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Relatório de Clínica Psicanalitica

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FACULDADE INGÁ CURSO DE PSICOLOGIA RODOLFO RODRIGO BENEDETTI RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL III CLÍNICA DE PSICOLOGIA UNINGÁ MARINGÁ 2025 1 RODOLFO RODRIGO BENEDETTI TESTES PSICOLÓGICOS CPM RAVEN Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e CMMS3 Escala de Maturidade Mental Colúmbia Relatório apresentado ao curso de Psicologia do Centro Universitário Ingá na disciplina de estágio de formação profissional III como requisito parcial para obtenção de nota no curso de Psicologia da faculdade INGÁ Prof Ms Bruna Luzia Garcia de Oliveira MARINGÁ 2025 2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO1 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA2 21 Primeiro contato e entrevista com o paciente3 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica3 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista5 22 A evolução do diagnóstico psicanalítico6 22 Regras psicanalíticas da atualidade8 221 Regra da abstinência9 222 Regra da atenção flutuante10 223 Regra da neutralidade11 224 Regra do amor à verdade12 23 3 1 INTRODUÇÃO O presente relatório tem como objetivo refletir sobre a experiência de estágio supervisionado em Psicologia com ênfase na prática clínica orientada pela abordagem psicanalítica e a partir da articulação entre teoria e prática buscase apresentar os principais fundamentos teóricos que sustentaram a atuação descrever a vivência do estágio e analisar criticamente os aspectos éticos e técnicos envolvidos no processo Conforme a Resolução n 62011CNEMEC o estágio supervisionado é um componente crucial na formação em Psicologia dividido em duas etapas o Estágio Supervisionado Básico realizado no 3 ano que se concentra na integração de competências por meio de visitas técnicas e observações e os Estágios Supervisionados de Formação desenvolvidos nos 4 e 5 anos voltados ao aprofundamento profissional em áreas específicas como clínica institucional escolar e organizacional Cada etapa é organizada por meio de projetos de ensino elaborados pelos professores supervisores os quais incluem justificativas competências a serem desenvolvidas métodos de trabalho e critérios de avaliação A supervisão ocorre na ClínicaEscola de Psicologia do Centro Universitário Ingá Uningá em grupos de até seis alunos com o propósito de promover uma formação crítica e prática para os futuros psicólogos Este relatório está alinhado à estrutura e regulamentação dos Estágios Supervisionados do curso de Psicologia da Uningá conforme descrito nos documentos institucionais Os alunos do 5º ano devem cumprir um total de 200 horas no Estágio de Formação III e 160 horas no Estágio de Formação IV com carga horária distribuída ao longo dos períodos letivos regulares sem previsão de interrupções para férias intermediárias Os estágios são formalizados por meio de instrumentos jurídicos entre o Centro Universitário Ingá e as instituições concedentes sendo realizados tanto na ClínicaEscola de Psicologia da Uningá quanto em instituições conveniadas como hospitais unidades básicas de saúde instituições de educação infantil e educação especial entre outras A supervisão dos estágios é de responsabilidade dos professores supervisores do supervisor de estágio e da coordenação do curso Os professores supervisores são docentes do curso de Psicologia atuando conforme suas áreas de formação e experiências profissionais e em casos específicos profissionais de áreas técnicas externas podem ser incluídos na supervisão mediante solicitação escrita e aprovação institucional Durante todo o processo o Código de Ética 1 Profissional do Psicólogo aprovado em agosto de 2005 pelo Conselho Federal de Psicologia serve como guia essencial para a prática profissional Este documento elaborado em um contexto de transformações sociais e demandas profissionais reforça princípios como o respeito à dignidade humana a promoção da saúde e a qualidade dos serviços psicológicos além de definir deveres proibições e penalidades para assegurar uma atuação ética e responsável A estrutura do relatório segue três eixos principais inicialmente uma fundamentação teórica baseada em autores da psicanálise seguida da descrição detalhada da experiência prática em contexto clínicoinstitucional Em seguida são discutidas as implicações éticas da atuação profissional conforme previsto no Código de Ética do Psicólogo e propõese uma análise crítica dos desafios e aprendizados construídos ao longo do estágio Por fim o texto conclui com considerações sobre a integração entre teoria prática e ética na formação do psicólogo ressaltando a importância do estágio supervisionado como espaço de consolidação do conhecimento e da identidade profissional 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A psicanálise desde seus fundamentos estabelecidos por Freud consolidou se como um campo teóricoclínico de grande complexidade enriquecido ao longo do século XX por contribuições de diversos autores Inicialmente Freud estruturou pilares centrais como o conceito de inconsciente a sexualidade infantil os mecanismos de defesa e a transferência que permanecem como eixos estruturantes da prática