2
Linguística
UMG
2
Linguística
UMG
4
Linguística
UMG
7
Linguística
UMG
1
Linguística
UMG
3
Linguística
UMG
146
Linguística
UMG
11
Linguística
UMG
7
Linguística
UMG
1
Linguística
UMG
Texto de pré-visualização
STEVEN PINKER O instinto da linguagem Como a mente cria a linguagem TRADUÇÃO CLAUDIA BERLINER REVISÃO TÉCNICA CYNTHIA LEVART ZOCCA Martins Fontes São Paulo 2004 Esta obra foi publicada originalmente em inglês com o título THE LANGUAGE INSTINCT Copyright 1994 by Steven Pinker Copyright 2002 Livraria Martins Fontes Editora Ltda São Paulo para a presente edição 1ª edição abril de 2002 2ª tiragem junho de 2004 Tradução CLAUDIA BERLINER Revisão técnica Cynthia Levart Zocca Revisão gráfica Lilian Jenkino Maria Luiza Fravet Produção gráfica Geraldo Alves PaginaçãoFotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Pinker Steven 1954 O instinto da linguagem como a mente cria a linguagem Steven Pinker tradução Claudia Berliner revisão técnica Cynthia Levart Zocca São Paulo Martins Fontes 2002 Título original The language instinct Bibliografia ISBN 8533615493 1 Biolingüística 2 Linguagem 3 Linguística I Título 021528 CDD400 Índices para catálogo sistemático 1 Linguagem 400 Todos os direitos desta edição para o Brasil reservados à Livraria Martins Fontes Editora Ltda Rua Conselheiro Ramalho 330340 01325000 São Paulo SP Brasil Tel 11 32413677 Fax 11 31056867 email infomartinsfontescombr httpwwwmartinsfontescombr Para Harry e Roslyn Pinker que me deram a linguagem Índice Prefácio 1 1 Um instinto para adquirir uma arte 5 2 Tagarelas 19 3 Mentalês 59 4 Como a linguagem funciona 95 5 Palavras palavras palavras 151 6 Os sons do silêncio 195 7 Cabeças falantes 241 8 A Torre de Babel 293 9 Bebê nasce falando Descreve céu 333 10 Órgãos da linguagem e genes da gramática 379 11 O Big Bang 425 12 Os craques da língua 477 13 O design da mente 523 Notas 559 Referências bibliográficas 577 Glossário 605 Índice remissivo 617 PREFÁCIO Nunca conheci alguém que não se interessasse por linguagem Escrevi este livro para tentar satisfazer essa curiosidade A linguagem começou a ser submetida ao único tipo de compreensão satisfatório aquela que chamamos de ciência mas essa notícia foi mantida em segredo Ao amante da linguagem espero conseguir mostrar que existe um mundo preciso e rico na fala cotidiana que vai muito além das curiosidades locais de etimologias palavras incomuns e exemplos sutis de uso Ao leitor leigo interessado em ciência espero conseguir explicar o que está por trás das recentes descobertas ou em muitos casos nãodescobertas noticiadas pela imprensa estruturas profundas universais bebês inteligentes genes da gramática computadores com inteligência artificial redes neurais chimpanzés que se expressam por sinais homens de Neanderthal que falam sábios idiotas crianças selvagens lesões cerebrais paradoxais gêmeos idênticos separados ao nascer imagens coloridas do cérebro pensando e a busca da mãe de todas as línguas Também espero poder responder a muitas das perguntas que surgem naturalmente quando se pensa em línguas por que existem tantas por que os adultos têm tanta dificuldade para aprendêlas e por que parece que ninguém sabe o plural de Walkman O instinto da linguagem Aos estudantes que desconhecem a ciência da linguagem e da mente ou pior que estão sobrecarregados com a memorização dos efeitos da frequência de palavras sobre o tempo de resposta das decisões lexicais ou as questões sutis do Princípio das Categorias Vazias espero poder transmitir a intensa agitação intelectual que o moderno estudo da linguagem desencadeou várias décadas atrás Aos meus colegas de profissão dispersos entre tantas disciplinas e estudando tantos tópicos aparentemente desconexos espero poder oferecer algo que se assemelhe a uma integração desse vasto território Embora eu seja um pesquisador obsessivo que não gosta de acordos insípidos que embaralham as questões muitas das controvérsias acadêmicas me lembram cegos apalpando um elefante Se minha síntese pessoal parece abraçar os dois lados de debates como formalismo versus funcionalismo ou sintaxe versus semântica versus pragmática talvez seja porque para começo de conversa essas questões nunca existiram Ao público leitor de nãoficção interessado em linguagem e seres humanos no mais amplo sentido dos termos espero poder oferecer algo diferente dos chavões afetados Linguagem Light que caracterizam as discussões sobre linguagem no campo das ciências humanas geralmente propostas por pessoas que nunca estudaram o assunto Seja como for só posso escrever de uma única maneira com paixão por idéias possantes e explicativas e uma torrente de detalhes relevantes Dado este meu hábito tenho sorte de estar expondo um tema cujos princípios subjazem aos jogos de palavras à poesia retórica espirituosidade e à escrita refinada Não hesitei em exibir meus exemplos favoritos de linguagem em ação extraídos da cultura pop de crianças e adultos comuns dos estudiosos mais bombásticos do meu campo e de alguns dos melhores escritores de língua inglesa Este livro destinase portanto a todos os que utilizam a linguagem ou seja a todos Prefácio Devo agradecimentos a muitas pessoas Em primeiro lugar a Leda Cosmides Nancy Etcoff Michael Gazzaniga Laura Ann Petitto Harry Pinker Robert Pinker Roslyn Pinker Susan Pinker John Tooby e especialmente a Ilavenil Subbiah por seus comentários ao manuscrito seu incentivo e suas generosas sugestões A instituição em que trabalho o Instituto de Tecnologia de Massachusetts é um ambiente muito propício para o estudo da linguagem e agradeço aos colegas estudantes e antigos alunos que comigo compartilharam seus conhecimentos Noam Chomsky fez críticas precisas e ofereceu sugestões proveitosas e Ned Block Paul Bloom Susan Carey Ted Gibson Morris Halle e Michael Jordan ajudaramme a resolver as questões de vários capítulos Agradeço também a Hilary Bromberg Jacob Feldman John Houde Samuel Jay Keyser John J Kim Gary Marcus Neal Perlmutter David Pesetsky David Pöppel Annie Senghas Karin Stromswold Michael Tarr Marianne Teuber Michael Ullman Kenneth Wexler e Karen Wynn suas respostas eruditas a perguntas que vão da linguagem de sinais a obscuros jogadores de bola e guitarristas O bibliotecário do Departamento de Ciências Mentais e Cognitivas Pat Claffey e o responsável pelo sistema de informática do mesmo Departamento Stephen G Wadlow admiráveis representantes de suas profissões ofereceramme ajuda especializada em muitos momentos Vários capítulos beneficiaramse do exame minucioso de verdadeiros craques a quem agradeço os comentários técnicos e estilísticos Derek Bickerton David Caplan Richard Dawkins Nina Dronkers Jane Grimshaw Misia Landau Beth Levin Alan Prince e Sarah G Thomason Também agradeço a meus colegas de ciberespaço que perdoaram minha impaciência respondendo às vezes em minutos a minhas investigações eletrônicas Mark Aronoff Kathleen Baynes Ursula Bellugi Dorothy Bishop Helena Cronin Lila Gleitman Myrna Gopnik Jacques Guy Henry Kučera Sigrid Lipka Jacques Mehler Elissa Newport Alex Rudnicky Jenny Singleton Virginia Valian e Heather Van der Lely Um último obrigado para Alta Levenson do Colégio Bialik por sua ajuda com o latim Não posso deixar de reconhecer com alegria a especial atenção de John Brockman meu agente Ravi Mirchandani meu editor na Penguin Books e Maria Guamaschelli minha editora na William Morrow os sábios e detalhados conselhos de Maria melhoraram muito a versão final do manuscrito Katarina Rice revisou meus dois primeiros livros e fiquei muito feliz quando ela aceitou meu pedido de trabalhar comigo neste sobretudo no que se refere a algumas coisas que digo no Capítulo 12 Minha pesquisa sobre linguagem foi financiada pelos National Institutes of Health protocolo HD 18381 pela National Science Foundation protocolo BNS 9109766 e pelo Centro McDonnellPew de Neurociências Cognitivas no MIT Um instinto para adquirir uma arte 1 Ao ler estas palavras você estará participando de uma das maravilhas do mundo natural Porque você e eu pertencemos a uma espécie com uma capacidade notável podemos moldar eventos nos cérebros uns dos outros com primorosa precisão Não me refiro a telepatia controle da mente ou tantas outras obsessões das ciências alternativas mesmo quando descritos por aqueles que acreditam nisso estes são instrumentos grosseiros se comparados com uma habilidade incontestavelmente presente em cada um de nós Essa habilidade é a linguagem Por meio de simples ruídos produzidos por nossas bocas podemos fazer com que combinações de idéias novas e precisas surjam na mente do outro É uma habilidade tão natural que costumamos esquecer que é um milagre Portanto permitame lembrálo disso com algumas demonstrações simples Basta pedirlhe que abandone sua imaginação às minhas palavras por alguns instantes para fazer com que você pense em idéias muito específicas Quando um polvo macho localiza uma fêmea seu corpo normalmente cinzento tornase subitamente listrado Ele nada por cima da fêmea e começa a acariciála com sete de seus braços Se ela aceita essa carícia ele rapidamente se aproxima dela e enfia seu oitavo bra O instinto da linguagem ço no seu tubo respiratório Uma série de bolsas de esperma movemse lentamente por um sulco de seu braço para finalmente penetrar na cavidade do manto da fêmea Calda de cereja numa roupa branca Vinho na toalha do altar Aplique club soda imediatamente Funciona maravilhosamente bem para remover manchas dos tecidos Ao abrir a porta para Tad Dixie fica aturdida pois achava que ele estava morto Bate a porta na cara dele e tenta escapar Mas quando Tad diz Eu a amo permite que entre Tad a conforta e eles se entregam um ao outro Quando Brian chega interrompendoos Dixie conta a um Tad atordoado que ela e Brian tinhamse casado naquele mesmo dia Com muita dificuldade Dixie informa Brian de que as coisas não terminaram entre ela e Tad Em seguida solta a notícia de que Jamie é filho de Tad Meu o quê diz um Tad chocado Pense no que estas palavras provocaram O que fiz não foi simplesmente lembrálo de polvos se porventura você vir surgir listras em um deles agora sabe o que acontecerá em seguida A próxima vez que for a um supermercado talvez procure club soda entre os milhares de itens disponíveis e não toque nele até muitos meses depois quando uma substância particular e um objeto particular acidentalmente se encontrarem Agora você compartilha com milhões de outras pessoas os segredos dos protagonistas de um mundo criado pela imaginação de um estranho o folhetim diário All My Children É verdade que minhas demonstrações dependeram de nossa capacidade de ler e escrever mas isso torna nossa comunicação ainda mais impressionante pois transpõe intervalos de tempo espaço e convivência Mas a escrita é claramente um acessório opcional o verdadeiro motor da comunicação verbal é a língua falada que adquirimos quando crianças Em qualquer história natural da espécie humana a linguagem se distingue como traço preeminente Um humano solitário é decerto um engenheiro e fantástico solucionador de problemas Um instinto para adquirir uma arte Mas uma raça de Robinson Crusóes não impressionaria muito um observador extraterrestre O que realmente comove quando se trata de nossa espécie fica mais claro na história da Torre de Babel em que os homens falando uma única língua chegaram tão perto de alcançar o céu que Deus sentiuse ameaçado Uma língua comum une os membros de uma comunidade numa rede de troca de informações extremamente poderosa Todos podem beneficiarse das sacadas dos gênios dos acidentes da fortuna e da sabedoria oriunda de tentativas e erros acumulados por qualquer um no presente ou no passado E as pessoas podem trabalhar em equipe coordenando seus esforços por meio de acordos negociados Conseqüentemente o Homo sapiens é uma espécie como a alga verde e a minhoca que operou profundas mudanças no planeta Arqueólogos descobriram ossos de dez mil cavalos selvagens na base de um penhasco na França restos de manadas atiradas do alto do penhasco por grupos de caçadores paleolíticos dezessete mil anos atrás Esses fósseis de uma antiga cooperação e de uma engenhosidade compartilhada talvez possam esclarecer por que tigres de dentedesabre mastodontes gigantescos rinocerontes peludos e dezenas de outros grandes mamíferos foram extintos mais ou menos na mesma época em que os humanos chegaram aos seus hábitats Aparentemente nossos ancestrais os mataram A linguagem está tão intimamente entrelaçada com a experiência humana que é quase impossível imaginar vida sem ela É muito provável que se você encontrar duas ou mais pessoas juntas em qualquer parte da Terra elas logo estarão trocando palavras Quando as pessoas não têm ninguém com quem conversar falam sozinhas com seus cães até mesmo com suas plantas Nas nossas relações sociais o que ganha não é a força física mas o verbo o orador eloquente o sedutor de língua de prata a criança persuasiva que impõe sua vontade contra um pai mais musculoso A afasia que é a perda da linguagem em conseqüência de uma lesão cerebral é devastadora e em casos graves os membros da família chegam a sentir que é a própria pessoa que foi perdida para sempre O instinto da linguagem Este livro trata da linguagem humana Diferentemente de vários livros que levam língua ou linguagem no título ele não vai repreendêlo sobre o uso apropriado da língua procurar as origens das expressões idiomáticas e da gíria ou divertelo com palíndromos anagramas epônimos ou aqueles adoráveis nomes para coletivos de animais como exaltação de cotovias¹ Pois não escrevo sobre o idioma inglês ou qualquer outro idioma mas sobre algo bem mais básico o instinto para aprender falar e compreender a linguagem Pela primeira vez na história temos o que escrever a esse respeito Há uns trinta e cinco anos nasceu uma nova ciência agora denominada ciência cognitiva que reúne ferramentas da psicologia da ciência da computação da lingüística filosofia e neurobiologia para explicar o funcionamento da inteligência humana Desde então assistiuse a espetaculares avanços da ciência da linguagem em particular Há muitos fenômenos da linguagem que estamos começando a compreender tão bem como compreendemos o funcionamento de uma máquina fotográfica ou para que serve o baço Espero conseguir transmitir essas fascinantes descobertas algumas delas tão simples e precisas como qualquer outra coisa na ciência moderna mas tenho também um segundo objectivo A recente elucidação das faculdades lingüísticas tem implicações revolucionárias para nossa compreensão da linguagem e seu papel nos assuntos humanos e para nossa própria concepção da humanidade Muitas pessoas cultas já têm opiniões sobre a linguagem Sabem que é a invenção cultural mais importante do homem o exemplo quintessencial de sua capacidade de usar símbolos e um acontecimento sem precedentes em termos biológicos que o separa definitivamente dos outros animais Sabem que a linguagem impregna o pensamento e que as diferentes línguas levam ¹ Referência ao livro de James Lipton An Exaltation of Larks The Ultimate Edition ed Penguin que é uma coletânea de coletivos de animais N da T Um instinto para adquirir uma arte seus falantes a construir a realidade de diferentes maneiras Sabem que as crianças aprendem a falar a partir das pessoas que lhes servem de modelo e dos adultos que cuidam delas Sabem que a sofisticação gramatical costumava ser fomentada nas escolas mas que a queda dos padrões educacionais e a degradação da cultura popular provocaram um assustador declínio na capacidade do cidadão médio de construir uma frase gramaticalmente correta Sabem também que o inglês é uma língua extravagante que desafia a lógica na qual one drives on a parkway e parks in a driveway plays at a recital e recites at a play² Sabem que a grafia inglesa leva essa excentricidade ao cúmulo George Bernard Shaw queixavase de que fish peixe poderia igualmente ser soletrado ghoti gh como em tough o como em women ti como em nation e que somente a inércia institucional impede a adoção de um sistema mais racionalde escrevercomosefala Nas próximas páginas tentarei convencêlo de que cada uma dessas opiniões corriqueiras está errada E estão todas erradas por um simples motivo A linguagem não é um artefato cultural que aprendemos da maneira como aprendemos a dizer a hora ou como o governo federal está funcionando Ao contrário é claramente uma peça da constituição biológica de nosso cérebro A linguagem é uma habilidade complexa e especializada que se desenvolve espontaneamente na criança sem qualquer esforço consciente ou instrução formal que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo e que difere de capacidades mais gerais de processamento de informações ou de comportamento inteligente Por esses motivos alguns cognitivistas descreveram a linguagem como uma faculdade psicológica um órgão mental um sistema neural ou um módulo computacional Mas prefiro o simples e banal ter ² Em português a extravagância se perde estacionase o carro no estacionamento e se estaciona na garagem tocase num recital e se recita numa peça de teatro N da T mo instinto Ele transmite a idéia de que as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias A capacidade de tecer teias não foi inventada por alguma aranha genial não reconhecida e não depende de receber a educação adequada ou de ter aptidão para arquitetura ou negócios imobiliários As aranhas tecem teias porque têm cérebro de aranha o que as impele a tecer e lhes dá competência para fazêlo com sucesso Embora haja diferenças entre teias e palavras proponho que você veja a linguagem dessa maneira porque isso ajuda a entender os fenômenos que vamos explorar Pensar a linguagem como um instinto inverte a sabedoria popular especialmente da forma como foi aceita nos cânones das ciências humanas e sociais A linguagem não é uma invenção cultural assim como tampouco a postura ereta o é Não é uma manifestação da capacidade geral de usar símbolos como veremos uma criança de três anos é um gênio gramatical mas é bastante incompetente em termos de artes visuais iconografia religiosa sinais de trânsito e outros itens básicos do currículo de semiótica Embora a linguagem seja uma habilidade magnífica exclusiva do Homo sapiens entre as espécies vivas isso não implica que o estudo dos seres humanos deva ser retirado do campo da biologia pois existem outras habilidades magníficas exclusivas de uma espécie viva em particular no reino animal Alguns tipos de morcegos capturam insetos voadores usando um sonar Doppler Alguns tipos de aves migratórias viajam milhares de quilômetros comparando as posições das constelações com as horas do dia e épocas do ano No show de talentos da natureza somos apenas uma espécie de primatas com nosso próprio espetáculo um jeito todo especial de comunicar informação sobre quem fez o que para quem modulando os sons que produzimos quando expiramos A partir do momento em que você começa a considerar a linguagem não como a inefável essência da singularidade humana mas como uma adaptação biológica para transmitir informação deixa de ser tentador ver a linguagem como um insidioso formador de pensamentos e como veremos ela não é isso Além disso o fato de ver a linguagem como uma das maravilhas da engenharia da natureza um órgão com aquela perfeição de estrutura e de coadaptação que com razão desperta nossa admiração nas palavras de Darwin inspira em nós um novo respeito pelo José de cada esquina e pela tão difamada língua inglesa ou qualquer outra língua Do ponto de vista do cientista a complexidade da linguagem é parte de nossa herança biológica inata não é algo que os pais ensinam aos filhos ou algo que tenha de ser elaborado na escola como disse Oscar Wilde Educação é algo admirável mas é bom lembrar de vez em quando que nada que vale a pena saber pode ser ensinado O conhecimento tácito de gramática de uma criança em idade préescolar é mais sofisticado que o mais volumoso manual de estilo ou o mais moderno sistema de linguagem de computador e o mesmo se aplica a qualquer ser humano saudável até mesmo o atleta profissional conhecido por seus erros de linguagem e o sabe tipo skatista adolescente inarticulado Por fim como a linguagem é produto de um instinto biológico bem planejado veremos que ela não é o ridículo grupo de macacos sugerido pelos colunistas de espetáculos de variedades Tentarei devolver alguma dignidade ao vernáculo inglês e terei inclusive algumas belas coisas a dizer sobre seu sistema de ortografia A idéia da linguagem como um tipo de instinto foi concebida pela primeira vez em 1871 pelo próprio Darwin Em The Descent of Man ele teve de enfrentar a linguagem pois o fato de ela se restringir aos seres humanos parecia desafiar sua teoria Como sempre suas observações são estranhamente modernas Como um dos fundadores da nobre ciência da filologia observou a linguagem é uma arte como fermentar ou assar mas a escrita teria sido uma comparação melhor Ela decerto não é um verdadeiro instinto pois toda língua tem de ser aprendida Contudo difere muito de todas as artes comuns pois o homem tem uma tendência instintiva a falar como vemos no balbuciar de nossos filhos pequenos nenhuma criança no entanto tem uma tendência instintiva a fermentar assar ou escrever Além disso nenhum filólogo supõe atualmente que alguma língua tenha sido deliberadamente inventada desenvolveuse lenta e inconscientemente etapa por etapa Darwin concluía que a habilidade da linguagem é uma tendência instintiva a adquirir uma arte desígnio não peculiar aos humanos mas também encontrado em outras espécies como os pássaros que aprendem a cantar Um instinto da linguagem pode ser chocante para aqueles que pensam a linguagem como o zênite do intelecto humano e que pensam os instintos como impulsos brutais que compelem zumbis cobertos de peles e penas a construir um dique ou abandonar tudo e rumar para o sul Mas um dos seguidores de Darwin William James observou que quem possui um instinto não precisa agir fatalmente como um autômato Segundo ele temos os mesmos instintos que os animais e muitos outros além desses nossa inteligência flexível provém da interrelação entre muitos instintos divergentes Com efeito é justamente a natureza instintiva do pensamento humano que faz com que nos custe tanto perceber que ela é um instinto É preciso uma mente pervertida pela aprendizagem para fazer com que o natural pareça estranho ao ponto de indagar os motivos de qualquer ato humano instintivo Só a um metafísico podem ocorrer questões como Por que sorrimos quando estamos contentes e não franzimos as sobrancelhas Por que não conseguimos falar com uma multidão da mesma maneira como conversamos com um amigo Por que uma certa moça nos deixa tão transtornados O homem comum diria apenas É claro que sorrimos é claro que nosso coração palpita ao ver a multidão é claro que amamos a moça essa bela alma Um instinto para adquirir uma arte revestida dessa forma perfeita feita para ser amada por todo o sempre de modo tão palpável e evidente E é isso provavelmente que todo animal sente em relação a certas coisas que ele tende a fazer em presença de certos objetos Para o leão é a leoa que foi feita para ser amada para o urso a ursa É muito provável que a galinha choca considerasse monstruosa a idéia de que haja alguma criatura no mundo para quem um ninho cheio de ovos não fosse o objeto mais fascinante mais precioso de todos e sobre o qual nuncaédemaissentaremcima como é para ela Podemos portanto estar certos de que por mais misteriosos que alguns dos instintos animais nos pareçam nossos instintos decerto não parecem menos misteriosos para eles E podemos concluir que para o animal que a ele obedece cada impulso e cada etapa de cada instinto brilha com sua própria luz e a cada momento parece ser a única coisa eternamente correta e apropriada a fazer Que sensação voluptuosa não deve percorrer a mosca quando ela por fim descobre aquela folha particular ou carniça ou porção de esterco que entre todas no mundo estimula seu ovipositor a eliminar os ovos Nesse momento essa eliminação não deve lhe parecer a única coisa a ser feita E será que ela precisa se preocupar ou saber algo a respeito da futura larva e seu alimento Não consigo pensar numa melhor exposição de meu principal objetivo O funcionamento da linguagem está tão distante de nossa consciência quanto os fundamentos lógicos da postura de ovos para a mosca Nossos pensamentos saem de nossa boca com tanta naturalidade que muitas vezes nos constrangem quando eludem nossos censores mentais Quando compreendemos as frases o fluxo de palavras é transparente entendemos o sentido de modo tão automático que podemos esquecer que um filme é falado