equipe de Desenvolvimento de Materiais Laboratório de Novas Tecnologias LANTEC CED Coordenação Geral Andrea Lapa Coordenação Pedagógica Roseli Zen Cerny Material Impresso e Hipermídia Coordenação Laura Martins Rodrigues Thiago Rocha Oliveira Adaptação do Projeto Gráfico Laura Martins Rodrigues Thiago Rocha Oliveira Diagramação Karina Silveira Ilustrações Ângelo Bortolini Silveira Tárik Pinto Tratamento de Imagem Karina Silveira Revisão gramatical Isabel Maria Barreiros Luclktenberg Design Instrucional Coordenação Isabella Benfica Barbosa Designer Instrucional Carmelita Schulze Sumário Apresentação 9 Primeira Parte A Filosofia e a linguagem 13 1 A concepção moderna de linguagem 15 11 A teoria dos nomes de Stuart Mill 22 12 A teoria da intencionalidade da consciência e a linguagem 27 Leituras recomendadas 32 Reflita sobre 33 2 Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 35 Leituras Recomendadas 44 Reflita sobre 44 3 A concepção hermenêutica de linguagem 45 31 Schleiermacher e os fundamentos da concepção hermenêutica da linguagem 51 Leituras recomendadas 62 Reflita sobre 62 4 A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 63 41 As teses gerais sobre a linguagem 66 42 Sinal sentido e significado 79 43 O princípio do contexto 83 44 O mapeamento das diferentes funções semânticas 86 Leituras recomendadas 90 Reflita sobre 90 5 A concepção pragmáticointencional de linguagem 91 51 Dizer é fazer 94 52 As implicações do dizer 98 Leituras recomendadas 103 Reflita sobre 103 6 A análise linguística como método de investigação filosófica 105 Leituras recomendadas 116 Reflita sobre 116 Segunda Parte Teorias do significado 117 7 O conceito de significatividade linguística 119 Leituras recomendadas 134 Reflita sobre 134 8 A explanação referencial do significado linguístico 135 81 Alfred Tarski a semântica como teoria das relações entre expressões e objetos 138 82 A semântica como teoria das relações entre intensão e extensão 148 Leituras recomendadas 167 Reflita sobre 167 9 A explanação inferencial do significado linguístico 169 91 Inferencialismo semântico 171 Leituras recomendadas 186 Reflita sobre 187 10 O significado como um complexo estruturado 189 101 O que é expresso pela asserção de uma sentença 192 102 Referência direta e cadeia inferencial 199 103 A complexa estrutura da relação de significação 204 Leituras recomendadas 213 Reflita sobre 213 Referências 215 systemic antihistamines phototherapy bacter ial eradication therapies topical corticosteroids topical calcineurin inhibitors moisturizers and other topical or systemic agents to ameliorate allergic inflammation in AD and alleviate pruritus Among these therapies dupilumab a fully humanized IL4 receptor alpha antagonist has shown promising safety and efficacy in treating moderatetosevere AD13 This monoclonal antibody inhibits the IL4 and IL13 signaling pathways4 which are essential drivers of AD pathogenesis5 IL31 a proinflammatory cytokine secreted by Th2 cells induces and maintains pruritus in AD and plays a key role in the pathogenesis of AD6 Nemolizumab binds to IL31 receptor alpha IL31RA inhibiting IL31 signaling7 and subsequently suppressing pruritus The clinical effect and safety of nemolizumab have been investigated by several randomized controlled trials RCTs in adults with moderatetosevere AD810 showing the promising efficacy and safety profile of nemolizumab The approval and marketing authorization of nemolizumab CIM331 injection has been granted in some countries for patients with moderatetosevere AD including Japan and the Republic of Korea Recently a phase 2b trial11 demonstrated longlasting efficacy of nemolizumab in combination with topical corticosteroids in adults with moderatetosevere AD Adverse events AEs reported in the treatment group include nasopharyngitis peripheral edema exacerbation of AD upper respiratory tract infection and injectionsite reactions Despite rapid and significant reduction in pruritus patients receiving nemolizumab showed limited improvement in eczema or lesions scaling and thickening suggesting selective attenuation on pruritus and scratching behavior with less impact on skin inflammation and AD skin manifestations Thus nemolizumab has the potential to become a promising novel therapy to improve the QoL of AD patients through effective control of pruritus Apresentação Embora os temas e problemas da Filosofia da Linguagem estejam presentes nas discussões filosóficas desde os gregos antigos essa é uma disciplina recente nos currículos de Filosofia Com efeito o poema de Parmênides um dos textos inaugurais do pensamento ocidental já estabelecia uma relação intrínseca entre ser pensar e dizer assim como no livro de Heráclito o tema da linguagem é central Todavia com exceção dos retóricos e gramáticos os filósofos posteriores ain da que sempre considerassem questões relativas à linguagem trata ram esse tópico como secundário e derivado Isso pode ser explicado pela diferença entre tomar algo como objeto e tomar algo como meio ou condição A linguagem as línguas faladas e escritas os sistemas de sinais os códigos os simbolismos sempre foi tematizada como objeto de estudo e consideração pelas diferentes filosofias ao lado de outros objetos como a natureza o humano a história a política o divino etc Todavia com o surgimento da Linguística como ciência que tem como objeto o fenômeno da linguagem as considerações filosóficas deveriam sofrer uma transformação Essa transformação acontece sobretudo a partir do século XIX quando alguns filósofos lógicos e matemáticos entenderam que a linguagem não era apenas um objeto entre outros pois assim argumentaram sem linguagem nós não teríamos consciência pensamento conhecimento julga mento no sentido de que ser consciente pensar conhecer e julgar teria como condição de possibilidade e meio de realização a própria linguagem Essa condição por conseguinte caso fosse aceita invia bilizaria ou ao menos prejudicaria a colocação da linguagem como um objeto entre outros pois o próprio darse dos objetos pressuporia a linguagem Em grande parte foi esse argumento e essa transfor mação do conceito de linguagem que levaram à introdução da dis ciplina Filosofia da Linguagem como uma disciplina primária na formação filosófica e da análise da linguagem como um método de resolver problemas filosóficos O propósito deste texto na sua Primeira Parte é apresentar a Filosofia da Linguagem a partir de perspectivas divergentes mas que têm em comum o fato de abandonarem as concepções moderna e tradicional da linguagem como objeto e colocarem a linguagem como o lugar dos problemas e o meio pelo qual estes se resolvem a abordagem hermenêutica fundada por Friedrich Daniel Ernst Sch leiermacher 17681834 a abordagem lógicosemântica inaugura da por Friedrich Ludwig Gotlob Frege 18481925 e a abordagem pragmática introduzida por Charles Sanders Peirce 18391914 e desenvolvida por John L Austin 19111960 Essas perspectivas te óricas inauguradas no século XIX justificam ainda hoje a necessi dade e a prioridade da consideração e da análise da linguagem na atividade filosófica O objetivo da Segunda Parte é apresentar teo rias e modelos do significado linguístico tendo como foco principal o problema da fixação do conteúdo semântico das expressões e o pro blema da equivalência semântica entre expressões diferentes Essa abordagem da linguagem por meio do conceito de conteúdo semân tico permitirá que se discutam de modo unificado os problemas das três perspectivas apresentadas na Primeira Parte sobretudo no que se refere às relações entre linguagem ação pensamento e mundo O livro está composto de dez capítulos os quais estão estrutura dos para fornecer uma indicação inicial dos temas cuja compreensão pressupõe a leitura dos textos sugeridos ao final de cada capítulo A bibliografia indicada ao final de cada capítulo representa uma coleção de textos cuja leitura permite uma visão compreensiva dos tópicos e problemas ali discutidos e a bibliografia final fornece uma indicação da literatura básica da disciplina Devese ter sempre em mente que os diferentes posicionamentos e as diferentes teorias so bre a linguagem estão fundados em posições metódicas e escolas de pensamento Não se trata meramente de uma diversidade caótica de opiniões mas sim de articulação e configuração de posições teóri cas e procedimentos de investigação que revelam aspectos diferentes e oferecem soluções diversas para problemas diferentes Por isso a pluralidade de opiniões deve sempre ser entendida não apenas como contradições mas antes disso como facetas de um objeto polimorfo que não se deixa esgotar por uma única abordagem metódica Nas diferentes teorias e abordagens importa antes de tudo esclarecer qual o problema as questões e as urgências que o autor quer solucionar fixado o problema devese ir em busca da estratégia ou do método de solução adotado bem como quais são os recursos teóricos con ceitos argumentos esquemas utilizados A solução final tem de ser uma consequência dessas escolhas O importante de uma resposta filosófica não é tanto a própria resposta mas antes o como de sua articulação e justificação a saber a formulação do problema o procedimento de abordagem e a reconfiguração dos dados a trama dos conceitos teses teorias e argumentos mobilizados para tornar essa resposta evidente e adequada Neste livro foram utilizados materiais provenientes dos cursos mi nistrados nos anos de 2007 e 2008 na disciplina de Filosofia da Lin guagem no curso de graduação em Filosofia da UFSC bem como partes dos seguintes textos publicados pelo autor A dúplice raiz da significatividade de 2002 Funções semânticas e complexidade da proposição de 2002 Para uma crítica da semântica inferencial de 2005 e Semântica formal ou ontologia de 2007 THE JOURNAL OF COSMETIC DERMATOLOGY 393 Primeira Parte A Filosofia e a linguagem O propósito desta parte é apresentar a Fi losofia da Linguagem a partir de perspecti vas divergentes mas que têm em comum o fato de abandonarem as concepções moder na e tradicional da linguagem como objeto e colocarem a linguagem como o lugar dos problemas e o meio pelo qual estes se resol vem a abordagem hermenêutica fundada por Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher 17681834 a abordagem lógicosemânti ca inaugurada por Friedrich Ludwig Gotlob Frege 18481925 e a abordagem pragmá tica introduzida por Charles Sanders Peirce 18391914 e desenvolvida por John L Aus tin 19111960 Yu et al 3 Capítulo 1 A concepção moderna de linguagem O objetivo deste capítulo é introduzir o questionamento sobre a linguagem a partir das ideias características da filosofia moder na que tinham no conceito de consciência o seu fundamento Brevemente serão apresen tadas as teorias de Locke Mill e Brentano para os quais a linguagem sempre é pensa da como exterior ao pensamento e como um instrumento de comunicação Em contrapo sição a essas concepções surgirão no século XIX teorias filosóficas acerca da linguagem pelas quais o pensamento e a atividade filo sófica são vistos como dependentes e consti tuídos pela atividade linguística PRODUCT DESCRIPTION Our 45 Farm Tables come in 2 sizes the 60 Dining height or 30 Bar Height Designed for Exteriors and Interiors this Farm Table is Made of Redwood Slats and a Solid Cedar Wood Stretcher The X Legs are precision cut for perfect angles and fit for each table This is a hand made dining table with a frame strong enough to stand up to north Texas weather year round INCLUDING FEET PADS ON THE FRAME TO PROTECT FLOORING Please note the bar height table has a footrest wood under the frame to make it comfortable to lean your feet on while seated Our tables are as is perfect condition for us but please understand that variations in color knots are natural characteristics of hardwood products FINISH SEAL Our tables come raw with a light sand for priming or staining Customer additions to table finish can be done with customers choice of exterior grade wood sealant or oil based stain Oiled finish Mist Exterior grade primer Weatherproof Polyurethane APPLICATIONS Dining tables Restaurant tables Coffee shops Breakfast tables Kitchen tables Bar height tables for outdoor patios Our tables are also perfect for a handful of industrial traditional projects in commercial and residential contracts such as outdoor kitchens garden tables picnic tablesand many others DIMENSIONS 60 LONG 35 WIDE 30 HIGH Bar height dimensions 60 Long 35 Wide 44 High 1 100 wood hand crafted 2 Rustic uneven colors 3 Hand built hand sanded 4 Hardwood solid wood 5 Requires assembly level adjustment with stainless hardware Please be mindful that this is a WOOD BASE product Wood is a living material that responds to the environment moisture temperature air dryness sunlight exposure etc Most will not notice changes with normal care but it is possible to notice changes in wood color slight shrinkage or a healthy natural check crack that wood undergoes with exposure to weather conditions At Magnolia Rustic we embrace the uniqueness of wooden products and take great pride in providing an ecofriendly and natural wood product solution for home and commercial use A concepção moderna de linguagem 17 1 A concepção moderna de linguagem Como foi dito na introdução o tema e os problemas relacionados à linguagem estão presentes já nos primeiros textos reconhecidos pela historiografia da Filosofia A disciplina Filosofia da Linguagem in troduzida em meados do século XX nasce da percepção de que a análise da linguagem poderia dissolver vários problemas clássicos da Filosofia Porém essa percepção nasce de uma reconcepção da ideia mesma de linguagem contraposta às teorias modernas basea das na ideia de consciência e representação O ponto principal está em que para essas teorias a linguagem é exterior ao pensamento e constituise tão somente em um instrumento de comunicação que não afeta a produção das ideias A compreensão moderna da lingua gem está presente em vários autores com nuanças e especificidades tendo como cerne a tese de que a linguagem é um instrumento para a comunicação de pensamentos e ideias os quais são entendidos como internos à mente ou à consciência e inteiramente independentes da linguagem quanto à sua formação e existência O cerne dessa compreensão moderna é a teoria do juízo e do conhecimento que tem como núcleo o conceito de ideia concei to representação como algo mental como um estado da cons ciência As ideias formamse através da percepção e da própria atividade da mente E as palavras são significativas na medida em que expressam ideias não exercendo nenhum papel na sua forma ção De certo modo essa concepção é herdeira da tese de Platão segundo a qual as palavras são para falar e não para conhecer no 18 Filosofia da Linguagem I sentido de que o conhecimento das coisas se dá pelo conhecimen to das ideias e estas embora expressas na linguagem são adquiri das independentemente da linguagem Essa teoria está presente na assim chamada Lógica de Port Royal em que se diz Após termos concebido as coisas por meio de nossas idéias compa ramos essas idéias umas com as outras e verificando que umas con cordam entre si e outras não conectamolas ou separamolas e isso significa afirmar ou negar e dito de modo geral julgar Esse juízo chamase também frase enunciativa e é fácil verificar que esta tem que possuir duas partes uma em relação à qual se afirma ou se nega e que é chamada sujeito e a outra é afirmada ou negada e que é chamada de atributo ou predicado ARNAULD NICOLE La logique ou lart de penser t 2 cap 3 p 57 Nessa passagem fica claro o papel secundário e dependente da linguagem em relação à atividade de pensar e julgar Segundo essa teoria a linguagem é um instrumento de comu nicação e a significação das palavras é uma ideia ou representação mental A linguagem seria algo externo e sensível e o pensamento seria algo interno e nãosensível Além disso um outro pressu posto é de que as ideias existem antes do juízo e por sua vez as palavras são significativas antes de comporem uma frase Essas teses são afirmadas por John Locke As palavras são sinais sensíveis necessários para a comunicação Embo ra o homem tenha uma grande variedade de pensamentos dos quais tanto outros como ele mesmo devem receber proveito e prazer ain da que todos estejam no interior de si mesmos invisíveis e escondidos dos outros e nem possam se manifestar por si mesmos O bemestar e a vantagem da sociedade não sendo realizáveis sem comunicação de pensamentos foi necessário ao homem desvendar certos sinais sensí veis externos por meio dos quais estas idéias invisíveis das quais seus pensamentos são formados pudessem ser conhecidos dos outros LO CKE J Ensaio acerca do entendimento humano livro III cap II O signifi cado das palavras 1 p 223 Notese que a origem da linguagem é explicada por sua utilida de para as interrelações humanas A existência dos pensamentos A concepção moderna de linguagem 19 e das ideias independe da linguagem e a significação linguística depende da ideias e da atividade mental Essas ideias e atividades são internas e invisíveis escondidas no interior de cada um Segundo Locke a linguagem serve para expressar para os outros as ideias que temos na mente as quais se formaram independentemente das palavras e provieram a partir de nossas impressões sensíveis Elas se dão na sequência representada pelos números Porém não há como garantir que essas impressões consigam reproduzir para nós como realmente os objetos são exteriormente a nós apesar de essas impressões existirem em função dos objetos exteriores Por conseguinte As palavras na sua imediata significação são sinais sensíveis de suas idéias para quem as usa Palavras em seu significado primário e imedia to nada significam senão as idéias na mente de quem as usa por mais imperfeita e descuidadamente que estas idéias sejam apreendidas das coisas que elas supostamente representam Quando um homem fala com outro o faz para que possa ser entendido e o fim da fala implica que estes sons como marcas devem tornar conhecidas suas idéias ao ouvin te Estas palavras então são as marcas das idéias de quem fala ninguém pode aplicálas como marcas imediatamente a nenhuma outra coisa ex ceto às idéias que ele mesmo possui já que isto as tornaria sinais de suas próprias concepções e ao contrário aplicálas a outras idéias faria com que elas fossem e não fossem ao mesmo tempo sinais de suas idéias e deste modo não teriam de nenhum modo qualquer significado Sendo as palavras sinais voluntários não podem ser sinais voluntariamente im postos por ele acerca de coisas que não conhece Isto os tornaria sinais de nada sons sem significado Idem cap II 2 p 223 20 Filosofia da Linguagem I Na base da formação das ideias está a sensação A partir dos dados dos sentidos formamse ideias simples como as de quente frio azul pedra e a partir destas formamse as ideias complexas como a de pedra azul fria e também a partir da experiência com objetos particulares como a com pedras azuis verdes brancos por abstração e generalização alcançamse as ideias abstratas de corpo e de cor As ideias não são sensíveis não se dão na sensi bilidade Cada um tem as suas próprias ideias As palavras são as marcas sensíveis pelas quais nós significamos e comunicamos as ideias As ideias propriamente falando são percebidas pela mente tratase aí de uma autopercepção Por isso para Locke as ideias não dependem da linguagem A linguagem é apenas o meio exte rior pelo qual nós podemos comunicar para outrem as ideias que são imperceptíveis pelos sentidos Por conseguinte a relação de dependência é da linguagem em relação às ideias pois a formação das ideias a sua existência e a sua percepção são processos não linguísticos Apenas a expressão e a comunicação das ideias ou a sua exteriorização são dependentes de algum meio sensível e esse meio são os sinais os quais para serem significativos devem estar associados a alguma ideia Essa teoria fornece também uma teoria da compreensão linguísti ca Compreender uma expressão linguística é apreender a ideia ou o pensamento por ela codificados a menos que as palavras de uma pessoa estimulem as mesmas idéias em quem as escuta tornandoas significativas no discurso não fala inteligivelmente Idem cap II 8 p 225 Para Locke isso indica que há uma dupla referência su posta no uso da linguagem a saber a suposição de que as palavras sejam marcas de idéias na mente de outros homens também com as quais se comunicam Idem Cap II 4 p 224 e a suposição de que as palavras significam também a realidade das coisas A linguagem remete ao pensamento ideias e à realidade coisas No entanto adverte Locke essas são apenas suposições do uso da lin guagem pois não há garantia de que essas duas referências sejam efetivas Desse modo coerente com a sua teoria Locke termina por afirmar que as palavras são frequentemente usadas sem significado Essa observação é dirigida sobretudo aos filósofos e contém um pedido que se revelará fatal para muitas teorias dar a significação Ao falar com alguém consigo então transmitir a este alguém as minhas ideias sobre as coisas de que estou falando A concepção moderna de linguagem 21 às próprias palavras O fato é que o mais das vezes repetimos sons articulados conforme a gramática de uso corriqueiro e familiar aprendidos desde a infância sem pensar por conseguinte apenas emitindo ruídos sem significado A advertência de Locke é clara apesar de nem sempre tormarmos o cuidado para examinar ou esta belecer seus significados perfeitamente com frequência ocorre que os homens mesmo quando se aplicam acuradamente a fim de estabe lecer seus pensamentos fixamse mais em palavras do que em coisas Portanto alguns não apenas crianças mas também adultos falam várias palavras de maneira não diversa da dos papagaios apenas porque as aprenderam e foram acostumados a esses sons Idem cap II 7 p 225 A tese geral de Locke é de que o significado apropriado e imedia to das palavras são as ideias na mente de quem fala Não importa o uso que alguém faça das palavras seja qual for a consequência de qualquer pessoa usando palavras diversamente seja com respeito ao seu significado geral seja o sentido particular da pessoa para quem ele as destina é patente que seu significado ao empregálas está limitado por suas ideias e não pode constituir sinais de ne nhuma outra coisa Idem cap II 8 p 225 Essa tese estabelece de saída um problema como podemos saber que utilizamos as palavras para significar as mesmas ideias O surgimento da Filosofia da Linguagem isto é de uma disci plina que valoriza e pensa a linguagem por si mesma passa pelo questionamento de duas consequências e de uma pressuposição dessa teoria de Locke que concebe o significado linguístico como expressão de ideias na mente do falante A primeira consequência é o solipsismo e o ceticismo pois em última análise nós nunca poderemos saber se apreendemos realmente as ideias de outrem e ao contrário também nunca po demos estar seguros de que fomos compreendidos corretamente Cada mente particular tem as suas próprias ideias e apenas através dessas ideias algo pode ser objeto para ela A própria comunicação não é propriamente falando uma transmissão de ideias os signos emitidos por outra mente não trazem as suas ideias mas apenas provocam o surgimento das próprias ideias na mente A segun 22 Filosofia da Linguagem I da consequência é de que o aprendizado da linguagem tornase obscuro pois nas cenas iniciais a criança não pode compreender o que os outros dizem e portanto não pode saber quais palavras estão associadas com quais ideias O pressuposto mais problemá tico é a suposição de que a formação das ideias se dá por abstração e generalização ou seja de que as ideias gerais são alcançadas por isolamento do que é comum na percepção de muitos objetos parti culares Assim a ideia geral de cor seria alcançada pelo isolamento do que é comum a todos os objetos particulares coloridos O pro blema é que assim as ideias que não têm a ver com objetos como as lógicas e muitas das ideias matemáticas ficam sem explicação A partir dessa teoria da linguagem Locke pode explicar o sig nificado de uma enunciação predicativa do tipo Essa pedra está quente e O azul é uma cor Notese que a primeira frase é uma predicação de uma ideia simples de um objeto e que a segunda é a predicação de uma ideia abstrata em relação a uma ideia simples Para Locke em última instância na predicação sempre se estabe lece uma relação entre duas ideias No caso da primeira frase ape nas em aparência se fala de um objeto diretamente Na verdade a expressão Essa pedra indica um dado da sensibilidade uma ideia sensível ou percepção Por meio das palavras e frases nós fa lamos do mundo mas o fazemos porque as palavras e frases ex pressam ideias e essas ideias remetem à experiência com os objetos do mundo Nesse modelo os perceptos e estados da mente são os únicos vínculos e o meio pelo qual o mundo se dá para nós Sub jacente à concepção moderna está a tese aristotélica e agostiniana de que todas as palavras significam do mesmo modo como nomes indiretos de algo nomes de uma ideia que apreende um objeto 11 A teoria dos nomes de Stuart Mill Stuart Mill faz parte da história da formação da Filosofia da Lin guagem por ter defendido uma tese que questiona diretamente o paradigma da representação e da significação linguística exempli ficado por Locke ao mesmo tempo que colocava o estudo da lin guagem como central para a Lógica na sua obra Sistema de lógica dedutiva e indutiva 1843 A importância lógicofilosófica de sua posição foi expressa de modo claro e incontornável Já no primeiro A concepção moderna de linguagem 23 livro denominado Dos nomes e das proposições o primeiro capítu lo diz Da necessidade de começar por uma análise da linguagem e a primeira seção diz Teoria dos nomes parte necessária da lógi ca O qualificativo necessário para a análise da linguagem e para a teoria dos nomes tem de ser lido como dizendo sem isso não temos lógica nem filosofia da lógica Mill com efeito os nomes próprios estão vinculados aos ob jetos em si e não dependem da permanência de qualquer atributo do objeto Ibidem Noutras palavras os nomes não expressam diretamente ideias de objetos e não apanham nem apreendem os objetos por codificarem algum conceito deles mas antes mantêm com eles relações exteriores e contingentes relação esta denomi nada por Mill de denotação Essa relação é direta e nãomediada Todavia há outra relação entre palavras e objetos denominada conotação que consiste em reunir um plexo de notas caracte rísticas as quais selecionam ou não um objeto Considerese a palavra retângulo Muitos objetos são nomeados por essa pala vra isto é podem ser indicados por essa palavra campos de fute bol bandeira do Brasil livros figuras etc Por isso propriamente falando essa palavra não é um nome próprio de um ou de outro objeto mas um nome comum a muitos objetos E ela nomeia vários objetos na medida em que co nota os atributos angular reto quadrilateral e denota aqueles objetos que possuem esses atributos conjuntamente Vêse que os nomes comuns nomeiam de maneira indireta pela mediação das notas características No entanto a tese que será associada ao nome de Mill é a que afirma que os nomes são nomes das coisas mesmas e não de nos sos conceitos ou ideias das coisas e que os nomes próprios de notam os indivíduos a quem dão o nome mas não afirmam nem implicam qualquer atributo como pertencente a esses indivíduos Idem livro I cap II 5 p 101 Essa é uma ideia revolucionária no que se refere às relações entre linguagem consciência e mundo Vou continuar estudando e ver como são segundo Mill as relações entre a mente a linguagem e o mundo 24 Filosofia da Linguagem I A tese de Mill é de que os nomes próprios não têm conotação mas apenas denotação O que significa dizer que um nome pró prio não indica nenhum atributo do objeto nomeado Considere se para isso a diferença entre as palavras humano e Sócrates Ambas podem ser usadas para indicar um determinado objeto de discussão em frases do tipo Ele é humano Ele é Sócrates No entanto a palavra humano ao ser dita de algo implica que esse algo tem vários atributos codificados na definição de humano tais como animal mamífero vertebrado linguageiro capaz de matar gratuitamente etc Já a palavra Sócrates não implica se gundo Mill nenhum atributo Embora essa concepção seja um pouco estranha ela tem base numa percepção do uso dos nomes próprios pois a despeito de os nomes estarem associados a ideias qualquer palavra pode ser um nome mais ainda diferentes ob jetos e pessoas podem ser nomeados por uma mesma expres são sem que isso implique que eles tenham alguma característica em comum A partir da tese de Mill podese levantar as seguintes questões para a teoria moderna o que há de comum entre as pes soas que se chamam José e o que há de comum entre as pessoas denominadas vaidosas Como as palavras do tipo de e para e tanto significam elas são nomes próprios ou nomes comuns Notese que para Locke sempre há uma ideia associada a uma palavra significativa e que se dois objetos têm o mesmo nome em princípio a esse nome deveria estar associada a mesma ideia Não é apenas a correlação entre consciência linguagem e realida de que é modificada pela tese de Mill Essa concepção representa também uma modificação do conceito mesmo de julgar afirmar e negar Conforme a teoria padrão moderna julgar é conectar ou separar ideias como vimos antes Ainda em Kant encontramos essa concepção de juízo Um juízo Urtheil é uma representação da unidade da consciência de diversas representações ou a representa ção da relação entre elas na medida em que constituem um concei to KANT I Manual dos cursos de Lógica Geral 2003 p 201 No plano da linguagem um juízo é expresso normalmente por uma frase declarativa E uma frase declarativa simples compõese de uma ideiasujeito e de uma ideiapredicado Se for aceita a tese de Mill esse esquema deve ser modificado pois sua tese é de que A concepção moderna de linguagem 25 um nome concreto é um nome que está por uma coisa um nome abstrato é um nome que está por um atributo de uma coisa Idem livro I cap II 4 Logo numa frase do tipo Sócrates é humano não temos mais duas ideias sendo unidas mas antes uma ideia a de humanidade sendo atribuída a um objeto Sócrates Se Sócrates possui as determinações conotadas pela palavra humano então a afirmação é verdadeira Dito de modo diferente se Sócrates per tence à classe de indivíduos selecionada pela conotação de huma no a afirmação é verdadeira do contrário é falsa Para Mill a palavra Sócrates tem apenas uma denotação o objeto a que se refere A palavra Humano além de denotar os objetos que são humanos conota os atributos da humanidade animalidade racionalidade etc Contudo a despeito de valorizar a análise da linguagem Mill ainda mantém a concepção do caráter instrumental da linguagem A Lógica é uma parte da arte do pensar a linguagem de acordo com o testemunho de todos os filósofos é evidentemente um dos principais instrumentos úteis ao pensamento Um espírito que sem estar pre viamente instruído sobre a justificação e o justo emprego das diversas classes de palavras empreendesse o estudo dos métodos de filosofar seria como aquele que quisesse chegar a ser observador em astronomia 26 Filosofia da Linguagem I sem ter aprendido a acomodar a distância focal dos instrumentos de ótica para uma visão distinta Idem Introdução cap 1 A ideia revolucionária de Mill está em eliminar o mediador representacional mental e interno como fundamento da signi ficatividade dos nomes próprios Nesse caso a palavra o signo remete à coisa objeto diretamente No entanto a teoria de Mill é incompleta pois ela não explica como então uma palavra pode significar um objeto e sobretudo como é que diferentes falantes podem se fazer compreender usando uma mesma palavra A res posta para essas questões será fornecida pelas teorias do uso e do batismo teoria da referência direta e teoria causal da referência somente em meados do século XX 100 anos depois conferir cap 101 e 102 Outra ideia revolucionária de Mill é a de que as pala vras significam de modo diferente de que há diferentes modos de uma expressão linguística ser significativa Essa ideia será uma das mais fecundas no século XX Todavia a teoria de que os nomes têm apenas denotação refe rência e nenhuma conotação enfrenta várias dificuldades Uma de las é o uso de nomes próprios em textos de ficção Considerese o nome Sócrates Segundo a teoria de Mill esse nome é significativo por denotar um indivíduo seja ele qual for quando não se tem esse indivíduo dado diretamente na experiência A pergunta que surge então é a de que como sabemos a que indivíduo se está a referir quando utilizamos um nome Se a palavra Sócrates por tratarse de um nome próprio não depende de nenhum atributo associado a Sócrates para nomeálo de nenhuma conotação então como se pode saber de qual Sócrates alguém fala quando usa esse nome já que existe mais de uma pessoa chamada Sócrates no mundo Pa rece que a teoria da denotação de Mill pode funcionar bem somente com números já que só existe um 3 no mundo e nomes que no meiam apenas um indivíduo Além disso por contraste considere se o nome Diadorim no texto Grande Sertão Veredas Embora funcione como nome próprio e o texto seja compreensível não há propriamente falando um indivíduo que seja Diadorim Porém se a função semântica dos nomes próprios é tão somente nomear um indivíduo então os nomes tal como Sócrates e Diadorim em bora usados da mesma maneira funcionam de maneira diferente A concepção moderna de linguagem 27 12 A teoria da intencionalidade da consciência e a linguagem Entrementes outro autor havia proposto uma tese semântica que pode ser vista como o oposto exato da tese de Mill Com efei to Bernard Bolzano 17811848 havia defendido contra Kant que havia representações que não representavam nenhuma coisa e conceitos que não se aplicavam a nada embora tivessem uso legí timo na ciência Aplicada essa teoria às expressões linguísticas en tendidas como representações verbais isso implicaria que certas expressões seriam significativas sem que por isso denotassem algo Se a tese de Mill é de que uma expressão pode ser significati va sem a intermediação de ideias ou representações apenas por denotar ou referir diretamente um objeto a tese de Bolzano é de que uma expressão pode ser significativa apenas por compor uma frase significativa e expressar uma ideia ou representação que não se aplica ou representa nenhum objeto Uma reação às teses de Mill e de Bolzano retomando a teoria de uma intermediação entre linguagem e mundo foi desenvolvi da na escola de Franz Brentano 18381917 a partir da tese da intencionalidade da consciência Segundo essa tese todos os atos conscientes estão dirigidos para objetos A cada ato corresponde um conteúdo o qual tem como ingredientes uma representação e um representado A relação entre consciência mente represen tação estados psíquicos e as coisas é direta é da ordem da percepção e a linguagem tal como em Locke é exterior ao pensamento o qual in depende da atividade linguística para se formar e ocorrer Um estado consciente como um desejo é pensado nessa escola como um ato consciente que tem um conteúdo determinado Assim de sejar a laranja da vitrine é diferente de desejar ser feliz A diferença está no conteúdo do desejo pois os diferentes objetos no caso a laranja e a própria felicidade são pensados de certa maneira são visados de um modo que pode ser diferente em 28 Filosofia da Linguagem I diferentes indivíduos Logo devese diferenciar o objeto e o modo de representação do objeto Assim um desejo é um ato com um conteúdo e esse conteúdo tem como ingredientes uma represen tação e um representado Aplicada à linguagem a teoria da intencionalidade concebe as expressões linguísticas como sinais de representações resultantes de atos conscientes representações essas que têm um conteúdo que visa ou está direcionado para um objeto A seguinte passagem de Kasimir Twardowski ilustra bem essa concepção quando apli cada à linguagem 3 Nomes e representações Mesmo se falar e pensar não estejam relacionados um com o outro numa relação de paralelismo completo existe todavia uma analogia entre os fenômenos psíquicos e as formas da linguagem que os desig nam que pode servir para clarear as propriedades dominantes sobre o primeiro domínio ao se mencionar as particularidades que são próprias às manifestações do outro domínio A respeito da distinção em conside ração entre o conteúdo de representação e o objeto de representação é a consideração do nome Namen como o signo lingüístico de uma representação que propiciará a tarefa Uma questão seguidamente já levantada em relação aos nomes forne ce a prova de que sobre uma representação uma tríplice distinção deve ser feita Mill ao tratar dos nomes levantou a questão de se eles devem ser considerados como nomes das coisas Dinge ou de nossas repre sentações das coisas Por coisas ele compreende aqui o mesmo que nós designamoscomo objetos de representação mas com representa ções ele apenas pode significar os conteúdos de representações e não os atos de representação A resposta que Mill dá à questão citada refe rindose a Hobbes pressupõe de maneira nada ambígua uma distinção entre o conteúdo e o objeto de uma representação A palavra sol pen sa Mill é o nome do sol e não o nome de nossa representação do sol entretanto ele não quer negar que unicamente a representação e não a coisa Sache mesma é evocada pelo nome ou comunicada ao ouvinte A função Aufgabe do nome parece como sendo dupla o nome comu nica mitteilt ao ouvinte um conteúdo de representação e ao mesmo tempo nomeia nennt um objeto Mas era um tríplice momento e não dúplice que nós pensávamos dever distinguir em cada representação o ato o conteúdo e o objeto E se o nome oferece uma imagem exata Atente para como a noção de intencionalidade o estar dirigido para um objeto está presente para determinar o que é a linguagem nessa teoria A concepção moderna de linguagem 29 na linguagem das relações psíquicas que lhe correspondem então ele também deve indicar ainda um correlato para o ato de representação De fato este está presente e aos três momentos da representação ao ato ao conteúdo e ao objeto corresponde uma tríplice função que cada nome deve cumprir Compreendese por um nome tudo o que os lógicos antigos denomi naram um signo categoremático Porém signos categoremáticos são todos os meios de designação da linguagem que não são meramente cosignificantes como do pai em redor enquanto isso etc mas que também não formam por si mesmos a expressão completa de um juízo enunciado ou de um sentimento e de uma decisão da vontade etc agradecimentos questões ordens etc mas simplesmente a expres são de uma representação O fundador da ética um filho que ofendeu o pai são nomes Agora qual é a função que os nomes devem cumprir Claramente a de evocar no ouvinte um conteúdo de representação determinado Quem diz um nome pretende evocar no ouvinte o mesmo conteúdo psíquico que ele cumpre para ele mesmo se alguém diz sol lua estrelas pre tende que aqueles que o escutam pensem como ele no sol na lua nas estrelas Mas quando aquele que fala pretende evocar no ouvinte pela denominação de um nome um conteúdo psíquico determinado ele lhe revela ao mesmo tempo que encontra nele mesmo este conteúdo logo ele se representa aquilo mesmo que ele deseja que o ouvinte tam bém se represente Por isso o nome cumpre já duas funções Primeiro ele informa que aquele que emprega o nome se representa algo ele indica a presença de um ato psíquico naquele que fala Segundo ele evoca no ouvinte um conteúdo psíquico determinado Esse conteúdo é o que se compreende pela significação Bedeutung do nome Com isso as funções do nome não estão esgotadas Ele cumpre uma ter ceira a saber a função de denominar objetos Os nomes são nomes de coisas diz Mill e ele apela legitimamente para fundar isto ao fato de que nós nos servimos dos nomes para comunicar algo etwas sobre as coi sas Dinge etc Enquanto terceira função que um nome cumpre apare ce a denominação de objetos As três funções do nome são primeiro a informação dada de um ato de representação que ocorre naquele que fala Segundo a evocação de um conteúdo psíquico da significação do nome naquele a quem a fala se dirige Terceiro a denominação de um objeto que é representado pela representação significada pelo nome 30 Filosofia da Linguagem I A remissão às três funções que cada nome cumpre confirma então de uma maneira perfeita a distinção do conteudo em relação ao objeto de uma representação E graças a consideração do signo lingüístico para a representação nós temos um meio de distinguir um fator do outro que por causa da imperfeição da linguagem que designa como represen tado o conteúdo e também o objeto podem ser facilmente confun didos um com o outro ou bem considerados como sendo uma única coisa TWARDOWSKI K Sobre a doutrina do conteúdo e do objeto das representações Notese em primeiro lugar o primado das representações e dos estados de consciência na constituição da significação linguística Além disso notese também que a linguagem é um intermediador entre consciências as quais cada uma tem as suas próprias repre sentações na linha sugerida por Locke Em última instância cada consciência está isolada das outras consciências e também em rela ção ao mundo apenas pode considerar aquelas coisas das quais tem uma representação ou ideia Isso fica claro na seguinte passagem Uma outra prova em favor da diferença real e não simplesmente lógi ca entre conteúdo e objeto de representação nos é dada por aquilo que se denomina representações intersubstituíveis Wechselvorstellun gen Por estas se compreende conforme a definição habitual repre sentações que têm a mesma extensão mas um conteúdo diferente Por exemplo são representações desse tipo o lugar em que se situava a cidade romana Juvavum e o lugar de nascimento de Mozart Os dois nomes significam bedeuten algo diferente mas eles nomeiam nen nen o mesmo Agora como nós vimos visto que a significação de um nome coincide com o conteúdo da representação designada por ele e que aquilo que é nomeado pelo nome é o objeto da representação en tão as representações intersubstituíveis podem também ser definidas como representações nas quais o conteúdo difere mas pelas quais é o mesmo objeto que é representado Para isso porém a diferença entre conteúdo e objeto já está dada Pois pensase em algo inteiramente diferente com o lugar em que se situava a cidade romana Juvavum e com o lugar de nascimento de Mozart Essas duas representações reú nem partes constitutivas muito diferentes Na primeira aparecem como partes constitutivas a representação de romanos de um lugar antigo de uma cidade fortificada na segunda representação aparecem como partes constitutivas a representação de um compositor de uma relação que o mesmo mantém com sua cidade natal enquanto que a relação A concepção moderna de linguagem 31 com uma colônia antiga que se encontrava sobre este lugar e estava re presentada pela primeira representação não aparece A despeito dessas enormes diferenças nas partes constitutivas dos conteúdos de repre sentação nomeados os dois conteúdos se relacionam entretanto a um único e mesmo objeto As mesmas características que cabem ao lugar de nascimento de Mozart aplicamse também ao lugar que foi a locali zação da cidade romana Juvavum este é idêntico ao lugar de nascimen to de Mozart o objeto das representações é o mesmo o que distingue as duas representações é o seu conteúdo diferente Fácil é aplicar o que foi dito às representações cujo objeto não existe Um círculo no sentido rigorosamente geométrico não existe em ne nhum lugar Contudo podese representálo de maneiras muito dife rentes seja como linha de uma curva constante seja como formação que é expressa pela equação x a2 y b2 r2 ou ainda enquanto linha cujos pontos estão todos à mesma distância de um ponto deter minado Todas essas representações diferentes se referem ao mesmo O mesmo a que elas se referem é o seu objeto aquilo em que elas diferem entre si é o seu conteúdo 6 Fazse assim notar a diferença em relação a Bolzano pois a teoria da intencionalidade explica a propriedade dos atos cons cientes inclusive dos atos linguísticos como sempre direcionados para um objeto mas esse objeto nem sempre é existente Tratase de uma diferença na concepção de objeto e de representação O último parágrafo da passagem acima afirma que o círculo geomé trico não existe e ao mesmo tempo as suas diferentes represen tações inclusive as linguísticas têm um e o mesmo objeto Nesse caso Bolzano diria que se trata de uma representação sem objeto que o que temos aí é apenas uma representação a qual não precisa de um objeto correlato para ser útil e legítima Porém isso contra diz a teoria da intencionalidade Na verdade a teoria original de Brentano era justamente essa a da inexistência irrealidade do objeto intencional Isso se explica pela tese de que o objeto inten cional é primariamente um pensado ou representado sendo indi ferente se ele é real ou não por conseguinte tratase de um obje to imanente à consciência representacional Ou seja para toda representação sempre há um objeto intencional mesmo quando não possa haver um objeto real Esse primado da representação fica claro noutro representante dessa escola Alexius Meinong Note que a teoria da intencionalidade é tanto contrária à teoria da linguagem apresentada por S Mill quanto contrária à teoria de Bolzano 32 Filosofia da Linguagem I para quem toda expressão nominativa designativa ou referencial seja um nome próprio seja uma descrição definida sempre ex pressa uma representação e designa um objeto Toda vivência interior ao menos todas aquelas suficientemente ele mentares tem um tal objeto e na medida em que a vivência chega à expressão Ausdruck e logo às palavras e frases da linguagem a esta expressão corresponde normalmente um significado Bedeutung e este significado sempre é um objeto Por conseguinte também todo saber Wissen naturalmente tem a ver com os objetos Meinong Auto apresentação 1920 Nessa passagem fica claro o caráter secundário da linguagem no sentido de que a formação das representações e a constituição dos objetos de conhecimento independem e são anteriores ao pro cesso de expressão e comunicação Justamente essa relação entre linguagem objeto e pensamento é que será modificada pelas filo sofias linguisticamente orientadas que veremos a seguir O comum a essas novas teorias será justamente o fato de colocarem a lingua gem como condição e meio para a formação de representações e para a constituição de objetos Leituras recomendadas AGOSTINHO De magistro São Paulo Abril Cultural 1980 ARISTÓTELES Categorias In Órganon Tradução do grego textos adicionais e notas de Edson Bini Bauru Edipro 2005a Livros 1 a 4 ARISTÓTELES Da interpretação In Órganon Tradu ção do grego textos adicionais e notas de Edson Bini Bauru Edipro 2005b Livros 1 a 8 LOCKE J Ensaio acerca do entendimento humano São Paulo Abril Cultural 1980 PLATÃO Crátilo Belém Universidade Federal do Pará 1973 Notas e tradução de Carlos Alberto Nunes A concepção moderna de linguagem 33 Reflita sobre A relação entre as sensações os estados mentais as palavras as ideias e as coisas do mundo tendo como base os autores modernos como Descartes Locke Hume e Kant O problema de como duas pessoas podem ter certeza e ga rantir que estão falando e discutindo a mesma ideia e o mes mo objeto HERONS RESIN TABLES We created these unique handcrafted extralarge resin flowers embedded on real wood slabs as statement pieces for interior decoration and art collectors We highlight the beauty of the flowers with size color and design These resin tables combine artistry and craftsmanship reflecting a premium quality aesthetic Capítulo 2 Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental O objetivo deste capítulo é apresentar a tese de que a linguagem é constitutiva do pensa mento ideias e do mundo objetos e que por conseguinte a análise da linguagem e do modo de emprego das expressões linguísticas é um método apropriado para a resolução de problemas filosóficos Cast in Clear and Opal Resin and Divided by Walnut Hand Carved Decorative Dividers each slab is unique displaying elegant flower centerpieces These wooden slabs are cut into two vertical pieces and separated by walnut dividers forming an eyecatching resin table Cannot be reordered each piece is unique Made in Texas USA Dimensions 64 x 36 x 3 Designed Cast and Built using quality materials by Magnolia Rustic Texas 2021 A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 37 2 A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental As concepções apresentadas no capítulo anterior embora apre sentem teses e conceitos divergentes têm em comum um modo de tratamento da linguagem que a toma como um objeto entre outros objetos para a consideração filosófica e trata os problemas relati vos à linguagem como problemas externos à própria atividade do pensamento Não fora diferente o modo como Platão e Aristóteles configuraram o pensamento ocidental sobre linguagem durante séculos Esse modo objetificador sofreu mudanças radicais duran te o século XIX e meados do século XX Hum No Capítulo 1 as ideias e a lingua gem eram independentes agora elas são indissociáveis A essa modificação costumase hoje denominar de virada ou transformação linguística da Filosofia O cerne dessa transfor mação está no deslocamento do lugar e do meio em que se dá a Exemplos de texto que demonstram isso são APEL KO Transformação da Filosofia I II São Paulo Martins Fontes 2000 RORTY Richard The Linguistic Turn Essays in