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PAULO CÉSAR MORCEIRO WORKING PAPER SERIES Nº 201612 Department of Economics FEAUSP Sectoral demand leakage and competitiveness of the Brazilian manufacturing industry DEPARTMENT OF ECONOMICS FEAUSP WORKING PAPER Nº 201612 Sectoral demand leakage and competitiveness of the Brazilian manufacturing industry Paulo César Morceiro paulomorceirouspbr Research Group NEREUS The University of São Paulo Regional and Urban Economics Lab Vazamento de demanda setorial e competitividade da indústria de transformação brasileira PalavrasChave vazamento de demanda setorial produtividade do trabalho indústria de transformação competitividade industrial análise setorial Resumo Após duas décadas e meia de baixo crescimento o Brasil voltou a crescer de modo continuado e acima da economia mundial durante a década de 20042013 Esse crescimento foi puxado pela demanda doméstica e beneficiou diversos setores da economia principalmente da indústria de transformação Observouse significativo crescimento da produção e do emprego manufatureiros no período com aumento da participação das indústrias de alta e médiaalta intensidade tecnológica Entretanto parcela substantiva do crescimento da demanda vazou para o exterior na forma de importações em vários setores industriais com maior intensidade nos setores de alta e médiaalta tecnologia No período a manufatura brasileira perdeu bastante competitividade apresentou crescimento negativo da produtividade do trabalho e registrou déficits comerciais na maioria dos setores inclusive naqueles tradicionalmente superavitários O artigo também mostra que setores importantes do ponto de vista tecnológico estão caminhando da transformação para a simples montagem e alguns até para a maquila além de indicar que a indústria é integrada às cadeias globais de valor pelo lado das importações JEL Codes L6 O14 O40 Keywords sectoral demand leakages labor productivity manufacturing industry industrial competitiveness sectoral analysis Abstract After two and half decades of low growth Brazil grew on a continuous basis and above the worlds economy during the decade of 20042013 This growth was driven by domestic demand and generated benefits for various sectors of the economy especially the manufacturing industry There was significant growth in production and employment of manufacturing industry in the period with a higher share of high and mediumhigh technology industries However substantial portion of demand growth leaked to foreign countries in the form of imports in various industrial sectors with greater intensity in the sectors of high and mediumhigh technology In the period Brazilian manufacturing lost competitiveness presented a negative growth of labor productivity and registered trade deficits in most sectors including those traditionally surplus The article also shows that important sectors from a technological point of view are moving from processing for simple assembly and some even to the maquila and indicates that the industry is integrated into global value chains by imports 1 Vazamento de demanda setorial e competitividade da indústria de transformação brasileira1 Paulo César Morceiro FEAUSP2 Resumo Após duas décadas e meia de baixo crescimento o Brasil voltou a crescer de modo continuado e acima da economia mundial durante a década de 20042013 Esse crescimento foi puxado pela demanda doméstica e beneficiou diversos setores da economia principalmente da indústria de transformação Observouse significativo crescimento da produção e do emprego manufatureiros no período com aumento da participação das indústrias de alta e médiaalta intensidade tecnológica Entretanto parcela substantiva do crescimento da demanda vazou para o exterior na forma de importações em vários setores industriais com maior intensidade nos setores de alta e médiaalta tecnologia No período a manufatura brasileira perdeu bastante competitividade apresentou crescimento negativo da produtividade do trabalho e registrou déficits comerciais na maioria dos setores inclusive naqueles tradicionalmente superavitários O artigo também mostra que setores importantes do ponto de vista tecnológico estão caminhando da transformação para a simples montagem e alguns até para a maquila além de indicar que a indústria é integrada às cadeias globais de valor pelo lado das importações Palaraschave vazamento de demanda setorial produtividade do trabalho indústria de transformação competitividade industrial análise setorial Códigos JEL L6 O14 O40 1 Introdução Após duas décadas e meia de baixo crescimento 19802003 o Produto Interno Bruto PIB do Brasil voltou a crescer de modo continuado Entre 2004 e 2013 o PIB do país cresceu acima do mundial3 Este crescimento foi puxado majoritariamente pela demanda doméstica Embora praticamente todos os setores de atividade tenham sido beneficiados a indústria de transformação4 perdeu significativa participação no PIB algo que muitos economistas têm chamado de desindustrialização No entanto há uma diversidade de trajetórias entre os setores devido à heterogeneidade setorial da indústria brasileira Este artigo faz uma análise do desempenho da indústria de transformação brasileira no século XXI com um detalhamento setorial inclusive segmentando a indústria por intensidade tecnológica e lança luz sobre a capacidade da produção industrial suprir a demanda 1 O autor agradece a Milene Simone Tessarin Vinícius Rena Pereira e Joaquim Guilhoto por discutirem algumas questões A Milene Celso Neris Junior e Victor Prochnik por lerem e comentarem a primeira versão do texto A Capes pelo apoio financeiro Erros e imprecisões são de responsabilidade do autor 2 Graduado e mestre em Economia pela Unesp Doutorando em Economia área Economia do Desenvolvimento na FEAUSP Contato paulomorceirouspbr 3 O PIB do Brasil e do mundo cresceram 401 e 293 por cento ao ano respectivamente Banco Mundial 4 Doravante o termo indústria de transformação tem o mesmo significado que indústria e manufatura 2 Além desta introdução a seção 2 discorre brevemente sobre o desempenho de longo prazo da indústria brasileira A seção 3 apresenta os principais determinantes do crescimento econômico nos anos 2000 que impactaram os ajustamentos industriais A seção 4 mostra a evolução da indústria de transformação por intensidade tecnológica além disso apresenta um conjunto de dados e considerações concernentes à competitividade setorial ao grau de abertura e aos principais destaques setoriais quanto ao crescimento do produto produtividade emprego produção demanda coeficientes de comércio e saldo comercial Por fim na seção 5 exibe as conclusões 2 Desempenho de longo prazo da indústria de transformação brasileira Entre 1950 e 1980 o Produto Interno Bruto PIB brasileiro cresceu 737 por cento ao ano taxa de crescimento muito elevada e quase 3 pontos percentuais pp superior à registrada pela economia mundial Nesse período ocorreu uma intensa industrialização e a participação da indústria de transformação no PIB dobrou Gráfico 1 O período se caracterizou pela presença de planos definidos e planejamento por parte do Estado brasileiro como o Plano de Metas e o II PND que resultaram na implantação das indústrias de bens de consumo duráveis bens intermediários e bens de capital setores que eram considerados os mais difíceis de serem internalizados pelo país Em meados dos anos 1980 o Brasil possuía uma indústria integrada completa e diversificada Castro 1985 No entanto desde meados da década de 1980 a parcela da indústria de transformação no PIB começou a diminuir e em 2015 o nível obtido foi inferior ao observado no período préPlano de Metas 19561961 de Juscelino Kubitschek Gráfico 1 Com a perda de dinamismo da manufatura o crescimento do PIB diminuiu muito Entre 1980 a 2015 o PIB do país evoluiu pouco e em média um pp abaixo da economia mundial5 O país perdeu espaço no cenário mundial Em 1980 o Brasil correspondia à 27 por cento da manufatura global este percentual passou para 2 por cento em 2000 e 16 por cento em 2013 conforme informações das Nações Unidas Com isso o país passou do 7º para o 11º posto das nações manufatureiras líderes entre 1980 e 20136 No entanto o país ainda é um ator relevante em algumas cadeias globais de valor de alimentos produtos intensivos em recursos naturais e aviação regional 5 Com exceção dos 10 anos de crescimento bom entre 2004 e 2013 que será analisado nas próximas seções 6 Em 2007 o país foi ultrapassado pela Índia e em 2011 pelo México caindo da 9ª para a 11ª posição mundial no período recente 3 Gráfico 1 Indústria de transformação brasileira em porcentagem do PIB a preços básicos e correntes 19472015 e em porcentagem do emprego total 19502013 Nota Séries do PIB de 19471994 e emprego de 19501999 foram encadeadas para refletir a metodologia atual do Sistema de Contas Nacionais Referência 2010 que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística segue7 Fonte Elaboração própria a partir do SCNIBGE e Groeningen Growth and Development Centre GGDC de Timmer Vries e Vries 2014 Os economistas têm chamado de desindustrialização um declínio sustentado do nível absoluto eou da participação da indústria de transformação no emprego total eou no PIB SINGH 1987 p 302 CORIAT 1989 p 37 TREGENNA 2008 p 459 Outros autores também consideram desindustrialização a deterioração do balanço de pagamentos em especial do saldo comercial da indústria de transformação Morceiro 20128 A desindustrialização é qualificada como precoce ou prematura UNCTAD 2003 Ricupero 2005 Palma 2005 2008 quando a manufatura reduz sua participação no PIB bem antes de o país atingir a renda per capita de cerca de US 25 mil PPC a preços constantes de 2015 pois um nível baixo de renda limita a expansão do setor de serviços sofisticados e de elevada elasticidaderenda que é capaz de absorver as ocupações cedidas pela manufatura Nesse caso 7 Para encadear a série do PIB utilizou dados dos sistemas de Contas Nacionais homogêneos As fontes foram Contas Consolidadas para a Nação Brasil 19801993 IBGE DECNA outubro de 1994 e Sistema de Contas Nacionais Brasil 2003 IBGE 2004 que possui informações setoriais para o PIB e emprego desde 1990 a 2003 As quedas de participação nelas registradas são entre 1989 e 1990 de 32388 para 29084 entre 1994 e 1995 de 26790 para 23913 Observe que não utilizei dados de 1994 e 1995 do documento Contas Consolidadas para a Nação Brasil 19901995 IBGE DECNA outubro de 1996 como fizeram Bonelli e Pessoa 2010 porque as informações para 1995 são preliminares Para encadear a série do emprego utilizei dados de séries homogêneas do Groeningen Growth and Development Centre entre 1950 a 1990 Sistema de Contas Nacionais Brasil 2003 IBGE 2004 para o período 19901995 e SCN 2009 para o período 19952000 Há quebras pequenas nas séries de emprego entre 1994 e 1995 e entre 1999 e 2000 8 Há algumas definições sobre desindustrialização suas causas e consequências além de enfoques distintos conforme o grau de desenvolvimento dos países Para uma resenha dos principais estudos internacionais e brasileiro ver Morceiro 2012 e Hiratuka e Sarti 2015 1357 1787 1637 2167 2302 1381 1779 1140 1018 1179 1248 1369 1358 1017 1182 8 10 12 14 16 18 20 22 24 1947 1949 1951 1953 1955 1957 1959 1961 1963 1965 1967 1969 1971 1973 1975 1977 1979 1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009 2011 2013 2015 ind de transformação of PIB ind de transformação do emprego total 4 a economia se desfaz do seu principal setor dinâmico sem que nenhum outro assuma essa posição e fica armadilhada numa trajetória de baixo crescimento do produto per capita A desindustrialização tem consequências negativas principalmente para um país em desenvolvimento Quando se leva em consideração as trajetórias de crescimento de longo prazo a manufatura ainda possui características especiais9 que impulsionam o desenvolvimento a saber i possui maiores encadeamentos intersetoriais Hirschman 1958 cap 6 ii é a principal fonte de inovação e difusão de novas tecnologias Dosi Pavitt e Soete 1990 p 5354 pois cerca de 23 dos gastos em Pesquisa e Desenvolvimento PD são realizados pela manufatura Mckinsey 2012 iii alivia pressões no balanço de pagamentos Prebisch 1949 Thirlwall 2002 uma vez que realiza cerca de 23 ou mais das exportações Mckinsey 2012 iv é uma boa plataforma para a existência de outros setores pois compra 50 por cento de toda a produção de insumos intermediários no Brasil Morceiro 2012 v contribui desproporcionalmente para o crescimento da produtividade da economia ao apresentar elevadas economias estáticas e dinâmicas de escala Kaldor 1967 Mckinsey 2012 Rodrik 2007 ao mencionar fatos estilizados da manufatura afirmou que as maiores taxas de crescimento do PIB são obtidas na fase de industrialização Recentemente UNIDO 2015 e Szirmai e Verspagen 2015 além de revisitaram essas características sugeriram outras favoráveis à manufatura10 Sendo assim a manufatura é reconhecidamente importante e isto ficou claro após a crise de 2008 quando países desenvolvidos passaram a adotar medidas de reindustrialização Os EUA focaram na reconversão da manufatura avançada National Science and Technology Council 2012 e a União Europeia tem metas explícitas para elevar a participação da manufatura no PIB de 16 para 20 do PIB até 2020 European Commission 2012 No Brasil o debate sobre desindustrialização divide opiniões Por um lado a manufatura tem perdido expressiva participação no PIB e apresenta elevado déficit comercial Por outro não houve redução absoluta da produção industrial e o emprego manufatureiro ampliouse em termos absolutos e relativos desde o final dos anos 1990 Gráfico 111 No entanto o debate sobre desindustrialização no Brasil tem se concentrado desproporcionalmente no comportamento da indústria de transformação no nível agregado e seus efeitos macroeconômicos com pouquíssimos estudos setoriais12 Este estudo reconhece a 9 Kaldor 1966 1967 foi seminal ao abordar a desindustrialização e as características especiais da manufatura 10 Atualmente temse reconhecido que os serviços intensivos em conhecimento possuem algumas características da manufatura 11 Para autores que argumentam que há desindustrialização no Brasil veja BresserPereira e Marconi 2010 Cano 2012 e Nassif Feijó e Araújo 2015 Para o diagnóstico contrário Nassif 2008 Barros e Pereira 2008 Bonelli Pessoa e Matos 2013 e Britto 2015 12 Morceiro 2012 foi um dos primeiros autores a realizar um estudo setorial 5 profunda heterogeneidade setorial da manufatura brasileira e os ajustamentos setoriais que ocorreram no século XXI Por isso serão exibidos os desempenhos setoriais da manufatura nos anos 2000 Mas antes a próxima seção apresenta os determinantes do crescimento brasileiro que influenciaram o setor industrial nesse período 3 Determinantes do crescimento econômico do Brasil nos anos 2000 Entre 20012015 o PIB brasileiro cresceu 277 por cento ao ano abaixo da média mundial Houve 10 anos de crescimento continuado de 401 por cento ao ano entre 2004 e 2013 Neste período o PIB per capita evoluiu 290 por cento ao ano taxa elevada e só superada pela registrada na década de 1970 1968198013 Entretanto em 2014 o produto cresceu apenas 010 por cento foi negativo em 385 por cento em 2015 e as projeções indicam que o PIB será negativo em 2016 Por ser um estudo com enfoque setorial em que há dificuldade de se obter dados atualizados na mesma classificação as análises se concentrarão no período de 2000 a 2013 especialmente na década 20042013 de desenvolvimento elevado Nesse período vários fatores contribuíram para o crescimento do PIB e para a expansão da demanda industrial brasileira Do ponto de vista da demanda agregada o consumo das famílias foi o vetor de maior dinamismo sendo o componente da demanda que mais contribuiu para o crescimento em todos os anos desde 2004 Sarti 2015 p 524 Miguez 2016 cap 2 A formação bruta de capital fixo FBCF e as exportações tiveram destaque secundário em períodos distintos enquanto o consumo do governo teve contribuição marginal Entre 2001 e 2003 as exportações foram o componente da demanda agregada que mais contribuiu para o crescimento do produto e em 2004 e 2005 foram o segundo componente mais dinâmico atrás apenas do consumo das famílias Nesse período as exportações tiveram uma forte expansão devido à desvalorização cambial de 1999 e também pela crescente demanda asiática chinesa em especial por commodities agrícolas e minerais Devido à industrialização e urbanização chinesa os preços de diversas commodities sofreram um boom a partir de 2002 com isso os termos de troca foram favoráveis ao Brasil em praticamente todo o período que se estende de 2003 a 2013 Tais fatos contribuíram para que o Brasil revertesse o déficit comercial existente desde 1995 já em 2001 e passasse a acumular elevados e crescentes superávits comerciais até meados da década A elevada liquidez internacional devido em parte à diminuição substantiva da taxa básica de juros dos EUA entre 2001 e 2004 e a partir de 2008 e as altíssimas taxas de juros brasileiras contribuíram para que o país 13 Desde 2012 o crescimento econômico brasileiro tem perdido dinamismo ver Serrano e Summa 2015 para uma interpretação das possíveis causas 6 atraísse volumosos fluxos de capital estrangeiro que por um lado provocaram a apreciação cambial mas por outro lado permitiram acumular volumosas reservas cambiais14 A atração de capital estrangeiro e os superávits comerciais eliminaram a vulnerabilidade e a restrição externas ao crescimento econômico males que o país sofreu nas duas décadas anteriores O crescimento das exportações na primeira metade da década de 2000 especialmente em 2001 e 2004 foi o estopim do crescimento depois sustentado pelo consumo das famílias e investimentos em segundo plano O consumo das famílias apresentou crescimento positivo por 45 trimestres consecutivos desde o quarto trimestre de 2003 até o quarto trimestre de 2014 conforme os dados das Contas Nacionais Trimestrais do IBGE CNTIBGE Entre 2004 e 2013 o consumo das famílias cresceu 611 por cento ou 488 por cento aa enquanto o PIB expandiu 482 por cento ou 401 por cento aa segundo dados das CNTIBGE tal taxa contribuiu para o que consumo das famílias elevasse sua participação no PIB de 596 por cento para 660 por cento no mesmo período A geração de empregos formais aumentos reais do salário mínimo expansão do crédito e a apreciação cambial contribuiram para amplificar a demanda doméstica O fato mais importante foi a expressiva geração de empregos em praticamente todos os setores da economia Entre 2000 e 2013 foram gerados 2356 milhões de novos empregos elevando de 7897 para 10254 milhões o número de empregos formais e informais no país segundo dados do Sistema de Contas Nacionais do IBGE SCNIBGE É importante destacar que este foi o período em que mais se gerou empregos na história brasileira contribuindo para diminuir a taxa de desemprego de 105 por cento para 71 por cento entre 2003 e 2013 em todo o país ou de 141 por cento para 78 por cento nas áreas metropolitanas no mesmo período regiões mais sensíveis aos ciclos econômicos conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PnadIBGE No Brasil as ocupações informais são historicamente majoritárias mas verificouse uma notável redução da informalidade e melhoria na qualidade das ocupações As ocupações formais elevaramse de 382 por cento para 538 por cento do total entre 2000 e 2013 segundo dados do SCNIBGE Neste período foram criadas 263 milhões de vagas formais A informalidade é prejudicial para os trabalhadores que não são cobertos por direitos trabalhistas15 e ficam sujeitos a diversas irregularidades como jornadas de trabalho excessivas para o empregador pois este não tem a mínima garantia de empenho e 14 As reservas internacionais brasileiras multiplicaramse por 10 passando de US 378 para US 3731 bilhões entre 2002 e 2012 15 Por exemplo auxíliodoença licença maternidade segurodesemprego e aposentadoria por tempo de serviço 7 regularidade de seus funcionários e por fim para o Estado que arrecada menos Antes à margem dos canais de financiamento os novos trabalhadores formais passaram a ter acesso regular ao crédito Sendo assim a redução substantiva da informalidade beneficiou toda a economia do país de várias formas Houve crescimento real do salário mínimo em todos os anos de 2000 a 2014 De 2004 a 2013 o salário mínimo aumentou 737 por cento ou 57 por cento ao ano em termos reais em que as maiores taxas de expansão ocorreram a partir de 2004 durante os governos Lula I e II mais ativo na área social que os governos anteriores que manteve uma política de valorização salarial e elevou o poder de compra dos trabalhadores privados e públicos de aposentados e pensionistas O salário mínimo brasileiro influencia direta e indiretamente os reajustes salariais de praticamente toda a economia ele é a remuneração mínima legal dos aposentados pensionistas e dos trabalhadores formais Saboia e Hallak Neto 2016 mostraram que os reajustes salarias para os trabalhadores com ou sem carteira assinada ou do setor público foram muito próximos daqueles observados para o salário mínimo para os cargos que pagam baixos salários e mesmo para os cargos que pagam salários elevados os reajustes foram no mínimo 60 por cento do ocorrido para o salário mínimo A concessão de crédito primeiramente através de bancos privados e depois públicos para famílias e empresas teve um boom no período O saldo de todas as operações de crédito ampliouse de 243 para 560 por cento do PIB entre dez2003 e dez2013 segundo dados do Banco Central do Brasil BCB16 Nesse período as condições de financiamentos melhoraram para o consumidor à medida em que os prazos foram alongados17 os limites e tetos de cobertura ampliados Mora 2015 Borça Jr e Guimarães 2015 e principalmente devido a significativa redução da taxa básica de juros reais de 119 por cento para 20 por cento entre 2003 e 2013 segundo informações do BCB e IBGE18 Algumas inovações financeiras e institucionais mitigadoras de risco como a implantação da linha de crédito consignado que passou a vigorar