numa língua estrangeira e está legendado Acreditamos que as crianças aprendem a língua materna imitando a mãe mas quando uma criança diz Eu se sentei ou Eu não cabo aí dentro certamente não é uma imitação Quero transmitirlhe conhecimentos que perver O instinto da linguagem tam sua mente ao ponto de esses dons naturais parecerem estranhos para que você se pergunte os porquês e comos dessas capacidades aparentemente familiares Observe um imigrante lutando para dominar uma segunda língua ou um paciente que sofreu uma lesão cerebral lutando com sua língua materna ou desconstrua um fragmento de fala infantil ou tente programar um computador para compreender inglês e a fala corrente começará a ser vista de outra maneira A naturalidade a transparência o caráter automático são ilusões que escondem um sistema de grande riqueza e beleza No século 20 a tese mais famosa de que a linguagem é como um instinto foi elaborada por Noam Chomsky o primeiro lingüista a revelar a complexidade do sistema e talvez o maior responsável pela moderna revolução na ciência cognitiva e na ciência da linguagem Na década de 50 as ciências sociais eram dominadas pelo behaviorismo a escola de pensamento divulgada por John Watson e B F Skinner Termos mentais como saber e pensar eram rotulados de nãocientíficos mente e inato eram palavrões O comportamento era explicado por algumas poucas leis de aprendizagem por estímuloresposta que podiam ser estudadas por meio de ratos que apertavam barras e cães que salivavam ao som de campainhas Mas Chomsky chamou a atenção para dois fatos fundamentais sobre a linguagem Em primeiro lugar cada frase que uma pessoa enuncia ou compreende é virtualmente uma nova combinação de palavras que aparece pela primeira vez na história do universo Por isso uma língua não pode ser um repertório de respostas o cérebro deve conter uma receita ou programa que consegue construir um conjunto ilimitado de frases a partir de uma lista finita de palavras Esse programa pode ser denominado gramática mental que não deve ser confundida com gramáticas pedagógicas ou estilísticas que são apenas guias para a elegância da prosa escrita O segundo fato fundamental é que as crianças desenvolvem essas gramáticas complexas rapidame Um instinto para adquirir uma arte sem qualquer instrução formal e à medida que crescem dão interpretações coerentes a novas construções de frases que elas nunca escutaram antes Portanto afirmava ele as crianças têm de estar equipadas de modo inato com um plano comum às gramáticas de todas as línguas uma Gramática Universal que lhes diz como extrair os padrões sintáticos da fala de seus pais Chomsky descreveu isso nos seguintes termos Um fato curioso sobre a história intelectual dos últimos séculos é que o desenvolvimento físico e mental foi abordado de várias maneiras diferentes Ninguém levaria a sério a afirmação de que o organismo humano aprende pela experiência a ter braços em vez de asas ou de que a estrutura básica de determinados órgãos resulta da experiência acidental Ao contrário considerase indiscutível que a estrutura física do organismo é geneticamente determinada embora é claro variações como tamanho velocidade de desenvolvimento etc dependam em parte de fatores externos O desenvolvimento da personalidade de padrões de comportamento e de estruturas cognitivas em organismos mais desenvolvidos costuma ser abordado de modo bem diferente Nesses campos costumase dizer que o meio social é o fator predominante As estruturas da mente que se desenvolvem com o passar do tempo são consideradas arbitrárias e acidentais não existe uma natureza humana separada daquilo que se desenvolve como um produto histórico específico Mas os sistemas cognitivos humanos quando seriamente investigados não se mostram menos maravilhosos e intricados que as estruturas físicas que se desenvolvem na vida do organismo Então por que não deveríamos estudar a aquisição de uma estrutura cognitiva como a linguagem mais ou menos da mesma maneira como estudamos um órgão físico complexo À primeira vista esta proposta parece absurda fosse apenas pela grande variedade de línguas humanas Mas considerandose a questão mais de perto essas dúvidas desaparecem Mesmo conhecendo muito pouco sobre os universais lingüísticos podemos ter certeza de que a possível variedade de línguas é bem limitada A língua que cada pessoa adquire é uma construção rica e complexa que não se justifica pelos parcos e fragmentados dados disponíveis para a criança No entanto os membros de uma comunidade linguística desenvolvem essencialmente a mesma língua Esse fato só encontra explicação na hipótese de que esses indivíduos empreguem princípios altamente restritivos que dirigem a construção da gramática Por meio de esmeradas análises técnicas das frases que pessoas comuns aceitam como pertencentes à sua língua materna Chomsky e outros linguístas desenvolveram teorias das gramáticas mentais que subjazem ao conhecimento que as pessoas têm de certas línguas e da Gramática Universal que subjaz a determinadas gramáticas Logo depois o trabalho de Chomsky incentivou outros estudiosos entre os quais Eric Lenneberg George Miller Roger Brown Morris Halle e Alvin Liberman a inaugurar áreas totalmente novas de estudo da linguagem do desenvolvimento infantil e percepção da fala à neurologia e genética Atualmente a comunidade de cientistas que estudam as questões que ele levantou é composta de milhares de estudiosos Chomsky é geralmente incluído entre os dez escritores mais citados no campo das humanidades ganhando de Hegel e Cícero e estando atrás apenas de Marx Lênin Shakespeare a Bíblia Aristóteles Platão e Freud e é o único membro vivo entre os dez mais O que essas citações dizem é outra coisa Chomsky incomoda As reações vão da veneração comumente reservada aos gurus de estranhos cultos religiosos aos ataques hostis que os membros da academia transformaram numa arte aprimorada Isso se deve em parte ao fato de que Chomsky ataca aquilo que ainda é um dos alicerces da vida intelectual do século 20 o Modelo Clássico das Ciências Sociais segundo o qual a psique humana é moldada pelo ambiente cultural Mas devese também ao fato de nenhum pensador poder ignorálo Como reconhece um de seus mais severos críticos o filósofo Hilary Putnam Ao ler Chomsky temse a sensação de estar diante de uma grande potência intelectual é certo que se está diante de uma mente extraordinária E isso decorre tanto da fascinação produzida por sua forte personalidade quanto de suas óbvias virtudes intelectuais originalidade desdém pelos modismos e pelo superficial desejo de dar novamente vida e a capacidade de fazêlo a posições como a doutrina das idéias inatas que pareciam ultrapassadas preocupação com temas como a estrutura da mente humana de importância central e perene A história que vou contar neste livro foi sem dúvida profundamente influenciada por Chomsky Mas não é exatamente a história dele e não a contarei como ele o faria Chomsky confundiu muitos leitores com seu ceticismo quanto à possibilidade da seleção natural darwiniana em contraposição a outros processos evolutivos poder explicar as origens do órgão da linguagem que ele propõe a meu ver é útil considerar a linguagem como uma adaptação evolutiva como o olho cujas principais partes estão destinadas a desempenhar importantes funções Além disso as teses de Chomsky sobre a natureza da faculdade da linguagem baseiamse em análises técnicas da estrutura das palavras e frases muitas vezes expressas em abstrusos formalismos Suas discussões sobre falantes de carne e osso são superficiais e muito idealizadas Embora eu concorde com muitas de suas teses acho que uma conclusão sobre a mente só é convincente se dados oriundos de muitas fontes convergirem para ela Portanto a história contada neste livro é altamente eclética incluindo desde a maneira como o DNA constrói cérebros até discursos pontificantes de colunistas de linguagem jornalística Para começar o melhor é perguntar por que alguém deveria acreditar que a linguagem humana é parte da biologia humana ou seja um instinto Blank page Livro O Instinto da Linguagem Steven Pinker seu grupo carregaram as armas e montaram uma bomba rudimentar fizeram seu primeiro contato com os montanhêses O espanto era mútuo Leahy escreveu em seu diário Foi um alívio quando os nativos apareceram os homens na frente armados com arcos e flechas as mulheres atrás carregando colmos de canadeaçúcar Ao ver as mulheres Ewunga me disse imediatamente que não haveria luta Acenamos para que se acercassem o que fizeram cautelosamente parando a cada tanto para nos observar Quando finalmente alguns deles tomaram coragem para se aproximar percebemos que estavam atônitos com a nossa aparência Quando tirei meu chapéu os que estavam mais perto de mim recuaram aterrorizados Um velho avançou cuidadosamente de boca aberta e me tocou para ver se eu era real Em seguida pondose de joelhos esfregou as mãos nos meus pés descalços provavelmente para descobrir se estavam pintados agarroume pelos joelhos e os abraçou esfregando seus cabelos espessos contra mim As mulheres e crianças aos poucos também tomaram coragem para se aproximar e de repente o acampamento estava repleto deles correndo por todos os lados numa grande algaravia apontando para tudo o que era novo para eles Essa algaravia era linguagem uma língua desconhecida uma das oitocentas que viriam a ser descobertas entre os montanhêses isolados até os anos 60 O primeiro contato de Leahy repetiu uma cena que deve ter ocorrido centenas de vezes na história humana sempre que um povo encontrava outro pela primeira vez Todos eles pelo que nos consta já tinham alguma língua Cada hotentote cada esquimó cada ianomâmi Nunca se descobriu nenhuma tribo muda e não há registros de alguma região que tenha servido de berço da linguagem a partir da qual ela teria se espalhado para grupos antes destituídos de linguagem Como em todos os outros casos a língua falada pelos anfitriões de Leahy revelou não ser nenhuma algaravia mas um meio capaz de exprimir conceitos abstratos entidades invisíveis e complexas linhas de raciocínio Os montanhêses conferenciavam intensamente tentando chegar a uma conclusão sobre a natureza das pálidas aparições A principal conjectura era que eles eram reencarnações de ancestrais ou de outros espíritos sob forma humana talvez aqueles que voltavam a ser esqueletos à noite Acabaram por conceber um teste empírico que resolveria a questão Um deles se escondeu relembra o montanhês Kirupano Ezae e os observou ir defecar Ele voltou e disse Aqueles homens vindos do céu foram defecar ali Depois que eles partiram vários homens foram dar uma olhada Ao perceberem que cheirava mal disseram A pele deles pode ser diferente mas a merda deles é igual à nossa A universalidade da linguagem complexa é uma descoberta que enche os lingüistas de admiração e temor e é a primeira razão para suspeitar que a linguagem não é apenas uma invenção cultural qualquer mas o produto de um instinto humano específico As invenções culturais variam muito de sociedade para sociedade em termos de sofisticação dentro de uma sociedade as invenções têm geralmente um mesmo nível de sofisticação Alguns grupos contam fazendo marcas em ossos e cozinham em fogos que eles produzem girando gravetos na lenha outros usam computadores e fornos de microondas No entanto a linguagem acaba com essa correlação Existem sociedades da Idade da Pedra mas não existe uma língua da Idade da Pedra No começo do século 20 o lingüista antropólogo Edward Sapir escreveu Quando se trata da forma lingüística Platão não se distingue do guardador de porcos macedônio ou Confúcio do caçador de cabeças selvagem de Assam Para tomar um exemplo aleatório de uma forma lingüística sofisticada num país nãoindustrializado a lingüista Joan Bresnan escreveu recentemente um artigo técnico comparando a construção em kivunjo língua banto falada em várias aldeias das encostas do monte Kilimanjaro na Tanzânia com sua construção correspondente em inglês que ela descreve como uma língua ger mânica ocidental falada na Inglaterra e em suas antigas colônias A construção inglesa é denominada dativa e pode ser encontrada em frases como She baked me a brownie Ela assou um brownie para mim e He promised her Arpège Ele prometeu a ela Arpège em que um objeto indireto como me ou her é colocado depois do verbo para indicar o beneficiário de uma ação A construção kivunjo correspondente é denominada aplicativo cuja semelhança com o dativo inglês conforme nota Bresnan pode ser comparada com aquela entre o jogo de xadrez e o de damas A construção kivunjo se encaixa totalmente dentro do verbo que tem sete prefixos e sufixos dois modos e quatorze tempos verbais o verbo concorda com seu sujeito seu objeto e seus substantivos beneficiários cada um dos quais pode ter dezesseis gêneros Apenas para esclarecer esses gêneros não dizem respeito a coisas como transexuais hermafroditas pessoas andróginas etc como um dos leitores deste capítulo supôs Para um lingüista o termo gênero mantém seu significado original de classe como nas palavras generic genus e genre genérico gênero gêneroestilo Os gêneros bantos referemse a classes como humanos animais objetos extensos grupos de objetos e partes do corpo Acontece que em muitas línguas européias os gêneros correspondem aos sexos pelo menos quanto aos pronomes Por isso o termo lingüístico gênero passou a ser empregado por nãolingüistas como um rótulo adequado para o dimorfismo sexual o termo mais preciso sexo parece reservado agora à maneira educada de se referir à copulação Entre outros dispositivos engenhosos que vislumbrei nas gramáticas dos assim chamados grupos primitivos o complexo sistema pronominal cherokee parece particularmente jeitoso Ele distingue você e eu outra pessoa e eu várias outras pessoas e eu e você Todos os termos técnicos de lingüística biologia e ciência cognitiva que utilizo neste livro estão definidos no Glossário nas páginas 605616 uma ou mais pessoas e eu que o inglês rudemente junta no pronome de múltiplas utilidades we nós Na verdade as pessoas cujas habilidades linguísticas são mais gravemente subestimadas estão bem aqui na nossa sociedade Os linguístas constantemente topam com o mito de que a classe trabalhadora e os membros menos educados da classe média falam uma linguagem mais simples e menos refinada Tratase de uma ilusão perniciosa decorrente da naturalidade da conversação A fala comum assim como a visão de cores ou andar são paradigmas de excelência em engenharia uma tecnologia que funciona tão bem que seu usuário considera seu resultado óbvio sem se dar conta dos complicados mecanismos ocultos por trás dos painéis Por trás de frases tão simples como Where did he go Onde ele foi eou The guy I met killed himself O rapaz que conheci se matou utilizadas automaticamente por qualquer falante do inglês existem dezenas de subrotinas que organizam as palavras para exprimir o significado Depois de décadas de esforços nenhum sistema de linguagem artificialmente planejado chega perto de reproduzir o homem da rua apesar dos HAL e C3PO¹ Mas embora o mecanismo da linguagem seja invisível para o usuário humano prestase obsessivamente atenção à aparência e à cor Diferenças insignificantes entre o dialeto corrente e o dialeto de outros grupos como isnt any versus aint no those books versus them books e dragged him away versus drug him away são honradas com a insígnia de gramática correta Mas isso tem tão pouco a ver com sofisticação gramatical quanto o fato de que em algumas regiões dos Estados Unidos as pessoas se referem a um certo inseto libélula como dragonfly e em outras regiões como darning needle ou de que quem fala inglês chama os caninos de dogs enquanto quem fala francês os chama de chiens É inclusive um tanto engano so chamar o Inglês Padrão de língua e essas variações de dialetos como se houvesse alguma diferença significativa entre eles A melhor definição é a do lingüista Max Weinreich uma língua é um dialeto com um exército e uma marinha O mito de que os dialetos não padronizados do inglês sejam gramaticalmente deficientes é muito difundido Nos anos 60 alguns psicólogos educacionais bemintencionados anunciaram que as crianças negras americanas tinham sofrido tamanha privação cultural que careciam de uma verdadeira linguagem e estavam limitadas a um modo de comportamento expressivo nãológico Essas conclusões baseavamse nas respostas tímidas ou malhumoradas das crianças a baterias de testes padronizados Se os psicólogos tivessem escutado conversas espontâneas teriam redescoberto o lugarcomum de que a cultura negra americana é altamente verbal em toda parte a subcultura dos jovens da rua em particular é famosa nos anais de antropologia pelo valor atribuído à virtuosidade linguística Eis um exemplo extraído de uma entrevista dirigida pelo lingüista William Labov na escada em frente de uma casa do Harlem O entrevistado é Larry o membro mais rude de uma gangue de adolescentes chamada the Jets Em seu artigo acadêmico Labov comenta que para muitos leitores deste texto o primeiro contato com Larry produziria com razão reações negativas de ambas as partes You know like some people say if youre good an shit your spirit goin theaven n if you bad your spirit goin to hell Well bullshit Your spirit goin to hell anyway good or bad Why Why Ill tell you why Cause you see doesnt nobody really know that its a God yknow cause I mean I have seen black gods white gods all color gods and dont nobody know its really a God An when they be sayin if you good you goin theaven thas bullshit cause you aint goin to no heaven cause it aint no heaven for you to go to jus suppose that there is a God would he be white or black Hed be white man Why Why Ill tell you why Cause the average whitey out here got everything you dig And the nigger aint got shit yknow Yunderstan Soumforin order for that to happen you know it aint no black God thats doin that bullshit² O primeiro contato com a gramática de Larry provavelmente também produz reações negativas mas para um lingüista ela é rigorosamente conforme às regras do dialeto denominado Black English Vernacular BEV Vernáculo do Inglês Negro O que mais interessa em termos lingüísticos sobre o dialeto é que ele é muito pouco interessante em termos lingüísticos se Labov não tivesse de chamar a atenção para ele a fim de desmascarar a afirmação de que as crianças do gueto carecem de uma verdadeira competência linguística esse dialeto seria arquivado como apenas mais uma língua Onde o Standard American English SAE Inglês Americano Padrão usa there como um sujeito vazio de significado para a cópula BEV usa it como sujeito aparente sem significado para a cópula compare Theres really a God do SAE com Its really a God de Larry A concordância negativa de Larry You aint goin to no heaven encontrase em muitas línguas como no francês ne pas Como os falantes do SAE Larry inverte sujeitos e auxiliares em frases nãodeclarativas mas o conjunto preciso de tipos de frases que admitem a inversão difere ligeiramente Larry e outros falantes de BEV invertem sujeitos e auxiliares em orações princi pais negativas como Dont nobody know os falantes de SAE as invertem apenas em perguntas como Doesnt anybody know e em alguns outros tipos de frases BEV dá a seus falantes a opção de eliminar cópulas If you bad não se trata de preguiça aleatória mas de uma regra sistemática virtualmente idêntica à regra de contração em SAE que reduz He is para Hes You are para Youre e I am para Im Em ambos os dialetos be só pode ser suprimido em certos tipos de frases Nenhum falante de SAE ousaria fazer as seguintes contrações Yes he is Yes hes I dont care what you are I dont care what youre Who is it Whos it Pelos mesmos motivos nenhum falante de BEV tentaria fazer as seguintes supressões Yes he is Yes he I dont care what you are I dont care what you Who is it Who it Notese também que falantes de BEV não tendem apenas a suprimir mais palavras Eles usam a forma plena de certos auxiliares I have seen ao passo que falantes de SAE geralmente os contraem Ive seen É como seria de esperar quando se comparam línguas existem áreas em que o BEV é mais preciso do que o inglês padrão He be working significa que ele geralmente trabalha que talvez ele tenha um emprego fixo He working significa apenas que ele está trabalhando no momento em que a frase é enunciada No SAE He is working deixa de fazer essa distinção Além disso frases como In order for that to happen you know it aint no black God thats doin that bullshit mostram que a fala de Larry faz uso do inventário completo da parafernália gramatical que os teóricos da computação tentam reproduzir sem sucesso orações relativas complementos subordinação etc para não falar das argumentações teológicas bastante sofisticadas Outro projeto de Labov foi tabular a porcentagem de frases gramaticais em gravações de falas de várias classes sociais e contextos sociais Gramatical nesse sentido significa bem formada de acordo com normas coerentes do dialeto do falante Por exemplo se um falante perguntasse Where are you going Aonde você vai o respondente não seria penalizado por responder To the store Pra loja mesmo se em certo sentido esta não seja uma frase completa Tais elipses fazem obviamente parte da gramática do inglês falado a alternativa I am going to the store Vou para a loja soa afetada e quase nunca é usada Frases agramaticais segundo essa definição incluem fragmentos de frases aleatoriamente interrompidas hesitações que exprimam alguma dificuldade de expressão lapsos de linguagem e outras formas de confusões de palavras Os resultados da tabulação de Labov são elucidativos A grande maioria das frases eram gramaticais sobretudo na fala casual com porcentagens mais altas de frases gramaticais nos falantes da classe trabalhadora do que na classe média A porcentagem mais alta de frases agramaticais foi encontrada nas atas de conferências acadêmicas eruditas A onipresença de linguagem complexa entre os seres humanos é uma fascinante descoberta e para muitos observadores uma prova inegável de que a linguagem é inata Mas para céticos obstinados como o filósofo Hilary Putnam isso não prova nada Nem tudo o que é universal é inato Assim como nas décadas passadas nunca encontraram uma tribo sem linguagem hoje em dia os antropólogos têm de se esforçar muito para encontrar grupos humanos imunes aos videocassetes à CocaCola e a camisetas dos Simpsons A linguagem era universal antes que a CocaCola o fosse mas por outro lado a linguagem é mais útil que a CocaCola É como comer com as mãos e não com os pés o que também é universal mas não temos de invocar um instinto especial que leva a mão à boca para explicar por quê O valor da linguagem é inestimável para todas as atividades da vida diária numa comunidade de pessoas providenciar comida e abrigo amar discutir negociar ensinar Se a necessidade é a mãe de todas as invenções a linguagem poderia ter sido inventada algumas vezes por pessoas capazes há muito tempo Como Lily Tomlin disse talvez o homem tenha inventado a linguagem para satisfazer sua profunda necessidade de se queixar A Gramática Universal apenas refletiria as exigências universais da experiência humana e as limitações universais do processamento humano da informação Todas as línguas têm palavras para água e alimento porque todas as pessoas têm de se referir a água e comida nenhuma língua tem uma palavra com um milhão de sílabas porque ninguém teria tempo para pronunciála Uma vez inventada a língua se consolidaria dentro de uma cultura à medida que os pais ensinassem seus filhos e os filhos imitassem os pais A partir das culturas que tivessem uma língua ela se espalharia rapidamente para outras culturas mais caladas No centro desse processo está a extraordinariamente flexível inteligência humana com suas estratégias de aprendizagem geral que servem a tantos propósitos Portanto a universalidade da linguagem não implica um instinto de linguagem inato assim como depois do dia vem a noite Para convencêlo de que existe um instinto de linguagem terei de desenvolver uma tese que vai da algaravia dos povos modernos aos supostos genes da gramática Os elementos essenciais para demonstrar meu argumento provêm da minha própria especialidade profissional o estudo do desenvolvimento da linguagem nas crianças O ponto central da tese é que a linguagem complexa é universal porque as crianças efetivamente a reinventam geração após geração não porque a aprendem não porque são em geral inteli gentes não porque é útil para elas mas porque não têm alternativa Permitame agora colocálo na pista dos indícios que levam a essa conclusão A pista