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O Normal e o Patológico em Freud\nMARIA REGINA PRATA*\n\nRESUMO\nEste artigo discute o problema do normal e do patológico no discurso freudiano, a partir de dois modelos: num primeiro modelo, haveria a ideia de uma homeostase psíquica, um estado de equilíbrio dinâmico, que balizaria as concepções de normal e de patológico, as quais se diferenciariam quantitativamente. Num segundo modelo, que poderia ser pensado a partir de 1920, com a construção do conceito de pulsão de morte, Freud se separaria com o campo para além do princípio de prazer, trazendo a ideia de um desequilíbrio inerente ao sujeito.\nPalavras-chave: Freud; normal; patológico; pulsão.\n\nABSTRACT\nNormal and Pathologic in Freud\nThis article discusses the problem of normal and pathologic in Freud's work on the basis of two models: in the first one, there would be a notion of “psychic homeostasis”, a status of dynamic balance that would gauge the conceptions of normal and pathologic, quantitatively distinct one from another. In the second model, which could be seen since 1920, with the construction of Todeutsch's concept, Freud would confront the field beyond the pleasure principle, conveying the idea of a disequilibrium inherent to the subject.\nKeywords: Freud; normal; pathology; instinct.\n\n* Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; professora do Mestrado em Educação e da Graduação em Psicologia da Universidade Estadual do Sã. Maria Regina Prata\n\nRÉSUMÉ\nLe Normal et le Pathologique en Freud\nL’article discute le problème du normal et du pathologique dans l’œuvre de Freud, basé sur deux modèles: dans le premier, il y aura une notion de “homeostatis psychique”, un status d’équilibre dynamique, qui fonde les concepts de normal et de pathologique, et qui sont quantitativement différents. Dans le second modèle, qui pourrait être pensé à partir de 1920, avec la construction du concept de pulsion de mort, Freud trouve le champs au-delà du principe du plaisir, en apportant l’idée d’un déséquilibre inhérent au sujet. Mots-clés: Freud; pulsion; pathologique; normal.\n\nRecebido em 12/4/99.\nAprovado em 12/5/99. O Normal e o Patológico em Freud\n\nIntrodução\nQuando tentamos discutir as categorias de normal e patológico no campo freudiano, a primeira pergunta que se coloca é: “de que figura estava falando?”, ou melhor, “qual era o contexto em que apresentava seus problemas?”. E quando dizemos “contexto”, nos referimos ao contexto histórico quanto ao qual Freud colocava suas questões. Partindo do contexto histórico, podemos dizer que o discurso freudiano, tal como qualquer outro, tem data e lugar, o que diz também que seu pensamento foi possível em uma determinada época, na qual determinadas questões puderam ser formuladas.\n\nNo final do século XIX, havia uma atmosfera positivista no meio científico, onde se sobressaíam vertentes do pensamento cometeano nas diversas áreas de conhecimento. Um dos aspectos marcantes dessa atmosfera era a ideia de uma continuidade entre os fenômenos normais e os patológicos, que seriam idênticos entre si, salvo pelas variações quantitativas. Ou seja, haveria um limiar quantitativo ideal do corpo são, um equilíbrio homeostático do corpo, que, quando ultrapassado, deflagraria uma patologia. Qual seria a relação de Freud com essa atmosfera?\n\nA ideia do fator quantitativo como determinante do funcionamento do sistema nervoso foi explicitada pela primeira vez por Freud no “Esboço para a comunicação preliminar”, em 1892. Nesta época, ele falava que a soma de excitação (Erregungsmenge) era o fator quantitativo que deveria ser mantido constante, pelo escoamento por via associativa do acúmulo de excitação (Erregungszuwachs). Maria Regina Prata\n\nPortanto, a constância da soma de excitação seria um fator condicionante da saúde do sujeito, e o trauma psíquico aconteceria quando a tentativa de escoamento da excitação fosse dificultada. No \"Manuscrito D\", sobre a etiologia e a teoria das grandes neuroses\" (sem data, provavelmente escrito em 1894), Freud confirma isso, colocando ainda o mecanismo das neuroses como \"perturbações do equilíbrio\", decorrentes do impedimento da descarga da excitação. Essa descarga evitaria o acúmulo de excitação e garantiria o equilíbrio, conforme expressa a teoria da constância.\n\nNo entanto, a questão não é apenas dizer que o pensamento freudiano participava, de alguma forma, de um modelo homeostático: é necessário também que busquemos, mesmo no começo de seu discurso, o que se co-locava em confronto com esse modelo, para pensarmos como Freud foi aos poucos se distanciando do referencial positivista, para enfim, a partir da postulação do conceito de pulsão de morte, marcamos sua ruptura.\n\nNesta perspectiva, podemos dizer que, de um lado, há uma afinidade do pensamento freudiano com o positivismo; porém, de outro lado, com as ideias de singularidade do sujeito e da crítica à concepção de patologia como essência, alteradas à ideia de que o discurso do louco teria um sentido, Freud apresentaria diferenças em relação à sua constância.\n\nPara rastrear a pluralidade de noções e conceitos que estão envolvidos na questão do patológico, temos dois modelos como ponto de ancragem: o primeiro apresenta a ideia de uma homeostase interna, e liga a concepção de patológico em Freud ao desequilíbrio energético do psíquico. Este modelo é balizado pela afirmação da constância quantitativa e posteriormente pelo princípio do prazer. Aqui Freud estaria sendo influenciado — através de Breuer — por um contemporâneo seu, o biólogo Claude Bernard, que apre-sentava uma teoria das regulações internas, tendo como pano de fundo uma homeostase orgânica fundamental e uma ideia de equilíbrio submetida a esses moldes. O segundo modelo utilizado aponta para a virada que o dis-curso freudiano teve a partir da postulação da pulsão de morte. Pois se a partir desse conceito a ideia de um confronto de forças é ressaltada de forma ainda mais decisiva, as concepções de normal e de patológico devem colo-car-se frente a esta problemática. Com efeito, podemos questionar que se há um ponto de vista homeostático no início da obra freudiana, após 1920 ele não poderia mais ser sustentado, uma vez que na própria vida existiriam forças desarmonicas. Neste contexto, a tendência à estabilidade no aparelho psíquico também seria reavaliada, e não haveria mais sentido falarmos de um normal em relação a um patológico no discurso freudiano. O Normal e o Patológico em Freud\n\nA partir desse segundo modelo, Freud pode redimensionar vários proble-mas, tais como colocar o masoquismo como primário, repensar o término da análise tendo em vista o fato de que o desequilíbrio é inerente ao sujeito, colocar a angústia como anterior ao recalque, reaffirmar que o desam-paro faz parte da vida. E, dentre outras questões, podemos dizer que ocorre toda uma mudança no que podemos chamar de uma postura ética freudiana, que vai se colocar de frente ao fato de que o conflito é interminável. Nesta perspectiva, a ideia de cura entendida nos moldes da dissolução dos con-flitos, de um \"bem\" ou uma \"normalidade\" a ser atingida, será definitivamente repensada.\n\nFreud e a Atmosfera da Época\n\nSabemos que quando o discurso de determinado autor é lançado, os cientistas podem concordar ou discordar dele, utilizando de formas varia-das. É nesta perspectiva que Stengers nos diz que o mais fundamental na ciência é que ela seja um diálogo constante dos homens com o mundo. Para que uma hipótese seja apresentada como verdadeira, ou seja, para que digamos \"isso é científico\", é necessário haver um diálogo com alguma civilidade. Não há resposta de direito, norma ou transitória, pois qualquer respon-sata é histórica e coletiva, constituindo em cada época e para cada ciência o que está em jogo no trabalho dos cientistas interessados. Portanto, se alguém diz \"eu faço ciência\", o que ele diz é completamente nulo (Stengers, 1989).\n\nDe acordo com Stengers, o que coloca o saber psicanalítico como singu-lar é o desafio constante de Freud em produzir testemunhas fidedignas. A testemunha fidedigna se constitui como uma peculiaridade experimental em fazer o mundo testemunhar a favor ou contra uma hipótese científica, par-ticipando de uma discussão. Ela é um evento raro, porque quando os homens dialogam entre si em torno de determinada hipótese, abre-se a possibilidade de prever os resultados que serão obtidos.\n\nSe a testemunha fidedigna leva em conta a discussão da coletividade em torno de suas propostas, é importante que falemos um pouco de qual era a coletividade ou a atmosfera científica em que Freud estava inserido. As-sim, podemos perguntar: quais eram os aspectos marcantes na atmosfera do final do século XIX? Maria Regina Prata\n\nfoi permeado pela \"mentalidade positivista\", que tinha a \"observação experi-mental\" direta ou instrumental como um dos seus pressupostos fundamentais.\n\nNesta perspectiva, para que o experimento científico tivesse de cará-ter inquestionável de uma verdade, deveriam ser estabelecidas relações de cau-sa e efeito: o dado da observação deveria se converter num \"resultado de uma medida\"; portanto, num \"dado numérico\". Então, o saber científico chegaria a sua total perfeição quando a relação entre os dados numéricos correspondentes a causa de um fenômeno e os correspondentes aos efeitos desta causa conduzisse na formulação de uma \"lei geral da natureza\" (Entralgo, 1963).\n\nA partir dessa ideia da \"ciência no laboratório\", três pontos fundamentais do estudo do patológico estavam presentes no final do século passado: o fisiopatológico, o etiopatológico e o anatomoclínico. Dito de forma simplificada, do ponto de vista fisiopatológico, predominante na medicina além, a vida pode manifestar-se no laboratório como um fluxo energético e material peculiarmente configurado, e o acidente vital chamado enfermidade é conhecido cientificamente quando o patologista obtém \"a medida das alterações\" de cada processo mórbido. Do ponto de vista da etiopatologia, os processos estudados pelos microbiologistas e pelos toxicólogos, assim, para a dorina etiopatológica, quando não há infecção microbiana, não há uma verdadeira enfermidade. Pois a enfermidade seria sempre um caso particular da luta pela vida, um combate entre o organismo infectante e o hóspede.\n\nFinalmente, no pólo anatomoclínico — especialmente cultivado pela medicina francesa —, a lesão anatômica teria um caráter fundamental. Nesse sentido, a patologia se sucederia no organismo em decorrência de uma lesão física. Embora Pinel não considerasse a anatomia patológica, Xavier Bichat inspirou-se em sua nosologia para juntar a \"observação anatômica à clínica\", reunindo duas figuras heterogêneas do saber, de modo que \"o grande corte na história da medicina ocidental data do momento em que a experiência clínica transformou-se na visão anatomoclínica\" (Foucault, 1987). A partir da visão anatomoclinica, a anatomia tem seus tecidos simples, que por suas combinações formam os órgãos. Nesta perspectiva, podemos dizer que as experimentações laboratoriais adquiriram uma grande importância na ciência do século XIX, e Freud participou desse contexto. A Fisiologia Física\n\nNo livro A nova aliança (1984), Prigogine e Stengers nos dizem que no começo do século XIX produziu-se uma “efervescência experimental”, quando foram descobertos em laboratório “efeitos novos”, que impuseram aos físicos a ideia de que o movimento não produzia somente modificações da disposição espacial dos corpos (ou seja, do valor da energia potencial).\n\nFoi nesse contexto que surgiu a termodinâmica, nascida em 1824 com o trabalho de Sadi Carnot sobre a força motriz do fogo, ou seja, a verificação de que o fogo é capaz de mover e transformar as coisas. Essas modificações são irreversíveis, pois nem toda energia calórica resultante da queima, por exemplo, do carvão, se transforma em energia mecânica capaz de mover algo. Desta forma, se não há recuperação das coisas que se queimam, é preciso que a ciência nova não pretenda descrever uma idealização, podendo também conceber as perdas: a energia, embora conservando-se, também se dissipa (Prigogine e Stengers, 1984).\n\nA primeira descoberta da termodinâmica é que, nas transformações térmicas que acontecem em sistemas isolados do exterior, a energia se conserva. Assim é formulado o primeiro princípio da termodinâmica: “o estado total de energia através das fronteiras de um dado sistema é igual à variação de energia desse sistema” (Reif, 1965: 122).\n\nNo entanto, como vimos, nem toda energia é utilizada, ou seja, há algo que se perde. Esse fato aponta para o segundo princípio da termodinâmica, que formula que em qualquer transformação produzida num sistema isolado, a entropia desse sistema — ou seja, a grandeza que mede seu grau de desordem — aumenta positivamente até um grau máximo. Quando esse processo pára, o sistema permanece em estado de constância. \n\nPortanto, o segundo princípio da termodinâmica expressa a tendência de um sistema caminhar para a desordem, ou melhor, para uma situação em que haja uma distribuição cada vez mais uniforme de matéria e de energia no sistema. Esse nivelamento da energia traz como perspectiva final a morte térmica do universo, quando toda energia tiver sido degradada e o processo cósmico chegar à paralisação (Favre, 1996).\n\nAssim, as ideias de conservação, dissipação, desordem, distribuição de energia, ou de forma geral, as descobertas feitas no campo da energética e o relevo dado às questões decorrentes disso, faziam parte do contexto científico do século XIX. Mas como Freud participou dessa atmosfera efervescente? Podemos dizer que muitas vezes Freud utilizou uma linguagem que trazia ressonâncias com a termodinâmica de sua época. Isso pode ser constatado no “Projeto para uma psicologia científica”, de 1895, ou ainda pela formulação do princípio da constância, que apresenta a ideia de que o aparelho psíquico busca manter sua excitação interna num nível constante, tentando conservar a energia, expressando uma lei de regulação no psíquico, onde se procura manter um equilíbrio em relação ao uso da energia. Os exemplos são inúmeros, mas neste espaço cabe somente indicá-los. Podemos apontar ainda que mesmo a ideia da conversão histérica, em que a energia psíquica é convertida no corpo, provocando um ataque, uma paralisia, também apresenta a questão da transformação da energia, presente no campo discursivo da época de Freud.\n\nNo Seminário 2 - O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1978), Lacan esclarece que Freud concebe o aparelho psíquico como uma máquina, que busca retornar ao estado de equilíbrio. Diz Lacan:\n\n\"Do início ao fim da obra de Freud, o princípio do prazer se exercita assim — o sistema nervoso é, de certa maneira, diante de uma estimulação trazida a este aparelho vivo, o representante da necessidade do homeostato, do regulador essencial graças ao qual ele vive e persiste, ao qual vai receber tudo o que tenderá a levar à excitação de volta ao mais baixo (...)\" (Lacan, 1987: 106-7).\n\nLacan pergunta o que quer dizer esse \"mais baixo\". E responde: o mais baixo da tensão pode querer dizer duas coisas: de um lado, remontar-se a um certo equilíbrio do sistema, e de outro, que leva todas as tensões a zero. No entanto, essa morte não é a morte dos seres vivos, mas a vivência humana, a intersubjetividade:\n\n\"(...)\n\nAssim, a máquina procura manter-se em existência, o que apontaria ao primeiro princípio da termodinâmica, o da conservação de energia — \"para que haja algo no fim é preciso que tenha havido, pelo menos, no começo\" (Lacan, 1987: 108).\n\nJá o segundo princípio da termodinâmica é enunciado no fato de que quando a máquina faz seu trabalho de manutenção, uma parte da energia é gasta, ou seja, há perda. Isso designaria a entropia nos moldes freudianos, e apontaria a pulsão de morte.\n\nÉ importante dizer que Freud aproveitou o fisicalismo de seu tempo a seu próprio modo, ou seja, utilizou-o como matéria-prima para suas elaborações discursivas. Neste contexto, parece-nos que Freud não se deteve rigorosamente nos conceitos fiscalistas, tal como a física da termodinâmica os apresentava, mas os utilizou como fonte de inspiração à sua concepção de aparelho psíquico.\n\nO Laboratório Freudiano\n\nNa introdução deste artigo, dissemos que Freud teria sido influenciado por Claude Bernard, um dos representantes proeminentes da tradição médica do século passado. Claude Bernard trazia a ideia de uma continuidade entre os fenômenos normais e patológicos, na qual toda doença teria uma função normal correspondente, da qual ela seria apenas a expressão perturbada, exagerada, diminuída ou anulada. Por outro lado, Claude Bernard falava também de um antagonismo ou luta entre forças da criação vital e da destruição, em que o objetivo do organismo seria a busca da estabilidade interna, uma homeostase que garantisse seu funcionamento ótimo. Mas o que é a homeostase? Maria Regina Prata\nO conceito de homeostase, que foi nomeado posteriormente por Cannon no livro A sabedoria do corpo (1929), tenta dar conta dos processos fisiológicos de auto-regulação do organismo, por meio dos quais o corpo tenderia a manter constante a composição dos elementos do meio sanguíneo. \"A homeostase seria um equilíbrio dinâmico, característico do corpo vivo, e não a redução da tensão interna a um nível mínimo\" (Laplanche e Pontalis, 1986: 460). Nesse sentido, falar em \"sabedoria do corpo\" significa dizer que o corpo vivo está em estado de permanente equilíbrio controlado, de estabilidade mantida contra as influências perturbadoras de origem externa. Essa ideia de um funcionamento ótimo parece ter influenciado Breuer. Paralelamente a Breuer, mesmo que não tivesse compartilhado totalmente suas ideias, Freud mantinha uma ideia de forças em luta no sujeito, e também uma certa ideia de auto-regulação no psíquismo. Admitamos na introdução que, para Freud, o excesso de excitações não elaboradas poderia desencadear uma patologia. No entanto, sabemos também que o que desencadeia um trauma em um sujeito pode não desencadear em outro. Então, podemos dizer que o problema da homeostase é relevante no pensamento freudiano, mas essa homeostase seria \"singular\": não haveria um \"padrão de normalidade ideal\". De forma, nele se inscreveram, sem dúvida, a esperança freudiana de poder, na pesquisa ou na clínica como um espaço experimental neutro, que busca a cura das doenças. Nesta perspectiva, no trabalho em que comenta o caso clínico \"Dora\", Freud fala dessa ambição de controle e verificação, própria de sua época:\n\n\"Foi sem dúvida espinhoso ter que publicar resultados de minhas investigações, de natureza surpreendente e pouco atraente, sem que meus colegas tivessem a possibilidade de controlá-las. Não é menos espinhoso agora me permitir em expor ao juízo público uma parte do material que me permitiu obter aqueles resultados (...)