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1 1 ATITUS EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA ANA LÚCIA DE SOUZA ZABADAL O SILÊNCIO NO SETTING TERAPÊUTICO Trabalho de Conclusão de Curso PORTO ALEGRERS 202 5 2 2 Ana Lúcia de Souza Zabadal O Silêncio no Setting Terapêutico Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Atitus Educação como parte das exigências para obtenção do título de bacharel em Psicologia Orientador Prof Porto Alegre RS 202 5 3 3 SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS 5 MACROPOLÍTICA E DESSINCRONIZAÇÃO ESPAÇO TEMPO 10 Aceleração x Desaceleração 11 Alienação Experiência Memória e Vida 12 Era Pós Democrática 15 NEOLIBERALISMO E SUBJETIVAÇÃO 18 A Natureza Implícita 18 O Rompimento dos Laços Sociais 20 A Colonização das Subjetividades 23 PSIQUIATRIZAÇÃO DA EXISTÊNCIA 27 O Lado B dos Manuais Diagnósticos 28 O Compromisso da Indústria Farmacêutica 32 A Negação da Natureza Trágica da Vida 34 MICROPOLÍTICA E RESISTÊNCIA 37 A Ressonância 37 As Três Ecologias 38 A Singularização 40 CONSIDERAÇÕES FINAIS 43 REFERÊNCIAS 44 4 4 RESUMO Lorem ipsum dolor sit amet consectetur adipiscing elit sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua Ut enim ad minim veniam quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur Excepteur sint occaecat cupidatat non proident sunt in culpa qui officia deserunt mollit anim id est laborum Palavraschave ABSTRACT Lorem ipsum dolor sit amet consectetur adipiscing elit sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua Ut enim ad minim veniam quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur Excepteur sint occaecat cupidatat non proident sunt in culpa qui officia deserunt mollit anim id est laborum Palavraschave CONSIDERAÇÕES INICIAIS O que pode constituir a potência de uma vida senão a possibilidade de contar e recontar uma história sobre si que estará sempre em devir Fazer da vida uma espécie de narrativa literária não é idealizar um percurso em direção a uma cena ou um desfecho final mas desenvolver a compreensão de que a trajetória poderá ser atravessada por diversos inapreensíveis e que diante deles surgem oportunidades para a criação de novos caminhos Deleuze 2011 Ao tentar anestesiar ou eliminar inquietações ao invés de questionar seus significados menores são as chances de encontrar um sentido e esta é uma das principais dificuldades da atualidade compreender o sofrimento humano como algo que faz parte de um processo de implicação com a própria existência Kehl 2002 A construção de uma narrativa interessante para si é um produto do imaginário e da invenção individual mas ela só poderá adquirir valor simbólico dentro da cultura portanto a produção de um sentido existencial parte das possibilidades de desenvolvimento de uma criação discursiva a partir do que circula no contexto social Kehl 2002 Ocorre que na contemporaneidade os entendimentos dominantes a respeito da vida se apoiam muito mais nos caminhos determinados pelo mercado do que em razões filosóficas que poderiam embasar os questionamentos sobre o ser e o viver através de um contexto crítico reflexivo ou seja existe uma predominância da dimensão objetiva sobre a subjetiva Kehl 2002 Diante disso tornase importante uma investigação sobre as possibilidades e as limitações através das quais o contexto social parece se sobrepor ao sujeito que acaba se constituindo como objeto de um saber dado distanciado assim de sua capacidade de expressão singular que somente consegue se manifestar pela via do sofrimento causado pelas limitações simbólicas que tais objetividades lhe impõem Junior 2021 Tendo em vista que a produção de subjetividade é inerente a cultura esta objetivação sobre o viver se torna efeito do que Guattari 2013 chama de produção capitalística a qual se configura como uma espécie de rede de controle onde o capital e a cultura atuam de maneira complementares estabelecendo um emaranhamento de sujeição econômica e subjetiva Para Guattari 2013 os grandes processos de subjetivação não operam com a finalidade de emancipação pois tendem a fabricar subjetividades serializadas e isto manifesta consequências sob diversas formas dentre elas o empobrecimento das condições de relação do humano consigo com os outros e com o mundo Em 1930 com a publicação de O malestar na cultura Freud já anunciava a impossibilidade de os indivíduos estarem na cultura sem conviverem com uma sensação de malestar tendo em vista que esta seria gerada por uma espécie de residual subjetivo resultante entre a necessidade de satisfação pulsional individual e a renúncia de parte dessa satisfação pela necessidade de inserção na vida social Freud 19302020 Ainda no mesmo texto Freud finaliza questionando sobre o destino da espécie humana e sobre a possibilidade deste destino ser bemsucedido se caso o desenvolvimento da cultura fosse capaz de promover o controle das perturbações postas na vida em comum pelas pulsões de agressão e autodestruição que são inerentes ao humano Freud 19302020 Embora estas indagações sobre o destino da espécie humana e a experiência de mal estar permaneçam atuais houve uma modificação estrutural na cultura desde a época do ensaio de Freud e esta mudança interfere diretamente no entendimento da produção de mal estar e sofrimento psíquico na contemporaneidade algo importante que precisa ser revisto pela psicanálise Junior 2021 Enquanto Freud se utilizava dos valores científicos de sua época aderido a uma visão empírico positivista pautada por uma lenta e fragmentada investigação de um suposto saber que estava distante de algo totalizante Lacan enxergava a ciência como um saber análogo a psicanálise ou seja os autores tinham entendimentos diferentes a respeito do discurso científico Sidi Askofé 2013 como citado em Junior 2021 Ocorre que a partir do início do século XX com a reposicionamento da cultura em torno da economia aqui tornase importante destacar e não na economia em torno da cultura vários processos sociais foram se agenciando e dentre eles o deslocamento da posição social da racionalidade científica que a partir deste novo lugar passa a modificar as formas de enunciação e entendimento sobre o sofrimento Junior 2021 A complexidade desses rearranjos sociais é importante para a compreensão do que está nas origens das instituições que na atualidade organizam e explicam o sofrimento psíquico a luz da alienação do indivíduo sobre seu próprio conflito alterando e distanciando as pessoas da possibilidade de desenvolverem autopercepções sobre o sentido do sofrimento e da existência Junior 2021 Com a mudança de lugar social da ciência houve a formalização de uma linguagem científica que ao se tornar instrumento de identificação de certezas foi se fortalecendo na cultura e acabou estabelecendo uma nova gramática Junior 2021 Com isso o fazer científico que era principalmente motivado pelo desconhecimento e pelo consequente desejo de conhecer foi sendo sistematicamente desinvestido tendo em vista que diversas novas verdades já estavam postas pela linguagem instrumental que legitimava a operacionalização da técnica em nome da ciência Junior 2021 As transformações que atravessaram a história da psiquiatria são um bom exemplo para ilustrar o modo pelo qual a ciência ao ser reconhecida a partir da operacionalização da técnica pode produzir efeitos indesejáveis tendo em vista que estes efeitos não vão operar na sociedade de forma neutra Junior 2021 Ao nomear e caracterizar um determinado conjunto de sintomas as classificações diagnósticas colocam em circulação uma espécie de conhecimento sobre o sofrimento psíquico que não vai funcionar somente como forma de reconhecimento para facilitar um tratamento mas principalmente como uma forma de determinação Bezerra Jr 2014 Essas determinações produzem impactos sobre o sujeito alterando a forma como ele vai pensar a si mesmo seu desenvolvimento emoções relações e construção identitária além de também produzir efeitos sobre a cultura estabelecendo contornos e limites a existência deste sujeito dentro do universo social ao qual ele faz parte Bezerra Jr 2014 Atualmente diversos estudos procuram evidenciar a natureza biológica dos transtornos mentais objetivando com isso categorizar e criar condições para que seja possível antever e predizer os comportamentos humanos Brendel 2006 como citado em Bezerra Jr 2014 Nesse sentido embora a psiquiatria tenha de fato adquirido um maior alcance terapêutico através dos avanços da neurofisiologia e da neuroquímica a sistemática nomeação e renomeação de agrupamentos de sintomas juntamente com as estratégias de produção de consumo utilizadas pelo marketing estabeleceu uma forma hegemônica de pensar o sofrimento Junior 2021 Segundo Bezerra Jr 2014 as categorias psiquiátricas são uma forma de apreender de maneira deslocada os modos de vida de determinada época pois ao observar e categorizar sintomas aquilo que os causa não é levando em consideração Dessa forma assuntos que anteriormente revelavam os conflitos e as angústias da existência humana e eram analisados em seu contexto social cultural e psíquico hoje passam a ser entendidos como transtornos que podem ser amenizados através do uso da medicação mais adequada ou seja atualmente existe um processo de tecnicização das formas de enfrentamento do malestar Furtado 2018 Diante disso tem sido possível observar uma patologização da vida que desde os anos 70 tem se tornado crescente em decorrência dos manuais estatísticos que ao se tornarem objetos da cultura passaram a nortear as narrativas das experiências psíquicas a luz de uma certa biologização que dificulta o processo de avaliação do sujeito em relação ao contexto agravando seu sentimento de inadequação cansaço e culpa Furtado 2018 Esses processos de tecnicização se relacionam intimamente com os processos de aceleração social da sociedade moderna e seus imperativos de consumo e competividade os quais mantém os indivíduos em uma constante esteira cuja velocidade passa a ser entendida como uma condição existencial da modernidade Rosa 2022 MACROPOLÍTICA E DESSINCRONIZAÇÃO ESPAÇO TEMPO O início da construção do projeto de Modernidade aconteceu na Europa do século XVIII a partir de alguns eventos históricos que marcaram as crises humanitárias da época e apontaram a necessidade de uma revisão dos ideais civilizatórios em contraposição ao teocentrismo e a favor de uma nova racionalidade que valorizasse as ciências os direitos humanos e a liberdade Carvalho 2012 A possibilidade de instauração desta nova racionalidade foi norteada não somente pela vontade de superar as determinações impostas pelas sociedades da época pobreza doenças ignorância e consequentes dificuldades em diversos aspectos da vida mas sobretudo pela aposta na ascensão de uma nova economia que seria capaz de se fortalecer atendendo aos anseios de progresso e de autonomia das populações Rosa 2022 Nesse sentido a credibilidade do capitalismo foi se estabelecendo na cultura na medida em que discursos políticos liberais juntamente com os evidentes progressos científicos e tecnológicos foram sustentando promessas de melhores condições de vida onde finalmente as pessoas poderiam escapar das determinações de escassez tendo dessa forma a liberdade de traçarem seus próprios planos de vida Rosa 2022 Diante dessas condições de liberdade para autodeterminação o desenvolvimento e o crescimento econômico só se tornariam possíveis através de processos de aceleração social que impulsionados por uma lógica de competitividade formaram um sistema cada vez mais complexo e intensificado pela retroalimentação autopropulsora dele mesmo provocando mudanças na percepção subjetiva em relação ao tempo e ao espaço Rosa 2022 Tendo em vista que as estruturas temporais permeiam todas as dimensões da vida mudanças de percepção neste espectro modificam também as formas de orientação dos indivíduos no mundo o que não é algo determinante para a produção de sofrimento e de patologias sociais mas carrega em si um enorme potencial para isto Rosa 2022 Aceleração x desaceleração Diante da demanda por crescimento econômico agilizar processos operacionais que envolvessem produção transporte e comunicação se tornou um imperativo das sociedades modernas e nesse sentido a tecnologia passou a ser um importante vetor de desenvolvimento e aprimoramento Rosa 2022 Com a aceleração dos processos e a divisão do trabalho o ritmo da vida também sofreu impactos pois a tecnologia permitiu a intensificação da quantidade de atividades no mesmo intervalo de tempo e diante disso poderia parecer lógico pensar que a tecnologia é um dos problemas da aceleração social mas não pois quem define a quantidade de tempo de exposição a ela é a competitividade Rosa 2022 Em uma sociedade capitalista não basta produzir é preciso produzir sempre mais porque não importa o quanto a produção renda o que importa é o quanto é possível produzir além do previsto pois as leis da lucratividade são implacáveis para elas tempo e dinheiro estão estreitamente relacionados Rosa 2022 Com isso ao invés da tecnologia poupar o tempo e a vida do homem o que houve foi o aumento da quantidade de atividades e a percepção de que o tempo é sempre insuficiente pois é preciso fazer cada vez mais em um espaço de tempo percebido subjetivamente como cada vez menor Rosa 2022 Essa aceleração do ritmo da vida implica que o ser humano se torne multitarefa algo que para muitos é motivo de orgulho mas a realidade é que a contração do momento presente implica também na contração das experiências o que pode ser observado objetivamente na diminuição das pausas no menor tempo de sono no menor tempo para refeições e no menor tempo e disposição para investimento em vínculos afetivos Rosa 2022 Compondo este cenário existe também uma espécie de saturação social pois com a exposição aos excessos de informação e as demandas por agilidade a sensação de insuficiência de tempo e pressão psicológica por desempenho se torna cotidiana e estressante interferindo negativamente no momento presente e também na compreensão sobre o passado e o futuro Rosa 2022 Além disso o tempo percebido no mundo passa a ser diferente daquele possível de ser vivido então fica como se não existisse outra opção a não ser acelerar pois talvez seja esta a única condição para minimizar as diferenças entre as possibilidades e a realidade Rosa 2022 Apesar desta expectativa nunca ocorrer o imperativo cultural moderno segue com as promessas de eternidade então não se pensa na morte existe muito o que viver Rosa 2022 Embora a modernidade venha conseguindo demostrar eficiência na superação de diversos limites temporais nem todos os processos suportam a aceleração sem apresentarem prejuízos qualitativos ou ameaça de destruição impondo portanto impeditivos práticos como por exemplo os casos que envolvem recursos de reprodução naturais Rosa 2022 Além desses existem outros processos de desaceleração social que surgem como desdobramentos não previstos das demandas de velocidade tais como as paralisações e ou as lentidões de mobilidade urbana os altos índices de trabalhadores que não conseguem se adequar as exigências modernas e os adoecimentos psíquicos Rosa 2022 Diante disso mesmo que as sociedades tardomodernas possam parecer grandes organismos de oportunidades a intensa e constante aceleração das dimensões tecnológicas e sociais bem como seus desdobramentos já demostram sinais de um sistema que vem estruturalmente se fechado com mínimas possibilidades de abertura e flexibilidade inerte estrutural e culturalmente Rosa 2022 Alienação Experiência Memória e Vida Seres humanos são subjetividades ancoradas no espaço pela experiência da materialidade de um corpo que dotado de órgãos sensoriais estrutura a forma como podem ser percebidos e interpretados os diversos estímulos externos com os quais se relacionam diariamente Rosa 2022 Diante das imposições modernas de velocidade a percepção do tempo passa a ser distorcida interferindo diretamente na qualidade da relação entre as subjetividades e o mundo que parece se tornar um lugar indiferente e por vezes repulsivo Rosa 2022 Longe da presunção de propor uma ideia sobre o que seria ter uma boa vida a intenção é pensar sobre os vazios de sentido que podem ser causados por uma certa alienação ocasionada pelas demandas de aceleração social as quais impedem ou prejudicam muito o desenvolvimento de relações de processualidade e de reflexão Rosa 2022 Com os progressos tecnológicos e a globalização as condições para desenvolvimento de relações sociais na contemporaneidade foram se expandindo para além dos limites territoriais enfraquecendo a necessidade de conexão entre tempo e espaço ou seja é possível estabelecer intimidade com pessoas que não estão próximas Rosa 2022 Se por um lado estes recursos são vistos como positivos por outro em decorrência da aceleração social eles têm potencial de favorecer o desengajamento humano em relação ao seu entorno físico e material prejudicando a manutenção dos vínculos com as pessoas que estão próximas e também com seus entornos Rosa 2022 Com isso os lugares vão se tornando cada vez mais utilitários e sem familiaridade esvaziados de história e de memória na medida em que se tornam todos parecidos tal qual como conceituado pelo antropólogo Marc Augé quando analisa e define a existência dos não lugares presentes na modernidade Marc Augé 1992 como citado em Rosa 2022 Essa falta de reciprocidade se estende em outras dimensões pois o acelerado mercado de consumo impulsiona não somente as compras mas também o descarte dos objetos de convívio impedindo o estreitamento entre as subjetividades e as coisas o que em outros momentos poderia ser algo da ordem da constituição de singularidades Rosa 2022 A aceleração também interfere na capacidade humana de entendimento sobre os produtos oferecidos pelo mercado gerando uma espécie de má consciência por não saberem ao certo se estarão seguros diante daquela compra ou diante daquele novo equipamento cujos recursos são tão avançados em relação ao equipamento anterior que causam uma constante sensação de obsolescência da compreensão humana Rosa 2022 Nessas condições de globalização e falta de tempo a quantidade de informações disponíveis no cotidiano tem se tornado uma sobrecarga e como tal tem potencial alienante algo que somado a aceleração interfere na capacidade de pensamento e tomada de decisões deixando as pessoas mais vulneráveis e expostas as exigências de satisfação imediatas sugeridas pelo mercado Rosa 2022 Diante desses fatores na contemporaneidade o momento presente ao ser mais utilizado para atender as demandas externas do que atender as demandas de fato importantes sob o ponto de vista existencial coloca as pessoas numa condição de autoalienação em relação aos seus atos e alienação em relação ao seu tempo Rosa 2022 O interessante nisso é que ao se distanciarem das coisas que as caracterizavam positivamente as pessoas vão gradualmente perdendo as referências sobre as razões pelas quais se conectavam a essas determinadas coisas e seguem guardando essas referências na memória como algo que pode ser resgatado se houver tempo então nesse sentido elas conseguem se ver como pessoas que mudaram no tempo mas não conseguem se perceber como pessoas que já não tem conseguido produzir tempo de qualidade Rosa 2022 As experiências