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GRADUAÇÃO DE PEDAGOGIA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I PROFESSOR MAGNO ARAÚJO DISCENTE DATA POLO 2024 2 CAPÍTULO I A EDUCAÇÃO ANTES DA ESCOLA Ainda hoje existem regiões onde não há escolas No entanto a educação não deixa de ocorrer embora ela aconteça por processos diferentes daqueles utilizados pelo sistema escolar Neste capítulo tecemos considerações sobre a educação que não é feita na escola como nós a conhecemos 1 A educação entre os povos primitivos A educação existe mesmo onde não há escolas Nas sociedades chamadas primitivas e de povos considerados bárbaros por exemplo não existem escolas nem métodos de educação conscientemente reconhecidos como tais No entanto existe educação cujo objetivo é promover o ajustamento da criança ao seu ambiente físico e social por meio da aquisição da experiência de gerações passadas MONROE Paul História da Educação 6 ed São Paulo Nacional 1983 p1 Entre os povos primitivos a educação possui uma estrutura muito simples como veremos a seguir 2 A educação através da imitação Uma das formas pelas quais a criança adquire os conhecimentos necessários entre os povos primitivos é a imitação Nos primeiros anos de vida a imitação é inconsciente As crianças brincam com pequenas reproduções dos instrumentos utilizados pelos adultos Com uma tora na água por exemplo aprendem a equilibrarse e a remar Assim mais tarde saberão manejar uma canoa As meninas por sua vez brincam de preparar comida Numa segunda etapa a imitação tornase consciente As crianças participam das atividades dos adultos e aprendem a imitação Essa segunda etapa tem início quando se começa a exigir trabalho da criança Ela vai aprendendo pouco a pouco as diversas ocupações da tribo construção de utensílios a pesca e a caça entre os povos caçadores guarda do gado entre os pecuaristas trabalhos agrícolas entre povos sedentários 3 A educação e as cerimônias da iniciação Entre todos os povos primitivos encontramos as cerimônias de iniciação que possuem especial valor educativo Em algumas tribos elas são breves em outras duram anos Geralmente tais cerimônias se verificam desde o início da adolescência até a admissão do jovem à comunidade adulta da tribo Qual o significado educativo dessas cerimônias Em primeiro lugar elas têm valor moral através das mutilações a que deve se submeter o menino aprende a suportar a dor e pela exposição ao tempo e pela falta de alimentação aprende a tolerar as circunstâncias difíceis e a fome As cerimônias de iniciação possuem também um valor social e político Através da subserviência aos dirigentes o menino aprende a obediência e a reverência aos mais velhos e aprende igualmente a servir aos idosos e a suprir as necessidades da família Outro valor das cerimônias de iniciação é o religioso Esse valor evidenciase pelo fato de o totem ser o centro do culto nas cerimônias O totem geralmente um animal e às vezes um vegetal é considerado o antepassado mítico da tribo de quem esperam proteção No totem centralizamse os mitos religiosos explicações que os povos primitivos conseguem dar ao modo de agir das forças da natureza As cerimônias de iniciação revertemse também de um valor prático nessas cerimônias os jovens a serem iniciados aprendem os métodos de capturar animais as artes de acender o fogo de preparar alimentos e processos similares de valor prático Para os povos primitivos porém o aspecto importante dessas atividades não é o prático mas o religioso Todas essas 3 atividades práticas devem processarse de modo definido e previamente estabelecido Tais métodos preciosos e característicos de ação constituem sua religião E esta pois não se relaciona com fases isoladas da vida mas com as mais comuns práticas Id ibid p 45 4 O animismo presença constante na educação primitiva Todos os povos primitivos possuem uma característica comum são animistas O animismo consiste na crença de que todas as coisas possuem uma alma As pedras as árvores os animais enfim todas as formas de existência possuem alma ou espírito Por causas dessa crença o homem primitivo atribui tudo o que acontece no ambiente à intervenção de espíritos amigáveis ou hostis se as ocorrências são respectivamente positivas ou negativas Assim na busca dos meios necessários para a sobrevivência o homem primitivo procura agir de maneira a não ofender o espírito que habita os objetos de que precisa Para isso ele deve seguir certos métodos que são produtos da experiência de gerações passadas O aprendizado desses métodos que apaziguarão o mundo dos espíritos constitui a parte mais importante da sua educação As cerimônias de iniciação como vimos servem para transmitir aos jovens a explicação do universo e assim tornálos capazes de assegurar um satisfatório ajustamento às suas exigências 5 Os primeiros professores Embora todos os homens participassem das cerimônias de iniciação havia determinadas pessoas às quais cabia a direção das mesmas Essas pessoas eram denominadas segundo os diferentes casos feiticeiros curandeiros xamãs esconjuradores ou homens que consultam os espíritos familiares Constituem os professores primitivos Inicialmente esta classe é formada pelos chefes dos grupos familiares mas como os deveres dos pais se tornam múltiplos e este culto dos espíritos amigos se torna mais complexo constituise um sacerdócio especial Há então um esboço de instrução para o povo em geral dada pelo sacerdócio e uma instrução para o povo em geral dada pelo sacerdócio e uma instrução mais elaborada e formal dos futuros membros do sacerdócio ministrada pelos atuais membros da classe Estes últimos são os primeiros professores profissionais Por vários séculos o ensino permanece como um direito especial do clero e por muitos séculos mais a educação é orientada e dirigida unicamente por ele Id ibid p 9 CAPITULO II EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO NA HISTÓRIA1 A Filosofia e as estruturas educacionais sempre andaram fundidas pelos menos até a metade do século XX No presente capitulo será apresentado um resumo dos fatos educacionais mais importantes assim como a indicação de pedagogos que orientam algumas metodologias específicas Período precedente à era cristã Os estudos antropológicos atuais iluminam os fatos ocorridos em tempos remotos As tribos primitivas educacionalmente têm uma forma bastante simples e rápida de preparação das novas gerações para assumirem as responsabilidades de adultos fazemno por meio da aculturação ou seja desde a mais tenra idade os jovens vão executando tarefas adultas e com a imitação assimilam as tradições dos mais velhos 1 Maria Raineldes Tosl 4 Reportagens atuais demonstram que ao final da adolescência existe um ritual de iniciação especialmente para o menino que deve demonstrar além do domínio sobre a dor a saúde física É considerada natural a morte dos que não conseguem superar as dificuldades pois os mais fracos não podem auxiliar na manutenção da tribo Os antigos povos orientais criaram uma estrutura educacional toda voltada ao domínio da escrita As letras cuneiformes e a simbologia representando um desenho para cada palavra um exemplo que permanece é o alfabeto japonês complicavam o ensino tornavamno elitizado monótono para os professores e alunos nas maiores das vezes ultrapassando décadas de estudos com a finalidade de registro mormente da economia do país com o método da decoração a técnica dos castigos físicos Para a elite reservava o domínio da teologiamitologia acompanhando assim seus interesses filosóficos Alguns exemplos se destacam Mesopotâmicos assírios e babilônicos tinham na escrita uma expressão divina portanto restrita à classe dos sacerdotes Hebreus difundiram o ensino para todos com a escolaridade universal pois de alguma família judia sairia o Filho de Deus Os persas separaram a escolaridade entre aqueles que seguiriam tarefas religiosas dos que para qualquer seguiram as funções militares Para o ensino erudito a seleção era rigorosa Os egípcios dentre os povos orientais foram os que mais estruturam a educação pois fizeram a divisão em três níveis como conteúdo religioso para os nobres e o profissional para qualquer menino mesmo escravo que assim o desejasse A civilização ocidental grega inicia timidamente sua proposta educacional por volta do ano 1200aC justamente quando a oriental estava em seu apogeu À época os gregos eram pastores que cultivavam deuses cujas virtudes e defeitos eram os mesmos dos seres humanos Muito rapidamente entretanto criaram uma escrita de característica portanto mais fácil de ser ensinada e aprendida o que abreviava o tempo de estudos Politicamente e desde o seu início organizaramse em duas Cidades Estados com filosofias e consequentes interesses educacionais diferentes Esparta que exaltou a formação físicaestatalmilitar perdurando por toda vida e Atenas que exaltou a filosofia e a educação intelectual Nos dois casos a preocupação voltavase ao homem apenas CAPITULO III A EDUCAÇÃO GREGA A Grécia é considerada o berço da civilização ocidental da qual nós fazemos parte e cuja cultura assimilamos desde o nascimento Daí a importância do seu estudo mesmo que apenas em seus aspectos essenciais principalmente para quem pretende e dedicarse à educação das novas gerações 1 Um novo conceito de educação Vimos que a principal característica da educação oriental foi tentar conservar e reproduzir o passado mediante a supressão da individualidade No caso da educação grega observase o contrário isto é mais oportunidade ao desenvolvimento individual É historicamente indiscutível que foi a partir do momento em que os gregos situaram o problema da individualidade no cimo do seu desenvolvimento filosófico que principiou a história da personalidade europeia Roma e o cristianismo agiram sobre ela JAEGER Werner Paideia A formação do homem grego São Paulo Herder sd p9 Como resultado dessa característica da educação grega surgiu um novo conceito de educação que ainda hoje é denominada liberal É a educação digna do homem livre que o habilita a tirar proveito de sua liberdade ou dela fazer uso Mais do que com qualquer outro povo do passado foi com que os 5 gregos que o problema da educação surgiu com as características mais semelhantes das que adquiriu para nós nos séculos XIX e XX MONROE P Op cit p27 Entretanto não podemos esquecer que esse novo conceito de educação referese aos cidadãos livres da Grécia Antiga que podiam tirar proveito da sua liberdade ao mesmo tempo em que cerca de 90 da população viviam como escravos 2 Os ideais gregos Devemos aos gregos o surgimento das seguintes ideias e conceitos que para eles se transformaram em ideais O conceito de liberdade política no Estado e através dele A ideia de que a educação é a preparação para a cidadania A ideia do desenvolvimento intelectual da personalidade A ideia do amor ao saber pelo saber isto é a Filosofia A ideia de viver de acordo com a razão O conceito de homem como sendo primariamente um ser racional O conceito moral de personalidade ou seja cada indivíduo encontra na sua natureza racional o direito de determinar os seus próprios fins na vida Os conceitos de liberdade moral e responsabilidade moral isto é a liberdade sob a lei e pela lei contida na natureza O conceito de arte como sendo a corporificação concreta de alguma verdade de um ideal ou experiência de validez A ideia de que o indivíduo deve procurar conhecese a si próprio Socrátes 3 Os ideais e a realidade Os gregos não conseguiram a plena realização dos seus ideais Com relação aos privilégios da personalidade por exemplo eram limitados aos homens livres e negados a 90 da população como vimos Mas se eles tivessem realizado concretamente tudo o que constitui a razão de viver a educação moderna seria também mera recapitulação Id ibid p29 Outro aspecto que convém ressaltar é que os ideais da educação grega foram o resultado de lenta evolução Vejamos em suas principais etapas 4 O período homérico 900750 aC Homero teve sua importância excepcional para a cultura e para a educação grega Tão grande foi a sua importância que muitos estudiosos consideram que os germes de todo o desenvolvimento posterior no período homérico A educação nesse período teve um caráter eminentemente prático Os poemas homéricos a Ilíada e a Odisseia falam dos ideais dessa educação que compreende um duplo ideal de homem ou seja o homem de ação e o homem de sabedoria Esse duplo ideal sabedoria e poder de ação tinha que ser atingido por todos os gregos livres Diversos aspectos contidos nesse duplo ideal tiveram grande desenvolvimento durante os períodos posteriores Um desses aspectos é a bravura que no entanto tinha de ser moderada pela reverência O homem que não conhecia temor assim como o homem que não tinha pudor ou modéstia no trato com seus companheiros ou que era insolente com os deuses ou com os mais velhos era acusado de irreverência isto é faltavalhe o devido equilíbrio de ação Ib ibid p31 Outro aspecto ideal é a sofrosine grega A sofrosine consiste no domínio dos desejos e paixões pela razão Consiste no equilíbrio de pensamento e ação exigido pelo ideal de reverência 5 A educação espartana 750600 aC Já no século IX aC Licurgo organizou o Estado e a educação em Esparta uma das cidades gregas Licurgo percebeu a importância do Estado nos assuntos educacionais Os espartanos que 6 representavam a mais primitiva forma de cultura grega conquistaram já no período homérico uma posição de destaque entre os demais povos helênicos Para preservar essa soberania o povo espartano adotou a constituição de Licurgo Surgiu assim um Estado que passou a manter o mais extremado controle governamental sobre a educação A sociedade inteira se transformou numa escola em que todo o membro adulto tinha a obrigação de participar como um importante dever de cidadania na educação da juventude O objetivo da educação espartana era dar a cada indivíduo um nível de perfeição física coragem e habito de obediência às leis que o tornasse um soldado ideal Dessa maneira o homem espartano passou a ser um modelo de bravura vigor e tenacidade Como essas qualidades faltavam aos demais povos gregos o Estado espartano passou a acumular um grande número de triunfos militares Faltavam aos espartanos no entanto os sentimentos mais delicados e a sensibilidade dos atenienses Assim Esparta não participou muito do esplendor artístico literário e filosófico de Atenas Plutarco resume a educação espartana com as seguintes palavras Em relação à instrução eles recebiam apenas exatamente o que era absolutamente necessário Todo o restante de sua educação tinha em vista tornálos sujeitos ao comando suportar os trabalhos lutar e conquistar Até os sete anos de idade o menino ficava sob os cuidados diretos de sua mãe de quem recebia um treino rigoroso Depois era tirado do lar e colocado em casernas públicas custeadas pelo Estado Nessas casernas os meninos comiam em mesas comuns ajudavam no fornecimento do alimento necessário caçavam os animais selvagens e participavam de danças corais Todo o resto do seu tempo era gasto com exercícios de ginástica que constituíam o elemento principal de sua educação Dos dezoito aos vinte anos o jovem dedicavase ao estudo das armas e das manobras militares Dos vinte aos trinta anos seu treino era na guerra ou nos intervalos de paz praticado às custas dos ilotas servos que moravam em choupanas Em Esparta nove mil espartanos tinham que dominar vinte mil ilotas Com trinta anos o jovem tornavase maior de idade e continuava a dedicar seu tempo integralmente a serviço do Estado seja nas guerras ou nos treinamentos necessários 6 A educação ateniense 600450 aC A educação grega em Atenas outra das grandes cidades gregas tinha pouco em comum com a educação de Esparta Enquanto em Esparta se deu muita importância a educação física a serviço da guerra para manter o Estado em Atenas surgiu o ideal da formação completa do homem Foram colocados no mesmo nível a educação física e a educação intelectual Duas circunstancias intimamente vinculadas determinaram tão notável mudança De um lado a nova maneira de compreender a estrutura e finalidades do Estado Em Atenas vêse o Estado como um meio de assegurar a liberdade pessoal criando as condições vantajosas para sua educação Solón considera a instrução a instrução da juventude como uma missão essencial do Estado mas não se coage o indivíduo nesta empresa desejase que por convicção própria as classes sociais façam sua a tarefa da formação das gerações Daí que apesar de verse no Estado o titular da vida do cidadão jamais teve o monopólio educacional Os pais tinham a obrigação de cuidar que seus filhos se preparassem eficazmente para a vida mas dentro de um ambiente de liberdade Tratase de um Estado de cultura de uma organização política atenta sempre ao desenvolvimento harmônico da personalidade De outro lado a própria vocação cultural de Atenas tão permeável à revolução da ciência e da Filosofia ocorrida no século VI aC e que de modo tão natural elevou o nível intelectual de seus cidadãos convertendoa no centro da cultura helênica a escola de toda a Grécia como disse Tucídedes A partir daí foi adquirindo forma o que mais tarde veio chamarse o aticismo isto é o gosto elegante e equilibrado em todas as atividades humanas LARROYO Francisco História geral da Pedagogia São Paulo Mestre Jou 1970 p150 7 Em Atenas a educação da criança durante os primeiros sete anos estava inteiramente a cargo da família A educação na família no entanto não tinha um caráter tão elevado quanto em Esparta Em Atenas geralmente a criança era entregue aos cuidados de amas e escravos enquanto as mães espartanas eram famosas em toda a Grécia pelo elevado nível do treino físico e moral que davam a suas crianças O menino ateniense mal deixava os cuidados da ama era entregue aos cuidados de um pedagogo Os pedagogos eram escravos ou servos a quem os atenienses confiavam as crianças A palavra pedagogo de pais paidóscriança ageinconduzir designa em sua origem o condutor de meninos por isso eram chamados de pedagogos os escravos encarregados de guiar as crianças à escola O menino ateniense frequentava dois tipos diferentes de escolas a escola de música e a escola de ginástica ou palestra 7 Os sofistas 450400 aC De 500 a 449 aC os atenienses enfrentaram um período de guerra as guerras médicas contra os persas Passadas essas guerras Atenas alcançou seu máximo esplendor ampliaramse as relações econômicas e as atividades comerciais a prosperidade material e a cultura dos cidadãos aumentaram rapidamente a velha constituição aristocrática já fora substituída 509 aC pela constituição democrática de Clistenes As exigências impostas à educação por tais modificações foram duplas Em primeiro lugar com o desenvolvimento da liberdade na esfera política passouse a reclamar da educação maior liberdade individual de pensamento e ação Em segundo lugar impôsse a necessidade de um treino ou educação que habilitasse o indivíduo a aproveitarse das oportunidades sem precedentes que se ofereciam para o engrandecimento e realizações pessoais Porém na sociedade ateniense organizada sob o velho regime não havia meios para ministrar a educação que proporcionasse ao indivíduo condições de êxito pessoal Toda a educação existente preparava apenas para o cívico Aparece então o instrumento necessário sob a forma de uma nova classe de professores os sofistas MONROE P Op cit p53 Os sofistas de sophos sábio surgiram como sendo a nova classe de professores que a sociedade exigia Geralmente os sofistas eram professores ambulantes que percorriam as grandes cidades Eles ensinavam as ciências e as artes com finalidades práticas principalmente a eloquência em troca de uma elevada contribuição financeira Muitos sofistas davam apenas uma preparação artificial que geralmente consistia em fornecer a seus alunos discursos feitos sobre certos tópicos a serem repetidos em determinadas ocasiões tais como nos processos perante os tribunais Transmitiam aos alunos sentenças inteligentes ou informações fragmentárias para serem utilizadas nos momentos oportunos Outros sofistas davam um curso mais completo que abrangia o estudo das ciências naturais e históricas da época e um treino em dialética por meio da discussão e em retórica por meio do discurso público Os gregos mais ponderados e conservadores não gostavam dos sofistas não viam com bons olhos o fato de eles autodenominarem sábios e de exigirem renumeração pelos seus serviços Esses dois fatos iam contra dois princípios muito valorizados pelos gregos o primeiro era o princípio da harmonia e reverência e o segundo o princípio de que a relação entre professor e aluno devia basearse na estima mútua e não no caráter econômico Dessa maneira surgiu entre os escritores de tendencia conservadora a mais violenta antipatia contra os sofistas Os sofistas em seus ensinamentos acentuavam de forma exagerada o valor da individualidade Entre eles não havia nenhum sistema comum de ideias A única ideia comum era que não havia ideias universais nem padrões universais de conduta Nas palavras de Protágoras um dos maiores sofistas o homem é a medida de todas as coisas Assim o indivíduo situavase num tal nível de independência que ficava acima dos deveres do cidadão Para os sofistas a moralidade devia basearse na razão e não 8 como no antigo período no costume e na tradição Tais ideias realmente encorajavam a tendência ao irrestrito individualismo e muito contribuíram para a desmoralização de Atenas Id ibid p56 8 Os grandes filósofos 400300 aC A Guerra do Peloponeso 431405 aC pela qual Atenas perdeu sua posição controladora do mundo helênico veio ressaltar uma vez mais a importância da força políticomilitar de Esparta e com isso as deficiências do sistema ateniense de educação Ao mesmo tempo porém todos sabiam das limitações da educação espartana O problema portanto consistia em formular ideal educativo que pudesse satisfazer as necessidades institucionais e o bem coletivo e ao mesmo tempo promovesse o completo desenvolvimento da personalidade A oportunidade para que os filósofos gregos reformulassem a teoria da educação nasceu do conflito entre a nova e a velha educação grega Sócrates Sócrates 470399 aC foi o primeiro filósofo a definir o problema do conflito entre a velha e a nova educação grega entre interesse social e individual Ele tomou como ponto de partida o princípio básico da doutrina sofista O homem é a medida de todas as coisas Se o homem é a medidas de todas as coisas conclui Sócrates a primeira obrigação de todo homem é procurar conhecerse a si mesmo E na consciência individual diz Sócrates que se deve procurar os elementos determinantes da finalidade da vida e da educação A consciência individual porém deveria deixar de fundarse em simples opiniões para guiarse por ideias de valor universal O fim da educação então não era dar a informação sem base que aliada a um verbalismo superficial e brilhante constituía o ideal dos sofistas Era ministrar saber ao indivíduo pelo desenvolvimento do seu poder de pensamento Todo o indivíduo tem em si mesmo a capacidade de conhecer e apreciar tais verdades com as de fidelidade honestidade verdade honra amizade sabedoria virtude ou pode adquirir capacidade Nesse tipo de conhecimento é que Sócrates se achava interessado o conhecimento derivado da própria experiência o qual constitui a base de boa conduta Ib ibib p59 Através de seus ensinamentos Sócrates procurava demonstrar que o conhecimento das verdades universais era a base de toda ação virtuosa Assim cada indivíduo deveria adquirir a capacidade de reformular tais verdades O método utilizado por Sócrates para chegar a tais verdades consistia em fazer perguntas para obter dessa forma as opiniões do interlocutor Depois através de outras perguntas levava o interlocutor a descobrir por si mesmo a contradição e o absurdo das opiniões apresentadas A primeira parte do método de Sócrates fazer perguntas para obter a opinião do interlocutor é a ironia Ironia do grego eironeia significa perguntar fingindo ignorar para rirse dos outros A segunda parte fazer outras perguntas para levar o interlocutor a descobrir a verdade é a maiêutica que significa parto ou partejamento do grego maieutikós Maiêutica é a arte de fazer nascer ideias As principais contribuições de Sócrates para a educação foram as seguintes O conhecimento possui um valor prático ou moral isto é um valor de natureza universal e não individualista O processo objetivo para obterse conhecimento é o de conversação o subjetivo é o de reflexo e organização da própria experiência A educação tem por objetivo imediato o desenvolvimento da capacidade de pensar não apenas de ministrar conhecimentos 9 Platão Platão 428348 aC foi outro grande filosofo que teve muita influência sobre a educação grega Ele concordou com Sócrates sobre a necessidade de se procurar uma nova base moral para a vida concordou também que essa nova base deveria se encontrar em ideias e na verdade universal Com relação ao método Platão aceitou e desenvolveu a dialética de Sócrates ele a definiu como sendo um contínuo discurso consigo mesmo Nesse sentido a educação seria um processo do próprio educando mediante o qual são dadas a luz as ideias que fecundam sua alma A educação portanto consiste na atividade que cada homem desenvolve para conquistar as ideias e viver de acordo com elas O conhecimento não vem de fora para o homem conhecimento é o esforço da alma para apoderar se da verdade O papel do educador consiste em promover no educando o processo de interiorização graças ao qual ele pode sentir a presença das ideias A realidade para Platão nada mais é do que a ideia que se realiza ou atualiza Ele compara o mundo sensível a uma caverna iluminada por grande fogueira onde se encontram homens imóveis encadeados de costas voltadas para as chamas Os objetos e os seres que transitam fora da caverna projetam sobre o fundo iluminado das pedras suas formas mais ou menos alteradas Toda a visão dos homens na caverna se reduz a sombras e nisso reconhecem a única realidade Libertados os cativos e voltando eles os olhos para a luz meridiana não perceberão senão confusamente os objetos cuja sombra era para eles a única realidade existente O despertar para o mundo das ideias é um processo gradual Na educação devese levar em conta tanto o corpo como o espírito Os exercícios corporais a cultura estética e moral e a formação científica e filosófica devem constituir o conteúdo da educação A boa educação é a que dá ao corpo e à alma toda a beleza toda a perfeição de que são capazes Uma diferença que convém ressaltar entre Platão e Sócrates referese ao aspecto de quem tem capacidade para adquirir conhecimentos Enquanto Sócrates afirmava que todos têm essa capacidade Platão afirmava que apenas algumas pessoas a possuem Para Platão a visão da verdade eterna era uma função de um sentido especial ou de um sexto sentido um sentido para ideias Por isso enquanto a influência de Sócrates se adaptou à tendência democrática da época a influência de Platão foi mais reacionária Em seus planos ideais de educação ele retornou a um governo aristocrático de natureza socialista Nessa república ideal os filósofos eram os governadores O filósofo é que conhece o bem supremo Só ele pode determinar em que extensão a existência fenomênica se aproxima da ideia e atinge assim o bem Id ibid p 63 Aristóteles Aristóteles 384322 aC outro grande filósofo grego apresentou uma visão bastante diferente da de Sócrates e Platão Enquanto estes dois afirmavam que a posse do conhecimento pelo indivíduo constituía a virtude Aristóteles afirmava que a virtude está na conquista da felicidade e do bem A virtude não consiste no simples conhecimento do bem mas na sua conquista E o bem na sua integridade resumese em bem ser e bem fazer O bem ser é o bem do intelecto ligado intimamente à posse da verdade universal da escola platónica O bem fazer é o bem da ação adquirido através do hábito e representa o aspecto social do ideal aristotélico O bem fazer consiste no funcionamento na vida social das ideias ou princípio de conduta de validez universal A felicidade que é o bem supremo consiste em realizar o que é específico do homem isto é a razão A plena realização do elemento racional humano supõe a realização nos mais diversos aspectos tais como saúde fortuna situação social etc Aristóteles desenvolveu seu conceito de educação partindo da ideia de imitação O que nós animais é apenas capacidade imitativa no homem se converte numa arte O homem se educa na medida em que copia a forma de vida dos adultos Eles e educa porque 10 atualiza suas energias Segundo a doutrina da potência e do ato de Aristóteles a educando é potencialmente um sábio e com a educação ele atualiza converte em ato o que é suscetível de desenvolver Para Aristóteles os fatores da educação humana são os seguintes as disposições naturais natura os meios para aprender are e a prática ou hábito para afirmar o assimilado exercitatio Assim o processo de ensino deve corresponder ao seguinte plano metódico O mestre deve em primeiro lugar expor a matéria do conhecimento Em seguida tem de cuidar que se imprima ou retenha o exposto na mente do aluno Por fim tem de buscar que o educando relacione as diversas representações mediante o exercício Dante Alighieri 12651321 denominou Aristóteles o mestre daqueles que sabem Realmente Aristóteles foi o primeiro grande cientista o maior sistematizador que o mundo conheceu Tão grande foi a influência de Aristóteles que muitos termos da nossa linguagem diária atual têm origem em seu pensamento Palavras como fim indicando o propósito finai e causa os termos forma matéria principio motivo faculdade energia hábito categoria meio as expressões causa final e causa eficiente o sentido de substâncias acidente de atos potência etc são o resultado de seus esforços para sistematizar o conhecimento humano em todos os campos então investigados 9 O período cosmopolita da educação grega 300 aC Tão grande foi a influência da cultura grega que se costuma designar por época helenística o período histórico que se estende desde a morte de