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MARCOS BAGNO tradutor escritor e lingüista é Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo USP Professor de Lingüística do Instituto de Letras da Universidade de Brasília publicou A língua dc Eulália novela sociolingüística Ed Contexto 1997 em 13ª ed Preconceito lingüístico o que é como se faz Ed Loyola 1999 em 15ª ed Dramática da língua portuguesa Ed Loyola 2000 em 2ª ed Português ou brasileiro Um convite à pesquisa Parábola Ed 2001 em 2ª ed Língua materna letramento variação e ensino Parábola Ed 2002 Além desses títulos é autor de duas dezenas de obras literárias Recebeu em 1988 o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira e em 1989 o Prêmio Carlos Drummond de Andrade de Poesia entre outros Selecionou e traduziu os artigos reunidos em Norma lingüística Ed Loyola 2001 Traduziu História concisa da lingüística de Barbara Weedwood Parábola Ed 2002 além de dezenas de obras científicas filosóficas e literárias de autores como Balzac Voltaire H G Wells Sartre Oscar Wilde etc Vem se dedicando à investigação das implicações socioculturais do conceito de norma sobretudo no que diz respeito ao ensino de português nas escolas brasileiras Obras do Autor A invenção das horas contos Ed Scipione 1988 IV Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira O papel roxo da maçã infantil Ed Lê 1989 Prêmio João de Barro de Literatura Infantil Um céu azul para Clementina infantil Ed Lê 1991 Frevo amor graviola juvenil Ed Atual 1991 Amor amora juvenil Ed Bagaço 1992 Os nomes do amor juvenil coautoria com Stela Maris Rezende Editora Moderna 1993 A vingança da cobra juvenil Ed Ática 1995 Dia de branco juvenil Ed Lê 1995 Miguel o cravo a rosa infantil Ed Lê 1995 Rua da Soledade contos Ed Lê 1995 Prêmio Estado do Paraná 1989 A barca de Zoé infantil Ed Formato 1995 Mirabília contos Editora Didática Paulista 1996 Uma vitória diferente juvenil Ed Lê 1997 Unhas de ferro juvenil Ed Lê 1997 A Língua de Eulália novela sociolingüística Ed Contexto 1997 Pesquisa na escola o que é como se faz Ed Loyola 1998 Machado de Assis para principiantes Ed Atica 1998 Preconceito linguístico o que é como se faz Ed Loyola 1999 Minimirim e o planeta que encolheu infantil Ed lcone 2000 O Processo de Independência do Brasil Ed Atica 2000 Dramática da língua portuguesa Ed Loyola 2000 Português ou brasileiro Um convite à pesquisa Parábola Editorial 2001 Norma lingüística Ed Loyola 2001 Língua materna letramento variação e ensino Parábola Editorial 2002 O espelho dos nomes juvenil Ática 2002 Marcos Bagno Preconceito lingüístico o que é como se faz CCCCCCCCO OO O O OO ON NN N N NN NTTTTTTTTR RR R R RR RAAAAAAAA CCCCCCCCAAAAAAAAPPPPPPPPAAAAAAAA Dizse que o brasileiro não sabe Português e que Português é muito difícil Estes são alguns dos mitos que compõem um preconceito muito presente na cultura brasileira o lingüístico Tudo por causa da confusão que se faz entre língua e gramática normativa que não é a língua mas só uma descrição parcial dela Separe uma coisa da outra com este livro que é um achado Revista Nova Escola maio de 1999 Eu gostaria que alguém já tivesse escrito um livro como este sobre a língua inglesa Prof Gregory Guy Universidade de York Canadá hhttttppggrroouuppssggoooogglleeccoom mggrroouuppddiiggiittaallssoouurrccee Edições Loyola Rua 1822 nº 347 Ipiranga 04216000 São Paulo SP Caixa Postal 42335 04218970 São Paulo SP 011 69141922 011 61634275 Home page e vendas wwwloyolacombr Editorial loyolaloyolacombr Vendas vendasloyolacombr Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma eou quaisquer meios eletrônico ou mecânico incluindo fotocópia e gravação ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora ISBN 8515018896 48ª e 49ª edição junho de 2007 EDIÇÕES LOYOLA São Paulo Brasil 1999 Sedule curavi humanas actiones non ridere non lugere neque detestare sed intellegere SPINOZA Tenhome esforçado por não rir das ações humanas por não deplorálas nem odiálas mas por entendêlas Sumário PRIMEIRAS PALAVRAS 9 I A MITOLOGIA DO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO 13 Mito n 1 A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente 15 Mito n 2 Brasileiro não sabe português Só em Portugal se fala bem português 20 Mito n 3 Português é muito difícil 35 Mito n 4 As pessoas sem instrução falam tudo errado 40 Mito n 5 O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão 46 Mito n 6 O certo é falar assim porque se escreve assim 52 Mito n 7 É preciso saber gramática para falar e escrever bem 62 Mito n 8 O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social 69 II O CÍRCULO VICIOSO DO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO 73 1 Os três elementos que são quatro 73 2 Sob o império de Napoleão 79 3 Um festival de asneiras 83 4 Beethoven não é dançado 94 III A DESCONSTRUÇÃO DO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO 105 1 Reconhecimento da crise 105 2 Mudança de atitude 115 3 O que é ensinar português 118 4 O que é erro 122 5 Então vale tudo 129 6 A paranóia ortográfica 131 7 Subvertendo o preconceito lingüístico 139 IV O PRECONCEITO CONTRA A LINGÜÍSTICA E OS LINGÜISTAS 147 1 Uma religião mais velha que o cristianismo 147 2 Português ortodoxo Que língua é essa 154 3 Devaneios de idiotas e ociosos 157 4 A quem interessa calar os lingüistas 161 ANEXO CARTA DE MARCOS BAGNO À REVISTA VEJA 167 REFERÊNCIAS 185 Nota da digitalizadora A numeração de páginas aqui referese a edição original a paginação original que encontrase inserida entre colchetes no texto Entendese que o texto que está antes da numeração entre colchetes é o que pertence aquela página e o texto que está após a numeração pertence a página seguinte Primeiras palavras Existe uma regra de ouro da Lingüística que diz só existe língua se houver seres humanos que a falem E o velho e bom Aristóteles nos ensina que o ser humano é um animal político Usando essas duas afirmações como os termos de um silogismo mais um presente que ganhamos de Aristóteles chegamos à conclusão de que tratar da língua é tratar de um tema político já que também é tratar de seres humanos Por isso o leitor e a leitora não deverão se espantar com o tom marcadamente politizado de muitas de minhas afirmações É proposital aliás é inevitável Temos de fazer um grande esforço para não incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a língua como uma coisa morta sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam O preconceito lingüístico está ligado em boa medida à confusão que foi criada no curso da história entre língua e gramática normativa Nossa tarefa mais urgente é desfazer essa confusão Uma receita de bolo não é um bolo o molde de um vestido não é um vestido um mapamúndi não é o mundo Também a gramática não é a língua A língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo e a gramática normativa é a tentativa de descrever pg 09 apenas uma parcela mais visível dele a chamada norma culta Essa descrição é claro tem seu valor e seus méritos mas é parcial no sentido literal e figurado do termo e não pode ser autoritariamente aplicada a todo o resto da língua afinal a ponta do iceberg que emerge representa apenas um quinto do seu volume total Mas é essa aplicação autoritária intolerante e repressiva que impera na ideologia geradora do preconceito lingüístico Você sabe o que é um igapó Na Amazônia igapó é um trecho de mata inundada uma grande poça de água estagnada às margens de um rio sobretudo depois da cheia Pareceme uma boa imagem para a gramática normativa Enquanto a língua é um rio caudaloso longo e largo que nunca se detém em seu curso a gramática normativa é apenas um igapó uma grande poça de água parada um charco um brejo um terreno alagadiço à margem da língua Enquanto a água do riolíngua por estar em movimento se renova incessantemente a água do igapógramática normativa envelhece e só se renovará quando vier a próxima cheia Meu objetivo atualmente junto com muitos outros lingüistas e pesquisadores é acelerar ao máximo essa próxima cheia Este livro traz os primeiros resultados sempre provisórios das reflexões que venho fazendo sobre o tema do preconceito lingüístico Ele reúne as principais conclusões a que cheguei conclusões que pude compartilhar e discutir com as pessoas que me ouviram falar nas diversas palestras que dei ao longo de 1998 Essas palestras e o livro que delas nasceu só foram possíveis graças ao esforço e ao carinho das seguintes pg 10 pessoas Ângela Paiva Dionísio Ariovaldo Guireli Ataliba de Castilho Cláudia Maia Ricardo Doris da Cunha Ésio Macedo Ribeiro Irandé Antunes José Luís Falotico Corrêa Judith Hoffnagel Lourenço Chacon Lucila Nogueira Marçal Aquino Marcos Marcionilo Maria Amélia Almeida Maria Marta Scherre Maria da Piedade Sá Marígia Viana Rosely Falotico Corrêa e Sonia Alexandre Esta segunda edição traz mudanças bastante significativas em comparação com a primeira alguns trechos foram eliminados outros foram acrescentados muitos sofreram profunda reformulação Isso se deve à minha vontade de manter o livro sempre atualizado com a evolução de minha própria maneira de ver as coisas e sintonizado com as críticas sugestões e comentários que o trabalho recebeu da parte de leitores e leitoras atentos e dispostos a colaborar na divulgação destas idéias Agradeço muito especialmente a Manoel Luiz Gonçalves Corrêa que me ajudou a preparar esta reedição alertandome para determinadas inconsistências teóricas e conceituais nascidas de uma tentativa de simplificar talvez demais os conceitos da Lingüística para tornálos acessíveis a um público mais amplo É claro que ainda sobram falhas e imperfeições de minha inteira irresponsabilidade e por isso convido os que desejarem participar desta luta que se engajem nela enviandome suas opiniões A capa deste livro tem uma história que merece ser contada As pessoas ali fotografadas são minha sogra Alice Francisca meu sogro José Alexandre e meu cunhado pg 11 mais novo Sóstenes cerca de vinte anos atrás Como este é um livro que trata de discriminação e exclusão decidi homenagear meus sogros que são como costumo dizer um prato cheio para alguns dos preconceitos mais vigorosos da nossa sociedade negros nordestinos pobres analfabetos Alice Francisca também carrega o estigma de ser mulher numa cultura entranhadamente machista Aprender a amar estas pessoas pelo que elas são deixando de lado todos os rótulos discriminadores que tentam classificálas em categorias supostamente inferiores às que eu e pessoas de minha extração social ocupamos tem sido uma lição fundamental para toda a minha vida pessoal e profissional É com este amor que me defendo das acusações que às vezes recebo de ser autor de um livro demagógico Não é demagogia é opção consciente política declaradamente parcial Peço simplesmente aos leitores e leitoras que meditem sobre esta situação que tanto me angustia homenagear com um livro pessoas que jamais poderão lêlo Isso explica decerto a grande dose de indignação que em certos momentos passa à frente da reflexão científica serena e me faz assumir o tom apaixonado de quem não tolera nenhum tipo de intolerância principalmente quando é fruto de uma visão de mundo estreita inspirada em mitos e superstições que têm como único objetivo perpetuar os mecanismos de exclusão social MARCOS BAGNO mbagnoterracombr pg 12 I A mitologia do preconceito lingüístico Parece haver cada vez mais nos dias de hoje uma forte tendência a lutar contra as mais variadas formas de preconceito a mostrar que eles não têm nenhum fundamento racional nenhuma justificativa e que são apenas o resultado da ignorância da intolerância ou da manipulação ideológica Infelizmente porém essa tendência não tem atingido um tipo de preconceito muito comum na sociedade brasileira o preconceito lingüístico Muito pelo contrário o que vemos é esse preconceito ser alimentado diariamente em programas de televisão e de rádio em colunas de jornal e revista em livros e manuais que pretendem ensinar o que é certo e o que é errado sem falar é claro nos instrumentos tradicionais de ensino da língua a gramática normativa e os livros didáticos O preconceito lingüístico fica bastante claro numa série de afirmações que já fazem parte da imagem negativa que o brasileiro tem de si mesmo e da língua falada por aqui Outras afirmações são até bemintencionadas mas mesmo assim compõem uma espécie de preconceito positivo que também se afasta da realidade Vamos examinar pg 13 algumas dessas afirmações falaciosas e ver em que medida elas são na verdade mitos e fantasias que qualquer análise mais rigorosa não demora a derrubar Estou convidando você a partir de agora a fazer junto comigo um pequeno passeio pela mitologia do preconceito lingüístico Quando o passeio acabar isto é quando tivermos terminado de examinar os principais mitos vamos tentar refletir juntos para encontrar os meios mais adequados de combater esse preconceito no nosso diaadia na nossa atividade pedagógica de professores em geral e particularmente de professores de língua portuguesa pg 14 Mito n 1 A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente Este é o maior e o mais sério dos mitos que compõem a mitologia do preconceito lingüístico no Brasil Ele está tão arraigado em nossa cultura que até mesmo intelectuais de renome pessoas de visão crítica e geralmente boas observadoras dos fenômenos sociais brasileiros se deixam enganar por ele É o caso por exemplo de Darcy Ribeiro que em seu último grande estudo sobre o povo brasileiro escreveu É de assinalar que apesar de feitos pela fusão de matrizes tão diferenciadas os brasileiros são hoje um dos povos mais homogêneos lingüística e culturalmente e também um dos mais integrados socialmente da Terra Falam uma mesma língua sem dialetos grifo meu Folha de S Paulo 5295 Existe também toda uma longa tradição de estudos filológicos e gramaticais que se baseou durante muito tempo nesse preconceito irreal da unidade lingüística do Brasil Esse mito é muito prejudicial à educação porque ao não reconhecer a verdadeira diversidade do português falado no Brasil a escola tenta impor sua norma lingüística como se ela fosse de fato a língua comum a todos os 160 milhões de brasileiros independentemente de sua idade de sua origem geográfica de sua situação socioeconômica de seu grau de escolarização etc pg 15 Ora a verdade é que no Brasil embora a língua falada pela grande maioria da população seja o português esse português apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade não só por causa da grande extensão territorial do país que gera as diferenças regionais bastante conhecidas e também vítimas algumas delas de muito preconceito mas principalmente por causa da trágica injustiça social que faz do Brasil o segundo país com a pior distribuição de renda em todo o mundo São essas graves diferenças de status social que explicam a existência em nosso país de um verdadeiro abismo lingüístico entre os falantes das variedades nãopadrão do português brasileiro que são a maioria de nossa população e os falantes da suposta variedade culta em geral mal definida que é a língua ensinada na escola Como a educação ainda é privilégio de muito pouca gente em nosso país uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece à margem do domínio de uma norma culta Assim da mesma forma como existem milhões de brasileiros sem terra sem escola sem teto sem trabalho sem saúde também existem milhões de brasileiros sem língua Afinal se formos acreditar no mito da língua única existem milhões de pessoas neste país que não têm acesso a essa língua que é a norma literária culta empregada pelos escritores e jornalistas pelas instituições oficiais pelos órgãos do poder são os semlíngua É claro que eles também falam português uma variedade de português nãopadrão com sua gramática particular que no entanto não é reconhecida como válida que é desprestigiada ridicularizada pg 16 alvo de chacota e de escárnio por parte dos falantes do portuguêspadrão ou mesmo daqueles que não falando o portuguêspadrão o tomam como referência ideal por isso podemos chamálos de semlíngua O que muitos estudos empreendidos por diversos pesquisadores têm mostrado é que os falantes das variedades lingüísticas desprestigiadas têm sérias dificuldades em compreender as mensagens enviadas para eles pelo poder público que se serve exclusivamente da línguapadrão Como diz Maurizzio Gnerre1 em seu livro Linguagem escrita e poder a Constituição afirma que todos os indivíduos são iguais perante a lei mas essa mesma lei é redigida numa língua que só uma parcela pequena de brasileiros consegue entender A discriminação social começa portanto já no texto da Constituição É claro que Gnerre não está querendo dizer que a Constituição deveria ser escrita em língua nãopadrão mas sim que todos os brasileiros a que ela se refere deveriam ter acesso mais amplo e democrático a essa espécie de língua oficial que restringindo seu caráter veicular a uma parte da população exclui necessariamente uma outra talvez a maior Muitas vezes os falantes das variedades desprestigiadas deixam de usufruir diversos serviços a que têm direito simplesmente por não compreenderem a linguagem empregada pelos órgãos públicos Um estudo bastante revelador dessa situação foi empreendido por Stella Maris BortoniRicardo na periferia de Brasília e publicado no pg 17 artigo Problemas de comunicação interdialetal Diante do que descobriu a autora pode afirmar A idéia de que somos um país privilegiado pois do ponto de vista lingüístico tudo nos une e nada nos separa pareceme contudo ser apenas mais um dos grandes mitos arraigados em nossa cultura Um mito por sinal de conseqüências danosas pois na medida em que não se reconhecem os problemas de comunicação entre falantes de diferentes variedades da língua nada se faz também para resolvêlos A mesma autora alerta para que não se confunda a idéia de monolingüismo com a de homogeneidade lingüística O fato de no Brasil o português ser a língua da imensa maioria da população 1 As referências bibliográficas completas de todas as obras citadas ao longo deste livro se encontram no final do volume não implica automaticamente que esse português seja um bloco compacto coeso e homogêneo Na verdade como costumo dizer o que habitualmente chamamos de português é um grande balaio de gatos onde há gatos dos mais diversos tipos machos fêmeas brancos pretos malhados grandes pequenos adultos idosos recémnascidos gordos magros bemnutridos famintos etc Cada um desses gatos é uma variedade do português brasileiro com sua gramática específica coerente lógica e funcional É preciso portanto que a escola e todas as demais instituições voltadas para a educação e a cultura abandonem esse mito da unidade do português no Brasil e passem a reconhecer a verdadeira diversidade lingüística de nosso país para melhor planejarem suas políticas de ação junto à população amplamente marginalizada dos falantes das variedades nãopadrão O reconhecimento da pg 18 existência de muitas normas lingüísticas diferentes é fundamental para que o ensino em nossas escolas seja conseqüente com o fato comprovado de que a norma lingüística ensinada em sala de aula é em muitas situações uma verdadeira língua estrangeira para o aluno que chega à escola proveniente de ambientes sociais onde a norma lingüística empregada no quotidiano é uma variedade de português não padrão Felizmente essa realidade lingüística marcada pela diversidade já é reconhecida pelas instituições oficiais encarregadas de planejar a educação no Brasil Assim nos Parâmetros curriculares nacionais publicados pelo Ministério da Educação e do Desporto em 1998 podemos ler que A variação é constitutiva das línguas humanas ocorrendo em todos os níveis Ela sempre existiu e sempre existirá independentemente de qualquer ação normativa Assim quando se fala em Língua Portuguesa está se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades A imagem de uma língua única mais próxima da modalidade escrita da linguagem subjacente às prescrições normativas da gramática escolar dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre o que se deve e o que não se deve falar e escrever não se sustenta na análise empírica dos usos da língua2 São de fato boas novas Espero que elas desçam das altas esferas governamentais e se propaguem pelas salas de aula de todo o país pg 19 2 Parâmetros curriculares nacionais Língua Portuguesa 5a a 8a séries p 29 Mito n 2 Brasileiro não sabe português Só em Portugal se fala bem português Essas duas opiniões tão habituais corriqueiras comuns e que na realidade são duas faces de uma mesma moeda enferrujada refletem o complexo de inferioridade o sentimento de sermos até hoje uma colônia dependente de um país mais antigo e mais civilizado Podemos encontrar essa concepção expressa no livro Língua viva de Sérgio Nogueira Duarte que é uma coletânea de suas colunas sobre língua portuguesa publicadas no Jornal do Brasil Ali a gente lê na página 65 Sempre me perguntam onde se fala o melhor português Só pode ser em Portugal Já viajei muito pelo Brasil e já estive em todas as regiões Sinceramente não sei onde se fala melhor Cada região tem suas qualidades e seus vícios de linguagem grifo meu Por isso não consigo concordar com o título do livro que está longe de analisar a verdadeira língua viva usada em nosso país nem com o subtítulo uma análise simples e bemhumorada da linguagem do brasileiro Seria mais acertado dizer que se trata de uma análise preconceituosa e desinformada da língua falada e escrita por aqui Mas não podemos culpar o autor que é antes uma vítima do que propriamente um responsável por esse preconceito ele está apenas exprimindo uma ideologia impregnada em nossa cultura há muito tempo pg 20 É a mesma concepção torpe segundo a qual o Brasil é um país subdesenvolvido porque sua população não é uma raça pura mas sim o resultado de uma mistura negativa de raças sendo que duas delas a negra e a indígena são inferiores à do branco europeu por isso nosso povinho só pode ser o que é Ora há muito tempo a ciência destruiu o mito da raça pura que é um conceito absurdo sem nenhuma possibilidade de verificação na realidade de nenhum povo por mais isolado que seja Assim uma raça que não é pura não poderia falar uma língua pura Não é difícil encontrar intelectuais renomados que lamentem a corrupção do português falado no Brasil língua de matutos de caipiras infelizes arremedo tosco da língua de Camões É o que escreve por exemplo Arnaldo Niskier presidente da Academia Brasileira de Letras num artigo publicado na Folha de S Paulo 15198 podese registrar o fato facilmente comprovável de que nunca se escreveu e falou tão mal o idioma de Ruy Barbosa A classe dita culta mostrase displicente em relação à língua nacional e a indigência vocabular tomou conta da juventude e dos não tão jovens assim quase como se aqueles se orgulhassem de sua própria ignorância e estes quisessem voltar atrás no tempo Para mostrar o quanto declarações desse tipo se baseiam mais em posturas preconceituosas perpetuadas ao longo dos séculos pela desinformação ou má informação do que em análises científicas acuradas dos fatos lingüísticos vamos ler o seguinte trecho do filólogo Cândido de Figueiredo pg 21 Quanto mais progressiva é a civilização de um povo mais sujeita é a sua língua a deturpações e vícios sob a variada influência das relações internacionais dos novos inventos das travancas da ignorância e até dos caprichos da moda Sábios e romancistas poetas e prosadores e nomeadamente a imprensa periódica parece haverem conspirado para dar curso às mais extraordinárias invenções e enxertos de linguagem Ora essas palavras foram escritas em 1903 num livro chamado O que se não deve dizer sim o título é esse mesmo É surpreendente como elas têm o mesmo tom de queixa e censura das palavras de Niskier escritas noventa e cinco anos depois Niskier também faz neste artigo uma referência queixosa ao pouco apreço que devotamos ao gosto pela leitura Nosso índice per capita mal alcança dois livros por habitante na França por exemplo oscila em torno de oito e passa a elogiar os hábitos culturais dos franceses que valorizam mais a leitura do que os brasileiros Esqueceuse porém de dizer que a França ocupa a 11ª posição no quadro do IDH Índice de Desenvolvimento Humano estabelecido pela ONU para avaliar a qualidade de vida nos 175 países do mundo O Brasil que em 1996 ocupava a 58a posição caiu em 1999 para a 79a devido à sensível piora das condições sociais dos brasileiros como um todo Diante de tamanha diferença um índice per capita de dois livros por ano num país com 60 milhões de analfabetos plenos e analfabetos funcionais número igual ao da população total da França é mesmo espantoso E da mesma forma como Niskier lamenta a invasão dos anglicismos Figueiredo diz que o enxerto da francesia pg 22 frutificou com exuberância classificando de malária o uso de palavras estrangeiras E se quiséssemos recuar ainda mais no tempo não teríamos dificuldades em encontrar outros autores vociferando contra a ruína da língua portuguesa e profetizando o fim dela Felizmente nenhuma dessas profecias se concretizou Os galicismos na passagem do século XIX para o XX e os anglicismos na virada do terceiro milênio não têm a força destruidora tão temida pelos puristas e conservadores A língua portuguesa nesses noventa e cinco anos se manteve muito bem obrigada falada e escrita por cada vez mais gente produziu uma literatura reconhecida mundialmente é propagada também em nível internacional pelo grande prestígio de que goza a música popular brasileira entre tantas outras provas de sua vitalidade E a avalanche ai um galicismo de palavras estrangeiras tem de ser analisada sob a perspectiva da dependência políticoeconômica e conseqüentemente cultural do Brasil e de Portugal para com os centros mundiais de poder Não adianta bradar contra a invasão de palavras na língua portuguesa sem analisar essa dependência É querer eliminar os efeitos sem atacar as verdadeiras causas E essa história de dizer que brasileiro não sabe português e que só em Portugal se fala bem português Tratase de uma grande bobagem infelizmente transmitida de geração a geração pelo ensino tradicional da gramática na escola O brasileiro sabe português sim O que acontece é que nosso português é diferente do português falado em pg 23 Portugal Quando dizemos que no Brasil se fala português usamos esse nome simplesmente por comodidade e por uma razão histórica justamente a de termos sido uma colônia de Portugal Do ponto de vista lingüístico porém a língua falada no Brasil já tem uma gramática isto é tem regras de funcionamento que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal Por isso os lingüistas os cientistas da linguagem preferem usar o termo português brasileiro por ser mais claro e marcar bem essa diferença Na língua falada as diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil são tão grandes que muitas vezes surgem dificuldades de compreensão no vocabulário nas construções sintáticas no uso de certas expressões sem mencionar é claro as tremendas diferenças de pronúncia no português de Portugal existem vogais e consoantes que nossos ouvidos brasileiros custam a reconhecer porque não fazem parte de nosso sistema fonético3 E muitos estudos têm mostrado que os sistemas pronominais do português europeu e do português brasileiro são totalmente diferentes Por exemplo os pronomes oa de construções como eu o vi e eu a conheço estão praticamente extintos pg 24 no português falado no Brasil ao passo que no de Portugal continuam firmes e fortes Esses pronomes nunca aparecem na fala das crianças brasileiras nem na dos brasileiros nãoalfabetizados e têm baixa ocorrência na fala dos indivíduos cultos o que demonstra que são exclusivos da língua ensinada na escola sobretudo da língua escrita não fazendo parte então do repertório da língua materna dos brasileiros Nossas crianças usam sem problema me e te Ela me bateu Eu vou te pegar mas oa jamais que são substituídos por ele ela Eu vou pegar ele Eu vi ela As formas lo e la pegálo vêla então nem pensar Se as crianças não usam é porque não ouvem os adultos usar e se os adultos não usam 3 Assistindo um dia desses a televisão portuguesa por cabo ouvi os verbos uprar e dlibrar Consegue adivinhar o que é Sim operar e deliberar Também é comum os portugueses evitarem hiatos como a água introduzindo um y e pronunciando ayágua Além disso se uma palavra termina em s e a próxima começa com c os portugueses fundem essas duas consoantes numa só pronunciada como o x de xixi outros cinco é pronunciado otruxincu São realizações fonéticas totalmente estranhas à língua do brasileiro é porque não precisam desses pronomes E mesmo na língua dos adultos escolarizados esses pronomes só aparecem como um recurso estilístico em situações de uso mais formais quando o falante quer deixar claro que domina as regras impostas pela gramática escolar A gramática escolar no entanto desconhece essa transformação por que a língua está passando e insiste em considerar erradas construções como Eu conheço ele Você viu ela chegar etc O único nível em que ainda é possível uma compreensão quase total entre brasileiros e portugueses é o da língua escrita formal porque a ortografia é praticamente a mesma com poucas diferenças Mas um mesmo texto lido em voz alta por um brasileiro e por um português vai soar completamente diferente ou melhor difrent Aliás faça você mesmo a experiência tente tirar a letra de uma música cantada por um cantor ou uma cantora da terrinha e veja pg 25 como é difícil4 E por incrível que pareça um dos principais obstáculos para a difusão no Brasil do cinema feito em Portugal é justamente a língua além das dificuldades de distribuição ligadas ao quase monopólio do cinema americano Como os brasileiros têm dificuldades em entender o português de Portugal e como ficaria no mínimo estranho colocar legendas em filmes portugueses o resultado é que praticamente nunca se vê filme português nos cinemas daqui Temos a impressão de que Portugal não produz cinema o que é falso há bons cineastas 4 Eu mesmo uma vez passei por uma situação embaraçosa um amigo meu francês me enviou uma fita cassete com músicas do compositor português José Afonso por sinal maravilhoso e me pediu para tirar a letra de uma delas de que ele gostava muito Depois de algumas tentativas acabei desistindo porque havia muitas frases inteiras das quais eu não pescava simplesmente nada Ele espantado me perguntou Mas ele não canta em português Tive de explicar ao meu amigo que havia grandes diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal Mas eu tive a minha vingança Pedi a esse mesmo amigo pouco depois que transcrevesse a letra de uma canção gravada por uma cantor canadense e ele teve a mesma dificuldade porque o francês do Canadá às vezes pode ser incompreensível para um falante do francês da França portugueses um dos quais Manuel dOliveira é reconhecido internacionalmente como um grande diretor No que diz respeito ao ensino do português no Brasil o grande problema é que esse ensino até hoje depois de mais de cento e setenta anos de independência política continua com os olhos voltados para a norma lingüística de Portugal As regras gramaticais consideradas certas são aquelas usadas por lá que servem para a língua falada lá que retratam bem o funcionamento da língua que os pg 26 portugueses falam É a concepção que impera por exemplo no livro Não erre mais de Luiz Antonio Sacconi que na página 64 explica A Lua é mais pequena que a Terra Eis aí uma frase corretíssima que muitos imaginam o contrário Mais pequeno é expressão legítima usada por todos os portugueses que usam menor quando se trata de idéia de qualidade poeta menor escritor menor etc grifo meu Fica implícito então que para considerar uma expressão legítima basta que ela seja usada por todos os portugueses como se eles ditassem a norma lingüística válida para todos os povos que falam português Ora todos sabemos que mais pequeno não funciona no Brasil é uma expressão rejeitada pela norma culta brasileira que usa menor em todas as circunstâncias em que há comparação O mesmo espírito guiou a revista Época que em sua edição de 14 de junho de 1999 estampou uma grande reportagem sobre A ciência de escrever bem acerca da redação no vestibular Entre as melhores redações apresentadas naquele ano ao vestibular da Universidade de São Paulo estava a de Henrique Suguri 17 anos que em determinado momento assim se expressou p 81 O Brasil hoje não é europeu africano asiático indígena Nós somos a mistura exata de tudo isso completamente diferentes das nossas origens únicos E apesar disso estamos indiscutivelmente atrelados aos princípios da nossa matriz Talvez o ano 2000 possa servir para abrirmos os olhos e em vez de comemorarmos os nossos cinco séculos coloniais enterrarmos o que sobrou deles pg 27 Essa belíssima declaração de independência essa consciência da especificidade cultural do povo brasileiro essa valorização de nossa identidade nacional única parece que não foi totalmente compreendida pelos autores da reportagem Pois estes em vez de aceitar o convite do jovem vestibulando para enterrar o que sobrou dos cinco séculos de colonização fizeram questão de comprovar ao contrário que ainda estamos indiscutivelmente atrelados aos princípios da nossa matriz incluindo aí é claro os princípios lingüísticos Digo isso porque na página 84 da mesma reportagem aparece um quadro chamado Como escrever bem que tem como subtítuloDicas que valem para brasileiros de todas as idades Acontece que a primeiríssima destas dicas é a seguinte O uso do gerúndio empobrece o texto Lembre que não existe gerúndio no português falado em Portugal Ora se são dicas para brasileiros que querem escrever bem por que motivos eles têm de se lembrar do que existe ou não existe no português de Portugal A dica além de deixar à mostra sua inspiração neocolonialista também afirma uma inverdade lingüística no português de Portugal existe sim o gerúndio A título de curiosidade lembrome do Fado do ciúme sucesso na voz de Amália Rodrigues uma das maiores cantoras portuguesas de todos os tempos cuja letra a certa altura diz antes prefiro morrer do que contigo viver sabendo que gostas dela Esse sabendo outra coisa não é senão um gerúndio Aproveito para chamar atenção para o antes pg 28 prefirodo que indício de que os portugueses também erram na hora de usar o verbo preferir O que não existe no português falado em Portugal é a construção do tipo estou comendo ela está telefonando Pedro esteve trabalhando muito situações em que os portugueses usam a preposição a seguida do verbo no infinitivo Imagine agora se algum de nós brasileiros disser por aí frases como estou a comer ela está a telefonarPedro esteve a trabalhar muito que são uma das características mais marcantes do português de Portugal Como não me canso de repetir são simplesmente diferenças de uso e diferença não é deficiência nem inferioridade Quanto tempo ainda teremos de esperar para nos darmos conta de uma vez por todas de que somos completamente diferentes das nossas origens únicos como tão brilhantemente escreveu Henrique Suguri em sua redação de vestibular Por causa desse preconceito é que somos obrigados a ensinar e aprender que o certo é dizer e escrever Dême um beijo e não Me dá um beijo e que é errado dizer e escrever Assisti o filme e Alugase casas porque lá em Portugal não é assim que se faz O mito de que brasileiro não sabe português também afeta o ensino de línguas estrangeiras É muito comum verificar entre professores de inglês francês ou espanhol um grande desânimo diante das dificuldades de ensinar o idioma estrangeiro E é mais comum ainda ouvilos dizer Os alunos já não sabem português imagine se vão conseguir aprender outra língua fazendo a velha confusão entre pg 29 língua e gramática normativa É muito fácil atribuir aos outros a culpa do nosso próprio fracasso Assim em vez de buscar as causas da dificuldade de ensino na metodologia empregada nas diferenças de aptidão individual para o aprendizado de línguas ou na competência do próprio professor é muito mais cômodo jogar a culpa no aluno ou na incompetência lingüística inata do brasileiro É curioso como muitos brasileiros assumem esse mesmo preconceito negativo também em relação a outras línguas defendendo sempre a língua da metrópole contra a língua da ex colônia É o nosso eterno trauma de inferioridade nosso desejo de nos aproximarmos o máximo possível do cultuado padrão ideal que é a Europa Todo santo dia tenho de ouvir alguém me dizer que prefere o inglês britânico porque acha o inglês americano muito feio A essas pessoas eu dou sempre a mesma resposta aprenda o inglês britânico se quiser ler Shakespeare mas se quiser dominar uma língua de uso internacional aceita em todos os cantos do mundo como veículo de intercâmbio cultural comercial diplomático tecnológico científico etc aprenda o inglês americano Se algum de nós disser a um norteamericano que ele não sabe inglês ou que o inglês falado nos Estados Unidos é errado ou feio ele decerto vai ficar chocado com nossa ignorância Afinal existe um argumento mais do que convincente para rebater essa acusação o tamanho do país e a quantidade de falantes de inglês que ali vivem além da importância dos Estados Unidos no panorama mundial pg 30 O mesmo argumento vale para o português do Brasil Nosso país é 92 vezes e meia maior que Portugal e nossa população é quase 15 vezes superior Quando se trata de língua temos de levar em conta a quantidade só na cidade de São Paulo vivem mais falantes de português do que em toda a Europa Além disso o papel do Brasil no cenário políticoeconômico mundial é de longe muito mais importante que o de Portugal Não tem sentido nenhum portanto continuar alimentando essa fantasia de que os portugueses são os verdadeiros donos da língua enquanto nós a utilizamos e mal apenas por empréstimo Existe embutida nesse mito a ilusão de que os portugueses falam e escrevem tudo certo e que seguem rigorosamente as regras da gramática ensinada na escola A professora Irandé Antunes de quem tive a honra de ser aluno na Universidade Federal de Pernambuco me contou que quando estava para embarcar para Portugal onde viveria alguns anos preparando seu doutorado muitas pessoas no Brasil lhe disseram Você vai morar em Portugal Então agora suas filhas vão aprender a falar direito Não é nada disso Assim como nós aqui cometemos nossos pecados contra a gramática normativa os portugueses também cometem os deles só que mais uma vez diferentes dos nossos Em Portugal por exemplo o plural de tu não é vós como querem as gramáticas normativas O plural de tu é vocês Pois bem na hora de usar os possessivos os portugueses usam vossovossa que teoricamente só poderiam ser usados com referência a vós Vocês trouxeram os vossos filhos E num livro editado pg 31 em Portugal encontrei a seguinte pergunta Não vos sucede sentirem se por vezes um pouco indefinidos É a famosa mistura de tratamento que causa tanto arrepio e dor de estômago nos gramáticos conservadores mistura que em termos científicos e nãopreconceituosos deve ser analisada de fato como uma reorganização do sistema pronominal da língua tanto a de lá como a de cá Então não há por que continuar difundindo essa idéia mais do que absurda de que brasileiro não sabe português O brasileiro sabe o seu português o português do Brasil que é a língua materna de todos os que nascem e vivem aqui enquanto os portugueses sabem o português deles Nenhum dos dois é mais certo ou mais errado mais feio ou mais bonito são apenas diferentes um do outro e atendem às necessidades lingüísticas das comunidades que os usamnecessidades que também são diferentes Em seu livro Emília no País da Gramática publicado em 1934 Monteiro Lobato já chamava a atenção para esse tipo de preconceito que no entanto continua firme e forte no Brasil de hoje Numa conversa com as crianças do Sítio do Picapau Amarelo a velha Dona Etimologia lhes diz pp 100101 Uma língua não pára nunca Evolui sempre isto é muda sempre Há certos gramáticos que querem fazer a língua parar num certo ponto e acham que é erro dizermos de modo diferente do que diziam os clássicos Quem vem a ser clássicos perguntou a menina Narizinho Os entendidos chamam clássicos aos escritores antigos como o padre Antônio Vieira Frei Luís de Sousa o padre pg 32 Manuel Bernardes e outros Para os carranças quem não escreve como eles está errado Mas isso é curteza de vistas Esses homens foram bons escritores no seu tempo Se aparecessem agora seriam os primeiros a mudar ou a adotar a língua de hoje para serem entendidos A língua variou muito e sobretudo aqui na cidade nova o Brasil Inúmeras palavras que na cidade velha Portugal querem dizer uma coisa aqui dizem outra Também no modo de pronunciar as palavras existem muitas variações Aqui todos dizem PEITO lá todos dizem PAITO embora escrevam a palavra da mesma maneira Aqui se diz TENHO e lá se diz TANHO Aqui se diz VERÃO e lá se diz VRÃO Também eles dizem por lá VATATA VACALHAU BACA VESOURO lembrou Pedrinho Sim o povo de lá troca muito o v pelo B e viceversa Nesse caso aqui nesta cidade se fala mais direito do que na cidade velha concluiu Narizinho Por quê Ambas têm o direito de falar como quiserem e portanto ambas estão certas O que sucede é que uma língua sempre que muda de terra começa a variar muito mais depressa do que se não tivesse mudado Os costumes são outros a natureza é outra as necessidades de expressão tornamse outras Tudo junto força a língua que emigra a adaptarse à sua nova pátria A língua desta cidade Brasil está ficando um dialeto da língua velha Com o correr dos séculos é bem capaz de ficar tão diferente da língua velha como esta ficou diferente do latim Vocês vão ver Monteiro Lobato que morreu em 1948 estava muito mais por dentro das noções da lingüística moderna do que muito autor de gramática que está por aí hoje vivo e bulindo como se diz no Nordeste pg 33 É espantoso que a figura do gramático autoritário e intolerante ridicularizado por Lobato na personagem do professor Aldrovando Cantagalo em seu delicioso conto O colocador de pronomes de 1924 tenha voltado à cena neste fim de século sob a roupagem enganosamente moderna da televisão do computador e da multimídia pg 34 Mito n 3 Português é muito difícil Essa afirmação preconceituosa é primairmã da idéia que acabamos de derrubar a de que brasileiro não sabe português Como o nosso ensino da língua sempre se baseou na norma gramatical de Portugal as regras que aprendemos na escola em boa parte não correspondem à língua que realmente falamos e escrevemos no Brasil Por isso achamos que português é uma língua difícil porque temos de decorar conceitos e fixar regras que não significam nada para nós No dia em que nosso ensino de português se concentrar no uso real vivo e verdadeiro da língua portuguesa do Brasil é bem provável que ninguém mais continue a repetir essa bobagem Todo falante nativo de uma língua sabe essa língua Saber uma língua no sentido científico do verbo saber significa conhecer intuitivamente e empregar com naturalidade as regras básicas de funcionamento dela Está provado e comprovado que uma criança entre os 3 e 4 anos de idade já domina perfeitamente as regras gramaticais de sua língua O que ela não conhece são sutilezas sofisticações e irregularidades no uso dessas regras coisas que só a leitura e o estudo podem lhe dar Mas nenhuma criança brasileira dessa idade vai dizer por exemplo Uma meninos chegou aqui amanhã Um estrangeiro porém que esteja começando a aprender português poderá se confundir e falar assim Por isso aquela piadinha que muita gente solta quando vê uma criancinha estrangeira falando Tão pequeno e já fala tão bem pg 35 inglês ou outra língua tem seu fundo de verdade muito pouca gente conseguirá falar uma língua estrangeira com tanta desenvoltura quanto uma criança de cinco anos que tem nela sua língua materna Por quê Porque toda e qualquer língua é fácil para quem nasceu e cresceu rodeado por ela Se existisse língua difícil ninguém no mundo falaria húngaro chinês ou guarani e no entanto essas línguas são faladas por milhões de pessoas inclusive criancinhas analfabetas Se tanta gente continua a repetir que português é difícil é porque o ensino tradicional da língua no Brasil não leva em conta o uso brasileiro do português Um caso típico é o da regência verbal O professor pode mandar o aluno copiar quinhentas mil vezes a frase Assisti ao filme Quando esse mesmo aluno puser o pé fora da sala de aula ele vai dizer ao colega Ainda não assisti o filme do Zorro Porque a gramática brasileira não sente a necessidade daquela preposição a que era exigida na norma clássica literária cem anos atrás e que ainda está em vigor no português falado em Portugal a dez mil quilômetros daqui É um esforço árduo e inútil um verdadeiro trabalho de Sísifo tentar impor uma regra que não encontra justificativa na gramática intuitiva do falante A prova mais visível disso é que aquelas mesmas pessoas que por causa da pressão policialesca da escola e da gramática tradicional usam a preposição a depois do verbo assistir também dizem que o jogo foi assistido por vinte mil pessoas Ora se o verbo assistir pede uma preposição é porque ele não é transitivo direto e só os verbos transitivos diretos podem segundo as gramáticas assumir a voz passiva Desse modo quem diz assisti ao pg 36 jogo não poderia teoricamente dizer o jogo foi assistido Só que essa esquizofrenia gramatical acontece o tempo todo Basta ler jornais como a Folha de S Paulo e o Estado de S Paulo cujos manuais de redação decretam que o verbo assistir tem que vir obrigatoriamente seguido da preposição a Na voz ativa a preposição aparece Vinte mil pagantes assistiram ao jogo porque assim manda o manual da redação Mas na hora de usar a voz passiva a gramática intuitiva brasileira do redator se manifesta e a gente encontra milhares de exemplos do tipo o jogo foi assistido por vinte mil pagantes Essas pessoas então ficam em cima do muro acertam na voz ativa por causa do patrulhamento lingüístico mas erram na passiva porque se deixam levar pelo uso normal do português brasileiro Tudo isso por causa da cobrança indevida por parte do ensino tradicional de uma norma gramatical que não corresponde à realidade da língua falada no Brasil O professor Sirio Possenti da UNICAMP em seu excelente livro Por que não ensinar gramática na escola classifica a regência assistir a como um arcaísmo uma forma sintática que já caiu em desuso mas continua sendo cobrada injustificadamente pelo ensino tradicionalista que se recusa a admitir a extinção desse e de muitos outros dinossauros lingüísticos Por isso tantas pessoas terminam seus estudos depois de onze anos de ensino fundamental e médio sentindose incompetentes para redigir o que quer que seja E não é à toa se durante todos esses anos os professores tivessem chamado a atenção dos alunos para o que é realmente interessante e importante se tivessem desenvolvido pg 37 as habilidades de expressão dos alunos em vez de entupir suas aulas com regras ilógicas e nomenclaturas incoerentes as pessoas sentiriam muito mais confiança e prazer no momento de usar os recursos de seu idioma que afinal é um instrumento maravilhoso e que pertence a todos Falaremos disso na terceira parte deste livro Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuam achando que não sabem português ou que português é muito difícil é porque esta disciplina fascinante foi transformada numa ciência esotérica numa doutrina cabalística que somente alguns iluminados os gramáticos tradicionalistas conseguem dominar completamente Eles continuam insistindo em nos fazer decorar coisas que ninguém mais usa fósseis gramaticais e a nos convencer de que só eles podem salvar a língua portuguesa da decadência e da corrupção Hoje em dia aliás alguns deles estão até fazendo sucesso na televisão no rádio e em outros meios de comunicação transformando essa suposta dificuldade do português num produto com boa saída comercial Para o já citado Arnaldo Niskier tratase de uma saudável epidemia que tomou conta da imprensa brasileira Que é epidemia concordo mas quanto a ser saudável tenho muitas e sérias dúvidas É livro é curso em vídeocassete é CDROM é Manual de Redação do Jornal Tal é consultório gramatical por telefone Eles juram que quem não souber conjugar o verbo apropinquarse vai direto para o inferno Na segunda parte deste livro tratarei de explicar por que não considero saudável essa epidemia pg 38 No fundo a idéia de que português é muito difícil serve como mais um dos instrumentos de manutenção do status quo das classes sociais privilegiadas Essa entidade mística e sobrenatural chamada português só se revela aos poucos iniciados aos que sabem as palavras mágicas exatas para fazêla manifestarse Tal como na Índia antiga o conhecimento da gramática é reservado a uma casta sacerdotal encarregada de preservála pura e intacta longe do contato infeccioso dos párias A propaganda da suposta dificuldade da língua é como diz Gnerre no livro já citadoo arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder p 6 Sustentar que português é muito difícil é cavar uma profunda trincheira entre os poucos que sabem a língua e a massa enorme de asnos termo usado por Luiz Antonio Sacconi em seu livro Não erre mais que necessitam assim do auxílio indispensável daqueles mestres para saltar com segurança por sobre o abismo da ignorância Em termos mais brandos a embalagem do CDROM Nossa língua portuguesa oferece o produto como uma ajuda a evitar as armadilhas da língua Ora não é a língua que tem armadilhas mas sim a gramática normativa tradicional que as inventa precisamente para justificar sua existência e para nos convencer de que ela é indispensável Não seria a hora de acionar a Lei de Defesa do Consumidor contra essa reserva de mercado pg 39 Mito n 4 As pessoas sem instrução falam tudo errado O preconceito lingüístico se baseia na crença de que só existe como vimos no Mito n 1 uma única língua portuguesa digna deste nome e que seria a língua ensinada nas escolas explicada nas gramáticas e catalogada nos dicionários Qualquer manifestação lingüística que escape desse triângulo escolagramáticadicionário é considerada sob a ótica do preconceito lingüístico errada feia estropiada rudimentar deficiente e não é raro a gente ouvir que isso não é português Um exemplo Na visão preconceituosa dos fenômenos da língua a transformação de I em R nos encontros consonantais como em Cráudia chicrete praca broco pranta é tremendamente estigmatizada e às vezes é considerada até como um sinal do atraso mental das pessoas que falam assim Ora estudando cientificamente a questão é fácil descobrir que não estamos diante de um traço de atraso mental dos falantes ignorantes do português mas simplesmente de um fenômeno fonético que contribuiu para a formação da própria língua portuguesa padrão Basta olharmos para o seguinte quadro pg 40 PORTUGUÊS PADRÃO ETIMOLOGIA ORIGEM branco blank germânico brando blandu latim cravo clavu latim dobro duplu latim escravo sclavu latim fraco flaccu latim frouxo fluxu latim grude gluten latim obrigar obligare latim praga plaga latim prata plata provençal prega plica latim Como é fácil notar todas as palavras do portuguêspadrão listadas acima tinham na sua origem um I bem nítido que se transformou em R E agora Se fôssemos pensar que as pessoas que dizem Cráudia chicrete e pranta têm algum defeito ou atraso mental seríamos forçados a admitir que toda a população da província romana da Lusitânia também tinha esse mesmo problema na época em que a língua portuguesa estava se formando E que o grande Luís de Camões também sofria desse mesmo mal já que ele escreveu ingrês pubricar pranta frauta frecha na obra que é considerada até hoje o maior monumento literário do português clássico o poema Os Lusíadas E isso é craro seria no mínimo absurdo Existem evidentemente falantes da norma culta urbana pessoas escolarizadas que têm problemas para pg 41 pronunciar os encontros consonantais com L Nesses casos sim tratase realmente de uma dificuldade física que pode ser resolvida com uma terapia fonoaudiológica Não é dessas pessoas que estamos tratando aqui mas dos brasileiros falantes das variedades nãopadrão em cujo sistema fonético simplesmente não existe encontro consonantal com L independentemente de terem ou não dificuldades articulatórias Quando na escola se depararem com os encontros consonantais com L é preciso que o professor tenha consciência de que se trata de um aspecto fonético estrangeiro para eles do mesmo tipo dos que encontramos por exemplo nos cursos de inglês quando nos esforçamos para pronunciar bem o TH de throw ou o I de live É preciso separar bem os dois aspectos do fenômeno Se dizer Cráudia praca pranta é considerado errado e por outro lado dizer frouxo escravo branco praga é considerado certo isso se deve simplesmente a uma questão que não é lingüística mas social e política as pessoas que dizem Cráudia praca pranta pertencem a uma classe social desprestigiada marginalizada que não tem acesso à educação formal e aos bens culturais da elite e por isso a língua que elas falam sofre o mesmo preconceito que pesa sobre elas mesmas ou seja sua língua é considerada feiapobrecarente quando na verdade é apenas diferente da língua ensinada na escola Ora do ponto de vista exclusivamente lingüístico o fenômeno que existe no português nãopadrão é o mesmo que aconteceu na história do portuguêspadrão e pg 42 tem até um nome técnico rotacismo O rotacismo participou da formação da língua portuguesa padrão como já vimos em branco escravo praga fraco etc mas ele continua vivo e atuante no português nãopadrão como em broco chicrete pranta Cráudia porque essa variedade não padrão deixa que as tendências normais e inerentes à língua se manifestem livremente Assim o problema não está naquilo que se fala mas em quem fala o quê Neste caso o preconceito lingüístico é decorrência de um preconceito social Este tipo específico de preconceito é o que abordei em meu livro A língua de Eulália Minha heroína literária predileta a boneca Emília de Monteiro Lobato não quis saber desse tipo de preconceito Ao visitar no País da Gramática a prisão onde Dona Sintaxe mantinha enjaulados os vícios de linguagem revoltouse ao ver atrás das grades o Provincianismo isto é os vícios da fala rural do caipira p 120 Emília não achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua e soltouo Vá passear seu Jeca Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser lei um dia Foi você quem inventou o VOCÊ em vez de TU e só isso quanto não vale Estamos livres da complicação antiga do Tuturututu Como se vê do mesmo modo como existe o preconceito contra a fala de determinadas classes sociais também existe o preconceito contra a fala característica de certas regiões É um verdadeiro acinte aos direitos humanos por exemplo o modo como a fala nordestina é retratada pg 43 nas novelas de televisão principalmente da Rede Globo Todo personagem de origem nordestina é sem exceção um tipo grotesco rústico atrasado criado para provocar o riso o escárnio e o deboche dos demais personagens e do espectador No plano lingüístico atores não nordestinos expressamse num arremedo de língua que não é falada em lugar nenhum do Brasil muito menos no Nordeste Costumo dizer que aquela deve ser a língua do Nordeste de Marte Mas nós sabemos muito bem que essa atitude representa uma forma de marginalização e exclusão Para mostrar que a fala nordestina nada tem de engraçada ou ridícula vamos fazer uma pequena comparação Na pronúncia normal do Sudeste a consoante que escrevemos T é pronunciada tš como em tcheco toda vez que é seguida de um i Esse fenômeno fonético se chama palatalização Por causa dele nós sudestinos pronunciamos tšitšia a palavra escrita TITIA E todo mundo acha isso perfeitamente normal ninguém tem vontade de rir quando um carioca mineiro ou capixaba fala assim Quando porém um falante do Sudeste ouve um falante da zona rural nordestina pronunciar a palavra escrita OITO como oytšu ele acha isso muito engraçado ridículo ou errado Ora do ponto de vista meramente lingüístico o fenômeno é o mesmo palatalização só que o elemento provocador dessa palatalização o y está antes do t e não depois dele Então se o fenômeno é o mesmo por que na boca de um ele é normal e na boca de outro ele é engraçado pg 44 feio ou errado Porque o que está em jogo aqui não é a língua mas a pessoa que fala essa língua e a região geográfica onde essa pessoa vive Se o Nordeste é atrasado pobre subdesenvolvido ou na melhor das hipóteses pitoresco então naturalmente as pessoas que lá nasceram e a língua que elas falam também devem ser consideradas assim Ora façame o favor Rede Globo pg 45 Mito n5 O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão Não sei quem foi a primeira pessoa que proferiu essa grande bobagem mas a realidade é que até hoje ela continua sendo repetida por muita gente por aí inclusive gente culta que não sabe que isso é apenas um mito sem nenhuma fundamentação científica De onde será que veio essa idéia Esse mito nasceu mais uma vez da velha posição de subserviência em relação ao português de Portugal É sabido que no Maranhão ainda se usa com grande regularidade o pronome tu seguido das formas verbais clássicas com a terminação em s característica da segunda pessoa tu vais tu queres tu dizes tu comias tu cantavas etc Na maior parte do Brasil como sabemos devido à reorganização do sistema pronominal de que já falei o pronome tu foi substituído por você Aliás nas palavras da boneca Emília o tu já está velho coroco e o que ele deve fazer na opinião dela é ir arrumando a trouxa e pondose ao fresco e mudarse de vez para o bairro das palavras arcaicas De fato o pronome tu está em vias de extinção na fala do brasileiro e quando ainda é usado como por exemplo em alguns falares característicos de certas camadas sociais do Rio de Janeiro o verbo assume a forma da terceira pessoa tu vai tu fica tu quer tu deixa disso etc que caracteriza também a fala informal de algumas outras regiões Em Pernambuco por pg 46 exemplo é muito comum a interjeição interrogativa tu acha para indicar surpresa ou indignação Ora somente por esse arcaísmo por essa conservação de um único aspecto da linguagem clássica literária que coincide com a língua falada em Portugal ainda hoje é que se perpetua o mito de que o Maranhão é o lugar onde melhor se fala o português no Brasil Acontece porém que os defensores desse mito não se dão conta de que ao utilizarem o critério prescritivista de correção para sustentálo se esquecem de que os mesmos maranhenses que dizem tu és tu vais tu foste tu quiseste também dizem Esse é um bom livro para ti ler em vez da forma correta Esse é um bom livro para tu leres Ou seja eles atribuem ao pronome ti a mesma função de sujeito que em amplas regiões do Brasil nas mais diversas camadas sociais cultas inclusive é atribuída ao pronome mim quando antecedido da preposição para e seguido de verbo no infinitivo Para mim fazer isso vou precisar da sua ajuda uma construção sintática que deixa tanta gente de cabelo em pé O que acontece com o português do Maranhão em relação ao português do resto do país é o mesmo que acontece com o português de Portugal em relação ao português do Brasil não existe nenhuma variedade nacional regional ou local que seja intrinsecamente melhor mais pura mais bonita mais correta que outra Toda variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam Quando deixar de atender ela inevitavelmente sofrerá transformações para pg 47 se adequar às novas necessidades Toda variedade lingüística é também o resultado de um processo histórico próprio com suas vicissitudes e peripécias particulares Se o português de São Luís do Maranhão e de Belém do Pará assim como o de Florianópolis conservou o pronome tu com as conjugações verbais lusitanas é porque nessas regiões aconteceu no período colonial uma forte imigração de açorianos cujo dialeto específico influenciou a variedade de português brasileiro falado naqueles locais O mesmo acontece com algumas características italianizantes do português da cidade de São Paulo onde é grande a presença dos imigrantes italianos e seus descendentes ou com castelhanismos evidentes na fala dos gaúchos que mantêm estreitos contatos culturais com seus vizinhos argentinos e uruguaios Numa entrevista à revista Veja 10997 Pasquale Cipro Neto disse que é pura lenda a idéia de que o Maranhão é o lugar do Brasil onde melhor se fala português Ponto para ele Infelizmente continuando a tratar do assunto não hesitou em afirmar que no cômputo geral o carioca é o que se expressa melhor sob a ótica da norma culta e que a São Paulo que fala dois pastel e acabou as ficha é um horror Não acredito que o fato de ser uma cidade com grande número de imigrantes seja uma explicação suficiente para esse português esquisito dos paulistanos Na verdade é inexplicável Faltam argumentos científicos rigorosos por parte do entrevistado que nos expliquem como chegou ao cômputo pg 48 geral que lhe permitiu atribuir ao carioca uma expressão melhor sob a ótica da norma culta nem com que critérios metodológicos chegou à conclusão de que o português paulistano é esquisito O uso de expressões tão generalizadoras como o carioca de que classe social de que faixa etária com que nível de instrução ou a São Paulo que fala quase vinte milhões de habitantes duas vezes a população de Portugal acaba reforçando indiretamente devido à influência inegável de quem as formulou como formador de opinião a idéia de que o falar carioca é melhor e digno de maior prestígio que os demais falares brasileiros idéia que no passado levou até a se querer impor a pronúncia carioca como a oficial no teatro no canto lírico e nas salas de aula do Brasil inteiro As pesquisas sociolingüísticas que se baseiam em coleta de dados por meio de gravações da fala espontânea viva dos usuários nativos da língua confirmam uma suposição óbvia as pessoas das classes cultas de qualquer lugar dominam melhor a norma culta do que as pessoas das classes nãocultas de qualquer lugar Falantes cultos do Rio de Janeiro do Recife de Porto Alegre de São Paulo de Catolé do Rocha ou de Guaratinguetá se expressarão igualmente bem sob a ótica da norma culta Basta consultar por exemplo o enorme acervo de centenas de horas de gravação da fala urbana culta recolhido pelos pesquisadores do Projeto NURC5 para confirmar que pg 49 apesar das inevitáveis