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A FONÉTICA A FONOLOGIA E O ENSINO Objetivo geral do capítulo refletir sobre o ensino e as metodologias de alfabetização e apresentar algumas estratégias de ensino com base na Fonética e na Fonologia Objetivos de cada seção 1 apresentar como as noções de Linguística podem colaborar com o letramento 2 demonstrar a importância dos conhecimentos fonéticos para profissionais que participam da fase de aquisição da linguagem 3 despertar para a discussão sobre o preconceito linguístico ligado aos fenômenos fonéticos Neste capítulo mostraremos como os conteúdos tratados neste livro podem ser retomados em situações de ensino e como esses conteúdos são relevantes para os profissionais que atuam nas escolas Iniciamos com uma pequena reflexão sobre o ensino e as metodologias de alfabetização para ao final do capítulo apresentarmos algumas estratégias de ensino com base nos conteúdos discutidos aqui Nosso intuito não é uma discussão sobre a natureza eou elaboração de métodos mas sim como alguns deles podem utilizar de modo interessante o conteúdo de Fonética e Fonologia 163 PARA CONHECER Fonética e Fonologia do português brasileiro 1 UMA PEQUENA REFLEXÃO PEDAGÓGICA Começar a pensar a formação dos profissionais da Educação deve ser o primeiro passo para a transformação do ensino Por isso é importante que as áreas das ciências consigam interagir com a sala de aula e com os profissionais que nela atuam É preciso fazer com que os resultados das pesquisas cheguem aos professores que estão em sala de aula visando assim mudar o quadro educacional que temos hoje Mas infelizmente o que assistimos é o distanciamento entre a teoria acadêmica e a prática dos profissionais Ao final de longos anos de estudo licenciados e bacharéis se lançam no mercado de trabalho sem saber o que fazer com toda aquela bagagem adquirida na academia Adentrar o mercado de trabalho não significa continuar a investigação em busca de respostas para os problemas com os quais lidava até então e o profissional se dá conta de que tudo o que foi visto na academia não se encaixa na realidade em que ele vai atuar É preciso recomeçar do zero criando suas próprias estratégias ou buscando em um passado longínquo as atividades executadas por seus professores Temos então a repetição das mesmas práticas em um tempo que já não é mais o mesmo É preciso que certas áreas como a Fonética e a Fonologia que ocupam as grades curriculares de vários cursos de graduação tenham além do seu valor científico para pesquisas na área da Linguística uma função no mundo concreto daqueles que estarão em ambientes escolares Primeiramente é preciso que o futuro professor encontre um sentido para aprender tais conceitos e que em um segundo momento seja capaz de tirar o insumo dessas disciplinas a ponto de que seu conhecimento ampliado possa ser útil na sua profissão 164 O que afinal a Fonética e a Fonologia tem a ver com isso Ora ambas são áreas que estão diretamente envolvidas com o processo de alfabetizaçãoletramento Se nós queremos que os índices de letramento aumentem e que com isso asseguremos o direito do cidadão a ter acesso ao mundo letrado é preciso que olhemos para todos os elementos que podem influenciar no desempenho dos alunos A partir do momento que começamos a refletir sobre as letras sobre a relação entre grafemas e fonemas e o papel que ocupam na palavra na frase e no discurso começamos a repensar o modo como ensinamos ou o modo como podemos aprender a ler e a escrever É preciso pensar estratégias que tornem menos árduos esses processos e que motivem os estudantes a ver esse mundo que se descortina diante deles 111 ALFABETIZAÇÃO PELO VIÉS DA LINGUÍSTICA Durante os quatros anos de graduação o futuro pedagogo e professor se prepara para alfabetizar ou melhor para letrar Sim letrar A noção de letramento vem substituir o ensino mecânico da transposição da forma sonora da fala à forma escrita É preciso fazer com que a criança experimente e domine práticas de leitura e escrita que circulam na nossa sociedade A alfabetização é um componente do letramento pois o processo vai além da codificação de fonemas e decodificação de grafemas assimilação do sistema alfabético e ortográfico da língua O profissional que se dedica ao ensino deve saber dosar alfabetização e letramento o que não tem sido tarefa fácil Não é fácil porque ao longo dos anos ouvimos mais sobre o que não se deve fazer do que sobre o que efetivamente se deve fazer em sala de aula É praticamente normal ficar aturdido com a queixa aos métodos sintético silábico fônico global etc Mas o que seguir afinal Será que definir um método a seguir é o mais importante Cremos que não Primeiramente o professor deve conhecer de fato o objeto que ensina Por exemplo já perguntamos inúmeras vezes aos alfabetizadores ScliarrCabral 2003 define grafema como uma ou duas letras que representam um fonema Assim por essa definição enquanto os dígrafos correspondem a um grafema a letra h de palavras como homem e hoje não corresponde a nenhum grafema 165 quantas vogais existem no sistema fonológico do português e eles prontamente respondem que são cinco Parece básico que um professor das séries iniciais já deva ter refletido sobre termos pelo menos sete vogais orais Se ele ensina a língua deve conhecêla nas mais ricas de suas minúcias e além disso deve incorporar todas as metodologias e os postulados teóricos com o intuito de fazer um trabalho diferenciado explorando o melhor do que ouviu e leu sobre as abordagens de ensino das línguas naturais A proposta então é que primeiro o professor conheça o conteúdo da área em que atua em segundo lugar que reflita sobre como o aluno decodifica o código isto é como se dá esse processo de aprendizagem e depois investigue e teste a capacidade do aluno de elaborar hipóteses sobre o que está decodificando e quais estratégias estimulam essas descobertas Vamos ver melhor como podemos fazer isso 112 RELAÇÃO GRAFEMAFONEMA POR QUE NÃO Ensinar pressupõe um ou mais métodos mas é preciso que encaremos a palavra método como experiências propiciadas ou vividas pois o que realmente faz diferença é saber o que aproveitar e adaptar dos materiais e das abordagens que são seguidas É fundamental que o professor se posicione diante do método como um investigador crítico que seleciona rejeita e implementa o material adotado A proposta de desvendar o código linguístico não deve ser um método a ser adotado solitariamente mas sim uma dentre outras tentativas de tornar menos árduo e menos lento o aprendizado da leitura e da escrita e ser ao mesmo tempo mais eficaz e produtivo A consciência fonológica já é uma habilidade observada em crianças de 3 a 4 anos e que vem sendo estudada há várias décadas no mundo todo especialmente na Consciência fonológica é definidacomo a capacidade metalinguística que possibilita a análise consciente das estruturas formais da língua Essa capacidade compreende dois níveis consciência de que a língua falada pode ser segmentada em unidades distintas a frase pode ser segmentada em palavras as palavras em sílabas e as sílabas em fonemas e consciência de que essas unidades podem ser repetidas na língua A consciência fonológica compreende a consciência da sílaba e a dos fonemas sua relação com a alfabetização e aquisição da língua escrita A capacidade de refletir sobre os sons da língua que em crianças pequenas manifestase pela percepção de rimas e pela segmentação de palavras em sílabas num futuro próximo estará associada com a prática da leitura Vários estudos têm demonstrado que jogos linguísticos que trabalham habilidades fonológicas em préescolares são caminhos para bons desempenhos em leitura Liberman et al 1988 apud Godoy 2008 Dehaene 2012 Morais et al 1979 1986 apud Godoy 2008 Cagliari 1996 dentre outros Godoy 2008 buscando saber em que medida a alfabetização pode se beneficiar do nível de consciência fonológica habilidade atrelada à leitura e à escrita realizoupesquisa com dois grupos de crianças com idade inicial de 5 anos e 9 meses expostos durante um ano a dois métodos de ensino distintos construtivista e correspondência grafemafonema As crianças foram submetidas a tarefas fonológicas de subtração e inversão no nível silábico e fonêmico em dois momentos no começo do ano antes da préalfabetização e no final do ano depois do término da préescola A atividade de subtração silábica consistiu em uma avaliação composta por dez logatomas pseudopalavras com estrutura CVCV consoante vogal consoante vogal A criança deveria subtrair a sílaba final do estímulo apresentado e dizer o que restou exemplo de estímulo bazu resposta esperada ba A tarefa de inversão silábica apresentava dez itens CVCV dos quais os dois primeiros eram palavras e os demais eram logatomas A criança deveria dizer o que resultava da inversão das sílabas do estímulo apresentado exemplo de estímulo boca resposta esperada cabo ou cabó A subtração fonêmica apresentava dez logatomas com estrutura CVC e a criança deveria subtrair mentalmente o fonema inicial exemplo de estímulo pes resposta esperada es Por fim a atividade de inversão fonêmica contemplava cinco logatomas com estrutura CV e cinco com estrutura VC A criança deveria inverter os fonemas mentalmente e dizer o que resultava exemplo de estímulo is resposta esperada si Os resultados da pesquisadora demonstraram que ambos os grupos apresentaram crescimento nas habilidades fonológicas da primeira coleta para a segunda tanto no nível silábico quanto no nível fonêmico Entretanto o crescimento das habilidades fonêmicas foi mais acentuado para o grupo que tinha focado a aprendizagem grafemafonema A autora afirma que nos últimos trinta anos as pesquisas têm demonstrado que a consciência fonêmica está estreitamente relacionada ao sucesso da aprendizagem da leitura e da escrita alfabética e que embora a habilidade não seja um prérequisito ela determina em alguma medida a formação de bons e maus leitores Acrescenta que para aqueles envolvidos no processo de alfabetização tais dados podem significar a diferença diante das dificuldades de aprendizagem Então por que não ensinar as relações grafemafonema Vamos retomar aqui os dados dos Quadros 1 e 2 apresentados no capítulo Introduzindo a Fonética e a Fonologia nos quais são apresentadas apenas as correspondências entre letras e sons fones Agora que todos já conhecem tanto os fones quanto os fonemas e perceberam a importância de entendermos essas correspondências apresentaremos nos Quadros 1 e 2 a seguir as relações entre grafemas fones e fonemas de vogais e consoantes do PB Vejamos Quadro 1 Correspondências entre grafemas fones e fonemas relativo às vogais do PB Grafema Exemplos Fone fonema a á ã ata pássaro à atar a a a átono em final de palavra seita e am an ã amplo canta irmã cantado acampado ã aN e é e lêmos êxito fechado e átono em final de palavra elç 1 c é pode sério cafezinho e e em en exemplo entre entregue embelezar ẽ eN i í ida sítio vivido i i i átono junto a outra vogal saj j i im in impor cinto imposto tintura i iN o ó canta cômodo tomate o o o átono em final de palavra pato u o o ó pode ódio bolinha o o om on tombo onde tombado condena õ oN u û uva úvula espátula u u u átono junto a outra vogal mau w um un umbigo juntar junto ũ uN Aqui apresentamos as vogais nasais com base na teoria bifonêmica vn porque a ortografia é baseada nessa representação fonológica Quadro 2 Correspondências entre grafemas fones e fonemas relativos às consoantes do PB Grafema Exemplos Fones Fonemas p pato p p b bato b b t todo t t t tia tʃ t seguido de i d data d d d dia dʒ d seguido de i f faca f f v vaca v f c cota k k seguido de a o u s cinema s s seguido de e i qu quilo k k com u não pronunciado qu quase kw kʷ com u pronunciado k Kátia k k ch chato ʃ ʃ nh ganho ɲ ɲ lh talho ʎ ʎ 169 PARA CONHECER Fonética e Fonologia do português brasileiro m moda m m em início de sílaba n nada n n em início de sílaba rr corrida x r depende do dialeto r h ʁ r roda x r em início de palavra depende do dialeto ʁ r h ʁ r aro prato r r entre vogais ou em encontros consonantais pr vr etc r par r em final de sílaba depende do dialeto r x ɣ h ɦ R ʁ x ɾ s saco s s em início de palavra s casa z z entre vogais s cós mesmo gosta s z S em final de sílaba depende do dialeto ʃ ʒ ç caça s s entre vogais disse s s c exceção s s xs exsudar s s sc nascer s s 170 A Fonética a Fonologia e o ensino sc nasço s s x enxada ʃ ʃ x explicar s ʃ S depende do dialeto x exame z z x táxi ks ks z zebra z z início de sílaba z final de sílaba veloz vez s z depende do dialeto ʃ ʒ S g gata gota gula g g seguido de a o u gu aguenta linguística gw gʷ seguido de e i g geral girafa ʒ ʒ seguido de e i j jaca ʒ ʒ l lata l l início de sílaba l mal ɫ w l final de sílaba depende do dialeto Os Quadros 1 e 2 foram apresentados para que pudéssemos agregar os conhecimentos relativos aos fones fonemas e suas correspondências com os grafemas A importância da conscientização dessas relações será retomada a seguir Vamos continuar refletindo sobre essas habilidades Propomos a seguinte pergunta o que significa ler Basta abrir alguns dicionários e veremos que ler vai além de saber juntar letras em palavras Ler significa conhecer interpretar Para que a interpretação ocorra obrigatoriamente é preciso desvendar o código Pesquisas têm revelado que analfabetos ou pessoas de baixa instrução não conseguem manipular os sons das palavras ou seja não conseguem apagar ou mover fonemas e assim formar novas palavras atribuindo novos sentidos Um analfabeto parece não ser capaz de perceber que se for tirado o primeiro som da palavra meu ele terá uma nova palavra eu Perceba que não estamos aqui falando de letras 171 mas dos fonemas que elas representam A esta capacidade de pensar metalinguisticamente chamamos de consciência fonêmica A consciência fonológica compreende a consciência fonêmica que por sua vez envolve a capacidade de reconhecer e manipular fonemas das palavras que constituem a língua A consciência fonológica mais ampla do que a fonêmica implica diferentes habilidades e ocorre no nível da consciência da palavra da consciência silábica e da consciência fonêmica revelandose em um processo de maturação nessa ordem São cinco as habilidades em consciência fonêmica 1 apagamento de fonemas 2 combinação de fonemas 3 