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Psicologia ·
Psicologia Institucional
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Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 ANÁLISE INSTITUCIONAL REVISÃO CONCEITUAL E NUANCES DA PESQUISAINTERVENÇÃO NO BRASIL André Rossi Eduardo Passos Resumo Neste artigo fazemos uma retomada das linhas constitutivas da Análise Institucional AI desde a França até sua entrada no Brasil trazendo nesse percurso alguns conceitos importantes para o entendimento de sua forma de intervir e produzir conhecimento Da relação com a Psicoterapia Institucional com a Pedagogia Institucional e a Psicossociologia lewiniana os socioanalistas apropriaramse de conceitos como o de instituição transversalidade analisador transferência e contratransferência institucional e a forma de intervir da pesquisa ação Em continuidade elaboram conceitos como análise da encomenda análise da demanda análise da implicação campo de intervenção e campo de análise inconsciente institucional sobreimplicação e outros que visavam responder novos problemas e afirmar implicações antes não explícitas Apostando na importância da prática e conceitos da AI apontamos a inflexão brasileira da pesquisaintervenção como proposta metodológica de produção de conhecimento implicado e de intervenção em organizações grupos ou subjetividades Palavraschave Análise institucional pesquisaintervenção análise da implicação Abstract This paper resumes the discussion of Institutional Analysis IA constituent lines from France to its entry in Brazil highlighting some useful concepts to the understanding of its modes of intervention and knowledge production From dialoguing with the fields of Institutional Psychotherapy Institutional Pedagogy and Lewins Psychosociology socioanalysts borrowed concepts as the notion of Institution Transversality Analyser Institutional Transference and Countertransference and the inquiry method of ActionResearch And with the intent of both responding to emerging contemporary issues and asserting implications that had not yet become evident they also developed their own such as the Order Analysis Demand Analysis Implication Analysis Intervention Field Analysis Field Institutional Unconscious and Over Implication amongst others Trusting the significance of Institutional Analysis concepts and practices we would like to expose in this article the Brazilian version of InterventionResearch as a methodological proposal that produces implicated knowledge and is applicable to work in organisations groups or subjectivities Keywords Institutional analysis interventionreserch implication analysis Introdução A Análise Institucional AI tem influenciado muitos movimentos no Brasil Seja na clínica psi nas práticas em saúde coletiva intervenções no campo da gestão ou na pesquisa universitária seus conceitos são utilizados e revisados Desde o início de suas primeiras atividades a AI constituiuse como um campo onde a prática embalou nos tempos candentes da década de 1960 na França a criação conceitual Todos os seus conceitos têm uma vocação operacional clara e sua ligação com a prática muitas vezes não gerou a necessidade de delimitações conceituais rigorosas O objetivo deste artigo é a discussão dos principais conceitos da AI apontando a pesquisaintervenção Psicólogo Mestre em psicologia pela UFF Psicólogo Professor associado 4 do Departamento de Psicologia da UFF Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 como uma inflexão brasileira neste campo Empregando a atitude epistemológica de tornar indissociável gênese conceitual e gênese sócio histórica focalizaremos os conceitos de análise da encomenda análise da demanda transversalidade analisador e análise da implicação tangenciando nessa empreitada os conceitos de instituição instituinte e instituído campo de intervenção e campo de análise inconsciente institucional contratransferência institucional e sobreimplicação As linhas constitutivas da Análise Institucional Podemos identificar pelo menos três linhas dinâmicas para a constituição da AI na França na década de 1960 A primeira está ligada à saúde mental e nos transporta à prática da Psicoterapia Institucional a partir da década de 1940 com a experiência inaugural no hospital psiquiátrico de Saint Alban durante a Segunda Guerra GALLIO CONSTANTINO 1994 RODRIGUES 1998 Nesta linha destacamos o nome de Félix Guattari que após a década de 1950 desenvolveu conceitos importantes para a AI dentre eles o de analisador e transversalidade A segunda linha se vincula às experiências de Pedagogia Libertária desde o início do século XX que orientaram a partir da década de 1950 práticas de questionamento da educação vigente e que ficaram conhecidas como a Pedagogia Institucional Nesta linha destacamos os nomes de René Lourau e Georges Lapassade na ocasião professores secundaristas LOURAU 1993 A terceira linha referese à Psicossociologia que no pósguerra trouxe à França as técnicas de grupo que estavam sendo gestadas nos EUA por pesquisadores europeus emigrados a saber Moreno e Lewin além de Rogers norteamericano nato RODRIGUES 1994 BARROS 2004 No que diz respeito à terceira linha houve um importante passo na criação do conceito de campo por Kurt Lewin ainda nos EUA da década de 1930 Para explicar o comportamento de um indivíduo ou grupo utilizavase do todo estrutural formado da interação entre indivíduo e meio em um campo de forças dinâmico A união de teoria e ação foi o grande achado de Lewin que radicado nos EUA rompeu com as teorias positivas em voga que acreditavam que o pesquisador poderia e deveria se manter fora do campo de investigação Na teoria lewiniana o pesquisador está colhido no campo de sua ação descrito Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 menos a partir de estados de coisa do que das forças vetores e valências que o constituem Na última fase da teoria lewiniana no ano de 1946 em New Britain visando discutir e reforçar a aceitação da legislação de igualdade racial no emprego um acontecimento desestabilizou as fronteiras entre formadores e formandos o grupo de formandos adentrou o recinto onde os formadores discutiam a dinâmica do grupo exigindo participar dos processos de análise Os coordenadores aceitaram criandose no momento um dispositivo que viria a ser apelidado mais tarde de TGroup1 RODRIGUES 1994 Acabavase com a restituição formal uma vez que tudo era discutido e analisado no mesmo grupo O paradigma da pesquisaação lewiniana não somente apontou a impossibilidade de neutralidade demostrando que além da obtenção de conhecimento havia a modificação do objeto estudado como passou a visar a essa modificação Esse tipo de pesquisa levou a uma espécie de socioterapia que guiada por encomendas da indústria e do governo americano fixava objetivos do trabalho previamente à dinâmica estabelecida pelo grupo visado PASSOS e BENEVIDES 2000 Em alguns de seus trabalhos a psicossociologia lewiniana promovia sua pesquisaação para formação de quadros dirigentes e de trabalhadores atendeu às demandas governamentais para investigação das técnicas de guerra psicológica para enfraquecimento do inimigo e nos trabalhos sociais trabalhou com a delinquência juvenil e com integração de população pobre eou desalojada nos conjuntos habitacionais AGUIAR e ROCHA 2003 Na década de 1950 a psicossociologia americana baseada em Lewin Moreno e Rogers entra na França através do estímulo modernizador do governo francês ocorrendo movimentos díspares de acolhimento e crítica BARROS 2004 RODRIGUES 1994 Seguese a década de 1960 na França e os trabalhos psicossociológicos ainda tomavam o TGroup de Kurt Lewin e o Psicodrama de Moreno2 como balizas mas a discussão sobre técnica diminuía em favor da discussão institucional sobre os efeitos que a técnica produzia BARROS 2004 Iniciase a historicização das práticas e o questionamento do suposto não diretivismo rogeriano3 e do TGroup lewiniano Estava oculto o Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 caráter não natural dos grupos as relações de poder as lutas reivindicatórias entre os diferentes grupos Ocorria que nessa mesma década a psicanálise e os movimentos políticos entraram em cena para questionar alguns postulados da pesquisa ação O rompimento com a ciência positiva é bem vista contudo a metodologia mantinha as dicotomias sujeitoobjeto e teoriaprática O objetivo da ação na pesquisa é determinado pela encomenda de trabalho visando à otimização do funcionamento social o que revelava uma pressuposição de ordem social naturalizada e uma desordem tomada como patológica O pesquisador era visto como privilegiado agente da mudança o que também revelava mesmo que na técnica do TGroup se tenha incluído os formandos que essas fronteiras ainda existiam fortemente PASSOS e BENEVIDES 2000 Em relação à segunda linha ainda na França da década de 1960 as intervenções no meio pedagógico transbordavam para outros campos a partir da atenção ao conceito de instituição Lourau e Lapassade absorveram a filosofia política de Cornelius Castoriadis principalmente no que se refere à dialética instituídoinstituinte Castoriadis influenciaria muitos pensadores a partir da criação de seu grupo Socialismo e Barbárie e da revista homônima RODRIGUES 1994 As instituições são no dizer de Lapassade formas produtos históricos de uma sociedade instituinte que produzem e reproduzem as relações sociais e se instrumentalizam em estabelecimentos eou dispositivos RODRIGUES e SOUZA 1987 Apropriandose desse jogo constitutivo entre instituído formas e instituinte processo vão analisar as situações de institucionalização quando chamados a intervir em organizações e grupos A grande importância desse conceito basal é a análise que provoca quando se diferencia o conceito de instituição daqueles de organização e estabelecimento Tanto as condições materiais do estabelecimento escola manicômio ou partido edificação quanto o organograma ou fluxograma regras de circulação e organização de pessoas e informações desse estabelecimento não eram mais o espectro de análise pretendido Acontece então a abertura da análise para a instituição da educação da doença mental da política partidária criandose efetivamente uma Análise Institucional Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 preocupada com as práticas instituintes que engendram instituições e atravessam os mais diversos locais ou situações A partir dessa variação do diálogo privilegiado com a instituição educacional para a análise de instituições quaisquer Lourau e Lapassade ampliaram o trabalho tornandose socioanalistas4 Desenvolveram diálogo com aqueles pesquisadoresinterventores que tomaram como ferramenta a psicossociologia americana baseada no trabalho com grupos que denominaremos grupalistas Os socioanalistas viram na prática grupalista uma indicação preciosa para o trabalho com instituições pragmatismo de certa pesquisa sociológica americana que deixara de ser experimental para ser ação no campo de pesquisa e com isso a inclusão do pesquisador nesse mesmo campo Apesar do diálogo Lapassade em seu livro Grupos Organizações e Instituições critica as teorias de grupo e suas técnica A teoria dos grupos chocouse com a teoria das instituições onde a técnica grupalista naturalizava o grupo o institucionalismo o tomava como instituição isto é produção de uma sociedade instituinte denunciando seu utilitarismo quanto aos objetivos prévios e sua falta de análise quanto à encomenda de intervenção A AI segue seu percurso de consolidação como campo de produção de conhecimento e de intervenção sobre a realidade desdobrando perguntas críticas que se armam a partir de conceitos seminais análise da demanda e análise da encomenda quem pede intervenção e o que é pedido análise da oferta o que o analista oferta e quais os efeitos da sua intervenção analisador que acontecimentos põem em análise a realidade institucional e principalmente análise da implicação como estamos todos envolvidos na realidade institucional A Análise Institucional e o devir dos conceitos Ardoino e Lourau 2003 dividem a AI em três categorias a AI em ato ou socioanálise b AI generalizada c AI restrita A primeira referese à prática de intervenção em organizaçõescliente como indústrias administrações escolas ou formações A segunda diz respeito ao conjunto de considerações teóricas que forma um reservatório de dados e conceitos para as diversas intervenções institucionalistas É um segundo momento na AI Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 depois da euforia da intervenção uma espécie de parada reflexiva A terceira categoria é relativa a intervenções em instituições específicas a Igreja a escola o Exército Coulon apud ARDOINO e LOURAU 2003 diferencia esses três níveis através dos termos socioanálise leitura institucional e AI do estabelecimento respectivamente As primeiras intervenções socioanalíticas encabeçadas por Lapassade na década de 1960 colocavam em análise as instituições envolvidas em qualquer estabelecimentoorganização não importando que fossem escolas ou manicômios Pela predileção pelo paradigma de inspiração marxista do transformar para conhecer não é difícil entender por que primeiro desenvolveramse incursões ao campo e depois uma diminuição da velocidade necessária à produção teórica As incursões direcionadas ao meio educacional ainda muito ligadas à intervenção psicossociológica calcada no modelo do T Group dão lugar já em 19661967 a uma socioanálise O TGroup lewiniano não colocava em análise suas condições de possibilidade oferta da intervenção encomenda feita aos interventores a participação dos envolvido ou seja não fazia a análise da implicação A socioanálise na organização parte dos pedidos feitos pelas organizações cliente ao grupo pesquisadorinterventor considerando as implicações sociopolíticas que atravessam a relação grupoclientegrupointerventor Inicialmente o método de análise era de curta duração e excessivamente dramático visando produzir uma espécie de abreação na organização ou desarranjo institucional partindo da análise coletiva das implicações de cada um com a encomenda e as demandas sociais assim como da autogestão da temporalidade da sessão e do pagamento dos socioanalistas e da identificação dos analisadores acontecimentos ou fenômenos insignificantes mas portadores do sentido oculto no não dito ARDOINO e LOURAU 2003 p 14 Por mais que houvesse estilos individuais dos interventores e a diferença de cada grupocliente havia na década de 1960 e no início da de 1970 uma tendência à provocação de crise apostando no seu potencial crítico As questões críticas muitas delas mantidas afastadas por seu caráter desagregador como por exemplo o pagamento não deixaram de ser feitas a duras penas para o grupocliente assim como para o grupo de interventores Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 O método varia pouco a pouco sendo sucedido por uma socioanálise longitudinal mais duradoura Os interventores são inscritos na história do grupocliente em seu desenrolar diário O aumento da duração das intervenções visa mais à regulação do grupo do que ao seu desarranjo Ocorre também uma maior familiaridade entre os interventores e o grupocliente A socioanálise longitudinal é levada a experimentar outras técnicas Uma das mais significativas é também uma espécie de restituição das informações coletadas Uma restituição formal como a feita na pesquisaação de Lewin ainda mantém a dicotomia entre formadores e formados modulada mas não superada no evento de New Britan Na AI a restituição cada vez mais preconizada posto que os analisadores discussões e direções são dadas coletivamente é ao mesmo tempo produção de nexo e desvio grupal ou seja pesquisa e intervenção Preocupada nesse momento com vários aspectos de sua intervenção e menos centrada no aqui e agora a socioanálise encontrou na duração da intervenção e na restituição dos resultados da pesquisa uma direção formativa ou sua pedagogia Daí o duplo viés da AI a intervenção e a formação nesse momento como formação contínua Preocupados com o que lhes era pedido como intervenção com as instituições que atravessavam o grupo formado com o que era operativo e nesse momento se reencontrando com a formação os socioanalistas caminham cada vez mais para a sistematização de alguns conceitos que pudessem dizer daquilo que estava em curso em suas práticas Este caminho é caracterizado por uma tendência a criar hibridismos teóricos tomando muitos conceitos de empréstimo de outros campos do saber Na AI acompanhamos o devir de conceitos no sentido que Deleuze e Guattari 1992 dão ao termo no O que é a filosofia que migram por entre discursos ganhando neste percurso uma consistência que podemos dizer ser a dos movimentos socioanalíticos Análise da encomenda da demanda e da oferta e o conceito de Transversalidade Um dos primeiros passos na intervenção é a análise da encomenda que desdobra o pedido de análise feito pela organização A análise da encomenda gera a demanda como o seu desdobramento problemático expondo o emaranhado de forças contido no pedido de análise O trabalho de análise Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 institucional se inicia quando dinâmicas não observadas se expressam juntamente ao pedido explícito de intervenção A atitude crítica faz aparecer as demandas de intervenção que nunca são espontâneas mas produzidas tanto no encontro analítico quanto previamente a ele Uma das estratégias para evitar que a encomenda se torne o foco da intervenção é a pergunta sobre quem é o cliente os membros da organização ou os dirigentes que formularam a encomenda discutiram o contrato em nome de todos Eles aceitam ser também alvo da análise LOURAU 1975 Podemos notar que na AI há similaridade entre encomenda e mandato social A primeira se refere a situações específicas de intervenção e a segunda é o pedido feito a intelectuais e especialistas para que falem a verdade sobre a realidade RODRIGUES 2006 A análise da oferta pode ser anterior mas também pode se dar ao mesmo tempo que a análise da encomenda Ela coloca em análise o próprio grupointerventor como instituição que propõe um serviço problematizando o modo como as intervenções podem gerar um especialismo e produzir ou modular as encomendas de intervenção que lhe são propostas BAREMBLITT 1994 Os intelectuais os analistas institucionais e todos aqueles que são chamados a dizer algo sobre a realidade ou a intervir sobre ela com estatuto de reveladores de verdades devem manter permanentemente em análise a encomenda de intervenção e as ofertas por eles feitas Desta forma a AI inclui a si mesma como caso Além dos casos da clínica a clínica como caso Criase um topus da análise que se dá entre a instituição em análise e a instituição da análise Não tomar naturalmente a encomenda de intervenção é fazer uma pausa que permita a entrada do operador crítico Ao contrário de Lewin que aceitou a encomenda do governo americano para a mudança de padrões de comportamento da população a AI objetiva não incorrer no uso utilitário da intervenção montando sua direção no próprio ato de intervir Na separação entre encomenda e demanda Lourau 2003c opera uma distinção entre campo de intervenção e campo de análise Essa distinção indica dois níveis que na prática analítica estão imbricados A encomenda que chega ao analista institucional é de intervenção em vários tipos de grupos com objetivos previamente fixados Confundese no Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 entanto a encomenda explícita com a demanda de análise se ficarmos restritos aos limites prévios dos pequenos coletivos nos quais a intervenção é feita A análise da encomenda e da demanda promove uma alteração do campo de intervenção a partir das conexões constituidoras do campo de análise Não há separação entre o trabalho teórico e técnico entre a intervenção e os operadores conceituais entre campo da intervenção e campo de análise Estes domínios se distinguem sem se separar de modo que a intervenção altera as formas de fazer e as formas de pensar a realidade da instituição Nas palavras de Lourau fica claro que o campo de intervenção constituise na prática da própria intervenção ou seja na ida ao campo acessível a partir da encomenda e sua problematização quando pode a intervenção transformar encomenda em demanda de trabalho O campo de análise não pode ser entendido como separado apesar de ser por vezes feito em reuniões e supervisões do grupo interventor nem como a parte teórica que será aplicada na prática De qualquer forma os dois campos são práticas A realidade institucional se abre para outros sentidos quando se altera os graus de transversalidade intragrupos e intergrupos GUATTARI 2004 Felix Guattari apresenta o conceito de transversalidade como coextensivo à atitude de abertura ou ligação dos campos de intervenção ao de análise mostrando sua inseparabilidade O conceito de transversalidade nasce com múltiplas referências sobretudo como tentativa de superação nas organizações psiquiátricas da hierarquia vertical e da igualdade horizontal introduzindo no pensamento institucional outras formas de relação entre os grupos o que designou de grupos sujeito e grupos sujeitados Acolhendo a contribuição dual e fantasmática da transferência psicanalítica a expande e articula aos movimentos grupais em seus diferentes graus de abertura Guattari fala de graus de abertura ou quanta de transversalidade dos grupos interessado pelo que se passa ou se transfere em um regime multivetorializado que não mais cabe nos limites da interpessoalidade O conceito de transferência dá lugar ao de transversalidade apostando se em dinâmicas libidinais em jogos fantasmáticos em regimes de afetabilidade que se dão no plano coletivo e consequentemente ganham um sentido que é também político Clínica e política se tornam inseparáveis nesta Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 direção da AI que renova o conceito de grupo a partir de suas dinâmicas subjetivas a dinâmica de menor grau de abertura define o grupo assujeitado e a de maior transversalidade os grupos sujeitos O tema da subjetividade ganha lugar no discurso institucionalista com o conceito de transversalidade que se materializa em dispositivos que permitem a circulação menos restritiva da palavra e de corpos abrindo as relações para múltiplas conexões potencializadoras da transformação da realidade dos grupos e das subjetividades Na AI seja na vertente guattariana ou socioanalítica os conceitos apresentados dizem de abertura e conexão teoria e prática saber e fazer clínica e política se tornam domínios distintos e inseparáveis em um espaço de saúde guiado pelas relações instituintes A encomenda tem um sentido mais contratual o que é esperado dos interventores e a demanda um sentido mais psicológico apropriado aos coletivos ARDOINO e LOURAU 2003 Por suas implicações psicológicas e psicanalíticas com tino arqueológico a demanda por vezes parece ficar ligada a algo escondido que foi desvelado Lourau 1975 e comentadores como Baremblitt 1994 se perguntam do verdadeiro cliente da demanda efetiva de intervenção ou do verdadeiro objeto de análise Qual é o sentido aqui de demanda verdadeira É preciso evitar tomar a encomenda como aquilo que engana o trabalho dos analistas um simulacro ficando a demanda como aquilo que foi desvelado pelos especialistas o verdadeiro objeto de análise A AI não é uma arqueologia do verdadeiro ou seja a atitude de garimpar profundamente a realidade com ferramentas conceituais que aspiram à verdade para achar por detrás o desvelamento triunfal Baremblitt 1996 mesmo falando do verdadeiro objeto nos dá uma pista quando fala da intercessão que se produz entre o grupointerventor e o grupocliente Consideramos que a encomenda é um tipo de demanda e que só há demandas A demanda é produzida e não desvelada no encontro entre os grupos É uma produção pontual que faz operar uma dinâmica emperrada para a qual o grupointerventor foi chamado a intervir Ela muda de acordo com a variação do grupocliente do momento da organização com a nova configuração das instituições que atravessam com mudança de configuração do grupointerventor A produção da demanda de trabalho está mais para a criação de bons problemas do que para a resolução da encomenda explícita Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 formulada pelo grupocliente É uma tentativa de explicitação das forças que compõem a configuração da organização Chegamos ao conceito de campo implicacional LOURAU 2003f A preocupação com a análise da oferta da encomenda e da demanda denota uma diferença de paradigma já apontada Se o que está em jogo é a produção da realidade e não o seu desvelamento aqueles que participam do processo perguntamse o que ajudam a produzir Todos esses conceitos dizem por um lado da assunção do processo instituinte como motor de acesso à realidade e por outro do cuidado ético do trabalho dos analistas institucionais ao participarem dessa produção A intervenção socioanalítica ou como indicaremos através de autores brasileiros a pesquisaintervenção afirma a um só tempo a inseparabilidade entre campo de intervenção e campo de análise teoria e prática fazer e pensar quando mostra que sujeito e objeto pesquisador e pesquisado se constituem no mesmo processo A análise da implicação Dos conceitos apresentados a Análise da Implicação é o que tem sua trajetória composta de mais variações rompimentos e composições de partes díspares Nesse movimento de construção incessante uma de suas linhas de composição remete ao conceito psicanalítico de contratransferência A transferência em Freud 1905 1912 1914 19152010 convertese de empecilho inicial nos Estudos sobre a histeria a motor do tratamento a partir dos textos técnicos de 1910 mantendo ao mesmo tempo seu caráter de resistência ao tratamento A partir da teorização do desenvolvimento psicossexual na primeira infância a transferência permanece como mecanismo de transporte das escolhas objetais infantis e das fantasias que vão se tecendo ao redor dela em especial destacado por Freud as imagos parentais como primeiro investimento amoroso Surgida a partir do abandono da hipnose e da sugestão a transferência é