Alexandre Magno 323 aC até a conquista do Egito pelos romanos 30 aC Dois fatos caracterizam tal época um é de ordem política ou seja o império de Alexandre se desmembra em vários reinos o outro de ordem cultural a civilização grega se espalha por todo o império A helenização do mundo provocou em grande parte a perda da pureza helénica Não é menos verdade porém que com essa expansão a cultura grega se enriqueceu em muitos aspectos Algumas cidades chegaram a superar Atenas como centros de atração de artistas e sábios Entre elas podemos citar Alexandria no Egito Péfgamo na Ásia Menor e Antioquia na Síria Após a morte de Aristóteles que foi mestre de Alexandre Magno a educação grega sofreu diversas mudanças No domínio do saber ganhou terreno o gosto pela investigação particular Arquimedes Aristarco e outros Primeiramente surgiu o conceito de uma instrução que acolhia simultaneamente os produtos das ciências particulares e mediante a qual tinha de transmitirse aos homens livres a formação cultural Este é o ideal da enkyclia mathémata e dos enkyclios paidéia A palavra enkyclios da qual se serviu Aristóteles designa o habitual e geral Enkyclios paidéia é pois o saber que tem de ser exigido em todo homem culto reunidas formam a palavra enciclopédia DILTHEYW Apud larroyo F Op cit p 186 Na época alexandrina a ciência grega sobre a qual se edificaram a cultura científica e a educação ocidentais achavase organizada da seguinte forma Conhecimentos filológicos Gramática Retórica e dialética A este grupo chamouse mais tarde o trivium Conhecimentos reais Aritmética Geometria Teoria Musical e Astronomia Estas quatro disciplinas receberam o nome de quadrivium Filosofia Metafísica Ética Política etc e Teologia Graças à obra dos gregos durante este período o saber tornouse universal Como consequência surgiram novos tipos de instituições educativas Os principais foram as escolas de retórica as da dialética e de filosofia e as universidades 11 As universidades foram fruto das escolas filosóficas e retóricas Embora existissem diversos grupos de escolas somente duas receberam o título de universidade a Universidade de Atenas que resultou da combinação da Academia escola peripatética fundada por Aristóteles com a escola estóica e a Universidade de Alexandria Durante os primeiros séculos da era crista a Universidade de Alexandria superou a de Atenas como centro intelectual do mundo Após a conquista romana 146 aC a cultura grega foi rapidamente assimilada pelos conquistadores Assim a educação romana foi em parte um aspecto da educação cosmopolita grega CAPÍTULO IV A EDUCAÇÃO ROMANA Os romanos tinham uma mentalidade prática procuravam alcançar resultados concretos adaptando os meios aos fins Enquanto os gregos julgavam e mediam todas as coisas pelo padrão da racionalidade da harmonia ou da proporção os romanos julgavam tudo pelo critério da utilidade ou da eficácia Por isso os romanos sempre consideraram os gregos como um povo visionário e ineficiente enquanto os gregos consideravam os romanos como bárbaros sórdidos com força de caráter e valor militar mas incapazes de apreciar os aspectos superiores da vida MONROE P Op cit p 77 1 O ideal romano de educação O ideal romano de educação decorre principalmente da concepção de direitos e deveres O cidadão romano tinha os seguintes direitos o direito do pai sobre os filhos patria potestas o direito do marido sobre a esposa manus o direito do senhor sobre os escravos potestas dominica o direito de um homem livre sobre o outro que a lei lhe dava por contrato ou por condenação judiciária manus capere o direito sobre a propriedade dominium A tais direitos correspondiam os deveres E para cumprir seus deveres o cidadão romano precisava possuir uma série de aptidões e virtudes Desenvolver tais aptidões era o papel da educação E quais eram essas aptidões e virtudes As principais eram as seguintes a piedade ou a obediência que incluía tanto a ideia religiosa de reverência como a noção de respeito à autoridade paterna a varonilidade ou firmeza que atualmente chamamos de caráter constantia era uma virtude muito valorizada entre os romanos a bravura ou a coragem que impelia o romano a nunca abandonar voluntariamente uma luta antes de ter vencido a prudência que devia ser utilizada principalmente na direção dos negócios particulares a honestidade que consistia principalmente na perfeita conduta em todas as relações econômicas a seriedade gravitas que incluía a sobriedade na conduta a compostura Para o indivíduo todas essas virtudes estavam reunidas no ideal do dever para o Estado no ideal de justiça 2 A família como centro da educação romana Numa educação centralizada na formação do caráter moral das pessoas é evidente que a família desempenha papel muito importante O pai é o principal responsável pela educação dos filhos mas o caráter Pratico do povo romano atribui especial importância à mulher nessa tarefa e em outras 12 relacionadas com o lar A situação da mulher em Roma era mais elevada do que no restante dos impérios da Antiguidade Embora não chegasse a participar da vida pública a mulher exercia grande autoridade dentro da família Era comum na educação de crianças e jovens serem apresentados Exemplos concretos da virilidade romana Nenhum outro povo utilizou tão eficazmente as personalidades de importância de sua própria história E o modelo ideal era em primeiro lugar o ancestral da família depois o da comunidade 3 A imitação como método de educação Enquanto os heróis gregos eram semideuses que dificilmente poderiam ser imitados os heróis romanos ao contrário podiam ser imitados por todo menino romano Por isso a característica fundamental do método da educação romana era a imitação O jovem romano tinha de tornarse piedoso respeitoso corajoso varonil prudente honesto pela imitação de seu pai e de outros romanos cujo heroísmo merecera ser consagrado pelas lendas e histórias do país Esses heróis convém ressaltar eram homens reais que andavam nas ruas de Roma e se reuniam no Fórum Com relação ao método outro aspecto que se destaca é que os romanos rejeitavam como sinais de afeminação o treino ginástico a dança a música a literatura enfim todos os meios educativos utilizados pelos gregos Entre os romanos não havia ginásios Promoviase o desenvolvimento físico nos campos marciais e no acampamento e por meio de exercícios militares completados pela prática real da participação na vida rural De qualquer forma a educação dos meninos era feita ou por um aprendizado dos ofícios de soldado de agricultor de estadista ou pela participação direta nas atividades que lhes seriam requeridas como cidadãos O método romano era pois o método característico da educação prática Aprendiase fazendo a coisa que se tinha de fazer Id ibid p 812 4 A primitiva educação romana 753250 aC Durante esse período predominaram de maneira especial os aspectos que acabamos de mencionar sobre a educação romana O lar era praticamente a única escola Bem cedo porém o menino tornavase o companheiro de seu pai nos negócios públicos e privados na rua no Fórum e no acampamento Davase especial importância à educação moral A disciplina era severa e os ideais eram seguidos rigorosamente Durante a última parte desse período surgiram as escolas elementares que passaram a ministrar os rudimentos das artes de ler escrever e contar Estas escolas eram conhecidas como ludi palavra latina que significa jogo divertimento ou brinquedo Receberam esse nome por que a instrução nas artes de ler e calcular representava uma diversão quando comparada com a educação no lar O mestre dessas escolas tinha o nome de ludimagister 5 A introdução das escolas gregas 25050 aC Através de suas vitórias militares os romanos estenderam seu domínio pela Itália e fora dela A Grécia ao ser transformada em província romana 146 aC passou a influir decisivamente sobre a cultura do conquistador O contato seguido com outros povos fez com que a educação romana deixasse de ser estritamente nacional e passasse a receber grande influência de outros elementos culturais Os militares comerciantes e diplomatas necessitavam do conhecimento da língua grega para melhor desempenho de seus empreendimentos a guerra e a política se tornaram cada vez mais complexas e difíceis a 13 jurisprudência foi se convertendo numa disciplina que exigia certos conhecimentos não mais suscetíveis de serem aprendidos pela audição das dissertações públicas por fim a arte oratória chegou a ser o meio mais eficaz para ocupar as magistraturas ou influir poderosamente na vida social Como se pode compreender a velha escola do ludimasisteja não podia satisfazer por si mesma as novas exigências junto dela se foi gerando um novo tipo de instituições LARROYO F Op cit p 2078 Podemos citar como exemplos de tais instituições as escolas gregas de gramática e de retórica Posteriormente a escola de retórica latina abriu campo mais vasto para esse tipo de educação atingindo maior parcela da população 6 O início do período imperial 27 aC 200 dC Sob o Império que teve início em 27 aC após o término da República ocorreram importantes acontecimentos históricos que precisamos ter presentes para entender as transformações da educação romana Graças à prosperidade material surgiram o luxo e uma aguda visão de classes sociais Muitos exescravos libertos chegam a ser poderosos Os que exercem profissão produtiva como os mestres os artistas e os artesãos vivem à custa dos ricos aos quais rendem honras Com as mudanças históricas a cultura grega continua se impondo nos mais diversos aspectos da vida romana O tipo de saber que tinha maior aceitação no período imperial era a retórica E os gregos eram os grandes mestres nessa arte A escola do retórico em Roma a exemplo da escola dos sofistas ou da dos últimos retóricos gregos ministrava um treino completo em oratória As escolas de retórica eram frequentadas por aqueles que pretendiam dedicarse a uma carreira pública Para o romano a oratória era o meio através do qual ele podia tornar o seu saber útil para os seus semelhantes Os grandes guerreiros da época eram também grandes oradores E muitas vezes eles eram grandes líderes porque eram grandes oradores O orador era maior que o filósofo porque o orador incluía o filósofo As funções desempenhadas na sociedade moderna pelo púlpito imprensa tribuna pública e judiciária debate legislativo mesmo pela universidade eram naqueles tempos desempenhadas pelo orador MONROE P Op cit p 87 Com o tempo a educação retorica se transformou num simples treino para aquisição de habilidades de falar em público sem se preocupar com o conteúdo do discurso Por esse motivo muitos pensadores passaram a censurar tais escolas Para preencher essas deficiências surgiram o estudo da ciência do Direito e da Filologia Assim passou a se tornar indispensável uma formação sistemática do jurista e magistrado Surgiram também os professores de Direito Roma e Constantinopla tiveram os melhores centros docentes desse gênero junto aos quais floresceram as escolas de filósofos e os institutos helenísticos onde se desenvolviam as ciências particulares Tais instituições por sua vez tornaram possível o surgimento das universidades em Roma A fundação do Ateneu centro de cultura no qual retóricos e poetas instruíam a juventude pelo imperador Adriano foi o primeiro passo para a organização das universidades As universidades romanas surgiram não apenas para reunir diversas disciplinas mas principalmente para reunir professores e alunos que a elas se consagravam Na época imperial o sistema de ensino romano compreendia os seguintes graus 1 as escolas dos ludimagister que ministravam a educação elementar 2 as escolas do gramático que ensinavam grego e latim e que correspondem ao que hoje chamamos de curso secundário 3 os estabelecimentos de educação terciária que se iniciaram com a escola do retórico e que acolhendo o ensino de Direito e de Filosofia converteramse numa espécie de universidade 14 7 O declínio da educação romana O que mais caracteriza a decadência da educação romana é o fato de ela ter passado a se limitar à classe mais elevada A educação já não se destina a ser a educação prática de todo o povo mas o ornamento de uma sociedade oca superficial e geralmente corrupta já não é um estádio de desenvolvimento possível para um povo inteiro ou para indivíduos de dada categoria mas a simples obtenção ou mesmo mera insígnia de distinção de uma classe favorecida Quando o antigo vigor político e as oportunidades para as atividades políticas desapareceram quando o governo municipal se tornou mera máquina para coletar impostos quando o exército se encheu de bárbaros a classe superior agora mais numerosa do que nunca voltouse para o único traço remanescente da primitiva Roma imperial sua cultura Id ibid p91 Assim a educação ministrada pela primitiva Igreja Cristã veio gradualmente substituir a decadente educação romana Esta mesmo mantendo sua estrutura apôs os bárbaros terem conquistado o Império Romano do Ocidente em 476 dC perdeu a sua importância social CAPÍTULO V A EDUCAÇÃO MEDIEVAL Por ocasião da invasão dos bárbaros a cultura grecoromana esteve a ponto de ser destruída o que só não aconteceu graças em grande parte à atuação da Igreja Cristã pois somente através da religião foi possível educar os novos povos A educação dos povos europeus na Idade Média portanto teve como ponto de partida a doutrina da Igreja Assim a instrução nessa doutrina e a prática do culto substituíram o elemento intelectual Todos os tipos de educação que se desenvolveram durante o longo período da Idade Média não passaram de modalidades diferentes de preparação para um estado futuro Sob o domínio da Igreja este estado futuro tornouse a outra vida Durante todo este período predominou uma concepção de educação que se opunha ao conceito liberal e individualista dos gregos e ao conceito de educação prática e social dos romanos 1 O cristianismo e o novo ideal educacional Enquanto os filósofos gregos davam mais importância ao aspecto intelectual do homem o cristianismo pelo contrário passou a dar maior importância ao aspecto moral O cristianismo não se baseia no ideal de imediata felicidade nem no de vida da razão baseiase primordialmente na ideia de caridade cristã ou amor que é a expressão mais individual e completa da personalidade humana O novo ideal educacional portanto concentrase no aspecto moral da pessoa humana O ideal educativo do cristianismo é um renascer para um mundo novo do espírito Com o cristianismo surge um novo tipo histórico de educação com normas inéditas de vida e comportamento No Sermão da Montanha Jesus Cristo instaura uma nova visão do mundo e da vida que contrasta ostensivamente com as culturas precedentes fundadas num ideal heróico aristotélico e terreno da existência Bem aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus Bem aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus 2 Os primeiros padres da Igreja o cristianismo e a filosofia pagã Os primeiros padres da Igreja diante das diferenças entre o cristianismo e o saber grego e romano ocupam posições diferentes 15 Clemente de Alexandria 150 215 por exemplo sustentava que os evangelhos eram o platonismo aperfeiçoado e que Platão era o Moisés helenizado Ensinou que a filosofia pagã era um pedagogo para conduzir o mundo a Cristo São Justino 100 165 e Orígenes 185 254 pensavam da mesma forma Mais tarde porém surgem alguns padres que passam a se opor ao saber pagão e especialmente à filosofia grega São João Crisóstonomo 340 407 referindose a tal saber escreve Abandonei há muito tempo tais tolices pois não podemos despender toda a vida em brinquedos de crianças E São Basílio 329 379 escrevendo sobre a educação de crianças resume assim sua posição Temos então de abandonar a literatura Direis Não digo isso mas que não devemos matar as almas Na verdade a escolha jaz entre duas alternativas a educação liberal que podeis conseguir enviando vossas crianças às escolas públicas ou a salvação das suas almas que podeis assegurar enviandoas aos monges Quem deverá vencer a ciência ou a alma Se puderdes unir ambas as vantagens fazeio por todos os meios mas se não o puderdes escolhei a mais preciosa São Jerônimo autor da versão da Bíblia para o latim combateu no campo educacional a disciplina excessiva no ensino de sua época Enfatizou também a importância de se respeitar a personalidade do aluno e de ser criar na escola um ambiente de amizade Santo Agostinho o mais ativo e mais brilhante dos padres da Igreja consagrou sua extensa cultura ao combate às heresias Embora inicialmente admirasse o saber clássico com o passar do tempo essa admiração foi diminuindo Ainda escreveu uma importante obra pedagógica De magistro na qual fala do processo de ensino dentro de uma visão platônica Diz que o órgão de todo aprendizado é o logos ou mestre interior autoeducação que atua por iluminação divina servindose das palavras e sinais como meios de comunicação A teoria da iluminação porém não se ajusta com a ideia platônica de reminiscência pois para o cristianismo a alma não preexiste ao corpo 3 As escolas primitivas A Igreja Cristã Primitiva tinha tinha como principal tarefa reformar a moral de todos a sua volta acaba voltando às atenções para seus próprios membros Quem era convertido à religião cristã passavam por um período de instruções na doutrina cristã Os catecúmenos assim como eram chamados eram os recémconvertidos que antes de serem admitidos oficialmente à Igreja frequentavam escolas onde recebiam instruções de catecumenatos Tempo depois essas escolas passaram a ser organizadas por bispos que preparavam o clero para as igrejas As escolas então passaram a ser denominadas escolas das catedrais por estarem localizadas no edifício da catedral 4 O monarquismo Monaquismo significa a organização de homens que fizeram votos especiais de vida religiosa e vivem de acordo com regras que determinam a conduta nos seus menores detalhes O estudo nos mosteiros ocupava um papel preponderante São Bento 480 547 fundador da ordem dos beneditinos determinou que cada religioso deveria ter sete horas por dia de trabalho que poderia ser manual ou literário Determinou também que cada religioso deveria dedicar de duas a cinco horas de leitura por dia São Basílio estipulou regras semelhantes Desse regime de trabalho imposto aos monges surgiram diversos benefícios para a educação Os principais foram surgimento das escolas para preparação dos jovens aceitos para a vida monástica cópia e conservação dos livros o estudo da literatura 16 formação de um ambiente favorável ao estudo e à reflexão Os mosteiros eram praticamente as únicas instituições de ensino da época Eram os únicos centros de pesquisa as únicas casas editoras para a multiplicação dos livros as únicas bibliotecas para a conservação do saber enfim os mosteiros preparavam os únicos sábios e estudiosos da época Um dos trabalhos mais significativos dos monges no campo educacional foi sem dúvida a cópia dos manuscritos Sem esse trabalho a maior parte das obras do passado não teriam chegado até nós Devese aos monges também a condensação do saber da época nas Sete Artes Liberais que incluíam o trivium Gramática Dialética Retórica e o quadrivium Aritmética Geometria Música e Astronomia O trivium e o quadrivium unidos constituíam o septivium 5 A escolástica O termo escolástica significou inicialmente o conjunto do saber tal como era transmitido nas escolas do tipo clerical O escolástico era o mestre das Sete Artes Liberais ou o chefe das escolas monásticas ou catedrais Mais tarde se deu o mesmo nome aos que escolarmente se dedicavam à Filosofia e à teologia LARROYO F Op cit p299 Num sentido amplo porém podemos dizer que a escolástica é um movimento intelectual oriundo da Idade Média preocupado em demonstrar e ensinar as concordâncias da razão com a fé pelo método da análise lógica A escolástica portanto não se caracteriza por nenhum conjunto de princípios ou crenças mas por um método ou tipo peculiar de atividade intelectual Seu objetivo era apoiar a fé na razão procurando acabar com todas as dúvidas e controvérsias através da argumentação Dessa maneira a educação escolástica visava desenvolver o poder de formular as crenças num sistema lógico A forma científica valorizada era a lógica dedutiva Por isso a escolástica é definida frequentemente como a união das crenças cristãs com a lógica aristotélica A escolástica compreende três períodos o de formação desde o século IX até fins do século XII o de apogeu 1220 a 1347 época de fundação dos grandes sistemas escolásticos o de decadência 9 até últimos anos do século XV caracterizado pela reprodução das doutrinas da fase precedente Os principais representantes da escolástica são Santo Anselmo 10331109 o primeiro a fazer distinção entre saber e crença Santo Alberto Magno 12001280 denominado o Doutor Universal foi o primeiro a reproduzir a filosofia de Aristóteles em forma sistemática Santo Tomás de Aquino 1225 1274 o Doutor Angélico foi o mais influente de todos Sua monumental obra a Suma Teológica representa a culminância da escolástica Com relação ao ensino ele insiste na participação que o educando deve ter em sua formação física e espiritual Santo Tomás admite como Santo Agostinho que Deus é o verdadeiro mestre que ensina dentro de nossa alma porém sublima a necessidade de uma ajuda exterior Deus nos infunde no entendimento os princípios fundamentais contudo as aplicações desses princípios as deduções que deles se originam são obra humana e da experiência No educando o saber está contido só potencialmente o mestre o ajuda levao a atualizálo não no sentido de que se opere sobre sua alma como causa final isto é como modelo que o discípulo tende a realizar Id ibid p303 John Duns Scotus 1266 1308 O Doutor Sutil celebrizouse como fundador de uma escola de teologia rival da de Santo Tomás de Aquino 17 Guilherme de Occam 13001350 o Doutor Invencível negava que as doutrinas teológicas pudessem ser demonstradas pela razão e sustentava que era totalmente matéria de fé 6 As universidades São as seguintes as principais circunstâncias que determinaram o surgimento e desenvolvimento das universidades europeias no século XIII O desenvolvimento interno das escolas monásticas e escolas das catedrais O vigoroso influxo da ciência e da Teologia O desenvolvimento do comércio e o crescimento das cidades que estimularam o interesse pelo ensino O movimento das Cruzadas que tirou a sociedade europeia do seu isolamento O Primeiro nome dado às novas instituições de ensino foi o de Studium generale Isto no entanto não significa que tais instituições em início incluíssem todos os ramos do saber significa apenas que era um instituto geral não local para todos os estudantes preparados sem distinção de raça e nacionalidade Em sua origem um Studium generale podia cultivar e ensinar apenas um ramo do saber podia por exemplo ensinar só Direito Só mais tarde pelos fins do século XIV o nome Studium generale foi substituído pelo de universitas Isto ocorre quando Studium generale chega a organizarse em forma de corporação de mestres e alunos pouco importante que a princípio seus membros se congracem a uma só disciplina À semelhança da expressão Studium generale a palavra universidade adquiriu o sentido de instituição docente e de investigação dedicada com liberdade de mestres e alunos a todos os ramos do saber universitas litterarum Talvez a primeira universidade que congregou professores e alunos organizados por seções nas quatros divisões do conhecimento daquela época Teologia Direito Medicina e Filosofia tenha sido a de Nápoles fundada em 1224 Id ibid p334 Podemos citar entre as universidades mais importantes as de Paris Bolonha Salerno Oxford Viena e Salamanca Durante a Idade Média foi muito grande a influência da universidade Ela forneceu o primeiro exemplo de organização puramente democrática Foi uma das grandes forças da Idade Média a única que a época representava superior do espírito quando não havia outros corpos científicos nem imprensa nem jornais nem revistas Representava também a opinião pública não somente nos assuntos científicos mas também nos grandes problemas políticos e eclesiásticos ou por não existirem corporações políticas regulares ou por estas se reunirem de quando em quando LOS RIOS F Giner de Pedagogia universitária Apud LARROYO F Op cit p341 CAPITULO VI RENASCIMENTO Humanismo e Reforma ARRUDA Maria L A História da Educação PARTE I A nova imagem do homem Quero que ele tenha nascido fidalgo e de casa nobre Que seja conhecido entre todos os outros como ousado forte e leal ao príncipe que serve Que seja como se diz homem de bem isto compreende a prudência a bondade a coragem o domínio de si Acho que sua principal sua verdadeira profissão deve ser a das armas sendo admitido como mestre em todos os exercícios que convenham a um soldado O primeiro a meu ver é saber manejar todos os tipos de armas a pé e a cavalo Acharia também aproveitável que conhecesse a arte da luta Quero que o homem da Corte seja bem instruído nas letras e que conheça não apenas o latim mas o grego Que conheça os poetas e também os oradores e historiadores e além disso que saiba escrever em verso e prosa particularmente 18 nossa língua além do prazer que terá não lhe faltará temas de conversação com as damas Eu o elogiarei também se souber diversas línguas estrangeiras particularmente o espanhol e o francês porque o uso de ambos é muito difundido na Itália Quero ainda mencionar mais uma coisa que visto a importância que lhe concedo não gostaria de ver esquecida é a ciência o desenho e a arte de pintar B Castigllone CONTEXTO HISTÓRICO 1 Humanismo A Renascença europeia é o período compreendido entre os séculos XV e XVI e leva esse nome por representar a retomada dos valores grecoromano Também chamado de Renascimento desencadeia um conhecido movimento como humanismo que significa a procura de uma imagem do homem e da cultura em contraposição às concepções predominantemente teológicas da Idade Média e ao espírito autoritário delas decorrente Embora não signifique que a Renascença seja irreligiosa como veremos a seguir há um esforço para superar o teocentrismo enfatizando os valores antropocêntricos propriamente humanos mais terrenos Durante o Renascimento prevaleceu a tendência um tanto exagerada e até injusta de considerar a Idade Média na totalidade como a idade das trevas ou a grande noite de mil anos Como vimos no capítulo anterior esse longo período não foi de total obscuridade A oposição dos renascentistas deviase antes à recusa dos valores medievais respondendo às aspirações dos novos tempos O retorno às fontes da cultura grecolatina sem a intermediação dos comentadores medievais foi um procedimento que visava também à secularização do saber isto é a desvestilo da parcialidade religiosa para tornálo mais propriamente humano Procuravase com isso formar o espírito do indivíduo culto mundano o gentilhomem A negação do ascetismo medieval revelase na busca de prazeres e alegrias do mundo desde o luxo na corte o gosto pela indumentária cuidadosa até os amenos deleites da vida familiar O olhar do homem desviase do céu para a terra ocupandose mais com as questões do cotidiano A curiosidade é aguçada para a observação direta dos fatos com redobrado interesse pelo corpo e pela natureza circundante Nos estudos de medicina são ampliados os conhecimentos de anatomia com a prática de dissecação de cadáveres humanos até então proibida pela Igreja Uma nova imagem do mundo é construída pelo sistema heliocêntrico de Copérnico Nas artes em geral pintura arquitetura escultura e literatura a criação é intensa e a Itália se destaca como centro irradiador da nova produção cultural Ainda quando persistem assuntos religiosos a visão é humanista prevalecendo temas tipicamente burgueses Por fim acentuouse na Renascença a busca da individualidade caracterizada pela confiança no poder da razão de cada um para estabelecer seus próprios caminhos O espírito de liberdade e crítica opõemse ao princípio da autoridade 2 Ascenção da burguesia A maneira de pensar do humanismo associase às transformações econômicas que vinham ocorrendo desde o final da Idade Média com o desenvolvimento das atividades artesanais e comerciais dos burgueses que eram os antigos servos libertos A Revolução Comercial do século XVI se caracterizava pelo novo modo de produção capitalista que acentua a decadência do feudalismo cuja riqueza era baseada na posse de terras Contrapondose aos senhores da nobreza feudal os burgueses fazem aliança com os reis que desejam fortalecer o poder central contra duques e barões A união leva à consolidação dos Estados nacionais e consequentemente ao fortalecimento das monarquias 19 absolutistas Não por acaso o Renascimento é o período das grandes invenções e viagens ultramarinas decorrentes da necessidade de ampliação dos negócios da burguesia Dessa forma ao destruir as fortalezas do castelo a pólvora fragiliza ainda mais a nobreza feudal a imprensa e o papel ampliaram a difusão da cultura a bússola permite aumentar as distâncias com maior segurança o caminho para as Índias e a conquista da América no século XV alargam o horizonte geográfico e comercial e possibilitam o enriquecimento da burguesia 3 Reforma e Contrarreforma O espírito inovador do Renascimento se manifesta inclusive na religião com a crítica à estrutura autoritária e decadente da Igreja centrada no poder papal Interesses políticos nacionalistas e de natureza econômica sustentavam os movimentos de ruptura representados pelo luteranismo calvinismo e anglicanismo A Igreja católica reagiu prontamente com a Contrarreforma Embora a Idade Média se caracterizasse pela unidade da fé esse consenso esteve ameaçado inúmeras vezes no século XI houve o Cisma Grego que resultou na separação entre as igrejas Romana e Ortodoxa no século XIV por ocasião do Grande Cisma foram eleitos dois papas um em Avinhão na França e outro em Roma Desde o século XII muitas heresias se disseminaram por toda a Europa quando então é criada a Inquisição como instrumento de combate aos desvios da fé As causas desses