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Normal e Patológico em Freud pdf

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Professora Maria Flor 2024 2 1 Professora Maria Flor Professora Maria Flor 2024 2 2 SUMÀRIO Unidade I Evolução do desenvolvimento comunitário 3 1 A evolução do conceito de desenvolvimento comunitário 3 12 Atores envolvidos no desenvolvimento comunitário 6 13 que é necessário para desencadear o desenvolvimento comunitário 7 14 Papel das organizações no desenvolvimento comunitário 8 Unidade II A comunidade conceito e relações 11 2 Comunidade conceito 11 21 Comunidade e sociedade 12 22 Relações de reciprocidade entre pessoas e comunidade 12 23 Comunidade mito ou realidade 13 Unidade III Atuação e intervenções na comunidade 14 3 Atuação do psicólogo comunitário 14 32 Modos de inserção do psicólogo nas comunidades 15 33 Psicólogo e comunidade possibilidades e desafios 18 Unidade IV A psicologia no contexto comunitário e movimentos sociais 30 4 Psicologia em comunidades anos 60 70 80 e 90 30 42 Movimentos sociais 33 43 Características dos movimentos sociais 34 44 Origem dos movimentos sociais 34 Unidade V intervenções no contexto comunitário 36 5 Diferentes formas de intervenção 36 52 Desafios atuais da psicologia na interação social 46 Professora Maria Flor 2024 2 3 ESTÁGIO BÁSICO II Desenvolvimento comunitário definições evolução histórica As teorias de desenvolvimento comunitário e local Movimentos Sociais A relação comunidade movimentos sociais e sociedade O poder local Os processos de desenvolvimento comunitário Metodologias de intervenção em comunidades Mapeamento de demandas sociais Trabalho de Campo Intervenção prática como uso de metodologias para desenvolvimento comunitário Diretrizes de elaboração Arco de Maguerez e relatório de estágio UNIDADE I 1 A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO 1 A evolução do conceito de desenvolvimento comunitário O desenvolvimento comunitário é um processo que busca promover melhorias nas condições de vida de uma determinada comunidade Ele envolve a participação ativa dos membros da comunidade a fim de identificar e solucionar problemas promover o crescimento econômico social e cultural e fortalecer os laços comunitários Existem alguns princípios fundamentais que norteiam o desenvolvimento comunitário Entre eles destacam se Participação Comunitária é um dos pilares do desenvolvimento comunitário Ela envolve a mobilização dos membros da comunidade para que eles se envolvam ativamente no processo de tomada de decisões e na implementação de ações que visam melhorar a qualidade de vida da comunidade como um todo Empoderamento Comunitário é outro princípio essencial do desenvolvimento comunitário Ele busca fortalecer a capacidade da comunidade de tomar decisões e agir de forma autônoma promovendo a participação ativa dos membros e a construção de lideranças locais Desenvolvimento Sustentável O desenvolvimento comunitário também está intimamente ligado ao conceito de desenvolvimento sustentável Isso significa que as ações e projetos desenvolvidos devem levar em consideração a preservação do meio ambiente a equidade social e a viabilidade econômica buscando um equilíbrio entre esses três pilares O desenvolvimento comunitário tem como principais objetivos Melhoria da Qualidade de Vida Um dos principais objetivos do desenvolvimento comunitário é promover a melhoria da qualidade de vida dos membros da comunidade Isso envolve ações que visam melhorar o acesso a serviços básicos como saúde educação saneamento básico transporte entre outros Fortalecimento da Economia Local O desenvolvimento comunitário também busca fortalecer a economia local por meio do estímulo ao empreendedorismo e ao desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis Isso pode incluir a criação de cooperativas o apoio a pequenos negócios locais e a promoção do turismo comunitário Promoção da Inclusão Social O desenvolvimento comunitário tem como objetivo promover a inclusão social garantindo que todos os membros da comunidade tenham acesso igualitário a oportunidades e recursos Isso envolve ações que visam combater a desigualdade social a discriminação e a exclusão de determinados grupos Professora Maria Flor 2024 2 4 O conceito de desenvolvimento comunitário passou a integrar os programas governamentais a partir do final da II Guerra Mundial e o início da chamada guerrafria entre os blocos capitalista e socialista caracterizandose como estratégia de os países capitalistas assegurarem a ordem social e minimizarem os apelos de cooptação dos regimes comunistas em relação aos países pobres principalmente na América Latina Segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento BNDES a ideia de desenvolvimento comunitário inicialmente fundamentavase na ideia de que a pobreza tornava os povos receptivos à propaganda comunista SILVA ARNS 2002 e para os Estados Unidos da América EUA ajudar aos povos de países subdesenvolvidos seria uma forma de investimento a ser revertido em benefícios econômicos Na prática a ideia inicial de desenvolvimento comunitário consistia em assistência técnica e social aos países periféricos da economia mundial As origens da ideia de desenvolvimento comunitário surgiram a partir de meados do século passado e desde esse período até os dias atuais podemos observar que os conceitos de desenvolvimento comunitário passaram por diversos momentos com diferentes acepções no seu entendimento evoluindo se assim podemos dizer do mero atendimento às necessidades demandadas ao envolvimento participação e compromisso de todos que fazem parte do processo No Brasil essa ideia de desenvolvimento comunitário adquiriu maior visibilidade nas últimas décadas como podemos observar a seguir 1950 60 faça desenvolvimento para o povo 1960 70 faça desenvolvimento pelo povo 1970 80 faça desenvolvimento através das pessoas 1980 90 faça desenvolvimento com as pessoas A partir de 1990 promova as pessoas para o desenvolvimento O objetivo passa a ser desenvolver a capacidade local para o autodesenvolvimento Pela primeira vez as pessoas estão sendo vistas como foco primário protagonistas do processo de desenvolvimento NEUMANN 2010 p 9 Safira Ammann argumenta que só quando cada povo participa do planejamento e da realização de programas que se destinam a elevar o padrão de suas vidas 1981 p 147 é que o desenvolvimento comunitário realmente se efetiva Segundo essa autora isso implica a necessária e indispensável colaboração entre o poder público nos seus mais diversos níveis e a população para que os processos de desenvolvimento viáveis e equilibrados se tornem eficazes Assim ao longo do tempo o conceito de desenvolvimento comunitário evoluiu dos pacotes soluções que atendessem às demandas de deficiências ou problemas para as soluções conjuntas com a efetiva participação das comunidades e o reconhecimento das capacidades das habilidades e das competências existentes na comunidade No Brasil conforme consta na publicação do caderno Desenvolvimento Comunitário da série Cadernos Técnicos do Projeto BNDES SILVA ARNS 2002 Desenvolvimento Local em cooperação técnica com o PNUD na década de 40 foram implementados os primeiros projetos de desenvolvimento comunitário a partir da realização de convênios para o incremento da produção de alimentos e a educação rural e industrial Em 1948 foi criada a Associação de Crédito e Assistência Social ACAR nas décadas de 50 e 60 foram criadas as Campanhas de Educação Rural CNER e o Serviço Social Rural o início da década de 60 marca o fortalecimento do Movimento de Educação de Base MEB originado na Igreja de Natal RN e encampado pelo estado com a preocupação de ministrar a educação e organizar comunidades o que representou um avanço na prática do desenvolvimento comunitário p 6 Ainda segundo o BNDES 2002 com a repressão política a partir de 1964 que atingiu inclusive os movimentos sociais as propostas de desenvolvimento comunitário tomaram um rumo diferente passando ao Professora Maria Flor 2024 2 5 contexto de integração social que via a participação popular como meio de ajustar cooptar colaborar p 6 com estratégias e diretrizes políticas de planejamento para implementar programas que passaram a privilegiar os aspectos quantitativos do desenvolvimento meramente econômico Nesse percurso repleto de percalços políticos as políticas de desenvolvimento comunitário atravessaram diversas fases de entendimento adotando estratégias de ação que passaram a fluir à mercê das conveniências políticas vigentes em cada época O BNDES ressalta que o desenvolvimento comunitário passou a ser visto conforme descreveu Ammann como um processo pelo qual os responsáveis locais são induzidos por equipe técnica a escolherem alternativas de desenvolvimento mutuamente coerentes e que se integrem nas diretrizes emanadas das instâncias superiores do governo 1981 p 148 apud SILVA ARNS 2002 p 6 Nesse contexto a trajetória das intervenções com propósitos de desenvolvimento comunitário assumiu conotações ideológicas que nem sempre contraditoriamente via o desenvolvimento sob a ótica da comunidade Além disso observamos que de acordo com o BNDES Esta reorientação política não se deu sem conflitos e contradições uma vez que o serviço social responsável pela execução destes programas tinha sido estruturado em bases diferentes concebendo o desenvolvimento comunitário como uma pedagogia de participação Mas o que predominou foi uma concepção prática de participação e de articulação que tinha como objetivo resultados estabelecidos que deixavam de fora questões estruturais do desenvolvimento social SILVA ARNS 2002 p 67 Na década de 70 o Estado substituiu os programas de desenvolvimento comunitário pelo Programa Nacional de Centros Sociais Urbanos consolidando sua estratégia de transformar as ações de comunidades em atividades comunitárias de integração social como lazer treinamento profissional previdência e assistência jurídica social SILVA ARNS 2002 p 7 Essa trajetória do desenvolvimento comunitário no Brasil deixou como herança uma série de preconceitos A ideia de comunidade passou a ser vista como encobridora de diferenças de classe e das desigualdades sociais O desenvolvimento O II Plano Nacional de Desenvolvimento PND lançado em 1974 foi um plano econômico brasileiro instituído durante o governo militar do general Ernesto Geisel para o quinquênio 19751979 e que tinha por finalidade estimular e desenvolver a produção de insumos básicos bens de capital alimentos e energia BRASIL 1974 Atualmente há grande valorização e reconhecimento da importância do protagonismo das comunidades no próprio desenvolvimento O potencial local seja ele individual ou coletivo ou melhor colocando o capital humano ou social é considerado condição sinequanon no processo de desenvolvimento de uma comunidade Assim o desenvolvimento comunitário como é concebido atualmente já não mais se ajusta às estratégias e diretrizes políticas de nosso passado relativamente recente visto que não mais proclama a chance de as comunidades participarem passivamente apenas do planejamento e das execuções das ações a elas destinados No paradigma contemporâneo é a própria comunidade que se fazendo presente e participativa se corresponsabiliza na coletividade para a construção do próprio futuro e o usufruto do direito à inclusão e ao desenvolvimento social É um processo através do qual a comunidade consciente de suas potencialidades conquista o amadurecimento na coletividade para o alcance de novas possibilidades sociais culturais e econômicas Como consequência os resultados alcançados nesse processo coletivo e participativo não pertencem a nenhuma outra instância a não ser àqueles que ousaram num determinado espaço e tempo buscar o desenvolvimento de determinada comunidade É uma estratégia que supera a segmentação das relações entre a sociedade civil o poder público e o setor privado É literalmente empreender esforços e desenvolver estratégias Professora Maria Flor 2024 2 6 para com uma comunicação clara e objetiva conquistar a articulação interação e integração de todos os envolvidos na busca por uma vida que valha ser vivida Vida com dignidade Vida cidadã 12 Atores envolvidos no desenvolvimento comunitário A participação e o envolvimento dos atores no processo de desenvolvimento comunitário podem variar segundo o processo que se pretende aplicar a origem da iniciativa e a realidade local IDIS 2010 A identificação reconhecimento e utilização das competências e capacidades locais bem como suas dinâmicas socioculturais irão favorecer o estabelecimento dos atores envolvidos e comprometidos com o processo de desenvolvimento comunitário Considerandose as peculiaridades de cada situação buscarseá o envolvimento dos mais diferentes atores grupos de pessoas e de organizações para viabilizar a colaboração entre todos os envolvidos isto é a participação não deve se limitar apenas às pessoas ou grupos sociais mas deve contemplar todos e em especial as lideranças e organizações dos três setores da sociedade governo empresas e sociedade civil organizada ou não em instituições Para o IDIS 2010 a saída é encontrar o equilíbrio entre os interesses respeitando os limites do protagonismo local cuja abordagem necessariamente deverá ser feita de forma trans e interdisciplinar numa relação democrática e participativa entre os diversos atores e as políticas públicas de modo que essas também sejam necessariamente orientadas para as experiências e alternativas que identifiquem e valorizem as potencialidades locais e que os sentimentos de prosperidade e pertencimento façam que todos os envolvidos sejam parte de uma comunidade coesa para a busca coletiva da prosperidade Assim para que haja desenvolvimento comunitário fazse necessário que haja também o desenvolvimento do capital humano o fomento à participação da sociedade externa e interna à comunidade e consequentemente a ampliação do capital social Capital humano segundo Franco 2001 é entendido como o potencial de conhecimento individual e a capacidade de criar e recriar no cotidiano das interrelações comunitárias Capital humano referese ao capital construído o que o sujeito construiu como conhecimento ou melhor suas capacidades inatas e suas competências técnicas construídas ao longo da vida e segundo Kronemberger 2011 p 45 se refere à capacidade de empreender podendo ser expresso por exemplo pelos níveis de educação saúde e nutrição O estímulo ao fortalecimento do capital humano é essencial para a economia do conhecimento BOEIRA SANTOS SANTOS 2009 p 699 e segundo o autor para a confiança ativa abertamente negociada em vez de regida pela tradição e pelo hábito é parte da política da terceira via O conceito de capital social tem sido bastante difundido e discutido nos últimos tempos pelos cientistas sociais Em 1985 Bourdieu definiu o capital social como um elemento capaz de agregar recursos reais ou potenciais que propiciam o sentimento de pertencer duradouro a determinados grupos ou instituições O capital social está relacionado aos resultados e benefícios mediados e negociados fora do âmbito familiar e às disputas entre indivíduos ou grupos situados em diferentes campos sociais e suas correlações de forças De acordo com Putnam 1995 p 67 o capital social faz parte das organizações sociais como as redes normas e confiança social que facilitam a coordenação e a cooperação em benefício recíproco Capital social refere se às interrelações construídas nas esferas familiar social de trabalho comercial religiosa etc22 Segundo Franco 2001 para que se possa constituir em comunidade é necessário que uma coletividade humana seja o menos hierárquica e autocrática possível e assim possa produzir reproduzir e acumular o capital social A construção e consolidação do capital social requerem a comunicação a participação e a cooperação livre e democrática Professora Maria Flor 2024 2 7 E não menos importante reiteramos que a comunicação clara objetiva e transparente a articulação interação e integração dos demais atores institucionais vinculados direta e indiretamente às comunidades com o objetivo de trabalharem juntas para o bem comum devem nortear o processo decisório na busca da convergência para a definição de objetivos comuns à coletividade Assim de acordo com Suzana Elvas e Maria João Moniz 2010 quanto maior a integração e satisfação perante uma comunidade maiores serão os benefícios individuais e comunitários pois facilitam a comunicação e a troca de informações contribuindo para a convergência de objetivos comuns O projeto político da Terceira Via representa uma perspectiva de modernização política que procura orientar o ajustamento dos cidadãos do conjunto sociedade civil e da aparelhagem de Estado na justa medida das demandas e necessidades do reordenamento do capitalismo LIMA MARTINS 2005 p 67 Segundo Neumann 2010 podemos entender o conceito de comunidade como um grupo de pessoas que compartilham de uma característica comum uma comum unidade que as aproxima e pela qual são identificadas 2010 p 7 Como no nosso caso comunidade é na maioria das vezes definida pelo local ou região onde moram as pessoas no entanto podem se formar comunidades em razão dos interesses e causas que esses grupos defendem e cujas características comuns são partilhadas Desenvolvimento Comunitário é o conjunto de práticas criadas com o objetivo de fortalecer e tornar mais efetiva a vida em comunidade melhorando as condições locais principalmente para aqueles que se encontram em situações de desvantagem social FDCI23 apud Neumann 2010 p 8 O que é desenvolvimento comunitário O desenvolvimento comunitário é um processo que visa melhorar a qualidade de vida e o bemestar das pessoas em uma comunidade específica É uma abordagem que se concentra na promoção do progresso econômico social cultural e ambiental de uma comunidade com base em suas próprias necessidades e recursos 13 O que é necessário para desencadear o desenvolvimento comunitário Para desencadear o desenvolvimento comunitário é necessário adotar uma abordagem abrangente e estruturada que envolva a participação ativa da comunidade e outros atores relevantes Aqui estão os principais elementos e etapas necessários para iniciar o desenvolvimento comunitário Identificação das necessidades e recursos da comunidade o primeiro passo é conduzir uma avaliação abrangente das necessidades recursos habilidades e aspirações da comunidade Isso pode ser feito por meio de entrevistas pesquisas grupos focais e outras técnicas de pesquisa participativa Mobilização e engajamento da comunidade é crucial envolver ativamente os membros da comunidade desde o início Isso pode ser feito por meio de reuniões comunitárias grupos de discussão assembleias e outros métodos que permitam às pessoas compartilhar as suas ideias e opiniões Estabelecimento de parcerias o desenvolvimento comunitário muitas vezes requer parcerias com organizações locais ONGs agências governamentais e outras partes interessadas Essas parcerias podem fornecer recursos financeiros conhecimento técnico e apoio logístico Planejamento participativo com base na avaliação das necessidades e recursos a comunidade e seus parceiros podem desenvolver um plano estratégico de desenvolvimento Esse plano deve incluir metas claras estratégias atividades e um cronograma Professora Maria Flor 2024 2 8 Implementação de projetos e programas após a elaboração do plano os projetos e programas específicos podem ser implementados Isso pode incluir a construção de infraestrutura o fornecimento de serviços o treinamento de habilidades e outras atividades destinadas a atender às necessidades identificadas pela comunidade Exemplos de projetos de desenvolvimento comunitário Existem muitos exemplos de projetos de desenvolvimento comunitário que abrangem uma ampla gama de áreas e necessidades Aqui estão alguns exemplos de projetos comunitários que podem servir como inspiração Melhoria da infraestrutura projetos que visam melhorar a infraestrutura básica em uma comunidade como a construção de estradas pontes sistemas de água potável e esgoto eletrificação e saneamento Educação iniciativas que se concentram na educação como a construção de escolas a oferta de aulas extracurriculares programas de tutoria e o fornecimento de material escolar para crianças carentes Saúde projetos de saúde comunitária que podem incluir a construção de clínicas a realização de campanhas de vacinação programas de conscientização sobre saúde e a formação de profissionais de saúde locais Agricultura e segurança alimentar iniciativas voltadas para a melhoria das práticas agrícolas o acesso a sementes de qualidade a capacitação em agricultura sustentável e o desenvolvimento de sistemas de armazenamento de alimentos 14 Papel das organizações no desenvolvimento comunitário As organizações desempenham um papel fundamental no desenvolvimento comunitário proporcionando recursos financeiros expertise técnica e capacitação para comunidades em todo o mundo Elas facilitam a implementação de projetos promovem a capacitação dos membros da comunidade e defendem seus interesses coordenando esforços construindo habilidades locais e advogando por políticas públicas que promovam a filantropia a justiça social e a equidade Em última análise as organizações desempenham um papel vital na capacitação das comunidades para melhorar sua qualidade de vida e alcançar o desenvolvimento sustentável O desenvolvimento comunitário é de extrema importância pois contribui para a construção de comunidades mais justas igualitárias e sustentáveis Ele fortalece os laços comunitários promove a participação ativa dos membros da comunidade e estimula o senso de pertencimento e responsabilidade coletiva Existem diversos exemplos de projetos e ações de desenvolvimento comunitário ao redor do mundo Alguns exemplos incluem O desenvolvimento comunitário é um processo complexo que envolve a participação ativa dos membros da comunidade o fortalecimento dos laços comunitários e a busca por soluções que promovam a melhoria da qualidade de vida É um trabalho contínuo que requer o envolvimento de diversos atores como líderes comunitários organizações não governamentais poder público e empresas Através do desenvolvimento comunitário é possível construir comunidades mais justas igualitárias e sustentáveis Psicologia comunitária e os possíveis campos de atuação do psicólogo Campos de atuação do psicólogo comunitário Vilela e Sato em seu trabalho denominado Psicologia Social descreve sobre os principais setores que devem pairar o trabalho do psicólogo social comunitário Professora Maria Flor 2024 2 9 Atuar num primeiro momento em coerência à sua proposta de transformação social assumindo também uma ação pedagógicaformativa já que seu trabalho deve ter um caráter preventivo na perspectiva de implementar projetos políticos que resultem em mudanças na vida cotidiana das pessoas Quando os problemas já estão localizados deve também desenvolver ações pontuais e específicas sem contudo perder a perspectiva das possibilidades históricas presentes em um projeto político de sociedade E por fim um trabalho que necessita ser realizado em equipe inclusive com outros psicólogos que atuam de modo mais específico e pontual Desta forma podese dizer que os trabalhos da Psicologia Social Comunitária devem ser dirigidos aos processos de conscientização e participação construídos na rede da vida cotidiana e comunitária VILELA SATO 2012 Campos 2012 destaca a crescente ampliação dos sistemas de saúde e educação pública do país das instituições de promoção de bemestar social e dos setores do sistema judiciário voltados para o cuidado de famílias de menores aumentando significativamente a atuação dos psicólogos frente a estes órgãos na tentativa de desenvolver os instrumentos de análise e intervenção relevantes para as novas problemáticas que se apresentam em suas áreas de atuação Assim sendo o trabalho do psicólogo comunitário deixa de lado a parte assistencialista visando à formação de uma consciência crítica da própria população que nesse processo participa de forma ativa na identificação e na resolução de suas necessidades principais Campos 2012 Vasconcelos 1987 mostra que o trabalho do psicólogo comunitário é interdisciplinar realizado por turmas das mais variadas formações No campo da saúde esse profissional atua como auxiliador e treinador de propulsores de Saúde Mental Para o psicólogo comunitário o saber científico se torna alusivo diante do saber popular e essencial para unificar as partes perante o trabalho No campo da educação procurase trabalhar com os grupos populares para que eles assumam progressivamente seu papel de sujeitos de sua própria história conscientes dos determinantes sóciopolíticos de sua situação e ativos na busca de soluções para os problemas enfrentados CAMPOS 2012 O caráter educativo decorre da reflexão que é feita sobre o porquê das necessidades de como as atividades vêm sendo realizadas ou seja como as ações se encadeiam e que resultados são obtidos tornando possível a todas as pessoas envolvidas recuperarem através do pensamento e ação da comunicação e cooperação entre elas as suas histórias individuais e social e consequentemente desenvolverem a consciência de si mesmas e de suas relações historicamente determinadas Quando um grupo de pessoas se reúne para discutir seus problemas muitas vezes sentidos como exclusivos de cada um dos indivíduos descobrem existirem aspectos comuns decorrentes das próprias condições sociais de vida o grupo poderá se organizar para uma ação conjunta visando a solução de seus problemas E aquelas necessidades que sozinhos eles não podiam satisfazer passam a ser resolvidas pela cooperação entre eles O nosso cotidiano tem apresentado inúmeros exemplos deste processo desde grupo de mães organizando e mantendo creches para seus filhos mutirões entre moradores de um bairro para construção de locais para fazer ou mesmo de moradias até organizações de grupos para reivindicar água luz esgoto etc FREITAS 2012 Freitas 2012 tendo como referência os trabalhos e práticas em comunidade verificase que inúmeros cursos têm sido realizados abordando as seguintes temáticas a Infância Juventude e Violência sexual e social Tipos de Ações Penas e Medidas Socioeducativas Varas da Infância e Juventude Conselhos Tutelares e Políticas Afirmativas e de Cidadania relações no campo da saúde o SUS os Conselhos Gestores e as Formas de Gestão em Saúde diferentes formas de intervenção psicossocial participação e a gestão participativa em instituições comunidades terceiro setor e ONGs e a economia solidária a Terra e as condiçõesrelações de trabalho Professora Maria Flor 2024 2 10 Ela também nos mostra que do ponto de vista da prática de intervenção observase uma expansão das fronteiras de atuação assim como uma variedade de temas e possibilidades de parceria investigativaintervenção nos trabalhos desenvolvidos Dentre estes se destacam as relações entre Comunidade Escola e Família enfocando as relações entre Envelhecimento Família Trabalho e qualidade de vida os efeitos da precarização das relações de trabalho interfaces entre aspectos psicossociais ligados à criança juventude e família mulher gênero sexualidade e novas formações familiares relações e impactos da saúde doença e diferentes formas de violência e discriminações sociais A autora ainda relata que ao longo da trajetória da Psicologia Social Comunitária surge algumas categorias conceituais decisivas para as propostas de ação e intervenção comunitárias como a a rede de relações dentro da comunidade b as lideranças autóctones e os processos psicossociais de formação c as formas de opressão discriminação competição e preconceito existentes na rede comunitária e cotidiana d as crenças e valores em relação a si mesmo aos outros e às possibilidades de enfrentamento das adversidades e as formas de coesão cooperação e conscientização entre os diferentes participantes e f as diferentes formas de ação individual e coletiva e as possibilidades de politização da consciência na rede comunitária FREITAS 2012 Assim procurar saber sobre o papel social e profissional dos psicólogos comunitários e sobre os compromissos que estes deveriam avocar continuam sendo desafios importantes às intervenções psicossociais em comunidade Estes desafios referemse a quatro dimensões à percepção sobre a realidade a o que fazer no dia a dia do trabalho comunitário às relações estabelecidas e aos impactos produzidos FREITAS 2012 O primeiro deles referese àquilo que o profissional consegue detectar em sua prática que critério utiliza e que elemento possui para saber se no caminho mais adequado das propostas de ação Os desafios relativos a o quê fazer indicam a necessidade de serem explicitadas as dimensões psicossociais presentes nos processos de submissão e conformismo no dia a dia das relações comunitárias O terceiro desafio referese ao tipo de relação que se dá entre profissional e comunidade e como isto pode afetar a continuidade das práticas comunitárias E finalmente os impactos do trabalho e o compromisso assumido quando de sua realização constituemse em desafios constantemente renovados e que inclusive colaboram para o fortalecimento ou enfraquecimento do trabalho comunitário FREITAS 2012 Diante dos estudos realizados por diversos autores e alguns apresentados aqui podemos afirmar que o trabalho do psicólogo comunitário e árduo e continuo no entanto deve consistir em uma atuação que objetiva despertar consciência crítica em um sujeito ou em uma comunidade O serviço de psicologia na comunidade é feito a partir de visitas domiciliares entrevistas mapeamento da realidade comunitária do local Essa prática rompe com o modelo tradicional clínico e pretende estar mais próxima da situação em que o indivíduo está inserido configurando se um modo de fazer psicologia nãoelitista MIRANDA 2012 Considerações finais Após o estudo do desenvolvimento da psicologia comunitária podemos dizer que trabalho em Comunidades é bastante complexo o psicólogo que deseja trabalhar nesse campo enfrentará alguns desafios dentre estes necessita se despir do pensamento que já sabe tudo A Comunidade já possui um saber próprio que não é necessariamente um saber científico contudo não deixa de ser um saber E é a partir desse saber comunitário que as intervenções se iniciam O psicólogo não fica em uma posição de ajudador da Comunidade pelo contrário ele Professora Maria Flor 2024 2 11 auxilia a Comunidade a identificar seus problemas e solucionálos por isso o trabalho em grupo BRITO JÚNIOR 2016 O trabalho em Comunidades é bastante complexo o profissional que deseja trabalhar nesse campo necessita se despir do pensamento que já sabe tudo sendo esse um dos desafios enfrentados pelos profissionais de psicologia A Comunidade já possui um saber próprio que não é necessariamente um saber científico contudo não deixa de ser um saber E é a partir desse saber comunitário que as intervenções se iniciam O psicólogo não fica em uma posição de ajudador da Comunidade pelo contrário ele auxilia a Comunidade a identificar seus problemas e solucionálos por isso o trabalho em grupo CARDOSO 2012 Um ponto importante a ser destacado é a importância da devolutiva após a conclusão dos trabalhos levando em consideração que a opinião da Comunidade é necessária para percebemos como se configurou as intervenções e quais foram os resultados obtidos Essa devolutiva não é só por parte da Comunidade o psicólogo por questões éticas necessita esclarecer algumas informações colhidas durante os trabalhos realizados para que a Comunidade não se sinta um objeto usado CARDOSO 2012 Concluise através das literaturas estudadas que a psicologia comunitária se construiu a partir de um desejo de proporcionar autonomia para uma sociedade e foi realizada a partir de movimentos políticos e sociais que foram desenvolvidos ao longo dos anos Assim sendo o termo conscientização impulsionou o movimento na comunidade visto que essa motivação é diretamente relacionada com a formação da individualidade crítica da consciência de si e de uma nova realidade social que é esperada que o sujeito alcance em seu grupo social MIRANDA 2012 Unidade II A comunidade conceito e relações Comunidade conceito Comunidade é um conceito amplo que abrange situações heterogêneas mas que ao mesmo tempo apoiase em fundamentos afetivos emotivos e tradicionais Ela está relacionada a parentes que se relacionam por laços de sangue e por uma vida em comum numa mesma casa a vizinhos o que se caracteriza pela vida em comum entre pessoas próximas da qual nasce um sentimento mútuo de confiança de favores e amigos que estão ligados aos laços criados nas condições de trabalho ou no modo de pensaretc A psicologia Comunitária vai além da psicologia social ela tem uma visão maior com relação à sociedade mudança social ideologia alienação representação social identidade social sentido psicológico de comunidade empoderamento grupo social apoio social realidade socialmente construída atividade investigaçãoaçãoparticipante sujeito históricosocial consciência crítica conscientização etc Podemos dizer que a Psicologia Comunitária compreende hoje um conjunto de concepções relevantes para o esforço de delimitar seu campo de análise e aplicação Podese dizer que é uma relação mantida entre pessoas mais próximas Quando nos referimos à pessoa vivendo em comunidades é difícil pensar que essas comunidades nunca terão problemas de relacionamentos às vezes interpretados como doença mental pois há diferenças entre as pessoas por se tratar das diferenças de cada indivíduo suas subjetividades e opiniões de classe social e racial Fundamental para compreensão da Psicologia Comunitária é o conceito de comunidade seu objeto material e campo de atuação O termo Comunidade utilizado hoje em dia na Psicologia Social é bastante elástico e capaz de incluir em seu escopo desde um pequeno grupo social um bairro uma vila uma escola um hospital um sindicato uma associação de moradores uma organização não governamental até abarcar os indivíduos que interagem numa cidade inteira Professora Maria Flor 2024 2 12 Comunidade característica Sanchez e Wiesenfeld 1983 definem alguns critérios para se caracterizar comunidade que são Ser um grupo de pessoas não um agregado social com determinado grau de interação social Repartir interesse sentimentos crenças atitudes Residir em um território específico Possuir um determinado grau de organização 21 Comunidade e sociedade Esse debate sobre Comunidade e Sociedade partiu da sociologia alemã Segundo Sawaia 1996 a Comunidade é diferente da sociedade por três aspectos o sangue o lugar o espírito o sangue como símbolo de vínculo e crença comuns Na Comunidade são encontrados sentimentos nobres como a honra amizade e o amor a relação em Comunidade é baseada no sentimento do pertencer estar ligado e implicado com o outro Já na Sociedade do ponto de vista moral não há nada positivo os homens não estão vinculados estão divididos A sua base é troca e o dinheiro não existe cumplicidade No século XX Comunidade tornouse referencial de análise que permite olhar a sociedade do ponto de vista do vivido sem cair no psicologismo reducionista SAWAIA 1996 p41 Neste período há uma explosão de estudos pela sociologia em relação à Comunidade O pensamento Marxista em relação a sociedade e Comunidade influenciou várias áreas das Ciências Humanas uma delas foi a Sociologia Marx acreditava que a sociedade não tinha harmonia e sim conflitos enquanto que Comunidade deveria ser várias pessoas de vários lugares lutando por ideal SAWAIA 1996 22 Relações de reciprocidade entre pessoas e comunidade As pessoas oferecem contribuições como Interesses Sentimentos Crenças Atitudes Agregação de valores morais Utilização de conhecimentos populares e de senso comum As comunidades oferecem Senso de pertencimento Educação da cultura popular Segurança Ambiente familiar Reconhecimento comunitário Participação nas decisões comunitárias Professora Maria Flor 2024 2 13 A Psicologia Comunitária se caracteriza por trabalhar com sujeitos sociais em condições ambientais específicas atento às suas respectivas psiques ou individualidades Seus objetivos se referem a melhoria das relações entre os sujeitos e entre estes e a natureza e instituições sociais ou o seu empoderamento Nesta perspectiva está todo o esforço para a mobilização das comunidades na busca de melhores condições de vida O termo Psicologia Comunitária inclui os estudos e práticas que vêm se realizando no Brasil a exemplo do Movimento de Saúde Mental Comunitário e do Movimento de Ação Comunitária na América Latina e outras aplicações da psicologia social em problemas relacionados a comunidade Se tomarmos a acepção literal de psicologia aplicada ao estudo intervenções na comunidade teremos estas como sinônimo da psicologia social ou seja como os mesmos problemas de método e definição do objeto de estudo que essa A principal diferença entre a psicologia social e comunitária vem da do uso específico que assume o vocábulo comunidade contrapondose à sociedade enquanto segmento específico por recorte territorial identidade ou relação entre seus membros Para Sawaia a descoberta da comunidade não foi um processo específico da psicologia social Fez parte de um movimento mais amplo de avaliação crítica do papel das ciências sociais e por conseguinte do paradigma da neutralidade científica desencadeado nos anos 60 e culminado nas décadas de 70 e 80 quando o conceito de comunidade invadiu literalmente o discurso das ciências humanas e sociais especialmente as práticas na área da saúde mental Sem deixar de ressaltar a importância para psicologia dessa aquisição epistemológica científicoanalítica onde está implícia a perspectiva orientadora de ações e reflexões construção modificação da realidade o referido autor assinala a o caráter utópico da proposição bem como sua utilizaçãodemagógica em discursos políticos O termo Psicologia Comunitária ainda é bastante novo e amplo sendo Por isso mesmo de difícil conceituação O termo em si é ambíguo e varia de acordo com o referencial teórico considerado e ou a práxis do psicólogo que o define São comuns os termos Psicologia na Comunidade Bender 1978 Psicologia do Desenvolvimento ComunitárioEscovar 1979 Saúde Mental Comunitária Berenger 1982Psicologia Comunitáriana ComunidadeBonfim 1992 etc Esta ambiguidade de termos para definir uma das ramificações da Psicologia Social Esta dificuldade de identificação está na base de duas implicações para o treinamento do psicólogo comunitário a fragmentação do conceito de psicologia comunitária valoriza a criatividade e a flexibilidade no treinamento dos psicólogos e o respeito pelas diversas concepções neste domínio embora um esforço deve ser feito para valorizar os elementos comuns e manter os canais de comunicação não se constitui por isso num indício de fragilidade 23 Comunidade mito ou realidade Quando ouvimos a palavra Comunidade surge um pensamento de um lugar harmonioso aconchegante ou até mesmo um lugar difícil de encontrar Um lugar onde os relacionamentos duram todos são solidários uns com os outros lugar onde não existem invejas que todos dividem o pão praticamente um Éden BAUMAN 2003 p12 Durante certo período o termo Comunidade não era um assunto tão interessante de ser analisado esse interesse surgiu nos anos 70 quando a Psicologia Social se autodeclara Comunitária A Psicologia Social não é a única ciência que se debruça a analisar questões referentes a essa temática as ciências humanas e sociais nos anos 70 e 80 também se despertaram em relação a esse tema a partir de uma avaliação crítica dos modelos empregados pela ciência em questões referentes à população Professora Maria Flor 2024 2 14 Nas ciências humanas especificamente na Psicologia Social o conceito de Comunidade tornouse sinônimo de qualquer atividade de cunho profissional realizada fora de instituições fora de escolas e consultórios com a perspectiva de uma prática comprometida com o povo Comunidade para alguns aparece como mito oriundo de um processo globalizado que impede a vida em comum e harmoniosa um mito que remetese ao passado como se algo fosse perdido pelo homem e o que ele vivesse agora não seria de fato uma Comunidade Criamse modelos de Comunidade como um lugar ideal um local onde as pessoas são inclinadas à prática do bem Existem diversos significados e interpretações em relação à palavra Comunidade e cada pessoa possui o direto de empregar o termo no sentido que queira Guareschi 2009 afirma que partese de um pressuposto que cada pessoa percebe o mundo de uma forma que cada pessoa possui uma história de vida e por isso a importância de perguntálas o que elas querem dizer mesmo quando falam sobre Comunidade Comunidade aparece e desaparece nas reflexões sobre questões ligadas ao homem e sociedade Os iluministas associavam comunidade ao regime feudal por essa razão ocorreu um movimento anticomunitário com objetivo de destruir a opressão causada pelo sistema feudal Para eles comunidade impedia o progresso pelas inúmeras tradições que carregavam Os iluministas acreditavam que o homem só poderia ser livre e progredir através da razão do conhecimento Eles valorizavam o individualismo acreditavam no ser humano como único e suficiente em si que não tinham nada a ver com os outros e não necessitavam do outro para se constituir Essa concepção adotada pela modernidade sufocou a idéia de Comunidade No entanto nesse mesmo período houve uma recuperação do conceito de comunidade como modelo de boa sociedade ameaçado pelo individualismo e racionalismo SAWAIA 1996 p38 A partir desse renascimento do conceito de comunidade começam a surgir os debates de um lado punida como tradicional e conservadora que impedia o progresso e de outro protótipo de coisas boas que a modernização destruiu As expressões de comunidade podem ser encontradas na família religião raça nação sua delimitação pode ser local ou global o que importa mesmo é comunhão de objetivos O Conceito de Comunidade sempre esteve no pensamento político filosófico e teológico entretanto a sociologia ciência que surge no século XIX torna comunidade uma categoria analítica e isso se estabelece a partir da análise das diferenças entre comunidade e sociedade Unidade III Atuação e intervenções na comunidade Atuação do psicólogo comunitário O psicólogo atua neste sentido como um analistafacilitador que como um profissional que toma as iniciativas de solucionar os problemas da comunidade Segundo Nisbet 1974 comunidade abrange todas as formas de relacionamento caracterizado por um grau de intimidade pessoal profundeza emocional engajamento moral e continuado no tempo Ela encontra seu fundamento no homem visto em sua totalidade e não neste ou naquele papel que possa desempenhar na ordem social Sua força psicológica deriva de uma motivação profunda e realizase na fusão das vontades individuais o que seria impossível numa união que se fundasse