a partir de 2004 e quanto ao crédito imobiliário também contribuíram para a forte expansão do crédito ressaltase que o aumento foi extensivo em quase todas as modalidades de financiamento 16 O auge ocorreu no período 20062009 em que o crédito em do PIB aumentou 15 pontos percentuais O biênio 20082009 anos da crise internacional foi o de maior expansão 17 O financiamento imobiliário foi ampliado de 20 para 35 anos e em alguns períodos tornouse possível pagar um automóvel em até 96 parcelas mensais sem entrada Mora 2015 e Borça Jr e Guimarães 2015 mostram que o prazo médio dos empréstimos mais que dobrou no período 20032013 e mais que triplicou em algumas linhas de financiamento 18 Entretanto os juros ainda continuaram elevados para os consumidores e empresas em comparação ao padrão internacional 8 A apreciação cambial de 838 por cento entre 2003 e 2011 em que a taxa de câmbio nominal Real por Dólar RUS passou 308 para 167 barateou as importações e atuou limitando o repasse dos preços domésticos contruibuindo para expandir a demanda doméstica19 Baer 2014 cap 9 Amann e Baer 2012 e Cano 2012 enfatizaram o uso da taxa de câmbio apreciada com o objetivo de controlar a inflação desde o Plano Real A taxa básica de juros brasileira continuou entre as mais elevadas do planeta e contribuiu bastante para apreciar o câmbio à medida que atraiu elevados influxos de capital Além dos fatos já mencionados acima as desonerações tributárias sobre alguns produtos relevantes principalmente automóveis eletrodomésticos móveis material de construção e bens de capital implementadas no âmbito da crise internacional de 2008 que inicialmente eram para ser pontuais acabaram se estendendo até 2013 na maioria dos casos Algumas medidas e transferências governamentais Tesouro Nacional 2016 também tiveram impacto sobre o consumo das famílias como os programas i Minha Casa Minha Vida PMCMV voltado à construção de moradias populares estimulou diretamente o setor de construção civil e sua ampla cadeia produtiva a partir de 2009 ii Bolsa Família20 que contribuiu para dinamizar o crescimento de regiões mais pobres principalmente a região Nordeste do país responsáveis pelo maior volume de recursos empenhados pelo programa iii Luz para Todos que entre 2004 e 2013 beneficiou cerca de 15 milhões de pessoas das regiões isoladas rurais e sem eletricidade que passaram a ter acesso à iluminação em suas residências e puderam diversificar seu padrão de consumo incluindo eletrodomésticos como geladeira televisão celular entre outros MME 2014 No início as exportações e principalmente o consumo das famílias contribuíram para a diminuição da capacidade ociosa na maioria dos setores produtivos e para a reativação de um ciclo de investimentos A FBCF de toda a economia se expandiu 6501 por cento em termos reais entre 2003 e 2011 e elevou a taxa de investimentos em 35 pontos percentuais para 206 por cento em 2011 segundo dados do SCNIBGE Notase também que a composição da FBCF melhorou a favor das máquinas e equipamentos em detrimento da construção civil especialmente no período 20042008 Contribuiu para essa melhor composição a FBCF da indústria de transformação em máquinas e equipamentos que dobrou de tamanho entre 2004 2008 conforme dados de Miguez 2016 A crise internacional de 20082009 teve ligeiro 19 Em 2012 e 2013 houve desvalorizações cambiais de 167 e 104 por cento respectivamente Mas essas desvalorizações ainda foram insuficientes para tornar os bens comercializáveis brasileiros competitivos O índice do Big Mac da The Economist mostrava que a taxa de câmbio brasileira ainda estava sobrevalorizada 20 Este é um programa de transferência de renda para famílias pobres com o objetivo de manter as crianças na escola Em 2004 atendia atendia 66 milhões de beneficiários e representou 029 por cento do PIB e em 2013 passou a atender 141 milhões e representou 046 por cento do PIB Tesouro Nacional 2016 Em 2013 o Bolsa Família representou apenas 075 do consumo das famílias e embora pequeno o programa gerou impacto relevante nas áreas mais pobres e rurais 9 impacto nos investimentos que recuaram 213 por cento em 2009 mas devido as medidas contracíclicas implementadas pelo Governo Federal como a implantação do PMCMV e a desonerações tributárias já mencionadas estes se recuperaram rapidamente em 2010 Apesar do bom desempenho pós 2003 a taxa de investimento ainda é muito baixa em compação com a média mundial especialmente com países como China Índia e Coréia do Sul Além dos componentes da demanda e seus determinantes a demografia desempenhou um papel relevante Diferentemente de alguns países da OCDE em que a população está estagnada o Brasil ainda é um país relativamente jovem Entre 2004 e 2013 a população do Brasil cresceu 113 por cento ou 108 por cento ao ano passando de 18062 para 20103 milhões de habitantes ou seja 2041 milhões de novos consumidores21 No mesmo período o país teve um bônus demográfico isto é proporcionalmente houve aumento da população em idade ativa entre 16 e 64 anos22 aptas a trabalhar em relação à população dependente crianças e idosos O bônus demográfico resulta da redução das taxas de fecundidade e de mortalidade Entre 2003 e 2013 a taxa de fecundidade se reduziu de 220 para 177 e taxa bruta de mortalidade por mil habitantes caiu de 635 para 604 no mesmo período Com isso entre 2003 e 2013 a população entre 16 e 64 anos aumentou sua participação de 6353 para 6675 por cento na população total isto é passou de 11475 para 13419 milhões o número de pessoas em idade produtiva capazes de fomentar o consumo e a formação de capital23 Em síntese fatores diversos contribuíram para estimular a demanda doméstica e consequentemente o crescimento econômico Embora tenha beneficiado praticamente todas as indústrias o impacto foi distinto conforme a elasticidaderenda da demanda e competitividade setorial que serão analisados na próxima seção 4 Evolução e vazamento de demanda da indústria de transformação por intensidade tecnológica24 O distanciamento nas trajetórias de crescimento da produção industrial e da demanda industrial demonstrados no Gráfico 2 evidencia a perda de competitividade da manufatura 21 Dados do IBGE para este parágrafo 22 No Brasil o trabalho com carteira assinada é permitido legalmente a partir de 16 anos e aposentadoria por idade ocorre a partir de 65 anos 23 Segundo dados do IBGE de projeção da população brasileira o bônus demográfico atingirá seu auge em 2023 quando a população entre 16 e 64 anos representará 6829 por cento da população brasileira 24 Nesta seção as variáveis monetárias como demanda total demanda doméstica produção industrial exportação importação e valor adicionado bruto estão mensuradas a preços básicos e constantes como todos os indicadores do Anexo 1 que utilizam essas variáveis O IBGE disponibilizou essas variáveis a preços do ano corrente e do ano anterior desde 2000 sendo assim tornou possível calcular os respectivos deflatores setoriais 10 brasileira no período recente25 O descasamento entre essas duas séries começou a partir de 2005 e tem se intensificado De 2004 a 2013 a produção industrial brasileira cresceu 339 por cento enquanto a demanda total 553 por cento A diferença nessas taxas explica o formato de abertura da boca do jacaré ao final do período uma lacuna entre a produção e a demanda que foi preenchida integralmente pelas importações Gráficos 2 e 3 Cerca de 40 por cento do crescimento da demanda vazou para o exterior na forma de importações Em alguns setores o vazamento de demanda foi ainda mais intenso conforme mostram os Gráficos 4 e 5 Gráfico 2 Produção demanda doméstica e demanda total da indústria de transformação brasileira 20002013 2003 100 Nota Todas as variáveis estão mensuradas a preços básicos e constantes Fonte Cálculos próprios a partir do Sistema de Contas Nacionais do IBGE Dividindo a indústria de transformação em dois grupos por intensidade tecnológica26 notamse padrões evolutivos com intensidades distintas A demanda total da manufatura de alta e médiaalta tecnologia doravante ATMAT teve crescimento 27 vezes superior à dos bens da manufatura baixa e médiabaixa tecnologia doravante BTMBT conforme o Gráfico 3 evidencia O descasamento entre a demanda total e produção industrial é muito maior nas indústrias de ATMAT Gráfico 3 logo no núcleo manufatureiro mais dinâmico tecnologicamente ocorreram os maiores vazamentos de demanda 25 A demanda total é uma variável proxy obtida pela soma da produção com as importações A diferença entre a demanda efetivada são os estoques Como estamos trabalhando com um período longo de 2000 a 2013 assumimos que a variação dos estoques tem pouco impacto na demanda efetiva 26 Este estudo adota a classificação industrial por intensidade tecnológica da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE mas agreguei as categorias de baixa e médiabaixa tecnologia num só grupo e alta e médiaalta tecnologia em outro grupo 1339 1553 1604 90 100 110 120 130 140 150 160 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Produção Demanda Total Demanda Doméstica 11 Notase que há três fases do crescimento da demanda iniciado em 2004 Primeiro até 2005 a produção industrial acompanhou passo a passo o crescimento da demanda não ocorrendo vazamento de demanda para o exterior neste primeiro momento a produção se expandiu principalmente pela diminuição da capacidade ociosa na maioria dos setores Segundo de 2006 a 2008 a despeito do vazamento de demanda observado ele ocorreu com elevação da produção industrial e do investimento Terceiro após 2009 iniciase um período em que há o maior vazamento de demanda da magnitude de 20 pontos percentuais conforme o Gráfico 2 ou de 46 pontos percentuais para a ATMAT Gráfico 3 sendo que neste último período a produção perdeu fôlego e a demanda continuou vigorosa Gráfico 3 Produção e demanda da indústria de transformação brasileira por intensidade tecnológica 20002013 2003 100 Nota Todas as variáveis estão mensuradas a preços básicos e constantes Fonte Cálculos próprios a partir do Sistema de Contas Nacionais do IBGE Os fatores explicativos desses descasamentos inclusive no nível setorial veja Gráficos 4 e 5 e Anexo 1 ainda não estão consolidados na literatura brasileira A sobrevalorização cambial aguda na maior parte do período é apontada como principal causa por muitos analistas uma vez que ela tornou as importações mais competitivas em território nacional inclusive dos bens acabados Apesar da apreciação cambial Bastos et al 2015 verificaram que as 453 maiores empresas da indústria brasileira tiveram boa rentabilidade e elevaram os investimentos no período de 2004201027 mas esses investimentos foram insuficientes para elevar o estoque de capital na maioria dos setores na quantidade necessária 27 Entre 2003 e 2012 a rentabilidade das 453 maiores empresas industriais foi de 165 por cento sobre o patrimônio líquido Este percentual é um pouco acima dos rendimentos dos títulos brasileiros de baixo risco Certamente essa rentabilidade não foi obtida apenas na esfera produtiva Estudos futuros poderiam decompor a rentabilidade entre as atividades produtivas financeiras e da revenda de produtos importados que tornouse relevante no período 1236 1335 90 100 110 120 130 140 Baixa e médiabaixa tecnologia Produção Demanda Total 1531 1892 90 110 130 150 170 190 Alta e médiaalta tecnologia Produção Demanda Total 12 para suprir todo o crescimento da demanda Messa 2015 calculou o estoque de capital setorial da indústria de transformação entre 2002 e 2010 e de modo surpreendente verificou que ele teve evolução negativa na maioria dos setores Bielschowsky Squeff e Vasconcelos 2015 suspeitam que o ciclo de investimentos industriais dos anos 2000 foi concentrado em modernização e reposição da depreciação tendo contribuído pouco para a expansão e diversificação produtiva Desse modo segundo esses autores a apreciação cambial desestimulou o investimento em expansão e diversificação mas não em modernização Dado esse perfil dos investimentos era de se esperar que poupassem mão de obra mas vários setores tiveram aumento expressivo da força de trabalho Anexo 1 À luz das informações do Anexo 1 é difícil imaginar que em metade dos setores da indústria de transformação em que houve aumento considerável da produção e do emprego não tenha havido expansão da capacidade produtiva embora insuficiente para suprir completamente o crescimento vigoroso da demanda Especialmente após a crise de 2008 houve forte retração da demanda nas economias centrais e as empresas transnacionais ETNs com filiais em vários países que abasteciam essas economias começaram a redirecionar sua produção e estoques industriais para países com demanda aquecida como o Brasil Essa estratégia de otimização da escala produtiva das ETNs em escala global contribuiu para a perda de fôlego dos investimentos industriais no Brasil no período pós crise mundial momento em que houve o maior vazamento de demanda Ressaltase que no Brasil especialmente nos setores mais intensivos em tecnologia há predomínio de filiais de ETNs O comércio internacional entre matriz e filiais e entre as ETNs representa cerca de 34 do comércio global por isso essas empresas tem elevado poder de influenciar o fluxo de importações e produção nos locais em que atuam Vale enfatizar que a produção industrial brasileira não tinha um crescimento expressivo desde a década de 1970 especialmente no caso das indústrias de ATMAT em que a produção industrial cresceu 531 por cento entre 2004 e 2013 Gráfico 3 Conforme mencionado na seção anterior o crescimento industrial foi puxado principalmente pela significativa geração de empregos formais aumento real do salário mínimo boom do crédito apreciação cambial crescimento populacional e a maior escala das transferências sociais que turbinaram a demanda doméstica que inclusive teve desempenho superior à demanda total Anexo 128 Ressaltase que a demanda doméstica por itens da indústria de transformação cresceu acima da demanda doméstica de toda a economia Anexo 1 A demanda doméstica dos itens de ATMAT cresceu num ritmo 761 por cento acima da economia total Anexo 1 28 A diferença entre a demanda total e a demanda doméstica é que a primeira inclui as exportações 13 O padrão evolutivo distinto entre os dois grupos por intensidade tecnológica pode ser explicado pela melhora substantiva ocorrida na distribuição de renda e pela demanda reprimida por produtos das indústrias de ATMAT Medeiros 2015 Entre 2003 e 2013 as classes econômicas A B e C se expandiram muito mais que as classes D e E O perfil da classe AB brasileira é próxima da classe média tradicional norteamericana que possui dois carros e dois cachorros mas não caracteriza bem a classe média mundial que é representada pela classe C ou a chamada nova classe média Neri 2014 Em 2003 9885 milhões de pessoas 547 da população brasileira pertenciam as classes DE já em 2013 esse número caiu para 6208 milhões de pessoas 309 do total Neri 2014 p 2429 Com isso a classe C inflou de 6789 milhões de pessoas 376 do total para 11256 milhões de pessoas 560 do total no mesmo período e ainda as classes A e B também cresceram de 1389 milhões 77 para 2640 milhões 131 de pessoas Neri 2014 p 2430 Desse modo entre 2003 e 2013 57 milhões de pessoas mais do que a população da Inglaterra ascenderam para as classes ABC A geração de empregos formais e o aumento real do salário mínimo provocou um aumento extensivo das famílias das classes A B e C De um lado as classes de maior renda tem um padrão de consumo concentrado em produtos mais elásticos à renda como automóveis bens de informática e serviços de maior qualidade que também exigem insumos da indústria Por outro lado as classes de menor renda têm seu consumo direcionado aos produtos essenciais de menor elasticidaderenda como moradia alimentos e vestuário Nesse sentido a elasticidaderenda da demanda é muito superior para os bens das indústrias de AT MAT do que para os bens de BTMBT Provavelmente a mudança de composição na renda das famílias em direção as classes A B e C explica em grande medida a maior demanda por produtos mais elásticos à renda Também o crescimento do crédito para a pessoa física contribuiu para explicar a maior demanda dos produtos de ATMAT que possuem maior valor unitário especialmente dos produtos de informática eletrônicos e automóveis Competitividade e produtividade industrial A perda de competitividade industrial no século XXI pode ser avaliada a partir da evolução dos coeficientes de comércio do saldo comercial e da produtividade do trabalho que estão setorialmente exibidos no Anexo 1 29 Em janeiro de 2014 a classe E captava as famílias com renda inferior a 17 salário mínimo SM classe D entre 17 e 28 SM classe C entre 28 e 119 SM classe B entre 119 e 156 SM e a classe A acima de 156 SM Em 2013 uma família típica brasileira era composta por 3 pessoas 30 Entre 2003 e 2014 o coeficiente de Gini reduziuse de 0583 para 0518 o menor valor desde a década de 1960 confirmando a redução na desigualdade da renda domiciliar per capita brasileira Fonte IPEA a partir dos dados da PNAD 14 Entre 2003 e 2013 o coeficiente de penetração das importações CPI duplicou de 135 para 268 por cento O aumento foi generalizado para todos os setores da indústria de transformação No mesmo período o CPI das indústrias de BTMBT aumentou de 59 para 136 por cento e para as indústrias de ATMAT elevouse de 252 para 412 por cento Anexo 1 Estruturalmente o CPI das indústrias de BTMBT tecnologia é menor que o das indústrias de ATMAT pois estas últimas são mais intensivas em montagem e possuem cadeias de valor mais fragmentadas internacionalmente As importações em especial de insumos e componentes são benéficas à medida que promovem ganho de eficiência produtiva e aumento das exportações Porém os importados ganharam participação tanto na demanda doméstica de bens acabados quanto na de bens intermediários Morceiro 2012 cap 3 enquanto o coeficiente de exportação permaneceu estável em torno de 15 por cento Anexo 1 Há evidências de que o expressivo crescimento da produção industrial brasileira especialmente dos setores industriais de ATMAT ocorreu com aumento do conteúdo importado isto é com menor transformação físicaquímicabiológica doméstica por unidade de produto Observase que o aumento do conteúdo importado foi uma estratégia reativa ainda que de modo parcial que a indústria brasileira adotou para defender o mercado interno das importações de bens acabados Ao analisar os multiplicadores de produção e os índices de ligação intersetoriais de Hirschman Rasmussem Pereira 2016 concluiu que o tecido industrial brasileiro está mais fragilizado31 enquanto Cassiolato e Fontaine 2015 afirmaram que a tendência é esvaziamento da estrutura produtiva O saldo comercial da indústria piorou bastante inclusive entre os setores de BTMBT que tradicionalmente costumavam gerar saldo positivo Anexo 1 Em 2003 a indústria de transformação detinha saldo comercial positivo da ordem de 27 por cento da produção industrial mas em 2013 tornouse negativo em 165 por cento Entre as indústrias de AT MAT o déficit elevouse em 30 pp em relação a produção de 109 para 408 por cento Anexo 1 Nesse período praticamente todos os setores exceto outros equipamentos de transporte apresentaram substantiva piora no saldo comercial Vários autores tem alertado que o real forte dificulta o país de alcançar a competitividade internacional das exportações de produtos manufaturados BresserPereira 2012 Cano 2012 A perda de competitividade internacional is not necessarily due to inefficiencies but rather due to the anomaly of an appreciated exchange rate resulting from the dictates of inflation targeting Amann e Baer 2012 p 417 que tem prejudicado o setor industrial Baer 2015 p 13 31 Esses multiplicadores e índices só captam a fragilização em termos relativos não absolutos 15 Em 2013 15 dos 22 setores de atividade da indústria apresentaram déficit comercial Anexo 1 Destacase negativamente o setor de fabricação de equipamentos de informática produtos eletrônicos e ópticos em que o déficit comercial atingiu 936 por cento da produção industrial em 2013 Anexo 1 Neste ano os setores de máquinas e equipamentos e equipamentos elétricos tiveram déficit comercial de aproximadamente 580 por cento da produção autopeças de 489 por cento e químicos de 431 por cento Ou seja os maiores déficits ocorrem em setores que pagam salários em média duas vezes maior que o salário médio da indústria de transformação desse modo ao importar o Brasil transfere para o exterior empregos qualificados e com elevado potencial de desenvolver tecnologias Morceiro 2012 A industrialização brasileira foi realizada com a forte presença das ETNs especialmente nos setores de maior intensidade tecnológica Esse perfil foi reforçado com a desnacionalização recente em alguns setores Cassiolato Szapiro e Lastres 2015 No entanto após várias décadas de proteção comercial período ISI redução de impostos e financiamentos subsidiado do governo brasileiro inclusive para inovação as filiais de ETNs tem tido progresso fraco no desenvolvimento tecnológico brasileiro inclusive inferior ao esforço das empresas nacionais na maioria dos setores produtivos Cassiolato et al 2014 Cassiolato e Fontaine 2015 Esses últimos autores argumentam que as filiais de ETNs podem estar bloqueando o desenvolvimento tecnológico do país ao se limitarem a adaptação e melhorias de produtos e processos desenvolvidos no exterior e montagem com os principais componentes tecnológicos importados inclusive importando os bens de capital dos produtos adaptados No período de maior crescimento da produção industrial entre 2004 e 2013 a produtividade do trabalho decresceu 05 por cento ao ano Diversos estudos recentes a partir de base de dados distintas verificaram evolução da produtividade do trabalho ou total dos fatores negativa ou muito baixa ver De Negri e Cavalcante 2014 2015 e Silva Menezes Filho e Komatsu 2016 Dos 22 setores exibidos no Anexo 1 14 tiveram evolução negativa da produtividade do trabalho e os demais apresentaram crescimento baixo O Anexo 1 apresenta o