tomada como motor e embargo resistência interpretável revestimento de autoridade do psicanalista amor ilusório e repetição Por outro lado sua contraparte a contratransferência ou seja o mesmo mecanismo mas dessa vez vindo do lado do analista tornouse um mal a ser combatido A tentativa de institucionalizar uma formação o combate ao charlatanismo ao mesmo tempo que defendia uma análise leiga e os Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 textos técnicos fizeram da contratransferência um tema expurgado de antemão dos círculos de discussão ao mesmo tempo que metáforas como o espelho bem polido refletir a totalidade do paciente ou o cirurgião preciso incisões interpretativas descobrindo o objeto tomam o imaginário psicanalítico como ideal de analista Ainda na primeira geração de analistas Sándor Ferenczi psicanalista húngaro conhecido por abraçar os casos difíceis levava a técnica ao limite Nesse contexto já na década de 1920 esboçou a preocupação com a metapsicologia dos processos psíquicos do analista o que marca não propriamente um retorno do conceito de contratransferência ou seu uso como será feito depois mas uma inclusão da libido do analista na cena analítica FERENCZI 19281992 Na década de 1950 o fenômeno contratransferencial é revalorizado na Inglaterra via Michel Balint levando a uma série de textos do casal Balint 19392002 Margaret Little 19512002 e Paula Heimann 19492002 na direção da inclusão dos efeitos das intervenções ou da pessoa do analista na cena analítica Little e Heimann mais radicais defendiam o uso da contratransferência respectivamente como experiência a ser comunicada os afetos gerados pelo paciente no analista ou como bússola por vezes recaindo numa neutralidade às avessas Seguindo este movimento de valorização da contratransferência as práticas institucionalistas da Psicoterapia Institucional na França retomam este conceito como um operador analítico importante A reorganização do asilo psiquiátrico promovido pela Psicoterapia Institucional a reorganização da escola promovida pela Pedagogia Institucional assim como o início da AI em meados dos anos 1960 trazem novas ferramentas como os conceitos de transferência e contratransferência institucionais Já distante das suas bases freudiana ferencziana e da segunda geração de psicanalistas o conceito de transferência comparece por sua vocação operacional ARDOINO e LOURAU 2003 Não dizia mais de uma problemática individual familiar somente libidinal ou infantil mas grupal e institucional embora mantivesse a preocupação com os vínculos e uma atitude epistemológica de não neutralidade Em outras palavras o conceito assegurou que as forças que passam pelo médico educador ou pesquisador entrassem na análise feita das organizações A direção dos trabalhos com grupo nas Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 diversas intervenções deu a tônica da busca por conceitos que falassem dessa multiplicidade de relações A sistematização conceitual do procedimento de análise institucional se consolidou na tese que Lourau 1975 defende no ano de 1969 Nela vemos muitos conceitos apropriados de autores e saberes díspares a transversalidade de Guattari a implicação tomada do Direito e da Matemática a transferência institucional e a contratransferência institucional herdada da Psicoterapia Institucional O conceito de implicação ganha destaque como ideiachave para o trabalho socioanalítico Lourau 1975 desmembra o conceito de Análise da Implicação de acordo com a qualidade da relação estabelecida Implicação Institucional se refere ao conjunto das relações entre o ator e as instituições Implicação prática indica as relações que o ator mantém com as bases materiais das instituições o estabelecimento e organização Implicação sintagmática mostra as relações interpessoais que os grupos apresentam ou seja os fantasmas de grupo Implicação paradigmática delimita a relação entre o saber e o não saber do grupo ou seja os códigos e regulamentos da organização Implicação simbólica diz respeito à própria sociabilidade o vínculo social LOURAU 1975 p 274 Lourau retoma o conceito de transferência institucional que se potencializa com o que o autor LOURAU 2003e designa de paradigma dos três Is que na verdade são quatro instituição institucionalização implicação e o último intervenção sendo este o termo que delimita o campo de ação Transferência e contratransferência institucionais são noções que ganham sentido socioanalítico em um campo de intervenção institucional no qual estão todos implicados aí incluído o próprio grupointerventor Na categoria da contratransferência institucional ficam as respostas e influências vindas do grupointerventor Intervir é tornarse parte em uma contestação que já estava pendente entre outras pessoas nos diz o dicionário LOURAU 1975 p 277 Intervir não é observar de fora um objeto dado mas construílo de dentro ao mesmo tempo construindo a si mesmo no momento da intervenção Nessa atitude de tornarse parte os analistas não se furtam em analisar aquilo que é de sua parte Assim entendem que a elucidação das contratransferências institucionais passa pelo esclarecimento de um sistema de Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 respostas a resposta que o analista dá aos clientes em relação a várias realidades como idade sexo raça a resposta que dá à organizaçãocliente enquanto instituição e na medida em que se inclui como instituição de análise resposta que dá às respostas transferências de sua própria organização analítica LOURAU 1975 O analista aparece como ator social como nos propõe Lourau A análise da contratransferência institucional permanece para elucidar as vinculações do grupointerventor A análise das implicações institucional prática paradigmática sintagmática e simbólica elucida a relação dos atores em suas diversas vinculações Ator não é aqui sinônimo de grupocliente já que os analistas aparecem como atores sociais incluídos nas análises das implicações No ano seguinte 1971 em Chaves da Sociologia Lourau e Lapassade definem um modelo de intervenção socioanalítico Estão lá os conceitos de análise da encomenda análise da demanda elucidação das transversalidades análise das instituições que atravessam o grupointerventor e o grupocliente e elaboração da contratransferência institucional uma espécie de explicitação das referências não só libidinais mas profissionais e políticas dos interventores Nos anos que se seguem a multiplicidade e coexistência dos conceitos que provêm de diferentes campos de saber começam a causar conflitos As intervenções socioanalíticas surgidas na efervescência dos anos 1960 entram nos anos 1970 tentando uma aspiração epistemológica mais clara As produções teóricas atravessam os anos 1970 sem que as intervenções a pedido terminem Ao mesmo tempo que a sistematização enriquecia o trabalho teórico havia o perigo de a AI institucionalizarse como aparato teórico fechado um serviço oferecido e contratado RODRIGUES 2005 Nessa época de elaboração teórica os conceitos vão deslocandose definitivamente do seu campo de saber original permitindo que o conceito de análise da implicação substitua a contratransferência institucional A posição de alternância dos conceitos muda e o que impera é a substituição À medida que a análise dos vínculos dos analistas em relação ao dinheiro ao tempo ao Estado ao saber etc vai sendo discutida publicamente na mesma reunião em que são Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 debatidos todos os assuntos com o grupocliente na teoria a análise da implicação se impõe à contratransferência institucional De 1970 a 1990 Lourau 2003b acompanha os rumos que tal conceito toma A partir da década de 1980 identifica que o conceito sofre uma deriva utilitária que chamará de sobreimplicação Em outras palavras esclarece que a análise da implicação perde lugar para uma demanda generalizada de cobrança de engajamento do outro captura produtivista como imperativo incessante de estar em ação no trabalho Nesta deriva identificase a implicação à identidade de um eu Impliquese Você está implicado Quem está mais implicado nesse trabalho Esse movimento é um retrocesso porque desde sua gênese o conceito de implicação esteve ligado à análise das instituições que atravessam um plano impessoal O conceito de instituição diz respeito a uma realidade que cruza as organizações e estabelecimentos sendo um emaranhado de forças Tal emaranhado no movimento contínuo de enredarse e desenredarse fabrica nas organizações demandantes um não dito institucional Esse não dito é identificado ao inconsciente institucional BAREMBLITT 1984 que sempre esteve implícito na análise dos vínculos das transferências e contratransferências institucionais Essas análises não eram levadas a cabo num plano de consciência do imediato explícito as encomendas não eram tomadas de pronto os vínculos eram tomados em seu aspecto simbólico as análises caminhavam numa tentativa de elucidar aquilo que na instituição era não dito a análise das implicações não se limitava a falar de um eu A introdução do eu é um tipo de retrocesso grosseiro porque reintroduz o personalógico dando privilégio ao íntimo como material de análise Leva a discussão para o campo da consciência com que a Psicanálise já havia rompido A exigência de sobreimplicação generalizada substitui a análise efetiva das instituições implicadas no processo em questão por uma atitude policialesca consigo e com os outros Acrescenta Lourau 2003b que o impliquese imperativo é uma forma de captura vinda do capitalismo para extrair um sobretrabalho uma forma de tarefismo generalizado Na década de 1980 há um declínio no número das encomendas de intervenção socioanalíticas O recuo da ida ao campo de intervenção caminhou junto de um recuo introversivo no conceito de implicação Um vetor intimista Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 segue em seu duplo movimento a sobreimplicação diagnosticada por Lourau e o recuo nos processos de intervenção coletiva Na tentativa de romper com este vetor Lourau 2003a identifica a grande contribuição do etnopsicanalista Devereux no que se refere a trazer ferramentas para análise da implicação nas pesquisas Nessa época o mercado editorial registrava um grande aumento da publicação de diários de pesquisadores escritores psicanalistas e outros Devereux propõe um procedimento de análise das implicações através do estudo diarístico A princípio esta proposta poderia ser tomada como seguimento do vetor intimista mas Lourau enxerga potente ferramenta de análise das implicações e inicia sua pesquisa da produção diarística No mais íntimo Lourau propõe a reversão para o fora Na leitura dos diários de Malinowski Margaret Mead Jeane Favret Saada Condominas Ferenczi e Wittgenstein Lourau desenvolve o conceito de foratexto5 para pensar o estatuto que o diário tem em relação ao texto publicado oficialmente Lourau visa conectar o texto com seu fora fazendo emergir nele os avanços e retrocessos as dúvidas e certezas a produção de conhecimento advinda da prática No lugar da assepsia da ciência as mãos sujas do pesquisador que vai a campo Dessa forma aquilo que só aparecia em rodapés notas ou no final do texto como informações quase infames pode difundirse promovendo uma análise da implicação Na leitura do diário do etnólogo Malinowski por exemplo Lourau 2003a mostra o papel primordial que a ida a campo teve na tecedura do texto M6 ou como prefere mais tarde texto institucional TI LOURAU 2003e Malinowski na ocasião com trinta anos foi enviado a algumas ilhas da Nova Guiné em 1914 para observar tribos do arquipélago Permaneceu no local de 1914 a 1918 mantendo a escrita do diário de setembro de 1914 a agosto de 1915 e uma segunda parte de outubro de 1917 a julho de 1918 Dessa observação originouse entre outros seu primeiro livro Os argonautas do pacífico ocidental No foratexto diarístico presentificavase a preocupação com os informantes a dificuldade das entrevistas o escamoteamento pelos nativos de seus rituais por vezes saindo bem cedo de barco para não serem seguidos por Malinowski Também está presente o papel da contingência da guerra Malinowski passou muito mais tempo no campo de pesquisa do que o previsto Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 devido ao início da Primeira Guerra Mundial Lourau nos mostra que na pesquisa etnográfica havia a preocupação de que uma observação fosse efetivamente um ato de manutenção de certa distância do objeto No caso de Malinowski na radicalização da tentativa da objetividade ocorreu uma reviravolta na metodologia O pesquisador também deve efetuar o caminho inverso ao do distanciamento um passo adiante um passo atrás Deve obter o máximo de familiaridade com o campo de estudo LOURAU 2003a p 264 Malinowski apostou na observaçãoparticipante em ciência etnológica e sociológica numa época quando o policiamento da estrada científica estava a cargo de eruditos que quase nunca saíam de seus escritórios salvo para consultar documentos nas bibliotecas ou nos arquivos da polícia idem Sobre a participação inserida na observação Lourau 2003a adverte não se tratar daquela participação e compromisso exigindo uma sobreimplicação imperativa O termo participante não se refere a um fenômeno voluntarista ou subjetivo Tratase de uma implicação Antes de comprometerse com o campo o pesquisador já está nele implicado Em outras palavras é atravessado por múltiplas referências as quais devem ser analisadas e mantidas junto do produto final manutenção do produto agregado aos seus germens de processo produtivo Para esta análise da implicação em situação bibliográfica Lourau conecta o texto com o foratexto que revela com seu processo produtivo promovendo a quebra e o desenredamento das múltiplas linhas instituintes RODRIGUES 2006 O conceito de foratexto somase às outras formas de análise da implicação e segue a linha da pesquisaintervenção questionando a suposta neutralidade científica da produção de conhecimento e promovendo a explicitação de suas condições Na década de 1990 Lourau diagnostica os perigos sobreimplicacionistas e numa nova guinada associa a implicação ao conceito de transdução7 de Gilbert Simondon LOURAU 2003c Esse movimento do conceito é uma tentativa de radicalizar a liquefação da oposição sujeitoobjeto na análise da implicação De uma implicação segmentada em seu livro inaugural até uma afirmação da nebulosa associando a análise da implicação a um plano único de contágio das forças implicadas Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 O analisador As experiências de intervenção tanto em Psicoterapia Institucional como na AI tiveram como marca seu caráter coletivo A partir dessas novas experiências de coletivização tanto pelo número de interventores quanto pelo seu enfoque na análise das instituições e não dos indivíduossujeitos ocorre um descentramento do trabalho de análise do analista para os analisadores O analisador é um conceitoferramenta forjado por Guattari ao longo de vários anos exposto no livro Psicanálise e transversalidade Apesar de seu aborrecimento com os seus estudos de Farmácia Guattari não deixou de propor termos como molar molecular e analisador Este último no sentido químico é aquele ou aquilo que provoca análise quebra separação explicitação dos elementos de dada realidade institucional Esse conceito é inseparável do conceito de transversalidade porque é numa situação de questionamento das hierarquias e especialismos que o analisador surge como uma ferramenta analítica que deslocaliza ou despessoaliza a intervenção Assim como Guattari expandiu os conceitos de transferência e contratransferência institucionais com o conceito de transversalidade substituiu o conceito de analista pelo de analisador O analisador comporta pelo menos dois níveis atravessando o campo de análise e o campo de intervenção Ele pode ser tomado tanto como o evento que denuncia quanto aquele portador da potência da mudança Enquanto evento denunciante nas proximidades da Psicanálise e do movimento institucionalista associavase o analisador às formações do inconsciente como os sonhos atos falhos chiste e sintomas BAREMBLITT 1994 Essas formações em Psicanálise exprimem a problemática exclusiva de um sujeito enquanto os analisadores que expressam e intervêm em grupalidades guardam suas devidas diferenças Em primeiro lugar têm materialidade expressiva totalmente heterogênea podendo ser um acontecimento enunciação indivíduo ou técnica não tendo forma de irrupção privilegiada na fala Em segundo lugar nele mesmo há o gérmen ou potencial de intervenção se dadas as condições necessárias Ele expressa e intervém sendo um conceito que não tem sentido senão em ato Para a AI os analisadores são processos revolucionários como por exemplo maio de 68 na França Caso sejam dessa natureza são chamados espontâneos embora Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 sem destituir seu caráter de constituição histórica Existem também os artificiais ou seja dispositivos que os analistas criam e introduzem na organização para propiciar processos de pôr a funcionar e de explicitação numa situação de intervenção LOURAU 1993 Apesar da literatura escassa sobre o tema muito já se trabalhou a partir das primeiras teorizações o que nos impulsiona a questionar e fazer avançar o conceito Certamente a distinção artificial versus espontâneo é problemática Um analisador artificial não é menos histórico do que o espontâneo da Revolução Francesa Essa distinção deixaria supor que os interventores estão desimplicados de todas as instituições históricas que os atravessam no momento de montar um analisador Um analisador espontâneo por sua vez como a guerra o foi para a situação de tratamento no Hospital de Saint Alban não é menos construído do que um artifício numa situação de intervenção Alguns autores BAREMBLITT 1994 ARDOINO e LOURAU 2003 COIMBRA 1995 associam a atividade do analisador artificial a um dispositivo montado Entendemos dispositivo aqui como um tipo de montagem de elementos heterogêneos criado para situações específicas de intervenção Sem aspirar à verdade ou técnica fechada o dispositivo é um operador de intervenção Podemos intuir que um dispositivo pode tornarse um analisador se conseguir pôr alguma situação em análise Da situação de intervenção socioanalítica podemos entender que os analisadores não são somente pequenos artifícios introduzidos mas a totalidade da situação de intervenção pode ser entendida como um analisador RODRIGUES 2005 Não é certo que todo dispositivo seja um analisador mas todo analisador é um dispositivo Assim a avaliação isso é um analisador só pode ser feita a posteriori pelos efeitos de desvios realizados Essa dupla faceta do analisador expressar uma problemática e causar um desvio incluise no paradigma de intervenção da AI retomando o viés de produção de conhecimento e de análise inseparáveis da transformação da realidade Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 Algumas nuances conceituais da PesquisaIntervenção e da Análise Institucional no Brasil A Análise Institucional no Brasil iniciase pela visita de Lapassade ao setor de psicologia social da UFMG em 1972 e continua seu desenvolvimento e consolidação com a chegada de psicanalistas argentinos exilados no Brasil a partir do ano de 1976 No ano de 1978 acontece o I Simpósio Internacional de Psicanálise Grupos e Instituições e a criação do IBRAPSI Instituto Brasileiro de Psicanálise Grupos e Instituições Em 1982 Lourau e Lapassade estiveram no II Simpósio Internacional de Psicanálise Grupos e Instituições e os integrantes do IBRAPSI lançaram o livro Grupos teoria e técnica LIMA 2012 Os argentinos radicados no Rio de Janeiro já possuíam uma leitura de psicanálise Lourau Lapassade Deleuze e Guattari ao mesmo tempo que trabalhavam com grupos influenciando as metodologias de intervenção e constituição da Análise Institucional no Brasil As experiências de intervenção socioanalíticas brasileiras a partir da década de 1970 incluíram o trabalho com grupos fazendo uma amálgama sui generis que contrastava com a experiência francesa Muitas dessas intervenções estão relatadas em dois livros Análise Institucional no Brasil e Grupos e Instituições em Análise editados respectivamente em 1987 e 1992 Há a inclusão do grupo como ferramenta potente sem deixar de fora as críticas ao funcionamento e análise da encomenda dos serviços Propõese no contexto da Análise Institucional brasileira o conceito de pesquisaintervenção radicalizando a proposta da pesquisaação e a indissociabilidade entre produção de conhecimento e intervenção social PASSOS e BENEVIDES 2000 AGUIAR e ROCHA 2003 Em Lourau e Lapassade embora o distanciamento do modelo psicossociológico lewiniano possa ser observado o termo pesquisaação foi mantido pelos socioanalistas franceses Lourau 2003c O momento de intervenção é o momento de produção teórica e sobretudo a produção do objeto e do sujeito do conhecimento A pesquisa ação tem um utilitarismo em sua ação Visa a uma mudança de comportamento individual ou social e a mudança tem esse sentido de passagem de uma dinâmica para outra já dada tomando a ordem social como naturalizada A pesquisaintervenção questiona o sentido da ação investindo Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 nos movimentos de metamorfoses não definindo a partir de um ponto de origem o alvo a ser atingido mas uma diferenciação de expressão singular Neste sentido não há mais sujeito e objeto mas processos de subjetivação e objetivação PASSOS e BENEVIDES 2000 No momento da intervenção identificamse analisadores que indicam os objetivos da intervenção tanto quanto a forma como se deve intervir mantendo a gênese social do objeto de pesquisa concomitante à gênese teórica e metodológica A intervenção se junta à pesquisa não para substituir a ação mas para produzir outra relação entre sujeitoobjeto e teoriaprática A pesquisa intervenção visa explicitar as relações de poder do campo de investigação uma desnaturalização permanente das instituições incluindo a própria instituição da análise A intervenção está associada à construção eou utilização de analisadores A noção de pesquisador colhido no campo de pesquisa se modifica para a atitude de análise de implicação No lugar da implicação afetivolibidinal consciente do pesquisador a análise da implicação faz análise do sistema de lugares ocupados apontando para forças extrapessoais que compõem os contextos institucionais Pela explicitação dessas forças rompese a barreira entre sujeito que conhece e objeto a ser conhecido havendo a necessidade de novas metodologias para o trabalho com as instituições dado que as oriundas da pesquisaação ainda mantinham um objeto prévio reificando a crença de que melhor se apreende a realidade quanto mais versões se tem dela A pesquisaintervenção está atenta à encomenda à produção de demanda ao modo como o serviço é ofertado à totalidade da intervenção como análise da implicação trabalhando com analisadores Conclusões Os conceitos desenvolvidos tratam de uma mesma atitude em relação à produção de conhecimento e à intervenção Análise da Encomenda Análise da Oferta Análise da demanda Análise da Implicação Transversalidade e Analisador nos trazem essa dupla aposta Por um lado que toda análise é uma Análise Institucional seja no consultório ou nas organizações afirmandose a indissociabilidade entre teoria e prática entre campo de intervenção e campo de análise entre forma instituída e processo instituinte por outro presentifica Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 se a pesquisaintervenção como paradigma da produção de conhecimento implicado impelindonos a promover intervençõespesquisas com novas metodologias que façam sempre o movimento de inclusão das muitas realidades e análise da implicação das forças em jogo O trabalho de pesquisa assim como o trabalho de intervenção socioanalítica pressupõe uma forma de relação entre sujeitoobjeto analista cliente teoriaprática que os institucionalistas cada vez menos tomarão como jogo interpessoal Se a análise institucional tomou de empréstimo o conceito de contratransferência desloca este conceito para pensar uma dinâmica coletivo institucional na qual os atores estão implicados e atravessados por vetores determinantes para a análise sexo idade raça posição socioeconômica significações socioculturais que atravessam seja o analista seja o analisando Com os conceitos de transferência e contratransferência institucionais é toda uma rede de afecções que é ativada No entanto estes conceitos são abandonados quando Lourau e Guattari propõem em seu lugar os conceitos de implicação e transversalidade Apenas uma troca de palavras Na verdade identificamos aí um esforço de não somente se desvencilhar do subjetivismo inerente ao jogo transferencial como também a necessidade de dar conta de uma dinâmica de relação na qual posições bem localizadas não têm mais lugar Se na dinâmica da transferência e da contratransferência é ainda a relação dual que toma o centro da cena marcando a distinção dos lugares do analista e do analisando com os conceitos de implicação e transversalidade a oposição entre o trans e o contra se dissolve O campo implicacional tem então uma dinâmica de transversalidades que se faz não por decisão propósito ou vontade de alguém Interessa à AI a dinâmica instituinte que deve ser acessada pela análise das instituições Todo trabalho de intervenção visa a essa dimensão inconsciente das instituições A intervenção como método indica o trabalho da análise das implicações coletivas sempre locais e concretas para acessar nas instituições os processos de institucionalização O método da intervenção orienta um trabalho de pesquisa que no Brasil passamos a designar de pesquisaintervenção e a direção de que se trata neste método é aquela que busca aceder aos processos ao que se passa Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 entre os estados de coisas entre as formas instituídas A pesquisaintervenção na inflexão brasileira do institucionalismo define então seu plano de atuação entre a produção de conhecimento e a transformação da realidade seja ela dos grupos organizações ou subjetividades tomando os