na mera convivência ou em elementos de racionalidade Professora Maria Flor 2024 2 15 A comunidade é a fusão do sentimento e do pensamento da tradição e da ligação intencional da participação e da volição E Sawaia complementa O elemento que lhe dá vida e movimento é a dialética da individualidade e da coletividade A perspectiva da psicologia comunitária enfatiza que em termos teóricos o conhecimento se produza na interação entre o profissional e os sujeitos da investigação e em termos de metodologia utilizase sobre tudo a pesquisaparticipante a pesquisaação e a análise institucional A metodologia do trabalho comunitário é válida ao passo que promove uma construção de conhecimento por parte de intelectuais organicamente comprometidos na qual a proposta de trabalho comunitário pretende promover aos indivíduos procedimentos de autogestão desenvolvendo o sentido de cidadania neste processo Este planejamento desempenha papel fundamental para a conscientização que ajuda grupos e indivíduos a identificarem as características históricas e sociais de seus problemas e a criarem estratégias para a solução coletiva A análise institucional é um método da psicologia comunitária assim como a pesquisaação que propõe elucidar as relações jurídicas psicossociais políticas e desejantes que são mantidas com as normas instituídas e o modo pelo qual os indivíduos se põem ou não de acordo com essas normas Para tanto há uma distinção fundamental entre campo de análise e campo de intervenção O primeiro mais amplo consiste no espaço conceitual teórico sobre determinado estudo visando compreendelo ou entendelo O campo de intervenção por outro lado pressupõe um espaço de análise que leve à compreensão de dados sobre um determinado agrupamento para que se possa atuar tecnicamente A partir dos anos 90 tornase frequente o termo Psicologia da Comunidade que se refere às práticas da Psicologia ligadas as questões da Saúde e atividades ligadas a uma instituição ou órgãos públicos que prestavam serviços à população onde o psicólogo trabalhava O intuito disso tudo era defender uma psicologia menos academicista menos intelectual e mais ligada às questões do povo FREITAS 1996 p72 32 Modos de inserção do psicólogo nas comunidades Os trabalhos realizados nessas últimas décadas em Comunidades têm revelado diferentes modos de inserção do psicólogo essa inserção também tem gerado preocupações principalmente devido ao fato de se trabalhar com metodologias e instrumentos poucos utilizados por outras áreas da Psicologia Há que se ressaltar contudo que a metodologia da pesquisa participante tão comum em trabalhos de Psicologia Comunitária é ilustrativa desse modelo em que sujeito e objeto são ativos na pesquisa O interesse da inserção do Psicólogo em Comunidades na década de 70 foi devido à repressão política que o país estava vivendo a intervenção era caracterizada pela militância e pela participação política Nas décadas de 80 e 90 houve um reconhecimento maior acerca da participação do Psicólogo nas Comunidades trabalhos em Psicologia Social Comunitária começaram a ser reconhecido academicamente FREITAS 1996 p65 Houve e existem atualmente profissionais que oferecem atendimento psicológico gratuito em Comunidades como forma de conhecer e se aproximar mais daquela população Entretanto tal como citado na introdução deste trabalho esta modalidade de intervenção ainda repete um modelo desigual em que de um lado tem a Comunidade que precisa de um atendimento psicológico e de outro está o psicólogo oferecendo ajuda interessado em criar intervenções para adequar a população ao um sistema Professora Maria Flor 2024 2 16 achando que com isso minimizará seus desesperos A sua inserção baseiase em atendimento psicológico aos desfavorecidos FREITAS 1996 Existem também outras formas do profissional de Psicologia entrar numa Comunidade como por exemplo quando motivados pelo simples fato de querer conhecer esse campo que para ele é desconhecido ou então por simples curiosidade alguns estudantes profissionais se inserem em um ambiente comunitário com intuito de estudálos Essa inserção baseiase em curiosidade cientifica SAWAIA 1995 Existe por fim outro tipo de inserção que é baseada na proposta de intervenção da Psicologia Social Comunitária essa inserção é orientada pela responsabilidade de que o trabalho realizado pelos psicólogos deve promover uma mudança das condições vividas pela população sendo que esta que estabelece os caminhos a serem percorridos para mudança Acreditase no homem protagonista da sua história no homem em movimento Essa inserção baseiase na possibilidade de uma mudança social e na construção do conhecimento da área FREITAS 1996 Os trabalhos baseados na perspectiva social comunitária partem de um levantamento de necessidades e situações enfrentadas pela população investigada principalmente as situações que dizem respeito à saúde e à educação Após essas investigações procurase trabalhar com grupos utilizando métodos e processos de conscientização para que eles progressivamente assumam seu papel de sujeitos CAMPOS 1996 Em Comunidade busca desenvolver condições para o exercício pleno da cidadania da igualdade O Psicólogo que deseja trabalhar em Comunidades necessita de um conhecimento da teoria da Psicologia Social e mais especificamente da área comunitária Fazse necessário sobretudo ter um embasamento teórico nos pressupostos da Psicologia Social Comunitária Os psicólogos que realizam trabalhos em Comunidades fazem uso de uma técnica que permite compreender as interações dos indivíduos em grupo GUARESCHI ROCHA MOREIRA 2010 p188 A técnica de intervenção por meio de Grupos Focais se utiliza da interação focalizada para pesquisa qualitativa de um grupo GUARESCHI 2010 p189 A técnica objetiva buscar uma pluralidade de ideias e não apenas uma única idéia no grupo Por meio desta técnica podese observar uma quantidade maior de interações em um tempo limitado podese também perceber as prioridades nos temas suscitados que partem da interação grupal GUARESCHI BOECKEL ROCHA 2010 p189 O grupo Focal segundo os autores Guareschi Rocha Moreira e Boeckel 2010 p190 É caracterizado por ser um espaço acessível os assuntos discutidos são de interesse comum as diferenças de status entre os participantes não é considerada e a discussão é fundamentada em um debate racional Uma das abordagens teóricas da Psicologia que vem oferecendo possibilidades de trabalho nas Comunidades é o Psicodrama NEVES BERNADES 1998 que foi criado por Moreno e é definida como uma ciência que explora a verdade por meios dramáticos Drama é uma palavra de origem grega e significa ação ou algo que acontece o berço do psicodrama é o teatro NEVES 1998 A metodologia do Psicodrama leva em conta três realidades grupal social dramático O contexto da realidade social impõe ao sujeito os papéis que ele deve desempenhar o contexto grupal é formado pelos integrantes do grupo o vínculo formado significa mútua percepção íntima dos indivíduos NEVES BERNADES 1998 Ainda segundo as mesmas autoras 1998 o contexto dramático é formado pelo produto do ator principal esse protagonista é o paciente grupo egos auxiliares são aqueles que contracenam com o protagonista e fazem parte da equipe terapêutica O diretorterapeuta é o responsável pelo Psicodrama e o auditório é o conjunto de pessoas que estão no contexto grupal O tema da cena quem traz é o protagonista Professora Maria Flor 2024 2 17 Em uma Comunidade o drama do protagonista é da vontade do grupo ele é o portavoz do sofrimento coletivo ao criar conjuntamente cenas psicodramáticas o protagonista está sendo influenciado por uma espécie de inconsciente social NEVES 1998 O Psicodrama acredita que a inversão de papéis possibilite ao individuo assumir o papel de outro e recompor o sentido da identidade e do pertencimento ao grupo BERNARDES NEVES 1998 O Psicodrama começou nas Comunidades a partir de 1993 em serviços da rede municipal do Estado de Porto Alegre em um projeto de Educação Social e Escola Aberta BERNARDES 1998 O propósito desse projeto originouse devido às situações de risco enfrentadas pelas crianças e adolescentes e o nome do projeto pedagógico é Jovem Cidadão e foi desenvolvido em nove Comunidades NEVES 1998 Com a finalidade de assistir á população de baixa renda com base no ECA Estatuto da Criança e do Adolescente O Conselho Tutelar encaminhava jovens envolvidos em situação de roubo violência drogadição aos Centros para que recebessem atendimento socioeducativo NEVES BERNARDES 1998 A participação da Psicologia acontecia nas oficinas de Psicodrama o trabalho que era feito pelos psicólogos era a socialização de crianças e adolescentes em situação de risco a partir da visão dos integrantes quanto ao seu mundo de relações interpessoais e aprendizado e desempenho de papéis sociais frente a sua realidade NEVES 1998 Essa proposta de intervenção psicossocial tinha por objetivo auxiliar essas crianças a tomarem uma nova posição de sujeitos mais autônomos e menos submissos o modelo de intervenção proposto era trabalhar com a matriz de identidade que segundo Neves apud MORENO 1978 é um dos primeiros processos de aprendizagem da criança no qual ela se relaciona com pessoas e objetos sendo a família a base principal para a constituição de papéis A conscientização dos papéis desempenhados psicodramaticamente seja na fantasia ou no contexto grupal desenvolveria nas crianças uma nova postura uma nova posição e uma mudança na qualidade das relações dentro e fora do contexto grupal BERNARDES NEVES 1998 Outra abordagem da Psicologia que tem se feito presente nas Comunidades é abordagem psicanalítica O referencial psicanalítico tem como técnica a escuta e essa escuta faz o profissional assumir uma postura de não saber para não criar na Comunidade uma expectativa achando que o profissional de psicologia seja aquele que tem para dar figura de um modelo assistencialista JÚNIOR RIBEIRO 2009 p91 No trabalho com Comunidades se o psicólogo se mantiver em uma posição de mestre irá interromper o desenvolvimento de um processo onde a Comunidade possa identificar quais sejam verdadeiramente as suas necessidades e não esperar ações do profissional que certamente efeitos alienantes sobre a Comunidade JÚNIOR RIBEIRO 2009 p92 Sabemos que para se realizar uma intervenção na Comunidade é fundamental conhecêla antes de intervir levando em conta os conhecimentos adquiridos ao longo da vida das pessoas suas subjetividades Segundo Júnior Ribeiro 2009 p93 É de suma importância que o profissional consiga distinguir entre aquilo que a Comunidade está solicitando diretamente daquilo que de fato constitui o desejo que a move Diante disso é essencial trazer o conceito de demanda e desejo entendese por demanda um apelo que o sujeito faz em busca de um complemento JÚNIOR RIBEIRO 2009 apud QUINET 2000 Já o desejo é a busca por aquilo que nunca se viu ou existiu e por o sujeito nunca encontrar aquilo que ele deseja verdadeiramente ele fica em constante movimento JÚNIOR RIBEIRO 2009 Alguns trabalhos foram realizados na capital Paulista e um dentre eles foi um trabalho realizado junto a técnicos do governo que trabalhavam com pessoas que moravam em barracos áreas consideradas de risco pela Defesa Civil essa Comunidade era assistida por um projeto de moradia do Estado JÚNIOR RIBEIRO 2009 Os técnicos contaram aos psicólogos que não compreendiam os moradores que recebiam as casas novas pelo Estado e ao invés de morar alugavam vendiam ou devolviam Segundo os técnicos Professora Maria Flor 2024 2 18 eram poucas as pessoas que chegavam a morar nas casas e perguntavamse aos psicólogos o porquê dessas atitudes Durante as conversas os técnicos chegavam a dizer que a Comunidade é mal agradecida e que continuariam na pobreza JÚNIOR RIBEIRO 2009 p94 Os profissionais perceberam que essa tentativa de ajuda foi pensada para a Comunidade e não com a Comunidade o que resulta em uma ação assistencialista colocando os membros da Comunidade em uma posição vitimizada o fato de estarem sem casa A partir desse exemplo percebemos que não é levada em consideração a questão do desejodemanda cabe ao profissional instruído pela teoria psicanalista estar atento às questões relacionadas entre o que é de ordem do desejo e da demanda necessariamente não precisa responder à demanda visto que ela é insatisfeita por natureza o profissional necessita escutar a demanda trabalhála e perceber o que está além dela o desejo JÚNIOR RIBEIRO 2009 Diante do exemplo citado acima em relação as casas para a Comunidade era fundamental questionar a Comunidade em relação a essa própria ação Segundo Júnior Ribeiro 2009 p92 seria mais ou menos assim O que vocês imaginam que vai acontecer se vocês tiverem uma casa A que essas casas vão servir Como vocês imaginam que essas casas poderão mudar a vida de vocês Por mais que pareça óbvio essas indagações são essenciais pois através dessas indagações muitas questões poderão vir à tona Ninguém procurou interrogar a Comunidade questionála pelo contrário levou em consideração algo externo a moradia precária no entanto a Comunidade mesmo com essa necessidade externa mostrouse contrária Se o profissional que atua em Comunidades levar em consideração o que a Comunidade solicita e o que ela realmente deseja ele terá grandes chances de viabilizar uma mudança de posição dessa Comunidade JÚNIOR RIBEIRO 2009 Alguns desafios são encontrados pelos psicólogos comunitários que surgem como um ponto de reflexão que são as diferenças socioeconômicas entre o psicólogo e a Comunidade problemas referentes à resistência da Comunidade diante de uma intervenção externa BONFIM FREITAS 1989 Definição da especificidade do papel do psicólogo nas Comunidades BONFIM 1989 Dificuldades em relação aos modelos institucionais paternalistas que desafiam os trabalhos realizados pelos psicólogos comunitários pois impedem que os sujeitos possam tomar uma postura de autores da sua história Por parte da Comunidade existe uma expectativa de que o psicólogo resolva suas questões pessoais ou questões relacionadas à saúde educação moradia ANSARA DANTAS 2010 E essa expectativa da Comunidade continua obscurecendo a proposta do trabalho comunitário pois na maioria das vezes as pessoas não entendem como funciona o trabalho do psicólogo nas Comunidades O trabalho realizado pelos psicólogos Comunitários não é Um trabalho clínico individualizado não se configura de forma assistencial paternalista não se mantém em uma relação de dominação pelo contrário promove uma relação de igualdade 33 Psicólogo e comunidade possibilidades e desafios A Psicologia Comunitária opera com a base teórica em Psicologia Social e seu estudo baseiase em entender a constituição da subjetividade dos seres humanos numa Comunidade NEVES BERNARDES 1993 O foco da Psicologia Comunitária baseiase em práticas grupais a intervenção grupal tornase necessária em Comunidades para o desenvolvimento da consciência no qual um componente do grupo se descobre no outro percebendose conjuntamente LANE 1996 Professora Maria Flor 2024 2 19 Para se atuar numa realidade social é importante conhecer o contexto histórico em que essa realidade se desenvolve diante disso surge um desafio de intervenção social visto que vivemos em uma sociedade em transformações constantes as coisas vão mudando e mudam cada vez mais rápido Como diz Casas 2005p8 A complexidade das dinâmicas sociais dificulta tentativas de previsão tais mudanças penetram mais do que nunca em nossos lares e exercem influências extraordinárias em nossas vidas cotidianas É fundamental para os psicólogos levar em conta as questões psicossociais do contexto sobretudo do ponto de vista macrossocial Na maioria das vezes alguns psicólogos se definem como atuantes de uma esfera microssocial fazendo uma delimitação de sua atuação É como se as relações existentes nos níveis não fizessem parte da ordem macromicro Os níveis micro e macrossocial estão interligados e o profissional necessita ter uma compreensão em relação a essa questão REFERÊNCIA o Psicologia comunitária uma abordagem conceitual o AUTOR Antonio Maspoli de Araujo Gomes o BAUMAN Zygmunt Comunidade a busca por segurança no mundo atual Rio de Janeiro Jorge Zahar Editor 2003 o CAMPOS Regina Helena de Freitas orgs Psicologia Social Comunitária da solidariedade á autonomia 15ª Ed Rio de Janeiro Editora Vozes 2009 o FIGUEIRA Divalte Garcia História Série novo Ensino MédioEd Ática v único 2001 o SARRIERA Jorge Castellá SAFORCADA Enrique Teófilo Introdução a Psicologia Comunitária Bases teóricas e metodológicas Porto Alegre ED SULLINA 2010 Psicologia comunitária e política de assistência social diálogos sobre atuações em comunidades Verônica Morais Ximenes Doutora em Psicologia pela Universidade de Barcelona professora da Graduação e do Mestrado em Psicologia da Universidade Federal do Ceará Fortaleza CE Brasil Coordenadora do Núcleo de Psicologia Comunitária NUCOM Luana Rêgo Colares de Paula João Paulo Pereira Barros O debate acerca da inserção dos psicólogos em espaços de atuação diferenciados dos tradicionais entre estes a clínica psicológica por exemplo não é novo Segundo Yamamoto 2007 tal discussão existe desde a década de 70 em estudos que tanto apresentavam a saturação do mercado no que diz respeito ao modelo do profissional liberal como traziam questionamentos acerca das limitações teóricometodológicas da Psicologia para a atuação em um contexto de intensas desigualdades sociais como era o do Brasil e o da América Latina de um modo geral Tal debate que traz como um dos seus pontos nodais a crítica ao elitismo da Psicologia coincide com o desenvolvimento da Psicologia comunitária no Brasil Esta se edifica a partir do movimento de uma série de psicólogos que criticavam o viés positivista da Psicologia social até então hegemônica buscando Professora Maria Flor 2024 2 20 construir propostas de transformação social Lane 2003 a partir de maior aproximação do psicólogo com as dinâmicas do cotidiano da maioria da população Paralelamente ao desenvolvimento da Psicologia comunitária observam se contínuas mudanças nos cenários das políticas públicas brasileiras e no bojo dessas novas configurações um crescimento das possibilidades de atuação do psicólogo no campo público do bemestar social Yamamoto 2007 Atualmente a área da assistência social constitui um dos maiores emblemas desse fato dadas as suas recentes conformações legais e a consequente existência de espaços destinados a psicólogos por exemplo nas equipes dos Centros de Referência da Assistência Social CRAS unidades públicas estatais responsáveis desde 2004 pela execução dos programas projetos e serviços da Proteção Social Básica PSB Em meio à muldimensionalidade de questões que envolvem a Proteção Social Básica e também a pluralidade da Psicologia este artigo objetiva traçar diálogos teóricometodológicos entre a práxis de Psicologia comunitária e a proposta de Proteção Social Básica relativa ao desenvolvimento de vínculos sociais no território onde vivem as famílias assistidas De antemão importa registrar que como são entendidos nessa perspectiva percursos dialógicos não são lineares e necessariamente harmônicos senão que admitem que uma heterogeneidade de partícipes ora convirja ora divirja oscilando entre momentos de maior e de menor conflitualidade na tentativa de fazer com que construções coletivas se estabeleçam Por isso os diálogos aqui esboçados serão compostos de pontos a partir dos quais a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica se aproximam e de apontamentos sobre as possíveis limitações dessa aproximação Para tanto temse uma apresentação dos contornos da assistência social detendose nas propostas concernentes à Proteção Social Básica Em seguida apontamse as possibilidades de contribuições da Psicologia comunitária para a leitura e a efetivação de propostas de desenvolvimento de trabalhos grupais que primem pelo fortalecimento da convivência familiar e comunitária Brasil 2005a p 33 Por fim são explicitados os possíveis pontos de tensão que se interpõem entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica em relação à atuação em comunidades Políticas públicas sociais e política de assistência social breve histórico As políticas sociais têm suas origens relacionadas ao desenvolvimento das primeiras revoluções industriais no século XIX quando o Estado se organiza para responder às demandas sociais produzidas pelo sistema capitalista Höfling 2001 p 31 ao definir políticas sociais explica que estas se referem a ações que determinam o padrão de proteção social implementado pelo Estado voltadas em princípio para a redistribuição dos benefícios sociais visando à diminuição das desigualdades estruturais produzidas pelo desenvolvimento socioeconômico A autora diferencia políticas públicas de políticas sociais ao enfatizar que aquelas correspondem às ações que devem ser implementadas e mantidas pelo Estado a partir de um processo que envolve a participação de outras esferas e atores sociais não podendo portanto ser restringidas a políticas estatais Cumpre mencionar que o desenvolvimento de tais políticas com vistas à promoção de cidadania acena para uma rede complexa de ações que envolvem contradições e a coexistência de interesses conflitantes ganhando nuances diferenciadas de acordo com o contexto socioeconômico e político de cada momento histórico No final dos anos 70 e durante os anos 80 o contexto brasileiro caracterizavase pelo progressivo desgaste do período ditatorial e pelo surgimento de diferentes movimentos sociais que lutavam pelo estabelecimento Höfling 2001 p 31 ao definir políticas sociais explica que estas se referem a ações que determinam o padrão de proteção social implementado pelo Estado voltadas em princípio para a redistribuição dos benefícios sociais visando à diminuição das desigualdades estruturais produzidas pelo desenvolvimento socioeconômico Professora Maria Flor 2024 2 21 Segundo Costilla 2006 pp 2526 nessa época a expectativa da sociedade civil de ganhos econômicos e sociais se mostra com clareza na demanda popular majoritária de inclusão públicas Em meio a essa conjuntura havia uma crescente discussão em torno das ações assistenciais até então marcadas por práticas assistencialistas e filantrópicas Assim através da participação de vários atores e movimentos sociais tem início um processo de discussão e de proposição de uma lei que regulamentasse a assistência a pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade social Em 1988 temse a promulgação da vigente Constituição Federal e com ela a afirmação da assistência social como direito do cidadão e dever do Estado compondo o tripé da seguridade social ao lado da saúde e da previdência social Apesar desse avanço entretanto a consolidação da assistência social como política pública não se constituiu inteiramente em uma realidade visto que após a promulgação da Constituição de 1988 não houve a concretização de muitos de seus preceitos Com efeito esse é um desafio que permanece na atualidade considerando as fortes marcas clientelistas e assistencialistas que caracterizam a história das práticas assistenciais no Brasil Sobre essa questão Behring e Boschetti 2008 pp 161162 argumentam A assistência social é a política que mais vem sofrendo para se materializar como política pública e para superar algumas características históricas como morosidade na sua regulamentação como direito redução e residualidade na abrangência visto que os serviços e programas atingem entre 15 e 25 da população que deveria ter acesso aos direitos manutenção e mesmo reforço do caráter filantrópico com forte presença de entidades privadas na condução de diversos serviços e permanência de apelos e ações clientelistas Com relação à morosidade na regulamentação somente em 1993 foi sancionada a Lei Orgânica da Assistência Social LOAS ou seja após cinco anos de vigência da Constituição Contudo a inovação conceitual que marcou esse novo aparato normativo não fez com que a assistência social por vezes deixasse de se afiliar nos meandros cotidianos ao assistencialismo e às modalidades emergenciais de atendimento à população Por certo a década de 1990 contribuiu bastante para reforçar o caráter assistencialista tradicionalmente conferido à política em foco Segundo Behring e Boschetti 2008 nesse período houve um crescimento do chamado Terceiro Setor através de parcerias com Organizações Nãogovernamentais ONGs e instituições filantrópicas que passaram a executar políticas desse cunho em detrimento da intervenção e da responsabilização do Estado Nas palavras das autoras A essa nova arquitetura institucional na área social sempre ignorando o conceito constitucional de seguridade se combinou o serviço voluntário que desprofissionalizava a intervenção nessas áreas remetendoas ao mundo da solidariedade da realização do bem comum pelos indivíduos através de um trabalho voluntário nãoremunerado Behring Boschetti 2008 p 154 Percebese assim que a década de 90 se notabilizou pela ratificação da característica filantrópica das práticas assistenciais brasileiras nas quais múltiplos agentes se revezam na sua feitura ao passo que o Estado se exime do seu encargo como principal agente da proteção social do País Tratase pois de um processo de inversão do pilar de sustentação da seguridade social mediante a transposição para a sociedade da função de provedor configurando um aspecto central de diferenciação entre o processo de regulação social dos países que integram o denominado Primeiro Mundo onde se estabeleceu o chamado Estado Providência e os demais países capitalistas periféricos nos quais se desenvolveu a denominada Sociedade Providência Dessa forma a organização que resulta da solidariedade da sociedade civil constituise na protagonista principal na atenção aos despossuídos e destituídos Sposati Falcão Fleury 1989 p 3 Professora Maria Flor 2024 2 22 Portanto aliada aos efeitos da então conjuntura políticoeconômica é plausível apontar que a co existência tensional entre perspectivas democráticas assentadas na afirmação dos direitos sociais e uma tradicional cultura política clientelista e patrimonialista limitou maiores reformulações nos sistemas e nas práticas de proteção social Assim nas últimas décadas do século XX o direito à seguridade social garantido constitucionalmente não se efetivou por completo principalmente no que concerne à assistência social Somente em 2004 após as deliberações da IV Conferência da Assistência Social ocorrida em dezembro de 2003 consolidouse um processo que visou a efetivar a política de assistência social tal como prevista na Constituição de 1988 Tal processo encabeçado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome MDS através da Secretaria Nacional de Assistência Social SNAS e do Conselho Nacional da Assistência Social CNAS envolveu a participação de vários segmentos e atores sociais nos diversos encontros seminários reuniões oficinas e palestras Brasil 2005a p 11 Vale salientar também que esse processo se deu e continua se dando em um contexto de vigência de uma gestão que se desenvolve em meio a uma contraditoriedade na medida em que ao mesmo tempo em que realiza concessões à ideologia neoliberal encarrega o Estado de implementar e de desenvolver políticas públicas de proteção social É preciso considerar que a análise dessa viragem à esquerda só ganha sentido dentro do contexto contraditório da América Latina nos últimos 2530anos gestado na confluência da democratização e dos processos de ajuste à nova ordem do capital É o cenário de contradições sociopolíticas entre a ampliação do Estado Democrático com a instituição de uma cultura de direitos e as restrições do Estado Ajustador submetido à lógica do mercado secundarizando o social e atualizando a cultura da carência Carvalho 2006 p 143 É pois nesse contexto que surge a atual Política Nacional de Assistência Social PNAS2004 e em seguida o Sistema Único da Assistência Social SUAS 2005 conferindo um esforço em tornar viáveis e efetivas as ações dessa política Brasil 2005a 2005b A PNAS2004 organiza as ações da assistência social em dois níveis de proteção Proteção Social Básica PSB e Proteção Social Especial PSE A primeira caracterizase pelo atendimento a pessoas e grupos que estejam em situação de vulnerabilidade social e destinase ao desenvolvimento de ações que visam ao fortalecimento de vínculos sociais e ao desenvolvimento de potencialidades Já a segunda é responsável pelo atendimento a pessoas que estão em situação de risco pessoal e social por ocorrência de abandono maustratos físicos e ou psíquicos abuso sexual uso de substâncias psicoativas cumprimento de medidas socioeducativas situação de rua situação de trabalho infantil entre outras Brasil 2005a p 37 Os programas projetos e serviços da Proteção Social Básica devem ser desenvolvidos sobretudo nos Centros de Referência da Assistência Social CRAS cuja equipe mínima sugerida pelo Guia de Orientação Técnica SUAS Brasil 2005b compõese basicamente de psicólogos e assistentes sociais além de apoios administrativos Apesar de tal guia sugerir diretrizes metodológicas para o trabalho nos CRAS não há uma orientação específica para cada categoria profissional Diante de tal panorama tornase importante a reflexão em torno dos recursos teóricos e metodológicos que ambos os profissionais e nos propósitos deste artigo que o psicólogo podem lançar mão para a realização das ações propostas e em consequência para o alcance dos objetivos da PSB Para tal serão tecidas adiante articulações entre as questõeschave que balizam a Proteção Social Básica e alguns pontos conceituais e operativos que configuram a práxis de Psicologia comunitária Proteção social básica e Psicologia comunitária diálogos possíveis Sobre esse tópico fazse necessário primeiramente ressaltar que o desenvolvimento de ações no tecido comunitário é uma premissa claramente evidenciada na atual política de assistência social isso porque nesta se afirma que a proteção Professora Maria Flor 2024 2 23 social exige a capacidade de maior aproximação possível do cotidiano da vida das pessoas pois é nele que riscos vulnerabilidades se constituem Brasil 2005a p 15 Complementarmente a essa busca de atuar com famílias e indivíduos em seu contexto comunitário Brasil 2005a p 35 a proposta da PNAS põe em relevo a necessidade de que a perspectiva sob tal dinâmica territorial esteja pautada na dimensão ética de incluir os invisíveis os transformados em casos individuais enquanto de fato são parte de uma situação social coletiva Brasil 2005a p 15 O transcorrer de ações pautadas nesse território suscita a seguinte argüição ao fazer psicológico nessas condições que possibilidades são geradas à práxis do psicólogo em se tratando de seu delineamento e de sua direção Para iniciar movimentos dentro desse campo de problematização é oportuno lançar luzes sobre a perspectiva psicológica aqui adotada Segundo Góis 1994 p 43 a Psicologia comunitária é uma área da Psicologia social que estuda a atividade do psiquismo decorrente do modo de vida do lugarcomunidade Visa ao desenvolvimento da consciência dos moradores como sujeitos históricos e comunitários através de um esforço interdisciplinar que perpassa a organização e o desenvolvimento dos grupos e da comunidade Como salienta Quintal de Freitas 1998 p 1 a visão de homem e a de mundo assumidas e vividas pelos profissionais é que se constitui em aspecto crucial na criação ou determinação das possibilidades sobre o como estudar pesquisar eou intervir A partir da Psicologia comunitária a compreensão das recorrências e singularidades dos mais variados arranjos microssociais traz à tona o pressuposto ontológico de que o ser humano não somente reage às injunções sociais mas também se constitui em um ator social que participa da criação da vida cotidiana Montero 2004 Com efeito a investigaçãoação do psicólogo voltase para os processos interacionais que perfazem os modos de vida comunitários tendo em vista o seu caráter mediador na construção de saberes práticas e atores sociais Tais processos dessa perspectiva estão interligados complexamente entre si e em intensas contínuas mutantes e mutáveis conexões com outros contextos socioculturais O deslocamento do psicólogo dos espaços tradicionais para as vicissitudes existentes em espaços de convivência comunitária não se justifica então pela extensão do serviço psicológico nos seus moldes tradicionais a parcelas socioeconomicamente desfavorecidas da população explicase sim pela premissa segundo a qual as comunidades possuem uma gama de redes interativas que perpassam junto com outros vetores a complexa construção de pessoas e grupos que ali vivem podendo assim servir de base para que a práxis psicológica se constitua de modo diametralmente oposto a vieses psicologizantes Diante desses esboços conceituais entendesse que a presença do psicólogo nas ações de Proteção Social Básica pode contribuir para ampliar as possibilidades destas na medida em que permite uma compreensão mais subjetiva da realidade local isto é ver que as localidades são realidades profundamente humanas e simbólicas sendo por isso um erro pensálas somente em termos sociológicos e econômicos Góis 2005 p 73 Sob esse prisma de acordo com Sawaia 2004 no terreno polissêmico das discussões em torno da pobreza dos direitos sociais e da cidadania há que também se pôr em destaque as singularidades e as referências espaçotemporais das pessoas que vivenciam as expressões multiformes da desigualdade social Decorre daí à luz da Psicologia a atenção para a apropriaçãoconstrução de significados para a produção de sentidos Zanella Da Ros Reis França 2004 bem como para a emergência da afetividade e do sofrimento éticopolítico como importantes categorias analíticas na compreensão da dialética exclusãoinclusão social que ao mesmo tempo reverbera singularizase e se constitui nas dinâmicas das comunidades Professora Maria Flor 2024 2 24 Dando continuidade aos diálogos possíveis interessa ademais observar que se almeja nas ações de PSB enfocar o desenvolvimento de potencialidades e aquisições e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários Brasil 2005a p 33 Concernente a isso tornase importante pontuar que o desenvolvimento de ações no espaço comunitário não necessariamente indica ampliação de vínculos sociais tampouco lineamentos transformadores daquela dinâmica intersubjetiva mesmo porque tais ações podem se afiliar a diferentes matizes conceituais e políticos Nesse sentido Ximenes Nepomuceno e Moreira 2007 p 25 inspiradas por Góis 1994 apresentam três possibilidades de atuação a saber assistencialista tecnicista e comunitáriolibertadora Na primeira a relação entre o agente externo nesse caso o psicólogo e a comunidade é paternalista distanciada e não favorece o processo de análise e reflexão Tal prática se limita à satisfação de necessidades imediatas e favorece a dependência e a submissão da comunidade Na atuação tecnicista há uma relação hierárquica entre o saber do profissional e os erigidos localmente o que torna a despotencializar práxis emancipatórias Finalmente o tipo de atuação comunitário libertador baseia se na construção compartilhada de conhecimentos de maneira dialógica e colaborativa na qual se destaca a problematização de saberes e de relações de poder alinhavados e por vezes naturalizados no cotidiano Nessa perspectiva a produção de problemas antes que sua solução assume importância crucial na medida em que as problematizações postas diante de acontecimentos já naturalizados produzem deslocamentos por vezes desconcertantes que abrem possibilidades de sentido ações e modos de vida antes impensáveis Diehl Maraschin Tittoni 2004 p 410 Dados os aportes da Psicologia comunitária a atuação comunitáriolibertadora mais do que as duas primeiras pode dar corpo ao intento de ampliar vínculos familiares e comunitários sob o prisma da cidadania e da atualização da potência de ação dos atores sociais Sawaia 2004 isso porque nesse tipo uma heterogeneidade de atores sociais institucionais ou não que compõem a dinâmica comunitária é considerada coconstrutora das ações que são desenvolvidas pelo psicólogo e pela equipe multiprofissional com a qual este venha a trabalhar Dessa forma tais atores participam ativamente do seu planejamento da sua execução da sua avaliação e do seu aprimoramento Nesse processo aliás há que se considerar a possibilidade de que visões distintas estejam presentes não só quando consideradas as diferenças entre agentes externos e agentes internos mas também quando se considera a própria diversidade de agentes internos que compõe aquele contexto No que diz respeito às diretrizes metodológicas das ações de Proteção Social Básica seus profissionais são orientados a construir em conjunto com as famílias planos de ação que concretizam projetos de vida a partir de necessidades sociais existentes e expectativas e desejos para o futuro Brasil 2005b p 17 Isso implica a necessidade de articular o conhecimento da realidade das famílias com o planejamento do trabalho Brasil 2005b p 16 No âmbito da Psicologia comunitária a análise a vivência e a coconstrução de atividades comunitárias mediante um método dialógicovivencial Góis 2005 podem figurar como elementos relevantes em função de pelo menos dois aspectos primeiramente porque podem subsidiar a efetivação das próprias diretrizes então apresentadas em segundo lugar porque ampliam o campo de inteligibilidade relativo à atuação do psicólogo nas ações eminentemente grupais da Proteção Social Básica O método dialógicovivencial envolve uma dimensão reflexiva em que há uma constante problematização das dinâmicas comunitárias realizada digase de passagem em interação com os seus moradores e uma constante abertura do psicólogo à trama relacional que ali se estabelece a fim de se Professora Maria Flor 2024 2 25 deixar afetar por suas intensidades A opção por essa via de atuação alude portanto a um contato constante do profissional com os cotidianos que compõem os espaços microssociais em questão de modo a compreender suas idiossincrasias socioculturais suas interfaces com outros contextos e os arranjos subjetivos engendrados nessa interface Diante disso a atividade comunitária conceito sistematizado por Góis 1994 2005 a partir da teoria da atividade Leontiev 1978 assume lugar de destaque na práxis de Psicologia e é considerada referência para esse debate por propiciar o desenvolvimento dos seus participantes e a potencialização da relação destes com o lugar onde vivem Tal como conceitua Góis 2005 p 89 a atividade comunitária realizase por meio da cooperação e do diálogo em uma comunidade sendo orientada por ela mesma e pelo significado sentido coletivo e sentido significado pessoal que a própria atividade e a vida comunitária têm para os moradores da comunidade O conceito em questão referese a espaços de trabalho conjunto em que a partir de situaçõeslimite identificadas os agentes de uma comunidade realizam ações em rede cujo objetivo é a melhoria da qualidade de vida coletiva considerando a pertinência da diversidade nesse processo e o caráter não necessariamente harmonioso nesse curso Segundo Góis 2005 atividades dessa natureza envolvem processos interacionais mediados que se pautam na transformação do contexto onde se verificam Podem ser exemplos disso a ampliação de espaços públicos existentes no território através da organização de momentos de socialização entre os moradores a elaboração de um projeto de desenvolvimento comunitário a formação de grupos a constituição de redes de apoio entre os moradores e a realização de trocas de experiências cujo tema gerador provenha da tessitura cotidiana No que diz respeito às diretrizes metodológicas das ações de Proteção Social Básica seus profissionais são orientados a construir em conjunto com as famílias planos de ação que concretizam projetos de vida a partir de necessidades sociais existentes e expectativas e desejos para o futuro Brasil 2005b p 17 A importância de conhecer as atividades comunitárias já desenvolvidas no contexto onde se realiza a práxis do psicólogo se justifica porque analisando e vivenciando a atividade chegaremos a conhecer não só o processo social e econômico de um lugar como também e para o psicólogo é o principal o que pensam os moradores o que sentem e o que fazem no dia a dia em relação a si de realizar trabalhos com grupos de famílias ou seus representantes fortalecendo a socialização e a definição de projetos coletivos Brasil 2005b p 18 Assim no desenvolvimento das ações da Proteção Social Básica o profissional de Psicologia pode utilizar algumas estratégias a fim de conhecer a vida e a dinâmica das famílias e do seu contexto e de estabelecer vínculos imprescindíveis com estes Cotidianamente tais estratégias envolvem por exemplo a realização de entrevistas individuais eou coletivas Montero 2006 visitas domiciliares Barros 2007 participação em atividades da comunidade registros de acontecimentos eou episódios significativos em diários de campo Freitas 1998 Montero 2006 conhecimento sobre a história do lugar através de conversas informais com moradores de contatos com lideranças formais e informais e do levantamento de documentos e de outras produções locais Góis 1994 2005 e acompanhamento de grupos Lane 2003 Montero 2004 2006 entre outras Consideradas essas possibilidades aproximativas entre a práxis da Psicologia comunitária e a proposta da Proteção Social Básica cumpre assinalar também alguns pontos de tensionamentos que podem configurar o diálogo entre ambas Eis o intuito da próxima seção que em vez de se ater a aportes previstos na política de assistência social destacará elementos que contingencialmente atravessam as práticas cotidianas de proteção social básica Professora Maria Flor 2024 2 26 Pontos de tensão nos diálogos entre Psicologia comunitária e Proteção Social Básica As considerações sobre possíveis pontos de tensão entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica não podem prescindir de reflexões em torno das limitações de mesmos e aos outros Góis 2005 p 90 A partir desse prisma e levando em consideração a importância dessas atividades o psicólogo pode tanto contribuir para o fortalecimento das iniciativas já existentes na comunidade quanto fomentar a criação de novas atividades comunitárias Essa perspectiva vai ao encontro da orientação metodológica apontada no Guia de Orientação Técnica do SUAS que sugere que as equipes do CRAS devem conhecer a situação de organização e mobilização comunitária no território detectando seus potenciais individuais e coletivos Brasil 2005b p 17 A fim de fomentar atividades comunitárias e articulálas com os intuitos da Proteção Social Básica especialmente com a identificação e o desenvolvimento de potencialidades pautadas na constituição de vínculos sociais a práxis psicológica apresentada pode se orientar pelos seguintes eixos familiarização com o contexto comunitário identificação conjunta de