movimentos não são apenas de natureza religiosa Ventos novos de rebeldia surgiam nas cidades que começavam a se libertar dos senhores feudais e das restrições econômicas como a condenação ao empréstimo a juros feita pela Igreja por exemplo Além disso a teoria da supremacia da autoridade papal é rejeitada porque o universalismo da Igreja contrariava o nascente ideal do nacionalismo expresso na formação das monarquias e no fortalecimento do poder dos reis A crise maior da Igreja no entanto se dá no século XVI com a Reforma Protestante que vinha ao encontro dos desejos de mudança Contrariando as restrições feitas pelos católicos aos negócios e a condenação ao empréstimo a juros os protestantes veem no enriquecimento um sinal do favorecimento divino Lutero recebeu a adesão dos nobres interessados no confisco dos bens do clero e Calvino tem o apoio da rica burguesia Portanto as divergências não eram apenas religiosas mas representavam as alterações sociais e econômicas que mergulharam a Europa em sanguinolentas lutas À expansão da crença protestante a Igreja Católica desencadeia forte reação conhecida como Contrarreforma a fim de recuperar o poder perdido As novas diretrizes tomadas no Concílio de Trento 15451563 que reafirma os princípios da fé e a supremacia papal e determina a criação de seminários para formar padres A Inquisição se torna mais atuante sobretudo em Portugal e Espanha PEDAGOGIA 1 A Secularização do Pensamento A produção intelectual do Renascimento seja na literatura seja na filosofia demonstrava interesse em superar as contradições entre o pensamento religioso medieval e o anseio de secularização da burguesia Já no préRenascimento o florentino Dante Alighieri 12651321 autor da Divina comédia escreve A Monarquia texto político em que elabora teses naturalistas reconhecendo a capacidade do homem de se guiar pela razão Defende a autoridade do rei independente do poder do papa e da Igreja Pouco depois Petrarca 13041374 também poeta italiano descreveu o drama humano entremeado de paixões e desejos No século XVI Maquiavel 14691527 investiga as bases de uma nova ciência política descomprometida com a moral cristã e portanto laica secularizada 20 Nesse contexto de crítica à tradição também a educação procura bases naturais não religiosas a fim de se tornar instrumento adequado para a difusão dos valores burgueses Nem sempre alcançado nas escolas esse ideal é defendido com vigor na obra de literatos filósofos e pedagogos Embora seja grande a produção intelectual na Renascença ainda não há propriamente uma filosofia da educação como sistema de pensamento coerente e organizado com exceção de Vives como veremos adiante O que são muitos esboços da teoria da educação fragmentos de reflexão pedagógica como parte de uma produção filosófica mais ampla Foi o caso de Erasmo Rabelais e Montaigne ou ainda o exemplo das utopias pedagógicas de Tomás Morus e Campanella 2 Vives Juan Luis Vives 14921540 humanista espanhol participa do convívio de Erasmo e Tomás Morus tendo sido preceptor de Catarina de Aragão Quando ela se casa com o rei Henrique VIII Vives a acompanhou à Inglaterra e passa a lecionar na Universidade de Oxford Se no Renascimento não há estudos sistemáticos sobre educação Vives é uma exceção por ter escrito copiosa obra pedagógica cujo principal trabalho é o Tratado do ensino Escreve inclusive sobre a educação da mulher mesmo considerando fundamental sua presença no lar Embora vinculado às ideias aristotélicotomistas Vives revelase homem do seu tempo ao recomendar o cuidado com o corpo e a atenção com o aspecto psicológico no ensino Acompanhando as mudanças do pensamento científico valorizava os métodos indutivos2 e experimentais reconhece a importância da observação dos fatos e a ação como meio de aprendizagem Além disso ao lado do latim insistia na necessidade do adequado estudo da língua materna 3 Erasmo O holandês Erasmo de Rotterdam 14671536 foi um dos principais expoentes do novo pensamento renascentista considerado por muitos um representante do préIluminismo Cristão pertencente à Ordem dos Agostinianos criticou severamente a Igreja corrupta e autoritária e apoiou alguns pronunciamentos de Lutero sem no entanto aderir à Reforma Tratava com ironia a produção intelectual medieval e zombava do formalismo das universidades reduto de escolásticos Erasmo representou a corrente erudita da Renascença que buscava nos clássicos as fontes da sabedoria grega Embora não desprezasse a ciência sua atenção estava voltada sobretudo para questões literárias e estéticas No seu famoso Elogio da loucura critica a hipocrisia e a tolice humanas e todas as formas de tirania e superstições ao mesmo tempo que reflete sobre a necessidade das paixões de uma loucura sábia responsável pelo amor e pelo prazer Entremeando reflexões a respeito da sociedade do seu tempo Erasmo defendia o respeito ao amadurecimento da criança e por isso criticava a educação vigente excessivamente severa Recomendava o cuidado com a graduação do ensino e o abandono das práticas de castigos corporais Ao contrário seria bom mesmo que as crianças aprendessem se divertindo sem a preocupação com resultados imediatos 4 Rabelais François Rabelais c 14941553 frade e médico francês levou uma vida cheia de percalços e perseguições devido à sua pena afiada e crítica mordaz Muitos o identificaram a um epicurista devasso 2 A indução é um tipo de raciocínio que leva à conclusão a partir de dados particulares Ao contrário os pensadores medievais valorizavam a dedução raciocínio que vai do geral ao particular ou ao geral menos conhecido 21 embora outros o descrevessem como um cristão que também não desprezava os prazeres da vida Inicialmente esteve no convento dos franciscanos mas depois foi acolhido pelos beneditinos de sistema mais aberto e cujas regras eram menos severas e no final da vida tornouse padre secular Frequentou diversos cursos nas universidades aprendeu várias línguas formouse em medicina Representa a corrente enciclopédica da Renascença que buscava resgatar o saber grecolatino com igual cuidado pelos recentes estudos da ciência que então nascia Como os demais humanistas de seu tempo criticou a tradição escolástica mas o fez de maneira irônica e saborosa Suas obras foram várias vezes condenadas e proibidas na Universidade de Sorbonne o que o obrigou a fugir às ameaças da Inquisição Rabelais não escreveu uma obra propriamente pedagógica mas nos dois romances satíricos Pantagruel e Gargantua transparecem suas ideias a respeito da educação Tratase de escritos divertidos em que tudo é exagerado a começar pelos próprios personagens gigantes que tinham um apetite descomunal Ao iniciar sua educação o preceptor de Gargantua deulhe de beber o líquido de uma planta chamada heléboro para que esquecesse de tudo o quanto havia aprendido com os seus antigos preceptores Nessa passagem Rabelais quer simbolizar a necessidade de expurgar toda a lembrança da tradição para o novo ensino ser mais bem aproveitado Veja o Dropes 13 em que Gargantua escreve ao filho Pantagruel sobre as expectativas quanto à sua formação Embora tivesse uma sede insaciável de conhecimentos e recomendasse uma aprendizagem enciclopédica criticava o ensino livresco e estimulava a educação do corpo e do espírito Ao contrário dos que o acusavam de imoralidade defendia uma ética de acordo com as exigências da natureza e da vida por isso mesmo deviase aprender com alegria porque o riso é próprio do homem 5 Montaigne Michel de Montaigne 15331592 pertencia a uma família francesa da burguesia que enriquecida com a posse de terras e propriedades conseguira um título de nobreza A educação do menino foi cuidadosa acompanhado por preceptores desde o berço aprendeu latim antes da língua vernácula Montaigne lia com facilidade as obras latinas e escreveu uma série imensa de fragmentos reunidos em um gênero novo o ensaio que bem representa a tendência subjetivista renascentista Ao descrever a si próprio e refletir sobre suas experiências traça o perfil da natureza humana apresentando um indivíduo que tem interrogações dúvidas e contradições o que encaminha seu pensamento para um certo ceticismo4 Mesmo sem produzir obra propriamente pedagógica no seu alentado Ensaio Montaigne dedicou alguns capítulos especificamente à educação Critica o ensino livresco e o pedantismo dos falsos sábios valoriza a educação integral e elogia seu pai por ter sabido escolher os preceptores para educálo com docilidade e sem castigos Para Montaigne a educação tem por finalidade preparar um espírito ágil e crítico valores importantes para a formação do gentilhomem 3 Dropes 1 Nada é mais típico do espírito intolerante da época Contrarreforma o que o tratamento infligido ao Juízo Final de Miguel Ângelo na Capela Sistina Em 1559 Paulo IV encarrega Daniele da Volterra de cobrir as figuras nuas dos afrescos mais provocantes Em 1566 Pio V manda cobrir outras partes ofensivas do afresco Finalmente Clemente VIII pretende fazer destruir todo o afresco e só em virtude da intervenção da Academia de S Luca não realizou o plano Arnold Hause 4 Doutrina segundo a qual o homem nada pode conhecer com certeza os céticos concluem pela suspensão do juízo e pela dúvida permanente 22 EDUCAÇÃO 1 Nascimento do Colégio É impressionante o interesse pela educação no Renascimento sobretudo se comparado com o manifestado na Idade Média principalmente pela proliferação de colégios e manuais para alunos e professores Educar tornavase questão de moda e uma exigência conforme a nova concepção de ser humano Em O cortesão livro publicado em 1528 e muito conhecido na época o italiano Castiglione fez a síntese do modelo de cortesia do cavaleiro medieval e do ideal da cultura literária tipicamente humanista Enquanto os mais ricos ou da alta nobreza continuavam a ser educados por preceptores em seus próprios castelos a pequena nobreza e a burguesia também queriam educar seus filhos e os encaminhavam para a escola na esperança de melhor preparálos para a liderança e a administração da política e dos negócios Já os interesses pela educação de segmentos populares em geral não eram levados em conta restringindose à aprendizagem de ofícios O aparecimento dos colégios do século XVI até o XVIII foi um fenômeno correlato ao surgimento da nova imagem da infância e da família Na Idade Média misturavamse adultos e crianças de diversas idades na mesma classe sem uma organização maior que os separasse em graus de aprendizagem Foi a partir do Renascimento que esses cuidados começaram a ser tomados assumindo contornos mais nítidos apenas no século XVII A fim de proteger as crianças de más influências propôsse uma hierarquia diferente submetendoas a severa disciplina inclusive a castigos corporais A meta da escola não se restringia à transmissão de conhecimentos mas à formação moral O regime de estudo era de certo modo rigoroso e extenso Os programas continuavam a se basear nos clássicos trivium e quadrivium persistindo portanto a educação formal de gramática e retórica como na Idade Média Não foi abandonada a ênfase no estudo do latim com frequente descaso pela língua materna Tal sistema de ensino era duramente criticado pelos humanistas sobretudo por Erasmo e Montaigne As universidades continuavam decadentes impermeáveis às novidades Em 1452 ao se reestruturar a Universidade de Paris a Faculdade de Artes tornouse propedêutica às outras três filosofia medicina e leis lançandose desse modo a semente do curso colegial o que favoreceu a separação mais nítida dos graus secundário e superior 2 Educação Leiga Embora presente em teoria o ideal de secularização do humanismo renascentista nem sempre se cumpria porque a implantação da maioria dos colégios continuava por conta das ordens religiosas Apesar disso por iniciativa de particulares leigos foram criadas escolas mais bem adaptadas ao espírito do humanismo Na Alemanha surgiram as Furstenschulen escolas para príncipes o mesmo esforço de renovação notavase na França nos Países Baixos e na Inglaterra Muitas delas proliferaram na Itália com destaque para o trabalho de Vittorino da Feltre 13731446 considerado o primeiro grande mestre de feitio humanista Convidado para ser o preceptor dos filhos de um marquês em Mântua Itália aí fundou uma escola a Casa Giocosa cuja divisa era Vinde meninos aqui se ensina não se atormento O nome da escola reflete o novo espírito giocosa é palavra italiana que significa alegre e vem do latim jocus ou seja divertimento gracejo e daí jogo Feltre cuidava não só de recreação e exercício físico mas do desenvolvimento da sociabilidade e do autodomínio A sua escola oferecia cursos de equitação natação esgrima música canto pintura e jogos em geral A formação intelectual 23 voltavase para o ideal renascentista da mais ampla cultura humanística com atenção especial ao ensino de grego e latim Embora objeto de cuidado a disciplina pretendia ser menos rude e intolerante Na mesma linha de propostas culturais alternativas surgiram as academias instituições privadas com a intenção de suprir as falhas das universidades Ofereciam a oportunidade de acesso à cultura desinteressada algumas de caráter exclusivamente literário outras filosóficas e só no século XVII apareceram as primeiras academias científicas época em que ocorreu o chamado renascimento científico 3 Educação Religiosa Reformada A Reforma Protestante criticava a Igreja medieval e propunha o retorno às origens pela consulta direta ao texto bíblico sem a intermediação dos padres estabelecida pela tradição cristã católica No plano religioso surgia a característica humanista de defesa da personalidade autônoma que repudiava a hierarquia para restabelecer o vínculo direto entre Deus e o fiel Ao dar iguais condições de leitura e interpretação da Bíblia a todos a educação tornouse importante instrumento para a divulgação da Reforma Ao contrário da tendência elitista predominante Lutero 14831546 e Melanchthon 1497 1560 trabalharam para a implantação da escola primária para todos É bem verdade que nessa proposta havia uma nítida distinção para as camadas trabalhadoras uma educação primária elementar enquanto para as privilegiadas era reservado o ensino médio e superior Apesar disso Lutero defendia a educação universal e pública solicitando às autoridades oficiais que assumissem essa tarefa por considerála competência do Estado De acordo com o espírito humanista Lutero criticava o recurso a castigos bem como o verbalismo da Escolástica Propôs jogos exercícios físicos música seus corais eram famosos valorizou os conteúdos literários e recomendava o estudo de história e das matemáticas A educação proposta pelos protestantes sofreu ainda a influência de Calvino 15091564 teólogo francês que atuou no seu país e em Genebra Suíça 4 Reação Católica O colégio dos Jesuítas Para combater a expansão do protestantismo a Igreja Católica incentivou a criação de ordens religiosas Aqui daremos maior atenção ao colégio dos jesuítas devido à influência que exerceu não só na concepção da escola tradicional europeia como também na formação do brasileiro embora como veremos outras ordens tenham dado sua contribuição Inácio de Loyola 14911556 militar espanhol basco ao se recuperar de um ferimento em batalha viuse envolvido por súbito ardor religioso e resolveu colocarse a serviço da defesa da fé tornandose verdadeiro soldado de Cristo Fundou então a Companhia de Jesus daí o nome jesuítas dado aos seus seguidores Criada em 1534 e oficialmente aprovada pelo papa Paulo III em 1540 a Ordem estava vinculada diretamente à autoridade papal e portanto distanciavase da hierarquia comum da Igreja Por não se retirar em conventos seus adeptos eram chamados padres seculares isto é que se misturam aos fiéis no mundo no século como se costuma dizer A Ordem estabelecia rígida disciplina militar e tinha como objetivo inicial a propagação missionária da fé a luta contra os infiéis e os heréticos Para tanto os jesuítas se espalharam pelo mundo desde a Europa assolada pelas heresias até a Ásia a África e a América Logo descobriram que diante da intolerância dos adultos era mais segura a conquista das almas jovens e o instrumento adequado para a tarefa seria a criação e multiplicação das escolas Daí o traço marcante da influência dos jesuítas a ação pedagógica que formou inúmeras gerações de estudantes durante mais de duzentos anos de 1540 a 1773 Para se ter uma ideia da extensão desse trabalho em 1579 a Ordem possuía 144 colégios espalhados pelo mundo número que chegou a 669 em 1749 24 CAPITULO VII HUMANISMO RENASCIMENTO E REFORMA Do Renascimento a Kant SCIACCA Michele Federico O problema da educação Cap I Humanismo Renascimento e Reforma Do Renascimento a Kant São Paulo Editora Herder 1996 1 Humanismo e Renascimento Parece ser agora ponto assente após os últimos quatro decênios de estudo que não só o Humanismo de Alemanha Holanda mas também o italiano não foram nem uma explosão subitânea de paganismo nem uma irrupção de racionalismo radical Contudo o Humanismo foi igualmente uma revolução dentro da concepção cristã da vida ou pelos menos o início contendo os germes da revolução que depois do Renascimento costuma denominarse pensamento ou civilização moderna O Humanismo nascido na Itália num clima espiritual e cultural fortemente cristão e ainda católico está longe de grandes tentações de heterodoxia Suas ânsias de renovação suas tentativas de crítica suas aspirações de liberdade são indubitavelmente fermentos novos que o distinguem da Idade Média e da Escolástica mas são ainda elementos ativos de uma viva concepção cristãcatólica da vida A renascença de Platão e do neoplatonismo patrístico colocamno sempre na linha de uma filosofia cristã qual é por exemplo a de Santo Agostinho embora diversa da concepção escolástica e antitética do aristotelismo medieval Podese afirmar que a filosofia cristã como tal é humanística porque o seu problema central é o homem e não a natureza física O cristianismo é mais do que uma cosmologia uma antropologia não tem um conceito cosmológico do homem como o mundo grego mas sim uma concepção antropológica do cosmos A antropologia cristã é teocêntrica ou seja nela Deus é princípio e fim do homem e através do homem do universo inteiro Uma tal antropologia tem uma peculiar tensão dialética com um particular e profundo equilíbrio precisamente na relação homemDeus mercê da qual o homem tende para Deus como para seu fim sem aniquilarse nele e Deus que é o princípio de sua existência e providência não lhe nega a autonomia e a liberdade intelectual moral e espiritual Alterar este equilíbrio equivale a romper toda a economia do Cristianismo em dois sentidos opostos ou no sentido e um super teologismo que vai até a negação do homem na onipotência divina ou no sentido de um super humanismo que nega Deus para afirmar só o homem Em tal caso os dois elementos da tensão dialética põemse como teocentrismo absoluto ou como absoluto antropocentrismo um e outro porém não já cristãos muito embora ambos contenham sugestões e motivos tirados do Cristianismo Precisamente de um lado sobretudo o Humanismo italiano tende a acentuar a presença do divino no homem sem todavia resolver imanentisticamente o divino no homem Do outro lado o Humanismo europeu tende a acentuar o elemento religioso e transcendental sem ainda negar o homem em Deus Do Humanismo com tendência antropocêntrica surgiram as correntes nacionalistas filosóficas e científicas como também as imanentistas e historicistas que caracterizam o pensamento moderno do Humanismo com tendência superteológica brotaram os movimentos religiosos a começar pelo luterano Por outro também o Protestantismo comunicou forte impulso ao mais temerário e exigente pensamento crítico e irracionalista como também às formas mais coerentes de imanentismo Notemos por último que a problemática nascida com o Humanismo o Renascimento e a Reforma num entrelaçarse e oporse de motivos complexos é ainda viva e operante no pensamento e na cultura contemporânea Como dissemos a crise da Escolástica começa com o divórcio da fé e da razão pelo qual a teologia e a filosofia tendem a constituirse juntas reivindicando sua autonomia se rebelam contra a autoridade religiosa representada pela Igreja A concepção política medieval entra igualmente em crise da desagregação do Império nascem os Estados nacionais os quais como já Occam os novos teóricos da política defendem a autonomia e também a supremacia em relação à Igreja Da crise da Escolástica sai amadurecido o Humanismo que não é antirreligioso embora reaja contra a escolástica decadente Com efeito a escolástica decadente apresenta caracteres negativos tais como a preponderância das 25 sutilizas silogísticas e do formalismo lógico abstrato o abuso demasiado do princípio de autoridade a rígida separação de natureza e de sobrenatureza até tornar uma estranha à outra a persistência de um aristotelismo estéril e arrogante nocivo ao progresso do pensamento e ao próprio Cristianismo etc É contra esta escolástica que reagem o Humanismo e o Renascimento a fim de libertar dos esquemas do formalismo lógico o conteúdo vital e concreto do Cristianismo incutir novo e vigoro impulso à investigação sobre o homem e ao progresso das múltiplas formas de sua atividade O Humanismo e o Renascimento são um vasto e profundo movimento cultural riquíssimo em motivos e em correntes que mergulha suas raízes nos séculos XIII e XIV floresce com grandioso esplendo nos séculos XV e XVI se prolonga nos séculos subsequentes Galileu e Vico são ainda filhos do Renascimento e como momento de cultura representa um valor perene na história da humanidade As exigências e os problemas da Idade Moderna encontram sua primeira formulação ou pelo menos sua raiz na cultura do Humanismo e do Renascimento movimentos preponderantemente italianos O Humanismo e o Renascimento que no fundo são dois momentos de um único movimento têm em comum os caracteres fundamentais afirmação do valor e da dignidade da natureza humana livre investigação da natureza física sem os limites impostos pela autoridade de Aristóteles e sem interferência da autoridade religiosa no campo da razão e da experiência Neste sentido pode muito bem dizerse que o naturalismo constitui a alma do Humanismo e do Renascimento naturalismo do Humanismo que tem como objetivo a natureza integral humana naturalismo do Renascimento que tem como objeto a natureza física Duplo naturalismo que no fundo é um só visto como a natureza humana ao celebrarse a si mesma celebra todo o criado e uma vez que na indagação da natureza física e no conhecimento do mundo se exalta a potência dos meios cognoscitivos do homem a posse que a humana razão e a experiência adquirem da realidade circundante É um erro crer que o Cristianismo desvalorize a natureza humana e a natureza física O resgate da matéria o reconhecimento da dignidade e da liberdade da pessoa humana são próprios da intuição cristã da vida O Cristianismo é precisamente afirmação da natureza em sua integralidade e plenitude espiritual e corpórea Mas isso é restauração do criado enquanto obra de Deus exaltar o divino no homem e as coisas tomam seu valor O sobrenatural eleva o natural enriqueceo preencheo não o nega O Humanismo e o Renascimento que têm a paixão do homem e da natureza advertem profundamente que a ordem natural é tanto mais integra e perfeita quanto mais penetrada está pela Ordem divina Por isso tanto um como o outro através de seu amor pelo mundo clássico e da magnificência pagã são em sua essência dois momentos de aprofundamento da visão cristã da vida Os filósofos do Humanismo e do Renascimento não só negam a verdade cristã senão que encontram nela alimento para suas audácias metafísicas o incentivo que anima as asas por vezes poderosas de seu pensamento Seus temas são ainda os temas da escolástica mas o modo e a liberdade com que os propõem e discutem já não são escolásticos Neste sentido Humanismo e Renascimento são também dois momentos de desenvolvimento e de complementação do pensamento medieval À Idade Média sem desvalorizar em suas sínteses não caducas a natureza humana e a natureza física concentrara preponderantemente sua atenção no aspecto sobrenatural da vida como acima deixamos dito os interesses teológicos haviamlhe impedido fazer da natureza o objeto específico e de sua investigação As exigências científicas de Alberto Magno e do Rogério Bacon como o naturalismo de Occam são atitudes que não logram caracterizar a especulação medieval a qual permanece orientada para o sobrenatural e aderindo dogmaticamente à física aristotélica e à cosmologia ptolomaica O Humanismo e o Renascimento apelando para as forças da razão e da experiência despedaçam pouco os fios sutilíssimos deste tecido de silogismos e abrem caminho à descoberta do método científico De certo a acentuação da presença do divino no homem e na natureza por vezes vai ao extremo de tornar Deus imanente nas coisas panteísmo ou de exaltar o homem como se ele fosse Deus Deste ponto de vistas os dois movimentos apartamse da tradição cristã e preparam o racionalismo e o imanentismo do pensamento moderno 26 Depois de tudo quanto deixamos dito fazer consistir todo o Humanismo só no reflorescimento da cultura clássica é pelo menos unilateral e é superficial limitarlhe o alcance ao retorno aos studia humaniora ou seja a imitação dos modelos a literatura latina e grega5 Certamente o aprofundamento do estudo da latinidade no século XIV Petrarca Boccacio Alberto Mussato Colluccio Salutati etc e o amor pelo estudo dos clássicos grecoromanos no século XV constituem uma das características do Humanismo e precisamente o prevalecimento da cultura humana litterae humanae sobre a cultura teológica litterae divinae esta última própria da Idade Média Mas o verdadeiro humanista não o humanista gramático e pedante empenhase em penetrar a alma e o espírito dos clássicos para descobrir os valores humanos neles contidos para entusiasmarse ao contato das antigas virtudes e dos heróis vivificados pelo sopro da arte imortal O humanista colhe na humanidade clássica valores válidos para a humanidade enquanto tal a saber aquilo que o classicismo contém de perene e encontra como os antigos Padres da Igreja que estes valores não se opõem à concepção cristã da vida e do homem pelo contrário verifica que o Cristianismo é o primeiro a adquirir consciência de tais valores e a aprofundálos incomensuravelmente O humanista capta o valor da humanidade clássica na expressão artística a visão humanista da vida é preponderantemente estética no melhor sentido da palavra O culto do belo penetra a vida da Itália na época esplendida das Senhorias nos magníficos palácios como na elegância do livro na elegância do vestir como na gentileza dos costumes E não é só esteticismo exterior é com frequência beleza interior harmonia e equilíbrio espiritual O humanista tem o gosto da vida e ainda hoje nós que perdemos em parte este gosto nos quedamos embravecidos ante uma construção arquitetônica ou códice de século XV Nesta visão da vida não se pode falar de paganismo essencial embora inegavelmente o Humanismo se haja manifestado não raro em formas pagãs ou paganizantes mas a sua essência reside no redescobrimento do valor do classicismo dentro da intuição cristã As exagerações pagãs são a parte caduca e estéril o mesmo a parte puramente literária e podemos dizer retórica Portanto parece ser pelos menos exagerada a tese da chamada ruptura ou oposição que certas correntes historiográficas modernas quiseram ver entre o Humanismo e a Idade Média como se depois de treze séculos de Cristianismo tivesse sido possível uma retomada do paganismo puro e simples Pelo contrário tanto o Humanismo quanto o Renascimento tomam da Idade Média os germes vitais da cultura moderna elaboram numa nova síntese os valores próprios do Cristianismo e os da antiguidade clássica transmitindo aos séculos futuros a luz da civilização Naturalmente não precisamos cair no exagero oposto de um Humanismo e Renascimento integralmente cristãos e ortodoxos quase uma continuação pura e simples da Idade Média e da Escolástica Em nosso entender os séculos XV e XVI apresentam aspectos religiosos e aspectos não religiosos formas de ascetismo medieval e outras formas de intenso apego à vida Mas o elemento religioso mantémse ainda vivo e operante a alegria de viver ora é perturbada pelo senso de caducidade das coisas ora é bruscamente substituída pelo apelo a Deus quando não é reivindicação de um cristianismo ativo e operoso Humanismo e Renascimento representam uma nova forma e vida que já não é a da Escolástica precisamente pelo afastamento do céu em relação à terra de Deus em relação ao mundo afastamento que eles iniciam mas considerando o problema religioso com uma urgência e 5 Ao Humanismo literário devese sem dúvida o progresso dos estudos filológicos e em parte o artístico Mas deveselhe igualmente aquele formalismo de língua e de estilo em que se estagna uma parte da cultura humanística que incapaz de penetrar no espírito da civilização clássica detémse superfície e na idolatria dos modelos grecolatinos Além disso tal Humanismo espicaçado pelo fanatismo dos clássicos rompe com a tradição medieval que considera inculta e bárbara contrapondolhe precisamente o esplêndido formalismo linguístico e na arte o clássico ao gótico e ao românico Ao invés o melhor e verdadeiro Humanismo continua e aperfeiçoa o processo de apropriação da antiguidade iniciado justamente na Idade Média e também sob este aspecto apesar da diversidade há continuidade entre as duas grandes épocas Contudo é necessário precisar que a exigência filológica dos humanistas é também exigência de historicidade Na Idade Média doutrinas e filósofos eram manipulados e assimilados sem qualquer preocupação histórica como se tudo houvesse ocorrido fora do tempo Pelo contrário o humanismo empenhase em descobrir textos e restituílos à sua forma autêntica a fim de colher o genuíno significado dos escritores clássicos A filologia exprime a exigência de reconstruir a cultura em sua evolução histórica 27 por vezes com uma intensidade que