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Marcos Bagno 19 RESUMO RESUMÉ NORMA LINGUÍSTICA HIBRIDISMO TRADUÇÃO O conceito de norma linguística desde sempre oscila entre uma perspectiva do normal e uma perspectiva do normativo A primeira é de interesse da sociolinguística e das práticas descritivas da língua a segunda é o foco de atenção da gramática normativa e das práticas prescritivas Na sociedade brasileira contemporânea no entanto essa separação se torna cada vez mais instável e difuso dando origem de fato a normas híbridas em que se confundem prescrições tradicionais e representações do normativo por parte dos diferentes falantes Nos processos sociais de tradução essa hibridização fica patente nas diferentes normas que incidem sobre um texto traduzido desde sua produção pelo tradutor até sua impressão definitiva e chegada ao mercado Entre esses dois polos diversos agentes normativos interferem na tradução muitas vezes em franca oposição às opções iniciais do tradutor Palavraschave norma linguística normal normativo hibridização linguística tradução hipercorreção NORME LINGUISTIQUE HIBRIDISME TRADUCTION Le concept de norme linguistique a toujours oscillé entre les perspectives du normal et du normatif La première interesse la sociolinguistique et les pratiques descriptives des langues la seconde fait lobjet de la grammaire normative et des pratiques prescriptive Dans la société brésilienne contemporraine cependant cette séparation devient de plus en plus instable et est ainsi à lorigine de normes hybrides où les différents parlants tendent à confondre les prescriptions traditionnelles et les représentations du normatif Dans les processus sociaux de la traduction cette hybridisation se reflète dans les différentes normes qui inscident sur le texte traduit dès sa production par le traducteur jusquà son impression définitive et son arrivée dans le marché des libraires Entre ces deux pôles divers agents normatifs interviennent dans la traduction très souvent en opposition par rapport aux options premières du traducteur Motsclé norme linguistique normal normatif hybridisation linguistique traduction hypercorrection Traduzires 1 Maio 2012 20 NORMA LINGUÍSTICA HIBRIDISMO TRADUÇÃO Marcos Bagno Universidade de Brasília bagnomarcosgmailcom Introdução O conceito de norma é um dos principais objetos de interesse da sociologia da linguagem e não poderia ser de outra maneira uma vez que a norma é antes de mais nada um construto teórico que emerge do exame das relações sociais A ele temos nos dedicado há algum tempo ver BAGNO 2001 2002 2003 LAGARES e BAGNO 2011 sempre com vista a investigar seu impacto na história sociolinguística do Brasil e na nossa tradição pedagógica Aqui vamos nos valer dessas reflexões para uma análise das relações entre norma linguística e prática da tradução 1 A ambiguidade terminológica No que diz respeito às questões linguísticas o conceito de norma dá margem a muita discussão teórica No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa fica evidente a duplicidade de noções contida na palavra norma quando se trata de língua 4 Rubrica linguística gramática conjunto dos preceitos estabelecidos na seleção do que deve ou não ser usado numa certa língua levando em conta fatores linguísticos e não linguísticos como tradição e valores socioculturais prestígio elegância estética etc 5 Rubrica linguística tudo o que é de uso corrente numa língua relativamente estabilizada pelas instituições sociais Como é possível num mesmo campo de investigação usar um único termo para o que é preceito estabelecido e para o que é uso corrente Diversos autores realmente destacam o fato de que do mesmo substantivo norma derivam dois adjetivos normal e normativo usados com sentidos bem distintos O normal é o que descreve a acepção 5 do dicionário enquanto a acepção 4 se refere ao normativo O antropólogo canadense S Aléong assim define cada um deles 2001 p 148 Se se entende por normativo um ideal definido por juízos de valor e pela presença de um elemento de reflexão consciente da parte das pessoas concernidas o normal pode ser definido no sentido matemático de frequência real dos comportamentos observados grifos meus Descrição semelhante se encontra nas reflexões do linguista francês A Rey 2001 p 116 Antes de toda tentativa de definir a norma a consideração lexicológica mínima descobre por trás do termo dois conceitos um atinente à observação o outro à elaboração de um sistema de valores um correspondente a uma situação objetiva e estatística o outro a um feixe de intenções subjetivas A mesma palavra utilizada sem precaução corresponde ao mesmo tempo à ideia de média de frequência de tendência geralmente e habitualmente realizada e à de conformidade a uma regra de juízo de valor de finalidade designada Essas oposições ficam muito claras quando aparecem dispostas lado a lado Marcos Bagno 21 Essa duplicidade de sentidos registrada no dicionário e detectada por Aléong e Rey aparece muito claramente no discurso das pessoas que falam sobre a língua seja no campo da investigação científica ou na abordagem leiga do tema Para piorar a situação a palavra norma quase nunca anda sozinha Ela frequentemente vem seguida de algum qualificativo que tenta definila de modo mais específico Dos diversos adjetivos usados para qualificar a norma o mais comum certamente é o adjetivo culta e a expressão norma culta circula livremente nos jornais na televisão na internet nos livros didáticos na fala dos professores nos manuais de redação das grandes empresas jornalísticas nas gramáticas nos textos científicos sobre língua etc Mas o que é afinal essa norma culta Ela se refere ao que é ao normal ao frequente ao habitual ou ao que deveria ser ao normativo ao elaborado à regra imposta A maior dificuldade em lidar com a norma culta é precisamente o fato de ela ter dupla personalidade o fato de por trás desse rótulo norma culta se esconderem dois conceitos opostos no que diz respeito à língua que falamos e escrevemos Vamos ver do que se trata 2 Norma culta um preconceito milenar O primeiro desses conceitos é o que poderíamos chamar de do senso comum tradicional ou ideológico e é aquele que tem mais ampla circulação na sociedade Na verdade tratase muito mais de um preconceito do que de um conceito propriamente dito É o preconceito de que existe uma única maneira certa de falar a língua e que seria aquele conjunto de regras e preceitos que aparece estampado nos livros chamados gramáticas Por sua vez essas gramáticas se baseariam supostamente num tipo peculiar de atividade linguística exclusivamente escrita de um grupo muito especial e seleto de cidadãos os grandes estilistas da língua que também costumam ser chamados de os clássicos Inspirados nos usos que aparecem nas grandes obras literárias sobretudo do passado os gramáticos tentam preservar esses usos compondo com eles um modelo de língua um padrão a ser observado por todo e qualquer falante que deseje usar a língua de maneira correta civilizada elegante etc É esse modelo que recebe tradicionalmente o nome de norma culta Vamos ver por exemplo como alguns importantes gramáticos definem o seu trabalho e dentro dele como usam o adjetivo culta NORMA normativo normal preceitos ideal reflexão consciente elaboração intenções subjetivas conformidade a uma regra juízos de valor finalidade designada uso corrente real comportamento observação situação objetiva média estatística frequência tendência geral e habitual Traduzires 1 Maio 2012 22 Os filólogos Celso Cunha brasileiro e Lindley Cintra português ao apresentarem sua Nova gramática do português contemporâneo 1985 p xiv assim escrevem Tratase de uma tentativa de descrição do português atual na sua forma culta isto é da língua como a têm utilizado os escritores portugueses brasileiros e africanos do Romantismo para cá grifos meus Já Rocha Lima em sua Gramática normativa da língua portuguesa 1989 p 6 declara Fundamentamse as regras da Gramática Normativa nas obras dos grandes escritores em cuja linguagem as classes ilustradas põem o seu ideal de perfeição porque nela é que se espelha o que o uso idiomático estabilizou e consagrou grifos meus Evanildo Bechara por seu turno não usa o adjetivo culta prefere um eufemismo língua exemplar que define de modo confuso e pouco consistente mas também se refere à literatura Assim na mais recente edição de sua Moderna gramática da língua portuguesa 1999 p 52 ele explica A gramática normativa recomenda como se deve falar e escrever segundo o uso e a autoridade dos escritores corretos e dos gramáticos e dicionaristas esclarecidos Mas quem é que diz se um determinado escritor é ou não é correto E mais grave ainda quem define se este ou aquele gramático é ou não esclarecido O autor não explica o que pode levar a pensar que é ele próprio quem vai atribuir a si mesmo autoridade bastante para estabelecer esses critérios de classificação Evitando falar de literatura o conhecido compêndio gramatical de Domingos Paschoal Cegalla Novíssima gramática da língua portuguesa 1990 p xix é apresentado do seguinte modo Este livro pretende ser uma Gramática Normativa da Língua Portuguesa conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na época atual No entanto quem são essas pessoas cultas Que critérios o autor utilizou para classificá las assim onde quando e com que metodologia científica Ele não esclarece e o que vemos consultando o livro é que os exemplos são tirados ou de sua própria imaginação ou mais uma vez de obras literárias Todos esses autores portanto ao definir assim a língua culta ou forma culta ou norma culta ocupam o lugar que lhes cabe numa longuíssima fila de estudiosos da língua que há quase dois mil e quinhentos anos associam língua culta com escrita literária Essa é uma tradição que começou por volta do século III