variações regionais existe uma norma urbana culta geral brasileira Muitos aspectos dessa norma urbana culta estão descritos nos seis volumes da Gramática do português falado uma grande obra coletiva publicada pela Editora da UNICAMP resultado do trabalho de investigação e análise de dezenas de lingüistas das mais diversas regiões do país De igual modo fenômenos de concordância do tipo dois pastel e acabou as ficha são facilmente encontráveis na fala carioca como podemos ouvir nas fitas gravadas do Projeto CENSO que 5 O material do Projeto NURC pode ser consultado nos vários livros publicados com as transcrições das fitas gravadas nas cincos diferentes cidades que compõem o projeto Recife Salvador Rio de Janeiro São Paulo e Porto Alegre Alguns desses livros são CASTILHO PRETI A linguagem falada culta na cidade de São Paulo São Paulo T A QueirozFAPESP 1987 vol 1 e 1988 vol 2 CALLOU LOPES A linguagem falada culta na cidade do Rio de Janeiro Rio de Janeiro UFRJ 1992 vol 1 1993 vol 2 e 1994 vol 3 HILGERT A linguagem falada culta na cidade de Porto Alegre UFRS 1997 vol 1 MOTA ROLLEMBERG A linguagem falada culta na cidade do Salvador UFBA 1994 vol 1 SÁ CUNHA LIMA OLIVEIRA A linguagem falada culta na cidade do Recife UFPE 1996 investiga o uso da língua no Rio de Janeiro nas classes sociais não cultas isto é pessoas que não cursaram universidade6 Além disso esse tipo de concordância se verifica de Norte a Sul do Brasil e também em Portugal segundo pesquisas recentes da professora Maria Marta Scherre Essa mesma pesquisadora defendeu na Universidade Federal do Rio de Janeiro uma tese de doutorado com o título Reanálise da concordância pg 50 nominal em português com 555 páginas que hoje é uma referência obrigatória para quem se aventurar a emitir opiniões a respeito Scherre mostra que ao contrário do que pensa Cipro aqueles fenômenos de concordância são na verdade altamente explicáveis Portanto não representam uma mera esquisitice dos paulistanos muito menos um horror Convém salientar que a determinação das normas culta e não culta é uma questão de grau de freqüência das variantes o que os normativistas considerariam erros ou acertos Por exemplo coisas como os menino tudo ou houveram fatos podem aparecer na fala de brasileiros cultos É preciso abandonar essa ânsia de tentar atribuir a um único local ou a uma única comunidade de falantes o melhor ou o pior português e passar a respeitar igualmente todas as variedades da língua que constituem um tesouro precioso de nossa cultura Todas elas têm o seu valor são veículos plenos e perfeitos de comunicação e de relação entre as pessoas que as falam Se tivermos de incentivar o uso de uma norma culta não podemos fazêlo de modo absoluto fonte do preconceito Temos de levar em consideração a presença de regras variáveis em todas as variedades a culta inclusive pg 51 6 A análise de alguns fenômenos variáveis do português falado na cidade do Rio de Janeiro com base no acervo do Projeto CENSO se encontra no livro organizado por SILVA SCHERRE Padrões sociolingüísticos Rio de Janeiro Tempo BrasileiroUFRJ 1996 Mito n 6 O certo é falar assim porque se escreve assim Diante de uma tabuleta escrita COLÉGIO é provável que um pernambucano lendoa em voz alta diga CÒlégio que um carioca diga CUlégio que um paulistano diga CÔlégio E agora Quem está certo Ora todos estão igualmente certos O que acontece é que em toda língua do mundo existe um fenômeno chamado variação isto é nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico Infelizmente existe uma tendência mais um preconceito muito forte no ensino da língua de querer obrigar o aluno a pronunciar do jeito que se escreve como se essa fosse a única maneira certa de falar português Imagine se alguém fosse falar inglês ou francês do jeito que se escreve Muitas gramáticas e livros didáticos chegam ao cúmulo de aconselhar o professor a corrigir quem fala muleque bêjo minino bisôro como se isso pudesse anular o fenômeno da variação tão natural e tão antigo na história das línguas Essa supervalorização da língua escrita combinada com o desprezo da língua falada é um preconceito que data de antes de Cristo É claro que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia oficial mas não se pode fazer isso tentando criar uma língua falada artificial e reprovando como erradas as pronúncias que são resultado natural das pg 52 forças internas que governam o idioma Seria mais justo e democrático dizer ao aluno que ele pode dizer BUnito ou BOnito mas que só pode escrever BONITO porque é necessária uma ortografia única para toda a língua para que todos possam ler e compreender o que está escrito mas é preciso lembrar que ela funciona como a partitura de uma música cada instrumentista vai interpretála de um modo todo seu particular O pintor belga René Magritte 18981967 tem um quadro famoso chamado A traição das imagens no qual se vê a figura de um cachimbo e embaixo dela a frase escrita Isto não é um cachimbo Em que esse exemplo pode servir à nossa discussão Isso não é um cachimbo de verdade mas simplesmente a representação gráfica pictórica de um cachimbo O mesmo acontece com a escrita alfabética em sua regulamentação ortográfica oficial Ela não é a fala é uma tentativa pg 53 de representação gráfica pictórica e convencional da língua falada Falarei mais detidamente da paranóia ortográfica na terceira parte deste livro Quando digo que a escrita é uma tentativa de representação é porque sabemos que não existe nenhuma ortografia em nenhuma língua do mundo que consiga reproduzir a fala com fidelidade Algumas ortografias como a do espanhol têm regras mais generalizáveis mais simples e mais coerentes que facilitam o ato de ler e escrever Mesmo assim no castelhanopadrão da Espanha pode sempre haver dúvidas Z ou C B ou V G ou J Outras línguas como o inglês têm mais exceções do que regras e é preciso aprender a escrever e a pronunciar praticamente cada palavra pois a generalização das regras ortográficas tem boa chance de falhar para um falante de português é estranho imaginar que as palavras jail e gaol tenham a mesma pronúncia Outras ainda como o chinês não buscam reproduzir a língua falada e optam pela escrita ideográfica Esta relação complicada entre língua falada e língua escrita precisa ser profundamente reexaminada no ensino Durante mais de dois mil anos os estudos gramaticais se dedicaram exclusivamente à língua escrita literária formal Foi somente no começo do século XX com o nascimento da ciência lingüística que a língua falada passou a ser considerada como o verdadeiro objeto de estudo científico Afinal a língua falada é a língua tal como foi aprendida pelo falante em seu contato com a família e com a comunidade pg 54 logo nos primeiros anos de vida É o instrumento básico de sobrevivência Um grito de socorro tem muito mais eficácia do que essa mesma mensagem escrita A língua escrita por seu lado é totalmente artificial exige treinamento memorização exercício e obedece a regras fixas de tendência conservadora além de ser uma representação não exaustiva da língua falada Faça você mesmo o teste pegue uma palavra bem simples fogo por exemplo e pronunciea com todas as inflexões e tons de voz que conseguir espanto medo alegria tristeza saudade ira remorso horror felicidade histeria pavor Depois tente reproduzir por escrito essas mesmas inflexões e tons de voz É impossível O máximo que a língua escrita oferece são os sinais de exclamação e de interrogação A mera forma escrita não é capaz de traduzir as inflexões e as intenções pretendidas pelo falante Por isso os autores de textos teatrais indicam entre parênteses a emoção sensação ou sentimento que o ator deve expressar numa dada fala A importância da língua falada para o estudo científico está principalmente no fato de ser nessa língua falada que ocorrem as mudanças e as variações que incessantemente vão transformando a língua Quem quiser por exemplo conhecer o estado atual da língua portuguesa do Brasil precisará investigar empiricamente a língua falada como fazem os pesquisadores dos projetos NURC e CENSO que já citei entre outros Afinal a escola as gramáticas normativas e os livros didáticos até hoje afirmam que os pronomes sujeitos de segunda pessoa são pg 55 tu e vós que o pronome você é simplesmente uma forma de tratamento que a mesóclise dar voloei diloíamos amarnosemos ainda é uma opção para a colocação dos pronomes oblíquos ou que o futuro do subjuntivo do verbo ver é vir Essa porém já não é a realidade de boa parte da língua escrita no Brasil que dirá da língua falada Do ponto de vista da história de cada indivíduo o aprendizado da língua falada sempre precede o aprendizado da língua escrita quando ele acontece Basta citar os bilhões de pessoas que nascem crescem vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever E no entanto ninguém pode negar que são falantes perfeitamente competentes de suas línguas maternas Do ponto de vista da história da humanidade é a mesma coisa A espécie humana tem pelo menos um milhão de anos Ora as primeiras formas de escrita conforme a classificação tradicional dos historiadores surgiram há apenas nove mil anos A humanidade portanto passou 990000 anos apenas falando Quando o estudo da gramática surgiu no entanto na Antigüidade clássica seu objetivo declarado era investigar as regras da língua escrita para poder preservar as formas consideradas mais corretas e elegantes da língua literária Aliás a palavra gramática em grego significa exatamente a arte de escrever Infelizmente essas mesmas regras da língua literária começaram a ser cobradas da língua falada o que é um disparate científico sem tamanho pg 56 Há cientistas que se dedicam especificamente a estudar as diferenças semelhanças interrelações e interações que existem entre as duas modalidades O ensino tradicional da língua no entanto quer que as pessoas falem sempre do mesmo modo como os grandes escritores escreveram suas obras A gramática tradicional despreza totalmente os fenômenos da língua oral e quer impor a ferro e fogo a língua literária como a única forma legítima de falar e escrever como a única manifestação lingüística que merece ser estudada Vejase por exemplo o caso da Nova gramática do português contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra Ao definirem o objetivo de seu trabalho os autores declaram no prefácio Tratase de uma tentativa de descrição do português atual na sua forma culta isto é da língua como a têm utilizado os escritores portugueses brasileiros e africanos do Romantismo para cá grifo meu Essa obra portanto só pode ser consultada por quem tiver dúvidas no momento de escrever um texto literário já que segundo os próprios autores não serão abordados fenômenos característicos de outras normas escritas como a jornalística ou a da produção científica muito menos os fenômenos típicos da língua falada A gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra é louvável pela honestidade com que declara seu objeto de estudo embora por diversas razões que não cabe aqui enumerar eles não cumpram o que prometem no prefácio pg 57 e acabem tratando de fatos da língua oral ao lado de fenômenos característicos da escrita A maioria das outras obras desse gênero porém não faz assim seus autores assumem a norma literária como a única digna de ser estudada ensinada e praticada e acham isso tão natural que nem se dão ao trabalho de definila como seu objeto de estudo Fica evidente que para eles só essa norma literária conservadora merece o título de língua portuguesa O que é dito ali vale para todas as variedades do português em qualquer lugar do mundo em qualquer momento histórico em qualquer classe social em qualquer faixa etária Portanto não é uma gramática é uma panacéia Essa ênfase no texto literário tem produzido uma visão redutora da língua identificandoa freqüentemente apenas com a regulamentação ortográfica Como se não bastasse os autores de compêndios gramaticais inclusive os mais recentes não fazem a distinção básica elementar entre ortografia e fonética isto é entre as regras da língua escrita e os fenômenos da língua oral Aliás por mais incrível que pareça muitos deles classificam a ortografia como uma das subdivisões da fonética É o mesmo que querer incluir os ursinhos de pelúcia na classe dos mamíferos carnívoros Gramático muito mais criterioso e atento é o rinoceronte Quindim personagem do Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato que levando as crianças do sítio a passear pelo País da Gramática insistiu muito para que seus alunos não confundissem letra e som p 6 pg 58 Trotou trotou e depois de muito trotar deu com eles numa região onde o ar chiava de modo estranho Que zumbido será este indagou a menina Narizinho Parece que andam voando por aqui milhões de vespas invisíveis É que já entramos em terras do País da Gramática explicou o rinoceronte Estes zumbidos são os Sons Orais que voam soltos no espaço Não comece a falar difícil que nós ficamos na mesma observou Emília Sons Orais que pedantismo é esse Som Oral quer dizer som produzido pela boca A E I O U são Sons Orais como dizem os senhores gramáticos Pois diga logo que são letras gritou Emília Mas não são letras protestou o rinoceronte Quando você diz A ou O você está produzindo um som não está escrevendo uma letra Letras são sinaizinhos que os homens usam para representar esses sons Primeiro há os Sons Orais depois é que aparecem as letras para marcar esses sons orais Entendeu O ar continuava num zunzum cada vez maior Os meninos pararam muito atentos a ouvir Estou percebendo muitos sons que conheço disse Pedrinho com a mão em concha ao ouvido Todos os sons que andam zumbindo por aqui são velhos conhecidos seus Pedrinho Querem ver que é o tal alfabeto lembrou Narizinho E é mesmo Estou distinguindo todas as letras do alfabeto Não menina você está apenas distinguindo todos os sons das letras do alfabeto corrigiu o rinoceronte com uma pachorra igual à de dona Benta Se você escrever cada um desses sons então sim então surgem as letras do alfabeto pg 59 Esse livro de Monteiro Lobato foi publicado em 1934 Mas as lições do rinoceronte Quindim ainda precisam ser lembradas e relembradas pois a literatura gramatical perpetua até hoje a confusão entre letra e fonema É assim que procedem por exemplo Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante em sua Gramática da língua portuguesa publicada no final de 1997 Por isso a gente não deve se surpreender quando esses autores explicam que a letra x representa o fonema š depois de um ditongo e dão como exemplo de palavras com ditongo ameixa caixa peixe eixo frouxo trouxa baixo sem fazer a menor menção ao fenômeno de monotongação que já atingiu essas palavras na língua falada no Brasil inclusive em sua norma culta urbana resultando nas pronúncias amêxa caxa pêxe êxo frôxo e baxo O termo ditongo dois sons que se aplica a um fenômeno fonético não cabe nesses exemplos que retratam simplesmente a convenção ortográfica que ainda conserva na escrita as duas letras vogais antes do X O que acontece é que esses monotongos podem vir a se ditongar em situações bem específicas tal como a redução da velocidade da fala com finalidade de dar ênfase ao enunciado Pensemos por exemplo no uso das palavras louco e loucura quando usadas de modo afetado para indicar coisas surpreendentes ou muito boas Foi uma louuucura Os mesmos autores dizem que na palavra QUAL existe um ditongo crescente quando qualquer brasileiro de ouvido mais afinado vai reconhecer aí na verdade um tritongo É muito restrita no português do Brasil a pronúncia pg 60 l ou ł para o L que aparece em final de sílaba Na grande maioria dos falares brasileiros esse L se pronúncia como a semivogal w É o velho preconceito grafocêntrico isto é a análise de toda a língua do ponto de vista restrito da escrita que impede o reconhecimento da verdadeira realidade lingüística Por isso temos de desconfiar desses livros que se autodenominam Gramática da língua portuguesa sem especificar seu objeto de estudo A língua portuguesa que eles abordam é uma variedade específica dentre as muitas existentes que tem de ser designada com todos os seus qualificativos Gramática da língua portuguesa escrita literária formal antiga Todos os demais fenômenos vivos da língua falada e de outras modalidades da língua escrita são deixados de fora desses livros pg 61 Mito n 7 É preciso saber gramática para falar e escrever bem É difícil encontrar alguém que não concorde com a declaração acima Ela vive na ponta da língua da grande maioria dos professores de português e está formulada em muitos compêndios gramaticais como a já citada Gramática de Cipro e Infante cujas primeiríssimas palavras são A Gramática é instrumento fundamental para o domínio do padrão culto da língua É muito comum também os pais de alunos cobrarem dos professores o ensino dos pontos de gramática tais como eles próprios os aprenderam em seu tempo de escola E não faltam casos de pais que protestaram veementemente contra professores e escolas que tentando adotar uma prática de ensino da língua menos conservadora não seguiam rigorosamente o que está nas gramáticas Conheço gente que tirou seus filhos de uma escola porque o livro didático ali adotado não ensinava coisas indispensáveis como antônimos coletivos e análise sintática Por que aquela declaração é um mito Porque como nos diz Mário Perini em Sofrendo a gramática p 50 não existe um grão de evidência em favor disso toda a evidência disponível é em contrário Afinal se fosse assim todos os gramáticos seriam grandes escritores o que está longe de ser verdade e os bons escritores seriam especialistas em gramática pg 62 Ora os escritores são os primeiros a dizer que gramática não é com eles Rubem Braga indiscutivelmente um dos grandes de nossa literatura escreveu uma crônica deliciosa a esse respeito chamada Nascer no Cairo ser fêmea de cupim Carlos Drummond de Andrade preciso de adjetivos para qualificálo no poema Aula de Português também dá testemunho de sua perturbação diante do mistério das figuras de gramática esquipáticas que compõem o amazonas de minha ignorância Drummond ignorante E o que dizer de Machado de Assis que ao abrir a gramática de um sobrinho se espantou com sua própria ignorância por não ter entendido nada Esse e outros casos são citados por Celso Pedro Luft em Língua e liberdade pp 2325 E esse mesmo autor nos diz p 21 Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais incute insegurança na linguagem gera aversão ao estudo do idioma medo à expressão livre e autêntica de si mesmo Mário Perini no livro que citamos acima chama a atenção para a propaganda enganosa contida no mito de que é preciso ensinar gramática para aprimorar o desempenho lingüístico dos alunos Quando justificamos o ensino de gramática dizendo que é para que os alunos venham a escrever ou ler ou falar melhor estamos prometendo uma mercadoria que não podemos entregar Os alunos percebem isso com bastante clareza embora talvez não o possam explicitar e esse é um dos fatores do descrédito da disciplina entre eles pg 63 E Sirio Possenti já citado lembranos que as primeiras gramáticas do Ocidente as gregas só foram elaboradas no século II a C mas que muito antes disso já existira na Grécia uma literatura ampla e diversificada que exerce influência até hoje em toda a cultura ocidental A Ilíada e a Odisséia já eram conhecidas no século VI a C Platão escreveu seus fascinantes Diálogos entre os séculos V e IV a C na mesma época do grande dramaturgo Esquilo verdadeiro criador da tragédia grega Que gramática eles consultaram Nenhuma Como puderam então escrever e falar tão bem sua língua O que aconteceu ao longo do tempo foi uma inversão da realidade histórica As gramáticas foram escritas precisamente para descrever e fixar como regras e padrões as manifestações lingüísticas usadas espontaneamente pelos escritores considerados dignos de admiração modelos a ser imitados Ou seja a gramática normativa é decorrência da língua é subordinada a ela dependente dela Como a gramática porém passou a ser um instrumento de poder e de controle surgiu essa concepção de que os falantes e escritores da língua é que precisam da gramática como se ela fosse uma espécie de fonte mística invisível da qual emana a língua bonita correta e pura A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática O que não está na gramática normativa não é português E os compêndios gramaticais se transformaram em livros sagrados cujos dogmas e cânones têm de ser obedecidos à risca para não se cometer nenhuma heresia pg 64 O resultado dessa inversão dos fatos históricos é visível por exemplo na Gramática de Cipro e Infante que na p 16 afirma A Gramática normativa estabelece a norma culta ou seja o padrão lingüístico que socialmente é considerado modelar As línguas que têm forma escrita como é o caso do português necessitam da Gramática normativa para que se garanta a existência de um padrão lingüístico uniforme Ora não é a gramática normativa que estabelece a norma culta A norma culta simplesmente existe como tal A tarefa de uma gramática seria isso sim definir identificar e localizar os falantes cultos coletar a língua usada por eles e descrever essa língua de forma clara objetiva e com critérios teóricos e metodológicos coerentes Sem isso não podemos confiar em gramáticas como a de Domingos Paschoal Cegalla que afirma simplesmente Este livro pretende ser uma Gramática Normativa da Língua Portuguesa do Brasil conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na época atual Novíssima gramática da língua portuguesa p xix Mas quem são essas pessoas cultas na época atual Com que critérios o autor as classificou de cultas Com que metodologia precisa identificou o modo como elas falam e escrevem Pois é disso precisamente que mais necessitamos hoje no Brasil da descrição detalhada e realista da norma culta objetiva com base em coletas confiáveis que se utilizem dos recursos tecnológicos mais avançados para que ela sirva de base ao ensinoaprendizagem pg 65 na escola e não mais uma norma fictícia que se inspira num ideal lingüístico inatingível baseado no uso literário artístico particular e exclusivo dos grandes escritores Afinal um instrutor de autoescola quer formar bons motoristas e não campeões internacionais de Fórmula 1 Um professor de português quer formar bons usuários da língua escrita e falada e não prováveis candidatos ao Prêmio Nobel de literatura Por outro lado não é a gramática normativa que vai garantir a existência de um padrão lingüístico uniforme Esse padrão lingüístico que pode chegar a certo grau de uniformidade mas nunca será totalmente uniforme pois é usado por seres humanos que nunca hão de ser criaturas física psicológica e socialmente idênticas como já dissemos existe na sociedade independentemente de haver ou não livros que o descrevam As plantas só existem porque os livros de botânica as descrevem É claro que não Os continentes só passaram a existir depois que os primeiros cartógrafos desenharam seus mapas Difícil acreditar A Terra só passou a ser esférica depois que as primeiras fotografias tiradas do espaço mostraramna assim Não Sem os livros de receitas não haveria culinária Eu sei muito bem que não a melhor cozinheira que conheço capaz de preparar centenas de pratos diferentes os mais sofisticados é uma pernambucana de quase oitenta anos cem por cento analfabeta Esse mito está ligado à milenar confusão que se faz entre língua e gramática normativa Mas é preciso desfazêla pg 66 Não há por que confundir o todo com a parte Lembrase do que eu falei na abertura do livro sobre a gramática normativa ser um igapó Acho que vale a pena repetir aqui Na Amazônia igapó é uma grande poça de água estagnada às margens de um rio sobretudo depois da cheia Acho uma boa metáfora para a gramática normativa Como eu disse enquanto a língua é um rio caudaloso longo e largo que nunca se detém em seu curso a gramática normativa é apenas um igapó uma grande poça de água parada um charco um brejo um terreno alagadiço à margem da língua Enquanto a água do riolíngua por estar em movimento se renova incessantemente a água do igapógramática normativa envelhece e só se renovará quando vier a próxima cheia É a mesma coisa que nos explica em termos científicos Luiz Carlos Cagliari em Alfabetização lingüística7 A gramática normativa foi num primeiro momento uma gramática descritiva de um dialeto de uma língua Depois a sociedade fez dela um corpo de leis para reger o uso da linguagem Por sua própria natureza uma gramática normativa está con denada ao fracasso já que a linguagem é um fenômeno dinâmico e as línguas mudam com o tempo e para continuar sendo a expressão do poder social demonstrado por um dialeto a gramática normativa deveria mudar Se não é o ensinoestudo da gramática que vai garantir a formação de bons usuários da língua o que vai garantila Existe muito debate a respeito entre os lingüistas pg 67 e os pedagogos O certo é que eles são praticamente unânimes em combater aquele mito Há lugar para a gramática na escola Parece que sim Mas também parece ser um lugar bastante diferente do que lhe era atribuído na prática tradicional de ensino da língua Na terceira parte deste livro tentarei expor algumas opiniões a respeito De todo modo algumas pessoas muito competentes já explicaram tudo isso melhor do que eu seria capaz Por isso ao leitor e à leitora interessados nesse tema recomendo a leitura entre outros dos já citados Sofrendo a gramática de Mário Perini Por que não ensinar gramática na escola de Sírio Possenti e Língua e liberdade de Celso Pedro Luft e também Linguagem língua e fala de Ernani Terra Contradições no ensino de português de Rosa Virgínia Mattos e Silva e Gramática na escola de Maria Helena de Moura Neves Esses livros nos ajudam a compreender melhor os mecanismos de exclusão que agem por trás da imposição das normas gramaticais conservadoras no ensino da língua e de que 7 Citado por Ernani Terra Linguagem língua e fala p 46 modo poderíamos em nossa prática pedagógica tentar desmontá los pg 68 Mito n8 O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social Este mito que vem fechar nosso circuito mitológico tem muito que ver com o primeiro o mito da unidade lingüística do Brasil Esses dois mitos são aparentados porque ambos tocam em sérias questões sociais É muito comum encontrar pessoas muito bem intencionadas que dizem que a norma padrão conservadora tradicional literária clássica é que tem de ser mesmo ensinada nas escolas porque ela é um instrumento de ascensão social Seria então o caso de dar uma língua àqueles que eu chamei de sem língua Ora se o domínio da norma culta fosse realmente um instrumento de ascensão na sociedade os professores de português ocupariam o topo da pirâmide social econômica e política do país não é mesmo Afinal supostamente ninguém melhor do que eles domina a norma culta Só que a verdade está muito longe disso como bem sabemos nós professores a quem são pagos alguns dos salários mais obscenos de nossa sociedade Por outro lado um grande fazendeiro que tenha apenas alguns poucos anos de estudo primário mas que seja dono de milhares de cabeças de gado de indústrias agrícolas e detentor de grande influência política em sua região vai poder falar à vontade sua língua de caipira com todas as formas sintáticas consideradas erradas pela gramática pg 69 tradicional porque ninguém vai se atrever a corrigir seu modo de falar O que estou tentando dizer é que o domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha todos os dentes que não tenha casa decente para morar água encanada luz elétrica e rede de esgoto O domínio da norma culta de nada vai servir a uma pessoa que não tenha acesso às tecnologias modernas aos avanços da medicina aos empregos bem remunerados à participação ativa e consciente nas decisões políticas que afetam sua vida e a de seus concidadãos O domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente a uma pessoa que viva numa zona rural onde um punhado de senhores feudais controlam extensões gigantescas de terra fértil enquanto milhões de famílias de lavradores semterra não têm o que comer Achar que basta ensinar a norma culta a uma criança pobre para que ela suba na vida é o mesmo que achar que é preciso aumentar o número de policiais na rua e de vagas nas penitenciárias para resolver o problema da violência urbana A violência urbana está intimamente ligada a uma situação social de profunda injustiça que dá ao Brasil como eu já disse o triste segundo lugar entre os países com a pior distribuição de renda de todo o mundo perdendo apenas para Botswana um país africano desértico muito menor e muito menos desenvolvido É preciso garantir sim a todos os brasileiros o reconhecimento sem o tradicional julgamento de valor da pg 70 variação lingüística porque o mero domínio da norma culta não é uma fórmula mágica que de um momento para outro vai resolver todos os problemas de um indivíduo carente É preciso favorecer esse reconhecimento mas também garantir o acesso à educação em seu sentido mais amplo aos bens culturais à saúde e à habitação ao transporte de boa qualidade à vida digna de cidadão merecedor de todo respeito Como é fácil perceber o que está em jogo não é a simples transformação de um indivíduo que vai deixar de ser um sem língua padrão para tornarse um falante da variedade culta O que está em jogo é a transformação da sociedade como um todo pois enquanto vivermos numa estrutura social cuja existência mesma exige desigualdades sociais profundas toda tentativa de promover a ascensão social dos marginalizados é senão hipócrita e cínica pelo menos de uma boa intenção paternalista e ingênua Por isso eu me pergunto será que doando a língua padrão a um indivíduo das classes subalternas ele vai automaticamente tornarse um patrão Não é mera coincidência etimológica o fato de padrão e patrão serem duas formas divergentes de uma mesma origem comum o latim patronu que tem também a mesma raiz de paternalismo e patriarcalismo Valerá mesmo a pena promover a ascensão social para que alguém se enquadre dentro desta sociedade em que vivemos tal como ela se apresenta hoje Basta pensar um pouco nos indivíduos que detêm o poder no Brasil não são quando são apenas falantes da norma culta mas são sobretudo em sua grande maioria homens pg 71 brancos heterossexuais nascidoscriados na porção SulSudeste do país ou oriundos das oligarquias feudais do Nordeste Como eu já tinha avisado na abertura do livro falar da língua é falar de política e em nenhum momento esta reflexão política pode estar ausente de nossas posturas teóricas e de nossas atitudes práticas de cidadão de professor e de cientista Do contrário estaremos apenas contribuindo para a manutenção do círculo vicioso do preconceito lingüístico e do irmão gêmeo dele o círculo vicioso da injustiça social pg 72 II O círculo vicioso do preconceito lingüístico 1 Os três elementos que são quatro Os mitos que acabamos de examinar são transmitidos e perpetuados em nossa sociedade cada um deles em grau maior ou menor por um mecanismo que podemos chamar de círculo vicioso do preconceito lingüístico Esse círculo vicioso se forma pela união de três elementos que sem desrespeitar meus amigos teólogos costumo denominar Santíssima Trindade do preconceito lingüístico Esses três elementos são a gramática tradicional os métodos tradicionais de ensino e os livros didáticos Como é que se forma esse círculo Assim a gramática tradicional inspira a prática de ensino que por sua pg 73 vez provoca o surgimento da indústria do livro didático cujos autores fechando o círculo recorrem à gramática tradicional como fonte de concepções e teorias sobre a língua Á gramática tradicional em sua vertente normativo prescritivista continua firme e forte como é fácil verificar nos compêndios gramaticais mais recentes As práticas de ensino variam muito de região para região de escola para escola e até de professor para professor de acordo com as concepções pedagógicas adotadas A tendência atual mencionada no início deste livro à crítica dos preconceitos e ao exercício da tolerância tem tornado o ambiente escolar bastante mais respirável e democrático do que por exemplo na época em que estudei em plena ditadura militar Como já vimos a mais alta instância educacional do país o Ministério da Educação tem feito esforços louváveis para provocar uma reflexão sobre os temas relativos à ética e à cidadania plena do indivíduo para estimular uma postura menos dogmática e mais flexível por parte pelo menos das escolas públicas Os já citados Parâmetros curriculares nacionais reconhecem que existe muito preconceito decorrente do valor atribuído às variedades padrão e ao estigma associado às variedades nãopadrão consideradas inferiores ou erradas pela gramática Essas diferenças não são imediatamente reconhecidas e quando são são objeto de avaliação negativa Para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão a escola precisa livrarse de vários mitos o de que pg 74 existe uma forma correta de falar o de que a fala de uma região é melhor do que a de outras o de que a fala correta é a que se aproxima da língua escrita o de que o brasileiro fala mal o português o de que o português é uma língua difícil o de que é preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado Essas crenças insustentáveis produziram uma prática de mutilação cultural 1 1 Ministério da Educação e do Desporto 1998 Parâmetros curriculares nacionais Língua Portuguesa 5ª a 8a séries p 31 Temos ainda de esperar para ver em que medida esses esforços se refletirão na prática quotidiana efetiva dos professores em sala de aula Acompanhando esse movimento muitas editoras vêm tentando produzir um material didático mais compatível com as novas concepções pedagógicas e o sistema oficial de avaliação dos livros didáticos apesar de muito criticado tem contribuído para uma revisão das formas tradicionais de elaboração desse tipo de livro Mas os preconceitos como bem sabemos impregnamse de tal maneira na mentalidade das pessoas que as atitudes preconceituosas se tornam parte integrante do nosso próprio modo de ser e de estar no mundo É necessário um trabalho lento contínuo e profundo de conscientização para que se comece a desmascarar os mecanismos perversos que compõem a mitologia do preconceito E o tipo mais trágico de preconceito não é aquele que é exercido por uma pessoa em relação a outra mas o preconceito pg 75 que uma pessoa exerce contra si mesma Infelizmente ainda existem muitas mulheres que se consideram inferiores aos homens existem negros que acreditam que seu lugar é mesmo de subserviência em relação aos brancos existem homossexuais convictos de que sofrem de uma doença que pode inclusive ser curada Do mesmo modo muitos brasileiros acreditam que não sabem português que português é muito difícil ou que a língua falada aqui é toda errada E ao contrário dos demais preconceitos que vêm sendo atacados com algum sucesso com diversos métodos de combate o preconceito lingüístico prossegue sua marcha Se já existe uma mudança de atitude nos livros didáticos e na pedagogia oficial por que o círculo vicioso do preconceito lingüístico continua girando Intrigado com isso comecei a prestar atenção à minha volta e cheguei à conclusão de que o círculo vicioso não estava completo Descobri que assim como os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas são quatro também existe um quarto elemento oculto dentro daquele círculo Como este quarto elemento não é tão compactamente institucionalizado quanto os demais a gente deixa de percebêlo Mas afinal que quarto elemento é esse É aquilo que resolvi chamar de comandos paragramaticais É todo esse arsenal de livros manuais de redação de empresas jornalísticas programas de rádio e de televisão colunas de jornal e de revista CDROMS consultórios gramaticais pg 76 por telefone e por aí afora É a saudável epidemia a que se refere Arnaldo Niskier no artigo que citei ao falar do Mito n 2 epidemia que para mim nada tem de saudável e vou explicar por quê O que os comandos paragramaticais poderiam representar de utilidade para quem tem dúvidas na hora de falar ou de escrever acaba se perdendo por trás da espessa neblina de preconceito que envolve essas manifestações da multimídia Assim tudo o que elas fazem de concreto é perpetuar as velhas noções de que brasileiro não sabe português e de que português é muito difícil É uma pena que seja assim Todo esse formidável poder de influência dos meios de comunicação e dos recursos da informática poderia ser de grande utilidade se fosse usado precisamente na direção oposta na destruição dos velhos mitos na elevação da auto estima lingüística dos brasileiros na divulgação do que há de realmente fascinante no estudo da língua Mas não é assim Toda vez que alguém se põe a falar da situação lingüística do Brasil é para repetir as mesmas queixas e lamúrias de cem anos atrás ou mais Um exemplo Na entrevista de Pasquale Cipro Neto à revista Veja que citamos na primeira parte deste livro o texto que antecede a entrevista propriamente dita repisa aqueles mesmos chavões bolorentos professor de português um idioma que de tão maltratado no diaadia dos brasileiros precisa ser divulgado e explicado para os milhões que o têm como língua materna pg 77 E a primeira pergunta como era de prever diante de uma abertura tão pessimista só podia ser Por que o português é tão mal falado e tão mal escrito no Brasil E o entrevistado parte logo para a explicação das causas visíveis dessa situação sem contestar em momento algum a afirmação fácil de negar contida na pergunta E da mesma forma como Cândido de Figueiredo em 1903 e Arnaldo Niskier em 1998 ele investe contra os estrangeirismos declarando que o sujeito que usa um termo em inglês no lugar do equivalente em português é na minha opinião um idiota Ora se ele mesmo reconhece que o uso de estrangeirismos é a face mais irritante de um país colonizado culturalmente como o nosso é injusto chamar de idiota a pessoa que é de fato uma vítima dessa colonização cultural Se nosso comércio está repleto de nomes em inglês é porque os comerciantes e os industriais sabem que isso atrai mais o público que qualquer produto com aparência de estrangeiro tem maior aceitação por parte do consumidor Quanto aos comandos paragramaticais não faltam exemplos do preconceito lingüístico que os orienta Como o espaço de que disponho neste livro é muito pequeno não será possível fazer um exame pormenorizado de muitas dessas manifestações preconceituosas por isso me limitarei a algumas mais gritantes que merecem ser denunciadas pg 78 2 Sob o império de Napoleão O mais respeitado e renomado propagador do preconceito lingüístico por meio de comandos paragramaticais no Brasil foi durante longas décadas o professor Napoleão Mendes de Almeida até falecer no começo de 1998 aos 87 anos Ele nunca escondeu sua intolerância e seu autoritarismo em suas colunas de jornal e é fácil verificálo nas mais de 600 páginas de seu Dicionário de questões vernáculas Como ele foi e ainda é aclamado por muitos como um defensor intransigente da língua pareceme oportuno mostrar de que maneira ele exerceu essa sua defesa O verbete VERNÁCULO do citado Dicionário começa assim Os delinqüentes da língua portuguesa fazem do princípio histórico quem faz a língua é o povo verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo de sua gramática de seu vocabulário esquecidos de que a falta de escola é que ocasiona a transformação a deterioração o apodrecimento de uma língua Cozinheiras babás engraxates trombadinhas vagabundos criminosos é que devem figurar segundo esses derrotistas como verdadeiros mestres de nossa sintaxe e legítimos defensores do nosso vocabulário Basta esse parágrafo para demonstrar que além do preconceito lingüístico está aí manifestado um profundo preconceito social Em outras passagens do livro ele fala novamente de língua de cozinheiras e de infelizes caipiras pg 79 Para Napoleão Mendes de Almeida a literatura brasileira morreu em 1908 junto com Machado de Assis Toda a vasta produção do Modernismo e dos períodos seguintes é merecedora de seu mais profundo desprezo Escritor é o que tem forma e conteúdo aquela terá quem conhecer o idioma este quem tiver erudição e principalmente cultura Se somente a forma temos o frívolo se somente o conteúdo temos o técnico se as duas coisas temos o escritor se nenhuma delas teremos o modernista Recusase a escrever o nome de Carlos Drummond de Andrade a quem nega o título de poeta e escritor por ter usado o verbo ter no lugar de haver no célebre poema No meio do caminho pecado suficiente para condenálo ao inferno dos gramáticos As explicações de Napoleão se baseiam exclusivamente em comparações com o latim e o grego e freqüentemente atribuem a origem dos supostos erros da sintaxe dos brasileiros à imitação servil do francês ou do inglês desconsiderando sistematicamente todas as contribuições da ciência lingüística moderna Aliás no verbete LINGÜÍSTICA ele deixa transparecer sua desinformação acerca do que realmente é essa ciência A lingüística não estuda idioma nem gramática nenhuma a lingüística estuda a fala explica fatos naturais de articulação de formas de expressão oral do ser humano como estudo da estrutura das línguas em geral não vai além da fonética Enganamse os pais enganamse os filhos quando pensam estar a escola a faculdade ensinando gramática ensinando a língua da terra porque no programa consta lingüística O objeto da lingüística pg 80 é a língua no sentido da fala de dom de expressar o homem por palavras o pensamento é um estudo sem utilidade específica para este ou aquele idioma É um dos grandes enganos de certas faculdades de letras fazer alunos acreditar que estão a aprender a língua de sua terra com explanações de estrutura da fala do homem É a lingüística um dos estorvos do aprendizado da língua portuguesa em escolas brasileiras Para ele estudar lingüística é fixar inúteis pretensiosas e ridículas bizantinices Fica evidente por essas palavras que o professor Napoleão jamais pôs os pés numa boa universidade depois que o ensino da lingüística foi instituído nos cursos de letras do Brasil E que tampouco leu um único sequer dos muitíssimos livros intitulados Introdução à lingüística para saber qual é o verdadeiro objeto de estudo dessa ciência Acreditar que a lingüística não vai além da fonética é de uma ingenuidade imperdoável em alguém que julgava ter autoridade suficiente para policiar a língua dos jornalistas e dos escritores para decretar o que é certo e errado no português brasileiro para afirmar sem papas na língua no verbete VERNÁCULO que é português estropiado que no Brasil se fala língua de gíria língua sem peias sintáticas língua de flexão arbitrária língua do deixô vê do mande ele do já te disse que você do não lhe conheço do fiz ele estudar do vi os meninos saírem Esse seu total desconhecimento da lingüística é que lhe permite fazer conjecturas sem nenhum fundamento científico ou de qualquer outra natureza como pg 81 A gramática no que diz respeito à função da palavra é internacional O que é sujeito em português é sujeito em chinês o que é objeto direto em nosso idioma é objeto direto em qualquer outro e o mesmo se diga de todas as funções sintáticas e de todas as classes de palavras Essa gramática internacional é pura ficção fruto da ignorância lingüística do autor Para comprovar isso e usando o exemplo que ele mesmo sugeriu o chinês basta um breve exame da literatura científica especializada em chinês não existe nenhuma morfologia de casos que assinale diferenças entre relações gramaticais como sujeito objeto direto ou objeto indireto nem existe qualquer concordância ou flexão verbal para indicar o que é sujeito e o que é objeto No chinês de fato há poucas razões gramaticais para se postular relações gramaticais embora haja é claro meios de distinguir quem fez o quê a quem tal como existem em todas as línguas2 Além disso o mesmo estudo diz que em chinês não há nada que se possa classificar de adjetivos desmentindo portanto o que Napoleão pensa acerca da internacionalidade das classes de palavras No caso de Napoleão Mendes de Almeida a carga de preconceito lingüístico já não é a neblina espessa a que me referi mais acima é uma verdadeira parede de rocha impermeável e intransponível que impede o acesso a pg 82 qualquer eventual utilidade que suas explicações possam ter Seu Dicionário de questões vernáculas da perspectiva da ética mais elementar desrespeita os direitos lingüísticos dos cidadãos brasileiros 3 Um festival de asneiras Na mesma linha de conduta preconceituosa se encontra o livro Não erre mais de Luiz Antonio Sacconi A edição que tenho é a 23a de 1998 o que mostra o amplo sucesso da obra um verdadeiro best seller Tratase contudo de um prato cheio 420 páginas para quem desejar ver em letra impressa a perpetuação de todos os preconceitos que examinamos na primeira parte deste livro 2 LI Charles THOMPSON Sandra Chinese in COMRIE B ed The Worlds Major Languages London Routledge 1987 pp 824825Tradução minha Quais são os problemas de Não erre mais Para começar o livro não tem o mais remoto critério de organização os supostos erros são encadeados caoticamente um após o outro sem nenhuma distribuição baseada em tipos de erros ortográficos fonéticos sintáticos morfológicos nem na mais elementar ordem alfabética de assunto Em seguida tenta ensinar coisas perfeitamente inúteis como a pronúncia correta do nome inglês do modelo de um carro que por sinal já deixou de ser fabricado Monza Classic SE e também das siglas FNM e DKW igualmente extintas a grafia correta do apelido da apresentadora de televisão Xuxa que segundo ele deveria se escrever Chucha ou a conjugação do verbo apropinquar se que ninguém em sã consciência usa no Brasil a menos que queira provocar risos ou passar por pedante pg 83 Além disso corrige erros cometidos por uma única pessoa em determinada ocasião em determinado momento que não têm portanto a freqüência de uma regra variável o que os prescritivistas chamam de erro comum mas lapsos cometidos por alguém o que não justifica sua inclusão num livro desse tipo Mas o pior de tudo é a enxurrada de expressões preconceituosas que inundam o livro de ponta a ponta Apesar de Sacconi atribuílas à sua índole espirituosa e dizer que isso nada tem que ver com desprezo ou menosprezo aos ignorantes o uso mesmo do termo ignorantes já constitui um sinal desse desprezo ou menosprezo Porque lendo o livro o leitor descobre que todos os brasileiros com exceção do autor são ignorantes no que diz respeito à língua a cada página surge uma invectiva contra uma entidade amorfa e indefinida chamada povo contra os jornalistas em bloco contra os autores de dicionários contra a Academia Brasileira de Letras contra escritores clássicos contra outros gramáticos contra especialistas nas mais diversas ciências e técnicas Fica claro então que a norma culta é uma flor única que só germina no jardim da casa dele Afinal se todos os mapas e livros de geografia trazem a forma Antártida que autoridade tem Sacconi para dizer que isso é lamentável e que a forma certa é Antártica Vamos examinar apenas as primeiras cem páginas de Não erre mais ir além disso seria maltratar demais o estômago do leitor Nelas aparecem doze palavras derivadas pg 84 de asno asininoasneiraasnice para se referir àqueles mesmos ignorantes mencionados no texto de abertura do livro Sendo ao todo 420 páginas podemos imaginar quantas mais não aparecerão Língua de jacu é outra das expressões favoritas dele Sacconi se revela desse modo um discípulo fiel e imitador perfeito de Cândido de Figueiredo que em O que se não deve dizer de 1903 declara Em geral os espíritos fortes na asneira julgam microscópicas as questões de letras e até as questões de palavras vol 1 p 17 Os jornalistas são o alvo preferido das tiradas preconceituosas do autor de Não erre mais essa mesma imprensa para não fugir à sua regra maior que é ignorar a coerência põe os pés pelas mãos p 30 Essa gente que escreve em jornais é uma gracinha p 40 Alguns de nossos jornais e jornalistas se tornaram um problema a mais para todos os professores de Português Até quando p 45 excrescências comuns na boca e na pena de certos jornalistas versados em esporte p 52 Há jornalistas que de fato inventam a toda a hora aprontam com todo o mundo p 54 Os jornalistas usam o aumento do funcionalismo o aumento da gasolina o aumento da carne É o mais puro aumento da incompetência p 68 pg 85 Os brasileiros por exemplo vivem mal e parcamente num país onde os jornalistas escrevem muito mal e parcamente p 77 Pra quem não sabe redação de jornal é um lugar aonde só deveria ir gente que conhecesse um pouquinho a língua Só um pouquinho p 78 Essa gente ainda vai um dia inventar uma nova língua inteligível só para si mesmos p 82 Não vamos aumentar o diapasão de críticas que temos feito a alguns jornalistas p 86 A qualidade de nossos jornais piora É preciso acrescentar ainda mais p 94 Não bastasse esse ataque aos jornalistas Sacconi não hesita em ofender preconceituosamente outros segmentos sociais Para ele a regência namorar com é coisa de italianos p 7 Para ele a forma peãozada só pode existir na fala pois o correto na escrita é peonada e aconselha os peões a que tenham o bomsenso de trocar essa forma pela outra quando escrevem Se é que escrevem p 8 mostrando que na sua opinião todo peão é necessariamente analfabeto O mesmo acontece em relação aos erros supostamente cometidos por caminhoneiros Camioneiros contudo incansáveis trabalhadores merecem todo o perdão deste mundo p 21 Seu ideário político também fica manifesto em declarações do tipo Hoje em dia existem pessoas que fazem curso superior em greves formamse no assunto e mostramse tão competentes pg 86 no ofício que decidem em nome de toda a classe que representam pela continuidade da greve p 10 Recentemente todavia um comentarista de futebol membro do PT corintiano resolveu dizer no ar mais asneiras do que comumente diz sobre aquilo que diz entender futebol p 13 Há declarações preconceituosas para quase todos os segmentos da sociedade Costumo dizer que algarismo romano é como vizinho devemos evitálo tanto quanto possível p 65 Leuse porém num jornal Martins é quase um octogenário Certamente quem escreveu isso estaria bem para lá disso p 68 São os dicionários que já passam dos setecentos anos senão a obra o seu autor p 68 Na Bahia porém na sempre formidável Bahia as pessoas se acordam O mais interessante é que se acordam e vão direto à praia p 73 Sacconi aceita a crença primitiva e ingênua de que a palavra e o objeto a que ela se refere são uma e a mesma coisa se a forma da palavra está errada o objeto não existe Falando do nome Antártida p 15 ele diz Eis aí uma região do globo que em verdade não existe Ao comentar o deslize de um repórter de televisão que pronunciou ibero em lugar de ibéro ao referirse a um festival de rock Sacconi afirma Esse festival garantimos não existiu E ao condenar o uso do artigo a diante do nome da cidade de Franca conforme tradição pg 87 antiga entre os lá nascidos na frase Moro na Franca ele rebate Não mora Numa atitude totalmente oposta à de um cientista da linguagem cuja tarefa principal seria a descrição dos fatos da língua ou à de um professor que se esforçaria em justificar com explicações razoáveis a preferência por esta ou aquela forma de uso da língua ele após decretar o que é certo ou errado reafirma nosso Mito n 3 Não perca nenhum tempo em perguntar por quê caro leitor basta não esquecer que estamos estudando a língua portuguesa Com certeza p 14 Ou seja a língua portuguesa é difícil e cheia de mistérios inexplicáveis como reza a mitologia do preconceito lingüístico Do ponto de vista das concepções lingüísticas do autor o livro também é um desastre Condena usos que já estão há muito consagrados na norma culta real e não na fictícia que só ele conhece abonados nos mais diversos dicionários e na obra de muitos escritores de reconhecido talento Tenta impor formas arcaicas que causariam estranheza a qualquer falante bem instruído e abolir construções que são perfeitamente aceitáveis resultantes das inevitáveis transformações por que a língua passa Sua desinformação acerca das noções básicas de lingüística sobretudo de sociolingüística e de história da língua levamno a atribuir obsessivamente à Bahia e a uma suposta influência africana uma série de variantes do pg 88 português do Brasil que se encontram documentadas nas mais diversas regiões do país inclusive naquelas em que a presença negra foi ou é mínima O que ele diz a respeito das línguas indígenas carece igualmente de toda fundamentação científica Alguns preferem usar taio no lugar de talho transformando o lh em i fato comum em certas regiões do País mormente naquelas que receberam influência do elemento africano p 32 Em algumas regiões do Brasil na Bahia principalmente o d dos gerúndios não soa Dizem então correno andano caíno em vez de correndo andando caindo Tratase de um caso típico de influência africana que a Bahia recebeu enormemente Também ao elemento negro devemos o fato de pronunciarmos muitas vezes a os infinitivos sem o r final casá vendê menti b apenas é o el tônico final papé ané coroné c tamém em vez de também fulô em vez de flor sinhô sinhá em vez de senhor senhora fedô em vez de fedor etc d muié em vez de mulher paiaço em vez de palhaço p 38 Ocorre que nas regiões banhadas pelo legendário rio Tietê utilizado pelos bandeirantes as pessoas realmente trocam o l pelo r arto iguar tarco etc por influência da língua dos indígenas que não conheciam o som lê mas apenas o som rê brando de caro barato Os bandeirantes preocupados em se aproximar dos índios e das suas riquezas faziam o que podiam para serem compreensíveis para serem amáveis gentis Assim toda palavra que tinha lê sofria a natural modificação Começou então dessa forma o hábito de trocar o l por r fenômeno conhecido pelo nome de rotacismo muito comum pg 89 nas cidades paulistas de Tatuí Piracicaba Tietê Laranjal Porto Feliz Itu Salto Capivari etc p 98 A vocalização do fonema λ que representamos graficamente com o LH é um fenômeno que se verificou na história do francês e que está amplamente representado em diferentes variedades do castelhano faladas na Espanha e em países da América Central e do Sul Não me consta que essas línguas tenham recebido influência negra nem muito menos baiana Além disso esse fenômeno não acontece apenas em certas regiões do País ele está presente em todas as variedades nãopadrão do português brasileiro do Amazonas ao Rio Grande do Sul Ele tem explicações fonéticas e sociolingüísticas muito mais complexas do que a mera influência africana Quanto à assimilação do tipo nd nn n sobretudo nos gerúndios ela se verifica também no dialeto napolitano falado numa região o sul da Itália onde até que os historiadores me desmintam não houve escravidão de negros africanos nem colonização baiana Ela existe amplamente documentada mais uma vez em todas as variedades nãopadrão do português brasileiro e até mesmo na fala descontraída de muitas pessoas das camadas urbanas cultas Tratase novamente de um fenômeno fonético muito natural que um rápido exame da história da língua esclarece sem dificuldades Por seu turno a explicação dada pelo autor ao fenômeno do rotacismo é um verdadeiro disparate científico Primeiro porque os bandeirantes simplesmente não falavam pg 90 português a língua que a grande maioria deles empregava era o que então se chamava língua geral língua brasílica ou nheengatu uma língua de base tupi que funcionava como instrumento de comunicação entre as diferentes nações indígenas em todo o litoral brasileiro e parte do interior No século XVII em cada cinco habitantes da cidade de São Paulo apenas dois conheciam o português O bandeirante paulista convocado para destruir o quilombo de Palmares Domingos Jorge Velho foi descrito pelo bispo de Pernambuco como um bárbaro que nem falar sabe e as autoridades pernambucanas que o contrataram tinham de usar um intérprete para se comunicar com ele que só falava a língua geral Como nos explicam os historiadores os bandeirantes em sua maioria eram mamelucos isto é filhos de pai português e mãe índia desconheciam totalmente a língua paterna e só falavam a materna Nos primeiros dois séculos após a chegada de Cabral o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo O idioma dos colonizadores só conseguiu se impor no litoral no século XVII e no interior no XVIII Em São Paulo até o começo do século passado era possível escutar alguns caipiras contando casos em língua indígena No Pará os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40 Era o idioma do povoenquanto o português ficava para os governantes e para os negócios com a metrópole Derivado do dialeto de São Vicente o tupi de São Paulo se desenvolveu e se espalhou no século XVIII graças ao isolamento geográfico da cidade e à atividade pouco cristã dos pg 91 mamelucos paulistas as bandeiras expedições ao sertão em busca de escravos índios3 Por isso os bandeirantes não precisavam fazer o que podiam para serem compreensíveis para serem amáveis gentis Muito pelo contrário o que a história nos conta é que os bandeirantes eram de uma crueldade desumana para com os índios a quem buscavam escravizar a toda força despojandoos de suas terras de suas riquezas e muitas vezes de suas vidas Contase de uma expedição bandeirante que capturou no sertão 500 índios para escravizálos mas que desses só 50 chegaram a São Paulo por causa dos esforços dos bandeirantes para serem amáveis gentis Segundo o rotacismo que se verifica em alto arto também aconteceu na língua portuguesa padrão em seu período de formação Assim do árabe ALMAKHAZAN deriva o português armazém O que acontece de fato é que as consoantes l e r são 3 Superinteressante dezembro de 1998 pp 82 e 84 Essa matéria da revista muito bem elaborada apóiase em depoimentos de alguns importantes conhecedores das línguas indígenas brasileiras inclusive aquele considerado o maior deles o professor Aryon Rodrigues da Universidade de Brasília do ponto de vista articulatório parentas muito próximas o que faz com que na história de muitas línguas e não só do português das regiões banhadas pelo legendário rio Tietê elas se substituam uma à outra indiferentemente São as chamadas consoantes líquidas que também têm muito parentesco com as vogais o que faz também com que em algumas variedades pg 92 sejam substituídas por vogais como é o caso do L de final de sílaba que em quase todo o Brasil é pronunciado como um w Assim o nome próprio Guilherme nos veio de um germânico WILHELM enquanto nosso Geraldo veio do também germânico GEHRHARDT Na língua culta coexistem as formas aluguel e aluguer e nosso papel se originou do provençal papér e este do grego papyros No português medieval ao lado de flor havia a forma frol cujo plural fróes sobreviveu como nome de família A cidade do norte da África que em francês se chama Alger do árabe aljazird em português é Argel donde o nome do país Argélia em francês Algérie E a nossa palavra porão deriva do latim planu deve ter ocorrido primeiro o rotacism pl pr e depois a quebra do grupo consonantal com a introdução de uma vogai o exatamente como acontece na forma dialetal brasileira fulô E tudo isso uns bons séculos antes da descoberta da Bahia A troca de r por l se chama lambdacismo Ela ocorre no português nãopadrão em variantes como calvão celveja galfo O que as pesquisas dos sociolingüistas e dos foneticistas nos explicam é que tanto o rotacismo quanto o lambdacismo ocorrem em ambien tes fonéticos específicos isto é diante de determinadas consoantes quem diz calvão por exemplo não diz calta mas sim carta ou de acordo com a posição do fonema na palavra A vocalização do λ a assimilação nd nn n e o rotacismo são fenômenos que caracterizam as variedades pg 93 nãopadrão sobretudo rurais do português do Brasil e que por isso recebem uma forte carga de estigmatização isto é sofrem um grande preconceito por parte dos falantes das variedades urbanas Tentei explicálos cientificamente e espero sem preconceitos no meu livro A língua de Eulália Como é fácil concluir o livro Não erre mais está repleto de erros erros de descrição dos fenômenos lingüísticos e sobretudo erros de conduta preconceituosa e nada ética Podemos dizer portanto usando as palavras do próprio Sacconi p 63 que se trata de um verdadeiro festival de asneiras 4 Beethoven não é dançado Nossa última investigação da presença epidêmica para usar de novo o termo proposto por Arnaldo Niskier do preconceito lingüístico nos comandos paragramaticais usará como material de análise uma coluna de jornal chamada Dicas de Português assinada por Dad Squarisi Vamos reproduzir o texto tal como publicado no Diário de Pernambuco de 151198 Essa mesma coluna porém já tinha sido estampada no Correio Braziliense algum tempo antes 22696 época em que o presidente Fernando Henrique Cardoso numa visita a Portugal acusou os brasileiros de serem todos caipiras declaração infelicíssima e desastrosa caipira não pode ser usado como ofensa com a qual todavia Squarisi parece concordar plenamente já que qualifica o presidente de iluminado pg 94 A republicação da coluna mais de dois anos depois prova que se trata de material distribuído por agência de notícias com possibilidade de já ter sido ou de ainda vir a ser publicado em outros jornais uma perspectiva que confesso me dá arrepios Por quê Leia você mesmo e descubra Português ou Caipirês Dad Squarisi Fiat lux E a luz se fez Clareou este mundão cheinho de jecas tatus À direita à esquerda à frente atrás só se vê uma paisagem Caipiras caipiras e mais caipiras Alguns deslumbrados outros desconfiados Um só um iluminado Pobre peixinho fora dágua Tão longe da Europa mas tão perto de paulistas cariocas baianos e maranhenses Antes tarde do que nunca A definição do caráter tupiniquim lançou luz sobre um quebracabeça que atormenta este país capiau desde o século passado Que língua falamos A resposta veio das terras lusitanas Falamos o caipirês Sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa Vale tudo eu era tu era nós era eles era Por isso não fazemos concordância em frases como Não se ataca as causas ou Vendese carros Na língua de Camões o verbo está enquadrado na lei da concordância Sujeito no plural O verbo vai atrás Sem choro nem vela Os sujeitos causas e carros estão no plural O verbo vaquinha de presépio deveria acompanhálos Mas se faz de morto O matuto ingênuo passa batido