\" (Freud, 1905: 7 - grifo meu). \n\nAssim, a clínica freudiana do final do século XIX e do começo do século XX parece ter se preocupado com um campo experimental de verificação,\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 Maria Regina Prata\nbuscando na clínica os meios pelos quais as asserções seriam provadas e controladas. É neste contexto que podemos aproveitar o que Chertok e Stengers nos falam:\n\n\"A diferença entre ética e não-ética, para Freud, não passava, portanto, por uma teoria que explicasse a ação da 'confiança expectante': poder doá-la, 'dispor dela', em suma, manipulá-la como Pasteur manipulava a ação de seus germes ou como o químico manipulava a reação, acendendo-a ou esfriando-a. Talvez estejamos hoje demasiadamente esquecidos, neste século XX, em que o ideal científico está associado à noção de 'revolução', de descobrir- tás teórico-experimentais que causem uma reavivamento, como a do térmico quântico ou a do ADN, de que, no final do século XIX, triunfaram a química e o pasteurismo, ciências agnósticas quanto àquilo que manipulavam, prioridade quanto à eficácia de sua manipulação. E as experiências 'laboratoriais' de Charcot, fazendo desafiar paralisias, inscreviam-se nesse ideal de racionalidade ativa, em que a razão não remete a compreender os mecânismos, mas a seu controle, em que o 'horror do unintelligível', como dizia Vendel, é aplicado pela possibilidade de submeter-lhe ao controle. Da mesma forma, nele se inscreveram, sem dúvida, a esperança freudiana de poder, pela trauma passado, e a definição que Freud deu à técnica analítica, centrada na resistência e na transferência\" (Chertok & Stengers, 1990: 72 - grifos meus).\n\nMas, se por um lado as experiências laboratoriais de Charcot e a hipnose expressam um ideal de cura e de controle, que com o decorrer da obra freudiana foram abandonados, por outro, a postulação do conceito de inconsciente, bem como o fato de a loucura ter um sentido a ser interpretado, distanciaram Freud do ideal do positivismo. Nesse sentido, podemos dizer que o discurso freudiano não era completamente sincôrnico em relação a seus contemporâneos.\n\nA Patologia no Início do Percurso Freudiano\nSabemos que, com a técnica da hipnose, Charcot iniciou a clínica da neurose histérica. Foi com Charcot que Freud aprendeu a distinguir os distúrbios orgânicos ligados a uma afeição nervosa orgânica, dos distúrbios histéricos: uma vez que a paralisia histérica produzia sintomas globais que não faziam\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 Maria Regina Prata\nsentido do ponto de vista funcional, ela não poderia ser explicada por uma causa orgânica. Nesta perspectiva, Charcot deu a Freud o germe da hipótese etiológica, permitindo que este último definisse o método catártico sob hipnose como um instrumento terapêutico conveniente ao tratamento da histeria. Em 1888, no artigo intitulado \"Histéria\", Freud coloca que a palavra \"histeria\" origina-se da hystera dos gregos e significa útero, provindo dos primeiros tempos da medicina, quando a histeria ainda era ligada ao sexo feminino. Na Idade Média, ela desempenhou um papel histórico-cultural significativo, constituindo o fundamento das possessões pelo demonío, da bruxaria, bem como o motivo dos exorcismos e das fogueiras (Freud, 1888). Freud inicia a discussão dizendo que \"a histeria é uma neurose no sentido mais estrito do termo\". Ele continua:\n\n\"A histeria repousa por completo nas modificações fisiológicas do sistema nervoso, e sua essência deveria expressar-se mediante uma fórmula que leva em consideração as relações de excitabilidade entre as funções que partem deste sistema\" (Freud, 1888: 45 - grifo meu). \n\nPodemos ressaltar dois aspectos nessa passagem. O primeiro se remete à preocupação de Freud, peculiar em sua época, com as \"modificações fisiológicas\". Logo adiante, ele responde que uma fórmula histopatológica deste tipo ainda não foi descoberta, e que devemos nos contentar em defini-la a partir de um ponto de vista nosográfico, ou seja, pelo conjunto dos sintomas apresentados.\n\nPortanto, este primeiro aspecto aponta para a preocupação freudiana com o campo da nosografia. Nesta perspectiva, Freud critica o agrupamento indiscriminado da histeria com os \"estados nervosos em geral\", a neurasthenia, muitos estados psíquicos e diversas neuroses que não foram destacadas das doenças nervosas, o que valoriza o trabalho de Charcot, que sustentava que \"a histeria era um quadro clínico nitidamente circunscrito e bem definido\". Assim, a constituição de um campo nosográfico, ou, dito de outro modo, a distinção sintomatológica entre os estados patológicos, bem como o problema da escolha da neurose, são preocupações que acompanham a clínica freudiana.\n\nO outro aspecto que pode ser apontado na passagem citada é a questão da excitabilidade. Assim, após percorrer a sintomatologia da histeria, Freud coloca que há uma influência dos processos psíquicos sobre os processos físicos do organismo, caracterizada por um \"excedente de\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 excitação\",. Esse excedente poderia funcionar ora como inibidor, ora como estimulador, podendo deslocar-se com grande liberdade no sistema nervoso:\n\n\"Junto aos sintomas físicos da histeria, cabe observar uma série de perturbações psíquicas, e que certamente algum dia se descobrirá as alterações características desta enfermidade, mas que a análise no momento real come\u00e7ou. Trata-se de altera\u00e7\u00f5es no curso e na associa\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es, de inibi\u00e7\u00f5es na atividade voluntária, de acentuando e sufocamento de sentimentos, etc., que se resumem, em geral, como umas modifica\u00e7\u00f5es na distribui\u00e7\u00e3o mal, sobre o sistema nervoso, das magnitudes de excita\u00e7\u00f5es est\u00e9veis\" (Freud, 1888: 54 - grifo do autor).\n\nO aspecto quantitativo aqui revelador: é o excesso de estímulos que explica a patologia histérica. E o tratamento consiste na remoção das fontes psíquicas que impelem os sintomas histéricos, através de uma sugestão feita ao sujeito, que est\u00e1 em estado de hipnose. Nesta perspectiva, a cura deve modificar a distribui\u00e7\u00e3o das excita\u00e7\u00f5es do sistema nervoso. Por outro lado, \u00e9 importante destacar aqui o relevo cada vez maior que representa a rememora\u00e7\u00e3o freudiana.\n\nPodemos observar também que a ideia do excesso quantitativo como determinante da patologia, ou então, a ideia de que o psíquico deveria manter sua energia interna t\u00e3o baixa quanto poss\u00edvel, vem lembrar a assertiva de Claude Bernard, de que a regula\u00e7\u00e3o do organismo funda-mente-s na estabilidade do meio interior.\n\nNo entanto, n\u00e3o podemos reduzir o pensamento de Freud a um \"biologismo\", at\u00e9 porque Freud nos falava de um sujeito do inconsciente e n\u00e3o de um indivíduo, de um aparelho psíquico e n\u00e3o de um organismo. Então, o que vale sublinhar \u00e9 que alguns aspectos do pensamento de Freud participaram da atmosfera \"bernardiana\" e cometeana de sua \u00e9poca, em contrapartida, seu pensamento aponta o tempo todo para um campo que transcende essas limites.\n\nO enfoque quantitativo no \"Projeto para uma psicologia científica\", de 1895\n\nEstamos falando da questão da quantidade de excita\u00e7\u00f5es que atingem o sujeito, presente desde o começo da obra freudiana. Um outro texto que merece ser indicado como relevante nesta problemática \u00e9 o \"Projeto para uma psicologia científica\", escrito em 1895.\n\nSegundo Freud, o sistema nervoso submete-se \u00e0 recep\u00e7\u00e3o de quantidades de energia do interior do corpo - a Qn de ordem interna, intercelular - e do exterior. O ac\u00famulo de energia interna \u00e9 identificado como o desprazer, e a redu\u00e7\u00e3o com o prazer. Para Freud, o aparelho neur\u00f4nico \u00e9 capaz, al\u00e9m de armazenar essa energia, de transmiti-la e transform\u00e1-la.\n\nPaes e Barros (1971) ressaltam que o princ\u00edpio quantitativo em Freud \u00e9 sobretudo uma lei de intensidade. Pois o princ\u00edpio de const\u00e2ncia da soma de excitação remonta \u00e0 tend\u00eancia do aparelho ps\u00edquico em manter constante n\u00e3o a quantidade de energia neur\u00f4nica, mas seu n\u00edvel de intensidade. Assim, \u00e9 um princ\u00edpio que define a \"estabilidade de equil\u00edbrio do sistema nervoso, em rela\u00e7\u00e3o às perturba\u00e7\u00f5es do nivel de investimentos\" (Paes e Barros, 1971). Qualquer eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de investimentos provocada pela entrada de quantidades de investimentos ser\u00e1 compensada pela descarga dessas quantidades. Seria, nesse sentido, um princ\u00edpio de \"modera\u00e7\u00e3o\".\n\nMas se o princ\u00edpio quantitativo em Freud define a estabilidade do aparelho psíquico em rela\u00e7\u00e3o ao seu n\u00edvel de investimentos, \u00e9 importante falar-mos um pouco dessa \u00faltima no\u00e7\u00e3o. De acordo com Freud, da combina\u00e7\u00e3o da teoria da quantidade (Q) com o quadros de neur\u00f4nios, \"obtem-se a representa\u00e7\u00e3o de um neur\u00f4nio investido, que est\u00e1 cheio de Qn, q ue poderia, segundo a sua lei do investimento estar vazio\" (Freud, 1895: 342 - grifos meus). O investimento da energia corresponde, segundo Freud, ao procedimento de pensamento (Laplanc, 1986: 203). contato. Quando tal passagem acarreta uma diminui\u00e7\u00e3o permanente dessa resist\u00eancia, h\u00e1 uma facilita\u00e7\u00e3o. A mem\u00f3ria remonta justamente as diferen\u00e7as nas facilita\u00e7\u00f5es entre os neur\u00f4nios imperme\u00e1veis.\n\nFinalmente, \u00e9 necess\u00e1rio indicar a distin\u00e7\u00e3o estabelecida no \"Projeto para uma psicologia científica\" entre energia livre e ligada, que se refere a diferentes formas de escoamento de energia. Freud fala que a energia tende a uma descarga imediata e completa no aparelho neur\u00f4nico, conforme manda o princ\u00edpio da in\u00e9rcia, o que caracteriza o processo prim\u00e1rio do funcionamento neur\u00f4nico, de energia livre ou m\u00f3vel. Mas Freud fala também do processo secund\u00e1rio no funcionamento ps\u00edquico, onde a energia est\u00e1 ligada, ou seja, represada em determinados neur\u00f4nios ou sistemas neur\u00f4nicos. Por um lado, como j\u00e1 vimos, essa liga\u00e7\u00e3o acontece devido \u00e0 exist\u00eancia das barreiras de contato entre os neur\u00f4nios, que impedem ou limitam a passagem de energia; e, por outro lado, devido \u00e0 a\u00e7\u00e3o exercida por um grupo de neur\u00f4nios investidos num n\u00edvel constante (o ego), sobre outros processos que se desenvolvem no aparelho neur\u00f4nico. O caso do funcionamento ligado da energia corresponde, segundo Freud, ao processo de pensamento (Laplanshe e Pontalis, 1986).\n\nSegundo Laplanche e Pontalis, a filia\u00e7\u00e3o entre o processo prim\u00e1rio e o secund\u00e1rio encontra um crit\u00e9rio comum para uma sucess\u00e3o real, na ordem vital, como se o princ\u00edpio de const\u00e2ncia estivesse sucedido ao princ\u00edpio de in\u00e9rcia: ela s\u00f3 se conserva em n\u00edvel de um aparelho ps\u00edquico, onde existem dois tipos de processo, dos tipos de funcionamento mental (Laplanche e Pontalis, 1986).\n\nPara concluir esse ponto, vale dizer que quando falamos em energia, excita\u00e7\u00e3o, descarga, tens\u00e3o, ou melhor, do vocabul\u00e1rio que Freud utilizava nessa \u00e9poca, \u00e9 importante ressaltarmos que o autor teve a influ\u00eancia do pensamento de Helmholtz, cuja escola procurava procurar sustentar que todos os fen\u00f4menos naturais s\u00e3o explic\u00e1veis, em \u00faltima inst\u00e2ncia, em fun\u00e7\u00e3o de for\u00e7as f\u00edsicas e qu\u00edmicas.\n\nFreud e Breuer\n\nPor volta de 1893, Freud e Breuer escreveram um artigo sobre os mecanismos ps\u00edquicos dos fen\u00f4menos hist\u00e9ricos, intitulado \"Estudos sobre a histeria\", que continha cinco casos cl\u00ednicos de Freud, com um cap\u00edtulo com considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas escrito por Breuer e um cap\u00edtulo sobre a psicoterapia da histeria, de Freud. Maria Regina Pitta\n\nNo livro em que estuda a vida e a obra de Josef Breuer, Hirschmüller (1991) coloca que Freud e Breuer enfatizaram a \"estrutura e função de um órgão ou sistema de órgãos em relação ao organismo inteiro\", procurando, de um lado, estudar as \"forças psicoquímicas\" que mantinham o organismo em movimento e, de outro, explorar o funcionamento do mecanismo desse sistema. Os instrumentos de suas trabalhos foram dados pelos métodos da histologia, da bioquímica e da experimentação fisiológica, sendo que Freud teria se detido mais nos métodos da anatomia microscópica centrada no estudo das estruturas, e Breuer teria preferido a visão dinâmica inerente à experimentação animal.\n\nA ideia central dos \"Estudos sobre a histeria\" é que, no organismo, a energia psíquica tende a se manter num nível constante. Sabemos que essa ideia remonta aos progressos da física no século XIX, que são alinhados pela formulação do \"princípio de constância da força\", bem como seu desenvolvimento por Helmholtz e por Joule, que apresentaram a substituição do conceito físico de força pelo de energia (Hirschmüller, 1991: 221)¹.\n\nDepois disso, a noção de energia foi transposta para outros domínios científicos além da física. Em psicologia, essa transposição dirigiu-se sobretudo a Fechner; e, em fisiologia, para a escola vienense de neurofisiologia. Contudo, longe de constituir uma inovação, essa aplicação de fórmulas energéticas aos processos psíquicos correspondia às correntes comuns da época, e Breuer e Freud se inseriam nesse contexto (Hirschmüller, 1991).\n\nNa primeira parte da \"Comunicação preliminar\", os dois autores apresentam os objetivos do trabalho. De saída, eles expressam um interesse pela variedade de formas e sintomas da histeria, dizendo que a observação causal levou ao estudo de suas causas desencadeantes.\n\nSeguindo o caminho de esclarecimento dos quadros clínicos, Freud e Breuer chegam à \"histernia traumática\". Sabemos que foi Charcot quem descreveu esse tipo de histeria, na qual os sintomas somáticos, como as paralisias, apareceram consecutivamente a um traumatismo físico, após um período de latência. Contudo, os sintomas não eram provocados pelo choque físico ou mecânico, mas pelas representações ligadas a ele, que surgiam no decorrer de um estado psíquico determinado (Laplanche e Pontalis, 1986: 282). É nesta perspectiva que Freud e Breuer estabelecem uma continuidade com esta explicação de Charcot, colocando que existe uma analogia patológica entre a histeria comum e a neurose traumática, o que justificaria o termo \"histéria traumática\". No caso de neurose traumática, a causa atuante não é a lesão corporal, mas o afeto de horror. Portanto, para Freud, na histeria traumática é o trauma psíquico que produz resultados e não o trauma mecânico (Freud, 1893). E no caso da histeria comum, não é raro que se encontrem, no lugar de um grande trauma, vários traumas parciais, cuja soma pode exteriorizar um efeito traumático. Portanto, o trauma psíquico atua como um \"corpo estranho\", que, mesmo muito tempo após sua intrusão, tem uma eficiência presente. A partir desta perspectiva, os autores afirmam que \"os histéricos sofrem sob o peso de reminiscências\" (Freud e Breuer, 1893).\n\nAssim, as recordações correspondem a razões que não foram suficientemente ab-reagidas. Uma das razões para que isso ocorra aponta para o recalque, mecanismo pelo qual o sujeito esquece o ocorrido, o inibindo e sufocando do seu ensaio.\n\nMas o que parece importante ressaltar é ainda a questão da quantidade de excitações a que o aparelho psíquico está submetido, sua suportabilidade e ela é a capacidade da terapia de resgatar as emoções traumáticas. Freud ratifica essas afirmações:\n\n\"Segundo se evidencia na 'Comunicação preliminar', que incluímos no início deste livro, consideramos os sintomas histéricos como os efeitos e restos de excitações de influência traumática sobre o sistema nervoso. Tais restos não ficam pendentes quando a excitação originária foi drenada por ab-reação ou trabalho de pensamento. Aqui já não se pode negar a levar em conta umas quantidades (ainda que não mensuráveis), a ocorrência e processo como se uma soma de excitação chegava ao sistema nervoso se transpunha em um sintoma permanente, na medida em que não se empregou em ações externas em proporção a sua quantidade. Pois bem, na histeria estamos habituados a descobrir que uma parte considerável da 'soma de excitação' do trauma se transmuta em um sintoma permanente corporal\" (Freud e Breuer, 1893: 105 – grifo meu).\n\nEntão, a distribuição de excitações na histeria é geralmente uma distribuição instável: o patológico liga-se portanto à instabilidade da distribuição da soma de excitação no aparelho psíquico. No próximo ponto, tentaremos discutir se há uma ideia de homeostase psíquica no discurso freudiano dessa época.\n\nO Problema da Homeostase\n\nIndicamos que Claude Bernard considerava o estado patológico como um distúrbio de um mecanismo normal, uma variação quantitativa, uma exageração ou atenuação dos fenômenos normais. CanGuilehm (1978) reevaluou essa assertiva, sublinhando que o estado patológico era uma qualidade nova em relação ao estado fisiológico.\n\nPor um lado, se a variação quantitativa que distingue o normal do patológico em Freud lembra a afirmação de Claude Bernard de que na saúde e na doença existem apenas variações de grau, por outro lado é importante lembrar que Freud nos fala também da questão da singularidade do sujeito como um fator decisivo na causa da neurose. Isso aponta para a radical diferença entre a \"racionalidade psicanalítica\" e a \"racionalidade biológica\". Uma vez que não haveria um limite munícipal separado o campo do normal e do patológico em Freud: o limite seria peculiar à capacidade de \"perlabração psíquica\". No entanto, mesmo com o fato de Freud considerar essa diferença, o aparelho teria como função e finalidade manter-se em existência, o que significaria manter constante seu nível energético. Segundo Laplanche, esse nível de constância seria menos elevado do que tudo o que cerca o aparelho: o limite teria por objetivo proteger um nível interno de energia, que é incomensurável com as energias extremas, cuja violência é capaz de destrui-lo (Laplanche, 1992).\n\nEm 1971, no texto intitulado \"Thermodynamic and evolutionary concepts in the formal structure of Freud's metapsychology\", Paes e Barros colocam que o princípio freudiano da constância da soma de excitação nervosa seria estruturalmente idêntico à teoria de Claude Bernard da constância do meio interno. Pois é baseado nos trabalhos sobre as doências funcionais do sistema nervoso de Jackson, Bastian, Charcot e Oppenheim, que Freud vai tentar explicar a sintomatologia da histeria, em função das alterações da excitalidade nas diferentes partes do sistema nervoso. É assim que -- de acordo com Paes e Barros —, influenciado através de Breuer pelas concepções de Claude Bernard sobre a constância do meio interno, Freud teria proposto, em 1893, o “Princípio de constância da excitabilidade do sistema nervoso”.\n\nO Abandono da Hipnose e a Entrada da Teoria da Defesa\n\nSegundo Roudinesco, os trabalhos do final do século XIX sobre a histeria e a hipnose estavam impregnados de noções tais como “divisão da personalidade”, “dupla consciência”, “estranho”, etc. Breuer, Freud e Janet tinham partido desse campo, formulando a hipótese de uma coexistência, no psiquismo, de dois grupos de fenômenos, ou mesmo de duas personalidades que poderiam ignorar-se mutuamente. Assim, a ideia da clivagem (Spaltung) caminhou ao lado do conceito de inconsciente (Roudinesco, 1989).