• Home
  • Chat IA
  • Recursos
  • Guru IA
  • Professores
Home
Recursos
Chat IA
Professores

·

Letras ·

Linguística

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Recomendado para você

Modelo-Artigo-Cientifico-TCC-ABNT

6

Modelo-Artigo-Cientifico-TCC-ABNT

Linguística

ESTACIO

Liefneinfaoifne

1

Liefneinfaoifne

Linguística

UFES

Questões de Sintaxe e Interpretação Textual sobre Suicídio e Análise da Animação Morte e Vida Severina

1

Questões de Sintaxe e Interpretação Textual sobre Suicídio e Análise da Animação Morte e Vida Severina

Linguística

UFPI

Modelo de Comunicação Verbal de Roman Jakobson: Função Poética e sua Relevância

8

Modelo de Comunicação Verbal de Roman Jakobson: Função Poética e sua Relevância

Linguística

UMG

Conversação entre criança e mãe durante atividade lúdica

22

Conversação entre criança e mãe durante atividade lúdica

Linguística

UMG

Analise de Desvio de Virgula em Frases sobre Consumismo na Escola

1

Analise de Desvio de Virgula em Frases sobre Consumismo na Escola

Linguística

UFPI

Analise de Desvio de Virgula e Consumismo em Textos

1

Analise de Desvio de Virgula e Consumismo em Textos

Linguística

UFPI

Aquisição da Linguagem: Reflexões sobre Língua I e Língua E

13

Aquisição da Linguagem: Reflexões sobre Língua I e Língua E

Linguística

UNEAL

Exercicios Resolvidos - Desvios de Virgula - Portugues

1

Exercicios Resolvidos - Desvios de Virgula - Portugues

Linguística

UFPI

Biografia Marcos Bagno-Linguista-Escritor e Obras

176

Biografia Marcos Bagno-Linguista-Escritor e Obras

Linguística

UNEMAT

Texto de pré-visualização

Ana acerte pelas partes que coloquei em vermelho pois elas estão com acertos que fiz Não enviou o Termo assinado Segue em anexo o seu TCC após fazer os acertos envie e informe se é o envio final Lembrese que os acertos precisam ser realizados para não impactar na sua nota UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Contagem 2025 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Trabalho apresentado como requisito obrigatório para conclusão do curso de Letras no formato de artigo científico resultante da pesquisa desenvolvida no ano de 2025 sob a orientação do professor Luiz Campos Contagem 2025 A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Ana Flávia Freitas de Assis Luiz Campos Resumo O artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade analisa criticamente os argumentos e pressupostos teóricos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no contexto brasileiro articulandoos com os conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade de gênero De natureza qualitativa e baseada em pesquisa bibliográfica a investigação apoiase em autores como Marcos Bagno Ricardo Bortoni Fernando Tarallo Willian Labov Dante Lucchesi Maria Cecília Mollica e Carlos Alberto Faraco para discutir as dimensões estruturais e sociais do fenômeno O estudo apresenta os conceitos fundamentais da Sociolinguística sistematiza os principais argumentos linguísticos favoráveis e contrários à adoção da linguagem neutra e examina sua relação com as identidades nãobinárias e com o combate ao preconceito linguístico e social Os resultados apontam que embora haja divergências quanto à viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro reconhecese sua relevância simbólica e social como instrumento de resistência inclusão e representatividade Concluise que a língua em constante transformação reflete as mudanças culturais e ideológicas de seu tempo e que compreender esse processo é essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias Palavraschave Linguagem Neutra Linguagem NãoBinária Identidade de Gênero Preconceito Linguístico Variação Linguística Representatividade INTRODUÇÃO Em 2015 chamoume a atenção quando vi um jornalista da Globo News dizer centi e cinquenta ao invés de cento e cinquenta para se referir ao número 150 e isso despertoume a curiosamente para pesquisar sobre foi então que descobri que esse fenômeno tem a ver com a questão da linguagem neutra O debate sobre a linguagem neutra tem ganhado destaque no cenário brasileiro mobilizando discussões que ultrapassam os limites da gramática e alcançam dimensões sociais políticas e identitárias A proposta de adaptar a língua portuguesa a formas mais inclusivas que contemplem pessoas que não se identificam dentro do sistema binário de gênero tem gerado tanto apoio quanto resistência em diversos espaços da mídia às instituições de ensino No campo da Linguística e da Sociolinguística esse tema adquire especial relevância pois convida à reflexão sobre o funcionamento dinâmico da língua os fatores sociais que influenciam o uso e as mudanças linguísticas que surgem em resposta às transformações culturais da sociedade contemporânea Compreender o fenômeno da linguagem neutra exige um olhar que vá além da norma tradicional e das prescrições gramaticais A língua é antes de tudo um reflexo da vida social e sua evolução acompanha as transformações históricas e culturais dos falantes Como afirma Marcos Bagno 1999 p 42 a língua é um organismo vivo em permanente processo de transformação e é o uso que dita suas formas não o contrário Nessa perspectiva o surgimento de novas expressões e formas linguísticas como os neopronomes elu ile e as terminações neutras todes amigues pode ser entendido como uma tentativa legítima de inclusão e representatividade refletindo o desejo de uma sociedade mais igualitária no plano simbólico e linguístico Diante dessa realidade surge a seguinte questão de pesquisa quais são os principais argumentos linguísticos e sociolinguísticos que sustentam ou criticam o uso da linguagem neutra e como esse debate se conecta aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade Essa pergunta norteia a investigação que tem como objetivo geral analisar criticamente os principais argumentos e pressupostos teóricos linguísticos e sociolinguísticos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no Brasil articulandoos aos conceitos de variação preconceito e identidade de gênero Tratase de uma 2 pesquisa bibliográfica baseada em autores e estudos que abordam a relação entre língua sociedade e ideologia buscando compreender como as práticas linguísticas refletem valores crenças e disputas simbólicas A escolha desse tema se justifica pela sua relevância acadêmica e social Discutir a linguagem neutra significa também discutir inclusão cidadania e diversidade reconhecendo a importância da linguagem na construção das identidades e no combate às desigualdades O preconceito linguístico como destaca Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de exclusão social pois julgar o modo de falar do outro é em última instância uma forma de julgar o próprio falante sua origem e seu valor social Dessa forma ao investigar os argumentos em torno da linguagem neutra este artigo busca contribuir para uma reflexão mais crítica e menos dogmática sobre a língua portuguesa incentivando o respeito às variações e a compreensão de que a mudança linguística é um processo natural e inevitável 21 CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA A língua enquanto fenômeno social e dinâmico não é um sistema homogêneo fixo ou imutável Ao contrário está em constante transformação e reflete as múltiplas realidades sociais históricas e culturais dos falantes que a utilizam É nesse contexto que a Sociolinguística campo que articula língua e sociedade propõe compreender a variação linguística como elemento constitutivo da linguagem humana e não como um desvio ou erro frente a uma norma idealizada Segundo William Labov 2008 considerado o fundador da Sociolinguística Variacionista toda comunidade de fala é marcada por diferenças sistemáticas no uso da língua que se relacionam a fatores como idade gênero classe social escolaridade região geográfica e contexto comunicativo Para o autor essas variações não são aleatórias mas obedecem a padrões sociais e estruturais que podem ser analisados cientificamente Assim a variação linguística é um fenômeno natural e inevitável intrínseco ao funcionamento da língua No contexto brasileiro Tarallo 1994 destaca que a variação deve ser entendida como o reflexo das relações sociais e das identidades dos falantes apontando que a diversidade linguística existente no país espelha sua complexa 3 formação histórica e cultural O português do Brasil em sua pluralidade manifesta se por meio de variedades regionais como sotaques e léxicos locais sociais ligadas à classe ou escolaridade e situacionais dependentes do grau de formalidade e da interação entre interlocutores Além disso é importante diferenciar variação linguística de mudança linguística Enquanto a variação diz respeito à coexistência de formas diferentes que expressam um mesmo significado por exemplo tu vais e você vai a mudança linguística ocorre quando uma dessas variantes se torna predominante ao longo do tempo alterando o sistema linguístico Como observa Mollica 2003 a variação é o ponto de partida para a mudança representando a vitalidade e a adaptabilidade da língua diante das transformações sociais Sob essa perspectiva compreender a variação linguística é reconhecer que não existe uma única forma correta de falar mas sim diversas formas legítimas adequadas a diferentes contextos de uso Essa concepção rompe com a visão tradicional e normativa da língua que tende a privilegiar um padrão fixo associado às classes socialmente prestigiadas e reafirma o caráter democrático e plural do português brasileiro Assim o estudo da variação linguística tornase essencial para compreender não apenas as diferenças de fala mas também as dinâmicas de poder e identidade que se expressam por meio da linguagem Essa abordagem será fundamental mais adiante para compreender como as discussões sobre linguagem neutra se inserem no debate sobre variação mudança e adequação linguística especialmente no que se refere à inclusão e ao respeito às diversas identidades de gênero 22 A NORMA LINGUÍSTICA CULTO E POPULAR A discussão sobre a norma linguística é central na tradição sociolinguística brasileira pois envolve não apenas aspectos estruturais da língua mas também dimensões ideológicas históricas e educacionais A compreensão da língua como fenômeno social implica reconhecer que a chamada norma culta não é uma entidade neutra ou universal mas o reflexo de relações de poder e prestígio que se consolidaram ao longo do tempo 4 De modo geral o termo norma linguística pode ser entendido como o conjunto de convenções e padrões de uso que orientam a comunicação dentro de uma comunidade No entanto é importante distinguir entre normapadrão norma culta e norma popular conceitos muitas vezes confundidos no senso comum e até mesmo em práticas escolares A normapadrão é uma construção artificial idealizada pelas gramáticas normativas cujo objetivo é unificar o idioma e estabelecer um modelo de correção formal Já a norma culta conforme define Ricardo Bortoni 2005 referese ao modo de falar dos grupos urbanos com maior acesso à escolarização e aos meios de prestígio sem contudo ser isenta de variações internas A norma popular por sua vez é a variedade mais espontânea utilizada por falantes com menor grau de escolarização e representa igualmente uma forma legítima de uso da língua Nesse sentido a Sociolinguística rompe com a visão tradicional que considera apenas a normapadrão como correta Para Faraco 2008 a imposição de um modelo único de língua reflete uma ideologia normativa excludente que associa prestígio social à forma de falar O autor argumenta que o ensino de língua deve se pautar na adequação linguística e não em uma noção rígida de correção Essa ideia também defendida por Bagno 2011 propõe que cada variedade linguística é adequada a determinados contextos comunicativos e que o falante competente é aquele capaz de transitar entre registros de acordo com a situação de fala A partir dessa perspectiva o preconceito linguístico amplamente discutido por Bagno 1999 2015 revelase como um mecanismo de exclusão social pois desqualifica as formas de expressão que divergem da normapadrão e ao fazêlo desvaloriza os grupos sociais que as utilizam Assim a norma culta deve ser compreendida não como a única expressão legítima da língua mas como uma das muitas formas possíveis de manifestação linguística dentro da diversidade do português brasileiro 5 O papel da escola é portanto de ampliação da competência comunicativa do aluno e não de repressão das variedades linguísticas que ele domina Ensinar a normapadrão deve significar fornecer ferramentas de acesso a contextos formais e letrados sem deslegitimar as formas populares de fala Essa visão pluralista da norma linguística contribui diretamente para o debate sobre a linguagem neutra pois reforça a ideia de que a língua é um espaço de negociação adaptação e inclusão Da mesma forma que as variedades regionais e sociais refletem a diversidade dos falantes as propostas de linguagem neutra representam a busca por adequação expressiva frente à diversidade de identidades de gênero que compõem a sociedade contemporânea Assim compreender a distinção entre norma culta e norma popular bem como o papel ideológico da normapadrão é essencial para reconhecer que as mudanças linguísticas e sociais caminham lado a lado A língua longe de ser um instrumento fixo e homogêneo é uma construção coletiva e dinâmica sempre sensível às transformações culturais e identitárias de seu tempo 23 O Preconceito Linguístico e as Ideologias Normativas O estudo da variação e da norma linguística leva inevitavelmente à discussão sobre o preconceito linguístico fenômeno que se manifesta quando determinadas formas de falar são consideradas inferiores incorretas ou inaceitáveis segundo padrões de prestígio social No contexto brasileiro onde a diversidade linguística é ampla e profundamente marcada por fatores históricos regionais e socioeconômicos o preconceito linguístico assume um caráter não apenas linguístico mas também ideológico e político 6 Conforme destaca Marcos Bagno 1999 2015 o preconceito linguístico é uma forma de discriminação que se apoia em mitos sobre a língua portuguesa como a crença na existência de uma forma certa e de outras erradas e serve para reforçar desigualdades sociais Essa ideologia normativa associa o domínio da normapadrão ao prestígio à educação e à inteligência ao mesmo tempo em que desvaloriza as variedades populares frequentemente associadas à ignorância ou à falta de instrução Nesse sentido o julgamento linguístico tornase também um julgamento social refletindo hierarquias de classe raça e poder simbólico Segundo Faraco 2008 o preconceito linguístico está ligado à noção de purismo linguístico isto é à tentativa de conservar uma língua idealizada e estática supostamente superior e correta Essa visão ignora o caráter natural da variação e da mudança linguística e desconsidera a língua como prática social viva Ricardo Bortoni 2005 reforça que a avaliação negativa de certas variedades não tem base científica mas é fruto de construções culturais e educacionais que privilegiam o modelo de fala das classes dominantes Além disso o preconceito linguístico não se manifesta apenas em ambientes formais como a escola e os meios de comunicação mas também nas interações cotidianas em que determinadas expressões sotaques ou escolhas lexicais são alvos de zombaria ou correção Bagno 2007 observa que ao estigmatizar uma forma de falar estigmatizase também o falante e por extensão sua identidade cultural e social Assim o preconceito linguístico constitui uma forma de exclusão simbólica que limita o acesso de grupos marginalizados a espaços de legitimidade e reconhecimento No campo educacional esse problema se acentua quando o ensino da língua portuguesa é pautado exclusivamente pela gramática normativa sem considerar as diferentes realidades linguísticas dos alunos Tal postura reforça a ideia de que apenas a normapadrão é válida desvalorizando o conhecimento linguístico prévio dos estudantes e desconsiderando a língua como instrumento de expressão e 7 identidade Como propõe Bagno 2011 o ensino de língua deve partir do princípio da inclusão linguística valorizando a diversidade e reconhecendo o potencial comunicativo de todas as variedades Essa discussão é particularmente relevante quando se analisa o debate contemporâneo sobre a linguagem neutra pois o mesmo tipo de resistência que se observa diante das variedades populares também se manifesta em relação às novas formas de expressão de gênero Ambas as situações revelam como a normapadrão e de modo mais amplo as ideologias normativas operam como mecanismos de controle simbólico que visam preservar estruturas sociais e identitárias tradicionais Ao problematizar o preconceito linguístico a Sociolinguística oferece instrumentos teóricos para compreender que as tentativas de neutralização de gênero na linguagem não são erros mas expressões legítimas de uma sociedade em transformação que busca ampliar a representatividade e o respeito à diversidade Em suma o preconceito linguístico e as ideologias normativas configuram barreiras ao reconhecimento da pluralidade linguística e cultural do Brasil Superá las requer uma mudança de perspectiva em que a língua seja vista não como um sistema homogêneo e hierarquizado mas como um espaço de convivência entre múltiplas vozes e identidades Essa visão será aprofundada no próximo tópico que discute como a Sociolinguística brasileira tem contribuído para a valorização da diversidade linguística e para o combate a práticas excludentes no uso da língua 24 A Contribuição da Sociolinguística Brasileira A Sociolinguística consolidada no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980 representou uma verdadeira ruptura com a tradição normativa e estruturalista que dominava os estudos da língua até então Inspirada nas propostas de William Labov e adaptada à realidade sociocultural brasileira essa vertente teórica passou a considerar a língua como fenômeno social heterogêneo e dinâmico cuja variação 8 reflete não apenas diferenças linguísticas mas também relações de poder identidade e pertencimento Um dos marcos fundadores dessa tradição no país é o trabalho de Fernando Tarallo 1994 que introduziu de forma sistemática os princípios da Sociolinguística variacionista no contexto brasileiro Tarallo destacou que a variação linguística não deve ser vista como um desvio da norma mas como expressão legítima de diferentes contextos socioculturais Sua abordagem contribuiu para a valorização científica das variedades populares e regionais do português brasileiro reconhecendoas como fontes legítimas de dados para o estudo da língua Paralelamente pesquisadores como Stella Maris Ricardo Bortoni e Dante Lucchesi ampliaram o campo da Sociolinguística ao incluir dimensões educacionais históricas e identitárias nas análises Ricardo Bortoni 2005 por exemplo enfatiza o papel da escola na construção de uma pedagogia linguística que respeite a diversidade defendendo que o ensino deve promover a competência comunicativa dos alunos e não a padronização artificial de suas formas de fala Já Lucchesi 2009 contribui com a perspectiva da sociolinguística histórica mostrando como a formação social do Brasil marcada pela colonização pela escravidão e pela diversidade étnica produziu um português profundamente heterogêneo e plural A consolidação da Sociolinguística brasileira também está fortemente associada à atuação de autores como Marcos Bagno Carlos Alberto Faraco e Maria Cecília Mollica que difundiram o debate sobre preconceito linguístico adequação comunicativa e variação como valor cultural Bagno 2015 tornouse uma das vozes mais influentes na defesa da legitimidade das variedades não padrão e na crítica às ideologias linguísticas excludentes Faraco 2008 por sua vez propõe que a compreensão da norma culta e da norma popular deve ser pautada por critérios de uso real da língua e não por prescrições arbitrárias das gramáticas tradicionais 9 Essas contribuições formam o que se pode chamar de uma tradição sociolinguística brasileira caracterizada pela valorização da pluralidade e pela busca de uma linguagem científica comprometida com a inclusão social Esse campo teórico permitiu por exemplo repensar o ensino de português as políticas linguísticas e a própria noção de cidadania linguística Como observa Mollica 2003 compreender a diversidade linguística é reconhecer que as diferenças de fala não são falhas mas marcas de identidade e pertencimento A partir desse conjunto de reflexões a Sociolinguística brasileira tem desempenhado papel fundamental na desconstrução de mitos sobre a língua e na promoção de uma visão mais democrática da comunicação Essa perspectiva amplia o horizonte para novas discussões sobre a linguagem neutra que também emerge como uma forma de variação socialmente significativa relacionada à identidade e à representação de grupos historicamente invisibilizados Assim o debate sobre o respeito às diferentes formas de falar se entrelaça ao respeito às diferentes formas de ser e se identificar 25 Síntese Variação Norma e Inclusão Linguística A análise dos conceitos de variação e norma linguística no contexto da tradição sociolinguística brasileira permite compreender que a língua é um fenômeno essencialmente diverso dinâmico e socialmente situado Longe de ser um sistema uniforme a língua reflete a multiplicidade dos sujeitos que a utilizam suas origens experiências e contextos socioculturais Assim cada variação linguística carrega consigo uma história uma identidade e um modo particular de ver o mundo A Sociolinguística desde os estudos de Labov 2008 e sua consolidação no Brasil por autores como Tarallo 1994 Ricardo Bortoni 2005 Bagno 1999 2015 e Faraco 2008 tem demonstrado que não há formas erradas ou inferiores de falar mas sim usos adequados a diferentes contextos de comunicação O reconhecimento dessa pluralidade rompe com a tradição normativa excludente e 10 promove uma visão mais democrática da linguagem em que todas as variedades são legítimas dentro de suas condições de uso A distinção entre norma culta norma popular e norma padrão revela que o prestígio linguístico é um fenômeno social e histórico e não uma qualidade intrínseca da língua Como lembra Bagno 2007 o mito da língua única e correta é sustentado por uma ideologia que privilegia os grupos socialmente dominantes e marginaliza as formas de expressão das classes populares Essa ideologia ao se naturalizar no cotidiano e nas instituições especialmente na escola reforça o preconceito linguístico e contribui para a manutenção de desigualdades Contudo a tradição sociolinguística brasileira tem se posicionado de forma crítica diante dessas hierarquias simbólicas propondo uma abordagem de ensino e pesquisa comprometida com a inclusão linguística Essa perspectiva reconhece que dominar a normapadrão pode ser socialmente vantajoso mas que tal domínio não deve se dar à custa da desvalorização das demais formas de fala Ao contrário é preciso promover a ampliação da competência comunicativa dos falantes respeitando suas identidades e repertórios linguísticos Nesse sentido discutir variação e norma linguística não é apenas uma questão técnica ou gramatical mas também ética e política Tratase de reconhecer que a língua é um espaço de disputa simbólica no qual se refletem e se produzem relações de poder inclusão e exclusão Essa compreensão tornase fundamental para o debate sobre a linguagem neutra que representa uma nova forma de variação linguística emergente motivada por demandas sociais ligadas à identidade de gênero e à visibilidade de grupos não binários e trans Assim como as variações regionais e sociais legitimam diferentes modos de expressão a linguagem neutra busca legitimar diferentes modos de existir e se representar por meio da língua Ao compreender a língua como um organismo vivo e 11 em constante transformação a Sociolinguística oferece o suporte teórico necessário para analisar esse fenômeno não como uma ameaça à norma mas como parte natural do processo de evolução e democratização linguística Dessa forma a síntese entre variação norma e inclusão aponta para uma concepção de língua mais plural flexível e humanizada uma língua que se adapta à diversidade dos falantes e acolhe as transformações sociais de seu tempo 26 A Linguagem Neutra sob a Perspectiva Linguística e Sociolinguística A linguagem é antes de tudo um reflexo das transformações sociais e culturais que atravessam a sociedade Assim como a variação linguística revela as múltiplas formas de expressão de um povo também as novas formas de uso da língua podem emergir como respostas simbólicas a demandas identitárias e políticas Nesse contexto a linguagem neutra ou linguagem inclusiva surge como um fenômeno linguístico e social que busca romper com o binarismo de gênero tradicionalmente presente na língua portuguesa promovendo uma comunicação mais acolhedora e representativa de pessoas não binárias e transgênero Do ponto de vista linguístico a proposta de linguagem neutra pode ser compreendida como uma manifestação legítima do processo de variação e mudança linguística conforme estabelecido pelos princípios da Sociolinguística Labov 2008 já demonstrava que as mudanças na língua nascem do uso social e da necessidade de adequação comunicativa entre os falantes Sob essa ótica a linguagem neutra representa uma inovação que emerge da interação social impulsionada por grupos que buscam visibilidade e reconhecimento dentro da estrutura linguística A língua sendo viva adaptase continuamente às transformações culturais e a linguagem neutra é um reflexo direto desse dinamismo Na tradição sociolinguística brasileira autores como Marcos Bagno 2015 e Ricardo Bortoni 2005 defendem que nenhuma forma de falar é intrinsecamente 12 superior a outra Essa perspectiva permite compreender que o uso de pronomes neutros como elu delu ou de desinências não binárias como todes amigxs amigues não constitui uma ameaça à língua mas uma tentativa de ampliar suas possibilidades expressivas Para Bagno a língua é um instrumento de inclusão e não de exclusão BAGNO 2011 p 57 e portanto deve estar aberta a mudanças que respondam às necessidades comunicativas e sociais de seus falantes Sob o ponto de vista sociolinguístico a linguagem neutra pode ser entendida como uma forma de variação social e identitária isto é um uso linguístico que marca pertencimento e resistência Tal como as variedades regionais e populares refletem a identidade de determinados grupos sociais o uso de formas neutras expressa a identidade de pessoas e coletividades que não se reconhecem nas categorias tradicionais de gênero Assim o debate em torno da linguagem neutra transcende o plano gramatical situandose no campo das ideologias linguísticas o espaço em que se definem o que é considerado aceitável ou correto dentro de uma comunidade de fala A resistência ao uso da linguagem neutra nesse sentido ecoa a mesma lógica do preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 e Faraco 2008 trata se da rejeição de formas que desafiam uma norma tradicionalmente associada ao prestígio e à autoridade Tal resistência evidencia que as disputas em torno da língua são também disputas por poder simbólico e representação social Assim a recusa à linguagem neutra não é apenas uma questão linguística mas reflete tensões mais amplas sobre gênero identidade e diversidade No contexto cultural brasileiro a discussão sobre linguagem neutra ganhou visibilidade em produções midiáticas e artísticas que têm papel fundamental na difusão de novas práticas linguísticas e na sensibilização social Um exemplo notável é a série Todxs Nós lançada em 2020 pela HBO Brasil que acompanha a trajetória de Rafa personagem não binário que busca afirmar sua identidade e questionar os padrões de gênero e linguagem na sociedade contemporânea Ao adotar expressões neutras e tematizar o uso da linguagem inclusiva no cotidiano a série contribui para a naturalização dessas formas e para a ampliação do debate sobre representação e pertencimento Essa produção televisiva exemplifica como a 13 linguagem neutra ultrapassa o campo acadêmico e se insere nas práticas culturais revelandose um fenômeno linguístico em pleno processo de consolidação social Além de representar uma demanda política a linguagem neutra também dialoga com os conceitos de adequação e variação centrais na Sociolinguística Como destaca Ricardo Bortoni 2005 a competência linguística de um falante está na capacidade de adaptar sua fala aos contextos comunicativos e interlocutores e não em seguir rigidamente uma norma fixa Assim o uso de formas neutras pode ser compreendido como uma estratégia de adequação comunicativa voltada a contextos de respeito à diversidade e à inclusão A adoção dessas formas não implica eliminar o uso tradicional de gênero mas ampliar as opções expressivas disponíveis de modo a contemplar novos modos de subjetivação É importante ressaltar que a linguagem neutra por ainda se encontrar em fase de difusão não possui consenso quanto à sua forma padrão Variantes como o uso do x todxs do tods ou do e todes coexistem refletindo diferentes tentativas de adaptação e experimentação linguística Essa heterogeneidade é justamente o que caracteriza um fenômeno de variação em curso Como afirma Mollica 2003 a diversidade é parte constitutiva da língua e sua vitalidade depende da capacidade de incorporar novos sentidos e formas Do ponto de vista social a linguagem neutra simboliza uma resistência à exclusão linguística pois desafia as estruturas discursivas que invisibilizam pessoas não conformes ao binarismo de gênero Tratase de uma tentativa de reconfigurar o espaço linguístico como um ambiente de reconhecimento e pertencimento em que cada sujeito possa se expressar de maneira coerente com sua identidade Nesse sentido a proposta de linguagem neutra é coerente com os princípios da Sociolinguística valoriza a variação questiona a norma excludente e reconhece a língua como um espaço de diversidade e transformação Portanto analisar a linguagem neutra sob a perspectiva linguística e sociolinguística é compreender que a língua não é apenas um instrumento de comunicação mas também um campo de disputa simbólica e social A emergência dessa nova forma de expressão não representa uma ruptura arbitrária com a norma mas sim a continuidade de um processo histórico de adaptação linguística às mudanças sociais Assim como as diferentes variedades do português brasileiro 14 refletem a riqueza cultural do país a linguagem neutra reflete o avanço de uma consciência social que busca visibilizar e respeitar todas as identidades A Sociolinguística ao reconhecer e legitimar a variação oferece o alicerce teórico para compreender a linguagem neutra não como desvio mas como expressão legítima de inclusão e transformação social 27 A Linguagem Neutra como Expressão de Identidade e Resistência Social A linguagem não apenas comunica ideias mas também constrói e reafirma identidades Por meio dela os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos no mundo social Nesse sentido a linguagem neutra emerge como um recurso discursivo e simbólico de afirmação identitária e resistência especialmente no contexto de grupos historicamente marginalizados em razão de sua expressão de gênero Ao propor novas formas de nomear e se referir a pessoas a linguagem neutra desafia estruturas tradicionais de poder inscritas na língua e na sociedade abrindo espaço para a visibilidade de identidades não binárias e transgênero Sob a ótica da Sociolinguística compreender a linguagem neutra como forma de resistência implica reconhecer que a língua é um campo de disputa simbólica Conforme aponta Pierre Bourdieu 1991 o poder linguístico é também poder social quem detém o direito de definir o falar correto exerce dominação simbólica sobre os demais Assim quando grupos sociais minoritários reivindicam novas formas de expressão estão também reivindicando o direito de existir e ser reconhecidos linguisticamente A linguagem neutra portanto não é apenas uma inovação formal mas uma prática política de reconfiguração das relações de poder no espaço discursivo Nesse processo é importante considerar que a língua atua como um marcador de identidade Como afirma Hall 2000 as identidades contemporâneas são múltiplas fragmentadas e constantemente em construção A linguagem ao acompanhar essa dinamicidade tornase um instrumento fundamental na constituição das subjetividades Ao adotar pronomes e desinências neutras sujeitos não binários podem se ver representados de modo mais coerente com sua 15 autoidentificação subvertendo o binarismo linguístico que tradicionalmente os invisibiliza Desse modo a linguagem neutra se apresenta como expressão legítima da diversidade de gênero atuando como ferramenta de pertencimento e reconhecimento social A resistência nesse contexto manifestase tanto na dimensão simbólica quanto na prática comunicativa Como observa Judith Butler 2003 o gênero é performativo isto é construído e reiterado por meio de atos discursivos Assim ao empregar formas neutras os falantes não apenas modificam a estrutura linguística mas também performam identidades dissidentes desafiando normas socioculturais estabelecidas Cada escolha lexical cada uso de elu em vez de ele ou ela representa um ato político de resistência e reconfiguração dos modos de ser e estar no mundo A reação social ao uso da linguagem neutra muitas vezes marcada por resistência ou hostilidade revela o quanto a língua está imbricada nas relações de poder O preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de discriminação pois se apresenta como defesa da norma correta quando na verdade perpetua exclusões sociais e simbólicas Do mesmo modo a rejeição à linguagem neutra sob o argumento de que desvirtua o português demonstra um preconceito identitário travestido de zelo linguístico já que o que está em jogo não é a gramática em si mas a resistência a reconhecer identidades fora do padrão binário A presença crescente da linguagem neutra em espaços públicos e midiáticos também revela sua função como símbolo de representatividade Campanhas publicitárias produções culturais e instituições educacionais têm incorporado gradualmente elementos da linguagem inclusiva sinalizando um processo de reconfiguração social da linguagem Um exemplo relevante é novamente a série Todxs Nós HBO 2020 que retrata personagens que utilizam pronomes e vocábulos neutros em contextos cotidianos demonstrando como a linguagem se adapta às novas realidades identitárias Essa representação midiática desempenha papel essencial na normalização de práticas linguísticas inclusivas ao mesmo tempo em que amplia o debate público sobre diversidade e respeito 16 Sob a perspectiva da linguística crítica a linguagem neutra também pode ser vista como um mecanismo de empoderamento discursivo Como destaca Fairclough 2001 os discursos moldam a realidade social ao estabelecer quais vozes são legitimadas e quais são silenciadas Ao introduzir formas neutras os falantes produzem novas possibilidades discursivas abrindo espaços para a escuta de vozes que antes eram invisibilizadas Assim o uso da linguagem neutra não se limita a uma mudança lexical mas constitui uma ação transformadora sobre as estruturas simbólicas da sociedade Além disso a linguagem neutra reforça o princípio da autodeterminação linguística pelo qual os indivíduos têm o direito de definir como desejam ser nomeados e reconhecidos Tal princípio está alinhado à ética da diversidade e da inclusão que orienta práticas sociais voltadas à redução de desigualdades simbólicas Nessa perspectiva a linguagem neutra não deve ser interpretada como imposição mas como ampliação de possibilidades expressivas dentro do sistema linguístico oferecendo alternativas de nomeação mais justas e representativas Para tanto é preciso compreender que a linguagem neutra não busca substituir as formas tradicionais da língua mas coexistir com elas em um cenário de pluralidade Assim como as variações regionais e sociais são manifestações legítimas do português brasileiro também o uso de formas neutras representa uma variante emergente ligada a novas realidades socioculturais A Sociolinguística ao reconhecer a variação como fenômeno natural oferece o suporte teórico necessário para compreender essa coexistência e para valorizar o papel da língua como instrumento de inclusão e transformação social Por fim a linguagem neutra configurase como uma expressão de identidade resistência e reconhecimento reafirmando o caráter dinâmico e socialmente construído da língua Ao reivindicar o direito de nomear a si e aos outros de forma coerente com a diversidade de gênero existente na sociedade os falantes promovem uma mudança que é ao mesmo tempo linguística e ética Tratase portanto de um movimento que transcende a gramática e alcança a esfera do humano reafirmando o poder da linguagem como ferramenta de transformação e justiça social 17 3 Metodologia A pesquisa caracterizase como qualitativa e de natureza bibliográfica tendo em vista que seu objetivo central é analisar a linguagem neutra sob a ótica da Linguística e da Sociolinguística a partir de referenciais teóricos consolidados e de produções acadêmicas pertinentes ao tema Assim não se busca quantificar dados mas compreender por meio da leitura e interpretação crítica os discursos e fundamentos que permeiam o fenômeno linguístico em questão As fontes utilizadas foram selecionadas em bases acadêmicas reconhecidas como Google Acadêmico e SciELO além de periódicos especializados em Linguística e publicações midiáticas que abordam aspectos sociais e culturais da linguagem O corpus é composto por discursos acadêmicos artigos e ensaios científicos produzidos por estudiosos da área escolhidos com base em critérios de relevância atualidade e representatividade das discussões sobre variação linguística e linguagem neutra no contexto brasileiro O recorte temporal concentra se no período de 2020 a 2024 quando a discussão sobre linguagem inclusiva ganhou maior visibilidade no meio acadêmico e social A seleção dos materiais considerou palavraschave como linguagem neutra variação linguística identidade de gênero e preconceito linguístico garantindo a pertinência dos textos ao tema proposto A análise foi conduzida a partir de uma abordagem linguística e sociolinguística orientada pelos conceitos de variação e norma conforme Labov 2008 pelo entendimento de preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno 1999 e pela noção de identidade e interação social presente nas obras de Ricardo Bortoni 2005 Esses referenciais permitiram comparar perspectivas teóricas sobre o fenômeno da linguagem neutra destacando convergências e divergências entre diferentes autores Não houve envolvimento direto de participantes humanos dispensando portanto a necessidade de aprovação ética Reconhecese contudo como limitação a escassez de estudos empíricos aprofundados sobre a aplicação prática da linguagem neutra em diferentes contextos sociais o que reforça a relevância de abordagens teóricas que ampliem o debate Esta pesquisa tem o intuito de agregar na compreensão de como a linguagem neutra se insere nas dinâmicas de variação linguística e nas práticas sociais 18 discutindo suas implicações identitárias e o papel que desempenha na luta contra o preconceito linguístico e de gênero 3 CONSIDERÇÕES FINAIS O artigo A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade buscou analisar como os linguistas e sociolinguistas brasileiros têm abordado o fenômeno da linguagem neutra relacionandoo aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e construção de identidade de gênero Fundamentado nas contribuições teóricas da Linguística e da Sociolinguística o estudo adotou uma perspectiva bibliográfica e crítica destacando como a linguagem reflete as dinâmicas sociais e as transformações culturais de uma sociedade em constante mudança A relevância deste tema revelase tanto no campo científico quanto no contexto social contemporâneo Em uma época marcada por intensas discussões sobre inclusão diversidade e respeito às identidades de gênero compreender o papel da linguagem neutra tornase essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias À luz dos princípios da Sociolinguística brasileira especialmente das reflexões de Marcos Bagno 2007 que defende a língua como um fenômeno vivo e plural este estudo reforça que não existem formas certas ou erradas de falar mas diferentes usos que expressam identidades e pertencimentos sociais Assim o trabalho contribui para ampliar o diálogo sobre a importância de reconhecer a legitimidade da variação linguística e de combater o preconceito associado às formas inovadoras de expressão Os resultados obtidos indicaram que embora existam divergências teóricas sobre a viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro há consenso quanto à sua relevância social e simbólica A linguagem neutra emerge como uma manifestação legítima de resistência e representatividade das identidades nãobinárias reforçando a ideia de que a língua acompanha as transformações culturais e ideológicas de seu tempo Inspirado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista Labov 1972 Tarallo 1994 e nas reflexões de Bagno 2007 sobre o preconceito linguístico este trabalho conclui que a rejeição à linguagem neutra não se fundamenta em razões linguísticas mas em resistências sociais e culturais Portanto a principal mensagem que este estudo pretende deixar é a de que a 19 linguagem neutra representa uma ampliação das possibilidades comunicativas e um avanço no reconhecimento da diversidade humana Os objetivos propostos tanto o geral quanto os específicos foram integralmente alcançados e em certos aspectos superados A pesquisa conseguiu reunir organizar e interpretar criticamente as principais abordagens teóricas sobre o tema demonstrando que a discussão sobre linguagem neutra não se limita à gramática mas envolve dimensões ideológicas políticas e identitárias Ao integrar aspectos estruturais e sociais da língua o trabalho reafirma a relevância da Sociolinguística como campo essencial para compreender os fenômenos de variação mudança e resistência que moldam o português brasileiro contemporâneo Por fim recomendase que futuras pesquisas avancem na análise da linguagem neutra em contextos educacionais especialmente na formação docente e na elaboração de materiais didáticos Como defende Bagno 1999 o ensino de língua deve ser um espaço de valorização das múltiplas formas de falar e de inclusão das diversas identidades sociais Assim compreender e discutir a linguagem neutra na escola pode contribuir para uma educação linguística mais crítica ética e acolhedora A língua afinal é um reflexo da sociedade e ao reconhecer a pluralidade linguística reconhecemos também a pluralidade humana que a sustenta REFERÊNCIAS BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz São Paulo Loyola 1999 BAGNO Marcos Nada na língua é por acaso por uma pedagogia da variação linguística São Paulo Parábola Editorial 2007 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 56 ed São Paulo Edições Loyola 2015 BORTONI Ricardo Stella Maris Nós cheguemu na escola e agora sociolinguística e educação São Paulo Parábola Editorial 2005 FARACO Carlos Alberto Norma culta brasileira desatando alguns nós São Paulo Parábola Editorial 2008 LABOV William Sociolinguistic Patterns Philadelphia University of Pennsylvania Press 1972 20 LABOV William Padrões sociolinguísticos Tradução de Marcos Bagno Maria Marta Pereira Scherre e Caroline Rodrigues Cardoso São Paulo Parábola Editorial 2008 LUCCHESI Dante A variação linguística no português do Brasil dinamicidade heterogeneidade e diversidade Salvador EDUFBA 2009 MOLLICA Maria Cecília Fundamentos da sociolinguística variacionista Rio de Janeiro 7Letras 2003 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística 6 ed São Paulo Ática 1994 TODXS NÓS Direção de Vera Egito e Daniel Ribeiro Produção HBO Brasil Brasil HBO Latin America Group 2020 Série de TV 21 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Contagem 2025 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Trabalho apresentado como requisito obrigatório para conclusão do curso de Letras no formato de artigo científico resultante da pesquisa desenvolvida no ano de 2025 sob a orientação do professor Luiz Campos Contagem 2025 A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Ana Flávia Freitas de Assis Luiz Campos Resumo O artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade analisa criticamente os argumentos e pressupostos teóricos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no contexto brasileiro articulandoos com os conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade de gênero De natureza qualitativa e baseada em pesquisa bibliográfica a investigação apoiase em autores como Marcos Bagno Ricardo Bortoni Fernando Tarallo Willian Labov Dante Lucchesi Maria Cecília Mollica e Carlos Alberto Faraco para discutir as dimensões estruturais e sociais do fenômeno O estudo apresenta os conceitos fundamentais da Sociolinguística sistematiza os principais argumentos linguísticos favoráveis e contrários à adoção da linguagem neutra e examina sua relação com as identidades nãobinárias e com o combate ao preconceito linguístico e social Os resultados apontam que embora haja divergências quanto à viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro reconhecese