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Psicanálise
ESNS
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UNIPROJEÇAO
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UNESC
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FPP
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UEMG
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UNASP
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FAT
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CANTIGAS QUE MAMÃE ME ENSINOU Somos todos responsáveis maculados infelizes Roubamos com o ladrão cujo rosto desconhecemos matamos com o parricida a respeito de quem lemos nos jornais violentamos com o lascivo amaldiçoamos com o blasfemo Henri Troyat Firebrand The Life of Dostoevsky CHARLES Se encontrássemos Charles numa rua de nossa cidade não o tomaríamos por um matador perverso Na prisão ainda possuía ele um frescor de rosto que sentaria bem num coro de igreja Quando o vi pela última vez mal passara dos vinte e um anos mesmo então seus olhos eram azuis e inocentes parecia olharnos com uma indagação perpétua como se perguntasse por que uma cerca de aço tinha sempre de ficar entre ele e as árvores que podia ver através das grades da janela da cela Antes que Charles chegasse à prisão eu já havia lido a seu respeito nos jornais O caso provocara manchetes durante muitos dias pois se compunha dos elementos que naturalmente despertam o interesse público um rapaz uma garota bonita Não tão bonita segundo Charles um apartamento vazio um furador de gelo Num certo dia numa certa cidade segundo a imprensa uma jovem parara no saguão de um edifício de apartamentos Numa das mãos conduzia uma pasta com amostras de livros e discos religiosos na outra uma bolsa e uma vitrola portátil Hesitara perante o quadro de campainhas nas caixas postais e 7 depois tocara uma delas Não houve resposta de maneira que tocou uma segunda depois uma terceira e por fim uma quarta Finalmente com um zumbido a tranca da porta interna se abriu Ela empurroua com o ombro e ingressou num estreito vestíbulo com uma escadaria ao centro Quando começou a subir os degraus uma voz juvenil perguntou quem era Antes de chegar ao primeiro patamar viu um jovem Estava parado ao lado de uma porta parcialmente aberta olhando para ela Reconhecendo por sua juventude que não podia ser o dono da casa ela sorriu e perguntou se a mãe dele estava em casa Ele assentiu com a cabeça e depois abanou com a mão vagamente na direção do interior do apartamento Está lá dentro disse e deslocouse para um lado de maneira a ela poder passar Posso vêla perguntou a moça Claro respondeu Passe para os fundos Ela está no quarto A moça entrou dobrou à esquerda e começou a seguir um corredor No meio do caminho passou por uma pequena cozinha Perto da porta havia uma geladeira sobre seu topo de porcelana algumas ferramentas À frente dela uma porta dava para um quarto Exatamente quando cruzava o limiar escutou um ruído atrás de si Voltouse Nesse momento o rapaz atingiua na cabeça com um martelo Depois apunhaloua sessenta e nove vezes com um furador de gelo Depois jogouse sobre o cadáver e violentouo Quando Charles se levantou de cima da moça que havia matado saiu do apartamento fechando a porta atrás de si mas sem trancála e caminhou pelas ruas Era um dia claro e ensolarado de outono ideal para um passeio agradável e assim ele vagueou por uma avenida atravessou a longa ponte sobre o rio e sentouse por alguns minutos num parapeito olhando os carros e a gente passar Após algum tempo sentiu fome e deu busca nos bolsos atrás de dinheiro Encontrou uma moeda de cinco centavos Com ela numa barraquinha situada no final da ponte comprou uma casquinha de sorvete Chupandoa calmamente ficou parado na pista e com a mão livre fez sinal para os carros até que um deles se deteve e ele entrou Aonde vai perguntou o motorista Só até o outro lado da ponte respondeu Charles O que é esse negócio vermelho que você tem em cima 8 Onde No rosto e nas mãos Tem um pouco nas roupas também Charles levantou a mão e passoua pelo rosto quando a olhou ela estava com pedacinhos de sangue seco Oh falou ele andei pintando um pouco Parece que respingou em mim Riu Ao final da ponte Charles desceu agradecendo ao motorista pela carona Andou até um posto de gasolina próximo e perguntou pelo banheiro Lá dentro lavou o rosto e as mãos cuidadosamente penteou o cabelo e raspou das calças e do paletó as manchas semelhantes a ferrugem Não pôde tirar o sangue da camisa branca mas o paletó tapava as manchas vermelhas Ao sair do posto caminhou lentamente pela avenida em direção à casa No meio do caminho parou Por alguns momentos ficou olhando para o distrito policial do outro lado da rua Finalmente atravessou para a outra calçada e subiu as escadas situadas entre os pedestais com os globos verdes Dentro havia obscuridade cheiro a mofo frio Um sargento estava curvado sobre uns papéis numa escrivaninha Charles ficou de pé em silêncio do lado oposto até o policial olhar para cima Tem uma moça morta no apartamento 2B dos Apartamentos Gaylord do outro lado da rua falou Charles O policial coçou a barba Tem perguntou E como é que você sabe Porque fui eu que matei ela A mesma indiferença e monotonia emocional foram demonstradas por Charles durante os primeiros dias de sua prisão e não posso lembrarme de nada de marcante nos relatórios que a seu respeito chegaram até mim Entretanto perto do fim da primeira semana um dos médicos fêlo baixar à enfermaria cirúrgica por queixarse de dores no baixo abdômen e náuseas Três dias mais tarde seu apêndice foi retirado e assim ele era um paciente hospitalar na ocasião em que se realizou sua entrevista inicial Este exame preliminar foi feito por um colega meu de maneira que o único conhecimento que dele tenho provém de um relatório oficial preparado para os arquivos Diz o seguinte O paciente mostrouse cooperativo embora um tanto tenso durante a entrevista Responde a todas as questões prontamente mas às vezes mostra um sorriso bastante ridículo não apropriado ao conteúdo do pensi 9 mento O fluxo da fala e a atividade mental não apresentam anormalidades marcantes bloqueio ou defeitos semelhantes E emocionalmente imaturo A emoção e o estado de ânimo são às vezes apropriados mas o seu sorriso quando discute o assassinato de que é acusado não o é Emocionalmente é muito frio Seu conteúdo de pensamento não é atualmente muito claro A firma que nada sabia sobre a pessoa que matou embora posteriormente diga que deve ter sido uma insanidade temporária A princípio não quer dizer se é que foi morto era homem ou mulher e parece um tanto desconfiado do examinador depois declara que a promotoria disse ser uma mulher Pouca dúvida parece haver da maneira por que fala que sabe muito bem o que ocorreu É difícil avaliar se isto constitui prova de anormalidade mental ou se está representando Desde sua admissão ao hospital teve um certo número de tonteiras e leves crises de desmaio as quais não podem ser explicadas com base em sua operação E bem orientado O conhecimento geral e a inteligência são médios O discernimento e o julgamento são presentemente difíceis de avaliar e novos relatórios serão feitos sob a forma de Relatórios Neuropsiquiátricos de Progressos assim que outras informações se acharem disponíveis Resumindo tratase de indivíduo frio e imaturo que apresenta às vezes uma certa emoção inapropriada Pode acharse representando o papel de um indivíduo insano embora possua certas características sugestivas de demência precoce Não se pode fazer atualmente um diagnóstico definitivo Está sendo colocado sob observação por demência precoce do tipo paranóide Quando este relatório chegou à minha mesa atraiume naturalmente a atenção e solicitei ao médico que o redigira para trazer o caso à discussão em nossa próxima reunião do corpo médico Ele o fez e após alguns debates decidiuse transferir Charles da enfermaria de cirurgia para a de psiquiatria onde podia ser mantido sob vigilância chegara e constante Ali o vi diariamente e acompanhei às observações sobre o seu comportamento preparadas pelos enfermeiros e assistentes Na realidade Charles pouco assunto lhes deu para comentários durante todo o mês em que foi paciente da enfermaria Cooperava bem com os funcionários e os pacientes era cuidadoso com sua pessoa e pertences passava o tempo lendo ou trabalhando em pequenos projetos de terapia ocupacional e não se comportava diferentemente do que se esperaria de um rapaz de sua idade Por duas vezes se queixou a um dos enfermeiros de crises de tontura e uma vez esteve envolvido numa discussão sobre um jogo de damas Quando o período de observação de trinta dias terminou presumiase geralmente que visto Charles não nos haver fornecido razões para mantêlo na enfermaria psiquiátrica teríamos de darlhe alta e devolvêlo para o quadro comum Entretanto quando o assunto chegou à equipe médica nenhum de nós estava disposto a comprometerse atravez de uma opinião nítida O colega que efetuara o exame original expressou a indecisão e a confusão de todos formulandoas assim Diabos me levem se sei o que fazer com esse garoto Tudo o que tenho é uma impressão a seu respeito Enquanto estive aquí conversei com ele todos os dias mas nada lhe arranquei Ele tem um muro de um metro de espessura em torno de si Dános as respostas corretas para tudo mas elas não têm profundidade Falta algo É claro ele é esquizo chato um pouco ridículo mas talvez seja apenas um garoto com uma droga de antecedentes e um bocado de prática em manter seus pensamentos para si Às vezes nos fala sobre coisas que fariam outros sujeitos rir chorar ou demonstrar algum tipo de emoção mas ele as diz com aquele sorriso ridículo no rosto e não se pode ir mais fundo Não aduanta nem tem delírios Tudo o que possuímos é um crime perverso uma péssima história algumas tonturas que podem provir de qualquer coisa um sorriso estúpido e cândp se fala com ele a impressão de que há algo de podre em algum lugar Não podemos retêlo por causa disso Por que não podemos apenas continuar a sua observação perguntou alguém Espaço respondi E além disso segundo o regulamento temos de poder justificar a continuação da observação após trinta dias Temos de ter provas e tudo o que temos é intuição Eu penso que a intuição clínica conjunta de todos nós é justificativa suficiente comentou o que falara Deveria ser mas não é falou nosso Chefe A instituição se encontra em base de produçãodeguerra Há necessidade de todo homem aproveitável que se possa conseguir para trabalhos de fábrica ou manutenção Se vocês garotospsiquiatria não podem dar ao pessoal encarregado da custódia uma razão melhor para prolongar a observação do que uma impressão clínica teremos de darlhe alta do hospital Não podemos inventar uma razão perguntou outro médico O Chefe balançou a cabeça Não não é possível porque teríamos de tornar atrás e alterar os relatórios diários Não podemos começar a fazer esse tipo de coisa Há uma coisa que não fizemos e que devíamos fazer falou o psiquiatra que falara com Charles na entrevista inicial Todos nos voltamos para ele na expectativa Antes de deixálo passar para o quadro comum deveríamos fazer uma entrevista com o pentotal Talvez surja alguma coisa sobre que possamos deitar a mão A sugestão foi aceita imediatamente Naquela tarde enquanto todos nos curvávamos avidamente sobre a cama de lona em que ele se achava deitado o pentotal foi lentamente aplicado às veias de Charles Ficamos ouvindo enquanto contava regressivamente 100 99 98 sua voz se arrastando sonolenta enquanto continuava Depois os números começaram a tornarse indistintos numa mistura sem sentido Finalmente um ressone substituiu a voz do rapaz e ele tombou num sono de narcotizado Neste ponto meu colega fezme passar para a cadeira que ficava à cabeceira do leito Tome conta disse ele Senteime e comecei Você pode me ouvir Charles perguntei A cabeça dele moveuse num assentimento e sua garganta se contraiu com o esforço feito para forçar o ar através dos lábios secos Um lento Sim posso tornouse audível É o Dr Lindner que lhe está falando Charles disse eu Vou fazerlhe algumas perguntas Vai tentar respondêlas Vou tentar falou ele Diga apenas o que lhe vier à cabeça Dentro de um instante será mais fácil conversar Por que você está aqui Porque Porque eu eu matei ela Quem foi que você matou A moça Por que foi que você fez isso A voz Matar Matar Alguém lhe disse para matála A voz Ninguém disse Só a voz Matar Donde é que vinha a voz Ouvi a voz Não sei donde donde ela vinha Era a voz de alguém que você conhece Não Você já a ouvira antes Não O que mais lhe disse ela para fazer Nada Só matar Ela lhe disse como fazêlo Não Como foi que você fez Martelo Bati com martelo Depois o furador de gelo Quantas vezes você lhe bateu Não sei Bati milhões de vezes Bati Bati Não podia parar Bati milhões de vezes Por que foi que você parou de baterlhe O martelo caiu no chão Debaixo da moça Cheio de sangue Escorregava O que foi que você fez então Furador de gelo Por quê Não sei Vi furador de gelo Não podia parar A voz lhe disse para usar o furador de gelo Não Você ouvia a voz todo o tempo em que esteve batendo nela Ouvia Alto Matar Matar Onde foi que você a apunhalou Toda ela Algum lugar especial Seios Por que os seios Dão leite Você queria leite Não sei Quantas vezes você a apunhalou Muitas vezes Você ouvia a voz todo o tempo em que a esteve apunhalando Não Quando foi que a voz parou Não sei Parou O que foi que você fez depois de parar de apunhalála com o furador de gelo A isto Charles gemeu mas não deu resposta Um momento depois repeti a pergunta Desta vez choramingou e apareceu 13 suor em seu rosto Um dos médicos curvouse e limpou a testa do rapaz com um lenço de papel Charles suspirou Meu colega sussurroume que fizesse de novo a pergunta Você pode me ouvir Charles perguntei Seus lábios ressequidos se abriram e um sim semelhante a um suspiro saiu através deles O que foi que você fez depois de apunhalar a moça com o furador de gelo Eu Eu não sei contorceuse no catre e o rosto expressou o sofrimento de uma lembrança Não pode lembrarse perguntei Eu Eu abaixei as calcinhas dela e e pus o meu ele Aqui grandes soluços sacudiramlhe o corpo como se estivessem sendo arrancados dele através de tortura Não quer me dizer Charles continuei Assentiu lentamente com a cabeça e lambeu os lábios Eu digo falou ele Não podia achar ela o lugar e assim eu eu pus no meio no meio das pernas dela Não pôs dentro dela Não Tem certeza Tenho O relatório do encarregado do inquérito diz que ela estava rasgada Foi você quem fez isso Foi Como Com os dedos Assentiu novamente com a cabeça Porque Porque eu estava com raiva dela Ela já estava morta então não estava Para quê Estava disse Estava morta Eu eu matei ela Seu soluçar agora sacudia o catre Os dedos crispavamse sobre os lençóis Estava com raiva dela mesmo sabendo que estava morta Sim Por que estava com raiva Não podia não podia achar A vagina dela Não podia achar 14 Mas depois você a encontrou com os dedos Foi Foi a voz que lhe disse para fazer isso Não Não havia voz Você ouvira a voz antes naquele dia Não Nunca Ouviua depois Não Levantei a cabeça para os homens que estavam parados em torno do leito e perguntei se havia algo mais a ser indagado Um por um balançaram negativamente a cabeça Volteime novamente para Charles Você está cansado Charles disselhe Durma Quando acordar vai se sentir melhor De volta à sala dos médicos debatemos o que havíamos acabado de ouvir A entrevista alterara significativamente o aspecto do caso Concordamos que seria loucura enviar Charles de volta para o quadro comum embora não possuíssemos provas suficientes para mantêlo em observação psiquiátrica permanente O diagnóstico mais conveniente para este fim segundo decidimos era Psicose em remissão esquizofrenia com alucinações auditivas e tendências homicidas Partilhávamos ainda da impressão de que o rapaz já se encontrava insano na época em que o crime fora cometido Uma busca dos registros contudo revelou que fora apresentado um reconhecimento de culpabilidade e houvera uma audiência com um juiz a portas cerradas sem a presença de um júri A possibilidade de recomendarmos que o caso fosse reaberto foi ventilada mas decidimos que as provas desta entrevista isolada não seriam suficientes e de qualquer modo nossas prerrogativas não se estendiam até tão longe Finalmente concordamos que o caso exigia estudos posteriores e que o rapaz se achava em necessidade desesperada de tratamento Desde que na ocasião eu era o único que tinha uma hora terapêutica livre o caso foime atribuído Na manhã seguinte recebi Charles em meu consultório Cumprimentoume alegremente ao entrar e instalouse numa poltrona com um cigarro de que se servira do maço que se achava sobre a mesa Pergunteilhe se se recordava da entrevista da tarde anterior Lembrome de alguma coisa respondeu O médico me deu uma injeção e fiquei muito cansado Alguém esteve me 15 fazendo perguntas Quando acordei minha garganta estava irritada Fui eu quem lhe fiz as perguntas falei Lembrase sobre que assunto eram A respeito do meu crime não Sim respondi Foram a respeito do seu crime O que foi que eu lhe disse perguntou Resumi a entrevista enquanto ele escutava atentamente Quando terminei comentou Foi mais ou menos isso Você quer acrescentar algo indaguei Encolheu os ombros Acho que não há nada a acrescentar Por que não lhes contou isso na audiência Não tive oportunidade respondeu com certo sentimento O meu advogado disse que era melhor eu me confessar culpado e escapar com isso Disse que eu pegaria uma sentença leve Imagino que esteve falando com minha mãe e decidiram proceder assim A sua mãe sabia de tudo o que você nos contou ontem Sobre ouvir uma voz e coisas assim Sabia respondeu Contei para ela a maior parte Mas não a parte do estupro Fiquei intrigado Por que foi que ela não o deixou alegar insanidade se sabia a respeito perguntei Conversamos sobre isso respondeu Ela não queria publicidade É compradora para um dos grandes magazines e estava com medo de perder o emprego Queria que tudo fosse abafado Estava com medo de ver seu nome ligado ao assunto Mas os jornais escreveram a respeito Eu sei mas o senhor vê o nome dela é diferente do meu e assim ninguém a associou comigo Como é que você se sente sobre o fato de estar aqui perguntei acrescentando rapidamente Sei que parece uma pergunta imbecil porque ninguém deseja estar num lugar como este mas o que quero dizer é o seguinte você se sente à vontade aqui Charles apagou o cigarro no chão antes de responder Depois cruzou as mãos e inclinouse para a frente 16 Acho que estava maluco quando cometi o crime falou Não acho que devessem terme mandado para a penitenciária E para onde deveriam têlo mandado Para um hospital acho Por quê Pensou por um momento Bem falou talvez num hospital eu pudesse descobrir por que foi que fiz aquilo e lá me curassem de jeito a não fazer de novo Você acha que poderia fazêlo de novo Não sei Não posso dizer Imagino que poderia acontecer Se você pudesse descobrir por que foi que o fez enquanto se acha aqui gostaria disso perguntei Gostaria respondeu E se eu e você estudássemos isso juntos propus Seria ótimo Fez uma pausa e depois me olhou com seus olhos inocentes Isso me impediria de fazer de novo Poderia impedir respondi Eu gostaria Leva tempo falei Tenho tempo de sobra respondeu É suficiente dizer que um assassino nasceu num certo dia de abril num certo ano civil numa cidade do Norte Pode um destino ser triangulado Não porque as raízes vão fundo e os antigos talvez o tenham expressado melhor quando escreveram que para as pessoas como Charles a culpa se acha nas estrelas Já muito antes de Charles nascer o casamento de seus pais se deteriorara Não haviam querido um ao outro nem aos dois filhos que daquele haviam decorr ido Sob a compulsão religiosa mantiveram um semblante de harmonia por mais de dois anos mas já no primeiro mês de matrimônio ambos haviam sabido que ele não poderia durar Dessa maneira Charles e seu irmão já se achavam marcados antes do nascimento No terceiro ano de vida de Charles e o segundo do irmão uma dispensa religiosa permitiu que os genitores se separassem e a figura do pai desapareceu da vida deles Por alguns meses a mãe tentou manter o lar mas como ela própria era uma pessoa atormentada conflitada e facilmente perturbada achou a tarefa grande demais para 17 si A conselho de seu confessor as crianças foram colocadas num orfanato e por quinze anos a partir de então os dois meninos tiveram de viver em asilos e instituições Vistos de fora os lugares onde Charles passou a maior parte da vida parecem agradáveis Temse de realmente viver neles para se conhecer a verdade ou seja que para todos exceto uns poucos os assoalhos varridos as camas caprichosamente feitas os potes a reluzir nas prateleiras da dispensa e até mesmo os sorrisos das encarregadas e dos pseudopais são ornamentos de uma fachada De modo geral as crianças entregues ao cuidado desses lugares são vítimas do pauperismo emocional de seus guardiões Crescem como plantas daninhas num deserto estendendose para cá e acolá em busca de sustento deformando sua constituição natural escarnecendo do projeto original da Natureza Achamse expostas mais que as outras aos caprichos dos elementos humanos ora sufocados ao calor de sóis emocionais ora congelados sob neves desamorosas ora encharcados ora ressequidos A vida de Charles num asilo atrás do outro foi miserável e chocante quando dela se toma conhecimento Vivia em constante medo e terror e era brutalizado além de qualquer descrição No primeiro Lar um asilo religioso já à idade de quatro anos e daí por diante espancavamno impiedosamente pelas menores infrações e era obrigado a cumprir extravagantes penitências por expressar a vivacidade normal de um garotinho Supervisores que quanto mais não fosse somente pela fé deveriam ser obrigados a darlhe afeição se não amor tratavamno e a todos de que estavam encarregados como se não fosse uma criança mas uma espécie de animal Em pequenos sadismos esses governantes refletiam suas próprias frustrações e amiúde pareciam agirem seguindo ordens de atormentar as vidas a eles confiadas Sob o pretexto da piedade a existência era regimentada Antes que muito tempo decorresse Charles descobriuse encarando sua pessoa e seu ser com culpa pois pelos desvirtuados códigos e filosofias a que se achava exposto viase forçado a aceitar a idéia de que o que lhe estava acontecendo o afastamento da vida normal o abandono por parte da família era de certo modo sua própria culpa Não muito tempo se passou para que Charles envergas se a única armadura que se lhe achava disponível Após certo número de anos durante os quais fora o recipiente da brutalidade o alvo 18 de ataques sexuais e físicos o destinatário de sadismos que transformam num inferno a vida de um garotinho ele associouse em espírito com seus atormentadores O processo desta identificação começou por uma mudança nas fantasias que por tanto tempo empregara para consolarse quando à noite no dormitório cuidava de suas feridas Na análise descobrimos que estas primeiras fantasias eram heróicas na índole épicas na poesia e embora mesquinhas e lamentáveis quando vistas de tal distância achavamse adornadas com a glória que a vida só nos deixa conhecer uma vez Mas elas não eram de ajuda contra as duras realidades do seu meio ambiente Os heróis de sua mente não podiam resistir aos inquisidores da vida real nem suas espadas cintilantes eram de valia contra os bastões e as pancadas dos professores e companheiros Em suas fantasias então insinouse uma nova nota Ricardo Coração de Leão foi substituído por Gengiscã os Matadores de Dragões por Barbas Azuis e em vez de sonhos de cavalaria começou a acalentar fantasias de vingança À medida que o caráter de sua vida interior se alterava assim também se modificava Charles Crescendo nesse meio tempo e adquirindo vigor físico cedo pôde expressar o ódio vindicador que nele existia Com os menores e mais fracos comportavase como não podia fazêlo com os maiores e mais fortes Passou à frente suas dores e tornouse um atormentador deliciandose em causar sofrimento Aprendeu também a sagacidade e a astúcia e em breve achavase formado em transferir a dor de si para outrem Nas atividades sexuais onde fora outrora o alvo tornouse a flecha e sobre as formas dos outros que em vão protestavam descarregou o veneno de sua frustração Aos dez anos de idade haviase pervertido de todas as maneiras até o âmago de seu ser e sua alma já se deformara transformandose na alma de um assassino Durante esses anos enquanto Charles experimentava as modificações descritas via a mãe apenas com pouca frequência As visitas ocasionais dela em seu aniversário ou num feriado eram sempre apressadas e deixavamno com a sensação de algo incompleto não feito e não dito Sempre carregada de presentes ela provocava uma comoção pequena e alvoroçada em sua vida incolor Disseme ele Ela quando vinha era como uma princesa de contos de fadas Cheirava tão bem Mas ao mesmo tempo em que aguardava suas visitas e sonhava com ela após a partida uma parte sua a odiava também por havêlo posto 19 no purgatório de sua vida cotidiana Era isto que tornava as visitas dela os episódios incompletos que eram Queria pedirlhe para leválo com ela quando partisse mas tinha medo de pedir já conhecendo de antemão a resposta Assim quando ela ia embora era tomado de um vazio Em tais ocasiões punhase à procura de vítimas em quem pudesse se descarregar e os dados que possuo sobre sua vida mostram que todas as visitas da mãe eram seguidas por exibições de agressão Neles lemos uma narrativa de seus atos e das punições recebidas é uma história de pequenas violências prontas retribuições e longas e duras penitências Em ocasiões especiais havia visitas à casa da mãe Breves exposições à vida normal eram mais perturbadoras e destrutivas que aliviantes pois tudo o que forneciam a Charles era um gosto do que deveria ter tido e aumentavam um apetite que nas circunstâncias nunca podia ser satisfeito À idade de onze anos Charles fugiu do asilo em que na ocasião vivia Certo dia caminhando entre edifícios viu do outro lado da estrada reunidos em torno de um bonde um grupo de rapazes que saíra da escola Sem pensar juntouse a eles na confusão conseguindo não pagar a passagem Foi até o fim da linha e saiu andando por cima de trilhos ferroviários que marginavam um rio Até cair a noite ficou sentado na margem olhando os trens e sonhando com os seus destinos Quando a noite desceu reparou numa pequena fogueira escutou vozes perto dali e deixouse ir em sua direção Uns vagabundos estavam fazendo um cozido e convidaram o rapaz a partilhar dele Segundo se lembra tratavase de três homens e quando se lhes juntou eles foram cordiais e compreensivos Faloulhes sobre si mesmo e até uma hora tardia escutou suas histórias Prometeramlhe que na manhã seguinte mostrarlheiam como embarcar num trem de carga de modo a poder ir com eles para uma cidade distante Mais tarde um dos vagabundos fez surgir uma garrafa e todos beberam dela O álcool atordoou Charles e entorpeceulhe o corpo de modo que quando começaram a brincar com ele achavase semiconsciente quase paralisado Durante toda a noite os três usaram e abusaram dele Recordavase de risos e do suor mas nada dos golpes que o machucaram nem das coisas que lhe rasgaram as cavidades do corpo e o despertaram para a visão de seu próprio sangue Um guardalinha encontrou Charles e ele foi mandado para um hospital Quando se recobrou devolveramno para o asilo 20 onde foi disciplinado com severidade ainda maior que a costumeira e erigido como exemplo para a comunidade órfã Mas isto e o fato de sua aventura serviram apenas para acentuar a nova concepção do eu que estava assumindo forma duradoura nele Quando os castigos e as penitências passaram Charles emergiu da crisálida da infância como um antagonista de todos os valores No ano seguinte tornouse completamente incontrolável Vivia numa orgia perpétua de satisfação dos apetites e suas travessuras não mais eram pequenas Por fim as autoridades do Lar descobriram serem incapazes de manejar o problema de cuja criação haviam participado e escreveram para a mãe dele Ele está tendo má influência sobre as outras crianças Não podemos mais mantêlo aqui Arranjouse para Charles um lar adotivo e no início de seus treze anos foi mandado para uma fazenda a fim de viver com um casal de meiaidade cuja única recomendação à paternidade era o fato de outrora haverem criado um touro premiado Entre a idade de treze e quinze anos Charles viveu uma vida comparável à de um animal de fazenda As pessoas a quem se esperava que o rapaz agora considerasse como pais eram enfadonhas e incomunicativas Após a primeira semana quando a conversa foi necessária para demonstrar o que dele esperavam e os seus deveres as palavras raramente foram utilizadas entre Charles e o taciturno casal Grunhidos gestos uma ordem ocasional bastavam para transmitir o essencial e o essencial sempre se referia aos cem hectares delimitados por uma cerca de pedras À parte estes e as tarefas de Charles que a eles se referiam era como se o rapaz não existisse Acodado por mão pesada que lhe puxava as cobertas os dias extrênuos começavam antes do amanhecer e terminavam ao crepúsculo com a lavagem quando Charles alisava os empapados panos de cozinha sobre o parapeito da varanda traseira murmurava um boanoite e subia pelas escadas de trás para seu quarto no terceiro andar de uma velha casa de fazenda Ali no escuro deitavase na cama e esperava que o sono o dominasse de maneira que pela manhã pudesse reagir de novo ao puxar das cobertas