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International Baccalaureate Extended Essay Português Língua A Lingua e Literatura Categoria 1 O abuso de poder por parte dos latifundiários e dos membros da igreja católica no Nordeste brasileiro De que forma a peça Auto da Compadecida de Ariano Suassuna retrata o abuso de poder por parte das elites brasileiras latifundiários e dos membros da igreja católica no Nordeste Brasileiro durante o século XX Numero de Palavras Sessão Novembro 2024 Código do Aluno IBIS Sumário 1 Introdução p2 2 Desenvolvimento p3 21 O Auto da Compadecida p3 211 Contexto Historico da narrativa p3 212 O abuso de poder por partes das elites em O Auto da Compadecida p4 213 O abuso de poder por parte da igreja católica em Auto da Compadecida p6 22 Uma análise comparativa sobre o abuso de poder retratado em O Auto da Compadecida p8 3 Conclusão p 10 Bibliografia p11 1 1 Introdução O Auto da Compadecida é uma obra literária pertencente ao gênero dramático que faz parte da literatura clássica brasileira Escrita por Ariano Suassuna e publicada no ano de 1955 a peça ilustra a sociedade nordestina incluindo aspectos como a cultura popular local a religiosidade da população e as estruturas e relações sociais existentes tanto no país quanto na região em si Além disso o texto apresenta uma forte crítica social dirigida à realidade da região do sertão nordestino estando relacionada principalmente à questão do abuso de poder da corrupção e da desigualdade social entre os mais ricos e os mais pobres Para construir e veicular tais críticas ao leitor Suassuna utiliza principalmente a satira e o humor e também a religião como visto pelo juízo final dos personagens da peça no final da obra Estas críticas presentes no texto são direcionadas especialmente aos membros da igreja católica e a igreja como uma instituição em si e também as elites políticas sociais e econômicas da época ambas sendo fortemente criticadas por seu abuso de poder contra o resto da sociedade nordestina Com base nestas críticas chegase a seguinte questão a qual será abordada e analisada no decorrer deste trabalho De que forma a peça Auto da Compadecida de Ariano Suassuna retrata o abuso de poder por parte das elites brasileiras latifundiários e dos membros da igreja católica no Nordeste Brasileiro durante o século XX Portanto este ensaio irá focar em responder esta questão analisando a forma com que Ariano Suassuna constrói e conduz tais críticas às elites latifundiárias e aos membros da igreja católica como através de e Por fim os recursos usados por Suassuna para expor tais críticas a ambos lados serão comparados para chegar a uma conclusão final em resposta à questão posta inicialmente Para explorar tal questão a peça O Auto da Compadecida será usada considerando os personagens da obra suas características e ações e também os recursos literários empregados por Ariano Suassuna no decorrer do texto de tal forma que as críticas feitas 2 por Suassuna a Igreja Católica e as elites latifundiárias sejam postas em evidência e devidamente analisadas Adicionalmente também serão consultadas fontes de pesquisa secundárias tais como críticas e análises literárias da peça trazendo mais profundidade e valor ao texto além de também fontes históricas que trarão informações necessárias para a melhor compreensão e interpretação da obra como por exemplo quem foram os latifundiários e a historia e papel da igreja católica no brasil durante o século XX 2 Desenvolvimento 21 O Auto da Compadecida 211 Contexto histórico da peça Para compreender as críticas feitas por Ariano Suassuna em O Auto da Compadecida é preciso entender o contexto histórico da peça tanto do autor em si quanto do período em que ela se passa João Pessoa Suassuna pai do autor da peça Ariano Suassuna foi governador do estado brasileiro da Paraíba na década de 1920 e foi assassinado em 1930 a tiros Na época segundo Dimitrov 2011 seu pai havia entrado em conflito com elites oligárquicas do estado por conta de acusações dele favorecer o sertão sobre a capital A peça se passa na década de 1930 na cidade de Taperoá Paraíba período marcado pelo coronelismo no nordeste brasileiro O coronelismo foi um período em que os coronéis latifundiários donos de terras tinham grande influência e poder político e econômico em suas regiões e exerciam tal poder para elegerem seus