sua relevância simbólica e social como instrumento de resistência inclusão e representatividade Concluise que a língua em constante transformação reflete as mudanças culturais e ideológicas de seu tempo e que compreender esse processo é essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias Palavraschave Linguagem Neutra Linguagem NãoBinária Identidade de Gênero Preconceito Linguístico Variação Linguística Representatividade 1 Introdução Em 2015 chamoume a atenção quando vi um jornalista da Globo News dizer centi e cinquenta ao invés de cento e cinquenta para se referir ao número 150 e isso despertoume a curiosamente para pesquisar sobre foi então que descobri que esse fenômeno tem a ver com a questão da linguagem neutra O debate sobre a linguagem neutra tem ganhado destaque no cenário brasileiro mobilizando discussões que ultrapassam os limites da gramática e alcançam dimensões sociais políticas e identitárias A proposta de adaptar a língua portuguesa a formas mais inclusivas que contemplem pessoas que não se identificam dentro do sistema binário de gênero tem gerado tanto apoio quanto resistência em diversos espaços da mídia às instituições de ensino No campo da Linguística e da Sociolinguística esse tema adquire especial relevância pois convida à reflexão sobre o funcionamento dinâmico da língua os fatores sociais que influenciam o uso e as mudanças linguísticas que surgem em resposta às transformações culturais da sociedade contemporânea Compreender o fenômeno da linguagem neutra exige um olhar que vá além da norma tradicional e das prescrições gramaticais A língua é antes de tudo um reflexo da vida social e sua evolução acompanha as transformações históricas e culturais dos falantes Como afirma Marcos Bagno 1999 p 42 a língua é um organismo vivo em permanente processo de transformação e é o uso que dita suas formas não o contrário Nessa perspectiva o surgimento de novas expressões e formas linguísticas como os neopronomes elu ile e as terminações neutras todes amigues pode ser entendido como uma tentativa legítima de inclusão e representatividade refletindo o desejo de uma sociedade mais igualitária no plano simbólico e linguístico Diante dessa realidade surge a seguinte questão de pesquisa quais são os principais argumentos linguísticos e sociolinguísticos que sustentam ou criticam o uso da linguagem neutra e como esse debate se conecta aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade Essa pergunta norteia a investigação que tem como objetivo geral analisar criticamente os principais argumentos e pressupostos teóricos linguísticos e sociolinguísticos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no Brasil articulandoos aos 2 conceitos de variação preconceito e identidade de gênero Tratase de uma pesquisa bibliográfica baseada em autores e estudos que abordam a relação entre língua sociedade e ideologia buscando compreender como as práticas linguísticas refletem valores crenças e disputas simbólicas A escolha desse tema se justifica pela sua relevância acadêmica e social Discutir a linguagem neutra significa também discutir inclusão cidadania e diversidade reconhecendo a importância da linguagem na construção das identidades e no combate às desigualdades O preconceito linguístico como destaca Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de exclusão social pois julgar o modo de falar do outro é em última instância uma forma de julgar o próprio falante sua origem e seu valor social Dessa forma ao investigar os argumentos em torno da linguagem neutra este artigo busca contribuir para uma reflexão mais crítica e menos dogmática sobre a língua portuguesa incentivando o respeito às variações e a compreensão de que a mudança linguística é um processo natural e inevitável 2 A Variação e a Norma Linguística na Tradição Sociolinguística Brasileira 21 Conceitos Fundamentais de Variação Linguística A língua enquanto fenômeno social e dinâmico não é um sistema homogêneo fixo ou imutável Ao contrário está em constante transformação e reflete as múltiplas realidades sociais históricas e culturais dos falantes que a utilizam É nesse contexto que a Sociolinguística campo que articula língua e sociedade propõe compreender a variação linguística como elemento constitutivo da linguagem humana e não como um desvio ou erro frente a uma norma idealizada Segundo William Labov 2008 considerado o fundador da Sociolinguística Variacionista toda comunidade de fala é marcada por diferenças sistemáticas no 3 uso da língua que se relacionam a fatores como idade gênero classe social escolaridade região geográfica e contexto comunicativo Para o autor essas variações não são aleatórias mas obedecem a padrões sociais e estruturais que podem ser analisados cientificamente Assim a variação linguística é um fenômeno natural e inevitável intrínseco ao funcionamento da língua No contexto brasileiro Tarallo 1994 destaca que a variação deve ser entendida como o reflexo das relações sociais e das identidades dos falantes apontando que a diversidade linguística existente no país espelha sua complexa formação histórica e cultural O português do Brasil em sua pluralidade manifesta se por meio de variedades regionais como sotaques e léxicos locais sociais ligadas à classe ou escolaridade e situacionais dependentes do grau de formalidade e da interação entre interlocutores Além disso é importante diferenciar variação linguística de mudança linguística Enquanto a variação diz respeito à coexistência de formas diferentes que expressam um mesmo significado por exemplo tu vais e você vai a mudança linguística ocorre quando uma dessas variantes se torna predominante ao longo do tempo alterando o sistema linguístico Como observa Mollica 2003 a variação é o ponto de partida para a mudança representando a vitalidade e a adaptabilidade da língua diante das transformações sociais Sob essa perspectiva compreender a variação linguística é reconhecer que não existe uma única forma correta de falar mas sim diversas formas legítimas adequadas a diferentes contextos de uso Essa concepção rompe com a visão tradicional e normativa da língua que tende a privilegiar um padrão fixo associado às classes socialmente prestigiadas e reafirma o caráter democrático e plural do português brasileiro 4 Assim o estudo da variação linguística tornase essencial para compreender não apenas as diferenças de fala mas também as dinâmicas de poder e identidade que se expressam por meio da linguagem Essa abordagem será fundamental mais adiante para compreender como as discussões sobre linguagem neutra se inserem no debate sobre variação mudança e adequação linguística especialmente no que se refere à inclusão e ao respeito às diversas identidades de gênero 22 A Norma Linguística Culto e Popular A discussão sobre a norma linguística é central na tradição sociolinguística brasileira pois envolve não apenas aspectos estruturais da língua mas também dimensões ideológicas históricas e educacionais A compreensão da língua como fenômeno social implica reconhecer que a chamada norma culta não é uma entidade neutra ou universal mas o reflexo de relações de poder e prestígio que se consolidaram ao longo do tempo De modo geral o termo norma linguística pode ser entendido como o conjunto de convenções e padrões de uso que orientam a comunicação dentro de uma comunidade No entanto é importante distinguir entre normapadrão norma culta e norma popular conceitos muitas vezes confundidos no senso comum e até mesmo em práticas escolares A normapadrão é uma construção artificial idealizada pelas gramáticas normativas cujo objetivo é unificar o idioma e estabelecer um modelo de correção formal Já a norma culta conforme define Ricardo Bortoni 2005 referese ao modo de falar dos grupos urbanos com maior acesso à escolarização e aos meios de prestígio sem contudo ser isenta de variações internas A norma popular por sua vez é a variedade mais espontânea utilizada por falantes com menor grau de escolarização e representa igualmente uma forma legítima de uso da língua Nesse sentido a Sociolinguística rompe com a visão tradicional que considera apenas a normapadrão como correta Para Faraco 2008 a imposição de um modelo único de língua reflete uma ideologia normativa excludente que associa 5 prestígio social à forma de falar O autor argumenta que o ensino de língua deve se pautar na adequação linguística e não em uma noção rígida de correção Essa ideia também defendida por Bagno 2011 propõe que cada variedade linguística é adequada a determinados contextos comunicativos e que o falante competente é aquele capaz de transitar entre registros de acordo com a situação de fala A partir dessa perspectiva o preconceito linguístico amplamente discutido por Bagno 1999 2015 revelase como um mecanismo de exclusão social pois desqualifica as formas de expressão que divergem da normapadrão e ao fazêlo desvaloriza os grupos sociais que as utilizam Assim a norma culta deve ser compreendida não como a única expressão legítima da língua mas como uma das muitas formas possíveis de manifestação linguística dentro da diversidade do português brasileiro O papel da escola é portanto de ampliação da competência comunicativa do aluno e não de repressão das variedades linguísticas que ele domina Ensinar a normapadrão deve significar fornecer ferramentas de acesso a contextos formais e letrados sem deslegitimar as formas populares de fala Essa visão pluralista da norma linguística contribui diretamente para o debate sobre a linguagem neutra pois reforça a ideia de que a língua é um espaço de negociação adaptação e inclusão Da mesma forma que as variedades regionais e sociais refletem a diversidade dos falantes as propostas de linguagem neutra representam a busca por adequação expressiva frente à diversidade de identidades de gênero que compõem a sociedade contemporânea Assim compreender a distinção entre norma culta e norma popular bem como o papel ideológico da normapadrão é essencial para reconhecer que as mudanças linguísticas e sociais caminham lado a lado A língua longe de ser um instrumento fixo e homogêneo é uma construção coletiva e dinâmica sempre sensível às transformações culturais e identitárias de seu tempo 6 23 O Preconceito Linguístico e as Ideologias Normativas O estudo da variação e da norma linguística leva inevitavelmente à discussão sobre o preconceito linguístico fenômeno que se manifesta quando determinadas formas de falar são consideradas inferiores incorretas ou inaceitáveis segundo padrões de prestígio social No contexto brasileiro onde a diversidade linguística é ampla e profundamente marcada por fatores históricos regionais e socioeconômicos o preconceito linguístico assume um caráter não apenas linguístico mas também ideológico e político Conforme destaca Marcos Bagno 1999 2015 o preconceito linguístico é uma forma de discriminação que se apoia em mitos sobre a língua portuguesa como a crença na existência de uma forma certa e de outras erradas e serve para reforçar desigualdades sociais Essa ideologia normativa associa o domínio da normapadrão ao prestígio à educação e à inteligência ao mesmo tempo em que desvaloriza as variedades populares frequentemente associadas à ignorância ou à falta de instrução Nesse sentido o julgamento linguístico tornase também um julgamento social refletindo hierarquias de classe raça e poder simbólico Segundo Faraco 2008 o preconceito linguístico está ligado à noção de purismo linguístico isto é à tentativa de conservar uma língua idealizada e estática supostamente superior e correta Essa visão ignora o caráter natural da variação e da mudança linguística e desconsidera a língua como prática social viva Ricardo Bortoni 2005 reforça que a avaliação negativa de certas variedades não tem base científica mas é fruto de construções culturais e educacionais que privilegiam o modelo de fala das classes dominantes 7 Além disso o preconceito linguístico não se manifesta apenas em ambientes formais como a escola e os meios de comunicação mas também nas interações cotidianas em que determinadas expressões sotaques ou escolhas lexicais são alvos de zombaria ou correção Bagno 2007 observa que ao estigmatizar uma forma de falar estigmatizase também o falante e por extensão sua identidade cultural e social Assim o preconceito linguístico constitui uma forma de exclusão simbólica que limita o acesso de grupos marginalizados a espaços de legitimidade e reconhecimento No campo educacional esse problema se acentua quando o ensino da língua portuguesa é pautado exclusivamente pela gramática normativa sem considerar as diferentes realidades linguísticas dos alunos Tal postura reforça a ideia de que apenas a normapadrão é válida desvalorizando o conhecimento linguístico prévio dos estudantes e desconsiderando a língua como instrumento de expressão e identidade Como propõe Bagno 2011 o ensino de língua deve partir do princípio da inclusão linguística valorizando a diversidade e reconhecendo o potencial comunicativo de todas as variedades Essa discussão é particularmente relevante quando se analisa o debate contemporâneo sobre a linguagem neutra pois o mesmo tipo de resistência que se observa diante das variedades populares também se manifesta em relação às novas formas de expressão de gênero Ambas as situações revelam como a normapadrão e de modo mais amplo as ideologias normativas operam como mecanismos de controle simbólico que visam preservar estruturas sociais e identitárias tradicionais Ao problematizar o preconceito linguístico a Sociolinguística oferece instrumentos teóricos para compreender que as tentativas de neutralização de gênero na linguagem não são erros mas expressões legítimas de uma sociedade em transformação que busca ampliar a representatividade e o respeito à diversidade 8 Em suma o preconceito linguístico e as ideologias normativas configuram barreiras ao reconhecimento da pluralidade linguística e cultural do Brasil Superá las requer uma mudança de perspectiva em que a língua seja vista não como um sistema homogêneo e hierarquizado mas como um espaço de convivência entre múltiplas vozes e identidades Essa visão será aprofundada no próximo tópico que discute como a Sociolinguística brasileira tem contribuído para a valorização da diversidade linguística e para o combate a práticas excludentes no uso da língua 24 A Contribuição da Sociolinguística Brasileira A Sociolinguística consolidada no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980 representou uma verdadeira ruptura com a tradição normativa e estruturalista que dominava os estudos da língua até então Inspirada nas propostas de William Labov e adaptada à realidade sociocultural brasileira essa vertente teórica passou a considerar a língua como fenômeno social heterogêneo e dinâmico cuja variação reflete não apenas diferenças linguísticas mas também relações de poder identidade e pertencimento Um dos marcos fundadores dessa tradição no país é o trabalho de Fernando Tarallo 1994 que introduziu de forma sistemática os princípios da Sociolinguística variacionista no contexto brasileiro Tarallo destacou que a variação linguística não deve ser vista como um desvio da norma mas como expressão legítima de diferentes contextos socioculturais Sua abordagem contribuiu para a valorização científica das variedades populares e regionais do português brasileiro reconhecendoas como fontes legítimas de dados para o estudo da língua Paralelamente pesquisadores como Stella Maris Ricardo Bortoni e Dante Lucchesi ampliaram o campo da Sociolinguística ao incluir dimensões educacionais históricas e identitárias nas análises Ricardo Bortoni 2005 por exemplo enfatiza o papel da escola na construção de uma pedagogia linguística que respeite a diversidade defendendo que o ensino deve promover a competência comunicativa dos alunos e não a padronização artificial de suas formas de fala Já Lucchesi 9 2009 contribui com a perspectiva da sociolinguística histórica mostrando como a formação social do Brasil marcada pela colonização pela escravidão e pela diversidade étnica produziu um português profundamente heterogêneo e plural A consolidação da Sociolinguística brasileira também está fortemente associada à atuação de autores como Marcos Bagno Carlos Alberto Faraco e Maria Cecília Mollica que difundiram o debate sobre preconceito linguístico adequação comunicativa e variação como valor cultural Bagno 2015 tornouse uma das vozes mais influentes na defesa da legitimidade das variedades não padrão e na crítica às ideologias linguísticas excludentes Faraco 2008 por sua vez propõe que a compreensão da norma culta e da norma popular deve ser pautada por critérios de uso real da língua e não por prescrições arbitrárias das gramáticas tradicionais Essas contribuições formam o que se pode chamar de uma tradição sociolinguística brasileira caracterizada pela valorização da pluralidade e pela busca de uma linguagem científica comprometida com a inclusão social Esse campo teórico permitiu por exemplo repensar o ensino de português as políticas linguísticas e a própria noção de cidadania linguística Como observa Mollica 2003 compreender a diversidade linguística é reconhecer que as diferenças de fala não são falhas mas marcas de identidade e pertencimento A partir desse conjunto de reflexões a Sociolinguística brasileira tem desempenhado papel fundamental na desconstrução de mitos sobre a língua e na promoção de uma visão mais democrática da comunicação Essa perspectiva amplia o horizonte para novas discussões sobre a linguagem neutra que também emerge como uma forma de variação socialmente significativa relacionada à identidade e à representação de grupos historicamente invisibilizados Assim o debate sobre o respeito às diferentes formas de falar se entrelaça ao respeito às diferentes formas de ser e se identificar 10 25 Síntese Variação Norma e Inclusão Linguística A análise dos conceitos de variação e norma linguística no contexto da tradição sociolinguística brasileira permite compreender que a língua é um fenômeno essencialmente diverso dinâmico e socialmente situado Longe de ser um sistema uniforme a língua reflete a multiplicidade dos sujeitos que a utilizam suas origens experiências e contextos socioculturais Assim cada variação linguística carrega consigo uma história uma identidade e um modo particular de ver o mundo A Sociolinguística desde os estudos de Labov 2008 e sua consolidação no Brasil por autores como Tarallo 1994 Ricardo Bortoni 2005 Bagno 1999 2015 e Faraco 2008 tem demonstrado que não há formas erradas ou inferiores de falar mas sim usos adequados a diferentes contextos de comunicação O reconhecimento dessa pluralidade rompe com a tradição normativa excludente e promove uma visão mais democrática da linguagem em que todas as variedades são legítimas dentro de suas condições de uso A distinção entre norma culta norma popular e norma padrão revela que o prestígio linguístico é um fenômeno social e histórico e não uma qualidade intrínseca da língua Como lembra Bagno 2007 o mito da língua única e correta é sustentado por uma ideologia que privilegia os grupos socialmente dominantes e marginaliza as formas de expressão das classes populares Essa ideologia ao se naturalizar no cotidiano e nas instituições especialmente na escola reforça o preconceito linguístico e contribui para a manutenção de desigualdades Contudo a tradição sociolinguística brasileira tem se posicionado de forma crítica diante dessas hierarquias simbólicas propondo uma abordagem de ensino e pesquisa comprometida com a inclusão linguística Essa perspectiva reconhece que dominar a normapadrão pode ser socialmente vantajoso mas que tal domínio não deve se dar à custa da desvalorização das demais formas de fala Ao contrário é preciso promover a ampliação da competência comunicativa dos falantes respeitando suas identidades e repertórios linguísticos 11 Nesse sentido discutir variação e norma linguística não é apenas uma questão técnica ou gramatical mas também ética e política Tratase de reconhecer que a língua é um espaço de disputa simbólica no qual se refletem e se produzem relações de poder inclusão e exclusão Essa compreensão tornase fundamental para o debate sobre a linguagem neutra que representa uma nova forma de variação linguística emergente motivada por demandas sociais ligadas à identidade de gênero e à visibilidade de grupos não binários e trans Assim como as variações regionais e sociais legitimam diferentes modos de expressão a linguagem neutra busca legitimar diferentes modos de existir e se representar por meio da língua Ao compreender a língua como um organismo vivo e em constante transformação a Sociolinguística oferece o suporte teórico necessário para analisar esse fenômeno não como uma ameaça à norma mas como parte natural do processo de evolução e democratização linguística Dessa forma a síntese entre variação norma e inclusão aponta para uma concepção de língua mais plural flexível e humanizada uma língua que se adapta à diversidade dos falantes e acolhe as transformações sociais de seu tempo 26 A Linguagem Neutra sob a Perspectiva Linguística e Sociolinguística A linguagem é antes de tudo um reflexo das transformações sociais e culturais que atravessam a sociedade Assim como a variação linguística revela as múltiplas formas de expressão de um povo também as novas formas de uso da língua podem emergir como respostas simbólicas a demandas identitárias e políticas Nesse contexto a linguagem neutra ou linguagem inclusiva surge como um fenômeno linguístico e social que busca romper com o binarismo de gênero tradicionalmente presente na língua portuguesa promovendo uma 12 comunicação mais acolhedora e representativa de pessoas não binárias e transgênero Do ponto de vista linguístico a proposta de linguagem neutra pode ser compreendida como uma manifestação legítima do processo de variação e mudança linguística conforme estabelecido pelos princípios da Sociolinguística Labov 2008 já demonstrava que as mudanças na língua nascem do uso social e da necessidade de adequação comunicativa entre os falantes Sob essa ótica a linguagem neutra representa uma inovação que emerge da interação social impulsionada por grupos que buscam visibilidade e reconhecimento dentro da estrutura linguística A língua sendo viva adaptase continuamente às transformações culturais e a linguagem neutra é um reflexo direto desse dinamismo Na tradição sociolinguística brasileira autores como Marcos Bagno 2015 e Ricardo Bortoni 2005 defendem que nenhuma forma de falar é intrinsecamente superior a outra Essa perspectiva permite compreender que o uso de pronomes neutros como elu delu ou de desinências não binárias como todes amigxs amigues não constitui uma ameaça à língua mas uma tentativa de ampliar suas possibilidades expressivas Para Bagno a língua é um instrumento de inclusão e não de exclusão BAGNO 2011 p 57 e portanto deve estar aberta a mudanças que respondam às necessidades comunicativas e sociais de seus falantes Sob o ponto de vista sociolinguístico a linguagem neutra pode ser entendida como uma forma de variação social e identitária isto é um uso linguístico que marca pertencimento e resistência Tal como as variedades regionais e populares refletem a identidade de determinados grupos sociais o uso de formas neutras expressa a identidade de pessoas e coletividades que não se reconhecem nas categorias tradicionais de gênero Assim o debate em torno da linguagem neutra transcende o plano gramatical situandose no campo das ideologias linguísticas o espaço em que se definem o que é considerado aceitável ou correto dentro de uma comunidade de fala A resistência ao uso da linguagem neutra nesse sentido ecoa a mesma lógica do preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 e Faraco 2008 trata se da rejeição de formas que desafiam uma norma tradicionalmente associada ao prestígio e à autoridade Tal resistência evidencia que as disputas em torno da língua 13 são também disputas por poder simbólico e representação social Assim a recusa à linguagem neutra não é apenas uma questão linguística mas reflete tensões mais amplas sobre gênero identidade e diversidade No contexto cultural brasileiro a discussão sobre linguagem neutra ganhou visibilidade em produções midiáticas e artísticas que têm papel fundamental na difusão de novas práticas linguísticas e na sensibilização social Um exemplo notável é a série Todxs Nós lançada em 2020 pela HBO Brasil que acompanha a trajetória de Rafa personagem não binário que busca afirmar sua identidade e questionar os padrões de gênero e linguagem na sociedade contemporânea Ao adotar expressões neutras e tematizar o uso da linguagem inclusiva no cotidiano a série contribui para a naturalização dessas formas e para a ampliação do debate sobre representação e pertencimento Essa produção televisiva exemplifica como a linguagem neutra ultrapassa o campo acadêmico e se insere nas práticas culturais revelandose um fenômeno linguístico em pleno processo de consolidação social Além de representar uma demanda política a linguagem neutra também dialoga com os conceitos de adequação e variação centrais na Sociolinguística Como destaca Ricardo Bortoni 2005 a competência linguística de um falante está na capacidade de adaptar sua fala aos contextos comunicativos e interlocutores e não em seguir rigidamente uma norma fixa Assim o uso de formas neutras pode ser compreendido como uma estratégia de adequação comunicativa voltada a contextos de respeito à diversidade e à inclusão A adoção dessas formas não implica eliminar o uso tradicional de gênero mas ampliar as opções expressivas disponíveis de modo a contemplar novos modos de subjetivação É importante ressaltar que a linguagem neutra por ainda se encontrar em fase de difusão não possui consenso quanto à sua forma padrão Variantes como o uso do x todxs do tods ou do e todes coexistem refletindo diferentes tentativas de adaptação e experimentação linguística Essa heterogeneidade é justamente o que caracteriza um fenômeno de variação em curso Como afirma Mollica 2003 a diversidade é parte constitutiva da língua e sua vitalidade depende da capacidade de incorporar novos sentidos e formas Do ponto de vista social a linguagem neutra simboliza uma resistência à exclusão linguística pois desafia as estruturas discursivas que invisibilizam pessoas 14 não conformes ao binarismo de gênero Tratase de uma tentativa de reconfigurar o espaço linguístico como um ambiente de reconhecimento e pertencimento em que cada sujeito possa se expressar de maneira coerente com sua identidade Nesse sentido a proposta de linguagem neutra é coerente com os princípios da Sociolinguística valoriza a variação questiona a norma excludente e reconhece a língua como um espaço de diversidade e transformação Portanto analisar a linguagem neutra sob a perspectiva linguística e sociolinguística é compreender que a língua não é apenas um instrumento de comunicação mas também um campo de disputa simbólica e social A emergência dessa nova forma de expressão não representa uma ruptura arbitrária com a norma mas sim a continuidade de um processo histórico de adaptação linguística às mudanças sociais Assim como as diferentes variedades do português brasileiro refletem a riqueza cultural do país a linguagem neutra reflete o avanço de uma consciência social que busca visibilizar e respeitar todas as identidades A Sociolinguística ao reconhecer e legitimar a variação oferece o alicerce teórico para compreender a linguagem neutra não como desvio mas como expressão legítima de inclusão e transformação social 27 A Linguagem Neutra como Expressão de Identidade e Resistência Social A linguagem não apenas comunica ideias mas também constrói e reafirma identidades Por meio dela os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos no mundo social Nesse sentido a linguagem neutra emerge como um recurso discursivo e simbólico de afirmação identitária e resistência especialmente no contexto de grupos historicamente marginalizados em razão de sua expressão de gênero Ao propor novas formas de nomear e se referir a pessoas a linguagem neutra desafia estruturas tradicionais de poder inscritas na língua e na sociedade abrindo espaço para a visibilidade de identidades não binárias e transgênero Sob a ótica da Sociolinguística compreender a linguagem neutra como forma de resistência implica reconhecer que a língua é um campo de disputa simbólica Conforme aponta Pierre Bourdieu 1991 o poder linguístico é também poder social 15 quem detém o direito de definir o falar correto exerce dominação simbólica sobre os demais Assim quando grupos sociais minoritários reivindicam novas formas de expressão estão também reivindicando o direito de existir e ser reconhecidos linguisticamente A linguagem neutra portanto não é apenas uma inovação formal mas uma prática política de reconfiguração das relações de poder no espaço discursivo Nesse processo é importante considerar que a língua atua como um marcador de identidade Como afirma Hall 2000 as identidades contemporâneas são múltiplas fragmentadas e constantemente em construção A linguagem ao acompanhar essa dinamicidade tornase um instrumento fundamental na constituição das subjetividades Ao adotar pronomes e desinências neutras sujeitos não binários podem se ver representados de modo mais coerente com sua autoidentificação subvertendo o binarismo linguístico que tradicionalmente os invisibiliza Desse modo a linguagem neutra se apresenta como expressão legítima da diversidade de gênero atuando como ferramenta de pertencimento e reconhecimento social A resistência nesse contexto manifestase tanto na dimensão simbólica quanto na prática comunicativa Como observa Judith Butler 2003 o gênero é performativo isto é construído e reiterado por meio de atos discursivos Assim ao empregar formas neutras os falantes não apenas modificam a estrutura linguística mas também performam identidades dissidentes desafiando normas socioculturais estabelecidas Cada escolha lexical cada uso de elu em vez de ele ou ela representa um ato político de resistência e reconfiguração dos modos de ser e estar no mundo A reação social ao uso da linguagem neutra muitas vezes marcada por resistência ou hostilidade revela o quanto a língua está imbricada nas relações de poder O preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de discriminação pois se apresenta como defesa da norma correta quando na verdade perpetua exclusões sociais e simbólicas Do mesmo modo a rejeição à linguagem neutra sob o argumento de que desvirtua o português demonstra um preconceito identitário travestido de zelo linguístico já que o que está em jogo não é 16 a gramática em si mas a resistência a reconhecer identidades fora do padrão binário A presença crescente da linguagem neutra em espaços públicos e midiáticos também revela sua função como símbolo de representatividade Campanhas publicitárias produções culturais e instituições educacionais têm incorporado gradualmente elementos da linguagem inclusiva sinalizando um processo de reconfiguração social da linguagem Um exemplo relevante é novamente a série Todxs Nós HBO 2020 que retrata personagens que utilizam pronomes e vocábulos neutros em contextos cotidianos demonstrando como a linguagem se adapta às novas realidades identitárias Essa representação midiática desempenha papel essencial na normalização de práticas linguísticas inclusivas ao mesmo tempo em que amplia o debate público sobre diversidade e respeito Sob a perspectiva da linguística crítica a linguagem neutra também pode ser vista como um mecanismo de empoderamento discursivo Como destaca Fairclough 2001 os discursos moldam a realidade social ao estabelecer quais vozes são legitimadas e quais são silenciadas Ao introduzir formas neutras os falantes produzem novas possibilidades discursivas abrindo espaços para a escuta de vozes que antes eram invisibilizadas Assim o uso da linguagem neutra não se limita a uma mudança lexical mas constitui uma ação transformadora sobre as estruturas simbólicas da sociedade Além disso a linguagem neutra reforça o princípio da autodeterminação linguística pelo qual os indivíduos têm o direito de definir como desejam ser nomeados e reconhecidos Tal princípio está alinhado à ética da diversidade e da inclusão que orienta práticas sociais voltadas à redução de desigualdades simbólicas Nessa perspectiva a linguagem neutra não deve ser interpretada como imposição mas como ampliação de possibilidades expressivas dentro do sistema linguístico oferecendo alternativas de nomeação mais justas e representativas Para tanto é preciso compreender que a linguagem neutra não busca substituir as formas tradicionais da língua mas coexistir com elas em um cenário de pluralidade Assim como as variações regionais e sociais são manifestações legítimas do português brasileiro também o uso de formas neutras representa uma variante emergente ligada a novas realidades socioculturais A Sociolinguística ao 17 reconhecer a variação como fenômeno natural oferece o suporte teórico necessário para compreender essa coexistência e para valorizar o papel da língua como instrumento de inclusão e transformação social Por fim a linguagem neutra configurase como uma expressão de identidade resistência e reconhecimento reafirmando o caráter dinâmico e socialmente construído da língua Ao reivindicar o direito de nomear a si e aos outros de forma coerente com a diversidade de gênero existente na sociedade os falantes promovem uma mudança que é ao mesmo tempo linguística e ética Tratase portanto de um movimento que transcende a gramática e alcança a esfera do humano reafirmando o poder da linguagem como ferramenta de transformação e justiça social 3 Metodologia A pesquisa caracterizase como qualitativa e de natureza bibliográfica tendo em vista que seu objetivo central é analisar a linguagem neutra sob a ótica da Linguística e da Sociolinguística a partir de referenciais teóricos consolidados e de produções acadêmicas pertinentes ao tema Assim não se busca quantificar dados mas compreender por meio da leitura e interpretação crítica os discursos e fundamentos que permeiam o fenômeno linguístico em questão As fontes utilizadas foram selecionadas em bases acadêmicas reconhecidas como Google Acadêmico e SciELO além de periódicos especializados em Linguística e publicações midiáticas que abordam aspectos sociais e culturais da linguagem O corpus é composto por discursos acadêmicos artigos e ensaios científicos produzidos por estudiosos da área escolhidos com base em critérios de relevância atualidade e representatividade das discussões sobre variação linguística e linguagem neutra no contexto brasileiro O recorte temporal concentra se no período de 2020 a 2024 quando a discussão sobre linguagem inclusiva ganhou maior visibilidade no meio acadêmico e social A seleção dos materiais considerou palavraschave como linguagem neutra variação linguística identidade de gênero e preconceito linguístico garantindo a pertinência dos textos ao tema proposto 18 A análise foi conduzida a partir de uma abordagem linguística e sociolinguística orientada pelos conceitos de variação e norma conforme Labov 2008 pelo entendimento de preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno 1999 e pela noção de identidade e interação social presente nas obras de Ricardo Bortoni 2005 Esses referenciais permitiram comparar perspectivas teóricas sobre o fenômeno da linguagem neutra destacando convergências e divergências entre diferentes autores Não houve envolvimento direto de participantes humanos dispensando portanto a necessidade de aprovação ética Reconhecese contudo como limitação a escassez de estudos empíricos aprofundados sobre a aplicação prática da linguagem neutra em diferentes contextos sociais o que reforça a relevância de abordagens teóricas que ampliem o debate Esta pesquisa tem o intuito de agregar na compreensão de como a linguagem neutra se insere nas dinâmicas de variação linguística e nas práticas sociais discutindo suas implicações identitárias e o papel que desempenha na luta contra o preconceito linguístico e de gênero 4 Conclusão O artigo A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade buscou analisar como os linguistas e sociolinguistas brasileiros têm abordado o fenômeno da linguagem neutra relacionandoo aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e construção de identidade de gênero Fundamentado nas contribuições teóricas da Linguística e da Sociolinguística o estudo adotou uma perspectiva bibliográfica e crítica destacando como a linguagem reflete as dinâmicas sociais e as transformações culturais de uma sociedade em constante mudança A relevância deste tema revelase tanto no campo científico quanto no contexto social contemporâneo Em uma época marcada por intensas discussões sobre inclusão diversidade e respeito às identidades de gênero compreender o papel da linguagem neutra tornase essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias À luz dos princípios da Sociolinguística brasileira especialmente das reflexões de Marcos Bagno 2007 que defende a língua como um fenômeno 19 vivo e plural este estudo reforça que não existem formas certas ou erradas de falar mas diferentes usos que expressam identidades e pertencimentos sociais Assim o trabalho contribui para ampliar o diálogo sobre a importância de reconhecer a legitimidade da variação linguística e de combater o preconceito associado às formas inovadoras de expressão Os resultados obtidos indicaram que embora existam divergências teóricas sobre a viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro há consenso quanto à sua relevância social e simbólica A linguagem neutra emerge como uma manifestação legítima de resistência e representatividade das identidades nãobinárias reforçando a ideia de que a língua acompanha as transformações culturais e ideológicas de seu tempo Inspirado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista Labov 1972 Tarallo 1994 e nas reflexões de Bagno 2007 sobre o preconceito linguístico este trabalho conclui que a rejeição à linguagem neutra não se fundamenta em razões linguísticas mas em resistências sociais e culturais Portanto a principal mensagem que este estudo pretende deixar é a de que a linguagem neutra representa uma ampliação das possibilidades comunicativas e um avanço no reconhecimento da diversidade humana Os objetivos propostos tanto o geral quanto os específicos foram integralmente alcançados e em certos aspectos superados A pesquisa conseguiu reunir organizar e interpretar criticamente as principais abordagens teóricas sobre o tema demonstrando que a discussão sobre linguagem neutra não se limita à gramática mas envolve dimensões ideológicas políticas e identitárias Ao integrar aspectos estruturais e sociais da língua o trabalho reafirma a relevância da Sociolinguística como campo essencial para compreender os fenômenos de variação mudança e resistência que moldam o português brasileiro contemporâneo Por fim recomendase que futuras pesquisas avancem na análise da linguagem neutra em contextos educacionais especialmente na formação docente e na elaboração de materiais didáticos Como defende Bagno 1999 o ensino de língua deve ser um espaço de valorização das múltiplas formas de falar e de inclusão das diversas identidades sociais Assim compreender e discutir a linguagem neutra na escola pode contribuir para uma educação linguística mais crítica ética e acolhedora A língua afinal é um reflexo da sociedade e ao 20 reconhecer a pluralidade linguística reconhecemos também a pluralidade humana que a sustenta 5 Referências BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz São Paulo Loyola 1999 BAGNO Marcos Nada na língua é por acaso por uma pedagogia da variação linguística São Paulo Parábola Editorial 2007 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 56 ed São Paulo Edições Loyola 2015 BORTONI Ricardo Stella Maris Nós cheguemu na escola e agora sociolinguística e educação São Paulo Parábola Editorial 2005 FARACO Carlos Alberto Norma culta brasileira desatando alguns nós São Paulo Parábola Editorial 2008 LABOV William Sociolinguistic Patterns Philadelphia University of Pennsylvania Press 1972 LABOV William Padrões sociolinguísticos Tradução de Marcos Bagno Maria Marta Pereira Scherre e Caroline Rodrigues Cardoso São Paulo Parábola Editorial 2008 LUCCHESI Dante A variação linguística no português do Brasil dinamicidade heterogeneidade e diversidade Salvador EDUFBA 2009 MOLLICA Maria Cecília Fundamentos da sociolinguística variacionista Rio de Janeiro 7Letras 2003 21 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística 6 ed São Paulo Ática 1994 TODXS NÓS Direção de Vera Egito e Daniel Ribeiro Produção HBO Brasil Brasil HBO Latin America Group 2020 Série de TV 22 Ana coloque a part6e sobe a Metodologia dentro da introdução acertei o título das considerações finai não precisa pois já fiz Precisa assinar o termo pode imprimilo assinar e tirar uma foto e colar na última folha o TCC ou pode por assinatura eletrônica do govbr Assine e me envie para eu conceituar Segue em anexo o seu TCC As outras partes estão dentro do que é pedido Assim que fizer os acertos assinar o termo e incluir a partes que irá produzir envie e me informe se posso dar o conceito Segue em anexo o seu TCC UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Contagem 2025 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Trabalho apresentado como requisito obrigatório para conclusão do curso de Letras no formato de artigo científico resultante da pesquisa desenvolvida no ano de 2025 sob a orientação do professor Luiz Campos Contagem 2025 A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Ana Flávia Freitas de Assis Luiz Campos Resumo O artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade analisa criticamente os argumentos e pressupostos teóricos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no contexto brasileiro articulandoos com os conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade de gênero De natureza qualitativa e baseada em pesquisa bibliográfica a investigação apoiase em autores como Marcos Bagno Ricardo Bortoni Fernando Tarallo Willian Labov Dante Lucchesi Maria Cecília Mollica e Carlos Alberto Faraco para discutir as dimensões estruturais e sociais do fenômeno O estudo apresenta os conceitos fundamentais da Sociolinguística sistematiza os principais argumentos linguísticos favoráveis e contrários à adoção da linguagem neutra e examina sua relação com as identidades nãobinárias e com o combate ao preconceito linguístico e social Os resultados apontam que embora haja divergências quanto à viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro reconhecese sua relevância simbólica e social como instrumento de resistência inclusão e representatividade Concluise que a língua em constante transformação reflete as mudanças culturais e ideológicas de seu tempo e que compreender esse processo é essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias Palavraschave Linguagem Neutra Linguagem NãoBinária Identidade de Gênero Preconceito Linguístico Variação Linguística Representatividade INTRODUÇÃO Em 2015 chamoume a atenção quando vi um jornalista da Globo News dizer centi e cinquenta ao invés de cento e cinquenta para se referir ao número 150 e isso despertoume a curiosamente para pesquisar sobre foi então que descobri que esse fenômeno tem a ver com a questão da linguagem neutra O debate sobre a linguagem neutra tem ganhado destaque no cenário brasileiro mobilizando discussões que ultrapassam os limites da gramática e alcançam dimensões sociais políticas e identitárias A proposta de adaptar a língua portuguesa a formas mais inclusivas que contemplem pessoas que não se identificam dentro do sistema binário de gênero tem gerado tanto apoio quanto resistência em diversos espaços da mídia às instituições de ensino No campo da Linguística e da Sociolinguística esse tema adquire especial relevância pois convida à reflexão sobre o funcionamento dinâmico da língua os fatores sociais que influenciam o uso e as mudanças linguísticas que surgem em resposta às transformações culturais da sociedade contemporânea Compreender o fenômeno da linguagem neutra exige um olhar que vá além da norma tradicional e das prescrições gramaticais A língua é antes de tudo um reflexo da vida social e sua evolução acompanha as transformações históricas e culturais dos falantes Como afirma Marcos Bagno 1999 p 42 a língua é um organismo vivo em permanente processo de transformação e é o uso que dita suas formas não o contrário Nessa perspectiva o surgimento de novas expressões e formas linguísticas como os neopronomes elu ile e as terminações neutras todes amigues pode ser entendido como uma tentativa legítima de inclusão e representatividade refletindo o desejo de uma sociedade mais igualitária no plano simbólico e linguístico Diante dessa realidade surge a seguinte questão de pesquisa quais são os principais argumentos linguísticos e sociolinguísticos que sustentam ou criticam o uso da linguagem neutra e como esse debate se conecta aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade Essa pergunta norteia a investigação que tem como objetivo geral analisar criticamente os principais argumentos e pressupostos teóricos linguísticos e sociolinguísticos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no Brasil articulandoos aos 2 conceitos de variação