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Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1247 ORIGINAL ARTICLE ÁFRICA IMAGINADA NA GEOPOLÍTICA GLOBAL PERIGOS E ARMADILHAS Imagined Africa in Global Geopolitics dangers and traps Pedro Andrade Matos Doutor em Relações Internacionais Professor da Universidade de Santiago Cabo Verde pedromatosuseducv Rodrigo Corrêa Teixeira Doutor em Geografia UFMG Professor Permanente no Programa de Pósgraduação Stricto Sensu em Geografia da PUC Minas rteixeirapucminasbr Recebido 08082022 Aceito 30092022 Resumo Este artigo visa responder como a construção de um imaginário eurocêntrico sobre a África a subalternizou na geopolítica global E como representações emancipatórias sobre a África produzida pelos próprios africanos são tratadas como um perigo pelas forças hegemônicas globais A metodologia do trabalho é a análise bibliográfica das relações internacionais e discussões referentes à construção da imagem dos espaços na geopolítica global Da análise efetuada deduzse o seguinte a imagem supostamente de uma África pobre conflituosa e com doenças influencia a adoção de medidas automáticas e simplistas nomeadamente ação humanitária intervenção externa doação voluntariado Essas imagens cristalizaram um mundoproblemático constituído por países pobres e mundosolução dominado por países desenvolvidos Malgrado esse quadro há uma África que incomoda e se esforça para conduzir o seu desenvolvimento e almejar maior protagonismo no cenário internacional Palavraschave África Armadilha Imagem Geopolítica Global Perigo Abstract This article aims to answer how the construction of a Eurocentric imaginary about Africa subordinated the continent global geopolitics And how are emancipatory representations of Africa produced by Africans themselves is treated as a danger by global hegemonic forces The methodology of the work is the bibliographic analysis of international relations and discussions regarding the construction of the image of spaces in global geopolitics From the analysis carried out the following can be deduced the supposed image of a poor Africa conflicted and with diseases influences the adoption of automatic and simplistic measures namely humanitarian action external intervention donation volunteering These images crystallized a problemworld made up of poor countries and a solutionworld dominated by developed countries Despite this situation there is an Africa Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1248 that bothers and strives to lead its development and aim for greater protagonism in the international scenario Keywords Africa Danger Image Global Geopolitics Trap 1 INTRODUÇÃO O título deste trabalho possa remeter o leitor ao importante livro Comunidades imaginadas reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo 2008 do cientista político Benedict Anderson em razão do termo imaginadas Neste artigo no entanto o referido termo está relacionado às narrativas imagens e aos discursos pelos quais a África é vista pensada e representada por entidades e pessoas de outros continentes enquanto uma entidade homogênea e carregada de atributos negativos que têm norteado a relação das pessoas com este continente Assim sendo a pergunta que norteia a discussão proposta visa compreender como a construção de um imaginário eurocêntrico sobre a África a subalternizou na geopolítica global E como representações emancipatórias sobre a África produzida pelos próprios africanos são tratadas como um perigo pelas forças hegemônicas globais O trabalho em tela considera que a imagem gera um frame que se retroalimenta e passa a moldar as relações com os países africanos Nesse contexto a imaginação de uma África supostamente pobre e atrasada visa manter uma política que pretende se legitimar pelo imaginário tornandose extremamente real os velhos processos de dominação hegemônicos por parte dos países do Norte Global As representações da história mediam os processos identitários e os processos sociais econômicos e políticos Os projetos e as perspectivas colonizadores e colonializantes são vistos como legítimos e validados por atos de memória A construção da alteridade e a persistência destas representações eurocêntricas na atualidade recordam o peso das heranças coloniais Para a análise do fenômeno recorreuse à análise documental essencialmente textos acadêmicos sobre o lugar da África na epistemologia global bem como análise das representações imagéticas do continente nos grandes veículos de comunicação de alcance global A discussão está situada no campo das relações internacionais nomeadamente a representação geopolítica a forma pela qual os espaços são pensados e imaginados pelo prisma de poder O trabalho está estruturado em três seções além desta introdução e das considerações finais A primeira seção ocupase do debate sobre a África imaginada na Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1249 geopolítica global começando por identificar qual a imagem produzida pelos veículos de comunicação sobre a África e como esta imagem afeta a relação das pessoas com o continente A Segunda seção estuda a imagem no âmbito da política internacional reportandose ao imaginário ocidental sobre outros espaços A terceira seção tenta apontar o perigo e a armadilha de uma África imaginada sobretudo pela perspectiva negativa no intuito de identificara a quem interessa uma África retratada e mantida desta maneira 2 ÁFRICA IMAGINADA NA GEOPOLÍTICA GLOBAL Na quarta edição do livro intitulado Mistaking Africa Curiosities and inventions of the American Mind 2017 os autores Curtis Keim e Carolyn Sommerville realizaram uma série de atividades perguntando aos alunos das escolas americanas quais seriam as primeiras ideias que lhes vinham à mente quando escutavam a palavra africano Os alunos responderam com os seguintes termos guerreiro tribo terrorista selvagem bárbaro e pagão Os mesmos foram questionados sobre qual a associação a palavra África lhes causaria eles mencionaram as sucessivas safáris animais selvagens ignorância pobreza fome e tragédia O historiador Anderson Oliva 2009 aplicou um questionário aos estudantes e professores do ensino fundamental e médio da região Recôncavo Baiano no Brasil O propósito do professor era investigar a relação que os entrevistados estabeleciam com a palavra África Os resultados obtidos foram semelhantes dos alunos americanos fome miséria doenças AIDS e tragédias No âmbito deste trabalho pesquisaramse várias imagens da África nas capas de algumas revistas internacionais com grande circulação pública Como se pode observar na figura 1 a África é representada como espaço que predomina doenças conflitos miséria e políticos tiranos Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1250 Figura 1 capa de revistas selecionadas sobre o continente africano Fonte elaborada pelos autores a partir das revistas 2021 Em 2009 a escritora e contadora de história Chimamanda Ngozi Adichie apresentou uma palestra sobre o perigo de uma história única1 no TEDGlobal de TEDTalks Para Adichie a história única é quando se conhece apenas uma parte de história No vídeo ela narra quando estudava nos Estados Unidos a única história sobre a África que a sua colega de quarto tinha era a de catástrofe Essa imaginação simboliza a tradição ocidental de contar história sobre a África enquanto um lugar negativo de diferenças e de escuridão um lugar de lindas paisagens maravilhosos animais e pessoas incompreensíveis lutando guerras sem sentido morrendo de pobreza e AIDS incapazes de falarem por si mesmos esperando sendo salvos por um estrangeiro branco e gentil ADICHIE 2009 Eric Hobsbawm e Terence Ranger em A Invenção das Tradições 1997 apresentam uma profusão de exemplos retirados de diferentes países mostrando aquilo apresentado como herança do passado como tradição ou patrimônio é muitas vezes um reflexo da imaginação contemporânea uma invenção Nas Ilhas Britânicas o 1 ADICHIE Chimamanda The danger of a single story palestra Disponível em httpswwwtedcomtalkschimamandaadichiethedangerofasinglestorytranscript Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1251 Natal das famílias modernas e o kilt escocês são exemplos disto Ranger 1997 realizou pesquisa sobre como tradições foram inventadas na África durante o processo de colonização Destarte não simplesmente foi a tradição inventada mas provavelmente até Estados précoloniais foram concebidos na imaginação sobre o passado africano Além disso os conceitos modernos de nacionalidade têm sido usados de maneira equivocada para interpretar as formas de governo e a política do passado Ao invés disso parece ter havido considerável movimento durante séculos através do que tem sido construído desde então como fronteiras nacionais em quase toda esfera da atividade humana Houve múltiplas identidades civis e sagradas e seria equivocado ignorar a complexidade do pensamento africano nessas questões De acordo com Valentin Mudimbe 1988 a África foi inventada na epistemologia ocidental baseandose sobre aquilo que a cultura africana deveria ser a partir do prisma antropológico e histórico dos países ocidentais Tratase de uma invenção que se processa sucessivamente dos discursos sobre a primitividade aos comentários modernistas sobre a organização da produção e os que estão no poder MUDIMBE 1988 p 191 Assim sendo a África enquanto tal existe apenas na base do texto que a constrói como a ficção do Outro MBEMBE 2001 Essa construção foi forjada à base de vários estereótipos usados para imaginar espaços a partir de determinados modelos mentais forjadores da realidade Esses modelos foram historicamente produzidos pelo ocidente que se colocou como o parâmetro e produtor das interpretações sobre os outros espaços geopolíticos mapeados KEIM SOMERVILLE 2017 Todo mapeamento no entanto é também produto de um paradigma ou de uma visão filosóficocientífica de mundo As visões cartográficas são produtos da hegemonia de discursos alcançada por disputas mais ou menos éticas na arena das políticas de significação A guerra de discursos faz parte de uma dinâmica inevitável na produção de um conceito de espaço geopolítico Nesse sentido a escritora Chimamanda Adichie afirma que é impossível falar sobre única história sem falar sobre poder enquanto a habilidade de contar a história mas também de tornar esta história a definitiva sobre um povo Os estudos dos modos de ver o mundo são também os estudos das relações de poder que intervêm nas formas de apresentação a eles associadas isto é das políticas de leitura do mundo O trabalho de crítica da geopolítica empreendido por Mignolo 2003 Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1252 e 2004 entre outros fornece uma importante contribuição para a desconstrução dos discursos geopolíticos conservadores A geopolítica crítica denuncia o etnocentrismo ao situar o começo do discurso geopolítico moderno na era dos descobrimentos do século XVI O mundo teria sido dividido segundo um eixo de valor que associa modernidade à Europa e retrocesso ao que não é Europa entidade por si só reveladora da cognição eurocêntrica Aqui a crítica já é de ordem historiográfica é a crítica do modo de apresentação da história da geopolítica Ora sabese que há muitas geopolíticas e que tais ficções convenientes não foram nem serão sempre as mesmas AGNEW 2005 Mapear e representar o mundo os territórios os lugares pressupõe também retratar as pessoas que ali vivem Nesse sentido ao mapear a África desenhase