necessidades e potencialidades elaboração de perspectivas de ação e trabalho coletivo pautado na avaliação processual e na sustentabilidade das ações Montero 2006 Para tanto utiliza aportes participativos como a observaçãoparticipante Góis 1994 Montero 2006 a pesquisaparticipante e a açãoparticipante Góis 1994 bem como o acompanhamento de grupos comunitários Góis 1994 Montero 2006 Esse aporte metodológico da Psicologia comunitária pode contribuir com a pretensão do CRAS de realizar trabalhos com grupos de famílias ou seus representantes fortalecendo a socialização e a definição de projetos coletivos Brasil 2005b p 18 Assim no desenvolvimento das ações da Proteção Social Básica o profissional de Psicologia pode utilizar algumas estratégias a fim de conhecer a vida e a dinâmica das famílias e do seu contexto e de estabelecer vínculos imprescindíveis com estes Cotidianamente tais estratégias envolvem por exemplo a realização de entrevistas individuais eou coletivas Montero 2006 visitas domiciliares Barros 2007 participação em atividades da comunidade registros de acontecimentos eou episódios significativos em diários de campo Freitas 1998 Montero 2006 conhecimento sobre a história do lugar através de conversas informais com moradores de contatos com lideranças formais e informais e do levantamento de documentos e de outras produções locais Góis 1994 2005 e acompanhamento de grupos Lane 2003 Montero 2004 2006 entre outras Consideradas essas possibilidades aproximativas entre a práxis da Psicologia comunitária e a proposta da Proteção Social Básica cumpre assinalar também alguns pontos de tensionamentos que podem configurar o diálogo entre ambas Eis o intuito da próxima seção que em vez de se ater a aportes previstos na política de assistência social destacará elementos que contingencialmente atravessam as práticas cotidianas de proteção social básica Pontos de tensão nos diálogos entre Psicologia comunitária e Proteção Social Básica As considerações sobre possíveis pontos de tensão entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica não podem prescindir de reflexões em torno das limitações de ambas as práticas da Psicologia e da política pública e de sua relação No que concerne à política de assistência social considerase fundamental a noção de que esta corresponde a apenas um vetor da proteção social brasileira o que significa que não compete somente a ela a responsabilidade pelo atendimento às demandas sociais portanto sua prática deve se desenvolver necessariamente em interação com as demais políticas públicas e sociais É o que sublinham os Conselhos Federais de Psicologia e Serviço Social ao apontarem parâmetros para a atuação de assistentes sociais e psicólogos na política de assistência social é fundamental que osas trabalhadoresas envolvidos na implementação do SUAS tenham clareza das funções e possibilidades das políticas sociais que integram a seguridade social de modo a não atribuir à assistência Professora Maria Flor 2024 2 27 social a intenção e o objetivo hercúleo e inatingível de responder a todas as situações de exclusão vulnerabilidade desigualdade social Essas são situações que devem ser enfrentadas pelo conjunto das políticas públicas a começar pela política econômica que deve se comprometer com a geração de emprego e renda e distribuição da riqueza Conselho Federal de Serviço Social CFESS Conselho Federal de Psicologia CFP 2007 p 12 Além disso uma vez que toda prática social está inserida em uma complexa tessitura históricopolítica o desenvolvimento cotidiano dos programas projetos e serviços de Proteção Social Básica assume caráter relativo mesmo com o emblema progressista integram seus serviços programas e projetos Behring Boschetti 2008 A efetivação de tal empreitada envolve sobretudo a consolidação crescente de uma cultura de direitos em detrimento da tradicional cultura da carência Carvalho 2006 p 143 que historicamente prevaleceu na sociedade brasileira Essa via analítica permite que as reflexões sobre a inserção de psicólogos na Proteção Social Básica considerem dois pontos além dos aportes teórico metodológicos utilizados pelo profissional em seu dia a dia a saber 1 as correlações de força que perpassam sua atuação na condição de prática social e 2 as implicações da prática profissional nos microespaços sociais onde ela se dá Quanto ao primeiro ponto é preciso em princípio que se avalie o terreno contraditório em que se desenvolvem as políticas sociais na América Latina Carvalho argumenta que esse terreno evidencia duas configurações estatais em confronto o Estado Democrático ampliado na relação com a sociedade civil pela via da política viabilizando encontros pactos parcerias o Estado Ajustador restritivo e seletivo sob a égide do mercado Carvalho 2006 p 122 Tais conformações delineiam quadros institucionais que interferem nas práticas dos profissionais nas políticas públicas entre elas na do psicólogo imprimindolhes às vezes limitações Podese citar o fato de que ao mesmo tempo em que há uma crescente ampliação de postos de trabalho para atuação em políticas públicas tal ampliação ocorre sob precárias condições de trabalho que vão desde a fragilização de vínculos empregatícios a exemplo das terceirizações que envolvem baixos salários até situações de precariedade das instalações físicas e dos equipamentos necessários ao desenvolvimento das atividades Barros 2007 Tais aspectos contribuem para a rotatividade de profissionais o que interfere das mudanças normativas presentes na atual Constituição e aperfeiçoadas no século XXI especificamente em se tratando do sistema e da política de assistência social A superação do caráter assistencialista e filantrópico que marcou a trajetória dessa política no Brasil é um desafio que ainda se apresenta cotidianamente a todos os atores que sobremaneira na continuidade e na qualidade das ações desenvolvidas A propósito do segundo ponto se considerados também os engendramentos microssociais em suas similaridades e singularidades em relação ao cenário macroestrutural ora exposto podese também dirimir reflexões que enfocam tão somente os referenciais teóricos metodológicos do psicólogo e que por isso associam de forma simplista a sua práxis em políticas públicas necessariamente a uma conjugação de matizes transformadores isso porque a depender das conjunturas locais de gestão e operacionalização a práxis do psicólogo tanto pode atualizar ordens socialmente excludentes quanto produzir fissuras em tais iniquidades Com efeito pode haver ambiguidades inclusive entre as pretensões dos profissionais e os desdobramentos de sua práxis É possível por exemplo que o trabalho do profissional se proponha a combater os excessos da desigualdade social ao passo que no cotidiano reforce fundamentos que a produzem caso o dinâmico emaranhado institucional onde ele se situa em determinadas circunstâncias respalde a circulação da noção do usuário como vulnerável e exalte apenas retoricamente o exercício Professora Maria Flor 2024 2 28 dialógico seja na própria gestão municipal seja nos vários espaços onde de algum modo ela se materializa Sobre tal assunto Barros observou em pesquisa sobre a práxis do psicólogo no CRAS que um entrave comum à prática do psicólogo ocorre na intersecção por vezes conflitiva entre as demandas institucionais relacionadas à gestão da Proteção Social Básica e o campo de forças que emerge do contexto microssocial onde se dá a prática cotidiana do psicólogo nesse caso As eventuais tensões resultam muitas vezes em pressões para que o profissional priorize demandas e temporalidades relacionadas às instituições responsáveis pela gestão da proteção social básica em detrimento das demandas e temporalidades referentes às comunidades onde estão inseridas tais políticas É o que verificamos neste trecho na prática desses as profissionais estesas têm assumido mais a função de executoresas de políticas e projetos erigidos em outros âmbitos e a partir de demandas exógenas à comunidade do que a função de criadoresas de ações a partir da análise e da vivência da atividade comunitária Barros 2007 p 139 O panorama acima exposto corrobora a ideia apresentada neste artigo de que o desenvolvimento de políticas públicas e sociais ocorre em meio à existência de projetos políticos diversos em contextos por vezes conflituosos A análise do cotidiano dessas políticas evidencia a título de ilustração a coexistência em muitos casos de interesses democráticos e eleitoreiros o que interfere no trabalho do psicólogo na medida em que pode implicar a obliteração de canais efetivamente dialógicos com os atores sociais os quais conforme elucidado são constituintes dos contornos da práxis de Psicologia comunitária Em consequência uma das possibilidades decorrentes disso é a restrição da atuação dos psicólogos a práticas normatizantes a serviço da agenda de grupos políticos à frente das engrenagens governamentais Finalmente aqui se advoga que o olhar crítico para os eventuais pontos de tensão entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica é elemento indispensável à atuação do psicólogo nesse espaço No entanto vale lançar paralelamente a atenção sobre as prováveis vias de articulação entre ambas e sobre os canais possíveis para a efetivação de uma práxis que tenha como horizonte político a emancipação social Nesse sentido corroborase a afirmação de Yamamoto 2007 p 35 quando destaca que embora tendo como premissa fundamental a negação de que a ação profissional de qualquer categoria possa vir a ser o eixo de transformações estruturais as possibilidades de ação do profissional de Psicologia rumo a práticas diferenciadas também devem ser colocadas no contexto do papel do intelectual numa sociedade contraditória Nessa direção o desafio posto para a categoria é ampliar os limites da dimensão política de sua ação profissional tanto pelo alinhamento com os setores progressistas da sociedade civil fundamental na correlação de forças da qual resultam eventuais avanços no campo das políticas sociais quanto pelo desenvolvimento no campo acadêmico de outras possibilidades teóricotécnicas inspiradas em outras vertentes teóricometodológicas que as hegemônicas da Psicologia Pensar nas possibilidades de articulação entre a Psicologia e a política de assistência social consiste em um importante esforço que pode contribuir tanto para a efetivação desta como para o aprimoramento daquela rumo às práxis que rechacem a perpetuação de injustiças sociais crônicas que marcam a realidade brasileira Em se tratando de atuação no território de vida das famílias com vistas ao fortalecimento de vínculos sociais buscouse neste artigo lançar argumentos segundo os quais a compreensão de processos subjetivos a partir das interações sociais mediante a análise a vivência e a coconstrução de atividades comunitárias figura com centralidade no diálogo entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica Professora Maria Flor 2024 2 29 Como desdobramento supõese que concerne ao profissional de Psicologia nesse caso contribuir para que pessoas e grupos comunitários ampliem suas possibilidades de se construírem criativamente Tornase pertinente em função disso a problematização de práticas tutelares e de leituras estigmatizantes acerca do contexto comunitário as quais ainda circulam nos mais variados espaços sociais Com isso a práxis psicológica imbricase no desafio coletivo de contribuir para a desconstrução do legado assistencialista que historicamente permeou a assistência social no País a fim de distanciar esse campo da noção de favor e de benesse e de consolidar políticas assentadas na noção de direitos sociais A partir dessa direção éticopolítica as reflexões ora apresentadas apontam um novo delineamento para o trabalho do psicólogo que difere do modelo psicoterapêuticoliberal presente no imaginário de muitos daqueles com os quais o psicólogo se depara entre os quais mormente a equipe multiprofissional Por sinal cabe ressaltar que a extensão de modelos teóricotécnicos com base na clínica tradicional para a atuação cotidiana dos psicólogos no âmbito da Proteção Social Básica indica um paradoxo da inserção da Psicologia nas políticas públicas nos últimos anos Dimenstein 2001 Yamamoto 2007 No tocante especialmente à incursão da Psicologia no campo da assistência social estudos como o de Barros 2007 por exemplo frisam uma contradição que merece destaque Por um lado a incursão da Psicologia em espaços como os CRAS tem significado um aumento das oportunidades de trabalho para psicólogos e uma via para que seus serviços estejam mais facilmente ao alcance de populações economicamente desfavorecidas Por outro lado tal incursão em muitos casos pouco tem servido para que o próprio fazer psicológico seja problematizado e para que em consequência novas formas de intervenções sejam inventadas isso porque assim como acontece em outros setores das políticas públicas a intervenção psicológica tem se notabilizado pela tentativa de reproduzir um modelo clínico convencional a partir de diferentes abordagens como a abordagem sistêmica de família e a Gestaltterapia por exemplo sem se questionar suficientemente sobre a pertinência da reprodução desse modelo frente às exigências teóricometodológicas emergentes no campo multiprofissional da assistência social Por isso acreditamos que o desenvolvimento de práticas críticas em Psicologia que façam jus às potencialidades apresentadas pelas recentes políticas públicas de assistência social implica o direcionamento da práxis dos psicólogos nesse campo para a potencialização de processos interacionais alinhavados pelo diálogo e pela colaboração entre uma heterogeneidade de atores sociais Tal direcionamento por sua vez remete à criação eou ao fortalecimento de ações em rede que partam do e incidam no contexto comunitário em sua complexidade e multidimensionalidade Por fim os apontamentos referentes às limitações do trabalho do psicólogo nos programas projetos e serviços de Proteção Social Básica não recaem de um lado em uma visão romântica tampouco por outro lado em uma atitude pessimista ou mesmo fatalista diante desse contexto emergente Ao contrário considera a complexidade tanto da Psicologia quanto das políticas públicas o que corresponde a um esforço de não tornar ingênuas as análises acerca dessa relação Referencias Barros J P P 2007 Psicologia e políticas públicas um estudo sobre a práxis doa psicólogoa no projeto Raízes de Cidadania e nos Centros de Referência da Assistência Social CRAS de Fortaleza Monografia de Conclusão de Curso Departamento de Psicologia Universidade Federal do Ceará Fortaleza Behring R E Boschetti I 2008 Política social fundamentos e história 4a ed Vol 2 São Paulo Cortez Brasil 2005a Política Nacional de Assistência Social PNAS Brasília DF Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Brasil 2005b Guia de orientação técnica SUAS nº 1 Proteção Social Básica de Assistência Social Recuperado em 25 de março de 2008 do MDS Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Professora Maria Flor 2024 2 30 Unidade IV A psicologia no contexto comunitário e movimentos sociais Psicologia em comunidades anos 60 70 80 e 90 a Anos 60 Regularização da Profissão e a Inserção do Psicólogo Durante as décadas de 40 e 50 um novo modelo de produção foi ingressado no Brasil do agropecuário ao agroindustrial o que demandou uma nova preparação para a população trabalhadora o Estado desenvolveu projetos na área educacional para essas populações com o intuito de preparálos para esse novo modelo econômico Esses trabalhos realizados junto à classe trabalhadora eram chamados de trabalhos comunitários Esse projeto de educação era realizado por um interesse econômico do Estado e os profissionais que estavam integrados neste projeto de educação eram provenientes das ciências humanas e sociais FREITAS 1996 p 57 Diante desse desenvolvimento econômico o país passa para a década de 50 com projetos Comunitários realizados em vários lugares no entanto esses trabalhos ainda tinham um foco paternalista Os anos 60 surgem movimentos de resistência frente ao modelo capitalista que não davam conta das necessidades primárias dos populares Dessa maneira tanto a população urbana como a população rural reivindicavam melhores condições relacionadas às suas necessidades básicas Neste período o custo de vida tornase insuportável para a classe trabalhadora como sinaliza FREITAS apud FREIRE 1979 p 57 as greves espalhamse em vários setores da população e dos serviços o desemprego atinge números assustadores e a inflação e o custo de vida tornase insuportáveis para as classes trabalhadoras e para população em geral Com essa crise o Brasil nos primeiros anos da década de 60 procura intervenções na área educacional com o objetivo de desenvolver na população uma consciência crítica a fim de que a mesma pudesse tomar o seu lugar de sujeito ativo Conforme Freitas 1996 p 57 trabalhos de educação popular foram realizados utilizando método de Paulo Freire esses trabalhos tinham um compromisso de fazer com que o individuo resgatasse seu papel como agente histórico e social FREITAS apud FREIRE 1979 p 57 O Pensamento Freiriano é o de conscientizar a comunidade para que esta possa conhecer seus direitos e deveres Segundo o mesmo autor uma comunidade desconscientizada prefere viver como Deus quiser a reivindicar seus direitos FREIRE 1980 p 59 Os trabalhos desenvolvidos no nordeste por profissionais duraram pouco tempo esses trabalhos começou a gerar na população uma vontade lutar por seus direitos lutar por melhores condições de vida no entanto o Estado impedia o fortalecimento da população Sendo assim algumas reivindicações populares acontecem neste período como a caminhada dos camponeses por condições melhores no plantio os operários por melhores condições salariais dentre outros Em Março de 1964 instaurase a ditadura no país que obriga a população a viver no regime ainda pior a miséria e a pobreza eram assustadores FREITAS 1996 p58 Diante disso perto das indústrias estavam as casas e casebres que iam crescendo de forma desajeitada sem segurança alguma Essas moradias eram construídas próximas dos locais onde as pessoas podiam trabalhar As pessoas que habitavam nessas casas vilas bairros eram trabalhadores destas fábricas hospitais indústrias e mansões FREITAS 1996 p59 Oficialmente o reconhecimento da profissão de Psicólogo no Brasil foi em 27 de agosto de 1962 os primeiros cursos tinham o seu arcabouço teórico oriundo dos Estados Unidos A Psicologia baseou a sua Professora Maria Flor 2024 2 31 prática a partir de trabalhos realizados em consultórios ambientes escolares e nas organizações essas práticas eram especialmente na década de 60 Em meados dos anos 60 em alguns lugares dáse a entrada do profissional de psicologia nos setores desfavorecidos com a preocupação de tornar essa prática próxima do povo com o intuito de deselitizar a profissão Essas práticas ganharam forças Nesse período surge a primeira turma de psicologia no Brasil Em um contexto de desespero da população com o descuido do Estado e diante de vários conflitos sociais que o psicólogo é desafiado a atuar O termo psicologia na comunidade é utilizado quando alguns estudantes psicólogos e professores de graduação começam a desenvolver trabalhos em comunidade de baixa renda no estado de São Paulo Na década de 70 no estado de Belo Horizonte na Universidade Federal de Minas UFMG a disciplina Psicologia Comunitária começa a fazer parte do currículo acadêmico O psicólogo trabalhava de maneira voluntária convicto do seu compromisso político e social junto a essas populações carentes FREITAS 1996 p60 Os Psicólogos utilizaram referencias da Sociologia Antropologia entre outras áreas das Ciências Humanas para o desenvolvimento de seus trabalhos em comunidades FREITAS 1996 p62 A preocupação desses profissionais eram desenvolver atividades que permitissem à Psicologia estar mais próxima do povo auxiliando práticas para que a população pudesse se organizar de forma política e reivindicasse por melhores condições de vida Devido ao contexto histórico que o Brasil estava vivendo quaisquer práticas eram bem recebidas na Comunidade contando que fossem com o objetivo de prestar algum tipo de assistência As reflexões levantadas em relação aos instrumentos utilizados nesse período eram pouco discutidas haja vista que existiam pouco psicólogos disponíveis para atuar neste campo CRUZ AMORETTI 2010 p 72 b Anos 70 Psicólogo junto a Movimentos Populares O Brasil ainda estava sob o regime militar a população criava meios de mobilização através de movimentos sociais Geralmente essas mobilizações ocorriam em associações de moradores nas comunidades eclesiais de base nos órgãos de defesa do cidadão Profissionais de vários saberes se uniam a esses setores populares com o objetivo de contribuir com os movimentos populares que iam crescendo embora timidamente FREITAS 1996 p 63 Foi junto a esses movimentos populares que se iniciou a prática da Psicologia Social Comunitária com características de se voltar para diferentes problemáticas além daquelas com que se trabalhava anteriormente Segundo Freitas 1996 p64 o interesse desses intelectuais e profissionais nestas questões sociais era devido a uma extrema miséria que essa população estava vivendo por isso tamanho envolvimento Os profissionais participavam dos movimentos populares com a crença de colaborar para uma sociedade mais justa e igualitária Para tanto os profissionais de psicologia começaram a marcar espaço saindo das escolas consultórios e indo para os bairros favelas associações de moradores O modelo clínico se mostrava portanto inadequado visto que não se tratava apenas de uma mudança geográfica da prática clínica As atividades que eram realizadas pelos profissionais de Psicologia junto com outras Ciências Sociais e Humanas aconteciam a partir de reuniões para discutir as questões que a população estava vivenciando faziase um levantamento de necessidades descrições das condições de vida do modelo educacional e suas deficiências discutiam sobre a saúde da população e a partir disso ofereciam serviço psicológico gratuito A ação conjunta acontecia em passeatas abaixoassinado ou Professora Maria Flor 2024 2 32 qualquer forma de resistência frente a precariedade das condições de vida da população FREITAS 1996 p65 Como os trabalhos em comunidade a princípio eram voluntários os profissionais como forma de sobrevivência investiram na docência Questões em relação à inserção do psicólogo na comunidade foram discutidas nas universidades iniciaramse debates acerca da postura deste profissional nas comunidades Existiam trabalhos já publicados por professores e alunos que desenvolveram trabalhos na Zona Leste de São Paulo em uma comunidade de baixa renda e na UFMG Universidade Federal de Minas Gerais já existia a disciplina que discutia questões ligadas à ecologia humana e movimentos populares AMORETTI CRUZ FREITAS 2010 p 78 b Anos 80 Criação da Associação Brasileira de Psicologia ABRAPSO Nos anos 80 a denominação da palavra psicologia comunitária passa a ser mais frequente profissionais se apropriam desse termo em debates e discussões Em fins dos anos 70 e começo dos anos 80 reflexões são feitas em relação aos trabalhos desenvolvidos em comunidade questionase o seu caráter voluntário e os modelos de intervenções utilizados pelos psicólogos que atuam neste campo Trabalhos em Psicologia Social Comunitária são publicados neste período pessoas como Sílvia Lane a pioneira em psicologia social no Brasil e outros autores trazem em suas publicações questões referentes ao desenvolvimento do trabalho do psicólogo em comunidades FREITAS 1996 p65 Em meados dos anos 80 surge a necessidade de se criar um espaço de discussões e debates para delimitar a atuação do profissional de psicologia que atua nas comunidades Esse espaço é criado em julho de 1980 e é chamado de ABRAPSO Associação Brasileira de Psicologia Social Através da ABRAPSO uma Psicologia Social crítica foi construída comprometida com a realidade obscura da população Em cada região do país são criados núcleos para se realizar encontros regionais em torno das problemáticas desenvolvidas pela Psicologia Social Em São Paulo em um dos primeiros encontros regionais abordase o tema Psicologia na Comunidade onde os profissionais discursam sobre as suas práticas comunitárias com mulheres nas periferias em centros de educação popular e em creches FREITAS 1996 p68 Encontros e mais encontros regionais são realizados com a intenção de se pensar sobre novas práticas discutir as temáticas relativas ao bemestar da população c Anos 90 Expansão do trabalho do Psicólogo Comunitário No início da década de 90 expandiramse os trabalhos dos psicólogos com os populares Estes trabalhos baseavamse em variadas práticas com diferentes referenciais teóricos é frequente neste período ouvir a denominação psicologia da comunidade FREITAS 1996 p69 As práticas desenvolvidas pelos psicólogos estavam ligadas basicamente aos postos de saúde órgãos ligados às questões familiares instituições penais Em se tratando de instituições sabese que a atuação do psicólogo se desenvolve a partir da demanda solicitada pela própria instituição Com o envolvimento dos profissionais de psicologia nas questões ligadas á saúde coletiva a sua postura portanto é de um trabalhador social dentro desse movimento de saúde A Psicologia passa a ser vista como uma profissão da área de saúde Esses primeiros anos da década de 90 foram marcados por uma diversidade teórica e metodológica no desenvolvimento desses trabalhos em comunidades Após a saída dos militares do governo o país passou por uma série de dificuldades muitas mudanças e transformações ocorreram na administração pública Abriramse oportunidades para os profissionais da área de humanas com o objetivo de prestar serviços à população A psicologia começa a Professora Maria Flor 2024 2 33 ser reconhecida como profissão que presta serviços aos setores desfavorecidos vários profissionais começam a trabalhar em bairros postos de saúde agora de uma maneira não mais clandestina Distinções Práticas e Nominativas de Psicologia na Comunidade Psicologia da Comunidade e Psicologia Social Comunitária Escutamos as expressões Psicologia na Comunidade Psicologia da Comunidade e Psicologia Social Comunitária que aparentemente parecem que são símiles contudo não são só meras distinções nominativas é também uma questão de prática A expressão Psicologia na Comunidade FREITAS 1996 p62 surgiu durante um período onde o objetivo era tornar a prática da psicologia acessível ao povo A postura dos profissionais de psicologia era deselitizar a profissão e para isso ser possível era importantíssimo desenvolver a sua prática na Comunidade fora das escolas e consultórios Durante as décadas de 60 e 70 confundiamse as expressões Psicologia na Comunidade com Psicologia da Comunidade A partir dos anos 90 tornase frequente o termo Psicologia da Comunidade que referese às práticas da Psicologia ligadas as questões da Saúde e atividades ligadas a uma instituição ou órgãos públicos que prestavam serviços à população onde o psicólogo trabalhava O intuito disso tudo era defender uma psicologia menos academicista menos intelectual e mais ligada às questões do povo FREITAS 1996 p72 Por último surge a expressão Psicologia Social Comunitária que carrega sua prática de maneira não paternalista presente nos modelos trazidos dos Estados Unidos O seu arcabouço teórico é oriundo da Psicologia Social tendo como foco o trabalho grupal como o objetivo de desenvolver uma consciência crítica na população e uma construção de uma identidade social e individual orientadas por preceitos eticamente humanosFREITAS 1996 p73 A Psicologia social Comunitária utilizase do enquadre teórico da psicologia social privilegiando o trabalho em grupo colaborando para a formação da consciência crítica e para a construção de uma identidade social e individual orientadas por preceitos eticamente humanos FREITAS 1996 p73 42 Movimentos sociais Os movimentos sociais são ações coletivas mantidas por grupos organizados da sociedade que visam lutar por alguma causa social Em geral o grito levantado pelos movimentos sociais representa a voz de pessoas excluídas do processo democrático que buscam ocupar os espaços de direito na sociedade Os movimentos sociais são de extrema importância para a formação de uma sociedade democrática ao tentarem possibilitar a inserção de cada vez mais pessoas na sociedade de direitos Os primeiros movimentos sociais visavam resolver os problemas de classes sociais e políticos como a ampliação do direito ao voto Hoje os movimentos sociais baseiamse em grande parte nas pautas identitárias que representam categorias como gênero raça e orientação sexual Ao pensarse nos movimentos sociais à luz de pensadores da filosofia e da sociologia é impossível apontar um consenso O cientista político italiano Gianfranco Pasquino aponta a impossibilidade de estabelecerse uma linha conciliatória entre os que tratam dos movimentos sociais tendose em vista um horizonte de pensadores clássicos Nesse sentido e como exemplos os sociólogos Marx Weber e Durkheim veem nos movimentos sociais a sustentação de uma revolução a institucionalização de um novo poder burocrático e até a maior coesão social respectivamente Professora Maria Flor 2024 2 34 43 Características dos movimentos sociais Os movimentos sociais levantam bandeiras de grupos organizados em prol de alguma causa Por outro lado temos pensadores ligados ao conservadorismo como o polímata francês Gustave Le Bon o filósofo sociólogo e criminologista francês Gabriel de Tarde e o filósofo e jornalista espanhol José Ortega y Gasset que viam nos movimentos sociais um perigo iminente Para esse grupo os movimentos sociais como movimentos de massa tendem a seguir caminhos irracionais que perturbam a ordem vigente Apesar das divergências existe uma convergência sobre os movimentos sociais a constatação de tensões sociais e a iminente ruptura de uma mudança social De qualquer modo fazse necessário perceber que há uma antiga história de tensões que representam grandes movimentos sociais do mundo moderno Talvez o mais antigo movimento de massas que nós podemos destacar como um princípio de movimento social tenha sido a Queda da Bastilha que marcou a Revolução Francesa em 1789 e foi responsável pela queda da monarquia absolutista francesa Outro grande movimento de massa que se tornou um movimento social organizado foi o movimento sufragista considerado parte da primeira onda do feminismo movimento organizado por mulheres que reivindicavam o seu direito ao voto e à participação cidadã na política 44 Origem dos movimentos sociais Na passagem do século XIX para o século XX os sindicatos institucionalizaramse como coletivos que visavam defender os trabalhadores da exploração patronal inspirados principalmente pelos ideais marxistas Nesse sentido surgiu em vários cantos do mundo movimentos sociais em defesa dos trabalhadores das classes sociais mais baixas e movimentos socialistas e anarquistas que visavam uma completa revolução e dissolução da ordem social capitalista Professora Maria Flor 2024 2 35 Na década de 1960 devido às sequelas deixadas pela Segunda Guerra Mundial e ao clima de polarização mundial causado pela Guerra Fria novos coletivos ações e movimentos surgiram por todo o mundo As pautas dos movimentos sociais passaram a diversificarse a partir desse momento Nos Estados Unidos e na África do Sul a população negra revoltouse contra o injusto sistema de segregação racial que garantia privilégios à população branca e retirava os direitos da população negra tratando esta camada como uma horda de cidadãos inferiores As mulheres também se organizaram em coletivos para lutar por seus direitos buscando a liberdade sexual e o tratamento igualitário entre os gêneros essa ficou conhecida como a segunda onda do movimento feminista A população LGBTQ também entrou em cena para reivindicar o direito de expressarse livremente e de não ser julgada ou segregada por isso Um episódio marcado por um espontâneo movimento de massa que gerou um grande movimento social foi o ocorrido no bar Stonnewall Inn em Nova Iorque que resultou em confronto com a polícia e deu origem à Parada do Orgulho Gay hoje chamada de Parada do Orgulho LGBTQ que ocorre em várias cidades pelo mundo Presa injustamente na década de 1970 a filósofa Angela Davis tornouse símbolo da luta pelos direitos da população negra e das mulheres O mundo passou por severas mudanças a partir da década de 1960 período em que as minorias saíram às ruas para lutarem por seus direitos A partir daí vários movimentos sociais começam a eclodir pelo mundo sempre em busca de uma organização que visasse a inclusão de pessoas excluídas e sempre se diferenciando de acordo com as especificidades de cada local No Brasil Um exemplo de localidade da luta social ocorre no Brasil com movimentos como o MTST Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e MST Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra conhecido como Movimento dos SemTerra O Brasil é um país que ao contrário dos países desenvolvidos nunca produziu uma eficaz reforma agrária O MST é um forte movimento que luta pela reforma agrária no Brasil O número de pessoas que não têm acesso à terra para o trabalho rural ou não têm o seu direito à moradia garantido é gigantesco o que torna a pauta desses movimentos uma questão emergente por aqui Professora Maria Flor 2024 2 36 Nesse sentido tendo em vista as demandas específicas de nosso país criaramse movimentos organizados para lutarse pelas demandas que nosso povo enfrenta Como os movimentos sociais funcionam É impossível estabelecer uma fórmula única de funcionamento dos movimentos sociais visto que eles são diversos defendem pautas distintas e têm diferentes demandas de acordo com a sua localidade geográfica e seu tempo histórico No entanto algumas características podem ser elencadas como modos comuns de funcionamento deles Muitos movimentos sociais eclodem de movimentos e rebeliões de massa como foi o caso do movimento LGBTQ de grupos do movimento negro como os Panteras Negras nos Estados Unidos e do MST no Brasil Eles podem ser constituídos por diversos grupos que lutam pela mesma causa como o movimento feminista que tem vertentes diferentes o movimento negro que é formado por um amplo conjunto de coletivos e o movimento LGBTQ No entanto cada grupo ou célula desses movimentos tem suas formas de organizarse para promover a militância social Eles unem as pessoas em torno de uma causa comum Eles visam uma reestruturação social que inclua os seus interessados no poder comum e garantaos seus direitos de cidadãos Exemplos de movimentos sociais o Movimento dos trabalhadores rurais sem terra o Movimentos feministas o Movimentos antirracistas o Movimentos ambientalistas como o WWF e o Greenpeace o Movimentos de união de comunidades e periferia como o Nós do Morro que luta contra o racismo a desigualdade social e a exclusão dos moradores de periferias o Movimentos de luta contra a homofobia e a transfobia como o movimento LGBT Unidade V intervenções no contexto comunitário Diferentes formas de intervenção Para falar pensarmos em uma intervenção na comunidade necessitamos aprofundar no conhecimento das diferentes perspectivas de intervenção social pesquisadas dirigida participativa e situada Essas linhas de ação e pensamento se caracterizam como formas de intervenção no social e exibem peculiaridades Uma intervenção social pode ser efetuada com base em diferentes perspectivas a saber a dirigida a participativa e a situada Para que exista o que é conceituado de intervenção para as perspectivas dirigidas e participativas é necessária uma relação entre dois elementos distintos Os interventoresas Professora Maria Flor 2024 2 37 profissionais técnicos voluntários etc que se propõe a transformar com sua ação situações que são vistas como problemáticas na qualidade de vida do segundo grupo os intervindos clientes beneficiários grupo com necessidades especiais Essas correntes de intervenção social postulam a transformação de certas condições de vida das pessoas A intervenção social e psicossocial busca atacar os problemas sociais presentes na sociedade a partir de modelos teóricos que explicam o que é social e quais são as possíveis causas dos problemas e modelos práticos sobre quais são as melhores maneiras de incidir sobre estes problemas a favor das pessoas envolvidas nas situações problemáticas MONTENEGRO 2001 p 74 Segundo Montenegro 2001 em uma perspectiva dirigida de intervenção social as definições sobre problemas sociais enfatizam que o diagnóstico deve ser realizado ou a partir de critérios objetivos de situações que poderiam ou deveriam ser transformadas ou quando um grupo relevante define algumas condições como problema e põem em marcha ações para sua solução O funcionalismo é a corrente teórica que embasa a intervenção dirigida A autora expõe outra perspectiva de intervenção social a perspectiva participativa que compreende os problemas sociais atuais como produto das relações sociais discrepantes presentes na sociedade Assim a partir desta perspectiva o problema social fundamental contra o qual se deve lutar é a exploração econômica cultural social dos seres humanos no sistema capitalista A forma de entender o social da maioria das teorias participativas se baseia em que não são apenas os grupos marginalizados que necessitam de transformação mas a sociedade como um todo A visão da sociedade se faz de um ponto conflitivo apresentando uma sociedade dividida e que possui interesses opostos Ainda afirmase que os recursos econômicos sociais e culturais desta sociedade estão distribuídos de modo desigual entre os diferentes grupos sociais A sociedade é estruturada a partir de relações de dominação e exploração opressores e oprimidos As pessoas que estão em situação de marginalização política e econômica tendem a ver como natural a situação em que vivem e não como um processo histórico de dominação E nesse ponto que existe a necessidade de se trabalhar A visão social que interfere na intervenção participativa é o Marxismo Nas propostas de intervenção participativa e dirigida os problemas sociais são definidos principalmente com base nos conhecimentos especializados Nestas perspectivas de intervenção observase a presença dos agentes externos que redirigem e reorganizam as inquietudes presentes na comunidade abrindo espaços de reflexão e de ação As pessoas da comunidade ou coletivos que sofrem problemas sociais são vistos como vivendo sob condições de opressão e portanto devem atuar para reverter as condições sociais nas quais vivem porém essa atuação é acompanhada de intelectuais politicamente comprometidos com a transformação social dessas condições Numa perspectiva situada de intervenção social adotase uma postura crítica com relação à visão representacionista da realidade Assim os problemas sociais são analisados como produtos de processos de definição coletiva constroemse como objetos por intermédio de práticas e discursos num marco sócio histórico e cultural que permite certas construções e não outras Os problemas sociais são então histórica e contextualmente situados e além disso são construções momentâneas e dinâmicas MONTENEGRO 2001 Diferentemente das intervenções participativas e dirigidas uma perspectiva situada de intervenção social não encara os problemas sociais a partir de um conhecimento especializado mas sim implica em ações coletivas em prol de um objetivo comum socialmente definido Essas ações envolvem as vidas das pessoas as relações discursos e práticas sociais com uma visão do social mais anarquista Montenegro 2001 Professora Maria Flor 2024 2 38 Os agentes de transformação social seriam pessoas grupos organizações instituições etc que são conceitualizados como capazes de levar a cabo ações de transformação Estes agentes se articulam para atuar sobre algum fenômeno definido na própria articulação como digno de transformação Assim não há posições únicas fixas e imutáveis mas uma pluralidade de posições e conexões um movimento contínuo de articulações Este movimento e pluralidade abrem a possibilidade de que características de diferentes agentes estejam envolvidas nos trabalhos de intervenção e também a possibilidade de articulação com outros movimentos ou blocos históricos Nestas articulações as próprias posições de cada agente são modificadas Se a prática da intervenção que for realizada em determinada comunidade não for uma prática libertadora que vise à emancipação dos indivíduos da comunidade em favor de lutarem por sua cidadania ela acaba deixando a comunidade numa postura de dominada onde os sujeitos tendem a agirem como simples beneficiários e não como cidadãos que têm direito de reivindicar por suas demandas Portanto no presente trabalho buscase enxergar a comunidade não como necessitada de doação a qual precisa de intervenção no sentido de arrecadar recursos e no fazer por ela Mas sim enxergar a comunidade como parceira nessa intervenção que procura trabalhar junto para que esta se coloque como lutadora por seus ideais identificando seus problemas e os caminhos que podem ser seguidos para solucioná los buscando uma melhor interação em seu meio e com seu meio As pessoas de uma determinada comunidade são os principais protagonistas de seus saberes de suas vicissitudes e da criação de instrumentos capazes de auxiliar o desenvolvimento de sua realidade PEREIRA 2001 p 171 Referencia MONTENEGRO Marisela Martinez Conocimientos agentes y articulaciones una mirada situada a la Intervencion Social Tese doutorado Programa de Doutorado de Psicologia Social Universidade Autônoma de Barcelona Enero 2001 As práticas grupais e a atuação do psicólogo intervenções em grupo no Estágio de Processos Grupais Introdução A partir da teoria do vínculo de PichonRiviére podese definir grupo como um conjunto de pessoas que possuem necessidades semelhantes e buscam a priori o cumprimento de uma tarefa específica Para a efetivação e realização da tarefa que se propõem a cumprir esses indivíduos deixam de ser um amontoado de pessoas e cada um assume seu papel enquanto participante do grupo com um objetivo mútuo mas ainda sim cada qual com sua identidade Grossi Bordin 1992 O conceito de Instituição se refere a um conjunto de normas que regem a padronização de um determinado hábito na sociedade e que garantem a sua reprodução e a institucionalização ocorre sempre que há uma tipificação de ações habituais aceitas por determinado grupo ALEXANDRE 2002 p 210 Relacionando os conceitos sobre Grupo e Instituição é possível que se entenda como ocorre seu funcionamento na prática os grupos institucionais A intervenção psicológica possui como finalidade o descobrimento da raiz da dor psíquica que afeta o indivíduo para que esta seja tratada e compreendidos os sofrimentos que assolam o mesmo durante sua