crescimento anual do valor adicionado bruto PIB a preços básicos emprego e produtividade do trabalho entre 2004 e 2013 Pela lei de KaldorVerdoorn Kaldor 1966 a taxa de crescimento da produtividade deve ser igual à taxa de crescimento da produção neste caso valor adicionado bruto menos a taxa de crescimento do emprego Ao fazer essa subtração a produtividade calculada exibida no Anexo 1 está coerente com a lei de Kaldor Verdoorn tanto no nível agregado como na maioria dos setores por exemplo o valor 16 adicionado da economia cresceu 28 por cento aa e o emprego 33 por cento aa enquanto a produtividade do trabalho retraiuse 05 por cento aa 28 menos 33 05 A melhor situação para qualquer país em desenvolvimento com crescimento populacional positivo é aquela em que ocorre aumento da produtividade do trabalho ao mesmo tempo em que se mantém ou se expande o volume de empregos enquanto o pior cenário é quando ocorre diminuição do nível de emprego e da produtividade Nesse sentido o Brasil pode ser caracterizado como um caso intermediário com evolução desfavorável da produtividade do trabalho e crescimento elevado do emprego Ressaltase que dentre os 22 setores de atividade somente quatro apresentaram evolução negativa do valor adicionado Desse modo o baixo crescimento da produtividade foi obtido com elevado volume de novos empregos em praticamente todos os setores Apesar da produtividade fraca o Brasil provavelmente teria tensões sociais caso não tivesse gerado volume tão grande de novos empregos Cavalcante e De Negri 2015 afirmaram que há um consenso sobre evolução ruim da produtividade industrial no século XXI mas não quanto as suas causas Grosso modo no âmbito setorial a produtividade do trabalho tem correlação positiva com o estoque de capital per capita incremento tecnológico e capital humano Vejamos três hipóteses da evolução negativa da produtividade Primeiro não houve aprofundamento de capital per capita Apesar do bom ciclo de investimentos mesmo se considerar a hipótese que parcela substantiva tenha sido destinada ao aumento da capacidade produtiva a expansão da força de trabalho foi muito robusta de modo que o estoque de capital per capta provavelmente não cresceu na maioria dos setores Segundo vários setores da indústria de transformação aumentaram de modo substantivo a intensidade em montagem com operações mínimas em detrimento da transformação físicaquímicabiológica por unidade de produto principalmente em indústrias mais dinâmicas No caso das indústrias de ATMAT em que a produção e o emprego aumentaram bastante no Brasil não se desenvolve nem se produz de fato alta tecnologia apenas montase produtos a partir de tecnologia importada para atender o mercado doméstico sendo raras as exceções O país tem importado num ritmo cada vez mais intenso a maioria dos insumos e componentes tecnológicos Os indicadores baixos e estagnados de desenvolvimento tecnológico e inovação em comparação com os países fornecedores dessas tecnologias são evidências disso Outra evidência que suporta esse ponto é que entre 2004 2013 houve aumento volumoso de empregos formais que pagam entre 05 e 2 salários mínimos SM porém ocorreu demissão em todas as faixas salariais acima de 2 SM para a indústria de transformação e em praticamente todos os seus setores sugerindo uma piora nas 17 funções executadas pelos trabalhadores Entre 2004 e 2013 o saldo líquido anual acumulado entre admitidos e demitidos foi de 22 milhões de trabalhadores sendo 34 milhões admitidos e 12 milhão demitidos No grupo de admitidos a concentração se deu nas faixas que recebem até 2 SM principalmente entre 05 a 15 SM e entre o total de demitidos a concentração ocorreu na faixas de 20 a 70 SM conforme informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho CAGEDMTE Esses empregos de baixos salários provavelmente estão ligados às operações fabris mínimas que a indústria nacional tem sido submetida Em síntese as práticas de montagem relativamente mais simples provavelmente contribuíram pouco para a agregação de valor e incremento de produtividade Terceiro mas não menos importante a sobrevalorização cambial aguda na maior parte do período além de contribuir para a ocorrência das duas hipóteses acima limitou os aumentos de preços dos produtos industriais diminuindo o faturamento potencial na esfera produtiva Menor faturamento menor produtividade Entre 20042013 a inflação das importações de produtos da indústria de transformação foi baixíssima de apenas 124 por cento ao ano e em alguns setores de alta e médiaalta tecnologia foi negativa ou próxima de zero segundo cálculos próprios a partir do SCNIBGE32 Outros fatores estruturais estão presentes no tecido industrial brasileiro há muito tempo Segundo informações da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos ABIMAQ o parque industrial brasileiro é relativamente velho e com menos máquinas automáticas Em 2015 a idade média do parque industrial brasileiro era de 17 anos o dobro do verificado nos países altamente industrializados por exemplo na Alemanha é 8 anos Estadão 862016 Ademais o estoque de capital por trabalhador brasileiro é baixo cerca de ¼ do americano ou do japonês33 Com exceção do período pós 2004 em poucos momentos nos últimos 35 anos o país teve crescimento da demanda expressivo que justificassem atualização tecnológica generalizada Os obstáculos sistêmicos e institucionais têm se acumulado ano a ano e minam a produtividade industrial em especial a infraestrutura defasada e deficiente modais de transporte em particular qualidade ruim do sistema educacional ambiente de negócios pouco favorável e alargamento do gap tecnológico perante os países líderes Amann e Baer 2012 Baer 2015 além da carga tributária incidente sobre os produtos industriais ser elevada e complexa Morceiro 2012 p 218 Além das graves dificuldades de se fazer negócios no 32 Deflator anual das importações setoriais alguns casos negativos entre 20042013 outros equipamentos de transporte 30 produtos de metal 15 máquinas aparelhos e materiais elétricos 14 equipamentos de informática produtos eletrônicos e ópticos 09 máquinas e equipamentos 05 e autopeças e acessórios 02 33 Nota técnica não publicada intitulada Plano de Modernização do Parque Industrial Brasileiro MODERMAQ Abimaq junho2014 18 Brasil World Bank 2016 Menezes Filho et al 2014 enfatizaram que a maioria das empresas possuem práticas gerenciais ruins e na área da educação destacaram que a mão de obra formada no Ensino Superior é relativamente escassa e pouco concentrada em áreas relevantes à atividade inovativa como engenharias e ciências exatas e naturais Grau de abertura e integração as cadeias globais de valor Todo mês surgem notícias nos jornais de grande circulação no Brasil de que o país é fechado e que sua indústria é pouco integrada as cadeias globais de valor CGV por isso está indo na contramão da globalização produtiva Ao observar os coeficientes de comércio setorial fica claro que o Brasil é bastante integrado as CGV pelo lado das importações que é o fenômeno relevante da integração Em 2013 o CPI brasileiro foi maior que o de países ditos integrados as CGV como Japão China e Coréia do Sul no mesmo nível da União Europeia considerada como bloco e próximo dos Estados Unidos34 Mas o Brasil exporta pouco em relação aos seus pares especialmente nos setores mais intensivos em tecnologia O Anexo 1 deixa claro que as exportações são o calcanhar de Aquiles da manufatura brasileira sugerindo que é na agenda de aumentar as exportações que os defensores da abertura deveriam concentrar seus esforços Na década de 1990 houve um intenso debate no Brasil entre os autores favoráveis a uma ampla abertura comercial e a agenda liberal como um todo privatização desregulamentação etc e aqueles mais pragmáticos quanto à intensidade dessa agenda Os autores pró abertura argumentavam que o país teria acesso a insumos intermediários no estado da arte que promoveria eficiência produtiva e com isso aumento das exportações Atualmente com frequência esses argumentos são trazidos à tona para justificar uma nova rodada de abertura comercial O Anexo 1 deixa claro que entre 2003 e 2013 o CPI aumentou muito na maioria dos os setores produtivos e 100 por cento para a indústria de transformação certamente melhorando a sua eficiência produtiva mas o coeficiente de exportações permaneceu imutável e até declinou nos setores mais tecnológicos Ou seja as importações por si só não trouxeram competitividade para as exportações35 34 Informações de um trabalho ainda não publicado de Paulo César Morceiro e Vinícius Rena Pereira 35 Sarti havia chamado atenção a esse ponto na defesa da minha dissertação de mestrado em março2012 e recentemente mencionou isso Sarti 2015 p531 19 Desempenho e vazamento de demanda setorial36 A indústria de transformação é composta por diversos setores que são heterogêneos entre si e no Brasil essa disparidade é bastante elevada A classificação setorial utilizada aqui é compatível com a última versão da CNAE37 No total são 22 setores analisados 14 pertencentes a indústria de BTMBT e 8 de ATMAT Uma vantagem desses dados setoriais é que todas as variáveis utilizadas estão na mesma nomenclatura durante todo o período evitando problemas de alocação e as variáveis monetárias foram deflacionadas pelos respectivos deflatores setoriais calculados a partir da mesma base de dados Entre 2003 e 2013 a indústria de ATMAT teve um crescimento da produção acumulado de 531 por cento e a indústria de BTBT de 236 por cento enquanto a indústria de transformação cresceu de 339 por cento Com isso as indústrias ATMAT aumentaram sua participação relativa em 5 pp na produção manufatureira perfazendo 397 por cento do total em 2013 Anexo 1 O crescimento do emprego de 50 por cento ao ano também foi mais vigoroso nas indústrias de ATMAT que nas de BTMBT 28 por cento ao ano Assim a composição tanto da produção quanto do emprego melhorou a favor das indústrias de ATMAT Anexo 1 Entretanto a estrutura produtiva da manufatureira brasileira ainda é muito dependente das indústrias intensivas em recursos naturais e em trabalho que compõem o agregado de BT MBT o qual concentrou três quintos da produção e 776 por cento do emprego da manufatura em 2013 A produção da indústria automobilística e de outros equipamentos de transporte navios aviões motocicletas e veículos ferroviários dobrou de tamanho no período de análise e apresentou a melhor performance setorial ver Gráficos 4 e 5 e a evolução de cada setor A primeira teve sua dinâmica puxada pela demanda doméstica e a segunda principalmente pelo mercado doméstico e externo Entre 2004 e 2013 a demanda doméstica de autoveículos que inclui automóveis caminhões e ônibus teve crescimento acumulado de 1689 por cento Gráfico 4 Essa demanda robusta foi atendida em parte com produção doméstica que cresceu 1006 por cento e pelas importações pois o CPI triplicou Com isso o setor de autoveículos elevou de 54 para 81 por cento a sua participação na indústria de transformação Anexo 1 Segundo a 36 Todas as informações desta seção e da próxima são do Anexo 1 caso contrário será mencionado 37 Os setores estão desagregados numa classificação específica do SCNIBGE série retropolada perfeitamente compatível com as divisões nível de 2 dígitos da última versão da CNAE 20 as diferenças são que o setor de alimentos está junto com o de bebidas e preferi deixar separado a fabricação de automóveis caminhões e ônibus das fabricantes de autopeças que apresentaram desempenho distintos no período sendo os únicos que não se encontram em 2 dígitos 20 ANFAVEA Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores a produção de autoveículos elevouse de 168 para 371 milhões de unidades entre 2003 e 2013 enquanto o licenciamento de veículos no país proxy da demanda doméstica elevouse de 143 para 377 milhões no mesmo período O licenciamento de autoveículos importados aumentou dez vezes de 7010 para 70685 mil enquanto as exportações aumentaram de 39283 para 56511 mil unidades Esses números em unidades físicas confirmam os valores monetários a preços constantes exibidos no Gráfico 4 e Anexo 1 e deixa claro a vitalidade do mercado brasileiro que em 2013 foi o quarto consumidor e o sétimo maior produtor de autoveículos do planeta ANFAVEA 2015 No entanto a produção nacional de autopeças não acompanhou o boom da demanda doméstica de autoveículos A demanda doméstica de autopeças teve crescimento acumulado de 1048 por cento mas a sua produção aumentou 348 por cento Gráfico 4 O coeficiente de exportação de autopeças caiu um pouco e o CPI aumentou de 279 para 488 por cento isso fez com que o superávit comercial de 21 fosse revertido para déficit de 488 por cento da produção entre 2003 e 2013 Anexo 1 Logo a produção de autoveículos ocorreu com grande aumento do conteúdo importado além das importações de unidades acabadas que aumentaram 10 vezes Certamente a alteração dos preços relativos imposta pela apreciação cambial modificou a estratégia de sourcing das montadoras que intensificaram as importações entre as filiais da própria corporação instalada em outros países Alguns fatores causaram forte impacto nesse setor como o aumento de 125 milhões de pessoas na classe AB e de 447 milhões na classe C a expansão da oferta de crédito e alongamento do prazo para aquisição de veículos e a redução das alíquotas de IPI Imposto sobre Produtos Industrializados a partir de 2009 Para veículos populares de 1000 cilindradas a alíquota de IPI diminuiu de sete para zero por cento em alguns períodos com bom impacto no preço do automóvel desde a crise internacional até 2013 No Brasil ainda existe uma demanda reprimida por veículos devido à baixa penetração de veículos por habitantes38 e o carro é tido como um símbolo de ascensão social especialmente para a nova classe média O segmento de caminhões teve crescimento um pouco superior ao de veículos devido à expansão da produção agrícola e da atividade industrial e do aumento das exportações e do financiamento de longo prazo do programa FINAMEBNDES que em certos momentos teve taxas de juros reais negativas após a implementação do Programa de Sustentação do Investimento PSIBNDES a partir de 2009 A produção de outros equipamentos de transporte foi puxada pela demanda externa especialmente de aviões regionais da Embraer e pela demanda interna de navios e 38 Em 2013 a proporção era de um automóvel para cada 51 habitantes brasileiros enquanto nos Estados Unidos essa relação era de 12 e no Japão França e Alemanha de 17 conforme ANFAVEA 2015 21 motocicletas A Embraer se consolidou com a maior fabricante mundial de jatos regionais e sua produção é quase toda voltada à exportação O subsetor de motocicletas também se expandiu bastante a partir da montagem com pouca agregação de valor e foi puxado pela demanda interna A produção deste subsetor se concentra no estado do Amazonas no âmbito da Zona Franca de Manaus ZFM com elevado conteúdo importado mas ao contrário dos veículos a importação de motos prontas ainda é pequena e restrita a alguns modelos No subsetor naval uma mudança na legislação petrolífera modificou a realidade desse subsetor No início dos anos 2000 a Agência Nacional de Petróleo ANP exigiu um percentual mínimo de conteúdo local dos bens de capital utilizados na extração de petróleo e gás como critério de oferta nos leilões das áreas petrolíferas a serem concessionadas Com isso a produção do subsetor naval teve um boom pois o conteúdo local envolvido na montagem dos navios e plataformas de petróleo eram relativamente mais fáceis de serem cumpridos em relação aos componentes tecnológicos O número de empregados do subsetor naval passou de 208 para 607 mil entre 2003 e 2013 segundo informações da PIAIBGE Como reflexo o subsetor naval aumentou muito sua participação relativa dentro do setor de outros equipamentos de transportes enquanto o subsetor aeronáutico perdeu participação e os subsetores de motocicleta e equipamentos ferroviários mantiveram seu posto Estruturalmente o setor de outros equipamentos de transporte possui um elevado coeficiente comércio principalmente devido a produção de aviões que é o maior segmento do setor No entanto em 2013 os coeficientes de comércio estiveram muito acima do normal devido a um grande aumento nas exportações de embarcações e estruturas flutuantes que saltaram de US 15 bilhão para US 79 bilhões entre 2012 e 2013 em unidades foram exportadas sete plataformas de petróleo em 2013 ante a três em 2012 Folha de São Paulo 2412201339 Para gozar de benefícios fiscais e cumprir alguns índices de conteúdo nacional as petroleiras como a Petrobras precisaram afretar os navios e estruturas flutuantes a partir de uma empresa com propriedade no exterior para conseguir acessar o REPETRO40 Portanto as plataformas nunca saíram fisicamente do Brasil apenas a propriedade que mudou de nacionalidade para atender a uma regulamentação especial tal fato é captado pelas estatísticas de comércio de bens exportações e em serviços de aluguel de equipamento importações logo essa exportação de plataformas de petróleo é espúria e causa grande impacto nos coeficientes de comércio setorial 39 Na média de 2011 e 2012 o coeficiente de exportações e o CPI do setor foram ambos 41 por cento 40 Regime aduaneiro especial de exportação e importação de bens destinados às atividades de pesquisa e de lavra das jazidas de petróleo e de gás natural O REPETRO foi criado em 1999 quando o Brasil tinha vulnerabilidade externa elevada e necessitava da entrada de divisas 22 Gráfico 4 Vazamento de demanda setorial de alta e médiaalta tecnologia 20002013 Fonte Elaboração própria a partir do SCNIBGE 1188 1423 1446 90 100 110 120 130 140 Produtos químicos Produção Dem Total Dem Doméstica 1552 1682 1653 90 100 110 120 130 140 150 160 Produtos farmacêuticos Produção Dem Total Dem Doméstica 1745 2289 2481 90 110 130 150 170 190 210 230 250 Máquinas para escritório aparelhos e material eletrônico e produtos ópticos Produção Dem Total Dem Doméstica 1344 1753 1799 80 100 120 140 160 180 Máquinas aparelhos e materiais elétricos Produção Dem Total Dem Doméstica 1525 2008 2140 80 100 120 140 160 180 200 Máquinas e equipamentos inclusive manutenção e reparos Produção Dem Total Dem Doméstica 2006 2353 2689 80 130 180 230 280 Automóveis camionetas caminhões e ônibus Produção Dem Total Dem Doméstica 1348 1828 2048 80 100 120 140 160 180 200 Peças e acessórios para veículos automotores Produção Dem Total Dem Doméstica 1994 2411 1352 50 80 110 140 170 200 230 Outros equipamentos de transporte Produção Dem Total Dem Doméstica 23 Os equipamentos de informática de comunicação e produtos ópticos tiveram o terceiro maior crescimento e a segunda maior demanda entre os setores manufatureiros A demanda doméstica cresceu 1481 por cento e a produção 745 por cento entre 2004 e 2013 Gráfico 4 Esse setor produz os produtos mais dinâmicos do ponto de vista tecnológico e de crescimento da demanda no mundo No Brasil devido à má distribuição de renda grande parcela da população ainda tem demanda reprimida por computadores smartphones televisores de tela plana entre outros produtos desse setor Só para citar alguns exemplos entre 2003 e 2013 a produção de celulares passou de 2932 milhões para 6246 milhões de unidades de impressoras passou de 124 milhão para 518 milhões e de computadores pessoais e portáteis desktops laptops notebook handhelds tablets e semelhantes saltou de 103 milhão para 1293 milhões Este setor também possui segmentos de bens de capital41 além de ter produtos de uso dual que atendem famílias e empresas como computadores Logo parte da dinâmica deste setor é explicada pelo comportamento do investimento fixo que teve bom desempenho em alguns períodos De qualquer forma como no caso de autoveículos a produção doméstica dos equipamentos de informática e produtos de comunicação e ópticos não acompanhou o ritmo de crescimento da demanda e o setor que já era pouco competitivo perdeu ainda mais competitividade O coeficiente de exportação se reduziu de 141 para 35 por cento e o CPI aumentou de 369 para 502 por cento com isso o déficit comercial saltou de 362 para 936 por cento da produção o maior entre todos os setores Muitos produtos deste setor são produzidos na ZFM e no âmbito da Lei de Informática42 bens de informática telecomunicações e automação industrial seguindo um Processo Produtivo Básico PPB que varia de produto para produto mas tendo como essência a realização de operações fabris mínimas com elevadíssimo conteúdo importado Esse setor tem aumentado muito a parcela de insumos comercializáveis importados e possui baixa articulação com os demais setores produtivos domésticos Morceiro 2012 cap 3 A produção da maioria dos produtos deste setor não é muito distinta das maquilas pois os insumos e componentes importados representam cerca de 75 por cento do total Mas esse tipo de atividade com alto grau de maquila ainda é localizado em poucos segmentos como aeronaves cerca de 90 por cento dos insumos e componentes importados motocicletas 70 por cento medicamentos 60 por cento e alguns segmentos químicos como fertilizantes e defensivos agrícolas apesar do coeficiente de insumos comercializados importados ter se elevado bastante em praticamente 41 Como equipamentos transmissores de comunicação equipamentos de medida teste e controle instrumentos ópticos aparelhos eletromédicos e eletroterapêuticos e equipamentos de irradiação 42 Os benefícios fiscais abrangem os principais impostos e tributos brasileiros como o IPI PISCOFINS imposto de importação e ICMS em alguns casos tanto sobre o produto final como sobre as matériasprimas e componentes 24 todos os setores e em alguns de maneira muito preocupante Morceiro 2012 cap 3 Prochnik et al 2015 mostraram que a lógica dos PPBs tende a reproduzir essa situação mostrada acima e que o desenho de política industrial no setor de informática pode melhorar ao buscar maiores sinergias entre os PPBs e a exigência de PD além de priorizar as pequenas e médias empresas Os setores produtores de máquinas e equipamentos MEs máquinas aparelhos e materiais elétricos MAMEs e produtos de