Anos depois quando trabalhamos juntos perguntei a Charles sobre aqueles meses silentes que passara na fazenda Ficara espantado por sua passividade durante esse tempo por sua inação e por aquela curiosa aquiescência a uma disciplina de labuta 21 para a qual sua existência anterior certamente não o havia preparado Teria ele perguntei experimentado algum tipo de mudança de personalidade por volta dessa época Não se sentira solitário Em que pensara e com que sonhara durante esse período de isolamento Para estas questões Charles tinha boas respostas Não me importava muito contou porque não me sentia vivo a maior parte do tempo Me acostumei a pensar em mim como um dos cavalos e porcos que havia lá Era o que eles pareciam pensar de mim de maneira que era assim que eu também pensava Me diziam para fazer alguma coisa e eu fazia É tudo Durante todo aquele tempo não havia muita coisa na minha cabeça Não parecia me importar com nada Desde que me deixassem sozinho não me incomodassem era ótimo Eu era como um pedaço de madeira Oh é claro ficava um pouco sozinho de vez em quando Gostaria de encontrar alguns dos rapazes que conhecia ou coisa assim Mas até que fui embora imagino que andava ocupado demais durante o dia e cansado demais à noite para tentar algo Quando sonhava um pouco lembravame de coisas que haviam acontecido antes ou então pensava no que iria fazer um dia mas isto geralmente acontecia à noite quando estava caindo no sono A maneira pela qual Charles abandonou a fazenda foi incerimoniosa Aparentemente seguindo um capricho sem plano premeditado ele certa manhã simplesmente foi embora atahando pelos campos até chegar a uma rodovia onde fez parar um caminhão que o levou à cidade em que a mãe morava Quando naquela noite chegou a casa vinda do trabalho encontrouo sentado à porta Sua acolhida contoume Charles não foi muito cordial Quase imediatamente começou a fazer planos para que voltasse à fazenda e quando ele se recusou ficou zangada Não podia ficar com ele informouo não ganhava o bastante para mantêlo e além disso o apartamento era pequeno demais Ademais tinha de trabalhar e se ele ficasse em casa estaria se preocupando com ele a todo minuto pensando onde se encontraria o que estaria fazendo e a que nova travessura se estaria dedicando Não aquilo estava fora de discussão ele tinha de voltar à fazenda e se não para lá para algum outro lugar um lugar onde estivesse seguro e não agarrado nela De algum modo porém após muita discussão Charles conseguiu fazer com que ela o deixasse ficar por alguns dias Garantiulhe que não seria problema que arru 22 maria um emprego Tinha quase dezesseis anos e era grande para sua idade trabalharia e ajudaria nas despesas após poder ficar sobre os próprios pés ele se mudaria para a ACM Por favor Passouse uma semana porém antes que Charles saísse em busca de trabalho Por alguma razão não podia começar Acordava pela manhã cheio de bons propósitos preparava o desjejum da mãe arrumava o apartamento depois que ela saía e então ficava sentado todo o dia lia uns gibis escutava rádio ou saía para um passeio Certo dia apanhou uma prostituta e passou a tarde com ela Na segunda semana após sua volta ao lar Charles conseguiu emprego como mandalete no escritório local da Cruz Vermelha O emprego durou menos de três semanas Segundo uma investigação de rotina feita após ele haver sido preso o gerente do escritório recordou que deixamolo ir porque nunca se achava à mão quando era necessário Parecia estar em transe a maior parte do tempo muito vago pareceunos ser provavelmente débil mental completamente incompetente mesmo em tarefas triviais Mais uma vez sem meios Charles retomou seu modo de vida habitual até a mãe descobrir que ele havia perdido o emprego Desta vez as súplicas não lhe valeram Após uma cena lacrimosa ela telefonou para seu conselheiro religioso que imediatamente tomou medidas para que Charles fosse enviado para outro asilo Desta vez tratavase de uma instituição em que a expressão Escola Industrial anteposta a um nome de santo escondia o fato de constituir apenas uma estação intermediária para jovens de quem se esperava tornaremse criminosos se é que já não o eram Charles não teve dificuldades em adaptarse à rotina da Instituição que deveria ser seu lar pelos dois anos seguintes Agora tudo lhe era familiar Desde o instante em que pousou o pente e a escova de dentes na prateleira sobre o leito foi como se houvesse passado ali toda a vida Sem pensar deslizou mais uma vez para sua personificação costumeira de pária perverso atormentador daqueles que se encontravam abaixo dele na ordem hierárquica bajulador e apaziguador dos que se achavam acima Com olhos experimentados avaliou a situação Antes que muitos dias se houvessem passado firmouse como um machão um brutamontes um desordeiro fanfarrão de quem ninguém se podia aproveitar Fêlo através de um ato calculado para colocálo em 23 seguida dentro do círculo fechado de rapazes que soubessem disso ou não os Irmãos e as Irmãs realmente dirigia a Escola Assim foi a cena A instituição consistia em dois grandes edifícios ligados por uma passagem Um deles compreendia as salas de aula os escritórios e um ginásio interno o outro dois dormitórios uma capela duas salas para recreação os alojamentos dos Irmãos residentes e alguns quartos particulares para a elite da escola que tinha o privilégio de morar neles por causa de sua posição como monitores ou assistentes da equipe de supervisão Nesta sociedade invertida contudo a elite não se constituía dos melhores elementos da Escola mas sim dos piores e dos mais irregeneráveis Consistia como geralmente acontece em tais lugares nos durões cada um dos quais havia adquirido o direito de a ela pertencer através da demonstração de qualidades de crueldade falta de sentimentos capacidade de suportar dor perversão sexual e proficiência em todos os tipos de patifaria e desonestidade que o ambiente oferecia Era a este grupo que Charles desejava pertencer e por conseguinte elaborara planos para conseguir um convite Como todos os quartos já se achavam cheios quando ele chegara e portanto fechado o círculo interno sabia que sua única esperança consistia em deslocar alguém Por alguns dias contudo nada fez a não ser observar os poucos escolhidos friamente calculando suas possibilidades contra cada um deles de cada vez e maquinando um plano de ataque Após haver escolhido sua vítima com a intensidade e a cautela de um general de quem depende a sorte de exércitos elaborou a tática escolheu o terreno e até mesmo em imaginação ensaiou o plano até o mais insignificante pormenor Quando se convenceu de que não podia falhar agiu O local escolhido por Charles para sua estréia foi o corredor existente por baixo da passagem que unia os dois edifícios da Escola Ali havia ele descoberto a turma se reunia todos os dias após a ceia para fumar cigarros proibidos permutar os produtos de seus furtos fazer brincadeiras pesadas contar histórias indecentes e idear as intrigas que a mantinham no poder Esse corredor uma peça estreita e mal iluminada com um chão de cimento paredes caiadas e um teto tão apinhado de canos que os rapazes mais altos tinham de abaixarse para evitálos era reservado pela tradição da Escola aos donos dos quartos A ninguém 24 que não pertencesse ao círculo interno era permitido demorarse ali e as autoridades que naturalmente conheciam o emprego que lhe era dado fechavam os olhos à sua existência e concediam aprovação tácita ao que lá se passava evitando cuidadosamente o lugar durante as horas posteriores à ceia e acreditando talvez que esse era um pequeno preço a pagar pelo real serviço que o grupo prestava ao manter o resto dos internos tão bem disciplinados Quando Charles de acordo com seu plano apareceu durante a hora sagrada naquele território santo toda atividade cessou e a dúzia de ocupantes do corredor enfumaçado olhouo com hostilidade silenciosa e surpresa Nem na lembrança do mais velho dentre eles isto havia algum dia acontecido ninguém nem mesmo se atrevera a aproximarse do corredor chamavamno disse Charles de A Incubadora e invadir sua fortaleza era algo inaudito Momentaneamente apanhados fora de guarda pareceram imobilizados quando Charles se aproximou preguiçosamente do rapaz que havia escolhido como vítima Parando em sua frente ele tirou do bolso um cigarro amassado e disse Me dá o fogo O rapaz arregalou os olhos para ele Charles repetiu o pedido desta vez em voz mais alta Eu disse me dá o fogo O rapaz continuou olhandoo com os olhos muito abertos De repente Charles estendeu o braço apanhou a mão em que o rapaz estava segurando seu próprio cigarro e puxou o outro em sua direção Despertado por isto o rapaz libertouse com um movimento abrupto Veja o que está fazendo disse ele acrescentando Você não pode andar por aqui Você é o dono desta joça perguntou Charles belicosamente Agora os outros donos dos quartos já se haviam reunido em volta dos antagonistas Com sua presença o rapaz cobrou ânimo Lenta e deliberadamente deixou cair o cigarro e esmagouo com a ponta do pé antes de responder Isso mesmo falou Nós somos os donos desta joça Agora caia fora antes que você se machuque Me bota pra fora respondeu Charles deixando cair o seu próprio cigarro ainda apagado e esmagandoo com o pé à imitação do outro O rapaz passou o olhar pelos companheiros e depois voltouse para Charles Olha aqui garoto disse êle num tom que era um amálgama de desprezo e moderação você é novo aqui Não vai querer problemas Talvez não saiba ainda como portarse É melhor você cair fora antes que se machuque Me bota pra fora repetiu Charles O rapaz encolheu os ombros Tá bem disse ele se é assim que você quer É falou Charles é assim que eu quero E pulou na garganta do rapaz Suplantado pela rapidez do ataque de Charles o outro caiu ao chão Por alguns momentos estiveram engalfinhados rolando pelo solo de cimento cada um procurando apoio Mas Charles havia escolhido cuidadosamente sua vítima e mal a luta começara já terminava com o rapaz dominado o rosto voltado para baixo e os braços apertados contra os flancos entre as coxas de Charles Então mantendo a vítima bem segura Charles tirou do bolso um canivete Uma das mãos apertando a cabeça do rapaz contra o chão com a outra e os dentes abriu o canivete Rapidamente enfiou a lâmina por debaixo do colarinho da camisa do jovem e num só movimento rasgou a fazenda de cima a baixo expondolhe a carne Então enquanto os donos dos quartos olhavam horrorizados demais para intervir e sob o acompanhamento dos gritos da vítima Charles cuidadosamente gravou suas iniciais na pele do rapaz Quando acabou limpou o sangue da lâmina fechou o canivete recolocouo no bolso e pôsse de pé Agora falou enquanto tirava outro cigarro do bolso quem é que vai me dar o fogo Uma hora depois toda a Escola sabia o que havia acontecido na Incubadora No dia seguinte como por mágica Charles encontrouse alojado num quarto particular Após isso Charles subiu rapidamente no governo secreto da instituição e antes que muito tempo se passasse era o líder indispútado da Escola um ditador virtualmente sem oposição porque durante o restante de sua estada de dois anos viveu a vida de um jovem potentado Todo capricho seu era satisfeito podia gratificar quase todos os seus impulsos e até mesmo os Irmãos o temiam Durante algum tempo sua vida foi o sonho de um delinquente Por volta da metade de seus dezessete anos Charles fugiu da Escola Industrial Entediado por um ambiente que lhe oferecia todas as satisfações menos a liberdade para abandonálo embora me tenha falado sobre as muitas ocasiões em que ele e seus amigos faziam incursões pela cidade à noite voltando no dia seguinte com despojos de fumo e uísque imaginou um plano para uma fuga em massa dos donos dos quartos Os pormenores deste plano eram engenhosos mas não precisam deternos aqui Basta dizer que Charles após passar um mês como vagabundo novamente apareceu certa manhã de inverno no limiar da casa de sua mãe Desta vez a insistência dela para que retornasse a um outro Lar de nada adiantou Devido à idade dele não podia recorrer ao auxílio das autoridades para livrarse de seu fardo e Charles foi inflexível em sua recusa de mudarse Insistiu em permanecer com ela fez vagas promessas sobre encontrar um emprego e ouvidos moucos a todas as súplicas lágrimas e protestos da mãe Ela acabou por resignarse à sua presença enquanto que Charles por sua vez caiu no padrão costumeiro de existência sem objetivo pela qual aparentemente estivera ansiando todos aqueles anos Por puro tédio após acharse em casa há algumas semanas Charles candidatouse e obteve um emprego de mensageiro na Western Union Mais uma vez esse emprego mostrou ser apenas temporário Seus superiores logo se cansaram de um empregado que tomava seus deveres tão pouco a sério que nunca podia ser encontrado quando era necessário que nunca se achava plenamente lá Foi exatamente antes das doze horas do terceiro dia após haver sido despedido de seu emprego na Western Union que Charles ouviu tocar a campainha Do patamar ficou olhando a moça subir as escadas em direção à porta aberta do apartamento de sua mãe A tarefa analítica que se salientou mais nitidamente do que qualquer outra durante as primeiras semanas do tratamento de Charles foi o problema de estabelecer contato com ele Sua natureza era uma natureza infantil e insistir em que seguisse a regra básica da psicanálise ou seja que associasse livremente enquanto se achava deitado no divã era fazerlhe uma exigência impossível de ser cumprida Como uma criança ele era incapaz de seguir as instruções para comunicar as suas associações livres seus sonhos suas lembranças e seus estados de sentimento atuais Durante semanas portanto até eu compreender que a técnica ortodoxa achavase fora de questão não chegamos a nada Caracteristicamente quando chegava sua hora de terapia Charles se apresentava em meu consultório Deitavase no divã e desenrolava longos relatórios sobre suas atividades cotidianas correntes suas relações com os outros internados os insignificantes pormenores e fluxos de sua atual vida carcerária Quando tentei fazer com que relacionasse estes temas com o passado ou os examinasse mais de perto em busca de pistas para a dinâmica de sua personalidade defronteime com o que parecia ser uma barreira intransponível Parecia como se aquele jovem vivesse fora de si que sua personalidade fosse uma estrutura bidimensional a que faltasse profundidade funcionando apenas no agora Na verdade quase cheguei a esta conclusão à medida que hora sucedia a hora e o impasse persistia Em vão procurei por sinais indicadores de que nosso tempo pelo menos não estava sendo desperdiçado Nossas relações permaneceram casuais casuais demais Charles não apenas deixou de desenvolver a mais ligeira indicação de um relacionamento positivo comigo mas faltava também a reação oculta e negativa Vinha às suas horas automaticamente porque havia concordado em fazêlo mas além de emprestar sua presença física ao trato feito nele não estava envolvido de modo algum Já disse que começara a pensar em Charles e sua personalidade em termos bidimensionais Esta impressão ficou mais intensa com a passagem do tempo e levoume a considerar o abandono da terapêutica Houvesse o caso se desenvolvido dessa maneira não me surpreenderia Já havia encontrado antes gente assim pessoas sem um passado recuperável pessoas que viviam inteiramente no momento presente Muitas delas naturalmente eram débeis mentais mas a maioria se constituía de personalidades traumatizadas pessoas que haviam passado por experiências decisivas e chocantes que suas mentes num esforço para auxiliar a si próprias haviam mecanicamente isolado e muito amiúde o processo de isolamento não parara com o incidente traumatizante mas espalharase para criar uma amnésia virtual deixando a pessoa sob muitos aspectos como um indivíduo sem passado Estou certo de que o leitor conhece muitas pessoas assim São aquelas que têm grande dificuldade em lembrarse de coisas que a maioria de nós recorda sem esforço o nome dos professores da escola primária as localizações de residências passadas os pequenos e grandes eventos que as orientam no presente pelo estabelecimento da continuidade com o passado Em todos esses casos temse justificativa para presumir a existência de algum incidente traumático e decisivo seguido pela reação autopreservativa de isolamento mnemônico a que me referi Pensei por certo tempo que Charles pertencia a este grupo de pessoas traumatizadas sem passado Afinal de contas ele havia vivido o tipo de vida que qualquer um desejaria esquecer O incidente que levara à sua prisão devia certamente ser considerado como traumático apenas sob a influência do pentotal é que fora levado a falar dele e mesmo assim com evidente relutância Desse modo achavame preparado para dispensálo como resistente à terapêutica quando ocorreu um incidente que me fez alterar toda a abordagem à missão de tratar de Charles Antes de descrever o que aconteceu é necessário responder à pergunta que deve acharse na mente do leitor Por que deseja saber não utilizei a hipnose Ou a narcoanálise Certamente qualquer um destes métodos poderia ter rompido a barreira e fornecido acesso ao abundante depósito de lembranças ao inconsciente de Charles a tudo o que se estava buscando A melhor resposta que posso dar a esta pergunta a tal distância no tempo do problema é que eu tinha medo e como os acontecimentos provaram um medo justificado de empregar com o paciente qualquer técnica terapêutica que não fosse já testada e digna de confiança Não poderia na época ter formulado minhas razões tão claramente mas penso que sabia intuitivamente que forçar o cadeado naquela ocasião teria sido desastroso Lembremse que Charles fora diagnosticado como sendo psicótico esquizofrênico remisso Isto significava que sua insânia utilizo propositadamente este forte termo não técnico para impressionar o leitor com a natureza do caso que estamos examinando sua insânia era sempre potencial apenas acima do horizonte de seu comportamento com probabilidades de reaparecer a qualquer momento sem aviso Não podia permitirme correr este risco o risco de precipitar a psicose o qual se acha implícito no emprego da hipnose em prépsicóticos psicóticos incipientes ou psicóticos remissos temporariamente estabilizados A hipnose bem como os diversos métodos que empregam narcóticos para induzir a hipnose é amiúde um instrumento demasiadamente agudo às vezes penetra no inconsciente com rapidez demasiada para ser seguro Em tais ocasiões e particularmente com o quase psicótico ela draga os recessos ocultos da mente antes que o paciente se ache preparado para receber e digerir o que é trazido à superfície Confrontar um ego despreparado com esse conteúdo inconsciente pode em tais casos transtornar o precário equilíbrio da mente Não com Charles era melhor ir lentamente ou então não ir O incidente que alterou todo o quadro e me permitiu continuar a tratar de Charles foi pequeno e sob outros aspectos insignificante Durante o período sobre o qual estou escrevendo Charles achavase alojado na enfermaria psiquiátrica Fora designado como pacienteassistente com o objetivo de mantêlo ocupado ao mesmo tempo em que se assegurava que ele ficaria sob observação constante por parte da equipe de psiquiatria Seus deveres eram domésticos na maioria mas exigiase também dele que assistisse os enfermeiros e ajudasse os outros pacientes Uma das coisas que lhe fora pedido para fazer e que fazia bem era auxiliar nas atividades recreativas da enfermaria Às tardes portanto Charles disputava jogos com os pacientes psiquiátricos que podiam andar organizando e dirigindo torneios de damas xadrez bridge construção de modelos e o que mais fosse utilizado para diversão dos hospitalizados Esta atribuição adaptavase perfeitamente ao temperamento de Charles é natural estar sempre jogando algo combinava bem com sua natureza infantil Se se podia dizer de alguém que amava seu trabalho esse alguém era Charles Quando a custódia do armário de jogos lhe era concedida irradiava prazer e nenhum herói já aceitou uma medalha mais orgulhosamente do que Charles a chave daquele armário das mãos de nosso AssistenteChefe Certo fim de tarde eu me preparava para ir embora Como de costume antes de sair para passar a noite fora fiz uma ronda final uma inspeção apressada e casual da enfermaria a fim de satisfazerme de que tudo estava como deveria ser Por alguma razão achavame apressado naquele entardecer de modo que mal notei Charles ajoelhado diante do armário aberto de jogos quando penetrei na unidade de segurança do serviço psiquiátrico uma série de peças separadas do resto da enfermaria por uma forte porta de vidro e aço Ao voltar porém tive a atenção momentaneamente atraída pelos sons provindos de Charles ainda no chão diante do armário Curioso detiveme olhei e escutei Sobre o ombro do rapaz podia ver que ele havia disposto três ou quatro peças de xadrez lembrome do rei da rainha e de uma ou duas outras peças Por trás delas arranjara peças de damas em três lados de um quadrado e nesse recinto junto com as peças de xadrez havia colocado diversos artigos provenientes de outros jogos que se achavam guardados no armário Enquanto eu olhava movimentava as peças de xadrez com o acompanhamento de ruídos e sons que presumi serem conversas em vozes de tom diferente embora não pudesse escutar o que era dito Por alguns momentos fiquei olhando Charles naquela ocupação divertido e mentalmente comparandoo com minha filha de dois anos de idade a quem amiúde vira a fazer a mesma coisa Então algum movimento ou ruído involuntário atraiu minha presença ao rapaz Ele voltouse e viume parado ali Segundo me lembro levou um certo tempo para me reconhecer Quando isso se deu corou e depois sorriu Oi doutor disse ele Indo para casa Assenti com a cabeça Quando é que o senhor vai me levar junto Tratavase de uma convenção estabelecida entre nós à qual deveria responder como o fiz Quando crescer cabelo na cabeça do Diretor Como de costume ambos rimos Depois perguntei apontando para as coisas dispostas no chão O que é isso Um jogo novo Neca respondeu ele Estava apenas arrumando as coisas e comecei a brincar com elas Brincar como Deu uma batida leve com a ponta do pé no rei e este caiu de rosto no chão Oh falou Fingindo que eram gente que eu conheço e isto o pé indicou o arranjo trilateral de damas isto é a casa onde moram Tem um cigarro aí Dei um cigarro a Charles e ambos nos desejamos boanoite Foi somente quando dirigia o carro de volta a casa que o significado daquele incidente chegou até mim Era claro Aquela 31 era a maneira de estabelecer contato com o rapaz Técnica dos jogos psicanálise pelo brinquedo Tratar uma criança como uma criança Como pudera ser tão obtuso Foi difícil esperar até o dia seguinte Chegada a manhã precipiteime para um magazine barato e lá comprei quase tudo o que havia à vista no balcão dos brinquedos bonecas armas miniaturas de carros conjuntos de mobília animais tintas massa de modelar tudo o que encontrei e que pudesse ser utilizado para o que planejara fazer Quando cheguei ao consultório ignorando tudo o mais mandei chamar Charles Naquele dia começou sua análise Não há necessidade de contar novamente os pormenores do método que utilizei para sondar o inconsciente de Charles e apresentar seu tratamento porque Charles afinal de contas não era uma criança Naturalmente tive de transigir com a técnica ortodoxa da terapia pelo brinquedo Em vez de seguirlhe as regras tive de improvisar à medida que progredíamos tocar de ouvido por assim dizer Em conseqüência minhas notas sobre o caso assemelhamse às peças de um quebracabeça fazem sentido apenas quando reunidas mas sob outros aspectos consistem em observações fortuitas do comportamento de meu paciente fragmentos de sua história tal como surgia através de nossas discussões depois e na ocasião de sua manipulação dos brinquedos reconstruções de acontecimentos significantes em sua vida e das atitudes que os acompanhavam tal como eram inferidas das ações dele em nossas sessões bem como diversos apontamentos concernentes ao relacionamento sempre cambiante que existia entre Charles e eu à medida que ele transferia seus sentimentos para mim o seu terapeuta Uma das primeiras realizações importantes do método que agora utilizávamos para analisar Charles foi a descoberta da natureza bilateral de seus sentimentos sobre a mãe Na época em que chegamos a este ponto eu conseguiria extrair as grandes linhas da história que já delineara Havíamos debatido a rejeição de Charles por ela e ele expressara tanto por projeção nos brinquedos quanto em seu comportamento para comigo um considerável ressentimento e hostilidade que a sistemática recusa da mãe em permitir que o rapaz vivesse com ela havia engendrado Ele estava gradativamente começando a compreender que esta rejeição inspirara grande parte de seu comportamento agressivo passado e por alguns dias havíamos estado ocupados em esta 32 belecer a correspondência quase unívoca entre as experiências de rejeição por parte da mãe ou dos substitutos dela que seus vários ambientes haviam provido e a longa série de atos agressivos e às vezes perversos que elas inspiravam Um desenho em que Charles trabalhava durante uma de nossas sessões forneceume a oportunidade de confrontálo pela primeira vez com o lado oposto de sua atitude para com a mãe e abrir o assunto que Charles estivera evitando desde que começáramos o nosso trabalho O desenho não era mais que um rascunho Retratava um edifício bastante grande encimado por uma cruz um gramado em frente ao prédio e o que presumi ser um muro circundando o conjunto Enquanto Charles trabalhava nele conversamos Representava disse um dos Lares em que vivera quando tinha cerca de nove anos de idade Tal como se recordava esse lugar era uma instituição sombria e deprimente A vida lá informou era árdua principalmente por ser o estabelecimento dirigido por membros de uma ordem religiosa que se notabilizava por sua rigidez A disciplina era dura e cruel Uma nota apaixonada insinuouse em sua voz enquanto relatava algumas das penitências que fora forçado a sofrer por pequenas infrações de normas e os açoites que lhe eram administrados por violações de disciplina No meio do relato arrancou o papel da prancha de desenho e arremessouo ao solo Que se dane aquela espelunca exclamou Apanhei do chão o papel e examineio Já terminou perguntei Terminei respondeu Charles Nem quero pensar naquele lugar de novo Era uma bosta Continuei a examinar o desenho Está incompleto comentei É claro que está concordou Charles Deixei fora uma porção de coisas Passeilhe o desenho O que foi que você deixou fora Perguntei Ele enumerou uma lista de pormenores que havia omitido E o portão indaguei O asilo não tinha um portão É claro que tinha respondeu Charles Só que eu nunca o usei Recolocou o desenho na prancha Olhe aqui continuou Vou lhe mostrar 33 Por alguns minutos ficou ocupado com seus craions Enquanto trabalhava dava risadinhas e ao me entregar o desenho acabado riu alto Era assim que realmente era falou Inspecionei o desenho revisto para descobrir por que Charles se divertira tanto e depois caí na risada junto com ele a fim de mostrarlhe que apreciara a piada O que fizera fora transformar o desenho numa caricatura surpreendentemente sutil Com poucos traços introduzira no desenho um pesado portão provido de grandes dobradiças e um cadeado gigantesco e acima do muro esboçara a figura de um rapaz planando com asas angelicais por cima da barreira sorrindo extaticamente e atirando beijos Acho que me mandei daquele lugar uma dúzia de vezes comentou Foram tantas que uma das Irmãs disse que eu devia ter asas Para onde você ia quando fugia perguntei Pra casa naturalmente Para a casa de sua mãe você quer dizer É claro Pra onde mais Não sei respondi mas não é meio estranho que você continuasse voltando para lá Especialmente quando ela nunca deixava você ficar muito tempo e sempre o mandava de volta O riso desapareceu do rosto de Charles Foi substituído por aquele olhar taciturno que eu começara a identificar como sinal de seu afastamento para regiões do eu que ainda se achavam cerradas para mim Para onde mais poderia ir perguntou O que é que um garoto de nove anos pode fazer Morrer de fome É exatamente isso repliquei Você sabia que ela não o deixaria ficar em casa quando chegasse e sabia que tinha de ir lá Sabia também que o puniriam quando voltasse Por que então insistia em fugir vez após vez Acho disse Charles acho que eu sempre esperava que fosse diferente Diferente como Apanhou um pouco de massa de modelar e começou a rolála entre as palmas das mãos Quando falou de novo sua voz estava mais suave do que eu jamais a ouvira Me lembro que eu costumava sonhar sobre como seria falou Pensava todas as vezes que daquela vez eu chegaria lá e ela me pediria para ficar ficar com ela Talvez eu fosse à escola como os outros garotos Notei então que as mãos dele estavam paradas e os olhos embaçados enquanto um pequeno e amargo semisorriso bailavalhe nos lábios Como os outros garotos continuou a devaneaar garotos que moram em casas Interrompeuse novamente Depois chegava mesmo a pensar que ela me levaria a uma loja e me compraria coisas coisas que eu poderia experimentar Fiquei intrigado Experimentar repeti É disse ele Experimentar Riu e o tom meditativo desapareceu Sabe falou agora olhando para mim eu nunca experimentei uma só maldita coisa em minha vida Nunca tive uma oportunidade de escolher algo e ver se servia Não é engraçado Não acho que seja engraçado comentei Não não acho que seja respondeu e depois filosoficamente Os garotos