Philosophical Method A virada linguística ensaios no método filosófico Chicago University of Chicago Press 1967 TUGENDHAT Ernst Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem Ijuí Unijuí 2006 38 Filosofia da Linguagem I própria atividade do pensamento e por conseguinte na alteração da metodologia filosófica Para ilustrar o começo dessa transformação da posição da lin guagem na consideração filosófica eu vou apresentar muito abre viadamente as teses de três pensadores provenientes de escolas bem diferentes cujas teorias maduras estão na base das filosofias da linguagem atuais Com efeito Friedrich Daniel Schleiermacher Friedrich Wilhelm Nietzsche e Friedrich Gottlob Frege adotando o ponto de vista crítico de Hume e Kant mas se afastando desse ponto de vista em grande medida compreenderam que a linguagem não era apenas um objeto exterior ao pensar e à atividade filosófica mas que esta atividade era propriamente falando uma atividade reali zada na e pela linguagem Eles então afirmaram que os diferentes conceitos básicos da Filosofia como os de ser sujeito e consciência propriedade e relação valor e dever eram na verdade sempre deri vados das funções gramaticais e as diferenças conceituais e catego riais correlatas de diferenças no modo de emprego de expressões linguísticas A tese comum a esses pensadores era de que as filosofias formuladas até então eram epifenômenos da gramática comum da língua e giravam sempre em torno das estruturas gramaticais sujei toaçãoobjeto sujeitopredicado agenteinstrumentopaciente Noutras palavras eles sugeriram que a linguagem exercia um papel bem mais fundamental do que aquele atribuído pelas filosofias tra dicionais na constituição do pensamento e do mundo Nas palavras de Schleiermacher Tudo o que é pressuposto na hermenêutica é apenas linguagem e por sua vez o que alcançamos pela hermenêutica também é linguagem o lugar a que pertencem os outros pressupostos objetivos e subjetivos tem de ser encontrado através e a partir da linguagem SCHLEIERMACHER F Herme nêutica arte e técnica da interpretação Tradução de C R Braida Petrópolis Vozes 1999 De acordo com essa posição pensar e fa lar são uma única operação pois a linguagem é o modo de o pen samento se efetivar Todavia a tese de Schleiermacher chega ao pon to de tornar a linguagem constitutiva do pensamento no sentido de que nós não poderíamos pensar sem a linguagem Por conseguinte a linguagem assim não seria apenas um objeto do pensamento mas o meio e o modo pelo qual nós podemos pensar objetivamente Consulte o livrotexto de Filosofia da Ciência para ter uma boa compreensão do que é hermenêutica A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 39 Essa tese é também defendida por F Nietzsche que afirmava resumindo uma longa série de indicações sobre a linguagem ao longo de sua obra no livro Crepúsculos dos ídolos na medida em que o preconceito racional nos força a por a unidade a identidade a duração a substância a causa a coisidade o ser vemonos por assim dizer enredados no erro coagidos ao erro porque em virtude de um exame estrito estamos seguros de que o erro ali se encontra A linguagem segundo a sua origem inscrevese na época da mais rudi mentar forma de psicologia mergulhamos num feiticismo baço quando trazemos à consciência os pressupostos fundamentais da metafísica da linguagem isto é da razão A consciência vê por toda a parte actores e ação crê na vontade como causa em geral crê no Eu no eu como ser no eu como substância e projecta a fé na substância do eu em todas as coisas e assim cria o conceito coisa O ser é em toda parte pensado presumido como causa da concepção do Eu seguese como derivado o conceito de ser Na realidade nada até agora teve uma força de convicção mais ingênua do que o erro do ser tal como foi por exemplo formulado pelos eleatas tem a seu favor cada palavra cada frase que pronunciamos Mas também os adversários dos eleatas se sujeitavam à sedução do seu conceito de ser Demócrito entre outros quando des cobriu o átomo A razão na linguagem oh que velha mulher enga nadora Receio que não nos livremos de Deus porque ainda cremos na gramática Nietzsche F Crepúsculos dos ídolos p 32 Para Nietzsche a linguagem se interpõe entre o pensamento e o real configurando o modo como nós pensamos o pensado Longe de ser um mero objeto a ser considerado de fora a linguagem instaura um esquematismo que conforma previamente o modo como os ob jetos nos são dados e o modo como os pensamentos são articulados Pensamento Objetos Linguagem Nessa perspectiva a linguagem é o meio pelo qual nós constituímos os objetos Nas palavras de Frege no Diálogo com Pünjer sobre a existência falando do modo como a história da formação da linguagem não segue necessariamente a lógica do conceito essa tese é dita assim A linguagem valeuse de outros meios Para a construção de um con ceito sem conteúdo servese ela da cópula isto é a simples forma do 40 Filosofia da Linguagem I enunciado sem conteúdo Na sentença O céu é azul o enunciado é é azul mas o conteúdo real do enunciado está na palavra azul Se esta é eliminada então obtémse um enunciado sem conteúdo o O céu é restante Desse modo constróise um quaseconceito ser Seiendes sem conteúdo porque de extensão infinita Agora podese dizer Ho mem homem sendo Há homens é o mesmo que Alguns homens são ou Alguns entes são homens O conteúdo real do enunciado não está aqui na palavra ser mas na forma dos enunciados particulares A palavra ser é apenas um expediente da linguagem para poder tornar empregável a forma dos enunciados particulares Quando os filósofos falam do ser absoluto tratase aí propriamente de um endeusamento da cópula Dialog mit Pünjer über Existenz In FREGE G Schriften zur Logik und Sprachphilosophie hrsg von G Gabriel Hamburg Felix Mei Hamburg Felix Mei ner 1978 p 1617 Essas duas últimas passagens são críticas ambas denunciam uma ilusão Nelas os filósofos estão nos advertindo para um pe rigo qual seja o de confundirmos necessidades linguísticas de dicto com necessidades reais de re e nisso eles apenas repetem Aristóteles na sua crítica aos sofismas dos sofistas Nietzsche foi claro na sua posição crítica e no papel da linguagem A crença na gramática no sujeito e no objeto linguístico e nas palavras de atividade subjugou até agora os metafísicos esta crença eu ensino a abjurar KSA XI 35 35 p 526 Todavia para Nietzsche ainda a lingua gem era exterior ao pensamento constituindo apenas um empecilho a não ser ilusoriamente se pensa em palavras pois quem pensa em pa lavras não pensa as coisas os objetos não pensa objetivamente Ge nealogia da moral III 8 p 122 Nesse sentido pensar seria lutar contra as armadilhas da linguagem XI 3584 a luta contra a linguagem XI 25337 visto que estamos habituados onde as palavras nos faltam a não observar com rigor porque é penoso continuar a pensar com rigor e outras vezes concluise automaticamente que onde termina o reino das palavras aí termina o reino da existência Aurora 115 p 107 Por sua vez para Frege a análise da linguagem funcionava como um esforço para livrarse de falsas concepções induzidas pela linguagem Dizia Frege com efeito Vêse aqui como se é induzido facilmente pela linguagem a falsas concepções e qual valor deve ter para a Filosofia livrarse do domínio da linguagem Quando se tenta construir um siste ma de sinais com fundamentos e meios inteiramente diferentes como eu tentei com a construção de minha Conceitografia por assim dizer A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 41 batese com o nariz em falsas analogias da linguagem Diálogo com Pünjer p 22 Nesse sentido foi que Frege lutou para que a estrutura sujeitopredicadoobjeto não fosse sobreposta sobre a estrutura do realpensamento Um pensamento pode ser decomposto de múlti plos modos e por isso algumas vezes aparece uma coisa noutras outra como sujeito ou como predicado O pensamento mesmo não determi na o que deve ser considerado como sujeito A linguagem possui meios para fazer que apareça como sujeito algumas vezes uma parte do pensamento outras vezes outra KS s 173 E ainda Em vez de seguir cegamente a gramática o lógico deveria antes ver a sua tarefa como a de libertarnos dos grilhões da linguagem Porque embora seja verdade que o pensamento pelo menos nas suas formas mais elevadas só é possível por meio da linguagem temos de ter muito cuidado para não nos tornarmos dependentes da linguagem muitos dos erros que ocor rem no raciocínio têm a sua fonte nas imperfeições lógicas da lingua gem Logik NS p 155 ou ainda não se pode confiar na linguagem no que tange a problemas lógicos De fato não é a menor das tarefas do lógico indicar que ciladas a linguagem prepara ao pensador Investiga ções lógicas 2002 A negação p 53 Todavia isso que Frege e Nietzsche apontaram como sendo uma fonte de ilusão para a razão condensada no refrão comum a ambos livrarse das malhas da linguagem foi três ou quatro décadas depois posto como tese positiva e como condição incon tornável e hoje é tida como uma das pressuposições metódicas mais confiáveis para o exercício filosófico Essa proximidade po deria esconder uma diferença fundamental das concepções de Nietzsche e Frege em relação à linguagem em geral diferença essa que está na raiz das querelas e oposições que estão na origem da separação entre Filosofia hermenêutica e Filosofia analítica ou Fi losofia da análise lógicosemântica Diante do diagnóstico de que as linguagens históricas contêm concepções esquemas e conceitos que podem levar a erro e a enganos além de não serem unívocas e suas regras gramaticais não estarem fundadas nas leis lógicas Frege se propõe a construir uma nova linguagem na qual esses problemas seriam evitados Nietzsche ao contrário simples mente admite o problema mas entende que não há como corrigir isso pois de qualquer modo a nova linguagem estaria sujeita aos efeitos da história e da diversidade humana O problema pode ser posto de maneira neutra seria possível uma linguagem intei 42 Filosofia da Linguagem I ramente transparente sem ambiguidades com regras grama ticais logicamente corretas e inteiramente adequadas para ex pressar as coisas e os fatos A aposta de Frege é que sim embora as línguas históricas e linguagens existentes não o sejam seria pos sível construir Aufbauen uma linguagem artificial e estipulada inteiramente transparente quanto ao sentido de suas expressões De certo modo desde então os lógicos e filósofos analíticos têm perseguido esse ideal e em grande parte têm sido bemsucedidos A resposta de Nietzsche no que ele é acompanhado por todos os hermeneutas é que a historicidade a criatividade e a variedade dos interesses humanos implicam que sempre haverá um resto de equivocidade e de opacidade na linguagem o que exigiria um tra balho de interpretação um esforço de exegese até mesmo para as linguagens artificiais de modo que a linguagem restaria sempre intransparente em algum sentido Há algo de válido nessa tese de Nietzsche que se mostra justamente no fato de que a própria lin guagem artificial proposta por Frege hoje apareça como um enig ma obscuro de difícil compreensão e sobretudo no fato de que as linguagens artificiais sempre dependam de uma linguagem natural para serem introduzidas A contraposição pode ser formulada de modo claro em termos de relação entre duas linguagens Admitido o caráter intrínseco da linguisticidade na constituição da realidade e do pensamento e admitido o fato da multiplicidade das linguagens o problema é o da tradutibilidade de um fragmento de uma linguagem num frag mento de outra Como traduzir uma língua natural para uma linguagem artificial sem distorcer os sig nificados Sem levar para a linguagem artifi cial o problema das contingências da língua que se busca sanar Como veremos Frege admite e nisso é seguido pela maioria dos filósofos analíticos lógicos e matemáticos que é possível ex A Filosofia da Linguagem como disciplina filosófica fundamental 43 pressar o mesmo conteúdo com expressões linguísticas diferen tes A tradição hermenêutica na qual se abrigam Schleiermacher Nietzsche e Heidegger entendem que as diferenças linguísticas são incontornáveis e que elas determinam o conteúdo de tal modo que não é possível dizer a mesma coisa com palavras diferentes O cerne do debate está na separabilidade e na independência ou não entre pensamento mundo e linguagem Ainda assim há uma tese de fundo aceita pelas diferentes cor rentes a saber que toda e qualquer determinação e estruturação da realidade tenha como fonte a linguagem mais precisamente a gramática e que tanto a consciência do mundo quanto a cons ciência de si apenas se nos dão por meio e através das formas e esquematismos linguísticos O que está sendo assim dito é claro o real experimentado en frentado e vivido no curso da existência humana individual e co letiva é ele mesmo estruturado pela consciência que sempre já é perpassada e constituída pela linguagem A partir dessa compre ensão a linguagem foi posta como o indicador do lugare a análise da linguagem como o único modo de se filosofar Com relação ao conhecimento e ao mundo a descrição semântica das expres sões e a análise da linguagem seriam os únicos meios pelos quais se poderia considerálos e esclarecêlos Com efeito a partir da afirmação de Ludwig Wittgenstein de que Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo os limites da linguagem a linguagem que só ela eu entendo significam os li mites de meu mundo logo inferiuse que a pergunta mesma acer ca da essência de um objeto era respondida pela gramática Que espécie de objeto algo é é dito pela gramáticaWITGENSTEIN IF 373 Esse postulado metódico foi estendido para todas as ciências por Rudolf Carnap ao estabelecer o teorema segundo o qual a indicação da essência de um objeto ou o que é o mesmo a indicação do nominatum de um signo de objeto consiste na indi cação dos critérios de verdade para as sentenças nas quais o signo desse objeto pode ocorrer levando a corrente da filosofia analítica à tese de que ser é ser o valor de uma variável de uma linguagem WITTGENSTEIN L Tractatus LogicoPhilosophicus São Paulo EDUSP 1993 e WITTGENSTEIN L Investigações filosóficas São Paulo Victor Civita 1984 Os Pensadores CARNAP R The Logical Structure of the World Pseudoproblems in Philosophy Transl R A George Berkeley University of California Pr 1969 44 Filosofia da Linguagem I regimentada W O Quine Por seu lado a tradição da filosofia hermenêutica partindo da tese da universalidade da linguagem de Schleiermacher alcançou a tese de que é na palavra é na lingua gem que as coisas chegam a ser e são O ponto mais elevado des se movimento foi atingido por um filósofo que sabia muito bem o que estava dizendo e que pretendia fazer ressoar na sua palavra os ditos de Schleiermacher Nietzsche Wittegenstein e Heidegger ao enunciar com segurança e clareza que ser que pode ser com preendido é linguagem GADAMER HG Verdade e método I Petrópolis Vozes 1999 Leituras Recomendadas APEL KO Transformação da Filosofia I II São Paulo Martins Fontes 2000 TUGENDHAT Ernst Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem Ijuí Unijuí 2006 Reflita sobre A compreensão que se tem dos objetos e dos acontecimentos do mundo e sua relação com as formas pelas quais nós fala mos e dizemos o que há e o que acontece A relação entre o conteúdo de nossos julgamentos e pensa mentos por um lado e as palavras e formas linguísticas dis poníveis para expressar esses juízos por outro No livro A caminho da linguagem Heidegger arrematou comentando o verso Nenhuma coisa seja onde a palavra faltar de Stefan George O poder da palavra raia como a condição da coisa como coisa de tal modo que a saga do dizer num mostrar deixa o ente aparecer em seu é há dáse HEIDEGGER p 188 Capítulo 3 A concepção hermenêutica de linguagem Neste capítulo será apresentada a concepção hermenêutica da linguagem tendo como base o pensamento do fundador moderno dessa tradição F Schleiermacher O ponto principal dessa abordagem é a noção de que a signifi cação linguística é dependente da situação de proferimento e do contexto discursivo os quais entrelaçam o que é dito por um discurso com a vida do falante e a história do mundo The Earth is flat The flat earthers are right The globe diameter is 12742 km and the flat earth diameter is also 12742 km A concepção hermenêutica de linguagem 47 3 A concepção hermenêutica de linguagem As teorias filosóficas da linguagem abordadas até aqui estão orientadas para a resolução de problemas relativos à lógica e ao co nhecimento e em geral têm por objetivo resolver os problemas do conceito de representação adequada da realidade Todavia um dos problemas mais antigos em relação à linguagem é o da compreen são do discurso do outro e o da interpretação de textos Em torno dessa problemática surgiu a concepção hermenêutica que tem como foco a linguagem pensada prioritariamente como uma ex pressão do pensamento humano O pensador que inaugura essa forma de pensar é Friedrich D E Schleiermacher 17681834 cuja obra a partir de uma sequência ininterrupta de trabalhos e discus sões instaurouse como uma das mais fecundas correntes filosófi cas ainda hoje atuantes na qual se destacam as seguintes obras F D E Schleiermacher Hermenêutica e crítica 1838 18051829 J G Droysen Historik 1858 W Dilthey Einleitung in die Geisteswissenschaften 1860 Grundlegung der Wissenschaften vom Menschen ca 18701895 M Heidegger Ontologie Hermeneutik der Faktizität 1923 Ser e tempo 1926 A caminho da linguagem 1959 48 Filosofia da Linguagem I E Betti Teoria geral da interpretação 1955 H G Gadamer Verdade e método elementos de uma hermenêutica filosófica 1960 P Ricoeur O conflito das interpretações ensaios de hermenêutica 1969 Do texto à ação ensaios de hermenêutica II 1986 KO Apel A transformação da filosofia 1973 L Pareyson Os problemas da estética 1966 Verdade e interpretação 1971 G Vattimo O fim da modernidade 1985 As aventuras da diferença 1985 Manfred Frank O universal individual 1977 A pergunta pelo sujeito 1988 O estilo em filosofia 1990 Autoconsciência e autoconhecimento 1991 Ernildo J Stein A questão do método na filosofia 1973 Seminário sobre a verdade 1993 Diferença e metafísica 2000 Hans Ineichen Philosophische Hermeneutik 1991 Verstehen und Rationalität 1999 O ponto de partida das teorias hermenêuticas da linguagem é o problema da compreensãoincompreensão do que é dito ou signi ficado nas manifestações linguísticas sígnicas e simbólicas A tradição hermenêutica se constituiu sobretudo a partir da ex periência de interpretação de textos códigos discursos e símbolos cujos autores não estão mais presentes ou seja a experiência da com preensão de manifestações linguísticas fixadas em alguma forma de escrita e que agora exigem o esforço de interpretação para serem compreendidas A partir de Schleiermacher generalizase esse pro blema para toda e qualquer manifestação simbólica cujo sentido es teja em causa tomandose o modelo do diálogo e da conversa como o paradigma da ocorrência de linguagem no sentido preciso de que toda enunciação deveria ser compreendida como uma resposta ou como um pedido de resposta por parte de um autor dirigida a um A concepção hermenêutica de linguagem 49 interlocutor Todavia o próprio diálogo direto será compreendido como demandando um esforço de compreensão e de mediação para eliminar as intransparências e os malentendidos A tese principal é nas palavras de Gadamer de que a hermenêuti ca é Die Kunst sich etwas sagen zu lassen a arte de deixar que algo lhe seja dito A arte de ouvir de prestar e dar atenção ao outro o dei xar vir à fala o que o outro diz seja um texto ou um discurso Nesse sentido a hermenêutica é uma atividade prática cuja finalidade é o perceber corretamente o que é dito Wahrnehmen percepção do que se diz apreensão do que se dá na linguagem e pela linguagem Outro ponto principal da corrente hermenêutica é a histo ricidade da compreensão e da significação no sentido de que a linguagem sempre nos antecede pois participar da linguagem é sempre adentrar numa tradição que nos antecede que sempre já é uma herança o que indica que a língua que usamos vai além de nós está aí antes de nós e permanece aí depois do nosso fim Em termos semânticos os hermeneutas são contextualistas e tomam cada língua como uma singularidade e como um acontecimento mais amplo que os atos dos falantes individuais Daí o problema como compreender a compreensão do discurso em outra língua sem submeter o que está dito na outra língua às estruturas da pró pria língua Tratase do problema da apreensão de sentido do dis curso estranho e em última instância da compreensão de como se pode compreender o outro Notese contudo que a questão her menêutica não é sobre a estrutura e as condições objetivas e subje tivas da linguagem focalizadas na linguística e nas análises lógico semânticas e estruturalistas nem tanto o ato levado à realização pela fala privilegiado pelos pragmatistas O foco dos hermeneutas está naquilo que vem à fala que é dito e apreendido a coisa mes ma o assunto sobre o que e de que se diz o de que se fala que é abordado como um feito e um efeito de linguagem aquilo que faz com que uma palavra não seja uma palavra vazia Uma pa lavra que não é vazia é uma forma significativa que remete tanto ao pensamento e às intenções efetivas do falante quanto ao mundo e aos acontecimentos fazendo assim sentido para o interlocutor leitor ou ouvinte Daí que a filosofia hermenêutica da linguagem considere a linguagem como um meio universal onde mundo e HEIDEGGER M A caminho da linguagem Petrópolis Vozes 2003 GADAMER HG Verdade e método I II Petrópolis Vozes 1999 50 Filosofia da Linguagem I pensamento objetos e ideias fatos e instituições vêm a ser e são e fora desse meio nada seja para nós Tratase de uma tese profunda sobre a re lação entre linguagem e mundo Nas palavras de Gadamer o fenômeno da compreensão e da linguagem não pode ser objetificado pois está na base da constituição da objetividade Ambas não devem ser tomadas apenas como um fato que se pode investigar empiricamente Ambas jamais podem ser um simples objeto abrangem antes tudo o que de um modo ou de outro pode chegar a ser objeto GADA MER HG Verdade e método p 523 O que significa dizer que o mundo é mundo somente na medida em que se exprima em uma língua e também que a língua não tem existência verdadeira senão no fato de que o mundo nela se apresenta GADAMER HG Verdade e método p 523 Desse modo podese perceber a transposição para a linguagem da função atribuída pelos modernos à consciência e às representações A primariedade da linguagem é radicalizada a ponto de tudo o que pode ser dado para nós ser já linguístico Na linguagem é o próprio mundo que apresenta A experiência de mun do feita na linguagem é absoluta Ultrapassa todas as relatividades refe rentes ao poroser Seinsetzung porque abrange todo o ser em si sejam quais forem as relações relatividades em que se mostra A linguistici dade Sprachlichkeit em que acontece a nossa experiência de mundo precede a tudo quanto pode ser reconhecido e interpelado como ente A relação fundamental de linguagem e mundo não significa portanto que o mundo se torne objeto da linguagem Antes aquilo que é objeto do conhecimento e do enunciado já se encontra sempre contido no ho rizonte global da linguagem A linguisticidade da experiência humana de mundo como tal não visa a objetivação do mundo Idem p 581 Como se pode ver nessa passagem no cerne das discussões hermenêuticas está uma tese que se contrapõe tanto ao paradigma ideacional moderno Locke quanto ao modelo de análise lógico semântica Frege Segundo Gadamer não há como se objetivar a linguagem dizer o que ela é e como funciona de modo objetivo porque ela própria será empregada nessa definição o método e o objeto analisado coincidem A condição que possibilita o ter objetos é a própria condição de dizer o que é a linguagem a própria linguagem A concepção hermenêutica de linguagem 51 Embora compartilhem com esse último a noção de sentido os hermeneutas em geral recusam a separabilidade entre forma lin guística e sentido de tal modo que o postulado de Frege de que se pode dizer o mesmo com palavras diferentes é recusado A pressu posição dos hermeneutas é de que a diferença no plano do signo implica uma diferença no plano do sentido Além disso em con traste com as abordagens lógicas os hermeneutas privilegiam as linguagens vivas e históricas recusando as explicações baseadas em linguagens artificiais com base no argumento de que as lin guagens artificiais dependem sempre de uma linguagem natural para serem introduzidas e compreendidas 31 Schleiermacher e os fundamentos da concepção hermenêutica da linguagem A hermenêutica tem uma longa história como arte e técnica de interpretação de textos porém é recente enquanto corrente fi losófica propriamente dita Como toda tradição de pesquisa ela é o resultado de uma história de continuidades e deslocamentos conceituais A história da formação do pensamento filosófico oci dental costumase dizer é apenas um longo comentário da obra de Platão Todavia na verdade quem pressagiara essa história foi bem outro contra o qual Platão já lutava o pensador denominado Górgias de Leontinos Com efeito atribuise a Górgias o Retórico as seguintes teses primeira não há o ser nem o nãoser nem tãopouco o ser e o nãoser segunda ainda que algo pudes se existir não seria reconhecível nem concebível pelos homens e terceira E ainda que se pudesse conhecer não seria comunicá vel a outrem GÓRGIAS Testemunhos e fragmentos Tradução de Manuel Barbosa e Inês Ornellas e Castro Lisboa Colibri 1993 p 3135 Essas teses do sofista Górgias são renegadas pelos filósofos desde Platão E na tentativa de refutálas os filósofos produziram três grandes tipos de filosofias Filosofias que se fundamentam em uma Ontologia filosofias que se fundamentam em uma Teoria do conhecimento e por fim filosofias que se fundamentam em uma Teoria da linguagem Com efeito desde Platão buscase fundar a filosofia e o saber recorrendose a algum conceitochave que fun 52 Filosofia da Linguagem I daria todos os demais Primeiro o conceito de ser e suas varia ções depois a partir de Descartes o que se buscou foi legitimar um conceito de conhecimento e assim justificar a introdução do conceito de ser como objeto ultimamente deixouse o ser e o co nhecimento de lado e foise em busca de um conceito garantido de linguagem e de sentido como um porto seguro a partir do qual o ser e o conhecimento do mundo podem ser pensados Histo ricamente o que sucedeu foi uma concessão cada vez maior a Górgias Não por acaso após a virada linguística fora do âmbi to da linguagem a única maneira ainda possível de sobrevivência filosófica é precisamente o ceticismo que é a suprema e última concessão ao retórico A hermenêutica pertence já ao último tipo Ela quer falar da verdade e da racionalidade e para isso parte do fato da linguagem A tese fundamental da hermenêutica é tanto uma réplica como uma concessão à terceira tese de Górgias pois afirma que é pos sível a comunicação e o entendimento através da linguagem mas concede que essa comunicabilidade não é natural nem automática nem transparente ao contrário deve ser buscada metodicamente e sempre resta problemática A experiência das falhas na compre ensão é o ponto de partida da hermenêutica Como tal a herme nêutica não é ainda uma filosofia Pelo contrário durante séculos ela foi apenas uma técnica auxiliar pela qual era feita a interpre tação de textos considerados canônicos Foi somente quando se pôs a questão da possibilidade da compreensão e da existência de estruturas formais condicionantes da interpretação que propria mente a hermenêutica tornouse filosófica Isto só aconteceu no início do século XIX e somente foi plenamente desenvolvida nos últimos 100 anos Com Friedrich Schleiermacher 17681834 no início do sé culo XIX a hermenêutica recebe uma reformulação pela qual ela definitivamente entra para o âmbito da Filosofia Em seus projetos de hermenêutica colocase uma exigência significativa a exigência de se estabelecer uma hermenêutica geral compreendida como uma teoria geral da compreensão A hermenêutica geral deveria ser capaz de estabelecer os princípios gerais de toda e qualquer compreensão e interpretação de manifestações linguísticas Onde A concepção hermenêutica de linguagem 53 houvesse linguagem ali se aplicaria sempre a interpretação E tudo o que é objeto da compreensão é linguagem Essa afirmação en tretanto mostra todas as suas implicações quando se lhe acres centa esta outra tese de Schleiermacher A linguagem é o modo do pensamento se tornar efetivo Pois não há pensamento sem discurso Ninguém pode pensar sem palavras SCHLEIER MACHER F Hermenêutica e crítica Tradução de A Ruedell Ijuí Unijuí 2005 p 49 Ao postular a unidade de pensamento e lin guagem a tarefa da hermenêutica se torna universal e abarca a totalidade do que importa ao humano A hermenêutica então é uma análise da compreensão a partir da natureza da linguagem e das condições basilares da relação entre o falante e o ouvinte SCHLEIERMACHER F Hermenêutica arte e técnica da interpre tação p 64 Todavia Schleiermacher inverte o procedimeno de investigação Em vez de partir das diversas técnicas de interpretação ele coloca a questão formal o que significa compreender corretamente o discurso de um outro Somente após responder à questão geral da compreensão é que se poderia pensar em normas para interpreta ções particulares jurídicas teológicas estéticas literárias etc A hermenêutica de Schleiermacher parte do pressuposto geral de que a compreensão tem que ser buscada a cada momento isto é que a compreensão resulta de um esforço enquanto que a má compre ensão seria natural e espontânea Isso de tal modo que já haveria aí uma universalidade da tarefa hermenêutica a possibilidade da efetivação da compreensão sempre está por ser realizada enquanto o malentendido é geral Em outras palavras não há manifestações discursivas que não precisam de interpretação mas tão somente di ferentes graus de complexidade interpretativa Assim estabelecese uma primeira definição de hermenêutica em sentido genérico A hermenêutica é a arte de evitar a má compreensãoHermenêutica e crítica p 113 Evitar a má compreensão todas as tarefas estão contidas nesta expressão negativa Idem p 114 Notese que essa atitude consiste em justificar uma determinada proposição de sen tido interpretação para um dado evento expressão a partir do zero de pressuposição quanto à sua significatividade prévia A ati tude natural consiste justamente no contrário pois o tempo todo SCHLEIERMACHER F Hermenêutica arte e técnica da interpretação Tradução de C R Braida Petrópolis Vozes 1999 Hermenêutica e crítica p 91 Die Kunst die Rede eines andern richtig zu verstehen Essa tese de Schleiermacher sugere que a compreensão do discurso alheio nunca é transparente e óbvia 54 Filosofia da Linguagem I pressupomos a significatividade a compreensibilidade e a doação espontânea do sentido das expressões Essa definição tem como esteios os termos arte e má com preensão os quais solicitam um esclarecimento mais detalha do A expressão arte no original Kunst aponta para um aspecto que será determinante para o estabelecimento de uma identidade da corrente hermenêutica em contraste com outras correntes fi losóficas tais como o kantismo e o hegelianismo qual seja que na base da inteligibilidade e da compreensão subjaz algo indeter minado e não apreensível em sua totalidade A interpretação é arte Pois em geral é construção de um determinado finito a partir de um indeterminado infinito Idem p 99 Essa indeter minação infinita é atribuída aos dois polos constitutivos do senti do de uma manifestação discursiva a saber o polo linguístico e o polo psicológico dos quais resulta a dupla tarefa da hermenêutica compreender a linguagem e compreender o falante Para se atingir a completude na interpretação deverseia ter um conhecimento completo da linguagem utilizada e também um conhecimento completo do homem Idem p 100 A determinação do sentido de uma manifestação discursiva desse modo seria realizada através de dois procedimentos com plementares a saber por uma interpretação gramatical conjugada com uma interpretação psicológica Schleiermacher justifica assim essa duplicidade metódica Objetivando para nós a linguagem descobrimos que todos os atos de fala são apenas uma maneira como a linguagem vem à tona em sua natureza peculiar e que cada indivíduo é apenas um lugar onde se dá a linguagem como em escritores importantes voltamos nossa atenção para sua linguagem e vemos neles uma diversidade de estilo Da mes ma forma todo discurso somente pode ser compreendido a partir da vida total à qual está ligado Isso quer dizer que somente é reconhecível enquanto um momento de vida do falante condicionado por todos os seus momentos de vida e isso somente a partir da totalidade de suas circunstâncias Hermenêutica e crítica p 96 Uma determinada manifestação discursiva tem que ser considera da tanto como uma manifestação particular ou um uso individual de Então assim como a apreensão do conteúdo de uma obra de arte é inesgotável a interpretação de um discurso também seria uma tarefa infindável A concepção hermenêutica de linguagem 55 uma linguagem geral quanto como um ato ou momento da vida de seu autor toda compreensão tem dois momentos compreender a fala como um produto da linguagem e compreendela como um ato do pensador Idem p 95 A fórmula positiva que exprime a tarefa completa da hermenêutica foi assim resumida por Schleierma cher A arte pode desenvolver as suas regras apenas por meio de uma forma positiva e esta é reconstruir objetiva e subjetivamente histórica e divinatoriamente profética um dado discurso Idem p 114 Nessa fórmula subjetivo corresponde à interpretação psicoló gica que compreende a manifestação discursiva como um ato do pensamento do autor e objetivo corresponde à interpretação gra matical que compreende o discurso a partir da totalidade da lingua gem Por outro lado essas duas tarefas realizamse de dois modos complementares historicamente e divinatoriamente Divinatório significa a tentativa de transporse no outro de tentar apreender imediatamente o individual Idem p 202 Porém esse apreender o outro de modo imediato jamais pode ser o fundamento da her menêutica como sugerem as leituras feitas por Dilthey e Gadamer Para Schleiermacher o divinatório somente pode ser assegurado em sua certeza através da comparação histórica pois o divinatório alcança a sua certeza apenas através da comparação sem a qual ele sempre poderá ser fantasioso Idem p 203 Por isso infere se que para o hermeneuta a compreensão então é o resultado de um procedimento interpretativo A palavra exata para nomear esse procedimento seria construção de um sentido pressuposto Atente para a diferença entre o procedi mento intuitivodivinatório e o procedimento históricocomparativo na tarefa de compre ensão de um discurso linguístico Disso podemos inferir duas teses gerais sobre o sentido de um discurso qualquer na teoria da linguagem de Schleirma cher Primeiro Todo discurso somente pode ser apreendido sob a pressuposição do entendimento da totalidade da linguagem 56 Filosofia da Linguagem I Idem p 95 Segundo todo discurso somente pode ser compre endido através do conhecimento da inteira vida histórica a qual ele pertence ou através do conhecimento da história de seu começo Ibidem Esses dois momentos de determinação do sentido de uma expressão fundamentamse na dicotomia entre linguagem o momento da identidade e falante o momento da diferença Então num discurso entrecruzamse o universal e o individual Como nenhum dos dois pode ser alcançado completamente então deve se ir de um ao outro e para se fazer isso nenhuma regra se deixa estabelecer O que significa dizer que não se pode calcular dedu zir Por um lado a inteira linguagem não pode ser inferida de um discurso particular e por outro a individualidade desse discurso não pode ser deduzida da linguagem em geral Noutras palavras o juízo hermenêutico é sempre reflexionante nunca determinante isto é a regra geral é estabelecida a partir de cada individualidade a ser compreendida e por conseguinte não vale senão para essa mesma individualidade de tal modo que a última palavra nunca poderá ser a palavra final O aspecto mais significativo dessa teoria é a tese de que o signo linguístico não tem um sentido determinado fora da frase e por sua vez a frase mesma só adquire um sentido definido no contex to de um inteiro discurso Um discurso porém apenas pode ser compreendido quando referido à totalidade da linguagem léxico gramática em uso O discurso seria determinado e compreen dido apenas a partir da prática de uma comunidade linguística de tal modo que dada uma expressão individual seja ela formal ou material o seu sentido determinado tem que ser construído a partir do contexto e da situação de proferimento O que significa dizer que a determinação completa é infinita e somente pode ser realizada por aproximações e sempre resta incerta A unidade do sentido de uma palavra portanto é algo histórico ou dito mais enfaticamente a unidade do sentido não existe pro priamente mas apenas pode ser inferida dos usos particulares os quais são infinitos e históricos Em si mesma cada parte de um discurso é indeterminada tal como as ideias kantianas a unidade do sentido é apenas regulativa no sentido de que é apenas um pos tulado não um fato Tudo isso conduz ao estabelecimento da regra Hermenêutica e crítica p 124 Jeder Theil der Rede materieller sowol als formeller ist an sich unbestimmt Para o hermeneuta Schleirmacher o contexto de um discurso é fundamental para se compreender o que esse discurso quer dizer Pense em como essa ideia ligase aos procedimentos divinatório e histórico nessa teoria A concepção hermenêutica de linguagem 57 geral da determinação do sentido de uma expressão pelo contexto e por conseguinte que a unidade mínima de sentido para a her menêutica é a frase ou sentença Pois é nela e com ela que se pode alcançar um mínimo de determinação de sentido O sentido por tanto não está nos elementos mas na sua concatenação Essas considerações nos permitem esboçar uma teoria geral da significação linguística em Schleiermacher O objeto da interpre tação vai das partículas e palavras isoladas até o inteiro domínio da língua o qual por sua vez é parte do mundo histórico A determi nação de sentido de um elemento em última instância pressupõe o conhecimento da inteira história ou mundo do escritor e do leitor Não obstante a tarefa do intérprete tem como objetivoguia o estabe lecimento da unidade completa da palavra Mais ainda a primeira regra do intérprete exige que o sentido seja determinado a partir do domínio linguístico original comum ao escritor e a seus leitores his tóricos Essa regra longe de desconsiderar a condição histórica de todo intérprete como Gadamer a interpretou indica a historicidade da compreensão uma vez que o ato de compreender pode ser enten dido como a inversão do ato de falar Schleiermacher não obstante afirmar que é a má compreensão a experiência originária da herme nêutica coloca como fim regulador a compreensão e a identificação do sentido intentado pelo autor Esse objetivo porém somente se ria alcançado por aproximação e exigiria uma operação infindável Em suma a linguagem em sentido genérico é intransparente Toda via essa intransparência não impede o entendimento O fato da má compreensão adquire seu sentido unicamente na medida em que há compreensão pois de onde adquirimos a noção de má compreensão senão do fato de sabermos o que é compreender corretamente Com essa exposição sumária das posições hermenêuticas de Schleiermacher tento ilustrar os postulados fundamentais de uma filosofia hermeneuticamente orientada Nesse sentido o projeto de uma hermenêutica geral que Schleiermacher esboçou seria a base iniciadora de uma tradição de pensamento e de pesquisa Essa tradição poderia ser minimamente identificada citando al guns nomes de pensadores e suas obras tais como Schleiermacher Boeck Droysen Friedrich Nietzsche Dilthey Martin Heidegger Paul Ricoeur e HansGeorg Gadamer Entretanto filosoficamente 58 Filosofia da Linguagem I isso seria irrelevante por isso passo a destilar alguns princípios ge rais que determinariam o carácter hermenêutico de uma filosofia tendo como guia as ideias de Schleiermacher mas que podem ser reencontrados nas obras desses autores A tese básica afirma a irredutível linguisticidade do pensamen to O indivíduo é condicionado em seu pensamento através da lin guagem comum e pode apenas pensar os pensamentos que pos suem designação em sua linguagem Aqui encontramos o ponto de viragem de uma filosofia transcendental baseada na aprioricidade necessária de certos conceitos e formas nãolinguísticas em direção a uma filosofia hermeneuticamente orientada Ao deslocar o lugar da produção de racionalidade do pensamento para a linguagem Schleiermacher afastase do purismo da razão vigente de Platão a Kant Não obstante a linguagem passa a ocupar propriamente o lugar do transcendental kantiano cumprindo a mesma função Entretanto a linguagem não tem as mesmas propriedades do transcendental kantiano Primeiro porque a linguagem é variável segundo porque a linguagem é afetada pelo modo como cada in divíduo a usa pois a língua é tanto sistema sprachgesetz virtual como uso sprachgebrauch atual dos indivíduos De tal modo que o sentido de uma elocução ou texto jamais se deixa deduzir a partir do sistema da linguagem usada e do uso passado Assim como a elo cução ou texto é uma produção em que se envolvem um universal e um particular a interpretação é uma reprodução não passível de cálculo ou dedução Tratase de uma tarefa infinita de uma arte O sistema linguístico nunca se constitui como um interpretante final para o emprego atual Isso se infere do fato de que com as regras não se dá ainda o usoaplicação Enfim a linguagem é tanto o universal como também o particular Mais ainda somente pela união do uni versal ao particular é que se realiza a linguagem O geral envolvese no particular e viceversa Não se alcança um sem o outro Temos aqui o assim chamado círculo hermenêutico que não diz outra coisa senão isso que não há um universal separado do particular Com isso está dado o outro elemento central da hermenêutica o princípio da efetividade do tempo em relação ao pensamento e à racionalidade Tratase então de considerar filosoficamente as condições históricas do trabalho do pensamento Pela primei A concepção hermenêutica de linguagem 59 ra vez na história do pensamento ocidental a racionalidade será pensada a partir das condições temporais isto é sem referência ao eterno ao imutável ao divino Schleiermacher não obstante a sua filiação teórica à filosofia transcendental kantiana ao radicalizála historicizando a compreensão opera uma transcendentalização do histórico que implica uma historicização do transcenden tal e da razão SCHNÄDELBACH Philosophie in Deutschland 18311933 p 143 A inserção do pensamento na história mani festa outra pretensão qual seja a de retroceder o momento de constituição do sentido e da racionalidade ao âmbito da práxis Tratase da afirmação radical do carácter prático da razão huma na Não apenas que a racionalidade tem um aspecto prático mas antes que a prática é constitutiva da razão isto é que os fatores práticos constituem a base sobre a qual a razão se constrói Com isso é reforçado o sentido éticopolítico originário do pensamento o que permite ver toda formação discursiva e toda armação con ceitual como expressão de uma tomada de posição prática epocal que inclui tanto uma determinada atitude manipulatória para com o entorno físico como uma determinada atitude éticopolítica re lativa à organização e condução da vida em comum Linguisticidade temporalidade e pragmaticidade da razão im plicam uma revalorização da experiência visto que agora o aconte cer efetivo e histórico da razão a experiência constitui e modifica a própria razão Talvez a hermenêutica seja a única filosofia expe rimental par excellence Experiência aqui tem um sentido mais am plo que o conceito de experiência positivista no sentido de mero confronto com os dados do sentido A experiência é pensada tanto nos seus aspectos que apontam para a regularidade e a repetibili dade como para os aspectos que apontam para a singularidade e a novidade irrepetível Com isso se pretende apenhar a experiên cia fundadora do conhecimento cientifico e também a experiência estética histórica etc No conceito de experiência tornado obri gatório pelo pensamento cientificista apenas a repetibilidade e a generalização possível são consideradas Isso obviamente liquida a arte a poesia a vida enfim o humano Para não abdicar do hu mano a hermenêutica pretende recuperar e trazer para o conceito em sua teoria da compreensão justamente aqueles aspectos cons 60 Filosofia da Linguagem I titutivos da experiência a saber a acumulação e a inovação Para a hermenêutica assim fazer ou sofrer uma experiência não é apenas fazer ou sofrer algo de novo mas fazer e sofrer algo novo inédito A concepção de experiência é peculiar na hermenêutica Esses fatores como determinantes da racionalidade mesma apontam para o aspecto mais assustador da proposta hermenêuti ca a saber a radical e inelidível finitude do humano Cada pessoa existe somente desde o seu nascimento até sua morte ela apenas pode apreender e viver uma parcela limitada da experiência hu mana Desse modo a hermenêutica inserese na tradição crítica do pensamento filosófico pois quer mostrar os limites da compreen são humana ao fazer depender esta da incontornável condição hu mana O que é destruído por esse movimento crítico é a pretensão ao eterno ao incondicionado ao divino e portanto ao ahistórico presente nos conceitos maiores da filosofia ocidental No logos de Heráclito no ser de Parmênides nas ideias de Platão na essên cia de Aristóteles na razão dos estoicos no deus dos cristãos na razão dos modernos de Leibniz a Hegel sempre esteve presente um quê de transcendência de eterno e de divino ou seja um quê de nãohistórico de nãomundano de nãoterrestre A hermenêutica reduz o humano e sua razão à história hori zontal dos homídeos cortando e anulando a relação vertical para cima com o divino e para baixo com a animalidade e é nesse as pecto que a linguagem e os sistemas simbólicos históricos ganham preeminência pois é nesse meio que nós podemos ser e nos reco nhecer como aquilo mesmo que somos Essas considerações nos levam ao ponto central da hermenêu tica filosófica a saber a afirmação do carácter autopoiético da A concepção hermenêutica de linguagem 61 razão da cultura do conhecimento e por conseguinte do huma no Caracterizar algo como resultado de um processo autopoiéti co significa atribuir duas propriedades primeiro a sua existência não é referida a outro ser segundo as características atuais dessa entidade resultam de uma acumulação e transformação de carac terísticas anteriores por meio de atos dessa mesma entidade em confronto com o estranho Assim o humano é reconduzido à sua origem terrena no pleno sentido dessa palavra e além disso é reconduzido à sua história passada Todavia desse modo são ex cluídas as explicações teológicas e transcendentes do humano e simultaneamente as explicações naturalistas e biológicas O hu mano nem é um deus decaído nem um animal superior A razão humana assim não pode ser reduzida ao bioquímicofisiológico mas também não pode ser divinizada A partir dessa perspectiva se explicita novamente a força heurística do círculo hermenêuti co a razão não é algo desde sempre já feito fora da história terre na dos homens mas se fez em sua história autoreferida Falar de humano e de razão sem considerar a história de sua formação e sem a experiência histórica humana seria então sem sentido Esse passo contudo conduz a algo pouco aceitável para o nosso gosto positivista e lógicoanalítico tecnologicista Schleiermacher aceitando plenamente o romantismo coloca na base da razão e da linguagem a capacidade de produção livre ou ato originário criador A linguagem teria a sua origem nessa faculdade espontâ nea e livre nessa força poética de tal modo que se pode distinguir duas forças complementares na linguagem a força lógica e a força poética Assim Lógica e Poesia seriam a plena realização da capa cidade linguística Porém a força poética seria mais originária e simultaneamente a culminação da capacidade linguística Assim Filosofia e Poesia seriam as manifestações dessas duas forças originárias e estariam em relação de complementaridade tendo como fundamento a linguagem como o âmbito no qual se abre a dimensão de sentido em que aquelas operam A hermenêutica assim quer se constituir como o modo racio nal de se filosofar sem renegar a finitude da compreensão humana 62 Filosofia da Linguagem I Essa é a sua pretensão positiva quer dizer a hermenêutica mesma como saber ou filosofia desde sempre já abdicou da eternidade e da justificação absoluta E por outro lado a hermenêutica preten de mostrar que o humano não obstante a sua origem terrena não pode ser reduzido à mera atividade bioquímicofísica justamente no sentido de que o humano apenas pode ser explicado por uma recorrência à dimensão de sentido que se explicita na prática lin guística O ponto principal a ser retido dessa lição sobre a concep ção hermenêutica é a ideia de que a significação precede os nossos atos conscientes e está ancorada nas relações mais primárias de constituição do mundo objetivo e subjetivo Não é o significado linguístico que é explicado em termos de verdade conhecimento e realidade mas ao contrário são esses conceitos que são produtos da instauração