nem na própria Escolástica se encontram e que relembram a época da Patrística à qual de fato apelam contra a escolástica decadente e contra o aristotelismo Basta pensar nos grandes movimentos religiosos que culminam na Reforma protestante e na Contrarreforma católica Por outro lado importa notar que tanto Savonarola na Itália como Lutero na Alemanha embora tão distantes um do outro representam uma reação à mundanidade humanismorenascentista que chegou a penetrar na Corte pontifícia Mas precisamente esta mundanidade à parte suas imortais manifestações artísticas comporta outro valor positivo fundamental o interesse pelo particular concreto que a Escolástica havia descurado ou subordinado ao interesse pelo universal Captar o concreto humano e o concreto natural eis as duas exigências típicas do Humanismo e do Renascimento Concreticidade do homem e concreticidade da natureza estão lançados os alicerces para a fundação da História e da Ciência no sentido moderno A Escolástica voltada mais para o eterno do que para o contingente ignorou na maneira como hoje as concebemos a ciência e a história se bem que a ciência tenha suas origens justamente na Escolástica Bacon Occam e a história em S Agostinho Em suma o Humanismo italiano tem uma alma cristã mas faltalhe um calor religioso propriamente dito nem cogita reformar a sociedade cristão do seu tempo Savonarola que vive dentro do Humanismo sobre este aspecto é uma exceção antihumanística Pelo contrário na Alemanha França e Inglaterra o Humanismo como alguém escreveu orientase desde o início para o ideal religioso e cristão de uma humanidade reconduzida não só doutrinalmente mas também em sua vida prática a pureza faz fontes evangélicas Ficino por exemplo não apela para a Escritura mas para os princípios filosóficos do Cristianismo ERASMO DE ROTTERDAM 14671536 ao invés lança já a terra as sementes de uma reforma religiosa Seu humanismo é também programa de vida cristã retorno a vida de Cristo e dos apóstolos regeneração da vida religiosa por meio do renascimento da cultura No Elogio da loucura por exemplo é vivaz e pungente a sátira da vida religiosa Tendencias reformadoras da Igreja em sentido humanístico mas ortodoxo são evidentes igualmente na Utopia de Tomás Morus de quem falaremos mais abaixo Resumindo o mundo humanístico cultiva o ideal de uma renovação religiosa que depure a vida cristã e a tradição católica revigore o dogma e conceda maior liberdade à pesquisa também no âmbito da ortodoxia Depois que Lutero afixou às portas da igreja de Wittenberg as suas famosas teses sobre as Indulgências o muno humanístico da Europa nutriu a esperança de uma renovação religiosa sem cismas nem heresias À esperança foi de curta duração e bem depressa a Reforma provou também a ruptura com o humanismo se bem que por diversas vias acabe mais tarde por voltar a adotar alguns aspectos dele 2 A Reforma Segundo a crítica alemã e protestante o Humanismo preludiou a autonomia do homem e o Renascimento a da Natureza A Reforma com os princípios do livre exame e da autonomia religiosa e com a rebelião contra a autoridade da Igreja de Roma desenvolveu e completou as novas verdades do mundo moderno6 Não resta dúvida de quem MARTIN LUTERO 14831546 não obstante sua mentalidade e cultura serem ainda medievais assentou um golpe decisivo na Idade Média desfez a autoridade universal do Papado e do Império e iniciou o processo de secularização os valores que caracteriza a modernidade O mesmo Lutero por outro lado com as doutrinas da fé salvadora sem as obras e do servo arbítrio ou do homem escravo do pecado e remido somente pela graça chegar a autonomia do homem e a instaurar um novo e escuso misticismo Daqui o paradoxo luterano do máximo de liberdade religiosa e do nada de liberdade o crente perante Deus da nulidade das obras e ao mesmo tempo da eficácia da fé que se faz estimulo invencível de livres iniciativas 6 Tal interpretação além de tudo o mais pretende minimizar a importância do Renascimento visto consideralo só como movimento preparatório da Reforma da qual toda a civilização posterior seria um desenvolvimento e um apêndice como se o mundo inteiro a partir da rebelião de Lutero fosse filho da Alemanha 28 Paradoxo mas acrescido de contradição enquanto é escravo o homem carnal mas é livre o homem espiritual regenerado pela graça por meio da fé a única como se lê no Tractatus de libertate humana capaz de libertar o homem da escravidão da carne O grande monge agostiniano inverte a relação entre a fé e as obras o homem novo não nasce das obras que nunca podem ser boas por causa da corrupção do pecado mas do homem renovado pela fé e pela graça nascem as obras boas A renovação interior operada pela fé e a suprema liberdade do cristão é o que o faz senhor de todas as coisas O homem cristão escreve Lutero é tão elevado acima de todas as coisas pela fé que se torna espiritualmente senhor delas visto como nenhuma coisa pode prejudicar a sua beatitude antes todas as coisas devem serlhe sujeitas e ajudalo na beatitude Só a obra da fé chega até Deus E neste ponto deparamonos com o princípio formativo da moral social de Lutero da fé procede com sua manifestação o operar no mundo a obra de Deus Deus quer operar simultaneamente com a sua obra e mediante ela O cristão apoiado na renovação interior da fé e seguro de que nele opera Deus sentese não só livre mas também autônomo em frente de todas as potencias leigas e eclesiásticas Já não há distinção entre leigos e sacerdotes Da fé nasce a nova nobreza cristã como se expressa Lutero em seu escrito polêmico À nobreza cristã da nação alemã E se todos os regenerados são sacerdotes todos com uma fé e com um Evangelho porque não deveriam ter todos a capacidade de julgar os que é justo e o que é injusto em relação a fé É o princípio do livre exame afirmado a base da fé regeneradora do homem carnal e por isso libertadora do pecado e estímulo para obras boas O paradoxo escravidão da vontade pecaminosa e liberdade da vontade remida pela fé resolvese na afirmação do poder da vontade tornando eficaz pela graça redentora e operante O cristão remido interiormente pela fé é o homem novo rege precisamente quando se sente instrumento de Deus no mundo Lutero no fundo o teórico do servo arbítrio diviniza o homem O cristão remido interiormente pela fé é o homem novo regenerado pela graça é o instrumento de Deus que opera nele e por meio dele O homem é aniquilado em Deus mas ao mesmo tempo precisamente aniquilandose em Deus sabe que através de sua pessoa é Deus que opera no mundo O cristão humanista sentindose embora cristão crêse renovado e tornado sobrehumano por meio da cultura o cristão luterano sentindose embora acima do mundano crêse tornado sobrehumano pela fé e estimulado a operar no mundo como instrumento da graça divina Sem dúvida o problema da liberdade nas relações com a graça permanece teoricamente insoluto e a própria liberdade permanece negada mas praticamente esta liberdade reencontrada na sua negação em Deus é fonte de iniciativas e de obras é poder da vontade Disto é prova o movimento anabatista que passou despercebido ao próprio Lutero endereçado impetuosamente a refazer o mundo pelo modelo do Evangelho a destruir toda autoridade e toda lei e a instaurar um comunismo de bens Lutero reivindica como dissemos a liberdade absoluta do cristão no domínio espiritual religioso contudo em consequência de sua doutrina sobre a natureza humana corrompida pelo pecado na esfera terrena sujeita sem remédio o cristão aos poderes seculares ou a autoridade constituída Ao crente deixa a pura liberdade interior da fé Também a hierarquia civil é instituída diretamente por Deus e por tal motivo mesmo quando mal empregada conserva sua plena legalidade a qual o cristão deve submeterse O cristão embora oprimido permanece livre no espírito A lei e a autoridade boas ou más devem sempre ser obedecidas com espírito de submissão e paciência Disto é prova a solidariedade de Lutero aos príncipes na revolta dos camponeses a sedição dos quais ele condena como obra de homens carnais que combatem para usurpar os bens mundanos Lutero acaba por exaltar o império da espada e da vingança por fazer a apologia a representação e preconizando Hegel por dar uma justificação ética da guerra Não creio que Lutero se tenha solidarizado com os príncipes ou com os mais fortes por oportunismo penso que o fez por coerência com suas doutrinas teológicas Quer dizer os mais fortes os representantes da autoridade civil também está de origem divina são os assistidos pela graça e portanto os verdadeiros instrumentos de Deus Ao invés os deserdados precisamente por serem tais e incapazes de suportar os sofrimentos corporais mostram ser homens carnais ou escravos 29 do pecado os rejeitos os não escolhidos Para eles é necessário o azorrague do furor divino a lei da força impiedosa ou seja a espada do Príncipe instrumento de Deus Assim de um lado Lutero codifica a estatolatria a obediência cega à autoridade constituída e a lei a necessidade de guerra o outro lado com um pessimismo igual ao de Maquiavel sanciona a condenação da maioria como sendo escrava de instintos e cobiças e portanto como a que é governada como um punho de ferro Acresce que Lutero exige das autoridades civis ordenações radicais em favor da autarcia econômica alemã e pela primeira vez exalta o messianismo da raça e a missão providencial do grande império alemão Basta isto para explicar toda a concepção alemã do Estado e da lei o militarismo prussiano a exaltação do uso da força a famosa disciplina germânica a política de seus chefes de Estado e de governo o tradicional antiliberalismo da Alemanha e duas guerras mundiais O servo arbítrio como potência de vontade exaltarse na vontade de potência do Estado e de raça que por sua vez se exalta na guerra vida dos povos como dirá Hegel o eminente teórico juntamente com Fichte da Alemanha moderna e de sua divina missão7 A parte as diferenças de orem religiosoteológica que não nos interessam aqui também para o suíço ULRICO ZUINGLIO 14841531 o homem perante Deus é nada e não é capaz de coisa alguma Deus determinao de todos os lados pela lei da predestinação o homem não é senão um instrumento nas mãos de Deus a ação divina é infalível e irrevogável O homem sujeito a vontade divina tornase independente de todas as coisas terrenas confiante que os males os danos os obstáculos que tem de superar tudo enfim terminará bem O predestinado de Deus é todo força e ação move tudo a predestinação é poder de vontade A força interior da fé tornarse visível na sua ação transformadora e formadora da sociedade cristã A fé tem sua regra na lei moral expressão também está da essência de Deus Daqui o caráter jurídico da religiosidade de Zuinglio e o maior valor por ele atribuído ao Antigo Testamento relativamente ao Novo A religião convertese em ética social Seus corolários são o mundanismo inevitável desta religiosidade que também se fundamenta na interioridade da fé e a sua exteriorização na sociabilidade Um outro problema se apresentava a Zuinglio como formar uma sociedade e fazer dos preceitos do Evangelho uma ética social Segundo esses preceitos o cristão não deve interessarse de forma alguma pelo dinheiro deve distribuílo todo aos pobres deve absterse de empunhar a espada etc sabemos que os anabatistas em nome da vida apostólica apelavam para a observância destas doutrinas Lutero qualificouos de homens carnais e justificou a repressão da revolta por parte dos Princípes pela necessidade de punir pelo sangue as cobiças humanas Zuinglio neste particular muito próximo do reformador alemão distingue entre uma ordem interior da sociedade que poderia valer numa comunidade de santos e uma ordem externa necessária para a humanidade pecadora Baseandose nesta distinção considera ele indispensável o direito de propriedade para garantir a natural esfera da ação individual e o esforço ativo e laborioso de nossa vontade Como preceito moral que se deve seguir para nos avizinharmos da perfeição indica a beneficência Deste modo são lançadas as bases da nova 7 A Reforma tendose constituído em religião positiva foi obrigada a cristalizar em formulas dogmáticas ela faz seus os dogmas até aos Concílios de Nicéia e de Calcedônia numa escolástica Além disso malgrado a aversão de Lutero ao aristotelismo escolástico o protestantismo para assumir forma doutrinal viuse obrigado a expressar o conteúdo de sua fé nas velhas fórmulas filosóficas Encontrou seu filósofo em FILIPE MELANCHTHON 14971560 que introduziu na Alemanha o aristotelismo humanístico exercendo com suas obras um domínio quase incontrastado durante sois séculos nas Universidades protestantes A obra de Lutero como a dos demais reformadores concerne quase exclusivamente a teologia Pelo contrário são vivíssimas as exigências filosóficas na mística protestante rica em motivos sugestivos e não privada de potentes instituições Entre os místicos sobressai JACOB BÖHME 15751624 segundo o qual a tese luterana o pedaço e da corrupção da natureza humana é entendida como expressão de poder obscuro do mal contra o qual se quebram todos os esforços Para Böhme o mal tem sua raiz no próprio Deus que portanto é trabalhado por um dissídio íntimo dividido entre a ira e o amor Deus manifestase no mundo participa nas vicissitudes deste na eterna luta do mal e do bem das trevas e da luz que deve derivam e revelase através do conflito das duas forças opostas Este dualismo metafísico é desenvolvido na maior obra de Böhme Aurora nascente 1610 o filósofo conhece o dealbar do dia quando penetrando o sentido de si mesmo e da luta cósmica alcança as divinas raízes de um e outra Assim se torna consciente da eterna vicissitude de todo e do mistério que o envolve que é o próprio mistério de Deus 30 sociedade burguesa e capitalista própria dos Países reformados da Suíça à Inglaterra e mais tarde aos Estados Unidos da América Também para JOÃO CALVINO 15091564 o rígido e solitário codificador da religião reformada nas Intitutiones christianae religionis a natureza após o pecado é corrupta a razão entenebrecida e a liberdade nula Entre o homem corrupto e o onipotente Deus só existem relação ao súdito que obedece cegamente e patrão ou soberano que comanda A onipotência de Deus é vigilante eficaz poderosa continuamente em ato O que santifica a vida do verdadeiro cristão não é a imitação de Cristo mas sim a sujeição a Deus Mas o calvinista profundamente convencido da iluminação interior da fé seguro de que Deus está com ele por um lado concentra toda a sua vida na religião e por outro lado absorve toda a religião na sua vida prática na sua atividade operante cada ação da qual é ação de Deus Como foi salientado o fiel de Calvino não imagina ser um eleito um predestinado mas sentese eleito e predestinado certificando o seu sentir por meio de uma atividade enérgica e operosa A força verdadeiramente sobre humana das igrejas calvinistas no período heróico das lutas com a Contrarreforma o seu espírito de sacrifício e martírio bem como o seu fanatismo têm aqui sua primeira raiz E têm igualmente aqui sua raiz a organização econômica e o poder dos Países reformados CAPITULO VIII DIDÁTICA GERAL Um olhar para o futuro Maria Ralneldes Tosi 1 Idade Moderna Tanto a política como a filosofia neste período têm avanços diferenciados através dos séculos No século XVI o conjunto de universidades cresce e estimula os letrados para o trabalho do magistério para a grande massa populacional mormente nos países que adotaram o protestantismo visto que todas as facções estimulavam a leitura e interpretação pessoal da Bíblia Assim ao lado de grandes universidades saxônicas bretãs austríacas suíças iugoslavas foi se estabelecendo um présistema escola com o ensino das primeiras letras primário e uma fase posterior preparatória para a universidade secundário cursos abertos a quem os desejasse Neste século e posteriores com raras exceções o método não se altera ensino livresco decorativo com disciplina rígida e a adoção do Trivium e do Quadrivium O conhecimento científico se fez representar no Colégio de França de 1518 que em 1530 elencou as seguintes matérias Retórica Direito Civil Filosofia Matemática Botânica Medicina Cirurgia Árabe Em princípio o Colégio era independente mas com o crescimento de sua importância foi incorporado pela Universidade de Paris Essa incorporação foi importante na medida em eu pensadores como Rabelais passaram a criticar violentamente o processo educativo fundamentado na mera decoração de textos indexados isto é de caráter religioso e permitidos pela Igreja No século XVII as universidades perdem seu prestígio popular graças à seleção excessiva de seus candidatos O mundo intelectual cria as Academias ou sociedades científicas que não outorgam títulos mas viabilizam as pesquisas dentro das ciências naturais A ciência da Educação cresce aí com os trabalhos de pesquisa de João Ammos Comenius natural da BoemiaAlemanha criador o primeiro livro conhecido com questões específicas de Didática Magna Em outras obras ensina que a aprendizagem se dá do concreto para o abstrato obedecendose o desenvolvimento psicológico dos alunos que para o educador constituíam o objeto da educação Tais ideias hoje consideradas inquestionáveis foram altamente revolucionárias à sua época Com elas Comenius será considerado o precursor da Escola Nova No século XVIII a exaltação à razão iluminadora do saber Iluminismo proposta pelos franceses provoca reflexões educacionais quando discute o emprego dessa razão no processo de 31 aprendizagem A educação considerada fundamental e católicos e protestantes criam uma série de confrarias religiosas com preocupações especificas de ensino Sem alterar os esquemas de conteúdo método e disciplina tradicional os católicos criam as irmandades beneditinas e piaristas Os protestantes criam a escola janseniana cujo nome se liga ao bispo Conrnellius Otto Jansen dos Países Baixos escola essa também conhecida como de Port Royal Propõe então uma inovação metodológica inspirada no inglês Frances Bacon o método lúdico por meio de jogos num clima que abole os castigos físicos para cultivar o intelecto e a vontade A Inglaterra também sob a égide do protestantismo difundiu teorias educacionais consideradas avançadas por intermédio particularmente de John Lucke o ensino deve se processar com técnicas pedagógicas fundamentadas no processo psicológico os programas dever ser mais ricos conteúdos científicos devem ser introduzidos nos currículos Embora importantes tais propostas não forma implantadas por falta de recursos mas como literatura foram amplamente difundidas A Suíça apresenta para o mundo o trabalho de Pestalozzi com o ensino no trabalho com crianças abandonadas nas ruas Sua inspiração foi Rousseau mas alugando palácios para cuidar de seus alunos sem ter apoio financeiro teve que abandonar seu projeto prático embora difundido por escritos e palestras que proferiu A França será fonte inspiradora da criação da primeira escola preparatória de professores para o ensino básico Seu criador foi João Baptista de La Sallle Atuaria junto a pessoas leigas que trabalhavam como professores sem o menor preparo Segundo o autor estavam mais a prejudicar que a ensinar as primeiras letras Essa escola portanto é a precursora das atuais Escolas Normais É francês um dos maiores iluministas filósofo e psicólogo também considerado um dos precursores da Escola Nova Jean Jacques Rousseau É dele a proposta de que a sociedade somente se modificará quando se estabelecer uma revolução políticasocioeconômica Graças a ele outros autores foram incentivados a propor uma educação universal laica e na língua nacional Turgot um de seus seguidores pela primeira vez propôs que a educação se fizesse de forma sistemática isto é dentro de um plano que organizasse o ensino de todas e em cada uma das fases de aprendizagem dos alunos Essa proposta foi importante pois a Igreja Católica mantinha a prioridade na manutenção das escolas Para outras não havia apoio financeiro portanto segregava muitos que desejassem estuar não havia modelo pedagógico portanto não se propunham formas alternativas e coletivas de ensino Em 1792 a França cria legalmente o primeiro sistema educacional conhecido três níveis sistema político laico gratuito somente para o primeiro com conteúdo distribuído entre a leitura a escrita o cálculo para o primário O secundário com as ciências avançadas matemática ciências naturais ciências sociais e ética Seguiase o ensino profissional e no ápice a Sociedade Nacional das Ciências e Artes Evidentemente que assolada por problemas políticos econômicos e sociais a lei não pôde ser colocada em prática mas ficou o modelo teórico que será seguido por quase todos os países inclusive pelo Brasil fundamentado nos ideais iluministas Liberdade Igualdade e Fraternidade No século XIX se o século anterior foi tão rico o ponto de vista educacional este teve experiencias mais na área políticoeconômica Fundamentandose nos ideais iluministas franceses mais se discutiu a formação das ideologias liberalcapitalista e socialistacomunista que se verá oportunamente que propriamente a educação Essas discussões entretanto serão fundamentais na era que se segue Dentro dele um método até hoje aplicado é o do inglês Joseph Lencaster que juntamente com Andrew Bell criou o método de ensino monitorial lencasteriano segundo o qual alunos mais velhos e adiantados duplicavam seus conhecimentos para 20 colegas mais novos e despreparados Com esse método Lencaster pretendia o rápido desaparecimento do analfabetismo Hoje com essa técnica as universidades pretendem a introdução dos graduandos no magistério do Ensino Superior 32 No século XX ao final o século XIX política e filosoficamente os países já haviam estruturado melhor Ao lado da França a Inglaterra a Alemanha e a Rússia no velho mundo e os Estados Unidos da América do Norte já tinham mais clareza sobre o que pretendiam para a educação Congressos disseminaram e discutiram pesquisas e projetos conferências internacionais possibilitaram troca de informações Alguns trabalhos modelos são amplamente reconhecidos por exemplo Itália Maria Montessori médica que trabalhou com crianças consideradas deficientes em inteligência física ou comportamento demonstrando que a aprendizagem quando aplicada com o método ativo produz efeitos altamente eficientes para qualquer tipo de alunos Alemanha Kerchnsteiner identifica a escola à ação de acordo com o interesse dos alunos também prova que a aprendizagem é melhor quando aplicada essa metodologia Estados Unidos Dewey lança a ideia do ensino por meio do tripé solução de problemas método cientifico e trabalho em laboratório Visa a educação democrática França Cousinet preocupouse com a formação de professores tendo em vista o ensino ativo Piaget analisa as características psicológicas de cada fase de aprendizagem do ser humano fixandose especialmente nas primeiras Seus trabalhos são difundidos com a denominação de construtivismo Também da França surge a ideia de Freinet relativa à educação dentro do trabalho e voltada a ele Argentina Emília Ferreiro absorve as propostas construtivistas e propõe uma metodologia mais realista para a alfabetização Brasil Paulo Freire dedicandose à alfabetização de adultos propõe a aprendizagem como um fator político Seus seguidores estendem suas propostas para as demais categorias de alunos Rússia Vygotsky vê na aprendizagem um ato de eminentemente social CONCLUSÃO A construção do sistema escolar como se pôde observar mesmo de uma forma tão sintética não foi um trabalho que se fez senão com grandes sacrifícios Cada povo cada século cada pensador ou pedagogo contribuiu com atos e teses para a melhoria do que se conhecia Longe está uma nação que possa ser considerada possuidora de sistema educacional definitivo mesmo porque a educação é um ato atrelado às condições da sociedade e esta por sua vez está em contínuo processo Importante observar que nos dias atuais ficam cada vez mais difíceis modelos pedagógicos individuais Importante saber também que a Escola Nova influenciou os destinos da educação ocidental e está ainda por ser estudada aplicada e em algumas situações criticada e modificada O licenciandoprofessor tem que entender que exerce um papel histórico conhecer aplicar afirmar e rejeitar propor e escrever são ações de vital importância para a ciência chamada Educação 33 GRADUAÇÃO DE PEDAGOGIA DISCIPLINA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I PROFESSOR MAGNO ARAÚJO DISCENTE ATIVIDADE I UNIDADE I II E III 1 A frase A educação existe mesmo onde não há escolas relacionada aos povos primitivos está dita referente a uma época em que não haviam métodos educacionais de ensino e aprendizagem Reflita e descreva em 5 linhas como era a educação nesse período histórico e aponte perspectivas que você considera importante em relação ao processo de ensinoaprendizagem nos dias atuais 2 Relacione a segunda coluna mediante aos itens da primeira coluna 1 Educação através da imitação 2 Educação por meio de cerimônias de iniciação Forma de educar criança entre os povos primitivos Possui valor educativo entre tribos podem ser breves ou podem durar anos Ajuda as crianças aprender a fazer as ocupações de uma vida adulta como construção de utensílios a pesca e a caça entre os povos caçadores guarda do gado entre os pecuaristas trabalhos agrícolas etc Possui valores moral religioso social e político e prático 3 O que é animismo 4 Leia a parte retirada do texto reflita e justifique como eram constituídos os professores primitivos Embora todos os homens participassem das cerimônias de iniciação havia determinadas pessoas às quais cabia a direção das mesmas Essas pessoas eram denominadas segundo os diferentes casos feiticeiros curandeiros xamãs esconjuradores ou homens que consultam os espíritos familiares Constituem os professores primitivos 5 No período que precede a era cristã ao que diz respeito a educação havia um domínio teológicomitológico para presidir interesses filosóficos a elite descreva quais interesses filosóficos pertenciam aos povos a Mesopotâmicos 34 b Hebreus c Persas d Egípcios 6 Por que a Grécia é considerada o berço da civilização ocidental 7 Mediante ao conceito de Educação para os Gregos muitas ideias e conceitos tornaramse ideais para os cidadões gregos Assinale V para as alternativas verdadeiras e F quando for falsa A Educação é a preparação para a cidadania Filosofia é a ideia do amor ao saber pelo saber O conceito de Liberdade Política no Estado não tem nada haver com o Estado O homem não é um ser primariamente racional O indivíduo não deve procurar a conhecer a si próprio 8 Os ideais da educação grega obtiveram seus resultados de forma lenta comenta sobre essas evoluções mediante as etapas a Período Homérico b Educação Espartana c Educação Ateniense d Os sofistas 35 e Os grandes filósofos Socrates Platão e Aristóteles f O período Cosmopolita da Educação Grega 36 GRADUAÇÃO DE PEDAGOGIA DISCIPLINA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I PROFESSOR MAGNO ARAÚJO DISCENTE ATIVIDADE II UNIDADE IV E V 1 O que difere a educação romana da educação grega 2 Mediante o ideal romano de educação os cidadãos tinham diversas concepções de direitos e deveres cite a Os direitos b Os deveres que equivaliam as aptidões e virtudes 3 Discorra em 5 linhas a seguinte frase A família como centro da educação romana 4 Qual a principal característica fundamental do método de educação romana 5 Relacione a primitiva educação romana com a introdução das escolas gregas em Roma 37 6 No período imperial como era compreendido o sistema romano de ensino e descreva sobre cada um deles 7 O que caracterizou a decadência da educação romana 8 Com o cristianismo surge um novo ideal educacional citeo 9 Como e porque no período medieval as escolas primitivas passaram a ser denominadas escolas das catedrais 10 Quais os principais benefícios concedidos a educação em relação ao regime de trabalho imposto aos monges 11 Sobre a escolástica responda a O que visava b Quais os períodos que compreendeu c Quais os principais representantes 12 Quais as principais circunstâncias que determinam o surgimento e o desenvolvimento das universidades europeias do século XIII 38 GRADUAÇÃO DE PEDAGOGIA DISCIPLINA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I PROFESSOR MAGNO ARAÚJO DISCENTE ATIVIDADE III UNIDADE VI VII E VIII 1 A partir dos assuntos ministrados na apostila utilize os capítulos VI RENASCIMENTO Humanismo e Reforma ARRUDA Maria L A História da Educação VII HUMANISMO RENASCIMENTO E REFORMA Do Renascimento a Kant SCIACCA Michele Federico O problema da educação Cap I Humanismo Renascimento e Reforma Do Renascimento a Kant São Paulo Editora Herder 1996 e VIII DIDÁTICA GERAL Um olhar para o futuro Maria Ralneldes Tosi para fazer uma SÍNTESE ARGUMENTATIVA E CRÍTICA em 5 laudas OBSERVAÇÕES 1 O QUE É SÍNTESE ARGUMENTATIVA Este é o tipo de texto onde a opinião do autor é bastante importante Não se trata de reunir as ideias principais de um texto mas de apresentar os pontos de vista de forma clara e objetiva e em poucas palavras Quando falamos sobre poucas palavras não estamos falando de uma limitação o autor pode e deve se expressar da forma que achar melhor mas isso deve ser feito sem excessos Para alcançar esse objetivo devem ser reunidas informações em um texto corrido Essas informações devem ser obtidas através de pesquisa isto é conteúdo que vai além do texto base 2 O QUE É SÍNTESE CRÍTICA A ideia aqui é simples descrever partes do texto original e fazer críticas diretas ao mesmo Trechos da obra em questão podem e devem ser usados O primeiro passo para realizar esse tipo de síntese é que o aluno leia atentamente o texto original Na verdade este é o primeiro passo de qualquer síntese 3 RECOMENDAÇÕES Faça uma boa leitura se necessário releia mais de uma vez destaque os pontos necessários a serem destacados reflita e faça as críticas de modo relevante e de acordo ao seu entendimento Não esqueça de citar e destacar entre aspas a fala da autora para não cometer plágio Bons Estudos