de vida e de produção de memória se organizam através de uma condição paradoxal e subjetiva de apreensão do tempo enquanto as vivências no presente são gratificantes e prazerosas existe a impressão de que esse tempo passou muito rápido portanto foi curto mas na lembrança ele se torna longo Rosa 2022 O inverso também é verdadeiro quando os dias e por exemplo o tempo do expediente se arrasta para passar numa sensação de dia interminável portanto longo e lento na lembrança ele se torna curto Rosa 2022 Ocorre que na modernidade essas experiências de tempo e memória não correspondem mais ao modelo clássico conforme descrito acima pois diante da aceleração social da imposição constante de velocidade da escassez de tempo e do empobrecimento de experiências reais subjetivascorpóreas a percepção dos sentidos se torna parcial e descontextualizada ou seja as experiências possíveis deixam de corresponder de forma significativa ao mundo interior de cada um e dessa forma além de não serem gratificantes também não produzem memórias Rosa 2022 Walter Benjamin já há quase um século fazia esse tipo de reflexão e diferenciação entre momentos somente de experiência e momentos de experiência que produzem sentido deixando marcas portanto momentos que permitem registros emocionais no tempo Walter Benjamin como citado em Rosa 2022 Não é por acaso que na atualidade diante do cansaço e do esgotamento imposto pelas condições de aceleração social e competitividade venha sendo difícil estabelecer uma narrativa interessante a partir das circunstâncias que estão postas em circulação e sendo assim o mundo tem se tornado cada vez mais frio e silencioso carente de eixos de ressonância o que é extremamente preocupante Rosa 2022 Era Pós Democrática Para Rosa 2022 percepções a respeito de sofrimento e de alienação não são imediatamente postas à consciência dos atores sociais e isso não pode ser entendido como alguma incapacidade da natureza humana mas sim como algo que se relaciona diretamente as ideologias e as falsas consciências o que pode ser confirmado pela demonstração contraditória entre as convicções e as atitudes dos próprios atores no mundo social Condições sociais que estruturam as atividades humanas através de um projeto que estabelece um horizonte de expectativas de consumo e acumulação no mesmo passo em que torna esse horizonte inalcançável pela via das determinações destas mesmas condições na realidade não estão estruturando a atividade humana mas sim se perpetuando através dela Rosa 2022 É por isso que as patologias sociais não podem ser compreendidas como disfunções humanas que ameaçam impedem ou dificultam o ritmo da produção material e simbólica das sociedades pois se assim forem haverá um distanciamento ainda maior de um caminho de transformação cujas expectativas sejam norteadas para atender as necessidades reais das pessoas e não a manutenção de um sistema que as impedem disso Rosa 2022 As condições para uma sociedade justa estariam na possibilidade da existência de um diálogo onde os grupos diversos pudessem fazer reivindicações de suas necessidades através da apresentação de argumentos que seriam sistematicamente analisados e aprovados na medida em que o coletivo social de forma democrática entendesse que tais reinvindicações pudessem ser normas aplicáveis Jürgen Habernas 1992 como citado em Rosa 2022 Independentemente das demais variáveis que envolvem e aumentam a complexidade dessa forma de pensar e definir questões de interesse social é inegável que esse formato em sua constituição requer tempo algo incompatível com as atuais demandas impulsionadas pelos imperativos de aceleração social Rosa 2022 Então o que tem se estabelecido na tardomodernidade não é a determinação apontada pela análise dos melhores argumentos mas sim aquela que melhor se sincroniza com a força dos ressentimentos e com as reatividades inconscientes do ser humano que impregnado pela lógica da competição um dos maiores motores da aceleração não tem percebido que a dinâmica da estrutura social não é algo natural mas sim algo construído portanto politicamente passível de negociação Rosa 2022 Nas sociedades modernas as lutas por reconhecimento social em decorrência da aceleração ultrapassaram o ritmo geracional onde as posições de reconhecimento poderiam ser construídas ao longo de uma existência passando a orbitar em um ritmo intrageracional onde a luta por posições vai se dar no cotidiano medido pelo desempenho e pela melhor performance podendo ser desvalorizado sob qualquer flutuação adversa Rosa 2022 Essa luta incessante pelo reconhecimento diário é o que pode estar por trás dos fenômenos cada vez mais crescentes de depressão e esgotamento pois parece já não haver mais espaço para descanso somente para exaustão Alain Ehrenberg 1999 e Axel Honneth 2003 como citado em Rosa 2022 Diante disso a aceleração social anteriormente entendida como necessária para que fosse possível alcançar os ideais previstos no projeto modernizante de crescimento e autonomia passa a ser um princípio abstrato que rege as formas de organização da vida em todas as instâncias social objetiva e subjetiva de maneira totalitária deixando de ter um potencial libertador passando a ser uma forma de escravidão Rosa 2022 Sendo assim se torna urgente uma reinvenção do projeto da Modernidade antes que o capitalismo em sua versão mais recente e agressiva a neoliberal produza impactos ainda mais destrutivos sobre o planeta levando a extinção qualquer forma de responsividade e possibilidade de vida Rosa 2022 NEOLIBERALISMO E SUBJETIVAÇÃO Dado um socius ela a esquizoanálise somente pergunta pelo lugar que ele reserva à produção desejante que papel motor o desejo tem nele sob que formas nele se faz a conciliação do regime da produção desejante e do regime da produção social uma vez que de toda maneira é a mesma produção mas sob dois regimes diferentes Gilles Deleuze Félix Guatarri O AntiÉdipo p504 A Natureza Implícita A história do sujeito ocidental é marcada por diversas transformações que induzidas pela economia produziram desdobramentos subjetivos cujos efeitos se manifestaram nas formas das organizações sociais mercantis e políticas Dardot Laval 2016 O homem moderno durante muito tempo esteve exposto a regimes normativos e políticos heterogêneos cujos conflitos se estabeleciam na medida em que as relações de poder e estratégias políticas precisavam romper com os limites estabelecidos para assim determinar novos arranjos Dardot Laval 2016 As democracias liberais eram palcos de múltiplas tensões mas dentro de certos limites não se opunham ao funcionamento heterogêneo do sujeito a quem era permitido manter certa autonomia em relação as regras normas morais e religiosas políticas e econômicas estéticas e intelectuais Dardot Laval 2016 Ao separar e articular essas diversas dimensões da vida se estabelecia um certo equilíbrio e tolerância Dardot Laval 2016 Mesmo assim deste contexto emergiram duas forças a democracia política cujo cidadão era dotado de direitos alienáveis e o capitalismo cujo homem econômico seria guiado por seus próprios interesses Dardot Laval 2016 A ideia capitalista se fortaleceu e as novas relações mercantis mudaram novamente os sujeitos que submeteram também as relações humanas à lógica do máximo lucro Dardot Laval 2016 A mercantilização generalizada das relações sociais e a urbanização foram grandes impulsionadores da construção de indivíduos com menos apego às tradições e origens além de menos lealdade aos vínculos pessoais e familiares Dardot Laval 2016 O liberalismo clássico do século XVIII foi caracterizado pela construção de leis que determinaram os limites do governo permitindo a regulação das decisões políticas que mesmo através de técnicas flexíveis utilitaristas visavam orientar estimular e combinar os interesses individuais com as necessidades da sociedade Dardot Laval 2016 Mesmo que os sujeitos liberais acreditassem que viviam de forma livre a realidade é que eles faziam parte da engrenagem cuja suposta liberdade era somente uma nova forma de sujeição às leis impessoais e incontroláveis da valorização do capital Dardot Laval 2016 No século XIX os liberais passaram a divergir resultando em uma crise que teve origem interna A unidade liberal começou a se fragmentar impulsionada pela necessidade de revisão das certezas pois foi polarizada pelas tensões entre os que defendiam as liberdades individuais e os reformistas sociais que defendiam o bem comum Estoura a Primeira Guerra Mundial e os entreguerras Dardot Laval 2016 A crise do liberalismo se estendeu de 1880 até 1930 e neste período locais onde os reformistas sociais predominaram os rumos da economia ganharam uma certa similaridade com ideais socialistas o que também contribuiu para a caracterização do cenário intelectual e político precedente ao neoliberalismo do século XX Dardot Laval 2016 Além de ser um sistema político e econômico a economia neoliberal é uma lógica normativa regida por discursos e princípios universais de concorrência onde o direito privado é garantido ficando protegido contra qualquer regulação que possa delimitar sua expansão Dardot Laval 2016 Ora se no neoliberalismo o direito privado ao ser garantido fica protegido de qualquer regulação que possa delimitar sua expansão fica evidente que o projeto neoliberal é produtor e também mantenedor de desigualdades sociais pois ao permitir a acumulação de capital consequentemente autoriza degradação e pobreza Dardot Laval 2016 Nesse sentido a compreensão do neoliberalismo precisa necessariamente passar pela noção de que ele é um projeto político econômico cuja natureza implícita manifesta uma ideia antidemocrática que vai impactar diretamente e negativamente as condições de vida das populações Dardot Laval 2016 Se é tarefa do Estado Democrático de Direito garantir o direito de todos ao se descomprometer de intervir de forma regulatória na expansão da propriedade privada na realidade ele não está se ausentando está se colocando ativo em uma escolha de anti intervenção Dardot Laval 2016 Se pela lógica neoliberal é o mercado quem deve se autorregular isso só é possível pela via do amparo do Estado e este amparo neste caso é garantido pela intenção e ação da não intervenção Dardot Laval 2016 As consequências são desastrosas para as populações e tendem a se agravarem progressivamente Dardot Laval 2016 Além do aumento da pobreza e das assimetrias sociais as dinâmicas de concorrência enfraquecem a organização de possíveis ações coletivas que se tornam incapazes de agir contra o neoliberalismo Dardot Laval 2016 Com isso vem a intensificação das crises os retrocessos sociais e as precarizações em diversos níveis Dardot Laval 2016 Todo esse movimento destrutivo acaba por configurar uma racionalidade e sendo assim estrutura e organiza tanto os governantes como os governados Dardot Laval 2016 O Rompimento dos Laços Sociais Diante da impossibilidade do organismo humano ao nascer se desenvolver sem depender de cuidados a constituição do sujeito passa a ser marcada por experiências subjetivas de desamparo e de posterior satisfação pela via da intervenção do outro constituindo assim a instauração psíquica do desejo Cavalcanti Poli 2015 Estas duas formas de funcionamento mental resultantes da dinâmica pulsional são fundamentais para compreender não somente a constituição do sujeito freudiano mas também para entender que os movimentos civilizatórios foram orientados pelos mesmos objetivos a retomar a diminuição das experiências de desamparo e o aumento das experiências de satisfação Cavalcanti Poli 2015 Desde O malestar na cultura 1930 Freud apontava a necessidade do represamento pulsional para que a vida em sociedade fosse possível e isso não aconteceria sem experiências de sofrimento eis então que surge um paradoxo a busca pelos laços sociais foi motivada pelo desamparo mas a reincidência do desamparo acontece no encontro com a alteridade Quinet 2009 Para Quinet 2009 o malestar na cultura é também o malestar dos laços sociais pois sem o devido enquadramento da pulsão existe a tendência humana de tratar o outro como objeto a ser consumido Nesse sentido o entendimento sobre a construção dos laços sociais passa fundamentalmente pela compreensão das formas de renúncia pulsional e de perda de gozo que determinada época e cultura impõe aos seus sujeitos Tizio 2007 Para Lacan o malestar poderia ser amenizado na medida em que a linguagem pudesse se tornar instrumento de limitação simbólica do gozo sendo este um importante recurso tanto para a formação dos vínculos sociais quanto para a manutenção deles impedindo possíveis rupturas Lacan 1977 como citado em Tizio 2007 A teoria dos quatro discursos de Lacan retoma os princípios freudianos sobre formas relacionais governar educar analisar e fazer desejar e os atualiza dizendo que os vínculos sociais são estruturados pelas posições que os sujeitos ocupam frente às representações dos significantes que envolvem os discursos do mestre do universitário do analista e da histérica Lacan1992 como citado em Coelho 2006 Para Lacan são estes os discursos que fazem laço social pois eles organizam e registram as formas de relação através de estruturas significantes que excedem a linguagem pois regem os vínculos de forma simbólica ou seja o que está em pauta para fazer laço são as formas e as regras de como a cultura entende e tece essas relações Lacan 1992 como citado em Coelho 2006 Os discursos são formas de relação e regulação do movimento pulsional pois inscrevem e circunscrevem o desamparo em movimento dinâmico permitindo que os sujeitos mudem de posição frente ao outro e se reconheçam de outra forma Cavalcanti Poli 2015 Ocorre que no século XXI com o surgimento dos discursos do capitalista e da ciência os engendramentos dos laços sociais mudaram a heteronomia se transformou em autonomia enfraquecendo a necessidade de suporte do outro que agora é virtual pois não existe mais o discurso do mestre e da alteridade agora é somente o discurso do capital quem estabelece as regras Quinet 2009 A globalização é a manifestação mais clara de que o capital ultrapassou todos os discursos desfazendo os laços sociais produzindo sujeitos que se movimentam pela falta de gozo promovendo uma nova economia libidinal onde o maisvalia toma lugar de causa do desejo autorizando a exploração do seu semelhante que passa a ser visto como possibilidade de obtenção de lucro Quinet 2012 O discurso do capitalista é um discurso que não faz laço social pois o sujeito é reduzido a um consumidor que está sempre em dívida em relação as leis de mercado e estas se sobrepõem às relações sociais produzindo segregação entre aqueles que podem comprar os objetos produzidos pela ciência e tecnologia e aqueles que não podem Quinet 2012 Os sujeitos passam a interpretar que a falta de gozo é a falta de dinheiro e que a falta de ser é a falta de ser rico Quinet 2012 Toda essa lógica evidencia a modificação do sujeito moderno em relação a percepção de seu próprio gozo e ao sacrifício que ele faz para tentar gozar Quinet 2009 O capitalismo socializou o desejo pois o maisgozar na realidade é uma renúncia ao gozo diante do efeito do discurso é um ainda nãogozar constante é uma perda de gozo Lacan 1966 1967 como citado em Safatle 2020a O sujeito não se expressa pelo trabalho ele é produzido pelo processo de produção de valor impulsionado incessantemente pela possibilidade de ultrapassagem de seus próprios limites Safatle 2020a A Colonização das Subjetividades Diante da impossibilidade de o sujeito dar conta de toda a complexidade que envolve a multiplicidade do real ele passa a fazer apreensões parciais mediadas por afecções que vão dar origem a esquemas associativos construídos a partir de elementos heterogêneos de ação e sensação os quais pela via da síntese e da repetição vão constituir o hábito Hur 2019 Se o hábito é constituído pela repetição das sínteses originadas pelos esquemas associativos derivados das apreensões possíveis mediadas pelas afecções a lógica cartesiana penso logo existo baseada na razão está invertida pois não é o sujeito quem constitui o hábito e sim as condições de repetição das sínteses é que produzem o ser e as subjetividades ou seja é existindo que ser torna possível ser afetado e a partir disso pensar Hur 2019 Esse contexto evidencia a importância da investigação sobre as condições que se estabelecem entre o campo social e as afecções tendo em vista que a produção de subjetividade e também de subjetivação vão ser desdobramentos resultantes destas articulações as quais por óbvio serão alvo de manobras de gestão da vida e de controle biopolítico Hur 2019 Com as modificações trazidas pela implementação do capitalismo as sociedades ocidentais passaram a ser reguladas por processos de codificação os quais foram sendo estabelecidos através da determinação de normas e do fortalecimento das instituições que visavam com isso criar enunciações e regimes de verdades e de condutas produzindo então as subjetividades disciplinares Hur 2019 Esta forma de subjetividade a disciplinar internalizou uma série de significantes que reduziram as multiplicidades do real às conformações dicotômicas binárias simplificando imensamente as interpretações do mundo criando códigos capazes de definir e delimitar o normal e o desviante Hur 2019 Viver em um mundo codificado atravessa e interfere negativamente a condição de pensar pois o pensamento nesta lógica vai se configurar a partir de imagens préconcebidas e idealizadas mas isso não é pensamento é reprodução e reconhecimento Hur 2019 O pensamento existe somente onde é impossível definir uma forma pois ele opera pelo desmoronamento pela desagregação e pelo desconhecimento Deleuze 1997 como citado em Hur 2019 Quando o movimento de pensar é cristalizado em imagens dogmáticas ele é capturado pelos registros das representações produzindo uma massificação padronizada por falsos códigos Hur 2019 Os saberes disciplinares são estratégicos porque se enredam entre práticas científicas e políticas ou seja disciplinam para socialização e regulam para a punição Foucault1984 como citado em Hur 2019 O importante nessa lógica é ser normal ser adaptável manterse em obediência Hur 2019 Sendo assim fica evidente que o capitalismo não modificou somente as relações econômicas e políticas mas todas as dimensões constituintes da realidade interferindo também na produção de novos arranjos psicossociais se tornando a forma mais poderosa de captura de subjetividades alterando as formas de ser e de estar no mundo Hur 2019 Na atualidade o neoliberalismo não se propaga mais somente pelos códigos e normas mas principalmente pelo funcionamento do pensamento e pela captura do desejo impregnando por todos os espaços à lógica da superação e da máxima produção Hur 2019 A necessidade do mais produzir transbordou os limites das normas e a alienação deixou de ser fechada pela ideologia e pelo fetiche mas pela promessa de abertura e desgaste energético pela necessidade do rendimento Hur 2019 A subjetividade capitalista parece heterogênea mas ao contrário é fundamentalmente homogênea em seu funcionamento pois os investimentos desejantes são sincronizados a axiomática do capital que opera de forma abstrata em todas as dimensões da realidade tanto materiais quanto imateriais Hur 2019 Atualizações de gestão da vida