candidatos a governadores Em O Auto da Compadecida o coronelismo é visto através de Major Antônio Moraes que simbolizava o poder político e econômico sendo temido até pela igreja Portanto podese traçar um paralelo entre o latifúndio de Major Antônio Moraes de O Auto da Compadecida e o latifúndio do governo do pai de Ariano Suassuna pondo em evidência a forte crítica feita a esta camada da sociedade na obra Rangel Urbano and Diniz Amaral nd Adicionalmente vale ressaltar que a igreja católica também tinha um papel de suma importância dentro da sociedade nordestina da época dado que a maioria da 3 população brasileira era e até hoje católica a igreja também tinha grande influência sobre a política e cultura nordestina 211 O abuso de poder por parte das elites latifundiárias em O Auto da Compadecida Como já mencionado previamente uma das principais críticas feitas por Ariano Suassuna é contra o abuso de poder por parte das elites latifundiárias que foram discutidas acima Na peça os latifundiários são representados pelo Major Antônio Moraes e também pelo padeiro Podese ver a influencia e poder de Antonio Moraes na cidade em que o livro se passa em diversos trechos mas notoriamente quando o padre se recusa a benzer um cachorro mas muda de posicionamento quando ele descobre que o cachorro pertencia ao Major Padre É mas quem vai ficar engraçado sou eu benzendo o cachorroBenzer motor é fácil todo mundo faz isso mas benzer cachorro JOÃO GRILO É Chicó o padre tem razão Quem vai ficar engraçado é ele e uma coisa é o motor do major Antônio Morais e outra benzer o cachorro do major Antônio Morais PADRE mão em concha no ouvido Como PADRE E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais JOÃO GRILO É Eu não queria vir com medo de que o senhor se zangasse mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele Com medo de perder meu emprego fui forçado a obedecer mas disse a Chicó o padre vai se zangar PADRE desfazendose em sorrisos Zangar nada João Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar Falei por falar mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro Neste trecho evidenciase não só a influência e poder que a menção ao nome de Antonio Moraes tinha na sociedade neste caso na igreja mas também como seu nome e seus status era utilizado por terceiros e também pelo próprio major como forma de manipulação e de convencimento aos outros 4 MULHER ISSO QUE EU ESTOU FALANDO É a voz da verdade padre João O senhor agora vai ver quem é a mulher do padeiro JOÃO GRILO Ai ai ai e a senhora o que é do padeiro MULHER A vaca CHICÓ A Vaca MULHER A vaca que eu mandei para cá tem que ser devolvida hoje mesmo PADRE Mas até a vaca Sacristão Sacristão entra em cena o sacristão JOÃO GRILO Sacristão a vaca da mulher do padeiro tem que sair PADRE desfazendose em sorrisos Zangar nada João Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar Falei por falar mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro JOÃO GRILO cortante Quer dizer que benze não é PADRE a Chicó Você o que é que acha CHICÓ Eu não acho nada de mais PADRE Nem eu Não vejo mal nenhum em abençoar as criaturas de Deus CHICÓ Que invenção foi essa de dizer que o cachorro era do major Antônio Morais JOÃO GRILO Era o único jeito de o padre prometer que benzia Tem medo da riqueza do major que se péla Não viu a diferença Antes era Que maluquice que besteira agora Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus JOÃO GRILO O padeiro Pois ele chamou o patrão de cachorro e disse que apesar disso ia benzêlo ANTÔNIO MORAIS 5 Que loucura é essa JOÃO GRILO Não sei é a mania dele agora Benze tudo e chama a gente de cachorro ANTÓNIO MORAIS Isso foi porque era com seu patrão Comigo é diferente JOÃ GRILO Vossa Senhoria me desculpe mas eu penso que não ANTÓNIO MORAIS Você pensa que não JOÃO GRILO Penso sim E digo isso porque ouvi o padre dizer Aquele cachorro só porque é amigo de Antônio Morais pensa que é alguma coisa O abuso de poder por parte da igreja católica em O Auto da Compadecida PADRE E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais JOÃO GRILO É Eu não queria vir com medo de que o senhor se zangasse mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele Com medo de perder meu emprego fui forçado a obedecer mas disse a Chicó o padre vai se zangar PADRE Zangar nada João Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar Falei por falar mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro PADRE Você o que é que acha CHICÓ Eu não acho nada demais PADRE Nem eu Não vejo mal nenhum em abençoar as criaturas de Deus MANUEL Silêncio João não perturbe Ao Encourado Faça a acusação do bispo Aqui por sugestão de Clênio Wanderley o Demônio traz um grande livro que o Encourado vai lendo ENCOURADO Simonia negociou com o cargo aprovando o enterro de um cachorro em latim porque o dono lhe deu seis contos 6 BISPO E é proibido ENCOURADO Homem se é proibido eu não sei O que eu sei é que você achava que era e depois de repente passou a achar que não era E o trecho que foi cantado no enterro é uma oração da missa dos defuntos BISPO Isso é aí com meu amigo sacristão Quem escolheu o pedaço foi ele MANUEL Então acuse o padre PADRE De mim ele não tem nada o que dizer ENCOURADO É o que você pensa minha safra hoje está garantida Tudo o que eu disse do bispo pode se aplicar ao padre Simonia no enterro do cachorro velhacaria política mundana arrogância com os pequenos subserviência com os grandes JESUS A quem chamavam não que era Cristo Sou por quê JOÃO GRILO Porque não é lhe faltando com o respeito não mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado BISPO Calese atrevido MANUEL Calese você Com que autoridade está repreendendo os outros 7 Você foi um bispo indigno de minha Igreja mundano autoritário soberbo Seu tempo já passou Muita oportunidade teve de exercer sua autoridade santificandose através dela Sua obrigação era ser humilde porque quanto mais alta é a função mais generosidade e virtude requer Que direito tem você de repreender João porque falou comigo com certa intimidade João foi um pobre em vida e provou sua sinceridade exibindo seu pensamento Você estava mais espantado do que ele e escondeu essa admiração por prudência mundana O tempo da mentira já passou Uma análise comparativa sobre o abuso de poder retratado em O Auto da Compadecida 3 Conclusão Bibliografia Dimitrov E 2011 Genealogia e identidade familiares no teatro de Ariano Suassuna Artelogie Disponível em httpsdoiorg104000artelogie8676 Rangel Urbano AB and Diniz Amaral K nd ANÁLISE DO GÊNERO DRAMÁTICO REGIÃO NORDESTINA E SUAS RESPECTIVAS CARACTERÍSTICAS PERCEPÇÕES DE SUASSUNA NA OBRA O AUTO DA COMPADECIDA online Disponivel em httpseditorarealizecombreditoraanaisconedu2021TRABALHOEV150MD1SAID18 928072021170128pdf Accessed 17 Feb 2024 8 Sources 1 httpseditorarealizecombreditoraanaisconedu2021TRABALHOEV150MD1SAID18 928072021170128pdf 2 httpswwwtrabalhosgratuitoscomHumanasAdministraC3A7C3A3oAReligiosidad enaobraAutodaCompadecidade816116html 3 httpsguiadoestudanteabrilcombrestudooautodacompadecidaanalisedaobradearia nosuassuna 4 A SÁTIRA SOCIAL E A CRÍTICA MORALIZANTE NOS AUTOS DE GIL VICENTE E ARIANO SUASSUNA UMA COMPARAÇÃO ENTRE AUTO DA BARCA DO INFERNO E AUTO DA COMPADECIDA 1 MARCAS DO CORONELISMO NA OBRA O Coronelismo surgiu no início do século XX conhecido por ser um sistema político que prevaleceu durante a República Velha 18891930 em que o poder centralizavase nas mãos de coronéis que comumente eram senhores de famíliasabastadas fazendeiros ou senhores de engenho com grande influência exerciam poder sobre as esferas sociais inferiores e associavamse na política local Para Pinto 2017 o coronelismo é um sistema político que em geral está fundado em relações econômicas Nesse sentido a identificação de suas características associase às visões sobre o sistema econômico e político brasileiro e o Brasil Apesar da obra O Auto da Compadecida ter sido publicada em 1955 Ariano Suassuna nos apresenta ao contexto vivido na cidade de Taperoá em que viviase resquícios do Coronelismo com a figura do Major Antônio Morais que por seu poder econômico representava autoridade e influência uma figura temida até pelo padre da cidade PADRE E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais JOÃO GRILO É Eu não queria vir com medo de que o senhor se zangasse mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele Com medo de perder meu emprego fui forçado a obedecer mas disse a Chicó o padre vai se zangar PADRE Zangar nada João Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar Falei por falar mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro PADRE Você o que é que acha CHICÓ Eu não acho nada demais PADRE Nem eu Não vejo mal nenhum em abençoar