\n\nA época da catarse de Breuer foi marcada pela tentativa de focalizar diretamente o momento em que o sintoma se formava, esforçando-se por reproduzir os processos mentais envolvidos nessa situação, a fim de dirigir-lhes a descarga ao longo do caminho da atividade consciente. Recordar e ab-reagir era o que se visava. Contudo, se por um lado, o método catártico pareceu não influenciar as condições causais da histeria, por outro, Freud observou que nem todos os pacientes eram hipnotizáveis, e a partir disso perguntou: o que é que nestes pacientes impossibilita a hipnose? Seu questionamento levou aos limites da utilização da hipnose como uma técnica de tratamento, na qual a descoberta da resistência ocupou um lugar privilegiado (Birman e Nicéas, 1982). A partir de então, a resistência passou a ser o obstáculo a ser superado, como demonstra o artigo intitulado “A psicoterapia da histeria” (1893). É neste artigo que a virada com Breuer e com a hipnose começa a ser ilustrada.\n\nO problema principal com que Freud teria que lidar era como detectar as recordações patológicas sem utilizar a hipnose. Para isso, a força da resistência no paciente que contrariava a chegada de recordações teria que ser superada. As representações que o paciente não queria recordar eram de natureza penosa, ou seja, capazes de produzir desprazer. E era contra esse desprazer que a defesa psíquica era montada.\n\nAssim, era a defesa psíquica a responsável pela criação dos grupos psíquicos separados, e não o acontecimento que se tornou traumático por um estado especial da consciência (o estado hipnótico), como formulava Breuer. Nesta perspectiva, o campo da histeria foi homogenizado sob a dominância da ideia de defesa (Birman e Nicéas, 1982), onde o “não saber” dos histéricos suscitava a questão de onde estaria a verdade. Maria Regina Pinta\n\nricos era na verdade um “não querer saber”, ou seja, apontava para algo que não podia ser consciente.\n\nA partir disso, Freud criou um “artifício técnico”, a pressão na testa, a fim de fazer o paciente recordar as lembranças bloqueadas, para depois ab-reagir-las. Segundo Freud, com essa técnica o paciente se livraria do sintoma histérico, reproduzindo afetivamente suas impressões causadoras (Freud, 1893). Nessa época, a transferência era considerada um obstáculo ao tratamento, uma “falsa ligação”, devendo ser tornada consciente e eliminada, uma vez que substituía algo que ocorria no campo representativo do paciente e permitia o seu camuflamento. Desta forma, ao invés de rememorar a experiência, o paciente a revivia na relação terapêutica (Birman e Nicéas, 1982).\n\nSegundo Stengers, o abandono da hipnose foi significativo. Pois o que coloca o saber psicanalítico como singular é o desafio constante de Freud em produzir “testemunhas fidedignas”. Nesse contexto, a hipnose foi o ponto de partida das indagações freudianas acerca da clínica da psicanálise, uma vez que o sujeito em tratamento passa a ser uma testemunha fidedigna de seu próprio mal. Sob a hipnose, o sujeito diria sua verdade, e é a volta da verdade que será o agente terapêutico (Stengers, 1989).\n\nNo entanto, para além do fato de todos os pacientes serem hipnotizáveis, Freud duvidou da validade das lembranças ressuscitadas pelo método hipnótico, uma vez que muitas dessas lembranças tratavam de cenas reais de traumatismo sexual precoce. Portanto, as lembranças poderiam não ser “bastante verdadeiras”, para fazer desaparecer definitivamente os sintomas. Assim, a hipnose acabou funcionando como um obstáculo ao empreendimento da verdade ou, dito de outro modo, ela não transformava o paciente numa testemunha “verídica” (Chertok e Stengers, 1990). Neste contexto, com a O Normal e o Patológico em Freud\n\njulgava (Chertok e Stengers, 1990). Desta forma, as ambições de neutralidade na clínica estavam sendo ameaçadas. Foi esse risco que abriu o caminho, como sabemos, para a constatação da transferência. Este último fenômeno marca não a ruptura, mas a transformação, a produção de um novo instrumento que integra em sua definição a deficiência da hipnose.\n\nNo próximo ponto, veremos como a ideia de conflito estava presente na concepção de patologia em Freud.\n\nConflito Psíquico e Patologia\n\nA ideia de forças em oposição esteve presente no século XIX em vários campos do saber. No campo da filosofia física, o princípio de conservação de energia apresentava a ideia de forças químico-físicas inerentes à matéria, redivididas a forças de atração e repulsão. Uma vez que a ideia de conflito é uma constante na obra freudiana, podemos dizer que Freud de algum modo se inspirou e foi influenciado pela fisiologia física, pela medicina e pela biologia de seu tempo. Por exemplo, para Claude Bernard, o conflito apresentava-se entre as forças de criação vital e de destruição orgânica como uma dualidade que não excluía a união. Bichat também nos falava que vida era um conjunto de forças que resistam à morte, sob a forma de um antagonismo oppositionista.\n\nEm Freud, o conflito psíquico é constitutivo do sujeito, uma vez que ele baliza não só a concepção do aparelho psíquico, como também de patologia. De acordo com Laplanche e Pontalis, a ideia de conflito esteve presente desde o começo de sua obra, e de uma maneira geral foi utilizada quando exigências contrárias entravam em oposição (Laplanche e Pontalis, 1986). Assim, desde “Estudos sobre a histeria” (1893), o conflito já aparecia na clínica de Freud: quando o tratamento aproximava-se das recordações patogênicas, uma resistência era criada contra as representações incompreensíveis. A partir de 1895-6, quando a atividade defensiva foi reconhecida como o mecanismo principal na etiologia da histeria e generalizadas as outras psiconeuroses (as psiconeuroses de defesa), o sintoma foi definido como o produto de um compromisso entre dois grupos de representações que agiam como forças de sentido contrário.\n\nEm 1900, o conflito reaparece atuando sobretudo nos sonhos, nas formas de funcionamento energético dos sistemas consciente e inconsciente: o inconsciente exerce uma ação permanente nos sonhos, de acordo com sua livre descarga de energia, contrária à força dos sistemas pré-consciente/consciente. te, que tentam vincular essa energia. Mas o que nos parece importante marcar nessa concepção de sujeito acoplada ao inconsciente é que a neurose é o resultado de um conflito entre os sistemas psíquicos; melhor ainda, um conflito entre suas formas de funcionamento. Assim, o sistema inconsciente exerceria uma ação permanente nos sonhos e nos processos psíquicos, o que exigiria a ação de uma força contrária, da censura pré-consciente.\n\nA Entrada do Conceito de Pulsão\n\nNo caminho construído até agora, falamos pouco do conceito de pulsão (Trieb). Qual é sua importância para nosso tema? Em 1894, Freud utilizou o termo “pulsão” em relação às tensões endógenas que buscavam soluções, e, em 1895, em relação aos estímulos endógenos que se colocavam no corpo como força. Mas foi somente em 1905, quando escreveu o artigo “Três ensaios de teoria sexual”, que este conceito de demarcação do psíquico com o corporal foi enunciado claramente.\n\nPara Freud, a sexualidade distingue-se da ideia de sexo identificada exclusivamente aos órgãos genitais; o corpo é constituído de zonas erógenas, passíveis de prazer sexual. Esta sexualidade está presente na infância, o que já expressa uma diferença de Freud para com sua época. Assim, desde a infância há um objeto e um alvo sexual atuantes. No entanto, durante o desenvolvimento, podem acontecer desvios da pulsão sexual, ou melhor, da escolha de objetos da pulsão sexual.\n\nA ideia de “desvio” parte do pressuposto de que haveria um caminho correto ou normal a ser seguido, a partir de uma ordem dada. O próprio Freud nos fala disso, de “desvios em relação a uma norma suposta” (Freud, 1905: 84). Então, se por um lado Freud utiliza a terminologia “norma”, por outro parece que ele mesmo já adianta que a norma é uma norma suposta em dado lugar, em dado tempo.\n\nAo remontar-se a Aristóteles no Banquete de Platão, Freud indica que a pulsão sexual se distingue de algo biológico: segundo Freud, por causa deste mito, as pessoas estariam romanticamente acostumadas à união entre homens e mulher. Contudo, existem uniões que não obedecem a essas regras, as uniões dos “invertidos”. Isso acontece porque o próprio alvo da pulsão sexual é variável, porque a pulsão transcende a ordem biológica.\n\nAssim, a degenerescência dos invertidos não pode ser considerada como uma causa determinante da inversão. Contudo, mais do que isso, em 1915, uma nota de rodapé acrescentada aos “Três ensaios”, Freud coloca que 58\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 todos os seres humanos seriam capazes de fazer uma escolha homossexual. Desta forma, a partir do homossexualismo, ele vem relativizar o que seria normal e o que seria patológico na escolha de objetos pulsionais:\n\n“A experiência ensina que entre os insanos não se observam perturbações da pulsão sexual diferentes das achadas nas pessoas sãs, em raças e em sociedades inteiras” (Freud, 1905: 135).\n\nE o que nos interessa: “Os insanos apresentam somente este desvio aumentado (...)” (Freud, 1905: 135). Então, se por um lado Freud ultrapassa o pensamento de sua época, ao relativizar o que é normal e o que é patológico em relação à sexualidade, por outro ele vem retomar a condição quantitativa na causa das doenças. Assim, a explicação da histeria passa pelo ponto de vista quantitativo, no sentido do excesso de excitações pulsionais que devem ser descarregadas. Diz Freud:\n\n“O caráter histórico permite individualizar uma quota de recalque sexual que ultrapassa em muito a medida normal; um aumento das resisten- cias contra a pulsão sexual” (Freud, 1905: 135 – grifo do autor).\n\nPortanto, entre a pressão pulsional e seu antagonismo à sexualidade, a doença oferece um caminho de fuga e de evasão do conflito, que transforma os impulsos pulsionais em sintomas. Conflito Pulsional e Patologia\n\nEm 1910, Freud escreve um artigo intitulado “A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão”, no qual ele organiza claramente o conflito de pulsões que estão a serviço da sexualidade, da consequência da satisfação sexual — as pulsões sexuais — e pulsões cujo objetivo é a autoconservação — as pulsões do ego. Portanto, com a primeira teoria das pulsões, a instância defensiva egóica coincide com um dos pólós pulsionais, que se confrontam com as pulsões sexuais. Mais tarde, com o segundo dualismo pulsional, o conflito será entre as pulsões de vida e as pulsões de morte.\n\nÉ importante retomar a relação que a ideia de conflito mantém com a problemática da patologia. Neste contexto, no caso da primeira teoria pulsional, Freud coloca que a natureza das neuroses é oriunda do conflito entre as pulsões. Assim, no artigo “O interesse pela psicanálise” (1913), ele diz:\n\n“(...) A fórmula final é que a psicanálise chegou quanto à natureza das neuroses é a seguinte: o conflito primordial do qual surgem as neuroses é um conflito entre as pulsões sexuais e as pulsões que conservam o ego. As neuroses representam uma dominação mais ou menos parcial do ego pela sexualidade, depois do ego ter fracassado na tentativa de sufocá-las” (Freud, 1913: 184).\n\nDesta forma, as neuroses ligam-se ao confronto dos interesses da sexualidade com os da autoconservação. Este confronto desencadearia o recalque, que por sua vez originaria a produção sintomática. Em outras palavras, o estado patológico remete-se a um conflito que causa desprazer, que aumenta o nível de energia no sujeito e, por consequência, produz o recalque. Neste contexto, algumas perguntas podem ser colocadas: será que poderia existir um equilíbrio de forças no sujeito? E se existisse, seria ele sinônimo de saúde? E ainda: o que é o desequilíbrio? Será que o desequilíbrio faz parte do sujeito? Ora, mesmo havendo uma certa postura freudiana em busca do equi- líbrio, através da ideia de \"reconciliação de forças”, da ideia de compromisso, Freud indica que o equilíbrio é sempre ameaçado, e um equilíbrio constantemente controlado, ou seja, uma estabilidade mantida contra as perturbações. Essa questão será retomada adiante.\n\nRetomando a Clínica Psicanalítica\n\nVimos que no final do século XIX Freud se deparou com os limites da hipnose como técnica de tratamento. Com o abandono da hipnose, a tarefa passou para a descoberta, com as associações livres do paciente, do que ele deixava de recordar. Aqui a resistência deveria ser contornada pela interpretação, e a transferência era um obstáculo ao tratamento, uma falsa ligação, que deveria ser tornada consciente e eliminada. A ab-reação foi substituída pelo trabalho que o analisando teria para superar a censura nas associações livres, mas o enfoque sobre as situações da formação do sintoma ainda era mantido (Freud, 1914). \n\nNo caso clínico “Dor”, Freud já havia reconhecido o problema da transferência, embora ainda considerasse esta última como um obstáculo ao tratamento, quando não fosse identificada e transformada em aliada. Mas é por volta de 1909, nas “Cinco lições de psicanálise”, que Freud sublinha o papel da transferência como aliada, apontando que somente no espaço transferencial 60\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 os sintomas poderiam ser solucionados. E entre 1912 e 1915, Freud retoma a questão da transferência no tratamento, quando escreve vários artigos sobre a técnica psicanalítica.\n\nSegundo Freud, todo ser humano adquire um meio específico de se con- duzir na sua vida amorosa. Isso resulta num ou vários \"clichês estereótipos\", que são repetidos e reimpressos de maneira regular na trajetória da vida. Esses clichês também se dirigem à figura do psicanalista, o que faz com que o analisando o insira em uma das séries psíquicas que formou. Mas o que parece particularmente instigar Freud é o fato de a transferência surgir tam- bém como uma poderosa resistência ao tratamento, o que desemboca na ideia de que há \"forças cuja meta são a saúde e aquelas que a contrariam\" (Freud, 1912: 101). É a partir desse contexto que Freud fala que há uma transferência positiva e uma negativa no tratamento, respectivamente, de sentimentos afetuosos e hostis. Nas formas curvas de psiconeuroses, os dois tipos de transferência encontram-se juntos, expressando a ambivalência de sentimentos (Freud, 1912).\n\nPodemos dizer que a ideia da transferência ou sintoma traz consigo uma ampliação verificionista, expressando uma tentativa de localizar o fatortrau- mático, provando assim as hipóteses sobre a patologia do sujeito. Quando Freud abandona a tentativa de colocar em foco um problema como um momento- to específicos, sugerindo uma \"atenção flutuante\" do analista frente a tudo que escuta, uma mudança estratégica parece se configurar: do lado do ana- lista, este deve deixar-se levar pelas associações livres; e do lado do analista, este deve deixar sua atenção focalizada em suspenso e ao mesmo tempo tentar dissolver as resistências criadas no campo da análise, ou seja, tudo o que pode impedir o acesso à verdade do inconsciente.\n\nMas falar em atenção flutuante, num método de trabalho que procura não privilegiar a priori qualquer elemento do discurso do analisando, buscando colocar o analista o mais livre possível em sua própria atividade inconsi- ente, é colocar em jogo a questão da implicação do analista no processo analítico. Estamos bem distantes aqui da clínica freudiana do final do século XIX, segundo a qual tentava-se criar um sistema fechado e neutro para que se obtivesse a cura. Agora, a psicanálise não quer mais provar algo: a ambição verificionista se desloca para dar ênfase à relação intersubjetiva entre o analista e o analisando e aos obstáculos ao curso da fala. Nesse sentido, não importa nem mesmo se o analisando vai discordar ou concordar com a interpretação do analista: o que importa é que se mantenha o trabalho de associações livres no campo transferencial. Por fim, é importante dizer que essas modificações técnicas, que dão relevo aos obstáculos e às resistências no campo da transferência, vêm re- alçar o tema da repetição na psicanálise. Este é o tema do próximo ponto.\n\nA Repetição na Transferência\n\nNo artigo \"Recordar, repetir e elaborar\" (1914), Freud coloca que o analisando começa o tratamento por uma repetição na transferência, trazen- do para primeiro plano a problemática da compulsão à repetição: \"(...) se no trajeto posterior esta transferência [positiva] se torna hostil e hiperinterna, e por isso necessita de recalquentamento, o recordar dá lugar incid- ao ao atuar. E a partir deste ponto, as resistências consomem a sequência do que se repetiu. O enfermo extrai do arsenal do passado as armas com que se defende da continuação da cura, e que é preciso arrancar-se peça por peça\" (Freud, 1914: 153).\n\nPara transformar a compulsão à repetição em recordar, é necessário um trabalho do analisando junto ao analista:\n\n\"É preciso dar tempo ao enfermo para concentrar-se na resistência, não cone- cida para ela; para rebolhar-la, prosseguindo o trabalho em desafio a ela e obedecendo à regra analítica fundamental. Somente no apoio da resistência se descobrem, dentro do trabalho em comum com o analisando, os impulsos pulsionais recalcados que a alimentam e que em virtude dessa vivência o paciente se convence de sua existência e poder\" (Freud, 1914: 157).\n\nFreud completa dizendo que é justamente esse trabalho de perclaração que, por mais árduo que seja para o analisando, efetua neste último as maiores mudanças, e permite a distinção do tratamento psicanalítico do tratamento por sugestão. Teoricamente, a perclaração pode ser equiparada à ab-reação das quantidades de afeto estranguldas pelo recalquemento, sem a qual o tratamento hipnótico seria infrutífero. Stengers coloca que é preciso entender essa ideia de \"doença artificial\" como uma doença de laboratório, purificada e identificável, como os corpos químicos do século XIX. Pois a neurose comum escapa à identificação: o analisando queixa-se de tudo e o psicanalista não tem meios de distinguir o que são suas queixas legítimas. Em contraste, a neurose de transferência está inteiramente centrada em torno do analista, fazendo com que este último possa decifrar o tipo de mecanismo em jogo na transferência, podendo en- tender as armas inconscientes do analisando. Portanto, a cena analítica seria o lugar de uma operação de purificação. No entanto, parece que não pode- mos equiparar a ideia de um laboratório com moldes positivistas do começo da obra freudiana, como o apresentado aqui. A busca freudiana de testemu- nhas fidedignas se deslocou: Freud agora ressalta que não quer provar nada*, sabe que a psicanálise não é imparcial, ou melhor, que o psicanalista não é imparcial, indicando isso através da ideia da contratransferência.