deveriam ter oportunidade de experimentar coisas Se não conseguem fazer isso a coisa de alguma maneira nunca parece pertencerlhes Nunca senti que uma só maldita coisa fosse minha nada me pertencia Sempre me senti como se a estivesse tomando emprestada Ela trazia coisas para o asilo sapatos calças camisas todo o tipo de porcarias e eu ficava com elas Quando ela ia embora eu as botava Se sentava em mim tudo bem mas raramente sentava de modo que eu tinha de conseguir alguém para arrumálas ou então usálas como eram Às vezes eu as trocava com alguém por outra coisa algo que me sentasse melhor Fez uma pausa Essa sensação falou após um momento de silêncio essa sensação de que nada é da gente é horrível Esta é a primeira vez que penso sobre ela É importante doutor Acho que é respondi Faleme mais a respeito Bem continuou ele é difícil exprimir o que quero dizer Se o que se tem Quero dizer se se sente que nada nos pertence então talvez não se saiba quem se é Quero dizer ése sempre uma outra pessoa usando uma indumentária numa peça 28 Especialmente se for como acontecia comigo O senhor vê eu nunca tive nada que pudesse dizerme quem eu era Mesmo a minha cama não era minha Eu era apenas um nome Compreende o que quero dizer Acho que sim respondi Mas saberse quem se é não vem das coisas Charles Vem de dentro de nós mesmos Mas como é que vai parar lá dentro indagou ele Isso surge respondi Uma pessoa consegue o seu senso do eu em suas relações com os outros Quando é pequena e desamparada tomam conta dela Primeiro ela sente que é parte deles e depois Eu sei interrompeume Charles Eu escuto as palestras que vocês médicos dão aos assistentes Referiase às palestras de higiene mental através das quais a equipe psiquiátrica doutrinava o pessoal Mas comigo era diferente Eu não podia descobrir a respeito de mim desde dentro porque ela se livrou de mim depressa demais Assim tive de fazer com que as coisas que as coisas me dissessem quem eu era e concluiu amargamente e não consegui nem mesmo isso Fiquei espantado confesso pela perspicácia psicológica que aquele ingénuo rapaz revelou naquele dia Evidentemente ele estava com a razão Sem o saber havia dado em cheio numa psicodinâmica importante não apenas no seu mas também em outros casos numa causa fundamental para a delinquência e o distúrbio mental Estivera para dizêlo mais claramente traçando e definindo o sentido de alienação tão predominante em nossa sociedade e indiretamente fixando uma razão para o grosseiro materialismo de que todos os observadores falam como sendo a maldição dos tempos modernos Rejeitado seja realmente como ele o fora seja por atitudes paternas de negligência autopreocupação temor ou ansiedade ou por outro lado apreensivamente dominado de maneira demasiado chegada por genitores emocionalmente famintos o ego infantil nunca consegue uma identidade independente ou aquele emergente sentido do eu que é necessário para a maturidade individual e social É então forçado a procurar o eu no exterior nas coisas que servem de ponto de referência E isto é algo de trágico tanto para a pessoa quanto para o mundo No caso de Charles a tragédia ainda se compunha pela ausência em sua vida das coisas pelas quais poderia vir a conhecerse Tornouse assim para todos os fins 36 sem ego um indivíduo sem uma identidade isolada e daí uma criatura não uma pessoa Seu papel por assim dizer nunca foi estável deslocavase de momento a momento à medida que pressões instintivas e exigências sociais ausente a mediação normalmente fornecida por um eu equilibrante lutavam pela dominância na ação Não é de admirar pois que fosse psicótico porque mas além de todas as sutilezas técnicas a psicose é aquele estado em que o ego desapareceu em que a identidade se perdeu como é tão bem ilustrado pela preponderância não tão divertida de Napoleões e Cristos em nossas instituições psiquiátricas A chave para a terapia de Charles portanto tinha de ser provêlo de um ego doutra maneira acharseia condenado a permanecer sendo um robô cuja sanidade só lhe poderia ser imposta por controles autoritários por rigorosos artifícios externos de contenção os quais sabemos não serem dignos de confiança Charles me fornecerá como desde então aprendi todos os pacientes o fazem a pista para o seu tratamento e a primeira percepção de vulto que até então obtivera da dinâmica inconsciente de seu distúrbio Muitas outras sabia eu restavam a ser isoladas Num certo sentido a sessão que descrevi constituirá um desvio um desvio produtivo certamente e me encontrava ávido por retornar ao material que havíamos começado a desenvolver ao material relacionado à sua atitude ambivalente para com a mãe Foi somente alguns dias depois contudo que a técnica de jogos empregada me forneceu a oportunidade buscada para desenvolver ainda mais esse tema Meu paciente recordome estava construindo um modelo de barco e falando a respeito de uma excursão que algum Serviço Auxiliar de Senhoras havia arranjado para as crianças do asilo Estava satirizando essas matronas com uma boa porção de humor mas também com certa malícia No meio do relato enquanto estendia a mão para alcançar um pote de cola que estava amolecendo sobre um bico de Bunsen derrubou o pote e o conteúdo gosmento espalhouse sobre a minha mesa Desculpandose rapidamente limpou com um pano a sujeira e retornou à sua tarefa e à história que estava contando Mal começara a falar quando notei que havia deixado de limpar uma pequena superfície de cola e chamei sua atenção para isso Irritado pôs de lado as ferramentas passou o pano no lugar que eu indicara e arremessou o esfregão em minha direção com uma exclamação de repugnância 37 Deus Bendito blasfemou o senhor me dá náuseas igualzinho à minha mãe Ora não posso dizer ao leitor por que tomei a palavra náuseas num sentido literal por que razão não preferi entendêla idiomaticamente como expressão comum de irritação O único instrumento com que o analista trabalha é o seu próprio inconsciente Através dele compreende o inconsciente de seu paciente Chamemno intuição se quiserem ou telepatia ou qualquer coisa que desejarem mas permanece o fato de que o analista quando está trabalhando corretamente e bem achase de alguma maneira sintonizado com o inconsciente do paciente e com o seu próprio compreende o que está acontecendo na outra pessoa Neste caso suponho que poderia traçar as razões porque soube imediatamente que a palavra náuseas devia ser tomada de modo literal e não figurativamente mas estas razões são segundos pensamentos e delas não me achava ciente na ocasião Charles estivera falando sobre a excursão que fora a primeira e única vez em sua vida em que se encontrara a bordo de um barco Mencionou algo sobre enjôo Depois caricaturou as matronas do Serviço Auxiliar Falou desdenhosamente de seu cheiro de fêmea de seus grandes bustos e de suas maneiras oficiosas e afobadas Um momento depois derrubou o pote de cola Talvez estes elementos menos importantes de sua conversa condensados em ação significante quando me arremessou o esfregão me tenham levado a perguntar A sua mãe realmente o deixava com náuseas Charles hesitou Pensando nisso falou eu ficava sempre um pouco nauseado quando a via Nauseado como No estômago Como se fosse vomitar O que é que você acha que o fazia sentirse assim Deu de ombros Não sei Talvez fosse excitação ou algo desse tipo Ou talvez fosse o modo pelo qual ela cheirava Novamente experimentei aquele curioso pulo do inconsciente que Reik chama de surpresa aquela reação semelhante a um choque dentro do analista que indica uma sintonia perfeita Enjôo cheiro de mulher pote de cola esfregão todos eles assumiam seu lugar numa configuração tornandome possível con 38 jeturar a história que Charles agora estava começando a contar ainda não contudo os seus pormenores mas nos delineamentos e sobretudos psicológicos Sempre começou ele Sempre quando pensava na mãe Charles sentiase um pouco enjoado não doente de verdade nauseado era uma palavra melhor Era como se algo profundo dentro dele algo indescritível mas real estivesse lentamente se virando Tinha esta sensação com as outras mulheres também quando pensava nelas Era como se em vez de simplesmente pensar nelas olhar para elas ou até mesmo ficar perto delas ele houvesse engolido uma coisa viva que se contorcese e se virasse em seus órgãos Agora já era uma sensação familiar algo a ser esperado na presença de mulheres mas a cada vez que aparecia consideravaa com um mista de nojo e perplexidade No limiar de sua mente na ponta da língua dizia ele podia identificála como uma sensação conhecida mas ela permanecia esquivamente inominada A primeira vez em que Charles a sentira fora em seu nono aniversário Aqui o leitor recordaráseá de que quando começamos a estudar seu relacionamento com a mãe Charles retornou a seu nono ano de vida no desenho do asilo em que vivia naquela época Os rapazes estavam brincando no pátio quando uma das Irmãs o chamou para dizerlhe que a mãe havia chegado Poucos minutos mais tarde achavase de pé diante dela o rosto corado e as faces com a sensação de estarem marcadas a fogo pelo sinal de suas mãos enluvadas no local em que as pegara enquanto lhe beijava os lábios os sentidos oprimidos pelo doce perfume e a espressa suavidade do casaco de peles que ela usava Enquanto lhe dizia que viera para leválo para casa durante o Natal sentiu pela primeira vez a pequena e doentia convulsão dentro de si e por um momento pensou que ia vomitar Por causa disso não se atreveu a falar até que se encontrarem no táxi e aquela coisa dentro dele haverse acalmado Embora Charles soubesse que passara outras férias de Natal em casa com a mãe que transformara em costume alternar as visitas de férias dos dois meninos de maneira a nunca se acharem com ela ao mesmo tempo aquele feriado próximo de seu nono aniversário era o primeiro de que podia lembrarse integralmente Tinha muitas coisas a assinalálo 39 O apartamento em que sua mãe agora vivia era o mesmo que ocupava naqueles dias remotos Pouco havia mudado nos anos intermediários de modo que agora quando Charles reconstruía na terapia esses acontecimentos reprimidos podia movimentarse na memória por entre pontos de referência familiares Havia a sala de estar com cortinas alegres e saídas de gás imitando toros de lenha na lareira o saguão atapetado com a cozinha brilhando alvemente a um lado e depois depois o quarto dormir da mãe com seus odores e suas suavidades as gavetas da cômoda cheias de segredos femininos que de certa maneira ele tinha medo até de imaginar os misteriosos frascos e vidros no toucador espelhado sempre pintalgado de róseos flocos de pó a arca sob a janela coberta por um xale e almofadas coloridas e no meio do quarto a cama com a colcha de fresco cetim sobre o qual adorava passar as pontas dos dedos Quando a mãe saía para trabalhar e Charles já lavara e enxugara os pratos do primeiro almoço amiúde ia nas pontas dos pés até o vestíbulo e ficava parado na ponta do quarto de dormir dela Por alguma razão desconhecida sempre esperava encontrar alguém lá Todas as vezes surpreso por descobrilo vazio e nunca acreditando que suas ações não estavam sendo observadas olhava debaixo dos móveis dobrava a colcha e espiava para baixo da cama abria a porta do banheiro e procurava atrás da cortina do chuveiro Seguro de estar realmente sozinho arrojavase finalmente sobre a cama Deitado ali com o rosto apertado no vão entre os dois travesseiros a náusea começava O que se remexia dentro dele parecia crescer e com o crescimento girar cada vez mais rapidamente até ele ficar estonteado e fraco Então abruptamente aquilo cessava e dentro de um momento o seu eu parecia dissolverse Agora se sentia como a flutuar numa nuvem perfumada exausto mas revigorado enquanto o ruído do seu próprio ofegar e as batidas de seu sangue se acalmavam Logo se levantava e cuidadosamente alisava a colcha de cetim Havia outra razão para lembrarse desse feriado próximo ao seu novo aniversário Na véspera de Ano Novo daquele ano sua mãe havia dado uma festa Disseralhe que os amigos dela chegariam tarde e que naquela noite ele teria de dormir na cama dela em vez de fazêlo no sofá da sala Após o banho ele deitouse entre os lençóis e observoua vestirse partilhando da sua 40 excitação evidente Mas quando ela o deixou porém não pôde dormir A curiosa náusea precedida pelo pensamento de que em alguma ocasião da noite ela voltaria e partilharia o leito com ele enchia Charles de pânico e fêlo abandonar a cama pela arca Sentado nas almofadas e encolhendose de frio combateu o sono escutando os sons alegres que vinham da sala contígua e olhando fixamente para a linha iluminada em baixo da porta Após uma hora ou mais o frio e a sonolência venceram sua agitação e ele cambaleou até a cama como se estivesse em transe Perto da manhã no meio de um sono tépido e sem sonhos Charles sentiuse levantado por fortes braços Sonolentamente abriu os olhos e viu um rosto que nunca esqueceria embora nunca o lembrasse inteiramente Havia uma voz também e risos como se proviessem de uma certa distância Pela manhã contudo havia apenas a mais vaga lembrança perdida sem recobro mas apoquentadoramente persistente enquanto ele contemplava do sofá da sala de estar os copos esvaziados e os cinzeiros cheios de pontas de cigarros Sabia sem o saber que a porta situada por trás dele a porta do quarto de sua mãe estava trancada Tudo mudou para Charles após essa visita Quando retornou para o asilo era como se uma força nova e ingovernável habitasse seu corpo Um demônio o possuía disseram as Irmãs Não havia regra que não rompesse com um bravio e desdenhoso desprezo pelas consequências Parecia mesmo deleitarse com os castigos e penitências que se tornaram a sua sina diária Desafiadamente curvavase ante a vara de açoitar e não havia ninguém nem mesmo as Irmãs que ficasse mais tempo ajoelhado no chão Certa vez desmaiou na Capela quando lhe tiraram a roupa um chuveiro de pedras e vidro partido caiu de suas calças abombachadas e o tecido teve de ser rasgado para poder ser retirado de suas pernas ensanguentadas Foi nessa época também que com carvão e um alfinete dolorosamente tatuou as palavras PURO AMOR nos dedos uma letra em cada dedo logo abaixo das juntas Cada vez mais à medida que os dias passavam sondávamos ainda mais fundo na estrutura deformada do relacionamento de Charles consigo próprio e com o mundo desemaranhando os fios de suas preocupações incestuosas e identificando a significação delas como força dinâmica em sua vida Como diante de uma maré inexorável sua repressão cedia e as lembranças que se havia exaurido para negar surgiam à superfície da consciência Às vezes nossas reuniões eram tempestuosas e ocasionalmente tive um vislumbre da violência que havia naquele rapaz Para mim era como olhar para dentro de um profundo poço onde animais bravos e famintos uivassem por libertação Na maior parte das vezes contudo o tipo de terapia que utilizávamos parecia drenar sua agressão ou pelo menos desviála porque durante todos esses longos meses e particularmente nesta época Charles foi tratável e brando em sua vida carcerária Para os pacientes da enfermaria mostrava grande consideração até mesmo ternura Um tanto isolado de outras companhias por causa de sua juventude travou não obstante algumas relações com quem passava as horas de descanso Em nossas sessões porém dava vazão ao ódio acumulado tanto sobre os objetos que manipulava quanto sobre mim O meu consultório tornouse uma desordem à medida que jarros eram entornados tintas eram derramadas bonecos eram quebrados e brinquedos eram destruídos por acidente Quanto a mim tombavamme sobre a cabeça torrentes de injúrias O papel do terapeuta escreveu o Dr Suttie não é o papel técnico do médico e nem mesmo o semelhante a Deus do genitor perfeito É muito mais o da vítima sacrifical sobre quem todos os ódios ansiedades e desconfianças são elaborados de maneira que é o mediador o catalisador pelo qual a psique desmembrada é reintegrada em sua sociedade Assim todas as privações que Charles havia conhecido eram agora vertidas sobre mim e em nossas reuniões diárias fluía uma torrente contínua de queixas culpa e acusação alimentada por correntes vindas do passado Não apenas para liberar sua agressividade mas também para testar minha paciência e sim o meu amor Charles destruía quase todo objeto que eu trazia para o nosso trabalho Se eu demonstrasse o mais ligeiro traço de irritação ou impaciência rapidamente lançava mão dele censuravame por isso acusavame de deslealdade falta de compreensão e uma dezena de outros crimes de sentimento contra ele Progressivamente como eu quase continuamente exercia a tolerância a aceitação o perdão e a compreensão o seu teste destas qualidades tornouse mais severo Uma após outra arranjava pequenas experiências para mim e sempre com o canto dos olhos vigiavame atentamente pronto a saltar se eu de alguma maneira por palavras ou gestos 42 demonstrasse a mais vaga e fugidia alteração numa atitude de completa aquiescência em tudo o que lhe concernia Assim a tensão entre mim e Charles cresceu até uma sessão em que a última barreira de seu mais profundo e íntimo segredo tombou Como é habitual um incidente alheio detinha a chave do inconsciente No hospital da prisão durante a última guerra o Encarregado de Dia tinha a seu cargo muitos deveres Após os assuntos de rotina de noite terminarem ele geralmente se retirava para os alojamentos do ED no convés de cima do hospital para ler ou escrever cartas até a hora de deitar Visto acharse de serviço durante a noite quase o seu último ato antes de recolherse era retirar a caixa de drogas da farmácia entregar os hipnóticos sedativos e medicamentos necessários aos postos de enfermagem devidos em cada convés enquanto fazia a ronda final e conferir o registro de drogas com o conteúdo da caixa ao chegar a seu alojamento Após isso e até passar o serviço no dia seguinte a caixa um formidável cofre de metal nunca saia de sua vista seu precioso conteúdo achavase em grande procura naturalmente e a guarda da caixa era uma pesada responsabilidade para todos nós Por volta das dez horas de uma noite em que eu era o Encarregado de Dia retirei o cofre de drogas do refrigerador situado na farmácia e comecei minha ronda A caminho da Enfermaria A passei por um grupo de pacientes parados junto à Mesa de Admissões do Hospital Estavam empenhados naquela cansativa e infindável conversa com que homens confinados substituem a vida social de que estão privados batepapo e fuxicos entremeados com sexo No grupo achavase Charles que me olhou de maneira amistosamente curiosa quando disse boanoite aos homens e passei A meio caminho da porta da Enfermaria escutei passos atrás de mim Vireime e esperei por Charles Algo errado perguntei Sorriu lentamente Não respondeu Quer fazer a ronda comigo indaguei Assentiu com a cabeça e pôsse a meu lado Após um momento estendeu as mãos Deixe que eu carrego a caixa para o senhor falou A regra de que a caixa nunca deve ser confiada a um paciente passoume pela cabeça e estive a ponto de recusar mas 43 quase ao mesmo tempo refleti que Charles muito provavelmente estava tentando desculparse por algumas coisas que havia dito em nossa sessão daquele dia e recusar sua oferta daquele pequeno serviço seria interpretada pelo rapaz como uma contraagressão Obrigado respondi e entregueilhe a caixa Na Enfermaria A fiz a ronda assinei os gráficos e prepareime para entregar de modo costumeiro as drogas necessárias ao enfermeiro da noite A meu pedido Charles colocou o cofre sobre a mesa à minha frente Ficou observando o procedimento muito atentamente enquanto eu abria a caixa com uma chave do chaveiro do Encarregado de Dia Remexendo nela e fazendo as entregas necessárias deime conta nele de uma tensão crescente e logo podia sentir realmente sua excitação enquanto se curvava sobre meu ombro Quando fechei a caixa o som nítido e sibilante de sua respiração despertoume a atenção e olhei para ele indagadoramente Percebendo meu olhar sorriu de modo apaziguador Quando me pus de pé levantou a caixa da mesa e apertoua estreitamente contra si Juntos deixamos a enfermaria e fomos em direção ao andar seguinte Na Enfermaria B repetiuse o mesmo desempenho Charles olhava fascinado enquanto eu procedia aos trabalhos de rotina Nunca tirou os olhos da caixa e quando a tranquei apoderouse dela de modo convulso e possessivo Os pacientes da Enfermaria C eram de tipo especial lá confinados voluntariamente para fins de uma experiência médica Não exigiam a atenção do Encarregado de Dia cujo único dever em relação a eles era a conferência dos gráficos de temperatura Por conseguinte assinei as papeletas que o enfermeiro me apresentou à inspeção e levanteime para partir Charles que estivera esperando de pé silenciosamente com uma das mãos sobre a caixa onde a havia posto perguntou quando me ergui Não quer a caixa Não respondi Estes rapazes não precisam de nada Não vai nem mesmo abrir ela indagou Para quê Bem Hesitou um tanto insatisfatoriamente Pensei que o senhor poderia querer algo dela 44 Foi somente então que o examinei mais de perto Seus olhos estavam brilhantes o rosto repuxado e todo seu corpo tremia Há alguma coisa com você Charles perguntei Balançou a cabeça Não foi sua resposta Talvez deva ir para a cama sugeri Parece cansado Estou bem respondeu Charles Estendi a mão para a caixa de drogas É melhor que me devolva falei Terminarei isto sozinho Charles literalmente arrancou a caixa da minha mão Não por favor implorou Me deixe ir com o senhor A Enfermaria D era a última e mais demorada parada na rotina do Encarregado de Dia Aqui eram mantidos os pacientes de cirurgia e tanto o trabalho dos gráficos quanto a distribuição de drogas tomavam um tempo considerável Após efetuar uma verificação dos pacientes leito por leito e quarto por quarto senteime à mesa do Posto de Enfermagem sob uma lâmpada de haste curva cuidadosamente abrigada por tiras de papel mataborrão verde Já passava bem das dez horas então e tudo estava silencioso como somente um hospital de prisão pode ser O silêncio era pesado soturnamente rompido apenas por uma tosse ocasional ou pelo gemido de alguém a sofrer enquanto que em segundo plano num ameaçador subtom elevavase e descia a respiração de dois milhares de prisioneiros No círculo de luz lançado pela lâmpada nós três o enfermeiro vestido de branco Charles em seu xuarte de prisioneiro e eu em meu uniforme compúnhamos um quadro fantástico e kafkiano O enfermeiro e eu falávamos em tom baixo enquanto trabalhava nos papéis que se achavam à minha frente Charles ficou parado ao lado olhando fixamente para a caixa aberta da qual os brilhantes lampejos dos frascos cápsulas e caixas de pílulas de cores variegadas refletiamse em seu rosto Absorvido em meu trabalho a princípio prestei pouca atenção ao movimento paulatino da mão direita de Charles enquanto ela se esgueirava como uma coisa viva em direção à caixa aberta Foi somente quando os dedos já haviam trepado pelos lados e toda a mão desaparecera no cofre que o movimento se registrou em minha mente 45 Charles Ele pareceu não ouvir meu chamado brusco A mão permaneceu na caixa em que toda sua atenção estava fixada As linhas de seu rosto e corpo achavamse rígidas Agarreilhe o pulso A pele estava viscosa com um suor frio e oleoso A mão contraiuse espasmodicamente quando a puxei para fora da caixa e depois pude sentir toda a sua estrutura relaxarse como se algum encanto se houvesse rompido pelo meu toque Que diabos está fazendo perguntei Nada respondeu ele Estava apenas tentando ver o que tem na caixa Eu estava intrigado e zangado Você sabe o que há na caixa respondi e sabe também que não deve brincar com ela Desculpe disse ele Acho acho que esqueci Ainda zangado bati com a tampa da caixa tranqueia reuni meus pertences inclusive o cofre e encaminheime na direção da escada que levava da Enfermaria D aos alojamentos do Encarregado de Dia À hora em que comecei a subir para o convés de cima e meu quarto minha ira cedera lugar à curiosidade sobre o que acontecera Tão absorvido me achava em meus pensamentos que não ouvi os passos de Charles atrás de mim até parar no último patamar mexendo no chaveiro para encontrar a chave das grades que ficavam no topo das escadas Assim que abri a grade Charles chamoume pelo nome e vireime para descobrilo parado exatamente atrás de mim Agora contudo não o enfrentei com ira ou curiosidade mas com medo Veiome subitamente à idéia que nos achávamos completamente sozinhos numa parte do hospital proibida a todos exceto aos membros da equipe médica Atrás e abaixo de nós estendiase uma longa escadaria à frente ficava o corredor não iluminado que terminava no apartamento do Encarregado de Dia Ordinariamente esta situação não inspiraria medo mas Charles afinal de contas era um psicótico potencial perigoso o seu comportamento na hora que passara fora muito inusitado e minhas relações com ele por ora pelo menos eram altamente equívocas Mais que isso o seu aspecto já seria suficiente para despertar apreensão nas circunstâncias mais comuns O suor perlavalhe todo o rosto a respiração era rápida e pouco profunda seus lábios estavam secos e a pele se encontrava repuxada em linhas tesas sugerindo uma tensão extrema Olhando para ele minhas vísceras se contraíram mas encareio com o que achei ser um modo apaziguadoramente casual Hoje sei que para alguém menos excitado do que Charles se achava naquele momento o meu susto teria sido evidente O que é que você quer perguntei A língua lhe adejou sobre os lábios ressequidos Olhando para o cofre que eu carregava estendeu a mão Numa voz trêmula e esganiçada falou A caixa Me dê a caixa Por quê Quero ver o que tem nela Mas você sabe o que tem nela respondi São apenas remédios para pessoas doentes Eu quero ela disse ele e movimentouse em minha direção Recuei segurando a caixa atrás de mim pela alça existente em sua tampa Você não pode falei Você sabe que não me é permitido entregála a você Mas eu tenho que pegar nela disse Charles Tolamente perguntei de novo Por quê Para ver o que tem dentro Você já viu Não tudo Não até o fundo Por favor Como as últimas palavras foram proferidas num tom situado entre a lastimosa premência de uma súplica e uma ordem fiquei tranquilo quanto à minha segurança momentânea Minha própria mente liberada do medo que se apoderara de mim ao ver e ouvir aquele rapaz evidentemente transtornado podia agora fazer planos para encontrar uma saída daquela situação inepta Fui em sua direção e coloqueilhe a mão livre no ombro O tremor de seu corpo pareceu aquietarse ao toque de minha mão repousando em sua camisa empapada Charles disse eu suavemente por que não vai se deitar Você não está se sentindo bem e já é tarde Conversaremos sobre a caixa amanhã Pela primeira vez ele ergueu os olhos e fitou os meus O senhor não compreende doutor falou Eu tenho de ver o que tem nessa caixa O que é que você pensa que tem nela indaguei É isso respondeu ele implorando Eu não sei Alguma coisa Não sei o quê Se eu lhe mostrar o que há na caixa você irá para seu alojamento Avidamente ele reagiu à pergunta O senhor me deixa ver tudo Claro falei Venha Vamos para onde haja luz Com isto comecei a descer novamente as escadas em direção à Enfermaria D movimentandome rápido agudamente ciente da presença de Charles atrás de mim Na mesa do Posto de Enfermagem dentro do círculo de luz formado pelo abajur da lâmpada abri a caixa e retirei dela tudo o que continha tubos frascos caixas seringas agulhas cápsulas grampos pilulas vidros Depois consciente do espanto silencioso do enfermeiro entreguei a caixa a Charles Ele a pegou passou o olhar pelo cofre agora vazio depois pela mostra sobre a mesa e finalmente olhou para mim Lentamente e com alívio baixou a caixa Obrigado sussurrou e saiu rapidamente O sono que consegui dormir naquela noite foi perturbado O comportamento de Charles me desconcertara e intrigara As questões que me formulava não podiam ser respondidas e cada uma delas conduzia a mais uma dúzia Do que se tratava O que Charles esperava encontrar na caixa O que provocara a sua excitação Andara certo em permitirlhe examinar a caixa Em deixálo ir embora Deveria ter notificado o guarda de serviço no alojamento de Charles que ele estava agindo de modo estranho Deveria têlo enviado novamente para o hospital Estaria ele realmente psicótico de novo O que significava aquilo O quê O quê O quê Quanto mais pensava mais as perguntas se multiplicavam Cansadamente resigneime a esperar que o dia trouxesse as suas respostas Charles apresentouse prontamente para sua sessão comigo na manhã seguinte Antes que chegasse eu preparara a cena para a entrevista removendo tudo de cima da minha mesa retirando e fechando no armário todos os materiais que havíamos estado utilizando na terapia e despegando das paredes onde se achavam presos com fita durex os desenhos e esboços que ele fizera nas últimas semanas Obtive também permissão para esvaziar a caixa de drogas de seu conteúdo habitual e agora tanto ela quanto à chave de seu cadeado se achavam sobre a mesa diretamente embaixo de uma forte lâmpada Quando Charles apareceu achavase lúcido e calmo Sorriu à guisa de saudação e foi diretamente para sua cadeira ao lado da mesa Uma vez sentado apanhou a chave e brincou com ela por um longo minuto Depois olhou para mim interrogativamente Assenti com a cabeça Sem uma palavra abriu a caixa Uma por uma sorrindo retirou as coisas que eu lá pusera em lugar das drogas e remédios uma pistola em miniatura uma faca uma bonequinha algumas moedas tudo o que eu podia pensar se capaz de iniciar uma sequência associativa Seu divertimento era patente quando disse Não