da dizibilidade por meio de uma comunidade de linguagemfala Leituras recomendadas GADAMER HG Verdade e método I Petrópolis Vozes 2005 SCHLEIERMACHER F Hermenêutica arte e técnica da inter pretação Tradução de C R Braida Petrópolis Vozes 1999 Reflita sobre O papel da linguagem na formação da consciência e nas inte rações humanas que perfazem as instituições O problema da tradução entre línguas diferentes e a compre ensibilidade de textos pertencentes a outras culturas e épocas Capítulo 4 A análise lógico semântica de linguagem e as teorias de G Frege O objetivo deste capítulo é apresentar a concepção da análise lógicosemântica da linguagem Para isso faremos uma exposi ção das principais teorias de G Frege bem como dos fundamentos do procedimento de análise lógicosemântica The globe is round because Earth is a sphere A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 65 4 A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege A segunda concepção de linguagem que está na origem da Fi losofia da Linguagem foi inaugurada por Friedrich L G Frege e podese dizer com segurança é a que mais determinou a discussão filosófica nos últimos tempos A partir dos trabalhos revolucioná rios de Frege em Lógica e Filosofia da Matemática uma série inin terrupta de discussão e teorias se desenvolveu em grande parte sob a rubrica Filosofia Analítica da Linguagem com a contribui ção decisiva dos trabalhos de Bertrand Russell e Ludwig Wittgens tein nas primeiras décadas do século XX Algumas das principais obras dessa corrente são F G Frege Os fundamentos da aritmética 1884 As leis básicas da aritmética 1893 Lógica e filosofia da linguagem 18901900 Investigações lógicas 191821 B Russell Sobre a denotação 1905 Logic and Knowledge 1956 L Wittgenstein Tractatus logicophilosophicus 1921 Investigações filosóficas 1953 R Carnap Logical Syntax of Language 1935 Meaning and Necessity 1947 A Tarski A concepção semântica da verdade e os fundamentos da semântica 1936 66 Filosofia da Linguagem I P Strawson Sobre o referir Individuals 1959 W Quine De um ponto de vista lógico 1953 Word and Object 1960 Filosofia da lógica 1970 Austin Quando dizer é fazer 1962 P Grice Studies in the Way of Words 1991 J Searle Atos de fala 1969 Expressão e significado 1979 S Kripke Naming and Necessity 1972 M Dummett Frege Philosophy of Language 1973 The Seas of Language 1990 D Davidson Inquires into Truth and Interpretation 1984 Truth Language History 2005 R Brandom Making it explicit 1994 Articulating Reasons 2000 P Horwich Truth 1998 Meaning 1998 41 As teses gerais sobre a linguagem A teoria da linguagem de Frege tem como cerne uma recusa bem dirigida da tese moderna sobre a significação linguística mas também pode ser vista como uma recusa da solução de Mill em bora compartilhe com este vários pontos Frege tanto irá negar o papel central das ideias ou representações mentais quanto o papel das coisas ou objetos na constituição da significação linguística A estratégia teórica central de Frege consiste em distinguir dife rentes ingredientes da significação de uma expressão em seu empre go ou uso para se fazer uma enunciação que possa entrar em relação de pressuposição e consequência com outras enunciações Inver tendo completamente a ordem de prioridade Frege irá tomar como unidade semântica a frase e não as palavras que a compõem Além disso ele se posicionará ao lado de Bolzano na defesa da tese de que o pensamento expresso por certas sentenças indepen A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 67 de dos estados mentais do falante e pode ser apreendido como o mesmo por várias consciências e também ao lado de Mill quando este diz que usamos expressões linguísticas para falar das coisas mesmas e não dos nossos estados subjetivos A intuição de Frege era de que uma mesma expressão pode ser usada por diferentes falantes ou seja pode ser usada em diferen tes ocasiões e diferentes enunciações com representações men tais diferentes para indicar o mesmo objeto e com representações mentais idênticas para indicar objetos diferentes em cada caso e assim mesmo ser significativa e compreensível Isso indica que talvez haja outro fator na composição do conteúdo semântico das expressões Frege reservou a palavra alemã Sinn sentido para designar o ingrediente objetivo da significação objetivo na me dida em que esse elemento seria o responsável pela possibilidade de dois ou mais falantes compreenderem que estão falando da mesma coisa no mesmo sentido e também o responsável pela relação objetiva entre os sinais e aquilo de que se fala por meio deles O sentido faria a ponte entre as visadas subjetivas instau rando uma dimensão intersubjetiva em que diferentes pontos de vistas poderiam ser comensurados e avaliados Em termos prá ticos o sentido é o que habilitaria diferentes pessoas primeira segunda terceira a constituíremse em um nós enfim numa comunidade linguística Decisivo é a distinção entre o sinal e suas propriedades o sen tido e suas propriedades e o significado e suas propriedades sobretudo no que se refere às sentenças Uma coisa é o que uma sentença diz outro é o seu significado ou valor Embora essa seja uma distinção corrente a sua fixação conceitual foi muito demo rada Frege a estabelece como um princípio metodológico Notese que essa distinção é essencial para a prática da discussão objetiva Primeiro uma coisa é a frase ou sinal outra coisa o que se diz com o seu proferimento outra ainda o seu valor de verdade Ora essa separação está subjacente às práticas de discussão racional poder dizer o mesmo com uma frase diferente poder compreender o sentido de uma frase e discordar do valor de verdade que o falante atribui a ela atribuir um sentido diferente a uma expressão e ainda assim se referir ao mesmo significado todas essas práticas pressu 68 Filosofia da Linguagem I põem a separabilidade entre o sinal o seu sentido e o valor ou sig nificado Frege transforma isso em um postulado metodológico Ao que parece atualmente tendese a exagerar o alcance do princípio de que diferentes expressões linguísticas nunca são totalmente equi valentes e de que uma palavra nunca pode traduzirse exatamente em outra língua Talvez se poderia ir mais além todavia e afirmar que nem sequer a mesma palavra é concebida de maneira idêntica por todos os que falam a mesma língua Não vou investigar o que há de verdade nes tas afirmações mas apenas quero dizer que contudo não poucas vezes há algo de comum nas diferentes expressões isto é o que eu chamo o sentido e para os enunciados em particular o pensamento com outras palavras não se deve desconhecer que se pode expressar de maneira diferente o mesmo sentido o mesmo pensamento com o que pois a diferença não é do sentido mas apenas da concepção a ilustração a matização do sentido e esta não entra em consideração para a lógica É possível que um enunciado não forneça nem mais nem menos infor mação que outro e apesar de toda a diversidade das línguas a huma nidade tem um tesouro comum de pensamentos Se se quisesse proibir qualquer transformação da expressão sob o pretexto de que assim se modificaria também o conteúdo a lógica ficaria totalmente paralizada pois a sua tarefa é certamente insolúvel se não se faz o esforço para redescobrir o pensamento em suas diversas roupagens Também qual quer definição deveria ser rechachada como falsa FREGE F G Sobre o conceito e o objeto em Lógica e filosofia da linguagem Nota 7 p 93 Esse ponto é retomado na sua obra principal As leis básicas da aritmética agora justamente apontando para a necessidade de ha ver algo comum distinto dos estados mentais e das representações subjetivas particulares a cada falante para poder haver discordân cia entre os falantes O número um por exemplo não é facilmente considerado como efeti vo wirklich se não se é seguidor de J S Mill Por outra parte é impos sível atribuir a cada homem o seu próprio um pois primeiro haveria que se investigar até que ponto coincidem as propriedades destes uns E se alguém dissesse um vezes um é um e outro dissesse um vezes um é dois apenas se poderia constatar a diferença e dizer o teu um tem esta propriedade o meu esta outra Não teria nenhum sentido uma discussão acerca de quem tem razão nem também a tentativa de ensinar pois para isto faltaria uma comunidade de objeto Eviden temente isto é totalmente contrário ao sentido da palavra um e ao A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 69 sentido do enunciado um vezes um é um Dado que o um enquanto que é o mesmo para todos apresentase a todos do mesmo modo é tão impossível investigálo por meio da observação psicológica quanto a Lua Se bem que existem representações do um nas mentes indivi duais estas devem ser distinguidas do um do mesmo modo que as representações da Lua devem ser distinguidas da Lua mesma FREGE F G Prólogo As leis básicas da aritmética Grundgesetze der Arithmetik Begriffsschriftlich abgeleitet Zweite unveränderte Auflage Hildesheim Georg Olms 1962 p vxxvi A pressuposição é de que se pode distinguir os ingredientes subjetivos as representações e os estados psicológicos particula res a um falante dos ingredientes objetivos da significação aqueles ingredientes que podem ser compartilhados e comunicados para vários falantes Além disso Frege distinguia os ingredientes da significação ou conteúdo semântico em relação ao modo como a expressão é usada ou força da enunciação asserir pedir perguntar ordenar e exclamar são exemplos de modos de emprego de uma expres são Assim em português coloquial se pode empregar a expres são Fogo para realizar diferentes atos linguísticos Fogo para alertar sobre um incêndio Fogo para perguntar se alguém quer que se lhe acenda o cigarro Fogo para ordenar um batalhão a atirar Fogo para responder afirmativamente que se trata de fogo mesmo Embora o conteúdo dessa expressão do ponto de vista da representação subjetiva e objetiva possa ser o mesmo em todos esses usos as condições de verdade e de veracidade são muito di ferentes Frege mesmo não explorou esses aspectos os quais são analisados nas teorias pragmáticas da linguagem Frege é considerado o inaugurador da Filosofia da Linguagem Isso se deve a duas teses fundamentais presentes na sua obra mais conhecida Os fundamentos da aritmética de 1884 A primeira é a identificação entre pensamento e sentido de uma frase A segun da é a ideia de que certos objetos apenas podem se dar por meio da linguagem Entretanto essas teses ainda hoje são discutíveis e foram expostas em meio à introdução de vários conceitos e dis tinções com o objetivo de fornecer uma fundamentação rigorosa 70 Filosofia da Linguagem I para as verdades matemáticas Com relação à significação de uma frase Frege distinguiu vários aspectos o significado ou aquilo que é referido ou aquilo de que se fala por meio da frase a força ou o modo com que a frase é usada o tom ou a tonalidade emocional com que a frase é proferida o contexto linguístico e a situação de proferimento a representação subjetiva ou as ideias que um falante parti cular associa à frase o sentido ou modo como se fala ou pensa aquilo de que se fala Considerese para exemplificar a frase Florianópolis fica numa ilha Essa frase pode significar muitas coisas a depender do contexto e da situação em que é proferida Ela pode ser usada para informar a localização geográfica da capital do estado de Santa Ca tariana ou para dizer para alguém que ele deverá atravessar uma ponte ou pegar um barco para chegar até Florianópolis etc Essa frase pode ser usada com a força assertórica de uma afirmação ou então de uma descoberta ou ainda de pergunta Além disso uma pessoa pode dizer essa frase com surpresa com medo com satis fação com entusiasmo ou com tristeza Por sua vez há diferentes imagens mentais de Florianópolis e de ilha e diferentes pessoas podem associar diferentes ideias ou representações subjetivas a essa frase Todos esses aspectos são variáveis e podem se alterar de um uso para outro Frege entretanto defendeu que em qual quer dos casos um sentido objetivo deve ser expresso por essa frase nos seus usos efetivos Esse elemento da significação seria o responsável pela compreensão intersubjetiva e aquilo que permi tirá a diferentes falantes concordarem ou discordarem acerca do que foi dito Notese que para Frege uma mesma expressão lin guística pode ser usada em diferentes sentidos e por conseguinte ter diferentes significados A sua alegação é de que se a expressão é compreensível então deve poder ser explicitado em qual sentido ela foi usada em determinada ocasião Distanciandose de Kant Frege determina os conceitos de sub jetivo objetivo e efetivo apenas como aspectos do sentido de uma A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 71 expressão numa frase semanticamente determinada isto é com sentido e com valor de verdade e não mais como provindos da interrelação das faculdades mentais Além disso ele operou uma desobstrução da objetividade em relação ao espaçotemporal isto é em relação às formas da sensibilidade admitindo objetos nãosen síveis nãoespaciais e nãotemporais Isso significa que a noção de objeto e de objetividade é diferenciada e tornada indepen dente em relação à noção de dados da sensibilidade Desse modo Frege abandona o empirismo e o idealismo por meio de um único gesto a consideração da linguagem como constitutiva da objetiva ção Nesse ponto Frege segue Bolzano ao admitir que a objetivida de de uma proposição isto é o ser sobre algo determinado e o ter um significado e um valor de verdade determinados independe dos estados subjetivos do falante e da remissão à sensibilidade A crítica ao empirismo e ao idealismo é feita com um único lance a significatividade das expressões de uma linguagem nem é mera remissão às sensações nem é mera codificação de ideias e representações mentais A significatividade das expressões lin guísticas é pensada em vez disso como relacional e na descrição do conteúdo ou significação de uma expressão procurase isolar os ingredientes objetivos passíveis de compartilhamento e de ajui zamento intersubjetivo A teoria padrão contestada por essa cor rente provém de Aristóteles e sobretudo de Locke para quem as palavras significam por codificarem ideias e as ideias são pensa das como estados mentais ou representações de uma consciência Além disso está em questão a teoria do juízo de Kant segundo a qual a forma do juízo é pensada como uma concatenação de re presentações impressões conceitos e ideias e os juízos básicos como constituídos por afirmações ou negações da inclusão de uma representação o predicado em outra o sujeito A primeira ruptura com esse modelo moderno foi realizada por S Mill ao defender que algumas palavras ao menos não significam por expressarem ideias ou representações mas antes por significa rem as coisas ou objetos em si mesmos A sua tese era de que os no mes nomeiam as coisas mesmas e não as representações ou ideias Ainda assim a linguagem era vista como um instrumento exterior ao pensamento A posição de Frege era diferente Ele revolucionou Conferir os Capítulos 1 2 e 3 do livro Ontologia II 72 Filosofia da Linguagem I a lógica mas também transformou a tarefa o método e o objeto da Filosofia O objetivo da análise filosófica seria a análise da estrutura do pensamento Analyse der Struktur des Denkens mas exigia a distinção metódica do pensamento em relação à atividade psicoló gica do pensar Para isso ele propunha como um novo método de análise do pensamento não mais a introspecção moderna mas a análise da linguagem Analyse der Sprache na medida em que a estruturação de um determinado conteúdo seria obra da linguagem Também os conceitos são agora derivados da atividade linguística Sem sinais nós dificilmente nos elevaríamos ao pensamento conceitual Atribuindo o mesmo sinal a coisas semelhantes designamos propria mente falando não a coisa singular mas o que é comum o conceito E apenas obtemos este conceito ao designálo pois sendo em si mesmo nãointuitivo carece de um representante intuitivo para que possa apa recer para nós Desse modo o sensível abrenos o mundo do nãosensí vel Unsinnlichen Sobre a justificação científica de uma conceitografia 1882 São Paulo Abril Cultural 1980 p 18990 O pensamento atividade essencialmente conceitual por conse guinte não é mais concebido como um estado ou representação mental mas antes como o sentido de uma sentença Der Gedanke ist der Sinn des Satzes O conceito de sentido por sua vez contra põese aos conceitos de conceito Begriff e objeto Gegenstand os quais constituem os elementos objetivos do conteúdo semânti co e ao conceito de representação Vorstellung idea que indica o elemento subjetivo ou mental da significação Objeto conceito e representação são os fatores reais concretos e abstratos enquanto o sentido é o modo de darse Gegebenheitsweise de desses fatores Para um mesmo objeto conceito verdade ou falsidade Frege defen deu que haveria inumeráveis sentidos ou modos de apresentação Todavia essas noções todas são introduzidas para a explicita ção do que é dito pela enunciação de uma frase com pretensões de verdade de modo que o âmbito em que tais fatores devem ser avaliados e no qual opera a Filosofia é o âmbito aberto pelo dis curso onde enunciações se contrapõem são avaliadas e julgadas no espaço público onde a regra é a explicitação completa Não confunda então o conceito de cavalo com o cavalo muito menos com a palavra cavalo A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 73 O método da análise lógicosemântica significa tomar a ideia de linguagem e de papéis e funções semânticas como forma de ex plicitar e introduzir os conceitos de pensamento conhecimento mundo objeto fato ficção etc ou seja os conceitos com os quais o filósofo explica critica ou refuta são agora conceitos lógicos ou semânticos isto é ou conceitos formais estruturais sem conteú do ou conceitos que explicitam as funções semânticas das expres sões usadas para se dizer um determinado conteúdo O ponto principal do método é o mapeamento dos aspectos in ferenciais e de implicação verofuncionais das enunciações e dos discursos O conteúdo semântico de uma expressão X é fixado ao se estabelecerem as relações de implicação entre as frases em que ela ocorre tomadas como verdades e outras frases O ponto de partida são os conceitos de atribuição de sentido de verdade e falsidade a enunciações A introdução e a definição dos conceitos de pensamento mundo objeto propriedade relação existência ser conhecimento realidade irrealidade ficção etc é agora ape nas permitidas a partir da análise lógicosemântica da prática de tomar como significativos e de atribuição de valores de verdade para proposições isto é para explanação das relações de implica ção e consequência entre proposições Entretanto um ponto central dessa metodologia é que a lin guagem natural pela sua livre produtividade e arbitrariedade não fornece nenhuma garantia para a correção do pensamento e dos raciocínios O argumento de Frege é de que as palavras significa tivas e as estruturas gramaticalmente corretas podem não ter um único sentido e nem uma referência objetiva ou seja de que a lin guagem natural permite a construção de frases gramaticalmente corretas sem sentido ou com sentido mas impossíveis de serem avaliadas ou compreendidas seja porque não há como apreender os seus vínculos com o que está dado no mundo seja porque o seu sentido é relativo ao falante particular que a pronunciou Então falta um significado intersubjetivo a essa frase Todavia ao mesmo tempo partese da ideia de que não há outro meio ou âmbito de evidências e de doações que não seja o linguístico Nesse sentido Frege aceita a tese de Occam Você dirá eu não quero falar das palavras mas apenas das coisas eu responderei que embora você 74 Filosofia da Linguagem I só queira falar das coisas isso só será possível com a mediação das palavras ou de outros signos DOCKHAM Guillaume Escritos sobre o primeiro livro de sentenças 1973 Além disso Frege aceita e tira todas as consequências da tese geral da arbitrariedade do signo linguístico O vocabulário é decorrente do uso gebrauchen tanto quanto a associação com esse ou aquele sentido com cada item do léxico As regras gramaticais também são decorrentes do uso de modo que nem o vocabulário nem as regras são fixos mas todo usuário pode modificálos em certa medida ou seja nem as regras de uso nem o léxico fixam a linguagem O que Frege quer dizer é que não há a priori gramatical mas apenas o inte resse em fazerse entender Por isso Frege pode dizer que A linguagem mostrase deficiente quando se trata de prevenir os erros de pensamento 1 ela já não satisfaz a primeira exigência a de univocidade A mesma palavra serve para designar um conceito e um objeto individual que cai sob ele De modo geral não se imprime nenhuma diferença entre conceitos e indivíduos 2 A linguagem não é regida por leis lógicas de modo que a obediência à gramática já ga rantisse a correção formal do curso do pensamento 3 Não existe na linguagem um conjunto rigorosamente delimitado de formas de racio cínio de modo a não se poder distinguir pela forma lingüística uma passagem sem lacunas de uma que omite membros intermediários Embora isso possa ser visto como uma deficiência na verdade por trás dessa situação está em uma certa maleabilidade e mutabilidade da lin guagem que é por sua vez a condição de sua capacidade de desenvol vimento e de sua aplicabilidade variada Sob este aspecto a linguagem pode compararse à mão que apesar de sua capacidade de se acomo dar às mais diferentes tarefas não nos basta Sobre a justificação cientí fica de uma conceitografia 1882 1980 p 190191 A origem da linguagem é a prática da enunciação da ação da fala e da comunicação Por isso mesmo a frase enunciativa é ante rior à significação das palavras isoladas Um sinal ou palavra tem sentido ou é significativo na medida em que pode ser usado no jogo ou na prática comunicativa e expressiva entre falantes so bretudo como parte de uma frase enunciativa isto é na medida em que pode exercer uma função semântica e assim ter um valor semântico determinado no contexto de uma interação discursiva Lembrese para Frege o significado das palavras depende do modo como nós as usamos A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 75 O modelo teórico de Frege que lhe permitia dizer isso das lín guas naturais e ao mesmo tempo propor a construção de lingua gens artificiais capazes de evitar os malentendidos e os erros de raciocínio tem como núcleo as seguintes distinções e suposições primeiro uma expressão significativa sempre resulta de um ato o qual pode ser realizado de diferentes maneiras Frege chamava essas maneiras de força do proferimento asserir perguntar or denar convidar etc As diferentes expressões linguísticas são sig nificativas apenas quando usadas gebrauchen para realizar um ato semântico completo ou seja como partes de uma frase usada como declaração pergunta ordem convite Uma mesma expres são pode ter significados diferentes a depender da função semân tica com que ela é agenciada num determinado ato Considerese o meu exemplo favorito Quem casa quer casa A expressão casa deve necessariamente ter dois sentidos diferentes nessa frase mas apenas se essa frase tem sentido ou seja se com ela alguém realiza um ato semântico determinado Um ato semântico com uma determinada força sempre teria um conteúdo O conteúdo ou significação porém tem diferentes ingredientes Frege introduziu os conceitos de conteúdo judicá vel ou conceitual e de representação para separar os ingredientes objetivos dos ingredientes subjetivos O conteúdo de uma frase declarativa é analisado no que eu chamo pensamento Gedanken e valor de verdade Wahrheistwerth Isso é conseqüência da distinção entre sentido Sinn e signi ficado Bedeutung de um sinal Zeichen Nesse caso o sentido do enunciado Satzes é o pensamento e seu significado o valor de verdade A isto se soma ainda o reconhecimento de que o valor de verdade é o verdadeiro Com efeito eu distingo dois valores de verdade o verdadeiro e o falso Prólogo As leis bá sicas da aritmética 1962 p vxxvi Todavia não há uma correlação imediata e direta entre as par tes da estrutura frasal as palavras e as partes lógicas da estrutura do conteúdo expresso Frege formulou essa tese como um princípio semântico apenas no contexto de uma frase uma palavra tem um sentido determinado Considerese a palavrinha é nas seguintes frases 1 João é um professor 2 João é o professor de teoria dos solos e 3 João é calvo Embora a função gramatical seja a 76 Filosofia da Linguagem I mesma o sentido de é em 1 difere do sentido em 2 e 3 no primeiro caso essa palavra expressa a relação de inclusão de classe no segundo ela expressa a relação de identidade e no terceiro a de instanciação de uma propriedade Em termos da teoria de Frege em cada um desses contextos embora a função gramatical seja a mesma verbo de ligação o é significa em cada um deles um conceito di ferente portanto é usado com diferentes sentidos Como alguém pode ter um conceito sem ter o outro e ainda como um conceito pode ser apreendido de diferentes maneiras Frege defendeu que o é tem vários sentidos e isso para ele valia para qualquer palavra Daí que a atribuição de um sentido determinado a uma palavra ape nas possa ser feito no contexto de uma frase determinada A suposição de Frege é de que a prática linguística implica que as frases enunciativas codifiquem conteúdos ou significações que podem ser apreendidos pelos interlocutores e julgados intersub jetivamente Esse conteúdo porém nem sempre está completa mente determinado pela frase pela estrutura gramatical pois há casos de frases cujo conteúdo é contextual e noutros que é subje tivo Isso quer dizer que para se apreender o seu conteúdo semân tico e poder julgar a sua verdade ou falsidade ou seja beleza es tética ou adequação retórica temse que explicitar o contexto de proferimento eou o falante em pessoa Exemplos de frases desse tipo são as frases Hoje está chovendo e Eu estou cansado Para sabermos o que foi efetivamente dito com o proferimento de uma dessas frases não basta analisarmos a frase e seus componentes precisamos saber em que dia a primeira foi proferida e em que local e também quem proferiu a segunda e o que ela entende por cansado Notese que no seu uso cotidiano a primeira independe do falante e a segunda independe da situação todavia essa inde pendência será questionada pelas teorias hermenêuticas e prag máticas da linguagem O que Frege queria defender porém era que a prática linguís tica implica que em alguns casos ao menos haja um conteúdo objetivo determinado passível de ser considerado e julgado pelos interlocutores Para ele esse é o caso dos enunciados científicos lógicos matemáticos jurídicos e práticos A objetividade semânti ca de um enunciado implica que se pode determinar e explicitar o A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 77 conteúdo posto para ser avaliado sobretudo aquilo de que se fala e o que se diz disso de que se fala de modo que diferentes interlo cutores possam julgar o mesmo contéudo As noções de formas e operações lógicas de objeto e de conceito seriam aquelas com as quais se explicitaria a estrutura do contéudo asserido Contudo Frege entendia que muitos usos da linguagem apenas pressupõem que as expressões tenham sentido mas não significa do isto é tais usos não implicam nem requerem que as expressões designem objetos ou expressem conceitos determinados nem que as frases assertóricas tenham um valor de verdade Esse seria o caso da poesia e da literatura Ainda para vastos âmbitos da prática discursiva nem sequer um sentido objetivo pode ser fixado como no caso da ética da re ligião e da estética Nesses âmbitos da experiência humana seria impossível alcançar a objetividade embora isso não implique que não sejam importantes e compreensíveis sendo significativos no sentido de terem valor humano Para Frege o mundo e o pensamento apenas podem ser acessa dos intersubjetivamente por meio de uma linguagem A verdade o conhecimento os fatos etc para ele esses conceitos indicam tão somente frases significativas validadas por uma comunidade O problema está no fato de que o uso natural e as gramáticas das lín guas naturais não permitem distinguir claramente e explicitamen te sempre e em todos os casos em que sentido uma determinada expressão está sendo usada A compreensão linguística no mais das vezes depende da empatia com o falante do conhecimento do contexto e da situação de proferimento dos hábitos e costumes de uma determinada comunidade histórica etc Tanto os pensamen tos do falante quanto aquilo de que e aquilo que ele fala embora codificados nas suas palavras podem ser malentendidos Para garantir a clareza no dizer e no raciocinar e a explicita ção completa dos conteúdos asseridos a proposta de Frege foi a de criar uma linguagem artificial para uso nas ciências com o objetivo de propiciar uma linguagem capaz de refletir e explicitar na sua própria forma os pensamentos de modo que não se pre 78 Filosofia da Linguagem I cisasse recorrer seja ao falante seja ao contexto de proferimento bastando apenas a expressão linguística Essa linguagem por suas próprias regras e uso deveria mostrar na própria forma o seu con teúdo Esse modelo tornouse o paradigma das linguagens lógicas e matemáticas Para isso porém é necessário o mapeamento das formas básicas do pensamento ou ao menos de um número de for mas básicas com as quais fosse possível expressar a maior parte dos nossos pensamentos Frege propos já na sua primeira obra uma tal linguagem artificial que ele denominou Conceitografia Bergriffs chrift A partir dessa proposta iniciase a longa discussão ainda inacabada acerca das funções semânticas básicas que compõem o conteúdo semântico das diferentes frases As teorias que explici tam e explicam conceitualmente esse conteúdo são chamadas de teorias do significado ou teorias semânticas que serão objeto de apresentação na segunda parte deste livro O cerne do argumento para a prioridade e a primariedade da linguagem é do tipo condiçãocondicionado Frege argumenta a partir daquilo que não pode ser recusado pelo interlocutor ou seja a dimensão de sentido que permite o jogo de afirmações e ne gações de proposições e contraproposições Por isso a evidência última que ele utiliza para introduzir ou eliminar um conceito ou uma proposição não é a introspecção nem a experiência sensível e as relações causais nem o ser ou a essência nem a autoridade de uma deusa mas sempre a noção de sentidosem sentido que se dá na interação linguística A força desse argumento está no fato de que por um lado a argumentação realizase ela mesma a partir daquilo que o interlocutor pode por ele mesmo compreender e testar e por outro a argumentação não pode ser recusada senão por um gesto ele mesmo linguístico de modo que nos dois casos pressupõese uma interação com sentido Esse ponto se mostra inclusive na própria forma de argumenta ção de Frege Na sua teoria o conceito de sentido é central Agora no uso direto de uma frase expressase um pensamento o sentido da frase e referese a um valor de verdade Quando Celso pronun cia a frase A Lua orbita ao redor da Terra essas palavras expres sam um pensamento isto é um estado de coisas que pode ser ver dadeiro ou falso ou seja ao dizer essa frase Celso se compromete A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 79 com o interlocutor e ele pode julgar esse compromisso pois ou ele diz uma verdade ou diz uma falsidade Todavia quando Lunice diz Celso disse que a Lua orbita ao redor da Terra essa frase tem outro sentido e outra referência pois ao dizer isso e usar a frase a Lua orbita ao redor da Terra ela não se compromete com a sua verdade ou falsidade mas tão somente a usa para se referir ao pensamento de Celso ou seja ao sentido que ele expressou ao pro nunciar essa frase Notese que Lunice poderia indicar o pensa mento de Celso usando outra frase por exemplo uma em japonês Manifestase aqui novamente o princípio de que o significado de uma expressão linguística depende do contexto pois a mesma fra se tem significados diferentes quando Celso a pronuncia e quando Lunice a pronuncia A frase é a mesma mas o seu uso é diferente Isso mostra duas características fundamentais da noção de sen tido e pensamento fregeanas Primeira o sentido apenas pode ser expresso e apreendido por meio de uma linguagem Segunda diferentes expressões linguísticas até mesmo de diferentes lingua gens podem ser usadas para expressar o mesmo sentido Essas ca racterísticas são determinantes para a necessidade de introduzir e distinguir dois tipos de linguagem a linguagem usada pelo filósofo para fazer a sua análise e a linguagem analisada Frege claramente distinguiu entre a linguagem usada por ele o alemão e a lingua gem por ele criada a Begriffschrift conceitografia No entanto para Frege esse fenômeno apenas indicava que nós não podemos sair da linguagem Mais tarde Tarski vai distinguir explicitamente entre linguagem objeto e metalinguagem com outros propósitos 42 Sinal sentido e significado O núcleo da teoria fregeana está nas distinções semânticas pos tas como fundamentais para se evitarem confusões lógicas A base dessas distinções é a diferenciação entre o sinal e o sentido em que esse sinal é usado e ainda o significado aquilo designado por ele que pode ser um objeto concreto um objeto abstrato ou um concei to O ponto de partida é a distinção clara entre o nome e a coisa no meada Pela teoria de Locke um sinal é significativo se expressa uma ideia para Mill um sinal pode ser significativo se nomear um objeto Em contraste com a teoria de Mill Frege no texto Sobre o sentido Confira o Capítulo 8 deste livrotexto 80 Filosofia da Linguagem I e a referência de 1892 defendeu que os nomes vinculamse aos ob jetos pela mediação de um sentido e este sentido tem a ver com os atributos do objeto nomeado pois no sentido está um modo de apre sentação daquilo mesmo que é nomeado Porém diferentemente de Locke Frege não concebia esse elemento intermediador como uma ideia ou representação mental Além disso foi Frege quem salientou o aspecto lógico dos nomes a saber de poderem ladear um sinal de identidade o que indica sua função semântica como termo singular Esse artigo começa justamente perguntando como se deve entender um enunciado de identidade Considerese o seguinte enunciado 1 Florianópolis é a capital de Santa Catarina Se compreendermos a palavra é como significando a relação de identidade e abreviarmos a expressão Florianópolis para F e a capital de Santa Catariana para C obtemos o enunciado 1 F C Esse enunciado pode ser interpretado como significando três pensamentos diferentes a relação de identidade entre duas ideias como sugere a teoria de Locke a relação de identidade entre dois objetos como sugere a teoria de Mill ou simplesmente a relação de identidade entre dois sinais ou expressões Para Frege nenhuma dessas respostas apreende o sentido da frase 1 Primeiro quem faz essa afirmação em geral não quer falar de suas ideias ou representa ções mas sim quer falar algo objetivo E se quisesse falar das ideias indicadas pela expressão sujeito e pela expressão predicado essas ideias seriam claramente diferentes logo o enunciado seria falso Por sua vez dizer como Mill que esse enunciado é sobre os obje tos nomeados por essas expressões gera uma dificuldade pois se o enunciado é verdadeiro se trata do mesmo objeto mas quem sabe que Florianópolis é Florianópolis pode não saber que Florianópolis é a capital de Santa Catarina Logo há uma diferença cognitiva que se perderia A explicação em termos de identidade entre os sinais também não é satisfatória pois em geral não é isso que se quer dizer quando se usa esse tipo de frase E por outro se fosse esse o caso o enunciado seria claramente falso para não dizer sem sentido A estratégia de Frege pede que consideremos dois tipos de enunciados do seguinte modo A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 81 1 Florianópolis é a capital de Santa Catarina 2 Florianópolis é Florianópolis O segundo é um enunciado de identidade do tipo x x já o primeiro é do tipo x y Notese que esses dois enunciados têm condições cognitivas bem distintas podese saber que 2 é verda deiro o que se segue do princípio de identidade sem que se saiba se o primeiro é ou não verdadeiro Em outras palavras o segundo enunciado é analítico necessariamente verdadeiro sob qualquer condição já o primeiro pode ora ser ora não ser verdadeiro e o conhecimento de sua verdade ou falsidade depende de algo que não está dado no próprio enunciado Para explicar essa diferença Frege introduziu a distinção en tre sentido e significado Além do sinal o nome ou a expressão Zeichen e daquilo que é significado Bedeutung por ele haveria um terceiro elemento o sentido Sinn que seria o modo de apre sentação Art von Gegebenseins o modo de darse do significado No caso de nosso exemplo nós temos dois sinais Florianópolis e a capital de Santa Catarina um significado uma cidade o qual é apresentado de dois modos diferentes Isso pode parecer estranho mas imagine alguém que não conhece a cidade de que estamos falando Há várias maneiras de apresentála ou introduzi la Podemos lhe dizer Essa cidade é Florianópolis ou Essa cida de é a capital de Santa Catarina ou Essa cidade é a cidade onde fica a UFSC ou Essa cidade é a cidade que fica numa ilha com 27 praias ou ainda Essa cidade é a aquela em que estamos agora Todos esses são modos pelos quais alguém pode indicar e direcio nar dar um sentido que se seguido levaria a encontrar a cidade acerca da qual se fala ou seja um sentido é um modo de apre sentação de algo ou ainda um modo de identificação que per mite determinar do que se fala Daí que embora seja um enun ciado de identidade Florianópolis é a capital de Santa Catarina é informativo pois nos informa que há dois sentidos diferentes que levam ao mesmo objeto ou dito ao contrário que um mesmo ob jeto se apresenta e identificase por meio de dois modos diferentes Notese que para Frege os nomes próprios também têm sentido Agora qual é o sentido com que alguém emprega um nome como Florianópolis irá depender justamente desse modo de emprego 82 Filosofia da Linguagem I O ideal para efeitos de compreensão e raciocínio seria que todos o utilizassem com o mesmo sentido A tese de Frege é que o sentido é um ingrediente da significa ção e que é esse ingrediente que possibilita a compreensão mútua ou seja a comunicação objetiva Por isso ele insiste que o sentido de uma expressão é totalmente diferente das representações ou dos estados subjetivos associados a ela O sentido é aquele aspecto da sig nificação que é 1 passível de expressão numa linguagem e por isso 2 compartilhável por diferentes sujeitos Isso fica claro no exemplo usado por Frege No transcorrer dos dias e das noites há um corpo celeste que é o primeiro corpo celeste luminoso a aparecer no iní cio da noite e há um que é o último a desaparecer no início do dia Esses são dois modos objetivos no sentido de serem intersubjetiva mente constatáveis qualquer pessoa pode compreender e verificar esses fenômenos Os nomes Estrela Vespertina e Estrela Matutina indicam esses corpos celestes Em algum momento da história des cobriuse que essas duas estrelas eram na verdade a mesma estrela que na verdade não é uma estrela mas sim um planeta o planeta Vênus Assim quando alguém enuncia A estrela vespertina é a es trela matutina há um conteúdo semântico que pode ser apreendido pelo interlocutor e julgado Frege denominava isso de conteúdo ju dicável ou pensamento Gedanken Agora qual é esse conteúdo Representemos o conteúdo judicável entre colchetes para dife renciar das expressões Pela teoria de Locke Hume e Kant o con teúdo judicável de A estrela vespertina é a estrela matutina seria um complexo resultante da síntese de duas ideias ou representa ções Ideia 1 Ideia 2 pela teoria de Mill são os próprios objetos que compõem o significado ora se se trata do mesmo objeto logo o conteúdo teria essa estrutura Objeto Objeto Para Frege ne nhum desses esquemas representa adequadamente o sentido do enunciado isto é o que é posto para ser julgado pelo enunciado A estrela vespertina é a estrela matutina pois argumenta que não se trata apenas de julgar uma relação entre ideias e também de dizer que o objeto é o mesmo objeto O que se quer dizer é que o mesmo objeto é apreensível de duas maneiras diferentes que há duas ma neiras de identificar Vênus como a última estrela a desaparecer no fim da noite e a primeira estrela a aparecer no início da noite Em outras palavras seguindo a teoria de Frege haveria dois modos de apresentação diferentes para um mesmo objeto Atente para essa definição Ela é muito importante na explicação fregeana de como através da linguagem se consegue estabelecer uma comunicação objetiva entre diferentes pessoas A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 83 Frege postulou que todas as expressões designadoras de obje tos os termos singulares da lógica tais como os nomes próprios as descrições definidas e os pronomes expressariam um sentido e designariam um objeto E isso valeria também para as expres sões predicativas os verbos os nomes comuns e as descrições in definidas os termos gerais Essas expressões também expressariam um sentido mas designariam conceitos Muitas vezes a mesma palavra é usada para indicar o objeto e o conceito como é o caso da palavra planeta que tanto pode ocupar a posição de sujeito quanto de predicado Nas frases O planeta é e é um planeta a diferença gramatical está no uso do artigo definido o e do artigo indefinido um indicadores de que ora se designa um objeto ora um conceito Desse modo na frase Vênus é um planeta usase o nome Vênus para indicar o objeto de que se fala e predicase dele o conceito designado pela palavra planeta Além disso Frege argu mentou que a inteira frase também tem um sentido o pensamento expresso e um significado que seria o seu valor de verdade Porém nessa parte da teoria fregeana devemos ter claro que os conceitos de sinal sentido significado conceito e objeto são todos eles con ceitos introduzidos para a descrição e a explicitação dos conteúdos judicáveis ou pensamentos expressos por frases completas 43 O princípio do contexto Com efeito a principal tese de Frege sobre a linguagem é a que afirma que as palavras isoladas não têm sentido determinado e por conseguinte não se pode saber o que elas significam Con trariando as teses clássicas de Platão Aristóteles Agostinho Lo cke e Mill e retomando uma tese cara aos hermeneutas conferir Cap 3 Frege enuncia inicialmente essa tese como uma exigência metodológica devese perguntar pelo significado das palavras no contexto da frase e não isoladamente Os fundamentos da arit mética p 202 p 246247 e p 274 Porém depois ela se torna um princípio semântico apenas no contexto de uma frase as palavras têm significado o assim chamado Princípio do contexto Esse princípio indica que as palavras e os sinais o léxico são agenciados por um modo de emprego e somente assim adquirem propriedades semânticas Tratase de uma consequência da tese da 84 Filosofia da Linguagem I arbitrariedade do signo linguístico no sentido de que a significa tividade não é uma propriedade natural ou causal dos sinais eles mesmos mas antes uma propriedade adquirida pela sua subsunção no sistema de regras e usos que instaura a linguagem Além disso o princípio do contexto pretende solucionar o problema da expli cação da multiplicidade de significações e usos de um mesmo sinal como é o caso das palavras de casa banco etc ao indicar que a significação particular e determinada de uma palavra depende do contexto de emprego Em termos mais técnicos o que o princípio do contexto diz é que a função o conteúdo e o valor semânticos de uma palavra são determinados pelo lugar que a palavra ocu pa na estrutura frasal não fazendo sentido perguntar pelo sentido ou significado de uma palavra isoladamente como sugerem os di cionários Além disso o ponto principal do princípio do contexto é o estabelecimento de um domínio de objetividade inteiramente constituído pela linguagem e unicamente acessável pela compreen são do sentido de frases como é o caso dos objetos da aritmética O argumento de Frege é que a verdade de juízos de identidade e de frases quantificadas e predicativas é suficiente para a identificação de entidades ou objetos como é o caso dos números Todavia a teoria fregeana da linguagem tem outro princípio que parece dizer exatamente o contrário do que diz o princípio do contexto tratase da tese de que o sentido e o significado de uma expressão composta são uma função do sentido e do signifi cado de suas partes componentes Esse princípio está na base das linguagens artificiais pois em geral elas fixam de antemão um vo cabulário uma interpretação e regras de construção de frases e assim permitem sempre a explicitação do que foi dito por uma das frases geradas nessa linguagem O princípio da composicionalidade e o princípio do contexto têm sua formulação nos trabalhos de Frege A exigência devese perguntar pelo significado das palavras no contexto da proposição e não isoladamente Os fundamentos da aritmética p 202 p 246 247 e p 274 está colocada explicitamente como regra para a aná lise visando à elisão de concepções físicas e psicológicas do objeto número ou seja como argumento em favor de uma posição onto lógica A noção de composicionalidade por sua vez encontrase A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 85 em seus escritos mais tardios mas de certo modo estava implícita no seu modelo sintático pelo qual se supõe que os pensamentos sejam compostos de partes simples e a estas se as faz corresponder por sua vez com partes simples da sentença Idem p 114 Esse tópico é central na ideia mesma de análise Por análise em geral se entende um processo que através de distinções de partes de um complexo chega a elementos simples não mais decomponí veis os primitivos ou átomos e à forma de composição A tradi ção analítica por influência de Russell e Wittgenstein identifica se pelo ideal de análise que levaria à exposição da forma lógica e dos elementos simples do pensamento Esse ideal foi denominado de atomismo lógico e tinha como princípio a ideia de que um pen samento e uma frase com sentido determinado deveria poder ser analisado em sua forma lógica e seus componentes simples e isso apenas de uma única maneira Embora Frege seja considerado o iniciador dessa forma de pen sar e tenha proposto um modelo de análise e uma linguagem em que se cumprem esses desideratas na sua obra principal As leis básicas da aritmética ele sempre trabalhou com a ideia de que um pensamento poderia ser analisado de múltiplas formas Eu não creio que para todo conteúdo judicável haja apenas uma maneira de o decompor ou que uma das maneiras possíveis de decompor possa pretender uma prioridade real Recusando explicitamente o atomismo no plano do pensamento descartando como ilusória a analogia com as frases que sempre são decomponíveis em palavras e estas em letras ele insistiu que o pensamento não é estruturado mas que a estrutura provém da forma de expressão de acordo com a análise tal ou tal elemento é o sujeito ou predicado O pensamen to não determina ele mesmo o que se deve tomar como sujeito A sua tese era de que o pensamento e o domínio conceitual não são constituídos de partes isoláveis e atômicas Por isso diz ele em vez de obter o juízo unindo um indivíduo como sujeito com um conceito já formado como predicado eu ao contrário decomponho o conteúdo judicável para obter o conceito Sem dúvida que a expressão de um conteúdo judicável para poder ser assim decomposta tem que ser ela mesma articulada Podese inferir que as propriedades e relações que não podem ser mais decompostas devem ter uma designação ele Lógica e Filosofia da Linguagem p 77 Investigações lógicas p 114 144 Essa é uma tese apresentada pela obra fregeana Sobre o conceito e o objeto 86 Filosofia da Linguagem I mentar própria Mas não se segue que as representações destas pro priedades e relações são formadas independentemente das coisas ao contrário elas nascem ao mesmo tempo que o primeiro julgamento pelo qual elas são atribuídas às coisas Por conseqüência a sua desig nação não é apresentada separadamente na conceitografia mas sem pre nas combinações que exprimem conteúdos judicáveis FREGE G Schriften zur Logik und Sprachphilosophie hrsg von G Gabriel Ham burg Felix Meiner 1978b p 18 O principal relativamente à relação entre linguagem e o plano do pensamento e dos conceitos é que esses não são pensados como existindo previamente ao ato de frase e asserir A sua tese era de que a formação dos conceitos não pode preceder os juízos pois isso pressuporia uma existência independente dos conceitos selbstän diges Bestehen Ao contrário Frege defendia que os conceitos for mamse por meio da análise do conteúdo judicável por conseguin te pressupõe a existência de juízos frases afirmativas e negativas 44 O mapeamento das diferentes funções semânticas Um dos principais objetivos da abordagem lógicosemântica inaugurada por Frege é o mapeamento e a explicitação das funções e operações lógicas sobre conteúdos ou pensamentos Implícito nessa forma de abordar a linguagem está o princípio da analisabi lidade do conteúdo semântico em termos de diferentes funções se mânticas de cuja conjugação uma frase é formada e um contéudo judicável é composto Bertrand Russell acentua como justificação principal para a diversidade de funções semânticas que não há apenas uma relação de significação entre as palavras e o que elas representam mas existem tantas relações de significação cada uma de um tipo