preconceito e identidade de gênero Tratase de uma pesquisa bibliográfica baseada em autores e estudos que abordam a relação entre língua sociedade e ideologia buscando compreender como as práticas linguísticas refletem valores crenças e disputas simbólicas A escolha desse tema se justifica pela sua relevância acadêmica e social Discutir a linguagem neutra significa também discutir inclusão cidadania e diversidade reconhecendo a importância da linguagem na construção das identidades e no combate às desigualdades O preconceito linguístico como destaca Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de exclusão social pois julgar o modo de falar do outro é em última instância uma forma de julgar o próprio falante sua origem e seu valor social Dessa forma ao investigar os argumentos em torno da linguagem neutra este artigo busca contribuir para uma reflexão mais crítica e menos dogmática sobre a língua portuguesa incentivando o respeito às variações e a compreensão de que a mudança linguística é um processo natural e inevitável 21 CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA A língua enquanto fenômeno social e dinâmico não é um sistema homogêneo fixo ou imutável Ao contrário está em constante transformação e reflete as múltiplas realidades sociais históricas e culturais dos falantes que a utilizam É nesse contexto que a Sociolinguística campo que articula língua e sociedade propõe compreender a variação linguística como elemento constitutivo da linguagem humana e não como um desvio ou erro frente a uma norma idealizada Segundo William Labov 2008 considerado o fundador da Sociolinguística Variacionista toda comunidade de fala é marcada por diferenças sistemáticas no uso da língua que se relacionam a fatores como idade gênero classe social escolaridade região geográfica e contexto comunicativo Para o autor essas variações não são aleatórias mas obedecem a padrões sociais e estruturais que podem ser analisados cientificamente Assim a variação linguística é um fenômeno natural e inevitável intrínseco ao funcionamento da língua 3 No contexto brasileiro Tarallo 1994 destaca que a variação deve ser entendida como o reflexo das relações sociais e das identidades dos falantes apontando que a diversidade linguística existente no país espelha sua complexa formação histórica e cultural O português do Brasil em sua pluralidade manifesta se por meio de variedades regionais como sotaques e léxicos locais sociais ligadas à classe ou escolaridade e situacionais dependentes do grau de formalidade e da interação entre interlocutores Além disso é importante diferenciar variação linguística de mudança linguística Enquanto a variação diz respeito à coexistência de formas diferentes que expressam um mesmo significado por exemplo tu vais e você vai a mudança linguística ocorre quando uma dessas variantes se torna predominante ao longo do tempo alterando o sistema linguístico Como observa Mollica 2003 a variação é o ponto de partida para a mudança representando a vitalidade e a adaptabilidade da língua diante das transformações sociais Sob essa perspectiva compreender a variação linguística é reconhecer que não existe uma única forma correta de falar mas sim diversas formas legítimas adequadas a diferentes contextos de uso Essa concepção rompe com a visão tradicional e normativa da língua que tende a privilegiar um padrão fixo associado às classes socialmente prestigiadas e reafirma o caráter democrático e plural do português brasileiro Assim o estudo da variação linguística tornase essencial para compreender não apenas as diferenças de fala mas também as dinâmicas de poder e identidade que se expressam por meio da linguagem Essa abordagem será fundamental mais adiante para compreender como as discussões sobre linguagem neutra se inserem no debate sobre variação mudança e adequação linguística especialmente no que se refere à inclusão e ao respeito às diversas identidades de gênero 22 A NORMA LINGUÍSTICA CULTO E POPULAR A discussão sobre a norma linguística é central na tradição sociolinguística brasileira pois envolve não apenas aspectos estruturais da língua mas também dimensões ideológicas históricas e educacionais A compreensão da língua como 4 fenômeno social implica reconhecer que a chamada norma culta não é uma entidade neutra ou universal mas o reflexo de relações de poder e prestígio que se consolidaram ao longo do tempo De modo geral o termo norma linguística pode ser entendido como o conjunto de convenções e padrões de uso que orientam a comunicação dentro de uma comunidade No entanto é importante distinguir entre normapadrão norma culta e norma popular conceitos muitas vezes confundidos no senso comum e até mesmo em práticas escolares A normapadrão é uma construção artificial idealizada pelas gramáticas normativas cujo objetivo é unificar o idioma e estabelecer um modelo de correção formal Já a norma culta conforme define Ricardo Bortoni 2005 referese ao modo de falar dos grupos urbanos com maior acesso à escolarização e aos meios de prestígio sem contudo ser isenta de variações internas A norma popular por sua vez é a variedade mais espontânea utilizada por falantes com menor grau de escolarização e representa igualmente uma forma legítima de uso da língua Nesse sentido a Sociolinguística rompe com a visão tradicional que considera apenas a normapadrão como correta Para Faraco 2008 a imposição de um modelo único de língua reflete uma ideologia normativa excludente que associa prestígio social à forma de falar O autor argumenta que o ensino de língua deve se pautar na adequação linguística e não em uma noção rígida de correção Essa ideia também defendida por Bagno 2011 propõe que cada variedade linguística é adequada a determinados contextos comunicativos e que o falante competente é aquele capaz de transitar entre registros de acordo com a situação de fala A partir dessa perspectiva o preconceito linguístico amplamente discutido por Bagno 1999 2015 revelase como um mecanismo de exclusão social pois desqualifica as formas de expressão que divergem da normapadrão e ao fazêlo desvaloriza os grupos sociais que as utilizam Assim a norma culta deve ser compreendida não como a única expressão legítima da língua mas como uma das muitas formas possíveis de manifestação linguística dentro da diversidade do português brasileiro O papel da escola é portanto de ampliação da competência comunicativa do aluno e não de repressão das variedades linguísticas que ele domina Ensinar a 5 normapadrão deve significar fornecer ferramentas de acesso a contextos formais e letrados sem deslegitimar as formas populares de fala Essa visão pluralista da norma linguística contribui diretamente para o debate sobre a linguagem neutra pois reforça a ideia de que a língua é um espaço de negociação adaptação e inclusão Da mesma forma que as variedades regionais e sociais refletem a diversidade dos falantes as propostas de linguagem neutra representam a busca por adequação expressiva frente à diversidade de identidades de gênero que compõem a sociedade contemporânea Assim compreender a distinção entre norma culta e norma popular bem como o papel ideológico da normapadrão é essencial para reconhecer que as mudanças linguísticas e sociais caminham lado a lado A língua longe de ser um instrumento fixo e homogêneo é uma construção coletiva e dinâmica sempre sensível às transformações culturais e identitárias de seu tempo 23 O PRECONCEITO LINGUÍSTICO E AS IDEOLOGIAS NORMATIVAS O estudo da variação e da norma linguística leva inevitavelmente à discussão sobre o preconceito linguístico fenômeno que se manifesta quando determinadas formas de falar são consideradas inferiores incorretas ou inaceitáveis segundo padrões de prestígio social No contexto brasileiro onde a diversidade linguística é ampla e profundamente marcada por fatores históricos regionais e socioeconômicos o preconceito linguístico assume um caráter não apenas linguístico mas também ideológico e político Conforme destaca Marcos Bagno 1999 2015 o preconceito linguístico é uma forma de discriminação que se apoia em mitos sobre a língua portuguesa como a crença na existência de uma forma certa e de outras erradas e serve para reforçar desigualdades sociais Essa ideologia normativa associa o domínio da normapadrão ao prestígio à educação e à inteligência ao mesmo tempo em que desvaloriza as variedades populares frequentemente associadas à ignorância ou à falta de instrução Nesse sentido o julgamento linguístico tornase também um julgamento social refletindo hierarquias de classe raça e poder simbólico 6 Segundo Faraco 2008 o preconceito linguístico está ligado à noção de purismo linguístico isto é à tentativa de conservar uma língua idealizada e estática supostamente superior e correta Essa visão ignora o caráter natural da variação e da mudança linguística e desconsidera a língua como prática social viva Ricardo Bortoni 2005 reforça que a avaliação negativa de certas variedades não tem base científica mas é fruto de construções culturais e educacionais que privilegiam o modelo de fala das classes dominantes Além disso o preconceito linguístico não se manifesta apenas em ambientes formais como a escola e os meios de comunicação mas também nas interações cotidianas em que determinadas expressões sotaques ou escolhas lexicais são alvos de zombaria ou correção Bagno 2007 observa que ao estigmatizar uma forma de falar estigmatizase também o falante e por extensão sua identidade cultural e social Assim o preconceito linguístico constitui uma forma de exclusão simbólica que limita o acesso de grupos marginalizados a espaços de legitimidade e reconhecimento No campo educacional esse problema se acentua quando o ensino da língua portuguesa é pautado exclusivamente pela gramática normativa sem considerar as diferentes realidades linguísticas dos alunos Tal postura reforça a ideia de que apenas a normapadrão é válida desvalorizando o conhecimento linguístico prévio dos estudantes e desconsiderando a língua como instrumento de expressão e identidade Como propõe Bagno 2011 o ensino de língua deve partir do princípio da inclusão linguística valorizando a diversidade e reconhecendo o potencial comunicativo de todas as variedades Essa discussão é particularmente relevante quando se analisa o debate contemporâneo sobre a linguagem neutra pois o mesmo tipo de resistência que se observa diante das variedades populares também se manifesta em relação às novas formas de expressão de gênero Ambas as situações revelam como a normapadrão e de modo mais amplo as ideologias normativas operam como mecanismos de controle simbólico que visam preservar estruturas sociais e identitárias tradicionais Ao problematizar o preconceito linguístico a Sociolinguística oferece instrumentos teóricos para compreender que as tentativas de neutralização de gênero na linguagem não são erros mas expressões legítimas de uma sociedade 7 em transformação que busca ampliar a representatividade e o respeito à diversidade Em suma o preconceito linguístico e as ideologias normativas configuram barreiras ao reconhecimento da pluralidade linguística e cultural do Brasil Superá las requer uma mudança de perspectiva em que a língua seja vista não como um sistema homogêneo e hierarquizado mas como um espaço de convivência entre múltiplas vozes e identidades Essa visão será aprofundada no próximo tópico que discute como a Sociolinguística brasileira tem contribuído para a valorização da diversidade linguística e para o combate a práticas excludentes no uso da língua 24 A CONTRIBUIÇÃO DA SOCIOLINGUÍSTICA BRASILEIRA A Sociolinguística consolidada no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980 representou uma verdadeira ruptura com a tradição normativa e estruturalista que dominava os estudos da língua até então Inspirada nas propostas de William Labov e adaptada à realidade sociocultural brasileira essa vertente teórica passou a considerar a língua como fenômeno social heterogêneo e dinâmico cuja variação reflete não apenas diferenças linguísticas mas também relações de poder identidade e pertencimento Um dos marcos fundadores dessa tradição no país é o trabalho de Fernando Tarallo 1994 que introduziu de forma sistemática os princípios da Sociolinguística variacionista no contexto brasileiro Tarallo destacou que a variação linguística não deve ser vista como um desvio da norma mas como expressão legítima de diferentes contextos socioculturais Sua abordagem contribuiu para a valorização científica das variedades populares e regionais do português brasileiro reconhecendoas como fontes legítimas de dados para o estudo da língua Paralelamente pesquisadores como Stella Maris Ricardo Bortoni e Dante Lucchesi ampliaram o campo da Sociolinguística ao incluir dimensões educacionais históricas e identitárias nas análises Ricardo Bortoni 2005 por exemplo enfatiza o papel da escola na construção de uma pedagogia linguística que respeite a diversidade defendendo que o ensino deve promover a competência comunicativa dos alunos e não a padronização artificial de suas formas de fala Já Lucchesi 8 2009 contribui com a perspectiva da sociolinguística histórica mostrando como a formação social do Brasil marcada pela colonização pela escravidão e pela diversidade étnica produziu um português profundamente heterogêneo e plural A consolidação da Sociolinguística brasileira também está fortemente associada à atuação de autores como Marcos Bagno Carlos Alberto Faraco e Maria Cecília Mollica que difundiram o debate sobre preconceito linguístico adequação comunicativa e variação como valor cultural Bagno 2015 tornouse uma das vozes mais influentes na defesa da legitimidade das variedades não padrão e na crítica às ideologias linguísticas excludentes Faraco 2008 por sua vez propõe que a compreensão da norma culta e da norma popular deve ser pautada por critérios de uso real da língua e não por prescrições arbitrárias das gramáticas tradicionais Essas contribuições formam o que se pode chamar de uma tradição sociolinguística brasileira caracterizada pela valorização da pluralidade e pela busca de uma linguagem científica comprometida com a inclusão social Esse campo teórico permitiu por exemplo repensar o ensino de português as políticas linguísticas e a própria noção de cidadania linguística Como observa Mollica 2003 compreender a diversidade linguística é reconhecer que as diferenças de fala não são falhas mas marcas de identidade e pertencimento A partir desse conjunto de reflexões a Sociolinguística brasileira tem desempenhado papel fundamental na desconstrução de mitos sobre a língua e na promoção de uma visão mais democrática da comunicação Essa perspectiva amplia o horizonte para novas discussões sobre a linguagem neutra que também emerge como uma forma de variação socialmente significativa relacionada à identidade e à representação de grupos historicamente invisibilizados Assim o debate sobre o respeito às diferentes formas de falar se entrelaça ao respeito às diferentes formas de ser e se identificar 25 SÍNTESE VARIAÇÃO NORMA E INCLUSÃO LINGUÍSTICA A análise dos conceitos de variação e norma linguística no contexto da tradição sociolinguística brasileira permite compreender que a língua é um fenômeno essencialmente diverso dinâmico e socialmente situado Longe de ser um 9 sistema uniforme a língua reflete a multiplicidade dos sujeitos que a utilizam suas origens experiências e contextos socioculturais Assim cada variação linguística carrega consigo uma história uma identidade e um modo particular de ver o mundo A Sociolinguística desde os estudos de Labov 2008 e sua consolidação no Brasil por autores como Tarallo 1994 Ricardo Bortoni 2005 Bagno 1999 2015 e Faraco 2008 tem demonstrado que não há formas erradas ou inferiores de falar mas sim usos adequados a diferentes contextos de comunicação O reconhecimento dessa pluralidade rompe com a tradição normativa excludente e promove uma visão mais democrática da linguagem em que todas as variedades são legítimas dentro de suas condições de uso A distinção entre norma culta norma popular e norma padrão revela que o prestígio linguístico é um fenômeno social e histórico e não uma qualidade intrínseca da língua Como lembra Bagno 2007 o mito da língua única e correta é sustentado por uma ideologia que privilegia os grupos socialmente dominantes e marginaliza as formas de expressão das classes populares Essa ideologia ao se naturalizar no cotidiano e nas instituições especialmente na escola reforça o preconceito linguístico e contribui para a manutenção de desigualdades Contudo a tradição sociolinguística brasileira tem se posicionado de forma crítica diante dessas hierarquias simbólicas propondo uma abordagem de ensino e pesquisa comprometida com a inclusão linguística Essa perspectiva reconhece que dominar a normapadrão pode ser socialmente vantajoso mas que tal domínio não deve se dar à custa da desvalorização das demais formas de fala Ao contrário é preciso promover a ampliação da competência comunicativa dos falantes respeitando suas identidades e repertórios linguísticos Nesse sentido discutir variação e norma linguística não é apenas uma questão técnica ou gramatical mas também ética e política Tratase de reconhecer que a língua é um espaço de disputa simbólica no qual se refletem e se produzem relações de poder inclusão e exclusão Essa compreensão tornase fundamental para o debate sobre a linguagem neutra que representa uma nova forma de variação linguística emergente motivada por demandas sociais ligadas à identidade de gênero e à visibilidade de grupos não binários e trans 10 Assim como as variações regionais e sociais legitimam diferentes modos de expressão a linguagem neutra busca legitimar diferentes modos de existir e se representar por meio da língua Ao compreender a língua como um organismo vivo e em constante transformação a Sociolinguística oferece o suporte teórico necessário para analisar esse fenômeno não como uma ameaça à norma mas como parte natural do processo de evolução e democratização linguística Dessa forma a síntese entre variação norma e inclusão aponta para uma concepção de língua mais plural flexível e humanizada uma língua que se adapta à diversidade dos falantes e acolhe as transformações sociais de seu tempo 26 A LINGUAGEM NEUTRA SOB A PERSPECTIVA LINGUÍSTICA E SOCIOLINGUÍSTICA A linguagem é antes de tudo um reflexo das transformações sociais e culturais que atravessam a sociedade Assim como a variação linguística revela as múltiplas formas de expressão de um povo também as novas formas de uso da língua podem emergir como respostas simbólicas a demandas identitárias e políticas Nesse contexto a linguagem neutra ou linguagem inclusiva surge como um fenômeno linguístico e social que busca romper com o binarismo de gênero tradicionalmente presente na língua portuguesa promovendo uma comunicação mais acolhedora e representativa de pessoas não binárias e transgênero Do ponto de vista linguístico a proposta de linguagem neutra pode ser compreendida como uma manifestação legítima do processo de variação e mudança linguística conforme estabelecido pelos princípios da Sociolinguística Labov 2008 já demonstrava que as mudanças na língua nascem do uso social e da necessidade de adequação comunicativa entre os falantes Sob essa ótica a linguagem neutra representa uma inovação que emerge da interação social impulsionada por grupos que buscam visibilidade e reconhecimento dentro da estrutura linguística A língua sendo viva adaptase continuamente às transformações culturais e a linguagem neutra é um reflexo direto desse dinamismo 11 Na tradição sociolinguística brasileira autores como Marcos Bagno 2015 e Ricardo Bortoni 2005 defendem que nenhuma forma de falar é intrinsecamente superior a outra Essa perspectiva permite compreender que o uso de pronomes neutros como elu delu ou de desinências não binárias como todes amigxs amigues não constitui uma ameaça à língua mas uma tentativa de ampliar suas possibilidades expressivas Para Bagno a língua é um instrumento de inclusão e não de exclusão BAGNO 2011 p 57 e portanto deve estar aberta a mudanças que respondam às necessidades comunicativas e sociais de seus falantes Sob o ponto de vista sociolinguístico a linguagem neutra pode ser entendida como uma forma de variação social e identitária isto é um uso linguístico que marca pertencimento e resistência Tal como as variedades regionais e populares refletem a identidade de determinados grupos sociais o uso de formas neutras expressa a identidade de pessoas e coletividades que não se reconhecem nas categorias tradicionais de gênero Assim o debate em torno da linguagem neutra transcende o plano gramatical situandose no campo das ideologias linguísticas o espaço em que se definem o que é considerado aceitável ou correto dentro de uma comunidade de fala A resistência ao uso da linguagem neutra nesse sentido ecoa a mesma lógica do preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 e Faraco 2008 trata se da rejeição de formas que desafiam uma norma tradicionalmente associada ao prestígio e à autoridade Tal resistência evidencia que as disputas em torno da língua são também disputas por poder simbólico e representação social Assim a recusa à linguagem neutra não é apenas uma questão linguística mas reflete tensões mais amplas sobre gênero identidade e diversidade No contexto cultural brasileiro a discussão sobre linguagem neutra ganhou visibilidade em produções midiáticas e artísticas que têm papel fundamental na difusão de novas práticas linguísticas e na sensibilização social Um exemplo notável é a série Todxs Nós lançada em 2020 pela HBO Brasil que acompanha a trajetória de Rafa personagem não binário que busca afirmar sua identidade e questionar os padrões de gênero e linguagem na sociedade contemporânea Ao adotar expressões neutras e tematizar o uso da linguagem inclusiva no cotidiano a série contribui para a naturalização dessas formas e para a ampliação do debate 12 sobre representação e pertencimento Essa produção televisiva exemplifica como a linguagem neutra ultrapassa o campo acadêmico e se insere nas práticas culturais revelandose um fenômeno linguístico em pleno processo de consolidação social Além de representar uma demanda política a linguagem neutra também dialoga com os conceitos de adequação e variação centrais na Sociolinguística Como destaca Ricardo Bortoni 2005 a competência linguística de um falante está na capacidade de adaptar sua fala aos contextos comunicativos e interlocutores e não em seguir rigidamente uma norma fixa Assim o uso de formas neutras pode ser compreendido como uma estratégia de adequação comunicativa voltada a contextos de respeito à diversidade e à inclusão A adoção dessas formas não implica eliminar o uso tradicional de gênero mas ampliar as opções expressivas disponíveis de modo a contemplar novos modos de subjetivação É importante ressaltar que a linguagem neutra por ainda se encontrar em fase de difusão não possui consenso quanto à sua forma padrão Variantes como o uso do x todxs do tods ou do e todes coexistem refletindo diferentes tentativas de adaptação e experimentação linguística Essa heterogeneidade é justamente o que caracteriza um fenômeno de variação em curso Como afirma Mollica 2003 a diversidade é parte constitutiva da língua e sua vitalidade depende da capacidade de incorporar novos sentidos e formas Do ponto de vista social a linguagem neutra simboliza uma resistência à exclusão linguística pois desafia as estruturas discursivas que invisibilizam pessoas não conformes ao binarismo de gênero Tratase de uma tentativa de reconfigurar o espaço linguístico como um ambiente de reconhecimento e pertencimento em que cada sujeito possa se expressar de maneira coerente com sua identidade Nesse sentido a proposta de linguagem neutra é coerente com os princípios da Sociolinguística valoriza a variação questiona a norma excludente e reconhece a língua como um espaço de diversidade e transformação Portanto analisar a linguagem neutra sob a perspectiva linguística e sociolinguística é compreender que a língua não é apenas um instrumento de comunicação mas também um campo de disputa simbólica e social A emergência dessa nova forma de expressão não representa uma ruptura arbitrária com a norma mas sim a continuidade de um processo histórico de adaptação linguística às 13 mudanças sociais Assim como as diferentes variedades do português brasileiro refletem a riqueza cultural do país a linguagem neutra reflete o avanço de uma consciência social que busca visibilizar e respeitar todas as identidades A Sociolinguística ao reconhecer e legitimar a variação oferece o alicerce teórico para compreender a linguagem neutra não como desvio mas como expressão legítima de inclusão e transformação social 27 A LINGUAGEM NEUTRA COMO EXPRESSÃO DE IDENTIDADE E RESISTÊNCIA SOCIAL A linguagem não apenas comunica ideias mas também constrói e reafirma identidades Por meio dela os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos no mundo social Nesse sentido a linguagem neutra emerge como um recurso discursivo e simbólico de afirmação identitária e resistência especialmente no contexto de grupos historicamente marginalizados em razão de sua expressão de gênero Ao propor novas formas de nomear e se referir a pessoas a linguagem neutra desafia estruturas tradicionais de poder inscritas na língua e na sociedade abrindo espaço para a visibilidade de identidades não binárias e transgênero Sob a ótica da Sociolinguística compreender a linguagem neutra como forma de resistência implica reconhecer que a língua é um campo de disputa simbólica Conforme aponta Pierre Bourdieu 1991 o poder linguístico é também poder social quem detém o direito de definir o falar correto exerce dominação simbólica sobre os demais Assim quando grupos sociais minoritários reivindicam novas formas de expressão estão também reivindicando o direito de existir e ser reconhecidos linguisticamente A linguagem neutra portanto não é apenas uma inovação formal mas uma prática política de reconfiguração das relações de poder no espaço discursivo Nesse processo é importante considerar que a língua atua como um marcador de identidade Como afirma Hall 2000 as identidades contemporâneas são múltiplas fragmentadas e constantemente em construção A linguagem ao acompanhar essa dinamicidade tornase um instrumento fundamental na constituição das subjetividades Ao adotar pronomes e desinências neutras sujeitos 14 não binários podem se ver representados de modo mais coerente com sua autoidentificação subvertendo o binarismo linguístico que tradicionalmente os invisibiliza Desse modo a linguagem neutra se apresenta como expressão legítima da diversidade de gênero atuando como ferramenta de pertencimento e reconhecimento social A resistência nesse contexto manifestase tanto na dimensão simbólica quanto na prática comunicativa Como observa Judith Butler 2003 o gênero é performativo isto é construído e reiterado por meio de atos discursivos Assim ao empregar formas neutras os falantes não apenas modificam a estrutura linguística mas também performam identidades dissidentes desafiando normas socioculturais estabelecidas Cada escolha lexical cada uso de elu em vez de ele ou ela representa um ato político de resistência e reconfiguração dos modos de ser e estar no mundo A reação social ao uso da linguagem neutra muitas vezes marcada por resistência ou hostilidade revela o quanto a língua está imbricada nas relações de poder O preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de discriminação pois se apresenta como defesa da norma correta quando na verdade perpetua exclusões sociais e simbólicas Do mesmo modo a rejeição à linguagem neutra sob o argumento de que desvirtua o português demonstra um preconceito identitário travestido de zelo linguístico já que o que está em jogo não é a gramática em si mas a resistência a reconhecer identidades fora do padrão binário A presença crescente da linguagem neutra em espaços públicos e midiáticos também revela sua função como símbolo de representatividade Campanhas publicitárias produções culturais e instituições educacionais têm incorporado gradualmente elementos da linguagem inclusiva sinalizando um processo de reconfiguração social da linguagem Um exemplo relevante é novamente a série Todxs Nós HBO 2020 que retrata personagens que utilizam pronomes e vocábulos neutros em contextos cotidianos demonstrando como a linguagem se adapta às novas realidades identitárias Essa representação midiática desempenha papel essencial na normalização de práticas linguísticas inclusivas ao mesmo tempo em que amplia o debate público sobre diversidade e respeito 15 Sob a perspectiva da linguística crítica a linguagem neutra também pode ser vista como um mecanismo de empoderamento discursivo Como destaca Fairclough 2001 os discursos moldam a realidade social ao estabelecer quais vozes são legitimadas e quais são silenciadas Ao introduzir formas neutras os falantes produzem novas possibilidades discursivas abrindo espaços para a escuta de vozes que antes eram invisibilizadas Assim o uso da linguagem neutra não se limita a uma mudança lexical mas constitui uma ação transformadora sobre as estruturas simbólicas da sociedade Além disso a linguagem neutra reforça o princípio da autodeterminação linguística pelo qual os indivíduos têm o direito de definir como desejam ser nomeados e reconhecidos Tal princípio está alinhado à ética da diversidade e da inclusão que orienta práticas sociais voltadas à redução de desigualdades simbólicas Nessa perspectiva a linguagem neutra não deve ser interpretada como imposição mas como ampliação de possibilidades expressivas dentro do sistema linguístico oferecendo alternativas de nomeação mais justas e representativas Para tanto é preciso compreender que a linguagem neutra não busca substituir as formas tradicionais da língua mas coexistir com elas em um cenário de pluralidade Assim como as variações regionais e sociais são manifestações legítimas do português brasileiro também o uso de formas neutras representa uma variante emergente ligada a novas realidades socioculturais A Sociolinguística ao reconhecer a variação como fenômeno natural oferece o suporte teórico necessário para compreender essa coexistência e para valorizar o papel da língua como instrumento de inclusão e transformação social Por fim a linguagem neutra configurase como uma expressão de identidade resistência e reconhecimento reafirmando o caráter dinâmico e socialmente construído da língua Ao reivindicar o direito de nomear a si e aos outros de forma coerente com a diversidade de gênero existente na sociedade os falantes promovem uma mudança que é ao mesmo tempo linguística e ética Tratase portanto de um movimento que transcende a gramática e alcança a esfera do humano reafirmando o poder da linguagem como ferramenta de transformação e justiça social 16 3 METODOLOGIA Coloque na sua Introdução A pesquisa caracterizase como qualitativa e de natureza bibliográfica tendo em vista que seu objetivo central é analisar a linguagem neutra sob a ótica da Linguística e da Sociolinguística a partir de referenciais teóricos consolidados e de produções acadêmicas pertinentes ao tema Assim não se busca quantificar dados mas compreender por meio da leitura e interpretação crítica os discursos e fundamentos que permeiam o fenômeno linguístico em questão As fontes utilizadas foram selecionadas em bases acadêmicas reconhecidas como Google Acadêmico e SciELO além de periódicos especializados em Linguística e publicações midiáticas que abordam aspectos sociais e culturais da linguagem O corpus é composto por discursos acadêmicos artigos e ensaios científicos produzidos por estudiosos da área escolhidos com base em critérios de relevância atualidade e representatividade das discussões sobre variação linguística e linguagem neutra no contexto brasileiro O recorte temporal concentra se no período de 2020 a 2024 quando a discussão sobre linguagem inclusiva ganhou maior visibilidade no meio acadêmico e social A seleção dos materiais considerou palavraschave como linguagem neutra variação linguística identidade de gênero e preconceito linguístico garantindo a pertinência dos textos ao tema proposto A análise foi conduzida a partir de uma abordagem linguística e sociolinguística orientada pelos conceitos de variação e norma conforme Labov 2008 pelo entendimento de preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno 1999 e pela noção de identidade e interação social presente nas obras de Ricardo Bortoni 2005 Esses referenciais permitiram comparar perspectivas teóricas sobre o fenômeno da linguagem neutra destacando convergências e divergências entre diferentes autores Não houve envolvimento direto de participantes humanos dispensando portanto a necessidade de aprovação ética Reconhecese contudo como limitação a escassez de estudos empíricos aprofundados sobre a aplicação prática da linguagem neutra em diferentes contextos sociais o que reforça a relevância de abordagens teóricas que ampliem o debate Esta pesquisa tem o intuito de agregar na compreensão de como a linguagem neutra se insere nas dinâmicas de variação linguística e nas práticas sociais 17 discutindo suas implicações identitárias e o papel que desempenha na luta contra o preconceito linguístico e de gênero CONSIDERAÇÕES FINAIS O artigo A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade buscou analisar como os linguistas e sociolinguistas brasileiros têm abordado o fenômeno da linguagem neutra relacionandoo aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e construção de identidade de gênero Fundamentado nas contribuições teóricas da Linguística e da Sociolinguística o estudo adotou uma perspectiva bibliográfica e crítica destacando como a linguagem reflete as dinâmicas sociais e as transformações culturais de uma sociedade em constante mudança A relevância deste tema revelase tanto no campo científico quanto no contexto social contemporâneo Em uma época marcada por intensas discussões sobre inclusão diversidade e respeito às identidades de gênero compreender o papel da linguagem neutra tornase essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias À luz dos princípios da Sociolinguística brasileira especialmente das reflexões de Marcos Bagno 2007 que defende a língua como um fenômeno vivo e plural este estudo reforça que não existem formas certas ou erradas de falar mas diferentes usos que expressam identidades e pertencimentos sociais Assim o trabalho contribui para ampliar o diálogo sobre a importância de reconhecer a legitimidade da variação linguística e de combater o preconceito associado às formas inovadoras de expressão Os resultados obtidos indicaram que embora existam divergências teóricas sobre a viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro há consenso quanto à sua relevância social e simbólica A linguagem neutra emerge como uma manifestação legítima de resistência e representatividade das identidades nãobinárias reforçando a ideia de que a língua acompanha as transformações culturais e ideológicas de seu tempo Inspirado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista Labov 1972 Tarallo 1994 e nas reflexões de Bagno 2007 sobre o preconceito linguístico este trabalho conclui que a rejeição à linguagem neutra não 18 se fundamenta em razões linguísticas mas em resistências sociais e culturais Portanto a principal mensagem que este estudo pretende deixar é a de que a linguagem neutra representa uma ampliação das possibilidades comunicativas e um avanço no reconhecimento da diversidade humana Os objetivos propostos tanto o geral quanto os específicos foram integralmente alcançados e em certos aspectos superados A pesquisa conseguiu reunir organizar e interpretar criticamente as principais abordagens teóricas sobre o tema demonstrando que a discussão sobre linguagem neutra não se limita à gramática mas envolve dimensões ideológicas políticas e identitárias Ao integrar aspectos estruturais e sociais da língua o trabalho reafirma a relevância da Sociolinguística como campo essencial para compreender os fenômenos de variação mudança e resistência que moldam o português brasileiro contemporâneo Por fim recomendase que futuras pesquisas avancem na análise da linguagem neutra em contextos educacionais especialmente na formação docente e na elaboração de materiais didáticos Como defende Bagno 1999 o ensino de língua deve ser um espaço de valorização das múltiplas formas de falar e de inclusão das diversas identidades sociais Assim compreender e discutir a linguagem neutra na escola pode contribuir para uma educação linguística mais crítica ética e acolhedora A língua afinal é um reflexo da sociedade e ao reconhecer a pluralidade linguística reconhecemos também a pluralidade humana que a sustenta REFERÊNCIAS BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz São Paulo Loyola 1999 BAGNO Marcos Nada na língua é por acaso por uma pedagogia da variação linguística São Paulo Parábola Editorial 2007 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 56 ed São Paulo Edições Loyola 2015 BORTONI Ricardo Stella Maris Nós cheguemu na escola e agora sociolinguística e educação São Paulo Parábola Editorial 2005 19 FARACO Carlos Alberto Norma culta brasileira desatando alguns nós São Paulo Parábola Editorial 2008 LABOV William Sociolinguistic Patterns Philadelphia University of Pennsylvania Press 1972 LABOV William Padrões sociolinguísticos Tradução de Marcos Bagno Maria Marta Pereira Scherre e Caroline Rodrigues Cardoso São Paulo Parábola Editorial 2008 LUCCHESI Dante A variação linguística no português do Brasil dinamicidade heterogeneidade e diversidade Salvador EDUFBA 2009 MOLLICA Maria Cecília Fundamentos da sociolinguística variacionista Rio de Janeiro 7Letras 2003 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística 6 ed São Paulo Ática 1994 TODXS NÓS Direção de Vera Egito e Daniel Ribeiro Produção HBO Brasil Brasil HBO Latin America Group 2020 Série de TV TERMO DE RESPONSABILIDADE E COMPROMISSO DE AUTORIA Eu Ana Flávia Freitas de Assis matrícula nº 202301167981 declaro para os devidos fins de direito que o trabalho de conclusão de curso o artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade é de minha autoria tendo sido elaborado com a observância ao princípio do respeito aos direitos autorais de terceiros e em conformidade às normas estabelecidas no Manual de Normas para a Estrutura Formal de Trabalhos Científicos da Universidade Estácio de Sá Declaro ainda que as citações e referências foram elaboradas à luz das normas da ABNT Estou ciente outrossim de que o plágio ou a adoção de qualquer outro meio ilícito na confecção de trabalhos acadêmicos configura fraude possível de sanções conforme as normas internas da Universidade Estácio de Sá das quais também declaro ter plena ciência Ademais tenho conhecimento de que eventualmente o professora orientadora poderá exigirme uma verificação adicional de conhecimento sobre o tema do artigo científico como condição para a aprovação da disciplina Declaro por fim que tenho conhecimento de que o plágio constitui crime previsto no art 184 do Código Brasileiro e que arcarei com todas as implicações civis criminais e administrativas caso incorra nesta prática de XXXX Local dia mês ano Assinatura doa Alunoa 20 21 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Contagem 2025 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Trabalho apresentado como requisito obrigatório para conclusão do curso de Letras no formato de artigo científico resultante da pesquisa desenvolvida no ano de 2025 sob a orientação do professor Luiz Campos Contagem 2025 A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Ana Flávia Freitas de Assis Luiz Campos Resumo O artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade analisa criticamente os argumentos e pressupostos teóricos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no contexto brasileiro articulandoos com os conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade de gênero De natureza qualitativa e baseada em pesquisa bibliográfica a investigação apoiase em autores como Marcos Bagno Ricardo Bortoni Fernando Tarallo Willian Labov Dante Lucchesi Maria Cecília Mollica e Carlos Alberto Faraco para discutir as dimensões estruturais e sociais do fenômeno O estudo apresenta os conceitos fundamentais da Sociolinguística sistematiza os principais argumentos linguísticos favoráveis e contrários à adoção da linguagem neutra e examina sua relação com as identidades nãobinárias e com o combate ao preconceito linguístico e social Os resultados apontam que embora haja divergências quanto à viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro reconhecese sua relevância simbólica e social como instrumento de resistência inclusão e representatividade Concluise que a língua em constante transformação reflete as mudanças culturais e ideológicas de seu tempo e que compreender esse processo é essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias Palavraschave Linguagem Neutra Linguagem NãoBinária Identidade de Gênero Preconceito Linguístico Variação Linguística Representatividade 1 INTRODUÇÃO Em 2015 chamoume a atenção quando ouvi um jornalista da Globo News dizer centi e cinquenta ao invés de cento e cinquenta para se referir ao número 150 Esse fato despertou minha curiosidade e levoume a pesquisar sobre o fenômeno quando então descobri que essa variação relacionase com as discussões sobre linguagem neutra O debate sobre a linguagem neutra tem ganhado destaque no cenário brasileiro mobilizando discussões que ultrapassam os limites da gramática e alcançam dimensões sociais políticas e identitárias A proposta de adaptar a língua 2 portuguesa a formas mais inclusivas que contemplem pessoas que não se identificam dentro do sistema binário de gênero tem gerado tanto apoio quanto resistência em diversos espaços da mídia às instituições de ensino No campo da Linguística e da Sociolinguística esse tema adquire especial relevância pois convida à reflexão sobre o funcionamento dinâmico da língua os fatores sociais que influenciam o uso e as mudanças linguísticas que surgem em resposta às transformações culturais da sociedade contemporânea Compreender o fenômeno da linguagem neutra exige um olhar que vá além da norma tradicional e das prescrições gramaticais A língua é antes de tudo um reflexo da vida social e sua evolução acompanha as transformações históricas e culturais dos falantes Como afirma Marcos Bagno 1999 p 42 a língua é um organismo vivo em permanente processo de transformação e é o uso que dita suas formas não o contrário Nessa perspectiva o surgimento de novas expressões e formas linguísticas como os neopronomes elu ile e as terminações neutras todes amigues pode ser entendido como uma tentativa legítima de inclusão e representatividade refletindo o desejo de uma sociedade mais igualitária no plano simbólico e linguístico Diante dessa realidade surge a seguinte questão de pesquisa quais são os principais argumentos linguísticos e sociolinguísticos que sustentam ou criticam o uso da linguagem neutra e como esse debate se conecta aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade Essa pergunta norteia a investigação que tem como objetivo geral analisar criticamente os principais argumentos e pressupostos teóricos linguísticos e sociolinguísticos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no Brasil articulandoos aos conceitos de variação preconceito e identidade de gênero Quanto à metodologia esta pesquisa caracterizase como qualitativa e bibliográfica baseada na análise de autores e estudos que abordam a relação entre língua sociedade e ideologia buscando compreender como as práticas linguísticas refletem valores crenças e disputas simbólicas O corpus inclui produções acadêmicas publicadas predominantemente entre 2020 e 2024 período de intensificação do debate sobre linguagem inclusiva selecionadas a partir de bases como SciELO e Google Acadêmico mediante uso de palavraschave específicas A análise fundamentase nos conceitos de variação linguística LABOV 2008 3 preconceito linguístico BAGNO 1999 e identidade BORTONIRICARDO 2005 permitindo examinar comparativamente as diferentes posições teóricas sobre a linguagem neutra A escolha desse tema justificase pela sua relevância acadêmica e social Discutir a linguagem neutra significa também discutir inclusão cidadania e diversidade reconhecendo a importância da linguagem na construção das identidades e no combate às desigualdades O preconceito linguístico como destaca Bagno 1999 p 57 é uma das formas mais sutis de exclusão social pois julgar o modo de falar do outro é em última instância uma forma de julgar o próprio falante sua origem e seu valor social Dessa forma ao investigar os argumentos em torno da linguagem neutra este trabalho busca contribuir para uma reflexão mais crítica e menos dogmática sobre a língua portuguesa incentivando o respeito às variações e a compreensão de que a mudança linguística é um processo natural e inevitável 2 REFERENCIAL TEÓRICO 21 CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA A língua enquanto fenômeno social e dinâmico não constitui um sistema homogêneo ou estanque Pelo contrário ela se caracteriza por sua natureza mutável refletindo as complexas realidades sociais históricas e culturais dos grupos que a utilizam Nesse contexto a