metal produzem de modo predominante bens de capital Há de se frisar que o setor de MAMEs têm segmentos relevantes de eletrodomésticos e de baterias que atendem respectivamente famílias e a indústria automobilística mas em geral esses setores têm suas dinâmicas puxadas pela FBCF realizada pela economia que teve bom desempenho em alguns períodos conforme visto na seção 2 O financiamento a taxas de juros baixas do programa PSIBNDES também pode ter contribuído para a dinâmica desses setores Os três setores tiveram crescimento da produção acima da média da manufatura especialmente o setor de MEs que teve expansão da produção de 525 por cento e de 1140 por cento da demanda doméstica ou seja com bastante vazamento de demanda Nos três setores o coeficiente de exportação permaneceu estável com ligeira queda para MEs mas o CPI aumentou bastante O CPI elevouse de 265 para 450 por cento no setor de MEs de 247 para 434 por cento no setor de MAMEs e de 68 para 210 por cento no setor de produtos de metal Anexo 1 As importações podem ser explicadas pela apreciação cambial concorrência estrangeira que tem fornecido bens de capital com financiamento integrado a taxas de juros baixas e a fragilidade tecnológica nacional nos bens de capital com elevado conteúdo de tecnologias de informação e comunicação TIC O Brasil tem melhor desempenho nos bens de capital sob encomenda mais pesados menos intensivos em TIC e intensivos em usinagemmetalurgia ou seja intensivos em recursos naturais e mão de obra e tem perdido competitividade a passos largos nos bens de capital seriados mais leves e intensivos em tecnologia Em alguns setores produtores de insumos intermediários como o setor químico metalurgia borracha e plásticos a produção doméstica cresceu pouco no máximo metade do crescimento observado da demanda ou seja o vazamento de demanda foi elevado nesses setores Gráficos 4 e 5 25 Gráfico 5 Vazamento de demanda setorial de baixa e médiabaixa tecnologia 20002013 1195 1229 1248 90 95 100 105 110 115 120 125 Alimentos e bebidas Produção Dem Total Dem Doméstica 951 1089 982 80 90 100 110 120 Produtos do fumo Produção Dem Total Dem Doméstica 863 918 1002 80 85 90 95 100 105 110 Couros e calçados Produção Dem Total Dem Doméstica 947 954 1246 70 80 90 100 110 120 Produtos de madeira exceto móveis Produção Dem Total Dem Doméstica 1004 1200 1237 90 100 110 120 130 140 Têxteis Produção Dem Total Dem Doméstica 1035 1235 1325 90 95 100 105 110 115 120 125 130 135 Vestuário e acessórios Produção Dem Total Dem Doméstica 1347 1411 1359 90 100 110 120 130 140 Celulose e produtos de papel Produção Dem Total Dem Doméstica 95 100 105 110 115 Jornais revistas e discos Produção Dem Total Dem Doméstica 26 Continuação do Gráfico 5 Fonte Elaboração própria a partir do SCNIBGE 1453 1520 1540 90 100 110 120 130 140 150 Refino de petróleo álcool e coque Produção Dem Total Dem Doméstica 1218 1439 1466 90 100 110 120 130 140 Borracha e plástico Produção Dem Total Dem Doméstica 1434 1622 1715 90 100 110 120 130 140 150 160 170 Outros minerais nãometálicos Produção Dem Total Dem Doméstica 1097 1225 1319 80 90 100 110 120 130 140 Metalurgia básica Produção Dem Total Dem Doméstica 1425 1665 1680 90 100 110 120 130 140 150 160 170 Produtos de metal exceto MEs Produção Dem Total Dem Doméstica 1267 1408 1465 90 100 110 120 130 140 150 Móveis e produtos diversos Produção Dem Total Dem Doméstica 27 Entre 2003 e 2013 o CPI do setor químico aumentou de 254 para 388 por cento e mais que dobrou nos outros dois setores enquanto o coeficiente de exportação permaneceu praticamente estável com destaque para o alto índice no setor metalúrgico A indústria química foi o único setor de ATMAT que cresceu menos que a indústria de transformação inclusive com baixa evolução do emprego Este setor tem sofrido bastante com as importações de modo generalizado em seus segmentos sendo os casos mais graves os segmentos de fertilizantes defensivos agrícolas e química fina tais como aditivos e catalisadores em que o país não tem produção suficiente para atender a demanda Outro grupo de setores predominantemente produtores de insumos como refino de petróleo outros minerais nãometálicos e papel e celulose tiveram crescimento acima da indústria de transformação A produção de refino e produtos derivados do petróleo inclusive de biocombustíveis teve crescimento expressivo de 453 por cento entre 2004 e 2013 suprindo quase todo o crescimento da demanda Gráfico 5 Os produtos deste setor entram como insumos direta e indiretamente em diversos setores da economia desde a agricultura até os serviços Mas foi principalmente a diminuição da razão autoveículos e motocicletas por habitantes que demandou bastante combustíveis A frota brasileira de autoveículos aumentou de 213 para 397 milhões e a de motocicletas de 42 para 131 milhões entre 2003 e 2013 segundo os relatórios anuais da ANFAVEA e SINDIPEÇAS Entre 2004 e 2013 a produção de minerais nãometálicos aumentou 425 por cento e a demanda doméstica 680 por cento Apesar de alguns produtos deste setor serem pouco comercializáveis cimento e tubos hidráulicos por exemplo o CPI triplicouse e alcançou 169 por cento em 2013 O crescimento desse setor foi definido principalmente pela expansão das construções e reformas residenciais43 num primeiro momento como resposta do crescimento da massa salarial aumento do crédito imobiliário e do prazo de pagamento que se ampliou de 20 anos para 30 anos e depois para 35 anos e num segundo momento pela execução do Programa Minha Casa Minha Vida a partir de 2009 que foi decisivo para elevar o crédito habitacional de 31 para 82 por cento do PIB entre 2009 e 2013 segundo dados do BCB O desempenho do setor de papel e celulose foi estimulado pela demanda doméstica e externa A produção supriu quase todo o aumento da demanda crescendo ligeiramente acima da indústria de transformação Este foi um dos poucos setores que aumentou o já elevado coeficiente de exportações e que apresentou saldo comercial positivo expressivo devido ao bom desempenho produtivo O maior produtor mundial de celulose de fibra curta em razão do 43 As obras ligadas a infraestrutura também se expandiram mas num ritmo moderado 28 clima favorável e da elevada eficiência no plantio e manejo de eucaliptos O eucalipto brasileiro demora entre 6 e 7 anos para poder ser colhido com alta produtividade enquanto o pinus celulose de fibra longa plantado em regiões de clima temperado demora em média entre 15 e 20 anos O encurtamento do ciclo devida do eucalipto foi obtido através de pesquisas em biotecnologia e engenharia genética conduzidas por empresas privadas pela Embrapa e outras instituições públicas de pesquisa universidades e institutos estaduais cujos esforços levaram à produtividade média por área plantada ser no mínimo 17 vezes maior frente a outros concorrentes mundiais Entretanto apesar de ser autossuficiente na fabricação de papel de fibra curta o Brasil importa cerca de 70 por cento do papel imprensa que utiliza a matériaprima de fibra longa da qual o país é carente além de tradicionalmente gozar de isenções tributárias neste produto como baixíssimo imposto de importação O setor de alimentos e bebidas corresponde a quase um quinto da manufatura brasileira Esse setor é muito competitivo no Brasil e internacionalmente porque o país tem vantagens competitivas na produção agropecuária e água de boa qualidade muito importante para o setor de bebidas há imensas quantidades de terras férteis chuvas regulares e sol na maior parte do ano No caso das terras menos férteis houve elevado desenvolvimento tecnológico realizado pela Embrapa e por diversos outros institutos públicos de pesquisa estaduais para melhorar a qualidade do solo e adaptar culturas a diferentes climas e solos Por isso a produção doméstica do setor de alimentos e bebidas atendeu praticamente todo o crescimento da demanda e detém o maior saldo comercial em montante44 O Brasil importa poucos alimentos prontos e insumos intermediários com exceção de trigo No caso dos setores intensivos em trabalho têxtil vestuário couros e calçados móveis e produtos diversos a demanda doméstica teve um aumento modesto assim como a demanda total que inclui as exportações que cresceu pouco porque esses setores perderam competitividade externa o que se refletiu no fraco desempenho da produção Esses setores ainda possuem baixo CPI mas nos anos 2000 o CPI triplicou no setor têxtil e moveleiro aumentou 4 vezes no setor de couros e calçados e 8 vezes no vestuário Esses setores vêm sofrendo com a competitividade asiática chinesa principalmente que possuem plantas com grande escala de produção e mão de obra a baixo custo além de serem muito sensíveis a apreciação cambial porque têm regimes de concorrência via preço Chama atenção a baixa demanda doméstica por calçados exatamente num período em que o poder de compra e perfil distributivo melhoraram Ao analisar dados físicos de produção e consumo de pares de calçados a partir da PIAProdutoIBGE e Abicalçados Associação Brasileira das Indústrias 44 Ressaltase que o setor de bebidas é estruturalmente pouco comercializável e teve melhor desempenho no período que o setor de alimentos pois possui maior elasticidaderenda da demanda que este último 29 de Calçados percebese que o consumo de pares de calçados aumentou num ritmo compatível com o ganho do poder aquisitivo e distributivo Mas o que explica o crescimento negativo da produção e praticamente nulo da demanda doméstica Há evidências de que houve uma mudança na composição da produção e do consumo em favor dos calçados mais baratos provocando uma queda substancial no preço médio dos pares Logo verificouse queda da produção em termos monetários mas não em unidades É preciso verificar se isso ocorreu e em que intensidade nos demais setores especialmente nos de menor elasticidade renda ligados ao padrão de consumo da baixa classe C 5 Conclusão Após um longo período de crescimento baixo e irregular a economia brasileira voltou a crescer acima da economia mundial na década compreendida entre 2004 e 2013 principalmente puxada pela demanda doméstica que gerou estímulos para diversos setores industriais A demanda doméstica por itens da indústria de transformação cresceu acima da demanda doméstica total sugerindo que o Brasil depende ainda mais da manufatura A partir dos dados que demonstramos e do contexto analisado é possível fazer um conjunto de considerações Primeiro houve um grande vazamento de demanda mesmo na presença de um bom crescimento da produção industrial em diversos setores da indústria de transformação Os maiores vazamentos de demanda para as importações ocorreram nos setores de alta e média alta intensidade tecnológica embora esses setores também apresentassem desempenho superior em produção e geração de emprego contribuindo para melhorar a composição da indústria de transformação Segundo se o setor manufatureiro tivesse se apropriado de quase todo o crescimento da demanda doméstica a participação da manufatura no PIB teria se elevado ao invés de ter se reduzido Logo a desindustrialização brasileira é um sintoma da perda de competitividade industrial e não da mudança de composição da demanda em direção ao setor de serviços como ocorreu nos países desenvolvidos No Brasil ainda há elevada demanda reprimida por produtos industriais não só de médiaalta e alta tecnologia Terceiro pelo lado da oferta o crescimento foi obtido quase que exclusivamente pela maciça incorporação de novos trabalhadores formalizados às atividades produtivas Não houve aumento do estoque de capital per capita incremento tecnológico ou capital humano atuando em tarefas mais nobres Ao contrário houve adição de trabalho pois o Brasil é um país com abundância de mão de obra que ainda é relativamente barata frente ao custo de 30 aquisição de bens de capital Esta opção favoreceu a não ocorrência de tensões sociais causadas por desemprego elevado Por isso a maioria dos setores da indústria de transformação registrou crescimento negativo da produtividade do trabalho e perda de competitividade evidenciada pelo crescente e elevado déficit comercial nos setores mais intensivos em tecnologia Até mesmo vários setores de baixa e médiabaixa tecnologia tradicionalmente superavitários passaram a apresentar déficits comerciais substantivos Quarto vários setores têm caminhado da indústria de transformação para a indústria de montagem especialmente os mais intensivos em tecnologia em que há elevada presença de empresas transnacionais Apesar do aumento da produção houve menor transformação físicaquímicabiológica por unidade de produto O aumento no volume de empregos de até dois salários mínimos e demissão em todas as faixas salariais superiores aumento nas importações de insumos e componentes especialmente os insumos com maior conteúdo tecnológico e alargamento do gap tecnológico frente aos países líderes são indícios de que a manufatura brasileira tem realizado menos transformação e mais operações simples de montagem com pouca agregação de valor ou seja tem se especializado em tarefas com menor habilidade em sustentar o crescimento da produtividade Quinto especialmente nos setores mais intensivos em tecnologia e com maior poder de transformação houve profunda regressão da base industrial produtiva e tecnológica por unidade de produto Nos setores que apresentaram melhor desempenho da produção o Brasil não produziu produtos de alta e médiaalta tecnologia apenas os montou Com raras exceções as filiais de empresas transnacionais se limitaram a fazer adaptações melhorias pontuais e controle de qualidade no Brasil como atividades mais nobres e importaram a maioria dos componentes tecnológicos Além disso no país essas empresas fazem uma pequena fração da pesquisa e desenvolvimento de seus pares nos países de origem inclusive com esforço tecnológico menor que as empresas nacionais45 Elas operam com alto índice de importação de insumos e componentes tecnológicos bloqueando o desenvolvimento inovativo nacional Cassiolato Szapiro e Lastres 2015 e como colocou Baer 2014 cap 10 as multinacionais estrangeiras geram benefícios e custos ao países hospedeiros No Brasil essas empresas geraram benefícios limitados na esfera produtiva e pouquíssimos desenvolvimentos tecnológicos Sexto a indústria nacional é integrada às cadeias globais de valor pelo lado das importações que é a lógica da integração mas não pelas exportações Os setores de alta e médiaalta tecnologia que ditam o ritmo das CGV mundo afora no Brasil têm um viés importador e antiexportador Como mostrado neste trabalho não será importando mais 45 Ver Cassiolato et al 2014 31 insumos e componentes no estado da arte que a manufatura ganhará eficiência para exportar Entre 2004 e 2013 o coeficiente de importação dobrou em alguns setores triplicou ou cresceu ainda mais porém o coeficiente de exportação permaneceu estável ou diminuiu É uma fragmentação introvertida que não gera exportações Nesse sentido uma nova rodada de abertura comercial via redução generalizada das tarifas de importação apenas aprofundará a trajetória recente da transformação industrial para a simples montagem e em alguns setores para a maquila Mas a revisão de distorções pontuais nas tarifas de importação é necessária especialmente nos casos de insumos produzidos por oligopólios Sétimo o país necessita urgentemente implementar uma agenda para elevar o coeficiente de exportação dos setores estruturalmente mais ativos nas cadeias globais de valor especialmente nas indústrias de alta e médiaalta tecnologia para desse modo estancar parcialmente o vazamento de demanda e administrar o elevado déficit comercial Já há competitividade nas indústrias intensivas em recursos naturais e neste caso manter uma taxa de câmbio competitiva resolveria a questão Nos setores intensivos em trabalho produzir no Brasil ficou caro portanto é preciso focar em qualidade e marketing para fugir da concorrência via preços com os países asiáticos Oitavo o país precisa avançar rapidamente na sua agenda estrutural e sistêmica para melhorar o ambiente de negócios e devolver a competividade para a atividade produtiva Para o setor industrial reduzir a carga tributária e a sua complexidade modernizar e ampliar a infraestrutura melhorar as práticas de gestão e manter a taxa de câmbio competitiva são fatores mais urgentes no curto e médio prazos além de melhorar a qualidade da educação e uma política industrial focalizada Nas últimas décadas além de falhar na agenda estrutural e sistêmica o país também cometeu falhas nas políticas industriais que tiveram um foco setorial muito abrangente com poucas exigências de contrapartidas Quando se prioriza todos os setores não se focaliza em nenhum Em resumo o Brasil ainda é um ator relevante na indústria mundial A indústria brasileira é diversificada e o país fabrica produtos complexos como carros aviões medicamentos químicos e eletrônicos Do ponto de vista tecnológico a produção da maioria desses produtos é uma ilusão estatística uma vez que não gera desenvolvimento tecnológico e poder transformador devido ao elevado conteúdo importado de componentes tecnológicos O país não está se especializando em tarefas de alto valor agregado e intensivas em habilidades como design marketing e PD o que é uma barreira ao progresso para um país populoso Para reverter esse quadro além de uma política macroeconômica coerente com o desenvolvimento industrial são necessárias políticas industriais com contrapartidas bem definidas e há bastante espaço para usar políticas de regulação setorial realizar acordos 32 comerciais de modo pragmático e adotar políticas educacionais coerentes com um projeto de desenvolvimento 6 Referências Amann E Baer W 2012 Brazil as an emerging economy a new economic miracle Brazilian Journal of Political Economy vol 32 n 3 128 JulSep p 412423 ANFAVEA Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores 2015 Anuário da Indústria Automobilística Brasileira 2015 São Paulo ANFAVEA Baer W 2014 The Brazilian economy growth and development 7ed Colorado Lynne Rienner Publishers Baer W 2015 Institutional obstacles to Brazils economic growth and development Revista de Desenvolvimento e Políticas Públicas Ano 1 n 1 ago p 617 Viçosa UFV Barros O Pereira R R 2008 Desmistificando a tese da desindustrialização reestruturação da indústria brasileira em uma época de transformações globais In Barros O e Giambiagi F org Brasil Globalizado p 299330 Editora Campus Rio de Janeiro 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1ed p 519543 Rio de Janeiro Elsevier Serrano F Summa R 2015 Aggregate demand and the slowdown of Brazilian economic growth from 20112014 Center for Economic and Policy Research aug Washington DC CEPR Silva F Menezes Filho N A Komatsu B 2016 Evolução da produtividade no Brasil comparações internacionais Policy Paper n 15 30p São Paulo Centro de Políticas Públicas CPP do Insper Singh A 1987 Manufacturing and deindustrialization In Eatwell J Milgate M Newman P org The New Palgrave A Dictionary of Economics Vol 3 London Macmillan Szirmai A Verspagen B 2015 Manufacturing and economic growth in developing countries 19502005 Structural Change and Economic Dynamics 34 p 4659 Tesouro Nacional 2016 Gasto social do governo central 2002 a 2015 Brasília Secretaria de Política Econômica Timmer M P Vries G J Vries K 2014 Patterns of structural change in developing countries GGDC Research Memorandum 149 Groningen Groningen Growth and Development Centre Thirwall AP 2002 The nature of economic growth an alternative framework for understanding the performance of nations Cheltenham UK Edward Elgar Tregenna F 2008 Characterising deindustrialisation An analysis of changes in manufacturing employment and output internationally Cambridge Journal of Economics 33 433466 UNCTAD United Nations Conference on Trade and Development 2003 Trade and Development Report 2003 United Nations Conference on Trade and Development Genneva United Nations UNIDO United Nations Industrial Development Organization 2015 Industrial Development Report 2016 The Role of Technology and Innovation in Inclusive and Sustainable Industrial Development Vienna UNIDO World Bank Doing business 2016 measuring regulatory quality and efficiency Washington DC World Bank Group 36 Anexo 1 Indicadores de desempenho da indústria de transformação brasileira entre 2003 e 2013 em porcentagem anobase 2003 Setores de atividade Participação na produção manufatureira Taxa de crescimento anual 20042013 Crescimento acumulado 20042013 Exportações sobre Produção Penetração das Importações Saldo Comercial sobre a Produção 2003 2013 PIB Ocupações Produtividade do trabalho Produção Demanda Doméstica Demanda total 2003 2013 2003 2013 2003 2013 Baixa e médiabaixa tecnologia 653 603 14 28 14 236 380 335 153 131 59 136 99 05 Alimentos e bebidas 206 184 08 43 33 195 248 229 177 169 38 69 145 107 Produtos do fumo 07 05 06 02 09 49 18 89 381 533 277 471 143 116 Têxteis 28 21 05 16 11 04 237 200 86 67 78 236 09 221 Artigos do vestuário e acessórios 26 20 04 21 17 35 325 235 81 15 23 182 59 204 Artefatos de couro e calçados 19 12 07 09 16 137 02 82 307 257 25 101 289 174 Produtos de madeira exclusive móveis 13 09 05 06 01 53 246 46 353 151 25 28 337 127 Celulose e produtos de papel 34 35 27 29 02 347 359 411 251 294 82 142 184 177 Jornais revistas e discos 13 11 06 20 14 102 106 104 02 00 01 03 00 03 Refino de petróleo coque e biocombustíveis 124 135 11 63 70 453 540 520 61 50 61 103 00 59 Borracha e plástico 37 34 17 49 31 218 466 439 81 73 102 247 23 231 Outros minerais nãometálicos 28 30 34 42 08 434 715 622 112 66 55 169 60 124 Metalurgia 58 47 13 38 23 97 319 225 330 304 102 224 253 102 Produtos de metal exceto MEs 35 37 39 37 01 425 680 665 67 68 68 210 01 180 Móveis e produtos das indústrias diversas 26 24 30 14 16 267 465 408 72 36 43 140 31 121 Alta e médiaalta tecnologia 347 397 47 50 02 531 944 892 170 172 252 412 109 408 Química 98 87 23 11 12 188 446 423 123 124 254 388 176 431 Farmacêutica 21 25 51 29 21 552 653 682 35 62 251 317 289 373 Equip de informática eletrônicos e ópticos 42 55 60 46 13 745 1481 1289 141 35 369 502 362 936 Máquinas aparelhos e materiais elétricos 26 26 33 59 24 344 799 753 113 108 247 434 177 575 Máquinas e equipamentos MEs 59 67 35 70 33 525 1140 1008 173 131 265 450 126 579 Automóveis caminhões e ônibus 54 81 71 51 19 1006 1689 1353 239 141 85 230 168 115 Peças e acessórios para veículos automotores 27 28 42 38 04 348 1048 828 293 239 279 488 21 488 Outros equipamentos de transporte 20 29 71 71 01 994 352 1411 316 832 192 707 153 426 Indústria de transformação 1000 1000 28 33 05 339 604 553 158 147 135 268 27 165 Economia total 38 20 17 455 536 536 72 76 62 115 11 44 Nota Todas as variáveis monetárias estão mensuradas a preços básicos e constantes exportações e importações a preços FOB Exceto instrumentos e materiais para uso médico e odontológico e de artigos ópticos Inclui instrumentos e materiais para uso médico e odontológico e de artigos ópticos Inclui manutenção reparação e instalação Fonte Cálculos próprios a partir do Sistema de Contas Nacionais do IBGE