pedem passagem Se o excessivo controle e disciplina aprisionava agora existe uma abertura uma busca incessante pelo rendimento e neste sentido mudaram também as técnicas de cuidados em saúde se no diagrama disciplinar o objetivo era diagnosticar para normatizar e adaptar na atualidade com o diagrama do rendimento essa lógica se transforma agora é preciso conhecer para intervir e estimular visando pela via do positivismo a obtenção de maior produtividade movimento e superação Hur 2019 Esta convocação produz um enredamento que muitas vezes se sobrepõe a capacidade do indivíduo de perceber que a mesma sociedade que estimula a competitividade vai criando e transformando as linhas de chegada instituindo novos modelos de sucesso inalcançáveis para a maioria colocando o sujeito frente a uma idealização de que tudo é possível e caso não seja será por culpa de sua própria inabilidade Alves Sanches De Luccia 2021 O contexto neoliberal e os imperativos de produção e competitividade descodificaram as diferenciações entre as classes sociais e por isso não há mais luta entre dominantes e dominados pois atualmente todos pensam pertencer a burguesia pelo menos pela via da idealização e desejo pelos mesmos padrões de consumo Hur 2019 Surgem então outros problemas o desamparo diante da responsabilidade de gerir a própria trajetória e os riscos frente as permanentes indeterminações Alves Sanches De Luccia 2021 Criamse novas formas de malestar Criamse novos sintomas Criamse também novas formas de lidar com a expectativa de desempenho e com o esgotamento Antidepressivos ansiolíticos estimulantes É a crise da subjetividade capitalista Lazzarato 2014 como citado em Hur 2019 PSIQUIATRIZAÇÃO DA EXISTÊNCIA Demonologia bruxaria exorcismo perseguição intolerância fogueira manicômios camisas de força cadeiras giratórias ervas alucinógenos álcool ópio cocaína haxixe hidroterapia malarioterapia insulinoterapia eletroconvulsoterapia lobotomia neurolépticos bioética Bioética Wang Neto Elkis 2007 A compreensão da história da psiquiatria precisa ser também a compreensão dos contextos sociais políticos e culturais de onde ela emerge e marca registros no tempo pois necessariamente está associada às possibilidades epistêmicas e tecnológicas que deram e poderão dar forma a suas teorias e práticas Bezerra Jr 2014 Após 200 anos de atividades voltadas a descrição e taxionomia de doenças a psiquiatria teve seu reconhecimento como especialidade médica somente na década de 50 com o desenvolvimento de fármacos capazes de controlar sintomas depressivos graves Junior 2021 Por efeito este sucesso como uma ciência prática impulsionou um movimento de reorientação epistemológica onde a adoção de critérios pragmáticos e convencionalistas passaram a ser compreendidos como preferíveis criando assim uma distância das origens causais que constituíam as nosologias críticas e reflexivas envolvidas na produção dos conhecimentos anteriores Junior 2021 Então ao invés da produção do conhecimento psiquiátrico acontecer a partir da avaliação e do acompanhamento de fenômenos constituintes da própria experiência clínica eles passaram a ser produzidos em função dos resultados que determinados princípios ativos teriam sobre determinados comportamentos Junior 2021 Sendo assim ao agrupar e nomear conjuntos de sintomas que podem ser desativados de forma neuroquímica com o auxílio dos medicamentos disponíveis a psiquiatria acaba por definir de forma antecipada as patologias que pretende dar conta Junior 2021 Nesse contexto as características diagnósticas colocam em circulação uma espécie de conhecimento sobre o sofrimento psíquico que não opera somente como forma de reconhecimento para facilitar um tratamento mas principalmente como uma forma de determinação Bezerra Jr 2014 O Lado B dos Manuais Diagnósticos Na primeira metade do século XIX algumas visões constituíam o campo da psicopatologia entre elas a psicodinâmica relacional de Freud onde o sintoma era compreendido como um signo que poderia ganhar sentido por intermédio de uma nosografia caracterizada a partir das três estruturas fundamentais da psicanálise as neuroses as psicoses e as perversões Bezerra Jr 2014 Além desta existia a vertente somático constitucionalista de Emil Kraepelin que compreendia os sintomas como algo constitutivo de um quadro passível de categorização e ainda uma terceira visão a fenomenológica existencial de Karl Jaspers Eugene Minkowski e Kurt Schneider mais próxima da concepção relacional de Freud Bezerra Jr 2014 Segundo Bezerra Jr 2014 embora essas macrovisões teóricas sobre o campo da psicopatologia estivessem presentes da sociedade da época elas não tinham relação nem embasavam nenhum manual de orientação clínica ou estatística O primeiro sistema de classificação psiquiátrica desenvolvido nos EUA foi criado em 1840 dividido em duas categorias insanidade e idiotia com a finalidade de organizar dados de recenseamento demográfico Bezerra Jr 2014 Já o segundo de 1917 era utilizado para produção e registros de dados nos ambientes hospitalares e foi dividido em sete categorias mania melancolia monomania paresia demência dipsomania e epilepsia Bezerra Jr 2014 Com o final da 2ª Guerra Mundial e a alta demanda de veteranos que precisavam ser reinseridos na sociedade os EUA que nunca investiram em um sistema público de saúde foram demandados a organizar e financiar ações de saúde em larga escala porém mesmo existindo vários sistemas de classificação em uso nenhum tinha correspondência com os sistemas que os hospitais utilizavam para formalização dos seus registros Bezerra Jr 2014 Neste contexto surge uma proposta realizada pelos membros da Associação Americana de Psiquiatria APA a de estabelecer uma classificação que pudesse funcionar de forma homogênea e independente da Classificação Internacional de Doenças CID criada pela Organização Mundial de Saúde OMS que já estava na 6ª versão e que não abrangia os males causados pela guerra Bezerra Jr 2014 Sendo assim em 1952 foi lançado pela APA o DSM I dividido em 106 categorias diagnósticas organizadas fundamentalmente a partir do espectro psicopatológico que caracterizava os transtornos neuróticos psicóticos e de caráter descritos de forma a destacar aspectos relacionais e subjetivos dos pacientes ou seja fortemente influenciado pela psicopatologia psicanalítica Bezerra Jr 2014 Em 1968 foi lançado o DSM II na mesma lógica do I mas agora com 180 categorias diagnósticas Bezerra Jr 2014 Nesta ampliação surgiram os transtornos comportamentais na infância e na adolescência e também uma seção que descrevia desvios de natureza sexual colocando a homossexualidade como um transtorno mental Bezerra Jr 2014 Se até então ambos manuais eram usados somente por psiquiatras e tinham finalidades mais administrativas do que clínicas com a inclusão desta categoria que transformava a homossexualidade em doença mental o debate deixou de ser exclusivamente médico e ganhou dimensões públicas com implicações políticas Bezerra Jr 2014 Após diversas contestações em 1970 simpatizantes do movimento invadiram um congresso na Associação Americana de Psiquiatria barrando a entrada de psiquiatras no local impulsionando um debate que após inúmeras discussões internas e votações entre os próprios membros da APA resultou na sétima edição do manual impressa já sem tal categoria McCommom 2006 como citado em Bezerra Jr 2014 O ano de 1968 foi um ano simbólico de reivindicações sociais e mudanças culturais em todo o mundo e os debates que continuaram por toda década de 70 foram determinantes para a mudança estrutural do próximo manual o DSM III publicado em 1980 agora com 295 categorias diagnósticas Bezerra Jr 2014 A organização do DSM III foi completamente diferente dos princípios que nortearam a estruturação dos manuais anteriores em especial pelo abandono da concepção do sintoma como um signo em detrimento da concepção do sintoma como um sinal ou seja houve um rompimento com a psicanálise e com a forma de pensar a subjetividade Bezerra Jr 2014 Com essa mudança as categorias diagnósticas passaram a ser organizadas em função de agrupamentos objetivos de sintomas e de comportamentos visíveis operando como concepções somente descritivas e ateóricas distanciadas da dimensão relacional subjetiva e dos conflitos intrapsíquicos existenciais Bezerra Jr 2014 Dessa forma a psiquiatria pretendia transformar a nosologia clínica com objetivo de conseguir delimitar em categorias precisas as descrições biológicas observáveis que responderam às intervenções psicofarmacológicas experimentadas e desenvolvidas nas décadas anteriores Bezerra Jr 2014 Nesse sentido a classificação do DSM III ao recusar a etiologia do sintoma determinando o diagnóstico a partir de um agrupamento sintomatológico meramente observável diferiu também da concepção teórica que o teria inspirado inicialmente Emil Kraepelin em sua vertente somáticoconstitucionalista agrupava sintomas a partir da observação evolutiva do paciente e de hipóteses etiológicas tentando com isso construir uma narrativa a respeito das condições apresentadas Bezerra Jr 2014 Logo a partir do DSM III as categorias psiquiátricas passaram a ser determinadas pela inclusão ou exclusão de quantidade duração e intensidade de características observáveis fazendo surgir as comorbidades o que através de um sistema de análise multiaxial fez o diagnóstico atender também a demandas de pesquisas e ensaios controlados para avaliação de psicofármacos Bezerra Jr 2014 Em 2013 veio a publicação do DSM V e junto com esta edição emergiu um campo de tensões geradas pela própria psiquiatria Francis Allen responsável pelo DSM IV publicado em 1994 criticou publicamente via internet os princípios que nortearam a construção do DSM V Bezerra Jr 2014 Além da crítica pública feita por Allen também a NIMH National Institute of Mental Health registrou oficialmente que passaria a usar o RDoC Reserch Domain Criteria como instrumento orientador de suas pesquisas pois segundo a justificativa apresentada o DSM por se apoiar em agrupamentos objetivos de sintomas não fornece condições de sustentação para pesquisas etiológicas impedindo portanto o desenvolvimento de estudos e tratamentos de ordem neurobiológica Bezerra Jr 2014 Com a utilização do RDoc fica evidente a intencionalidade do NIMH em buscar uma outra forma de pensar os transtornos mentais dessa vez ainda mais radical e reducionista com objetivo de tentar reter e vincular a nosologia psiquiátrica à uma prática exclusivamente científica Cuthbert Insel 2013 como citados em Bezerra Jr 2014 Tendo em vista que a psiquiatria sempre foi constituída por tentativas tensões e contradições internas talvez seja importante um novo movimento onde ela possa se reestabelecer simplesmente como uma prática humana racional e ética que se estabelece na incerteza da experiência clínica refutando dessa forma determinismos e reducionismos diagnósticos que podem inclusive vir a colocála em descrédito Banzato Pereira 2014 Diante deste contexto é importante perceber que categorizações de qualquer natureza são organizações realizadas a partir de orientações que pretendem cumprir os objetivos que as fizeram ser necessárias ou seja as classificações são feitas de acordo com a demanda com os recursos e agrupamentos possíveis em determinada ocasião sempre tentando criar uma dimensão de inteligibilidade e representação dos dados categorizados Bezerra Jr 2014 As classificações têm implicações problemáticas porque elas sempre se configuram como uma aparência possível de delimitação de verdade ou seja tudo aquilo que pode ser reconhecido compreendido e agrupado em determinado momento poderá deixar de ser incluído justamente por ainda não ser reconhecido logo as classificações são sempre parciais e por isso não são neutras elas operam regulando e excluindo Bezerra Jr 2014 O Compromisso da Indústria Farmacêutica As publicações dos manuais DSM I e DSM II refletiam a clássica e sempre atual tensão entre as concepções psicossociais e as concepções biológicas a respeito das etiologias dos transtornos mentais Bezerra Jr 2014 No DSM III essa tensão tentou ser minimizada com a inclusão de uma observação no capítulo sobre os Transtornos Mentais Orgânicos cujo objetivo era informar que os transtorno nãoorgânicos portanto os funcionais também eram dependentes de processos cerebrais Bezerra Jr 2014 Essa ascensão do naturalismo no DSM III não aconteceu por acaso ela estava correspondendo ao sucesso dos psicofármacos clorpromazina diazepínicos e antidepressivos tricícliclos recentemente introduzidos na prática psiquiátrica e também à grandes descobertas biológicas da época identificação da dupla hélice do DNA em 1952 plasticidade cerebral epigenética entre outros Bezerra Jr 2014 Em 1960 movimentos que lutavam pela desinstitucionalização do modelo asilar de assistência psiquiátrica ganharam força argumentando que com o uso de psicofármacos seria possível criar sistemas de assistência fora dos ambientes segregativos hospitalares o que de fato foi implementado mas não sem rigor burocrático Bezerra Jr 2014 Para que estes fármacos pudessem circular no mercado biomédico eles precisariam passar por diversas regulações governamentais as quais exigiram comprovações a respeito dos efeitos de eficácia prometidos para tratamento de determinadas doenças que também deveriam ser bem especificadas Bezerra Jr 2014 Este foi o contexto que deu início a relação de cumplicidade entre a medicina mental e a indústria farmacêutica que a partir de então se impulsionaram e se desenvolveram de forma progressivamente complementar criando possibilidades de trabalho uma para a outra e se fortalecendo por isso Bezerra Jr 2014 Ocorre que a indústria farmacêutica não é um organismo a parte do que se estabelece no sistema social ela também é alvo do neoliberalismo e nesse sentido também vai se utilizar dos recursos e das possibilidades do seu tempo para criar condições de desenvolvimento e permanência ou seja será através do aumento de produção e de consumo de medicamentos que ela vai conseguir obter lucro Oliveira 2018 Todo esse imbricamento de reciprocidades entre a corporação psiquiátrica com seus manuais terapêuticas e receituários e a indústria farmacêutica com toda sua organização que envolve desde financiamentos de instituições científicas até manipulação de pesquisas e massivo investimento em marketing vem historicamente criando um circuito poderoso de retroalimentação que impede contestações especialmente porque foi se estabelecendo na cultura legitimado pelo discurso científico do saber médico Oliveira 2018 Isto é o que está por trás dos crescentes fenômenos de patologização e medicalização da vida cuja consequência imediata é a naturalização das experiências de malestar e sofrimento psíquico que passam a ser explicados a partir de déficits biológicos individuais portanto resolvidos com medicação Furtado 2018 Explicar o sofrimento a partir de desregulações biotecnológicas significa intervir de forma manipulativa sobre a condição humana e sobre o imaginário coletivo que passa a perder referências sobre seus estados emocionais e as questões sociais o que torna a atual aliança entre a medicina mental e indústria farmacêutica perversa Furtado 2018 A Negação da Natureza Trágica da Vida A consequência imediata de atrelar o sofrimento psíquico às disfunções orgânicas é a invalidação do sentido da reação emocional do sujeito frente aos acontecimentos cotidianos ou seja ao se criar uma gramática para a tristeza e para a inconformidade humana à luz da naturalização de suas causas os sujeitos são privados de sua observação crítica quanto ao meio social Junior 2021 E mais quando neste contexto as medicações passam a ser entendidas como recursos possíveis para amenização de angústias dificuldades e frustrações o sujeito contemporâneo ao pensar sua interioridade como uma disfuncionalidade facilmente adere aos fármacos algo que dentro de uma lógica capitalista que fabrica o tempo todo novos consumidores e novos objetos de consumo não surpreende Junior 2021 A história da psiquiatria vem se constituindo por meio de fases marcantes primeiro o processo de biologização onde o sujeito é visto como um ser independente da dimensão social e histórica que o contorna depois a patologização da vida onde os sofrimentos passam a ser nomeados pelas categorias diagnósticas dos manuais psiquiátricos e atualmente o enhancement onde as práticas curativas passam a ser substituídas pela necessidade da performance Neves Ismerim Costa Santos Senhorini Beer Bazzo Coelho Carnizelo Junior 2020 O enhancement visa a superação e o máximo desempenho para que dessa forma a condição humana possa extrair toda satisfação que puder de maneira a minimizar o desconforto sempre aumentando a possibilidade de melhorar as condições para atender os imperativos sociais sejam eles de desempenho intelectual laboral estético esportivo ou nutricional sempre buscando bemestar Neves et al 2020 Essa lógica do enhancement parece ter bastante identificação com o conceito positivo de saúde introduzido pela OMS a qual no início de sua Constituição em 1946 afirmava saúde é um estado de completo bemestar físico mental e social e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade Ramos 2014 O problema é que a interpretação desse conceito não pode ser descontextualizada do momento ao qual ela se fez absolutamente necessária diante da absurda violação dos direitos humanos em função das grandes guerras onde as gerações foram duas vezes afetadas dentro da mesma temporalidade de uma vida fezse urgente a criação de Estados fortes e comprometidos com a garantia de direitos sociais fundamentais Ramos 2014 Ocorre que entre 1980 e 1990 com o novo contexto político e econômico o Estado forte responsável pela garantia de direitos se tornou um Estado mínimo transformando o acesso aos direitos em uma luta cotidiana Ramos 2014 Além dessa modificação do papel do Estado os autores da Constituição da Organização Mundial da Saúde de 1946 também não tinham condições de prever os efeitos do capitalismo pósindustrial da globalização econômica e cultural dos imperativos de consumo das mídias e da superficialidade das relações sociais Ramos 2014 Neste contexto do capitalismo pósindustrial globalizado a compreensão do conceito positivo de saúde passa a ser deformada para ausência de saúde não é apenas presença de doença mas existência de malestar físico mental e social Ramos 2014 Então na contemporaneidade quase tudo passa a ter potencial comercial se for vendido com promessas de felicidade de conforto psíquico e de aumento de autoestima o que demostra a dificuldade da condição humana em lidar com as incertezas sobre si mesmo afinal os homens criam condições mas também são produzidos por elas Furtado 2018 Nesse sentido a psiquiatria se configura como um campo científico mas também como um campo moral pois ao ser constantemente tensionada entre a produção de conhecimento e de cuidado oscilando entre possibilidades de determinação da experiência mas também de autonomia do sujeito fica evidente o esforço que se impõe ao tentar proporcionar algum entendimento a respeito da existência sendo que a realidade é que a condição humana é uma condição essencialmente ontológica e aberta Bezerra Jr 2014 Segundo Bezerra Jr 2014 ao se ocupar da nomeação e tratamento da