lógico diferente quantos são os tipos lógi cos entre os objetos para os quais existem palavras Logik and Knowledge London Routledge 1989 p 232233 Daí a ideia de que significar se perfaz de múltiplos modos e o pla no de investigação sobre quais são as funções semânticas básicas Em lógica geralmente são utilizadas expressões marcadas como fa zendo o papel semântico de quantificadores determinantes desig nadores predicadores descritores conectores gramatical preposi A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 87 ções conectivos lógicos proposicional operadores indexadores dêitico indexadores anafórico demonstrativos etc O principal do método das análises lógicosemânticas nas suas diferentes ten dências consiste na proposta de i uma explicitação das funções lógicas e semânticas objetivas e controláveis do conteúdo expres so por uma expressão palavra ou frase O objetivo é alcançar ii uma clareza tal que permita o cálculo ou raciocínio controlado e explícito em todos os seus passos e operações Para isso fazse ne cessária iii a construção de uma linguagem formal regimentada com um vocabulário de expressões unívocas com uma gramática finita e estipulada bem como de uma relação de interpretação em relação a um domínio de referência determinado Cf MORTARI Cezar A Introdução à lógica São Paulo EDUNESP 2001 A explicitação das funções semânticas atribuídas às expressões da linguagem formal e a explicitação da estrutura do domínio de referência desse modo poderiam ser realizadas de modo explícito em geral numa outra linguagem uma linguagem conceitual ou filosófica ou na linguagem natural que permitiria uma tradução entre diferentes linguagens O ideal inicial dessa corrente filosófica era a exclusão de todo e qualquer elemento subjetivo psicológi co mental na explanação do pensamento e raciocínio discursivo restanto apenas conceitos lógicos semânticos e contextuais obje tivos Ao final restam apenas três elementos as palavras as coisas e as regras de concatenação Uma teoria analítica composicional caracterizadora das con cepções lógicosemânticas da linguagem tem como objetivo es pecificar uma série de funções e operações semânticas que seriam associadas a determinadas expressões e fórmulas O propósito é o estabelecimento de um algoritmo ou cálculo que permita a ex pressão exata de conteúdos e a completa explicitação das relações entre diferentes expressões linguísticas sobretudo as relações de pressuposição e consequência lógicas entre sentenças de uma dada linguagem em relação a um dado domínio de referência Podese elencar os seguintes postulados dessas teorias 1 Há fatos semânticos palavras e sentenças são significativas e têm re ferência e as pessoas realizam atos semânticos referir predicar asserir perguntar ordenar proferindo tais expressões 88 Filosofia da Linguagem I 2 Sentenças declarativas codificam peças de informação denomina das proposições A proposição veiculada por uma sentença com res peito a um dado contexto é o seu conteúdo semântico com respeito aquele contexto 3 O conteúdo semântico de uma sentença com respeito a um dado contexto é uma entidade complexa e ordenada algo como uma se quencia cujos constituintes são semanticamente correlacionados siste maticamente com expressões componentes da sentença tipicamente as expressões simples não compostas Exceções acontecem em cone xão com marcas de citação e dispositivos similares 4 O valor semântico a contribuição para o conteúdo informativo com respeito a um dado contexto c de todo termo singular simples é o seu referente com respeito a c e o tempo de c e o mundo de c 5 Toda expressão pode ser pensada como referindo com respeito a um dado contexto tempo e mundo possível a sua extensão com respeito a um dado contexto tempo e mundo possível 6 O valor semântico com respeito a um dado contexto c de um predi cado simples de nlugares de primeira ordem é um atributo de nluga res uma propriedade se n1 uma nenária relação se n1 ordinaria mente um atributo atribuído aos referentes do termo singular acoplado Exceções para marcas de citação e similares 7 O valor semântico relativo a um contexto de um conectivo senten cial de nlugares é um atributo comumente do tipo de coisas que serve como referente para sentenças compostas valor de verdade 8 O valor semântico de um quantificador de nlugares ou predicado de segunda ordem é um nenário atributo comumente do tipo de coisas que serve de referente para predicados de primeira ordem compostos 9 O valor semântico com respeito a um dado contexto de uma expres são composta típica se houver é uma entidade complexa e ordenada algo como uma sequencia cujos constituintes são semanticamente correlacionados sistematicamente com expressões componentes da expressão composta tipicamente expressões simples não compostas Exceções para marcas de citação e similares 10 O valor semântico relativo a um dado contexto de uma sentença assertórica é o seu conteúdo informativo a proposição veiculadacodi ficada a qual determina uma extensão isto é um conjunto de mundos possíveis ou situações em que ela é verdadeira A análise lógicosemântica de linguagem e as teorias de G Frege 89 Desse modo podese interpretar diferentes frases e encadea mentos de frases de uma dada linguagem artifical e até mesmo mapear as suas traduções numa outra linguagem Além disso em geral se trabalha com princípios semânticos que orientam a cons trução e a interpretação das linguagens artificiais 11 O conteúdo semântico de uma sentença é uma função do conteúdo semântico de suas partes componentes 12 Para quaisquer sentenças S e P se S é verdadeira e P falsa S e P têm que diferir quanto à significação Diferenças nas condições de verdade implicam diferenças de significatividade 13 Para quaisquer sentenças S e P se S e P têm o mesmo valor de ver dade em todas as circunstâncias de avaliação então S e P têm a mesma significação A identidade de valor de verdade implica a identidade de condições de verdade e esta implica a identidade de significação 14 O conteúdo semântico de uma expressão entendido como sua in tensão determina o seu valor semântico entendido como sua exten são O sentido determina o significado 15 Para duas expressões a e b ab expressa uma proposição verdadei ra somente se a substituição de b por a preserva o valor de verdade do inteiro contexto Na base operase com as seguintes pressuposições tanto os si nais linguísticos quanto os significados são isoláveis em unidades atômicas e para cada parte de um sinal complexo devese encon trar um ou uma parte no plano do significado Os significados podem ser coisas dados sensoriais ações intenções conjuntos subconjuntos informações valores de verdade etc Fica claro as sim que a concepção lógicosemântica estabelece uma conexão estreita entre significado verdade e referência no sentido de que a explanação do significado de uma sentença consiste em explicitar as condições sob as quais essa sentença seria verdadeira e falsa e o valor de verdade verdadeira ou falsa determinase somente a partir da fixação da referência Em outras palavras a referencia lidade ou objetividade da sentença lhe habilita a ter um valor de verdade e essa condição seria o cerne de seu significado 90 Filosofia da Linguagem I Leituras recomendadas FREGE G Sobre o sentido e a referência In Lógica e Filosofia da Linguagem São Paulo Cultrix EDUSP 1978a FREGE G Digressões sobre o sentido e a referência In Lógica e Filosofia da Linguagem São Paulo Cultrix EDUSP 1978b FREGE G Sobre o conceito e o objeto In Lógica e Filo sofia da Linguagem São Paulo Cultrix EDUSP 1978c RUSSELL Bertrand Da denotação Tradução de Pablo Rú ben Mariconda São Paulo Abril Cultural 1978 p 314 Os Pensadores WITTGENSTEIN L Tractatus LogicoPhilosophicus São Pau lo EDUSP 1993 Reflita sobre Toda linguagem natural teria uma teoria do significado com posicional correta Toda teoria do significado composicional correta para uma linguagem L é também uma semântica veritativofuncional para L Ou seja além de gerar um significado para cada sen tença significativa de L a teoria também gera uma condição de verdade para cada asserçãoenunciado em L As atitudes proposicionais crer pensar saber dizer etc po dem ser interpretadas sempre como relacionais no sentido de que a forma X acredita y onde y está por uma proposição ou conteúdo expresso por uma sentença e X por um sujeito Seja S João acredita que 224 e P João acredita que a raiz quadrada de 16 é 4 Pode acontecer uma circunstância de avaliação em que S seja verdadeira e P seja falsa Como com patibilizar esse fato com os princípios e postulados adotados pela análise lógicosemântica Capítulo 5 A concepção pragmático intencional de linguagem Neste capítulo é apresentada a teoria prag mática da linguagem Para isso são expostos as teorias e os conceitos de Austin Grice e Searle com o objetivo de mostrar que a lin guagem pode ser pensada a partir dos con ceitos de ação e interação e não somente a partir dos conceitos de representação e co nhecimento O ponto principal é a distinção semântica entre o que se disse e o que se quis dizer ao se pronunciar uma frase a qual está fundada na distinção entre o que se disse e o que se faz ao dizer The globe is flat because Earth is flat A concepção pragmáticointencional de linguagem 93 5 A concepção pragmático intencional de linguagem Até aqui se trabalhou a noção de linguagem em relação ao pen samento e à realidade e a ideia de conteúdo semântico de uma expressão linguística em termos de representação seja de estados de coisas seja de conteúdo conceitual Todavia no mais das vezes o proferimento de uma frase não visa propriamente falando re presentar o mundo nem expressar pensamentos e ideias mas antes interagir com e orientar o interlocutor no plano do agir As teo rias da linguagem ditas pragmáticas tomam essa função como primitiva e dela derivam todas as demais funções semânticas O ponto principal da concepção pragmática da linguagem é a tese de que a significação linguística tem como ingrediente princi pal e fundante o agir e não o sentir e o pensar no sentido de que o proferimento de uma expressão significativa é prioritariamente um ato que visa realizar uma ação e não representar um objeto ou expressar uma ideia ato diante do qual a resposta exigida também é uma ação e cujas condições de realização não têm a ver com con dições de verdade mas sim com condições de sucesso e eficácia A teoria dos nomes próprios de Stuart Mill já havia proposto a eliminação dos intermediários representacionais e mentais e Fre ge já havia chamado a atenção para os aspectos pragmáticos da força assertórica e da determinação do conteúdo semântico para Atenção a concepção pragmática altera o modo tradicional de pensar a linguagem Agora o que importa é o agir não o sentir ou o pensar 94 Filosofia da Linguagem I muitas expressões mas nenhum deles desenvolveu uma teoria compreensiva da linguagem capaz de explicála em termos pura mente não representacionais Essa concepção é creditada a vários autores importantes em parte às teses do pragmatismo americano nas teorias seminais de Charles S Peirce William James e John Dewey e principalmente a Ludwig Wittgenstein na fase das Investigações filosóficas No en tanto foram as obra de John L Austin Quando dizer é fazer pala vras e ações publicada em 1962 e a obra de John R Searle Atos de fala publicada em 1969 que estabeleceram o paradigma teórico da análise pragmática da linguagem Hoje a sua melhor expres são encontrase nas obras de Robert Brandom Making it Explicit 1994 e Between Saying and Doing 2008 51 Dizer é fazer Alguns dos principais conceitos dessa corrente foram estabe lecidos por John L Austin 19111960 na obra Quando dizer é fazer palavras e ação publicada postumamente em 1962 A tese principal de Austin é de que a linguagem é uma forma de ação e não de representação da realidade Por isso a análise da linguagem deve explicitar as condições de uso da expressão que determinam o seu significado A primeira distinção que assim se estabelece é entre frases ou enunciados constativos enunciados de relato ava liados quanto à verdade ou falsidade e performativos os quais não podem ser analisados quanto à verdade ou falsidade mas quanto às condições de sucesso Desse modo operase uma sepa ração no tratamento semântico de frases como as exemplificadas nos enunciados 1 e 2 1 Um litro de água pesa um quilograma ao nível do mar 2 Aposto cem reais como vai chover amanhã Se é adequado analisar o primeiro em termos de representação adequada da realidade e de condições em que seria verdadeiro ou falso não parece ser o caso para o segundo pois quem profere uma tal frase não está descrevendo ou representando o modo como o mundo é mas sim fazendo algo a saber fazendo uma aposta Em outras palavras o enunciado 2 não pode ser analisado em ter A concepção pragmáticointencional de linguagem 95 mos de verdade e falsidade Com efeito por meio de proferimen tos nós fazemos várias coisas prometemos pedimos ordenamos etc Austin denominou este tipo de enunciado de performativo e justificou assim Evidentemente que este nome é derivado do ver bo inglês to perform verbo correlato do substantivo ação e indica que ao se emitir o proferimento estáse realizando uma ação não sendo consequentemente considerado um mero equivalente a di zer algo AUSTIN J L Quando dizer é fazer Porto Alegre Artes Médicas 1990 p 25 A partir da ideia óbvia mas pouco explorada antes de que ao dizer algo estamos fazendo algo de que por dizer fazemos algo de fato os aspectos performativos da linguagem sempre foram reco nhecidos mas relegados sempre ou como extrínseco ou como algo a ser teorizado no plano do uso retórico Isso fica evidente nesse comentário de Ammonio ao Da interpretação de Aristóteles Posto que o discurso mantém uma dupla relação como mostrou o filó sofo Teofrasto uma com o ouvinte para o qual tem significado e outra com as coisas das quais o falante pretende convencer o ouvinte a partir da relação com os ouvintes surgem a Poética e a Retórica e com respeito à relação do discurso com as coisas o filósofo cuidará prefe rencialmente de refutar o falso e demonstrar o verdadeiro ARISTOTELIS De Interpretatione Commentarius ed de A Busse Berlin 1887 p 65 Z 3166 Z 10 Nessa perspectiva Austin distinguiu diferentes tipos de enun ciados quanto à sua força ilocucionária ação realizada chegando a três tipos de ação linguística Em primeiro lugar distinguimos um conjunto de coisas que fazemos ao dizer algo que sintetizamos dizendo que realizamos um ato locucioná rio o que equivale a grosso modo a proferir determinada sentença com determinado sentido e referência o que por sua vez equivale a grosso modo a significado no sentido tradicional do termo Em segundo lugar dissemos que também realizamos atos ilocucionários tais como infor mar ordenar prevenir avisar comprometerse etc isto é proferimen tos que tem uma certa força convencional Em terceiro lugar também podemos realizar atos perlocucionários os quais produzimos porque dizemos algo tais como convencer persuadir impedir ou mesmo sur preender ou confundir Aqui temos três sentidos ou dimensões diferen 96 Filosofia da Linguagem I tes senão mais até da frase o uso de uma sentença ou o uso da lin guagem e naturalmente há outras também Todas esses três classes de ações estão sujeitas simplesmente por serem ações às dificuldades e reservas costumeiras que consistem em distinguir uma tentativa de um ato consumado um ato intencional de um nãointencional e coisas semelhantes Quando dizer é fazer 1990 p 95 Desse modo podemos fixar a distinção entre diferentes atos as sociados ao uso de uma expressão linguística o ato de dizer algo o ato que se realiza no dizer algo e o ato que se realiza porque se disse algo respectivamente Ato locucionário enunciado com pretensão de sentido ou referência Ato ilocucionário enunciado em que o falante atribui ao conteúdo proposicional uma determinada força de realiza ção de uma afirmação de oferecimento de promessa de or dem etc num determinado contexto Ato perlocucionário enunciado por meio do qual o falante exerce certos efeitos sobre o ouvinte Notese que em grande medida Austin seguia de perto as análi ses de Frege mas ao priorizar os aspectos performativos e inten cionais da linguagem ele subsumiu o aspecto referencial conteu dístico privilegiado por Frege a uma forma de ação linguística entre outras Além disso a noção de ter significação para uma expressão linguística é alargada para dar conta daqueles usos em que propriamente os falantes não estão representando ou dizendo como o mundo está ou não Esse alargamento implicou que a significação não poderia mais ser reduzida à codificação de condições e cláusulas para a verdade ou a falsidade e menos ainda tão somente para a adequada representação das coisas Seguindo a proposta de Austin John Searle nas obras Os actos de fala e Significação e expressão propôs a seguinte classificação das condições de sucesso dos atos de fala 1 Condição preparatória o ouvinte O é capaz de fazer A 2 Condição de sinceridade O falante F quer que o ouvinte O faça A ato A compreensão da diferença entre esses atos é fundamental para a compreensão de todo este capítulo A concepção pragmáticointencional de linguagem 97 3 Conteúdo proposicional O falante F pressupõe um futuro ato A por parte do ouvinte O 4 Condição essencial Conta como uma tentativa do falante F em fazer com que o ouvinte O faça A A partir disso Searle ampliou a classificação dos diferentes tipos de atos de fala ou seja dos diferentes tipos de significação ou uso de uma sentença 1 Representativo compromete o falante com a verdade da proposição expressa dizer asseverar 2 Diretivo tenta levar o interlocutor a fazer algo pedir man dar ordenar 3 Compromissivo compromete o falante como uma ação fu tura prometer ameaçar 4 Expressivo expressa um estado psicológico agradecer congratular 5 Declarativo muda o estado institucional tende a se apoiar em instituições extralinguísticas excomungar declarar guerra condenar demitir Notese que o ponto desse tipo de análise centrase sempre no que o falante faz ao proferir uma determinada sentença A ênfase é no aspecto da linguagem que a coloca no plano do agir e não tanto no plano do sentir e do pensar A abordagem pragmática da linguagem inaugurou um tipo de teorização que modificou substancialmente a estratégia de argu mentação filosófica em muitos campos ao deslocar o foco da aná lise do âmbito do conhecimento e da verdade para o âmbito da ação e da correção e pertinência das ações Esse tipo de abordagem permite uma reconsideração de vários temas e problemas no plano da ética e da política como atestam os trabalhos de KarlOtto Apel sobretudo o texto O a priori da comunidade de comunicação e os fundamentos da Ética de 1972 e os trabalhos de Jürgen Habermas sobretudo a obra Consciência moral e agir comunicativo de 1983 98 Filosofia da Linguagem I Para Habermas alguém que faz um proferimento presume que o que foi dito pode ser justificado em quatro planos de va lidação Primeiro que o que foi é dito é inteligível quer dizer que forma utilizadas regras semânticas inteligíveis pelos outros se gundo que o conteúdo do que foi dito é verdadeiro terceiro que o falante pode garantir em termos sociais e normativos correntes no uso do idioma estar autorizado a dizer o que diz e quarto que o falante é sincero no que diz não engana o receptor Uma situa ção de fala em que se cumprem esses quatro quesitos seria o que Habermas denominou de comunicação não distorcida A partir disso se pode falar de condições pragmáticas e normativas para o discurso de uma ética da comunicação que estaria na base de todas as interrelações humanas Essa teoria do agir comunicativo deu origem a várias novas teorias inclusive uma nova definição de verdade de caráter universal e ao estabelecimento das bases para uma teoria ética e política 52 As implicações do dizer Em grande parte esse novo tipo de abordagem da linguagem se deve também aos trabalhos do filósofo inglês Henry Paul Grice 19131988 sobretudo os texto Meaning 1972 e Logic and conversation 1967 que estabeleceram a distinção entre o sig nificado do falante speakers meaning e a significação literal literal meaning bem como a teoria das implicaturas conversa cionais Nesses textos Grice propôs um modelo de análise das ma nifestações linguísticas e das práticas de conversação que se tornou paradigmático O ponto de partida da análise de Grice é que nos sas interações linguísticas são principalmente em certa medida esforços cooperativos em que cada interlocutor reconhece em si e nos demais um propósito ou conjunto de propósitos comuns em que cada ato linguístico é concebido como uma contribuição nes se esforço cooperativo Tornase evidente nessa abordagem a ênfa se no pensamento e no querer dizer em detrimento da ênfase na linguagem Grice aborda a linguagem como veículo de expressão das intenções do falante retomando o sentido do verbo inglês to mean significar dar a entender querer dizer pretender Caso tenha problemas para entender essa expressão releia a parte do livrotexto de Filosofia da Ciência que trata da teoria de Thomas Kuhn A concepção pragmáticointencional de linguagem 99 A partir dessa ideia podese explicitar regras ou máximas que regulam a prática da interação linguística A significação ou conteúdo de um proferimento dependerá das regras implícitas que regem o tipo de cooperação em andamento assim como da intenção ou propósito que o falante tem ao proferir uma frase No cerne dessa abordagem está a ideia de que a interação e a cooperação linguística possuem graus de eficiência e condições de realização Grice sugere que há regras derivadas justamente da finalidade da interação nas suas diferentes formas fornecer in formações interrogar ordenar avisar etc A partir dessa ideia ele sugeriu máximas da prática de conversação máximas essas que ao não serem seguidas prejudicariam ou até inviabilizariam o proces so comunicacional A regra mais geral pode ser assim formulada faça sua contribuição do modo que se espera que ela aconteça no momento em que ela deva ocorrer e de acordo com o objetivo ou direção da interação em andamento Em outras palavras bem comuns no vernáculo não fale sem propósito espere sua vez de falar e preste atenção ao assunto da conversa Deixando o gracejo de lado a teoria de Grice isola quatro princípios da cooperação de qualidade de quantidade de relação e de modo a partir dos quais se estabelecem quatro máxi mas conversacionais 1 Qualidade Não diga o que acredita ser falso Não diga aqui lo para o que você não pode fornecer evidência adequada 2 Quantidade Faça com que sua contribuição seja tão infor mativa quanto requerida Não faça sua contribuição mais in formativa do que é requerida 3 Relação Seja relevante seja pertinente 4 Modo ou Maneira Seja claro evite obscuridade evite ambi guidade seja breve seja ordenado A última máxima deveria ser a regra de ouro dos escritos filo sóficos e científicos Ela envolve quesitos como evite obscuridade de expressão não utilizando termos que não expõem o sentido da mensagem para o leitor evite ambiguidade usando palavras e ex 100 Filosofia da Linguagem I pressões com sentido definido e bem delimitado para que se possa obter uma interpretação unívoca evite prolixidade desnecessária produzindo uma mensagem com o máximo de informação e o mí nimo de palavras e evite a desordem organizando as informações num encadeamento temporal espacial e lógico Obviamente essas máximas valem para as interações discursivas com propósitos práti cos sendo desnecessário dizer que elas não valem para a maior par te dos nossos discursos notese que ao usar essa frase eu já não me adequo às máximas Problema qual das máximas eu não cumpri Como exemplo da análise que esse modelo propicia usando a máxima da relação podemos compreender o significado da ex pressão Que calor proferida em determinado contexto S1 e S2 encontramse em ambiente completamente fechado conversando S1 diz a S2 Que calor não S2 diz Espere e abre as janelas A teoria de Grice explica qual foi o raciocínio implícito ou a compreensão de S2 que o levou a dar essa resposta e sobretudo a fazer o que fez Implicitamente e tacitamente S2 pensou Eu sei que está quente aqui e ambos sabemos disso Então a frase não é apenas informativa Janelas e portas fechadas aumentam o calor da sala Então o propósito da frase é o pedido para abrirmos as janelas e portas Logo a resposta adequada não é Sim está muito quente aqui mas a ação de abrir as janelas Notese que essa análise combina de modo muito apropria do a abordagem pragmática e a abordagem intencional dos atos linguísticos A compreensão de um proferimento mesmo quando se trata explicitamente de uma sentença afirmativa considerando a situação em que o que se disse e as máximas conversacionais des loca a resposta do plano da representação e do conhecimento para o plano da ação e das práticas Isso revela que a resposta adequada para um enunciado é um revelador do seu conteúdo semântico Como no caso da frase Você tem horas a resposta adequada não é Sim mas a informação das horas o que revela que a frase não tinha um propósito cognitivo mas prático Isso sugere que o signi A concepção pragmáticointencional de linguagem 101 ficado ou conteúdo de uma expressão nem sempre seja uma repre sentação ou descrição da realidade e que com a linguagem se pode fazer outras coisas do que expressar ideias e representações No bojo da abordagem de Grice está uma teoria da significação linguística inovadora pois essa conjunção de conteúdo informativo e interação prática implica uma remodelação da noção mesma de significado a partir das ideias de implicitar implicate implicatura implicature e implicitado implicatum O significado linguístico será então analisado como uma função da intenção do enunciador e do reconhecimento dessa intenção pelo ouvinte em processos de interação cooperativa A questão do significado é portanto funda mentalmente pragmática pois se trata de analisar a relação prática entre falantes e interlocutores Nesse processo os participantes de um processo interativo utilizam as expressões e os sinais disponí veis na linguagem na maioria das vezes ancoradas no contexto e na situação de proferimento para dar a entender e significar de um modo que difere e extrapola em muito o significado literal das pala vras A abordagem pragmática ganha toda a sua força de evidência justamente ao mostrar que uma frase proferida em um contexto significa mais do que o literalmente dito e depois ao mostrar que há regras que permitem a um falante dizer esse a mais para um ou vinte e o ouvinte compreender o que foi dito Grice ilustra esse fato com o seguinte exemplo Maria e José es tão conversando sobre João Maria pergunta a José sobre como está João no seu emprego José responde Eu penso que ele está bem ele se dá bem com seus colegas e ainda não foi preso Notese que José responde à pergunta de Maria mas diz algo mais isto é além de dizer que João está bem no emprego a sua resposta signi fica ou traz implicada outra informação qual seja a de que João costuma ter problemas com os colegas e ser preso Para explicar esse tipo de significação Grice introduziu o conceito de implica tura conversacional que permite compreender como um inter locutor pode apreender um significado informação ou conteúdo semântico que concretamente não foi dito Esse conceito toma como base a ideia de que nas interações linguísticas se trata de um processo cooperativo baseado num conjunto de regras ou princí pios de cooperação implícitos O domínio dessas regras habilita A intenção do falante e o reconhecimento dessa intenção por parte do ouvinte são a chave da teoria de Grice 102 Filosofia da Linguagem I os falantes e ouvintes a se compreenderem mutuamente para além do que explicitamente é dito A partir disso o uso por um falante de uma expressão linguística com significado implica 1 produzir um efeito uma crença estado mental ou ação em quem o ouve e 2 fazer com que aquele que o ouve reconheça que o falante tem a intenção de produzir esse efeito Isso nos leva à distinção introduzida por Grice entre o que se diz o explícito ou o significado literal e o que se quer dizer o implícito ou implicado que nem sempre é um conteúdo representacional Em termos mais técnicos tratase de diferenciar o 1 significado literal explícito o expresso pelas palavras que é o significado se mântico dependente das convenções do 2 significado entendi do implícito o que as palavras dão a entender no contexto e na si tuação que é o significado do falante ocasional e dependente dos propósitos do falante no contexto e na situação de proferimento O conceitochave é o de implicação o qual tem duas direções bem definidas Um falante pode dar a entender um significado isto é um significado pode estar implicado no que o falante diz em função das convenções linguísticas em uso ou em função do contexto da conversa Nos dois casos estamos diante de algo que concretamente não foi dito mas é entendido ou seja distinguir entre 1 implicação convencional algo que não é dito mas se dá a entender utilizando as convenções linguísticas e 2 implicação conversacional algo que não é dito mas se dá a entender utilizan do o contexto conversacional Em geral costumase fazer essa dis tinção através da diferenciação entre pressuposto e implicatura Considerese o seguinte exemplo A filha mais velha de João se separou do marido Esse enunciado tem como pressupostos a que João tem mais de uma filha e b que a mais velha era casada Nenhuma dessas informações está explicitamente dita em i mas tem de ser ver dadeira para que i tenha sentido e seja verdadeiro Agora se esse enunciado é dito para alguém que está interessado na filha mais velha de João o significado implicado é que ela está livre agora O falante não o diz mas espera que o ouvinte infira que ela está dis ponível Notese que o significado implicado pode mudar radical A concepção pragmáticointencional de linguagem 103 mente se forem mudados o contexto e a situação de proferimento mas os pressupostos não Apresentamos nesta lição os principais conceitos da abordagem pragmática da linguagem O cerne dessa teorização é a compreen são de que o fenômeno linguístico faz parte do âmbito da ação e da interação humana Tratase de uma prática por isso os conceitos clássicos todos derivados da relação cognitiva e representacional são deixados de lado A significação linguística é explanada em termos atos e propósitos no contexto da ação humana e não tanto em termos de verdade conhecimento adequação à realidade So bretudo a conexão entre significação e verdade é substituída pela conexão entre significação e ação bemsucedida Leituras recomendadas HABERMAS Hürgen Guinada pragmática In Pensa mento pósmetafísico Tradução de F B Siebeneinchler Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1990 MOURA Heronides M Significação e contexto uma introdu ção a questões de semântica e pragmática Florianópolis Insu lar 1999 SEARLE John R Intencionalidade Tradução de J Fisher e T R Bueno São Paulo Martins Fontes 1995 WITTGENSTEIN Ludwig Investigações filosóficas São Paulo Victor Civita 1984 Os Pensadores Reflita sobre A relação de prioridade entre dizer algo sentir algo pensar algo e fazer algo A hipótese de que talvez as diferentes concepções de lin guagem sejam a tentativa de mostrar que o fundamento da significatividade de uma expressão linguística estaria ora no sentir ora no pensar ora no agir ora no dizer A very important day for the village Yet not everyone can be moved by it No matter how many festivities no matter what the occasion there is always something missing Capítulo 6 A análise linguística como método de investigação filosófica Este capítulo tem o objetivo de mostrar como a análise da linguagem passou a ser usada como metodologia filosófica A par tir das ideias de E Tugendhat mostraremos como os problemas tradicionais da Filosofia são agora trabalhados a partir de conside rações sobre o modo de funcionamento da linguagem Uncle Rokuro says everyone who walks this earth is born with the spirit of someone else inside them A análise linguística como método de investigação filosófica 107 6 A análise linguística como método de investigação filosófica A metodologia da filosofia da análise lógica da linguagem des loca e reorienta as antigas problemáticas filosóficas para o âmbito da linguagem e do sentido linguisticamente apreensível O cerne dessa metodologia está no processo mesmo de autolegitimação do método da análise da linguagem para a solução dos problemas fi losóficos Ao caracterizarse a Filosofia como da linguagem indica se antes de mais nada uma orientação metódica da própria tarefa da Filosofia Ernst Tugendhat enunciou com clareza essa modifi cação Para ele a Filosofia consiste no esclarecimento conceitual e os conceitos de que se trata aí são os conceitos constitutivos da nossa compreensão aqueles que em toda compreensão nós sem pre já devemos compreender Philosophische Aufsätze p 261 A via de acesso a tais conceitos a priori na perspectiva do método da análise da linguagem desenvolvido a partir de Frege Moore e Wit tgenstein é a suposição de que todo conceito consiste no modo de emprego de uma expressão lingüística Idem p 265 Notese que agora os conceitos os elementos do discurso filosófico se dão por meio da linguagem Essa posição de método é reafirmada de um modo esclarecedor no artigo Sprache und Ethik O material com o qual se lida na reflexão filosófica tratese da ciência ou da ética ou da estética ou da fé consiste em expressões linguísticas e o primeiro passo não pode ser outro que não o esclarecimento do que nós queremos dizer com aquele tipo de expressão linguística e Esta tese está presente em Philosophische Aufsätze Frankfurt am Main Suhrkamp 1992 Überlegungen zur Methode der Philosophie aus analytischer Sicht p 261 108 Filosofia da Linguagem I ali onde se trata da questão de como um determinado tipo de frase é fundamentado ou não deve ser fundamentado nós e qualquer modo nos remetemos à estrutura semântica dessas frases A análise filosófica é uma análise conceitual e uma vez que nós não encontramos os concei tos numa intuição intelectual mas apenas no uso de nossas expressões linguísticas a análise filosófica apenas pode ser pensada como análise semântica Ibidem p 277 Nessa perspectiva já nas Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem de 1976 Tugendhat abordava a tradição ocidental que concebe a Filosofia primeiramente como ontologia a partir da análise dos conceitos de ente Seiende e de objeto Gegenstand afirmando que esses dois conceitos apenas poderiam ser esclareci dos por meio de uma reflexão no emprego das respectivas expres sões linguísticas cuja função semântica seria a de referir a objetos e entes os assim chamados em teoria semântica termos singula res Idem p 40 Nisso consistiria o específico da nova metódica que a objetalidade dos objetos ou a entidade dos entes não mais deveria ser tematizada seja apelandose para a experiência seja a um processo de abstração Nas palavras de Tugendhat o especí fico da posição analíticolingüística consiste em que o discurso de conceitos apenas pode ser esclarecido pelo recurso ao emprego de predicados e também o discurso de objetos apenas pelo recurso ao emprego de termos singulares Idem p 41 Desse modo as questões filosóficas são respondidas através de investigações linguísticas uma vez que é apenas pelo uso da linguagem que as noções de realidade objeto entidade e proprie dade podem ser explicitadas No entanto não são apenas as noções conteudísticas referentes aos vários conceitos e objetos que foram em algum momento reificadas mas também as noções de termos proposicionais da nova lógica Aplicada à noção de termo proposi cional a tese tornase ainda mais explícita pois também essas no ções são esclarecidas pela análise da linguagem no sentido de que somente se pode esclarecer a noção de termo geral e de conceito lógico recorrendose ao uso de expressões predicativas e por sua vez a noção de termo singular e de objeto lógico apenas se ex planando o uso de expressões designadoras Termos singulares e termos gerais bem como a noção mesma de proposição são agora Tugendhat E Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische Philosophie Frankfurt aM Suhrkamp 1976 Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem Ijuí Unijuí 2006 A análise linguística como método de investigação filosófica 109 explicados linguisticamente e assim também as noções correlatas de conceito objeto estados de coisas operadores e conectivos O procedimento da análise da linguagem na versão de Tugen dhat é ainda mais forte pois ele pressupõe um princípio de ima nência segundo o qual objetos apenas podem nos ser dados via linguagem Em outros termos que apenas podemos falar de ob jetos seja para referilos seja para predicar alguma coisa deles no contexto de uma sentença de alguma linguagem isto é pelo uso de expressões que se tornam significativas na exata medida em que são usadas num contexto linguístico Mais ainda aquilo que se predica deles também é dependente de uma dada linguagem Os predicados são relativos a uma linguagem e à sua significatividade isto é a capacidade de exercer uma função semântica no contexto de uma sentença não implica a existência de algo conceito pro priedade etc mas tão somente regras de uso que remetem sem pre ao uso de outras expressões O ponto está na eliminação de qualquer vínculo direto da consciência e também da linguagem com entidades ou objetos Ora a função semântica codificada no sistema de expressões dêiti cas ou seja expressões do tipo eu aqui isto está diretamente relacionada com essa conexão de enunciados com a realidade so bretudo no caso dos enunciados de existência singulares Por isso embora se aceite que sem a indicação de objetos não há enuncia dos de existência indicação esta implicitamente contida em toda sentença de realidade mesmo ali onde ela não aparece explicita mente K BÜHLER Sprachtheorie die Darstellungsfunktion der Sprache Stuttgart Fischer Verlag 1982 25 p 385 apesar de reconhecer a relevância filosófica dessas expressões quando se mostra que sem elas em geral é impossível referirse a um objeto individual particular Tugendhat defende a tese de que as expres sões dêiticas como termos singulares apenas podem funcionar se forem usadas em conjunção com uma expressão categorial Idem p 498 as quais em última análise remetem ao emprego de predi cados e descrições Desse modo ficase livre de qualquer recurso a conceitos ontológicos objeto ente referente ou mentais ideia representação intenção para o esclarecimento dos termos pro posicionais e das funções semânticas das diferentes expressões Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische Philosophie p 388 110 Filosofia da Linguagem I linguísticas e sobretudo eliminase a problemática ideia de uma relação direta entre linguagem e mundo O argumento parte da seguinte premissa fregeana de que não existe uma referência a um objeto a um particular livre de signos Idem p 482 Essa ideia é expandida e posta como tese geral acerca da consciência de objetos A idéia tradicional de uma relação sujeitoobjeto livre de linguagem mostrouse como vazia de sentido Não existe referên cia a um objeto fora do contexto de uma sentença Idem p 498 A argumentação por conseguinte passa pela resposta à pergunta sobre como objetos podem se dar para nós O campo de apareci mento sobre o qual refletese foi apreendido na filosofia moderna clássica como Consciência como uma dimensão da representa ção enquanto que na nova concepção é apreendido como domí nio da compreensão das nossas expressões linguísticasIdem p 16 Nesse sentido a tese é acerca do modo como nos são dados objetos e diz que é por meio das formas e funções semânticas da linguagem Esse é o resultado da subsunção da função semântica dos termos singulares e sobretudo das expressões dêiticas à fun ção semântica dos predicados juntamente com a adoção da teoria descritivista da significação linguística pela qual a referência a um objeto se dá por meio de descrições A conclusão é de que mes mo os enunciados existenciais singulares que parecem ser sobre particulares são na verdade enunciados gerais Idem p 378 Por conseguinte objetos apenas podem se dar para nós através de al gum mediador e esse mediador consiste na estrutura semântica da linguagem a sua forma lógicogramatical A posição metódica de resolver os problemas filosóficos por meio de uma análise da linguagem Analyse der Sprache iniciada por Frege baseada na tese fundante da filosofia analíticolinguísti ca de que apenas existe um apriori analítico linguístico compre endida como tese contrária à representação de um ver espiritual intuição intelectual Vorlesung zur Einführung in die spracha nalytische Philosophie p 20 pode ser compreendida a partir de duas raízes que se confundem na obra de Tugendhat a tradição lógicoanalítica e a tradição hermenêutica Por um lado HansGe org Gadamer Verdade e método 1960 e KarlOtto Apel Die Idee der Sprache 1963 já haviam colocado a ontologia nos limites da A análise linguística como método de investigação filosófica 111 linguagem Apel afirma explicitamente que a Filosofia da Lingua gem é a filosofia primeira ocupando agora o lugar antes reservado à ontologia e à teoria da consciência Por outro lado Rudolf Car nap e W Quine também haviam posto a teoria semântica como chave para a discussão dos problemas filosóficos Essas raízes podem ser perseguidas ainda mais fundo pois o aparato conceitual utilizado por Tugendhat foi construído a par tir do início do século XIX dentro da assim chamada tradição se manticista em lógica e filosofia Todavia dentro dessa tradição existem duas posições bem definidas e opostas por uma delas a objetividade dos objetos é independente da significatividade das expressões da linguagem utilizada para dizêlo A outra ao con trário defende que as noções mesmas de objeto e entidade são um subproduto da significatividade linguística Stuart Mill Sistema de lógica como vimos no Capítulo 1 defendeu uma tese espantosa em sua época e até hoje mal digerida qual seja a de que certas expressões linguísticas referemse às próprias coisas objetos e en tidades sem a mediação de representações ideias e conceitos Essa tese é uma negação explícita daquilo que se costuma chamar princípio de imanência Princípio este que afirma que objetos ape nas podem nos ser dados por meio de uma representação ideia ou conceito e que era aceito por Hume e por Kant Desse modo Mill concedeu à linguagem uma posição que ela jamais tivera na Lógica e na Filosofia pois ela tornavase um medium de acesso para o pen samento considerar objetos diretamente Friedrich G Frege Über Sinn und Bedeutung entretanto em parte reafirmou o kantismo e o princípio de imanência ao defender que as expressões linguísticas apenas podem referir objetos e entidades por meio de um sentido e esse sentido obviamente não era linguístico embora apenas pu desse ser expresso e apreendido por meio da linguagem Todavia Frege defendeu sempre que podemos ter em consideração objetos e entidades dos quais não temos nenhuma representação aceitando desse modo a tese de Mill A tese de Frege é que pode haver algo que não é uma ideia de alguém e ainda assim ser objeto de con sideração do pensar Porém essa posição de Frege não foi ouvida de tal modo que de Frege a Dummett passando por Wittgenstein e Carnap o princípio de imanência na sua versão linguística se FREGE G Investigações lógicas O pensamento p 31 Atente para o que significa o princípio de imanência e sua relação com as teorias linguísticas aqui estudadas 112 Filosofia da Linguagem I fortaleceu e tomou forma na tese de que objetos apenas podem nos ser dados por uma descrição que é a posição de Tugendhat A tese de que todo conteúdo filosófico em última instância pode ser esclarecido por meio de uma explicitação do sentido e do uso de expressões linguísticas explicase por meio dos conceitos semânti cos de consequência lógica e de satisfação de uma proposição in troduzidos por Alfred Tarski os quais remontam a Bolzano e sua noção de objetividade conjuntamente com o método de análise derivado da distinção fregeanatarskiana entre metalinguagem e linguagem objeto A partir dessa concepção semântica os concei tos passíveis de análise são todos eles relativos à linguagem objeto porém expressos com os recursos de uma linguagem mais rica a metalinguagem As noções da ontologia da ética da estética etc por conseguinte são todas elas metalinguísticas e têm como refe rência primária os termos significativos de uma linguagem obje to a qual pode ser uma linguagem histórica como a língua por tuguesa Em outras palavras os conceitos ontológicofilosóficos de objeto entidade ser existência propriedade relação etc são apenas construtos metalinguísticos usados para esclarecer o uso das expressões da linguagem objeto Todavia as teses semânticas de Bolzano Frege e Tarski jamais subjugaram o inteiro âmbito do objetivo e do significativo à semântica pois sempre ressaltaram a diferença entre signo e significado linguagem e mundo A concepção de que os objetos e conteúdos filosóficos são eles mesmos linguísticos ou dito metodologicamente que o esclareci mento filosófico sobre qualquer assunto é sempre um esclarecimento na linguagem foi explicitamente defendida por Ludwig Wittgens tein na sua primeira obra o Tratactus LogicoPhilosophicus de 1918 Nessa obra com efeito a linguagem assume o papel de transcen dental de condição de possibilidade para a realização da tarefa da Filosofia o que significa que o esclarecimento do que é isso a lin guagem tornase uma precondição para o exercício da Filosofia e ao mesmo tempo o único lugar e objeto das considerações filosóficas Toda filosofia é crítica da linguagem TLP 40031 pois os dois âmbitos clássicos de problemas em filosofia o pensamento e a rea lidade são apenas apreensíveis em frases de uma dada linguagem FREGE G Was ist eine Funktion In Kleine Schriften p 278 Funktion und Begriff p 126 Grundgesetze der Arithmetik 1 p 5 CARNAP R The Logical Syntax of Language 41 42 QUINE W Ontological Relativity p 15 Essa distinção foi incorporada por A Tarski na própria definição da semântica formal como teoria metalinguística sobre as relações entre expressões da linguagem objeto e um domínio de objetos The Establishment of Scientific Semantics p 401 A análise linguística como método de investigação filosófica 113 Por um lado O pensamento é a frase com sentido 4 por outro A frase é uma figuração da realidade 4001 sendo que A totali dade das frases é a linguagem 4001 Entretanto a atitude crítica é necessária visto que A linguagem disfarça o pensamento 4002 Todavia nesse ponto já havia uma história prévia pois a lin guagem havia sido reposta no cerne da Filosofia por Johann G Hamann 17301788 amigo de Kant que desde a sua aparição afastouse criticamente em relação à Crítica da razão pura com a obra de 1783 Metakritik über den Purismus der Vernunft Nessa obra a linguagem era posta como pressuposição fundante de todo conhecimento humano Contra Kant Hamann defendeu que a sensibilidade e a razão pressupõem já uma linguagem de tal modo que a linguagem seria o único primeiro e último meio e também critério da própria razão Não foi diferente nem mais ousada a conclusão proposta por KO Apel ao sintetizar os mo vimentos analíticos e hermenêuticos de priorização da linguagem no procedimento filosófico Com efeito Apel termina por dizer que a Filosofia da Linguagem foi tomada como prima philoso phia isto é essa disciplina agora ocuparia o lugar que a partir de Kant a teoria do conhecimento ocupava a qual por sua vez já ha via usurpado o lugar antes reservado à Ontologia por Aristóteles A Filosofia da Linguagem por assim dizer e o seu cerne a te oria semântica agora fundariam tanto a teoria do conhecimento quanto à ontologia as quais diante daquela são subprodutos de rivados pois antes que se possa discutir sobre o ser como tal e so bre o conhecimento como tal hoje se pergunta pelas condições de possibilidade subjacentes na linguagem de construir sentenças com sentido e desse modo referirse a algo o que significa tomar a linguagem como um transcendental forte no sentido de Kant A linguagem na medida em que ela não é um objeto pertencen te ao mundo seria antes a condição de possibilidade de consti tuição de objetos Por conseguinte a análise da linguagem agora seria a própria metódica filosófica Todavia as expressões aná lise da linguagem e análise linguística recolocam a linguagem como algo como um ente no mesmo movimento que pretende indispôla como objeto ao denominaremna meio universal de constituição de objetos APEL KarlOtto Die Idee der Sprache in der Tradition des Humanismus Von Dante bis Vico Bonn Bouvier 1963 p 22 114 Filosofia da Linguagem I Na origem dessa concepção está a decisão metódica de explanar o conteúdo semântico das asserções apenas em termos de suposi ções e consequência segundo a qual o que é referido é dependente das propriedades internas de uma linguagem A filosofia da aná lise da linguagem supõe seguindo Dummett que seguia o mote de Wittgenstein para que os limites da linguagem a linguagem que só ela eu compreendo significam os limites do meu mundo Tractaus 562 que a linguagem é significativa pelas regras de uso e que essas regras são independentes da relação com objetos pois para eles a relação com objetos é dependente e derivada da com petência linguística A relevância dessa concepção está no fato de que ela ampara se em interpretações do conteúdo das noções semânticas basea das na confluência de várias teses Primeiro a tese de que o sen tido determina a referência