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PAULO CÉSAR MORCEIRO WORKING PAPER SERIES Nº 201612 Department of Economics FEAUSP Sectoral demand leakage and competitiveness of the Brazilian manufacturing industry DEPARTMENT OF ECONOMICS FEAUSP WORKING PAPER Nº 201612 Sectoral demand leakage and competitiveness of the Brazilian manufacturing industry Paulo César Morceiro paulomorceirouspbr Research Group NEREUS The University of São Paulo Regional and Urban Economics Lab Vazamento de demanda setorial e competitividade da indústria de transformação brasileira PalavrasChave vazamento de demanda setorial produtividade do trabalho indústria de transformação competitividade industrial análise setorial Resumo Após duas décadas e meia de baixo crescimento o Brasil voltou a crescer de modo continuado e acima da economia mundial durante a década de 20042013 Esse crescimento foi puxado pela demanda doméstica e beneficiou diversos setores da economia principalmente da indústria de transformação Observouse significativo crescimento da produção e do emprego manufatureiros no período com aumento da participação das indústrias de alta e médiaalta intensidade tecnológica Entretanto parcela substantiva do crescimento da demanda vazou para o exterior na forma de importações em vários setores industriais com maior intensidade nos setores de alta e médiaalta tecnologia No período a manufatura brasileira perdeu bastante competitividade apresentou crescimento negativo da produtividade do trabalho e registrou déficits comerciais na maioria dos setores inclusive naqueles tradicionalmente superavitários O artigo também mostra que setores importantes do ponto de vista tecnológico estão caminhando da transformação para a simples montagem e alguns até para a maquila além de indicar que a indústria é integrada às cadeias globais de valor pelo lado das importações JEL Codes L6 O14 O40 Keywords sectoral demand leakages labor productivity manufacturing industry industrial competitiveness sectoral analysis Abstract After two and half decades of low growth Brazil grew on a continuous basis and above the worlds economy during the decade of 20042013 This growth was driven by domestic demand and generated benefits for various sectors of the economy especially the manufacturing industry There was significant growth in production and employment of manufacturing industry in the period with a higher share of high and mediumhigh technology industries However substantial portion of demand growth leaked to foreign countries in the form of imports in various industrial sectors with greater intensity in the sectors of high and mediumhigh technology In the period Brazilian manufacturing lost competitiveness presented a negative growth of labor productivity and registered trade deficits in most sectors including those traditionally surplus The article also shows that important sectors from a technological point of view are moving from processing for simple assembly and some even to the maquila and indicates that the industry is integrated into global value chains by imports 1 Vazamento de demanda setorial e competitividade da indústria de transformação brasileira1 Paulo César Morceiro FEAUSP2 Resumo Após duas décadas e meia de baixo crescimento o Brasil voltou a crescer de modo continuado e acima da economia mundial durante a década de 20042013 Esse crescimento foi puxado pela demanda doméstica e beneficiou diversos setores da economia principalmente da indústria de transformação Observouse significativo crescimento da produção e do emprego manufatureiros no período com aumento da participação das indústrias de alta e médiaalta intensidade tecnológica Entretanto parcela substantiva do crescimento da demanda vazou para o exterior na forma de importações em vários setores industriais com maior intensidade nos setores de alta e médiaalta tecnologia No período a manufatura brasileira perdeu bastante competitividade apresentou crescimento negativo da produtividade do trabalho e registrou déficits comerciais na maioria dos setores inclusive naqueles tradicionalmente superavitários O artigo também mostra que setores importantes do ponto de vista tecnológico estão caminhando da transformação para a simples montagem e alguns até para a maquila além de indicar que a indústria é integrada às cadeias globais de valor pelo lado das importações Palaraschave vazamento de demanda setorial produtividade do trabalho indústria de transformação competitividade industrial análise setorial Códigos JEL L6 O14 O40 1 Introdução Após duas décadas e meia de baixo crescimento 19802003 o Produto Interno Bruto PIB do Brasil voltou a crescer de modo continuado Entre 2004 e 2013 o PIB do país cresceu acima do mundial3 Este crescimento foi puxado majoritariamente pela demanda doméstica Embora praticamente todos os setores de atividade tenham sido beneficiados a indústria de transformação4 perdeu significativa participação no PIB algo que muitos economistas têm chamado de desindustrialização No entanto há uma diversidade de trajetórias entre os setores devido à heterogeneidade setorial da indústria brasileira Este artigo faz uma análise do desempenho da indústria de transformação brasileira no século XXI com um detalhamento setorial inclusive segmentando a indústria por intensidade tecnológica e lança luz sobre a capacidade da produção industrial suprir a demanda 1 O autor agradece a Milene Simone Tessarin Vinícius Rena Pereira e Joaquim Guilhoto por discutirem algumas questões A Milene Celso Neris Junior e Victor Prochnik por lerem e comentarem a primeira versão do texto A Capes pelo apoio financeiro Erros e imprecisões são de responsabilidade do autor 2 Graduado e mestre em Economia pela Unesp Doutorando em Economia área Economia do Desenvolvimento na FEAUSP Contato paulomorceirouspbr 3 O PIB do Brasil e do mundo cresceram 401 e 293 por cento ao ano respectivamente Banco Mundial 4 Doravante o termo indústria de transformação tem o mesmo significado que indústria e manufatura 2 Além desta introdução a seção 2 discorre brevemente sobre o desempenho de longo prazo da indústria brasileira A seção 3 apresenta os principais determinantes do crescimento econômico nos anos 2000 que impactaram os ajustamentos industriais A seção 4 mostra a evolução da indústria de transformação por intensidade tecnológica além disso apresenta um conjunto de dados e considerações concernentes à competitividade setorial ao grau de abertura e aos principais destaques setoriais quanto ao crescimento do produto produtividade emprego produção demanda coeficientes de comércio e saldo comercial Por fim na seção 5 exibe as conclusões 2 Desempenho de longo prazo da indústria de transformação brasileira Entre 1950 e 1980 o Produto Interno Bruto PIB brasileiro cresceu 737 por cento ao ano taxa de crescimento muito elevada e quase 3 pontos percentuais pp superior à registrada pela economia mundial Nesse período ocorreu uma intensa industrialização e a participação da indústria de transformação no PIB dobrou Gráfico 1 O período se caracterizou pela presença de planos definidos e planejamento por parte do Estado brasileiro como o Plano de Metas e o II PND que resultaram na implantação das indústrias de bens de consumo duráveis bens intermediários e bens de capital setores que eram considerados os mais difíceis de serem internalizados pelo país Em meados dos anos 1980 o Brasil possuía uma indústria integrada completa e diversificada Castro 1985 No entanto desde meados da década de 1980 a parcela da indústria de transformação no PIB começou a diminuir e em 2015 o nível obtido foi inferior ao observado no período préPlano de Metas 19561961 de Juscelino Kubitschek Gráfico 1 Com a perda de dinamismo da manufatura o crescimento do PIB diminuiu muito Entre 1980 a 2015 o PIB do país evoluiu pouco e em média um pp abaixo da economia mundial5 O país perdeu espaço no cenário mundial Em 1980 o Brasil correspondia à 27 por cento da manufatura global este percentual passou para 2 por cento em 2000 e 16 por cento em 2013 conforme informações das Nações Unidas Com isso o país passou do 7º para o 11º posto das nações manufatureiras líderes entre 1980 e 20136 No entanto o país ainda é um ator relevante em algumas cadeias globais de valor de alimentos produtos intensivos em recursos naturais e aviação regional 5 Com exceção dos 10 anos de crescimento bom entre 2004 e 2013 que será analisado nas próximas seções 6 Em 2007 o país foi ultrapassado pela Índia e em 2011 pelo México caindo da 9ª para a 11ª posição mundial no período recente 3 Gráfico 1 Indústria de transformação brasileira em porcentagem do PIB a preços básicos e correntes 19472015 e em porcentagem do emprego total 19502013 Nota Séries do PIB de 19471994 e emprego de 19501999 foram encadeadas para refletir a metodologia atual do Sistema de Contas Nacionais Referência 2010 que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística segue7 Fonte Elaboração própria a partir do SCNIBGE e Groeningen Growth and Development Centre GGDC de Timmer Vries e Vries 2014 Os economistas têm chamado de desindustrialização um declínio sustentado do nível absoluto eou da participação da indústria de transformação no emprego total eou no PIB SINGH 1987 p 302 CORIAT 1989 p 37 TREGENNA 2008 p 459 Outros autores também consideram desindustrialização a deterioração do balanço de pagamentos em especial do saldo comercial da indústria de transformação Morceiro 20128 A desindustrialização é qualificada como precoce ou prematura UNCTAD 2003 Ricupero 2005 Palma 2005 2008 quando a manufatura reduz sua participação no PIB bem antes de o país atingir a renda per capita de cerca de US 25 mil PPC a preços constantes de 2015 pois um nível baixo de renda limita a expansão do setor de serviços sofisticados e de elevada elasticidaderenda que é capaz de absorver as ocupações cedidas pela manufatura Nesse caso 7 Para encadear a série do PIB utilizou dados dos sistemas de Contas Nacionais homogêneos As fontes foram Contas Consolidadas para a Nação Brasil 19801993 IBGE DECNA outubro de 1994 e Sistema de Contas Nacionais Brasil 2003 IBGE 2004 que possui informações setoriais para o PIB e emprego desde 1990 a 2003 As quedas de participação nelas registradas são entre 1989 e 1990 de 32388 para 29084 entre 1994 e 1995 de 26790 para 23913 Observe que não utilizei dados de 1994 e 1995 do documento Contas Consolidadas para a Nação Brasil 19901995 IBGE DECNA outubro de 1996 como fizeram Bonelli e Pessoa 2010 porque as informações para 1995 são preliminares Para encadear a série do emprego utilizei dados de séries homogêneas do Groeningen Growth and Development Centre entre 1950 a 1990 Sistema de Contas Nacionais Brasil 2003 IBGE 2004 para o período 19901995 e SCN 2009 para o período 19952000 Há quebras pequenas nas séries de emprego entre 1994 e 1995 e entre 1999 e 2000 8 Há algumas definições sobre desindustrialização suas causas e consequências além de enfoques distintos conforme o grau de desenvolvimento dos países Para uma resenha dos principais estudos internacionais e brasileiro ver Morceiro 2012 e Hiratuka e Sarti 2015 1357 1787 1637 2167 2302 1381 1779 1140 1018 1179 1248 1369 1358 1017 1182 8 10 12 14 16 18 20 22 24 1947 1949 1951 1953 1955 1957 1959 1961 1963 1965 1967 1969 1971 1973 1975 1977 1979 1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009 2011 2013 2015 ind de transformação of PIB ind de transformação do emprego total 4 a economia se desfaz do seu principal setor dinâmico sem que nenhum outro assuma essa posição e fica armadilhada numa trajetória de baixo crescimento do produto per capita A desindustrialização tem consequências negativas principalmente para um país em desenvolvimento Quando se leva em consideração as trajetórias de crescimento de longo prazo a manufatura ainda possui características especiais9 que impulsionam o desenvolvimento a saber i possui maiores encadeamentos intersetoriais Hirschman 1958 cap 6 ii é a principal fonte de inovação e difusão de novas tecnologias Dosi Pavitt e Soete 1990 p 5354 pois cerca de 23 dos gastos em Pesquisa e Desenvolvimento PD são realizados pela manufatura Mckinsey 2012 iii alivia pressões no balanço de pagamentos Prebisch 1949 Thirlwall 2002 uma vez que realiza cerca de 23 ou mais das exportações Mckinsey 2012 iv é uma boa plataforma para a existência de outros setores pois compra 50 por cento de toda a produção de insumos intermediários no Brasil Morceiro 2012 v contribui desproporcionalmente para o crescimento da produtividade da economia ao apresentar elevadas economias estáticas e dinâmicas de escala Kaldor 1967 Mckinsey 2012 Rodrik 2007 ao mencionar fatos estilizados da manufatura afirmou que as maiores taxas de crescimento do PIB são obtidas na fase de industrialização Recentemente UNIDO 2015 e Szirmai e Verspagen 2015 além de revisitaram essas características sugeriram outras favoráveis à manufatura10 Sendo assim a manufatura é reconhecidamente importante e isto ficou claro após a crise de 2008 quando países desenvolvidos passaram a adotar medidas de reindustrialização Os EUA focaram na reconversão da manufatura avançada National Science and Technology Council 2012 e a União Europeia tem metas explícitas para elevar a participação da manufatura no PIB de 16 para 20 do PIB até 2020 European Commission 2012 No Brasil o debate sobre desindustrialização divide opiniões Por um lado a manufatura tem perdido expressiva participação no PIB e apresenta elevado déficit comercial Por outro não houve redução absoluta da produção industrial e o emprego manufatureiro ampliouse em termos absolutos e relativos desde o final dos anos 1990 Gráfico 111 No entanto o debate sobre desindustrialização no Brasil tem se concentrado desproporcionalmente no comportamento da indústria de transformação no nível agregado e seus efeitos macroeconômicos com pouquíssimos estudos setoriais12 Este estudo reconhece a 9 Kaldor 1966 1967 foi seminal ao abordar a desindustrialização e as características especiais da manufatura 10 Atualmente temse reconhecido que os serviços intensivos em conhecimento possuem algumas características da manufatura 11 Para autores que argumentam que há desindustrialização no Brasil veja BresserPereira e Marconi 2010 Cano 2012 e Nassif Feijó e Araújo 2015 Para o diagnóstico contrário Nassif 2008 Barros e Pereira 2008 Bonelli Pessoa e Matos 2013 e Britto 2015 12 Morceiro 2012 foi um dos primeiros autores a realizar um estudo setorial 5 profunda heterogeneidade setorial da manufatura brasileira e os ajustamentos setoriais que ocorreram no século XXI Por isso serão exibidos os desempenhos setoriais da manufatura nos anos 2000 Mas antes a próxima seção apresenta os determinantes do crescimento brasileiro que influenciaram o setor industrial nesse período 3 Determinantes do crescimento econômico do Brasil nos anos 2000 Entre 20012015 o PIB brasileiro cresceu 277 por cento ao ano abaixo da média mundial Houve 10 anos de crescimento continuado de 401 por cento ao ano entre 2004 e 2013 Neste período o PIB per capita evoluiu 290 por cento ao ano taxa elevada e só superada pela registrada na década de 1970 1968198013 Entretanto em 2014 o produto cresceu apenas 010 por cento foi negativo em 385 por cento em 2015 e as projeções indicam que o PIB será negativo em 2016 Por ser um estudo com enfoque setorial em que há dificuldade de se obter dados atualizados na mesma classificação as análises se concentrarão no período de 2000 a 2013 especialmente na década 20042013 de desenvolvimento elevado Nesse período vários fatores contribuíram para o crescimento do PIB e para a expansão da demanda industrial brasileira Do ponto de vista da demanda agregada o consumo das famílias foi o vetor de maior dinamismo sendo o componente da demanda que mais contribuiu para o crescimento em todos os anos desde 2004 Sarti 2015 p 524 Miguez 2016 cap 2 A formação bruta de capital fixo FBCF e as exportações tiveram destaque secundário em períodos distintos enquanto o consumo do governo teve contribuição marginal Entre 2001 e 2003 as exportações foram o componente da demanda agregada que mais contribuiu para o crescimento do produto e em 2004 e 2005 foram o segundo componente mais dinâmico atrás apenas do consumo das famílias Nesse período as exportações tiveram uma forte expansão devido à desvalorização cambial de 1999 e também pela crescente demanda asiática chinesa em especial por commodities agrícolas e minerais Devido à industrialização e urbanização chinesa os preços de diversas commodities sofreram um boom a partir de 2002 com isso os termos de troca foram favoráveis ao Brasil em praticamente todo o período que se estende de 2003 a 2013 Tais fatos contribuíram para que o Brasil revertesse o déficit comercial existente desde 1995 já em 2001 e passasse a acumular elevados e crescentes superávits comerciais até meados da década A elevada liquidez internacional devido em parte à diminuição substantiva da taxa básica de juros dos EUA entre 2001 e 2004 e a partir de 2008 e as altíssimas taxas de juros brasileiras contribuíram para que o país 13 Desde 2012 o crescimento econômico brasileiro tem perdido dinamismo ver Serrano e Summa 2015 para uma interpretação das possíveis causas 6 atraísse volumosos fluxos de capital estrangeiro que por um lado provocaram a apreciação cambial mas por outro lado permitiram acumular volumosas reservas cambiais14 A atração de capital estrangeiro e os superávits comerciais eliminaram a vulnerabilidade e a restrição externas ao crescimento econômico males que o país sofreu nas duas décadas anteriores O crescimento das exportações na primeira metade da década de 2000 especialmente em 2001 e 2004 foi o estopim do crescimento depois sustentado pelo consumo das famílias e investimentos em segundo plano O consumo das famílias apresentou crescimento positivo por 45 trimestres consecutivos desde o quarto trimestre de 2003 até o quarto trimestre de 2014 conforme os dados das Contas Nacionais Trimestrais do IBGE CNTIBGE Entre 2004 e 2013 o consumo das famílias cresceu 611 por cento ou 488 por cento aa enquanto o PIB expandiu 482 por cento ou 401 por cento aa segundo dados das CNTIBGE tal taxa contribuiu para o que consumo das famílias elevasse sua participação no PIB de 596 por cento para 660 por cento no mesmo período A geração de empregos formais aumentos reais do salário mínimo expansão do crédito e a apreciação cambial contribuiram para amplificar a demanda doméstica O fato mais importante foi a expressiva geração de empregos em praticamente todos os setores da economia Entre 2000 e 2013 foram gerados 2356 milhões de novos empregos elevando de 7897 para 10254 milhões o número de empregos formais e informais no país segundo dados do Sistema de Contas Nacionais do IBGE SCNIBGE É importante destacar que este foi o período em que mais se gerou empregos na história brasileira contribuindo para diminuir a taxa de desemprego de 105 por cento para 71 por cento entre 2003 e 2013 em todo o país ou de 141 por cento para 78 por cento nas áreas metropolitanas no mesmo período regiões mais sensíveis aos ciclos econômicos conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PnadIBGE No Brasil as ocupações informais são historicamente majoritárias mas verificouse uma notável redução da informalidade e melhoria na qualidade das ocupações As ocupações formais elevaramse de 382 por cento para 538 por cento do total entre 2000 e 2013 segundo dados do SCNIBGE Neste período foram criadas 263 milhões de vagas formais A informalidade é prejudicial para os trabalhadores que não são cobertos por direitos trabalhistas15 e ficam sujeitos a diversas irregularidades como jornadas de trabalho excessivas para o empregador pois este não tem a mínima garantia de empenho e 14 As reservas internacionais brasileiras multiplicaramse por 10 passando de US 378 para US 3731 bilhões entre 2002 e 2012 15 Por exemplo auxíliodoença licença maternidade segurodesemprego e aposentadoria por tempo de serviço 7 regularidade de seus funcionários e por fim para o Estado que arrecada menos Antes à margem dos canais de financiamento os novos trabalhadores formais passaram a ter acesso regular ao crédito Sendo assim a redução substantiva da informalidade beneficiou toda a economia do país de várias formas Houve crescimento real do salário mínimo em todos os anos de 2000 a 2014 De 2004 a 2013 o salário mínimo aumentou 737 por cento ou 57 por cento ao ano em termos reais em que as maiores taxas de expansão ocorreram a partir de 2004 durante os governos Lula I e II mais ativo na área social que os governos anteriores que manteve uma política de valorização salarial e elevou o poder de compra dos trabalhadores privados e públicos de aposentados e pensionistas O salário mínimo brasileiro influencia direta e indiretamente os reajustes salariais de praticamente toda a economia ele é a remuneração mínima legal dos aposentados pensionistas e dos trabalhadores formais Saboia e Hallak Neto 2016 mostraram que os reajustes salarias para os trabalhadores com ou sem carteira assinada ou do setor público foram muito próximos