analisadores como operadores clínicopolíticos Referências bibliográficas AGUIAR K ROCHA M PesquisaIntervenção e a produção de novas análises Psicologia Ciência e Profissão n 23 7 p 6473 2003 ARDOINO J LOURAU R As Pedagogias Institucionais São Carlos RiMa 2003 BAREMBLITT G Coord O inconsciente Institucional Petrópolis Vozes 1984 Compêndio de Análise Institucional Rio de Janeiro Editora Rosa dos tempos 1994 BALINT A BALINT M Sobre Transferência e Contratransferência 1939 Escola da Letra Freudiana A contratransferência à luz do desejo do analista Rio de Janeiro ano 21 n 29 p 914 2002 BARROS R B Institucionalismo e dispositivo grupal In RODRIGUES H C B e ALTOÉ S Orgs Saúde Loucura 8 Análise Institucional São Paulo Hucitec 2004 COIMBRA C Os caminhos de Lapassade e da Análise Institucional uma empresa possível Revista do Departamento de Psicologia UFF Niterói v 7 n 1 p 5280 1995 DELEUZE G GUATTARI F O que é a filosofia Rio de Janeiro Ed 34 1992 FERENCZI S Elasticidade da técnica psicanalítica 1928 In Psicanálise IV São Paulo Martins Fontes 1992 BREUER J FREUD S Estudos sobre Histeria 1895 In Obras Completas vol II São Paulo Companhia das Letras 2010 FREUD S A dinâmica da transferência 1912 In Obras Completas vol X São Paulo Companhia das Letras 2010 Recordar repetir e elaborar 1914 In Obras Completas vol X São Paulo Companhia das Letras 2010 Observações sobre amor transferencial 1915 In Obras Completas vol X São Paulo Companhia das Letras 2010 GALLIO G CONSTANTINO M Françoise Tosquelles A escola de liberdades In LANCETTI A Org SaúdeLoucura 4 grupos e coletivos São Paulo Hucitec 1994 GUATTARI F Psicanálise e transversalidade ensaios de análise institucional Aparecida SP Idéias Letras 2004 HEIMANN P Sobre a Contratransferência 1949 In Escola da Letra Freudiana A contratransferência à luz do desejo do analista Rio de Janeiro ano 21 n 29 2002 LAPASSADE G Grupos organizações e instituições 3 ed Rio de Janeiro Francisco Alves 1989 LIMA R S Análise Institucional no Rio de Janeiro entre 1960 e 1990 Revista ECOS v 2 n 1 p 6173 2012 LITTLE M R A resposta total do analista as necessidades do seu paciente 1951 In Escola da Letra Freudiana A contratransferência à luz do desejo do analista Rio de Janeiro ano 21 n 29 p 5568 2002 LOURAU R A Análise Institucional Petrópolis Vozes 1975 René Lourau na UERJ Análise Institucional e Práticas de Pesquisa Rio de Janeiro Eduerj 1993 Educação Libertária In JACÓVILELA Ana Maria MANCEBO Deise Org Psicologia Social Abordagens sóciohistóricas e desafios contemporâneos Rio de Janeiro Eduerj 1999 p 113167 Uma técnica de análise de implicações B Malinowski diário de etnógrafo 1987 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003a Implicação e sobreimplicação 1990 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003b Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 Implicação e Transdução 1994 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003c Processamento de texto 1994 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003d O campo socioanalítico 1996 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003e Implicação um novo paradigma 1997 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003f PASSOS E BENEVIDES R A construção do plano da clínica e o conceito de transdisciplinaridade Psic Teor e Pesq Brasília v 16 n 1 p 7179 janabr 2000 RODRIGUES H B C SOUZA V L B A análise institucional e a profissionalização do psicólogo In KAMKHAGI V e SAIDON O Orgs Análise Institucional no Brasil Rio de Janeiro Ed Rosa dos Tempos 1987 RODRIGUES H B C As subjetividades em revolta institucionalismo francês e novas análises 1994 Dissertação Mestrado IMSUERJ Rio de Janeiro Um anarquista catalão aventuras do freudomarxismo na França Cadernos de Psicologia IPUERJ Rio de Janeiro v 8 p 151170 1998 Sejamos realistas tentemos o impossível desencaminhando a Psicologia através da Análise Institucional In JACÓVILELA Ana Maria FERREIRA Arthur Arruda Leal PORTUGAL Francisco Teixeira Org História da Psicologia rumos e percursos Rio de Janeiro Nau 2005 p 525594 v 1 Os anos de inverno da Análise Institucional francesa dobra de si desprendimento de si Rev Dep Psicol Niterói UFF v 18 n 2 juldez 2006 SAIDON O et al Práticas Grupais Rio de Janeiro Editora Campus 1983 Notas 1 Em inglês training group literamente grupo de treinamento tipo de grupo de formação em que se visava alteração de hábitos ou mudança de opinião publica sobre algum assunto O monitor era bem ativo em favor de um objetivo prévio além de frequentemente falar de leis gerais do grupo em detrimento do grupo específico e local em que se estava intervindo LAPASSADE 1989 2 Moreno ainda em Viena desenvolve o teatro de improvisação que consistia em dramatizações utilizando temas cotidianos retirados de jornais A partir de 1925 já nos EUA visando mudanças subjetivas sistematiza técnicas como apresentação pessoal solilóquio técnica do doublé técnica do espelho e inversão de papéis Nascia o Psicodrama SAIDON et al 1983 3 A não diretividade de Rogers previa justamente a fala livre ao participante e ao monitor somente o uso de técnicas que incitasse esse objetivo permanecendo o tanto quanto fosse possível à parte dos rumos da dinâmica A critica socioanalítica incidia justamente sobre a crença da não influência do monitor no grupo rogeriano SAIDON et al 1983 4 Neste artigo apesar de nos referirmos a Lourau e Lapassade como socioanalistas acreditamos que também caberia o termo Analistas Institucionais Há apenas uma pequena nuance a ser observada Havia na década de 1960 na França duas tendências de Análise Institucional uma que tinha como expoentes Lourau e Lapassade que valorizava a análise das instituições das implicações e os referenciais mais sociológicos além de atenderem a intervenções a pedido e outra que partindo da intuição de Guattari foi baseada nas experiências da Psicoterapia Institucional da década de 1950 e 1960 e na psicanálise lacaniana o que nos remete à primeira linha constitutiva a que nos referimos no início do texto Ao passo que a vertente socioanalítica se oficializou com a tese de doutorado de Lourau defendida em 1969 A Análise Institucional a vertente guattariana quiçá esquizoanálise levará no encontro com Deleuze na década de 1970 ao O AntiÉdipo 5 Preferimos foratexto para o francês hors texte no lugar da tradução extratexto utilizada na edição brasileira por entendermos que não se trata de um texto que se acrescenta a um texto oficial O foratexto é a conexão do texto oficial com seu fora em outras palavras com a dimensão temporal sóciohistórica com o processo de produção do qual o texto foi subtraído para tornarse científico Essa opção não passa sem consequências Lourau 2003e analisa as diferenças entre intertexto IT extratexto ET foratexto e contexto CT A categoria de extratexto foratexto fica reservada aos textos infames muitas vezes diarísticos que colocam Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 o texto institucional TI em análise Ao optarmos pelo termo foratexto FT entendemos que ressaltamos tanto o texto publicado em separado quanto o processo de conexão do texto institucional com seu fora 6 Na metodologia de Lourau texto M letra inicial do autor é por exemplo o livro oficalmente publicado por Malinovski Os argonautas do pacífico ocidental 7 Conceito introduzido por Gilbert Simondon a partir da observação de processos físicos que se resumem a movimentos de propagação e contágio transformador de campos de força Lourau liga o processo de transdução ao de implicação para ressaltar a dimensão processual Sujeito e objeto como individuações num campo em que o espectro de forças os fazem polos e limites LOURAU 2003c Recebido em 30042014 Aprovado para publicação em 10062014 MOVIMENTO INSTITUCIONALISTA E ANÁLISE INSTITUCIONAL NO BRASIL NAIR IRACEMA SILVEIRA DOS SANTOS Resumo Abordamos nesse artigo a história da Análise Institucional no Brasil remetendonos ao movimento institucionalista na França às diversas correntes e referências as quais influenciaram a composição de práticas institucionais no campo psi caracterizadas por uma determinada escuta e intervenção que se faz problematizadora das instituições tomandoas como produções para além dos estabelecimentos dos códigos das formas e normas Palavraschaves Análise Institucional Movimento Institucionalista Práticas Institucionais Psicologia e Instituições INSTITUTIONALIST MOVEMENT AND INSTITUTIONAL ANALYSIS IN BRAZIL Abstract This paper discusses the history of Institutional Analysis in Brazil considering the institutionalist movement in France the various experiences and references that influenced the composition of institutional practices in psy field characterized for one determined listening and intervention that discusses the institutions understanding them as productions beyond establishments codes forms and norms Keywords Institutional Analysis Institutionalist Movement Institutional Practices Psychology and Institutions criativas de trabalho jornal grupos de pacientes e técnicos estímulo à participação no cotidiano do hospital colocando em questão as relações estabelecidas no hospital psiquiátrico Este trabalho integra parte de um capítulo da tese de doutorado Escola Pública e Comunidade relações em d ações revisada para publicação Professora do Departamento de Psicologia da UFSM Doutora em Educação Heliana de Barros Conde Rodrigues e Veta Lúcia Batista de Souza em Análise Institucional no Brasil 1987 56 REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS espanhola durante a segunda guerra vai para o hospital Saint Alban região de Lozère na França no qual havia se constituído um foco da resistência e abrigara pensadores artistas psiquiatras de tendências antiasilares Várias atividades foram organizadas cooperativas de trabalho jornal grupos de pacientes e técnicos estimulou a participação no cotidiano do hospital colocando em questão as relações estabelecidas no hospital psiquiátrico A experiência de Tosquelles é referida como o embrião da Psiquiatria de Setor que propunha a humanização dos hospitais Em 1952 Daumézon irá caracterizar tais práticas como Psicoterapia Institucional mostrando a tendência de desalienação do doente mental Linha Guattari e Jean Oury Oury Psiquiatra francês havia estado com Tosquelles e procurava instalar em La Borde 1953 práticas institucionalizadas semelhantes às experimentadas em Lozère Convidou Guattari para a equipe em 1955 Guattari o qual militava desde os 16 anos em vários tipos de organizações políticas em alguns meses havia criado na clínica múltiplas instâncias coletivas assembléias gerais secretariado comissões paritárias ateliês Era a primeira experiência de psicoterapia institucional em estabelecimento privado Guattari 1992 relata que a partir da instalação dessas diversas atividades perceberam que além da mobilização dos pacientes teriam de criar espaços de problematização dos níveis de participação da equipe incluindose nesta os serviços de apoio cozinheiros faxineiros Além da relação atendenteatendido as relações no grupo de trabalho começam a ser discutidas Nesse movimento o qual Guattari 1992 chama de minirevolução interna esboçase as primeiras reflexões para a proposta de Análise Institucional Pedagogia Institucional Fernando Oury Aida Vasquez Michael Lobrot René Lourau e G Lapassade Foram influenciados pela Psicoterapia Institucional também por uma aproximação familiar Fernando Oury era irmão de Jean Oury Fernando Oury professor primário ingregrava o movimento Freinet o qual existia desde 1924 na França consistindo principalmente na invenção de novos meios educativos como o texto livre o diário a correspondência Freinet levou o jornalismo e a imprensa para a escola e tais técnicas segundo Lapassade 1983 preparam a autogestão pedagógica O Grupo Técnicas Educativas de Pedagogia Institucional surgiu desse movimento Freinet em 1962 Dele faziam parte Oury Aida Vasquez e Lapassade Em 1962 desligaramse de Freinet por sentiremse impossibilitados de aplicar as propostas deste as quais estavam cada vez mais voltadas ao meio rural Em 1964 ocorre nova divisão no grupo com duas orientações A Pedagogia Terapêutica de orientação Psicanalítica representada por Fernand Oury e Aida Vasquez esta linha dava importância à atividade criadora nas instituições e aos processos inconscientes das relações nos grupos Com ela surgiram os conselhos de classe nas escolas visando estimular a autogestão na sala de aula No entanto para Lapassade cf Coimbra 1995 nesta linha não se interrogavam sobre a escola enquanto dispositivo social A Pedagogia Autogestionária e Socioanalítica representada por Lobrot Lorau e Lapassade Tomam como base os grupos de formação TGroup4 e passam depois a autoregulação de grupo o que segundo Coimbra 1995 implicava um grupo capaz de tomar em suas mãos não somente sua análise mas muitas outras atividades Análise Institucional Segundo Barros 1994 Guattari propõe o termo Análise Institucional em TGroup Training Group ou Grupo de Diagnóstico é um desdobramento das pesquisas de Kurt Lewin na área de formação caracterizandose pela experiência em grupo na qual o grupo faz a análise do próprio processo e da sua relação com o coordenador monitor na proposta de Lewin Todo o saber sobre o grupo é construído com a participação dos membros os quais progressivamente aprendem a analisar o funcionamento do grupo sem a ajuda do monitor 56 REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS espanhola durante a segunda guerra vai para o hospital Saint Alban região de Lozère na França no qual havia se constituído um foco da resistência e abrigara pensadores artistas psiquiatras de tendências antiasilares Várias atividades foram organizadas cooperativas de trabalho jornal grupos de pacientes e técnicos estimulou a participação no cotidiano do hospital colocando em questão as relações estabelecidas no hospital psiquiátrico A experiência de Tosquelles é referida como o embrião da Psiquiatria de Setor que propunha a humanização dos hospitais Em 1952 Daumézon irá caracterizar tais práticas como Psicoterapia Institucional mostrando a tendência de desalienação do doente mental Linha Guattari e Jean Oury Oury Psiquiatra francês havia estado com Tosquelles e procurava instalar em La Borde 1953 práticas institucionalizadas semelhantes às experimentadas em Lozère Convidou Guattari para a equipe em 1955 Guattari o qual militava desde os 16 anos em vários tipos de organizações políticas em alguns meses havia criado na clínica múltiplas instâncias coletivas assembléias gerais secretariado comissões paritárias ateliês Era a primeira experiência de psicoterapia institucional em estabelecimento privado Guattari 1992 relata que a partir da instalação dessas diversas atividades perceberam que além da mobilização dos pacientes teriam de criar espaços de problematização dos níveis de participação da equipe incluindose nesta os serviços de apoio cozinheiros faxineiros Além da relação atendenteatendido as relações no grupo de trabalho começam a ser discutidas Nesse movimento o qual Guattari 1992 chama de minirevolução interna esboçase as primeiras reflexões para a proposta de Análise Institucional Pedagogia Institucional Fernando Oury Aida Vasquez Michael Lobrot René Lourau e G Lapassade Foram influenciados pela Psicoterapia Institucional também por uma aproximação familiar Fernando Oury era irmão de Jean Oury Fernando Oury professor primário ingregrava o movimento Freinet o qual existia desde 1924 na França consistindo principalmente na invenção de novos meios educativos como o texto livre o diário a correspondência Freinet levou o jornalismo e a imprensa para a escola e tais técnicas segundo Lapassade 1983 preparam a autogestão pedagógica O Grupo Técnicas Educativas de Pedagogia Institucional surgiu desse movimento Freinet em 1962 Dele faziam parte Oury Aida Vasquez e Lapassade Em 1962 desligaramse de Freinet por sentiremse impossibilitados de aplicar as propostas deste as quais estavam cada vez mais voltadas ao meio rural Em 1964 ocorre nova divisão no grupo com duas orientações A Pedagogia Terapêutica de orientação Psicanalítica representada por Fernand Oury e Aida Vasquez esta linha dava importância à atividade criadora nas instituições e aos processos inconscientes das relações nos grupos Com ela surgiram os conselhos de classe nas escolas visando estimular a autogestão na sala de aula No entanto para Lapassade cf Coimbra 1995 nesta linha não se interrogavam sobre a escola enquanto dispositivo social A Pedagogia Autogestionária e Socioanalítica representada por Lobrot Lorau e Lapassade Tomam como base os grupos de formação TGroup4 e passam depois a autoregulação de grupo o que segundo Coimbra 1995 implicava um grupo capaz de tomar em suas mãos não somente sua análise mas muitas outras atividades Análise Institucional Segundo Barros 1994 Guattari propõe o termo Análise Institucional em 4 TGroup Training Group ou Grupo de Diagnóstico é um desdobramento das pesquisas de Kurt Lewin na área de formação caracterizandose pela experiência em grupo na qual o grupo faz a análise do próprio processo e da sua relação com o coordenador monitor na proposta de Lewin Todo o saber sobre o grupo é construído com a participação dos membros os quais progressivamente aprendem a analisar o funcionamento do grupo sem a ajuda do monitor MOVIMENTO INSTITUCIONALISTA E ANÁLISE INSTITUCIONAL NO BRASIL 57 uma reunião com o GTPSI Grupo de Trabalho de Psicologia e de Sociologia Institucionais para demarcar a diferença em relação às práticas operadas com Tosquelles Incluise aqui a dimensão analítica problematizando os especialismos em torno dos quais se organizavam as intervenções institucionais A análise passa a ser vista como dimensão de toda experimentação social podendo ser realizada em qualquer âmbito por qualquer pessoa integrante dos grupos sociais terapêuticos de ensino e de trabalho Nesse momento Guattari formula alguns conceitos6 transversalidade transferência institucional analisador grupo sujeitogrupo suj eitado alguns dos quais serão utilizados por outros institucionalistas como Lapassade e Lourau A intervenção se pautava pela análise do funcionamento do grupo das práticas naturalizadas das instituições potencializadas no grupo de forma que este pudesse ao colocar em análise tais produções inventar novas formas de operar como grupo Guattari procurou com tais formulações opor a análise institucional à psicoterapia institucional uma vez que para ele a dimensão analítica nesta última restringiase a ser uma força exterior que coexistia pacificamente neste campo com o marxismo a psicossociologia a dinâmica de grupo a terapia social Barros 1994 p338 visando apenas as boas relações no grupo Lapassade 1977 também problematiza os dois primeiros movimentos Assim como a Psicoterapia Institucional não questiona a Psiquiatria enquanto instituição a Pedagogia Institucional não indaga a escola como tal As transformações são pensadas apenas no âmbito dos grupos Mas estes são movimentos embrionários de outros que irão se compor mais políticos os quais colocarão as instituições em análise remetendoas à ordem social O próprio Lapassade esteve inicialmente seduzido pela psicologia dos pequenos grupos sendo o principal representante da Psicossociologia Institucional corrente que se formou a partir dessas experiências citadas acima Mais tarde ele e outros institucionalistas farão críticas a esta sob o argumento de que trabalhavam a organização como um grupo enfocando as relações humanas sem problematizar as produções sociais Lapassade diz que propôs chamar de Análise Institucional7 em 1963 o método que visa a revelar nos grupos esse nível oculto de sua vida e de seu funcionamento a dimensão institucional entendida como toda política reprimida pela ideologia das boas relações sociais Coimbra 1995 A Análise institucional se constituiu de diferentes movimentos e tendências teóricas as quais foram compondo o movimento institucionalista francês desde o início da década de 60 Coimbra 1995 situa a institucionalização da Análise Institucional Francesa em uma terceira fase do movimento institucionalista A primeira fase seria a da Psicossociologia Institucional a qual se desenvolveu na primeira metade da década de 60 a partir das experiências da Psicoterapia Institucional da Pedagogia Institucional e da crítica interna nas ciências sociais Nesta fase também foram 6 Estes conceitos podem ser encontrados na obra Revolução Molecular pulsações políticas do desejo de Félix Guattari São Paulo Brasiliense 1987 7 Sobre a autoria do termo Análise Institucional parece que Guattari também dizia ter proposto o mesmo para demarcar a diferença da psicoterapia institucional de Tosquelles e para enfatizar a dimensão analítica a qual não se fazia presente nas primeiras experiências Ele faz essa referência no artigo Devít câmera analisando ficção in Revolução molecular pulsações políticas do desejo São Paulo Ed Brasiliense 1987 p67 Neste artigo problematiza a transformação da análise institucional e dos analisadores em ciências psicossociológicas O artigo original em francês é de 1977 e Guattari dizia neste que havia proposto esse nome há uns quinze anos atrás o que levanos a pensar que a autoria seria mesmo de Guattari considerando que os primeiros conceitos cima análise utilizados por Lapassade e Lourau foram desenvolvidos pelo primeiro Porém Lapassade e Lourau são reconhecidos como autores responsáveis pelo desenvolvimento da proposta de análise institucional Lourau 1995 escreveu um livro intitulado A Análise Institucional As primeiras experiências no Brasil estavam referenciadas mais em Lapassade do que em Guattari embora alguns grupos tivessem articulação conhecimento das duas correntes De qualquer forma era nota é apenas para pontuar tal confusão e para demarcar as fontes da Análise Institucional Brasileira a qual irá servirse das duas propostas Lapassade e Lourau tiveram uma importância pela discussão sociológica elaborando conceitualmente a proposta de intervenção institucional Guattari juntamente com Deleuze irá problematizar a Psicanálise ampliando a discussão e formulando nova proposta não mais de intervenção mas sim uma proposta para pensar a análise como uma esquizoanálise Dessa forma é a análise que é posta em análise não mais as instituições importantes os enfoques antiinstitucionais7 como a antipsiquiatria e a antipedagogia os quais tiveram seu apogeu no maio de 68 francês Logo no início da década de 70 Ivan Illich prega a desescolarização mostrando a escola como um grande reprodutor da sociedade consumo Os enfoques antiinstitucionais irão possibilitar novas formulações permitindo a Lapassade romper com a leitura mais psicológica e dar ênfase a leitura sociológica o que demarcaria segundo Coimbra 1995 a segunda fase da Análise Institucional com as Intervenções Socioanalíticas quando a autogestão é empregada como um questionamento ao sistema atual das instituições e dispositívos sociais como uma contrainstituição revelando os elementos ocultos do sistema É o período da criação de diversos dispositivos de trabalho em instituições a partir de experiências grupais as quais colocavam em análise os atravessamentos sociais nos grupos A terceira fase segundo Coimbra 1995 seria a institucionalização da Análise Institucional na década de 70 quando os movimentos perdem força havendo um desinteresse generalizado pelas diferentes formas de participação e questionamentos sociais Haverá então uma redução de espaços a solicitarem a intervenção de analistas institucionais Foi preciso a revisão de conceitos e é neste período que surgem os escritos sobre a história do movimento institucionalista Lapassade 1983 questiona sobre a possibilidade de mudanças nos níveis do grupo e da organização sem que se analise as instituições que se produzem e operam nestes âmbitos Parece que esse momento desestabilizou também algumas certezas no próprio Lapassade Na tentativa de abrir mais espaços ele propõe com Lourau 1977 o Encontro Institucional uma intervenção de curta duração através de uma crisisanálise propondose a instalar crises na organização para que alguns setores pudessem se apropriar da análise e começar a praticála Lapassade também se aproximou do Movimento de Potencial Humano fazendo uso de algumas técnicas de intervenção o que não impediu que fizesse crítica a esta corrente em outro momento Das leituras que fiz pareceme que Lapassade nesta fase se perdeu um pouco retornando a intervenções mais funcionalistas pelas exigências da demanda das instituições Esta é uma leitura dos momentos do movimento institucionalista francês realizada por Coimbra 1995 em sua tese de doutorado Nestes três momentos a autora vai analisando como se estruturam propostas de intervenção institucional culminando com a institucionalização da Análise Institucional Lapassade faz um outro tipo de divisão acentuando o desenvolvimento do conceito de instituição Rodrigues e Souza 1987 retomam essa discussão citando Lapassade Em um primeiro momento instituição é entendida como estabelecimento de cuidados mobilizando ações terapêuticas Encontramos essa noção nas práticas da psicoterapia institucional quando esta buscava a cura pela institucionalização dos enfermos Instituições são assim todos os Estabelecimentos ou Organizações com existência material eou jurídica escolas hospitais empresas associações etc Rodrigues e Souza 1987 Em um segundo momento trabalhase com a idéia de que as instituições seriam dispositivos grupos operativos assembléias conselhos de classe grupos de discussão instalados nos estabelecimentos escolas hospitais empresas Acentuase aqui ainda o papel atribuído aos especialistas como peritos em instituições É o que predominou no enfoque psicossociológico quando se enfatizava as relações humanas através do trabalho com grupos nas instituições permanecendo a referência aos estabelecimentos Também na segunda linha da Psicoterapia Institucional e na Pedagogia Institucional 29 O terceiro momento para Lapassade 1977 são os movimentos antiinstitucionais quando a noção de instituição contempla a idéia de produção problematizando as diversas naturalizações nas práticas sociais Podemos situar aqui