interpretada inferencialmente de tal modo que os sentidos sejam agora intralinguísticos conjugada com uma leitura peculiar do princípio do contexto de Frege pela qual os objetos mesmos são feitos dependentes dos contextos lin guísticos Essas alegações redundam na tese de que é apenas com referência à verdade de uma proposição que é possível determinar a referência de um termo singular interpretada como implicando que é apenas pela referência à verdade de uma proposição que se pode determinar o que é e como é um objeto A ilação retirada vai ainda mais além pois a conclusão é de que a existência do objeto é derivada da verdade de uma proposição invertendose portanto a relação entre existência e verdade Segundo a tese de R Carnap pela qual as questões de existência passíveis de serem discutidas e resolvidas são internas a uma armação teórica ou linguística de modo que a posição de objetos é uma questão de articulação de um linguistic framework Por fim e conciliando essas duas pri meiras a tese de Quine da relatividade ontológica pela qual os objetos necessários para dar conta dos aspectos referenciais do discurso são relativos ao linguistic framework que ampara esse discurso Estas três alegações implicam a subsunção da categoria objeto à categoria expressão linguística ou ao termo o que signi fica dizer que a explicitação do que é dito existir e de como é dito existir passa a ser uma tarefa que apenas pode ser feita através da Atente para compreender o que é a linguagem como constituição de possibilidade da constituição dos objetos A análise linguística como método de investigação filosófica 115 elucidação prévia do que é que pode ser dito e de como é que se diz alguma coisa em uma linguagem Essa linha de raciocínio não fica apenas nisso porém Afirma se que a própria pergunta acerca do que é que algo que é apenas pode ser respondida pela explanação das propriedades semânticas das expressões utilizadas para referilo e para enunciar algo sobre ele Essas injunções conduzem à tese que Tugendhat defende a qual Dummett expõe assim Minha alegação é que essas questões metafísicas tornamse questões sobre a teoria do significado correta para nossa linguagem Nós não devemos ten tar resolver as questões metafísicas primeiro e então construir uma teoria do significado à luz dessas resoluções Nós deveríamos investigar como nossa lin guagem realmente funciona e como nós podemos construir uma descrição sistemática manuseável de como ela funciona as respostas a essas questões irão determinar as respostas as questões metafísicas Logical Basis of Metafhy sics Cambridge Harvard UP 1993a p 338 cf Ainda p 12 e p 15 Nas palavras de Brandom ditas como explanação do mote de Wittgenstein acima citado Fazer a questão por que há termos singulares é um modo de fazer a questão por que há objetos Making it explicit Cambridge Harvard UP 1994 p 404 Uma vez aceito que apenas podemos especificar o que é o conceito filosófico de objeto por meio do recurso aos termos singulares da palavra algo e de outros pronomes então a explanação da entidade dos diferentes objetos ou das coisas apenas é realizável pela reflexão no uso das expressões linguísticas utilizadas para dizer os objetos a objetualidade dos objetos não pode ser tematizada independen temente do significado dos termos singulares Idem p 50 Nas palavras tanto conclusivas quanto programáticas de Tugendhat A Ontologia está completamente absorvida e preservada na Semântica formal Isto vale não apenas para as partes da Ontologia tradicional nas quais algo as determinações predicativas fora ilegitimamente objetifi cado Vale também para a Teoria dos objetos que agora se mostra como uma parte da Semântica formal Idem p 48 Desse modo segundo esses filósofos para investigar o real e o pensamento nós deveríamos analisar o nosso modo de dizer o real e de expressar o pensamento o que é resumido na hipótese 116 Filosofia da Linguagem I clara do herdeiro desse modo de pensar D Davidson que tanto leu Frege quanto Gadamer de que é plausível defender que estu dando os aspectos mais gerais da linguagem estaremos a estudar os aspectos mais gerais da realidade The Method of Truth in Me taphysics Inquiries into Truth and Interpretation p 201 Leituras recomendadas BRAIDA C R KRAUSE D Ontologia II Florianópolis FILO SOFIAEADUFSC 2008 pp 127151 187202 STRAWSON P F Análise e metafísica São Paulo Discurso Edi torial 2002 TUGENDHAT E Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem Ijuí Unijuí 2006 Reflita sobre A relação entre pensamento e linguagem e o modo como nós podemos apreender um conceito ou um pensamento O fato de diferentes filosofias terem diferentes metodologias e procedimentos de justificação de suas teses e de como isso afeta as suas pretensões de validade e verdade O fato de que as filosofias linguisticamente orientadas pauta remse pela tese metodológica geral de que o meio de acesso e o lugar dos conceitos e do pensamento ser a linguagem Segunda Parte Teorias do significado O objetivo desta Segunda Parte é apre sentar as teorias e os modelos do significa do linguístico tendo como foco principal o problema da fixação do conteúdo semântico das expressões e o problema da equivalência semântica entre diferentes expressões Essa abordagem da linguagem por meio do con ceito de conteúdo semântico permitirá que se discutam de modo unificado os problemas das perspectivas apresentadas na Primeira Parte sobretudo no que se refere às relações entre linguagem ação pensamento e mundo Para isso apresentamse a questão do signi ficado e as duas vias clássicas de explanação do significado linguístico We were born with nothing so we have to work hard to be recognized by others That is the true meaning of life Those who wish to prove themselves will have to struggle a little more Capítulo 7 O conceito de significatividade linguística Neste capítulo é apresentado o problema de a noção de significado linguístico partir da teoria da linguagem de Karl Bühler O objetivo é mostrar que a linguagem tem sido concebida a partir de dois modelos opostos um dos quais concebe o significado das ex pressões como proveniente de uma relação entre linguagem e mundo e o outro como proveniente das interrelações das expressões de uma linguagem entre si Community Chest Pay Poor Tax of 15 O conceito de significatividade linguística 121 7 O conceito de significatividade linguística Com o objetivo de alcançar um patamar teórico mínimo de onde se possa discutir o conceito de significatividade de expressões linguísticas fazemse necessárias algumas distinções e suposições iniciais que deverão ser reavalidas ao longo da exposição A pri meira suposição é a de que há fenômenos semânticos isto é que se pode isolar e classificar certos elementos da experiência como expressões ou signos aos quais se atribui significação utilizados para a realização de atos semânticos dizer expressar comunicar etc A segunda dito abreviadamente de que a fonte da significati vidade linguística é a atividade de um ser senciente agente e social em um meio circundante Desse modo o fenômeno da linguagem teria como fatores emergentes os utentes um sistema de expressão ou linguagem o entorno ou situação esses três fatores são mani festos ou sensíveis na cena em que um ato discursivo se realiza A tarefa de uma teoria do significado ou teoria semântica seria a de repor teoricamente a propriedade geral da significação associada às expressões e aos signos Denominemos significatividade essa hipotética propriedaderelação e os objetos aos quais ela é atribu ída chamemos expressões A tarefa primeira da semântica é a de fornecer uma explicação da significatividade das expressões de tal modo que essa significatividade não seja por um lado redutível a uma propriedade ou relação causalnatural e por outro não seja algo puramente relativo ao arbítrio de uma subjetividade 122 Filosofia da Linguagem I Tomese como ponto de partida a seguinte caracterização do cerne da semântica fornecida por K Bühler na obra Sprachtheo rie die Darstellungsfunktion der Sprache de 1934 em que ele de fendeu que a significatividade de uma expressão é a resultante de dois fatores o contexto e a situação de proferimento O ponto de partida é uma esquematização da significação como uma relação tripartite cujos fatores constitutivos são o utente o ouvinte e a situação objetiva Desse modo uma expressão Zeichen é um símbolo em virtude de sua coordenação com objetos e estados de coisas sintoma indicação indício em virtude de sua dependência em relação ao falante cuja interioridade ele expressa e sinal em virtude de seu apelo ao ouvinte cuja atitude externa ou interna ele direciona Sprachtheorie die Darstellungsfunktion der Sprache 2 p 28 Nessa passagem estão expostos os fatores que compõem a situação de uso da expressão a qual inclui os utentes da expressão e o entorno objetivo Bühler a partir disso concebe a significação da expressão linguística como constituída de três funções as funções de expressar Ausdruck de apelar Appell e de representar Darstellung Esses três conceitos básicos são definidos todos como semânticos pois eles entram como fatores determinantes do significar como ingredientes constituintes da significatividade de uma expressão Nesse modelo é notável que as expressões sejam visadas isola damente como se elas pudessem significar sem estarem associa das às outras expressões e como se apenas uma única expressão pudesse efetivar um ato semântico Porém se levarmos em consideração o sistema de ex pressão ao qual uma expressão pertence então fazse necessário acrescentar um quarto fator ligado à sequência discursiva Desse modo no estabelecimento da significatividade de uma expressão também haveria que se levar em consideração o contexto discursivo isto é a ocorrência concomitante de outras expressões significativas Uma vez que os utentes falantes e ouvintes são também objetos de referência e juntamente com os demais objetos compõem a situação de proferimento podemos sintetizar Idem p 29 Tal explanação tripartite é adotada por R LARSON e G SEGAL no livro Knowledge of Meaning Cambridge MIT Pr 1995 acerca dos fatos semânticos Primeiro há fatos sobre as próprias expressões linguísticas incluindo as várias propriedades que elas têm e as diversas relações que ocorrem entre elas Segundo há fatos sobre as relações entre as expressões linguísticas e o mundo em que nós vivemos discutimos e algumas vezes argumentamos E finalmente há fatos sobre a relação entre as expressões linguísticas e os falantes que as usam para formular pensamentos comunicar idéias persuadir e agir p 1 Atente para cada elemento constitutivo desse modelo os quais você acompanhará na sequência A compreensão da definição de cada um deles e da relação que cada um possui com o outro é fundamental O conceito de significatividade linguística 123 as relações envolvidas em todo ato semântico chegandose à tese de Bühler Situação e contexto são pois grosso modo as duas fontes a partir das quais se alimenta em todos os casos a interpre tação precisa das expressões lingüísticas Sprachtheorie die Dars tellungsfunktion der Sprache cap III p 149 Essas duas noções de situação e de contexto pensadas como rela tivas à determinação da significação estão associadas a dois conceitos importantes na teorização de Bühler a saber os conceitos de campo de remissão ou sistema de indicação demonstrativa e anafórica e de campo discursivo ou recursos descritivos da linguagem concei tos esses que englobariam tudo o que pode ser objeto de discurso e todos os modos de indicação desses objetos configurando o âmbito de sentido Ao primeiro pertenceriam as expressões do tipo Aqui Agora eu tu este e aquele ao segundo pertenceriam as ex pressões do tipo verde pesado João e água Estes dois campos constituem a versão linguísticodiscursiva da situação nãolinguísti ca e do contexto discursivo Idem p 149 Considerados enquanto campos discursivos eles estabelecem o campo ou espaço de possibi lidades primitivos que as diferentes expressões apreendem e expres sam com os quais se pode expressar de que se está a falar e o que se está a dizer e desse modo exercem ou a função de introdução de um objeto ou de uma caracterização de objeto no discurso Notese que no interior do discurso tanto a situação como o contexto apenas podem ser dados por meio das diferentes expressões e das diferentes funções discursivas que essas expressões podem exercer No discurso não há um fora tudo está no discurso ou como parte do campo de remissão ou como parte do campo discursivo o que não significa em absoluto que o discurso não seja no mais das vezes sobre algo não discursivo Em termos mais simples apenas expressões ou palavras podem fazer parte de uma frase significativa O esquema de Bühler prevê ainda outro fator o intencionalpsi cológico relativo às intenções dos usuários da linguagem implica dos na situação discursiva Todavia sob uma análise mais precisa esse fator ou é dado por meio de atos expressivos ou por meio de objetos manifestos na situação discursiva Por isso no final a tese de Bühler estabelece que os fatores constitutivos da significativida de reduzemse à situação de proferimento e ao contexto discursivo 124 Filosofia da Linguagem I A tese da dupla remissão como fonte da significatividade desen volvida por K Bühler tem sido retomada de maneira simplificada por autores contemporâneos Com efeito segundo J Higginbo tham no texto Elucidations of Meaning de 1989 a propriedade da significação de uma expressão é apreensível para o ouvinte ou para o aprendiz por meio de um duplo remetimento As significações das palavras não são e talvez não podem estar sim plesmente dadas para o aprendiz antes elas tem de ser extraídas do ambiente sintático e semântico e do ambiente circundante no curso de maturação normal Os aspectos perceptuais desse ambiente tanto linguísticos quanto nãolinguísticos serve como evidência para aquilo que as palavras significam e o que as pessoas podem querer dizer com elas HIGGINBOTHAM 1989 p 466 As noções de ambiente sintático e semântico e ambiente cir cundante são aí utilizadas para apanhar os aspectos linguísticos e nãolinguísticos da situação de fala os quais constituem as cir cunstâncias de uso de uma expressão e estabelecem a tarefa da teo ria semântica geral repor tais vínculos na forma de uma teoria ou aparato conceitual capaz de prever as propriedades e relações en volvidas no uso da linguagem tanto do ponto de vista do ouvinte como do ponto de vista daquele em processo de aprendizado a tal ponto que fique explícita teoricamente a significatividade determi nada das expressões Nessa mesma linha de raciocínio R Cann na obra Formal Se mantics de 1993 sugere que dois aspectos ou vínculos determi nam os critérios de adequação de uma teoria semântica de tal modo que uma teoria minimamente adequada teria que 1 a capturar para qualquer linguagem a natureza do significado das palavras frases e sentenças e explicar a natureza das relações entre elas b ser capaz de prever as ambiguidades nas expressões da linguagem caracterizar e explicar as relações de significado sistemáticas entre as palavras as frases e as sentenças de uma linguagem 2 providenciar um tratamento das relações entre as expressões linguís ticas e as coisas acerca de que elas podem ser usadas para falar CANN 1993 p 1 O conceito de significatividade linguística 125 O que esses dois autores estão a dizer é que o ser significativo de um sinal compõese de uma dupla remissão ao contexto lin guístico e ao entorno o que de certo modo é uma retomada da tese principal de Bühler Todavia diferentemente daquele nessas propostas a semântica não mais tem que dar conta das intenções do falante Dessas propostas podese retirar as seguintes proposições se mânticas 1 os ingredientes da significatividade são a remissão ao contexto e a remissão à situação 2 as noções semânticas são definíveis em termos de funções que articulam essas duas remis sões 3 o conteúdo expresso pelo proferimento de uma expressão qualquer pode ser descrito e exposto unicamente por meio dessas duas formas de remissão e 4 as diferentes expressões e sobretu do as diferentes funções semânticas atribuíveis às expressões em uso são descritíveis com um aparato conceitual definido a partir dessas formas de remissão Notese que dessa maneira o fenôme no da significatividade linguística é pensado como um fenômeno mundano enraizado nas atividades de agentes sencientes capazes de fazerem e relacionaremse por meio de sinais cuja compreen são é realizável por conceitos e esquemas relativos ao entorno na tural e aos atos desses agentes Nenhum fator transcendente por conseguinte imiscuise na teoria da descrição semântica A partir dessas considerações introdutórias podese caracterizar o conteúdo e a tarefa de uma teoria semântica do seguinte modo Supondose o conceito de dizer como um conceito primitivo isto é que o conceito de ato semântico de alguém dizer alguma coisa a alguém acerca de algo em uma linguagem em uma situação está dado podemos isolar três subconceitos 1 o de agentes semânticos falantes e ouvintes 2 os de objeto e de situa ção acerca de que se fala e 3 o de sistema de expressão ou linguagem em que se fala A partir disso se pode ainda distinguir quatro relações básicas 1 a prática entre falantes e objetos 2 a pragmática entre falantes 3 a semânti ca entre linguagem e objetos e 4 a sintática Lembrese dos conceitos pelos quais nós explicamos a significação linguística 126 Filosofia da Linguagem I entre as expressões linguísticas Por sua vez cada uma dessas rela ções pode ser concebida a partir de cada um dos polos envolvidos gerandose assim os vários tipos de perspectivas teóricas acerca da ação significatória Essas relações espelham a complexa estrutu ra subjacente ao ato semântico que contém relações pragmáticas entre primeiras pessoas discursivas eu tu nós vós semânticas entre aqueles que falam e aquilo de que se fala ou seja os compo nentes da situação como referidos e não como pessoas discursi vas as coisas e os eventos as terceiras pessoas ele eles que não participam da conversa e ainda sintáticas e anafóricas entre um enunciado ou expressão e outros enunciados e expressões Entretanto enfocandose a significatividade de uma expressão como uma propriedade de um sinal instaurada por um comple xo de relações as quais reaparecem como fatores constituintes ou determinantes inseparáveis o ser significativo de um sinal é cons tituído pelos fatores associados à situação objetiva que inclui os falantesouvintes e os objetos os fatores associados ao contexto discursivo o meio de expressão ou linguagem e os atos semânti cos prévios e posteriores A tarefa da semântica em suma consis te na reposição e na elucidação teórica desse triplo entrelaçamento de remissões inerente à significatividade das expressões Na figura a seguir as setas indicam as diferentes remissões vigentes a cada vez que um sinal é usado de modo significativo Contexto discursivo gramática usos recorrentes de sinais proferimentos implicações Sinal Ouvinte Falante Situação de proferimento entorno objetivo Para fixar uma terminologia provisoriamente classificamse as remissões entre os itens do sistema de expressão como anafórico O conceito de significatividade linguística 127 inferenciais e aquelas que se estabelecem entre os itens linguísticos e os objetos da situação de referenciais Notese que inferir significa geralmente apenas a relação de consequentia entre duas frases en tretanto essa palavra significa originalmente levarlançar a e le varlançar contra o que permite o seu uso no sentido genérico de uma expressão qualquer remeter ou reenviar a outra expressão no interior do sistema de expressão inferir em oposição à relação de remeter ou reenviar a um objeto nãolinguístico referir Com essas duas noções procurase trazer para o conceito o contexto lin guístico e a situação objetiva em que toda expressão é utilizada e pelos quais adquire sentido e pode ser compreendida pelos utentes seguindo o princípio de que numa frase apenas palavras podem en trar como componentes semânticos A significatividade de uma ex pressão sendo assim pode agora ser explanada em termos de nexos inferenciais do seu significado com o significado de outras expres sões e de nexos referenciais do significado da expressão com ob jetos e estados de coisas da situação de proferimento As remissões inferenciais e referenciais por sua vez constituem classes de modos de significação ou correlação que estão por detrás dos diferentes papéis ou funções sintáticosemânticas atribuíveis às diferentes ex pressões que compõem um fragmento discursivo Desse modo as noções de designação predicação verdade descrição implicação nomeação sinonímia etc podem ser definidas de maneira preci sa com a utilização dessas duas noções primitivas O que importa perceber é que uma palavra ou frase ao ser usada como palavra estabelece um plexo de relações de remissão com outras palavras e frases relações estas que perfazem o seu conteúdo semântico Se chove há nuvens Gotas caem do céu Se é chuva as gotas são água Vamos nos abrigar Há nuvens no céu É verdade E está forte contexto Chove ref realsituação anaf inf 128 Filosofia da Linguagem I Essas distinções conceituais fazem parte da teoria que explicita o conteúdo valor e função semântico o assim chamado significa do de uma expressão de uma dada linguagem o qual se constitui pelas relações que tal expressão entretém com outras expressões e com o domínio de referência ou situação objetiva Esses víncu los obviamente não ocorrem independentes dos fatores práticos e pragmáticos O que se supõe entretanto na teoria semântica é que eles podem ser isolados e definidos autonomamente Esse modo de conceber a semântica porém implica um afastamento em relação a três posições padrão exclusivistas uma que entende a semântica como uma teoria das relações internas a um sistema de expressão outra que a concebe como uma teoria das relações entre o sistema de expressão e o mundo ou sistema de objetos e por fim outra que entende que a semântica é redundante e supérflua sendo redutível ao uso que seria inefável O ponto de vista aqui defendido consiste em duas hipóteses uma negativa que é a recusa dessas alternativas como parciais e inadequadas no sentido de que as três envolveriam uma redução da complexidade da significatividade pelo privilegiamento de uma das relações envolvidas no ato semântico A outra hipótese a positiva consiste em defender que as noções semânticas expõem os dois nexos ou relações referencial e inferencial o que significa que uma teoria semântica tem como tarefa a articulação de uma trama conceitual capaz de explicar tanto as relações inferenciais como as referenciais codificadas em um sistema de expressão sem reduzilas uma a outra Essa estratégia segue o molde da proposta de A Tarski para a definição das noções semânticas Embora Tar ski tenha restringido as suas considerações semânticas às lingua gens formalizadas eu penso que o cerne de sua estratégia de con ceituação e definição pode ser retomado e aplicado na elucidação das noções de uma semântica geral Porém diante das interpreta ções ora referencialistas ora deflacionistas da proposta de Tarski mesmo essa retomada tem que ser argumentada Essa alternativa está fundada na concepção do nexo semântico como uma relação complexa e estruturada A partir dessas considerações podemos distinguir três tipos básicos de explanação da significatividade das expressões linguís O conceito de significatividade linguística 129 ticas a referencialista a inferencialista e a deflacionista Dada uma expressão qualquer símbolo nome descrição predicado senten ça etc a teoria semântica referencialista Frege Russell Carnap e Kripke visa à explicação do modo como reenvia para coisas ou refere e a inferencialista Frege Wittgenstein Sellars Dummett e Brandom enfoca o modo como reenvia ou infere para outras expressões significativas internas ao sistema de expressão Dizer que uma expressão é significativa tanto pode ser entendido num como noutro sentido Isso está de acordo com as nossas práticas pois tanto introduzimos uma expressão indicando o objeto a que se refere quanto explicando o seu sentido por meio de outras pa lavras Porém a opção por uma dessas duas maneiras de abordar a significatividade refletese diretamente na definição de conceitos fundamentais da semântica tais como os conceitos de significado sentido verdade implicação e comprometimento discursivos De um ponto de vista o conteúdo apanhado pelas noções se mânticas está determinado pelas relações e propriedades que se estabelecem entre objetos linguísticos e objetos nãolinguísticos do outro a semântica investiga as relações e as propriedades lin guísticas e considera os objetos apenas enquanto expressos ou di tos através das expressões significativas A primeira supõe a relação de remissão a objetos e dessa relação deriva e explica o conteúdo e as propriedades semânticas das diferentes expressões e cumpre seu objetivo ao definir a partir do conceito primitivo as noções de verdade consequência equivalência etc A segunda de modo inverso supõe a significatividade das expressões e dessa proprie dade deriva e explica a noção de referência a objetos de equivalên cia e consequência entre expressões etc Contra esses dois modos de explanação semântica os deflacionistas Ramsey Wittgenstein Quine Field e Horwich defendem que a significatividade não é nem uma relação nem uma propriedade O referencialismo consiste na tese de que ser significativo é estar ou poder estar correlacionado com algo diferente A significativi dade como propriedade de um sistema simbólico não é senão a correlação com um sistema de objetos Essa tese pode ser estendida para a noção de linguagem ser linguagem é estar correlacionado com algo nãolinguístico Essa tese aparece explicitamente tanto 130 Filosofia da Linguagem I na tradição semanticista em Linguística como na tradição lógico semântica em Filosofia Ser significativo é estar confrontado e cor relacionado com algo diferente intuição fundante que sugere uma condição determinadora da noção de linguagem a linguagem supõe sempre outra coisa que ela própria Embora dito em ter mos mais técnicos essa mesma alegação aparece em proposições feitas por teóricos da tradição lógicosemântica o problema é que para que nossa linguagem decole deve haver objetos publicamente acessíveis bem como instrumentos de referência direta indepen dente de descrição Essa tese aparece sob a forma das exigências primeiro de sempre distinguir entre sinal e significado ou entre palavra e objeto segundo de diferenciar estritamente as proprieda des da expressão designante das propriedades do que é designado jamais confundindo o objeto com sua descrição linguística Nessa perspectiva de conceituação a linguagem é concebida como um sistema de objetos significantes cuja significância é uma propriedade decorrente de uma relação de remissão a outro sistema de objetos relação esta que bem pode ser denominada referencial Por isso denominase essa forma de conceituação de referencia lismo semântico o qual tem como cerne a tese de que a remissão a entidades é constitutiva da significatividade Para a teoria semân tica valeria a caracterização fornecida por Danto Sentenças que são sobre as relações entre o mundo e as sentenças eu as denomino como semânticas Relações dentro do mundo encontram expressão verbal em sentenças descritivas Relações entre o mundo e as descrições encontram expressão verbal nas sentenças semânticas DANTO A Analytical Theory of Knowledge Cambridge Cambridge UP 1968 p X A definição de semântica nessa perspectiva põe como concei tochave uma relação de remissão A conceituação dessa remissão seria em termos de uma relação entre duas entidades ou objetos distintos um do outro Todavia outro modo de conceituar a relação de remissão é cor rente em teoria semântica pela qual a remissão é interna entre as expressões de um sistema simbólico O cerne dessa tese é de que MARTIN R Pour une logique du sens Paris PUF 1992 p 238 MARCUS R B Modalities philosophical essays Oxford Oxford UP 1993 p 205 O conceito de significatividade linguística 131 Através de sua significação um enunciado não reenvia a objetos do mundo exterior mas a outros discursos de que ele é a continua ção ou suscetíveis de serem sua continuação Nessa visão a língua não reenvia a nada diferente do que ela mesma ANSCOMBRE JC Théorie des topoï Paris Kimé 1995 p 33 Nessa forma de conceituação as relações de remissão continuam jogando um pa pel essencial na teoria semântica Porém agora elas são pensadas como sendo de natureza anafóricoinferencial A explanação do conteúdo semântico realizase unicamente pela exposição dos ne xos inferenciais Denominase por isso essa alternativa de inferen cialismo semântico e o seu cerne é a tese de que a significatividade envolve apenas relações que se estabelecem entre as expressões de um sistema simbólico no sentido preciso de relações de implica ção e consequência entre as asserções das sentenças geráveis nesse sistema de expressão A definição paradigmática encontrase na Begriffschrift de Frege Há dois modos pelos quais o conteúdo de dois juízos pode diferir pode ou pode não ser o caso que todas as inferências que podem ser retira das do primeiro quando combinado com outros juízos podem sempre também ser retiradas do segundo quando combinado com os mesmos outros juízos As duas proposições os gregos derrotaram os persas em Platea e os persas foram derrotados pelos gregos em Platea diferem ao primeiro modo mesmo se uma pequena diferença de sentido é discer nível a concordância de sentido é preponderante Agora eu denomino aquela parte do conteúdo que é a mesma em ambas de conteúdo con ceitual Apenas este tem importância para nossa linguagem conceitual Begriffsschrift Hildesheim Olms 2007 3 pp 23 Notese que Frege entende que há algo que se mantém idêntico apesar da modificação das expressões linguísticas o que ele de nomina aqui contéudo conceitual e que a depender do contex to também é indicado pelas palavras sentido e pensamento O problema principal de uma teoria do significado ou teoria semân tica é fornecer uma explicação clara desse ingrediente O referencialismo e o inferencialismo operam ambos com a no ção de remissão como essencial para a significatividade linguística por conseguinte não obstante as diferenças de conceituação elas adotam uma teoria relacional da significatividade Essas alternativas 132 Filosofia da Linguagem I entretanto têm sido colocadas sob suspeita a partir de uma perspec tiva ainda mais crítica orientada para o total descomprometimento da teoria semântica com qualquer suposição em outros domínios teóricos que está fundada na intuição de que a significatividade não é uma relação ou propriedade A objeção de que a significatividade não é uma relação é o motor do deflacionismo semântico cuja tese é formulável em poucas palavras a significatividade de uma expres são não é senão o seu estar sendo usada como expressão em um sis tema de expressão da mesma forma como a explanação semântica é tão somente a descrição desse sistema em outro sistema de expres são Em termos conceituais os deflacionistas afirmam que as noções semânticas não expressam propriedades e relações reais mas tão so mente indicam a tradução de uma sentença em outra sentença Des se modo ao usar o conceito semântico de verdade para caracterizar uma frase como no enunciado A sentença Chove é verdadeira apenas se estaria indicando que se pode afirmar a frase Chove Essas três perspectivas de conceituação da semântica estão por detrás da disputa acerca das relações entre Semântica e Ontologia Nessa disputa três posições são claramente distinguíveis as noções ontológicas são anteriores e delas dependem as noções semânticas as noções semânticas são anteriores e delas dependem as noções on tológicas e as noções semânticas e as noções ontológicas são inde pendentes Denominemos essas posições respectivamente tese da superveniência tese da precedência e tese da independência das no ções semânticas em relação às ontológicas No contexto da discussão da semântica tarskiana essa disputa aparece sob a forma da alegação de que a teoria semântica é neutra em relação à teoria ontológica Todavia a alegação da neutralidade configurase de maneira distinta conforme seja concebida e interpretada a explanação tarskiana re sultando daí que as posições acima delineadas por vezes sejam vistas como compatíveis por vezes não Podese dizer que cada uma delas reclama ser a melhor interpretação para o procedimento de análise semântica desenvolvido por Tarski o qual aparece como um marco conceitual a partir de onde as diferentes posições se estabelecem As questões relativas à explicitação do conteúdo semântico das expressões e o problema das conexões entre teoria semântica e teoria ontológica recebem soluções diferentes conforme se adote TARSKI A A concepção semântica da verdade Cap 3 18 p 189 Uma teoria do significado tem reflexos nas teorias acerca do que há e do que não há O conceito de significatividade linguística 133 uma ou outra dessas conceituações A diferença mostrase na defi nição de conceitos como os de verdade conteúdo expresso objeto de referência e equivalência semântica de sentenças assertóricas o que é uma decorrência do fato de as diferentes perspectivas se mânticas operarem com uma relação de remissão diferente uma interna ou inferencial e outra externa ou referencial A noção de objeto decorrente da versão inferencialista é explícita Os objetos que a língua parece colocar em jogo são de fato criados por e para o discurso ANSCONBRE Op Cit p 31 Para a tradi ção referencialista no entanto a noção de objeto tem uma defini ção diversa valendo a noção de objeto definida por Frege segundo a qual o objeto sempre é algo distinto tanto das expressões utilizadas para referilo quanto dos conceitos utilizados para descrevêlo ou classificálo Do ponto de vista da descrição semântica a diferença tornase evidente na conceituação do valor semântico de expressões dêiticas para os inferencialistas esse valor determinase no interior do discurso para os referencialistas o discurso apenas pode indicar algo que está dado de antemão Essas definições ensejam duas estra tégias de solução para o problema da conexão entre noções semânti cas e noções ontológicas O inferencialismo tenderá a manter que as noções ontológicas são derivadas de noções semânticas e que a rela ção de remissão implícita na significatividade é interna à linguagem uma expressão sempre remetendo apenas a outra expressão A disputa concerne à conexão da noção de objeto como valor e ingrediente do conteúdo semântico de uma expressão com as demais noções semânticas O inferencialismo defende que tal noção é derivada e secundária em relação às noções de verdade designação equivalência etc alternativa esta que remonta tam bém ao modo como Frege definia a semântica não em termos de relações linguagemmundo mas em termos de relações entre os sentidos das expressões linguísticas os quais não necessariamente estão conectados com objetos A tese central é de que a relação de remissão a objetos é mediada sempre por entidades ou fato res já linguísticos que não é possível falar de um objeto sem de algum modo utilizar uma expressão para designálo Os funda mentos da aritmética 47 A tese assim formulada parece trivial não é possível utilizar uma linguagem falar para expressar algo 134 Filosofia da Linguagem I sobre conceito algo objeto sem utilizar uma expressão linguís tica nome Todavia o que se quer dizer é muito mais forte e nada trivial a saber que objetos não podem ser dados senão via linguagem Nessa versão porém já se deixou Frege de lado pois essa interpretação para ele apenas seria aplicável a objetos muito particulares a saber os objetos abstratos Com efeito a tese básica da perspectiva inferencialista em semân tica é que os conceitos semânticos podem ser definidos de modo satisfatório sem recorrerse às noções de domínio de referência e de satisfação ou denotação bastando a noção de valoração de um conjunto de sentenças primitivas Nessa maneira de conceituar a linguagem é concebida como o meio pelo qual se pode constituir um objeto Os objetos seriam uma decorrência ou efeito do modo pelo qual a linguagem significa ou é utilizada Ao referencialismo todavia resta contraargumentar que desse modo é impossível darse conta da própria linguagem pois ela também se apresenta como um objeto E além disso que a descrição semântica na linha proposta por Tarski está essencialmente ligada à ideia de exemplifi cação e modelagem a qual consiste em correlacionar as expressões geráveis em uma linguagem com algo diferente um modelo e que apenas através dessa correlação as propriedades lógicosemânticas da linguagem se deixam explicitar e definir inteiramente Leituras recomendadas RUSSELL B Sobre a denotação São Paulo Abril Cultural 1980 Os Pensadores RYLE G Ensaios São Paulo Abril Cultural 1980a Os Pensado res A teoria da significação e Sobre o referir Reflita sobre O que é denominado o significado e o dito em frases do tipo O significado do que ele disse é que não haverá aula amanhã e O que ele disse é que não haverá aula amanhã Como explicar em termos conceituais a propriedade de ser significativo para expressões gestos inscrições etc Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische Philosophie cf pp 50 482 338 Capítulo 8 A explanação referencial do significado linguístico Neste capítulo será apresentada a teoria referencial do significado Para isso serão ex postas as teorias de Tarski Carnap e Lewis O ponto principal dessas teorias é a expla nação do significado em termos de relações entre expressões e objetos de um domínio de referência If you land on or pass GO collect 200 A explanação referencial do significado linguístico 137 8 A explanação referencial do significado linguístico O propósito desta lição é a análise de duas teorias semânticas ancoradas na tese de que a relação referencial é a noção fundamen tal para a explicitação do significado a teoria de A Tarski e a teo ria da intensão e da extensão proposta por R Carnap e ampliada por D Lewis A caracterização dessas teorias como referencialis tas devese ao fato de que a descrição semântica de uma sentença propiciada por essas teorias inclui noções retiradas da relação en tre expressões e objetos Os postulados básicos do referencialismo partem de uma estipulação de referência a qual estabelece uma função de remissão entre expressões linguísticas e itens em um do mínio sejam esses objetos propriedades indivíduos conjuntos conceitos Para essas teorias é em virtude do vínculo referencial que uma expressão tem significado e contribui para a formação do significado de uma expressão composta e quando a expressão não é propriamente referencial como as expressões lógicas e de formação de frase ela significa uma operação sobre a extensão re ferência das expressões a ela ligadas Essa pressuposição em geral aparece como um postulado acerca da linguagem objeto qual seja o postulado de que os termos primitivos da linguagem sempre re ferem a algo Outro aspecto comum e complementar dessas teorias é a adesão forte ao princípio da composicionalidade para o signi ficado sentencial segundo o qual as propriedades semânticas de uma sentença são uma consequência das propriedades semânticas Você pode conferir essa tese de Taski em MORTARI C A DUTRA L H Org A concepção semântica da verdade textos clássicos de Tarski São Paulo EDUNESP 2007 Já a referida tese de Carnap em CARNAP R Meaning and Necessity A Study in Semantics and Modal Logic 2 ed Chicago UC Press 1958 CARNAP R Introduction to Semantics and Formalization of Logic Cambridge Harvard Univ Pr 1975 The Logical Structure of the World Pseudoproblems in Philosophy 1969 E a referida tese de Lewis em LEWIS D General Semantics Synthese 22 p 1867 1970 138 Filosofia da Linguagem I de suas partes componentes A conjugação desses dois princípios está na base da adoção do critério de substitutividade preserva dora de referência como modo de determinação de equivalência semântica e parâmetro para as operações envolvendo o conteúdo semântico de expressões 81 Alfred Tarski a semântica como teoria das relações entre expressões e objetos Tarski caracteriza o objeto da semântica como sendo a relação entre as expressões e os objetos Na sua teoria os conceitos se mânticos expressam certas conexões entre as expressões de uma linguagem e os objetos e estados de coisas referidos por estas ex pressões p 149 O conceito primitivo dessa conceituação apa nha justamente esse nexo entre expressões e objetos e é ele que estará na base da definição do conceito de satisfazibilidade que será o conceito semântico a partir do qual todas as propriedades e relações semânticas serão explanadas Uma vez estabelecido o conceito de satisfazibilidade definemse o conceito de sentença verdadeira e as relações entre as sentenças tais como consequên cia equivalência e as propriedades da linguagem a saber con sistência completude etc Todavia a posição de Tarski é mais matizada e os intérpretes em geral se dividem pois por um lado a teoria tarskiana parece resistir a uma interpretação referencial e por outro podese dizer que os principais resultados da proposta não dependem da relação de referência Todavia os conceitos pri mitivos são explicitamente referenciais e constituemse a partir da relação de remissão da linguagem a algo distinto dela Nós vamos entender por semântica a totalidade de considerações con cernentes aqueles conceitos que falando grosseiramente expressam certas conexões entre as expressões de uma linguagem e os objetos e estados de coisas referidos por estas expressões Como exemplo típico de conceitos semânticos nós podemos mencionar os conceitos de de notação satisfação e definição A Tarski A concepção semântica da verdade O estabelecimento da semântica científica p 149 Cf ainda A concepção semântica da verdade e os fundamentos da semântica 5 p 164 A explanação referencial do significado linguístico 139 Não obstante a tarefa principal da semântica é a definição do conceito de verdade sentencial para linguagens formalizadas e a definição dos conceitos lógicos de verdade consequência consis tência etc os quais têm a ver com relações inferenciais E é justamente nesse passo que se revela a estratégia referencia lista pois tais conceitos na articulação que Tarski forneceu têm uma natureza lógica diferente mas derivada em relação às noções de designação satisfazibilidade e definibilidade A concepção se mântica da verdade p 164 A interpretação referencial da proposta de Tarski pode ser con testada porque o seu conceito básico não é o de referência ou de designação A relação fundamental da semântica tarskiana é a de satisfazibilidade com a qual se estabelece inclusive o modo como um nome designa um objeto Porém a satisfazibilidade é concebi da como uma relação entre objetos e certas expressões denominadas funções sentenciais No que diz respeito à noção de satisfazibilidade poderíamos tentar definila dizendo que objetos dados satisfazem uma função dada se esta última tornase uma sentença verdadeira quando nela substituímos variáveis livres por nomes desses objetos Todavia nessa formulação supõese a noção de verdade e também a noção de sentença Por isso Tarski recorre a outra definição Indicamos quais os objetos que satisfazem as funções sentenciais mais simples e depois estabelecemos as condições sob as quais objetos da dos satisfazem uma função composta supondo que sabemos quais os objetos que satisfazem as funções mais simples a partir das quais a fun ção composta foi construída Idem p 175 Naquilo que interessa à semântica dois momentos estão aí en volvidos O primeiro a definição de satisfação de funções simples por objetos e o segundo com o uso dessa definição a definição de satisfação de funções compostas Para a definição de funções sim ples o esperado seria a utilização de noções como denotação e refe rência E é isso mesmo que Tarski faz em apresentações mais livres De fato conceitos semânticos expressam certas relações entre objetos e estados de coisas referidos na linguagem em discussão e expressões da linguagem referindo a esses objetos Logo os enunciados que estabele A noção de satisfazibilidade traz consigo embutida a noção de preenchimento de Husserl bem como a noção de saturação de uma expressão insaturada por um argumento de Frege A explicitação dessas metáforas faz parte da teoria semântica desde os seus começos e por meio delas resolvese o problema da relação entre o âmbito dos conceitos e o âmbito dos objetos 140 Filosofia da Linguagem I cem as propriedades essenciais dos conceitos semânticos devem con ter tanto a designação dos objetos referidos portanto as expressões da própria linguagem e os termos que são usados na descrição estrutural dessa linguagem O estabelecimento da semântica científica p 151 Notese que a caracterização da semântica como dizendo respeito às relações entre expressões e objetos está aqui especificada os enun ciados que estabelecem as propriedades essenciais dos conceitos se mânticos têm que conter tanto as expressões da linguagem usadas para designar objetos quanto as expressões usadas para designar ou descrever a estrutura gramatical dessa linguagem Esse tipo de afir mação mostra que em última instância todo o aparato conceitual da teoria semântica está fundado em enunciados da metalinguagem que relacionam expressões da linguagem objeto No entanto a ênfa se da referida passagem é dada ao fato de que os termos da lingua gem em questão são tomados como remetendo a objetos e estados de coisas além disso os enunciados mesmos supõem a relação de referência entre as expressões e os termos usados na descrição estru tural sem os quais eles não teriam nenhum sentido A relação entre as expressões da linguagem objeto e os objetos bem como entre tais expressões e as suas descrições estruturais não é senão a relação de designação que no esquema tarskiano é explanada a partir dos conceitos de satisfação e função sentencial dizer que o nome x denota um dado objeto a é o mesmo que estipular que o objeto a satisfaz uma função sentencial de um tipo particu lar Em linguagem coloquial isso seria uma função que consiste de três partes na seguinte ordem uma variável a palavra é e um dado nome x Idem 3 p 62 n 42 Portanto não é o conceito de designação que explica o de satis fação mas sim o contrário é que é o caso O problema então é a explicitação do que se quer dizer com estipular que um objeto satisfaz uma função sentencial sem se recorrer a algum tipo de relação de referência ou designação Considerese qual é o papel do sinal a na citação A resposta é tanto simples quanto proble mática a é o próprio objeto isto é a primeira letra do alfabeto ocidental não está ali como signo ou símbolo mas sim como si nal ou marca enfim como objeto Por sua vez a letra x está ali sendo indicada como signo ou nome do objeto a A explanação referencial do significado linguístico 141 Disso resulta que uma função sentencial utilizada para a insti tuição de um nome para um objeto seguindo a sugestão de Tarski é algo do tipo é x em que os parênteses indicam o lugar do objeto de um domínio qualquer e a letra x por sua vez é uma variável que se substitui por possíveis nomes de objeto Por exem plo tomando o alfabeto ocidental como domínio de referência podemos construir a seguinte sentença a é alfa Tal sentença es tipula que o objeto a seja a marca de tinta ou o tipo de marca de tinta denominase alfa isto é o objeto a satisfaz a função é alfa Notese que alfa antes dessa sentença era ape nas uma marca ou objeto tal como a e torna se uma expressão pela asserção da verdade da sentença que a estipula como nome de a Toda via essas frases são claramente problemáticas pois um objeto não pode fazer parte de uma sentença Logo a marca a está ali já como expressão significativa isto é como nome e não como objeto Por conseguinte o processo está viciado desde o início Desse modo o aparato todo depende da noção de atribuição de um objeto no domínio a uma variável livre Uma variável pode ser ligada ora a um ora a outro objeto do domínio A vari ável é um recurso para trazer ao discurso um objeto qualquer do domínio mas se ela é utilizada para explicar os nomes ela mesma não é um nome Resta uma única alternativa nas sentenças insti tuidoras ou estipulatórias o objeto mesmo faz parte da sentença e a variável apenas marca lugar para os diferentes objetos para os quais os nomes estão sendo estipulados Do contrário o objeto a teria que ser visto como um nome ou expressão mas desse modo o procedimento inteiro seria circular A unidade de significação fica reduzida desse modo a algo do tipo Algum objeto é branco ou melhor é branco o que é uma evidência de que a base da significatividade é concebida como deri vada da noção de instanciação ou aplicabilidade de um conceito e não da noção de nome e da relação de designação Os sinais linguís ticos são objetos e se significativos codificam conceitos ou funções Então como um sinal que é um objeto tornase um signo de objeto 142 Filosofia da Linguagem I que se calhar apanham objetos Para um objeto x ser o nome de um objeto a todavia é necessário que se estipule que o objeto a seja uma instância do conceito serdenominado x Isso é uma decor rência da teoria dos tipos que prevê a distinção apenas entre 0 objetos 1 conceitos e relações de objetos 2 conceitos e relações de conceitos etc As noções semânticas surgem a partir do primei ro nível Designação e satisfação estão no primeiro nível verdade equivalência consequência já seriam conceitos de segundo nível Essa leitura porém