as criaturas de Deus No fragmento acima o cachorro da mulher do padeiro está doente e ele pede que Chicó chame o padre para benzer o animal A princípio o padre resistiu em benzer o animal tratando a situação com desprezo e somente muda sua postura quando João Grilo mente de quem seria o animal a fim de se vingar do padeiro e sua esposa que eram péssimos patrões bem como buscava também acertar as contas com o padre Historicamente as características deste personagem também nos remetem aos impactos deixados pelo Coronelismo na região Nordeste Para Galvão 2010 esse momento marcou o Nordeste de formas negativas de maneira estereotipada e até mesmo fazendo referência a região ser subdesenvolvida onde os coronéis possuíam mais influência A imagem de poder quase absoluto ajudou a constituir a marca do coronel como líder da região rico poderoso filho das famílias mais ricas e há gerações detentoras de terras e poderes políticos no Nordeste A ideia de que a região é dominada por um esquema político obsoleto e centralizador reforça sua dependência da parte sul do país tida como desenvolvida Alimentar essa imagem do coronel ajuda a justificar o atraso com que se representava o Nordeste principalmente o sertão distante das sedes de governo e das mais importantes decisões políticas da região GALVÃO 2010 p 22 Para compreender como a figura do coronel tinha prestígio é importante ressaltar que a democracia era duvidosa já que sempre utilizavase de seu poder para garantir a sua eleição ou de algum apadrinhado políticos Além de somente homens possuírem o direito do voto esse acontecia com o objetivo de coagir Não raramente até utilizavase da força física para garantir o voto que era aberto ou seja era possível identificar cada eleitor A situação só teve fim quando Getúlio Vargas assumiu o poder em 1930 É necessário refletir sobre outro viés admitir a identidade coronelista implica também associarse uma visão estereotipada de subdesenvolvimento da região Nordeste onde os coronéis tiveram mais influência Assim admitir uma conduta autoritária como sendo uma reverberação de cunho coronelista significa incluirse no suposto universo nordestino de atraso e submissão da região em relação à área mais desenvolvidas do país Galvão 2010 p 30 Para além da obra é importante analisar a vida de Ariano Suassuna e compreender suas críticas para com os fragmentos de coronelismo colocados no personagem Major Antônio de Morais Além de sua caracterização de amedrontador arrogante e prepotente também nos remete às situações vividas pelo autor em sua infância no contexto político nordestino De acordo com Dimitrov 2011 João Pessoa Suassuna pai de Ariano e governador da Paraíba foi assassinado quando Ariano tinha somente três anos de idade no ano de 1930 em um período político tumultuado na região por discordar do próprio grupo político que o elegeu e entrou em conflito com diversos latifundiários O maior motivo dessas divergências é sobre a taxa de exportação do algodão João Pessoa adota cada vez mais a polarização sertão versus cidade Três desses elementos talvez os principais foram a guerra tributária a tentativa de desarmamento dos jagunços dos coronéis e a perseguição por parte de João Pessoa a funcionários ligados aos sertanejos Dimitrov 2011 Por tanto é possível conectar a figura fictícia do Major retratado por uma série de medidas que desagradam os coronéis sertanejos colaborando para acirrar Suassuna à influência exercida por essas figuras na região nordestina e uma crítica ao mostrar como a sociedade se sujeitava ao dinheiro poder e obediência e o temor existente as oligarquias regionais Aspectos religiosos Abordando críticas sociais Suassuna leva alguns de seus personagens ao juízo final por exemplo o cangaceiro Severino João Grilo o padeiro sua esposa adúltera padre bispo e sacristão Vale ressaltar que nos atos iniciais o autor já explorou todas as características e defeitos que logo depois são apontados pelo diabo a fim de que sejam condenados No que diz respeito a Igreja temos em pauta a corrupção existente quando o sacristão bispo e padre permitem que se realizasse o enterro do animal cachorro sabendo que este de acordo com João Grilo havia deixado dez contos de réis para o padre e três para o sacristão Criticando assim a postura de interesses dos líderes religiosos tratando com desprezo os fiéis menos abastados