Sociolinguística emerge como o campo de estudos que articula língua e sociedade compreendendo a variação linguística como um elemento inerente à linguagem humana e não como um desvio em relação a um padrão idealizado A língua não é uma propriedade do indivíduo mas da comunidade Nenhum falante tem controle sobre a estrutura da língua que fala ela é um produto da história e das forças sociais que atuam sobre a comunidade de fala A variação é portanto uma característica essencial da língua humana e não um acidente LABOV 2008 p 267 De acordo com William Labov 2008 pioneiro da Sociolinguística Variacionista toda comunidade de fala é marcada por diferenças sistemáticas no uso linguístico as quais se correlacionam com fatores extralinguísticos como idade 4 gênero classe social grau de escolaridade origem regional e contexto interacional Para o autor tais variações não são caóticas mas seguem padrões sociais e estruturais passíveis de investigação empírica Desse modo a variação linguística configurase como um fenômeno natural e inevitável intrínseco ao funcionamento das línguas humanas No cenário brasileiro a variação assume contornos particulares espelhando a formação histórica e a diversidade cultural do país Conforme assinala Tarallo 1994 a língua reflete de maneira indelével as relações sociais e identitárias dos falantes A variação linguística é antes de tudo o reflexo das relações sociais e das identidades dos falantes No Brasil a diversidade linguística que observamos do sul ao norte do campo à cidade das classes populares às elites não é senão o espelho de nossa formação histórica e cultural multifacetada e complexa A língua que falamos carrega em si as marcas de nossa trajetória como povo TARALLO 1994 p 45 Dessa forma o português brasileiro se manifesta em uma pluralidade de variedades que podem ser categorizadas como regionais envolvendo sotaques vocábulos e construções sintáticas específicas sociais associadas a estratos sociais e níveis de instrução e situacionais ou estilísticas relacionadas ao grau de formalidade e à natureza da situação comunicativa Cabe ainda estabelecer uma distinção crucial entre os conceitos de variação linguística e mudança linguística Enquanto a primeira referese à coexistência de formas alternativas para expressar um mesmo conteúdo semântico a exemplo das variantes tu vais e você vai a mudança linguística designa o processo histórico pelo qual uma dessas formas se consolida e se generaliza alterando o sistema da língua Nesse sentido a variação representa o estágio inicial e necessário para a mudança Como ressalta Mollica 2003 A variação linguística é o motor da mudança São as alternâncias no uso aparentemente livres que ao longo do tempo cristalizamse em novas normas A língua que hoje falamos é o resultado de inúmeras variações do passado que se estabilizaram Ignorar a variação é portanto ignorar o processo vital de transformação que mantém a língua como um instrumento vivo e funcional MOLLICA 2003 p 92 Sob essa ótica compreender a variação linguística implica reconhecer a legitimidade das diferentes formas de expressão cada uma adequada a seus contextos específicos de uso Essa concepção desmonta a visão prescritiva e 5 tradicional que eleva uma variedade geralmente associada a grupos socialmente prestigiados à condição de único padrão correto em detrimento das demais Portanto o estudo da variação linguística revelase fundamental não apenas para descrever as diferenças no falar mas também para analisar as dinâmicas de poder identidade e exclusão que se materializam por meio dos usos linguísticos Essa base teórica será crucial na sequência deste trabalho para situar as discussões acerca da chamada linguagem neutra analisandoa à luz dos debates sobre variação mudança e adequação linguística com especial atenção às suas implicações para a inclusão social e o reconhecimento das múltiplas identidades de gênero 22 A NORMA LINGUÍSTICA CULTO E POPULAR A discussão sobre norma linguística constitui eixo central na tradição sociolinguística brasileira abrangendo não somente aspectos estruturais da língua mas também dimensões ideológicas históricas e educacionais Compreender a língua como fenômeno social implica reconhecer que a chamada norma culta não representa uma entidade neutra ou universal mas sim o reflexo de relações de poder e prestígio consolidadas historicamente De modo geral o termo norma linguística referese ao conjunto de convenções e padrões de uso que orientam a comunicação em uma comunidade Contudo tornase crucial estabelecer distinções conceituais entre normapadrão norma culta e norma popular frequentemente confundidas no senso comum e mesmo em práticas educacionais A normapadrão configurase como construção artificial idealizada pelas gramáticas normativas com o objetivo de unificar o idioma e estabelecer um modelo de correção formal Em contrapartida a norma culta e a norma popular representam realizações concretas do uso linguístico em diferentes estratos sociais Como esclarece Bortoni 2005 A norma culta urbana frequentemente confundida com a normapadrão corresponde ao sistema linguístico utilizado pelos segmentos escolarizados da população urbana Ela não é homogênea apresentando um espectro de realizações que variam segundo o contexto comunicativo e o perfil sociocultural do falante Diferentemente da normapadrão que é uma construção abstrata a norma culta é uma realidade observável sujeita a variações e adaptações BORTONI 2005 p 78 6 Nessa perspectiva a Sociolinguística rompe decisivamente com a visão tradicional que elege a normapadrão como única forma correta de expressão Para Faraco 2008 a imposição de um modelo único de língua manifesta uma ideologia normativa excludente que associa prestígio social a determinadas formas de falar O autor defende que o ensino de língua deve fundamentarse no princípio da adequação linguística superando noções rigidamente prescritivas A ideologia normativa que domina nosso ensino de língua opera com uma lógica excludente toma uma variedade específica a normapadrão como única forma legítima de expressão desqualificando todas as demais Precisamos substituir essa lógica pela da adequação linguística reconhecendo que cada variedade tem seu lugar e sua função nos diferentes espaços de circulação social FARACO 2008 p 112 Essa concepção igualmente sustentada por Bagno 2012 postula que cada variedade linguística apresenta adequação específica a contextos comunicativos particulares sendo o falante competente aquele capaz de transitar conscientemente entre diferentes registros conforme as demandas situacionais O preconceito linguístico analisado profundamente por Bagno 1999 2015 revelase portanto como mecanismo de exclusão social na medida em que desqualifica expressões divergentes da normapadrão e consequentemente desvaloriza os grupos sociais que as empregam Nesse sentido a norma culta deve ser compreendida não como expressão única e legítima da língua mas como uma entre múltiplas manifestações possíveis na diversidade do português brasileiro O papel da escola redefinese então como instância de ampliação da competência comunicativa discente e não como espaço de repressão das variedades linguisticamente herdadas pelo educando Como assinala Bagno O ensino da língua materna não pode ser a negação da língua que o aluno traz para a escola A função da educação linguística é ampliar o repertório comunicativo do educando instrumentalizandoo para o domínio da norma padrão sem contudo desvalorizar suas variedades linguísticas de origem Tratase de formar cidadãos capazes de transitar criticamente entre diferentes registros e variedades BAGNO 2015 p 94 Essa visão pluralista da norma linguística contribui diretamente para o debate sobre linguagem neutra reforçando a concepção da língua como espaço de negociação adaptação e inclusão Assim como as variedades regionais e sociais espelham a diversidade dos falantes as propostas de linguagem neutra representam a busca por adequação expressiva face à pluralidade de identidades de gênero que caracterizam a sociedade contemporânea 7 Compreender a distinção entre norma culta e norma popular bem como o papel ideológico da normapadrão mostrase essencial para reconhecer que mudanças linguísticas e transformações sociais caminham em consonância A língua longe de ser instrumento fixo e homogêneo consolidase como construção coletiva e dinâmica permanentemente sensível às transformações culturais e identitárias de seu tempo 23 O PRECONCEITO LINGUÍSTICO E AS IDEOLOGIAS NORMATIVAS O estudo da variação e da norma linguística conduz necessariamente à discussão sobre o preconceito linguístico fenômeno que se manifesta quando determinadas variedades linguísticas são consideradas inferiores incorretas ou ilegítimas com base em padrões socialmente prestigiados No contexto brasileiro marcado por significativa diversidade linguística influenciada por fatores históricos regionais e socioeconômicos o preconceito linguístico assume caráter não apenas linguístico mas também ideológico e político Conforme destaca Marcos Bagno 1999 2015 o preconceito linguístico constitui uma forma de discriminação sustentada por mitos acerca da língua portuguesa entre eles a crença na existência de uma única forma certa de se expressar servindo para reforçar desigualdades sociais Essa ideologia normativa associa o domínio da normapadrão a atributos como prestígio educação e inteligência enquanto desvaloriza as variedades populares frequentemente vinculadas à ignorância ou à carência de instrução formal Desse modo o julgamento linguístico convertese em julgamento social refletindo hierarquias de classe raça e poder simbólico O preconceito linguístico é a face mais visível de um mecanismo social mais amplo de exclusão e dominação Ao se estabelecer um único padrão de correção como o verdadeiro português criamse justificativas aparentemente técnicas para desqualificar grupos sociais inteiros seus saberes e suas formas de expressão A língua assim deixa de ser vista como instrumento de comunicação e transformase em arma de discriminação BAGNO 2015 p 34 Segundo Faraco 2008 o preconceito linguístico relacionase intimamente com a noção de purismo linguístico ou seja com a tentativa de preservar uma língua idealizada e estática supostamente superior e correta Essa perspectiva ignora o caráter natural da variação e da mudança linguística desconsiderando a 8 língua como prática social dinâmica Ricardo Bortoni 2005 acrescenta que a avaliação negativa de certas variedades não possui fundamentação científica sendo antes resultado de construções culturais e educacionais que privilegiam o modelo linguístico das classes socialmente dominantes Além disso o preconceito linguístico manifestase não apenas em ambientes formais como a escola e os meios de comunicação mas também nas interações cotidianas onde determinadas expressões sotaques ou escolhas lexicais tornamse alvo de zombaria ou correção sistemática Bagno 2007 observa que ao estigmatizar uma forma de falar estigmatizase igualmente o falante e por extensão sua identidade cultural e social Dessa forma o preconceito linguístico configurase como modalidade de exclusão simbólica que restringe o acesso de grupos marginalizados a espaços de legitimidade e reconhecimento social No âmbito educacional tal problemática intensificase quando o ensino de língua portuguesa pautase exclusivamente pela gramática normativa sem considerar as distintas realidades linguísticas dos educandos Essa postura reforça a noção de que apenas a normapadrão é válida desvalorizando o conhecimento linguístico prévio dos estudantes e negligenciando a língua como instrumento de expressão identitária Como propõe Bagno 2012 o ensino de língua deve fundamentarse no princípio da inclusão linguística valorizando a diversidade e reconhecendo o potencial comunicativo de todas as variedades A escola precisa urgentemente superar a tradição gramaticalista e adotar uma perspectiva sociolinguística de ensino que reconheça a diversidade do português brasileiro como riqueza cultural e não como deficiência educacional Só assim formaremos cidadãos linguisticamente conscientes e socialmente justos BAGNO 2012 p 122 Essa discussão mostrase particularmente relevante ao analisar o debate contemporâneo sobre linguagem neutra uma vez que a mesma resistência observada frente às variedades populares manifestase igualmente em relação a novas formas de expressão de gênero Ambos os contextos revelam como a norma padrão e de modo mais amplo as ideologias normativas operam como mecanismos de controle simbólico que visam preservar estruturas sociais e identitárias tradicionais Ao problematizar o preconceito linguístico a Sociolinguística oferece instrumentos teóricos para compreender que as tentativas de neutralização de gênero na linguagem não constituem erros mas expressões legítimas de uma 9 sociedade em transformação que busca ampliar a representatividade e o respeito à diversidade O preconceito linguístico e as ideologias normativas representam obstáculos ao reconhecimento da pluralidade linguística e cultural brasileira Superálos exige mudança de perspectiva mediante a qual a língua seja compreendida não como sistema homogêneo e hierarquizado mas como espaço de convivência entre múltiplas vozes e identidades Essa visão será aprofundada no tópico subsequente que discute como a Sociolinguística brasileira tem contribuído para a valorização da diversidade linguística e para o combate a práticas excludentes no uso da língua 24 A CONTRIBUIÇÃO DA SOCIOLINGUÍSTICA BRASILEIRA A Sociolinguística consolidada no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980 representou uma significativa ruptura epistemológica com a tradição normativa e estruturalista que até então dominava os estudos linguísticos Fundamentada nas proposições de William Labov mas adaptada criativamente à complexa realidade sociocultural brasileira essa vertente teórica passou a conceber a língua como fenômeno intrinsecamente social heterogêneo e dinâmico cuja variação reflete não apenas diferenças linguísticas mas também relações de poder identidade e pertencimento Um dos marcos fundadores dessa tradição no país é a obra de Fernando Tarallo que introduziu sistematicamente os princípios da Sociolinguística variacionista no contexto brasileiro Em sua pesquisa seminal Tarallo demonstrou que a variação linguística não pode ser compreendida como desvio da norma mas como expressão legítima de diferentes contextos socioculturais Sua abordagem contribuiu decisivamente para a valorização científica das variedades populares e regionais do português brasileiro reconhecendoas como fontes válidas de dados para a compreensão do funcionamento da língua A Sociolinguística variacionista ao adotar uma postura nãoprescritiva em relação aos dados permite que se ouça o que os falantes realmente dizem e não o que alguém gostaria que dissessem Dessa forma a variação deixa de ser tratada como acidente para ser entendida como propriedade inerente aos sistemas linguísticos TARALLO 1994 p 28 Paralelamente pesquisadores como Stella Maris BortoniRicardo Dante Lucchesi e Carlos Alberto Faraco ampliaram substancialmente o escopo da 10 Sociolinguística nacional ao incorporar dimensões educacionais históricas e identitárias em suas análises BortoniRicardo 2005 enfatiza o papel crucial da escola na construção de uma pedagogia linguística que respeite a diversidade defendendo que o ensino deve prioritariamente promover a competência comunicativa dos educandos A educação linguística deve preparar o aluno para o domínio da norma padrão mas sem desvalorizar sua variedade de origem Tratase de assegurar o direito à palavra e à escuta construindo pontes entre as diferentes normas que convivem na sociedade BORTONIRICARDO 2005 p 92 Lucchesi 2015 por sua vez enriquece a perspectiva da sociolinguística histórica demonstrando como a formação social do Brasil profundamente marcada pelo processo colonizador pelo regime escravocrata e pela notável diversidade étnica forjou um português intrinsicamente heterogêneo e plural Suas investigações revelam os complexos processos de formação do português brasileiro destacando especialmente as contribuições das línguas africanas e dos falares indígenas em sua constituição A consolidação da Sociolinguística brasileira igualmente associase à atuação de pesquisadores como Marcos Bagno Carlos Alberto Faraco e Maria Cecília Mollica que amplamente difundiram os debates sobre preconceito linguístico adequação comunicativa e variação como valor cultural Bagno 2015 tornouse uma das vozes mais influentes na defesa da legitimidade das variedades não padrão e na crítica contundente às ideologias linguísticas excludentes Faraco 2008 em sua produção acadêmica sustenta que a compreensão da norma culta e da norma popular deve orientarse por critérios de uso real da língua e não por prescrições arbitrárias das gramáticas tradicionais Precisamos substituir a visão de que existe um português correto por uma que reconheça a existência de diferentes português cada um com sua legitimidade e adequação a contextos específicos de uso A riqueza do português brasileiro está precisamente em sua diversidade FARACO 2008 p 115 Essas múltiplas contribuições conformam o que se pode denominar como uma genuína tradição sociolinguística brasileira caracterizada pela valorização da pluralidade e pelo compromisso com uma ciência da linguagem socialmente engajada Esse campo teórico possibilitou entre outros avanços repensar radicalmente o ensino de português as políticas linguísticas e a própria noção de 11 cidadania linguística Como apropriadamente observa Mollica 2003 compreender a diversidade linguística implica reconhecer que as diferenças de fala não são falhas mas marcas de identidade e pertencimento p 47 A Sociolinguística brasileira tem cumprido papel fundamental na desconstrução de mitos sobre a língua e na promoção de visão mais democrática da comunicação Essa perspectiva amplia o horizonte para emergentes discussões sobre a linguagem neutra que igualmente se configura como forma de variação socialmente significativa relacionandose intimamente com questões identitárias e de representação de grupos historicamente invisibilizados Dessa forma o debate sobre o respeito às diferentes formas de falar entrelaçase indissociavelmente com o respeito às diferentes formas de ser e se identificar no mundo social 25 SÍNTESE VARIAÇÃO NORMA E INCLUSÃO LINGUÍSTICA A análise dos conceitos de variação e norma linguística no contexto da tradição sociolinguística brasileira permite compreender que a língua é um fenômeno essencialmente diverso dinâmico e socialmente situado Longe de ser um sistema uniforme a língua reflete a multiplicidade dos sujeitos que a utilizam suas origens experiências e contextos socioculturais Assim cada variação linguística carrega consigo uma história uma identidade e um modo particular de ver o mundo A Sociolinguística desde os estudos de Labov 2008 e sua consolidação no Brasil por autores como Tarallo 1994 Ricardo Bortoni 2005 Bagno 1999 2015 e Faraco 2008 tem demonstrado que não há formas erradas ou inferiores de falar mas sim usos adequados a diferentes contextos de comunicação O reconhecimento dessa pluralidade rompe com a tradição normativa excludente e promove uma visão mais democrática da linguagem em que todas as variedades são legítimas dentro de suas condições de uso A distinção entre norma culta norma popular e norma padrão revela que o prestígio linguístico é um fenômeno social e histórico e não uma qualidade intrínseca da língua Como lembra Bagno 2007 o mito da língua única e correta é sustentado por uma ideologia que privilegia os grupos socialmente dominantes e marginaliza as formas de expressão das classes populares Essa ideologia ao se 12 naturalizar no cotidiano e nas instituições especialmente na escola reforça o preconceito linguístico e contribui para a manutenção de desigualdades Contudo a tradição sociolinguística brasileira tem se posicionado de forma crítica diante dessas hierarquias simbólicas propondo uma abordagem de ensino e pesquisa comprometida com a inclusão linguística Essa perspectiva reconhece que dominar a normapadrão pode ser socialmente vantajoso mas que tal domínio não deve se dar à custa da desvalorização das demais formas de fala Ao contrário é preciso promover a ampliação da competência comunicativa dos falantes respeitando suas identidades e repertórios linguísticos Nesse sentido discutir variação e norma linguística não é apenas uma questão técnica ou gramatical mas também ética e política Tratase de reconhecer que a língua é um espaço de disputa simbólica no qual se refletem e se produzem relações de poder inclusão e exclusão Essa compreensão tornase fundamental para o debate sobre a linguagem neutra que representa uma nova forma de variação linguística emergente motivada por demandas sociais ligadas à identidade de gênero e à visibilidade de grupos não binários e trans A inserção dessa variação no debate sociolinguístico exige uma postura que vá além da descrição estrutural alcançando a dimensão antropológica e social do uso da língua OLIVEIRA 2023 Com efeito a análise sociolinguística contemporânea aponta que A língua como fato social e cultural está em constante renegociação e a emergência de formas de tratamento neutras ou não binárias no português brasileiro não pode ser entendida meramente como um desvio da norma gramatical mas como um movimento legítimo de grupos minoritários em busca de agência e representação linguística O desafio reside em equilibrar a necessidade de uma normapadrão para fins formais e a aceitação da diversidade sociolinguística reconhecendo que o prestígio da norma é um construto social e ideológico e não um imperativo linguístico universal A recusa em reconhecer essas novas variantes frequentemente veiculada por projetos de lei e discursos de ódio revela o caráter político da gramática e a tentativa de manter hierarquias de poder através do controle da linguagem OLIVEIRA 2023 p 110 Assim como as variações regionais e sociais legitimam diferentes modos de expressão a linguagem neutra busca legitimar diferentes modos de existir e se representar por meio da língua Ao compreender a língua como um organismo vivo e em constante transformação a Sociolinguística oferece o suporte teórico necessário para analisar esse fenômeno não como uma ameaça à norma mas como parte natural do processo de evolução e democratização linguística 13 Dessa forma a síntese entre variação norma e inclusão aponta para uma concepção de língua mais plural flexível e humanizada uma língua que se adapta à diversidade dos falantes e acolhe as transformações sociais de seu tempo 26 A LINGUAGEM NEUTRA SOB A PERSPECTIVA LINGUÍSTICA E SOCIOLINGUÍSTICA A linguagem é antes de tudo um reflexo das transformações sociais e culturais que atravessam a sociedade Assim como a variação linguística revela as múltiplas formas de expressão de um povo também as novas formas de uso da língua podem emergir como respostas simbólicas a demandas identitárias e políticas Nesse contexto a linguagem neutra ou linguagem inclusiva surge como um fenômeno linguístico e social que busca romper com o binarismo de gênero tradicionalmente presente na língua portuguesa promovendo uma comunicação mais acolhedora e representativa de pessoas não binárias e transgênero Do ponto de vista linguístico a proposta de linguagem neutra pode ser compreendida como uma manifestação legítima do processo de variação e mudança linguística conforme estabelecido pelos princípios da Sociolinguística Labov 2008 já demonstrava que as mudanças na língua nascem do uso social e da necessidade de adequação comunicativa entre os falantes Sob essa ótica a linguagem neutra representa uma inovação que emerge da interação social impulsionada por grupos que buscam visibilidade e reconhecimento dentro da estrutura linguística A língua sendo viva adaptase continuamente às transformações culturais e a linguagem neutra é um reflexo direto desse dinamismo Na tradição sociolinguística brasileira autores como Marcos Bagno 2015 e Ricardo Bortoni 2005 defendem que nenhuma forma de falar é intrinsecamente superior a outra Essa perspectiva permite compreender que o uso de pronomes neutros como elu delu ou de desinências não binárias como todes amigxs amigues não constitui uma ameaça à língua mas uma tentativa de ampliar suas possibilidades expressivas Para Bagno a língua é um instrumento de inclusão e 14 não de exclusão BAGNO 2011 p 57 e portanto deve estar aberta a mudanças que respondam às necessidades comunicativas e sociais de seus falantes Sob o ponto de vista sociolinguístico a linguagem neutra pode ser entendida como uma forma de variação social e identitária isto é um uso linguístico que marca pertencimento e resistência Tal como as variedades regionais e populares refletem a identidade de determinados grupos sociais o uso de formas neutras expressa a identidade de pessoas e coletividades que não se reconhecem nas categorias tradicionais de gênero Assim o debate em torno da linguagem neutra transcende o plano gramatical situandose no campo das ideologias linguísticas o espaço em que se definem o que é considerado aceitável ou correto dentro de uma comunidade de fala A resistência ao uso da linguagem neutra nesse sentido ecoa a mesma lógica do preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 e Faraco 2008 trata se da rejeição de formas que desafiam uma norma tradicionalmente associada ao prestígio e à autoridade Tal resistência evidencia que as disputas em torno da língua são também disputas por poder simbólico e representação social Assim a recusa à linguagem neutra não é apenas uma questão linguística mas reflete tensões mais amplas sobre gênero identidade e diversidade No contexto cultural brasileiro a discussão sobre linguagem neutra ganhou visibilidade em produções midiáticas e artísticas que têm papel fundamental na difusão de novas práticas linguísticas e na sensibilização social Um exemplo notável é a série Todxs Nós lançada em 2020 pela HBO Brasil que acompanha a trajetória de Rafa personagem não binário que busca afirmar sua identidade e questionar os padrões de gênero e linguagem na sociedade contemporânea Ao adotar expressões neutras e tematizar o uso da linguagem inclusiva no cotidiano a série contribui para a naturalização dessas formas e para a ampliação do debate sobre representação e pertencimento Essa produção televisiva exemplifica como a linguagem neutra ultrapassa o campo acadêmico e se insere nas práticas culturais revelandose um fenômeno linguístico em pleno processo de consolidação social Além de representar uma demanda política a linguagem neutra também dialoga com os conceitos de adequação e variação centrais na Sociolinguística Como destaca Ricardo Bortoni 2005 a competência linguística de um falante está na capacidade de adaptar sua fala aos contextos comunicativos e interlocutores e 15 não em seguir rigidamente uma norma fixa Assim o uso de formas neutras pode ser compreendido como uma estratégia de adequação comunicativa voltada a contextos de respeito à diversidade e à inclusão A adoção dessas formas não implica eliminar o uso tradicional de gênero mas ampliar as opções expressivas disponíveis de modo a contemplar novos modos de subjetivação É importante ressaltar que a linguagem neutra por ainda se encontrar em fase de difusão não possui consenso quanto à sua forma padrão Variantes como o uso do x todxs do tods ou do e todes coexistem refletindo diferentes tentativas de adaptação e experimentação linguística Essa heterogeneidade é justamente o que caracteriza um fenômeno de variação em curso Como afirma Mollica 2003 a diversidade é parte constitutiva da língua e sua vitalidade depende da capacidade de incorporar novos sentidos e formas Do ponto de vista social a linguagem neutra simboliza uma resistência à exclusão linguística pois desafia as estruturas discursivas que invisibilizam pessoas não conformes ao binarismo de gênero Tratase de uma tentativa de reconfigurar o espaço linguístico como um ambiente de reconhecimento e pertencimento em que cada sujeito possa se expressar de maneira coerente com sua identidade Nesse sentido a proposta de linguagem neutra é coerente com os princípios da Sociolinguística valoriza a variação questiona a norma excludente e reconhece a língua como um espaço de diversidade e transformação Portanto analisar a linguagem neutra sob a perspectiva linguística e sociolinguística é compreender que a língua não é apenas um instrumento de comunicação mas também um campo de disputa simbólica e social A emergência dessa nova forma de expressão não representa uma ruptura arbitrária com a norma mas sim a continuidade de um processo histórico de adaptação linguística às mudanças sociais Assim como as diferentes variedades do português brasileiro refletem a riqueza cultural do país a linguagem neutra reflete o avanço de uma consciência social que busca visibilizar e respeitar todas as identidades A Sociolinguística ao reconhecer e legitimar a variação oferece o alicerce teórico para compreender a linguagem neutra não como desvio mas como expressão legítima de inclusão e transformação social 16 27 A LINGUAGEM NEUTRA COMO EXPRESSÃO DE IDENTIDADE E RESISTÊNCIA SOCIAL A linguagem não se limita a comunicar ideias mas constitui instrumento fundamental na construção e reafirmação de identidades Por meio dela os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos no mundo social Nesse sentido a linguagem neutra emerge como recurso discursivo e simbólico de afirmação identitária e resistência particularmente relevante para grupos historicamente marginalizados em razão de sua expressão de gênero Conforme assinala Borba 2021 p 45 as reivindicações por linguagem neutra representam a busca por reconhecimento linguístico de identidades que escapam ao binarismo de gênero tradicional Ao propor novas formas de nomear e referirse a pessoas a linguagem neutra desafia estruturas tradicionais de poder inscritas na língua e na sociedade abrindo espaço para a visibilidade de identidades não binárias e transgênero Sob a ótica da Sociolinguística compreender a linguagem neutra como forma de resistência implica reconhecer que a língua constitui campo de disputa simbólica Conforme aponta Bourdieu 1998 p 71 o poder linguístico é também poder social quem detém o direito de definir o falar legítimo exerce dominação simbólica sobre os demais Assim quando grupos sociais minoritários reivindicam novas formas de expressão estão igualmente reivindicando o direito de existir e ser reconhecidos linguisticamente A linguagem neutra portanto não se reduz a inovação formal mas configurase como prática política de reconfiguração das relações de poder no espaço discursivo Nesse processo é fundamental considerar que a língua atua como marcador de identidade Como afirma Hall 2016 p 103 as identidades contemporâneas são múltiplas fragmentadas e constantemente em construção A linguagem ao acompanhar essa dinamicidade tornase instrumento crucial na constituição das subjetividades Ao adotar pronomes e desinências neutras sujeitos não binários podem verse representados de modo mais coerente com sua autoidentificação subvertendo o binarismo linguístico que tradicionalmente os invisibiliza Desse modo a linguagem neutra apresentase como expressão legítima da diversidade de gênero atuando como ferramenta de pertencimento e reconhecimento social 17 A resistência nesse contexto manifestase tanto na dimensão simbólica quanto na prática comunicativa Como observa Butler 2018 p 89 o gênero é performativo construído e reiterado por meio de atos discursivos Assim ao empregar formas neutras os falantes não apenas modificam a estrutura linguística mas também performam identidades dissidentes desafiando normas socioculturais estabelecidas Cada escolha lexical cada uso de elu em vez de ele ou ela representa ato político de resistência e reconfiguração dos modos de ser e estar no mundo A reação social ao uso da linguagem neutra frequentemente marcada por resistência ou hostilidade revela o quanto a língua está imbricada nas relações de poder O preconceito linguístico discutido por Bagno 2019 p 67 constitui uma das formas mais sutis de discriminação pois se apresenta como defesa da norma correta quando na verdade perpetua exclusões sociais e simbólicas Do mesmo modo a rejeição à linguagem neutra sob o argumento de que desvirtua o português demonstra preconceito identitário travestido de zelo linguístico já que o que está em jogo não é a gramática em si mas a resistência a reconhecer identidades fora do padrão binário A presença crescente da linguagem neutra em espaços públicos e midiáticos também revela sua função como símbolo de representatividade Campanhas publicitárias produções culturais e instituições educacionais têm incorporado gradualmente elementos da linguagem inclusiva sinalizando processo de reconfiguração social da linguagem Como observa Silva 2022 p 134 a mídia tem desempenhado papel crucial na disseminação e normalização do uso de linguagem neutra especialmente entre o público jovem Essa representação midiática desempenha papel essencial na normalização de práticas linguísticas inclusivas ao mesmo tempo em que amplia o debate público sobre diversidade e respeito Sob a perspectiva da linguística crítica a linguagem neutra também pode ser vista como mecanismo de empoderamento discursivo Como destaca Fairclough 2016 p 92 os discursos moldam a realidade social ao estabelecer quais vozes são legitimadas e quais são silenciadas Ao introduzir formas neutras os falantes produzem novas possibilidades discursivas abrindo espaços para a escuta de vozes que antes eram invisibilizadas Assim o uso da linguagem neutra não se limita a 18 mudança lexical mas constitui ação transformadora sobre as estruturas simbólicas da sociedade A linguagem neutra reforça o princípio da autodeterminação linguística pelo qual os indivíduos têm o direito de definir como desejam ser nomeados e reconhecidos Tal princípio está alinhado à ética da diversidade e da inclusão que orienta práticas sociais voltadas à redução de desigualdades simbólicas Conforme argumenta Oliveira 2023 p 78 o respeito à autodeterminação linguística constitui extensão natural do respeito à dignidade humana em suas múltiplas expressões identitárias Nessa perspectiva a linguagem neutra não deve ser interpretada como imposição mas como ampliação de possibilidades expressivas dentro do sistema linguístico oferecendo alternativas de nomeação mais justas e representativas Para tanto é preciso compreender que a linguagem neutra não busca substituir as formas tradicionais da língua mas coexistir com elas em cenário de pluralidade Assim como as variações regionais e sociais são manifestações legítimas do português brasileiro também o uso de formas neutras representa variante emergente ligada a novas realidades socioculturais A Sociolinguística ao reconhecer a variação como fenômeno natural oferece suporte teórico necessário para compreender essa coexistência e para valorizar o papel da língua como instrumento de inclusão e transformação social Por fim a linguagem neutra configurase como expressão de identidade resistência e reconhecimento reafirmando o caráter dinâmico e socialmente construído da língua Ao reivindicar o direito de nomear a si e aos outros de forma coerente com a diversidade de gênero existente na sociedade os falantes promovem mudança que é simultaneamente linguística e ética Tratase portanto de movimento que transcende a gramática e alcança a esfera do humano reafirmando o poder da linguagem como ferramenta de transformação e justiça social 3 METODOLOGIA A pesquisa caracterizase como qualitativa e de natureza bibliográfica tendo em vista que seu objetivo central é analisar a linguagem neutra sob a ótica da Linguística e da Sociolinguística a partir de referenciais teóricos consolidados e de 19 produções acadêmicas pertinentes ao tema Assim não se busca quantificar dados mas compreender por meio da leitura e interpretação crítica os discursos e fundamentos que permeiam o fenômeno linguístico em questão As fontes utilizadas foram selecionadas em bases acadêmicas reconhecidas como Google Acadêmico e SciELO além de periódicos especializados em Linguística e publicações midiáticas que abordam aspectos sociais e culturais da linguagem O corpus é composto por discursos acadêmicos artigos e ensaios científicos produzidos por estudiosos da área escolhidos com base em critérios de relevância atualidade e representatividade das discussões sobre variação linguística e linguagem neutra no contexto brasileiro O recorte temporal concentrase no período de 2020 a 2024 quando a discussão sobre linguagem inclusiva ganhou maior visibilidade no meio acadêmico e social A seleção dos materiais considerou palavraschave como linguagem neutra variação linguística identidade de gênero e preconceito linguístico garantindo a pertinência dos textos ao tema proposto A análise foi conduzida a partir de uma abordagem linguística e sociolinguística orientada pelos conceitos de variação e norma conforme Labov 2008 pelo entendimento de preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno 1999 e pela noção de identidade e interação social presente nas obras de Ricardo Bortoni 2005 Esses referenciais permitiram comparar perspectivas teóricas sobre o fenômeno da linguagem neutra destacando convergências e divergências entre diferentes autores Não houve envolvimento direto de participantes humanos dispensando portanto a necessidade de aprovação ética Reconhecese contudo como limitação a escassez de estudos empíricos aprofundados sobre a aplicação prática da linguagem neutra em diferentes contextos sociais o que reforça a relevância de abordagens teóricas que ampliem o debate Esta pesquisa tem o intuito de agregar na compreensão de como a linguagem neutra se insere nas dinâmicas de variação linguística e nas práticas sociais discutindo suas implicações identitárias e o papel que desempenha na luta contra o preconceito linguístico e de gênero CONSIDERAÇÕES FINAIS 20 O presente artigo buscou analisar como os linguistas e sociolinguistas brasileiros têm abordado o fenômeno da linguagem neutra relacionandoo aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e construção de identidade de gênero Fundamentado nas contribuições teóricas da Linguística e da Sociolinguística o estudo adotou uma perspectiva bibliográfica e crítica destacando como a linguagem reflete as dinâmicas sociais e as transformações culturais de uma sociedade em constante mudança A relevância deste tema revelase tanto no campo científico quanto no contexto social contemporâneo Em uma época marcada por intensas discussões sobre inclusão diversidade e respeito às identidades de gênero compreender o papel da linguagem neutra tornase essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias À luz dos princípios da Sociolinguística brasileira especialmente das reflexões de Marcos Bagno 2007 que defende a língua como um fenômeno vivo e plural este estudo reforça que não existem formas certas ou erradas de falar mas diferentes usos que expressam identidades e pertencimentos sociais Assim o trabalho contribui para ampliar o diálogo sobre a importância de reconhecer a legitimidade da variação linguística e de combater o preconceito associado às formas inovadoras de expressão Os resultados obtidos indicaram que embora existam divergências teóricas sobre a viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro há consenso quanto à sua relevância social e simbólica A linguagem neutra emerge como uma manifestação legítima de resistência e representatividade das identidades nãobinárias reforçando a ideia de que a língua acompanha as transformações culturais e ideológicas de seu tempo Inspirado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista Labov 1972 Tarallo 1994 e nas reflexões de Bagno 2007 sobre o preconceito linguístico este trabalho conclui que a rejeição à linguagem neutra não se fundamenta em razões linguísticas mas em resistências sociais e culturais Portanto a principal mensagem que este estudo pretende deixar é a de que a linguagem neutra representa uma ampliação das possibilidades comunicativas e um avanço no reconhecimento da diversidade humana Os objetivos propostos tanto o geral quanto os específicos foram integralmente alcançados e em certos aspectos superados A pesquisa conseguiu reunir organizar e interpretar criticamente as principais abordagens teóricas sobre o 21 tema demonstrando que a discussão sobre linguagem neutra não se limita à gramática mas envolve dimensões ideológicas políticas e identitárias Ao integrar aspectos estruturais e sociais da língua o trabalho reafirma a relevância da Sociolinguística como campo essencial para compreender os fenômenos de variação mudança e resistência que moldam o português brasileiro contemporâneo Por fim recomendase que futuras pesquisas avancem na análise da linguagem neutra em contextos educacionais especialmente na formação docente e na elaboração de materiais didáticos Como defende Bagno 1999 o ensino de língua deve ser um espaço de valorização das múltiplas formas de falar e de inclusão das diversas identidades sociais Assim compreender e discutir a linguagem neutra na escola pode contribuir para uma educação linguística mais crítica ética e acolhedora A língua afinal é um reflexo da sociedade e ao reconhecer a pluralidade linguística reconhecemos também a pluralidade humana que a sustenta REFERÊNCIAS BAGNO Marcos Linguística da norma 3 ed São Paulo Loyola 2012 BAGNO Marcos Nada na língua é por acaso por uma pedagogia da variação linguística São Paulo Parábola Editorial 2007 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 56 ed São Paulo Parábola Editorial 2015 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 58 ed São Paulo Parábola Editorial 2019 BORBA Rodrigo Linguagem neutra e identidade de gênero desafios e perspectivas São Paulo Editora Unesp 2021 BORTONIRICARDO Stella Maris Educação em língua materna a sociolinguística na sala de aula São Paulo Parábola Editorial 2005 BORTONIRICARDO Stella Maris Nós cheguemu na escola e agora sociolinguística e educação São Paulo Parábola Editorial 2005 BOURDIEU Pierre A economia das trocas linguísticas 2 ed São Paulo Edusp 1998 22 BUTLER Judith Problemas de gênero feminismo e subversão da identidade 8 ed Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2018 FAIRCLOUGH Norman Discurso e mudança social 2 ed Brasília Editora UnB 2016 FARACO Carlos Alberto Norma culta brasileira desatando alguns nós São Paulo Parábola Editorial 2008 HALL Stuart A identidade cultural na pósmodernidade 21 ed Rio de Janeiro Lamparina 2016 LABOV William Padrões sociolinguísticos Tradução de Marcos Bagno et al São Paulo Parábola Editorial 2008 LABOV William Sociolinguistic patterns Philadelphia University of Pennsylvania Press 1972 Disponível em httpswwwacademiaedu80568091WilliamLabovSociolinguisticpatternsCondu ctandCommunication4PhiladelphiaUniversityofPennsylvaniaPress1972 LUCCHESI Dante Sistema mudança e linguagem um percurso da história da língua portuguesa São Paulo Parábola Editorial 2009 MOLLICA Maria Cecília Fundamentos e metodologias da sociolinguística In MOLLICA Maria Cecília BRAGA Maria Luiza Orgs Introdução à sociolinguística variação e mudança linguística 3 ed Rio de Janeiro Jorge Zahar 2003 p 87102Disponível emhttpswwwscielobrjdeltaa6VwNsrkkrsKbVXQW6cgDwyM formathtmllangpt OLIVEIRA Anna Márcia de Línguagem sociedade e cultura um estudo enunciativoantropológico sobre a pessoa falante e a linguagem neutra 2023 140 f Dissertação Mestrado em Letras Universidade Federal do Rio Grande do Sul Porto Alegre 2023 Disponível em httpslumeufrgsbrhandle10183261772 Acesso em 21 nov 2025 SILVA Luiz P Mídia e linguagem inclusiva representatividade e transformação social Porto Alegre Sulina 2022 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística 8 ed São Paulo Ática 1994 Todxs nós Direção de Vera Egito e Daniel Ribeiro Produção HBO Brasil Brasil HBO Latin America Group 2020 Série de TV 23 TERMO DE RESPONSABILIDADE E COMPROMISSO DE AUTORIA Eu Ana Flávia Freitas de Assis matrícula nº 202301167981 declaro para os devidos fins de direito que o trabalho de conclusão de curso o artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade é de minha autoria tendo sido elaborado com a observância ao princípio do respeito aos direitos autorais de terceiros e em conformidade às normas estabelecidas no Manual de Normas para a Estrutura Formal de Trabalhos Científicos da Universidade Estácio de Sá Declaro ainda que as citações e referências foram elaboradas à luz das normas da ABNT Estou ciente outrossim de que o plágio ou a adoção de qualquer outro meio ilícito na confecção de trabalhos acadêmicos configura fraude possível de sanções conforme as normas internas da Universidade Estácio de Sá das quais também declaro ter plena ciência Ademais tenho conhecimento de que eventualmente o professora orientadora poderá exigirme uma verificação adicional de conhecimento sobre o tema do artigo científico como condição para a aprovação da disciplina Declaro por fim que tenho conhecimento de que o plágio constitui crime previsto no art 184 do Código Brasileiro e que arcarei com todas as implicações civis criminais e administrativas caso incorra nesta prática de XXXX Local dia mês ano Assinatura doa Alunoa 24