não é capaz de explicar completamente a estratégia tarskiana pois seguidamente ali é dito que os predica dos nomeiam subconjuntos no domínio Isso é uma consequência da indistinção das relações de remissão a objetos todas as expres sões significativas nomeiam aquilo a que remetem seja a indiví duos classes relações etc Idem 1 p 24 n 3 As expressões conceituais ou predicativas nomeiam no sentido de que o nexo que se estabelece entre elas e os objetos é fruto de uma estipulação Não há nada de especial diferenciando por exemplo as expressões é doente e é uma letra do alfabeto a não ser o fato de elas por estipulação nomearem ou denotarem diferentes conjuntos de objetos E a diferença delas em relação a é José não está na sua função semântica pois as três remetem a um conjunto de objetos mas sim no fato de que uma expressão remete a um conjunto e a outro a um elemento que pode pertencer a vários conjuntos Com o conceito de satisfazibilidade de uma função senten cial definemse os conceitos de verdade de consequência e de equivalência lógicas As noções de consequência e equivalência caem sob a noção de relação ou propriedade inferencial pois o que está em questão é uma relação entre sentenças O que não era esperado no entanto era que o conceito de verdade também esti vesse entre tais noções sobretudo tendose em vista a proposta de uma definição estritamente semântica e a sugestão de que tal de finição recuperaria o cerne das definições clássicas em termos de correspondência e existência No entanto Tarski apenas desloca a noção de verdade para um nível superior defendendo simultanea mente a possibilidade de definila e a sua vinculação com a relação de remissão entre o linguístico e o extralinguístico Com efeito na teoria tarskiana como será mostrado agora todos esses conceitos A explanação referencial do significado linguístico 143 são definidos empregandose uma estratégia semântica na qual o conceito de satisfação de uma função sentencial por um único objeto ou por uma sequência de objetos é decisivo e primitivo Portanto a conclusão de Tarski é de que não obstante o caráter secundário de tais conceitos e relações todos eles dependem do nexo semântico referencial para a sua definição Notese que um dos objetivos de Tarski era o de eliminar de sua definição qualquer conceito semântico nãodefinido o que para ele significava ou definilo em termos de outros conceitos se mânticos já definidos ou reduzilo a um conceito nãosemântico Os conceitos nãosemânticos por ele utilizados foram os da teoria dos conjuntos elemento conjunto e relação de pertencimento Não é porém a teoria dos conjuntos que importa mas sim a estrutura formal dos conjuntos Essa estrutura servirá de modelo ou domí nio de referência para a definição das propriedades semânticas das expressões de uma linguagem formal L qualquer principalmente para a definição de uma relação de remissão determinadora das extensões para as expressões primitivas e por recursão das ex pressões compostas Embora essa relação de remissão seja a chave da definição de satisfazibilidade isso de modo algum implica que ela seja semântica pelo contrário tal relação é exterior e anterior à linguagem significativa pressuposta no inteiro procedimento A estrutura formal delineada pela teoria dos conjuntos fornece os objetos de que Tarski precisa para deslanchar a sua teorização Tendo os objetos já determinados e independentes da linguagem L basta estipular que objeto satisfaz qual função sentencial no minativa do tipo x é X onde x é uma variável de objetos e X é uma variável de nomes Os objetos que ocuparão o lugar da variá vel são elementos de conjuntos conjuntos e conjuntos de conjun tos Desse modo a relação fundamental da semântica tarskiana seja ela denominada designação ou satisfação é na verdade uma estipulação de uma relação entre duas séries de objetos os objetos expressões primitivos de L e os objetos de um modelo ou estrutu ra no caso a estrutura propiciada pela teoria dos conjuntos O desenvolvimento desse aparato conceitual culmina na definição de modelo ou interpretação Um modelo constituise basicamen te na formalização de uma função de remetimento entre expressões O estabelecimento da semântica científica p 153154 144 Filosofia da Linguagem I de uma linguagem e um domínio de referência o que significa di zer por um lado que os objetos e também propriedades e relações referidos pelas expressões estão determinados independentemente do sistema de expressão e por outro que a relação de referência é exterior tanto à linguagem como ao domínio de referência Um mo delo basicamente constituise na estipulação de um domínio uma extensão e numa função de atribuição de extensões às expressões primitivas da linguagem em questão A definição de modelo dáse do seguinte modo dado um sistema formal SF com uma linguagem L um modelo para SF é um par U A D onde A é um conjunto e D é uma função que atribui para as constantes primitivas não lógicas de L t1 t2 elementos ou construtos de elementos em A se ti é uma constante individual Dti é um membro de A se ti é um predicado de primeira ordem nádico Dti é uma relação nádica inclusa em An etc Dizse que a função D atribui para os termos ts denotações em A Cada par de um conjunto A e uma função de denotação D determina um modelo para SF Dada uma teoria T em um sistema formal SF com uma linguagem L dizse que um mode lo U para SF é um modelo de T se e somente se toda afirmação de T é verdadeira em U e que U é um modelo de uma sentença S de L se e somente se S é verdadeira em U Com esse aparato chegase à definição de verdade Mais espe cificamente o que é explanado é o conceito de uma sentença S de L é verdadeira em um modelo U para SF o que é feito em termos de satisfação S é verdadeira em U se e somente se toda atribui ção de elementos em A para as variáveis de L satisfaz S em U Do mesmo modo para os conceitos de consequência e verdade lógica uma sentença S é consequência lógica de um conjunto G de sen tenças se e apenas se todo modelo de G é também um modelo de S e uma sentença S é logicamente verdadeira se e apenas se todo modelo é um modelo para S Genericamente portanto um modelo consiste numa estipula ção de um conjunto nãovazio chamado de domínio de referência de objetos e na interpretação de uma linguagem pela estipulação de uma função de remissão denotação para cada termo primiti vo da linguagem para as constantes individuais algum membro do domínio de interpretação e para cada símbolo funcional uma fun A explanação referencial do significado linguístico 145 ção com argumentos e valores no domínio e para cada símbolo predicativo alguma propriedade ou relação definida para objetos no domínio Esses termos são separados dos termos complexos ou sentenças para as quais é atribuído um ou outro mas não ambos valor de verdade verdade e falsidade Além disso os símbolos ló gicos os quais determinam os possíveis arranjos sentenciais rece bem a sua interpretação usual em termos de funções de verdade e os quantificadores são lidos como se referindo exclusivamente aos membros do domínio de interpretação Com isso fica claro que é a partir dessas especificações que se define a noção formal de satisfação uma sentença S é satisfeita se há um modelo em que ela é verdadeira uma função sentencial é denotativa se ela se torna uma sentença verdadeira quando se substitui a variável por um objeto do domínio Disso se segue a explanação do conteúdo semântico de uma sentença asserida o conteúdo expresso é um conjunto de condições de satisfação A especificação exata das condições de satisfação para as sentenças de uma lingua gem é essencial para uma teoria semântica referencialista Estas condições determinam um conjunto de modelos estru turas extensionais na qual a sentença é satisfeita ou verdadeira Ou ainda o expresso pela asserção de uma sentença é uma função de modelos para valores de verdade O que é expresso por uma sentença na teoria tarskiana portanto é uma função de modelos para valores de verdade Isso é evidenciado pela definição pro posta das propriedades e relações entre as sentenças tal como a relação de implicação entre sentenças em que apenas as noções de satisfação e modelo são utilizadas Todavia devese notar que propriamente falando o procedimento tarskiano não trata as sen tenças como expressando algo ou como tendo um conteúdo pois o que o procedimento supõe é que simplesmente haja uma rela 146 Filosofia da Linguagem I ção de remissão formal entre a lista das expressões e a lista de ob jetos ou mais precisamente uma correlação entre as expressões da linguagem e as da metalinguagem No início deste item foi sugerido que a semântica tarskiana tor na as relações e propriedades inferenciais secundárias e derivadas das relações referenciais Esse ponto tornase evidente na definição da noção de equivalência lógica entre sentenças a qual é essencial mente uma relação entre expressões e está diretamente ligada às propriedades referenciais de um sistema de expressão Tal noção é definida por Tarski a partir do conceito de implicação lógica duas sentenças S e S são logicamente equivalentes se e apenas se S logicamente implica S e S logicamente implica S Ora o concei to de implicação lógica está definido em termos de satisfação por modelos uma sentença S implica logicamente uma sentença S se e apenas se todo modelo de S é um modelo de S Por conseguinte em última análise a relação de equivalência entre duas sentenças é dependente daquela relação de remissão referencial O caráter semântico das explanações tarskianas não é senão a utilização da relação de remissão para a definição de toda e qual quer propriedade ou relação inferencial Seja qual for a proprieda de inferencial ou relação entre expressões substitutividade equi valência implicação etc é a noção de satisfazibilidade que em última análise será utilizada como termo definidor E essa não é senão a formalização da relação de remissão entre as expressões de uma linguagem e um domínio de objetos Podese dizer que a semântica tarskiana é uma teoria semânti ca muito restrita pois ela propriamente não explicita o conteúdo semântico das sentenças segundo os modos de significação mas tão somente mapeia as relações entre as extensões das diferentes expressões Em outras palavras a semântica utilizada por Tarski não distingue o modo como uma expressão denota ela apenas leva em consideração o que essa expressão denota Ademais as distinções entre as diferentes expressões não são relativas ao modo de significação mas sim às diferenças entre o que elas significam ou então aquelas distinções são relativas às diferenças morfoló gicas das próprias expressões Isso fica claro quando se focaliza o cerne da proposta tarskiana a saber a sua teoria da denotação Essa importante definição que de um modo geral resume a teoria semântica tarskiana da linguagem foi exposta no artigo Sobre o conceito de consequência lógica Op Cit p 240 A explanação referencial do significado linguístico 147 para nomes predicados e funções a qual se reduz à estipulação de um sinal para um objeto ou sequência de objetos O objetivo da teoria tarskiana é a determinação das proprieda des lógicosemânticas de sentenças e funções sentenciais e não a exposição do conteúdo semântico das expressões muito menos a explicação sobre como as expressões significam ou seja a proprie dade semântica que Tarski pressupõe é que as expressões signifi cam isto é têm denotações e a tarefa da semântica que ele pre tende cumprir é mostrar como outras propriedades semânticas dependem e podem ser derivadas dessa significatividade poden do ser definidas precisamente Isso está dito expressamente nós não estamos interessados aqui em ciências e linguagens formais num sentido especial de formal a saber ciência de signos e expressões aos quais nenhum significado é atribuído Nós sempre atribuiremos significados bem concretos e para nós inteligíveis aos signos que ocor rem nas linguagens que nós consideraremos O conceito de verdade nas linguagens formalizadas Op Cit p 34 A expressão meaning não deve ser entendida como significa ção mas sim como remissão a um objeto O que significa dizer que as elucidações semânticas fornecidas são desenhadas para uma linguagem em que as denotações dos nomes e das funções bem como as extensões dos predicados estão previamente garantidas e determinadas Todas as expressões são tratadas como designati vas Sobre esse pressuposto ele então define outras propriedades semânticas mostrando assim como se relacionam as noções se mânticas sobretudo como se dá a aplicação precisa do predicado verdade para sentenças e do predicado consequência para conjun tos de sentenças e uma sentença etc A teoria semântica tarskiana explicita as relações e proprieda des das expressões de uma linguagem já significativa portanto ela pressupõe que as expressões envolvidas tenham significado isto é que os nomes nomeiem algo que as funções sentenciais sejam sa tisfeitas por objetos e sequências de objetos e que os predicados te nham extensões determinadas Desse modo o predicado verdade tal como foi introduzido por Tarski aplicase a uma sentença na medida em que esta tenha uma determinada estrutura semântica estrutura esta decorrente de propriedades semânticas da linguagem A definição de BolzanoTarski introduz em todo argumento uma premissa tácita de que todo nome de fato nomeia algo HODGES W Elementary Predicate Logic p 56 In GABBAY GUENTHNER 1983 148 Filosofia da Linguagem I utilizada A definição do predicado verdade estabelece uma relação entre a sentença verdadeira e as propriedades semânticas das suas partes componentes de tal modo que dizer que uma sentença é verdadeira pode ser compreendido em termos de uma explicação da contribuição semântica de cada uma de suas partes relevantes Por conseguinte o aparato desenvolvido por Tarski apenas expli cita as relações formais entre certas propriedades semânticas pres supondoas como constituídas isto é pressupondo uma linguagem significativa como dada Tal aparato apesar de explicitar como al gumas propriedades semânticas são interdependentes não é uma explicação da significatividade das expressões linguísticas e muito menos é capaz de expor o conteúdo semântico de uma sentença Todavia a teoria tarskiana tem um aspecto que não pode ser negligenciado a saber a sua capacidade de mostrar como as pro priedades semânticas de uma expressão complexa são deriváveis de propriedades semânticas mais primitivas associadas às suas partes componentes Com efeito podese dizer que essa é a principal vir tude de tal teoria pois ao mostrar como definir conceitos semân ticos superiores na hierarquia dos tipos através de praticamente um único conceito o de satisfação de uma função sentencial por uma sequência de objetos Tarski realizou o ideal da composicio nalidade que prevê que as propriedades semânticas de uma expres são complexa dependam e sejam derivadas das propriedades das expressões componentes 82 A semântica como teoria das relações entre intensão e extensão A explanação das noções semânticas a partir da noção de refe rência formal em um modelo tem uma limitação bastante evidente quando estendida às linguagens naturais pois ela supõe que o con teúdo semântico das expressões esteja fixado através de uma função de denotação para cada termo da linguagem exigindo uma prede terminação tanto das expressões pertencentes à linguagem como dos objetos de referência o que parece não ser o caso para as lingua gens em geral Rudolf Carnap na obra Meaning and Necessity pro A explanação referencial do significado linguístico 149 curou formular uma semântica formal nos moldes de Tarski capaz de lidar com a variabilidade do conteúdo semântico o que é possibi litado pela introdução da distinção entre intensão e extensão A in trodução desses conceitos como será mostrado permitiu a Carnap estabelecer distinções mais precisas sobretudo no que se refere à noção de equivalência semântica para sentenças tornando possível diferenciar no que é expresso pelo proferimento de uma sentença em uma situação e em um contexto conteúdo e valor semântico O que essas noções proporcionam é justamente o que não há na semântica tarskiana a saber a distinção de modos de signifi cação e a possibilidade de uma exposição do conteúdo semântico das expressões de maneira a explicitarse o modo como uma ex pressão significa isto é o modo como se conecta com a sua exten são ou valor semântico Para apresentar a explanação do conteúdo semântico segundo o método de descrição baseado nas noções de intensão e extensão vou seguir primeiro o texto de Carnap e depois o texto General Semantics de D Lewis ainda com o ob jetivo de explicitar a estratégia referencialista na explanação do conteúdo semântico sentencial A posição de Carnap explicase em parte pela retomada da distinção fregeana entre sentido e significado distinção essa au sente das considerações de Tarski Essa retomada porém é feita por meio da assimilação das noções de sentido e de significado aos conceitos de intensão e extensão Além disso ao introduzir o seu método de análise semântica Carnap distingue dois modos de diferenciar a intensão e a extensão Os dois modos são um parte da distinção entre 1 a distribuição de valores de uma função proposicional e a própria função propo sicional e o outro distingue 2 a entidade cujo nome é a expres são um nome e o significado ou sentido da expressãoMeaning and Necessity 29 p 127 Carnap adota como paradigma o pri meiro modo nossa distinção entre extensão e intensão é como que uma explicação do mesmo par de conceitos 1 relativamente aos predicados e simultaneamente como um alargamento do do mínio de aplicação dos conceitos comuns a outros tipos de desig Synthese 22 p 1867 1970 150 Filosofia da Linguagem I nadores Ibidem Com essa opção Carnap de certo modo não apenas retoma o ponto principal da semântica tarskiana qual seja o de colocar a noção de função proposicional como primitiva mas também mantém a abordagem referencialista no sentido de que estende para todas as expressões a noção de designação Porém na medida em que a operação primitiva é a de uma fun ção proposicional para que se constitua uma expressão designa tiva fazse necessário ter como verdadeira uma sentença Isso se expressa no postulado de que a unidade semântica básica é a sen tença E por isso os primeiros conceitos definidos são por um lado os de verdade falsidade equivalência implicação e por ou tro os conceitos propriamente lógicos ou analíticos de Lverdade Lfalsidade Limplicação e Lequivalência os quais são uma expli citação da noção de intensão para uma linguagem L qualquer A suposição tarskiana da linguagem como já significativa é re tomada por Carnap na forma da postulação de regras semânticas que determinam a designação das constantes individuais e dos pre dicados e de regras de verdade para as sentenças simples e com postas Estas regras por sua vez não são parte da linguagem sendo consideradas pseudossentenças e fazem parte da sintaxe Devese notar que as regras semânticas não são em si mesmas nem verdadeiras nem falsas pois são elas que permitem a definição de verdadeiro e falso Elas porém determinam as propriedades in tencionais de qualquer expressão e assim constituem a chave para a apreensão do conteúdo semântico de qualquer expressão Uma vez estabelecida uma linguagem por meio de suas regras semânticas Carnap passa a definir os conceitos propriamente ló gicos Estes serão definidos a partir da noção de statedescription a qual joga um papel semelhante ao de modelo ou interpretação na teoria tarskiana Porém uma descriçãodeestado é um conjunto de sentenças em uma linguagem que contém para cada senten ça atômica ou esta sentença ou a sua negação mas não ambas e nenhuma outra sentença Uma vez que tal conjunto fornece uma descrição completa de um possível estado do universo de indiví duos com respeito a todas as propriedades e relações expressas por predicados do sistema ela equivale a um mundo possível Uma sentença será então logicamente verdadeira Ltruth se e apenas A explanação referencial do significado linguístico 151 se ela pertencer a toda e qualquer descriçãodeestado possíveis na linguagem Dessa definição chegase à definição de implicação e equivalência lógica Uma sentença S implica logicamente outra S se e apenas se a sentença S implica S for verdadeira logica mente Disso resulta que se uma sentença S implica logicamente a sentença S então S pertence a toda descriçãodeestado a que S pertence Duas sentenças S e S serão logicamente equivalentes se e apenas se a sentença S equivale a S for logicamente verdadeira O cerne da proposta de Carnap porém é a definição de in tensão A noção de intensão é pensada como uma função determi nante de extensões em conformidade com a tese fregeana de que o sentido determina o significado O que é denotado por uma ex pressão a sua extensão varia em função dos mundos possíveis ou descrições de estado Na distinção clássica entre a intensão e a ex tensão de um termo conceitual estavam mescladas as duas relações semânticas antes mencionadas a inferencial e a referencial Com efeito a formulação moderna dessa distinção articula de um lado a relação entre um conceito e outros conceitos e de outro a relação entre um conceito e os objetos aos quais ele aplicase A partir disso se pode falar das relações entre as intensões de dois conceitos e também das relações entre as extensões desses mesmos conceitos Todavia na proposta de Carnap ambos os conceitos são esta belecidos para dar conta das propriedades referenciais Para os termos subsentenciais extensão e intensão definemse resumida mente assim dos termos designadores a intensão é um conceito individual e a extensão um indivíduo Para os termos gerais ou predicadores a extensão é a classe determinada pela propriedade ou sua intensão No que se refere às sentenças a extensão é o seu valor de verdade e a sua intensão é o que tradicionalmente se de nominou proposição Propriedade conceito individual e propo sição são marcados como entidades marcação esta também utili zada para designar classes indivíduos e qualquer coisa que possa ser uma extensão Meaning and Necessity 4 p 2223 Disso se seguem as definições a intensão de um predicado Q para um interlocutor I é a condição geral que um objeto y deve satisfazer de modo que I esteja disposto a aplicar o predicado Q a y Meaning and Necessity p 242 Que um predicado Q numa 152 Filosofia da Linguagem I linguagem L tem a propriedade F como sua intensão para I signi fica que entre as disposições de I que constituem a linguagem L existe a disposição de aplicar o predicado Q a qualquer objeto y se e somente se y tem a propriedade F Idem p 242 Duas expres sões são sinônimas na linguagem L para I no momento t se elas têm a mesma intensão em L para I no momento t Uma sentença é analítica em L para I no momento t se sua intensão ou domínio ou condição de verdade em L para I no momento t compreende todos os casos possíveis Idem p 243 Essas definições supõem que as expressões ditas descritivas te nham a sua contribuição semântica controlada por regras deter minadoras de suas propriedades o que é garantido pelo fato de que o seu uso na linguagem é condicionado por postulados ou regras semânticas mais especificamente por regras de designa ção O uso dessas regras semânticas é central nesse procedimen to Através delas Carnap consegue operar formalmente com os termos nãológicos ou descritivos ao expressar o seu conteúdo extensional no vocabulário lógico Em outras palavras as regras semânticas estabelecem restrições para os possíveis modelos a par tir da restrição das possíveis inferências pois as regras semânticas que instituem uma linguagem não são senão a determinação das relações das expressões umas com as outras e elas o fazem com base na preservação das relações extensionais isto é referenciais À primeira vista a noção de intensão desenvolvida por Carnap é apenas um reflexo formal da extensão de uma expressão isto é das suas relações referenciais pois não se fornece nenhum crité rio para distinguir duas intensões senão em termos de diferença de extensão Todavia a noção de extensão não pode ser explicada apenas pela relação de referência pois aquela noção está associada à noção de implicação e a determinação da relação de referência não é suficiente para determinar as relações de implicação ou re lações inferenciais As relações de referência e de implicação cons tituem uma explicação do par complementar extensãointensão apenas se for estabelecida a conexão entre ter uma determinada extensão com as relações de implicação de um termo Classica mente isso é feito pela suposição de que para quaisquer termos C e C se C implica C então 1 para todo objeto o se C aplicase Isto é aquelas regras que interpretam as diferentes expressões de uma linguagem em um domínio A explanação referencial do significado linguístico 153 a o então C aplicase a o e 2 para todo termo C se C implica C então C implica C do que se segue que C aplicase a o Essa correlação no entanto tem uma direção pois a exigência mínima para ela é a de que se a intensão de um conceito é igual a de outro então a extensão de ambos deve ser a mesma no mesmo contex to mas não viceversa Da igualdade entre as extensões como se sabe não se segue a igualdade das intensões Carnap transpõe a distinção entre extensão e intensão aplicada aos conceitos para as expressões designadoras Por conseguinte na noção de termo designador deve estar incluso mais do que a simples relação de referência visto não ser essa relação ela mesma suficiente para dar conta de todas as suas propriedades semânti cas as quais determinam as suas propriedades inferenciais isto é suas relações de implicação com os demais termos da linguagem O problema está em como definir a noção de intensão de tal modo que ela seja capaz de elucidar tanto as propriedades referenciais como as inferenciais e sobretudo a relação entre essas proprieda des para expressões de uma linguagem A posição de Carnap aproximase daquela defendida por C I Lewis Para este a intensão deve ser definida tendose em vista a totalidade da linguagem pois conforme ele a intensão é ela pró pria a conjunção de todos os outros termos aplicáveis àquilo a que o termo em questão é corretamente aplicável sendo determina da pela definição desse termo The Modes of Meaning p 238 A extensão por sua vez definese em termos referenciais como a classe das coisas reais às quais o termo se aplica Todavia desse modo não fica decidido qual é o conceito primitivo ou seja se é a intensão que determina a extensão ou viceversa Carnap decide se pela tese de que a intensão determina a extensão mas conce be a intensão como um determinável de modo que a extensão de uma expressão varia em função dos mundos possíveis ou situações de uso Isso acontece porque são os estados de coisas ou mundos possíveis que satisfazem ou não uma determinada estrutura in tensional codificada por uma sentença em um determinado con texto de uso Do que se segue que a extensão de uma expressão não seria determinada apenas pela sua intensão pois a situação de uso também contribui para a fixação dessa extensão 154 Filosofia da Linguagem I Dada uma expressão qualquer a sua extensão os objetos que ela designa depende de sua intensão Todavia uma mesma ex pressão com uma significação determinada tem sua extensão al terada em função da situação de utilização por exemplo o sentido da expressão O presidente da República brasileira está deter minado por uma série de regras desde a fundação da República regras essas derivadas de fatos e atos nãosemânticos os quais subjazem e constituem a significação da expressão o que consti tui a tese de que as propriedades semânticas têm a sua origem no âmbito nãolinguístico A cada uso dessa expressão ela tem uma extensão definida Entretanto o indivíduo que é a extensão dessa expressão varia conforme a situação de uso Numa ocasião ela de signa Fernando Henrique Cardoso noutra ela designa Luiz Inácio da Silva noutra Juscelino etc O conceito de intensão pretende apanhar esse fato Nesse conceito estariam articulados os fatores designativos da significação de uma expressão os quais determi nam a extensão da expressão em uso Para isso os fatores contex tuais e situacionais são incorporados como parte do conteúdo semântico isto é da intensão Esse aspecto porém no que se refere aos sistemas formais é determinado pelas regras semânticas instituidoras por cujo meio são especificados tipos de remissão en tre expressões e os elementos do domínio de referência A proposta de Carnap mostra o seu caráter referencial na exata medida em que explana a significatividade das diferentes expres sões atribuindolhes uma intensão que não é senão o fator desig nativo o que vale também para as sentenças Ao distinguir entre extensão e intensão como noções descritivas da contribuição se mântica de termos designadores e ao conceber as sentenças como termos designadores Carnap tem que explicar como aquele par de conceitos aplicase às sentenças Seguindo a orientação fregeana ele distingue entre o valor de verdade de uma sentença e o que é expresso pela sentença O que é expresso por uma sentença é uma proposição e esta é concebida como a intensão da sentença O conteúdo semântico sentencial será então elucidado a partir dos conceitos de estrutura intensional e de isomorfismo intensional O que é expresso pelas sentenças são entidades que elas mesmas são extralinguísticas mas que se elas encontram expressão na lin A explanação referencial do significado linguístico 155 guagem são expressas por sentenças declarativas Meaning and Necessity 6 p 27 O que é expresso por uma sentença entretan to é uma resultante da composição das intensões das suas partes componentes o que sugere que a proposição é uma estrutura in tensional Idem 9 p 4041 se duas sentenças são compostas do mesmo modo por designadores correspondentes com as mes mas intensões então nós diremos que elas tem a mesma estrutura intensional Idem 14 p 56 A noção de estrutura intensional retoma o que está afirmado na noção de composicionalidade semântica a saber que as expres sões compostas têm o seu conteúdo semântico determinado pela articulação dos conteúdos semânticos das partes componentes Duas sentenças possuem a mesma estrutura intensional se suas partes componentes tiverem cada uma a mesma intensão e estas partes forem articuladas segundo a mesma forma Nessa carac terização nada é dito acerca do modo como as partes significam Todavia a noção de estrutura intensional apenas é manuseável se tanto as unidades nas quais as expressões compostas se deixam analisar quanto essas expressões mesmas sejam semanticamente designadores Idem 1 p 67 14 p 57 Do contrário o iso morfismo intensional não garantiria a equivalência extensional O expresso ou o que é dito pela asserção de uma sentença pode agora ser explanado nos seguintes termos Uma sentença designa a sua extensão um valor de verdade e expressa a sua intensão uma proposição Duas sentenças codificam o mesmo conteúdo semântico isto é expressam a mesma proposição se elas são in tensionalmente isomórficas isto é se elas podem ser analisadas em termos componentes com a mesma intensão e esses termos estejam articulados do mesmo modo E uma vez que a intensão de uma sentença determina uma classe de mundos possíveis em que ela é satisfeita ou seja é verdadeira dizse que o que é expresso por uma sentença o seu conteúdo semântico é um conjunto de mundos possíveis modelos ou descrições de estado A teoria semântica defendida por D Lewis 1970 concebe a significação como uma função de contextos de proferimento para condições de verdade de sentenças usadas no contexto Interessa nos apenas o núcleo diferencial de tal teoria a saber interessanos 156 Filosofia da Linguagem I o modo como nela analisase e explanase a significatividade das expressões e como a partir disso explicase o conteúdo semân tico das sentenças Não nos interessa uma reconstrução histórica exaustiva O ponto de partida de Lewis em General Semantics é que a teoria semântica tem que fornecer uma explanação das condições em que uma sentença é verdadeira sob a suposição de que a significação meaning de uma sentença é algo que determi na as condições sob as quais ela é verdadeira ou falsa e de que as relações genuinamente semânticas são as relações entre expressões symbols e o mundo de nãoexpressões Nessa proposta a semân tica é a descrição de linguagens possíveis ou gramáticas como sis temas semânticos abstratos em que símbolos são associados com aspectos do mundo Idem Introduction p 1819 A significação de uma sentença entendida em termos de con dição de verdade contém como ingredientes todos os fatores que podem interferir na determinação do valor de verdade Os fatores envolvidos são todos derivados das relações que a sentença matém com a situação de uso e o contexto discursivo estadosdecoisas possíveis tempo lugar falantes e ouvintes contexto discursivo etc Esses fatores ingredientes estão codificados ou são veiculados pelas expressões componentes da sentença e conformam a sua intensão A semântica de D Lewis contudo visa tornar explícitas as ex tensões das diferentes expressões e o modo como se articulam e podem ser manipuladas A extensão da sentença é o seu valor de verdade dos nomes a coisa nomeada e dos nomes comuns o con junto de coisas a que eles se aplicam A significação de um nome assim determina que entidade se alguma ele nomeia nos vários estados de coisas possíveis em vários tempos lugares etc Os va lores determinados pela significação de cada expressão constituem a sua extensão o valor de verdade para as sentenças a coisa no meada para o nome o conjunto de coisas para os nomes comuns Seguindo o modelo de Carnap Lewis introduz mais dois con ceitos os quais refinam a noção de significação o conjunto de fa tores relevantes para a determinação da extensão denominado de índice index e a função desses índices para as extensões de uma sentença nome ou nome comum denominada intensão Idem p 23 Como em Carnap a intensão realiza somente uma parte Synthese 22 p 1867 1970 A explanação referencial do significado linguístico 157 do que é realizado pela inteira significação pois explicitamente ela apenas apanha os aspectos designativos da significação No en tanto as funções determinadoras de extensão carnapianas tinham como argumento modelos ou descrições de estado representando mundos possíveis Na proposta de Lewis tais funções têm como argumento um pacote de vários fatores relevantes para a deter minação da extensão A proposta de Lewis inclui portanto mais fatores na determinação da extensão Diante dela a intensão car napiana aparece com uma função parcial indefinida em alguns dos índices considerados por Lewis Idem p 25 Um índice é uma sequência finita de vários itens que determi nam a extensão para além da significação Tais itens coordenam a expressão aos mundos possíveis contexto situação de proferi mento tempo falante audiência contexto discursivo etc Um índice é tentativamente qualquer óctupla em que a primeira coor denada é um mundo possível a segunda coordenada é um momento de tempo a terceira é um lugar a quarta é uma pessoa ou outra criatura capaz de ser um falante a quinta é um conjunto de pessoas ou outras criaturas capazes de ser uma audiência a sexta é um conjunto pode ser vazio de coisas concretas capaz de ser indicado a sétima é um seg mento de discurso e a oitava coordenada é uma sequencia infinita de coisas Idem p 25 Desse modo a pergunta pelo referente de uma expressão a sua extensão é resolvida pela equação de sua significação mais a si tuação e o contexto discursivo codificados pelos índices A sig nificação porém é o que articula os fatores ligados à situação e ao contexto através dela é que se dá a conexão semântica Sendo assim o componente designativo ou intensão de uma expressão não se confunde com a significação pois duas sentenças podem ter a mesma intensão e significações diferentes Lewis concebe a seguinte hierarquia A categoria de um significado é a categoria encontrada como o pri meiro componente de seu nó mais alto A intensão de um significado é a intensão encontrada como o segundo componente de seu nó mais alto A extensão em um índice i de um significado sentencial significado de um nome próprio ou de um nome comum é o valor da intensão do significado para o argumento i Um significado sentencial é verdadeiro 158 Filosofia da Linguagem I ou falso em I conforme a sua extensão em i é a verdade ou a falsidade um significado de nome próprio em I é aquela coisa que é a sua exten são em i e o significado de um nome comum aplicase em I a qualquer coisa que pertença a sua extensão em i Idem p 33 Notese que nessa proposta a inteira significação de uma ex pressão resulta de seu vínculo com o domínio de referência com a sua extensão incluído aí o modo como esse vínculo está codificado nos índices e na intensão A significatividade portanto é pensada como referencialidade Propriamente falando a intensão é apenas uma parte da significação de uma expressão mas ela constitui o con teúdo expresso na medida em que determina um valor semântico O modelo proposto por Lewis incorpora vários fatores antes atribuídos aos aspectos intensionalinferenciais do conteúdo se mântico de uma sentença de modo que seja possível fornecerse uma descrição semântica em termos puramente extensionais A ideia é fazer todas as propriedades e relações inferenciais e inten sionais decaírem e dependerem de fatores referencialextensionais Algumas propriedades inferenciais são resolvidas em termos de relações de inclusão entre extensões de expressões Todavia essa estratégia é insuficiente pois não resolve o problema da variação da extensão em função dos fatores contextualsituacionais Para resolver este problema Lewis reformula a noção carnapiana de intensão a qual representa uma noção mais potente de conteúdo semântico As propriedades mais inferenciais e mais sutis isto é mais sensíveis ao contexto e à situação são tratadas através da rela ção de inclusão entre conjuntos que servem como domínio e âm bito de variação das funções de intensão Isso se dá em dois níveis começase com extensões e chegase a intensões como funções de finidas naquelas A significação inferencial o potencial inferencial de proposições particulares em contextos e situações particulares não tem nenhum papel semântico para além do que se determina extensionalmente Em vez de significações inferenciais variando de falante para falante há extensões variando de mundos possíveis talvez conjuntamente com outros índices para mundos possíveis A descrição da significatividade em termos de intensão exten são e índices tem como consequência a definição de proposição como um conjunto de mundos possíveis A explanação referencial do significado linguístico 159 Eu identifico proposições com certas propriedades a saber com aque las que são instanciadas apenas por inteiros mundos possíveis Então se propriedades são conjuntos dessas instanciações uma proposição é um conjunto de mundos possíveis Uma proposição vale em um mundo ou seja é verdadeira nesse mundo A proposição é a mesma coisa que a propriedade de ser um mundo em que aquela proposição vale e isso é a mesma coisa que o conjunto de mundos onde aquela proposição vale Uma proposição vale apenas naqueles mundos que são membros dela LEWIS D On the Plurality of Worlds Oxford Blackwell 1986 p 5354 Essa definição nos dá uma noção do conteúdo semântico de uma sentença proferida em um contexto como uma função de um conjun to mais propriamente uma propriedade de mundos possíveis para valores de verdade Essa estrutura do que é expresso entre um con junto de mundos possíveis e um conjunto de valores de verdade na medida em que considera apenas a extensão faz desaparecer todas as demais diferenças tornando impossível distinguir duas proposições ou dois conteúdos expressos quando eles têm a mesma extensão Isso significa dizer que o modo como esses conteúdos foram expressos desaparece na descrição ou em nada contribui para a sua identidade o que é uma consequência prevista pela tese da independência da proposição em relação aos meios e aos modos de expressão O método da intensão e da extensão resolve o problema da ex plicitação da significatividade das expressões através da postulação de dois tipos de denotação ou referente para as expressões uma denotação extensional e outra intensional Todas as expressões re ferem e referem a sua extensão E quando não têm propriamente referência é a sua intensão a qual é também uma entidade que é referida No caso das sentenças elas não apenas referem como referem algo que é uma extensão isto é um valor de verdade Caso elas não sejam asseridas é a sua intensão que é denotada isto é a proposição expressa As constantes individuais extensionalmente denotam entidades no domínio e intensionalmente denotam con ceitos individuais Os predicados unários denotam conjuntos de entidades e intensionalmente propriedades de entidades As fór mulas denotam valores de verdade e intensionalmente proposi ções Notese que as expressões conceito individual proprieda de e proposições são nomes de funções que são tratadas como entidades tanto por Carnap quanto por D Lewis 160 Filosofia da Linguagem I Da exposição do método podese retirar que o conteúdo semân tico de uma sentença declarativa definese do seguinte modo uma sentença expressa uma proposição isto é uma intensão composta a partir da intensão das suas partes componentes e que determina um conjunto de mundos possíveis em que a sentença é verdadei ra Em termos formais a denotação intensional de uma senten ça é uma função de índices mundo tempo etc para valores de verdade E porque tal função especifica o valor de verdade em qualquer situação dada no modelo ou mundo possível ela tam bém recebe o tradicional nome proposição O conteúdo semân tico de uma sentença é uma proposição e esta é concebida como um conjunto de mundos possíveis A semântica da intensão e da extensão enfrenta dificuldades ligadas à explanação da substitutividade de equivalentes inten sionais Admitida a definição das relações entre extensão e inten são duas sentenças logicamente válidas não apenas têm a mesma extensão como denotam intensionalmente a mesma proposição não importando o quanto sejam diferentes As verdades lógicas são verdadeiras em todos os índices e portanto todas elas deno tam a mesma função a saber a função característica que mapeia todos os possíveis índices W x I em V O que significa dizer que existe apenas uma proposição logicamente verdadeira Em outras palavras implica dizer que quem acredita pensa diz ouve etc qualquer sentença expressando uma proposição necessária acre dita ou pensa todas as proposições necessárias Esse é um resul tado pouco plausível pois sugere que elas têm o mesmo conteúdo e valor semânticos A fonte desse resultado é a conceituação do conteúdo semântico que deriva as mesmas condições de verda de explicitadas em termos de conjunto de mundos possíveis que satisfazem as sentenças mesmo que as sentenças sejam claramen te distinguíveis Uma conclusão imediata é de que a intensão não esgota toda significatividade das expressões como o próprio D Lewis previa e que portanto o que é expresso pelo proferimento de uma sentença vai além das condições de verdade em termos de intensões determinadoras de extensões pois isso inclui também o modo como a intensão é expressa e a extensão designada Toda via talvez todo o paradigma da semântica sentencial em termos de intensão extensão e mundos possíveis seja inadequado A explanação referencial do significado linguístico 161 O problema está no fato de que os conceitos de extensão e in tensão baseados nas noções de índices e mundos possíveis não permitem distinguir o expresso por duas sentenças diferentes com a mesma extensão mesmo valor de verdade e mesmo conjunto de mundos possíveis e a mesma intensão mesma função de índices para valores de verdade Por exemplo as sentenças 1 José caça fantasmas ou José não caça fantasma e 2 p q r p q p r teriam a mesma intensão isto é uma função K que mapeia os mundos possíveis w em valores de verdade a qual para qualquer w K w verdade porém obviamente essas sentenças diferem no modo como expressam tal função A diferença entre tais sentenças seria portanto meramente linguística e desaparece ria completamente na construção teórica utilizada para explicitar as suas propriedades semânticas Para poder apesar desse resultado explicitar a diferença semânti ca dessas sentenças utilizamse as noções de isomorfismo intensional e de estrutura intensional desenvolvidas por R Carnap noções essas cujo cerne está em se transferir para a proposição expressa algo da estrutura da sentença que a codifica Isso permite distinções precisas o suficiente para distinguir por exemplo entre o conteúdo expresso pela asserção de que 5 7 12 e o conteúdo da asserção de que 7 5 12 Além disso ao invocar o modo como uma determinada propo sição é expressa como fazendo parte de sua individuação a noção de estrutura intensional permite distinguir o caminho inferencial pelo qual se alcançou uma determinada proposição ou conteúdo semân tico Isso acontece porque na explicitação da estrutura intensional apelase para o modo como uma intensão foi derivada ou compos ta isto é na exposição da árvore de formação da intensão expressa por uma sentença utilizase o modo como a intensão da expressão relacionase com outras expressões sentenciais e subsentenciais Por conseguinte a solução encontrada faz com que a estrutura sentencial apareça na codificação da intensão sentencial de tal modo que duas sentenças logicamente verdadeiras sejam distinguidas não propria mente pelas intensões componentes mas pelo modo como as inten sões componentes são expressas e foram derivadas O recurso à estrutura intensional foi forjado para dar conta de sentenças diferentes com propriedades semânticas extensionais 162 Filosofia da Linguagem I equivalentes ou idênticas sob a suposição de que as expressões em questão eram de algum modo complexas ou internamente estrutu radas O truque consiste em se transferir para o expresso a estrutura do meio utilizado para expressálo no caso a estrutura gramatical da sentença para a intensão codificada A questão agora é até onde se deve levar essa transposição isto é qual é o limite de mimetização da estrutura gramatical na especificação do conteúdo semântico Se aplicarmos esse recurso para distinguir as propriedades se mânticas de expressões subsentenciais simples chegase a resulta dos inesperados Consideremse duas expressões com intensões que determinam extensões vazias por exemplo Unicórnio e Centauro Pelas teorias semânticas em questão essas duas ex pressões são correferenciais e codificam a mesma função isto é uma que em todos os mundos possíveis leva sempre ao conjun to vazio Extensionalmente elas são indistinguíveis e como são simples não podem ser distinguidas na análise semântica pela estrutura intensional embora as suas significações sejam intuiti vamente diferentes pois a verdade da sentença José procura um unicórnio é destruída se substituímos nela unicórnio por cen tauro Em analogia à transposição da estrutura gramatical para o conteúdo semântico das expressões compostas é de se supor que se leve em consideração na especificação de sua contribuição se mântica também das expressões simples o modo como codificam a sua intensão do que resultaria não serem elas equivalentes Isso porém ainda não satisfaria aquele que deseja uma distinção direta entre a intensão Unicórnio e a intensão Centauro como dis positivos conceituais ou nocionais mobilizados para apanhar ou determinar uma extensão sobretudo porque esse recurso faria so çobrar a independência da estruturação do domínio das intensões em relação à estruturação da linguagem utilizada para o expressar Os problemas têm origem no modo como se conceitua a noção mesma de intensão sobretudo na transposição dessa noção para dar conta de propriedades semânticas de expressões linguísticas Na medida em que as intensões não são linguísticas e também não são os próprios objetos e estados de coisas as operações sobre elas apenas podem garantir a preservação das relações extensional referenciais se a relação entre uma intensão e uma extensão for Atente para a diferença entre equivalência extensional e equivalência intensional A explanação referencial do significado linguístico 163 direta especular o que Carnap procurou garantir supondo que em última análise todas as expressões seriam designadores Toda via mesmo concebendo a relação entre intensão e extensão como sendo de designação a teoria não consegue garantir que sentenças com propriedades semânticas distintas sejam distinguidas no mo mento da descrição semântica Consideremse os seguintes pares de sentenças Dois é igual a dois e Dois é igual ao primo par Todo quadrado tem mais que três ângulos e Todo paralelogramo com quadro lados iguais e qua tro ângulos retos tem mais que três ângulos Se a descrição semânti ca for em termos de satisfação em descrições de estado ou em mun dos possíveis ambas as sentenças de cada par serão verdadeiras nos mesmos estados isto é a sua intensão a função de mundos possíveis para valores de verdade é idêntica E na medida em que o descrito por elas é explanado em termos de conjuntos de estados em que elas são verdadeiras e em que elas são falsas essas sentenças serão in distinguíveis tanto em relação ao conteúdo ou intensão quanto em relação ao valor ou extensão Em outras palavras aqueles pares de sentenças teriam que ser considerados sinônimos segundo a aná lise de B Mates Das definições fornecidas por Carnap depreende se que as sentenças