as experiências de Socioanálise empreendidas por Lapassade e a fase da Análise Institucional propriamente dita Baremblitt 1994 quando apresenta as principais tendências do movimento institucionalista refere a Sociopsicanálise de Gérard Mendel a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari No entanto no Brasil essas correntes se articulam se misturam de forma que hoje poderíamos falar em uma área de conhecimento chamada Análise Institucional a qual tem sido apropriada e ampliada por profissionais pesquisadores predominantemente da área da Psicologia em uma interface com a Psicologia Social e Psicanálise Chamamos Análise Institucional no sentido estrito aquela corrente do movimento institucionalista vinculada mais de perto às posições de R Lourau G Lapassade e seu grupos de colaboradores RHess PVille etc Ao menos no contexto brasileiro podemos falar de uma articulação estreita desta práticapensamento com as posições de FGuattari em direção a uma micropolítica Rodrigues 1992 p45 No Brasil a Análise Institucional encontrou espaço na Psicologia Social Crítica a qual se nutria dos movimentos sociais Osvaldo Saidon referia em 1987 que deveríamos buscar as fontes de uma corrente brasileira de Análise Institucional em Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido nos movimentos de resistência de 64 e 68 nas propostas das comunidades de base e na influência do exílio latinoamericano com sua proposição de práticas sociais no campo da Psicologia e da Psicanálise Coimbra 1995 refere que as práticas institucionais nos chegam através de duas gerações de autores argentinos Uma primeira representada por integrantes da Associação Psicanalítica Argentina como Rodolfo Bohoslavsky Leon Grinberg Marie Langer divulgam os trabalhos de José Bleger e Pichon Rivière com a proposta de uma Psicologia Institucional a qual difere da Análise Institucional Francesa Conforme Rodrigues e Souza 1987 p17 a primeira resultou da necessidade dos psicanalistas argentinos de influírem com sua prática no momento político de seu país Constitui movimento que parte da Psicanálise para a política e que tem no trabalho com grupos nas organizações sua forma de intervenção por excelência Bleger foi aluno de Pichon Rivière tomando como base a experiência de grupos operativos deste Defende uma abordagem do inconsciente institucional analisando as relações nos grupos sob pressupostos da prevenção e psicohigiene promoção de saúde formulados por G Caplan na Psiquiatria preventiva O psicólogo para Bleger 1984 seria um agente de saúde um técnico das relações trabalhando com a noção de instituiçãoestabelecimento sendo esta então considerada paciente do especialista São os grupos operativos uma forma de intervenção que virou moda na década de 70 no Brasil No entanto segundo Coimbra 1995 enquanto na Argentina já haviam questionamentos do tipo que formação social que práticas e subjetividades estamos produzindo e fortalecendo entre nós somente na década de 80 tais questões puderam ser pensadas A Segunda geração de argentinos representada por Osvaldo Saidon Gregório Baremblitt Antônio Lancetti e Vida Raquel Kamkhagi desembarca exilada após 1976 no eixo Rio São Paulo acolhendo as influências de Bleger e Pichon e uma série de implicações políticas Coimbra 1995 divulgando os princípios da análise institucional francesa Num primeiro momento os trabalhos de Lapassade tiveram maior evidência e na década de 80 a estes se 30 somaram as produções de Foucault Deleuze e Guattari Lapassade 1977 encontra no termo instituição um sentido ativo de manter de pé a máquina social e até de produzila vertente do instituinte e também a vertente do instituído o qual remete às formas universais de relações sociais as quais nasceram originariamente em uma sociedade instituinte8 Segundo Rodrigues e Souza 1987 o objetivo da Análise Institucional seria trazer à luz essa dialética instituinteinstituído visando a aprender a instituição em seu sentido ativo Algumas definições de instituição mesmo em autores os quais já articulam Análise Institucional e Esquizoanálise enfatizam mais a dimensão do instituído É o que se expressa no conceito apresentado por Baremblitt 1994 p27 As instituições são lógicas são árvores de composições lógicas que segundo a forma e o grau de formalização que adotem podem ser leis podem ser normas e quando não estão enunciadas de maneira manifesta podem ser pautas regularidades de comportamentos No conceito de Lapassade 1977 p203 também o sentido etimológico9 é acentuado FORMA que produz e reproduz as relações sociais ou FORMA GERAL das relações sociais que se instrumenta em estabelecimentos eou dispositivos E isto é a instituição este produto da sociedade instituinte em tal momento de sua história Outros autores inspirados em Deleuze e Guattari apresentam conceitos mais fluidos de instituição Para Rodrigues e Souza 1987 p24 instituição é produção é atividade algo não localizável empiricamente uma espécie de inconsciente político que institui novas realidades sempre dividindo sempre separando As instituições são como estátuas de areia mostramse fixas e desistorizadas mas os grãos que as compõem estão ainda que imperceptivelmente se movimentando os fluxos não param de se agitar o mar está ali adiante podendo a qualquer momento levar os grãos de areia que compõem estas estátuas fazendo com que elas desapareçam Barros 1994 p109 Se tomarmos as instituições como processos nos quais os fluxos não param de se agitar como refere Barros 1994 talvez ainda pudéssemos falar de uma análise institucional resgatando a proposta original de Guattari na década de 60 e atualizandoa com as formulações da esquizoanálise A esquizoanálise foi inventada por Delcuze e Guattari 1976 e exposta pela primeira vez no livro O AntiÉdipo A idéia era problematizar a Psicanálise e o modo instituído de análise a qual se sustentava na interpretação e na leitura do oculto remetendo todo conflito a uma matriz das relações familiares O questão da esquizoanálise ou da pragmática a própria micropolítica10 não consiste jamais em interpretar mas apenas em perguntar quais suas linhas indivíduo ou grupo e quais os perigos sobre cada uma delas No entanto Guattari 1988 refere que ele e Deleuze não consideravam a esquizoanálise como uma técnica uma ciência baseada sobre leis e axiomas e ainda menos como um corpo de profissão que requer uma formação iniciadora Ela só conseguirí existir nos agenciamentos particulares É um novo modo de pensar a vida e as práticas sociais podendo ser exercida por qualquer pessoa Sendo assim um líder comunitário que potencializa formas diversas de participação e organização em sua comunidade pode ser considerado um esquizoanalista A expressão esquizo esteve sujeita a confusões com o processo do esquizofrênico Guattari 1987 pontua que nunca ele e Deleuze falaram de identificação entre o analista e o esquizofrênico Nós dissemos que o analista tanto quanto o militante o escritor ou quem quer que seja está mais ou menos engajado num processo esquizo Nós não dissemos que os revolucionários devessem identificarse com os loucos que estão girando em falso mas sim que deviam fazer seus empreendimentos funcionarem à maneira do processo esquizo Guattari 1987 p83 Guattari 1987 referese à idéia de ruptura presente no processo esquizo de poder potencializar modos de existência romper com a ordem dada com as representações deixandose derivar no processo É nesse sentido que segundo ele o trabalho do analista do revolucionário do artista podem se encontrar A Análise Institucional no Brasil constituiuse sob esse fundo múltiplo dessas diferentes correntes mesmo que uma ou outra se ache mais enfatizada No Rio Grande do Sul recebemos a produção argentina e as composições do eixo Rio São Paulo Durante alguns anos tal como no centro do país Bleger e Pichon Rivière foram referências fortes predominando as práticas da psicologia institucional Lapassade nos foi apresentado pela obra Análise institucional no Brasil publicado em 1987 reunindo trabalhos de profissionais os quais já articulavam leituras deste com Deleuze e Guattari sendo que os últimos se fizeram mais presentes entre os gaúchos na década de 90 especialmente no período de 94 a 97 quando muitos encontros se realizaram com Suely Rolnik Rogério Costa Peter Pelbart Regina Benevides de Barros nas universidades em espaços clínicos e de formação1 os quais têm divulgado a filosofia de Deleuze Guattari Nietzsche e Foucault Ainda preferimos falar em Análise Institucional apesar de todos os perigos advindos da institucionalização desta como afirma Coimbra 1995 Guattari 1987 queixavase das palavras gastas do fato dos especialistas provocarem rapidamente a tecnicização da proposta Porém a realidade francesa não è a mesma nossa Para nós o que vingou foi a Análise Institucional mesmo com todo o ranço dos especialismos Foi com a Análise Institucional que podemos problematizar as nossas implicações os nossos lugares de especialistas Como propõe Coimbra 1995 não precisamos sair do lugar de especialistas mas sim ao ocupar esse território fazemos em primeiro lugar a análise do que produzimos do que instituímos uma análise das instituições em nós e fora de nós As instituições continuam a operar fortemente na subjetivação Ainda somos atravessados por instituições mesmo que ampliemos nossos conceitos para territórios ou territorializações Sempre existirão as instituições enquanto estabelecimentos e ainda hoje estamos muito grudados a estas precisamos estar institucionalizados ainda buscamos territórios referenciais A escola vai mal é questionada mas ainda não se aceita que as Espaços os quais têm se constituído nos últimos anos reunindo profissionais psicólogos educadores seduzidos por estes autores Podemos dizer que esses grupos são hoje as diversas dobrias do Instituto Pichon Rivière de Porto Alegre instituição que há muitos anos vem formando psicólogos grupalistas e institucionalistas Entre os grupos mais recentes temos Oficina Psi Intersecção Tivemos o Espaço de Vida o qual organizou seminários sobre Deleuze e Guattari entre 95 e 96 com Rogério Costa e Peter Pelbart crianças não passem por esta Se a escola acabar outras instituições tomarão seu lugar São as nossas linhas segmentárias O que precisamos é inventar microanálises procurando fazer a escuta não só das formas mas também dos fluxos análise do movimento das relações de forças que compõem as instituições sejam elas estabelecimentos instituídos ou forças produtoras de subjetividade Referências Bibliográficas 1 BAREMBLITT Gregório Compêndio de Análise Institucional e outras correntes teoria e prática 2ª ed Rio de janeiro Rosa dos Tempos 1994 2 BARROS Regina Duarte Benevides Grupo A Afirmação de um Simulacro São Paulo PUCSP 1994 Tese de Doutorado Programa de PósGraduação em Psicologia Clínica 3 BLEGER José Psicohigiene e Psicologia Institucional Porto Alegre Artes Médicas 1984 4 COIMBRA Cecília Maria Bouças Guardiães da Ordem Rio de Janeiro Oficina do Autor 1995 5 DELEUZE Gilles GUATTARI Félix O AntiÉdipo Capitalismo e Esquizofrenia Rio de Janeiro Imago 1976 6 EIZIRIK Marisa Faermann Educação e escola a aventura institucional Porto Alegre AGE 2001 7 GUATTARI Félix ROLNIK Suely Micropolítica Cartografias do Desejo Petrópolis Vozes 1986 8 GUATTARI Félix Revolução Molecular pulsações políticas do desejo São Paulo Brasiliense 1987 9 GUATTARI Félix O Inconsciente maquínico ensaios de esquizoanálise CampinasSP Papirus 1988 10 GUATTARI Félix Caosmose um novo paradigma estético Rio de Janeiro Ed34 1992 11 LAPASSADE G El Encuentro Institucional In LOURAU Ret al Análisis Institucional y Socioanálisis México Nueva Imagem 1977 12 Grupos Organizações e Instituições Rio de Janeiro Francisco Alves 1983 13 LOURAU R et al Análisis Institucional y Socioanálisis México Nueva Imagem 1977 14 LOURAU René A Análise Institucional Trad De Mariano Ferreira Petrópolis RJ Vozes 1995 15 RODRIGUES Heliana BC SOUZA Vera LB A Análise Institucional e a Profissionalização do Psicólogo In SAIDON O KAMKHAGI Vida R Análise Institucional no Brasil Rio de Janeiro Espaço e Tempo 1987 pp 1735 16 RODRIGUES Heliana de Barros Conde Psicanálise e Análise Institucional In RODRIGUES Heliana de Barros Conde LEITÃO Maria Beatriz Sá BARROS Regina Benevides de Grupos e Instituições em Análise Rio de Janeiro Rosa dos Tempos 1992 pp 4255 17 SAIDON Osvaldo e KAMKHAGI Vida Rachel orgs Análise Institucional no Brasil favela hospício escola FUNABEM Rio de janeiro Espaço e tempo 1987 Curso Psicologia Matéria Análise Institucional Tarefa Fazer uma análise institucional do filme Hair Love Curta Disponível em httpswwwyoutubecomwatchvqXwWxRjrVA8 A análise deve conter onde aparecem 1 Instituição 2 Quais forças instituintes aparecem 3 Quais forças instituídas aparecem A Análise Institucional é uma abordagem utilizada na Psicologia e outras áreas para compreender as dinâmicas presentes em uma instituição como a forma como o poder é distribuído as normas e valores que orientam o comportamento dos membros e como as decisões são tomadas Essa abordagem também busca identificar as forças instituintes que são aquelas que buscam transformar a instituição e as forças instituídas que são aquelas que mantêm a instituição em seu estado atual Quiroga 2011 Além disso de acordo com o artigo Movimento institucionalista e análise institucional no Brasil de Nair Iracema Silveira dos Santos percebese o surgimento e desenvolvimento do Movimento Institucionalista no país assim como sobre as contribuições da Análise Institucional como forma de suporte para a compreensão das instituições sociais Segundo Santos 2007 o Movimento Institucionalista surgiu no Brasil na década de 1950 a partir de uma crítica ao modelo de atendimento psiquiátrico predominante na época A partir dessa crítica surgiram novas práticas de atendimento baseadas em uma perspectiva mais humanizada e integral do ser humano A autora destaca que o institucionalismo se caracterizou por uma atitude crítica e reflexiva em relação às instituições p 70 o que permitiu a elaboração de novas formas de atendimento e intervenção A Análise Institucional por sua vez surge como uma forma de compreender as dinâmicas presentes nas instituições sociais como as organizações empresas e outras estruturas sociais Segundo Santos 2007 essa abordagem não se limita a descrever e interpretar as instituições mas também visa produzir mudanças nas mesmas p 73 Nesse sentido a Análise Institucional pode ser vista como uma ferramenta para a transformação das instituições e das relações sociais O curtametragem Hair Love dirigido por Matthew A Cherry pode ser analisado a partir de uma perspectiva institucional Nesse sentido é possível identificar a presença da instituição familiar como o principal contexto do filme A história se desenrola em torno do pai da menina Zuri que está tentando ajudar a filha a arrumar o cabelo para um evento especial onde irá visitar sua mãe que está doente Durante a narrativa a obra destaca questões importantes como a relação entre pai e filha a diversidade e a aceitação de si mesmo Dentro do contexto familiar é possível identificar algumas forças instituintes que atuam como agentes de mudança Uma dessas forças é a própria iniciativa do pai em tentar arrumar o cabelo da filha e estreitar a relação com ela mesmo sem ter conhecimento sobre as técnicas necessárias Segundo a Análise Institucional a instituição deve ser vista como um conjunto de processos que tendem a se manter mas que ao mesmo tempo são atravessados por processos de mudança Quiroga 2011 p 374 Portanto o pai de Zuri pode ser visto como um agente instituinte que busca modificar as dinâmicas familiares tradicionais Além disso ele também é identificado como uma das forças instituintes observadas pois é demonstrada a busca por representatividade O pai de Zuri está tentando aprender a cuidar do cabelo da filha como uma forma de promover maior representatividade da cultura afroamericana Ele quer que a filha se sinta orgulhosa de sua aparência e de suas raízes o que pode ser visto como uma forma de romper com estereótipos e padrões de beleza dominantes Outra força instituinte que podemos identificar é a busca por igualdade de gênero Ao assumir a responsabilidade de cuidar do cabelo da filha o pai de Zuri desafia estereótipos de gênero e de papéis sociais tradicionais Ele mostra que é possível que os pais se envolvam de forma ativa na criação dos filhos e que as tarefas domésticas não são exclusivamente responsabilidade das mães Ademais podemos ver a busca por afeto e conexão como uma força instituinte presente no curtametragem A relação entre o pai de Zuri e a filha é permeada por afeto e carinho o que pode ser visto como uma forma de construir laços mais estreitos e significativos dentro da instituição familiar A busca por essa conexão emocional pode ser vista como uma força instituinte uma vez que busca produzir mudanças nas relações familiares Por outro lado também é possível identificar a presença de forças instituídas no curtametragem Uma dessas forças é a pressão social para que as pessoas sigam um padrão de beleza que não valoriza a diversidade étnica e capilar Como destaca Quiroga 2011 os grupos instituídos são aqueles que mantêm a instituição tal como ela é p 379 Nesse sentido o filme mostra como essa pressão pode dificultar a aceitação do próprio cabelo o que acaba limitando a liberdade individual e a expressão da identidade Posto isso outras forças instituídas que podemos observar é a pressão social em relação aos padrões de beleza Zuri se preocupa com o seu cabelo e com a sua aparência pois sabe que é avaliada pelos outros a partir desses critérios Esse tipo de pressão social já está internalizado na sociedade e pode ser visto como uma força instituída que molda as escolhas e comportamentos das pessoasOutra força instituída que podemos identificar é a divisão de papéis sociais de gênero A mãe de Zuri está ausente e isso pode ser interpretado como uma forma de reforçar a ideia de que o cuidado com os filhos e a manutenção do lar são responsabilidades exclusivas das mulheres Essa divisão de papéis sociais é uma força instituída que molda as relações familiares e que pode perpetuar desigualdades de gênero Além disso podemos ver a força instituída da hierarquia dentro da instituição familiar O pai de Zuri tem dificuldades em cuidar do cabelo da filha porque é uma tarefa que tradicionalmente é vista como responsabilidade das mães Essa hierarquia que estabelece uma divisão entre tarefas masculinas e femininas pode ser vista como uma força instituída que molda as relações familiares e as dinâmicas de poder dentro da família Em resumo a análise institucional do curtametragem Hair Love permite refletir sobre as dinâmicas presentes na instituição familiar assim como os desafios e possibilidades de transformação dessas dinâmicas A presença de forças instituintes e instituídas evidencia a complexidade dessas relações e a importância de se refletir criticamente sobre as normas e valores que orientam o comportamento dos membros da instituição Referências QUIROGA A D 2011 Análise institucional In A M B Bock O Furtado M L T Teixeira Orgs Psicologias uma introdução ao estudo de psicologia pp 371 390 São Paulo Saraiva SANTOS N I S 2007 Movimento institucionalista e análise institucional no Brasil Psicologia Sociedade 191 6875 Curso Psicologia Matéria Análise Institucional Tarefa Fazer uma análise institucional do filme Hair Love Curta Disponível em httpswwwyoutubecomwatchvqXwWxRjrVA8 A análise deve conter onde aparecem 1 Instituição 2 Quais forças instituintes aparecem 3 Quais forças instituídas aparecem A Análise Institucional é uma abordagem utilizada na Psicologia e outras áreas para compreender as dinâmicas presentes em uma instituição como a forma como o poder é distribuído as normas e valores que orientam o comportamento dos membros e como as decisões são tomadas Essa abordagem também busca identificar as forças instituintes que são aquelas que buscam transformar a instituição e as forças instituídas que são aquelas que mantêm a instituição em seu estado atual Quiroga 2011 Além disso de acordo com o artigo Movimento institucionalista e análise institucional no Brasil de Nair Iracema Silveira dos Santos percebese o surgimento e desenvolvimento do Movimento Institucionalista no país assim como sobre as contribuições da Análise Institucional como forma de suporte para a compreensão das instituições sociais Segundo Santos 2007 o Movimento Institucionalista surgiu no Brasil na década de 1950 a partir de uma crítica ao modelo de atendimento psiquiátrico predominante na época A partir dessa crítica surgiram novas práticas de atendimento baseadas em uma perspectiva mais humanizada e integral do ser humano A autora destaca que o institucionalismo se caracterizou por uma atitude crítica e reflexiva em relação às instituições p 70 o que permitiu a elaboração de novas formas de atendimento e intervenção A Análise Institucional por sua vez surge como uma forma de compreender as dinâmicas presentes nas instituições sociais como as organizações empresas e outras estruturas sociais Segundo Santos 2007 essa abordagem não se limita a descrever e interpretar as instituições mas também visa produzir mudanças nas mesmas p 73 Nesse sentido a Análise Institucional pode ser vista como uma ferramenta para a transformação das instituições e das relações sociais O curtametragem Hair Love dirigido por Matthew A Cherry pode ser analisado a partir de uma perspectiva institucional Nesse sentido é possível identificar a presença da instituição familiar como o principal contexto do filme A história se desenrola em torno do pai da menina Zuri que está tentando ajudar a filha a arrumar o cabelo para um evento especial onde irá visitar sua mãe que está doente Durante a narrativa a obra destaca questões importantes como a relação entre pai e filha a diversidade e a aceitação de si mesmo Dentro do contexto familiar é possível identificar algumas forças instituintes que atuam como agentes de mudança Uma dessas forças é a própria iniciativa do pai em tentar arrumar o cabelo da filha e estreitar a relação com ela mesmo sem ter conhecimento sobre as técnicas necessárias Segundo a Análise Institucional a instituição deve ser vista como um conjunto de processos que tendem a se manter mas que ao mesmo tempo são atravessados por processos de mudança Quiroga 2011 p 374 Portanto o pai de Zuri pode ser visto como um agente instituinte que busca modificar as dinâmicas familiares tradicionais Além disso ele também é identificado como uma das forças instituintes observadas pois é demonstrada a busca por representatividade O pai de Zuri está tentando aprender a cuidar do cabelo da filha como uma forma de promover maior representatividade da cultura afroamericana Ele quer que a filha se sinta orgulhosa de sua aparência e de suas raízes o que pode ser visto como uma forma de romper com estereótipos e padrões de beleza dominantes Outra força instituinte que podemos identificar é a busca por igualdade de gênero Ao assumir a responsabilidade de cuidar do cabelo da filha o pai de Zuri desafia estereótipos de gênero e de papéis sociais tradicionais Ele mostra que é possível que os pais se envolvam de forma ativa na criação dos filhos e que as tarefas domésticas não são exclusivamente responsabilidade das mães Ademais podemos ver a busca por afeto e conexão como uma força instituinte presente no curtametragem A relação entre o pai de Zuri e a filha é permeada por afeto e carinho o que pode ser visto como uma forma de construir laços mais estreitos e significativos dentro da instituição familiar A busca por essa conexão emocional pode ser vista como uma força instituinte uma vez que busca produzir mudanças nas relações familiares Por outro lado também é possível identificar a presença de forças instituídas no curtametragem Uma dessas forças é a pressão social para que as pessoas sigam um padrão de beleza que não valoriza a diversidade étnica e capilar Como destaca Quiroga 2011 os grupos instituídos são aqueles que mantêm a instituição tal como ela é p 379 Nesse sentido o filme mostra como essa pressão pode dificultar a aceitação do próprio cabelo o que acaba limitando a liberdade individual e a expressão da identidade Posto isso outras forças instituídas que podemos observar é a pressão social em relação aos padrões de beleza Zuri se preocupa com o seu cabelo e com a sua aparência pois sabe que é avaliada pelos outros a partir desses critérios Esse tipo de pressão social já está internalizado na sociedade e pode ser visto como uma força instituída que molda as escolhas e comportamentos das pessoasOutra força instituída que podemos identificar é a divisão de papéis sociais de gênero A mãe de Zuri está ausente e isso pode ser interpretado como uma forma de reforçar a ideia de que o cuidado com os filhos e a manutenção do lar são responsabilidades exclusivas das mulheres Essa divisão de papéis sociais é uma força instituída que molda as relações familiares e que pode perpetuar desigualdades de gênero Além disso podemos ver a força instituída da hierarquia dentro da instituição familiar O pai de Zuri tem dificuldades em cuidar do cabelo da filha porque é uma tarefa que tradicionalmente é vista como responsabilidade das mães Essa hierarquia que estabelece uma divisão entre tarefas masculinas e femininas pode ser vista como uma força instituída que molda as relações familiares e as dinâmicas de poder dentro da família Em resumo a análise institucional do curtametragem Hair Love permite refletir sobre as dinâmicas presentes na instituição familiar assim como os desafios e possibilidades de transformação dessas dinâmicas A presença de forças instituintes e instituídas evidencia a complexidade dessas relações e a importância de se refletir criticamente sobre as normas e valores que orientam o comportamento dos membros da instituição Referências QUIROGA A D 2011 Análise institucional In A M B Bock O Furtado M L T Teixeira Orgs Psicologias uma introdução ao estudo de psicologia pp 371390 São Paulo Saraiva SANTOS N I S 2007 Movimento institucionalista e análise institucional no Brasil Psicologia Sociedade 191 6875