não é nenhum destes Então o que é perguntei Desta vez ele permaneceu silente por tanto tempo que comecei a duvidar de minha capacidade de conter a curiosidade que se estivera acumulando dentro de mim desde a noite anterior Por fim ele disse É gozado pra burro Na noite passada poderia ter jurado que estava na caixa Jurado que o que estava na caixa perguntei no que deve ter sido uma voz desesperadamente ansiosa cheia de exasperação O anel respondeu ele Que anel O anel de casamento de minha mãe Numa visita à mãe pouco após haver completado os treze anos de idade Charles descobrira a arca e o anel Os pormenores desta descoberta e suas consequências haviam sido severamente reprimidas desde o crime e possivelmente as teríamos perdido na análise se não houvesse o incidente com a caixa de drogas Agora entretanto ele podia me falar a respeito e examinar sua significação dinâmica Sem esforço lembrouse da manhã após sua volta à casa para a visita de aniversário quando ausente a mãe e terminadas as pequenas tarefas matutinas ele se entediou com seu gibi e decidiu dar um passeio Ao abrir a porta do armário do saguão para apanhar o paletó o espelho interno refletiu a arca coberta de almofadas do quarto de dormir Repentinamente ela lhe pareceu misteriosa e cheia de segredos e cruzoulhe a mente o pensamento de que sempre quiser investigar seu conteúdo Deixando o paletó cair ao chão foi até a arca e ajoelhouse a seu lado Impacientemente mas com a sensação de estar a ponto de violar algum acordo secreto que celebrara consigo próprio jogou para o lado as almofadas e levantou os fechos de bronze Remexou no cadeado mas este se recusou a abrir Levantandose foi até à cozinha e tirou de uma gaveta um martelo e uma faca Quando o fez notou que as mãos lhe tremiam e sentiu novamente aquela curiosa reviravolta em suas entranhas Ajoelhandose diante da arca Charles martelou e forçou a fechadura até o fecho finalmente tombar Com as duas mãos levantou a tampa que rangia Um aroma composto de perfumes esvaneicidos cânfora e coisas antigas postas de lado elevouse até às suas narinas e um momento de tontura forçouo a cerrar os olhos Quando os abriu viu que a parte interna da arca dividiase em duas camadas A camada superior era constituída de caixas cada uma delas com sua própria tampa o todo coberto por um tecido azul em que pequenos ramos de flores brancas e vermelhas haviam sido impressas Uma após a outra levantou as tampas das caixas Dentro de uma havia papéis e envelopes um pacote de cartas seguras por um atilho de elástico grosso mas ressequido e algumas fotografias desmaiadas de gente que Charles nunca vira Outra gaveta maior que o resto continha roupa de cama dobrada e uma certa metragem de um tecido diáfano Na terceira havia uma caixa de metal Intrigado por um som tintilante quando a levantou Charles colocoua no chão a seu lado Uma mexida apressada na camada inferior da arca revelou apenas roupas cobertores e sapatos Charles voltou então a atenção para a caixa de metal Não havia fecho visível e sua impaciência cresceu enquanto ele apertava e mexia por toda a superfície Quase se decidira a arrombála com as ferramentas quando observou um lugar ao longo do fundo em que os cantos não se juntavam Cuidadosamente removeu um painel revelando o verdadeiro fundo da caixa Numa depressão encontrou a chave para a fechadura Precipitadamente inseriua e abriu a caixa Dentro havia um rolo de cédulas e uma pilha de moedas Entre estas brilhavam alguns pregadores uma fieira de pérolas um broche de ouro maciço e um anel de casamento cravejado de pequenos diamantes Às pressas sentindose como se estivesse sendo vigiado Charles tirou uma nota de dez dólares e enfioua no bolso Depois fechou a caixa e passoulhe a chave Recolocandoa cuidadosamente no lugar abaixou a tampa da arca e arrumou novamente as almofadas Passou aquela tarde no cinema Todos os dias até retornar ao asilo Charles sondou cada vez mais os segredos da arca Estudou as fotografias até conhecêlas de memória atribuindo nomes aos rostos e inventando biografias para cada um deles O conteúdo das cartas que leu com dificuldade intrigouo eram difíceis de entender e os nomes existentes nelas não tinham significado para ele Finalmente porém foi por elas informado de uma verdade chocante seu pai não estava morto como a mãe dissera a Charles e ao irmão Em vez disso o homem olvidado havia partido tinhase casado de novo e agora noutra cidade vivia com a família de seu segundo casamento Lentamente Charles reconstituiu a história O casamento de sua mãe com aquele homem esquecido fora infeliz desde o começo Devido às diferenças religiosas o divórcio fora fácil de obter A mãe então aparentemente seguiria o conselho que Charles lera numa das cartas Você deve viver como se ele estivesse morto porque está realmente morto no que concerne a você e às crianças Sempre antes de cerrar a arca por aquele dia Charles retornava à caixa de metal que deixava para o fim do ritual de suas investigações De alguma forma ela lhe parecia representar o coração vivo daquele quarto Nunca podia nem mesmo tocála sem sentir os pulsos se acelerarem e o inconfórtavel começo daquela familiar sensação de náusea Era ainda pior com o anel de casamento Quando pela primeira vez o segurou pareceu queimarlhe a carne enquanto que debaixo de seus pés o assoalho se movia e sentia nos ouvidos o som de ondas a romperse No último dia de sua visita ele o carregou no bolso seguro na mão suada até a hora de chamar a mãe para que o levasse de volta ao asilo Ao guardálo de novo apanhou em seu lugar outra nota de dez dólares Entre o seu décimo terceiro aniversário e o verão daquele ano a mãe de Charles foi chamada ao orfanato onde lhe disseram que ele teria de ir para outro lugar Foilhe informado que Charles não podia mais ser controlado e que se temia que sua presença fosse prejudicial ao bemestar moral e espiritual dos outros meninos Talvez ele se sentisse melhor disseram numa fazenda Seriam necessários alguns dias para efetuar os arranjos necessários entrementes a mãe teria de leválo porque a instituição havia atingido os limites de sua paciência O táxi parou para deixar Charles e sua mala na casa da mãe Ela tinha de voltar ao serviço e chegaria mais tarde A arca o esperava Apressadamente Charles começou a viver o sonho que acalentara nas noites e dias passados Sem deterse para observar que a caixa de metal não mais continha dinheiro estendeu a mão para o anel de casamento Segurandoo levantouse caminhou até o toucador e depositouo cuidadosamente sobre o tampo espelhado Depois despiuse Nervosamente puxou os botões da camisa os fechos da roupa de baixo e os laços dos sapatos Ficou de pé nu A coisa dentro dele revolviase com rapidez e em sua cabeça fervia um líquido espesso Apanhou o anel nas mãos e nele um após outro enfiou todos os dedos Depois colocou o anel na boca passando a língua por dentro de seu aro Por fim apertouo contra o sexo desperto e fremente Durante os quase dois anos que Charles passou na fazenda os seus pensamentos amiúde se voltavam para o anel e a arca A imagem do círculo de ouro obsedavalhe os dias assoberbados de trabalho e as noites em que o pesado devaneio precedia o sono Invadialhe os sonhos era o obbligato visual a tudo o que fazia E fora ela a visão que lhe acenara naquele dia em que como um sonâmbulo atravessara o capinzal até a estrada e abandonara a fazenda para sempre Seu primeiro ato na manhã seguinte à chegada a casa fora repetir a experiência que sua memória armazena a experiência que agora se havia tornado nuclear em sua vida e cada dia pelo menos uma vez com frequência muitas vezes repetia a cerimônia até ela fixarse como um ritual Ele não sabia quão potente o rito secreto do anel se lhe havia tornado até o dia em que colocou em ação um plano imaginado durante as horas ociosas de sua primeira semana em casa vindo da fazenda Por sete dias pouco mais ou menos após seu retorno ao lar prepararase para essa aventura através do furto de pequenas somas da bolsa da mãe Quando acumulou cerca de cinco dólares saiu certo dia de casa pouco após o meiodia e dirigiuse para a parte da cidade conhecida como A Zona Ali em ambos os lados da rua por uns quinhentos metros aproximadamente os botequins e os inferninhos mesmo naquela 52 hora literalmente balançavam de atividade Os luminosos de néon competiam pela atenção e nos sombrios e frescos recessos dos bares vagabundos os destroços humanos de uma grande cidade reuniamse para preparar suas ilusões contra a noite inevitável Num destes bares de cujo nome e localização Charles se lembrava por causa de uma gabolice de um rapaz mais idoso foi que entrou Assumindo uma confiança que não sentia a despeito da cuidadosa escolha de roupas destinada a fazêlo parecer mais velho que seus quinze anos de idade sentouse a um balcão e ordenou uma cerveja O empregado passou o olhar por ele casualmente ou não se apercebera da juventude de Charles ou o lugar não se preocupava particularmente com a lei e serviulhe o que pedira O fato de não o mandarem sair por causa da idade animou Charles e após tomar um gole da bebida fez seu banquinho girar para examinar o recinto Numa mesa separada perto do fundo viu uma mulher sozinha Ela estava sem chapéu e havia jogado sobre os ombros um casaco curto de peles Seus dedos brincavam com um copo curto e vazio em que os olhos dela pareciam acharse hipnoticamente fixados Charles ficou olhando para ela até que sua cabeça se ergueu e ela devolveulhe o olhar Logo sorriu e fezlhe sinal com o dedo Tremendo por dentro mas cuidadosamente controlado Charles conduziu seu copo até onde ela se achava sentada Senta aí broto falou a mulher Charles sentouse Me paga um drinque ordenou ela Charles fez sinal para uma garçonete engoliu sua cerveja e empurrou os dois copos para a borda da mesa Enquanto esperavam pelas bebidas Charles e a mulher examinaramse cuidadosamente Após um momento ela disse Relaxe Não há por que ficar nervoso Não estou nervoso respondeu Charles enxugando às escondidas nas calças as palmas das mãos suadas Quanto é que você tem perguntou a mulher Uns cinco dólares respondeu ele Deixa eu ver ordenou ela Charles colocou o dinheiro sobre a mesa Havia cinco notas amarrotadas e algum troco A mulher apanhou as notas e colo 53 couas na bolsa enquanto a garçonete punha as bebidas na frente deles e descontava o preço das moedas que se achavam sobre a mesa Saúde disse a mulher e esvaziou o uísque do copo Depois falou Vamos Charles seguiua até a rua Sem uma só vez voltarse para ver se ele estava atrás dela percorreu rapidamente dois quarteirões até uma casa de cômodos situada num beco paralelo à Zona Subiu dois lances de escada virou num vestíbulo sombrio e abriu uma porta Somente então parou e esperou por ele Dentro do quarto a mulher jogou o casaco sobre uma cadeira chutou fora os sapatos acendeu um cigarro e sentouse na beira de uma cama por fazer Seus olhos percorreram a figura esbelta do rapaz enquanto ele ficava acanhadamente parado ao lado da única cadeira existente no quarto Quando após alguns minutos de silêncio a mulher compreendeu que ele muito provavelmente permaneceria mudo e petrificado a menos que ela comesse sorriu E a sua primeira vez não é broto Charles assentiu com a cabeça Bem falou ela foi bom que você pegou a mim e não algum bagulho velho Venha aqui Charles foi até o leito lenta e nervosamente e ficou parado ao lado dela com as mãos pendendo inertes aos lados do corpo Enquanto o fazia ela pôsse de pé e com um movimento rápido puxou o vestido por cima da cabeça Por baixo dele estava completamente nua Era a primeira vez que Charles via uma mulher nua Lentamente seus olhos vaguearam sobre as formas dela enquanto os pulsos lhe batiam e os poros de sua pele se abriam inundandolhe o corpo de suor Me toque disse ela Mas ele permaneceu imobilizado Venha falou a mulher apanhandolhe as mãos úmidas e guiandoas sobre os seus seios Assim Vamos Não fique com medo Então abruptamente ela jogouse de costa sobre a cama Agora tire a roupa falou Às pressas o rapaz despiuse Nu tremendo e nauseado deixouse cair ao lado dela Os olhos da mulher percorreramno 54 profissionalmente enquanto estalava a língua divertida por sua aflição indefesa Você vai me fazer realmente dar duro por aquele tutu não é broto falou ela enquanto estendia as mãos para ele Após um quarto de hora a mulher suspirou e sentouse Diabos me levem falou Você está apavorado demais Acendeu um cigarro e estendeu a mão para o vestido que atirara sobre a cama Volte noutra ocasião Espere gritou Charles Por favor Ainda não Pulou da cama e começou a remexer nas roupas Finalmente encontrou o que estava procurando Com uma das mãos puxou o vestido para fora do alcance dela enquanto com a outra a empurrava de volta para o leito Ponha isto falou com a voz desesperada pela necessidade enquanto apertava o anel contra a mão dela Está bem respondeu a mulher mas por quê Por favor implorou ele Intrigada a mulher enfiou o anel num dos dedos e levantouo a fim de que a luz da janela incidisse sobre as pequenas pedras Olhou para o anel rapidamente e depois seus olhos voltaramse para Charles Essa não falou Com a restauração de toda a história do anel removeramse as últimas barreiras da repressão Tornavase possível agora reconstituir o terrível crime que Charles havia cometido entender sua inexorável lógica inconsciente e compreendêlhe a motivação oculta Do ponto de vista da terapia de Charles achávamonos finalmente de posse de todos os fatos de sua história e havíamos explorado sua personalidade até as camadas mais profundas Esse rapaz orfanado rejeitado e destituído representava um claro exemplo de completa deformação pessoal resultante da negação a uma criança de tudo que ela exige para o seu crescimento psicológico A frustração total de suas necessidades afetivas mais profundas produzirá um indivíduo emocionalmente faminto Os horríveis fatos da vida em instituições e orfanatos atuando sobre a distorção original dada à sua personalidade compuseram a deformação básica de caratere sobre essas fundações apodrecidas adicionaramse camadas e mais camadas de outras distorções até ele tornarse na adolescência um verda 55 deiro monstro que só podia encontrar satisfação para seus instintos e necessidades através da violência da perversão e da destruição Com referência ao crime propriamente dito era evidente que a vítima visada e psicologicamente a real do assassinato não fora a infeliz moça que Charles matara Ela constituía apenas uma substituta a espectadora desafortunada e inocente de um drama de incesto e matricídio cujas origens distanciavamse quase duas décadas da ocasião em que a última cena foi representada Se precisarmos de outras provas de que ao matar e violentar a moça Charles estava simbolicamente destruindo e possuindo a mãe essas provas sãonos supridas pelos acontecimentos que precederam imediatamente o crime Naquela manhã Charles acordara tarde Sentiase disse ele meio vago e pesado Três dias antes havia perdido o emprego na Western Union e achavase atualmente sem dinheiro Antes de ir dormir na noite anterior tentara imaginar um plano de conseguir dinheiropara procurar uma prostituta Cada esquema imaginado porém envolvia empenhar o precioso anel o que à luz da experiência anterior não constituía uma boa solução Sem o anel muito provavelmente ficaria impotente Mas que outra fonte de meios havia O dilema atormentarao até tombar num sono inquieto e afligido por sonhos Ao levantarse naquela manhã fatídica Charles tentara abrir a arca quase antes de acharse inteiramente acordado Por alguma razão inexplicável o fecho havia encrencado Forcejou nele até seus dedos ficarem machucados Vestindose às pressas foi até o porão pedir emprestado ao zelador um martelo e um furador de gelo Colocaraos sobre o refrigerador na cozinha pensando em usálos após completar a toalete e comer o desjejum A campainha da porta tocara quando ele saía do banheiro Daquele momento em diante fora como se uma nuvem escura e redemoinhante lhe houvesse envolvido os sentidos uma nuvem atravessada por uma voz que lhe ordenava Matar matar matar Nunca pude identificar a voz que concitara Charles ao assassinato embora a tenha conhecido pessoalmente pouco após o incidente da caixa de drogas A hora foi meia hora depois do meiodia de um claro dia de setembro Junto com os outros membros da equipe médica eu estava almoçando no Refeitório dos Administradores quando 56 um telefonema urgente do hospital interrompeume a refeição O assistente à mesa informoume que Charles acabara de se apresentar perguntando por onde eu andava e pedindo para me ver imediatamente O rapaz parecia segundo o assistente como se algo estivesse terrivelmente mal de maneira que o encaminhei para seu consultório e disselhe para esperar pelo senhor A caminho do hospital fiquei imaginando o que poderia andar mal com o meu paciente Já o vira antes naquele dia e não me lembrava de nada fora do comum a respeito de nossa sessão Na realidade estivéramos elaborando um material bastante inócuo e tudo o que registrara sobre ela fora um certo desapontamento de que nossas últimas reuniões houvessem sido relativamente improdutivas Desde as dramáticas e importantes revelações das semanas anteriores Charles andava um tanto apático Inclinavame a interpretar este intervalo monótono como devido a uma acalmia natural até mesmo esperada Um período de quiescência e recuperação segue necessariamente cada ponto alto da terapia Isto permite à personalidade assimilar suas novas percepções e reorientarse de acordo com elas eu sentia que Charles se encontrava agora em tal fase intermediária Na verdade pensei enquanto me apressava em direção ao hospital havia mesmo explorado esse período para fortalecer os vínculos transferenciais entre o rapaz e eu próprio Como sabia que a ferida de seu passado tinha de ser curada que ele precisava sentirse querido apreciado e até mesmo amado antes de poder recuperar um senso de identidade fundamental à reconstrução de sua personalidade eu fora mais do que normalmente permissivo com ele Aumentara as responsabilidades de seu trabalho concederalhe acesso livre ao armário em que os materiais de seu tratamento se achavam guardados e relaxara em geral toda a atmosfera em que ele vivia e trabalhava Não podia imaginar o que haveria surgido para perturbar essa calma Quando passei pela mesa situada na entrada do hospital reparei que o assistente havia deixado seu posto O funcionário encarregado da custódia única pessoa de serviço em todo o edifício àquela hora cochilava confortavelmente a um canto com as pernas jogadas sobre uma mesa e a boca escancarada Enquanto subia as escadas para o meu consultório do segundo andar recordome de haver pensado de passagem na calma do hospital mergulhado como se achava numa letargia pósprandial que du 57 raria pelo menos outra meia hora Nenhum som se ouvia exceto o ruído remoto de uma máquina de escrever e o distante murmúrio de vozes proveniente da multidão de homens a fazer sua refeição da metade do dia no gigantesco refeitório do edifício principal Na porta do consultório detiveme e olhei para dentro Ali sentado na borda do catre estava Charles Nunca me esquecerei do espetáculo que apresentava Suas mãos agarravam o colchão de couro preto como se sua vida dependesse disso Os olhos se achavam fechados e apertados enquanto lágrimas lhes escorriam dentre as pálpebras A boca estava cerrada sobre os dentes apertados através dos quais saíam ruídos e gemidos incompreensíveis O rosto achavase retorcido pela agonia e vermelho como uma beterraba O suor manchara sua camisa de zuarte em grandes nódoas escuras As pernas e os pés estavam crispados e todo seu corpo parecia tremer Fui até ele e fiquei parado no pequeno espaço existente entre o catre e a minha mesa Suavemente chameio pelo nome Não houve reação Ele parecia estar lutando consigo próprio travando uma batalha interna Curveime mais a fim de ouvir se possível os sons que proferia entre gemidos animais e soluços imensos consegui compreender as palavras Não não e Não faça Não faça Escutei por um momento e depois pus a mão em seu ombro Charles chamei Charles o que é que há Não houve resposta nem sinal de que me houvesse ouvido Aproximeime mais curvandome até meu rosto ficar no mesmo nível do dele Tentei de novo Charles Charles Repentinamente o telefone de minha mesa tocou Como se eletrizado pelo som os olhos de Charles se abriram e seu corpo enrijeceuse Depois com um pulo que me arrojou de costas sobre a mesa caiu em cima de mim Senti suas mãos rodearemme o pescoço e vi como num pesadelo louco seus olhos flamejantes e sua boca vermelha e aberta enquanto me soavam nos ouvidos os gritos agudos e arrepiante Matar matar matar abafando o soar frenético do telefone Enquanto tentava arrancar suas mãos de meu pescoço o universo girou Uma dor aguda perfuroume os pulmões e tudo em minha cabeça explodiu Então desmaiei 58 Despertei alguns minutos mais tarde Achavame no chão e alguém me segurava a cabeça em seu colo enquanto tentava forçar um líquido aromático através de meus lábios inchados A sala estava cheia de gente médicos assistentes guardas pacientes da enfermaria Sentado numa cadeira com dois corpulentos enfermeiros vigiandoo um lençol enrolado em volta do torso e os braços manietados atrás de si estava Charles Estava sorrindo pedindo desculpas Uma semana se passou antes que eu pudesse falar mais alto que um murmúrio Durante esse tempo tive muitas conversas com Charles Descobri também o que acontecera após eu haver desmaiado e antes de voltar a mim Parece que o assistente à mesa ao pé das escadas ao retornar ao posto que deixara para executar uma vaga missão recordouse subitamente que me havia chamado para ver Charles Telefonou para o refeitório e soube que eu já havia saído de lá Temendo ser acusado de abandono de serviço telefonou então para meu consultório Quando não obteve resposta sentindo que havia algo errado despertou o guarda que cochilava e juntos precipitaramse escada acima Os gritos de Charles eram audíveis do saguão Ambos disseram que tiveram dificuldade para fazêlo soltar as mãos de minha garganta Quanto a Charles agiu como se nada houvesse acontecido Quando fui vêlo na cela nua em que agora era mantido conversou aberta e francamente sobre o incidente Com apenas a mais vaga sugestão de pesar ou justificação na voz relatou como o ataque assim o chamava lhe viera Com naturalidade contoume como estivera sentado no refeitório entre os companheiros quando uma grande agitação interna se apoderara de seu corpo Todos os ruídos e movimentos pareceram diminuir e sentiuse como se alguma força o estivesse isolando do mundo ao seu redor Com esta sensação veiolhe uma vaga de horror uma espécie de encolhimento interno dos órgãos quando num relâmpago reconheceu esse complexo de sensações como semelhante ao que experimentara antes da execução de seu crime Quase cego pelas emoções que agora o engolfavam saiu correndo do refeitório com algum remanescente do instinto autopreservativo concitandoo a procurarme para resistir às forças que se tornavam mais tumultuosas à medida que os segundos passavam Tornouse mais distante enquanto cambaleava na direção do hospital sentindo literalmente os laços que o uniam à realidade 59 retesandose até o ponto de rompimento Na ocasião em que chegou ao consultório e sentouse no catre achavase completamente separado do mundo expelido do seu ambiente e sem se dar conta de nada exceto de uma voz em sua cabeça que num crescendo proferia sua ordem odiosa Charles não se dera conta de minha presença até o telefone tocar Momentaneamente aquilo rompeu o encanto mas então Acho que toquei com a mão em seu ombro Pareceume um seio de mulher Fiquei excitado Então a voz tomou conta Tudo o que queria era botar as mãos em volta de um pescoço Não podia conterme É tudo de que me lembro Perdi Charles como paciente algumas semanas após o episódio ocorrido em meu consultório As autoridades insistiram em sua transferência para um hospital psiquiátrico governamental por ser pessoa extremamente perigosa e necessitada de contínua supervisão psiquiátrica e custódia Soube depois que Charles fora removido de um lugar para outro no decorrer dos últimos doze anos Ainda não possui um lar ainda não o querem em parte alguma ainda é um estranho em todo lugar Recordome de seu sorriso lento e da expressão intrigada de seus olhos suaves 60 CASO CHARLES narcisismo e identificação Por meio do acompanhamento clínico de Charles paciente atendido em enquadre psicanalítico é possível realizar uma análise que se entrelaça aos conceitos de narcisismo e identificação garantindo um entendimento relativo ao funcionamento psíquico que parte de comportamentos do paciente além de proporcionar meios de intervenção que favoreçam a elaboração dessas dinâmicas Por isso aplicar as contribuições de clássicos da psicanálise no estudo se mostram de grande valia para o entendimento clínico relativo as vivências de Charles O conceito de narcisismo é destacado por Freud 1914 p87 como O narcisismo primário que supomos nas crianças e que contém uma das premissas de nossas teorias sobre a libido é mais difícil de apreender pela observação direta do que de comprovar através de uma inferência retrospectiva feita a partir de outro ponto No caso exposto ocorre a incorporação da identificação negativa quando Charles incorpora aspecto ameaçador do objeto causando náuseas e enjoo como também por meio de identificação por traços quando aplica elementos percebidos como uma imagem invasiva variando entre a submissão e ataque Tais questões sobre a identificação dificultam a diferenciação entre o eu e o outro contribuindo para a instabilidade de sua autoimagem Para Freud a identificação assumiu progressivamente o valor central que faz dela mais do que um mecanismo psicológico entre outros a operação pela qual o sujeito humano se constitui 2008 p 227 Sobre o narcisismo Freud o descreve como uma etapa do desenvolvimento onde o sujeito investe libido em si próprio construindo autoestima unidade do eu e amorpróprio No caso em questão é possível observar um eu fragilizado oscilando entre sentimentos de inadequação e superioridade O modo como ele apresenta suas relações com figuras significativas proporciona uma visão sobre o seu investimento libidinal e o retorno repetitivo do eu Notase ainda que as experiências internas ameaçam sua estabilidade narcísica Essas defesas indicam que o narcisismo primário de Charles não pôde ser suficientemente transformado em narcisismo secundário estável conforme apontam Laplanche e Pontalis 2001 p9 resultando em uma identidade que se mantém dependente da confirmação do outro para se sustentar A fragilidade narcísica emerge como elemento central de seus conflitos manifestandose nos momentos em que o paciente se sente rejeitado inferior ou desautorizado produzindo um retraimento emocional que funciona como proteção diante do risco de perda do amor do objeto Além do exposto a identificação é definida como um processo psíquico onde o sujeito traz características definidas por incorporação de características de outra pessoa tornando assim um mecanismo fundamental na formação do eu No caso de Charles isso aparece como um processo de fragilidade e defensivo especialmente na dificuldade de construir relações entre o eu e o outro Suas náuseas também representam o funcionamento da identificação negativa refletindo na forma como manipula os objetos do analista No caso é possível observar a predominância desse investimento narcísico principalmente quando o mesmo relata sensações corporais de repulsa diante de figuras femininas principalmente de sua mãe causando a substituição da relação em contradizer por um fechamento defensivo direcionado ao eu O enjoo nesse caso transmite não somente questões fisiológicas mas expressa um conflito entre objeto materno cuja presença parece ameaçar sua integridade narcísica Outrossim tal relação é articulada com um mecanismo de defesa narcísico como a questão do isolamento recusa e tendência ao ideal de autonomia absoluta Um ser humano permanece narcisista em certa medida mesmo depois de ter encontrado objetos externos para a sua libido Freud 1921 p92 Sendo assim o narcisismo surge como uma defesa de perturbações vindas do objeto falas como engolido vivo emergem como uma fantasia do inconsciente reforçando a percepção dessas circunstâncias em situações de diferenciação entre o eu e o outro Na clínica Charles demonstra a relação entre o narcisismo e a identificação Visto que o narcisismo funciona como uma defesa contra um outro invasivo afastando a consolidação Trabalhar sem interpretações intrusivas garantiu que Charles iniciasse um processo de simbolização de suas próprias experiências Por fim ao analisar o caso é possível entender a articulação de conceitos estudados onde o narcisismo explica o retraimento e defesa diante da figura feminina cabe dizer que a identificação permite entender a dificuldade em constituir um eu estável e diferenciado Por fim a identificação é compreendida como a incorporação de traços de outras pessoas na formação do ego enquanto que o narcisismo é o investimento libidinal do próprio eu Em conclusão a análise evidencia a potência da psicanálise em compreender a complexidade do sujeito e oferecer meios de interpretação para além das evidências comportamentais permitindo um manejo clínico ético preciso e profundamente ancorado no referencial teórico REFERÊNCIAS FREUD S Psicologia das Massas e Análise do Eu In Obras Completas v XV São Paulo Companhia das Letras 1921 FREUD S Introducción del narcisismo Obras Completas Vol XIV Buenos Aires Amorrortu editores 1914 LAPLANCHE Jean PONTALIS JB Vocabulário da psicanálise Direção de Daniel Lagache Tradução de Pedro Tamen 4 ed São Paulo Martins Fontes 2001