começa com o estudo de como surgiu cada língua hoje encontrada no mundo Podese pensar que nesse caso a linguística incorre no mesmo problema de qualquer ciência histórica ninguém registrou os acontecimentos fundamentais na época em que aconteceram Embora os linguistas históricos possam remeter as modernas línguas complexas a línguas anteriores isso só empurra o problema um pouco mais para trás temos de entender como os povos criaram línguas complexas a partir do zero Por incrível que pareça é possível fazer isso Os primeiros casos foram arrancados de dois dos mais lamentáveis episódios da história mundial o tráfico de escravos pelo Atlântico e os servos contratados no Pacífico Sul Talvez clientes da Torre de Babel alguns dos senhores de plantações de tabaco algodão café e açúcar tenham misturado deliberadamente escravos e trabalhadores de diferentes origens linguísticas outros teriam preferido separar as etnias mas tiveram de aceitar as misturas porque era o que havia Quando falantes de línguas diversas têm de se comunicar para realizar tarefas práticas mas não têm a oportunidade de aprender as línguas uns dos outros desenvolvem um jargão provisório denominado pidgin Pidgins são cadeias precárias de palavras tomadas da língua dos colonizadores ou donos de plantações que variam muito em termos de ordem e são pobres no que se refere à gramática Às vezes um pidgin pode se tornar uma língua franca ganhando em complexidade com o passar do tempo como ocorreu com o Pidgin English do Pacífico Sul moderno Numa visita à Nova Guiné o príncipe Philip adorou saber que naquela língua ele é referido como fella belong Mrs Queen companheiro pertence Sra Rainha Mas o linguista Derek Bickerton demonstrou que em muitos casos um pidgin pode se converter numa língua complexa plena de chofre basta que um grupo de crianças seja exposto ao pidgin na idade em que adquire a língua materna Isso acontecia afirma Bickerton quando crianças eram separadas dos pais e ficavam todas juntas sob a responsabilidade de um trabalhador que falava com elas em pidgin Não satisfeitas em reproduzir as cadeias fragmentadas de palavras as crianças injetavam complexidade gramatical ali onde ela não existia resultando numa nova língua muito rica em termos expressivos A língua que surge quando crianças transformam um pidgin em sua língua nativa se chama crioulo A principal prova de Bickerton provém de uma única circunstância histórica Embora as plantações cultivadas por escravos que deram lugar à maioria dos crioulos sejam felizmente algo de um passado remoto um episódio de crioulização ocorreu num passado suficientemente recente para que seus principais protagonistas pudessem ser estudados Pouco antes do início do século 20 houve uma rápida expansão das plantações de açúcar no Havaí criando uma demanda de trabalho que logo extrapolou os recursos nativos Foram trazidos trabalhadores da China Japão Coréia Portugal Filipinas e Porto Rico e rapidamente um pidgin se desenvolveu Muitos dos trabalhadores imigrantes que primeiro desenvolveram aquele pidgin estavam vivos quando Bickerton os entrevistou nos anos de 1970 Eis alguns exemplos típicos de sua fala Me capé buy me check make Buildinghigh placewall pattimenowtimean den a new tempecha cri time show you Good dis one Kaukau anykin dis one Pilipine islan no good No mo money A partir das palavras isoladas e do contexto o ouvinte pôde inferir que o primeiro falante um velho imigrante japonês de noventa e dois anos falando dos velhos tempos de fazendeiro de café tentava dizer He bought my coffee he made me out a check Ele comprou meu café ele preencheu um cheque e me deu Mas a frase em si também poderia querer dizer Eu comprei café eu preenchi um cheque e lhe dei o que seria pertinente se ele estivesse se referindo à sua situação atual de dono de loja O segundo falante outro velho imigrante japonês ficara sabendo das maravilhas da civilização em Los Angeles através de um de seus vários filhos e estava dizendo que havia um painel elétrico no alto da parede de um edifício que mostrava a hora e a temperatura O terceiro falante um filipino de sessenta e nove anos estava dizendo Its better here than in the Philippines here you can get all kinds of food but over there there isnt any money to buy food with Aqui é melhor do que nas Filipinas aqui você consegue todo tipo de alimento mas lá não há dinheiro para comprar comida Um dos tipos de alimento era pfrawg frog rã que ele apanhava por conta própria nos charcos pelo método de kank da head kink the head torcer a cabeça Em todos esses casos o ouvinte tinha de deduzir as intenções do falante O pidgin não oferece aos falantes os habituais recursos gramaticais que servem para transmitir essas mensagens não há uma ordem coerente das palavras não existem prefixos ou sufixos tempos verbais ou outros marcadores temporais e lógicos nenhuma estrutura mais complexa que uma oração simples e nenhuma maneira consistente de indicar quem fez o que para quem Mas as crianças que a partir de 1890 cresceram no Havaí e foram expostas ao pidgin acabaram falando de um modo bem diferente Eis algumas frases retiradas da língua que elas inventaram o crioulo havaiano As duas primeiras nascidas em Maui são filhas de um plantador japonês de papaia as duas seguintes filhas de um antigo trabalhador agrícola japonêshavaiano nasceram na ilha principal a última filha de gerente de hotel havaiano que antes era fazendeiro nasceu em Kauai Da firs japani came ran away from japan come The first Japanese who arrived ran away from Japan to here Os primeiros japoneses que chegaram vieram para cá fugindo do Japão Some filipino wok oheah dey wen couple yeahs in filipin islan Some Filipinos who worked over here went back to the Philippines for a couple of years Alguns filipinos que trabalhavam aqui voltaram para as Filipinas alguns anos atrás People no like tcome fo go wok People dont want to have him go to work for them As pessoas não querem que ele vá trabalhar para elas One time when we go home inna night dis ting stay fly up Once when we went home at night this thing was flying about Certa vez quando voltávamos para casa à noite aquela coisa estava voando por aí One day had pleny of dis mountain fish come down One day there were a lot of these fish from the mountains that came down the river Certo dia muitos daqueles peixes das montanhas desceram o rio Não devemos nos enganar com o que parecem ser verbos ingleses mal empregados como go stay e came ou expressões como one time Não são usos acidentais de palavras inglesas mas usos sistemáticos da gramática do crioulo havaiano as palavras foram transformadas pelos falantes do crioulo em auxiliares preposições marcadores de casos e pronomes relativos Com efeito foi provavelmente assim que muitos dos prefixos e sufixos gramaticais de lín guas estabelecidas surgiram Por exemplo a terminação ed do passado em inglês evoluiu a partir do verbo do He hammered era originalmente algo como He hammerdid Crioulas são línguas genuínas com ordens de palavras padronizadas e marcadores gramaticais que faltavam no pidgin dos imigrantes e que afora o som das palavras não foram tomados da língua dos colonizadores Bickerton ressalta que o fato de a gramática crioula ser em grande medida produto da mente de crianças não adulterado por elementos de linguagem complexa fornecidos pelos pais deveria possibilitar uma observação particularmente clara dos mecanismos gramaticais inatos do cérebro Afirma que crioulos gerados a partir da mistura de línguas não relacionadas entre si apresentam estranhas semelhanças talvez até a mesma gramática básica Essa gramática básica também se revela sugere ele nos erros que as crianças cometem quando estão adquirindo línguas mais consolidadas e rebuscadas como se um design subjacente se revelasse sob o verniz de pequenos erros Quando crianças de fala inglesa dizem Why he is leaving Nobody dont likes me Im gonna full Angelas bucket Let Daddy hold it hit it estão sem querer produzindo frases que são gramaticais em muitos crioulos do mundo As conclusões de Bickerton são discutíveis uma vez que dependem da reconstrução que ele fez de eventos ocorridos décadas ou séculos antes Mas sua idéia básica foi surpreendentemente corroborada por dois experimentos naturais recentes nos quais a criouilização realizada por crianças pôde ser observada em tempo real Essas fascinantes descobertas incluemse entre várias outras oriundas do estudo da língua de sinais dos deficientes auditivos Ao contrário do que o senso comum acredita as línguas de sinais não são pantomimas e gestos invenções de educadores ou formas cifradas da língua falada pela comunidade circundante São encontradas em todas as comunidades de deficientes auditivos e cada uma é uma língua plena e distinta que usa os mesmos tipos de mecanismos gramaticais encontrados nas línguas faladas Por exemplo a Língua Americana de Sinais ASL usada pela comunidade de deficientes auditivos dos Estados Unidos não se parece com a Língua Inglesa ou Britânica de Sinais mas baseiase em sistemas de concordância e de gênero que lembram o navajo e o banto Até pouco tempo atrás não existia nenhuma língua de sinais na Nicarágua porque seus deficientes auditivos permaneciam isolados uns dos outros Quando o governo sandinista assumiu o poder em 1979 e reformou o sistema educacional foram criadas as primeiras escolas para deficientes auditivos O enfoque das escolas era na leitura labial e na fala e como em todos os casos em que isso foi tentado o resultado foi desolador Mas isso não importava Nos parques e ônibus escolares as crianças estavam inventando seu próprio sistema de sinais acumulando os gestos provisórios que utilizavam com a família em casa Pouco tempo depois o sistema se consolidou no que hoje é a chamada Lenguaje de Signos Nicaraguense LSN Atualmente a LSN é usada com vários graus de fluência por jovens deficientes auditivos com idades entre dezessete e vinte e cinco anos que a desenvolveram quando tinham dez ou mais anos Essa linguagem é basicamente um pidgin Cada um a usa de modo diferente e aqueles que dela fazem uso dependem mais de circunlóquios sugestivos e elaborados do que de uma gramática consistente Mas crianças como Mayela que entrou na escola com aproximadamente quatro anos quando a LSN já vigorava e todos os alunos menores do que ela são bem diferentes Sua expressão gestual é mais fluida e compacta e os gestos são mais estilizados e se pa recem menos com uma pantomima Na verdade um exame mais minucioso de seus sinais revela que eles são tão diferentes da LSN que recebem outro nome Idioma de Signos Nicaraguense ISN LSN e ISN vêm sendo estudados pelas psicolingüistas Judy Kegl Miriam Hebe Lopez e Annie Senghas ISN parece um crioulo criado de chofre quando as crianças menores foram expostas aos sinais pidgin das mais velhas exatamente como Bickerton previra O ISN se padronizou espontaneamente todas as crianças pequenas o expressam da mesma maneira As crianças introduziram várias estratégias gramaticais ausentes na LSN e portanto dependem menos de circunlóquios Por exemplo um usuário de LSN pidgin pode ter um sinal para falar com e depois tem de fazer um gesto que vá da posição do falante para a posição do ouvinte Mas um usuário de ISN crioulo modifica o próprio sinal arrastandoo num mesmo movimento de um ponto que representa o falante para um ponto que representa o ouvinte Tratase de uma estratégia comum na língua de sinais formalmente idêntica à flexão do verbo em função da concordância nas línguas faladas Graças a essa gramática consistente o ISN é muito expressivo Uma criança pode observar um desenho animado surrealista e descrever sua trama para outra criança As crianças o empregam em piadas poemas narrativas e histórias de vida de modo que ele vem servindo de elemento aglutinador para essa comunidade Uma língua nasceu diante de nossos olhos Mas o ISN foi a produção coletiva de muitas crianças comunicandose entre si Caso queiramos atribuir a riqueza da linguagem à mente da criança temos de procurar uma única criança agregando complexidade gramatical ao que lhe foi fornecido Mais uma vez o estudo dos deficientes auditivos nos dá o que procuramos Quando crianças deficientes auditivas são criadas por pais que usam a língua de sinais aprendemna da mesma maneira como as crianças que escutam aprendem a língua falada Mas crianças deficientes auditivas que não são filhos de pais também deficientes auditivos a grande maioria delas geralmente não têm acesso a usuários da língua de sinais enquanto crescem e às vezes são deliberadamente mantidas afastadas deles por educadores de tradição oralista que querem forçálas a dominar a leitura labial e a fala A maioria dos deficientes auditivos deplora essas medidas autoritárias Quando as crianças deficientes auditivas se tornam adultas tendem a procurar comunidades de deficientes auditivos e começam a adquirir a língua de sinais beneficiandose dos meios de comunicação disponíveis para eles Mas em geral já é tarde para eles a língua de sinais é um difícil quebracabeça mental como uma aula de língua estrangeira para um adulto ouvinte Sua competência é notavelmente menor que a de deficientes auditivos que adquiriram a língua de sinais quando crianças assim como imigrantes adultos padecem permanentemente de seu sotaque e cometem graves erros gramaticais Pelo fato de os deficientes auditivos serem virtualmente as únicas pessoas neurologicamente normais que chegam à idade adulta sem ter adquirido uma linguagem suas dificuldades são uma prova particularmente eloqüente de que uma boa aquisição de linguagem tem de ocorrer durante um período crítico da infância As psicolingüistas Jenny Singleton e Elissa Newport estudaram um menino de nove anos com uma profunda deficiência auditiva por elas denominado Simon e seus pais que também são deficientes auditivos Os pais de Simon só adquiriram a língua de sinais por volta dos quinze dezesseis anos e portanto adquiriramna de forma precária Na ASL como em muitas línguas podese mover um sintagma para o começo de uma sentença e marcálo com um prefixo ou sufixo em ASL sobrancelhas levantadas e o queixo erguido para indicar que aquele é o tópico da sentença A frase inglesa Elvis I really like Elvis gosto mesmo seria um equivalente grosseiro Mas os pais de Simon raramente usavam essa construção e quando o faziam desfiguravamna Por exemplo certa vez o pai de Simon tentou expressar por sinais o pensamento My friend he thought my second child was deaf Meu amigo ele achava que meu segundo filho era surdo Saiu assim My friend thought my second child he thought he was deaf Meu amigo achava meu segundo filho ele achava que ele era surdo uma salada de sinais que viola não só a gramática ASL mas de acordo com a teoria de Chomsky a Gramática Universal que governa todas as línguas humanas naturalmente adquiridas veremos por que mais adiante neste capítulo Os pais de Simon também não conseguiram apreender o sistema de flexão do verbo da ASL Na ASL o verbo to blow soprar é sinalizado abrindo um punho mantido horizontalmente na frente da boca como um sopro Em ASL qualquer verbo pode ser modificado para indicar que a ação é contínua o falante adiciona um movimento parecido com um arco ao sinal e o repete rapidamente Um verbo também pode ser modificado para indicar que a ação se aplica a mais de um objeto por exemplo várias velas o falante termina o sinal num ponto do espaço repeteo em seguida mas o termina num outro ponto Essas flexões podem ser combinadas de duas maneiras blow para a esquerda e em seguida para a direita e mais uma vez ou blow para a esquerda duas vezes e em seguida blow para a direita duas vezes A primeira ordem significa assoprar as velas de um bolo e depois de outro bolo depois do primeiro bolo de novo depois do segundo bolo de novo a segunda significa ficar assoprando as velas de um bolo continuamente e depois assoprar as velas de outro bolo continuamente Esse conjunto de regras simples e precisas estava perdido para os pais de Simon Usavam as flexões de modo inconsistente e nunca combinavam duas delas num mesmo verbo ao mesmo tempo embora vez por outra usassem as flexões separadamente ligandoas de forma grosseira com sinais como then então em seguida Em muitos sentidos os pais de Simon eram como falantes de pidgin Surpreendentemente embora Simon não conhecesse outra ASL senão a versão falha dos pais sua própria expressão por ges tos era uma ASL bem melhor que a deles Compreendia frases com sintagmas de tópico deslocados sem qualquer dificuldade e quando tinha de descrever complexas cenas gravadas em vídeo empregava as flexões de verbo da ASL de maneira quase perfeita mesmo em frases que exigiam duas delas numa determinada ordem Simon deve ter conseguido de alguma maneira eliminar o ruído agramatical dos pais Deve terse aferrado às flexões que seus pais usavam de modo inconsistente reinterpretandoas como obrigatórias E deve ter percebido a lógica que embora nunca efetivada estava implícita no uso que os pais faziam de dois tipos de flexão verbal e reinventado o sistema ASL de adicionar ambos a um único verbo numa determinada ordem A superioridade de Simon em relação aos pais é um exemplo de criouilzação realizada por uma única criança Na verdade o feito de Simon só se destaca por ele ter sido o primeiro a mostrálo a um psicolinguista Devem existir milhares de Simons noventa ou noventa e cinco por cento de crianças deficientes auditivas são filhos de pais ouvintes Crianças que têm a sorte de serem expostas à ASL geralmente recebem essa linguagem de pais ouvintes que se dispuseram a aprendêla ainda que de modo incompleto para se comunicar com os filhos Com efeito como mostra a transição de LSN para ISN as próprias línguas de sinais são produtos de criouilzação Em vários momentos da história educadores tentaram inventar sistemas de sinais às vezes baseados na linguagem falada do meio Mas esses códigos grosseiros são sempre impossíveis de aprender e quando crianças deficientes auditivas aprendem algo deles fazemno convertendoos em línguas naturais bem mais ricas Criações extraordinárias por parte de crianças não exigem as circunstâncias extraordinárias da deficiência auditiva ou de Babéis agrícolas O mesmo tipo de genialidade linguística está presente cada vez que uma criança aprende sua língua materna Em primeiro lugar acabemos com o folclore de que os pais ensinam a língua aos filhos Ninguém supõe é claro que pais dêem aulas explícitas de gramática mas muitos pais e alguns psicólogos infantis que deveriam estar mais bem informados acreditam que as mães dão aulas implícitas aos filhos Essas aulas adotam a forma de uma variedade especial de fala denominada Motherese mamanhês em inglês ou em francês Mamanaise sessões intensivas de intercâmbios verbais com exercícios repetitivos e uma gramática simplificada Olhe o cachorrinho Está vendo o cachorrinho Aquilo é um cachorrinho Na cultura contemporânea da classe média americana criar filhos é visto como uma enorme responsabilidade uma vigilância implacável para evitar que a criancinha indefesa fique para trás na grande corrida da vida A crença de que o mamanhês é essencial para o desenvolvimento da linguagem faz parte da mesma mentalidade que manda os yuppies comprarem luvinhas com alvo em lojas de material educativo para que seus bebês encontrem as mãos mais rápido Nosso panorama ampliase um pouco se examinarmos as teorias populares sobre criação de filhos em outras culturas Os Kung San do Deserto de Kalahari no sul da África acreditam que as crianças têm de ser treinadas para sentar ficar de pé e andar Erguem cuidadosamente montes de areia em torno dos filhos para sustentálos de pé e com toda certeza cada uma dessas crianças logo se levanta por conta própria Achamos isso engraçado porque observamos os resultados do experimento que os San não querem deixar entregue à sorte não ensinamos nossas crianças a sentar ficar de pé e andar e assim mesmo elas o fazem no tempo delas Mas outros grupos têm a mesma atitude condescendente em relação a nós Em muitas comunidades do mundo os pais não entretêm seus filhos com mamanhês Na verdade nem mesmo falam com as crianças antes que elas tenham domínio lin güístico a não ser para pedidos ocasionais e reprimendas Isso não é absurdo Afinal de contas é óbvio que crianças pequenas não entendem uma palavra do que você diz Portanto por que gastar saliva em solilóquios Qualquer pessoa sensata certamente esperará até que a criança aprenda a falar e seja possível manter com ela conversas mais gratificantes Como dona Mae uma velha negra que vive em Piedmont Carolina do Sul explicou à antropóloga Shirley Brice Heath Now just how crazy is dat White folks uh hear dey kids say sumpn dey say it back to em dey aks em gain and gain bout things like they posed to be born knowin3 Não é necessário dizer que as crianças dessas comunidades aprendem a falar escutando adultos e outras crianças como vemos no BEV totalmente gramatical de dona Mae É às crianças que cabe boa parte do crédito pela linguagem que adquirem Podemos de fato demonstrar que elas sabem coisas que não poderiam ter sido ensinadas Um dos exemplos clássicos da lógica da língua fornecido por Chomsky envolve o processo de mudar palavras de lugar para formar perguntas Considere como transformar a sentença declarativa A unicorn is in the garden Há um unicórnio no jardim na pergunta correspondente Is a unicorn in the garden Há um unicórnio no jardim Você poderia escandir a sentença declarativa pegar o auxiliar is e transportálo para a frente a unicorn is in the garden is a unicorn in the garden Tomemos agora a sentença A unicorn that is eating a flower is in the garden Um unicórnio que está comendo uma flor está no jardim Há dois is Qual deve ser deslocado Obviamente não o primeiro 3 Que coisa maluca é essa Os brancos escutam os filhos dizerem algo aí dizem a mesma coisa ficam o tempo todo perguntandolhes coisas como se eles tivessem que nascer sabendo N da T que aparece depois da escansão da sentença isso daria uma sentença muito estranha a unicorn that is eating a flower is in the garden is a unicorn that eating a flower is in the garden Mas por que não se pode deslocar este is O que não funcionou nesse procedimento simples Como Chomsky observou a resposta está no design básico da língua Embora as sentenças sejam cadeias de palavras nossos algoritmos mentais para gramática não selecionam palavras em função de suas posições lineares tal como primeira palavra segunda palavra etc Pelo contrário os algoritmos agrupam palavras em sintagmas e sintagmas em sintagmas ainda maiores e dão um rótulo mental a cada um como sintagma nominal sujeito ou sintagma verbal A verdadeira regra de formação de perguntas não procura a primeira ocorrência do auxiliar quando se percorre a cadeia da esquerda para a direita procura o auxiliar que vem depois do sintagma rotulado de sujeito Esse sintagma que contém toda a cadeia de palavras a unicorn that is eating a flower funciona como uma unidade O primeiro is encontrase profundamente entranhado nele invisível à regra de formação de perguntas O segundo is que vem logo depois desse sintagma nominal sujeito é aquele que tem de ser deslocado a unicorn that is eating a flower is in the garden is a unicorn that is eating a flower in the garden Chomsky supôs que se as crianças estão equipadas com a lógica da língua deveriam ser capazes de transformar corretamente uma sentença com dois auxiliares numa pergunta quando deparam com ela pela primeira vez Isso deveria ser verdade mesmo se a regra errada aquela que escande a sentença como se fosse uma cadeia linear de palavras fosse mais simples e supostamente mais fácil de aprender E deveria ser verdade mesmo que as sentenças que poderiam ensinar às crianças que a regra linear é errada e a regra estrutural correta perguntas com um segundo auxiliar inserido no sintagma sujeito fossem tão raras que não existissem em mamanhês É muito provável que nem toda criança que aprende inglês tenha escutado mamãe dizer Is the doggie that is eating the flower in the garden O cachorrinho que está comendo a flor está no jardim Para Chomsky esse tipo de raciocínio que ele denomina de argumento baseado na pobreza do input é a justificação básica que permite dizer que o design básico da língua é inato A afirmação de Chomsky foi testada num experimento com crianças de três quatro e cinco anos numa creche pelos psicolingüistas Stephen Crain e Mineharu Nakayama Um dos experimentadores controlava um boneco de Jabba the Hutt personagem de Star Wars O outro tentava convencer a criança a fazer uma série de perguntas pedindo por exemplo Pergunte a Jabba se o menino que