existência propiciar cuidado tratamento e superação do problema em questão Professora Maria Flor 2024 2 39 A influência dos grupos na concepção do eu O ser humano é simultaneamente um ser sociável e um ser socializado que aspira comunicar com os membros de uma sociedade que o forma e o controla ALEXANDRE 2002 p 209 isso nos remete ao fato de que estamos sempre inseridos em grupos e são eles que nos conectam com a chamada sociedade o grupo maior A psicologia grupal tem como objetivo de estudo os microgrupos humanos entendendose por tal todos aqueles nos quais os indivíduos podem reconhecerse em sua singularidade ou perceberem uns aos outros como seres distintos e com suas respectivas identidades psicológicos mantendo ações interativas na busca de objetivos compartilhados OSÓRIO 2003 p 11 A teoria psicanalítica por meio de seu método e aparato teórico compreende que o sujeito particular é o objeto primordial de intervenção O sofrimento que deverá ser tratado se refere e se localiza na pessoa a quem se destina e referese o tratamento No entanto PichònRiviére refuta tal afirmativa quando propõe um olhar duplo sobre o grupo e os sujeitos CASTANHO 2012 PichonRivière propõe que ao pensarmos o que ocorre em um grupo tenhamos em mente sempre dois eixos assim nomeados e definidos 1 vertical assinala tudo aquilo que diz respeito a cada elemento do grupo distinto e diferenciado do conjunto como por exemplo sua história de constituição e seus processos psíquicos internos 2 horizontal referese ao grupo pensado em sua totalidade CASTANHO 2012 p 49 A realização dessa pesquisa levantando as modalidades de intervenção psicológica grupal no estágio possibilitou verificar os benefícios e fenômenos que emergem das relações grupais tendo em vista os dois aspectos pichonianos supracitados O que permite à inteligência essa transferência do plano motor para o plano especulativo não é evidentemente explicável no desenvolvimento do indivíduo mas nele pode ser identificada a transferência são aptidões da espécie que estão em jogo em especial as que fazem do homem um ser essencialmente social WALLON 1979 p 161 A identidade do sujeito se concretiza partindo das relações estabelecidas com os outros e tais construções e influências desse grupo permanecem inconscientes ou préconscientes não permitindo que esse sujeito veja que seus comportamentos são reflexos de padrões arcaicos que o seguem e o constituem O conceito de Grupo Grupo pode ser definido como um conjunto de indivíduos que interagem entre si compartilhando certas normas numa tarefa BLEGER 1998 p 114 Osório 2003 utiliza o termo sistema humano Sistema humano é em nosso entender todo aquele conjunto de pessoas capazes de se reconhecer em sua singularidade e que estão exercendo uma ação interativa com objetivos compartilhados OSÒRIO 2003 p 56 Grupos são no seu sentido mais geral configurações sociais de mediação da relação entre indivíduo e a totalidade social a que ele se vincula entre a universalidade da sociedade a particularidade do indivíduo São pois instâncias intermediárias que articulam a relação do indivíduo com a totalidade social servindo como elementos de mediação FONSECA 1988 p 184 Existem dois tipos de grupos sendo a família um grupo primário e os grupos secundários se referindo ao trabalho estudos instituições entre outros Nos grupos cada sujeito possui seu lugar e papel seu modo de ser em coletividade e o que constitui sua identidade É possível compreender que mesmo pertencentes a determinado grupo com regras e normas que regem o processo relacional cada um de seus integrantes Professora Maria Flor 2024 2 40 imprime sua identidade sobre o mesmo por meio de sua forma de agir pensar falar contribuindo assim para a ampliação de conhecimentos que constitui aquele grupo definindoo em sua multiplicidade Grossi Bordin 1992 Segundo PichonRiviére a estrutura dos grupos se compõe pela dinâmica dos 3D O depositado o depositário e o depositante O depositado é algo que o grupo ou um indivíduo não pode assumir no seu conjunto e o coloca em alguém que por suas características permite e aceita Estes que recebem nossos depósitos são nossos depositários nós que nos desembaraçamos destes conteúdos colocandoos fora de nós somos os depositantes GROSSI BORDIN 1992 p 61 PichonRiviére 2009 trouxe uma grande contribuição quando credita ao vínculo o ponto necessário para se compreender um grupo Sem o vínculo tratarseia então apenas de um agrupamento de pessoas em um determinado espaço e tempo Dado isso pode se atribuir a esse conceitochave o ponto necessário para se considerar o que é um grupo Além disso concebese o grupo como agente de mudança e transformação da realidade sendo que ao passo que o indivíduo vai se constituindo o grupo também vai ganhando enquanto o grupo se fortalece o indivíduo também se caracteriza e isso devido à interação e ao vínculo estabelecido PichonRivière 2009 A ideologia fundamental deste tipo de grupo é que o essencial é aprender a aprender e que mais importante do que encher a cabeça de conhecimentos é formar cabeças Incontáveis são as modalidades de aplicação dos grupos operativos sendo que muitas vezes sob múltiplas denominações distintas designam um funcionamento assemelhado ZIMERMAN 2000 p 91 Fonseca 1988 aponta que na prática os grupos tem se constituído no entanto têm sido percebidas dificuldades conceituais paradoxalmente aos fenômenos que surgem em grupos empiricamente existentes dos resultados que estes apontam e das posturas de facilitação necessárias e fundamentais para a eficácia da intervenção grupal realizada Esse fenômeno se justifica pela necessidade de aprofundamento teórico sobre essa esfera do saber e pela dificuldade de treinamento e dificuldade de treinamento de facilitadores Modalidades grupais É importante que se compreenda a existência de várias modalidades no que se refere ao trabalho de intervenção grupal Em sua obra Grupos e configurações vinculares Fernandes 2003 classifica os grupos de maneira didática por meio de tabelas demonstrativas Em sua obra O Processo Grupal PichonRiviére traz a definição de grupos operativos se definem como grupos centrados na tarefa a tarefa é o essencial do processo grupal portanto temos nesta caracterização os três tipos a centrados no indivíduo b centrados no grupo como um conjunto total o c os grupos centrados na tarefa Nossa preocupação é abordar através do grupo centrandose na tarefa os problemas da tarefa da aprendizagem e problemas pessoais relacionados com a tarefa e com a aprendizagem PICHONRIVIÈRE 2009 p 272 Nos grupos operativos o processo comunicativo vincular poderá ser aprimorado por meio de treinamento adequado visando a aperfeiçoar a execução das tarefas FERNANDES 2003 Alguns exemplos de grupos com finalidades operativas são os grupos de orientação a gestantes ou de discussão de textos literários com adolescentes grupos comunitários técnicos sem formação completa como grupoterapeutas psicólogos psiquiatras médicos de outras especialidades podem receber treinamento porém desde que se atentem unicamente a tarefa proposta e conheçam seus limites Zimerman apud Fernandes 2003 Professora Maria Flor 2024 2 41 Os grupos Balint de discussão de casos médicos em equipe multidisciplinar apontam para resultados positivos uma vez que concebe por meio do coordenador do grupo que possui bons conhecimentos psicodinâmicos achados que se somam ao crescimento profissional do grupo como um todo Nos grupos de reflexão ocorrem vivências de temas manifestos a evidenciar os conflitos que atrapalham o trabalho a explicitar as leis do funcionamento dos grupos e a relacionar essas leis com os acontecimentos vivenciados e com o curso teórico Outra abordagem operativa são os grupos de discussão de congressos jornadas e eventos onde após algumas apresentações em mesa redonda a discussão dos temas é realizada por grupos menores dessa vez coordenados por especialistas em grupo viabilizando uma construção criativa entre todos assim como a horizontalidade relacional Fernandes 2003 A psicoterapia breve grupal segundo Fernandes 2003 é realizada com objetivos eou tempo limitados podendo ser utilizada em instituições e na clínica particular possuindo como finalidades alívio sintomatológico adaptações da vida triagem para direcionamento a outros tratamentos diagnóstico mais específico e sensibilização para psicoterapia psicodinâmica sem foco e tempo predeterminados Na psicoterapia grupal com pacientes internados buscase a aceitação ao processo terapêutico compreender que outros também possuem problemas semelhantes e a possibilidade de sentimento de utilidade para o paciente e sensibilizálo para o tratamento Sobre a diferenciação entre os grupos operativos e grupos terapêuticos Fernandes 2003 conclui que se trata de uma tarefa difícil diferenciálos uma vez que os grupos operativos também podem adquirir caráter terapêutico a seus usuários embora a proposta não seja esta Existem duas estruturas distintas de grupos os grupos terapêuticos e os grupos institucionais Define como grupos de Empresa aquelas atividades dentro de uma linha de Grupos de Sensibilização Desenvolvimento Individual Desenvolvimento Interpessoal Administração de Conflitos Análise Transacional etc e que são estruturados de acordo com a demanda apresentada pela empresa Nos grupos institucionais existem fenômenos como o poder a comunicação entre os membros do grupo que já preexistem antes mesmo do início dos encontros Cabe aqui mencionar a necessidade de entrevistas que antecedem o início dos encontros em grupo tanto com as chefias quanto para os integrantes do grupo para fins de conhecimento de cada um Valendo enfatizar a importância dos encontros serem realizados fora do ambiente de trabalho e a lembrança de frequência e assiduidade às sessões Castilho 2002 Já os grupos terapêuticos Castilho 2002 conceitua que são estruturados pelo facilitador que seleciona como participantes seus clientes de terapia individual ou pessoas que buscam de maneira espontânea o grupo se inscrevendo e aguardando realização da chamada para o início dos encontros grupais Existem vários critérios que o facilitador pode utilizar para a construção de um grupo como idade sexo profissões etc para a estruturação e grupos homogêneos e heterogêneos com objetivos direcionados a demanda tratada em grupo Esses grupos podem ser abertos onde havendo a saída de um integrante outro pode ocupar o seu lugar ou fechados em que há desde o contrato grupal a impossibilidade de entrada de novos integrantes ao grupo e teoricamente aqueles que se iniciaram no grupo devem permanecer até a data aprazada A atuação com grupos é uma demanda real na profissão do psicólogo e ter a possibilidade de viver a prática deste trabalho na graduação permite verificar o quanto reproduzimos no grupo situações externas porém esse contexto favorece a reflexão e a mudança Para os universitários ter um espaço específico para pensar as relações que estabelecem entre si com os conteúdos e todas as atividades que envolvem o curso constitui um momento ímpar e muito importante da formação no qual é possível conhecer e Professora Maria Flor 2024 2 42 vivenciar um trabalho em grupo com todos os fenômenos e obstáculos do processo SILVEIRA e RIBEIRO 2015 p 94 Desta forma a prática no estágio com a intervenção grupal contribui na formação do profissional e ao mesmo tempo possibilita repensar suas vivências grupais enquanto ser gregário Zimerman 2000 Ao longo deste trabalho foi analisado que durante os sete anos 2010 a 2016 do Estágio de Processos Grupais a incidência dos grupos institucionais foi maior do que dos grupos clínicos evidenciando que as práticas grupais institucionais foram realizadas em maior número em detrimento das grupoterapias denotando que a adesão à intervenção psicológica grupal na clínica ainda constitui um desafio para a profissão É preciso compreender que cada indivíduo ao entrar no ambiente de grupo apresenta sinais de retraimento cuidado e insegurança visto que estes não conseguem conceber o ambiente grupal como lugar seguro próprio para tratar de seus problemas medos e angústias mas associamno a um lugar onde devem agir de modo a reterem o que sentem e canalizam sua atenção para o fato de estarem inseridos em um grupo composto por várias identidades que diferem da sua Neri 1999 As habilidades sociais são definidas como um conjunto de destrezas sociais cognitivas e afetivas que instrumentaliza os indivíduos no decorrer do desenvolvimento orientandoos para o enfrentamento das dificuldades cotidianas Para alcançar este objetivo os indivíduos devem ser hábeis o manejo social interpessoais cognitivo e emocional em termos de comunicação de lidar com sentimentos de agressividades de ter capacidade empática além de saber tomar decisões pensar de modo crítico saber se autoavaliar consistentemente e lidar com situações de estresse expressando autocontrole efetivo DEL PRETTE e DEL PRETTE apud LEITESALGUEIRO DE CASTRO NUNES CALDAS 2018 p 78 É possível compreender que durante a realização da intervenção grupal o grupo a ser atendido pode reagir de duas maneiras distintas que possuem em comum seus extremos podendo o indivíduo uma vez tendo ciência de que está inserido em determinado grupo se fechar devido ao fato de surgirem diversos pensamentos que emanam da sua psique fazendoo se retrair e não se entregar durante o processo ou então pelo mesmo fato de tomar tal ciência de estar em grupo este se envolver demais vivendo uma relação de dependência grupal Um dos problemas da terapêutica de grupo então reside no fato de ser o grupo frequentemente utilizado para a obtenção de uma sensação de vitalidade pela submersão total no grupo ou de uma sensação de independência individual pelo repúdio total dele Essa parte da vida mental do indivíduo que é incessantemente estimulada e ativada por seu grupo é a sua herança inalienável como animal de grupo BION apud ÁVILA 2016 p 55 Os grupos em comunidades terapêuticas que atendiam a demanda de pessoas em recuperação de dependência química também aconteciam no formato dos grupos operativos com tarefas e atividades para facilitar o diálogo e a manifestação de sentimentos dos seus integrantes As grupoterapias também se enquadram no enfoque psicológico clínico pois segundo Fernandes assim como em instituições a criação e manuseio dos grupos de sala de espera apontam que A experiência tem mostrado que esses grupos são terapêuticos ajudam a pensar a tomar decisões enfim a melhorar a qualidade de vida Igualmente os grupos de acolhimento e os grupos de diagnóstico mostramse dispositivos excelentes para continência encaminhamento e primeiros contatos grupais mostrandose também terapêuticos FERNANDES 2003 p 92 No caso das grupoterapias direcionadas às crianças e adolescentes podemos compreender a eficácia do trabalho do terapeuta junto ao grupo uma vez que os integrantes possuem a necessidade de um facilitador que auxilie a propiciar a compreensão de aspectos e verdades de cada pois seus aparelhos psíquicos ainda não possuem maturação necessária para conceber tais percepções Assim o terapeuta age como facilitador do desenvolvimento da terapia da vida enfim Professora Maria Flor 2024 2 43 O grupo é um excelente espaço para junto descobrirse verdades aspectos de cada um e de todos transicionalmente diria Winnicott MELLO FILHO 1997 p 93 apud FERNANDES 2002 p 191 Um dado importante a ser colocado em pauta também é a resistência subproduto comum dentro de um setting sendo ele terapêutico ou não pois ela é atuante em cada ser humano a todo o momento movimentando diversas questões CESÁRIO 2009 Foi identificado que durante o período de sete anos foi realizado apenas um grupo de atendimento voltado aos idosos Com base nesse dado podemos levantar algumas hipóteses que justifiquem tal afirmativa visto que há no Brasil uma população relativamente grande de pessoas idosas que demandam atenção e políticas a serem implantadas para promoção de saúde e qualidade de vida entre estes Uma das hipóteses que justifica baixos índices de grupos de idosos se relaciona com a dificuldade de locomoção para ir à clínica escola que se localiza em um bairro distante das áreas centrais da cidade pois pelo fato de dependência de auxílio de terceiros e de familiares constitui um problema que impossibilita que esses idosos estejam presentes em grupos específicos visto que na maioria dos casos seus familiares possuem outras funções como trabalho estudo filhos etc que nem sempre é possível que encaminhem os idosos para o comparecimento de grupos como estes Em suma se torna de extrema importância a atenção voltada à população idosa que segundo dados têm adoecido apontando altos índices de doenças neurodegenerativas e depressão entre outras patologias Dentre as doenças decorrentes da velhice destacamse a prevalência das doenças neurodegenerativas e as tendências à depressão A depressão é um distúrbio da área afetiva ou do humor e quando incide em idosos por muitas vezes é ignorada pelos profissionais de saúde por entenderem que os sinais e sintomas depressivos seriam manifestações normais da senescência MARQUES et al 2017 p 21 Uma maneira de tratamento interventivo para atender essa demanda crescente é a criação de grupos de idosos em centros de convivências instituições de acolhimento e centros de apoio espalhados em toda cidade com finalidade de promoção de saúde e qualidade de vida desse público de maneira proporcionar o reestabelecimento de vínculos que em decorrência da idade entre outros fatores tais idosos em sua grande maioria têm perdido Verificouse que mesmo indicando a continuidade do atendimento em grupo os membros não retornavam no ano seguinte tendo como hipóteses a resistência em função troca dos estagiários sempre informada no final de cada ano A perda do vínculo e consequentemente o longo período de férias que interrompem dezembro janeiro e fevereiro em função ano letivo Podemos compreender o fenômeno vincular como elemento primordial para o estabelecimento da relação de confiança entre os membros do grupo como também em relação ao facilitador do mesmo pois a teoria da psicanálise dos vínculos que concebe tal conceitualização enfatiza que Na relação grupanalítica os vínculos entre os diversos participantes e com o coordenador ocorrem principalmente através da comunicação verbal mas são muito importantes também as outras formas de comunicação É através da comunicação que podemos iniciar a pesquisa que nos levará a associações importantes FERNANDES 2003 p 85 Nos grupos vivenciais que são institucionais não ocorreram as desistências ou desligamentos uma vez que a frequência estava atrelada à nota semestral da disciplina em função dos encontros dos grupos vivenciais acontecerem como atividade prática da disciplina Teoria e Processos Grupais Nos grupos vivenciais havia a todo o momento uma oposição ao poderautoridade dificultando bastante o processo e revelando uma resistência mais agressiva no próprio grupo Esse fenômeno é chamado de ataque ao facilitador e muito bem descrito por OSÓRIO 2003 Professora Maria Flor 2024 2 44 É um dos fenômenos mais característicos de um grupo ele se apresenta com maior força na terapia individual pelo fato de ter o reforço de alguns membros do grupo que se sentem apoiados quando atacam a autoridade Tal fenômeno se apresenta com maior intensidade nas chamadas fases de contra dependência quando os participantes sentem uma profunda necessidade de contestar contrariar e agredir a autoridade do facilitador OSÓRIO p 55 2003 Esse ataque observado originado pelos integrantes do grupo pode ser compreendido como a ativação de um mecanismo de defesa próprio do ser humano quando colocado em uma situação em que este considera ser ameaçadora No entanto comportamento deve ser identificado e trabalhado durante o processo grupal para que os participantes do grupo se desarmem e seja possível alcançálos com a finalidade específica que o grupo possui Verificouse que os grupos analisados nesta pesquisa apresentaram peculiaridades complexidade interação entre os membros revelando em si a importância da psicologia abordar cada vez mais esta modalidade de intervenção e conceber mais conhecimentos para essa área ou seja agregar mais saberes e destaque para as Teorias e Processos Grupais Os resultados referentes à realização dos grupos vivenciais puderam propiciar um olhar múltiplo para a intervenção grupal uma vez que os alunos do curso de Psicologia puderam ter o contato com a disciplina teórica de Processos Grupais e subsequentemente com os grupos vivenciais ampliando o olhar para essa modalidade de atendimento que poderá ser utilizada no futuro durante a realização de intervenções grupais em diversas áreas e campos que a Psicologia possibilita a atuação profissional CONSIDERAÇÕES FINAIS Durante toda a análise tanto dos dados e conteúdos foi possível observar que os grupos institucionais e a abordagem Operativa de PichonRivière foram às práticas mais comuns no Estágio de Processos Grupais do curso de Psicologia Revelando assim a importância dos grupos institucionais na atuação do psicólogo Sendo que a modalidade de grupo vivencial constituiu uma oportunidade dos alunos compreenderem o que é um grupo participando como membros dos mesmos e compartilhando entre si suas vivências universitárias Desta forma reafirmase a importância das práticas grupais na formação e atuação do psicólogo assim como para os usuários deste serviço na clínica e nas instituições Diante da diversidade de possibilidades no trabalho com grupos e os benefícios que esta intervenção traz aos usuários e à formação do psicólogo esta pesquisa não esgota a temática porém abre possibilidade para novos estudos e contribuições para o meio acadêmico REFERÊNCIAS ALEXANDRE M Breve descrição sobre processos grupais V7 Comum Rio de janeiro p 209219 2002 Disponível em httpwwwsinprorioorgbradminassetsuploadsfilesef37ebrevedescricao sobreprocessosgrupaispdf Acesso em 20 mai 2018 Links ÁVILA L A Grupos uma perspectiva psicanalítica 1 ed São Paulo Zagodoni 2016 p Links 5362 ttpsdoiorg75d323ad165443c59fb33b3 Professora Maria Flor 2024 2 45 52 Desafios atuais da psicologia na interação social O contexto macrossocial e a complexidade Não podemos compreender nenhuma realidade social sem conhecer o contexto sóciohistórico em que se desenvolve Um dos elementos mais fundamentais para analisar os desafios atuais da psicologia da intervenção social hoje é o fato de vivermos não só numa sociedade em transformação mas em transformação acelerada Isso nos diferencia de qualquer outra época histórica anterior Cada vez mudam mais coisas e cada vez mais rápido Basta olhar mesmo que seja por razões de proximidade e de implicação o contexto europeu Há duas décadas estamos submersos em impressionantes mudanças demográficas políticas sociais culturais tecnológicas Tais mudanças penetram mais do que nunca nos nossos lares e exercem influências extraordinárias em nossas vidas cotidianas nas formas de nos relacionarmos e em nossa maneira de pensar e de agir A complexidade das dinâmicas sociais dificulta tentativas de previsão Hoje porém basta pensar numa das grandes coordenadas das mudanças sociais como p ex a tecnológica e se chega a uma conclusão óbvia O contexto macrossocial e a intervenção social Como psicólogos é relevante termos em conta os elementos psicossociais do contexto particularmente do ponto de vista macrossocial Muitas vezes os psicólogos se definem como profissionais vinculados à esfera microssocial como se as relações interpessoais não fossem também realidades existentes nos níveis macro Neste sentido é especialmente interessante o trabalho de S Milgram cada vez mais referenciado pelas disciplinas que estudam as redes sociais intitulado The small world problem que evidencia a importância macrossocial dos vínculos entre as pessoas No decorrer das práticas de intervenção e pesquisa obviamente também estamos submersos nas representações sociais majoritárias de nosso contexto sóciocultural e do momento histórico que vivemos Quando justificamos a necessidade de determinadas intervençõespolíticas sociais estamos apegados a essas lógicas majoritárias É fundamental e em alguns âmbitos eu me atreveria a dizer que é urgente que frente a qualquer situação ou dinâmica social sobre a qual se planeja uma necessidade de intervenção aprofundamonos na análise das representações sociais que estão implicadas no contexto sóciocultural Em ocasiões anteriores propus que podemos analisar no mínimo três vertentes representativas da maioria dos fenômenos que são destinatários de políticas sociais Casas 1996 1998 a As representações existentes a respeito do grupo ou dos grupos de pessoas afetadas b As representações sobre o grau de implicação social que o fenômeno representa Tratase de um problema ou necessidade socialQue grau de urgência ou prioridade tem seu confronto e Professora Maria Flor 2024 2 46 c As representações sobre as formas apropriadas de agir Quanto às representações existentes a respeito do grupo ou dos grupos de pessoas afetadas podemos afirmar que os programas de intervenção social com exceção de alguns de prevenção primária via de regra são pensados em função de e dirigidos a grupos ou coletivos concretos sobre os quais existem imagens compartilhadas Habitualmente falamos de políticas setoriais Cada grupo ou categoria de pessoas define um setor das políticas sociais como foco de intervenção Por exemplo os ciganos os imigrantes as crianças as mulheres os doentes mentais os deficientes físicos os sem teto etc Ao longo da historia a configuração dos grupos muda mas também e talvez sobretudo muda nossa maneira coletiva de pensar a respeito de cada um desses grupos Antes pensávamos em termos de pobres agora nos socialmente excluídos antes em termos de idiotas imbecis retardados mentais e anormais agora de pessoas com necessidades especiais antes pensávamos em termos de loucos e de perigo social e agora em termos de doença mental e necessidade de apoio Não quero dizer que esta mudança de conceitos de referência não seja simbolicamente muito importante Mas é uma mudança de olhar que em si não garante uma ação adequada É preciso considerar as contribuições da psicologia social européia das últimas três décadas ao pesquisar as relações intergrupais quando os humanos nos dicotomizam em grupos nos quais nós temos um forte sentimento de identidade paios e ciganos homens e mulheres autótonos e imigrantes adultos e crianças Resumidamente então aparecem o Tendências a enfatizar as semelhanças intragrupais o Tendências a enfatizar as diferenças intergrupais o Tendências a supervalorizar o endogrupo o Tendências a subvalorizar o exogrupo o Resistências a reconhecer as semelhanças intergrupais e as diferenças intragrupais e o Resistências a supercategorizar A luta contra muitas dinâmicas de exclusão social requer ter uma visão macrossocial das relações intergrupais e uma capacidade de intervir para gerar dinâmicas opostas às assinaladas nos pontos referidos anteriormente para prevenir e problematizar estereótipos e preconceitos formas ativas de desvalorização e marginalização dos outros Recordemos que a definição de problema social proposta por muitos interacionistas simbólicos dá ênfase precisamente à percepção coletivamente compartilhada de uma realidade mais que a própria realidade Por exemplo um fato social que um considerável número de pessoas julga desagradável ou desfavorável e que segundo eles existe em sua sociedade Um problema social carece de existência objetiva ou melhor se atribui caráter problemático a certos fatos ou condutas e associando a eles significado desfavorável Segundo Vander Zanden 1977 podese até definir como problema social algo inexistente No que se refere ao grau de implicação social que o fenômeno representa podemos afirmar que o que tem justificado tradicionalmente a intervenção social nas ciências humanas e sociais tem sido o fato de que alguma coisa não anda bem na dinâmica social A partir desta percepção mais o menos consensual o único problema que restava era entrar em acordo quanto à denominação marginalização social problema social necessidade social inadaptação social desvio exclusão social e um longo etc Professora Maria Flor 2024 2 47 Entretanto nem todas as coisas que não andam bem são consideradas um problema ou necessidade social Portanto podemos inferir que é preciso restringir a intervenção social às situações legitimadas como problemáticas para cada sociedade em cada momento histórico A partir de então implicam a lógica de que é preciso um suporte público para a atuação Outras situações que afetam negativamente às pessoas seguirão sendo como problemas privados ou pelo menos sem implicações para os sentimentos de responsabilidade coletiva Casas 1996 No século XX a partir da década de 1960 observase um movimento de mudança da lógica da intervenção sobre a base de conceitos conotados negativamente para assumir que também podemos mudar coisas por isso intervir socialmente simplesmente para melhorar sem que seja preciso concretizar o que vai mal e delimitálo quantificálo atribuílo aos grupos ou categorias Desse modo instituise num primeiro momento a lógica da prevenção primária e depois a lógica da promoção da saúde do bem estar da qualidade de vida da participação social da potenciação da comunidade p ex No que tange às representações sobre as formas apropriadas de agir cabe ressaltar que ao mudar a lógica sobre onde é preciso intervir também se favorece que se mude a lógica de como é preciso fazêlo Ao longo da historia da sociedade ocidental desde a Idade Média houve um único paradigma que sustentava o pensamento sobre o que é preciso fazer frente a problemas ou necessidades sociais Tomar conta da pessoa afetada e levála a uma instituição especializada em seu problema ou necessidade No início do século XX a ciência não faz outra coisa que não seja avalizar essa lógica o que é preciso fazer é definir bem os problemas classificar adequadamente as pessoas portadoras e desenvolver um programa de intervenção especializada com pessoal especializado e em centros especializados naquele e só naquele problema É o paradigma da especialização que paradoxalmente depois de reinar durante séculos em pouco mais de duas décadas é derrubado estrepitosamente porque de todas as disciplinas científicas surgem questionamentos de raiz Mesmo que não tenha já nenhuma sustentação teórica sua inércia vai fazer com que na prática perdure de formas encobertas ou melhor descaradas Não se pode ocultar que a mudança no novo paradigma que denominarei paradigma da normalização requer investimento econômico importante e como decorrência vontade política Na prática boa parte das administrações públicas têm resistido de forma prolongada à mudança paradigmática ou pelo menos têmnas atrasado Aliás algumas têm utilizado a bandeira da desinstitucionalização como objetivo de economia do gasto público em vez de utilizála como ferramenta de mudança no processo de criação de novos serviços mais setorizados e perto do usuário O novo paradigma já não se centra no problema mas no contexto de atenção das pessoas que sofrem problemas ou necessidades Representa uma ruptura aberta com as representações sociais sobre as quais se sustentava o paradigma anterior Demanda versus potencialidade identidade atribuída ou conquistada O contexto macropsicossocial no qual nós trabalhamos também contém estereótipos e representações sociais majoritárias sobre o psicólogo em geral e sobre os profissionais da intervenção social em particular Uma ideia muito popular do que é um psicólogo e a do profissional que aplica testes e faz terapia Professora Maria Flor 2024 2 48 É preciso que nós nos perguntemos se temos feito e fazemos o suficiente para mudar este estereótipo e para que circulem outras ideias sobre nossas potencialidades Se como conjunto de profissionais nós não somos pro ativos nossa tarefa ficará delimitada pela demanda Então a identidade do psicólogo da intervenção será estritamente a que atribuam a ele aqueles que a contratarem Temos diversos exemplos sobre os quais refletir Desde há mais de uma década praticamente em todas as universidades do estado espanhol a licenciatura de psicologia inclui pelo menos uma matéria de Psicologia Comunitária habitualmente também são oferecidos pósgraduações Mas que eu saiba são bem poucas as administrações públicas que assinam contratos para trabalhar como psicólogo comunitário Uma coisa é um enfoque que muitos psicólogos consideram apropriados por determinados processos de intervenção e outra é a identidade que os que nos contratam nos atribuem Temos outro exemplo bem catalão nos EAIAs O projeto inicial definia o psicólogo dessas equipes como de orientação social A prática da contratação os programas dos concursos e outros fatores têm feito com que a orientação social dependa da vontade de cada psicólogo a identidade atribuída é diferente que a conquistada ou aspirada As dimensões nãomateriais nos processos de mudança social A história da psicologia e particularmente da psicologia social está cheia de lutas com outras disciplinas para conseguir um reconhecimento da cientificidade do conhecimento produzido e das pesquisas efetivadas Habitualmente ao longo da história temos sido acusados de estudar a realidade só com dados subjetivos e com indicadores subjetivos e temse feito muita confusão com esse tema geralmente em benefício de outros É comum a dedução de que as próprias realidades que estudam não podem ser objetivas ou existir objetivamente Academicamente e epistemologicamente esta disputa está superada Mas possivelmente nós os psicólogos não soubemos obter impacto suficiente dessa superação em benefício da profissão Não soubemos explicar suficientemente bem que uma coisa é estudar uma realidade com técnicas subjetivas e outra é que determinadas realidades existam objetivamente por muito que sejam intangíveis e que sua importância dentro dos processos de mudança social é fundamental A insatisfação dos usuários de um serviço a coesão social de um grupo ou comunidade as atitudes preconceitos estereótipos valores ou aspirações coletivas existem porém só podemos estudálas com dados aproximados que são os indicadores psicossociais de fenômenos sociais complexos que geralmente exigem técnicas subjetivas para sua obtenção E além disso sabemos perfeitamente que se um fenômeno é percebido como real o será em suas consequências Um acontecimento que necessita de maior atenção coletiva por parte da psicologia é o aparecimento da investigação científica no campo da qualidade de vida nos finais dos anos 1960 e do desafio que esta aspiração representou na teoria na pesquisa e nas políticas públicas A qualidade de vida é um conceito que aparece entre os mais prototípicos dos denominados valores pósmateriais ao longo dos anos 1960 no eixo dos interesses para estudar os processos sociais de mudança positiva Hoje já esquecemos que a qualidade de vida é um âmbito de estudo científico para Professora Maria Flor 2024 2 49 identificálo como uma bandeira de muitas utilidades que todos utilizam e manipulam com os propósitos mais heterogêneos tal e como anos atrás se fez com o conceito de progresso A qualidade de vida por definição é um fenômeno que articula condições materiais de vida e condições psicossociais de vida em relação a qualquer pessoa ou grupo comunidade ou sociedade humana Novos desafios que comportam o estudo da qualidade de vida e o trabalho profissional para sua promoção Uma definição tradicional das características do bemestar social Moix 1980 destaca o Sua objetividade ou seja o fato de se referir a condições e circunstâncias objetivas de uma realidade social o O fato de ser uma realidade externa ou seja apreciável pelos outros e o O fato de partir de uns mínimos ou seja do nível que se considera indispensável para viver dignamente Quando se começa a assumir a qualidade de vida como um campo de estudo científico por definição fica claramente consensuado Casas 1996 que é uma função do ambiente material e do contexto psicossocial em que vivem as pessoas Noutras palavras ao estudo da qualidade de vida interessa tanto a objetividade como a mal compreendida subjetividade das pessoas definida como as percepções avaliações e aspirações das pessoas em relação ao contexto social e sóciocultural no que vivem Campbell Converse Rodgers 1976 A partir de então não se pode falar de qualidade de nenhum grupo humano ou população sem ter também em conta o ponto de vista de todos os agentes sociais implicados incluídos os destinatários dos serviços Assim como não se poderá falar de qualidade de um serviço sem ter em conta as avaliações dos usuários Isto faz estremecer algumas maneiras de compreender a função social do profissional como especialista Logicamente uma coisa que pode acontecer e acontece é que as avaliações da realidade e das urgências o prioridades para encarála dos especialistas e dos cidadãos são discrepantes Na historia dos estudos sobre qualidade de vida esta questão é bem conhecida porque deu lugar a uma década inteira de debates estéreis A prevenção em positivo Uma visão em positivo sobre a realidade faz que nós pesquisadores e profissionais enxerguemos a prevenção não só como um trabalho contra os fatores de risco mas também como um trabalho a favor dos fatores de proteção ou resiliência Aparentemente essa nova perspectiva tem sido assumida rapidamente pelos profissionais da intervenção social em geral Uns dados de um estudo recente com uma mostra ampla de profissionais dos serviços sociais à infância da Comunidade de Madrid nos convidam porém a seguir refletindo Tratase de profissionais Professora Maria Flor 2024 2 50 com em média mais de oito anos de experiência no âmbito Segue uma síntese das conclusões do estudo Casas González Calafat Fornells 2000 Observase uma grande heterogeneidade de critérios entre os profissionais no momento de definir tanto fatores de risco como fatores de proteção social que se considerem relevantes para orientar a tomada de decisões e a intervenção social com crianças e suas famílias Os profissionais mostram uma grande capacidade por analisar detalhadamente os fatores de risco microssociais mas não se observa um nível equivalente em analisar os fatores de proteção nem os fatores macrossociais de risco ou de proteção Os profissionais utilizam diferentes teorias implícitas ou modelos organizadores em seu processo de identificar e decidir sobre a relevância de fatores de risco e de proteção que não parecem corresponder aos paradigmas psicológicos tradicionais psicanálise conductismo cognitivismo sistemática etc mas que parecem próprios de cada equipe já que os membros de um mesmo equipe parecem tender a dar justificativas parecidas suas escolhas e Todo isto parece sugerir a existência de um déficit de debate entre profissionais para contrapor experiências e aproximar posições conceituais como de prática profissional As políticas sociais não estão na moda nessa dinâmica planetária de globalização em que estamos submersos Também não está na moda falar de problemas sociais na televisão se as imagens que se podem oferecer não são capazes de impactar uma audiência Neste contexto nós os profissionais da intervenção social temos nos ressentido pelo tratamento das informações sobre as situações que sofrem nossos usuários por parte dos meios de comunicação social Enxergamos e nos relacionamos com seus profissionais com desconfiança e às vezes aliás como uma espécie de inimigo a evitar Em nossa sociedade em transformação acelerada é difícil imaginar mudanças notáveis nas atitudes gerais dos cidadãos ou em suas representações sociais respeito a questões que afetam os programas de intervenção social sem contar com a colaboração positiva dos meios de comunicação Mais de um psicólogo comunitário tem procurado conseguir uma atitude positiva numa comunidade determinada sobre por exemplo o acolhimento familiar de crianças em família aliena e tem visto com desesperação como a tarefa de dois meses tem sido destruída por uma telenovela o realizador da qual não tinha compreendido nada desta modalidade de acolhimento Mas acontece que o imaginário de uma parte da audiência tem percebido que um seriado de TV tem mais elementos concretos de realidade que não o discurso de um profissional Será preciso então repensar nossas colaborações e alianças com os profissionais da informação e particularmente será preciso repensar nossas redes para dinamizar mudanças sociais positivas Professora Maria Flor 2024 2 51 Anexo Transversal 20242 A cor feminicidiopdf Racismo e Indiferenca pg 21 a 50 4º a 6º Periodopdf ESTUDO PARA PROVA 1 A evolução do conceito de desenvolvimento comunitário O conceito de desenvolvimento comunitário foi evoluindo ao longo dos anos ele pode ser compreendido como uma assistência técnica e social que foi ganhando mais força principalmente depois da II Guerra Mundial Desse modo com o início da guerra fria Esse desenvolvimento comunitário passou a delimitar o empoderamento como também o auto desenvolvimento dessas comunidades Os três princípios fundamentais desse desenvolvimento são Participação Comunitária Envolvimento ativo da comunidade em todas as fases do processo Empoderamento Comunitário Fortalecer a capacidade da comunidade de tomar decisões de forma autônoma Desenvolvimento Sustentável Promover o equilíbrio entre os pilares social econômico e ambiental Os principais objetivos desse desenvolvimento são Melhoria da Qualidade de Vida Melhorar o acesso a serviços básicos como saúde educação saneamento e transporte Fortalecimento da Economia Local Estimular o empreendedorismo e o desenvolvimento de atividades econômicas locais como cooperativas e turismo comunitário Promoção da Inclusão Social Garantir acesso equitativo a oportunidades e combater a desigualdade e a exclusão Desenvolvimento comunitário no Brasil No Brasil o conceito de desenvolvimento comunitário começou a ganhar força na década de 1940 com projetos focados na produção de alimentos e na educação rural e industrial Durante os anos 1950 e 1960 movimentos como o Movimento de Educação de Base MEB impulsionaram a educação e a organização comunitária Na década de 1970 os programas foram substituídos por iniciativas voltadas à integração social priorizando ações assistencialistas Atores envolvidos no desenvolvimento comunitário Lideranças locais Elas são capazes de mobilizar e engajar os membros locais garantindo que as decisões sejam tomadas de forma participativa Sociedade civil organiza e promove iniciativas que visam melhorar a qualidade de vida da comunidade Governo facilitar o processo de desenvolvimento comunitário criando condições para a implementação de projetos locais e garantindo que esses projetos estejam alinhados com os interesses da comunidade Setor privado empresas locais ou grandes corporações podem apoiar o desenvolvimento comunitário através de parcerias e investimentos A COMUNIDADE CONCEITO E RELAÇÕES