identificação ou detecção de fonemas 4 segmentação ou análise ou decomposição de fonemas e 5 invariância ou reversão de fonemas Independente dos pormenores das hierarquias das consciências o professor deve explorar a representação das classes dos sons fazendo com que a criança perceba que os fonemas são peças que se combinam para formar palavras Não podemos esquecer que as letras ou nome das letras estão sempre enganando os aprendizes já que elas guardam valores diferentes dentro de uma só representação O segredo da decodificação é a relação grafemafonema apresentada nos Quadros 1 e 2 O grafema é a unidade mínima distintiva porque não é divisível de um sistema de escrita ou seja é a representação gráfica de um fonema O b por exemplo é um grafema que tem uma relação biunívoca o que significa dizer que o fonema b vai ser sempre representado pelo grafema b um grafema para um fonema não importa diante de qual vogal esteja ou que posição ocupe na palavra terá sempre o mesmo valor Os grafemas p b t d f e v são biunívocos e por isso são os mais fáceis de serem aprendidos Alguns grafemas têm valores previsíveis em algumas posições como é o caso do m z l e n quando estão em início de vocábulo ou entre vogais outros vão depender da posição e das letras que vêm antes ou depois Os grafemas j e g podem ambos 172 Como vimos a consciência fonológica é a habilidade de reflexão sobre as unidades sonoras da língua a consciência da palavra da silaba e dos fonemas A consciência fonêmica constituise em uma subhabilidade da consciência fonológica uma vez que se define como a capacidade de atentar para as unidades mínimas da lingua os fonemas ter valor de ʒ como em jeito ou gelo respectivamente O grafema g pode ter ainda valor de g como em gato Os grafemas ss e sc tem valor de s independente do contexto mas os grafemas c sc xc só terão valor de s quando seguidos de vogais anteriores Veja em nasce ˈnase e explicar eSpliˈkaɾ Já em tasca ˈtaSka essa relação muda O grafema x pode ter valores ʃ s z e ks de modo imprevisível como em enxameeNˈʃame experiência eSperiˈeNsia exato eˈzato e táxi ˈtaksi respectivamente Geralmente os futuros alfabetizadores pouco refletem sobre essas questões e não percebem que existe uma hierarquia de complexidade já testada e registrada pelos pesquisadores da Educação Refletir sobre o grau de dificuldade e a partir dessa análise bolar estratégias para o desvendamento do código pode ser uma pista para aqueles que buscam caminhos para alfabetizar É recomendado que partamos de elementos mais produtivos na língua e daqueles que apresentam uma relação símbolosom mais simples e progressivamente aumentemos o grau de dificuldade É preciso mostrar aos aprendizes a relação da linguagem oral com a linguagem escrita buscando desenvolver a consciência metalinguística primeiramente em uma fase perceptiva A fase de percepção exige que o texto seja muito próximo dos aprendizes podendo ser produzido pelo professor junto com os alunos refletindo a sua realidade e os hábitos do dia a dia Primeiramente o professor deve explorar o conteúdo do texto reproduzindoo no quadro e chamando a atenção para a forma para o gênero relacionandoo com a estrutura física Guilhermina Corrêa 2003 sugere que o texto seja trabalhado da seguinte forma 1 Leitura espontânea em que o professor conversa ou conta uma história 2 Leitura mais lenta observandose os limites de cada frase É quando se justificam os sinais de pontuação e a organização em parágrafos 3 Leitura lenta e artificial com vistas a mostrar os limites das palavras buscando a conscientização de que na fala não há preocupação com os limites de palavras mas na escrita essa limitaçáo é necessária 4 Leitura focalizando os limites das sílabas fazendo com que se percebam mais rapidamente os mecanismos da escrita alfabética 5 E por fim leitura artificial e harmoniosa salientando a prosódia e conscientizando sobre as sílabas tônicas das palavras 173 PARA CONHECER Fonética e Fonologia do português brasileiro As leituras sugeridas podem ser feitas em um só texto mas podem em outras oportunidades ser realizadas em textos diferentes e assim o estudante vai passando da fase da percepção para a da decodificação Dehaene 2012 também afirma que a leitura só se efetiva quando grafemas são decodificados em fonemas quando uma unidade visual passa a unidade auditiva Para que esse processo se efetive ele sugere que desde cedo a criança seja exposta a jogos simples em que tenha de manipular os sons da fala rimas sílabas e fonemas No campo visual a criança deve reconhecer memorizar e traçar as formas das letras Tanto a forma quanto o som que as letras representam são importantes no processo e a explicação não deve ser velada mas explícita O que parece ser consenso entre os pesquisadores que defendem a alfabetização por esse viés linguístico é que tão explícito quanto a relação entre grafemas e fonemas devem estar os objetivos da leitura Não se deve esconder do aluno que o objetivo da leitura é a compreensão e não a soletração de sílabas As atividades devem conduzir a criança às palavras ou frases compreensíveis que podem ser resumidas explicadas ou parafraseadas oralmente mostrando assim a denotação de sentido Dehaene 2012 12 Estratégias de ensino Durante as aulas de Fonética na graduação o professor estimula seus alunos a perceberam os sons das línguas naturais Aos poucos os estudantes vão percebendo os movimentos que seus órgãos ativos e passivos sempre realizaram mas que nunca foram notados ou seja toda articulacão para a comunicação era até então inconsciente De repente o estudante coloca uma das mãos espalmada sobre o pescoço e percebe que a única diferença entre a produção de um f e um v é a vibração das pregas vocais a sonoridade Experimentando pronunciar palavras como campo e canto percebe que não precisaria memorizar a velha regra que diz que antes de p e b vem sempre m uma vez que há uma explicaçáo física do movimento articulatório em palavras como campo os lábios estão em ação para a produção de consoantes bilabiais m e p mas em canto não temos movimentos de lábios pois a produção de fonemas alveolares n e t exige que a língua faça um movimento até os alvéolos São segmentos que têm o mesmo ponto 174 de articulação dizendo de outra forma p e m são homorgânicos assim como n e t também são Decoramos para os exames que um fonema é a menor unidade sonora distintiva de uma língua mas nunca refletimos sobre o que isso quer dizer de fato muito menos sobre a importância da distinção dos fonemas para o processo de leitura E agora refletindo sobre consciência fonológica parece mais coerente brincar de pares mínimos para identificação de fonemas De fato parece que o rumo da escola muitas vezes tomou o caminho da decoreba e não o da reflexão e experimentação Então nós como professores não cometamos o mesmo erro ou não nos omitamos diante da responsabilidade de ir atrás de respostas que possam facilitar o aprendizado As crianças também devem fazer suas experimentações a respeito da língua ao mesmo tempo em que criam hipóteses para seus testes e avançam em suas descobertas Antes mesmo de iniciar a alfabetização a criança deve ser estimulada a refletir sobre o que ouve e o que fala Deve ser capaz de segmentar uma frase em palavras as palavras em sílabas e as sílabas em fonemas e assim ir percebendo que a cadeia da fala é decomposta em unidades menores Mais tarde ela percebe que essas unidades se repetem em outras palavras e em outros contextos Podem ser exploradas como habilidades em consciência fonológica na préescola e nas séries iniciais as seguintes atividades Rima combinação do som final de uma palavra A equidade deve ser sonora e não necessariamente gráfica Aliteração repetição da mesma sílaba ou fonema na posição inicial das palavras Os travalínguas e as parlendas são bons exemplos de utilização de aliteração pois repetem o mesmo fonema várias vezes no decorrer da frase Consciência de palavras capacidade de segmentar a frase em palavras e além disso perceber a relação entre elas e organizálas numa sequência de sentido O déficit nessa habilidade pode levar a erros na escrita como aglutinações por exemplo em abola de palavras e separações inadequadas por exemplo em maca co Consciência da sílaba capacidade de segmentar as palavras em sílabas Atividades como contar o número de sílabas ou dizer qual é a sílaba inicial medial ou final de uma palavra dependem dessa habilidade e podem ser empregadas para o desenvolvimento dessa habilidade PARA CONHECER Fonética e Fonologia do português brasileiro Adoleta livro do professor Furlan 2011 é um guia que subsidia o trabalho pedagógico de professores das séries préescolares e iniciais Nesse guia encontramos algumas sugestões para trabalhar a consciência fonológica O material sugere exercícios fonoarticulatórios que exerciem áreas específicas relacionadas à fala como lábios língua e palato Baseados nesse material adaptamos algumas de suas sugestões e sugerimos como atividade imitar o motor de um carro vibrando os lábios passar a língua atrás dos dentes sobre os alvéolos e sentir as reentrâncias segurar os lábios superiores com as duas mãos tentando evitar seu movimento e produzir vogais segurar os lábios inferiores com as duas mãos tentando evitar seu movimento e produzir vogais com a boca aberta inspirar pelo nariz e expirar rapidamente pela boca projetar os lábios fazendo bico e produzir vogais mantendo o arredondamento dos lábios imitar animais produzir palavras que tenham S e R em posição de coda final de sílaba fazendo com que elas sejam produzidas com variações de pronúncia exemplos variações para a palavra carta kaxtɐ kaɾtɐ kartɐ e kartɐ como um carioca um caipira e vibrando uma e várias vezes o erre atrás dos dentes respectivamente e para mesmo mezmo mezmɯ meʒmo meʒmɯ meymo meymɯ memo memɯ produzir vogais em pares e e o ɔ i u e o ɛ ɔ u a produzir as vogais i e ɛ a e u o ɔ a na sequência produzir as consoantes p b t d k g sem deixar que elas explodam ou seja segurando o ar antes que se solte no ponto de bloqueio nos lábios nos alvéolos entre lábios e dentes e no véu do palato passar a ponta da língua no palato de dentro para a fora etc Parlendas são rimas infantis em versos de cinco ou seis sílabas para divertir ajudar a memorizar Possuem uma rima fácil e por isso são populares entre as crianças A Fonética a Fonologia e o ensino A proposta é que a criança se divirta com as caretas e com os sons que venha a produzir ao mesmo tempo em que explora as possibilidades do seu trato vocal e percebe que a fonação muda quando ela modifica algum ou alguns dos elementos que a compõe Lentamente a criança percebe que a diferença entre o ɛ e o ɔ é a anterioridade e a posterioridade da língua A produção das sequências i e ɛ a e u o ɔ a faz com que percebam que é a altura da língua que está em jogo Quando brinca em não fazer explodir as consoantes percebe que elas têm um bloqueio em comum que nem sempre ocorre no mesmo lugar e que é justamente essa explosão que permite que elas se realizem efetivamente O Adoleta sugere ainda uma série de exercícios respiratórios que tem por objetivo criar um hábito adequado de respirar e assim melhorar a fonação Também contempla atividades de rimas aliterações consciência de sílabas e de palavras Ilustramos a seguir alguns exemplos que podem inspirar futuros professores Atividade de rima Apresente para as crianças as seguintes rimas em forma de jogo que podem ser repetidas de maneira lenta e depois rápida Diga ré toque o pé Diga pelo toque o cabelo Diga aço toque o braço Diga abelha toque a orelha Diga desça toque a cabeça Quando as crianças já forem mais experientes com as rimas dê a pista e deixe que elas digam a palavra Diga pão toque a Furlan 2011 56 Uma ideia muito interessante para professores das séries iniciais é fazer com que os próprios alunos confeccionem alfabetos móveis que podem ser feitos de papel cartolina ou outros materiais O alfabeto móvel permite uma série de brincadeiras que estimulam a reflexão sobre a relação grafemafonema Geralmente as crianças aprendem primeiro as letras do seu nome então os alunos podem começar escrevendo seus nomes e os nomes dos colegas Depois podem retirar a primeira e a última letra e comparar com os colegas percebendo as maiúsculas e as minúsculas O professor pode fazer um ditado com imagens e os alunos devem formar a palavra correspondente O professor pode apresentar cartelas com palavras que contenham lacunas e os alunos devem completar com as letras que faltam O professor pode contar histórias cujos nomes dos personagens sejam grafados com letras semelhantes mas que tenham valores fonêmicos distintos como em Rita e Areta ou Gabriel e Gisele Com o auxílio do professor eles montarão o nome dos personagens e perceberão que uma letra pode corresponder a um ou mais sons A partir de imagens ou de palavras ditas oralmente podem brincar com pares mínimos achando palavras que existem e que não existem no português A sequência ata por exemplo tem sentido quando é completada com os grafemas b c d g l m n p r ch gerando bata cata data gata lata mata nata pata rata chata respectivamente Mas poderiam ser aceitas também fata jata sata tata vata zata sequências possiveis mas que não representam palavras no PB Os alunos podem brincar de trocar tirar letras de palavras para produzirem novas palavras como em boca que pode virar cabo ou oca e em um nível mais avançado oba ou coa Como podemos observar alguns métodos textos e livros têm boas ideias para estimular a consciência fonêmica e facilitar o processo de alfabetização Com um pouco de criatividade é possível tornar o aprendizado significativo e muito mais eficaz 13 Letramentos em EJA A história da escolarização de jovens e adultos no Brasil é permeada por ensejos políticos e sociais que visaram ainda que muitos tenham ficado apenas nos termos da lei mudar o rumo da educação Segundo Haddad e Di Pierro 2000 de 1958 até 1964 período que antecede a ditadura militar a nação presenciou a mobilização de educadores em redefinir as características específicas e um espaço próprio para essa mudança no ensino de jovens e adultos Em 1963 Paulo Freire encabeça na cidade de Angicos no Rio Grande do Norte a primeira experiência sistematizada de adultos que durou 40 horas O primeiro momento efetivo de