2
Psicanálise
ESNS
1
Psicanálise
UNIPROJEÇAO
11
Psicanálise
UNESC
930
Psicanálise
FPP
53
Psicanálise
UEMG
3
Psicanálise
UNASP
73
Psicanálise
UMG
3
Psicanálise
FAT
Texto de pré-visualização
CANTIGAS QUE MAMÃE ME ENSINOU Somos todos responsáveis maculados infelizes Roubamos com o ladrão cujo rosto desconhecemos matamos com o parricida a respeito de quem lemos nos jornais violentamos com o lascivo amaldiçoamos com o blasfemo Henri Troyat Firebrand The Life of Dostoevsky CHARLES Se encontrássemos Charles numa rua de nossa cidade não o tomaríamos por um matador perverso Na prisão ainda possuía ele um frescor de rosto que sentaria bem num coro de igreja Quando o vi pela última vez mal passara dos vinte e um anos mesmo então seus olhos eram azuis e inocentes parecia olharnos com uma indagação perpétua como se perguntasse por que uma cerca de aço tinha sempre de ficar entre ele e as árvores que podia ver através das grades da janela da cela Antes que Charles chegasse à prisão eu já havia lido a seu respeito nos jornais O caso provocara manchetes durante muitos dias pois se compunha dos elementos que naturalmente despertam o interesse público um rapaz uma garota bonita Não tão bonita segundo Charles um apartamento vazio um furador de gelo Num certo dia numa certa cidade segundo a imprensa uma jovem parara no saguão de um edifício de apartamentos Numa das mãos conduzia uma pasta com amostras de livros e discos religiosos na outra uma bolsa e uma vitrola portátil Hesitara perante o quadro de campainhas nas caixas postais e 7 depois tocara uma delas Não houve resposta de maneira que tocou uma segunda depois uma terceira e por fim uma quarta Finalmente com um zumbido a tranca da porta interna se abriu Ela empurroua com o ombro e ingressou num estreito vestíbulo com uma escadaria ao centro Quando começou a subir os degraus uma voz juvenil perguntou quem era Antes de chegar ao primeiro patamar viu um jovem Estava parado ao lado de uma porta parcialmente aberta olhando para ela Reconhecendo por sua juventude que não podia ser o dono da casa ela sorriu e perguntou se a mãe dele estava em casa Ele assentiu com a cabeça e depois abanou com a mão vagamente na direção do interior do apartamento Está lá dentro disse e deslocouse para um lado de maneira a ela poder passar Posso vêla perguntou a moça Claro respondeu Passe para os fundos Ela está no quarto A moça entrou dobrou à esquerda e começou a seguir um corredor No meio do caminho passou por uma pequena cozinha Perto da porta havia uma geladeira sobre seu topo de porcelana algumas ferramentas À frente dela uma porta dava para um quarto Exatamente quando cruzava o limiar escutou um ruído atrás de si Voltouse Nesse momento o rapaz atingiua na cabeça com um martelo Depois apunhaloua sessenta e nove vezes com um furador de gelo Depois jogouse sobre o cadáver e violentouo Quando Charles se levantou de cima da moça que havia matado saiu do apartamento fechando a porta atrás de si mas sem trancála e caminhou pelas ruas Era um dia claro e ensolarado de outono ideal para um passeio agradável e assim ele vagueou por uma avenida atravessou a longa ponte sobre o rio e sentouse por alguns minutos num parapeito olhando os carros e a gente passar Após algum tempo sentiu fome e deu busca nos bolsos atrás de dinheiro Encontrou uma moeda de cinco centavos Com ela numa barraquinha situada no final da ponte comprou uma casquinha de sorvete Chupandoa calmamente ficou parado na pista e com a mão livre fez sinal para os carros até que um deles se deteve e ele entrou Aonde vai perguntou o motorista Só até o outro lado da ponte respondeu Charles O que é esse negócio vermelho que você tem em cima 8 Onde No rosto e nas mãos Tem um pouco nas roupas também Charles levantou a mão e passoua pelo rosto quando a olhou ela estava com pedacinhos de sangue seco Oh falou ele andei pintando um pouco Parece que respingou em mim Riu Ao final da ponte Charles desceu agradecendo ao motorista pela carona Andou até um posto de gasolina próximo e perguntou pelo banheiro Lá dentro lavou o rosto e as mãos cuidadosamente penteou o cabelo e raspou das calças e do paletó as manchas semelhantes a ferrugem Não pôde tirar o sangue da camisa branca mas o paletó tapava as manchas vermelhas Ao sair do posto caminhou lentamente pela avenida em direção à casa No meio do caminho parou Por alguns momentos ficou olhando para o distrito policial do outro lado da rua Finalmente atravessou para a outra calçada e subiu as escadas situadas entre os pedestais com os globos verdes Dentro havia obscuridade cheiro a mofo frio Um sargento estava curvado sobre uns papéis numa escrivaninha Charles ficou de pé em silêncio do lado oposto até o policial olhar para cima Tem uma moça morta no apartamento 2B dos Apartamentos Gaylord do outro lado da rua falou Charles O policial coçou a barba Tem perguntou E como é que você sabe Porque fui eu que matei ela A mesma indiferença e monotonia emocional foram demonstradas por Charles durante os primeiros dias de sua prisão e não posso lembrarme de nada de marcante nos relatórios que a seu respeito chegaram até mim Entretanto perto do fim da primeira semana um dos médicos fêlo baixar à enfermaria cirúrgica por queixarse de dores no baixo abdômen e náuseas Três dias mais tarde seu apêndice foi retirado e assim ele era um paciente hospitalar na ocasião em que se realizou sua entrevista inicial Este exame preliminar foi feito por um colega meu de maneira que o único conhecimento que dele tenho provém de um relatório oficial preparado para os arquivos Diz o seguinte O paciente mostrouse cooperativo embora um tanto tenso durante a entrevista Responde a todas as questões prontamente mas às vezes mostra um sorriso bastante ridículo não apropriado ao conteúdo do pensi 9 mento O fluxo da fala e a atividade mental não apresentam anormalidades marcantes bloqueio ou defeitos semelhantes E emocionalmente imaturo A emoção e o estado de ânimo são às vezes apropriados mas o seu sorriso quando discute o assassinato de que é acusado não o é Emocionalmente é muito frio Seu conteúdo de pensamento não é atualmente muito claro A firma que nada sabia sobre a pessoa que matou embora posteriormente diga que deve ter sido uma insanidade temporária A princípio não quer dizer se é que foi morto era homem ou mulher e parece um tanto desconfiado do examinador depois declara que a promotoria disse ser uma mulher Pouca dúvida parece haver da maneira por que fala que sabe muito bem o que ocorreu É difícil avaliar se isto constitui prova de anormalidade mental ou se está representando Desde sua admissão ao hospital teve um certo número de tonteiras e leves crises de desmaio as quais não podem ser explicadas com base em sua operação E bem orientado O conhecimento geral e a inteligência são médios O discernimento e o julgamento são presentemente difíceis de avaliar e novos relatórios serão feitos sob a forma de Relatórios Neuropsiquiátricos de Progressos assim que outras informações se acharem disponíveis Resumindo tratase de indivíduo frio e imaturo que apresenta às vezes uma certa emoção inapropriada Pode acharse representando o papel de um indivíduo insano embora possua certas características sugestivas de demência precoce Não se pode fazer atualmente um diagnóstico definitivo Está sendo colocado sob observação por demência precoce do tipo paranóide Quando este relatório chegou à minha mesa atraiume naturalmente a atenção e solicitei ao médico que o redigira para trazer o caso à discussão em nossa próxima reunião do corpo médico Ele o fez e após alguns debates decidiuse transferir Charles da enfermaria de cirurgia para a de psiquiatria onde podia ser mantido sob vigilância chegara e constante Ali o vi diariamente e acompanhei às observações sobre o seu comportamento preparadas pelos enfermeiros e assistentes Na realidade Charles pouco assunto lhes deu para comentários durante todo o mês em que foi paciente da enfermaria Cooperava bem com os funcionários e os pacientes era cuidadoso com sua pessoa e pertences passava o tempo lendo ou trabalhando em pequenos projetos de terapia ocupacional e não se comportava diferentemente do que se esperaria de um rapaz de sua idade Por duas vezes se queixou a um dos enfermeiros de crises de tontura e uma vez esteve envolvido numa discussão sobre um jogo de damas Quando o período de observação de trinta dias terminou presumiase geralmente que visto Charles não nos haver fornecido razões para mantêlo na enfermaria psiquiátrica teríamos de darlhe alta e devolvêlo para o quadro comum Entretanto quando o assunto chegou à equipe médica nenhum de nós estava disposto a comprometerse atravez de uma opinião nítida O colega que efetuara o exame original expressou a indecisão e a confusão de todos formulandoas assim Diabos me levem se sei o que fazer com esse garoto Tudo o que tenho é uma impressão a seu respeito Enquanto estive aquí conversei com ele todos os dias mas nada lhe arranquei Ele tem um muro de um metro de espessura em torno de si Dános as respostas corretas para tudo mas elas não têm profundidade Falta algo É claro ele é esquizo chato um pouco ridículo mas talvez seja apenas um garoto com uma droga de antecedentes e um bocado de prática em manter seus pensamentos para si Às vezes nos fala sobre coisas que fariam outros sujeitos rir chorar ou demonstrar algum tipo de emoção mas ele as diz com aquele sorriso ridículo no rosto e não se pode ir mais fundo Não aduanta nem tem delírios Tudo o que possuímos é um crime perverso uma péssima história algumas tonturas que podem provir de qualquer coisa um sorriso estúpido e cândp se fala com ele a impressão de que há algo de podre em algum lugar Não podemos retêlo por causa disso Por que não podemos apenas continuar a sua observação perguntou alguém Espaço respondi E além disso segundo o regulamento temos de poder justificar a continuação da observação após trinta dias Temos de ter provas e tudo o que temos é intuição Eu penso que a intuição clínica conjunta de todos nós é justificativa suficiente comentou o que falara Deveria ser mas não é falou nosso Chefe A instituição se encontra em base de produçãodeguerra Há necessidade de todo homem aproveitável que se possa conseguir para trabalhos de fábrica ou manutenção Se vocês garotospsiquiatria não podem dar ao pessoal encarregado da custódia uma razão melhor para prolongar a observação do que uma impressão clínica teremos de darlhe alta do hospital Não podemos inventar uma razão perguntou outro médico O Chefe balançou a cabeça Não não é possível porque teríamos de tornar atrás e alterar os relatórios diários Não podemos começar a fazer esse tipo de coisa Há uma coisa que não fizemos e que devíamos fazer falou o psiquiatra que falara com Charles na entrevista inicial Todos nos voltamos para ele na expectativa Antes de deixálo passar para o quadro comum deveríamos fazer uma entrevista com o pentotal Talvez surja alguma coisa sobre que possamos deitar a mão A sugestão foi aceita imediatamente Naquela tarde enquanto todos nos curvávamos avidamente sobre a cama de lona em que ele se achava deitado o pentotal foi lentamente aplicado às veias de Charles Ficamos ouvindo enquanto contava regressivamente 100 99 98 sua voz se arrastando sonolenta enquanto continuava Depois os números começaram a tornarse indistintos numa mistura sem sentido Finalmente um ressone substituiu a voz do rapaz e ele tombou num sono de narcotizado Neste ponto meu colega fezme passar para a cadeira que ficava à cabeceira do leito Tome conta disse ele Senteime e comecei Você pode me ouvir Charles perguntei A cabeça dele moveuse num assentimento e sua garganta se contraiu com o esforço feito para forçar o ar através dos lábios secos Um lento Sim posso tornouse audível É o Dr Lindner que lhe está falando Charles disse eu Vou fazerlhe algumas perguntas Vai tentar respondêlas Vou tentar falou ele Diga apenas o que lhe vier à cabeça Dentro de um instante será mais fácil conversar Por que você está aqui Porque Porque eu eu matei ela Quem foi que você matou A moça Por que foi que você fez isso A voz Matar Matar Alguém lhe disse para matála A voz Ninguém disse Só a voz Matar Donde é que vinha a voz Ouvi a voz Não sei donde donde ela vinha Era a voz de alguém que você conhece Não Você já a ouvira antes Não O que mais lhe disse ela para fazer Nada Só matar Ela lhe disse como fazêlo Não Como foi que você fez Martelo Bati com martelo Depois o furador de gelo Quantas vezes você lhe bateu Não sei Bati milhões de vezes Bati Bati Não podia parar Bati milhões de vezes Por que foi que você parou de baterlhe O martelo caiu no chão Debaixo da moça Cheio de sangue Escorregava O que foi que você fez então Furador de gelo Por quê Não sei Vi furador de gelo Não podia parar A voz lhe disse para usar o furador de gelo Não Você ouvia a voz todo o tempo em que esteve batendo nela Ouvia Alto Matar Matar Onde foi que você a apunhalou Toda ela Algum lugar especial Seios Por que os seios Dão leite Você queria leite Não sei Quantas vezes você a apunhalou Muitas vezes Você ouvia a voz todo o tempo em que a esteve apunhalando Não Quando foi que a voz parou Não sei Parou O que foi que você fez depois de parar de apunhalála com o furador de gelo A isto Charles gemeu mas não deu resposta Um momento depois repeti a pergunta Desta vez choramingou e apareceu 13 suor em seu rosto Um dos médicos curvouse e limpou a testa do rapaz com um lenço de papel Charles suspirou Meu colega sussurroume que fizesse de novo a pergunta Você pode me ouvir Charles perguntei Seus lábios ressequidos se abriram e um sim semelhante a um suspiro saiu através deles O que foi que você fez depois de apunhalar a moça com o furador de gelo Eu Eu não sei contorceuse no catre e o rosto expressou o sofrimento de uma lembrança Não pode lembrarse perguntei Eu Eu abaixei as calcinhas dela e e pus o meu ele Aqui grandes soluços sacudiramlhe o corpo como se estivessem sendo arrancados dele através de tortura Não quer me dizer Charles continuei Assentiu lentamente com a cabeça e lambeu os lábios Eu digo falou ele Não podia achar ela o lugar e assim eu eu pus no meio no meio das pernas dela Não pôs dentro dela Não Tem certeza Tenho O relatório do encarregado do inquérito diz que ela estava rasgada Foi você quem fez isso Foi Como Com os dedos Assentiu novamente com a cabeça Porque Porque eu estava com raiva dela Ela já estava morta então não estava Para quê Estava disse Estava morta Eu eu matei ela Seu soluçar agora sacudia o catre Os dedos crispavamse sobre os lençóis Estava com raiva dela mesmo sabendo que estava morta Sim Por que estava com raiva Não podia não podia achar A vagina dela Não podia achar 14 Mas depois você a encontrou com os dedos Foi Foi a voz que lhe disse para fazer isso Não Não havia voz Você ouvira a voz antes naquele dia Não Nunca Ouviua depois Não Levantei a cabeça para os homens que estavam parados em torno do leito e perguntei se havia algo mais a ser indagado Um por um balançaram negativamente a cabeça Volteime novamente para Charles Você está cansado Charles disselhe Durma Quando acordar vai se sentir melhor De volta à sala dos médicos debatemos o que havíamos acabado de ouvir A entrevista alterara significativamente o aspecto do caso Concordamos que seria loucura enviar Charles de volta para o quadro comum embora não possuíssemos provas suficientes para mantêlo em observação psiquiátrica permanente O diagnóstico mais conveniente para este fim segundo decidimos era Psicose em remissão esquizofrenia com alucinações auditivas e tendências homicidas Partilhávamos ainda da impressão de que o rapaz já se encontrava insano na época em que o crime fora cometido Uma busca dos registros contudo revelou que fora apresentado um reconhecimento de culpabilidade e houvera uma audiência com um juiz a portas cerradas sem a presença de um júri A possibilidade de recomendarmos que o caso fosse reaberto foi ventilada mas decidimos que as provas desta entrevista isolada não seriam suficientes e de qualquer modo nossas prerrogativas não se estendiam até tão longe Finalmente concordamos que o caso exigia estudos posteriores e que o rapaz se achava em necessidade desesperada de tratamento Desde que na ocasião eu era o único que tinha uma hora terapêutica livre o caso foime atribuído Na manhã seguinte recebi Charles em meu consultório Cumprimentoume alegremente ao entrar e instalouse numa poltrona com um cigarro de que se servira do maço que se achava sobre a mesa Pergunteilhe se se recordava da entrevista da tarde anterior Lembrome de alguma coisa respondeu O médico me deu uma injeção e fiquei muito cansado Alguém esteve me 15 fazendo perguntas Quando acordei minha garganta estava irritada Fui eu quem lhe fiz as perguntas falei Lembrase sobre que assunto eram A respeito do meu crime não Sim respondi Foram a respeito do seu crime O que foi que eu lhe disse perguntou Resumi a entrevista enquanto ele escutava atentamente Quando terminei comentou Foi mais ou menos isso Você quer acrescentar algo indaguei Encolheu os ombros Acho que não há nada a acrescentar Por que não lhes contou isso na audiência Não tive oportunidade respondeu com certo sentimento O meu advogado disse que era melhor eu me confessar culpado e escapar com isso Disse que eu pegaria uma sentença leve Imagino que esteve falando com minha mãe e decidiram proceder assim A sua mãe sabia de tudo o que você nos contou ontem Sobre ouvir uma voz e coisas assim Sabia respondeu Contei para ela a maior parte Mas não a parte do estupro Fiquei intrigado Por que foi que ela não o deixou alegar insanidade se sabia a respeito perguntei Conversamos sobre isso respondeu Ela não queria publicidade É compradora para um dos grandes magazines e estava com medo de perder o emprego Queria que tudo fosse abafado Estava com medo de ver seu nome ligado ao assunto Mas os jornais escreveram a respeito Eu sei mas o senhor vê o nome dela é diferente do meu e assim ninguém a associou comigo Como é que você se sente sobre o fato de estar aqui perguntei acrescentando rapidamente Sei que parece uma pergunta imbecil porque ninguém deseja estar num lugar como este mas o que quero dizer é o seguinte você se sente à vontade aqui Charles apagou o cigarro no chão antes de responder Depois cruzou as mãos e inclinouse para a frente 16 Acho que estava maluco quando cometi o crime falou Não acho que devessem terme mandado para a penitenciária E para onde deveriam têlo mandado Para um hospital acho Por quê Pensou por um momento Bem falou talvez num hospital eu pudesse descobrir por que foi que fiz aquilo e lá me curassem de jeito a não fazer de novo Você acha que poderia fazêlo de novo Não sei Não posso dizer Imagino que poderia acontecer Se você pudesse descobrir por que foi que o fez enquanto se acha aqui gostaria disso perguntei Gostaria respondeu E se eu e você estudássemos isso juntos propus Seria ótimo Fez uma pausa e depois me olhou com seus olhos inocentes Isso me impediria de fazer de novo Poderia impedir respondi Eu gostaria Leva tempo falei Tenho tempo de sobra respondeu É suficiente dizer que um assassino nasceu num certo dia de abril num certo ano civil numa cidade do Norte Pode um destino ser triangulado Não porque as raízes vão fundo e os antigos talvez o tenham expressado melhor quando escreveram que para as pessoas como Charles a culpa se acha nas estrelas Já muito antes de Charles nascer o casamento de seus pais se deteriorara Não haviam querido um ao outro nem aos dois filhos que daquele haviam decorr ido Sob a compulsão religiosa mantiveram um semblante de harmonia por mais de dois anos mas já no primeiro mês de matrimônio ambos haviam sabido que ele não poderia durar Dessa maneira Charles e seu irmão já se achavam marcados antes do nascimento No terceiro ano de vida de Charles e o segundo do irmão uma dispensa religiosa permitiu que os genitores se separassem e a figura do pai desapareceu da vida deles Por alguns meses a mãe tentou manter o lar mas como ela própria era uma pessoa atormentada conflitada e facilmente perturbada achou a tarefa grande demais para 17 si A conselho de seu confessor as crianças foram colocadas num orfanato e por quinze anos a partir de então os dois meninos tiveram de viver em asilos e instituições Vistos de fora os lugares onde Charles passou a maior parte da vida parecem agradáveis Temse de realmente viver neles para se conhecer a verdade ou seja que para todos exceto uns poucos os assoalhos varridos as camas caprichosamente feitas os potes a reluzir nas prateleiras da dispensa e até mesmo os sorrisos das encarregadas e dos pseudopais são ornamentos de uma fachada De modo geral as crianças entregues ao cuidado desses lugares são vítimas do pauperismo emocional de seus guardiões Crescem como plantas daninhas num deserto estendendose para cá e acolá em busca de sustento deformando sua constituição natural escarnecendo do projeto original da Natureza Achamse expostas mais que as outras aos caprichos dos elementos humanos ora sufocados ao calor de sóis emocionais ora congelados sob neves desamorosas ora encharcados ora ressequidos A vida de Charles num asilo atrás do outro foi miserável e chocante quando dela se toma conhecimento Vivia em constante medo e terror e era brutalizado além de qualquer descrição No primeiro Lar um asilo religioso já à idade de quatro anos e daí por diante espancavamno impiedosamente pelas menores infrações e era obrigado a cumprir extravagantes penitências por expressar a vivacidade normal de um garotinho Supervisores que quanto mais não fosse somente pela fé deveriam ser obrigados a darlhe afeição se não amor tratavamno e a todos de que estavam encarregados como se não fosse uma criança mas uma espécie de animal Em pequenos sadismos esses governantes refletiam suas próprias frustrações e amiúde pareciam agirem seguindo ordens de atormentar as vidas a eles confiadas Sob o pretexto da piedade a existência era regimentada Antes que muito tempo decorresse Charles descobriuse encarando sua pessoa e seu ser com culpa pois pelos desvirtuados códigos e filosofias a que se achava exposto viase forçado a aceitar a idéia de que o que lhe estava acontecendo o afastamento da vida normal o abandono por parte da família era de certo modo sua própria culpa Não muito tempo se passou para que Charles envergas se a única armadura que se lhe achava disponível Após certo número de anos durante os quais fora o recipiente da brutalidade o alvo 18 de ataques sexuais e físicos o destinatário de sadismos que transformam num inferno a vida de um garotinho ele associouse em espírito com seus atormentadores O processo desta identificação começou por uma mudança nas fantasias que por tanto tempo empregara para consolarse quando à noite no dormitório cuidava de suas feridas Na análise descobrimos que estas primeiras fantasias eram heróicas na índole épicas na poesia e embora mesquinhas e lamentáveis quando vistas de tal distância achavamse adornadas com a glória que a vida só nos deixa conhecer uma vez Mas elas não eram de ajuda contra as duras realidades do seu meio ambiente Os heróis de sua mente não podiam resistir aos inquisidores da vida real nem suas espadas cintilantes eram de valia contra os bastões e as pancadas dos professores e companheiros Em suas fantasias então insinouse uma nova nota Ricardo Coração de Leão foi substituído por Gengiscã os Matadores de Dragões por Barbas Azuis e em vez de sonhos de cavalaria começou a acalentar fantasias de vingança À medida que o caráter de sua vida interior se alterava assim também se modificava Charles Crescendo nesse meio tempo e adquirindo vigor físico cedo pôde expressar o ódio vindicador que nele existia Com os menores e mais fracos comportavase como não podia fazêlo com os maiores e mais fortes Passou à frente suas dores e tornouse um atormentador deliciandose em causar sofrimento Aprendeu também a sagacidade e a astúcia e em breve achavase formado em transferir a dor de si para outrem Nas atividades sexuais onde fora outrora o alvo tornouse a flecha e sobre as formas dos outros que em vão protestavam descarregou o veneno de sua frustração Aos dez anos de idade haviase pervertido de todas as maneiras até o âmago de seu ser e sua alma já se deformara transformandose na alma de um assassino Durante esses anos enquanto Charles experimentava as modificações descritas via a mãe apenas com pouca frequência As visitas ocasionais dela em seu aniversário ou num feriado eram sempre apressadas e deixavamno com a sensação de algo incompleto não feito e não dito Sempre carregada de presentes ela provocava uma comoção pequena e alvoroçada em sua vida incolor Disseme ele Ela quando vinha era como uma princesa de contos de fadas Cheirava tão bem Mas ao mesmo tempo em que aguardava suas visitas e sonhava com ela após a partida uma parte sua a odiava também por havêlo posto 19 no purgatório de sua vida cotidiana Era isto que tornava as visitas dela os episódios incompletos que eram Queria pedirlhe para leválo com ela quando partisse mas tinha medo de pedir já conhecendo de antemão a resposta Assim quando ela ia embora era tomado de um vazio Em tais ocasiões punhase à procura de vítimas em quem pudesse se descarregar e os dados que possuo sobre sua vida mostram que todas as visitas da mãe eram seguidas por exibições de agressão Neles lemos uma narrativa de seus atos e das punições recebidas é uma história de pequenas violências prontas retribuições e longas e duras penitências Em ocasiões especiais havia visitas à casa da mãe Breves exposições à vida normal eram mais perturbadoras e destrutivas que aliviantes pois tudo o que forneciam a Charles era um gosto do que deveria ter tido e aumentavam um apetite que nas circunstâncias nunca podia ser satisfeito À idade de onze anos Charles fugiu do asilo em que na ocasião vivia Certo dia caminhando entre edifícios viu do outro lado da estrada reunidos em torno de um bonde um grupo de rapazes que saíra da escola Sem pensar juntouse a eles na confusão conseguindo não pagar a passagem Foi até o fim da linha e saiu andando por cima de trilhos ferroviários que marginavam um rio Até cair a noite ficou sentado na margem olhando os trens e sonhando com os seus destinos Quando a noite desceu reparou numa pequena fogueira escutou vozes perto dali e deixouse ir em sua direção Uns vagabundos estavam fazendo um cozido e convidaram o rapaz a partilhar dele Segundo se lembra tratavase de três homens e quando se lhes juntou eles foram cordiais e compreensivos Faloulhes sobre si mesmo e até uma hora tardia escutou suas histórias Prometeramlhe que na manhã seguinte mostrarlheiam como embarcar num trem de carga de modo a poder ir com eles para uma cidade distante Mais tarde um dos vagabundos fez surgir uma garrafa e todos beberam dela O álcool atordoou Charles e entorpeceulhe o corpo de modo que quando começaram a brincar com ele achavase semiconsciente quase paralisado Durante toda a noite os três usaram e abusaram dele Recordavase de risos e do suor mas nada dos golpes que o machucaram nem das coisas que lhe rasgaram as cavidades do corpo e o despertaram para a visão de seu próprio sangue Um guardalinha encontrou Charles e ele foi mandado para um hospital Quando se recobrou devolveramno para o asilo 20 onde foi disciplinado com severidade ainda maior que a costumeira e erigido como exemplo para a comunidade órfã Mas isto e o fato de sua aventura serviram apenas para acentuar a nova concepção do eu que estava assumindo forma duradoura nele Quando os castigos e as penitências passaram Charles emergiu da crisálida da infância como um antagonista de todos os valores No ano seguinte tornouse completamente incontrolável Vivia numa orgia perpétua de satisfação dos apetites e suas travessuras não mais eram pequenas Por fim as autoridades do Lar descobriram serem incapazes de manejar o problema de cuja criação haviam participado e escreveram para a mãe dele Ele está tendo má influência sobre as outras crianças Não podemos mais mantêlo aqui Arranjouse para Charles um lar adotivo e no início de seus treze anos foi mandado para uma fazenda a fim de viver com um casal de meiaidade cuja única recomendação à paternidade era o fato de outrora haverem criado um touro premiado Entre a idade de treze e quinze anos Charles viveu uma vida comparável à de um animal de fazenda As pessoas a quem se esperava que o rapaz agora considerasse como pais eram enfadonhas e incomunicativas Após a primeira semana quando a conversa foi necessária para demonstrar o que dele esperavam e os seus deveres as palavras raramente foram utilizadas entre Charles e o taciturno casal Grunhidos gestos uma ordem ocasional bastavam para transmitir o essencial e o essencial sempre se referia aos cem hectares delimitados por uma cerca de pedras À parte estes e as tarefas de Charles que a eles se referiam era como se o rapaz não existisse Acodado por mão pesada que lhe puxava as cobertas os dias extrênuos começavam antes do amanhecer e terminavam ao crepúsculo com a lavagem quando Charles alisava os empapados panos de cozinha sobre o parapeito da varanda traseira murmurava um boanoite e subia pelas escadas de trás para seu quarto no terceiro andar de uma velha casa de fazenda Ali no escuro deitavase na cama e esperava que o sono o dominasse de maneira que pela manhã pudesse reagir de novo ao puxar das cobertas Anos depois quando trabalhamos juntos perguntei a Charles sobre aqueles meses silentes que passara na fazenda Ficara espantado por sua passividade