Sabe por quê O sujeito pode ser ativo ou passivo Ativo pratica a ação expressa pelo verbo Os caipiras sujeito desconhecem ação pg 95 o outro lado Passivo sofre a ação O outro lado sujeito é desconhecido ação pelos caipiras Reparou O sujeito o outro lado não pratica a ação Há duas formas de construir a voz passiva a com o verbo ser passiva analítica A cultura caipira é estudada por ensaístas Os carros são vendidos pela concessionária b com o pronome se passiva sintética estudase a cultura caipira Vendemse carros No caso não aparece o agente Mas o sujeito está lá Passivo mas firme Dica use o truque dos tabaréus cuidadosos troque a passiva sintética pela analítica E faça a concordância com o sujeito Vende se casas ou vendemse casas Casas são vendidas logo Vendemse casas Não se ataca ou não se atacam as causas As causas não são atacadas não se atacam as causas Fezse ou fizeramse a luz A luz foi feita fezse a luz Firmouse ou firmaramse acordos Acordos foram firmados firmaramse acordos Na dúvida não bobeie Recorra ao truque Só assim você chega lá e ganha o passaporte para o mundo Adeus Caipirolândia O que mais me impressionou nesse texto foi seu poder de síntese em poucos parágrafos a autora conseguiu reunir praticamente todos os chavões rançosos que compõem o preconceito lingüístico Os preconceitos sociais e étnicos também foram contemplados O preconceito se manifesta já no título Português ou caipirês A partir daí como milho de pipoca em óleo quente pululam as palavras de conteúdo semântico fortemente preconceituoso mundão jecastatus caipiras caipiras e mais caipiras deslumbrados tupiniquim pg 96 capiau caipirês matuto tabaréus Caipirolândia É ou não é um poderoso trabalho de síntese Dispensa comentários Isso quanto à forma Quanto ao conteúdo gramatical abordado pela autora encontramos mais uma vez a atitude preconceituosa da pessoa que conhecendo uma única variedade da língua se arroga o direito de ofender desprezar e ridicularizar os falantes das outras dezenas senão centenas de variedades Mas já sabemos que o preconceito é fruto da ignorância e o que Squarisi faz questão de afirmar em seu texto é seu absoluto desconhecimento da complexidade dos fenômenos lingüísticos Temerosa de se aventurar na corrente vertiginosa do rio que é a língua ela prefere continuar presa à água estagnada e malcheirosa de seu igapó A questão da partícula se em enunciados do tipo Vendese casas vem sendo investigada há muito tempo nos estudos gramaticais e lingüísticos brasileiros O que todos os estudiosos concluem é que na língua falada no Brasil no português brasileiro ocorreu uma reanálise sintática nesse tipo de enunciado isto é o falante brasileiro não considera mais esses enunciados como orações passivas sintéticas O que a gramática normativa insiste em classificar como sujeito a gramática intuitiva do brasileiro interpreta como objeto direto Respeitados filólogos e lingüistas da primeira metade do século XX como Manuel Said Ali Antenor Nascentes e Joaquim Mattoso Camara Jr reconheceram o fenômeno Muitas pesquisas científicas baseadas pg 97 em coleta de dados da língua real em levantamentos estatísticos rigorosos e em teorias lingüísticas consistentes mostram que a imensa maioria dos brasileiros de todas as classes sociais cultos ou não na língua falada e na língua escrita usam verbos no singular nos enunciados em que aparece o se com um verbo transitivo e um substantivo no plural Vendese casas Alugase salas Jogase búzios Aviase receitas Mas não é porque somos caipiras jecastatus matutos ou tabaréus É porque a língua muda com o tempo segue seu curso transformase Afinal se não fosse desse modo ainda estaríamos falando latim Na verdade falamos latim um latim que sofreu tantas transformações que deixou de ser latim e passou a ser português Da mesma forma o português do Brasil queiram os gramáticos ou não também está se transformando e um dia daqui a alguns séculos será uma língua diferente da falada em Portugal mais diferente do que já é Em meu livro A língua de Eulália tratei com bastante detalhe das questões relativas às assim chamadas orações passivas sintéticas que na minha opinião e na de muitos lingüistas simplesmente não existem Me ocuparei aqui apenas do esfarrapado truque com o qual a autora da coluna Português ou caipirês acredita ingenuamente resolver todos os problemas da fala dos caipiras caipiras e mais caipiras Falar é construir um texto num dado momento num determinado lugar dentro de um contexto de fala definido visando um determinado efeito Quando o falante usa pg 98 uma frase com a partícula se ele quer se valer dos recursos que esse tipo de construção sintática lhe oferece para chegar ao efeito que visa provocar naquele determinado contexto Trocar essa frase por outra é trocar também ao mesmo tempo o efeito visado Há situações em que só as orações com se funcionam Imagine um carro em cujo vidro traseiro lemos um cartaz escrito Vendese Se fôssemos aplicar o truque sugerido pelas gramáticas normativas teríamos É vendido Que efeito pode ter uma frase assim afixada num carro Como disse Manuel Said Ali ela só servirá para fazer o leitor duvidar da sanidade mental de quem a escreveu Em outras ocasiões apenas as orações na voz passiva atingem o efeito desejado Animais mortos foram trazidos com a enchente Aplicando o truque Animais mortos se trouxeram com a enchente Alguém diz isso assim Podemos também perguntar por que Vendese esta casa é igual a Esta casa é vendida e somente a isso Por que não dizer que também é igual a Estão vendendo esta casa Alguém está vendendo esta casa etc Além disso a substituição é de mão única Alugamse salas é igual a Salas são alugadas mas a substituição no sentido contrário não funciona De que são feitos esses doces pode ser substituído por De que se fazem esses doces ou por De que esses doces se fazem serão essas construções naturais espontâneas características da língua portuguesa Me parece que não pg 99 Se na capa de uma revista sobre telenovelas está escrito Henrique é preso isso equivale a Henrique se prende Uma reportagem intitulada O que fazer quando se tem problemas com o vizinho também poderia chamarse O que fazer quando são tidos problemas com o vizinho Onde está portanto a alegada equivalência Um dia desses meu filho de 9 anos chegou em casa revoltado porque a professora queria que numa festa da escola as meninas dançassem uma música de Beethoven Sua reação foi dizer Não se dança Beethoven Na mesma hora pensei em como ficaria essa frase substituída por sua equivalente na voz passiva analítica Beethoven não é dançado Faz algum sentido para você Para mim também não mas talvez nós sejamos demasiado capiaus para atingir o nível de iluminação a que só a professora Squarisi e o presidente Fernando Henrique Cardoso têm acesso O truque também falha porque na obtenção do efeito desejado a colocação dos termos na oração é importantíssima 1 Com este método misturase a água com a areia 2 Com este método a água misturase com a areia Está claro que em 1 temos uma oração na voz ativa em que o sujeito é indeterminado e o objeto de MISTURASE é ÁGUA Já em 2 o sujeito passa a ser ÁGUA e a partícula se indica que se trata de um verbo reflexivo pg 100 A posição dos elementos no enunciado quando alterada altera também a interpretação de seu significado desviandose do efeito pretendido pelo falante É o que acontece com 3 Não se encontra João no prédio 4 João não se encontra no prédio Em 3 JOÃO é o objeto do verbo ENCONTRA ao passo que em 4 JOÃO é o sujeito Comparese ainda esses três enunciados 5 Muita gente demitiuse da Ford 6 Demitiuse muita gente da Ford 7 Muita gente foi demitida da Ford Em 5 está claro que a demissão foi voluntária porque o sujeito evidente da oração é MUITA GENTE Em 6 o sujeito é indeterminado e essa indeterminação está indicada pela partícula se sendo MUITA GENTE O objeto da demissão As orações 5 e 6 podem ser perfeitamente classificadas de ativas Já em 7 temos sim uma verdadeira oração na voz passiva em que o sujeito MUITA GENTE sofre a ação praticada demitir Se no lugar de MUITA GENTE tivéssemos MUITOS OPERÁRIOS e quiséssemos fazer a mesma análise obteríamos 8 Muitos operários demitiramse da Ford 9 Demitiuse muitos operários da Ford 10 Muitos operários foram demitidos da Ford A frase 9 não teria o mesmo efeito se o verbo estivesse no plural Demitiramse muitos operários da Ford pg 101 seria simplesmente a mesma frase 8 com o sujeito colocado depois do verbo ao contrário da ordem natural do português que é a do sujeito antes do verbo Se a intenção do falante é dizer que muitos operários perderam a contragosto seus empregos o verbo tem de ser conjugado no singular porque os operários neste caso são o objeto da demissão sofreram com essa ação não a praticaram Minhas explicações levam em conta como é fácil perceber três critérios de análise dos enunciados lingüísticos 1 o sintático a colocação dos termos na oração 2 o semântico o significado que cada tipo de enunciado assume segundo a posição ocupada pelos termos na oração 3 o pragmático o efeito visado pelo falante ao escolher enunciar uma oração na voz ativa passiva ou reflexiva A análise de Dad Squarisi é bem mais pobre pois só leva em conta o critério sintático reduzindoo a um jogo de supostas equivalências É a atitude comum do gramático tradicionalista que encara a língua como um objeto descontextualizado inerte congelado morto fora do tempo fora do espaço independente das pessoas que a falam Para ela e para outros membros dos comandos paragramaticais defensores intransigentes da norma oculta não há diferença nenhuma entre Não se dança Beethoven e Beethoven não é dançado diferença que uma criança de 9 anos conhecedora como todas as crianças de sua idade das regras constitutivas de sua língua materna pg 102 soube reconhecer intuitivamente no momento de enunciar sua reação alcançando em cheio o efeito desejado A autora da coluna diz que não temos nenhum compromisso com a gramática portuguesa Talvez ela não saiba e se soubesse decerto ficaria muito triste mas nem mesmo os portugueses têm esse compromisso Lendo anúncios publicados no jornal lisboeta Diário de Notícias de 220797 a lingüista Maria Marta Scherre4 verificou que ali havia alternância entre verbos no plural e no singular embora todos os substantivos estivessem no plural Vendemse lotes de prédios c licenças a pagamento Vendese magníficas instalações loja com armazém Vendemse andares novos Vendese lotes de terreno Vendese andares no lumiar Alugase escritórios Laranjeiras Comprase dois espaços de garagem Procurase áreas até 150 m2 Teremos de incluir Portugal entre as províncias da Caipirolândia Por fim Dad Squarisi apóiase no nome glorioso de Camões e é glorioso mesmo para justificar seus ataques pg 103 grosseiros 4 A professora Scherre analisou detalhadamente o preconceito contido nessa e em outras colunas assinadas por Dad Squarisi no texto Preconceito lingüístico doase lindos filhotes de poodle a ser publicado brevemente em obra coletiva organizada pelo professor Dermeval da Hora da Universidade Federal da Paraíba Agradeço a ela a gentileza de terme possibilitado ler seu excelente ensaio antes de entregálo à publicação contra quem não se enquadra na lei da concordância Ora nOs Lusíadas encontrase os seguintes versos E como por toda África se soa lhe diz os grandes feitos que fizeram canto II 103 Seria o caso de incluir Camões entre os jecastatus Afinal pelas regras sintáticas da língua da professora Squarisi os GRANDES FEITOS é o sujeito de SE SOA e por isso o verbo deveria estar no plural Só que não está Parece incrível que depois de tanto tempo em vigor na língua falada no Brasil esta regra de uso do pronome SE ainda seja rejeitada pelos gramáticos prescritivistas Eles continuam agindo como o professor Aldrovando Cantagalo do conto O colocador de pronomes de Monteiro Lobato publicado em 1924 Ao ver uma placa com os dizeres Ferrase cavalos o histérico gramático tentou explicar ao ferreiro que o verbo deveria estar no plural porque o sujeito da frase era cavalos E foi obrigado a receber esta aula perfeita de sintaxe brasileira V Sa me perdoe mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu e eu não sou plural Aquele SE da tabuleta referese cá a este seu criado Alguém já viu um cavalo pôr ferradura em si mesmo Talvez o professor Aldrovando Cantagalo em seus delírios normativistas que ainda acometem muita gente hoje em dia pg 104 III A desconstrução do preconceito lingüístico 1 Reconhecimento da crise De que modo poderemos romper o círculo vicioso do preconceito lingüístico Como conseguiremos escapar do igapó estagnado e mergulhar nas águas dinâmicas e vivificantes do grande rio da língua Uma coisa não podemos deixar de reconhecer existe atualmente uma crise no ensino da língua portuguesa Muitos professores alertados em debates e conferências ou pela leitura de bons textos científicos já não recorrem tão exclusivamente à gramática normativa como única fonte de explicação para os fenômenos lingüísticos Por outro lado sentem falta de outros instrumentos didáticos que possam senão substituir ao menos complementar criticamente os compêndios gramaticais tradicionais Muita gente acredita e defende que é a norma culta que deve constituir o objeto de ensinoaprendizagem em sala de aula Mas o que é e onde está essa norma culta Não é difícil perceber que a norma culta por diversas razões de ordem política econômica social cultural é algo reservado a poucas pessoas no Brasil Vimos isso no Mito n 1 e no nº 8 É o mesmo que acontece com a alimentação pg 105 a saúde a educação a habitação o transporte o acesso às novas tecnologias etc Uns poucos privilegiados se locomovem em carros importados enquanto a grande maioria usa um transporte público deficiente precário e se não bastasse caro demais conheço pessoas humildes que vão a pé para o trabalho despertando no meio da madrugada e caminhando durante horas da periferia até os bairros centrais porque seu salário não lhes permite tomar ônibus trem nem metrô Podemos identificar três problemas básicos a esse respeito Primeiro e mais óbvio a quantidade injustificável de analfabetos que existe neste país Estatísticas oficiais do IBGE falam de 18 a 20 milhões de analfabetos com mais de 15 anos de idade duas vezes a população de Portugal Somese a isso os milhões de crianças em idade escolar que não freqüentam nenhuma escola Temos também um alto índice de analfabetos funcionais isto é pessoas que freqüentaram a escola por um período insuficiente para desenvolver plenamente as habilidades de leitura e redação A média nacional de educação da força de trabalho é de 39 anos de escola seriam no total 45 milhões de analfabetos funcionais ou semianalfabetos Analfabetos plenos e analfabetos funcionais seriam ao todo mais de 60 milhões de brasileiros duas vezes a população da Argentina Numa lista de 175 países elaborada pela ONU o Brasil ocupa o 93 lugar em índice de escolarização ficando atrás até mesmo de países como a Etiópia e a Índia exemplos clássicos de subdesenvolvimento crônico Só que o Brasil pg 106 é uma das dez maiores economias do planeta Ocupamos também o 80 lugar em investimentos na educação E ninguém pode alegar que isso se deve ao tamanho do país ou da população a China bem maior que o Brasil e com uma população de 12 bilhão de habitantes tem 6 de analfabetos enquanto o Brasil tem 184 segundo o Banco Mundial E na China esses analfabetos vivem em áreas muito remotas nas montanhas ou nos desertos enquanto os nossos estão na periferia das grandes cidades e até mesmo trabalhando dentro de nossas casas Tudo isso num país cuja Constituição diz que a educação é dever do Estado A norma culta como vimos está tradicionalmente muito vinculada à norma literária à língua escrita Com tantos analfabetos lamentar a decadência ou a corrupção da norma culta no Brasil é no mínimo uma atitude cínica Segundo por razões históricas e culturais a maioria das pessoas plenamente alfabetizadas não cultivam nem desenvolvem suas habilidades lingüísticas no nível da norma culta Ler e sobretudo escrever não fazem parte da cultura das nossas classes sociais alfabetizadas Isso se prende aos velhos preconceitos de que brasileiro não sabe português e de que português é difícil veiculados pelas práticas tradicionais de ensino Esse ensino tradicional como eu já disse em vez de incentivar o uso das habilidades lingüísticas do indivíduo deixandoo expressarse livremente para somente depois corrigir sua fala ou sua escrita age exatamente ao contrário interrompe o fluxo natural da expressão e da comunicação com a atitude corretiva e muitas vezes punitiva cuja conseqüência pg 107 inevitável é a criação de um sentimento de incapacidade de incompetência Em minha experiência de tradutor profissional já me deparei algumas vezes com situações que poderíamos classificar de surrealistas Pessoas que fizeram doutorado no exterior me procuram para que eu traduza para o português teses escritas originalmente em inglês ou francês Quando pergunto à pessoa por que ela mesma não faz a tradução a resposta que eu recebo é chocante É porque eu não sei português Como é possível Uma pessoa que escreveu uma tese de 500 ou 600 páginas num idioma estrangeiro e que obteve assim o seu grau de doutor de PhD em sua especialidade científica tem receios de escrever em sua própria língua materna Existe algum problema aí e eu não posso aceitar a explicação dada por tantos professores de que os alunos é que são preguiçosos e não conseguem aprender ou pior ainda que português é muito difícil O problema certamente está no modo como se ensina português e naquilo que é ensinado sob o rótulo de língua portuguesa Terceiro o dilema relativo à norma culta se prende ao fato de que esse termo é usado pela tradição gramatical conservadora para designar uma modalidade de língua que como já vimos na primeira parte deste livro não corresponde à língua efetivamente usada pelas pessoas cultas do Brasil nos dias de hoje mas sim a um ideal lingüístico inspirado no português de Portugal nas opções estilísticas dos grandes escritores do passado nas regras sintáticas que mais se aproximem dos modelos da gramática latina ou simplesmente no gosto pessoal do gramático pg 108 para Napoleão Mendes de Almeida por exemplo o certo é dizer eu odio e não EU ODEIO1 Dentro desse conceito de norma culta a proibição de começar um período com pronome oblíquo Me empreste seu livro é justificada com a afirmação de que em Portugal ninguém fala assim De igual modo a recusa dos gramáticos conservadores em aceitar que em frases como Vendese casas o pronome se 1 Outros termos empregados indistintamente pelos prescritivistas são norma padrão língua padrão língua culta padrão culto Todos eles porém carecem de uma definição teórica rigorosa sendo usados basicamente como um sinônimo geral de bom português em contraste com tudo o que não é português desempenha uma função semelhante à de sujeito se baseia no fato de que em latim o pronome se nunca exercia essa função Dizer ou escrever eu prefiro mais X do que Y é um pecado na opinião deles porque o prefixo prae em latim funcionava para formar superlativos analíticos contendo em si mesmo a idéia de muito ou mais do que Além disso é errado dizer outra alternativa porque alter em latim já significava outro Mas desde quando nós falamos latim no Brasil A distância entre norma culta real e norma culta ideal pode ser medida em afirmações como esta de Rocha Lima em sua Gramática normativa da língua portuguesa p 15 Em extensas faixas do Brasil e especialmente no Rio de Janeiro a consoante l quando em final de sílaba apresenta uma pronúncia relaxada que a aproxima da semivogal w Este pg 109 fato faz que desapareçam oposições como as de mal e mau alto e auto servil e serviu oposições que a língua culta procura cuidadosamente observar grifo meu Basta ouvir os locutores de rádio os apresentadores de telejornal e os professores universitários três profissões que exigem educação de nível superior e portanto domínio da norma culta para verificar que a afirmação de Rocha Lima não se baseia na realidade empiricamente analisável É provável que nenhum falante da língua culta se preocupe hoje em dia em fazer a distinção entre as palavras por ele citadas No acervo de gravações da língua urbana culta coletado pelo Projeto NURC a que já me referi no Mito n 5 não se percebe essa suposta preocupação em distinguir as duas pronúncias A pronúncia do L como l e não como w só se verifica na fala de pessoas bastante idosas ou de falantes de variedades bem específicas de português como a gaúcha e mesmo assim não de modo geral Essa mesma idealização da norma culta como um padrão lingüístico 100 puro como uma pedra preciosa sem nenhuma jaça como uma pepita de ouro livre de toda ganga se verifica por exemplo num texto publicado por Pasquale Cipro Neto em sua página na revista Cult n 11 junho de 1998 p 44 Para ele os usos nãonormativos de onde constituem uma praga E o uso feito por Chico Buarque numa canção de onde no lugar de quando indica que o poetacompositor caiu na esparrela Lemos no texto de Cipro que a diferença entre onde e aonde também deixa muita gente de cabelo em pé pg 110 Depois de explicar o uso correto de cada uma das duas formas ele diz que mesmo em escritores renomados se vê o emprego de onde e aonde sem critério e cita o exemplo do poema A onda de Manuel Bandeira que escreveu Aonde anda a onda E chama a atenção para o fato de que em termos de língua culta para cada 99 ocorrências corretas de onde há uma de aonde Diante dessa estatística que ele cita sem indicar a fonte de seus dados nem a metodologia empregada para coletálos a lógica nos leva a concluir que o problema então não está na falta de critério dos falantes da norma culta mas sim na concepção que o autor do texto tem de língua culta Afinal se Chico Buarque Manuel Bandeira e Machado de Assis que no poema Niâni parte III estrofe 2 escreveuMas aonde te vais agora Onde vais esposo meu não servem como exemplos de usuários da língua culta quem servirá Em seu livro Com todas as letras que tem o sugestivo subtítulo de o português simplificado que nos remete logo ao Mito 3 o jornalista Eduardo Martins tenta ensinar o uso correto do verbo pedir Depois de ler as explicações dadas ali na página 16 passei a aplicar um teste para controlar se o que ele chama de norma culta realmente merece esse nome Assim toda vez que vou dar uma palestra em congressos e seminários ou conversar com professores de português escrevo o seguinte enunciado na lousa e pergunto o que há de errado com ele João está doente por isso me pediu para vir aqui no lugar dele pg 111 Deixo que as pessoas reflitam e dêem suas opiniões Cada uma arrisca uma hipótese mas ninguém detecta o erro denunciado por Martins em seu livro E você já descobriu qual é Pois saiba caro leitor cara leitora que a construção pedir para só pode ser empregada quando o sentido é o de pedir permissão licença ou autorização Segundo o autor de Com todas as letras se a idéia de permissão ou licença não estiver implícita ou subentendida o certo é usar pedir que subjuntivo João está doente por isso me pediu que viesse aqui no lugar dele E ele abre suas explicações afirmando A locução pedir para é um dos melhores exemplos do abismo existente entre a linguagem coloquial e a norma culta do idioma E eu me vejo obrigado a reagir dizendo Nada disso senhor jornalista A locução pedir para é um exemplo do abismo que existe sim mas entre a verdadeira norma culta usada pelas pessoas cultas do Brasil e aquilo que ele e outros nãoespecialistas em lingüística que se baseiam exclusivamente na norma gramatical mais conservadora e prescritiva chamam de norma culta O que Martins rotula de linguagem coloquial termo aliás que quase sempre é empregado com sentido pejorativo é na verdade uma manifestação da norma culta objetiva real empiricamente coletável e analisável E a prova maior disso é que os falantes cultos professores de português a quem ofereço meu teste reconhecem tranqüilamente a gramaticalidade a aceitabilidade de construções como a do enunciado que escrevo na lousa Como é possível pg 112 então falar de erro se a construção não causa estranheza a falantes cultos e é perfeitamente assimilada do ponto de vista semântico e pragmático se não há nenhuma ambigüidade em sua interpretação que é o argumento quase sempre apresentado pelos prescritivistas que normalmente analisam a língua sem levar em conta o contexto da enunciação De onde vem esse abismo entre o conceito sociolingüístico de norma culta e a noção vaga e preconceituosa de língua culta exibida pelos comandos paragramaticais Como tantos especialistas de verdade vêm insistindo em mostrar esse abismo nasce da recusa dos defensores da gramática tradicional de acompanhar os avanços da ciência da linguagem Consultando por exemplo a bibliografia do livro Com todas as letras de Eduardo Martins lançado no início de 1999 verificase que dos 26 títulos consultados por ele nenhum é de obra científica especializada 10 são comandos paragramaticais em forma de livros que listam nãoseiquantosmil erros de português entre os quais o Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de S Paulo de autoria do mesmo Martins 11 são dicionários de língua eou de regências verbais e nominais obras escritas à moda antiga e não segundo os critérios da lexicografia contemporânea e 5 são gramáticas normativas Como todo comando paragramatical digno do nome este também se caracteriza por sua inflexível endogamia para conservar a pureza de sua língua só aceita manter relações com indivíduos de sua própria casta pg 113 Como reconhece o próprio Ministério da Educação no documento já citado não se pode mais insistir na idéia de que o modelo de correção estabelecido pela gramática tradicional seja o nível padrão de língua ou que corresponda à variedade lingüística de prestígio p 31 Para separar o ideal do real como eu já disse é necessário empreender a identificação e a descrição da verdadeira língua falada e escrita pelas classes cultas do Brasil É uma tarefa que tem de ser feita e que está sendo feita Infelizmente os resultados já obtidos na execução dessa tarefa são de acesso difícil à maioria das pessoas porque se encontram expostos em livros e teses escritos em linguagem extremamente técnica como de fato exige o rigor científico e recorrem em suas análises e interpretações a diferentes modelos teóricos todos eles muito sofisticados e de difícil compreensão para o leitor comum não familiarizado com eles É preciso escrever uma gramática da norma culta brasileira em termos simples mas não simplistas claros e precisos com um objetivo declaradamente didáticopedagógico que sirva de ferramenta útil e prática para professores alunos e falantes em geral Sem essa gramática que nos descreva e explique a língua efetivamente falada pelas classes cultas continuaremos à mercê das gramáticas normativas tradicionais que chamam erradamente de norma culta uma modalidade de língua que não é culta mas sim cultuada não a norma culta como ela é mas a norma pg 114 culta como deveria ser segundo as concepções antiquadas dos perpetuadores do círculo vicioso do preconceito lingüístico 2 Mudança de atitude Enquanto essa gramática não chega temos de combater o preconceito lingüístico com as armas de que dispomos E a primeira campanha a ser feita por todos na sociedade é a favor da mudança de atitude Cada um de nós professor ou não precisa elevar o grau da própria autoestima lingüística recusar com veemência os velhos argumentos que visem menosprezar o saber lingüístico individual de cada um de nós Temos de nos impor como falantes competentes de nossa língua materna Parar de acreditar que brasileiro não sabe português que português é muito difícil que os habitantes da zona rural ou das classes sociais mais baixas falam tudo errado Acionar nosso senso crítico toda vez que nos depararmos com um comando paragramatical e saber filtrar as informações realmente úteis deixando de lado e denunciando de preferência as afirmações preconceituosas autoritárias e intolerantes Da parte do professor em geral e do professor de língua em particular essa mudança de atitude deve refletirse na não aceitação de dogmas na adoção de uma nova postura crítica em relação a seu próprio objeto de trabalho a norma culta Do ponto de vista teórico esta nova postura pode ser simbolizada numa simples troca de sílaba Em vez de REPETIR alguma coisa o professor deveria REFLETIR sobre pg 115 ela Diante da velha doutrina gramatical normativa o professor não deveria limitarse a transmitila tal e qual ela se encontra compendiada nos manuais gramaticais ou nos livros didáticos É necessário lançar dúvidas sobre o que está dito ali questionar a validade daquelas explicações filtrálas tomando inclusive como base seu próprio saber lingüístico devidamente valorizado Eu não falo assim não escrevo assim meus colegas também não escritores que tenho lido não seguem essa regra será que ela pertence de fato à norma culta Posta a dúvida passase à investigação ao levantamento de hipóteses à busca de explicações que esclareçam o fenômeno que provocou o questionamento Se milhões de brasileiros de norte a sul de leste a oeste em todas as regiões e em todas as classes sociais falam e escrevem Alugase salas ou se há flutuação no uso de onde e aonde o problema evidentemente não está nesses milhões de pessoas mas na explicação insuficiente errada até nesses casos dada a esses fenômenos pela gramática tradicional Nessa nova postura de reflexão é indispensável que o professor procure tanto quanto possível estar sempre a par dos avanços das ciências da linguagem e da educação lendo literatura científica atualizada assinando revistas especializadas filiandose a associações profissionais freqüentando cursos em universidades aderindo a projetos de pesquisa participando de congressos levantando suas dúvidas e inquietações em debates e mesas redondas pg 116 Do ponto de vista prático a nova postura pode ser representada na eliminação de uma única sílaba também Em vez de REPRODUZIR a tradição gramatical o professor deve PRODUZIR seu próprio conhecimento da gramática transformandose num pesquisador em tempo integral num orientador de pesquisas a serem empreendidas em sala de aula junto com seus alunos Parar de querer entregar regras mal descritas já prontas e começar a descobrir métodos inteligentes e prazerosos para que os próprios aprendizes deduzam essas regras em textos vivos coerentes bem construídos interessantes tanto de língua escrita como de língua falada Tentei dar uma contribuição inicial a esse processo na segunda parte do meu livro Pesquisa na escola o que é como se faz A gramática tradicional tenta nos mostrar a língua como um pacote fechado um embrulho pronto e acabado Mas não é assim A língua é viva dinâmica está em constante movimento toda língua viva é uma língua em decomposição e em recomposição em permanente transformação É uma fênix que de tempos em tempos renasce das próprias cinzas É uma roseira que quanto mais a gente vai podando flores mais bonitas vai dando E o professor também deve preferir ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo como cantava Raul Seixas contrariando nesses mesmos versos a velha opinião formada de que o verbo preferir não pode ser usado com a construção do que Tudo muda no universo e a língua também A comparação da língua a um rio me faz lembrar do filósofo grego pg 117 Heráclito que disse que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio na segunda vez já não é a mesma pessoa já não é o mesmo rio Não precisamos ter medo disso quando formos dar aula de português Um professor de química física biologia ou história sabe perfeitamente que muito do que ele está ensinando hoje pode vir a ser reformulado ou até negado amanhã por alguma nova descoberta por algum novo avanço tecnológico que permitirá ver coisas que antes não se via Toda ciência para merecer esse nome tem que ser como se diz em inglês work in progress um trabalho em andamento uma construção ininterrupta uma obra aberta E a lingüística dentro da qual se inclui a gramática é uma ciência assim Por isso não há razão para que o professor de gramática seja dispensado da formação científica que se exige de um professor de biologia ou de psicologia É definitivamente necessário começar a conceber a gramática como uma disciplina viva em revisão e elaboração constante Essas palavras de Mário Perini em sua Gramática descritiva do português pp 16 e 17 sintetizam o que eu disse mais acima a respeito de uma nova postura teórica e prática por parte do professor de língua portuguesa 3 O que é ensinar português Para romper o círculo vicioso do preconceito lingüístico no ponto em que temos mais poder para atacálo a prática de ensino precisamos rever toda uma série pg 118 de velhas opiniões formadas que ainda dominam nossa maneira de ver nosso próprio trabalho Logo de início convém fazer a pergunta o que é ensinar português Que objetivo pretendemos alcançar com nossa prática em sala de aula Os métodos tradicionais de ensino da língua no Brasil visam por incrível que pareça a formação de professores de português O ensino da gramática normativa mais estrita a obsessão terminológica a paranóia classificatória o apego à nomenclatura nada disso serve para formar um bom usuário da língua em sua modalidade culta Esforçarse para que o aluno conheça de cor o nome de todas as classes de palavras saiba identificar os termos da oração classifique as orações segundo seus tipos decore as definições tradicionais de sujeito objeto verbo conjunção etc nada disso é garantia de que esse aluno se tornará um usuário competente da língua culta Quando alguém se matricula numa autoescola espera que o instrutor lhe ensine tudo o que for necessário para se tornar um bom motorista não é Imagine porém se o instrutor passar onze anos abrindo a tampa do motor e explicando o nome de cada peça de cada parafuso de cada correia de cada fio explicando de que modo uma parte se encaixa na outra o lugar que cada uma deve ocupar dentro do compartimento do motor para permitir o funcionamento do carro e assim por diante Esse aluno tem alguma chance de se tornar um bom motorista Acho difícil Quando muito estará se candidatando a um emprego de mecânico de automóveis Mas quantas pessoas existem por aí dirigindo tranqüilamente seus pg 119 carros tirando o máximo proveito deles sem ter a menor idéia do que acontece dentro do motor Hoje em dia cada vez mais pessoas estão usando um computador A retumbante maioria delas consegue fazer um bom uso de sua máquina conhecendo apenas os programas os softwares O hardware isto é a parte mecânica do computador a estrutura física das placas dos chips das conexões etc fica para os especialistas os técnicos E então O que pretendemos formar com nosso ensino motoristas da língua ou mecânicos da gramática Devemos insistir nos componentes hard ou devemos dar preferência ao bom manejo dos soft2 Nós sim professores temos que conhecer profundamente o hardware da língua a mecânica do idioma porque nós somos os instrutores os especialistas os técnicos Mas não os nossos alunos Precisamos portanto redirecionar todos os nossos esforços voltá 2 Hard em inglês significa duro rígido enquanto soft significa macio maleável Qual dessas duas opções de ensino você acha que nossos alunos escolheriam se tivessem chance los para a descoberta de novas maneiras que nos permitam fazer de nossos alunos bons motoristas da língua bons usuários de seus programas Por isso é que Sírio Possenti depois de exibir argumentos com os quais concordo integralmente diz nas páginas 5354 de Por que não ensinar gramática na escola Todas as sugestões feitas nos textos anteriores só farão sentido se os professores estiverem convencidos ou puderem ser convencidos de que o domínio efetivo e ativo de uma língua pg 120 dispensa o domínio de uma metalinguagem técnica Em outras palavras se ficar claro que conhecer uma língua é uma coisa e conhecer sua gramática é outra Que saber uma língua é uma coisa e saber analisála é outra Que saber usar suas regras é uma coisa e saber explicitamente quais são as regras é outra Que se pode falar e escrever numa língua sem saber nada sobre ela por um lado e que por outro lado é perfeitamente possível saber muito sobre uma língua sem saber dizer uma frase nessa língua em situações reais Quando digo coisas assim em público algumas pessoas levantam a objeção de que o ensino da nomenclatura tradicional das definições das classificações da análise sintática é necessário porque são essas coisas que serão cobradas ao aluno no momento de fazer um concurso ou de prestar o vestibular Se é assim cabe a nós professores pressionar pelos meios de que dispomos associações profissionais sindicatos cartas à imprensa para que as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira trocando as velhas concepções de língua por novas Não temos de nos conformar passivamente com uma situação absurda e prosseguir na reprodução dos velhos vícios gramatiqueiros simplesmente porque haverá uma cobrança futura ao aluno Quanto ao vestibular Deus seja mil vezes louvado ele está desaparecendo Diversas universidades públicas e privadas estão encontrando novos meios de seleção e admissão de alunos aos cursos superiores Afinal poucas instituições houve no Brasil tão obtusas nefastas injustas antidemocráticas e perniciosas quanto o vestibular Nunca consegui entender por que uma pessoa pg 121 que quer estudar Direito precisa fazer prova de física química biologia e matemática se o que ela aprendeu dessas matérias já foi avaliado na conclusão do 2 grau Com o fim do vestibular desaparecerá também assim esperamos ardentemente toda a indústria que se formou em torno dele os nefandos cursinhos onde ninguém aprende nada onde não há nenhuma produção de conhecimento mas apenas reprodução de informações desconexas onde centenas de alunos se apinham numa sala onde tudo o que se faz é entupir a cabeça do aluno com truques e macetes que em nada contribuem para a sua verdadeira formação intelectual e humanística 4 O que é erro Outro modo interessante de romper com o círculo vicioso do preconceito lingüístico é reavaliar a noção de erro A noção tradicional eu diria até folclórica de erro é que permite que pessoas como Sacconi escrevam livros absurdos como Não erre mais e vendam milhares de exemplares deles Como vimos na primeira parte do livro o Mito 6 expressa a prática milenar de confundir língua em geral com escrita e mais reduzidamente ainda com ortografia oficial A tal ponto que uma elevada porcentagem do que se rotula de erro de português é na verdade mero desvio da ortografia oficial O vigor desse mito se depreende por exemplo num exercício de pesquisa sugerido por um livro didático de publicação recente Carvalho Ribeiro 1998 125 Após apresentar o poema pg 122 Erro de português de Oswald de Andrade os autores pedem ao aluno 1 Procure localizar erros de português em cartazes placas ou até mesmo na fala de pessoas que você conhece Transcrevaos em seu caderno Ora em cartazes e placas não aparecem erros de português e sim erros de ortografia Escrever digamos LOGINHA DE ARTEZANATO onde a lei obriga a escrever LOJINHA DE ARTESANATO em nada vai prejudicar a intenção do autor da placa informar que ali se vende objetos de artesanato Neste caso nem mesmo a realização fonética da placa certa e da placa errada vai apresentar diferença O fato também de haver erro na placa não significa de forma nenhuma que os objetos ali vendidos sejam de qualidade inferior errados ou feios Se mais acima escrevi lei é porque se trata exatamente disso A ortografia oficial é fruto de um gesto político é determinada por decreto é resultado de negociações e pressões de toda ordem geopolíticas econômicas ideológicas No início do século XX o certo era escrever EM NICTHEROY ELLE POUDE ESTUDAR SCIENCIAS NATURAES CHIMICA E PHYSICA Se hoje o certo é escrever EM NITERÓI ELE PÔDE ESTUDAR CIÊNCIAS NATURAIS QUÍMICA E FÍSICA isso não altera a sintaxe nem a semântica do enunciado o que mudou foi só a ortografia O exercício proposto por Carvalho Ribeiro além de confundir português com ortografia do português também admite implicitamente a existência de erros na pg 123 fala de pessoas que você conhece O problema aqui é ainda mais grave porque do ponto de vista científico simplesmente não existe erro de português Todo falante nativo de uma língua é um falante plenamente competente dessa língua capaz de discernir intuitivamente a gramaticalidade ou agramaticalidade de um enunciado isto é se um enunciado obedece ou não às regras de funcionamento da língua Ninguém comete erros ao falar sua própria língua materna assim como ninguém comete erros ao andar ou ao respirar Só se erra naquilo que é aprendido naquilo que constitui um saber secundário obtido por meio de treinamento prática e memorização errase ao tocar piano errase ao dar um comando ao computador errase ao falarescrever uma língua estrangeira A língua materna não é um saber desse tipo ela é adquirida pela criança desde o útero é absorvida junto com o leite materno Por isso qualquer criança entre os 3 e 4 anos de idade se não menos já domina plenamente a gramática de sua língua O resultado disso é como diz Perini 199711 que nosso conhecimento da língua é ao mesmo tempo altamente complexo incrivelmente exato e extremamente seguro E o mesmo autor prossegue afirmando p 13 que qualquer falante de português possui um conhecimento implícito altamente elaborado da língua muito embora não seja capaz de explicitar esse conhecimento E esse conhecimento não é fruto de instrução recebida na escola mas foi adquirido de maneira tão natural e espontânea quanto a nossa habilidade de andar Mesmo pessoas que nunca estudaram pg 124 gramática chegam a um conhecimento implícito perfeitamente adequado da língua São como pessoas que não conhecem a anatomia e a fisiologia das pernas mas que andam dançam nadam e pedalam sem problemas Assim podemos até dizer que existem erros de português só que nenhum falante nativo da língua os comete Por exemplo seriam errados os enunciados abaixo o asterisco indica construção agramatical 1 Aquela garoto me xingou 2 Eu nos vimos ontem na escola 3 Júlia chegou semana que vem 4 Não duvido que ele não queira não vir aqui 5 Que o livro que a moça que Luís que trabalha comigo me apresentou escreveu é bom não nego Esses enunciados precisamente por serem agramaticais isto é por não respeitarem as regras de funcionamento da nossa língua não aparecem na fala espontânea e natural de falantes nativos do português do Brasil mesmo que sejam crianças pequenas que ainda não freqüentam escola ou adultos totalmente iletrados O que está em jogo aqui evidentemente é a noção de erro e seu estreito vínculo com o que tradicionalmente é chamado de português Como já mostrei existe no nível da língua escrita a confusão entre português e ortografia oficial da língua portuguesa No nível da língua falada os termos que se confundem ou que são tomados como equivalentes são português gramática normativa e variedade padrão pg 125 Em relação à língua escrita seria pedagogicamente proveitoso substituir a noção de erro pela de tentativa de acerto Afinal a língua escrita é uma tentativa de analisar a língua falada e essa análise será feita pelo usuário da escrita no momento de grafar sua mensagem de acordo com seu perfil sociolingüístico Uma pessoa com poucos anos de escolarização pouco habituada à prática da leitura e da escrita tendo como quadro de referência apenas uma suposta equivalência unívoca entre som e letra fará uma análise dotada de reduzido instrumental teórico empregando como ferramenta básica a analogia Assim quem escreveu CHÍCARA em vez de XÍCARA não fez isso porque quis errar mas sim porque quis acertar Se existe CHINELO CHICOTE CHIQUEIRO CHICLETE por analogia se chega à possibilidade de também haver CHÍCARA É importante notar que os erros de ortografia são constantes troca de J por G de S por Z de CH por X e assim por diante justamente por serem casos em que é necessário fazer uma análise da relação falaescrita que ultrapassa os limites teóricos da suposta equivalência somletra Dificilmente alguém vai tentar escrever XÍCARA usando um J um G um S no lugar do X oficial porque faltam dados de experiência para uma analogia razoável Por outro lado uma pessoa que tenha freqüentado a escola por muitos anos que leia e escreva assiduamente que se tenha familiarizado com o uso do dicionário que tenha sido despertada para a existência das regularidades e irregularidades da língua escrita saberá que a simples analogia não será suficiente como guia no momento de escrever outros quadros de referência terão de ser acessados a cultura pg 126 erudita a etimologia das palavras as reformas ortográficas os critérios de normativização da ortografia etc Quanto à língua falada fica óbvio que o rótulo de erro é aplicado a toda e qualquer manifestação lingüística fonética morfológica e sintática principalmente que se diferencie das regras prescritas pela gramática normativa que se apresenta como codificação da língua culta embora na verdade seja a codificação de um padrão idealizado que não coincide com a verdadeira variedade culta objetiva Dentro dessa conceituação são igualmente errados os enunciados abaixo 6 A Joana é uma menina que ela sabe o que faz 7 A Joana que ela sabe é uma menina o que faz muito embora 6 seja perfeitamente inteligível decodificável interpretável e portanto gramatical aceitável enquanto 7 é claramente agramatical e por conseguinte não ocorre na fala normal de nenhum brasileiro No entanto 6 é considerado tão errado quanto 7 porque nenhum dos dois enunciados se enquadra nas prescrições da gramática normativa e de seus autoproclamados defensores os comandos paragramaticais O enunciado 6 porém tem uma sintaxe uma semântica e uma pragmática que qualquer falante nativo do português do Brasil sem preocupações normativistas aceita com tranqüilidade e a prova disso é que enunciados desse tipo são proferidos aos milhões diariamente em todos os cantos do país por pessoas de todas as classes sociais inclusive as consideradas cultas É certo que construções pg 127 desse tipo não aparecem em textos cultos escritos mas é preciso distinguir as variedades cultas faladas das variedades cultas escritas coisa que os prescritivistas em geral não fazem Tratase aqui de uma regramaticalização do pronome que de toda uma complexa perda de casos gramaticais fenômeno que vem sendo estudado há bastante tempo tendo sido já tema de muitos ensaios dissertações e teses científicas Mas a prova oferecida pelo uso intenso de construções sintáticas como a de 6 não convence os defensores da gramática normativa e os membros dos comandos paragramaticais que não conseguiriam sobreviver sem a noção de erro É preciso ter sempre em mente que tudo aquilo que é considerado erro ou desvio pela gramática tradicional tem uma explicação lógica científica perfeitamente demonstrável Só por isso é que os agentes dos comandos paragramaticais podem falar de erros comuns Os gramáticos conservadores não se dão conta de que o próprio adjetivo comum usado por eles mostra que se trata de um fenômeno amplo de variação de uma transformação que está se processando nos mecanismos de funcionamento geral da língua Em sua cegueira dogmática eles falam de vício comum erro vulgar praga corrupção muito difundida sem perceber que estão na verdade reconhecendo que aquilo que eles consideram certo é que deve apresentar algum problema alguma disfunção alguma impossibilidade de uso que impede que a maioria das pessoas obedeça àquela regra A única explicação inaceitável embora seja a preferida dos conservadores é a de que essas pessoas são asnos ignorantes ou idiotas pg 128 A nova postura teórica e prática consiste em procurar conhecer as regras que estão levando os falantes da língua a usar X onde se esperaria Y identificar essas regras descrevêlas pesquisar explicações científicas para elas e se possível apresentálas a seus alunos Foi o que tentei fazer em meu livro A língua de Eulália e foi também o que fiz neste livro ao contestar a explicação paleozóica de Dad Squarisi para a alta freqüência de Vendese casas em lugar de Vendemse casas O bom professor age como o filósofo Spinoza que escreveu Tenhome esforçado por não rir das ações humanas por não deplorálas nem odiá las mas por entendêlas Pessoas como Napoleão Mendes de Almeida Luiz Antonio Sacconi e Dad Squarisi agem exatamente ao contrário de Spinoza Sacconi ao recorrer a um humor de gosto duvidoso chega mesmo a escrever preto no brancoEu porém odeio gente que só diz asneiras p 43 De um verdadeiro professor devemos sempre esperar compaixão solidariedade empatia nunca o ódio muito menos o riso deplorador 5 Então vale tudo Algumas pessoas me dizem que a eliminação da noção de erro dará a entender que em termos de língua vale tudo Não é bem assim Na verdade em termos de língua tudo vale alguma coisa mas esse valor vai depender de uma série de fatores Falar gíria vale Claro que pg 129 vale no lugar certo no contexto adequado com as pessoas certas E usar palavrão A mesma coisa Uma das principais tarefas do professor de língua é conscientizar seu aluno de que a língua é como um grande guarda roupa onde é possível encontrar todo tipo de vestimenta Ninguém vai só de maiô fazer compras num shoppingcenter nem vai entrar na praia num dia de sol quente usando terno de lã chapéu de feltro e luvas Usar a língua tanto na modalidade oral como na escrita é encontrar o ponto de equilíbrio entre dois eixos o da adequabilidade e o da aceitabilidade Quando falamos ou escrevemos tendemos a nos adequar à situação de uso da língua em que nos encontramos se é uma situação formal tentaremos usar uma linguagem formal se é uma situação descontraída uma linguagem descontraída e assim por diante Essa nossa tentativa de adequação se baseia naquilo que consideramos ser o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte de nosso interlocutor ou interlocutores Podemos representar tudo isso graficamente mais ou menos assim É totalmente inadequado por exemplo fazer uma palestra num congresso científico usando gíria expressões pg 130 marcadamente regionais palavrões etc A platéia dificilmente aceitará isso É claro que se o objetivo do palestrante for precisamente chocar seus ouvintes aquela linguagem será muito adequada Não é adequado que um agrônomo se dirija a um lavrador analfabeto usando uma terminologia altamente técnica e especializada a menos que queira não se fazer entender Como sempre tudo vai depender de quem diz o quê a quem como quando onde por quê e visando que efeito 6 A paranóia ortográfica A atitude tradicional do professor de português ao receber um texto produzido por um aluno é procurar imediatamente os erros direcionar toda a sua atenção para a localização e erradicação do que está incorreto É uma preocupação quase exclusiva com a forma pouco importando o que haja ali de conteúdo É sobretudo aquilo que chamo de paranóia ortográfica uma obsessão neurótica para que todas as palavras tragam o acento gráfico que todos os Ç tenham sua cedilha que todos os J e G estejam nos lugares certos e assim por diante Aliás uma porcentagem enorme do que todo mundo chama de erro de português diz respeito a meras incorreções ortográficas Ora saber ortografia não tem nada a ver com saber a língua São dois tipos diferentes de conhecimento A ortografia não faz parte da gramática da língua isto é das regras de funcionamento da língua Como vimos no Mito n 6 muitas pessoas nascem crescem vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever sendo no entanto conhecedores perfeitos da gramática de sua língua pg 131 A ortografia oficial é fruto de um decreto de um ato institucional por parte do governo e fica muitas vezes sujeita aos gostos pessoais ou às interpretações dos fenômenos lingüísticos por parte dos filólogos que ajudam a estabelecêla Por isso na virada do século XIX para o XX se escrevia ELLE na primeira metade do século XX se escreveu ÊLE e agora no limiar do século XXI se escreve ELE Por isso a lei nos manda escrever HUMO OU HÚMUS mas ÚMIDO e UMIDADE embora sejam todas palavras da mesma família em Portugal todas essas palavras têm H Por isso também temos de escrever ESTRANHO e ESTRANGEIRO com s embora sejam palavras formadas com base no prefixo EXTRA presente em EXTRAORDINÁRIO EXTRAVAGANTE EXTRAPOLAR etc em espanhol se escreve EXTRÁNEO e EXTRANJERO Por isso o adjetivo EXTENSO e o substantivo EXTENSÃO apresentam um x mas o verbo ESTENDER vá lá saber por quê se escreve com um s E o adjetivo MACIÇO se escreve com c embora seja derivado de MASSA com SS Se os legisladores da língua podem ser tão incoerentes no momento de definir a ortografia oficial não há por que estranhar ou extranhar que as pessoas em geral também se confundam Mas não é o que pensam Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante que na p 33 de sua Gramática escrevem Não é admissível que com um alfabeto tão restrito apenas 23 letras se cometam tantos erros ortográficos pelo Brasil afora Estude com cuidado este capítulo para integrar o grupo de cidadãos que sabem grafar corretamente as palavras da língua portuguesa pg 132 Essa Gramática filiase à tradição que atribui ao domínio da escrita um elemento de distinção social que é na verdade um elemento de dominação por parte dos letrados sobre os iletrados Existe um mito ingênuo de que a linguagem humana tem a finalidade de comunicar de transmitir idéias mito que as modernas correntes da lingüística vêm tratando de demolir provando que a linguagem é muitas vezes um poderoso instrumento de ocultação da verdade de manipulação do outro de controle de intimidação de opressão de emudecimento Ao lado dele também existe o mito de que a escrita tem o objetivo de difundir as idéias No entanto uma simples investigação histórica mostra que em muitos casos a escrita funcionou e ainda funciona com a finalidade oposta ocultar o saber reserválo a uns poucos para garantir o poder àqueles que a ela têm acesso Como nos informa Leda Tfouni em seu livro Adultos não alfabetizados o avesso do avesso a escrita na Índia esteve profundamente ligada aos textos sagrados a que só tinham acesso os sacerdotes os iniciados os que passavam por um longo processo de preparação no fundo a garantia de que poderiam ler aqueles textos guardandoos em segredo De fato a célebre gramática de Panini século V a C que esmiuça toda a estrutura da língua sânscrita clássica tinha um objetivo específico permitir a leitura correta e a interpretação exata dos textos sagrados Era portanto a filologia a serviço da casta sacerdotal Convém lembrar que foi necessária a Reforma protestante no século pg 133 XVI para que a Igreja católica romana permitisse a popularização da Bíblia tolerando que as Escrituras fossem lidas e estudadas em outras línguas vivas e não somente em latim A primeira tradução da Bíblia para o português por exemplo só aconteceu em 1719 por obra de um protestante João Ferreira de Almeida Na China o sistema ideográfico de escrita exerceu durante séculos a função de assegurar o poder aos burocratas e aos religiosos Realmente a grande quantidade de ideogramas juntamente com o alto grau de sofisticação de seus desenhos eram obstáculos para que as pessoas do povo pudessem aprender a ler e escrever Pesquisadores citados por Tfouni relatam que apesar de os chineses conhecerem a escrita alfabética desde o século II dC eles se recusaram a aceitála até a época atual provavelmente porque seu código antigo mais complexo e pouquíssimo prático há séculos se estabelecera como o meio de expressão de uma vasta produção literária além de estar inextricavelmente ligado às instituições religiosas e de ser aceito como marca distintiva das classes educadas grifos de Tfouni A mesma autora p 12 atribui à introdução da escrita alfabética na Grécia no século VVI aC todo um processo de radicais transformações culturais políticas e sociais O aparecimento entre outras coisas do pensamento lógicoempírico e filosófico a formalização da História e da Lógica enquanto disciplinas intelectuais e a própria democracia grega têm íntima relação com a expansão e solidificação da escrita fonética na Grécia e na Jônia pg 134 Por quê Porque ao contrário de outras civilizações suas contemporâneas a grega não tem uma casta sacerdotal monopolizadora dos livros sagrados A própria escrita não é um segredo dos governantes e escribas mas é de domínio público e comum possibilitando agora sim a ampla difusão e discussão de idéias Assim se por um lado a escrita pode ser apontada como uma das causas fundamentais do surgimento de civilizações modernas e do desenvolvimento científico tecnológico e psicossocial das sociedades em que foi adotada por outro não convém negligenciar fatores como as relações de poder e dominação que governam a utilização restrita ou generalizada de um código escrito Ao convidar o leitor a fazer parte do grupo de cidadãos que sabem grafar corretamente as palavras da língua portuguesa Cipro e Infante afirmam implicitamente que esse conhecimento não é amplo e generalizado nem poderia ser 60 milhões de analfabetos mas sim restrito a um grupo de cidadãos Outra idéia ingênua dos autores é achar inadmissível o número de erros de ortografia cometidos pelo Brasil afora já que nosso alfabeto tem apenas 23 letras Ora o alfabeto tem 23 letras sim mas elas podem se juntar em centenas senão milhares de combinações diferentes criando a riqueza inumerável das palavras da língua portuguesa E essas combinações possíveis nada têm de coerentes nosso sistema ortográfico como explica Miriam Lemle é ao mesmo tempo um sistema de representação fonêmica um sistema de representação pg 135 morfofonêmica um sistema com memória etimológica e um sistema que privilegia uma variedade dialetal em detrimento de outra3 Para termos uma idéia das complexas combinações possíveis entre as letras de nosso alfabeto e os sons que elas podem representar vamos ver as relações que existem entre os fonemas k s š este é o som da letra x em xixi e z e suas possíveis representações ortográficas4 pg 136 3 Ver o interessante prefácio de Miriam Lemle ao livro Leitura ortografia e fonologia de Myrian Barbosa da Silva 4 Este quadro inspirase no da p 32 do livro de Myrian Barbosa da Silva com pequenas alterações Contando o número de flechas identificamos ao todo 21 relações entre realização fonética e representação gráfica Mas se fôssemos levar em conta toda as diversidades de pronúncia que existem no universo da língua portuguesa no Brasil e fora dele certamente encontraríamos muitas mais5 Vamos dar exemplos só das 21 relações do nosso esquema 1 QU ku obliqúe 2 QU kw quase 3 QU k quero 4 C k casa 5 C s céu 6 S s sol 7 S š festa na pronúncia carioca paraense lisboeta entre outras 8 S z rosa 9 Z z azul 10 Z š raiz nas mesmas pronúncias citadas em 7 11 X s próximo 12 X ks fixo pg 137 13 X z exame 14 X š xícara 15 Ç s aço 16 SS s osso 17 XC s exceto 18 XS s exsudar 19 SC s descer 20 SÇ s cresça 5 Gosto de propor o seguinte desafio às pessoas que ainda se iludem com o mito de que o certo é escrever assim porque se fala assim você sabia que a letra s pode representar o som do J em já Depois de alguns momentos de reflexão dou a resposta na pronúncia do Rio de Janeiro de Belém ou de Lisboa numa palavra como MESMO O S tem som de J e o próprio nome de Lisboa na fala de seus nativos se pronuncia lijboa Nessas pronúncias uma frase como AS MESMAS BOAS GAROTAS soa aj mejmaj boaj garotax por causa de características fonéticas típicas do português culto inclusive falado nesses locais Além disso na fala nãoculta do Rio de Janeiro é comum a pronúncia mermo ou memo para o que se escreve MESMO A complexidade da relação letrasom como se vê é muito maior do que as pessoas em geral pensam sobretudo quando se leva em conta todas as variedades nacionais regionais sociais estilísticas etc da língua 21 CH š chave Parece complicado E é Diante de uma situação dessas que é apenas uma das muitas séries de interrelações entre letra e som que existem na língua portuguesa não nos parece nem um pouco inadmissível a existência de dúvidas e hesitações por parte dos brasileiros inclusive dos bem alfabetizados no momento de escrever Vamos abandonar portanto a idéia preconceituosa de que quem escreve tudo errado é um ignorante da língua O aprendizado da ortografia se faz pelo contato íntimo e freqüente com textos bem escritos e não com regras mal elaboradas ou com exercícios pouco esclarecedores Ao recebermos um texto escrito por alguém ou ao ouvir alguém falar vamos procurar ver antes de tudo o que eleela está querendo comunicar para só depois nos preocuparmos com os detalhes de como eleela está se comunicando Vamos fazer a nós mesmos as seguintes perguntas Esse texto ou esse discurso é coerente Traz idéias originais pg 138 Ofende algum princípio ético É preconceituoso Reproduz idéias autoritárias ou intolerantes Mostra um espírito crítico eou criativo Demonstra um senso estético Comunica que sentimentos Ensiname alguma coisa Desperta minhas emoções Quais E assim por diante Isso é que é educar dar voz ao outro reconhecer seu direito à palavra encorajálo a manifestarse Sem isso não é de admirar que a atividade de redação seja tão problemática na escola Eu confesso que sinto muito maior prazer ao ler ou ouvir um texto cheio de erros de português mas com idéias originais inovadoras coerentes bem expressas um texto isento de preconceitos e de idéias rançosas do que ao ler um texto com todas as vírgulas no lugar com todas as regências cultas respeitadas todas as concordâncias verbais e nominais mas repleto de intole rância de deboche de sarcasmo de concepções degradantes e por aí afora 7 Subvertendo o preconceito lingüístico Por mais que isso nos entristeça ou irrite é preciso reconhecer que o preconceito lingüístico está aí firme e forte Não podemos ter a ilusão de querer acabar com ele de uma hora para outra porque isso só será possível pg 139 quando houver uma transformação radical do tipo de sociedade em que estamos inseridos que é uma sociedade que para existir precisa da discriminação de tudo o que é diferente da exclusão da maioria em benefício de uma pequena minoria da existência de mecanismos de controle dominação e marginalização Apesar disso acredito também que podemos praticar alguns pequenos atos subversivos uma pequena guerrilha contra o preconceito sobretudo porque nós professores somos muito