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GRADUAÇÃO DE PEDAGOGIA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I PROFESSOR MAGNO ARAÚJO DISCENTE DATA POLO 2024 2 CAPÍTULO I A EDUCAÇÃO ANTES DA ESCOLA Ainda hoje existem regiões onde não há escolas No entanto a educação não deixa de ocorrer embora ela aconteça por processos diferentes daqueles utilizados pelo sistema escolar Neste capítulo tecemos considerações sobre a educação que não é feita na escola como nós a conhecemos 1 A educação entre os povos primitivos A educação existe mesmo onde não há escolas Nas sociedades chamadas primitivas e de povos considerados bárbaros por exemplo não existem escolas nem métodos de educação conscientemente reconhecidos como tais No entanto existe educação cujo objetivo é promover o ajustamento da criança ao seu ambiente físico e social por meio da aquisição da experiência de gerações passadas MONROE Paul História da Educação 6 ed São Paulo Nacional 1983 p1 Entre os povos primitivos a educação possui uma estrutura muito simples como veremos a seguir 2 A educação através da imitação Uma das formas pelas quais a criança adquire os conhecimentos necessários entre os povos primitivos é a imitação Nos primeiros anos de vida a imitação é inconsciente As crianças brincam com pequenas reproduções dos instrumentos utilizados pelos adultos Com uma tora na água por exemplo aprendem a equilibrarse e a remar Assim mais tarde saberão manejar uma canoa As meninas por sua vez brincam de preparar comida Numa segunda etapa a imitação tornase consciente As crianças participam das atividades dos adultos e aprendem a imitação Essa segunda etapa tem início quando se começa a exigir trabalho da criança Ela vai aprendendo pouco a pouco as diversas ocupações da tribo construção de utensílios a pesca e a caça entre os povos caçadores guarda do gado entre os pecuaristas trabalhos agrícolas entre povos sedentários 3 A educação e as cerimônias da iniciação Entre todos os povos primitivos encontramos as cerimônias de iniciação que possuem especial valor educativo Em algumas tribos elas são breves em outras duram anos Geralmente tais cerimônias se verificam desde o início da adolescência até a admissão do jovem à comunidade adulta da tribo Qual o significado educativo dessas cerimônias Em primeiro lugar elas têm valor moral através das mutilações a que deve se submeter o menino aprende a suportar a dor e pela exposição ao tempo e pela falta de alimentação aprende a tolerar as circunstâncias difíceis e a fome As cerimônias de iniciação possuem também um valor social e político Através da subserviência aos dirigentes o menino aprende a obediência e a reverência aos mais velhos e aprende igualmente a servir aos idosos e a suprir as necessidades da família Outro valor das cerimônias de iniciação é o religioso Esse valor evidenciase pelo fato de o totem ser o centro do culto nas cerimônias O totem geralmente um animal e às vezes um vegetal é considerado o antepassado mítico da tribo de quem esperam proteção No totem centralizamse os mitos religiosos explicações que os povos primitivos conseguem dar ao modo de agir das forças da natureza As cerimônias de iniciação revertemse também de um valor prático nessas cerimônias os jovens a serem iniciados aprendem os métodos de capturar animais as artes de acender o fogo de preparar alimentos e processos similares de valor prático Para os povos primitivos porém o aspecto importante dessas atividades não é o prático mas o religioso Todas essas 3 atividades práticas devem processarse de modo definido e previamente estabelecido Tais métodos preciosos e característicos de ação constituem sua religião E esta pois não se relaciona com fases isoladas da vida mas com as mais comuns práticas Id ibid p 45 4 O animismo presença constante na educação primitiva Todos os povos primitivos possuem uma característica comum são animistas O animismo consiste na crença de que todas as coisas possuem uma alma As pedras as árvores os animais enfim todas as formas de existência possuem alma ou espírito Por causas dessa crença o homem primitivo atribui tudo o que acontece no ambiente à intervenção de espíritos amigáveis ou hostis se as ocorrências são respectivamente positivas ou negativas Assim na busca dos meios necessários para a sobrevivência o homem primitivo procura agir de maneira a não ofender o espírito que habita os objetos de que precisa Para isso ele deve seguir certos métodos que são produtos da experiência de gerações passadas O aprendizado desses métodos que apaziguarão o mundo dos espíritos constitui a parte mais importante da sua educação As cerimônias de iniciação como vimos servem para transmitir aos jovens a explicação do universo e assim tornálos capazes de assegurar um satisfatório ajustamento às suas exigências 5 Os primeiros professores Embora todos os homens participassem das cerimônias de iniciação havia determinadas pessoas às quais cabia a direção das mesmas Essas pessoas eram denominadas segundo os diferentes casos feiticeiros curandeiros xamãs esconjuradores ou homens que consultam os espíritos familiares Constituem os professores primitivos Inicialmente esta classe é formada pelos chefes dos grupos familiares mas como os deveres dos pais se tornam múltiplos e este culto dos espíritos amigos se torna mais complexo constituise um sacerdócio especial Há então um esboço de instrução para o povo em geral dada pelo sacerdócio e uma instrução para o povo em geral dada pelo sacerdócio e uma instrução mais elaborada e formal dos futuros membros do sacerdócio ministrada pelos atuais membros da classe Estes últimos são os primeiros professores profissionais Por vários séculos o ensino permanece como um direito especial do clero e por muitos séculos mais a educação é orientada e dirigida unicamente por ele Id ibid p 9 CAPITULO II EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO NA HISTÓRIA1 A Filosofia e as estruturas educacionais sempre andaram fundidas pelos menos até a metade do século XX No presente capitulo será apresentado um resumo dos fatos educacionais mais importantes assim como a indicação de pedagogos que orientam algumas metodologias específicas Período precedente à era cristã Os estudos antropológicos atuais iluminam os fatos ocorridos em tempos remotos As tribos primitivas educacionalmente têm uma forma bastante simples e rápida de preparação das novas gerações para assumirem as responsabilidades de adultos fazemno por meio da aculturação ou seja desde a mais tenra idade os jovens vão executando tarefas adultas e com a imitação assimilam as tradições dos mais velhos 1 Maria Raineldes Tosl 4 Reportagens atuais demonstram que ao final da adolescência existe um ritual de iniciação especialmente para o menino que deve demonstrar além do domínio sobre a dor a saúde física É considerada natural a morte dos que não conseguem superar as dificuldades pois os mais fracos não podem auxiliar na manutenção da tribo Os antigos povos orientais criaram uma estrutura educacional toda voltada ao domínio da escrita As letras cuneiformes e a simbologia representando um desenho para cada palavra um exemplo que permanece é o alfabeto japonês complicavam o ensino tornavamno elitizado monótono para os professores e alunos nas maiores das vezes ultrapassando décadas de estudos com a finalidade de registro mormente da economia do país com o método da decoração a técnica dos castigos físicos Para a elite reservava o domínio da teologiamitologia acompanhando assim seus interesses filosóficos Alguns exemplos se destacam Mesopotâmicos assírios e babilônicos tinham na escrita uma expressão divina portanto restrita à classe dos sacerdotes Hebreus difundiram o ensino para todos com a escolaridade universal pois de alguma família judia sairia o Filho de Deus Os persas separaram a escolaridade entre aqueles que seguiriam tarefas religiosas dos que para qualquer seguiram as funções militares Para o ensino erudito a seleção era rigorosa Os egípcios dentre os povos orientais foram os que mais estruturam a educação pois fizeram a divisão em três níveis como conteúdo religioso para os nobres e o profissional para qualquer menino mesmo escravo que assim o desejasse A civilização ocidental grega inicia timidamente sua proposta educacional por volta do ano 1200aC justamente quando a oriental estava em seu apogeu À época os gregos eram pastores que cultivavam deuses cujas virtudes e defeitos eram os mesmos dos seres humanos Muito rapidamente entretanto criaram uma escrita de característica portanto mais fácil de ser ensinada e aprendida o que abreviava o tempo de estudos Politicamente e desde o seu início organizaramse em duas Cidades Estados com filosofias e consequentes interesses educacionais diferentes Esparta que exaltou a formação físicaestatalmilitar perdurando por toda vida e Atenas que exaltou a filosofia e a educação intelectual Nos dois casos a preocupação voltavase ao homem apenas CAPITULO III A EDUCAÇÃO GREGA A Grécia é considerada o berço da civilização ocidental da qual nós fazemos parte e cuja cultura assimilamos desde o nascimento Daí a importância do seu estudo mesmo que apenas em seus aspectos essenciais principalmente para quem pretende e dedicarse à educação das novas gerações 1 Um novo conceito de educação Vimos que a principal característica da educação oriental foi tentar conservar e reproduzir o passado mediante a supressão da individualidade No caso da educação grega observase o contrário isto é mais oportunidade ao desenvolvimento individual É historicamente indiscutível que foi a partir do momento em que os gregos situaram o problema da individualidade no cimo do seu desenvolvimento filosófico que principiou a história da personalidade europeia Roma e o cristianismo agiram sobre ela JAEGER Werner Paideia A formação do homem grego São Paulo Herder sd p9 Como resultado dessa característica da educação grega surgiu um novo conceito de educação que ainda hoje é denominada liberal É a educação digna do homem livre que o habilita a tirar proveito de sua liberdade ou dela fazer uso Mais do que com qualquer outro povo do passado foi com que os 5 gregos que o problema da educação surgiu com as características mais semelhantes das que adquiriu para nós nos séculos XIX e XX MONROE P Op cit p27 Entretanto não podemos esquecer que esse novo conceito de educação referese aos cidadãos livres da Grécia Antiga que podiam tirar proveito da sua liberdade ao mesmo tempo em que cerca de 90 da população viviam como escravos 2 Os ideais gregos Devemos aos gregos o surgimento das seguintes ideias e conceitos que para eles se transformaram em ideais O conceito de liberdade política no Estado e através dele A ideia de que a educação é a preparação para a cidadania A ideia do desenvolvimento intelectual da personalidade A ideia do amor ao saber pelo saber isto é a Filosofia A ideia de viver de acordo com a razão O conceito de homem como sendo primariamente um ser racional O conceito moral de personalidade ou seja cada indivíduo encontra na sua natureza racional o direito de determinar os seus próprios fins na vida Os conceitos de liberdade moral e responsabilidade moral isto é a liberdade sob a lei e pela lei contida na natureza O conceito de arte como sendo a corporificação concreta de alguma verdade de um ideal ou experiência de validez A ideia de que o indivíduo deve procurar conhecese a si próprio Socrátes 3 Os ideais e a realidade Os gregos não conseguiram a plena realização dos seus ideais Com relação aos privilégios da personalidade por exemplo eram limitados aos homens livres e negados a 90 da população como vimos Mas se eles tivessem realizado concretamente tudo o que constitui a razão de viver a educação moderna seria também mera recapitulação Id ibid p29 Outro aspecto que convém ressaltar é que os ideais da educação grega foram o resultado de lenta evolução Vejamos em suas principais etapas 4 O período homérico 900750 aC Homero teve sua importância excepcional para a cultura e para a educação grega Tão grande foi a sua importância que muitos estudiosos consideram que os germes de todo o desenvolvimento posterior no período homérico A educação nesse período teve um caráter eminentemente prático Os poemas homéricos a Ilíada e a Odisseia falam dos ideais dessa educação que compreende um duplo ideal de homem ou seja o homem de ação e o homem de sabedoria Esse duplo ideal sabedoria e poder de ação tinha que ser atingido por todos os gregos livres Diversos aspectos contidos nesse duplo ideal tiveram grande desenvolvimento durante os períodos posteriores Um desses aspectos é a bravura que no entanto tinha de ser moderada pela reverência O homem que não conhecia temor assim como o homem que não tinha pudor ou modéstia no trato com seus companheiros ou que era insolente com os deuses ou com os mais velhos era acusado de irreverência isto é faltavalhe o devido equilíbrio de ação Ib ibid p31 Outro aspecto ideal é a sofrosine grega A sofrosine consiste no domínio dos desejos e paixões pela razão Consiste no equilíbrio de pensamento e ação exigido pelo ideal de reverência 5 A educação espartana 750600 aC Já no século IX aC Licurgo organizou o Estado e a educação em Esparta uma das cidades gregas Licurgo percebeu a importância do Estado nos assuntos educacionais Os espartanos que 6 representavam a mais primitiva forma de cultura grega conquistaram já no período homérico uma posição de destaque entre os demais povos helênicos Para preservar essa soberania o povo espartano adotou a constituição de Licurgo Surgiu assim um Estado que passou a manter o mais extremado controle governamental sobre a educação A sociedade inteira se transformou numa escola em que todo o membro adulto tinha a obrigação de participar como um importante dever de cidadania na educação da juventude O objetivo da educação espartana era dar a cada indivíduo um nível de perfeição física coragem e habito de obediência às leis que o tornasse um soldado ideal Dessa maneira o homem espartano passou a ser um modelo de bravura vigor e tenacidade Como essas qualidades faltavam aos demais povos gregos o Estado espartano passou a acumular um grande número de triunfos militares Faltavam aos espartanos no entanto os sentimentos mais delicados e a sensibilidade dos atenienses Assim Esparta não participou muito do esplendor artístico literário e filosófico de Atenas Plutarco resume a educação espartana com as seguintes palavras Em relação à instrução eles recebiam apenas exatamente o que era absolutamente necessário Todo o restante de sua educação tinha em vista tornálos sujeitos ao comando suportar os trabalhos lutar e conquistar Até os sete anos de idade o menino ficava sob os cuidados diretos de sua mãe de quem recebia um treino rigoroso Depois era tirado do lar e colocado em casernas públicas custeadas pelo Estado Nessas casernas os meninos comiam em mesas comuns ajudavam no fornecimento do alimento necessário caçavam os animais selvagens e participavam de danças corais Todo o resto do seu tempo era gasto com exercícios de ginástica que constituíam o elemento principal de sua educação Dos dezoito aos vinte anos o jovem dedicavase ao estudo das armas e das manobras militares Dos vinte aos trinta anos seu treino era na guerra ou nos intervalos de paz praticado às custas dos ilotas servos que moravam em choupanas Em Esparta nove mil espartanos tinham que dominar vinte mil ilotas Com trinta anos o jovem tornavase maior de idade e continuava a dedicar seu tempo integralmente a serviço do Estado seja nas guerras ou nos treinamentos necessários 6 A educação ateniense 600450 aC A educação grega em Atenas outra das grandes cidades gregas tinha pouco em comum com a educação de Esparta Enquanto em Esparta se deu muita importância a educação física a serviço da guerra para manter o Estado em Atenas surgiu o ideal da formação completa do homem Foram colocados no mesmo nível a educação física e a educação intelectual Duas circunstancias intimamente vinculadas determinaram tão notável mudança De um lado a nova maneira de compreender a estrutura e finalidades do Estado Em Atenas vêse o Estado como um meio de assegurar a liberdade pessoal criando as condições vantajosas para sua educação Solón considera a instrução a instrução da juventude como uma missão essencial do Estado mas não se coage o indivíduo nesta empresa desejase que por convicção própria as classes sociais façam sua a tarefa da formação das gerações Daí que apesar de verse no Estado o titular da vida do cidadão jamais teve o monopólio educacional Os pais tinham a obrigação de cuidar que seus filhos se preparassem eficazmente para a vida mas dentro de um ambiente de liberdade Tratase de um Estado de cultura de uma organização política atenta sempre ao desenvolvimento harmônico da personalidade De outro lado a própria vocação cultural de Atenas tão permeável à revolução da ciência e da Filosofia ocorrida no século VI aC e que de modo tão natural elevou o nível intelectual de seus cidadãos convertendoa no centro da cultura helênica a escola de toda a Grécia como disse Tucídedes A partir daí foi adquirindo forma o que mais tarde veio chamarse o aticismo isto é o gosto elegante e equilibrado em todas as atividades humanas LARROYO Francisco História geral da Pedagogia São Paulo Mestre Jou 1970 p150 7 Em Atenas a educação da criança durante os primeiros sete anos estava inteiramente a cargo da família A educação na família no entanto não tinha um caráter tão elevado quanto em Esparta Em Atenas geralmente a criança era entregue aos cuidados de amas e escravos enquanto as mães espartanas eram famosas em toda a Grécia pelo elevado nível do treino físico e moral que davam a suas crianças O menino ateniense mal deixava os cuidados da ama era entregue aos cuidados de um pedagogo Os pedagogos eram escravos ou servos a quem os atenienses confiavam as crianças A palavra pedagogo de pais paidóscriança ageinconduzir designa em sua origem o condutor de meninos por isso eram chamados de pedagogos os escravos encarregados de guiar as crianças à escola O menino ateniense frequentava dois tipos diferentes de escolas a escola de música e a escola de ginástica ou palestra 7 Os sofistas 450400 aC De 500 a 449 aC os atenienses enfrentaram um período de guerra as guerras médicas contra os persas Passadas essas guerras Atenas alcançou seu máximo esplendor ampliaramse as relações econômicas e as atividades comerciais a prosperidade material e a cultura dos cidadãos aumentaram rapidamente a velha constituição aristocrática já fora substituída 509 aC pela constituição democrática de Clistenes As exigências impostas à educação por tais modificações foram duplas Em primeiro lugar com o desenvolvimento da liberdade na esfera política passouse a reclamar da educação maior liberdade individual de pensamento e ação Em segundo lugar impôsse a necessidade de um treino ou educação que habilitasse o indivíduo a aproveitarse das oportunidades sem precedentes que se ofereciam para o engrandecimento e realizações pessoais Porém na sociedade ateniense organizada sob o velho regime não havia meios para ministrar a educação que proporcionasse ao indivíduo condições de êxito pessoal Toda a educação existente preparava apenas para o cívico Aparece então o instrumento necessário sob a forma de uma nova classe de professores os sofistas MONROE P Op cit p53 Os sofistas de sophos sábio surgiram como sendo a nova classe de professores que a sociedade exigia Geralmente os sofistas eram professores ambulantes que percorriam as grandes cidades Eles ensinavam as ciências e as artes com finalidades práticas principalmente a eloquência em troca de uma elevada contribuição financeira Muitos sofistas davam apenas uma preparação artificial que geralmente consistia em fornecer a seus alunos discursos feitos sobre certos tópicos a serem repetidos em determinadas ocasiões tais como nos processos perante os tribunais Transmitiam aos alunos sentenças inteligentes ou informações fragmentárias para serem utilizadas nos momentos oportunos Outros sofistas davam um curso mais completo que abrangia o estudo das ciências naturais e históricas da época e um treino em dialética por meio da discussão e em retórica por meio do discurso público Os gregos mais ponderados e conservadores não gostavam dos sofistas não viam com bons olhos o fato de eles autodenominarem sábios e de exigirem renumeração pelos seus serviços Esses dois fatos iam contra dois princípios muito valorizados pelos gregos o primeiro era o princípio da harmonia e reverência e o segundo o princípio de que a relação entre professor e aluno devia basearse na estima mútua e não no caráter econômico Dessa maneira surgiu entre os escritores de tendencia conservadora a mais violenta antipatia contra os sofistas Os sofistas em seus ensinamentos acentuavam de forma exagerada o valor da individualidade Entre eles não havia nenhum sistema comum de ideias A única ideia comum era que não havia ideias universais nem padrões universais de conduta Nas palavras de Protágoras um dos maiores sofistas o homem é a medida de todas as coisas Assim o indivíduo situavase num tal nível de independência que ficava acima dos deveres do cidadão Para os sofistas a moralidade devia basearse na razão e não 8 como no antigo período no costume e na tradição Tais ideias realmente encorajavam a tendência ao irrestrito individualismo e muito contribuíram para a desmoralização de Atenas Id ibid p56 8 Os grandes filósofos 400300 aC A Guerra do Peloponeso 431405 aC pela qual Atenas perdeu sua posição controladora do mundo helênico veio ressaltar uma vez mais a importância da força políticomilitar de Esparta e com isso as deficiências do sistema ateniense de educação Ao mesmo tempo porém todos sabiam das limitações da educação espartana O problema portanto consistia em formular ideal educativo que pudesse satisfazer as necessidades institucionais e o bem coletivo e ao mesmo tempo promovesse o completo desenvolvimento da personalidade A oportunidade para que os filósofos gregos reformulassem a teoria da educação nasceu do conflito entre a nova e a velha educação grega Sócrates Sócrates 470399 aC foi o primeiro filósofo a definir o problema do conflito entre a velha e a nova educação grega entre interesse social e individual Ele tomou como ponto de partida o princípio básico da doutrina sofista O homem é a medida de todas as coisas Se o homem é a medidas de todas as coisas conclui Sócrates a primeira obrigação de todo homem é procurar conhecerse a si mesmo E na consciência individual diz Sócrates que se deve procurar os elementos determinantes da finalidade da vida e da educação A consciência individual porém deveria deixar de fundarse em simples opiniões para guiarse por ideias de valor universal O fim da educação então não era dar a informação sem base que aliada a um verbalismo superficial e brilhante constituía o ideal dos sofistas Era ministrar saber ao indivíduo pelo desenvolvimento do seu poder de pensamento Todo o indivíduo tem em si mesmo a capacidade de conhecer e apreciar tais verdades com as de fidelidade honestidade verdade honra amizade sabedoria virtude ou pode adquirir capacidade Nesse tipo de conhecimento é que Sócrates se achava interessado o conhecimento derivado da própria experiência o qual constitui a base de boa conduta Ib ibib p59 Através de seus ensinamentos Sócrates procurava demonstrar que o conhecimento das verdades universais era a base de toda ação virtuosa Assim cada indivíduo deveria adquirir a capacidade de reformular tais verdades O método utilizado por Sócrates para chegar a tais verdades consistia em fazer perguntas para obter dessa forma as opiniões do interlocutor Depois através de outras perguntas levava o interlocutor a descobrir por si mesmo a contradição e o absurdo das opiniões apresentadas A primeira parte do método de Sócrates fazer perguntas para obter a opinião do interlocutor é a ironia Ironia do grego eironeia significa perguntar fingindo ignorar para rirse dos outros A segunda parte fazer outras perguntas para levar o interlocutor a descobrir a verdade é a maiêutica que significa parto ou partejamento do grego maieutikós Maiêutica é a arte de fazer nascer ideias As principais contribuições de Sócrates para a educação foram as seguintes O conhecimento possui um valor prático ou moral isto é um valor de natureza universal e não individualista O processo objetivo para obterse conhecimento é o de conversação o subjetivo é o de reflexo e organização da própria experiência A educação tem por objetivo imediato o desenvolvimento da capacidade de pensar não apenas de ministrar conhecimentos 9 Platão Platão 428348 aC foi outro grande filosofo que teve muita influência sobre a educação grega Ele concordou com Sócrates sobre a necessidade de se procurar uma nova base moral para a vida concordou também que essa nova base deveria se encontrar em ideias e na verdade universal Com relação ao método Platão aceitou e desenvolveu a dialética de Sócrates ele a definiu como sendo um contínuo discurso consigo mesmo Nesse sentido a educação seria um processo do próprio educando mediante o qual são dadas a luz as ideias que fecundam sua alma A educação portanto consiste na atividade que cada homem desenvolve para conquistar as ideias e viver de acordo com elas O conhecimento não vem de fora para o homem conhecimento é o esforço da alma para apoderar se da verdade O papel do educador consiste em promover no educando o processo de interiorização graças ao qual ele pode sentir a presença das ideias A realidade para Platão nada mais é do que a ideia que se realiza ou atualiza Ele compara o mundo sensível a uma caverna iluminada por grande fogueira onde se encontram homens imóveis encadeados de costas voltadas para as chamas Os objetos e os seres que transitam fora da caverna projetam sobre o fundo iluminado das pedras suas formas mais ou menos alteradas Toda a visão dos homens na caverna se reduz a sombras e nisso reconhecem a única realidade Libertados os cativos e voltando eles os olhos para a luz meridiana não perceberão senão confusamente os objetos cuja sombra era para eles a única realidade existente O despertar para o mundo das ideias é um processo gradual Na educação devese levar em conta tanto o corpo como o espírito Os exercícios corporais a cultura estética e moral e a formação científica e filosófica devem constituir o conteúdo da educação A boa educação é a que dá ao corpo e à alma toda a beleza toda a perfeição de que são capazes Uma diferença que convém ressaltar entre Platão e Sócrates referese ao aspecto de quem tem capacidade para adquirir conhecimentos Enquanto Sócrates afirmava que todos têm essa capacidade Platão afirmava que apenas algumas pessoas a possuem Para Platão a visão da verdade eterna era uma função de um sentido especial ou de um sexto sentido um sentido para ideias Por isso enquanto a influência de Sócrates se adaptou à tendência democrática da época a influência de Platão foi mais reacionária Em seus planos ideais de educação ele retornou a um governo aristocrático de natureza socialista Nessa república ideal os filósofos eram os governadores O filósofo é que conhece o bem supremo Só ele pode determinar em que extensão a existência fenomênica se aproxima da ideia e atinge assim o bem Id ibid p 63 Aristóteles Aristóteles 384322 aC outro grande filósofo grego apresentou uma visão bastante diferente da de Sócrates e Platão Enquanto estes dois afirmavam que a posse do conhecimento pelo indivíduo constituía a virtude Aristóteles afirmava que a virtude está na conquista da felicidade e do bem A virtude não consiste no simples conhecimento do bem mas na sua conquista E o bem na sua integridade resumese em bem ser e bem fazer O bem ser é o bem do intelecto ligado intimamente à posse da verdade universal da escola platónica O bem fazer é o bem da ação adquirido através do hábito e representa o aspecto social do ideal aristotélico O bem fazer consiste no funcionamento na vida social das ideias ou princípio de conduta de validez universal A felicidade que é o bem supremo consiste em realizar o que é específico do homem isto é a razão A plena realização do elemento racional humano supõe a realização nos mais diversos aspectos tais como saúde fortuna situação social etc Aristóteles desenvolveu seu conceito de educação partindo da ideia de imitação O que nós animais é apenas capacidade imitativa no homem se converte numa arte O homem se educa na medida em que copia a forma de vida dos adultos Eles e educa porque 10 atualiza suas energias Segundo a doutrina da potência e do ato de Aristóteles a educando é potencialmente um sábio e com a educação ele atualiza converte em ato o que é suscetível de desenvolver Para Aristóteles os fatores da educação humana são os seguintes as disposições naturais natura os meios para aprender are e a prática ou hábito para afirmar o assimilado exercitatio Assim o processo de ensino deve corresponder ao seguinte plano metódico O mestre deve em primeiro lugar expor a matéria do conhecimento Em seguida tem de cuidar que se imprima ou retenha o exposto na mente do aluno Por fim tem de buscar que o educando relacione as diversas representações mediante o exercício Dante Alighieri 12651321 denominou Aristóteles o mestre daqueles que sabem Realmente Aristóteles foi o primeiro grande cientista o maior sistematizador que o mundo conheceu Tão grande foi a influência de Aristóteles que muitos termos da nossa linguagem diária atual têm origem em seu pensamento Palavras como fim indicando o propósito finai e causa os termos forma matéria principio motivo faculdade energia hábito categoria meio as expressões causa final e causa eficiente o sentido de substâncias acidente de atos potência etc são o resultado de seus esforços para sistematizar o conhecimento humano em todos os campos então investigados 9 O período cosmopolita da educação grega 300 aC Tão grande foi a influência da cultura grega que se costuma designar por época helenística o período histórico que se estende desde a morte de