daqueles observados para o salário mínimo para os cargos que pagam baixos salários e mesmo para os cargos que pagam salários elevados os reajustes foram no mínimo 60 por cento do ocorrido para o salário mínimo A concessão de crédito primeiramente através de bancos privados e depois públicos para famílias e empresas teve um boom no período O saldo de todas as operações de crédito ampliouse de 243 para 560 por cento do PIB entre dez2003 e dez2013 segundo dados do Banco Central do Brasil BCB16 Nesse período as condições de financiamentos melhoraram para o consumidor à medida em que os prazos foram alongados17 os limites e tetos de cobertura ampliados Mora 2015 Borça Jr e Guimarães 2015 e principalmente devido a significativa redução da taxa básica de juros reais de 119 por cento para 20 por cento entre 2003 e 2013 segundo informações do BCB e IBGE18 Algumas inovações financeiras e institucionais mitigadoras de risco como a implantação da linha de crédito consignado que passou a vigorar a partir de 2004 e quanto ao crédito imobiliário também contribuíram para a forte expansão do crédito ressaltase que o aumento foi extensivo em quase todas as modalidades de financiamento 16 O auge ocorreu no período 20062009 em que o crédito em do PIB aumentou 15 pontos percentuais O biênio 20082009 anos da crise internacional foi o de maior expansão 17 O financiamento imobiliário foi ampliado de 20 para 35 anos e em alguns períodos tornouse possível pagar um automóvel em até 96 parcelas mensais sem entrada Mora 2015 e Borça Jr e Guimarães 2015 mostram que o prazo médio dos empréstimos mais que dobrou no período 20032013 e mais que triplicou em algumas linhas de financiamento 18 Entretanto os juros ainda continuaram elevados para os consumidores e empresas em comparação ao padrão internacional 8 A apreciação cambial de 838 por cento entre 2003 e 2011 em que a taxa de câmbio nominal Real por Dólar RUS passou 308 para 167 barateou as importações e atuou limitando o repasse dos preços domésticos contruibuindo para expandir a demanda doméstica19 Baer 2014 cap 9 Amann e Baer 2012 e Cano 2012 enfatizaram o uso da taxa de câmbio apreciada com o objetivo de controlar a inflação desde o Plano Real A taxa básica de juros brasileira continuou entre as mais elevadas do planeta e contribuiu bastante para apreciar o câmbio à medida que atraiu elevados influxos de capital Além dos fatos já mencionados acima as desonerações tributárias sobre alguns produtos relevantes principalmente automóveis eletrodomésticos móveis material de construção e bens de capital implementadas no âmbito da crise internacional de 2008 que inicialmente eram para ser pontuais acabaram se estendendo até 2013 na maioria dos casos Algumas medidas e transferências governamentais Tesouro Nacional 2016 também tiveram impacto sobre o consumo das famílias como os programas i Minha Casa Minha Vida PMCMV voltado à construção de moradias populares estimulou diretamente o setor de construção civil e sua ampla cadeia produtiva a partir de 2009 ii Bolsa Família20 que contribuiu para dinamizar o crescimento de regiões mais pobres principalmente a região Nordeste do país responsáveis pelo maior volume de recursos empenhados pelo programa iii Luz para Todos que entre 2004 e 2013 beneficiou cerca de 15 milhões de pessoas das regiões isoladas rurais e sem eletricidade que passaram a ter acesso à iluminação em suas residências e puderam diversificar seu padrão de consumo incluindo eletrodomésticos como geladeira televisão celular entre outros MME 2014 No início as exportações e principalmente o consumo das famílias contribuíram para a diminuição da capacidade ociosa na maioria dos setores produtivos e para a reativação de um ciclo de investimentos A FBCF de toda a economia se expandiu 6501 por cento em termos reais entre 2003 e 2011 e elevou a taxa de investimentos em 35 pontos percentuais para 206 por cento em 2011 segundo dados do SCNIBGE Notase também que a composição da FBCF melhorou a favor das máquinas e equipamentos em detrimento da construção civil especialmente no período 20042008 Contribuiu para essa melhor composição a FBCF da indústria de transformação em máquinas e equipamentos que dobrou de tamanho entre 2004 2008 conforme dados de Miguez 2016 A crise internacional de 20082009 teve ligeiro 19 Em 2012 e 2013 houve desvalorizações cambiais de 167 e 104 por cento respectivamente Mas essas desvalorizações ainda foram insuficientes para tornar os bens comercializáveis brasileiros competitivos O índice do Big Mac da The Economist mostrava que a taxa de câmbio brasileira ainda estava sobrevalorizada 20 Este é um programa de transferência de renda para famílias pobres com o objetivo de manter as crianças na escola Em 2004 atendia atendia 66 milhões de beneficiários e representou 029 por cento do PIB e em 2013 passou a atender 141 milhões e representou 046 por cento do PIB Tesouro Nacional 2016 Em 2013 o Bolsa Família representou apenas 075 do consumo das famílias e embora pequeno o programa gerou impacto relevante nas áreas mais pobres e rurais 9 impacto nos investimentos que recuaram 213 por cento em 2009 mas devido as medidas contracíclicas implementadas pelo Governo Federal como a implantação do PMCMV e a desonerações tributárias já mencionadas estes se recuperaram rapidamente em 2010 Apesar do bom desempenho pós 2003 a taxa de investimento ainda é muito baixa em compação com a média mundial especialmente com países como China Índia e Coréia do Sul Além dos componentes da demanda e seus determinantes a demografia desempenhou um papel relevante Diferentemente de alguns países da OCDE em que a população está estagnada o Brasil ainda é um país relativamente jovem Entre 2004 e 2013 a população do Brasil cresceu 113 por cento ou 108 por cento ao ano passando de 18062 para 20103 milhões de habitantes ou seja 2041 milhões de novos consumidores21 No mesmo período o país teve um bônus demográfico isto é proporcionalmente houve aumento da população em idade ativa entre 16 e 64 anos22 aptas a trabalhar em relação à população dependente crianças e idosos O bônus demográfico resulta da redução das taxas de fecundidade e de mortalidade Entre 2003 e 2013 a taxa de fecundidade se reduziu de 220 para 177 e taxa bruta de mortalidade por mil habitantes caiu de 635 para 604 no mesmo período Com isso entre 2003 e 2013 a população entre 16 e 64 anos aumentou sua participação de 6353 para 6675 por cento na população total isto é passou de 11475 para 13419 milhões o número de pessoas em idade produtiva capazes de fomentar o consumo e a formação de capital23 Em síntese fatores diversos contribuíram para estimular a demanda doméstica e consequentemente o crescimento econômico Embora tenha beneficiado praticamente todas as indústrias o impacto foi distinto conforme a elasticidaderenda da demanda e competitividade setorial que serão analisados na próxima seção 4 Evolução e vazamento de demanda da indústria de transformação por intensidade tecnológica24 O distanciamento nas trajetórias de crescimento da produção industrial e da demanda industrial demonstrados no Gráfico 2 evidencia a perda de competitividade da manufatura 21 Dados do IBGE para este parágrafo 22 No Brasil o trabalho com carteira assinada é permitido legalmente a partir de 16 anos e aposentadoria por idade ocorre a partir de 65 anos 23 Segundo dados do IBGE de projeção da população brasileira o bônus demográfico atingirá seu auge em 2023 quando a população entre 16 e 64 anos representará 6829 por cento da população brasileira 24 Nesta seção as variáveis monetárias como demanda total demanda doméstica produção industrial exportação importação e valor adicionado bruto estão mensuradas a preços básicos e constantes como todos os indicadores do Anexo 1 que utilizam essas variáveis O IBGE disponibilizou essas variáveis a preços do ano corrente e do ano anterior desde 2000 sendo assim tornou possível calcular os respectivos deflatores setoriais 10 brasileira no período recente25 O descasamento entre essas duas séries começou a partir de 2005 e tem se intensificado De 2004 a 2013 a produção industrial brasileira cresceu 339 por cento enquanto a demanda total 553 por cento A diferença nessas taxas explica o formato de abertura da boca do jacaré ao final do período uma lacuna entre a produção e a demanda que foi preenchida integralmente pelas importações Gráficos 2 e 3 Cerca de 40 por cento do crescimento da demanda vazou para o exterior na forma de importações Em alguns setores o vazamento de demanda foi ainda mais intenso conforme mostram os Gráficos 4 e 5 Gráfico 2 Produção demanda doméstica e demanda total da indústria de transformação brasileira 20002013 2003 100 Nota Todas as variáveis estão mensuradas a preços básicos e constantes Fonte Cálculos próprios a partir do Sistema de Contas Nacionais do IBGE Dividindo a indústria de transformação em dois grupos por intensidade tecnológica26 notamse padrões evolutivos com intensidades distintas A demanda total da manufatura de alta e médiaalta tecnologia doravante ATMAT teve crescimento 27 vezes superior à dos bens da manufatura baixa e médiabaixa tecnologia doravante BTMBT conforme o Gráfico 3 evidencia O descasamento entre a demanda total e produção industrial é muito maior nas indústrias de ATMAT Gráfico 3 logo no núcleo manufatureiro mais dinâmico tecnologicamente ocorreram os maiores vazamentos de demanda 25 A demanda total é uma variável proxy obtida pela soma da produção com as importações A diferença entre a demanda efetivada são os estoques Como estamos trabalhando com um período longo de 2000 a 2013 assumimos que a variação dos estoques tem pouco impacto na demanda efetiva 26 Este estudo adota a classificação industrial por intensidade tecnológica da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE mas agreguei as categorias de baixa e médiabaixa tecnologia num só grupo e alta e médiaalta tecnologia em outro grupo 1339 1553 1604 90 100 110 120 130 140 150 160 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Produção Demanda Total Demanda Doméstica 11 Notase que há três fases do crescimento da demanda iniciado em 2004 Primeiro até 2005 a produção industrial acompanhou passo a passo o crescimento da demanda não ocorrendo vazamento de demanda para o exterior neste primeiro momento a produção se expandiu principalmente pela diminuição da capacidade ociosa na maioria dos setores Segundo de 2006 a 2008 a despeito do vazamento de demanda observado ele ocorreu com elevação da produção industrial e do investimento Terceiro após 2009 iniciase um período em que há o maior vazamento de demanda da magnitude de 20 pontos percentuais conforme o Gráfico 2 ou de 46 pontos percentuais para a ATMAT Gráfico 3 sendo que neste último período a produção perdeu fôlego e a demanda continuou vigorosa Gráfico 3 Produção e demanda da indústria de transformação brasileira por intensidade tecnológica 20002013 2003 100 Nota Todas as variáveis estão mensuradas a preços básicos e constantes Fonte Cálculos próprios a partir do Sistema de Contas Nacionais do IBGE Os fatores explicativos desses descasamentos inclusive no nível setorial veja Gráficos 4 e 5 e Anexo 1 ainda não estão consolidados na literatura brasileira A sobrevalorização cambial aguda na maior parte do período é apontada como principal causa por muitos analistas uma vez que ela tornou as importações mais competitivas em território nacional inclusive dos bens acabados Apesar da apreciação cambial Bastos et al 2015 verificaram que as 453 maiores empresas da indústria brasileira tiveram boa rentabilidade e elevaram os investimentos no período de 2004201027 mas esses investimentos foram insuficientes para elevar o estoque de capital na maioria dos setores na quantidade necessária 27 Entre 2003 e 2012 a rentabilidade das 453 maiores empresas industriais foi de 165 por cento sobre o patrimônio líquido Este percentual é um pouco acima dos rendimentos dos títulos brasileiros de baixo risco Certamente essa rentabilidade não foi obtida apenas na esfera produtiva Estudos futuros poderiam decompor a rentabilidade entre as atividades produtivas financeiras e da revenda de produtos importados que tornouse relevante no período 1236 1335 90 100 110 120 130 140 Baixa e médiabaixa tecnologia Produção Demanda Total 1531 1892 90 110 130 150 170 190 Alta e médiaalta tecnologia Produção Demanda Total 12 para suprir todo o crescimento da demanda Messa 2015 calculou o estoque de capital setorial da indústria de transformação entre 2002 e 2010 e de modo surpreendente verificou que ele teve evolução negativa na maioria dos setores Bielschowsky Squeff e Vasconcelos 2015 suspeitam que o ciclo de investimentos industriais dos anos 2000 foi concentrado em modernização e reposição da depreciação tendo contribuído pouco para a expansão e diversificação produtiva Desse modo segundo esses autores a apreciação cambial desestimulou o investimento em expansão e diversificação mas não em modernização Dado esse perfil dos investimentos era de se esperar que poupassem mão de obra mas vários setores tiveram aumento expressivo da força de trabalho Anexo 1 À luz das informações do Anexo 1 é difícil imaginar que em metade dos setores da indústria de transformação em que houve aumento considerável da produção e do emprego não tenha havido expansão da capacidade produtiva embora insuficiente para suprir completamente o crescimento vigoroso da demanda Especialmente após a crise de 2008 houve forte retração da demanda nas economias centrais e as empresas transnacionais ETNs com filiais em vários países que abasteciam essas economias começaram a redirecionar sua produção e estoques industriais para países com demanda aquecida como o Brasil Essa estratégia de otimização da escala produtiva das ETNs em escala global contribuiu para a perda de fôlego dos investimentos industriais no Brasil no período pós crise mundial momento em que houve o maior vazamento de demanda Ressaltase que no Brasil especialmente nos setores mais intensivos em tecnologia há predomínio de filiais de ETNs O comércio internacional entre matriz e filiais e entre as ETNs representa cerca de 34 do comércio global por isso essas empresas tem elevado poder de influenciar o fluxo de importações e produção nos locais em que atuam Vale enfatizar que a produção industrial brasileira não tinha um crescimento expressivo desde a década de 1970 especialmente no caso das indústrias de ATMAT em que a produção industrial cresceu 531 por cento entre 2004 e 2013 Gráfico 3 Conforme mencionado na seção anterior o crescimento industrial foi puxado principalmente pela significativa geração de empregos formais aumento real do salário mínimo boom do crédito apreciação cambial crescimento populacional e a maior escala das transferências sociais que turbinaram a demanda doméstica que inclusive teve desempenho superior à demanda total Anexo 128 Ressaltase que a demanda doméstica por itens da indústria de transformação cresceu acima da demanda doméstica de toda a economia Anexo 1 A demanda doméstica dos itens de ATMAT cresceu num ritmo 761 por cento acima da economia total Anexo 1 28 A diferença entre a demanda total e a demanda doméstica é que a primeira inclui as exportações 13 O padrão evolutivo distinto entre os dois grupos por intensidade tecnológica pode ser explicado pela melhora substantiva ocorrida na distribuição de renda e pela demanda reprimida por produtos das indústrias de ATMAT Medeiros 2015 Entre 2003 e 2013 as classes econômicas A B e C se expandiram muito mais que as classes D e E O perfil da classe AB brasileira é próxima da classe média tradicional norteamericana que possui dois carros e dois cachorros mas não caracteriza bem a classe média mundial que é representada pela classe C ou a chamada nova classe média Neri 2014 Em 2003 9885 milhões de pessoas 547 da população brasileira pertenciam as classes DE já em 2013 esse número caiu para 6208 milhões de pessoas 309 do total Neri 2014 p 2429 Com isso a classe C inflou de 6789 milhões de pessoas 376 do total para 11256 milhões de pessoas 560 do total no mesmo período e ainda as classes A e B também cresceram de 1389 milhões 77 para 2640 milhões 131 de pessoas Neri 2014 p 2430 Desse modo entre 2003 e 2013 57 milhões de pessoas mais do que a população da Inglaterra ascenderam para as classes ABC A geração de empregos formais e o aumento real do salário mínimo provocou um aumento extensivo das famílias das classes A B e C De um lado as classes de maior renda tem um padrão de consumo concentrado em produtos mais elásticos à renda como automóveis bens de informática e serviços de maior qualidade que também exigem insumos da indústria Por outro lado as classes de menor renda têm seu consumo direcionado aos produtos essenciais de menor elasticidaderenda como moradia alimentos e vestuário Nesse sentido a elasticidaderenda da demanda é muito superior para os bens das indústrias de AT MAT do que para os bens de BTMBT Provavelmente a mudança de composição na renda das famílias em direção as classes A B e C explica em grande medida a maior demanda por produtos mais elásticos à renda Também o crescimento do crédito para a pessoa física contribuiu para explicar a maior demanda dos produtos de ATMAT que possuem maior valor unitário especialmente dos produtos de informática eletrônicos e automóveis Competitividade e produtividade industrial A perda de competitividade industrial no século XXI pode ser avaliada a partir da evolução dos coeficientes de comércio do saldo comercial e da produtividade do trabalho que estão setorialmente exibidos no Anexo 1 29 Em janeiro de 2014 a classe E captava as famílias com renda inferior a 17 salário mínimo SM classe D entre 17 e 28 SM classe C entre 28 e 119 SM classe B entre 119 e 156 SM e a classe A acima de 156 SM Em 2013 uma família típica brasileira era composta por 3 pessoas 30 Entre 2003 e 2014 o coeficiente de Gini reduziuse de 0583 para 0518 o menor valor desde a década de 1960 confirmando a redução na desigualdade da renda domiciliar per capita brasileira Fonte IPEA a partir dos dados da PNAD 14 Entre 2003 e 2013 o coeficiente de penetração das importações CPI duplicou de 135 para 268 por cento O aumento foi generalizado para todos os setores da indústria de transformação No mesmo período o CPI das indústrias de BTMBT aumentou de 59 para 136 por cento e para as indústrias de ATMAT elevouse de 252 para 412 por cento Anexo 1 Estruturalmente o CPI das indústrias de BTMBT tecnologia é menor que o das indústrias de ATMAT pois estas últimas são mais intensivas em montagem e possuem cadeias de valor mais fragmentadas internacionalmente As importações em especial de insumos e componentes são benéficas à medida que promovem ganho de eficiência produtiva e aumento das exportações Porém os importados ganharam participação tanto na demanda doméstica de bens acabados quanto na de bens intermediários Morceiro 2012 cap 3 enquanto o coeficiente de exportação permaneceu estável em torno de 15 por cento Anexo 1 Há evidências de que o expressivo crescimento da produção industrial brasileira especialmente dos setores industriais de ATMAT ocorreu com aumento do conteúdo importado isto é com menor transformação físicaquímicabiológica doméstica por unidade de produto Observase que o aumento do conteúdo importado foi uma estratégia reativa ainda que de modo parcial que a indústria brasileira adotou para defender o mercado interno das importações de bens acabados Ao analisar os multiplicadores de produção e os índices de ligação intersetoriais de Hirschman Rasmussem Pereira 2016 concluiu que o tecido industrial brasileiro está mais fragilizado31 enquanto Cassiolato e Fontaine 2015 afirmaram que a tendência é esvaziamento da estrutura produtiva O saldo comercial da indústria piorou bastante inclusive entre os setores de BTMBT que tradicionalmente costumavam gerar saldo positivo Anexo 1 Em 2003 a indústria de transformação detinha saldo comercial positivo da ordem de 27 por cento da produção industrial mas em 2013 tornouse negativo em 165 por cento Entre as indústrias de AT MAT o déficit elevouse em 30 pp em relação a produção de 109 para 408 por cento Anexo 1 Nesse período praticamente todos os setores exceto outros equipamentos de transporte apresentaram substantiva piora no saldo comercial Vários autores tem alertado que o real forte dificulta o país de alcançar a competitividade internacional das exportações de produtos manufaturados BresserPereira 2012 Cano 2012 A perda de competitividade internacional is not necessarily due to inefficiencies but rather due to the anomaly of an appreciated exchange rate resulting from the dictates of inflation targeting Amann e Baer 2012 p 417 que tem prejudicado o setor industrial Baer 2015 p 13 31 Esses multiplicadores e índices só captam a fragilização em termos relativos não absolutos 15 Em 2013 15 dos 22 setores de atividade da indústria apresentaram déficit comercial Anexo 1 Destacase negativamente o setor de fabricação de equipamentos de informática produtos eletrônicos e ópticos em que o déficit comercial atingiu 936 por cento da produção industrial em 2013 Anexo 1 Neste ano os setores de máquinas e equipamentos e equipamentos elétricos tiveram déficit comercial de aproximadamente 580 por cento da produção autopeças de 489 por cento e químicos de 431 por cento Ou seja os maiores déficits ocorrem em setores que pagam salários em média duas vezes maior que o salário médio da indústria de transformação desse modo ao importar o Brasil transfere para o exterior empregos qualificados e com elevado potencial de desenvolver tecnologias Morceiro 2012 A industrialização brasileira foi realizada com a forte presença das ETNs especialmente nos setores de maior intensidade tecnológica Esse perfil foi reforçado com a desnacionalização recente em alguns setores Cassiolato Szapiro e Lastres 2015 No entanto após várias décadas de proteção comercial período ISI redução de impostos e financiamentos subsidiado do governo brasileiro inclusive para inovação as filiais de ETNs tem tido progresso fraco no desenvolvimento tecnológico