importantes como formadores de opinião E quais são estes pequenos atos de sabotagem contra o preconceito Primeiro formandonos e informandonos Não me canso de insistir é preciso que cada professor de língua assuma uma posição de cientista e investigador de produtor de seu próprio conhecimento lingüístico teórico e prático e abandone a velha atitude repetidora e reprodutora de uma doutrina gramatical contraditória e incoerente Segundo fazendo a crítica ativa da nossa prática diária em sala de aula Por questão de sobrevivência às vezes até sobrevivência física mesmo talvez tenhamos de continuar ensinando aquelas coisas que nos são cobradas pela sociedade pela direção das escolas pelos pais dos nossos alunos Mas podemos ensinar essas coisas criticandoas ao mesmo tempo e deixando bem claro que aquilo ali não é tudo o que se pode saber a respeito da língua que há um milhão de outras coisas muito mais pg 140 interessantes e gostosas para descobrir no universo da linguagem Terceiro diante das cobranças de pais diretores ou donos de escola mostrar que as ciências todas evoluem e que a ciência da linguagem também evolui Que as mentalidades mudam que as posturas do próprio Ministério da Educação hoje são outras Não se pode negar que os Parâmetros Curriculares Nacionais representam um grande avanço para a renovação do ensino da língua portuguesa Vamos tentar adquirir copiar ter sempre à mão esses Parâmetros para nos defender das pessoas que nos cobram um ensino à moda antiga Olha aqui ó o Ministério da Educação tá dizendo que a gente deve ensinar de uma maneira diferente nova atualizada Ou você quer que seu filho continue aprendendo coisas que não servem mais para nada Há algumas boas comparações que nos ajudam a argumentar melhor Quando eu estava na escola o certo em astronomia era que somente o planeta Saturno tinha anéis Hoje graças às inovações tecnológicas já sabemos que Urano e Netuno também têm anéis A cada ano são descobertas dezenas de espécies novas de animais e plantas no mesmo ritmo infelizmente das que são extintas para sempre Recentemente encontrouse o fóssil de um dinossauro carnívoro maior e mais forte que o tiranossauro considerado durante muito tempo o maior predador que jamais existiu Os achados dos arqueólogos a todo momento nos fazem rever e reformular nossas idéias sobre pg 141 a história dos povos antigos Os mapas com as divisões políticas da Europa de dez anos atrás já não têm nenhuma utilidade prática hoje em dia a não ser para o pesquisador investigar o que mudou de lá para cá Se tantas mudanças acontecem nas outras áreas do conhecimento decorrentes das transformações do universo da natureza e da sociedade sendo acolhidas como naturais e inevitáveis por que só o estudoensino da língua estaria isento de crítica e reformulação Quarto assumir uma nova postura usando como matéria de reflexão as seguintes noções que chamei de DEZ CISÕES porque representam de fato uma cisão um corte do cordão umbilical que sempre nos prendeu às velhas doutrinas gramaticais o símbolo de infinito no final da lista é um convite a quem quiser acrescentar outras cisões DEZ CISÕES para um ensino de língua não ou menos preconceituoso 1 Conscientizarse de que todo falante nativo de uma língua é um usuário competente dessa língua por isso ele SABE essa língua Entre os 3 e 4 anos de idade uma criança já domina integralmente a gramática de sua língua Sendo assim 2 aceitar a idéia de que não existe erro de português Existem diferenças de uso ou alternativas de uso em relação à regra única proposta pela gramática normativa pg 142 3 Não confundir erro de português que afinal não existe com simples erro de ortografia A ortografia é artificial ao contrário da língua que é natural A ortografia é uma decisão política é imposta por decreto por isso ela pode mudar e muda de uma época para outra Em 1899 as pessoas estudavam psychologia e história do Egypto em 1999 elas estudam psicologia e história do Egito Línguas que não têm escrita nem por isso deixam de ter sua gramática 4 Reconhecer que tudo o que a Gramática Tradicional chama de erro é na verdade um fenômeno que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável Se milhões de pessoas cultas inclusive estão optando por um uso que difere da regra prescrita nas gramáticas normativas é porque há alguma regra nova sobrepondose à antiga Assim o problema está com a regra tradicional e não com as pessoas que são falantes nativos e perfeitamente competentes de sua língua Nada é por acaso 5 Conscientizarse de que toda língua muda e varia O que hoje é visto como certo já foi erro no passado O que hoje é considerado erro pode vir a ser perfeitamente aceito como certo no futuro da língua Um exemplo no português medieval existia um verbo leixar que aparece até na Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D Manuel I Com o tempo esse verbo foi sendo pronunciado deixar porque d e l são consoantes aparentadas o que permitiu a troca de uma pela outra Hoje quem pronunciar leixar vai estar cometendo um erro vai ser acusado de desleixo muito embora essa forma seja mais próxima da origem pg 143 latina laxare comparese por exemplo o francês laisser e o italiano lasciare Por isso é bom evitar classificar algum fenômeno gramatical de erro ele pode ser na verdade um indício do que será a língua no futuro 6 Darse conta de que a língua portuguesa não vai nem bem nem mal Ela simplesmente VAI isto é segue seu rumo prossegue em sua evolução em sua transformação que não pode ser detida a não ser com a eliminação física de todos os seus falantes 7 Respeitar a variedade lingüística de toda e qualquer pessoa pois isso equivale a respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano porque 8 a língua permeia tudo ela nos constitui enquanto seres humanos Nós somos a língua que falamos A língua que falamos molda nosso modo de ver o mundo e nosso modo de ver o mundo molda a língua que falamos Para os falantes de português por exemplo a diferença entre ser e estar é fundamental eu estou infeliz é radicalmente diferente para nós de eu sou infeliz Ora línguas como o inglês o francês e o alemão têm um único verbo para exprimir as duas coisas Outras como o russo não têm verbo nenhum dizendo algo assim como Eu infeliz o russo na escrita usa mesmo um travessão onde nós inserimos um verbo de ligação Assim 9 uma vez que a língua está em tudo e tudo está na língua o professor de português é professor de TUDO Alguém já me disse que talvez por isso o professor de português devesse receber um salário igual à soma dos salários de todos os outros professores pg 144 10 Ensinar bem é ensinar para o bem Ensinar para o bem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno valorizar o que ele já sabe do mundo da vida reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade como ser humano Ensinar para o bem é acrescentar e não suprimir é elevar e não rebaixar a autoestima do indivíduo Somente assim no início de cada ano letivo este indivíduo poderá comemorar a volta às aulas em vez de lamentar a volta às jaulas pg 145 IV O preconceito contra a lingüística e os lingüistas 1 Uma religião mais velha que o cristianismo O ensino de língua na escola é a única disciplina em que existe uma disputa entre duas perspectivas distintas dois modos diferentes de encarar o fenômeno da linguagem a doutrina gramatical tradicional surgida no mundo helenístico no século III aC e a lingüística moderna que se firmou como ciência autônoma no final do século XIX e início do XX Qualquer pessoa bem informada acharia no mínimo estranho se um professor de biologia ensinasse a seus alunos que as moscas nascem da carne podre ou se um professor de ciências dissesse que a Terra é plana e o Sol gira em torno dela ou ainda se um professor de química afirmasse que a mistura dos quatro elementos ar água terra e fogo pode resultar em ouro São idéias mais do que ultrapassadas e que começaram a ser substituídas por novas concepções mais verossímeis a partir do período da história do conhecimento ocidental conhecido como o nascimento da ciência moderna século XVI em diante Ninguém se espanta porém quando um professor de língua ensina que os substantivos pg 147 são palavras que representam os seres em geral ou que sujeito é o ser do qual se diz alguma coisa ou que verbo é a palavra que exprime ação ou movimento São afirmações tão imprecisas e incoerentes para não dizer francamente falsas quanto a de que as avestruzes enterram a cabeça na areia ou que apontar para as estrelas faz nascer verruga nos dedos E no entanto elas continuam sendo estampadas nos manuais de gramática nos livros didáticos nas apostilas e cobradas em testes exames e provas de vestibular A doutrina gramatical tradicional mais velha que a religião cristã passou incólume pela grande revolução científica que abalou os fundamentos do conhecimento e do pensamento ocidental a partir do século XVI Basta examinar o que acontece na escola É muito comum o ensino das outras disciplinas fazer uma abordagem crítica dos saberes do passado mostrando de que maneira a evolução da sociedade da ciência e da tecnologia levou o ser humano a abandonar velhas crenças e superstições Em livros didáticos de biologia física química história geografia etc é freqüente encontrar afirmações do tipo Durante muito tempo se acreditou que mas os avanços da pesquisa e do conhecimento revelaram que Quem não se lembra de algum professor contando a história de Copérnico Galileu Newton Darwin Pasteur e outros que revolucionaram o conhecimento humano Isso só não acontece nas aulas de língua Os termos e conceitos da Gramática Tradicional estabelecidos há mais de 2300 anos continuam a ser repassados praticamente pg 148 intactos de uma geração de alunos para outra como se desde aquela época remota não tivesse acontecido nada na ciência da linguagem O ensino tradicional opera assim uma imobilização do tempo um apagamento das condições sociais e históricas que permitiram o surgimento e a permanência da Gramática Tradicional A Gramática Tradicional permanece viva e forte porque ao longo da história ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicação filosófica para os fenômenos da linguagem humana e foi transformada em mais um dos muitos elementos de dominação de uma parcela da sociedade sobre as demais Assim como no curso do tempo tem se falado da Família da Pátria da Lei da Fé etc como entidades sacrossantas como valores perenes e imutáveis também a Língua foi elevada a essa categoria abstrata devendo portanto ser preservada em sua pureza defendida dos ataques dos barbarismos conservada como um patrimônio que não pode sofrer ruína e corrupção Nessa concepção nada científica língua não é toda e qualquer manifestação oral eou escrita de qualquer ser humano de qualquer falante nativo do idioma a Língua com artigo definido e inicial maiúscula é somente aquele ideal de pureza e virtude falado e escrito é claro pelos puros e virtuosos que estão no topo da pirâmide social e que por isso merecem exercer seu domínio sobre as demais camadas da população A língua deixou de ser fato concreto para se transformar em valor abstrato Querer cobrar hoje em dia a observância dos mesmos padrões lingüísticos do passado é querer preservar pg 149 ao mesmo tempo idéias mentalidades e estruturas sociais do passado A Gramática Tradicional funcionando como uma ideologia lingüística foi e ainda é como toda ideologia o lugar das certezas uma doutrina sólida e compacta com uma única resposta correta para todas as dúvidas Por isso o que não está abonado na gramática normativa é erro ou simplesmente não é português e se alguma palavra não se encontra no dicionário é porque simplesmente ela não existe A lingüística moderna ao encarar a língua como um objeto passível de ser analisado e interpretado segundo métodos e critérios científicos devolveu a língua ao seu lugar de fato social abalando as noções antigas que apresentavam a língua como um valor ideológico Assim a lingüística como toda ciência é o lugar das surpresas das descobertas do novo da substituição de paradigmas da reformulação crítica das teorias Ora o novo assusta o novo subverte as certezas compromete as estruturas de poder e dominação há muito vigentes Não é por acaso que mesmo entre profissionais que deveriam ter a lingüística como seu corpo teórico e prático de referência a doutrina gramatical tradicional ainda encontre um apoio e uma defesa quase irracionais É o que se vê hoje em dia na imprensa e na mídia brasileira com os comandos paragramaticais analisados neste livro essa enxurrada de programas de televisão e de rádio colunas de jornal e revista que tentam preservar as noções mais conservadoras do certo e do errado desprezando o saber acumulado por mais de um século pg 150 de ciência lingüística moderna que tem no Brasil centros de pesquisa de excelência reconhecida internacionalmente Isso para não falar também dos grupos de pessoas que dizem promover ridículos movimentos de defesa da língua portuguesa como se fosse necessário defender a língua de seus próprios falantes nativos a quem ela pertence de fato e de direito A matéria de capa da revista Veja de 7112001 Falar e escrever bem e a estréia de Pasquale Cipro Neto no programa Fantástico da Rede Globo no mesmo ano são exemplos perfeitos do obscurantismo anticientífico que envolve nos meios de comunicação tudo o que diz respeito à língua e ao ensino da língua A participação de Pasquale no Fantástico faz regredir em pelo menos 25 anos os grandes avanços já obtidos pela Lingüística na renovação do ensino de língua na escola brasileira O grande problema está na confusão que reina na mentalidade das pessoas que atribuem uma crise à língua quando de fato a crise existe é na escola é no sistema educacional brasileiro classificado entre os piores do mundo apesar de nosso país ser o mais rico e industrializado do Hemisfério Sul além de ser a décima economia capitalista do planeta A língua não está em crise muito pelo contrário nunca em toda a sua história o português foi tão falado tão escrito tão impresso e tão difundido mundo afora pelos mais diferentes meios de comunicação E a participação do Brasil com seus 170 milhões de falantes nativos é de longe a mais relevante pg 151 e a mais importante Crise existe sim na escola pública brasileira de todos os níveis desde o préprimário até a universidade sobretudo depois que o duplo governo presidido por Fernando Henrique Cardoso passou a empregar todos os esforços possíveis para demolir sistematicamente o já cambaleante e sucateado sistema de ensino público do Brasil como tem feito aliás com todo o patrimônio público dos brasileiros É essa escola arruinada com professores despreparados e pessimamente remunerados que não oferece aos alunos as mínimas condições de letramento necessárias para o pleno exercício da cidadania Tentar atribuir as deficiências dos brasileiros no uso mais formal da língua aos próprios brasileiros que não têm amor ao idioma ou pior ainda ao próprio idioma é não querer ver a realidade é lançar a culpa sobre quem de fato é a vítima maior deste processo perverso Desse modo achar que a língua está em crise e que para superar essa crise é necessário sustentar a doutrina gramatical sem submetêla a uma crítica serena e bemfundada é a meu ver uma atitude que só pode ter duas explicações a ignorância científica a pessoa nunca ouviu falar de lingüística ou a desonestidade intelectual tendo entrado em contato com a ciência lingüística finge que não a conhece pior ainda é quando essa atitude se sustenta num indisfarçado e indisfarçável preconceito social Não podemos aceitar nenhuma dessas explicações para justificar o trabalho daqueles que se proclamam especialistas em questões de linguagem Que um leigo continue a repetir os mitos preconceituosos e as idéias pg 152 infundadas que circulam na sociedade sobre língua e linguagem é algo que podemos compreender e explicar com base numa análise sociológica e histórica Mas que assim proceda um autoproclamado especialista que ainda por cima se atribui o papel de julgar e condenar o comportamento lingüístico de seus semelhantes é algo que não podemos aceitar e que devemos sim denunciar e combater Pelas mesmas razões que levaram à transformação da Gramática Tradicional num instrumento de dominação e exclusão social é que a atividade dos lingüistas brasileiros vem sofrendo ataques grosseiros por parte de autointitulados filósofos que representam na verdade a reação mais conservadora e muitas vezes com acentos claramente fascistas contra qualquer tentativa de democratização do saber e da sociedade É a mesma ira que leva os fundamentalistas pseudocristãos a querer impedir o ensino da teoria evolucionista de Darwin em escolas norteamericanas Assim como esses fundamentalistas para defender seu ponto de vista obscurantista acusam Darwin de afirmar que o homem descende do macaco coisa que ele jamais escreveu em nenhuma de suas obras sua teoria é a de que os humanos e os demais primatas descendem de um ancestral comum também os atuais detratores da ciência lingüística acusam os estudiosos da linguagem de defenderem o nãoensino das formas padronizadas do português numa tentativa de transformar toda uma argumentação detalhada e sofisticada em duas ou três afirmações toscas e propositadamente deturpadas pg 153 2 Português ortodoxo Que língua é essa É fácil mostrar de que modo essa oposição à ciência lingüística está viva e ativa no Brasil nos dias de hoje Para começar vamos invocar novamente o espectro daquele que se tornou uma espécie de arquétipo folclórico do gramático autoritário conservador e intolerante Napoleão Mendes de Almeida Tudo o que ele escreveu constitui um material suculento e abundante para diversos tipos de investigação sobre idéias nãocientíficas como já vimos na segunda parte deste livro dos textos de Napoleão gotejam preconceitos sociais raciais lingüísticos entre outros ao mesmo tempo pululam neles as afirmações mais estapafúrdias possíveis sobre língua gramática e ensino Vamos repetir aqui o que ele escreveu no Dicionário de Questões Vernáculas no verbete lingüística Para fixar inúteis pretensiosas e ridículas bizantinices perde o estudante o tempo que deveria dedicar ao conhecimento efetivo da língua Que adorno cultural representa um diploma de lingüística a quem escreve ou deixa meia dúzia de vezes passar num mesmo artigo de jornal os mais tolos erros de gramática Enganamse os pais enganamse os filhos quando pensam estar a escola a faculdade ensinando gramática ensinando a língua da terra porque no programa consta lingüística O objeto da lingüística é a língua no sentido da fala de dom de expressar o homem por palavras o pensamento é um estudo sem utilidade específica para este ou aquele idioma É a lingüística um dos estorvos do aprendizado da língua portuguesa em escolas brasileiras pg 154 Como já comentei esse texto mais atrás pp 8081 vou apenas chamar a atenção para o seguinte fato Napoleão Mendes de Almeida morreu em 1998 aos 87 anos Se tivesse escrito esse verbete até 1930 seria mais fácil entender sua postura anticientífica analisandoa dentro do contexto das idéias e das concepções de língua e linguagem que vigoravam naquela época em que a ciência lingüística ainda não tinha se instalado definitivamente nos grandes centros de ensino e de pesquisa Mas em 1998 muita água já tinha passado debaixo da ponte científica os estudos da linguagem já tinham enfrentado diversas revoluções epistemológicas amplamente divulgadas nos meios acadêmicos e até nas escolas fundamental e média Não há nada que possa justificar esse conceito tão mesquinho e tacanho essa idéia tola de que a lingüística só estuda os sons da fala Volto a falar de Napoleão Mendes de Almeida porque sua morte mereceu um artigo assinado por Pasquale Cipro Neto na Folha de S Paulo jornal onde Pasquale é consultor de português Nesse artigo depois de falar do estilo rebuscado e barroco de Napoleão Pasquale escreveu o seguinte 2741998 Talvez por isso os lingüistas autoproclamados de vanguarda o têm como conservador e consideram inútil o estudo de sua obra Meticuloso Napoleão era essencialmente gramático e como tal deve ser encarado Muita gente o admira e respeita sobretudo por seu curso de português e latim por correspondência pg 155 E conclui o artigo com estas palavras Uma coisa porém é incontestável quem quiser estudar o português ortodoxo para prestar concurso público advogar exercer a magistratura ou carreira diplomática certamente precisará consultar a obra de Napoleão É muito interessante aqui o uso da expressão português ortodoxo Como se sabe a noção de ortodoxia foi inventada pouco depois da instituição do cristianismo como religião oficial do império romano para definir os dogmas oficiais da Igreja as únicas maneiras certas e admissíveis de acreditar em Deus em Cristo na Virgem Maria na Santíssima Trindade etc Quem se des viasse desses dogmas era acusado de heresia e condenado às mais diversas punições como o exílio a prisão a tortura e a morte na fogueira O conceito de ortodoxia se relaciona com uma série de outras noções do mesmo campo semântico dogma intolerância inflexibilidade pecado penitência castigo excomunhão e outras aparentadas Ao erro do herético corresponde a infalibilidade do ortodoxo Se é possível falar em português ortodoxo é porque certamente também deve existir na mentalidade de seus defensores e em oposição a ele um português herético um português pecador que merece castigo e excomunhão E nós sabemos que é precisamente essa mentalidade de perseguição acusação e condenação que está por trás até hoje da ação dos defensores intransigentes dessa nebulosa ortodoxia gramatical pg 156 3 Devaneios de idiotas e ociosos Mas o que será afinal o português ortodoxo de Pasquale Cipro Neto Não é muito difícil descobrir basta ler com atenção as coisas que ele escreve Analisando por exemplo a fala do político Francisco Rossi candidato ao governo de São Paulo em 1998 Pasquale escreveu na mesma Folha de S Paulo 2181998 Referindose a Gilson Menezes Rossi disse que o prefeito de Diadema foi um dos que levantou bandeira Alguns lingüistas perdem seu precioso tempo em devaneios com que tentam explicar por que o falante brasileiro prefere o singular nesses casos Dizem que essa opção ocorre porque o que se quer é colocar em evidência o elemento de que se fala Balela Por que não se aceita que se diga Ela é uma das moças bonita da sala ou Ele é um dos deputados inscrito para falar Porque não se quer dizer que ela é a única moça bonita nem que o deputado é o único inscrito Das moças bonitas ela é uma Dos deputados inscritos para falar ele é um Dos que levantaram bandeira Gilson é um Então Gilson foi um dos que levantaram bandeira Temos aqui uma das muitas ocasiões em que Pasquale sistematicamente só menciona os lingüistas para lançar sobre eles as mais diversas acusações Nesse texto temos a associação de lingüistas com devaneios e balela Mas é sempre assim Quem consultar por exemplo o cdrom que reúne todas as edições do jornal Folha de S Paulo entre os anos de 1994 e 2000 vai ver que nas colunas assinadas por Pasquale a palavra lingüista vem sempre pg 157 acompanhada de alguma nota depreciativa Também na revista Cult onde escreve regularmente Pasquale já chamou os lingüistas de deslumbrados Sobre o fato gramatical que ele analisa detectando erro comum na fala de Francisco Rossi é muito instrutivo ler o que o filólogo e gramático Evanildo Bechara afirmou numa entrevista ao jornal UERJ em questão n 72 fevereiroabril de 2001 Para justificar a suposta necessidade de elaboração de uma gramática normativa com a chancela da Academia Brasileira de Letras Bechara declarou Vejamos um exemplo a expressão um dos que A língua permite que você diga Carlos é um dos alunos que trabalha ou um dos alunos que trabalham Há professores que consideram mais lógica a concordância do verbo no plural Outros acham que a concordância deve ser no singular Mas a língua admite as duas possibilidades O que não se pode fazer é optar por uma forma e considerar a outra errada como muitas vezes fazem as bancas examinadoras Evanildo Bechara é sem a menor possibilidade de dúvida o mais importante gramático brasileiro vivo Apesar de sua inegável competência como estudioso da língua suas posturas políticas e pedagógicas não têm nada de revolucionárias e o simples fato de pertencer à Academia Brasileira de Letras é exemplo de sua filiação a um ideário conservador e elitista ele já declarou por exemplo que a função da escola é levar os alunos a falar melhor e com os melhores porque na sua opinião existe uma necessidade da vigência da hierarquização e da pg 158 normatividade esquecendose de que a hierarquização só pode parecer necessária para os que ocupam evidentemente o topo da hierarquia e se consideram naturalmente os melhores1 Ora Pasquale Cipro Neto consegue ser mais conservador e elitista ainda do que Bechara Para o gramático profissional a língua admite as duas possibilidades Para o colunista da Folha a admissão dessas possibilidades representa devaneios e balela Agora fica mais fácil entender o que Pasquale chama de português ortodoxo é um conceito de língua certa que é mais certa ainda do que a língua dos gramáticos profissionais da própria Academia Brasileira de Letras Em outra coluna 2851998 ele fala de lingüistas defensores do valetudo numa absoluta distorção do verdadeiro papel do lingüista como investigador de todos os fenômenos da língua e não só como caçador de erros e juiz do uso Vejamos um último exemplo dessa concepção obscurantista que Pasquale Cipro Neto divulga da lingüística e dos lingüistas e que em nada difere da opinião de Napoleão Mendes de Almeida A única diferença entre os dois é que Napoleão nunca escondeu suas 1 Evanildo Bechara A sobrevivência da língua culta in Academia Brasileira de Letras na Imprensa 1999 Rio de Janeiro ABL 1999 pp 6370 posições retrógradas tendoas assumido com toda franqueza e nitidez ao longo de sua vida ao passo que Cipro Neto tenta dar verniz moderno à sua atividade posando de progressista O abismo entre seu discurso e sua prática no pg 159 entanto é amplo largo e fundo Numa coluna publicada em 20111997 comentando a fala de representantes do governo numa entrevista na televisão Pasquale escreveu Quem assistiu à entrevista coletiva concedida pela equipe econômica no último dia 10 deve ter tido congestão de de que Um dos membros da equipe cujo nome é melhor não citar abusou do direito de usar a bendita expressão O governo considera de que Não nos parece de que esse caso Penso de que não será etc Santo Deus De onde o homem graduadíssimo professor tirou tanto de Os verbos considerar pensar e parecer pedem a preposição de É óbvio que não Alguém pensa algo alguém considera algo algo parece a alguém Onde está o de Perguntem ao homem Nada de de que Não nos parece que Penso que O governo considera que E agora ao ataque Alguns lingüistas alguns idiotas dirão que a língua falada não merece reparo que a fala é sempre boa etc Esses ociosos não conseguem perceber que os homens não estavam na mesa de um boteco batendo papo Estavam falando para o país sobre um assunto técnico usando linguagem teoricamente culta Quem assiste a esse tipo de transmissão normalmente acredita nessas pessoas temnas como modelo Adolescentes que vão fazer vestibular ouvem o cidadão dizendo de que de que de que e acham que isso é o máximo A Fuvest faz uma questão a respeito como já fez há dois ou três anos E muitos ingenuamente erram E alguns idiotas ociosos dizem que a fala é sempre boa que isso e aquilo pg 160 Esse tipo de afirmação é tão chocante é reveladora de um tamanho desconhecimento de uma ignorância tão manifesta que leva mesmo a pensar que Pasquale não acredita no que escreve Que deve haver alguma razão secreta para ele publicar coisas que depõem tão abertamente contra sua própria inteligência Afinal o fenômeno do dequeísmo já tem merecido nos últimos quinze anos pelo menos a atenção de diversos pesquisadores já foi tema de dissertações e de teses de artigos publicados em livros e revistas científicas além disso também ocorre no espanhol culto falado na América Latina não sendo portanto invenção de brasileiro burro Será que custava tanto assim ele procurar ler informar se sobre o fenômeno E quem são afinal esses lingüistas idiotas e ociosos que dizem que a língua falada não merece reparo que a fala é sempre boa etc Pasquale nunca dá nome aos bois Por isso apesar de sempre escrever alguns lingüistas ele nunca diz quem onde e quando Assim fica fácil deduzir que esse alguns é um mero disfarce para seu preconceito contra todos os lingüistas 4 A quem interessa calar os lingüistas Finalmente vamos ver um caso interessante de preconceito contra os lingüistas não por discriminação explícita como no caso de Pasquale Cipro Neto mas por absoluta desconsideração por omissão Em seu tão debatido projeto de lei de 1999 sobre a promoção a proteção a defesa e o uso da língua portuguesa pg 161 o deputado Aldo Rebelo PCdoBSP embora tratando de assuntos que dizem respeito ao campo de investigação da lingüística teórica e aplicada em nenhum momento faz referência aos cientistas da linguagem às pessoas que se dedicam profissionalmente ao estudo da língua Dos pouquíssimos autores citados na justificativa do projeto nenhum é lingüista Um é Machado de Assis por sinal numa citação que o deputado parece não soube ler corretamente porque nela Machado desmente em poucas linhas cada uma das idéias contidas no projeto Dois outros são jornalistas que publicaram na época da redação do projeto artigos em que se queixavam do atual estado de crise da língua E a Academia Brasileira de Letras Seu espírito elitista conservador e feudal o deputado não critica muito pelo contrário Aldo Rebelo escreve que à Academia Brasileira de Letras continuará cabendo o seu tradicional papel de centro maior de cultivo da língua portuguesa no Brasil e que à Academia Brasileira de Letras incumbe por tradição o papel de guardiã dos elementos constitutivos da língua portuguesa usada no Brasil afirmações que não significam rigorosamente coisa nenhuma fazendo a gente até se perguntar se esse projeto de lei é mesmo para ser levado a sério ou se não passa de uma peça de prosa surrealista A Academia Brasileira de Letras nem de longe pode ser chamada de centro maior de cultivo da língua portuguesa no Brasil afinal por que atribuir essa qualidade a um reduzido grupo de 40 indivíduos dos quais para piorar somente um número ínfimo é composto de pg 162 verdadeiros escritores quando o português do Brasil é falado ou seja é de fato cultivado por mais de 170 milhões de pessoas Além disso os elementos constitutivos de uma língua pertencem ao grupo social que fala essa língua pertencem a seus falantes nativos e não precisam de guardiães aliás novamente os números voltam a gritar podem 40 senhores e senhoras defender a língua contra o suposto ataque de seus 170 milhões de falantes Somente uma ideologia ultraconservadora colonialista e elitista ao extremo é que pode justificar a pretensão de defender o português contra os seres humanos que têm ele como sua própria língua materna O único autor citado no projeto de Aldo Rebelo que tem alguma coisa a ver com o estudo e o ensino da língua é novamente Napoleão Mendes de Almeida No entanto é muito divertido ver que no texto Napoleão é apresentado como um dos nossos maiores lingüistas Ora conhecendo a opinião de Napoleão sobre a lingüís tica só podemos rir da piada involuntária do deputado Chamar Napoleão de lingüista é um desrespeito à sua memória uma vez que para ele a lingüística era um estorvo e uma coleção de bizantinices Fechamos assim mais um círculo preconceituoso que começa em Napoleão com seus ataques contra a lingüística passa por Pasquale Cipro Neto que elogia Napoleão e segue suas concepções obscurantistas sobre a ciência da linguagem e termina com Aldo Rebelo que novamente recorre a Napoleão para justificar seu projeto insustentável de uma lei impraticável pg 163 É muito curiosa a situação desse projeto de lei do deputado Aldo Rebelo A retumbante maioria dos lingüistas tem se manifestado nas mais diversas ocasiões contra o projeto denunciando seus equívocos lingüísticos políticos históricos sociológicos etc A indignação dos lingüistas profissionais se concretizou até na forma de um livro coletivo Estrangeirismos guerras em torno da língua São Paulo Parábola Editorial 2001 organizado por Carlos Alberto Faraco Mas ninguém dá ouvido aos lingüistas O projeto continua sua marcha vitoriosa pelo Congresso Nacional e tudo indica que virá a ser aprovado para se tornar mais uma lei que ninguém vai cumprir até porque seu cumprimento é inviável É o caso de perguntar se um deputado sem formação em medicina inventasse um projeto de lei que tivesse relação com a prática cirúrgica e se todos os médicos do país se manifestassem contra o projeto será que ele conseguiria ser aprovado Por que toda e qualquer pessoa se acha no direito de dar palpites infundados e preconceituosos sobre as questões que dizem respeito à língua Por que os profissionais de outras áreas conseguem se fazer ouvir mas os lingüistas permanecem não ouvidos Será que os lingüistas apesar de se dedicarem ao estudo da língua não falam Será que não se dão conta de seu papel social e político ou mesmo conscientes desse papel há outras forças que não nos deixam falar A quem interessa manter calados os estudiosos da linguagem Por que o discurso gramatical tradicional já tão amplamente criticado pelos cientistas da linguagem com base em teorias pg 164 e métodos consistentes e coerentes ainda tem tanto vigor e obtém tanta defesa Que ameaça ao tipo de sociedade em que vivemos representa a democratização do saber lingüístico a divulgação ampla das descobertas deste campo científico a liberação da voz de tantos milhões de pessoas condenadas ao silêncio por não saber português ou por falar tudo errado A quem interessa defender o português ortodoxo de uns pouquíssimos melhores contra a suposta heresia gramatical de muitos milhões de outros Espero que a discussão feita neste livro ajude você a encontrar suas próprias respostas para perguntas tão inquietantes pg 165 ANEXO Carta de Marcos Bagno à revista Veja Em seu número 1725 novembro de 2001 a revista Veja publicou uma extensa reportagem anunciada na capa com o título Falar e escrever bem eis a questão O texto assinado por João Gabriel de Lima deixou a comunidade dos educadores e lingüistas estarrecida por causa da quantidade de absurdos distorções e acusações grosseiras que continha Em reação a isso Marcos Bagno escreveu e enviou uma longa carta ao editor da revista não para ser publicada mas para marcar a posição dos pesquisadores comprometidos com o avanço da ciência brasileira diante de atitudes tão assumidamente obscurantistas e retrógradas São Paulo 4 de novembro de 2001 Sr Editor Em 1990 o lingüista e educador britânico Michael Stubbs escrevia que toda a área da língua na educação está impregnada de superstições mitos e estereótipos muitos dos quais têm persistido por séculos e às vezes com distorções deliberadas dos fatos lingüísticos e pedagógicos por parte da mídia É triste constatar que essas palavras publicadas há mais de uma década se pg 167 aplicam com precisão impressionante ao que ainda ocorre hoje em dia no Brasil Afinal de que outro modo qualificar a reportagem de capa do número 1725 de VEJA senão como uma série de distorções deliberadas dos fatos lingüísticos e pedagógicos por parte da mídia O texto assinado pelo Sr João Gabriel de Lima demonstra o quanto nossos meios de comunicação de massa se encontram perdoeme o lugarcomum na contramão da História quando o assunto é língua Há um absoluto despreparo de jornalistas e comunicadores para tratar do tema um exemplo gritante disso veio a público em outra edição recente de VEJA a de número 1710 com a reportagem Todo mundo fala assim Se falo de contramão é porque passados mais de cem anos de surgimento crescimento e afirmação da Lingüística moderna como ciência autônoma a mídia continua a dar as costas à investigação científica da linguagem preferindo consagrarse à divulgação e sustentação das superstições mitos e estereótipos que circulam na sociedade ocidental há mais de dois mil anos Isso é ainda mais surpreendente quando se verifica que na abordagem de outros campos científicos os meios de comunicação se mostram muito mais cuidadosos e atenciosos para com os especialistas da área Quando o assunto é língua porém o espaço maior é invariavelmente ocupado por alguns oportunistas que apoderando se inteligentemente dessas superstições mitos e estereótipos conseguem transformar esse folclore lingüístico em bens de consumo que lhes rendem muito lucro financeiro além pg 168 de fama e destaque na mídia Basta comparar o espaço dedicado no último número de VEJA ao Prof Luiz Antônio Marcuschi reconhecido hoje no Brasil como um dos nomes mais importantes da ciência lingüística entre nós e aos atuais pregadores da tradição gramatical que infestam o cotidiano dos brasileiros com suas quinquilharias multimidiáticas sobre o que é certo e errado na língua Seria espantoso ver uma matéria de VEJA em que aparecessem zoólogos falando mal da Biologia ou engenheiros criticando a Física ou cirurgiões maldizendo da Medicina No entanto ninguém se espanta e muitos até aplaudem quando o Sr João Gabriel de Lima fazendo eco aos detratores da Lingüística como o Sr Pasquale Cipro Neto fala da existência de certa corrente relativista e escreve absurdos como tratase de um raciocínio torto baseado num esquerdismo de meiapataca que idealiza tudo o que é popular inclusive a ignorância como se ela fosse atributo e não problema do povo O que esses acadêmicos preconizam é que os ignorantes continuem a sêlo Seria muito fácil retrucar que estamos aqui diante de um direitismo de meiapataca que acredita na existência de uma ignorância popular mas como cientista prefiro recorrer a outro tipo de argumento baseado na reflexão teórica serena e na experiência conjunta de muitas pessoas que há anos se dedicam ao estudo e ao ensino da língua portuguesa no Brasil Segundo a reportagem as críticas que o Sr Pasquale Cipro Neto recebe dessa corrente relativista deixamno pg 169 irritado Ora o que parece realmente irritar o Sr Pasquale é o fato de que apesar de obter tanto sucesso entre os leigos nada do que ele diz ou escreve é levado a sério nos centros de pesquisa científica sobre a linguagem sediados nas mais importantes universidades do Brasil centros de pesquisa lingüística digase de passagem reconhecidos internacionalmente como entre alguns dos melhores do mundo Muito pelo contrário se o nome do Sr Pasquale é mencionado nas nossas universidades é sempre como exemplo de uma atitude anticientífica dogmática e até obscurantista no que diz respeito à língua e seu ensino em vários de seus artigos em jornais e revistas ele já chamou os lingüistas de idiotasociosos defensores do valetudo e deslumbrados Se o Sr Pasquale se irrita com os cientistas da linguagem é porque sabe que não tem como responder às críticas que recebe por parte dos pesquisadores dos teóricos e dos educadores empenhados num conhecimento maior e melhor da realidade lingüística do nosso país Digo isso com base na experiência de já ter participado de três debates junto com o Sr Pasquale e ter conhecido sua estratégia de nunca responder com argumentos consistentes às críticas a ele dirigidas preferindo sempre retrucar com arrogância prepotência grosserias e ataques pessoais chamando os lingüistas de ortodoxos seja isso lá o que for e de bichosgrilos ou fazendose de vítima de alguma perseguição num desses encontros ele declarou sentirse como um boi de piranha pg 170 A razão para essa falta de argumentos consistentes é muito simples o Sr Pasquale não tem formação científica para tratar dos assuntos de que trata Suas opiniões se baseiam exclusivamente na arcaica doutrina gramatical normativoprescritiva cuja inconsistência teórica e cujos problemas epistemológicos graves vêm sendo demonstrados e criticados pela Lingüística moderna desde pelo menos o final do século XIX As concepções do Sr Pasquale de certo e de errado estão em franca oposição não só com as teorias científicas mais atuais mas até mesmo com a postura investigativa dos gramáticos profissionais de sólida formação filológica coisa que ele definitivamente não é para não mencionar as diretrizes pedagógicas das instâncias superiores da Educação nacional O documento do Ministério da Educação chamado Parâmetros Curriculares Nacionais por exemplo é bem explícito em seu volume dedicado ao ensino da língua portuguesa A imagem de uma língua única mais próxima da modalidade escrita da linguagem subjacente às prescrições normativas da gramática escolar dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre o que se deve e o que não se deve falar e escrever não se sustenta na análise empírica dos usos da língua E este mesmo documento é enfático ao afirmar que há muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar é muito comum se considerarem as variedades lingüísticas de menor prestígio pg 171 como inferiores ou erradas O problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser enfrentado na escola como parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o respeito à diferença Para isso e também para poder ensinar Língua Portuguesa a escola precisa livrarse de alguns mitos o de que existe uma única forma certa de falar a que se parece com a escrita e o de que a escrita é o espelho da fala e sendo assim seria preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado Essas duas crenças produziram uma prática de mutilação cultural que além de desvalorizar a forma de falar do aluno tratando sua comunidade como se fosse formada por incapazes denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos por mais prestígio que um deles tenha em um dado momento histórico É provável no entanto que o Sr Pasquale Cipro Neto e o Sr João Gabriel de Lima acreditem que os Parâmetros Curriculares Nacionais sejam obra de membros daquela corrente relativista que conseguiram se infiltrar no Ministério da Educação e se apoderar da redação do documento oficial Vamos então deixar de lado as propostas oficiais de ensino e lançar um olhar sobre a própria prática normativoprescritiva de pessoas como o Sr Pasquale assim ficará mais fácil descobrir por que ele não encontra argumentos para reagir às críticas bemfundadas dos lingüistas e educadores sérios e por que só consegue fazer sucesso entre os leigos e os que se recusam certamente por motivações ideológicas a aceitar uma concepção de língua mais democrática pg 172 Consultando a gramática que Pasquale Cipro Neto assina em parceria com Ulisses Infante Gramática da Língua Portuguesa Editora Scipione São Paulo 1998 encontrase às pp 521522 a seguinte explicação para o uso supostamente correto do verbo custar Custar no sentido de ser custoso ser penoso ser difícil tem como sujeito uma oração subordinada substantiva reduzida Observe Ainda me custa aceitar sua ausência Custounos encontrar sua casa Custoulhe entender a regência do verbo custar No Brasil na linguagem cotidiana são comuns construções como Zico custou a chutar ou Custei para entender o problema Na língua culta essas construções em que custar apresenta um sujeito indicativo de pessoa são rejeitadas Em seu lugar devemse utilizar construções em que surja objeto indireto de pessoa Custou a Zico chutar Custoulhe chutar Quero chamar a atenção aqui para a seguinte afirmação dos autores Na língua culta essas construções são rejeitadas Aqui está um exemplo claro e nítido de uma concepção abstrata da língua tratada como uma espécie de entidade viva de sujeito animado capaz de rejeitar alguma coisa Ora que língua culta é essa que supostamente rejeita essas construções Será a língua dos nossos grandes escritores que sempre serviu de material para o trabalho dos gramáticos normativistas Basta investigar para descobrir que não é porque os exemplos de pg 173 uso do verbo custar com sujeito são mais do que abundantes na nossa melhor literatura 1 Seixas custou a conterse José de Alencar 2 as moças custavam a se separar Clarice Lispector 3 Renato custou a acordar Carlos Drummond de Andrade 4 Felicidade custas a vir e quando vens não te demoras Cecília Meireles Será que Alencar Clarice Lispector Drummond e Cecília Meireles não são bons exemplos de usuários da língua culta Se não é na literatura quem sabe então se recorrermos à imprensa contemporânea Será que é lá que mora a famosa língua culta que rejeita essas construções Ora consultando o jornal onde o próprio Pasquale Cipro Neto escreve Folha de S Paulo e onde presta serviços de consultor de português seja isso lá o que for encontramos 5 Quem foi ao show de Maria Bethânia anteontem à noite depois de assistir o sóbrio concerto de João Gilberto custou a crer que estivesse na mesma cidade 2261998 pp 510 6 O técnico colombiano Hernán Darío Gómez custou a admitir a superioridade rival 166 1998 pp 414 7 O nome Kubitschek era complicado de pronunciar custou a ser assimilado pela fonética eleitoral 21111997 pp 43 pg 174 Se lembrarmos que José de Alencar morreu em 1877 fica muitíssimo claro que essa construção está viva e presente na nossa língua há muito mais de um século Os autores da gramática estão proferindo uma inverdade ao dizer que essa construção é típica do Brasil quotidiano Os Srs Pasquale e Ulisses em vez de se curvar à realidade concreta dos fatos tentam nos convencer de que a opção que eles preferem só porque é a tradicional é que deve ser considerada a melhor É uma atitude essencialmente dogmática que se recusa a empreender a pesquisa empírica mínima necessária para afirmações sobre o que existe e o que não existe na língua Além disso essa atitude é ainda mais conservadora do que a posição assumida por gramáticos de gerações anteriores à deles como Celso Pedro Luft e Domingos Paschoal Cegalla que reconhecem a vitória da construção eu custo a crer que Esse é apenas um pequeno exemplo de como é fácil para um pesquisador munido de instrumental teórico consistente e de metodologia científica adequada desautorizar uma a uma e de modo convincente as afirmações presentes no trabalho do Sr Pasquale Cipro Neto e de outros atuais defensores da doutrina gramatical tradicional mais normativa e mais prescritiva possível Por causa de tudo isso é que a estréia do Sr Pasquale no programa Fantástico da Rede Globo representa para a grande maioria dos cientistas da linguagem e dos educadores conscientes mais um exemplo de como o nosso trabalho ainda está no começo apesar de tudo o que já temos dito e feito O quadro do Sr Pasquale no Fantástico faz regredir pg 175 em pelo menos 25 anos os grandes avanços já obtidos pela Lingüística na renovação do ensino de língua na escola brasileira Não consigo portanto deixar de repetir o chavão ele se encontra na contramão da História Como já enfatizei acima pessoas como o Sr Pasquale só conseguem fazer sucesso entre os leigos porque dizem exatamente o que as pessoas desejam ouvir os mitos as superstições e as crenças infundadas que há mais de dois mil anos guiam o senso comum ocidental no que diz respeito à língua Refirome ao senso comum ocidental porque essa situação de embate entre uma ciência lingüística moderna e uma doutrina gramatical arcaica também se verifica em outros países basta ler os livros Language Myths publicado na Inglaterra sob organização de L Bauer e P Trudgill e o Catalogue des idées reçues sur le langage publicado na França por Marina Yaguello É por isso que escrevi acima que nossa luta ainda está no começo É uma pena que não possamos contar com a ajuda dos meios de comunicação para dissipar todos esses mitos e preconceitos que impedem a formação no Brasil em particular de uma autoestima lingüística uma vez que tudo o que os brasileiros ouvem e lêem são os mesmos chavões repetidos há séculos de que brasileiro não sabe português e que a língua que falamos é português estropiado O pesquisador canadense Christophe Hopper localizou lamúrias e queixas sobre a ruína e a decadência do francês em textos publicados em 1933 1905 1730 e 1689 o que prova a pg 176 antiguidade desse discurso alarmista e preconceituoso sobre o fenômeno da mudança das línguas ao longo do tempo Outro fato lamentável na reportagem de VEJA é que seu autor não tenha prestado o grande favor à sociedade de identificar quem são os membros dessa certa corrente relativista para que todos público leitor em geral e lingüistas profissionais em particular pudéssemos nos precaver contra o suposto raciocínio torto de um esquerdismo de meiapataca dos que acreditam que ensinar a normapadrão não seria útil para as classes sociais desfavorecidas Minha curiosidade ficou especialmente aguçada porque como pesquisador dedicado há muitos anos ao estudo das relações entre língua ensino de língua e fenômenos sociais até hoje não encontrei uma única obra assinada por lingüista de formação ou por educador profissional que negasse a importância do ensino da normapadrão na escola brasileira que pregasse a idéia torpe de que não se deve ensinar as formas prestigiosas da língua ou que preconizam que os ignorantes continuem a sêlo para citar as palavras infelizes da reportagem de VEJA Entre os membros da comunidade acadêmicocientífica que não se intimidam diante da pressão esmagadora das superstições mitos e estereótipos sobre a língua podemos citar a Profa Magda Soares reconhecida como uma das mais importantes educadoras brasileiras de todos os tempos e o Prof Sírio Possenti que nunca teve papas na língua para denunciar e demolir cientificamente os absurdos proferidos por gente como Pasquale Cipro pg 177 Neto Ora já em 1986 Magda Soares em seu livro um clássico da educação brasileira Linguagem e Escola Editora Ática escrevia sem hesitação p 78 Um ensino de língua materna comprometido com a luta contra as desigualdades sociais e econômicas reconhece no quadro dessas relações entre a escola e a sociedade o direito que têm as camadas populares de apropriarse do dialeto de prestígio e fixase como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas a dominálo não para que se adaptem às exigências de uma sociedade que divide e discrimina mas para que adquiram um instrumento fundamental para a parti cipação política e a luta contra as desigualdades sociais Também em seu muito divulgado livro Por que não ensinar gramática na escola Ed Mercado de Letras 1996 Sírio Possenti faz questão de enfatizar pp 1718 O PAPEL DA ESCOLA É ENSINAR LÍNGUA PADRÃO adoto sem qualquer dúvida o princípio quase evidente de que o objetivo da escola é ensinar o português padrão ou talvez mais exatamente o de criar condições para que ele seja aprendido Qualquer outra hipótese é um equívoco político e ideológico E eu mesmo que não tenho hesitado em combater abertamente a manutenção das concepções arcaicas e preconceituosas de língua escrevi em meu mais recente livro publicado Português ou Brasileiro Um convite à pesquisa Parábola Editorial 2001 como responder a pergunta invariavelmente presente na fala dos professores de língua qual o objeto de ensino nas pg 178 aulas de português O que devemos ensinar a nossos alunos em sala de aula Uma resposta concisa e rápida seria devemos ensinar a normapadrão Já que só se pode ensinar algo que o aprendiz ainda não conhece cabe à escola ensinar a normapadrão que não é língua materna de ninguém que nem sequer é língua nem dialeto nem variedade como enfatizei acima Ensinar o padrão se justificaria pelo fato dele ter valores que não podem ser negados em sua estreita associação com a escrita ele é o repositório dos conhecimentos acumulados ao longo da história Esses conhecimentos assim armazenados constituiriam a cultura mais valorizada e prestigiada de que todos os falantes devem se apoderar para se integrar de pleno direito na produçãoconduçãotransformação da sociedade de que fazem parte Tenho portanto a consciência muito tranqüila como decerto também a têm Magda Soares Sírio Possenti e de fato a maioria dos lingüistas e educadores brasileiros comprometidos com a democratização de nossa sociedade de não fazer parte daquela corrente relativista e de não poder ser acusado de ter um raciocínio torto Por isso volto a lamentar que o Sr João Gabriel de Lima não tenha dado nome aos bois para que juntos pudéssemos combater esse suposto esquerdismo de meiapataca Não nomear seus adversários no plano intelectual no entanto é prática corrente de pessoas como Pasquale Cipro Neto que embora alegando referirse a alguns lingüistas nunca se dá ao trabalho de dizer quem são os idiotas ociosos e deslumbrados a que se refere pg 179 A grande diferença entre os lingüistas e educadores que defendem o ensino da normapadrão e os apregoadores da doutrina gramatical arcaica está no fato de que já se sabe hoje em dia que para aprender as formas mais padronizadas e prestigiosas da língua não é necessário conhecer a nomenclatura gramatical tradicional as definições tradicionais nem praticar a velha e mecânica análise lexical e muito menos a torturante análise sintática Em seu depoimento a VEJA O Sr Pasquale Cipro Neto lamenta que ninguém mais saiba diferenciar sujeito de predicado nem mesmo os professores Ora todo um longo trabalho de investigação teórica e de pesquisa em sala de aula no Brasil e no resto do mundo trabalho que se faz há pelo menos trinta anos já deixou muito claro que não é decorando as páginas da gramática normativa que uma pessoa será capaz de falar ler e escrever adequadamente às diversas situações O já citado M Stubbs escrevia em 1987 que Muita gente lamenta o fim do ensino da gramática formal análise sintática e coisas assim alegando que ele ajudava as crianças a escrever melhor com mais precisão e assim por diante é duvidoso que aquele ensino jamais tenha ajudado muita gente a escrever melhor e é nítido que ele afugentou um grande número de pessoas A relação entre análise e compreensão e entre compreensão consciente e produção de linguagem efetiva é difícil de demonstrar E o pedagogo canadense Gilles Gagné em 1983 já dizia O uso da língua procede da intenção para a convenção ao passo que a escola procede infelizmente ao contrário isto pg 180 é das convenções lingüísticas para as intenções de comunicação intenções além disso quase sempre artificiais e impostas ou sugeridas pelo mestre E aquele que é considerado hoje inclusive internacionalmente como o nome mais importante da pesquisa científica sobre o português brasileiro contemporâneo o Prof Ataliba T de Castilho da USP atual presidente da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina e coordenador do grande Projeto da Gramática do Português Falado projeto apresentado de maneira distorcida e preconceituosa no número 1710 de VEJA escreve com toda clareza em seu livro A língua falada e o ensino de português Ed Contexto 1998 os recortes lingüísticos devem ilustrar as variedades socioculturais da Língua Portuguesa sem discriminações contra a fala vernácula do aluno isto é de sua fala familiar A escola é o primeiro contato do cidadão com o Estado e seria bom que ela não se assemelhasse a um bicho estranho a um lugar onde se cuida de coisas fora da realidade cotidiana Com o tempo o aluno entenderá que para cada situação se requer uma variedade lingüística e será assim iniciado no padrão culto caso já não o tenha trazido de casa Desse modo prossegue o autor a gramática deixará de ser vista pelos alunos como a disciplina do certo e do errado reassumindo sua verdadeira dimensão que é a de esquadrinhar através dos materiais lingüísticos o funcionamento da mente humana pg 181 Afinal o que aconteceu ao longo dos séculos segundo Castilho foi que a gramática que não era uma disciplina autônoma assumiu na escola uma vida própria desgarrada de suas origens e concentrada apenas na sentença na palavra e no som obscurecendose sua argumentação e empobrecendose seu alcance Se existe porém uma grande resistência contra o redimensionamento do lugar do ensino da gramática na escola é porque todos sabemos que ao longo do tempo o conhecimento mecânico da doutrina gramatical se transformou num instrumento de discriminação e de exclusão social Saber português na verdade sempre significou saber gramática isto é ser capaz de identificar por meio de uma terminologia falha e incoerente o sujeito e o predicado de uma frase pouco importando o que essa frase queria dizer os efeitos de sentido que podia provocar etc Transformada num saber esotérico reservado a uns poucos iluminados a gramática passou a ser reverenciada como algo misterioso e inacessível daí surgiu a necessidade de mestres e guias capazes de levar o ignorante a atravessar o abismo que separa os que sabem dos que não sabem português Em conclusão Sr Editor gostaria de lhe pedir que uma vez que tão amplo espaço foi concedido aos defensores da idéia medieval de que os brasileiros não sabem falar bem caberia agora a VEJA conceder igual espaço aos verdadeiros especialistas às pessoas que dedicam toda sua energia toda sua inteligência toda sua vida enfim ao pg 182 estudo dos fenômenos da linguagem humana e à proposição de novos métodos de ensino capazes de dar voz aos que por força de tantas estruturas sociais injustas sempre foram mantidos no silêncio Talvez assim VEJA possa se livrar do risco de ser acusada de promover distorções deliberadas dos fatos lingüísticos e pedagógicos Atenciosamente MARCOS BAGNO pg 183 Referências ALMEIDA Napoleão M 1994 Dicionário de questões vernáculas 2a ed São Paulo LCTE BAGNO Marcos 1995 A luta desigual Mito vs realidade nos livros didáticos de língua portuguesa Dissertação de Mestrado Recife Programa de Pósgraduação em Letras e Lingüística Universidade Federal de Pernambuco mimeo 1997 A língua de Eulália Novela sociolingüística São Paulo Contexto 1999 Pesquisa na escola o que é como se faz 2a ed São Paulo Loyola BORTONIRICARDO S M 1984 Problemas de comunicação interdialetal in Sociolingüística e ensino do vernáculo Revista Tempo Brasileiro n 7879 CARVALHO A RIBEIRO J 1998 Nossa palavra 5ª série São Paulo Ática CASTILHO A et alii I 1990 II 1992 III 1993 IV V VI 1996 Gramática do português falado Campinas Editora da UNICAMP CEGALLA Domingos P 1990 Novíssima gramática da língua portuguesa 33a ed São Paulo Cia Editora Nacional CIPRO Neto P INFANTE U 1997 Gramática da língua portuguesa São Paulo Scipione CUNHA C CINTRA L E L 1985 Nova gramática do português contemporâneo Rio de Janeiro Nova Fronteira DUARTE Sérgio N 1998 Língua viva Rio de Janeiro Rocco pg 185 FIGUEIREDO Cândido de 1929 1903 O que se não deve dizer vol I 5a ed Lisboa Livraria Clássica Editora GNERRE Maurizzio 1985 Linguagem escrita e poder São Paulo Martins Fontes LOBATO J B Monteiro 1952 1934 Emília no País da Gramática 3a ed São Paulo Brasiliense LUFT Celso Pedro 1994 Língua e liberdade 3a ed São Paulo Ática MARTINS E 1999 Com todas as letras São Paulo Moderna MATTOS E SILVA Rosa V 1997 Contradições no ensino de português São Paulo ContextoEDUFBA NEVES Ma Helena M 1990 Gramática na escola São Paulo Contexto PERINI Mário A 1996 Gramática descritiva do português 2a ed São Paulo Ática 1997 Sofrendo a gramática São Paulo Ática POSSENTI Sírio 1997 Por que não ensinar gramática na escola Campinas Mercado de Letras ROCHA LIMA C H 1989 Gramática normativa da língua portuguesa 30a ed Rio de Janeiro José Olympio SACCONI Luiz Antonio 1998 Não erre mais 23a ed São Paulo Atual SILVA Myrian B 1993 Leitura ortografia e fonologia 2ª ed São Paulo Ática TERRA Ernani 1997 Linguagem língua e fala São Paulo Scipione TFOUNI Leda V 1988 Adultos não alfabetizados O avesso do avesso Campinas Pontes Editores pg 186 DISTRIBUIDORES DE EDIÇÕES LOYOLA Se oa senhora não encontrar qualquer um de nossos livros em sua livraria preferida ou em nossos distribuidores faça o pedido por reembolso postal à Rua 1822 nº 347 Ipiranga CEP 04216000 São Paulo SP Caixa Postal 42335 CEP 04218970 São Paulo SP Tel 11 69141922 Fax 11 61634275 vendasloyolacombr wwwloyolacombr BAHIA LIVRARIA E DISTRIBUIDORA MULTICAMP LTDA Rua Direita da Piedade 203 Piedade Tel 71 2101801021018009 Telefax 71 33290109 40070190 Salvador BA multicampuolcombr MINAS GERAIS ASTECA DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA Rua Costa Monteiro 50 e 54 Bairro Sagrada Família Tel 31 34237979 Fax 31 34247667 31030480 Belo Horizonte MG distribuidoraastecabookscombr MÃE DA IGREJA LTDA Rua São Paulo 10541233 Centro Tel 31 32134740 32130031 30170131 Belo Horizonte MG maedaigrejabhwminascom RIO DE JANEIRO ZÉLIO BICALHO PORTUGAL CIA LTDA Vendas no Atacado e no Varejo Av Presidente Vargas 502 sala 1701 Telefax 21 22334295 22634280 20071000 Rio de Janeiro RJ zeliobicalhoprolinkcombr EDITORA VOZES LTDA SEDE Rua Frei Luis 100 Centro 25689900 Petrópolis RJ Tel 24 22339017 Fax 24 22465552 vozes62uolcombr RIO GRANDE DO SUL LIVRARIA E EDITORA PADRE REUS Rua 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gerencialivbelohorizontepaulinasorgbr PARÁ LIVRARIAS PAULINAS Rua Santo Antônio 278 B do Comércio Tel 91 32413607 32414845 Fax 91 32243482 66010090 Belém PA livbelempaulinasorgbr PARANÁ EDITORA VOZES LTDA Rua Pamphilo de Assumpção 554 Centro Tel 41 33339812 Fax 41 33325115 80220040 Curitiba PR vozes21uolcombr Rua Emiliano Perneta 332 loja A Telefax 4132331392 80010050 Curitiba PR vozes64uolcombr Rua Senador Souza Naves 158C Tel 43 33373129 Fax 43 33257167 86020160 Londrina PR vozes41uolcombr LIVRARIAS PAULINAS Rua Voluntários da Pátria 225 Tel 41 32248550 Fax 41 32231450 80020000 Curitiba PR livcuritibapaulinasorgbr Av Getúlio Vargas 276 Centro Tel 44 2263536 Fax 44 2264250 87013130 Maringá PR livmaringapauiinasorgbr PERNAMBUCO PARAÍBA ALAGOAS RIO GRANDE DO NORTE E SERGIPE EDITORA VOZES LTDA Rua do Príncipe 482 Tel 81 34234100 Fax 81 34237575 50050410 Recife PE vozes70uolcombr LIVRARIAS PAULINAS Rua Duque de Caxias 597 Centro Tel 83 2415591 2415636 Fax 83 2416979 58010821 João Pessoa 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qquuaallqquueerr cciirrccuunnssttâânncciiaa AA ggeenneerroossiiddaaddee ee aa hhuum miillddaaddee éé aa m maarrccaa ddaa ddiissttrriibbuuiiççããoo ppoorrttaannttoo ddiissttrriibbuuaa eessttee lliivvrroo lliivvrreem meennttee AAppóóss ssuuaa lleeiittuurraa ccoonnssiiddeerree sseerriiaam meennttee aa ppoossssiibbiilliiddaaddee ddee aaddqquuiirriirr oo oorriiggiinnaall ppooiiss aassssiim m vvooccêê eessttaarráá iinncceennttiivvaannddoo oo aauuttoorr ee aa ppuubblliiccaaççããoo ddee nnoovvaass