antes de Cristo entre os filósofos e filólogos gregos quando foi criada a própria disciplina batizada de gramática Aliás sintomaticamente a palavra gramática em grego significava na origem a arte de escrever Ao se interessar exclusivamente pela língua dos grandes escritores do passado ao desprezar completamente a língua falada considerada caótica ilógica estropiada e também ao classificar a mudança da língua ao longo do tempo de ruína ou decadência os fundadores da disciplina gramatical cometeram um equívoco que poderíamos chamar de pecado original dos estudos tradicionais sobre a língua Foram eles e seus seguidores de fato que plantaram as sementes do preconceito linguístico que iam dar tantos e tão amargos frutos ao longo dos séculos seguintes Foram eles que sacralizaram na cultura ocidental o mito de que existe erro na língua principalmente na língua falada Por isso até hoje as pessoas julgam a língua falada usando como instrumento de medição a língua escrita literária mais consagrada qualquer regra linguística que não esteja presente na grande literatura e como são numerosas essas regras é imediatamente tachada de erro O uso da linguagem literária como material de investigação para a descriçãoprescrição de uma norma de um conjunto de regras podia se justificar na Antiguidade e na Idade Média pelo fato de a literatura ser praticamente a única forma de expressão da língua escrita mais monitorada durante aqueles períodos históricos Não havia possibilidade de registrar a língua falada para que fosse usada como material de estudo o que só aconteceu depois da invenção do gravador no século XX O único modo de estudar a língua era por meio da Marcos Bagno 23 escrita e a única escrita à qual se tinha acesso era a literária que incluía não só as obras de ficção mas também as de filosofia e teologia Mesmo as cartas pessoais eram escritas sob a influência das regras da retórica clássica que exigiam floreios sintáticos e vocabulário requintado Hoje no século XXI a opção pela literatura como modelo de língua a ser imitado é no mínimo absurda O impacto da linguagem literária sobre uma sociedade como a brasileira por exemplo é ínfimo Tradicionalmente somos um povo que lê pouco nossas práticas sociais mesmo entre as classes abastadas sempre foram muito mais guiadas pela oralidade do que pela cultura livresca Por outro lado a literatura que de fato exerce poderosa influência sobre a maioria dos brasileiros é a poesia da nossa rica música popular ou seja uma poesia oralizada Somos muito mais influenciados pelas modas linguísticas da televisão e do rádio e em menor escala da imprensa escrita do que pelo trabalho estilístico dos autores de ficção Estes por sua vez nos últimos cem anos vêm se esforçando por incorporar em suas obras traços característicos da língua falada no diaadia da sociedade é a arte imitando a vida e não o contrário como sempre se postulou em questões de língua durante o longo predomínio da tentativa de imitação dos clássicos Além disso diante da inegável evidência de que o português brasileiro e o português europeu já são duas línguas marcadamente distintas não tem justificativa nenhuma como fazem os dicionários e as gramáticas dar exemplos de autores portugueses na maioria antigos como modelos para a atividade linguística dos brasileiros de hoje Ao longo dos séculos os defensores dessa concepção tradicional isolaram a língua retiraram a língua da vida social colocaram numa redoma onde deveria ser mantida intacta pura e preservada da contaminação dos ignorantes Por causa dessa atitude é que até hoje o professor de português ou mais especialmente o gramático é visto como uma espécie de criatura incomum um misto de sábio e mágico que detém o conhecimento dos mistérios dessa língua que existe fora do tempo e do espaço e é esse saber misterioso que poderíamos chamar de norma oculta Não admira que em francês a palavra grimoire variante de grammaire gramática designe o livro que contém as fórmulas secretas da bruxaria ilegíveis para o consulente não iniciado Esse é então o primeiro conjunto de ideias que se esconde debaixo do rótulo norma culta uma língua ideal baseada supostamente no uso dos grandes escritores do passado de preferência um modelo abstrato que não corresponde a nenhum conjunto real das regras que governam a atividade linguística por parte dos falantes Esse modelo de língua ideal acaba criando uma grade de critérios dicotômicos empregada para qualificar as variantes linguísticas certo vs errado bonito vs feio elegante vs grosseiro civilizado vs selvagem e é claro culto vs ignorante Assim o que não está nas gramáticas não é norma culta é erro crasso é língua de índio português estropiado ou simplesmente não é português O próprio nome do idioma português então deixa de designar toda e qualquer manifestação falada e escrita da língua por parte de todo e qualquer falante nativo e passa a designar exclusivamente esse ideal abstrato de língua certa essa norma oculta que só uns poucos iluminados conseguem apreender e dominar integralmente Não é à toa portanto que tanta gente diga que não sabe português ou que português é muito difícil 3 Norma culta um termo técnico Mas dissemos que havia também um outro conjunto de noções contido no rótulo norma culta E qual é ele A outra definição que se dá ao rótulo norma culta se refere à linguagem concretamente empregada pelos cidadãos que pertencem aos segmentos mais favorecidos da nossa população Esta é a noção de norma culta que vem sendo empregada em diversos empreendimentos científicos como por exemplo o Projeto NURC Norma Urbana Culta Traduzires 1 Maio 2012 24 que desde o início dos anos 1970 vem documentando e analisando a linguagem efetivamente usada pelos falantes cultos de cinco grandes cidades brasileiras Recife Salvador Rio de Janeiro São Paulo e Porto Alegre sendo estes falantes cultos definidos por dois critérios de base escolaridade superior completa e antecedentes biográficoculturais urbanos Tratase portanto de um conceito de norma culta um termo técnico estabelecido com critérios relativamente mais objetivos e de base empírica O que as pesquisas científicas feitas no Brasil nos últimos trinta anos têm revelado é que existe uma diferença muito grande entre o que as pessoas em geral chamam de norma culta inspiradas na longa tradição gramatical normativoprescritiva e o que os pesquisadores profissionais chamam de norma culta um termo técnico para designar formas linguísticas que existem na realidade social Essa diferença se reflete também na postura que a pessoa assume diante dos fatos linguísticos As pessoas que usam a expressão norma culta como um pré conceito tentam encontrar em todas as manifestações linguísticas faladas e escritas esse ideal de língua esse padrão préestabelecido que como uma espécie de lei todos teriam obrigação de conhecer e de respeitar Como é virtualmente impossível encontrar esse modelo abstrato na realidade da vida social os defensores dessa noção de norma culta consideram que praticamente todas as pessoas de todas as classes sociais falam errado Essa busca desesperada leva à frustração autoritária que encontra sua expressão máxima em manifestações como a seguinte O Brasil é país de idioma sem gramática será afirmação válida para daqui a algumas décadas Até que esse dia chegue continuemos a fingir que falamos uma língua culta sem influência de promiscuidades regionais nem tribais artísticas nem raciais sem a perniciosa interferência de professores relapsos nem de acadêmicos derrotistas sem criações gráficas exóticas para designar produtos de indústria ou para indicar tribos de índios sem deformações sintáticas introduzidas sob o pretexto da cadência musical por levianos ou ignorantes ALMEIDA 1994 p 310 O absurdo dessa afirmação está logo de saída no fato de não existir idioma sem gramática nem gramática sem idioma são termos que apresentam uma mútua implicação semântica isto é um só faz sentido na relação que mantém com o outro um idioma sem gramática seria como água sem hidrogênio ou seja não seria água Mas é esse o mesmo autor que afirma é português estropiado que no Brasil se fala ALMEIDA 1994 p 591 É o purismo linguístico em sua expressão mais explícita purismo que é de fato um pensamento nostálgico e pessimista da língua CERQUIGLINI 2007 p 47 Aqueles que por outro lado usam a expressão norma culta como um conceito como um termo técnico agem exatamente ao contrário primeiro investigam a atividade linguística dos falantes em suas interações sociais para depois dizer o que é essa atividade por meio de instrumental teórico consistente Com base nessa investigação e nessa análise é que os linguistas podem afirmar por exemplo que o pronome cujo desapareceu da língua falada no Brasil inclusive da língua falada pelos brasileiros classificados de cultos que o futuro simples do indicativo eu cantarei também sobrevive apenas na escrita mais formal que as regras tradicionais de colocação pronominal são de uma inutilidade absoluta e assim por diante 4 Delimitação terminológica Para fugir dessas ambiguidades diversos linguistas brasileiros têm proposto designar a norma culta ideal normativa com o rótulo de normapadrão reservando o termo norma culta para os usos reais empiricamente coletados nas pesquisas de campo Pessoalmente temos preferido simplesmente descartar a expressão norma culta justamente por suas ambiguidades e sobretudo por já conter implícito um forte preconceito social afinal Marcos Bagno 25 designar determinado modo de falar como culto significa automaticamente lançar no porão do inculto todas as demais variedades sociolinguísticas Ora a cada variedade linguística corresponde uma comunidade de falantes e não existe comunidade de falantes isto é não existe grupo social desprovido de uma cultura Ao designar um conjunto de variedades como cultas