logicamente equivalentes que necessariamente têm o mesmo conjuntoverdade ou seja o mesmo conjunto de mo delos em que a sentença é satisfeita expressam a mesma proposição e por conseguinte são sinônimas Porém não apenas as sentenças pois também as expressões Quadrado e Paralelogramo com qua dro lados iguais e quatro ângulos retos têm que ser marcadas como sinônimas assim como dois e primo par Por conseguinte as sen tenças Dois é dois e Dois é o primo par são indistinguíveis do ponto de vista da semântica carnapiana pois elas têm a mesma in tensão e a mesma extensão a não ser que se levem em consideração as próprias expressões na descrição semântica A admissão de que aspectos da estrutura sentencial sejam re levantes para a individuação do conteúdo expresso porém acaba por dissolver a distinção forte essencial ao impulso referencialista entre os meios de expressão e o que é expresso entre os meios uti lizados para falar e aquilo de que se fala As dificuldades da semân tica referencialista tornamse evidentes através justamente de ar Synonymy p 125 A mesma crítica é desenvolvida por J Katz mas aponta como origem do problema o paradigma designacional conjugado com a tese atomista segundo a qual as expressões simples contribuem semanticamente com simples KATZ 1996 p 612 164 Filosofia da Linguagem I gumentos que foram forjados para defendêla Argumentos foram desenvolvidos para mostrar que em algum momento ela conduz a uma nãodistinção do que é diferente a teoria dos modelos não conseguiria distinguir semanticamente as sentenças verdadeiras em todos os modelos a teoria dos mundos possíveis não distin guiria sentenças verdadeiras em todos os mundos possíveis e por fim a descrição semântica em termos de intensões estruturadas não obstante ter sido desenvolvida precisamente para contornar tais problemas apenas evita tais indistinções sob o preço de sola par o princípio basilar referencialista da separação entre sistema de expressão conteúdo e valor semânticos pois tal solução termi na por fazer a identidade e a diferença dos conteúdos dependerem do modo pelo qual eles são expressos As propostas de Tarski Carnap e Lewis têm em comum a conceituação das noções semânticas como relativas às relações entre uma linguagem e um domínio de referência Elas também têm como cerne a explicação da significatividade das sentenças como que constituída pelas condições de verdade isto é pelas condições codificadas na sentença em termos de uma função que mapeia os possíveis domínios de referência nos valores de verda de Em termos de valor e conteúdo o valor semântico de uma sen tença seria o conjunto de modelos descrições de estado mundos possíveis nos quais ela é verdadeira e o conteúdo da sentença no caso de Carnap e Lewis corresponderia à sua intensão O percur so que vai de A Tarski a D Lewis é o da complexificação tanto da função de remissão como do domínio de referência mas a natu reza das noções semânticas permanece referencial no sentido de que é pela correlação entre expressões e objetos que as noções são analisadas ou seja as operações semânticas são todas elas avalia das em termos de manutenção do vínculo com a extensão Esse ponto aparece na teoria como o postulado de que todos os termos designam e designam do mesmo modo todos os itens linguísticos referem do mesmo modo Todas as diferenças que eles mostram são o resultado de seu referir a diferentes referentes in divíduos conjuntos propriedades valores de verdade entidades fictícias HORNSTEIN Logic as Grammar An Approach to Meaning in Natural Language Cambridge MIT Pr 1984 p 141 A explanação referencial do significado linguístico 165 E na medida em que a significatividade é explanada em termos re ferenciais a existência do referente é condição para que as expres sões nãocompostas sejam semanticamente relevantes Por conse guinte essa estratégia de elucidação das propriedades semânticas exige não apenas uma interpretação objetual das sentenças quan tificadas mas sobretudo que tais sentenças codifiquem alegações de existência Uma interpretação é referencial se e somente se sob essa interpretação uma sentença existencial quantificada car rega implicações de existência BALDWIN Th Interpretations of quantifiers Mind v 88 p 215240 1979 p 232 A própria formulação da teoria começa pela postulação da existência de um domínio de referência em geral embutida na suposição de que os termos primitivos denotam postulação esta que apenas tem senti do se for interpretada objetualmente mesmo que a interpretação substitucional seja utilizada para explanar posteriormente as sen tenças complexas geráveis na linguagem em questão Todavia há dois modos clássicos de conceituar essa alegação de existência disponíveis para uma semântica referencialista os quais configuram dois modos básicos de introduzir um objeto no dis curso ou de responder de que é que se está a falar ou sobre o que é um determinado discurso duas maneiras de conceituar a conexão entre linguagem e mundo uma descritiva e outra designativa Na primeira é a relação entre uma função e um argumento ou en tre um conceito e um objeto a relação de ser verdadeira de ou aplicarse a que responde pela conexão Na segunda é a relação entre um nome e um objeto entre nome comum e um conceito ou seja a relação de ser um nome de ou designação que responde pela conexão Esses dois modos são atribuídos respectivamente a Tarski e FregeCarnap EVANS Collected Papers Oxford Claren don Press 1985 p 8184 Embora essa diferença possa ser relegada para o âmbito da epis temologia ela não se dá sem consequências semânticas Com efei to esses dois modos refletemse na conceituação da noção de ostensão ou dêixis a qual serve como paradigma de como um objeto é introduzido no discurso Considerese a introdução do objeto através das sentenças 1 e 2 1 Isto é um asterisco 166 Filosofia da Linguagem I 2 A marca entre a palavra objeto e a palavra através na pe núltima frase é um asterisco Ambas introduzem um objeto em uma sentença por meio de uma expressão mas o fazem agenciando funções semânticas distintas A sentença 1 usa uma expressão dêitica enquanto que 2 emprega uma descrição Disputase há muito sobre qual delas é mais primi tiva sobretudo porque tais sentenças têm propriedades inferenciais distintas No entanto no que diz respeito à semântica referencialista o que importa é que Isto e A marca entre a palavra objeto e a pa lavra através na penúltima frase tenham como referente um obje to e apenas secundariamente conta o modo de referência utilizado Como dissemos no início o cerne das semânticas referencia listas consiste na tese da secundariedade e na dependência das propriedades inferenciais em relação às relações referenciais das expressões de uma linguagem com um domínio de objetos Essa tese pode ser vista como uma elaboração da intuição da nãoin dependência da semântica em relação à existência e a remissão a entidades Isso que implica a diferenciação e a separação do valor semântico em relação ao aparato linguístico que o exprime de tal modo que os valores semânticos sejam considerados entidades se paradas e independentes em relação aos meios utilizados para a sua expressão As propostas de Carnap e Lewis ainda acrescentam uma segunda separação pois entendem que o que é expresso tem uma natureza homogênea conceitual e distinta tanto da lingua gem que o exprime como daquilo ao que ele o expresso se aplica O expresso é uma propriedade veiculada pelas expressões linguís ticas e que se aplica ou não aos objetos acerca de que se fala Nesse caso é possível distinguirse claramente o conteúdo semântico das expressões sua intensão do seu valor semântico sua extensão A raiz dos problemas das semânticas referencialistas no ponto que interessa à discussão filosófica da linguagem e da semântica é a interpretação equivocada de uma suposição correta a saber de que a significatividade das expressões linguísticas não é linguís tica Com efeito ao suporem que a remissão a um referente é o cerne da significatividade tais semânticas compreendem o signi ficado como sendo o conteúdo judicável e que este é inteiramen te nãolinguístico Todavia o ser significativo de uma expressão A explanação referencial do significado linguístico 167 ou gesto nem sempre implica em conteúdo judicável nem que ela seja designadora de um referente nãolinguístico Isso nos leva às alternativas ao referencialismo semântico a saber às teorias infe renciais e pragmáticas do significado linguístico Leituras recomendadas TARSKI A A concepção semântica da verdade textos clássicos Org De MORTARI C A DUTRA L H São Paulo EDUNESP 2007 QUINE W Sobre o que há São Paulo Abril Cultural 1980 Os Pensadores Reflita sobre O que significa dizer que uma sentença é verdadeira e como isso se relaciona com o significado de suas partes componen tes nas teorias referencialistas A relação entre dizer que uma expressão significa e dizer que ela nomeia algo Chance Advance to GO Collect 200 Capítulo 9 A explanação inferencial do significado linguístico Neste capítulo será apresentada a teoria inferencial do significado linguístico Essa teoria fornece uma explicação da significa tividade e sobretudo do conteúdo semân tico das expressões sem recorrer a nexos referenciais os quais não são eliminados mas sim concebidos como exteriores à se mântica e derivados das relações inferen ciais O ponto de partida dessa proposta é a priorização da noção de conteúdo semântico sentencial o expresso pelo proferimento de uma sentença como um elo numa cadeia comunicacionalinferencial Timbre spectrum of the same fundamental frequency on different instruments A explanação inferencial do significado linguístico 171 9 A explanação inferencial do significado linguístico A hipótese central da concepção inferencialista do significado linguístico é de que o conceito de conteúdo judicável de uma sen tença introduzido por Frege se deixa especificar inteiramente a partir da exposição das premissas ou condições de sua asserção e das consequências de sua asserção A explanação dessas condições e consequências esgotaria o conteúdo asserível em questão 91 Inferencialismo semântico A justificação e a exposição da teoria inferencial do conteúdo semântico começam pela explanação da relação entre um juízo e os conceitos nos quais ele pode ser decomposto ou entre uma sen tença e as palavras nela articuladas ou entre a proposição expressa e os termos proposicionais A ideia básica é conceituar a proposi ção por um lado como a unidade pela qual se pode realizar um ato semântico como o que é asserido que é afirmado negado questionado solicitado etc e por outro como algo inferencial mente articulado isto é como algo que estabelece uma rede de implicações em termos de condições e consequências Essa ideia remetenos a Frege pois ele ao introduzir a noção de conteú do conceitual no Begriffsschrift de 1879 efetivamente não utiliza a no ção de referência mas antes a noção de potencial inferencial Em minha linguagem conceitual apenas aquilo que afeta as possíveis inferências 172 Filosofia da Linguagem I é levado em consideração Tudo o que é necessário para uma inferên cia correta é expresso completamente o que não é em geral não é in dicado Begriffsschrift 3 p 12 Frege buscava estabelecer um modo rigoroso de expressar pensamentos isto é a sua preocupação desde o início era com a relação entre uma expressão linguística e um conteúdo conceitual begrifflichen Inhalt O objetivo visado era o de expressar um conteúdo através de sinais escritos de um modo mais preciso e contro lável de modo a tornar explícitas as relações internas de uma sequencia inferencial Begriffsschrift Preface p 58 A semântica fregeana esta va constituída a partir da noção de conteúdo asserível beurtheilbarer Inhalt na medida em que esta esclarece as propriedades semânticas de uma cadeia de raciocínio Este privilégio do valor inferencial é justificado por Frege justamente através da tese da prioridade lógica do juízo sobre os conceitos nos quais ele pode ser decomposto As matrizes semânticas seriam as relações que se estabelecem no interior de uma cadeia discur siva ou de uma sequencia inferencial pelo fato de que é o juízo que tem precedência lógica sobre as partes Assim eu não começo com concei tos e colocoos juntos para formar um pensamento ou juízo eu chego às partes de um pensamento por análise Zerfällung do pensamento ou ainda Eu começo a partir de juízos e seus conteúdos e não a partir de conceitos Ao invés de por um juízo a partir da composição de um individual tomado como sujeito e de um conceito previamente dado como predicado nós fazemos o oposto e chegamos ao conceito por meio da separação do conteúdo de um possível juízo Robert B BRAN DOM um dos defensores mais coerentes da semântica inferencialista assim o avalia Frege completa a inversão da clássica prioridade dos con ceitos em relação aos juízos e dos juízos em relação aos silogismos ao tomar o conteúdo das sentenças juízos no sentido do que é julgado an tes que do julgar como definido em termos do papel inferencial em que elas estão envolvidas Conceitos são abstraídos de tais juízos isolandose invariantes de papéis inferenciais que pertencem apenas aos juízos sob várias substituições de componentes discrimináveis possivelmente não juízos do juízo BRANDOM Freges Technical Concepts 1986 p 256257 Por conseguinte ter conteúdo semântico ou conteúdo concei tual não é ser uma representação de algo nem referir a algo mas antes ter um papel ou valor inferencial no interior de uma cadeia de asserções encadeadas em termos pressuposição e consequência ter conteúdo conceitual é apenas jogar um papel no jogo inferen cial de fazer alegações e dar e pedir por razões Apreender ou compre A explanação inferencial do significado linguístico 173 ender um tal conceito é ter domínio prático sobre as inferências em que ele está envolvido saber no sentido prático de ser capaz de distinguir um tipo de sabercomo o que se segue da aplicação de um conceito e de ela se se segue BRANDOM Articulating Reasons Cambridge Har vard UP 2000 p 48 e p 221 Os conceitos semânticos pelos quais são explanadas as proprie dades das expressões como significativas são definidos a partir das propriedades inferenciais O conteúdo semântico é determi nado primeiramente para aquelas expressões que podem ser veí culos de uma asserção ou juízo e ainda assim apenas na medida em que elas são postas em correlação com outras sentenças isto é apenas na medida em que são postas numa relação de equivalên cia ou nãoequivalência inferencial com outras sentenças segun do o modelo inaugurado por Frege Há dois modos pelos quais o conteúdo de dois juízos pode diferir pode ou pode não ser o caso que todas as inferências que podem ser retira das do primeiro quando combinado com outros juízos podem sempre também ser retiradas do segundo quando combinado com os mesmos outros juízos As duas proposições os gregos derrotaram os persas em Platea e os persas foram derrotados pelos gregos em Platea diferem ao primeiro modo mesmo se uma pequena diferença de sentido é discer nível a concordância de sentido é preponderante Agora eu denomino aquela parte do conteúdo que é a mesma em ambas conteúdo con ceitual Apenas este tem importância para nossa linguagem conceitual Begriffsschrift 3 Disso se segue que a especificação do conteúdo semântico de uma sentença apenas é completada pelo mapeamento de seu potencial inferencial isto é daquilo que permite e daquilo que se segue de sua asserção junto com outras asserções Além disso o princípio da prioridade lógica da proposição determina que as expressões subsentenciais apenas tenham uma significação determinada no contexto de uma sentença o que é em geral enunciado recorrendo se ao princípio do contexto fregeano apenas no contexto de uma proposição Satz uma palavra tem um significado Bedeutung O que significa dizer que o significado ou valor semântico de uma expressão subsentencial é definido pela determinação da sua con tribuição semântica para os contextos em que ela ocorre Os fundamentos da aritmética Introdução 46 60 e 62 174 Filosofia da Linguagem I Desse modo qualificar uma semântica como inferencial signi fica dizer que nela a relação entre as expressões significativas e so bretudo a relação entre os valores de verdade das expressões sen tenciais são tomadas como decisivas no momento de determinar o que uma dada expressão significa ou expressa A significatividade das expressões e mais precisamente o seu conteúdo semântico têm que ser compreendidos e explanados em termos de papéis in ferenciais em vez de o ser em termos referenciais O uso de uma expressão com um determinado conteúdo implica o endosso dos comprometimentos inferenciais materiais das condições autori zadoras premissas e das consequências do seu uso A determi nação do conteúdo semântico não é senão a especificação dessas condições e dessas consequências Uma vez que a proposição tem precedência sobre as suas partes a determinação das suas proprie dades semânticas precede logicamente a determinação da função semântica das partes Essa posição é às vezes denominada conse quencialismo e associada a Wittgenstein Antes que uma proposi ção possa ter sentido tem que ser estabelecido completamente que proposições seguemse dela WITTGENSTEIN Prototractatus 3 201023 conforme Platts 1997 p 6870 e também Ramsey The Foundations of Mathematics p 123 A partir disso podese mostrar que a semântica baseada na teoria da prova Prooftheore tic semantics tal como é defendida por Sundholm 1994 e Pra witz 1977 constituise como uma explanação inferencialista ao defender que o significado de uma sentença é determinado pelo modo como pode ser provada desde que a noção de prova seja pensada em termos intralinguísticos O ponto central da tese inferencialista está na definição da significatividade a qual é definida e explanada com a noção de relação entre as expressões que compõem uma linguagem Para definir o sentido de uma palavra é suficiente definir as relações de sentido que ela mantém com outras expressões da linguagem isto é identificar os seus homônimos hipônimos superordenados e opostos bem qualquer outra propriedade seletiva que ela possa ter CANN 1993 p 21718 Essa tese é uma decorrência natural daquilo que pode ser con siderado o cerne diferencial desse tipo de semântica a saber a de A explanação inferencial do significado linguístico 175 finição da significatividade a partir de noções semânticas primi tivas nãoreferenciais especificamente concernentes às relações anafóricoinferenciais existentes entre as expressões componentes de uma linguagem Esse cerne está constituído por uma suposição em geral apresentada como princípio que é a exata negação da tese referencialista Com efeito a tese referencialista diz que a significa ção das sentenças é inteiramente determinada pelas propriedades referenciais nelas articuladas Por sua vez as propriedades referen ciais das expressões constituintes são decorrentes das suas relações com coisas no mundo nãolinguístico A tese inferencialista par te da suposição inversa a saber que as propriedades inferenciais de uma expressão constituem o seu significado isto é a partir da negação do primado da relação de referência na constituição do conteúdo semântico sem notese logo negar a referencialidade da linguagem A significatividade de uma expressão seria constituída e determinada apenas pelo papel inferencial que ela exerce ou seja pelo modo como a sua ocorrência afeta as relações de implicação e consequência no interior de uma sequência discursiva Desse modo a tarefa de uma teoria semântica estaria limitada à exploração das potencialidades inferenciais de uma determinada linguagem Dito de outro modo a proposta inferencialista cons tituise como a tentativa de definir a dimensão extensional do discurso em termos de comprometimentos substitucionaisinfe renciais e que esses comprometimentos podem ser explanados unicamente em termos de relações intralinguísticas Isso implica que as noções semânticas são relacionais mas que as relações ex plicitadas pelo discurso semântico expõem a trama de relações internas entre a significação das expressões componentes de uma linguagem Por conseguinte a definição do conteúdo semântico sentencial em uma semântica inferencialista constróise a par tir de noções que envolvem a determinação das relações entre as expressões significativas Isso se aplica a todos os tipos de expres sões sentenças termos partículas etc sobretudo a significação do proferimento de uma sentença é explanada através do enca deamento discursivo que ela implica em termos de condições e consequências Essas relações porém são explanadas em termos de relações entre os valores de verdade atribuídos às sentenças e BRANDOM Making it explicit Cambridge Harvard UP 1994 p 484 176 Filosofia da Linguagem I não mais em termos de referência em um domínio O que se reali za nesse tipo de semântica é o dogma segundo o qual a referência a verdade ao Verdadeiro precede a referência a outros objetos A semântica passa a ser uma exposição das regras de combinação de elementos significativos em que as noções de referência objeto e propriedade são secundárias e derivadas Essas noções são vistas como que de dentro ou a partir da linguagem isto é tais noções fazem sentido apenas através da linguagem não sendo exteriores a ela nem independentes dela uma relação com objetos fora do contexto de uma sentença não se dá O significado na teoria inferencial é explicado em termos de conexões entre expressões significativas de uma linguagem O que seja o significado fora das conexões inferenciais substitu cionais e anafóricas não é explanável pois para isso deveria ser possível dizer sem significar Nesse sentido a semântica é inefável o que se pode esclarecer é apenas o modo de relação das diferen tes expressões pertencentes a uma linguagem já significativa ou mais precisamente em uso A explicação para uma palavra contar como significando um objeto como tendo referência diz respeito apenas ao estabelecimento das condições que devem ser preen chidas para uma expressão contar como tendo introduzido um objeto ser compreendida como um termo singular ou como um dêitico com uma referência definida e não em ter uma relação estranha com uma entidade nãolinguística A explanação do significado de um termo referencial em vez de recorrer a relações com o extralinguístico recorre às relações de substituição e de anáfora entre as expressões o que significa dizer que o uso de uma expressão referencial é explanado por meio da postulação de um enunciado de identidade do seguinte modo o re ferente da expressão Leibniz é idêntico a o referente da expres são O autor da Monadologia A primeira ocorrência da expressão Leibniz em uma sentença requer apenas que ela seja substituível por outra expressão já significativa usada para compor uma enun ciação Nem todos os casos são assim explanados Se esse procedi mento não está disponível e o termo foi introduzido então tratase ou de um iniciador anafórico ou de um designador canônico Di gamos que estamos na situação de batismo e a seguinte frase é pro TUGENDHAT 1976 p 482 e p 498 A explanação inferencial do significado linguístico 177 nunciada Esta criança chamarseá Leibniz A expressão Leib niz tornase significativa designadora em função do vínculo com o dêitico Esta o qual propriamente não tem um valor semântico determinado senão na situaçãocontexto em que foi utilizada Essa explicação apenas dá conta da intenção de referir não explicando a referência bemsucedida A referência bemsucedida implicaria a existência de um referente Porém a existência é algo que está para além dos domínios da explanação semântica Por isso o aparato semântico inferencialista apenas fornece uma explicação dos com prometimentos referenciais e existenciais decorrentes do profe rimento de uma expressão designadora em termos de um tipo de comprometimento substitucional Os compromentimentos existenciais são equivalentes à alegação disjuntiva de que alguma identidade dessa forma é verdadeira A sig nificação do compromentimento exisntencial deve ser entendida e sua propriedade apreendida em termos da classe de substitutos supridos por identidades BRANDOM 1994 p 441 Afirmar que Leibniz tem o significado de referir a uma de terminada pessoa é apenas dizer que essa palavra pode ser subs tituída por outras expressões que podem ladear enunciados de identidade Os comprometimentos existenciais porém não são completamente expurgados Não obstante serem a fonte da signifi catividade das expressões designativas eles pertencem ao domínio pragmático estando para além da semântica O que se pode dizer em termos semânticos é que a noção de referência ou designação é explanada em termos de uma remissão anafórica Em termos semânticos a função de referir explanase como um operador anafórico complexo formador de pronomes Por conseguinte o uso de frases quantificadas e de expressões referenciais é explicado em termos de comprometimentos inferenciais e substitucionais O racional de tal procedimento está na tese da primariedade das relações anafóricas as quais estão na base da definição da função semântica dos termos designadores As cadeias anafóricas são ex planadas com a noção de recorrência de uma ocorrência primitiva seja de um iniciador anafórico seja de um designador canônico Esses são os conceitos que propriamente podem explanar o que é ser uma expressão referencial 178 Filosofia da Linguagem I Com efeito os nexos anafóricos e por conseguinte os nexos inferenciais têm seu ponto de parada em dois tipos de expressão com uma função semântica primitiva e doadora de significativida de para toda a cadeia os designadores canônicos e os iniciado res anafóricos Os designadores canônicos foram definidos como expressões cuja boa formação é suficiente para garantir que eles designam um objeto Já os iniciadores anafóricos foram definidos como aquelas ocorrências de expressões nas quais a ocorrência de outras expressões pode ser ancorada e que não dependem da ocor rência de outras expressões sendo basicamente constituídos pelos nomes próprios descrições definidas dêiticos e demonstrativos Essa explanação dos termos primitivos implica que a função semântica de indicar um objeto é derivada em relação à função semântica de remeter a outra expressão ou anáfora A suposição é de que a descrição semântica da dêixis pressupõe a noção de aná fora Deixis pressupõe anáfora Nenhuma ocorrência pode ter a significação de demonstrativo a menos que outros tenham a signi ficação de dependentes anafóricos usar uma expressão como um demonstrativo é usála como um tipo especial de iniciador anafó rico Como já foi estabelecido o conteúdo inferencial por conse guinte o inteiro conteúdo semântico de uma expressão está cons tituído e determinado pelas relações materiais com as demais expressões da linguagem e em nenhum momento a relação com o que não seja linguístico exerce alguma função na explanação semântica Desse modo entretanto recaise outra vez na suposi ção da verdade dos contextos sentenciais em que tais expressões ocorrem A alegação de que o procedimento substitucional está ancorado em última instância em identidades remetenos para a questão do papel atribuído à noção de verdade pois a substituição é autorizada na medida em que a asserção de identidade entre os termos é tida como verdadeira Uma vez que a noção de verdade joga o papel de definidor dos papéis semânticos e esses são definidos em termos inferenciais ela não pode ser simplesmente definida em termos inferenciais sob pena de toda a explicação tornarse circular e não esclare cedora pois em uma cadeia inferencial a verdade ou a falsidade de uma determinada asserção está fundada na relação desta com Idem p 373 e p 384 Tugendhat não hesita em atribuir essa circularidade ao procedimento substitucional mas avalia que ela é benigna 1976 p 215 A explanação inferencial do significado linguístico 179 as demais Esse processo para ser eficaz como explicação deve parar em alguma sentença que não tenha o seu valor de verdade determinado pelas relações inferenciais Porém admitir isso signi ficaria admitir que certas sentenças não têm todas as suas proprie dades semânticas constituídas pelas suas relações intralinguísticas e sobretudo que algumas sentenças não dependeriam quanto ao seu valor de verdade do valor de verdade de outras sentenças A solução adotada pelo inferencialista retoma a tese fregeana segundo a qual nada é acrescentado ao pensamento pela atribui ção a ele da propriedade da verdade Em vez de explicar a verdade e a falsidade em termos referenciais e existenciais essas noções são explicadas em termos deflacionistas anafóricos isto é em termos de relações entre frases e expressões Na explicação anafórica embora é verdade tenha a forma sintática superficial de um predicado e referese a a forma sintática de uma locução relacional o papel gramatical e semântico dessas expressões não são esses de locuções predicativas e relacionais A sua gramática é bem diferente elas são operadores formadores de dependentes anafó ricos a saber protosentenças e descrições anaforicamente indiretas BRANDOM 1994 p 323 Observações ordinárias sobre o que é verdade e falso e sobre o que alguma expressão refere estão em perfeita ordem como elas são usadas a explicação anafórica explica como elas devem ser entendidas Mas verdade e referência são ficções filosóficas geradas por mácompre ensão gramatical Tomar uma alegação como verdadeira deve ser entendido em primeiro lugar como a adoção de uma atitude normativa isto é assumindo a alegação e assim reconhecendo um compromisso Idem p 324 A relação entre essas caracterizações está no fato de que ao interpretar o uso da expressão verdade e suas derivadas como sendo anafórico implica que a predicação da verdade de uma sen tença é tão somente uma reposição dessa sentença em reafirmála pois essencialmente a retomada anafórica não acrescenta nada ao seu antecedente As noções de verdade e falsidade por conseguin te não apanham uma propriedade de sentenças ou proposições assim como a noção de referência não apanha uma relação entre palavras e coisas Verdade e falsidade não são propriedades de pro Idem p 83 p 118 e p 121 180 Filosofia da Linguagem I posições ou de enunciados sentenças etc A atribuição de ver dade a uma sentença não introduz nenhuma informação nova que já não estivesse contida na simples asserção da sentença mesma Para compreender uma sentença do tipo S é P é verdadeira nós já deveríamos compreender o que é para S ser P ou seja a predica ção da verdade é redundante e nãoinformativa mas mesmo assim é suficiente para definir as relações e as propriedades semânticas A conexão semântica entre uma sentença e as expressões é verda deira ou é falsa é de uma anáfora prossentencial e não de refe rência ou satisfação Isso significa que o conteúdo das expressões é verdadeira e é falsa depende da sentença antecedente da qual elas são uma retomada Portanto essa estratégia é compatível com a proposta de Fre ge da indefinibilidade e primariedade da verdade da qual se de preende que o uso predicativo é redundante bem como com as interpretações disquotational de W Quine e deflacionista de H Field e P Horwich QUINE W Pursuit of Truth Cambridge Harvard UP 1992 HORWICH P Truth 2 ed Oxford Clarendon Press 1998b FIELD H The Deflationary Conception of Truth The Journal of Philosophy v LXIX n 13 1972 Todavia essas podem ser vistas como momentos que conduzem e preparam para a de finição da verdade como um operador prosentencial pois a de finição de verdade inferencialista é deflacionista visto que ela implica 1 verdade aplicase apenas às sentenças significativas que já se compreendem 2 para qualquer sentença S significativa a asserção que S é verdadeira é equivalente à asserção de S as quais constituem a base da tese deflacionista Porém o inferencialista ainda acrescenta o motivo pelo qual esses dois quesitos esgotam o conceito de verdade que é a interpretação anafórica da verda de como um operador prossentencial Embora os inferencialistas tentem oferecer uma definição de verdade que preserve o compo sicionalismo uma consequência natural de suas teses semânticas é a definição coerencial da verdade Porém o coerentismo na de finição da verdade apenas é consistente na medida em que não se empregue a noção de verdade assim estabelecida para definir os demais conceitos semânticos Do contrário chegase à versão ho lista da verdade pela qual a verdade de uma sentença depende da A explanação inferencial do significado linguístico 181 verdade ou falsidade de todas as demais sentenças da linguagem que em última instância é equivalente à tese da indefinibilidade da verdade A explanação inferencial da verdade e da falsidade ao contrário dissolve tais noções nas relações anafóricas e na noção de comprometerse com uma alegação O conceito primitivo por conseguinte é o de julgamento ou asserção isto é o conceito de julgar um conteúdo asserível como verdadeiro Entendase bem o conceito primitivo não é a noção de verdade ou de satisfação em um modelo mas a noção de julgar uma proposição como verdadeira ou simplesmente de assumir uma sentença como verdadeira a qual é exterior à semântica pois ela é essencialmente um ato um fato pragmático Isso fica claro quando a noção de verdade é explanada em termos de redun dância asserir que uma sentença é verdadeira equivale a asserir a própria sentença ou seja assumila e comprometerse com o que ela significa O conteúdo da expressão é verdadeira é o conteúdo da sentença que a antecede mais a expressão de um compromisso O objetivo da tese inferencialista com efeito é o da explicita ção do significado sem recorrer à relação da linguagem com algo distinto dela tomado como domínio de referência mantendose fiel à tese de que a referência não é um ingrediente essencial do significado As propriedades e relações semânticas de uma expressão são descritas e compreendidas apenas através dos nexos de remissão que essa expressão mantém com as demais expressões da lingua gem em questão O vocabulário semântico por conseguinte tem que ser explanado em termos que não envolvam relações com algo extralinguístico Ao abdicarem da relação de referência e por conseguinte da noção de modelo ou domínio as semânticas inferencialistas têm um problema para resolver como definir as propriedades semânticas em um sistema formal ou cálculo lógico A solução formal para esse problema é desenvolvida nas assim de nominadas Truthvalue semantics O ponto de partida consiste em delimitar a tarefa da semântica às relações entre as sentenças permitidas por uma determinada linguagem supondose que tais LEBLANC H Alternatives to Standart firstorder Semantics In GABBAY D M GUENTHNER F Handbook of Philosophical Logic Dordrecht D Reidel 1983 v I PEREGRIN J Language and its Models Is Model Theory a Theory of Semantics Nordic Journal of Philosophical Logic v 2 n 1 p 123 1997 182 Filosofia da Linguagem I sentenças têm valores de verdade isto é supondose que o proble ma de como as sentenças adquirem um ou outro valor de verdade seja extrínseco à teoria lógicosemântica por que não assumir com Beth Schütte e outros que enunciados atô micos tem valores de verdade seja lá como eles o adquiram e proceder com os problemas de real importância lógica Assim nasceu a semân tica de valorações truthvalue semantics uma semântica que dispen sa os domínios de referência e por conseguinte a referência por mais crucial que seja esta noção alhures E dispensando a referência a se mântica das valorações pode focalizar uma única noção verdade Numa das suas versões a de atribuição de valor de verdade para enunciados atômicos e uma avaliação de quando enunciados compostos são ver dadeiros com base naqueles LEBLANC 1983 p 260261 O problema de como as sentenças adquirem esse ou aquele va lor de verdade e também de como uma expressão designadora refere a esse ou aquele objeto etc é deixado de lado por pertencer ao campo da pragmática O argumento justificador desse proce dimento é de que uma teoria semântica apenas pode correlacio nar expressões com expressões apenas a prática ou ação pode de algum modo correlacionar expressões com coisas Isso significa conceituar a significatividade da linguagem analisada apenas em termos das sentenças que ela pode gerar e de uma função de re missão a valores de verdade uma linguagem é considerada como uma classe de sentenças mais o espaço de suas valorações Idem p 9 A semântica nesse sentido não é senão a explicitação das possíveis valorações das sentenças de uma dada linguagem isto é tem por tarefa explorar que consequências seguemse da atribui ção de valores de verdade a uma ou mais sentenças em termos de condições e consequências ou seja explicitando como essa valo ração afeta outras possíveis asserções nós podemos ver a expli cação semântica de uma linguagem como a delimitação do espaço das suas possíveis atribuições de valores de verdade Ibidem O ponto principal é o privilegiamento da sentença como unida de lógicosemântica para além da qual nada se pode dizer Cabe ria à semântica a tarefa de explicitar as relações e as propriedades decorrentes da atribuição de valores de verdade às sentenças bá sicas e as consequências da articulação em sentenças complexas Atente para o que significa essa expressão A explanação inferencial do significado linguístico 183 A tarefa da semântica consistiria no estabelecimento da relação de consequência entendido como exploração de um espaço de possibilidades qualquer explanação da relação de consequência é eo ipso uma explanação do espaço de possíveis valorações e vice versa Ibidem De outro ponto de vista podese dizer que tais semânticas estão erigidas sobre a separação entre por um lado a teoria semântica e por outro a teoria da referência A definição das noções semânticas dáse desse modo sem o recurso às noções de referência de modelo e de mundos possíveis pois a semântica dos valores de verdade é um tipo de semântica não referencial ela dispensa os modelos LEBLANC 1983 p 189 e p 209210 Isso não significa que as noções de referência e modelo não pos sam ser utilizadas nas explanações semânticas Unicamente o que é alegado é que essas noções são derivadas das noções semânticas definidas em termos inferenciais e substitucionais isto é que tais noções são explanáveis em termos de potencial inferencial classes de substituição e relações anafóricas A teoria semântica pode fornecer o significado das expressões de uma linguagem mas apenas dada uma meta linguagem que é to mada como um fundo inquestionado Por conseguinte as asserções semânticas da forma designa e é verdadeira estabelecem apenas uma correlação entre duas séries de expressões De modo algum elas explicitam a significatividade das expressões pelo recur so a algum tipo de remissão a um domínio nãolinguístico O que elas fazem é estabelecer uma correlação com outra linguagem ou com outras expressões da mesma linguagem Essa proposta teórica está diretamente ligada a uma tomada de posição acerca do proble ma do comprometimento conceitual entre Semântica e Ontologia Com efeito a justificativa para esse tipo de abordagem consiste na alegação da neutralidade das considerações lógicosemânticas nós estamos fazendo lógica ou filosofia da linguagem e portanto não deve haver o desejo de prejulgar temas metafísicos ao dogmatizar sobre a natureza das entidades que nós assumimos Esta é a atitude nos seus extremos que resulta da assim chamada semântica das valorações na qual os valores de verdade são atribuídos diretamente às fórmulas sem o problema de ter domínios de referência e mundos possíveis são pen sados como um certo tipo de conjuntos de fórmulas Isto é pensado Esse termo já foi objeto de explanação anteriormente aqui assim se tiver dúvidas sobre seu significado releia tal trecho 184 Filosofia da Linguagem I para livrar o lógico de qualquer embaraçante compromisso ontológico CRESSWELL Logics and Languages London Methuen 1973 p 37 Por conseguinte a ideia de que a semântica trataria de noções acerca de relações entre expressões e um domínio de objetos é solapada e tornase semsentido uma vez que ela pressuporia a possibilidade de um discurso que contivesse de um lado expres sões de uma linguagem e de outro objetos relações e propriedades em si mesmas Porém isso seria francamente agramatical sem sentido Isso requer uma reconsideração da definição mesma das noções semânticas abandonase aqui a suposição de que a teoria semântica teria que dar conta tanto dos fatores ligados à situação nãolinguística quanto dos fatores ligados ao contexto linguístico Na semântica dos valores de verdade inferencialista desaparece a consideração dos fatores da situação e ficam apenas os contex tuais Na medida em que as noções relativas à situação que nas semânticas referencialistas são elaboradas na noção de domínio de referência e modelo têm a ver com a noção de objeto e de exis tência as semânticas inferencialistas são obrigadas a fornecer uma conceituação dessas noções em outros termos A solução para esse problema R Carnap forneceu já há algum tempo em consonância com a solução fregeana Falando estritamente a questão não deve ser fraseada como O que é o nominatum deste signo de objeto mas assim Quais sentenças em que este signo de objeto pode ocorrer são verdadeiras Nós podemos fazer uma avaliação apenas da verdade ou falsidade de uma sentença não do nominatum de um signo nem mesmo de um signo de objeto Portanto a indicação da essência de um objeto ou o que é o mesmo a indicação do nominatum de um signo de objeto consiste na indicação dos critérios de verdade para aquelas sentenças nas quais o signo desse objeto pode ocorrer Se a essência construcional de um objeto tem que ser indicada o critério consiste na construçãofórmula do objeto que é uma regra de transformação que nos permite traduzir passo a passo toda sentença na qual o signo de objeto ocorre em sentenças sobre objetos de um nível construcional mais baixo e finalmente em uma sentença sobre as relações básicas apenas The Logical Structure of the World Pseudoproblems in Philosophy 161 p 256257 No que diz respeito à significatividade isso implica dizer que a linguagem está ligada à informação ou discurso sobre o mundo e A explanação inferencial do significado linguístico 185 não ao mundo mesmo A relação entre linguagem e mundo é então intermediada pela série de informações codificadas nas sentenças que em dado momento do uso da linguagem são aceitas como ver dadeiras A semântica inferencialista interpretada em seu sentido forte consegue explicitar os fatores envolvidos no fluxo discursivo ou inferencial mas apenas consegue dar conta das informações sobre o mundo tornando esse um aspecto da informação discursi va Isso fica claro pelo menos em dois pontos já apresentados Pri meiro no privilegiamento das relações inferencialanafóricas em detrimento das referenciais segundo na interpretação da dêixis em termos anafóricosubstitucionais Essa interpretação da signi ficatividade conduz a eliminação da situação e a absolutização do contexto A situação é concebida como derivada do contexto o qual é definido como o conjunto de proposições sentenças cren ças etc assumidas como verdadeiras o que implica no que se refere à definição dos termos adotar uma definição contextual para todos os termos significativos da linguagem Tratase pois de uma semântica nãoobjetual sem domínio de referência Isso soa antinômico pois em geral definese a Se mântica a partir de uma relação da linguagem com algo distinto dela Todavia também se insiste no fato de que a relação entre as expressões deve ser considerada O que os teóricos inferencialis tas fazem é privilegiar as relações anafóricoinferenciais e tratar a questão da referencialidade ou como derivada ou como exter na No caso da semântica da valoração o que temos é a tese de que o modo como uma sentença é valorada como verdadeira ou como falsa é algo externo à teoria semântica Agora que se trata de construir nas semânticas da valoração um esquema ou algo ritmo utilizável para dar conta dos aspectos formais da semântica de linguagens artificiais isso fica evidente a partir dos propósitos e das aplicações dos seus autores Entretanto a pretensão filosófica de uma justificação mais ampla a partir de razões linguísticas e evidências lógicosemânticas não é de todo descartada como in dica a passagem de Carnap anterior Além disso os inferencialistas invocam uma concepção de linguagem em geral devida a Witt genstein e a Carnap segundo a qual a linguagem estaria limitada quanto à capacidade de explicitar a sua própria significatividade 186 Filosofia da Linguagem I Como anota Wittgenstein os limites da linguagem mostramse na impossibilidade de se descreverem os fatos aos quais uma sentença corresponde sem novamente reutilizar a sentença A saída pela via da metalinguagem tão somente confirmaria esse ponto A tese central da semântica inferencial diz que para a deter minação do conteúdo de uma asserção há que se determinarem as suas conexões inferenciais com outras asserções As noções de referência descrição e verdade em vez de serem explanadas em termos de remissões a objetos recebem uma explanação em termos de anáfora e substituição entre expressões de tal modo que as remissões à situação são explanadas pelas relações de remissão ao contexto discursivo Desse modo tal estratégia de explanação realiza o projeto de manterse fiel à tese da autonomia da semânti ca em relação à existência e à referencialidade cumprindo o desi derato de conceituar a significatividade de um modo nãoobjetual O cerne da justificação inferencialista está na transformação dos fatores da situação de proferimento em componentes propo sicionais do contexto discursivo pois é apenas na medida em que os fatores relativos à situação de proferimento sejam transpostos para o discurso na forma de pressuposições que aparecem como premissas e regras implícitas ou explícitas portanto como fazendo parte do contexto discursivo comum é que eles podem ter algum papel semântico Com efeito a intuição fundamental orientadora dessas teorizações é a da autonomia da significatividade em relação à referência e à existência o que quer dizer que tendo em vista a distinção entre situação nãolinguística e contexto linguístico os inferencialistas abdicam dos fatores ligados à situação em favor dos fatores contextuais pois em última instância toda e qualquer inferência é um contexto discursivo o que implica dizer que nas cadeias inferenciais apenas comparecem elementos linguísticos Leituras recomendadas MOURA Heronides M Significação e contexto uma introdução a questões de semântica e pragmática Florianópolis Insular 1999 PENCO C Introdução à Filosofia da Linguagem Petrópolis Vozes 2006 Parte V A explanação inferencial do significado linguístico 187 Reflita sobre Como compreender a diferença do significado de expressões como Isto Este e Ele em frases do tipo Hoje o sol está muito forte Isto não é bom para as plantas Maria encon trou João Este ficou pasmo e João estava nu Ele havia sido assaltado Como explicar as relações de oposição concordância regên cia etc que ocorrem entre expressões de um mesmo contex to linguístico The sum of first 4 partials Capítulo 10 O significado como um complexo estruturado O objetivo deste capítulo é apresentar as teorias do conteúdo semântico que o conce bem como um complexo estruturado O cer ne dessas teorias está na concepção de que o significado de uma sentença constituise de diferentes ingredientes os quais têm diferen tes papéis semânticos e diferentes modos de significação Spectrum of sound of Poi Varied pitch 180 Hz to 9 KHz with a strong fundamental and lower partials Spectrum of the Branch Lef varied pitch 358 Hz to 5 KHz with strong fundamental and first 2 partials augmented Spectrum of the Hand drum the fundamental and a greater number of partials with a distribution of decreasing magnitude except a stronger third the spectrum changes over time Spectrum of the Mouth bow fundamental and 3 partials only with almost equal magnitude not as the harp sound Spectrum of the Bow varied pitch 45 to 9000 Hz fundamental some partials and some extra components spectrum changes over time due to the modifying actions by the performers Spectrum of a triple flute seemingly 3 instruments played simultaneously separate frequencies each with a strong fundamental and lower partials range 200 to 2000 Hz the spectrum does not change over time O significado como um complexo estruturado 191 10 O significado como um complexo estruturado As propostas de explanação do significado em termos de uma única relação referencial ou inferencial conduzem a dificuldades e recorrem a algum tipo de redução ou pressuposição contrain tuitiva sobretudo porque têm de fazer colapsar conteúdo e valor semântico em algum ponto da descrição do conteúdo semântico sentencial Nesta lição tendo em vista a conjugação das conside rações feitas nas lições precedentes será apresentada uma teoria semântica que articula ambos os tipos de fatores referenciais e inferenciais sem reduzir um ao outro baseada na tese de que o conteúdo semântico sentencial é estruturado nãohomogêneo e distinto do conteúdo semântico das partes subsentenciais Uma teoria semântica capaz de cumprir o objetivo de expla nar o conteúdo semântico sentencial sem reduzilo ao modo de significação de uma ou outra das partes subsentenciais é a teoria da proposição estruturada de extração russelliana que será agora objeto de consideração O objetivo da lição é por um lado propor essa teoria como a forma mais adequada de explanação das noções semânticas e por outro mostrar que unicamente uma conceituação em que se con