está infeliz está assistindo Mickey Mouse Ask Jabba if the boy who is unhappy is watching Mickey Mouse Jabba inspecionava um desenho e respondia sim ou não mas na verdade era a criança que estava sendo testada não Jabba As crianças faziam alegremente as perguntas corretas e como Chomsky previra nenhuma delas enunciou um cadeia agramatical como Is the boy who unhappy is watching Mickey Mouse como suporia a regra linear mais simples Mas haverá quem diga que isso não demonstra que o cérebro das crianças registra o sujeito de uma frase Talvez as crianças estivessem se guiando pelo significado das palavras O homem que está correndo referese a um único ator desempenhando um papel claro no desenho e crianças poderiam ter estado atentas a quais palavras se referem a quais atores e não a quais palavras pertencem ao sintagma nominal sujeito Mas Crain e Nakayama previram essa objeção Misturados na lista que eles elaboraram havia comandos como Pergunte a Jabba se está chovendo no desenho Ask Jabba if it is raining in the picture O it da frase evidentemente não se refere a nada it é um elemento vazio de significado que está ali apenas para satisfazer as regras da sintaxe que exigem um sujeito Mas a regra de formação de perguntas em inglês o trata como qualquer outro sujeito Is it raining Como é que as crianças lidam com essa variável destituída de sentido Talvez elas pensem de modo tão literal quanto o Pato em Alice no País das Maravilhas Silêncio em volta por favor disse o Rato Edwin e Morcar condes de Mércia e Nortúmbria pronunciaramse a favor dele e até mesmo Stigand o patriótico arcebispo de Cantuária achando isso conveniente Achando o quê perguntou o Pato Achando isso replicou o Rato já meio aborrecido Naturalmente você sabe o que isso quer dizer Sei muito bem o que isso quer dizer quando sou eu que acho alguma coisa explicou o Pato em geral uma rã ou um verme Mas a questão é o que foi que o arcebispo achou⁴ Mas crianças não são patos As crianças de Crain e Nakayama responderam Is it raining in this picture Elas tampouco tiveram qualquer dificuldade para formar questões com outros sujeitos vazios de significado como em Pergunte a Jabba se há uma cobra nesse desenho Ask Jabba if there is a snake in this picture ou com sujeitos que não são coisas como em Pergunte a Jabba se correr é divertido e Pergunte a Jabba se o amor é bom ou ruim As coerções universais que incidem sobre as regras gramaticais também mostram que a forma básica da língua não pode ser explicada como o resultado inevitável de um impulso utilitário Muitas línguas amplamente difundidas pelo planeta têm auxiliares e como o inglês muitas línguas transferem o auxiliar para a frente da sentença para formar perguntas e outras construções sempre ⁴ Cf trad de Sebastião Uchoa Leite in Aventuras de Alice no País das Maravilhas ed Summus São Paulo 3ª ed 1980 N da T em função da estrutura Mas essa não é a única maneira pela qual se pode conceber uma regra de formação de perguntas Seria igualmente possível transferir o auxiliar mais à esquerda da cadeia para a frente ou inverter o lugar da primeira e última palavra ou enunciar toda a frase em ordem invertida como se fosse lida num espelho truque este de que a mente humana é capaz algumas pessoas aprendem a ler de trás para a frente para se divertir e surpreender os amigos Os modos específicos pelos quais as línguas formam perguntas são arbitrários são convenções da espécie não os encontramos em sistemas artificiais como linguagens de programação de computador ou na notação da matemática O plano universal que subjaz às línguas com auxiliares e regras de inversão substantivos e verbos sujeitos e objetos sintagmas e orações casos e concordância etc parece sugerir a presença de elementos comuns nos cérebros dos falantes porque muitos outros planos teriam sido igualmente úteis É como se inventores isolados tivessem surgido miraculosamente com padrões idênticos de teclados de código Morse ou de sinais de trânsito As provas que corroboram a afirmação de que a mente contém um esquema detalhado de regras gramaticais provêm uma vez mais da boca de bebês Tomemos o sufixo inglês de concordância s como em He walks A concordância é um importante processo em muitas línguas mas no inglês moderno é algo supérfluo um remanescente de um sistema mais rico que floresceu no inglês arcaico Caso desaparecesse por completo não sentiríamos falta dele assim como não sentimos falta do sufixo similar est em Thou sayest tu falas Mas psicologicamente falando o enfeite sai caro Qualquer falante obrigado a usálo tem de estar atento a quatro detalhes em cada frase enunciada Se o sujeito está ou não na terceira pessoa He walks versus I walk Se o sujeito é singular ou plural He walks versus They walk Se o tempo da ação é presente ou não He walks versus He walked Se a ação é habitual ou se está acontecendo no momento em que se fala seu aspecto He walks to school versus He is walking to school E todo esse trabalho é necessário apenas para usar o sufixo depois de têlo aprendido Para aprendêlo a criança precisa 1 perceber que verbos terminam em s em algumas frases mas aparecem sem terminação em outras 2 começar a pesquisar as causas gramaticais dessa variação em vez de aceitála simplesmente como parte do tempero da vida e 3 não descansar até que esses fatores cruciais tempo aspecto número e pessoa do sujeito de uma frase tiverem sido separados do mar de fatores plausíveis mas irrelevantes como o número de sílabas da última palavra da frase se o objeto de uma proposição é natural ou manufaturado e como está o tempo quando a frase é enunciada Por que alguém se daria a esse trabalho Mas crianças pequenas o fazem Por volta dos três anos e meio ou antes elas usam o sufixo de concordância s em mais de noventa por cento das frases que assim o exigem e praticamente nunca o empregam nas frases em que isso está proibido Essa perícia é parte do surto de gramática que elas vivem num período de vários meses no terceiro ano de vida durante o qual subitamente começam a falar frases fluentes respeitando a maioria dos aspectos sutis da língua falada por sua comunidade Por exemplo podemos observar uma menina em idade préescolar aqui chamada de Sara cujos pais têm apenas o segundo grau completo obedecendo a regra de concordância do inglês por mais inútil que ela seja em frases complexas como as seguintes When my mother hangs clothes do you let em rinse out in rain Quando minha mãe pendura roupas você as deixa enxaguarem na chuva Donna teases all the time and Donna has false teeth Donna provoca o tempo todo e Donna tem dentes postiços I know what a big chicken looks like Eu sei como é ter cara de galinhamorta Anybody knows how to scribble Todo mundo sabe rabiscar Hey this part goes where this one is stupid Ei seu bobo esta peça vai aqui onde está esta outra What comes after C O que vem depois de C It looks like a donkey face Parece cara de burro The person takes care of the animals in the barn A pessoa cuida dos animais no celeiro After it dries off then you can make the bottom Depois que isso secar então você pode fazer o fundo Well someone hurts hisself and everything Bem alguém se machucou e tudo His tail sticks out like this O rabo dele estica assim What happens if ya press on this hard O que acontece se cê aperta assim forte Do you have a real baby that says googoo gaga Você tem um nenê de verdade que diz gugudadá O interessante é que Sara não estava simplesmente imitando os pais decorando verbos com a terminação s já adicionada de antemão Às vezes Sara dizia expressões que ela provavelmente não tinha escutado dos pais When she bes in the kindergarten Hes a boy so he gots a scary one costume She dos what her mother tells her5 Portanto ela mesma deve ter criado essas expressões empregando uma versão inconsciente da regra de concordância do inglês Para começo de conversa o próprio conceito de imitação é 5 As inovações de Sara estão nas formas bes em vez de is gots verbo no passado não deveria ter a terminação s e dos em vez de does N da R T suspeito se as crianças são imitadores por que não imitam o costume que seus pais têm de ficar sentados quietos nos aviões mas frases como as que vimos mostram claramente que a aquisição de linguagem não pode ser explicada como um tipo de imitação Falta mais um passo para completar a tese de que a linguagem é um instinto específico e não apenas uma solução inteligente para um problema imaginado por uma espécie comumente brilhante Se a linguagem é um instinto deveria ter uma localização identificável no cérebro e talvez até mesmo um conjunto especial de genes que ajude a mantêla no lugar No caso de dano desses genes ou neurônios deveria haver prejuízo da linguagem sem que outras partes da inteligência fossem afetadas caso eles sejam poupados num cérebro com outras lesões deveríamos ter um indivíduo com retardo mental mas linguagem intacta um sábio idiota em termos linguísticos Se por outro lado a linguagem for apenas o exercício da inteligência humana seria de esperar que lesões e deficiências tornassem as pessoas mais estúpidas em todos os sentidos inclusive na sua linguagem O único padrão esperável é que quanto maior for a área lesada do cérebro mais estúpida e pouco articulada a pessoa será Até hoje ninguém localizou um órgão da linguagem ou um gene da gramática mas a pesquisa continua Existem vários tipos de deficiências neurológicas e genéticas que comprometem a linguagem mas poupam a cognição e viceversa Um deles é conhecido há mais de cem anos talvez mil anos Quando certos circuitos das partes inferiores do lobo frontal do hemisfério esquerdo do cérebro são lesados por uma pancada ou um ferimento de bala por exemplo muitas vezes a pessoa sofre de uma síndrome chamada de afasia de Broca Uma dessas vítimas que acabou recuperando sua capacidade de linguagem relembra o acontecimento por ela vivido com total lucidez Quando acordei tinha uma forte dor de cabeça e achei que tinha dormido em cima do braço direito porque eu o sentia formigando e adormecido e não conseguia que ele fizesse o que eu queria Saí da cama mas não conseguia ficar de pé na verdade caí no chão porque minha perna direita estava tão fraca que não aguentava meu peso Chamei minha esposa que estava no quarto ao lado e nenhum som saiu eu não conseguia falar Fiquei chocado horrorizado Não acreditei que isso estava acontecendo comigo e comecei a ficar muito assustado Entendi de repente que eu devia ter sofrido um derrame Esse pensamento de certa forma me aliviou mas não por muito tempo porque sempre achei que as sequelas de um derrame eram permanentes em todos os casos Descobri que conseguia falar um pouco mas até mesmo eu percebia que as palavras pareciam erradas e não expressavam o que eu queria dizer Como esse escritor observou a maioria das vítimas de derrames não tem tanta sorte Mr Ford era um operador de rádio da guarda costeira quando sofreu um acidente cerebral aos trinta e nove anos O neuropsicólogo Howard Gardner entrevistouo três meses depois Gardner perguntoulhe sobre seu trabalho antes da hospitalização Eu era um si não na hum bem de novo Essas palavras foram emitidas lentamente e com grande esforço Os sons não eram claramente articulados cada sílaba era pronunciada estridentemente explosivamente numa voz gutural Deixeme ajudálo interrompio O senhor era um sinal Um sinaleiro certo Ford completou minha frase triunfante Trabalhava na guarda costeira Não é sim sim navio Massachu chusetts guarda costeira anos Levantou as mãos duas vezes indicando o número dezenove Ah o senhor trabalhou na guarda costeira durante dezenove anos Ah cara certo certo ele respondeu Por que o senhor está no hospital Sr Ford Ford olhou para mim de um modo um pouco estranho como se dissesse Isso não é óbvio Apontou para seu braço paralisado e disse Braço não bom depois para sua boca e disse Fala não dizer falar vê O que aconteceu com o senhor que o fez perder a fala Cabeça cai Jesus mim não bom der der oh Jesus derrame Entendo Sr Ford poderia me dizer o que o senhor tem feito no hospital Sim claro Mim ir é hum PT nove ho fala duas vezes ler escr cripa é é crica é é escrita treino ficando melhor E o senhor tem ido para casa nos fins de semana Que sim quinta é é é não é sexta Barbara mulher e oh carro guiar estrada sabe sono e tevê O senhor consegue entender tudo o que passa na televisão Ah sim sim bem quase Obviamente o Sr Ford tinha de fazer muito esforço para conseguir falar mas seu problema não estava no controle dos músculos vocais Conseguia assoprar e apagar uma vela e limpar a garganta e vacilava linguisticamente tanto quando escrevia como quando falava A maioria de suas dificuldades concentravase na própria gramática Omitia terminações dos tempos verbais e termos functivos gramaticais como ou or ser be e o a the apesar de sua alta frequência na língua Quando lia em voz alta pulava os termos functivos embora lesse bem termos de conteúdo como abelha bee e remo oar que são homófonos Nomeava objetos e reconhecia seus nomes extremamente bem Entendia as perguntas quando seu assunto principal podia ser deduzido dos termos de conteúdo como Uma pedra flutua na água ou Você usa um martelo para cortar mas não aquelas que exigiam análise gramatical como O leão foi morto pelo tigre qual deles morreu 6 Pacific Time horário do Pacífico N da T O instinto da linguagem Apesar das deficiências gramaticais do Sr Ford ele tinha pleno controle de suas outras faculdades Gardner comenta Estava alerta atento e plenamente consciente de onde estava e por que estava lá As funções intelectuais sem vínculo estreito com a linguagem como percepção de direita e esquerda capacidade de desenhar com a mão esquerda não treinada cálculo leitura de mapas acertar horário de relógios fazer construções ou cumprir ordens estavam preservadas Seu Quociente de Inteligência em áreas nãoverbais era acima da média Com efeito o diálogo mostra que o Sr Ford como muitos afásicos de Broca tinha uma profunda noção de suas deficiências Não são só lesões em indivíduos adultos que afetam os circuitos subjacentes à linguagem Algumas crianças saudáveis em todos os outros aspectos não desenvolvem a linguagem conforme o previsto Quando começam a falar têm dificuldade para articular palavras e embora sua articulação melhore com a idade há persistência de uma grande variedade de erros gramaticais geralmente até a vida adulta Uma vez descartadas causas nãolinguísticas desordens cognitivas como retardo desordens perceptuais como deficiência auditiva e desordens sociais como o autismo as crianças recebem o diagnóstico preciso mas que não ajuda muito de Transtorno Específico da Linguagem Specific Language Impairment SLI Os fonoaudiólogos geralmente chamados para tratar de vários membros de uma mesma família há muito tempo têm a impressão de que o SLI é hereditário Estudos estatísticos recentes mostram que essa impressão pode ser correta SLI ocorre dentro de famílias e se um gêmeo idêntico sofre desse distúrbio é muito alta a probabilidade de que o outro também o apresente Dados particularmente expressivos provêm de uma família inglesa os K recentemente estudados pela linguista Myrna Gopnik e vários geneticistas A avó da família apresenta distúrbios de linguagem Ela tem cinco filhos adultos Uma filha é normal em termos 50 O instinto da linguagem lingüísticos assim como os filhos dela Os outros quatro adultos apresentam distúrbios como a avó Eles têm juntos vinte e três filhos dos quais onze apresentavam distúrbios de linguagem e doze eram normais As crianças com distúrbios de linguagem estavam distribuídas aleatoriamente entre as famílias sexos e ordem de nascimento É claro que o simples fato de algum padrão comportamental ocorrer numa família não demonstra que ele tem causas genéticas Receitas sotaques e cantigas de ninar são transmitidos pelas famílias mas nada têm a ver com DNA No entanto nesse caso é plausível pensar numa causa genética Se a causa fosse ambiental nutrição deficiente a escuta dos erros de fala de um genitor ou irmão deficiente excesso de TV contaminação por chumbo depositado em velhos tonéis ou qualquer outra por que a síndrome afetaria alguns membros da família poupando outros da mesma geração num caso um gêmeo bivitelino Os geneticistas que trabalharam com Gopnik notaram que a descendência sugere um traço controlado por um único gene dominante como as flores corderosa das ervilhas de Gregor Mendel O que esse hipotético gene faz Ele não parece atingir a inteligência como um todo a maioria dos membros afetados da família apresenta resultados normais nas partes nãoverbais dos testes de QI Gopnik estudou inclusive uma criança com a síndrome que costumava obter as melhores notas nas aulas de matemática É a linguagem deles que é afetada mas eles não são como os afásicos de Broca parecemse antes com turistas tentando se virar numa cidade estrangeira Falam lenta e deliberadamente escolhendo as palavras com cuidado e estimulando seus interlocutores a ajudálos completando suas frases Relatam que uma conversa normal é um trabalho mental extenuante e que procuram evitar situações em que tenham de falar Sua fala contém frequentes erros gramaticais como uso incorreto de pronomes e de sufixos como o plural e as terminações do passado em inglês 51 Its a flying finches they are She remembered when she hurts herself the other day The neighbors phone the ambulance because the man fall off the tree The boys eat four cookie Carol is cry in the church7 Um testes experimentais apresentam dificuldade em tarefas facilmente realizadas por crianças normais de quatro anos Um exemplo clássico é o teste do wug mais uma prova de que crianças normais não aprendem a língua imitando os pais Mostrase aos sujeitos testados o desenho de uma criatura semelhante a um pássaro dizendo que aquilo é um wug8 Em seguida é apresentada uma ficha que contém duas dessas criaturas e dizse para a criança Agora tem dois tem dois A típica criança de quatro anos diz sem pensar wugs mas o adulto com a linguagem afetada sofre um bloqueio Uma das adultas estudada por Gopnik riu nervosamente e disse Ai bem continue Pressionada ela respondeu Wug wugness não é Não Entendi Você quer pares formar pares OK Para o próximo animal zat ela disse Za ka za zackle Para o próximo sas deduziu que devia ser sasses Feliz por ter conseguido passou a generalizar de forma literal convertendo zoop em zoopes e tob em tobyees revelando assim que não tinha compreendido de fato a regra de formação do plural em inglês Aparentemente o gene defeituoso de sua família afeta o desenvolvimento das regras que crianças normais usam de modo inconsciente Os adultos fazem o que podem para compensar essa deficiência inferindo conscientemente as regras com resultados previsivelmente canhestros 7 É um pintassilgos voadores são mesmoEla lembrou de quando ela se machuca outro diaOs vizinhos chamam a ambulância porque o homem cai da árvoreOs meninos comem quatro biscoitoCarol está chora na igreja N da T 8 Todas as palavras do teste são palavras sem sentido em inglês N da T 52 Tagarelas A afasia de Broca e o SLI são casos em que a linguagem é prejudicada e o resto da inteligência parece mais ou menos intacto Mas isso não prova que a linguagem existe separada da inteligência Talvez a linguagem imponha maiores exigências ao cérebro do que outros problemas que a mente tem de resolver Para os outros problemas o cérebro mesmo claudicante consegue funcionar sem usar sua capacidade total no caso da linguagem todos os sistemas têm de estar cem por cento Para decidir a questão temos de encontrar a dissociação oposta o sábio idiota em termos lingüísticos ou seja pessoas com linguagem preservada e cognição prejudicada Eis outra entrevista entre uma moça de quatorze anos chamada Denise e o recentemente falecido psicolinguísta Richard Cromer a entrevista foi transcrita e analisada pela colega de Cromer Sigrid Lipka Gosto de abrir cartões Tinha uma pilha de correio hoje de manhã e nenhuma das cartas era um cartão de Natal Um extrato de banco foi o que recebi esta manhã Um extrato de banco Espero que as notícias tenham sido boas Não não eram boas notícias Parece as que eu recebo Odeio Minha mãe trabalha na na prefeitura e ela disse outro extrato de banco não Eu disse é o segundo em dois dias E ela disse Você quer que eu vá para você ao banco na hora do almoço e eu disse Não desta vez eu mesma vou explicar sozinha Quer saber meu banco é horrível Eles perderam minha caderneta do banco sabe e não a encontro em nenhum lugar Sou do TSB Bank e estou pensando em mudar de banco porque eles são horríveis Ficam ficam perdendo alguém entra trazendo chá Oh como são gentis Uhm Muito bom Eles têm o costume de fazer isso Eles perdem perderam minha caderneta duas vezes num mês e acho que vou gritar Ontem minha 53 O instinto da linguagem mãe foi ao banco para mim Ela disse Eles perderam de novo sua caderneta Eu falei Posso gritar e eu disse ela disse Pode vá em frente Então berrei Mas é chato quando eles fazem coisas desse tipo TSB gerentes não são uh mesmo a melhor companhia Eles não têm jeito Vi Denise num vídeo e ela dá a impressão de ser uma proseadora loquaz e sofisticada sobretudo para ouvidos americanos devido ao seu refinado sotaque britânico My bank are awful por exemplo é gramatical em inglês britânico embora não em inglês americano Causa surpresa a informação de que os fatos por ela relatados com tanta sinceridade são produto de sua imaginação Denise não tem conta em banco portanto não poderia ter recebido um extrato pelo correio assim como seu banco não poderia ter perdido sua caderneta Embora ela falasse de uma conta conjunta que tinha com o namorado ela não tem namorado e obviamente mal compreende o conceito de conta conjunta pois queixase de que o namorado tirou dinheiro do lado da conta que é dela Em outras conversas Denise envolvia os ouvintes com relatos detalhados do casamento da irmã suas férias na Escócia com um rapaz chamado Danny e um feliz reencontro no aeroporto com um pai há muito não visto Mas a irmã de Denise é solteira Denise nunca esteve na Escócia não conhece ninguém chamado Danny e seu pai nunca se ausentou pelo tempo que for Na verdade Denise sofre de um grave retardo mental Nunca aprendeu a ler ou escrever e não consegue lidar com dinheiro ou quaisquer outras exigências da vida diária Denise nasceu com espinha bífida uma máformação das vértebras que deixa a medula desprotegida Muitas vezes a espinha bífida vem acompanhada de hidrocefalia um aumento de pressão do líquido cérebroespinhal que preenche os ventrículos grandes cavidades do cérebro dilatando o cérebro por dentro Por razões que ninguém entende crianças hidrocéfalas às vezes terminam 54 Tagarelas como Denise com um retardo significativo mas com aptidões lingüísticas intactas até mesmo superdesenvolvidas Talvez os ventrículos inchados comprimam grande parte do tecido cerebral necessário para a inteligência diária mas deixem intactas algumas outras porções que conseguem desenvolver os circuitos da linguagem Entre os vários termos técnicos relacionados com essa condição encontramse conversa de coquetel síndrome de tagarelice e matraquear Com efeito muitas pessoas com graves deficiências intelectuais apresentam fluência e gramaticalidade de linguagem como é o caso dos esquizofrênicos pacientes com mal de Alzheimer algumas crianças autistas e alguns afásicos Uma das mais fascinantes síndromes foi recentemente descoberta em San Diego quando os pais de uma menina deficiente mental com síndrome de tagarelice leram um artigo sobre as teorias de Chomsky numa revista de divulgação científica e ligaram para o MIT para falar com ele sugerindo que a filha deles poderia interessálo Chomsky é um teórico de gabinete que não conseguiria distinguir Jabba the Hutt do ComeCome portanto sugeriu aos pais que levassem a filha ao laboratório da psicolinguísta Ursula Bellugi em La Jolla Bellugi membro de uma equipe de pesquisa em biologia molecular neurologia e radiologia descobriu que a criança que apelidaram Crystal e várias outras posteriormente testadas tinha uma rara forma de retardo mental denominada síndrome de Williams A síndrome parece estar associada a um gene defeituoso no cromossomo 11 relacionado com a regulação do cálcio e afeta de forma complexa o cérebro o crânio e órgãos internos durante o desenvolvimento embora ninguém saiba o porquê dos efeitos que provoca As crianças têm uma aparência estranha são baixas e frágeis com rosto estreito e testa larga cavalete nasal achatado queixo pontudo íris com padrão estrelado e lábios grossos Chamamnas às vezes de cara de elfo ou duendes mas eu as acho mais parecidas com Mick Jagger Sofrem de um retardo 55