fica óbvio que o conceito de cultura suposto no rótulo se refere a um tipo específico de cultura a cultura das classes socioeconômicas privilegiadas urbanas e mais letradas No entanto para as discussões que vamos fazer a seguir usaremos a oposição entre normapadrão e norma culta proposta entre outros por Faraco 2008 Lucchesi 2002 Mattos e Silva 1995 2008 Deve ficar claro portanto que uma construção sintática como eu conheço ele muito bem não tem abrigo na normapadrão que a considera errada mas integra perfeitamente a norma culta real uma vez que o uso do pronome ele como objeto direto é normal regular e frequentíssimo entre todos os brasileiros incluindo os classificados de cultos Outra distinção importante é a que retira a normapadrão do universo de variedades linguísticas reais do português brasileiro A normapadrão não é um modo de falar como o próprio termo padrão implica tratase de um modelo de língua um ideal a ser alcançado um construto sociocultural que não corresponde de fato a nenhuma das muitas variedades sociolinguísticas existentes em território brasileiro Por ser uma forma ideal no sentido platônico do termo a normapadrão não pertence ao mundo dos fenômenos mas exclusivamente ao mundo das ideias sendo portanto um ser de razão A norma culta por sua vez abriga um conjunto de variedades sociolinguísticas empiricamente coletáveis expressão da atividade linguageira das cidadãs e dos cidadãos de vivência urbana e elevado grau de letramento Ela é composta do que preferimos chamar de variedades urbanas de prestígio que comportam diferenças entre si a fala urbana de prestígio do Recife por exemplo tem traços distintivos com relação à de Porto Alegre mas também um núcleo central bastante homogêneo 5 Do normal ao normativo Sendo um comportamento social a atividade linguística está sujeita às mesmas dinâmicas que regulam e desregulam todas as demais práticas sociais ou seja todas as demais normas vigentes na sociedade Assim é que ao longo do tempo práticas sociais minoritárias podem ganhar cada vez mais ampla aceitação nas esferas da sociedade até eventualmente saírem de sua clandestinidade e se tornarem regras sociais abrigadas pelas instituições normatizadoras Estado legislação sistema escolar etc É o que podemos descrever como o percurso do normal ao normativo Um bom exemplo nos é dado pelas relações matrimoniais No caso brasileiro o casamento foi durante muito tempo indissolúvel No entanto aos poucos as pessoas mesmo oficialmente casadas passaram a levar vidas separadas sem deixar que essa prática viesse a público A pressão social fez com que surgisse o desquite 1916 em que os vínculos matrimoniais eram dissolvidos mas as pessoas implicadas permaneciam legalmente casadas e não podiam se casar novamente As transformações sociais prosseguiram e levaram em 1977 à promulgação da lei do divórcio Na nova Constituição de 1988 a exigência de casamento legal desapareceu e qualquer relação comprovadamente duradoura goza de todos os direitos atribuídos às relações matrimoniais oficiais É de se prever que com novas pressões até Traduzires 1 Maio 2012 26 representação da norma mesmo as relações homoafetivas venham a ser regularizadas e protegidas por lei decisão do Supremo Tribunal Federal de maio de 2011 Essa passagem do normal ao normativo também se verifica nos usos da língua Na edição brasileira do conhecido dicionário Caldas Aulete de 1958 encontramos o seguinte verbete pêgo part pop bras de pegar Só os incultos empregam êste têrmo Ora cinquenta anos depois o dicionário Houaiss 2009 nos informa em seu verbete pegar apresenta duplo part pegado pego ê ou é A total ausência de comentário do Houaiss comprova que o que antes era visto como coisa de incultos já se tornou perfeitamente aceitável e até normatizado Infelizmente não podemos deixar de reconhecer que numa sociedade muito hierarquizada como a brasileira e extremamente desigual no tocante à distribuição dos bens materiais culturais e sociais são as elites urbanas mais letradas que ditam o que é certo ou errado não só em termos de língua mas em todos os comportamentos crenças gostos etc Assim a ascensão do normal ao normativo depende da aceitação desse normal no interior dessas camadas sociais privilegiadas 6 A tensão entre a normapadrão e a norma culta Por ser um construto sociocultural e nunca uma variedade linguística real a norma padrão é reconhecida pelos falantes mas nunca totalmente conhecida por eles O caráter eminentemente anacrônico do padrão no nosso caso elaborado com base nos usos de escritores portugueses do Romantismo século XIX faz que ele seja antes de mais nada contraintuitivo isto é refratário à intuição linguística do falante nativo pleno conhecedor da gramática de sua língua gramática intrinsecamente diferente das regras prescritas no padrão Essas regras prescrevem sempre como únicas formas corretas precisamente os usos menos comuns menos habituais menos normais O exemplo que demos acima comprova isso enquanto a gramática normativa só aceita os clíticos oaosas para a retomada anafórica de objeto direto a realidade dos usos comprova que esses clíticos são de uso raríssimo enquanto os pronomes eleelaeleselas e a anáforazero são de fato as estratégias anafóricas privilegiadas por todos os brasileiros BAGNO 2011 Com isso entre a normapadrão e a norma culta surge uma zona de tensão na qual todos os falantes e mais intensamente os falantes urbanos letrados se veem pressionados por duas forças opostas O resultado é que desconhecendo em sua integralidade todo o aparato normativo e ao mesmo tempo sujeitos à força inelutável de sua intuição linguística esses falantes acabam por criar cada um deles uma representação da norma que é sempre um compósito híbrido em que o normal e o normativo se interpenetram e se mesclam NORMAPADRÃO NORMA CULTA Marcos Bagno 27 Essa norma híbrida se verifica principalmente nas práticas de uma escrita mais monitorada uma vez que no imaginário dos falantes decorrente de um longo preconceito histórico surgido entre os primeiros gramáticos helenísticos no século III aC a escrita é um bloco homogêneo e toda produção escrita tem de ser formal rebuscada caprichada etc Trata se de um equívoco cultural muito arraigado mas desmistificado pelas reflexões contemporâneas sobre as relações entre língua falada e língua escrita O tipo de mixagem que o escrevente propõe quando toma como referência o código institucionalizado tem pois como pano de fundo a visão do letradoescrito como um modo autônomo de expressão em cujo processamento identificado no caso à escrita culta formal o escrevente se espelha Frequentemente essa busca de um modelo leva o escrevente a excederse numa caracterização do texto baseada em características que ele supõe como próprias e até exclusivas da escrita Nessas ocasiões evidenciase de modo privilegiado sua representação do código institucionalizado imagem por meio da qual representa a sua escrita seu interlocutor e a si mesmo CORRÊA 2004 p 166 Além da inexistência de uma escrita pura é preciso ter em mente que toda produção textual na atualidade falada eou escrita se configura inexoravelmente como uma manifestação semioticamente híbrida que mobiliza os multimeios sonoros visuais gráficos tridimensionais etc que as novas tecnologias de comunicação e informação têm colocado ao nosso dispor Outro aspecto que cabe ressaltar é que essas mesmas novas tecnologias possibilitaram que a escrita dispusesse de recursos semióticos amplamente capazes de concorrer com as manifestações orais Na fala podemos nos valer do tom de voz da altura das infindáveis modulações de entoação do falsete da imitação de outras vozes ou de vozes de animais da gagueira proposital do arremedo de sotaques da ênfase por meio da separação das sílabas entre tantos outros recursos A escrita até pouco tempo quando comparada a essa riqueza de possibilidades parecia muito mais pobre Hoje no entanto temos à nossa disposição sofisticados recursos de multimídia que nos permitem aumentar o tamanho das letras para enfatizar a mensagem usar cores variadas fazer as palavras dançar na tela mudar de cor piscar intermitentemente e até mesmo sobrepor a fala ao que está escrito entre muitas outras coisas Com isso escrever hoje em dia é quase o mesmo que falar É mesmo possível dizer que tanto quanto na fala existe uma prosódia no texto escrito que se pode produzir graças às ferramentas da era digital Retomando a noção de hibridismo nem mesmo a noção de gênero textual recentemente introduzida nos estudos linguísticos e na prática pedagógica pretende apreender um objeto pronto e acabado O que realmente existe são textos que se configuram predominantemente num determinado gênero mas nunca integralmente nele Qualquer manifestação da nossa faculdade de linguagem é híbrida em qualquer texto falado ou escrito fazemos usos amplamente variados dos múltiplos recursos que a língua nos oferece Num mesmo texto em que encontramos certas marcas de um extremo monitoramento do discurso também podemos encontrar regências verbais concordâncias colocações pronominais e outros usos que escapam do que vem previsto nas gramáticas normativas 7 Exemplos da norma híbrida Vejamos alguns poucos exemplos que comprovam esse hibridismo inevitável resultante da representação que uma pessoa altamente letrada faz do que seja a norma linguística que deve presidir à sua manifestação falada mas principalmente escrita 1 As falhas operacionais na ocupação do Complexo do Alemão derivaram da falta de conhecimento do fenômeno e isso não significa acordo com o crime organizado O diversionismo em curso só aproveita ao crime organizado Ele Traduzires 1 Maio 2012 28 quebra a confiança dos cidadãos nas forças do Estado Durante anos assistiuse nas correlações entre associações criminosas e membros escravizados da comunidade um vínculo