financeiramente Para os outros personagens ao padeiro é exposta sua avareza como patrão à Severino sua vida de crimes e por fim a esposa do padeiro por sua infidelidade e luxúria que são absolvidos de seus pecados Contexto Historico A obra O auto da Compadecida 1955 de Ariano Suassuna nos abre um leque de possibilidades temáticas para abordagens sobre a região nordestina e dentro disso diversos estudos podem ser realizados no que diz respeito aos seus aspectos culturais linguísticos e históricos bem como compreender o gênero dramático e teatral na obra A narrativa do autor está sempre ligada à tradição popular nordestina onde Suassuna se apropria da realidade já conhecida misturandoa com ficção de forma dinâmica apresentando em três atos humorísticos uma série de situações que levam os personagens ao julgamento final É embasado nessas situações que o trabalho se desenvolve e analisa algumas temáticas selecionadas dentro da obra A priori conhecer sobre a vida de Ariano sua literatura e a relevância e influência da região nordestina para seus escritos O primeiro aspecto cultural abordado é o campo linguístico apresentando uma série de variações linguísticas no dialeto nordestino Sobre o contexto histórico da obra consideramos apontar o Coronelismo momento histórico que marcou o Brasil onde o poder era concentrado nas mãos dos mais financeiramente abastados e estes por sua vez controlavam a vida e a política de suas cidades ameaçando a democracia e sujeitando os mais vulneráveis a represálias Ainda sobre os aspectos culturais é imprescindível apontar o campo religioso e juízo final onde Suassuna aborda de forma irônica reflexiva e humorística falar sobre o sujeito nordestino fazer o uso de sátiras para denunciar hipocrisias existentes dentro da sociedade como abuso de poder corrupção dentro da Igreja Católica traição mentiras e a dura realidade de fome e seca que também estão no contexto do sertão O Coronelismo surgiu no início do século XX conhecido por ser um sistema político que prevaleceu durante a República Velha 18891930 em que o poder centralizavase nas mãos de coronéis que comumente eram senhores de famílias abastadas fazendeiros ou senhores de engenho com grande influência exerciam poder sobre as esferas sociais inferiores e associavamse na política local Para Pinto 2017 o coronelismo é um sistema político que em geral está fundado em relações econômicas Nesse sentido a identificação de suas características associase às visões sobre o sistema econômico e político brasileiro e o Brasil Apesar da obra O Auto da Compadecida ter sido publicada em 1955 Ariano Suassuna nos apresenta ao contexto vivido na cidade de Taperoá em que viviase resquícios do Coronelismo com a figura do Major Antônio Morais que por seu poder econômico representava autoridade e influência uma figura temida até pelo padre da cidade PADRE E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais JOÃO GRILO É Eu não queria vir com medo de que o senhor se zangasse mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele Com medo de perder meu emprego fui forçado a obedecer mas disse a Chicó o padre vai se zangar PADRE Zangar nada João Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar Falei por falar mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro PADRE Você o que é que acha CHICÓ Eu não acho nada demais PADRE Nem eu Não vejo mal nenhum em abençoar as criaturas de Deus No fragmento acima o cachorro da mulher do padeiro está doente e ele pede que Chicó chame o padre para benzer o animal A princípio o padre resistiu em benzer o animal tratando a situação com desprezo e somente muda sua postura quando João Grilo mente de quem seria o animal a fim de se vingar do padeiro e sua esposa que eram péssimos patrões bem como buscava também acertar as contas com o padre Historicamente as características deste personagem também nos remetem aos impactos deixados pelo Coronelismo na região Nordeste Para Galvão 2010 esse momento marcou o Nordeste de formas negativas de maneira estereotipada e até mesmo fazendo referência a região ser subdesenvolvida onde os coronéis possuíam mais influência Para compreender como a figura do coronel tinha prestígio é importante ressaltar que a democracia era duvidosa já que sempre utilizavase de seu poder para garantir a sua eleição ou de algum apadrinhado políticos Além de somente