juguem os aspectos inferenciais e referenciais de maneira nãoho mogênea e nãounidimensional seria capaz de tornála consisten 192 Filosofia da Linguagem I te Esse último ponto não é defendido explicitamente pelos seus propositores pois em geral a proposta é defendida em termos referencialistas Amparado nas considerações tecidas nas lições precedentes mostrarseá que por um lado na medida em que as propriedades inferenciais não esgotam a significatividade fa zemse necessários nexos referenciais diretos mas que por outro se não podemos dispensar tais nexos referenciais eles não cons tituem inteiramente a base da significatividade linguística Esse aspecto refletese na explanação do conteúdo semântico tendo como consequência que a descrição do conteúdo semântico sen tencial seja um híbrido em que se conjugam aspectos linguísticos e aspectos nãolinguísticos inferenciais e referenciais 101 O que é expresso pela asserção de uma sentença A teoria é denominada de semântica das atitudes proposicio nais porque concebe a significação como uma função de con textos de proferimento para o que é dito pelas sentenças nesses contextos a partir da análise da semântica das atitudes proposi cionais Também é denominada de semântica das proposições estruturadas porque concebe o que é dito por uma sentença a proposição como um complexo estruturado tendo suas raízes na teoria da proposição de B Russell todavia diferenciandose des ta pela utilização da noção de referência direta desenvolvida nos anos 1960 sobretudo por R B Marcus e S Kripke O ponto básico dessa teoria é constituído pelas alegações de que o valor semântico de uma sentença é a proposição expressa no contexto e de que as proposições são complexos estruturados tal como as sentenças que as expressam A motivação principal da teoria advém dos problemas derivados da conceitualização da noção do que é dito por uma sentença em um contexto Pela teoria da intensão e da extensão apresentada no Capítulo 8 o que é dito por uma sentença é explicitado pela exposição das condi ções de verdade relativas ao contexto de proferimento as quais são pensadas como o conjunto de mundos possíveis em que a sentença O significado como um complexo estruturado 193 tal como usada no contexto é verdadeira A teoria da proposição estruturada diferenciase da semântica dos mundos possíveis em pelo menos três pontos básicos a na consideração das atitudes proposicionais b na teoria da referência e c na concepção do que é dito ou expresso por uma sentença em um contexto A primeira diferença referese à explicação da semântica das sentenças que expressam atitudes proposicionais em termos de uma relação entre um falante e um conteúdo Na semântica dos mundos possíveis a explicação fornecida diz que se trata de uma relação entre um falante e as condições de verdade de uma sen tença condições estas pensadas como uma estrutura intensional Essas condições de verdade são explicitadas em termos de con juntos de mundos metafisicamente possíveis valores de verdade e extensões de termos O conteúdo ao qual as atitudes proposicio nais se relacionam é uma proposição mas essa é entendida como um conjunto de circunstâncias em que a sentença é verdadeira ou como um conjunto de mundos possíveis em que ela é verdadeira isto é em que as extensões dos termos componentes são deter minadas o que termina por implicar que sentenças logicamente equivalentes mesmo com estruturas gramaticais diferentes ex pressem a mesma proposição Na semântica das proposições estruturadas a explicação da rela ção embutida na noção de atitude proposicional é conceitualizada como uma relação entre um falante e o conteúdo expresso por uma sentença o qual é pensado como um objeto complexo estruturado que determina conjuntos de circunstâncias em que a sentença é verdadeira mas que não se identifica com tais circunstâncias de tal modo que sentenças logicamente equivalentes podem expres sar proposições distintas embora o conjunto de circunstâncias ou mundos possíveis em que elas são verdadeiras seja idêntico Por tanto a solução consiste em abandonar o princípio fundamental das semânticas das condições de verdade No seu lugar devese colocar uma concepção dos conte údos semânticos como objetos complexos que codificam muito da es trutura das sentenças que os expressam e que determinam conjuntos de circunstâncias suportadoras de verdade sem serem identificadas com elas Ibidem SOAMES Direct Reference Propositional Attitudes and Semantic Content Philosophical Topics v XV n 1 p 4787 1987a p 50 194 Filosofia da Linguagem I O abandono da abordagem em termos de condições de verdade tem origem por um lado no colapso produzido por sentenças neces sariamente equivalentes em um contexto em que têm de ser descritas como dizendo a mesma coisa isto é como tendo o mesmo conteúdo do ponto de vista extensional ou referencial Já se mostrou que esse é um problema também para os inferencialistas e que tem origem na unidimensionalização e homogeneização da significatividade O cer ne da argumentação em favor da modificação do aparato semântico se baseia na constatação de que o aparato da semântica dos mundos possíveis é incapaz de distinguir entre equivalência necessária rela tiva a um contexto e dizer a mesma coisa A consequência dessa incapacidade é que todas as sentenças necessariamente equivalentes não obstante as diferenças internas têm de ser descritas como ex pressando ou dizendo a mesma coisa e também que a conjunção de uma sentença com qualquer consequência necessária dela teria de ser descrita como dizendo a mesma coisa que ela mesma Por outro lado o abandono é também motivado pela dificul dade de se conciliar a semântica das condições de verdade com a noção de referência direta Caso se admita que nomes variáveis e dêiticos refiram diretamente a algo então o conteúdo semântico das sentenças relativamente a contextos não pode ser conjuntos de circunstâncias que as tornem verdadeiras Tratase de uma dife rença concernente à teoria da referência Na semântica dos mun dos possíveis o valor semântico de uma sentença relativamente a um contexto de proferimento é o conjunto das circunstâncias que suportam a sua verdade Por sua vez esse valor semântico é determinado pela sua intensão a qual é uma resultante das inten sões das partes componentes Do que se segue que a contribuição semântica dessas expressões é uma função ou conceito e esta é o que determina a sua referência ou valor semântico no contexto Com efeito a partir dos trabalhos de R B Marcus S Kripke K Donnellan e D Kaplan tais semânticas podem ser questiona das de uma maneira imprevista Tais autores desenvolvem a partir de diferentes questionamentos uma teoria semântica baseada na noção de referência direta que envolve uma reconsideração da contribuição semântica dos nomes próprios e das expressões in dexadoras para os contextos em que ocorrem O significado como um complexo estruturado 195 Esses dois pontos a noção de referência direta e a semântica das atitudes proposicionais segundo Scott Soames colocam em ques tão a adequabilidade da concepção de conteúdo semântico da sentença em termos de funções de conjuntos de mundos possíveis ou de situações a valores de verdade O resultado é uma proposta distinta sobre o valor semântico sentencial que para acomodar a contribuição de termos com referência direta tem que postular uma entidade internamente estruturada O valor semântico das sentenças são coleções de circunstâncias suportadoras de verdade mas antes entidades singulares compostas com estruturas relacio nadas às sentenças que as expressam SOAMES Lost Innocence Linguistic and Philosophy v 8 p 5971 1985 p 63 A denomina ção proposições russellianas pretende indicar um tipo de conte údo semântico em que o referente dos termos designadores seja parte componente juntamente com propriedades e relações do expresso As proposições seriam constituídas por entidades a saber indivíduos propriedades e relações seriam partes consti tuintes do complexo proposicional A conceitualização tradicional nomeava tais entidades com a expressão fatos os quais seriam entidades dúbias ora entendidos como partes do mundo ou domí nio de referência ora como entidades intensionais ora idênticos às proposições expressas Para tornar explícitas essas diferenças vamos adotar uma nota ção mais elaborada para descrever e explicitar o conteúdo semân tico o que é dito por uma sentença Usaremos expressões em ne grito e para indicar indivíduos ou objetos referidos colchetes para indicar propriedades parênteses para indicar proposições ou conteúdos a estrutura I para indicar inten sões a barra para indicar instanciação de um conceito por um objeto a barra invertida para indicar determinação o hífen para indicar designação Desse modo a sentença Marte é ver melho receberia a seguinte análise quanto ao conteúdo russellia no conforme a interpretação de S Soames e J Perry Marte servermelho Essa fórmula mostra as várias relações e funções semânticas co dificadas na sentença gramatical Marte é vermelho sobretudo ela indica que as palavras Marte e vermelho têm funções semânti termos singulares que referem diretamente podem ser usados para mostrar que o conteúdo semântico de sentenças relativo a contextos não pode ser um conjunto de circunstâncias suportadoras da verdade não importando quão refinadas o sejam Idem p 52 196 Filosofia da Linguagem I cas diferenciadas e que a expressão é estabelece uma relação en tre um objeto e uma propriedade Para contraste observese que na concepção do método da intensão e da extensão tal sentença expressaria um conteúdo um pouco diferente assim explicitado IMarte Ivermelho Esse conteúdo é inteiramente intensional conceitual visto que as palavras da sentença codificam intensões e relações entre inten sões Esse conteúdo por sua vez de modo extrínseco é remetido ao planeta Marte que não faz parte do conteúdo semântico no sentido de que ele não seria parte da proposição expressa pela sen tença Em outras palavras nessa concepção o planeta Marte não é um ingrediente do conteúdo semântico aspecto este também de fendido pelos inferencialistas Do conteúdo proposicional fariam parte apenas itens conceitualintensionais tal como defendia Fre ge os quais seriam intermediários e responsáveis pela determina ção da referência como modos de apresentação dos referentes A teoria da proposição estruturada retoma a conceituação russellia na segundo a qual há relações nãomediadas entre expressões e objetos e chega à seguinte caracterização do conteúdo semântico que na terminologia do autor é denominado valor semântico os valores semânticos das sentenças como proposições com estruturas relacionadas à sentença que os expressa No caso de sentenças simples as proposições são construídas de propriedades correspondentes aos predicados e indivíduos correspondendo ao termos referenciais dire tos Em casos mais complexos operadores como e ou não descrições definidas e indefinidas e quantificadores contribuem com elementos de ordem superior para proposições estruturalmente complexas cujos constituintes são os valores semânticos de constituintes sintáticos das sentenças que os expressam SOAMES 1987 p 64 Nessa forma de análise a descrição do conteúdo semântico in clui além dos referentes o modo como esse é expresso Precisa mente a função semântica das expressões utilizadas para compor a sentença é explanada apresentandose os objetos de referência ou valor semântico bem como o meio linguístico utilizado para codificálo Assim a sentença Marte é vermelho recebe uma análise em que seu conteúdo fica assim explicitado Marte Marte é vermelho servermelho O significado como um complexo estruturado 197 Esse objeto estruturado produto de uma análise semântica descreve o conteúdo semântico veiculado pelo proferimento da sentença Marte é vermelho em dado contexto e situação Desse modo a diferença entre as sentenças utilizadas para codificar um mesmo conteúdo aparece na descrição desse conteúdo Não há confusão entre significante e significado entre sentença e pro posição isto é não é o caso que agora o conteúdo seja posto como nãoindependente da linguagem Pelo contrário conteúdo e forma de expressão podem ainda ser separados mas o rastro inferencial e intralinguístico pelo qual se chega a um determinado conteúdo é agora explicitado na descrição semântica de tal modo que os co lapsos antes apontados não mais têm lugar A modificação teórica portanto diz respeito à descrição semântica e visa à preservação da distinção do que é distinto Para explicitar o uso desse dispositivo de análise considerese a significatividade da expressão sentencial Aristóteles é inteligen te quando proferida por Airton Marcos e João João profere essa sentença ao descrever o que ouviu em uma aula de Filosofia grega sobre a explicação da diferença entre humanos e animais segun do o filósofo Aristóteles Airton muito irônico com a Filosofia proferea para elogiar o seu cão chamado Aristóteles e Marcos tendo apenas ouvido as duas frases conta para Catharina que Air ton e João pensam que Aristóteles é inteligente Descrita a situa ção assim não é difícil mostrar que o conteúdo semântico da frase Aristóteles é inteligente no proferimento de Marcos é duplo pois reenvia tanto ao proferimento de Airton quanto ao de João Se o vestígio anafóricoinferencial segue o proferimento de João e o dito na aula de Filosofia chegase ao filósofo grego e sua perspicácia seguindo o caminho anafóricoinferencial do proferimento de Air ton chegase ao viralata que Airton pensa que é um pastor alemão genuíno e que o nomeou Aristóteles porque para ele Aristóteles era um genuíno filósofo alemão A expressão Aristóteles é inte ligente é significativa no contextosituação nunca isoladamente e essa significatividade determinase pela especificação dos nexos anafóricos inferenciais referenciais e pragmáticos A aparente am biguidade da expressão é tão somente um efeito de um enfoque limitado Isso se mostra na possibilidade aberta a Marcos de ex plicitar para Catharina o imbróglio dizendo que João estava a falar Atente para como essa noção de significado difere das noções propostas nos capítulos anteriores Releia esses capítulos e anote os pressupostos teóricos que as diferenciam 198 Filosofia da Linguagem I de seu filósofo preferido e Airton muito espirituoso ironizandoo concordou com ele repetindo que Aristóteles era sim muito inteli gente enquanto afagava o seu cão chamado Aristóteles Essa noção de conteúdo semântico delineada a partir das pro posições russellianas continua conceituandoo como constituído de indivíduos relações e propriedades A introdução na descrição de indicações acerca da sentença que expressa esse conteúdo não muda esse fato Ela é o resultado da exigência referencialista de que todos os termos tenham de alguma forma um tipo de referente Ora seguindo as indicações fornecidas nas lições anteriores o que importa na especificação do conteúdo semântico é a determinação dos nexos referenciais e inferenciais do que retiramos que ao in dicarmos tais nexos estamos especificando a proposição expressa e não é preciso acrescentar mais nada No modelo neorusselliano a proposição era uma entidade correlata à sentença que o expres sa e estruturalmente assemelhada Na proposta dos defensores da noção de proposição estruturada a proposição espelha a sentença que a expressa em algum nível de composição semântica O fato é que apenas em relação aos termos designadores diretos a teo ria da proposição estruturada abdica da mediação feita por uma intensão Isso porém cria uma anomalia na descrição semântica pois implica que certas expressões propriamente falando sejam consideradas diferentes das outras quanto ao modo de significa ção sem que isso apareça no patamar descritivo Pelo contrário eu penso que se substituímos esse vocabulário expressão intensão extensão por outro em termos de expressão conteúdo função e valor essa anomalia desaparece Tanto os designadores diretos como os indiretos assim como as demais expressões serão descri tos em termos de conteúdo semântico cujos ingredientes são a sua função e o seu valor semânticos no contextosituação O objetivo dessa nova proposta portanto é que restem apenas as expressões linguísticas significativas e os aspectos e objetos que compõem a situação objetiva de proferimento a qual inclui o con texto discursivo A proposição o conteúdo expresso não se consti tui como um terceiro elemento mas antes é o modo pelo qual uma determinada sentença é capaz de ser informativa em relação à situ ação isto é a proposição é o entrelaçamento de fatores referenciais KING Structured Propositions and Sentence Structure Journal of Philosophical Logic v 25 p 495521 1996 p 495 SOAMES 1987a p 111 1987b p 75 O significado como um complexo estruturado 199 e inferenciais codificados nas expressões componentes pelo agen ciamento de modos de significação O fato de que certas expressões sejam referenciais não as destitui de conteúdo inferencial e o fato de uma expressão ser inteiramente inferencial não a destitui de signifi catividade nem a desconecta da referencialidade pois se ela de al gum modo não contribui para a determinação da referencialidade seja do contexto em que ela ocorre seja de uma expressão particular concomitante então ela seria dispensável nãosignificativa 102 Referência direta e cadeia inferencial A motivação principal da semântica das proposições estrutu radas é sem dúvida a tese de que certas expressões têm como in grediente um componente indexicador defendida por Kripke e Putnam a admissão de um componente indexicador implicaria admitir a contribuição do entorno da situação na constituição da significação não passível de explanação anafóricoinferencial Uma decorrência natural dessa tese é a ideia de que nomes pró prios e comuns incluem um componente ou marcador semântico da ordem da dêixis e que portanto a significatividade de tais ex pressões seria dependente da situação de proferimento isto é do modo de introdução da expressão na cadeia discursiva de uma tal maneira que o conteúdo expresso pelas sentenças em que os indexadores ocorrem incluiria aspectos ou elementos da situação Isto posto no sentido de que as ocorrências posteriores teriam seu conteúdo semântico determinado pela retomada da primeira ocorrência e esta contribuiria para o contexto discursivo com a remissão a um objeto ou aspecto da situação Esse ponto desenvolvese na tese de que as condições de ver dade não se confundem com a proposição expressa A explana ção dessa tese supõe que se compreendam três alegações que a proposição expressa por uma sentença não se define em termos das circunstâncias nas quais a sentença é verdadeira que teorias do significado não podem adequadamente ser identificadas com teorias das condições de verdade e que compreender uma sen tença não pode ser analisado adequadamente como conhecer as condições nas quais a sentença é verdadeira Dito de outro modo o isomorfismo sintático entre duas expressões não é garantia de No artigo The Meaning of Meaning em Mind Language and Reality Philosophical Papers Volume 2 215271 Cambridge Cambridge University Press 1975 Putnam argumenta em favor da tese de que expressões classicamente explanadas em termos descritivos teriam componentes indexicadores Nossa teoria pode ser resumida como dizendo que palavras como água tem um componente indexical implícito p 234 p 243245 RECANATI F Direct Reference From Language to Thought Oxford Balckwell 1997 p 2628 200 Filosofia da Linguagem I um isomorfismo semântico ou equivalência de conteúdo semânti co pois também cabe dizer de uma sentença que ela veicula o seu conteúdo sob um modo de apresentação linguístico que pode di ferir do modo como outra sentença o faz Essa tese capta o mote hermenêutico de que não se pode dizer a mesma coisa com pala vras diferentes e afastase em parte da tese de Frege As condições de verdade de Cícero era calvo explanamse pela determinação de um indivíduo i em um instante t fazer parte da extensão de um predicado C Podese perfeitamente apreender essa condição portanto compreender a sentença que teria a seguinte for ma na notação antes introduzida aCalvície sem que isso impli que a apreensão da proposição expressa ou seja do fato de alguém saber o que é para Cícero ter sido calvo não se segue que ele sempre seja capaz de identificar de quem se está a falar e por conseguinte sem condições de determinar o valor de verdade do que foi expresso A noção de modos de significação ou papéis semânticos nos ajuda a compreender esse fenômeno Um mesmo conteúdo se mântico uma proposição expressa pode ser veiculado por di ferentes sentenças Além disso podese mesmo assim dizer que essas sentenças têm diferentes significações pois elas expressam o conteúdo de modos diferentes O que as torna diferentes é o modo de apresentação do conteúdo semântico Consideremse as sentenças Cícero era calvo e Túlio era calvo Uma vez que os nomes Cícero e Túlio designam o mesmo indivíduo ambas expressam a mesma proposição aCalvície mas o fazem por meios de expressão diferentes embora as funções semânticas e a estrutura sintática nelas agenciadas sejam idênticas Uma sentença como Ele é calvo também poderia ser utilizada para codificar a mesma proposição não obstante a diferença de função semânti ca do termo designador Ele Essas diferenças nas sentenças im plicam condições de verdade distintas pois um ouvinte qualquer poderia aceitar uma delas como verdadeira e recusar a verdade das outras Não obstante tratase da mesma proposição pois Ele é calvo pode ser usada também para predicar a propriedade da calvície daquele que é chamado Túlio e Cícero em frases como 1 Esse cara aí calvo chamase Cícero e também Túlio 2 O senador romano Cícero ou Túlio ele era calvo O significado como um complexo estruturado 201 A teoria da proposição estruturada conformase a essa descri ção e está ancorada na tese fundamental de que sentenças expres sam proposições e que proposições são entidades complexas em que se apresentam as propriedades e relações semânticas básicas O ponto mais relevante nessa proposta é a formulação mais re finada da noção de valor semântico sentencial que permite dis tinguir o valor semântico de duas sentenças que têm a mesma ex tensão e as mesmas condições de verdade em termos de mundos possíveis Isso é feito na definição mesma de proposição a qual inclui uma referência à estrutura sintática da sentença utilizada para expressála Uma proposição nessa perspectiva é uma estrutura que tem como constituintes indivíduos propriedades e relações Além dis so essa estrutura reflete a estrutura das sentenças que a expres sam de modo que mesmo que duas sentenças diferentes tenham as mesmas condições de satisfação em modelos ou em mundos possíveis ainda assim se pode diferenciar o seu conteúdo semân tico Em vez de se conceber o conteúdo semântico das sentenças a partir das noções de intensão e extensão veritativofuncionais tomamse proposições como objetos complexos que se estruturam à maneira das sentenças que os expressam e que determinam con juntos de circunstâncias determinantes de verdade sem se identifi carem com tais circunstâncias A definição fica assim o significado de uma expressão é uma função de contextos para cons tituintes proposicionais O significado de uma sentença é uma função composicional de contextos para proposições estruturadas Intensões e extensões de expressões relativo a contextos e circunstâncias deri vamse de intenções e extensões de proposições e constituintes pro posicionais Estes por sua vez podem ser alcançados a partir de uma caracterização recursiva da verdade com respeito a circunstâncias para proposições SOAMES 1987 p 74 As proposições são concebidas como objetos internamente estruturados para os quais é possível distinguir partes e modos de combinação Duas proposições podem ter diferentes relações possuírem a mesma forma e diferentes partes ou possuírem as 202 Filosofia da Linguagem I mesmas partes mas sob uma forma diferente Por sua vez a re lação entre a sentença e a estrutura da proposição expressa não é direta pois a proposição expressa por uma sentença depende também do contexto de uso Em tal conceituação o princípio da composicionalidade é central no sentido de que a significação das expressões componentes é uma função de contextos para partes proposicionais Na formulação de King a estrutura da proposição é conceituada da seguinte forma ser a estrutura da proposição expressa por uma sentença uma fun ção da estrutura da sentença deve ser entendido como significando que a estrutura de uma proposição expressa por uma sentença é uma função da estrutura da contribuição semântica Semantic Imput da sentença dizer que uma proposição é estruturada é dizer que seus constituíntes estão em alguma relação complexa que perfaz a estrutura da proposição que uma sentença esteja associada com uma con tribuição semântica ou mais de uma se a sentença é estruturalmen te ambígua que consiste de itens lexicais numa determinada relação complexa e que esta contribuição semântica pode ser mapeada em uma proposição que consiste de constituintes proposicionais KING 1996 p 497498 Esse modo de conceituar o conteúdo proposicional produz uma dificuldade todavia Considerese o problema posto por Frege Se a e b são nomes próprios para o mesmo objeto seguin do a definição de proposição e de referência direta as sentenças a a e a b veiculam a mesma proposição não obstante as diferenças dos meios de expressão Conjugado com a tese de que as expressões referenciais diretas não possuem um intermediário intensional isso teria como consequência a indistinção semântica dessas sentenças no sentido de que a sua contribuição semântica semantic imput seria idêntica A solução proposta consiste em admitir que não basta a inclusão do contexto e da estrutura se mântica para a especificação do que é expresso fazendose neces sário levar em consideração também a expressão utilizada isto é o modo de apresentação linguístico utilizado para codificar a propo sição Desse modo mesmo quando duas sentenças sejam constitu ídas por expressões com função e valor semânticos idênticos seria possível ainda assim distinguirse o conteúdo expresso pois a di ferença das expressões componentes refletirseia na explicitação O significado como um complexo estruturado 203 desse conteúdo pois o modo como cada expressão foi introduzida no discurso teria que ser explicitado Em suma na especificação do conteúdo semântico sentencial daquilo que é expresso tornase imprescindível recorrer aos com ponentes linguísticos empregados pois faz diferença o meio de expressão ou linguagem e de elementos pertencentes à situação nãolinguística pois a mesma sentença veicula diferentes propo sições em diferentes situações de proferimento Notese que a ca racterização do conteúdo semântico como composto de elemen tos linguísticos e nãolinguísticos dispensa a postulação de uma terceira entidade para além da linguagem e aquém do real Pelo contrário significa justamente não postular tal entidade a signifi catividade consistindo na correlação entre um sistema simbólico e um domínio de referência correlação esta que tem origem no modo como os agentes sencientes lidam com o entorno Quando dizemos que uma sentença S tem sentido essa correlação já se deu caso contrário diríamos tratarse não de uma sentença mas de uma sequência de sinais semsentido ou ruído Isso está de acordo com a tese fregeana segundo a qual o con teúdo mesmo é um todo indiferenciado que apenas se estrutura na sua exposiçãoexpressão em uma linguagem Sem a inter venção de uma linguagem o conteúdo não poderia ser objeto de discurso havendo múltiplas formas sob as quais ele poderia ser codificado o que não implica dizer que a situação e seus elementos também não existiriam ou seja o que se está a dizer é que parte do conteúdo sentencial é essencialmente semântico ou relacional no caso das proposições singulares A presença da expressão na exposição do conteúdo semântico pode causar espécie mas note se logo esse recurso tem como objetivo tão somente a indicação e a marcação do caminho inferencial pelo qual tal conteúdo foi veiculado na situação de proferimento Essa estratégia de expla nação do conteúdo semântico também é compatível com a noção de referência direta sem contudo estar aberto às objeções que se levantam contra essa tese O argumento de Kripke em favor da re ferência direta pode ser visto pelo seu lado semântico e inferencial se a referencialidade de um termo designador fosse garantida pela intermediação de algum tipo de intensão conceito sentido asso 204 Filosofia da Linguagem I ciado a tal termo e que no contextosituação apanhasse o objeto referido então nas retomadas anafóricas não haveria garantia de preservação da referencialidade A diferença no modo de apresentação linguística Cícero Tú lio O maior orador romano etc não é suficiente para indicar a diferença de intensão sentido conceito do mesmo modo que a identidade do referente não é garantia da identidade de intensão Por isso a consideração da situação de proferimento e do contex to discursivo é indispensável O ponto visado pela introdução da noção de referência direta é a eliminação dos correlatos objetivos fatos estados de coisas pensamentos enquanto intermediários entre a sentença e o real efetivo agora dispensáveis como instru mentos de análise O visado com o termo fato continua lá como aspecto determinado do real efetivo mesmo o visado com os ter mos pensamento e sentido continua lá como propriedade de uma sequência de sinais enquanto estes são utilizados por um agente em uma situação Apenas todavia eles não são entificados e pos tos como independentes da linguagem e do falante Eles são agora modos ou aspectos dessa articulação complexa que é a relação de significatividade A significatividade é agora pensada como um modo de articulação de um sistema de sinais para apanhar aspec tos da situação o que se mostra no momento da especificação do conteúdo semântico de uma sentença no qual aparecem tanto as remissões entre expressões como a remissão aos referentes 103 A complexa estrutura da relação de significação Um aspecto essencial dos enigmas e problemas bem como dos argumentos e das soluções em torno das atitudes proposicionais é a conexão entre as relações referenciais e as propriedades inferen ciais das sentenças que as expressam Os colapsos na descrição semântica em geral podem ser vistos como um sintoma de que a explicitação dos aspectos referenciais termina por obscurecer e não dar conta dos aspectos inferenciais e viceversa e as soluções são como que tentativas de assegurar a harmonia entre ambas O significado como um complexo estruturado 205 Harmonia esta que não é senão a condição da significatividade isto é a condição para que uma expressão seja significativa fazendo parte assim de uma linguagem em que algo possa ser dito de uma situação e disso se possa inferir outras coisas que também poderiam ser ditas naquela circunstância é justamente que ela faça nexos ana fóricoinferenciais com outras expressões e faça nexos referenciais com o mundo Nas atitudes proposicionais essa harmonia é premen te sobretudo pela interconexão entre referencialidade e inferenciali dade que elas agenciam ao unirem num único lance o querer dizer algo e o comprometerse com pressuposições e consequências Ora não obstante Soames Salmon e King fornecerem uma sé rie de argumentos e objeções contra a semântica das condições de verdade ancorada na ideia de referência em mundos possíveis eles compartilham com esta uma pressuposição questionável qual seja a suposição de que todas as propriedades e relações semânti cas podem ser reduzidas ou formalizadas em termos de uma única relação a saber a de designação O modelo de análise do signifi cado sentencial da teoria da proposição estruturada fornece um aparato teórico capaz de lidar com diversos problemas da tradição mas ele é ainda uma versão sofisticada da tese de que todas as no ções semânticas são redutíveis à referencialidade O nexo semân tico que está na origem da estrutura semântica e do qual todas as demais propriedades e relações semânticas se originam composi cionalmente é a relação de designação A definição estrutural do conteúdo semântico faz com que a estrutura da sentença seja pro jetada na estrutura da proposição evitandose assim o colapso das sentenças equivalentes em um único conteúdo semântico Toda via essa reduplicação é questionável sobretudo porque introduz um terceiro termo entre o que expressa e o que é expresso Uma alternativa seria defender que o caráter de estrutura do expresso é uma consequência do fato de que aquilo que é expresso seja um plexo de relações entre um objeto complexo a senten ça e outro objeto complexo a situação objetiva relativamente a um falante Não consiste portanto em que o que é expresso mimetize a estrutura sentencial pois tal metáfora sugere que o expresso subsiste para além da sentença que o expressa e aquém da situação que ele significa Ao insistirmos que o expresso incor Seria mesmo necessário introduzir um terceiro elemento entre as palavras e as coisas 206 Filosofia da Linguagem I pora tanto elementos linguísticos quanto elementos da situação queremos justamente enfatizar que o expresso se constitui nessa relação de remissão entre duas entidades complexas Portanto a descrição do conteúdo semântico expresso por uma expressão tem de apresentar esses vínculos mas isso de modo algum im plica introduzir uma entidade extra Ora a distinção entre componentes referenciais e componentes inferenciais já antecipa o caráter nãomimético e a nãoduplicação As relações inferenciais são determinadas pela linguagem tendo em vista que as expressões formam um sistema e exercem diferen tes funções sintáticas e papéis semânticos quando concomitantes por sua vez as relações referenciais determinamse a partir da si tuação Todavia a referencialidade mesmo ali onde ela é direta fazse pelo agenciamento daquelas funções sintáticas e papéis se mânticos disponíveis na linguagem Disso resulta que ao expla narmos os fatores linguísticoinferencialanafóricodescritivos e os fatores situacionalreferencialextensionais de uma expressão já esgotamos o seu conteúdo semântico qual seja esse conteúdo no caso das sentenças a proposição expressa A proposição esgo tase nos fatores anafóricos inferenciais e referenciais nem mais mas também não menos que esses fatores Considerese a explanação das assim chamadas proposições singulares como proposições com uma expressão referencial envolvendo um objeto particular indivíduo e não um concei to individual ou modo de apresentação isto é sem a mediação de um sentido fregeano que constituem o ponto de partida da semântica da proposição estruturada Vamos chamar essas putativas proposições proposições singulares O ponto é que se o componente na proposição ou passo na constru ção da proposição que corresponde ao termo singular é determinado pelo indivíduo ao invés de o indivíduo ser determinado pelo termo singular então nós temos o que chamo de proposição singular proposições singulares são os blocos essenciais de todas as proposições KAPLAN Demonstratives in ALMOG et al eds Themes From Kaplan Oxford Oxford UP 1989 p 483484 Notese que essa proposta sugere que as coisas façam parte da proposição expressa Ao propor que a coisa indivíduo mesma O significado como um complexo estruturado 207 faça parte da proposição parece que se está a fazer confusão entre a descrição semântica e a especificação do que está envolvido na atribuição de significatividade a uma expressão O objeto mesmo não afetaria a trama inferencial por isso a expressão utilizada para introduzilo no discurso é decisiva e não pode ser ignorada Em vez de se dizer que o objeto mesmo é parte do expresso melhor se ria dizer que a relação com o objeto faz parte da especificação do conteúdo semântico das proposições singulares e que essa relação de remissão ao objeto desencadeia a significatividade mas apenas enquanto a expressão que a codifica exerce uma função semântica no contexto da asserção A hipostasia da proposição como um complexo entre a senten ça e a circunstância de avaliação é o que dá sentido à tese segundo a qual o objeto mesmo faz parte do que é expresso Uma vez que essa hipostasia é evitada não mais faz sentido descrever a semân tica sentencial nesses termos Em vez disso é preferível descrever o conteúdo em termos de funções referenciais e inferenciais ana fóricas e pragmáticas Embora ainda correlacione conteúdo se mântico e existência a descrição semântica de sentenças com ter mos referenciais diretos tornase inofensiva o conteúdo de uma sentença singular asserida depende dos vínculos indexicais com a situação de tal modo que a existência do objeto referido está implicada no que é expresso no sentido de que se o objeto não existir o conteúdo expresso tornase incompleto O que importa portanto é a atribuição da função referencial à expressão designa dora e não dizer que o objeto mesmo faz parte do que é expresso A distinção entre fatores referenciais e fatores inferenciais por conseguinte permite recuperar as distinções que a teoria das pro posições estruturadas quer salvar sem se comprometer com as consequências indesejadas Em vez de conceitualizar a referência direta em termos de inclusão do objeto no conteúdo proposicional penso ser mais correto pensála como uma relação de remissão ao nãolinguístico pois é suficiente conceitualizar a função semânti ca dessas expressões como sendo referencial pura e simplesmente no sentido de que a inexistência do objeto impede que elas rea lizem a sua função no interior da sentença Dito de modo mais preciso do ponto de vista da descrição semântica a contribuição Embora o uso da expressão contexto para designar as circunstâncias nãolinguísticas da linguagem esteja generalizado apesar de essa expressão ser ambígua pois tanto indica a situação não linguística quanto o contexto linguístico Não seguimos esse hábito e utilizaremos a expressão situação para designar tais circunstâncias e reservaremos a expressão contexto apenas para designar as circunstâncias linguísticas de uma asserção 208 Filosofia da Linguagem I semântica das expressões referenciais é dependente da existência de um objeto Caso o objeto não exista a sentença fica prejudicada no que se refere ao seu conteúdo semântico Portanto a introdução da noção de remissão direta a objetos é tão somente para dar conta de alguns tipos de expressão cujo papel semântico é fazer ancorar a cadeia discursiva em pontos de refe rência da situação isto é cujo papel é remeter o discurso ao não linguístico através de uma relação nãomediada Para usar um exemplo esse tipo de relação é o que torna significativo e permite compreender as inscrições Você está aqui dos mapas e das indi cações de localização Essas inscrições não têm sentido nem como informação nem como indicação dentro do mapa nem fora dele mas valem apenas como nexo entre o mapa e a situação para um observador ou seja essas expressões pressupõem a capacidade de um sujeito de ligar um item de uma expressão simbólica comple xa o mapa a um item ou aspecto de um objeto complexo uma ci dade por exemplo Uma cadeia discursiva não é propriamente um mapa da situação sem dúvida não obstante o uso de uma expres são indexadora amarra toda a sequência discursiva a um ponto na situação fazendo com que tanto a sequência quanto a situação se abram uma para a outra Assim como o Você está aqui não tem conteúdo além da conexão entre o mapa e a situação o componen te referencial também não tem outro conteúdo senão vincular um ponto da cadeia discursiva a um ponto na situação Uma vez conceitualizado assim o conteúdo semântico a ques tão acerca do estatuto ontológico da proposição tornase premen te Qual é o estatuto dessa entidade que se supõe constituir o conteúdo semântico expresso pelo proferimento de sentenças O que é isso o que é dito Há algo que seja isso o que é dito por uma sentença A alternativa aqui adotada é clara a significativi dade é uma propriedade relacional complexa pois as expressões possuemna na medida em que façam parte de um sistema de si nais e sejam usadas em uma situaçãocontexto As propriedades semânticas são relacionais Podese então dizer que a proposição é uma relação entre uma sequência de sinais a sentença um determinado contexto de uso um uso ou ato discursivo e uma situação Enquanto tal a proposição não é um terceiro elemento O significado como um complexo estruturado 209 para além da linguagem e aquém da situação Esse modo de conceber a proposição constitui uma explicação do peculiar estatuto ontológi co das proposições por um lado elas não são linguísticas mas dependem da linguagem para existir e não apenas para serem expressas E por outro lado elas não são entidades embo ra dependam das entidades componentes da situação para existirem O estatuto ontológico da proposição é o de serem relações entre dois tipos de entidades os sinais e os sinalizados Essa é uma consequência natural da abor dagem aqui adotada que toma a proposição como aquilo que é expresso ou seja o conteúdo semântico codificado por uma sentença como sendo constituído tanto pelos nexos referenciais como pelos inferenciais Nessa pro posta o expresso por uma sentença é descrito como uma relação complexa entre as partes sentenciais e aquilo de que se fala postas em relação pelos utentes da sentença Essa relação é um comple xo nãohomogêneo visto articular itens de diferentes categorias semânticas e de ser o resultado da junção de nexos referenciais e nexos inferenciais Ao conceitualizar a significatividade como relação complexa evitase a entificação do que é expresso como algo para além das expressões e aquém da realidade Lekton dos estoicos Satzansich de Bolzano Gedanke de Frege Objektive de Meinong Sacheverhalt de Husserl proposition de Russell etc A hipostasiação faziase para garantir a objetividade a independên cia em relação à subjetividade do falante e em relação à linguagem Todavia essa independência apenas tem sentido na descrição se mântica e ali a entificação é tão somente um recurso dispensável e perfeitamente substituível pela conceitualização em termos de relação complexa constituída da articulação de funções e papéis semânticos em termos de nexos referenciais e inferenciais Relembremos o caminho feito até aqui nessa segunda parte Começamos com a pergunta pelo modo adequado de explana ção do significado e especificamente do conteúdo semântico sen tencial Após estabelecer que a significatividade engloba tanto as Atente para como o conteúdo semântico codificado por uma sentença é constituído tanto pelos nexos referenciais como pelos inferências dessa sentença 210 Filosofia da Linguagem I propriedades referenciais quanto as propriedades inferenciais que uma expressão pode adquirir em um contexto discursivo em uma situação de proferimento e distinguir os diversos modos de sig nificação e os tipos de expressões explorei duas perspectivas a referencialista e a inferencialista para chegar à noção de conteúdo semântico como um complexo estruturado Dada uma sentença simples temos pelo menos quatro possíveis modos de analisar o seu conteúdo A saber como expressando uma 1 relação entre um indivíduo e uma propriedade Marte Vermelho 2 relação entre um conceito sentido intensão e outro concei to Vermelho Marte 3 relação entre um indivíduo e um conceito Marte Verme lho e 4 relação entre um conceito e uma propriedade Marte Vermelho Admitese que apenas a situação e o contexto discursivo permi tem determinar qual é o conteúdo efetivo pois as expressões elas mesmas não têm um ou outro conteúdo semântico específico Este é um resultado da admissão de diferentes modos de significação basicamente indicação descrição e designação conjugadas com a admissão da complexidade inferencialreferencial do que é expres so Que a expressão Marte seja referencial isto é que ela indique o planeta solar ou inferencial isto é que ela expresse o conceito planetasolarx depende de como essa expressão é introduzida no contexto discursivo e da situação em que esse contexto se dá o que é ilustrado pelos exemplos a seguir Contexto I O quarto planeta solar tem dois satélites naturais é chamado Marte e também Planeta vermelho Os satélites de Marte são Fobos e Deimos Contexto II O quarto planeta solar está na casa de Sagitário Marte acaba de surgir no horizonte A diferença entre esses dois contextos não é suficiente para mostrar que nas sentenças Os satélites de Marte são Fobos e Dei O significado como um complexo estruturado 211 mos e Marte acaba de surgir no horizonte a expressão Marte é referencial ou inferencial referese a um objeto ou expressa um conceito não obstante as diferenças de funções gramaticais Ape nas com o acréscimo de uma situação de fala com objetos e falan tes e um contexto anafóricoinferencial podese elucidar isso A condição para que tais sentenças sejam significativas isto é para que elas sejam partes de uma linguagem ou melhor para que elas sejam expressões não impõe que a leitura referencial de um con texto implique a leitura referencial do outro Unicamente o que é exigido é que a descrição semântica de uma ocorrência da expres são Marte esteja em harmonia faça nexo com o modo como foi introduzida no contextosituação Mais ainda do fato de que tal expressão tenha sido introduzida referencialmente por exemplo pela asserção de que Marte é este planeta no qual acabamos de pousar não se segue que a expressão posteriormente não possa ser utilizada inferencialmente e viceversa Muito pelo contrário essa é justamente a condição para que tal sinal seja uma expressão lin guística pois não basta que a expressão Marte denote um objeto mas para ser um nome significativo ele deve contraporse e fazer nexos com as demais expressões já em uso na linguagem no sen tido de que se deve saber se é dizer o mesmo ou não afirmar Esse é Marte e Esse é Mercúrio ou Marte é um planeta e Marte é número Disso não se segue que a regimentação para fins de for malização não possa estabelecer um modo uniforme de resolver essas questões mas isto é justamente denominado estipulação Desse modo resolvese a tese da nãoindependência em relação à existência que está na base da intuição referencialista O ponto a ser acentuado para concluir referese ao emprego na explanação semântica de nexos referenciais com elementos da situação de tal modo que a significatividade apareça como uma fusão de lingua gem e situação de proferimento Essa caracterização do conteúdo semântico sentencial torna explícita a complementaridade das re lações inferenciais e referenciais em conformidade com o deside rato de que a explanação semântica mostrasse a interdependência entre os aspectos referencialextensionais e os aspectos inferen cialintensionais isto é que a semântica tanto respondesse pelas relações de remissão ao extralinguístico quanto pelas relações de remissão intralinguísticas A atribuição de significatividade a 212 Filosofia da Linguagem I uma expressão inclui portanto a determinação dos nexos refe renciais e inferenciais e também a sua interdependência Notese que isso é feito sempre que se introduz um novo termo na linguagem se uma determinada expressão é introduzida por exem plo Blituri para que essa introdução seja bemsucedida fazse ne cessário indicar suas propriedades referenciais e inferenciais ora a teoria aqui defendida é que não é possível fazer uma coisa sem já fazer a outra Se Blituri for introduzida como nome de um objeto mesmo que apenas isso seja informado então já se a correlacionou com todos os outros nomes de objetos se ainda for especificado qual objeto é o seu referente na medida em que para essa especificação o objeto deverá ser identificado e distinguido mais correlações dessa expressão com outras serão agenciadas e isso significa que o seu uso implicará pressuposições e consequências inferenciais Para resumir em um mote em vez de dizer que a competência lingüística representa nossa habilidade em conectar palavras a sentidos e assim a objetos podemos concluir que antes a lin guagem surge da habilidade de se conectarem objetos a objetos e assim codificar e expressar isto é instituir a significatividade a qual não é senão o modo de conexão de objetos Portanto a dis tinção requerida não é entre sentença linguagem e proposição sentido ou fato complexo como entidades independentes e co nectadas por algum tipo de ato A distinção é entre uma sentença e o que ela expressa isto é entre a sentença e o seu conteúdovalor semântico em uma situaçãocontexto Na situação de fala signi ficativa o que encontramos são três tipos de entidades falantes um entorno circundante e uma linguagem ou sistema simbólico Os objetos intermediários a saber fatos estados de coisas pensa mentos sentidos conceitos etc são agora pensados como recur sos teóricos introduzidos pelo filósofo no momento de explanação da significatividade e assim dependentes do discurso semântico ou seja são conceitos e não entidades Na teoria aqui defendida eles deixam de ser objetos e se tornam simulacros da complexa relação que é a significatividade a descrição semântica é a expo sição da relação complexa cujos elementos são um entorno e uma linguagem e cuja origem é a ação dos utentes YOURGRAU Frege on Truth and Reference Notre Dame Journal Of Symbolic Logic v 28 n 1 p 1328 1987 p 208 O significado como um complexo estruturado 213 Leituras recomendadas MOURA Heronides M Significação e contexto uma introdu ção a questões de semântica e pragmática Florianópolis Insular 1999 PENCO C Linguagem e representação e Linguagem e comu nicação In Introdução à Filosofia da Linguagem 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