de solidariedade constituído pelo medo E tal vínculo acabou de ser desfeito com as retomadas Wálter Fanganiello Maierovitch Carta Capital no 625 8122010 p 31 grifos meus O autor é jurista renomado desembargador do Tribunal de Justiça e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais Seu texto se caracteriza por um vocabulário erudito e construções sintáticas clássicas Mas ao mesmo tempo em que encontramos uma dessas construções clássicas só aproveita ao crime organizado também encontramos uma regência condenada inapelavelmente pela tradição normativa a do verbo assistir como transitivo direto assistiuse um vínculo de solidariedade onde a prescrição exige uma preposição a Ao mesmo tempo a ênclise presente em assistiuse fere as nebulosas regras de colocação pronominal uma vez que segundo essas regras um advérbio como durante anos deveria atrair o pronome oblíquo Durante anos se assistiu Mais interessante ainda é observar o hibridismo da norma agindo num pequeno trecho como o seguinte 2 Uma mudança no formato dos jornais implica obrigatoriamente em uma mudança de concepção E dada a preferência que a nossa imprensa mimetizou da TV implicará uma alteração de teor Alberto Dines Jornal do Brasil 1071999 O redator emprega simultaneamente uma regência não prevista na tradição normativa implica em uma mudança e a regência por ela prevista implicará uma alteração O hibridismo também se verifica na tensão entre discurso e prática O jornalista Artur Xexéo numa de suas colunas no Jornal do Brasil 741999 abriu seu texto citando as palavras de um leitor Meu caríssimo Xexéo há quanto tempo não lhe azucrino Começava assim um dos emails dessa semana Leitor nunca azucrina O articulista não faz nenhum comentário sobre o suposto erro do leitor que empregou o pronome lhe como objeto direto conforme a norma culta brasileira Ora no final da mesma coluna ele reproduz a queixa de outra leitora e concorda com ela Existe alguma razão evidente para o personagem de José Wilker usar o pronome lhe indevidamente São exemplos recentes Eu lhe amo eu lhe encontrei A leitora tem razão E Aguinaldo Silva prometeu que nessa novela todo mundo ia falar corretamente Mas personagem nordestino de novela da Globo sempre fala eu lhe amo Sabese lá por quê O suposto erro agora é alvo da condenação do articulista apenas porque uma leitora apegada à tradição normativa se queixou explicitamente do uso que Aguinaldo Silva fez do pronome E Xexéo aproveita para preconceituosamente criticar o que lhe parece ser um preconceito contra os nordestinos No entanto quando se deixa levar por sua intuição linguística o próprio Xexéo faz uso do mesmo fictício erro 3 Lula é mesmo um presidente de atitude e não se envergonha de usar bonés ou uniformes que agradem os que lhe visitam ou os que são por ele visitados O Globo 2072003 8 A norma híbrida na prática da tradução Sendo a tradução uma atividade desempenhada ao menos no plano institucional e profissional por falantes altamente letrados é inevitável que nela também encontremos os Marcos Bagno 29 indícios da hibridização de normas que encontramos em qualquer texto escrito eou falado E é o que comprovam os seguintes exemplos 4 A definição dominante das coisas boas de se dizer e dos temas dignos de interesse é um dos mecanismos ideológicos que fazem com que as coisas também boas de se dizer não sejam ditas e com que temas não menos dignos de interesse não interessem a ninguém ou só possam ser tratados de modo envergonhado ou vicioso BOURDIEU P Escritos sobre educação Trad de Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani Petrópolis Vozes 1998 p 35 Temos aqui um uso do pronome se condenado pela tradição normativa que o considera dispensável em construções desse tipo em que ele atuaria como sujeito do infinitivo A forma prescrita seria coisas boas de dizer 5 O bachotage não é o mal absoluto quando consiste tãosomente em reconhecer que se prepara os alunos para o baccalauréat e determinálos por isso mesmo a reconhecer que eles estão se preparando para o bachot id ibid p 54 A tradição normativa defende a existência de uma voz passiva sintética em que o verbo deveria concordar com seu suposto sujeito Assim a construção considerada certa seria que se preparam os alunos 6 Destacase de forma abstrata o nãosocial o nãohistórico no homem e se o anuncia como medida e critério de todo o social e o histórico BAKHTIN M O freudismo Trad de Paulo Bezerra São Paulo Martins Fontes 2001 p7 A tradição normativa condena veementemente a junção do tipo se o por considerar que no caso o nãosocial o nãohistórico no homem não é o objeto do verbo anunciar mas sim seu sujeito o que impede o emprego do pronomeobjeto o 7 Privado de um valor próprio ou tendo este lhe sido negado esse mundo extrai todo o seu apreço do serviço prestado à causa da autorreforma e é por sua contribuição à autorreforma que o mundo e cada um de seus elementos são avaliados BAUMAN Z Vida líquida Trad de Carlos Alberto Medeiros Rio de Janeiro Zahar 2009 p 19 Os pronomes oblíquos em tempos compostos devem segundo a norma padrão estar sempre proclíticos ou enclíticos ao verbo principal e nunca aos particípios passados Assim a forma prescrita seria ou tendolhe este sido negado Por fim é preciso recordar que entre a tradução feita pelo profissional e a chegada de um livro ou outra forma de suporte à publicação impressa ou online o texto passa por diversas etapas de retextualização constituídas pelos trabalhos de revisão preparação Traduzires 1 Maio 2012 30 diagramação copydesk etc Em cada uma dessas etapas estará em ação inevitavelmente a representação de norma própria a cada um desses profissionais TRADUTORA norma1 REVISORA norma2 PREPARADORA norma3 DIAGRAMADORA norma4 TEXTO PUBLICADO normax Um interessante projeto de pesquisa seria acompanhar essas diversas etapas de normatização e reconstruir as representações de norma presentes em cada uma delas Para tanto seria necessário ter acesso às várias retextualizações que se sucederam até a publicação final o que nem sempre é fácil embora não impossível Um exemplo que explicita ao menos as duas pontas do processo seria o seguinte 8 tradutor norma1 O povo baganda tinha grandes habilidades como construtores de estradas retas como as romanas e de majestosas cabanas com teto de palha que não vazam nem mesmo na estação chuvosa1 9 texto publicado normax O povo baganda possuía grandes habilidades como construtores de estradas retas como as romanas e de majestosas cabanas com teto de palha que não vazam nem mesmo na estação chuvosa A substituição de tinha por possuía revela uma crença muito difundida atualmente entre os brasileiros mais ou menos letrados de que o verbo possuir é mais literário ou sofisticado do que o verbo ter um dos mais empregados da língua Tratase evidentemente de um hipercorreção que se manifesta de forma ainda mais explícita quando se tem uma 1 NAIPAUL V S As máscaras da África Trad de Marcos Bagno São Paulo Cia das Letras 2011 p 65 Marcos Bagno 31 redatora com escasso domínio da escrita de gêneros textuais mais monitorados como neste último exemplo 10 A PRO TESTE Associação Brasileira de Defesa do Consumidor realizou uma pesquisa com refrigerantes nas versões tradicionais light e zero que apontaram resultados preocupantes com relação às substâncias presentes nos mesmos que podem fazer mal à saúde Ver Revista ProTeste nº 80 Algumas dessas marcas possuem substâncias potencialmente cancerígenas benzeno e contém corantes que podem estimular alergia e hiperatividade em crianças A pesquisa foi realizada com 24 refrigerantes sendo que sete desses possui benzeno substância cancerígena O benzeno é proveniente da reação do ácido benzóico com a vitamina C O critério para considerar a quantidade ideal desse composto foi tomar a água potável como referência que possui o limite de 5 microgramas por litro Disponível em httpwwwmulherdigitalcomrefrigerantespossuem substanciasquefazemmal Acesso em 20 maio 2011 Além da repetição do verbo possuir como uma espécie de coringa onde outros verbos dariam maior precisão semântica ao texto observamos também outro indício corrente de hipercorreção o emprego do pronome o mesmo bem como a falta de concordância em sete desses possui Referências bibliográficas ALÉONG S Normas linguísticas normas sociais uma perspectiva antropológica In BAGNO M org Norma linguística São Paulo Loyola 2001 ALMEIDA N M Dicionário de questões vernáculas São Paulo LTC 1994 AULETE C Dicionário contemporâneo da língua portuguesa Rio de Janeiro Delta 1958 BAGNO M Gramática pedagógica do português brasileiro São Paulo Parábola 2011 A norma oculta São Paulo Parábola 2003 org Linguística da norma São Paulo Loyola 2002 org Norma linguística São Paulo Loyola 2001 BECHARA E Moderna gramática portuguesa 39a ed Rio de Janeiro Lucerna 1999 CEGALLA D P Novíssima gramática da língua portuguesa 50a ed São Paulo Nacional 1990 CORRÊA M L G O modo heterogêneo de constituição da escrita São Paulo Martins Fontes 2004 CUNHA C CINTRA L F L Nova gramática do português contemporâneo Rio de Janeiro Nova Fronteira 1985 FARACO C A Norma culta brasileira desembaraçando alguns nós São Paulo Parábola 2008 Traduzires 1 Maio 2012 32 HOUAISS A Dicionário Houaiss da língua portuguesa 2a ed São Paulo Objetiva 2009 LAGARES X BAGNO M orgs Políticas da norma e conflitos linguísticos São Paulo Parábola 2011 LUCCHESI D Norma linguística e realidade social In BAGNO Marcos org Linguística da norma São Paulo Loyola 2002 MATTOS e SILVA R V Contradições no ensino de português São Paulo Contexto 1995 O português são dois São Paulo Parábola 2006 REY A 2001 Usos julgamentos e prescrições linguísticas In BAGNO Marcos org Norma linguística São Paulo Loyola 2001 ROCHA LIMA L H Gramática normativa da língua portuguesa 38a ed Rio de Janeiro José Olympio 1989