dor do sofrimento e da angústia a partir de um contorno diagnóstico passível de intervenção médica a psiquiatria pretende poupar os indivíduos do encontro com o trágico Nesse contexto a psiquiatria além de outras coisas pode ser pensada como a negação institucionalizada da natureza trágica da vida Thomas Szasz 1991 como citado em Bezerra Jr 2014 MICROPOLÍTICA E RESISTÊNCIA Governar a si próprio expressa uma ação regra facultativa que deriva mas se autonomiza da relação de poder A força deixa de afetar apenas outras forças mas tem que se dobrar em si num processo de autoafecção e nessa dobragem gera um novo posicionamento político que resulta na produção de subjetivação Caso contrário se a força não dobra sobre si o regime de governabilidade não seria mais entre homens livres senão uma tirania Domenico Hur Psicologia Política e Esquizoanálise p51 A Ressonância Partindo do princípio de que o mundo é um ambiente compartilhado e que as relações sociais são produtos das instituições e das práticas o que deveria motivar o interior das ações políticas Os conflitos de oposição ou a busca pela formatação de eixos que estruturem os interesses em comum Rosa 2022b Se as relações sociais são produções elas podem ser transformadas e nesse sentido é importante ultrapassar a ideia dos antagonismos e perceber que existem diversas outras formas possíveis de relacionamento com o mundo Rosa 2019 A ressonância é uma forma relacional que acontece no encontro e no instante naquilo que emerge do entre e abre caminhos para possibilidades de transformações mútuas implicando em significações intrínsecas além de favorecer experiências de autoeficácia decorrentes da sensação de vitalidade proporcionada pela própria condição Rosa 2019 A ressonância não tem ligação direta com a noção de harmonia pois uma relação dissonante e contraditória também pode ser ressonante Rosa 2019 A ressonância em si é contrária a alienação que seria uma forma impotente de relação com as experiências sejam elas sociais materiais ou existenciais Rosa 2019 A alienação não chega a ser uma condição de indiferença nem de repulsão pois estas últimas são experiências de sofrimento e diante delas o mundo pode parecer frio e silencioso sensação esta que pode ser ainda mais intensificada em quadros como os de burnout e depressão Rosa 2019 Com as demandas de aceleração social e pressão por desempenho e competitividade as práticas dominantes de socialização tem criado um certo fechamento disposicional para as relações de ressonância também porque não é possível ressoar e ser concorrente de alguém mesmo assim cabe a esfera individual o resgate da abertura disposicional e a sensibilidade para afetar e ser afetado de maneira responsiva Rosa 2019 As Três Ecologias Com as transformações e a aceleração dos avanços técnicoscientíficos juntamente com o aumento demográfico o meio ambiente vem sendo constantemente impactado e seu progressivo desequilíbrio ameaça as condições de vida no planeta que já está em sistemático processo de deterioração Guattari 2012 Além da crise ecológica em si a intensificação tecnológica proporcionada pela informática e pela robótica tem permitido que as máquinas mantenham o ritmo e o aumento da produtividade sem a necessidade de mão de obra humana que passa a sofrer cada vez mais com condições de desemprego precarização e angústia Guattari 2012 Neste contexto onde a humanidade apesar de ter conseguido avançar desenvolvendo conhecimentos científicos e técnicos os utiliza também com finalidades destrutivas voltadas à univocamente atender demandas de poder e lucratividade ao invés de serem direcionadas às necessidades humanas Guattari 2012 manifestando sua indignação e preocupação propõe que é fundamental repensar as relações entre meio ambiente sociedade e subjetividades Esta nova forma de pensar tal como proposto por Guattari 2012 a ecosofia é um paradigma estéticopolítico capaz de reorientar os objetivos das produções materiais e imateriais reinventando os modos de ser do coletivo abrangendo não só as dimensões políticas sociais ambientais e culturais mas essencialmente as dimensões que concernem a atividade humana de inteligência seus desejos e sensibilidade Para Guattari 2012 é preciso aprender a apreender o mundo de forma transversal considerando a interação dos múltiplos domínios que constituem a natureza incluindo também a cultura e os universos de referências individuais e coletivos que estão submersos nela pois a recusa passividade ou desconhecimento sobre tal interrelação tende a agravar as dificuldades humanas além de gerar uma infantilização das opiniões e consequentemente enfraquecimento da democracia As três ecologias que formam a ecosofia enquanto recomposição de prática a saber ecologia mental ambiental e social precisam se desprender de paradigmas pseudocientíficos para se orientarem a partir de nova cartografia balizada por novos pontos de referências que não esmaguem nem deixem desaparecer os gestos de solidariedade as lutas de emancipação e o fortalecimento do sentido das palavras Guattari 2012 A lógica ecosófica não rivaliza pois entende que justamente por serem finitas e precárias suas ecologias não podem ficar fechadas em si mesmas pois este seria um movimento destrutivo e contrário ao pretendido que é a abertura para uma práxis onde seja possível a criação de territórios existenciais não passíveis de serem domesticados pela lógica capitalista Guattari 2012 A ecologia social deve fundamentalmente se concentrar na reconstrução dos laços humanos em todos os níveis pois o poder capitalista ao se infiltrar nas subjetividades foi produzindo efeitos na ecologia mental que anestesiada em uma falsa ideia coletiva de eternidade deixou de se singularizar Guattari 2012 A falta de singularização impede a autorreferência criativa e funciona como uma máscara existencial que opera através da representação e este é um risco para as comunidades humanas pois ao se curvarem sobre si se ausentam dos cuidados com a organização social terceirizando esta tarefa para os governantes Guattari 2012 Este caráter hegemônico da lógica capitalista que subalterniza todas as outras dimensões existenciais à lógica do lucro é que precisa ser descontruído e reorientado para os interesses coletivos com novos sistemas de valorização da vida com novas políticas e novas éticas que proporcionem a reconstrução dos destroços provocados por ele mesmo a revigoração ambiental e a retomada de confiança no destino da humanidade Guattari 2012 A ecosofia não é reativa ela não busca o poder ela é resistência é composição é criação de mundos possíveis mundos onde caibam outros mundos Hur 2019 A Singularização Embora a produção de subjetividade seja resultante da ação das forças atuantes entre o campo social e o hábito isso não ocorre de maneira linear nem estática pois como está sempre em movimento carrega em si um duplo potencial tanto pode se sedentarizar quanto pode se atualizar Hur 2019 Como o sujeito é efeito dos processos de subjetivação ele poderá ser capturado por uma escolha não intencional de determinada posição subjetiva e é por isso que a subjetividade não pode ser pensada como relativa à essência humana pois ela sempre vai depender do socius Guattari 2016 como citado por Hur 2019 Porém além de serem dependentes do campo social os processos de subjetivação também vão depender do chamado coeficiente de territorialização cujo índice é o que determina o quanto um corpo ao ser afetado vai se sentir atraído a permanecer cristalizado e encouraçado em determinada posição Hur 2019 Altos coeficientes de territorialização constituem subjetividades mais rígidas que precisam ficar aderidas as normas e convenções o que acaba gerando a retenção de fluxos desejantes que ao invés de se lançarem para fora para o socius se lançam para dentro em conformação centrípeta e reativa Hur 2019 Quando mais voltadas sobre si maior será a reatividade e maior será a adesão dessas subjetividades aos discursos de verdade sejam eles quais forem religiosos políticos de gênero ou acadêmicos e consequentemente mais fechadas e intolerantes se tornam às diferenças e divergências Hur 2019 Mesmo com a alguma possibilidade de variação as subjetividades rígidas se resguardam em uma camada de proteção uma couraça que tem função de proteção mas que se por acaso se romper poderá tanto satisfazer quanto provocar uma grande crise onde a cognição pode assumir versões bastante regredidas e irracionais Hur 2019 De forma contrária quanto menores os índices de territorialização menores serão os índices de fixação e maior será a autonomia ou seja quanto maior for a capacidade de um corpo em ser afetado menor será a chance de ele ser capturado por códigos e determinações sociais Hur 2019 As subjetividades poiéticas ou nômades se atualizam em devires de forças e afecções elas se movimentam pela abertura e pela atualização da desterritorialização produzindo novos modos se ser e existir novas estéticas de existência Hur 2019 Diante do exposto é possível observar que o modo como o sujeito experimenta a subjetividade pode transitar entre uma condição de sujeição onde o sujeito se submete ao que recebe ou de criação onde o sujeito ao se reapropriar dos componentes da subjetivação se atualiza em um processo de singularização Guattari Rolnik 2013 Na contemporaneidade com o capitalismo mundial integrado a produção de subjetividade é tão serializada e homogeneizada que dificulta a possibilidade dos processos de singularização tanto por causa da alienação e da infantilização quanto pela culpabilização que coloca em dúvida a condição de enunciação Guattari Rolnik 2013 Dificultar não significa extinguir Os processos de singularização são insurgências com capacidade auto modeladora ou seja quanto mais o sujeito cria e estabelece seus mecanismos de referência mais ele se fortalece e se autonomiza da dependência do poder instituído Guattari Rolnik 2013 Ao frustrarem os mecanismos de introjeção dos valores capitalistas os processos de singularização desenvolvem potencial para afetar o campo social criando mutações conscientes ou inconscientes nas subjetividades tanto individuais quanto coletivas portanto a revolução molecular que é inicialmente de ordem micropolítica pode se afirmar em ação extensão e sensibilidade impactando também a macropolítica tecendo condições possíveis para coexistência pluralidade e suavidade Guattari Rolnik 2013 CONSIDERAÇÕES FINAIS Sociedades são organizações complexas e contraditórias que carregam em si potencialidades e indeterminações Rosa 2022 Sendo assim existe a possibilidade de não serem capazes de assegurar meios para autorrealização dos indivíduos e quando isto acontece ou seja quando as condições sociais falham causando prejuízos aos seus membros surgem as patologias sociais Honneth 2007 como citado em Safatle 2021 Com o posicionamento da cultura em torno da economia e o surgimento do discurso da ciência o sofrimento passou a ser abordado a partir de inferências naturalistas tratadas a partir de diagnósticos clínicos Safatle 2021 Tais contextos ao produzirem e reproduzirem imagens indutoras de sentido fazem com que os sujeitos internalizem formas de existência baseadas na ampliação de restrições no campo social diminuindo as chances de recondução do sofrimento a caminhos de singularidade Safatle 2020 Então o que acontece na atualidade é uma espécie de sufocamento do sujeito da enunciação o qual alienado pelos efeitos da aceleração social capturado pelo maisgozar do discurso capitalista e anestesiado pela ação das medicações legitimadas pela ciência como recursos modernos para lidar com o sofrimento fica distanciado de sua capacidade de ação política Junior 2021 Freud não teve condições de prever que a racionalidade científica poderia se tornar banalizada através de discursos de verdade os quais impulsionados pelo discurso capitalista e pelo marketing poderiam acabar sustentando uma ilusão de mundo possível de ser administrado e organizado cientificamente Junior 2021 Diante disso pensar sobre patologias sociais na contemporaneidade implica também na compreensão sobre os circuitos de afetos presentes na forma como os indivíduos narram seus sofrimentos autorizando modos de participação social que permitem o apagamento do sujeito da enunciação em detrimento ao sujeito do enunciado Junior 2021 Com a noção psicanalítica do inconsciente o debate entre autonomia e as condições de emancipação social precisa ser revisto pois consentir a própria servidão tem relação direta com os processos de instauração da vida psíquica as identificações expectativas de amparo e amor esperanças melancolias e formas de gozo Safatle 2020 Então se a sujeição é afetivamente construída e afetivamente perpetuada a condição possível para a superação de conflitos psíquicos e experiências políticas de emancipação é indissociável da transmutação das formas de ser afetado Safatle 2020 O resgate do sujeito da enunciação e a reconexão com os afetos que devolvam a vitalidade ao ser são caminhos de singularização que afirmam o sujeito diante da própria vida e temporalidade eis a necessidade de uma refundação da psicanálise como potência revolucionária que cede espaço ao indizível e a construção de sentido Alberti Elia 2008 Isto não é um lamento é um grito de ave de rapina Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém Provavelmente a minha própria vida As palavras Clarice Lispector REFERÊNCIAS Alberti S Elia L 2008 Psicanálise e Ciência o encontro dos discursos Revista Mal estar E Subjetividade VIII 37798022022 ISSN 15186148 https wwwredalycorgarticulooaid27180310 Alves K Sanches D De Luccia D 2021 Anomia e declínio da autoridade paterna In V Safatle NS Junior C Dunker Orgs Patologias do Social Arqueologias do sofrimento psíquico 1ª ed pp 111139 Belo Horizonte Editora Autêntica Backes C 2007 A clínica psicanalítica na contemporaneidade 1ª ed Porto Alegre RS Editora UFRGS Bezerra Jr B 2014 Introdução A psiquiatria contemporânea e seus desafios In R Zorzanelli B Bezerra Jr JF Costa Orgs A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea 1ª ed pp 931 Rio de Janeiro Editora Garamond Caponi S 2018 Uma biopolítica da Indiferença A Propósito da Denominada Revolução Psicofarmacológica In P Amarante AMF Pitta WF Oliveira Orgs Patologização e Medicalização da vida Epistemologia e Política 1ª ed pp1737 São Paulo Editora Zagodoni Carvalho A M D 2012 A influência do Projeto da Modernidade no Estado de Bem Estar Social Monografia de Especialização Universidade Federal do Paraná Curitiba httpshdlhandlenet188444962 Cavalcanti C A T Poli M C 2015 O laço social e o malestar face ao desamparo httpsdoiorg105007180713842015v12n2p55 Coelho Carolina Marra S 2006 Psicanálise e laço social uma leitura do Seminário 17 Mental 46 107 121 httppepsicbvsaludorgscielophpscriptsciarttextpidS1679 44272006000100009lngpttlngpt Deleuze G Guattari F 2011 O AntiÉdipo 2ª ed BL Orlandi Trads São Paulo SP Editora 34 Deleuze G 2011 Crítica e Clínica 2ª ed PP Pelbart Trads São Paulo SP Editora 34 Dardot P Laval C 2016 A nova razão do mundo ensaio sobre a sociedade neoliberal 1ª ed M Echalar Trads São Paulo SP Editora Boitempo Furtado M 2018 Regulação Biotecnológica do Sofrimento e Evicção do Sujeito Efeitos sobre a Condição Humana In P Amarante AMF Pitta WF Oliveira Orgs Patologização e Medicalização da vida Epistemologia e Política 1ª ed pp3955 São Paulo Editora Zagodoni Freud S 185619392020 Cultura sociedade religião O malestar na cultura e outros escrito s In G Iannini PH Tavares Orgs Obras incompletas de Sigmund Freud 1ª ed MRS Moraes Trads Belo Horizonte Editora Autêntica Guattari F 2012 As três ecologias 21ª ed MCF Bittencourt Trads Campinas SP Editora Papirus Guattari F 2019 Caosmose um novo paradigma estético 2ª ed AL de Oliveira LC Leão Trads São Paulo SP Editora 34 Guattari F Rolnik S 2013 Micropolítica cartografias do desejo 12ª ed Petrópolis RJ Editora Vozes Hur DU 2019 Psicologia política e esquizoanálise Campinas SP Editora Alínea Junior NS 2021 O malestar no sofrimento e a necessidade de sua revisão pela psicanálise In V Safatle NS Junior C Dunker Orgs Patologias do Social Arqueologias do sofrimento psíquico 1ª ed pp 3558 Belo Horizonte Editora Autêntica Kehl MR 2002 Sobre ética e psicanálise São Paulo SP Companhia das Letras Neves A Ismerim A Costa F D Santos LRP Senhorini M Beer P Bazzo R Coelho SP Carnizelo CR Junior NS 2020 A psiquiatria sob o neoliberalismo da clínica dos transtornos ao aprimoramento de si In V Safatle NS Junior C Dunker Orgs Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico pp136 194 Belo Horizonte Editora Autêntica Oliveira WF 2018 Medicalização da Vida Reflexões sobre sua Produção Cultura In P Amarante AMF Pitta WF Oliveira Orgs Patologização e Medicalização da vida Epistemologia e Política 1ª ed pp1116 São Paulo Editora Zagodoni Pereira MEC Banzato CEM 2014 O lugar do diagnóstico na clínica psiquiátrica In R Zorzanelli B Bezerra Jr JF Costa Orgs A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea 1ª ed pp 3554 Rio de Janeiro Editora Garamond Quinet A 2012 Os outros em Lacan Ed digital Rio de Janeiro Editora Zahar Quinet A 2009 Psicose e laço social esquizofrenia paranoia e melancolia 2ª ed Rio de Janeiro Editora Zahar Ramos F 2014 Do DSMIII ao DSM5 Traçando o percurso médicoindustrial da psiquiatria de mercado In R Zorzanelli B Bezerra Jr JF Costa Orgs A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea 1ª ed pp 211 229 Rio de Janeiro Editora Garamond Rosa H 2019 Escalada ou saída O fim da estabilização dinâmica e o conceito de ressonância Prefácio à edição brasileira In H Rosa Aceleração A transformação das estruturas temporais na Modernidade RH Silveira JL Tziminadis Trads pp 9 50 São Paulo Editora Unesp Rosa H 2022b O equívoco da ontologia social antagonista e a crise de alienação da modernidade tardia Sobre a atualidade política da Teoria Crítica Civitas Revista De Ciências Sociais 22 e42507 httpsdoiorg10154481984 72892022142507 Rosa H 2022 Aceleração e Alienação Por uma teoria crítica da temporalidade tardo moderna Lucas FR Trads Petrópolis RJ Editora Vozes Safatle V 2021 Introdução Em direção a um novo modelo de crítica as possibilidades de recuperação contemporânea do conceito de patologia social In V Safatle NS Junior C Dunker Orgs Patologias do Social Arqueologias do sofrimento psíquico 1ª ed pp 731 Belo Horizonte Editora Autêntica Safatle V 2020 O circuito dos afetos corpos políticos desamparo e o fim do indivíduo 2ª ed Belo Horizonte MG Editora Autêntica Safatle V 2020 Maneiras de transformar mundos Lacan política e emancipação 1ª ed Belo Horizonte MG Editora Autêntica Silva DP Pestana H Andreoni L Ferretti M Fogaça M Senhorini M Junior NS Beer P Ambra P 2020 Matrizes psicológicas da episteme neoliberal a análise do conceito de liberdade In V Safatle N da Silva Jr C Dunker Orgs Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico pp80 133 Belo Horizonte Editora Autêntica Tizio H 2006 Novas modalidades do laço social Universidade de Barcelona ES aSEPHallus 24 3237 maioout 2007 Artigo em Português LILACS ID lil516781 biblioteca responsável BR11941 httpwwwisepolcomasephallusnumero04artigo03htm Wang YP Neto MRL Elkis H 2007 A História da Psiquiatria In YP Wang H Elkis Orgs Psiquiatria Básica 2ª ed pp 2131 Porto Alegre Editora Artmed 10 10