de igual modo o povo africano a partir do olhar de quem chega O navegador e explorador veneziano Luís de Cadamosto 14321488 fez vários registros sobre o continente africano em alguns ele referiuse aos africanos como gente pobre sobretudo mentirosos ladrões e grandes traidores PERES 1988 p 27 A própria região costa de África era considerada sinônimo de degredo para onde eram enviados condenados por crimes considerados graves conforme os interesses de Portugal sendo esta designação alterada depois de vários anos LEBRE 1939 A edição n 02 de Cadernos Coloniais de 1939 registra a conferência do então capitão veterinário na Província de Angola António Lebre com o seguinte título África Desconhecida Esse capitão afirmou que o temor dos portugueses irem para as possessões ultramarinas fundamentouse sempre em perigos que se mostravam falaciosas e imaginárias Neste trabalho o termo perigo se aproxima da concepção de Chimamanda Adichie 2009 e se resume aos riscos gerados a partir de uma visão e suas consequências ao estado de coisas e de pessoas retratadas quando uma perspectiva se estabelece como a única e a válida O principal risco gerado ao longo do período histórico foi a negação da história africana e a alienação africana Nessa perspectiva o antropólogo Kanbegele Munanga questiona por que a história da África foi negada e quem a negou Ele responde Não foram os africanos vítimas da negação Foram os ocidentais por questões ideológicas e políticas que acabaram alienando a personalidade coletiva do africano MUNANGA 2015 p 25 Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1253 Para o antropólogo congolês a interpretação racional da história como dimensão fundamental da existência feita pelo filósofo alemão Friedrich Hegel 1770 1831 teve grande efeito ao afirmar que a África dita negra não pertencia à história do mundo não tinha movimentos a apresentar e o homem da África negra vive no estado de barbárie e selvageria O pensamento hegeliano sobre o lugar da África na história geral da humanidade foi referenciada por vários historiadores que continuaram a desconsiderar a África enquanto objeto de estudos historiográficos e no lugar providenciaram novas ciências capazes de estudar as sociedades primitivas africanas pela ótica ocidental MUNANGA 2015 O filósofo Paulin Hountondji 2008 p 151 expôs a visão do missionário belga Placides Tempels 19061977 que afirmou não esperar do negro uma organização sistemática do seu quadro ontológico cabendolhe na condição de primitivo ser auxiliado pelo europeu a realizar esta sistematização Questionada também a possibilidade da existência de histórica africana como uma disciplina concebida a partir dos africanos mas sim pela presença europeia na África como postulado pelo historiador britânico Hugh TrevorRoper 1963 O próprio processo de negação todavia acaba por revelar que a África tem uma história antes mesmo da presença europeia De fato só se nega o que existe e se conhece Decidiuse portanto pela desqualificação do discurso acadêmico africano e ao mesmo tempo pela valorização de estudiosos que se dizem especialistas em África mas que nunca pisam no solo africano apenas encontram informantes locais autênticos no ambiente de universidades euroamericanas YANKAH 2016 p 144 Ou seja a ignorância e a negação a perdurar sobre o continente são produtos de pessoas com acesso às informações como muito bem ressaltado por Chinua Achebe 1977 mas por uma questão de poder decidem desqualificar a produção africana Andrew Apter 1996 p 88 no entanto questiona se o Ocidente teve esse poder de traduzir conceitos filosóficos africanos fundamentados em línguas e epistemologias locais Ele argumenta que a antropologia ocidental atacada por Valentin Mudimbe Paulin Hountondji Chinua Achebe e outros limitase apenas ao período do colonialismo cujo discurso e análise se contrapõem com os da antropologia contemporânea mais atualizada e dinâmica em relação ao próprio espaço africano As estruturas de poder estabelecidas nos espaços africanos todavia não se evaporaram com o fim da colonização formal tampouco a imaginação e o tratamento em Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1254 relação aos países africanos Portanto ainda a produção do conhecimento sobre o continente permanece em larga medida alojada nas instituições e entidades europeias e americanas e financiadas por estas que definem uma agenda de pesquisa Na realidade as heranças institucionais coloniais MURITHI 1998 em várias áreas incluindo a de educação e a forma pela qual se operou a transição política criaramse o mundo póscolonial neocolonizado NDLOVUGATSHENI 2013 Esse mundo neocolonial preservou elementos da colonização e revelou novas amarras de poder na era da globalização informacional e tecnológica em que a África imaginada passa a ser projetada através das nas tecnologias e plataformas midiáticas A globalização tem produzido uma dominação transnacional cujo resultado é alienação da autoridade acadêmica sobre a África a transferência para agências externas do controle sobre mecanismos pelos quais a realidade e as visões de mundo da África são definidas e ordenadas YANKAH 2016 p 136 Destarte prolongando o pensamento do referido autor a globalização visa à promoção de outra cultura e de conhecimento locais para o palco mundial a partir de um centro de poder que decide quais os conhecimentos devem ser determinados como padrão e quais devem ser classificados como fronteiras periféricas YANKAH 2016 As imagens mudaram bastante em razão da velocidade da circulação das imagens nas redes de internet e o seu alcance global A globalização fez com que novos mecanismos de comunicação criassem entretenimento sobre lugares distantes e diferentes dos centros de poder Atualmente as informações sobre essa África imaginada são provenientes da cultura televisiva da mídia imprensa dos filmes espaços de diversão celebridades e que legitima uma visão estereotipada sobre o continente KEIM SOMERVILLE 2009 Por que isso importa Ao estudar a relação entre filmes e política externa o autor Simon Philpot 2018 p 148 responde isso importa porque cinema por exemplo é onde as pessoas vão aprender algo sobre o mundo e seus eventos questões e conflitos As informações e imagens são consideradas por várias pessoas quando decidem visitar investir e tomar decisão política em relação aos países do continente africano Nesse trabalho importa entender o impacto e o processo retroalimentar de uma África estereotipada na geopolítica global O trabalho argumenta que a política internacional é permeada por vários fatores inclusive pela visão e imagem que os tomadores de decisão possuem de uma determinada região ou país As imagens portanto moldam as respostas políticas e definem o lugar Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1255 Na área de relações internacionais a África ocupa um lugar marginal não obstante eventos históricos que marcaram o desenvolvimento e o debate da própria área e o curso da história global terem acontecido no continente essencialmente o colonialismo e o imperialismo NKIWANE 2001 A posição está relacionada à agência africana na política internacional entendendo a enquanto a faculdade de agir ou exercer poder BRONWN 2012 p 7 Nesse contexto agência africana nas relações internacionais compreende a capacidade de negociar e barganhar com atores externos de uma forma a beneficiar os africanos COFFIE TIKY 2021 p 247 A marginalização passa também por autores africanos pouco referenciados e citados nos debates envolvendo os próprios países do continente em razão de o acadêmico africano não estar bem sintonizado com tendências ocidentais portanto marginalizado com a sua área de especialidade geográfica a África YANKAH 2016 p 136 Em síntese tanto no âmbito da escrita quanto no da publicação há sempre um esforço de censurar o texto africano uma vez que ele é considerado incompatível com o discurso acadêmico global YANKAH 2016 p 138 O autor supracitado afirma que a África é excluída do mundo acadêmico global por seguintes fatores política corrente predominante cuja percepção legitima o discurso e a publicação acadêmica internacional como uma invenção europeia o determinismo linguístico inglês francês e alemão que corresponde a 95 de todos os estudiosos e todos os estudos originados entre 1850 e 1914 segregação editorial em que assuntos africanos ocupam poucas páginas ou apenas edições especiais nas revistas internacionais e distribuição desigual de obras produzidas sobre África aos próprios países africanos cultura e estudo em que há uma desqualificação do discurso acadêmico da África como sendo não acadêmico projeto imitativo em que vários africanos reproduzem em vez de investigar paradigmas de conhecimento das nossas raízes culturais e considerar essas raízes como nossos referenciais YANKAH 2016 pp 138 149 3 POLÍTICA INTERNACIONAL E A GEOPOLÍTICA IMAGINADA Nas Relações Internacionais a imagem é estudada no âmbito da diplomacia pública a partir da teoria de atitude teoria de identidade nacional e gestão da reputação formando um modelo que compreende a parte cognitiva crenças específicas e a parte afetiva sentimentos gerais Estas partes estão conectadas por quatro dimensões Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1256 diferentes mas interrelacionadas a funcional a normativa a estética e a emocional BUHMANN 2016 A dimensão da imagem funcional de um país abarca aspectos sobre a competividade de um país informada pelas características da economia e organização política além do estado da educação performance e efetividade econômica A imagem normativa consiste na integridade de um país informada pela responsabilidade social e ecológica de um país A imagem estética abrange as crenças sobre as qualidades estéticas informada pela cultura pública tradições e territórios além da beleza de suas paisagens e cenários Por fim a dimensão da imagem emocional do país consiste em sentimentos gerais de afeição e fascínio obtidos a partir das crenças das pessoas BUHMANN 2016 p41 Nesse contexto podese definir a imagem como a soma de crenças atitudes e impressões que uma pessoa ou grupo de pessoas tem de um objeto BARICH KOTLER 1991 p 95 Nessa definição é preciso realizar uma distinção analítica entre os termos imagem do país de identidade do país O primeiro referese à percepção entre estrangeiros e a identidade referese à autopercepção dos cidadãos de um país BUHMANN 2016 p 39 Ambos são percepções porém o primeiro localizase no nível internacional e o segundo no nível nacional Para este trabalho importa o nível internacional As grandes potências sempre exploraram as imagens como um meio poderoso de comunicação e projeção de seus poderes reais Hollywood por exemplo sempre tentou representar um indivíduo americano que intervém em situações de crise transforma desastre em sucesso e salva seu país ou mundo de uma catástrofe PHILPOT 2018 p 145 A própria guerra ao terror durante o governo George Bush gerou produções cinematográficas que opõem nós versus eles bom e mau Uma imagem positiva e boa reputação são os meios para constituir o entendimento comum no sistema internacional Pressupõese portanto uma boa imagem produza respeito influência e prestígio ao passo que uma imagem negativa induz a ideia de baixa credibilidade e baixo prestígio internacional Nesse contexto a imagem providencia uma base a partir da qual tomadores de decisão e interessados formularão as primeiras ideias e projetam os tipos de ganhos a depender