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Marcos Bagno 19 RESUMO RESUMÉ NORMA LINGUÍSTICA HIBRIDISMO TRADUÇÃO O conceito de norma linguística desde sempre oscila entre uma perspectiva do normal e uma perspectiva do normativo A primeira é de interesse da sociolinguística e das práticas descritivas da língua a segunda é o foco de atenção da gramática normativa e das práticas prescritivas Na sociedade brasileira contemporânea no entanto essa separação se torna cada vez mais instável e difuso dando origem de fato a normas híbridas em que se confundem prescrições tradicionais e representações do normativo por parte dos diferentes falantes Nos processos sociais de tradução essa hibridização fica patente nas diferentes normas que incidem sobre um texto traduzido desde sua produção pelo tradutor até sua impressão definitiva e chegada ao mercado Entre esses dois polos diversos agentes normativos interferem na tradução muitas vezes em franca oposição às opções iniciais do tradutor Palavraschave norma linguística normal normativo hibridização linguística tradução hipercorreção NORME LINGUISTIQUE HIBRIDISME TRADUCTION Le concept de norme linguistique a toujours oscillé entre les perspectives du normal et du normatif La première interesse la sociolinguistique et les pratiques descriptives des langues la seconde fait lobjet de la grammaire normative et des pratiques prescriptive Dans la société brésilienne contemporraine cependant cette séparation devient de plus en plus instable et est ainsi à lorigine de normes hybrides où les différents parlants tendent à confondre les prescriptions traditionnelles et les représentations du normatif Dans les processus sociaux de la traduction cette hybridisation se reflète dans les différentes normes qui inscident sur le texte traduit dès sa production par le traducteur jusquà son impression définitive et son arrivée dans le marché des libraires Entre ces deux pôles divers agents normatifs interviennent dans la traduction très souvent en opposition par rapport aux options premières du traducteur Motsclé norme linguistique normal normatif hybridisation linguistique traduction hypercorrection Traduzires 1 Maio 2012 20 NORMA LINGUÍSTICA HIBRIDISMO TRADUÇÃO Marcos Bagno Universidade de Brasília bagnomarcosgmailcom Introdução O conceito de norma é um dos principais objetos de interesse da sociologia da linguagem e não poderia ser de outra maneira uma vez que a norma é antes de mais nada um construto teórico que emerge do exame das relações sociais A ele temos nos dedicado há algum tempo ver BAGNO 2001 2002 2003 LAGARES e BAGNO 2011 sempre com vista a investigar seu impacto na história sociolinguística do Brasil e na nossa tradição pedagógica Aqui vamos nos valer dessas reflexões para uma análise das relações entre norma linguística e prática da tradução 1 A ambiguidade terminológica No que diz respeito às questões linguísticas o conceito de norma dá margem a muita discussão teórica No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa fica evidente a duplicidade de noções contida na palavra norma quando se trata de língua 4 Rubrica linguística gramática conjunto dos preceitos estabelecidos na seleção do que deve ou não ser usado numa certa língua levando em conta fatores linguísticos e não linguísticos como tradição e valores socioculturais prestígio elegância estética etc 5 Rubrica linguística tudo o que é de uso corrente numa língua relativamente estabilizada pelas instituições sociais Como é possível num mesmo campo de investigação usar um único termo para o que é preceito estabelecido e para o que é uso corrente Diversos autores realmente destacam o fato de que do mesmo substantivo norma derivam dois adjetivos normal e normativo usados com sentidos bem distintos O normal é o que descreve a acepção 5 do dicionário enquanto a acepção 4 se refere ao normativo O antropólogo canadense S Aléong assim define cada um deles 2001 p 148 Se se entende por normativo um ideal definido por juízos de valor e pela presença de um elemento de reflexão consciente da parte das pessoas concernidas o normal pode ser definido no sentido matemático de frequência real dos comportamentos observados grifos meus Descrição semelhante se encontra nas reflexões do linguista francês A Rey 2001 p 116 Antes de toda tentativa de definir a norma a consideração lexicológica mínima descobre por trás do termo dois conceitos um atinente à observação o outro à elaboração de um sistema de valores um correspondente a uma situação objetiva e estatística o outro a um feixe de intenções subjetivas A mesma palavra utilizada sem precaução corresponde ao mesmo tempo à ideia de média de frequência de tendência geralmente e habitualmente realizada e à de conformidade a uma regra de juízo de valor de finalidade designada Essas oposições ficam muito claras quando aparecem dispostas lado a lado Marcos Bagno 21 Essa duplicidade de sentidos registrada no dicionário e detectada por Aléong e Rey aparece muito claramente no discurso das pessoas que falam sobre a língua seja no campo da investigação científica ou na abordagem leiga do tema Para piorar a situação a palavra norma quase nunca anda sozinha Ela frequentemente vem seguida de algum qualificativo que tenta definila de modo mais específico Dos diversos adjetivos usados para qualificar a norma o mais comum certamente é o adjetivo culta e a expressão norma culta circula livremente nos jornais na televisão na internet nos livros didáticos na fala dos professores nos manuais de redação das grandes empresas jornalísticas nas gramáticas nos textos científicos sobre língua etc Mas o que é afinal essa norma culta Ela se refere ao que é ao normal ao frequente ao habitual ou ao que deveria ser ao normativo ao elaborado à regra imposta A maior dificuldade em lidar com a norma culta é precisamente o fato de ela ter dupla personalidade o fato de por trás desse rótulo norma culta se esconderem dois conceitos opostos no que diz respeito à língua que falamos e escrevemos Vamos ver do que se trata 2 Norma culta um preconceito milenar O primeiro desses conceitos é o que poderíamos chamar de do senso comum tradicional ou ideológico e é aquele que tem mais ampla circulação na sociedade Na verdade tratase muito mais de um preconceito do que de um conceito propriamente dito É o preconceito de que existe uma única maneira certa de falar a língua e que seria aquele conjunto de regras e preceitos que aparece estampado nos livros chamados gramáticas Por sua vez essas gramáticas se baseariam supostamente num tipo peculiar de atividade linguística exclusivamente escrita de um grupo muito especial e seleto de cidadãos os grandes estilistas da língua que também costumam ser chamados de os clássicos Inspirados nos usos que aparecem nas grandes obras literárias sobretudo do passado os gramáticos tentam preservar esses usos compondo com eles um modelo de língua um padrão a ser observado por todo e qualquer falante que deseje usar a língua de maneira correta civilizada elegante etc É esse modelo que recebe tradicionalmente o nome de norma culta Vamos ver por exemplo como alguns importantes gramáticos definem o seu trabalho e dentro dele como usam o adjetivo culta NORMA normativo normal preceitos ideal reflexão consciente elaboração intenções subjetivas conformidade a uma regra juízos de valor finalidade designada uso corrente real comportamento observação situação objetiva média estatística frequência tendência geral e habitual Traduzires 1 Maio 2012 22 Os filólogos Celso Cunha brasileiro e Lindley Cintra português ao apresentarem sua Nova gramática do português contemporâneo 1985 p xiv assim escrevem Tratase de uma tentativa de descrição do português atual na sua forma culta isto é da língua como a têm utilizado os escritores portugueses brasileiros e africanos do Romantismo para cá grifos meus Já Rocha Lima em sua Gramática normativa da língua portuguesa 1989 p 6 declara Fundamentamse as regras da Gramática Normativa nas obras dos grandes escritores em cuja linguagem as classes ilustradas põem o seu ideal de perfeição porque nela é que se espelha o que o uso idiomático estabilizou e consagrou grifos meus Evanildo Bechara por seu turno não usa o adjetivo culta prefere um eufemismo língua exemplar que define de modo confuso e pouco consistente mas também se refere à literatura Assim na mais recente edição de sua Moderna gramática da língua portuguesa 1999 p 52 ele explica A gramática normativa recomenda como se deve falar e escrever segundo o uso e a autoridade dos escritores corretos e dos gramáticos e dicionaristas esclarecidos Mas quem é que diz se um determinado escritor é ou não é correto E mais grave ainda quem define se este ou aquele gramático é ou não esclarecido O autor não explica o que pode levar a pensar que é ele próprio quem vai atribuir a si mesmo autoridade bastante para estabelecer esses critérios de classificação Evitando falar de literatura o conhecido compêndio gramatical de Domingos Paschoal Cegalla Novíssima gramática da língua portuguesa 1990 p xix é apresentado do seguinte modo Este livro pretende ser uma Gramática Normativa da Língua Portuguesa conforme a falam e escrevem as pessoas cultas na época atual No entanto quem são essas pessoas cultas Que critérios o autor utilizou para classificá las assim onde quando e com que metodologia científica Ele não esclarece e o que vemos consultando o livro é que os exemplos são tirados ou de sua própria imaginação ou mais uma vez de obras literárias Todos esses autores portanto ao definir assim a língua culta ou forma culta ou norma culta ocupam o lugar que lhes cabe numa longuíssima fila de estudiosos da língua que há quase dois mil e quinhentos anos associam língua culta com escrita literária Essa é uma tradição que começou por volta do século III antes de Cristo entre os filósofos