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Texto de pré-visualização
1 1 ATITUS EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA ANA LÚCIA DE SOUZA ZABADAL O SILÊNCIO NO SETTING TERAPÊUTICO Trabalho de Conclusão de Curso PORTO ALEGRERS 202 5 2 2 Ana Lúcia de Souza Zabadal O Silêncio no Setting Terapêutico Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Atitus Educação como parte das exigências para obtenção do título de bacharel em Psicologia Orientador Prof Porto Alegre RS 202 5 3 3 SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS 5 MACROPOLÍTICA E DESSINCRONIZAÇÃO ESPAÇO TEMPO 10 Aceleração x Desaceleração 11 Alienação Experiência Memória e Vida 12 Era Pós Democrática 15 NEOLIBERALISMO E SUBJETIVAÇÃO 18 A Natureza Implícita 18 O Rompimento dos Laços Sociais 20 A Colonização das Subjetividades 23 PSIQUIATRIZAÇÃO DA EXISTÊNCIA 27 O Lado B dos Manuais Diagnósticos 28 O Compromisso da Indústria Farmacêutica 32 A Negação da Natureza Trágica da Vida 34 MICROPOLÍTICA E RESISTÊNCIA 37 A Ressonância 37 As Três Ecologias 38 A Singularização 40 CONSIDERAÇÕES FINAIS 43 REFERÊNCIAS 44 4 4 RESUMO Lorem ipsum dolor sit amet consectetur adipiscing elit sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua Ut enim ad minim veniam quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur Excepteur sint occaecat cupidatat non proident sunt in culpa qui officia deserunt mollit anim id est laborum Palavraschave ABSTRACT Lorem ipsum dolor sit amet consectetur adipiscing elit sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua Ut enim ad minim veniam quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur Excepteur sint occaecat cupidatat non proident sunt in culpa qui officia deserunt mollit anim id est laborum Palavraschave CONSIDERAÇÕES INICIAIS O que pode constituir a potência de uma vida senão a possibilidade de contar e recontar uma história sobre si que estará sempre em devir Fazer da vida uma espécie de narrativa literária não é idealizar um percurso em direção a uma cena ou um desfecho final mas desenvolver a compreensão de que a trajetória poderá ser atravessada por diversos inapreensíveis e que diante deles surgem oportunidades para a criação de novos caminhos Deleuze 2011 Ao tentar anestesiar ou eliminar inquietações ao invés de questionar seus significados menores são as chances de encontrar um sentido e esta é uma das principais dificuldades da atualidade compreender o sofrimento humano como algo que faz parte de um processo de implicação com a própria existência Kehl 2002 A construção de uma narrativa interessante para si é um produto do imaginário e da invenção individual mas ela só poderá adquirir valor simbólico dentro da cultura portanto a produção de um sentido existencial parte das possibilidades de desenvolvimento de uma criação discursiva a partir do que circula no contexto social Kehl 2002 Ocorre que na contemporaneidade os entendimentos dominantes a respeito da vida se apoiam muito mais nos caminhos determinados pelo mercado do que em razões filosóficas que poderiam embasar os questionamentos sobre o ser e o viver através de um contexto crítico reflexivo ou seja existe uma predominância da dimensão objetiva sobre a subjetiva Kehl 2002 Diante disso tornase importante uma investigação sobre as possibilidades e as limitações através das quais o contexto social parece se sobrepor ao sujeito que acaba se constituindo como objeto de um saber dado distanciado assim de sua capacidade de expressão singular que somente consegue se manifestar pela via do sofrimento causado pelas limitações simbólicas que tais objetividades lhe impõem Junior 2021 Tendo em vista que a produção de subjetividade é inerente a cultura esta objetivação sobre o viver se torna efeito do que Guattari 2013 chama de produção capitalística a qual se configura como uma espécie de rede de controle onde o capital e a cultura atuam de maneira complementares estabelecendo um emaranhamento de sujeição econômica e subjetiva Para Guattari 2013 os grandes processos de subjetivação não operam com a finalidade de emancipação pois tendem a fabricar subjetividades serializadas e isto manifesta consequências sob diversas formas dentre elas o empobrecimento das condições de relação do humano consigo com os outros e com o mundo Em 1930 com a publicação de O malestar na cultura Freud já anunciava a impossibilidade de os indivíduos estarem na cultura sem conviverem com uma sensação de malestar tendo em vista que esta seria gerada por uma espécie de residual subjetivo resultante entre a necessidade de satisfação pulsional individual e a renúncia de parte dessa satisfação pela necessidade de inserção na vida social Freud 19302020 Ainda no mesmo texto Freud finaliza questionando sobre o destino da espécie humana e sobre a possibilidade deste destino ser bemsucedido se caso o desenvolvimento da cultura fosse capaz de promover o controle das perturbações postas na vida em comum pelas pulsões de agressão e autodestruição que são inerentes ao humano Freud 19302020 Embora estas indagações sobre o destino da espécie humana e a experiência de mal estar permaneçam atuais houve uma modificação estrutural na cultura desde a época do ensaio de Freud e esta mudança interfere diretamente no entendimento da produção de mal estar e sofrimento psíquico na contemporaneidade algo importante que precisa ser revisto pela psicanálise Junior 2021 Enquanto Freud se utilizava dos valores científicos de sua época aderido a uma visão empírico positivista pautada por uma lenta e fragmentada investigação de um suposto saber que estava distante de algo totalizante Lacan enxergava a ciência como um saber análogo a psicanálise ou seja os autores tinham entendimentos diferentes a respeito do discurso científico Sidi Askofé 2013 como citado em Junior 2021 Ocorre que a partir do início do século XX com a reposicionamento da cultura em torno da economia aqui tornase importante destacar e não na economia em torno da cultura vários processos sociais foram se agenciando e dentre eles o deslocamento da posição social da racionalidade científica que a partir deste novo lugar passa a modificar as formas de enunciação e entendimento sobre o sofrimento Junior 2021 A complexidade desses rearranjos sociais é importante para a compreensão do que está nas origens das instituições que na atualidade organizam e explicam o sofrimento psíquico a luz da alienação do indivíduo sobre seu próprio conflito alterando e distanciando as pessoas da possibilidade de desenvolverem autopercepções sobre o sentido do sofrimento e da existência Junior 2021 Com a mudança de lugar social da ciência houve a formalização de uma linguagem científica que ao se tornar instrumento de identificação de certezas foi se fortalecendo na cultura e acabou estabelecendo uma nova gramática Junior 2021 Com isso o fazer científico que era principalmente motivado pelo desconhecimento e pelo consequente desejo de conhecer foi sendo sistematicamente desinvestido tendo em vista que diversas novas verdades já estavam postas pela linguagem instrumental que legitimava a operacionalização da técnica em nome da ciência Junior 2021 As transformações que atravessaram a história da psiquiatria são um bom exemplo para ilustrar o modo pelo qual a ciência ao ser reconhecida a partir da operacionalização da técnica pode produzir efeitos indesejáveis tendo em vista que estes efeitos não vão operar na sociedade de forma neutra Junior 2021 Ao nomear e caracterizar um determinado conjunto de sintomas as classificações diagnósticas colocam em circulação uma espécie de conhecimento sobre o sofrimento psíquico que não vai funcionar somente como forma de reconhecimento para facilitar um tratamento mas principalmente como uma forma de determinação Bezerra Jr 2014 Essas determinações produzem impactos sobre o sujeito alterando a forma como ele vai pensar a si mesmo seu desenvolvimento emoções relações e construção identitária além de também produzir efeitos sobre a cultura estabelecendo contornos e limites a existência deste sujeito dentro do universo social ao qual ele faz parte Bezerra Jr 2014 Atualmente diversos estudos procuram evidenciar a natureza biológica dos transtornos mentais objetivando com isso categorizar e criar condições para que seja possível antever e predizer os comportamentos humanos Brendel 2006 como citado em Bezerra Jr 2014 Nesse sentido embora a psiquiatria tenha de fato adquirido um maior alcance terapêutico através dos avanços da neurofisiologia e da neuroquímica a sistemática nomeação e renomeação de agrupamentos de sintomas juntamente com as estratégias de produção de consumo utilizadas pelo marketing estabeleceu uma forma hegemônica de pensar o sofrimento Junior 2021 Segundo Bezerra Jr 2014 as categorias psiquiátricas são uma forma de apreender de maneira deslocada os modos de vida de determinada época pois ao observar e categorizar sintomas aquilo que os causa não é levando em consideração Dessa forma assuntos que anteriormente revelavam os conflitos e as angústias da existência humana e eram analisados em seu contexto social cultural e psíquico hoje passam a ser entendidos como transtornos que podem ser amenizados através do uso da medicação mais adequada ou seja atualmente existe um processo de tecnicização das formas de enfrentamento do malestar Furtado 2018 Diante disso tem sido possível observar uma patologização da vida que desde os anos 70 tem se tornado crescente em decorrência dos manuais estatísticos que ao se tornarem objetos da cultura passaram a nortear as narrativas das experiências psíquicas a luz de uma certa biologização que dificulta o processo de avaliação do sujeito em relação ao contexto agravando seu sentimento de inadequação cansaço e culpa Furtado 2018 Esses processos de tecnicização se relacionam intimamente com os processos de aceleração social da sociedade moderna e seus imperativos de consumo e competividade os quais mantém os indivíduos em uma constante esteira cuja velocidade passa a ser entendida como uma condição existencial da modernidade Rosa 2022 MACROPOLÍTICA E DESSINCRONIZAÇÃO ESPAÇO TEMPO O início da construção do projeto de Modernidade aconteceu na Europa do século XVIII a partir de alguns eventos históricos que marcaram as crises humanitárias da época e apontaram a necessidade de uma revisão dos ideais civilizatórios em contraposição ao teocentrismo e a favor de uma nova racionalidade que valorizasse as ciências os direitos humanos e a liberdade Carvalho 2012 A possibilidade de instauração desta nova racionalidade foi norteada não somente pela vontade de superar as determinações impostas pelas sociedades da época pobreza doenças ignorância e consequentes dificuldades em diversos aspectos da vida mas sobretudo pela aposta na ascensão de uma nova economia que seria capaz de se fortalecer atendendo aos anseios de progresso e de autonomia das populações Rosa 2022 Nesse sentido a credibilidade do capitalismo foi se estabelecendo na cultura na medida em que discursos políticos liberais juntamente com os evidentes progressos científicos e tecnológicos foram sustentando promessas de melhores condições de vida onde finalmente as pessoas poderiam escapar das determinações de escassez tendo dessa forma a liberdade de traçarem seus próprios planos de vida Rosa 2022 Diante dessas condições de liberdade para autodeterminação o desenvolvimento e o crescimento econômico só se tornariam possíveis através de processos de aceleração social que impulsionados por uma lógica de competitividade formaram um sistema cada vez mais complexo e intensificado pela retroalimentação autopropulsora dele mesmo provocando mudanças na percepção subjetiva em relação ao tempo e ao espaço Rosa 2022 Tendo em vista que as estruturas temporais permeiam todas as dimensões da vida mudanças de percepção neste espectro modificam também as formas de orientação dos indivíduos no mundo o que não é algo determinante para a produção de sofrimento e de patologias sociais mas carrega em si um enorme potencial para isto Rosa 2022 Aceleração x desaceleração Diante da demanda por crescimento econômico agilizar processos operacionais que envolvessem produção transporte e comunicação se tornou um imperativo das sociedades modernas e nesse sentido a tecnologia passou a ser um importante vetor de desenvolvimento e aprimoramento Rosa 2022 Com a aceleração dos processos e a divisão do trabalho o ritmo da vida também sofreu impactos pois a tecnologia permitiu a intensificação da quantidade de atividades no mesmo intervalo de tempo e diante disso poderia parecer lógico pensar que a tecnologia é um dos problemas da aceleração social mas não pois quem define a quantidade de tempo de exposição a ela é a competitividade Rosa 2022 Em uma sociedade capitalista não basta produzir é preciso produzir sempre mais porque não importa o quanto a produção renda o que importa é o quanto é possível produzir além do previsto pois as leis da lucratividade são implacáveis para elas tempo e dinheiro estão estreitamente relacionados Rosa 2022 Com isso ao invés da tecnologia poupar o tempo e a vida do homem o que houve foi o aumento da quantidade de atividades e a percepção de que o tempo é sempre insuficiente pois é preciso fazer cada vez mais em um espaço de tempo percebido subjetivamente como cada vez menor Rosa 2022 Essa aceleração do ritmo da vida implica que o ser humano se torne multitarefa algo que para muitos é motivo de orgulho mas a realidade é que a contração do momento presente implica também na contração das experiências o que pode ser observado objetivamente na diminuição das pausas no menor tempo de sono no menor tempo para refeições e no menor tempo e disposição para investimento em vínculos afetivos Rosa 2022 Compondo este cenário existe também uma espécie de saturação social pois com a exposição aos excessos de informação e as demandas por agilidade a sensação de insuficiência de tempo e pressão psicológica por desempenho se torna cotidiana e estressante interferindo negativamente no momento presente e também na compreensão sobre o passado e o futuro Rosa 2022 Além disso o tempo percebido no mundo passa a ser diferente daquele possível de ser vivido então fica como se não existisse outra opção a não ser acelerar pois talvez seja esta a única condição para minimizar as diferenças entre as possibilidades e a realidade Rosa 2022 Apesar desta expectativa nunca ocorrer o imperativo cultural moderno segue com as promessas de eternidade então não se pensa na morte existe muito o que viver Rosa 2022 Embora a modernidade venha conseguindo demostrar eficiência na superação de diversos limites temporais nem todos os processos suportam a aceleração sem apresentarem prejuízos qualitativos ou ameaça de destruição impondo portanto impeditivos práticos como por exemplo os casos que envolvem recursos de reprodução naturais Rosa 2022 Além desses existem outros processos de desaceleração social que surgem como desdobramentos não previstos das demandas de velocidade tais como as paralisações e ou as lentidões de mobilidade urbana os altos índices de trabalhadores que não conseguem se adequar as exigências modernas e os adoecimentos psíquicos Rosa 2022 Diante disso mesmo que as sociedades tardomodernas possam parecer grandes organismos de oportunidades a intensa e constante aceleração das dimensões tecnológicas e sociais bem como seus desdobramentos já demostram sinais de um sistema que vem estruturalmente se fechado com mínimas possibilidades de abertura e flexibilidade inerte estrutural e culturalmente Rosa 2022 Alienação Experiência Memória e Vida Seres humanos são subjetividades ancoradas no espaço pela experiência da materialidade de um corpo que dotado de órgãos sensoriais estrutura a forma como podem ser percebidos e interpretados os diversos estímulos externos com os quais se relacionam diariamente Rosa 2022 Diante das imposições modernas de velocidade a percepção do tempo passa a ser distorcida interferindo diretamente na qualidade da relação entre as subjetividades e o mundo que parece se tornar um lugar indiferente e por vezes repulsivo Rosa 2022 Longe da presunção de propor uma ideia sobre o que seria ter uma boa vida a intenção é pensar sobre os vazios de sentido que podem ser causados por uma certa alienação ocasionada pelas demandas de aceleração social as quais impedem ou prejudicam muito o desenvolvimento de relações de processualidade e de reflexão Rosa 2022 Com os progressos tecnológicos e a globalização as condições para desenvolvimento de relações sociais na contemporaneidade foram se expandindo para além dos limites territoriais enfraquecendo a necessidade de conexão entre tempo e espaço ou seja é possível estabelecer intimidade com pessoas que não estão próximas Rosa 2022 Se por um lado estes recursos são vistos como positivos por outro em decorrência da aceleração social eles têm potencial de favorecer o desengajamento humano em relação ao seu entorno físico e material prejudicando a manutenção dos vínculos com as pessoas que estão próximas e também com seus entornos Rosa 2022 Com isso os lugares vão se tornando cada vez mais utilitários e sem familiaridade esvaziados de história e de memória na medida em que se tornam todos parecidos tal qual como conceituado pelo antropólogo Marc Augé quando analisa e define a existência dos não lugares presentes na modernidade Marc Augé 1992 como citado em Rosa 2022 Essa falta de reciprocidade se estende em outras dimensões pois o acelerado mercado de consumo impulsiona não somente as compras mas também o descarte dos objetos de convívio impedindo o estreitamento entre as subjetividades e as coisas o que em outros momentos poderia ser algo da ordem da constituição de singularidades Rosa 2022 A aceleração também interfere na capacidade humana de entendimento sobre os produtos oferecidos pelo mercado gerando uma espécie de má consciência por não saberem ao certo se estarão seguros diante daquela compra ou diante daquele novo equipamento cujos recursos são tão avançados em relação ao equipamento anterior que causam uma constante sensação de obsolescência da compreensão humana Rosa 2022 Nessas condições de globalização e falta de tempo a quantidade de informações disponíveis no cotidiano tem se tornado uma sobrecarga e como tal tem potencial alienante algo que somado a aceleração interfere na capacidade de pensamento e tomada de decisões deixando as pessoas mais vulneráveis e expostas as exigências de satisfação imediatas sugeridas pelo mercado Rosa 2022 Diante desses fatores na contemporaneidade o momento presente ao ser mais utilizado para atender as demandas externas do que atender as demandas de fato importantes sob o ponto de vista existencial coloca as pessoas numa condição de autoalienação em relação aos seus atos e alienação em relação ao seu tempo Rosa 2022 O interessante nisso é que ao se distanciarem das coisas que as caracterizavam positivamente as pessoas vão gradualmente perdendo as referências sobre as razões pelas quais se conectavam a essas determinadas coisas e seguem guardando essas referências na memória como algo que pode ser resgatado se houver tempo então nesse sentido elas conseguem se ver como pessoas que mudaram no tempo mas não conseguem se perceber como pessoas que já não tem conseguido produzir tempo de qualidade Rosa 2022 