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Recomendado para você

Modelo-Artigo-Cientifico-TCC-ABNT

6

Modelo-Artigo-Cientifico-TCC-ABNT

Linguística

ESTACIO

Liefneinfaoifne

1

Liefneinfaoifne

Linguística

UFES

Questões de Sintaxe e Interpretação Textual sobre Suicídio e Análise da Animação Morte e Vida Severina

1

Questões de Sintaxe e Interpretação Textual sobre Suicídio e Análise da Animação Morte e Vida Severina

Linguística

UFPI

Modelo de Comunicação Verbal de Roman Jakobson: Função Poética e sua Relevância

8

Modelo de Comunicação Verbal de Roman Jakobson: Função Poética e sua Relevância

Linguística

UMG

Conversação entre criança e mãe durante atividade lúdica

22

Conversação entre criança e mãe durante atividade lúdica

Linguística

UMG

Analise de Desvio de Virgula em Frases sobre Consumismo na Escola

1

Analise de Desvio de Virgula em Frases sobre Consumismo na Escola

Linguística

UFPI

Analise de Desvio de Virgula e Consumismo em Textos

1

Analise de Desvio de Virgula e Consumismo em Textos

Linguística

UFPI

Aquisição da Linguagem: Reflexões sobre Língua I e Língua E

13

Aquisição da Linguagem: Reflexões sobre Língua I e Língua E

Linguística

UNEAL

Exercicios Resolvidos - Desvios de Virgula - Portugues

1

Exercicios Resolvidos - Desvios de Virgula - Portugues

Linguística

UFPI

Biografia Marcos Bagno-Linguista-Escritor e Obras

176

Biografia Marcos Bagno-Linguista-Escritor e Obras

Linguística

UNEMAT

Texto de pré-visualização

Ana acerte pelas partes que coloquei em vermelho pois elas estão com acertos que fiz Não enviou o Termo assinado Segue em anexo o seu TCC após fazer os acertos envie e informe se é o envio final Lembrese que os acertos precisam ser realizados para não impactar na sua nota UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Contagem 2025 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Trabalho apresentado como requisito obrigatório para conclusão do curso de Letras no formato de artigo científico resultante da pesquisa desenvolvida no ano de 2025 sob a orientação do professor Luiz Campos Contagem 2025 A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Ana Flávia Freitas de Assis Luiz Campos Resumo O artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade analisa criticamente os argumentos e pressupostos teóricos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no contexto brasileiro articulandoos com os conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade de gênero De natureza qualitativa e baseada em pesquisa bibliográfica a investigação apoiase em autores como Marcos Bagno Ricardo Bortoni Fernando Tarallo Willian Labov Dante Lucchesi Maria Cecília Mollica e Carlos Alberto Faraco para discutir as dimensões estruturais e sociais do fenômeno O estudo apresenta os conceitos fundamentais da Sociolinguística sistematiza os principais argumentos linguísticos favoráveis e contrários à adoção da linguagem neutra e examina sua relação com as identidades nãobinárias e com o combate ao preconceito linguístico e social Os resultados apontam que embora haja divergências quanto à viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro reconhecese sua relevância simbólica e social como instrumento de resistência inclusão e representatividade Concluise que a língua em constante transformação reflete as mudanças culturais e ideológicas de seu tempo e que compreender esse processo é essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias Palavraschave Linguagem Neutra Linguagem NãoBinária Identidade de Gênero Preconceito Linguístico Variação Linguística Representatividade INTRODUÇÃO Em 2015 chamoume a atenção quando vi um jornalista da Globo News dizer centi e cinquenta ao invés de cento e cinquenta para se referir ao número 150 e isso despertoume a curiosamente para pesquisar sobre foi então que descobri que esse fenômeno tem a ver com a questão da linguagem neutra O debate sobre a linguagem neutra tem ganhado destaque no cenário brasileiro mobilizando discussões que ultrapassam os limites da gramática e alcançam dimensões sociais políticas e identitárias A proposta de adaptar a língua portuguesa a formas mais inclusivas que contemplem pessoas que não se identificam dentro do sistema binário de gênero tem gerado tanto apoio quanto resistência em diversos espaços da mídia às instituições de ensino No campo da Linguística e da Sociolinguística esse tema adquire especial relevância pois convida à reflexão sobre o funcionamento dinâmico da língua os fatores sociais que influenciam o uso e as mudanças linguísticas que surgem em resposta às transformações culturais da sociedade contemporânea Compreender o fenômeno da linguagem neutra exige um olhar que vá além da norma tradicional e das prescrições gramaticais A língua é antes de tudo um reflexo da vida social e sua evolução acompanha as transformações históricas e culturais dos falantes Como afirma Marcos Bagno 1999 p 42 a língua é um organismo vivo em permanente processo de transformação e é o uso que dita suas formas não o contrário Nessa perspectiva o surgimento de novas expressões e formas linguísticas como os neopronomes elu ile e as terminações neutras todes amigues pode ser entendido como uma tentativa legítima de inclusão e representatividade refletindo o desejo de uma sociedade mais igualitária no plano simbólico e linguístico Diante dessa realidade surge a seguinte questão de pesquisa quais são os principais argumentos linguísticos e sociolinguísticos que sustentam ou criticam o uso da linguagem neutra e como esse debate se conecta aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade Essa pergunta norteia a investigação que tem como objetivo geral analisar criticamente os principais argumentos e pressupostos teóricos linguísticos e sociolinguísticos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no Brasil articulandoos aos conceitos de variação preconceito e identidade de gênero Tratase de uma 2 pesquisa bibliográfica baseada em autores e estudos que abordam a relação entre língua sociedade e ideologia buscando compreender como as práticas linguísticas refletem valores crenças e disputas simbólicas A escolha desse tema se justifica pela sua relevância acadêmica e social Discutir a linguagem neutra significa também discutir inclusão cidadania e diversidade reconhecendo a importância da linguagem na construção das identidades e no combate às desigualdades O preconceito linguístico como destaca Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de exclusão social pois julgar o modo de falar do outro é em última instância uma forma de julgar o próprio falante sua origem e seu valor social Dessa forma ao investigar os argumentos em torno da linguagem neutra este artigo busca contribuir para uma reflexão mais crítica e menos dogmática sobre a língua portuguesa incentivando o respeito às variações e a compreensão de que a mudança linguística é um processo natural e inevitável 21 CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA A língua enquanto fenômeno social e dinâmico não é um sistema homogêneo fixo ou imutável Ao contrário está em constante transformação e reflete as múltiplas realidades sociais históricas e culturais dos falantes que a utilizam É nesse contexto que a Sociolinguística campo que articula língua e sociedade propõe compreender a variação linguística como elemento constitutivo da linguagem humana e não como um desvio ou erro frente a uma norma idealizada Segundo William Labov 2008 considerado o fundador da Sociolinguística Variacionista toda comunidade de fala é marcada por diferenças sistemáticas no uso da língua que se relacionam a fatores como idade gênero classe social escolaridade região geográfica e contexto comunicativo Para o autor essas variações não são aleatórias mas obedecem a padrões sociais e estruturais que podem ser analisados cientificamente Assim a variação linguística é um fenômeno natural e inevitável intrínseco ao funcionamento da língua No contexto brasileiro Tarallo 1994 destaca que a variação deve ser entendida como o reflexo das relações sociais e das identidades dos falantes apontando que a diversidade linguística existente no país espelha sua complexa 3 formação histórica e cultural O português do Brasil em sua pluralidade manifesta se por meio de variedades regionais como sotaques e léxicos locais sociais ligadas à classe ou escolaridade e situacionais dependentes do grau de formalidade e da interação entre interlocutores Além disso é importante diferenciar variação linguística de mudança linguística Enquanto a variação diz respeito à coexistência de formas diferentes que expressam um mesmo significado por exemplo tu vais e você vai a mudança linguística ocorre quando uma dessas variantes se torna predominante ao longo do tempo alterando o sistema linguístico Como observa Mollica 2003 a variação é o ponto de partida para a mudança representando a vitalidade e a adaptabilidade da língua diante das transformações sociais Sob essa perspectiva compreender a variação linguística é reconhecer que não existe uma única forma correta de falar mas sim diversas formas legítimas adequadas a diferentes contextos de uso Essa concepção rompe com a visão tradicional e normativa da língua que tende a privilegiar um padrão fixo associado às classes socialmente prestigiadas e reafirma o caráter democrático e plural do português brasileiro Assim o estudo da variação linguística tornase essencial para compreender não apenas as diferenças de fala mas também as dinâmicas de poder e identidade que se expressam por meio da linguagem Essa abordagem será fundamental mais adiante para compreender como as discussões sobre linguagem neutra se inserem no debate sobre variação mudança e adequação linguística especialmente no que se refere à inclusão e ao respeito às diversas identidades de gênero 22 A NORMA LINGUÍSTICA CULTO E POPULAR A discussão sobre a norma linguística é central na tradição sociolinguística brasileira pois envolve não apenas aspectos estruturais da língua mas também dimensões ideológicas históricas e educacionais A compreensão da língua como fenômeno social implica reconhecer que a chamada norma culta não é uma entidade neutra ou universal mas o reflexo de relações de poder e prestígio que se consolidaram ao longo do tempo 4 De modo geral o termo norma linguística pode ser entendido como o conjunto de convenções e padrões de uso que orientam a comunicação dentro de uma comunidade No entanto é importante distinguir entre normapadrão norma culta e norma popular conceitos muitas vezes confundidos no senso comum e até mesmo em práticas escolares A normapadrão é uma construção artificial idealizada pelas gramáticas normativas cujo objetivo é unificar o idioma e estabelecer um modelo de correção formal Já a norma culta conforme define Ricardo Bortoni 2005 referese ao modo de falar dos grupos urbanos com maior acesso à escolarização e aos meios de prestígio sem contudo ser isenta de variações internas A norma popular por sua vez é a variedade mais espontânea utilizada por falantes com menor grau de escolarização e representa igualmente uma forma legítima de uso da língua Nesse sentido a Sociolinguística rompe com a visão tradicional que considera apenas a normapadrão como correta Para Faraco 2008 a imposição de um modelo único de língua reflete uma ideologia normativa excludente que associa prestígio social à forma de falar O autor argumenta que o ensino de língua deve se pautar na adequação linguística e não em uma noção rígida de correção Essa ideia também defendida por Bagno 2011 propõe que cada variedade linguística é adequada a determinados contextos comunicativos e que o falante competente é aquele capaz de transitar entre registros de acordo com a situação de fala A partir dessa perspectiva o preconceito linguístico amplamente discutido por Bagno 1999 2015 revelase como um mecanismo de exclusão social pois desqualifica as formas de expressão que divergem da normapadrão e ao fazêlo desvaloriza os grupos sociais que as utilizam Assim a norma culta deve ser compreendida não como a única expressão legítima da língua mas como uma das muitas formas possíveis de manifestação linguística dentro da diversidade do português brasileiro 5 O papel da escola é portanto de ampliação da competência comunicativa do aluno e não de repressão das variedades linguísticas que ele domina Ensinar a normapadrão deve significar fornecer ferramentas de acesso a contextos formais e letrados sem deslegitimar as formas populares de fala Essa visão pluralista da norma linguística contribui diretamente para o debate sobre a linguagem neutra pois reforça a ideia de que a língua é um espaço de negociação adaptação e inclusão Da mesma forma que as variedades regionais e sociais refletem a diversidade dos falantes as propostas de linguagem neutra representam a busca por adequação expressiva frente à diversidade de identidades de gênero que compõem a sociedade contemporânea Assim compreender a distinção entre norma culta e norma popular bem como o papel ideológico da normapadrão é essencial para reconhecer que as mudanças linguísticas e sociais caminham lado a lado A língua longe de ser um instrumento fixo e homogêneo é uma construção coletiva e dinâmica sempre sensível às transformações culturais e identitárias de seu tempo 23 O Preconceito Linguístico e as Ideologias Normativas O estudo da variação e da norma linguística leva inevitavelmente à discussão sobre o preconceito linguístico fenômeno que se manifesta quando determinadas formas de falar são consideradas inferiores incorretas ou inaceitáveis segundo padrões de prestígio social No contexto brasileiro onde a diversidade linguística é ampla e profundamente marcada por fatores históricos regionais e socioeconômicos o preconceito linguístico assume um caráter não apenas linguístico mas também ideológico e político 6 Conforme destaca Marcos Bagno 1999 2015 o preconceito linguístico é uma forma de discriminação que se apoia em mitos sobre a língua portuguesa como a crença na existência de uma forma certa e de outras erradas e serve para reforçar desigualdades sociais Essa ideologia normativa associa o domínio da normapadrão ao prestígio à educação e à inteligência ao mesmo tempo em que desvaloriza as variedades populares frequentemente associadas à ignorância ou à falta de instrução Nesse sentido o julgamento linguístico tornase também um julgamento social refletindo hierarquias de classe raça e poder simbólico Segundo Faraco 2008 o preconceito linguístico está ligado à noção de purismo linguístico isto é à tentativa de conservar uma língua idealizada e estática supostamente superior e correta Essa visão ignora o caráter natural da variação e da mudança linguística e desconsidera a língua como prática social viva Ricardo Bortoni 2005 reforça que a avaliação negativa de certas variedades não tem base científica mas é fruto de construções culturais e educacionais que privilegiam o modelo de fala das classes dominantes Além disso o preconceito linguístico não se manifesta apenas em ambientes formais como a escola e os meios de comunicação mas também nas interações cotidianas em que determinadas expressões sotaques ou escolhas lexicais são alvos de zombaria ou correção Bagno 2007 observa que ao estigmatizar uma forma de falar estigmatizase também o falante e por extensão sua identidade cultural e social Assim o preconceito linguístico constitui uma forma de exclusão simbólica que limita o acesso de grupos marginalizados a espaços de legitimidade e reconhecimento No campo educacional esse problema se acentua quando o ensino da língua portuguesa é pautado exclusivamente pela gramática normativa sem considerar as diferentes realidades linguísticas dos alunos Tal postura reforça a ideia de que apenas a normapadrão é válida desvalorizando o conhecimento linguístico prévio dos estudantes e desconsiderando a língua como instrumento de expressão e 7 identidade Como propõe Bagno 2011 o ensino de língua deve partir do princípio da inclusão linguística valorizando a diversidade e reconhecendo o potencial comunicativo de todas as variedades Essa discussão é particularmente relevante quando se analisa o debate contemporâneo sobre a linguagem neutra pois o mesmo tipo de resistência que se observa diante das variedades populares também se manifesta em relação às novas formas de expressão de gênero Ambas as situações revelam como a normapadrão e de modo mais amplo as ideologias normativas operam como mecanismos de controle simbólico que visam preservar estruturas sociais e identitárias tradicionais Ao problematizar o preconceito linguístico a Sociolinguística oferece instrumentos teóricos para compreender que as tentativas de neutralização de gênero na linguagem não são erros mas expressões legítimas de uma sociedade em transformação que busca ampliar a representatividade e o respeito à diversidade Em suma o preconceito linguístico e as ideologias normativas configuram barreiras ao reconhecimento da pluralidade linguística e cultural do Brasil Superá las requer uma mudança de perspectiva em que a língua seja vista não como um sistema homogêneo e hierarquizado mas como um espaço de convivência entre múltiplas vozes e identidades Essa visão será aprofundada no próximo tópico que discute como a Sociolinguística brasileira tem contribuído para a valorização da diversidade linguística e para o combate a práticas excludentes no uso da língua 24 A Contribuição da Sociolinguística Brasileira A Sociolinguística consolidada no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980 representou uma verdadeira ruptura com a tradição normativa e estruturalista que dominava os estudos da língua até então Inspirada nas propostas de William Labov e adaptada à realidade sociocultural brasileira essa vertente teórica passou a considerar a língua como fenômeno social heterogêneo e dinâmico cuja variação 8 reflete não apenas diferenças linguísticas mas também relações de poder identidade e pertencimento Um dos marcos fundadores dessa tradição no país é o trabalho de Fernando Tarallo 1994 que introduziu de forma sistemática os princípios da Sociolinguística variacionista no contexto brasileiro Tarallo destacou que a variação linguística não deve ser vista como um desvio da norma mas como expressão legítima de diferentes contextos socioculturais Sua abordagem contribuiu para a valorização científica das variedades populares e regionais do português brasileiro reconhecendoas como fontes legítimas de dados para o estudo da língua Paralelamente pesquisadores como Stella Maris Ricardo Bortoni e Dante Lucchesi ampliaram o campo da Sociolinguística ao incluir dimensões educacionais históricas e identitárias nas análises Ricardo Bortoni 2005 por exemplo enfatiza o papel da escola na construção de uma pedagogia linguística que respeite a diversidade defendendo que o ensino deve promover a competência comunicativa dos alunos e não a padronização artificial de suas formas de fala Já Lucchesi 2009 contribui com a perspectiva da sociolinguística histórica mostrando como a formação social do Brasil marcada pela colonização pela escravidão e pela diversidade étnica produziu um português profundamente heterogêneo e plural A consolidação da Sociolinguística brasileira também está fortemente associada à atuação de autores como Marcos Bagno Carlos Alberto Faraco e Maria Cecília Mollica que difundiram o debate sobre preconceito linguístico adequação comunicativa e variação como valor cultural Bagno 2015 tornouse uma das vozes mais influentes na defesa da legitimidade das variedades não padrão e na crítica às ideologias linguísticas excludentes Faraco 2008 por sua vez propõe que a compreensão da norma culta e da norma popular deve ser pautada por critérios de uso real da língua e não por prescrições arbitrárias das gramáticas tradicionais 9 Essas contribuições formam o que se pode chamar de uma tradição sociolinguística brasileira caracterizada pela valorização da pluralidade e pela busca de uma linguagem científica comprometida com a inclusão social Esse campo teórico permitiu por exemplo repensar o ensino de português as políticas linguísticas e a própria noção de cidadania linguística Como observa Mollica 2003 compreender a diversidade linguística é reconhecer que as diferenças de fala não são falhas mas marcas de identidade e pertencimento A partir desse conjunto de reflexões a Sociolinguística brasileira tem desempenhado papel fundamental na desconstrução de mitos sobre a língua e na promoção de uma visão mais democrática da comunicação Essa perspectiva amplia o horizonte para novas discussões sobre a linguagem neutra que também emerge como uma forma de variação socialmente significativa relacionada à identidade e à representação de grupos historicamente invisibilizados Assim o debate sobre o respeito às diferentes formas de falar se entrelaça ao respeito às diferentes formas de ser e se identificar 25 Síntese Variação Norma e Inclusão Linguística A análise dos conceitos de variação e norma linguística no contexto da tradição sociolinguística brasileira permite compreender que a língua é um fenômeno essencialmente diverso dinâmico e socialmente situado Longe de ser um sistema uniforme a língua reflete a multiplicidade dos sujeitos que a utilizam suas origens experiências e contextos socioculturais Assim cada variação linguística carrega consigo uma história uma identidade e um modo particular de ver o mundo A Sociolinguística desde os estudos de Labov 2008 e sua consolidação no Brasil por autores como Tarallo 1994 Ricardo Bortoni 2005 Bagno 1999 2015 e Faraco 2008 tem demonstrado que não há formas erradas ou inferiores de falar mas sim usos adequados a diferentes contextos de comunicação O reconhecimento dessa pluralidade rompe com a tradição normativa excludente e 10 promove uma visão mais democrática da linguagem em que todas as variedades são legítimas dentro de suas condições de uso A distinção entre norma culta norma popular e norma padrão revela que o prestígio linguístico é um fenômeno social e histórico e não uma qualidade intrínseca da língua Como lembra Bagno 2007 o mito da língua única e correta é sustentado por uma ideologia que privilegia os grupos socialmente dominantes e marginaliza as formas de expressão das classes populares Essa ideologia ao se naturalizar no cotidiano e nas instituições especialmente na escola reforça o preconceito linguístico e contribui para a manutenção de desigualdades Contudo a tradição sociolinguística brasileira tem se posicionado de forma crítica diante dessas hierarquias simbólicas propondo uma abordagem de ensino e pesquisa comprometida com a inclusão linguística Essa perspectiva reconhece que dominar a normapadrão pode ser socialmente vantajoso mas que tal domínio não deve se dar à custa da desvalorização das demais formas de fala Ao contrário é preciso promover a ampliação da competência comunicativa dos falantes respeitando suas identidades e repertórios linguísticos Nesse sentido discutir variação e norma linguística não é apenas uma questão técnica ou gramatical mas também ética e política Tratase de reconhecer que a língua é um espaço de disputa simbólica no qual se refletem e se produzem relações de poder inclusão e exclusão Essa compreensão tornase fundamental para o debate sobre a linguagem neutra que representa uma nova forma de variação linguística emergente motivada por demandas sociais ligadas à identidade de gênero e à visibilidade de grupos não binários e trans Assim como as variações regionais e sociais legitimam diferentes modos de expressão a linguagem neutra busca legitimar diferentes modos de existir e se representar por meio da língua Ao compreender a língua como um organismo vivo e 11 em constante transformação a Sociolinguística oferece o suporte teórico necessário para analisar esse fenômeno não como uma ameaça à norma mas como parte natural do processo de evolução e democratização linguística Dessa forma a síntese entre variação norma e inclusão aponta para uma concepção de língua mais plural flexível e humanizada uma língua que se adapta à diversidade dos falantes e acolhe as transformações sociais de seu tempo 26 A Linguagem Neutra sob a Perspectiva Linguística e Sociolinguística A linguagem é antes de tudo um reflexo das transformações sociais e culturais que atravessam a sociedade Assim como a variação linguística revela as múltiplas formas de expressão de um povo também as novas formas de uso da língua podem emergir como respostas simbólicas a demandas identitárias e políticas Nesse contexto a linguagem neutra ou linguagem inclusiva surge como um fenômeno linguístico e social que busca romper com o binarismo de gênero tradicionalmente presente na língua portuguesa promovendo uma comunicação mais acolhedora e representativa de pessoas não binárias e transgênero Do ponto de vista linguístico a proposta de linguagem neutra pode ser compreendida como uma manifestação legítima do processo de variação e mudança linguística conforme estabelecido pelos princípios da Sociolinguística Labov 2008 já demonstrava que as mudanças na língua nascem do uso social e da necessidade de adequação comunicativa entre os falantes Sob essa ótica a linguagem neutra representa uma inovação que emerge da interação social impulsionada por grupos que buscam visibilidade e reconhecimento dentro da estrutura linguística A língua sendo viva adaptase continuamente às transformações culturais e a linguagem neutra é um reflexo direto desse dinamismo Na tradição sociolinguística brasileira autores como Marcos Bagno 2015 e Ricardo Bortoni 2005 defendem que nenhuma forma de falar é intrinsecamente 12 superior a outra Essa perspectiva permite compreender que o uso de pronomes neutros como elu delu ou de desinências não binárias como todes amigxs amigues não constitui uma ameaça à língua mas uma tentativa de ampliar suas possibilidades expressivas Para Bagno a língua é um instrumento de inclusão e não de exclusão BAGNO 2011 p 57 e portanto deve estar aberta a mudanças que respondam às necessidades comunicativas e sociais de seus falantes Sob o ponto de vista sociolinguístico a linguagem neutra pode ser entendida como uma forma de variação social e identitária isto é um uso linguístico que marca pertencimento e resistência Tal como as variedades regionais e populares refletem a identidade de determinados grupos sociais o uso de formas neutras expressa a identidade de pessoas e coletividades que não se reconhecem nas categorias tradicionais de gênero Assim o debate em torno da linguagem neutra transcende o plano gramatical situandose no campo das ideologias linguísticas o espaço em que se definem o que é considerado aceitável ou correto dentro de uma comunidade de fala A resistência ao uso da linguagem neutra nesse sentido ecoa a mesma lógica do preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 e Faraco 2008 trata se da rejeição de formas que desafiam uma norma tradicionalmente associada ao prestígio e à autoridade Tal resistência evidencia que as disputas em torno da língua são também disputas por poder simbólico e representação social Assim a recusa à linguagem neutra não é apenas uma questão linguística mas reflete tensões mais amplas sobre gênero identidade e diversidade No contexto cultural brasileiro a discussão sobre linguagem neutra ganhou visibilidade em produções midiáticas e artísticas que têm papel fundamental na difusão de novas práticas linguísticas e na sensibilização social Um exemplo notável é a série Todxs Nós lançada em 2020 pela HBO Brasil que acompanha a trajetória de Rafa personagem não binário que busca afirmar sua identidade e questionar os padrões de gênero e linguagem na sociedade contemporânea Ao adotar expressões neutras e tematizar o uso da linguagem inclusiva no cotidiano a série contribui para a naturalização dessas formas e para a ampliação do debate sobre representação e pertencimento Essa produção televisiva exemplifica como a 13 linguagem neutra ultrapassa o campo acadêmico e se insere nas práticas culturais revelandose um fenômeno linguístico em pleno processo de consolidação social Além de representar uma demanda política a linguagem neutra também dialoga com os conceitos de adequação e variação centrais na Sociolinguística Como destaca Ricardo Bortoni 2005 a competência linguística de um falante está na capacidade de adaptar sua fala aos contextos comunicativos e interlocutores e não em seguir rigidamente uma norma fixa Assim o uso de formas neutras pode ser compreendido como uma estratégia de adequação comunicativa voltada a contextos de respeito à diversidade e à inclusão A adoção dessas formas não implica eliminar o uso tradicional de gênero mas ampliar as opções expressivas disponíveis de modo a contemplar novos modos de subjetivação É importante ressaltar que a linguagem neutra por ainda se encontrar em fase de difusão não possui consenso quanto à sua forma padrão Variantes como o uso do x todxs do tods ou do e todes coexistem refletindo diferentes tentativas de adaptação e experimentação linguística Essa heterogeneidade é justamente o que caracteriza um fenômeno de variação em curso Como afirma Mollica 2003 a diversidade é parte constitutiva da língua e sua vitalidade depende da capacidade de incorporar novos sentidos e formas Do ponto de vista social a linguagem neutra simboliza uma resistência à exclusão linguística pois desafia as estruturas discursivas que invisibilizam pessoas não conformes ao binarismo de gênero Tratase de uma tentativa de reconfigurar o espaço linguístico como um ambiente de reconhecimento e pertencimento em que cada sujeito possa se expressar de maneira coerente com sua identidade Nesse sentido a proposta de linguagem neutra é coerente com os princípios da Sociolinguística valoriza a variação questiona a norma excludente e reconhece a língua como um espaço de diversidade e transformação Portanto analisar a linguagem neutra sob a perspectiva linguística e sociolinguística é compreender que a língua não é apenas um instrumento de comunicação mas também um campo de disputa simbólica e social A emergência dessa nova forma de expressão não representa uma ruptura arbitrária com a norma mas sim a continuidade de um processo histórico de adaptação linguística às mudanças sociais Assim como as diferentes variedades do português brasileiro 14 refletem a riqueza cultural do país a linguagem neutra reflete o avanço de uma consciência social que busca visibilizar e respeitar todas as identidades A Sociolinguística ao reconhecer e legitimar a variação oferece o alicerce teórico para compreender a linguagem neutra não como desvio mas como expressão legítima de inclusão e transformação social 27 A Linguagem Neutra como Expressão de Identidade e Resistência Social A linguagem não apenas comunica ideias mas também constrói e reafirma identidades Por meio dela os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos no mundo social Nesse sentido a linguagem neutra emerge como um recurso discursivo e simbólico de afirmação identitária e resistência especialmente no contexto de grupos historicamente marginalizados em razão de sua expressão de gênero Ao propor novas formas de nomear e se referir a pessoas a linguagem neutra desafia estruturas tradicionais de poder inscritas na língua e na sociedade abrindo espaço para a visibilidade de identidades não binárias e transgênero Sob a ótica da Sociolinguística compreender a linguagem neutra como forma de resistência implica reconhecer que a língua é um campo de disputa simbólica Conforme aponta Pierre Bourdieu 1991 o poder linguístico é também poder social quem detém o direito de definir o falar correto exerce dominação simbólica sobre os demais Assim quando grupos sociais minoritários reivindicam novas formas de expressão estão também reivindicando o direito de existir e ser reconhecidos linguisticamente A linguagem neutra portanto não é apenas uma inovação formal mas uma prática política de reconfiguração das relações de poder no espaço discursivo Nesse processo é importante considerar que a língua atua como um marcador de identidade Como afirma Hall 2000 as identidades contemporâneas são múltiplas fragmentadas e constantemente em construção A linguagem ao acompanhar essa dinamicidade tornase um instrumento fundamental na constituição das subjetividades Ao adotar pronomes e desinências neutras sujeitos não binários podem se ver representados de modo mais coerente com sua 15 autoidentificação subvertendo o binarismo linguístico que tradicionalmente os invisibiliza Desse modo a linguagem neutra se apresenta como expressão legítima da diversidade de gênero atuando como ferramenta de pertencimento e reconhecimento social A resistência nesse contexto manifestase tanto na dimensão simbólica quanto na prática comunicativa Como observa Judith Butler 2003 o gênero é performativo isto é construído e reiterado por meio de atos discursivos Assim ao empregar formas neutras os falantes não apenas modificam a estrutura linguística mas também performam identidades dissidentes desafiando normas socioculturais estabelecidas Cada escolha lexical cada uso de elu em vez de ele ou ela representa um ato político de resistência e reconfiguração dos modos de ser e estar no mundo A reação social ao uso da linguagem neutra muitas vezes marcada por resistência ou hostilidade revela o quanto a língua está imbricada nas relações de poder O preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de discriminação pois se apresenta como defesa da norma correta quando na verdade perpetua exclusões sociais e simbólicas Do mesmo modo a rejeição à linguagem neutra sob o argumento de que desvirtua o português demonstra um preconceito identitário travestido de zelo linguístico já que o que está em jogo não é a gramática em si mas a resistência a reconhecer identidades fora do padrão binário A presença crescente da linguagem neutra em espaços públicos e midiáticos também revela sua função como símbolo de representatividade Campanhas publicitárias produções culturais e instituições educacionais têm incorporado gradualmente elementos da linguagem inclusiva sinalizando um processo de reconfiguração social da linguagem Um exemplo relevante é novamente a série Todxs Nós HBO 2020 que retrata personagens que utilizam pronomes e vocábulos neutros em contextos cotidianos demonstrando como a linguagem se adapta às novas realidades identitárias Essa representação midiática desempenha papel essencial na normalização de práticas linguísticas inclusivas ao mesmo tempo em que amplia o debate público sobre diversidade e respeito 16 Sob a perspectiva da linguística crítica a linguagem neutra também pode ser vista como um mecanismo de empoderamento discursivo Como destaca Fairclough 2001 os discursos moldam a realidade social ao estabelecer quais vozes são legitimadas e quais são silenciadas Ao introduzir formas neutras os falantes produzem novas possibilidades discursivas abrindo espaços para a escuta de vozes que antes eram invisibilizadas Assim o uso da linguagem neutra não se limita a uma mudança lexical mas constitui uma ação transformadora sobre as estruturas simbólicas da sociedade Além disso a linguagem neutra reforça o princípio da autodeterminação linguística pelo qual os indivíduos têm o direito de definir como desejam ser nomeados e reconhecidos Tal princípio está alinhado à ética da diversidade e da inclusão que orienta práticas sociais voltadas à redução de desigualdades simbólicas Nessa perspectiva a linguagem neutra não deve ser interpretada como imposição mas como ampliação de possibilidades expressivas dentro do sistema linguístico oferecendo alternativas de nomeação mais justas e representativas Para tanto é preciso compreender que a linguagem neutra não busca substituir as formas tradicionais da língua mas coexistir com elas em um cenário de pluralidade Assim como as variações regionais e sociais são manifestações legítimas do português brasileiro também o uso de formas neutras representa uma variante emergente ligada a novas realidades socioculturais A Sociolinguística ao reconhecer a variação como fenômeno natural oferece o suporte teórico necessário para compreender essa coexistência e para valorizar o papel da língua como instrumento de inclusão e transformação social Por fim a linguagem neutra configurase como uma expressão de identidade resistência e reconhecimento reafirmando o caráter dinâmico e socialmente construído da língua Ao reivindicar o direito de nomear a si e aos outros de forma coerente com a diversidade de gênero existente na sociedade os falantes promovem uma mudança que é ao mesmo tempo linguística e ética Tratase portanto de um movimento que transcende a gramática e alcança a esfera do humano reafirmando o poder da linguagem como ferramenta de transformação e justiça social 17 3 Metodologia A pesquisa caracterizase como qualitativa e de natureza bibliográfica tendo em vista que seu objetivo central é analisar a linguagem neutra sob a ótica da Linguística e da Sociolinguística a partir de referenciais teóricos consolidados e de produções acadêmicas pertinentes ao tema Assim não se busca quantificar dados mas compreender por meio da leitura e interpretação crítica os discursos e fundamentos que permeiam o fenômeno linguístico em questão As fontes utilizadas foram selecionadas em bases acadêmicas reconhecidas como Google Acadêmico e SciELO além de periódicos especializados em Linguística e publicações midiáticas que abordam aspectos sociais e culturais da linguagem O corpus é composto por discursos acadêmicos artigos e ensaios científicos produzidos por estudiosos da área escolhidos com base em critérios de relevância atualidade e representatividade das discussões sobre variação linguística e linguagem neutra no contexto brasileiro O recorte temporal concentra se no período de 2020 a 2024 quando a discussão sobre linguagem inclusiva ganhou maior visibilidade no meio acadêmico e social A seleção dos materiais considerou palavraschave como linguagem neutra variação linguística identidade de gênero e preconceito linguístico garantindo a pertinência dos textos ao tema proposto A análise foi conduzida a partir de uma abordagem linguística e sociolinguística orientada pelos conceitos de variação e norma conforme Labov 2008 pelo entendimento de preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno 1999 e pela noção de identidade e interação social presente nas obras de Ricardo Bortoni 2005 Esses referenciais permitiram comparar perspectivas teóricas sobre o fenômeno da linguagem neutra destacando convergências e divergências entre diferentes autores Não houve envolvimento direto de participantes humanos dispensando portanto a necessidade de aprovação ética Reconhecese contudo como limitação a escassez de estudos empíricos aprofundados sobre a aplicação prática da linguagem neutra em diferentes contextos sociais o que reforça a relevância de abordagens teóricas que ampliem o debate Esta pesquisa tem o intuito de agregar na compreensão de como a linguagem neutra se insere nas dinâmicas de variação linguística e nas práticas sociais 18 discutindo suas implicações identitárias e o papel que desempenha na luta contra o preconceito linguístico e de gênero 3 CONSIDERÇÕES FINAIS O artigo A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade buscou analisar como os linguistas e sociolinguistas brasileiros têm abordado o fenômeno da linguagem neutra relacionandoo aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e construção de identidade de gênero Fundamentado nas contribuições teóricas da Linguística e da Sociolinguística o estudo adotou uma perspectiva bibliográfica e crítica destacando como a linguagem reflete as dinâmicas sociais e as transformações culturais de uma sociedade em constante mudança A relevância deste tema revelase tanto no campo científico quanto no contexto social contemporâneo Em uma época marcada por intensas discussões sobre inclusão diversidade e respeito às identidades de gênero compreender o papel da linguagem neutra tornase essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias À luz dos princípios da Sociolinguística brasileira especialmente das reflexões de Marcos Bagno 2007 que defende a língua como um fenômeno vivo e plural este estudo reforça que não existem formas certas ou erradas de falar mas diferentes usos que expressam identidades e pertencimentos sociais Assim o trabalho contribui para ampliar o diálogo sobre a importância de reconhecer a legitimidade da variação linguística e de combater o preconceito associado às formas inovadoras de expressão Os resultados obtidos indicaram que embora existam divergências teóricas sobre a viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro há consenso quanto à sua relevância social e simbólica A linguagem neutra emerge como uma manifestação legítima de resistência e representatividade das identidades nãobinárias reforçando a ideia de que a língua acompanha as transformações culturais e ideológicas de seu tempo Inspirado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista Labov 1972 Tarallo 1994 e nas reflexões de Bagno 2007 sobre o preconceito linguístico este trabalho conclui que a rejeição à linguagem neutra não se fundamenta em razões linguísticas mas em resistências sociais e culturais Portanto a principal mensagem que este estudo pretende deixar é a de que a 19 linguagem neutra representa uma ampliação das possibilidades comunicativas e um avanço no reconhecimento da diversidade humana Os objetivos propostos tanto o geral quanto os específicos foram integralmente alcançados e em certos aspectos superados A pesquisa conseguiu reunir organizar e interpretar criticamente as principais abordagens teóricas sobre o tema demonstrando que a discussão sobre linguagem neutra não se limita à gramática mas envolve dimensões ideológicas políticas e identitárias Ao integrar aspectos estruturais e sociais da língua o trabalho reafirma a relevância da Sociolinguística como campo essencial para compreender os fenômenos de variação mudança e resistência que moldam o português brasileiro contemporâneo Por fim recomendase que futuras pesquisas avancem na análise da linguagem neutra em contextos educacionais especialmente na formação docente e na elaboração de materiais didáticos Como defende Bagno 1999 o ensino de língua deve ser um espaço de valorização das múltiplas formas de falar e de inclusão das diversas identidades sociais Assim compreender e discutir a linguagem neutra na escola pode contribuir para uma educação linguística mais crítica ética e acolhedora A língua afinal é um reflexo da sociedade e ao reconhecer a pluralidade linguística reconhecemos também a pluralidade humana que a sustenta REFERÊNCIAS BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz São Paulo Loyola 1999 BAGNO Marcos Nada na língua é por acaso por uma pedagogia da variação linguística São Paulo Parábola Editorial 2007 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 56 ed São Paulo Edições Loyola 2015 BORTONI Ricardo Stella Maris Nós cheguemu na escola e agora sociolinguística e educação São Paulo Parábola Editorial 2005 FARACO Carlos Alberto Norma culta brasileira desatando alguns nós São Paulo Parábola Editorial 2008 LABOV William Sociolinguistic Patterns Philadelphia University of Pennsylvania Press 1972 20 LABOV William Padrões sociolinguísticos Tradução de Marcos Bagno Maria Marta Pereira Scherre e Caroline Rodrigues Cardoso São Paulo Parábola Editorial 2008 LUCCHESI Dante A variação linguística no português do Brasil dinamicidade heterogeneidade e diversidade Salvador EDUFBA 2009 MOLLICA Maria Cecília Fundamentos da sociolinguística variacionista Rio de Janeiro 7Letras 2003 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística 6 ed São Paulo Ática 1994 TODXS NÓS Direção de Vera Egito e Daniel Ribeiro Produção HBO Brasil Brasil HBO Latin America Group 2020 Série de TV 21 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Contagem 2025 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Trabalho apresentado como requisito obrigatório para conclusão do curso de Letras no formato de artigo científico resultante da pesquisa desenvolvida no ano de 2025 sob a orientação do professor Luiz Campos Contagem 2025 A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Ana Flávia Freitas de Assis Luiz Campos Resumo O artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade analisa criticamente os argumentos e pressupostos teóricos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no contexto brasileiro articulandoos com os conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade de gênero De natureza qualitativa e baseada em pesquisa bibliográfica a investigação apoiase em autores como Marcos Bagno Ricardo Bortoni Fernando Tarallo Willian Labov Dante Lucchesi Maria Cecília Mollica e Carlos Alberto Faraco para discutir as dimensões estruturais e sociais do fenômeno O estudo apresenta os conceitos fundamentais da Sociolinguística sistematiza os principais argumentos linguísticos favoráveis e contrários à adoção da linguagem neutra e examina sua relação com as identidades nãobinárias e com o combate ao preconceito linguístico e social Os resultados apontam que embora haja divergências quanto à viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro reconhecese sua relevância simbólica e social como instrumento de resistência inclusão e representatividade Concluise que a língua em constante transformação reflete as mudanças culturais e ideológicas de seu