\n\nPodemos concluir, então, dizendo que até há uma ideia de luta entre uma maneira de compreender Freud entre 1912, 1914, mas também — e isso é sobretudo o que nos interessa — indícios de que Freud já está repensando esse lugar de \"experimentador\". Ele mesmo demonstra que não gosta muito dessa ideia de laboratório:\n\n\"O recordar, tal como era feito na hipnose, não podia menos do que provocar a impressão de um experimento de laboratório. O repetir, no curso do trata- mento psicanalítico, segundo essa técnica mais nova, equivale a convocar um fragmento da vida real, e por isso não em todos os casos pode ser inofensivo e cerente de perigo. Daí se arranca todo o problema da que amplitude é inevitável: o 'agravamento durante a cura'\" (Freud, 1914: 153-4 — grifo meu).\n\nEntão, o repetir na análise não é inofensivo, pode inclusive agravar o estado do analisando, ou seja, Freud suspeita que há coisas que escapam ao seu controle. Aqui já começa a ser configurado, através de indícios, o campo Maria Regina Prata\n\ndo incontrolável, dos riscos e limites da análise, com o qual Freud vai se confrontar a partir de 1920.\n\nA Metapsicologia\n\nNarcisismo e Destinos Pulsionais\n\nPor volta de 1915, com os artigos metapsicológicos, Freud incrementou o pólo econômico do psíquismo. Assim, ele retornou a questão do traumatismo, aprofundou-se nos destinos das pulsões, deu relevo ao conceito de recalqueamento, ampliou o conceito de inconsciente e a noção de representação, falou de um narcisismo estruturante do sujeito, colocando que o ego contém libido, o que vinha problematizar a primeira teoria pulsional. Como conseqüência disso tudo, a questão da patologia foi mais enriquecida.\n\nEm 1914, Freud escreve um artigo intitulado \"Introdução ao narcisismo\" à localização dos investimentos da libido no ego, que posteriormente pode ser transmitido aos objetos. O narcisismo surge deslocado em direção a um ego ideal (Idealich), que se acha possuído de perfeição e valor, identificado com um ideal narcisico de onipotência (a megalomania atua nesta registro). Num segundo momento, o sujeito submeter-se-á ao ideal do ego (Ichideal), que delineia para o ego um ideal diferente de sua própria imagem. Segundo Freud, o desenvolvimento da estrutura egóica consiste no afastamento do narcisismo primário, ocasionado pelo deslocamento da libido em direção a um ideal do ego imposto de fora.\n\nNesta perspectiva, as formas de investimentos libidinais relacionam-se diretamente à maneira pela qual o psíquismo vai se estruturar, bem como aos diversos quadros patológicos. Assim, por volta de 1916, na conferência \"Os caminhos da formação do sintoma\", Freud confirma esse raciocínio:\n\n\"Não nos basta uma análise puramente qualitativa das condições etiológicas, Ou, para expressá-lo de outro modo: uma concepção meramente dinâmica\n\neconômico (...). É decisivo o fator quantitativo para a capacidade de resistên-cia da contração da neurose. Interessa a quantidade de libido não investida que uma pessoa pode considerar flutuante, e a quantidade da fração de sua libido que é capaz de desviar do sexual até as metas de sublimação. A met\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 64 final da atividade da alma, que no qualitativo pode definir-se como aspiração à ganância de prazer e à evitação do desprazer, se coloca, para a consideração econômica, como a tarefa de dominar os volumes de excitação (massas de estímulo) que operam no interior do aparelho psíquico, e de impedir seu êxtase gerador de desprazar\" (Freud, 1916: 341-2 – grifos do autor).\n\nFreud ressalta vários pontos importantes aqui. Primeiro, dá relevo ao fator econômico na contração da neurose. Esse fator econômico se remete às formas de investimento da libido, juntamente com o domínio das quantidades de excitação, que devem ser mantidas num nível suportável. Por outro lado, ele aponta que cada sujeito pode dar destinos diferentes às quantidades de excitação, originando, por exemplo, uma sublimação.\n\nEssa ideia de que o sujeito pode dar diferentes destinos às quantidades de excitação prepara a discussão trazida por Freud em 1915 no artigo \"As pulsões e seus destinos\". Segundo Freud, a pulsão é um estímulo constante, ou melhor, ela atua como um impacto constante, o que expressa uma de suas características principais, a força (Drang), que representa a medida de exigência de trabalho da pulsão, sendo portanto um fator quantitativo.\n\nUm outro componente também se conecta ao conceito de alvo ou meta (Ziel). O alvo da pulsão é sempre a satisfação, que só pode ser alcançada cancelando o estado de estímulo na fonte da pulsão. Assim, a satisfação é a redução da tensão provocada pela força. Embora esta meta seja invariável, os caminhos que levam a ela são diversos, de modo que a pulsão possui vários alvos mais próximos ou intermediários, combinados uns com os outros.\n\nO objeto da pulsão (Objekt) é a coisa através da qual ele atinge seu alvo. Ele é variável, e também pode ser uma parte do próprio corpo. Um laço extremamente íntimo é cristalizado da pulsão com o objeto e através da fixação, que póde firmar à sua mobilidade e características das patologias.\n\nFinalmente, a quarta característica da pulsão é sua fonte (Quelle). Freud coloca que, por fonte, entende-se o processo somático, interior a um órgão ou a uma parte do corpo, cujo estímulo é representado na vida psíquica pela pulsão.\n\nPodemos observar que os quatro componentes pulsionais — a força, o alvo, o objeto e a fonte — obedecem ao funcionamento do princípio do prazer. Pois se o que se coloca como pano de fundo de toda essa discussão é o fato de que o aparelho psíquico tende a fugir do desprazer, a pulsão vem, naturalmente, sublinhar essa tendência da vida psíquica. Assim, a fonte\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 65 corporal produz uma tensão, que se coloca como força e exige um trabalho, um movimento que evite o desprazer para atingir o alvo pulsional, ou seja, a satisfação. E a coisa pela qual este alvo pode ser obtido é o objeto. Do mesmo modo, a ideia de patologia que Freud nos apresenta nessa época obedece ao funcionamento do princípio de prazer, que é ainda mais Enrique-cido com o relevo do pólo econômico.\n\nDe acordo com Freud, o sujeito pode dar quatro destinos às pulsões: a reversão ao oposto; o retorno em direção ao eu; o recalqueamento e a sublimação. Essas vicissitudes são consideradas como modalidades de defesa contra as pulsões. Nessa época, a sublimação é considerada como uma dessexualização da pulsão sexual, uma mudança no alvo pulsional. Vejamos os outros destinos pulsionais.\n\nA reversão da pulsão ao seu oposto é dividida em dois processos seqüenciais: a mudança da atividade para a passividade e a reversão sem conteúdo. O primeiro processo pode ser exemplificado através dos pares de opostos sadismo-masoquismo e escopofilia-exibicionismo, nos quais a reversão afeta as finalidades das pulsões. A definitiva ativa (por exemplo: torturar, olhar) é substituída pela finalidade passiva (ser torturado, ser olhado).\n\nEm conjunto com a transformação da finalidade, ocorre a mudança de objeto. O objeto é abandonado, enquanto da energia que era produzido-o sujeito. Em sequência, uma pessoa estranha é mais uma vez procurada como objeto, e com a mudança de finalidade, assume um papel ativo. Vejamos, no próximo ponto, a relação do recalque com a problemática da patologia.\n\nRecalqueamento e Patologia\n\nO conceito de recalqueamento (Verdrautung) está presente em toda a obra freudiana, e é na articulação com a clínica que ele vai se impondo, desde os primeiros tratamentos com histéricos, em que Freud verificou que os pacientes não tinham à sua disposição determinadas recordações devido a resistência psíquica.\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 66 Mas foi em meados de 1915 que Freud aprofundou a discussão do recalamento, discutindo suas relações com os conceitos de pulsão, a noção de representação e o conceito de inconsciente.\n\nSegundo Freud, o recalamento é responsável pela clivagem do psíquico em instâncias, “o inconsciente, e o pré-consciente/consciente”. O recalamento é um dos destinos possíveis que o representante ideativo (Vorstellungrepräsentanz) da pulsão pode sofrer, consistindo na tentativa de manter este impulso distante da consciência. O motivo deste afastamento seria que este impulso causaria desprazer e prazer ao mesmo tempo, mas em lugares diferentes. Como a pulsão não pode escapar de si própria, se a força motora do desprazer for mais vigorosa do que a do prazer, acontece o recalamento.\n\nNesta perspectiva, podemos pensar a relação da patologia com o recalamento, uma vez que este último é um processo que permite o ad-vento do inconsciente, a clivagem do psíquico em instâncias, mas também, o recalamento também será a condição da patologia, da criação de uma fobia ou de uma neurose. Nesse sentido, podemos perguntar qual seria a especificidade do patológico em Freud, uma vez que o recalamento faria parte da “normalidade”.\n\nMas essa questão pode ser encaminhada a partir das próprias palavras de Freud, que indicou que uma certa “dose” de recalamento seria “normal” nos sujeitos, e que tudo dependia das “magnitudes de excitações”: nesse sentido, a neurose seria conduzida a um recalamento “excessivo” das pulsões sexuais. Contudo, é necessário lembrar que quando falamos na noção de “normal”, nos remetemos imediatamente às ideias de “regra”, de “regular”, e em Freud não há uma regra que se aplique a todos: o normal e o patológico são sempre singulares, não há uma norma absoluta no discurso freudiano.\n\nPor fim, vale discutir um pouco mais o problema da quantidade em Freud. Destacamos sua preocupação com a questão do que é desprazeroso e prazeroso para o sujeito, ou seja, com a primazia do princípio do prazer. O aumento da quantidade de excitação interna seria sentido como desprazer e seu rebaixamento como prazer. Um aspecto importante nessa questão é o problema do equilíbrio de forças no aparelho psíquico. Pois uma vez que Freud ressalta que as representações são investidas constantemente pela pulsão, só podendo ser mantidas no inconsciente se uma força igualmente constante for exercida em sentido contrário (Laplanche e Pontalis, 1986), há aqui a ideia de um equilíbrio dinâmico de forças no psíquismo.\n\nAssim, o modelo de patologia utilizado nessa época é incrementado com o pólo econômico do aparelho psíquico, pelo qual Freud deu mais complexidade ao tema do recalamento, aos destinos pulsionais, aos investimentos do libido, à noção de representação e ao conceito de inconsciente, e parece ser ainda um modelo homeostático, na medida em que, como destacamos, há a ideia de um equilíbrio de forças a ser buscado.\n\nNo entanto, quando, por exemplo, Freud reconhece uma repetição em ato na análise ou quando fala que o ego contém libido, não podendo se contrar por as pulsões sexuais, ele já começa a se deslocar para o campo do que se dirige para além da representação, que o desencadeará, a partir de 1920, no conceito de pulsão de morte. Assim, se este último conceito vem afirmar que a vida produz as condições em que ela mesma pode ser destruída, esse aspecto também permitirá uma reavaliação do modelo de normal e patológico no pensamento freudiano.\n\nMais Além\n\nRumo à Pulsão de Morte\n\nNo título do artigo de 1920 — “Mais além do princípio do prazer” — Freud indica seus propósitos: ele está interessado nos fenômenos dos quais o princípio do prazer não consegue dar conta, ou melhor, que não obedecem ao objetivo do aparelho psíquico, ao baixar as tensões que causam desprazer. Ao contrário, existem experiências que ultrapassam esse objetivo, e é em busca delas que ele fará seu caminho.\n\nInicialmente, Freud fala da relação do princípio da constância com o princípio do prazer. Assim, depois de citar a tendência à estabilidade desen-volvida por Fechner, que relaciona a estabilidade e a instabilidade ao prazer e ao desprazer, ele fala que o trabalho psíquico tenta manter constante ou tão baixas quanto possível as excitações internas, para ressaltar, em seguida, que o princípio do prazer decorre do princípio de constância.\n\nNão obstante, Freud percebe que se há no aparelho psíquico uma tendência ao princípio do prazer, nem sempre se consegue chegar a essa harmonia. Ele então busca os eventos que contradizem este princípio, desenvolvendo seu raciocínio em torno dos impasses clínicos constituídos pelos fenômenos de repetição: os sonhos traumáticos, a transferência em que o paciente repete em vez de lembrar, e o fort da, em que a criança inscena o desaparecimento e reaparecimento de sua mãe jogando para longe um cartela e fazendo-o voltar.\n\nMas são os fenômenos da compulsão à repetição que apresentam um\nrepetição desprazerosa e vêm expressar um poder demoníaco na vida psíquica. Segundo Freud, essa compulsão à repetição destrona o princípio do prazer, parecendo mais originária, mais elementar e mais pulsional do que ele. Essa característica da compulsão é o que conduzirá Freud ao conceito batizado de pulsão de morte.\n\nPara chegar à elaboração teórica desse conceito, Freud retoma, a partir de Breuer, as concepções de energia livre e energia vinculada, colocando que as cargas de energia apresentam-se sob duas formas no aparelho psíquico: um jogo de investimento que flui livremente e pressiona no sentido da descarga, e um investimento quiescente. A noção de ligação é relacionada aqui à capacidade pulsional de constituir ou não formas organizadas. Como a compulsão à repetição nem sempre obtém êxito nessa tentativa de ligação, Freud é levado a buscar algo que aponte para o campo de ação do princípio do prazer. Esse algo é a pulsão de morte.\n\nDe acordo com Freud, as pulsões de vida e pulsões sexuais se opõem ao trabalho das pulsões de morte, e são definidas pelo estado-belicamento de formas mais organizadas. A vida de cada sujeito consiste no conflito dessas duas classes de pulsões, enquanto a morte significa a vitória das pulsões de morte. As duas pulsões sempre aparecem mescladas, sendo que as pulsões de vida seriam ruidosas e as pulsões de morte silenciosas. Freud aqui está mais próximo do pensamento de Bichat, ao afirmar que “a meta de toda a vida é a morte” (Freud, 1920: 38), vendo nesse movimento algo da ordem de um retorno a um estado anterior das coisas.\n\nÉ interessante notar que, para fazer sua especulação sobre a pulsão de morte, Freud busca analogias na biologia, remontando-se a Hering, que, como sabemos, estudou uma importante função de auto-regulação do organismo, a respiração. Foi a partir dele que Breuer distinguiu as duas formas de energia e concebeu o princípio de constância como um regulador homeostático. Contudo, não é curioso que a própria ferramenta — a pulsão de morte — que faz com que Freud ultrapasse a ideia de homeostase, o faça utilizar a biologia, retomar a Breuer, e fazer comparações com Hering? Isso justificaria, portanto, o fato de Freud relacionar em 1920 princípio do prazer e com princípio de Nirvana: \"Temos discernido que a tendência dominante da vida psíquica, e talvez da vida nervosa em geral, a de rebaixar, manter constante, suprir a tensão interna do estímulo [o princípio de Nirvana, segundo a terminologia de Barbara Lowl] do qual é expressão o princípio do prazer, esse constitui um de nossos mais fortes motivos para ter na existência das pulsões de morte\" (Freud, 1920: 54).\n\nOra, se o objetivo de Freud é buscar as experiências que se dirigem para mais além do princípio do prazer, por que então ele relaciona, no penúltimo capítulo do artigo de 1920, os princípios de prazer, nirvana e constância? No último capítulo, ao falar dos impasses que a repetição compulsiva traz ao trabalho analítico, ele retoma o retorno da quiescência do mundo inorgânico ocasionada pela função do princípio do prazer, para afirmar ainda que o princípio do prazer parece estar a serviço das pulsões de morte.\n\nO que parece, portanto, é que no texto \"Mais além do princípio do prazer\" Freud não rompe ainda definitivamente com a ideia de homeostase, mas traz as ferramentas e os índices que permitirão essa ruptura. Assim, quando ele ilustra a segunda dualidade das pulsões, através da associação vital dos organismos multifacetados, parece-nos que esta aproximação com a biologia é utilizada para, em páginas seguintes, criar uma discussão que transcende os próprios limites da biologia, que é a discussão trazida pelo conceito de pulso de morte.\n\n Freud, Entropia e Estruturas Disipativas\n\nVimos anteriormente os dois princípios da termodinâmica, e para retona-los de forma simplificada podemos dizer que o primeiro princípio remonta à conservação de energia em sistemas isolados. Como não se pode utilizar toda a energia num sistema, haveria o problema de harmonizar as perdas com a conservação energética, e é a partir dessa questão que chegamos ao segundo princípio da termodinâmica, no qual em qualquer transformação a entropia do sistema aumenta num grau máximo, e quando esse processo pára, o sistema permanece em estado de constância.\n\nSe o segundo princípio da termodinâmica aponta para a tendência de um sistema caminhar para a desordem e degradação, até uma situação em que haja um nivelamento da energia que traria como perspectiva final a morte térmica, a ligação com o conceito freudiano de pulso de morte seria imediata. No entanto, para que consideremos essa ligação entre pulso de morte e entropia — ou melhor, entre pulso de morte e morte térmica — ausência de trabalho, alguns cuidados têm que ser tomados.\n\nEm primeiro lugar, cabe perguntarmos se Freud, em \"Mais além do princípio do prazer\", pensou a pulsão de morte tendo como inspiração o segundo princípio da termodinâmica. Vimos que nesse último artigo ele parece ainda não ter rompido completamente com a ideia de homeostase, até porque ele relacionou os princípios de prazer, Nirvana e constância, relação essa que será superada com o texto \"O problema econômico do masoquismo\" (1924).\n\nDissemos que Freud utilizou a medicina, a biologia e a termodinâmica de sua época a seu próprio modo, o que quer dizer que não podemos fazer uma transposição exata dos termos usados na física para a psicanálise, até porque só podemos falar de um aparelho psíquico em sua relação com o mundo se quisermos ser mais claros em sua relação com o outro. Assim, o sistema freudiano é feito de trocas, de investimentos e de retiradas de energia com o mundo. Portanto, o segundo princípio da termodinâmica já não se aplica energia, essa energia retornaria ao sujeito insistentemente, na tentativa de se ligar a algum grupo de representações.\n\nContudo, se a pulsão de morte não quer dizer realmente a morte em si mesma, ou a morte térmica, é necessário lembrarmos que se a pulsão de morte funcionar livremente, sem produzir ligações com as pulsões de vida, ela realmente pode levar à morte. No último parágrafo do texto \"A degnação\" (1925), justamente quando Freud destaca que a função do julgamento corresponde à dualidade pulsão de morte x pulsão de vida, expressando a positividade do trabalho das pulsões de morte e remetendo à degnação essas pulsões, ele ressalta também o negativismo dos psíquicos, que é resultado de uma desfusão das pulsões efetuada através da retirada dos componentes libidinais, ou seja, da retirada de Eros e do trabalho solitário de Tânatos. Esse aspecto mortificante não alimentaria a ideia de entropia na segunda dualidade pulsional? Parece, então, que temos que pensar se Freud nos deu meios para ultrapassar a leitura fiscalista da pulsão de morte, e se isso é viável quando falamos do negativismo dos catanônicos, do abandono da vida, do suicídio, etc.