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Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 ANÁLISE INSTITUCIONAL REVISÃO CONCEITUAL E NUANCES DA PESQUISAINTERVENÇÃO NO BRASIL André Rossi Eduardo Passos Resumo Neste artigo fazemos uma retomada das linhas constitutivas da Análise Institucional AI desde a França até sua entrada no Brasil trazendo nesse percurso alguns conceitos importantes para o entendimento de sua forma de intervir e produzir conhecimento Da relação com a Psicoterapia Institucional com a Pedagogia Institucional e a Psicossociologia lewiniana os socioanalistas apropriaramse de conceitos como o de instituição transversalidade analisador transferência e contratransferência institucional e a forma de intervir da pesquisa ação Em continuidade elaboram conceitos como análise da encomenda análise da demanda análise da implicação campo de intervenção e campo de análise inconsciente institucional sobreimplicação e outros que visavam responder novos problemas e afirmar implicações antes não explícitas Apostando na importância da prática e conceitos da AI apontamos a inflexão brasileira da pesquisaintervenção como proposta metodológica de produção de conhecimento implicado e de intervenção em organizações grupos ou subjetividades Palavraschave Análise institucional pesquisaintervenção análise da implicação Abstract This paper resumes the discussion of Institutional Analysis IA constituent lines from France to its entry in Brazil highlighting some useful concepts to the understanding of its modes of intervention and knowledge production From dialoguing with the fields of Institutional Psychotherapy Institutional Pedagogy and Lewins Psychosociology socioanalysts borrowed concepts as the notion of Institution Transversality Analyser Institutional Transference and Countertransference and the inquiry method of ActionResearch And with the intent of both responding to emerging contemporary issues and asserting implications that had not yet become evident they also developed their own such as the Order Analysis Demand Analysis Implication Analysis Intervention Field Analysis Field Institutional Unconscious and Over Implication amongst others Trusting the significance of Institutional Analysis concepts and practices we would like to expose in this article the Brazilian version of InterventionResearch as a methodological proposal that produces implicated knowledge and is applicable to work in organisations groups or subjectivities Keywords Institutional analysis interventionreserch implication analysis Introdução A Análise Institucional AI tem influenciado muitos movimentos no Brasil Seja na clínica psi nas práticas em saúde coletiva intervenções no campo da gestão ou na pesquisa universitária seus conceitos são utilizados e revisados Desde o início de suas primeiras atividades a AI constituiuse como um campo onde a prática embalou nos tempos candentes da década de 1960 na França a criação conceitual Todos os seus conceitos têm uma vocação operacional clara e sua ligação com a prática muitas vezes não gerou a necessidade de delimitações conceituais rigorosas O objetivo deste artigo é a discussão dos principais conceitos da AI apontando a pesquisaintervenção Psicólogo Mestre em psicologia pela UFF Psicólogo Professor associado 4 do Departamento de Psicologia da UFF Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 como uma inflexão brasileira neste campo Empregando a atitude epistemológica de tornar indissociável gênese conceitual e gênese sócio histórica focalizaremos os conceitos de análise da encomenda análise da demanda transversalidade analisador e análise da implicação tangenciando nessa empreitada os conceitos de instituição instituinte e instituído campo de intervenção e campo de análise inconsciente institucional contratransferência institucional e sobreimplicação As linhas constitutivas da Análise Institucional Podemos identificar pelo menos três linhas dinâmicas para a constituição da AI na França na década de 1960 A primeira está ligada à saúde mental e nos transporta à prática da Psicoterapia Institucional a partir da década de 1940 com a experiência inaugural no hospital psiquiátrico de Saint Alban durante a Segunda Guerra GALLIO CONSTANTINO 1994 RODRIGUES 1998 Nesta linha destacamos o nome de Félix Guattari que após a década de 1950 desenvolveu conceitos importantes para a AI dentre eles o de analisador e transversalidade A segunda linha se vincula às experiências de Pedagogia Libertária desde o início do século XX que orientaram a partir da década de 1950 práticas de questionamento da educação vigente e que ficaram conhecidas como a Pedagogia Institucional Nesta linha destacamos os nomes de René Lourau e Georges Lapassade na ocasião professores secundaristas LOURAU 1993 A terceira linha referese à Psicossociologia que no pósguerra trouxe à França as técnicas de grupo que estavam sendo gestadas nos EUA por pesquisadores europeus emigrados a saber Moreno e Lewin além de Rogers norteamericano nato RODRIGUES 1994 BARROS 2004 No que diz respeito à terceira linha houve um importante passo na criação do conceito de campo por Kurt Lewin ainda nos EUA da década de 1930 Para explicar o comportamento de um indivíduo ou grupo utilizavase do todo estrutural formado da interação entre indivíduo e meio em um campo de forças dinâmico A união de teoria e ação foi o grande achado de Lewin que radicado nos EUA rompeu com as teorias positivas em voga que acreditavam que o pesquisador poderia e deveria se manter fora do campo de investigação Na teoria lewiniana o pesquisador está colhido no campo de sua ação descrito Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 menos a partir de estados de coisa do que das forças vetores e valências que o constituem Na última fase da teoria lewiniana no ano de 1946 em New Britain visando discutir e reforçar a aceitação da legislação de igualdade racial no emprego um acontecimento desestabilizou as fronteiras entre formadores e formandos o grupo de formandos adentrou o recinto onde os formadores discutiam a dinâmica do grupo exigindo participar dos processos de análise Os coordenadores aceitaram criandose no momento um dispositivo que viria a ser apelidado mais tarde de TGroup1 RODRIGUES 1994 Acabavase com a restituição formal uma vez que tudo era discutido e analisado no mesmo grupo O paradigma da pesquisaação lewiniana não somente apontou a impossibilidade de neutralidade demostrando que além da obtenção de conhecimento havia a modificação do objeto estudado como passou a visar a essa modificação Esse tipo de pesquisa levou a uma espécie de socioterapia que guiada por encomendas da indústria e do governo americano fixava objetivos do trabalho previamente à dinâmica estabelecida pelo grupo visado PASSOS e BENEVIDES 2000 Em alguns de seus trabalhos a psicossociologia lewiniana promovia sua pesquisaação para formação de quadros dirigentes e de trabalhadores atendeu às demandas governamentais para investigação das técnicas de guerra psicológica para enfraquecimento do inimigo e nos trabalhos sociais trabalhou com a delinquência juvenil e com integração de população pobre eou desalojada nos conjuntos habitacionais AGUIAR e ROCHA 2003 Na década de 1950 a psicossociologia americana baseada em Lewin Moreno e Rogers entra na França através do estímulo modernizador do governo francês ocorrendo movimentos díspares de acolhimento e crítica BARROS 2004 RODRIGUES 1994 Seguese a década de 1960 na França e os trabalhos psicossociológicos ainda tomavam o TGroup de Kurt Lewin e o Psicodrama de Moreno2 como balizas mas a discussão sobre técnica diminuía em favor da discussão institucional sobre os efeitos que a técnica produzia BARROS 2004 Iniciase a historicização das práticas e o questionamento do suposto não diretivismo rogeriano3 e do TGroup lewiniano Estava oculto o Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 caráter não natural dos grupos as relações de poder as lutas reivindicatórias entre os diferentes grupos Ocorria que nessa mesma década a psicanálise e os movimentos políticos entraram em cena para questionar alguns postulados da pesquisa ação O rompimento com a ciência positiva é bem vista contudo a metodologia mantinha as dicotomias sujeitoobjeto e teoriaprática O objetivo da ação na pesquisa é determinado pela encomenda de trabalho visando à otimização do funcionamento social o que revelava uma pressuposição de ordem social naturalizada e uma desordem tomada como patológica O pesquisador era visto como privilegiado agente da mudança o que também revelava mesmo que na técnica do TGroup se tenha incluído os formandos que essas fronteiras ainda existiam fortemente PASSOS e BENEVIDES 2000 Em relação à segunda linha ainda na França da década de 1960 as intervenções no meio pedagógico transbordavam para outros campos a partir da atenção ao conceito de instituição Lourau e Lapassade absorveram a filosofia política de Cornelius Castoriadis principalmente no que se refere à dialética instituídoinstituinte Castoriadis influenciaria muitos pensadores a partir da criação de seu grupo Socialismo e Barbárie e da revista homônima RODRIGUES 1994 As instituições são no dizer de Lapassade formas produtos históricos de uma sociedade instituinte que produzem e reproduzem as relações sociais e se instrumentalizam em estabelecimentos eou dispositivos RODRIGUES e SOUZA 1987 Apropriandose desse jogo constitutivo entre instituído formas e instituinte processo vão analisar as situações de institucionalização quando chamados a intervir em organizações e grupos A grande importância desse conceito basal é a análise que provoca quando se diferencia o conceito de instituição daqueles de organização e estabelecimento Tanto as condições materiais do estabelecimento escola manicômio ou partido edificação quanto o organograma ou fluxograma regras de circulação e organização de pessoas e informações desse estabelecimento não eram mais o espectro de análise pretendido Acontece então a abertura da análise para a instituição da educação da doença mental da política partidária criandose efetivamente uma Análise Institucional Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 preocupada com as práticas instituintes que engendram instituições e atravessam os mais diversos locais ou situações A partir dessa variação do diálogo privilegiado com a instituição educacional para a análise de instituições quaisquer Lourau e Lapassade ampliaram o trabalho tornandose socioanalistas4 Desenvolveram diálogo com aqueles pesquisadoresinterventores que tomaram como ferramenta a psicossociologia americana baseada no trabalho com grupos que denominaremos grupalistas Os socioanalistas viram na prática grupalista uma indicação preciosa para o trabalho com instituições pragmatismo de certa pesquisa sociológica americana que deixara de ser experimental para ser ação no campo de pesquisa e com isso a inclusão do pesquisador nesse mesmo campo Apesar do diálogo Lapassade em seu livro Grupos Organizações e Instituições critica as teorias de grupo e suas técnica A teoria dos grupos chocouse com a teoria das instituições onde a técnica grupalista naturalizava o grupo o institucionalismo o tomava como instituição isto é produção de uma sociedade instituinte denunciando seu utilitarismo quanto aos objetivos prévios e sua falta de análise quanto à encomenda de intervenção A AI segue seu percurso de consolidação como campo de produção de conhecimento e de intervenção sobre a realidade desdobrando perguntas críticas que se armam a partir de conceitos seminais análise da demanda e análise da encomenda quem pede intervenção e o que é pedido análise da oferta o que o analista oferta e quais os efeitos da sua intervenção analisador que acontecimentos põem em análise a realidade institucional e principalmente análise da implicação como estamos todos envolvidos na realidade institucional A Análise Institucional e o devir dos conceitos Ardoino e Lourau 2003 dividem a AI em três categorias a AI em ato ou socioanálise b AI generalizada c AI restrita A primeira referese à prática de intervenção em organizaçõescliente como indústrias administrações escolas ou formações A segunda diz respeito ao conjunto de considerações teóricas que forma um reservatório de dados e conceitos para as diversas intervenções institucionalistas É um segundo momento na AI Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 depois da euforia da intervenção uma espécie de parada reflexiva A terceira categoria é relativa a intervenções em instituições específicas a Igreja a escola o Exército Coulon apud ARDOINO e LOURAU 2003 diferencia esses três níveis através dos termos socioanálise leitura institucional e AI do estabelecimento respectivamente As primeiras intervenções socioanalíticas encabeçadas por Lapassade na década de 1960 colocavam em análise as instituições envolvidas em qualquer estabelecimentoorganização não importando que fossem escolas ou manicômios Pela predileção pelo paradigma de inspiração marxista do transformar para conhecer não é difícil entender por que primeiro desenvolveramse incursões ao campo e depois uma diminuição da velocidade necessária à produção teórica As incursões direcionadas ao meio educacional ainda muito ligadas à intervenção psicossociológica calcada no modelo do T Group dão lugar já em 19661967 a uma socioanálise O TGroup lewiniano não colocava em análise suas condições de possibilidade oferta da intervenção encomenda feita aos interventores a participação dos envolvido ou seja não fazia a análise da implicação A socioanálise na organização parte dos pedidos feitos pelas organizações cliente ao grupo pesquisadorinterventor considerando as implicações sociopolíticas que atravessam a relação grupoclientegrupointerventor Inicialmente o método de análise era de curta duração e excessivamente dramático visando produzir uma espécie de abreação na organização ou desarranjo institucional partindo da análise coletiva das implicações de cada um com a encomenda e as demandas sociais assim como da autogestão da temporalidade da sessão e do pagamento dos socioanalistas e da identificação dos analisadores acontecimentos ou fenômenos insignificantes mas portadores do sentido oculto no não dito ARDOINO e LOURAU 2003 p 14 Por mais que houvesse estilos individuais dos interventores e a diferença de cada grupocliente havia na década de 1960 e no início da de 1970 uma tendência à provocação de crise apostando no seu potencial crítico As questões críticas muitas delas mantidas afastadas por seu caráter desagregador como por exemplo o pagamento não deixaram de ser feitas a duras penas para o grupocliente assim como para o grupo de interventores Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 O método varia pouco a pouco sendo sucedido por uma socioanálise longitudinal mais duradoura Os interventores são inscritos na história do grupocliente em seu desenrolar diário O aumento da duração das intervenções visa mais à regulação do grupo do que ao seu desarranjo Ocorre também uma maior familiaridade entre os interventores e o grupocliente A socioanálise longitudinal é levada a experimentar outras técnicas Uma das mais significativas é também uma espécie de restituição das informações coletadas Uma restituição formal como a feita na pesquisaação de Lewin ainda mantém a dicotomia entre formadores e formados modulada mas não superada no evento de New Britan Na AI a restituição cada vez mais preconizada posto que os analisadores discussões e direções são dadas coletivamente é ao mesmo tempo produção de nexo e desvio grupal ou seja pesquisa e intervenção Preocupada nesse momento com vários aspectos de sua intervenção e menos centrada no aqui e agora a socioanálise encontrou na duração da intervenção e na restituição dos resultados da pesquisa uma direção formativa ou sua pedagogia Daí o duplo viés da AI a intervenção e a formação nesse momento como formação contínua Preocupados com o que lhes era pedido como intervenção com as instituições que atravessavam o grupo formado com o que era operativo e nesse momento se reencontrando com a formação os socioanalistas caminham cada vez mais para a sistematização de alguns conceitos que pudessem dizer daquilo que estava em curso em suas práticas Este caminho é caracterizado por uma tendência a criar hibridismos teóricos tomando muitos conceitos de empréstimo de outros campos do saber Na AI acompanhamos o devir de conceitos no sentido que Deleuze e Guattari 1992 dão ao termo no O que é a filosofia que migram por entre discursos ganhando neste percurso uma consistência que podemos dizer ser a dos movimentos socioanalíticos Análise da encomenda da demanda e da oferta e o conceito de Transversalidade Um dos primeiros passos na intervenção é a análise da encomenda que desdobra o pedido de análise feito pela organização A análise da encomenda gera a demanda como o seu desdobramento problemático expondo o emaranhado de forças contido no pedido de análise O trabalho de análise Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 institucional se inicia quando dinâmicas não observadas se expressam juntamente ao pedido explícito de intervenção A atitude crítica faz aparecer as demandas de intervenção que nunca são espontâneas mas produzidas tanto no encontro analítico quanto previamente a ele Uma das estratégias para evitar que a encomenda se torne o foco da intervenção é a pergunta sobre quem é o cliente os membros da organização ou os dirigentes que formularam a encomenda discutiram o contrato em nome de todos Eles aceitam ser também alvo da análise LOURAU 1975 Podemos notar que na AI há similaridade entre encomenda e mandato social A primeira se refere a situações específicas de intervenção e a segunda é o pedido feito a intelectuais e especialistas para que falem a verdade sobre a realidade RODRIGUES 2006 A análise da oferta pode ser anterior mas também pode se dar ao mesmo tempo que a análise da encomenda Ela coloca em análise o próprio grupointerventor como instituição que propõe um serviço problematizando o modo como as intervenções podem gerar um especialismo e produzir ou modular as encomendas de intervenção que lhe são propostas BAREMBLITT 1994 Os intelectuais os analistas institucionais e todos aqueles que são chamados a dizer algo sobre a realidade ou a intervir sobre ela com estatuto de reveladores de verdades devem manter permanentemente em análise a encomenda de intervenção e as ofertas por eles feitas Desta forma a AI inclui a si mesma como caso Além dos casos da clínica a clínica como caso Criase um topus da análise que se dá entre a instituição em análise e a instituição da análise Não tomar naturalmente a encomenda de intervenção é fazer uma pausa que permita a entrada do operador crítico Ao contrário de Lewin que aceitou a encomenda do governo americano para a mudança de padrões de comportamento da população a AI objetiva não incorrer no uso utilitário da intervenção montando sua direção no próprio ato de intervir Na separação entre encomenda e demanda Lourau 2003c opera uma distinção entre campo de intervenção e campo de análise Essa distinção indica dois níveis que na prática analítica estão imbricados A encomenda que chega ao analista institucional é de intervenção em vários tipos de grupos com objetivos previamente fixados Confundese no Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 entanto a encomenda explícita com a demanda de análise se ficarmos restritos aos limites prévios dos pequenos coletivos nos quais a intervenção é feita A análise da encomenda e da demanda promove uma alteração do campo de intervenção a partir das conexões constituidoras do campo de análise Não há separação entre o trabalho teórico e técnico entre a intervenção e os operadores conceituais entre campo da intervenção e campo de análise Estes domínios se distinguem sem se separar de modo que a intervenção altera as formas de fazer e as formas de pensar a realidade da instituição Nas palavras de Lourau fica claro que o campo de intervenção constituise na prática da própria intervenção ou seja na ida ao campo acessível a partir da encomenda e sua problematização quando pode a intervenção transformar encomenda em demanda de trabalho O campo de análise não pode ser entendido como separado apesar de ser por vezes feito em reuniões e supervisões do grupo interventor nem como a parte teórica que será aplicada na prática De qualquer forma os dois campos são práticas A realidade institucional se abre para outros sentidos quando se altera os graus de transversalidade intragrupos e intergrupos GUATTARI 2004 Felix Guattari apresenta o conceito de transversalidade como coextensivo à atitude de abertura ou ligação dos campos de intervenção ao de análise mostrando sua inseparabilidade O conceito de transversalidade nasce com múltiplas referências sobretudo como tentativa de superação nas organizações psiquiátricas da hierarquia vertical e da igualdade horizontal introduzindo no pensamento institucional outras formas de relação entre os grupos o que designou de grupos sujeito e grupos sujeitados Acolhendo a contribuição dual e fantasmática da transferência psicanalítica a expande e articula aos movimentos grupais em seus diferentes graus de abertura Guattari fala de graus de abertura ou quanta de transversalidade dos grupos interessado pelo que se passa ou se transfere em um regime multivetorializado que não mais cabe nos limites da interpessoalidade O conceito de transferência dá lugar ao de transversalidade apostando se em dinâmicas libidinais em jogos fantasmáticos em regimes de afetabilidade que se dão no plano coletivo e consequentemente ganham um sentido que é também político Clínica e política se tornam inseparáveis nesta Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 direção da AI que renova o conceito de grupo a partir de suas dinâmicas subjetivas a dinâmica de menor grau de abertura define o grupo assujeitado e a de maior transversalidade os grupos sujeitos O tema da subjetividade ganha lugar no discurso institucionalista com o conceito de transversalidade que se materializa em dispositivos que permitem a circulação menos restritiva da palavra e de corpos abrindo as relações para múltiplas conexões potencializadoras da transformação da realidade dos grupos e das subjetividades Na AI seja na vertente guattariana ou socioanalítica os conceitos apresentados dizem de abertura e conexão teoria e prática saber e fazer clínica e política se tornam domínios distintos e inseparáveis em um espaço de saúde guiado pelas relações instituintes A encomenda tem um sentido mais contratual o que é esperado dos interventores e a demanda um sentido mais psicológico apropriado aos coletivos ARDOINO e LOURAU 2003 Por suas implicações psicológicas e psicanalíticas com tino arqueológico a demanda por vezes parece ficar ligada a algo escondido que foi desvelado Lourau 1975 e comentadores como Baremblitt 1994 se perguntam do verdadeiro cliente da demanda efetiva de intervenção ou do verdadeiro objeto de análise Qual é o sentido aqui de demanda verdadeira É preciso evitar tomar a encomenda como aquilo que engana o trabalho dos analistas um simulacro ficando a demanda como aquilo que foi desvelado pelos especialistas o verdadeiro objeto de análise A AI não é uma arqueologia do verdadeiro ou seja a atitude de garimpar profundamente a realidade com ferramentas conceituais que aspiram à verdade para achar por detrás o desvelamento triunfal Baremblitt 1996 mesmo falando do verdadeiro objeto nos dá uma pista quando fala da intercessão que se produz entre o grupointerventor e o grupocliente Consideramos que a encomenda é um tipo de demanda e que só há demandas A demanda é produzida e não desvelada no encontro entre os grupos É uma produção pontual que faz operar uma dinâmica emperrada para a qual o grupointerventor foi chamado a intervir Ela muda de acordo com a variação do grupocliente do momento da organização com a nova configuração das instituições que atravessam com mudança de configuração do grupointerventor A produção da demanda de trabalho está mais para a criação de bons problemas do que para a resolução da encomenda explícita Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 formulada pelo grupocliente É uma tentativa de explicitação das forças que compõem a configuração da organização Chegamos ao conceito de campo implicacional LOURAU 2003f A preocupação com a análise da oferta da encomenda e da demanda denota uma diferença de paradigma já apontada Se o que está em jogo é a produção da realidade e não o seu desvelamento aqueles que participam do processo perguntamse o que ajudam a produzir Todos esses conceitos dizem por um lado da assunção do processo instituinte como motor de acesso à realidade e por outro do cuidado ético do trabalho dos analistas institucionais ao participarem dessa produção A intervenção socioanalítica ou como indicaremos através de autores brasileiros a pesquisaintervenção afirma a um só tempo a inseparabilidade entre campo de intervenção e campo de análise teoria e prática fazer e pensar quando mostra que sujeito e objeto pesquisador e pesquisado se constituem no mesmo processo A análise da implicação Dos conceitos apresentados a Análise da Implicação é o que tem sua trajetória composta de mais variações rompimentos e composições de partes díspares Nesse movimento de construção incessante uma de suas linhas de composição remete ao conceito psicanalítico de contratransferência A transferência em Freud 1905 1912 1914 19152010 convertese de empecilho inicial nos Estudos sobre a histeria a motor do tratamento a partir dos textos técnicos de 1910 mantendo ao mesmo tempo seu caráter de resistência ao tratamento A partir da teorização do desenvolvimento psicossexual na primeira infância a transferência permanece como mecanismo de transporte das escolhas objetais infantis e das fantasias que vão se tecendo ao redor dela em especial destacado por Freud as imagos parentais como primeiro investimento amoroso Surgida a partir do abandono da hipnose e da sugestão a transferência é tomada como motor e embargo resistência interpretável revestimento de