de sua matriz de interesse As áreas de política e economia são permeadas por pluralidade de atores e constrangidas por interesses múltiplos no nível doméstico e internacional bem como pela percepção e relação que os formuladores e interessados mais próximos possuem da Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1257 região ou do país para quais os objetivos são direcionados Dessa percepção duas considerações são geradas inicialmente A primeira indica que um país visto como rico e seguro influencia a formulação de uma política robusta e em áreas mais complexas A segunda induz que um país pobre e inseguro leva a formulação de política mais simples e investimentos inseguros Se na perspectiva de Pierre Bourdieu a região é uma ilusão uma construção política essa lógica prevalece para a geopolítica enquanto uma construção social e histórica definida como uma prática discursiva pela qual os intelectuais do Estado espacializa a política internacional e representa isso como um mundo caracterizado por tipos particulares de lugares pessoas e dramas TUATHAIL AGNEW 1992 tradução nossa A imagem nessa perspectiva é modelada em função de percepção CHIDOZIE et al 2014 A questão central é entretanto como a percepção externa determina o tipo de política e os recursos recebidos influenciando o desenvolvimento do país Uma das fontes consideradas para investimentos e estratégias política é o índice de percepção da corrupção a partir da imagem política jurídica econômica e social do país feita por atores externos nomeadamente investidores oficiais de países doadores e organismos internacionais Como a própria palavra informa a percepção é apenas uma pequena parte da realidade complexa e que não pode ser tomada como o ponto de referência Um exemplo disso são as cidades africanas imaginadas como selvas e habitadas por tribos quando na verdade são cidades modernas vibrantes e conectadas ao mundo Ou a ideia de os países africanos serem os corruptos obliterando a dimensão internacional e o envolvimento das empresas dos países desenvolvidos MATOS 2021 Chimamanda Adichie 2009 havia alertado ao perigo de história única por criar estereótipos E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira mas que eles sejam incompletos Ou seja parte da realidade não é contemplada de maneira intencional ou não No entendimento de Gallager 2015 o propósito da percepção muitas das vezes visa a esconder a realidade Em se tratando dos países africanos no contexto geopolítico global quais as suas realidades que se pretendem esconder A geopolítica como ordem discursiva deve ser abordada histórica e contextualmente e de tal modo que desmonte procedimentos que tentem forçar um mundo complexo e fragmentário a se ajustar a mapeamentos geopolíticos movediços Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1258 As imagens completas são importantes para a construção de uma consciência coletiva e para estabelecimento de relações fidedignas Se as imagens detêm um grau satisfatório de acurácia isso ajuda as pessoas a navegar num mundo complexo e a conhecer a generalidade dos fenômenos e espaços Do contrário as imagens podem ser perigosas e com consequências tanto ao estado de coisas do lugar quanto aos eventos políticos ambientais econômicos em outras partes do mundo KEIM SOMERVILLE 2009 p 4 A descrição da antiguidade africana tem sido afetada por conceitos ocidentais de identidade e autoridade política embora estes tenham sido usados para fins específicos por nacionalistas africanos A extrapolação do modelo ocidental do Estadonação teve e tem valor imediato para os políticos após as independências na África mas pode ser muito equivocada É possível que os estados e especialmente as identidades políticas que foram pela primeira vez cartografados com algum detalhe no século XIX tiveram sua longevidade exagerada por nossas próprias pressuposições e pela busca de uma origem gloriosa para as nações nascentes Compreender as representações da África significa tanto buscar uma perspectiva crítica sobre a relação entre a constituição material de fronteiras do Estado e a construção discursiva das fronteiras conceituais que separam uma suposta ordem interna de um igualmente suposto caos exterior O estudo da política internacional envolve muito mais do que as convencionais relações interestatais Os Estados não são anteriores a um Sistema Interestatal ao contrário eles são permanentemente reconstituídos por meio dos discursos e práticas que os contrapõem ao mundo exterior Uma concepção geopolítica meramente territorial escamoteia toda a construção cultural que lhe dá sustentação Tal é o caso mesmo de certos países africanos cujas fronteiras foram estabelecidas de fora para dentro sem que a população local pudesse expressar os valores e práticas que dariam sustentação cultural a tais fronteiras Ao analisar o Oriente Médio como imaginação geopolítica moderna da política externa norteamericana Aylin Güney e Fulya Gökcan 2010 argumentaram que o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos é resultado de uma ligação entre traumasmitos nacionais códigos e visões geopolíticas Ou seja a maneira pela qual um país se orienta em torno dos demais e pelas ações de política conduzidas por um governo Para visualizar essa ligação foi preciso considerar a dimensão da retórica na geopolítica que ressignifica e serve de veículo pelo qual os líderes agem e justificam as suas ações GÜNEY GÖKCAN 2010 Como resultado o Oriente Médio Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1259 passa a ser representado enquanto uma região conflituosa com países e pessoas terroristas que almejam desestabilizar a região e o mundo O crítico literário Edward Said 1990 p15 havia conceituado o modo de o Ocidente gerenciar as coisas nessa região Oriente de Orientalismo isto é um estilo ocidental para dominar reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente Isso revela o poder que o Ocidente auto delegou para a construção de uma determinada realidade e na interpretação do mundo cabendo nessa extensão históricapolítica os países africanos A história das fronteiras impostas é também uma história de dominação colonial que passa a fazer parte do cotidiano e do imaginário social dessas nações fabricadas Muitas das guerras africanas contemporâneas por exemplo em Ruanda entre tutsis e hutus são atribuídas ao choque das fronteiras conceituais e imaginárias com fronteiras impostas A espacialização e a temporalização das identidades nacionais é um tema importante para uma geopolítica que se pretende crítica que desconstrói a noção convencional e totalizante de fronteiras em narrativas fragmentárias como nós versus outros iguais versus diferentes próximo versus distante seguro versus perigoso indiferente versus responsável O significado e o argumento a discutir aqui são polêmicos visto que vão ao cerne de uma das ideias mais difundidas da cultura e da ideologia políticas modernas a ideia de que existe um passado definido um conjunto de tradições estabelecidas em cada país cultura ou tradição a que pudesse recorrer quer em categorias de análise quer em termos éticos Assim temse um conjunto de referências que se pode usar para explicar porque o mundo é como é como também para fornecer um conjunto de princípios morais e por vezes religiosos com base nos quais se pode e devese viver Estes pressupostos têm vindo a ser reforçados de muitas maneiras ao longo das últimas décadas não só no mundo desenvolvido especialmente na Europa no Japão e na América do Norte como também no Terceiro Mundo onde a África não é exceção Uma das expressões mais frequentes é atribuir à África tradições tribais Outras vezes falase de fundamentalismo ora muçulmano ora cristão ora referente às religiões nativas Outra maneira é a divulgação não crítica de dados econômicos e sociais dentro dos padrões eurocêntricos Este artigo considera que o perigo de uma geografia imaginada é a criação de uma política imaginária cadente de completude e destoante da realidade bem como a formulação de uma política pobre para o país representado mas estratégica e interesseira aos países formuladores Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1260 4 O PERIGO E A ARMADILHA DE UMA ÁFRICA IMAGINADA No campo de Relações Internacionais importante frisar que não existe uma incompatibilidade entre a África e os principais conceitos do campo persistem desafios e problemas gerados a partir das realidades africanas aos conceitos centrais das relações internacionais Um dos principais conceitos é o poder que carrega uma interpretação predominantemente material militar riqueza e geografia e se restringe às ações de grandes potências MORGENTHAU 1948 WALTZ 1979 MEARSHEIMER 1990 influenciado o pressuposto conhecido no campo que uma teoria geral da política internacional é necessariamente baseada sobre grandes potências WALTZ 1979 lendose grandes potências os principais países ocidentais Portanto a posição do continente nas relações internacionais foi precária e às margens das principais abordagens teóricas e debates do campo HARMANN BROWN 2013 OGUNNUBI ISIKE 2015 CILLIERS et al 2015 O proeminente teórico realista Hans Morgenthau considerou que o continente africano passou a ter história a partir da Primeira Guerra Mundial 1914 1918 uma guerra inter imperialista O referido autor considera a África antes desse período um espaço politicamente vazio CHIPAIK KNOWLEDGE 2018 Ao se concentrar na África póscolonial o campo revelou também dificuldades em entender a formação dos Estados africanos recorrendose à imaginação do que deveria ser os países africanos SINDJOUN 1999 No âmbito político a imagem de uma África pobre conflituosa e com doenças tem influenciado a adoção de medidas automáticas e simplistas ao pressupor que onde há conflito intervenção internacional onde há pobreza ação humanitária e onde há doenças doação de remédios e trabalho voluntário De fato os principais temas de política internacional em relação aos países africanos têm sido intervenção ajuda humanitária doação e voluntariado Nesse sentido os países africanos são mais citados nos estudos sobre conflitos Estados fracassados pobreza e ajuda humanitária do que estudos sobre poder influência na ordem internacional construção das instituições internacionais desenvolvimento democracia economia política internacional paz e segurança internacional Ou seja África é tratada nas relações internacionais muito mais numa perspectiva negativapassiva do que positivaativa Segundo os dados da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional USAID 2021 a África é um dos principais destinos da assistência Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1261 humanitária A região África Subsaariana e a da Oriente e Norte da África receberam quase US 26 bilhões de dólares enquanto a região da Ásia meridional e central US 5 bilhões Europa e Eurásia US 2276 bilhões USAID 2021 O objetivo da ajuda é permitir aos países africanos a saírem da situação de tragédia e de pobreza a partir das ações externas mas essa ajuda cria uma série de armadilha aos países africanos encapsulandoos na dependência de recursos externos e desencadeia dívidas econômicas com sérios impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico Nesse sentido vale indagar se muitos dos problemas contemporâneos da África são resultados de nosso esforço para ajudar KEIM SOMERVILLE 2009 p 84 MOYO 2009 A lógica dessa armadilha iniciase pela ideia de uma África predominantemente pobre