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Professora Maria Flor 2024 2 1 Professora Maria Flor Professora Maria Flor 2024 2 2 SUMÀRIO Unidade I Evolução do desenvolvimento comunitário 3 1 A evolução do conceito de desenvolvimento comunitário 3 12 Atores envolvidos no desenvolvimento comunitário 6 13 que é necessário para desencadear o desenvolvimento comunitário 7 14 Papel das organizações no desenvolvimento comunitário 8 Unidade II A comunidade conceito e relações 11 2 Comunidade conceito 11 21 Comunidade e sociedade 12 22 Relações de reciprocidade entre pessoas e comunidade 12 23 Comunidade mito ou realidade 13 Unidade III Atuação e intervenções na comunidade 14 3 Atuação do psicólogo comunitário 14 32 Modos de inserção do psicólogo nas comunidades 15 33 Psicólogo e comunidade possibilidades e desafios 18 Unidade IV A psicologia no contexto comunitário e movimentos sociais 30 4 Psicologia em comunidades anos 60 70 80 e 90 30 42 Movimentos sociais 33 43 Características dos movimentos sociais 34 44 Origem dos movimentos sociais 34 Unidade V intervenções no contexto comunitário 36 5 Diferentes formas de intervenção 36 52 Desafios atuais da psicologia na interação social 46 Professora Maria Flor 2024 2 3 ESTÁGIO BÁSICO II Desenvolvimento comunitário definições evolução histórica As teorias de desenvolvimento comunitário e local Movimentos Sociais A relação comunidade movimentos sociais e sociedade O poder local Os processos de desenvolvimento comunitário Metodologias de intervenção em comunidades Mapeamento de demandas sociais Trabalho de Campo Intervenção prática como uso de metodologias para desenvolvimento comunitário Diretrizes de elaboração Arco de Maguerez e relatório de estágio UNIDADE I 1 A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO 1 A evolução do conceito de desenvolvimento comunitário O desenvolvimento comunitário é um processo que busca promover melhorias nas condições de vida de uma determinada comunidade Ele envolve a participação ativa dos membros da comunidade a fim de identificar e solucionar problemas promover o crescimento econômico social e cultural e fortalecer os laços comunitários Existem alguns princípios fundamentais que norteiam o desenvolvimento comunitário Entre eles destacam se Participação Comunitária é um dos pilares do desenvolvimento comunitário Ela envolve a mobilização dos membros da comunidade para que eles se envolvam ativamente no processo de tomada de decisões e na implementação de ações que visam melhorar a qualidade de vida da comunidade como um todo Empoderamento Comunitário é outro princípio essencial do desenvolvimento comunitário Ele busca fortalecer a capacidade da comunidade de tomar decisões e agir de forma autônoma promovendo a participação ativa dos membros e a construção de lideranças locais Desenvolvimento Sustentável O desenvolvimento comunitário também está intimamente ligado ao conceito de desenvolvimento sustentável Isso significa que as ações e projetos desenvolvidos devem levar em consideração a preservação do meio ambiente a equidade social e a viabilidade econômica buscando um equilíbrio entre esses três pilares O desenvolvimento comunitário tem como principais objetivos Melhoria da Qualidade de Vida Um dos principais objetivos do desenvolvimento comunitário é promover a melhoria da qualidade de vida dos membros da comunidade Isso envolve ações que visam melhorar o acesso a serviços básicos como saúde educação saneamento básico transporte entre outros Fortalecimento da Economia Local O desenvolvimento comunitário também busca fortalecer a economia local por meio do estímulo ao empreendedorismo e ao desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis Isso pode incluir a criação de cooperativas o apoio a pequenos negócios locais e a promoção do turismo comunitário Promoção da Inclusão Social O desenvolvimento comunitário tem como objetivo promover a inclusão social garantindo que todos os membros da comunidade tenham acesso igualitário a oportunidades e recursos Isso envolve ações que visam combater a desigualdade social a discriminação e a exclusão de determinados grupos Professora Maria Flor 2024 2 4 O conceito de desenvolvimento comunitário passou a integrar os programas governamentais a partir do final da II Guerra Mundial e o início da chamada guerrafria entre os blocos capitalista e socialista caracterizandose como estratégia de os países capitalistas assegurarem a ordem social e minimizarem os apelos de cooptação dos regimes comunistas em relação aos países pobres principalmente na América Latina Segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento BNDES a ideia de desenvolvimento comunitário inicialmente fundamentavase na ideia de que a pobreza tornava os povos receptivos à propaganda comunista SILVA ARNS 2002 e para os Estados Unidos da América EUA ajudar aos povos de países subdesenvolvidos seria uma forma de investimento a ser revertido em benefícios econômicos Na prática a ideia inicial de desenvolvimento comunitário consistia em assistência técnica e social aos países periféricos da economia mundial As origens da ideia de desenvolvimento comunitário surgiram a partir de meados do século passado e desde esse período até os dias atuais podemos observar que os conceitos de desenvolvimento comunitário passaram por diversos momentos com diferentes acepções no seu entendimento evoluindo se assim podemos dizer do mero atendimento às necessidades demandadas ao envolvimento participação e compromisso de todos que fazem parte do processo No Brasil essa ideia de desenvolvimento comunitário adquiriu maior visibilidade nas últimas décadas como podemos observar a seguir 1950 60 faça desenvolvimento para o povo 1960 70 faça desenvolvimento pelo povo 1970 80 faça desenvolvimento através das pessoas 1980 90 faça desenvolvimento com as pessoas A partir de 1990 promova as pessoas para o desenvolvimento O objetivo passa a ser desenvolver a capacidade local para o autodesenvolvimento Pela primeira vez as pessoas estão sendo vistas como foco primário protagonistas do processo de desenvolvimento NEUMANN 2010 p 9 Safira Ammann argumenta que só quando cada povo participa do planejamento e da realização de programas que se destinam a elevar o padrão de suas vidas 1981 p 147 é que o desenvolvimento comunitário realmente se efetiva Segundo essa autora isso implica a necessária e indispensável colaboração entre o poder público nos seus mais diversos níveis e a população para que os processos de desenvolvimento viáveis e equilibrados se tornem eficazes Assim ao longo do tempo o conceito de desenvolvimento comunitário evoluiu dos pacotes soluções que atendessem às demandas de deficiências ou problemas para as soluções conjuntas com a efetiva participação das comunidades e o reconhecimento das capacidades das habilidades e das competências existentes na comunidade No Brasil conforme consta na publicação do caderno Desenvolvimento Comunitário da série Cadernos Técnicos do Projeto BNDES SILVA ARNS 2002 Desenvolvimento Local em cooperação técnica com o PNUD na década de 40 foram implementados os primeiros projetos de desenvolvimento comunitário a partir da realização de convênios para o incremento da produção de alimentos e a educação rural e industrial Em 1948 foi criada a Associação de Crédito e Assistência Social ACAR nas décadas de 50 e 60 foram criadas as Campanhas de Educação Rural CNER e o Serviço Social Rural o início da década de 60 marca o fortalecimento do Movimento de Educação de Base MEB originado na Igreja de Natal RN e encampado pelo estado com a preocupação de ministrar a educação e organizar comunidades o que representou um avanço na prática do desenvolvimento comunitário p 6 Ainda segundo o BNDES 2002 com a repressão política a partir de 1964 que atingiu inclusive os movimentos sociais as propostas de desenvolvimento comunitário tomaram um rumo diferente passando ao Professora Maria Flor 2024 2 5 contexto de integração social que via a participação popular como meio de ajustar cooptar colaborar p 6 com estratégias e diretrizes políticas de planejamento para implementar programas que passaram a privilegiar os aspectos quantitativos do desenvolvimento meramente econômico Nesse percurso repleto de percalços políticos as políticas de desenvolvimento comunitário atravessaram diversas fases de entendimento adotando estratégias de ação que passaram a fluir à mercê das conveniências políticas vigentes em cada época O BNDES ressalta que o desenvolvimento comunitário passou a ser visto conforme descreveu Ammann como um processo pelo qual os responsáveis locais são induzidos por equipe técnica a escolherem alternativas de desenvolvimento mutuamente coerentes e que se integrem nas diretrizes emanadas das instâncias superiores do governo 1981 p 148 apud SILVA ARNS 2002 p 6 Nesse contexto a trajetória das intervenções com propósitos de desenvolvimento comunitário assumiu conotações ideológicas que nem sempre contraditoriamente via o desenvolvimento sob a ótica da comunidade Além disso observamos que de acordo com o BNDES Esta reorientação política não se deu sem conflitos e contradições uma vez que o serviço social responsável pela execução destes programas tinha sido estruturado em bases diferentes concebendo o desenvolvimento comunitário como uma pedagogia de participação Mas o que predominou foi uma concepção prática de participação e de articulação que tinha como objetivo resultados estabelecidos que deixavam de fora questões estruturais do desenvolvimento social SILVA ARNS 2002 p 67 Na década de 70 o Estado substituiu os programas de desenvolvimento comunitário pelo Programa Nacional de Centros Sociais Urbanos consolidando sua estratégia de transformar as ações de comunidades em atividades comunitárias de integração social como lazer treinamento profissional previdência e assistência jurídica social SILVA ARNS 2002 p 7 Essa trajetória do desenvolvimento comunitário no Brasil deixou como herança uma série de preconceitos A ideia de comunidade passou a ser vista como encobridora de diferenças de classe e das desigualdades sociais O desenvolvimento O II Plano Nacional de Desenvolvimento PND lançado em 1974 foi um plano econômico brasileiro instituído durante o governo militar do general Ernesto Geisel para o quinquênio 19751979 e que tinha por finalidade estimular e desenvolver a produção de insumos básicos bens de capital alimentos e energia BRASIL 1974 Atualmente há grande valorização e reconhecimento da importância do protagonismo das comunidades no próprio desenvolvimento O potencial local seja ele individual ou coletivo ou melhor colocando o capital humano ou social é considerado condição sinequanon no processo de desenvolvimento de uma comunidade Assim o desenvolvimento comunitário como é concebido atualmente já não mais se ajusta às estratégias e diretrizes políticas de nosso passado relativamente recente visto que não mais proclama a chance de as comunidades participarem passivamente apenas do planejamento e das execuções das ações a elas destinados No paradigma contemporâneo é a própria comunidade que se fazendo presente e participativa se corresponsabiliza na coletividade para a construção do próprio futuro e o usufruto do direito à inclusão e ao desenvolvimento social É um processo através do qual a comunidade consciente de suas potencialidades conquista o amadurecimento na coletividade para o alcance de novas possibilidades sociais culturais e econômicas Como consequência os resultados alcançados nesse processo coletivo e participativo não pertencem a nenhuma outra instância a não ser àqueles que ousaram num determinado espaço e tempo buscar o desenvolvimento de determinada comunidade É uma estratégia que supera a segmentação das relações entre a sociedade civil o poder público e o setor privado É literalmente empreender esforços e desenvolver estratégias Professora Maria Flor 2024 2 6 para com uma comunicação clara e objetiva conquistar a articulação interação e integração de todos os envolvidos na busca por uma vida que valha ser vivida Vida com dignidade Vida cidadã 12 Atores envolvidos no desenvolvimento comunitário A participação e o envolvimento dos atores no processo de desenvolvimento comunitário podem variar segundo o processo que se pretende aplicar a origem da iniciativa e a realidade local IDIS 2010 A identificação reconhecimento e utilização das competências e capacidades locais bem como suas dinâmicas socioculturais irão favorecer o estabelecimento dos atores envolvidos e comprometidos com o processo de desenvolvimento comunitário Considerandose as peculiaridades de cada situação buscarseá o envolvimento dos mais diferentes atores grupos de pessoas e de organizações para viabilizar a colaboração entre todos os envolvidos isto é a participação não deve se limitar apenas às pessoas ou grupos sociais mas deve contemplar todos e em especial as lideranças e organizações dos três setores da sociedade governo empresas e sociedade civil organizada ou não em instituições Para o IDIS 2010 a saída é encontrar o equilíbrio entre os interesses respeitando os limites do protagonismo local cuja abordagem necessariamente deverá ser feita de forma trans e interdisciplinar numa relação democrática e participativa entre os diversos atores e as políticas públicas de modo que essas também sejam necessariamente orientadas para as experiências e alternativas que identifiquem e valorizem as potencialidades locais e que os sentimentos de prosperidade e pertencimento façam que todos os envolvidos sejam parte de uma comunidade coesa para a busca coletiva da prosperidade Assim para que haja desenvolvimento comunitário fazse necessário que haja também o desenvolvimento do capital humano o fomento à participação da sociedade externa e interna à comunidade e consequentemente a ampliação do capital social Capital humano segundo Franco 2001 é entendido como o potencial de conhecimento individual e a capacidade de criar e recriar no cotidiano das interrelações comunitárias Capital humano referese ao capital construído o que o sujeito construiu como conhecimento ou melhor suas capacidades inatas e suas competências técnicas construídas ao longo da vida e segundo Kronemberger 2011 p 45 se refere à capacidade de empreender podendo ser expresso por exemplo pelos níveis de educação saúde e nutrição O estímulo ao fortalecimento do capital humano é essencial para a economia do conhecimento BOEIRA SANTOS SANTOS 2009 p 699 e segundo o autor para a confiança ativa abertamente negociada em vez de regida pela tradição e pelo hábito é parte da política da terceira via O conceito de capital social tem sido bastante difundido e discutido nos últimos tempos pelos cientistas sociais Em 1985 Bourdieu definiu o capital social como um elemento capaz de agregar recursos reais ou potenciais que propiciam o sentimento de pertencer duradouro a determinados grupos ou instituições O capital social está relacionado aos resultados e benefícios mediados e negociados fora do âmbito familiar e às disputas entre indivíduos ou grupos situados em diferentes campos sociais e suas correlações de forças De acordo com Putnam 1995 p 67 o capital social faz parte das organizações sociais como as redes normas e confiança social que facilitam a coordenação e a cooperação em benefício recíproco Capital social refere se às interrelações construídas nas esferas familiar social de trabalho comercial religiosa etc22 Segundo Franco 2001 para que se possa constituir em comunidade é necessário que uma coletividade humana seja o menos hierárquica e autocrática possível e assim possa produzir reproduzir e acumular o capital social A construção e consolidação do capital social requerem a comunicação a participação e a cooperação livre e democrática Professora Maria Flor 2024 2 7 E não menos importante reiteramos que a comunicação clara objetiva e transparente a articulação interação e integração dos demais atores institucionais vinculados direta e indiretamente às comunidades com o objetivo de trabalharem juntas para o bem comum devem nortear o processo decisório na busca da convergência para a definição de objetivos comuns à coletividade Assim de acordo com Suzana Elvas e Maria João Moniz 2010 quanto maior a integração e satisfação perante uma comunidade maiores serão os benefícios individuais e comunitários pois facilitam a comunicação e a troca de informações contribuindo para a convergência de objetivos comuns O projeto político da Terceira Via representa uma perspectiva de modernização política que procura orientar o ajustamento dos cidadãos do conjunto sociedade civil e da aparelhagem de Estado na justa medida das demandas e necessidades do reordenamento do capitalismo LIMA MARTINS 2005 p 67 Segundo Neumann 2010 podemos entender o conceito de comunidade como um grupo de pessoas que compartilham de uma característica comum uma comum unidade que as aproxima e pela qual são identificadas 2010 p 7 Como no nosso caso comunidade é na maioria das vezes definida pelo local ou região onde moram as pessoas no entanto podem se formar comunidades em razão dos interesses e causas que esses grupos defendem e cujas características comuns são partilhadas Desenvolvimento Comunitário é o conjunto de práticas criadas com o objetivo de fortalecer e tornar mais efetiva a vida em comunidade melhorando as condições locais principalmente para aqueles que se encontram em situações de desvantagem social FDCI23 apud Neumann 2010 p 8 O que é desenvolvimento comunitário O desenvolvimento comunitário é um processo que visa melhorar a qualidade de vida e o bemestar das pessoas em uma comunidade específica É uma abordagem que se concentra na promoção do progresso econômico social cultural e ambiental de uma comunidade com base em suas próprias necessidades e recursos 13 O que é necessário para desencadear o desenvolvimento comunitário Para desencadear o desenvolvimento comunitário é necessário adotar uma abordagem abrangente e estruturada que envolva a participação ativa da comunidade e outros atores relevantes Aqui estão os principais elementos e etapas necessários para iniciar o desenvolvimento comunitário Identificação das necessidades e recursos da comunidade o primeiro passo é conduzir uma avaliação abrangente das necessidades recursos habilidades e aspirações da comunidade Isso pode ser feito por meio de entrevistas pesquisas grupos focais e outras técnicas de pesquisa participativa Mobilização e engajamento da comunidade é crucial envolver ativamente os membros da comunidade desde o início Isso pode ser feito por meio de reuniões comunitárias grupos de discussão assembleias e outros métodos que permitam às pessoas compartilhar as suas ideias e opiniões Estabelecimento de parcerias o desenvolvimento comunitário muitas vezes requer parcerias com organizações locais ONGs agências governamentais e outras partes interessadas Essas parcerias podem fornecer recursos financeiros conhecimento técnico e apoio logístico Planejamento participativo com base na avaliação das necessidades e recursos a comunidade e seus parceiros podem desenvolver um plano estratégico de desenvolvimento Esse plano deve incluir metas claras estratégias atividades e um cronograma Professora Maria Flor 2024 2 8 Implementação de projetos e programas após a elaboração do plano os projetos e programas específicos podem ser implementados Isso pode incluir a construção de infraestrutura o fornecimento de serviços o treinamento de habilidades e outras atividades destinadas a atender às necessidades identificadas pela comunidade Exemplos de projetos de desenvolvimento comunitário Existem muitos exemplos de projetos de desenvolvimento comunitário que abrangem uma ampla gama de áreas e necessidades Aqui estão alguns exemplos de projetos comunitários que podem servir como inspiração Melhoria da infraestrutura projetos que visam melhorar a infraestrutura básica em uma comunidade como a construção de estradas pontes sistemas de água potável e esgoto eletrificação e saneamento Educação iniciativas que se concentram na educação como a construção de escolas a oferta de aulas extracurriculares programas de tutoria e o fornecimento de material escolar para crianças carentes Saúde projetos de saúde comunitária que podem incluir a construção de clínicas a realização de campanhas de vacinação programas de conscientização sobre saúde e a formação de profissionais de saúde locais Agricultura e segurança alimentar iniciativas voltadas para a melhoria das práticas agrícolas o acesso a sementes de qualidade a capacitação em agricultura sustentável e o desenvolvimento de sistemas de armazenamento de alimentos 14 Papel das organizações no desenvolvimento comunitário As organizações desempenham um papel fundamental no desenvolvimento comunitário proporcionando recursos financeiros expertise técnica e capacitação para comunidades em todo o mundo Elas facilitam a implementação de projetos promovem a capacitação dos membros da comunidade e defendem seus interesses coordenando esforços construindo habilidades locais e advogando por políticas públicas que promovam a filantropia a justiça social e a equidade Em última análise as organizações desempenham um papel vital na capacitação das comunidades para melhorar sua qualidade de vida e alcançar o desenvolvimento sustentável O desenvolvimento comunitário é de extrema importância pois contribui para a construção de comunidades mais justas igualitárias e sustentáveis Ele fortalece os laços comunitários promove a participação ativa dos membros da comunidade e estimula o senso de pertencimento e responsabilidade coletiva Existem diversos exemplos de projetos e ações de desenvolvimento comunitário ao redor do mundo Alguns exemplos incluem O desenvolvimento comunitário é um processo complexo que envolve a participação ativa dos membros da comunidade o fortalecimento dos laços comunitários e a busca por soluções que promovam a melhoria da qualidade de vida É um trabalho contínuo que requer o envolvimento de diversos atores como líderes comunitários organizações não governamentais poder público e empresas Através do desenvolvimento comunitário é possível construir comunidades mais justas igualitárias e sustentáveis Psicologia comunitária e os possíveis campos de atuação do psicólogo Campos de atuação do psicólogo comunitário Vilela e Sato em seu trabalho denominado Psicologia Social descreve sobre os principais setores que devem pairar o trabalho do psicólogo social comunitário Professora Maria Flor 2024 2 9 Atuar num primeiro momento em coerência à sua proposta de transformação social assumindo também uma ação pedagógicaformativa já que seu trabalho deve ter um caráter preventivo na perspectiva de implementar projetos políticos que resultem em mudanças na vida cotidiana das pessoas Quando os problemas já estão localizados deve também desenvolver ações pontuais e específicas sem contudo perder a perspectiva das possibilidades históricas presentes em um projeto político de sociedade E por fim um trabalho que necessita ser realizado em equipe inclusive com outros psicólogos que atuam de modo mais específico e pontual Desta forma podese dizer que os trabalhos da Psicologia Social Comunitária devem ser dirigidos aos processos de conscientização e participação construídos na rede da vida cotidiana e comunitária VILELA SATO 2012 Campos 2012 destaca a crescente ampliação dos sistemas de saúde e educação pública do país das instituições de promoção de bemestar social e dos setores do sistema judiciário voltados para o cuidado de famílias de menores aumentando significativamente a atuação dos psicólogos frente a estes órgãos na tentativa de desenvolver os instrumentos de análise e intervenção relevantes para as novas problemáticas que se apresentam em suas áreas de atuação Assim sendo o trabalho do psicólogo comunitário deixa de lado a parte assistencialista visando à formação de uma consciência crítica da própria população que nesse processo participa de forma ativa na identificação e na resolução de suas necessidades principais Campos 2012 Vasconcelos 1987 mostra que o trabalho do psicólogo comunitário é interdisciplinar realizado por turmas das mais variadas formações No campo da saúde esse profissional atua como auxiliador e treinador de propulsores de Saúde Mental Para o psicólogo comunitário o saber científico se torna alusivo diante do saber popular e essencial para unificar as partes perante o trabalho No campo da educação procurase trabalhar com os grupos populares para que eles assumam progressivamente seu papel de sujeitos de sua própria história conscientes dos determinantes sóciopolíticos de sua situação e ativos na busca de soluções para os problemas enfrentados CAMPOS 2012 O caráter educativo decorre da reflexão que é feita sobre o porquê das necessidades de como as atividades vêm sendo realizadas ou seja como as ações se encadeiam e que resultados são obtidos tornando possível a todas as pessoas envolvidas recuperarem através do pensamento e ação da comunicação e cooperação entre elas as suas histórias individuais e social e consequentemente desenvolverem a consciência de si mesmas e de suas relações historicamente determinadas Quando um grupo de pessoas se reúne para discutir seus problemas muitas vezes sentidos como exclusivos de cada um dos indivíduos descobrem existirem aspectos comuns decorrentes das próprias condições sociais de vida o grupo poderá se organizar para uma ação conjunta visando a solução de seus problemas E aquelas necessidades que sozinhos eles não podiam satisfazer passam a ser resolvidas pela cooperação entre eles O nosso cotidiano tem apresentado inúmeros exemplos deste processo desde grupo de mães organizando e mantendo creches para seus filhos mutirões entre moradores de um bairro para construção de locais para fazer ou mesmo de moradias até organizações de grupos para reivindicar água luz esgoto etc FREITAS 2012 Freitas 2012 tendo como referência os trabalhos e práticas em comunidade verificase que inúmeros cursos têm sido realizados abordando as seguintes temáticas a Infância Juventude e Violência sexual e social Tipos de Ações Penas e Medidas Socioeducativas Varas da Infância e Juventude Conselhos Tutelares e Políticas Afirmativas e de Cidadania relações no campo da saúde o SUS os Conselhos Gestores e as Formas de Gestão em Saúde diferentes formas de intervenção psicossocial participação e a gestão participativa em instituições comunidades terceiro setor e ONGs e a economia solidária a Terra e as condiçõesrelações de trabalho Professora Maria Flor 2024 2 10 Ela também nos mostra que do ponto de vista da prática de intervenção observase uma expansão das fronteiras de atuação assim como uma variedade de temas e possibilidades de parceria investigativaintervenção nos trabalhos desenvolvidos Dentre estes se destacam as relações entre Comunidade Escola e Família enfocando as relações entre Envelhecimento Família Trabalho e qualidade de vida os efeitos da precarização das relações de trabalho interfaces entre aspectos psicossociais ligados à criança juventude e família mulher gênero sexualidade e novas formações familiares relações e impactos da saúde doença e diferentes formas de violência e discriminações sociais A autora ainda relata que ao longo da trajetória da Psicologia Social Comunitária surge algumas categorias conceituais decisivas para as propostas de ação e intervenção comunitárias como a a rede de relações dentro da comunidade b as lideranças autóctones e os processos psicossociais de formação c as formas de opressão discriminação competição e preconceito existentes na rede comunitária e cotidiana d as crenças e valores em relação a si mesmo aos outros e às possibilidades de enfrentamento das adversidades e as formas de coesão cooperação e conscientização entre os diferentes participantes e f as diferentes formas de ação individual e coletiva e as possibilidades de politização da consciência na rede comunitária FREITAS 2012 Assim procurar saber sobre o papel social e profissional dos psicólogos comunitários e sobre os compromissos que estes deveriam avocar continuam sendo desafios importantes às intervenções psicossociais em comunidade Estes desafios referemse a quatro dimensões à percepção sobre a realidade a o que fazer no dia a dia do trabalho comunitário às relações estabelecidas e aos impactos produzidos FREITAS 2012 O primeiro deles referese àquilo que o profissional consegue detectar em sua prática que critério utiliza e que elemento possui para saber se no caminho mais adequado das propostas de ação Os desafios relativos a o quê fazer indicam a necessidade de serem explicitadas as dimensões psicossociais presentes nos processos de submissão e conformismo no dia a dia das relações comunitárias O terceiro desafio referese ao tipo de relação que se dá entre profissional e comunidade e como isto pode afetar a continuidade das práticas comunitárias E finalmente os impactos do trabalho e o compromisso assumido quando de sua realização constituemse em desafios constantemente renovados e que inclusive colaboram para o fortalecimento ou enfraquecimento do trabalho comunitário FREITAS 2012 Diante dos estudos realizados por diversos autores e alguns apresentados aqui podemos afirmar que o trabalho do psicólogo comunitário e árduo e continuo no entanto deve consistir em uma atuação que objetiva despertar consciência crítica em um sujeito ou em uma comunidade O serviço de psicologia na comunidade é feito a partir de visitas domiciliares entrevistas mapeamento da realidade comunitária do local Essa prática rompe com o modelo tradicional clínico e pretende estar mais próxima da situação em que o indivíduo está inserido configurando se um modo de fazer psicologia nãoelitista MIRANDA 2012 Considerações finais Após o estudo do desenvolvimento da psicologia comunitária podemos dizer que trabalho em Comunidades é bastante complexo o psicólogo que deseja trabalhar nesse campo enfrentará alguns desafios dentre estes necessita se despir do pensamento que já sabe tudo A Comunidade já possui um saber próprio que não é necessariamente um saber científico contudo não deixa de ser um saber E é a partir desse saber comunitário que as intervenções se iniciam O psicólogo não fica em uma posição de ajudador da Comunidade pelo contrário ele Professora Maria Flor 2024 2 11 auxilia a Comunidade a identificar seus problemas e solucionálos por isso o trabalho em grupo BRITO JÚNIOR 2016 O trabalho em Comunidades é bastante complexo o profissional que deseja trabalhar nesse campo necessita se despir do pensamento que já sabe tudo sendo esse um dos desafios enfrentados pelos profissionais de psicologia A Comunidade já possui um saber próprio que não é necessariamente um saber científico contudo não deixa de ser um saber E é a partir desse saber comunitário que as intervenções se iniciam O psicólogo não fica em uma posição de ajudador da Comunidade pelo contrário ele auxilia a Comunidade a identificar seus problemas e solucionálos por isso o trabalho em grupo CARDOSO 2012 Um ponto importante a ser destacado é a importância da devolutiva após a conclusão dos trabalhos levando em consideração que a opinião da Comunidade é necessária para percebemos como se configurou as intervenções e quais foram os resultados obtidos Essa devolutiva não é só por parte da Comunidade o psicólogo por questões éticas necessita esclarecer algumas informações colhidas durante os trabalhos realizados para que a Comunidade não se sinta um objeto usado CARDOSO 2012 Concluise através das literaturas estudadas que a psicologia comunitária se construiu a partir de um desejo de proporcionar autonomia para uma sociedade e foi realizada a partir de movimentos políticos e sociais que foram desenvolvidos ao longo dos anos Assim sendo o termo conscientização impulsionou o movimento na comunidade visto que essa motivação é diretamente relacionada com a formação da individualidade crítica da consciência de si e de uma nova realidade social que é esperada que o sujeito alcance em seu grupo social MIRANDA 2012 Unidade II A comunidade conceito e relações Comunidade conceito Comunidade é um conceito amplo que abrange situações heterogêneas mas que ao mesmo tempo apoiase em fundamentos afetivos emotivos e tradicionais Ela está relacionada a parentes que se relacionam por laços de sangue e por uma vida em comum numa mesma casa a vizinhos o que se caracteriza pela vida em comum entre pessoas próximas da qual nasce um sentimento mútuo de confiança de favores e amigos que estão ligados aos laços criados nas condições de trabalho ou no modo de pensaretc A psicologia Comunitária vai além da psicologia social ela tem uma visão maior com relação à sociedade mudança social ideologia alienação representação social identidade social sentido psicológico de comunidade empoderamento grupo social apoio social realidade socialmente construída atividade investigaçãoaçãoparticipante sujeito históricosocial consciência crítica conscientização etc Podemos dizer que a Psicologia Comunitária compreende hoje um conjunto de concepções relevantes para o esforço de delimitar seu campo de análise e aplicação Podese dizer que é uma relação mantida entre pessoas mais próximas Quando nos referimos à pessoa vivendo em comunidades é difícil pensar que essas comunidades nunca terão problemas de relacionamentos às vezes interpretados como doença mental pois há diferenças entre as pessoas por se tratar das diferenças de cada indivíduo suas subjetividades e opiniões de classe social e racial Fundamental para compreensão da Psicologia Comunitária é o conceito de comunidade seu objeto material e campo de atuação O termo Comunidade utilizado hoje em dia na Psicologia Social é bastante elástico e capaz de incluir em seu escopo desde um pequeno grupo social um bairro uma vila uma escola um hospital um sindicato uma associação de moradores uma organização não governamental até abarcar os indivíduos que interagem numa cidade inteira Professora Maria Flor 2024 2 12 Comunidade característica Sanchez e Wiesenfeld 1983 definem alguns critérios para se caracterizar comunidade que são Ser um grupo de pessoas não um agregado social com determinado grau de interação social Repartir interesse sentimentos crenças atitudes Residir em um território específico Possuir um determinado grau de organização 21 Comunidade e sociedade Esse debate sobre Comunidade e Sociedade partiu da sociologia alemã Segundo Sawaia 1996 a Comunidade é diferente da sociedade por três aspectos o sangue o lugar o espírito o sangue como símbolo de vínculo e crença comuns Na Comunidade são encontrados sentimentos nobres como a honra amizade e o amor a relação em Comunidade é baseada no sentimento do pertencer estar ligado e implicado com o outro Já na Sociedade do ponto de vista moral não há nada positivo os homens não estão vinculados estão divididos A sua base é troca e o dinheiro não existe cumplicidade No século XX Comunidade tornouse referencial de análise que permite olhar a sociedade do ponto de vista do vivido sem cair no psicologismo reducionista SAWAIA 1996 p41 Neste período há uma explosão de estudos pela sociologia em relação à Comunidade O pensamento Marxista em relação a sociedade e Comunidade influenciou várias áreas das Ciências Humanas uma delas foi a Sociologia Marx acreditava que a sociedade não tinha harmonia e sim conflitos enquanto que Comunidade deveria ser várias pessoas de vários lugares lutando por ideal SAWAIA 1996 22 Relações de reciprocidade entre pessoas e comunidade As pessoas oferecem contribuições como Interesses Sentimentos Crenças Atitudes Agregação de valores morais Utilização de conhecimentos populares e de senso comum As comunidades oferecem Senso de pertencimento Educação da cultura popular Segurança Ambiente familiar Reconhecimento comunitário Participação nas decisões comunitárias Professora Maria Flor 2024 2 13 A Psicologia Comunitária se caracteriza por trabalhar com sujeitos sociais em condições ambientais específicas atento às suas respectivas psiques ou individualidades Seus objetivos se referem a melhoria das relações entre os sujeitos e entre estes e a natureza e instituições sociais ou o seu empoderamento Nesta perspectiva está todo o esforço para a mobilização das comunidades na busca de melhores condições de vida O termo Psicologia Comunitária inclui os estudos e práticas que vêm se realizando no Brasil a exemplo do Movimento de Saúde Mental Comunitário e do Movimento de Ação Comunitária na América Latina e outras aplicações da psicologia social em problemas relacionados a comunidade Se tomarmos a acepção literal de psicologia aplicada ao estudo intervenções na comunidade teremos estas como sinônimo da psicologia social ou seja como os mesmos problemas de método e definição do objeto de estudo que essa A principal diferença entre a psicologia social e comunitária vem da do uso específico que assume o vocábulo comunidade contrapondose à sociedade enquanto segmento específico por recorte territorial identidade ou relação entre seus membros Para Sawaia a descoberta da comunidade não foi um processo específico da psicologia social Fez parte de um movimento mais amplo de avaliação crítica do papel das ciências sociais e por conseguinte do paradigma da neutralidade científica desencadeado nos anos 60 e culminado nas décadas de 70 e 80 quando o conceito de comunidade invadiu literalmente o discurso das ciências humanas e sociais especialmente as práticas na área da saúde mental Sem deixar de ressaltar a importância para psicologia dessa aquisição epistemológica científicoanalítica onde está implícia a perspectiva orientadora de ações e reflexões construção modificação da realidade o referido autor assinala a o caráter utópico da proposição bem como sua utilizaçãodemagógica em discursos políticos O termo Psicologia Comunitária ainda é bastante novo e amplo sendo Por isso mesmo de difícil conceituação O termo em si é ambíguo e varia de acordo com o referencial teórico considerado e ou a práxis do psicólogo que o define São comuns os termos Psicologia na Comunidade Bender 1978 Psicologia do Desenvolvimento ComunitárioEscovar 1979 Saúde Mental Comunitária Berenger 1982Psicologia Comunitáriana ComunidadeBonfim 1992 etc Esta ambiguidade de termos para definir uma das ramificações da Psicologia Social Esta dificuldade de identificação está na base de duas implicações para o treinamento do psicólogo comunitário a fragmentação do conceito de psicologia comunitária valoriza a criatividade e a flexibilidade no treinamento dos psicólogos e o respeito pelas diversas concepções neste domínio embora um esforço deve ser feito para valorizar os elementos comuns e manter os canais de comunicação não se constitui por isso num indício de fragilidade 23 Comunidade mito ou realidade Quando ouvimos a palavra Comunidade surge um pensamento de um lugar harmonioso aconchegante ou até mesmo um lugar difícil de encontrar Um lugar onde os relacionamentos duram todos são solidários uns com os outros lugar onde não existem invejas que todos dividem o pão praticamente um Éden BAUMAN 2003 p12 Durante certo período o termo Comunidade não era um assunto tão interessante de ser analisado esse interesse surgiu nos anos 70 quando a Psicologia Social se autodeclara Comunitária A Psicologia Social não é a única ciência que se debruça a analisar questões referentes a essa temática as ciências humanas e sociais nos anos 70 e 80 também se despertaram em relação a esse tema a partir de uma avaliação crítica dos modelos empregados pela ciência em questões referentes à população Professora Maria Flor 2024 2 14 Nas ciências humanas especificamente na Psicologia Social o conceito de Comunidade tornouse sinônimo de qualquer atividade de cunho profissional realizada fora de instituições fora de escolas e consultórios com a perspectiva de uma prática comprometida com o povo Comunidade para alguns aparece como mito oriundo de um processo globalizado que impede a vida em comum e harmoniosa um mito que remetese ao passado como se algo fosse perdido pelo homem e o que ele vivesse agora não seria de fato uma Comunidade Criamse modelos de Comunidade como um lugar ideal um local onde as pessoas são inclinadas à prática do bem Existem diversos significados e interpretações em relação à palavra Comunidade e cada pessoa possui o direto de empregar o termo no sentido que queira Guareschi 2009 afirma que partese de um pressuposto que cada pessoa percebe o mundo de uma forma que cada pessoa possui uma história de vida e por isso a importância de perguntálas o que elas querem dizer mesmo quando falam sobre Comunidade Comunidade aparece e desaparece nas reflexões sobre questões ligadas ao homem e sociedade Os iluministas associavam comunidade ao regime feudal por essa razão ocorreu um movimento anticomunitário com objetivo de destruir a opressão causada pelo sistema feudal Para eles comunidade impedia o progresso pelas inúmeras tradições que carregavam Os iluministas acreditavam que o homem só poderia ser livre e progredir através da razão do conhecimento Eles valorizavam o individualismo acreditavam no ser humano como único e suficiente em si que não tinham nada a ver com os outros e não necessitavam do outro para se constituir Essa concepção adotada pela modernidade sufocou a idéia de Comunidade No entanto nesse mesmo período houve uma recuperação do conceito de comunidade como modelo de boa sociedade ameaçado pelo individualismo e racionalismo SAWAIA 1996 p38 A partir desse renascimento do conceito de comunidade começam a surgir os debates de um lado punida como tradicional e conservadora que impedia o progresso e de outro protótipo de coisas boas que a modernização destruiu As expressões de comunidade podem ser encontradas na família religião raça nação sua delimitação pode ser local ou global o que importa mesmo é comunhão de objetivos O Conceito de Comunidade sempre esteve no pensamento político filosófico e teológico entretanto a sociologia ciência que surge no século XIX torna comunidade uma categoria analítica e isso se estabelece a partir da análise das diferenças entre comunidade e sociedade Unidade III Atuação e intervenções na comunidade Atuação do psicólogo comunitário O psicólogo atua neste sentido como um analistafacilitador que como um profissional que toma as iniciativas de solucionar os problemas da comunidade Segundo Nisbet 1974 comunidade abrange todas as formas de relacionamento caracterizado por um grau de intimidade pessoal profundeza emocional engajamento moral e continuado no tempo Ela encontra seu fundamento no homem visto em sua totalidade e não neste ou naquele papel que possa desempenhar na ordem social Sua força psicológica deriva de uma motivação profunda e realizase na fusão das vontades individuais o que seria impossível numa união que se fundasse na mera convivência ou em elementos de racionalidade Professora Maria