alfabetização em Angicos partiu da palavra geradora belota Mas o que significa belota e por que essa palavra Os educadores voluntários que participaram do projeto mostravam slides com imagens e eram interrogados sobre elas A primeira imagem apresentada foi a de um homem montado em um burro com uma chibata na mão A belota ou borla ou bolota é o adorno esférico que fica na ponta da chibata e que aparecia em primeiro plano no slide Pelandré 2002 Depois de discutirem a definição da palavra os estudantes eram estimulados a refletirem sobre as famílias silábicas como observamos no exemplo a seguir Fernandes e Terra 1994 apud Búrigo 2012 74 Dona Francisca que palavra é essa É belota O que é belota Belota é o enfeite da chibata Quantas famílias tem em belota seu Toureiro Tem três A família do be a família do lo e família do ta Como é a família do ta Ta te ti to tu O senhor é capaz de escrever uma palavra usando dois tijolinhos da família do ta Tenho pra mim que posso sim senhor Toureiro escreve tatu O que é tatu seu Toureiro É um bicho muito gostoso Foram utilizadas 18 palavras geradoras e a cada uma delas correspondiam as famílias silábicas A seleção das palavras geradoras era feita com base na variedade de fonemas que a palavra apresentava devendo obedecer a uma ordem crescente de dificuldade e também deveria levar em conta o conteúdo semântico e a representação da realidade decodificada Ao final da experiência os estudantes foram submetidos a testes de alfabetização que consistiam em formação de frases preenchimento de palavras separação de sílabas e formação de palavras a partir das famílias silábicas Paulo Freire em entrevista a Pelandré 2002 deixou claro que a experiência de alfabetização realizada em Angicos não tinha a pretensão de ser um método mas fora uma proposta fruto de sua curiosidade e de seu compromisso político De acordo com Borges 2003 Freire realizou suas experiências com o que havia disponível isto é o método da silabaçao pois não era um estudioso no campo da Linguística mas da Antropologia e da Sociologia cabe a nós associarmos a Educação Popular aos estudos do socioconstrutivismo Para Freire a metodologia era antes de tudo uma crítica ou dialética da prática educativa e a prática educativa é antes de tudo um ato político A contribuição de Paulo Freire para a escolarização de jovens e adultos foi imensurável uma vez que ele semeou as ideias de uma educação libertária e para a cidadania ainda em processo de conquista nos dias atuais O fruto de seu trabalho também é mérito da motivação dos alunos e dos educadores voluntários que se sujeitaram à total imersão nessa situação de ensinoaprendizagem Hoje temos a noção de que 40 horas não são capazes de transformar adultos que desconhecem o código em leitores proficientes e nem em pessoas capazes de realizar leituras automatizadas Da mesma forma sabemos que o método silábico não é suficiente para dar conta de estruturas mais complexas além de ser explorado geralmente a partir de textos artificiais criados para o ensino Segundo Corrêa 2003 podemos observar ao longo da história dos métodos de alfabetização a presença marcante do olhar sobre a sílaba Segundo a autora a exploração da sílaba se mantém ora no centro ora na periferia dos métodos de alfabetização e isso é inevitável dado seu estatuto na constituição das palavras Se a sílaba é um elemento tão importante no processo da alfabetização o educador deve entender minimamente sua estrutura interna A compreensão a respeito das posições que podem ou não ser ocupadas no ataque e na rima silábica que por sua vez é dividida em núcleo e coda está extremamente relacionada à consciência silábica que sucede a consciência da palavra e precede a consciência fonêmica no construto dos diferentes graus de conhecimento da complexidade linguística A consciência silábica permite segmentar palavras permutar as sílabas entre si ou a sequência de grafemas e quem sabe atribuir novos sentidos à palavra Despertar ou desenvolver a consciência silábica nos estudantes vai além do método de silabaçao que cria estruturas CVCV A consciência silábica nos faz entender um pouco melhor assuntos relacionados por exemplo à separação silábica principalmente no que diz respeito aos ditongos crescente e decrescente e aos hiatos a distinção entre as vogais e semivogais às sílabas travadas e tantos outros conteúdos tão caros ao ensino do português 2 CONHECIMENTOS FONÉTICOFONOLÓGICOS NA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM Um profissional da Educação deve estar atento às percepções e as produções em todas as etapas da vida da criança Afinal muitas vezes as crianças ficam mais tempo na escola junto dos professores e assistentes do que em casa Pesquisas demonstram que bebês ainda na barriga das mães são capazes de ouvir de reconhecer vozes distinguir sons e reagir a estímulos sonoros Costa e Santos 2003 De acordo com a teoria inatista de Noam Chomsky isso se dá porque a linguagem é um sistema de conhecimentos interiorizados na mente humana Segundo essa teoria a criança nasce com uma Gramática Universal uma espécie de órgão biológico mental que evolui no indivíduo A fase final do desenvolvimento desse órgão é a gramática do indivíduo adulto O psicólogo e linguista Steven Pinker que acredita no gene da linguagem o Foxp2 e que concebe a linguagem como uma forma de instinto afirma que todos os bebês vêm ao mundo com dotes linguísticos De qualquer modo podemos supor que o processo de aquisição da linguagem começa ainda antes do nascimento e que o aprendizado não se dá apenas por imitação ou repetição Nos primeiros meses de vida os bebês já são capazes de discriminar os sons da fala e já demonstram atenção especial à prosódia materna Pesquisas recentes revelam também que as competências linguísticas do bebê já têm uma organização anatômica nas regiões do cérebro Ainda que uma criança de 3 meses se expresse apenas por arrulhos a sua área de Broca região do cérebro atrelada à produção de fala e análise da gramática se ativa quando ela escuta frases À medida que vai distinguindo os sons e se apropriando da fonologia da língua que se fala na sociedade em que está inserida vai especificando seu conhecimento linguístico e limitando o leque de possibilidades para outras línguas No primeiro ano de vida há uma mudança anatômica no aparelho fonador da criança que passa a ser distinta da dos demais mamíferos não 181 humanos se preparando para a fala Com o crescimento da criança ocorrem outras modificações por exemplo na posição da laringe de modo que a criança possa produzir os diversos sons utilizados pelos adultos Os pesquisadores ainda não estão muito afinados em relação ao período exato das etapas que compõem o processo de aquisição da linguagem Para Bates e Goodman 1997 apud Scarpa 2001 a trajetória parece universal ou seja as crianças começam o balbucio primeiro com vogais cerca de 3 ou 4 meses em média depois com combinações de vogais e consoantes de complexidade crescente geralmente entre 6 e 12 meses As primeiras palavras emergem entre 10 e 12 meses em média embora a compreensão de palavras possa começar algumas semanas antes Lá pelos 24 a 30 meses há uma espécie de explosão vocabular e aos 3 ou 3 anos e meio a maioria das crianças normais já dominou as estruturas sintáticas e morfológicas de línguas maternas Scarpa 2001 224 Para Pinker 2002 o balbucio dos primeiros 4 meses não tem valor linguístico Entre 5 e 7 meses as crianças começam antes a brincar com os sons do que a usálos para expressar seus estados físicos e emocionais Pinker 2002 337 aprendem que músculo mover e em que sentido para obter a mudança do som Costa e Santos 2003 relatam que psicólogos baseados em observações entendem que até uma determinada fase de desenvolvimento as crianças não são capazes de usar a linguagem para referir entidades que não estão presentes no momento em que estão falando Costa e Santos 2003 85 Mas quando uma criança começa a pronunciar certa junção de fonemas em presença do objeto ou da pessoa então podese inferir que a criança está relacionando a palavra ao objetopessoa Os autores ressaltam ainda que é a emoção de ver uma criança se expressar que nos faz dar sentido ao balbucio Silveira 2006 confirma para o português brasileiro algumas hipóteses já levantadas por outros autores sobre o balbucio canônico ou seja quando a produção silábica já é semelhante a do adulto palavras dissilábicas são as preferidas pelas crianças as consoantes coronais ocorrem em maior número seguidas pelas labiais e dorsais as vogais centrais são as mais recorrentes nesta fase na idade adulta as vogais anteriores são mais frequentes na escrita e na fala 182 o padrão silábico preferido é CV seguido por V na idade adulta a sequência mais recorrente é CV e CVC intrassilabicamente os padrões consoante coronal vogal anterior e consoante labial vogal central são recorrentes a literatura descreve também para esta posição o padrão consoante dorsal vogal posterior interssilabicamente o padrão duplicado mais recorrente parece ser coronal coronal seguido de labial labial dorsal dorsal são mais frequentes do que padrões variados ou seja com diferentes segmentos ocorrendo em sílabas sucessivas O padrão labial coronal também é significativo Silveira 2006 139 O mais importante para um profissional que lida com crianças em idade préescolar é observar e monitorar o ritmo dessa comunicação afinal a criança não se comunica apenas pela expressão vocal mas pelo olhar e pelo choro Segundo Costa e Santos 2003 o choro e ao fim do primeiro mês o sorriso são as primeiras formas de comunicação efetiva entre a criança e seus pais O bebê é motoramente limitado mas seus músculos sociais estão sob excelente controle e com um sorriso um arrulho ou um olhar ele consegue fazer com que os outros levantem suas sobrancelhas sorriam e vocalizem de forma extremamente variada Fletcher e MacWhinney 1997 236 Sendo assim nesta fase é preciso que professores e assistentes estejam atentos à tentativa de produção oral mas também a esses outros elementos que fazem parte da comunicação humana Na escola é o professor que tem contato direto com seus alunos e assim tem as melhores oportunidades de observar as condições dos alunos e tomar providências para a solução de problemas junto aos pais e aos órgãos de atendimento A atenção do profissional pode auxiliar a família na descoberta de patologias que quanto antes detectadas mais fáceis de serem tratadas Perito e Mantette 1991 apud Karnopp e Quadros 2001 verificaram que o balbucio é um fenômeno que ocorre tanto em bebês ouvintes quanto surdos no mesmo período de desenvolvimento Segundo as pesquisadoras as crianças surdas ou ouvintes apresentam um balbucio oral paralelo ao balbucio manual mas nas crianças surdas as vocalizações são interrom 183 pidas quando as produções manuais cessam nas crianças ouvintes Alguns pesquisadores também descobriram que o balbucio canônico em crianças surdas ou com perdas auditivas profundas é mais tardio outros estudos demonstram que existem diferenças significativas entre as vocalizações de crianças ouvintes e crianças surdas não só em relação ao período de início mas também no que diz respeito à produção de sílabas Em vista do que vimos os estudos em Fonética e Fonologia podem auxiliar no desenvolvimento de melhores estratégias para uma alfabetização e um letramento mais adequados 3 O PRECONCEITO LINGUÍSTICO Uma das questões que muito nos interessa na nossa área da Fonética e da Fonologia é o preconceito linguístico ligado aos fenômenos fonéticos As realizações que trocam por exemplo o l pelo r em encontros consonantais como em chicrete bicicreta e framengo são extremamente estigmatizadas Entretanto se olharmos para a etimologia de várias palavras do PB encontraremos que a palavra branco teve origem da palavra germânica blank o mesmo se deu com as palavras como cravo fraco e praga que são originárias das palavras latinas clavu flaccu e plaga respectivamente Encaremos então que o encontro consonantal realizado com l é um aspecto estrangeiro e que precisa ser assim encarado dentro da sala de aula Outros fenômenos fonéticos e fonológicos que aparecem na fala e se refletem na escrita são o apagamento do R em final de palavra comercomê corredorcorredô o apagamento da marca de plural as mesasas mesa os pastéisos pastel a monotongação e ditongação cadeiracadera trêstreis a assimilação do d em algumas variantes pagandopagano a despalatização ou a semivocalização mulhermulémuié dentre muitos outros Discutir e mostrar aos alunos toda essa variedade de produções sem um olhar avaliativo mas apenas curioso pode ajudar na percepção das regras usadas nos diferentes níveis de língua e pelas diferentes comunidades 184 de fala É interessante e importante mostrar que as mudanças listadas anteriormente seguem certas regras que constituem o PB e não são resultado de forças aleatórias ou mesmo de incapacidade cognitiva de certos falantes Havendo uma maior compreensão desses fatos haverá maior tolerância às diferenças tendose consciência de que inevitavelmente todos nós produzimos sentenças que não estão de acordo com as regras gramaticais presentes nas gramáticas normativas Esperamos que este capítulo tenha conseguido aproximar a Fonética e a Fonologia do campo do ensino e que o conhecimento sobre essas duas disciplinas possa auxiliar na elaboração de práticas pedagógicas menos árduas e que façam mais sentido para o aluno e o professor O professor deve refletir sobre como ele encara os erros e os desvios dos alunos e o valor que dá à gramática normativa Muitas das produções orais e escritas revelam uma mudança lenta e gradual do português brasileiro que não pode ser simplesmente encarada como erro Trazer explicações sóciohistóricas que incluam mudanças fonéticas semânticas e morfossintáticas para dentro de sala de aula estimula a reflexão metalinguística Quando refletimos sobre as correlações e as incoerências das relações entre fala e escrita avançamos no domínio da língua e mudamos o olhar sobre as falhas Existe uma diferença entre impor regras e mostrar as opções de uso e as implicações de suas escolhas Leituras sugeridas BAGNOL M A língua de Eulália novela sociolinguística São Paulo Contexto 1999 Nesta obra o autor discute questões relacionadas à variação sociolinguística verificada nos