Estando a África em pobreza criase um véu de solidariedade que faculta à costura de novas formas de ajuda para manter a condição dependente e estrutural de países africanos que por sua vez alimenta o círculo vicioso pois países pobres precisam de mais ajudas cuja abordagem favorece aos doadores que influenciam o direcionamento destes recursos As ajudas criam duas imagens A primeira apresenta os países desenvolvidos como centro de poder e de soluções e ao perdoarem algumas dívidas são vistos como benevolentes capazes de partilhar suas riquezas com países pobres A segunda apresenta os países africanos como uma categoria de problemas e devedores necessitandose da intervenção e soluções dos desenvolvidos Essas imagens cristalizaram um mundoproblemático constituído por países pobres e mundosolução dominado por países desenvolvidos O mundo prensado a partir dessas imagens impossibilita a inovação da política internacional direcionada à África que tem sido dominada pelas ajudas Em 2006 a Força Tarefa do Conselho sobre as Relações Externas norteamericanas Council on Foreign Relations recomendou ao governo norteamericano que considerasse a importância e o papel dos países africanos em temas estratégicos da nação como a segurança internacional e o terrorismo Foi assinalada também à necessidade de se desenvolver ações estratégicas além da natureza humanitária e considerar os líderes africanos em todos os setores da vida não são objetos passivos mas jogadores ativos com influência sobre a dinâmica em sua região COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS 2006 p 6 tradução nossa Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1262 Esse mundo dicotômico esconde as dinâmicas das relações e a maneira pela qual as assimetrias de poder perpetuam as desigualdades entre os Estados conferindo aos poderosos a possibilidade de contarem a história A consequência de uma única história é essa ela rouba das pessoas sua dignidade Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes ADICHIE 2009 O perigo dessa história aponta o que vem sendo construído sobre as ajudas é uma história a partir dos doadores e reproduzida por academia e sociedade civil sem questionar os números Um estudo comparativo de Honest Accounts revelou que em 2015 os países africanos receberam US 1616 bilhões em formas de empréstimos remessas pessoais e ajudas concessionais ao passo que no mesmo ano US 203 bilhões foram retirados da África através de repatriação de lucros para exterior das empresas instaladas no continente e movimentação ilegal de dinheiro para exterior CURTIS JONES 2017 Conforme o referido relatório o valor de remessas pessoais do exterior para os africanos atinge anualmente US 31 bilhões valor semelhante ao lucro US 32 bilhões repatriado das empresas instaladas nos territórios africanos aos países de origem Essas evidências expõem a quantidade de recursos que os países africanos proporcionam aos outros e irrompe com a tese de benevolência dos recursos dos países desenvolvidos Ademais ela aponta que o fluxo dos recursos globais se processa no sentido inverso das nações pobres para as ricas e essa é a realidade escondida MATOS 2021 Quem do mundo desenvolvido pensaria que a riqueza e o desenvolvimento de sua cidade estariam relacionados com o estado de pobreza de lugares que ficam em outros continentes Em 2013 a população de Rüschlikon uma tranquila e próspera cidade que fica nas cercanias da cidade de Zurique Suíça foi convocada para decidir se a receita advinda da redução de imposto em vista a injeção de dinheiro nos cofres da prefeitura pela empresa local chamada de Glencore uma gigante global exploradora de cobre e outros minérios devesse ficar em Ruschlikon ou ir para Zâmbia um dos países onde a empresa atua MATOS 2021 A resposta foi a favor de baixar o imposto e manter o dinheiro nesta cidade como garantia ao alto padrão de vida de seus habitantes Enquanto isso a Zâmbia continuaria sendo explorada e sua população pobre A Suíça é considerada uma das principais democracias do mundo inclusive a decisão supracitada foi resultado do sistema de Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1263 democracia direta manifestado pelo voto popular a maioria da população assim decidiu Mas enquanto o PIB per capita da Zâmbia é de US 117839 o da Suíça é de US 7881265 Em 2020 a empresa Glencore suspendeu as operações em Mopani Zâmbia por causa dos preços baixos dos mercados e dos efeitos económicos da COVID19 Zâmbia teve que assumir uma dívida de US 15 bilhão de dólares para comprar a mina de cobre da Glencore evitando um impacto negativo sobre o emprego de milhares de pessoas A armadilha se revela por o empréstimo ser feito partir de uma empresa de investimentos sediada nas Ilhas Virgens Britânicas por meio da qual a Glencore mantém sua participação Os impactos da COVID19 comprometeram a capacidade de Zâmbia de pagar o empréstimo em novembro de 2020 e o país teve que assumir mais dívidas para financiar o negócio A Glencore ficará com os direitos de compra da produção de cobre da Mopani até que a dívida da transação seja paga As empresas estrangeiras exigem altos incentivos fiscais e redução do papel do Estado na economia para atuarem nos países africanos Mas como exigir de países que são considerados pobres receptores de ajudas contrapartidas tão cruciais à sua sobrevivência econômica e política A pobreza africana pode ser um estado de alimentação da riqueza dos países desenvolvidos Revelar essa realidade exigiria reconhecer que quem patrocina as facilidades e os confortos tecnológicos e informáticos da atual Era Tecnológica e Informacional são as pessoas desprovidas do acesso ao produto final que elas ajudaram a fabricar e muitas dessas pessoas encontramse no continente africano A África de fato é imprescindível em duas etapas a da retirada de insumos cruciais ao desenvolvimento de materiais estratégicos às economias avançadas haja vista a posse das principais reservas de recursos materiais importantes Na segunda etapa os países africanos são transformados em depósitos de lixos nucleares e outros elementos nocivos descartados pelos países desenvolvidos cujo efeito é drástico à saúde pública causando inúmeras doenças 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Uma imagem negativa dasobre a África apesar de ela ser perigosa é estratégica no sentido de mobilizar e legitimar discursos e apoios para sucessivas ajudas humanitárias intervenções em nome da paz e empréstimos que prometem Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1264 desenvolvimento dos países africanos quando na verdade servem a interesses dos países desenvolvidos Países capazes de identificar as potencialidades e as estratégias africanas além de recursos materiais engendrarão diplomacias exitosas e costurarão excelentes vantagens no cenário global Isso contudo exigirá uma mudança desconfortável na matriz de política de ajudas humanitárias para uma política externa coerente a partir das realidades completas dos países africanos De fato há uma África em transformação que não é captada por todas as lentes dos países desenvolvidos porque exige renegociação perante uma sociedade cada vez mais informada e estabelecimento de acordos mutuamente vantajosos Em 1960 período colonial para maioria dos países africanos o Produto Interno Bruto das regiões africanas somou US 30385 bilhões e em 2016 é de US 1498001 trilhão A taxa bruta de matrícula no ensino primário passou de 53 na década de 1970 para 9842 no ano de 2014 A expectativa de vida avançou de 40 anos em 1960 para 59 anos em 2015 WORLD BANK 2017 Essa é uma África com uma imagem positiva em ascensão e cria ameaça ao status quo pois a sua população está aumentando a consciência crítica e assumindo mais poderes nas suas sociedades De acordo com Kabengele Munanga 2010 p 910 a África incomoda porque depois de séculos de submissão e exploração seus países tentam assumir seu próprio destino no concerto das nações reivindicando igualdade de tratamento e defesa de suas dignidades e liberdades humanas Infelizmente essa África não interessa aos países ocidentais uma vez que diminuiria o volume de recursos extraídos e explorados ilegalmente com a finalidade de aumentar os lucros e garantir os interesses de suas empresas e Estados Interessamlhes uma África letárgica Por isso à África é aplicada uma dose suficiente de remédios intervenção com cautela para não a matar evitandose uma anarquia continental mas também nem para curála evitandose a sua retomada total de consciência Esses remédios são guerras instaladas interferência em assuntos internos prática desleal e ilegal de comércio exploração e saques de seus recursos entre outros Portanto é estratégico ao Ocidente manter a África em um estado de pobreza e criar sobre ela uma imagem pobre REFERÊNCIAS ACHEBE C An Image of Africa Racism in Conrads Heart of Darkness Massachusetts Review v 18 p 251261 1977 Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1265 ADICHIE C N The danger of a single story Miniconferência promovida pelo Technology Entertainment Design TED jul 2009 vídeo 19 min Disponível em httpwwwtedcomtalkslangengchimamandaadichiethedangerofasinglestoryht ml Acesso em 9 mai 2021 AGNEW J Geopolítica una revisión de la política mundial Madrid Trama Editorial 2005 180p ANDERSON B Comunidades imaginadas reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo São Paulo Companhia das Letras 2008 336p APPIAH K A Na casa de meu pai a África na filosofia da cultura Rio de Janeiro Contraponto 1997 304p APTER A Que Faire Reconsidering Inventions of Africa Critical Inquiry v 19 n 1 p 87104 1992 BARICH H KOTLER P A framework for marketing image management Sloan Management Review v 32 n 2 1991 BROWN W A question of agency Africa in international politics Third World Quarterly v 33 n 10 p 18891908 2012 BRUNSCHWIG Henri A partilha da África Negra São Paulo Perspectiva 1974 136p BUHMANN 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International Relations International Affairs v 89 n 1 p 6987 2013 Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1266 HOBSBAWM E Introdução A Invenção das Tradições In HOBSBAWM E RANGER T Orgs A invenção das tradições Rio de Janeiro Paz e Terra 1997 p 923 HOBSBAWM E RANGER T Orgs A invenção das tradições Rio de Janeiro Paz e Terra 1997 392p HOUNTONDJI P Conhecimento de África conhecimento de Africanos Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos Revista Crítica de Ciências Sociais v 80 p 149160 2008 KEIM C SOMERVILLE C Mistaking Africa curiosities and inventions of the american mind 4 ed New York Westview Press 2017 256p LEBRE A África desconhecida Cadernos Coloniais n 2 p 511 1939 MAMDANI M Indirect Rule Civil Society and Ethnicity The Africa Dilemma In MARTIN W G O WEST M Eds Out of One Many Africas Reconstructing the Study and Meaning of Africa Chicago University Illinois Press 1999 p 189196 MARKS D Whats in a name Indian Native Aboriginal or Indigenous Disponível em httpswwwcbccanewscanadamanitobawhatsinanameindiannativeaboriginalor indigenous12784518 Acesso em 5 mai 2022 MATOS P A A dimensão Internacional da Corrupção e os Desafios da Governança Africana In Coleção Desafios Globais África Belo Horizonte UFMG 2021 MBEMBE A On the Postcolony Los Angeles University of California Press Ltd 2001 MEARSHEIMER J J The tragedy of great power politics New York W W Norton Company Inc 2001 MIGNOLO W D Histórias locaisprojetos globais colonialidade saberes subalternos e pensamento