e filólogos gregos quando foi criada a própria disciplina batizada de gramática Aliás sintomaticamente a palavra gramática em grego significava na origem a arte de escrever Ao se interessar exclusivamente pela língua dos grandes escritores do passado ao desprezar completamente a língua falada considerada caótica ilógica estropiada e também ao classificar a mudança da língua ao longo do tempo de ruína ou decadência os fundadores da disciplina gramatical cometeram um equívoco que poderíamos chamar de pecado original dos estudos tradicionais sobre a língua Foram eles e seus seguidores de fato que plantaram as sementes do preconceito linguístico que iam dar tantos e tão amargos frutos ao longo dos séculos seguintes Foram eles que sacralizaram na cultura ocidental o mito de que existe erro na língua principalmente na língua falada Por isso até hoje as pessoas julgam a língua falada usando como instrumento de medição a língua escrita literária mais consagrada qualquer regra linguística que não esteja presente na grande literatura e como são numerosas essas regras é imediatamente tachada de erro O uso da linguagem literária como material de investigação para a descriçãoprescrição de uma norma de um conjunto de regras podia se justificar na Antiguidade e na Idade Média pelo fato de a literatura ser praticamente a única forma de expressão da língua escrita mais monitorada durante aqueles períodos históricos Não havia possibilidade de registrar a língua falada para que fosse usada como material de estudo o que só aconteceu depois da invenção do gravador no século XX O único modo de estudar a língua era por meio da Marcos Bagno 23 escrita e a única escrita à qual se tinha acesso era a literária que incluía não só as obras de ficção mas também as de filosofia e teologia Mesmo as cartas pessoais eram escritas sob a influência das regras da retórica clássica que exigiam floreios sintáticos e vocabulário requintado Hoje no século XXI a opção pela literatura como modelo de língua a ser imitado é no mínimo absurda O impacto da linguagem literária sobre uma sociedade como a brasileira por exemplo é ínfimo Tradicionalmente somos um povo que lê pouco nossas práticas sociais mesmo entre as classes abastadas sempre foram muito mais guiadas pela oralidade do que pela cultura livresca Por outro lado a literatura que de fato exerce poderosa influência sobre a maioria dos brasileiros é a poesia da nossa rica música popular ou seja uma poesia oralizada Somos muito mais influenciados pelas modas linguísticas da televisão e do rádio e em menor escala da imprensa escrita do que pelo trabalho estilístico dos autores de ficção Estes por sua vez nos últimos cem anos vêm se esforçando por incorporar em suas obras traços característicos da língua falada no diaadia da sociedade é a arte imitando a vida e não o contrário como sempre se postulou em questões de língua durante o longo predomínio da tentativa de imitação dos clássicos Além disso diante da inegável evidência de que o português brasileiro e o português europeu já são duas línguas marcadamente distintas não tem justificativa nenhuma como fazem os dicionários e as gramáticas dar exemplos de autores portugueses na maioria antigos como modelos para a atividade linguística dos brasileiros de hoje Ao longo dos séculos os defensores dessa concepção tradicional isolaram a língua retiraram a língua da vida social colocaram numa redoma onde deveria ser mantida intacta pura e preservada da contaminação dos ignorantes Por causa dessa atitude é que até hoje o professor de português ou mais especialmente o gramático é visto como uma espécie de criatura incomum um misto de sábio e mágico que detém o conhecimento dos mistérios dessa língua que existe fora do tempo e do espaço e é esse saber misterioso que poderíamos chamar de norma oculta Não admira que em francês a palavra grimoire variante de grammaire gramática designe o livro que contém as fórmulas secretas da bruxaria ilegíveis para o consulente não iniciado Esse é então o primeiro conjunto de ideias que se esconde debaixo do rótulo norma culta uma língua ideal baseada supostamente no uso dos grandes escritores do passado de preferência um modelo abstrato que não corresponde a nenhum conjunto real das regras que governam a atividade linguística por parte dos falantes Esse modelo de língua ideal acaba criando uma grade de critérios dicotômicos empregada para qualificar as variantes linguísticas certo vs errado bonito vs feio elegante vs grosseiro civilizado vs selvagem e é claro culto vs ignorante Assim o que não está nas gramáticas não é norma culta é erro crasso é língua de índio português estropiado ou simplesmente não é português O próprio nome do idioma português então deixa de designar toda e qualquer manifestação falada e escrita da língua por parte de todo e qualquer falante nativo e passa a designar exclusivamente esse ideal abstrato de língua certa essa norma oculta que só uns poucos iluminados conseguem apreender e dominar integralmente Não é à toa portanto que tanta gente diga que não sabe português ou que português é muito difícil 3 Norma culta um termo técnico Mas dissemos que havia também um outro conjunto de noções contido no rótulo norma culta E qual é ele A outra definição que se dá ao rótulo norma culta se refere à linguagem concretamente empregada pelos cidadãos que pertencem aos segmentos mais favorecidos da nossa população Esta é a noção de norma culta que vem sendo empregada em diversos empreendimentos científicos como por exemplo o Projeto NURC Norma Urbana Culta Traduzires 1 Maio 2012 24 que desde o início dos anos 1970 vem documentando e analisando a linguagem efetivamente usada pelos falantes cultos de cinco grandes cidades brasileiras Recife Salvador Rio de Janeiro São Paulo e Porto Alegre sendo estes falantes cultos definidos por dois critérios de base escolaridade superior completa e antecedentes biográficoculturais urbanos Tratase portanto de um conceito de norma culta um termo técnico estabelecido com critérios relativamente mais objetivos e de base empírica O que as pesquisas científicas feitas no Brasil nos últimos trinta anos têm revelado é que existe uma diferença muito grande entre o que as pessoas em geral chamam de norma culta inspiradas na longa tradição gramatical normativoprescritiva e o que os pesquisadores profissionais chamam de norma culta um termo técnico para designar formas linguísticas que existem na realidade social Essa diferença se reflete também na postura que a pessoa assume diante dos fatos linguísticos As pessoas que usam a expressão norma culta como um pré conceito tentam encontrar em todas as manifestações linguísticas faladas e escritas esse ideal de língua esse padrão préestabelecido que como uma espécie de lei todos teriam obrigação de conhecer e de respeitar Como é virtualmente impossível encontrar esse modelo abstrato na realidade da vida social os defensores dessa noção de norma culta consideram que praticamente todas as pessoas de todas as classes sociais falam errado Essa busca desesperada leva à frustração autoritária que encontra sua expressão máxima em manifestações como a seguinte O Brasil é país de idioma sem gramática será afirmação válida para daqui a algumas décadas Até que esse dia chegue continuemos a fingir que falamos uma língua culta sem influência de promiscuidades regionais nem tribais artísticas nem raciais sem a perniciosa interferência de professores relapsos nem de acadêmicos derrotistas sem criações gráficas exóticas para designar produtos de indústria ou para indicar tribos de índios sem deformações sintáticas introduzidas sob o pretexto da cadência musical por levianos ou ignorantes ALMEIDA 1994 p 310 O absurdo dessa afirmação está logo de saída no fato de não existir idioma sem gramática nem gramática sem idioma são termos que apresentam uma mútua implicação semântica isto é um só faz sentido na relação que mantém com o outro um idioma sem gramática seria como água sem hidrogênio ou seja não seria água Mas é esse o mesmo autor que afirma é português estropiado que no Brasil se fala ALMEIDA 1994 p 591 É o purismo linguístico em sua expressão mais explícita purismo que é de fato um pensamento nostálgico e pessimista da língua CERQUIGLINI 2007 p 47 Aqueles que por outro lado usam a expressão norma culta como um conceito como um termo técnico agem exatamente ao contrário primeiro investigam a atividade linguística dos falantes em suas interações sociais para depois dizer o que é essa atividade por meio de instrumental teórico consistente Com base nessa investigação e nessa análise é que os linguistas podem afirmar por exemplo que o pronome cujo desapareceu da língua falada no Brasil inclusive da língua falada pelos brasileiros classificados de cultos que o futuro simples do indicativo eu cantarei também sobrevive apenas na escrita mais formal que as regras tradicionais de colocação pronominal são de uma inutilidade absoluta e assim por diante 4 Delimitação terminológica Para fugir dessas ambiguidades diversos linguistas brasileiros têm proposto designar a norma culta ideal normativa com o rótulo de normapadrão reservando o termo norma culta para os usos reais empiricamente coletados nas pesquisas de campo Pessoalmente temos preferido simplesmente descartar a expressão norma culta justamente por suas ambiguidades e sobretudo por já conter implícito um forte preconceito social afinal Marcos Bagno 25 designar determinado modo de falar como culto significa automaticamente lançar no porão do inculto todas as demais variedades sociolinguísticas Ora a cada variedade linguística corresponde uma comunidade de falantes e não existe comunidade de falantes isto é não existe grupo social desprovido de uma cultura Ao designar um conjunto de variedades como cultas fica óbvio que o conceito de