durante esse tempo por sua inação e por aquela curiosa aquiescência a uma disciplina de labuta 21 para a qual sua existência anterior certamente não o havia preparado Teria ele perguntei experimentado algum tipo de mudança de personalidade por volta dessa época Não se sentira solitário Em que pensara e com que sonhara durante esse período de isolamento Para estas questões Charles tinha boas respostas Não me importava muito contou porque não me sentia vivo a maior parte do tempo Me acostumei a pensar em mim como um dos cavalos e porcos que havia lá Era o que eles pareciam pensar de mim de maneira que era assim que eu também pensava Me diziam para fazer alguma coisa e eu fazia É tudo Durante todo aquele tempo não havia muita coisa na minha cabeça Não parecia me importar com nada Desde que me deixassem sozinho não me incomodassem era ótimo Eu era como um pedaço de madeira Oh é claro ficava um pouco sozinho de vez em quando Gostaria de encontrar alguns dos rapazes que conhecia ou coisa assim Mas até que fui embora imagino que andava ocupado demais durante o dia e cansado demais à noite para tentar algo Quando sonhava um pouco lembravame de coisas que haviam acontecido antes ou então pensava no que iria fazer um dia mas isto geralmente acontecia à noite quando estava caindo no sono A maneira pela qual Charles abandonou a fazenda foi incerimoniosa Aparentemente seguindo um capricho sem plano premeditado ele certa manhã simplesmente foi embora atahando pelos campos até chegar a uma rodovia onde fez parar um caminhão que o levou à cidade em que a mãe morava Quando naquela noite chegou a casa vinda do trabalho encontrouo sentado à porta Sua acolhida contoume Charles não foi muito cordial Quase imediatamente começou a fazer planos para que voltasse à fazenda e quando ele se recusou ficou zangada Não podia ficar com ele informouo não ganhava o bastante para mantêlo e além disso o apartamento era pequeno demais Ademais tinha de trabalhar e se ele ficasse em casa estaria se preocupando com ele a todo minuto pensando onde se encontraria o que estaria fazendo e a que nova travessura se estaria dedicando Não aquilo estava fora de discussão ele tinha de voltar à fazenda e se não para lá para algum outro lugar um lugar onde estivesse seguro e não agarrado nela De algum modo porém após muita discussão Charles conseguiu fazer com que ela o deixasse ficar por alguns dias Garantiulhe que não seria problema que arru 22 maria um emprego Tinha quase dezesseis anos e era grande para sua idade trabalharia e ajudaria nas despesas após poder ficar sobre os próprios pés ele se mudaria para a ACM Por favor Passouse uma semana porém antes que Charles saísse em busca de trabalho Por alguma razão não podia começar Acordava pela manhã cheio de bons propósitos preparava o desjejum da mãe arrumava o apartamento depois que ela saía e então ficava sentado todo o dia lia uns gibis escutava rádio ou saía para um passeio Certo dia apanhou uma prostituta e passou a tarde com ela Na segunda semana após sua volta ao lar Charles conseguiu emprego como mandalete no escritório local da Cruz Vermelha O emprego durou menos de três semanas Segundo uma investigação de rotina feita após ele haver sido preso o gerente do escritório recordou que deixamolo ir porque nunca se achava à mão quando era necessário Parecia estar em transe a maior parte do tempo muito vago pareceunos ser provavelmente débil mental completamente incompetente mesmo em tarefas triviais Mais uma vez sem meios Charles retomou seu modo de vida habitual até a mãe descobrir que ele havia perdido o emprego Desta vez as súplicas não lhe valeram Após uma cena lacrimosa ela telefonou para seu conselheiro religioso que imediatamente tomou medidas para que Charles fosse enviado para outro asilo Desta vez tratavase de uma instituição em que a expressão Escola Industrial anteposta a um nome de santo escondia o fato de constituir apenas uma estação intermediária para jovens de quem se esperava tornaremse criminosos se é que já não o eram Charles não teve dificuldades em adaptarse à rotina da Instituição que deveria ser seu lar pelos dois anos seguintes Agora tudo lhe era familiar Desde o instante em que pousou o pente e a escova de dentes na prateleira sobre o leito foi como se houvesse passado ali toda a vida Sem pensar deslizou mais uma vez para sua personificação costumeira de pária perverso atormentador daqueles que se encontravam abaixo dele na ordem hierárquica bajulador e apaziguador dos que se achavam acima Com olhos experimentados avaliou a situação Antes que muitos dias se houvessem passado firmouse como um machão um brutamontes um desordeiro fanfarrão de quem ninguém se podia aproveitar Fêlo através de um ato calculado para colocálo em 23 seguida dentro do círculo fechado de rapazes que soubessem disso ou não os Irmãos e as Irmãs realmente dirigia a Escola Assim foi a cena A instituição consistia em dois grandes edifícios ligados por uma passagem Um deles compreendia as salas de aula os escritórios e um ginásio interno o outro dois dormitórios uma capela duas salas para recreação os alojamentos dos Irmãos residentes e alguns quartos particulares para a elite da escola que tinha o privilégio de morar neles por causa de sua posição como monitores ou assistentes da equipe de supervisão Nesta sociedade invertida contudo a elite não se constituía dos melhores elementos da Escola mas sim dos piores e dos mais irregeneráveis Consistia como geralmente acontece em tais lugares nos durões cada um dos quais havia adquirido o direito de a ela pertencer através da demonstração de qualidades de crueldade falta de sentimentos capacidade de suportar dor perversão sexual e proficiência em todos os tipos de patifaria e desonestidade que o ambiente oferecia Era a este grupo que Charles desejava pertencer e por conseguinte elaborara planos para conseguir um convite Como todos os quartos já se achavam cheios quando ele chegara e portanto fechado o círculo interno sabia que sua única esperança consistia em deslocar alguém Por alguns dias contudo nada fez a não ser observar os poucos escolhidos friamente calculando suas possibilidades contra cada um deles de cada vez e maquinando um plano de ataque Após haver escolhido sua vítima com a intensidade e a cautela de um general de quem depende a sorte de exércitos elaborou a tática escolheu o terreno e até mesmo em imaginação ensaiou o plano até o mais insignificante pormenor Quando se convenceu de que não podia falhar agiu O local escolhido por Charles para sua estréia foi o corredor existente por baixo da passagem que unia os dois edifícios da Escola Ali havia ele descoberto a turma se reunia todos os dias após a ceia para fumar cigarros proibidos permutar os produtos de seus furtos fazer brincadeiras pesadas contar histórias indecentes e idear as intrigas que a mantinham no poder Esse corredor uma peça estreita e mal iluminada com um chão de cimento paredes caiadas e um teto tão apinhado de canos que os rapazes mais altos tinham de abaixarse para evitálos era reservado pela tradição da Escola aos donos dos quartos A ninguém 24 que não pertencesse ao círculo interno era permitido demorarse ali e as autoridades que naturalmente conheciam o emprego que lhe era dado fechavam os olhos à sua existência e concediam aprovação tácita ao que lá se passava evitando cuidadosamente o lugar durante as horas posteriores à ceia e acreditando talvez que esse era um pequeno preço a pagar pelo real serviço que o grupo prestava ao manter o resto dos internos tão bem disciplinados Quando Charles de acordo com seu plano apareceu durante a hora sagrada naquele território santo toda atividade cessou e a dúzia de ocupantes do corredor enfumaçado olhouo com hostilidade silenciosa e surpresa Nem na lembrança do mais velho dentre eles isto havia algum dia acontecido ninguém nem mesmo se atrevera a aproximarse do corredor chamavamno disse Charles de A Incubadora e invadir sua fortaleza era algo inaudito Momentaneamente apanhados fora de guarda pareceram imobilizados quando Charles se aproximou preguiçosamente do rapaz que havia escolhido como vítima Parando em sua frente ele tirou do bolso um cigarro amassado e disse Me dá o fogo O rapaz arregalou os olhos para ele Charles repetiu o pedido desta vez em voz mais alta Eu disse me dá o fogo O rapaz continuou olhandoo com os olhos muito abertos De repente Charles estendeu o braço apanhou a mão em que o rapaz estava segurando seu próprio cigarro e puxou o outro em sua direção Despertado por isto o rapaz libertouse com um movimento abrupto Veja o que está fazendo disse ele acrescentando Você não pode andar por aqui Você é o dono desta joça perguntou Charles belicosamente Agora os outros donos dos quartos já se haviam reunido em volta dos antagonistas Com sua presença o rapaz cobrou ânimo Lenta e deliberadamente deixou cair o cigarro e esmagouo com a ponta do pé antes de responder Isso mesmo falou Nós somos os donos desta joça Agora caia fora antes que você se machuque Me bota pra fora respondeu Charles deixando cair o seu próprio cigarro ainda apagado e esmagandoo com o pé à imitação do outro O rapaz passou o olhar pelos companheiros e depois voltouse para Charles Olha aqui garoto disse êle num tom que era um amálgama de desprezo e moderação você é novo aqui Não vai querer problemas Talvez não saiba ainda como portarse É melhor você cair fora antes que se machuque Me bota pra fora repetiu Charles O rapaz encolheu os ombros Tá bem disse ele se é assim que você quer É falou Charles é assim que eu quero E pulou na garganta do rapaz Suplantado pela rapidez do ataque de Charles o outro caiu ao chão Por alguns momentos estiveram engalfinhados rolando pelo solo de cimento cada um procurando apoio Mas Charles havia escolhido cuidadosamente sua vítima e mal a luta começara já terminava com o rapaz dominado o rosto voltado para baixo e os braços apertados contra os flancos entre as coxas de Charles Então mantendo a vítima bem segura Charles tirou do bolso um canivete Uma das mãos apertando a cabeça do rapaz contra o chão com a outra e os dentes abriu o canivete Rapidamente enfiou a lâmina por debaixo do colarinho da camisa do jovem e num só movimento rasgou a fazenda de cima a baixo expondolhe a carne Então enquanto os donos dos quartos olhavam horrorizados demais para intervir e sob o acompanhamento dos gritos da vítima Charles cuidadosamente gravou suas iniciais na pele do rapaz Quando acabou limpou o sangue da lâmina fechou o canivete recolocouo no bolso e pôsse de pé Agora falou enquanto tirava outro cigarro do bolso quem é que vai me dar o fogo Uma hora depois toda a Escola sabia o que havia acontecido na Incubadora No dia seguinte como por mágica Charles encontrouse alojado num quarto particular Após isso Charles subiu rapidamente no governo secreto da instituição e antes que muito tempo se passasse era o líder indispútado da Escola um ditador virtualmente sem oposição porque durante o restante de sua estada de dois anos viveu a vida de um jovem potentado Todo capricho seu era satisfeito podia gratificar quase todos os seus impulsos e até mesmo os Irmãos o temiam Durante algum tempo sua vida foi o sonho de um delinquente Por volta da metade de seus dezessete anos Charles fugiu da Escola Industrial Entediado por um ambiente que lhe oferecia todas as satisfações menos a liberdade para abandonálo embora me tenha falado sobre as muitas ocasiões em que ele e seus amigos faziam incursões pela cidade à noite voltando no dia seguinte com despojos de fumo e uísque imaginou um plano para uma fuga em massa dos donos dos quartos Os pormenores deste plano eram engenhosos mas não precisam deternos aqui Basta dizer que Charles após passar um mês como vagabundo novamente apareceu certa manhã de inverno no limiar da casa de sua mãe Desta vez a insistência dela para que retornasse a um outro Lar de nada adiantou Devido à idade dele não podia recorrer ao auxílio das autoridades para livrarse de seu fardo e Charles foi inflexível em sua recusa de mudarse Insistiu em permanecer com ela fez vagas promessas sobre encontrar um emprego e ouvidos moucos a todas as súplicas lágrimas e protestos da mãe Ela acabou por resignarse à sua presença enquanto que Charles por sua vez caiu no padrão costumeiro de existência sem objetivo pela qual aparentemente estivera ansiando todos aqueles anos Por puro tédio após acharse em casa há algumas semanas Charles candidatouse e obteve um emprego de mensageiro na Western Union Mais uma vez esse emprego mostrou ser apenas temporário Seus superiores logo se cansaram de um empregado que tomava seus deveres tão pouco a sério que nunca podia ser encontrado quando era necessário que nunca se achava plenamente lá Foi exatamente antes das doze horas do terceiro dia após haver sido despedido de seu emprego na Western Union que Charles ouviu tocar a campainha Do patamar ficou olhando a moça subir as escadas em direção à porta aberta do apartamento de sua mãe A tarefa analítica que se salientou mais nitidamente do que qualquer outra durante as primeiras semanas do tratamento de Charles foi o problema de estabelecer contato com ele Sua natureza era uma natureza infantil e insistir em que seguisse a regra básica da psicanálise ou seja que associasse livremente enquanto se achava deitado no divã era fazerlhe uma exigência impossível de ser cumprida Como uma criança ele era incapaz de seguir as instruções para comunicar as suas associações livres seus sonhos suas lembranças e seus estados de sentimento atuais Durante semanas portanto até eu compreender que a técnica ortodoxa achavase fora de questão não chegamos a nada Caracteristicamente quando chegava sua hora de terapia Charles se apresentava em meu consultório Deitavase no divã e desenrolava longos relatórios sobre suas atividades cotidianas correntes suas relações com os outros internados os insignificantes pormenores e fluxos de sua atual vida carcerária Quando tentei fazer com que relacionasse estes temas com o passado ou os examinasse mais de perto em busca de pistas para a dinâmica de sua personalidade defronteime com o que parecia ser uma barreira intransponível Parecia como se aquele jovem vivesse fora de si que sua personalidade fosse uma estrutura bidimensional a que faltasse profundidade funcionando apenas no agora Na verdade quase cheguei a esta conclusão à medida que hora sucedia a hora e o impasse persistia Em vão procurei por sinais indicadores de que nosso tempo pelo menos não estava sendo desperdiçado Nossas relações permaneceram casuais casuais demais Charles não apenas deixou de desenvolver a mais ligeira indicação de um relacionamento positivo comigo mas faltava também a reação oculta e negativa Vinha às suas horas automaticamente porque havia concordado em fazêlo mas além de emprestar sua presença física ao trato feito nele não estava envolvido de modo algum Já disse que começara a pensar em Charles e sua personalidade em termos bidimensionais Esta impressão ficou mais intensa com a passagem do tempo e levoume a considerar o abandono da terapêutica Houvesse o caso se desenvolvido dessa maneira não me surpreenderia Já havia encontrado antes gente assim pessoas sem um passado recuperável pessoas que viviam inteiramente no momento presente Muitas delas naturalmente eram débeis mentais mas a maioria se constituía de personalidades traumatizadas pessoas que haviam passado por experiências decisivas e chocantes que suas mentes num esforço para auxiliar a si próprias haviam mecanicamente isolado e muito amiúde o processo de isolamento não parara com o incidente traumatizante mas espalharase para criar uma amnésia virtual deixando a pessoa sob muitos aspectos como um indivíduo sem passado Estou certo de que o leitor conhece muitas pessoas assim São aquelas que têm grande dificuldade em lembrarse de coisas que a maioria de nós recorda sem esforço o nome dos professores da escola primária as localizações de residências passadas os pequenos e grandes eventos que as orientam no presente pelo estabelecimento da continuidade com o passado Em todos esses casos temse justificativa para presumir a existência de algum incidente traumático e decisivo seguido pela reação autopreservativa de isolamento mnemônico a que me referi Pensei por certo tempo que Charles pertencia a este grupo de pessoas traumatizadas sem passado Afinal de contas ele havia vivido o tipo de vida que qualquer um desejaria esquecer O incidente que levara à sua prisão devia certamente ser considerado como traumático apenas sob a influência do pentotal é que fora levado a falar dele e mesmo assim com evidente relutância Desse modo achavame preparado para dispensálo como resistente à terapêutica quando ocorreu um incidente que me fez alterar toda a abordagem à missão de tratar de Charles Antes de descrever o que aconteceu é necessário responder à pergunta que deve acharse na mente do leitor Por que deseja saber não utilizei a hipnose Ou a narcoanálise Certamente qualquer um destes métodos poderia ter rompido a barreira e fornecido acesso ao abundante depósito de lembranças ao inconsciente de Charles a tudo o que se estava buscando A melhor resposta que posso dar a esta pergunta a tal distância no tempo do problema é que eu tinha medo e como os acontecimentos provaram um medo justificado de empregar com o paciente qualquer técnica terapêutica que não fosse já testada e digna de confiança Não poderia na época ter formulado minhas razões tão claramente mas penso que sabia intuitivamente que forçar o cadeado naquela ocasião teria sido desastroso Lembremse que Charles fora diagnosticado como sendo psicótico esquizofrênico remisso Isto significava que sua insânia utilizo propositadamente este forte termo não técnico para impressionar o leitor com a natureza do caso que estamos examinando sua insânia era sempre potencial apenas acima do horizonte de seu comportamento com probabilidades de reaparecer a qualquer momento sem aviso Não podia permitirme correr este risco o risco de precipitar a psicose o qual se acha implícito no emprego da hipnose em prépsicóticos psicóticos incipientes ou psicóticos remissos temporariamente estabilizados A hipnose bem como os diversos métodos que empregam narcóticos para induzir a hipnose é amiúde um instrumento demasiadamente agudo às vezes penetra no inconsciente com rapidez demasiada para ser seguro Em tais ocasiões e particularmente com o quase psicótico ela draga os recessos ocultos da mente antes que o paciente se ache preparado para receber e digerir o que é trazido à superfície Confrontar um ego despreparado com esse conteúdo inconsciente pode em tais casos transtornar o precário equilíbrio da mente Não com Charles era melhor ir lentamente ou então não ir O incidente que alterou todo o quadro e me permitiu continuar a tratar de Charles foi pequeno e sob outros aspectos insignificante Durante o período sobre o qual estou escrevendo Charles achavase alojado na enfermaria psiquiátrica Fora designado como pacienteassistente com o objetivo de mantêlo ocupado ao mesmo tempo em que se assegurava que ele ficaria sob observação constante por parte da equipe de psiquiatria Seus deveres eram domésticos na maioria mas exigiase também dele que assistisse os enfermeiros e ajudasse os outros pacientes Uma das coisas que lhe fora pedido para fazer e que fazia bem era auxiliar nas atividades recreativas da enfermaria Às tardes portanto Charles disputava jogos com os pacientes psiquiátricos que podiam andar organizando e dirigindo torneios de damas xadrez bridge construção de modelos e o que mais fosse utilizado para diversão dos hospitalizados Esta atribuição adaptavase perfeitamente ao temperamento de Charles é natural estar sempre jogando algo combinava bem com sua natureza infantil Se se podia dizer de alguém que amava seu trabalho esse alguém era Charles Quando a custódia do armário de jogos lhe era concedida irradiava prazer e nenhum herói já aceitou uma medalha mais orgulhosamente do que Charles a chave daquele armário das mãos de nosso AssistenteChefe Certo fim de tarde eu me preparava para ir embora Como de costume antes de sair para passar a noite fora fiz uma ronda final uma inspeção apressada e casual da enfermaria a fim de satisfazerme de que tudo estava como deveria ser Por alguma razão achavame apressado naquele entardecer de modo que mal notei Charles ajoelhado diante do armário aberto de jogos quando penetrei na unidade de segurança do serviço psiquiátrico uma série de peças separadas do resto da enfermaria por uma forte porta de vidro e aço Ao voltar porém tive a atenção momentaneamente atraída pelos sons provindos de Charles ainda no chão diante do armário Curioso detiveme olhei e escutei Sobre o ombro do rapaz podia ver que ele havia disposto três ou quatro peças de xadrez lembrome do rei da rainha e de uma ou duas outras peças Por trás delas arranjara peças de damas em três lados de um quadrado e nesse recinto junto com as peças de xadrez havia colocado diversos artigos provenientes de outros jogos que se achavam guardados no armário Enquanto eu olhava movimentava as peças de xadrez com o acompanhamento de ruídos e sons que presumi serem conversas em vozes de tom diferente embora não pudesse escutar o que era dito Por alguns momentos fiquei olhando Charles naquela ocupação divertido e mentalmente comparandoo com minha filha de dois anos de idade a quem amiúde vira a fazer a mesma coisa Então algum movimento ou ruído involuntário atraiu minha presença ao rapaz Ele voltouse e viume parado ali Segundo me lembro levou um certo tempo para me reconhecer Quando isso se deu corou e depois sorriu Oi doutor disse ele Indo para casa Assenti com a cabeça Quando é que o senhor vai me levar junto Tratavase de uma convenção estabelecida entre nós à qual deveria responder como o fiz Quando crescer cabelo na cabeça do Diretor Como de costume ambos rimos Depois perguntei apontando para as coisas dispostas no chão O que é isso Um jogo novo Neca respondeu ele Estava apenas arrumando as coisas e comecei a brincar com elas Brincar como Deu uma batida leve com a ponta do pé no rei e este caiu de rosto no chão Oh falou Fingindo que eram gente que eu conheço e isto o pé indicou o arranjo trilateral de damas isto é a casa onde moram Tem um cigarro aí Dei um cigarro a Charles e ambos nos desejamos boanoite Foi somente quando dirigia o carro de volta a casa que o significado daquele incidente chegou até mim Era claro Aquela 31 era a maneira de estabelecer contato com o rapaz Técnica dos jogos psicanálise pelo brinquedo Tratar uma criança como uma criança Como pudera ser tão obtuso Foi difícil esperar até o dia seguinte Chegada a manhã precipiteime para um magazine barato e lá comprei quase tudo o que havia à vista no balcão dos brinquedos bonecas armas miniaturas de carros conjuntos de mobília animais tintas massa de modelar tudo o que encontrei e que pudesse ser utilizado para o que planejara fazer Quando cheguei ao consultório ignorando tudo o mais mandei chamar Charles Naquele dia começou sua análise Não há necessidade de contar novamente os pormenores do método que utilizei para sondar o inconsciente de Charles e apresentar seu tratamento porque Charles afinal de contas não era uma criança Naturalmente tive de transigir com a técnica ortodoxa da terapia pelo brinquedo Em vez de seguirlhe as regras tive de improvisar à medida que progredíamos tocar de ouvido por assim dizer Em conseqüência minhas notas sobre o caso assemelhamse às peças de um quebracabeça fazem sentido apenas quando reunidas mas sob outros aspectos consistem em observações fortuitas do comportamento de meu paciente fragmentos de sua história tal como surgia através de nossas discussões depois e na ocasião de sua manipulação dos brinquedos reconstruções de acontecimentos significantes em sua vida e das atitudes que os acompanhavam tal como eram inferidas das ações dele em nossas sessões bem como diversos apontamentos concernentes ao relacionamento sempre cambiante que existia entre Charles e eu à medida que ele transferia seus sentimentos para mim o seu terapeuta Uma das primeiras realizações importantes do método que agora utilizávamos para analisar Charles foi a descoberta da natureza bilateral de seus sentimentos sobre a mãe Na época em que chegamos a este ponto eu conseguiria extrair as grandes linhas da história que já delineara Havíamos debatido a rejeição de Charles por ela e ele expressara tanto por projeção nos brinquedos quanto em seu comportamento para comigo um considerável ressentimento e hostilidade que a sistemática recusa da mãe em permitir que o rapaz vivesse com ela havia engendrado Ele estava gradativamente começando a compreender que esta rejeição inspirara grande parte de seu comportamento agressivo passado e por alguns dias havíamos estado ocupados em esta 32 belecer a correspondência quase unívoca entre as experiências de rejeição por parte da mãe ou dos substitutos dela que seus vários ambientes haviam provido e a longa série de atos agressivos e às vezes perversos que elas inspiravam Um desenho em que Charles trabalhava durante uma de nossas sessões forneceume a oportunidade de confrontálo pela primeira vez com o lado oposto de sua atitude para com a mãe e abrir o assunto que Charles estivera evitando desde que começáramos o nosso trabalho O desenho não era mais que um rascunho Retratava um edifício bastante grande encimado por uma cruz um gramado em frente ao prédio e o que presumi ser um muro circundando o conjunto Enquanto Charles trabalhava nele conversamos Representava disse um dos Lares em que vivera quando tinha cerca de nove anos de idade Tal como se recordava esse lugar era uma instituição sombria e deprimente A vida lá informou era árdua principalmente por ser o estabelecimento dirigido por membros de uma ordem religiosa que se notabilizava por sua rigidez A disciplina era dura e cruel Uma nota apaixonada insinuouse em sua voz enquanto relatava algumas das penitências que fora forçado a sofrer por pequenas infrações de normas e os açoites que lhe eram administrados por violações de disciplina No meio do relato arrancou o papel da prancha de desenho e arremessouo ao solo Que se dane aquela espelunca exclamou Apanhei do chão o papel e examineio Já terminou perguntei Terminei respondeu Charles Nem quero pensar naquele lugar de novo Era uma bosta Continuei a examinar o desenho Está incompleto comentei É claro que está concordou Charles Deixei fora uma porção de coisas Passeilhe o desenho O que foi que você deixou fora Perguntei Ele enumerou uma lista de pormenores que havia omitido E o portão indaguei O asilo não tinha um portão É claro que tinha respondeu Charles Só que eu nunca o usei Recolocou o desenho na prancha Olhe aqui continuou Vou lhe mostrar 33 Por alguns minutos ficou ocupado com seus craions Enquanto trabalhava dava risadinhas e ao me entregar o desenho acabado riu alto Era assim que realmente era falou Inspecionei o desenho revisto para descobrir por que Charles se divertira tanto e depois caí na risada junto com ele a fim de mostrarlhe que apreciara a piada O que fizera fora transformar o desenho numa caricatura surpreendentemente sutil Com poucos traços introduzira no desenho um pesado portão provido de grandes dobradiças e um cadeado gigantesco e acima do muro esboçara a figura de um rapaz planando com asas angelicais por cima da barreira sorrindo extaticamente e atirando beijos Acho que me mandei daquele lugar uma dúzia de vezes comentou Foram tantas que uma das Irmãs disse que eu devia ter asas Para onde você ia quando fugia perguntei Pra casa naturalmente Para a casa de sua mãe você quer dizer É claro Pra onde mais Não sei respondi mas não é meio estranho que você continuasse voltando para lá Especialmente quando ela nunca deixava você ficar muito tempo e sempre o mandava de volta O riso desapareceu do rosto de Charles Foi substituído por aquele olhar taciturno que eu começara a identificar como sinal de seu afastamento para regiões do eu que ainda se achavam cerradas para mim Para onde mais poderia ir perguntou O que é que um garoto de nove anos pode fazer Morrer de fome É exatamente isso repliquei Você sabia que ela não o deixaria ficar em casa quando chegasse e sabia que tinha de ir lá Sabia também que o puniriam quando voltasse Por que então insistia em fugir vez após vez Acho disse Charles acho que eu sempre esperava que fosse diferente Diferente como Apanhou um pouco de massa de modelar e começou a rolála entre as palmas das mãos Quando falou de novo sua voz estava mais suave do que eu jamais a ouvira Me lembro que eu costumava sonhar sobre como seria falou Pensava todas as vezes que daquela vez eu chegaria lá e ela me pediria para ficar ficar com ela Talvez eu fosse à escola como os outros garotos Notei então que as mãos dele estavam paradas e os olhos embaçados enquanto um pequeno e amargo semisorriso bailavalhe nos lábios Como os outros garotos continuou a devaneaar garotos que moram em casas Interrompeuse novamente Depois chegava mesmo a pensar que ela me levaria a uma loja e me compraria coisas coisas que eu poderia experimentar Fiquei intrigado Experimentar repeti É disse ele Experimentar Riu e o tom meditativo desapareceu Sabe falou agora olhando para mim eu nunca experimentei uma só maldita coisa em minha vida Nunca tive uma oportunidade de escolher algo e ver se servia Não é engraçado Não acho que seja engraçado comentei Não não acho que seja respondeu e depois filosoficamente Os garotos deveriam ter oportunidade de experimentar coisas Se não conseguem fazer isso a coisa de alguma maneira nunca parece pertencerlhes Nunca senti que