As experiências de vida e de produção de memória se organizam através de uma condição paradoxal e subjetiva de apreensão do tempo enquanto as vivências no presente são gratificantes e prazerosas existe a impressão de que esse tempo passou muito rápido portanto foi curto mas na lembrança ele se torna longo Rosa 2022 O inverso também é verdadeiro quando os dias e por exemplo o tempo do expediente se arrasta para passar numa sensação de dia interminável portanto longo e lento na lembrança ele se torna curto Rosa 2022 Ocorre que na modernidade essas experiências de tempo e memória não correspondem mais ao modelo clássico conforme descrito acima pois diante da aceleração social da imposição constante de velocidade da escassez de tempo e do empobrecimento de experiências reais subjetivascorpóreas a percepção dos sentidos se torna parcial e descontextualizada ou seja as experiências possíveis deixam de corresponder de forma significativa ao mundo interior de cada um e dessa forma além de não serem gratificantes também não produzem memórias Rosa 2022 Walter Benjamin já há quase um século fazia esse tipo de reflexão e diferenciação entre momentos somente de experiência e momentos de experiência que produzem sentido deixando marcas portanto momentos que permitem registros emocionais no tempo Walter Benjamin como citado em Rosa 2022 Não é por acaso que na atualidade diante do cansaço e do esgotamento imposto pelas condições de aceleração social e competitividade venha sendo difícil estabelecer uma narrativa interessante a partir das circunstâncias que estão postas em circulação e sendo assim o mundo tem se tornado cada vez mais frio e silencioso carente de eixos de ressonância o que é extremamente preocupante Rosa 2022 Era Pós Democrática Para Rosa 2022 percepções a respeito de sofrimento e de alienação não são imediatamente postas à consciência dos atores sociais e isso não pode ser entendido como alguma incapacidade da natureza humana mas sim como algo que se relaciona diretamente as ideologias e as falsas consciências o que pode ser confirmado pela demonstração contraditória entre as convicções e as atitudes dos próprios atores no mundo social Condições sociais que estruturam as atividades humanas através de um projeto que estabelece um horizonte de expectativas de consumo e acumulação no mesmo passo em que torna esse horizonte inalcançável pela via das determinações destas mesmas condições na realidade não estão estruturando a atividade humana mas sim se perpetuando através dela Rosa 2022 É por isso que as patologias sociais não podem ser compreendidas como disfunções humanas que ameaçam impedem ou dificultam o ritmo da produção material e simbólica das sociedades pois se assim forem haverá um distanciamento ainda maior de um caminho de transformação cujas expectativas sejam norteadas para atender as necessidades reais das pessoas e não a manutenção de um sistema que as impedem disso Rosa 2022 As condições para uma sociedade justa estariam na possibilidade da existência de um diálogo onde os grupos diversos pudessem fazer reivindicações de suas necessidades através da apresentação de argumentos que seriam sistematicamente analisados e aprovados na medida em que o coletivo social de forma democrática entendesse que tais reinvindicações pudessem ser normas aplicáveis Jürgen Habernas 1992 como citado em Rosa 2022 Independentemente das demais variáveis que envolvem e aumentam a complexidade dessa forma de pensar e definir questões de interesse social é inegável que esse formato em sua constituição requer tempo algo incompatível com as atuais demandas impulsionadas pelos imperativos de aceleração social Rosa 2022 Então o que tem se estabelecido na tardomodernidade não é a determinação apontada pela análise dos melhores argumentos mas sim aquela que melhor se sincroniza com a força dos ressentimentos e com as reatividades inconscientes do ser humano que impregnado pela lógica da competição um dos maiores motores da aceleração não tem percebido que a dinâmica da estrutura social não é algo natural mas sim algo construído portanto politicamente passível de negociação Rosa 2022 Nas sociedades modernas as lutas por reconhecimento social em decorrência da aceleração ultrapassaram o ritmo geracional onde as posições de reconhecimento poderiam ser construídas ao longo de uma existência passando a orbitar em um ritmo intrageracional onde a luta por posições vai se dar no cotidiano medido pelo desempenho e pela melhor performance podendo ser desvalorizado sob qualquer flutuação adversa Rosa 2022 Essa luta incessante pelo reconhecimento diário é o que pode estar por trás dos fenômenos cada vez mais crescentes de depressão e esgotamento pois parece já não haver mais espaço para descanso somente para exaustão Alain Ehrenberg 1999 e Axel Honneth 2003 como citado em Rosa 2022 Diante disso a aceleração social anteriormente entendida como necessária para que fosse possível alcançar os ideais previstos no projeto modernizante de crescimento e autonomia passa a ser um princípio abstrato que rege as formas de organização da vida em todas as instâncias social objetiva e subjetiva de maneira totalitária deixando de ter um potencial libertador passando a ser uma forma de escravidão Rosa 2022 Sendo assim se torna urgente uma reinvenção do projeto da Modernidade antes que o capitalismo em sua versão mais recente e agressiva a neoliberal produza impactos ainda mais destrutivos sobre o planeta levando a extinção qualquer forma de responsividade e possibilidade de vida Rosa 2022 NEOLIBERALISMO E SUBJETIVAÇÃO Dado um socius ela a esquizoanálise somente pergunta pelo lugar que ele reserva à produção desejante que papel motor o desejo tem nele sob que formas nele se faz a conciliação do regime da produção desejante e do regime da produção social uma vez que de toda maneira é a mesma produção mas sob dois regimes diferentes Gilles Deleuze Félix Guatarri O AntiÉdipo p504 A Natureza Implícita A história do sujeito ocidental é marcada por diversas transformações que induzidas pela economia produziram desdobramentos subjetivos cujos efeitos se manifestaram nas formas das organizações sociais mercantis e políticas Dardot Laval 2016 O homem moderno durante muito tempo esteve exposto a regimes normativos e políticos heterogêneos cujos conflitos se estabeleciam na medida em que as relações de poder e estratégias políticas precisavam romper com os limites estabelecidos para assim determinar novos arranjos Dardot Laval 2016 As democracias liberais eram palcos de múltiplas tensões mas dentro de certos limites não se opunham ao funcionamento heterogêneo do sujeito a quem era permitido manter certa autonomia em relação as regras normas morais e religiosas políticas e econômicas estéticas e intelectuais Dardot Laval 2016 Ao separar e articular essas diversas dimensões da vida se estabelecia um certo equilíbrio e tolerância Dardot Laval 2016 Mesmo assim deste contexto emergiram duas forças a democracia política cujo cidadão era dotado de direitos alienáveis e o capitalismo cujo homem econômico seria guiado por seus próprios interesses Dardot Laval 2016 A ideia capitalista se fortaleceu e as novas relações mercantis mudaram novamente os sujeitos que submeteram também as relações humanas à lógica do máximo lucro Dardot Laval 2016 A mercantilização generalizada das relações sociais e a urbanização foram grandes impulsionadores da construção de indivíduos com menos apego às tradições e origens além de menos lealdade aos vínculos pessoais e familiares Dardot Laval 2016 O liberalismo clássico do século XVIII foi caracterizado pela construção de leis que determinaram os limites do governo permitindo a regulação das decisões políticas que mesmo através de técnicas flexíveis utilitaristas visavam orientar estimular e combinar os interesses individuais com as necessidades da sociedade Dardot Laval 2016 Mesmo que os sujeitos liberais acreditassem que viviam de forma livre a realidade é que eles faziam parte da engrenagem cuja suposta liberdade era somente uma nova forma de sujeição às leis impessoais e incontroláveis da valorização do capital Dardot Laval 2016 No século XIX os liberais passaram a divergir resultando em uma crise que teve origem interna A unidade liberal começou a se fragmentar impulsionada pela necessidade de revisão das certezas pois foi polarizada pelas tensões entre os que defendiam as liberdades individuais e os reformistas sociais que defendiam o bem comum Estoura a Primeira Guerra Mundial e os entreguerras Dardot Laval 2016 A crise do liberalismo se estendeu de 1880 até 1930 e neste período locais onde os reformistas sociais predominaram os rumos da economia ganharam uma certa similaridade com ideais socialistas o que também contribuiu para a caracterização do cenário intelectual e político precedente ao neoliberalismo do século XX Dardot Laval 2016 Além de ser um sistema político e econômico a economia neoliberal é uma lógica normativa regida por discursos e princípios universais de concorrência onde o direito privado é garantido ficando protegido contra qualquer regulação que possa delimitar sua expansão Dardot Laval 2016 Ora se no neoliberalismo o direito privado ao ser garantido fica protegido de qualquer regulação que possa delimitar sua expansão fica evidente que o projeto neoliberal é produtor e também mantenedor de desigualdades sociais pois ao permitir a acumulação de capital consequentemente autoriza degradação e pobreza Dardot Laval 2016 Nesse sentido a compreensão do neoliberalismo precisa necessariamente passar pela noção de que ele é um projeto político econômico cuja natureza implícita manifesta uma ideia antidemocrática que vai impactar diretamente e negativamente as condições de vida das populações Dardot Laval 2016 Se é tarefa do Estado Democrático de Direito garantir o direito de todos ao se descomprometer de intervir de forma regulatória na expansão da propriedade privada na realidade ele não está se ausentando está se colocando ativo em uma escolha de anti intervenção Dardot Laval 2016 Se pela lógica neoliberal é o mercado quem deve se autorregular isso só é possível pela via do amparo do Estado e este amparo neste caso é garantido pela intenção e ação da não intervenção Dardot Laval 2016 As consequências são desastrosas para as populações e tendem a se agravarem progressivamente Dardot Laval 2016 Além do aumento da pobreza e das assimetrias sociais as dinâmicas de concorrência enfraquecem a organização de possíveis ações coletivas que se tornam incapazes de agir contra o neoliberalismo Dardot Laval 2016 Com isso vem a intensificação das crises os retrocessos sociais e as precarizações em diversos níveis Dardot Laval 2016 Todo esse movimento destrutivo acaba por configurar uma racionalidade e sendo assim estrutura e organiza tanto os governantes como os governados Dardot Laval 2016 O Rompimento dos Laços Sociais Diante da impossibilidade do organismo humano ao nascer se desenvolver sem depender de cuidados a constituição do sujeito passa a ser marcada por experiências subjetivas de desamparo e de posterior satisfação pela via da intervenção do outro constituindo assim a instauração psíquica do desejo Cavalcanti Poli 2015 Estas duas formas de funcionamento mental resultantes da dinâmica pulsional são fundamentais para compreender não somente a constituição do sujeito freudiano mas também para entender que os movimentos civilizatórios foram orientados pelos mesmos objetivos a retomar a diminuição das experiências de desamparo e o aumento das experiências de satisfação Cavalcanti Poli 2015 Desde O malestar na cultura 1930 Freud apontava a necessidade do represamento pulsional para que a vida em sociedade fosse possível e isso não aconteceria sem experiências de sofrimento eis então que surge um paradoxo a busca pelos laços sociais foi motivada pelo desamparo mas a reincidência do desamparo acontece no encontro com a alteridade Quinet 2009 Para Quinet 2009 o malestar na cultura é também o malestar dos laços sociais pois sem o devido enquadramento da pulsão existe a tendência humana de tratar o outro como objeto a ser consumido Nesse sentido o entendimento sobre a construção dos laços sociais passa fundamentalmente pela compreensão das formas de renúncia pulsional e de perda de gozo que determinada época e cultura impõe aos seus sujeitos Tizio 2007 Para Lacan o malestar poderia ser amenizado na medida em que a linguagem pudesse se tornar instrumento de limitação simbólica do gozo sendo este um importante recurso tanto para a formação dos vínculos sociais quanto para a manutenção deles impedindo possíveis rupturas Lacan 1977 como citado em Tizio 2007 A teoria dos quatro discursos de Lacan retoma os princípios freudianos sobre formas relacionais governar educar analisar e fazer desejar e os atualiza dizendo que os vínculos sociais são estruturados pelas posições que os sujeitos ocupam frente às representações dos significantes que envolvem os discursos do mestre do universitário do analista e da histérica Lacan1992 como citado em Coelho 2006 Para Lacan são estes os discursos que fazem laço social pois eles organizam e registram as formas de relação através de estruturas significantes que excedem a linguagem pois regem os vínculos de forma simbólica ou seja o que está em pauta para fazer laço são as formas e as regras de como a cultura entende e tece essas relações Lacan 1992 como citado em Coelho 2006 Os discursos são formas de relação e regulação do movimento pulsional pois inscrevem e circunscrevem o desamparo em movimento dinâmico permitindo que os sujeitos mudem de posição frente ao outro e se reconheçam de outra forma Cavalcanti Poli 2015 Ocorre que no século XXI com o surgimento dos discursos do capitalista e da ciência os engendramentos dos laços sociais mudaram a heteronomia se transformou em autonomia enfraquecendo a necessidade de suporte do outro que agora é virtual pois não existe mais o discurso do mestre e da alteridade agora é somente o discurso do capital quem estabelece as regras Quinet 2009 A globalização é a manifestação mais clara de que o capital ultrapassou todos os discursos desfazendo os laços sociais produzindo sujeitos que se movimentam pela falta de gozo promovendo uma nova economia libidinal onde o maisvalia toma lugar de causa do desejo autorizando a exploração do seu semelhante que passa a ser visto como possibilidade de obtenção de lucro Quinet 2012 O discurso do capitalista é um discurso que não faz laço social pois o sujeito é reduzido a um consumidor que está sempre em dívida em relação as leis de mercado e estas se sobrepõem às relações sociais produzindo segregação entre aqueles que podem comprar os objetos produzidos pela ciência e tecnologia e aqueles que não podem Quinet 2012 Os sujeitos passam a interpretar que a falta de gozo é a falta de dinheiro e que a falta de ser é a falta de ser rico Quinet 2012 Toda essa lógica evidencia a modificação do sujeito moderno em relação a percepção de seu próprio gozo e ao sacrifício que ele faz para tentar gozar Quinet 2009 O capitalismo socializou o desejo pois o maisgozar na realidade é uma renúncia ao gozo diante do efeito do discurso é um ainda nãogozar constante é uma perda de gozo Lacan 1966 1967 como citado em Safatle 2020a O sujeito não se expressa pelo trabalho ele é produzido pelo processo de produção de valor impulsionado incessantemente pela possibilidade de ultrapassagem de seus próprios limites Safatle 2020a A Colonização das Subjetividades Diante da impossibilidade de o sujeito dar conta de toda a complexidade que envolve a multiplicidade do real ele passa a fazer apreensões parciais mediadas por afecções que vão dar origem a esquemas associativos construídos a partir de elementos heterogêneos de ação e sensação os quais pela via da síntese e da repetição vão constituir o hábito Hur 2019 Se o hábito é constituído pela repetição das sínteses originadas pelos esquemas associativos derivados das apreensões possíveis mediadas pelas afecções a lógica cartesiana penso logo existo baseada na razão está invertida pois não é o sujeito quem constitui o hábito e sim as condições de repetição das sínteses é que produzem o ser e as subjetividades ou seja é existindo que ser torna possível ser afetado e a partir disso pensar Hur 2019 Esse contexto evidencia a importância da investigação sobre as condições que se estabelecem entre o campo social e as afecções tendo em vista que a produção de subjetividade e também de subjetivação vão ser desdobramentos resultantes destas articulações as quais por óbvio serão alvo de manobras de gestão da vida e de controle biopolítico Hur 2019 Com as modificações trazidas pela implementação do capitalismo as sociedades ocidentais passaram a ser reguladas por processos de codificação os quais foram sendo estabelecidos através da determinação de normas e do fortalecimento das instituições que visavam com isso criar enunciações e regimes de verdades e de condutas produzindo então as subjetividades disciplinares Hur 2019 Esta forma de subjetividade a disciplinar internalizou uma série de significantes que reduziram as multiplicidades do real às conformações dicotômicas binárias simplificando imensamente as interpretações do mundo criando códigos capazes de definir e delimitar o normal e o desviante Hur 2019 Viver em um mundo codificado atravessa e interfere negativamente a condição de pensar pois o pensamento nesta lógica vai se configurar a partir de imagens préconcebidas e idealizadas mas isso não é pensamento é reprodução e reconhecimento Hur 2019 O pensamento existe somente onde é impossível definir uma forma pois ele opera pelo desmoronamento pela desagregação e pelo desconhecimento Deleuze 1997 como citado em Hur 2019 Quando o movimento de pensar é cristalizado em imagens dogmáticas ele é capturado pelos registros das representações produzindo uma massificação padronizada por falsos códigos Hur 2019 Os saberes disciplinares são estratégicos porque se enredam entre práticas científicas e políticas ou seja disciplinam para socialização e regulam para a punição Foucault1984 como citado em Hur 2019 O importante nessa lógica é ser normal ser adaptável manterse em obediência Hur 2019 Sendo assim fica evidente que o capitalismo não modificou somente as relações econômicas e políticas mas todas as dimensões constituintes da realidade interferindo também na produção de novos arranjos psicossociais se tornando a forma mais poderosa de captura de subjetividades alterando as formas de ser e de estar no mundo Hur 2019 Na atualidade o neoliberalismo não se propaga mais somente pelos códigos e normas mas principalmente pelo funcionamento do pensamento e pela captura do desejo impregnando por todos os espaços à lógica da superação e da máxima produção Hur 2019 A necessidade do mais produzir transbordou os limites das normas e a alienação deixou de ser fechada pela ideologia e pelo fetiche mas pela promessa de abertura e desgaste energético pela necessidade do rendimento Hur 2019 A subjetividade capitalista parece heterogênea mas ao contrário é fundamentalmente homogênea em seu funcionamento pois os investimentos desejantes são sincronizados a axiomática do capital que opera de forma abstrata em todas as dimensões da realidade tanto materiais quanto imateriais Hur 2019 Atualizações de