Flor 2024 2 15 A comunidade é a fusão do sentimento e do pensamento da tradição e da ligação intencional da participação e da volição E Sawaia complementa O elemento que lhe dá vida e movimento é a dialética da individualidade e da coletividade A perspectiva da psicologia comunitária enfatiza que em termos teóricos o conhecimento se produza na interação entre o profissional e os sujeitos da investigação e em termos de metodologia utilizase sobre tudo a pesquisaparticipante a pesquisaação e a análise institucional A metodologia do trabalho comunitário é válida ao passo que promove uma construção de conhecimento por parte de intelectuais organicamente comprometidos na qual a proposta de trabalho comunitário pretende promover aos indivíduos procedimentos de autogestão desenvolvendo o sentido de cidadania neste processo Este planejamento desempenha papel fundamental para a conscientização que ajuda grupos e indivíduos a identificarem as características históricas e sociais de seus problemas e a criarem estratégias para a solução coletiva A análise institucional é um método da psicologia comunitária assim como a pesquisaação que propõe elucidar as relações jurídicas psicossociais políticas e desejantes que são mantidas com as normas instituídas e o modo pelo qual os indivíduos se põem ou não de acordo com essas normas Para tanto há uma distinção fundamental entre campo de análise e campo de intervenção O primeiro mais amplo consiste no espaço conceitual teórico sobre determinado estudo visando compreendelo ou entendelo O campo de intervenção por outro lado pressupõe um espaço de análise que leve à compreensão de dados sobre um determinado agrupamento para que se possa atuar tecnicamente A partir dos anos 90 tornase frequente o termo Psicologia da Comunidade que se refere às práticas da Psicologia ligadas as questões da Saúde e atividades ligadas a uma instituição ou órgãos públicos que prestavam serviços à população onde o psicólogo trabalhava O intuito disso tudo era defender uma psicologia menos academicista menos intelectual e mais ligada às questões do povo FREITAS 1996 p72 32 Modos de inserção do psicólogo nas comunidades Os trabalhos realizados nessas últimas décadas em Comunidades têm revelado diferentes modos de inserção do psicólogo essa inserção também tem gerado preocupações principalmente devido ao fato de se trabalhar com metodologias e instrumentos poucos utilizados por outras áreas da Psicologia Há que se ressaltar contudo que a metodologia da pesquisa participante tão comum em trabalhos de Psicologia Comunitária é ilustrativa desse modelo em que sujeito e objeto são ativos na pesquisa O interesse da inserção do Psicólogo em Comunidades na década de 70 foi devido à repressão política que o país estava vivendo a intervenção era caracterizada pela militância e pela participação política Nas décadas de 80 e 90 houve um reconhecimento maior acerca da participação do Psicólogo nas Comunidades trabalhos em Psicologia Social Comunitária começaram a ser reconhecido academicamente FREITAS 1996 p65 Houve e existem atualmente profissionais que oferecem atendimento psicológico gratuito em Comunidades como forma de conhecer e se aproximar mais daquela população Entretanto tal como citado na introdução deste trabalho esta modalidade de intervenção ainda repete um modelo desigual em que de um lado tem a Comunidade que precisa de um atendimento psicológico e de outro está o psicólogo oferecendo ajuda interessado em criar intervenções para adequar a população ao um sistema Professora Maria Flor 2024 2 16 achando que com isso minimizará seus desesperos A sua inserção baseiase em atendimento psicológico aos desfavorecidos FREITAS 1996 Existem também outras formas do profissional de Psicologia entrar numa Comunidade como por exemplo quando motivados pelo simples fato de querer conhecer esse campo que para ele é desconhecido ou então por simples curiosidade alguns estudantes profissionais se inserem em um ambiente comunitário com intuito de estudálos Essa inserção baseiase em curiosidade cientifica SAWAIA 1995 Existe por fim outro tipo de inserção que é baseada na proposta de intervenção da Psicologia Social Comunitária essa inserção é orientada pela responsabilidade de que o trabalho realizado pelos psicólogos deve promover uma mudança das condições vividas pela população sendo que esta que estabelece os caminhos a serem percorridos para mudança Acreditase no homem protagonista da sua história no homem em movimento Essa inserção baseiase na possibilidade de uma mudança social e na construção do conhecimento da área FREITAS 1996 Os trabalhos baseados na perspectiva social comunitária partem de um levantamento de necessidades e situações enfrentadas pela população investigada principalmente as situações que dizem respeito à saúde e à educação Após essas investigações procurase trabalhar com grupos utilizando métodos e processos de conscientização para que eles progressivamente assumam seu papel de sujeitos CAMPOS 1996 Em Comunidade busca desenvolver condições para o exercício pleno da cidadania da igualdade O Psicólogo que deseja trabalhar em Comunidades necessita de um conhecimento da teoria da Psicologia Social e mais especificamente da área comunitária Fazse necessário sobretudo ter um embasamento teórico nos pressupostos da Psicologia Social Comunitária Os psicólogos que realizam trabalhos em Comunidades fazem uso de uma técnica que permite compreender as interações dos indivíduos em grupo GUARESCHI ROCHA MOREIRA 2010 p188 A técnica de intervenção por meio de Grupos Focais se utiliza da interação focalizada para pesquisa qualitativa de um grupo GUARESCHI 2010 p189 A técnica objetiva buscar uma pluralidade de ideias e não apenas uma única idéia no grupo Por meio desta técnica podese observar uma quantidade maior de interações em um tempo limitado podese também perceber as prioridades nos temas suscitados que partem da interação grupal GUARESCHI BOECKEL ROCHA 2010 p189 O grupo Focal segundo os autores Guareschi Rocha Moreira e Boeckel 2010 p190 É caracterizado por ser um espaço acessível os assuntos discutidos são de interesse comum as diferenças de status entre os participantes não é considerada e a discussão é fundamentada em um debate racional Uma das abordagens teóricas da Psicologia que vem oferecendo possibilidades de trabalho nas Comunidades é o Psicodrama NEVES BERNADES 1998 que foi criado por Moreno e é definida como uma ciência que explora a verdade por meios dramáticos Drama é uma palavra de origem grega e significa ação ou algo que acontece o berço do psicodrama é o teatro NEVES 1998 A metodologia do Psicodrama leva em conta três realidades grupal social dramático O contexto da realidade social impõe ao sujeito os papéis que ele deve desempenhar o contexto grupal é formado pelos integrantes do grupo o vínculo formado significa mútua percepção íntima dos indivíduos NEVES BERNADES 1998 Ainda segundo as mesmas autoras 1998 o contexto dramático é formado pelo produto do ator principal esse protagonista é o paciente grupo egos auxiliares são aqueles que contracenam com o protagonista e fazem parte da equipe terapêutica O diretorterapeuta é o responsável pelo Psicodrama e o auditório é o conjunto de pessoas que estão no contexto grupal O tema da cena quem traz é o protagonista Professora Maria Flor 2024 2 17 Em uma Comunidade o drama do protagonista é da vontade do grupo ele é o portavoz do sofrimento coletivo ao criar conjuntamente cenas psicodramáticas o protagonista está sendo influenciado por uma espécie de inconsciente social NEVES 1998 O Psicodrama acredita que a inversão de papéis possibilite ao individuo assumir o papel de outro e recompor o sentido da identidade e do pertencimento ao grupo BERNARDES NEVES 1998 O Psicodrama começou nas Comunidades a partir de 1993 em serviços da rede municipal do Estado de Porto Alegre em um projeto de Educação Social e Escola Aberta BERNARDES 1998 O propósito desse projeto originouse devido às situações de risco enfrentadas pelas crianças e adolescentes e o nome do projeto pedagógico é Jovem Cidadão e foi desenvolvido em nove Comunidades NEVES 1998 Com a finalidade de assistir á população de baixa renda com base no ECA Estatuto da Criança e do Adolescente O Conselho Tutelar encaminhava jovens envolvidos em situação de roubo violência drogadição aos Centros para que recebessem atendimento socioeducativo NEVES BERNARDES 1998 A participação da Psicologia acontecia nas oficinas de Psicodrama o trabalho que era feito pelos psicólogos era a socialização de crianças e adolescentes em situação de risco a partir da visão dos integrantes quanto ao seu mundo de relações interpessoais e aprendizado e desempenho de papéis sociais frente a sua realidade NEVES 1998 Essa proposta de intervenção psicossocial tinha por objetivo auxiliar essas crianças a tomarem uma nova posição de sujeitos mais autônomos e menos submissos o modelo de intervenção proposto era trabalhar com a matriz de identidade que segundo Neves apud MORENO 1978 é um dos primeiros processos de aprendizagem da criança no qual ela se relaciona com pessoas e objetos sendo a família a base principal para a constituição de papéis A conscientização dos papéis desempenhados psicodramaticamente seja na fantasia ou no contexto grupal desenvolveria nas crianças uma nova postura uma nova posição e uma mudança na qualidade das relações dentro e fora do contexto grupal BERNARDES NEVES 1998 Outra abordagem da Psicologia que tem se feito presente nas Comunidades é abordagem psicanalítica O referencial psicanalítico tem como técnica a escuta e essa escuta faz o profissional assumir uma postura de não saber para não criar na Comunidade uma expectativa achando que o profissional de psicologia seja aquele que tem para dar figura de um modelo assistencialista JÚNIOR RIBEIRO 2009 p91 No trabalho com Comunidades se o psicólogo se mantiver em uma posição de mestre irá interromper o desenvolvimento de um processo onde a Comunidade possa identificar quais sejam verdadeiramente as suas necessidades e não esperar ações do profissional que certamente efeitos alienantes sobre a Comunidade JÚNIOR RIBEIRO 2009 p92 Sabemos que para se realizar uma intervenção na Comunidade é fundamental conhecêla antes de intervir levando em conta os conhecimentos adquiridos ao longo da vida das pessoas suas subjetividades Segundo Júnior Ribeiro 2009 p93 É de suma importância que o profissional consiga distinguir entre aquilo que a Comunidade está solicitando diretamente daquilo que de fato constitui o desejo que a move Diante disso é essencial trazer o conceito de demanda e desejo entendese por demanda um apelo que o sujeito faz em busca de um complemento JÚNIOR RIBEIRO 2009 apud QUINET 2000 Já o desejo é a busca por aquilo que nunca se viu ou existiu e por o sujeito nunca encontrar aquilo que ele deseja verdadeiramente ele fica em constante movimento JÚNIOR RIBEIRO 2009 Alguns trabalhos foram realizados na capital Paulista e um dentre eles foi um trabalho realizado junto a técnicos do governo que trabalhavam com pessoas que moravam em barracos áreas consideradas de risco pela Defesa Civil essa Comunidade era assistida por um projeto de moradia do Estado JÚNIOR RIBEIRO 2009 Os técnicos contaram aos psicólogos que não compreendiam os moradores que recebiam as casas novas pelo Estado e ao invés de morar alugavam vendiam ou devolviam Segundo os técnicos Professora Maria Flor 2024 2 18 eram poucas as pessoas que chegavam a morar nas casas e perguntavamse aos psicólogos o porquê dessas atitudes Durante as conversas os técnicos chegavam a dizer que a Comunidade é mal agradecida e que continuariam na pobreza JÚNIOR RIBEIRO 2009 p94 Os profissionais perceberam que essa tentativa de ajuda foi pensada para a Comunidade e não com a Comunidade o que resulta em uma ação assistencialista colocando os membros da Comunidade em uma posição vitimizada o fato de estarem sem casa A partir desse exemplo percebemos que não é levada em consideração a questão do desejodemanda cabe ao profissional instruído pela teoria psicanalista estar atento às questões relacionadas entre o que é de ordem do desejo e da demanda necessariamente não precisa responder à demanda visto que ela é insatisfeita por natureza o profissional necessita escutar a demanda trabalhála e perceber o que está além dela o desejo JÚNIOR RIBEIRO 2009 Diante do exemplo citado acima em relação as casas para a Comunidade era fundamental questionar a Comunidade em relação a essa própria ação Segundo Júnior Ribeiro 2009 p92 seria mais ou menos assim O que vocês imaginam que vai acontecer se vocês tiverem uma casa A que essas casas vão servir Como vocês imaginam que essas casas poderão mudar a vida de vocês Por mais que pareça óbvio essas indagações são essenciais pois através dessas indagações muitas questões poderão vir à tona Ninguém procurou interrogar a Comunidade questionála pelo contrário levou em consideração algo externo a moradia precária no entanto a Comunidade mesmo com essa necessidade externa mostrouse contrária Se o profissional que atua em Comunidades levar em consideração o que a Comunidade solicita e o que ela realmente deseja ele terá grandes chances de viabilizar uma mudança de posição dessa Comunidade JÚNIOR RIBEIRO 2009 Alguns desafios são encontrados pelos psicólogos comunitários que surgem como um ponto de reflexão que são as diferenças socioeconômicas entre o psicólogo e a Comunidade problemas referentes à resistência da Comunidade diante de uma intervenção externa BONFIM FREITAS 1989 Definição da especificidade do papel do psicólogo nas Comunidades BONFIM 1989 Dificuldades em relação aos modelos institucionais paternalistas que desafiam os trabalhos realizados pelos psicólogos comunitários pois impedem que os sujeitos possam tomar uma postura de autores da sua história Por parte da Comunidade existe uma expectativa de que o psicólogo resolva suas questões pessoais ou questões relacionadas à saúde educação moradia ANSARA DANTAS 2010 E essa expectativa da Comunidade continua obscurecendo a proposta do trabalho comunitário pois na maioria das vezes as pessoas não entendem como funciona o trabalho do psicólogo nas Comunidades O trabalho realizado pelos psicólogos Comunitários não é Um trabalho clínico individualizado não se configura de forma assistencial paternalista não se mantém em uma relação de dominação pelo contrário promove uma relação de igualdade 33 Psicólogo e comunidade possibilidades e desafios A Psicologia Comunitária opera com a base teórica em Psicologia Social e seu estudo baseiase em entender a constituição da subjetividade dos seres humanos numa Comunidade NEVES BERNARDES 1993 O foco da Psicologia Comunitária baseiase em práticas grupais a intervenção grupal tornase necessária em Comunidades para o desenvolvimento da consciência no qual um componente do grupo se descobre no outro percebendose conjuntamente LANE 1996 Professora Maria Flor 2024 2 19 Para se atuar numa realidade social é importante conhecer o contexto histórico em que essa realidade se desenvolve diante disso surge um desafio de intervenção social visto que vivemos em uma sociedade em transformações constantes as coisas vão mudando e mudam cada vez mais rápido Como diz Casas 2005p8 A complexidade das dinâmicas sociais dificulta tentativas de previsão tais mudanças penetram mais do que nunca em nossos lares e exercem influências extraordinárias em nossas vidas cotidianas É fundamental para os psicólogos levar em conta as questões psicossociais do contexto sobretudo do ponto de vista macrossocial Na maioria das vezes alguns psicólogos se definem como atuantes de uma esfera microssocial fazendo uma delimitação de sua atuação É como se as relações existentes nos níveis não fizessem parte da ordem macromicro Os níveis micro e macrossocial estão interligados e o profissional necessita ter uma compreensão em relação a essa questão REFERÊNCIA o Psicologia comunitária uma abordagem conceitual o AUTOR Antonio Maspoli de Araujo Gomes o BAUMAN Zygmunt Comunidade a busca por segurança no mundo atual Rio de Janeiro Jorge Zahar Editor 2003 o CAMPOS Regina Helena de Freitas orgs Psicologia Social Comunitária da solidariedade á autonomia 15ª Ed Rio de Janeiro Editora Vozes 2009 o FIGUEIRA Divalte Garcia História Série novo Ensino MédioEd Ática v único 2001 o SARRIERA Jorge Castellá SAFORCADA Enrique Teófilo Introdução a Psicologia Comunitária Bases teóricas e metodológicas Porto Alegre ED SULLINA 2010 Psicologia comunitária e política de assistência social diálogos sobre atuações em comunidades Verônica Morais Ximenes Doutora em Psicologia pela Universidade de Barcelona professora da Graduação e do Mestrado em Psicologia da Universidade Federal do Ceará Fortaleza CE Brasil Coordenadora do Núcleo de Psicologia Comunitária NUCOM Luana Rêgo Colares de Paula João Paulo Pereira Barros O debate acerca da inserção dos psicólogos em espaços de atuação diferenciados dos tradicionais entre estes a clínica psicológica por exemplo não é novo Segundo Yamamoto 2007 tal discussão existe desde a década de 70 em estudos que tanto apresentavam a saturação do mercado no que diz respeito ao modelo do profissional liberal como traziam questionamentos acerca das limitações teóricometodológicas da Psicologia para a atuação em um contexto de intensas desigualdades sociais como era o do Brasil e o da América Latina de um modo geral Tal debate que traz como um dos seus pontos nodais a crítica ao elitismo da Psicologia coincide com o desenvolvimento da Psicologia comunitária no Brasil Esta se edifica a partir do movimento de uma série de psicólogos que criticavam o viés positivista da Psicologia social até então hegemônica buscando Professora Maria Flor 2024 2 20 construir propostas de transformação social Lane 2003 a partir de maior aproximação do psicólogo com as dinâmicas do cotidiano da maioria da população Paralelamente ao desenvolvimento da Psicologia comunitária observam se contínuas mudanças nos cenários das políticas públicas brasileiras e no bojo dessas novas configurações um crescimento das possibilidades de atuação do psicólogo no campo público do bemestar social Yamamoto 2007 Atualmente a área da assistência social constitui um dos maiores emblemas desse fato dadas as suas recentes conformações legais e a consequente existência de espaços destinados a psicólogos por exemplo nas equipes dos Centros de Referência da Assistência Social CRAS unidades públicas estatais responsáveis desde 2004 pela execução dos programas projetos e serviços da Proteção Social Básica PSB Em meio à muldimensionalidade de questões que envolvem a Proteção Social Básica e também a pluralidade da Psicologia este artigo objetiva traçar diálogos teóricometodológicos entre a práxis de Psicologia comunitária e a proposta de Proteção Social Básica relativa ao desenvolvimento de vínculos sociais no território onde vivem as famílias assistidas De antemão importa registrar que como são entendidos nessa perspectiva percursos dialógicos não são lineares e necessariamente harmônicos senão que admitem que uma heterogeneidade de partícipes ora convirja ora divirja oscilando entre momentos de maior e de menor conflitualidade na tentativa de fazer com que construções coletivas se estabeleçam Por isso os diálogos aqui esboçados serão compostos de pontos a partir dos quais a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica se aproximam e de apontamentos sobre as possíveis limitações dessa aproximação Para tanto temse uma apresentação dos contornos da assistência social detendose nas propostas concernentes à Proteção Social Básica Em seguida apontamse as possibilidades de contribuições da Psicologia comunitária para a leitura e a efetivação de propostas de desenvolvimento de trabalhos grupais que primem pelo fortalecimento da convivência familiar e comunitária Brasil 2005a p 33 Por fim são explicitados os possíveis pontos de tensão que se interpõem entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica em relação à atuação em comunidades Políticas públicas sociais e política de assistência social breve histórico As políticas sociais têm suas origens relacionadas ao desenvolvimento das primeiras revoluções industriais no século XIX quando o Estado se organiza para responder às demandas sociais produzidas pelo sistema capitalista Höfling 2001 p 31 ao definir políticas sociais explica que estas se referem a ações que determinam o padrão de proteção social implementado pelo Estado voltadas em princípio para a redistribuição dos benefícios sociais visando à diminuição das desigualdades estruturais produzidas pelo desenvolvimento socioeconômico A autora diferencia políticas públicas de políticas sociais ao enfatizar que aquelas correspondem às ações que devem ser implementadas e mantidas pelo Estado a partir de um processo que envolve a participação de outras esferas e atores sociais não podendo portanto ser restringidas a políticas estatais Cumpre mencionar que o desenvolvimento de tais políticas com vistas à promoção de cidadania acena para uma rede complexa de ações que envolvem contradições e a coexistência de interesses conflitantes ganhando nuances diferenciadas de acordo com o contexto socioeconômico e político de cada momento histórico No final dos anos 70 e durante os anos 80 o contexto brasileiro caracterizavase pelo progressivo desgaste do período ditatorial e pelo surgimento de diferentes movimentos sociais que lutavam pelo estabelecimento Höfling 2001 p 31 ao definir políticas sociais explica que estas se referem a ações que determinam o padrão de proteção social implementado pelo Estado voltadas em princípio para a redistribuição dos benefícios sociais visando à diminuição das desigualdades estruturais produzidas pelo desenvolvimento socioeconômico Professora Maria Flor 2024 2 21 Segundo Costilla 2006 pp 2526 nessa época a expectativa da sociedade civil de ganhos econômicos e sociais se mostra com clareza na demanda popular majoritária de inclusão públicas Em meio a essa conjuntura havia uma crescente discussão em torno das ações assistenciais até então marcadas por práticas assistencialistas e filantrópicas Assim através da participação de vários atores e movimentos sociais tem início um processo de discussão e de proposição de uma lei que regulamentasse a assistência a pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade social Em 1988 temse a promulgação da vigente Constituição Federal e com ela a afirmação da assistência social como direito do cidadão e dever do Estado compondo o tripé da seguridade social ao lado da saúde e da previdência social Apesar desse avanço entretanto a consolidação da assistência social como política pública não se constituiu inteiramente em uma realidade visto que após a promulgação da Constituição de 1988 não houve a concretização de muitos de seus preceitos Com efeito esse é um desafio que permanece na atualidade considerando as fortes marcas clientelistas e assistencialistas que caracterizam a história das práticas assistenciais no Brasil Sobre essa questão Behring e Boschetti 2008 pp 161162 argumentam A assistência social é a política que mais vem sofrendo para se materializar como política pública e para superar algumas características históricas como morosidade na sua regulamentação como direito redução e residualidade na abrangência visto que os serviços e programas atingem entre 15 e 25 da população que deveria ter acesso aos direitos manutenção e mesmo reforço do caráter filantrópico com forte presença de entidades privadas na condução de diversos serviços e permanência de apelos e ações clientelistas Com relação à morosidade na regulamentação somente em 1993 foi sancionada a Lei Orgânica da Assistência Social LOAS ou seja após cinco anos de vigência da Constituição Contudo a inovação conceitual que marcou esse novo aparato normativo não fez com que a assistência social por vezes deixasse de se afiliar nos meandros cotidianos ao assistencialismo e às modalidades emergenciais de atendimento à população Por certo a década de 1990 contribuiu bastante para reforçar o caráter assistencialista tradicionalmente conferido à política em foco Segundo Behring e Boschetti 2008 nesse período houve um crescimento do chamado Terceiro Setor através de parcerias com Organizações Nãogovernamentais ONGs e instituições filantrópicas que passaram a executar políticas desse cunho em detrimento da intervenção e da responsabilização do Estado Nas palavras das autoras A essa nova arquitetura institucional na área social sempre ignorando o conceito constitucional de seguridade se combinou o serviço voluntário que desprofissionalizava a intervenção nessas áreas remetendoas ao mundo da solidariedade da realização do bem comum pelos indivíduos através de um trabalho voluntário nãoremunerado Behring Boschetti 2008 p 154 Percebese assim que a década de 90 se notabilizou pela ratificação da característica filantrópica das práticas assistenciais brasileiras nas quais múltiplos agentes se revezam na sua feitura ao passo que o Estado se exime do seu encargo como principal agente da proteção social do País Tratase pois de um processo de inversão do pilar de sustentação da seguridade social mediante a transposição para a sociedade da função de provedor configurando um aspecto central de diferenciação entre o processo de regulação social dos países que integram o denominado Primeiro Mundo onde se estabeleceu o chamado Estado Providência e os demais países capitalistas periféricos nos quais se desenvolveu a denominada Sociedade Providência Dessa forma a organização que resulta da solidariedade da sociedade civil constituise na protagonista principal na atenção aos despossuídos e destituídos Sposati Falcão Fleury 1989 p 3 Professora Maria Flor 2024 2 22 Portanto aliada aos efeitos da então conjuntura políticoeconômica é plausível apontar que a co existência tensional entre perspectivas democráticas assentadas na afirmação dos direitos sociais e uma tradicional cultura política clientelista e patrimonialista limitou maiores reformulações nos sistemas e nas práticas de proteção social Assim nas últimas décadas do século XX o direito à seguridade social garantido constitucionalmente não se efetivou por completo principalmente no que concerne à assistência social Somente em 2004 após as deliberações da IV Conferência da Assistência Social ocorrida em dezembro de 2003 consolidouse um processo que visou a efetivar a política de assistência social tal como prevista na Constituição de 1988 Tal processo encabeçado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome MDS através da Secretaria Nacional de Assistência Social SNAS e do Conselho Nacional da Assistência Social CNAS envolveu a participação de vários segmentos e atores sociais nos diversos encontros seminários reuniões oficinas e palestras Brasil 2005a p 11 Vale salientar também que esse processo se deu e continua se dando em um contexto de vigência de uma gestão que se desenvolve em meio a uma contraditoriedade na medida em que ao mesmo tempo em que realiza concessões à ideologia neoliberal encarrega o Estado de implementar e de desenvolver políticas públicas de proteção social É preciso considerar que a análise dessa viragem à esquerda só ganha sentido dentro do contexto contraditório da América Latina nos últimos 2530anos gestado na confluência da democratização e dos processos de ajuste à nova ordem do capital É o cenário de contradições sociopolíticas entre a ampliação do Estado Democrático com a instituição de uma cultura de direitos e as restrições do Estado Ajustador submetido à lógica do mercado secundarizando o social e atualizando a cultura da carência Carvalho 2006 p 143 É pois nesse contexto que surge a atual Política Nacional de Assistência Social PNAS2004 e em seguida o Sistema Único da Assistência Social SUAS 2005 conferindo um esforço em tornar viáveis e efetivas as ações dessa política Brasil 2005a 2005b A PNAS2004 organiza as ações da assistência social em dois níveis de proteção Proteção Social Básica PSB e Proteção Social Especial PSE A primeira caracterizase pelo atendimento a pessoas e grupos que estejam em situação de vulnerabilidade social e destinase ao desenvolvimento de ações que visam ao fortalecimento de vínculos sociais e ao desenvolvimento de potencialidades Já a segunda é responsável pelo atendimento a pessoas que estão em situação de risco pessoal e social por ocorrência de abandono maustratos físicos e ou psíquicos abuso sexual uso de substâncias psicoativas cumprimento de medidas socioeducativas situação de rua situação de trabalho infantil entre outras Brasil 2005a p 37 Os programas projetos e serviços da Proteção Social Básica devem ser desenvolvidos sobretudo nos Centros de Referência da Assistência Social CRAS cuja equipe mínima sugerida pelo Guia de Orientação Técnica SUAS Brasil 2005b compõese basicamente de psicólogos e assistentes sociais além de apoios administrativos Apesar de tal guia sugerir diretrizes metodológicas para o trabalho nos CRAS não há uma orientação específica para cada categoria profissional Diante de tal panorama tornase importante a reflexão em torno dos recursos teóricos e metodológicos que ambos os profissionais e nos propósitos deste artigo que o psicólogo podem lançar mão para a realização das ações propostas e em consequência para o alcance dos objetivos da PSB Para tal serão tecidas adiante articulações entre as questõeschave que balizam a Proteção Social Básica e alguns pontos conceituais e operativos que configuram a práxis de Psicologia comunitária Proteção social básica e Psicologia comunitária diálogos possíveis Sobre esse tópico fazse necessário primeiramente ressaltar que o desenvolvimento de ações no tecido comunitário é uma premissa claramente evidenciada na atual política de assistência social isso porque nesta se afirma que a proteção Professora Maria Flor 2024 2 23 social exige a capacidade de maior aproximação possível do cotidiano da vida das pessoas pois é nele que riscos vulnerabilidades se constituem Brasil 2005a p 15 Complementarmente a essa busca de atuar com famílias e indivíduos em seu contexto comunitário Brasil 2005a p 35 a proposta da PNAS põe em relevo a necessidade de que a perspectiva sob tal dinâmica territorial esteja pautada na dimensão ética de incluir os invisíveis os transformados em casos individuais enquanto de fato são parte de uma situação social coletiva Brasil 2005a p 15 O transcorrer de ações pautadas nesse território suscita a seguinte argüição ao fazer psicológico nessas condições que possibilidades são geradas à práxis do psicólogo em se tratando de seu delineamento e de sua direção Para iniciar movimentos dentro desse campo de problematização é oportuno lançar luzes sobre a perspectiva psicológica aqui adotada Segundo Góis 1994 p 43 a Psicologia comunitária é uma área da Psicologia social que estuda a atividade do psiquismo decorrente do modo de vida do lugarcomunidade Visa ao desenvolvimento da consciência dos moradores como sujeitos históricos e comunitários através de um esforço interdisciplinar que perpassa a organização e o desenvolvimento dos grupos e da comunidade Como salienta Quintal de Freitas 1998 p 1 a visão de homem e a de mundo assumidas e vividas pelos profissionais é que se constitui em aspecto crucial na criação ou determinação das possibilidades sobre o como estudar pesquisar eou intervir A partir da Psicologia comunitária a compreensão das recorrências e singularidades dos mais variados arranjos microssociais traz à tona o pressuposto ontológico de que o ser humano não somente reage às injunções sociais mas também se constitui em um ator social que participa da criação da vida cotidiana Montero 2004 Com efeito a investigaçãoação do psicólogo voltase para os processos interacionais que perfazem os modos de vida comunitários tendo em vista o seu caráter mediador na construção de saberes práticas e atores sociais Tais processos dessa perspectiva estão interligados complexamente entre si e em intensas contínuas mutantes e mutáveis conexões com outros contextos socioculturais O deslocamento do psicólogo dos espaços tradicionais para as vicissitudes existentes em espaços de convivência comunitária não se justifica então pela extensão do serviço psicológico nos seus moldes tradicionais a parcelas socioeconomicamente desfavorecidas da população explicase sim pela premissa segundo a qual as comunidades possuem uma gama de redes interativas que perpassam junto com outros vetores a complexa construção de pessoas e grupos que ali vivem podendo assim servir de base para que a práxis psicológica se constitua de modo diametralmente oposto a vieses psicologizantes Diante desses esboços conceituais entendesse que a presença do psicólogo nas ações de Proteção Social Básica pode contribuir para ampliar as possibilidades destas na medida em que permite uma compreensão mais subjetiva da realidade local isto é ver que as localidades são realidades profundamente humanas e simbólicas sendo por isso um erro pensálas somente em termos sociológicos e econômicos Góis 2005 p 73 Sob esse prisma de acordo com Sawaia 2004 no terreno polissêmico das discussões em torno da pobreza dos direitos sociais e da cidadania há que também se pôr em destaque as singularidades e as referências espaçotemporais das pessoas que vivenciam as expressões multiformes da desigualdade social Decorre daí à luz da Psicologia a atenção para a apropriaçãoconstrução de significados para a produção de sentidos Zanella Da Ros Reis França 2004 bem como para a emergência da afetividade e do sofrimento éticopolítico como importantes categorias analíticas na compreensão da dialética exclusãoinclusão social que ao mesmo tempo reverbera singularizase e se constitui nas dinâmicas das comunidades Professora Maria Flor 2024 2 24 Dando continuidade aos diálogos possíveis interessa ademais observar que se almeja nas ações de PSB enfocar o desenvolvimento de potencialidades e aquisições e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários Brasil 2005a p 33 Concernente a isso tornase importante pontuar que o desenvolvimento de ações no espaço comunitário não necessariamente indica ampliação de vínculos sociais tampouco lineamentos transformadores daquela dinâmica intersubjetiva mesmo porque tais ações podem se afiliar a diferentes matizes conceituais e políticos Nesse sentido Ximenes Nepomuceno e Moreira 2007 p 25 inspiradas por Góis 1994 apresentam três possibilidades de atuação a saber assistencialista tecnicista e comunitáriolibertadora Na primeira a relação entre o agente externo nesse caso o psicólogo e a comunidade é paternalista distanciada e não favorece o processo de análise e reflexão Tal prática se limita à satisfação de necessidades imediatas e favorece a dependência e a submissão da comunidade Na atuação tecnicista há uma relação hierárquica entre o saber do profissional e os erigidos localmente o que torna a despotencializar práxis emancipatórias Finalmente o tipo de atuação comunitário libertador baseia se na construção compartilhada de conhecimentos de maneira dialógica e colaborativa na qual se destaca a problematização de saberes e de relações de poder alinhavados e por vezes naturalizados no cotidiano Nessa perspectiva a produção de problemas antes que sua solução assume importância crucial na medida em que as problematizações postas diante de acontecimentos já naturalizados produzem deslocamentos por vezes desconcertantes que abrem possibilidades de sentido ações e modos de vida antes impensáveis Diehl Maraschin Tittoni 2004 p 410 Dados os aportes da Psicologia comunitária a atuação comunitáriolibertadora mais do que as duas primeiras pode dar corpo ao intento de ampliar vínculos familiares e comunitários sob o prisma da cidadania e da atualização da potência de ação dos atores sociais Sawaia 2004 isso porque nesse tipo uma heterogeneidade de atores sociais institucionais ou não que compõem a dinâmica comunitária é considerada coconstrutora das ações que são desenvolvidas pelo psicólogo e pela equipe multiprofissional com a qual este venha a trabalhar Dessa forma tais atores participam ativamente do seu planejamento da sua execução da sua avaliação e do seu aprimoramento Nesse processo aliás há que se considerar a possibilidade de que visões distintas estejam presentes não só quando consideradas as diferenças entre agentes externos e agentes internos mas também quando se considera a própria diversidade de agentes internos que compõe aquele contexto No que diz respeito às diretrizes metodológicas das ações de Proteção Social Básica seus profissionais são orientados a construir em conjunto com as famílias planos de ação que concretizam projetos de vida a partir de necessidades sociais existentes e expectativas e desejos para o futuro Brasil 2005b p 17 Isso implica a necessidade de articular o conhecimento da realidade das famílias com o planejamento do trabalho Brasil 2005b p 16 No âmbito da Psicologia comunitária a análise a vivência e a coconstrução de atividades comunitárias mediante um método dialógicovivencial Góis 2005 podem figurar como elementos relevantes em função de pelo menos dois aspectos primeiramente porque podem subsidiar a efetivação das próprias diretrizes então apresentadas em segundo lugar porque ampliam o campo de inteligibilidade relativo à atuação do psicólogo nas ações eminentemente grupais da Proteção Social Básica O método dialógicovivencial envolve uma dimensão reflexiva em que há uma constante problematização das dinâmicas comunitárias realizada digase de passagem em interação com os seus moradores e uma constante abertura do psicólogo à trama relacional que ali se estabelece a fim de se Professora Maria Flor 2024 2 25 deixar afetar por suas intensidades A opção por essa via de atuação alude portanto a um contato constante do profissional com os cotidianos que compõem os espaços microssociais em questão de modo a compreender suas idiossincrasias socioculturais suas interfaces com outros contextos e os arranjos subjetivos engendrados nessa interface Diante disso a atividade comunitária conceito sistematizado por Góis 1994 2005 a partir da teoria da atividade Leontiev 1978 assume lugar de destaque na práxis de Psicologia e é considerada referência para esse debate por propiciar o desenvolvimento dos seus participantes e a potencialização da relação destes com o lugar onde vivem Tal como conceitua Góis 2005 p 89 a atividade comunitária realizase por meio da cooperação e do diálogo em uma comunidade sendo orientada por ela mesma e pelo significado sentido coletivo e sentido significado pessoal que a própria atividade e a vida comunitária têm para os moradores da comunidade O conceito em questão referese a espaços de trabalho conjunto em que a partir de situaçõeslimite identificadas os agentes de uma comunidade realizam ações em rede cujo objetivo é a melhoria da qualidade de vida coletiva considerando a pertinência da diversidade nesse processo e o caráter não necessariamente harmonioso nesse curso Segundo Góis 2005 atividades dessa natureza envolvem processos interacionais mediados que se pautam na transformação do contexto onde se verificam Podem ser exemplos disso a ampliação de espaços públicos existentes no território através da organização de momentos de socialização entre os moradores a elaboração de um projeto de desenvolvimento comunitário a formação de grupos a constituição de redes de apoio entre os moradores e a realização de trocas de experiências cujo tema gerador provenha da tessitura cotidiana No que diz respeito às diretrizes metodológicas das ações de Proteção Social Básica seus profissionais são orientados a construir em conjunto com as famílias planos de ação que concretizam projetos de vida a partir de necessidades sociais existentes e expectativas e desejos para o futuro Brasil 2005b p 17 A importância de conhecer as atividades comunitárias já desenvolvidas no contexto onde se realiza a práxis do psicólogo se justifica porque analisando e vivenciando a atividade chegaremos a conhecer não só o processo social e econômico de um lugar como também e para o psicólogo é o principal o que pensam os moradores o que sentem e o que fazem no dia a dia em relação a si de realizar trabalhos com grupos de famílias ou seus representantes fortalecendo a socialização e a definição de projetos coletivos Brasil 2005b p 18 Assim no desenvolvimento das ações da Proteção Social Básica o profissional de Psicologia pode utilizar algumas estratégias a fim de conhecer a vida e a dinâmica das famílias e do seu contexto e de estabelecer vínculos imprescindíveis com estes Cotidianamente tais estratégias envolvem por exemplo a realização de entrevistas individuais eou coletivas Montero 2006 visitas domiciliares Barros 2007 participação em atividades da comunidade registros de acontecimentos eou episódios significativos em diários de campo Freitas 1998 Montero 2006 conhecimento sobre a história do lugar através de conversas informais com moradores de contatos com lideranças formais e informais e do levantamento de documentos e de outras produções locais Góis 1994 2005 e acompanhamento de grupos Lane 2003 Montero 2004 2006 entre outras Consideradas essas possibilidades aproximativas entre a práxis da Psicologia comunitária e a proposta da Proteção Social Básica cumpre assinalar também alguns pontos de tensionamentos que podem configurar o diálogo entre ambas Eis o intuito da próxima seção que em vez de se ater a aportes previstos na política de assistência social destacará elementos que contingencialmente atravessam as práticas cotidianas de proteção social básica Professora Maria Flor 2024 2 26 Pontos de tensão nos diálogos entre Psicologia comunitária e Proteção Social Básica As considerações sobre possíveis pontos de tensão entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica não podem prescindir de reflexões em torno das limitações de mesmos e aos outros Góis 2005 p 90 A partir desse prisma e levando em consideração a importância dessas atividades o psicólogo pode tanto contribuir para o fortalecimento das iniciativas já existentes na comunidade quanto fomentar a criação de novas atividades comunitárias Essa perspectiva vai ao encontro da orientação metodológica apontada no Guia de Orientação Técnica do SUAS que sugere que as equipes do CRAS devem conhecer a situação de organização e mobilização comunitária no território detectando seus potenciais individuais e coletivos Brasil 2005b p 17 A fim de fomentar atividades comunitárias e articulálas com os intuitos da Proteção Social Básica especialmente com a identificação e o desenvolvimento de potencialidades pautadas na constituição de vínculos sociais a práxis psicológica apresentada pode se orientar pelos seguintes eixos familiarização com o contexto comunitário identificação conjunta de necessidades e potencialidades elaboração de perspectivas de ação e trabalho