cultura suposto no rótulo se refere a um tipo específico de cultura a cultura das classes socioeconômicas privilegiadas urbanas e mais letradas No entanto para as discussões que vamos fazer a seguir usaremos a oposição entre normapadrão e norma culta proposta entre outros por Faraco 2008 Lucchesi 2002 Mattos e Silva 1995 2008 Deve ficar claro portanto que uma construção sintática como eu conheço ele muito bem não tem abrigo na normapadrão que a considera errada mas integra perfeitamente a norma culta real uma vez que o uso do pronome ele como objeto direto é normal regular e frequentíssimo entre todos os brasileiros incluindo os classificados de cultos Outra distinção importante é a que retira a normapadrão do universo de variedades linguísticas reais do português brasileiro A normapadrão não é um modo de falar como o próprio termo padrão implica tratase de um modelo de língua um ideal a ser alcançado um construto sociocultural que não corresponde de fato a nenhuma das muitas variedades sociolinguísticas existentes em território brasileiro Por ser uma forma ideal no sentido platônico do termo a normapadrão não pertence ao mundo dos fenômenos mas exclusivamente ao mundo das ideias sendo portanto um ser de razão A norma culta por sua vez abriga um conjunto de variedades sociolinguísticas empiricamente coletáveis expressão da atividade linguageira das cidadãs e dos cidadãos de vivência urbana e elevado grau de letramento Ela é composta do que preferimos chamar de variedades urbanas de prestígio que comportam diferenças entre si a fala urbana de prestígio do Recife por exemplo tem traços distintivos com relação à de Porto Alegre mas também um núcleo central bastante homogêneo 5 Do normal ao normativo Sendo um comportamento social a atividade linguística está sujeita às mesmas dinâmicas que regulam e desregulam todas as demais práticas sociais ou seja todas as demais normas vigentes na sociedade Assim é que ao longo do tempo práticas sociais minoritárias podem ganhar cada vez mais ampla aceitação nas esferas da sociedade até eventualmente saírem de sua clandestinidade e se tornarem regras sociais abrigadas pelas instituições normatizadoras Estado legislação sistema escolar etc É o que podemos descrever como o percurso do normal ao normativo Um bom exemplo nos é dado pelas relações matrimoniais No caso brasileiro o casamento foi durante muito tempo indissolúvel No entanto aos poucos as pessoas mesmo oficialmente casadas passaram a levar vidas separadas sem deixar que essa prática viesse a público A pressão social fez com que surgisse o desquite 1916 em que os vínculos matrimoniais eram dissolvidos mas as pessoas implicadas permaneciam legalmente casadas e não podiam se casar novamente As transformações sociais prosseguiram e levaram em 1977 à promulgação da lei do divórcio Na nova Constituição de 1988 a exigência de casamento legal desapareceu e qualquer relação comprovadamente duradoura goza de todos os direitos atribuídos às relações matrimoniais oficiais É de se prever que com novas pressões até Traduzires 1 Maio 2012 26 representação da norma mesmo as relações homoafetivas venham a ser regularizadas e protegidas por lei decisão do Supremo Tribunal Federal de maio de 2011 Essa passagem do normal ao normativo também se verifica nos usos da língua Na edição brasileira do conhecido dicionário Caldas Aulete de 1958 encontramos o seguinte verbete pêgo part pop bras de pegar Só os incultos empregam êste têrmo Ora cinquenta anos depois o dicionário Houaiss 2009 nos informa em seu verbete pegar apresenta duplo part pegado pego ê ou é A total ausência de comentário do Houaiss comprova que o que antes era visto como coisa de incultos já se tornou perfeitamente aceitável e até normatizado Infelizmente não podemos deixar de reconhecer que numa sociedade muito hierarquizada como a brasileira e extremamente desigual no tocante à distribuição dos bens materiais culturais e sociais são as elites urbanas mais letradas que ditam o que é certo ou errado não só em termos de língua mas em todos os comportamentos crenças gostos etc Assim a ascensão do normal ao normativo depende da aceitação desse normal no interior dessas camadas sociais privilegiadas 6 A tensão entre a normapadrão e a norma culta Por ser um construto sociocultural e nunca uma variedade linguística real a norma padrão é reconhecida pelos falantes mas nunca totalmente conhecida por eles O caráter eminentemente anacrônico do padrão no nosso caso elaborado com base nos usos de escritores portugueses do Romantismo século XIX faz que ele seja antes de mais nada contraintuitivo isto é refratário à intuição linguística do falante nativo pleno conhecedor da gramática de sua língua gramática intrinsecamente diferente das regras prescritas no padrão Essas regras prescrevem sempre como únicas formas corretas precisamente os usos menos comuns menos habituais menos normais O exemplo que demos acima comprova isso enquanto a gramática normativa só aceita os clíticos oaosas para a retomada anafórica de objeto direto a realidade dos usos comprova que esses clíticos são de uso raríssimo enquanto os pronomes eleelaeleselas e a anáforazero são de fato as estratégias anafóricas privilegiadas por todos os brasileiros BAGNO 2011 Com isso entre a normapadrão e a norma culta surge uma zona de tensão na qual todos os falantes e mais intensamente os falantes urbanos letrados se veem pressionados por duas forças opostas O resultado é que desconhecendo em sua integralidade todo o aparato normativo e ao mesmo tempo sujeitos à força inelutável de sua intuição linguística esses falantes acabam por criar cada um deles uma representação da norma que é sempre um compósito híbrido em que o normal e o normativo se interpenetram e se mesclam NORMAPADRÃO NORMA CULTA Marcos Bagno 27 Essa norma híbrida se verifica principalmente nas práticas de uma escrita mais monitorada uma vez que no imaginário dos falantes decorrente de um longo preconceito histórico surgido entre os primeiros gramáticos helenísticos no século III aC a escrita é um bloco homogêneo e toda produção escrita tem de ser formal rebuscada caprichada etc Trata se de um equívoco cultural muito arraigado mas desmistificado pelas reflexões contemporâneas sobre as relações entre língua falada e língua escrita O tipo de mixagem que o escrevente propõe quando toma como referência o código institucionalizado tem pois como pano de fundo a visão do letradoescrito como um modo autônomo de expressão em cujo processamento identificado no caso à escrita culta formal o escrevente se espelha Frequentemente essa busca de um modelo leva o escrevente a excederse numa caracterização do texto baseada em características que ele supõe como próprias e até exclusivas da escrita Nessas ocasiões evidenciase de modo privilegiado sua representação do código institucionalizado imagem por meio da qual representa a sua escrita seu interlocutor e a si mesmo CORRÊA 2004 p 166 Além da inexistência de uma escrita pura é preciso ter em mente que toda produção textual na atualidade falada eou escrita se configura inexoravelmente como uma manifestação semioticamente híbrida que mobiliza os multimeios sonoros visuais gráficos tridimensionais etc que as novas tecnologias de comunicação e informação têm colocado ao nosso dispor Outro aspecto que cabe ressaltar é que essas mesmas novas tecnologias possibilitaram que a escrita dispusesse de recursos semióticos amplamente capazes de concorrer com as manifestações orais Na fala podemos nos valer do tom de voz da altura das infindáveis modulações de entoação do falsete da imitação de outras vozes ou de vozes de animais da gagueira proposital do arremedo de sotaques da ênfase por meio da separação das sílabas entre tantos outros recursos A escrita até pouco tempo quando comparada a essa riqueza de possibilidades parecia muito mais pobre Hoje no entanto temos à nossa disposição sofisticados recursos de multimídia que nos permitem aumentar o tamanho das letras para enfatizar a mensagem usar cores variadas fazer as palavras dançar na tela mudar de cor piscar intermitentemente e até mesmo sobrepor a fala ao que está escrito entre muitas outras coisas Com isso escrever hoje em dia é quase o mesmo que falar É mesmo possível dizer que tanto quanto na fala existe uma prosódia no texto escrito que se pode produzir graças às ferramentas da era digital Retomando a noção de hibridismo nem mesmo a noção de gênero textual recentemente introduzida nos estudos linguísticos e na prática pedagógica pretende apreender um objeto pronto e acabado O que realmente existe são textos que se configuram predominantemente num determinado gênero mas nunca integralmente nele Qualquer manifestação da nossa faculdade de linguagem é híbrida em qualquer texto falado ou escrito fazemos usos amplamente variados dos múltiplos recursos que a língua nos oferece Num mesmo texto em que encontramos certas marcas de um extremo monitoramento do discurso também podemos encontrar regências verbais concordâncias colocações pronominais e outros usos que escapam do que vem previsto nas gramáticas normativas 7 Exemplos da norma híbrida Vejamos alguns poucos exemplos que comprovam esse hibridismo inevitável resultante da representação que uma pessoa altamente letrada faz do que seja a norma linguística que deve presidir à sua manifestação falada mas principalmente escrita 1 As falhas operacionais na ocupação do Complexo do Alemão derivaram da falta de conhecimento do fenômeno e isso não significa acordo com o crime organizado O diversionismo em curso só aproveita ao crime organizado Ele Traduzires 1 Maio 2012 28 quebra a confiança dos cidadãos nas forças do Estado Durante anos assistiuse nas correlações entre associações criminosas e membros escravizados da comunidade um vínculo de solidariedade constituído