gestão da vida pedem passagem Se o excessivo controle e disciplina aprisionava agora existe uma abertura uma busca incessante pelo rendimento e neste sentido mudaram também as técnicas de cuidados em saúde se no diagrama disciplinar o objetivo era diagnosticar para normatizar e adaptar na atualidade com o diagrama do rendimento essa lógica se transforma agora é preciso conhecer para intervir e estimular visando pela via do positivismo a obtenção de maior produtividade movimento e superação Hur 2019 Esta convocação produz um enredamento que muitas vezes se sobrepõe a capacidade do indivíduo de perceber que a mesma sociedade que estimula a competitividade vai criando e transformando as linhas de chegada instituindo novos modelos de sucesso inalcançáveis para a maioria colocando o sujeito frente a uma idealização de que tudo é possível e caso não seja será por culpa de sua própria inabilidade Alves Sanches De Luccia 2021 O contexto neoliberal e os imperativos de produção e competitividade descodificaram as diferenciações entre as classes sociais e por isso não há mais luta entre dominantes e dominados pois atualmente todos pensam pertencer a burguesia pelo menos pela via da idealização e desejo pelos mesmos padrões de consumo Hur 2019 Surgem então outros problemas o desamparo diante da responsabilidade de gerir a própria trajetória e os riscos frente as permanentes indeterminações Alves Sanches De Luccia 2021 Criamse novas formas de malestar Criamse novos sintomas Criamse também novas formas de lidar com a expectativa de desempenho e com o esgotamento Antidepressivos ansiolíticos estimulantes É a crise da subjetividade capitalista Lazzarato 2014 como citado em Hur 2019 PSIQUIATRIZAÇÃO DA EXISTÊNCIA Demonologia bruxaria exorcismo perseguição intolerância fogueira manicômios camisas de força cadeiras giratórias ervas alucinógenos álcool ópio cocaína haxixe hidroterapia malarioterapia insulinoterapia eletroconvulsoterapia lobotomia neurolépticos bioética Bioética Wang Neto Elkis 2007 A compreensão da história da psiquiatria precisa ser também a compreensão dos contextos sociais políticos e culturais de onde ela emerge e marca registros no tempo pois necessariamente está associada às possibilidades epistêmicas e tecnológicas que deram e poderão dar forma a suas teorias e práticas Bezerra Jr 2014 Após 200 anos de atividades voltadas a descrição e taxionomia de doenças a psiquiatria teve seu reconhecimento como especialidade médica somente na década de 50 com o desenvolvimento de fármacos capazes de controlar sintomas depressivos graves Junior 2021 Por efeito este sucesso como uma ciência prática impulsionou um movimento de reorientação epistemológica onde a adoção de critérios pragmáticos e convencionalistas passaram a ser compreendidos como preferíveis criando assim uma distância das origens causais que constituíam as nosologias críticas e reflexivas envolvidas na produção dos conhecimentos anteriores Junior 2021 Então ao invés da produção do conhecimento psiquiátrico acontecer a partir da avaliação e do acompanhamento de fenômenos constituintes da própria experiência clínica eles passaram a ser produzidos em função dos resultados que determinados princípios ativos teriam sobre determinados comportamentos Junior 2021 Sendo assim ao agrupar e nomear conjuntos de sintomas que podem ser desativados de forma neuroquímica com o auxílio dos medicamentos disponíveis a psiquiatria acaba por definir de forma antecipada as patologias que pretende dar conta Junior 2021 Nesse contexto as características diagnósticas colocam em circulação uma espécie de conhecimento sobre o sofrimento psíquico que não opera somente como forma de reconhecimento para facilitar um tratamento mas principalmente como uma forma de determinação Bezerra Jr 2014 O Lado B dos Manuais Diagnósticos Na primeira metade do século XIX algumas visões constituíam o campo da psicopatologia entre elas a psicodinâmica relacional de Freud onde o sintoma era compreendido como um signo que poderia ganhar sentido por intermédio de uma nosografia caracterizada a partir das três estruturas fundamentais da psicanálise as neuroses as psicoses e as perversões Bezerra Jr 2014 Além desta existia a vertente somático constitucionalista de Emil Kraepelin que compreendia os sintomas como algo constitutivo de um quadro passível de categorização e ainda uma terceira visão a fenomenológica existencial de Karl Jaspers Eugene Minkowski e Kurt Schneider mais próxima da concepção relacional de Freud Bezerra Jr 2014 Segundo Bezerra Jr 2014 embora essas macrovisões teóricas sobre o campo da psicopatologia estivessem presentes da sociedade da época elas não tinham relação nem embasavam nenhum manual de orientação clínica ou estatística O primeiro sistema de classificação psiquiátrica desenvolvido nos EUA foi criado em 1840 dividido em duas categorias insanidade e idiotia com a finalidade de organizar dados de recenseamento demográfico Bezerra Jr 2014 Já o segundo de 1917 era utilizado para produção e registros de dados nos ambientes hospitalares e foi dividido em sete categorias mania melancolia monomania paresia demência dipsomania e epilepsia Bezerra Jr 2014 Com o final da 2ª Guerra Mundial e a alta demanda de veteranos que precisavam ser reinseridos na sociedade os EUA que nunca investiram em um sistema público de saúde foram demandados a organizar e financiar ações de saúde em larga escala porém mesmo existindo vários sistemas de classificação em uso nenhum tinha correspondência com os sistemas que os hospitais utilizavam para formalização dos seus registros Bezerra Jr 2014 Neste contexto surge uma proposta realizada pelos membros da Associação Americana de Psiquiatria APA a de estabelecer uma classificação que pudesse funcionar de forma homogênea e independente da Classificação Internacional de Doenças CID criada pela Organização Mundial de Saúde OMS que já estava na 6ª versão e que não abrangia os males causados pela guerra Bezerra Jr 2014 Sendo assim em 1952 foi lançado pela APA o DSM I dividido em 106 categorias diagnósticas organizadas fundamentalmente a partir do espectro psicopatológico que caracterizava os transtornos neuróticos psicóticos e de caráter descritos de forma a destacar aspectos relacionais e subjetivos dos pacientes ou seja fortemente influenciado pela psicopatologia psicanalítica Bezerra Jr 2014 Em 1968 foi lançado o DSM II na mesma lógica do I mas agora com 180 categorias diagnósticas Bezerra Jr 2014 Nesta ampliação surgiram os transtornos comportamentais na infância e na adolescência e também uma seção que descrevia desvios de natureza sexual colocando a homossexualidade como um transtorno mental Bezerra Jr 2014 Se até então ambos manuais eram usados somente por psiquiatras e tinham finalidades mais administrativas do que clínicas com a inclusão desta categoria que transformava a homossexualidade em doença mental o debate deixou de ser exclusivamente médico e ganhou dimensões públicas com implicações políticas Bezerra Jr 2014 Após diversas contestações em 1970 simpatizantes do movimento invadiram um congresso na Associação Americana de Psiquiatria barrando a entrada de psiquiatras no local impulsionando um debate que após inúmeras discussões internas e votações entre os próprios membros da APA resultou na sétima edição do manual impressa já sem tal categoria McCommom 2006 como citado em Bezerra Jr 2014 O ano de 1968 foi um ano simbólico de reivindicações sociais e mudanças culturais em todo o mundo e os debates que continuaram por toda década de 70 foram determinantes para a mudança estrutural do próximo manual o DSM III publicado em 1980 agora com 295 categorias diagnósticas Bezerra Jr 2014 A organização do DSM III foi completamente diferente dos princípios que nortearam a estruturação dos manuais anteriores em especial pelo abandono da concepção do sintoma como um signo em detrimento da concepção do sintoma como um sinal ou seja houve um rompimento com a psicanálise e com a forma de pensar a subjetividade Bezerra Jr 2014 Com essa mudança as categorias diagnósticas passaram a ser organizadas em função de agrupamentos objetivos de sintomas e de comportamentos visíveis operando como concepções somente descritivas e ateóricas distanciadas da dimensão relacional subjetiva e dos conflitos intrapsíquicos existenciais Bezerra Jr 2014 Dessa forma a psiquiatria pretendia transformar a nosologia clínica com objetivo de conseguir delimitar em categorias precisas as descrições biológicas observáveis que responderam às intervenções psicofarmacológicas experimentadas e desenvolvidas nas décadas anteriores Bezerra Jr 2014 Nesse sentido a classificação do DSM III ao recusar a etiologia do sintoma determinando o diagnóstico a partir de um agrupamento sintomatológico meramente observável diferiu também da concepção teórica que o teria inspirado inicialmente Emil Kraepelin em sua vertente somáticoconstitucionalista agrupava sintomas a partir da observação evolutiva do paciente e de hipóteses etiológicas tentando com isso construir uma narrativa a respeito das condições apresentadas Bezerra Jr 2014 Logo a partir do DSM III as categorias psiquiátricas passaram a ser determinadas pela inclusão ou exclusão de quantidade duração e intensidade de características observáveis fazendo surgir as comorbidades o que através de um sistema de análise multiaxial fez o diagnóstico atender também a demandas de pesquisas e ensaios controlados para avaliação de psicofármacos Bezerra Jr 2014 Em 2013 veio a publicação do DSM V e junto com esta edição emergiu um campo de tensões geradas pela própria psiquiatria Francis Allen responsável pelo DSM IV publicado em 1994 criticou publicamente via internet os princípios que nortearam a construção do DSM V Bezerra Jr 2014 Além da crítica pública feita por Allen também a NIMH National Institute of Mental Health registrou oficialmente que passaria a usar o RDoC Reserch Domain Criteria como instrumento orientador de suas pesquisas pois segundo a justificativa apresentada o DSM por se apoiar em agrupamentos objetivos de sintomas não fornece condições de sustentação para pesquisas etiológicas impedindo portanto o desenvolvimento de estudos e tratamentos de ordem neurobiológica Bezerra Jr 2014 Com a utilização do RDoc fica evidente a intencionalidade do NIMH em buscar uma outra forma de pensar os transtornos mentais dessa vez ainda mais radical e reducionista com objetivo de tentar reter e vincular a nosologia psiquiátrica à uma prática exclusivamente científica Cuthbert Insel 2013 como citados em Bezerra Jr 2014 Tendo em vista que a psiquiatria sempre foi constituída por tentativas tensões e contradições internas talvez seja importante um novo movimento onde ela possa se reestabelecer simplesmente como uma prática humana racional e ética que se estabelece na incerteza da experiência clínica refutando dessa forma determinismos e reducionismos diagnósticos que podem inclusive vir a colocála em descrédito Banzato Pereira 2014 Diante deste contexto é importante perceber que categorizações de qualquer natureza são organizações realizadas a partir de orientações que pretendem cumprir os objetivos que as fizeram ser necessárias ou seja as classificações são feitas de acordo com a demanda com os recursos e agrupamentos possíveis em determinada ocasião sempre tentando criar uma dimensão de inteligibilidade e representação dos dados categorizados Bezerra Jr 2014 As classificações têm implicações problemáticas porque elas sempre se configuram como uma aparência possível de delimitação de verdade ou seja tudo aquilo que pode ser reconhecido compreendido e agrupado em determinado momento poderá deixar de ser incluído justamente por ainda não ser reconhecido logo as classificações são sempre parciais e por isso não são neutras elas operam regulando e excluindo Bezerra Jr 2014 O Compromisso da Indústria Farmacêutica As publicações dos manuais DSM I e DSM II refletiam a clássica e sempre atual tensão entre as concepções psicossociais e as concepções biológicas a respeito das etiologias dos transtornos mentais Bezerra Jr 2014 No DSM III essa tensão tentou ser minimizada com a inclusão de uma observação no capítulo sobre os Transtornos Mentais Orgânicos cujo objetivo era informar que os transtorno nãoorgânicos portanto os funcionais também eram dependentes de processos cerebrais Bezerra Jr 2014 Essa ascensão do naturalismo no DSM III não aconteceu por acaso ela estava correspondendo ao sucesso dos psicofármacos clorpromazina diazepínicos e antidepressivos tricícliclos recentemente introduzidos na prática psiquiátrica e também à grandes descobertas biológicas da época identificação da dupla hélice do DNA em 1952 plasticidade cerebral epigenética entre outros Bezerra Jr 2014 Em 1960 movimentos que lutavam pela desinstitucionalização do modelo asilar de assistência psiquiátrica ganharam força argumentando que com o uso de psicofármacos seria possível criar sistemas de assistência fora dos ambientes segregativos hospitalares o que de fato foi implementado mas não sem rigor burocrático Bezerra Jr 2014 Para que estes fármacos pudessem circular no mercado biomédico eles precisariam passar por diversas regulações governamentais as quais exigiram comprovações a respeito dos efeitos de eficácia prometidos para tratamento de determinadas doenças que também deveriam ser bem especificadas Bezerra Jr 2014 Este foi o contexto que deu início a relação de cumplicidade entre a medicina mental e a indústria farmacêutica que a partir de então se impulsionaram e se desenvolveram de forma progressivamente complementar criando possibilidades de trabalho uma para a outra e se fortalecendo por isso Bezerra Jr 2014 Ocorre que a indústria farmacêutica não é um organismo a parte do que se estabelece no sistema social ela também é alvo do neoliberalismo e nesse sentido também vai se utilizar dos recursos e das possibilidades do seu tempo para criar condições de desenvolvimento e permanência ou seja será através do aumento de produção e de consumo de medicamentos que ela vai conseguir obter lucro Oliveira 2018 Todo esse imbricamento de reciprocidades entre a corporação psiquiátrica com seus manuais terapêuticas e receituários e a indústria farmacêutica com toda sua organização que envolve desde financiamentos de instituições científicas até manipulação de pesquisas e massivo investimento em marketing vem historicamente criando um circuito poderoso de retroalimentação que impede contestações especialmente porque foi se estabelecendo na cultura legitimado pelo discurso científico do saber médico Oliveira 2018 Isto é o que está por trás dos crescentes fenômenos de patologização e medicalização da vida cuja consequência imediata é a naturalização das experiências de malestar e sofrimento psíquico que passam a ser explicados a partir de déficits biológicos individuais portanto resolvidos com medicação Furtado 2018 Explicar o sofrimento a partir de desregulações biotecnológicas significa intervir de forma manipulativa sobre a condição humana e sobre o imaginário coletivo que passa a perder referências sobre seus estados emocionais e as questões sociais o que torna a atual aliança entre a medicina mental e indústria farmacêutica perversa Furtado 2018 A Negação da Natureza Trágica da Vida A consequência imediata de atrelar o sofrimento psíquico às disfunções orgânicas é a invalidação do sentido da reação emocional do sujeito frente aos acontecimentos cotidianos ou seja ao se criar uma gramática para a tristeza e para a inconformidade humana à luz da naturalização de suas causas os sujeitos são privados de sua observação crítica quanto ao meio social Junior 2021 E mais quando neste contexto as medicações passam a ser entendidas como recursos possíveis para amenização de angústias dificuldades e frustrações o sujeito contemporâneo ao pensar sua interioridade como uma disfuncionalidade facilmente adere aos fármacos algo que dentro de uma lógica capitalista que fabrica o tempo todo novos consumidores e novos objetos de consumo não surpreende Junior 2021 A história da psiquiatria vem se constituindo por meio de fases marcantes primeiro o processo de biologização onde o sujeito é visto como um ser independente da dimensão social e histórica que o contorna depois a patologização da vida onde os sofrimentos passam a ser nomeados pelas categorias diagnósticas dos manuais psiquiátricos e atualmente o enhancement onde as práticas curativas passam a ser substituídas pela necessidade da performance Neves Ismerim Costa Santos Senhorini Beer Bazzo Coelho Carnizelo Junior 2020 O enhancement visa a superação e o máximo desempenho para que dessa forma a condição humana possa extrair toda satisfação que puder de maneira a minimizar o desconforto sempre aumentando a possibilidade de melhorar as condições para atender os imperativos sociais sejam eles de desempenho intelectual laboral estético esportivo ou nutricional sempre buscando bemestar Neves et al 2020 Essa lógica do enhancement parece ter bastante identificação com o conceito positivo de saúde introduzido pela OMS a qual no início de sua Constituição em 1946 afirmava saúde é um estado de completo bemestar físico mental e social e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade Ramos 2014 O problema é que a interpretação desse conceito não pode ser descontextualizada do momento ao qual ela se fez absolutamente necessária diante da absurda violação dos direitos humanos em função das grandes guerras onde as gerações foram duas vezes afetadas dentro da mesma temporalidade de uma vida fezse urgente a criação de Estados fortes e comprometidos com a garantia de direitos sociais fundamentais Ramos 2014 Ocorre que entre 1980 e 1990 com o novo contexto político e econômico o Estado forte responsável pela garantia de direitos se tornou um Estado mínimo transformando o acesso aos direitos em uma luta cotidiana Ramos 2014 Além dessa modificação do papel do Estado os autores da Constituição da Organização Mundial da Saúde de 1946 também não tinham condições de prever os efeitos do capitalismo pósindustrial da globalização econômica e cultural dos imperativos de consumo das mídias e da superficialidade das relações sociais Ramos 2014 Neste contexto do capitalismo pósindustrial globalizado a compreensão do conceito positivo de saúde passa a ser deformada para ausência de saúde não é apenas presença de doença mas existência de malestar físico mental e social Ramos 2014 Então na contemporaneidade quase tudo passa a ter potencial comercial se for vendido com promessas de felicidade de conforto psíquico e de aumento de autoestima o que demostra a dificuldade da condição humana em lidar com as incertezas sobre si mesmo afinal os homens criam condições mas também são produzidos por elas Furtado 2018 Nesse sentido a psiquiatria se configura como um campo científico mas também como um campo moral pois ao ser constantemente tensionada entre a produção de conhecimento e de cuidado oscilando entre possibilidades de determinação da experiência mas também de autonomia do sujeito fica evidente o esforço que se impõe ao tentar proporcionar algum entendimento a respeito da existência sendo que a realidade é que a condição humana é uma condição essencialmente ontológica e aberta Bezerra Jr 2014 Segundo Bezerra Jr 2014 ao se ocupar da nomeação e