brasileiro inclusive inferior ao esforço das empresas nacionais na maioria dos setores produtivos Cassiolato et al 2014 Cassiolato e Fontaine 2015 Esses últimos autores argumentam que as filiais de ETNs podem estar bloqueando o desenvolvimento tecnológico do país ao se limitarem a adaptação e melhorias de produtos e processos desenvolvidos no exterior e montagem com os principais componentes tecnológicos importados inclusive importando os bens de capital dos produtos adaptados No período de maior crescimento da produção industrial entre 2004 e 2013 a produtividade do trabalho decresceu 05 por cento ao ano Diversos estudos recentes a partir de base de dados distintas verificaram evolução da produtividade do trabalho ou total dos fatores negativa ou muito baixa ver De Negri e Cavalcante 2014 2015 e Silva Menezes Filho e Komatsu 2016 Dos 22 setores exibidos no Anexo 1 14 tiveram evolução negativa da produtividade do trabalho e os demais apresentaram crescimento baixo O Anexo 1 apresenta o crescimento anual do valor adicionado bruto PIB a preços básicos emprego e produtividade do trabalho entre 2004 e 2013 Pela lei de KaldorVerdoorn Kaldor 1966 a taxa de crescimento da produtividade deve ser igual à taxa de crescimento da produção neste caso valor adicionado bruto menos a taxa de crescimento do emprego Ao fazer essa subtração a produtividade calculada exibida no Anexo 1 está coerente com a lei de Kaldor Verdoorn tanto no nível agregado como na maioria dos setores por exemplo o valor 16 adicionado da economia cresceu 28 por cento aa e o emprego 33 por cento aa enquanto a produtividade do trabalho retraiuse 05 por cento aa 28 menos 33 05 A melhor situação para qualquer país em desenvolvimento com crescimento populacional positivo é aquela em que ocorre aumento da produtividade do trabalho ao mesmo tempo em que se mantém ou se expande o volume de empregos enquanto o pior cenário é quando ocorre diminuição do nível de emprego e da produtividade Nesse sentido o Brasil pode ser caracterizado como um caso intermediário com evolução desfavorável da produtividade do trabalho e crescimento elevado do emprego Ressaltase que dentre os 22 setores de atividade somente quatro apresentaram evolução negativa do valor adicionado Desse modo o baixo crescimento da produtividade foi obtido com elevado volume de novos empregos em praticamente todos os setores Apesar da produtividade fraca o Brasil provavelmente teria tensões sociais caso não tivesse gerado volume tão grande de novos empregos Cavalcante e De Negri 2015 afirmaram que há um consenso sobre evolução ruim da produtividade industrial no século XXI mas não quanto as suas causas Grosso modo no âmbito setorial a produtividade do trabalho tem correlação positiva com o estoque de capital per capita incremento tecnológico e capital humano Vejamos três hipóteses da evolução negativa da produtividade Primeiro não houve aprofundamento de capital per capita Apesar do bom ciclo de investimentos mesmo se considerar a hipótese que parcela substantiva tenha sido destinada ao aumento da capacidade produtiva a expansão da força de trabalho foi muito robusta de modo que o estoque de capital per capta provavelmente não cresceu na maioria dos setores Segundo vários setores da indústria de transformação aumentaram de modo substantivo a intensidade em montagem com operações mínimas em detrimento da transformação físicaquímicabiológica por unidade de produto principalmente em indústrias mais dinâmicas No caso das indústrias de ATMAT em que a produção e o emprego aumentaram bastante no Brasil não se desenvolve nem se produz de fato alta tecnologia apenas montase produtos a partir de tecnologia importada para atender o mercado doméstico sendo raras as exceções O país tem importado num ritmo cada vez mais intenso a maioria dos insumos e componentes tecnológicos Os indicadores baixos e estagnados de desenvolvimento tecnológico e inovação em comparação com os países fornecedores dessas tecnologias são evidências disso Outra evidência que suporta esse ponto é que entre 2004 2013 houve aumento volumoso de empregos formais que pagam entre 05 e 2 salários mínimos SM porém ocorreu demissão em todas as faixas salariais acima de 2 SM para a indústria de transformação e em praticamente todos os seus setores sugerindo uma piora nas 17 funções executadas pelos trabalhadores Entre 2004 e 2013 o saldo líquido anual acumulado entre admitidos e demitidos foi de 22 milhões de trabalhadores sendo 34 milhões admitidos e 12 milhão demitidos No grupo de admitidos a concentração se deu nas faixas que recebem até 2 SM principalmente entre 05 a 15 SM e entre o total de demitidos a concentração ocorreu na faixas de 20 a 70 SM conforme informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho CAGEDMTE Esses empregos de baixos salários provavelmente estão ligados às operações fabris mínimas que a indústria nacional tem sido submetida Em síntese as práticas de montagem relativamente mais simples provavelmente contribuíram pouco para a agregação de valor e incremento de produtividade Terceiro mas não menos importante a sobrevalorização cambial aguda na maior parte do período além de contribuir para a ocorrência das duas hipóteses acima limitou os aumentos de preços dos produtos industriais diminuindo o faturamento potencial na esfera produtiva Menor faturamento menor produtividade Entre 20042013 a inflação das importações de produtos da indústria de transformação foi baixíssima de apenas 124 por cento ao ano e em alguns setores de alta e médiaalta tecnologia foi negativa ou próxima de zero segundo cálculos próprios a partir do SCNIBGE32 Outros fatores estruturais estão presentes no tecido industrial brasileiro há muito tempo Segundo informações da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos ABIMAQ o parque industrial brasileiro é relativamente velho e com menos máquinas automáticas Em 2015 a idade média do parque industrial brasileiro era de 17 anos o dobro do verificado nos países altamente industrializados por exemplo na Alemanha é 8 anos Estadão 862016 Ademais o estoque de capital por trabalhador brasileiro é baixo cerca de ¼ do americano ou do japonês33 Com exceção do período pós 2004 em poucos momentos nos últimos 35 anos o país teve crescimento da demanda expressivo que justificassem atualização tecnológica generalizada Os obstáculos sistêmicos e institucionais têm se acumulado ano a ano e minam a produtividade industrial em especial a infraestrutura defasada e deficiente modais de transporte em particular qualidade ruim do sistema educacional ambiente de negócios pouco favorável e alargamento do gap tecnológico perante os países líderes Amann e Baer 2012 Baer 2015 além da carga tributária incidente sobre os produtos industriais ser elevada e complexa Morceiro 2012 p 218 Além das graves dificuldades de se fazer negócios no 32 Deflator anual das importações setoriais alguns casos negativos entre 20042013 outros equipamentos de transporte 30 produtos de metal 15 máquinas aparelhos e materiais elétricos 14 equipamentos de informática produtos eletrônicos e ópticos 09 máquinas e equipamentos 05 e autopeças e acessórios 02 33 Nota técnica não publicada intitulada Plano de Modernização do Parque Industrial Brasileiro MODERMAQ Abimaq junho2014 18 Brasil World Bank 2016 Menezes Filho et al 2014 enfatizaram que a maioria das empresas possuem práticas gerenciais ruins e na área da educação destacaram que a mão de obra formada no Ensino Superior é relativamente escassa e pouco concentrada em áreas relevantes à atividade inovativa como engenharias e ciências exatas e naturais Grau de abertura e integração as cadeias globais de valor Todo mês surgem notícias nos jornais de grande circulação no Brasil de que o país é fechado e que sua indústria é pouco integrada as cadeias globais de valor CGV por isso está indo na contramão da globalização produtiva Ao observar os coeficientes de comércio setorial fica claro que o Brasil é bastante integrado as CGV pelo lado das importações que é o fenômeno relevante da integração Em 2013 o CPI brasileiro foi maior que o de países ditos integrados as CGV como Japão China e Coréia do Sul no mesmo nível da União Europeia considerada como bloco e próximo dos Estados Unidos34 Mas o Brasil exporta pouco em relação aos seus pares especialmente nos setores mais intensivos em tecnologia O Anexo 1 deixa claro que as exportações são o calcanhar de Aquiles da manufatura brasileira sugerindo que é na agenda de aumentar as exportações que os defensores da abertura deveriam concentrar seus esforços Na década de 1990 houve um intenso debate no Brasil entre os autores favoráveis a uma ampla abertura comercial e a agenda liberal como um todo privatização desregulamentação etc e aqueles mais pragmáticos quanto à intensidade dessa agenda Os autores pró abertura argumentavam que o país teria acesso a insumos intermediários no estado da arte que promoveria eficiência produtiva e com isso aumento das exportações Atualmente com frequência esses argumentos são trazidos à tona para justificar uma nova rodada de abertura comercial O Anexo 1 deixa claro que entre 2003 e 2013 o CPI aumentou muito na maioria dos os setores produtivos e 100 por cento para a indústria de transformação certamente melhorando a sua eficiência produtiva mas o coeficiente de exportações permaneceu imutável e até declinou nos setores mais tecnológicos Ou seja as importações por si só não trouxeram competitividade para as exportações35 34 Informações de um trabalho ainda não publicado de Paulo César Morceiro e Vinícius Rena Pereira 35 Sarti havia chamado atenção a esse ponto na defesa da minha dissertação de mestrado em março2012 e recentemente mencionou isso Sarti 2015 p531 19 Desempenho e vazamento de demanda setorial36 A indústria de transformação é composta por diversos setores que são heterogêneos entre si e no Brasil essa disparidade é bastante elevada A classificação setorial utilizada aqui é compatível com a última versão da CNAE37 No total são 22 setores analisados 14 pertencentes a indústria de BTMBT e 8 de ATMAT Uma vantagem desses dados setoriais é que todas as variáveis utilizadas estão na mesma nomenclatura durante todo o período evitando problemas de alocação e as variáveis monetárias foram deflacionadas pelos respectivos deflatores setoriais calculados a partir da mesma base de dados Entre 2003 e 2013 a indústria de ATMAT teve um crescimento da produção acumulado de 531 por cento e a indústria de BTBT de 236 por cento enquanto a indústria de transformação cresceu de 339 por cento Com isso as indústrias ATMAT aumentaram sua participação relativa em 5 pp na produção manufatureira perfazendo 397 por cento do total em 2013 Anexo 1 O crescimento do emprego de 50 por cento ao ano também foi mais vigoroso nas indústrias de ATMAT que nas de BTMBT 28 por cento ao ano Assim a composição tanto da produção quanto do emprego melhorou a favor das indústrias de ATMAT Anexo 1 Entretanto a estrutura produtiva da manufatureira brasileira ainda é muito dependente das indústrias intensivas em recursos naturais e em trabalho que compõem o agregado de BT MBT o qual concentrou três quintos da produção e 776 por cento do emprego da manufatura em 2013 A produção da indústria automobilística e de outros equipamentos de transporte navios aviões motocicletas e veículos ferroviários dobrou de tamanho no período de análise e apresentou a melhor performance setorial ver Gráficos 4 e 5 e a evolução de cada setor A primeira teve sua dinâmica puxada pela demanda doméstica e a segunda principalmente pelo mercado doméstico e externo Entre 2004 e 2013 a demanda doméstica de autoveículos que inclui automóveis caminhões e ônibus teve crescimento acumulado de 1689 por cento Gráfico 4 Essa demanda robusta foi atendida em parte com produção doméstica que cresceu 1006 por cento e pelas importações pois o CPI triplicou Com isso o setor de autoveículos elevou de 54 para 81 por cento a sua participação na indústria de transformação Anexo 1 Segundo a 36 Todas as informações desta seção e da próxima são do Anexo 1 caso contrário será mencionado 37 Os setores estão desagregados numa classificação específica do SCNIBGE série retropolada perfeitamente compatível com as divisões nível de 2 dígitos da última versão da CNAE 20 as diferenças são que o setor de alimentos está junto com o de bebidas e preferi deixar separado a fabricação de automóveis caminhões e ônibus das fabricantes de autopeças que apresentaram desempenho distintos no período sendo os únicos que não se encontram em 2 dígitos 20 ANFAVEA Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores a produção de autoveículos elevouse de 168 para 371 milhões de unidades entre 2003 e 2013 enquanto o licenciamento de veículos no país proxy da demanda doméstica elevouse de 143 para 377 milhões no mesmo período O licenciamento de autoveículos importados aumentou dez vezes de 7010 para 70685 mil enquanto as exportações aumentaram de 39283 para 56511 mil unidades Esses números em unidades físicas confirmam os valores monetários a preços constantes exibidos no Gráfico 4 e Anexo 1 e deixa claro a vitalidade do mercado brasileiro que em 2013 foi o quarto consumidor e o sétimo maior produtor de autoveículos do planeta ANFAVEA 2015 No entanto a produção nacional de autopeças não acompanhou o boom da demanda doméstica de autoveículos A demanda doméstica de autopeças teve crescimento acumulado de 1048 por cento mas a sua produção aumentou 348 por cento Gráfico 4 O coeficiente de exportação de autopeças caiu um pouco e o CPI aumentou de 279 para 488 por cento isso fez com que o superávit comercial de 21 fosse revertido para déficit de 488 por cento da produção entre 2003 e 2013 Anexo 1 Logo a produção de autoveículos ocorreu com grande aumento do conteúdo importado além das importações de unidades acabadas que aumentaram 10 vezes Certamente a alteração dos preços relativos imposta pela apreciação cambial modificou a estratégia de sourcing das montadoras que intensificaram as importações entre as filiais da própria corporação instalada em outros países Alguns fatores causaram forte impacto nesse setor como o aumento de 125 milhões de pessoas na classe AB e de 447 milhões na classe C a expansão da oferta de crédito e alongamento do prazo para aquisição de veículos e a redução das alíquotas de IPI Imposto sobre Produtos Industrializados a partir de 2009 Para veículos populares de 1000 cilindradas a alíquota de IPI diminuiu de sete para zero por cento em alguns períodos com bom impacto no preço do automóvel desde a crise internacional até 2013 No Brasil ainda existe uma demanda reprimida por veículos devido à baixa penetração de veículos por habitantes38 e o carro é tido como um símbolo de ascensão social especialmente para a nova classe média O segmento de caminhões teve crescimento um pouco superior ao de veículos devido à expansão da produção agrícola e da atividade industrial e do aumento das exportações e do financiamento de longo prazo do programa FINAMEBNDES que em certos momentos teve taxas de juros reais negativas após a implementação do Programa de Sustentação do Investimento PSIBNDES a partir de 2009 A produção de outros equipamentos de transporte foi puxada pela demanda externa especialmente de aviões regionais da Embraer e pela demanda interna de navios e 38 Em 2013 a proporção era de um automóvel para cada 51 habitantes brasileiros enquanto nos Estados Unidos essa relação era de 12 e no Japão França e Alemanha de 17 conforme ANFAVEA 2015 21 motocicletas A Embraer se consolidou com a maior fabricante mundial de jatos regionais e sua produção é quase toda voltada à exportação O subsetor de motocicletas também se expandiu bastante a partir da montagem com pouca agregação de valor e foi puxado pela demanda interna A produção deste subsetor se concentra no estado do Amazonas no âmbito da Zona Franca de Manaus ZFM com elevado conteúdo importado mas ao contrário dos veículos a importação de motos prontas ainda é pequena e restrita a alguns modelos No subsetor naval uma mudança na legislação petrolífera modificou a realidade desse subsetor No início dos anos 2000 a Agência Nacional de Petróleo ANP exigiu um percentual mínimo de conteúdo local dos bens de capital utilizados na extração de petróleo e gás como critério de oferta nos leilões das áreas petrolíferas a serem concessionadas Com isso a produção do subsetor naval teve um boom pois o conteúdo local envolvido na montagem dos navios e plataformas de petróleo eram relativamente mais fáceis de serem cumpridos em relação aos componentes tecnológicos O número de empregados do subsetor naval passou de 208 para 607 mil entre 2003 e 2013 segundo informações da PIAIBGE Como reflexo o subsetor naval aumentou muito sua participação relativa dentro do setor de outros equipamentos de transportes enquanto o subsetor aeronáutico perdeu participação e os subsetores de motocicleta e equipamentos ferroviários mantiveram seu posto Estruturalmente o setor de outros equipamentos de transporte possui um elevado coeficiente comércio principalmente devido a produção de aviões que é o maior segmento do setor No entanto em 2013 os coeficientes de comércio estiveram muito acima do normal devido a um grande aumento nas exportações de embarcações e estruturas flutuantes que saltaram de US 15 bilhão para US 79 bilhões entre 2012 e 2013 em unidades foram exportadas sete plataformas de petróleo em 2013 ante a três em 2012 Folha de São Paulo 2412201339 Para gozar de benefícios fiscais e cumprir alguns índices de conteúdo nacional as petroleiras como a Petrobras precisaram afretar os navios e estruturas flutuantes a partir de uma empresa com propriedade no exterior para conseguir acessar o REPETRO40 Portanto as plataformas nunca saíram fisicamente do Brasil apenas a propriedade que mudou de nacionalidade para atender a uma regulamentação especial tal fato é captado pelas estatísticas de comércio de bens exportações e em serviços de aluguel de equipamento importações logo essa exportação de plataformas de petróleo é espúria e causa grande impacto nos coeficientes de comércio setorial 39 Na média de 2011 e 2012 o coeficiente de exportações e o CPI do setor foram ambos 41 por cento 40 Regime aduaneiro especial de exportação e importação de bens destinados às atividades de pesquisa e de lavra das jazidas de petróleo e de gás natural O REPETRO foi criado em 1999 quando o Brasil tinha vulnerabilidade externa elevada e necessitava da entrada de divisas 22 Gráfico 4 Vazamento de demanda setorial de alta e médiaalta tecnologia 20002013 Fonte Elaboração própria a partir do SCNIBGE 1188 1423 1446 90 100 110 120 130 140 Produtos químicos Produção Dem Total Dem Doméstica 1552 1682 1653 90 100 110 120 130 140 150 160 Produtos farmacêuticos Produção Dem Total Dem Doméstica 1745 2289 2481 90 110 130 150 170 190 210 230 250 Máquinas para escritório aparelhos e material eletrônico e produtos ópticos Produção Dem Total Dem Doméstica 1344 1753 1799 80 100 120 140 160 180 Máquinas aparelhos e materiais elétricos Produção Dem Total Dem Doméstica 1525 2008 2140 80 100 120 140 160 180 200 Máquinas e equipamentos inclusive manutenção e reparos Produção Dem Total Dem Doméstica 2006 2353 2689 80 130 180 230 280 Automóveis camionetas caminhões e ônibus Produção Dem Total Dem Doméstica 1348 1828 2048 80 100 120 140 160 180 200 Peças e acessórios para veículos automotores Produção Dem Total Dem Doméstica 1994 2411 1352 50 80 110 140 170 200 230 Outros equipamentos de transporte Produção Dem Total Dem Doméstica 23 Os equipamentos de informática de comunicação e produtos ópticos tiveram o terceiro maior crescimento e a segunda maior demanda entre os setores manufatureiros A demanda doméstica cresceu 1481 por cento e a produção 745 por cento entre 2004 e 2013 Gráfico 4 Esse setor produz os produtos mais dinâmicos do ponto de vista tecnológico e de crescimento da demanda no mundo No Brasil devido à má distribuição de renda grande parcela da população ainda tem demanda reprimida por computadores smartphones televisores de tela plana entre outros produtos desse setor Só para citar alguns exemplos entre 2003 e 2013 a produção de celulares passou de 2932 milhões para 6246 milhões de unidades de impressoras passou de 124 milhão para 518 milhões e de computadores pessoais e portáteis desktops laptops notebook handhelds tablets e semelhantes saltou de 103 milhão para 1293 milhões Este setor também possui segmentos de bens de capital41 além de ter produtos de uso dual que atendem famílias e empresas como computadores Logo parte da dinâmica deste setor é explicada pelo comportamento do investimento fixo que teve bom desempenho em alguns períodos De qualquer forma como no caso de autoveículos a produção doméstica dos equipamentos de informática e produtos de comunicação e ópticos não acompanhou o ritmo de crescimento da demanda e o setor que já era pouco competitivo perdeu ainda mais competitividade O coeficiente de exportação se reduziu de 141 para 35 por cento e o CPI aumentou de 369 para 502 por cento com isso o déficit comercial saltou de 362 para 936 por cento da produção o maior entre todos os setores Muitos produtos deste setor são produzidos na ZFM e no âmbito da Lei de Informática42 bens de informática telecomunicações e automação industrial seguindo um Processo Produtivo Básico PPB que varia de produto para produto mas tendo como essência a realização de operações fabris mínimas com elevadíssimo conteúdo importado Esse setor tem aumentado muito a parcela de insumos comercializáveis importados e possui baixa articulação com os demais setores produtivos domésticos Morceiro 2012 cap 3 A produção da maioria dos produtos deste setor não é muito distinta das maquilas pois os insumos e componentes importados representam cerca de 75 por cento do total Mas esse tipo de atividade com alto grau de maquila ainda é localizado em poucos segmentos como aeronaves cerca de 90 por cento dos insumos e componentes importados motocicletas 70 por cento medicamentos 60 por cento e alguns segmentos químicos como fertilizantes e defensivos