autoridade do psicanalista amor ilusório e repetição Por outro lado sua contraparte a contratransferência ou seja o mesmo mecanismo mas dessa vez vindo do lado do analista tornouse um mal a ser combatido A tentativa de institucionalizar uma formação o combate ao charlatanismo ao mesmo tempo que defendia uma análise leiga e os Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 textos técnicos fizeram da contratransferência um tema expurgado de antemão dos círculos de discussão ao mesmo tempo que metáforas como o espelho bem polido refletir a totalidade do paciente ou o cirurgião preciso incisões interpretativas descobrindo o objeto tomam o imaginário psicanalítico como ideal de analista Ainda na primeira geração de analistas Sándor Ferenczi psicanalista húngaro conhecido por abraçar os casos difíceis levava a técnica ao limite Nesse contexto já na década de 1920 esboçou a preocupação com a metapsicologia dos processos psíquicos do analista o que marca não propriamente um retorno do conceito de contratransferência ou seu uso como será feito depois mas uma inclusão da libido do analista na cena analítica FERENCZI 19281992 Na década de 1950 o fenômeno contratransferencial é revalorizado na Inglaterra via Michel Balint levando a uma série de textos do casal Balint 19392002 Margaret Little 19512002 e Paula Heimann 19492002 na direção da inclusão dos efeitos das intervenções ou da pessoa do analista na cena analítica Little e Heimann mais radicais defendiam o uso da contratransferência respectivamente como experiência a ser comunicada os afetos gerados pelo paciente no analista ou como bússola por vezes recaindo numa neutralidade às avessas Seguindo este movimento de valorização da contratransferência as práticas institucionalistas da Psicoterapia Institucional na França retomam este conceito como um operador analítico importante A reorganização do asilo psiquiátrico promovido pela Psicoterapia Institucional a reorganização da escola promovida pela Pedagogia Institucional assim como o início da AI em meados dos anos 1960 trazem novas ferramentas como os conceitos de transferência e contratransferência institucionais Já distante das suas bases freudiana ferencziana e da segunda geração de psicanalistas o conceito de transferência comparece por sua vocação operacional ARDOINO e LOURAU 2003 Não dizia mais de uma problemática individual familiar somente libidinal ou infantil mas grupal e institucional embora mantivesse a preocupação com os vínculos e uma atitude epistemológica de não neutralidade Em outras palavras o conceito assegurou que as forças que passam pelo médico educador ou pesquisador entrassem na análise feita das organizações A direção dos trabalhos com grupo nas Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 diversas intervenções deu a tônica da busca por conceitos que falassem dessa multiplicidade de relações A sistematização conceitual do procedimento de análise institucional se consolidou na tese que Lourau 1975 defende no ano de 1969 Nela vemos muitos conceitos apropriados de autores e saberes díspares a transversalidade de Guattari a implicação tomada do Direito e da Matemática a transferência institucional e a contratransferência institucional herdada da Psicoterapia Institucional O conceito de implicação ganha destaque como ideiachave para o trabalho socioanalítico Lourau 1975 desmembra o conceito de Análise da Implicação de acordo com a qualidade da relação estabelecida Implicação Institucional se refere ao conjunto das relações entre o ator e as instituições Implicação prática indica as relações que o ator mantém com as bases materiais das instituições o estabelecimento e organização Implicação sintagmática mostra as relações interpessoais que os grupos apresentam ou seja os fantasmas de grupo Implicação paradigmática delimita a relação entre o saber e o não saber do grupo ou seja os códigos e regulamentos da organização Implicação simbólica diz respeito à própria sociabilidade o vínculo social LOURAU 1975 p 274 Lourau retoma o conceito de transferência institucional que se potencializa com o que o autor LOURAU 2003e designa de paradigma dos três Is que na verdade são quatro instituição institucionalização implicação e o último intervenção sendo este o termo que delimita o campo de ação Transferência e contratransferência institucionais são noções que ganham sentido socioanalítico em um campo de intervenção institucional no qual estão todos implicados aí incluído o próprio grupointerventor Na categoria da contratransferência institucional ficam as respostas e influências vindas do grupointerventor Intervir é tornarse parte em uma contestação que já estava pendente entre outras pessoas nos diz o dicionário LOURAU 1975 p 277 Intervir não é observar de fora um objeto dado mas construílo de dentro ao mesmo tempo construindo a si mesmo no momento da intervenção Nessa atitude de tornarse parte os analistas não se furtam em analisar aquilo que é de sua parte Assim entendem que a elucidação das contratransferências institucionais passa pelo esclarecimento de um sistema de Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 respostas a resposta que o analista dá aos clientes em relação a várias realidades como idade sexo raça a resposta que dá à organizaçãocliente enquanto instituição e na medida em que se inclui como instituição de análise resposta que dá às respostas transferências de sua própria organização analítica LOURAU 1975 O analista aparece como ator social como nos propõe Lourau A análise da contratransferência institucional permanece para elucidar as vinculações do grupointerventor A análise das implicações institucional prática paradigmática sintagmática e simbólica elucida a relação dos atores em suas diversas vinculações Ator não é aqui sinônimo de grupocliente já que os analistas aparecem como atores sociais incluídos nas análises das implicações No ano seguinte 1971 em Chaves da Sociologia Lourau e Lapassade definem um modelo de intervenção socioanalítico Estão lá os conceitos de análise da encomenda análise da demanda elucidação das transversalidades análise das instituições que atravessam o grupointerventor e o grupocliente e elaboração da contratransferência institucional uma espécie de explicitação das referências não só libidinais mas profissionais e políticas dos interventores Nos anos que se seguem a multiplicidade e coexistência dos conceitos que provêm de diferentes campos de saber começam a causar conflitos As intervenções socioanalíticas surgidas na efervescência dos anos 1960 entram nos anos 1970 tentando uma aspiração epistemológica mais clara As produções teóricas atravessam os anos 1970 sem que as intervenções a pedido terminem Ao mesmo tempo que a sistematização enriquecia o trabalho teórico havia o perigo de a AI institucionalizarse como aparato teórico fechado um serviço oferecido e contratado RODRIGUES 2005 Nessa época de elaboração teórica os conceitos vão deslocandose definitivamente do seu campo de saber original permitindo que o conceito de análise da implicação substitua a contratransferência institucional A posição de alternância dos conceitos muda e o que impera é a substituição À medida que a análise dos vínculos dos analistas em relação ao dinheiro ao tempo ao Estado ao saber etc vai sendo discutida publicamente na mesma reunião em que são Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 debatidos todos os assuntos com o grupocliente na teoria a análise da implicação se impõe à contratransferência institucional De 1970 a 1990 Lourau 2003b acompanha os rumos que tal conceito toma A partir da década de 1980 identifica que o conceito sofre uma deriva utilitária que chamará de sobreimplicação Em outras palavras esclarece que a análise da implicação perde lugar para uma demanda generalizada de cobrança de engajamento do outro captura produtivista como imperativo incessante de estar em ação no trabalho Nesta deriva identificase a implicação à identidade de um eu Impliquese Você está implicado Quem está mais implicado nesse trabalho Esse movimento é um retrocesso porque desde sua gênese o conceito de implicação esteve ligado à análise das instituições que atravessam um plano impessoal O conceito de instituição diz respeito a uma realidade que cruza as organizações e estabelecimentos sendo um emaranhado de forças Tal emaranhado no movimento contínuo de enredarse e desenredarse fabrica nas organizações demandantes um não dito institucional Esse não dito é identificado ao inconsciente institucional BAREMBLITT 1984 que sempre esteve implícito na análise dos vínculos das transferências e contratransferências institucionais Essas análises não eram levadas a cabo num plano de consciência do imediato explícito as encomendas não eram tomadas de pronto os vínculos eram tomados em seu aspecto simbólico as análises caminhavam numa tentativa de elucidar aquilo que na instituição era não dito a análise das implicações não se limitava a falar de um eu A introdução do eu é um tipo de retrocesso grosseiro porque reintroduz o personalógico dando privilégio ao íntimo como material de análise Leva a discussão para o campo da consciência com que a Psicanálise já havia rompido A exigência de sobreimplicação generalizada substitui a análise efetiva das instituições implicadas no processo em questão por uma atitude policialesca consigo e com os outros Acrescenta Lourau 2003b que o impliquese imperativo é uma forma de captura vinda do capitalismo para extrair um sobretrabalho uma forma de tarefismo generalizado Na década de 1980 há um declínio no número das encomendas de intervenção socioanalíticas O recuo da ida ao campo de intervenção caminhou junto de um recuo introversivo no conceito de implicação Um vetor intimista Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 segue em seu duplo movimento a sobreimplicação diagnosticada por Lourau e o recuo nos processos de intervenção coletiva Na tentativa de romper com este vetor Lourau 2003a identifica a grande contribuição do etnopsicanalista Devereux no que se refere a trazer ferramentas para análise da implicação nas pesquisas Nessa época o mercado editorial registrava um grande aumento da publicação de diários de pesquisadores escritores psicanalistas e outros Devereux propõe um procedimento de análise das implicações através do estudo diarístico A princípio esta proposta poderia ser tomada como seguimento do vetor intimista mas Lourau enxerga potente ferramenta de análise das implicações e inicia sua pesquisa da produção diarística No mais íntimo Lourau propõe a reversão para o fora Na leitura dos diários de Malinowski Margaret Mead Jeane Favret Saada Condominas Ferenczi e Wittgenstein Lourau desenvolve o conceito de foratexto5 para pensar o estatuto que o diário tem em relação ao texto publicado oficialmente Lourau visa conectar o texto com seu fora fazendo emergir nele os avanços e retrocessos as dúvidas e certezas a produção de conhecimento advinda da prática No lugar da assepsia da ciência as mãos sujas do pesquisador que vai a campo Dessa forma aquilo que só aparecia em rodapés notas ou no final do texto como informações quase infames pode difundirse promovendo uma análise da implicação Na leitura do diário do etnólogo Malinowski por exemplo Lourau 2003a mostra o papel primordial que a ida a campo teve na tecedura do texto M6 ou como prefere mais tarde texto institucional TI LOURAU 2003e Malinowski na ocasião com trinta anos foi enviado a algumas ilhas da Nova Guiné em 1914 para observar tribos do arquipélago Permaneceu no local de 1914 a 1918 mantendo a escrita do diário de setembro de 1914 a agosto de 1915 e uma segunda parte de outubro de 1917 a julho de 1918 Dessa observação originouse entre outros seu primeiro livro Os argonautas do pacífico ocidental No foratexto diarístico presentificavase a preocupação com os informantes a dificuldade das entrevistas o escamoteamento pelos nativos de seus rituais por vezes saindo bem cedo de barco para não serem seguidos por Malinowski Também está presente o papel da contingência da guerra Malinowski passou muito mais tempo no campo de pesquisa do que o previsto Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 devido ao início da Primeira Guerra Mundial Lourau nos mostra que na pesquisa etnográfica havia a preocupação de que uma observação fosse efetivamente um ato de manutenção de certa distância do objeto No caso de Malinowski na radicalização da tentativa da objetividade ocorreu uma reviravolta na metodologia O pesquisador também deve efetuar o caminho inverso ao do distanciamento um passo adiante um passo atrás Deve obter o máximo de familiaridade com o campo de estudo LOURAU 2003a p 264 Malinowski apostou na observaçãoparticipante em ciência etnológica e sociológica numa época quando o policiamento da estrada científica estava a cargo de eruditos que quase nunca saíam de seus escritórios salvo para consultar documentos nas bibliotecas ou nos arquivos da polícia idem Sobre a participação inserida na observação Lourau 2003a adverte não se tratar daquela participação e compromisso exigindo uma sobreimplicação imperativa O termo participante não se refere a um fenômeno voluntarista ou subjetivo Tratase de uma implicação Antes de comprometerse com o campo o pesquisador já está nele implicado Em outras palavras é atravessado por múltiplas referências as quais devem ser analisadas e mantidas junto do produto final manutenção do produto agregado aos seus germens de processo produtivo Para esta análise da implicação em situação bibliográfica Lourau conecta o texto com o foratexto que revela com seu processo produtivo promovendo a quebra e o desenredamento das múltiplas linhas instituintes RODRIGUES 2006 O conceito de foratexto somase às outras formas de análise da implicação e segue a linha da pesquisaintervenção questionando a suposta neutralidade científica da produção de conhecimento e promovendo a explicitação de suas condições Na década de 1990 Lourau diagnostica os perigos sobreimplicacionistas e numa nova guinada associa a implicação ao conceito de transdução7 de Gilbert Simondon LOURAU 2003c Esse movimento do conceito é uma tentativa de radicalizar a liquefação da oposição sujeitoobjeto na análise da implicação De uma implicação segmentada em seu livro inaugural até uma afirmação da nebulosa associando a análise da implicação a um plano único de contágio das forças implicadas Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 O analisador As experiências de intervenção tanto em Psicoterapia Institucional como na AI tiveram como marca seu caráter coletivo A partir dessas novas experiências de coletivização tanto pelo número de interventores quanto pelo seu enfoque na análise das instituições e não dos indivíduossujeitos ocorre um descentramento do trabalho de análise do analista para os analisadores O analisador é um conceitoferramenta forjado por Guattari ao longo de vários anos exposto no livro Psicanálise e transversalidade Apesar de seu aborrecimento com os seus estudos de Farmácia Guattari não deixou de propor termos como molar molecular e analisador Este último no sentido químico é aquele ou aquilo que provoca análise quebra separação explicitação dos elementos de dada realidade institucional Esse conceito é inseparável do conceito de transversalidade porque é numa situação de questionamento das hierarquias e especialismos que o analisador surge como uma ferramenta analítica que deslocaliza ou despessoaliza a intervenção Assim como Guattari expandiu os conceitos de transferência e contratransferência institucionais com o conceito de transversalidade substituiu o conceito de analista pelo de analisador O analisador comporta pelo menos dois níveis atravessando o campo de análise e o campo de intervenção Ele pode ser tomado tanto como o evento que denuncia quanto aquele portador da potência da mudança Enquanto evento denunciante nas proximidades da Psicanálise e do movimento institucionalista associavase o analisador às formações do inconsciente como os sonhos atos falhos chiste e sintomas BAREMBLITT 1994 Essas formações em Psicanálise exprimem a problemática exclusiva de um sujeito enquanto os analisadores que expressam e intervêm em grupalidades guardam suas devidas diferenças Em primeiro lugar têm materialidade expressiva totalmente heterogênea podendo ser um acontecimento enunciação indivíduo ou técnica não tendo forma de irrupção privilegiada na fala Em segundo lugar nele mesmo há o gérmen ou potencial de intervenção se dadas as condições necessárias Ele expressa e intervém sendo um conceito que não tem sentido senão em ato Para a AI os analisadores são processos revolucionários como por exemplo maio de 68 na França Caso sejam dessa natureza são chamados espontâneos embora Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 sem destituir seu caráter de constituição histórica Existem também os artificiais ou seja dispositivos que os analistas criam e introduzem na organização para propiciar processos de pôr a funcionar e de explicitação numa situação de intervenção LOURAU 1993 Apesar da literatura escassa sobre o tema muito já se trabalhou a partir das primeiras teorizações o que nos impulsiona a questionar e fazer avançar o conceito Certamente a distinção artificial versus espontâneo é problemática Um analisador artificial não é menos histórico do que o espontâneo da Revolução Francesa Essa distinção deixaria supor que os interventores estão desimplicados de todas as instituições históricas que os atravessam no momento de montar um analisador Um analisador espontâneo por sua vez como a guerra o foi para a situação de tratamento no Hospital de Saint Alban não é menos construído do que um artifício numa situação de intervenção Alguns autores BAREMBLITT 1994 ARDOINO e LOURAU 2003 COIMBRA 1995 associam a atividade do analisador artificial a um dispositivo montado Entendemos dispositivo aqui como um tipo de montagem de elementos heterogêneos criado para situações específicas de intervenção Sem aspirar à verdade ou técnica fechada o dispositivo é um operador de intervenção Podemos intuir que um dispositivo pode tornarse um analisador se conseguir pôr alguma situação em análise Da situação de intervenção socioanalítica podemos entender que os analisadores não são somente pequenos artifícios introduzidos mas a totalidade da situação de intervenção pode ser entendida como um analisador RODRIGUES 2005 Não é certo que todo dispositivo seja um analisador mas todo analisador é um dispositivo Assim a avaliação isso é um analisador só pode ser feita a posteriori pelos efeitos de desvios realizados Essa dupla faceta do analisador expressar uma problemática e causar um desvio incluise no paradigma de intervenção da AI retomando o viés de produção de conhecimento e de análise inseparáveis da transformação da realidade Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 Algumas nuances conceituais da PesquisaIntervenção e da Análise Institucional no Brasil A Análise Institucional no Brasil iniciase pela visita de Lapassade ao setor de psicologia social da UFMG em 1972 e continua seu desenvolvimento e consolidação com a chegada de psicanalistas argentinos exilados no Brasil a partir do ano de 1976 No ano de 1978 acontece o I Simpósio Internacional de Psicanálise Grupos e Instituições e a criação do IBRAPSI Instituto Brasileiro de Psicanálise Grupos e Instituições Em 1982 Lourau e Lapassade estiveram no II Simpósio Internacional de Psicanálise Grupos e Instituições e os integrantes do IBRAPSI lançaram o livro Grupos teoria e técnica LIMA 2012 Os argentinos radicados no Rio de Janeiro já possuíam uma leitura de psicanálise Lourau Lapassade Deleuze e Guattari ao mesmo tempo que trabalhavam com grupos influenciando as metodologias de intervenção e constituição da Análise Institucional no Brasil As experiências de intervenção socioanalíticas brasileiras a partir da década de 1970 incluíram o trabalho com grupos fazendo uma amálgama sui generis que contrastava com a experiência francesa Muitas dessas intervenções estão relatadas em dois livros Análise Institucional no Brasil e Grupos e Instituições em Análise editados respectivamente em 1987 e 1992 Há a inclusão do grupo como ferramenta potente sem deixar de fora as críticas ao funcionamento e análise da encomenda dos serviços Propõese no contexto da Análise Institucional brasileira o conceito de pesquisaintervenção radicalizando a proposta da pesquisaação e a indissociabilidade entre produção de conhecimento e intervenção social PASSOS e BENEVIDES 2000 AGUIAR e ROCHA 2003 Em Lourau e Lapassade embora o distanciamento do modelo psicossociológico lewiniano possa ser observado o termo pesquisaação foi mantido pelos socioanalistas franceses Lourau 2003c O momento de intervenção é o momento de produção teórica e sobretudo a produção do objeto e do sujeito do conhecimento A pesquisa ação tem um utilitarismo em sua ação Visa a uma mudança de comportamento individual ou social e a mudança tem esse sentido de passagem de uma dinâmica para outra já dada tomando a ordem social como naturalizada A pesquisaintervenção questiona o sentido da ação investindo Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 nos movimentos de metamorfoses não definindo a partir de um ponto de origem o alvo a ser atingido mas uma diferenciação de expressão singular Neste sentido não há mais sujeito e objeto mas processos de subjetivação e objetivação PASSOS e BENEVIDES 2000 No momento da intervenção identificamse analisadores que indicam os objetivos da intervenção tanto quanto a forma como se deve intervir mantendo a gênese social do objeto de pesquisa concomitante à gênese teórica e metodológica A intervenção se junta à pesquisa não para substituir a ação mas para produzir outra relação entre sujeitoobjeto e teoriaprática A pesquisa intervenção visa explicitar as relações de poder do campo de investigação uma desnaturalização permanente das instituições incluindo a própria instituição da análise A intervenção está associada à construção eou utilização de analisadores A noção de pesquisador colhido no campo de pesquisa se modifica para a atitude de análise de implicação No lugar da implicação afetivolibidinal consciente do pesquisador a análise da implicação faz análise do sistema de lugares ocupados apontando para forças extrapessoais que compõem os contextos institucionais Pela explicitação dessas forças rompese a barreira entre sujeito que conhece e objeto a ser conhecido havendo a necessidade de novas metodologias para o trabalho com as instituições dado que as oriundas da pesquisaação ainda mantinham um objeto prévio reificando a crença de que melhor se apreende a realidade quanto mais versões se tem dela A pesquisaintervenção está atenta à encomenda à produção de demanda ao modo como o serviço é ofertado à totalidade da intervenção como análise da implicação trabalhando com analisadores Conclusões Os conceitos desenvolvidos tratam de uma mesma atitude em relação à produção de conhecimento e à intervenção Análise da Encomenda Análise da Oferta Análise da demanda Análise da Implicação Transversalidade e Analisador nos trazem essa dupla aposta Por um lado que toda análise é uma Análise Institucional seja no consultório ou nas organizações afirmandose a indissociabilidade entre teoria e prática entre campo de intervenção e campo de análise entre forma instituída e processo instituinte por outro presentifica Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 se a pesquisaintervenção como paradigma da produção de conhecimento implicado impelindonos a promover intervençõespesquisas com novas metodologias que façam sempre o movimento de inclusão das muitas realidades e análise da implicação das forças em jogo O trabalho de pesquisa assim como o trabalho de intervenção socioanalítica pressupõe uma forma de relação entre sujeitoobjeto analista cliente teoriaprática que os institucionalistas cada vez menos tomarão como jogo interpessoal Se a análise institucional tomou de empréstimo o conceito de contratransferência desloca este conceito para pensar uma dinâmica coletivo institucional na qual os atores estão implicados e atravessados por vetores determinantes para a análise sexo idade raça posição socioeconômica significações socioculturais que atravessam seja o analista seja o analisando Com os conceitos de transferência e contratransferência institucionais é toda uma rede de afecções que é ativada No entanto estes conceitos são abandonados quando Lourau e Guattari propõem em seu lugar os conceitos de implicação e transversalidade Apenas uma troca de palavras Na verdade identificamos aí um esforço de não somente se desvencilhar do subjetivismo inerente ao jogo transferencial como também a necessidade de dar conta de uma dinâmica de relação na qual posições bem localizadas não têm mais lugar Se na dinâmica da transferência e da contratransferência é ainda a relação dual que toma o centro da cena marcando a distinção dos lugares do analista e do analisando com os conceitos de implicação e transversalidade a oposição entre o trans e o contra se dissolve O campo implicacional tem então uma dinâmica de transversalidades que se faz não por decisão propósito ou vontade de alguém Interessa à AI a dinâmica instituinte que deve ser acessada pela análise das instituições Todo trabalho de intervenção visa a essa dimensão inconsciente das instituições A intervenção como método indica o trabalho da análise das implicações coletivas sempre locais e concretas para acessar nas instituições os processos de institucionalização O método da intervenção orienta um trabalho de pesquisa que no Brasil passamos a designar de pesquisaintervenção e a direção de que se trata neste método é aquela que busca aceder aos processos ao que se passa Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 entre os estados de coisas entre as formas instituídas A pesquisaintervenção na inflexão brasileira do institucionalismo define então seu plano de atuação entre a produção de conhecimento e a transformação da realidade seja ela dos grupos organizações ou subjetividades tomando os analisadores como operadores clínicopolíticos Referências bibliográficas AGUIAR