oobbrraass SSee qquuiisseerr oouuttrrooss ttííttuullooss nnooss pprrooccuurree hhttttppggrroouuppssggoooogglleeccoom mggrroouuppVViicciiaaddoosseem mLLiivvrrooss sseerráá uum m pprraazzeerr rreecceebbêêlloo eem m nnoossssoo ggrruuppoo hhttttppggrroouuppssggoooogglleeccoom mggrroouuppVViicciiaaddoosseem mLLiivvrrooss hhttttppggrroouuppssggoooogglleeccoom mggrroouuppddiiggiittaallssoouurrccee editoração impressão acabamento rua 1822 n 347 04216000 são paulo sp T 55 11 6914 1922 F 55 11 6163 4275 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MARCOS BAGNO tradutor escritor e lingüista é Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo USP Professor de Lingüística do Instituto de Letras da Universidade de Brasília publicou A língua dc Eulália novela sociolingüística Ed Contexto 1997 em 13ª ed Preconceito lingüístico o que é como se faz Ed Loyola 1999 em 15ª ed Dramática da língua portuguesa Ed Loyola 2000 em 2ª ed Português ou brasileiro Um convite à pesquisa Parábola Ed 2001 em 2ª ed Língua materna letramento variação e ensino Parábola Ed 2002 Além desses títulos é autor de duas dezenas de obras literárias Recebeu em 1988 o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira e em 1989 o Prêmio Carlos Drummond de Andrade de Poesia entre outros Selecionou e traduziu os artigos reunidos em Norma lingüística Ed Loyola 2001 Traduziu História concisa da lingüística de Barbara Weedwood Parábola Ed 2002 além de dezenas de obras científicas filosóficas e literárias de autores como Balzac Voltaire H G Wells Sartre Oscar Wilde etc Vem se dedicando à investigação das implicações socioculturais do conceito de norma sobretudo no que diz respeito ao ensino de português nas escolas brasileiras Obras do Autor A invenção das horas contos Ed Scipione 1988 IV Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira O papel roxo da maçã infantil Ed Lê 1989 Prêmio João de Barro de Literatura Infantil Um céu azul para Clementina infantil Ed Lê 1991 Frevo amor graviola juvenil Ed Atual 1991 Amor amora juvenil Ed Bagaço 1992 Os nomes do amor juvenil coautoria com Stela Maris Rezende Editora Moderna 1993 A vingança da cobra juvenil Ed Ática 1995 Dia de branco juvenil Ed Lê 1995 Miguel o cravo a rosa infantil Ed Lê 1995 Rua da Soledade contos Ed Lê 1995 Prêmio Estado do Paraná 1989 A barca de Zoé infantil Ed Formato 1995 Mirabília contos Editora Didática Paulista 1996 Uma vitória diferente juvenil Ed Lê 1997 Unhas de ferro juvenil Ed Lê 1997 A Língua de Eulália novela sociolingüística Ed Contexto 1997 Pesquisa na escola o que é como se faz Ed Loyola 1998 Machado de Assis para principiantes Ed Atica 1998 Preconceito linguístico o que é como se faz Ed Loyola 1999 Minimirim e o planeta que encolheu infantil Ed lcone 2000 O Processo de Independência do Brasil Ed Atica 2000 Dramática da língua portuguesa Ed Loyola 2000 Português ou brasileiro Um convite à pesquisa Parábola Editorial 2001 Norma lingüística Ed Loyola 2001 Língua materna letramento variação e ensino Parábola Editorial 2002 O espelho dos nomes juvenil Ática 2002 Marcos Bagno Preconceito lingüístico o que é como se faz CCCCCCCCO OO O O OO ON NN N N NN NTTTTTTTTR RR R R RR RAAAAAAAA CCCCCCCCAAAAAAAAPPPPPPPPAAAAAAAA Dizse que o brasileiro não sabe Português e que Português é muito difícil Estes são alguns dos mitos que compõem um preconceito muito presente na cultura brasileira o lingüístico Tudo por causa da confusão que se faz entre língua e gramática normativa que não é a língua mas só uma descrição parcial dela Separe uma coisa da outra com este livro que é um achado Revista Nova Escola maio de 1999 Eu gostaria que alguém já tivesse escrito um livro como este sobre a língua inglesa Prof Gregory Guy Universidade de York Canadá hhttttppggrroouuppssggoooogglleeccoom mggrroouuppddiiggiittaallssoouurrccee Edições Loyola Rua 1822 nº 347 Ipiranga 04216000 São Paulo SP Caixa Postal 42335 04218970 São Paulo SP 011 69141922 011 61634275 Home page e vendas wwwloyolacombr Editorial loyolaloyolacombr Vendas vendasloyolacombr Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma eou quaisquer meios eletrônico ou mecânico incluindo fotocópia e gravação ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora ISBN 8515018896 48ª e 49ª edição junho de 2007 EDIÇÕES LOYOLA São Paulo Brasil 1999 Sedule curavi humanas actiones non ridere non lugere neque detestare sed intellegere SPINOZA Tenhome esforçado por não rir das ações humanas por não deplorálas nem odiálas mas por entendêlas Sumário PRIMEIRAS PALAVRAS 9 I A MITOLOGIA DO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO 13 Mito n 1 A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente 15 Mito n 2 Brasileiro não sabe português Só em Portugal se fala bem português 20 Mito n 3 Português é muito difícil 35 Mito n 4 As pessoas sem instrução falam tudo errado 40 Mito n 5 O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão 46 Mito n 6 O certo é falar assim porque se escreve assim 52 Mito n 7 É preciso saber gramática para falar e escrever bem 62 Mito n 8 O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social 69 II O CÍRCULO VICIOSO DO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO 73 1 Os três elementos que são quatro 73 2 Sob o império de Napoleão 79 3 Um festival de asneiras 83 4 Beethoven não é dançado 94 III A DESCONSTRUÇÃO DO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO 105 1 Reconhecimento da crise 105 2 Mudança de atitude 115 3 O que é ensinar português 118 4 O que é erro 122 5 Então vale tudo 129 6 A paranóia ortográfica 131 7 Subvertendo o preconceito lingüístico 139 IV O PRECONCEITO CONTRA A LINGÜÍSTICA E OS LINGÜISTAS 147 1 Uma religião mais velha que o cristianismo 147 2 Português ortodoxo Que língua é essa 154 3 Devaneios de idiotas e ociosos 157 4 A quem interessa calar os lingüistas 161 ANEXO CARTA DE MARCOS BAGNO À REVISTA VEJA 167 REFERÊNCIAS 185 Nota da digitalizadora A numeração de páginas aqui referese a edição original a paginação original que encontrase inserida entre colchetes no texto Entendese que o texto que está antes da numeração entre colchetes é o que pertence aquela página e o texto que está após a numeração pertence a página seguinte Primeiras palavras Existe uma regra de ouro da Lingüística que diz só existe língua se houver seres humanos que a falem E o velho e bom Aristóteles nos ensina que o ser humano é um animal político Usando essas duas afirmações como os termos de um silogismo mais um presente que ganhamos de Aristóteles chegamos à conclusão de que tratar da língua é tratar de um tema político já que também é tratar de seres humanos Por isso o leitor e a leitora não deverão se espantar com o tom marcadamente politizado de muitas de minhas afirmações É proposital aliás é inevitável Temos de fazer um grande esforço para não incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a língua como uma coisa morta sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam O preconceito lingüístico está ligado em boa medida à confusão que foi criada no curso da história entre língua e gramática normativa Nossa tarefa mais urgente é desfazer essa confusão Uma receita de bolo não é um bolo o molde de um vestido não é um vestido um mapamúndi não é o mundo Também a gramática não é a língua A língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo e a gramática normativa é a tentativa de descrever pg 09 apenas uma parcela mais visível dele a chamada norma culta Essa descrição é claro tem seu valor e seus méritos mas é parcial no sentido literal e figurado do termo e não pode ser autoritariamente aplicada a todo o resto da língua afinal a ponta do iceberg que emerge representa apenas um quinto do seu volume total Mas é essa aplicação autoritária intolerante e repressiva que impera na ideologia geradora do preconceito lingüístico Você sabe o que é um igapó Na Amazônia igapó é um trecho de mata inundada uma grande poça de água estagnada às margens de um rio sobretudo depois da cheia Pareceme uma boa imagem para a gramática normativa Enquanto a língua é um rio caudaloso longo e largo que nunca se detém em seu curso a gramática normativa é apenas um igapó uma grande poça de água parada um charco um brejo um terreno alagadiço à margem da língua Enquanto a água do riolíngua por estar em movimento se renova incessantemente a água do igapógramática normativa envelhece e só se renovará quando vier a próxima cheia Meu objetivo atualmente junto com muitos outros lingüistas e pesquisadores é acelerar ao máximo essa próxima cheia Este livro traz os primeiros resultados sempre provisórios das reflexões que venho fazendo sobre o tema do preconceito lingüístico Ele reúne as principais conclusões a que cheguei conclusões que pude compartilhar e discutir com as pessoas que me ouviram falar nas diversas palestras que dei ao longo de 1998 Essas palestras e o livro que delas nasceu só foram possíveis graças ao esforço e ao carinho das seguintes pg 10 pessoas Ângela Paiva Dionísio Ariovaldo Guireli Ataliba de Castilho Cláudia Maia Ricardo Doris da Cunha Ésio Macedo Ribeiro Irandé Antunes José Luís Falotico Corrêa Judith Hoffnagel Lourenço Chacon Lucila Nogueira Marçal Aquino Marcos Marcionilo Maria Amélia Almeida Maria Marta Scherre Maria da Piedade Sá Marígia Viana Rosely Falotico Corrêa e Sonia Alexandre Esta segunda edição traz mudanças bastante significativas em comparação com a primeira alguns trechos foram eliminados outros foram acrescentados muitos sofreram profunda reformulação Isso se deve à minha vontade de manter o livro sempre atualizado com a evolução de minha própria maneira de ver as coisas e sintonizado com as críticas sugestões e comentários que o trabalho recebeu da parte de leitores e leitoras atentos e dispostos a colaborar na divulgação destas idéias Agradeço muito especialmente a Manoel Luiz Gonçalves Corrêa que me ajudou a preparar esta reedição alertandome para determinadas inconsistências teóricas e conceituais nascidas de uma tentativa de simplificar talvez demais os conceitos da Lingüística para tornálos acessíveis a um público mais amplo É claro que ainda sobram falhas e imperfeições de minha inteira irresponsabilidade e por isso convido os que desejarem participar desta luta que se engajem nela enviandome suas opiniões A capa deste livro tem uma história que merece ser contada As pessoas ali fotografadas são minha sogra Alice Francisca meu sogro José Alexandre e meu cunhado pg 11 mais novo Sóstenes cerca de vinte anos atrás Como este é um livro que trata de discriminação e exclusão decidi homenagear meus sogros que são como costumo dizer um prato cheio para alguns dos preconceitos mais vigorosos da nossa sociedade negros nordestinos pobres analfabetos Alice Francisca também carrega o estigma de ser mulher numa cultura entranhadamente machista Aprender a amar estas pessoas pelo que elas são deixando de lado todos os rótulos discriminadores que tentam classificálas em categorias supostamente inferiores às que eu e pessoas de minha extração social ocupamos tem sido uma lição fundamental para toda a minha vida pessoal e profissional É com este amor que me defendo das acusações que às vezes recebo de ser autor de um livro demagógico Não é demagogia é opção consciente política declaradamente parcial Peço simplesmente aos leitores e leitoras que meditem sobre esta situação que tanto me angustia homenagear com um livro pessoas que jamais poderão lêlo Isso explica decerto a grande dose de indignação que em certos momentos passa à frente da reflexão científica serena e me faz assumir o tom apaixonado de quem não tolera nenhum tipo de intolerância principalmente quando é fruto de uma visão de mundo estreita inspirada em mitos e superstições que têm como único objetivo perpetuar os mecanismos de exclusão social MARCOS BAGNO mbagnoterracombr pg 12 I A mitologia do preconceito lingüístico Parece haver cada vez mais nos dias de hoje uma forte tendência a lutar contra as mais variadas formas de preconceito a mostrar que eles não têm nenhum fundamento racional nenhuma justificativa e que são apenas o resultado da ignorância da intolerância ou da manipulação ideológica Infelizmente porém essa tendência não tem atingido um tipo de preconceito muito comum na sociedade brasileira o preconceito lingüístico Muito pelo contrário o que vemos é esse preconceito ser alimentado diariamente em programas de televisão e de rádio em colunas de jornal e revista em livros e manuais que pretendem ensinar o que é certo e o que é errado sem falar é claro nos instrumentos tradicionais de ensino da língua a gramática normativa e os livros didáticos O preconceito lingüístico fica bastante claro numa série de afirmações que já fazem parte da imagem negativa que o brasileiro tem de si mesmo e da língua falada por aqui Outras afirmações são até bemintencionadas mas mesmo assim compõem uma espécie de preconceito positivo que também se afasta da realidade Vamos examinar pg 13 algumas dessas afirmações falaciosas e ver em que medida elas são na verdade mitos e fantasias que qualquer análise mais rigorosa não demora a derrubar Estou convidando você a partir de agora a fazer junto comigo um pequeno passeio pela mitologia do preconceito lingüístico Quando o passeio acabar isto é quando tivermos terminado de examinar os principais mitos vamos tentar refletir juntos para encontrar os meios mais adequados de combater esse preconceito no nosso diaadia na nossa atividade pedagógica de professores em geral e particularmente de professores de língua portuguesa pg 14 Mito n 1 A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente Este é o maior e o mais sério dos mitos que compõem a mitologia do preconceito lingüístico no Brasil Ele está tão arraigado em nossa cultura que até mesmo intelectuais de renome pessoas de visão crítica e geralmente boas observadoras dos fenômenos sociais brasileiros se deixam enganar por ele É o caso por exemplo de Darcy Ribeiro que em seu último grande estudo sobre o povo brasileiro escreveu É de assinalar que apesar de feitos pela fusão de matrizes tão diferenciadas os brasileiros são hoje um dos povos mais homogêneos lingüística e culturalmente e também um dos mais integrados socialmente da Terra Falam uma mesma língua sem dialetos grifo meu Folha de S Paulo 5295 Existe também toda uma longa tradição de estudos filológicos e gramaticais que se baseou durante muito tempo nesse preconceito irreal da unidade lingüística do Brasil Esse mito é muito prejudicial à educação porque ao não reconhecer a verdadeira diversidade do português falado no Brasil a escola tenta impor sua norma lingüística como se ela fosse de fato a língua comum a todos os 160 milhões de brasileiros independentemente de sua idade de sua origem geográfica de sua situação socioeconômica de seu grau de escolarização etc pg 15 Ora a verdade é que no Brasil embora a língua falada pela grande maioria da população seja o português esse português apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade não só por causa da grande extensão territorial do país que gera as diferenças regionais bastante conhecidas e também vítimas algumas delas de muito preconceito mas principalmente por causa da trágica injustiça social que faz do Brasil o segundo país com a pior distribuição de renda em todo o mundo São essas graves diferenças de status social que explicam a existência em nosso país de um verdadeiro abismo lingüístico entre os falantes das variedades nãopadrão do português brasileiro que são a maioria de nossa população e os falantes da suposta variedade culta em geral mal definida que é a língua ensinada na escola Como a educação ainda é privilégio de muito pouca gente em nosso país uma quantidade gigantesca de brasileiros permanece à margem do domínio de uma norma culta Assim da mesma forma como existem milhões de brasileiros sem terra sem escola sem teto sem trabalho sem saúde também existem milhões de brasileiros sem língua Afinal se formos acreditar no mito da língua única existem milhões de pessoas neste país que não têm acesso a essa língua que é a norma literária culta empregada pelos escritores e jornalistas pelas instituições oficiais pelos órgãos do poder são os semlíngua É claro que eles também falam português uma variedade de português nãopadrão com sua gramática particular que no entanto não é reconhecida como válida que é desprestigiada ridicularizada pg 16 alvo de chacota e de escárnio por parte dos falantes do portuguêspadrão ou mesmo daqueles que não falando o portuguêspadrão o tomam como referência ideal por isso podemos chamálos de semlíngua O que muitos estudos empreendidos por diversos pesquisadores têm mostrado é que os falantes das variedades lingüísticas desprestigiadas têm sérias dificuldades em compreender as mensagens enviadas para eles pelo poder público que se serve exclusivamente da línguapadrão Como diz Maurizzio Gnerre1 em seu livro Linguagem escrita e poder a Constituição afirma que todos os indivíduos são iguais perante a lei mas essa mesma lei é redigida numa língua que só uma parcela pequena de brasileiros consegue entender A discriminação social começa portanto já no texto da Constituição É claro que Gnerre não está querendo dizer que a Constituição deveria ser escrita em língua nãopadrão mas sim que todos os brasileiros a que ela se refere deveriam ter acesso mais amplo e democrático a essa espécie de língua oficial que restringindo seu caráter veicular a uma parte da população exclui necessariamente uma outra talvez a maior Muitas vezes os falantes das variedades desprestigiadas deixam de usufruir diversos serviços a que têm direito simplesmente por não compreenderem a linguagem empregada pelos órgãos públicos Um estudo bastante revelador dessa situação foi empreendido por Stella Maris BortoniRicardo na periferia de Brasília e publicado no pg 17 artigo Problemas de comunicação interdialetal Diante do que descobriu a autora pode afirmar A idéia de que somos um país privilegiado pois do ponto de vista lingüístico tudo nos une e nada nos separa pareceme contudo ser apenas mais um dos grandes mitos arraigados em nossa cultura Um mito por sinal de conseqüências danosas pois na medida em que não se reconhecem os problemas de comunicação entre falantes de diferentes variedades da língua nada se faz também para resolvêlos A mesma autora alerta para que não se confunda a idéia de monolingüismo com a de homogeneidade lingüística O fato de no Brasil o português ser a língua da imensa maioria da população 1 As referências bibliográficas completas de todas as obras citadas ao longo deste livro se encontram no final do volume não implica automaticamente que esse português seja um bloco compacto coeso e homogêneo Na verdade como costumo dizer o que habitualmente chamamos de português é um grande balaio de gatos onde há gatos dos mais diversos tipos machos fêmeas brancos pretos malhados grandes pequenos adultos idosos recémnascidos gordos magros bemnutridos famintos etc Cada um desses gatos é uma variedade do português brasileiro com sua gramática específica coerente lógica e funcional É preciso portanto que a escola e todas as demais instituições voltadas para a educação e a cultura abandonem esse mito da unidade do português no Brasil e passem a reconhecer a verdadeira diversidade lingüística de nosso país para melhor planejarem suas políticas de ação junto à população amplamente marginalizada dos falantes das variedades nãopadrão O reconhecimento da pg 18 existência de muitas normas lingüísticas diferentes é fundamental para que o ensino em nossas escolas seja conseqüente com o fato comprovado de que a norma lingüística ensinada em sala de aula é em muitas situações uma verdadeira língua estrangeira para o aluno que chega à escola proveniente de ambientes sociais onde a norma lingüística empregada no quotidiano é uma variedade de português não padrão Felizmente essa realidade lingüística marcada pela diversidade já é reconhecida pelas instituições oficiais encarregadas de planejar a educação no Brasil Assim nos Parâmetros curriculares nacionais publicados pelo Ministério da Educação e do Desporto em 1998 podemos ler que A variação é constitutiva das línguas humanas ocorrendo em todos os níveis Ela sempre existiu e sempre existirá independentemente de qualquer ação normativa Assim quando se fala em Língua Portuguesa está se falando de uma unidade que se constitui de muitas variedades A imagem de uma língua única mais próxima da modalidade escrita da linguagem subjacente às prescrições normativas da gramática escolar dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre o que se deve e o que não se deve falar e escrever não se sustenta na análise empírica dos usos da língua2 São de fato boas novas Espero que elas desçam das altas esferas governamentais e se propaguem pelas salas de aula de todo o país pg 19 2 Parâmetros curriculares nacionais Língua Portuguesa 5a a 8a séries p 29 Mito n 2 Brasileiro não sabe português Só em Portugal se fala bem português Essas duas opiniões tão habituais corriqueiras comuns e que na realidade são duas faces de uma mesma moeda enferrujada refletem o complexo de inferioridade o sentimento de sermos até hoje uma colônia dependente de um país mais antigo e mais civilizado Podemos encontrar essa concepção expressa no livro Língua viva de Sérgio Nogueira Duarte que é uma coletânea de suas colunas sobre língua portuguesa publicadas no Jornal do Brasil Ali a gente lê na página 65 Sempre me perguntam onde se fala o melhor português Só pode ser em Portugal Já viajei muito pelo Brasil e já estive em todas as regiões Sinceramente não sei onde se fala melhor Cada região tem suas qualidades e seus vícios de linguagem grifo meu Por isso não consigo concordar com o título do livro que está longe de analisar a verdadeira língua viva usada em nosso país nem com o subtítulo uma análise simples e bemhumorada da linguagem do brasileiro Seria mais acertado dizer que se trata de uma análise preconceituosa e desinformada da língua falada e escrita por aqui Mas não podemos culpar o autor que é antes uma vítima do que propriamente um responsável por esse preconceito ele está apenas exprimindo uma ideologia impregnada em nossa cultura há muito tempo pg 20 É a mesma concepção torpe segundo a qual o Brasil é um país subdesenvolvido porque sua população não é uma raça pura mas sim o resultado de uma mistura negativa de raças sendo que duas delas a negra e a indígena são inferiores à do branco europeu por isso nosso povinho só pode ser o que é Ora há muito tempo a ciência destruiu o mito da raça pura que é um conceito absurdo sem nenhuma possibilidade de verificação na realidade de nenhum povo por mais isolado que seja Assim uma raça que não é pura não poderia falar uma língua pura Não é difícil encontrar intelectuais renomados que lamentem a corrupção do português falado no Brasil língua de matutos de caipiras infelizes arremedo tosco da língua de Camões É o que escreve por exemplo Arnaldo Niskier presidente da Academia Brasileira de Letras num artigo publicado na Folha de S Paulo 15198 podese registrar o fato facilmente comprovável de que nunca se escreveu e falou tão mal o idioma de Ruy Barbosa A classe dita culta mostrase displicente em relação à língua nacional e a indigência vocabular tomou conta da juventude e dos não tão jovens assim quase como se aqueles se orgulhassem de sua própria ignorância e estes quisessem voltar atrás no tempo Para mostrar o quanto declarações desse tipo se baseiam mais em posturas preconceituosas perpetuadas ao longo dos séculos pela desinformação ou má informação do que em análises científicas acuradas dos fatos lingüísticos vamos ler o seguinte trecho do filólogo Cândido de Figueiredo pg 21 Quanto mais progressiva é a civilização de um povo mais sujeita é a sua língua a deturpações e vícios sob a variada influência das relações internacionais dos novos inventos das travancas da ignorância e até dos caprichos da moda Sábios e romancistas poetas e prosadores e nomeadamente a imprensa periódica parece haverem conspirado para dar curso às mais extraordinárias invenções e enxertos de linguagem Ora essas palavras foram escritas em 1903 num livro chamado O que se não deve dizer sim o título é esse mesmo É surpreendente como elas têm o mesmo tom de queixa e censura das palavras de Niskier escritas noventa e cinco anos depois Niskier também faz neste artigo uma referência queixosa ao pouco apreço que devotamos ao gosto pela leitura Nosso índice per capita mal alcança dois livros por habitante na França por exemplo oscila em torno de oito e passa a elogiar os hábitos culturais dos franceses que valorizam mais a leitura do que os brasileiros Esqueceuse porém de dizer que a França ocupa a 11ª posição no quadro do IDH Índice de Desenvolvimento Humano estabelecido pela ONU para avaliar a qualidade de vida nos 175 países do mundo O Brasil que em 1996 ocupava a 58a posição caiu em 1999 para a 79a devido à sensível piora das condições sociais dos brasileiros como um todo Diante de tamanha diferença um índice per capita de dois livros por ano num país com 60 milhões de analfabetos plenos e analfabetos funcionais número igual ao da população total da França é mesmo espantoso E da mesma forma como Niskier lamenta a invasão dos anglicismos Figueiredo diz que o enxerto da francesia pg 22 frutificou com exuberância classificando de malária o uso de palavras estrangeiras E se quiséssemos recuar ainda mais no tempo não teríamos dificuldades em encontrar outros autores vociferando contra a ruína da língua portuguesa e profetizando o fim dela Felizmente nenhuma dessas profecias se concretizou Os galicismos na passagem do século XIX para o XX e os anglicismos na virada do terceiro milênio não têm a força destruidora tão temida pelos puristas e conservadores A língua portuguesa nesses noventa e cinco anos se manteve muito bem obrigada falada e escrita por cada vez mais gente produziu uma literatura reconhecida mundialmente é propagada também em nível internacional pelo grande prestígio de que goza a música popular brasileira entre tantas outras provas de sua vitalidade E a avalanche ai um galicismo de palavras estrangeiras tem de ser analisada sob a perspectiva da dependência políticoeconômica e conseqüentemente cultural do Brasil e de Portugal para com os centros mundiais de poder Não adianta bradar contra a invasão de palavras na língua portuguesa sem analisar essa dependência É querer eliminar os efeitos sem atacar as verdadeiras causas E essa história de dizer que brasileiro não sabe português e que só em Portugal se fala bem português Tratase de uma grande bobagem infelizmente transmitida de geração a geração pelo ensino tradicional da gramática na escola O brasileiro sabe português sim O que acontece é que nosso português é diferente do português falado em pg 23 Portugal Quando dizemos que no Brasil se fala português usamos esse nome simplesmente por comodidade e por uma razão histórica justamente a de termos sido uma colônia de Portugal Do ponto de vista lingüístico porém a língua falada no Brasil já tem uma gramática isto é tem regras de funcionamento que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal Por isso os lingüistas os cientistas da linguagem preferem usar o termo português brasileiro por ser mais claro e marcar bem essa diferença Na língua falada as diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil são tão grandes que muitas vezes surgem dificuldades de compreensão no vocabulário nas construções sintáticas no uso de certas expressões sem mencionar é claro as tremendas diferenças de pronúncia no português de Portugal existem vogais e consoantes que nossos ouvidos brasileiros custam a reconhecer porque não fazem parte de nosso sistema fonético3 E muitos estudos têm mostrado que os sistemas pronominais do português europeu e do português brasileiro são totalmente diferentes Por exemplo os pronomes oa de construções como eu o vi e eu a conheço estão praticamente extintos pg 24 no português falado no Brasil ao passo que no de Portugal continuam firmes e fortes Esses pronomes nunca aparecem na fala das crianças brasileiras nem na dos brasileiros nãoalfabetizados e têm baixa ocorrência na fala dos indivíduos cultos o que demonstra que são exclusivos da língua ensinada na escola sobretudo da língua escrita não fazendo parte então do repertório da língua materna dos brasileiros Nossas crianças usam sem problema me e te Ela me bateu Eu vou te pegar mas oa jamais que são substituídos por ele ela Eu vou pegar ele Eu vi ela As formas lo e la pegálo vêla então nem pensar Se as crianças não usam é porque não ouvem os adultos usar e se os adultos não usam 3 Assistindo um dia desses a televisão portuguesa por cabo ouvi os verbos uprar e dlibrar Consegue adivinhar o que é Sim operar e deliberar Também é comum os portugueses evitarem hiatos como a água introduzindo um y e pronunciando ayágua Além disso se uma palavra termina em s e a próxima começa com c os portugueses fundem essas duas consoantes numa só pronunciada como o x de xixi outros cinco é pronunciado otruxincu São realizações fonéticas totalmente estranhas à língua do brasileiro é porque não precisam desses pronomes E mesmo na língua dos adultos escolarizados esses pronomes só aparecem como um recurso estilístico em situações de uso mais formais quando o falante quer deixar claro que domina as regras impostas pela gramática escolar A gramática escolar no entanto desconhece essa transformação por que a língua está passando e insiste em considerar erradas construções como Eu conheço ele Você viu ela chegar etc O único nível em que ainda é possível uma compreensão quase total entre brasileiros e portugueses é o da língua escrita formal porque a ortografia é praticamente a mesma com poucas diferenças Mas um mesmo texto lido em voz alta por um brasileiro e por um português vai soar completamente diferente ou melhor difrent Aliás faça você mesmo a experiência tente tirar a letra de uma música cantada por um cantor ou uma cantora da terrinha e veja pg 25 como é difícil4 E por incrível que pareça um dos principais obstáculos para a difusão no Brasil do cinema feito em Portugal é justamente a língua além das dificuldades de distribuição ligadas ao quase monopólio do cinema americano Como os brasileiros têm dificuldades em entender o português de Portugal e como ficaria no mínimo estranho colocar legendas em filmes portugueses o resultado é que praticamente nunca se vê filme português nos cinemas daqui Temos a impressão de que Portugal não produz cinema o que é falso há bons cineastas 4 Eu mesmo uma vez passei por uma situação embaraçosa um amigo meu francês me enviou uma fita cassete com músicas do compositor português José Afonso por sinal maravilhoso e me pediu para tirar a letra de uma delas de que ele gostava muito Depois de algumas tentativas acabei desistindo porque havia muitas frases inteiras das quais eu não pescava simplesmente nada Ele espantado me perguntou Mas ele não canta em português Tive de explicar ao meu amigo que havia grandes diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal Mas eu tive a minha vingança Pedi a esse mesmo amigo pouco depois que transcrevesse a letra de uma canção gravada por uma cantor canadense e ele teve a mesma dificuldade porque o francês do Canadá às vezes pode ser incompreensível para um falante do francês da França portugueses um dos quais Manuel dOliveira é reconhecido internacionalmente como um grande diretor No que diz respeito ao ensino do português no Brasil o grande problema é que esse ensino até hoje depois de mais de cento e setenta anos de independência política continua com os olhos voltados para a norma lingüística de Portugal As regras gramaticais consideradas certas são aquelas usadas por lá que servem para a língua falada lá que retratam bem o funcionamento da língua que os pg 26 portugueses falam É a concepção que impera por exemplo no livro Não erre mais de Luiz Antonio Sacconi que na página 64 explica A Lua é mais pequena que a Terra Eis aí uma frase corretíssima que muitos imaginam o contrário Mais pequeno é expressão legítima usada por todos os portugueses que usam menor quando se trata de idéia de qualidade poeta menor escritor menor etc grifo meu Fica implícito então que para considerar uma expressão legítima basta que ela seja usada por todos os portugueses como se eles ditassem a norma lingüística válida para todos os povos que falam português Ora todos sabemos que mais pequeno não funciona no Brasil é uma expressão rejeitada pela norma culta brasileira que usa menor em todas as circunstâncias em que há comparação O mesmo espírito guiou a revista Época que em sua edição de 14 de junho de 1999 estampou uma grande reportagem sobre A ciência de escrever bem acerca da redação no vestibular Entre as melhores redações apresentadas naquele ano ao vestibular da Universidade de São Paulo estava a de Henrique Suguri 17 anos que em determinado momento assim se expressou p 81 O Brasil hoje não é europeu africano asiático indígena Nós somos a mistura exata de tudo isso completamente diferentes das nossas origens únicos E apesar disso estamos indiscutivelmente atrelados aos princípios da nossa matriz Talvez o ano 2000 possa servir para abrirmos os olhos e em vez de comemorarmos os nossos cinco séculos coloniais enterrarmos o que sobrou deles pg 27 Essa belíssima declaração de independência essa consciência da especificidade cultural do povo brasileiro essa valorização de nossa identidade nacional única parece que não foi totalmente compreendida pelos autores da reportagem Pois estes em vez de aceitar o convite do jovem vestibulando para enterrar o que sobrou dos cinco séculos de colonização fizeram questão de comprovar ao contrário que ainda estamos indiscutivelmente atrelados aos princípios da nossa matriz incluindo aí é claro os princípios lingüísticos Digo isso porque na página 84 da mesma reportagem aparece um quadro chamado Como escrever bem que tem como subtítuloDicas que valem para brasileiros de todas as idades Acontece que a primeiríssima destas dicas é a seguinte O uso do gerúndio empobrece o texto Lembre que não existe gerúndio no português falado em Portugal Ora se são dicas para brasileiros que querem escrever bem por que motivos eles têm de se lembrar do que existe ou não existe no português de Portugal A dica além de deixar à mostra sua inspiração neocolonialista também afirma uma inverdade lingüística no português de Portugal existe sim o gerúndio A título de curiosidade lembrome do Fado do ciúme sucesso na voz de Amália Rodrigues uma das maiores cantoras portuguesas de todos os tempos cuja letra a certa altura diz antes prefiro morrer do que contigo viver sabendo que gostas dela Esse sabendo outra coisa não é senão um gerúndio Aproveito para chamar atenção para o antes pg 28 prefirodo que indício de que os portugueses também erram na hora de usar o verbo preferir O que não existe no português falado em Portugal é a construção do tipo estou comendo ela está telefonando Pedro esteve trabalhando muito situações em que os portugueses usam a preposição a seguida do verbo no infinitivo Imagine agora se algum de nós brasileiros disser por aí frases como estou a comer ela está a telefonarPedro esteve a trabalhar muito que são uma das características mais marcantes do português de Portugal Como não me canso de repetir são simplesmente diferenças de uso e diferença não é deficiência nem inferioridade Quanto tempo ainda teremos de esperar para nos darmos conta de uma vez por todas de que somos completamente diferentes das nossas origens únicos como tão brilhantemente escreveu Henrique Suguri em sua redação de vestibular Por causa desse preconceito é que somos obrigados a ensinar e aprender que o certo é dizer e escrever Dême um beijo e não Me dá um beijo e que é errado dizer e escrever Assisti o filme e Alugase casas porque lá em Portugal não é assim que se faz O mito de que brasileiro não sabe português também afeta o ensino de línguas estrangeiras É muito comum verificar entre professores de inglês francês ou espanhol um grande desânimo diante das dificuldades de ensinar o idioma estrangeiro E é mais comum ainda ouvilos dizer Os alunos já não sabem português imagine se vão conseguir aprender outra língua fazendo a velha confusão entre pg 29 língua e gramática normativa É muito fácil atribuir aos outros a culpa do nosso próprio fracasso Assim em vez de buscar as causas da dificuldade de ensino na metodologia empregada nas diferenças de aptidão individual para o aprendizado de línguas ou na competência do próprio professor é muito mais cômodo jogar a culpa no aluno ou na incompetência lingüística inata do brasileiro É curioso como muitos brasileiros assumem esse mesmo preconceito negativo também em relação a outras línguas defendendo sempre a língua da metrópole contra a língua da ex colônia É o nosso eterno trauma de inferioridade nosso desejo de nos aproximarmos o máximo possível do cultuado padrão ideal que é a Europa Todo santo dia tenho de ouvir alguém me dizer que prefere o inglês britânico porque acha o inglês americano muito feio A essas pessoas eu dou sempre a mesma resposta aprenda o inglês britânico se quiser ler Shakespeare mas se quiser dominar uma língua de uso internacional aceita em todos os cantos do mundo como veículo de intercâmbio cultural comercial diplomático tecnológico científico etc aprenda o inglês americano Se algum de nós disser a um norteamericano que ele não sabe inglês ou que o inglês falado nos Estados Unidos é errado ou feio ele decerto vai ficar chocado com nossa ignorância Afinal existe um argumento mais do que convincente para rebater essa acusação o tamanho do país e a quantidade de falantes de inglês que ali vivem além da importância dos Estados Unidos no panorama mundial pg 30 O mesmo argumento vale para o português do Brasil Nosso país é 92 vezes e meia maior que Portugal e nossa população é quase 15 vezes superior Quando se trata de língua temos de levar em conta a quantidade só na cidade de São Paulo vivem mais falantes de português do que em toda a Europa Além disso o papel do Brasil no cenário políticoeconômico mundial é de longe muito mais importante que o de Portugal Não tem sentido nenhum portanto continuar alimentando essa fantasia de que os portugueses são os verdadeiros donos da língua enquanto nós a utilizamos e mal apenas por empréstimo Existe embutida nesse mito a ilusão de que os portugueses falam e escrevem tudo certo e que seguem rigorosamente as regras da gramática ensinada na escola A professora Irandé Antunes de quem tive a honra de ser aluno na Universidade Federal de Pernambuco me contou que quando estava para embarcar para Portugal onde viveria alguns anos preparando seu doutorado muitas pessoas no Brasil lhe disseram Você vai morar em Portugal Então agora suas filhas vão aprender a falar direito Não é nada disso Assim como nós aqui cometemos nossos pecados contra a gramática normativa os portugueses também cometem os deles só que mais uma vez diferentes dos nossos Em Portugal por exemplo o plural de tu não é vós como querem as gramáticas normativas O plural de tu é vocês Pois bem na hora de usar os possessivos os portugueses usam vossovossa que teoricamente só poderiam ser usados com referência a vós Vocês trouxeram os vossos filhos E num livro editado pg 31 em Portugal encontrei a seguinte pergunta Não vos sucede sentirem se por vezes um pouco indefinidos É a famosa mistura de tratamento que causa tanto arrepio e dor de estômago nos gramáticos conservadores mistura que em termos científicos e nãopreconceituosos deve ser analisada de fato como uma reorganização do sistema pronominal da língua tanto a de lá como a de cá Então não há por que continuar difundindo essa idéia mais do que absurda de que brasileiro não sabe português O brasileiro sabe o seu português o português do Brasil que é a língua materna de todos os que nascem e vivem aqui enquanto os portugueses sabem o português deles Nenhum dos dois é mais certo ou mais errado mais feio ou mais bonito são apenas diferentes um do outro e atendem às necessidades lingüísticas das comunidades que os usamnecessidades que também são diferentes Em seu livro Emília no País da Gramática publicado em 1934 Monteiro Lobato já chamava a atenção para esse tipo de preconceito que no entanto continua firme e forte no Brasil de hoje Numa conversa com as crianças do Sítio do Picapau Amarelo a velha Dona Etimologia lhes diz pp 100101 Uma língua não pára nunca Evolui sempre isto é muda sempre Há certos gramáticos que querem fazer a língua parar num certo ponto e acham que é erro dizermos de modo diferente do que diziam os clássicos Quem vem a ser clássicos perguntou a menina Narizinho Os entendidos chamam clássicos aos escritores antigos como o padre Antônio Vieira Frei Luís de Sousa o padre pg 32 Manuel Bernardes e outros Para os carranças quem não escreve como eles está errado Mas isso é curteza de vistas Esses homens foram bons escritores no seu tempo Se aparecessem agora seriam os primeiros a mudar ou a adotar a língua de hoje para serem entendidos A língua variou muito e sobretudo aqui na cidade nova o Brasil Inúmeras palavras que na cidade velha Portugal querem dizer uma coisa aqui dizem outra Também no modo de pronunciar as palavras existem muitas variações Aqui todos dizem PEITO lá todos dizem PAITO embora escrevam a palavra da mesma maneira Aqui se diz TENHO e lá se diz TANHO Aqui se diz VERÃO e lá se diz VRÃO Também eles dizem por lá VATATA VACALHAU BACA VESOURO lembrou Pedrinho Sim o povo de lá troca muito o v pelo B e viceversa Nesse caso aqui nesta cidade se fala mais direito do que na cidade velha concluiu Narizinho Por quê Ambas têm o direito de falar como quiserem e portanto ambas estão certas O que sucede é que uma língua sempre que muda de terra começa a variar muito mais depressa do que se não tivesse mudado Os costumes são outros a natureza é outra as necessidades de expressão tornamse outras Tudo junto força a língua que emigra a adaptarse à sua nova pátria A língua desta cidade Brasil está ficando um dialeto da língua velha Com o correr dos séculos é bem capaz de ficar tão diferente da língua velha como esta ficou diferente do latim Vocês vão ver Monteiro Lobato que morreu em 1948 estava muito mais por dentro das noções da lingüística moderna do que muito autor de gramática que está por aí hoje vivo e bulindo como se diz no Nordeste pg 33 É espantoso que a figura do gramático autoritário e intolerante ridicularizado por Lobato na personagem do professor Aldrovando Cantagalo em seu delicioso conto O colocador de pronomes de 1924 tenha voltado à cena neste fim de século sob a roupagem enganosamente moderna da televisão do computador e da multimídia pg 34 Mito n 3 Português é muito difícil Essa afirmação preconceituosa é primairmã da idéia que acabamos de derrubar a de que brasileiro não sabe português Como o nosso ensino da língua sempre se baseou na norma gramatical de Portugal as regras que aprendemos na escola em boa parte não correspondem à língua que realmente falamos e escrevemos no Brasil Por isso achamos que português é uma língua difícil porque temos de decorar conceitos e fixar regras que não significam nada para nós No dia em que nosso ensino de português se concentrar no uso real vivo e verdadeiro da língua portuguesa do Brasil é bem provável que ninguém mais continue a repetir essa bobagem Todo falante nativo de uma língua sabe essa língua Saber uma língua no sentido científico do verbo saber significa conhecer intuitivamente e empregar com naturalidade as regras básicas de funcionamento dela Está provado e comprovado que uma criança entre os 3 e 4 anos de idade já domina perfeitamente as regras gramaticais de sua língua O que ela não conhece são sutilezas sofisticações e irregularidades no uso dessas regras coisas que só a leitura e o estudo podem lhe dar Mas nenhuma criança brasileira dessa idade vai dizer por exemplo Uma meninos chegou aqui amanhã Um estrangeiro porém que esteja começando a aprender português poderá se confundir e falar assim Por isso aquela piadinha que muita gente solta quando vê uma criancinha estrangeira falando Tão pequeno e já fala tão bem pg 35 inglês ou outra língua tem seu fundo de verdade muito pouca gente conseguirá falar uma língua estrangeira com tanta desenvoltura quanto uma criança de cinco anos que tem nela sua língua materna Por quê Porque toda e qualquer língua é fácil para quem nasceu e cresceu rodeado por ela Se existisse língua difícil ninguém no mundo falaria húngaro chinês ou guarani e no entanto essas línguas são faladas por milhões de pessoas inclusive criancinhas analfabetas Se tanta gente continua a repetir que português é difícil é porque o ensino tradicional da língua no Brasil não leva em conta o uso brasileiro do português Um caso típico é o da regência verbal O professor pode mandar o aluno copiar quinhentas mil vezes a frase Assisti ao filme Quando esse mesmo aluno puser o pé fora da sala de aula ele vai dizer ao colega Ainda não assisti o filme do Zorro Porque a gramática brasileira não sente a necessidade daquela preposição a que era exigida na norma clássica literária cem anos atrás e que ainda está em vigor no português falado em Portugal a dez mil quilômetros daqui É um esforço árduo e inútil um verdadeiro trabalho de Sísifo tentar impor uma regra que não encontra justificativa na gramática intuitiva do falante A prova mais visível disso é que aquelas mesmas pessoas que por causa da pressão policialesca da escola e da gramática tradicional usam a preposição a depois do verbo assistir também dizem que o jogo foi assistido por vinte mil pessoas Ora se o verbo assistir pede uma preposição é porque ele não é transitivo direto e só os verbos transitivos diretos podem segundo as gramáticas assumir a voz passiva Desse modo quem diz assisti ao pg 36 jogo não poderia teoricamente dizer o jogo foi assistido Só que essa esquizofrenia gramatical acontece o tempo todo Basta ler jornais como a Folha de S Paulo e o Estado de S Paulo cujos manuais de redação decretam que o verbo assistir tem que vir obrigatoriamente seguido da preposição a Na voz ativa a preposição aparece Vinte mil pagantes assistiram ao jogo porque assim manda o manual da redação Mas na hora de usar a voz passiva a gramática intuitiva brasileira do redator se manifesta e a gente encontra milhares de exemplos do tipo o jogo foi assistido por vinte mil pagantes Essas pessoas então ficam em cima do muro acertam na voz ativa por causa do patrulhamento lingüístico mas erram na passiva porque se deixam levar pelo uso normal do português brasileiro Tudo isso por causa da cobrança indevida por parte do ensino tradicional de uma norma gramatical que não corresponde à realidade da língua falada no Brasil O professor Sirio Possenti da UNICAMP em seu excelente livro Por que não ensinar gramática na escola classifica a regência assistir a como um arcaísmo uma forma sintática que já caiu em desuso mas continua sendo cobrada injustificadamente pelo ensino tradicionalista que se recusa a admitir a extinção desse e de muitos outros dinossauros lingüísticos Por isso tantas pessoas terminam seus estudos depois de onze anos de ensino fundamental e médio sentindose incompetentes para redigir o que quer que seja E não é à toa se durante todos esses anos os professores tivessem chamado a atenção dos alunos para o que é realmente interessante e importante se tivessem desenvolvido pg 37 as habilidades de expressão dos alunos em vez de entupir suas aulas com regras ilógicas e nomenclaturas incoerentes as pessoas sentiriam muito mais confiança e prazer no momento de usar os recursos de seu idioma que afinal é um instrumento maravilhoso e que pertence a todos Falaremos disso na terceira parte deste livro Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuam achando que não sabem português ou que português é muito difícil é porque esta disciplina fascinante foi transformada numa ciência esotérica numa doutrina cabalística que somente alguns iluminados os gramáticos tradicionalistas conseguem dominar completamente Eles continuam insistindo em nos fazer decorar coisas que ninguém mais usa fósseis gramaticais e a nos convencer de que só eles podem salvar a língua portuguesa da decadência e da corrupção Hoje em dia aliás alguns deles estão até fazendo sucesso na televisão no rádio e em outros meios de comunicação transformando essa suposta dificuldade do português num produto com boa saída comercial Para o já citado Arnaldo Niskier tratase de uma saudável epidemia que tomou conta da imprensa brasileira Que é epidemia concordo mas quanto a ser saudável tenho muitas e sérias dúvidas É livro é curso em vídeocassete é CDROM é Manual de Redação do Jornal Tal é consultório gramatical por telefone Eles juram que quem não souber conjugar o verbo apropinquarse vai direto para o inferno Na segunda parte deste livro tratarei de explicar por que não considero saudável essa epidemia pg 38 No fundo a idéia de que português é muito difícil serve como mais um dos instrumentos de manutenção do status quo das classes sociais privilegiadas Essa entidade mística e sobrenatural chamada português só se revela aos poucos iniciados aos que sabem as palavras mágicas exatas para fazêla manifestarse Tal como na Índia antiga o conhecimento da gramática é reservado a uma casta sacerdotal encarregada de preservála pura e intacta longe do contato infeccioso dos párias A propaganda da suposta dificuldade da língua é como diz Gnerre no livro já citadoo arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder p 6 Sustentar que português é muito difícil é cavar uma profunda trincheira entre os poucos que sabem a língua e a massa enorme de asnos termo usado por Luiz Antonio Sacconi em seu livro Não erre mais que necessitam assim do auxílio indispensável daqueles mestres para saltar com segurança por sobre o abismo da ignorância Em termos mais brandos a embalagem do CDROM Nossa língua portuguesa oferece o produto como uma ajuda a evitar as armadilhas da língua Ora não é a língua que tem armadilhas mas sim a gramática normativa tradicional que as inventa precisamente para justificar sua existência e para nos convencer de que ela é indispensável Não seria a hora de acionar a Lei de Defesa do Consumidor contra essa reserva de mercado pg 39 Mito n 4 As pessoas sem instrução falam tudo errado O preconceito lingüístico se baseia na crença de que só existe como vimos no Mito n 1 uma única língua portuguesa digna deste nome e que seria a língua ensinada nas escolas explicada nas gramáticas e catalogada nos dicionários Qualquer manifestação lingüística que escape desse triângulo escolagramáticadicionário é considerada sob a ótica do preconceito lingüístico errada feia estropiada rudimentar deficiente e não é raro a gente ouvir que isso não é português Um exemplo Na visão preconceituosa dos fenômenos da língua a transformação de I em R nos encontros consonantais como em Cráudia chicrete praca broco pranta é tremendamente estigmatizada e às vezes é considerada até como um sinal do atraso mental das pessoas que falam assim Ora estudando cientificamente a questão é fácil descobrir que não estamos diante de um traço de atraso mental dos falantes ignorantes do português mas simplesmente de um fenômeno fonético que contribuiu para a formação da própria língua portuguesa padrão Basta olharmos para o seguinte quadro pg 40 PORTUGUÊS PADRÃO ETIMOLOGIA ORIGEM branco blank germânico brando blandu latim cravo clavu latim dobro duplu latim escravo sclavu latim fraco flaccu latim frouxo fluxu latim grude gluten latim obrigar obligare latim praga plaga latim prata plata provençal prega plica latim Como é fácil notar todas as palavras do portuguêspadrão listadas acima tinham na sua origem um I bem nítido que se transformou em R E agora Se fôssemos pensar que as pessoas que dizem Cráudia chicrete e pranta têm algum defeito ou atraso mental seríamos forçados a admitir que toda a população da província romana da Lusitânia também tinha esse mesmo problema na época em que a língua portuguesa estava se formando E que o grande Luís de Camões também sofria desse mesmo mal já que ele escreveu ingrês pubricar pranta frauta frecha na obra que é considerada até hoje o maior monumento literário do português clássico o poema Os Lusíadas E isso é craro seria no mínimo absurdo Existem evidentemente falantes da norma culta urbana pessoas escolarizadas que têm problemas para pg 41 pronunciar os encontros consonantais com L Nesses casos sim tratase realmente de uma dificuldade física que pode ser resolvida com uma terapia fonoaudiológica Não é dessas pessoas que estamos tratando aqui mas dos brasileiros falantes das variedades nãopadrão em cujo sistema fonético simplesmente não existe encontro consonantal com L independentemente de terem ou não dificuldades articulatórias Quando na escola se depararem com os encontros consonantais com L é preciso que o professor tenha consciência de que se trata de um aspecto fonético estrangeiro para eles do mesmo tipo dos que encontramos por exemplo nos cursos de inglês quando nos esforçamos para pronunciar bem o TH de throw ou o I de live É preciso separar bem os dois aspectos do fenômeno Se dizer Cráudia praca pranta é considerado errado e por outro lado dizer frouxo escravo branco praga é considerado certo isso se deve simplesmente a uma questão que não é lingüística mas social e política as pessoas que dizem Cráudia praca pranta pertencem a uma classe social desprestigiada marginalizada que não tem acesso à educação formal e aos bens culturais da elite e por isso a língua que elas falam sofre o mesmo preconceito que pesa sobre elas mesmas ou seja sua língua é considerada feiapobrecarente quando na verdade é apenas diferente da língua ensinada na escola Ora do ponto de vista exclusivamente lingüístico o fenômeno que existe no português nãopadrão é o mesmo que aconteceu na história do portuguêspadrão e pg 42 tem até um nome técnico rotacismo O rotacismo participou da formação da língua portuguesa padrão como já vimos em branco escravo praga fraco etc mas ele continua vivo e atuante no português nãopadrão como em broco chicrete pranta Cráudia porque essa variedade não padrão deixa que as tendências normais e inerentes à língua se manifestem livremente Assim o problema não está naquilo que se fala mas em quem fala o quê Neste caso o preconceito lingüístico é decorrência de um preconceito social Este tipo específico de preconceito é o que abordei em meu livro A língua de Eulália Minha heroína literária predileta a boneca Emília de Monteiro Lobato não quis saber desse tipo de preconceito Ao visitar no País da Gramática a prisão onde Dona Sintaxe mantinha enjaulados os vícios de linguagem revoltouse ao ver atrás das grades o Provincianismo isto é os vícios da fala rural do caipira p 120 Emília não achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua e soltouo Vá passear seu Jeca Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser lei um dia Foi você quem inventou o VOCÊ em vez de TU e só isso quanto não vale Estamos livres da complicação antiga do Tuturututu Como se vê do mesmo modo como existe o preconceito contra a fala de determinadas classes sociais também existe o preconceito contra a fala característica de certas regiões É um verdadeiro acinte aos direitos humanos por exemplo o modo como a fala nordestina é retratada pg 43 nas novelas de televisão principalmente da Rede Globo Todo personagem de origem nordestina é sem exceção um tipo grotesco rústico atrasado criado para provocar o riso o escárnio e o deboche dos demais personagens e do espectador No plano lingüístico atores não nordestinos expressamse num arremedo de língua que não é falada em lugar nenhum do Brasil muito menos no Nordeste Costumo dizer que aquela deve ser a língua do Nordeste de Marte Mas nós sabemos muito bem que essa atitude representa uma forma de marginalização e exclusão Para mostrar que a fala nordestina nada tem de engraçada ou ridícula vamos fazer uma pequena comparação Na pronúncia normal do Sudeste a consoante que escrevemos T é pronunciada tš como em tcheco toda vez que é seguida de um i Esse fenômeno fonético se chama palatalização Por causa dele nós sudestinos pronunciamos tšitšia a palavra escrita TITIA E todo mundo acha isso perfeitamente normal ninguém tem vontade de rir quando um carioca mineiro ou capixaba fala assim Quando porém um falante do Sudeste ouve um falante da zona rural nordestina pronunciar a palavra escrita OITO como oytšu ele acha isso muito engraçado ridículo ou errado Ora do ponto de vista meramente lingüístico o fenômeno é o mesmo palatalização só que o elemento provocador dessa palatalização o y está antes do t e não depois dele Então se o fenômeno é o mesmo por que na boca de um ele é normal e na boca de outro ele é engraçado pg 44 feio ou errado Porque o que está em jogo aqui não é a língua mas a pessoa que fala essa língua e a região geográfica onde essa pessoa vive Se o Nordeste é atrasado pobre subdesenvolvido ou na melhor das hipóteses pitoresco então naturalmente as pessoas que lá nasceram e a língua que elas falam também devem ser consideradas assim Ora façame o favor Rede Globo pg 45 Mito n5 O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão Não sei quem foi a primeira pessoa que proferiu essa grande bobagem mas a realidade é que até hoje ela continua sendo repetida por muita gente por aí inclusive gente culta que não sabe que isso é apenas um mito sem nenhuma fundamentação científica De onde será que veio essa idéia Esse mito nasceu mais uma vez da velha posição de subserviência em relação ao português de Portugal É sabido que no Maranhão ainda se usa com grande regularidade o pronome tu seguido das formas verbais clássicas com a terminação em s característica da segunda pessoa tu vais tu queres tu dizes tu comias tu cantavas etc Na maior parte do Brasil como sabemos devido à reorganização do sistema pronominal de que já falei o pronome tu foi substituído por você Aliás nas palavras da boneca Emília o tu já está velho coroco e o que ele deve fazer na opinião dela é ir arrumando a trouxa e pondose ao fresco e mudarse de vez para o bairro das palavras arcaicas De fato o pronome tu está em vias de extinção na fala do brasileiro e quando ainda é usado como por exemplo em alguns falares característicos de certas camadas sociais do Rio de Janeiro o verbo assume a forma da terceira pessoa tu vai tu fica tu quer tu deixa disso etc que caracteriza também a fala informal de algumas outras regiões Em Pernambuco por pg 46 exemplo é muito comum a interjeição interrogativa tu acha para indicar surpresa ou indignação Ora somente por esse arcaísmo por essa conservação de um único aspecto da linguagem clássica literária que coincide com a língua falada em Portugal ainda hoje é que se perpetua o mito de que o Maranhão é o lugar onde melhor se fala o português no Brasil Acontece porém que os defensores desse mito não se dão conta de que ao utilizarem o critério prescritivista de correção para sustentálo se esquecem de que os mesmos maranhenses que dizem tu és tu vais tu foste tu quiseste também dizem Esse é um bom livro para ti ler em vez da forma correta Esse é um bom livro para tu leres Ou seja eles atribuem ao pronome ti a mesma função de sujeito que em amplas regiões do Brasil nas mais diversas camadas sociais cultas inclusive é atribuída ao pronome mim quando antecedido da preposição para e seguido de verbo no infinitivo Para mim fazer isso vou precisar da sua ajuda uma construção sintática que deixa tanta gente de cabelo em pé O que acontece com o português do Maranhão em relação ao português do resto do país é o mesmo que acontece com o português de Portugal em relação ao português do Brasil não existe nenhuma variedade nacional regional ou local que seja intrinsecamente melhor mais pura mais bonita mais correta que outra Toda variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam Quando deixar de atender ela inevitavelmente sofrerá transformações para pg 47 se adequar às novas necessidades Toda variedade lingüística é também o resultado de um processo histórico próprio com suas vicissitudes e peripécias particulares Se o português de São Luís do Maranhão e de Belém do Pará assim como o de Florianópolis conservou o pronome tu com as conjugações verbais lusitanas é porque nessas regiões aconteceu no período colonial uma forte imigração de açorianos cujo dialeto específico influenciou a variedade de português brasileiro falado naqueles locais O mesmo acontece com algumas características italianizantes do português da cidade de São Paulo onde é grande a presença dos imigrantes italianos e seus descendentes ou com castelhanismos evidentes na fala dos gaúchos que mantêm estreitos contatos culturais com seus vizinhos argentinos e uruguaios Numa entrevista à revista Veja 10997 Pasquale Cipro Neto disse que é pura lenda a idéia de que o Maranhão é o lugar do Brasil onde melhor se fala português Ponto para ele Infelizmente continuando a tratar do assunto não hesitou em afirmar que no cômputo geral o carioca é o que se expressa melhor sob a ótica da norma culta e que a São Paulo que fala dois pastel e acabou as ficha é um horror Não acredito que o fato de ser uma cidade com grande número de imigrantes seja uma explicação suficiente para esse português esquisito dos paulistanos Na verdade é inexplicável Faltam argumentos científicos rigorosos por parte do entrevistado que nos expliquem como chegou ao cômputo pg 48 geral que lhe permitiu atribuir ao carioca uma expressão melhor sob a ótica da norma culta nem com que critérios metodológicos chegou à conclusão de que o português paulistano é esquisito O uso de expressões tão generalizadoras como o carioca de que classe social de que faixa etária com que nível de instrução ou a São Paulo que fala quase vinte milhões de habitantes duas vezes a população de Portugal acaba reforçando indiretamente devido à influência inegável de quem as formulou como formador de opinião a idéia de que o falar carioca é melhor e digno de maior prestígio que os demais falares brasileiros idéia que no passado levou até a se querer impor a pronúncia carioca como a oficial no teatro no canto lírico e nas salas de aula do Brasil inteiro As pesquisas sociolingüísticas que se baseiam em coleta de dados por meio de gravações da fala espontânea viva dos usuários nativos da língua confirmam uma suposição óbvia