homens possuírem o direito do voto esse acontecia com o objetivo de coagir Não raramente até utilizavase da força física para garantir o voto que era aberto ou seja era possível identificar cada eleitor A situação só teve fim quando Getúlio Vargas assumiu o poder em 1930 Para além da obra é importante analisar a vida de Ariano Suassuna e compreender suas críticas para com os fragmentos de coronelismo colocados no personagem Major Antônio de Morais Além de sua caracterização de amedrontador arrogante e prepotente também nos remete às situações vividas pelo autor em sua infância no contexto político nordestino De acordo com Dimitrov 2011 João Pessoa Suassuna pai de Ariano e governador da Paraíba foi assassinado quando Ariano tinha somente três anos de idade no ano de 1930 em um período político tumultuado na região por discordar do próprio grupo político que o elegeu e entrou em conflito com diversos latifundiários O maior motivo dessas divergências é sobre a taxa de exportação do algodão João Pessoa adota uma série de medidas que desagradam os coronéis sertanejos colaborando para acirrar cada vez mais a polarização sertão versus cidade Três desses elementos talvez os principais foram a guerra tributária a tentativa de desarmamento dos jagunços dos coronéis e a perseguição por parte de João Pessoa a funcionários ligados aos sertanejos Dimitrov 2011 3 4 No decorrer da peça vão surgindo as figuras do Padeiro e da Mulher denunciados no julgamento por avareza e adultério respectivamente do Padre do Sacristão e do Bispo sempre interessados no dinheiro e na posição social dos mais abastados além das figuras de Antônio Morais homem rico da região do Frade homem reto e piedoso e dos salteadores Severino e Cangaceiro assassinos e ladrões Por fim após a morte de todos personagens por Severino e o Cangaceiro também mortos com exceção de Chicó e do Frade surgem no julgamento Jesus Cristo chamado Manuel pelo Demônio o Encourado Demônio e a Virgem Maria A Compadecida Nesse sentido Magaldi 2004 p 239 revela que A estrutura de A Compadecida está de acordo com esse espírito de improvisação As personagens se são necessárias ao desenvolvimento da trama sucedendo se com uma lógica irrepreensível dão a impressão de que surgem à mercê dos acontecimentos isto é são chamadas a participar da ação pois do contrário ela não prosseguiria Diferentemente do auto de Gil Vicente o desenvolvimento da personalidade das figuras do Auto da Compadecida possui maior aprofundamento pois seus comportamentos morais são justificados no momento do julgamento por sentimentos psicológicos mais complexos do que a simples aparência sugere e são revelados pela compaixão da advogada Virgem Maria diante dos pecadores que pedem misericórdia Dessa forma o Bispo o Padre e o Sacristão apesar de serem acusados pelo Encourado de arrogância preguiça e hipocrisia tem suas faltas atenuadas pelos sentimentos de medo da morte do sofrimento da fome Já o Padeiro apesar de ser avaro e de ter tratado mal a Mulher possuía o medo da solidão e a Mulher sendo adúltera justifica que assim o fazia por ser maltratada pelo marido Severino e o Cangaceiro mesmo sendo assassinos são desculpados pela Virgem Maria por terem enlouquecido depois de perderem suas famílias Todos dessa forma pela intercessão da Compadecida conseguem ir para o purgatório João Grilo por sua vez tem como justificativas para sua atitude de vingança a exploração que sofria dos patrões conseguindo a graça de voltar a viver com a promessa de emendarse Com relação à cobiça em Auto da Compadecida a crítica se dirige em especial aos membros da igreja prontos a bajular e fazer as vontades dos mais ricos sempre tendo em vista alcançar benefícios pessoais É assim quando João Grilo pede ao Padre para dar a benção a um cachorro que está morrendo A princípio o Padre reluta por saber pelas regras eclesiais que não é permitido dar bênçãos a cachorros moribundos porém quando João Grilo mentindo lhe revela que o dono do cachorro é Antônio Morais homem de posses a atitude do Padre muda completamente PADRE E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais JOÃO GRILO É Eu não queria vir com medo de que o senhor se zangasse mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele Com medo de perder meu emprego fui forçado a obedecer mas disse a Chicó o padre vai se zangar PADRE desfazendose em