K ROCHA M PesquisaIntervenção e a produção de novas análises Psicologia Ciência e Profissão n 23 7 p 6473 2003 ARDOINO J LOURAU R As Pedagogias Institucionais São Carlos RiMa 2003 BAREMBLITT G Coord O inconsciente Institucional Petrópolis Vozes 1984 Compêndio de Análise Institucional Rio de Janeiro Editora Rosa dos tempos 1994 BALINT A BALINT M Sobre Transferência e Contratransferência 1939 Escola da Letra Freudiana A contratransferência à luz do desejo do analista Rio de Janeiro ano 21 n 29 p 914 2002 BARROS R B Institucionalismo e dispositivo grupal In RODRIGUES H C B e ALTOÉ S Orgs Saúde Loucura 8 Análise Institucional São Paulo Hucitec 2004 COIMBRA C Os caminhos de Lapassade e da Análise Institucional uma empresa possível Revista do Departamento de Psicologia UFF Niterói v 7 n 1 p 5280 1995 DELEUZE G GUATTARI F O que é a filosofia Rio de Janeiro Ed 34 1992 FERENCZI S Elasticidade da técnica psicanalítica 1928 In Psicanálise IV São Paulo Martins Fontes 1992 BREUER J FREUD S Estudos sobre Histeria 1895 In Obras Completas vol II São Paulo Companhia das Letras 2010 FREUD S A dinâmica da transferência 1912 In Obras Completas vol X São Paulo Companhia das Letras 2010 Recordar repetir e elaborar 1914 In Obras Completas vol X São Paulo Companhia das Letras 2010 Observações sobre amor transferencial 1915 In Obras Completas vol X São Paulo Companhia das Letras 2010 GALLIO G CONSTANTINO M Françoise Tosquelles A escola de liberdades In LANCETTI A Org SaúdeLoucura 4 grupos e coletivos São Paulo Hucitec 1994 GUATTARI F Psicanálise e transversalidade ensaios de análise institucional Aparecida SP Idéias Letras 2004 HEIMANN P Sobre a Contratransferência 1949 In Escola da Letra Freudiana A contratransferência à luz do desejo do analista Rio de Janeiro ano 21 n 29 2002 LAPASSADE G Grupos organizações e instituições 3 ed Rio de Janeiro Francisco Alves 1989 LIMA R S Análise Institucional no Rio de Janeiro entre 1960 e 1990 Revista ECOS v 2 n 1 p 6173 2012 LITTLE M R A resposta total do analista as necessidades do seu paciente 1951 In Escola da Letra Freudiana A contratransferência à luz do desejo do analista Rio de Janeiro ano 21 n 29 p 5568 2002 LOURAU R A Análise Institucional Petrópolis Vozes 1975 René Lourau na UERJ Análise Institucional e Práticas de Pesquisa Rio de Janeiro Eduerj 1993 Educação Libertária In JACÓVILELA Ana Maria MANCEBO Deise Org Psicologia Social Abordagens sóciohistóricas e desafios contemporâneos Rio de Janeiro Eduerj 1999 p 113167 Uma técnica de análise de implicações B Malinowski diário de etnógrafo 1987 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003a Implicação e sobreimplicação 1990 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003b Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 Implicação e Transdução 1994 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003c Processamento de texto 1994 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003d O campo socioanalítico 1996 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003e Implicação um novo paradigma 1997 In ALTOÉ Sônia Org Analista Institucional em tempo integral São Paulo Hucitec 2003f PASSOS E BENEVIDES R A construção do plano da clínica e o conceito de transdisciplinaridade Psic Teor e Pesq Brasília v 16 n 1 p 7179 janabr 2000 RODRIGUES H B C SOUZA V L B A análise institucional e a profissionalização do psicólogo In KAMKHAGI V e SAIDON O Orgs Análise Institucional no Brasil Rio de Janeiro Ed Rosa dos Tempos 1987 RODRIGUES H B C As subjetividades em revolta institucionalismo francês e novas análises 1994 Dissertação Mestrado IMSUERJ Rio de Janeiro Um anarquista catalão aventuras do freudomarxismo na França Cadernos de Psicologia IPUERJ Rio de Janeiro v 8 p 151170 1998 Sejamos realistas tentemos o impossível desencaminhando a Psicologia através da Análise Institucional In JACÓVILELA Ana Maria FERREIRA Arthur Arruda Leal PORTUGAL Francisco Teixeira Org História da Psicologia rumos e percursos Rio de Janeiro Nau 2005 p 525594 v 1 Os anos de inverno da Análise Institucional francesa dobra de si desprendimento de si Rev Dep Psicol Niterói UFF v 18 n 2 juldez 2006 SAIDON O et al Práticas Grupais Rio de Janeiro Editora Campus 1983 Notas 1 Em inglês training group literamente grupo de treinamento tipo de grupo de formação em que se visava alteração de hábitos ou mudança de opinião publica sobre algum assunto O monitor era bem ativo em favor de um objetivo prévio além de frequentemente falar de leis gerais do grupo em detrimento do grupo específico e local em que se estava intervindo LAPASSADE 1989 2 Moreno ainda em Viena desenvolve o teatro de improvisação que consistia em dramatizações utilizando temas cotidianos retirados de jornais A partir de 1925 já nos EUA visando mudanças subjetivas sistematiza técnicas como apresentação pessoal solilóquio técnica do doublé técnica do espelho e inversão de papéis Nascia o Psicodrama SAIDON et al 1983 3 A não diretividade de Rogers previa justamente a fala livre ao participante e ao monitor somente o uso de técnicas que incitasse esse objetivo permanecendo o tanto quanto fosse possível à parte dos rumos da dinâmica A critica socioanalítica incidia justamente sobre a crença da não influência do monitor no grupo rogeriano SAIDON et al 1983 4 Neste artigo apesar de nos referirmos a Lourau e Lapassade como socioanalistas acreditamos que também caberia o termo Analistas Institucionais Há apenas uma pequena nuance a ser observada Havia na década de 1960 na França duas tendências de Análise Institucional uma que tinha como expoentes Lourau e Lapassade que valorizava a análise das instituições das implicações e os referenciais mais sociológicos além de atenderem a intervenções a pedido e outra que partindo da intuição de Guattari foi baseada nas experiências da Psicoterapia Institucional da década de 1950 e 1960 e na psicanálise lacaniana o que nos remete à primeira linha constitutiva a que nos referimos no início do texto Ao passo que a vertente socioanalítica se oficializou com a tese de doutorado de Lourau defendida em 1969 A Análise Institucional a vertente guattariana quiçá esquizoanálise levará no encontro com Deleuze na década de 1970 ao O AntiÉdipo 5 Preferimos foratexto para o francês hors texte no lugar da tradução extratexto utilizada na edição brasileira por entendermos que não se trata de um texto que se acrescenta a um texto oficial O foratexto é a conexão do texto oficial com seu fora em outras palavras com a dimensão temporal sóciohistórica com o processo de produção do qual o texto foi subtraído para tornarse científico Essa opção não passa sem consequências Lourau 2003e analisa as diferenças entre intertexto IT extratexto ET foratexto e contexto CT A categoria de extratexto foratexto fica reservada aos textos infames muitas vezes diarísticos que colocam Revista EPOS Rio de Janeiro RJ Vol5 nº 1 janjun de 2014 ISSN 2178700X pág 156181 o texto institucional TI em análise Ao optarmos pelo termo foratexto FT entendemos que ressaltamos tanto o texto publicado em separado quanto o processo de conexão do texto institucional com seu fora 6 Na metodologia de Lourau texto M letra inicial do autor é por exemplo o livro oficalmente publicado por Malinovski Os argonautas do pacífico ocidental 7 Conceito introduzido por Gilbert Simondon a partir da observação de processos físicos que se resumem a movimentos de propagação e contágio transformador de campos de força Lourau liga o processo de transdução ao de implicação para ressaltar a dimensão processual Sujeito e objeto como individuações num campo em que o espectro de forças os fazem polos e limites LOURAU 2003c Recebido em 30042014 Aprovado para publicação em 10062014 MOVIMENTO INSTITUCIONALISTA E ANÁLISE INSTITUCIONAL NO BRASIL NAIR IRACEMA SILVEIRA DOS SANTOS Resumo Abordamos nesse artigo a história da Análise Institucional no Brasil remetendonos ao movimento institucionalista na França às diversas correntes e referências as quais influenciaram a composição de práticas institucionais no campo psi caracterizadas por uma determinada escuta e intervenção que se faz problematizadora das instituições tomandoas como produções para além dos estabelecimentos dos códigos das formas e normas Palavraschaves Análise Institucional Movimento Institucionalista Práticas Institucionais Psicologia e Instituições INSTITUTIONALIST MOVEMENT AND INSTITUTIONAL ANALYSIS IN BRAZIL Abstract This paper discusses the history of Institutional Analysis in Brazil considering the institutionalist movement in France the various experiences and references that influenced the composition of institutional practices in psy field characterized for one determined listening and intervention that discusses the institutions understanding them as productions beyond establishments codes forms and norms Keywords Institutional Analysis Institutionalist Movement Institutional Practices Psychology and Institutions criativas de trabalho jornal grupos de pacientes e técnicos estímulo à participação no cotidiano do hospital colocando em questão as relações estabelecidas no hospital psiquiátrico Este trabalho integra parte de um capítulo da tese de doutorado Escola Pública e Comunidade relações em d ações revisada para publicação Professora do Departamento de Psicologia da UFSM Doutora em Educação Heliana de Barros Conde Rodrigues e Veta Lúcia Batista de Souza em Análise Institucional no Brasil 1987 56 REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS espanhola durante a segunda guerra vai para o hospital Saint Alban região de Lozère na França no qual havia se constituído um foco da resistência e abrigara pensadores artistas psiquiatras de tendências antiasilares Várias atividades foram organizadas cooperativas de trabalho jornal grupos de pacientes e técnicos estimulou a participação no cotidiano do hospital colocando em questão as relações estabelecidas no hospital psiquiátrico A experiência de Tosquelles é referida como o embrião da Psiquiatria de Setor que propunha a humanização dos hospitais Em 1952 Daumézon irá caracterizar tais práticas como Psicoterapia Institucional mostrando a tendência de desalienação do doente mental Linha Guattari e Jean Oury Oury Psiquiatra francês havia estado com Tosquelles e procurava instalar em La Borde 1953 práticas institucionalizadas semelhantes às experimentadas em Lozère Convidou Guattari para a equipe em 1955 Guattari o qual militava desde os 16 anos em vários tipos de organizações políticas em alguns meses havia criado na clínica múltiplas instâncias coletivas assembléias gerais secretariado comissões paritárias ateliês Era a primeira experiência de psicoterapia institucional em estabelecimento privado Guattari 1992 relata que a partir da instalação dessas diversas atividades perceberam que além da mobilização dos pacientes teriam de criar espaços de problematização dos níveis de participação da equipe incluindose nesta os serviços de apoio cozinheiros faxineiros Além da relação atendenteatendido as relações no grupo de trabalho começam a ser discutidas Nesse movimento o qual Guattari 1992 chama de minirevolução interna esboçase as primeiras reflexões para a proposta de Análise Institucional Pedagogia Institucional Fernando Oury Aida Vasquez Michael Lobrot René Lourau e G Lapassade Foram influenciados pela Psicoterapia Institucional também por uma aproximação familiar Fernando Oury era irmão de Jean Oury Fernando Oury professor primário ingregrava o movimento Freinet o qual existia desde 1924 na França consistindo principalmente na invenção de novos meios educativos como o texto livre o diário a correspondência Freinet levou o jornalismo e a imprensa para a escola e tais técnicas segundo Lapassade 1983 preparam a autogestão pedagógica O Grupo Técnicas Educativas de Pedagogia Institucional surgiu desse movimento Freinet em 1962 Dele faziam parte Oury Aida Vasquez e Lapassade Em 1962 desligaramse de Freinet por sentiremse impossibilitados de aplicar as propostas deste as quais estavam cada vez mais voltadas ao meio rural Em 1964 ocorre nova divisão no grupo com duas orientações A Pedagogia Terapêutica de orientação Psicanalítica representada por Fernand Oury e Aida Vasquez esta linha dava importância à atividade criadora nas instituições e aos processos inconscientes das relações nos grupos Com ela surgiram os conselhos de classe nas escolas visando estimular a autogestão na sala de aula No entanto para Lapassade cf Coimbra 1995 nesta linha não se interrogavam sobre a escola enquanto dispositivo social A Pedagogia Autogestionária e Socioanalítica representada por Lobrot Lorau e Lapassade Tomam como base os grupos de formação TGroup4 e passam depois a autoregulação de grupo o que segundo Coimbra 1995 implicava um grupo capaz de tomar em suas mãos não somente sua análise mas muitas outras atividades Análise Institucional Segundo Barros 1994 Guattari propõe o termo Análise Institucional em TGroup Training Group ou Grupo de Diagnóstico é um desdobramento das pesquisas de Kurt Lewin na área de formação caracterizandose pela experiência em grupo na qual o grupo faz a análise do próprio processo e da sua relação com o coordenador monitor na proposta de Lewin Todo o saber sobre o grupo é construído com a participação dos membros os quais progressivamente aprendem a analisar o funcionamento do grupo sem a ajuda do monitor 56 REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS espanhola durante a segunda guerra vai para o hospital Saint Alban região de Lozère na França no qual havia se constituído um foco da resistência e abrigara pensadores artistas psiquiatras de tendências antiasilares Várias atividades foram organizadas cooperativas de trabalho jornal grupos de pacientes e técnicos estimulou a participação no cotidiano do hospital colocando em questão as relações estabelecidas no hospital psiquiátrico A experiência de Tosquelles é referida como o embrião da Psiquiatria de Setor que propunha a humanização dos hospitais Em 1952 Daumézon irá caracterizar tais práticas como Psicoterapia Institucional mostrando a tendência de desalienação do doente mental Linha Guattari e Jean Oury Oury Psiquiatra francês havia estado com Tosquelles e procurava instalar em La Borde 1953 práticas institucionalizadas semelhantes às experimentadas em Lozère Convidou Guattari para a equipe em 1955 Guattari o qual militava desde os 16 anos em vários tipos de organizações políticas em alguns meses havia criado na clínica múltiplas instâncias coletivas assembléias gerais secretariado comissões paritárias ateliês Era a primeira experiência de psicoterapia institucional em estabelecimento privado Guattari 1992 relata que a partir da instalação dessas diversas atividades perceberam que além da mobilização dos pacientes teriam de criar espaços de problematização dos níveis de participação da equipe incluindose nesta os serviços de apoio cozinheiros faxineiros Além da relação atendenteatendido as relações no grupo de trabalho começam a ser discutidas Nesse movimento o qual Guattari 1992 chama de minirevolução interna esboçase as primeiras reflexões para a proposta de Análise Institucional Pedagogia Institucional Fernando Oury Aida Vasquez Michael Lobrot René Lourau e G Lapassade Foram influenciados pela Psicoterapia Institucional também por uma aproximação familiar Fernando Oury era irmão de Jean Oury Fernando Oury professor primário ingregrava o movimento Freinet o qual existia desde 1924 na França consistindo principalmente na invenção de novos meios educativos como o texto livre o diário a correspondência Freinet levou o jornalismo e a imprensa para a escola e tais técnicas segundo Lapassade 1983 preparam a autogestão pedagógica O Grupo Técnicas Educativas de Pedagogia Institucional surgiu desse movimento Freinet em 1962 Dele faziam parte Oury Aida Vasquez e Lapassade Em 1962 desligaramse de Freinet por sentiremse impossibilitados de aplicar as propostas deste as quais estavam cada vez mais voltadas ao meio rural Em 1964 ocorre nova divisão no grupo com duas orientações A Pedagogia Terapêutica de orientação Psicanalítica representada por Fernand Oury e Aida Vasquez esta linha dava importância à atividade criadora nas instituições e aos processos inconscientes das relações nos grupos Com ela surgiram os conselhos de classe nas escolas visando estimular a autogestão na sala de aula No entanto para Lapassade cf Coimbra 1995 nesta linha não se interrogavam sobre a escola enquanto dispositivo social A Pedagogia Autogestionária e Socioanalítica representada por Lobrot Lorau e Lapassade Tomam como base os grupos de formação TGroup4 e passam depois a autoregulação de grupo o que segundo Coimbra 1995 implicava um grupo capaz de tomar em suas mãos não somente sua análise mas muitas outras atividades Análise Institucional Segundo Barros 1994 Guattari propõe o termo Análise Institucional em 4 TGroup Training Group ou Grupo de Diagnóstico é um desdobramento das pesquisas de Kurt Lewin na área de formação caracterizandose pela experiência em grupo na qual o grupo faz a análise do próprio processo e da sua relação com o coordenador monitor na proposta de Lewin Todo o saber sobre o grupo é construído com a participação dos membros os quais progressivamente aprendem a analisar o funcionamento do grupo sem a ajuda do monitor MOVIMENTO INSTITUCIONALISTA E ANÁLISE INSTITUCIONAL NO BRASIL 57 uma reunião com o GTPSI Grupo de Trabalho de Psicologia e de Sociologia Institucionais para demarcar a diferença em relação às práticas operadas com Tosquelles Incluise aqui a dimensão analítica problematizando os especialismos em torno dos quais se organizavam as intervenções institucionais A análise passa a ser vista como dimensão de toda experimentação social podendo ser realizada em qualquer âmbito por qualquer pessoa integrante dos grupos sociais terapêuticos de ensino e de trabalho Nesse momento Guattari formula alguns conceitos6 transversalidade transferência institucional analisador grupo sujeitogrupo suj eitado alguns dos quais serão utilizados por outros institucionalistas como Lapassade e Lourau A intervenção se pautava pela análise do funcionamento do grupo das práticas naturalizadas das instituições potencializadas no grupo de forma que este pudesse ao colocar em análise tais produções inventar novas formas de operar como grupo Guattari procurou com tais formulações opor a análise institucional à psicoterapia institucional uma vez que para ele a dimensão analítica nesta última restringiase a ser uma força exterior que coexistia pacificamente neste campo com o marxismo a psicossociologia a dinâmica de grupo a terapia social Barros 1994 p338 visando apenas as boas relações no grupo Lapassade 1977 também problematiza os dois primeiros movimentos Assim como a Psicoterapia Institucional não questiona a Psiquiatria enquanto instituição a Pedagogia Institucional não indaga a escola como tal As transformações são pensadas apenas no âmbito dos grupos Mas estes são movimentos embrionários de outros que irão se compor mais políticos os quais colocarão as instituições em análise remetendoas à ordem social O próprio Lapassade esteve inicialmente seduzido pela psicologia dos pequenos grupos sendo o principal representante da Psicossociologia Institucional corrente que se formou a partir dessas experiências citadas acima Mais tarde ele e outros institucionalistas farão críticas a esta sob o argumento de que trabalhavam a organização como um grupo enfocando as relações humanas sem problematizar as produções sociais Lapassade diz que propôs chamar de Análise Institucional7 em 1963 o método que visa a revelar nos grupos esse nível oculto de sua vida e de seu funcionamento a dimensão institucional entendida como toda política reprimida pela ideologia das boas relações sociais Coimbra 1995 A Análise institucional se constituiu de diferentes movimentos e tendências teóricas as quais foram compondo o movimento institucionalista francês desde o início da década de 60 Coimbra 1995 situa a institucionalização da Análise Institucional Francesa em uma terceira fase do movimento institucionalista A primeira fase seria a da Psicossociologia Institucional a qual se desenvolveu na primeira metade da década de 60 a partir das experiências da Psicoterapia Institucional da Pedagogia Institucional e da crítica interna nas ciências sociais Nesta fase também foram 6 Estes conceitos podem ser encontrados na obra Revolução Molecular pulsações políticas do desejo de Félix Guattari São Paulo Brasiliense 1987 7 Sobre a autoria do termo Análise Institucional parece que Guattari também dizia ter proposto o mesmo para demarcar a diferença da psicoterapia institucional de Tosquelles e para enfatizar a dimensão analítica a qual não se fazia presente nas primeiras experiências Ele faz essa referência no artigo Devít câmera analisando ficção in Revolução molecular pulsações políticas do desejo São Paulo Ed Brasiliense 1987 p67 Neste artigo problematiza a transformação da análise institucional e dos analisadores em ciências psicossociológicas O artigo original em francês é de 1977 e Guattari dizia neste que havia proposto esse nome há uns quinze anos atrás o que levanos a pensar que a autoria seria mesmo de Guattari considerando que os primeiros conceitos cima análise utilizados por Lapassade e Lourau foram desenvolvidos pelo primeiro Porém Lapassade e Lourau são reconhecidos como autores responsáveis pelo desenvolvimento da proposta de análise institucional Lourau 1995 escreveu um livro intitulado A Análise Institucional As primeiras experiências no Brasil estavam referenciadas mais em Lapassade do que em Guattari embora alguns grupos tivessem articulação conhecimento das duas correntes De qualquer forma era nota é apenas para pontuar tal confusão e para demarcar as fontes da Análise Institucional Brasileira a qual irá servirse das duas propostas Lapassade e Lourau tiveram uma importância pela discussão sociológica elaborando conceitualmente a proposta de intervenção institucional Guattari juntamente com Deleuze irá problematizar a Psicanálise ampliando a discussão e formulando nova proposta não mais de intervenção mas sim uma proposta para pensar a análise como uma esquizoanálise Dessa forma é a análise que é posta em análise não mais as instituições importantes os enfoques antiinstitucionais7 como a antipsiquiatria e a antipedagogia os quais tiveram seu apogeu no maio de 68 francês Logo no início da década de 70 Ivan Illich prega a desescolarização mostrando a escola como um grande reprodutor da sociedade consumo Os enfoques antiinstitucionais irão possibilitar novas formulações permitindo a Lapassade romper com a leitura mais psicológica e dar ênfase a leitura sociológica o que demarcaria segundo Coimbra 1995 a segunda fase da Análise Institucional com as Intervenções Socioanalíticas quando a autogestão é empregada como um questionamento ao sistema atual das instituições e dispositívos sociais como uma contrainstituição revelando os elementos ocultos do sistema É o período da criação de diversos dispositivos de trabalho em instituições a partir de experiências grupais as quais colocavam em análise os atravessamentos sociais nos grupos A terceira fase segundo Coimbra 1995 seria a institucionalização da Análise Institucional na década de 70 quando os movimentos perdem força havendo um desinteresse generalizado pelas diferentes formas de participação e questionamentos sociais Haverá então uma redução de espaços a solicitarem a intervenção de analistas institucionais Foi preciso a revisão de conceitos e é neste período que surgem os escritos sobre a história do movimento institucionalista Lapassade 1983 questiona sobre a possibilidade de mudanças nos níveis do grupo e da organização sem que se analise as instituições que se produzem e operam nestes âmbitos Parece que esse momento desestabilizou também algumas certezas no próprio Lapassade Na tentativa de abrir mais espaços ele propõe com Lourau 1977 o Encontro Institucional uma intervenção de curta duração através de uma crisisanálise propondose a instalar crises na organização para que alguns setores pudessem se apropriar da análise e começar a praticála Lapassade também se aproximou do Movimento de Potencial Humano fazendo uso de algumas técnicas de intervenção o que não impediu que fizesse crítica a esta corrente em outro momento Das leituras que fiz pareceme que Lapassade nesta fase se perdeu um pouco retornando a intervenções mais funcionalistas pelas exigências da demanda das instituições Esta é uma leitura dos momentos do movimento institucionalista francês realizada por Coimbra 1995 em sua tese de doutorado Nestes três momentos a autora vai analisando como se estruturam propostas de intervenção institucional culminando com a institucionalização da Análise Institucional Lapassade faz um outro tipo de divisão acentuando o desenvolvimento do conceito de instituição Rodrigues e Souza 1987 retomam essa discussão citando Lapassade Em um primeiro momento instituição é entendida como estabelecimento de cuidados mobilizando ações terapêuticas Encontramos essa noção nas práticas da psicoterapia institucional quando esta buscava a cura pela institucionalização dos enfermos Instituições são assim todos os Estabelecimentos ou Organizações com existência material eou jurídica escolas hospitais empresas associações etc Rodrigues e Souza 1987 Em um segundo momento trabalhase com a idéia de que as instituições seriam dispositivos grupos operativos assembléias conselhos de classe grupos de discussão instalados nos estabelecimentos escolas hospitais empresas Acentuase aqui ainda o papel atribuído aos especialistas como peritos em instituições É o que predominou no enfoque psicossociológico quando se enfatizava as relações humanas através do trabalho com grupos nas instituições permanecendo a referência aos estabelecimentos Também na segunda linha da Psicoterapia Institucional e na Pedagogia Institucional 29 O terceiro momento para Lapassade 1977 são os movimentos antiinstitucionais quando a noção de instituição contempla a idéia de produção problematizando as diversas naturalizações nas práticas sociais Podemos situar aqui as experiências de