coletivo pautado na avaliação processual e na sustentabilidade das ações Montero 2006 Para tanto utiliza aportes participativos como a observaçãoparticipante Góis 1994 Montero 2006 a pesquisaparticipante e a açãoparticipante Góis 1994 bem como o acompanhamento de grupos comunitários Góis 1994 Montero 2006 Esse aporte metodológico da Psicologia comunitária pode contribuir com a pretensão do CRAS de realizar trabalhos com grupos de famílias ou seus representantes fortalecendo a socialização e a definição de projetos coletivos Brasil 2005b p 18 Assim no desenvolvimento das ações da Proteção Social Básica o profissional de Psicologia pode utilizar algumas estratégias a fim de conhecer a vida e a dinâmica das famílias e do seu contexto e de estabelecer vínculos imprescindíveis com estes Cotidianamente tais estratégias envolvem por exemplo a realização de entrevistas individuais eou coletivas Montero 2006 visitas domiciliares Barros 2007 participação em atividades da comunidade registros de acontecimentos eou episódios significativos em diários de campo Freitas 1998 Montero 2006 conhecimento sobre a história do lugar através de conversas informais com moradores de contatos com lideranças formais e informais e do levantamento de documentos e de outras produções locais Góis 1994 2005 e acompanhamento de grupos Lane 2003 Montero 2004 2006 entre outras Consideradas essas possibilidades aproximativas entre a práxis da Psicologia comunitária e a proposta da Proteção Social Básica cumpre assinalar também alguns pontos de tensionamentos que podem configurar o diálogo entre ambas Eis o intuito da próxima seção que em vez de se ater a aportes previstos na política de assistência social destacará elementos que contingencialmente atravessam as práticas cotidianas de proteção social básica Pontos de tensão nos diálogos entre Psicologia comunitária e Proteção Social Básica As considerações sobre possíveis pontos de tensão entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica não podem prescindir de reflexões em torno das limitações de ambas as práticas da Psicologia e da política pública e de sua relação No que concerne à política de assistência social considerase fundamental a noção de que esta corresponde a apenas um vetor da proteção social brasileira o que significa que não compete somente a ela a responsabilidade pelo atendimento às demandas sociais portanto sua prática deve se desenvolver necessariamente em interação com as demais políticas públicas e sociais É o que sublinham os Conselhos Federais de Psicologia e Serviço Social ao apontarem parâmetros para a atuação de assistentes sociais e psicólogos na política de assistência social é fundamental que osas trabalhadoresas envolvidos na implementação do SUAS tenham clareza das funções e possibilidades das políticas sociais que integram a seguridade social de modo a não atribuir à assistência Professora Maria Flor 2024 2 27 social a intenção e o objetivo hercúleo e inatingível de responder a todas as situações de exclusão vulnerabilidade desigualdade social Essas são situações que devem ser enfrentadas pelo conjunto das políticas públicas a começar pela política econômica que deve se comprometer com a geração de emprego e renda e distribuição da riqueza Conselho Federal de Serviço Social CFESS Conselho Federal de Psicologia CFP 2007 p 12 Além disso uma vez que toda prática social está inserida em uma complexa tessitura históricopolítica o desenvolvimento cotidiano dos programas projetos e serviços de Proteção Social Básica assume caráter relativo mesmo com o emblema progressista integram seus serviços programas e projetos Behring Boschetti 2008 A efetivação de tal empreitada envolve sobretudo a consolidação crescente de uma cultura de direitos em detrimento da tradicional cultura da carência Carvalho 2006 p 143 que historicamente prevaleceu na sociedade brasileira Essa via analítica permite que as reflexões sobre a inserção de psicólogos na Proteção Social Básica considerem dois pontos além dos aportes teórico metodológicos utilizados pelo profissional em seu dia a dia a saber 1 as correlações de força que perpassam sua atuação na condição de prática social e 2 as implicações da prática profissional nos microespaços sociais onde ela se dá Quanto ao primeiro ponto é preciso em princípio que se avalie o terreno contraditório em que se desenvolvem as políticas sociais na América Latina Carvalho argumenta que esse terreno evidencia duas configurações estatais em confronto o Estado Democrático ampliado na relação com a sociedade civil pela via da política viabilizando encontros pactos parcerias o Estado Ajustador restritivo e seletivo sob a égide do mercado Carvalho 2006 p 122 Tais conformações delineiam quadros institucionais que interferem nas práticas dos profissionais nas políticas públicas entre elas na do psicólogo imprimindolhes às vezes limitações Podese citar o fato de que ao mesmo tempo em que há uma crescente ampliação de postos de trabalho para atuação em políticas públicas tal ampliação ocorre sob precárias condições de trabalho que vão desde a fragilização de vínculos empregatícios a exemplo das terceirizações que envolvem baixos salários até situações de precariedade das instalações físicas e dos equipamentos necessários ao desenvolvimento das atividades Barros 2007 Tais aspectos contribuem para a rotatividade de profissionais o que interfere das mudanças normativas presentes na atual Constituição e aperfeiçoadas no século XXI especificamente em se tratando do sistema e da política de assistência social A superação do caráter assistencialista e filantrópico que marcou a trajetória dessa política no Brasil é um desafio que ainda se apresenta cotidianamente a todos os atores que sobremaneira na continuidade e na qualidade das ações desenvolvidas A propósito do segundo ponto se considerados também os engendramentos microssociais em suas similaridades e singularidades em relação ao cenário macroestrutural ora exposto podese também dirimir reflexões que enfocam tão somente os referenciais teóricos metodológicos do psicólogo e que por isso associam de forma simplista a sua práxis em políticas públicas necessariamente a uma conjugação de matizes transformadores isso porque a depender das conjunturas locais de gestão e operacionalização a práxis do psicólogo tanto pode atualizar ordens socialmente excludentes quanto produzir fissuras em tais iniquidades Com efeito pode haver ambiguidades inclusive entre as pretensões dos profissionais e os desdobramentos de sua práxis É possível por exemplo que o trabalho do profissional se proponha a combater os excessos da desigualdade social ao passo que no cotidiano reforce fundamentos que a produzem caso o dinâmico emaranhado institucional onde ele se situa em determinadas circunstâncias respalde a circulação da noção do usuário como vulnerável e exalte apenas retoricamente o exercício Professora Maria Flor 2024 2 28 dialógico seja na própria gestão municipal seja nos vários espaços onde de algum modo ela se materializa Sobre tal assunto Barros observou em pesquisa sobre a práxis do psicólogo no CRAS que um entrave comum à prática do psicólogo ocorre na intersecção por vezes conflitiva entre as demandas institucionais relacionadas à gestão da Proteção Social Básica e o campo de forças que emerge do contexto microssocial onde se dá a prática cotidiana do psicólogo nesse caso As eventuais tensões resultam muitas vezes em pressões para que o profissional priorize demandas e temporalidades relacionadas às instituições responsáveis pela gestão da proteção social básica em detrimento das demandas e temporalidades referentes às comunidades onde estão inseridas tais políticas É o que verificamos neste trecho na prática desses as profissionais estesas têm assumido mais a função de executoresas de políticas e projetos erigidos em outros âmbitos e a partir de demandas exógenas à comunidade do que a função de criadoresas de ações a partir da análise e da vivência da atividade comunitária Barros 2007 p 139 O panorama acima exposto corrobora a ideia apresentada neste artigo de que o desenvolvimento de políticas públicas e sociais ocorre em meio à existência de projetos políticos diversos em contextos por vezes conflituosos A análise do cotidiano dessas políticas evidencia a título de ilustração a coexistência em muitos casos de interesses democráticos e eleitoreiros o que interfere no trabalho do psicólogo na medida em que pode implicar a obliteração de canais efetivamente dialógicos com os atores sociais os quais conforme elucidado são constituintes dos contornos da práxis de Psicologia comunitária Em consequência uma das possibilidades decorrentes disso é a restrição da atuação dos psicólogos a práticas normatizantes a serviço da agenda de grupos políticos à frente das engrenagens governamentais Finalmente aqui se advoga que o olhar crítico para os eventuais pontos de tensão entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica é elemento indispensável à atuação do psicólogo nesse espaço No entanto vale lançar paralelamente a atenção sobre as prováveis vias de articulação entre ambas e sobre os canais possíveis para a efetivação de uma práxis que tenha como horizonte político a emancipação social Nesse sentido corroborase a afirmação de Yamamoto 2007 p 35 quando destaca que embora tendo como premissa fundamental a negação de que a ação profissional de qualquer categoria possa vir a ser o eixo de transformações estruturais as possibilidades de ação do profissional de Psicologia rumo a práticas diferenciadas também devem ser colocadas no contexto do papel do intelectual numa sociedade contraditória Nessa direção o desafio posto para a categoria é ampliar os limites da dimensão política de sua ação profissional tanto pelo alinhamento com os setores progressistas da sociedade civil fundamental na correlação de forças da qual resultam eventuais avanços no campo das políticas sociais quanto pelo desenvolvimento no campo acadêmico de outras possibilidades teóricotécnicas inspiradas em outras vertentes teóricometodológicas que as hegemônicas da Psicologia Pensar nas possibilidades de articulação entre a Psicologia e a política de assistência social consiste em um importante esforço que pode contribuir tanto para a efetivação desta como para o aprimoramento daquela rumo às práxis que rechacem a perpetuação de injustiças sociais crônicas que marcam a realidade brasileira Em se tratando de atuação no território de vida das famílias com vistas ao fortalecimento de vínculos sociais buscouse neste artigo lançar argumentos segundo os quais a compreensão de processos subjetivos a partir das interações sociais mediante a análise a vivência e a coconstrução de atividades comunitárias figura com centralidade no diálogo entre a Psicologia comunitária e a Proteção Social Básica Professora Maria Flor 2024 2 29 Como desdobramento supõese que concerne ao profissional de Psicologia nesse caso contribuir para que pessoas e grupos comunitários ampliem suas possibilidades de se construírem criativamente Tornase pertinente em função disso a problematização de práticas tutelares e de leituras estigmatizantes acerca do contexto comunitário as quais ainda circulam nos mais variados espaços sociais Com isso a práxis psicológica imbricase no desafio coletivo de contribuir para a desconstrução do legado assistencialista que historicamente permeou a assistência social no País a fim de distanciar esse campo da noção de favor e de benesse e de consolidar políticas assentadas na noção de direitos sociais A partir dessa direção éticopolítica as reflexões ora apresentadas apontam um novo delineamento para o trabalho do psicólogo que difere do modelo psicoterapêuticoliberal presente no imaginário de muitos daqueles com os quais o psicólogo se depara entre os quais mormente a equipe multiprofissional Por sinal cabe ressaltar que a extensão de modelos teóricotécnicos com base na clínica tradicional para a atuação cotidiana dos psicólogos no âmbito da Proteção Social Básica indica um paradoxo da inserção da Psicologia nas políticas públicas nos últimos anos Dimenstein 2001 Yamamoto 2007 No tocante especialmente à incursão da Psicologia no campo da assistência social estudos como o de Barros 2007 por exemplo frisam uma contradição que merece destaque Por um lado a incursão da Psicologia em espaços como os CRAS tem significado um aumento das oportunidades de trabalho para psicólogos e uma via para que seus serviços estejam mais facilmente ao alcance de populações economicamente desfavorecidas Por outro lado tal incursão em muitos casos pouco tem servido para que o próprio fazer psicológico seja problematizado e para que em consequência novas formas de intervenções sejam inventadas isso porque assim como acontece em outros setores das políticas públicas a intervenção psicológica tem se notabilizado pela tentativa de reproduzir um modelo clínico convencional a partir de diferentes abordagens como a abordagem sistêmica de família e a Gestaltterapia por exemplo sem se questionar suficientemente sobre a pertinência da reprodução desse modelo frente às exigências teóricometodológicas emergentes no campo multiprofissional da assistência social Por isso acreditamos que o desenvolvimento de práticas críticas em Psicologia que façam jus às potencialidades apresentadas pelas recentes políticas públicas de assistência social implica o direcionamento da práxis dos psicólogos nesse campo para a potencialização de processos interacionais alinhavados pelo diálogo e pela colaboração entre uma heterogeneidade de atores sociais Tal direcionamento por sua vez remete à criação eou ao fortalecimento de ações em rede que partam do e incidam no contexto comunitário em sua complexidade e multidimensionalidade Por fim os apontamentos referentes às limitações do trabalho do psicólogo nos programas projetos e serviços de Proteção Social Básica não recaem de um lado em uma visão romântica tampouco por outro lado em uma atitude pessimista ou mesmo fatalista diante desse contexto emergente Ao contrário considera a complexidade tanto da Psicologia quanto das políticas públicas o que corresponde a um esforço de não tornar ingênuas as análises acerca dessa relação Referencias Barros J P P 2007 Psicologia e políticas públicas um estudo sobre a práxis doa psicólogoa no projeto Raízes de Cidadania e nos Centros de Referência da Assistência Social CRAS de Fortaleza Monografia de Conclusão de Curso Departamento de Psicologia Universidade Federal do Ceará Fortaleza Behring R E Boschetti I 2008 Política social fundamentos e história 4a ed Vol 2 São Paulo Cortez Brasil 2005a Política Nacional de Assistência Social PNAS Brasília DF Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Brasil 2005b Guia de orientação técnica SUAS nº 1 Proteção Social Básica de Assistência Social Recuperado em 25 de março de 2008 do MDS Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Professora Maria Flor 2024 2 30 Unidade IV A psicologia no contexto comunitário e movimentos sociais Psicologia em comunidades anos 60 70 80 e 90 a Anos 60 Regularização da Profissão e a Inserção do Psicólogo Durante as décadas de 40 e 50 um novo modelo de produção foi ingressado no Brasil do agropecuário ao agroindustrial o que demandou uma nova preparação para a população trabalhadora o Estado desenvolveu projetos na área educacional para essas populações com o intuito de preparálos para esse novo modelo econômico Esses trabalhos realizados junto à classe trabalhadora eram chamados de trabalhos comunitários Esse projeto de educação era realizado por um interesse econômico do Estado e os profissionais que estavam integrados neste projeto de educação eram provenientes das ciências humanas e sociais FREITAS 1996 p 57 Diante desse desenvolvimento econômico o país passa para a década de 50 com projetos Comunitários realizados em vários lugares no entanto esses trabalhos ainda tinham um foco paternalista Os anos 60 surgem movimentos de resistência frente ao modelo capitalista que não davam conta das necessidades primárias dos populares Dessa maneira tanto a população urbana como a população rural reivindicavam melhores condições relacionadas às suas necessidades básicas Neste período o custo de vida tornase insuportável para a classe trabalhadora como sinaliza FREITAS apud FREIRE 1979 p 57 as greves espalhamse em vários setores da população e dos serviços o desemprego atinge números assustadores e a inflação e o custo de vida tornase insuportáveis para as classes trabalhadoras e para população em geral Com essa crise o Brasil nos primeiros anos da década de 60 procura intervenções na área educacional com o objetivo de desenvolver na população uma consciência crítica a fim de que a mesma pudesse tomar o seu lugar de sujeito ativo Conforme Freitas 1996 p 57 trabalhos de educação popular foram realizados utilizando método de Paulo Freire esses trabalhos tinham um compromisso de fazer com que o individuo resgatasse seu papel como agente histórico e social FREITAS apud FREIRE 1979 p 57 O Pensamento Freiriano é o de conscientizar a comunidade para que esta possa conhecer seus direitos e deveres Segundo o mesmo autor uma comunidade desconscientizada prefere viver como Deus quiser a reivindicar seus direitos FREIRE 1980 p 59 Os trabalhos desenvolvidos no nordeste por profissionais duraram pouco tempo esses trabalhos começou a gerar na população uma vontade lutar por seus direitos lutar por melhores condições de vida no entanto o Estado impedia o fortalecimento da população Sendo assim algumas reivindicações populares acontecem neste período como a caminhada dos camponeses por condições melhores no plantio os operários por melhores condições salariais dentre outros Em Março de 1964 instaurase a ditadura no país que obriga a população a viver no regime ainda pior a miséria e a pobreza eram assustadores FREITAS 1996 p58 Diante disso perto das indústrias estavam as casas e casebres que iam crescendo de forma desajeitada sem segurança alguma Essas moradias eram construídas próximas dos locais onde as pessoas podiam trabalhar As pessoas que habitavam nessas casas vilas bairros eram trabalhadores destas fábricas hospitais indústrias e mansões FREITAS 1996 p59 Oficialmente o reconhecimento da profissão de Psicólogo no Brasil foi em 27 de agosto de 1962 os primeiros cursos tinham o seu arcabouço teórico oriundo dos Estados Unidos A Psicologia baseou a sua Professora Maria Flor 2024 2 31 prática a partir de trabalhos realizados em consultórios ambientes escolares e nas organizações essas práticas eram especialmente na década de 60 Em meados dos anos 60 em alguns lugares dáse a entrada do profissional de psicologia nos setores desfavorecidos com a preocupação de tornar essa prática próxima do povo com o intuito de deselitizar a profissão Essas práticas ganharam forças Nesse período surge a primeira turma de psicologia no Brasil Em um contexto de desespero da população com o descuido do Estado e diante de vários conflitos sociais que o psicólogo é desafiado a atuar O termo psicologia na comunidade é utilizado quando alguns estudantes psicólogos e professores de graduação começam a desenvolver trabalhos em comunidade de baixa renda no estado de São Paulo Na década de 70 no estado de Belo Horizonte na Universidade Federal de Minas UFMG a disciplina Psicologia Comunitária começa a fazer parte do currículo acadêmico O psicólogo trabalhava de maneira voluntária convicto do seu compromisso político e social junto a essas populações carentes FREITAS 1996 p60 Os Psicólogos utilizaram referencias da Sociologia Antropologia entre outras áreas das Ciências Humanas para o desenvolvimento de seus trabalhos em comunidades FREITAS 1996 p62 A preocupação desses profissionais eram desenvolver atividades que permitissem à Psicologia estar mais próxima do povo auxiliando práticas para que a população pudesse se organizar de forma política e reivindicasse por melhores condições de vida Devido ao contexto histórico que o Brasil estava vivendo quaisquer práticas eram bem recebidas na Comunidade contando que fossem com o objetivo de prestar algum tipo de assistência As reflexões levantadas em relação aos instrumentos utilizados nesse período eram pouco discutidas haja vista que existiam pouco psicólogos disponíveis para atuar neste campo CRUZ AMORETTI 2010 p 72 b Anos 70 Psicólogo junto a Movimentos Populares O Brasil ainda estava sob o regime militar a população criava meios de mobilização através de movimentos sociais Geralmente essas mobilizações ocorriam em associações de moradores nas comunidades eclesiais de base nos órgãos de defesa do cidadão Profissionais de vários saberes se uniam a esses setores populares com o objetivo de contribuir com os movimentos populares que iam crescendo embora timidamente FREITAS 1996 p 63 Foi junto a esses movimentos populares que se iniciou a prática da Psicologia Social Comunitária com características de se voltar para diferentes problemáticas além daquelas com que se trabalhava anteriormente Segundo Freitas 1996 p64 o interesse desses intelectuais e profissionais nestas questões sociais era devido a uma extrema miséria que essa população estava vivendo por isso tamanho envolvimento Os profissionais participavam dos movimentos populares com a crença de colaborar para uma sociedade mais justa e igualitária Para tanto os profissionais de psicologia começaram a marcar espaço saindo das escolas consultórios e indo para os bairros favelas associações de moradores O modelo clínico se mostrava portanto inadequado visto que não se tratava apenas de uma mudança geográfica da prática clínica As atividades que eram realizadas pelos profissionais de Psicologia junto com outras Ciências Sociais e Humanas aconteciam a partir de reuniões para discutir as questões que a população estava vivenciando faziase um levantamento de necessidades descrições das condições de vida do modelo educacional e suas deficiências discutiam sobre a saúde da população e a partir disso ofereciam serviço psicológico gratuito A ação conjunta acontecia em passeatas abaixoassinado ou Professora Maria Flor 2024 2 32 qualquer forma de resistência frente a precariedade das condições de vida da população FREITAS 1996 p65 Como os trabalhos em comunidade a princípio eram voluntários os profissionais como forma de sobrevivência investiram na docência Questões em relação à inserção do psicólogo na comunidade foram discutidas nas universidades iniciaramse debates acerca da postura deste profissional nas comunidades Existiam trabalhos já publicados por professores e alunos que desenvolveram trabalhos na Zona Leste de São Paulo em uma comunidade de baixa renda e na UFMG Universidade Federal de Minas Gerais já existia a disciplina que discutia questões ligadas à ecologia humana e movimentos populares AMORETTI CRUZ FREITAS 2010 p 78 b Anos 80 Criação da Associação Brasileira de Psicologia ABRAPSO Nos anos 80 a denominação da palavra psicologia comunitária passa a ser mais frequente profissionais se apropriam desse termo em debates e discussões Em fins dos anos 70 e começo dos anos 80 reflexões são feitas em relação aos trabalhos desenvolvidos em comunidade questionase o seu caráter voluntário e os modelos de intervenções utilizados pelos psicólogos que atuam neste campo Trabalhos em Psicologia Social Comunitária são publicados neste período pessoas como Sílvia Lane a pioneira em psicologia social no Brasil e outros autores trazem em suas publicações questões referentes ao desenvolvimento do trabalho do psicólogo em comunidades FREITAS 1996 p65 Em meados dos anos 80 surge a necessidade de se criar um espaço de discussões e debates para delimitar a atuação do profissional de psicologia que atua nas comunidades Esse espaço é criado em julho de 1980 e é chamado de ABRAPSO Associação Brasileira de Psicologia Social Através da ABRAPSO uma Psicologia Social crítica foi construída comprometida com a realidade obscura da população Em cada região do país são criados núcleos para se realizar encontros regionais em torno das problemáticas desenvolvidas pela Psicologia Social Em São Paulo em um dos primeiros encontros regionais abordase o tema Psicologia na Comunidade onde os profissionais discursam sobre as suas práticas comunitárias com mulheres nas periferias em centros de educação popular e em creches FREITAS 1996 p68 Encontros e mais encontros regionais são realizados com a intenção de se pensar sobre novas práticas discutir as temáticas relativas ao bemestar da população c Anos 90 Expansão do trabalho do Psicólogo Comunitário No início da década de 90 expandiramse os trabalhos dos psicólogos com os populares Estes trabalhos baseavamse em variadas práticas com diferentes referenciais teóricos é frequente neste período ouvir a denominação psicologia da comunidade FREITAS 1996 p69 As práticas desenvolvidas pelos psicólogos estavam ligadas basicamente aos postos de saúde órgãos ligados às questões familiares instituições penais Em se tratando de instituições sabese que a atuação do psicólogo se desenvolve a partir da demanda solicitada pela própria instituição Com o envolvimento dos profissionais de psicologia nas questões ligadas á saúde coletiva a sua postura portanto é de um trabalhador social dentro desse movimento de saúde A Psicologia passa a ser vista como uma profissão da área de saúde Esses primeiros anos da década de 90 foram marcados por uma diversidade teórica e metodológica no desenvolvimento desses trabalhos em comunidades Após a saída dos militares do governo o país passou por uma série de dificuldades muitas mudanças e transformações ocorreram na administração pública Abriramse oportunidades para os profissionais da área de humanas com o objetivo de prestar serviços à população A psicologia começa a Professora Maria Flor 2024 2 33 ser reconhecida como profissão que presta serviços aos setores desfavorecidos vários profissionais começam a trabalhar em bairros postos de saúde agora de uma maneira não mais clandestina Distinções Práticas e Nominativas de Psicologia na Comunidade Psicologia da Comunidade e Psicologia Social Comunitária Escutamos as expressões Psicologia na Comunidade Psicologia da Comunidade e Psicologia Social Comunitária que aparentemente parecem que são símiles contudo não são só meras distinções nominativas é também uma questão de prática A expressão Psicologia na Comunidade FREITAS 1996 p62 surgiu durante um período onde o objetivo era tornar a prática da psicologia acessível ao povo A postura dos profissionais de psicologia era deselitizar a profissão e para isso ser possível era importantíssimo desenvolver a sua prática na Comunidade fora das escolas e consultórios Durante as décadas de 60 e 70 confundiamse as expressões Psicologia na Comunidade com Psicologia da Comunidade A partir dos anos 90 tornase frequente o termo Psicologia da Comunidade que referese às práticas da Psicologia ligadas as questões da Saúde e atividades ligadas a uma instituição ou órgãos públicos que prestavam serviços à população onde o psicólogo trabalhava O intuito disso tudo era defender uma psicologia menos academicista menos intelectual e mais ligada às questões do povo FREITAS 1996 p72 Por último surge a expressão Psicologia Social Comunitária que carrega sua prática de maneira não paternalista presente nos modelos trazidos dos Estados Unidos O seu arcabouço teórico é oriundo da Psicologia Social tendo como foco o trabalho grupal como o objetivo de desenvolver uma consciência crítica na população e uma construção de uma identidade social e individual orientadas por preceitos eticamente humanosFREITAS 1996 p73 A Psicologia social Comunitária utilizase do enquadre teórico da psicologia social privilegiando o trabalho em grupo colaborando para a formação da consciência crítica e para a construção de uma identidade social e individual orientadas por preceitos eticamente humanos FREITAS 1996 p73 42 Movimentos sociais Os movimentos sociais são ações coletivas mantidas por grupos organizados da sociedade que visam lutar por alguma causa social Em geral o grito levantado pelos movimentos sociais representa a voz de pessoas excluídas do processo democrático que buscam ocupar os espaços de direito na sociedade Os movimentos sociais são de extrema importância para a formação de uma sociedade democrática ao tentarem possibilitar a inserção de cada vez mais pessoas na sociedade de direitos Os primeiros movimentos sociais visavam resolver os problemas de classes sociais e políticos como a ampliação do direito ao voto Hoje os movimentos sociais baseiamse em grande parte nas pautas identitárias que representam categorias como gênero raça e orientação sexual Ao pensarse nos movimentos sociais à luz de pensadores da filosofia e da sociologia é impossível apontar um consenso O cientista político italiano Gianfranco Pasquino aponta a impossibilidade de estabelecerse uma linha conciliatória entre os que tratam dos movimentos sociais tendose em vista um horizonte de pensadores clássicos Nesse sentido e como exemplos os sociólogos Marx Weber e Durkheim veem nos movimentos sociais a sustentação de uma revolução a institucionalização de um novo poder burocrático e até a maior coesão social respectivamente Professora Maria Flor 2024 2 34 43 Características dos movimentos sociais Os movimentos sociais levantam bandeiras de grupos organizados em prol de alguma causa Por outro lado temos pensadores ligados ao conservadorismo como o polímata francês Gustave Le Bon o filósofo sociólogo e criminologista francês Gabriel de Tarde e o filósofo e jornalista espanhol José Ortega y Gasset que viam nos movimentos sociais um perigo iminente Para esse grupo os movimentos sociais como movimentos de massa tendem a seguir caminhos irracionais que perturbam a ordem vigente Apesar das divergências existe uma convergência sobre os movimentos sociais a constatação de tensões sociais e a iminente ruptura de uma mudança social De qualquer modo fazse necessário perceber que há uma antiga história de tensões que representam grandes movimentos sociais do mundo moderno Talvez o mais antigo movimento de massas que nós podemos destacar como um princípio de movimento social tenha sido a Queda da Bastilha que marcou a Revolução Francesa em 1789 e foi responsável pela queda da monarquia absolutista francesa Outro grande movimento de massa que se tornou um movimento social organizado foi o movimento sufragista considerado parte da primeira onda do feminismo movimento organizado por mulheres que reivindicavam o seu direito ao voto e à participação cidadã na política 44 Origem dos movimentos sociais Na passagem do século XIX para o século XX os sindicatos institucionalizaramse como coletivos que visavam defender os trabalhadores da exploração patronal inspirados principalmente pelos ideais marxistas Nesse sentido surgiu em vários cantos do mundo movimentos sociais em defesa dos trabalhadores das classes sociais mais baixas e movimentos socialistas e anarquistas que visavam uma completa revolução e dissolução da ordem social capitalista Professora Maria Flor 2024 2 35 Na década de 1960 devido às sequelas deixadas pela Segunda Guerra Mundial e ao clima de polarização mundial causado pela Guerra Fria novos coletivos ações e movimentos surgiram por todo o mundo As pautas dos movimentos sociais passaram a diversificarse a partir desse momento Nos Estados Unidos e na África do Sul a população negra revoltouse contra o injusto sistema de segregação racial que garantia privilégios à população branca e retirava os direitos da população negra tratando esta camada como uma horda de cidadãos inferiores As mulheres também se organizaram em coletivos para lutar por seus direitos buscando a liberdade sexual e o tratamento igualitário entre os gêneros essa ficou conhecida como a segunda onda do movimento feminista A população LGBTQ também entrou em cena para reivindicar o direito de expressarse livremente e de não ser julgada ou segregada por isso Um episódio marcado por um espontâneo movimento de massa que gerou um grande movimento social foi o ocorrido no bar Stonnewall Inn em Nova Iorque que resultou em confronto com a polícia e deu origem à Parada do Orgulho Gay hoje chamada de Parada do Orgulho LGBTQ que ocorre em várias cidades pelo mundo Presa injustamente na década de 1970 a filósofa Angela Davis tornouse símbolo da luta pelos direitos da população negra e das mulheres O mundo passou por severas mudanças a partir da década de 1960 período em que as minorias saíram às ruas para lutarem por seus direitos A partir daí vários movimentos sociais começam a eclodir pelo mundo sempre em busca de uma organização que visasse a inclusão de pessoas excluídas e sempre se diferenciando de acordo com as especificidades de cada local No Brasil Um exemplo de localidade da luta social ocorre no Brasil com movimentos como o MTST Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e MST Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra conhecido como Movimento dos SemTerra O Brasil é um país que ao contrário dos países desenvolvidos nunca produziu uma eficaz reforma agrária O MST é um forte movimento que luta pela reforma agrária no Brasil O número de pessoas que não têm acesso à terra para o trabalho rural ou não têm o seu direito à moradia garantido é gigantesco o que torna a pauta desses movimentos uma questão emergente por aqui Professora Maria Flor 2024 2 36 Nesse sentido tendo em vista as demandas específicas de nosso país criaramse movimentos organizados para lutarse pelas demandas que nosso povo enfrenta Como os movimentos sociais funcionam É impossível estabelecer uma fórmula única de funcionamento dos movimentos sociais visto que eles são diversos defendem pautas distintas e têm diferentes demandas de acordo com a sua localidade geográfica e seu tempo histórico No entanto algumas características podem ser elencadas como modos comuns de funcionamento deles Muitos movimentos sociais eclodem de movimentos e rebeliões de massa como foi o caso do movimento LGBTQ de grupos do movimento negro como os Panteras Negras nos Estados Unidos e do MST no Brasil Eles podem ser constituídos por diversos grupos que lutam pela mesma causa como o movimento feminista que tem vertentes diferentes o movimento negro que é formado por um amplo conjunto de coletivos e o movimento LGBTQ No entanto cada grupo ou célula desses movimentos tem suas formas de organizarse para promover a militância social Eles unem as pessoas em torno de uma causa comum Eles visam uma reestruturação social que inclua os seus interessados no poder comum e garantaos seus direitos de cidadãos Exemplos de movimentos sociais o Movimento dos trabalhadores rurais sem terra o Movimentos feministas o Movimentos antirracistas o Movimentos ambientalistas como o WWF e o Greenpeace o Movimentos de união de comunidades e periferia como o Nós do Morro que luta contra o racismo a desigualdade social e a exclusão dos moradores de periferias o Movimentos de luta contra a homofobia e a transfobia como o movimento LGBT Unidade V intervenções no contexto comunitário Diferentes formas de intervenção Para falar pensarmos em uma intervenção na comunidade necessitamos aprofundar no conhecimento das diferentes perspectivas de intervenção social pesquisadas dirigida participativa e situada Essas linhas de ação e pensamento se caracterizam como formas de intervenção no social e exibem peculiaridades Uma intervenção social pode ser efetuada com base em diferentes perspectivas a saber a dirigida a participativa e a situada Para que exista o que é conceituado de intervenção para as perspectivas dirigidas e participativas é necessária uma relação entre dois elementos distintos Os interventoresas Professora Maria Flor 2024 2 37 profissionais técnicos voluntários etc que se propõe a transformar com sua ação situações que são vistas como problemáticas na qualidade de vida do segundo grupo os intervindos clientes beneficiários grupo com necessidades especiais Essas correntes de intervenção social postulam a transformação de certas condições de vida das pessoas A intervenção social e psicossocial busca atacar os problemas sociais presentes na sociedade a partir de modelos teóricos que explicam o que é social e quais são as possíveis causas dos problemas e modelos práticos sobre quais são as melhores maneiras de incidir sobre estes problemas a favor das pessoas envolvidas nas situações problemáticas MONTENEGRO 2001 p 74 Segundo Montenegro 2001 em uma perspectiva dirigida de intervenção social as definições sobre problemas sociais enfatizam que o diagnóstico deve ser realizado ou a partir de critérios objetivos de situações que poderiam ou deveriam ser transformadas ou quando um grupo relevante define algumas condições como problema e põem em marcha ações para sua solução O funcionalismo é a corrente teórica que embasa a intervenção dirigida A autora expõe outra perspectiva de intervenção social a perspectiva participativa que compreende os problemas sociais atuais como produto das relações sociais discrepantes presentes na sociedade Assim a partir desta perspectiva o problema social fundamental contra o qual se deve lutar é a exploração econômica cultural social dos seres humanos no sistema capitalista A forma de entender o social da maioria das teorias participativas se baseia em que não são apenas os grupos marginalizados que necessitam de transformação mas a sociedade como um todo A visão da sociedade se faz de um ponto conflitivo apresentando uma sociedade dividida e que possui interesses opostos Ainda afirmase que os recursos econômicos sociais e culturais desta sociedade estão distribuídos de modo desigual entre os diferentes grupos sociais A sociedade é estruturada a partir de relações de dominação e exploração opressores e oprimidos As pessoas que estão em situação de marginalização política e econômica tendem a ver como natural a situação em que vivem e não como um processo histórico de dominação E nesse ponto que existe a necessidade de se trabalhar A visão social que interfere na intervenção participativa é o Marxismo Nas propostas de intervenção participativa e dirigida os problemas sociais são definidos principalmente com base nos conhecimentos especializados Nestas perspectivas de intervenção observase a presença dos agentes externos que redirigem e reorganizam as inquietudes presentes na comunidade abrindo espaços de reflexão e de ação As pessoas da comunidade ou coletivos que sofrem problemas sociais são vistos como vivendo sob condições de opressão e portanto devem atuar para reverter as condições sociais nas quais vivem porém essa atuação é acompanhada de intelectuais politicamente comprometidos com a transformação social dessas condições Numa perspectiva situada de intervenção social adotase uma postura crítica com relação à visão representacionista da realidade Assim os problemas sociais são analisados como produtos de processos de definição coletiva constroemse como objetos por intermédio de práticas e discursos num marco sócio histórico e cultural que permite certas construções e não outras Os problemas sociais são então histórica e contextualmente situados e além disso são construções momentâneas e dinâmicas MONTENEGRO 2001 Diferentemente das intervenções participativas e dirigidas uma perspectiva situada de intervenção social não encara os problemas sociais a partir de um conhecimento especializado mas sim implica em ações coletivas em prol de um objetivo comum socialmente definido Essas ações envolvem as vidas das pessoas as relações discursos e práticas sociais com uma visão do social mais anarquista Montenegro 2001 Professora Maria Flor 2024 2 38 Os agentes de transformação social seriam pessoas grupos organizações instituições etc que são conceitualizados como capazes de levar a cabo ações de transformação Estes agentes se articulam para atuar sobre algum fenômeno definido na própria articulação como digno de transformação Assim não há posições únicas fixas e imutáveis mas uma pluralidade de posições e conexões um movimento contínuo de articulações Este movimento e pluralidade abrem a possibilidade de que características de diferentes agentes estejam envolvidas nos trabalhos de intervenção e também a possibilidade de articulação com outros movimentos ou blocos históricos Nestas articulações as próprias posições de cada agente são modificadas Se a prática da intervenção que for realizada em determinada comunidade não for uma prática libertadora que vise à emancipação dos indivíduos da comunidade em favor de lutarem por sua cidadania ela acaba deixando a comunidade numa postura de dominada onde os sujeitos tendem a agirem como simples beneficiários e não como cidadãos que têm direito de reivindicar por suas demandas Portanto no presente trabalho buscase enxergar a comunidade não como necessitada de doação a qual precisa de intervenção no sentido de arrecadar recursos e no fazer por ela Mas sim enxergar a comunidade como parceira nessa intervenção que procura trabalhar junto para que esta se coloque como lutadora por seus ideais identificando seus problemas e os caminhos que podem ser seguidos para solucioná los buscando uma melhor interação em seu meio e com seu meio As pessoas de uma determinada comunidade são os principais protagonistas de seus saberes de suas vicissitudes e da criação de instrumentos capazes de auxiliar o desenvolvimento de sua realidade PEREIRA 2001 p 171 Referencia MONTENEGRO Marisela Martinez Conocimientos agentes y articulaciones una mirada situada a la Intervencion Social Tese doutorado Programa de Doutorado de Psicologia Social Universidade Autônoma de Barcelona Enero 2001 As práticas grupais e a atuação do psicólogo intervenções em grupo no Estágio de Processos Grupais Introdução A partir da teoria do vínculo de PichonRiviére podese definir grupo como um conjunto de pessoas que possuem necessidades semelhantes e buscam a priori o cumprimento de uma tarefa específica Para a efetivação e realização da tarefa que se propõem a cumprir esses indivíduos deixam de ser um amontoado de pessoas e cada um assume seu papel enquanto participante do grupo com um objetivo mútuo mas ainda sim cada qual com sua identidade Grossi Bordin 1992 O conceito de Instituição se refere a um conjunto de normas que regem a padronização de um determinado hábito na sociedade e que garantem a sua reprodução e a institucionalização ocorre sempre que há uma tipificação de ações habituais aceitas por determinado grupo ALEXANDRE 2002 p 210 Relacionando os conceitos sobre Grupo e Instituição é possível que se entenda como ocorre seu funcionamento na prática os grupos institucionais A intervenção psicológica possui como finalidade o descobrimento da raiz da dor psíquica que afeta o indivíduo para que esta seja tratada e compreendidos os sofrimentos que assolam o mesmo durante sua existência propiciar cuidado tratamento e superação do problema em questão