uma só maldita coisa fosse minha nada me pertencia Sempre me senti como se a estivesse tomando emprestada Ela trazia coisas para o asilo sapatos calças camisas todo o tipo de porcarias e eu ficava com elas Quando ela ia embora eu as botava Se sentava em mim tudo bem mas raramente sentava de modo que eu tinha de conseguir alguém para arrumálas ou então usálas como eram Às vezes eu as trocava com alguém por outra coisa algo que me sentasse melhor Fez uma pausa Essa sensação falou após um momento de silêncio essa sensação de que nada é da gente é horrível Esta é a primeira vez que penso sobre ela É importante doutor Acho que é respondi Faleme mais a respeito Bem continuou ele é difícil exprimir o que quero dizer Se o que se tem Quero dizer se se sente que nada nos pertence então talvez não se saiba quem se é Quero dizer ése sempre uma outra pessoa usando uma indumentária numa peça 28 Especialmente se for como acontecia comigo O senhor vê eu nunca tive nada que pudesse dizerme quem eu era Mesmo a minha cama não era minha Eu era apenas um nome Compreende o que quero dizer Acho que sim respondi Mas saberse quem se é não vem das coisas Charles Vem de dentro de nós mesmos Mas como é que vai parar lá dentro indagou ele Isso surge respondi Uma pessoa consegue o seu senso do eu em suas relações com os outros Quando é pequena e desamparada tomam conta dela Primeiro ela sente que é parte deles e depois Eu sei interrompeume Charles Eu escuto as palestras que vocês médicos dão aos assistentes Referiase às palestras de higiene mental através das quais a equipe psiquiátrica doutrinava o pessoal Mas comigo era diferente Eu não podia descobrir a respeito de mim desde dentro porque ela se livrou de mim depressa demais Assim tive de fazer com que as coisas que as coisas me dissessem quem eu era e concluiu amargamente e não consegui nem mesmo isso Fiquei espantado confesso pela perspicácia psicológica que aquele ingénuo rapaz revelou naquele dia Evidentemente ele estava com a razão Sem o saber havia dado em cheio numa psicodinâmica importante não apenas no seu mas também em outros casos numa causa fundamental para a delinquência e o distúrbio mental Estivera para dizêlo mais claramente traçando e definindo o sentido de alienação tão predominante em nossa sociedade e indiretamente fixando uma razão para o grosseiro materialismo de que todos os observadores falam como sendo a maldição dos tempos modernos Rejeitado seja realmente como ele o fora seja por atitudes paternas de negligência autopreocupação temor ou ansiedade ou por outro lado apreensivamente dominado de maneira demasiado chegada por genitores emocionalmente famintos o ego infantil nunca consegue uma identidade independente ou aquele emergente sentido do eu que é necessário para a maturidade individual e social É então forçado a procurar o eu no exterior nas coisas que servem de ponto de referência E isto é algo de trágico tanto para a pessoa quanto para o mundo No caso de Charles a tragédia ainda se compunha pela ausência em sua vida das coisas pelas quais poderia vir a conhecerse Tornouse assim para todos os fins 36 sem ego um indivíduo sem uma identidade isolada e daí uma criatura não uma pessoa Seu papel por assim dizer nunca foi estável deslocavase de momento a momento à medida que pressões instintivas e exigências sociais ausente a mediação normalmente fornecida por um eu equilibrante lutavam pela dominância na ação Não é de admirar pois que fosse psicótico porque mas além de todas as sutilezas técnicas a psicose é aquele estado em que o ego desapareceu em que a identidade se perdeu como é tão bem ilustrado pela preponderância não tão divertida de Napoleões e Cristos em nossas instituições psiquiátricas A chave para a terapia de Charles portanto tinha de ser provêlo de um ego doutra maneira acharseia condenado a permanecer sendo um robô cuja sanidade só lhe poderia ser imposta por controles autoritários por rigorosos artifícios externos de contenção os quais sabemos não serem dignos de confiança Charles me fornecerá como desde então aprendi todos os pacientes o fazem a pista para o seu tratamento e a primeira percepção de vulto que até então obtivera da dinâmica inconsciente de seu distúrbio Muitas outras sabia eu restavam a ser isoladas Num certo sentido a sessão que descrevi constituirá um desvio um desvio produtivo certamente e me encontrava ávido por retornar ao material que havíamos começado a desenvolver ao material relacionado à sua atitude ambivalente para com a mãe Foi somente alguns dias depois contudo que a técnica de jogos empregada me forneceu a oportunidade buscada para desenvolver ainda mais esse tema Meu paciente recordome estava construindo um modelo de barco e falando a respeito de uma excursão que algum Serviço Auxiliar de Senhoras havia arranjado para as crianças do asilo Estava satirizando essas matronas com uma boa porção de humor mas também com certa malícia No meio do relato enquanto estendia a mão para alcançar um pote de cola que estava amolecendo sobre um bico de Bunsen derrubou o pote e o conteúdo gosmento espalhouse sobre a minha mesa Desculpandose rapidamente limpou com um pano a sujeira e retornou à sua tarefa e à história que estava contando Mal começara a falar quando notei que havia deixado de limpar uma pequena superfície de cola e chamei sua atenção para isso Irritado pôs de lado as ferramentas passou o pano no lugar que eu indicara e arremessou o esfregão em minha direção com uma exclamação de repugnância 37 Deus Bendito blasfemou o senhor me dá náuseas igualzinho à minha mãe Ora não posso dizer ao leitor por que tomei a palavra náuseas num sentido literal por que razão não preferi entendêla idiomaticamente como expressão comum de irritação O único instrumento com que o analista trabalha é o seu próprio inconsciente Através dele compreende o inconsciente de seu paciente Chamemno intuição se quiserem ou telepatia ou qualquer coisa que desejarem mas permanece o fato de que o analista quando está trabalhando corretamente e bem achase de alguma maneira sintonizado com o inconsciente do paciente e com o seu próprio compreende o que está acontecendo na outra pessoa Neste caso suponho que poderia traçar as razões porque soube imediatamente que a palavra náuseas devia ser tomada de modo literal e não figurativamente mas estas razões são segundos pensamentos e delas não me achava ciente na ocasião Charles estivera falando sobre a excursão que fora a primeira e única vez em sua vida em que se encontrara a bordo de um barco Mencionou algo sobre enjôo Depois caricaturou as matronas do Serviço Auxiliar Falou desdenhosamente de seu cheiro de fêmea de seus grandes bustos e de suas maneiras oficiosas e afobadas Um momento depois derrubou o pote de cola Talvez estes elementos menos importantes de sua conversa condensados em ação significante quando me arremessou o esfregão me tenham levado a perguntar A sua mãe realmente o deixava com náuseas Charles hesitou Pensando nisso falou eu ficava sempre um pouco nauseado quando a via Nauseado como No estômago Como se fosse vomitar O que é que você acha que o fazia sentirse assim Deu de ombros Não sei Talvez fosse excitação ou algo desse tipo Ou talvez fosse o modo pelo qual ela cheirava Novamente experimentei aquele curioso pulo do inconsciente que Reik chama de surpresa aquela reação semelhante a um choque dentro do analista que indica uma sintonia perfeita Enjôo cheiro de mulher pote de cola esfregão todos eles assumiam seu lugar numa configuração tornandome possível con 38 jeturar a história que Charles agora estava começando a contar ainda não contudo os seus pormenores mas nos delineamentos e sobretudos psicológicos Sempre começou ele Sempre quando pensava na mãe Charles sentiase um pouco enjoado não doente de verdade nauseado era uma palavra melhor Era como se algo profundo dentro dele algo indescritível mas real estivesse lentamente se virando Tinha esta sensação com as outras mulheres também quando pensava nelas Era como se em vez de simplesmente pensar nelas olhar para elas ou até mesmo ficar perto delas ele houvesse engolido uma coisa viva que se contorcese e se virasse em seus órgãos Agora já era uma sensação familiar algo a ser esperado na presença de mulheres mas a cada vez que aparecia consideravaa com um mista de nojo e perplexidade No limiar de sua mente na ponta da língua dizia ele podia identificála como uma sensação conhecida mas ela permanecia esquivamente inominada A primeira vez em que Charles a sentira fora em seu nono aniversário Aqui o leitor recordaráseá de que quando começamos a estudar seu relacionamento com a mãe Charles retornou a seu nono ano de vida no desenho do asilo em que vivia naquela época Os rapazes estavam brincando no pátio quando uma das Irmãs o chamou para dizerlhe que a mãe havia chegado Poucos minutos mais tarde achavase de pé diante dela o rosto corado e as faces com a sensação de estarem marcadas a fogo pelo sinal de suas mãos enluvadas no local em que as pegara enquanto lhe beijava os lábios os sentidos oprimidos pelo doce perfume e a espressa suavidade do casaco de peles que ela usava Enquanto lhe dizia que viera para leválo para casa durante o Natal sentiu pela primeira vez a pequena e doentia convulsão dentro de si e por um momento pensou que ia vomitar Por causa disso não se atreveu a falar até que se encontrarem no táxi e aquela coisa dentro dele haverse acalmado Embora Charles soubesse que passara outras férias de Natal em casa com a mãe que transformara em costume alternar as visitas de férias dos dois meninos de maneira a nunca se acharem com ela ao mesmo tempo aquele feriado próximo de seu nono aniversário era o primeiro de que podia lembrarse integralmente Tinha muitas coisas a assinalálo 39 O apartamento em que sua mãe agora vivia era o mesmo que ocupava naqueles dias remotos Pouco havia mudado nos anos intermediários de modo que agora quando Charles reconstruía na terapia esses acontecimentos reprimidos podia movimentarse na memória por entre pontos de referência familiares Havia a sala de estar com cortinas alegres e saídas de gás imitando toros de lenha na lareira o saguão atapetado com a cozinha brilhando alvemente a um lado e depois depois o quarto dormir da mãe com seus odores e suas suavidades as gavetas da cômoda cheias de segredos femininos que de certa maneira ele tinha medo até de imaginar os misteriosos frascos e vidros no toucador espelhado sempre pintalgado de róseos flocos de pó a arca sob a janela coberta por um xale e almofadas coloridas e no meio do quarto a cama com a colcha de fresco cetim sobre o qual adorava passar as pontas dos dedos Quando a mãe saía para trabalhar e Charles já lavara e enxugara os pratos do primeiro almoço amiúde ia nas pontas dos pés até o vestíbulo e ficava parado na ponta do quarto de dormir dela Por alguma razão desconhecida sempre esperava encontrar alguém lá Todas as vezes surpreso por descobrilo vazio e nunca acreditando que suas ações não estavam sendo observadas olhava debaixo dos móveis dobrava a colcha e espiava para baixo da cama abria a porta do banheiro e procurava atrás da cortina do chuveiro Seguro de estar realmente sozinho arrojavase finalmente sobre a cama Deitado ali com o rosto apertado no vão entre os dois travesseiros a náusea começava O que se remexia dentro dele parecia crescer e com o crescimento girar cada vez mais rapidamente até ele ficar estonteado e fraco Então abruptamente aquilo cessava e dentro de um momento o seu eu parecia dissolverse Agora se sentia como a flutuar numa nuvem perfumada exausto mas revigorado enquanto o ruído do seu próprio ofegar e as batidas de seu sangue se acalmavam Logo se levantava e cuidadosamente alisava a colcha de cetim Havia outra razão para lembrarse desse feriado próximo ao seu novo aniversário Na véspera de Ano Novo daquele ano sua mãe havia dado uma festa Disseralhe que os amigos dela chegariam tarde e que naquela noite ele teria de dormir na cama dela em vez de fazêlo no sofá da sala Após o banho ele deitouse entre os lençóis e observoua vestirse partilhando da sua 40 excitação evidente Mas quando ela o deixou porém não pôde dormir A curiosa náusea precedida pelo pensamento de que em alguma ocasião da noite ela voltaria e partilharia o leito com ele enchia Charles de pânico e fêlo abandonar a cama pela arca Sentado nas almofadas e encolhendose de frio combateu o sono escutando os sons alegres que vinham da sala contígua e olhando fixamente para a linha iluminada em baixo da porta Após uma hora ou mais o frio e a sonolência venceram sua agitação e ele cambaleou até a cama como se estivesse em transe Perto da manhã no meio de um sono tépido e sem sonhos Charles sentiuse levantado por fortes braços Sonolentamente abriu os olhos e viu um rosto que nunca esqueceria embora nunca o lembrasse inteiramente Havia uma voz também e risos como se proviessem de uma certa distância Pela manhã contudo havia apenas a mais vaga lembrança perdida sem recobro mas apoquentadoramente persistente enquanto ele contemplava do sofá da sala de estar os copos esvaziados e os cinzeiros cheios de pontas de cigarros Sabia sem o saber que a porta situada por trás dele a porta do quarto de sua mãe estava trancada Tudo mudou para Charles após essa visita Quando retornou para o asilo era como se uma força nova e ingovernável habitasse seu corpo Um demônio o possuía disseram as Irmãs Não havia regra que não rompesse com um bravio e desdenhoso desprezo pelas consequências Parecia mesmo deleitarse com os castigos e penitências que se tornaram a sua sina diária Desafiadamente curvavase ante a vara de açoitar e não havia ninguém nem mesmo as Irmãs que ficasse mais tempo ajoelhado no chão Certa vez desmaiou na Capela quando lhe tiraram a roupa um chuveiro de pedras e vidro partido caiu de suas calças abombachadas e o tecido teve de ser rasgado para poder ser retirado de suas pernas ensanguentadas Foi nessa época também que com carvão e um alfinete dolorosamente tatuou as palavras PURO AMOR nos dedos uma letra em cada dedo logo abaixo das juntas Cada vez mais à medida que os dias passavam sondávamos ainda mais fundo na estrutura deformada do relacionamento de Charles consigo próprio e com o mundo desemaranhando os fios de suas preocupações incestuosas e identificando a significação delas como força dinâmica em sua vida Como diante de uma maré inexorável sua repressão cedia e as lembranças que se havia exaurido para negar surgiam à superfície da consciência Às vezes nossas reuniões eram tempestuosas e ocasionalmente tive um vislumbre da violência que havia naquele rapaz Para mim era como olhar para dentro de um profundo poço onde animais bravos e famintos uivassem por libertação Na maior parte das vezes contudo o tipo de terapia que utilizávamos parecia drenar sua agressão ou pelo menos desviála porque durante todos esses longos meses e particularmente nesta época Charles foi tratável e brando em sua vida carcerária Para os pacientes da enfermaria mostrava grande consideração até mesmo ternura Um tanto isolado de outras companhias por causa de sua juventude travou não obstante algumas relações com quem passava as horas de descanso Em nossas sessões porém dava vazão ao ódio acumulado tanto sobre os objetos que manipulava quanto sobre mim O meu consultório tornouse uma desordem à medida que jarros eram entornados tintas eram derramadas bonecos eram quebrados e brinquedos eram destruídos por acidente Quanto a mim tombavamme sobre a cabeça torrentes de injúrias O papel do terapeuta escreveu o Dr Suttie não é o papel técnico do médico e nem mesmo o semelhante a Deus do genitor perfeito É muito mais o da vítima sacrifical sobre quem todos os ódios ansiedades e desconfianças são elaborados de maneira que é o mediador o catalisador pelo qual a psique desmembrada é reintegrada em sua sociedade Assim todas as privações que Charles havia conhecido eram agora vertidas sobre mim e em nossas reuniões diárias fluía uma torrente contínua de queixas culpa e acusação alimentada por correntes vindas do passado Não apenas para liberar sua agressividade mas também para testar minha paciência e sim o meu amor Charles destruía quase todo objeto que eu trazia para o nosso trabalho Se eu demonstrasse o mais ligeiro traço de irritação ou impaciência rapidamente lançava mão dele censuravame por isso acusavame de deslealdade falta de compreensão e uma dezena de outros crimes de sentimento contra ele Progressivamente como eu quase continuamente exercia a tolerância a aceitação o perdão e a compreensão o seu teste destas qualidades tornouse mais severo Uma após outra arranjava pequenas experiências para mim e sempre com o canto dos olhos vigiavame atentamente pronto a saltar se eu de alguma maneira por palavras ou gestos 42 demonstrasse a mais vaga e fugidia alteração numa atitude de completa aquiescência em tudo o que lhe concernia Assim a tensão entre mim e Charles cresceu até uma sessão em que a última barreira de seu mais profundo e íntimo segredo tombou Como é habitual um incidente alheio detinha a chave do inconsciente No hospital da prisão durante a última guerra o Encarregado de Dia tinha a seu cargo muitos deveres Após os assuntos de rotina de noite terminarem ele geralmente se retirava para os alojamentos do ED no convés de cima do hospital para ler ou escrever cartas até a hora de deitar Visto acharse de serviço durante a noite quase o seu último ato antes de recolherse era retirar a caixa de drogas da farmácia entregar os hipnóticos sedativos e medicamentos necessários aos postos de enfermagem devidos em cada convés enquanto fazia a ronda final e conferir o registro de drogas com o conteúdo da caixa ao chegar a seu alojamento Após isso e até passar o serviço no dia seguinte a caixa um formidável cofre de metal nunca saia de sua vista seu precioso conteúdo achavase em grande procura naturalmente e a guarda da caixa era uma pesada responsabilidade para todos nós Por volta das dez horas de uma noite em que eu era o Encarregado de Dia retirei o cofre de drogas do refrigerador situado na farmácia e comecei minha ronda A caminho da Enfermaria A passei por um grupo de pacientes parados junto à Mesa de Admissões do Hospital Estavam empenhados naquela cansativa e infindável conversa com que homens confinados substituem a vida social de que estão privados batepapo e fuxicos entremeados com sexo No grupo achavase Charles que me olhou de maneira amistosamente curiosa quando disse boanoite aos homens e passei A meio caminho da porta da Enfermaria escutei passos atrás de mim Vireime e esperei por Charles Algo errado perguntei Sorriu lentamente Não respondeu Quer fazer a ronda comigo indaguei Assentiu com a cabeça e pôsse a meu lado Após um momento estendeu as mãos Deixe que eu carrego a caixa para o senhor falou A regra de que a caixa nunca deve ser confiada a um paciente passoume pela cabeça e estive a ponto de recusar mas 43 quase ao mesmo tempo refleti que Charles muito provavelmente estava tentando desculparse por algumas coisas que havia dito em nossa sessão daquele dia e recusar sua oferta daquele pequeno serviço seria interpretada pelo rapaz como uma contraagressão Obrigado respondi e entregueilhe a caixa Na Enfermaria A fiz a ronda assinei os gráficos e prepareime para entregar de modo costumeiro as drogas necessárias ao enfermeiro da noite A meu pedido Charles colocou o cofre sobre a mesa à minha frente Ficou observando o procedimento muito atentamente enquanto eu abria a caixa com uma chave do chaveiro do Encarregado de Dia Remexendo nela e fazendo as entregas necessárias deime conta nele de uma tensão crescente e logo podia sentir realmente sua excitação enquanto se curvava sobre meu ombro Quando fechei a caixa o som nítido e sibilante de sua respiração despertoume a atenção e olhei para ele indagadoramente Percebendo meu olhar sorriu de modo apaziguador Quando me pus de pé levantou a caixa da mesa e apertoua estreitamente contra si Juntos deixamos a enfermaria e fomos em direção ao andar seguinte Na Enfermaria B repetiuse o mesmo desempenho Charles olhava fascinado enquanto eu procedia aos trabalhos de rotina Nunca tirou os olhos da caixa e quando a tranquei apoderouse dela de modo convulso e possessivo Os pacientes da Enfermaria C eram de tipo especial lá confinados voluntariamente para fins de uma experiência médica Não exigiam a atenção do Encarregado de Dia cujo único dever em relação a eles era a conferência dos gráficos de temperatura Por conseguinte assinei as papeletas que o enfermeiro me apresentou à inspeção e levanteime para partir Charles que estivera esperando de pé silenciosamente com uma das mãos sobre a caixa onde a havia posto perguntou quando me ergui Não quer a caixa Não respondi Estes rapazes não precisam de nada Não vai nem mesmo abrir ela indagou Para quê Bem Hesitou um tanto insatisfatoriamente Pensei que o senhor poderia querer algo dela 44 Foi somente então que o examinei mais de perto Seus olhos estavam brilhantes o rosto repuxado e todo seu corpo tremia Há alguma coisa com você Charles perguntei Balançou a cabeça Não foi sua resposta Talvez deva ir para a cama sugeri Parece cansado Estou bem respondeu Charles Estendi a mão para a caixa de drogas É melhor que me devolva falei Terminarei isto sozinho Charles literalmente arrancou a caixa da minha mão Não por favor implorou Me deixe ir com o senhor A Enfermaria D era a última e mais demorada parada na rotina do Encarregado de Dia Aqui eram mantidos os pacientes de cirurgia e tanto o trabalho dos gráficos quanto a distribuição de drogas tomavam um tempo considerável Após efetuar uma verificação dos pacientes leito por leito e quarto por quarto senteime à mesa do Posto de Enfermagem sob uma lâmpada de haste curva cuidadosamente abrigada por tiras de papel mataborrão verde Já passava bem das dez horas então e tudo estava silencioso como somente um hospital de prisão pode ser O silêncio era pesado soturnamente rompido apenas por uma tosse ocasional ou pelo gemido de alguém a sofrer enquanto que em segundo plano num ameaçador subtom elevavase e descia a respiração de dois milhares de prisioneiros No círculo de luz lançado pela lâmpada nós três o enfermeiro vestido de branco Charles em seu xuarte de prisioneiro e eu em meu uniforme compúnhamos um quadro fantástico e kafkiano O enfermeiro e eu falávamos em tom baixo enquanto trabalhava nos papéis que se achavam à minha frente Charles ficou parado ao lado olhando fixamente para a caixa aberta da qual os brilhantes lampejos dos frascos cápsulas e caixas de pílulas de cores variegadas refletiamse em seu rosto Absorvido em meu trabalho a princípio prestei pouca atenção ao movimento paulatino da mão direita de Charles enquanto ela se esgueirava como uma coisa viva em direção à caixa aberta Foi somente quando os dedos já haviam trepado pelos lados e toda a mão desaparecera no cofre que o movimento se registrou em minha mente 45 Charles Ele pareceu não ouvir meu chamado brusco A mão permaneceu na caixa em que toda sua atenção estava fixada As linhas de seu rosto e corpo achavamse rígidas Agarreilhe o pulso A pele estava viscosa com um suor frio e oleoso A mão contraiuse espasmodicamente quando a puxei para fora da caixa e depois pude sentir toda a sua estrutura relaxarse como se algum encanto se houvesse rompido pelo meu toque Que diabos está fazendo perguntei Nada respondeu ele Estava apenas tentando ver o que tem na caixa Eu estava intrigado e zangado Você sabe o que há na caixa respondi e sabe também que não deve brincar com ela Desculpe disse ele Acho acho que esqueci Ainda zangado bati com a tampa da caixa tranqueia reuni meus pertences inclusive o cofre e encaminheime na direção da escada que levava da Enfermaria D aos alojamentos do Encarregado de Dia À hora em que comecei a subir para o convés de cima e meu quarto minha ira cedera lugar à curiosidade sobre o que acontecera Tão absorvido me achava em meus pensamentos que não ouvi os passos de Charles atrás de mim até parar no último patamar mexendo no chaveiro para encontrar a chave das grades que ficavam no topo das escadas Assim que abri a grade Charles chamoume pelo nome e vireime para descobrilo parado exatamente atrás de mim Agora contudo não o enfrentei com ira ou curiosidade mas com medo Veiome subitamente à idéia que nos achávamos completamente sozinhos numa parte do hospital proibida a todos exceto aos membros da equipe médica Atrás e abaixo de nós estendiase uma longa escadaria à frente ficava o corredor não iluminado que terminava no apartamento do Encarregado de Dia Ordinariamente esta situação não inspiraria medo mas Charles afinal de contas era um psicótico potencial perigoso o seu comportamento na hora que passara fora muito inusitado e minhas relações com ele por ora pelo menos eram altamente equívocas Mais que isso o seu aspecto já seria suficiente para despertar apreensão nas circunstâncias mais comuns O suor perlavalhe todo o rosto a respiração era rápida e pouco profunda seus lábios estavam secos e a pele se encontrava repuxada em linhas tesas sugerindo uma tensão extrema Olhando para ele minhas vísceras se contraíram mas encareio com o que achei ser um modo apaziguadoramente casual Hoje sei que para alguém menos excitado do que Charles se achava naquele momento o meu susto teria sido evidente O que é que você quer perguntei A língua lhe adejou sobre os lábios ressequidos Olhando para o cofre que eu carregava estendeu a mão Numa voz trêmula e esganiçada falou A caixa Me dê a caixa Por quê Quero ver o que tem nela Mas você sabe o que tem nela respondi São apenas remédios para pessoas doentes Eu quero ela disse ele e movimentouse em minha direção Recuei segurando a caixa atrás de mim pela alça existente em sua tampa Você não pode falei Você sabe que não me é permitido entregála a você Mas eu tenho que pegar nela disse Charles Tolamente perguntei de novo Por quê Para ver o que tem dentro Você já viu Não tudo Não até o fundo Por favor Como as últimas palavras foram proferidas num tom situado entre a lastimosa premência de uma súplica e uma ordem fiquei tranquilo quanto à minha segurança momentânea Minha própria mente liberada do medo que se apoderara de mim ao ver e ouvir aquele rapaz evidentemente transtornado podia agora fazer planos para encontrar uma saída daquela situação inepta Fui em sua direção e coloqueilhe a mão livre no ombro O tremor de seu corpo pareceu aquietarse ao toque de minha mão repousando em sua camisa empapada Charles disse eu suavemente por que não vai se deitar Você não está se sentindo bem e já é tarde Conversaremos sobre a caixa amanhã Pela primeira vez ele ergueu os olhos e fitou os meus O senhor não compreende doutor falou Eu tenho de ver o que tem nessa caixa O que é que você pensa que tem nela indaguei É isso respondeu ele implorando Eu não sei Alguma coisa Não sei o quê Se eu lhe mostrar o que há na caixa você irá para seu alojamento Avidamente ele reagiu à pergunta O senhor me deixa ver tudo Claro falei Venha Vamos para onde haja luz Com isto comecei a descer novamente as escadas em direção à Enfermaria D movimentandome rápido agudamente ciente da presença de Charles atrás de mim Na mesa do Posto de Enfermagem dentro do círculo de luz formado pelo abajur da lâmpada abri a caixa e retirei dela tudo o que continha tubos frascos caixas seringas agulhas cápsulas grampos pilulas vidros Depois consciente do espanto silencioso do enfermeiro entreguei a caixa a Charles Ele a pegou passou o olhar pelo cofre agora vazio depois pela mostra sobre a mesa e finalmente olhou para mim Lentamente e com alívio baixou a caixa Obrigado sussurrou e saiu rapidamente O sono que consegui dormir naquela noite foi perturbado O comportamento de Charles me desconcertara e intrigara As questões que me formulava não podiam ser respondidas e cada uma delas conduzia a mais uma dúzia Do que se tratava O que Charles esperava encontrar na caixa O que provocara a sua excitação Andara certo em permitirlhe examinar a caixa Em deixálo ir embora Deveria ter notificado o guarda de serviço no alojamento de Charles que ele estava agindo de modo estranho Deveria têlo enviado novamente para o hospital Estaria ele realmente psicótico de novo O que significava aquilo O quê O quê O quê Quanto mais pensava mais as perguntas se multiplicavam Cansadamente resigneime a esperar que o dia trouxesse as suas respostas Charles apresentouse prontamente para sua sessão comigo na manhã seguinte Antes que chegasse eu preparara a cena para a entrevista removendo tudo de cima da minha mesa retirando e fechando no armário todos os materiais que havíamos estado utilizando na terapia e despegando das paredes onde se achavam presos com fita durex os desenhos e esboços que ele fizera nas últimas semanas Obtive também permissão para esvaziar a caixa de drogas de seu conteúdo habitual e agora tanto ela quanto à chave de seu cadeado se achavam sobre a mesa diretamente embaixo de uma forte lâmpada Quando Charles apareceu achavase lúcido e calmo Sorriu à guisa de saudação e foi diretamente para sua cadeira ao lado da mesa Uma vez sentado apanhou a chave e brincou com ela por um longo minuto Depois olhou para mim interrogativamente Assenti com a cabeça Sem uma palavra abriu a caixa Uma por uma sorrindo retirou as coisas que eu lá pusera em lugar das drogas e remédios uma pistola em miniatura uma faca uma bonequinha algumas moedas tudo o que eu podia pensar se capaz de iniciar uma sequência associativa Seu divertimento era patente quando disse Não não é nenhum destes Então o que é perguntei Desta vez ele permaneceu silente por tanto tempo que comecei a duvidar de minha capacidade de conter