2
Linguística
UMG
2
Linguística
UMG
4
Linguística
UMG
7
Linguística
UMG
1
Linguística
UMG
3
Linguística
UMG
146
Linguística
UMG
11
Linguística
UMG
7
Linguística
UMG
1
Linguística
UMG
Texto de pré-visualização
STEVEN PINKER O instinto da linguagem Como a mente cria a linguagem TRADUÇÃO CLAUDIA BERLINER REVISÃO TÉCNICA CYNTHIA LEVART ZOCCA Martins Fontes São Paulo 2004 Esta obra foi publicada originalmente em inglês com o título THE LANGUAGE INSTINCT Copyright 1994 by Steven Pinker Copyright 2002 Livraria Martins Fontes Editora Ltda São Paulo para a presente edição 1ª edição abril de 2002 2ª tiragem junho de 2004 Tradução CLAUDIA BERLINER Revisão técnica Cynthia Levart Zocca Revisão gráfica Lilian Jenkino Maria Luiza Fravet Produção gráfica Geraldo Alves PaginaçãoFotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Pinker Steven 1954 O instinto da linguagem como a mente cria a linguagem Steven Pinker tradução Claudia Berliner revisão técnica Cynthia Levart Zocca São Paulo Martins Fontes 2002 Título original The language instinct Bibliografia ISBN 8533615493 1 Biolingüística 2 Linguagem 3 Linguística I Título 021528 CDD400 Índices para catálogo sistemático 1 Linguagem 400 Todos os direitos desta edição para o Brasil reservados à Livraria Martins Fontes Editora Ltda Rua Conselheiro Ramalho 330340 01325000 São Paulo SP Brasil Tel 11 32413677 Fax 11 31056867 email infomartinsfontescombr httpwwwmartinsfontescombr Para Harry e Roslyn Pinker que me deram a linguagem Índice Prefácio 1 1 Um instinto para adquirir uma arte 5 2 Tagarelas 19 3 Mentalês 59 4 Como a linguagem funciona 95 5 Palavras palavras palavras 151 6 Os sons do silêncio 195 7 Cabeças falantes 241 8 A Torre de Babel 293 9 Bebê nasce falando Descreve céu 333 10 Órgãos da linguagem e genes da gramática 379 11 O Big Bang 425 12 Os craques da língua 477 13 O design da mente 523 Notas 559 Referências bibliográficas 577 Glossário 605 Índice remissivo 617 PREFÁCIO Nunca conheci alguém que não se interessasse por linguagem Escrevi este livro para tentar satisfazer essa curiosidade A linguagem começou a ser submetida ao único tipo de compreensão satisfatório aquela que chamamos de ciência mas essa notícia foi mantida em segredo Ao amante da linguagem espero conseguir mostrar que existe um mundo preciso e rico na fala cotidiana que vai muito além das curiosidades locais de etimologias palavras incomuns e exemplos sutis de uso Ao leitor leigo interessado em ciência espero conseguir explicar o que está por trás das recentes descobertas ou em muitos casos nãodescobertas noticiadas pela imprensa estruturas profundas universais bebês inteligentes genes da gramática computadores com inteligência artificial redes neurais chimpanzés que se expressam por sinais homens de Neanderthal que falam sábios idiotas crianças selvagens lesões cerebrais paradoxais gêmeos idênticos separados ao nascer imagens coloridas do cérebro pensando e a busca da mãe de todas as línguas Também espero poder responder a muitas das perguntas que surgem naturalmente quando se pensa em línguas por que existem tantas por que os adultos têm tanta dificuldade para aprendêlas e por que parece que ninguém sabe o plural de Walkman O instinto da linguagem Aos estudantes que desconhecem a ciência da linguagem e da mente ou pior que estão sobrecarregados com a memorização dos efeitos da frequência de palavras sobre o tempo de resposta das decisões lexicais ou as questões sutis do Princípio das Categorias Vazias espero poder transmitir a intensa agitação intelectual que o moderno estudo da linguagem desencadeou várias décadas atrás Aos meus colegas de profissão dispersos entre tantas disciplinas e estudando tantos tópicos aparentemente desconexos espero poder oferecer algo que se assemelhe a uma integração desse vasto território Embora eu seja um pesquisador obsessivo que não gosta de acordos insípidos que embaralham as questões muitas das controvérsias acadêmicas me lembram cegos apalpando um elefante Se minha síntese pessoal parece abraçar os dois lados de debates como formalismo versus funcionalismo ou sintaxe versus semântica versus pragmática talvez seja porque para começo de conversa essas questões nunca existiram Ao público leitor de nãoficção interessado em linguagem e seres humanos no mais amplo sentido dos termos espero poder oferecer algo diferente dos chavões afetados Linguagem Light que caracterizam as discussões sobre linguagem no campo das ciências humanas geralmente propostas por pessoas que nunca estudaram o assunto Seja como for só posso escrever de uma única maneira com paixão por idéias possantes e explicativas e uma torrente de detalhes relevantes Dado este meu hábito tenho sorte de estar expondo um tema cujos princípios subjazem aos jogos de palavras à poesia retórica espirituosidade e à escrita refinada Não hesitei em exibir meus exemplos favoritos de linguagem em ação extraídos da cultura pop de crianças e adultos comuns dos estudiosos mais bombásticos do meu campo e de alguns dos melhores escritores de língua inglesa Este livro destinase portanto a todos os que utilizam a linguagem ou seja a todos Prefácio Devo agradecimentos a muitas pessoas Em primeiro lugar a Leda Cosmides Nancy Etcoff Michael Gazzaniga Laura Ann Petitto Harry Pinker Robert Pinker Roslyn Pinker Susan Pinker John Tooby e especialmente a Ilavenil Subbiah por seus comentários ao manuscrito seu incentivo e suas generosas sugestões A instituição em que trabalho o Instituto de Tecnologia de Massachusetts é um ambiente muito propício para o estudo da linguagem e agradeço aos colegas estudantes e antigos alunos que comigo compartilharam seus conhecimentos Noam Chomsky fez críticas precisas e ofereceu sugestões proveitosas e Ned Block Paul Bloom Susan Carey Ted Gibson Morris Halle e Michael Jordan ajudaramme a resolver as questões de vários capítulos Agradeço também a Hilary Bromberg Jacob Feldman John Houde Samuel Jay Keyser John J Kim Gary Marcus Neal Perlmutter David Pesetsky David Pöppel Annie Senghas Karin Stromswold Michael Tarr Marianne Teuber Michael Ullman Kenneth Wexler e Karen Wynn suas respostas eruditas a perguntas que vão da linguagem de sinais a obscuros jogadores de bola e guitarristas O bibliotecário do Departamento de Ciências Mentais e Cognitivas Pat Claffey e o responsável pelo sistema de informática do mesmo Departamento Stephen G Wadlow admiráveis representantes de suas profissões ofereceramme ajuda especializada em muitos momentos Vários capítulos beneficiaramse do exame minucioso de verdadeiros craques a quem agradeço os comentários técnicos e estilísticos Derek Bickerton David Caplan Richard Dawkins Nina Dronkers Jane Grimshaw Misia Landau Beth Levin Alan Prince e Sarah G Thomason Também agradeço a meus colegas de ciberespaço que perdoaram minha impaciência respondendo às vezes em minutos a minhas investigações eletrônicas Mark Aronoff Kathleen Baynes Ursula Bellugi Dorothy Bishop Helena Cronin Lila Gleitman Myrna Gopnik Jacques Guy Henry Kučera Sigrid Lipka Jacques Mehler Elissa Newport Alex Rudnicky Jenny Singleton Virginia Valian e Heather Van der Lely Um último obrigado para Alta Levenson do Colégio Bialik por sua ajuda com o latim Não posso deixar de reconhecer com alegria a especial atenção de John Brockman meu agente Ravi Mirchandani meu editor na Penguin Books e Maria Guamaschelli minha editora na William Morrow os sábios e detalhados conselhos de Maria melhoraram muito a versão final do manuscrito Katarina Rice revisou meus dois primeiros livros e fiquei muito feliz quando ela aceitou meu pedido de trabalhar comigo neste sobretudo no que se refere a algumas coisas que digo no Capítulo 12 Minha pesquisa sobre linguagem foi financiada pelos National Institutes of Health protocolo HD 18381 pela National Science Foundation protocolo BNS 9109766 e pelo Centro McDonnellPew de Neurociências Cognitivas no MIT Um instinto para adquirir uma arte 1 Ao ler estas palavras você estará participando de uma das maravilhas do mundo natural Porque você e eu pertencemos a uma espécie com uma capacidade notável podemos moldar eventos nos cérebros uns dos outros com primorosa precisão Não me refiro a telepatia controle da mente ou tantas outras obsessões das ciências alternativas mesmo quando descritos por aqueles que acreditam nisso estes são instrumentos grosseiros se comparados com uma habilidade incontestavelmente presente em cada um de nós Essa habilidade é a linguagem Por meio de simples ruídos produzidos por nossas bocas podemos fazer com que combinações de idéias novas e precisas surjam na mente do outro É uma habilidade tão natural que costumamos esquecer que é um milagre Portanto permitame lembrálo disso com algumas demonstrações simples Basta pedirlhe que abandone sua imaginação às minhas palavras por alguns instantes para fazer com que você pense em idéias muito específicas Quando um polvo macho localiza uma fêmea seu corpo normalmente cinzento tornase subitamente listrado Ele nada por cima da fêmea e começa a acariciála com sete de seus braços Se ela aceita essa carícia ele rapidamente se aproxima dela e enfia seu oitavo bra O instinto da linguagem ço no seu tubo respiratório Uma série de bolsas de esperma movemse lentamente por um sulco de seu braço para finalmente penetrar na cavidade do manto da fêmea Calda de cereja numa roupa branca Vinho na toalha do altar Aplique club soda imediatamente Funciona maravilhosamente bem para remover manchas dos tecidos Ao abrir a porta para Tad Dixie fica aturdida pois achava que ele estava morto Bate a porta na cara dele e tenta escapar Mas quando Tad diz Eu a amo permite que entre Tad a conforta e eles se entregam um ao outro Quando Brian chega interrompendoos Dixie conta a um Tad atordoado que ela e Brian tinhamse casado naquele mesmo dia Com muita dificuldade Dixie informa Brian de que as coisas não terminaram entre ela e Tad Em seguida solta a notícia de que Jamie é filho de Tad Meu o quê diz um Tad chocado Pense no que estas palavras provocaram O que fiz não foi simplesmente lembrálo de polvos se porventura você vir surgir listras em um deles agora sabe o que acontecerá em seguida A próxima vez que for a um supermercado talvez procure club soda entre os milhares de itens disponíveis e não toque nele até muitos meses depois quando uma substância particular e um objeto particular acidentalmente se encontrarem Agora você compartilha com milhões de outras pessoas os segredos dos protagonistas de um mundo criado pela imaginação de um estranho o folhetim diário All My Children É verdade que minhas demonstrações dependeram de nossa capacidade de ler e escrever mas isso torna nossa comunicação ainda mais impressionante pois transpõe intervalos de tempo espaço e convivência Mas a escrita é claramente um acessório opcional o verdadeiro motor da comunicação verbal é a língua falada que adquirimos quando crianças Em qualquer história natural da espécie humana a linguagem se distingue como traço preeminente Um humano solitário é decerto um engenheiro e fantástico solucionador de problemas Um instinto para adquirir uma arte Mas uma raça de Robinson Crusóes não impressionaria muito um observador extraterrestre O que realmente comove quando se trata de nossa espécie fica mais claro na história da Torre de Babel em que os homens falando uma única língua chegaram tão perto de alcançar o céu que Deus sentiuse ameaçado Uma língua comum une os membros de uma comunidade numa rede de troca de informações extremamente poderosa Todos podem beneficiarse das sacadas dos gênios dos acidentes da fortuna e da sabedoria oriunda de tentativas e erros acumulados por qualquer um no presente ou no passado E as pessoas podem trabalhar em equipe coordenando seus esforços por meio de acordos negociados Conseqüentemente o Homo sapiens é uma espécie como a alga verde e a minhoca que operou profundas mudanças no planeta Arqueólogos descobriram ossos de dez mil cavalos selvagens na base de um penhasco na França restos de manadas atiradas do alto do penhasco por grupos de caçadores paleolíticos dezessete mil anos atrás Esses fósseis de uma antiga cooperação e de uma engenhosidade compartilhada talvez possam esclarecer por que tigres de dentedesabre mastodontes gigantescos rinocerontes peludos e dezenas de outros grandes mamíferos foram extintos mais ou menos na mesma época em que os humanos chegaram aos seus hábitats Aparentemente nossos ancestrais os mataram A linguagem está tão intimamente entrelaçada com a experiência humana que é quase impossível imaginar vida sem ela É muito provável que se você encontrar duas ou mais pessoas juntas em qualquer parte da Terra elas logo estarão trocando palavras Quando as pessoas não têm ninguém com quem conversar falam sozinhas com seus cães até mesmo com suas plantas Nas nossas relações sociais o que ganha não é a força física mas o verbo o orador eloquente o sedutor de língua de prata a criança persuasiva que impõe sua vontade contra um pai mais musculoso A afasia que é a perda da linguagem em conseqüência de uma lesão cerebral é devastadora e em casos graves os membros da família chegam a sentir que é a própria pessoa que foi perdida para sempre O instinto da linguagem Este livro trata da linguagem humana Diferentemente de vários livros que levam língua ou linguagem no título ele não vai repreendêlo sobre o uso apropriado da língua procurar as origens das expressões idiomáticas e da gíria ou divertelo com palíndromos anagramas epônimos ou aqueles adoráveis nomes para coletivos de animais como exaltação de cotovias¹ Pois não escrevo sobre o idioma inglês ou qualquer outro idioma mas sobre algo bem mais básico o instinto para aprender falar e compreender a linguagem Pela primeira vez na história temos o que escrever a esse respeito Há uns trinta e cinco anos nasceu uma nova ciência agora denominada ciência cognitiva que reúne ferramentas da psicologia da ciência da computação da lingüística filosofia e neurobiologia para explicar o funcionamento da inteligência humana Desde então assistiuse a espetaculares avanços da ciência da linguagem em particular Há muitos fenômenos da linguagem que estamos começando a compreender tão bem como compreendemos o funcionamento de uma máquina fotográfica ou para que serve o baço Espero conseguir transmitir essas fascinantes descobertas algumas delas tão simples e precisas como qualquer outra coisa na ciência moderna mas tenho também um segundo objectivo A recente elucidação das faculdades lingüísticas tem implicações revolucionárias para nossa compreensão da linguagem e seu papel nos assuntos humanos e para nossa própria concepção da humanidade Muitas pessoas cultas já têm opiniões sobre a linguagem Sabem que é a invenção cultural mais importante do homem o exemplo quintessencial de sua capacidade de usar símbolos e um acontecimento sem precedentes em termos biológicos que o separa definitivamente dos outros animais Sabem que a linguagem impregna o pensamento e que as diferentes línguas levam ¹ Referência ao livro de James Lipton An Exaltation of Larks The Ultimate Edition ed Penguin que é uma coletânea de coletivos de animais N da T Um instinto para adquirir uma arte seus falantes a construir a realidade de diferentes maneiras Sabem que as crianças aprendem a falar a partir das pessoas que lhes servem de modelo e dos adultos que cuidam delas Sabem que a sofisticação gramatical costumava ser fomentada nas escolas mas que a queda dos padrões educacionais e a degradação da cultura popular provocaram um assustador declínio na capacidade do cidadão médio de construir uma frase gramaticalmente correta Sabem também que o inglês é uma língua extravagante que desafia a lógica na qual one drives on a parkway e parks in a driveway plays at a recital e recites at a play² Sabem que a grafia inglesa leva essa excentricidade ao cúmulo George Bernard Shaw queixavase de que fish peixe poderia igualmente ser soletrado ghoti gh como em tough o como em women ti como em nation e que somente a inércia institucional impede a adoção de um sistema mais racionalde escrevercomosefala Nas próximas páginas tentarei convencêlo de que cada uma dessas opiniões corriqueiras está errada E estão todas erradas por um simples motivo A linguagem não é um artefato cultural que aprendemos da maneira como aprendemos a dizer a hora ou como o governo federal está funcionando Ao contrário é claramente uma peça da constituição biológica de nosso cérebro A linguagem é uma habilidade complexa e especializada que se desenvolve espontaneamente na criança sem qualquer esforço consciente ou instrução formal que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo e que difere de capacidades mais gerais de processamento de informações ou de comportamento inteligente Por esses motivos alguns cognitivistas descreveram a linguagem como uma faculdade psicológica um órgão mental um sistema neural ou um módulo computacional Mas prefiro o simples e banal ter ² Em português a extravagância se perde estacionase o carro no estacionamento e se estaciona na garagem tocase num recital e se recita numa peça de teatro N da T mo instinto Ele transmite a idéia de que as pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias A capacidade de tecer teias não foi inventada por alguma aranha genial não reconhecida e não depende de receber a educação adequada ou de ter aptidão para arquitetura ou negócios imobiliários As aranhas tecem teias porque têm cérebro de aranha o que as impele a tecer e lhes dá competência para fazêlo com sucesso Embora haja diferenças entre teias e palavras proponho que você veja a linguagem dessa maneira porque isso ajuda a entender os fenômenos que vamos explorar Pensar a linguagem como um instinto inverte a sabedoria popular especialmente da forma como foi aceita nos cânones das ciências humanas e sociais A linguagem não é uma invenção cultural assim como tampouco a postura ereta o é Não é uma manifestação da capacidade geral de usar símbolos como veremos uma criança de três anos é um gênio gramatical mas é bastante incompetente em termos de artes visuais iconografia religiosa sinais de trânsito e outros itens básicos do currículo de semiótica Embora a linguagem seja uma habilidade magnífica exclusiva do Homo sapiens entre as espécies vivas isso não implica que o estudo dos seres humanos deva ser retirado do campo da biologia pois existem outras habilidades magníficas exclusivas de uma espécie viva em particular no reino animal Alguns tipos de morcegos capturam insetos voadores usando um sonar Doppler Alguns tipos de aves migratórias viajam milhares de quilômetros comparando as posições das constelações com as horas do dia e épocas do ano No show de talentos da natureza somos apenas uma espécie de primatas com nosso próprio espetáculo um jeito todo especial de comunicar informação sobre quem fez o que para quem modulando os sons que produzimos quando expiramos A partir do momento em que você começa a considerar a linguagem não como a inefável essência da singularidade humana mas como uma adaptação biológica para transmitir informação deixa de ser tentador ver a linguagem como um insidioso formador de pensamentos e como veremos ela não é isso Além disso o fato de ver a linguagem como uma das maravilhas da engenharia da natureza um órgão com aquela perfeição de estrutura e de coadaptação que com razão desperta nossa admiração nas palavras de Darwin inspira em nós um novo respeito pelo José de cada esquina e pela tão difamada língua inglesa ou qualquer outra língua Do ponto de vista do cientista a complexidade da linguagem é parte de nossa herança biológica inata não é algo que os pais ensinam aos filhos ou algo que tenha de ser elaborado na escola como disse Oscar Wilde Educação é algo admirável mas é bom lembrar de vez em quando que nada que vale a pena saber pode ser ensinado O conhecimento tácito de gramática de uma criança em idade préescolar é mais sofisticado que o mais volumoso manual de estilo ou o mais moderno sistema de linguagem de computador e o mesmo se aplica a qualquer ser humano saudável até mesmo o atleta profissional conhecido por seus erros de linguagem e o sabe tipo skatista adolescente inarticulado Por fim como a linguagem é produto de um instinto biológico bem planejado veremos que ela não é o ridículo grupo de macacos sugerido pelos colunistas de espetáculos de variedades Tentarei devolver alguma dignidade ao vernáculo inglês e terei inclusive algumas belas coisas a dizer sobre seu sistema de ortografia A idéia da linguagem como um tipo de instinto foi concebida pela primeira vez em 1871 pelo próprio Darwin Em The Descent of Man ele teve de enfrentar a linguagem pois o fato de ela se restringir aos seres humanos parecia desafiar sua teoria Como sempre suas observações são estranhamente modernas Como um dos fundadores da nobre ciência da filologia observou a linguagem é uma arte como fermentar ou assar mas a escrita teria sido uma comparação melhor Ela decerto não é um verdadeiro instinto pois toda língua tem de ser aprendida Contudo difere muito de todas as artes comuns pois o homem tem uma tendência instintiva a falar como vemos no balbuciar de nossos filhos pequenos nenhuma criança no entanto tem uma tendência instintiva a fermentar assar ou escrever Além disso nenhum filólogo supõe atualmente que alguma língua tenha sido deliberadamente inventada desenvolveuse lenta e inconscientemente etapa por etapa Darwin concluía que a habilidade da linguagem é uma tendência instintiva a adquirir uma arte desígnio não peculiar aos humanos mas também encontrado em outras espécies como os pássaros que aprendem a cantar Um instinto da linguagem pode ser chocante para aqueles que pensam a linguagem como o zênite do intelecto humano e que pensam os instintos como impulsos brutais que compelem zumbis cobertos de peles e penas a construir um dique ou abandonar tudo e rumar para o sul Mas um dos seguidores de Darwin William James observou que quem possui um instinto não precisa agir fatalmente como um autômato Segundo ele temos os mesmos instintos que os animais e muitos outros além desses nossa inteligência flexível provém da interrelação entre muitos instintos divergentes Com efeito é justamente a natureza instintiva do pensamento humano que faz com que nos custe tanto perceber que ela é um instinto É preciso uma mente pervertida pela aprendizagem para fazer com que o natural pareça estranho ao ponto de indagar os motivos de qualquer ato humano instintivo Só a um metafísico podem ocorrer questões como Por que sorrimos quando estamos contentes e não franzimos as sobrancelhas Por que não conseguimos falar com uma multidão da mesma maneira como conversamos com um amigo Por que uma certa moça nos deixa tão transtornados O homem comum diria apenas É claro que sorrimos é claro que nosso coração palpita ao ver a multidão é claro que amamos a moça essa bela alma Um instinto para adquirir uma arte revestida dessa forma perfeita feita para ser amada por todo o sempre de modo tão palpável e evidente E é isso provavelmente que todo animal sente em relação a certas coisas que ele tende a fazer em presença de certos objetos Para o leão é a leoa que foi feita para ser amada para o urso a ursa É muito provável que a galinha choca considerasse monstruosa a idéia de que haja alguma criatura no mundo para quem um ninho cheio de ovos não fosse o objeto mais fascinante mais precioso de todos e sobre o qual nuncaédemaissentaremcima como é para ela Podemos portanto estar certos de que por mais misteriosos que alguns dos instintos animais nos pareçam nossos instintos decerto não parecem menos misteriosos para eles E podemos concluir que para o animal que a ele obedece cada impulso e cada etapa de cada instinto brilha com sua própria luz e a cada momento parece ser a única coisa eternamente correta e apropriada a fazer Que sensação voluptuosa não deve percorrer a mosca quando ela por fim descobre aquela folha particular ou carniça ou porção de esterco que entre todas no mundo estimula seu ovipositor a eliminar os ovos Nesse momento essa eliminação não deve lhe parecer a única coisa a ser feita E será que ela precisa se preocupar ou saber algo a respeito da futura larva e seu alimento Não consigo pensar numa melhor exposição de meu principal objetivo O funcionamento da linguagem está tão distante de nossa consciência quanto os fundamentos lógicos da postura de ovos para a mosca Nossos pensamentos saem de nossa boca com tanta naturalidade que muitas vezes nos constrangem quando eludem nossos censores mentais Quando compreendemos as frases o fluxo de palavras é transparente entendemos o sentido de modo tão automático que podemos esquecer que um filme é