as pessoas das classes cultas de qualquer lugar dominam melhor a norma culta do que as pessoas das classes nãocultas de qualquer lugar Falantes cultos do Rio de Janeiro do Recife de Porto Alegre de São Paulo de Catolé do Rocha ou de Guaratinguetá se expressarão igualmente bem sob a ótica da norma culta Basta consultar por exemplo o enorme acervo de centenas de horas de gravação da fala urbana culta recolhido pelos pesquisadores do Projeto NURC5 para confirmar que pg 49 apesar das inevitáveis variações regionais existe uma norma urbana culta geral brasileira Muitos aspectos dessa norma urbana culta estão descritos nos seis volumes da Gramática do português falado uma grande obra coletiva publicada pela Editora da UNICAMP resultado do trabalho de investigação e análise de dezenas de lingüistas das mais diversas regiões do país De igual modo fenômenos de concordância do tipo dois pastel e acabou as ficha são facilmente encontráveis na fala carioca como podemos ouvir nas fitas gravadas do Projeto CENSO que 5 O material do Projeto NURC pode ser consultado nos vários livros publicados com as transcrições das fitas gravadas nas cincos diferentes cidades que compõem o projeto Recife Salvador Rio de Janeiro São Paulo e Porto Alegre Alguns desses livros são CASTILHO PRETI A linguagem falada culta na cidade de São Paulo São Paulo T A QueirozFAPESP 1987 vol 1 e 1988 vol 2 CALLOU LOPES A linguagem falada culta na cidade do Rio de Janeiro Rio de Janeiro UFRJ 1992 vol 1 1993 vol 2 e 1994 vol 3 HILGERT A linguagem falada culta na cidade de Porto Alegre UFRS 1997 vol 1 MOTA ROLLEMBERG A linguagem falada culta na cidade do Salvador UFBA 1994 vol 1 SÁ CUNHA LIMA OLIVEIRA A linguagem falada culta na cidade do Recife UFPE 1996 investiga o uso da língua no Rio de Janeiro nas classes sociais não cultas isto é pessoas que não cursaram universidade6 Além disso esse tipo de concordância se verifica de Norte a Sul do Brasil e também em Portugal segundo pesquisas recentes da professora Maria Marta Scherre Essa mesma pesquisadora defendeu na Universidade Federal do Rio de Janeiro uma tese de doutorado com o título Reanálise da concordância pg 50 nominal em português com 555 páginas que hoje é uma referência obrigatória para quem se aventurar a emitir opiniões a respeito Scherre mostra que ao contrário do que pensa Cipro aqueles fenômenos de concordância são na verdade altamente explicáveis Portanto não representam uma mera esquisitice dos paulistanos muito menos um horror Convém salientar que a determinação das normas culta e não culta é uma questão de grau de freqüência das variantes o que os normativistas considerariam erros ou acertos Por exemplo coisas como os menino tudo ou houveram fatos podem aparecer na fala de brasileiros cultos É preciso abandonar essa ânsia de tentar atribuir a um único local ou a uma única comunidade de falantes o melhor ou o pior português e passar a respeitar igualmente todas as variedades da língua que constituem um tesouro precioso de nossa cultura Todas elas têm o seu valor são veículos plenos e perfeitos de comunicação e de relação entre as pessoas que as falam Se tivermos de incentivar o uso de uma norma culta não podemos fazêlo de modo absoluto fonte do preconceito Temos de levar em consideração a presença de regras variáveis em todas as variedades a culta inclusive pg 51 6 A análise de alguns fenômenos variáveis do português falado na cidade do Rio de Janeiro com base no acervo do Projeto CENSO se encontra no livro organizado por SILVA SCHERRE Padrões sociolingüísticos Rio de Janeiro Tempo BrasileiroUFRJ 1996 Mito n 6 O certo é falar assim porque se escreve assim Diante de uma tabuleta escrita COLÉGIO é provável que um pernambucano lendoa em voz alta diga CÒlégio que um carioca diga CUlégio que um paulistano diga CÔlégio E agora Quem está certo Ora todos estão igualmente certos O que acontece é que em toda língua do mundo existe um fenômeno chamado variação isto é nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico Infelizmente existe uma tendência mais um preconceito muito forte no ensino da língua de querer obrigar o aluno a pronunciar do jeito que se escreve como se essa fosse a única maneira certa de falar português Imagine se alguém fosse falar inglês ou francês do jeito que se escreve Muitas gramáticas e livros didáticos chegam ao cúmulo de aconselhar o professor a corrigir quem fala muleque bêjo minino bisôro como se isso pudesse anular o fenômeno da variação tão natural e tão antigo na história das línguas Essa supervalorização da língua escrita combinada com o desprezo da língua falada é um preconceito que data de antes de Cristo É claro que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia oficial mas não se pode fazer isso tentando criar uma língua falada artificial e reprovando como erradas as pronúncias que são resultado natural das pg 52 forças internas que governam o idioma Seria mais justo e democrático dizer ao aluno que ele pode dizer BUnito ou BOnito mas que só pode escrever BONITO porque é necessária uma ortografia única para toda a língua para que todos possam ler e compreender o que está escrito mas é preciso lembrar que ela funciona como a partitura de uma música cada instrumentista vai interpretála de um modo todo seu particular O pintor belga René Magritte 18981967 tem um quadro famoso chamado A traição das imagens no qual se vê a figura de um cachimbo e embaixo dela a frase escrita Isto não é um cachimbo Em que esse exemplo pode servir à nossa discussão Isso não é um cachimbo de verdade mas simplesmente a representação gráfica pictórica de um cachimbo O mesmo acontece com a escrita alfabética em sua regulamentação ortográfica oficial Ela não é a fala é uma tentativa pg 53 de representação gráfica pictórica e convencional da língua falada Falarei mais detidamente da paranóia ortográfica na terceira parte deste livro Quando digo que a escrita é uma tentativa de representação é porque sabemos que não existe nenhuma ortografia em nenhuma língua do mundo que consiga reproduzir a fala com fidelidade Algumas ortografias como a do espanhol têm regras mais generalizáveis mais simples e mais coerentes que facilitam o ato de ler e escrever Mesmo assim no castelhanopadrão da Espanha pode sempre haver dúvidas Z ou C B ou V G ou J Outras línguas como o inglês têm mais exceções do que regras e é preciso aprender a escrever e a pronunciar praticamente cada palavra pois a generalização das regras ortográficas tem boa chance de falhar para um falante de português é estranho imaginar que as palavras jail e gaol tenham a mesma pronúncia Outras ainda como o chinês não buscam reproduzir a língua falada e optam pela escrita ideográfica Esta relação complicada entre língua falada e língua escrita precisa ser profundamente reexaminada no ensino Durante mais de dois mil anos os estudos gramaticais se dedicaram exclusivamente à língua escrita literária formal Foi somente no começo do século XX com o nascimento da ciência lingüística que a língua falada passou a ser considerada como o verdadeiro objeto de estudo científico Afinal a língua falada é a língua tal como foi aprendida pelo falante em seu contato com a família e com a comunidade pg 54 logo nos primeiros anos de vida É o instrumento básico de sobrevivência Um grito de socorro tem muito mais eficácia do que essa mesma mensagem escrita A língua escrita por seu lado é totalmente artificial exige treinamento memorização exercício e obedece a regras fixas de tendência conservadora além de ser uma representação não exaustiva da língua falada Faça você mesmo o teste pegue uma palavra bem simples fogo por exemplo e pronunciea com todas as inflexões e tons de voz que conseguir espanto medo alegria tristeza saudade ira remorso horror felicidade histeria pavor Depois tente reproduzir por escrito essas mesmas inflexões e tons de voz É impossível O máximo que a língua escrita oferece são os sinais de exclamação e de interrogação A mera forma escrita não é capaz de traduzir as inflexões e as intenções pretendidas pelo falante Por isso os autores de textos teatrais indicam entre parênteses a emoção sensação ou sentimento que o ator deve expressar numa dada fala A importância da língua falada para o estudo científico está principalmente no fato de ser nessa língua falada que ocorrem as mudanças e as variações que incessantemente vão transformando a língua Quem quiser por exemplo conhecer o estado atual da língua portuguesa do Brasil precisará investigar empiricamente a língua falada como fazem os pesquisadores dos projetos NURC e CENSO que já citei entre outros Afinal a escola as gramáticas normativas e os livros didáticos até hoje afirmam que os pronomes sujeitos de segunda pessoa são pg 55 tu e vós que o pronome você é simplesmente uma forma de tratamento que a mesóclise dar voloei diloíamos amarnosemos ainda é uma opção para a colocação dos pronomes oblíquos ou que o futuro do subjuntivo do verbo ver é vir Essa porém já não é a realidade de boa parte da língua escrita no Brasil que dirá da língua falada Do ponto de vista da história de cada indivíduo o aprendizado da língua falada sempre precede o aprendizado da língua escrita quando ele acontece Basta citar os bilhões de pessoas que nascem crescem vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever E no entanto ninguém pode negar que são falantes perfeitamente competentes de suas línguas maternas Do ponto de vista da história da humanidade é a mesma coisa A espécie humana tem pelo menos um milhão de anos Ora as primeiras formas de escrita conforme a classificação tradicional dos historiadores surgiram há apenas nove mil anos A humanidade portanto passou 990000 anos apenas falando Quando o estudo da gramática surgiu no entanto na Antigüidade clássica seu objetivo declarado era investigar as regras da língua escrita para poder preservar as formas consideradas mais corretas e elegantes da língua literária Aliás a palavra gramática em grego significa exatamente a arte de escrever Infelizmente essas mesmas regras da língua literária começaram a ser cobradas da língua falada o que é um disparate científico sem tamanho pg 56 Há cientistas que se dedicam especificamente a estudar as diferenças semelhanças interrelações e interações que existem entre as duas modalidades O ensino tradicional da língua no entanto quer que as pessoas falem sempre do mesmo modo como os grandes escritores escreveram suas obras A gramática tradicional despreza totalmente os fenômenos da língua oral e quer impor a ferro e fogo a língua literária como a única forma legítima de falar e escrever como a única manifestação lingüística que merece ser estudada Vejase por exemplo o caso da Nova gramática do português contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra Ao definirem o objetivo de seu trabalho os autores declaram no prefácio Tratase de uma tentativa de descrição do português atual na sua forma culta isto é da língua como a têm utilizado os escritores portugueses brasileiros e africanos do Romantismo para cá grifo meu Essa obra portanto só pode ser consultada por quem tiver dúvidas no momento de escrever um texto literário já que segundo os próprios autores não serão abordados fenômenos característicos de outras normas escritas como a jornalística ou a da produção científica muito menos os fenômenos típicos da língua falada A gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra é louvável pela honestidade com que declara seu objeto de estudo embora por diversas razões que não cabe aqui enumerar eles não cumpram o que prometem no prefácio pg 57 e acabem tratando de fatos da língua oral ao lado de fenômenos característicos da escrita A maioria das outras obras desse gênero porém não faz assim seus autores assumem a norma literária como a única digna de ser estudada ensinada e praticada e acham isso tão natural que nem se dão ao trabalho de definila como seu objeto de estudo Fica evidente que para eles só essa norma literária conservadora merece o título de língua portuguesa O que é dito ali vale para todas as variedades do português em qualquer lugar do mundo em qualquer momento histórico em qualquer classe social em qualquer faixa etária Portanto não é uma gramática é uma panacéia Essa ênfase no texto literário tem produzido uma visão redutora da língua identificandoa freqüentemente apenas com a regulamentação ortográfica Como se não bastasse os autores de compêndios gramaticais inclusive os mais recentes não fazem a distinção básica elementar entre ortografia e fonética isto é entre as regras da língua escrita e os fenômenos da língua oral Aliás por mais incrível que pareça muitos deles classificam a ortografia como uma das subdivisões da fonética É o mesmo que querer incluir os ursinhos de pelúcia na classe dos mamíferos carnívoros Gramático muito mais criterioso e atento é o rinoceronte Quindim personagem do Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato que levando as crianças do sítio a passear pelo País da Gramática insistiu muito para que seus alunos não confundissem letra e som p 6 pg 58 Trotou trotou e depois de muito trotar deu com eles numa região onde o ar chiava de modo estranho Que zumbido será este indagou a menina Narizinho Parece que andam voando por aqui milhões de vespas invisíveis É que já entramos em terras do País da Gramática explicou o rinoceronte Estes zumbidos são os Sons Orais que voam soltos no espaço Não comece a falar difícil que nós ficamos na mesma observou Emília Sons Orais que pedantismo é esse Som Oral quer dizer som produzido pela boca A E I O U são Sons Orais como dizem os senhores gramáticos Pois diga logo que são letras gritou Emília Mas não são letras protestou o rinoceronte Quando você diz A ou O você está produzindo um som não está escrevendo uma letra Letras são sinaizinhos que os homens usam para representar esses sons Primeiro há os Sons Orais depois é que aparecem as letras para marcar esses sons orais Entendeu O ar continuava num zunzum cada vez maior Os meninos pararam muito atentos a ouvir Estou percebendo muitos sons que conheço disse Pedrinho com a mão em concha ao ouvido Todos os sons que andam zumbindo por aqui são velhos conhecidos seus Pedrinho Querem ver que é o tal alfabeto lembrou Narizinho E é mesmo Estou distinguindo todas as letras do alfabeto Não menina você está apenas distinguindo todos os sons das letras do alfabeto corrigiu o rinoceronte com uma pachorra igual à de dona Benta Se você escrever cada um desses sons então sim então surgem as letras do alfabeto pg 59 Esse livro de Monteiro Lobato foi publicado em 1934 Mas as lições do rinoceronte Quindim ainda precisam ser lembradas e relembradas pois a literatura gramatical perpetua até hoje a confusão entre letra e fonema É assim que procedem por exemplo Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante em sua Gramática da língua portuguesa publicada no final de 1997 Por isso a gente não deve se surpreender quando esses autores explicam que a letra x representa o fonema š depois de um ditongo e dão como exemplo de palavras com ditongo ameixa caixa peixe eixo frouxo trouxa baixo sem fazer a menor menção ao fenômeno de monotongação que já atingiu essas palavras na língua falada no Brasil inclusive em sua norma culta urbana resultando nas pronúncias amêxa caxa pêxe êxo frôxo e baxo O termo ditongo dois sons que se aplica a um fenômeno fonético não cabe nesses exemplos que retratam simplesmente a convenção ortográfica que ainda conserva na escrita as duas letras vogais antes do X O que acontece é que esses monotongos podem vir a se ditongar em situações bem específicas tal como a redução da velocidade da fala com finalidade de dar ênfase ao enunciado Pensemos por exemplo no uso das palavras louco e loucura quando usadas de modo afetado para indicar coisas surpreendentes ou muito boas Foi uma louuucura Os mesmos autores dizem que na palavra QUAL existe um ditongo crescente quando qualquer brasileiro de ouvido mais afinado vai reconhecer aí na verdade um tritongo É muito restrita no português do Brasil a pronúncia pg 60 l ou ł para o L que aparece em final de sílaba Na grande maioria dos falares brasileiros esse L se pronúncia como a semivogal w É o velho preconceito grafocêntrico isto é a análise de toda a língua do ponto de vista restrito da escrita que impede o reconhecimento da verdadeira realidade lingüística Por isso temos de desconfiar desses livros que se autodenominam Gramática da língua portuguesa sem especificar seu objeto de estudo A língua portuguesa que eles abordam é uma variedade específica dentre as muitas existentes que tem de ser designada com todos os seus qualificativos Gramática da língua portuguesa escrita literária formal antiga Todos os demais fenômenos vivos da língua falada e de outras modalidades da língua escrita são deixados de fora desses livros pg 61 Mito n 7 É preciso saber gramática para falar e escrever bem É difícil encontrar alguém que não concorde com a declaração acima Ela vive na ponta da língua da grande maioria dos professores de português e está formulada em muitos compêndios gramaticais como a já citada Gramática de Cipro e Infante cujas primeiríssimas palavras são A Gramática é instrumento fundamental para o domínio do padrão culto da língua É muito comum também os pais de alunos cobrarem dos professores o ensino dos pontos de gramática tais como eles próprios os aprenderam em seu tempo de escola E não faltam casos de pais que protestaram veementemente contra professores e escolas que tentando adotar uma prática de ensino da língua menos conservadora não seguiam rigorosamente o que está nas gramáticas Conheço gente que tirou seus filhos de uma escola porque o livro didático ali adotado não ensinava coisas indispensáveis como antônimos coletivos e análise sintática Por que aquela declaração é um mito Porque como nos diz Mário Perini em Sofrendo a gramática p 50 não existe um grão de evidência em favor disso toda a evidência disponível é em contrário Afinal se fosse assim todos os gramáticos seriam grandes escritores o que está longe de ser verdade e os bons escritores seriam especialistas em gramática pg 62 Ora os escritores são os primeiros a dizer que gramática não é com eles Rubem Braga indiscutivelmente um dos grandes de nossa literatura escreveu uma crônica deliciosa a esse respeito chamada Nascer no Cairo ser fêmea de cupim Carlos Drummond de Andrade preciso de adjetivos para qualificálo no poema Aula de Português também dá testemunho de sua perturbação diante do mistério das figuras de gramática esquipáticas que compõem o amazonas de minha ignorância Drummond ignorante E o que dizer de Machado de Assis que ao abrir a gramática de um sobrinho se espantou com sua própria ignorância por não ter entendido nada Esse e outros casos são citados por Celso Pedro Luft em Língua e liberdade pp 2325 E esse mesmo autor nos diz p 21 Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais incute insegurança na linguagem gera aversão ao estudo do idioma medo à expressão livre e autêntica de si mesmo Mário Perini no livro que citamos acima chama a atenção para a propaganda enganosa contida no mito de que é preciso ensinar gramática para aprimorar o desempenho lingüístico dos alunos Quando justificamos o ensino de gramática dizendo que é para que os alunos venham a escrever ou ler ou falar melhor estamos prometendo uma mercadoria que não podemos entregar Os alunos percebem isso com bastante clareza embora talvez não o possam explicitar e esse é um dos fatores do descrédito da disciplina entre eles pg 63 E Sirio Possenti já citado lembranos que as primeiras gramáticas do Ocidente as gregas só foram elaboradas no século II a C mas que muito antes disso já existira na Grécia uma literatura ampla e diversificada que exerce influência até hoje em toda a cultura ocidental A Ilíada e a Odisséia já eram conhecidas no século VI a C Platão escreveu seus fascinantes Diálogos entre os séculos V e IV a C na mesma época do grande dramaturgo Esquilo verdadeiro criador da tragédia grega Que gramática eles consultaram Nenhuma Como puderam então escrever e falar tão bem sua língua O que aconteceu ao longo do tempo foi uma inversão da realidade histórica As gramáticas foram escritas precisamente para descrever e fixar como regras e padrões as manifestações lingüísticas usadas espontaneamente pelos escritores considerados dignos de admiração modelos a ser imitados Ou seja a gramática normativa é decorrência da língua é subordinada a ela dependente dela Como a gramática porém passou a ser um instrumento de poder e de controle surgiu essa concepção de que os falantes e escritores da língua é que precisam da gramática como se ela fosse uma espécie de fonte mística invisível da qual emana a língua bonita correta e pura A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática O que não está na gramática normativa não é português E os compêndios gramaticais se transformaram em livros sagrados cujos dogmas e cânones têm de ser obedecidos à risca para não se cometer nenhuma heresia pg 64 O resultado dessa inversão dos fatos históricos é visível por exemplo na Gramática de Cipro e Infante que na p 16 afirma A Gramática normativa estabelece a norma culta ou seja o padrão lingüístico que socialmente é considerado modelar As línguas que têm forma escrita como é o caso do português necessitam da Gramática normativa para que se garanta a existência de um padrão lingüístico uniforme Ora não é a gramática normativa que estabelece a norma culta A norma culta simplesmente existe como tal A tarefa de uma gramática seria isso sim definir identificar e localizar os falantes cultos coletar a língua usada por eles e descrever essa língua de forma clara objetiva e com critérios teóricos e metodológicos coerentes Sem isso não podemos confiar em gramáticas como a de Domingos Paschoal Cegalla que afirma simplesmente Este livro pretende ser uma Gramática Normativa da Língua Portuguesa do Brasil conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na época atual Novíssima gramática da língua portuguesa p xix Mas quem são essas pessoas cultas na época atual Com que critérios o autor as classificou de cultas Com que metodologia precisa identificou o modo como elas falam e escrevem Pois é disso precisamente que mais necessitamos hoje no Brasil da descrição detalhada e realista da norma culta objetiva com base em coletas confiáveis que se utilizem dos recursos tecnológicos mais avançados para que ela sirva de base ao ensinoaprendizagem pg 65 na escola e não mais uma norma fictícia que se inspira num ideal lingüístico inatingível baseado no uso literário artístico particular e exclusivo dos grandes escritores Afinal um instrutor de autoescola quer formar bons motoristas e não campeões internacionais de Fórmula 1 Um professor de português quer formar bons usuários da língua escrita e falada e não prováveis candidatos ao Prêmio Nobel de literatura Por outro lado não é a gramática normativa que vai garantir a existência de um padrão lingüístico uniforme Esse padrão lingüístico que pode chegar a certo grau de uniformidade mas nunca será totalmente uniforme pois é usado por seres humanos que nunca hão de ser criaturas física psicológica e socialmente idênticas como já dissemos existe na sociedade independentemente de haver ou não livros que o descrevam As plantas só existem porque os livros de botânica as descrevem É claro que não Os continentes só passaram a existir depois que os primeiros cartógrafos desenharam seus mapas Difícil acreditar A Terra só passou a ser esférica depois que as primeiras fotografias tiradas do espaço mostraramna assim Não Sem os livros de receitas não haveria culinária Eu sei muito bem que não a melhor cozinheira que conheço capaz de preparar centenas de pratos diferentes os mais sofisticados é uma pernambucana de quase oitenta anos cem por cento analfabeta Esse mito está ligado à milenar confusão que se faz entre língua e gramática normativa Mas é preciso desfazêla pg 66 Não há por que confundir o todo com a parte Lembrase do que eu falei na abertura do livro sobre a gramática normativa ser um igapó Acho que vale a pena repetir aqui Na Amazônia igapó é uma grande poça de água estagnada às margens de um rio sobretudo depois da cheia Acho uma boa metáfora para a gramática normativa Como eu disse enquanto a língua é um rio caudaloso longo e largo que nunca se detém em seu curso a gramática normativa é apenas um igapó uma grande poça de água parada um charco um brejo um terreno alagadiço à margem da língua Enquanto a água do riolíngua por estar em movimento se renova incessantemente a água do igapógramática normativa envelhece e só se renovará quando vier a próxima cheia É a mesma coisa que nos explica em termos científicos Luiz Carlos Cagliari em Alfabetização lingüística7 A gramática normativa foi num primeiro momento uma gramática descritiva de um dialeto de uma língua Depois a sociedade fez dela um corpo de leis para reger o uso da linguagem Por sua própria natureza uma gramática normativa está con denada ao fracasso já que a linguagem é um fenômeno dinâmico e as línguas mudam com o tempo e para continuar sendo a expressão do poder social demonstrado por um dialeto a gramática normativa deveria mudar Se não é o ensinoestudo da gramática que vai garantir a formação de bons usuários da língua o que vai garantila Existe muito debate a respeito entre os lingüistas pg 67 e os pedagogos O certo é que eles são praticamente unânimes em combater aquele mito Há lugar para a gramática na escola Parece que sim Mas também parece ser um lugar bastante diferente do que lhe era atribuído na prática tradicional de ensino da língua Na terceira parte deste livro tentarei expor algumas opiniões a respeito De todo modo algumas pessoas muito competentes já explicaram tudo isso melhor do que eu seria capaz Por isso ao leitor e à leitora interessados nesse tema recomendo a leitura entre outros dos já citados Sofrendo a gramática de Mário Perini Por que não ensinar gramática na escola de Sírio Possenti e Língua e liberdade de Celso Pedro Luft e também Linguagem língua e fala de Ernani Terra Contradições no ensino de português de Rosa Virgínia Mattos e Silva e Gramática na escola de Maria Helena de Moura Neves Esses livros nos ajudam a compreender melhor os mecanismos de exclusão que agem por trás da imposição das normas gramaticais conservadoras no ensino da língua e de que 7 Citado por Ernani Terra Linguagem língua e fala p 46 modo poderíamos em nossa prática pedagógica tentar desmontá los pg 68 Mito n8 O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social Este mito que vem fechar nosso circuito mitológico tem muito que ver com o primeiro o mito da unidade lingüística do Brasil Esses dois mitos são aparentados porque ambos tocam em sérias questões sociais É muito comum encontrar pessoas muito bem intencionadas que dizem que a norma padrão conservadora tradicional literária clássica é que tem de ser mesmo ensinada nas escolas porque ela é um instrumento de ascensão social Seria então o caso de dar uma língua àqueles que eu chamei de sem língua Ora se o domínio da norma culta fosse realmente um instrumento de ascensão na sociedade os professores de português ocupariam o topo da pirâmide social econômica e política do país não é mesmo Afinal supostamente ninguém melhor do que eles domina a norma culta Só que a verdade está muito longe disso como bem sabemos nós professores a quem são pagos alguns dos salários mais obscenos de nossa sociedade Por outro lado um grande fazendeiro que tenha apenas alguns poucos anos de estudo primário mas que seja dono de milhares de cabeças de gado de indústrias agrícolas e detentor de grande influência política em sua região vai poder falar à vontade sua língua de caipira com todas as formas sintáticas consideradas erradas pela gramática pg 69 tradicional porque ninguém vai se atrever a corrigir seu modo de falar O que estou tentando dizer é que o domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha todos os dentes que não tenha casa decente para morar água encanada luz elétrica e rede de esgoto O domínio da norma culta de nada vai servir a uma pessoa que não tenha acesso às tecnologias modernas aos avanços da medicina aos empregos bem remunerados à participação ativa e consciente nas decisões políticas que afetam sua vida e a de seus concidadãos O domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente a uma pessoa que viva numa zona rural onde um punhado de senhores feudais controlam extensões gigantescas de terra fértil enquanto milhões de famílias de lavradores semterra não têm o que comer Achar que basta ensinar a norma culta a uma criança pobre para que ela suba na vida é o mesmo que achar que é preciso aumentar o número de policiais na rua e de vagas nas penitenciárias para resolver o problema da violência urbana A violência urbana está intimamente ligada a uma situação social de profunda injustiça que dá ao Brasil como eu já disse o triste segundo lugar entre os países com a pior distribuição de renda de todo o mundo perdendo apenas para Botswana um país africano desértico muito menor e muito menos desenvolvido É preciso garantir sim a todos os brasileiros o reconhecimento sem o tradicional julgamento de valor da pg 70 variação lingüística porque o mero domínio da norma culta não é uma fórmula mágica que de um momento para outro vai resolver todos os problemas de um indivíduo carente É preciso favorecer esse reconhecimento mas também garantir o acesso à educação em seu sentido mais amplo aos bens culturais à saúde e à habitação ao transporte de boa qualidade à vida digna de cidadão merecedor de todo respeito Como é fácil perceber o que está em jogo não é a simples transformação de um indivíduo que vai deixar de ser um sem língua padrão para tornarse um falante da variedade culta O que está em jogo é a transformação da sociedade como um todo pois enquanto vivermos numa estrutura social cuja existência mesma exige desigualdades sociais profundas toda tentativa de promover a ascensão social dos marginalizados é senão hipócrita e cínica pelo menos de uma boa intenção paternalista e ingênua Por isso eu me pergunto será que doando a língua padrão a um indivíduo das classes subalternas ele vai automaticamente tornarse um patrão Não é mera coincidência etimológica o fato de padrão e patrão serem duas formas divergentes de uma mesma origem comum o latim patronu que tem também a mesma raiz de paternalismo e patriarcalismo Valerá mesmo a pena promover a ascensão social para que alguém se enquadre dentro desta sociedade em que vivemos tal como ela se apresenta hoje Basta pensar um pouco nos indivíduos que detêm o poder no Brasil não são quando são apenas falantes da norma culta mas são sobretudo em sua grande maioria homens pg 71 brancos heterossexuais nascidoscriados na porção SulSudeste do país ou oriundos das oligarquias feudais do Nordeste Como eu já tinha avisado na abertura do livro falar da língua é falar de política e em nenhum momento esta reflexão política pode estar ausente de nossas posturas teóricas e de nossas atitudes práticas de cidadão de professor e de cientista Do contrário estaremos apenas contribuindo para a manutenção do círculo vicioso do preconceito lingüístico e do irmão gêmeo dele o círculo vicioso da injustiça social pg 72 II O círculo vicioso do preconceito lingüístico 1 Os três elementos que são quatro Os mitos que acabamos de examinar são transmitidos e perpetuados em nossa sociedade cada um deles em grau maior ou menor por um mecanismo que podemos chamar de círculo vicioso do preconceito lingüístico Esse círculo vicioso se forma pela união de três elementos que sem desrespeitar meus amigos teólogos costumo denominar Santíssima Trindade do preconceito lingüístico Esses três elementos são a gramática tradicional os métodos tradicionais de ensino e os livros didáticos Como é que se forma esse círculo Assim a gramática tradicional inspira a prática de ensino que por sua pg 73 vez provoca o surgimento da indústria do livro didático cujos autores fechando o círculo recorrem à gramática tradicional como fonte de concepções e teorias sobre a língua Á gramática tradicional em sua vertente normativo prescritivista continua firme e forte como é fácil verificar nos compêndios gramaticais mais recentes As práticas de ensino variam muito de região para região de escola para escola e até de professor para professor de acordo com as concepções pedagógicas adotadas A tendência atual mencionada no início deste livro à crítica dos preconceitos e ao exercício da tolerância tem tornado o ambiente escolar bastante mais respirável e democrático do que por exemplo na época em que estudei em plena ditadura militar Como já vimos a mais alta instância educacional do país o Ministério da Educação tem feito esforços louváveis para provocar uma reflexão sobre os temas relativos à ética e à cidadania plena do indivíduo para estimular uma postura menos dogmática e mais flexível por parte pelo menos das escolas públicas Os já citados Parâmetros curriculares nacionais reconhecem que existe muito preconceito decorrente do valor atribuído às variedades padrão e ao estigma associado às variedades nãopadrão consideradas inferiores ou erradas pela gramática Essas diferenças não são imediatamente reconhecidas e quando são são objeto de avaliação negativa Para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão a escola precisa livrarse de vários mitos o de que pg 74 existe uma forma correta de falar o de que a fala de uma região é melhor do que a de outras o de que a fala correta é a que se aproxima da língua escrita o de que o brasileiro fala mal o português o de que o português é uma língua difícil o de que é preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado Essas crenças insustentáveis produziram uma prática de mutilação cultural 1 1 Ministério da Educação e do Desporto 1998 Parâmetros curriculares nacionais Língua Portuguesa 5ª a 8a séries p 31 Temos ainda de esperar para ver em que medida esses esforços se refletirão na prática quotidiana efetiva dos professores em sala de aula Acompanhando esse movimento muitas editoras vêm tentando produzir um material didático mais compatível com as novas concepções pedagógicas e o sistema oficial de avaliação dos livros didáticos apesar de muito criticado tem contribuído para uma revisão das formas tradicionais de elaboração desse tipo de livro Mas os preconceitos como bem sabemos impregnamse de tal maneira na mentalidade das pessoas que as atitudes preconceituosas se tornam parte integrante do nosso próprio modo de ser e de estar no mundo É necessário um trabalho lento contínuo e profundo de conscientização para que se comece a desmascarar os mecanismos perversos que compõem a mitologia do preconceito E o tipo mais trágico de preconceito não é aquele que é exercido por uma pessoa em relação a outra mas o preconceito pg 75 que uma pessoa exerce contra si mesma Infelizmente ainda existem muitas mulheres que se consideram inferiores aos homens existem negros que acreditam que seu lugar é mesmo de subserviência em relação aos brancos existem homossexuais convictos de que sofrem de uma doença que pode inclusive ser curada Do mesmo modo muitos brasileiros acreditam que não sabem português que português é muito difícil ou que a língua falada aqui é toda errada E ao contrário dos demais preconceitos que vêm sendo atacados com algum sucesso com diversos métodos de combate o preconceito lingüístico prossegue sua marcha Se já existe uma mudança de atitude nos livros didáticos e na pedagogia oficial por que o círculo vicioso do preconceito lingüístico continua girando Intrigado com isso comecei a prestar atenção à minha volta e cheguei à conclusão de que o círculo vicioso não estava completo Descobri que assim como os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas são quatro também existe um quarto elemento oculto dentro daquele círculo Como este quarto elemento não é tão compactamente institucionalizado quanto os demais a gente deixa de percebêlo Mas afinal que quarto elemento é esse É aquilo que resolvi chamar de comandos paragramaticais É todo esse arsenal de livros manuais de redação de empresas jornalísticas programas de rádio e de televisão colunas de jornal e de revista CDROMS consultórios gramaticais pg 76 por telefone e por aí afora É a saudável epidemia a que se refere Arnaldo Niskier no artigo que citei ao falar do Mito n 2 epidemia que para mim nada tem de saudável e vou explicar por quê O que os comandos paragramaticais poderiam representar de utilidade para quem tem dúvidas na hora de falar ou de escrever acaba se perdendo por trás da espessa neblina de preconceito que envolve essas manifestações da multimídia Assim tudo o que elas fazem de concreto é perpetuar as velhas noções de que brasileiro não sabe português e de que português é muito difícil É uma pena que seja assim Todo esse formidável poder de influência dos meios de comunicação e dos recursos da informática poderia ser de grande utilidade se fosse usado precisamente na direção oposta na destruição dos velhos mitos na elevação da auto estima lingüística dos brasileiros na divulgação do que há de realmente fascinante no estudo da língua Mas não é assim Toda vez que alguém se põe a falar da situação lingüística do Brasil é para repetir as mesmas queixas e lamúrias de cem anos atrás ou mais Um exemplo Na entrevista de Pasquale Cipro Neto à revista Veja que citamos na primeira parte deste livro o texto que antecede a entrevista propriamente dita repisa aqueles mesmos chavões bolorentos professor de português um idioma que de tão maltratado no diaadia dos brasileiros precisa ser divulgado e explicado para os milhões que o têm como língua materna pg 77 E a primeira pergunta como era de prever diante de uma abertura tão pessimista só podia ser Por que o português é tão mal falado e tão mal escrito no Brasil E o entrevistado parte logo para a explicação das causas visíveis dessa situação sem contestar em momento algum a afirmação fácil de negar contida na pergunta E da mesma forma como Cândido de Figueiredo em 1903 e Arnaldo Niskier em 1998 ele investe contra os estrangeirismos declarando que o sujeito que usa um termo em inglês no lugar do equivalente em português é na minha opinião um idiota Ora se ele mesmo reconhece que o uso de estrangeirismos é a face mais irritante de um país colonizado culturalmente como o nosso é injusto chamar de idiota a pessoa que é de fato uma vítima dessa colonização cultural Se nosso comércio está repleto de nomes em inglês é porque os comerciantes e os industriais sabem que isso atrai mais o público que qualquer produto com aparência de estrangeiro tem maior aceitação por parte do consumidor Quanto aos comandos paragramaticais não faltam exemplos do preconceito lingüístico que os orienta Como o espaço de que disponho neste livro é muito pequeno não será possível fazer um exame pormenorizado de muitas dessas manifestações preconceituosas por isso me limitarei a algumas mais gritantes que merecem ser denunciadas pg 78 2 Sob o império de Napoleão O mais respeitado e renomado propagador do preconceito lingüístico por meio de comandos paragramaticais no Brasil foi durante longas décadas o professor Napoleão Mendes de Almeida até falecer no começo de 1998 aos 87 anos Ele nunca escondeu sua intolerância e seu autoritarismo em suas colunas de jornal e é fácil verificálo nas mais de 600 páginas de seu Dicionário de questões vernáculas Como ele foi e ainda é aclamado por muitos como um defensor intransigente da língua pareceme oportuno mostrar de que maneira ele exerceu essa sua defesa O verbete VERNÁCULO do citado Dicionário começa assim Os delinqüentes da língua portuguesa fazem do princípio histórico quem faz a língua é o povo verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo de sua gramática de seu vocabulário esquecidos de que a falta de escola é que ocasiona a transformação a deterioração o apodrecimento de uma língua Cozinheiras babás engraxates trombadinhas vagabundos criminosos é que devem figurar segundo esses derrotistas como verdadeiros mestres de nossa sintaxe e legítimos defensores do nosso vocabulário Basta esse parágrafo para demonstrar que além do preconceito lingüístico está aí manifestado um profundo preconceito social Em outras passagens do livro ele fala novamente de língua de cozinheiras e de infelizes caipiras pg 79 Para Napoleão Mendes de Almeida a literatura brasileira morreu em 1908 junto com Machado de Assis Toda a vasta produção do Modernismo e dos períodos seguintes é merecedora de seu mais profundo desprezo Escritor é o que tem forma e conteúdo aquela terá quem conhecer o idioma este quem tiver erudição e principalmente cultura Se somente a forma temos o frívolo se somente o conteúdo temos o técnico se as duas coisas temos o escritor se nenhuma delas teremos o modernista Recusase a escrever o nome de Carlos Drummond de Andrade a quem nega o título de poeta e escritor por ter usado o verbo ter no lugar de haver no célebre poema No meio do caminho pecado suficiente para condenálo ao inferno dos gramáticos As explicações de Napoleão se baseiam exclusivamente em comparações com o latim e o grego e freqüentemente atribuem a origem dos supostos erros da sintaxe dos brasileiros à imitação servil do francês ou do inglês desconsiderando sistematicamente todas as contribuições da ciência lingüística moderna Aliás no verbete LINGÜÍSTICA ele deixa transparecer sua desinformação acerca do que realmente é essa ciência A lingüística não estuda idioma nem gramática nenhuma a lingüística estuda a fala explica fatos naturais de articulação de formas de expressão oral do ser humano como estudo da estrutura das línguas em geral não vai além da fonética Enganamse os pais enganamse os filhos quando pensam estar a escola a faculdade ensinando gramática ensinando a língua da terra porque no programa consta lingüística O objeto da lingüística pg 80 é a língua no sentido da fala de dom de expressar o homem por palavras o pensamento é um estudo sem utilidade específica para este ou aquele idioma É um dos grandes enganos de certas faculdades de letras fazer alunos acreditar que estão a aprender a língua de sua terra com explanações de estrutura da fala do homem É a lingüística um dos estorvos do aprendizado da língua portuguesa em escolas brasileiras Para ele estudar lingüística é fixar inúteis pretensiosas e ridículas bizantinices Fica evidente por essas palavras que o professor Napoleão jamais pôs os pés numa boa universidade depois que o ensino da lingüística foi instituído nos cursos de letras do Brasil E que tampouco leu um único sequer dos muitíssimos livros intitulados Introdução à lingüística para saber qual é o verdadeiro objeto de estudo dessa ciência Acreditar que a lingüística não vai além da fonética é de uma ingenuidade imperdoável em alguém que julgava ter autoridade suficiente para policiar a língua dos jornalistas e dos escritores para decretar o que é certo e errado no português brasileiro para afirmar sem papas na língua no verbete VERNÁCULO que é português estropiado que no Brasil se fala língua de gíria língua sem peias sintáticas língua de flexão arbitrária língua do deixô vê do mande ele do já te disse que você do não lhe conheço do fiz ele estudar do vi os meninos saírem Esse seu total desconhecimento da lingüística é que lhe permite fazer conjecturas sem nenhum fundamento científico ou de qualquer outra natureza como pg 81 A gramática no que diz respeito à função da palavra é internacional O que é sujeito em português é sujeito em chinês o que é objeto direto em nosso idioma é objeto direto em qualquer outro e o mesmo se diga de todas as funções sintáticas e de todas as classes de palavras Essa gramática internacional é pura ficção fruto da ignorância lingüística do autor Para comprovar isso e usando o exemplo que ele mesmo sugeriu o chinês basta um breve exame da literatura científica especializada em chinês não existe nenhuma morfologia de casos que assinale diferenças entre relações gramaticais como sujeito objeto direto ou objeto indireto nem existe qualquer concordância ou flexão verbal para indicar o que é sujeito e o que é objeto No chinês de fato há poucas razões gramaticais para se postular relações gramaticais embora haja é claro meios de distinguir quem fez o quê a quem tal como existem em todas as línguas2 Além disso o mesmo estudo diz que em chinês não há nada que se possa classificar de adjetivos desmentindo portanto o que Napoleão pensa acerca da internacionalidade das classes de palavras No caso de Napoleão Mendes de Almeida a carga de preconceito lingüístico já não é a neblina espessa a que me referi mais acima é uma verdadeira parede de rocha impermeável e intransponível que impede o acesso a pg 82 qualquer eventual utilidade que suas explicações possam ter Seu Dicionário de questões vernáculas da perspectiva da ética mais elementar desrespeita os direitos lingüísticos dos cidadãos brasileiros 3 Um festival de asneiras Na mesma linha de conduta preconceituosa se encontra o livro Não erre mais de Luiz Antonio Sacconi A edição que tenho é a 23a de 1998 o que mostra o amplo sucesso da obra um verdadeiro best seller Tratase contudo de um prato cheio 420 páginas para quem desejar ver em letra impressa a perpetuação de todos os preconceitos que examinamos na primeira parte deste livro 2 LI Charles THOMPSON Sandra Chinese in COMRIE B ed The Worlds Major Languages London Routledge 1987 pp 824825Tradução minha Quais são os problemas de Não erre mais Para começar o livro não tem o mais remoto critério de organização os supostos erros são encadeados caoticamente um após o outro sem nenhuma distribuição baseada em tipos de erros ortográficos fonéticos sintáticos morfológicos nem na mais elementar ordem alfabética de assunto Em seguida tenta ensinar coisas perfeitamente inúteis como a pronúncia correta do nome inglês do modelo de um carro que por sinal já deixou de ser fabricado Monza Classic SE e também das siglas FNM e DKW igualmente extintas a grafia correta do apelido da apresentadora de televisão Xuxa que segundo ele deveria se escrever Chucha ou a conjugação do verbo apropinquar se que ninguém em sã consciência usa no Brasil a menos que queira provocar risos ou passar por pedante pg 83 Além disso corrige erros cometidos por uma única pessoa em determinada ocasião em determinado momento que não têm portanto a freqüência de uma regra variável o que os prescritivistas chamam de erro comum mas lapsos cometidos por alguém o que não justifica sua inclusão num livro desse tipo Mas o pior de tudo é a enxurrada de expressões preconceituosas que inundam o livro de ponta a ponta Apesar de Sacconi atribuílas à sua índole espirituosa e dizer que isso nada tem que ver com desprezo ou menosprezo aos ignorantes o uso mesmo do termo ignorantes já constitui um sinal desse desprezo ou menosprezo Porque lendo o livro o leitor descobre que todos os brasileiros com exceção do autor são ignorantes no que diz respeito à língua a cada página surge uma invectiva contra uma entidade amorfa e indefinida chamada povo contra os jornalistas em bloco contra os autores de dicionários contra a Academia Brasileira de Letras contra escritores clássicos contra outros gramáticos contra especialistas nas mais diversas ciências e técnicas Fica claro então que a norma culta é uma flor única que só germina no jardim da casa dele Afinal se todos os mapas e livros de geografia trazem a forma Antártida que autoridade tem Sacconi para dizer que isso é lamentável e que a forma certa é Antártica Vamos examinar apenas as primeiras cem páginas de Não erre mais ir além disso seria maltratar demais o estômago do leitor Nelas aparecem doze palavras derivadas pg 84 de asno asininoasneiraasnice para se referir àqueles mesmos ignorantes mencionados no texto de abertura do livro Sendo ao todo 420 páginas podemos imaginar quantas mais não aparecerão Língua de jacu é outra das expressões favoritas dele Sacconi se revela desse modo um discípulo fiel e imitador perfeito de Cândido de Figueiredo que em O que se não deve dizer de 1903 declara Em geral os espíritos fortes na asneira julgam microscópicas as questões de letras e até as questões de palavras vol 1 p 17 Os jornalistas são o alvo preferido das tiradas preconceituosas do autor de Não erre mais essa mesma imprensa para não fugir à sua regra maior que é ignorar a coerência põe os pés pelas mãos p 30 Essa gente que escreve em jornais é uma gracinha p 40 Alguns de nossos jornais e jornalistas se tornaram um problema a mais para todos os professores de Português Até quando p 45 excrescências comuns na boca e na pena de certos jornalistas versados em esporte p 52 Há jornalistas que de fato inventam a toda a hora aprontam com todo o mundo p 54 Os jornalistas usam o aumento do funcionalismo o aumento da gasolina o aumento da carne É o mais puro aumento da incompetência p 68 pg 85 Os brasileiros por exemplo vivem mal e parcamente num país onde os jornalistas escrevem muito mal e parcamente p 77 Pra quem não sabe redação de jornal é um lugar aonde só deveria ir gente que conhecesse um pouquinho a língua Só um pouquinho p 78 Essa gente ainda vai um dia inventar uma nova língua inteligível só para si mesmos p 82 Não vamos aumentar o diapasão de críticas que temos feito a alguns jornalistas p 86 A qualidade de nossos jornais piora É preciso acrescentar ainda mais p 94 Não bastasse esse ataque aos jornalistas Sacconi não hesita em ofender preconceituosamente outros segmentos sociais Para ele a regência namorar com é coisa de italianos p 7 Para ele a forma peãozada só pode existir na fala pois o correto na escrita é peonada e aconselha os peões a que tenham o bomsenso de trocar essa forma pela outra quando escrevem Se é que escrevem p 8 mostrando que na sua opinião todo peão é necessariamente analfabeto O mesmo acontece em relação aos erros supostamente cometidos por caminhoneiros Camioneiros contudo incansáveis trabalhadores merecem todo o perdão deste mundo p 21 Seu ideário político também fica manifesto em declarações do tipo Hoje em dia existem pessoas que fazem curso superior em greves formamse no assunto e mostramse tão competentes pg 86 no ofício que decidem em nome de toda a classe que representam pela continuidade da greve p 10 Recentemente todavia um comentarista de futebol membro do PT corintiano resolveu dizer no ar mais asneiras do que comumente diz sobre aquilo que diz entender futebol p 13 Há declarações preconceituosas para quase todos os segmentos da sociedade Costumo dizer que algarismo romano é como vizinho devemos evitálo tanto quanto possível p 65 Leuse porém num jornal Martins é quase um octogenário Certamente quem escreveu isso estaria bem para lá disso p 68 São os dicionários que já passam dos setecentos anos senão a obra o seu autor p 68 Na Bahia porém na sempre formidável Bahia as pessoas se acordam O mais interessante é que se acordam e vão direto à praia p 73 Sacconi aceita a crença primitiva e ingênua de que a palavra e o objeto a que ela se refere são uma e a mesma coisa se a forma da palavra está errada o objeto não existe Falando do nome Antártida p 15 ele diz Eis aí uma região do globo que em verdade não existe Ao comentar o deslize de um repórter de televisão que pronunciou ibero em lugar de ibéro ao referirse a um festival de rock Sacconi afirma Esse festival garantimos não existiu E ao condenar o uso do artigo a diante do nome da cidade de Franca conforme tradição pg 87 antiga entre os lá nascidos na frase Moro na Franca ele rebate Não mora Numa atitude totalmente oposta à de um cientista da linguagem cuja tarefa principal seria a descrição dos fatos da língua ou à de um professor que se esforçaria em justificar com explicações razoáveis a preferência por esta ou aquela forma de uso da língua ele após decretar o que é certo ou errado reafirma nosso Mito n 3 Não perca nenhum tempo em perguntar por quê caro leitor basta não esquecer que estamos estudando a língua portuguesa Com certeza p 14 Ou seja a língua portuguesa é difícil e cheia de mistérios inexplicáveis como reza a mitologia do preconceito lingüístico Do ponto de vista das concepções lingüísticas do autor o livro também é um desastre Condena usos que já estão há muito consagrados na norma culta real e não na fictícia que só ele conhece abonados nos mais diversos dicionários e na obra de muitos escritores de reconhecido talento Tenta impor formas arcaicas que causariam estranheza a qualquer falante bem instruído e abolir construções que são perfeitamente aceitáveis resultantes das inevitáveis transformações por que a língua passa Sua desinformação acerca das noções básicas de lingüística sobretudo de sociolingüística e de história da língua levamno a atribuir obsessivamente à Bahia e a uma suposta influência africana uma série de variantes do pg 88 português do Brasil que se encontram documentadas nas mais diversas regiões do país inclusive naquelas em que a presença negra foi ou é mínima O que ele diz a respeito das línguas indígenas carece igualmente de toda fundamentação científica Alguns preferem usar taio no lugar de talho transformando o lh em i fato comum em certas regiões do País mormente naquelas que receberam influência do elemento africano p 32 Em algumas regiões do Brasil na Bahia principalmente o d dos gerúndios não soa Dizem então correno andano caíno em vez de correndo andando caindo Tratase de um caso típico de influência africana que a Bahia recebeu enormemente Também ao elemento negro devemos o fato de pronunciarmos muitas vezes a os infinitivos sem o r final casá vendê menti b apenas é o el tônico final papé ané coroné c tamém em vez de também fulô em vez de flor sinhô sinhá em vez de senhor senhora fedô em vez de fedor etc d muié em vez de mulher paiaço em vez de palhaço p 38 Ocorre que nas regiões banhadas pelo legendário rio Tietê utilizado pelos bandeirantes as pessoas realmente trocam o l pelo r arto iguar tarco etc por influência da língua dos indígenas que não conheciam o som lê mas apenas o som rê brando de caro barato Os bandeirantes preocupados em se aproximar dos índios e das suas riquezas faziam o que podiam para serem compreensíveis para serem amáveis gentis Assim toda palavra que tinha lê sofria a natural modificação Começou então dessa forma o hábito de trocar o l por r fenômeno conhecido pelo nome de rotacismo muito comum pg 89 nas cidades paulistas de Tatuí Piracicaba Tietê Laranjal Porto Feliz Itu Salto Capivari etc p 98 A vocalização do fonema λ que representamos graficamente com o LH é um fenômeno que se verificou na história do francês e que está amplamente representado em diferentes variedades do castelhano faladas na Espanha e em países da América Central e do Sul Não me consta que essas línguas tenham recebido influência negra nem muito menos baiana Além disso esse fenômeno não acontece apenas em certas regiões do País ele está presente em todas as variedades nãopadrão do português brasileiro do Amazonas ao Rio Grande do Sul Ele tem explicações fonéticas e sociolingüísticas muito mais complexas do que a mera influência africana Quanto à assimilação do tipo nd nn n sobretudo nos gerúndios ela se verifica também no dialeto napolitano falado numa região o sul da Itália onde até que os historiadores me desmintam não houve escravidão de negros africanos nem colonização baiana Ela existe amplamente documentada mais uma vez em todas as variedades nãopadrão do português brasileiro e até mesmo na fala descontraída de muitas pessoas das camadas urbanas cultas Tratase novamente de um fenômeno fonético muito natural que um rápido exame da história da língua esclarece sem dificuldades Por seu turno a explicação dada pelo autor ao fenômeno do rotacismo é um verdadeiro disparate científico Primeiro porque os bandeirantes simplesmente não falavam pg 90 português a língua que a grande maioria deles empregava era o que então se chamava língua geral língua brasílica ou nheengatu uma língua de base tupi que funcionava como instrumento de comunicação entre as diferentes nações indígenas em todo o litoral brasileiro e parte do interior No século XVII em cada cinco habitantes da cidade de São Paulo apenas dois conheciam o português O bandeirante paulista convocado para destruir o quilombo de Palmares Domingos Jorge Velho foi descrito pelo bispo de Pernambuco como um bárbaro que nem falar sabe e as autoridades pernambucanas que o contrataram tinham de usar um intérprete para se comunicar com ele que só falava a língua geral Como nos explicam os historiadores os bandeirantes em sua maioria eram mamelucos isto é filhos de pai português e mãe índia desconheciam totalmente a língua paterna e só falavam a materna Nos primeiros dois séculos após a chegada de Cabral o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo O idioma dos colonizadores só conseguiu se impor no litoral no século XVII e no interior no XVIII Em São Paulo até o começo do século passado era possível escutar alguns caipiras contando casos em língua indígena No Pará os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40 Era o idioma do povoenquanto o português ficava para os governantes e para os negócios com a metrópole Derivado do dialeto de São Vicente o tupi de São Paulo se desenvolveu e se espalhou no século XVIII graças ao isolamento geográfico da cidade e à atividade pouco cristã dos pg 91 mamelucos paulistas as bandeiras expedições ao sertão em busca de escravos índios3 Por isso os bandeirantes não precisavam fazer o que podiam para serem compreensíveis para serem amáveis gentis Muito pelo contrário o que a história nos conta é que os bandeirantes eram de uma crueldade desumana para com os índios a quem buscavam escravizar a toda força despojandoos de suas terras de suas riquezas e muitas vezes de suas vidas Contase de uma expedição bandeirante que capturou no sertão 500 índios para escravizálos mas que desses só 50 chegaram a São Paulo por causa dos esforços dos bandeirantes para serem amáveis gentis Segundo o rotacismo que se verifica em alto arto também aconteceu na língua portuguesa padrão em seu período de formação Assim do árabe ALMAKHAZAN deriva o português armazém O que acontece de fato é que as consoantes l e r são 3 Superinteressante dezembro de 1998 pp 82 e 84 Essa matéria da revista muito bem elaborada apóiase em depoimentos de alguns importantes conhecedores das línguas indígenas brasileiras inclusive aquele considerado o maior deles o professor Aryon Rodrigues da Universidade de Brasília do ponto de vista articulatório parentas muito próximas o que faz com que na história de muitas línguas e não só do português das regiões banhadas pelo legendário rio Tietê elas se substituam uma à outra indiferentemente São as chamadas consoantes líquidas que também têm muito parentesco com as vogais o que faz também com que em algumas variedades pg 92 sejam substituídas por vogais como é o caso do L de final de sílaba que em quase todo o Brasil é pronunciado como um w Assim o nome próprio Guilherme nos veio de um germânico WILHELM enquanto nosso Geraldo veio do também germânico GEHRHARDT Na língua culta coexistem as formas aluguel e aluguer e nosso papel se originou do provençal papér e este do grego papyros No português medieval ao lado de flor havia a forma frol cujo plural fróes sobreviveu como nome de família A cidade do norte da África que em francês se chama Alger do árabe aljazird em português é Argel donde o nome do país Argélia em francês Algérie E a nossa palavra porão deriva do latim planu deve ter ocorrido primeiro o rotacism pl pr e depois a quebra do grupo consonantal com a introdução de uma vogai o exatamente como acontece na forma dialetal brasileira fulô E tudo isso uns bons séculos antes da descoberta da Bahia A troca de r por l se chama lambdacismo Ela ocorre no português nãopadrão em variantes como calvão celveja galfo O que as pesquisas dos sociolingüistas e dos foneticistas nos explicam é que tanto o rotacismo quanto o lambdacismo ocorrem em ambien tes fonéticos específicos isto é diante de determinadas consoantes quem diz calvão por exemplo não diz calta mas sim carta ou de acordo com a posição do fonema na palavra A vocalização do λ a assimilação nd nn n e o rotacismo são fenômenos que caracterizam as variedades pg 93 nãopadrão sobretudo rurais do português do Brasil e que por isso recebem uma forte carga de estigmatização isto é sofrem um grande preconceito por parte dos falantes das variedades urbanas Tentei explicálos cientificamente e espero sem preconceitos no meu livro A língua de Eulália Como é fácil concluir o livro Não erre mais está repleto de erros erros de descrição dos fenômenos lingüísticos e sobretudo erros de conduta preconceituosa e nada ética Podemos dizer portanto usando as palavras do próprio Sacconi p 63 que se trata de um verdadeiro festival de asneiras 4 Beethoven não é dançado Nossa última investigação da presença epidêmica para usar de novo o termo proposto por Arnaldo Niskier do preconceito lingüístico nos comandos paragramaticais usará como material de análise uma coluna de jornal chamada Dicas de Português assinada por Dad Squarisi Vamos reproduzir o texto tal como publicado no Diário de Pernambuco de 151198 Essa mesma coluna porém já tinha sido estampada no Correio Braziliense algum tempo antes 22696 época em que o presidente Fernando Henrique Cardoso numa visita a Portugal acusou os brasileiros de serem todos caipiras declaração infelicíssima e desastrosa caipira não pode ser usado como ofensa com a qual todavia Squarisi parece concordar plenamente já que qualifica o presidente de iluminado pg 94 A republicação da coluna mais de dois anos depois prova que se trata de material distribuído por agência de notícias com possibilidade de já ter sido ou de ainda vir a ser publicado em outros jornais uma perspectiva que confesso me dá arrepios Por quê Leia você mesmo e descubra Português ou Caipirês Dad Squarisi Fiat lux E a luz se fez Clareou este mundão cheinho de jecas tatus À direita à esquerda à frente atrás só se vê uma paisagem Caipiras caipiras e mais caipiras Alguns deslumbrados outros desconfiados Um só um iluminado Pobre peixinho fora dágua Tão longe da Europa mas tão perto de paulistas cariocas baianos e maranhenses Antes tarde do que nunca A definição do caráter tupiniquim lançou luz sobre um quebracabeça que atormenta este país capiau desde o século passado Que língua falamos A resposta