tratamento da dor do sofrimento e da angústia a partir de um contorno diagnóstico passível de intervenção médica a psiquiatria pretende poupar os indivíduos do encontro com o trágico Nesse contexto a psiquiatria além de outras coisas pode ser pensada como a negação institucionalizada da natureza trágica da vida Thomas Szasz 1991 como citado em Bezerra Jr 2014 MICROPOLÍTICA E RESISTÊNCIA Governar a si próprio expressa uma ação regra facultativa que deriva mas se autonomiza da relação de poder A força deixa de afetar apenas outras forças mas tem que se dobrar em si num processo de autoafecção e nessa dobragem gera um novo posicionamento político que resulta na produção de subjetivação Caso contrário se a força não dobra sobre si o regime de governabilidade não seria mais entre homens livres senão uma tirania Domenico Hur Psicologia Política e Esquizoanálise p51 A Ressonância Partindo do princípio de que o mundo é um ambiente compartilhado e que as relações sociais são produtos das instituições e das práticas o que deveria motivar o interior das ações políticas Os conflitos de oposição ou a busca pela formatação de eixos que estruturem os interesses em comum Rosa 2022b Se as relações sociais são produções elas podem ser transformadas e nesse sentido é importante ultrapassar a ideia dos antagonismos e perceber que existem diversas outras formas possíveis de relacionamento com o mundo Rosa 2019 A ressonância é uma forma relacional que acontece no encontro e no instante naquilo que emerge do entre e abre caminhos para possibilidades de transformações mútuas implicando em significações intrínsecas além de favorecer experiências de autoeficácia decorrentes da sensação de vitalidade proporcionada pela própria condição Rosa 2019 A ressonância não tem ligação direta com a noção de harmonia pois uma relação dissonante e contraditória também pode ser ressonante Rosa 2019 A ressonância em si é contrária a alienação que seria uma forma impotente de relação com as experiências sejam elas sociais materiais ou existenciais Rosa 2019 A alienação não chega a ser uma condição de indiferença nem de repulsão pois estas últimas são experiências de sofrimento e diante delas o mundo pode parecer frio e silencioso sensação esta que pode ser ainda mais intensificada em quadros como os de burnout e depressão Rosa 2019 Com as demandas de aceleração social e pressão por desempenho e competitividade as práticas dominantes de socialização tem criado um certo fechamento disposicional para as relações de ressonância também porque não é possível ressoar e ser concorrente de alguém mesmo assim cabe a esfera individual o resgate da abertura disposicional e a sensibilidade para afetar e ser afetado de maneira responsiva Rosa 2019 As Três Ecologias Com as transformações e a aceleração dos avanços técnicoscientíficos juntamente com o aumento demográfico o meio ambiente vem sendo constantemente impactado e seu progressivo desequilíbrio ameaça as condições de vida no planeta que já está em sistemático processo de deterioração Guattari 2012 Além da crise ecológica em si a intensificação tecnológica proporcionada pela informática e pela robótica tem permitido que as máquinas mantenham o ritmo e o aumento da produtividade sem a necessidade de mão de obra humana que passa a sofrer cada vez mais com condições de desemprego precarização e angústia Guattari 2012 Neste contexto onde a humanidade apesar de ter conseguido avançar desenvolvendo conhecimentos científicos e técnicos os utiliza também com finalidades destrutivas voltadas à univocamente atender demandas de poder e lucratividade ao invés de serem direcionadas às necessidades humanas Guattari 2012 manifestando sua indignação e preocupação propõe que é fundamental repensar as relações entre meio ambiente sociedade e subjetividades Esta nova forma de pensar tal como proposto por Guattari 2012 a ecosofia é um paradigma estéticopolítico capaz de reorientar os objetivos das produções materiais e imateriais reinventando os modos de ser do coletivo abrangendo não só as dimensões políticas sociais ambientais e culturais mas essencialmente as dimensões que concernem a atividade humana de inteligência seus desejos e sensibilidade Para Guattari 2012 é preciso aprender a apreender o mundo de forma transversal considerando a interação dos múltiplos domínios que constituem a natureza incluindo também a cultura e os universos de referências individuais e coletivos que estão submersos nela pois a recusa passividade ou desconhecimento sobre tal interrelação tende a agravar as dificuldades humanas além de gerar uma infantilização das opiniões e consequentemente enfraquecimento da democracia As três ecologias que formam a ecosofia enquanto recomposição de prática a saber ecologia mental ambiental e social precisam se desprender de paradigmas pseudocientíficos para se orientarem a partir de nova cartografia balizada por novos pontos de referências que não esmaguem nem deixem desaparecer os gestos de solidariedade as lutas de emancipação e o fortalecimento do sentido das palavras Guattari 2012 A lógica ecosófica não rivaliza pois entende que justamente por serem finitas e precárias suas ecologias não podem ficar fechadas em si mesmas pois este seria um movimento destrutivo e contrário ao pretendido que é a abertura para uma práxis onde seja possível a criação de territórios existenciais não passíveis de serem domesticados pela lógica capitalista Guattari 2012 A ecologia social deve fundamentalmente se concentrar na reconstrução dos laços humanos em todos os níveis pois o poder capitalista ao se infiltrar nas subjetividades foi produzindo efeitos na ecologia mental que anestesiada em uma falsa ideia coletiva de eternidade deixou de se singularizar Guattari 2012 A falta de singularização impede a autorreferência criativa e funciona como uma máscara existencial que opera através da representação e este é um risco para as comunidades humanas pois ao se curvarem sobre si se ausentam dos cuidados com a organização social terceirizando esta tarefa para os governantes Guattari 2012 Este caráter hegemônico da lógica capitalista que subalterniza todas as outras dimensões existenciais à lógica do lucro é que precisa ser descontruído e reorientado para os interesses coletivos com novos sistemas de valorização da vida com novas políticas e novas éticas que proporcionem a reconstrução dos destroços provocados por ele mesmo a revigoração ambiental e a retomada de confiança no destino da humanidade Guattari 2012 A ecosofia não é reativa ela não busca o poder ela é resistência é composição é criação de mundos possíveis mundos onde caibam outros mundos Hur 2019 A Singularização Embora a produção de subjetividade seja resultante da ação das forças atuantes entre o campo social e o hábito isso não ocorre de maneira linear nem estática pois como está sempre em movimento carrega em si um duplo potencial tanto pode se sedentarizar quanto pode se atualizar Hur 2019 Como o sujeito é efeito dos processos de subjetivação ele poderá ser capturado por uma escolha não intencional de determinada posição subjetiva e é por isso que a subjetividade não pode ser pensada como relativa à essência humana pois ela sempre vai depender do socius Guattari 2016 como citado por Hur 2019 Porém além de serem dependentes do campo social os processos de subjetivação também vão depender do chamado coeficiente de territorialização cujo índice é o que determina o quanto um corpo ao ser afetado vai se sentir atraído a permanecer cristalizado e encouraçado em determinada posição Hur 2019 Altos coeficientes de territorialização constituem subjetividades mais rígidas que precisam ficar aderidas as normas e convenções o que acaba gerando a retenção de fluxos desejantes que ao invés de se lançarem para fora para o socius se lançam para dentro em conformação centrípeta e reativa Hur 2019 Quando mais voltadas sobre si maior será a reatividade e maior será a adesão dessas subjetividades aos discursos de verdade sejam eles quais forem religiosos políticos de gênero ou acadêmicos e consequentemente mais fechadas e intolerantes se tornam às diferenças e divergências Hur 2019 Mesmo com a alguma possibilidade de variação as subjetividades rígidas se resguardam em uma camada de proteção uma couraça que tem função de proteção mas que se por acaso se romper poderá tanto satisfazer quanto provocar uma grande crise onde a cognição pode assumir versões bastante regredidas e irracionais Hur 2019 De forma contrária quanto menores os índices de territorialização menores serão os índices de fixação e maior será a autonomia ou seja quanto maior for a capacidade de um corpo em ser afetado menor será a chance de ele ser capturado por códigos e determinações sociais Hur 2019 As subjetividades poiéticas ou nômades se atualizam em devires de forças e afecções elas se movimentam pela abertura e pela atualização da desterritorialização produzindo novos modos se ser e existir novas estéticas de existência Hur 2019 Diante do exposto é possível observar que o modo como o sujeito experimenta a subjetividade pode transitar entre uma condição de sujeição onde o sujeito se submete ao que recebe ou de criação onde o sujeito ao se reapropriar dos componentes da subjetivação se atualiza em um processo de singularização Guattari Rolnik 2013 Na contemporaneidade com o capitalismo mundial integrado a produção de subjetividade é tão serializada e homogeneizada que dificulta a possibilidade dos processos de singularização tanto por causa da alienação e da infantilização quanto pela culpabilização que coloca em dúvida a condição de enunciação Guattari Rolnik 2013 Dificultar não significa extinguir Os processos de singularização são insurgências com capacidade auto modeladora ou seja quanto mais o sujeito cria e estabelece seus mecanismos de referência mais ele se fortalece e se autonomiza da dependência do poder instituído Guattari Rolnik 2013 Ao frustrarem os mecanismos de introjeção dos valores capitalistas os processos de singularização desenvolvem potencial para afetar o campo social criando mutações conscientes ou inconscientes nas subjetividades tanto individuais quanto coletivas portanto a revolução molecular que é inicialmente de ordem micropolítica pode se afirmar em ação extensão e sensibilidade impactando também a macropolítica tecendo condições possíveis para coexistência pluralidade e suavidade Guattari Rolnik 2013 CONSIDERAÇÕES FINAIS Sociedades são organizações complexas e contraditórias que carregam em si potencialidades e indeterminações Rosa 2022 Sendo assim existe a possibilidade de não serem capazes de assegurar meios para autorrealização dos indivíduos e quando isto acontece ou seja quando as condições sociais falham causando prejuízos aos seus membros surgem as patologias sociais Honneth 2007 como citado em Safatle 2021 Com o posicionamento da cultura em torno da economia e o surgimento do discurso da ciência o sofrimento passou a ser abordado a partir de inferências naturalistas tratadas a partir de diagnósticos clínicos Safatle 2021 Tais contextos ao produzirem e reproduzirem imagens indutoras de sentido fazem com que os sujeitos internalizem formas de existência baseadas na ampliação de restrições no campo social diminuindo as chances de recondução do sofrimento a caminhos de singularidade Safatle 2020 Então o que acontece na atualidade é uma espécie de sufocamento do sujeito da enunciação o qual alienado pelos efeitos da aceleração social capturado pelo maisgozar do discurso capitalista e anestesiado pela ação das medicações legitimadas pela ciência como recursos modernos para lidar com o sofrimento fica distanciado de sua capacidade de ação política Junior 2021 Freud não teve condições de prever que a racionalidade científica poderia se tornar banalizada através de discursos de verdade os quais impulsionados pelo discurso capitalista e pelo marketing poderiam acabar sustentando uma ilusão de mundo possível de ser administrado e organizado cientificamente Junior 2021 Diante disso pensar sobre patologias sociais na contemporaneidade implica também na compreensão sobre os circuitos de afetos presentes na forma como os indivíduos narram seus sofrimentos autorizando modos de participação social que permitem o apagamento do sujeito da enunciação em detrimento ao sujeito do enunciado Junior 2021 Com a noção psicanalítica do inconsciente o debate entre autonomia e as condições de emancipação social precisa ser revisto pois consentir a própria servidão tem relação direta com os processos de instauração da vida psíquica as identificações expectativas de amparo e amor esperanças melancolias e formas de gozo Safatle 2020 Então se a sujeição é afetivamente construída e afetivamente perpetuada a condição possível para a superação de conflitos psíquicos e experiências políticas de emancipação é indissociável da transmutação das formas de ser afetado Safatle 2020 O resgate do sujeito da enunciação e a reconexão com os afetos que devolvam a vitalidade ao ser são caminhos de singularização que afirmam o sujeito diante da própria vida e temporalidade eis a necessidade de uma refundação da psicanálise como potência revolucionária que cede espaço ao indizível e a construção de sentido Alberti Elia 2008 Isto não é um lamento é um grito de ave de rapina Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém Provavelmente a minha própria vida As palavras Clarice Lispector REFERÊNCIAS Alberti S Elia L 2008 Psicanálise e Ciência o encontro dos discursos Revista Mal estar E Subjetividade VIII 37798022022 ISSN 15186148 https wwwredalycorgarticulooaid27180310 Alves K Sanches D De Luccia D 2021 Anomia e declínio da autoridade paterna In V Safatle NS Junior C Dunker Orgs Patologias do Social Arqueologias do sofrimento psíquico 1ª ed pp 111139 Belo Horizonte Editora Autêntica Backes C 2007 A clínica psicanalítica na contemporaneidade 1ª ed Porto Alegre RS Editora UFRGS Bezerra Jr B 2014 Introdução A psiquiatria contemporânea e seus desafios In R Zorzanelli B Bezerra Jr JF Costa Orgs A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea 1ª ed pp 931 Rio de Janeiro Editora Garamond Caponi S 2018 Uma biopolítica da Indiferença A Propósito da Denominada Revolução Psicofarmacológica In P Amarante AMF Pitta WF Oliveira Orgs Patologização e Medicalização da vida Epistemologia e Política 1ª ed pp1737 São Paulo Editora Zagodoni Carvalho A M D 2012 A influência do Projeto da Modernidade no Estado de Bem Estar Social Monografia de Especialização Universidade Federal do Paraná Curitiba httpshdlhandlenet188444962 Cavalcanti C A T Poli M C 2015 O laço social e o malestar face ao desamparo httpsdoiorg105007180713842015v12n2p55 Coelho Carolina Marra S 2006 Psicanálise e laço social uma leitura do Seminário 17 Mental 46 107 121 httppepsicbvsaludorgscielophpscriptsciarttextpidS1679 44272006000100009lngpttlngpt Deleuze G Guattari F 2011 O AntiÉdipo 2ª ed BL Orlandi Trads São Paulo SP Editora 34 Deleuze G 2011 Crítica e Clínica 2ª ed PP Pelbart Trads São Paulo SP Editora 34 Dardot P Laval C 2016 A nova razão do mundo ensaio sobre a sociedade neoliberal 1ª ed M Echalar Trads São Paulo SP Editora Boitempo Furtado M 2018 Regulação Biotecnológica do Sofrimento e Evicção do Sujeito Efeitos sobre a Condição Humana In P Amarante AMF Pitta WF Oliveira Orgs Patologização e Medicalização da vida Epistemologia e Política 1ª ed pp3955 São Paulo Editora Zagodoni Freud S 185619392020 Cultura sociedade religião O malestar na cultura e outros escrito s In G Iannini PH Tavares Orgs Obras incompletas de Sigmund Freud 1ª ed MRS Moraes Trads Belo Horizonte Editora Autêntica Guattari F 2012 As três ecologias 21ª ed MCF Bittencourt Trads Campinas SP Editora Papirus Guattari F 2019 Caosmose um novo paradigma estético 2ª ed AL de Oliveira LC Leão Trads São Paulo SP Editora 34 Guattari F Rolnik S 2013 Micropolítica cartografias do desejo 12ª ed Petrópolis RJ Editora Vozes Hur DU 2019 Psicologia política e esquizoanálise Campinas SP Editora Alínea Junior NS 2021 O malestar no sofrimento e a necessidade de sua revisão pela psicanálise In V Safatle NS Junior C Dunker Orgs Patologias do Social Arqueologias do sofrimento psíquico 1ª ed pp 3558 Belo Horizonte Editora Autêntica Kehl MR 2002 Sobre ética e psicanálise São Paulo SP Companhia das Letras Neves A Ismerim A Costa F D Santos LRP Senhorini M Beer P Bazzo R Coelho SP Carnizelo CR Junior NS 2020 A psiquiatria sob o neoliberalismo da clínica dos transtornos ao aprimoramento de si In V Safatle NS Junior C Dunker Orgs Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico pp136 194 Belo Horizonte Editora Autêntica Oliveira WF 2018 Medicalização da Vida Reflexões sobre sua Produção Cultura In P Amarante AMF Pitta WF Oliveira Orgs Patologização e Medicalização da vida Epistemologia e Política 1ª ed pp1116 São Paulo Editora Zagodoni Pereira MEC Banzato CEM 2014 O lugar do diagnóstico na clínica psiquiátrica In R Zorzanelli B Bezerra Jr JF Costa Orgs A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea 1ª ed pp 3554 Rio de Janeiro Editora Garamond Quinet A 2012 Os outros em Lacan Ed digital Rio de Janeiro Editora Zahar Quinet A 2009 Psicose e laço social esquizofrenia paranoia e melancolia 2ª ed Rio de Janeiro Editora Zahar Ramos F 2014 Do DSMIII ao DSM5 Traçando o percurso médicoindustrial da psiquiatria de mercado In R Zorzanelli B Bezerra Jr JF Costa Orgs A criação de diagnósticos na psiquiatria contemporânea 1ª ed pp 211 229 Rio de Janeiro Editora Garamond Rosa H 2019 Escalada ou saída O fim da estabilização dinâmica e o conceito de ressonância Prefácio à edição brasileira In H Rosa Aceleração A transformação das estruturas temporais na Modernidade RH Silveira JL Tziminadis Trads pp 9 50 São Paulo Editora Unesp Rosa H 2022b O equívoco da ontologia social antagonista e a crise de alienação da modernidade tardia Sobre a atualidade política da Teoria Crítica Civitas Revista De Ciências Sociais 22 e42507 httpsdoiorg10154481984 72892022142507 Rosa H 2022 Aceleração e Alienação Por uma teoria crítica da temporalidade tardo moderna Lucas FR Trads Petrópolis RJ Editora Vozes Safatle V 2021 Introdução Em direção a um novo modelo de crítica as possibilidades de recuperação contemporânea do conceito de patologia social In V Safatle NS Junior C Dunker Orgs Patologias do Social Arqueologias do sofrimento psíquico 1ª ed pp 731 Belo Horizonte Editora Autêntica Safatle V 2020 O circuito dos afetos corpos políticos desamparo e o fim do indivíduo 2ª ed Belo Horizonte MG Editora Autêntica Safatle V 2020 Maneiras de transformar mundos Lacan política e emancipação 1ª ed Belo Horizonte MG Editora Autêntica Silva DP Pestana H Andreoni L Ferretti M Fogaça M Senhorini M Junior NS Beer P Ambra P 2020 Matrizes psicológicas da episteme neoliberal a análise do conceito de liberdade In V Safatle N da Silva Jr C Dunker Orgs Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico pp80 133 Belo Horizonte Editora Autêntica Tizio H 2006 Novas modalidades do laço social Universidade de Barcelona ES aSEPHallus 24 3237 maioout 2007 Artigo em Português LILACS ID lil516781 biblioteca responsável BR11941 httpwwwisepolcomasephallusnumero04artigo03htm Wang YP Neto MRL Elkis H 2007 A História da Psiquiatria In YP Wang H Elkis Orgs Psiquiatria Básica 2ª ed pp 2131 Porto Alegre Editora Artmed 10 10