falado numa língua estrangeira e está legendado Acreditamos que as crianças aprendem a língua materna imitando a mãe mas quando uma criança diz Eu se sentei ou Eu não cabo aí dentro certamente não é uma imitação Quero transmitirlhe conhecimentos que perver O instinto da linguagem tam sua mente ao ponto de esses dons naturais parecerem estranhos para que você se pergunte os porquês e comos dessas capacidades aparentemente familiares Observe um imigrante lutando para dominar uma segunda língua ou um paciente que sofreu uma lesão cerebral lutando com sua língua materna ou desconstrua um fragmento de fala infantil ou tente programar um computador para compreender inglês e a fala corrente começará a ser vista de outra maneira A naturalidade a transparência o caráter automático são ilusões que escondem um sistema de grande riqueza e beleza No século 20 a tese mais famosa de que a linguagem é como um instinto foi elaborada por Noam Chomsky o primeiro lingüista a revelar a complexidade do sistema e talvez o maior responsável pela moderna revolução na ciência cognitiva e na ciência da linguagem Na década de 50 as ciências sociais eram dominadas pelo behaviorismo a escola de pensamento divulgada por John Watson e B F Skinner Termos mentais como saber e pensar eram rotulados de nãocientíficos mente e inato eram palavrões O comportamento era explicado por algumas poucas leis de aprendizagem por estímuloresposta que podiam ser estudadas por meio de ratos que apertavam barras e cães que salivavam ao som de campainhas Mas Chomsky chamou a atenção para dois fatos fundamentais sobre a linguagem Em primeiro lugar cada frase que uma pessoa enuncia ou compreende é virtualmente uma nova combinação de palavras que aparece pela primeira vez na história do universo Por isso uma língua não pode ser um repertório de respostas o cérebro deve conter uma receita ou programa que consegue construir um conjunto ilimitado de frases a partir de uma lista finita de palavras Esse programa pode ser denominado gramática mental que não deve ser confundida com gramáticas pedagógicas ou estilísticas que são apenas guias para a elegância da prosa escrita O segundo fato fundamental é que as crianças desenvolvem essas gramáticas complexas rapidame Um instinto para adquirir uma arte sem qualquer instrução formal e à medida que crescem dão interpretações coerentes a novas construções de frases que elas nunca escutaram antes Portanto afirmava ele as crianças têm de estar equipadas de modo inato com um plano comum às gramáticas de todas as línguas uma Gramática Universal que lhes diz como extrair os padrões sintáticos da fala de seus pais Chomsky descreveu isso nos seguintes termos Um fato curioso sobre a história intelectual dos últimos séculos é que o desenvolvimento físico e mental foi abordado de várias maneiras diferentes Ninguém levaria a sério a afirmação de que o organismo humano aprende pela experiência a ter braços em vez de asas ou de que a estrutura básica de determinados órgãos resulta da experiência acidental Ao contrário considerase indiscutível que a estrutura física do organismo é geneticamente determinada embora é claro variações como tamanho velocidade de desenvolvimento etc dependam em parte de fatores externos O desenvolvimento da personalidade de padrões de comportamento e de estruturas cognitivas em organismos mais desenvolvidos costuma ser abordado de modo bem diferente Nesses campos costumase dizer que o meio social é o fator predominante As estruturas da mente que se desenvolvem com o passar do tempo são consideradas arbitrárias e acidentais não existe uma natureza humana separada daquilo que se desenvolve como um produto histórico específico Mas os sistemas cognitivos humanos quando seriamente investigados não se mostram menos maravilhosos e intricados que as estruturas físicas que se desenvolvem na vida do organismo Então por que não deveríamos estudar a aquisição de uma estrutura cognitiva como a linguagem mais ou menos da mesma maneira como estudamos um órgão físico complexo À primeira vista esta proposta parece absurda fosse apenas pela grande variedade de línguas humanas Mas considerandose a questão mais de perto essas dúvidas desaparecem Mesmo conhecendo muito pouco sobre os universais lingüísticos podemos ter certeza de que a possível variedade de línguas é bem limitada A língua que cada pessoa adquire é uma construção rica e complexa que não se justifica pelos parcos e fragmentados dados disponíveis para a criança No entanto os membros de uma comunidade linguística desenvolvem essencialmente a mesma língua Esse fato só encontra explicação na hipótese de que esses indivíduos empreguem princípios altamente restritivos que dirigem a construção da gramática Por meio de esmeradas análises técnicas das frases que pessoas comuns aceitam como pertencentes à sua língua materna Chomsky e outros linguístas desenvolveram teorias das gramáticas mentais que subjazem ao conhecimento que as pessoas têm de certas línguas e da Gramática Universal que subjaz a determinadas gramáticas Logo depois o trabalho de Chomsky incentivou outros estudiosos entre os quais Eric Lenneberg George Miller Roger Brown Morris Halle e Alvin Liberman a inaugurar áreas totalmente novas de estudo da linguagem do desenvolvimento infantil e percepção da fala à neurologia e genética Atualmente a comunidade de cientistas que estudam as questões que ele levantou é composta de milhares de estudiosos Chomsky é geralmente incluído entre os dez escritores mais citados no campo das humanidades ganhando de Hegel e Cícero e estando atrás apenas de Marx Lênin Shakespeare a Bíblia Aristóteles Platão e Freud e é o único membro vivo entre os dez mais O que essas citações dizem é outra coisa Chomsky incomoda As reações vão da veneração comumente reservada aos gurus de estranhos cultos religiosos aos ataques hostis que os membros da academia transformaram numa arte aprimorada Isso se deve em parte ao fato de que Chomsky ataca aquilo que ainda é um dos alicerces da vida intelectual do século 20 o Modelo Clássico das Ciências Sociais segundo o qual a psique humana é moldada pelo ambiente cultural Mas devese também ao fato de nenhum pensador poder ignorálo Como reconhece um de seus mais severos críticos o filósofo Hilary Putnam Ao ler Chomsky temse a sensação de estar diante de uma grande potência intelectual é certo que se está diante de uma mente extraordinária E isso decorre tanto da fascinação produzida por sua forte personalidade quanto de suas óbvias virtudes intelectuais originalidade desdém pelos modismos e pelo superficial desejo de dar novamente vida e a capacidade de fazêlo a posições como a doutrina das idéias inatas que pareciam ultrapassadas preocupação com temas como a estrutura da mente humana de importância central e perene A história que vou contar neste livro foi sem dúvida profundamente influenciada por Chomsky Mas não é exatamente a história dele e não a contarei como ele o faria Chomsky confundiu muitos leitores com seu ceticismo quanto à possibilidade da seleção natural darwiniana em contraposição a outros processos evolutivos poder explicar as origens do órgão da linguagem que ele propõe a meu ver é útil considerar a linguagem como uma adaptação evolutiva como o olho cujas principais partes estão destinadas a desempenhar importantes funções Além disso as teses de Chomsky sobre a natureza da faculdade da linguagem baseiamse em análises técnicas da estrutura das palavras e frases muitas vezes expressas em abstrusos formalismos Suas discussões sobre falantes de carne e osso são superficiais e muito idealizadas Embora eu concorde com muitas de suas teses acho que uma conclusão sobre a mente só é convincente se dados oriundos de muitas fontes convergirem para ela Portanto a história contada neste livro é altamente eclética incluindo desde a maneira como o DNA constrói cérebros até discursos pontificantes de colunistas de linguagem jornalística Para começar o melhor é perguntar por que alguém deveria acreditar que a linguagem humana é parte da biologia humana ou seja um instinto Blank page Livro O Instinto da Linguagem Steven Pinker seu grupo carregaram as armas e montaram uma bomba rudimentar fizeram seu primeiro contato com os montanhêses O espanto era mútuo Leahy escreveu em seu diário Foi um alívio quando os nativos apareceram os homens na frente armados com arcos e flechas as mulheres atrás carregando colmos de canadeaçúcar Ao ver as mulheres Ewunga me disse imediatamente que não haveria luta Acenamos para que se acercassem o que fizeram cautelosamente parando a cada tanto para nos observar Quando finalmente alguns deles tomaram coragem para se aproximar percebemos que estavam atônitos com a nossa aparência Quando tirei meu chapéu os que estavam mais perto de mim recuaram aterrorizados Um velho avançou cuidadosamente de boca aberta e me tocou para ver se eu era real Em seguida pondose de joelhos esfregou as mãos nos meus pés descalços provavelmente para descobrir se estavam pintados agarroume pelos joelhos e os abraçou esfregando seus cabelos espessos contra mim As mulheres e crianças aos poucos também tomaram coragem para se aproximar e de repente o acampamento estava repleto deles correndo por todos os lados numa grande algaravia apontando para tudo o que era novo para eles Essa algaravia era linguagem uma língua desconhecida uma das oitocentas que viriam a ser descobertas entre os montanhêses isolados até os anos 60 O primeiro contato de Leahy repetiu uma cena que deve ter ocorrido centenas de vezes na história humana sempre que um povo encontrava outro pela primeira vez Todos eles pelo que nos consta já tinham alguma língua Cada hotentote cada esquimó cada ianomâmi Nunca se descobriu nenhuma tribo muda e não há registros de alguma região que tenha servido de berço da linguagem a partir da qual ela teria se espalhado para grupos antes destituídos de linguagem Como em todos os outros casos a língua falada pelos anfitriões de Leahy revelou não ser nenhuma algaravia mas um meio capaz de exprimir conceitos abstratos entidades invisíveis e complexas linhas de raciocínio Os montanhêses conferenciavam intensamente tentando chegar a uma conclusão sobre a natureza das pálidas aparições A principal conjectura era que eles eram reencarnações de ancestrais ou de outros espíritos sob forma humana talvez aqueles que voltavam a ser esqueletos à noite Acabaram por conceber um teste empírico que resolveria a questão Um deles se escondeu relembra o montanhês Kirupano Ezae e os observou ir defecar Ele voltou e disse Aqueles homens vindos do céu foram defecar ali Depois que eles partiram vários homens foram dar uma olhada Ao perceberem que cheirava mal disseram A pele deles pode ser diferente mas a merda deles é igual à nossa A universalidade da linguagem complexa é uma descoberta que enche os lingüistas de admiração e temor e é a primeira razão para suspeitar que a linguagem não é apenas uma invenção cultural qualquer mas o produto de um instinto humano específico As invenções culturais variam muito de sociedade para sociedade em termos de sofisticação dentro de uma sociedade as invenções têm geralmente um mesmo nível de sofisticação Alguns grupos contam fazendo marcas em ossos e cozinham em fogos que eles produzem girando gravetos na lenha outros usam computadores e fornos de microondas No entanto a linguagem acaba com essa correlação Existem sociedades da Idade da Pedra mas não existe uma língua da Idade da Pedra No começo do século 20 o lingüista antropólogo Edward Sapir escreveu Quando se trata da forma lingüística Platão não se distingue do guardador de porcos macedônio ou Confúcio do caçador de cabeças selvagem de Assam Para tomar um exemplo aleatório de uma forma lingüística sofisticada num país nãoindustrializado a lingüista Joan Bresnan escreveu recentemente um artigo técnico comparando a construção em kivunjo língua banto falada em várias aldeias das encostas do monte Kilimanjaro na Tanzânia com sua construção correspondente em inglês que ela descreve como uma língua ger mânica ocidental falada na Inglaterra e em suas antigas colônias A construção inglesa é denominada dativa e pode ser encontrada em frases como She baked me a brownie Ela assou um brownie para mim e He promised her Arpège Ele prometeu a ela Arpège em que um objeto indireto como me ou her é colocado depois do verbo para indicar o beneficiário de uma ação A construção kivunjo correspondente é denominada aplicativo cuja semelhança com o dativo inglês conforme nota Bresnan pode ser comparada com aquela entre o jogo de xadrez e o de damas A construção kivunjo se encaixa totalmente dentro do verbo que tem sete prefixos e sufixos dois modos e quatorze tempos verbais o verbo concorda com seu sujeito seu objeto e seus substantivos beneficiários cada um dos quais pode ter dezesseis gêneros Apenas para esclarecer esses gêneros não dizem respeito a coisas como transexuais hermafroditas pessoas andróginas etc como um dos leitores deste capítulo supôs Para um lingüista o termo gênero mantém seu significado original de classe como nas palavras generic genus e genre genérico gênero gêneroestilo Os gêneros bantos referemse a classes como humanos animais objetos extensos grupos de objetos e partes do corpo Acontece que em muitas línguas européias os gêneros correspondem aos sexos pelo menos quanto aos pronomes Por isso o termo lingüístico gênero passou a ser empregado por nãolingüistas como um rótulo adequado para o dimorfismo sexual o termo mais preciso sexo parece reservado agora à maneira educada de se referir à copulação Entre outros dispositivos engenhosos que vislumbrei nas gramáticas dos assim chamados grupos primitivos o complexo sistema pronominal cherokee parece particularmente jeitoso Ele distingue você e eu outra pessoa e eu várias outras pessoas e eu e você Todos os termos técnicos de lingüística biologia e ciência cognitiva que utilizo neste livro estão definidos no Glossário nas páginas 605616 uma ou mais pessoas e eu que o inglês rudemente junta no pronome de múltiplas utilidades we nós Na verdade as pessoas cujas habilidades linguísticas são mais gravemente subestimadas estão bem aqui na nossa sociedade Os linguístas constantemente topam com o mito de que a classe trabalhadora e os membros menos educados da classe média falam uma linguagem mais simples e menos refinada Tratase de uma ilusão perniciosa decorrente da naturalidade da conversação A fala comum assim como a visão de cores ou andar são paradigmas de excelência em engenharia uma tecnologia que funciona tão bem que seu usuário considera seu resultado óbvio sem se dar conta dos complicados mecanismos ocultos por trás dos painéis Por trás de frases tão simples como Where did he go Onde ele foi eou The guy I met killed himself O rapaz que conheci se matou utilizadas automaticamente por qualquer falante do inglês existem dezenas de subrotinas que organizam as palavras para exprimir o significado Depois de décadas de esforços nenhum sistema de linguagem artificialmente planejado chega perto de reproduzir o homem da rua apesar dos HAL e C3PO¹ Mas embora o mecanismo da linguagem seja invisível para o usuário humano prestase obsessivamente atenção à aparência e à cor Diferenças insignificantes entre o dialeto corrente e o dialeto de outros grupos como isnt any versus aint no those books versus them books e dragged him away versus drug him away são honradas com a insígnia de gramática correta Mas isso tem tão pouco a ver com sofisticação gramatical quanto o fato de que em algumas regiões dos Estados Unidos as pessoas se referem a um certo inseto libélula como dragonfly e em outras regiões como darning needle ou de que quem fala inglês chama os caninos de dogs enquanto quem fala francês os chama de chiens É inclusive um tanto engano so chamar o Inglês Padrão de língua e essas variações de dialetos como se houvesse alguma diferença significativa entre eles A melhor definição é a do lingüista Max Weinreich uma língua é um dialeto com um exército e uma marinha O mito de que os dialetos não padronizados do inglês sejam gramaticalmente deficientes é muito difundido Nos anos 60 alguns psicólogos educacionais bemintencionados anunciaram que as crianças negras americanas tinham sofrido tamanha privação cultural que careciam de uma verdadeira linguagem e estavam limitadas a um modo de comportamento expressivo nãológico Essas conclusões baseavamse nas respostas tímidas ou malhumoradas das crianças a baterias de testes padronizados Se os psicólogos tivessem escutado conversas espontâneas teriam redescoberto o lugarcomum de que a cultura negra americana é altamente verbal em toda parte a subcultura dos jovens da rua em particular é famosa nos anais de antropologia pelo valor atribuído à virtuosidade linguística Eis um exemplo extraído de uma entrevista dirigida pelo lingüista William Labov na escada em frente de uma casa do Harlem O entrevistado é Larry o membro mais rude de uma gangue de adolescentes chamada the Jets Em seu artigo acadêmico Labov comenta que para muitos leitores deste texto o primeiro contato com Larry produziria com razão reações negativas de ambas as partes You know like some people say if youre good an shit your spirit goin theaven n if you bad your spirit goin to hell Well bullshit Your spirit goin to hell anyway good or bad Why Why Ill tell you why Cause you see doesnt nobody really know that its a God yknow cause I mean I have seen black gods white gods all color gods and dont nobody know its really a God An when they be sayin if you good you goin theaven thas bullshit cause you aint goin to no heaven cause it aint no heaven for you to go to jus suppose that there is a God would he be white or black Hed be white man Why Why Ill tell you why Cause the average whitey out here got everything you dig And the nigger aint got shit yknow Yunderstan Soumforin order for that to happen you know it aint no black God thats doin that bullshit² O primeiro contato com a gramática de Larry provavelmente também produz reações negativas mas para um lingüista ela é rigorosamente conforme às regras do dialeto denominado Black English Vernacular BEV Vernáculo do Inglês Negro O que mais interessa em termos lingüísticos sobre o dialeto é que ele é muito pouco interessante em termos lingüísticos se Labov não tivesse de chamar a atenção para ele a fim de desmascarar a afirmação de que as crianças do gueto carecem de uma verdadeira competência linguística esse dialeto seria arquivado como apenas mais uma língua Onde o Standard American English SAE Inglês Americano Padrão usa there como um sujeito vazio de significado para a cópula BEV usa it como sujeito aparente sem significado para a cópula compare Theres really a God do SAE com Its really a God de Larry A concordância negativa de Larry You aint goin to no heaven encontrase em muitas línguas como no francês ne pas Como os falantes do SAE Larry inverte sujeitos e auxiliares em frases nãodeclarativas mas o conjunto preciso de tipos de frases que admitem a inversão difere ligeiramente Larry e outros falantes de BEV invertem sujeitos e auxiliares em orações princi pais negativas como Dont nobody know os falantes de SAE as invertem apenas em perguntas como Doesnt anybody know e em alguns outros tipos de frases BEV dá a seus falantes a opção de eliminar cópulas If you bad não se trata de preguiça aleatória mas de uma regra sistemática virtualmente idêntica à regra de contração em SAE que reduz He is para Hes You are para Youre e I am para Im Em ambos os dialetos be só pode ser suprimido em certos tipos de frases Nenhum falante de SAE ousaria fazer as seguintes contrações Yes he is Yes hes I dont care what you are I dont care what youre Who is it Whos it Pelos mesmos motivos nenhum falante de BEV tentaria fazer as seguintes supressões Yes he is Yes he I dont care what you are I dont care what you Who is it Who it Notese também que falantes de BEV não tendem apenas a suprimir mais palavras Eles usam a forma plena de certos auxiliares I have seen ao passo que falantes de SAE geralmente os contraem Ive seen É como seria de esperar quando se comparam línguas existem áreas em que o BEV é mais preciso do que o inglês padrão He be working significa que ele geralmente trabalha que talvez ele tenha um emprego fixo He working significa apenas que ele está trabalhando no momento em que a frase é enunciada No SAE He is working deixa de fazer essa distinção Além disso frases como In order for that to happen you know it aint no black God thats doin that bullshit mostram que a fala de Larry faz uso do inventário completo da parafernália gramatical que os teóricos da computação tentam reproduzir sem sucesso orações relativas complementos subordinação etc para não falar das argumentações teológicas bastante sofisticadas Outro projeto de Labov foi tabular a porcentagem de frases gramaticais em gravações de falas de várias classes sociais e contextos sociais Gramatical nesse sentido significa bem formada de acordo com normas coerentes do dialeto do falante Por exemplo se um falante perguntasse Where are you going Aonde você vai o respondente não seria penalizado por responder To the store Pra loja mesmo se em certo sentido esta não seja uma frase completa Tais elipses fazem obviamente parte da gramática do inglês falado a alternativa I am going to the store Vou para a loja soa afetada e quase nunca é usada Frases agramaticais segundo essa definição incluem fragmentos de frases aleatoriamente interrompidas hesitações que exprimam alguma dificuldade de expressão lapsos de linguagem e outras formas de confusões de palavras Os resultados da tabulação de Labov são elucidativos A grande maioria das frases eram gramaticais sobretudo na fala casual com porcentagens mais altas de frases gramaticais nos falantes da classe trabalhadora do que na classe média A porcentagem mais alta de frases agramaticais foi encontrada nas atas de conferências acadêmicas eruditas A onipresença de linguagem complexa entre os seres humanos é uma fascinante descoberta e para muitos observadores uma prova inegável de que a linguagem é inata Mas para céticos obstinados como o filósofo Hilary Putnam isso não prova nada Nem tudo o que é universal é inato Assim como nas décadas passadas nunca encontraram uma tribo sem linguagem hoje em dia os antropólogos têm de se esforçar muito para encontrar grupos humanos imunes aos videocassetes à CocaCola e a camisetas dos Simpsons A linguagem era universal antes que a CocaCola o fosse mas por outro lado a linguagem é mais útil que a CocaCola É como comer com as mãos e não com os pés o que também é universal mas não temos de invocar um instinto especial que leva a mão à boca para explicar por quê O valor da linguagem é inestimável para todas as atividades da vida diária numa comunidade de pessoas providenciar comida e abrigo amar discutir negociar ensinar Se a necessidade é a mãe de todas as invenções a linguagem poderia ter sido inventada algumas vezes por pessoas capazes há muito tempo Como Lily Tomlin disse talvez o homem tenha inventado a linguagem para satisfazer sua profunda necessidade de se queixar A Gramática Universal apenas refletiria as exigências universais da experiência humana e as limitações universais do processamento humano da informação Todas as línguas têm palavras para água e alimento porque todas as pessoas têm de se referir a água e comida nenhuma língua tem uma palavra com um milhão de sílabas porque ninguém teria tempo para pronunciála Uma vez inventada a língua se consolidaria dentro de uma cultura à medida que os pais ensinassem seus filhos e os filhos imitassem os pais A partir das culturas que tivessem uma língua ela se espalharia rapidamente para outras culturas mais caladas No centro desse processo está a extraordinariamente flexível inteligência humana com suas estratégias de aprendizagem geral que servem a tantos propósitos Portanto a universalidade da linguagem não implica um instinto de linguagem inato assim como depois do dia vem a noite Para convencêlo de que existe um instinto de linguagem terei de desenvolver uma tese que vai da algaravia dos povos modernos aos supostos genes da gramática Os elementos essenciais para demonstrar meu argumento provêm da minha própria especialidade profissional o estudo do desenvolvimento da linguagem nas crianças O ponto central da tese é que a linguagem complexa é universal porque as crianças efetivamente a reinventam geração após geração não porque a aprendem não porque são em geral inteli gentes não porque é útil para elas mas porque não têm alternativa Permitame agora colocálo na pista dos indícios que levam a essa conclusão A pista