psicanalítica Em A Interpretação dos Sonhos 1900 obra seminal ele enfatiza a função do inconsciente na produção simbólica demonstrando que os processos psíquicos transcendem a consciência imediata Essa perspectiva revolucionária revela que o sujeito não é plenamente senhor de sua própria razão uma ideia que redefine a compreensão do sofrimento humano Ao reconhecer a dimensão inconsciente como núcleo da subjetividade Freud inaugurou uma metodologia clínica baseada na escuta atenta da singularidade do paciente e na valorização de sua narrativa Essa abordagem detalhada em suas obras Freud 2016 desloca a ênfase de interpretações normativas para uma prática que acolhe a ambiguidade e a multiplicidade de sentidos presentes no discurso Dessa forma a psicanálise não apenas ampliou o horizonte teórico sobre a 2 mente humana mas também estabeleceu um paradigma ético e técnico orientado pelo respeito à expressão individual legado que continuou a ser expandido e reinterpretado por gerações posteriores de analistas 21 Primeiro contato e entrevista com o paciente A comunicação não verbal constitui um elemento fundamental nas interações humanas sobretudo nas etapas iniciais de um relacionamento seja em âmbito pessoal ou profissional Essa forma de expressão que engloba gestos expressões faciais postura e movimentos corporais transcende a dimensão verbal revelando emoções genuínas e facilitando a construção de conexões mais profundas entre os indivíduos Durante os primeiros contatos a habilidade de decifrar esses sinais tornase especialmente relevante já que eles podem transmitir nuances como interesse confiança abertura ou resistência muitas vezes de maneira mais autêntica do que as palavras Zimerman2004 Além de expressar sentimentos a comunicação não verbal atua em paralelo à linguagem falada servindo como um complemento essencial para a clareza das mensagens Ao harmonizar gestos tom de voz e expressões com o conteúdo verbal reduzse o risco de ambiguidades e malentendidos permitindo que a intenção comunicativa seja transmitida com maior precisão Segundo Zimerman 2004 Essa sincronia entre o que é dito e o que é demonstrado corporalmente não apenas fortalece a credibilidade do emissor como também promove um diálogo mais coeso e empático Reconhecer a relevância desses elementos é portanto determinante para otimizar a qualidade das interações em diferentes contextos seja em uma negociação profissional no estabelecimento de vínculos afetivos ou em situações cotidianas a atenção aos sinais não verbais possibilita uma leitura mais integral do outro favorecendo relações baseadas em compreensão mútua e efetividade comunicativa 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica A entrevista inicial configurase como um momento decisivo na prática psicanalítica estabelecendo as bases para o relacionamento terapêutico e permitindo que tanto o analista quanto o paciente avaliem a compatibilidade e a viabilidade do tratamento Esse contato preliminar que pode se estender por mais 3 de um encontro dependendo das particularidades do paciente não se limita a uma mera formalidade Mesmo em situações em que o terapeuta já reconhece a impossibilidade de assumir um tratamento sistemático a realização de uma entrevista de avaliação mantém seu valor pois possibilita orientações ou encaminhamentos adequados preservando o compromisso ético com o cuidado Zimerman 2004 Para Zimerman 2004 será importante diferenciar a entrevista inicial da primeira sessão analítica pois enquanto a primeira ocorre antes da formalização do contrato terapêutico funcionando como um espaço de avaliação mútua a segunda marca o início efetivo da análise A profundidade e a duração dessa etapa variam conforme o repertório prévio do paciente aqueles familiarizados com o processo psicanalítico podem experienciar um fluxo mais ágil enquanto indivíduos que buscam alívio imediato para sintomas demandam uma abordagem mais cautelosa capaz de acolher ansiedades e expectativas não verbalizadas O objetivo central da entrevista inicial reside na avaliação das condições mentais emocionais e contextuais do paciente permitindo ao analista ponderar riscos e benefícios do tratamento Essa análise inclui a identificação da psicopatologia apresentada a elaboração de uma impressão diagnóstica e prognóstica e a atenção aos efeitos contratransferenciais que emergem na interação Nesse contexto o uso de classificações como o DSMIVTR que abrange aspectos sindrômicos transtornos de personalidade e estressores ambientais exige uma abordagem multidimensional integrando dimensões dinâmicas como conflitos inconscientes evolutivas histórico de desenvolvimento e comunicacionais formas de expressão e resistências Zimerman 2004 Além da avaliação técnica a entrevista demanda uma escuta sensível às motivações e expectativas do paciente que nem sempre coincidem com o projeto terapêutico do analista A veracidade das queixas o grau de insight e a disposição para engajarse em um processo introspectivo são fatores críticos Paralelamente o terapeuta deve confrontar suas próprias limitações e reações emocionais evitando avaliações precipitadas baseadas em impressões superficiais Assim a entrevista inicial transcende sua função diagnóstica é um espaço de negociação simbólica no qual paciente