liminar Belo Horizonte Ed UFMG 2003 505p MIGNOLO W D Os esplendores e as misérias da ciência colonialidade geopolítica do conhecimento e pluriversalidade epistémica In SANTOS B S Org Conhecimento prudente para uma vida decente um discurso sobre as ciências revisitado São Paulo Cortez 2004 p 667709 MILNER H International theories of cooperation among nations strengths and weakness World Politics v 44 n 3 p 466496 1992 MORGENTHAU H J A política entre as nações 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for a Global Discourse International Political Science Review v 22 n 3 p 279290 2001 OLIVA A R O espelho africano em pedaços diálogos entre as representações da África no imaginário escolar e os livros didáticos de história um estudo de caso no recôncavo baiano Revista do Centro de Artes Humanidades e Letras v 1 n 1 p 7391 2009 PERES D Ed Viagens de Luís de Cadamosto e de Pedro de Sintra Lisboa Academia Portuguesa de História 1948 208p PHILPOT S Foreign policy In BLEIKER R Ed Visual global politics New York Routledge 2018 Cap 20 RANGER T A invenção da na África colonial In HOBSBAWM E RANGER T Org A invenção das tradições Rio de Janeiro Paz e Terra 1997 p 219269 RODNEY W How Europe Underdeveloped Africa London Verso 2018 416p SAID Edward W Orientalismo o Oriente como invenção do Ocidente São Paulo Companhia das Letras 1990 528p SIMMONS B A Compliance with international agreements Annual Review Political Science v 1 p 7593 1998 SINDJOUN L LAfrique dans la Science des Relations Internationales Notes Introductives et provisoires pour une Sociologie de la Connaissance Internationaliste Revue Africain de Sociologie v 3 n 2 p 142167 1999 TUATHAIL G AGNEW J Geopolitics and discourse Practical geopolitical reasoning in American foreign policy Political Geography v 11 n 2 p 190204 1992 WALTZ K N Theory of international politics Boston McGrawHill 1979 251p WESSELING H L Dividir para dominar a partilha da África 18801914 Rio de Janeiro Editora UFRJ 2008 464p WORLD BANK World Bank Open Data Disponível em httpsdataworldbankorg Acesso em 22 nov 2021 Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1268 YANKAH K A globalização e o acadêmico africano In LAUER H ANYIDOHO K Orgs O resgate das ciências humanas e das humanidades através de perspectivas africanas Vol I Brasília FUNAG 2016 p 127 161 ZUBERI T African independence how Africa shape the world Lanham Rowman Littlefield 2015 210p Recebido 08082022 Aceito 30092022
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Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1247 ORIGINAL ARTICLE ÁFRICA IMAGINADA NA GEOPOLÍTICA GLOBAL PERIGOS E ARMADILHAS Imagined Africa in Global Geopolitics dangers and traps Pedro Andrade Matos Doutor em Relações Internacionais Professor da Universidade de Santiago Cabo Verde pedromatosuseducv Rodrigo Corrêa Teixeira Doutor em Geografia UFMG Professor Permanente no Programa de Pósgraduação Stricto Sensu em Geografia da PUC Minas rteixeirapucminasbr Recebido 08082022 Aceito 30092022 Resumo Este artigo visa responder como a construção de um imaginário eurocêntrico sobre a África a subalternizou na geopolítica global E como representações emancipatórias sobre a África produzida pelos próprios africanos são tratadas como um perigo pelas forças hegemônicas globais A metodologia do trabalho é a análise bibliográfica das relações internacionais e discussões referentes à construção da imagem dos espaços na geopolítica global Da análise efetuada deduzse o seguinte a imagem supostamente de uma África pobre conflituosa e com doenças influencia a adoção de medidas automáticas e simplistas nomeadamente ação humanitária intervenção externa doação voluntariado Essas imagens cristalizaram um mundoproblemático constituído por países pobres e mundosolução dominado por países desenvolvidos Malgrado esse quadro há uma África que incomoda e se esforça para conduzir o seu desenvolvimento e almejar maior protagonismo no cenário internacional Palavraschave África Armadilha Imagem Geopolítica Global Perigo Abstract This article aims to answer how the construction of a Eurocentric imaginary about Africa subordinated the continent global geopolitics And how are emancipatory representations of Africa produced by Africans themselves is treated as a danger by global hegemonic forces The methodology of the work is the bibliographic analysis of international relations and discussions regarding the construction of the image of spaces in global geopolitics From the analysis carried out the following can be deduced the supposed image of a poor Africa conflicted and with diseases influences the adoption of automatic and simplistic measures namely humanitarian action external intervention donation volunteering These images crystallized a problemworld made up of poor countries and a solutionworld dominated by developed countries Despite this situation there is an Africa Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1248 that bothers and strives to lead its development and aim for greater protagonism in the international scenario Keywords Africa Danger Image Global Geopolitics Trap 1 INTRODUÇÃO O título deste trabalho possa remeter o leitor ao importante livro Comunidades imaginadas reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo 2008 do cientista político Benedict Anderson em razão do termo imaginadas Neste artigo no entanto o referido termo está relacionado às narrativas imagens e aos discursos pelos quais a África é vista pensada e representada por entidades e pessoas de outros continentes enquanto uma entidade homogênea e carregada de atributos negativos que têm norteado a relação das pessoas com este continente Assim sendo a pergunta que norteia a discussão proposta visa compreender como a construção de um imaginário eurocêntrico sobre a África a subalternizou na geopolítica global E como representações emancipatórias sobre a África produzida pelos próprios africanos são tratadas como um perigo pelas forças hegemônicas globais O trabalho em tela considera que a imagem gera um frame que se retroalimenta e passa a moldar as relações com os países africanos Nesse contexto a imaginação de uma África supostamente pobre e atrasada visa manter uma política que pretende se legitimar pelo imaginário tornandose extremamente real os velhos processos de dominação hegemônicos por parte dos países do Norte Global As representações da história mediam os processos identitários e os processos sociais econômicos e políticos Os projetos e as perspectivas colonizadores e colonializantes são vistos como legítimos e validados por atos de memória A construção da alteridade e a persistência destas representações eurocêntricas na atualidade recordam o peso das heranças coloniais Para a análise do fenômeno recorreuse à análise documental essencialmente textos acadêmicos sobre o lugar da África na epistemologia global bem como análise das representações imagéticas do continente nos grandes veículos de comunicação de alcance global A discussão está situada no campo das relações internacionais nomeadamente a representação geopolítica a forma pela qual os espaços são pensados e imaginados pelo prisma de poder O trabalho está estruturado em três seções além desta introdução e das considerações finais A primeira seção ocupase do debate sobre a África imaginada na Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1249 geopolítica global começando por identificar qual a imagem produzida pelos veículos de comunicação sobre a África e como esta imagem afeta a relação das pessoas com o continente A Segunda seção estuda a imagem no âmbito da política internacional reportandose ao imaginário ocidental sobre outros espaços A terceira seção tenta apontar o perigo e a armadilha de uma África imaginada sobretudo pela perspectiva negativa no intuito de identificara a quem interessa uma África retratada e mantida desta maneira 2 ÁFRICA IMAGINADA NA GEOPOLÍTICA GLOBAL Na quarta edição do livro intitulado Mistaking Africa Curiosities and inventions of the American Mind 2017 os autores Curtis Keim e Carolyn Sommerville realizaram uma série de atividades perguntando aos alunos das escolas americanas quais seriam as primeiras ideias que lhes vinham à mente quando escutavam a palavra africano Os alunos responderam com os seguintes termos guerreiro tribo terrorista selvagem bárbaro e pagão Os mesmos foram questionados sobre qual a associação a palavra África lhes causaria eles mencionaram as sucessivas safáris animais selvagens ignorância pobreza fome e tragédia O historiador Anderson Oliva 2009 aplicou um questionário aos estudantes e professores do ensino fundamental e médio da região Recôncavo Baiano no Brasil O propósito do professor era investigar a relação que os entrevistados estabeleciam com a palavra África Os resultados obtidos foram semelhantes dos alunos americanos fome miséria doenças AIDS e tragédias No âmbito deste trabalho pesquisaramse várias imagens da África nas capas de algumas revistas internacionais com grande circulação pública Como se pode observar na figura 1 a África é representada como espaço que predomina doenças conflitos miséria e políticos tiranos Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1250 Figura 1 capa de revistas selecionadas sobre o continente africano Fonte elaborada pelos autores a partir das revistas 2021 Em 2009 a escritora e contadora de história Chimamanda Ngozi Adichie apresentou uma palestra sobre o perigo de uma história única1 no TEDGlobal de TEDTalks Para Adichie a história única é quando se conhece apenas uma parte de história No vídeo ela narra quando estudava nos Estados Unidos a única história sobre a África que a sua colega de quarto tinha era a de catástrofe Essa imaginação simboliza a tradição ocidental de contar história sobre a África enquanto um lugar negativo de diferenças e de escuridão um lugar de lindas paisagens maravilhosos animais e pessoas incompreensíveis lutando guerras sem sentido morrendo de pobreza e AIDS incapazes de falarem por si mesmos esperando sendo salvos por um estrangeiro branco e gentil ADICHIE 2009 Eric Hobsbawm e Terence Ranger em A Invenção das Tradições 1997 apresentam uma profusão de exemplos retirados de diferentes países mostrando aquilo apresentado como herança do passado como tradição ou patrimônio é muitas vezes um reflexo da imaginação contemporânea uma invenção Nas Ilhas Britânicas o 1 ADICHIE Chimamanda The danger of a single story palestra Disponível em httpswwwtedcomtalkschimamandaadichiethedangerofasinglestorytranscript Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1251 Natal das famílias modernas e o kilt escocês são exemplos disto Ranger 1997 realizou pesquisa sobre como tradições foram inventadas na África durante o processo de colonização Destarte não simplesmente foi a tradição inventada mas provavelmente até Estados précoloniais foram concebidos na imaginação sobre o passado africano Além disso os conceitos modernos de nacionalidade têm sido usados de maneira equivocada para interpretar as formas de governo e a política do passado Ao invés disso parece ter havido considerável movimento durante séculos através do que tem sido construído desde então como fronteiras nacionais em quase toda esfera da atividade humana Houve múltiplas identidades civis e sagradas e seria equivocado ignorar a complexidade do pensamento africano nessas questões De acordo com Valentin Mudimbe 1988 a África foi inventada na epistemologia ocidental baseandose