tempo e que compreender esse processo é essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias Palavraschave Linguagem Neutra Linguagem NãoBinária Identidade de Gênero Preconceito Linguístico Variação Linguística Representatividade 1 Introdução Em 2015 chamoume a atenção quando vi um jornalista da Globo News dizer centi e cinquenta ao invés de cento e cinquenta para se referir ao número 150 e isso despertoume a curiosamente para pesquisar sobre foi então que descobri que esse fenômeno tem a ver com a questão da linguagem neutra O debate sobre a linguagem neutra tem ganhado destaque no cenário brasileiro mobilizando discussões que ultrapassam os limites da gramática e alcançam dimensões sociais políticas e identitárias A proposta de adaptar a língua portuguesa a formas mais inclusivas que contemplem pessoas que não se identificam dentro do sistema binário de gênero tem gerado tanto apoio quanto resistência em diversos espaços da mídia às instituições de ensino No campo da Linguística e da Sociolinguística esse tema adquire especial relevância pois convida à reflexão sobre o funcionamento dinâmico da língua os fatores sociais que influenciam o uso e as mudanças linguísticas que surgem em resposta às transformações culturais da sociedade contemporânea Compreender o fenômeno da linguagem neutra exige um olhar que vá além da norma tradicional e das prescrições gramaticais A língua é antes de tudo um reflexo da vida social e sua evolução acompanha as transformações históricas e culturais dos falantes Como afirma Marcos Bagno 1999 p 42 a língua é um organismo vivo em permanente processo de transformação e é o uso que dita suas formas não o contrário Nessa perspectiva o surgimento de novas expressões e formas linguísticas como os neopronomes elu ile e as terminações neutras todes amigues pode ser entendido como uma tentativa legítima de inclusão e representatividade refletindo o desejo de uma sociedade mais igualitária no plano simbólico e linguístico Diante dessa realidade surge a seguinte questão de pesquisa quais são os principais argumentos linguísticos e sociolinguísticos que sustentam ou criticam o uso da linguagem neutra e como esse debate se conecta aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade Essa pergunta norteia a investigação que tem como objetivo geral analisar criticamente os principais argumentos e pressupostos teóricos linguísticos e sociolinguísticos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no Brasil articulandoos aos 2 conceitos de variação preconceito e identidade de gênero Tratase de uma pesquisa bibliográfica baseada em autores e estudos que abordam a relação entre língua sociedade e ideologia buscando compreender como as práticas linguísticas refletem valores crenças e disputas simbólicas A escolha desse tema se justifica pela sua relevância acadêmica e social Discutir a linguagem neutra significa também discutir inclusão cidadania e diversidade reconhecendo a importância da linguagem na construção das identidades e no combate às desigualdades O preconceito linguístico como destaca Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de exclusão social pois julgar o modo de falar do outro é em última instância uma forma de julgar o próprio falante sua origem e seu valor social Dessa forma ao investigar os argumentos em torno da linguagem neutra este artigo busca contribuir para uma reflexão mais crítica e menos dogmática sobre a língua portuguesa incentivando o respeito às variações e a compreensão de que a mudança linguística é um processo natural e inevitável 2 A Variação e a Norma Linguística na Tradição Sociolinguística Brasileira 21 Conceitos Fundamentais de Variação Linguística A língua enquanto fenômeno social e dinâmico não é um sistema homogêneo fixo ou imutável Ao contrário está em constante transformação e reflete as múltiplas realidades sociais históricas e culturais dos falantes que a utilizam É nesse contexto que a Sociolinguística campo que articula língua e sociedade propõe compreender a variação linguística como elemento constitutivo da linguagem humana e não como um desvio ou erro frente a uma norma idealizada Segundo William Labov 2008 considerado o fundador da Sociolinguística Variacionista toda comunidade de fala é marcada por diferenças sistemáticas no 3 uso da língua que se relacionam a fatores como idade gênero classe social escolaridade região geográfica e contexto comunicativo Para o autor essas variações não são aleatórias mas obedecem a padrões sociais e estruturais que podem ser analisados cientificamente Assim a variação linguística é um fenômeno natural e inevitável intrínseco ao funcionamento da língua No contexto brasileiro Tarallo 1994 destaca que a variação deve ser entendida como o reflexo das relações sociais e das identidades dos falantes apontando que a diversidade linguística existente no país espelha sua complexa formação histórica e cultural O português do Brasil em sua pluralidade manifesta se por meio de variedades regionais como sotaques e léxicos locais sociais ligadas à classe ou escolaridade e situacionais dependentes do grau de formalidade e da interação entre interlocutores Além disso é importante diferenciar variação linguística de mudança linguística Enquanto a variação diz respeito à coexistência de formas diferentes que expressam um mesmo significado por exemplo tu vais e você vai a mudança linguística ocorre quando uma dessas variantes se torna predominante ao longo do tempo alterando o sistema linguístico Como observa Mollica 2003 a variação é o ponto de partida para a mudança representando a vitalidade e a adaptabilidade da língua diante das transformações sociais Sob essa perspectiva compreender a variação linguística é reconhecer que não existe uma única forma correta de falar mas sim diversas formas legítimas adequadas a diferentes contextos de uso Essa concepção rompe com a visão tradicional e normativa da língua que tende a privilegiar um padrão fixo associado às classes socialmente prestigiadas e reafirma o caráter democrático e plural do português brasileiro 4 Assim o estudo da variação linguística tornase essencial para compreender não apenas as diferenças de fala mas também as dinâmicas de poder e identidade que se expressam por meio da linguagem Essa abordagem será fundamental mais adiante para compreender como as discussões sobre linguagem neutra se inserem no debate sobre variação mudança e adequação linguística especialmente no que se refere à inclusão e ao respeito às diversas identidades de gênero 22 A Norma Linguística Culto e Popular A discussão sobre a norma linguística é central na tradição sociolinguística brasileira pois envolve não apenas aspectos estruturais da língua mas também dimensões ideológicas históricas e educacionais A compreensão da língua como fenômeno social implica reconhecer que a chamada norma culta não é uma entidade neutra ou universal mas o reflexo de relações de poder e prestígio que se consolidaram ao longo do tempo De modo geral o termo norma linguística pode ser entendido como o conjunto de convenções e padrões de uso que orientam a comunicação dentro de uma comunidade No entanto é importante distinguir entre normapadrão norma culta e norma popular conceitos muitas vezes confundidos no senso comum e até mesmo em práticas escolares A normapadrão é uma construção artificial idealizada pelas gramáticas normativas cujo objetivo é unificar o idioma e estabelecer um modelo de correção formal Já a norma culta conforme define Ricardo Bortoni 2005 referese ao modo de falar dos grupos urbanos com maior acesso à escolarização e aos meios de prestígio sem contudo ser isenta de variações internas A norma popular por sua vez é a variedade mais espontânea utilizada por falantes com menor grau de escolarização e representa igualmente uma forma legítima de uso da língua Nesse sentido a Sociolinguística rompe com a visão tradicional que considera apenas a normapadrão como correta Para Faraco 2008 a imposição de um modelo único de língua reflete uma ideologia normativa excludente que associa 5 prestígio social à forma de falar O autor argumenta que o ensino de língua deve se pautar na adequação linguística e não em uma noção rígida de correção Essa ideia também defendida por Bagno 2011 propõe que cada variedade linguística é adequada a determinados contextos comunicativos e que o falante competente é aquele capaz de transitar entre registros de acordo com a situação de fala A partir dessa perspectiva o preconceito linguístico amplamente discutido por Bagno 1999 2015 revelase como um mecanismo de exclusão social pois desqualifica as formas de expressão que divergem da normapadrão e ao fazêlo desvaloriza os grupos sociais que as utilizam Assim a norma culta deve ser compreendida não como a única expressão legítima da língua mas como uma das muitas formas possíveis de manifestação linguística dentro da diversidade do português brasileiro O papel da escola é portanto de ampliação da competência comunicativa do aluno e não de repressão das variedades linguísticas que ele domina Ensinar a normapadrão deve significar fornecer ferramentas de acesso a contextos formais e letrados sem deslegitimar as formas populares de fala Essa visão pluralista da norma linguística contribui diretamente para o debate sobre a linguagem neutra pois reforça a ideia de que a língua é um espaço de negociação adaptação e inclusão Da mesma forma que as variedades regionais e sociais refletem a diversidade dos falantes as propostas de linguagem neutra representam a busca por adequação expressiva frente à diversidade de identidades de gênero que compõem a sociedade contemporânea Assim compreender a distinção entre norma culta e norma popular bem como o papel ideológico da normapadrão é essencial para reconhecer que as mudanças linguísticas e sociais caminham lado a lado A língua longe de ser um instrumento fixo e homogêneo é uma construção coletiva e dinâmica sempre sensível às transformações culturais e identitárias de seu tempo 6 23 O Preconceito Linguístico e as Ideologias Normativas O estudo da variação e da norma linguística leva inevitavelmente à discussão sobre o preconceito linguístico fenômeno que se manifesta quando determinadas formas de falar são consideradas inferiores incorretas ou inaceitáveis segundo padrões de prestígio social No contexto brasileiro onde a diversidade linguística é ampla e profundamente marcada por fatores históricos regionais e socioeconômicos o preconceito linguístico assume um caráter não apenas linguístico mas também ideológico e político Conforme destaca Marcos Bagno 1999 2015 o preconceito linguístico é uma forma de discriminação que se apoia em mitos sobre a língua portuguesa como a crença na existência de uma forma certa e de outras erradas e serve para reforçar desigualdades sociais Essa ideologia normativa associa o domínio da normapadrão ao prestígio à educação e à inteligência ao mesmo tempo em que desvaloriza as variedades populares frequentemente associadas à ignorância ou à falta de instrução Nesse sentido o julgamento linguístico tornase também um julgamento social refletindo hierarquias de classe raça e poder simbólico Segundo Faraco 2008 o preconceito linguístico está ligado à noção de purismo linguístico isto é à tentativa de conservar uma língua idealizada e estática supostamente superior e correta Essa visão ignora o caráter natural da variação e da mudança linguística e desconsidera a língua como prática social viva Ricardo Bortoni 2005 reforça que a avaliação negativa de certas variedades não tem base científica mas é fruto de construções culturais e educacionais que privilegiam o modelo de fala das classes dominantes 7 Além disso o preconceito linguístico não se manifesta apenas em ambientes formais como a escola e os meios de comunicação mas também nas interações cotidianas em que determinadas expressões sotaques ou escolhas lexicais são alvos de zombaria ou correção Bagno 2007 observa que ao estigmatizar uma forma de falar estigmatizase também o falante e por extensão sua identidade cultural e social Assim o preconceito linguístico constitui uma forma de exclusão simbólica que limita o acesso de grupos marginalizados a espaços de legitimidade e reconhecimento No campo educacional esse problema se acentua quando o ensino da língua portuguesa é pautado exclusivamente pela gramática normativa sem considerar as diferentes realidades linguísticas dos alunos Tal postura reforça a ideia de que apenas a normapadrão é válida desvalorizando o conhecimento linguístico prévio dos estudantes e desconsiderando a língua como instrumento de expressão e identidade Como propõe Bagno 2011 o ensino de língua deve partir do princípio da inclusão linguística valorizando a diversidade e reconhecendo o potencial comunicativo de todas as variedades Essa discussão é particularmente relevante quando se analisa o debate contemporâneo sobre a linguagem neutra pois o mesmo tipo de resistência que se observa diante das variedades populares também se manifesta em relação às novas formas de expressão de gênero Ambas as situações revelam como a normapadrão e de modo mais amplo as ideologias normativas operam como mecanismos de controle simbólico que visam preservar estruturas sociais e identitárias tradicionais Ao problematizar o preconceito linguístico a Sociolinguística oferece instrumentos teóricos para compreender que as tentativas de neutralização de gênero na linguagem não são erros mas expressões legítimas de uma sociedade em transformação que busca ampliar a representatividade e o respeito à diversidade 8 Em suma o preconceito linguístico e as ideologias normativas configuram barreiras ao reconhecimento da pluralidade linguística e cultural do Brasil Superá las requer uma mudança de perspectiva em que a língua seja vista não como um sistema homogêneo e hierarquizado mas como um espaço de convivência entre múltiplas vozes e identidades Essa visão será aprofundada no próximo tópico que discute como a Sociolinguística brasileira tem contribuído para a valorização da diversidade linguística e para o combate a práticas excludentes no uso da língua 24 A Contribuição da Sociolinguística Brasileira A Sociolinguística consolidada no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980 representou uma verdadeira ruptura com a tradição normativa e estruturalista que dominava os estudos da língua até então Inspirada nas propostas de William Labov e adaptada à realidade sociocultural brasileira essa vertente teórica passou a considerar a língua como fenômeno social heterogêneo e dinâmico cuja variação reflete não apenas diferenças linguísticas mas também relações de poder identidade e pertencimento Um dos marcos fundadores dessa tradição no país é o trabalho de Fernando Tarallo 1994 que introduziu de forma sistemática os princípios da Sociolinguística variacionista no contexto brasileiro Tarallo destacou que a variação linguística não deve ser vista como um desvio da norma mas como expressão legítima de diferentes contextos socioculturais Sua abordagem contribuiu para a valorização científica das variedades populares e regionais do português brasileiro reconhecendoas como fontes legítimas de dados para o estudo da língua Paralelamente pesquisadores como Stella Maris Ricardo Bortoni e Dante Lucchesi ampliaram o campo da Sociolinguística ao incluir dimensões educacionais históricas e identitárias nas análises Ricardo Bortoni 2005 por exemplo enfatiza o papel da escola na construção de uma pedagogia linguística que respeite a diversidade defendendo que o ensino deve promover a competência comunicativa dos alunos e não a padronização artificial de suas formas de fala Já Lucchesi 9 2009 contribui com a perspectiva da sociolinguística histórica mostrando como a formação social do Brasil marcada pela colonização pela escravidão e pela diversidade étnica produziu um português profundamente heterogêneo e plural A consolidação da Sociolinguística brasileira também está fortemente associada à atuação de autores como Marcos Bagno Carlos Alberto Faraco e Maria Cecília Mollica que difundiram o debate sobre preconceito linguístico adequação comunicativa e variação como valor cultural Bagno 2015 tornouse uma das vozes mais influentes na defesa da legitimidade das variedades não padrão e na crítica às ideologias linguísticas excludentes Faraco 2008 por sua vez propõe que a compreensão da norma culta e da norma popular deve ser pautada por critérios de uso real da língua e não por prescrições arbitrárias das gramáticas tradicionais Essas contribuições formam o que se pode chamar de uma tradição sociolinguística brasileira caracterizada pela valorização da pluralidade e pela busca de uma linguagem científica comprometida com a inclusão social Esse campo teórico permitiu por exemplo repensar o ensino de português as políticas linguísticas e a própria noção de cidadania linguística Como observa Mollica 2003 compreender a diversidade linguística é reconhecer que as diferenças de fala não são falhas mas marcas de identidade e pertencimento A partir desse conjunto de reflexões a Sociolinguística brasileira tem desempenhado papel fundamental na desconstrução de mitos sobre a língua e na promoção de uma visão mais democrática da comunicação Essa perspectiva amplia o horizonte para novas discussões sobre a linguagem neutra que também emerge como uma forma de variação socialmente significativa relacionada à identidade e à representação de grupos historicamente invisibilizados Assim o debate sobre o respeito às diferentes formas de falar se entrelaça ao respeito às diferentes formas de ser e se identificar 10 25 Síntese Variação Norma e Inclusão Linguística A análise dos conceitos de variação e norma linguística no contexto da tradição sociolinguística brasileira permite compreender que a língua é um fenômeno essencialmente diverso dinâmico e socialmente situado Longe de ser um sistema uniforme a língua reflete a multiplicidade dos sujeitos que a utilizam suas origens experiências e contextos socioculturais Assim cada variação linguística carrega consigo uma história uma identidade e um modo particular de ver o mundo A Sociolinguística desde os estudos de Labov 2008 e sua consolidação no Brasil por autores como Tarallo 1994 Ricardo Bortoni 2005 Bagno 1999 2015 e Faraco 2008 tem demonstrado que não há formas erradas ou inferiores de falar mas sim usos adequados a diferentes contextos de comunicação O reconhecimento dessa pluralidade rompe com a tradição normativa excludente e promove uma visão mais democrática da linguagem em que todas as variedades são legítimas dentro de suas condições de uso A distinção entre norma culta norma popular e norma padrão revela que o prestígio linguístico é um fenômeno social e histórico e não uma qualidade intrínseca da língua Como lembra Bagno 2007 o mito da língua única e correta é sustentado por uma ideologia que privilegia os grupos socialmente dominantes e marginaliza as formas de expressão das classes populares Essa ideologia ao se naturalizar no cotidiano e nas instituições especialmente na escola reforça o preconceito linguístico e contribui para a manutenção de desigualdades Contudo a tradição sociolinguística brasileira tem se posicionado de forma crítica diante dessas hierarquias simbólicas propondo uma abordagem de ensino e pesquisa comprometida com a inclusão linguística Essa perspectiva reconhece que dominar a normapadrão pode ser socialmente vantajoso mas que tal domínio não deve se dar à custa da desvalorização das demais formas de fala Ao contrário é preciso promover a ampliação da competência comunicativa dos falantes respeitando suas identidades e repertórios linguísticos 11 Nesse sentido discutir variação e norma linguística não é apenas uma questão técnica ou gramatical mas também ética e política Tratase de reconhecer que a língua é um espaço de disputa simbólica no qual se refletem e se produzem relações de poder inclusão e exclusão Essa compreensão tornase fundamental para o debate sobre a linguagem neutra que representa uma nova forma de variação linguística emergente motivada por demandas sociais ligadas à identidade de gênero e à visibilidade de grupos não binários e trans Assim como as variações regionais e sociais legitimam diferentes modos de expressão a linguagem neutra busca legitimar diferentes modos de existir e se representar por meio da língua Ao compreender a língua como um organismo vivo e em constante transformação a Sociolinguística oferece o suporte teórico necessário para analisar esse fenômeno não como uma ameaça à norma mas como parte natural do processo de evolução e democratização linguística Dessa forma a síntese entre variação norma e inclusão aponta para uma concepção de língua mais plural flexível e humanizada uma língua que se adapta à diversidade dos falantes e acolhe as transformações sociais de seu tempo 26 A Linguagem Neutra sob a Perspectiva Linguística e Sociolinguística A linguagem é antes de tudo um reflexo das transformações sociais e culturais que atravessam a sociedade Assim como a variação linguística revela as múltiplas formas de expressão de um povo também as novas formas de uso da língua podem emergir como respostas simbólicas a demandas identitárias e políticas Nesse contexto a linguagem neutra ou linguagem inclusiva surge como um fenômeno linguístico e social que busca romper com o binarismo de gênero tradicionalmente presente na língua portuguesa promovendo uma 12 comunicação mais acolhedora e representativa de pessoas não binárias e transgênero Do ponto de vista linguístico a proposta de linguagem neutra pode ser compreendida como uma manifestação legítima do processo de variação e mudança linguística conforme estabelecido pelos princípios da Sociolinguística Labov 2008 já demonstrava que as mudanças na língua nascem do uso social e da necessidade de adequação comunicativa entre os falantes Sob essa ótica a linguagem neutra representa uma inovação que emerge da interação social impulsionada por grupos que buscam visibilidade e reconhecimento dentro da estrutura linguística A língua sendo viva adaptase continuamente às transformações culturais e a linguagem neutra é um reflexo direto desse dinamismo Na tradição sociolinguística brasileira autores como Marcos Bagno 2015 e Ricardo Bortoni 2005 defendem que nenhuma forma de falar é intrinsecamente superior a outra Essa perspectiva permite compreender que o uso de pronomes neutros como elu delu ou de desinências não binárias como todes amigxs amigues não constitui uma ameaça à língua mas uma tentativa de ampliar suas possibilidades expressivas Para Bagno a língua é um instrumento de inclusão e não de exclusão BAGNO 2011 p 57 e portanto deve estar aberta a mudanças que respondam às necessidades comunicativas e sociais de seus falantes Sob o ponto de vista sociolinguístico a linguagem neutra pode ser entendida como uma forma de variação social e identitária isto é um uso linguístico que marca pertencimento e resistência Tal como as variedades regionais e populares refletem a identidade de determinados grupos sociais o uso de formas neutras expressa a identidade de pessoas e coletividades que não se reconhecem nas categorias tradicionais de gênero Assim o debate em torno da linguagem neutra transcende o plano gramatical situandose no campo das ideologias linguísticas o espaço em que se definem o que é considerado aceitável ou correto dentro de uma comunidade de fala A resistência ao uso da linguagem neutra nesse sentido ecoa a mesma lógica do preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 e Faraco 2008 trata se da rejeição de formas que desafiam uma norma tradicionalmente associada ao prestígio e à autoridade Tal resistência evidencia que as disputas em torno da língua 13 são também disputas por poder simbólico e representação social Assim a recusa à linguagem neutra não é apenas uma questão linguística mas reflete tensões mais amplas sobre gênero identidade e diversidade No contexto cultural brasileiro a discussão sobre linguagem neutra ganhou visibilidade em produções midiáticas e artísticas que têm papel fundamental na difusão de novas práticas linguísticas e na sensibilização social Um exemplo notável é a série Todxs Nós lançada em 2020 pela HBO Brasil que acompanha a trajetória de Rafa personagem não binário que busca afirmar sua identidade e questionar os padrões de gênero e linguagem na sociedade contemporânea Ao adotar expressões neutras e tematizar o uso da linguagem inclusiva no cotidiano a série contribui para a naturalização dessas formas e para a ampliação do debate sobre representação e pertencimento Essa produção televisiva exemplifica como a linguagem neutra ultrapassa o campo acadêmico e se insere nas práticas culturais revelandose um fenômeno linguístico em pleno processo de consolidação social Além de representar uma demanda política a linguagem neutra também dialoga com os conceitos de adequação e variação centrais na Sociolinguística Como destaca Ricardo Bortoni 2005 a competência linguística de um falante está na capacidade de adaptar sua fala aos contextos comunicativos e interlocutores e não em seguir rigidamente uma norma fixa Assim o uso de formas neutras pode ser compreendido como uma estratégia de adequação comunicativa voltada a contextos de respeito à diversidade e à inclusão A adoção dessas formas não implica eliminar o uso tradicional de gênero mas ampliar as opções expressivas disponíveis de modo a contemplar novos modos de subjetivação É importante ressaltar que a linguagem neutra por ainda se encontrar em fase de difusão não possui consenso quanto à sua forma padrão Variantes como o uso do x todxs do tods ou do e todes coexistem refletindo diferentes tentativas de adaptação e experimentação linguística Essa heterogeneidade é justamente o que caracteriza um fenômeno de variação em curso Como afirma Mollica 2003 a diversidade é parte constitutiva da língua e sua vitalidade depende da capacidade de incorporar novos sentidos e formas Do ponto de vista social a linguagem neutra simboliza uma resistência à exclusão linguística pois desafia as estruturas discursivas que invisibilizam pessoas 14 não conformes ao binarismo de gênero Tratase de uma tentativa de reconfigurar o espaço linguístico como um ambiente de reconhecimento e pertencimento em que cada sujeito possa se expressar de maneira coerente com sua identidade Nesse sentido a proposta de linguagem neutra é coerente com os princípios da Sociolinguística valoriza a variação questiona a norma excludente e reconhece a língua como um espaço de diversidade e transformação Portanto analisar a linguagem neutra sob a perspectiva linguística e sociolinguística é compreender que a língua não é apenas um instrumento de comunicação mas também um campo de disputa simbólica e social A emergência dessa nova forma de expressão não representa uma ruptura arbitrária com a norma mas sim a continuidade de um processo histórico de adaptação linguística às mudanças sociais Assim como as diferentes variedades do português brasileiro refletem a riqueza cultural do país a linguagem neutra reflete o avanço de uma consciência social que busca visibilizar e respeitar todas as identidades A Sociolinguística ao reconhecer e legitimar a variação oferece o alicerce teórico para compreender a linguagem neutra não como desvio mas como expressão legítima de inclusão e transformação social 27 A Linguagem Neutra como Expressão de Identidade e Resistência Social A linguagem não apenas comunica ideias mas também constrói e reafirma identidades Por meio dela os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos no mundo social Nesse sentido a linguagem neutra emerge como um recurso discursivo e simbólico de afirmação identitária e resistência especialmente no contexto de grupos historicamente marginalizados em razão de sua expressão de gênero Ao propor novas formas de nomear e se referir a pessoas a linguagem neutra desafia estruturas tradicionais de poder inscritas na língua e na sociedade abrindo espaço para a visibilidade de identidades não binárias e transgênero Sob a ótica da Sociolinguística compreender a linguagem neutra como forma de resistência implica reconhecer que a língua é um campo de disputa simbólica Conforme aponta Pierre Bourdieu 1991 o poder linguístico é também poder social 15 quem detém o direito de definir o falar correto exerce dominação simbólica sobre os demais Assim quando grupos sociais minoritários reivindicam novas formas de expressão estão também reivindicando o direito de existir e ser reconhecidos linguisticamente A linguagem neutra portanto não é apenas uma inovação formal mas uma prática política de reconfiguração das relações de poder no espaço discursivo Nesse processo é importante considerar que a língua atua como um marcador de identidade Como afirma Hall 2000 as identidades contemporâneas são múltiplas fragmentadas e constantemente em construção A linguagem ao acompanhar essa dinamicidade tornase um instrumento fundamental na constituição das subjetividades Ao adotar pronomes e desinências neutras sujeitos não binários podem se ver representados de modo mais coerente com sua autoidentificação subvertendo o binarismo linguístico que tradicionalmente os invisibiliza Desse modo a linguagem neutra se apresenta como expressão legítima da diversidade de gênero atuando como ferramenta de pertencimento e reconhecimento social A resistência nesse contexto manifestase tanto na dimensão simbólica quanto na prática comunicativa Como observa Judith Butler 2003 o gênero é performativo isto é construído e reiterado por meio de atos discursivos Assim ao empregar formas neutras os falantes não apenas modificam a estrutura linguística mas também performam identidades dissidentes desafiando normas socioculturais estabelecidas Cada escolha lexical cada uso de elu em vez de ele ou ela representa um ato político de resistência e reconfiguração dos modos de ser e estar no mundo A reação social ao uso da linguagem neutra muitas vezes marcada por resistência ou hostilidade revela o quanto a língua está imbricada nas relações de poder O preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de discriminação pois se apresenta como defesa da norma correta quando na verdade perpetua exclusões sociais e simbólicas Do mesmo modo a rejeição à linguagem neutra sob o argumento de que desvirtua o português demonstra um preconceito identitário travestido de zelo linguístico já que o que está em jogo não é 16 a gramática em si mas a resistência a reconhecer identidades fora do padrão binário A presença crescente da linguagem neutra em espaços públicos e midiáticos também revela sua função como símbolo de representatividade Campanhas publicitárias produções culturais e instituições educacionais têm incorporado gradualmente elementos da linguagem inclusiva sinalizando um processo de reconfiguração social da linguagem Um exemplo relevante é novamente a série Todxs Nós HBO 2020 que retrata personagens que utilizam pronomes e vocábulos neutros em contextos cotidianos demonstrando como a linguagem se adapta às novas realidades identitárias Essa representação midiática desempenha papel essencial na normalização de práticas linguísticas inclusivas ao mesmo tempo em que amplia o debate público sobre diversidade e respeito Sob a perspectiva da linguística crítica a linguagem neutra também pode ser vista como um mecanismo de empoderamento discursivo Como destaca Fairclough 2001 os discursos moldam a realidade social ao estabelecer quais vozes são legitimadas e quais são silenciadas Ao introduzir formas neutras os falantes produzem novas possibilidades discursivas abrindo espaços para a escuta de vozes que antes eram invisibilizadas Assim o uso da linguagem neutra não se limita a uma mudança lexical mas constitui uma ação transformadora sobre as estruturas simbólicas da sociedade Além disso a linguagem neutra reforça o princípio da autodeterminação linguística pelo qual os indivíduos têm o direito de definir como desejam ser nomeados e reconhecidos Tal princípio está alinhado à ética da diversidade e da inclusão que orienta práticas sociais voltadas à redução de desigualdades simbólicas Nessa perspectiva a linguagem neutra não deve ser interpretada como imposição mas como ampliação de possibilidades expressivas dentro do sistema linguístico oferecendo alternativas de nomeação mais justas e representativas Para tanto é preciso compreender que a linguagem neutra não busca substituir as formas tradicionais da língua mas coexistir com elas em um cenário de pluralidade Assim como as variações regionais e sociais são manifestações legítimas do português brasileiro também o uso de formas neutras representa uma variante emergente ligada a novas realidades socioculturais A Sociolinguística ao 17 reconhecer a variação como fenômeno natural oferece o suporte teórico necessário para compreender essa coexistência e para valorizar o papel da língua como instrumento de inclusão e transformação social Por fim a linguagem neutra configurase como uma expressão de identidade resistência e reconhecimento reafirmando o caráter dinâmico e socialmente construído da língua Ao reivindicar o direito de nomear a si e aos outros de forma coerente com a diversidade de gênero existente na sociedade os falantes promovem uma mudança que é ao mesmo tempo linguística e ética Tratase portanto de um movimento que transcende a gramática e alcança a esfera do humano reafirmando o poder da linguagem como ferramenta de transformação e justiça social 3 Metodologia A pesquisa caracterizase como qualitativa e de natureza bibliográfica tendo em vista que seu objetivo central é analisar a linguagem neutra sob a ótica da Linguística e da Sociolinguística a partir de referenciais teóricos consolidados e de produções acadêmicas pertinentes ao tema Assim não se busca quantificar dados mas compreender por meio da leitura e interpretação crítica os discursos e fundamentos que permeiam o fenômeno linguístico em questão As fontes utilizadas foram selecionadas em bases acadêmicas reconhecidas como Google Acadêmico e SciELO além de periódicos especializados em Linguística e publicações midiáticas que abordam aspectos sociais e culturais da linguagem O corpus é composto por discursos acadêmicos artigos e ensaios científicos produzidos por estudiosos da área escolhidos com base em critérios de relevância atualidade e representatividade das discussões sobre variação linguística e linguagem neutra no contexto brasileiro O recorte temporal concentra se no período de 2020 a 2024 quando a discussão sobre linguagem inclusiva ganhou maior visibilidade no meio acadêmico e social A seleção dos materiais considerou palavraschave como linguagem neutra variação linguística identidade de gênero e preconceito linguístico garantindo a pertinência dos textos ao tema proposto 18 A análise foi conduzida a partir de uma abordagem linguística e sociolinguística orientada pelos conceitos de variação e norma conforme Labov 2008 pelo entendimento de preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno 1999 e pela noção de identidade e interação social presente nas obras de Ricardo Bortoni 2005 Esses referenciais permitiram comparar perspectivas teóricas sobre o fenômeno da linguagem neutra destacando convergências e divergências entre diferentes autores Não houve envolvimento direto de participantes humanos dispensando portanto a necessidade de aprovação ética Reconhecese contudo como limitação a escassez de estudos empíricos aprofundados sobre a aplicação prática da linguagem neutra em diferentes contextos sociais o que reforça a relevância de abordagens teóricas que ampliem o debate Esta pesquisa tem o intuito de agregar na compreensão de como a linguagem neutra se insere nas dinâmicas de variação linguística e nas práticas sociais discutindo suas implicações identitárias e o papel que desempenha na luta contra o preconceito linguístico e de gênero 4 Conclusão O artigo A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade buscou analisar como os linguistas e sociolinguistas brasileiros têm abordado o fenômeno da linguagem neutra relacionandoo aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e construção de identidade de gênero Fundamentado nas contribuições teóricas da Linguística e da Sociolinguística o estudo adotou uma perspectiva bibliográfica e crítica destacando como a linguagem reflete as dinâmicas sociais e as transformações culturais de uma sociedade em constante mudança A relevância deste tema revelase tanto no campo científico quanto no contexto social contemporâneo Em uma época marcada por intensas discussões sobre inclusão diversidade e respeito às identidades de gênero compreender o papel da linguagem neutra tornase essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias À luz dos princípios da Sociolinguística brasileira especialmente das reflexões de Marcos Bagno 2007 que defende a língua como um fenômeno 19 vivo e plural este estudo reforça que não existem formas certas ou erradas de falar mas diferentes usos que expressam identidades e pertencimentos sociais Assim o trabalho contribui para ampliar o diálogo sobre a importância de reconhecer a legitimidade da variação linguística e de combater o preconceito associado às formas inovadoras de expressão Os resultados obtidos indicaram que embora existam divergências teóricas sobre a viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro há consenso quanto à sua relevância social e simbólica A linguagem neutra emerge como uma manifestação legítima de resistência e representatividade das identidades nãobinárias reforçando a ideia de que a língua acompanha as transformações culturais e ideológicas de seu tempo Inspirado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista Labov 1972 Tarallo 1994 e nas reflexões de Bagno 2007 sobre o preconceito linguístico este trabalho conclui que a rejeição à linguagem neutra não se fundamenta em razões linguísticas mas em resistências sociais e culturais Portanto a principal mensagem que este estudo pretende deixar é a de que a linguagem neutra representa uma ampliação das possibilidades comunicativas e um avanço no reconhecimento da diversidade humana Os objetivos propostos tanto o geral quanto os específicos foram integralmente alcançados e em certos aspectos superados A pesquisa conseguiu reunir organizar e interpretar criticamente as principais abordagens teóricas sobre o tema demonstrando que a discussão sobre linguagem neutra não se limita à gramática mas envolve dimensões ideológicas políticas e identitárias Ao integrar aspectos estruturais e sociais da língua o trabalho reafirma a relevância da Sociolinguística como campo essencial para compreender os fenômenos de variação mudança e resistência que moldam o português brasileiro contemporâneo Por fim recomendase que futuras pesquisas avancem na análise da linguagem neutra em contextos educacionais especialmente na formação docente e na elaboração de materiais didáticos Como defende Bagno 1999 o ensino de língua deve ser um espaço de valorização das múltiplas formas de falar e de inclusão das diversas identidades sociais Assim compreender e discutir a linguagem neutra na escola pode contribuir para uma educação linguística mais crítica ética e acolhedora A língua afinal é um reflexo da sociedade e ao 20 reconhecer a pluralidade linguística reconhecemos também a pluralidade humana que a sustenta 5 Referências BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz São Paulo Loyola 1999 BAGNO Marcos Nada na língua é por acaso por uma pedagogia da variação linguística São Paulo Parábola Editorial 2007 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 56 ed São Paulo Edições Loyola 2015 BORTONI Ricardo Stella Maris Nós cheguemu na escola e agora sociolinguística e educação São Paulo Parábola Editorial 2005 FARACO Carlos Alberto Norma culta brasileira desatando alguns nós São Paulo Parábola Editorial 2008 LABOV William Sociolinguistic Patterns Philadelphia University of Pennsylvania Press 1972 LABOV William Padrões sociolinguísticos Tradução de Marcos Bagno Maria Marta Pereira Scherre e Caroline Rodrigues Cardoso São Paulo Parábola Editorial 2008 LUCCHESI Dante A variação linguística no português do Brasil dinamicidade heterogeneidade e diversidade Salvador EDUFBA 2009 MOLLICA Maria Cecília Fundamentos da sociolinguística variacionista Rio de Janeiro 7Letras 2003 21 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística 6 ed São Paulo Ática 1994 TODXS NÓS Direção de Vera Egito e Daniel Ribeiro Produção HBO Brasil Brasil HBO Latin America Group 2020 Série de TV 22 Ana coloque a part6e sobe a Metodologia dentro da introdução acertei o título das considerações finai não precisa pois já fiz Precisa assinar o termo pode imprimilo assinar e tirar uma foto e colar na última folha o TCC ou pode por assinatura eletrônica do govbr Assine e me envie para eu conceituar Segue em anexo o seu TCC As outras partes estão dentro do que é pedido Assim que fizer os acertos assinar o termo e incluir a partes que irá produzir envie e me informe se posso dar o conceito Segue em anexo o seu TCC UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Contagem 2025 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Trabalho apresentado como requisito obrigatório para conclusão do curso de Letras no formato de artigo científico resultante da pesquisa desenvolvida no ano de 2025 sob a orientação do professor Luiz Campos Contagem 2025 A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Ana Flávia Freitas de Assis Luiz Campos Resumo O artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade analisa criticamente os argumentos e pressupostos teóricos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no contexto brasileiro articulandoos com os conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade de gênero De natureza qualitativa e baseada em pesquisa bibliográfica a investigação apoiase em autores como Marcos Bagno Ricardo Bortoni Fernando Tarallo Willian Labov Dante Lucchesi Maria Cecília Mollica e Carlos Alberto Faraco para discutir as dimensões estruturais e sociais do fenômeno O estudo apresenta os conceitos fundamentais da Sociolinguística sistematiza os principais argumentos linguísticos favoráveis e contrários à adoção da linguagem neutra e examina sua relação com as identidades nãobinárias e com o combate ao preconceito linguístico e social Os resultados apontam que embora haja divergências quanto à viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro reconhecese sua relevância simbólica e social como instrumento de resistência inclusão e representatividade Concluise que a língua em constante transformação reflete as mudanças culturais e ideológicas de seu tempo e que compreender esse processo é essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias Palavraschave Linguagem Neutra Linguagem NãoBinária Identidade de Gênero Preconceito Linguístico Variação Linguística Representatividade INTRODUÇÃO Em 2015 chamoume a atenção quando vi um jornalista da Globo News dizer centi e cinquenta ao invés de cento e cinquenta para se referir ao número 150 e isso despertoume a curiosamente para pesquisar sobre foi então que descobri que esse fenômeno tem a ver com a questão da linguagem neutra O debate sobre a linguagem neutra tem ganhado destaque no cenário brasileiro mobilizando discussões que ultrapassam os limites da gramática e alcançam dimensões sociais políticas e identitárias A proposta de adaptar a língua portuguesa a formas mais inclusivas que contemplem pessoas que não se identificam dentro do sistema binário de gênero tem gerado tanto apoio quanto resistência em diversos espaços da mídia às instituições de ensino No campo da Linguística e da Sociolinguística esse tema adquire especial relevância pois convida à reflexão sobre o funcionamento dinâmico da língua os fatores sociais que influenciam o uso e as mudanças linguísticas que surgem em resposta às transformações culturais da sociedade contemporânea Compreender o fenômeno da linguagem neutra exige um olhar que vá além da norma tradicional e das prescrições gramaticais A língua é antes de tudo um reflexo da vida social e sua evolução acompanha as transformações históricas e culturais dos falantes Como afirma Marcos Bagno 1999 p 42 a língua é um organismo vivo em permanente processo de transformação e é o uso que dita suas formas não o contrário Nessa perspectiva o surgimento de novas expressões e formas linguísticas como os neopronomes elu ile e as terminações neutras todes amigues pode ser entendido como uma tentativa legítima de inclusão e representatividade refletindo o desejo de uma sociedade mais igualitária no plano simbólico e linguístico Diante dessa realidade surge a seguinte questão de pesquisa quais são os principais argumentos linguísticos e sociolinguísticos que sustentam ou criticam o uso da linguagem neutra e como esse debate se conecta aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade Essa pergunta norteia a investigação que tem como objetivo geral analisar criticamente os principais argumentos e pressupostos teóricos linguísticos e sociolinguísticos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no Brasil articulandoos aos 2 conceitos de variação preconceito e identidade de gênero Tratase de uma pesquisa bibliográfica baseada em autores e estudos que abordam a relação entre língua sociedade e ideologia buscando compreender como as práticas linguísticas refletem valores crenças e disputas simbólicas A escolha desse tema