e analista delineiam a possibilidade de uma jornada compartilhada 4 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista O papel do analista assume centralidade já na primeira entrevista momento em que ele se apresenta como profissional fundamentado em sua formação teórica e experiência clínica contudo para o paciente essa figura ainda não está consolidada como referência terapêutica É através da transferência processo no qual o paciente atribui ao analista emoções e expectativas originadas em relações passadas que se estabelece a possibilidade de reconhecêlo como guia no processo analítico Segundo Chemama 2002 esse fenômeno é estruturante nas entrevistas preliminares pois cria um vínculo que permite ao paciente confiar na direção proposta pelo tratamento mesmo em um contexto de incerteza inicial Nesse cenário as expectativas mútuas entre paciente e analista são determinantes para o avanço da terapia O paciente é convidado a assumir uma postura ativa engajandose de maneira autêntica na exploração de suas vivências emocionais Esse compromisso não se resume à verbalização de sintomas mas envolve a disposição para confrontar resistências e ambiguidades inerentes ao processo introspectivo Paralelamente cabe ao psicanalista definir com clareza suas motivações para acolher o caso delineando um projeto terapêutico que oriente suas intervenções Essa delimitação não é estática exige flexibilidade para adaptarse às demandas emergentes sem perder de vista os objetivos centrais do tratamento Zimerman 2004 A preparação do analista para lidar com desafios emocionais como situações transferenciais intensas ou manifestações de contratransferência é um pilar da prática clínica A empatia aliada ao reconhecimento das próprias limitações e reações inconscientes permite que ele sustente um ambiente seguro onde o paciente se sinta acolhido em sua vulnerabilidade Essa habilidade não se restringe à técnica envolve uma reflexão contínua sobre como as histórias pessoais do terapeuta podem influenciar sua escuta exigindo um equilíbrio delicado entre envolvimento e neutralidade Além disso o contexto físico e emocional em que o analista trabalha repercute diretamente na qualidade do atendimento no qual manter um ambiente organizado e garantir um equilíbrio entre vida profissional e pessoal não são meros detalhes operacionais mas condições essenciais para preservar a integridade do setting terapêutico 5 O autocuidado do analista incluindo a gestão do estresse e a supervisão regular assegura que ele esteja emocionalmente disponível para acolher as demandas complexas do paciente evitando esgotamento ou interferências prejudiciais assim a interação entre paciente e analista revelase uma teia de interdependências na qual a clareza técnica a ética do cuidado e a gestão das emoções se entrelaçam A primeira entrevista longe de ser um mero protocolo é um microcosmo desse processo nela avaliamse não apenas as condições psíquicas do paciente mas também a capacidade do analista de sustentar uma aliança terapêutica pautada pela confiança e pelo rigor metodológico Essa sintonia inicial quando bem conduzida lança as bases para um trabalho transformador onde a complexidade humana é abordada em sua plenitude Zimerman 2004 22 A evolução do diagnóstico psicanalítico O diagnóstico psicanalítico contemporâneo configurase como um campo em constante evolução que busca transcender as classificações clássicas das doenças mentais Essa abordagem prioriza um entendimento profundo do paciente considerando não apenas os aspectos sintomáticos mas também as dinâmicas psíquicas subjacentes Nesse contexto a avaliação do prognóstico emerge como elemento central frequentemente realizada ao longo do processo analítico dinâmica que pode surpreender tanto o analista quanto o analisando revelando nuances que ultrapassam as expectativas iniciais e destacando a complexidade humana em sua busca por autoconhecimento Um dos critérios fundamentais nesse paradigma é o de acessibilidade que se concentra na motivação coragem e capacidade do paciente de permitir o acesso ao seu inconsciente Zimerman 2004 Essa compreensão é particularmente relevante na seleção de pacientes que à primeira vista podem ser considerados de difícil acesso como aqueles com regressões significativas ou paradoxalmente com estrutura psíquica aparentemente bem ajustada Para Bechara m m 2009 a psicanálise contemporânea tem se mostrado receptiva a configurações diversas adaptando técnicas e táticas para atender às necessidades específicas de cada indivíduo o que reforça sua flexibilidade como ferramenta terapêutica Observase ainda uma diminuição progressiva dos critérios de contraindicação na prática clínica atual refletindo maior abertura à diversidade de 6 pacientes Questões como a idade antes vistas como limitantes são agora abordadas com relativismo permitindo a inclusão de crianças e idosos no tratamento psicanalítico com resultados positivos Além disso a psicanálise contemporânea não hesita em enfrentar situações críticas como quadros emocionais agudos integrandose a outros recursos como psicofármacos em uma abordagem holística que busca eficácia sem abandonar a profundidade analítica O diagnóstico clínico psicanalítico é permeado por um relativismo acentuado no qual