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O Normal e o Patológico em Freud\nMARIA REGINA PRATA*\n\nRESUMO\nEste artigo discute o problema do normal e do patológico no discurso freudiano, a partir de dois modelos: num primeiro modelo, haveria a ideia de uma homeostase psíquica, um estado de equilíbrio dinâmico, que balizaria as concepções de normal e de patológico, as quais se diferenciariam quantitativamente. Num segundo modelo, que poderia ser pensado a partir de 1920, com a construção do conceito de pulsão de morte, Freud se separaria com o campo para além do princípio de prazer, trazendo a ideia de um desequilíbrio inerente ao sujeito.\nPalavras-chave: Freud; normal; patológico; pulsão.\n\nABSTRACT\nNormal and Pathologic in Freud\nThis article discusses the problem of normal and pathologic in Freud's work on the basis of two models: in the first one, there would be a notion of “psychic homeostasis”, a status of dynamic balance that would gauge the conceptions of normal and pathologic, quantitatively distinct one from another. In the second model, which could be seen since 1920, with the construction of Todeutsch's concept, Freud would confront the field beyond the pleasure principle, conveying the idea of a disequilibrium inherent to the subject.\nKeywords: Freud; normal; pathology; instinct.\n\n* Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; professora do Mestrado em Educação e da Graduação em Psicologia da Universidade Estadual do Sã. Maria Regina Prata\n\nRÉSUMÉ\nLe Normal et le Pathologique en Freud\nL’article discute le problème du normal et du pathologique dans l’œuvre de Freud, basé sur deux modèles: dans le premier, il y aura une notion de “homeostatis psychique”, un status d’équilibre dynamique, qui fonde les concepts de normal et de pathologique, et qui sont quantitativement différents. Dans le second modèle, qui pourrait être pensé à partir de 1920, avec la construction du concept de pulsion de mort, Freud trouve le champs au-delà du principe du plaisir, en apportant l’idée d’un déséquilibre inhérent au sujet. Mots-clés: Freud; pulsion; pathologique; normal.\n\nRecebido em 12/4/99.\nAprovado em 12/5/99. O Normal e o Patológico em Freud\n\nIntrodução\nQuando tentamos discutir as categorias de normal e patológico no campo freudiano, a primeira pergunta que se coloca é: “de que figura estava falando?”, ou melhor, “qual era o contexto em que apresentava seus problemas?”. E quando dizemos “contexto”, nos referimos ao contexto histórico quanto ao qual Freud colocava suas questões. Partindo do contexto histórico, podemos dizer que o discurso freudiano, tal como qualquer outro, tem data e lugar, o que diz também que seu pensamento foi possível em uma determinada época, na qual determinadas questões puderam ser formuladas.\n\nNo final do século XIX, havia uma atmosfera positivista no meio científico, onde se sobressaíam vertentes do pensamento cometeano nas diversas áreas de conhecimento. Um dos aspectos marcantes dessa atmosfera era a ideia de uma continuidade entre os fenômenos normais e os patológicos, que seriam idênticos entre si, salvo pelas variações quantitativas. Ou seja, haveria um limiar quantitativo ideal do corpo são, um equilíbrio homeostático do corpo, que, quando ultrapassado, deflagraria uma patologia. Qual seria a relação de Freud com essa atmosfera?\n\nA ideia do fator quantitativo como determinante do funcionamento do sistema nervoso foi explicitada pela primeira vez por Freud no “Esboço para a comunicação preliminar”, em 1892. Nesta época, ele falava que a soma de excitação (Erregungsmenge) era o fator quantitativo que deveria ser mantido constante, pelo escoamento por via associativa do acúmulo de excitação (Erregungszuwachs). Maria Regina Prata\n\nPortanto, a constância da soma de excitação seria um fator condicionante da saúde do sujeito, e o trauma psíquico aconteceria quando a tentativa de escoamento da excitação fosse dificultada. No \"Manuscrito D\", sobre a etiologia e a teoria das grandes neuroses\" (sem data, provavelmente escrito em 1894), Freud confirma isso, colocando ainda o mecanismo das neuroses como \"perturbações do equilíbrio\", decorrentes do impedimento da descarga da excitação. Essa descarga evitaria o acúmulo de excitação e garantiria o equilíbrio, conforme expressa a teoria da constância.\n\nNo entanto, a questão não é apenas dizer que o pensamento freudiano participava, de alguma forma, de um modelo homeostático: é necessário também que busquemos, mesmo no começo de seu discurso, o que se co-locava em confronto com esse modelo, para pensarmos como Freud foi aos poucos se distanciando do referencial positivista, para enfim, a partir da postulação do conceito de pulsão de morte, marcamos sua ruptura.\n\nNesta perspectiva, podemos dizer que, de um lado, há uma afinidade do pensamento freudiano com o positivismo; porém, de outro lado, com as ideias de singularidade do sujeito e da crítica à concepção de patologia como essência, alteradas à ideia de que o discurso do louco teria um sentido, Freud apresentaria diferenças em relação à sua constância.\n\nPara rastrear a pluralidade de noções e conceitos que estão envolvidos na questão do patológico, temos dois modelos como ponto de ancragem: o primeiro apresenta a ideia de uma homeostase interna, e liga a concepção de patológico em Freud ao desequilíbrio energético do psíquico. Este modelo é balizado pela afirmação da constância quantitativa e posteriormente pelo princípio do prazer. Aqui Freud estaria sendo influenciado — através de Breuer — por um contemporâneo seu, o biólogo Claude Bernard, que apre-sentava uma teoria das regulações internas, tendo como pano de fundo uma homeostase orgânica fundamental e uma ideia de equilíbrio submetida a esses moldes. O segundo modelo utilizado aponta para a virada que o dis-curso freudiano teve a partir da postulação da pulsão de morte. Pois se a partir desse conceito a ideia de um confronto de forças é ressaltada de forma ainda mais decisiva, as concepções de normal e de patológico devem colo-car-se frente a esta problemática. Com efeito, podemos questionar que se há um ponto de vista homeostático no início da obra freudiana, após 1920 ele não poderia mais ser sustentado, uma vez que na própria vida existiriam forças desarmonicas. Neste contexto, a tendência à estabilidade no aparelho psíquico também seria reavaliada, e não haveria mais sentido falarmos de um normal em relação a um patológico no discurso freudiano. O Normal e o Patológico em Freud\n\nA partir desse segundo modelo, Freud pode redimensionar vários proble-mas, tais como colocar o masoquismo como primário, repensar o término da análise tendo em vista o fato de que o desequilíbrio é inerente ao sujeito, colocar a angústia como anterior ao recalque, reaffirmar que o desam-paro faz parte da vida. E, dentre outras questões, podemos dizer que ocorre toda uma mudança no que podemos chamar de uma postura ética freudiana, que vai se colocar de frente ao fato de que o conflito é interminável. Nesta perspectiva, a ideia de cura entendida nos moldes da dissolução dos con-flitos, de um \"bem\" ou uma \"normalidade\" a ser atingida, será definitivamente repensada.\n\nFreud e a Atmosfera da Época\n\nSabemos que quando o discurso de determinado autor é lançado, os cientistas podem concordar ou discordar dele, utilizando de formas varia-das. É nesta perspectiva que Stengers nos diz que o mais fundamental na ciência é que ela seja um diálogo constante dos homens com o mundo. Para que uma hipótese seja apresentada como verdadeira, ou seja, para que digamos \"isso é científico\", é necessário haver um diálogo com alguma civilidade. Não há resposta de direito, norma ou transitória, pois qualquer respon-sata é histórica e coletiva, constituindo em cada época e para cada ciência o que está em jogo no trabalho dos cientistas interessados. Portanto, se alguém diz \"eu faço ciência\", o que ele diz é completamente nulo (Stengers, 1989).\n\nDe acordo com Stengers, o que coloca o saber psicanalítico como singu-lar é o desafio constante de Freud em produzir testemunhas fidedignas. A testemunha fidedigna se constitui como uma peculiaridade experimental em fazer o mundo testemunhar a favor ou contra uma hipótese científica, par-ticipando de uma discussão. Ela é um evento raro, porque quando os homens dialogam entre si em torno de determinada hipótese, abre-se a possibilidade de prever os resultados que serão obtidos.\n\nSe a testemunha fidedigna leva em conta a discussão da coletividade em torno de suas propostas, é importante que falemos um pouco de qual era a coletividade ou a atmosfera científica em que Freud estava inserido. As-sim, podemos perguntar: quais eram os aspectos marcantes na atmosfera do final do século XIX? Maria Regina Prata\n\nfoi permeado pela \"mentalidade positivista\", que tinha a \"observação experi-mental\" direta ou instrumental como um dos seus pressupostos fundamentais.\n\nNesta perspectiva, para que o experimento científico tivesse de cará-ter inquestionável de uma verdade, deveriam ser estabelecidas relações de cau-sa e efeito: o dado da observação deveria se converter num \"resultado de uma medida\"; portanto, num \"dado numérico\". Então, o saber científico chegaria a sua total perfeição quando a relação entre os dados numéricos correspondentes a causa de um fenômeno e os correspondentes aos efeitos desta causa conduzisse na formulação de uma \"lei geral da natureza\" (Entralgo, 1963).\n\nA partir dessa ideia da \"ciência no laboratório\", três pontos fundamentais do estudo do patológico estavam presentes no final do século passado: o fisiopatológico, o etiopatológico e o anatomoclínico. Dito de forma simplificada, do ponto de vista fisiopatológico, predominante na medicina além, a vida pode manifestar-se no laboratório como um fluxo energético e material peculiarmente configurado, e o acidente vital chamado enfermidade é conhecido cientificamente quando o patologista obtém \"a medida das alterações\" de cada processo mórbido. Do ponto de vista da etiopatologia, os processos estudados pelos microbiologistas e pelos toxicólogos, assim, para a dorina etiopatológica, quando não há infecção microbiana, não há uma verdadeira enfermidade. Pois a enfermidade seria sempre um caso particular da luta pela vida, um combate entre o organismo infectante e o hóspede.\n\nFinalmente, no pólo anatomoclínico — especialmente cultivado pela medicina francesa —, a lesão anatômica teria um caráter fundamental. Nesse sentido, a patologia se sucederia no organismo em decorrência de uma lesão física. Embora Pinel não considerasse a anatomia patológica, Xavier Bichat inspirou-se em sua nosologia para juntar a \"observação anatômica à clínica\", reunindo duas figuras heterogêneas do saber, de modo que \"o grande corte na história da medicina ocidental data do momento em que a experiência clínica transformou-se na visão anatomoclínica\" (Foucault, 1987). A partir da visão anatomoclinica, a anatomia tem seus tecidos simples, que por suas combinações formam os órgãos. Nesta perspectiva, podemos dizer que as experimentações laboratoriais adquiriram uma grande importância na ciência do século XIX, e Freud participou desse contexto. A Fisiologia Física\n\nNo livro A nova aliança (1984), Prigogine e Stengers nos dizem que no começo do século XIX produziu-se uma “efervescência experimental”, quando foram descobertos em laboratório “efeitos novos”, que impuseram aos físicos a ideia de que o movimento não produzia somente modificações da disposição espacial dos corpos (ou seja, do valor da energia potencial).\n\nFoi nesse contexto que surgiu a termodinâmica, nascida em 1824 com o trabalho de Sadi Carnot sobre a força motriz do fogo, ou seja, a verificação de que o fogo é capaz de mover e transformar as coisas. Essas modificações são irreversíveis, pois nem toda energia calórica resultante da queima, por exemplo, do carvão, se transforma em energia mecânica capaz de mover algo. Desta forma, se não há recuperação das coisas que se queimam, é preciso que a ciência nova não pretenda descrever uma idealização, podendo também conceber as perdas: a energia, embora conservando-se, também se dissipa (Prigogine e Stengers, 1984).\n\nA primeira descoberta da termodinâmica é que, nas transformações térmicas que acontecem em sistemas isolados do exterior, a energia se conserva. Assim é formulado o primeiro princípio da termodinâmica: “o estado total de energia através das fronteiras de um dado sistema é igual à variação de energia desse sistema” (Reif, 1965: 122).\n\nNo entanto, como vimos, nem toda energia é utilizada, ou seja, há algo que se perde. Esse fato aponta para o segundo princípio da termodinâmica, que formula que em qualquer transformação produzida num sistema isolado, a entropia desse sistema — ou seja, a grandeza que mede seu grau de desordem — aumenta positivamente até um grau máximo. Quando esse processo pára, o sistema permanece em estado de constância. \n\nPortanto, o segundo princípio da termodinâmica expressa a tendência de um sistema caminhar para a desordem, ou melhor, para uma situação em que haja uma distribuição cada vez mais uniforme de matéria e de energia no sistema. Esse nivelamento da energia traz como perspectiva final a morte térmica do universo, quando toda energia tiver sido degradada e o processo cósmico chegar à paralisação (Favre, 1996).\n\nAssim, as ideias de conservação, dissipação, desordem, distribuição de energia, ou de forma geral, as descobertas feitas no campo da energética e o relevo dado às questões decorrentes disso, faziam parte do contexto científico do século XIX. Mas como Freud participou dessa atmosfera efervescente? Podemos dizer que muitas vezes Freud utilizou uma linguagem que trazia ressonâncias com a termodinâmica de sua época. Isso pode ser constatado no “Projeto para uma psicologia científica”, de 1895, ou ainda pela formulação do princípio da constância, que apresenta a ideia de que o aparelho psíquico busca manter sua excitação interna num nível constante, tentando conservar a energia, expressando uma lei de regulação no psíquico, onde se procura manter um equilíbrio em relação ao uso da energia. Os exemplos são inúmeros, mas neste espaço cabe somente indicá-los. Podemos apontar ainda que mesmo a ideia da conversão histérica, em que a energia psíquica é convertida no corpo, provocando um ataque, uma paralisia, também apresenta a questão da transformação da energia, presente no campo discursivo da época de Freud.\n\nNo Seminário 2 - O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1978), Lacan esclarece que Freud concebe o aparelho psíquico como uma máquina, que busca retornar ao estado de equilíbrio. Diz Lacan:\n\n\"Do início ao fim da obra de Freud, o princípio do prazer se exercita assim — o sistema nervoso é, de certa maneira, diante de uma estimulação trazida a este aparelho vivo, o representante da necessidade do homeostato, do regulador essencial graças ao qual ele vive e persiste, ao qual vai receber tudo o que tenderá a levar à excitação de volta ao mais baixo (...)\" (Lacan, 1987: 106-7).\n\nLacan pergunta o que quer dizer esse \"mais baixo\". E responde: o mais baixo da tensão pode querer dizer duas coisas: de um lado, remontar-se a um certo equilíbrio do sistema, e de outro, que leva todas as tensões a zero. No entanto, essa morte não é a morte dos seres vivos, mas a vivência humana, a intersubjetividade:\n\n\"(...)\n\nAssim, a máquina procura manter-se em existência, o que apontaria ao primeiro princípio da termodinâmica, o da conservação de energia — \"para que haja algo no fim é preciso que tenha havido, pelo menos, no começo\" (Lacan, 1987: 108).\n\nJá o segundo princípio da termodinâmica é enunciado no fato de que quando a máquina faz seu trabalho de manutenção, uma parte da energia é gasta, ou seja, há perda. Isso designaria a entropia nos moldes freudianos, e apontaria a pulsão de morte.\n\nÉ importante dizer que Freud aproveitou o fisicalismo de seu tempo a seu próprio modo, ou seja, utilizou-o como matéria-prima para suas elaborações discursivas. Neste contexto, parece-nos que Freud não se deteve rigorosamente nos conceitos fiscalistas, tal como a física da termodinâmica os apresentava, mas os utilizou como fonte de inspiração à sua concepção de aparelho psíquico.\n\nO Laboratório Freudiano\n\nNa introdução deste artigo, dissemos que Freud teria sido influenciado por Claude Bernard, um dos representantes proeminentes da tradição médica do século passado. Claude Bernard trazia a ideia de uma continuidade entre os fenômenos normais e patológicos, na qual toda doença teria uma função normal correspondente, da qual ela seria apenas a expressão perturbada, exagerada, diminuída ou anulada. Por outro lado, Claude Bernard falava também de um antagonismo ou luta entre forças da criação vital e da destruição, em que o objetivo do organismo seria a busca da estabilidade interna, uma homeostase que garantisse seu funcionamento ótimo. Mas o que é a homeostase? Maria Regina Prata\nO conceito de homeostase, que foi nomeado posteriormente por Cannon no livro A sabedoria do corpo (1929), tenta dar conta dos processos fisiológicos de auto-regulação do organismo, por meio dos quais o corpo tenderia a manter constante a composição dos elementos do meio sanguíneo. \"A homeostase seria um equilíbrio dinâmico, característico do corpo vivo, e não a redução da tensão interna a um nível mínimo\" (Laplanche e Pontalis, 1986: 460). Nesse sentido, falar em \"sabedoria do corpo\" significa dizer que o corpo vivo está em estado de permanente equilíbrio controlado, de estabilidade mantida contra as influências perturbadoras de origem externa. Essa ideia de um funcionamento ótimo parece ter influenciado Breuer. Paralelamente a Breuer, mesmo que não tivesse compartilhado totalmente suas ideias, Freud mantinha uma ideia de forças em luta no sujeito, e também uma certa ideia de auto-regulação no psíquismo. Admitamos na introdução que, para Freud, o excesso de excitações não elaboradas poderia desencadear uma patologia. No entanto, sabemos também que o que desencadeia um trauma em um sujeito pode não desencadear em outro. Então, podemos dizer que o problema da homeostase é relevante no pensamento freudiano, mas essa homeostase seria \"singular\": não haveria um \"padrão de normalidade ideal\". De forma, nele se inscreveram, sem dúvida, a esperança freudiana de poder, na pesquisa ou na clínica como um espaço experimental neutro, que busca a cura das doenças. Nesta perspectiva, no trabalho em que comenta o caso clínico \"Dora\", Freud fala dessa ambição de controle e verificação, própria de sua época:\n\n\"Foi sem dúvida espinhoso ter que publicar resultados de minhas investigações, de natureza surpreendente e pouco atraente, sem que meus colegas tivessem a possibilidade de controlá-las. Não é menos espinhoso agora me permitir em expor ao juízo público uma parte do material que me permitiu obter aqueles resultados (...)