veio das terras lusitanas Falamos o caipirês Sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa Vale tudo eu era tu era nós era eles era Por isso não fazemos concordância em frases como Não se ataca as causas ou Vendese carros Na língua de Camões o verbo está enquadrado na lei da concordância Sujeito no plural O verbo vai atrás Sem choro nem vela Os sujeitos causas e carros estão no plural O verbo vaquinha de presépio deveria acompanhálos Mas se faz de morto O matuto ingênuo passa batido Sabe por quê O sujeito pode ser ativo ou passivo Ativo pratica a ação expressa pelo verbo Os caipiras sujeito desconhecem ação pg 95 o outro lado Passivo sofre a ação O outro lado sujeito é desconhecido ação pelos caipiras Reparou O sujeito o outro lado não pratica a ação Há duas formas de construir a voz passiva a com o verbo ser passiva analítica A cultura caipira é estudada por ensaístas Os carros são vendidos pela concessionária b com o pronome se passiva sintética estudase a cultura caipira Vendemse carros No caso não aparece o agente Mas o sujeito está lá Passivo mas firme Dica use o truque dos tabaréus cuidadosos troque a passiva sintética pela analítica E faça a concordância com o sujeito Vende se casas ou vendemse casas Casas são vendidas logo Vendemse casas Não se ataca ou não se atacam as causas As causas não são atacadas não se atacam as causas Fezse ou fizeramse a luz A luz foi feita fezse a luz Firmouse ou firmaramse acordos Acordos foram firmados firmaramse acordos Na dúvida não bobeie Recorra ao truque Só assim você chega lá e ganha o passaporte para o mundo Adeus Caipirolândia O que mais me impressionou nesse texto foi seu poder de síntese em poucos parágrafos a autora conseguiu reunir praticamente todos os chavões rançosos que compõem o preconceito lingüístico Os preconceitos sociais e étnicos também foram contemplados O preconceito se manifesta já no título Português ou caipirês A partir daí como milho de pipoca em óleo quente pululam as palavras de conteúdo semântico fortemente preconceituoso mundão jecastatus caipiras caipiras e mais caipiras deslumbrados tupiniquim pg 96 capiau caipirês matuto tabaréus Caipirolândia É ou não é um poderoso trabalho de síntese Dispensa comentários Isso quanto à forma Quanto ao conteúdo gramatical abordado pela autora encontramos mais uma vez a atitude preconceituosa da pessoa que conhecendo uma única variedade da língua se arroga o direito de ofender desprezar e ridicularizar os falantes das outras dezenas senão centenas de variedades Mas já sabemos que o preconceito é fruto da ignorância e o que Squarisi faz questão de afirmar em seu texto é seu absoluto desconhecimento da complexidade dos fenômenos lingüísticos Temerosa de se aventurar na corrente vertiginosa do rio que é a língua ela prefere continuar presa à água estagnada e malcheirosa de seu igapó A questão da partícula se em enunciados do tipo Vendese casas vem sendo investigada há muito tempo nos estudos gramaticais e lingüísticos brasileiros O que todos os estudiosos concluem é que na língua falada no Brasil no português brasileiro ocorreu uma reanálise sintática nesse tipo de enunciado isto é o falante brasileiro não considera mais esses enunciados como orações passivas sintéticas O que a gramática normativa insiste em classificar como sujeito a gramática intuitiva do brasileiro interpreta como objeto direto Respeitados filólogos e lingüistas da primeira metade do século XX como Manuel Said Ali Antenor Nascentes e Joaquim Mattoso Camara Jr reconheceram o fenômeno Muitas pesquisas científicas baseadas pg 97 em coleta de dados da língua real em levantamentos estatísticos rigorosos e em teorias lingüísticas consistentes mostram que a imensa maioria dos brasileiros de todas as classes sociais cultos ou não na língua falada e na língua escrita usam verbos no singular nos enunciados em que aparece o se com um verbo transitivo e um substantivo no plural Vendese casas Alugase salas Jogase búzios Aviase receitas Mas não é porque somos caipiras jecastatus matutos ou tabaréus É porque a língua muda com o tempo segue seu curso transformase Afinal se não fosse desse modo ainda estaríamos falando latim Na verdade falamos latim um latim que sofreu tantas transformações que deixou de ser latim e passou a ser português Da mesma forma o português do Brasil queiram os gramáticos ou não também está se transformando e um dia daqui a alguns séculos será uma língua diferente da falada em Portugal mais diferente do que já é Em meu livro A língua de Eulália tratei com bastante detalhe das questões relativas às assim chamadas orações passivas sintéticas que na minha opinião e na de muitos lingüistas simplesmente não existem Me ocuparei aqui apenas do esfarrapado truque com o qual a autora da coluna Português ou caipirês acredita ingenuamente resolver todos os problemas da fala dos caipiras caipiras e mais caipiras Falar é construir um texto num dado momento num determinado lugar dentro de um contexto de fala definido visando um determinado efeito Quando o falante usa pg 98 uma frase com a partícula se ele quer se valer dos recursos que esse tipo de construção sintática lhe oferece para chegar ao efeito que visa provocar naquele determinado contexto Trocar essa frase por outra é trocar também ao mesmo tempo o efeito visado Há situações em que só as orações com se funcionam Imagine um carro em cujo vidro traseiro lemos um cartaz escrito Vendese Se fôssemos aplicar o truque sugerido pelas gramáticas normativas teríamos É vendido Que efeito pode ter uma frase assim afixada num carro Como disse Manuel Said Ali ela só servirá para fazer o leitor duvidar da sanidade mental de quem a escreveu Em outras ocasiões apenas as orações na voz passiva atingem o efeito desejado Animais mortos foram trazidos com a enchente Aplicando o truque Animais mortos se trouxeram com a enchente Alguém diz isso assim Podemos também perguntar por que Vendese esta casa é igual a Esta casa é vendida e somente a isso Por que não dizer que também é igual a Estão vendendo esta casa Alguém está vendendo esta casa etc Além disso a substituição é de mão única Alugamse salas é igual a Salas são alugadas mas a substituição no sentido contrário não funciona De que são feitos esses doces pode ser substituído por De que se fazem esses doces ou por De que esses doces se fazem serão essas construções naturais espontâneas características da língua portuguesa Me parece que não pg 99 Se na capa de uma revista sobre telenovelas está escrito Henrique é preso isso equivale a Henrique se prende Uma reportagem intitulada O que fazer quando se tem problemas com o vizinho também poderia chamarse O que fazer quando são tidos problemas com o vizinho Onde está portanto a alegada equivalência Um dia desses meu filho de 9 anos chegou em casa revoltado porque a professora queria que numa festa da escola as meninas dançassem uma música de Beethoven Sua reação foi dizer Não se dança Beethoven Na mesma hora pensei em como ficaria essa frase substituída por sua equivalente na voz passiva analítica Beethoven não é dançado Faz algum sentido para você Para mim também não mas talvez nós sejamos demasiado capiaus para atingir o nível de iluminação a que só a professora Squarisi e o presidente Fernando Henrique Cardoso têm acesso O truque também falha porque na obtenção do efeito desejado a colocação dos termos na oração é importantíssima 1 Com este método misturase a água com a areia 2 Com este método a água misturase com a areia Está claro que em 1 temos uma oração na voz ativa em que o sujeito é indeterminado e o objeto de MISTURASE é ÁGUA Já em 2 o sujeito passa a ser ÁGUA e a partícula se indica que se trata de um verbo reflexivo pg 100 A posição dos elementos no enunciado quando alterada altera também a interpretação de seu significado desviandose do efeito pretendido pelo falante É o que acontece com 3 Não se encontra João no prédio 4 João não se encontra no prédio Em 3 JOÃO é o objeto do verbo ENCONTRA ao passo que em 4 JOÃO é o sujeito Comparese ainda esses três enunciados 5 Muita gente demitiuse da Ford 6 Demitiuse muita gente da Ford 7 Muita gente foi demitida da Ford Em 5 está claro que a demissão foi voluntária porque o sujeito evidente da oração é MUITA GENTE Em 6 o sujeito é indeterminado e essa indeterminação está indicada pela partícula se sendo MUITA GENTE O objeto da demissão As orações 5 e 6 podem ser perfeitamente classificadas de ativas Já em 7 temos sim uma verdadeira oração na voz passiva em que o sujeito MUITA GENTE sofre a ação praticada demitir Se no lugar de MUITA GENTE tivéssemos MUITOS OPERÁRIOS e quiséssemos fazer a mesma análise obteríamos 8 Muitos operários demitiramse da Ford 9 Demitiuse muitos operários da Ford 10 Muitos operários foram demitidos da Ford A frase 9 não teria o mesmo efeito se o verbo estivesse no plural Demitiramse muitos operários da Ford pg 101 seria simplesmente a mesma frase 8 com o sujeito colocado depois do verbo ao contrário da ordem natural do português que é a do sujeito antes do verbo Se a intenção do falante é dizer que muitos operários perderam a contragosto seus empregos o verbo tem de ser conjugado no singular porque os operários neste caso são o objeto da demissão sofreram com essa ação não a praticaram Minhas explicações levam em conta como é fácil perceber três critérios de análise dos enunciados lingüísticos 1 o sintático a colocação dos termos na oração 2 o semântico o significado que cada tipo de enunciado assume segundo a posição ocupada pelos termos na oração 3 o pragmático o efeito visado pelo falante ao escolher enunciar uma oração na voz ativa passiva ou reflexiva A análise de Dad Squarisi é bem mais pobre pois só leva em conta o critério sintático reduzindoo a um jogo de supostas equivalências É a atitude comum do gramático tradicionalista que encara a língua como um objeto descontextualizado inerte congelado morto fora do tempo fora do espaço independente das pessoas que a falam Para ela e para outros membros dos comandos paragramaticais defensores intransigentes da norma oculta não há diferença nenhuma entre Não se dança Beethoven e Beethoven não é dançado diferença que uma criança de 9 anos conhecedora como todas as crianças de sua idade das regras constitutivas de sua língua materna pg 102 soube reconhecer intuitivamente no momento de enunciar sua reação alcançando em cheio o efeito desejado A autora da coluna diz que não temos nenhum compromisso com a gramática portuguesa Talvez ela não saiba e se soubesse decerto ficaria muito triste mas nem mesmo os portugueses têm esse compromisso Lendo anúncios publicados no jornal lisboeta Diário de Notícias de 220797 a lingüista Maria Marta Scherre4 verificou que ali havia alternância entre verbos no plural e no singular embora todos os substantivos estivessem no plural Vendemse lotes de prédios c licenças a pagamento Vendese magníficas instalações loja com armazém Vendemse andares novos Vendese lotes de terreno Vendese andares no lumiar Alugase escritórios Laranjeiras Comprase dois espaços de garagem Procurase áreas até 150 m2 Teremos de incluir Portugal entre as províncias da Caipirolândia Por fim Dad Squarisi apóiase no nome glorioso de Camões e é glorioso mesmo para justificar seus ataques pg 103 grosseiros 4 A professora Scherre analisou detalhadamente o preconceito contido nessa e em outras colunas assinadas por Dad Squarisi no texto Preconceito lingüístico doase lindos filhotes de poodle a ser publicado brevemente em obra coletiva organizada pelo professor Dermeval da Hora da Universidade Federal da Paraíba Agradeço a ela a gentileza de terme possibilitado ler seu excelente ensaio antes de entregálo à publicação contra quem não se enquadra na lei da concordância Ora nOs Lusíadas encontrase os seguintes versos E como por toda África se soa lhe diz os grandes feitos que fizeram canto II 103 Seria o caso de incluir Camões entre os jecastatus Afinal pelas regras sintáticas da língua da professora Squarisi os GRANDES FEITOS é o sujeito de SE SOA e por isso o verbo deveria estar no plural Só que não está Parece incrível que depois de tanto tempo em vigor na língua falada no Brasil esta regra de uso do pronome SE ainda seja rejeitada pelos gramáticos prescritivistas Eles continuam agindo como o professor Aldrovando Cantagalo do conto O colocador de pronomes de Monteiro Lobato publicado em 1924 Ao ver uma placa com os dizeres Ferrase cavalos o histérico gramático tentou explicar ao ferreiro que o verbo deveria estar no plural porque o sujeito da frase era cavalos E foi obrigado a receber esta aula perfeita de sintaxe brasileira V Sa me perdoe mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu e eu não sou plural Aquele SE da tabuleta referese cá a este seu criado Alguém já viu um cavalo pôr ferradura em si mesmo Talvez o professor Aldrovando Cantagalo em seus delírios normativistas que ainda acometem muita gente hoje em dia pg 104 III A desconstrução do preconceito lingüístico 1 Reconhecimento da crise De que modo poderemos romper o círculo vicioso do preconceito lingüístico Como conseguiremos escapar do igapó estagnado e mergulhar nas águas dinâmicas e vivificantes do grande rio da língua Uma coisa não podemos deixar de reconhecer existe atualmente uma crise no ensino da língua portuguesa Muitos professores alertados em debates e conferências ou pela leitura de bons textos científicos já não recorrem tão exclusivamente à gramática normativa como única fonte de explicação para os fenômenos lingüísticos Por outro lado sentem falta de outros instrumentos didáticos que possam senão substituir ao menos complementar criticamente os compêndios gramaticais tradicionais Muita gente acredita e defende que é a norma culta que deve constituir o objeto de ensinoaprendizagem em sala de aula Mas o que é e onde está essa norma culta Não é difícil perceber que a norma culta por diversas razões de ordem política econômica social cultural é algo reservado a poucas pessoas no Brasil Vimos isso no Mito n 1 e no nº 8 É o mesmo que acontece com a alimentação pg 105 a saúde a educação a habitação o transporte o acesso às novas tecnologias etc Uns poucos privilegiados se locomovem em carros importados enquanto a grande maioria usa um transporte público deficiente precário e se não bastasse caro demais conheço pessoas humildes que vão a pé para o trabalho despertando no meio da madrugada e caminhando durante horas da periferia até os bairros centrais porque seu salário não lhes permite tomar ônibus trem nem metrô Podemos identificar três problemas básicos a esse respeito Primeiro e mais óbvio a quantidade injustificável de analfabetos que existe neste país Estatísticas oficiais do IBGE falam de 18 a 20 milhões de analfabetos com mais de 15 anos de idade duas vezes a população de Portugal Somese a isso os milhões de crianças em idade escolar que não freqüentam nenhuma escola Temos também um alto índice de analfabetos funcionais isto é pessoas que freqüentaram a escola por um período insuficiente para desenvolver plenamente as habilidades de leitura e redação A média nacional de educação da força de trabalho é de 39 anos de escola seriam no total 45 milhões de analfabetos funcionais ou semianalfabetos Analfabetos plenos e analfabetos funcionais seriam ao todo mais de 60 milhões de brasileiros duas vezes a população da Argentina Numa lista de 175 países elaborada pela ONU o Brasil ocupa o 93 lugar em índice de escolarização ficando atrás até mesmo de países como a Etiópia e a Índia exemplos clássicos de subdesenvolvimento crônico Só que o Brasil pg 106 é uma das dez maiores economias do planeta Ocupamos também o 80 lugar em investimentos na educação E ninguém pode alegar que isso se deve ao tamanho do país ou da população a China bem maior que o Brasil e com uma população de 12 bilhão de habitantes tem 6 de analfabetos enquanto o Brasil tem 184 segundo o Banco Mundial E na China esses analfabetos vivem em áreas muito remotas nas montanhas ou nos desertos enquanto os nossos estão na periferia das grandes cidades e até mesmo trabalhando dentro de nossas casas Tudo isso num país cuja Constituição diz que a educação é dever do Estado A norma culta como vimos está tradicionalmente muito vinculada à norma literária à língua escrita Com tantos analfabetos lamentar a decadência ou a corrupção da norma culta no Brasil é no mínimo uma atitude cínica Segundo por razões históricas e culturais a maioria das pessoas plenamente alfabetizadas não cultivam nem desenvolvem suas habilidades lingüísticas no nível da norma culta Ler e sobretudo escrever não fazem parte da cultura das nossas classes sociais alfabetizadas Isso se prende aos velhos preconceitos de que brasileiro não sabe português e de que português é difícil veiculados pelas práticas tradicionais de ensino Esse ensino tradicional como eu já disse em vez de incentivar o uso das habilidades lingüísticas do indivíduo deixandoo expressarse livremente para somente depois corrigir sua fala ou sua escrita age exatamente ao contrário interrompe o fluxo natural da expressão e da comunicação com a atitude corretiva e muitas vezes punitiva cuja conseqüência pg 107 inevitável é a criação de um sentimento de incapacidade de incompetência Em minha experiência de tradutor profissional já me deparei algumas vezes com situações que poderíamos classificar de surrealistas Pessoas que fizeram doutorado no exterior me procuram para que eu traduza para o português teses escritas originalmente em inglês ou francês Quando pergunto à pessoa por que ela mesma não faz a tradução a resposta que eu recebo é chocante É porque eu não sei português Como é possível Uma pessoa que escreveu uma tese de 500 ou 600 páginas num idioma estrangeiro e que obteve assim o seu grau de doutor de PhD em sua especialidade científica tem receios de escrever em sua própria língua materna Existe algum problema aí e eu não posso aceitar a explicação dada por tantos professores de que os alunos é que são preguiçosos e não conseguem aprender ou pior ainda que português é muito difícil O problema certamente está no modo como se ensina português e naquilo que é ensinado sob o rótulo de língua portuguesa Terceiro o dilema relativo à norma culta se prende ao fato de que esse termo é usado pela tradição gramatical conservadora para designar uma modalidade de língua que como já vimos na primeira parte deste livro não corresponde à língua efetivamente usada pelas pessoas cultas do Brasil nos dias de hoje mas sim a um ideal lingüístico inspirado no português de Portugal nas opções estilísticas dos grandes escritores do passado nas regras sintáticas que mais se aproximem dos modelos da gramática latina ou simplesmente no gosto pessoal do gramático pg 108 para Napoleão Mendes de Almeida por exemplo o certo é dizer eu odio e não EU ODEIO1 Dentro desse conceito de norma culta a proibição de começar um período com pronome oblíquo Me empreste seu livro é justificada com a afirmação de que em Portugal ninguém fala assim De igual modo a recusa dos gramáticos conservadores em aceitar que em frases como Vendese casas o pronome se 1 Outros termos empregados indistintamente pelos prescritivistas são norma padrão língua padrão língua culta padrão culto Todos eles porém carecem de uma definição teórica rigorosa sendo usados basicamente como um sinônimo geral de bom português em contraste com tudo o que não é português desempenha uma função semelhante à de sujeito se baseia no fato de que em latim o pronome se nunca exercia essa função Dizer ou escrever eu prefiro mais X do que Y é um pecado na opinião deles porque o prefixo prae em latim funcionava para formar superlativos analíticos contendo em si mesmo a idéia de muito ou mais do que Além disso é errado dizer outra alternativa porque alter em latim já significava outro Mas desde quando nós falamos latim no Brasil A distância entre norma culta real e norma culta ideal pode ser medida em afirmações como esta de Rocha Lima em sua Gramática normativa da língua portuguesa p 15 Em extensas faixas do Brasil e especialmente no Rio de Janeiro a consoante l quando em final de sílaba apresenta uma pronúncia relaxada que a aproxima da semivogal w Este pg 109 fato faz que desapareçam oposições como as de mal e mau alto e auto servil e serviu oposições que a língua culta procura cuidadosamente observar grifo meu Basta ouvir os locutores de rádio os apresentadores de telejornal e os professores universitários três profissões que exigem educação de nível superior e portanto domínio da norma culta para verificar que a afirmação de Rocha Lima não se baseia na realidade empiricamente analisável É provável que nenhum falante da língua culta se preocupe hoje em dia em fazer a distinção entre as palavras por ele citadas No acervo de gravações da língua urbana culta coletado pelo Projeto NURC a que já me referi no Mito n 5 não se percebe essa suposta preocupação em distinguir as duas pronúncias A pronúncia do L como l e não como w só se verifica na fala de pessoas bastante idosas ou de falantes de variedades bem específicas de português como a gaúcha e mesmo assim não de modo geral Essa mesma idealização da norma culta como um padrão lingüístico 100 puro como uma pedra preciosa sem nenhuma jaça como uma pepita de ouro livre de toda ganga se verifica por exemplo num texto publicado por Pasquale Cipro Neto em sua página na revista Cult n 11 junho de 1998 p 44 Para ele os usos nãonormativos de onde constituem uma praga E o uso feito por Chico Buarque numa canção de onde no lugar de quando indica que o poetacompositor caiu na esparrela Lemos no texto de Cipro que a diferença entre onde e aonde também deixa muita gente de cabelo em pé pg 110 Depois de explicar o uso correto de cada uma das duas formas ele diz que mesmo em escritores renomados se vê o emprego de onde e aonde sem critério e cita o exemplo do poema A onda de Manuel Bandeira que escreveu Aonde anda a onda E chama a atenção para o fato de que em termos de língua culta para cada 99 ocorrências corretas de onde há uma de aonde Diante dessa estatística que ele cita sem indicar a fonte de seus dados nem a metodologia empregada para coletálos a lógica nos leva a concluir que o problema então não está na falta de critério dos falantes da norma culta mas sim na concepção que o autor do texto tem de língua culta Afinal se Chico Buarque Manuel Bandeira e Machado de Assis que no poema Niâni parte III estrofe 2 escreveuMas aonde te vais agora Onde vais esposo meu não servem como exemplos de usuários da língua culta quem servirá Em seu livro Com todas as letras que tem o sugestivo subtítulo de o português simplificado que nos remete logo ao Mito 3 o jornalista Eduardo Martins tenta ensinar o uso correto do verbo pedir Depois de ler as explicações dadas ali na página 16 passei a aplicar um teste para controlar se o que ele chama de norma culta realmente merece esse nome Assim toda vez que vou dar uma palestra em congressos e seminários ou conversar com professores de português escrevo o seguinte enunciado na lousa e pergunto o que há de errado com ele João está doente por isso me pediu para vir aqui no lugar dele pg 111 Deixo que as pessoas reflitam e dêem suas opiniões Cada uma arrisca uma hipótese mas ninguém detecta o erro denunciado por Martins em seu livro E você já descobriu qual é Pois saiba caro leitor cara leitora que a construção pedir para só pode ser empregada quando o sentido é o de pedir permissão licença ou autorização Segundo o autor de Com todas as letras se a idéia de permissão ou licença não estiver implícita ou subentendida o certo é usar pedir que subjuntivo João está doente por isso me pediu que viesse aqui no lugar dele E ele abre suas explicações afirmando A locução pedir para é um dos melhores exemplos do abismo existente entre a linguagem coloquial e a norma culta do idioma E eu me vejo obrigado a reagir dizendo Nada disso senhor jornalista A locução pedir para é um exemplo do abismo que existe sim mas entre a verdadeira norma culta usada pelas pessoas cultas do Brasil e aquilo que ele e outros nãoespecialistas em lingüística que se baseiam exclusivamente na norma gramatical mais conservadora e prescritiva chamam de norma culta O que Martins rotula de linguagem coloquial termo aliás que quase sempre é empregado com sentido pejorativo é na verdade uma manifestação da norma culta objetiva real empiricamente coletável e analisável E a prova maior disso é que os falantes cultos professores de português a quem ofereço meu teste reconhecem tranqüilamente a gramaticalidade a aceitabilidade de construções como a do enunciado que escrevo na lousa Como é possível pg 112 então falar de erro se a construção não causa estranheza a falantes cultos e é perfeitamente assimilada do ponto de vista semântico e pragmático se não há nenhuma ambigüidade em sua interpretação que é o argumento quase sempre apresentado pelos prescritivistas que normalmente analisam a língua sem levar em conta o contexto da enunciação De onde vem esse abismo entre o conceito sociolingüístico de norma culta e a noção vaga e preconceituosa de língua culta exibida pelos comandos paragramaticais Como tantos especialistas de verdade vêm insistindo em mostrar esse abismo nasce da recusa dos defensores da gramática tradicional de acompanhar os avanços da ciência da linguagem Consultando por exemplo a bibliografia do livro Com todas as letras de Eduardo Martins lançado no início de 1999 verificase que dos 26 títulos consultados por ele nenhum é de obra científica especializada 10 são comandos paragramaticais em forma de livros que listam nãoseiquantosmil erros de português entre os quais o Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de S Paulo de autoria do mesmo Martins 11 são dicionários de língua eou de regências verbais e nominais obras escritas à moda antiga e não segundo os critérios da lexicografia contemporânea e 5 são gramáticas normativas Como todo comando paragramatical digno do nome este também se caracteriza por sua inflexível endogamia para conservar a pureza de sua língua só aceita manter relações com indivíduos de sua própria casta pg 113 Como reconhece o próprio Ministério da Educação no documento já citado não se pode mais insistir na idéia de que o modelo de correção estabelecido pela gramática tradicional seja o nível padrão de língua ou que corresponda à variedade lingüística de prestígio p 31 Para separar o ideal do real como eu já disse é necessário empreender a identificação e a descrição da verdadeira língua falada e escrita pelas classes cultas do Brasil É uma tarefa que tem de ser feita e que está sendo feita Infelizmente os resultados já obtidos na execução dessa tarefa são de acesso difícil à maioria das pessoas porque se encontram expostos em livros e teses escritos em linguagem extremamente técnica como de fato exige o rigor científico e recorrem em suas análises e interpretações a diferentes modelos teóricos todos eles muito sofisticados e de difícil compreensão para o leitor comum não familiarizado com eles É preciso escrever uma gramática da norma culta brasileira em termos simples mas não simplistas claros e precisos com um objetivo declaradamente didáticopedagógico que sirva de ferramenta útil e prática para professores alunos e falantes em geral Sem essa gramática que nos descreva e explique a língua efetivamente falada pelas classes cultas continuaremos à mercê das gramáticas normativas tradicionais que chamam erradamente de norma culta uma modalidade de língua que não é culta mas sim cultuada não a norma culta como ela é mas a norma pg 114 culta como deveria ser segundo as concepções antiquadas dos perpetuadores do círculo vicioso do preconceito lingüístico 2 Mudança de atitude Enquanto essa gramática não chega temos de combater o preconceito lingüístico com as armas de que dispomos E a primeira campanha a ser feita por todos na sociedade é a favor da mudança de atitude Cada um de nós professor ou não precisa elevar o grau da própria autoestima lingüística recusar com veemência os velhos argumentos que visem menosprezar o saber lingüístico individual de cada um de nós Temos de nos impor como falantes competentes de nossa língua materna Parar de acreditar que brasileiro não sabe português que português é muito difícil que os habitantes da zona rural ou das classes sociais mais baixas falam tudo errado Acionar nosso senso crítico toda vez que nos depararmos com um comando paragramatical e saber filtrar as informações realmente úteis deixando de lado e denunciando de preferência as afirmações preconceituosas autoritárias e intolerantes Da parte do professor em geral e do professor de língua em particular essa mudança de atitude deve refletirse na não aceitação de dogmas na adoção de uma nova postura crítica em relação a seu próprio objeto de trabalho a norma culta Do ponto de vista teórico esta nova postura pode ser simbolizada numa simples troca de sílaba Em vez de REPETIR alguma coisa o professor deveria REFLETIR sobre pg 115 ela Diante da velha doutrina gramatical normativa o professor não deveria limitarse a transmitila tal e qual ela se encontra compendiada nos manuais gramaticais ou nos livros didáticos É necessário lançar dúvidas sobre o que está dito ali questionar a validade daquelas explicações filtrálas tomando inclusive como base seu próprio saber lingüístico devidamente valorizado Eu não falo assim não escrevo assim meus colegas também não escritores que tenho lido não seguem essa regra será que ela pertence de fato à norma culta Posta a dúvida passase à investigação ao levantamento de hipóteses à busca de explicações que esclareçam o fenômeno que provocou o questionamento Se milhões de brasileiros de norte a sul de leste a oeste em todas as regiões e em todas as classes sociais falam e escrevem Alugase salas ou se há flutuação no uso de onde e aonde o problema evidentemente não está nesses milhões de pessoas mas na explicação insuficiente errada até nesses casos dada a esses fenômenos pela gramática tradicional Nessa nova postura de reflexão é indispensável que o professor procure tanto quanto possível estar sempre a par dos avanços das ciências da linguagem e da educação lendo literatura científica atualizada assinando revistas especializadas filiandose a associações profissionais freqüentando cursos em universidades aderindo a projetos de pesquisa participando de congressos levantando suas dúvidas e inquietações em debates e mesas redondas pg 116 Do ponto de vista prático a nova postura pode ser representada na eliminação de uma única sílaba também Em vez de REPRODUZIR a tradição gramatical o professor deve PRODUZIR seu próprio conhecimento da gramática transformandose num pesquisador em tempo integral num orientador de pesquisas a serem empreendidas em sala de aula junto com seus alunos Parar de querer entregar regras mal descritas já prontas e começar a descobrir métodos inteligentes e prazerosos para que os próprios aprendizes deduzam essas regras em textos vivos coerentes bem construídos interessantes tanto de língua escrita como de língua falada Tentei dar uma contribuição inicial a esse processo na segunda parte do meu livro Pesquisa na escola o que é como se faz A gramática tradicional tenta nos mostrar a língua como um pacote fechado um embrulho pronto e acabado Mas não é assim A língua é viva dinâmica está em constante movimento toda língua viva é uma língua em decomposição e em recomposição em permanente transformação É uma fênix que de tempos em tempos renasce das próprias cinzas É uma roseira que quanto mais a gente vai podando flores mais bonitas vai dando E o professor também deve preferir ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo como cantava Raul Seixas contrariando nesses mesmos versos a velha opinião formada de que o verbo preferir não pode ser usado com a construção do que Tudo muda no universo e a língua também A comparação da língua a um rio me faz lembrar do filósofo grego pg 117 Heráclito que disse que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio na segunda vez já não é a mesma pessoa já não é o mesmo rio Não precisamos ter medo disso quando formos dar aula de português Um professor de química física biologia ou história sabe perfeitamente que muito do que ele está ensinando hoje pode vir a ser reformulado ou até negado amanhã por alguma nova descoberta por algum novo avanço tecnológico que permitirá ver coisas que antes não se via Toda ciência para merecer esse nome tem que ser como se diz em inglês work in progress um trabalho em andamento uma construção ininterrupta uma obra aberta E a lingüística dentro da qual se inclui a gramática é uma ciência assim Por isso não há razão para que o professor de gramática seja dispensado da formação científica que se exige de um professor de biologia ou de psicologia É definitivamente necessário começar a conceber a gramática como uma disciplina viva em revisão e elaboração constante Essas palavras de Mário Perini em sua Gramática descritiva do português pp 16 e 17 sintetizam o que eu disse mais acima a respeito de uma nova postura teórica e prática por parte do professor de língua portuguesa 3 O que é ensinar português Para romper o círculo vicioso do preconceito lingüístico no ponto em que temos mais poder para atacálo a prática de ensino precisamos rever toda uma série pg 118 de velhas opiniões formadas que ainda dominam nossa maneira de ver nosso próprio trabalho Logo de início convém fazer a pergunta o que é ensinar português Que objetivo pretendemos alcançar com nossa prática em sala de aula Os métodos tradicionais de ensino da língua no Brasil visam por incrível que pareça a formação de professores de português O ensino da gramática normativa mais estrita a obsessão terminológica a paranóia classificatória o apego à nomenclatura nada disso serve para formar um bom usuário da língua em sua modalidade culta Esforçarse para que o aluno conheça de cor o nome de todas as classes de palavras saiba identificar os termos da oração classifique as orações segundo seus tipos decore as definições tradicionais de sujeito objeto verbo conjunção etc nada disso é garantia de que esse aluno se tornará um usuário competente da língua culta Quando alguém se matricula numa autoescola espera que o instrutor lhe ensine tudo o que for necessário para se tornar um bom motorista não é Imagine porém se o instrutor passar onze anos abrindo a tampa do motor e explicando o nome de cada peça de cada parafuso de cada correia de cada fio explicando de que modo uma parte se encaixa na outra o lugar que cada uma deve ocupar dentro do compartimento do motor para permitir o funcionamento do carro e assim por diante Esse aluno tem alguma chance de se tornar um bom motorista Acho difícil Quando muito estará se candidatando a um emprego de mecânico de automóveis Mas quantas pessoas existem por aí dirigindo tranqüilamente seus pg 119 carros tirando o máximo proveito deles sem ter a menor idéia do que acontece dentro do motor Hoje em dia cada vez mais pessoas estão usando um computador A retumbante maioria delas consegue fazer um bom uso de sua máquina conhecendo apenas os programas os softwares O hardware isto é a parte mecânica do computador a estrutura física das placas dos chips das conexões etc fica para os especialistas os técnicos E então O que pretendemos formar com nosso ensino motoristas da língua ou mecânicos da gramática Devemos insistir nos componentes hard ou devemos dar preferência ao bom manejo dos soft2 Nós sim professores temos que conhecer profundamente o hardware da língua a mecânica do idioma porque nós somos os instrutores os especialistas os técnicos Mas não os nossos alunos Precisamos portanto redirecionar todos os nossos esforços voltá 2 Hard em inglês significa duro rígido enquanto soft significa macio maleável Qual dessas duas opções de ensino você acha que nossos alunos escolheriam se tivessem chance los para a descoberta de novas maneiras que nos permitam fazer de nossos alunos bons motoristas da língua bons usuários de seus programas Por isso é que Sírio Possenti depois de exibir argumentos com os quais concordo integralmente diz nas páginas 5354 de Por que não ensinar gramática na escola Todas as sugestões feitas nos textos anteriores só farão sentido se os professores estiverem convencidos ou puderem ser convencidos de que o domínio efetivo e ativo de uma língua pg 120 dispensa o domínio de uma metalinguagem técnica Em outras palavras se ficar claro que conhecer uma língua é uma coisa e conhecer sua gramática é outra Que saber uma língua é uma coisa e saber analisála é outra Que saber usar suas regras é uma coisa e saber explicitamente quais são as regras é outra Que se pode falar e escrever numa língua sem saber nada sobre ela por um lado e que por outro lado é perfeitamente possível saber muito sobre uma língua sem saber dizer uma frase nessa língua em situações reais Quando digo coisas assim em público algumas pessoas levantam a objeção de que o ensino da nomenclatura tradicional das definições das classificações da análise sintática é necessário porque são essas coisas que serão cobradas ao aluno no momento de fazer um concurso ou de prestar o vestibular Se é assim cabe a nós professores pressionar pelos meios de que dispomos associações profissionais sindicatos cartas à imprensa para que as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira trocando as velhas concepções de língua por novas Não temos de nos conformar passivamente com uma situação absurda e prosseguir na reprodução dos velhos vícios gramatiqueiros simplesmente porque haverá uma cobrança futura ao aluno Quanto ao vestibular Deus seja mil vezes louvado ele está desaparecendo Diversas universidades públicas e privadas estão encontrando novos meios de seleção e admissão de alunos aos cursos superiores Afinal poucas instituições houve no Brasil tão obtusas nefastas injustas antidemocráticas e perniciosas quanto o vestibular Nunca consegui entender por que uma pessoa pg 121 que quer estudar Direito precisa fazer prova de física química biologia e matemática se o que ela aprendeu dessas matérias já foi avaliado na conclusão do 2 grau Com o fim do vestibular desaparecerá também assim esperamos ardentemente toda a indústria que se formou em torno dele os nefandos cursinhos onde ninguém aprende nada onde não há nenhuma produção de conhecimento mas apenas reprodução de informações desconexas onde centenas de alunos se apinham numa sala onde tudo o que se faz é entupir a cabeça do aluno com truques e macetes que em nada contribuem para a sua verdadeira formação intelectual e humanística 4 O que é erro Outro modo interessante de romper com o círculo vicioso do preconceito lingüístico é reavaliar a noção de erro A noção tradicional eu diria até folclórica de erro é que permite que pessoas como Sacconi escrevam livros absurdos como Não erre mais e vendam milhares de exemplares deles Como vimos na primeira parte do livro o Mito 6 expressa a prática milenar de confundir língua em geral com escrita e mais reduzidamente ainda com ortografia oficial A tal ponto que uma elevada porcentagem do que se rotula de erro de português é na verdade mero desvio da ortografia oficial O vigor desse mito se depreende por exemplo num exercício de pesquisa sugerido por um livro didático de publicação recente Carvalho Ribeiro 1998 125 Após apresentar o poema pg 122 Erro de português de Oswald de Andrade os autores pedem ao aluno 1 Procure localizar erros de português em cartazes placas ou até mesmo na fala de pessoas que você conhece Transcrevaos em seu caderno Ora em cartazes e placas não aparecem erros de português e sim erros de ortografia Escrever digamos LOGINHA DE ARTEZANATO onde a lei obriga a escrever LOJINHA DE ARTESANATO em nada vai prejudicar a intenção do autor da placa informar que ali se vende objetos de artesanato Neste caso nem mesmo a realização fonética da placa certa e da placa errada vai apresentar diferença O fato também de haver erro na placa não significa de forma nenhuma que os objetos ali vendidos sejam de qualidade inferior errados ou feios Se mais acima escrevi lei é porque se trata exatamente disso A ortografia oficial é fruto de um gesto político é determinada por decreto é resultado de negociações e pressões de toda ordem geopolíticas econômicas ideológicas No início do século XX o certo era escrever EM NICTHEROY ELLE POUDE ESTUDAR SCIENCIAS NATURAES CHIMICA E PHYSICA Se hoje o certo é escrever EM NITERÓI ELE PÔDE ESTUDAR CIÊNCIAS NATURAIS QUÍMICA E FÍSICA isso não altera a sintaxe nem a semântica do enunciado o que mudou foi só a ortografia O exercício proposto por Carvalho Ribeiro além de confundir português com ortografia do português também admite implicitamente a existência de erros na pg 123 fala de pessoas que você conhece O problema aqui é ainda mais grave porque do ponto de vista científico simplesmente não existe erro de português Todo falante nativo de uma língua é um falante plenamente competente dessa língua capaz de discernir intuitivamente a gramaticalidade ou agramaticalidade de um enunciado isto é se um enunciado obedece ou não às regras de funcionamento da língua Ninguém comete erros ao falar sua própria língua materna assim como ninguém comete erros ao andar ou ao respirar Só se erra naquilo que é aprendido naquilo que constitui um saber secundário obtido por meio de treinamento prática e memorização errase ao tocar piano errase ao dar um comando ao computador errase ao falarescrever uma língua estrangeira A língua materna não é um saber desse tipo ela é adquirida pela criança desde o útero é absorvida junto com o leite materno Por isso qualquer criança entre os 3 e 4 anos de idade se não menos já domina plenamente a gramática de sua língua O resultado disso é como diz Perini 199711 que nosso conhecimento da língua é ao mesmo tempo altamente complexo incrivelmente exato e extremamente seguro E o mesmo autor prossegue afirmando p 13 que qualquer falante de português possui um conhecimento implícito altamente elaborado da língua muito embora não seja capaz de explicitar esse conhecimento E esse conhecimento não é fruto de instrução recebida na escola mas foi adquirido de maneira tão natural e espontânea quanto a nossa habilidade de andar Mesmo pessoas que nunca estudaram pg 124 gramática chegam a um conhecimento implícito perfeitamente adequado da língua São como pessoas que não conhecem a anatomia e a fisiologia das pernas mas que andam dançam nadam e pedalam sem problemas Assim podemos até dizer que existem erros de português só que nenhum falante nativo da língua os comete Por exemplo seriam errados os enunciados abaixo o asterisco indica construção agramatical 1 Aquela garoto me xingou 2 Eu nos vimos ontem na escola 3 Júlia chegou semana que vem 4 Não duvido que ele não queira não vir aqui 5 Que o livro que a moça que Luís que trabalha comigo me apresentou escreveu é bom não nego Esses enunciados precisamente por serem agramaticais isto é por não respeitarem as regras de funcionamento da nossa língua não aparecem na fala espontânea e natural de falantes nativos do português do Brasil mesmo que sejam crianças pequenas que ainda não freqüentam escola ou adultos totalmente iletrados O que está em jogo aqui evidentemente é a noção de erro e seu estreito vínculo com o que tradicionalmente é chamado de português Como já mostrei existe no nível da língua escrita a confusão entre português e ortografia oficial da língua portuguesa No nível da língua falada os termos que se confundem ou que são tomados como equivalentes são português gramática normativa e variedade padrão pg 125 Em relação à língua escrita seria pedagogicamente proveitoso substituir a noção de erro pela de tentativa de acerto Afinal a língua escrita é uma tentativa de analisar a língua falada e essa análise será feita pelo usuário da escrita no momento de grafar sua mensagem de acordo com seu perfil sociolingüístico Uma pessoa com poucos anos de escolarização pouco habituada à prática da leitura e da escrita tendo como quadro de referência apenas uma suposta equivalência unívoca entre som e letra fará uma análise dotada de reduzido instrumental teórico empregando como ferramenta básica a analogia Assim quem escreveu CHÍCARA em vez de XÍCARA não fez isso porque quis errar mas sim porque quis acertar Se existe CHINELO CHICOTE CHIQUEIRO CHICLETE por analogia se chega à possibilidade de também haver CHÍCARA É importante notar que os erros de ortografia são constantes troca de J por G de S por Z de CH por X e assim por diante justamente por serem casos em que é necessário fazer uma análise da relação falaescrita que ultrapassa os limites teóricos da suposta equivalência somletra Dificilmente alguém vai tentar escrever XÍCARA usando um J um G um S no lugar do X oficial porque faltam dados de experiência para uma analogia razoável Por outro lado uma pessoa que tenha freqüentado a escola por muitos anos que leia e escreva assiduamente que se tenha familiarizado com o uso do dicionário que tenha sido despertada para a existência das regularidades e irregularidades da língua escrita saberá que a simples analogia não será suficiente como guia no momento de escrever outros quadros de referência terão de ser acessados a cultura pg 126 erudita a etimologia das palavras as reformas ortográficas os critérios de normativização da ortografia etc Quanto à língua falada fica óbvio que o rótulo de erro é aplicado a toda e qualquer manifestação lingüística fonética morfológica e sintática principalmente que se diferencie das regras prescritas pela gramática normativa que se apresenta como codificação da língua culta embora na verdade seja a codificação de um padrão idealizado que não coincide com a verdadeira variedade culta objetiva Dentro dessa conceituação são igualmente errados os enunciados abaixo 6 A Joana é uma menina que ela sabe o que faz 7 A Joana que ela sabe é uma menina o que faz muito embora 6 seja perfeitamente inteligível decodificável interpretável e portanto gramatical aceitável enquanto 7 é claramente agramatical e por conseguinte não ocorre na fala normal de nenhum brasileiro No entanto 6 é considerado tão errado quanto 7 porque nenhum dos dois enunciados se enquadra nas prescrições da gramática normativa e de seus autoproclamados defensores os comandos paragramaticais O enunciado 6 porém tem uma sintaxe uma semântica e uma pragmática que qualquer falante nativo do português do Brasil sem preocupações normativistas aceita com tranqüilidade e a prova disso é que enunciados desse tipo são proferidos aos milhões diariamente em todos os cantos do país por pessoas de todas as classes sociais inclusive as consideradas cultas É certo que construções pg 127 desse tipo não aparecem em textos cultos escritos mas é preciso distinguir as variedades cultas faladas das variedades cultas escritas coisa que os prescritivistas em geral não fazem Tratase aqui de uma regramaticalização do pronome que de toda uma complexa perda de casos gramaticais fenômeno que vem sendo estudado há bastante tempo tendo sido já tema de muitos ensaios dissertações e teses científicas Mas a prova oferecida pelo uso intenso de construções sintáticas como a de 6 não convence os defensores da gramática normativa e os membros dos comandos paragramaticais que não conseguiriam sobreviver sem a noção de erro É preciso ter sempre em mente que tudo aquilo que é considerado erro ou desvio pela gramática tradicional tem uma explicação lógica científica perfeitamente demonstrável Só por isso é que os agentes dos comandos paragramaticais podem falar de erros comuns Os gramáticos conservadores não se dão conta de que o próprio adjetivo comum usado por eles mostra que se trata de um fenômeno amplo de variação de uma transformação que está se processando nos mecanismos de funcionamento geral da língua Em sua cegueira dogmática eles falam de vício comum erro vulgar praga corrupção muito difundida sem perceber que estão na verdade reconhecendo que aquilo que eles consideram certo é que deve apresentar algum problema alguma disfunção alguma impossibilidade de uso que impede que a maioria das pessoas obedeça àquela regra A única explicação inaceitável embora seja a preferida dos conservadores é a de que essas pessoas são asnos ignorantes ou idiotas pg 128 A nova postura teórica e prática consiste em procurar conhecer as regras que estão levando os falantes da língua a usar X onde se esperaria Y identificar essas regras descrevêlas pesquisar explicações científicas para elas e se possível apresentálas a seus alunos Foi o que tentei fazer em meu livro A língua de Eulália e foi também o que fiz neste livro ao contestar a explicação paleozóica de Dad Squarisi para a alta freqüência de Vendese casas em lugar de Vendemse casas O bom professor age como o filósofo Spinoza que escreveu Tenhome esforçado por não rir das ações humanas por não deplorálas nem odiá las mas por entendêlas Pessoas como Napoleão Mendes de Almeida Luiz Antonio Sacconi e Dad Squarisi agem exatamente ao contrário de Spinoza Sacconi ao recorrer a um humor de gosto duvidoso chega mesmo a escrever preto no brancoEu porém odeio gente que só diz asneiras p 43 De um verdadeiro professor devemos sempre esperar compaixão solidariedade empatia nunca o ódio muito menos o riso deplorador 5 Então vale tudo Algumas pessoas me dizem que a eliminação da noção de erro dará a entender que em termos de língua vale tudo Não é bem assim Na verdade em termos de língua tudo vale alguma coisa mas esse valor vai depender de uma série de fatores Falar gíria vale Claro que pg 129 vale no lugar certo no contexto adequado com as pessoas certas E usar palavrão A mesma coisa Uma das principais tarefas do professor de língua é conscientizar seu aluno de que a língua é como um grande guarda roupa onde é possível encontrar todo tipo de vestimenta Ninguém vai só de maiô fazer compras num shoppingcenter nem vai entrar na praia num dia de sol quente usando terno de lã chapéu de feltro e luvas Usar a língua tanto na modalidade oral como na escrita é encontrar o ponto de equilíbrio entre dois eixos o da adequabilidade e o da aceitabilidade Quando falamos ou escrevemos tendemos a nos adequar à situação de uso da língua em que nos encontramos se é uma situação formal tentaremos usar uma linguagem formal se é uma situação descontraída uma linguagem descontraída e assim por diante Essa nossa tentativa de adequação se baseia naquilo que consideramos ser o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte de nosso interlocutor ou interlocutores Podemos representar tudo isso graficamente mais ou menos assim É totalmente inadequado por exemplo fazer uma palestra num congresso científico usando gíria expressões pg 130 marcadamente regionais palavrões etc A platéia dificilmente aceitará isso É claro que se o objetivo do palestrante for precisamente chocar seus ouvintes aquela linguagem será muito adequada Não é adequado que um agrônomo se dirija a um lavrador analfabeto usando uma terminologia altamente técnica e especializada a menos que queira não se fazer entender Como sempre tudo vai depender de quem diz o quê a quem como quando onde por quê e visando que efeito 6 A paranóia ortográfica A atitude tradicional do professor de português ao receber um texto produzido por um aluno é procurar imediatamente os erros direcionar toda a sua atenção para a localização e erradicação do que está incorreto É uma preocupação quase exclusiva com a forma pouco importando o que haja ali de conteúdo É sobretudo aquilo que chamo de paranóia ortográfica uma obsessão neurótica para que todas as palavras tragam o acento gráfico que todos os Ç tenham sua cedilha que todos os J e G estejam nos lugares certos e assim por diante Aliás uma porcentagem enorme do que todo mundo chama de erro de português diz respeito a meras incorreções ortográficas Ora saber ortografia não tem nada a ver com saber a língua São dois tipos diferentes de conhecimento A ortografia não faz parte da gramática da língua isto é das regras de funcionamento da língua Como vimos no Mito n 6 muitas pessoas nascem crescem vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever sendo no entanto conhecedores perfeitos da gramática de sua língua pg 131 A ortografia oficial é fruto de um decreto de um ato institucional por parte do governo e fica muitas vezes sujeita aos gostos pessoais ou às interpretações dos fenômenos lingüísticos por parte dos filólogos que ajudam a estabelecêla Por isso na virada do século XIX para o XX se escrevia ELLE na primeira metade do século XX se escreveu ÊLE e agora no limiar do século XXI se escreve ELE Por isso a lei nos manda escrever HUMO OU HÚMUS mas ÚMIDO e UMIDADE embora sejam todas palavras da mesma família em Portugal todas essas palavras têm H Por isso também temos de escrever ESTRANHO e ESTRANGEIRO com s embora sejam palavras formadas com base no prefixo EXTRA presente em EXTRAORDINÁRIO EXTRAVAGANTE EXTRAPOLAR etc em espanhol se escreve EXTRÁNEO e EXTRANJERO Por isso o adjetivo EXTENSO e o substantivo EXTENSÃO apresentam um x mas o verbo ESTENDER vá lá saber por quê se escreve com um s E o adjetivo MACIÇO se escreve com c embora seja derivado de MASSA com SS Se os legisladores da língua podem ser tão incoerentes no momento de definir a ortografia oficial não há por que estranhar ou extranhar que as pessoas em geral também se confundam Mas não é o que pensam Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante que na p 33 de sua Gramática escrevem Não é admissível que com um alfabeto tão restrito apenas 23 letras se cometam tantos erros ortográficos pelo Brasil afora Estude com cuidado este capítulo para integrar o grupo de cidadãos que sabem grafar corretamente as palavras da língua portuguesa pg 132 Essa Gramática filiase à tradição que atribui ao domínio da escrita um elemento de distinção social que é na verdade um elemento de dominação por parte dos letrados sobre os iletrados Existe um mito ingênuo de que a linguagem humana tem a finalidade de comunicar de transmitir idéias mito que as modernas correntes da lingüística vêm tratando de demolir provando que a linguagem é muitas vezes um poderoso instrumento de ocultação da verdade de manipulação do outro de controle de intimidação de opressão de emudecimento Ao lado dele também existe o mito de que a escrita tem o objetivo de difundir as idéias No entanto uma simples investigação histórica mostra que em muitos casos a escrita funcionou e ainda funciona com a finalidade oposta ocultar o saber reserválo a uns poucos para garantir o poder àqueles que a ela têm acesso Como nos informa Leda Tfouni em seu livro Adultos não alfabetizados o avesso do avesso a escrita na Índia esteve profundamente ligada aos textos sagrados a que só tinham acesso os sacerdotes os iniciados os que passavam por um longo processo de preparação no fundo a garantia de que poderiam ler aqueles textos guardandoos em segredo De fato a célebre gramática de Panini século V a C que esmiuça toda a estrutura da língua sânscrita clássica tinha um objetivo específico permitir a leitura correta e a interpretação exata dos textos sagrados Era portanto a filologia a serviço da casta sacerdotal Convém lembrar que foi necessária a Reforma protestante no século pg 133 XVI para que a Igreja católica romana permitisse a popularização da Bíblia tolerando que as Escrituras fossem lidas e estudadas em outras línguas vivas e não somente em latim A primeira tradução da Bíblia para o português por exemplo só aconteceu em 1719 por obra de um protestante João Ferreira de Almeida Na China o sistema ideográfico de escrita exerceu durante séculos a função de assegurar o poder aos burocratas e aos religiosos Realmente a grande quantidade de ideogramas juntamente com o alto grau de sofisticação de seus desenhos eram obstáculos para que as pessoas do povo pudessem aprender a ler e escrever Pesquisadores citados por Tfouni relatam que apesar de os chineses conhecerem a escrita alfabética desde o século II dC eles se recusaram a aceitála até a época atual provavelmente porque seu código antigo mais complexo e pouquíssimo prático há séculos se estabelecera como o meio de expressão de uma vasta produção literária além de estar inextricavelmente ligado às instituições religiosas e de ser aceito como marca distintiva das classes educadas grifos de Tfouni A mesma autora p 12 atribui à introdução da escrita alfabética na Grécia no século VVI aC todo um processo de radicais transformações culturais políticas e sociais O aparecimento entre outras coisas do pensamento lógicoempírico e filosófico a formalização da História e da Lógica enquanto disciplinas intelectuais e a própria democracia grega têm íntima relação com a expansão e solidificação da escrita fonética na Grécia e na Jônia pg 134 Por quê Porque ao contrário de outras civilizações suas contemporâneas a grega não tem uma casta sacerdotal monopolizadora dos livros sagrados A própria escrita não é um segredo dos governantes e escribas mas é de domínio público e comum possibilitando agora sim a ampla difusão e discussão de idéias Assim se por um lado a escrita pode ser apontada como uma das causas fundamentais do surgimento de civilizações modernas e do desenvolvimento científico tecnológico e psicossocial das sociedades em que foi adotada por outro não convém negligenciar fatores como as relações de poder e dominação que governam a utilização restrita ou generalizada de um código escrito Ao convidar o leitor a fazer parte do grupo de cidadãos que sabem grafar corretamente as palavras da língua portuguesa Cipro e Infante afirmam implicitamente que esse conhecimento não é amplo e generalizado nem poderia ser 60 milhões de analfabetos mas sim restrito a um grupo de cidadãos Outra idéia ingênua dos autores é achar inadmissível o número de erros de ortografia cometidos pelo Brasil afora já que nosso alfabeto tem apenas 23 letras Ora o alfabeto tem 23 letras sim mas elas podem se juntar em centenas senão milhares de combinações diferentes criando a riqueza inumerável das palavras da língua portuguesa E essas combinações possíveis nada têm de coerentes nosso sistema ortográfico como explica Miriam Lemle é ao mesmo tempo um sistema de representação fonêmica um sistema de representação pg 135 morfofonêmica um sistema com memória etimológica e um sistema que privilegia uma variedade dialetal em detrimento de outra3 Para termos uma idéia das complexas combinações possíveis entre as letras de nosso alfabeto e os sons que elas podem representar vamos ver as relações que existem entre os fonemas k s š este é o som da letra x em xixi e z e suas possíveis representações ortográficas4 pg 136 3 Ver o interessante prefácio de Miriam Lemle ao livro Leitura ortografia e fonologia de Myrian Barbosa da Silva 4 Este quadro inspirase no da p 32 do livro de Myrian Barbosa da Silva com pequenas alterações Contando o número de flechas identificamos ao todo 21 relações entre realização fonética e representação gráfica Mas se fôssemos levar em conta toda as diversidades de pronúncia que existem no universo da língua portuguesa no Brasil e fora dele certamente encontraríamos muitas mais5 Vamos dar exemplos só das 21 relações do nosso esquema 1 QU ku obliqúe 2 QU kw quase 3 QU k quero 4 C k casa 5 C s céu 6 S s sol 7 S š festa na pronúncia carioca paraense lisboeta entre outras 8 S z rosa 9 Z z azul 10 Z š raiz nas mesmas pronúncias citadas em 7 11 X s próximo 12 X ks fixo pg 137 13 X z exame 14 X š xícara 15 Ç s aço 16 SS s osso 17 XC s exceto 18 XS s exsudar 19 SC s descer 20 SÇ s cresça 5 Gosto de propor o seguinte desafio às pessoas que ainda se iludem com o mito de que o certo é escrever assim porque se fala assim você sabia que a letra s pode representar o som do J em já Depois de alguns momentos de reflexão dou a resposta na pronúncia do Rio de Janeiro de Belém ou de Lisboa numa palavra como MESMO O S tem som de J e o próprio nome de Lisboa na fala de seus nativos se pronuncia lijboa Nessas pronúncias uma frase como AS MESMAS BOAS GAROTAS soa aj mejmaj boaj garotax por causa de características fonéticas típicas do português culto inclusive falado nesses locais Além disso na fala nãoculta do Rio de Janeiro é comum a pronúncia mermo ou memo para o que se escreve MESMO A complexidade da relação letrasom como se vê é muito maior do que as pessoas em geral pensam sobretudo quando se leva em conta todas as variedades nacionais regionais sociais estilísticas etc da língua 21 CH š chave Parece complicado E é Diante de uma situação dessas que é apenas uma das muitas séries de interrelações entre letra e som que existem na língua portuguesa não nos parece nem um pouco inadmissível a existência de dúvidas e hesitações por parte dos brasileiros inclusive dos bem alfabetizados no momento de escrever Vamos abandonar portanto a idéia preconceituosa de que quem escreve tudo errado é um ignorante da língua O aprendizado da ortografia se faz pelo contato íntimo e freqüente com textos bem escritos e não com regras mal elaboradas ou com exercícios pouco esclarecedores Ao recebermos um texto escrito por alguém ou ao ouvir alguém falar vamos procurar ver antes de tudo o que eleela está querendo comunicar para só depois nos preocuparmos com os detalhes de como eleela está se comunicando Vamos fazer a nós mesmos as seguintes perguntas Esse texto ou esse discurso é coerente Traz idéias originais pg 138 Ofende algum princípio ético É preconceituoso Reproduz idéias autoritárias ou intolerantes Mostra um espírito crítico eou criativo Demonstra um senso estético Comunica que sentimentos Ensiname alguma coisa Desperta minhas emoções Quais E assim por diante Isso é que é educar dar voz ao outro reconhecer seu direito à palavra encorajálo a manifestarse Sem isso não é de admirar que a atividade de redação seja tão problemática na escola Eu confesso que sinto muito maior prazer ao ler ou ouvir um texto cheio de erros de português mas com idéias originais inovadoras coerentes bem expressas um texto isento de preconceitos e de idéias rançosas do que ao ler um texto com todas as vírgulas no lugar com todas as regências cultas respeitadas todas as concordâncias verbais e nominais mas repleto de intole rância de deboche de sarcasmo de concepções degradantes e por aí afora 7 Subvertendo o preconceito lingüístico Por mais que isso nos entristeça ou irrite é preciso reconhecer que o preconceito lingüístico está aí firme e forte Não podemos ter a ilusão de querer acabar com ele de uma hora para outra porque isso só