a curiosidade que se estivera acumulando dentro de mim desde a noite anterior Por fim ele disse É gozado pra burro Na noite passada poderia ter jurado que estava na caixa Jurado que o que estava na caixa perguntei no que deve ter sido uma voz desesperadamente ansiosa cheia de exasperação O anel respondeu ele Que anel O anel de casamento de minha mãe Numa visita à mãe pouco após haver completado os treze anos de idade Charles descobrira a arca e o anel Os pormenores desta descoberta e suas consequências haviam sido severamente reprimidas desde o crime e possivelmente as teríamos perdido na análise se não houvesse o incidente com a caixa de drogas Agora entretanto ele podia me falar a respeito e examinar sua significação dinâmica Sem esforço lembrouse da manhã após sua volta à casa para a visita de aniversário quando ausente a mãe e terminadas as pequenas tarefas matutinas ele se entediou com seu gibi e decidiu dar um passeio Ao abrir a porta do armário do saguão para apanhar o paletó o espelho interno refletiu a arca coberta de almofadas do quarto de dormir Repentinamente ela lhe pareceu misteriosa e cheia de segredos e cruzoulhe a mente o pensamento de que sempre quiser investigar seu conteúdo Deixando o paletó cair ao chão foi até a arca e ajoelhouse a seu lado Impacientemente mas com a sensação de estar a ponto de violar algum acordo secreto que celebrara consigo próprio jogou para o lado as almofadas e levantou os fechos de bronze Remexou no cadeado mas este se recusou a abrir Levantandose foi até à cozinha e tirou de uma gaveta um martelo e uma faca Quando o fez notou que as mãos lhe tremiam e sentiu novamente aquela curiosa reviravolta em suas entranhas Ajoelhandose diante da arca Charles martelou e forçou a fechadura até o fecho finalmente tombar Com as duas mãos levantou a tampa que rangia Um aroma composto de perfumes esvaneicidos cânfora e coisas antigas postas de lado elevouse até às suas narinas e um momento de tontura forçouo a cerrar os olhos Quando os abriu viu que a parte interna da arca dividiase em duas camadas A camada superior era constituída de caixas cada uma delas com sua própria tampa o todo coberto por um tecido azul em que pequenos ramos de flores brancas e vermelhas haviam sido impressas Uma após a outra levantou as tampas das caixas Dentro de uma havia papéis e envelopes um pacote de cartas seguras por um atilho de elástico grosso mas ressequido e algumas fotografias desmaiadas de gente que Charles nunca vira Outra gaveta maior que o resto continha roupa de cama dobrada e uma certa metragem de um tecido diáfano Na terceira havia uma caixa de metal Intrigado por um som tintilante quando a levantou Charles colocoua no chão a seu lado Uma mexida apressada na camada inferior da arca revelou apenas roupas cobertores e sapatos Charles voltou então a atenção para a caixa de metal Não havia fecho visível e sua impaciência cresceu enquanto ele apertava e mexia por toda a superfície Quase se decidira a arrombála com as ferramentas quando observou um lugar ao longo do fundo em que os cantos não se juntavam Cuidadosamente removeu um painel revelando o verdadeiro fundo da caixa Numa depressão encontrou a chave para a fechadura Precipitadamente inseriua e abriu a caixa Dentro havia um rolo de cédulas e uma pilha de moedas Entre estas brilhavam alguns pregadores uma fieira de pérolas um broche de ouro maciço e um anel de casamento cravejado de pequenos diamantes Às pressas sentindose como se estivesse sendo vigiado Charles tirou uma nota de dez dólares e enfioua no bolso Depois fechou a caixa e passoulhe a chave Recolocandoa cuidadosamente no lugar abaixou a tampa da arca e arrumou novamente as almofadas Passou aquela tarde no cinema Todos os dias até retornar ao asilo Charles sondou cada vez mais os segredos da arca Estudou as fotografias até conhecêlas de memória atribuindo nomes aos rostos e inventando biografias para cada um deles O conteúdo das cartas que leu com dificuldade intrigouo eram difíceis de entender e os nomes existentes nelas não tinham significado para ele Finalmente porém foi por elas informado de uma verdade chocante seu pai não estava morto como a mãe dissera a Charles e ao irmão Em vez disso o homem olvidado havia partido tinhase casado de novo e agora noutra cidade vivia com a família de seu segundo casamento Lentamente Charles reconstituiu a história O casamento de sua mãe com aquele homem esquecido fora infeliz desde o começo Devido às diferenças religiosas o divórcio fora fácil de obter A mãe então aparentemente seguiria o conselho que Charles lera numa das cartas Você deve viver como se ele estivesse morto porque está realmente morto no que concerne a você e às crianças Sempre antes de cerrar a arca por aquele dia Charles retornava à caixa de metal que deixava para o fim do ritual de suas investigações De alguma forma ela lhe parecia representar o coração vivo daquele quarto Nunca podia nem mesmo tocála sem sentir os pulsos se acelerarem e o inconfórtavel começo daquela familiar sensação de náusea Era ainda pior com o anel de casamento Quando pela primeira vez o segurou pareceu queimarlhe a carne enquanto que debaixo de seus pés o assoalho se movia e sentia nos ouvidos o som de ondas a romperse No último dia de sua visita ele o carregou no bolso seguro na mão suada até a hora de chamar a mãe para que o levasse de volta ao asilo Ao guardálo de novo apanhou em seu lugar outra nota de dez dólares Entre o seu décimo terceiro aniversário e o verão daquele ano a mãe de Charles foi chamada ao orfanato onde lhe disseram que ele teria de ir para outro lugar Foilhe informado que Charles não podia mais ser controlado e que se temia que sua presença fosse prejudicial ao bemestar moral e espiritual dos outros meninos Talvez ele se sentisse melhor disseram numa fazenda Seriam necessários alguns dias para efetuar os arranjos necessários entrementes a mãe teria de leválo porque a instituição havia atingido os limites de sua paciência O táxi parou para deixar Charles e sua mala na casa da mãe Ela tinha de voltar ao serviço e chegaria mais tarde A arca o esperava Apressadamente Charles começou a viver o sonho que acalentara nas noites e dias passados Sem deterse para observar que a caixa de metal não mais continha dinheiro estendeu a mão para o anel de casamento Segurandoo levantouse caminhou até o toucador e depositouo cuidadosamente sobre o tampo espelhado Depois despiuse Nervosamente puxou os botões da camisa os fechos da roupa de baixo e os laços dos sapatos Ficou de pé nu A coisa dentro dele revolviase com rapidez e em sua cabeça fervia um líquido espesso Apanhou o anel nas mãos e nele um após outro enfiou todos os dedos Depois colocou o anel na boca passando a língua por dentro de seu aro Por fim apertouo contra o sexo desperto e fremente Durante os quase dois anos que Charles passou na fazenda os seus pensamentos amiúde se voltavam para o anel e a arca A imagem do círculo de ouro obsedavalhe os dias assoberbados de trabalho e as noites em que o pesado devaneio precedia o sono Invadialhe os sonhos era o obbligato visual a tudo o que fazia E fora ela a visão que lhe acenara naquele dia em que como um sonâmbulo atravessara o capinzal até a estrada e abandonara a fazenda para sempre Seu primeiro ato na manhã seguinte à chegada a casa fora repetir a experiência que sua memória armazena a experiência que agora se havia tornado nuclear em sua vida e cada dia pelo menos uma vez com frequência muitas vezes repetia a cerimônia até ela fixarse como um ritual Ele não sabia quão potente o rito secreto do anel se lhe havia tornado até o dia em que colocou em ação um plano imaginado durante as horas ociosas de sua primeira semana em casa vindo da fazenda Por sete dias pouco mais ou menos após seu retorno ao lar prepararase para essa aventura através do furto de pequenas somas da bolsa da mãe Quando acumulou cerca de cinco dólares saiu certo dia de casa pouco após o meiodia e dirigiuse para a parte da cidade conhecida como A Zona Ali em ambos os lados da rua por uns quinhentos metros aproximadamente os botequins e os inferninhos mesmo naquela 52 hora literalmente balançavam de atividade Os luminosos de néon competiam pela atenção e nos sombrios e frescos recessos dos bares vagabundos os destroços humanos de uma grande cidade reuniamse para preparar suas ilusões contra a noite inevitável Num destes bares de cujo nome e localização Charles se lembrava por causa de uma gabolice de um rapaz mais idoso foi que entrou Assumindo uma confiança que não sentia a despeito da cuidadosa escolha de roupas destinada a fazêlo parecer mais velho que seus quinze anos de idade sentouse a um balcão e ordenou uma cerveja O empregado passou o olhar por ele casualmente ou não se apercebera da juventude de Charles ou o lugar não se preocupava particularmente com a lei e serviulhe o que pedira O fato de não o mandarem sair por causa da idade animou Charles e após tomar um gole da bebida fez seu banquinho girar para examinar o recinto Numa mesa separada perto do fundo viu uma mulher sozinha Ela estava sem chapéu e havia jogado sobre os ombros um casaco curto de peles Seus dedos brincavam com um copo curto e vazio em que os olhos dela pareciam acharse hipnoticamente fixados Charles ficou olhando para ela até que sua cabeça se ergueu e ela devolveulhe o olhar Logo sorriu e fezlhe sinal com o dedo Tremendo por dentro mas cuidadosamente controlado Charles conduziu seu copo até onde ela se achava sentada Senta aí broto falou a mulher Charles sentouse Me paga um drinque ordenou ela Charles fez sinal para uma garçonete engoliu sua cerveja e empurrou os dois copos para a borda da mesa Enquanto esperavam pelas bebidas Charles e a mulher examinaramse cuidadosamente Após um momento ela disse Relaxe Não há por que ficar nervoso Não estou nervoso respondeu Charles enxugando às escondidas nas calças as palmas das mãos suadas Quanto é que você tem perguntou a mulher Uns cinco dólares respondeu ele Deixa eu ver ordenou ela Charles colocou o dinheiro sobre a mesa Havia cinco notas amarrotadas e algum troco A mulher apanhou as notas e colo 53 couas na bolsa enquanto a garçonete punha as bebidas na frente deles e descontava o preço das moedas que se achavam sobre a mesa Saúde disse a mulher e esvaziou o uísque do copo Depois falou Vamos Charles seguiua até a rua Sem uma só vez voltarse para ver se ele estava atrás dela percorreu rapidamente dois quarteirões até uma casa de cômodos situada num beco paralelo à Zona Subiu dois lances de escada virou num vestíbulo sombrio e abriu uma porta Somente então parou e esperou por ele Dentro do quarto a mulher jogou o casaco sobre uma cadeira chutou fora os sapatos acendeu um cigarro e sentouse na beira de uma cama por fazer Seus olhos percorreram a figura esbelta do rapaz enquanto ele ficava acanhadamente parado ao lado da única cadeira existente no quarto Quando após alguns minutos de silêncio a mulher compreendeu que ele muito provavelmente permaneceria mudo e petrificado a menos que ela comesse sorriu E a sua primeira vez não é broto Charles assentiu com a cabeça Bem falou ela foi bom que você pegou a mim e não algum bagulho velho Venha aqui Charles foi até o leito lenta e nervosamente e ficou parado ao lado dela com as mãos pendendo inertes aos lados do corpo Enquanto o fazia ela pôsse de pé e com um movimento rápido puxou o vestido por cima da cabeça Por baixo dele estava completamente nua Era a primeira vez que Charles via uma mulher nua Lentamente seus olhos vaguearam sobre as formas dela enquanto os pulsos lhe batiam e os poros de sua pele se abriam inundandolhe o corpo de suor Me toque disse ela Mas ele permaneceu imobilizado Venha falou a mulher apanhandolhe as mãos úmidas e guiandoas sobre os seus seios Assim Vamos Não fique com medo Então abruptamente ela jogouse de costa sobre a cama Agora tire a roupa falou Às pressas o rapaz despiuse Nu tremendo e nauseado deixouse cair ao lado dela Os olhos da mulher percorreramno 54 profissionalmente enquanto estalava a língua divertida por sua aflição indefesa Você vai me fazer realmente dar duro por aquele tutu não é broto falou ela enquanto estendia as mãos para ele Após um quarto de hora a mulher suspirou e sentouse Diabos me levem falou Você está apavorado demais Acendeu um cigarro e estendeu a mão para o vestido que atirara sobre a cama Volte noutra ocasião Espere gritou Charles Por favor Ainda não Pulou da cama e começou a remexer nas roupas Finalmente encontrou o que estava procurando Com uma das mãos puxou o vestido para fora do alcance dela enquanto com a outra a empurrava de volta para o leito Ponha isto falou com a voz desesperada pela necessidade enquanto apertava o anel contra a mão dela Está bem respondeu a mulher mas por quê Por favor implorou ele Intrigada a mulher enfiou o anel num dos dedos e levantouo a fim de que a luz da janela incidisse sobre as pequenas pedras Olhou para o anel rapidamente e depois seus olhos voltaramse para Charles Essa não falou Com a restauração de toda a história do anel removeramse as últimas barreiras da repressão Tornavase possível agora reconstituir o terrível crime que Charles havia cometido entender sua inexorável lógica inconsciente e compreendêlhe a motivação oculta Do ponto de vista da terapia de Charles achávamonos finalmente de posse de todos os fatos de sua história e havíamos explorado sua personalidade até as camadas mais profundas Esse rapaz orfanado rejeitado e destituído representava um claro exemplo de completa deformação pessoal resultante da negação a uma criança de tudo que ela exige para o seu crescimento psicológico A frustração total de suas necessidades afetivas mais profundas produzirá um indivíduo emocionalmente faminto Os horríveis fatos da vida em instituições e orfanatos atuando sobre a distorção original dada à sua personalidade compuseram a deformação básica de caratere sobre essas fundações apodrecidas adicionaramse camadas e mais camadas de outras distorções até ele tornarse na adolescência um verda 55 deiro monstro que só podia encontrar satisfação para seus instintos e necessidades através da violência da perversão e da destruição Com referência ao crime propriamente dito era evidente que a vítima visada e psicologicamente a real do assassinato não fora a infeliz moça que Charles matara Ela constituía apenas uma substituta a espectadora desafortunada e inocente de um drama de incesto e matricídio cujas origens distanciavamse quase duas décadas da ocasião em que a última cena foi representada Se precisarmos de outras provas de que ao matar e violentar a moça Charles estava simbolicamente destruindo e possuindo a mãe essas provas sãonos supridas pelos acontecimentos que precederam imediatamente o crime Naquela manhã Charles acordara tarde Sentiase disse ele meio vago e pesado Três dias antes havia perdido o emprego na Western Union e achavase atualmente sem dinheiro Antes de ir dormir na noite anterior tentara imaginar um plano de conseguir dinheiropara procurar uma prostituta Cada esquema imaginado porém envolvia empenhar o precioso anel o que à luz da experiência anterior não constituía uma boa solução Sem o anel muito provavelmente ficaria impotente Mas que outra fonte de meios havia O dilema atormentarao até tombar num sono inquieto e afligido por sonhos Ao levantarse naquela manhã fatídica Charles tentara abrir a arca quase antes de acharse inteiramente acordado Por alguma razão inexplicável o fecho havia encrencado Forcejou nele até seus dedos ficarem machucados Vestindose às pressas foi até o porão pedir emprestado ao zelador um martelo e um furador de gelo Colocaraos sobre o refrigerador na cozinha pensando em usálos após completar a toalete e comer o desjejum A campainha da porta tocara quando ele saía do banheiro Daquele momento em diante fora como se uma nuvem escura e redemoinhante lhe houvesse envolvido os sentidos uma nuvem atravessada por uma voz que lhe ordenava Matar matar matar Nunca pude identificar a voz que concitara Charles ao assassinato embora a tenha conhecido pessoalmente pouco após o incidente da caixa de drogas A hora foi meia hora depois do meiodia de um claro dia de setembro Junto com os outros membros da equipe médica eu estava almoçando no Refeitório dos Administradores quando 56 um telefonema urgente do hospital interrompeume a refeição O assistente à mesa informoume que Charles acabara de se apresentar perguntando por onde eu andava e pedindo para me ver imediatamente O rapaz parecia segundo o assistente como se algo estivesse terrivelmente mal de maneira que o encaminhei para seu consultório e disselhe para esperar pelo senhor A caminho do hospital fiquei imaginando o que poderia andar mal com o meu paciente Já o vira antes naquele dia e não me lembrava de nada fora do comum a respeito de nossa sessão Na realidade estivéramos elaborando um material bastante inócuo e tudo o que registrara sobre ela fora um certo desapontamento de que nossas últimas reuniões houvessem sido relativamente improdutivas Desde as dramáticas e importantes revelações das semanas anteriores Charles andava um tanto apático Inclinavame a interpretar este intervalo monótono como devido a uma acalmia natural até mesmo esperada Um período de quiescência e recuperação segue necessariamente cada ponto alto da terapia Isto permite à personalidade assimilar suas novas percepções e reorientarse de acordo com elas eu sentia que Charles se encontrava agora em tal fase intermediária Na verdade pensei enquanto me apressava em direção ao hospital havia mesmo explorado esse período para fortalecer os vínculos transferenciais entre o rapaz e eu próprio Como sabia que a ferida de seu passado tinha de ser curada que ele precisava sentirse querido apreciado e até mesmo amado antes de poder recuperar um senso de identidade fundamental à reconstrução de sua personalidade eu fora mais do que normalmente permissivo com ele Aumentara as responsabilidades de seu trabalho concederalhe acesso livre ao armário em que os materiais de seu tratamento se achavam guardados e relaxara em geral toda a atmosfera em que ele vivia e trabalhava Não podia imaginar o que haveria surgido para perturbar essa calma Quando passei pela mesa situada na entrada do hospital reparei que o assistente havia deixado seu posto O funcionário encarregado da custódia única pessoa de serviço em todo o edifício àquela hora cochilava confortavelmente a um canto com as pernas jogadas sobre uma mesa e a boca escancarada Enquanto subia as escadas para o meu consultório do segundo andar recordome de haver pensado de passagem na calma do hospital mergulhado como se achava numa letargia pósprandial que du 57 raria pelo menos outra meia hora Nenhum som se ouvia exceto o ruído remoto de uma máquina de escrever e o distante murmúrio de vozes proveniente da multidão de homens a fazer sua refeição da metade do dia no gigantesco refeitório do edifício principal Na porta do consultório detiveme e olhei para dentro Ali sentado na borda do catre estava Charles Nunca me esquecerei do espetáculo que apresentava Suas mãos agarravam o colchão de couro preto como se sua vida dependesse disso Os olhos se achavam fechados e apertados enquanto lágrimas lhes escorriam dentre as pálpebras A boca estava cerrada sobre os dentes apertados através dos quais saíam ruídos e gemidos incompreensíveis O rosto achavase retorcido pela agonia e vermelho como uma beterraba O suor manchara sua camisa de zuarte em grandes nódoas escuras As pernas e os pés estavam crispados e todo seu corpo parecia tremer Fui até ele e fiquei parado no pequeno espaço existente entre o catre e a minha mesa Suavemente chameio pelo nome Não houve reação Ele parecia estar lutando consigo próprio travando uma batalha interna Curveime mais a fim de ouvir se possível os sons que proferia entre gemidos animais e soluços imensos consegui compreender as palavras Não não e Não faça Não faça Escutei por um momento e depois pus a mão em seu ombro Charles chamei Charles o que é que há Não houve resposta nem sinal de que me houvesse ouvido Aproximeime mais curvandome até meu rosto ficar no mesmo nível do dele Tentei de novo Charles Charles Repentinamente o telefone de minha mesa tocou Como se eletrizado pelo som os olhos de Charles se abriram e seu corpo enrijeceuse Depois com um pulo que me arrojou de costas sobre a mesa caiu em cima de mim Senti suas mãos rodearemme o pescoço e vi como num pesadelo louco seus olhos flamejantes e sua boca vermelha e aberta enquanto me soavam nos ouvidos os gritos agudos e arrepiante Matar matar matar abafando o soar frenético do telefone Enquanto tentava arrancar suas mãos de meu pescoço o universo girou Uma dor aguda perfuroume os pulmões e tudo em minha cabeça explodiu Então desmaiei 58 Despertei alguns minutos mais tarde Achavame no chão e alguém me segurava a cabeça em seu colo enquanto tentava forçar um líquido aromático através de meus lábios inchados A sala estava cheia de gente médicos assistentes guardas pacientes da enfermaria Sentado numa cadeira com dois corpulentos enfermeiros vigiandoo um lençol enrolado em volta do torso e os braços manietados atrás de si estava Charles Estava sorrindo pedindo desculpas Uma semana se passou antes que eu pudesse falar mais alto que um murmúrio Durante esse tempo tive muitas conversas com Charles Descobri também o que acontecera após eu haver desmaiado e antes de voltar a mim Parece que o assistente à mesa ao pé das escadas ao retornar ao posto que deixara para executar uma vaga missão recordouse subitamente que me havia chamado para ver Charles Telefonou para o refeitório e soube que eu já havia saído de lá Temendo ser acusado de abandono de serviço telefonou então para meu consultório Quando não obteve resposta sentindo que havia algo errado despertou o guarda que cochilava e juntos precipitaramse escada acima Os gritos de Charles eram audíveis do saguão Ambos disseram que tiveram dificuldade para fazêlo soltar as mãos de minha garganta Quanto a Charles agiu como se nada houvesse acontecido Quando fui vêlo na cela nua em que agora era mantido conversou aberta e francamente sobre o incidente Com apenas a mais vaga sugestão de pesar ou justificação na voz relatou como o ataque assim o chamava lhe viera Com naturalidade contoume como estivera sentado no refeitório entre os companheiros quando uma grande agitação interna se apoderara de seu corpo Todos os ruídos e movimentos pareceram diminuir e sentiuse como se alguma força o estivesse isolando do mundo ao seu redor Com esta sensação veiolhe uma vaga de horror uma espécie de encolhimento interno dos órgãos quando num relâmpago reconheceu esse complexo de sensações como semelhante ao que experimentara antes da execução de seu crime Quase cego pelas emoções que agora o engolfavam saiu correndo do refeitório com algum remanescente do instinto autopreservativo concitandoo a procurarme para resistir às forças que se tornavam mais tumultuosas à medida que os segundos passavam Tornouse mais distante enquanto cambaleava na direção do hospital sentindo literalmente os laços que o uniam à realidade 59 retesandose até o ponto de rompimento Na ocasião em que chegou ao consultório e sentouse no catre achavase completamente separado do mundo expelido do seu ambiente e sem se dar conta de nada exceto de uma voz em sua cabeça que num crescendo proferia sua ordem odiosa Charles não se dera conta de minha presença até o telefone tocar Momentaneamente aquilo rompeu o encanto mas então Acho que toquei com a mão em seu ombro Pareceume um seio de mulher Fiquei excitado Então a voz tomou conta Tudo o que queria era botar as mãos em volta de um pescoço Não podia conterme É tudo de que me lembro Perdi Charles como paciente algumas semanas após o episódio ocorrido em meu consultório As autoridades insistiram em sua transferência para um hospital psiquiátrico governamental por ser pessoa extremamente perigosa e necessitada de contínua supervisão psiquiátrica e custódia Soube depois que Charles fora removido de um lugar para outro no decorrer dos últimos doze anos Ainda não possui um lar ainda não o querem em parte alguma ainda é um estranho em todo lugar Recordome de seu sorriso lento e da expressão intrigada de seus olhos suaves 60 CASO CHARLES narcisismo e identificação Por meio do acompanhamento clínico de Charles paciente atendido em enquadre psicanalítico é possível realizar uma análise que se entrelaça aos conceitos de narcisismo e identificação garantindo um entendimento relativo ao funcionamento psíquico que parte de comportamentos do paciente além de proporcionar meios de intervenção que favoreçam a elaboração dessas dinâmicas Por isso aplicar as contribuições de clássicos da psicanálise no estudo se mostram de grande valia para o entendimento clínico relativo as vivências de Charles O conceito de narcisismo é destacado por Freud 1914 p87 como O narcisismo primário que supomos nas crianças e que contém uma das premissas de nossas teorias sobre a libido é mais difícil de apreender pela observação direta do que de comprovar através de uma inferência retrospectiva feita a partir de outro ponto No caso exposto ocorre a incorporação da identificação negativa quando Charles incorpora aspecto ameaçador do objeto causando náuseas e enjoo como também por meio de identificação por traços quando aplica elementos percebidos como uma imagem invasiva variando entre a submissão e ataque Tais questões sobre a identificação dificultam a diferenciação entre o eu e o outro contribuindo para a instabilidade de sua autoimagem Para Freud a identificação assumiu progressivamente o valor central que faz dela mais do que um mecanismo psicológico entre outros a operação pela qual o sujeito humano se constitui 2008 p 227 Sobre o narcisismo Freud o descreve como uma etapa do desenvolvimento onde o sujeito investe libido em si próprio construindo autoestima unidade do eu e amorpróprio No caso em questão é possível observar um eu fragilizado oscilando entre sentimentos de inadequação e superioridade O modo como ele apresenta suas relações com figuras significativas proporciona uma visão sobre o seu investimento libidinal e o retorno repetitivo do eu Notase ainda que as experiências internas ameaçam sua estabilidade narcísica Essas defesas indicam que o narcisismo primário de Charles não pôde ser suficientemente transformado em narcisismo secundário estável conforme apontam Laplanche e Pontalis 2001 p9 resultando em uma identidade que se mantém dependente da confirmação do outro para se sustentar A fragilidade narcísica emerge como elemento central de seus conflitos manifestandose nos momentos em que o paciente se sente rejeitado inferior ou desautorizado produzindo um retraimento emocional que funciona como proteção diante do risco de perda do amor do objeto Além do exposto a identificação é definida como um processo psíquico onde o sujeito traz características definidas por incorporação de características de outra pessoa tornando assim um mecanismo fundamental na formação do eu No caso de Charles isso aparece como um processo de fragilidade e defensivo especialmente na dificuldade de construir relações entre o eu e o outro Suas náuseas também representam o funcionamento da identificação negativa refletindo na forma como manipula os objetos do analista No caso é possível observar a predominância desse investimento narcísico principalmente quando o mesmo relata sensações corporais de repulsa diante de figuras femininas principalmente de sua mãe causando a substituição da relação em contradizer por um fechamento defensivo direcionado ao eu O enjoo nesse caso transmite não somente questões fisiológicas mas expressa um conflito entre objeto materno cuja presença parece ameaçar sua integridade narcísica Outrossim tal relação é articulada com um mecanismo de defesa narcísico como a questão do isolamento recusa e tendência ao ideal de autonomia absoluta Um ser humano permanece narcisista em certa medida mesmo depois de ter encontrado objetos externos para a sua libido Freud 1921 p92 Sendo assim o narcisismo surge como uma defesa de perturbações vindas do objeto falas como engolido vivo emergem como uma fantasia do inconsciente reforçando a percepção dessas circunstâncias em situações de diferenciação entre o eu e o outro Na clínica Charles demonstra a relação entre o narcisismo e a identificação Visto que o narcisismo funciona como uma defesa contra um outro invasivo afastando a consolidação Trabalhar sem interpretações intrusivas garantiu que Charles iniciasse um processo de simbolização de suas próprias experiências Por fim ao analisar o caso é possível entender a articulação de conceitos estudados onde o narcisismo explica o retraimento e defesa diante da figura feminina cabe dizer que a identificação permite entender a dificuldade em constituir um eu estável e diferenciado Por fim a identificação é compreendida como a incorporação de traços de outras pessoas na formação do ego enquanto que o narcisismo é o investimento libidinal do próprio eu Em conclusão a análise evidencia a potência da psicanálise em compreender a complexidade do sujeito e oferecer meios de interpretação para além das evidências comportamentais permitindo um manejo clínico ético preciso e profundamente ancorado no referencial teórico REFERÊNCIAS FREUD S Psicologia das Massas e Análise do Eu In Obras Completas v XV São Paulo Companhia das Letras 1921 FREUD S Introducción del narcisismo Obras Completas Vol XIV Buenos Aires Amorrortu editores 1914 LAPLANCHE Jean PONTALIS JB Vocabulário da psicanálise Direção de Daniel Lagache Tradução de Pedro Tamen 4 ed São Paulo Martins Fontes 2001