usos do português Essa discussão é feita de forma bastante didática a partir de reflexões feitas por personagens que incluem Irene uma linguista e Eulália a empregada de Irene A partir das conversas entre os personagens o autor promove uma reflexão sobre as variantes do português que dizem respeito ao tempo decorrido diacrônicas a questões geográficas diatópicas e sociais dìástricas e também sobre o português padrão e o não padrão CAGLIARI Luiz Carlos Alfabetização e linguística São Paulo Scipione 1996 Neste texto o autor quer auxiliar o profissional da Educação a encarar as dificuldades linguísticas encontradas em sala de aula no momento da alfabetização Discute as funções e usos da escrita no processo de alfabetização e a relevância da fala da criança quando chega à escola para se evitarem preconceitos linguísticos incluindo uma discussão sobre variação linguística É um convite aos educadores a pensarem o ensino de português pelo viés da Linguística e a refletirem sobre o preconceito linguístico que emperra o processo de alfabetização 185 A FONÉTICA A FONOLOGIA E O ENSINO Neste capítulo as autoras abordam sobre a importância das disciplinas de fonética e fonologia terem além das suas relevâncias científicas para os estudos linguísticos funções no universo prático dos sujeitos envolvidos nos espaços escolares Para que isto aconteça é necessário que o futuro docente descubra um sentido para adquirir conhecimentos fonéticos e fonológicos depois consiga fazer com que tais saberes venham a ter utilidade no exercício do seu trabalho Falam a respeito do novo objetivo do Ministério da Educação MEC que consiste em conseguir alfabetizar todas as crianças até 8 anos de idade A fonética e a fonologia fazem parte do processo alfabetizador por trabalharem com as letras relações existentes entre os grafemas e os fonemas além de outros aspectos da língua Discorrem sobre a consciência fonológica uma habilidade encontrada em crianças da faixa etária de 3 a 4 anos Esta capacidade tem sido alvo de diversos estudos relacionados a alfabetização pois é uma faculdade responsável pela reflexão a respeito dos sons da língua O segredo para realizar a decodificação dos códigos da língua está na relação grafemafonema presente nos quadros seguintes Quadro 1 Correspondências entre grafemas fones e fonemas relativo às vogais do PB Grafema Exemplos Fone fonema a â á gta pássaro à atuar a a a átono em final de palavra seita e am an â amplo canta irmã cantado acampado ã aN e ê lemos êxito fechado e e e átono em final de palavra ele i e e ê pede sério cafezinho e e em en exemplo entre entregue embelezar ẽ eN i í ida sítio vivido i i átono junto a outra vogal sai j i im in impor cinco imposto tintura ĩ iN o ô cantor cômodo tomate o o o átono em final de palavra pato u o o ô pode ódio bolinha ɔ ɔ om on tombo onde tombado condena õ oN u ú uva úvula espátula u u u átono junto a outra vogal may w um un umbigo juntar junto ũ uN Quadro 2 Correspondências entre grafemas fones e fonemas relativos às consoantes do PB Grafema Exemplos Fones Fonemas p pato p p b bato b b t todo t t t seguido de i tia tʃ tʃ d data d d d seguido de i dia dʒ d f faca f f v vaca v f c seguido de a o u cota k k c seguido de e i cinema s s qu com u não pronunciadoquilo k k qu com u pronunciado quase kw kw k Kátia k k ch chato ʃ ʃ nh ganho n n lh talho ʎ ʎ m moda m m em início de sílaba n nada n n em início de sílaba r corrida depende do dialeto x r h ʁ r r em início de palavra roda depende do dialeto x ʁ r h ɾ ʀ r r entre vogais ou em encontros consonantais pr vr etc r r r em final de sílaba par depende do dialeto r x ɣ h ʁ ʀ x ɡ R s em início de palavra saco s s s entre vogais casa z z em final de sílaba cós mesmo gosta depende do dialeto s z S ç caça s s ss disse s s entre vogais xc exceção s s xs exsudar s s sc nascer s s sc nasço s s x enxada ʃ ʃ x explicar depende do dialeto s ʃ ʃ x exame z z x táxi ks ks z início de sílaba zebra z z z final de sílaba veloz vez depende do dialeto s z ʃ ʒ ʃ g seguido de a o u gata gota gula g g gu seguido de e i aguenta linguística gw gw g seguido de e i geral girafa ʒ ʒ j jaca ʒ ʒ l início de sílaba lata l l l final de sílaba mal depende do dialeto ɫ w l As autoras refletem acerca do significado da leitura concluem tratarse de conhecimento eou interpretação Para conhecer e ou interpretar é imprescindível a decodificação dos códigos É de suma importância a reflexão acerca do grau de dificuldade para poder elaborar metodologias de decodificação dos códigos A forma mais eficiente para o desenvolvimento da consciência metalinguística se dá pela apresentação da relação entre a oralidade e a escrita As estudiosas afirmam que ao longo das aulas de fonética dos cursos de graduação o professor da disciplina incentiva sua turma a perceber os sons da língua nativa As crianças devem ser estimuladas a realizar suas próprias experimentações sobre a língua formular hipóteses para os testes que fizeram e consequentemente evoluir em seus conhecimentos Antes de iniciar o processo de alfabetização a criança precisa fazer reflexões a respeito das coisas que fala e ouve ao seu redor Os conhecimentos fonéticos e fonológicos são de grande valia para o desenvolvimento de metodologias mais adequadas e voltadas à alfabetização Referências SEARA Izabel Christine de NUNES Vanessa Gonzaga LAZZAROTTOVOLCÃO Cristiane Para conhecer fonética e fonologia do português brasileiro São Paulo Contexto 2015 No capítulo intitulado A fonética a fonologia e o ensino as autoras abordam sobre a importância das disciplinas de fonética e fonologia terem além das suas relevâncias científicas para os estudos linguísticos funções no universo prático dos sujeitos envolvidos nos espaços escolares Para que isto aconteça é necessário que o futuro docente descubra um sentido para adquirir conhecimentos fonéticos e fonológicos depois consiga fazer com que tais saberes venham a ter utilidade no exercício do seu trabalho As estudiosas falam a respeito do novo objetivo do Ministério da Educação MEC que consiste em conseguir alfabetizar todas as crianças até 8 anos de idade Para chegar a este resultado entra em ação o chamado Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa PNAIC Tal programa deve ser executado pelas esferas municipais e estaduais que vão receber todos os recursos e auxílios necessários A fonética e a fonologia fazem parte do processo alfabetizador por trabalharem com as letras relações existentes entre os grafemas e os fonemas além de outros aspectos da língua As pesquisadoras ressaltam o quão fundamental é que o profissional da educação saiba equilibrar o trabalho de alfabetização com o de letramento Elas reforçam que mais importante do que escolher um método de alfabetização é que o educador conheça verdadeiramente o seu objeto de ensino pense como o estudante vai conseguir adquirir o conhecimento e decodificar os códigos para assim poder investigar e testar a capacidade do discente de formular hipóteses acerca das decodificações feitas As teóricas discorrem sobre a consciência fonológica uma habilidade encontrada em crianças da faixa etária de 3 a 4 anos Esta capacidade tem sido alvo de diversos estudos relacionados a alfabetização pois é uma faculdade responsável pela reflexão a respeito dos sons da língua Durante a fase dos 3 a 4 anos de vida materializase através da percepção eou identificação de rimas e também pela divisão das palavras em sílabas Mais para frente a materialização se dá por meio do exercício da leitura Já foi comprovado que jogos linguísticos que utilizam das habilidades fonológicas no período préescolar estão no caminho certo para uma futura desenvoltura na prática da leitura As autoras refletem acerca do significado da leitura concluem tratarse de conhecimento eou interpretação Para conhecer e ou interpretar é imprescindível a decodificação dos códigos Estudos foram capazes de revelar que pessoas analfabetas ou com baixo nível instrucional não possuem a capacidade de manipulação dos sons dos vocábulos da língua isto é não tem a destreza de retirar ou deslocar fonemas para formar palavras novas Tal capacidade de pensamento metalinguístico é denominada de consciência fonêmica A consciência fonológica é maior que a consciência fonêmica portanto a abarca A fonológica abrange diversas habilidades dentre elas a reflexão acerca das unidades sonoras da língua acontece em um processo de maturação de três consciências a da palavra a silábica e a fonêmica necessariamente nesta sequência Enquanto a consciência fonêmica envolve apenas cinco habilidades apagamento eou eliminação de fonemas combinação entre fonemas percepção eou identificação dos fonemas decomposição divisão eou separação de fonemas reversão eou invariância de fonemas Independentemente da hierarquia existente entre as consciências o docente que vai alfabetizar deve trabalhar as representações das classes sonoras para conseguir fazer com que as crianças entendam que os fonemas são os elementos que se combinam entre si no processo de formação das palavras O segredo para realizar a decodificação dos códigos da língua está na relação grafemafonema demonstrada através de dois quadros ao longo do texto Muitas das vezes os futuros professores não notam a existência da hierarquia de complexidade É de suma importância a reflexão acerca do grau de dificuldade para poder elaborar metodologias de decodificação dos códigos A forma mais eficiente para o desenvolvimento da consciência metalinguística se dá pela apresentação da relação entre a oralidade e a escrita É de suma importância a reflexão acerca do grau de dificuldade para poder elaborar metodologias de decodificação dos códigos A forma mais eficiente para o desenvolvimento da consciência metalinguística se dá pela apresentação da relação entre a oralidade e a escrita No decorrer destas aulas os alunos passam a notar os movimentos realizados durante a fala todas as articulações feitas processos até então despercebidos eou feitos de maneira inconsciente Não havia tal consciência pois a escola boa parte das vezes enveredou pelo rumo de decorar em detrimento de refletir e realizar experimentações As pesquisadoras recomendam que os futuros educadores fujam de seguir por este caminho As crianças devem ser estimuladas a realizar suas próprias experimentações sobre a língua formular hipóteses para os testes que fizeram e consequentemente evoluir em seus conhecimentos Antes de iniciar o processo de alfabetização a criança precisa fazer reflexões a respeito das coisas que fala e ouve ao seu redor Também necessita ter a capacidade de separar uma frase em palavras consequentemente uma palavra em sílabas e as sílabas em fonemas para então poder notar que a cadeia de fala pode ser desmembrada em unidades menores Mais adiante a criança é capaz de compreender que estas unidades menores podem se repetir em diversas palavras e contextos As teóricas citam o livro Adoleta de Furlan 2011 para dar exemplos de atividades que podem ser feitas com as crianças a fim de estimular o desenvolvimento da consciência fonológica Dentre as possibilidades estão imitação de sons de animais e de motores de carros jogos que envolvam rimas entre outras opções que colaboram para facilitar o processo de alfabetização As autoras ainda discorrem acerca do processo de letramento na modalidade de Educação de Jovens e Adultos EJA Apresentam uma experiência com adultos que teve a duração de 40 horas e foi gerenciada pelo estudioso Paulo Freire Durante esta vivência de alfabetização o método silábico foi utilizado Os alunos passaram por testes que envolviam a formação de palavras e frases preenchimento de palavras além da separação silábica A contribuição de Freire para o ensino do público jovem e adulto foi considerável visto que despertou ideias de educação libertária estimulou o exercício da cidadania Nos dias atuais é evidente que 40 horas não são suficientes para transformar jovens e adultos desconhecedores dos códigos linguísticos em leitores fluentes Outro fato é que o método silábico não é capaz de abarcar estruturas mais complexas por na maioria das vezes ser trabalhado dentro de textos desenvolvidos com o intuito de alfabetizar Paulo Freire apesar de não ser um linguista mas sim um sociólogo e antropólogo trabalhou com o que era possível no período temporal que tinha A exploração das sílabas é presença constante na história do letramento eou alfabetização pois contribui para a formação das palavras Ao longo do tempo seu destaque apresenta variações para mais ou menos a depender da época A consciência silábica viabiliza a segmentação de palavras além da troca eou substituição de sílabas o que possibilita o surgimento de novos sentidos As estudiosas também apresentam informações a respeito do processo de aquisição de linguagem por volta de que período começam os balbucios vocálicos de um bebê quando há a evolução para balbucios vocálicos e consonantais pronúncia das primeiras palavras até a chegada de um vocabulário eou repertório Ressaltam que não existe um consenso em relação a exatidão dos períodos em que cada habilidade destas é adquirida porém o mais importante é que o educador responsável pelas crianças na fase pré escolar esteja atento às ocorrências comunicativas dos pequenos Este profissional muitas das vezes podem detectar problemas ou dificuldades comunicativas nas crianças conversar com os responsáveis dos menores para que seja feita a busca por um possível diagnóstico e tratamento Os conhecimentos fonéticos e fonológicos são de grande valia para o desenvolvimento de metodologias mais adequadas e voltadas à alfabetização As pesquisadoras encerram o capítulo com a temática do preconceito linguístico Trazem algumas demonstrações de fenômenos fonéticos que costumam ser estigmatizados por exemplo a troca do l pelo r em palavra como bicicleta que passa a ser pronunciada bicicreta Reforçam a importância de apresentar tais variações para os alunos demonstrar que acontecem pelo fato do usuário seguir alguma regra presente na língua e não por se tratar de mera aleatoriedade ou incapacidade de cognição de quem fala A partir de tal entendimento surge a tolerância em relação às diferenças linguísticas e também a compreensão de que qualquer um é passível do cometimento de algum tipo de desvio a gramática normativa