sorrisos Zangar nada João Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar Falei por falar mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro SUASSUNA 1978 p 3334 Desfeita a confusão armada por João Grilo e a descoberta de que o cão era do Padeiro e da Mulher novamente João Grilo apela dessa vez à ambição do sacristão ao alegar que o animal já morto deixou um testamento com a condição de que fosse enterrado em latim Os três religiosos Sacristão Padre e Bispo reagem da mesma maneira ao tomarem conhecimento do lucro que poderiam obter SACRISTÃO enxugando uma lágrima Que animal inteligente Que sentimento nobre Calculista E o testamento Onde está SUASSUNA 1978 p 64 PADRE Que cachorro inteligente Que sentimento nobre SUASSUNA 1978 p 67 BISPO É por isso que vivo dizendo que os animais também são criaturas de Deus Que animal interessante Que sentimento nobre SUASSUNA 1978 p 85 Cabe destacar nesse sentido a forma cômica com que a crítica moralizante é operada em Auto da Compadecida seja pelos elementos envolvidos nas confusões tramadas por João Grilo cãodefunto com exéquias solenes gato que descome dinheiro etc seja pelas reações dos personagens que não cuidam em disfarçar seus próprios interesses e defeitos de caráter Apesar da cobiça dos membros da igreja ser um assunto em si mesmo grave em A Compadecida a forma de denunciar este problema é através do riso da ausência de seriedade Semelhantemente a denúncia que João Grilo faz da exploração que sofre de seus patrões ganha contornos de comédia levandose em conta a forma com que o personagem busca vingarse Sabendo da importância que os patrões dão ao lucro e do apego da mulher do Padeiro por animais João Grilo inventa a história do gato que descome dinheiro e consegue vendêlo por um preço alto à patroa Por trás das mentiras e das confusões que cria João Grilo se justifica respondendo a Chicó JOÃO GRILO Está esquecido da exploração que eles fazem conosco naquela padaria do inferno Pensam que são o cão só porque enriqueceram mas um dia hão de me pagar E a raiva que eu tenho é porque quando estava doente me acabando em cima de uma cama via passar o prato de comida que ela mandava para o cachorro Até carne passada na manteiga tinha Para mim nada João Grilo que se danasse Um dia me vingo SUASSUNA 1978 p 39 LATIFUNDIÁRIOS PERSONAGENS São alegóricos ou seja não representam indivíduos mas tipos que devem ser compreendidos de acordo com a posição estrutural que ocupam A criação desses personagens possibilita que se enxergue a sociedade de uma cidadezinha do Nordeste O Encurado o Diabo segundo uma crença nordestina o diabo utiliza roupas de couro e vestese como um boiadeiro Funciona como uma espécie de antagonista de João Grilo como ele também é astuto mas acaba sendo derrotado pelo herói Manuel Nosso Senhor Jesus Cristo personagem que simboliza o bem porém um bem sem misericórdia É representado por um ator negro a fim de que isso produza um efeito de estranhamento no público A Compadecida Nossa Senhora heroína da peça funciona como uma advogada de João Grilo e de seus conterrâneos derrotando com seus argumentos cheios de misericórdia os planos do Encurado de levar todos ao inferno Chicó é o contador de causos o mentiroso ingênuo que cria histórias apenas para satisfazer um desejo inventivo Chicó se aproxima do narrador popular e suas histórias revelam muito do prazer narrativo desinteressado da cultura popular Chicó e João Grilo são como a dupla de palhaços entre os quais a esperteza é mal repartida um sempre a tem de mais e o outro de menos Palhaço é o anunciador da peça e também o grande comentador das situações Suas falas apresentam muitas vezes um discurso mais direto que dá a impressão de vir do autor Na verdade o Palhaço exerce função metalinguística no espetáculo ao refletir sobre o próprio mecanismo mágico de produção da imitação e ao suprimir a distância entre realidade e representação Mulher do padeiro esposa infiel e devassa tem amor genuíno apenas por seus animais de estimação Frade bom sacerdote serve no enredo da peça para salvaguardar a instituição Igreja das críticas do autor Severino do Aracajú cangaceiro violento e ignorante Cangaceiro ajudante de Severino seu papel é apenas puxar o gatilho e executar outros personagens Demônio ajudante do Diabo parece disposto a condenar todos os personagens mortos no final do segundo ato