Alexandre Magno 323 aC até a conquista do Egito pelos romanos 30 aC Dois fatos caracterizam tal época um é de ordem política ou seja o império de Alexandre se desmembra em vários reinos o outro de ordem cultural a civilização grega se espalha por todo o império A helenização do mundo provocou em grande parte a perda da pureza helénica Não é menos verdade porém que com essa expansão a cultura grega se enriqueceu em muitos aspectos Algumas cidades chegaram a superar Atenas como centros de atração de artistas e sábios Entre elas podemos citar Alexandria no Egito Péfgamo na Ásia Menor e Antioquia na Síria Após a morte de Aristóteles que foi mestre de Alexandre Magno a educação grega sofreu diversas mudanças No domínio do saber ganhou terreno o gosto pela investigação particular Arquimedes Aristarco e outros Primeiramente surgiu o conceito de uma instrução que acolhia simultaneamente os produtos das ciências particulares e mediante a qual tinha de transmitirse aos homens livres a formação cultural Este é o ideal da enkyclia mathémata e dos enkyclios paidéia A palavra enkyclios da qual se serviu Aristóteles designa o habitual e geral Enkyclios paidéia é pois o saber que tem de ser exigido em todo homem culto reunidas formam a palavra enciclopédia DILTHEYW Apud larroyo F Op cit p 186 Na época alexandrina a ciência grega sobre a qual se edificaram a cultura científica e a educação ocidentais achavase organizada da seguinte forma Conhecimentos filológicos Gramática Retórica e dialética A este grupo chamouse mais tarde o trivium Conhecimentos reais Aritmética Geometria Teoria Musical e Astronomia Estas quatro disciplinas receberam o nome de quadrivium Filosofia Metafísica Ética Política etc e Teologia Graças à obra dos gregos durante este período o saber tornouse universal Como consequência surgiram novos tipos de instituições educativas Os principais foram as escolas de retórica as da dialética e de filosofia e as universidades 11 As universidades foram fruto das escolas filosóficas e retóricas Embora existissem diversos grupos de escolas somente duas receberam o título de universidade a Universidade de Atenas que resultou da combinação da Academia escola peripatética fundada por Aristóteles com a escola estóica e a Universidade de Alexandria Durante os primeiros séculos da era crista a Universidade de Alexandria superou a de Atenas como centro intelectual do mundo Após a conquista romana 146 aC a cultura grega foi rapidamente assimilada pelos conquistadores Assim a educação romana foi em parte um aspecto da educação cosmopolita grega CAPÍTULO IV A EDUCAÇÃO ROMANA Os romanos tinham uma mentalidade prática procuravam alcançar resultados concretos adaptando os meios aos fins Enquanto os gregos julgavam e mediam todas as coisas pelo padrão da racionalidade da harmonia ou da proporção os romanos julgavam tudo pelo critério da utilidade ou da eficácia Por isso os romanos sempre consideraram os gregos como um povo visionário e ineficiente enquanto os gregos consideravam os romanos como bárbaros sórdidos com força de caráter e valor militar mas incapazes de apreciar os aspectos superiores da vida MONROE P Op cit p 77 1 O ideal romano de educação O ideal romano de educação decorre principalmente da concepção de direitos e deveres O cidadão romano tinha os seguintes direitos o direito do pai sobre os filhos patria potestas o direito do marido sobre a esposa manus o direito do senhor sobre os escravos potestas dominica o direito de um homem livre sobre o outro que a lei lhe dava por contrato ou por condenação judiciária manus capere o direito sobre a propriedade dominium A tais direitos correspondiam os deveres E para cumprir seus deveres o cidadão romano precisava possuir uma série de aptidões e virtudes Desenvolver tais aptidões era o papel da educação E quais eram essas aptidões e virtudes As principais eram as seguintes a piedade ou a obediência que incluía tanto a ideia religiosa de reverência como a noção de respeito à autoridade paterna a varonilidade ou firmeza que atualmente chamamos de caráter constantia era uma virtude muito valorizada entre os romanos a bravura ou a coragem que impelia o romano a nunca abandonar voluntariamente uma luta antes de ter vencido a prudência que devia ser utilizada principalmente na direção dos negócios particulares a honestidade que consistia principalmente na perfeita conduta em todas as relações econômicas a seriedade gravitas que incluía a sobriedade na conduta a compostura Para o indivíduo todas essas virtudes estavam reunidas no ideal do dever para o Estado no ideal de justiça 2 A família como centro da educação romana Numa educação centralizada na formação do caráter moral das pessoas é evidente que a família desempenha papel muito importante O pai é o principal responsável pela educação dos filhos mas o caráter Pratico do povo romano atribui especial importância à mulher nessa tarefa e em outras 12 relacionadas com o lar A situação da mulher em Roma era mais elevada do que no restante dos impérios da Antiguidade Embora não chegasse a participar da vida pública a mulher exercia grande autoridade dentro da família Era comum na educação de crianças e jovens serem apresentados Exemplos concretos da virilidade romana Nenhum outro povo utilizou tão eficazmente as personalidades de importância de sua própria história E o modelo ideal era em primeiro lugar o ancestral da família depois o da comunidade 3 A imitação como método de educação Enquanto os heróis gregos eram semideuses que dificilmente poderiam ser imitados os heróis romanos ao contrário podiam ser imitados por todo menino romano Por isso a característica fundamental do método da educação romana era a imitação O jovem romano tinha de tornarse piedoso respeitoso corajoso varonil prudente honesto pela imitação de seu pai e de outros romanos cujo heroísmo merecera ser consagrado pelas lendas e histórias do país Esses heróis convém ressaltar eram homens reais que andavam nas ruas de Roma e se reuniam no Fórum Com relação ao método outro aspecto que se destaca é que os romanos rejeitavam como sinais de afeminação o treino ginástico a dança a música a literatura enfim todos os meios educativos utilizados pelos gregos Entre os romanos não havia ginásios Promoviase o desenvolvimento físico nos campos marciais e no acampamento e por meio de exercícios militares completados pela prática real da participação na vida rural De qualquer forma a educação dos meninos era feita ou por um aprendizado dos ofícios de soldado de agricultor de estadista ou pela participação direta nas atividades que lhes seriam requeridas como cidadãos O método romano era pois o método característico da educação prática Aprendiase fazendo a coisa que se tinha de fazer Id ibid p 812 4 A primitiva educação romana 753250 aC Durante esse período predominaram de maneira especial os aspectos que acabamos de mencionar sobre a educação romana O lar era praticamente a única escola Bem cedo porém o menino tornavase o companheiro de seu pai nos negócios públicos e privados na rua no Fórum e no acampamento Davase especial importância à educação moral A disciplina era severa e os ideais eram seguidos rigorosamente Durante a última parte desse período surgiram as escolas elementares que passaram a ministrar os rudimentos das artes de ler escrever e contar Estas escolas eram conhecidas como ludi palavra latina que significa jogo divertimento ou brinquedo Receberam esse nome por que a instrução nas artes de ler e calcular representava uma diversão quando comparada com a educação no lar O mestre dessas escolas tinha o nome de ludimagister 5 A introdução das escolas gregas 25050 aC Através de suas vitórias militares os romanos estenderam seu domínio pela Itália e fora dela A Grécia ao ser transformada em província romana 146 aC passou a influir decisivamente sobre a cultura do conquistador O contato seguido com outros povos fez com que a educação romana deixasse de ser estritamente nacional e passasse a receber grande influência de outros elementos culturais Os militares comerciantes e diplomatas necessitavam do conhecimento da língua grega para melhor desempenho de seus empreendimentos a guerra e a política se tornaram cada vez mais complexas e difíceis a 13 jurisprudência foi se convertendo numa disciplina que exigia certos conhecimentos não mais suscetíveis de serem aprendidos pela audição das dissertações públicas por fim a arte oratória chegou a ser o meio mais eficaz para ocupar as magistraturas ou influir poderosamente na vida social Como se pode compreender a velha escola do ludimasisteja não podia satisfazer por si mesma as novas exigências junto dela se foi gerando um novo tipo de instituições LARROYO F Op cit p 2078 Podemos citar como exemplos de tais instituições as escolas gregas de gramática e de retórica Posteriormente a escola de retórica latina abriu campo mais vasto para esse tipo de educação atingindo maior parcela da população 6 O início do período imperial 27 aC 200 dC Sob o Império que teve início em 27 aC após o término da República ocorreram importantes acontecimentos históricos que precisamos ter presentes para entender as transformações da educação romana Graças à prosperidade material surgiram o luxo e uma aguda visão de classes sociais Muitos exescravos libertos chegam a ser poderosos Os que exercem profissão produtiva como os mestres os artistas e os artesãos vivem à custa dos ricos aos quais rendem honras Com as mudanças históricas a cultura grega continua se impondo nos mais diversos aspectos da vida romana O tipo de saber que tinha maior aceitação no período imperial era a retórica E os gregos eram os grandes mestres nessa arte A escola do retórico em Roma a exemplo da escola dos sofistas ou da dos últimos retóricos gregos ministrava um treino completo em oratória As escolas de retórica eram frequentadas por aqueles que pretendiam dedicarse a uma carreira pública Para o romano a oratória era o meio através do qual ele podia tornar o seu saber útil para os seus semelhantes Os grandes guerreiros da época eram também grandes oradores E muitas vezes eles eram grandes líderes porque eram grandes oradores O orador era maior que o filósofo porque o orador incluía o filósofo As funções desempenhadas na sociedade moderna pelo púlpito imprensa tribuna pública e judiciária debate legislativo mesmo pela universidade eram naqueles tempos desempenhadas pelo orador MONROE P Op cit p 87 Com o tempo a educação retorica se transformou num simples treino para aquisição de habilidades de falar em público sem se preocupar com o conteúdo do discurso Por esse motivo muitos pensadores passaram a censurar tais escolas Para preencher essas deficiências surgiram o estudo da ciência do Direito e da Filologia Assim passou a se tornar indispensável uma formação sistemática do jurista e magistrado Surgiram também os professores de Direito Roma e Constantinopla tiveram os melhores centros docentes desse gênero junto aos quais floresceram as escolas de filósofos e os institutos helenísticos onde se desenvolviam as ciências particulares Tais instituições por sua vez tornaram possível o surgimento das universidades em Roma A fundação do Ateneu centro de cultura no qual retóricos e poetas instruíam a juventude pelo imperador Adriano foi o primeiro passo para a organização das universidades As universidades romanas surgiram não apenas para reunir diversas disciplinas mas principalmente para reunir professores e alunos que a elas se consagravam Na época imperial o sistema de ensino romano compreendia os seguintes graus 1 as escolas dos ludimagister que ministravam a educação elementar 2 as escolas do gramático que ensinavam grego e latim e que correspondem ao que hoje chamamos de curso secundário 3 os estabelecimentos de educação terciária que se iniciaram com a escola do retórico e que acolhendo o ensino de Direito e de Filosofia converteramse numa espécie de universidade 14 7 O declínio da educação romana O que mais caracteriza a decadência da educação romana é o fato de ela ter passado a se limitar à classe mais elevada A educação já não se destina a ser a educação prática de todo o povo mas o ornamento de uma sociedade oca superficial e geralmente corrupta já não é um estádio de desenvolvimento possível para um povo inteiro ou para indivíduos de dada categoria mas a simples obtenção ou mesmo mera insígnia de distinção de uma classe favorecida Quando o antigo vigor político e as oportunidades para as atividades políticas desapareceram quando o governo municipal se tornou mera máquina para coletar impostos quando o exército se encheu de bárbaros a classe superior agora mais numerosa do que nunca voltouse para o único traço remanescente da primitiva Roma imperial sua cultura Id ibid p91 Assim a educação ministrada pela primitiva Igreja Cristã veio gradualmente substituir a decadente educação romana Esta mesmo mantendo sua estrutura apôs os bárbaros terem conquistado o Império Romano do Ocidente em 476 dC perdeu a sua importância social CAPÍTULO V A EDUCAÇÃO MEDIEVAL Por ocasião da invasão dos bárbaros a cultura grecoromana esteve a ponto de ser destruída o que só não aconteceu graças em grande parte à atuação da Igreja Cristã pois somente através da religião foi possível educar os novos povos A educação dos povos europeus na Idade Média portanto teve como ponto de partida a doutrina da Igreja Assim a instrução nessa doutrina e a prática do culto substituíram o elemento intelectual Todos os tipos de educação que se desenvolveram durante o longo período da Idade Média não passaram de modalidades diferentes de preparação para um estado futuro Sob o domínio da Igreja este estado futuro tornouse a outra vida Durante todo este período predominou uma concepção de educação que se opunha ao conceito liberal e individualista dos gregos e ao conceito de educação prática e social dos romanos 1 O cristianismo e o novo ideal educacional Enquanto os filósofos gregos davam mais importância ao aspecto intelectual do homem o cristianismo pelo contrário passou a dar maior importância ao aspecto moral O cristianismo não se baseia no ideal de imediata felicidade nem no de vida da razão baseiase primordialmente na ideia de caridade cristã ou amor que é a expressão mais individual e completa da personalidade humana O novo ideal educacional portanto concentrase no aspecto moral da pessoa humana O ideal educativo do cristianismo é um renascer para um mundo novo do espírito Com o cristianismo surge um novo tipo histórico de educação com normas inéditas de vida e comportamento No Sermão da Montanha Jesus Cristo instaura uma nova visão do mundo e da vida que contrasta ostensivamente com as culturas precedentes fundadas num ideal heróico aristotélico e terreno da existência Bem aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus Bem aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus 2 Os primeiros padres da Igreja o cristianismo e a filosofia pagã Os primeiros padres da Igreja diante das diferenças entre o cristianismo e o saber grego e romano ocupam posições diferentes 15 Clemente de Alexandria 150 215 por exemplo sustentava que os evangelhos eram o platonismo aperfeiçoado e que Platão era o Moisés helenizado Ensinou que a filosofia pagã era um pedagogo para conduzir o mundo a Cristo São Justino 100 165 e Orígenes 185 254 pensavam da mesma forma Mais tarde porém surgem alguns padres que passam a se opor ao saber pagão e especialmente à filosofia grega São João Crisóstonomo 340 407 referindose a tal saber escreve Abandonei há muito tempo tais tolices pois não podemos despender toda a vida em brinquedos de crianças E São Basílio 329 379 escrevendo sobre a educação de crianças resume assim sua posição Temos então de abandonar a literatura Direis Não digo isso mas que não devemos matar as almas Na verdade a escolha jaz entre duas alternativas a educação liberal que podeis conseguir enviando vossas crianças às escolas públicas ou a salvação das suas almas que podeis assegurar enviandoas aos monges Quem deverá vencer a ciência ou a alma Se puderdes unir ambas as vantagens fazeio por todos os meios mas se não o puderdes escolhei a mais preciosa São Jerônimo autor da versão da Bíblia para o latim combateu no campo educacional a disciplina excessiva no ensino de sua época Enfatizou também a importância de se respeitar a personalidade do aluno e de ser criar na escola um ambiente de amizade Santo Agostinho o mais ativo e mais brilhante dos padres da Igreja consagrou sua extensa cultura ao combate às heresias Embora inicialmente admirasse o saber clássico com o passar do tempo essa admiração foi diminuindo Ainda escreveu uma importante obra pedagógica De magistro na qual fala do processo de ensino dentro de uma visão platônica Diz que o órgão de todo aprendizado é o logos ou mestre interior autoeducação que atua por iluminação divina servindose das palavras e sinais como meios de comunicação A teoria da iluminação porém não se ajusta com a ideia platônica de reminiscência pois para o cristianismo a alma não preexiste ao corpo 3 As escolas primitivas A Igreja Cristã Primitiva tinha tinha como principal tarefa reformar a moral de todos a sua volta acaba voltando às atenções para seus próprios membros Quem era convertido à religião cristã passavam por um período de instruções na doutrina cristã Os catecúmenos assim como eram chamados eram os recémconvertidos que antes de serem admitidos oficialmente à Igreja frequentavam escolas onde recebiam instruções de catecumenatos Tempo depois essas escolas passaram a ser organizadas por bispos que preparavam o clero para as igrejas As escolas então passaram a ser denominadas escolas das catedrais por estarem localizadas no edifício da catedral 4 O monarquismo Monaquismo significa a organização de homens que fizeram votos especiais de vida religiosa e vivem de acordo com regras que determinam a conduta nos seus menores detalhes O estudo nos mosteiros ocupava um papel preponderante São Bento 480 547 fundador da ordem dos beneditinos determinou que cada religioso deveria ter sete horas por dia de trabalho que poderia ser manual ou literário Determinou também que cada religioso deveria dedicar de duas a cinco horas de leitura por dia São Basílio estipulou regras semelhantes Desse regime de trabalho imposto aos monges surgiram diversos benefícios para a educação Os principais foram surgimento das escolas para preparação dos jovens aceitos para a vida monástica cópia e conservação dos livros o estudo da literatura 16 formação de um ambiente favorável ao estudo e à reflexão Os mosteiros eram praticamente as únicas instituições de ensino da época Eram os únicos centros de pesquisa as únicas casas editoras para a multiplicação dos livros as únicas bibliotecas para a conservação do saber enfim os mosteiros preparavam os únicos sábios e estudiosos da época Um dos trabalhos mais significativos dos monges no campo educacional foi sem dúvida a cópia dos manuscritos Sem esse trabalho a maior parte das obras do passado não teriam chegado até nós Devese aos monges também a condensação do saber da época nas Sete Artes Liberais que incluíam o trivium Gramática Dialética Retórica e o quadrivium Aritmética Geometria Música e Astronomia O trivium e o quadrivium unidos constituíam o septivium 5 A escolástica O termo escolástica significou inicialmente o conjunto do saber tal como era transmitido nas escolas do tipo clerical O escolástico era o mestre das Sete Artes Liberais ou o chefe das escolas monásticas ou catedrais Mais tarde se deu o mesmo nome aos que escolarmente se dedicavam à Filosofia e à teologia LARROYO F Op cit p299 Num sentido amplo porém podemos dizer que a escolástica é um movimento intelectual oriundo da Idade Média preocupado em demonstrar e ensinar as concordâncias da razão com a fé pelo método da análise lógica A escolástica portanto não se caracteriza por nenhum conjunto de princípios ou crenças mas por um método ou tipo peculiar de atividade intelectual Seu objetivo era apoiar a fé na razão procurando acabar com todas as dúvidas e controvérsias através da argumentação Dessa maneira a educação escolástica visava desenvolver o poder de formular as crenças num sistema lógico A forma científica valorizada era a lógica dedutiva Por isso a escolástica é definida frequentemente como a união das crenças cristãs com a lógica aristotélica A escolástica compreende três períodos o de formação desde o século IX até fins do século XII o de apogeu 1220 a 1347 época de fundação dos grandes sistemas escolásticos o de decadência 9 até últimos anos do século XV caracterizado pela reprodução das doutrinas da fase precedente Os principais representantes da escolástica são Santo Anselmo 10331109 o primeiro a fazer distinção entre saber e crença Santo Alberto Magno 12001280 denominado o Doutor Universal foi o primeiro a reproduzir a filosofia de Aristóteles em forma sistemática Santo Tomás de Aquino 1225 1274 o Doutor Angélico foi o mais influente de todos Sua monumental obra a Suma Teológica representa a culminância da escolástica Com relação ao ensino ele insiste na participação que o educando deve ter em sua formação física e espiritual Santo Tomás admite como Santo Agostinho que Deus é o verdadeiro mestre que ensina dentro de nossa alma porém sublima a necessidade de uma ajuda exterior Deus nos infunde no entendimento os princípios fundamentais contudo as aplicações desses princípios as deduções que deles se originam são obra humana e da experiência No educando o saber está contido só potencialmente o mestre o ajuda levao a atualizálo não no sentido de que se opere sobre sua alma como causa final isto é como modelo que o discípulo tende a realizar Id ibid p303 John Duns Scotus 1266 1308 O Doutor Sutil celebrizouse como fundador de uma escola de teologia rival da de Santo Tomás de Aquino 17 Guilherme de Occam 13001350 o Doutor Invencível negava que as doutrinas teológicas pudessem ser demonstradas pela razão e sustentava que era totalmente matéria de fé 6 As universidades São as seguintes as principais circunstâncias que determinaram o surgimento e desenvolvimento das universidades europeias no século XIII O desenvolvimento interno das escolas monásticas e escolas das catedrais O vigoroso influxo da ciência e da Teologia O desenvolvimento do comércio e o crescimento das cidades que estimularam o interesse pelo ensino O movimento das Cruzadas que tirou a sociedade europeia do seu isolamento O Primeiro nome dado às novas instituições de ensino foi o de Studium generale Isto no entanto não significa que tais instituições em início incluíssem todos os ramos do saber significa apenas que era um instituto geral não local para todos os estudantes preparados sem distinção de raça e nacionalidade Em sua origem um Studium generale podia cultivar e ensinar apenas um ramo do saber podia por exemplo ensinar só Direito Só mais tarde pelos fins do século XIV o nome Studium generale foi substituído pelo de universitas Isto ocorre quando Studium generale chega a organizarse em forma de corporação de mestres e alunos pouco importante que a princípio seus membros se congracem a uma só disciplina À semelhança da expressão Studium generale a palavra universidade adquiriu o sentido de instituição docente e de investigação dedicada com liberdade de mestres e alunos a todos os ramos do saber universitas litterarum Talvez a primeira universidade que congregou professores e alunos organizados por seções nas quatros divisões do conhecimento daquela época Teologia Direito Medicina e Filosofia tenha sido a de Nápoles fundada em 1224 Id ibid p334 Podemos citar entre as universidades mais importantes as de Paris Bolonha Salerno Oxford Viena e Salamanca Durante a Idade Média foi muito grande a influência da universidade Ela forneceu o primeiro exemplo de organização puramente democrática Foi uma das grandes forças da Idade Média a única que a época representava superior do espírito quando não havia outros corpos científicos nem imprensa nem jornais nem revistas Representava também a opinião pública não somente nos assuntos científicos mas também nos grandes problemas políticos e eclesiásticos ou por não existirem corporações políticas regulares ou por estas se reunirem de quando em quando LOS RIOS F Giner de Pedagogia universitária Apud LARROYO F Op cit p341 CAPITULO VI RENASCIMENTO Humanismo e Reforma ARRUDA Maria L A História da Educação PARTE I A nova imagem do homem Quero que ele tenha nascido fidalgo e de casa nobre Que seja conhecido entre todos os outros como ousado forte e leal ao príncipe que serve Que seja como se diz homem de bem isto compreende a prudência a bondade a coragem o domínio de si Acho que sua principal sua verdadeira profissão deve ser a das armas sendo admitido como mestre em todos os exercícios que convenham a um soldado O primeiro a meu ver é saber manejar todos os tipos de armas a pé e a cavalo Acharia também aproveitável que conhecesse a arte da luta Quero que o homem da Corte seja bem instruído nas letras e que conheça não apenas o latim mas o grego Que conheça os poetas e também os oradores e historiadores e além disso que saiba escrever em verso e prosa particularmente 18 nossa língua além do prazer que terá não lhe faltará temas de conversação com as damas Eu o elogiarei também se souber diversas línguas estrangeiras particularmente o espanhol e o francês porque o uso de ambos é muito difundido na Itália Quero ainda mencionar mais uma coisa que visto a importância que lhe concedo não gostaria de ver esquecida é a ciência o desenho e a arte de pintar B Castigllone CONTEXTO HISTÓRICO 1 Humanismo A Renascença europeia é o período compreendido entre os séculos XV e XVI e leva esse nome por representar a retomada dos valores grecoromano Também chamado de Renascimento desencadeia um conhecido movimento como humanismo que significa a procura de uma imagem do homem e da cultura em contraposição às concepções predominantemente teológicas da Idade Média e ao espírito autoritário delas decorrente Embora não signifique que a Renascença seja irreligiosa como veremos a seguir há um esforço para superar o teocentrismo enfatizando os valores antropocêntricos propriamente humanos mais terrenos Durante o Renascimento prevaleceu a tendência um tanto exagerada e até injusta de considerar a Idade Média na totalidade como a idade das trevas ou a grande noite de mil anos Como vimos no capítulo anterior esse longo período não foi de total obscuridade A oposição dos renascentistas deviase antes à recusa dos valores medievais respondendo às aspirações dos novos tempos O retorno às fontes da cultura grecolatina sem a intermediação dos comentadores medievais foi um procedimento que visava também à secularização do saber isto é a desvestilo da parcialidade religiosa para tornálo mais propriamente humano Procuravase com isso formar o espírito do indivíduo culto mundano o gentilhomem A negação do ascetismo medieval revelase na busca de prazeres e alegrias do mundo desde o luxo na corte o gosto pela indumentária cuidadosa até os amenos deleites da vida familiar O olhar do homem desviase do céu para a terra ocupandose mais com as questões do cotidiano A curiosidade é aguçada para a observação direta dos fatos com redobrado interesse pelo corpo e pela natureza circundante Nos estudos de medicina são ampliados os conhecimentos de anatomia com a prática de dissecação de cadáveres humanos até então proibida pela Igreja Uma nova imagem do mundo é construída pelo sistema heliocêntrico de Copérnico Nas artes em geral pintura arquitetura escultura e literatura a criação é intensa e a Itália se destaca como centro irradiador da nova produção cultural Ainda quando persistem assuntos religiosos a visão é humanista prevalecendo temas tipicamente burgueses Por fim acentuouse na Renascença a busca da individualidade caracterizada pela confiança no poder da razão de cada um para estabelecer seus próprios caminhos O espírito de liberdade e crítica opõemse ao princípio da autoridade 2 Ascenção da burguesia A maneira de pensar do humanismo associase às transformações econômicas que vinham ocorrendo desde o final da Idade Média com o desenvolvimento das atividades artesanais e comerciais dos burgueses que eram os antigos servos libertos A Revolução Comercial do século XVI se caracterizava pelo novo modo de produção capitalista que acentua a decadência do feudalismo cuja riqueza era baseada na posse de terras Contrapondose aos senhores da nobreza feudal os burgueses fazem aliança com os reis que desejam fortalecer o poder central contra duques e barões A união leva à consolidação dos Estados nacionais e consequentemente ao fortalecimento das monarquias 19 absolutistas Não por acaso o Renascimento é o período das grandes invenções e viagens ultramarinas decorrentes da necessidade de ampliação dos negócios da burguesia Dessa forma ao destruir as fortalezas do castelo a pólvora fragiliza ainda mais a nobreza feudal a imprensa e o papel ampliaram a difusão da cultura a bússola permite aumentar as distâncias com maior segurança o caminho para as Índias e a conquista da América no século XV alargam o horizonte geográfico e comercial e possibilitam o enriquecimento da burguesia 3 Reforma e Contrarreforma O espírito inovador do Renascimento se manifesta inclusive na religião com a crítica à estrutura autoritária e decadente da Igreja centrada no poder papal Interesses políticos nacionalistas e de natureza econômica sustentavam os movimentos de ruptura representados pelo luteranismo calvinismo e anglicanismo A Igreja católica reagiu prontamente com a Contrarreforma Embora a Idade Média se caracterizasse pela unidade da fé esse consenso esteve ameaçado inúmeras vezes no século XI houve o Cisma Grego que resultou na separação entre as igrejas Romana e Ortodoxa no século XIV por ocasião do Grande Cisma foram eleitos dois papas um em Avinhão na França e outro em Roma Desde o século XII muitas heresias se disseminaram por toda a Europa quando então é criada a Inquisição como instrumento de combate aos desvios da fé As causas desses