\" (Freud, 1905: 7 - grifo meu). \n\nAssim, a clínica freudiana do final do século XIX e do começo do século XX parece ter se preocupado com um campo experimental de verificação,\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 Maria Regina Prata\nbuscando na clínica os meios pelos quais as asserções seriam provadas e controladas. É neste contexto que podemos aproveitar o que Chertok e Stengers nos falam:\n\n\"A diferença entre ética e não-ética, para Freud, não passava, portanto, por uma teoria que explicasse a ação da 'confiança expectante': poder doá-la, 'dispor dela', em suma, manipulá-la como Pasteur manipulava a ação de seus germes ou como o químico manipulava a reação, acendendo-a ou esfriando-a. Talvez estejamos hoje demasiadamente esquecidos, neste século XX, em que o ideal científico está associado à noção de 'revolução', de descobrir- tás teórico-experimentais que causem uma reavivamento, como a do térmico quântico ou a do ADN, de que, no final do século XIX, triunfaram a química e o pasteurismo, ciências agnósticas quanto àquilo que manipulavam, prioridade quanto à eficácia de sua manipulação. E as experiências 'laboratoriais' de Charcot, fazendo desafiar paralisias, inscreviam-se nesse ideal de racionalidade ativa, em que a razão não remete a compreender os mecânismos, mas a seu controle, em que o 'horror do unintelligível', como dizia Vendel, é aplicado pela possibilidade de submeter-lhe ao controle. Da mesma forma, nele se inscreveram, sem dúvida, a esperança freudiana de poder, pela trauma passado, e a definição que Freud deu à técnica analítica, centrada na resistência e na transferência\" (Chertok & Stengers, 1990: 72 - grifos meus).\n\nMas, se por um lado as experiências laboratoriais de Charcot e a hipnose expressam um ideal de cura e de controle, que com o decorrer da obra freudiana foram abandonados, por outro, a postulação do conceito de inconsciente, bem como o fato de a loucura ter um sentido a ser interpretado, distanciaram Freud do ideal do positivismo. Nesse sentido, podemos dizer que o discurso freudiano não era completamente sincôrnico em relação a seus contemporâneos.\n\nA Patologia no Início do Percurso Freudiano\nSabemos que, com a técnica da hipnose, Charcot iniciou a clínica da neurose histérica. Foi com Charcot que Freud aprendeu a distinguir os distúrbios orgânicos ligados a uma afeição nervosa orgânica, dos distúrbios histéricos: uma vez que a paralisia histérica produzia sintomas globais que não faziam\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 Maria Regina Prata\nsentido do ponto de vista funcional, ela não poderia ser explicada por uma causa orgânica. Nesta perspectiva, Charcot deu a Freud o germe da hipótese etiológica, permitindo que este último definisse o método catártico sob hipnose como um instrumento terapêutico conveniente ao tratamento da histeria. Em 1888, no artigo intitulado \"Histéria\", Freud coloca que a palavra \"histeria\" origina-se da hystera dos gregos e significa útero, provindo dos primeiros tempos da medicina, quando a histeria ainda era ligada ao sexo feminino. Na Idade Média, ela desempenhou um papel histórico-cultural significativo, constituindo o fundamento das possessões pelo demonío, da bruxaria, bem como o motivo dos exorcismos e das fogueiras (Freud, 1888). Freud inicia a discussão dizendo que \"a histeria é uma neurose no sentido mais estrito do termo\". Ele continua:\n\n\"A histeria repousa por completo nas modificações fisiológicas do sistema nervoso, e sua essência deveria expressar-se mediante uma fórmula que leva em consideração as relações de excitabilidade entre as funções que partem deste sistema\" (Freud, 1888: 45 - grifo meu). \n\nPodemos ressaltar dois aspectos nessa passagem. O primeiro se remete à preocupação de Freud, peculiar em sua época, com as \"modificações fisiológicas\". Logo adiante, ele responde que uma fórmula histopatológica deste tipo ainda não foi descoberta, e que devemos nos contentar em defini-la a partir de um ponto de vista nosográfico, ou seja, pelo conjunto dos sintomas apresentados.\n\nPortanto, este primeiro aspecto aponta para a preocupação freudiana com o campo da nosografia. Nesta perspectiva, Freud critica o agrupamento indiscriminado da histeria com os \"estados nervosos em geral\", a neurasthenia, muitos estados psíquicos e diversas neuroses que não foram destacadas das doenças nervosas, o que valoriza o trabalho de Charcot, que sustentava que \"a histeria era um quadro clínico nitidamente circunscrito e bem definido\". Assim, a constituição de um campo nosográfico, ou, dito de outro modo, a distinção sintomatológica entre os estados patológicos, bem como o problema da escolha da neurose, são preocupações que acompanham a clínica freudiana.\n\nO outro aspecto que pode ser apontado na passagem citada é a questão da excitabilidade. Assim, após percorrer a sintomatologia da histeria, Freud coloca que há uma influência dos processos psíquicos sobre os processos físicos do organismo, caracterizada por um \"excedente de\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 excitação\",. Esse excedente poderia funcionar ora como inibidor, ora como estimulador, podendo deslocar-se com grande liberdade no sistema nervoso:\n\n\"Junto aos sintomas físicos da histeria, cabe observar uma série de perturbações psíquicas, e que certamente algum dia se descobrirá as alterações características desta enfermidade, mas que a análise no momento real come\u00e7ou. Trata-se de altera\u00e7\u00f5es no curso e na associa\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es, de inibi\u00e7\u00f5es na atividade voluntária, de acentuando e sufocamento de sentimentos, etc., que se resumem, em geral, como umas modifica\u00e7\u00f5es na distribui\u00e7\u00e3o mal, sobre o sistema nervoso, das magnitudes de excita\u00e7\u00f5es est\u00e9veis\" (Freud, 1888: 54 - grifo do autor).\n\nO aspecto quantitativo aqui revelador: é o excesso de estímulos que explica a patologia histérica. E o tratamento consiste na remoção das fontes psíquicas que impelem os sintomas histéricos, através de uma sugestão feita ao sujeito, que est\u00e1 em estado de hipnose. Nesta perspectiva, a cura deve modificar a distribui\u00e7\u00e3o das excita\u00e7\u00f5es do sistema nervoso. Por outro lado, \u00e9 importante destacar aqui o relevo cada vez maior que representa a rememora\u00e7\u00e3o freudiana.\n\nPodemos observar também que a ideia do excesso quantitativo como determinante da patologia, ou então, a ideia de que o psíquico deveria manter sua energia interna t\u00e3o baixa quanto poss\u00edvel, vem lembrar a assertiva de Claude Bernard, de que a regula\u00e7\u00e3o do organismo funda-mente-s na estabilidade do meio interior.\n\nNo entanto, n\u00e3o podemos reduzir o pensamento de Freud a um \"biologismo\", at\u00e9 porque Freud nos falava de um sujeito do inconsciente e n\u00e3o de um indivíduo, de um aparelho psíquico e n\u00e3o de um organismo. Então, o que vale sublinhar \u00e9 que alguns aspectos do pensamento de Freud participaram da atmosfera \"bernardiana\" e cometeana de sua \u00e9poca, em contrapartida, seu pensamento aponta o tempo todo para um campo que transcende essas limites.\n\nO enfoque quantitativo no \"Projeto para uma psicologia científica\", de 1895\n\nEstamos falando da questão da quantidade de excita\u00e7\u00f5es que atingem o sujeito, presente desde o começo da obra freudiana. Um outro texto que merece ser indicado como relevante nesta problemática \u00e9 o \"Projeto para uma psicologia científica\", escrito em 1895.\n\nSegundo Freud, o sistema nervoso submete-se \u00e0 recep\u00e7\u00e3o de quantidades de energia do interior do corpo - a Qn de ordem interna, intercelular - e do exterior. O ac\u00famulo de energia interna \u00e9 identificado como o desprazer, e a redu\u00e7\u00e3o com o prazer. Para Freud, o aparelho neur\u00f4nico \u00e9 capaz, al\u00e9m de armazenar essa energia, de transmiti-la e transform\u00e1-la.\n\nPaes e Barros (1971) ressaltam que o princ\u00edpio quantitativo em Freud \u00e9 sobretudo uma lei de intensidade. Pois o princ\u00edpio de const\u00e2ncia da soma de excitação remonta \u00e0 tend\u00eancia do aparelho ps\u00edquico em manter constante n\u00e3o a quantidade de energia neur\u00f4nica, mas seu n\u00edvel de intensidade. Assim, \u00e9 um princ\u00edpio que define a \"estabilidade de equil\u00edbrio do sistema nervoso, em rela\u00e7\u00e3o às perturba\u00e7\u00f5es do nivel de investimentos\" (Paes e Barros, 1971). Qualquer eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de investimentos provocada pela entrada de quantidades de investimentos ser\u00e1 compensada pela descarga dessas quantidades. Seria, nesse sentido, um princ\u00edpio de \"modera\u00e7\u00e3o\".\n\nMas se o princ\u00edpio quantitativo em Freud define a estabilidade do aparelho psíquico em rela\u00e7\u00e3o ao seu n\u00edvel de investimentos, \u00e9 importante falar-mos um pouco dessa \u00faltima no\u00e7\u00e3o. De acordo com Freud, da combina\u00e7\u00e3o da teoria da quantidade (Q) com o quadros de neur\u00f4nios, \"obtem-se a representa\u00e7\u00e3o de um neur\u00f4nio investido, que est\u00e1 cheio de Qn, q ue poderia, segundo a sua lei do investimento estar vazio\" (Freud, 1895: 342 - grifos meus). O investimento da energia corresponde, segundo Freud, ao procedimento de pensamento (Laplanc, 1986: 203). contato. Quando tal passagem acarreta uma diminui\u00e7\u00e3o permanente dessa resist\u00eancia, h\u00e1 uma facilita\u00e7\u00e3o. A mem\u00f3ria remonta justamente as diferen\u00e7as nas facilita\u00e7\u00f5es entre os neur\u00f4nios imperme\u00e1veis.\n\nFinalmente, \u00e9 necess\u00e1rio indicar a distin\u00e7\u00e3o estabelecida no \"Projeto para uma psicologia científica\" entre energia livre e ligada, que se refere a diferentes formas de escoamento de energia. Freud fala que a energia tende a uma descarga imediata e completa no aparelho neur\u00f4nico, conforme manda o princ\u00edpio da in\u00e9rcia, o que caracteriza o processo prim\u00e1rio do funcionamento neur\u00f4nico, de energia livre ou m\u00f3vel. Mas Freud fala também do processo secund\u00e1rio no funcionamento ps\u00edquico, onde a energia est\u00e1 ligada, ou seja, represada em determinados neur\u00f4nios ou sistemas neur\u00f4nicos. Por um lado, como j\u00e1 vimos, essa liga\u00e7\u00e3o acontece devido \u00e0 exist\u00eancia das barreiras de contato entre os neur\u00f4nios, que impedem ou limitam a passagem de energia; e, por outro lado, devido \u00e0 a\u00e7\u00e3o exercida por um grupo de neur\u00f4nios investidos num n\u00edvel constante (o ego), sobre outros processos que se desenvolvem no aparelho neur\u00f4nico. O caso do funcionamento ligado da energia corresponde, segundo Freud, ao processo de pensamento (Laplanshe e Pontalis, 1986).\n\nSegundo Laplanche e Pontalis, a filia\u00e7\u00e3o entre o processo prim\u00e1rio e o secund\u00e1rio encontra um crit\u00e9rio comum para uma sucess\u00e3o real, na ordem vital, como se o princ\u00edpio de const\u00e2ncia estivesse sucedido ao princ\u00edpio de in\u00e9rcia: ela s\u00f3 se conserva em n\u00edvel de um aparelho ps\u00edquico, onde existem dois tipos de processo, dos tipos de funcionamento mental (Laplanche e Pontalis, 1986).\n\nPara concluir esse ponto, vale dizer que quando falamos em energia, excita\u00e7\u00e3o, descarga, tens\u00e3o, ou melhor, do vocabul\u00e1rio que Freud utilizava nessa \u00e9poca, \u00e9 importante ressaltarmos que o autor teve a influ\u00eancia do pensamento de Helmholtz, cuja escola procurava procurar sustentar que todos os fen\u00f4menos naturais s\u00e3o explic\u00e1veis, em \u00faltima inst\u00e2ncia, em fun\u00e7\u00e3o de for\u00e7as f\u00edsicas e qu\u00edmicas.\n\nFreud e Breuer\n\nPor volta de 1893, Freud e Breuer escreveram um artigo sobre os mecanismos ps\u00edquicos dos fen\u00f4menos hist\u00e9ricos, intitulado \"Estudos sobre a histeria\", que continha cinco casos cl\u00ednicos de Freud, com um cap\u00edtulo com considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas escrito por Breuer e um cap\u00edtulo sobre a psicoterapia da histeria, de Freud. Maria Regina Pitta\n\nNo livro em que estuda a vida e a obra de Josef Breuer, Hirschmüller (1991) coloca que Freud e Breuer enfatizaram a \"estrutura e função de um órgão ou sistema de órgãos em relação ao organismo inteiro\", procurando, de um lado, estudar as \"forças psicoquímicas\" que mantinham o organismo em movimento e, de outro, explorar o funcionamento do mecanismo desse sistema. Os instrumentos de suas trabalhos foram dados pelos métodos da histologia, da bioquímica e da experimentação fisiológica, sendo que Freud teria se detido mais nos métodos da anatomia microscópica centrada no estudo das estruturas, e Breuer teria preferido a visão dinâmica inerente à experimentação animal.\n\nA ideia central dos \"Estudos sobre a histeria\" é que, no organismo, a energia psíquica tende a se manter num nível constante. Sabemos que essa ideia remonta aos progressos da física no século XIX, que são alinhados pela formulação do \"princípio de constância da força\", bem como seu desenvolvimento por Helmholtz e por Joule, que apresentaram a substituição do conceito físico de força pelo de energia (Hirschmüller, 1991: 221)¹.\n\nDepois disso, a noção de energia foi transposta para outros domínios científicos além da física. Em psicologia, essa transposição dirigiu-se sobretudo a Fechner; e, em fisiologia, para a escola vienense de neurofisiologia. Contudo, longe de constituir uma inovação, essa aplicação de fórmulas energéticas aos processos psíquicos correspondia às correntes comuns da época, e Breuer e Freud se inseriam nesse contexto (Hirschmüller, 1991).\n\nNa primeira parte da \"Comunicação preliminar\", os dois autores apresentam os objetivos do trabalho. De saída, eles expressam um interesse pela variedade de formas e sintomas da histeria, dizendo que a observação causal levou ao estudo de suas causas desencadeantes.\n\nSeguindo o caminho de esclarecimento dos quadros clínicos, Freud e Breuer chegam à \"histernia traumática\". Sabemos que foi Charcot quem descreveu esse tipo de histeria, na qual os sintomas somáticos, como as paralisias, apareceram consecutivamente a um traumatismo físico, após um período de latência. Contudo, os sintomas não eram provocados pelo choque físico ou mecânico, mas pelas representações ligadas a ele, que surgiam no decorrer de um estado psíquico determinado (Laplanche e Pontalis, 1986: 282). É nesta perspectiva que Freud e Breuer estabelecem uma continuidade com esta explicação de Charcot, colocando que existe uma analogia patológica entre a histeria comum e a neurose traumática, o que justificaria o termo \"histéria traumática\". No caso de neurose traumática, a causa atuante não é a lesão corporal, mas o afeto de horror. Portanto, para Freud, na histeria traumática é o trauma psíquico que produz resultados e não o trauma mecânico (Freud, 1893). E no caso da histeria comum, não é raro que se encontrem, no lugar de um grande trauma, vários traumas parciais, cuja soma pode exteriorizar um efeito traumático. Portanto, o trauma psíquico atua como um \"corpo estranho\", que, mesmo muito tempo após sua intrusão, tem uma eficiência presente. A partir desta perspectiva, os autores afirmam que \"os histéricos sofrem sob o peso de reminiscências\" (Freud e Breuer, 1893).\n\nAssim, as recordações correspondem a razões que não foram suficientemente ab-reagidas. Uma das razões para que isso ocorra aponta para o recalque, mecanismo pelo qual o sujeito esquece o ocorrido, o inibindo e sufocando do seu ensaio.\n\nMas o que parece importante ressaltar é ainda a questão da quantidade de excitações a que o aparelho psíquico está submetido, sua suportabilidade e ela é a capacidade da terapia de resgatar as emoções traumáticas. Freud ratifica essas afirmações:\n\n\"Segundo se evidencia na 'Comunicação preliminar', que incluímos no início deste livro, consideramos os sintomas histéricos como os efeitos e restos de excitações de influência traumática sobre o sistema nervoso. Tais restos não ficam pendentes quando a excitação originária foi drenada por ab-reação ou trabalho de pensamento. Aqui já não se pode negar a levar em conta umas quantidades (ainda que não mensuráveis), a ocorrência e processo como se uma soma de excitação chegava ao sistema nervoso se transpunha em um sintoma permanente, na medida em que não se empregou em ações externas em proporção a sua quantidade. Pois bem, na histeria estamos habituados a descobrir que uma parte considerável da 'soma de excitação' do trauma se transmuta em um sintoma permanente corporal\" (Freud e Breuer, 1893: 105 – grifo meu).\n\nEntão, a distribuição de excitações na histeria é geralmente uma distribuição instável: o patológico liga-se portanto à instabilidade da distribuição da soma de excitação no aparelho psíquico. No próximo ponto, tentaremos discutir se há uma ideia de homeostase psíquica no discurso freudiano dessa época.\n\nO Problema da Homeostase\n\nIndicamos que Claude Bernard considerava o estado patológico como um distúrbio de um mecanismo normal, uma variação quantitativa, uma exageração ou atenuação dos fenômenos normais. CanGuilehm (1978) reevaluou essa assertiva, sublinhando que o estado patológico era uma qualidade nova em relação ao estado fisiológico.\n\nPor um lado, se a variação quantitativa que distingue o normal do patológico em Freud lembra a afirmação de Claude Bernard de que na saúde e na doença existem apenas variações de grau, por outro lado é importante lembrar que Freud nos fala também da questão da singularidade do sujeito como um fator decisivo na causa da neurose. Isso aponta para a radical diferença entre a \"racionalidade psicanalítica\" e a \"racionalidade biológica\". Uma vez que não haveria um limite munícipal separado o campo do normal e do patológico em Freud: o limite seria peculiar à capacidade de \"perlabração psíquica\". No entanto, mesmo com o fato de Freud considerar essa diferença, o aparelho teria como função e finalidade manter-se em existência, o que significaria manter constante seu nível energético. Segundo Laplanche, esse nível de constância seria menos elevado do que tudo o que cerca o aparelho: o limite teria por objetivo proteger um nível interno de energia, que é incomensurável com as energias extremas, cuja violência é capaz de destrui-lo (Laplanche, 1992).\n\nEm 1971, no texto intitulado \"Thermodynamic and evolutionary concepts in the formal structure of Freud's metapsychology\", Paes e Barros colocam que o princípio freudiano da constância da soma de excitação nervosa seria estruturalmente idêntico à teoria de Claude Bernard da constância do meio interno. Pois é baseado nos trabalhos sobre as doências funcionais do sistema nervoso de Jackson, Bastian, Charcot e Oppenheim, que Freud vai tentar explicar a sintomatologia da histeria, em função das alterações da excitalidade nas diferentes partes do sistema nervoso. É assim que -- de acordo com Paes e Barros —, influenciado através de Breuer pelas concepções de Claude Bernard sobre a constância do meio interno, Freud teria proposto, em 1893, o “Princípio de constância da excitabilidade do sistema nervoso”.\n\nO Abandono da Hipnose e a Entrada da Teoria da Defesa\n\nSegundo Roudinesco, os trabalhos do final do século XIX sobre a histeria e a hipnose estavam impregnados de noções tais como “divisão da personalidade”, “dupla consciência”, “estranho”, etc. Breuer, Freud e Janet tinham partido desse campo, formulando a hipótese de uma coexistência, no psiquismo, de dois grupos de fenômenos, ou mesmo de duas personalidades que poderiam ignorar-se mutuamente. Assim, a ideia da clivagem (Spaltung) caminhou ao lado do conceito de inconsciente (Roudinesco, 1989).