Socioanálise empreendidas por Lapassade e a fase da Análise Institucional propriamente dita Baremblitt 1994 quando apresenta as principais tendências do movimento institucionalista refere a Sociopsicanálise de Gérard Mendel a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari No entanto no Brasil essas correntes se articulam se misturam de forma que hoje poderíamos falar em uma área de conhecimento chamada Análise Institucional a qual tem sido apropriada e ampliada por profissionais pesquisadores predominantemente da área da Psicologia em uma interface com a Psicologia Social e Psicanálise Chamamos Análise Institucional no sentido estrito aquela corrente do movimento institucionalista vinculada mais de perto às posições de R Lourau G Lapassade e seu grupos de colaboradores RHess PVille etc Ao menos no contexto brasileiro podemos falar de uma articulação estreita desta práticapensamento com as posições de FGuattari em direção a uma micropolítica Rodrigues 1992 p45 No Brasil a Análise Institucional encontrou espaço na Psicologia Social Crítica a qual se nutria dos movimentos sociais Osvaldo Saidon referia em 1987 que deveríamos buscar as fontes de uma corrente brasileira de Análise Institucional em Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido nos movimentos de resistência de 64 e 68 nas propostas das comunidades de base e na influência do exílio latinoamericano com sua proposição de práticas sociais no campo da Psicologia e da Psicanálise Coimbra 1995 refere que as práticas institucionais nos chegam através de duas gerações de autores argentinos Uma primeira representada por integrantes da Associação Psicanalítica Argentina como Rodolfo Bohoslavsky Leon Grinberg Marie Langer divulgam os trabalhos de José Bleger e Pichon Rivière com a proposta de uma Psicologia Institucional a qual difere da Análise Institucional Francesa Conforme Rodrigues e Souza 1987 p17 a primeira resultou da necessidade dos psicanalistas argentinos de influírem com sua prática no momento político de seu país Constitui movimento que parte da Psicanálise para a política e que tem no trabalho com grupos nas organizações sua forma de intervenção por excelência Bleger foi aluno de Pichon Rivière tomando como base a experiência de grupos operativos deste Defende uma abordagem do inconsciente institucional analisando as relações nos grupos sob pressupostos da prevenção e psicohigiene promoção de saúde formulados por G Caplan na Psiquiatria preventiva O psicólogo para Bleger 1984 seria um agente de saúde um técnico das relações trabalhando com a noção de instituiçãoestabelecimento sendo esta então considerada paciente do especialista São os grupos operativos uma forma de intervenção que virou moda na década de 70 no Brasil No entanto segundo Coimbra 1995 enquanto na Argentina já haviam questionamentos do tipo que formação social que práticas e subjetividades estamos produzindo e fortalecendo entre nós somente na década de 80 tais questões puderam ser pensadas A Segunda geração de argentinos representada por Osvaldo Saidon Gregório Baremblitt Antônio Lancetti e Vida Raquel Kamkhagi desembarca exilada após 1976 no eixo Rio São Paulo acolhendo as influências de Bleger e Pichon e uma série de implicações políticas Coimbra 1995 divulgando os princípios da análise institucional francesa Num primeiro momento os trabalhos de Lapassade tiveram maior evidência e na década de 80 a estes se 30 somaram as produções de Foucault Deleuze e Guattari Lapassade 1977 encontra no termo instituição um sentido ativo de manter de pé a máquina social e até de produzila vertente do instituinte e também a vertente do instituído o qual remete às formas universais de relações sociais as quais nasceram originariamente em uma sociedade instituinte8 Segundo Rodrigues e Souza 1987 o objetivo da Análise Institucional seria trazer à luz essa dialética instituinteinstituído visando a aprender a instituição em seu sentido ativo Algumas definições de instituição mesmo em autores os quais já articulam Análise Institucional e Esquizoanálise enfatizam mais a dimensão do instituído É o que se expressa no conceito apresentado por Baremblitt 1994 p27 As instituições são lógicas são árvores de composições lógicas que segundo a forma e o grau de formalização que adotem podem ser leis podem ser normas e quando não estão enunciadas de maneira manifesta podem ser pautas regularidades de comportamentos No conceito de Lapassade 1977 p203 também o sentido etimológico9 é acentuado FORMA que produz e reproduz as relações sociais ou FORMA GERAL das relações sociais que se instrumenta em estabelecimentos eou dispositivos E isto é a instituição este produto da sociedade instituinte em tal momento de sua história Outros autores inspirados em Deleuze e Guattari apresentam conceitos mais fluidos de instituição Para Rodrigues e Souza 1987 p24 instituição é produção é atividade algo não localizável empiricamente uma espécie de inconsciente político que institui novas realidades sempre dividindo sempre separando As instituições são como estátuas de areia mostramse fixas e desistorizadas mas os grãos que as compõem estão ainda que imperceptivelmente se movimentando os fluxos não param de se agitar o mar está ali adiante podendo a qualquer momento levar os grãos de areia que compõem estas estátuas fazendo com que elas desapareçam Barros 1994 p109 Se tomarmos as instituições como processos nos quais os fluxos não param de se agitar como refere Barros 1994 talvez ainda pudéssemos falar de uma análise institucional resgatando a proposta original de Guattari na década de 60 e atualizandoa com as formulações da esquizoanálise A esquizoanálise foi inventada por Delcuze e Guattari 1976 e exposta pela primeira vez no livro O AntiÉdipo A idéia era problematizar a Psicanálise e o modo instituído de análise a qual se sustentava na interpretação e na leitura do oculto remetendo todo conflito a uma matriz das relações familiares O questão da esquizoanálise ou da pragmática a própria micropolítica10 não consiste jamais em interpretar mas apenas em perguntar quais suas linhas indivíduo ou grupo e quais os perigos sobre cada uma delas No entanto Guattari 1988 refere que ele e Deleuze não consideravam a esquizoanálise como uma técnica uma ciência baseada sobre leis e axiomas e ainda menos como um corpo de profissão que requer uma formação iniciadora Ela só conseguirí existir nos agenciamentos particulares É um novo modo de pensar a vida e as práticas sociais podendo ser exercida por qualquer pessoa Sendo assim um líder comunitário que potencializa formas diversas de participação e organização em sua comunidade pode ser considerado um esquizoanalista A expressão esquizo esteve sujeita a confusões com o processo do esquizofrênico Guattari 1987 pontua que nunca ele e Deleuze falaram de identificação entre o analista e o esquizofrênico Nós dissemos que o analista tanto quanto o militante o escritor ou quem quer que seja está mais ou menos engajado num processo esquizo Nós não dissemos que os revolucionários devessem identificarse com os loucos que estão girando em falso mas sim que deviam fazer seus empreendimentos funcionarem à maneira do processo esquizo Guattari 1987 p83 Guattari 1987 referese à idéia de ruptura presente no processo esquizo de poder potencializar modos de existência romper com a ordem dada com as representações deixandose derivar no processo É nesse sentido que segundo ele o trabalho do analista do revolucionário do artista podem se encontrar A Análise Institucional no Brasil constituiuse sob esse fundo múltiplo dessas diferentes correntes mesmo que uma ou outra se ache mais enfatizada No Rio Grande do Sul recebemos a produção argentina e as composições do eixo Rio São Paulo Durante alguns anos tal como no centro do país Bleger e Pichon Rivière foram referências fortes predominando as práticas da psicologia institucional Lapassade nos foi apresentado pela obra Análise institucional no Brasil publicado em 1987 reunindo trabalhos de profissionais os quais já articulavam leituras deste com Deleuze e Guattari sendo que os últimos se fizeram mais presentes entre os gaúchos na década de 90 especialmente no período de 94 a 97 quando muitos encontros se realizaram com Suely Rolnik Rogério Costa Peter Pelbart Regina Benevides de Barros nas universidades em espaços clínicos e de formação1 os quais têm divulgado a filosofia de Deleuze Guattari Nietzsche e Foucault Ainda preferimos falar em Análise Institucional apesar de todos os perigos advindos da institucionalização desta como afirma Coimbra 1995 Guattari 1987 queixavase das palavras gastas do fato dos especialistas provocarem rapidamente a tecnicização da proposta Porém a realidade francesa não è a mesma nossa Para nós o que vingou foi a Análise Institucional mesmo com todo o ranço dos especialismos Foi com a Análise Institucional que podemos problematizar as nossas implicações os nossos lugares de especialistas Como propõe Coimbra 1995 não precisamos sair do lugar de especialistas mas sim ao ocupar esse território fazemos em primeiro lugar a análise do que produzimos do que instituímos uma análise das instituições em nós e fora de nós As instituições continuam a operar fortemente na subjetivação Ainda somos atravessados por instituições mesmo que ampliemos nossos conceitos para territórios ou territorializações Sempre existirão as instituições enquanto estabelecimentos e ainda hoje estamos muito grudados a estas precisamos estar institucionalizados ainda buscamos territórios referenciais A escola vai mal é questionada mas ainda não se aceita que as Espaços os quais têm se constituído nos últimos anos reunindo profissionais psicólogos educadores seduzidos por estes autores Podemos dizer que esses grupos são hoje as diversas dobrias do Instituto Pichon Rivière de Porto Alegre instituição que há muitos anos vem formando psicólogos grupalistas e institucionalistas Entre os grupos mais recentes temos Oficina Psi Intersecção Tivemos o Espaço de Vida o qual organizou seminários sobre Deleuze e Guattari entre 95 e 96 com Rogério Costa e Peter Pelbart crianças não passem por esta Se a escola acabar outras instituições tomarão seu lugar São as nossas linhas segmentárias O que precisamos é inventar microanálises procurando fazer a escuta não só das formas mas também dos fluxos análise do movimento das relações de forças que compõem as instituições sejam elas estabelecimentos instituídos ou forças produtoras de subjetividade Referências Bibliográficas 1 BAREMBLITT Gregório Compêndio de Análise Institucional e outras correntes teoria e prática 2ª ed Rio de janeiro Rosa dos Tempos 1994 2 BARROS Regina Duarte Benevides Grupo A Afirmação de um Simulacro São Paulo PUCSP 1994 Tese de Doutorado Programa de PósGraduação em Psicologia Clínica 3 BLEGER José Psicohigiene e Psicologia Institucional Porto Alegre Artes Médicas 1984 4 COIMBRA Cecília Maria Bouças Guardiães da Ordem Rio de Janeiro Oficina do Autor 1995 5 DELEUZE Gilles GUATTARI Félix O AntiÉdipo Capitalismo e Esquizofrenia Rio de Janeiro Imago 1976 6 EIZIRIK Marisa Faermann Educação e escola a aventura institucional Porto Alegre AGE 2001 7 GUATTARI Félix ROLNIK Suely Micropolítica Cartografias do Desejo Petrópolis Vozes 1986 8 GUATTARI Félix Revolução Molecular pulsações políticas do desejo São Paulo Brasiliense 1987 9 GUATTARI Félix O Inconsciente maquínico ensaios de esquizoanálise CampinasSP Papirus 1988 10 GUATTARI Félix Caosmose um novo paradigma estético Rio de Janeiro Ed34 1992 11 LAPASSADE G El Encuentro Institucional In LOURAU Ret al Análisis Institucional y Socioanálisis México Nueva Imagem 1977 12 Grupos Organizações e Instituições Rio de Janeiro Francisco Alves 1983 13 LOURAU R et al Análisis Institucional y Socioanálisis México Nueva Imagem 1977 14 LOURAU René A Análise Institucional Trad De Mariano Ferreira Petrópolis RJ Vozes 1995 15 RODRIGUES Heliana BC SOUZA Vera LB A Análise Institucional e a Profissionalização do Psicólogo In SAIDON O KAMKHAGI Vida R Análise Institucional no Brasil Rio de Janeiro Espaço e Tempo 1987 pp 1735 16 RODRIGUES Heliana de Barros Conde Psicanálise e Análise Institucional In RODRIGUES Heliana de Barros Conde LEITÃO Maria Beatriz Sá BARROS Regina Benevides de Grupos e Instituições em Análise Rio de Janeiro Rosa dos Tempos 1992 pp 4255 17 SAIDON Osvaldo e KAMKHAGI Vida Rachel orgs Análise Institucional no Brasil favela hospício escola FUNABEM Rio de janeiro Espaço e tempo 1987 Curso Psicologia Matéria Análise Institucional Tarefa Fazer uma análise institucional do filme Hair Love Curta Disponível em httpswwwyoutubecomwatchvqXwWxRjrVA8 A análise deve conter onde aparecem 1 Instituição 2 Quais forças instituintes aparecem 3 Quais forças instituídas aparecem A Análise Institucional é uma abordagem utilizada na Psicologia e outras áreas para compreender as dinâmicas presentes em uma instituição como a forma como o poder é distribuído as normas e valores que orientam o comportamento dos membros e como as decisões são tomadas Essa abordagem também busca identificar as forças instituintes que são aquelas que buscam transformar a instituição e as forças instituídas que são aquelas que mantêm a instituição em seu estado atual Quiroga 2011 Além disso de acordo com o artigo Movimento institucionalista e análise institucional no Brasil de Nair Iracema Silveira dos Santos percebese o surgimento e desenvolvimento do Movimento Institucionalista no país assim como sobre as contribuições da Análise Institucional como forma de suporte para a compreensão das instituições sociais Segundo Santos 2007 o Movimento Institucionalista surgiu no Brasil na década de 1950 a partir de uma crítica ao modelo de atendimento psiquiátrico predominante na época A partir dessa crítica surgiram novas práticas de atendimento baseadas em uma perspectiva mais humanizada e integral do ser humano A autora destaca que o institucionalismo se caracterizou por uma atitude crítica e reflexiva em relação às instituições p 70 o que permitiu a elaboração de novas formas de atendimento e intervenção A Análise Institucional por sua vez surge como uma forma de compreender as dinâmicas presentes nas instituições sociais como as organizações empresas e outras estruturas sociais Segundo Santos 2007 essa abordagem não se limita a descrever e interpretar as instituições mas também visa produzir mudanças nas mesmas p 73 Nesse sentido a Análise Institucional pode ser vista como uma ferramenta para a transformação das instituições e das relações sociais O curtametragem Hair Love dirigido por Matthew A Cherry pode ser analisado a partir de uma perspectiva institucional Nesse sentido é possível identificar a presença da instituição familiar como o principal contexto do filme A história se desenrola em torno do pai da menina Zuri que está tentando ajudar a filha a arrumar o cabelo para um evento especial onde irá visitar sua mãe que está doente Durante a narrativa a obra destaca questões importantes como a relação entre pai e filha a diversidade e a aceitação de si mesmo Dentro do contexto familiar é possível identificar algumas forças instituintes que atuam como agentes de mudança Uma dessas forças é a própria iniciativa do pai em tentar arrumar o cabelo da filha e estreitar a relação com ela mesmo sem ter conhecimento sobre as técnicas necessárias Segundo a Análise Institucional a instituição deve ser vista como um conjunto de processos que tendem a se manter mas que ao mesmo tempo são atravessados por processos de mudança Quiroga 2011 p 374 Portanto o pai de Zuri pode ser visto como um agente instituinte que busca modificar as dinâmicas familiares tradicionais Além disso ele também é identificado como uma das forças instituintes observadas pois é demonstrada a busca por representatividade O pai de Zuri está tentando aprender a cuidar do cabelo da filha como uma forma de promover maior representatividade da cultura afroamericana Ele quer que a filha se sinta orgulhosa de sua aparência e de suas raízes o que pode ser visto como uma forma de romper com estereótipos e padrões de beleza dominantes Outra força instituinte que podemos identificar é a busca por igualdade de gênero Ao assumir a responsabilidade de cuidar do cabelo da filha o pai de Zuri desafia estereótipos de gênero e de papéis sociais tradicionais Ele mostra que é possível que os pais se envolvam de forma ativa na criação dos filhos e que as tarefas domésticas não são exclusivamente responsabilidade das mães Ademais podemos ver a busca por afeto e conexão como uma força instituinte presente no curtametragem A relação entre o pai de Zuri e a filha é permeada por afeto e carinho o que pode ser visto como uma forma de construir laços mais estreitos e significativos dentro da instituição familiar A busca por essa conexão emocional pode ser vista como uma força instituinte uma vez que busca produzir mudanças nas relações familiares Por outro lado também é possível identificar a presença de forças instituídas no curtametragem Uma dessas forças é a pressão social para que as pessoas sigam um padrão de beleza que não valoriza a diversidade étnica e capilar Como destaca Quiroga 2011 os grupos instituídos são aqueles que mantêm a instituição tal como ela é p 379 Nesse sentido o filme mostra como essa pressão pode dificultar a aceitação do próprio cabelo o que acaba limitando a liberdade individual e a expressão da identidade Posto isso outras forças instituídas que podemos observar é a pressão social em relação aos padrões de beleza Zuri se preocupa com o seu cabelo e com a sua aparência pois sabe que é avaliada pelos outros a partir desses critérios Esse tipo de pressão social já está internalizado na sociedade e pode ser visto como uma força instituída que molda as escolhas e comportamentos das pessoasOutra força instituída que podemos identificar é a divisão de papéis sociais de gênero A mãe de Zuri está ausente e isso pode ser interpretado como uma forma de reforçar a ideia de que o cuidado com os filhos e a manutenção do lar são responsabilidades exclusivas das mulheres Essa divisão de papéis sociais é uma força instituída que molda as relações familiares e que pode perpetuar desigualdades de gênero Além disso podemos ver a força instituída da hierarquia dentro da instituição familiar O pai de Zuri tem dificuldades em cuidar do cabelo da filha porque é uma tarefa que tradicionalmente é vista como responsabilidade das mães Essa hierarquia que estabelece uma divisão entre tarefas masculinas e femininas pode ser vista como uma força instituída que molda as relações familiares e as dinâmicas de poder dentro da família Em resumo a análise institucional do curtametragem Hair Love permite refletir sobre as dinâmicas presentes na instituição familiar assim como os desafios e possibilidades de transformação dessas dinâmicas A presença de forças instituintes e instituídas evidencia a complexidade dessas relações e a importância de se refletir criticamente sobre as normas e valores que orientam o comportamento dos membros da instituição Referências QUIROGA A D 2011 Análise institucional In A M B Bock O Furtado M L T Teixeira Orgs Psicologias uma introdução ao estudo de psicologia pp 371 390 São Paulo Saraiva SANTOS N I S 2007 Movimento institucionalista e análise institucional no Brasil Psicologia Sociedade 191 6875 Curso Psicologia Matéria Análise Institucional Tarefa Fazer uma análise institucional do filme Hair Love Curta Disponível em httpswwwyoutubecomwatchvqXwWxRjrVA8 A análise deve conter onde aparecem 1 Instituição 2 Quais forças instituintes aparecem 3 Quais forças instituídas aparecem A Análise Institucional é uma abordagem utilizada na Psicologia e outras áreas para compreender as dinâmicas presentes em uma instituição como a forma como o poder é distribuído as normas e valores que orientam o comportamento dos membros e como as decisões são tomadas Essa abordagem também busca identificar as forças instituintes que são aquelas que buscam transformar a instituição e as forças instituídas que são aquelas que mantêm a instituição em seu estado atual Quiroga 2011 Além disso de acordo com o artigo Movimento institucionalista e análise institucional no Brasil de Nair Iracema Silveira dos Santos percebese o surgimento e desenvolvimento do Movimento Institucionalista no país assim como sobre as contribuições da Análise Institucional como forma de suporte para a compreensão das instituições sociais Segundo Santos 2007 o Movimento Institucionalista surgiu no Brasil na década de 1950 a partir de uma crítica ao modelo de atendimento psiquiátrico predominante na época A partir dessa crítica surgiram novas práticas de atendimento baseadas em uma perspectiva mais humanizada e integral do ser humano A autora destaca que o institucionalismo se caracterizou por uma atitude crítica e reflexiva em relação às instituições p 70 o que permitiu a elaboração de novas formas de atendimento e intervenção A Análise Institucional por sua vez surge como uma forma de compreender as dinâmicas presentes nas instituições sociais como as organizações empresas e outras estruturas sociais Segundo Santos 2007 essa abordagem não se limita a descrever e interpretar as instituições mas também visa produzir mudanças nas mesmas p 73 Nesse sentido a Análise Institucional pode ser vista como uma ferramenta para a transformação das instituições e das relações sociais O curtametragem Hair Love dirigido por Matthew A Cherry pode ser analisado a partir de uma perspectiva institucional Nesse sentido é possível identificar a presença da instituição familiar como o principal contexto do filme A história se desenrola em torno do pai da menina Zuri que está tentando ajudar a filha a arrumar o cabelo para um evento especial onde irá visitar sua mãe que está doente Durante a narrativa a obra destaca questões importantes como a relação entre pai e filha a diversidade e a aceitação de si mesmo Dentro do contexto familiar é possível identificar algumas forças instituintes que atuam como agentes de mudança Uma dessas forças é a própria iniciativa do pai em tentar arrumar o cabelo da filha e estreitar a relação com ela mesmo sem ter conhecimento sobre as técnicas necessárias Segundo a Análise Institucional a instituição deve ser vista como um conjunto de processos que tendem a se manter mas que ao mesmo tempo são atravessados por processos de mudança Quiroga 2011 p 374 Portanto o pai de Zuri pode ser visto como um agente instituinte que busca modificar as dinâmicas familiares tradicionais Além disso ele também é identificado como uma das forças instituintes observadas pois é demonstrada a busca por representatividade O pai de Zuri está tentando aprender a cuidar do cabelo da filha como uma forma de promover maior representatividade da cultura afroamericana Ele quer que a filha se sinta orgulhosa de sua aparência e de suas raízes o que pode ser visto como uma forma de romper com estereótipos e padrões de beleza dominantes Outra força instituinte que podemos identificar é a busca por igualdade de gênero Ao assumir a responsabilidade de cuidar do cabelo da filha o pai de Zuri desafia estereótipos de gênero e de papéis sociais tradicionais Ele mostra que é possível que os pais se envolvam de forma ativa na criação dos filhos e que as tarefas domésticas não são exclusivamente responsabilidade das mães Ademais podemos ver a busca por afeto e conexão como uma força instituinte presente no curtametragem A relação entre o pai de Zuri e a filha é permeada por afeto e carinho o que pode ser visto como uma forma de construir laços mais estreitos e significativos dentro da instituição familiar A busca por essa conexão emocional pode ser vista como uma força instituinte uma vez que busca produzir mudanças nas relações familiares Por outro lado também é possível identificar a presença de forças instituídas no curtametragem Uma dessas forças é a pressão social para que as pessoas sigam um padrão de beleza que não valoriza a diversidade étnica e capilar Como destaca Quiroga 2011 os grupos instituídos são aqueles que mantêm a instituição tal como ela é p 379 Nesse sentido o filme mostra como essa pressão pode dificultar a aceitação do próprio cabelo o que acaba limitando a liberdade individual e a expressão da identidade Posto isso outras forças instituídas que podemos observar é a pressão social em relação aos padrões de beleza Zuri se preocupa com o seu cabelo e com a sua aparência pois sabe que é avaliada pelos outros a partir desses critérios Esse tipo de pressão social já está internalizado na sociedade e pode ser visto como uma força instituída que molda as escolhas e comportamentos das pessoasOutra força instituída que podemos identificar é a divisão de papéis sociais de gênero A mãe de Zuri está ausente e isso pode ser interpretado como uma forma de reforçar a ideia de que o cuidado com os filhos e a manutenção do lar são responsabilidades exclusivas das mulheres Essa divisão de papéis sociais é uma força instituída que molda as relações familiares e que pode perpetuar desigualdades de gênero Além disso podemos ver a força instituída da hierarquia dentro da instituição familiar O pai de Zuri tem dificuldades em cuidar do cabelo da filha porque é uma tarefa que tradicionalmente é vista como responsabilidade das mães Essa hierarquia que estabelece uma divisão entre tarefas masculinas e femininas pode ser vista como uma força instituída que molda as relações familiares e as dinâmicas de poder dentro da família Em resumo a análise institucional do curtametragem Hair Love permite refletir sobre as dinâmicas presentes na instituição familiar assim como os desafios e possibilidades de transformação dessas dinâmicas A presença de forças instituintes e instituídas evidencia a complexidade dessas relações e a importância de se refletir criticamente sobre as normas e valores que orientam o comportamento dos membros da instituição Referências QUIROGA A D 2011 Análise institucional In A M B Bock O Furtado M L T Teixeira Orgs Psicologias uma introdução ao estudo de psicologia pp 371390 São Paulo Saraiva SANTOS N I S 2007 Movimento institucionalista e análise institucional no Brasil Psicologia Sociedade 191 6875