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A FONÉTICA A FONOLOGIA E O ENSINO Objetivo geral do capítulo refletir sobre o ensino e as metodologias de alfabetização e apresentar algumas estratégias de ensino com base na Fonética e na Fonologia Objetivos de cada seção 1 apresentar como as noções de Linguística podem colaborar com o letramento 2 demonstrar a importância dos conhecimentos fonéticos para profissionais que participam da fase de aquisição da linguagem 3 despertar para a discussão sobre o preconceito linguístico ligado aos fenômenos fonéticos Neste capítulo mostraremos como os conteúdos tratados neste livro podem ser retomados em situações de ensino e como esses conteúdos são relevantes para os profissionais que atuam nas escolas Iniciamos com uma pequena reflexão sobre o ensino e as metodologias de alfabetização para ao final do capítulo apresentarmos algumas estratégias de ensino com base nos conteúdos discutidos aqui Nosso intuito não é uma discussão sobre a natureza eou elaboração de métodos mas sim como alguns deles podem utilizar de modo interessante o conteúdo de Fonética e Fonologia 163 PARA CONHECER Fonética e Fonologia do português brasileiro 1 UMA PEQUENA REFLEXÃO PEDAGÓGICA Começar a pensar a formação dos profissionais da Educação deve ser o primeiro passo para a transformação do ensino Por isso é importante que as áreas das ciências consigam interagir com a sala de aula e com os profissionais que nela atuam É preciso fazer com que os resultados das pesquisas cheguem aos professores que estão em sala de aula visando assim mudar o quadro educacional que temos hoje Mas infelizmente o que assistimos é o distanciamento entre a teoria acadêmica e a prática dos profissionais Ao final de longos anos de estudo licenciados e bacharéis se lançam no mercado de trabalho sem saber o que fazer com toda aquela bagagem adquirida na academia Adentrar o mercado de trabalho não significa continuar a investigação em busca de respostas para os problemas com os quais lidava até então e o profissional se dá conta de que tudo o que foi visto na academia não se encaixa na realidade em que ele vai atuar É preciso recomeçar do zero criando suas próprias estratégias ou buscando em um passado longínquo as atividades executadas por seus professores Temos então a repetição das mesmas práticas em um tempo que já não é mais o mesmo É preciso que certas áreas como a Fonética e a Fonologia que ocupam as grades curriculares de vários cursos de graduação tenham além do seu valor científico para pesquisas na área da Linguística uma função no mundo concreto daqueles que estarão em ambientes escolares Primeiramente é preciso que o futuro professor encontre um sentido para aprender tais conceitos e que em um segundo momento seja capaz de tirar o insumo dessas disciplinas a ponto de que seu conhecimento ampliado possa ser útil na sua profissão 164 O que afinal a Fonética e a Fonologia tem a ver com isso Ora ambas são áreas que estão diretamente envolvidas com o processo de alfabetizaçãoletramento Se nós queremos que os índices de letramento aumentem e que com isso asseguremos o direito do cidadão a ter acesso ao mundo letrado é preciso que olhemos para todos os elementos que podem influenciar no desempenho dos alunos A partir do momento que começamos a refletir sobre as letras sobre a relação entre grafemas e fonemas e o papel que ocupam na palavra na frase e no discurso começamos a repensar o modo como ensinamos ou o modo como podemos aprender a ler e a escrever É preciso pensar estratégias que tornem menos árduos esses processos e que motivem os estudantes a ver esse mundo que se descortina diante deles 111 ALFABETIZAÇÃO PELO VIÉS DA LINGUÍSTICA Durante os quatros anos de graduação o futuro pedagogo e professor se prepara para alfabetizar ou melhor para letrar Sim letrar A noção de letramento vem substituir o ensino mecânico da transposição da forma sonora da fala à forma escrita É preciso fazer com que a criança experimente e domine práticas de leitura e escrita que circulam na nossa sociedade A alfabetização é um componente do letramento pois o processo vai além da codificação de fonemas e decodificação de grafemas assimilação do sistema alfabético e ortográfico da língua O profissional que se dedica ao ensino deve saber dosar alfabetização e letramento o que não tem sido tarefa fácil Não é fácil porque ao longo dos anos ouvimos mais sobre o que não se deve fazer do que sobre o que efetivamente se deve fazer em sala de aula É praticamente normal ficar aturdido com a queixa aos métodos sintético silábico fônico global etc Mas o que seguir afinal Será que definir um método a seguir é o mais importante Cremos que não Primeiramente o professor deve conhecer de fato o objeto que ensina Por exemplo já perguntamos inúmeras vezes aos alfabetizadores ScliarrCabral 2003 define grafema como uma ou duas letras que representam um fonema Assim por essa definição enquanto os dígrafos correspondem a um grafema a letra h de palavras como homem e hoje não corresponde a nenhum grafema 165 quantas vogais existem no sistema fonológico do português e eles prontamente respondem que são cinco Parece básico que um professor das séries iniciais já deva ter refletido sobre termos pelo menos sete vogais orais Se ele ensina a língua deve conhecêla nas mais ricas de suas minúcias e além disso deve incorporar todas as metodologias e os postulados teóricos com o intuito de fazer um trabalho diferenciado explorando o melhor do que ouviu e leu sobre as abordagens de ensino das línguas naturais A proposta então é que primeiro o professor conheça o conteúdo da área em que atua em segundo lugar que reflita sobre como o aluno decodifica o código isto é como se dá esse processo de aprendizagem e depois investigue e teste a capacidade do aluno de elaborar hipóteses sobre o que está decodificando e quais estratégias estimulam essas descobertas Vamos ver melhor como podemos fazer isso 112 RELAÇÃO GRAFEMAFONEMA POR QUE NÃO Ensinar pressupõe um ou mais métodos mas é preciso que encaremos a palavra método como experiências propiciadas ou vividas pois o que realmente faz diferença é saber o que aproveitar e adaptar dos materiais e das abordagens que são seguidas É fundamental que o professor se posicione diante do método como um investigador crítico que seleciona rejeita e implementa o material adotado A proposta de desvendar o código linguístico não deve ser um método a ser adotado solitariamente mas sim uma dentre outras tentativas de tornar menos árduo e menos lento o aprendizado da leitura e da escrita e ser ao mesmo tempo mais eficaz e produtivo A consciência fonológica já é uma habilidade observada em crianças de 3 a 4 anos e que vem sendo estudada há várias décadas no mundo todo especialmente na Consciência fonológica é definidacomo a capacidade metalinguística que possibilita a análise consciente das estruturas formais da língua Essa capacidade compreende dois níveis consciência de que a língua falada pode ser segmentada em unidades distintas a frase pode ser segmentada em palavras as palavras em sílabas e as sílabas em fonemas e consciência de que essas unidades podem ser repetidas na língua A consciência fonológica compreende a consciência da sílaba e a dos fonemas sua relação com a alfabetização e aquisição da língua escrita A capacidade de refletir sobre os sons da língua que em crianças pequenas manifestase pela percepção de rimas e pela segmentação de palavras em sílabas num futuro próximo estará associada com a prática da leitura Vários estudos têm demonstrado que jogos linguísticos que trabalham habilidades fonológicas em préescolares são caminhos para bons desempenhos em leitura Liberman et al 1988 apud Godoy 2008 Dehaene 2012 Morais et al 1979 1986 apud Godoy 2008 Cagliari 1996 dentre outros Godoy 2008 buscando saber em que medida a alfabetização pode se beneficiar do nível de consciência fonológica habilidade atrelada à leitura e à escrita realizoupesquisa com dois grupos de crianças com idade inicial de 5 anos e 9 meses expostos durante um ano a dois métodos de ensino distintos construtivista e correspondência grafemafonema As crianças foram submetidas a tarefas fonológicas de subtração e inversão no nível silábico e fonêmico em dois momentos no começo do ano antes da préalfabetização e no final do ano depois do término da préescola A atividade de subtração silábica consistiu em uma avaliação composta por dez logatomas pseudopalavras com estrutura CVCV consoante vogal consoante vogal A criança deveria subtrair a sílaba final do estímulo apresentado e dizer o que restou exemplo de estímulo bazu resposta esperada ba A tarefa de inversão silábica apresentava dez itens CVCV dos quais os dois primeiros eram palavras e os demais eram logatomas A criança deveria dizer o que resultava da inversão das sílabas do estímulo apresentado exemplo de estímulo boca resposta esperada cabo ou cabó A subtração fonêmica apresentava dez logatomas com estrutura CVC e a criança deveria subtrair mentalmente o fonema inicial exemplo de estímulo pes resposta esperada es Por fim a atividade de inversão fonêmica contemplava cinco logatomas com estrutura CV e cinco com estrutura VC A criança deveria inverter os fonemas mentalmente e dizer o que resultava exemplo de estímulo is resposta esperada si Os resultados da pesquisadora demonstraram que ambos os grupos apresentaram crescimento nas habilidades fonológicas da primeira coleta para a segunda tanto no nível silábico quanto no nível fonêmico Entretanto o crescimento das habilidades fonêmicas foi mais acentuado para o grupo que tinha focado a aprendizagem grafemafonema A autora afirma que nos últimos trinta anos as pesquisas têm demonstrado que a consciência fonêmica está estreitamente relacionada ao sucesso da aprendizagem da leitura e da escrita alfabética e que embora a habilidade não seja um prérequisito ela determina em alguma medida a formação de bons e maus leitores Acrescenta que para aqueles envolvidos no processo de alfabetização tais dados podem significar a diferença diante das dificuldades de aprendizagem Então por que não ensinar as relações grafemafonema Vamos retomar aqui os dados dos Quadros 1 e 2 apresentados no capítulo Introduzindo a Fonética e a Fonologia nos quais são apresentadas apenas as correspondências entre letras e sons fones Agora que todos já conhecem tanto os fones quanto os fonemas e perceberam a importância de entendermos essas correspondências apresentaremos nos Quadros 1 e 2 a seguir as relações entre grafemas fones e fonemas de vogais e consoantes do PB Vejamos Quadro 1 Correspondências entre grafemas fones e fonemas relativo às vogais do PB Grafema Exemplos Fone fonema a á ã ata pássaro à atar a a a átono em final de palavra seita e am an ã amplo canta irmã cantado acampado ã aN e é e lêmos êxito fechado e átono em final de palavra elç 1 c é pode sério cafezinho e e em en exemplo entre entregue embelezar ẽ eN i í ida sítio vivido i i i átono junto a outra vogal saj j i im in impor cinto imposto tintura i iN o ó canta cômodo tomate o o o átono em final de palavra pato u o o ó pode ódio bolinha o o om on tombo onde tombado condena õ oN u û uva úvula espátula u u u átono junto a outra vogal mau w um un umbigo juntar junto ũ uN Aqui apresentamos as vogais nasais com base na teoria bifonêmica vn porque a ortografia é baseada nessa representação fonológica Quadro 2 Correspondências entre grafemas fones e fonemas relativos às consoantes do PB Grafema Exemplos Fones Fonemas p pato p p b bato b b t todo t t t tia tʃ t seguido de i d data d d d dia dʒ d seguido de i f faca f f v vaca v f c cota k k seguido de a o u s cinema s s seguido de e i qu quilo k k com u não pronunciado qu quase kw kʷ com u pronunciado k Kátia k k ch chato ʃ ʃ nh ganho ɲ ɲ lh talho ʎ ʎ 169 PARA CONHECER Fonética e Fonologia do português brasileiro m moda m m em início de sílaba n nada n n em início de sílaba rr corrida x r depende do dialeto r h ʁ r roda x r em início de palavra depende do dialeto ʁ r h ʁ r aro prato r r entre vogais ou em encontros consonantais pr vr etc r par r em final de sílaba depende do dialeto r x ɣ h ɦ R ʁ x ɾ s saco s s em início de palavra s casa z z entre vogais s cós mesmo gosta s z S em final de sílaba depende do dialeto ʃ ʒ ç caça s s entre vogais disse s s c exceção s s xs exsudar s s sc nascer s s 170 A Fonética a Fonologia e o ensino sc nasço s s x enxada ʃ ʃ x explicar s ʃ S depende do dialeto x exame z z x táxi ks ks z zebra z z início de sílaba z final de sílaba veloz vez s z depende do dialeto ʃ ʒ S g gata gota gula g g seguido de a o u gu aguenta linguística gw gʷ seguido de e i g geral girafa ʒ ʒ seguido de e i j jaca ʒ ʒ l lata l l início de sílaba l mal ɫ w l final de sílaba depende do dialeto Os Quadros 1 e 2 foram apresentados para que pudéssemos agregar os conhecimentos relativos aos fones fonemas e suas correspondências com os grafemas A importância da conscientização dessas relações será retomada a seguir Vamos continuar refletindo sobre essas habilidades Propomos a seguinte pergunta o que significa ler Basta abrir alguns dicionários e veremos que ler vai além de saber juntar letras em palavras Ler significa conhecer interpretar Para que a interpretação ocorra obrigatoriamente é preciso desvendar o código Pesquisas têm revelado que analfabetos ou pessoas de baixa instrução não conseguem manipular os sons das palavras ou seja não conseguem apagar ou mover fonemas e assim formar novas palavras atribuindo novos sentidos Um analfabeto parece não ser capaz de perceber que se for tirado o primeiro som da palavra meu ele terá uma nova palavra eu Perceba que não estamos aqui falando de letras 171 mas dos fonemas que elas representam A esta capacidade de pensar metalinguisticamente chamamos de consciência fonêmica A consciência fonológica compreende a consciência fonêmica que por sua vez envolve a capacidade de reconhecer e manipular fonemas das palavras que constituem a língua A consciência fonológica mais ampla do que a fonêmica implica diferentes habilidades e ocorre no nível da consciência da palavra da consciência silábica e da consciência fonêmica revelandose em um processo de maturação nessa ordem São cinco as habilidades em consciência fonêmica 1 apagamento de fonemas 2 combinação de fonemas 3 