\n\nA época da catarse de Breuer foi marcada pela tentativa de focalizar diretamente o momento em que o sintoma se formava, esforçando-se por reproduzir os processos mentais envolvidos nessa situação, a fim de dirigir-lhes a descarga ao longo do caminho da atividade consciente. Recordar e ab-reagir era o que se visava. Contudo, se por um lado, o método catártico pareceu não influenciar as condições causais da histeria, por outro, Freud observou que nem todos os pacientes eram hipnotizáveis, e a partir disso perguntou: o que é que nestes pacientes impossibilita a hipnose? Seu questionamento levou aos limites da utilização da hipnose como uma técnica de tratamento, na qual a descoberta da resistência ocupou um lugar privilegiado (Birman e Nicéas, 1982). A partir de então, a resistência passou a ser o obstáculo a ser superado, como demonstra o artigo intitulado “A psicoterapia da histeria” (1893). É neste artigo que a virada com Breuer e com a hipnose começa a ser ilustrada.\n\nO problema principal com que Freud teria que lidar era como detectar as recordações patológicas sem utilizar a hipnose. Para isso, a força da resistência no paciente que contrariava a chegada de recordações teria que ser superada. As representações que o paciente não queria recordar eram de natureza penosa, ou seja, capazes de produzir desprazer. E era contra esse desprazer que a defesa psíquica era montada.\n\nAssim, era a defesa psíquica a responsável pela criação dos grupos psíquicos separados, e não o acontecimento que se tornou traumático por um estado especial da consciência (o estado hipnótico), como formulava Breuer. Nesta perspectiva, o campo da histeria foi homogenizado sob a dominância da ideia de defesa (Birman e Nicéas, 1982), onde o “não saber” dos histéricos suscitava a questão de onde estaria a verdade. Maria Regina Pinta\n\nricos era na verdade um “não querer saber”, ou seja, apontava para algo que não podia ser consciente.\n\nA partir disso, Freud criou um “artifício técnico”, a pressão na testa, a fim de fazer o paciente recordar as lembranças bloqueadas, para depois ab-reagir-las. Segundo Freud, com essa técnica o paciente se livraria do sintoma histérico, reproduzindo afetivamente suas impressões causadoras (Freud, 1893). Nessa época, a transferência era considerada um obstáculo ao tratamento, uma “falsa ligação”, devendo ser tornada consciente e eliminada, uma vez que substituía algo que ocorria no campo representativo do paciente e permitia o seu camuflamento. Desta forma, ao invés de rememorar a experiência, o paciente a revivia na relação terapêutica (Birman e Nicéas, 1982).\n\nSegundo Stengers, o abandono da hipnose foi significativo. Pois o que coloca o saber psicanalítico como singular é o desafio constante de Freud em produzir “testemunhas fidedignas”. Nesse contexto, a hipnose foi o ponto de partida das indagações freudianas acerca da clínica da psicanálise, uma vez que o sujeito em tratamento passa a ser uma testemunha fidedigna de seu próprio mal. Sob a hipnose, o sujeito diria sua verdade, e é a volta da verdade que será o agente terapêutico (Stengers, 1989).\n\nNo entanto, para além do fato de todos os pacientes serem hipnotizáveis, Freud duvidou da validade das lembranças ressuscitadas pelo método hipnótico, uma vez que muitas dessas lembranças tratavam de cenas reais de traumatismo sexual precoce. Portanto, as lembranças poderiam não ser “bastante verdadeiras”, para fazer desaparecer definitivamente os sintomas. Assim, a hipnose acabou funcionando como um obstáculo ao empreendimento da verdade ou, dito de outro modo, ela não transformava o paciente numa testemunha “verídica” (Chertok e Stengers, 1990). Neste contexto, com a O Normal e o Patológico em Freud\n\njulgava (Chertok e Stengers, 1990). Desta forma, as ambições de neutralidade na clínica estavam sendo ameaçadas. Foi esse risco que abriu o caminho, como sabemos, para a constatação da transferência. Este último fenômeno marca não a ruptura, mas a transformação, a produção de um novo instrumento que integra em sua definição a deficiência da hipnose.\n\nNo próximo ponto, veremos como a ideia de conflito estava presente na concepção de patologia em Freud.\n\nConflito Psíquico e Patologia\n\nA ideia de forças em oposição esteve presente no século XIX em vários campos do saber. No campo da filosofia física, o princípio de conservação de energia apresentava a ideia de forças químico-físicas inerentes à matéria, redivididas a forças de atração e repulsão. Uma vez que a ideia de conflito é uma constante na obra freudiana, podemos dizer que Freud de algum modo se inspirou e foi influenciado pela fisiologia física, pela medicina e pela biologia de seu tempo. Por exemplo, para Claude Bernard, o conflito apresentava-se entre as forças de criação vital e de destruição orgânica como uma dualidade que não excluía a união. Bichat também nos falava que vida era um conjunto de forças que resistam à morte, sob a forma de um antagonismo oppositionista.\n\nEm Freud, o conflito psíquico é constitutivo do sujeito, uma vez que ele baliza não só a concepção do aparelho psíquico, como também de patologia. De acordo com Laplanche e Pontalis, a ideia de conflito esteve presente desde o começo de sua obra, e de uma maneira geral foi utilizada quando exigências contrárias entravam em oposição (Laplanche e Pontalis, 1986). Assim, desde “Estudos sobre a histeria” (1893), o conflito já aparecia na clínica de Freud: quando o tratamento aproximava-se das recordações patogênicas, uma resistência era criada contra as representações incompreensíveis. A partir de 1895-6, quando a atividade defensiva foi reconhecida como o mecanismo principal na etiologia da histeria e generalizadas as outras psiconeuroses (as psiconeuroses de defesa), o sintoma foi definido como o produto de um compromisso entre dois grupos de representações que agiam como forças de sentido contrário.\n\nEm 1900, o conflito reaparece atuando sobretudo nos sonhos, nas formas de funcionamento energético dos sistemas consciente e inconsciente: o inconsciente exerce uma ação permanente nos sonhos, de acordo com sua livre descarga de energia, contrária à força dos sistemas pré-consciente/consciente. te, que tentam vincular essa energia. Mas o que nos parece importante marcar nessa concepção de sujeito acoplada ao inconsciente é que a neurose é o resultado de um conflito entre os sistemas psíquicos; melhor ainda, um conflito entre suas formas de funcionamento. Assim, o sistema inconsciente exerceria uma ação permanente nos sonhos e nos processos psíquicos, o que exigiria a ação de uma força contrária, da censura pré-consciente.\n\nA Entrada do Conceito de Pulsão\n\nNo caminho construído até agora, falamos pouco do conceito de pulsão (Trieb). Qual é sua importância para nosso tema? Em 1894, Freud utilizou o termo “pulsão” em relação às tensões endógenas que buscavam soluções, e, em 1895, em relação aos estímulos endógenos que se colocavam no corpo como força. Mas foi somente em 1905, quando escreveu o artigo “Três ensaios de teoria sexual”, que este conceito de demarcação do psíquico com o corporal foi enunciado claramente.\n\nPara Freud, a sexualidade distingue-se da ideia de sexo identificada exclusivamente aos órgãos genitais; o corpo é constituído de zonas erógenas, passíveis de prazer sexual. Esta sexualidade está presente na infância, o que já expressa uma diferença de Freud para com sua época. Assim, desde a infância há um objeto e um alvo sexual atuantes. No entanto, durante o desenvolvimento, podem acontecer desvios da pulsão sexual, ou melhor, da escolha de objetos da pulsão sexual.\n\nA ideia de “desvio” parte do pressuposto de que haveria um caminho correto ou normal a ser seguido, a partir de uma ordem dada. O próprio Freud nos fala disso, de “desvios em relação a uma norma suposta” (Freud, 1905: 84). Então, se por um lado Freud utiliza a terminologia “norma”, por outro parece que ele mesmo já adianta que a norma é uma norma suposta em dado lugar, em dado tempo.\n\nAo remontar-se a Aristóteles no Banquete de Platão, Freud indica que a pulsão sexual se distingue de algo biológico: segundo Freud, por causa deste mito, as pessoas estariam romanticamente acostumadas à união entre homens e mulher. Contudo, existem uniões que não obedecem a essas regras, as uniões dos “invertidos”. Isso acontece porque o próprio alvo da pulsão sexual é variável, porque a pulsão transcende a ordem biológica.\n\nAssim, a degenerescência dos invertidos não pode ser considerada como uma causa determinante da inversão. Contudo, mais do que isso, em 1915, uma nota de rodapé acrescentada aos “Três ensaios”, Freud coloca que 58\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 todos os seres humanos seriam capazes de fazer uma escolha homossexual. Desta forma, a partir do homossexualismo, ele vem relativizar o que seria normal e o que seria patológico na escolha de objetos pulsionais:\n\n“A experiência ensina que entre os insanos não se observam perturbações da pulsão sexual diferentes das achadas nas pessoas sãs, em raças e em sociedades inteiras” (Freud, 1905: 135).\n\nE o que nos interessa: “Os insanos apresentam somente este desvio aumentado (...)” (Freud, 1905: 135). Então, se por um lado Freud ultrapassa o pensamento de sua época, ao relativizar o que é normal e o que é patológico em relação à sexualidade, por outro ele vem retomar a condição quantitativa na causa das doenças. Assim, a explicação da histeria passa pelo ponto de vista quantitativo, no sentido do excesso de excitações pulsionais que devem ser descarregadas. Diz Freud:\n\n“O caráter histórico permite individualizar uma quota de recalque sexual que ultrapassa em muito a medida normal; um aumento das resisten- cias contra a pulsão sexual” (Freud, 1905: 135 – grifo do autor).\n\nPortanto, entre a pressão pulsional e seu antagonismo à sexualidade, a doença oferece um caminho de fuga e de evasão do conflito, que transforma os impulsos pulsionais em sintomas. Conflito Pulsional e Patologia\n\nEm 1910, Freud escreve um artigo intitulado “A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão”, no qual ele organiza claramente o conflito de pulsões que estão a serviço da sexualidade, da consequência da satisfação sexual — as pulsões sexuais — e pulsões cujo objetivo é a autoconservação — as pulsões do ego. Portanto, com a primeira teoria das pulsões, a instância defensiva egóica coincide com um dos pólós pulsionais, que se confrontam com as pulsões sexuais. Mais tarde, com o segundo dualismo pulsional, o conflito será entre as pulsões de vida e as pulsões de morte.\n\nÉ importante retomar a relação que a ideia de conflito mantém com a problemática da patologia. Neste contexto, no caso da primeira teoria pulsional, Freud coloca que a natureza das neuroses é oriunda do conflito entre as pulsões. Assim, no artigo “O interesse pela psicanálise” (1913), ele diz:\n\n“(...) A fórmula final é que a psicanálise chegou quanto à natureza das neuroses é a seguinte: o conflito primordial do qual surgem as neuroses é um conflito entre as pulsões sexuais e as pulsões que conservam o ego. As neuroses representam uma dominação mais ou menos parcial do ego pela sexualidade, depois do ego ter fracassado na tentativa de sufocá-las” (Freud, 1913: 184).\n\nDesta forma, as neuroses ligam-se ao confronto dos interesses da sexualidade com os da autoconservação. Este confronto desencadearia o recalque, que por sua vez originaria a produção sintomática. Em outras palavras, o estado patológico remete-se a um conflito que causa desprazer, que aumenta o nível de energia no sujeito e, por consequência, produz o recalque. Neste contexto, algumas perguntas podem ser colocadas: será que poderia existir um equilíbrio de forças no sujeito? E se existisse, seria ele sinônimo de saúde? E ainda: o que é o desequilíbrio? Será que o desequilíbrio faz parte do sujeito? Ora, mesmo havendo uma certa postura freudiana em busca do equi- líbrio, através da ideia de \"reconciliação de forças”, da ideia de compromisso, Freud indica que o equilíbrio é sempre ameaçado, e um equilíbrio constantemente controlado, ou seja, uma estabilidade mantida contra as perturbações. Essa questão será retomada adiante.\n\nRetomando a Clínica Psicanalítica\n\nVimos que no final do século XIX Freud se deparou com os limites da hipnose como técnica de tratamento. Com o abandono da hipnose, a tarefa passou para a descoberta, com as associações livres do paciente, do que ele deixava de recordar. Aqui a resistência deveria ser contornada pela interpretação, e a transferência era um obstáculo ao tratamento, uma falsa ligação, que deveria ser tornada consciente e eliminada. A ab-reação foi substituída pelo trabalho que o analisando teria para superar a censura nas associações livres, mas o enfoque sobre as situações da formação do sintoma ainda era mantido (Freud, 1914). \n\nNo caso clínico “Dor”, Freud já havia reconhecido o problema da transferência, embora ainda considerasse esta última como um obstáculo ao tratamento, quando não fosse identificada e transformada em aliada. Mas é por volta de 1909, nas “Cinco lições de psicanálise”, que Freud sublinha o papel da transferência como aliada, apontando que somente no espaço transferencial 60\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 os sintomas poderiam ser solucionados. E entre 1912 e 1915, Freud retoma a questão da transferência no tratamento, quando escreve vários artigos sobre a técnica psicanalítica.\n\nSegundo Freud, todo ser humano adquire um meio específico de se con- duzir na sua vida amorosa. Isso resulta num ou vários \"clichês estereótipos\", que são repetidos e reimpressos de maneira regular na trajetória da vida. Esses clichês também se dirigem à figura do psicanalista, o que faz com que o analisando o insira em uma das séries psíquicas que formou. Mas o que parece particularmente instigar Freud é o fato de a transferência surgir tam- bém como uma poderosa resistência ao tratamento, o que desemboca na ideia de que há \"forças cuja meta são a saúde e aquelas que a contrariam\" (Freud, 1912: 101). É a partir desse contexto que Freud fala que há uma transferência positiva e uma negativa no tratamento, respectivamente, de sentimentos afetuosos e hostis. Nas formas curvas de psiconeuroses, os dois tipos de transferência encontram-se juntos, expressando a ambivalência de sentimentos (Freud, 1912).\n\nPodemos dizer que a ideia da transferência ou sintoma traz consigo uma ampliação verificionista, expressando uma tentativa de localizar o fatortrau- mático, provando assim as hipóteses sobre a patologia do sujeito. Quando Freud abandona a tentativa de colocar em foco um problema como um momento- to específicos, sugerindo uma \"atenção flutuante\" do analista frente a tudo que escuta, uma mudança estratégica parece se configurar: do lado do ana- lista, este deve deixar-se levar pelas associações livres; e do lado do analista, este deve deixar sua atenção focalizada em suspenso e ao mesmo tempo tentar dissolver as resistências criadas no campo da análise, ou seja, tudo o que pode impedir o acesso à verdade do inconsciente.\n\nMas falar em atenção flutuante, num método de trabalho que procura não privilegiar a priori qualquer elemento do discurso do analisando, buscando colocar o analista o mais livre possível em sua própria atividade inconsi- ente, é colocar em jogo a questão da implicação do analista no processo analítico. Estamos bem distantes aqui da clínica freudiana do final do século XIX, segundo a qual tentava-se criar um sistema fechado e neutro para que se obtivesse a cura. Agora, a psicanálise não quer mais provar algo: a ambição verificionista se desloca para dar ênfase à relação intersubjetiva entre o analista e o analisando e aos obstáculos ao curso da fala. Nesse sentido, não importa nem mesmo se o analisando vai discordar ou concordar com a interpretação do analista: o que importa é que se mantenha o trabalho de associações livres no campo transferencial. Por fim, é importante dizer que essas modificações técnicas, que dão relevo aos obstáculos e às resistências no campo da transferência, vêm re- alçar o tema da repetição na psicanálise. Este é o tema do próximo ponto.\n\nA Repetição na Transferência\n\nNo artigo \"Recordar, repetir e elaborar\" (1914), Freud coloca que o analisando começa o tratamento por uma repetição na transferência, trazen- do para primeiro plano a problemática da compulsão à repetição: \"(...) se no trajeto posterior esta transferência [positiva] se torna hostil e hiperinterna, e por isso necessita de recalquentamento, o recordar dá lugar incid- ao ao atuar. E a partir deste ponto, as resistências consomem a sequência do que se repetiu. O enfermo extrai do arsenal do passado as armas com que se defende da continuação da cura, e que é preciso arrancar-se peça por peça\" (Freud, 1914: 153).\n\nPara transformar a compulsão à repetição em recordar, é necessário um trabalho do analisando junto ao analista:\n\n\"É preciso dar tempo ao enfermo para concentrar-se na resistência, não cone- cida para ela; para rebolhar-la, prosseguindo o trabalho em desafio a ela e obedecendo à regra analítica fundamental. Somente no apoio da resistência se descobrem, dentro do trabalho em comum com o analisando, os impulsos pulsionais recalcados que a alimentam e que em virtude dessa vivência o paciente se convence de sua existência e poder\" (Freud, 1914: 157).\n\nFreud completa dizendo que é justamente esse trabalho de perclaração que, por mais árduo que seja para o analisando, efetua neste último as maiores mudanças, e permite a distinção do tratamento psicanalítico do tratamento por sugestão. Teoricamente, a perclaração pode ser equiparada à ab-reação das quantidades de afeto estranguldas pelo recalquemento, sem a qual o tratamento hipnótico seria infrutífero. Stengers coloca que é preciso entender essa ideia de \"doença artificial\" como uma doença de laboratório, purificada e identificável, como os corpos químicos do século XIX. Pois a neurose comum escapa à identificação: o analisando queixa-se de tudo e o psicanalista não tem meios de distinguir o que são suas queixas legítimas. Em contraste, a neurose de transferência está inteiramente centrada em torno do analista, fazendo com que este último possa decifrar o tipo de mecanismo em jogo na transferência, podendo en- tender as armas inconscientes do analisando. Portanto, a cena analítica seria o lugar de uma operação de purificação. No entanto, parece que não pode- mos equiparar a ideia de um laboratório com moldes positivistas do começo da obra freudiana, como o apresentado aqui. A busca freudiana de testemu- nhas fidedignas se deslocou: Freud agora ressalta que não quer provar nada*, sabe que a psicanálise não é imparcial, ou melhor, que o psicanalista não é imparcial, indicando isso através da ideia da contratransferência.