sobre aquilo que a cultura africana deveria ser a partir do prisma antropológico e histórico dos países ocidentais Tratase de uma invenção que se processa sucessivamente dos discursos sobre a primitividade aos comentários modernistas sobre a organização da produção e os que estão no poder MUDIMBE 1988 p 191 Assim sendo a África enquanto tal existe apenas na base do texto que a constrói como a ficção do Outro MBEMBE 2001 Essa construção foi forjada à base de vários estereótipos usados para imaginar espaços a partir de determinados modelos mentais forjadores da realidade Esses modelos foram historicamente produzidos pelo ocidente que se colocou como o parâmetro e produtor das interpretações sobre os outros espaços geopolíticos mapeados KEIM SOMERVILLE 2017 Todo mapeamento no entanto é também produto de um paradigma ou de uma visão filosóficocientífica de mundo As visões cartográficas são produtos da hegemonia de discursos alcançada por disputas mais ou menos éticas na arena das políticas de significação A guerra de discursos faz parte de uma dinâmica inevitável na produção de um conceito de espaço geopolítico Nesse sentido a escritora Chimamanda Adichie afirma que é impossível falar sobre única história sem falar sobre poder enquanto a habilidade de contar a história mas também de tornar esta história a definitiva sobre um povo Os estudos dos modos de ver o mundo são também os estudos das relações de poder que intervêm nas formas de apresentação a eles associadas isto é das políticas de leitura do mundo O trabalho de crítica da geopolítica empreendido por Mignolo 2003 Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1252 e 2004 entre outros fornece uma importante contribuição para a desconstrução dos discursos geopolíticos conservadores A geopolítica crítica denuncia o etnocentrismo ao situar o começo do discurso geopolítico moderno na era dos descobrimentos do século XVI O mundo teria sido dividido segundo um eixo de valor que associa modernidade à Europa e retrocesso ao que não é Europa entidade por si só reveladora da cognição eurocêntrica Aqui a crítica já é de ordem historiográfica é a crítica do modo de apresentação da história da geopolítica Ora sabese que há muitas geopolíticas e que tais ficções convenientes não foram nem serão sempre as mesmas AGNEW 2005 Mapear e representar o mundo os territórios os lugares pressupõe também retratar as pessoas que ali vivem Nesse sentido ao mapear a África desenhase de igual modo o povo africano a partir do olhar de quem chega O navegador e explorador veneziano Luís de Cadamosto 14321488 fez vários registros sobre o continente africano em alguns ele referiuse aos africanos como gente pobre sobretudo mentirosos ladrões e grandes traidores PERES 1988 p 27 A própria região costa de África era considerada sinônimo de degredo para onde eram enviados condenados por crimes considerados graves conforme os interesses de Portugal sendo esta designação alterada depois de vários anos LEBRE 1939 A edição n 02 de Cadernos Coloniais de 1939 registra a conferência do então capitão veterinário na Província de Angola António Lebre com o seguinte título África Desconhecida Esse capitão afirmou que o temor dos portugueses irem para as possessões ultramarinas fundamentouse sempre em perigos que se mostravam falaciosas e imaginárias Neste trabalho o termo perigo se aproxima da concepção de Chimamanda Adichie 2009 e se resume aos riscos gerados a partir de uma visão e suas consequências ao estado de coisas e de pessoas retratadas quando uma perspectiva se estabelece como a única e a válida O principal risco gerado ao longo do período histórico foi a negação da história africana e a alienação africana Nessa perspectiva o antropólogo Kanbegele Munanga questiona por que a história da África foi negada e quem a negou Ele responde Não foram os africanos vítimas da negação Foram os ocidentais por questões ideológicas e políticas que acabaram alienando a personalidade coletiva do africano MUNANGA 2015 p 25 Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1253 Para o antropólogo congolês a interpretação racional da história como dimensão fundamental da existência feita pelo filósofo alemão Friedrich Hegel 1770 1831 teve grande efeito ao afirmar que a África dita negra não pertencia à história do mundo não tinha movimentos a apresentar e o homem da África negra vive no estado de barbárie e selvageria O pensamento hegeliano sobre o lugar da África na história geral da humanidade foi referenciada por vários historiadores que continuaram a desconsiderar a África enquanto objeto de estudos historiográficos e no lugar providenciaram novas ciências capazes de estudar as sociedades primitivas africanas pela ótica ocidental MUNANGA 2015 O filósofo Paulin Hountondji 2008 p 151 expôs a visão do missionário belga Placides Tempels 19061977 que afirmou não esperar do negro uma organização sistemática do seu quadro ontológico cabendolhe na condição de primitivo ser auxiliado pelo europeu a realizar esta sistematização Questionada também a possibilidade da existência de histórica africana como uma disciplina concebida a partir dos africanos mas sim pela presença europeia na África como postulado pelo historiador britânico Hugh TrevorRoper 1963 O próprio processo de negação todavia acaba por revelar que a África tem uma história antes mesmo da presença europeia De fato só se nega o que existe e se conhece Decidiuse portanto pela desqualificação do discurso acadêmico africano e ao mesmo tempo pela valorização de estudiosos que se dizem especialistas em África mas que nunca pisam no solo africano apenas encontram informantes locais autênticos no ambiente de universidades euroamericanas YANKAH 2016 p 144 Ou seja a ignorância e a negação a perdurar sobre o continente são produtos de pessoas com acesso às informações como muito bem ressaltado por Chinua Achebe 1977 mas por uma questão de poder decidem desqualificar a produção africana Andrew Apter 1996 p 88 no entanto questiona se o Ocidente teve esse poder de traduzir conceitos filosóficos africanos fundamentados em línguas e epistemologias locais Ele argumenta que a antropologia ocidental atacada por Valentin Mudimbe Paulin Hountondji Chinua Achebe e outros limitase apenas ao período do colonialismo cujo discurso e análise se contrapõem com os da antropologia contemporânea mais atualizada e dinâmica em relação ao próprio espaço africano As estruturas de poder estabelecidas nos espaços africanos todavia não se evaporaram com o fim da colonização formal tampouco a imaginação e o tratamento em Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1254 relação aos países africanos Portanto ainda a produção do conhecimento sobre o continente permanece em larga medida alojada nas instituições e entidades europeias e americanas e financiadas por estas que definem uma agenda de pesquisa Na realidade as heranças institucionais coloniais MURITHI 1998 em várias áreas incluindo a de educação e a forma pela qual se operou a transição política criaramse o mundo póscolonial neocolonizado NDLOVUGATSHENI 2013 Esse mundo neocolonial preservou elementos da colonização e revelou novas amarras de poder na era da globalização informacional e tecnológica em que a África imaginada passa a ser projetada através das nas tecnologias e plataformas midiáticas A globalização tem produzido uma dominação transnacional cujo resultado é alienação da autoridade acadêmica sobre a África a transferência para agências externas do controle sobre mecanismos pelos quais a realidade e as visões de mundo da África são definidas e ordenadas YANKAH 2016 p 136 Destarte prolongando o pensamento do referido autor a globalização visa à promoção de outra cultura e de conhecimento locais para o palco mundial a partir de um centro de poder que decide quais os conhecimentos devem ser determinados como padrão e quais devem ser classificados como fronteiras periféricas YANKAH 2016 As imagens mudaram bastante em razão da velocidade da circulação das imagens nas redes de internet e o seu alcance global A globalização fez com que novos mecanismos de comunicação criassem entretenimento sobre lugares distantes e diferentes dos centros de poder Atualmente as informações sobre essa África imaginada são provenientes da cultura televisiva da mídia imprensa dos filmes espaços de diversão celebridades e que legitima uma visão estereotipada sobre o continente KEIM SOMERVILLE 2009 Por que isso importa Ao estudar a relação entre filmes e política externa o autor Simon Philpot 2018 p 148 responde isso importa porque cinema por exemplo é onde as pessoas vão aprender algo sobre o mundo e seus eventos questões e conflitos As informações e imagens são consideradas por várias pessoas quando decidem visitar investir e tomar decisão política em relação aos países do continente africano Nesse trabalho importa entender o impacto e o processo retroalimentar de uma África estereotipada na geopolítica global O trabalho argumenta que a política internacional é permeada por vários fatores inclusive pela visão e imagem que os tomadores de decisão possuem de uma determinada região ou país As imagens portanto moldam as respostas políticas e definem o lugar Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1255 Na área de relações internacionais a África ocupa um lugar marginal não obstante eventos históricos que marcaram o desenvolvimento e o debate da própria área e o curso da história global terem acontecido no continente essencialmente o colonialismo e o imperialismo NKIWANE 2001 A posição está relacionada à agência africana na política internacional entendendo a enquanto a faculdade de agir ou exercer poder BRONWN 2012 p 7 Nesse contexto agência africana nas relações internacionais compreende a capacidade de negociar e barganhar com atores externos de uma forma a beneficiar os africanos COFFIE TIKY 2021 p 247 A marginalização passa também por autores africanos pouco referenciados e citados nos debates envolvendo os próprios países do continente em razão de o acadêmico africano não estar bem sintonizado com tendências ocidentais portanto marginalizado com a sua área de especialidade geográfica a África YANKAH 2016 p 136 Em síntese tanto no âmbito da escrita quanto no da publicação há sempre um esforço de censurar o texto africano uma vez que ele é considerado incompatível com o discurso acadêmico global YANKAH 2016 p 138 O autor supracitado afirma que a África é excluída do mundo acadêmico global por seguintes fatores política corrente predominante cuja percepção legitima o discurso e a publicação acadêmica internacional como uma invenção europeia o determinismo linguístico inglês francês e alemão que corresponde a 95 de todos os estudiosos e todos os estudos originados entre 1850 e 1914 segregação editorial em que assuntos africanos ocupam poucas páginas ou apenas edições especiais nas revistas internacionais e distribuição desigual de obras produzidas sobre África aos próprios países africanos cultura e estudo em que há uma desqualificação do discurso acadêmico da África como sendo não acadêmico projeto imitativo em que vários africanos reproduzem em vez de investigar paradigmas de conhecimento das nossas raízes culturais e considerar essas raízes como nossos referenciais YANKAH 2016 pp 138 149 3 POLÍTICA INTERNACIONAL E A GEOPOLÍTICA IMAGINADA Nas Relações Internacionais a imagem é estudada no âmbito da diplomacia pública a partir da teoria de atitude teoria de identidade nacional