se justifica pela sua relevância acadêmica e social Discutir a linguagem neutra significa também discutir inclusão cidadania e diversidade reconhecendo a importância da linguagem na construção das identidades e no combate às desigualdades O preconceito linguístico como destaca Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de exclusão social pois julgar o modo de falar do outro é em última instância uma forma de julgar o próprio falante sua origem e seu valor social Dessa forma ao investigar os argumentos em torno da linguagem neutra este artigo busca contribuir para uma reflexão mais crítica e menos dogmática sobre a língua portuguesa incentivando o respeito às variações e a compreensão de que a mudança linguística é um processo natural e inevitável 21 CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA A língua enquanto fenômeno social e dinâmico não é um sistema homogêneo fixo ou imutável Ao contrário está em constante transformação e reflete as múltiplas realidades sociais históricas e culturais dos falantes que a utilizam É nesse contexto que a Sociolinguística campo que articula língua e sociedade propõe compreender a variação linguística como elemento constitutivo da linguagem humana e não como um desvio ou erro frente a uma norma idealizada Segundo William Labov 2008 considerado o fundador da Sociolinguística Variacionista toda comunidade de fala é marcada por diferenças sistemáticas no uso da língua que se relacionam a fatores como idade gênero classe social escolaridade região geográfica e contexto comunicativo Para o autor essas variações não são aleatórias mas obedecem a padrões sociais e estruturais que podem ser analisados cientificamente Assim a variação linguística é um fenômeno natural e inevitável intrínseco ao funcionamento da língua 3 No contexto brasileiro Tarallo 1994 destaca que a variação deve ser entendida como o reflexo das relações sociais e das identidades dos falantes apontando que a diversidade linguística existente no país espelha sua complexa formação histórica e cultural O português do Brasil em sua pluralidade manifesta se por meio de variedades regionais como sotaques e léxicos locais sociais ligadas à classe ou escolaridade e situacionais dependentes do grau de formalidade e da interação entre interlocutores Além disso é importante diferenciar variação linguística de mudança linguística Enquanto a variação diz respeito à coexistência de formas diferentes que expressam um mesmo significado por exemplo tu vais e você vai a mudança linguística ocorre quando uma dessas variantes se torna predominante ao longo do tempo alterando o sistema linguístico Como observa Mollica 2003 a variação é o ponto de partida para a mudança representando a vitalidade e a adaptabilidade da língua diante das transformações sociais Sob essa perspectiva compreender a variação linguística é reconhecer que não existe uma única forma correta de falar mas sim diversas formas legítimas adequadas a diferentes contextos de uso Essa concepção rompe com a visão tradicional e normativa da língua que tende a privilegiar um padrão fixo associado às classes socialmente prestigiadas e reafirma o caráter democrático e plural do português brasileiro Assim o estudo da variação linguística tornase essencial para compreender não apenas as diferenças de fala mas também as dinâmicas de poder e identidade que se expressam por meio da linguagem Essa abordagem será fundamental mais adiante para compreender como as discussões sobre linguagem neutra se inserem no debate sobre variação mudança e adequação linguística especialmente no que se refere à inclusão e ao respeito às diversas identidades de gênero 22 A NORMA LINGUÍSTICA CULTO E POPULAR A discussão sobre a norma linguística é central na tradição sociolinguística brasileira pois envolve não apenas aspectos estruturais da língua mas também dimensões ideológicas históricas e educacionais A compreensão da língua como 4 fenômeno social implica reconhecer que a chamada norma culta não é uma entidade neutra ou universal mas o reflexo de relações de poder e prestígio que se consolidaram ao longo do tempo De modo geral o termo norma linguística pode ser entendido como o conjunto de convenções e padrões de uso que orientam a comunicação dentro de uma comunidade No entanto é importante distinguir entre normapadrão norma culta e norma popular conceitos muitas vezes confundidos no senso comum e até mesmo em práticas escolares A normapadrão é uma construção artificial idealizada pelas gramáticas normativas cujo objetivo é unificar o idioma e estabelecer um modelo de correção formal Já a norma culta conforme define Ricardo Bortoni 2005 referese ao modo de falar dos grupos urbanos com maior acesso à escolarização e aos meios de prestígio sem contudo ser isenta de variações internas A norma popular por sua vez é a variedade mais espontânea utilizada por falantes com menor grau de escolarização e representa igualmente uma forma legítima de uso da língua Nesse sentido a Sociolinguística rompe com a visão tradicional que considera apenas a normapadrão como correta Para Faraco 2008 a imposição de um modelo único de língua reflete uma ideologia normativa excludente que associa prestígio social à forma de falar O autor argumenta que o ensino de língua deve se pautar na adequação linguística e não em uma noção rígida de correção Essa ideia também defendida por Bagno 2011 propõe que cada variedade linguística é adequada a determinados contextos comunicativos e que o falante competente é aquele capaz de transitar entre registros de acordo com a situação de fala A partir dessa perspectiva o preconceito linguístico amplamente discutido por Bagno 1999 2015 revelase como um mecanismo de exclusão social pois desqualifica as formas de expressão que divergem da normapadrão e ao fazêlo desvaloriza os grupos sociais que as utilizam Assim a norma culta deve ser compreendida não como a única expressão legítima da língua mas como uma das muitas formas possíveis de manifestação linguística dentro da diversidade do português brasileiro O papel da escola é portanto de ampliação da competência comunicativa do aluno e não de repressão das variedades linguísticas que ele domina Ensinar a 5 normapadrão deve significar fornecer ferramentas de acesso a contextos formais e letrados sem deslegitimar as formas populares de fala Essa visão pluralista da norma linguística contribui diretamente para o debate sobre a linguagem neutra pois reforça a ideia de que a língua é um espaço de negociação adaptação e inclusão Da mesma forma que as variedades regionais e sociais refletem a diversidade dos falantes as propostas de linguagem neutra representam a busca por adequação expressiva frente à diversidade de identidades de gênero que compõem a sociedade contemporânea Assim compreender a distinção entre norma culta e norma popular bem como o papel ideológico da normapadrão é essencial para reconhecer que as mudanças linguísticas e sociais caminham lado a lado A língua longe de ser um instrumento fixo e homogêneo é uma construção coletiva e dinâmica sempre sensível às transformações culturais e identitárias de seu tempo 23 O PRECONCEITO LINGUÍSTICO E AS IDEOLOGIAS NORMATIVAS O estudo da variação e da norma linguística leva inevitavelmente à discussão sobre o preconceito linguístico fenômeno que se manifesta quando determinadas formas de falar são consideradas inferiores incorretas ou inaceitáveis segundo padrões de prestígio social No contexto brasileiro onde a diversidade linguística é ampla e profundamente marcada por fatores históricos regionais e socioeconômicos o preconceito linguístico assume um caráter não apenas linguístico mas também ideológico e político Conforme destaca Marcos Bagno 1999 2015 o preconceito linguístico é uma forma de discriminação que se apoia em mitos sobre a língua portuguesa como a crença na existência de uma forma certa e de outras erradas e serve para reforçar desigualdades sociais Essa ideologia normativa associa o domínio da normapadrão ao prestígio à educação e à inteligência ao mesmo tempo em que desvaloriza as variedades populares frequentemente associadas à ignorância ou à falta de instrução Nesse sentido o julgamento linguístico tornase também um julgamento social refletindo hierarquias de classe raça e poder simbólico 6 Segundo Faraco 2008 o preconceito linguístico está ligado à noção de purismo linguístico isto é à tentativa de conservar uma língua idealizada e estática supostamente superior e correta Essa visão ignora o caráter natural da variação e da mudança linguística e desconsidera a língua como prática social viva Ricardo Bortoni 2005 reforça que a avaliação negativa de certas variedades não tem base científica mas é fruto de construções culturais e educacionais que privilegiam o modelo de fala das classes dominantes Além disso o preconceito linguístico não se manifesta apenas em ambientes formais como a escola e os meios de comunicação mas também nas interações cotidianas em que determinadas expressões sotaques ou escolhas lexicais são alvos de zombaria ou correção Bagno 2007 observa que ao estigmatizar uma forma de falar estigmatizase também o falante e por extensão sua identidade cultural e social Assim o preconceito linguístico constitui uma forma de exclusão simbólica que limita o acesso de grupos marginalizados a espaços de legitimidade e reconhecimento No campo educacional esse problema se acentua quando o ensino da língua portuguesa é pautado exclusivamente pela gramática normativa sem considerar as diferentes realidades linguísticas dos alunos Tal postura reforça a ideia de que apenas a normapadrão é válida desvalorizando o conhecimento linguístico prévio dos estudantes e desconsiderando a língua como instrumento de expressão e identidade Como propõe Bagno 2011 o ensino de língua deve partir do princípio da inclusão linguística valorizando a diversidade e reconhecendo o potencial comunicativo de todas as variedades Essa discussão é particularmente relevante quando se analisa o debate contemporâneo sobre a linguagem neutra pois o mesmo tipo de resistência que se observa diante das variedades populares também se manifesta em relação às novas formas de expressão de gênero Ambas as situações revelam como a normapadrão e de modo mais amplo as ideologias normativas operam como mecanismos de controle simbólico que visam preservar estruturas sociais e identitárias tradicionais Ao problematizar o preconceito linguístico a Sociolinguística oferece instrumentos teóricos para compreender que as tentativas de neutralização de gênero na linguagem não são erros mas expressões legítimas de uma sociedade 7 em transformação que busca ampliar a representatividade e o respeito à diversidade Em suma o preconceito linguístico e as ideologias normativas configuram barreiras ao reconhecimento da pluralidade linguística e cultural do Brasil Superá las requer uma mudança de perspectiva em que a língua seja vista não como um sistema homogêneo e hierarquizado mas como um espaço de convivência entre múltiplas vozes e identidades Essa visão será aprofundada no próximo tópico que discute como a Sociolinguística brasileira tem contribuído para a valorização da diversidade linguística e para o combate a práticas excludentes no uso da língua 24 A CONTRIBUIÇÃO DA SOCIOLINGUÍSTICA BRASILEIRA A Sociolinguística consolidada no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980 representou uma verdadeira ruptura com a tradição normativa e estruturalista que dominava os estudos da língua até então Inspirada nas propostas de William Labov e adaptada à realidade sociocultural brasileira essa vertente teórica passou a considerar a língua como fenômeno social heterogêneo e dinâmico cuja variação reflete não apenas diferenças linguísticas mas também relações de poder identidade e pertencimento Um dos marcos fundadores dessa tradição no país é o trabalho de Fernando Tarallo 1994 que introduziu de forma sistemática os princípios da Sociolinguística variacionista no contexto brasileiro Tarallo destacou que a variação linguística não deve ser vista como um desvio da norma mas como expressão legítima de diferentes contextos socioculturais Sua abordagem contribuiu para a valorização científica das variedades populares e regionais do português brasileiro reconhecendoas como fontes legítimas de dados para o estudo da língua Paralelamente pesquisadores como Stella Maris Ricardo Bortoni e Dante Lucchesi ampliaram o campo da Sociolinguística ao incluir dimensões educacionais históricas e identitárias nas análises Ricardo Bortoni 2005 por exemplo enfatiza o papel da escola na construção de uma pedagogia linguística que respeite a diversidade defendendo que o ensino deve promover a competência comunicativa dos alunos e não a padronização artificial de suas formas de fala Já Lucchesi 8 2009 contribui com a perspectiva da sociolinguística histórica mostrando como a formação social do Brasil marcada pela colonização pela escravidão e pela diversidade étnica produziu um português profundamente heterogêneo e plural A consolidação da Sociolinguística brasileira também está fortemente associada à atuação de autores como Marcos Bagno Carlos Alberto Faraco e Maria Cecília Mollica que difundiram o debate sobre preconceito linguístico adequação comunicativa e variação como valor cultural Bagno 2015 tornouse uma das vozes mais influentes na defesa da legitimidade das variedades não padrão e na crítica às ideologias linguísticas excludentes Faraco 2008 por sua vez propõe que a compreensão da norma culta e da norma popular deve ser pautada por critérios de uso real da língua e não por prescrições arbitrárias das gramáticas tradicionais Essas contribuições formam o que se pode chamar de uma tradição sociolinguística brasileira caracterizada pela valorização da pluralidade e pela busca de uma linguagem científica comprometida com a inclusão social Esse campo teórico permitiu por exemplo repensar o ensino de português as políticas linguísticas e a própria noção de cidadania linguística Como observa Mollica 2003 compreender a diversidade linguística é reconhecer que as diferenças de fala não são falhas mas marcas de identidade e pertencimento A partir desse conjunto de reflexões a Sociolinguística brasileira tem desempenhado papel fundamental na desconstrução de mitos sobre a língua e na promoção de uma visão mais democrática da comunicação Essa perspectiva amplia o horizonte para novas discussões sobre a linguagem neutra que também emerge como uma forma de variação socialmente significativa relacionada à identidade e à representação de grupos historicamente invisibilizados Assim o debate sobre o respeito às diferentes formas de falar se entrelaça ao respeito às diferentes formas de ser e se identificar 25 SÍNTESE VARIAÇÃO NORMA E INCLUSÃO LINGUÍSTICA A análise dos conceitos de variação e norma linguística no contexto da tradição sociolinguística brasileira permite compreender que a língua é um fenômeno essencialmente diverso dinâmico e socialmente situado Longe de ser um 9 sistema uniforme a língua reflete a multiplicidade dos sujeitos que a utilizam suas origens experiências e contextos socioculturais Assim cada variação linguística carrega consigo uma história uma identidade e um modo particular de ver o mundo A Sociolinguística desde os estudos de Labov 2008 e sua consolidação no Brasil por autores como Tarallo 1994 Ricardo Bortoni 2005 Bagno 1999 2015 e Faraco 2008 tem demonstrado que não há formas erradas ou inferiores de falar mas sim usos adequados a diferentes contextos de comunicação O reconhecimento dessa pluralidade rompe com a tradição normativa excludente e promove uma visão mais democrática da linguagem em que todas as variedades são legítimas dentro de suas condições de uso A distinção entre norma culta norma popular e norma padrão revela que o prestígio linguístico é um fenômeno social e histórico e não uma qualidade intrínseca da língua Como lembra Bagno 2007 o mito da língua única e correta é sustentado por uma ideologia que privilegia os grupos socialmente dominantes e marginaliza as formas de expressão das classes populares Essa ideologia ao se naturalizar no cotidiano e nas instituições especialmente na escola reforça o preconceito linguístico e contribui para a manutenção de desigualdades Contudo a tradição sociolinguística brasileira tem se posicionado de forma crítica diante dessas hierarquias simbólicas propondo uma abordagem de ensino e pesquisa comprometida com a inclusão linguística Essa perspectiva reconhece que dominar a normapadrão pode ser socialmente vantajoso mas que tal domínio não deve se dar à custa da desvalorização das demais formas de fala Ao contrário é preciso promover a ampliação da competência comunicativa dos falantes respeitando suas identidades e repertórios linguísticos Nesse sentido discutir variação e norma linguística não é apenas uma questão técnica ou gramatical mas também ética e política Tratase de reconhecer que a língua é um espaço de disputa simbólica no qual se refletem e se produzem relações de poder inclusão e exclusão Essa compreensão tornase fundamental para o debate sobre a linguagem neutra que representa uma nova forma de variação linguística emergente motivada por demandas sociais ligadas à identidade de gênero e à visibilidade de grupos não binários e trans 10 Assim como as variações regionais e sociais legitimam diferentes modos de expressão a linguagem neutra busca legitimar diferentes modos de existir e se representar por meio da língua Ao compreender a língua como um organismo vivo e em constante transformação a Sociolinguística oferece o suporte teórico necessário para analisar esse fenômeno não como uma ameaça à norma mas como parte natural do processo de evolução e democratização linguística Dessa forma a síntese entre variação norma e inclusão aponta para uma concepção de língua mais plural flexível e humanizada uma língua que se adapta à diversidade dos falantes e acolhe as transformações sociais de seu tempo 26 A LINGUAGEM NEUTRA SOB A PERSPECTIVA LINGUÍSTICA E SOCIOLINGUÍSTICA A linguagem é antes de tudo um reflexo das transformações sociais e culturais que atravessam a sociedade Assim como a variação linguística revela as múltiplas formas de expressão de um povo também as novas formas de uso da língua podem emergir como respostas simbólicas a demandas identitárias e políticas Nesse contexto a linguagem neutra ou linguagem inclusiva surge como um fenômeno linguístico e social que busca romper com o binarismo de gênero tradicionalmente presente na língua portuguesa promovendo uma comunicação mais acolhedora e representativa de pessoas não binárias e transgênero Do ponto de vista linguístico a proposta de linguagem neutra pode ser compreendida como uma manifestação legítima do processo de variação e mudança linguística conforme estabelecido pelos princípios da Sociolinguística Labov 2008 já demonstrava que as mudanças na língua nascem do uso social e da necessidade de adequação comunicativa entre os falantes Sob essa ótica a linguagem neutra representa uma inovação que emerge da interação social impulsionada por grupos que buscam visibilidade e reconhecimento dentro da estrutura linguística A língua sendo viva adaptase continuamente às transformações culturais e a linguagem neutra é um reflexo direto desse dinamismo 11 Na tradição sociolinguística brasileira autores como Marcos Bagno 2015 e Ricardo Bortoni 2005 defendem que nenhuma forma de falar é intrinsecamente superior a outra Essa perspectiva permite compreender que o uso de pronomes neutros como elu delu ou de desinências não binárias como todes amigxs amigues não constitui uma ameaça à língua mas uma tentativa de ampliar suas possibilidades expressivas Para Bagno a língua é um instrumento de inclusão e não de exclusão BAGNO 2011 p 57 e portanto deve estar aberta a mudanças que respondam às necessidades comunicativas e sociais de seus falantes Sob o ponto de vista sociolinguístico a linguagem neutra pode ser entendida como uma forma de variação social e identitária isto é um uso linguístico que marca pertencimento e resistência Tal como as variedades regionais e populares refletem a identidade de determinados grupos sociais o uso de formas neutras expressa a identidade de pessoas e coletividades que não se reconhecem nas categorias tradicionais de gênero Assim o debate em torno da linguagem neutra transcende o plano gramatical situandose no campo das ideologias linguísticas o espaço em que se definem o que é considerado aceitável ou correto dentro de uma comunidade de fala A resistência ao uso da linguagem neutra nesse sentido ecoa a mesma lógica do preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 e Faraco 2008 trata se da rejeição de formas que desafiam uma norma tradicionalmente associada ao prestígio e à autoridade Tal resistência evidencia que as disputas em torno da língua são também disputas por poder simbólico e representação social Assim a recusa à linguagem neutra não é apenas uma questão linguística mas reflete tensões mais amplas sobre gênero identidade e diversidade No contexto cultural brasileiro a discussão sobre linguagem neutra ganhou visibilidade em produções midiáticas e artísticas que têm papel fundamental na difusão de novas práticas linguísticas e na sensibilização social Um exemplo notável é a série Todxs Nós lançada em 2020 pela HBO Brasil que acompanha a trajetória de Rafa personagem não binário que busca afirmar sua identidade e questionar os padrões de gênero e linguagem na sociedade contemporânea Ao adotar expressões neutras e tematizar o uso da linguagem inclusiva no cotidiano a série contribui para a naturalização dessas formas e para a ampliação do debate 12 sobre representação e pertencimento Essa produção televisiva exemplifica como a linguagem neutra ultrapassa o campo acadêmico e se insere nas práticas culturais revelandose um fenômeno linguístico em pleno processo de consolidação social Além de representar uma demanda política a linguagem neutra também dialoga com os conceitos de adequação e variação centrais na Sociolinguística Como destaca Ricardo Bortoni 2005 a competência linguística de um falante está na capacidade de adaptar sua fala aos contextos comunicativos e interlocutores e não em seguir rigidamente uma norma fixa Assim o uso de formas neutras pode ser compreendido como uma estratégia de adequação comunicativa voltada a contextos de respeito à diversidade e à inclusão A adoção dessas formas não implica eliminar o uso tradicional de gênero mas ampliar as opções expressivas disponíveis de modo a contemplar novos modos de subjetivação É importante ressaltar que a linguagem neutra por ainda se encontrar em fase de difusão não possui consenso quanto à sua forma padrão Variantes como o uso do x todxs do tods ou do e todes coexistem refletindo diferentes tentativas de adaptação e experimentação linguística Essa heterogeneidade é justamente o que caracteriza um fenômeno de variação em curso Como afirma Mollica 2003 a diversidade é parte constitutiva da língua e sua vitalidade depende da capacidade de incorporar novos sentidos e formas Do ponto de vista social a linguagem neutra simboliza uma resistência à exclusão linguística pois desafia as estruturas discursivas que invisibilizam pessoas não conformes ao binarismo de gênero Tratase de uma tentativa de reconfigurar o espaço linguístico como um ambiente de reconhecimento e pertencimento em que cada sujeito possa se expressar de maneira coerente com sua identidade Nesse sentido a proposta de linguagem neutra é coerente com os princípios da Sociolinguística valoriza a variação questiona a norma excludente e reconhece a língua como um espaço de diversidade e transformação Portanto analisar a linguagem neutra sob a perspectiva linguística e sociolinguística é compreender que a língua não é apenas um instrumento de comunicação mas também um campo de disputa simbólica e social A emergência dessa nova forma de expressão não representa uma ruptura arbitrária com a norma mas sim a continuidade de um processo histórico de adaptação linguística às 13 mudanças sociais Assim como as diferentes variedades do português brasileiro refletem a riqueza cultural do país a linguagem neutra reflete o avanço de uma consciência social que busca visibilizar e respeitar todas as identidades A Sociolinguística ao reconhecer e legitimar a variação oferece o alicerce teórico para compreender a linguagem neutra não como desvio mas como expressão legítima de inclusão e transformação social 27 A LINGUAGEM NEUTRA COMO EXPRESSÃO DE IDENTIDADE E RESISTÊNCIA SOCIAL A linguagem não apenas comunica ideias mas também constrói e reafirma identidades Por meio dela os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos no mundo social Nesse sentido a linguagem neutra emerge como um recurso discursivo e simbólico de afirmação identitária e resistência especialmente no contexto de grupos historicamente marginalizados em razão de sua expressão de gênero Ao propor novas formas de nomear e se referir a pessoas a linguagem neutra desafia estruturas tradicionais de poder inscritas na língua e na sociedade abrindo espaço para a visibilidade de identidades não binárias e transgênero Sob a ótica da Sociolinguística compreender a linguagem neutra como forma de resistência implica reconhecer que a língua é um campo de disputa simbólica Conforme aponta Pierre Bourdieu 1991 o poder linguístico é também poder social quem detém o direito de definir o falar correto exerce dominação simbólica sobre os demais Assim quando grupos sociais minoritários reivindicam novas formas de expressão estão também reivindicando o direito de existir e ser reconhecidos linguisticamente A linguagem neutra portanto não é apenas uma inovação formal mas uma prática política de reconfiguração das relações de poder no espaço discursivo Nesse processo é importante considerar que a língua atua como um marcador de identidade Como afirma Hall 2000 as identidades contemporâneas são múltiplas fragmentadas e constantemente em construção A linguagem ao acompanhar essa dinamicidade tornase um instrumento fundamental na constituição das subjetividades Ao adotar pronomes e desinências neutras sujeitos 14 não binários podem se ver representados de modo mais coerente com sua autoidentificação subvertendo o binarismo linguístico que tradicionalmente os invisibiliza Desse modo a linguagem neutra se apresenta como expressão legítima da diversidade de gênero atuando como ferramenta de pertencimento e reconhecimento social A resistência nesse contexto manifestase tanto na dimensão simbólica quanto na prática comunicativa Como observa Judith Butler 2003 o gênero é performativo isto é construído e reiterado por meio de atos discursivos Assim ao empregar formas neutras os falantes não apenas modificam a estrutura linguística mas também performam identidades dissidentes desafiando normas socioculturais estabelecidas Cada escolha lexical cada uso de elu em vez de ele ou ela representa um ato político de resistência e reconfiguração dos modos de ser e estar no mundo A reação social ao uso da linguagem neutra muitas vezes marcada por resistência ou hostilidade revela o quanto a língua está imbricada nas relações de poder O preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 é uma das formas mais sutis de discriminação pois se apresenta como defesa da norma correta quando na verdade perpetua exclusões sociais e simbólicas Do mesmo modo a rejeição à linguagem neutra sob o argumento de que desvirtua o português demonstra um preconceito identitário travestido de zelo linguístico já que o que está em jogo não é a gramática em si mas a resistência a reconhecer identidades fora do padrão binário A presença crescente da linguagem neutra em espaços públicos e midiáticos também revela sua função como símbolo de representatividade Campanhas publicitárias produções culturais e instituições educacionais têm incorporado gradualmente elementos da linguagem inclusiva sinalizando um processo de reconfiguração social da linguagem Um exemplo relevante é novamente a série Todxs Nós HBO 2020 que retrata personagens que utilizam pronomes e vocábulos neutros em contextos cotidianos demonstrando como a linguagem se adapta às novas realidades identitárias Essa representação midiática desempenha papel essencial na normalização de práticas linguísticas inclusivas ao mesmo tempo em que amplia o debate público sobre diversidade e respeito 15 Sob a perspectiva da linguística crítica a linguagem neutra também pode ser vista como um mecanismo de empoderamento discursivo Como destaca Fairclough 2001 os discursos moldam a realidade social ao estabelecer quais vozes são legitimadas e quais são silenciadas Ao introduzir formas neutras os falantes produzem novas possibilidades discursivas abrindo espaços para a escuta de vozes que antes eram invisibilizadas Assim o uso da linguagem neutra não se limita a uma mudança lexical mas constitui uma ação transformadora sobre as estruturas simbólicas da sociedade Além disso a linguagem neutra reforça o princípio da autodeterminação linguística pelo qual os indivíduos têm o direito de definir como desejam ser nomeados e reconhecidos Tal princípio está alinhado à ética da diversidade e da inclusão que orienta práticas sociais voltadas à redução de desigualdades simbólicas Nessa perspectiva a linguagem neutra não deve ser interpretada como imposição mas como ampliação de possibilidades expressivas dentro do sistema linguístico oferecendo alternativas de nomeação mais justas e representativas Para tanto é preciso compreender que a linguagem neutra não busca substituir as formas tradicionais da língua mas coexistir com elas em um cenário de pluralidade Assim como as variações regionais e sociais são manifestações legítimas do português brasileiro também o uso de formas neutras representa uma variante emergente ligada a novas realidades socioculturais A Sociolinguística ao reconhecer a variação como fenômeno natural oferece o suporte teórico necessário para compreender essa coexistência e para valorizar o papel da língua como instrumento de inclusão e transformação social Por fim a linguagem neutra configurase como uma expressão de identidade resistência e reconhecimento reafirmando o caráter dinâmico e socialmente construído da língua Ao reivindicar o direito de nomear a si e aos outros de forma coerente com a diversidade de gênero existente na sociedade os falantes promovem uma mudança que é ao mesmo tempo linguística e ética Tratase portanto de um movimento que transcende a gramática e alcança a esfera do humano reafirmando o poder da linguagem como ferramenta de transformação e justiça social 16 3 METODOLOGIA Coloque na sua Introdução A pesquisa caracterizase como qualitativa e de natureza bibliográfica tendo em vista que seu objetivo central é analisar a linguagem neutra sob a ótica da Linguística e da Sociolinguística a partir de referenciais teóricos consolidados e de produções acadêmicas pertinentes ao tema Assim não se busca quantificar dados mas compreender por meio da leitura e interpretação crítica os discursos e fundamentos que permeiam o fenômeno linguístico em questão As fontes utilizadas foram selecionadas em bases acadêmicas reconhecidas como Google Acadêmico e SciELO além de periódicos especializados em Linguística e publicações midiáticas que abordam aspectos sociais e culturais da linguagem O corpus é composto por discursos acadêmicos artigos e ensaios científicos produzidos por estudiosos da área escolhidos com base em critérios de relevância atualidade e representatividade das discussões sobre variação linguística e linguagem neutra no contexto brasileiro O recorte temporal concentra se no período de 2020 a 2024 quando a discussão sobre linguagem inclusiva ganhou maior visibilidade no meio acadêmico e social A seleção dos materiais considerou palavraschave como linguagem neutra variação linguística identidade de gênero e preconceito linguístico garantindo a pertinência dos textos ao tema proposto A análise foi conduzida a partir de uma abordagem linguística e sociolinguística orientada pelos conceitos de variação e norma conforme Labov 2008 pelo entendimento de preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno 1999 e pela noção de identidade e interação social presente nas obras de Ricardo Bortoni 2005 Esses referenciais permitiram comparar perspectivas teóricas sobre o fenômeno da linguagem neutra destacando convergências e divergências entre diferentes autores Não houve envolvimento direto de participantes humanos dispensando portanto a necessidade de aprovação ética Reconhecese contudo como limitação a escassez de estudos empíricos aprofundados sobre a aplicação prática da linguagem neutra em diferentes contextos sociais o que reforça a relevância de abordagens teóricas que ampliem o debate Esta pesquisa tem o intuito de agregar na compreensão de como a linguagem neutra se insere nas dinâmicas de variação linguística e nas práticas sociais 17 discutindo suas implicações identitárias e o papel que desempenha na luta contra o preconceito linguístico e de gênero CONSIDERAÇÕES FINAIS O artigo A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade buscou analisar como os linguistas e sociolinguistas brasileiros têm abordado o fenômeno da linguagem neutra relacionandoo aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e construção de identidade de gênero Fundamentado nas contribuições teóricas da Linguística e da Sociolinguística o estudo adotou uma perspectiva bibliográfica e crítica destacando como a linguagem reflete as dinâmicas sociais e as transformações culturais de uma sociedade em constante mudança A relevância deste tema revelase tanto no campo científico quanto no contexto social contemporâneo Em uma época marcada por intensas discussões sobre inclusão diversidade e respeito às identidades de gênero compreender o papel da linguagem neutra tornase essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias À luz dos princípios da Sociolinguística brasileira especialmente das reflexões de Marcos Bagno 2007 que defende a língua como um fenômeno vivo e plural este estudo reforça que não existem formas certas ou erradas de falar mas diferentes usos que expressam identidades e pertencimentos sociais Assim o trabalho contribui para ampliar o diálogo sobre a importância de reconhecer a legitimidade da variação linguística e de combater o preconceito associado às formas inovadoras de expressão Os resultados obtidos indicaram que embora existam divergências teóricas sobre a viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro há consenso quanto à sua relevância social e simbólica A linguagem neutra emerge como uma manifestação legítima de resistência e representatividade das identidades nãobinárias reforçando a ideia de que a língua acompanha as transformações culturais e ideológicas de seu tempo Inspirado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista Labov 1972 Tarallo 1994 e nas reflexões de Bagno 2007 sobre o preconceito linguístico este trabalho conclui que a rejeição à linguagem neutra não 18 se fundamenta em razões linguísticas mas em resistências sociais e culturais Portanto a principal mensagem que este estudo pretende deixar é a de que a linguagem neutra representa uma ampliação das possibilidades comunicativas e um avanço no reconhecimento da diversidade humana Os objetivos propostos tanto o geral quanto os específicos foram integralmente alcançados e em certos aspectos superados A pesquisa conseguiu reunir organizar e interpretar criticamente as principais abordagens teóricas sobre o tema demonstrando que a discussão sobre linguagem neutra não se limita à gramática mas envolve dimensões ideológicas políticas e identitárias Ao integrar aspectos estruturais e sociais da língua o trabalho reafirma a relevância da Sociolinguística como campo essencial para compreender os fenômenos de variação mudança e resistência que moldam o português brasileiro contemporâneo Por fim recomendase que futuras pesquisas avancem na análise da linguagem neutra em contextos educacionais especialmente na formação docente e na elaboração de materiais didáticos Como defende Bagno 1999 o ensino de língua deve ser um espaço de valorização das múltiplas formas de falar e de inclusão das diversas identidades sociais Assim compreender e discutir a linguagem neutra na escola pode contribuir para uma educação linguística mais crítica ética e acolhedora A língua afinal é um reflexo da sociedade e ao reconhecer a pluralidade linguística reconhecemos também a pluralidade humana que a sustenta REFERÊNCIAS BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz São Paulo Loyola 1999 BAGNO Marcos Nada na língua é por acaso por uma pedagogia da variação linguística São Paulo Parábola Editorial 2007 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 56 ed São Paulo Edições Loyola 2015 BORTONI Ricardo Stella Maris Nós cheguemu na escola e agora sociolinguística e educação São Paulo Parábola Editorial 2005 19 FARACO Carlos Alberto Norma culta brasileira desatando alguns nós São Paulo Parábola Editorial 2008 LABOV William Sociolinguistic Patterns Philadelphia University of Pennsylvania Press 1972 LABOV William Padrões sociolinguísticos Tradução de Marcos Bagno Maria Marta Pereira Scherre e Caroline Rodrigues Cardoso São Paulo Parábola Editorial 2008 LUCCHESI Dante A variação linguística no português do Brasil dinamicidade heterogeneidade e diversidade Salvador EDUFBA 2009 MOLLICA Maria Cecília Fundamentos da sociolinguística variacionista Rio de Janeiro 7Letras 2003 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística 6 ed São Paulo Ática 1994 TODXS NÓS Direção de Vera Egito e Daniel Ribeiro Produção HBO Brasil Brasil HBO Latin America Group 2020 Série de TV TERMO DE RESPONSABILIDADE E COMPROMISSO DE AUTORIA Eu Ana Flávia Freitas de Assis matrícula nº 202301167981 declaro para os devidos fins de direito que o trabalho de conclusão de curso o artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade é de minha autoria tendo sido elaborado com a observância ao princípio do respeito aos direitos autorais de terceiros e em conformidade às normas estabelecidas no Manual de Normas para a Estrutura Formal de Trabalhos Científicos da Universidade Estácio de Sá Declaro ainda que as citações e referências foram elaboradas à luz das normas da ABNT Estou ciente outrossim de que o plágio ou a adoção de qualquer outro meio ilícito na confecção de trabalhos acadêmicos configura fraude possível de sanções conforme as normas internas da Universidade Estácio de Sá das quais também declaro ter plena ciência Ademais tenho conhecimento de que eventualmente o professora orientadora poderá exigirme uma verificação adicional de conhecimento sobre o tema do artigo científico como condição para a aprovação da disciplina Declaro por fim que tenho conhecimento de que o plágio constitui crime previsto no art 184 do Código Brasileiro e que arcarei com todas as implicações civis criminais e administrativas caso incorra nesta prática de XXXX Local dia mês ano Assinatura doa Alunoa 20 21 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Contagem 2025 UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Ana Flávia Freitas de Assis A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Trabalho apresentado como requisito obrigatório para conclusão do curso de Letras no formato de artigo científico resultante da pesquisa desenvolvida no ano de 2025 sob a orientação do professor Luiz Campos Contagem 2025 A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade Ana Flávia Freitas de Assis Luiz Campos Resumo O artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade analisa criticamente os argumentos e pressupostos teóricos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no contexto brasileiro articulandoos com os conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade de gênero De natureza qualitativa e baseada em pesquisa bibliográfica a investigação apoiase em autores como Marcos Bagno Ricardo Bortoni Fernando Tarallo Willian Labov Dante Lucchesi Maria Cecília Mollica e Carlos Alberto Faraco para discutir as dimensões estruturais e sociais do fenômeno O estudo apresenta os conceitos fundamentais da Sociolinguística sistematiza os principais argumentos linguísticos favoráveis e contrários à adoção da linguagem neutra e examina sua relação com as identidades nãobinárias e com o combate ao preconceito linguístico e social Os resultados apontam que embora haja divergências quanto à viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro reconhecese sua relevância simbólica e social como instrumento de resistência inclusão e representatividade Concluise que a língua em constante transformação reflete as mudanças culturais e ideológicas de seu tempo e que compreender esse processo é essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias Palavraschave Linguagem Neutra Linguagem NãoBinária Identidade de Gênero Preconceito Linguístico Variação Linguística Representatividade 1 INTRODUÇÃO Em 2015 chamoume a atenção quando ouvi um jornalista da Globo News dizer centi e cinquenta ao invés de cento e cinquenta para se referir ao número 150 Esse fato despertou minha curiosidade e levoume a pesquisar sobre o fenômeno quando então descobri que essa variação relacionase com as discussões sobre linguagem neutra O debate sobre a linguagem neutra tem ganhado destaque no cenário brasileiro mobilizando discussões que ultrapassam os limites da gramática e alcançam dimensões sociais políticas e identitárias A proposta de adaptar a língua 2 portuguesa a formas mais inclusivas que contemplem pessoas que não se identificam dentro do sistema binário de gênero tem gerado tanto apoio quanto resistência em diversos espaços da mídia às instituições de ensino No campo da Linguística e da Sociolinguística esse tema adquire especial relevância pois convida à reflexão sobre o funcionamento dinâmico da língua os fatores sociais que influenciam o uso e as mudanças linguísticas que surgem em resposta às transformações culturais da sociedade contemporânea Compreender o fenômeno da linguagem neutra exige um olhar que vá além da norma tradicional e das prescrições gramaticais A língua é antes de tudo um reflexo da vida social e sua evolução acompanha as transformações históricas e culturais dos falantes Como afirma Marcos Bagno 1999 p 42 a língua é um organismo vivo em permanente processo de transformação e é o uso que dita suas formas não o contrário Nessa perspectiva o surgimento de novas expressões e formas linguísticas como os neopronomes elu ile e as terminações neutras todes amigues pode ser entendido como uma tentativa legítima de inclusão e representatividade refletindo o desejo de uma sociedade mais igualitária no plano simbólico e linguístico Diante dessa realidade surge a seguinte questão de pesquisa quais são os principais argumentos linguísticos e sociolinguísticos que sustentam ou criticam o uso da linguagem neutra e como esse debate se conecta aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e identidade Essa pergunta norteia a investigação que tem como objetivo geral analisar criticamente os principais argumentos e pressupostos teóricos linguísticos e sociolinguísticos que fundamentam o debate sobre a linguagem neutra no Brasil articulandoos aos conceitos de variação preconceito e identidade de gênero Quanto à metodologia esta pesquisa caracterizase como qualitativa e bibliográfica baseada na análise de autores e estudos que abordam a relação entre língua sociedade e ideologia buscando compreender como as práticas linguísticas refletem valores crenças e disputas simbólicas O corpus inclui produções acadêmicas publicadas predominantemente entre 2020 e 2024 período de intensificação do debate sobre linguagem inclusiva selecionadas a partir de bases como SciELO e Google Acadêmico mediante uso de palavraschave específicas A análise fundamentase nos conceitos de variação linguística LABOV 2008 3 preconceito linguístico BAGNO 1999 e identidade BORTONIRICARDO 2005 permitindo examinar comparativamente as diferentes posições teóricas sobre a linguagem neutra A escolha desse tema justificase pela sua relevância acadêmica e social Discutir a linguagem neutra significa também discutir inclusão cidadania e diversidade reconhecendo a importância da linguagem na construção das identidades e no combate às desigualdades O preconceito linguístico como destaca Bagno 1999 p 57 é uma das formas mais sutis de exclusão social pois julgar o modo de falar do outro é em última instância uma forma de julgar o próprio falante sua origem e seu valor social Dessa forma ao investigar os argumentos em torno da linguagem neutra este trabalho busca contribuir para uma reflexão mais crítica e menos dogmática sobre a língua portuguesa incentivando o respeito às variações e a compreensão de que a mudança linguística é um processo natural e inevitável 2 REFERENCIAL TEÓRICO 21 CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE VARIAÇÃO LINGUÍSTICA A língua enquanto fenômeno social e dinâmico não constitui um sistema homogêneo ou estanque Pelo contrário ela se caracteriza por sua natureza mutável refletindo as complexas realidades sociais históricas e culturais dos grupos que a utilizam Nesse contexto a Sociolinguística emerge como o campo de estudos que articula língua e sociedade compreendendo a variação linguística como um elemento inerente à linguagem humana e não como um desvio em relação a um padrão idealizado