movimentos não são apenas de natureza religiosa Ventos novos de rebeldia surgiam nas cidades que começavam a se libertar dos senhores feudais e das restrições econômicas como a condenação ao empréstimo a juros feita pela Igreja por exemplo Além disso a teoria da supremacia da autoridade papal é rejeitada porque o universalismo da Igreja contrariava o nascente ideal do nacionalismo expresso na formação das monarquias e no fortalecimento do poder dos reis A crise maior da Igreja no entanto se dá no século XVI com a Reforma Protestante que vinha ao encontro dos desejos de mudança Contrariando as restrições feitas pelos católicos aos negócios e a condenação ao empréstimo a juros os protestantes veem no enriquecimento um sinal do favorecimento divino Lutero recebeu a adesão dos nobres interessados no confisco dos bens do clero e Calvino tem o apoio da rica burguesia Portanto as divergências não eram apenas religiosas mas representavam as alterações sociais e econômicas que mergulharam a Europa em sanguinolentas lutas À expansão da crença protestante a Igreja Católica desencadeia forte reação conhecida como Contrarreforma a fim de recuperar o poder perdido As novas diretrizes tomadas no Concílio de Trento 15451563 que reafirma os princípios da fé e a supremacia papal e determina a criação de seminários para formar padres A Inquisição se torna mais atuante sobretudo em Portugal e Espanha PEDAGOGIA 1 A Secularização do Pensamento A produção intelectual do Renascimento seja na literatura seja na filosofia demonstrava interesse em superar as contradições entre o pensamento religioso medieval e o anseio de secularização da burguesia Já no préRenascimento o florentino Dante Alighieri 12651321 autor da Divina comédia escreve A Monarquia texto político em que elabora teses naturalistas reconhecendo a capacidade do homem de se guiar pela razão Defende a autoridade do rei independente do poder do papa e da Igreja Pouco depois Petrarca 13041374 também poeta italiano descreveu o drama humano entremeado de paixões e desejos No século XVI Maquiavel 14691527 investiga as bases de uma nova ciência política descomprometida com a moral cristã e portanto laica secularizada 20 Nesse contexto de crítica à tradição também a educação procura bases naturais não religiosas a fim de se tornar instrumento adequado para a difusão dos valores burgueses Nem sempre alcançado nas escolas esse ideal é defendido com vigor na obra de literatos filósofos e pedagogos Embora seja grande a produção intelectual na Renascença ainda não há propriamente uma filosofia da educação como sistema de pensamento coerente e organizado com exceção de Vives como veremos adiante O que são muitos esboços da teoria da educação fragmentos de reflexão pedagógica como parte de uma produção filosófica mais ampla Foi o caso de Erasmo Rabelais e Montaigne ou ainda o exemplo das utopias pedagógicas de Tomás Morus e Campanella 2 Vives Juan Luis Vives 14921540 humanista espanhol participa do convívio de Erasmo e Tomás Morus tendo sido preceptor de Catarina de Aragão Quando ela se casa com o rei Henrique VIII Vives a acompanhou à Inglaterra e passa a lecionar na Universidade de Oxford Se no Renascimento não há estudos sistemáticos sobre educação Vives é uma exceção por ter escrito copiosa obra pedagógica cujo principal trabalho é o Tratado do ensino Escreve inclusive sobre a educação da mulher mesmo considerando fundamental sua presença no lar Embora vinculado às ideias aristotélicotomistas Vives revelase homem do seu tempo ao recomendar o cuidado com o corpo e a atenção com o aspecto psicológico no ensino Acompanhando as mudanças do pensamento científico valorizava os métodos indutivos2 e experimentais reconhece a importância da observação dos fatos e a ação como meio de aprendizagem Além disso ao lado do latim insistia na necessidade do adequado estudo da língua materna 3 Erasmo O holandês Erasmo de Rotterdam 14671536 foi um dos principais expoentes do novo pensamento renascentista considerado por muitos um representante do préIluminismo Cristão pertencente à Ordem dos Agostinianos criticou severamente a Igreja corrupta e autoritária e apoiou alguns pronunciamentos de Lutero sem no entanto aderir à Reforma Tratava com ironia a produção intelectual medieval e zombava do formalismo das universidades reduto de escolásticos Erasmo representou a corrente erudita da Renascença que buscava nos clássicos as fontes da sabedoria grega Embora não desprezasse a ciência sua atenção estava voltada sobretudo para questões literárias e estéticas No seu famoso Elogio da loucura critica a hipocrisia e a tolice humanas e todas as formas de tirania e superstições ao mesmo tempo que reflete sobre a necessidade das paixões de uma loucura sábia responsável pelo amor e pelo prazer Entremeando reflexões a respeito da sociedade do seu tempo Erasmo defendia o respeito ao amadurecimento da criança e por isso criticava a educação vigente excessivamente severa Recomendava o cuidado com a graduação do ensino e o abandono das práticas de castigos corporais Ao contrário seria bom mesmo que as crianças aprendessem se divertindo sem a preocupação com resultados imediatos 4 Rabelais François Rabelais c 14941553 frade e médico francês levou uma vida cheia de percalços e perseguições devido à sua pena afiada e crítica mordaz Muitos o identificaram a um epicurista devasso 2 A indução é um tipo de raciocínio que leva à conclusão a partir de dados particulares Ao contrário os pensadores medievais valorizavam a dedução raciocínio que vai do geral ao particular ou ao geral menos conhecido 21 embora outros o descrevessem como um cristão que também não desprezava os prazeres da vida Inicialmente esteve no convento dos franciscanos mas depois foi acolhido pelos beneditinos de sistema mais aberto e cujas regras eram menos severas e no final da vida tornouse padre secular Frequentou diversos cursos nas universidades aprendeu várias línguas formouse em medicina Representa a corrente enciclopédica da Renascença que buscava resgatar o saber grecolatino com igual cuidado pelos recentes estudos da ciência que então nascia Como os demais humanistas de seu tempo criticou a tradição escolástica mas o fez de maneira irônica e saborosa Suas obras foram várias vezes condenadas e proibidas na Universidade de Sorbonne o que o obrigou a fugir às ameaças da Inquisição Rabelais não escreveu uma obra propriamente pedagógica mas nos dois romances satíricos Pantagruel e Gargantua transparecem suas ideias a respeito da educação Tratase de escritos divertidos em que tudo é exagerado a começar pelos próprios personagens gigantes que tinham um apetite descomunal Ao iniciar sua educação o preceptor de Gargantua deulhe de beber o líquido de uma planta chamada heléboro para que esquecesse de tudo o quanto havia aprendido com os seus antigos preceptores Nessa passagem Rabelais quer simbolizar a necessidade de expurgar toda a lembrança da tradição para o novo ensino ser mais bem aproveitado Veja o Dropes 13 em que Gargantua escreve ao filho Pantagruel sobre as expectativas quanto à sua formação Embora tivesse uma sede insaciável de conhecimentos e recomendasse uma aprendizagem enciclopédica criticava o ensino livresco e estimulava a educação do corpo e do espírito Ao contrário dos que o acusavam de imoralidade defendia uma ética de acordo com as exigências da natureza e da vida por isso mesmo deviase aprender com alegria porque o riso é próprio do homem 5 Montaigne Michel de Montaigne 15331592 pertencia a uma família francesa da burguesia que enriquecida com a posse de terras e propriedades conseguira um título de nobreza A educação do menino foi cuidadosa acompanhado por preceptores desde o berço aprendeu latim antes da língua vernácula Montaigne lia com facilidade as obras latinas e escreveu uma série imensa de fragmentos reunidos em um gênero novo o ensaio que bem representa a tendência subjetivista renascentista Ao descrever a si próprio e refletir sobre suas experiências traça o perfil da natureza humana apresentando um indivíduo que tem interrogações dúvidas e contradições o que encaminha seu pensamento para um certo ceticismo4 Mesmo sem produzir obra propriamente pedagógica no seu alentado Ensaio Montaigne dedicou alguns capítulos especificamente à educação Critica o ensino livresco e o pedantismo dos falsos sábios valoriza a educação integral e elogia seu pai por ter sabido escolher os preceptores para educálo com docilidade e sem castigos Para Montaigne a educação tem por finalidade preparar um espírito ágil e crítico valores importantes para a formação do gentilhomem 3 Dropes 1 Nada é mais típico do espírito intolerante da época Contrarreforma o que o tratamento infligido ao Juízo Final de Miguel Ângelo na Capela Sistina Em 1559 Paulo IV encarrega Daniele da Volterra de cobrir as figuras nuas dos afrescos mais provocantes Em 1566 Pio V manda cobrir outras partes ofensivas do afresco Finalmente Clemente VIII pretende fazer destruir todo o afresco e só em virtude da intervenção da Academia de S Luca não realizou o plano Arnold Hause 4 Doutrina segundo a qual o homem nada pode conhecer com certeza os céticos concluem pela suspensão do juízo e pela dúvida permanente 22 EDUCAÇÃO 1 Nascimento do Colégio É impressionante o interesse pela educação no Renascimento sobretudo se comparado com o manifestado na Idade Média principalmente pela proliferação de colégios e manuais para alunos e professores Educar tornavase questão de moda e uma exigência conforme a nova concepção de ser humano Em O cortesão livro publicado em 1528 e muito conhecido na época o italiano Castiglione fez a síntese do modelo de cortesia do cavaleiro medieval e do ideal da cultura literária tipicamente humanista Enquanto os mais ricos ou da alta nobreza continuavam a ser educados por preceptores em seus próprios castelos a pequena nobreza e a burguesia também queriam educar seus filhos e os encaminhavam para a escola na esperança de melhor preparálos para a liderança e a administração da política e dos negócios Já os interesses pela educação de segmentos populares em geral não eram levados em conta restringindose à aprendizagem de ofícios O aparecimento dos colégios do século XVI até o XVIII foi um fenômeno correlato ao surgimento da nova imagem da infância e da família Na Idade Média misturavamse adultos e crianças de diversas idades na mesma classe sem uma organização maior que os separasse em graus de aprendizagem Foi a partir do Renascimento que esses cuidados começaram a ser tomados assumindo contornos mais nítidos apenas no século XVII A fim de proteger as crianças de más influências propôsse uma hierarquia diferente submetendoas a severa disciplina inclusive a castigos corporais A meta da escola não se restringia à transmissão de conhecimentos mas à formação moral O regime de estudo era de certo modo rigoroso e extenso Os programas continuavam a se basear nos clássicos trivium e quadrivium persistindo portanto a educação formal de gramática e retórica como na Idade Média Não foi abandonada a ênfase no estudo do latim com frequente descaso pela língua materna Tal sistema de ensino era duramente criticado pelos humanistas sobretudo por Erasmo e Montaigne As universidades continuavam decadentes impermeáveis às novidades Em 1452 ao se reestruturar a Universidade de Paris a Faculdade de Artes tornouse propedêutica às outras três filosofia medicina e leis lançandose desse modo a semente do curso colegial o que favoreceu a separação mais nítida dos graus secundário e superior 2 Educação Leiga Embora presente em teoria o ideal de secularização do humanismo renascentista nem sempre se cumpria porque a implantação da maioria dos colégios continuava por conta das ordens religiosas Apesar disso por iniciativa de particulares leigos foram criadas escolas mais bem adaptadas ao espírito do humanismo Na Alemanha surgiram as Furstenschulen escolas para príncipes o mesmo esforço de renovação notavase na França nos Países Baixos e na Inglaterra Muitas delas proliferaram na Itália com destaque para o trabalho de Vittorino da Feltre 13731446 considerado o primeiro grande mestre de feitio humanista Convidado para ser o preceptor dos filhos de um marquês em Mântua Itália aí fundou uma escola a Casa Giocosa cuja divisa era Vinde meninos aqui se ensina não se atormento O nome da escola reflete o novo espírito giocosa é palavra italiana que significa alegre e vem do latim jocus ou seja divertimento gracejo e daí jogo Feltre cuidava não só de recreação e exercício físico mas do desenvolvimento da sociabilidade e do autodomínio A sua escola oferecia cursos de equitação natação esgrima música canto pintura e jogos em geral A formação intelectual 23 voltavase para o ideal renascentista da mais ampla cultura humanística com atenção especial ao ensino de grego e latim Embora objeto de cuidado a disciplina pretendia ser menos rude e intolerante Na mesma linha de propostas culturais alternativas surgiram as academias instituições privadas com a intenção de suprir as falhas das universidades Ofereciam a oportunidade de acesso à cultura desinteressada algumas de caráter exclusivamente literário outras filosóficas e só no século XVII apareceram as primeiras academias científicas época em que ocorreu o chamado renascimento científico 3 Educação Religiosa Reformada A Reforma Protestante criticava a Igreja medieval e propunha o retorno às origens pela consulta direta ao texto bíblico sem a intermediação dos padres estabelecida pela tradição cristã católica No plano religioso surgia a característica humanista de defesa da personalidade autônoma que repudiava a hierarquia para restabelecer o vínculo direto entre Deus e o fiel Ao dar iguais condições de leitura e interpretação da Bíblia a todos a educação tornouse importante instrumento para a divulgação da Reforma Ao contrário da tendência elitista predominante Lutero 14831546 e Melanchthon 1497 1560 trabalharam para a implantação da escola primária para todos É bem verdade que nessa proposta havia uma nítida distinção para as camadas trabalhadoras uma educação primária elementar enquanto para as privilegiadas era reservado o ensino médio e superior Apesar disso Lutero defendia a educação universal e pública solicitando às autoridades oficiais que assumissem essa tarefa por considerála competência do Estado De acordo com o espírito humanista Lutero criticava o recurso a castigos bem como o verbalismo da Escolástica Propôs jogos exercícios físicos música seus corais eram famosos valorizou os conteúdos literários e recomendava o estudo de história e das matemáticas A educação proposta pelos protestantes sofreu ainda a influência de Calvino 15091564 teólogo francês que atuou no seu país e em Genebra Suíça 4 Reação Católica O colégio dos Jesuítas Para combater a expansão do protestantismo a Igreja Católica incentivou a criação de ordens religiosas Aqui daremos maior atenção ao colégio dos jesuítas devido à influência que exerceu não só na concepção da escola tradicional europeia como também na formação do brasileiro embora como veremos outras ordens tenham dado sua contribuição Inácio de Loyola 14911556 militar espanhol basco ao se recuperar de um ferimento em batalha viuse envolvido por súbito ardor religioso e resolveu colocarse a serviço da defesa da fé tornandose verdadeiro soldado de Cristo Fundou então a Companhia de Jesus daí o nome jesuítas dado aos seus seguidores Criada em 1534 e oficialmente aprovada pelo papa Paulo III em 1540 a Ordem estava vinculada diretamente à autoridade papal e portanto distanciavase da hierarquia comum da Igreja Por não se retirar em conventos seus adeptos eram chamados padres seculares isto é que se misturam aos fiéis no mundo no século como se costuma dizer A Ordem estabelecia rígida disciplina militar e tinha como objetivo inicial a propagação missionária da fé a luta contra os infiéis e os heréticos Para tanto os jesuítas se espalharam pelo mundo desde a Europa assolada pelas heresias até a Ásia a África e a América Logo descobriram que diante da intolerância dos adultos era mais segura a conquista das almas jovens e o instrumento adequado para a tarefa seria a criação e multiplicação das escolas Daí o traço marcante da influência dos jesuítas a ação pedagógica que formou inúmeras gerações de estudantes durante mais de duzentos anos de 1540 a 1773 Para se ter uma ideia da extensão desse trabalho em 1579 a Ordem possuía 144 colégios espalhados pelo mundo número que chegou a 669 em 1749 24 CAPITULO VII HUMANISMO RENASCIMENTO E REFORMA Do Renascimento a Kant SCIACCA Michele Federico O problema da educação Cap I Humanismo Renascimento e Reforma Do Renascimento a Kant São Paulo Editora Herder 1996 1 Humanismo e Renascimento Parece ser agora ponto assente após os últimos quatro decênios de estudo que não só o Humanismo de Alemanha Holanda mas também o italiano não foram nem uma explosão subitânea de paganismo nem uma irrupção de racionalismo radical Contudo o Humanismo foi igualmente uma revolução dentro da concepção cristã da vida ou pelos menos o início contendo os germes da revolução que depois do Renascimento costuma denominarse pensamento ou civilização moderna O Humanismo nascido na Itália num clima espiritual e cultural fortemente cristão e ainda católico está longe de grandes tentações de heterodoxia Suas ânsias de renovação suas tentativas de crítica suas aspirações de liberdade são indubitavelmente fermentos novos que o distinguem da Idade Média e da Escolástica mas são ainda elementos ativos de uma viva concepção cristãcatólica da vida A renascença de Platão e do neoplatonismo patrístico colocamno sempre na linha de uma filosofia cristã qual é por exemplo a de Santo Agostinho embora diversa da concepção escolástica e antitética do aristotelismo medieval Podese afirmar que a filosofia cristã como tal é humanística porque o seu problema central é o homem e não a natureza física O cristianismo é mais do que uma cosmologia uma antropologia não tem um conceito cosmológico do homem como o mundo grego mas sim uma concepção antropológica do cosmos A antropologia cristã é teocêntrica ou seja nela Deus é princípio e fim do homem e através do homem do universo inteiro Uma tal antropologia tem uma peculiar tensão dialética com um particular e profundo equilíbrio precisamente na relação homemDeus mercê da qual o homem tende para Deus como para seu fim sem aniquilarse nele e Deus que é o princípio de sua existência e providência não lhe nega a autonomia e a liberdade intelectual moral e espiritual Alterar este equilíbrio equivale a romper toda a economia do Cristianismo em dois sentidos opostos ou no sentido e um super teologismo que vai até a negação do homem na onipotência divina ou no sentido de um super humanismo que nega Deus para afirmar só o homem Em tal caso os dois elementos da tensão dialética põemse como teocentrismo absoluto ou como absoluto antropocentrismo um e outro porém não já cristãos muito embora ambos contenham sugestões e motivos tirados do Cristianismo Precisamente de um lado sobretudo o Humanismo italiano tende a acentuar a presença do divino no homem sem todavia resolver imanentisticamente o divino no homem Do outro lado o Humanismo europeu tende a acentuar o elemento religioso e transcendental sem ainda negar o homem em Deus Do Humanismo com tendência antropocêntrica surgiram as correntes nacionalistas filosóficas e científicas como também as imanentistas e historicistas que caracterizam o pensamento moderno do Humanismo com tendência superteológica brotaram os movimentos religiosos a começar pelo luterano Por outro também o Protestantismo comunicou forte impulso ao mais temerário e exigente pensamento crítico e irracionalista como também às formas mais coerentes de imanentismo Notemos por último que a problemática nascida com o Humanismo o Renascimento e a Reforma num entrelaçarse e oporse de motivos complexos é ainda viva e operante no pensamento e na cultura contemporânea Como dissemos a crise da Escolástica começa com o divórcio da fé e da razão pelo qual a teologia e a filosofia tendem a constituirse juntas reivindicando sua autonomia se rebelam contra a autoridade religiosa representada pela Igreja A concepção política medieval entra igualmente em crise da desagregação do Império nascem os Estados nacionais os quais como já Occam os novos teóricos da política defendem a autonomia e também a supremacia em relação à Igreja Da crise da Escolástica sai amadurecido o Humanismo que não é antirreligioso embora reaja contra a escolástica decadente Com efeito a escolástica decadente apresenta caracteres negativos tais como a preponderância das 25 sutilizas silogísticas e do formalismo lógico abstrato o abuso demasiado do princípio de autoridade a rígida separação de natureza e de sobrenatureza até tornar uma estranha à outra a persistência de um aristotelismo estéril e arrogante nocivo ao progresso do pensamento e ao próprio Cristianismo etc É contra esta escolástica que reagem o Humanismo e o Renascimento a fim de libertar dos esquemas do formalismo lógico o conteúdo vital e concreto do Cristianismo incutir novo e vigoro impulso à investigação sobre o homem e ao progresso das múltiplas formas de sua atividade O Humanismo e o Renascimento são um vasto e profundo movimento cultural riquíssimo em motivos e em correntes que mergulha suas raízes nos séculos XIII e XIV floresce com grandioso esplendo nos séculos XV e XVI se prolonga nos séculos subsequentes Galileu e Vico são ainda filhos do Renascimento e como momento de cultura representa um valor perene na história da humanidade As exigências e os problemas da Idade Moderna encontram sua primeira formulação ou pelo menos sua raiz na cultura do Humanismo e do Renascimento movimentos preponderantemente italianos O Humanismo e o Renascimento que no fundo são dois momentos de um único movimento têm em comum os caracteres fundamentais afirmação do valor e da dignidade da natureza humana livre investigação da natureza física sem os limites impostos pela autoridade de Aristóteles e sem interferência da autoridade religiosa no campo da razão e da experiência Neste sentido pode muito bem dizerse que o naturalismo constitui a alma do Humanismo e do Renascimento naturalismo do Humanismo que tem como objetivo a natureza integral humana naturalismo do Renascimento que tem como objeto a natureza física Duplo naturalismo que no fundo é um só visto como a natureza humana ao celebrarse a si mesma celebra todo o criado e uma vez que na indagação da natureza física e no conhecimento do mundo se exalta a potência dos meios cognoscitivos do homem a posse que a humana razão e a experiência adquirem da realidade circundante É um erro crer que o Cristianismo desvalorize a natureza humana e a natureza física O resgate da matéria o reconhecimento da dignidade e da liberdade da pessoa humana são próprios da intuição cristã da vida O Cristianismo é precisamente afirmação da natureza em sua integralidade e plenitude espiritual e corpórea Mas isso é restauração do criado enquanto obra de Deus exaltar o divino no homem e as coisas tomam seu valor O sobrenatural eleva o natural enriqueceo preencheo não o nega O Humanismo e o Renascimento que têm a paixão do homem e da natureza advertem profundamente que a ordem natural é tanto mais integra e perfeita quanto mais penetrada está pela Ordem divina Por isso tanto um como o outro através de seu amor pelo mundo clássico e da magnificência pagã são em sua essência dois momentos de aprofundamento da visão cristã da vida Os filósofos do Humanismo e do Renascimento não só negam a verdade cristã senão que encontram nela alimento para suas audácias metafísicas o incentivo que anima as asas por vezes poderosas de seu pensamento Seus temas são ainda os temas da escolástica mas o modo e a liberdade com que os propõem e discutem já não são escolásticos Neste sentido Humanismo e Renascimento são também dois momentos de desenvolvimento e de complementação do pensamento medieval À Idade Média sem desvalorizar em suas sínteses não caducas a natureza humana e a natureza física concentrara preponderantemente sua atenção no aspecto sobrenatural da vida como acima deixamos dito os interesses teológicos haviamlhe impedido fazer da natureza o objeto específico e de sua investigação As exigências científicas de Alberto Magno e do Rogério Bacon como o naturalismo de Occam são atitudes que não logram caracterizar a especulação medieval a qual permanece orientada para o sobrenatural e aderindo dogmaticamente à física aristotélica e à cosmologia ptolomaica O Humanismo e o Renascimento apelando para as forças da razão e da experiência despedaçam pouco os fios sutilíssimos deste tecido de silogismos e abrem caminho à descoberta do método científico De certo a acentuação da presença do divino no homem e na natureza por vezes vai ao extremo de tornar Deus imanente nas coisas panteísmo ou de exaltar o homem como se ele fosse Deus Deste ponto de vistas os dois movimentos apartamse da tradição cristã e preparam o racionalismo e o imanentismo do pensamento moderno 26 Depois de tudo quanto deixamos dito fazer consistir todo o Humanismo só no reflorescimento da cultura clássica é pelo menos unilateral e é superficial limitarlhe o alcance ao retorno aos studia humaniora ou seja a imitação dos modelos a literatura latina e grega5 Certamente o aprofundamento do estudo da latinidade no século XIV Petrarca Boccacio Alberto Mussato Colluccio Salutati etc e o amor pelo estudo dos clássicos grecoromanos no século XV constituem uma das características do Humanismo e precisamente o prevalecimento da cultura humana litterae humanae sobre a cultura teológica litterae divinae esta última própria da Idade Média Mas o verdadeiro humanista não o humanista gramático e pedante empenhase em penetrar a alma e o espírito dos clássicos para descobrir os valores humanos neles contidos para entusiasmarse ao contato das antigas virtudes e dos heróis vivificados pelo sopro da arte imortal O humanista colhe na humanidade clássica valores válidos para a humanidade enquanto tal a saber aquilo que o classicismo contém de perene e encontra como os antigos Padres da Igreja que estes valores não se opõem à concepção cristã da vida e do homem pelo contrário verifica que o Cristianismo é o primeiro a adquirir consciência de tais valores e a aprofundálos incomensuravelmente O humanista capta o valor da humanidade clássica na expressão artística a visão humanista da vida é preponderantemente estética no melhor sentido da palavra O culto do belo penetra a vida da Itália na época esplendida das Senhorias nos magníficos palácios como na elegância do livro na elegância do vestir como na gentileza dos costumes E não é só esteticismo exterior é com frequência beleza interior harmonia e equilíbrio espiritual O humanista tem o gosto da vida e ainda hoje nós que perdemos em parte este gosto nos quedamos embravecidos ante uma construção arquitetônica ou códice de século XV Nesta visão da vida não se pode falar de paganismo essencial embora inegavelmente o Humanismo se haja manifestado não raro em formas pagãs ou paganizantes mas a sua essência reside no redescobrimento do valor do classicismo dentro da intuição cristã As exagerações pagãs são a parte caduca e estéril o mesmo a parte puramente literária e podemos dizer retórica Portanto parece ser pelos menos exagerada a tese da chamada ruptura ou oposição que certas correntes historiográficas modernas quiseram ver entre o Humanismo e a Idade Média como se depois de treze séculos de Cristianismo tivesse sido possível uma retomada do paganismo puro e simples Pelo contrário tanto o Humanismo quanto o Renascimento tomam da Idade Média os germes vitais da cultura moderna elaboram numa nova síntese os valores próprios do Cristianismo e os da antiguidade clássica transmitindo aos séculos futuros a luz da civilização Naturalmente não precisamos cair no exagero oposto de um Humanismo e Renascimento integralmente cristãos e ortodoxos quase uma continuação pura e simples da Idade Média e da Escolástica Em nosso entender os séculos XV e XVI apresentam aspectos religiosos e aspectos não religiosos formas de ascetismo medieval e outras formas de intenso apego à vida Mas o elemento religioso mantémse ainda vivo e operante a alegria de viver ora é perturbada pelo senso de caducidade das coisas ora é bruscamente substituída pelo apelo a Deus quando não é reivindicação de um cristianismo ativo e operoso Humanismo e Renascimento representam uma nova forma e vida que já não é a da Escolástica precisamente pelo afastamento do céu em relação à terra de Deus em relação ao mundo afastamento que eles iniciam mas considerando o problema religioso com uma urgência e 5 Ao Humanismo literário devese sem dúvida o progresso dos estudos filológicos e em parte o artístico Mas deveselhe igualmente aquele formalismo de língua e de estilo em que se estagna uma parte da cultura humanística que incapaz de penetrar no espírito da civilização clássica detémse superfície e na idolatria dos modelos grecolatinos Além disso tal Humanismo espicaçado pelo fanatismo dos clássicos rompe com a tradição medieval que considera inculta e bárbara contrapondolhe precisamente o esplêndido formalismo linguístico e na arte o clássico ao gótico e ao românico Ao invés o melhor e verdadeiro Humanismo continua e aperfeiçoa o processo de apropriação da antiguidade iniciado justamente na Idade Média e também sob este aspecto apesar da diversidade há continuidade entre as duas grandes épocas Contudo é necessário precisar que a exigência filológica dos humanistas é também exigência de historicidade Na Idade Média doutrinas e filósofos eram manipulados e assimilados sem qualquer preocupação histórica como se tudo houvesse ocorrido fora do tempo Pelo contrário o humanismo empenhase em descobrir textos e restituílos à sua forma autêntica a fim de colher o genuíno significado dos escritores clássicos A filologia exprime a exigência de reconstruir a cultura em sua evolução histórica 27 por vezes com uma intensidade que