identificação ou detecção de fonemas 4 segmentação ou análise ou decomposição de fonemas e 5 invariância ou reversão de fonemas Independente dos pormenores das hierarquias das consciências o professor deve explorar a representação das classes dos sons fazendo com que a criança perceba que os fonemas são peças que se combinam para formar palavras Não podemos esquecer que as letras ou nome das letras estão sempre enganando os aprendizes já que elas guardam valores diferentes dentro de uma só representação O segredo da decodificação é a relação grafemafonema apresentada nos Quadros 1 e 2 O grafema é a unidade mínima distintiva porque não é divisível de um sistema de escrita ou seja é a representação gráfica de um fonema O b por exemplo é um grafema que tem uma relação biunívoca o que significa dizer que o fonema b vai ser sempre representado pelo grafema b um grafema para um fonema não importa diante de qual vogal esteja ou que posição ocupe na palavra terá sempre o mesmo valor Os grafemas p b t d f e v são biunívocos e por isso são os mais fáceis de serem aprendidos Alguns grafemas têm valores previsíveis em algumas posições como é o caso do m z l e n quando estão em início de vocábulo ou entre vogais outros vão depender da posição e das letras que vêm antes ou depois Os grafemas j e g podem ambos 172 Como vimos a consciência fonológica é a habilidade de reflexão sobre as unidades sonoras da língua a consciência da palavra da silaba e dos fonemas A consciência fonêmica constituise em uma subhabilidade da consciência fonológica uma vez que se define como a capacidade de atentar para as unidades mínimas da lingua os fonemas ter valor de ʒ como em jeito ou gelo respectivamente O grafema g pode ter ainda valor de g como em gato Os grafemas ss e sc tem valor de s independente do contexto mas os grafemas c sc xc só terão valor de s quando seguidos de vogais anteriores Veja em nasce ˈnase e explicar eSpliˈkaɾ Já em tasca ˈtaSka essa relação muda O grafema x pode ter valores ʃ s z e ks de modo imprevisível como em enxameeNˈʃame experiência eSperiˈeNsia exato eˈzato e táxi ˈtaksi respectivamente Geralmente os futuros alfabetizadores pouco refletem sobre essas questões e não percebem que existe uma hierarquia de complexidade já testada e registrada pelos pesquisadores da Educação Refletir sobre o grau de dificuldade e a partir dessa análise bolar estratégias para o desvendamento do código pode ser uma pista para aqueles que buscam caminhos para alfabetizar É recomendado que partamos de elementos mais produtivos na língua e daqueles que apresentam uma relação símbolosom mais simples e progressivamente aumentemos o grau de dificuldade É preciso mostrar aos aprendizes a relação da linguagem oral com a linguagem escrita buscando desenvolver a consciência metalinguística primeiramente em uma fase perceptiva A fase de percepção exige que o texto seja muito próximo dos aprendizes podendo ser produzido pelo professor junto com os alunos refletindo a sua realidade e os hábitos do dia a dia Primeiramente o professor deve explorar o conteúdo do texto reproduzindoo no quadro e chamando a atenção para a forma para o gênero relacionandoo com a estrutura física Guilhermina Corrêa 2003 sugere que o texto seja trabalhado da seguinte forma 1 Leitura espontânea em que o professor conversa ou conta uma história 2 Leitura mais lenta observandose os limites de cada frase É quando se justificam os sinais de pontuação e a organização em parágrafos 3 Leitura lenta e artificial com vistas a mostrar os limites das palavras buscando a conscientização de que na fala não há preocupação com os limites de palavras mas na escrita essa limitaçáo é necessária 4 Leitura focalizando os limites das sílabas fazendo com que se percebam mais rapidamente os mecanismos da escrita alfabética 5 E por fim leitura artificial e harmoniosa salientando a prosódia e conscientizando sobre as sílabas tônicas das palavras 173 PARA CONHECER Fonética e Fonologia do português brasileiro As leituras sugeridas podem ser feitas em um só texto mas podem em outras oportunidades ser realizadas em textos diferentes e assim o estudante vai passando da fase da percepção para a da decodificação Dehaene 2012 também afirma que a leitura só se efetiva quando grafemas são decodificados em fonemas quando uma unidade visual passa a unidade auditiva Para que esse processo se efetive ele sugere que desde cedo a criança seja exposta a jogos simples em que tenha de manipular os sons da fala rimas sílabas e fonemas No campo visual a criança deve reconhecer memorizar e traçar as formas das letras Tanto a forma quanto o som que as letras representam são importantes no processo e a explicação não deve ser velada mas explícita O que parece ser consenso entre os pesquisadores que defendem a alfabetização por esse viés linguístico é que tão explícito quanto a relação entre grafemas e fonemas devem estar os objetivos da leitura Não se deve esconder do aluno que o objetivo da leitura é a compreensão e não a soletração de sílabas As atividades devem conduzir a criança às palavras ou frases compreensíveis que podem ser resumidas explicadas ou parafraseadas oralmente mostrando assim a denotação de sentido Dehaene 2012 12 Estratégias de ensino Durante as aulas de Fonética na graduação o professor estimula seus alunos a perceberam os sons das línguas naturais Aos poucos os estudantes vão percebendo os movimentos que seus órgãos ativos e passivos sempre realizaram mas que nunca foram notados ou seja toda articulacão para a comunicação era até então inconsciente De repente o estudante coloca uma das mãos espalmada sobre o pescoço e percebe que a única diferença entre a produção de um f e um v é a vibração das pregas vocais a sonoridade Experimentando pronunciar palavras como campo e canto percebe que não precisaria memorizar a velha regra que diz que antes de p e b vem sempre m uma vez que há uma explicaçáo física do movimento articulatório em palavras como campo os lábios estão em ação para a produção de consoantes bilabiais m e p mas em canto não temos movimentos de lábios pois a produção de fonemas alveolares n e t exige que a língua faça um movimento até os alvéolos São segmentos que têm o mesmo ponto 174 de articulação dizendo de outra forma p e m são homorgânicos assim como n e t também são Decoramos para os exames que um fonema é a menor unidade sonora distintiva de uma língua mas nunca refletimos sobre o que isso quer dizer de fato muito menos sobre a importância da distinção dos fonemas para o processo de leitura E agora refletindo sobre consciência fonológica parece mais coerente brincar de pares mínimos para identificação de fonemas De fato parece que o rumo da escola muitas vezes tomou o caminho da decoreba e não o da reflexão e experimentação Então nós como professores não cometamos o mesmo erro ou não nos omitamos diante da responsabilidade de ir atrás de respostas que possam facilitar o aprendizado As crianças também devem fazer suas experimentações a respeito da língua ao mesmo tempo em que criam hipóteses para seus testes e avançam em suas descobertas Antes mesmo de iniciar a alfabetização a criança deve ser estimulada a refletir sobre o que ouve e o que fala Deve ser capaz de segmentar uma frase em palavras as palavras em sílabas e as sílabas em fonemas e assim ir percebendo que a cadeia da fala é decomposta em unidades menores Mais tarde ela percebe que essas unidades se repetem em outras palavras e em outros contextos Podem ser exploradas como habilidades em consciência fonológica na préescola e nas séries iniciais as seguintes atividades Rima combinação do som final de uma palavra A equidade deve ser sonora e não necessariamente gráfica Aliteração repetição da mesma sílaba ou fonema na posição inicial das palavras Os travalínguas e as parlendas são bons exemplos de utilização de aliteração pois repetem o mesmo fonema várias vezes no decorrer da frase Consciência de palavras capacidade de segmentar a frase em palavras e além disso perceber a relação entre elas e organizálas numa sequência de sentido O déficit nessa habilidade pode levar a erros na escrita como aglutinações por exemplo em abola de palavras e separações inadequadas por exemplo em maca co Consciência da sílaba capacidade de segmentar as palavras em sílabas Atividades como contar o número de sílabas ou dizer qual é a sílaba inicial medial ou final de uma palavra dependem dessa habilidade e podem ser empregadas para o desenvolvimento dessa habilidade PARA CONHECER Fonética e Fonologia do português brasileiro Adoleta livro do professor Furlan 2011 é um guia que subsidia o trabalho pedagógico de professores das séries préescolares e iniciais Nesse guia encontramos algumas sugestões para trabalhar a consciência fonológica O material sugere exercícios fonoarticulatórios que exerciem áreas específicas relacionadas à fala como lábios língua e palato Baseados nesse material adaptamos algumas de suas sugestões e sugerimos como atividade imitar o motor de um carro vibrando os lábios passar a língua atrás dos dentes sobre os alvéolos e sentir as reentrâncias segurar os lábios superiores com as duas mãos tentando evitar seu movimento e produzir vogais segurar os lábios inferiores com as duas mãos tentando evitar seu movimento e produzir vogais com a boca aberta inspirar pelo nariz e expirar rapidamente pela boca projetar os lábios fazendo bico e produzir vogais mantendo o arredondamento dos lábios imitar animais produzir palavras que tenham S e R em posição de coda final de sílaba fazendo com que elas sejam produzidas com variações de pronúncia exemplos variações para a palavra carta kaxtɐ kaɾtɐ kartɐ e kartɐ como um carioca um caipira e vibrando uma e várias vezes o erre atrás dos dentes respectivamente e para mesmo mezmo mezmɯ meʒmo meʒmɯ meymo meymɯ memo memɯ produzir vogais em pares e e o ɔ i u e o ɛ ɔ u a produzir as vogais i e ɛ a e u o ɔ a na sequência produzir as consoantes p b t d k g sem deixar que elas explodam ou seja segurando o ar antes que se solte no ponto de bloqueio nos lábios nos alvéolos entre lábios e dentes e no véu do palato passar a ponta da língua no palato de dentro para a fora etc Parlendas são rimas infantis em versos de cinco ou seis sílabas para divertir ajudar a memorizar Possuem uma rima fácil e por isso são populares entre as crianças A Fonética a Fonologia e o ensino A proposta é que a criança se divirta com as caretas e com os sons que venha a produzir ao mesmo tempo em que explora as possibilidades do seu trato vocal e percebe que a fonação muda quando ela modifica algum ou alguns dos elementos que a compõe Lentamente a criança percebe que a diferença entre o ɛ e o ɔ é a anterioridade e a posterioridade da língua A produção das sequências i e ɛ a e u o ɔ a faz com que percebam que é a altura da língua que está em jogo Quando brinca em não fazer explodir as consoantes percebe que elas têm um bloqueio em comum que nem sempre ocorre no mesmo lugar e que é justamente essa explosão que permite que elas se realizem efetivamente O Adoleta sugere ainda uma série de exercícios respiratórios que tem por objetivo criar um hábito adequado de respirar e assim melhorar a fonação Também contempla atividades de rimas aliterações consciência de sílabas e de palavras Ilustramos a seguir alguns exemplos que podem inspirar futuros professores Atividade de rima Apresente para as crianças as seguintes rimas em forma de jogo que podem ser repetidas de maneira lenta e depois rápida Diga ré toque o pé Diga pelo toque o cabelo Diga aço toque o braço Diga abelha toque a orelha Diga desça toque a cabeça Quando as crianças já forem mais experientes com as rimas dê a pista e deixe que elas digam a palavra Diga pão toque a Furlan 2011 56 Uma ideia muito interessante para professores das séries iniciais é fazer com que os próprios alunos confeccionem alfabetos móveis que podem ser feitos de papel cartolina ou outros materiais O alfabeto móvel permite uma série de brincadeiras que estimulam a reflexão sobre a relação grafemafonema Geralmente as crianças aprendem primeiro as letras do seu nome então os alunos podem começar escrevendo seus nomes e os nomes dos colegas Depois podem retirar a primeira e a última letra e comparar com os colegas percebendo as maiúsculas e as minúsculas O professor pode fazer um ditado com imagens e os alunos devem formar a palavra correspondente O professor pode apresentar cartelas com palavras que contenham lacunas e os alunos devem completar com as letras que faltam O professor pode contar histórias cujos nomes dos personagens sejam grafados com letras semelhantes mas que tenham valores fonêmicos distintos como em Rita e Areta ou Gabriel e Gisele Com o auxílio do professor eles montarão o nome dos personagens e perceberão que uma letra pode corresponder a um ou mais sons A partir de imagens ou de palavras ditas oralmente podem brincar com pares mínimos achando palavras que existem e que não existem no português A sequência ata por exemplo tem sentido quando é completada com os grafemas b c d g l m n p r ch gerando bata cata data gata lata mata nata pata rata chata respectivamente Mas poderiam ser aceitas também fata jata sata tata vata zata sequências possiveis mas que não representam palavras no PB Os alunos podem brincar de trocar tirar letras de palavras para produzirem novas palavras como em boca que pode virar cabo ou oca e em um nível mais avançado oba ou coa Como podemos observar alguns métodos textos e livros têm boas ideias para estimular a consciência fonêmica e facilitar o processo de alfabetização Com um pouco de criatividade é possível tornar o aprendizado significativo e muito mais eficaz 13 Letramentos em EJA A história da escolarização de jovens e adultos no Brasil é permeada por ensejos políticos e sociais que visaram ainda que muitos tenham ficado apenas nos termos da lei mudar o rumo da educação Segundo Haddad e Di Pierro 2000 de 1958 até 1964 período que antecede a ditadura militar a nação presenciou a mobilização de educadores em redefinir as características específicas e um espaço próprio para essa mudança no ensino de jovens e adultos Em 1963 Paulo Freire encabeça na cidade de Angicos no Rio Grande do Norte a primeira experiência sistematizada de adultos que durou 40 horas O primeiro momento efetivo de