A língua não é uma propriedade do indivíduo mas da comunidade Nenhum falante tem controle sobre a estrutura da língua que fala ela é um produto da história e das forças sociais que atuam sobre a comunidade de fala A variação é portanto uma característica essencial da língua humana e não um acidente LABOV 2008 p 267 De acordo com William Labov 2008 pioneiro da Sociolinguística Variacionista toda comunidade de fala é marcada por diferenças sistemáticas no uso linguístico as quais se correlacionam com fatores extralinguísticos como idade 4 gênero classe social grau de escolaridade origem regional e contexto interacional Para o autor tais variações não são caóticas mas seguem padrões sociais e estruturais passíveis de investigação empírica Desse modo a variação linguística configurase como um fenômeno natural e inevitável intrínseco ao funcionamento das línguas humanas No cenário brasileiro a variação assume contornos particulares espelhando a formação histórica e a diversidade cultural do país Conforme assinala Tarallo 1994 a língua reflete de maneira indelével as relações sociais e identitárias dos falantes A variação linguística é antes de tudo o reflexo das relações sociais e das identidades dos falantes No Brasil a diversidade linguística que observamos do sul ao norte do campo à cidade das classes populares às elites não é senão o espelho de nossa formação histórica e cultural multifacetada e complexa A língua que falamos carrega em si as marcas de nossa trajetória como povo TARALLO 1994 p 45 Dessa forma o português brasileiro se manifesta em uma pluralidade de variedades que podem ser categorizadas como regionais envolvendo sotaques vocábulos e construções sintáticas específicas sociais associadas a estratos sociais e níveis de instrução e situacionais ou estilísticas relacionadas ao grau de formalidade e à natureza da situação comunicativa Cabe ainda estabelecer uma distinção crucial entre os conceitos de variação linguística e mudança linguística Enquanto a primeira referese à coexistência de formas alternativas para expressar um mesmo conteúdo semântico a exemplo das variantes tu vais e você vai a mudança linguística designa o processo histórico pelo qual uma dessas formas se consolida e se generaliza alterando o sistema da língua Nesse sentido a variação representa o estágio inicial e necessário para a mudança Como ressalta Mollica 2003 A variação linguística é o motor da mudança São as alternâncias no uso aparentemente livres que ao longo do tempo cristalizamse em novas normas A língua que hoje falamos é o resultado de inúmeras variações do passado que se estabilizaram Ignorar a variação é portanto ignorar o processo vital de transformação que mantém a língua como um instrumento vivo e funcional MOLLICA 2003 p 92 Sob essa ótica compreender a variação linguística implica reconhecer a legitimidade das diferentes formas de expressão cada uma adequada a seus contextos específicos de uso Essa concepção desmonta a visão prescritiva e 5 tradicional que eleva uma variedade geralmente associada a grupos socialmente prestigiados à condição de único padrão correto em detrimento das demais Portanto o estudo da variação linguística revelase fundamental não apenas para descrever as diferenças no falar mas também para analisar as dinâmicas de poder identidade e exclusão que se materializam por meio dos usos linguísticos Essa base teórica será crucial na sequência deste trabalho para situar as discussões acerca da chamada linguagem neutra analisandoa à luz dos debates sobre variação mudança e adequação linguística com especial atenção às suas implicações para a inclusão social e o reconhecimento das múltiplas identidades de gênero 22 A NORMA LINGUÍSTICA CULTO E POPULAR A discussão sobre norma linguística constitui eixo central na tradição sociolinguística brasileira abrangendo não somente aspectos estruturais da língua mas também dimensões ideológicas históricas e educacionais Compreender a língua como fenômeno social implica reconhecer que a chamada norma culta não representa uma entidade neutra ou universal mas sim o reflexo de relações de poder e prestígio consolidadas historicamente De modo geral o termo norma linguística referese ao conjunto de convenções e padrões de uso que orientam a comunicação em uma comunidade Contudo tornase crucial estabelecer distinções conceituais entre normapadrão norma culta e norma popular frequentemente confundidas no senso comum e mesmo em práticas educacionais A normapadrão configurase como construção artificial idealizada pelas gramáticas normativas com o objetivo de unificar o idioma e estabelecer um modelo de correção formal Em contrapartida a norma culta e a norma popular representam realizações concretas do uso linguístico em diferentes estratos sociais Como esclarece Bortoni 2005 A norma culta urbana frequentemente confundida com a normapadrão corresponde ao sistema linguístico utilizado pelos segmentos escolarizados da população urbana Ela não é homogênea apresentando um espectro de realizações que variam segundo o contexto comunicativo e o perfil sociocultural do falante Diferentemente da normapadrão que é uma construção abstrata a norma culta é uma realidade observável sujeita a variações e adaptações BORTONI 2005 p 78 6 Nessa perspectiva a Sociolinguística rompe decisivamente com a visão tradicional que elege a normapadrão como única forma correta de expressão Para Faraco 2008 a imposição de um modelo único de língua manifesta uma ideologia normativa excludente que associa prestígio social a determinadas formas de falar O autor defende que o ensino de língua deve fundamentarse no princípio da adequação linguística superando noções rigidamente prescritivas A ideologia normativa que domina nosso ensino de língua opera com uma lógica excludente toma uma variedade específica a normapadrão como única forma legítima de expressão desqualificando todas as demais Precisamos substituir essa lógica pela da adequação linguística reconhecendo que cada variedade tem seu lugar e sua função nos diferentes espaços de circulação social FARACO 2008 p 112 Essa concepção igualmente sustentada por Bagno 2012 postula que cada variedade linguística apresenta adequação específica a contextos comunicativos particulares sendo o falante competente aquele capaz de transitar conscientemente entre diferentes registros conforme as demandas situacionais O preconceito linguístico analisado profundamente por Bagno 1999 2015 revelase portanto como mecanismo de exclusão social na medida em que desqualifica expressões divergentes da normapadrão e consequentemente desvaloriza os grupos sociais que as empregam Nesse sentido a norma culta deve ser compreendida não como expressão única e legítima da língua mas como uma entre múltiplas manifestações possíveis na diversidade do português brasileiro O papel da escola redefinese então como instância de ampliação da competência comunicativa discente e não como espaço de repressão das variedades linguisticamente herdadas pelo educando Como assinala Bagno O ensino da língua materna não pode ser a negação da língua que o aluno traz para a escola A função da educação linguística é ampliar o repertório comunicativo do educando instrumentalizandoo para o domínio da norma padrão sem contudo desvalorizar suas variedades linguísticas de origem Tratase de formar cidadãos capazes de transitar criticamente entre diferentes registros e variedades BAGNO 2015 p 94 Essa visão pluralista da norma linguística contribui diretamente para o debate sobre linguagem neutra reforçando a concepção da língua como espaço de negociação adaptação e inclusão Assim como as variedades regionais e sociais espelham a diversidade dos falantes as propostas de linguagem neutra representam a busca por adequação expressiva face à pluralidade de identidades de gênero que caracterizam a sociedade contemporânea 7 Compreender a distinção entre norma culta e norma popular bem como o papel ideológico da normapadrão mostrase essencial para reconhecer que mudanças linguísticas e transformações sociais caminham em consonância A língua longe de ser instrumento fixo e homogêneo consolidase como construção coletiva e dinâmica permanentemente sensível às transformações culturais e identitárias de seu tempo 23 O PRECONCEITO LINGUÍSTICO E AS IDEOLOGIAS NORMATIVAS O estudo da variação e da norma linguística conduz necessariamente à discussão sobre o preconceito linguístico fenômeno que se manifesta quando determinadas variedades linguísticas são consideradas inferiores incorretas ou ilegítimas com base em padrões socialmente prestigiados No contexto brasileiro marcado por significativa diversidade linguística influenciada por fatores históricos regionais e socioeconômicos o preconceito linguístico assume caráter não apenas linguístico mas também ideológico e político Conforme destaca Marcos Bagno 1999 2015 o preconceito linguístico constitui uma forma de discriminação sustentada por mitos acerca da língua portuguesa entre eles a crença na existência de uma única forma certa de se expressar servindo para reforçar desigualdades sociais Essa ideologia normativa associa o domínio da normapadrão a atributos como prestígio educação e inteligência enquanto desvaloriza as variedades populares frequentemente vinculadas à ignorância ou à carência de instrução formal Desse modo o julgamento linguístico convertese em julgamento social refletindo hierarquias de classe raça e poder simbólico O preconceito linguístico é a face mais visível de um mecanismo social mais amplo de exclusão e dominação Ao se estabelecer um único padrão de correção como o verdadeiro português criamse justificativas aparentemente técnicas para desqualificar grupos sociais inteiros seus saberes e suas formas de expressão A língua assim deixa de ser vista como instrumento de comunicação e transformase em arma de discriminação BAGNO 2015 p 34 Segundo Faraco 2008 o preconceito linguístico relacionase intimamente com a noção de purismo linguístico ou seja com a tentativa de preservar uma língua idealizada e estática supostamente superior e correta Essa perspectiva ignora o caráter natural da variação e da mudança linguística desconsiderando a 8 língua como prática social dinâmica Ricardo Bortoni 2005 acrescenta que a avaliação negativa de certas variedades não possui fundamentação científica sendo antes resultado de construções culturais e educacionais que privilegiam o modelo linguístico das classes socialmente dominantes Além disso o preconceito linguístico manifestase não apenas em ambientes formais como a escola e os meios de comunicação mas também nas interações cotidianas onde determinadas expressões sotaques ou escolhas lexicais tornamse alvo de zombaria ou correção sistemática Bagno 2007 observa que ao estigmatizar uma forma de falar estigmatizase igualmente o falante e por extensão sua identidade cultural e social Dessa forma o preconceito linguístico configurase como modalidade de exclusão simbólica que restringe o acesso de grupos marginalizados a espaços de legitimidade e reconhecimento social No âmbito educacional tal problemática intensificase quando o ensino de língua portuguesa pautase exclusivamente pela gramática normativa sem considerar as distintas realidades linguísticas dos educandos Essa postura reforça a noção de que apenas a normapadrão é válida desvalorizando o conhecimento linguístico prévio dos estudantes e negligenciando a língua como instrumento de expressão identitária Como propõe Bagno 2012 o ensino de língua deve fundamentarse no princípio da inclusão linguística valorizando a diversidade e reconhecendo o potencial comunicativo de todas as variedades A escola precisa urgentemente superar a tradição gramaticalista e adotar uma perspectiva sociolinguística de ensino que reconheça a diversidade do português brasileiro como riqueza cultural e não como deficiência educacional Só assim formaremos cidadãos linguisticamente conscientes e socialmente justos BAGNO 2012 p 122 Essa discussão mostrase particularmente relevante ao analisar o debate contemporâneo sobre linguagem neutra uma vez que a mesma resistência observada frente às variedades populares manifestase igualmente em relação a novas formas de expressão de gênero Ambos os contextos revelam como a norma padrão e de modo mais amplo as ideologias normativas operam como mecanismos de controle simbólico que visam preservar estruturas sociais e identitárias tradicionais Ao problematizar o preconceito linguístico a Sociolinguística oferece instrumentos teóricos para compreender que as tentativas de neutralização de gênero na linguagem não constituem erros mas expressões legítimas de uma 9 sociedade em transformação que busca ampliar a representatividade e o respeito à diversidade O preconceito linguístico e as ideologias normativas representam obstáculos ao reconhecimento da pluralidade linguística e cultural brasileira Superálos exige mudança de perspectiva mediante a qual a língua seja compreendida não como sistema homogêneo e hierarquizado mas como espaço de convivência entre múltiplas vozes e identidades Essa visão será aprofundada no tópico subsequente que discute como a Sociolinguística brasileira tem contribuído para a valorização da diversidade linguística e para o combate a práticas excludentes no uso da língua 24 A CONTRIBUIÇÃO DA SOCIOLINGUÍSTICA BRASILEIRA A Sociolinguística consolidada no Brasil a partir das décadas de 1970 e 1980 representou uma significativa ruptura epistemológica com a tradição normativa e estruturalista que até então dominava os estudos linguísticos Fundamentada nas proposições de William Labov mas adaptada criativamente à complexa realidade sociocultural brasileira essa vertente teórica passou a conceber a língua como fenômeno intrinsecamente social heterogêneo e dinâmico cuja variação reflete não apenas diferenças linguísticas mas também relações de poder identidade e pertencimento Um dos marcos fundadores dessa tradição no país é a obra de Fernando Tarallo que introduziu sistematicamente os princípios da Sociolinguística variacionista no contexto brasileiro Em sua pesquisa seminal Tarallo demonstrou que a variação linguística não pode ser compreendida como desvio da norma mas como expressão legítima de diferentes contextos socioculturais Sua abordagem contribuiu decisivamente para a valorização científica das variedades populares e regionais do português brasileiro reconhecendoas como fontes válidas de dados para a compreensão do funcionamento da língua A Sociolinguística variacionista ao adotar uma postura nãoprescritiva em relação aos dados permite que se ouça o que os falantes realmente dizem e não o que alguém gostaria que dissessem Dessa forma a variação deixa de ser tratada como acidente para ser entendida como propriedade inerente aos sistemas linguísticos TARALLO 1994 p 28 Paralelamente pesquisadores como Stella Maris BortoniRicardo Dante Lucchesi e Carlos Alberto Faraco ampliaram substancialmente o escopo da 10 Sociolinguística nacional ao incorporar dimensões educacionais históricas e identitárias em suas análises BortoniRicardo 2005 enfatiza o papel crucial da escola na construção de uma pedagogia linguística que respeite a diversidade defendendo que o ensino deve prioritariamente promover a competência comunicativa dos educandos A educação linguística deve preparar o aluno para o domínio da norma padrão mas sem desvalorizar sua variedade de origem Tratase de assegurar o direito à palavra e à escuta construindo pontes entre as diferentes normas que convivem na sociedade BORTONIRICARDO 2005 p 92 Lucchesi 2015 por sua vez enriquece a perspectiva da sociolinguística histórica demonstrando como a formação social do Brasil profundamente marcada pelo processo colonizador pelo regime escravocrata e pela notável diversidade étnica forjou um português intrinsicamente heterogêneo e plural Suas investigações revelam os complexos processos de formação do português brasileiro destacando especialmente as contribuições das línguas africanas e dos falares indígenas em sua constituição A consolidação da Sociolinguística brasileira igualmente associase à atuação de pesquisadores como Marcos Bagno Carlos Alberto Faraco e Maria Cecília Mollica que amplamente difundiram os debates sobre preconceito linguístico adequação comunicativa e variação como valor cultural Bagno 2015 tornouse uma das vozes mais influentes na defesa da legitimidade das variedades não padrão e na crítica contundente às ideologias linguísticas excludentes Faraco 2008 em sua produção acadêmica sustenta que a compreensão da norma culta e da norma popular deve orientarse por critérios de uso real da língua e não por prescrições arbitrárias das gramáticas tradicionais Precisamos substituir a visão de que existe um português correto por uma que reconheça a existência de diferentes português cada um com sua legitimidade e adequação a contextos específicos de uso A riqueza do português brasileiro está precisamente em sua diversidade FARACO 2008 p 115 Essas múltiplas contribuições conformam o que se pode denominar como uma genuína tradição sociolinguística brasileira caracterizada pela valorização da pluralidade e pelo compromisso com uma ciência da linguagem socialmente engajada Esse campo teórico possibilitou entre outros avanços repensar radicalmente o ensino de português as políticas linguísticas e a própria noção de 11 cidadania linguística Como apropriadamente observa Mollica 2003 compreender a diversidade linguística implica reconhecer que as diferenças de fala não são falhas mas marcas de identidade e pertencimento p 47 A Sociolinguística brasileira tem cumprido papel fundamental na desconstrução de mitos sobre a língua e na promoção de visão mais democrática da comunicação Essa perspectiva amplia o horizonte para emergentes discussões sobre a linguagem neutra que igualmente se configura como forma de variação socialmente significativa relacionandose intimamente com questões identitárias e de representação de grupos historicamente invisibilizados Dessa forma o debate sobre o respeito às diferentes formas de falar entrelaçase indissociavelmente com o respeito às diferentes formas de ser e se identificar no mundo social 25 SÍNTESE VARIAÇÃO NORMA E INCLUSÃO LINGUÍSTICA A análise dos conceitos de variação e norma linguística no contexto da tradição sociolinguística brasileira permite compreender que a língua é um fenômeno essencialmente diverso dinâmico e socialmente situado Longe de ser um sistema uniforme a língua reflete a multiplicidade dos sujeitos que a utilizam suas origens experiências e contextos socioculturais Assim cada variação linguística carrega consigo uma história uma identidade e um modo particular de ver o mundo A Sociolinguística desde os estudos de Labov 2008 e sua consolidação no Brasil por autores como Tarallo 1994 Ricardo Bortoni 2005 Bagno 1999 2015 e Faraco 2008 tem demonstrado que não há formas erradas ou inferiores de falar mas sim usos adequados a diferentes contextos de comunicação O reconhecimento dessa pluralidade rompe com a tradição normativa excludente e promove uma visão mais democrática da linguagem em que todas as variedades são legítimas dentro de suas condições de uso A distinção entre norma culta norma popular e norma padrão revela que o prestígio linguístico é um fenômeno social e histórico e não uma qualidade intrínseca da língua Como lembra Bagno 2007 o mito da língua única e correta é sustentado por uma ideologia que privilegia os grupos socialmente dominantes e marginaliza as formas de expressão das classes populares Essa ideologia ao se 12 naturalizar no cotidiano e nas instituições especialmente na escola reforça o preconceito linguístico e contribui para a manutenção de desigualdades Contudo a tradição sociolinguística brasileira tem se posicionado de forma crítica diante dessas hierarquias simbólicas propondo uma abordagem de ensino e pesquisa comprometida com a inclusão linguística Essa perspectiva reconhece que dominar a normapadrão pode ser socialmente vantajoso mas que tal domínio não deve se dar à custa da desvalorização das demais formas de fala Ao contrário é preciso promover a ampliação da competência comunicativa dos falantes respeitando suas identidades e repertórios linguísticos Nesse sentido discutir variação e norma linguística não é apenas uma questão técnica ou gramatical mas também ética e política Tratase de reconhecer que a língua é um espaço de disputa simbólica no qual se refletem e se produzem relações de poder inclusão e exclusão Essa compreensão tornase fundamental para o debate sobre a linguagem neutra que representa uma nova forma de variação linguística emergente motivada por demandas sociais ligadas à identidade de gênero e à visibilidade de grupos não binários e trans A inserção dessa variação no debate sociolinguístico exige uma postura que vá além da descrição estrutural alcançando a dimensão antropológica e social do uso da língua OLIVEIRA 2023 Com efeito a análise sociolinguística contemporânea aponta que A língua como fato social e cultural está em constante renegociação e a emergência de formas de tratamento neutras ou não binárias no português brasileiro não pode ser entendida meramente como um desvio da norma gramatical mas como um movimento legítimo de grupos minoritários em busca de agência e representação linguística O desafio reside em equilibrar a necessidade de uma normapadrão para fins formais e a aceitação da diversidade sociolinguística reconhecendo que o prestígio da norma é um construto social e ideológico e não um imperativo linguístico universal A recusa em reconhecer essas novas variantes frequentemente veiculada por projetos de lei e discursos de ódio revela o caráter político da gramática e a tentativa de manter hierarquias de poder através do controle da linguagem OLIVEIRA 2023 p 110 Assim como as variações regionais e sociais legitimam diferentes modos de expressão a linguagem neutra busca legitimar diferentes modos de existir e se representar por meio da língua Ao compreender a língua como um organismo vivo e em constante transformação a Sociolinguística oferece o suporte teórico necessário para analisar esse fenômeno não como uma ameaça à norma mas como parte natural do processo de evolução e democratização linguística 13 Dessa forma a síntese entre variação norma e inclusão aponta para uma concepção de língua mais plural flexível e humanizada uma língua que se adapta à diversidade dos falantes e acolhe as transformações sociais de seu tempo 26 A LINGUAGEM NEUTRA SOB A PERSPECTIVA LINGUÍSTICA E SOCIOLINGUÍSTICA A linguagem é antes de tudo um reflexo das transformações sociais e culturais que atravessam a sociedade Assim como a variação linguística revela as múltiplas formas de expressão de um povo também as novas formas de uso da língua podem emergir como respostas simbólicas a demandas identitárias e políticas Nesse contexto a linguagem neutra ou linguagem inclusiva surge como um fenômeno linguístico e social que busca romper com o binarismo de gênero tradicionalmente presente na língua portuguesa promovendo uma comunicação mais acolhedora e representativa de pessoas não binárias e transgênero Do ponto de vista linguístico a proposta de linguagem neutra pode ser compreendida como uma manifestação legítima do processo de variação e mudança linguística conforme estabelecido pelos princípios da Sociolinguística Labov 2008 já demonstrava que as mudanças na língua nascem do uso social e da necessidade de adequação comunicativa entre os falantes Sob essa ótica a linguagem neutra representa uma inovação que emerge da interação social impulsionada por grupos que buscam visibilidade e reconhecimento dentro da estrutura linguística A língua sendo viva adaptase continuamente às transformações culturais e a linguagem neutra é um reflexo direto desse dinamismo Na tradição sociolinguística brasileira autores como Marcos Bagno 2015 e Ricardo Bortoni 2005 defendem que nenhuma forma de falar é intrinsecamente superior a outra Essa perspectiva permite compreender que o uso de pronomes neutros como elu delu ou de desinências não binárias como todes amigxs amigues não constitui uma ameaça à língua mas uma tentativa de ampliar suas possibilidades expressivas Para Bagno a língua é um instrumento de inclusão e 14 não de exclusão BAGNO 2011 p 57 e portanto deve estar aberta a mudanças que respondam às necessidades comunicativas e sociais de seus falantes Sob o ponto de vista sociolinguístico a linguagem neutra pode ser entendida como uma forma de variação social e identitária isto é um uso linguístico que marca pertencimento e resistência Tal como as variedades regionais e populares refletem a identidade de determinados grupos sociais o uso de formas neutras expressa a identidade de pessoas e coletividades que não se reconhecem nas categorias tradicionais de gênero Assim o debate em torno da linguagem neutra transcende o plano gramatical situandose no campo das ideologias linguísticas o espaço em que se definem o que é considerado aceitável ou correto dentro de uma comunidade de fala A resistência ao uso da linguagem neutra nesse sentido ecoa a mesma lógica do preconceito linguístico discutido por Bagno 1999 e Faraco 2008 trata se da rejeição de formas que desafiam uma norma tradicionalmente associada ao prestígio e à autoridade Tal resistência evidencia que as disputas em torno da língua são também disputas por poder simbólico e representação social Assim a recusa à linguagem neutra não é apenas uma questão linguística mas reflete tensões mais amplas sobre gênero identidade e diversidade No contexto cultural brasileiro a discussão sobre linguagem neutra ganhou visibilidade em produções midiáticas e artísticas que têm papel fundamental na difusão de novas práticas linguísticas e na sensibilização social Um exemplo notável é a série Todxs Nós lançada em 2020 pela HBO Brasil que acompanha a trajetória de Rafa personagem não binário que busca afirmar sua identidade e questionar os padrões de gênero e linguagem na sociedade contemporânea Ao adotar expressões neutras e tematizar o uso da linguagem inclusiva no cotidiano a série contribui para a naturalização dessas formas e para a ampliação do debate sobre representação e pertencimento Essa produção televisiva exemplifica como a linguagem neutra ultrapassa o campo acadêmico e se insere nas práticas culturais revelandose um fenômeno linguístico em pleno processo de consolidação social Além de representar uma demanda política a linguagem neutra também dialoga com os conceitos de adequação e variação centrais na Sociolinguística Como destaca Ricardo Bortoni 2005 a competência linguística de um falante está na capacidade de adaptar sua fala aos contextos comunicativos e interlocutores e 15 não em seguir rigidamente uma norma fixa Assim o uso de formas neutras pode ser compreendido como uma estratégia de adequação comunicativa voltada a contextos de respeito à diversidade e à inclusão A adoção dessas formas não implica eliminar o uso tradicional de gênero mas ampliar as opções expressivas disponíveis de modo a contemplar novos modos de subjetivação É importante ressaltar que a linguagem neutra por ainda se encontrar em fase de difusão não possui consenso quanto à sua forma padrão Variantes como o uso do x todxs do tods ou do e todes coexistem refletindo diferentes tentativas de adaptação e experimentação linguística Essa heterogeneidade é justamente o que caracteriza um fenômeno de variação em curso Como afirma Mollica 2003 a diversidade é parte constitutiva da língua e sua vitalidade depende da capacidade de incorporar novos sentidos e formas Do ponto de vista social a linguagem neutra simboliza uma resistência à exclusão linguística pois desafia as estruturas discursivas que invisibilizam pessoas não conformes ao binarismo de gênero Tratase de uma tentativa de reconfigurar o espaço linguístico como um ambiente de reconhecimento e pertencimento em que cada sujeito possa se expressar de maneira coerente com sua identidade Nesse sentido a proposta de linguagem neutra é coerente com os princípios da Sociolinguística valoriza a variação questiona a norma excludente e reconhece a língua como um espaço de diversidade e transformação Portanto analisar a linguagem neutra sob a perspectiva linguística e sociolinguística é compreender que a língua não é apenas um instrumento de comunicação mas também um campo de disputa simbólica e social A emergência dessa nova forma de expressão não representa uma ruptura arbitrária com a norma mas sim a continuidade de um processo histórico de adaptação linguística às mudanças sociais Assim como as diferentes variedades do português brasileiro refletem a riqueza cultural do país a linguagem neutra reflete o avanço de uma consciência social que busca visibilizar e respeitar todas as identidades A Sociolinguística ao reconhecer e legitimar a variação oferece o alicerce teórico para compreender a linguagem neutra não como desvio mas como expressão legítima de inclusão e transformação social 16 27 A LINGUAGEM NEUTRA COMO EXPRESSÃO DE IDENTIDADE E RESISTÊNCIA SOCIAL A linguagem não se limita a comunicar ideias mas constitui instrumento fundamental na construção e reafirmação de identidades Por meio dela os sujeitos se reconhecem e são reconhecidos no mundo social Nesse sentido a linguagem neutra emerge como recurso discursivo e simbólico de afirmação identitária e resistência particularmente relevante para grupos historicamente marginalizados em razão de sua expressão de gênero Conforme assinala Borba 2021 p 45 as reivindicações por linguagem neutra representam a busca por reconhecimento linguístico de identidades que escapam ao binarismo de gênero tradicional Ao propor novas formas de nomear e referirse a pessoas a linguagem neutra desafia estruturas tradicionais de poder inscritas na língua e na sociedade abrindo espaço para a visibilidade de identidades não binárias e transgênero Sob a ótica da Sociolinguística compreender a linguagem neutra como forma de resistência implica reconhecer que a língua constitui campo de disputa simbólica Conforme aponta Bourdieu 1998 p 71 o poder linguístico é também poder social quem detém o direito de definir o falar legítimo exerce dominação simbólica sobre os demais Assim quando grupos sociais minoritários reivindicam novas formas de expressão estão igualmente reivindicando o direito de existir e ser reconhecidos linguisticamente A linguagem neutra portanto não se reduz a inovação formal mas configurase como prática política de reconfiguração das relações de poder no espaço discursivo Nesse processo é fundamental considerar que a língua atua como marcador de identidade Como afirma Hall 2016 p 103 as identidades contemporâneas são múltiplas fragmentadas e constantemente em construção A linguagem ao acompanhar essa dinamicidade tornase instrumento crucial na constituição das subjetividades Ao adotar pronomes e desinências neutras sujeitos não binários podem verse representados de modo mais coerente com sua autoidentificação subvertendo o binarismo linguístico que tradicionalmente os invisibiliza Desse modo a linguagem neutra apresentase como expressão legítima da diversidade de gênero atuando como ferramenta de pertencimento e reconhecimento social 17 A resistência nesse contexto manifestase tanto na dimensão simbólica quanto na prática comunicativa Como observa Butler 2018 p 89 o gênero é performativo construído e reiterado por meio de atos discursivos Assim ao empregar formas neutras os falantes não apenas modificam a estrutura linguística mas também performam identidades dissidentes desafiando normas socioculturais estabelecidas Cada escolha lexical cada uso de elu em vez de ele ou ela representa ato político de resistência e reconfiguração dos modos de ser e estar no mundo A reação social ao uso da linguagem neutra frequentemente marcada por resistência ou hostilidade revela o quanto a língua está imbricada nas relações de poder O preconceito linguístico discutido por Bagno 2019 p 67 constitui uma das formas mais sutis de discriminação pois se apresenta como defesa da norma correta quando na verdade perpetua exclusões sociais e simbólicas Do mesmo modo a rejeição à linguagem neutra sob o argumento de que desvirtua o português demonstra preconceito identitário travestido de zelo linguístico já que o que está em jogo não é a gramática em si mas a resistência a reconhecer identidades fora do padrão binário A presença crescente da linguagem neutra em espaços públicos e midiáticos também revela sua função como símbolo de representatividade Campanhas publicitárias produções culturais e instituições educacionais têm incorporado gradualmente elementos da linguagem inclusiva sinalizando processo de reconfiguração social da linguagem Como observa Silva 2022 p 134 a mídia tem desempenhado papel crucial na disseminação e normalização do uso de linguagem neutra especialmente entre o público jovem Essa representação midiática desempenha papel essencial na normalização de práticas linguísticas inclusivas ao mesmo tempo em que amplia o debate público sobre diversidade e respeito Sob a perspectiva da linguística crítica a linguagem neutra também pode ser vista como mecanismo de empoderamento discursivo Como destaca Fairclough 2016 p 92 os discursos moldam a realidade social ao estabelecer quais vozes são legitimadas e quais são silenciadas Ao introduzir formas neutras os falantes produzem novas possibilidades discursivas abrindo espaços para a escuta de vozes que antes eram invisibilizadas Assim o uso da linguagem neutra não se limita a 18 mudança lexical mas constitui ação transformadora sobre as estruturas simbólicas da sociedade A linguagem neutra reforça o princípio da autodeterminação linguística pelo qual os indivíduos têm o direito de definir como desejam ser nomeados e reconhecidos Tal princípio está alinhado à ética da diversidade e da inclusão que orienta práticas sociais voltadas à redução de desigualdades simbólicas Conforme argumenta Oliveira 2023 p 78 o respeito à autodeterminação linguística constitui extensão natural do respeito à dignidade humana em suas múltiplas expressões identitárias Nessa perspectiva a linguagem neutra não deve ser interpretada como imposição mas como ampliação de possibilidades expressivas dentro do sistema linguístico oferecendo alternativas de nomeação mais justas e representativas Para tanto é preciso compreender que a linguagem neutra não busca substituir as formas tradicionais da língua mas coexistir com elas em cenário de pluralidade Assim como as variações regionais e sociais são manifestações legítimas do português brasileiro também o uso de formas neutras representa variante emergente ligada a novas realidades socioculturais A Sociolinguística ao reconhecer a variação como fenômeno natural oferece suporte teórico necessário para compreender essa coexistência e para valorizar o papel da língua como instrumento de inclusão e transformação social Por fim a linguagem neutra configurase como expressão de identidade resistência e reconhecimento reafirmando o caráter dinâmico e socialmente construído da língua Ao reivindicar o direito de nomear a si e aos outros de forma coerente com a diversidade de gênero existente na sociedade os falantes promovem mudança que é simultaneamente linguística e ética Tratase portanto de movimento que transcende a gramática e alcança a esfera do humano reafirmando o poder da linguagem como ferramenta de transformação e justiça social 3 METODOLOGIA A pesquisa caracterizase como qualitativa e de natureza bibliográfica tendo em vista que seu objetivo central é analisar a linguagem neutra sob a ótica da Linguística e da Sociolinguística a partir de referenciais teóricos consolidados e de 19 produções acadêmicas pertinentes ao tema Assim não se busca quantificar dados mas compreender por meio da leitura e interpretação crítica os discursos e fundamentos que permeiam o fenômeno linguístico em questão As fontes utilizadas foram selecionadas em bases acadêmicas reconhecidas como Google Acadêmico e SciELO além de periódicos especializados em Linguística e publicações midiáticas que abordam aspectos sociais e culturais da linguagem O corpus é composto por discursos acadêmicos artigos e ensaios científicos produzidos por estudiosos da área escolhidos com base em critérios de relevância atualidade e representatividade das discussões sobre variação linguística e linguagem neutra no contexto brasileiro O recorte temporal concentrase no período de 2020 a 2024 quando a discussão sobre linguagem inclusiva ganhou maior visibilidade no meio acadêmico e social A seleção dos materiais considerou palavraschave como linguagem neutra variação linguística identidade de gênero e preconceito linguístico garantindo a pertinência dos textos ao tema proposto A análise foi conduzida a partir de uma abordagem linguística e sociolinguística orientada pelos conceitos de variação e norma conforme Labov 2008 pelo entendimento de preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno 1999 e pela noção de identidade e interação social presente nas obras de Ricardo Bortoni 2005 Esses referenciais permitiram comparar perspectivas teóricas sobre o fenômeno da linguagem neutra destacando convergências e divergências entre diferentes autores Não houve envolvimento direto de participantes humanos dispensando portanto a necessidade de aprovação ética Reconhecese contudo como limitação a escassez de estudos empíricos aprofundados sobre a aplicação prática da linguagem neutra em diferentes contextos sociais o que reforça a relevância de abordagens teóricas que ampliem o debate Esta pesquisa tem o intuito de agregar na compreensão de como a linguagem neutra se insere nas dinâmicas de variação linguística e nas práticas sociais discutindo suas implicações identitárias e o papel que desempenha na luta contra o preconceito linguístico e de gênero CONSIDERAÇÕES FINAIS 20 O presente artigo buscou analisar como os linguistas e sociolinguistas brasileiros têm abordado o fenômeno da linguagem neutra relacionandoo aos conceitos de variação linguística preconceito linguístico e construção de identidade de gênero Fundamentado nas contribuições teóricas da Linguística e da Sociolinguística o estudo adotou uma perspectiva bibliográfica e crítica destacando como a linguagem reflete as dinâmicas sociais e as transformações culturais de uma sociedade em constante mudança A relevância deste tema revelase tanto no campo científico quanto no contexto social contemporâneo Em uma época marcada por intensas discussões sobre inclusão diversidade e respeito às identidades de gênero compreender o papel da linguagem neutra tornase essencial para promover práticas comunicativas mais igualitárias À luz dos princípios da Sociolinguística brasileira especialmente das reflexões de Marcos Bagno 2007 que defende a língua como um fenômeno vivo e plural este estudo reforça que não existem formas certas ou erradas de falar mas diferentes usos que expressam identidades e pertencimentos sociais Assim o trabalho contribui para ampliar o diálogo sobre a importância de reconhecer a legitimidade da variação linguística e de combater o preconceito associado às formas inovadoras de expressão Os resultados obtidos indicaram que embora existam divergências teóricas sobre a viabilidade estrutural da linguagem neutra no português brasileiro há consenso quanto à sua relevância social e simbólica A linguagem neutra emerge como uma manifestação legítima de resistência e representatividade das identidades nãobinárias reforçando a ideia de que a língua acompanha as transformações culturais e ideológicas de seu tempo Inspirado nos pressupostos da Sociolinguística Variacionista Labov 1972 Tarallo 1994 e nas reflexões de Bagno 2007 sobre o preconceito linguístico este trabalho conclui que a rejeição à linguagem neutra não se fundamenta em razões linguísticas mas em resistências sociais e culturais Portanto a principal mensagem que este estudo pretende deixar é a de que a linguagem neutra representa uma ampliação das possibilidades comunicativas e um avanço no reconhecimento da diversidade humana Os objetivos propostos tanto o geral quanto os específicos foram integralmente alcançados e em certos aspectos superados A pesquisa conseguiu reunir organizar e interpretar criticamente as principais abordagens teóricas sobre o 21 tema demonstrando que a discussão sobre linguagem neutra não se limita à gramática mas envolve dimensões ideológicas políticas e identitárias Ao integrar aspectos estruturais e sociais da língua o trabalho reafirma a relevância da Sociolinguística como campo essencial para compreender os fenômenos de variação mudança e resistência que moldam o português brasileiro contemporâneo Por fim recomendase que futuras pesquisas avancem na análise da linguagem neutra em contextos educacionais especialmente na formação docente e na elaboração de materiais didáticos Como defende Bagno 1999 o ensino de língua deve ser um espaço de valorização das múltiplas formas de falar e de inclusão das diversas identidades sociais Assim compreender e discutir a linguagem neutra na escola pode contribuir para uma educação linguística mais crítica ética e acolhedora A língua afinal é um reflexo da sociedade e ao reconhecer a pluralidade linguística reconhecemos também a pluralidade humana que a sustenta REFERÊNCIAS BAGNO Marcos Linguística da norma 3 ed São Paulo Loyola 2012 BAGNO Marcos Nada na língua é por acaso por uma pedagogia da variação linguística São Paulo Parábola Editorial 2007 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 56 ed São Paulo Parábola Editorial 2015 BAGNO Marcos Preconceito linguístico o que é como se faz 58 ed São Paulo Parábola Editorial 2019 BORBA Rodrigo Linguagem neutra e identidade de gênero desafios e perspectivas São Paulo Editora Unesp 2021 BORTONIRICARDO Stella Maris Educação em língua materna a sociolinguística na sala de aula São Paulo Parábola Editorial 2005 BORTONIRICARDO Stella Maris Nós cheguemu na escola e agora sociolinguística e educação São Paulo Parábola Editorial 2005 BOURDIEU Pierre A economia das trocas linguísticas 2 ed São Paulo Edusp 1998 22 BUTLER Judith Problemas de gênero feminismo e subversão da identidade 8 ed Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2018 FAIRCLOUGH Norman Discurso e mudança social 2 ed Brasília Editora UnB 2016 FARACO Carlos Alberto Norma culta brasileira desatando alguns nós São Paulo Parábola Editorial 2008 HALL Stuart A identidade cultural na pósmodernidade 21 ed Rio de Janeiro Lamparina 2016 LABOV William Padrões sociolinguísticos Tradução de Marcos Bagno et al São Paulo Parábola Editorial 2008 LABOV William Sociolinguistic patterns Philadelphia University of Pennsylvania Press 1972 Disponível em httpswwwacademiaedu80568091WilliamLabovSociolinguisticpatternsCondu ctandCommunication4PhiladelphiaUniversityofPennsylvaniaPress1972 LUCCHESI Dante Sistema mudança e linguagem um percurso da história da língua portuguesa São Paulo Parábola Editorial 2009 MOLLICA Maria Cecília Fundamentos e metodologias da sociolinguística In MOLLICA Maria Cecília BRAGA Maria Luiza Orgs Introdução à sociolinguística variação e mudança linguística 3 ed Rio de Janeiro Jorge Zahar 2003 p 87102Disponível emhttpswwwscielobrjdeltaa6VwNsrkkrsKbVXQW6cgDwyM formathtmllangpt OLIVEIRA Anna Márcia de Línguagem sociedade e cultura um estudo enunciativoantropológico sobre a pessoa falante e a linguagem neutra 2023 140 f Dissertação Mestrado em Letras Universidade Federal do Rio Grande do Sul Porto Alegre 2023 Disponível em httpslumeufrgsbrhandle10183261772 Acesso em 21 nov 2025 SILVA Luiz P Mídia e linguagem inclusiva representatividade e transformação social Porto Alegre Sulina 2022 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística 8 ed São Paulo Ática 1994 Todxs nós Direção de Vera Egito e Daniel Ribeiro Produção HBO Brasil Brasil HBO Latin America Group 2020 Série de TV 23 TERMO DE RESPONSABILIDADE E COMPROMISSO DE AUTORIA Eu Ana Flávia Freitas de Assis matrícula nº 202301167981 declaro para os devidos fins de direito que o trabalho de conclusão de curso o artigo intitulado A Linguagem Neutra na Perspectiva Linguística e Sociolinguística Variação Preconceito e Identidade é de minha autoria tendo sido elaborado com a observância ao princípio do respeito aos direitos autorais de terceiros e em conformidade às normas estabelecidas no Manual de Normas para a Estrutura Formal de Trabalhos Científicos da Universidade Estácio de Sá Declaro ainda que as citações e referências foram elaboradas à luz das normas da ABNT Estou ciente outrossim de que o plágio ou a adoção de qualquer outro meio ilícito na confecção de trabalhos acadêmicos configura fraude possível de sanções conforme as normas internas da Universidade Estácio de Sá das quais também declaro ter plena ciência Ademais tenho conhecimento de que eventualmente o professora orientadora poderá exigirme uma verificação adicional de conhecimento sobre o tema do artigo científico como condição para a aprovação da disciplina Declaro por fim que tenho conhecimento de que o plágio constitui crime previsto no art 184 do Código Brasileiro e que arcarei com todas as implicações civis criminais e administrativas caso incorra nesta prática de XXXX Local dia mês ano Assinatura doa Alunoa 24

Sua Nova Sala de Aula

Sua Nova Sala de Aula

Empresa

Central de ajuda Contato Blog

Legal

Termos de uso Política de privacidade Política de cookies Código de honra

Baixe o app

4,8
(35.000 avaliações)
© 2026 Meu Guru® • 42.269.770/0001-84