começa com o estudo de como surgiu cada língua hoje encontrada no mundo Podese pensar que nesse caso a linguística incorre no mesmo problema de qualquer ciência histórica ninguém registrou os acontecimentos fundamentais na época em que aconteceram Embora os linguistas históricos possam remeter as modernas línguas complexas a línguas anteriores isso só empurra o problema um pouco mais para trás temos de entender como os povos criaram línguas complexas a partir do zero Por incrível que pareça é possível fazer isso Os primeiros casos foram arrancados de dois dos mais lamentáveis episódios da história mundial o tráfico de escravos pelo Atlântico e os servos contratados no Pacífico Sul Talvez clientes da Torre de Babel alguns dos senhores de plantações de tabaco algodão café e açúcar tenham misturado deliberadamente escravos e trabalhadores de diferentes origens linguísticas outros teriam preferido separar as etnias mas tiveram de aceitar as misturas porque era o que havia Quando falantes de línguas diversas têm de se comunicar para realizar tarefas práticas mas não têm a oportunidade de aprender as línguas uns dos outros desenvolvem um jargão provisório denominado pidgin Pidgins são cadeias precárias de palavras tomadas da língua dos colonizadores ou donos de plantações que variam muito em termos de ordem e são pobres no que se refere à gramática Às vezes um pidgin pode se tornar uma língua franca ganhando em complexidade com o passar do tempo como ocorreu com o Pidgin English do Pacífico Sul moderno Numa visita à Nova Guiné o príncipe Philip adorou saber que naquela língua ele é referido como fella belong Mrs Queen companheiro pertence Sra Rainha Mas o linguista Derek Bickerton demonstrou que em muitos casos um pidgin pode se converter numa língua complexa plena de chofre basta que um grupo de crianças seja exposto ao pidgin na idade em que adquire a língua materna Isso acontecia afirma Bickerton quando crianças eram separadas dos pais e ficavam todas juntas sob a responsabilidade de um trabalhador que falava com elas em pidgin Não satisfeitas em reproduzir as cadeias fragmentadas de palavras as crianças injetavam complexidade gramatical ali onde ela não existia resultando numa nova língua muito rica em termos expressivos A língua que surge quando crianças transformam um pidgin em sua língua nativa se chama crioulo A principal prova de Bickerton provém de uma única circunstância histórica Embora as plantações cultivadas por escravos que deram lugar à maioria dos crioulos sejam felizmente algo de um passado remoto um episódio de crioulização ocorreu num passado suficientemente recente para que seus principais protagonistas pudessem ser estudados Pouco antes do início do século 20 houve uma rápida expansão das plantações de açúcar no Havaí criando uma demanda de trabalho que logo extrapolou os recursos nativos Foram trazidos trabalhadores da China Japão Coréia Portugal Filipinas e Porto Rico e rapidamente um pidgin se desenvolveu Muitos dos trabalhadores imigrantes que primeiro desenvolveram aquele pidgin estavam vivos quando Bickerton os entrevistou nos anos de 1970 Eis alguns exemplos típicos de sua fala Me capé buy me check make Buildinghigh placewall pattimenowtimean den a new tempecha cri time show you Good dis one Kaukau anykin dis one Pilipine islan no good No mo money A partir das palavras isoladas e do contexto o ouvinte pôde inferir que o primeiro falante um velho imigrante japonês de noventa e dois anos falando dos velhos tempos de fazendeiro de café tentava dizer He bought my coffee he made me out a check Ele comprou meu café ele preencheu um cheque e me deu Mas a frase em si também poderia querer dizer Eu comprei café eu preenchi um cheque e lhe dei o que seria pertinente se ele estivesse se referindo à sua situação atual de dono de loja O segundo falante outro velho imigrante japonês ficara sabendo das maravilhas da civilização em Los Angeles através de um de seus vários filhos e estava dizendo que havia um painel elétrico no alto da parede de um edifício que mostrava a hora e a temperatura O terceiro falante um filipino de sessenta e nove anos estava dizendo Its better here than in the Philippines here you can get all kinds of food but over there there isnt any money to buy food with Aqui é melhor do que nas Filipinas aqui você consegue todo tipo de alimento mas lá não há dinheiro para comprar comida Um dos tipos de alimento era pfrawg frog rã que ele apanhava por conta própria nos charcos pelo método de kank da head kink the head torcer a cabeça Em todos esses casos o ouvinte tinha de deduzir as intenções do falante O pidgin não oferece aos falantes os habituais recursos gramaticais que servem para transmitir essas mensagens não há uma ordem coerente das palavras não existem prefixos ou sufixos tempos verbais ou outros marcadores temporais e lógicos nenhuma estrutura mais complexa que uma oração simples e nenhuma maneira consistente de indicar quem fez o que para quem Mas as crianças que a partir de 1890 cresceram no Havaí e foram expostas ao pidgin acabaram falando de um modo bem diferente Eis algumas frases retiradas da língua que elas inventaram o crioulo havaiano As duas primeiras nascidas em Maui são filhas de um plantador japonês de papaia as duas seguintes filhas de um antigo trabalhador agrícola japonêshavaiano nasceram na ilha principal a última filha de gerente de hotel havaiano que antes era fazendeiro nasceu em Kauai Da firs japani came ran away from japan come The first Japanese who arrived ran away from Japan to here Os primeiros japoneses que chegaram vieram para cá fugindo do Japão Some filipino wok oheah dey wen couple yeahs in filipin islan Some Filipinos who worked over here went back to the Philippines for a couple of years Alguns filipinos que trabalhavam aqui voltaram para as Filipinas alguns anos atrás People no like tcome fo go wok People dont want to have him go to work for them As pessoas não querem que ele vá trabalhar para elas One time when we go home inna night dis ting stay fly up Once when we went home at night this thing was flying about Certa vez quando voltávamos para casa à noite aquela coisa estava voando por aí One day had pleny of dis mountain fish come down One day there were a lot of these fish from the mountains that came down the river Certo dia muitos daqueles peixes das montanhas desceram o rio Não devemos nos enganar com o que parecem ser verbos ingleses mal empregados como go stay e came ou expressões como one time Não são usos acidentais de palavras inglesas mas usos sistemáticos da gramática do crioulo havaiano as palavras foram transformadas pelos falantes do crioulo em auxiliares preposições marcadores de casos e pronomes relativos Com efeito foi provavelmente assim que muitos dos prefixos e sufixos gramaticais de lín guas estabelecidas surgiram Por exemplo a terminação ed do passado em inglês evoluiu a partir do verbo do He hammered era originalmente algo como He hammerdid Crioulas são línguas genuínas com ordens de palavras padronizadas e marcadores gramaticais que faltavam no pidgin dos imigrantes e que afora o som das palavras não foram tomados da língua dos colonizadores Bickerton ressalta que o fato de a gramática crioula ser em grande medida produto da mente de crianças não adulterado por elementos de linguagem complexa fornecidos pelos pais deveria possibilitar uma observação particularmente clara dos mecanismos gramaticais inatos do cérebro Afirma que crioulos gerados a partir da mistura de línguas não relacionadas entre si apresentam estranhas semelhanças talvez até a mesma gramática básica Essa gramática básica também se revela sugere ele nos erros que as crianças cometem quando estão adquirindo línguas mais consolidadas e rebuscadas como se um design subjacente se revelasse sob o verniz de pequenos erros Quando crianças de fala inglesa dizem Why he is leaving Nobody dont likes me Im gonna full Angelas bucket Let Daddy hold it hit it estão sem querer produzindo frases que são gramaticais em muitos crioulos do mundo As conclusões de Bickerton são discutíveis uma vez que dependem da reconstrução que ele fez de eventos ocorridos décadas ou séculos antes Mas sua idéia básica foi surpreendentemente corroborada por dois experimentos naturais recentes nos quais a criouilização realizada por crianças pôde ser observada em tempo real Essas fascinantes descobertas incluemse entre várias outras oriundas do estudo da língua de sinais dos deficientes auditivos Ao contrário do que o senso comum acredita as línguas de sinais não são pantomimas e gestos invenções de educadores ou formas cifradas da língua falada pela comunidade circundante São encontradas em todas as comunidades de deficientes auditivos e cada uma é uma língua plena e distinta que usa os mesmos tipos de mecanismos gramaticais encontrados nas línguas faladas Por exemplo a Língua Americana de Sinais ASL usada pela comunidade de deficientes auditivos dos Estados Unidos não se parece com a Língua Inglesa ou Britânica de Sinais mas baseiase em sistemas de concordância e de gênero que lembram o navajo e o banto Até pouco tempo atrás não existia nenhuma língua de sinais na Nicarágua porque seus deficientes auditivos permaneciam isolados uns dos outros Quando o governo sandinista assumiu o poder em 1979 e reformou o sistema educacional foram criadas as primeiras escolas para deficientes auditivos O enfoque das escolas era na leitura labial e na fala e como em todos os casos em que isso foi tentado o resultado foi desolador Mas isso não importava Nos parques e ônibus escolares as crianças estavam inventando seu próprio sistema de sinais acumulando os gestos provisórios que utilizavam com a família em casa Pouco tempo depois o sistema se consolidou no que hoje é a chamada Lenguaje de Signos Nicaraguense LSN Atualmente a LSN é usada com vários graus de fluência por jovens deficientes auditivos com idades entre dezessete e vinte e cinco anos que a desenvolveram quando tinham dez ou mais anos Essa linguagem é basicamente um pidgin Cada um a usa de modo diferente e aqueles que dela fazem uso dependem mais de circunlóquios sugestivos e elaborados do que de uma gramática consistente Mas crianças como Mayela que entrou na escola com aproximadamente quatro anos quando a LSN já vigorava e todos os alunos menores do que ela são bem diferentes Sua expressão gestual é mais fluida e compacta e os gestos são mais estilizados e se pa recem menos com uma pantomima Na verdade um exame mais minucioso de seus sinais revela que eles são tão diferentes da LSN que recebem outro nome Idioma de Signos Nicaraguense ISN LSN e ISN vêm sendo estudados pelas psicolingüistas Judy Kegl Miriam Hebe Lopez e Annie Senghas ISN parece um crioulo criado de chofre quando as crianças menores foram expostas aos sinais pidgin das mais velhas exatamente como Bickerton previra O ISN se padronizou espontaneamente todas as crianças pequenas o expressam da mesma maneira As crianças introduziram várias estratégias gramaticais ausentes na LSN e portanto dependem menos de circunlóquios Por exemplo um usuário de LSN pidgin pode ter um sinal para falar com e depois tem de fazer um gesto que vá da posição do falante para a posição do ouvinte Mas um usuário de ISN crioulo modifica o próprio sinal arrastandoo num mesmo movimento de um ponto que representa o falante para um ponto que representa o ouvinte Tratase de uma estratégia comum na língua de sinais formalmente idêntica à flexão do verbo em função da concordância nas línguas faladas Graças a essa gramática consistente o ISN é muito expressivo Uma criança pode observar um desenho animado surrealista e descrever sua trama para outra criança As crianças o empregam em piadas poemas narrativas e histórias de vida de modo que ele vem servindo de elemento aglutinador para essa comunidade Uma língua nasceu diante de nossos olhos Mas o ISN foi a produção coletiva de muitas crianças comunicandose entre si Caso queiramos atribuir a riqueza da linguagem à mente da criança temos de procurar uma única criança agregando complexidade gramatical ao que lhe foi fornecido Mais uma vez o estudo dos deficientes auditivos nos dá o que procuramos Quando crianças deficientes auditivas são criadas por pais que usam a língua de sinais aprendemna da mesma maneira como as crianças que escutam aprendem a língua falada Mas crianças deficientes auditivas que não são filhos de pais também deficientes auditivos a grande maioria delas geralmente não têm acesso a usuários da língua de sinais enquanto crescem e às vezes são deliberadamente mantidas afastadas deles por educadores de tradição oralista que querem forçálas a dominar a leitura labial e a fala A maioria dos deficientes auditivos deplora essas medidas autoritárias Quando as crianças deficientes auditivas se tornam adultas tendem a procurar comunidades de deficientes auditivos e começam a adquirir a língua de sinais beneficiandose dos meios de comunicação disponíveis para eles Mas em geral já é tarde para eles a língua de sinais é um difícil quebracabeça mental como uma aula de língua estrangeira para um adulto ouvinte Sua competência é notavelmente menor que a de deficientes auditivos que adquiriram a língua de sinais quando crianças assim como imigrantes adultos padecem permanentemente de seu sotaque e cometem graves erros gramaticais Pelo fato de os deficientes auditivos serem virtualmente as únicas pessoas neurologicamente normais que chegam à idade adulta sem ter adquirido uma linguagem suas dificuldades são uma prova particularmente eloqüente de que uma boa aquisição de linguagem tem de ocorrer durante um período crítico da infância As psicolingüistas Jenny Singleton e Elissa Newport estudaram um menino de nove anos com uma profunda deficiência auditiva por elas denominado Simon e seus pais que também são deficientes auditivos Os pais de Simon só adquiriram a língua de sinais por volta dos quinze dezesseis anos e portanto adquiriramna de forma precária Na ASL como em muitas línguas podese mover um sintagma para o começo de uma sentença e marcálo com um prefixo ou sufixo em ASL sobrancelhas levantadas e o queixo erguido para indicar que aquele é o tópico da sentença A frase inglesa Elvis I really like Elvis gosto mesmo seria um equivalente grosseiro Mas os pais de Simon raramente usavam essa construção e quando o faziam desfiguravamna Por exemplo certa vez o pai de Simon tentou expressar por sinais o pensamento My friend he thought my second child was deaf Meu amigo ele achava que meu segundo filho era surdo Saiu assim My friend thought my second child he thought he was deaf Meu amigo achava meu segundo filho ele achava que ele era surdo uma salada de sinais que viola não só a gramática ASL mas de acordo com a teoria de Chomsky a Gramática Universal que governa todas as línguas humanas naturalmente adquiridas veremos por que mais adiante neste capítulo Os pais de Simon também não conseguiram apreender o sistema de flexão do verbo da ASL Na ASL o verbo to blow soprar é sinalizado abrindo um punho mantido horizontalmente na frente da boca como um sopro Em ASL qualquer verbo pode ser modificado para indicar que a ação é contínua o falante adiciona um movimento parecido com um arco ao sinal e o repete rapidamente Um verbo também pode ser modificado para indicar que a ação se aplica a mais de um objeto por exemplo várias velas o falante termina o sinal num ponto do espaço repeteo em seguida mas o termina num outro ponto Essas flexões podem ser combinadas de duas maneiras blow para a esquerda e em seguida para a direita e mais uma vez ou blow para a esquerda duas vezes e em seguida blow para a direita duas vezes A primeira ordem significa assoprar as velas de um bolo e depois de outro bolo depois do primeiro bolo de novo depois do segundo bolo de novo a segunda significa ficar assoprando as velas de um bolo continuamente e depois assoprar as velas de outro bolo continuamente Esse conjunto de regras simples e precisas estava perdido para os pais de Simon Usavam as flexões de modo inconsistente e nunca combinavam duas delas num mesmo verbo ao mesmo tempo embora vez por outra usassem as flexões separadamente ligandoas de forma grosseira com sinais como then então em seguida Em muitos sentidos os pais de Simon eram como falantes de pidgin Surpreendentemente embora Simon não conhecesse outra ASL senão a versão falha dos pais sua própria expressão por ges tos era uma ASL bem melhor que a deles Compreendia frases com sintagmas de tópico deslocados sem qualquer dificuldade e quando tinha de descrever complexas cenas gravadas em vídeo empregava as flexões de verbo da ASL de maneira quase perfeita mesmo em frases que exigiam duas delas numa determinada ordem Simon deve ter conseguido de alguma maneira eliminar o ruído agramatical dos pais Deve terse aferrado às flexões que seus pais usavam de modo inconsistente reinterpretandoas como obrigatórias E deve ter percebido a lógica que embora nunca efetivada estava implícita no uso que os pais faziam de dois tipos de flexão verbal e reinventado o sistema ASL de adicionar ambos a um único verbo numa determinada ordem A superioridade de Simon em relação aos pais é um exemplo de criouilzação realizada por uma única criança Na verdade o feito de Simon só se destaca por ele ter sido o primeiro a mostrálo a um psicolinguista Devem existir milhares de Simons noventa ou noventa e cinco por cento de crianças deficientes auditivas são filhos de pais ouvintes Crianças que têm a sorte de serem expostas à ASL geralmente recebem essa linguagem de pais ouvintes que se dispuseram a aprendêla ainda que de modo incompleto para se comunicar com os filhos Com efeito como mostra a transição de LSN para ISN as próprias línguas de sinais são produtos de criouilzação Em vários momentos da história educadores tentaram inventar sistemas de sinais às vezes baseados na linguagem falada do meio Mas esses códigos grosseiros são sempre impossíveis de aprender e quando crianças deficientes auditivas aprendem algo deles fazemno convertendoos em línguas naturais bem mais ricas Criações extraordinárias por parte de crianças não exigem as circunstâncias extraordinárias da deficiência auditiva ou de Babéis agrícolas O mesmo tipo de genialidade linguística está presente cada vez que uma criança aprende sua língua materna Em primeiro lugar acabemos com o folclore de que os pais ensinam a língua aos filhos Ninguém supõe é claro que pais dêem aulas explícitas de gramática mas muitos pais e alguns psicólogos infantis que deveriam estar mais bem informados acreditam que as mães dão aulas implícitas aos filhos Essas aulas adotam a forma de uma variedade especial de fala denominada Motherese mamanhês em inglês ou em francês Mamanaise sessões intensivas de intercâmbios verbais com exercícios repetitivos e uma gramática simplificada Olhe o cachorrinho Está vendo o cachorrinho Aquilo é um cachorrinho Na cultura contemporânea da classe média americana criar filhos é visto como uma enorme responsabilidade uma vigilância implacável para evitar que a criancinha indefesa fique para trás na grande corrida da vida A crença de que o mamanhês é essencial para o desenvolvimento da linguagem faz parte da mesma mentalidade que manda os yuppies comprarem luvinhas com alvo em lojas de material educativo para que seus bebês encontrem as mãos mais rápido Nosso panorama ampliase um pouco se examinarmos as teorias populares sobre criação de filhos em outras culturas Os Kung San do Deserto de Kalahari no sul da África acreditam que as crianças têm de ser treinadas para sentar ficar de pé e andar Erguem cuidadosamente montes de areia em torno dos filhos para sustentálos de pé e com toda certeza cada uma dessas crianças logo se levanta por conta própria Achamos isso engraçado porque observamos os resultados do experimento que os San não querem deixar entregue à sorte não ensinamos nossas crianças a sentar ficar de pé e andar e assim mesmo elas o fazem no tempo delas Mas outros grupos têm a mesma atitude condescendente em relação a nós Em muitas comunidades do mundo os pais não entretêm seus filhos com mamanhês Na verdade nem mesmo falam com as crianças antes que elas tenham domínio lin güístico a não ser para pedidos ocasionais e reprimendas Isso não é absurdo Afinal de contas é óbvio que crianças pequenas não entendem uma palavra do que você diz Portanto por que gastar saliva em solilóquios Qualquer pessoa sensata certamente esperará até que a criança aprenda a falar e seja possível manter com ela conversas mais gratificantes Como dona Mae uma velha negra que vive em Piedmont Carolina do Sul explicou à antropóloga Shirley Brice Heath Now just how crazy is dat White folks uh hear dey kids say sumpn dey say it back to em dey aks em gain and gain bout things like they posed to be born knowin3 Não é necessário dizer que as crianças dessas comunidades aprendem a falar escutando adultos e outras crianças como vemos no BEV totalmente gramatical de dona Mae É às crianças que cabe boa parte do crédito pela linguagem que adquirem Podemos de fato demonstrar que elas sabem coisas que não poderiam ter sido ensinadas Um dos exemplos clássicos da lógica da língua fornecido por Chomsky envolve o processo de mudar palavras de lugar para formar perguntas Considere como transformar a sentença declarativa A unicorn is in the garden Há um unicórnio no jardim na pergunta correspondente Is a unicorn in the garden Há um unicórnio no jardim Você poderia escandir a sentença declarativa pegar o auxiliar is e transportálo para a frente a unicorn is in the garden is a unicorn in the garden Tomemos agora a sentença A unicorn that is eating a flower is in the garden Um unicórnio que está comendo uma flor está no jardim Há dois is Qual deve ser deslocado Obviamente não o primeiro 3 Que coisa maluca é essa Os brancos escutam os filhos dizerem algo aí dizem a mesma coisa ficam o tempo todo perguntandolhes coisas como se eles tivessem que nascer sabendo N da T que aparece depois da escansão da sentença isso daria uma sentença muito estranha a unicorn that is eating a flower is in the garden is a unicorn that eating a flower is in the garden Mas por que não se pode deslocar este is O que não funcionou nesse procedimento simples Como Chomsky observou a resposta está no design básico da língua Embora as sentenças sejam cadeias de palavras nossos algoritmos mentais para gramática não selecionam palavras em função de suas posições lineares tal como primeira palavra segunda palavra etc Pelo contrário os algoritmos agrupam palavras em sintagmas e sintagmas em sintagmas ainda maiores e dão um rótulo mental a cada um como sintagma nominal sujeito ou sintagma verbal A verdadeira regra de formação de perguntas não procura a primeira ocorrência do auxiliar quando se percorre a cadeia da esquerda para a direita procura o auxiliar que vem depois do sintagma rotulado de sujeito Esse sintagma que contém toda a cadeia de palavras a unicorn that is eating a flower funciona como uma unidade O primeiro is encontrase profundamente entranhado nele invisível à regra de formação de perguntas O segundo is que vem logo depois desse sintagma nominal sujeito é aquele que tem de ser deslocado a unicorn that is eating a flower is in the garden is a unicorn that is eating a flower in the garden Chomsky supôs que se as crianças estão equipadas com a lógica da língua deveriam ser capazes de transformar corretamente uma sentença com dois auxiliares numa pergunta quando deparam com ela pela primeira vez Isso deveria ser verdade mesmo se a regra errada aquela que escande a sentença como se fosse uma cadeia linear de palavras fosse mais simples e supostamente mais fácil de aprender E deveria ser verdade mesmo que as sentenças que poderiam ensinar às crianças que a regra linear é errada e a regra estrutural correta perguntas com um segundo auxiliar inserido no sintagma sujeito fossem tão raras que não existissem em mamanhês É muito provável que nem toda criança que aprende inglês tenha escutado mamãe dizer Is the doggie that is eating the flower in the garden O cachorrinho que está comendo a flor está no jardim Para Chomsky esse tipo de raciocínio que ele denomina de argumento baseado na pobreza do input é a justificação básica que permite dizer que o design básico da língua é inato A afirmação de Chomsky foi testada num experimento com crianças de três quatro e cinco anos numa creche pelos psicolingüistas Stephen Crain e Mineharu Nakayama Um dos experimentadores controlava um boneco de Jabba the Hutt personagem de Star Wars O outro tentava convencer a criança a fazer uma série de perguntas pedindo por exemplo Pergunte a Jabba se o menino que