e gestão da reputação formando um modelo que compreende a parte cognitiva crenças específicas e a parte afetiva sentimentos gerais Estas partes estão conectadas por quatro dimensões Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1256 diferentes mas interrelacionadas a funcional a normativa a estética e a emocional BUHMANN 2016 A dimensão da imagem funcional de um país abarca aspectos sobre a competividade de um país informada pelas características da economia e organização política além do estado da educação performance e efetividade econômica A imagem normativa consiste na integridade de um país informada pela responsabilidade social e ecológica de um país A imagem estética abrange as crenças sobre as qualidades estéticas informada pela cultura pública tradições e territórios além da beleza de suas paisagens e cenários Por fim a dimensão da imagem emocional do país consiste em sentimentos gerais de afeição e fascínio obtidos a partir das crenças das pessoas BUHMANN 2016 p41 Nesse contexto podese definir a imagem como a soma de crenças atitudes e impressões que uma pessoa ou grupo de pessoas tem de um objeto BARICH KOTLER 1991 p 95 Nessa definição é preciso realizar uma distinção analítica entre os termos imagem do país de identidade do país O primeiro referese à percepção entre estrangeiros e a identidade referese à autopercepção dos cidadãos de um país BUHMANN 2016 p 39 Ambos são percepções porém o primeiro localizase no nível internacional e o segundo no nível nacional Para este trabalho importa o nível internacional As grandes potências sempre exploraram as imagens como um meio poderoso de comunicação e projeção de seus poderes reais Hollywood por exemplo sempre tentou representar um indivíduo americano que intervém em situações de crise transforma desastre em sucesso e salva seu país ou mundo de uma catástrofe PHILPOT 2018 p 145 A própria guerra ao terror durante o governo George Bush gerou produções cinematográficas que opõem nós versus eles bom e mau Uma imagem positiva e boa reputação são os meios para constituir o entendimento comum no sistema internacional Pressupõese portanto uma boa imagem produza respeito influência e prestígio ao passo que uma imagem negativa induz a ideia de baixa credibilidade e baixo prestígio internacional Nesse contexto a imagem providencia uma base a partir da qual tomadores de decisão e interessados formularão as primeiras ideias e projetam os tipos de ganhos a depender de sua matriz de interesse As áreas de política e economia são permeadas por pluralidade de atores e constrangidas por interesses múltiplos no nível doméstico e internacional bem como pela percepção e relação que os formuladores e interessados mais próximos possuem da Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1257 região ou do país para quais os objetivos são direcionados Dessa percepção duas considerações são geradas inicialmente A primeira indica que um país visto como rico e seguro influencia a formulação de uma política robusta e em áreas mais complexas A segunda induz que um país pobre e inseguro leva a formulação de política mais simples e investimentos inseguros Se na perspectiva de Pierre Bourdieu a região é uma ilusão uma construção política essa lógica prevalece para a geopolítica enquanto uma construção social e histórica definida como uma prática discursiva pela qual os intelectuais do Estado espacializa a política internacional e representa isso como um mundo caracterizado por tipos particulares de lugares pessoas e dramas TUATHAIL AGNEW 1992 tradução nossa A imagem nessa perspectiva é modelada em função de percepção CHIDOZIE et al 2014 A questão central é entretanto como a percepção externa determina o tipo de política e os recursos recebidos influenciando o desenvolvimento do país Uma das fontes consideradas para investimentos e estratégias política é o índice de percepção da corrupção a partir da imagem política jurídica econômica e social do país feita por atores externos nomeadamente investidores oficiais de países doadores e organismos internacionais Como a própria palavra informa a percepção é apenas uma pequena parte da realidade complexa e que não pode ser tomada como o ponto de referência Um exemplo disso são as cidades africanas imaginadas como selvas e habitadas por tribos quando na verdade são cidades modernas vibrantes e conectadas ao mundo Ou a ideia de os países africanos serem os corruptos obliterando a dimensão internacional e o envolvimento das empresas dos países desenvolvidos MATOS 2021 Chimamanda Adichie 2009 havia alertado ao perigo de história única por criar estereótipos E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira mas que eles sejam incompletos Ou seja parte da realidade não é contemplada de maneira intencional ou não No entendimento de Gallager 2015 o propósito da percepção muitas das vezes visa a esconder a realidade Em se tratando dos países africanos no contexto geopolítico global quais as suas realidades que se pretendem esconder A geopolítica como ordem discursiva deve ser abordada histórica e contextualmente e de tal modo que desmonte procedimentos que tentem forçar um mundo complexo e fragmentário a se ajustar a mapeamentos geopolíticos movediços Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1258 As imagens completas são importantes para a construção de uma consciência coletiva e para estabelecimento de relações fidedignas Se as imagens detêm um grau satisfatório de acurácia isso ajuda as pessoas a navegar num mundo complexo e a conhecer a generalidade dos fenômenos e espaços Do contrário as imagens podem ser perigosas e com consequências tanto ao estado de coisas do lugar quanto aos eventos políticos ambientais econômicos em outras partes do mundo KEIM SOMERVILLE 2009 p 4 A descrição da antiguidade africana tem sido afetada por conceitos ocidentais de identidade e autoridade política embora estes tenham sido usados para fins específicos por nacionalistas africanos A extrapolação do modelo ocidental do Estadonação teve e tem valor imediato para os políticos após as independências na África mas pode ser muito equivocada É possível que os estados e especialmente as identidades políticas que foram pela primeira vez cartografados com algum detalhe no século XIX tiveram sua longevidade exagerada por nossas próprias pressuposições e pela busca de uma origem gloriosa para as nações nascentes Compreender as representações da África significa tanto buscar uma perspectiva crítica sobre a relação entre a constituição material de fronteiras do Estado e a construção discursiva das fronteiras conceituais que separam uma suposta ordem interna de um igualmente suposto caos exterior O estudo da política internacional envolve muito mais do que as convencionais relações interestatais Os Estados não são anteriores a um Sistema Interestatal ao contrário eles são permanentemente reconstituídos por meio dos discursos e práticas que os contrapõem ao mundo exterior Uma concepção geopolítica meramente territorial escamoteia toda a construção cultural que lhe dá sustentação Tal é o caso mesmo de certos países africanos cujas fronteiras foram estabelecidas de fora para dentro sem que a população local pudesse expressar os valores e práticas que dariam sustentação cultural a tais fronteiras Ao analisar o Oriente Médio como imaginação geopolítica moderna da política externa norteamericana Aylin Güney e Fulya Gökcan 2010 argumentaram que o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos é resultado de uma ligação entre traumasmitos nacionais códigos e visões geopolíticas Ou seja a maneira pela qual um país se orienta em torno dos demais e pelas ações de política conduzidas por um governo Para visualizar essa ligação foi preciso considerar a dimensão da retórica na geopolítica que ressignifica e serve de veículo pelo qual os líderes agem e justificam as suas ações GÜNEY GÖKCAN 2010 Como resultado o Oriente Médio Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1259 passa a ser representado enquanto uma região conflituosa com países e pessoas terroristas que almejam desestabilizar a região e o mundo O crítico literário Edward Said 1990 p15 havia conceituado o modo de o Ocidente gerenciar as coisas nessa região Oriente de Orientalismo isto é um estilo ocidental para dominar reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente Isso revela o poder que o Ocidente auto delegou para a construção de uma determinada realidade e na interpretação do mundo cabendo nessa extensão históricapolítica os países africanos A história das fronteiras impostas é também uma história de dominação colonial que passa a fazer parte do cotidiano e do imaginário social dessas nações fabricadas Muitas das guerras africanas contemporâneas por exemplo em Ruanda entre tutsis e hutus são atribuídas ao choque das fronteiras conceituais e imaginárias com fronteiras impostas A espacialização e a temporalização das identidades nacionais é um tema importante para uma geopolítica que se pretende crítica que desconstrói a noção convencional e totalizante de fronteiras em narrativas fragmentárias como nós versus outros iguais versus diferentes próximo versus distante seguro versus perigoso indiferente versus responsável O significado e o argumento a discutir aqui são polêmicos visto que vão ao cerne de uma das ideias mais difundidas da cultura e da ideologia políticas modernas a ideia de que existe um passado definido um conjunto de tradições estabelecidas em cada país cultura ou tradição a que pudesse recorrer quer em categorias de análise quer em termos éticos Assim temse um conjunto de referências que se pode usar para explicar porque o mundo é como é como também para fornecer um conjunto de princípios morais e por vezes religiosos com base nos quais se pode e devese viver Estes pressupostos têm vindo a ser reforçados de muitas maneiras ao longo das últimas décadas não só no mundo desenvolvido especialmente na Europa no Japão e na América do Norte como também no Terceiro Mundo onde a África não é exceção Uma das expressões mais frequentes é atribuir à África tradições tribais Outras vezes falase de fundamentalismo ora muçulmano ora cristão ora referente às religiões nativas Outra maneira é a divulgação não crítica de dados econômicos e sociais dentro dos padrões eurocêntricos Este artigo considera que o perigo de uma geografia imaginada é a criação de uma política imaginária cadente de completude e destoante da realidade bem como a formulação de uma política pobre para o país representado mas estratégica e interesseira aos países formuladores Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1260 4 O PERIGO E A ARMADILHA DE UMA ÁFRICA IMAGINADA No campo de Relações Internacionais importante frisar que não existe uma incompatibilidade entre a África e os principais conceitos do campo persistem desafios e problemas gerados a partir das realidades africanas aos conceitos centrais das relações internacionais Um dos principais conceitos é o poder que carrega uma interpretação predominantemente material militar riqueza e geografia e se restringe às ações de grandes potências MORGENTHAU 1948 WALTZ 1979 MEARSHEIMER 1990 influenciado o pressuposto conhecido no campo que uma teoria geral da política internacional é necessariamente baseada sobre grandes potências WALTZ 1979 lendose grandes potências os principais países ocidentais Portanto a posição do continente nas relações internacionais foi precária e às margens das principais