pelo medo E tal vínculo acabou de ser desfeito com as retomadas Wálter Fanganiello Maierovitch Carta Capital no 625 8122010 p 31 grifos meus O autor é jurista renomado desembargador do Tribunal de Justiça e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais Seu texto se caracteriza por um vocabulário erudito e construções sintáticas clássicas Mas ao mesmo tempo em que encontramos uma dessas construções clássicas só aproveita ao crime organizado também encontramos uma regência condenada inapelavelmente pela tradição normativa a do verbo assistir como transitivo direto assistiuse um vínculo de solidariedade onde a prescrição exige uma preposição a Ao mesmo tempo a ênclise presente em assistiuse fere as nebulosas regras de colocação pronominal uma vez que segundo essas regras um advérbio como durante anos deveria atrair o pronome oblíquo Durante anos se assistiu Mais interessante ainda é observar o hibridismo da norma agindo num pequeno trecho como o seguinte 2 Uma mudança no formato dos jornais implica obrigatoriamente em uma mudança de concepção E dada a preferência que a nossa imprensa mimetizou da TV implicará uma alteração de teor Alberto Dines Jornal do Brasil 1071999 O redator emprega simultaneamente uma regência não prevista na tradição normativa implica em uma mudança e a regência por ela prevista implicará uma alteração O hibridismo também se verifica na tensão entre discurso e prática O jornalista Artur Xexéo numa de suas colunas no Jornal do Brasil 741999 abriu seu texto citando as palavras de um leitor Meu caríssimo Xexéo há quanto tempo não lhe azucrino Começava assim um dos emails dessa semana Leitor nunca azucrina O articulista não faz nenhum comentário sobre o suposto erro do leitor que empregou o pronome lhe como objeto direto conforme a norma culta brasileira Ora no final da mesma coluna ele reproduz a queixa de outra leitora e concorda com ela Existe alguma razão evidente para o personagem de José Wilker usar o pronome lhe indevidamente São exemplos recentes Eu lhe amo eu lhe encontrei A leitora tem razão E Aguinaldo Silva prometeu que nessa novela todo mundo ia falar corretamente Mas personagem nordestino de novela da Globo sempre fala eu lhe amo Sabese lá por quê O suposto erro agora é alvo da condenação do articulista apenas porque uma leitora apegada à tradição normativa se queixou explicitamente do uso que Aguinaldo Silva fez do pronome E Xexéo aproveita para preconceituosamente criticar o que lhe parece ser um preconceito contra os nordestinos No entanto quando se deixa levar por sua intuição linguística o próprio Xexéo faz uso do mesmo fictício erro 3 Lula é mesmo um presidente de atitude e não se envergonha de usar bonés ou uniformes que agradem os que lhe visitam ou os que são por ele visitados O Globo 2072003 8 A norma híbrida na prática da tradução Sendo a tradução uma atividade desempenhada ao menos no plano institucional e profissional por falantes altamente letrados é inevitável que nela também encontremos os Marcos Bagno 29 indícios da hibridização de normas que encontramos em qualquer texto escrito eou falado E é o que comprovam os seguintes exemplos 4 A definição dominante das coisas boas de se dizer e dos temas dignos de interesse é um dos mecanismos ideológicos que fazem com que as coisas também boas de se dizer não sejam ditas e com que temas não menos dignos de interesse não interessem a ninguém ou só possam ser tratados de modo envergonhado ou vicioso BOURDIEU P Escritos sobre educação Trad de Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani Petrópolis Vozes 1998 p 35 Temos aqui um uso do pronome se condenado pela tradição normativa que o considera dispensável em construções desse tipo em que ele atuaria como sujeito do infinitivo A forma prescrita seria coisas boas de dizer 5 O bachotage não é o mal absoluto quando consiste tãosomente em reconhecer que se prepara os alunos para o baccalauréat e determinálos por isso mesmo a reconhecer que eles estão se preparando para o bachot id ibid p 54 A tradição normativa defende a existência de uma voz passiva sintética em que o verbo deveria concordar com seu suposto sujeito Assim a construção considerada certa seria que se preparam os alunos 6 Destacase de forma abstrata o nãosocial o nãohistórico no homem e se o anuncia como medida e critério de todo o social e o histórico BAKHTIN M O freudismo Trad de Paulo Bezerra São Paulo Martins Fontes 2001 p7 A tradição normativa condena veementemente a junção do tipo se o por considerar que no caso o nãosocial o nãohistórico no homem não é o objeto do verbo anunciar mas sim seu sujeito o que impede o emprego do pronomeobjeto o 7 Privado de um valor próprio ou tendo este lhe sido negado esse mundo extrai todo o seu apreço do serviço prestado à causa da autorreforma e é por sua contribuição à autorreforma que o mundo e cada um de seus elementos são avaliados BAUMAN Z Vida líquida Trad de Carlos Alberto Medeiros Rio de Janeiro Zahar 2009 p 19 Os pronomes oblíquos em tempos compostos devem segundo a norma padrão estar sempre proclíticos ou enclíticos ao verbo principal e nunca aos particípios passados Assim a forma prescrita seria ou tendolhe este sido negado Por fim é preciso recordar que entre a tradução feita pelo profissional e a chegada de um livro ou outra forma de suporte à publicação impressa ou online o texto passa por diversas etapas de retextualização constituídas pelos trabalhos de revisão preparação Traduzires 1 Maio 2012 30 diagramação copydesk etc Em cada uma dessas etapas estará em ação inevitavelmente a representação de norma própria a cada um desses profissionais TRADUTORA norma1 REVISORA norma2 PREPARADORA norma3 DIAGRAMADORA norma4 TEXTO PUBLICADO normax Um interessante projeto de pesquisa seria acompanhar essas diversas etapas de normatização e reconstruir as representações de norma presentes em cada uma delas Para tanto seria necessário ter acesso às várias retextualizações que se sucederam até a publicação final o que nem sempre é fácil embora não impossível Um exemplo que explicita ao menos as duas pontas do processo seria o seguinte 8 tradutor norma1 O povo baganda tinha grandes habilidades como construtores de estradas retas como as romanas e de majestosas cabanas com teto de palha que não vazam nem mesmo na estação chuvosa1 9 texto publicado normax O povo baganda possuía grandes habilidades como construtores de estradas retas como as romanas e de majestosas cabanas com teto de palha que não vazam nem mesmo na estação chuvosa A substituição de tinha por possuía revela uma crença muito difundida atualmente entre os brasileiros mais ou menos letrados de que o verbo possuir é mais literário ou sofisticado do que o verbo ter um dos mais empregados da língua Tratase evidentemente de um hipercorreção que se manifesta de forma ainda mais explícita quando se tem uma 1 NAIPAUL V S As máscaras da África Trad de Marcos Bagno São Paulo Cia das Letras 2011 p 65 Marcos Bagno 31 redatora com escasso domínio da escrita de gêneros textuais mais monitorados como neste último exemplo 10 A PRO TESTE Associação Brasileira de Defesa do Consumidor realizou uma pesquisa com refrigerantes nas versões tradicionais light e zero que apontaram resultados preocupantes com relação às substâncias presentes nos mesmos que podem fazer mal à saúde Ver Revista ProTeste nº 80 Algumas dessas marcas possuem substâncias potencialmente cancerígenas benzeno e contém corantes que podem estimular alergia e hiperatividade em crianças A pesquisa foi realizada com 24 refrigerantes sendo que sete desses possui benzeno substância cancerígena O benzeno é proveniente da reação do ácido benzóico com a vitamina C O critério para considerar a quantidade ideal desse composto foi tomar a água potável como referência que possui o limite de 5 microgramas por litro Disponível em httpwwwmulherdigitalcomrefrigerantespossuem substanciasquefazemmal Acesso em 20 maio 2011 Além da repetição do verbo possuir como uma espécie de coringa onde outros verbos dariam maior precisão semântica ao texto observamos também outro indício corrente de hipercorreção o emprego do pronome o mesmo bem como a falta de concordância em sete desses possui Referências bibliográficas ALÉONG S Normas linguísticas normas sociais uma perspectiva antropológica In BAGNO M org Norma linguística São Paulo Loyola 2001 ALMEIDA N M Dicionário de questões vernáculas São Paulo LTC 1994 AULETE C Dicionário contemporâneo da língua portuguesa Rio de Janeiro Delta 1958 BAGNO M Gramática pedagógica do português brasileiro São Paulo Parábola 2011 A norma oculta São Paulo Parábola 2003 org Linguística da norma São Paulo Loyola 2002 org Norma linguística São Paulo Loyola 2001 BECHARA E Moderna gramática portuguesa 39a ed Rio de Janeiro Lucerna 1999 CEGALLA D P Novíssima gramática da língua portuguesa 50a ed São Paulo Nacional 1990 CORRÊA M L G O modo heterogêneo de constituição da escrita São Paulo Martins Fontes 2004 CUNHA C CINTRA L F L Nova gramática do português contemporâneo Rio de Janeiro Nova Fronteira 1985 FARACO C A Norma culta brasileira desembaraçando alguns nós São Paulo Parábola 2008 Traduzires 1 Maio 2012 32 HOUAISS A Dicionário Houaiss da língua portuguesa 2a ed São Paulo Objetiva 2009 LAGARES X BAGNO M orgs Políticas da norma e conflitos linguísticos São Paulo Parábola 2011 LUCCHESI D Norma linguística e realidade social In BAGNO Marcos org Linguística da norma São Paulo Loyola 2002 MATTOS e SILVA R V Contradições no ensino de português São Paulo Contexto 1995 O português são dois São Paulo Parábola 2006 REY A 2001 Usos julgamentos e prescrições linguísticas In BAGNO Marcos org Norma linguística São Paulo Loyola 2001 ROCHA LIMA L H Gramática normativa da língua portuguesa 38a ed Rio de Janeiro José Olympio 1989

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