será possível pg 139 quando houver uma transformação radical do tipo de sociedade em que estamos inseridos que é uma sociedade que para existir precisa da discriminação de tudo o que é diferente da exclusão da maioria em benefício de uma pequena minoria da existência de mecanismos de controle dominação e marginalização Apesar disso acredito também que podemos praticar alguns pequenos atos subversivos uma pequena guerrilha contra o preconceito sobretudo porque nós professores somos muito importantes como formadores de opinião E quais são estes pequenos atos de sabotagem contra o preconceito Primeiro formandonos e informandonos Não me canso de insistir é preciso que cada professor de língua assuma uma posição de cientista e investigador de produtor de seu próprio conhecimento lingüístico teórico e prático e abandone a velha atitude repetidora e reprodutora de uma doutrina gramatical contraditória e incoerente Segundo fazendo a crítica ativa da nossa prática diária em sala de aula Por questão de sobrevivência às vezes até sobrevivência física mesmo talvez tenhamos de continuar ensinando aquelas coisas que nos são cobradas pela sociedade pela direção das escolas pelos pais dos nossos alunos Mas podemos ensinar essas coisas criticandoas ao mesmo tempo e deixando bem claro que aquilo ali não é tudo o que se pode saber a respeito da língua que há um milhão de outras coisas muito mais pg 140 interessantes e gostosas para descobrir no universo da linguagem Terceiro diante das cobranças de pais diretores ou donos de escola mostrar que as ciências todas evoluem e que a ciência da linguagem também evolui Que as mentalidades mudam que as posturas do próprio Ministério da Educação hoje são outras Não se pode negar que os Parâmetros Curriculares Nacionais representam um grande avanço para a renovação do ensino da língua portuguesa Vamos tentar adquirir copiar ter sempre à mão esses Parâmetros para nos defender das pessoas que nos cobram um ensino à moda antiga Olha aqui ó o Ministério da Educação tá dizendo que a gente deve ensinar de uma maneira diferente nova atualizada Ou você quer que seu filho continue aprendendo coisas que não servem mais para nada Há algumas boas comparações que nos ajudam a argumentar melhor Quando eu estava na escola o certo em astronomia era que somente o planeta Saturno tinha anéis Hoje graças às inovações tecnológicas já sabemos que Urano e Netuno também têm anéis A cada ano são descobertas dezenas de espécies novas de animais e plantas no mesmo ritmo infelizmente das que são extintas para sempre Recentemente encontrouse o fóssil de um dinossauro carnívoro maior e mais forte que o tiranossauro considerado durante muito tempo o maior predador que jamais existiu Os achados dos arqueólogos a todo momento nos fazem rever e reformular nossas idéias sobre pg 141 a história dos povos antigos Os mapas com as divisões políticas da Europa de dez anos atrás já não têm nenhuma utilidade prática hoje em dia a não ser para o pesquisador investigar o que mudou de lá para cá Se tantas mudanças acontecem nas outras áreas do conhecimento decorrentes das transformações do universo da natureza e da sociedade sendo acolhidas como naturais e inevitáveis por que só o estudoensino da língua estaria isento de crítica e reformulação Quarto assumir uma nova postura usando como matéria de reflexão as seguintes noções que chamei de DEZ CISÕES porque representam de fato uma cisão um corte do cordão umbilical que sempre nos prendeu às velhas doutrinas gramaticais o símbolo de infinito no final da lista é um convite a quem quiser acrescentar outras cisões DEZ CISÕES para um ensino de língua não ou menos preconceituoso 1 Conscientizarse de que todo falante nativo de uma língua é um usuário competente dessa língua por isso ele SABE essa língua Entre os 3 e 4 anos de idade uma criança já domina integralmente a gramática de sua língua Sendo assim 2 aceitar a idéia de que não existe erro de português Existem diferenças de uso ou alternativas de uso em relação à regra única proposta pela gramática normativa pg 142 3 Não confundir erro de português que afinal não existe com simples erro de ortografia A ortografia é artificial ao contrário da língua que é natural A ortografia é uma decisão política é imposta por decreto por isso ela pode mudar e muda de uma época para outra Em 1899 as pessoas estudavam psychologia e história do Egypto em 1999 elas estudam psicologia e história do Egito Línguas que não têm escrita nem por isso deixam de ter sua gramática 4 Reconhecer que tudo o que a Gramática Tradicional chama de erro é na verdade um fenômeno que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável Se milhões de pessoas cultas inclusive estão optando por um uso que difere da regra prescrita nas gramáticas normativas é porque há alguma regra nova sobrepondose à antiga Assim o problema está com a regra tradicional e não com as pessoas que são falantes nativos e perfeitamente competentes de sua língua Nada é por acaso 5 Conscientizarse de que toda língua muda e varia O que hoje é visto como certo já foi erro no passado O que hoje é considerado erro pode vir a ser perfeitamente aceito como certo no futuro da língua Um exemplo no português medieval existia um verbo leixar que aparece até na Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D Manuel I Com o tempo esse verbo foi sendo pronunciado deixar porque d e l são consoantes aparentadas o que permitiu a troca de uma pela outra Hoje quem pronunciar leixar vai estar cometendo um erro vai ser acusado de desleixo muito embora essa forma seja mais próxima da origem pg 143 latina laxare comparese por exemplo o francês laisser e o italiano lasciare Por isso é bom evitar classificar algum fenômeno gramatical de erro ele pode ser na verdade um indício do que será a língua no futuro 6 Darse conta de que a língua portuguesa não vai nem bem nem mal Ela simplesmente VAI isto é segue seu rumo prossegue em sua evolução em sua transformação que não pode ser detida a não ser com a eliminação física de todos os seus falantes 7 Respeitar a variedade lingüística de toda e qualquer pessoa pois isso equivale a respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano porque 8 a língua permeia tudo ela nos constitui enquanto seres humanos Nós somos a língua que falamos A língua que falamos molda nosso modo de ver o mundo e nosso modo de ver o mundo molda a língua que falamos Para os falantes de português por exemplo a diferença entre ser e estar é fundamental eu estou infeliz é radicalmente diferente para nós de eu sou infeliz Ora línguas como o inglês o francês e o alemão têm um único verbo para exprimir as duas coisas Outras como o russo não têm verbo nenhum dizendo algo assim como Eu infeliz o russo na escrita usa mesmo um travessão onde nós inserimos um verbo de ligação Assim 9 uma vez que a língua está em tudo e tudo está na língua o professor de português é professor de TUDO Alguém já me disse que talvez por isso o professor de português devesse receber um salário igual à soma dos salários de todos os outros professores pg 144 10 Ensinar bem é ensinar para o bem Ensinar para o bem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno valorizar o que ele já sabe do mundo da vida reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade como ser humano Ensinar para o bem é acrescentar e não suprimir é elevar e não rebaixar a autoestima do indivíduo Somente assim no início de cada ano letivo este indivíduo poderá comemorar a volta às aulas em vez de lamentar a volta às jaulas pg 145 IV O preconceito contra a lingüística e os lingüistas 1 Uma religião mais velha que o cristianismo O ensino de língua na escola é a única disciplina em que existe uma disputa entre duas perspectivas distintas dois modos diferentes de encarar o fenômeno da linguagem a doutrina gramatical tradicional surgida no mundo helenístico no século III aC e a lingüística moderna que se firmou como ciência autônoma no final do século XIX e início do XX Qualquer pessoa bem informada acharia no mínimo estranho se um professor de biologia ensinasse a seus alunos que as moscas nascem da carne podre ou se um professor de ciências dissesse que a Terra é plana e o Sol gira em torno dela ou ainda se um professor de química afirmasse que a mistura dos quatro elementos ar água terra e fogo pode resultar em ouro São idéias mais do que ultrapassadas e que começaram a ser substituídas por novas concepções mais verossímeis a partir do período da história do conhecimento ocidental conhecido como o nascimento da ciência moderna século XVI em diante Ninguém se espanta porém quando um professor de língua ensina que os substantivos pg 147 são palavras que representam os seres em geral ou que sujeito é o ser do qual se diz alguma coisa ou que verbo é a palavra que exprime ação ou movimento São afirmações tão imprecisas e incoerentes para não dizer francamente falsas quanto a de que as avestruzes enterram a cabeça na areia ou que apontar para as estrelas faz nascer verruga nos dedos E no entanto elas continuam sendo estampadas nos manuais de gramática nos livros didáticos nas apostilas e cobradas em testes exames e provas de vestibular A doutrina gramatical tradicional mais velha que a religião cristã passou incólume pela grande revolução científica que abalou os fundamentos do conhecimento e do pensamento ocidental a partir do século XVI Basta examinar o que acontece na escola É muito comum o ensino das outras disciplinas fazer uma abordagem crítica dos saberes do passado mostrando de que maneira a evolução da sociedade da ciência e da tecnologia levou o ser humano a abandonar velhas crenças e superstições Em livros didáticos de biologia física química história geografia etc é freqüente encontrar afirmações do tipo Durante muito tempo se acreditou que mas os avanços da pesquisa e do conhecimento revelaram que Quem não se lembra de algum professor contando a história de Copérnico Galileu Newton Darwin Pasteur e outros que revolucionaram o conhecimento humano Isso só não acontece nas aulas de língua Os termos e conceitos da Gramática Tradicional estabelecidos há mais de 2300 anos continuam a ser repassados praticamente pg 148 intactos de uma geração de alunos para outra como se desde aquela época remota não tivesse acontecido nada na ciência da linguagem O ensino tradicional opera assim uma imobilização do tempo um apagamento das condições sociais e históricas que permitiram o surgimento e a permanência da Gramática Tradicional A Gramática Tradicional permanece viva e forte porque ao longo da história ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicação filosófica para os fenômenos da linguagem humana e foi transformada em mais um dos muitos elementos de dominação de uma parcela da sociedade sobre as demais Assim como no curso do tempo tem se falado da Família da Pátria da Lei da Fé etc como entidades sacrossantas como valores perenes e imutáveis também a Língua foi elevada a essa categoria abstrata devendo portanto ser preservada em sua pureza defendida dos ataques dos barbarismos conservada como um patrimônio que não pode sofrer ruína e corrupção Nessa concepção nada científica língua não é toda e qualquer manifestação oral eou escrita de qualquer ser humano de qualquer falante nativo do idioma a Língua com artigo definido e inicial maiúscula é somente aquele ideal de pureza e virtude falado e escrito é claro pelos puros e virtuosos que estão no topo da pirâmide social e que por isso merecem exercer seu domínio sobre as demais camadas da população A língua deixou de ser fato concreto para se transformar em valor abstrato Querer cobrar hoje em dia a observância dos mesmos padrões lingüísticos do passado é querer preservar pg 149 ao mesmo tempo idéias mentalidades e estruturas sociais do passado A Gramática Tradicional funcionando como uma ideologia lingüística foi e ainda é como toda ideologia o lugar das certezas uma doutrina sólida e compacta com uma única resposta correta para todas as dúvidas Por isso o que não está abonado na gramática normativa é erro ou simplesmente não é português e se alguma palavra não se encontra no dicionário é porque simplesmente ela não existe A lingüística moderna ao encarar a língua como um objeto passível de ser analisado e interpretado segundo métodos e critérios científicos devolveu a língua ao seu lugar de fato social abalando as noções antigas que apresentavam a língua como um valor ideológico Assim a lingüística como toda ciência é o lugar das surpresas das descobertas do novo da substituição de paradigmas da reformulação crítica das teorias Ora o novo assusta o novo subverte as certezas compromete as estruturas de poder e dominação há muito vigentes Não é por acaso que mesmo entre profissionais que deveriam ter a lingüística como seu corpo teórico e prático de referência a doutrina gramatical tradicional ainda encontre um apoio e uma defesa quase irracionais É o que se vê hoje em dia na imprensa e na mídia brasileira com os comandos paragramaticais analisados neste livro essa enxurrada de programas de televisão e de rádio colunas de jornal e revista que tentam preservar as noções mais conservadoras do certo e do errado desprezando o saber acumulado por mais de um século pg 150 de ciência lingüística moderna que tem no Brasil centros de pesquisa de excelência reconhecida internacionalmente Isso para não falar também dos grupos de pessoas que dizem promover ridículos movimentos de defesa da língua portuguesa como se fosse necessário defender a língua de seus próprios falantes nativos a quem ela pertence de fato e de direito A matéria de capa da revista Veja de 7112001 Falar e escrever bem e a estréia de Pasquale Cipro Neto no programa Fantástico da Rede Globo no mesmo ano são exemplos perfeitos do obscurantismo anticientífico que envolve nos meios de comunicação tudo o que diz respeito à língua e ao ensino da língua A participação de Pasquale no Fantástico faz regredir em pelo menos 25 anos os grandes avanços já obtidos pela Lingüística na renovação do ensino de língua na escola brasileira O grande problema está na confusão que reina na mentalidade das pessoas que atribuem uma crise à língua quando de fato a crise existe é na escola é no sistema educacional brasileiro classificado entre os piores do mundo apesar de nosso país ser o mais rico e industrializado do Hemisfério Sul além de ser a décima economia capitalista do planeta A língua não está em crise muito pelo contrário nunca em toda a sua história o português foi tão falado tão escrito tão impresso e tão difundido mundo afora pelos mais diferentes meios de comunicação E a participação do Brasil com seus 170 milhões de falantes nativos é de longe a mais relevante pg 151 e a mais importante Crise existe sim na escola pública brasileira de todos os níveis desde o préprimário até a universidade sobretudo depois que o duplo governo presidido por Fernando Henrique Cardoso passou a empregar todos os esforços possíveis para demolir sistematicamente o já cambaleante e sucateado sistema de ensino público do Brasil como tem feito aliás com todo o patrimônio público dos brasileiros É essa escola arruinada com professores despreparados e pessimamente remunerados que não oferece aos alunos as mínimas condições de letramento necessárias para o pleno exercício da cidadania Tentar atribuir as deficiências dos brasileiros no uso mais formal da língua aos próprios brasileiros que não têm amor ao idioma ou pior ainda ao próprio idioma é não querer ver a realidade é lançar a culpa sobre quem de fato é a vítima maior deste processo perverso Desse modo achar que a língua está em crise e que para superar essa crise é necessário sustentar a doutrina gramatical sem submetêla a uma crítica serena e bemfundada é a meu ver uma atitude que só pode ter duas explicações a ignorância científica a pessoa nunca ouviu falar de lingüística ou a desonestidade intelectual tendo entrado em contato com a ciência lingüística finge que não a conhece pior ainda é quando essa atitude se sustenta num indisfarçado e indisfarçável preconceito social Não podemos aceitar nenhuma dessas explicações para justificar o trabalho daqueles que se proclamam especialistas em questões de linguagem Que um leigo continue a repetir os mitos preconceituosos e as idéias pg 152 infundadas que circulam na sociedade sobre língua e linguagem é algo que podemos compreender e explicar com base numa análise sociológica e histórica Mas que assim proceda um autoproclamado especialista que ainda por cima se atribui o papel de julgar e condenar o comportamento lingüístico de seus semelhantes é algo que não podemos aceitar e que devemos sim denunciar e combater Pelas mesmas razões que levaram à transformação da Gramática Tradicional num instrumento de dominação e exclusão social é que a atividade dos lingüistas brasileiros vem sofrendo ataques grosseiros por parte de autointitulados filósofos que representam na verdade a reação mais conservadora e muitas vezes com acentos claramente fascistas contra qualquer tentativa de democratização do saber e da sociedade É a mesma ira que leva os fundamentalistas pseudocristãos a querer impedir o ensino da teoria evolucionista de Darwin em escolas norteamericanas Assim como esses fundamentalistas para defender seu ponto de vista obscurantista acusam Darwin de afirmar que o homem descende do macaco coisa que ele jamais escreveu em nenhuma de suas obras sua teoria é a de que os humanos e os demais primatas descendem de um ancestral comum também os atuais detratores da ciência lingüística acusam os estudiosos da linguagem de defenderem o nãoensino das formas padronizadas do português numa tentativa de transformar toda uma argumentação detalhada e sofisticada em duas ou três afirmações toscas e propositadamente deturpadas pg 153 2 Português ortodoxo Que língua é essa É fácil mostrar de que modo essa oposição à ciência lingüística está viva e ativa no Brasil nos dias de hoje Para começar vamos invocar novamente o espectro daquele que se tornou uma espécie de arquétipo folclórico do gramático autoritário conservador e intolerante Napoleão Mendes de Almeida Tudo o que ele escreveu constitui um material suculento e abundante para diversos tipos de investigação sobre idéias nãocientíficas como já vimos na segunda parte deste livro dos textos de Napoleão gotejam preconceitos sociais raciais lingüísticos entre outros ao mesmo tempo pululam neles as afirmações mais estapafúrdias possíveis sobre língua gramática e ensino Vamos repetir aqui o que ele escreveu no Dicionário de Questões Vernáculas no verbete lingüística Para fixar inúteis pretensiosas e ridículas bizantinices perde o estudante o tempo que deveria dedicar ao conhecimento efetivo da língua Que adorno cultural representa um diploma de lingüística a quem escreve ou deixa meia dúzia de vezes passar num mesmo artigo de jornal os mais tolos erros de gramática Enganamse os pais enganamse os filhos quando pensam estar a escola a faculdade ensinando gramática ensinando a língua da terra porque no programa consta lingüística O objeto da lingüística é a língua no sentido da fala de dom de expressar o homem por palavras o pensamento é um estudo sem utilidade específica para este ou aquele idioma É a lingüística um dos estorvos do aprendizado da língua portuguesa em escolas brasileiras pg 154 Como já comentei esse texto mais atrás pp 8081 vou apenas chamar a atenção para o seguinte fato Napoleão Mendes de Almeida morreu em 1998 aos 87 anos Se tivesse escrito esse verbete até 1930 seria mais fácil entender sua postura anticientífica analisandoa dentro do contexto das idéias e das concepções de língua e linguagem que vigoravam naquela época em que a ciência lingüística ainda não tinha se instalado definitivamente nos grandes centros de ensino e de pesquisa Mas em 1998 muita água já tinha passado debaixo da ponte científica os estudos da linguagem já tinham enfrentado diversas revoluções epistemológicas amplamente divulgadas nos meios acadêmicos e até nas escolas fundamental e média Não há nada que possa justificar esse conceito tão mesquinho e tacanho essa idéia tola de que a lingüística só estuda os sons da fala Volto a falar de Napoleão Mendes de Almeida porque sua morte mereceu um artigo assinado por Pasquale Cipro Neto na Folha de S Paulo jornal onde Pasquale é consultor de português Nesse artigo depois de falar do estilo rebuscado e barroco de Napoleão Pasquale escreveu o seguinte 2741998 Talvez por isso os lingüistas autoproclamados de vanguarda o têm como conservador e consideram inútil o estudo de sua obra Meticuloso Napoleão era essencialmente gramático e como tal deve ser encarado Muita gente o admira e respeita sobretudo por seu curso de português e latim por correspondência pg 155 E conclui o artigo com estas palavras Uma coisa porém é incontestável quem quiser estudar o português ortodoxo para prestar concurso público advogar exercer a magistratura ou carreira diplomática certamente precisará consultar a obra de Napoleão É muito interessante aqui o uso da expressão português ortodoxo Como se sabe a noção de ortodoxia foi inventada pouco depois da instituição do cristianismo como religião oficial do império romano para definir os dogmas oficiais da Igreja as únicas maneiras certas e admissíveis de acreditar em Deus em Cristo na Virgem Maria na Santíssima Trindade etc Quem se des viasse desses dogmas era acusado de heresia e condenado às mais diversas punições como o exílio a prisão a tortura e a morte na fogueira O conceito de ortodoxia se relaciona com uma série de outras noções do mesmo campo semântico dogma intolerância inflexibilidade pecado penitência castigo excomunhão e outras aparentadas Ao erro do herético corresponde a infalibilidade do ortodoxo Se é possível falar em português ortodoxo é porque certamente também deve existir na mentalidade de seus defensores e em oposição a ele um português herético um português pecador que merece castigo e excomunhão E nós sabemos que é precisamente essa mentalidade de perseguição acusação e condenação que está por trás até hoje da ação dos defensores intransigentes dessa nebulosa ortodoxia gramatical pg 156 3 Devaneios de idiotas e ociosos Mas o que será afinal o português ortodoxo de Pasquale Cipro Neto Não é muito difícil descobrir basta ler com atenção as coisas que ele escreve Analisando por exemplo a fala do político Francisco Rossi candidato ao governo de São Paulo em 1998 Pasquale escreveu na mesma Folha de S Paulo 2181998 Referindose a Gilson Menezes Rossi disse que o prefeito de Diadema foi um dos que levantou bandeira Alguns lingüistas perdem seu precioso tempo em devaneios com que tentam explicar por que o falante brasileiro prefere o singular nesses casos Dizem que essa opção ocorre porque o que se quer é colocar em evidência o elemento de que se fala Balela Por que não se aceita que se diga Ela é uma das moças bonita da sala ou Ele é um dos deputados inscrito para falar Porque não se quer dizer que ela é a única moça bonita nem que o deputado é o único inscrito Das moças bonitas ela é uma Dos deputados inscritos para falar ele é um Dos que levantaram bandeira Gilson é um Então Gilson foi um dos que levantaram bandeira Temos aqui uma das muitas ocasiões em que Pasquale sistematicamente só menciona os lingüistas para lançar sobre eles as mais diversas acusações Nesse texto temos a associação de lingüistas com devaneios e balela Mas é sempre assim Quem consultar por exemplo o cdrom que reúne todas as edições do jornal Folha de S Paulo entre os anos de 1994 e 2000 vai ver que nas colunas assinadas por Pasquale a palavra lingüista vem sempre pg 157 acompanhada de alguma nota depreciativa Também na revista Cult onde escreve regularmente Pasquale já chamou os lingüistas de deslumbrados Sobre o fato gramatical que ele analisa detectando erro comum na fala de Francisco Rossi é muito instrutivo ler o que o filólogo e gramático Evanildo Bechara afirmou numa entrevista ao jornal UERJ em questão n 72 fevereiroabril de 2001 Para justificar a suposta necessidade de elaboração de uma gramática normativa com a chancela da Academia Brasileira de Letras Bechara declarou Vejamos um exemplo a expressão um dos que A língua permite que você diga Carlos é um dos alunos que trabalha ou um dos alunos que trabalham Há professores que consideram mais lógica a concordância do verbo no plural Outros acham que a concordância deve ser no singular Mas a língua admite as duas possibilidades O que não se pode fazer é optar por uma forma e considerar a outra errada como muitas vezes fazem as bancas examinadoras Evanildo Bechara é sem a menor possibilidade de dúvida o mais importante gramático brasileiro vivo Apesar de sua inegável competência como estudioso da língua suas posturas políticas e pedagógicas não têm nada de revolucionárias e o simples fato de pertencer à Academia Brasileira de Letras é exemplo de sua filiação a um ideário conservador e elitista ele já declarou por exemplo que a função da escola é levar os alunos a falar melhor e com os melhores porque na sua opinião existe uma necessidade da vigência da hierarquização e da pg 158 normatividade esquecendose de que a hierarquização só pode parecer necessária para os que ocupam evidentemente o topo da hierarquia e se consideram naturalmente os melhores1 Ora Pasquale Cipro Neto consegue ser mais conservador e elitista ainda do que Bechara Para o gramático profissional a língua admite as duas possibilidades Para o colunista da Folha a admissão dessas possibilidades representa devaneios e balela Agora fica mais fácil entender o que Pasquale chama de português ortodoxo é um conceito de língua certa que é mais certa ainda do que a língua dos gramáticos profissionais da própria Academia Brasileira de Letras Em outra coluna 2851998 ele fala de lingüistas defensores do valetudo numa absoluta distorção do verdadeiro papel do lingüista como investigador de todos os fenômenos da língua e não só como caçador de erros e juiz do uso Vejamos um último exemplo dessa concepção obscurantista que Pasquale Cipro Neto divulga da lingüística e dos lingüistas e que em nada difere da opinião de Napoleão Mendes de Almeida A única diferença entre os dois é que Napoleão nunca escondeu suas 1 Evanildo Bechara A sobrevivência da língua culta in Academia Brasileira de Letras na Imprensa 1999 Rio de Janeiro ABL 1999 pp 6370 posições retrógradas tendoas assumido com toda franqueza e nitidez ao longo de sua vida ao passo que Cipro Neto tenta dar verniz moderno à sua atividade posando de progressista O abismo entre seu discurso e sua prática no pg 159 entanto é amplo largo e fundo Numa coluna publicada em 20111997 comentando a fala de representantes do governo numa entrevista na televisão Pasquale escreveu Quem assistiu à entrevista coletiva concedida pela equipe econômica no último dia 10 deve ter tido congestão de de que Um dos membros da equipe cujo nome é melhor não citar abusou do direito de usar a bendita expressão O governo considera de que Não nos parece de que esse caso Penso de que não será etc Santo Deus De onde o homem graduadíssimo professor tirou tanto de Os verbos considerar pensar e parecer pedem a preposição de É óbvio que não Alguém pensa algo alguém considera algo algo parece a alguém Onde está o de Perguntem ao homem Nada de de que Não nos parece que Penso que O governo considera que E agora ao ataque Alguns lingüistas alguns idiotas dirão que a língua falada não merece reparo que a fala é sempre boa etc Esses ociosos não conseguem perceber que os homens não estavam na mesa de um boteco batendo papo Estavam falando para o país sobre um assunto técnico usando linguagem teoricamente culta Quem assiste a esse tipo de transmissão normalmente acredita nessas pessoas temnas como modelo Adolescentes que vão fazer vestibular ouvem o cidadão dizendo de que de que de que e acham que isso é o máximo A Fuvest faz uma questão a respeito como já fez há dois ou três anos E muitos ingenuamente erram E alguns idiotas ociosos dizem que a fala é sempre boa que isso e aquilo pg 160 Esse tipo de afirmação é tão chocante é reveladora de um tamanho desconhecimento de uma ignorância tão manifesta que leva mesmo a pensar que Pasquale não acredita no que escreve Que deve haver alguma razão secreta para ele publicar coisas que depõem tão abertamente contra sua própria inteligência Afinal o fenômeno do dequeísmo já tem merecido nos últimos quinze anos pelo menos a atenção de diversos pesquisadores já foi tema de dissertações e de teses de artigos publicados em livros e revistas científicas além disso também ocorre no espanhol culto falado na América Latina não sendo portanto invenção de brasileiro burro Será que custava tanto assim ele procurar ler informar se sobre o fenômeno E quem são afinal esses lingüistas idiotas e ociosos que dizem que a língua falada não merece reparo que a fala é sempre boa etc Pasquale nunca dá nome aos bois Por isso apesar de sempre escrever alguns lingüistas ele nunca diz quem onde e quando Assim fica fácil deduzir que esse alguns é um mero disfarce para seu preconceito contra todos os lingüistas 4 A quem interessa calar os lingüistas Finalmente vamos ver um caso interessante de preconceito contra os lingüistas não por discriminação explícita como no caso de Pasquale Cipro Neto mas por absoluta desconsideração por omissão Em seu tão debatido projeto de lei de 1999 sobre a promoção a proteção a defesa e o uso da língua portuguesa pg 161 o deputado Aldo Rebelo PCdoBSP embora tratando de assuntos que dizem respeito ao campo de investigação da lingüística teórica e aplicada em nenhum momento faz referência aos cientistas da linguagem às pessoas que se dedicam profissionalmente ao estudo da língua Dos pouquíssimos autores citados na justificativa do projeto nenhum é lingüista Um é Machado de Assis por sinal numa citação que o deputado parece não soube ler corretamente porque nela Machado desmente em poucas linhas cada uma das idéias contidas no projeto Dois outros são jornalistas que publicaram na época da redação do projeto artigos em que se queixavam do atual estado de crise da língua E a Academia Brasileira de Letras Seu espírito elitista conservador e feudal o deputado não critica muito pelo contrário Aldo Rebelo escreve que à Academia Brasileira de Letras continuará cabendo o seu tradicional papel de centro maior de cultivo da língua portuguesa no Brasil e que à Academia Brasileira de Letras incumbe por tradição o papel de guardiã dos elementos constitutivos da língua portuguesa usada no Brasil afirmações que não significam rigorosamente coisa nenhuma fazendo a gente até se perguntar se esse projeto de lei é mesmo para ser levado a sério ou se não passa de uma peça de prosa surrealista A Academia Brasileira de Letras nem de longe pode ser chamada de centro maior de cultivo da língua portuguesa no Brasil afinal por que atribuir essa qualidade a um reduzido grupo de 40 indivíduos dos quais para piorar somente um número ínfimo é composto de pg 162 verdadeiros escritores quando o português do Brasil é falado ou seja é de fato cultivado por mais de 170 milhões de pessoas Além disso os elementos constitutivos de uma língua pertencem ao grupo social que fala essa língua pertencem a seus falantes nativos e não precisam de guardiães aliás novamente os números voltam a gritar podem 40 senhores e senhoras defender a língua contra o suposto ataque de seus 170 milhões de falantes Somente uma ideologia ultraconservadora colonialista e elitista ao extremo é que pode justificar a pretensão de defender o português contra os seres humanos que têm ele como sua própria língua materna O único autor citado no projeto de Aldo Rebelo que tem alguma coisa a ver com o estudo e o ensino da língua é novamente Napoleão Mendes de Almeida No entanto é muito divertido ver que no texto Napoleão é apresentado como um dos nossos maiores lingüistas Ora conhecendo a opinião de Napoleão sobre a lingüís tica só podemos rir da piada involuntária do deputado Chamar Napoleão de lingüista é um desrespeito à sua memória uma vez que para ele a lingüística era um estorvo e uma coleção de bizantinices Fechamos assim mais um círculo preconceituoso que começa em Napoleão com seus ataques contra a lingüística passa por Pasquale Cipro Neto que elogia Napoleão e segue suas concepções obscurantistas sobre a ciência da linguagem e termina com Aldo Rebelo que novamente recorre a Napoleão para justificar seu projeto insustentável de uma lei impraticável pg 163 É muito curiosa a situação desse projeto de lei do deputado Aldo Rebelo A retumbante maioria dos lingüistas tem se manifestado nas mais diversas ocasiões contra o projeto denunciando seus equívocos lingüísticos políticos históricos sociológicos etc A indignação dos lingüistas profissionais se concretizou até na forma de um livro coletivo Estrangeirismos guerras em torno da língua São Paulo Parábola Editorial 2001 organizado por Carlos Alberto Faraco Mas ninguém dá ouvido aos lingüistas O projeto continua sua marcha vitoriosa pelo Congresso Nacional e tudo indica que virá a ser aprovado para se tornar mais uma lei que ninguém vai cumprir até porque seu cumprimento é inviável É o caso de perguntar se um deputado sem formação em medicina inventasse um projeto de lei que tivesse relação com a prática cirúrgica e se todos os médicos do país se manifestassem contra o projeto será que ele conseguiria ser aprovado Por que toda e qualquer pessoa se acha no direito de dar palpites infundados e preconceituosos sobre as questões que dizem respeito à língua Por que os profissionais de outras áreas conseguem se fazer ouvir mas os lingüistas permanecem não ouvidos Será que os lingüistas apesar de se dedicarem ao estudo da língua não falam Será que não se dão conta de seu papel social e político ou mesmo conscientes desse papel há outras forças que não nos deixam falar A quem interessa manter calados os estudiosos da linguagem Por que o discurso gramatical tradicional já tão amplamente criticado pelos cientistas da linguagem com base em teorias pg 164 e métodos consistentes e coerentes ainda tem tanto vigor e obtém tanta defesa Que ameaça ao tipo de sociedade em que vivemos representa a democratização do saber lingüístico a divulgação ampla das descobertas deste campo científico a liberação da voz de tantos milhões de pessoas condenadas ao silêncio por não saber português ou por falar tudo errado A quem interessa defender o português ortodoxo de uns pouquíssimos melhores contra a suposta heresia gramatical de muitos milhões de outros Espero que a discussão feita neste livro ajude você a encontrar suas próprias respostas para perguntas tão inquietantes pg 165 ANEXO Carta de Marcos Bagno à revista Veja Em seu número 1725 novembro de 2001 a revista Veja publicou uma extensa reportagem anunciada na capa com o título Falar e escrever bem eis a questão O texto assinado por João Gabriel de Lima deixou a comunidade dos educadores e lingüistas estarrecida por causa da quantidade de absurdos distorções e acusações grosseiras que continha Em reação a isso Marcos Bagno escreveu e enviou uma longa carta ao editor da revista não para ser publicada mas para marcar a posição dos pesquisadores comprometidos com o avanço da ciência brasileira diante de atitudes tão assumidamente obscurantistas e retrógradas São Paulo 4 de novembro de 2001 Sr Editor Em 1990 o lingüista e educador britânico Michael Stubbs escrevia que toda a área da língua na educação está impregnada de superstições mitos e estereótipos muitos dos quais têm persistido por séculos e às vezes com distorções deliberadas dos fatos lingüísticos e pedagógicos por parte da mídia É triste constatar que essas palavras publicadas há mais de uma década se pg 167 aplicam com precisão impressionante ao que ainda ocorre hoje em dia no Brasil Afinal de que outro modo qualificar a reportagem de capa do número 1725 de VEJA senão como uma série de distorções deliberadas dos fatos lingüísticos e pedagógicos por parte da mídia O texto assinado pelo Sr João Gabriel de Lima demonstra o quanto nossos meios de comunicação de massa se encontram perdoeme o lugarcomum na contramão da História quando o assunto é língua Há um absoluto despreparo de jornalistas e comunicadores para tratar do tema um exemplo gritante disso veio a público em outra edição recente de VEJA a de número 1710 com a reportagem Todo mundo fala assim Se falo de contramão é porque passados mais de cem anos de surgimento crescimento e afirmação da Lingüística moderna como ciência autônoma a mídia continua a dar as costas à investigação científica da linguagem preferindo consagrarse à divulgação e sustentação das superstições mitos e estereótipos que circulam na sociedade ocidental há mais de dois mil anos Isso é ainda mais surpreendente quando se verifica que na abordagem de outros campos científicos os meios de comunicação se mostram muito mais cuidadosos e atenciosos para com os especialistas da área Quando o assunto é língua porém o espaço maior é invariavelmente ocupado por alguns oportunistas que apoderando se inteligentemente dessas superstições mitos e estereótipos conseguem transformar esse folclore lingüístico em bens de consumo que lhes rendem muito lucro financeiro além pg 168 de fama e destaque na mídia Basta comparar o espaço dedicado no último número de VEJA ao Prof Luiz Antônio Marcuschi reconhecido hoje no Brasil como um dos nomes mais importantes da ciência lingüística entre nós e aos atuais pregadores da tradição gramatical que infestam o cotidiano dos brasileiros com suas quinquilharias multimidiáticas sobre o que é certo e errado na língua Seria espantoso ver uma matéria de VEJA em que aparecessem zoólogos falando mal da Biologia ou engenheiros criticando a Física ou cirurgiões maldizendo da Medicina No entanto ninguém se espanta e muitos até aplaudem quando o Sr João Gabriel de Lima fazendo eco aos detratores da Lingüística como o Sr Pasquale Cipro Neto fala da existência de certa corrente relativista e escreve absurdos como tratase de um raciocínio torto baseado num esquerdismo de meiapataca que idealiza tudo o que é popular inclusive a ignorância como se ela fosse atributo e não problema do povo O que esses acadêmicos preconizam é que os ignorantes continuem a sêlo Seria muito fácil retrucar que estamos aqui diante de um direitismo de meiapataca que acredita na existência de uma ignorância popular mas como cientista prefiro recorrer a outro tipo de argumento baseado na reflexão teórica serena e na experiência conjunta de muitas pessoas que há anos se dedicam ao estudo e ao ensino da língua portuguesa no Brasil Segundo a reportagem as críticas que o Sr Pasquale Cipro Neto recebe dessa corrente relativista deixamno pg 169 irritado Ora o que parece realmente irritar o Sr Pasquale é o fato de que apesar de obter tanto sucesso entre os leigos nada do que ele diz ou escreve é levado a sério nos centros de pesquisa científica sobre a linguagem sediados nas mais importantes universidades do Brasil centros de pesquisa lingüística digase de passagem reconhecidos internacionalmente como entre alguns dos melhores do mundo Muito pelo contrário se o nome do Sr Pasquale é mencionado nas nossas universidades é sempre como exemplo de uma atitude anticientífica dogmática e até obscurantista no que diz respeito à língua e seu ensino em vários de seus artigos em jornais e revistas ele já chamou os lingüistas de idiotasociosos defensores do valetudo e deslumbrados Se o Sr Pasquale se irrita com os cientistas da linguagem é porque sabe que não tem como responder às críticas que recebe por parte dos pesquisadores dos teóricos e dos educadores empenhados num conhecimento maior e melhor da realidade lingüística do nosso país Digo isso com base na experiência de já ter participado de três debates junto com o Sr Pasquale e ter conhecido sua estratégia de nunca responder com argumentos consistentes às críticas a ele dirigidas preferindo sempre retrucar com arrogância prepotência grosserias e ataques pessoais chamando os lingüistas de ortodoxos seja isso lá o que for e de bichosgrilos ou fazendose de vítima de alguma perseguição num desses encontros ele declarou sentirse como um boi de piranha pg 170 A razão para essa falta de argumentos consistentes é muito simples o Sr Pasquale não tem formação científica para tratar dos assuntos de que trata Suas opiniões se baseiam exclusivamente na arcaica doutrina gramatical normativoprescritiva cuja inconsistência teórica e cujos problemas epistemológicos graves vêm sendo demonstrados e criticados pela Lingüística moderna desde pelo menos o final do século XIX As concepções do Sr Pasquale de certo e de errado estão em franca oposição não só com as teorias científicas mais atuais mas até mesmo com a postura investigativa dos gramáticos profissionais de sólida formação filológica coisa que ele definitivamente não é para não mencionar as diretrizes pedagógicas das instâncias superiores da Educação nacional O documento do Ministério da Educação chamado Parâmetros Curriculares Nacionais por exemplo é bem explícito em seu volume dedicado ao ensino da língua portuguesa A imagem de uma língua única mais próxima da modalidade escrita da linguagem subjacente às prescrições normativas da gramática escolar dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre o que se deve e o que não se deve falar e escrever não se sustenta na análise empírica dos usos da língua E este mesmo documento é enfático ao afirmar que há muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar é muito comum se considerarem as variedades lingüísticas de menor prestígio pg 171 como inferiores ou erradas O problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser enfrentado na escola como parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o respeito à diferença Para isso e também para poder ensinar Língua Portuguesa a escola precisa livrarse de alguns mitos o de que existe uma única forma certa de falar a que se parece com a escrita e o de que a escrita é o espelho da fala e sendo assim seria preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado Essas duas crenças produziram uma prática de mutilação cultural que além de desvalorizar a forma de falar do aluno tratando sua comunidade como se fosse formada por incapazes denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos por mais prestígio que um deles tenha em um dado momento histórico É provável no entanto que o Sr Pasquale Cipro Neto e o Sr João Gabriel de Lima acreditem que os Parâmetros Curriculares Nacionais sejam obra de membros daquela corrente relativista que conseguiram se infiltrar no Ministério da Educação e se apoderar da redação do documento oficial Vamos então deixar de lado as propostas oficiais de ensino e lançar um olhar sobre a própria prática normativoprescritiva de pessoas como o Sr Pasquale assim ficará mais fácil descobrir por que ele não encontra argumentos para reagir às críticas bemfundadas dos lingüistas e educadores sérios e por que só consegue fazer sucesso entre os leigos e os que se recusam certamente por motivações ideológicas a aceitar uma concepção de língua mais democrática pg 172 Consultando a gramática que Pasquale Cipro Neto assina em parceria com Ulisses Infante Gramática da Língua Portuguesa Editora Scipione São Paulo 1998 encontrase às pp 521522 a seguinte explicação para o uso supostamente correto do verbo custar Custar no sentido de ser custoso ser penoso ser difícil tem como sujeito uma oração subordinada substantiva reduzida Observe Ainda me custa aceitar sua ausência Custounos encontrar sua casa Custoulhe entender a regência do verbo custar No Brasil na linguagem cotidiana são comuns construções como Zico custou a chutar ou Custei para entender o problema Na língua culta essas construções em que custar apresenta um sujeito indicativo de pessoa são rejeitadas Em seu lugar devemse utilizar construções em que surja objeto indireto de pessoa Custou a Zico chutar Custoulhe chutar Quero chamar a atenção aqui para a seguinte afirmação dos autores Na língua culta essas construções são rejeitadas Aqui está um exemplo claro e nítido de uma concepção abstrata da língua tratada como uma espécie de entidade viva de sujeito animado capaz de rejeitar alguma coisa Ora que língua culta é essa que supostamente rejeita essas construções Será a língua dos nossos grandes escritores que sempre serviu de material para o trabalho dos gramáticos normativistas Basta investigar para descobrir que não é porque os exemplos de pg 173 uso do verbo custar com sujeito são mais do que abundantes na nossa melhor literatura 1 Seixas custou a conterse José de Alencar 2 as moças custavam a se separar Clarice Lispector 3 Renato custou a acordar Carlos Drummond de Andrade 4 Felicidade custas a vir e quando vens não te demoras Cecília Meireles Será que Alencar Clarice Lispector Drummond e Cecília Meireles não são bons exemplos de usuários da língua culta Se não é na literatura quem sabe então se recorrermos à imprensa contemporânea Será que é lá que mora a famosa língua culta que rejeita essas construções Ora consultando o jornal onde o próprio Pasquale Cipro Neto escreve Folha de S Paulo e onde presta serviços de consultor de português seja isso lá o que for encontramos 5 Quem foi ao show de Maria Bethânia anteontem à noite depois de assistir o sóbrio concerto de João Gilberto custou a crer que estivesse na mesma cidade 2261998 pp 510 6 O técnico colombiano Hernán Darío Gómez custou a admitir a superioridade rival 166 1998 pp 414 7 O nome Kubitschek era complicado de pronunciar custou a ser assimilado pela fonética eleitoral 21111997 pp 43 pg 174 Se lembrarmos que José de Alencar morreu em 1877 fica muitíssimo claro que essa construção está viva e presente na nossa língua há muito mais de um século Os autores da gramática estão proferindo uma inverdade ao dizer que essa construção é típica do Brasil quotidiano Os Srs Pasquale e Ulisses em vez de se curvar à realidade concreta dos fatos tentam nos convencer de que a opção que eles preferem só porque é a tradicional é que deve ser considerada a melhor É uma atitude essencialmente dogmática que se recusa a empreender a pesquisa empírica mínima necessária para afirmações sobre o que existe e o que não existe na língua Além disso essa atitude é ainda mais conservadora do que a posição assumida por gramáticos de gerações anteriores à deles como Celso Pedro Luft e Domingos Paschoal Cegalla que reconhecem a vitória da construção eu custo a crer que Esse é apenas um pequeno exemplo de como é fácil para um pesquisador munido de instrumental teórico consistente e de metodologia científica adequada desautorizar uma a uma e de modo convincente as afirmações presentes no trabalho do Sr Pasquale Cipro Neto e de outros atuais defensores da doutrina gramatical tradicional mais normativa e mais prescritiva possível Por causa de tudo isso é que a estréia do Sr Pasquale no programa Fantástico da Rede Globo representa para a grande maioria dos cientistas da linguagem e dos educadores conscientes mais um exemplo de como o nosso trabalho ainda está no começo apesar de tudo o que já temos dito e feito O quadro do Sr Pasquale no Fantástico faz regredir pg 175 em pelo menos 25 anos os grandes avanços já obtidos pela Lingüística na renovação do ensino de língua na escola brasileira Não consigo portanto deixar de repetir o chavão ele se encontra na contramão da História Como já enfatizei acima pessoas como o Sr Pasquale só conseguem fazer sucesso entre os leigos porque dizem exatamente o que as pessoas desejam ouvir os mitos as superstições e as crenças infundadas que há mais de dois mil anos guiam o senso comum ocidental no que diz respeito à língua Refirome ao senso comum ocidental porque essa situação de embate entre uma ciência lingüística moderna e uma doutrina gramatical arcaica também se verifica em outros países basta ler os livros Language Myths publicado na Inglaterra sob organização de L Bauer e P Trudgill e o Catalogue des idées reçues sur le langage publicado na França por Marina Yaguello É por isso que escrevi acima que nossa luta ainda está no começo É uma pena que não possamos contar com a ajuda dos meios de comunicação para dissipar todos esses mitos e preconceitos que impedem a formação no Brasil em particular de uma autoestima lingüística uma vez que tudo o que os brasileiros ouvem e lêem são os mesmos chavões repetidos há séculos de que brasileiro não sabe português e que a língua que falamos é português estropiado O pesquisador canadense Christophe Hopper localizou lamúrias e queixas sobre a ruína e a decadência do francês em textos publicados em 1933 1905 1730 e 1689 o que prova a pg 176 antiguidade desse discurso alarmista e preconceituoso sobre o fenômeno da mudança das línguas ao longo do tempo Outro fato lamentável na reportagem de VEJA é que seu autor não tenha prestado o grande favor à sociedade de identificar quem são os membros dessa certa corrente relativista para que todos público leitor em geral e lingüistas profissionais em particular pudéssemos nos precaver contra o suposto raciocínio torto de um esquerdismo de meiapataca dos que acreditam que ensinar a normapadrão não seria útil para as classes sociais desfavorecidas Minha curiosidade ficou especialmente aguçada porque como pesquisador dedicado há muitos anos ao estudo das relações entre língua ensino de língua e fenômenos sociais até hoje não encontrei uma única obra assinada por lingüista de formação ou por educador profissional que negasse a importância do ensino da normapadrão na escola brasileira que pregasse a idéia torpe de que não se deve ensinar as formas prestigiosas da língua ou que preconizam que os ignorantes continuem a sêlo para citar as palavras infelizes da reportagem de VEJA Entre os membros da comunidade acadêmicocientífica que não se intimidam diante da pressão esmagadora das superstições mitos e estereótipos sobre a língua podemos citar a Profa Magda Soares reconhecida como uma das mais importantes educadoras brasileiras de todos os tempos e o Prof Sírio Possenti que nunca teve papas na língua para denunciar e demolir cientificamente os absurdos proferidos por gente como Pasquale Cipro pg 177 Neto Ora já em 1986 Magda Soares em seu livro um clássico da educação brasileira Linguagem e Escola Editora Ática escrevia sem hesitação p 78 Um ensino de língua materna comprometido com a luta contra as desigualdades sociais e econômicas reconhece no quadro dessas relações entre a escola e a sociedade o direito que têm as camadas populares de apropriarse do dialeto de prestígio e fixase como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas a dominálo não para que se adaptem às exigências de uma sociedade que divide e discrimina mas para que adquiram um instrumento fundamental para a parti cipação política e a luta contra as desigualdades sociais Também em seu muito divulgado livro Por que não ensinar gramática na escola Ed Mercado de Letras 1996 Sírio Possenti faz questão de enfatizar pp 1718 O PAPEL DA ESCOLA É ENSINAR LÍNGUA PADRÃO adoto sem qualquer dúvida o princípio quase evidente de que o objetivo da escola é ensinar o português padrão ou talvez mais exatamente o de criar condições para que ele seja aprendido Qualquer outra hipótese é um equívoco político e ideológico E eu mesmo que não tenho hesitado em combater abertamente a manutenção das concepções arcaicas e preconceituosas de língua escrevi em meu mais recente livro publicado Português ou Brasileiro Um convite à pesquisa Parábola Editorial 2001 como responder a pergunta invariavelmente presente na fala dos professores de língua qual o objeto de ensino nas pg 178 aulas de português O que devemos ensinar a nossos alunos em sala de aula Uma resposta concisa e rápida seria devemos ensinar a normapadrão Já que só se pode ensinar algo que o aprendiz ainda não conhece cabe à escola ensinar a normapadrão que não é língua materna de ninguém que nem sequer é língua nem dialeto nem variedade como enfatizei acima Ensinar o padrão se justificaria pelo fato dele ter valores que não podem ser negados em sua estreita associação com a escrita ele é o repositório dos conhecimentos acumulados ao longo da história Esses conhecimentos assim armazenados constituiriam a cultura mais valorizada e prestigiada de que todos os falantes devem se apoderar para se integrar de pleno direito na produçãoconduçãotransformação da sociedade de que fazem parte Tenho portanto a consciência muito tranqüila como decerto também a têm Magda Soares Sírio Possenti e de fato a maioria dos lingüistas e educadores brasileiros comprometidos com a democratização de nossa sociedade de não fazer parte daquela corrente relativista e de não poder ser acusado de ter um raciocínio torto Por isso volto a lamentar que o Sr João Gabriel de Lima não tenha dado nome aos bois para que juntos pudéssemos combater esse suposto esquerdismo de meiapataca Não nomear seus adversários no plano intelectual no entanto é prática corrente de pessoas como Pasquale Cipro Neto que embora alegando referirse a alguns lingüistas nunca se dá ao trabalho de dizer quem são os idiotas ociosos e deslumbrados a que se refere pg 179 A grande diferença entre os lingüistas e educadores que defendem o ensino da normapadrão e os apregoadores da doutrina gramatical arcaica está no fato de que já se sabe hoje em dia que para aprender as formas mais padronizadas e prestigiosas da língua não é necessário conhecer a nomenclatura gramatical tradicional as definições tradicionais nem praticar a velha e mecânica análise lexical e muito menos a torturante análise sintática Em seu depoimento a VEJA O Sr Pasquale Cipro Neto lamenta que ninguém mais saiba diferenciar sujeito de predicado nem mesmo os professores Ora todo um longo trabalho de investigação teórica e de pesquisa em sala de aula no Brasil e no resto do mundo trabalho que se faz há pelo menos trinta anos já deixou muito claro que não é decorando as páginas da gramática normativa que uma pessoa será capaz de falar ler e escrever adequadamente às diversas situações O já citado M Stubbs escrevia em 1987 que Muita gente lamenta o fim do ensino da gramática formal análise sintática e coisas assim alegando que ele ajudava as crianças a escrever melhor com mais precisão e assim por diante é duvidoso que aquele ensino jamais tenha ajudado muita gente a escrever melhor e é nítido que ele afugentou um grande número de pessoas A relação entre análise e compreensão e entre compreensão consciente e produção de linguagem efetiva é difícil de demonstrar E o pedagogo canadense Gilles Gagné em 1983 já dizia O uso da língua procede da intenção para a convenção ao passo que a escola procede infelizmente ao contrário isto pg 180 é das convenções lingüísticas para as intenções de comunicação intenções além disso quase sempre artificiais e impostas ou sugeridas pelo mestre E aquele que é considerado hoje inclusive internacionalmente como o nome mais importante da pesquisa científica sobre o português brasileiro contemporâneo o Prof Ataliba T de Castilho da USP atual presidente da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina e coordenador do grande Projeto da Gramática do Português Falado projeto apresentado de maneira distorcida e preconceituosa no número 1710 de VEJA escreve com toda clareza em seu livro A língua falada e o ensino de português Ed Contexto 1998 os recortes lingüísticos devem ilustrar as variedades socioculturais da Língua Portuguesa sem discriminações contra a fala vernácula do aluno isto é de sua fala familiar A escola é o primeiro contato do cidadão com o Estado e seria bom que ela não se assemelhasse a um bicho estranho a um lugar onde se cuida de coisas fora da realidade cotidiana Com o tempo o aluno entenderá que para cada situação se requer uma variedade lingüística e será assim iniciado no padrão culto caso já não o tenha trazido de casa Desse modo prossegue o autor a gramática deixará de ser vista pelos alunos como a disciplina do certo e do errado reassumindo sua verdadeira dimensão que é a de esquadrinhar através dos materiais lingüísticos o funcionamento da mente humana pg 181 Afinal o que aconteceu ao longo dos séculos segundo Castilho foi que a gramática que não era uma disciplina autônoma assumiu na escola uma vida própria desgarrada de suas origens e concentrada apenas na sentença na palavra e no som obscurecendose sua argumentação e empobrecendose seu alcance Se existe porém uma grande resistência contra o redimensionamento do lugar do ensino da gramática na escola é porque todos sabemos que ao longo do tempo o conhecimento mecânico da doutrina gramatical se transformou num instrumento de discriminação e de exclusão social Saber português na verdade sempre significou saber gramática isto é ser capaz de identificar por meio de uma terminologia falha e incoerente o sujeito e o predicado de uma frase pouco importando o que essa frase queria dizer os efeitos de sentido que podia provocar etc Transformada num saber esotérico reservado a uns poucos iluminados a gramática passou a ser reverenciada como algo misterioso e inacessível daí surgiu a necessidade de mestres e guias capazes de levar o ignorante a atravessar o abismo que separa os que sabem dos que não sabem português Em conclusão Sr Editor gostaria de lhe pedir que uma vez que tão amplo espaço foi concedido aos defensores da idéia medieval de que os brasileiros não sabem falar bem caberia agora a VEJA conceder igual espaço aos verdadeiros especialistas às pessoas que dedicam toda sua energia toda sua inteligência toda sua vida enfim ao pg 182 estudo dos fenômenos da linguagem humana e à proposição de novos métodos de ensino capazes de dar voz aos que por força de tantas estruturas sociais injustas sempre foram mantidos no silêncio Talvez assim VEJA possa se livrar do risco de ser acusada de promover distorções deliberadas dos fatos lingüísticos e pedagógicos Atenciosamente MARCOS BAGNO pg 183 Referências ALMEIDA Napoleão M 1994 Dicionário de questões vernáculas 2a ed São Paulo LCTE BAGNO Marcos 1995 A luta desigual Mito vs realidade nos livros didáticos de língua portuguesa Dissertação de Mestrado Recife Programa de Pósgraduação em Letras e Lingüística Universidade Federal de Pernambuco mimeo 1997 A língua de Eulália Novela sociolingüística São Paulo Contexto 1999 Pesquisa na escola o que é como se faz 2a ed São Paulo Loyola BORTONIRICARDO S M 1984 Problemas de comunicação interdialetal in Sociolingüística e ensino do vernáculo Revista Tempo Brasileiro n 7879 CARVALHO A RIBEIRO J 1998 Nossa palavra 5ª série São Paulo Ática CASTILHO A et alii I 1990 II 1992 III 1993 IV V VI 1996 Gramática do português falado Campinas Editora da UNICAMP CEGALLA Domingos P 1990 Novíssima gramática da língua portuguesa 33a ed São Paulo Cia Editora Nacional CIPRO Neto P INFANTE U 1997 Gramática da língua portuguesa São Paulo Scipione CUNHA C CINTRA L E L 1985 Nova gramática do português contemporâneo Rio de Janeiro Nova Fronteira DUARTE Sérgio N 1998 Língua viva Rio de Janeiro Rocco pg 185 FIGUEIREDO Cândido de 1929 1903 O que se não deve dizer vol I 5a ed Lisboa Livraria Clássica Editora GNERRE Maurizzio 1985 Linguagem escrita e poder São Paulo Martins Fontes LOBATO J B Monteiro 1952 1934 Emília no País da Gramática 3a ed São Paulo Brasiliense LUFT Celso Pedro 1994 Língua e liberdade 3a ed São Paulo Ática MARTINS E 1999 Com todas as letras São Paulo Moderna MATTOS E SILVA Rosa V 1997 Contradições no ensino de português São Paulo ContextoEDUFBA NEVES Ma Helena M 1990 Gramática na escola São Paulo Contexto PERINI Mário A 1996 Gramática descritiva do português 2a ed São Paulo Ática 1997 Sofrendo a gramática São Paulo Ática POSSENTI Sírio 1997 Por que não ensinar gramática na escola Campinas Mercado de Letras ROCHA LIMA C H 1989 Gramática normativa da língua portuguesa 30a ed Rio de Janeiro José Olympio SACCONI Luiz Antonio 1998 Não erre mais 23a ed São Paulo Atual SILVA Myrian B 1993 Leitura ortografia e fonologia 2ª ed São Paulo Ática TERRA Ernani 1997 Linguagem língua e fala São Paulo Scipione TFOUNI Leda V 1988 Adultos não alfabetizados O avesso do avesso Campinas Pontes Editores pg 186 DISTRIBUIDORES DE EDIÇÕES LOYOLA Se oa senhora não encontrar qualquer um de nossos livros em sua livraria preferida ou em nossos distribuidores faça o pedido por reembolso postal à Rua 1822 nº 347 Ipiranga CEP 04216000 São Paulo SP Caixa Postal 42335 CEP 04218970 São Paulo SP Tel 11 69141922 Fax 11 61634275 vendasloyolacombr wwwloyolacombr BAHIA LIVRARIA E DISTRIBUIDORA MULTICAMP LTDA Rua Direita da Piedade 203 Piedade Tel 71 2101801021018009 Telefax 71 33290109 40070190 Salvador BA multicampuolcombr MINAS GERAIS ASTECA DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA Rua Costa Monteiro 50 e 54 Bairro Sagrada Família Tel 31 34237979 Fax 31 34247667 31030480 Belo Horizonte MG distribuidoraastecabookscombr MÃE DA IGREJA LTDA Rua São Paulo 10541233 Centro Tel 31 32134740 32130031 30170131 Belo Horizonte MG maedaigrejabhwminascom RIO DE JANEIRO ZÉLIO BICALHO PORTUGAL CIA LTDA Vendas no Atacado e no Varejo Av Presidente Vargas 502 sala 1701 Telefax 21 22334295 22634280 20071000 Rio de Janeiro RJ zeliobicalhoprolinkcombr EDITORA VOZES LTDA SEDE Rua Frei Luis 100 Centro 25689900 Petrópolis RJ Tel 24 22339017 Fax 24 22465552 vozes62uolcombr RIO GRANDE DO SUL LIVRARIA E EDITORA PADRE REUS Rua 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gerencialivbelohorizontepaulinasorgbr PARÁ LIVRARIAS PAULINAS Rua Santo Antônio 278 B do Comércio Tel 91 32413607 32414845 Fax 91 32243482 66010090 Belém PA livbelempaulinasorgbr PARANÁ EDITORA VOZES LTDA Rua Pamphilo de Assumpção 554 Centro Tel 41 33339812 Fax 41 33325115 80220040 Curitiba PR vozes21uolcombr Rua Emiliano Perneta 332 loja A Telefax 4132331392 80010050 Curitiba PR vozes64uolcombr Rua Senador Souza Naves 158C Tel 43 33373129 Fax 43 33257167 86020160 Londrina PR vozes41uolcombr LIVRARIAS PAULINAS Rua Voluntários da Pátria 225 Tel 41 32248550 Fax 41 32231450 80020000 Curitiba PR livcuritibapaulinasorgbr Av Getúlio Vargas 276 Centro Tel 44 2263536 Fax 44 2264250 87013130 Maringá PR livmaringapauiinasorgbr PERNAMBUCO PARAÍBA ALAGOAS RIO GRANDE DO NORTE E SERGIPE EDITORA VOZES LTDA Rua do Príncipe 482 Tel 81 34234100 Fax 81 34237575 50050410 Recife PE vozes70uolcombr LIVRARIAS PAULINAS Rua Duque de Caxias 597 Centro Tel 83 2415591 2415636 Fax 83 2416979 58010821 João Pessoa 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