abordagens teóricas e debates do campo HARMANN BROWN 2013 OGUNNUBI ISIKE 2015 CILLIERS et al 2015 O proeminente teórico realista Hans Morgenthau considerou que o continente africano passou a ter história a partir da Primeira Guerra Mundial 1914 1918 uma guerra inter imperialista O referido autor considera a África antes desse período um espaço politicamente vazio CHIPAIK KNOWLEDGE 2018 Ao se concentrar na África póscolonial o campo revelou também dificuldades em entender a formação dos Estados africanos recorrendose à imaginação do que deveria ser os países africanos SINDJOUN 1999 No âmbito político a imagem de uma África pobre conflituosa e com doenças tem influenciado a adoção de medidas automáticas e simplistas ao pressupor que onde há conflito intervenção internacional onde há pobreza ação humanitária e onde há doenças doação de remédios e trabalho voluntário De fato os principais temas de política internacional em relação aos países africanos têm sido intervenção ajuda humanitária doação e voluntariado Nesse sentido os países africanos são mais citados nos estudos sobre conflitos Estados fracassados pobreza e ajuda humanitária do que estudos sobre poder influência na ordem internacional construção das instituições internacionais desenvolvimento democracia economia política internacional paz e segurança internacional Ou seja África é tratada nas relações internacionais muito mais numa perspectiva negativapassiva do que positivaativa Segundo os dados da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional USAID 2021 a África é um dos principais destinos da assistência Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1261 humanitária A região África Subsaariana e a da Oriente e Norte da África receberam quase US 26 bilhões de dólares enquanto a região da Ásia meridional e central US 5 bilhões Europa e Eurásia US 2276 bilhões USAID 2021 O objetivo da ajuda é permitir aos países africanos a saírem da situação de tragédia e de pobreza a partir das ações externas mas essa ajuda cria uma série de armadilha aos países africanos encapsulandoos na dependência de recursos externos e desencadeia dívidas econômicas com sérios impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico Nesse sentido vale indagar se muitos dos problemas contemporâneos da África são resultados de nosso esforço para ajudar KEIM SOMERVILLE 2009 p 84 MOYO 2009 A lógica dessa armadilha iniciase pela ideia de uma África predominantemente pobre Estando a África em pobreza criase um véu de solidariedade que faculta à costura de novas formas de ajuda para manter a condição dependente e estrutural de países africanos que por sua vez alimenta o círculo vicioso pois países pobres precisam de mais ajudas cuja abordagem favorece aos doadores que influenciam o direcionamento destes recursos As ajudas criam duas imagens A primeira apresenta os países desenvolvidos como centro de poder e de soluções e ao perdoarem algumas dívidas são vistos como benevolentes capazes de partilhar suas riquezas com países pobres A segunda apresenta os países africanos como uma categoria de problemas e devedores necessitandose da intervenção e soluções dos desenvolvidos Essas imagens cristalizaram um mundoproblemático constituído por países pobres e mundosolução dominado por países desenvolvidos O mundo prensado a partir dessas imagens impossibilita a inovação da política internacional direcionada à África que tem sido dominada pelas ajudas Em 2006 a Força Tarefa do Conselho sobre as Relações Externas norteamericanas Council on Foreign Relations recomendou ao governo norteamericano que considerasse a importância e o papel dos países africanos em temas estratégicos da nação como a segurança internacional e o terrorismo Foi assinalada também à necessidade de se desenvolver ações estratégicas além da natureza humanitária e considerar os líderes africanos em todos os setores da vida não são objetos passivos mas jogadores ativos com influência sobre a dinâmica em sua região COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS 2006 p 6 tradução nossa Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1262 Esse mundo dicotômico esconde as dinâmicas das relações e a maneira pela qual as assimetrias de poder perpetuam as desigualdades entre os Estados conferindo aos poderosos a possibilidade de contarem a história A consequência de uma única história é essa ela rouba das pessoas sua dignidade Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes ADICHIE 2009 O perigo dessa história aponta o que vem sendo construído sobre as ajudas é uma história a partir dos doadores e reproduzida por academia e sociedade civil sem questionar os números Um estudo comparativo de Honest Accounts revelou que em 2015 os países africanos receberam US 1616 bilhões em formas de empréstimos remessas pessoais e ajudas concessionais ao passo que no mesmo ano US 203 bilhões foram retirados da África através de repatriação de lucros para exterior das empresas instaladas no continente e movimentação ilegal de dinheiro para exterior CURTIS JONES 2017 Conforme o referido relatório o valor de remessas pessoais do exterior para os africanos atinge anualmente US 31 bilhões valor semelhante ao lucro US 32 bilhões repatriado das empresas instaladas nos territórios africanos aos países de origem Essas evidências expõem a quantidade de recursos que os países africanos proporcionam aos outros e irrompe com a tese de benevolência dos recursos dos países desenvolvidos Ademais ela aponta que o fluxo dos recursos globais se processa no sentido inverso das nações pobres para as ricas e essa é a realidade escondida MATOS 2021 Quem do mundo desenvolvido pensaria que a riqueza e o desenvolvimento de sua cidade estariam relacionados com o estado de pobreza de lugares que ficam em outros continentes Em 2013 a população de Rüschlikon uma tranquila e próspera cidade que fica nas cercanias da cidade de Zurique Suíça foi convocada para decidir se a receita advinda da redução de imposto em vista a injeção de dinheiro nos cofres da prefeitura pela empresa local chamada de Glencore uma gigante global exploradora de cobre e outros minérios devesse ficar em Ruschlikon ou ir para Zâmbia um dos países onde a empresa atua MATOS 2021 A resposta foi a favor de baixar o imposto e manter o dinheiro nesta cidade como garantia ao alto padrão de vida de seus habitantes Enquanto isso a Zâmbia continuaria sendo explorada e sua população pobre A Suíça é considerada uma das principais democracias do mundo inclusive a decisão supracitada foi resultado do sistema de Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1263 democracia direta manifestado pelo voto popular a maioria da população assim decidiu Mas enquanto o PIB per capita da Zâmbia é de US 117839 o da Suíça é de US 7881265 Em 2020 a empresa Glencore suspendeu as operações em Mopani Zâmbia por causa dos preços baixos dos mercados e dos efeitos económicos da COVID19 Zâmbia teve que assumir uma dívida de US 15 bilhão de dólares para comprar a mina de cobre da Glencore evitando um impacto negativo sobre o emprego de milhares de pessoas A armadilha se revela por o empréstimo ser feito partir de uma empresa de investimentos sediada nas Ilhas Virgens Britânicas por meio da qual a Glencore mantém sua participação Os impactos da COVID19 comprometeram a capacidade de Zâmbia de pagar o empréstimo em novembro de 2020 e o país teve que assumir mais dívidas para financiar o negócio A Glencore ficará com os direitos de compra da produção de cobre da Mopani até que a dívida da transação seja paga As empresas estrangeiras exigem altos incentivos fiscais e redução do papel do Estado na economia para atuarem nos países africanos Mas como exigir de países que são considerados pobres receptores de ajudas contrapartidas tão cruciais à sua sobrevivência econômica e política A pobreza africana pode ser um estado de alimentação da riqueza dos países desenvolvidos Revelar essa realidade exigiria reconhecer que quem patrocina as facilidades e os confortos tecnológicos e informáticos da atual Era Tecnológica e Informacional são as pessoas desprovidas do acesso ao produto final que elas ajudaram a fabricar e muitas dessas pessoas encontramse no continente africano A África de fato é imprescindível em duas etapas a da retirada de insumos cruciais ao desenvolvimento de materiais estratégicos às economias avançadas haja vista a posse das principais reservas de recursos materiais importantes Na segunda etapa os países africanos são transformados em depósitos de lixos nucleares e outros elementos nocivos descartados pelos países desenvolvidos cujo efeito é drástico à saúde pública causando inúmeras doenças 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Uma imagem negativa dasobre a África apesar de ela ser perigosa é estratégica no sentido de mobilizar e legitimar discursos e apoios para sucessivas ajudas humanitárias intervenções em nome da paz e empréstimos que prometem Caderno de Geografia 2022 v32 n71 ISSN 23182962 DOI 105752p231829622022v32n71p1247 1264 desenvolvimento dos países africanos quando na verdade servem a interesses dos países desenvolvidos Países capazes de identificar as potencialidades e as estratégias africanas além de recursos materiais engendrarão diplomacias exitosas e costurarão excelentes vantagens no cenário global Isso contudo exigirá uma mudança desconfortável na matriz de política de ajudas humanitárias para uma política externa coerente a partir das realidades completas dos países africanos De fato há uma África em transformação que não é captada por todas as lentes dos países desenvolvidos porque exige renegociação perante uma sociedade cada vez mais informada e estabelecimento de acordos mutuamente vantajosos Em 1960 período colonial para maioria dos países africanos o Produto Interno Bruto das regiões africanas somou US 30385 bilhões e em 2016 é de US 1498001 trilhão A taxa bruta de matrícula no ensino primário passou de 53 na década de 1970 para 9842 no ano de 2014 A expectativa de vida avançou de 40 anos em 1960 para 59 anos em 2015 WORLD BANK 2017 Essa é uma África com uma imagem positiva em ascensão e cria ameaça ao status quo pois a sua população está aumentando a consciência crítica e assumindo mais poderes nas suas sociedades De acordo com Kabengele Munanga 2010 p 910 a África incomoda porque depois de séculos de submissão e exploração seus países tentam assumir seu próprio destino no concerto das nações reivindicando igualdade de tratamento e defesa de suas dignidades e liberdades humanas Infelizmente essa África não interessa aos países ocidentais uma vez que diminuiria o volume de recursos extraídos e explorados ilegalmente com a finalidade de aumentar os lucros e garantir os interesses de suas empresas e Estados Interessamlhes uma África letárgica Por isso à África é aplicada uma dose suficiente de remédios intervenção com cautela para não a matar evitandose uma anarquia continental mas também nem para curála evitandose a sua retomada total de consciência Esses remédios são guerras instaladas interferência em assuntos internos prática desleal e ilegal de comércio exploração e saques de seus recursos entre outros Portanto é estratégico ao Ocidente manter a África em um estado de pobreza e criar sobre ela uma imagem pobre REFERÊNCIAS ACHEBE C An Image of Africa Racism in Conrads Heart of Darkness Massachusetts Review v 18 p 251261 1977 Caderno de Geografia 2022 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