alfabetização em Angicos partiu da palavra geradora belota Mas o que significa belota e por que essa palavra Os educadores voluntários que participaram do projeto mostravam slides com imagens e eram interrogados sobre elas A primeira imagem apresentada foi a de um homem montado em um burro com uma chibata na mão A belota ou borla ou bolota é o adorno esférico que fica na ponta da chibata e que aparecia em primeiro plano no slide Pelandré 2002 Depois de discutirem a definição da palavra os estudantes eram estimulados a refletirem sobre as famílias silábicas como observamos no exemplo a seguir Fernandes e Terra 1994 apud Búrigo 2012 74 Dona Francisca que palavra é essa É belota O que é belota Belota é o enfeite da chibata Quantas famílias tem em belota seu Toureiro Tem três A família do be a família do lo e família do ta Como é a família do ta Ta te ti to tu O senhor é capaz de escrever uma palavra usando dois tijolinhos da família do ta Tenho pra mim que posso sim senhor Toureiro escreve tatu O que é tatu seu Toureiro É um bicho muito gostoso Foram utilizadas 18 palavras geradoras e a cada uma delas correspondiam as famílias silábicas A seleção das palavras geradoras era feita com base na variedade de fonemas que a palavra apresentava devendo obedecer a uma ordem crescente de dificuldade e também deveria levar em conta o conteúdo semântico e a representação da realidade decodificada Ao final da experiência os estudantes foram submetidos a testes de alfabetização que consistiam em formação de frases preenchimento de palavras separação de sílabas e formação de palavras a partir das famílias silábicas Paulo Freire em entrevista a Pelandré 2002 deixou claro que a experiência de alfabetização realizada em Angicos não tinha a pretensão de ser um método mas fora uma proposta fruto de sua curiosidade e de seu compromisso político De acordo com Borges 2003 Freire realizou suas experiências com o que havia disponível isto é o método da silabaçao pois não era um estudioso no campo da Linguística mas da Antropologia e da Sociologia cabe a nós associarmos a Educação Popular aos estudos do socioconstrutivismo Para Freire a metodologia era antes de tudo uma crítica ou dialética da prática educativa e a prática educativa é antes de tudo um ato político A contribuição de Paulo Freire para a escolarização de jovens e adultos foi imensurável uma vez que ele semeou as ideias de uma educação libertária e para a cidadania ainda em processo de conquista nos dias atuais O fruto de seu trabalho também é mérito da motivação dos alunos e dos educadores voluntários que se sujeitaram à total imersão nessa situação de ensinoaprendizagem Hoje temos a noção de que 40 horas não são capazes de transformar adultos que desconhecem o código em leitores proficientes e nem em pessoas capazes de realizar leituras automatizadas Da mesma forma sabemos que o método silábico não é suficiente para dar conta de estruturas mais complexas além de ser explorado geralmente a partir de textos artificiais criados para o ensino Segundo Corrêa 2003 podemos observar ao longo da história dos métodos de alfabetização a presença marcante do olhar sobre a sílaba Segundo a autora a exploração da sílaba se mantém ora no centro ora na periferia dos métodos de alfabetização e isso é inevitável dado seu estatuto na constituição das palavras Se a sílaba é um elemento tão importante no processo da alfabetização o educador deve entender minimamente sua estrutura interna A compreensão a respeito das posições que podem ou não ser ocupadas no ataque e na rima silábica que por sua vez é dividida em núcleo e coda está extremamente relacionada à consciência silábica que sucede a consciência da palavra e precede a consciência fonêmica no construto dos diferentes graus de conhecimento da complexidade linguística A consciência silábica permite segmentar palavras permutar as sílabas entre si ou a sequência de grafemas e quem sabe atribuir novos sentidos à palavra Despertar ou desenvolver a consciência silábica nos estudantes vai além do método de silabaçao que cria estruturas CVCV A consciência silábica nos faz entender um pouco melhor assuntos relacionados por exemplo à separação silábica principalmente no que diz respeito aos ditongos crescente e decrescente e aos hiatos a distinção entre as vogais e semivogais às sílabas travadas e tantos outros conteúdos tão caros ao ensino do português 2 CONHECIMENTOS FONÉTICOFONOLÓGICOS NA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM Um profissional da Educação deve estar atento às percepções e as produções em todas as etapas da vida da criança Afinal muitas vezes as crianças ficam mais tempo na escola junto dos professores e assistentes do que em casa Pesquisas demonstram que bebês ainda na barriga das mães são capazes de ouvir de reconhecer vozes distinguir sons e reagir a estímulos sonoros Costa e Santos 2003 De acordo com a teoria inatista de Noam Chomsky isso se dá porque a linguagem é um sistema de conhecimentos interiorizados na mente humana Segundo essa teoria a criança nasce com uma Gramática Universal uma espécie de órgão biológico mental que evolui no indivíduo A fase final do desenvolvimento desse órgão é a gramática do indivíduo adulto O psicólogo e linguista Steven Pinker que acredita no gene da linguagem o Foxp2 e que concebe a linguagem como uma forma de instinto afirma que todos os bebês vêm ao mundo com dotes linguísticos De qualquer modo podemos supor que o processo de aquisição da linguagem começa ainda antes do nascimento e que o aprendizado não se dá apenas por imitação ou repetição Nos primeiros meses de vida os bebês já são capazes de discriminar os sons da fala e já demonstram atenção especial à prosódia materna Pesquisas recentes revelam também que as competências linguísticas do bebê já têm uma organização anatômica nas regiões do cérebro Ainda que uma criança de 3 meses se expresse apenas por arrulhos a sua área de Broca região do cérebro atrelada à produção de fala e análise da gramática se ativa quando ela escuta frases À medida que vai distinguindo os sons e se apropriando da fonologia da língua que se fala na sociedade em que está inserida vai especificando seu conhecimento linguístico e limitando o leque de possibilidades para outras línguas No primeiro ano de vida há uma mudança anatômica no aparelho fonador da criança que passa a ser distinta da dos demais mamíferos não 181 humanos se preparando para a fala Com o crescimento da criança ocorrem outras modificações por exemplo na posição da laringe de modo que a criança possa produzir os diversos sons utilizados pelos adultos Os pesquisadores ainda não estão muito afinados em relação ao período exato das etapas que compõem o processo de aquisição da linguagem Para Bates e Goodman 1997 apud Scarpa 2001 a trajetória parece universal ou seja as crianças começam o balbucio primeiro com vogais cerca de 3 ou 4 meses em média depois com combinações de vogais e consoantes de complexidade crescente geralmente entre 6 e 12 meses As primeiras palavras emergem entre 10 e 12 meses em média embora a compreensão de palavras possa começar algumas semanas antes Lá pelos 24 a 30 meses há uma espécie de explosão vocabular e aos 3 ou 3 anos e meio a maioria das crianças normais já dominou as estruturas sintáticas e morfológicas de línguas maternas Scarpa 2001 224 Para Pinker 2002 o balbucio dos primeiros 4 meses não tem valor linguístico Entre 5 e 7 meses as crianças começam antes a brincar com os sons do que a usálos para expressar seus estados físicos e emocionais Pinker 2002 337 aprendem que músculo mover e em que sentido para obter a mudança do som Costa e Santos 2003 relatam que psicólogos baseados em observações entendem que até uma determinada fase de desenvolvimento as crianças não são capazes de usar a linguagem para referir entidades que não estão presentes no momento em que estão falando Costa e Santos 2003 85 Mas quando uma criança começa a pronunciar certa junção de fonemas em presença do objeto ou da pessoa então podese inferir que a criança está relacionando a palavra ao objetopessoa Os autores ressaltam ainda que é a emoção de ver uma criança se expressar que nos faz dar sentido ao balbucio Silveira 2006 confirma para o português brasileiro algumas hipóteses já levantadas por outros autores sobre o balbucio canônico ou seja quando a produção silábica já é semelhante a do adulto palavras dissilábicas são as preferidas pelas crianças as consoantes coronais ocorrem em maior número seguidas pelas labiais e dorsais as vogais centrais são as mais recorrentes nesta fase na idade adulta as vogais anteriores são mais frequentes na escrita e na fala 182 o padrão silábico preferido é CV seguido por V na idade adulta a sequência mais recorrente é CV e CVC intrassilabicamente os padrões consoante coronal vogal anterior e consoante labial vogal central são recorrentes a literatura descreve também para esta posição o padrão consoante dorsal vogal posterior interssilabicamente o padrão duplicado mais recorrente parece ser coronal coronal seguido de labial labial dorsal dorsal são mais frequentes do que padrões variados ou seja com diferentes segmentos ocorrendo em sílabas sucessivas O padrão labial coronal também é significativo Silveira 2006 139 O mais importante para um profissional que lida com crianças em idade préescolar é observar e monitorar o ritmo dessa comunicação afinal a criança não se comunica apenas pela expressão vocal mas pelo olhar e pelo choro Segundo Costa e Santos 2003 o choro e ao fim do primeiro mês o sorriso são as primeiras formas de comunicação efetiva entre a criança e seus pais O bebê é motoramente limitado mas seus músculos sociais estão sob excelente controle e com um sorriso um arrulho ou um olhar ele consegue fazer com que os outros levantem suas sobrancelhas sorriam e vocalizem de forma extremamente variada Fletcher e MacWhinney 1997 236 Sendo assim nesta fase é preciso que professores e assistentes estejam atentos à tentativa de produção oral mas também a esses outros elementos que fazem parte da comunicação humana Na escola é o professor que tem contato direto com seus alunos e assim tem as melhores oportunidades de observar as condições dos alunos e tomar providências para a solução de problemas junto aos pais e aos órgãos de atendimento A atenção do profissional pode auxiliar a família na descoberta de patologias que quanto antes detectadas mais fáceis de serem tratadas Perito e Mantette 1991 apud Karnopp e Quadros 2001 verificaram que o balbucio é um fenômeno que ocorre tanto em bebês ouvintes quanto surdos no mesmo período de desenvolvimento Segundo as pesquisadoras as crianças surdas ou ouvintes apresentam um balbucio oral paralelo ao balbucio manual mas nas crianças surdas as vocalizações são interrom 183 pidas quando as produções manuais cessam nas crianças ouvintes Alguns pesquisadores também descobriram que o balbucio canônico em crianças surdas ou com perdas auditivas profundas é mais tardio outros estudos demonstram que existem diferenças significativas entre as vocalizações de crianças ouvintes e crianças surdas não só em relação ao período de início mas também no que diz respeito à produção de sílabas Em vista do que vimos os estudos em Fonética e Fonologia podem auxiliar no desenvolvimento de melhores estratégias para uma alfabetização e um letramento mais adequados 3 O PRECONCEITO LINGUÍSTICO Uma das questões que muito nos interessa na nossa área da Fonética e da Fonologia é o preconceito linguístico ligado aos fenômenos fonéticos As realizações que trocam por exemplo o l pelo r em encontros consonantais como em chicrete bicicreta e framengo são extremamente estigmatizadas Entretanto se olharmos para a etimologia de várias palavras do PB encontraremos que a palavra branco teve origem da palavra germânica blank o mesmo se deu com as palavras como cravo fraco e praga que são originárias das palavras latinas clavu flaccu e plaga respectivamente Encaremos então que o encontro consonantal realizado com l é um aspecto estrangeiro e que precisa ser assim encarado dentro da sala de aula Outros fenômenos fonéticos e fonológicos que aparecem na fala e se refletem na escrita são o apagamento do R em final de palavra comercomê corredorcorredô o apagamento da marca de plural as mesasas mesa os pastéisos pastel a monotongação e ditongação cadeiracadera trêstreis a assimilação do d em algumas variantes pagandopagano a despalatização ou a semivocalização mulhermulémuié dentre muitos outros Discutir e mostrar aos alunos toda essa variedade de produções sem um olhar avaliativo mas apenas curioso pode ajudar na percepção das regras usadas nos diferentes níveis de língua e pelas diferentes comunidades 184 de fala É interessante e importante mostrar que as mudanças listadas anteriormente seguem certas regras que constituem o PB e não são resultado de forças aleatórias ou mesmo de incapacidade cognitiva de certos falantes Havendo uma maior compreensão desses fatos haverá maior tolerância às diferenças tendose consciência de que inevitavelmente todos nós produzimos sentenças que não estão de acordo com as regras gramaticais presentes nas gramáticas normativas Esperamos que este capítulo tenha conseguido aproximar a Fonética e a Fonologia do campo do ensino e que o conhecimento sobre essas duas disciplinas possa auxiliar na elaboração de práticas pedagógicas menos árduas e que façam mais sentido para o aluno e o professor O professor deve refletir sobre como ele encara os erros e os desvios dos alunos e o valor que dá à gramática normativa Muitas das produções orais e escritas revelam uma mudança lenta e gradual do português brasileiro que não pode ser simplesmente encarada como erro Trazer explicações sóciohistóricas que incluam mudanças fonéticas semânticas e morfossintáticas para dentro de sala de aula estimula a reflexão metalinguística Quando refletimos sobre as correlações e as incoerências das relações entre fala e escrita avançamos no domínio da língua e mudamos o olhar sobre as falhas Existe uma diferença entre impor regras e mostrar as opções de uso e as implicações de suas escolhas Leituras sugeridas BAGNOL M A língua de Eulália novela sociolinguística São Paulo Contexto 1999 Nesta obra o autor discute questões relacionadas à variação sociolinguística verificada nos