está infeliz está assistindo Mickey Mouse Ask Jabba if the boy who is unhappy is watching Mickey Mouse Jabba inspecionava um desenho e respondia sim ou não mas na verdade era a criança que estava sendo testada não Jabba As crianças faziam alegremente as perguntas corretas e como Chomsky previra nenhuma delas enunciou um cadeia agramatical como Is the boy who unhappy is watching Mickey Mouse como suporia a regra linear mais simples Mas haverá quem diga que isso não demonstra que o cérebro das crianças registra o sujeito de uma frase Talvez as crianças estivessem se guiando pelo significado das palavras O homem que está correndo referese a um único ator desempenhando um papel claro no desenho e crianças poderiam ter estado atentas a quais palavras se referem a quais atores e não a quais palavras pertencem ao sintagma nominal sujeito Mas Crain e Nakayama previram essa objeção Misturados na lista que eles elaboraram havia comandos como Pergunte a Jabba se está chovendo no desenho Ask Jabba if it is raining in the picture O it da frase evidentemente não se refere a nada it é um elemento vazio de significado que está ali apenas para satisfazer as regras da sintaxe que exigem um sujeito Mas a regra de formação de perguntas em inglês o trata como qualquer outro sujeito Is it raining Como é que as crianças lidam com essa variável destituída de sentido Talvez elas pensem de modo tão literal quanto o Pato em Alice no País das Maravilhas Silêncio em volta por favor disse o Rato Edwin e Morcar condes de Mércia e Nortúmbria pronunciaramse a favor dele e até mesmo Stigand o patriótico arcebispo de Cantuária achando isso conveniente Achando o quê perguntou o Pato Achando isso replicou o Rato já meio aborrecido Naturalmente você sabe o que isso quer dizer Sei muito bem o que isso quer dizer quando sou eu que acho alguma coisa explicou o Pato em geral uma rã ou um verme Mas a questão é o que foi que o arcebispo achou⁴ Mas crianças não são patos As crianças de Crain e Nakayama responderam Is it raining in this picture Elas tampouco tiveram qualquer dificuldade para formar questões com outros sujeitos vazios de significado como em Pergunte a Jabba se há uma cobra nesse desenho Ask Jabba if there is a snake in this picture ou com sujeitos que não são coisas como em Pergunte a Jabba se correr é divertido e Pergunte a Jabba se o amor é bom ou ruim As coerções universais que incidem sobre as regras gramaticais também mostram que a forma básica da língua não pode ser explicada como o resultado inevitável de um impulso utilitário Muitas línguas amplamente difundidas pelo planeta têm auxiliares e como o inglês muitas línguas transferem o auxiliar para a frente da sentença para formar perguntas e outras construções sempre ⁴ Cf trad de Sebastião Uchoa Leite in Aventuras de Alice no País das Maravilhas ed Summus São Paulo 3ª ed 1980 N da T em função da estrutura Mas essa não é a única maneira pela qual se pode conceber uma regra de formação de perguntas Seria igualmente possível transferir o auxiliar mais à esquerda da cadeia para a frente ou inverter o lugar da primeira e última palavra ou enunciar toda a frase em ordem invertida como se fosse lida num espelho truque este de que a mente humana é capaz algumas pessoas aprendem a ler de trás para a frente para se divertir e surpreender os amigos Os modos específicos pelos quais as línguas formam perguntas são arbitrários são convenções da espécie não os encontramos em sistemas artificiais como linguagens de programação de computador ou na notação da matemática O plano universal que subjaz às línguas com auxiliares e regras de inversão substantivos e verbos sujeitos e objetos sintagmas e orações casos e concordância etc parece sugerir a presença de elementos comuns nos cérebros dos falantes porque muitos outros planos teriam sido igualmente úteis É como se inventores isolados tivessem surgido miraculosamente com padrões idênticos de teclados de código Morse ou de sinais de trânsito As provas que corroboram a afirmação de que a mente contém um esquema detalhado de regras gramaticais provêm uma vez mais da boca de bebês Tomemos o sufixo inglês de concordância s como em He walks A concordância é um importante processo em muitas línguas mas no inglês moderno é algo supérfluo um remanescente de um sistema mais rico que floresceu no inglês arcaico Caso desaparecesse por completo não sentiríamos falta dele assim como não sentimos falta do sufixo similar est em Thou sayest tu falas Mas psicologicamente falando o enfeite sai caro Qualquer falante obrigado a usálo tem de estar atento a quatro detalhes em cada frase enunciada Se o sujeito está ou não na terceira pessoa He walks versus I walk Se o sujeito é singular ou plural He walks versus They walk Se o tempo da ação é presente ou não He walks versus He walked Se a ação é habitual ou se está acontecendo no momento em que se fala seu aspecto He walks to school versus He is walking to school E todo esse trabalho é necessário apenas para usar o sufixo depois de têlo aprendido Para aprendêlo a criança precisa 1 perceber que verbos terminam em s em algumas frases mas aparecem sem terminação em outras 2 começar a pesquisar as causas gramaticais dessa variação em vez de aceitála simplesmente como parte do tempero da vida e 3 não descansar até que esses fatores cruciais tempo aspecto número e pessoa do sujeito de uma frase tiverem sido separados do mar de fatores plausíveis mas irrelevantes como o número de sílabas da última palavra da frase se o objeto de uma proposição é natural ou manufaturado e como está o tempo quando a frase é enunciada Por que alguém se daria a esse trabalho Mas crianças pequenas o fazem Por volta dos três anos e meio ou antes elas usam o sufixo de concordância s em mais de noventa por cento das frases que assim o exigem e praticamente nunca o empregam nas frases em que isso está proibido Essa perícia é parte do surto de gramática que elas vivem num período de vários meses no terceiro ano de vida durante o qual subitamente começam a falar frases fluentes respeitando a maioria dos aspectos sutis da língua falada por sua comunidade Por exemplo podemos observar uma menina em idade préescolar aqui chamada de Sara cujos pais têm apenas o segundo grau completo obedecendo a regra de concordância do inglês por mais inútil que ela seja em frases complexas como as seguintes When my mother hangs clothes do you let em rinse out in rain Quando minha mãe pendura roupas você as deixa enxaguarem na chuva Donna teases all the time and Donna has false teeth Donna provoca o tempo todo e Donna tem dentes postiços I know what a big chicken looks like Eu sei como é ter cara de galinhamorta Anybody knows how to scribble Todo mundo sabe rabiscar Hey this part goes where this one is stupid Ei seu bobo esta peça vai aqui onde está esta outra What comes after C O que vem depois de C It looks like a donkey face Parece cara de burro The person takes care of the animals in the barn A pessoa cuida dos animais no celeiro After it dries off then you can make the bottom Depois que isso secar então você pode fazer o fundo Well someone hurts hisself and everything Bem alguém se machucou e tudo His tail sticks out like this O rabo dele estica assim What happens if ya press on this hard O que acontece se cê aperta assim forte Do you have a real baby that says googoo gaga Você tem um nenê de verdade que diz gugudadá O interessante é que Sara não estava simplesmente imitando os pais decorando verbos com a terminação s já adicionada de antemão Às vezes Sara dizia expressões que ela provavelmente não tinha escutado dos pais When she bes in the kindergarten Hes a boy so he gots a scary one costume She dos what her mother tells her5 Portanto ela mesma deve ter criado essas expressões empregando uma versão inconsciente da regra de concordância do inglês Para começo de conversa o próprio conceito de imitação é 5 As inovações de Sara estão nas formas bes em vez de is gots verbo no passado não deveria ter a terminação s e dos em vez de does N da R T suspeito se as crianças são imitadores por que não imitam o costume que seus pais têm de ficar sentados quietos nos aviões mas frases como as que vimos mostram claramente que a aquisição de linguagem não pode ser explicada como um tipo de imitação Falta mais um passo para completar a tese de que a linguagem é um instinto específico e não apenas uma solução inteligente para um problema imaginado por uma espécie comumente brilhante Se a linguagem é um instinto deveria ter uma localização identificável no cérebro e talvez até mesmo um conjunto especial de genes que ajude a mantêla no lugar No caso de dano desses genes ou neurônios deveria haver prejuízo da linguagem sem que outras partes da inteligência fossem afetadas caso eles sejam poupados num cérebro com outras lesões deveríamos ter um indivíduo com retardo mental mas linguagem intacta um sábio idiota em termos linguísticos Se por outro lado a linguagem for apenas o exercício da inteligência humana seria de esperar que lesões e deficiências tornassem as pessoas mais estúpidas em todos os sentidos inclusive na sua linguagem O único padrão esperável é que quanto maior for a área lesada do cérebro mais estúpida e pouco articulada a pessoa será Até hoje ninguém localizou um órgão da linguagem ou um gene da gramática mas a pesquisa continua Existem vários tipos de deficiências neurológicas e genéticas que comprometem a linguagem mas poupam a cognição e viceversa Um deles é conhecido há mais de cem anos talvez mil anos Quando certos circuitos das partes inferiores do lobo frontal do hemisfério esquerdo do cérebro são lesados por uma pancada ou um ferimento de bala por exemplo muitas vezes a pessoa sofre de uma síndrome chamada de afasia de Broca Uma dessas vítimas que acabou recuperando sua capacidade de linguagem relembra o acontecimento por ela vivido com total lucidez Quando acordei tinha uma forte dor de cabeça e achei que tinha dormido em cima do braço direito porque eu o sentia formigando e adormecido e não conseguia que ele fizesse o que eu queria Saí da cama mas não conseguia ficar de pé na verdade caí no chão porque minha perna direita estava tão fraca que não aguentava meu peso Chamei minha esposa que estava no quarto ao lado e nenhum som saiu eu não conseguia falar Fiquei chocado horrorizado Não acreditei que isso estava acontecendo comigo e comecei a ficar muito assustado Entendi de repente que eu devia ter sofrido um derrame Esse pensamento de certa forma me aliviou mas não por muito tempo porque sempre achei que as sequelas de um derrame eram permanentes em todos os casos Descobri que conseguia falar um pouco mas até mesmo eu percebia que as palavras pareciam erradas e não expressavam o que eu queria dizer Como esse escritor observou a maioria das vítimas de derrames não tem tanta sorte Mr Ford era um operador de rádio da guarda costeira quando sofreu um acidente cerebral aos trinta e nove anos O neuropsicólogo Howard Gardner entrevistouo três meses depois Gardner perguntoulhe sobre seu trabalho antes da hospitalização Eu era um si não na hum bem de novo Essas palavras foram emitidas lentamente e com grande esforço Os sons não eram claramente articulados cada sílaba era pronunciada estridentemente explosivamente numa voz gutural Deixeme ajudálo interrompio O senhor era um sinal Um sinaleiro certo Ford completou minha frase triunfante Trabalhava na guarda costeira Não é sim sim navio Massachu chusetts guarda costeira anos Levantou as mãos duas vezes indicando o número dezenove Ah o senhor trabalhou na guarda costeira durante dezenove anos Ah cara certo certo ele respondeu Por que o senhor está no hospital Sr Ford Ford olhou para mim de um modo um pouco estranho como se dissesse Isso não é óbvio Apontou para seu braço paralisado e disse Braço não bom depois para sua boca e disse Fala não dizer falar vê O que aconteceu com o senhor que o fez perder a fala Cabeça cai Jesus mim não bom der der oh Jesus derrame Entendo Sr Ford poderia me dizer o que o senhor tem feito no hospital Sim claro Mim ir é hum PT nove ho fala duas vezes ler escr cripa é é crica é é escrita treino ficando melhor E o senhor tem ido para casa nos fins de semana Que sim quinta é é é não é sexta Barbara mulher e oh carro guiar estrada sabe sono e tevê O senhor consegue entender tudo o que passa na televisão Ah sim sim bem quase Obviamente o Sr Ford tinha de fazer muito esforço para conseguir falar mas seu problema não estava no controle dos músculos vocais Conseguia assoprar e apagar uma vela e limpar a garganta e vacilava linguisticamente tanto quando escrevia como quando falava A maioria de suas dificuldades concentravase na própria gramática Omitia terminações dos tempos verbais e termos functivos gramaticais como ou or ser be e o a the apesar de sua alta frequência na língua Quando lia em voz alta pulava os termos functivos embora lesse bem termos de conteúdo como abelha bee e remo oar que são homófonos Nomeava objetos e reconhecia seus nomes extremamente bem Entendia as perguntas quando seu assunto principal podia ser deduzido dos termos de conteúdo como Uma pedra flutua na água ou Você usa um martelo para cortar mas não aquelas que exigiam análise gramatical como O leão foi morto pelo tigre qual deles morreu 6 Pacific Time horário do Pacífico N da T O instinto da linguagem Apesar das deficiências gramaticais do Sr Ford ele tinha pleno controle de suas outras faculdades Gardner comenta Estava alerta atento e plenamente consciente de onde estava e por que estava lá As funções intelectuais sem vínculo estreito com a linguagem como percepção de direita e esquerda capacidade de desenhar com a mão esquerda não treinada cálculo leitura de mapas acertar horário de relógios fazer construções ou cumprir ordens estavam preservadas Seu Quociente de Inteligência em áreas nãoverbais era acima da média Com efeito o diálogo mostra que o Sr Ford como muitos afásicos de Broca tinha uma profunda noção de suas deficiências Não são só lesões em indivíduos adultos que afetam os circuitos subjacentes à linguagem Algumas crianças saudáveis em todos os outros aspectos não desenvolvem a linguagem conforme o previsto Quando começam a falar têm dificuldade para articular palavras e embora sua articulação melhore com a idade há persistência de uma grande variedade de erros gramaticais geralmente até a vida adulta Uma vez descartadas causas nãolinguísticas desordens cognitivas como retardo desordens perceptuais como deficiência auditiva e desordens sociais como o autismo as crianças recebem o diagnóstico preciso mas que não ajuda muito de Transtorno Específico da Linguagem Specific Language Impairment SLI Os fonoaudiólogos geralmente chamados para tratar de vários membros de uma mesma família há muito tempo têm a impressão de que o SLI é hereditário Estudos estatísticos recentes mostram que essa impressão pode ser correta SLI ocorre dentro de famílias e se um gêmeo idêntico sofre desse distúrbio é muito alta a probabilidade de que o outro também o apresente Dados particularmente expressivos provêm de uma família inglesa os K recentemente estudados pela linguista Myrna Gopnik e vários geneticistas A avó da família apresenta distúrbios de linguagem Ela tem cinco filhos adultos Uma filha é normal em termos 50 O instinto da linguagem lingüísticos assim como os filhos dela Os outros quatro adultos apresentam distúrbios como a avó Eles têm juntos vinte e três filhos dos quais onze apresentavam distúrbios de linguagem e doze eram normais As crianças com distúrbios de linguagem estavam distribuídas aleatoriamente entre as famílias sexos e ordem de nascimento É claro que o simples fato de algum padrão comportamental ocorrer numa família não demonstra que ele tem causas genéticas Receitas sotaques e cantigas de ninar são transmitidos pelas famílias mas nada têm a ver com DNA No entanto nesse caso é plausível pensar numa causa genética Se a causa fosse ambiental nutrição deficiente a escuta dos erros de fala de um genitor ou irmão deficiente excesso de TV contaminação por chumbo depositado em velhos tonéis ou qualquer outra por que a síndrome afetaria alguns membros da família poupando outros da mesma geração num caso um gêmeo bivitelino Os geneticistas que trabalharam com Gopnik notaram que a descendência sugere um traço controlado por um único gene dominante como as flores corderosa das ervilhas de Gregor Mendel O que esse hipotético gene faz Ele não parece atingir a inteligência como um todo a maioria dos membros afetados da família apresenta resultados normais nas partes nãoverbais dos testes de QI Gopnik estudou inclusive uma criança com a síndrome que costumava obter as melhores notas nas aulas de matemática É a linguagem deles que é afetada mas eles não são como os afásicos de Broca parecemse antes com turistas tentando se virar numa cidade estrangeira Falam lenta e deliberadamente escolhendo as palavras com cuidado e estimulando seus interlocutores a ajudálos completando suas frases Relatam que uma conversa normal é um trabalho mental extenuante e que procuram evitar situações em que tenham de falar Sua fala contém frequentes erros gramaticais como uso incorreto de pronomes e de sufixos como o plural e as terminações do passado em inglês 51 Its a flying finches they are She remembered when she hurts herself the other day The neighbors phone the ambulance because the man fall off the tree The boys eat four cookie Carol is cry in the church7 Um testes experimentais apresentam dificuldade em tarefas facilmente realizadas por crianças normais de quatro anos Um exemplo clássico é o teste do wug mais uma prova de que crianças normais não aprendem a língua imitando os pais Mostrase aos sujeitos testados o desenho de uma criatura semelhante a um pássaro dizendo que aquilo é um wug8 Em seguida é apresentada uma ficha que contém duas dessas criaturas e dizse para a criança Agora tem dois tem dois A típica criança de quatro anos diz sem pensar wugs mas o adulto com a linguagem afetada sofre um bloqueio Uma das adultas estudada por Gopnik riu nervosamente e disse Ai bem continue Pressionada ela respondeu Wug wugness não é Não Entendi Você quer pares formar pares OK Para o próximo animal zat ela disse Za ka za zackle Para o próximo sas deduziu que devia ser sasses Feliz por ter conseguido passou a generalizar de forma literal convertendo zoop em zoopes e tob em tobyees revelando assim que não tinha compreendido de fato a regra de formação do plural em inglês Aparentemente o gene defeituoso de sua família afeta o desenvolvimento das regras que crianças normais usam de modo inconsciente Os adultos fazem o que podem para compensar essa deficiência inferindo conscientemente as regras com resultados previsivelmente canhestros 7 É um pintassilgos voadores são mesmoEla lembrou de quando ela se machuca outro diaOs vizinhos chamam a ambulância porque o homem cai da árvoreOs meninos comem quatro biscoitoCarol está chora na igreja N da T 8 Todas as palavras do teste são palavras sem sentido em inglês N da T 52 Tagarelas A afasia de Broca e o SLI são casos em que a linguagem é prejudicada e o resto da inteligência parece mais ou menos intacto Mas isso não prova que a linguagem existe separada da inteligência Talvez a linguagem imponha maiores exigências ao cérebro do que outros problemas que a mente tem de resolver Para os outros problemas o cérebro mesmo claudicante consegue funcionar sem usar sua capacidade total no caso da linguagem todos os sistemas têm de estar cem por cento Para decidir a questão temos de encontrar a dissociação oposta o sábio idiota em termos lingüísticos ou seja pessoas com linguagem preservada e cognição prejudicada Eis outra entrevista entre uma moça de quatorze anos chamada Denise e o recentemente falecido psicolinguísta Richard Cromer a entrevista foi transcrita e analisada pela colega de Cromer Sigrid Lipka Gosto de abrir cartões Tinha uma pilha de correio hoje de manhã e nenhuma das cartas era um cartão de Natal Um extrato de banco foi o que recebi esta manhã Um extrato de banco Espero que as notícias tenham sido boas Não não eram boas notícias Parece as que eu recebo Odeio Minha mãe trabalha na na prefeitura e ela disse outro extrato de banco não Eu disse é o segundo em dois dias E ela disse Você quer que eu vá para você ao banco na hora do almoço e eu disse Não desta vez eu mesma vou explicar sozinha Quer saber meu banco é horrível Eles perderam minha caderneta do banco sabe e não a encontro em nenhum lugar Sou do TSB Bank e estou pensando em mudar de banco porque eles são horríveis Ficam ficam perdendo alguém entra trazendo chá Oh como são gentis Uhm Muito bom Eles têm o costume de fazer isso Eles perdem perderam minha caderneta duas vezes num mês e acho que vou gritar Ontem minha 53 O instinto da linguagem mãe foi ao banco para mim Ela disse Eles perderam de novo sua caderneta Eu falei Posso gritar e eu disse ela disse Pode vá em frente Então berrei Mas é chato quando eles fazem coisas desse tipo TSB gerentes não são uh mesmo a melhor companhia Eles não têm jeito Vi Denise num vídeo e ela dá a impressão de ser uma proseadora loquaz e sofisticada sobretudo para ouvidos americanos devido ao seu refinado sotaque britânico My bank are awful por exemplo é gramatical em inglês britânico embora não em inglês americano Causa surpresa a informação de que os fatos por ela relatados com tanta sinceridade são produto de sua imaginação Denise não tem conta em banco portanto não poderia ter recebido um extrato pelo correio assim como seu banco não poderia ter perdido sua caderneta Embora ela falasse de uma conta conjunta que tinha com o namorado ela não tem namorado e obviamente mal compreende o conceito de conta conjunta pois queixase de que o namorado tirou dinheiro do lado da conta que é dela Em outras conversas Denise envolvia os ouvintes com relatos detalhados do casamento da irmã suas férias na Escócia com um rapaz chamado Danny e um feliz reencontro no aeroporto com um pai há muito não visto Mas a irmã de Denise é solteira Denise nunca esteve na Escócia não conhece ninguém chamado Danny e seu pai nunca se ausentou pelo tempo que for Na verdade Denise sofre de um grave retardo mental Nunca aprendeu a ler ou escrever e não consegue lidar com dinheiro ou quaisquer outras exigências da vida diária Denise nasceu com espinha bífida uma máformação das vértebras que deixa a medula desprotegida Muitas vezes a espinha bífida vem acompanhada de hidrocefalia um aumento de pressão do líquido cérebroespinhal que preenche os ventrículos grandes cavidades do cérebro dilatando o cérebro por dentro Por razões que ninguém entende crianças hidrocéfalas às vezes terminam 54 Tagarelas como Denise com um retardo significativo mas com aptidões lingüísticas intactas até mesmo superdesenvolvidas Talvez os ventrículos inchados comprimam grande parte do tecido cerebral necessário para a inteligência diária mas deixem intactas algumas outras porções que conseguem desenvolver os circuitos da linguagem Entre os vários termos técnicos relacionados com essa condição encontramse conversa de coquetel síndrome de tagarelice e matraquear Com efeito muitas pessoas com graves deficiências intelectuais apresentam fluência e gramaticalidade de linguagem como é o caso dos esquizofrênicos pacientes com mal de Alzheimer algumas crianças autistas e alguns afásicos Uma das mais fascinantes síndromes foi recentemente descoberta em San Diego quando os pais de uma menina deficiente mental com síndrome de tagarelice leram um artigo sobre as teorias de Chomsky numa revista de divulgação científica e ligaram para o MIT para falar com ele sugerindo que a filha deles poderia interessálo Chomsky é um teórico de gabinete que não conseguiria distinguir Jabba the Hutt do ComeCome portanto sugeriu aos pais que levassem a filha ao laboratório da psicolinguísta Ursula Bellugi em La Jolla Bellugi membro de uma equipe de pesquisa em biologia molecular neurologia e radiologia descobriu que a criança que apelidaram Crystal e várias outras posteriormente testadas tinha uma rara forma de retardo mental denominada síndrome de Williams A síndrome parece estar associada a um gene defeituoso no cromossomo 11 relacionado com a regulação do cálcio e afeta de forma complexa o cérebro o crânio e órgãos internos durante o desenvolvimento embora ninguém saiba o porquê dos efeitos que provoca As crianças têm uma aparência estranha são baixas e frágeis com rosto estreito e testa larga cavalete nasal achatado queixo pontudo íris com padrão estrelado e lábios grossos Chamamnas às vezes de cara de elfo ou duendes mas eu as acho mais parecidas com Mick Jagger Sofrem de um retardo 55