nem na própria Escolástica se encontram e que relembram a época da Patrística à qual de fato apelam contra a escolástica decadente e contra o aristotelismo Basta pensar nos grandes movimentos religiosos que culminam na Reforma protestante e na Contrarreforma católica Por outro lado importa notar que tanto Savonarola na Itália como Lutero na Alemanha embora tão distantes um do outro representam uma reação à mundanidade humanismorenascentista que chegou a penetrar na Corte pontifícia Mas precisamente esta mundanidade à parte suas imortais manifestações artísticas comporta outro valor positivo fundamental o interesse pelo particular concreto que a Escolástica havia descurado ou subordinado ao interesse pelo universal Captar o concreto humano e o concreto natural eis as duas exigências típicas do Humanismo e do Renascimento Concreticidade do homem e concreticidade da natureza estão lançados os alicerces para a fundação da História e da Ciência no sentido moderno A Escolástica voltada mais para o eterno do que para o contingente ignorou na maneira como hoje as concebemos a ciência e a história se bem que a ciência tenha suas origens justamente na Escolástica Bacon Occam e a história em S Agostinho Em suma o Humanismo italiano tem uma alma cristã mas faltalhe um calor religioso propriamente dito nem cogita reformar a sociedade cristão do seu tempo Savonarola que vive dentro do Humanismo sobre este aspecto é uma exceção antihumanística Pelo contrário na Alemanha França e Inglaterra o Humanismo como alguém escreveu orientase desde o início para o ideal religioso e cristão de uma humanidade reconduzida não só doutrinalmente mas também em sua vida prática a pureza faz fontes evangélicas Ficino por exemplo não apela para a Escritura mas para os princípios filosóficos do Cristianismo ERASMO DE ROTTERDAM 14671536 ao invés lança já a terra as sementes de uma reforma religiosa Seu humanismo é também programa de vida cristã retorno a vida de Cristo e dos apóstolos regeneração da vida religiosa por meio do renascimento da cultura No Elogio da loucura por exemplo é vivaz e pungente a sátira da vida religiosa Tendencias reformadoras da Igreja em sentido humanístico mas ortodoxo são evidentes igualmente na Utopia de Tomás Morus de quem falaremos mais abaixo Resumindo o mundo humanístico cultiva o ideal de uma renovação religiosa que depure a vida cristã e a tradição católica revigore o dogma e conceda maior liberdade à pesquisa também no âmbito da ortodoxia Depois que Lutero afixou às portas da igreja de Wittenberg as suas famosas teses sobre as Indulgências o muno humanístico da Europa nutriu a esperança de uma renovação religiosa sem cismas nem heresias À esperança foi de curta duração e bem depressa a Reforma provou também a ruptura com o humanismo se bem que por diversas vias acabe mais tarde por voltar a adotar alguns aspectos dele 2 A Reforma Segundo a crítica alemã e protestante o Humanismo preludiou a autonomia do homem e o Renascimento a da Natureza A Reforma com os princípios do livre exame e da autonomia religiosa e com a rebelião contra a autoridade da Igreja de Roma desenvolveu e completou as novas verdades do mundo moderno6 Não resta dúvida de quem MARTIN LUTERO 14831546 não obstante sua mentalidade e cultura serem ainda medievais assentou um golpe decisivo na Idade Média desfez a autoridade universal do Papado e do Império e iniciou o processo de secularização os valores que caracteriza a modernidade O mesmo Lutero por outro lado com as doutrinas da fé salvadora sem as obras e do servo arbítrio ou do homem escravo do pecado e remido somente pela graça chegar a autonomia do homem e a instaurar um novo e escuso misticismo Daqui o paradoxo luterano do máximo de liberdade religiosa e do nada de liberdade o crente perante Deus da nulidade das obras e ao mesmo tempo da eficácia da fé que se faz estimulo invencível de livres iniciativas 6 Tal interpretação além de tudo o mais pretende minimizar a importância do Renascimento visto consideralo só como movimento preparatório da Reforma da qual toda a civilização posterior seria um desenvolvimento e um apêndice como se o mundo inteiro a partir da rebelião de Lutero fosse filho da Alemanha 28 Paradoxo mas acrescido de contradição enquanto é escravo o homem carnal mas é livre o homem espiritual regenerado pela graça por meio da fé a única como se lê no Tractatus de libertate humana capaz de libertar o homem da escravidão da carne O grande monge agostiniano inverte a relação entre a fé e as obras o homem novo não nasce das obras que nunca podem ser boas por causa da corrupção do pecado mas do homem renovado pela fé e pela graça nascem as obras boas A renovação interior operada pela fé e a suprema liberdade do cristão é o que o faz senhor de todas as coisas O homem cristão escreve Lutero é tão elevado acima de todas as coisas pela fé que se torna espiritualmente senhor delas visto como nenhuma coisa pode prejudicar a sua beatitude antes todas as coisas devem serlhe sujeitas e ajudalo na beatitude Só a obra da fé chega até Deus E neste ponto deparamonos com o princípio formativo da moral social de Lutero da fé procede com sua manifestação o operar no mundo a obra de Deus Deus quer operar simultaneamente com a sua obra e mediante ela O cristão apoiado na renovação interior da fé e seguro de que nele opera Deus sentese não só livre mas também autônomo em frente de todas as potencias leigas e eclesiásticas Já não há distinção entre leigos e sacerdotes Da fé nasce a nova nobreza cristã como se expressa Lutero em seu escrito polêmico À nobreza cristã da nação alemã E se todos os regenerados são sacerdotes todos com uma fé e com um Evangelho porque não deveriam ter todos a capacidade de julgar os que é justo e o que é injusto em relação a fé É o princípio do livre exame afirmado a base da fé regeneradora do homem carnal e por isso libertadora do pecado e estímulo para obras boas O paradoxo escravidão da vontade pecaminosa e liberdade da vontade remida pela fé resolvese na afirmação do poder da vontade tornando eficaz pela graça redentora e operante O cristão remido interiormente pela fé é o homem novo rege precisamente quando se sente instrumento de Deus no mundo Lutero no fundo o teórico do servo arbítrio diviniza o homem O cristão remido interiormente pela fé é o homem novo regenerado pela graça é o instrumento de Deus que opera nele e por meio dele O homem é aniquilado em Deus mas ao mesmo tempo precisamente aniquilandose em Deus sabe que através de sua pessoa é Deus que opera no mundo O cristão humanista sentindose embora cristão crêse renovado e tornado sobrehumano por meio da cultura o cristão luterano sentindose embora acima do mundano crêse tornado sobrehumano pela fé e estimulado a operar no mundo como instrumento da graça divina Sem dúvida o problema da liberdade nas relações com a graça permanece teoricamente insoluto e a própria liberdade permanece negada mas praticamente esta liberdade reencontrada na sua negação em Deus é fonte de iniciativas e de obras é poder da vontade Disto é prova o movimento anabatista que passou despercebido ao próprio Lutero endereçado impetuosamente a refazer o mundo pelo modelo do Evangelho a destruir toda autoridade e toda lei e a instaurar um comunismo de bens Lutero reivindica como dissemos a liberdade absoluta do cristão no domínio espiritual religioso contudo em consequência de sua doutrina sobre a natureza humana corrompida pelo pecado na esfera terrena sujeita sem remédio o cristão aos poderes seculares ou a autoridade constituída Ao crente deixa a pura liberdade interior da fé Também a hierarquia civil é instituída diretamente por Deus e por tal motivo mesmo quando mal empregada conserva sua plena legalidade a qual o cristão deve submeterse O cristão embora oprimido permanece livre no espírito A lei e a autoridade boas ou más devem sempre ser obedecidas com espírito de submissão e paciência Disto é prova a solidariedade de Lutero aos príncipes na revolta dos camponeses a sedição dos quais ele condena como obra de homens carnais que combatem para usurpar os bens mundanos Lutero acaba por exaltar o império da espada e da vingança por fazer a apologia a representação e preconizando Hegel por dar uma justificação ética da guerra Não creio que Lutero se tenha solidarizado com os príncipes ou com os mais fortes por oportunismo penso que o fez por coerência com suas doutrinas teológicas Quer dizer os mais fortes os representantes da autoridade civil também está de origem divina são os assistidos pela graça e portanto os verdadeiros instrumentos de Deus Ao invés os deserdados precisamente por serem tais e incapazes de suportar os sofrimentos corporais mostram ser homens carnais ou escravos 29 do pecado os rejeitos os não escolhidos Para eles é necessário o azorrague do furor divino a lei da força impiedosa ou seja a espada do Príncipe instrumento de Deus Assim de um lado Lutero codifica a estatolatria a obediência cega à autoridade constituída e a lei a necessidade de guerra o outro lado com um pessimismo igual ao de Maquiavel sanciona a condenação da maioria como sendo escrava de instintos e cobiças e portanto como a que é governada como um punho de ferro Acresce que Lutero exige das autoridades civis ordenações radicais em favor da autarcia econômica alemã e pela primeira vez exalta o messianismo da raça e a missão providencial do grande império alemão Basta isto para explicar toda a concepção alemã do Estado e da lei o militarismo prussiano a exaltação do uso da força a famosa disciplina germânica a política de seus chefes de Estado e de governo o tradicional antiliberalismo da Alemanha e duas guerras mundiais O servo arbítrio como potência de vontade exaltarse na vontade de potência do Estado e de raça que por sua vez se exalta na guerra vida dos povos como dirá Hegel o eminente teórico juntamente com Fichte da Alemanha moderna e de sua divina missão7 A parte as diferenças de orem religiosoteológica que não nos interessam aqui também para o suíço ULRICO ZUINGLIO 14841531 o homem perante Deus é nada e não é capaz de coisa alguma Deus determinao de todos os lados pela lei da predestinação o homem não é senão um instrumento nas mãos de Deus a ação divina é infalível e irrevogável O homem sujeito a vontade divina tornase independente de todas as coisas terrenas confiante que os males os danos os obstáculos que tem de superar tudo enfim terminará bem O predestinado de Deus é todo força e ação move tudo a predestinação é poder de vontade A força interior da fé tornarse visível na sua ação transformadora e formadora da sociedade cristã A fé tem sua regra na lei moral expressão também está da essência de Deus Daqui o caráter jurídico da religiosidade de Zuinglio e o maior valor por ele atribuído ao Antigo Testamento relativamente ao Novo A religião convertese em ética social Seus corolários são o mundanismo inevitável desta religiosidade que também se fundamenta na interioridade da fé e a sua exteriorização na sociabilidade Um outro problema se apresentava a Zuinglio como formar uma sociedade e fazer dos preceitos do Evangelho uma ética social Segundo esses preceitos o cristão não deve interessarse de forma alguma pelo dinheiro deve distribuílo todo aos pobres deve absterse de empunhar a espada etc sabemos que os anabatistas em nome da vida apostólica apelavam para a observância destas doutrinas Lutero qualificouos de homens carnais e justificou a repressão da revolta por parte dos Princípes pela necessidade de punir pelo sangue as cobiças humanas Zuinglio neste particular muito próximo do reformador alemão distingue entre uma ordem interior da sociedade que poderia valer numa comunidade de santos e uma ordem externa necessária para a humanidade pecadora Baseandose nesta distinção considera ele indispensável o direito de propriedade para garantir a natural esfera da ação individual e o esforço ativo e laborioso de nossa vontade Como preceito moral que se deve seguir para nos avizinharmos da perfeição indica a beneficência Deste modo são lançadas as bases da nova 7 A Reforma tendose constituído em religião positiva foi obrigada a cristalizar em formulas dogmáticas ela faz seus os dogmas até aos Concílios de Nicéia e de Calcedônia numa escolástica Além disso malgrado a aversão de Lutero ao aristotelismo escolástico o protestantismo para assumir forma doutrinal viuse obrigado a expressar o conteúdo de sua fé nas velhas fórmulas filosóficas Encontrou seu filósofo em FILIPE MELANCHTHON 14971560 que introduziu na Alemanha o aristotelismo humanístico exercendo com suas obras um domínio quase incontrastado durante sois séculos nas Universidades protestantes A obra de Lutero como a dos demais reformadores concerne quase exclusivamente a teologia Pelo contrário são vivíssimas as exigências filosóficas na mística protestante rica em motivos sugestivos e não privada de potentes instituições Entre os místicos sobressai JACOB BÖHME 15751624 segundo o qual a tese luterana o pedaço e da corrupção da natureza humana é entendida como expressão de poder obscuro do mal contra o qual se quebram todos os esforços Para Böhme o mal tem sua raiz no próprio Deus que portanto é trabalhado por um dissídio íntimo dividido entre a ira e o amor Deus manifestase no mundo participa nas vicissitudes deste na eterna luta do mal e do bem das trevas e da luz que deve derivam e revelase através do conflito das duas forças opostas Este dualismo metafísico é desenvolvido na maior obra de Böhme Aurora nascente 1610 o filósofo conhece o dealbar do dia quando penetrando o sentido de si mesmo e da luta cósmica alcança as divinas raízes de um e outra Assim se torna consciente da eterna vicissitude de todo e do mistério que o envolve que é o próprio mistério de Deus 30 sociedade burguesa e capitalista própria dos Países reformados da Suíça à Inglaterra e mais tarde aos Estados Unidos da América Também para JOÃO CALVINO 15091564 o rígido e solitário codificador da religião reformada nas Intitutiones christianae religionis a natureza após o pecado é corrupta a razão entenebrecida e a liberdade nula Entre o homem corrupto e o onipotente Deus só existem relação ao súdito que obedece cegamente e patrão ou soberano que comanda A onipotência de Deus é vigilante eficaz poderosa continuamente em ato O que santifica a vida do verdadeiro cristão não é a imitação de Cristo mas sim a sujeição a Deus Mas o calvinista profundamente convencido da iluminação interior da fé seguro de que Deus está com ele por um lado concentra toda a sua vida na religião e por outro lado absorve toda a religião na sua vida prática na sua atividade operante cada ação da qual é ação de Deus Como foi salientado o fiel de Calvino não imagina ser um eleito um predestinado mas sentese eleito e predestinado certificando o seu sentir por meio de uma atividade enérgica e operosa A força verdadeiramente sobre humana das igrejas calvinistas no período heróico das lutas com a Contrarreforma o seu espírito de sacrifício e martírio bem como o seu fanatismo têm aqui sua primeira raiz E têm igualmente aqui sua raiz a organização econômica e o poder dos Países reformados CAPITULO VIII DIDÁTICA GERAL Um olhar para o futuro Maria Ralneldes Tosi 1 Idade Moderna Tanto a política como a filosofia neste período têm avanços diferenciados através dos séculos No século XVI o conjunto de universidades cresce e estimula os letrados para o trabalho do magistério para a grande massa populacional mormente nos países que adotaram o protestantismo visto que todas as facções estimulavam a leitura e interpretação pessoal da Bíblia Assim ao lado de grandes universidades saxônicas bretãs austríacas suíças iugoslavas foi se estabelecendo um présistema escola com o ensino das primeiras letras primário e uma fase posterior preparatória para a universidade secundário cursos abertos a quem os desejasse Neste século e posteriores com raras exceções o método não se altera ensino livresco decorativo com disciplina rígida e a adoção do Trivium e do Quadrivium O conhecimento científico se fez representar no Colégio de França de 1518 que em 1530 elencou as seguintes matérias Retórica Direito Civil Filosofia Matemática Botânica Medicina Cirurgia Árabe Em princípio o Colégio era independente mas com o crescimento de sua importância foi incorporado pela Universidade de Paris Essa incorporação foi importante na medida em eu pensadores como Rabelais passaram a criticar violentamente o processo educativo fundamentado na mera decoração de textos indexados isto é de caráter religioso e permitidos pela Igreja No século XVII as universidades perdem seu prestígio popular graças à seleção excessiva de seus candidatos O mundo intelectual cria as Academias ou sociedades científicas que não outorgam títulos mas viabilizam as pesquisas dentro das ciências naturais A ciência da Educação cresce aí com os trabalhos de pesquisa de João Ammos Comenius natural da BoemiaAlemanha criador o primeiro livro conhecido com questões específicas de Didática Magna Em outras obras ensina que a aprendizagem se dá do concreto para o abstrato obedecendose o desenvolvimento psicológico dos alunos que para o educador constituíam o objeto da educação Tais ideias hoje consideradas inquestionáveis foram altamente revolucionárias à sua época Com elas Comenius será considerado o precursor da Escola Nova No século XVIII a exaltação à razão iluminadora do saber Iluminismo proposta pelos franceses provoca reflexões educacionais quando discute o emprego dessa razão no processo de 31 aprendizagem A educação considerada fundamental e católicos e protestantes criam uma série de confrarias religiosas com preocupações especificas de ensino Sem alterar os esquemas de conteúdo método e disciplina tradicional os católicos criam as irmandades beneditinas e piaristas Os protestantes criam a escola janseniana cujo nome se liga ao bispo Conrnellius Otto Jansen dos Países Baixos escola essa também conhecida como de Port Royal Propõe então uma inovação metodológica inspirada no inglês Frances Bacon o método lúdico por meio de jogos num clima que abole os castigos físicos para cultivar o intelecto e a vontade A Inglaterra também sob a égide do protestantismo difundiu teorias educacionais consideradas avançadas por intermédio particularmente de John Lucke o ensino deve se processar com técnicas pedagógicas fundamentadas no processo psicológico os programas dever ser mais ricos conteúdos científicos devem ser introduzidos nos currículos Embora importantes tais propostas não forma implantadas por falta de recursos mas como literatura foram amplamente difundidas A Suíça apresenta para o mundo o trabalho de Pestalozzi com o ensino no trabalho com crianças abandonadas nas ruas Sua inspiração foi Rousseau mas alugando palácios para cuidar de seus alunos sem ter apoio financeiro teve que abandonar seu projeto prático embora difundido por escritos e palestras que proferiu A França será fonte inspiradora da criação da primeira escola preparatória de professores para o ensino básico Seu criador foi João Baptista de La Sallle Atuaria junto a pessoas leigas que trabalhavam como professores sem o menor preparo Segundo o autor estavam mais a prejudicar que a ensinar as primeiras letras Essa escola portanto é a precursora das atuais Escolas Normais É francês um dos maiores iluministas filósofo e psicólogo também considerado um dos precursores da Escola Nova Jean Jacques Rousseau É dele a proposta de que a sociedade somente se modificará quando se estabelecer uma revolução políticasocioeconômica Graças a ele outros autores foram incentivados a propor uma educação universal laica e na língua nacional Turgot um de seus seguidores pela primeira vez propôs que a educação se fizesse de forma sistemática isto é dentro de um plano que organizasse o ensino de todas e em cada uma das fases de aprendizagem dos alunos Essa proposta foi importante pois a Igreja Católica mantinha a prioridade na manutenção das escolas Para outras não havia apoio financeiro portanto segregava muitos que desejassem estuar não havia modelo pedagógico portanto não se propunham formas alternativas e coletivas de ensino Em 1792 a França cria legalmente o primeiro sistema educacional conhecido três níveis sistema político laico gratuito somente para o primeiro com conteúdo distribuído entre a leitura a escrita o cálculo para o primário O secundário com as ciências avançadas matemática ciências naturais ciências sociais e ética Seguiase o ensino profissional e no ápice a Sociedade Nacional das Ciências e Artes Evidentemente que assolada por problemas políticos econômicos e sociais a lei não pôde ser colocada em prática mas ficou o modelo teórico que será seguido por quase todos os países inclusive pelo Brasil fundamentado nos ideais iluministas Liberdade Igualdade e Fraternidade No século XIX se o século anterior foi tão rico o ponto de vista educacional este teve experiencias mais na área políticoeconômica Fundamentandose nos ideais iluministas franceses mais se discutiu a formação das ideologias liberalcapitalista e socialistacomunista que se verá oportunamente que propriamente a educação Essas discussões entretanto serão fundamentais na era que se segue Dentro dele um método até hoje aplicado é o do inglês Joseph Lencaster que juntamente com Andrew Bell criou o método de ensino monitorial lencasteriano segundo o qual alunos mais velhos e adiantados duplicavam seus conhecimentos para 20 colegas mais novos e despreparados Com esse método Lencaster pretendia o rápido desaparecimento do analfabetismo Hoje com essa técnica as universidades pretendem a introdução dos graduandos no magistério do Ensino Superior 32 No século XX ao final o século XIX política e filosoficamente os países já haviam estruturado melhor Ao lado da França a Inglaterra a Alemanha e a Rússia no velho mundo e os Estados Unidos da América do Norte já tinham mais clareza sobre o que pretendiam para a educação Congressos disseminaram e discutiram pesquisas e projetos conferências internacionais possibilitaram troca de informações Alguns trabalhos modelos são amplamente reconhecidos por exemplo Itália Maria Montessori médica que trabalhou com crianças consideradas deficientes em inteligência física ou comportamento demonstrando que a aprendizagem quando aplicada com o método ativo produz efeitos altamente eficientes para qualquer tipo de alunos Alemanha Kerchnsteiner identifica a escola à ação de acordo com o interesse dos alunos também prova que a aprendizagem é melhor quando aplicada essa metodologia Estados Unidos Dewey lança a ideia do ensino por meio do tripé solução de problemas método cientifico e trabalho em laboratório Visa a educação democrática França Cousinet preocupouse com a formação de professores tendo em vista o ensino ativo Piaget analisa as características psicológicas de cada fase de aprendizagem do ser humano fixandose especialmente nas primeiras Seus trabalhos são difundidos com a denominação de construtivismo Também da França surge a ideia de Freinet relativa à educação dentro do trabalho e voltada a ele Argentina Emília Ferreiro absorve as propostas construtivistas e propõe uma metodologia mais realista para a alfabetização Brasil Paulo Freire dedicandose à alfabetização de adultos propõe a aprendizagem como um fator político Seus seguidores estendem suas propostas para as demais categorias de alunos Rússia Vygotsky vê na aprendizagem um ato de eminentemente social CONCLUSÃO A construção do sistema escolar como se pôde observar mesmo de uma forma tão sintética não foi um trabalho que se fez senão com grandes sacrifícios Cada povo cada século cada pensador ou pedagogo contribuiu com atos e teses para a melhoria do que se conhecia Longe está uma nação que possa ser considerada possuidora de sistema educacional definitivo mesmo porque a educação é um ato atrelado às condições da sociedade e esta por sua vez está em contínuo processo Importante observar que nos dias atuais ficam cada vez mais difíceis modelos pedagógicos individuais Importante saber também que a Escola Nova influenciou os destinos da educação ocidental e está ainda por ser estudada aplicada e em algumas situações criticada e modificada O licenciandoprofessor tem que entender que exerce um papel histórico conhecer aplicar afirmar e rejeitar propor e escrever são ações de vital importância para a ciência chamada Educação 33 GRADUAÇÃO DE PEDAGOGIA DISCIPLINA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I PROFESSOR MAGNO ARAÚJO DISCENTE ATIVIDADE I UNIDADE I II E III 1 A frase A educação existe mesmo onde não há escolas relacionada aos povos primitivos está dita referente a uma época em que não haviam métodos educacionais de ensino e aprendizagem Reflita e descreva em 5 linhas como era a educação nesse período histórico e aponte perspectivas que você considera importante em relação ao processo de ensinoaprendizagem nos dias atuais 2 Relacione a segunda coluna mediante aos itens da primeira coluna 1 Educação através da imitação 2 Educação por meio de cerimônias de iniciação Forma de educar criança entre os povos primitivos Possui valor educativo entre tribos podem ser breves ou podem durar anos Ajuda as crianças aprender a fazer as ocupações de uma vida adulta como construção de utensílios a pesca e a caça entre os povos caçadores guarda do gado entre os pecuaristas trabalhos agrícolas etc Possui valores moral religioso social e político e prático 3 O que é animismo 4 Leia a parte retirada do texto reflita e justifique como eram constituídos os professores primitivos Embora todos os homens participassem das cerimônias de iniciação havia determinadas pessoas às quais cabia a direção das mesmas Essas pessoas eram denominadas segundo os diferentes casos feiticeiros curandeiros xamãs esconjuradores ou homens que consultam os espíritos familiares Constituem os professores primitivos 5 No período que precede a era cristã ao que diz respeito a educação havia um domínio teológicomitológico para presidir interesses filosóficos a elite descreva quais interesses filosóficos pertenciam aos povos a Mesopotâmicos 34 b Hebreus c Persas d Egípcios 6 Por que a Grécia é considerada o berço da civilização ocidental 7 Mediante ao conceito de Educação para os Gregos muitas ideias e conceitos tornaramse ideais para os cidadões gregos Assinale V para as alternativas verdadeiras e F quando for falsa A Educação é a preparação para a cidadania Filosofia é a ideia do amor ao saber pelo saber O conceito de Liberdade Política no Estado não tem nada haver com o Estado O homem não é um ser primariamente racional O indivíduo não deve procurar a conhecer a si próprio 8 Os ideais da educação grega obtiveram seus resultados de forma lenta comenta sobre essas evoluções mediante as etapas a Período Homérico b Educação Espartana c Educação Ateniense d Os sofistas 35 e Os grandes filósofos Socrates Platão e Aristóteles f O período Cosmopolita da Educação Grega 36 GRADUAÇÃO DE PEDAGOGIA DISCIPLINA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I PROFESSOR MAGNO ARAÚJO DISCENTE ATIVIDADE II UNIDADE IV E V 1 O que difere a educação romana da educação grega 2 Mediante o ideal romano de educação os cidadãos tinham diversas concepções de direitos e deveres cite a Os direitos b Os deveres que equivaliam as aptidões e virtudes 3 Discorra em 5 linhas a seguinte frase A família como centro da educação romana 4 Qual a principal característica fundamental do método de educação romana 5 Relacione a primitiva educação romana com a introdução das escolas gregas em Roma 37 6 No período imperial como era compreendido o sistema romano de ensino e descreva sobre cada um deles 7 O que caracterizou a decadência da educação romana 8 Com o cristianismo surge um novo ideal educacional citeo 9 Como e porque no período medieval as escolas primitivas passaram a ser denominadas escolas das catedrais 10 Quais os principais benefícios concedidos a educação em relação ao regime de trabalho imposto aos monges 11 Sobre a escolástica responda a O que visava b Quais os períodos que compreendeu c Quais os principais representantes 12 Quais as principais circunstâncias que determinam o surgimento e o desenvolvimento das universidades europeias do século XIII 38 GRADUAÇÃO DE PEDAGOGIA DISCIPLINA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I PROFESSOR MAGNO ARAÚJO DISCENTE ATIVIDADE III UNIDADE VI VII E VIII 1 A partir dos assuntos ministrados na apostila utilize os capítulos VI RENASCIMENTO Humanismo e Reforma ARRUDA Maria L A História da Educação VII HUMANISMO RENASCIMENTO E REFORMA Do Renascimento a Kant SCIACCA Michele Federico O problema da educação Cap I Humanismo Renascimento e Reforma Do Renascimento a Kant São Paulo Editora Herder 1996 e VIII DIDÁTICA GERAL Um olhar para o futuro Maria Ralneldes Tosi para fazer uma SÍNTESE ARGUMENTATIVA E CRÍTICA em 5 laudas OBSERVAÇÕES 1 O QUE É SÍNTESE ARGUMENTATIVA Este é o tipo de texto onde a opinião do autor é bastante importante Não se trata de reunir as ideias principais de um texto mas de apresentar os pontos de vista de forma clara e objetiva e em poucas palavras Quando falamos sobre poucas palavras não estamos falando de uma limitação o autor pode e deve se expressar da forma que achar melhor mas isso deve ser feito sem excessos Para alcançar esse objetivo devem ser reunidas informações em um texto corrido Essas informações devem ser obtidas através de pesquisa isto é conteúdo que vai além do texto base 2 O QUE É SÍNTESE CRÍTICA A ideia aqui é simples descrever partes do texto original e fazer críticas diretas ao mesmo Trechos da obra em questão podem e devem ser usados O primeiro passo para realizar esse tipo de síntese é que o aluno leia atentamente o texto original Na verdade este é o primeiro passo de qualquer síntese 3 RECOMENDAÇÕES Faça uma boa leitura se necessário releia mais de uma vez destaque os pontos necessários a serem destacados reflita e faça as críticas de modo relevante e de acordo ao seu entendimento Não esqueça de citar e destacar entre aspas a fala da autora para não cometer plágio Bons Estudos