\n\nPodemos concluir, então, dizendo que até há uma ideia de luta entre uma maneira de compreender Freud entre 1912, 1914, mas também — e isso é sobretudo o que nos interessa — indícios de que Freud já está repensando esse lugar de \"experimentador\". Ele mesmo demonstra que não gosta muito dessa ideia de laboratório:\n\n\"O recordar, tal como era feito na hipnose, não podia menos do que provocar a impressão de um experimento de laboratório. O repetir, no curso do trata- mento psicanalítico, segundo essa técnica mais nova, equivale a convocar um fragmento da vida real, e por isso não em todos os casos pode ser inofensivo e cerente de perigo. Daí se arranca todo o problema da que amplitude é inevitável: o 'agravamento durante a cura'\" (Freud, 1914: 153-4 — grifo meu).\n\nEntão, o repetir na análise não é inofensivo, pode inclusive agravar o estado do analisando, ou seja, Freud suspeita que há coisas que escapam ao seu controle. Aqui já começa a ser configurado, através de indícios, o campo Maria Regina Prata\n\ndo incontrolável, dos riscos e limites da análise, com o qual Freud vai se confrontar a partir de 1920.\n\nA Metapsicologia\n\nNarcisismo e Destinos Pulsionais\n\nPor volta de 1915, com os artigos metapsicológicos, Freud incrementou o pólo econômico do psíquismo. Assim, ele retornou a questão do traumatismo, aprofundou-se nos destinos das pulsões, deu relevo ao conceito de recalqueamento, ampliou o conceito de inconsciente e a noção de representação, falou de um narcisismo estruturante do sujeito, colocando que o ego contém libido, o que vinha problematizar a primeira teoria pulsional. Como conseqüência disso tudo, a questão da patologia foi mais enriquecida.\n\nEm 1914, Freud escreve um artigo intitulado \"Introdução ao narcisismo\" à localização dos investimentos da libido no ego, que posteriormente pode ser transmitido aos objetos. O narcisismo surge deslocado em direção a um ego ideal (Idealich), que se acha possuído de perfeição e valor, identificado com um ideal narcisico de onipotência (a megalomania atua nesta registro). Num segundo momento, o sujeito submeter-se-á ao ideal do ego (Ichideal), que delineia para o ego um ideal diferente de sua própria imagem. Segundo Freud, o desenvolvimento da estrutura egóica consiste no afastamento do narcisismo primário, ocasionado pelo deslocamento da libido em direção a um ideal do ego imposto de fora.\n\nNesta perspectiva, as formas de investimentos libidinais relacionam-se diretamente à maneira pela qual o psíquismo vai se estruturar, bem como aos diversos quadros patológicos. Assim, por volta de 1916, na conferência \"Os caminhos da formação do sintoma\", Freud confirma esse raciocínio:\n\n\"Não nos basta uma análise puramente qualitativa das condições etiológicas, Ou, para expressá-lo de outro modo: uma concepção meramente dinâmica\n\neconômico (...). É decisivo o fator quantitativo para a capacidade de resistên-cia da contração da neurose. Interessa a quantidade de libido não investida que uma pessoa pode considerar flutuante, e a quantidade da fração de sua libido que é capaz de desviar do sexual até as metas de sublimação. A met\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 64 final da atividade da alma, que no qualitativo pode definir-se como aspiração à ganância de prazer e à evitação do desprazer, se coloca, para a consideração econômica, como a tarefa de dominar os volumes de excitação (massas de estímulo) que operam no interior do aparelho psíquico, e de impedir seu êxtase gerador de desprazar\" (Freud, 1916: 341-2 – grifos do autor).\n\nFreud ressalta vários pontos importantes aqui. Primeiro, dá relevo ao fator econômico na contração da neurose. Esse fator econômico se remete às formas de investimento da libido, juntamente com o domínio das quantidades de excitação, que devem ser mantidas num nível suportável. Por outro lado, ele aponta que cada sujeito pode dar destinos diferentes às quantidades de excitação, originando, por exemplo, uma sublimação.\n\nEssa ideia de que o sujeito pode dar diferentes destinos às quantidades de excitação prepara a discussão trazida por Freud em 1915 no artigo \"As pulsões e seus destinos\". Segundo Freud, a pulsão é um estímulo constante, ou melhor, ela atua como um impacto constante, o que expressa uma de suas características principais, a força (Drang), que representa a medida de exigência de trabalho da pulsão, sendo portanto um fator quantitativo.\n\nUm outro componente também se conecta ao conceito de alvo ou meta (Ziel). O alvo da pulsão é sempre a satisfação, que só pode ser alcançada cancelando o estado de estímulo na fonte da pulsão. Assim, a satisfação é a redução da tensão provocada pela força. Embora esta meta seja invariável, os caminhos que levam a ela são diversos, de modo que a pulsão possui vários alvos mais próximos ou intermediários, combinados uns com os outros.\n\nO objeto da pulsão (Objekt) é a coisa através da qual ele atinge seu alvo. Ele é variável, e também pode ser uma parte do próprio corpo. Um laço extremamente íntimo é cristalizado da pulsão com o objeto e através da fixação, que póde firmar à sua mobilidade e características das patologias.\n\nFinalmente, a quarta característica da pulsão é sua fonte (Quelle). Freud coloca que, por fonte, entende-se o processo somático, interior a um órgão ou a uma parte do corpo, cujo estímulo é representado na vida psíquica pela pulsão.\n\nPodemos observar que os quatro componentes pulsionais — a força, o alvo, o objeto e a fonte — obedecem ao funcionamento do princípio do prazer. Pois se o que se coloca como pano de fundo de toda essa discussão é o fato de que o aparelho psíquico tende a fugir do desprazer, a pulsão vem, naturalmente, sublinhar essa tendência da vida psíquica. Assim, a fonte\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 65 corporal produz uma tensão, que se coloca como força e exige um trabalho, um movimento que evite o desprazer para atingir o alvo pulsional, ou seja, a satisfação. E a coisa pela qual este alvo pode ser obtido é o objeto. Do mesmo modo, a ideia de patologia que Freud nos apresenta nessa época obedece ao funcionamento do princípio de prazer, que é ainda mais Enrique-cido com o relevo do pólo econômico.\n\nDe acordo com Freud, o sujeito pode dar quatro destinos às pulsões: a reversão ao oposto; o retorno em direção ao eu; o recalqueamento e a sublimação. Essas vicissitudes são consideradas como modalidades de defesa contra as pulsões. Nessa época, a sublimação é considerada como uma dessexualização da pulsão sexual, uma mudança no alvo pulsional. Vejamos os outros destinos pulsionais.\n\nA reversão da pulsão ao seu oposto é dividida em dois processos seqüenciais: a mudança da atividade para a passividade e a reversão sem conteúdo. O primeiro processo pode ser exemplificado através dos pares de opostos sadismo-masoquismo e escopofilia-exibicionismo, nos quais a reversão afeta as finalidades das pulsões. A definitiva ativa (por exemplo: torturar, olhar) é substituída pela finalidade passiva (ser torturado, ser olhado).\n\nEm conjunto com a transformação da finalidade, ocorre a mudança de objeto. O objeto é abandonado, enquanto da energia que era produzido-o sujeito. Em sequência, uma pessoa estranha é mais uma vez procurada como objeto, e com a mudança de finalidade, assume um papel ativo. Vejamos, no próximo ponto, a relação do recalque com a problemática da patologia.\n\nRecalqueamento e Patologia\n\nO conceito de recalqueamento (Verdrautung) está presente em toda a obra freudiana, e é na articulação com a clínica que ele vai se impondo, desde os primeiros tratamentos com histéricos, em que Freud verificou que os pacientes não tinham à sua disposição determinadas recordações devido a resistência psíquica.\n\nPHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 9(1): 37-81, 1999 66 Mas foi em meados de 1915 que Freud aprofundou a discussão do recalamento, discutindo suas relações com os conceitos de pulsão, a noção de representação e o conceito de inconsciente.\n\nSegundo Freud, o recalamento é responsável pela clivagem do psíquico em instâncias, “o inconsciente, e o pré-consciente/consciente”. O recalamento é um dos destinos possíveis que o representante ideativo (Vorstellungrepräsentanz) da pulsão pode sofrer, consistindo na tentativa de manter este impulso distante da consciência. O motivo deste afastamento seria que este impulso causaria desprazer e prazer ao mesmo tempo, mas em lugares diferentes. Como a pulsão não pode escapar de si própria, se a força motora do desprazer for mais vigorosa do que a do prazer, acontece o recalamento.\n\nNesta perspectiva, podemos pensar a relação da patologia com o recalamento, uma vez que este último é um processo que permite o ad-vento do inconsciente, a clivagem do psíquico em instâncias, mas também, o recalamento também será a condição da patologia, da criação de uma fobia ou de uma neurose. Nesse sentido, podemos perguntar qual seria a especificidade do patológico em Freud, uma vez que o recalamento faria parte da “normalidade”.\n\nMas essa questão pode ser encaminhada a partir das próprias palavras de Freud, que indicou que uma certa “dose” de recalamento seria “normal” nos sujeitos, e que tudo dependia das “magnitudes de excitações”: nesse sentido, a neurose seria conduzida a um recalamento “excessivo” das pulsões sexuais. Contudo, é necessário lembrar que quando falamos na noção de “normal”, nos remetemos imediatamente às ideias de “regra”, de “regular”, e em Freud não há uma regra que se aplique a todos: o normal e o patológico são sempre singulares, não há uma norma absoluta no discurso freudiano.\n\nPor fim, vale discutir um pouco mais o problema da quantidade em Freud. Destacamos sua preocupação com a questão do que é desprazeroso e prazeroso para o sujeito, ou seja, com a primazia do princípio do prazer. O aumento da quantidade de excitação interna seria sentido como desprazer e seu rebaixamento como prazer. Um aspecto importante nessa questão é o problema do equilíbrio de forças no aparelho psíquico. Pois uma vez que Freud ressalta que as representações são investidas constantemente pela pulsão, só podendo ser mantidas no inconsciente se uma força igualmente constante for exercida em sentido contrário (Laplanche e Pontalis, 1986), há aqui a ideia de um equilíbrio dinâmico de forças no psíquismo.\n\nAssim, o modelo de patologia utilizado nessa época é incrementado com o pólo econômico do aparelho psíquico, pelo qual Freud deu mais complexidade ao tema do recalamento, aos destinos pulsionais, aos investimentos do libido, à noção de representação e ao conceito de inconsciente, e parece ser ainda um modelo homeostático, na medida em que, como destacamos, há a ideia de um equilíbrio de forças a ser buscado.\n\nNo entanto, quando, por exemplo, Freud reconhece uma repetição em ato na análise ou quando fala que o ego contém libido, não podendo se contrar por as pulsões sexuais, ele já começa a se deslocar para o campo do que se dirige para além da representação, que o desencadeará, a partir de 1920, no conceito de pulsão de morte. Assim, se este último conceito vem afirmar que a vida produz as condições em que ela mesma pode ser destruída, esse aspecto também permitirá uma reavaliação do modelo de normal e patológico no pensamento freudiano.\n\nMais Além\n\nRumo à Pulsão de Morte\n\nNo título do artigo de 1920 — “Mais além do princípio do prazer” — Freud indica seus propósitos: ele está interessado nos fenômenos dos quais o princípio do prazer não consegue dar conta, ou melhor, que não obedecem ao objetivo do aparelho psíquico, ao baixar as tensões que causam desprazer. Ao contrário, existem experiências que ultrapassam esse objetivo, e é em busca delas que ele fará seu caminho.\n\nInicialmente, Freud fala da relação do princípio da constância com o princípio do prazer. Assim, depois de citar a tendência à estabilidade desen-volvida por Fechner, que relaciona a estabilidade e a instabilidade ao prazer e ao desprazer, ele fala que o trabalho psíquico tenta manter constante ou tão baixas quanto possível as excitações internas, para ressaltar, em seguida, que o princípio do prazer decorre do princípio de constância.\n\nNão obstante, Freud percebe que se há no aparelho psíquico uma tendência ao princípio do prazer, nem sempre se consegue chegar a essa harmonia. Ele então busca os eventos que contradizem este princípio, desenvolvendo seu raciocínio em torno dos impasses clínicos constituídos pelos fenômenos de repetição: os sonhos traumáticos, a transferência em que o paciente repete em vez de lembrar, e o fort da, em que a criança inscena o desaparecimento e reaparecimento de sua mãe jogando para longe um cartela e fazendo-o voltar.\n\nMas são os fenômenos da compulsão à repetição que apresentam um\nrepetição desprazerosa e vêm expressar um poder demoníaco na vida psíquica. Segundo Freud, essa compulsão à repetição destrona o princípio do prazer, parecendo mais originária, mais elementar e mais pulsional do que ele. Essa característica da compulsão é o que conduzirá Freud ao conceito batizado de pulsão de morte.\n\nPara chegar à elaboração teórica desse conceito, Freud retoma, a partir de Breuer, as concepções de energia livre e energia vinculada, colocando que as cargas de energia apresentam-se sob duas formas no aparelho psíquico: um jogo de investimento que flui livremente e pressiona no sentido da descarga, e um investimento quiescente. A noção de ligação é relacionada aqui à capacidade pulsional de constituir ou não formas organizadas. Como a compulsão à repetição nem sempre obtém êxito nessa tentativa de ligação, Freud é levado a buscar algo que aponte para o campo de ação do princípio do prazer. Esse algo é a pulsão de morte.\n\nDe acordo com Freud, as pulsões de vida e pulsões sexuais se opõem ao trabalho das pulsões de morte, e são definidas pelo estado-belicamento de formas mais organizadas. A vida de cada sujeito consiste no conflito dessas duas classes de pulsões, enquanto a morte significa a vitória das pulsões de morte. As duas pulsões sempre aparecem mescladas, sendo que as pulsões de vida seriam ruidosas e as pulsões de morte silenciosas. Freud aqui está mais próximo do pensamento de Bichat, ao afirmar que “a meta de toda a vida é a morte” (Freud, 1920: 38), vendo nesse movimento algo da ordem de um retorno a um estado anterior das coisas.\n\nÉ interessante notar que, para fazer sua especulação sobre a pulsão de morte, Freud busca analogias na biologia, remontando-se a Hering, que, como sabemos, estudou uma importante função de auto-regulação do organismo, a respiração. Foi a partir dele que Breuer distinguiu as duas formas de energia e concebeu o princípio de constância como um regulador homeostático. Contudo, não é curioso que a própria ferramenta — a pulsão de morte — que faz com que Freud ultrapasse a ideia de homeostase, o faça utilizar a biologia, retomar a Breuer, e fazer comparações com Hering? Isso justificaria, portanto, o fato de Freud relacionar em 1920 princípio do prazer e com princípio de Nirvana: \"Temos discernido que a tendência dominante da vida psíquica, e talvez da vida nervosa em geral, a de rebaixar, manter constante, suprir a tensão interna do estímulo [o princípio de Nirvana, segundo a terminologia de Barbara Lowl] do qual é expressão o princípio do prazer, esse constitui um de nossos mais fortes motivos para ter na existência das pulsões de morte\" (Freud, 1920: 54).\n\nOra, se o objetivo de Freud é buscar as experiências que se dirigem para mais além do princípio do prazer, por que então ele relaciona, no penúltimo capítulo do artigo de 1920, os princípios de prazer, nirvana e constância? No último capítulo, ao falar dos impasses que a repetição compulsiva traz ao trabalho analítico, ele retoma o retorno da quiescência do mundo inorgânico ocasionada pela função do princípio do prazer, para afirmar ainda que o princípio do prazer parece estar a serviço das pulsões de morte.\n\nO que parece, portanto, é que no texto \"Mais além do princípio do prazer\" Freud não rompe ainda definitivamente com a ideia de homeostase, mas traz as ferramentas e os índices que permitirão essa ruptura. Assim, quando ele ilustra a segunda dualidade das pulsões, através da associação vital dos organismos multifacetados, parece-nos que esta aproximação com a biologia é utilizada para, em páginas seguintes, criar uma discussão que transcende os próprios limites da biologia, que é a discussão trazida pelo conceito de pulso de morte.\n\n Freud, Entropia e Estruturas Disipativas\n\nVimos anteriormente os dois princípios da termodinâmica, e para retona-los de forma simplificada podemos dizer que o primeiro princípio remonta à conservação de energia em sistemas isolados. Como não se pode utilizar toda a energia num sistema, haveria o problema de harmonizar as perdas com a conservação energética, e é a partir dessa questão que chegamos ao segundo princípio da termodinâmica, no qual em qualquer transformação a entropia do sistema aumenta num grau máximo, e quando esse processo pára, o sistema permanece em estado de constância.\n\nSe o segundo princípio da termodinâmica aponta para a tendência de um sistema caminhar para a desordem e degradação, até uma situação em que haja um nivelamento da energia que traria como perspectiva final a morte térmica, a ligação com o conceito freudiano de pulso de morte seria imediata. No entanto, para que consideremos essa ligação entre pulso de morte e entropia — ou melhor, entre pulso de morte e morte térmica — ausência de trabalho, alguns cuidados têm que ser tomados.\n\nEm primeiro lugar, cabe perguntarmos se Freud, em \"Mais além do princípio do prazer\", pensou a pulsão de morte tendo como inspiração o segundo princípio da termodinâmica. Vimos que nesse último artigo ele parece ainda não ter rompido completamente com a ideia de homeostase, até porque ele relacionou os princípios de prazer, Nirvana e constância, relação essa que será superada com o texto \"O problema econômico do masoquismo\" (1924).\n\nDissemos que Freud utilizou a medicina, a biologia e a termodinâmica de sua época a seu próprio modo, o que quer dizer que não podemos fazer uma transposição exata dos termos usados na física para a psicanálise, até porque só podemos falar de um aparelho psíquico em sua relação com o mundo se quisermos ser mais claros em sua relação com o outro. Assim, o sistema freudiano é feito de trocas, de investimentos e de retiradas de energia com o mundo. Portanto, o segundo princípio da termodinâmica já não se aplica energia, essa energia retornaria ao sujeito insistentemente, na tentativa de se ligar a algum grupo de representações.\n\nContudo, se a pulsão de morte não quer dizer realmente a morte em si mesma, ou a morte térmica, é necessário lembrarmos que se a pulsão de morte funcionar livremente, sem produzir ligações com as pulsões de vida, ela realmente pode levar à morte. No último parágrafo do texto \"A degnação\" (1925), justamente quando Freud destaca que a função do julgamento corresponde à dualidade pulsão de morte x pulsão de vida, expressando a positividade do trabalho das pulsões de morte e remetendo à degnação essas pulsões, ele ressalta também o negativismo dos psíquicos, que é resultado de uma desfusão das pulsões efetuada através da retirada dos componentes libidinais, ou seja, da retirada de Eros e do trabalho solitário de Tânatos. Esse aspecto mortificante não alimentaria a ideia de entropia na segunda dualidade pulsional? Parece, então, que temos que pensar se Freud nos deu meios para ultrapassar a leitura fiscalista da pulsão de morte, e se isso é viável quando falamos do negativismo dos catanônicos, do abandono da vida, do suicídio, etc.