usos do português Essa discussão é feita de forma bastante didática a partir de reflexões feitas por personagens que incluem Irene uma linguista e Eulália a empregada de Irene A partir das conversas entre os personagens o autor promove uma reflexão sobre as variantes do português que dizem respeito ao tempo decorrido diacrônicas a questões geográficas diatópicas e sociais dìástricas e também sobre o português padrão e o não padrão CAGLIARI Luiz Carlos Alfabetização e linguística São Paulo Scipione 1996 Neste texto o autor quer auxiliar o profissional da Educação a encarar as dificuldades linguísticas encontradas em sala de aula no momento da alfabetização Discute as funções e usos da escrita no processo de alfabetização e a relevância da fala da criança quando chega à escola para se evitarem preconceitos linguísticos incluindo uma discussão sobre variação linguística É um convite aos educadores a pensarem o ensino de português pelo viés da Linguística e a refletirem sobre o preconceito linguístico que emperra o processo de alfabetização 185 A FONÉTICA A FONOLOGIA E O ENSINO Neste capítulo as autoras abordam sobre a importância das disciplinas de fonética e fonologia terem além das suas relevâncias científicas para os estudos linguísticos funções no universo prático dos sujeitos envolvidos nos espaços escolares Para que isto aconteça é necessário que o futuro docente descubra um sentido para adquirir conhecimentos fonéticos e fonológicos depois consiga fazer com que tais saberes venham a ter utilidade no exercício do seu trabalho Falam a respeito do novo objetivo do Ministério da Educação MEC que consiste em conseguir alfabetizar todas as crianças até 8 anos de idade A fonética e a fonologia fazem parte do processo alfabetizador por trabalharem com as letras relações existentes entre os grafemas e os fonemas além de outros aspectos da língua Discorrem sobre a consciência fonológica uma habilidade encontrada em crianças da faixa etária de 3 a 4 anos Esta capacidade tem sido alvo de diversos estudos relacionados a alfabetização pois é uma faculdade responsável pela reflexão a respeito dos sons da língua O segredo para realizar a decodificação dos códigos da língua está na relação grafemafonema presente nos quadros seguintes Quadro 1 Correspondências entre grafemas fones e fonemas relativo às vogais do PB Grafema Exemplos Fone fonema a â á gta pássaro à atuar a a a átono em final de palavra seita e am an â amplo canta irmã cantado acampado ã aN e ê lemos êxito fechado e e e átono em final de palavra ele i e e ê pede sério cafezinho e e em en exemplo entre entregue embelezar ẽ eN i í ida sítio vivido i i átono junto a outra vogal sai j i im in impor cinco imposto tintura ĩ iN o ô cantor cômodo tomate o o o átono em final de palavra pato u o o ô pode ódio bolinha ɔ ɔ om on tombo onde tombado condena õ oN u ú uva úvula espátula u u u átono junto a outra vogal may w um un umbigo juntar junto ũ uN Quadro 2 Correspondências entre grafemas fones e fonemas relativos às consoantes do PB Grafema Exemplos Fones Fonemas p pato p p b bato b b t todo t t t seguido de i tia tʃ tʃ d data d d d seguido de i dia dʒ d f faca f f v vaca v f c seguido de a o u cota k k c seguido de e i cinema s s qu com u não pronunciadoquilo k k qu com u pronunciado quase kw kw k Kátia k k ch chato ʃ ʃ nh ganho n n lh talho ʎ ʎ m moda m m em início de sílaba n nada n n em início de sílaba r corrida depende do dialeto x r h ʁ r r em início de palavra roda depende do dialeto x ʁ r h ɾ ʀ r r entre vogais ou em encontros consonantais pr vr etc r r r em final de sílaba par depende do dialeto r x ɣ h ʁ ʀ x ɡ R s em início de palavra saco s s s entre vogais casa z z em final de sílaba cós mesmo gosta depende do dialeto s z S ç caça s s ss disse s s entre vogais xc exceção s s xs exsudar s s sc nascer s s sc nasço s s x enxada ʃ ʃ x explicar depende do dialeto s ʃ ʃ x exame z z x táxi ks ks z início de sílaba zebra z z z final de sílaba veloz vez depende do dialeto s z ʃ ʒ ʃ g seguido de a o u gata gota gula g g gu seguido de e i aguenta linguística gw gw g seguido de e i geral girafa ʒ ʒ j jaca ʒ ʒ l início de sílaba lata l l l final de sílaba mal depende do dialeto ɫ w l As autoras refletem acerca do significado da leitura concluem tratarse de conhecimento eou interpretação Para conhecer e ou interpretar é imprescindível a decodificação dos códigos É de suma importância a reflexão acerca do grau de dificuldade para poder elaborar metodologias de decodificação dos códigos A forma mais eficiente para o desenvolvimento da consciência metalinguística se dá pela apresentação da relação entre a oralidade e a escrita As estudiosas afirmam que ao longo das aulas de fonética dos cursos de graduação o professor da disciplina incentiva sua turma a perceber os sons da língua nativa As crianças devem ser estimuladas a realizar suas próprias experimentações sobre a língua formular hipóteses para os testes que fizeram e consequentemente evoluir em seus conhecimentos Antes de iniciar o processo de alfabetização a criança precisa fazer reflexões a respeito das coisas que fala e ouve ao seu redor Os conhecimentos fonéticos e fonológicos são de grande valia para o desenvolvimento de metodologias mais adequadas e voltadas à alfabetização Referências SEARA Izabel Christine de NUNES Vanessa Gonzaga LAZZAROTTOVOLCÃO Cristiane Para conhecer fonética e fonologia do português brasileiro São Paulo Contexto 2015 No capítulo intitulado A fonética a fonologia e o ensino as autoras abordam sobre a importância das disciplinas de fonética e fonologia terem além das suas relevâncias científicas para os estudos linguísticos funções no universo prático dos sujeitos envolvidos nos espaços escolares Para que isto aconteça é necessário que o futuro docente descubra um sentido para adquirir conhecimentos fonéticos e fonológicos depois consiga fazer com que tais saberes venham a ter utilidade no exercício do seu trabalho As estudiosas falam a respeito do novo objetivo do Ministério da Educação MEC que consiste em conseguir alfabetizar todas as crianças até 8 anos de idade Para chegar a este resultado entra em ação o chamado Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa PNAIC Tal programa deve ser executado pelas esferas municipais e estaduais que vão receber todos os recursos e auxílios necessários A fonética e a fonologia fazem parte do processo alfabetizador por trabalharem com as letras relações existentes entre os grafemas e os fonemas além de outros aspectos da língua As pesquisadoras ressaltam o quão fundamental é que o profissional da educação saiba equilibrar o trabalho de alfabetização com o de letramento Elas reforçam que mais importante do que escolher um método de alfabetização é que o educador conheça verdadeiramente o seu objeto de ensino pense como o estudante vai conseguir adquirir o conhecimento e decodificar os códigos para assim poder investigar e testar a capacidade do discente de formular hipóteses acerca das decodificações feitas As teóricas discorrem sobre a consciência fonológica uma habilidade encontrada em crianças da faixa etária de 3 a 4 anos Esta capacidade tem sido alvo de diversos estudos relacionados a alfabetização pois é uma faculdade responsável pela reflexão a respeito dos sons da língua Durante a fase dos 3 a 4 anos de vida materializase através da percepção eou identificação de rimas e também pela divisão das palavras em sílabas Mais para frente a materialização se dá por meio do exercício da leitura Já foi comprovado que jogos linguísticos que utilizam das habilidades fonológicas no período préescolar estão no caminho certo para uma futura desenvoltura na prática da leitura As autoras refletem acerca do significado da leitura concluem tratarse de conhecimento eou interpretação Para conhecer e ou interpretar é imprescindível a decodificação dos códigos Estudos foram capazes de revelar que pessoas analfabetas ou com baixo nível instrucional não possuem a capacidade de manipulação dos sons dos vocábulos da língua isto é não tem a destreza de retirar ou deslocar fonemas para formar palavras novas Tal capacidade de pensamento metalinguístico é denominada de consciência fonêmica A consciência fonológica é maior que a consciência fonêmica portanto a abarca A fonológica abrange diversas habilidades dentre elas a reflexão acerca das unidades sonoras da língua acontece em um processo de maturação de três consciências a da palavra a silábica e a fonêmica necessariamente nesta sequência Enquanto a consciência fonêmica envolve apenas cinco habilidades apagamento eou eliminação de fonemas combinação entre fonemas percepção eou identificação dos fonemas decomposição divisão eou separação de fonemas reversão eou invariância de fonemas Independentemente da hierarquia existente entre as consciências o docente que vai alfabetizar deve trabalhar as representações das classes sonoras para conseguir fazer com que as crianças entendam que os fonemas são os elementos que se combinam entre si no processo de formação das palavras O segredo para realizar a decodificação dos códigos da língua está na relação grafemafonema demonstrada através de dois quadros ao longo do texto Muitas das vezes os futuros professores não notam a existência da hierarquia de complexidade É de suma importância a reflexão acerca do grau de dificuldade para poder elaborar metodologias de decodificação dos códigos A forma mais eficiente para o desenvolvimento da consciência metalinguística se dá pela apresentação da relação entre a oralidade e a escrita É de suma importância a reflexão acerca do grau de dificuldade para poder elaborar metodologias de decodificação dos códigos A forma mais eficiente para o desenvolvimento da consciência metalinguística se dá pela apresentação da relação entre a oralidade e a escrita No decorrer destas aulas os alunos passam a notar os movimentos realizados durante a fala todas as articulações feitas processos até então despercebidos eou feitos de maneira inconsciente Não havia tal consciência pois a escola boa parte das vezes enveredou pelo rumo de decorar em detrimento de refletir e realizar experimentações As pesquisadoras recomendam que os futuros educadores fujam de seguir por este caminho As crianças devem ser estimuladas a realizar suas próprias experimentações sobre a língua formular hipóteses para os testes que fizeram e consequentemente evoluir em seus conhecimentos Antes de iniciar o processo de alfabetização a criança precisa fazer reflexões a respeito das coisas que fala e ouve ao seu redor Também necessita ter a capacidade de separar uma frase em palavras consequentemente uma palavra em sílabas e as sílabas em fonemas para então poder notar que a cadeia de fala pode ser desmembrada em unidades menores Mais adiante a criança é capaz de compreender que estas unidades menores podem se repetir em diversas palavras e contextos As teóricas citam o livro Adoleta de Furlan 2011 para dar exemplos de atividades que podem ser feitas com as crianças a fim de estimular o desenvolvimento da consciência fonológica Dentre as possibilidades estão imitação de sons de animais e de motores de carros jogos que envolvam rimas entre outras opções que colaboram para facilitar o processo de alfabetização As autoras ainda discorrem acerca do processo de letramento na modalidade de Educação de Jovens e Adultos EJA Apresentam uma experiência com adultos que teve a duração de 40 horas e foi gerenciada pelo estudioso Paulo Freire Durante esta vivência de alfabetização o método silábico foi utilizado Os alunos passaram por testes que envolviam a formação de palavras e frases preenchimento de palavras além da separação silábica A contribuição de Freire para o ensino do público jovem e adulto foi considerável visto que despertou ideias de educação libertária estimulou o exercício da cidadania Nos dias atuais é evidente que 40 horas não são suficientes para transformar jovens e adultos desconhecedores dos códigos linguísticos em leitores fluentes Outro fato é que o método silábico não é capaz de abarcar estruturas mais complexas por na maioria das vezes ser trabalhado dentro de textos desenvolvidos com o intuito de alfabetizar Paulo Freire apesar de não ser um linguista mas sim um sociólogo e antropólogo trabalhou com o que era possível no período temporal que tinha A exploração das sílabas é presença constante na história do letramento eou alfabetização pois contribui para a formação das palavras Ao longo do tempo seu destaque apresenta variações para mais ou menos a depender da época A consciência silábica viabiliza a segmentação de palavras além da troca eou substituição de sílabas o que possibilita o surgimento de novos sentidos As estudiosas também apresentam informações a respeito do processo de aquisição de linguagem por volta de que período começam os balbucios vocálicos de um bebê quando há a evolução para balbucios vocálicos e consonantais pronúncia das primeiras palavras até a chegada de um vocabulário eou repertório Ressaltam que não existe um consenso em relação a exatidão dos períodos em que cada habilidade destas é adquirida porém o mais importante é que o educador responsável pelas crianças na fase pré escolar esteja atento às ocorrências comunicativas dos pequenos Este profissional muitas das vezes podem detectar problemas ou dificuldades comunicativas nas crianças conversar com os responsáveis dos menores para que seja feita a busca por um possível diagnóstico e tratamento Os conhecimentos fonéticos e fonológicos são de grande valia para o desenvolvimento de metodologias mais adequadas e voltadas à alfabetização As pesquisadoras encerram o capítulo com a temática do preconceito linguístico Trazem algumas demonstrações de fenômenos fonéticos que costumam ser estigmatizados por exemplo a troca do l pelo r em palavra como bicicleta que passa a ser pronunciada bicicreta Reforçam a importância de apresentar tais variações para os alunos demonstrar que acontecem pelo fato do usuário seguir alguma regra presente na língua e não por se tratar de mera aleatoriedade ou incapacidade de cognição de quem fala A partir de tal entendimento surge a tolerância em relação às diferenças linguísticas e também a compreensão de que qualquer um é passível do cometimento de algum tipo de desvio a gramática normativa