Professora Maria Flor 2024 2 39 A influência dos grupos na concepção do eu O ser humano é simultaneamente um ser sociável e um ser socializado que aspira comunicar com os membros de uma sociedade que o forma e o controla ALEXANDRE 2002 p 209 isso nos remete ao fato de que estamos sempre inseridos em grupos e são eles que nos conectam com a chamada sociedade o grupo maior A psicologia grupal tem como objetivo de estudo os microgrupos humanos entendendose por tal todos aqueles nos quais os indivíduos podem reconhecerse em sua singularidade ou perceberem uns aos outros como seres distintos e com suas respectivas identidades psicológicos mantendo ações interativas na busca de objetivos compartilhados OSÓRIO 2003 p 11 A teoria psicanalítica por meio de seu método e aparato teórico compreende que o sujeito particular é o objeto primordial de intervenção O sofrimento que deverá ser tratado se refere e se localiza na pessoa a quem se destina e referese o tratamento No entanto PichònRiviére refuta tal afirmativa quando propõe um olhar duplo sobre o grupo e os sujeitos CASTANHO 2012 PichonRivière propõe que ao pensarmos o que ocorre em um grupo tenhamos em mente sempre dois eixos assim nomeados e definidos 1 vertical assinala tudo aquilo que diz respeito a cada elemento do grupo distinto e diferenciado do conjunto como por exemplo sua história de constituição e seus processos psíquicos internos 2 horizontal referese ao grupo pensado em sua totalidade CASTANHO 2012 p 49 A realização dessa pesquisa levantando as modalidades de intervenção psicológica grupal no estágio possibilitou verificar os benefícios e fenômenos que emergem das relações grupais tendo em vista os dois aspectos pichonianos supracitados O que permite à inteligência essa transferência do plano motor para o plano especulativo não é evidentemente explicável no desenvolvimento do indivíduo mas nele pode ser identificada a transferência são aptidões da espécie que estão em jogo em especial as que fazem do homem um ser essencialmente social WALLON 1979 p 161 A identidade do sujeito se concretiza partindo das relações estabelecidas com os outros e tais construções e influências desse grupo permanecem inconscientes ou préconscientes não permitindo que esse sujeito veja que seus comportamentos são reflexos de padrões arcaicos que o seguem e o constituem O conceito de Grupo Grupo pode ser definido como um conjunto de indivíduos que interagem entre si compartilhando certas normas numa tarefa BLEGER 1998 p 114 Osório 2003 utiliza o termo sistema humano Sistema humano é em nosso entender todo aquele conjunto de pessoas capazes de se reconhecer em sua singularidade e que estão exercendo uma ação interativa com objetivos compartilhados OSÒRIO 2003 p 56 Grupos são no seu sentido mais geral configurações sociais de mediação da relação entre indivíduo e a totalidade social a que ele se vincula entre a universalidade da sociedade a particularidade do indivíduo São pois instâncias intermediárias que articulam a relação do indivíduo com a totalidade social servindo como elementos de mediação FONSECA 1988 p 184 Existem dois tipos de grupos sendo a família um grupo primário e os grupos secundários se referindo ao trabalho estudos instituições entre outros Nos grupos cada sujeito possui seu lugar e papel seu modo de ser em coletividade e o que constitui sua identidade É possível compreender que mesmo pertencentes a determinado grupo com regras e normas que regem o processo relacional cada um de seus integrantes Professora Maria Flor 2024 2 40 imprime sua identidade sobre o mesmo por meio de sua forma de agir pensar falar contribuindo assim para a ampliação de conhecimentos que constitui aquele grupo definindoo em sua multiplicidade Grossi Bordin 1992 Segundo PichonRiviére a estrutura dos grupos se compõe pela dinâmica dos 3D O depositado o depositário e o depositante O depositado é algo que o grupo ou um indivíduo não pode assumir no seu conjunto e o coloca em alguém que por suas características permite e aceita Estes que recebem nossos depósitos são nossos depositários nós que nos desembaraçamos destes conteúdos colocandoos fora de nós somos os depositantes GROSSI BORDIN 1992 p 61 PichonRiviére 2009 trouxe uma grande contribuição quando credita ao vínculo o ponto necessário para se compreender um grupo Sem o vínculo tratarseia então apenas de um agrupamento de pessoas em um determinado espaço e tempo Dado isso pode se atribuir a esse conceitochave o ponto necessário para se considerar o que é um grupo Além disso concebese o grupo como agente de mudança e transformação da realidade sendo que ao passo que o indivíduo vai se constituindo o grupo também vai ganhando enquanto o grupo se fortalece o indivíduo também se caracteriza e isso devido à interação e ao vínculo estabelecido PichonRivière 2009 A ideologia fundamental deste tipo de grupo é que o essencial é aprender a aprender e que mais importante do que encher a cabeça de conhecimentos é formar cabeças Incontáveis são as modalidades de aplicação dos grupos operativos sendo que muitas vezes sob múltiplas denominações distintas designam um funcionamento assemelhado ZIMERMAN 2000 p 91 Fonseca 1988 aponta que na prática os grupos tem se constituído no entanto têm sido percebidas dificuldades conceituais paradoxalmente aos fenômenos que surgem em grupos empiricamente existentes dos resultados que estes apontam e das posturas de facilitação necessárias e fundamentais para a eficácia da intervenção grupal realizada Esse fenômeno se justifica pela necessidade de aprofundamento teórico sobre essa esfera do saber e pela dificuldade de treinamento e dificuldade de treinamento de facilitadores Modalidades grupais É importante que se compreenda a existência de várias modalidades no que se refere ao trabalho de intervenção grupal Em sua obra Grupos e configurações vinculares Fernandes 2003 classifica os grupos de maneira didática por meio de tabelas demonstrativas Em sua obra O Processo Grupal PichonRiviére traz a definição de grupos operativos se definem como grupos centrados na tarefa a tarefa é o essencial do processo grupal portanto temos nesta caracterização os três tipos a centrados no indivíduo b centrados no grupo como um conjunto total o c os grupos centrados na tarefa Nossa preocupação é abordar através do grupo centrandose na tarefa os problemas da tarefa da aprendizagem e problemas pessoais relacionados com a tarefa e com a aprendizagem PICHONRIVIÈRE 2009 p 272 Nos grupos operativos o processo comunicativo vincular poderá ser aprimorado por meio de treinamento adequado visando a aperfeiçoar a execução das tarefas FERNANDES 2003 Alguns exemplos de grupos com finalidades operativas são os grupos de orientação a gestantes ou de discussão de textos literários com adolescentes grupos comunitários técnicos sem formação completa como grupoterapeutas psicólogos psiquiatras médicos de outras especialidades podem receber treinamento porém desde que se atentem unicamente a tarefa proposta e conheçam seus limites Zimerman apud Fernandes 2003 Professora Maria Flor 2024 2 41 Os grupos Balint de discussão de casos médicos em equipe multidisciplinar apontam para resultados positivos uma vez que concebe por meio do coordenador do grupo que possui bons conhecimentos psicodinâmicos achados que se somam ao crescimento profissional do grupo como um todo Nos grupos de reflexão ocorrem vivências de temas manifestos a evidenciar os conflitos que atrapalham o trabalho a explicitar as leis do funcionamento dos grupos e a relacionar essas leis com os acontecimentos vivenciados e com o curso teórico Outra abordagem operativa são os grupos de discussão de congressos jornadas e eventos onde após algumas apresentações em mesa redonda a discussão dos temas é realizada por grupos menores dessa vez coordenados por especialistas em grupo viabilizando uma construção criativa entre todos assim como a horizontalidade relacional Fernandes 2003 A psicoterapia breve grupal segundo Fernandes 2003 é realizada com objetivos eou tempo limitados podendo ser utilizada em instituições e na clínica particular possuindo como finalidades alívio sintomatológico adaptações da vida triagem para direcionamento a outros tratamentos diagnóstico mais específico e sensibilização para psicoterapia psicodinâmica sem foco e tempo predeterminados Na psicoterapia grupal com pacientes internados buscase a aceitação ao processo terapêutico compreender que outros também possuem problemas semelhantes e a possibilidade de sentimento de utilidade para o paciente e sensibilizálo para o tratamento Sobre a diferenciação entre os grupos operativos e grupos terapêuticos Fernandes 2003 conclui que se trata de uma tarefa difícil diferenciálos uma vez que os grupos operativos também podem adquirir caráter terapêutico a seus usuários embora a proposta não seja esta Existem duas estruturas distintas de grupos os grupos terapêuticos e os grupos institucionais Define como grupos de Empresa aquelas atividades dentro de uma linha de Grupos de Sensibilização Desenvolvimento Individual Desenvolvimento Interpessoal Administração de Conflitos Análise Transacional etc e que são estruturados de acordo com a demanda apresentada pela empresa Nos grupos institucionais existem fenômenos como o poder a comunicação entre os membros do grupo que já preexistem antes mesmo do início dos encontros Cabe aqui mencionar a necessidade de entrevistas que antecedem o início dos encontros em grupo tanto com as chefias quanto para os integrantes do grupo para fins de conhecimento de cada um Valendo enfatizar a importância dos encontros serem realizados fora do ambiente de trabalho e a lembrança de frequência e assiduidade às sessões Castilho 2002 Já os grupos terapêuticos Castilho 2002 conceitua que são estruturados pelo facilitador que seleciona como participantes seus clientes de terapia individual ou pessoas que buscam de maneira espontânea o grupo se inscrevendo e aguardando realização da chamada para o início dos encontros grupais Existem vários critérios que o facilitador pode utilizar para a construção de um grupo como idade sexo profissões etc para a estruturação e grupos homogêneos e heterogêneos com objetivos direcionados a demanda tratada em grupo Esses grupos podem ser abertos onde havendo a saída de um integrante outro pode ocupar o seu lugar ou fechados em que há desde o contrato grupal a impossibilidade de entrada de novos integrantes ao grupo e teoricamente aqueles que se iniciaram no grupo devem permanecer até a data aprazada A atuação com grupos é uma demanda real na profissão do psicólogo e ter a possibilidade de viver a prática deste trabalho na graduação permite verificar o quanto reproduzimos no grupo situações externas porém esse contexto favorece a reflexão e a mudança Para os universitários ter um espaço específico para pensar as relações que estabelecem entre si com os conteúdos e todas as atividades que envolvem o curso constitui um momento ímpar e muito importante da formação no qual é possível conhecer e Professora Maria Flor 2024 2 42 vivenciar um trabalho em grupo com todos os fenômenos e obstáculos do processo SILVEIRA e RIBEIRO 2015 p 94 Desta forma a prática no estágio com a intervenção grupal contribui na formação do profissional e ao mesmo tempo possibilita repensar suas vivências grupais enquanto ser gregário Zimerman 2000 Ao longo deste trabalho foi analisado que durante os sete anos 2010 a 2016 do Estágio de Processos Grupais a incidência dos grupos institucionais foi maior do que dos grupos clínicos evidenciando que as práticas grupais institucionais foram realizadas em maior número em detrimento das grupoterapias denotando que a adesão à intervenção psicológica grupal na clínica ainda constitui um desafio para a profissão É preciso compreender que cada indivíduo ao entrar no ambiente de grupo apresenta sinais de retraimento cuidado e insegurança visto que estes não conseguem conceber o ambiente grupal como lugar seguro próprio para tratar de seus problemas medos e angústias mas associamno a um lugar onde devem agir de modo a reterem o que sentem e canalizam sua atenção para o fato de estarem inseridos em um grupo composto por várias identidades que diferem da sua Neri 1999 As habilidades sociais são definidas como um conjunto de destrezas sociais cognitivas e afetivas que instrumentaliza os indivíduos no decorrer do desenvolvimento orientandoos para o enfrentamento das dificuldades cotidianas Para alcançar este objetivo os indivíduos devem ser hábeis o manejo social interpessoais cognitivo e emocional em termos de comunicação de lidar com sentimentos de agressividades de ter capacidade empática além de saber tomar decisões pensar de modo crítico saber se autoavaliar consistentemente e lidar com situações de estresse expressando autocontrole efetivo DEL PRETTE e DEL PRETTE apud LEITESALGUEIRO DE CASTRO NUNES CALDAS 2018 p 78 É possível compreender que durante a realização da intervenção grupal o grupo a ser atendido pode reagir de duas maneiras distintas que possuem em comum seus extremos podendo o indivíduo uma vez tendo ciência de que está inserido em determinado grupo se fechar devido ao fato de surgirem diversos pensamentos que emanam da sua psique fazendoo se retrair e não se entregar durante o processo ou então pelo mesmo fato de tomar tal ciência de estar em grupo este se envolver demais vivendo uma relação de dependência grupal Um dos problemas da terapêutica de grupo então reside no fato de ser o grupo frequentemente utilizado para a obtenção de uma sensação de vitalidade pela submersão total no grupo ou de uma sensação de independência individual pelo repúdio total dele Essa parte da vida mental do indivíduo que é incessantemente estimulada e ativada por seu grupo é a sua herança inalienável como animal de grupo BION apud ÁVILA 2016 p 55 Os grupos em comunidades terapêuticas que atendiam a demanda de pessoas em recuperação de dependência química também aconteciam no formato dos grupos operativos com tarefas e atividades para facilitar o diálogo e a manifestação de sentimentos dos seus integrantes As grupoterapias também se enquadram no enfoque psicológico clínico pois segundo Fernandes assim como em instituições a criação e manuseio dos grupos de sala de espera apontam que A experiência tem mostrado que esses grupos são terapêuticos ajudam a pensar a tomar decisões enfim a melhorar a qualidade de vida Igualmente os grupos de acolhimento e os grupos de diagnóstico mostramse dispositivos excelentes para continência encaminhamento e primeiros contatos grupais mostrandose também terapêuticos FERNANDES 2003 p 92 No caso das grupoterapias direcionadas às crianças e adolescentes podemos compreender a eficácia do trabalho do terapeuta junto ao grupo uma vez que os integrantes possuem a necessidade de um facilitador que auxilie a propiciar a compreensão de aspectos e verdades de cada pois seus aparelhos psíquicos ainda não possuem maturação necessária para conceber tais percepções Assim o terapeuta age como facilitador do desenvolvimento da terapia da vida enfim Professora Maria Flor 2024 2 43 O grupo é um excelente espaço para junto descobrirse verdades aspectos de cada um e de todos transicionalmente diria Winnicott MELLO FILHO 1997 p 93 apud FERNANDES 2002 p 191 Um dado importante a ser colocado em pauta também é a resistência subproduto comum dentro de um setting sendo ele terapêutico ou não pois ela é atuante em cada ser humano a todo o momento movimentando diversas questões CESÁRIO 2009 Foi identificado que durante o período de sete anos foi realizado apenas um grupo de atendimento voltado aos idosos Com base nesse dado podemos levantar algumas hipóteses que justifiquem tal afirmativa visto que há no Brasil uma população relativamente grande de pessoas idosas que demandam atenção e políticas a serem implantadas para promoção de saúde e qualidade de vida entre estes Uma das hipóteses que justifica baixos índices de grupos de idosos se relaciona com a dificuldade de locomoção para ir à clínica escola que se localiza em um bairro distante das áreas centrais da cidade pois pelo fato de dependência de auxílio de terceiros e de familiares constitui um problema que impossibilita que esses idosos estejam presentes em grupos específicos visto que na maioria dos casos seus familiares possuem outras funções como trabalho estudo filhos etc que nem sempre é possível que encaminhem os idosos para o comparecimento de grupos como estes Em suma se torna de extrema importância a atenção voltada à população idosa que segundo dados têm adoecido apontando altos índices de doenças neurodegenerativas e depressão entre outras patologias Dentre as doenças decorrentes da velhice destacamse a prevalência das doenças neurodegenerativas e as tendências à depressão A depressão é um distúrbio da área afetiva ou do humor e quando incide em idosos por muitas vezes é ignorada pelos profissionais de saúde por entenderem que os sinais e sintomas depressivos seriam manifestações normais da senescência MARQUES et al 2017 p 21 Uma maneira de tratamento interventivo para atender essa demanda crescente é a criação de grupos de idosos em centros de convivências instituições de acolhimento e centros de apoio espalhados em toda cidade com finalidade de promoção de saúde e qualidade de vida desse público de maneira proporcionar o reestabelecimento de vínculos que em decorrência da idade entre outros fatores tais idosos em sua grande maioria têm perdido Verificouse que mesmo indicando a continuidade do atendimento em grupo os membros não retornavam no ano seguinte tendo como hipóteses a resistência em função troca dos estagiários sempre informada no final de cada ano A perda do vínculo e consequentemente o longo período de férias que interrompem dezembro janeiro e fevereiro em função ano letivo Podemos compreender o fenômeno vincular como elemento primordial para o estabelecimento da relação de confiança entre os membros do grupo como também em relação ao facilitador do mesmo pois a teoria da psicanálise dos vínculos que concebe tal conceitualização enfatiza que Na relação grupanalítica os vínculos entre os diversos participantes e com o coordenador ocorrem principalmente através da comunicação verbal mas são muito importantes também as outras formas de comunicação É através da comunicação que podemos iniciar a pesquisa que nos levará a associações importantes FERNANDES 2003 p 85 Nos grupos vivenciais que são institucionais não ocorreram as desistências ou desligamentos uma vez que a frequência estava atrelada à nota semestral da disciplina em função dos encontros dos grupos vivenciais acontecerem como atividade prática da disciplina Teoria e Processos Grupais Nos grupos vivenciais havia a todo o momento uma oposição ao poderautoridade dificultando bastante o processo e revelando uma resistência mais agressiva no próprio grupo Esse fenômeno é chamado de ataque ao facilitador e muito bem descrito por OSÓRIO 2003 Professora Maria Flor 2024 2 44 É um dos fenômenos mais característicos de um grupo ele se apresenta com maior força na terapia individual pelo fato de ter o reforço de alguns membros do grupo que se sentem apoiados quando atacam a autoridade Tal fenômeno se apresenta com maior intensidade nas chamadas fases de contra dependência quando os participantes sentem uma profunda necessidade de contestar contrariar e agredir a autoridade do facilitador OSÓRIO p 55 2003 Esse ataque observado originado pelos integrantes do grupo pode ser compreendido como a ativação de um mecanismo de defesa próprio do ser humano quando colocado em uma situação em que este considera ser ameaçadora No entanto comportamento deve ser identificado e trabalhado durante o processo grupal para que os participantes do grupo se desarmem e seja possível alcançálos com a finalidade específica que o grupo possui Verificouse que os grupos analisados nesta pesquisa apresentaram peculiaridades complexidade interação entre os membros revelando em si a importância da psicologia abordar cada vez mais esta modalidade de intervenção e conceber mais conhecimentos para essa área ou seja agregar mais saberes e destaque para as Teorias e Processos Grupais Os resultados referentes à realização dos grupos vivenciais puderam propiciar um olhar múltiplo para a intervenção grupal uma vez que os alunos do curso de Psicologia puderam ter o contato com a disciplina teórica de Processos Grupais e subsequentemente com os grupos vivenciais ampliando o olhar para essa modalidade de atendimento que poderá ser utilizada no futuro durante a realização de intervenções grupais em diversas áreas e campos que a Psicologia possibilita a atuação profissional CONSIDERAÇÕES FINAIS Durante toda a análise tanto dos dados e conteúdos foi possível observar que os grupos institucionais e a abordagem Operativa de PichonRivière foram às práticas mais comuns no Estágio de Processos Grupais do curso de Psicologia Revelando assim a importância dos grupos institucionais na atuação do psicólogo Sendo que a modalidade de grupo vivencial constituiu uma oportunidade dos alunos compreenderem o que é um grupo participando como membros dos mesmos e compartilhando entre si suas vivências universitárias Desta forma reafirmase a importância das práticas grupais na formação e atuação do psicólogo assim como para os usuários deste serviço na clínica e nas instituições Diante da diversidade de possibilidades no trabalho com grupos e os benefícios que esta intervenção traz aos usuários e à formação do psicólogo esta pesquisa não esgota a temática porém abre possibilidade para novos estudos e contribuições para o meio acadêmico REFERÊNCIAS ALEXANDRE M Breve descrição sobre processos grupais V7 Comum Rio de janeiro p 209219 2002 Disponível em httpwwwsinprorioorgbradminassetsuploadsfilesef37ebrevedescricao sobreprocessosgrupaispdf Acesso em 20 mai 2018 Links ÁVILA L A Grupos uma perspectiva psicanalítica 1 ed São Paulo Zagodoni 2016 p Links 5362 ttpsdoiorg75d323ad165443c59fb33b3 Professora Maria Flor 2024 2 45 52 Desafios atuais da psicologia na interação social O contexto macrossocial e a complexidade Não podemos compreender nenhuma realidade social sem conhecer o contexto sóciohistórico em que se desenvolve Um dos elementos mais fundamentais para analisar os desafios atuais da psicologia da intervenção social hoje é o fato de vivermos não só numa sociedade em transformação mas em transformação acelerada Isso nos diferencia de qualquer outra época histórica anterior Cada vez mudam mais coisas e cada vez mais rápido Basta olhar mesmo que seja por razões de proximidade e de implicação o contexto europeu Há duas décadas estamos submersos em impressionantes mudanças demográficas políticas sociais culturais tecnológicas Tais mudanças penetram mais do que nunca nos nossos lares e exercem influências extraordinárias em nossas vidas cotidianas nas formas de nos relacionarmos e em nossa maneira de pensar e de agir A complexidade das dinâmicas sociais dificulta tentativas de previsão Hoje porém basta pensar numa das grandes coordenadas das mudanças sociais como p ex a tecnológica e se chega a uma conclusão óbvia O contexto macrossocial e a intervenção social Como psicólogos é relevante termos em conta os elementos psicossociais do contexto particularmente do ponto de vista macrossocial Muitas vezes os psicólogos se definem como profissionais vinculados à esfera microssocial como se as relações interpessoais não fossem também realidades existentes nos níveis macro Neste sentido é especialmente interessante o trabalho de S Milgram cada vez mais referenciado pelas disciplinas que estudam as redes sociais intitulado The small world problem que evidencia a importância macrossocial dos vínculos entre as pessoas No decorrer das práticas de intervenção e pesquisa obviamente também estamos submersos nas representações sociais majoritárias de nosso contexto sóciocultural e do momento histórico que vivemos Quando justificamos a necessidade de determinadas intervençõespolíticas sociais estamos apegados a essas lógicas majoritárias É fundamental e em alguns âmbitos eu me atreveria a dizer que é urgente que frente a qualquer situação ou dinâmica social sobre a qual se planeja uma necessidade de intervenção aprofundamonos na análise das representações sociais que estão implicadas no contexto sóciocultural Em ocasiões anteriores propus que podemos analisar no mínimo três vertentes representativas da maioria dos fenômenos que são destinatários de políticas sociais Casas 1996 1998 a As representações existentes a respeito do grupo ou dos grupos de pessoas afetadas b As representações sobre o grau de implicação social que o fenômeno representa Tratase de um problema ou necessidade socialQue grau de urgência ou prioridade tem seu confronto e Professora Maria Flor 2024 2 46 c As representações sobre as formas apropriadas de agir Quanto às representações existentes a respeito do grupo ou dos grupos de pessoas afetadas podemos afirmar que os programas de intervenção social com exceção de alguns de prevenção primária via de regra são pensados em função de e dirigidos a grupos ou coletivos concretos sobre os quais existem imagens compartilhadas Habitualmente falamos de políticas setoriais Cada grupo ou categoria de pessoas define um setor das políticas sociais como foco de intervenção Por exemplo os ciganos os imigrantes as crianças as mulheres os doentes mentais os deficientes físicos os sem teto etc Ao longo da historia a configuração dos grupos muda mas também e talvez sobretudo muda nossa maneira coletiva de pensar a respeito de cada um desses grupos Antes pensávamos em termos de pobres agora nos socialmente excluídos antes em termos de idiotas imbecis retardados mentais e anormais agora de pessoas com necessidades especiais antes pensávamos em termos de loucos e de perigo social e agora em termos de doença mental e necessidade de apoio Não quero dizer que esta mudança de conceitos de referência não seja simbolicamente muito importante Mas é uma mudança de olhar que em si não garante uma ação adequada É preciso considerar as contribuições da psicologia social européia das últimas três décadas ao pesquisar as relações intergrupais quando os humanos nos dicotomizam em grupos nos quais nós temos um forte sentimento de identidade paios e ciganos homens e mulheres autótonos e imigrantes adultos e crianças Resumidamente então aparecem o Tendências a enfatizar as semelhanças intragrupais o Tendências a enfatizar as diferenças intergrupais o Tendências a supervalorizar o endogrupo o Tendências a subvalorizar o exogrupo o Resistências a reconhecer as semelhanças intergrupais e as diferenças intragrupais e o Resistências a supercategorizar A luta contra muitas dinâmicas de exclusão social requer ter uma visão macrossocial das relações intergrupais e uma capacidade de intervir para gerar dinâmicas opostas às assinaladas nos pontos referidos anteriormente para prevenir e problematizar estereótipos e preconceitos formas ativas de desvalorização e marginalização dos outros Recordemos que a definição de problema social proposta por muitos interacionistas simbólicos dá ênfase precisamente à percepção coletivamente compartilhada de uma realidade mais que a própria realidade Por exemplo um fato social que um considerável número de pessoas julga desagradável ou desfavorável e que segundo eles existe em sua sociedade Um problema social carece de existência objetiva ou melhor se atribui caráter problemático a certos fatos ou condutas e associando a eles significado desfavorável Segundo Vander Zanden 1977 podese até definir como problema social algo inexistente No que se refere ao grau de implicação social que o fenômeno representa podemos afirmar que o que tem justificado tradicionalmente a intervenção social nas ciências humanas e sociais tem sido o fato de que alguma coisa não anda bem na dinâmica social A partir desta percepção mais o menos consensual o único problema que restava era entrar em acordo quanto à denominação marginalização social problema social necessidade social inadaptação social desvio exclusão social e um longo etc Professora Maria Flor 2024 2 47 Entretanto nem todas as coisas que não andam bem são consideradas um problema ou necessidade social Portanto podemos inferir que é preciso restringir a intervenção social às situações legitimadas como problemáticas para cada sociedade em cada momento histórico A partir de então implicam a lógica de que é preciso um suporte público para a atuação Outras situações que afetam negativamente às pessoas seguirão sendo como problemas privados ou pelo menos sem implicações para os sentimentos de responsabilidade coletiva Casas 1996 No século XX a partir da década de 1960 observase um movimento de mudança da lógica da intervenção sobre a base de conceitos conotados negativamente para assumir que também podemos mudar coisas por isso intervir socialmente simplesmente para melhorar sem que seja preciso concretizar o que vai mal e delimitálo quantificálo atribuílo aos grupos ou categorias Desse modo instituise num primeiro momento a lógica da prevenção primária e depois a lógica da promoção da saúde do bem estar da qualidade de vida da participação social da potenciação da comunidade p ex No que tange às representações sobre as formas apropriadas de agir cabe ressaltar que ao mudar a lógica sobre onde é preciso intervir também se favorece que se mude a lógica de como é preciso fazêlo Ao longo da historia da sociedade ocidental desde a Idade Média houve um único paradigma que sustentava o pensamento sobre o que é preciso fazer frente a problemas ou necessidades sociais Tomar conta da pessoa afetada e levála a uma instituição especializada em seu problema ou necessidade No início do século XX a ciência não faz outra coisa que não seja avalizar essa lógica o que é preciso fazer é definir bem os problemas classificar adequadamente as pessoas portadoras e desenvolver um programa de intervenção especializada com pessoal especializado e em centros especializados naquele e só naquele problema É o paradigma da especialização que paradoxalmente depois de reinar durante séculos em pouco mais de duas décadas é derrubado estrepitosamente porque de todas as disciplinas científicas surgem questionamentos de raiz Mesmo que não tenha já nenhuma sustentação teórica sua inércia vai fazer com que na prática perdure de formas encobertas ou melhor descaradas Não se pode ocultar que a mudança no novo paradigma que denominarei paradigma da normalização requer investimento econômico importante e como decorrência vontade política Na prática boa parte das administrações públicas têm resistido de forma prolongada à mudança paradigmática ou pelo menos têmnas atrasado Aliás algumas têm utilizado a bandeira da desinstitucionalização como objetivo de economia do gasto público em vez de utilizála como ferramenta de mudança no processo de criação de novos serviços mais setorizados e perto do usuário O novo paradigma já não se centra no problema mas no contexto de atenção das pessoas que sofrem problemas ou necessidades Representa uma ruptura aberta com as representações sociais sobre as quais se sustentava o paradigma anterior Demanda versus potencialidade identidade atribuída ou conquistada O contexto macropsicossocial no qual nós trabalhamos também contém estereótipos e representações sociais majoritárias sobre o psicólogo em geral e sobre os profissionais da intervenção social em particular Uma ideia muito popular do que é um psicólogo e a do profissional que aplica testes e faz terapia Professora Maria Flor 2024 2 48 É preciso que nós nos perguntemos se temos feito e fazemos o suficiente para mudar este estereótipo e para que circulem outras ideias sobre nossas potencialidades Se como conjunto de profissionais nós não somos pro ativos nossa tarefa ficará delimitada pela demanda Então a identidade do psicólogo da intervenção será estritamente a que atribuam a ele aqueles que a contratarem Temos diversos exemplos sobre os quais refletir Desde há mais de uma década praticamente em todas as universidades do estado espanhol a licenciatura de psicologia inclui pelo menos uma matéria de Psicologia Comunitária habitualmente também são oferecidos pósgraduações Mas que eu saiba são bem poucas as administrações públicas que assinam contratos para trabalhar como psicólogo comunitário Uma coisa é um enfoque que muitos psicólogos consideram apropriados por determinados processos de intervenção e outra é a identidade que os que nos contratam nos atribuem Temos outro exemplo bem catalão nos EAIAs O projeto inicial definia o psicólogo dessas equipes como de orientação social A prática da contratação os programas dos concursos e outros fatores têm feito com que a orientação social dependa da vontade de cada psicólogo a identidade atribuída é diferente que a conquistada ou aspirada As dimensões nãomateriais nos processos de mudança social A história da psicologia e particularmente da psicologia social está cheia de lutas com outras disciplinas para conseguir um reconhecimento da cientificidade do conhecimento produzido e das pesquisas efetivadas Habitualmente ao longo da história temos sido acusados de estudar a realidade só com dados subjetivos e com indicadores subjetivos e temse feito muita confusão com esse tema geralmente em benefício de outros É comum a dedução de que as próprias realidades que estudam não podem ser objetivas ou existir objetivamente Academicamente e epistemologicamente esta disputa está superada Mas possivelmente nós os psicólogos não soubemos obter impacto suficiente dessa superação em benefício da profissão Não soubemos explicar suficientemente bem que uma coisa é estudar uma realidade com técnicas subjetivas e outra é que determinadas realidades existam objetivamente por muito que sejam intangíveis e que sua importância dentro dos processos de mudança social é fundamental A insatisfação dos usuários de um serviço a coesão social de um grupo ou comunidade as atitudes preconceitos estereótipos valores ou aspirações coletivas existem porém só podemos estudálas com dados aproximados que são os indicadores psicossociais de fenômenos sociais complexos que geralmente exigem técnicas subjetivas para sua obtenção E além disso sabemos perfeitamente que se um fenômeno é percebido como real o será em suas consequências Um acontecimento que necessita de maior atenção coletiva por parte da psicologia é o aparecimento da investigação científica no campo da qualidade de vida nos finais dos anos 1960 e do desafio que esta aspiração representou na teoria na pesquisa e nas políticas públicas A qualidade de vida é um conceito que aparece entre os mais prototípicos dos denominados valores pósmateriais ao longo dos anos 1960 no eixo dos interesses para estudar os processos sociais de mudança positiva Hoje já esquecemos que a qualidade de vida é um âmbito de estudo científico para Professora Maria Flor 2024 2 49 identificálo como uma bandeira de muitas utilidades que todos utilizam e manipulam com os propósitos mais heterogêneos tal e como anos atrás se fez com o conceito de progresso A qualidade de vida por definição é um fenômeno que articula condições materiais de vida e condições psicossociais de vida em relação a qualquer pessoa ou grupo comunidade ou sociedade humana Novos desafios que comportam o estudo da qualidade de vida e o trabalho profissional para sua promoção Uma definição tradicional das características do bemestar social Moix 1980 destaca o Sua objetividade ou seja o fato de se referir a condições e circunstâncias objetivas de uma realidade social o O fato de ser uma realidade externa ou seja apreciável pelos outros e o O fato de partir de uns mínimos ou seja do nível que se considera indispensável para viver dignamente Quando se começa a assumir a qualidade de vida como um campo de estudo científico por definição fica claramente consensuado Casas 1996 que é uma função do ambiente material e do contexto psicossocial em que vivem as pessoas Noutras palavras ao estudo da qualidade de vida interessa tanto a objetividade como a mal compreendida subjetividade das pessoas definida como as percepções avaliações e aspirações das pessoas em relação ao contexto social e sóciocultural no que vivem Campbell Converse Rodgers 1976 A partir de então não se pode falar de qualidade de nenhum grupo humano ou população sem ter também em conta o ponto de vista de todos os agentes sociais implicados incluídos os destinatários dos serviços Assim como não se poderá falar de qualidade de um serviço sem ter em conta as avaliações dos usuários Isto faz estremecer algumas maneiras de compreender a função social do profissional como especialista Logicamente uma coisa que pode acontecer e acontece é que as avaliações da realidade e das urgências o prioridades para encarála dos especialistas e dos cidadãos são discrepantes Na historia dos estudos sobre qualidade de vida esta questão é bem conhecida porque deu lugar a uma década inteira de debates estéreis A prevenção em positivo Uma visão em positivo sobre a realidade faz que nós pesquisadores e profissionais enxerguemos a prevenção não só como um trabalho contra os fatores de risco mas também como um trabalho a favor dos fatores de proteção ou resiliência Aparentemente essa nova perspectiva tem sido assumida rapidamente pelos profissionais da intervenção social em geral Uns dados de um estudo recente com uma mostra ampla de profissionais dos serviços sociais à infância da Comunidade de Madrid nos convidam porém a seguir refletindo Tratase de profissionais Professora Maria Flor 2024 2 50 com em média mais de oito anos de experiência no âmbito Segue uma síntese das conclusões do estudo Casas González Calafat Fornells 2000 Observase uma grande heterogeneidade de critérios entre os profissionais no momento de definir tanto fatores de risco como fatores de proteção social que se considerem relevantes para orientar a tomada de decisões e a intervenção social com crianças e suas famílias Os profissionais mostram uma grande capacidade por analisar detalhadamente os fatores de risco microssociais mas não se observa um nível equivalente em analisar os fatores de proteção nem os fatores macrossociais de risco ou de proteção Os profissionais utilizam diferentes teorias implícitas ou modelos organizadores em seu processo de identificar e decidir sobre a relevância de fatores de risco e de proteção que não parecem corresponder aos paradigmas psicológicos tradicionais psicanálise conductismo cognitivismo sistemática etc mas que parecem próprios de cada equipe já que os membros de um mesmo equipe parecem tender a dar justificativas parecidas suas escolhas e Todo isto parece sugerir a existência de um déficit de debate entre profissionais para contrapor experiências e aproximar posições conceituais como de prática profissional As políticas sociais não estão na moda nessa dinâmica planetária de globalização em que estamos submersos Também não está na moda falar de problemas sociais na televisão se as imagens que se podem oferecer não são capazes de impactar uma audiência Neste contexto nós os profissionais da intervenção social temos nos ressentido pelo tratamento das informações sobre as situações que sofrem nossos usuários por parte dos meios de comunicação social Enxergamos e nos relacionamos com seus profissionais com desconfiança e às vezes aliás como uma espécie de inimigo a evitar Em nossa sociedade em transformação acelerada é difícil imaginar mudanças notáveis nas atitudes gerais dos cidadãos ou em suas representações sociais respeito a questões que afetam os programas de intervenção social sem contar com a colaboração positiva dos meios de comunicação Mais de um psicólogo comunitário tem procurado conseguir uma atitude positiva numa comunidade determinada sobre por exemplo o acolhimento familiar de crianças em família aliena e tem visto com desesperação como a tarefa de dois meses tem sido destruída por uma telenovela o realizador da qual não tinha compreendido nada desta modalidade de acolhimento Mas acontece que o imaginário de uma parte da audiência tem percebido que um seriado de TV tem mais elementos concretos de realidade que não o discurso de um profissional Será preciso então repensar nossas colaborações e alianças com os profissionais da informação e particularmente será preciso repensar nossas redes para dinamizar mudanças sociais positivas Professora Maria Flor 2024 2 51 Anexo Transversal 20242 A cor feminicidiopdf Racismo e Indiferenca pg 21 a 50 4º a 6º Periodopdf ESTUDO PARA PROVA 1 A evolução do conceito de desenvolvimento comunitário O conceito de desenvolvimento comunitário foi evoluindo ao longo dos anos ele pode ser compreendido como uma assistência técnica e social que foi ganhando mais força principalmente depois da II Guerra Mundial Desse modo com o início da guerra fria Esse desenvolvimento comunitário passou a delimitar o empoderamento como também o auto desenvolvimento dessas comunidades Os três princípios fundamentais desse desenvolvimento são Participação Comunitária Envolvimento ativo da comunidade em todas as fases do processo Empoderamento Comunitário Fortalecer a capacidade da comunidade de tomar decisões de forma autônoma Desenvolvimento Sustentável Promover o equilíbrio entre os pilares social econômico e ambiental Os principais objetivos desse desenvolvimento são Melhoria da Qualidade de Vida Melhorar o acesso a serviços básicos como saúde educação saneamento e transporte Fortalecimento da Economia Local Estimular o empreendedorismo e o desenvolvimento de atividades econômicas locais como cooperativas e turismo comunitário Promoção da Inclusão Social Garantir acesso equitativo a oportunidades e combater a desigualdade e a exclusão Desenvolvimento comunitário no Brasil No Brasil o conceito de desenvolvimento comunitário começou a ganhar força na década de 1940 com projetos focados na produção de alimentos e na educação rural e industrial Durante os anos 1950 e 1960 movimentos como o Movimento de Educação de Base MEB impulsionaram a educação e a organização comunitária Na década de 1970 os programas foram substituídos por iniciativas voltadas à integração social priorizando ações assistencialistas Atores envolvidos no desenvolvimento comunitário Lideranças locais Elas são capazes de mobilizar e engajar os membros locais garantindo que as decisões sejam tomadas de forma participativa Sociedade civil organiza e promove iniciativas que visam melhorar a qualidade de vida da comunidade Governo facilitar o processo de desenvolvimento comunitário criando condições para a implementação de projetos locais e garantindo que esses projetos estejam alinhados com os interesses da comunidade Setor privado empresas locais ou grandes corporações podem apoiar o desenvolvimento comunitário através de parcerias e investimentos A COMUNIDADE CONCEITO E RELAÇÕES

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