agrícolas apesar do coeficiente de insumos comercializados importados ter se elevado bastante em praticamente 41 Como equipamentos transmissores de comunicação equipamentos de medida teste e controle instrumentos ópticos aparelhos eletromédicos e eletroterapêuticos e equipamentos de irradiação 42 Os benefícios fiscais abrangem os principais impostos e tributos brasileiros como o IPI PISCOFINS imposto de importação e ICMS em alguns casos tanto sobre o produto final como sobre as matériasprimas e componentes 24 todos os setores e em alguns de maneira muito preocupante Morceiro 2012 cap 3 Prochnik et al 2015 mostraram que a lógica dos PPBs tende a reproduzir essa situação mostrada acima e que o desenho de política industrial no setor de informática pode melhorar ao buscar maiores sinergias entre os PPBs e a exigência de PD além de priorizar as pequenas e médias empresas Os setores produtores de máquinas e equipamentos MEs máquinas aparelhos e materiais elétricos MAMEs e produtos de metal produzem de modo predominante bens de capital Há de se frisar que o setor de MAMEs têm segmentos relevantes de eletrodomésticos e de baterias que atendem respectivamente famílias e a indústria automobilística mas em geral esses setores têm suas dinâmicas puxadas pela FBCF realizada pela economia que teve bom desempenho em alguns períodos conforme visto na seção 2 O financiamento a taxas de juros baixas do programa PSIBNDES também pode ter contribuído para a dinâmica desses setores Os três setores tiveram crescimento da produção acima da média da manufatura especialmente o setor de MEs que teve expansão da produção de 525 por cento e de 1140 por cento da demanda doméstica ou seja com bastante vazamento de demanda Nos três setores o coeficiente de exportação permaneceu estável com ligeira queda para MEs mas o CPI aumentou bastante O CPI elevouse de 265 para 450 por cento no setor de MEs de 247 para 434 por cento no setor de MAMEs e de 68 para 210 por cento no setor de produtos de metal Anexo 1 As importações podem ser explicadas pela apreciação cambial concorrência estrangeira que tem fornecido bens de capital com financiamento integrado a taxas de juros baixas e a fragilidade tecnológica nacional nos bens de capital com elevado conteúdo de tecnologias de informação e comunicação TIC O Brasil tem melhor desempenho nos bens de capital sob encomenda mais pesados menos intensivos em TIC e intensivos em usinagemmetalurgia ou seja intensivos em recursos naturais e mão de obra e tem perdido competitividade a passos largos nos bens de capital seriados mais leves e intensivos em tecnologia Em alguns setores produtores de insumos intermediários como o setor químico metalurgia borracha e plásticos a produção doméstica cresceu pouco no máximo metade do crescimento observado da demanda ou seja o vazamento de demanda foi elevado nesses setores Gráficos 4 e 5 25 Gráfico 5 Vazamento de demanda setorial de baixa e médiabaixa tecnologia 20002013 1195 1229 1248 90 95 100 105 110 115 120 125 Alimentos e bebidas Produção Dem Total Dem Doméstica 951 1089 982 80 90 100 110 120 Produtos do fumo Produção Dem Total Dem Doméstica 863 918 1002 80 85 90 95 100 105 110 Couros e calçados Produção Dem Total Dem Doméstica 947 954 1246 70 80 90 100 110 120 Produtos de madeira exceto móveis Produção Dem Total Dem Doméstica 1004 1200 1237 90 100 110 120 130 140 Têxteis Produção Dem Total Dem Doméstica 1035 1235 1325 90 95 100 105 110 115 120 125 130 135 Vestuário e acessórios Produção Dem Total Dem Doméstica 1347 1411 1359 90 100 110 120 130 140 Celulose e produtos de papel Produção Dem Total Dem Doméstica 95 100 105 110 115 Jornais revistas e discos Produção Dem Total Dem Doméstica 26 Continuação do Gráfico 5 Fonte Elaboração própria a partir do SCNIBGE 1453 1520 1540 90 100 110 120 130 140 150 Refino de petróleo álcool e coque Produção Dem Total Dem Doméstica 1218 1439 1466 90 100 110 120 130 140 Borracha e plástico Produção Dem Total Dem Doméstica 1434 1622 1715 90 100 110 120 130 140 150 160 170 Outros minerais nãometálicos Produção Dem Total Dem Doméstica 1097 1225 1319 80 90 100 110 120 130 140 Metalurgia básica Produção Dem Total Dem Doméstica 1425 1665 1680 90 100 110 120 130 140 150 160 170 Produtos de metal exceto MEs Produção Dem Total Dem Doméstica 1267 1408 1465 90 100 110 120 130 140 150 Móveis e produtos diversos Produção Dem Total Dem Doméstica 27 Entre 2003 e 2013 o CPI do setor químico aumentou de 254 para 388 por cento e mais que dobrou nos outros dois setores enquanto o coeficiente de exportação permaneceu praticamente estável com destaque para o alto índice no setor metalúrgico A indústria química foi o único setor de ATMAT que cresceu menos que a indústria de transformação inclusive com baixa evolução do emprego Este setor tem sofrido bastante com as importações de modo generalizado em seus segmentos sendo os casos mais graves os segmentos de fertilizantes defensivos agrícolas e química fina tais como aditivos e catalisadores em que o país não tem produção suficiente para atender a demanda Outro grupo de setores predominantemente produtores de insumos como refino de petróleo outros minerais nãometálicos e papel e celulose tiveram crescimento acima da indústria de transformação A produção de refino e produtos derivados do petróleo inclusive de biocombustíveis teve crescimento expressivo de 453 por cento entre 2004 e 2013 suprindo quase todo o crescimento da demanda Gráfico 5 Os produtos deste setor entram como insumos direta e indiretamente em diversos setores da economia desde a agricultura até os serviços Mas foi principalmente a diminuição da razão autoveículos e motocicletas por habitantes que demandou bastante combustíveis A frota brasileira de autoveículos aumentou de 213 para 397 milhões e a de motocicletas de 42 para 131 milhões entre 2003 e 2013 segundo os relatórios anuais da ANFAVEA e SINDIPEÇAS Entre 2004 e 2013 a produção de minerais nãometálicos aumentou 425 por cento e a demanda doméstica 680 por cento Apesar de alguns produtos deste setor serem pouco comercializáveis cimento e tubos hidráulicos por exemplo o CPI triplicouse e alcançou 169 por cento em 2013 O crescimento desse setor foi definido principalmente pela expansão das construções e reformas residenciais43 num primeiro momento como resposta do crescimento da massa salarial aumento do crédito imobiliário e do prazo de pagamento que se ampliou de 20 anos para 30 anos e depois para 35 anos e num segundo momento pela execução do Programa Minha Casa Minha Vida a partir de 2009 que foi decisivo para elevar o crédito habitacional de 31 para 82 por cento do PIB entre 2009 e 2013 segundo dados do BCB O desempenho do setor de papel e celulose foi estimulado pela demanda doméstica e externa A produção supriu quase todo o aumento da demanda crescendo ligeiramente acima da indústria de transformação Este foi um dos poucos setores que aumentou o já elevado coeficiente de exportações e que apresentou saldo comercial positivo expressivo devido ao bom desempenho produtivo O maior produtor mundial de celulose de fibra curta em razão do 43 As obras ligadas a infraestrutura também se expandiram mas num ritmo moderado 28 clima favorável e da elevada eficiência no plantio e manejo de eucaliptos O eucalipto brasileiro demora entre 6 e 7 anos para poder ser colhido com alta produtividade enquanto o pinus celulose de fibra longa plantado em regiões de clima temperado demora em média entre 15 e 20 anos O encurtamento do ciclo devida do eucalipto foi obtido através de pesquisas em biotecnologia e engenharia genética conduzidas por empresas privadas pela Embrapa e outras instituições públicas de pesquisa universidades e institutos estaduais cujos esforços levaram à produtividade média por área plantada ser no mínimo 17 vezes maior frente a outros concorrentes mundiais Entretanto apesar de ser autossuficiente na fabricação de papel de fibra curta o Brasil importa cerca de 70 por cento do papel imprensa que utiliza a matériaprima de fibra longa da qual o país é carente além de tradicionalmente gozar de isenções tributárias neste produto como baixíssimo imposto de importação O setor de alimentos e bebidas corresponde a quase um quinto da manufatura brasileira Esse setor é muito competitivo no Brasil e internacionalmente porque o país tem vantagens competitivas na produção agropecuária e água de boa qualidade muito importante para o setor de bebidas há imensas quantidades de terras férteis chuvas regulares e sol na maior parte do ano No caso das terras menos férteis houve elevado desenvolvimento tecnológico realizado pela Embrapa e por diversos outros institutos públicos de pesquisa estaduais para melhorar a qualidade do solo e adaptar culturas a diferentes climas e solos Por isso a produção doméstica do setor de alimentos e bebidas atendeu praticamente todo o crescimento da demanda e detém o maior saldo comercial em montante44 O Brasil importa poucos alimentos prontos e insumos intermediários com exceção de trigo No caso dos setores intensivos em trabalho têxtil vestuário couros e calçados móveis e produtos diversos a demanda doméstica teve um aumento modesto assim como a demanda total que inclui as exportações que cresceu pouco porque esses setores perderam competitividade externa o que se refletiu no fraco desempenho da produção Esses setores ainda possuem baixo CPI mas nos anos 2000 o CPI triplicou no setor têxtil e moveleiro aumentou 4 vezes no setor de couros e calçados e 8 vezes no vestuário Esses setores vêm sofrendo com a competitividade asiática chinesa principalmente que possuem plantas com grande escala de produção e mão de obra a baixo custo além de serem muito sensíveis a apreciação cambial porque têm regimes de concorrência via preço Chama atenção a baixa demanda doméstica por calçados exatamente num período em que o poder de compra e perfil distributivo melhoraram Ao analisar dados físicos de produção e consumo de pares de calçados a partir da PIAProdutoIBGE e Abicalçados Associação Brasileira das Indústrias 44 Ressaltase que o setor de bebidas é estruturalmente pouco comercializável e teve melhor desempenho no período que o setor de alimentos pois possui maior elasticidaderenda da demanda que este último 29 de Calçados percebese que o consumo de pares de calçados aumentou num ritmo compatível com o ganho do poder aquisitivo e distributivo Mas o que explica o crescimento negativo da produção e praticamente nulo da demanda doméstica Há evidências de que houve uma mudança na composição da produção e do consumo em favor dos calçados mais baratos provocando uma queda substancial no preço médio dos pares Logo verificouse queda da produção em termos monetários mas não em unidades É preciso verificar se isso ocorreu e em que intensidade nos demais setores especialmente nos de menor elasticidade renda ligados ao padrão de consumo da baixa classe C 5 Conclusão Após um longo período de crescimento baixo e irregular a economia brasileira voltou a crescer acima da economia mundial na década compreendida entre 2004 e 2013 principalmente puxada pela demanda doméstica que gerou estímulos para diversos setores industriais A demanda doméstica por itens da indústria de transformação cresceu acima da demanda doméstica total sugerindo que o Brasil depende ainda mais da manufatura A partir dos dados que demonstramos e do contexto analisado é possível fazer um conjunto de considerações Primeiro houve um grande vazamento de demanda mesmo na presença de um bom crescimento da produção industrial em diversos setores da indústria de transformação Os maiores vazamentos de demanda para as importações ocorreram nos setores de alta e média alta intensidade tecnológica embora esses setores também apresentassem desempenho superior em produção e geração de emprego contribuindo para melhorar a composição da indústria de transformação Segundo se o setor manufatureiro tivesse se apropriado de quase todo o crescimento da demanda doméstica a participação da manufatura no PIB teria se elevado ao invés de ter se reduzido Logo a desindustrialização brasileira é um sintoma da perda de competitividade industrial e não da mudança de composição da demanda em direção ao setor de serviços como ocorreu nos países desenvolvidos No Brasil ainda há elevada demanda reprimida por produtos industriais não só de médiaalta e alta tecnologia Terceiro pelo lado da oferta o crescimento foi obtido quase que exclusivamente pela maciça incorporação de novos trabalhadores formalizados às atividades produtivas Não houve aumento do estoque de capital per capita incremento tecnológico ou capital humano atuando em tarefas mais nobres Ao contrário houve adição de trabalho pois o Brasil é um país com abundância de mão de obra que ainda é relativamente barata frente ao custo de 30 aquisição de bens de capital Esta opção favoreceu a não ocorrência de tensões sociais causadas por desemprego elevado Por isso a maioria dos setores da indústria de transformação registrou crescimento negativo da produtividade do trabalho e perda de competitividade evidenciada pelo crescente e elevado déficit comercial nos setores mais intensivos em tecnologia Até mesmo vários setores de baixa e médiabaixa tecnologia tradicionalmente superavitários passaram a apresentar déficits comerciais substantivos Quarto vários setores têm caminhado da indústria de transformação para a indústria de montagem especialmente os mais intensivos em tecnologia em que há elevada presença de empresas transnacionais Apesar do aumento da produção houve menor transformação físicaquímicabiológica por unidade de produto O aumento no volume de empregos de até dois salários mínimos e demissão em todas as faixas salariais superiores aumento nas importações de insumos e componentes especialmente os insumos com maior conteúdo tecnológico e alargamento do gap tecnológico frente aos países líderes são indícios de que a manufatura brasileira tem realizado menos transformação e mais operações simples de montagem com pouca agregação de valor ou seja tem se especializado em tarefas com menor habilidade em sustentar o crescimento da produtividade Quinto especialmente nos setores mais intensivos em tecnologia e com maior poder de transformação houve profunda regressão da base industrial produtiva e tecnológica por unidade de produto Nos setores que apresentaram melhor desempenho da produção o Brasil não produziu produtos de alta e médiaalta tecnologia apenas os montou Com raras exceções as filiais de empresas transnacionais se limitaram a fazer adaptações melhorias pontuais e controle de qualidade no Brasil como atividades mais nobres e importaram a maioria dos componentes tecnológicos Além disso no país essas empresas fazem uma pequena fração da pesquisa e desenvolvimento de seus pares nos países de origem inclusive com esforço tecnológico menor que as empresas nacionais45 Elas operam com alto índice de importação de insumos e componentes tecnológicos bloqueando o desenvolvimento inovativo nacional Cassiolato Szapiro e Lastres 2015 e como colocou Baer 2014 cap 10 as multinacionais estrangeiras geram benefícios e custos ao países hospedeiros No Brasil essas empresas geraram benefícios limitados na esfera produtiva e pouquíssimos desenvolvimentos tecnológicos Sexto a indústria nacional é integrada às cadeias globais de valor pelo lado das importações que é a lógica da integração mas não pelas exportações Os setores de alta e médiaalta tecnologia que ditam o ritmo das CGV mundo afora no Brasil têm um viés importador e antiexportador Como mostrado neste trabalho não será importando mais 45 Ver Cassiolato et al 2014 31 insumos e componentes no estado da arte que a manufatura ganhará eficiência para exportar Entre 2004 e 2013 o coeficiente de importação dobrou em alguns setores triplicou ou cresceu ainda mais porém o coeficiente de exportação permaneceu estável ou diminuiu É uma fragmentação introvertida que não gera exportações Nesse sentido uma nova rodada de abertura comercial via redução generalizada das tarifas de importação apenas aprofundará a trajetória recente da transformação industrial para a simples montagem e em alguns setores para a maquila Mas a revisão de distorções pontuais nas tarifas de importação é necessária especialmente nos casos de insumos produzidos por oligopólios Sétimo o país necessita urgentemente implementar uma agenda para elevar o coeficiente de exportação dos setores estruturalmente mais ativos nas cadeias globais de valor especialmente nas indústrias de alta e médiaalta tecnologia para desse modo estancar parcialmente o vazamento de demanda e administrar o elevado déficit comercial Já há competitividade nas indústrias intensivas em recursos naturais e neste caso manter uma taxa de câmbio competitiva resolveria a questão Nos setores intensivos em trabalho produzir no Brasil ficou caro portanto é preciso focar em qualidade e marketing para fugir da concorrência via preços com os países asiáticos Oitavo o país precisa avançar rapidamente na sua agenda estrutural e sistêmica para melhorar o ambiente de negócios e devolver a competividade para a atividade produtiva Para o setor industrial reduzir a carga tributária e a sua complexidade modernizar e ampliar a infraestrutura melhorar as práticas de gestão e manter a taxa de câmbio competitiva são fatores mais urgentes no curto e médio prazos além de melhorar a qualidade da educação e uma política industrial focalizada Nas últimas décadas além de falhar na agenda estrutural e sistêmica o país também cometeu falhas nas políticas industriais que tiveram um foco setorial muito abrangente com poucas exigências de contrapartidas Quando se prioriza todos os setores não se focaliza em nenhum Em resumo o Brasil ainda é um ator relevante na indústria mundial A indústria brasileira é diversificada e o país fabrica produtos complexos como carros aviões medicamentos químicos e eletrônicos Do ponto de vista tecnológico a produção da maioria desses produtos é uma ilusão estatística uma vez que não gera desenvolvimento tecnológico e poder transformador devido ao elevado conteúdo importado de componentes tecnológicos O país não está se especializando em tarefas de alto valor agregado e intensivas em habilidades como design marketing e PD o que é uma barreira ao progresso para um país populoso Para reverter esse quadro além de uma política macroeconômica coerente com o desenvolvimento industrial são necessárias políticas industriais com contrapartidas bem definidas e há bastante espaço para usar políticas de regulação setorial realizar acordos 32 comerciais de modo pragmático e adotar políticas educacionais coerentes com um projeto de desenvolvimento 6 Referências Amann E Baer W 2012 Brazil as an emerging economy a new economic miracle Brazilian Journal of Political Economy vol 32 n 3 128 JulSep p 412423 ANFAVEA Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores 2015 Anuário da Indústria Automobilística Brasileira 2015 São Paulo ANFAVEA Baer W 2014 The Brazilian economy growth and development 7ed Colorado Lynne Rienner Publishers Baer W 2015 Institutional obstacles to Brazils economic growth and development Revista de Desenvolvimento e Políticas Públicas Ano 1 n 1 ago p 617 Viçosa UFV Barros O Pereira R R 2008 Desmistificando a tese da desindustrialização reestruturação da indústria brasileira em uma época de transformações globais In Barros O e Giambiagi F org Brasil Globalizado p 299330 Editora Campus Rio de Janeiro 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Exportações sobre Produção Penetração das Importações Saldo Comercial sobre a Produção 2003 2013 PIB Ocupações Produtividade do trabalho Produção Demanda Doméstica Demanda total 2003 2013 2003 2013 2003 2013 Baixa e médiabaixa tecnologia 653 603 14 28 14 236 380 335 153 131 59 136 99 05 Alimentos e bebidas 206 184 08 43 33 195 248 229 177 169 38 69 145 107 Produtos do fumo 07 05 06 02 09 49 18 89 381 533 277 471 143 116 Têxteis 28 21 05 16 11 04 237 200 86 67 78 236 09 221 Artigos do vestuário e acessórios 26 20 04 21 17 35 325 235 81 15 23 182 59 204 Artefatos de couro e calçados 19 12 07 09 16 137 02 82 307 257 25 101 289 174 Produtos de madeira exclusive móveis 13 09 05 06 01 53 246 46 353 151 25 28 337 127 Celulose e produtos de papel 34 35 27 29 02 347 359 411 251 294 82 142 184 177 Jornais revistas e discos 13 11 06 20 14 102 106 104 02 00 01 03 00 03 Refino de petróleo coque e biocombustíveis 124 135 11 63 70 453 540 520 61 50 61 103 00 59 Borracha e plástico 37 34 17 49 31 218 466 439 81 73 102 247 23 231 Outros minerais nãometálicos 28 30 34 42 08 434 715 622 112 66 55 169 60 124 Metalurgia 58 47 13 38 23 97 319 225 330 304 102 224 253 102 Produtos de metal exceto MEs 35 37 39 37 01 425 680 665 67 68 68 210 01 180 Móveis e produtos das indústrias diversas 26 24 30 14 16 267 465 408 72 36 43 140 31 121 Alta e médiaalta tecnologia 347 397 47 50 02 531 944 892 170 172 252 412 109 408 Química 98 87 23 11 12 188 446 423 123 124 254 388 176 431 Farmacêutica 21 25 51 29 21 552 653 682 35 62 251 317 289 373 Equip de informática eletrônicos e ópticos 42 55 60 46 13 745 1481 1289 141 35 369 502 362 936 Máquinas aparelhos e materiais elétricos 26 26 33 59 24 344 799 753 113 108 247 434 177 575 Máquinas e equipamentos MEs 59 67 35 70 33 525 1140 1008 173 131 265 450 126 579 Automóveis caminhões e ônibus 54 81 71 51 19 1006 1689 1353 239 141 85 230 168 115 Peças e acessórios para veículos automotores 27 28 42 38 04 348 1048 828 293 239 279 488 21 488 Outros equipamentos de transporte 20 29 71 71 01 994 352 1411 316 832 192 707 153 426 Indústria de transformação 1000 1000 28 33 05 339 604 553 158 147 135 268 27 165 Economia total 38 20 17 455 536 536 72 76 62 115 11 44 Nota Todas as variáveis monetárias estão mensuradas a preços básicos e constantes exportações e importações a preços FOB Exceto instrumentos e materiais para uso médico e odontológico e de artigos ópticos Inclui instrumentos e materiais para uso médico e odontológico e de artigos ópticos Inclui manutenção reparação e instalação Fonte Cálculos próprios a partir do Sistema de Contas Nacionais do IBGE