condições aparentemente alarmantes como uma reação esquizofrênica aguda podem ter prognóstico favorável se manejadas com competência técnica enquanto neuroses crônicas podem apresentar desafios imprevistos Essa dualidade exige do analista um olhar crítico e atento capaz de discernir as nuances singulares de cada caso sem se apoiar em generalizações Entretanto algumas contraindicações permanecem inegáveis como a degenerescência mental a incapacidade de abstração e casos com motivações distorcidas Em situações de avaliação inicial inconclusiva a análise de prova surge como alternativa viável Essa abordagem que prolonga a entrevista inicial permite uma reflexão mais detalhada sobre as condições do paciente antes da formalização do contrato analítico assegurando que ambos analista e analisando possam estabelecer um vínculo seguro e comprometido Essas práticas alinhamse à Resolução CFP nº 0052025 que enfatiza a supervisão e orientação de estágios em Psicologia com base em fundamentação teórica e ética A psicanálise contribui não apenas com técnicas específicas mas com uma postura clínica que valoriza a alteridade o silêncio a história singular e o tempo subjetivo Essa escuta ética associada ao rigor técnico oferece ao profissional de Psicologia uma base sólida para atuar em contextos clínicos diversos mantendo o compromisso com o sofrimento humano em sua complexidade e singularidade Assim a psicanálise reafirma seu papel na saúde mental contemporânea um campo que se reinventa e se amplia acolhendo a diversidade de pacientes e integrandose a marcos regulatórios que fortalecem a formação crítica e ética dos futuros psicólogos Zimerman2004 7 22 Regras psicanalíticas da atualidade A evolução das regras fundamentais da psicanálise ao longo do tempo reflete as transformações nas dinâmicas sociais e nas expectativas dos pacientes A regra da livre associação de ideias que enfatiza a verbalização espontânea por parte do paciente mantém sua centralidade mas sua aplicação prática tem se adaptado às demandas atuais Hoje os analistas reconhecem a necessidade de criar um ambiente terapêutico que favoreça não apenas a expressão livre mas também a autenticidade considerando a diversidade de experiências e a complexidade das questões contemporâneas trazidas pelos pacientes Essa adaptação não descaracteriza a técnica mas amplia sua capacidade de acolher subjetividades em contextos cada vez mais pluralizados Zimerman 2004 A regra da abstinência tradicionalmente associada à contenção de gratificações pessoais por parte do analista tem sido reinterpretada em um cenário clínico que valoriza a empatia e a conexão humana Embora sua essência evitar satisfações substitutivas que desviem o foco do processo analítico permaneça válida a prática contemporânea enfrenta o desafio de equilibrar essa contenção com a construção de uma relação de confiança e segurança Essa tensão produtiva permite que a relação analítica transcenda a função meramente interpretativa tornandose um espaço de interação genuína onde a vulnerabilidade é reconhecida como parte integrante do trabalho terapêutico Souza e Coelho 2012 Por outro lado Zimerman 2004 também afirma que a regra da neutralidade que historicamente exigia um distanciamento emocional do analista é revisitada à luz de abordagens que defendem maior transparência na relação terapêutica Isso não implica a perda da postura técnica mas o reconhecimento de que a neutralidade pode coexistir com uma presença mais autêntica O analista contemporâneo ao acolher suas próprias emoções e reações contratransferenciais pode oferecer uma escuta mais engajada sem abandonar o rigor metodológico Essa flexibilidade não enfraquece o setting mas o torna mais sensível às nuances afetivas que emergem no processo A ênfase na verdade e na honestidade incorporada como uma quinta regra em discussões recentes responde à demanda por autenticidade nas relações terapêuticas pois os pacientes buscam não apenas uma análise técnica mas uma conexão que os auxilie a navegar realidades emocionais complexas marcadas por 8 incertezas e paradoxos da vida moderna Essa dimensão exige que analista e paciente se envolvam em um processo de descoberta mútua onde a honestidade tanto sobre limites quanto sobre possibilidades fortalece a aliança terapêutica Assim as regras psicanalíticas embora preservem seu núcleo ético e técnico demandam revisão contínua para dialogar com as transformações sociais e científicas A prática clínica atual ao integrar essas adaptações não apenas honra o legado freudiano mas assegura que a psicanálise permaneça relevante como ferramenta de compreensão e intervenção diante das complexidades humanas do século XXI 221 Regra da abstinência A regra da abstinência formulada por Freud em 1915 surgiu em resposta ao desenvolvimento de vínculos eróticos entre pacientes histéricas e analistas em um período em que as análises eram breves Com a expansão da psicanálise e o aumento das críticas sobre a sexualidade na prática clínica Freud viu a necessidade de estabelecer limites claros para evitar envolvimentos sexuais entre analistas e analisandos Em 1912 ele começa a esboçar essa diretriz preocupado com a integridade ética da psicanálise A abstinência implica que o psicanalista deve absterse de qualquer atividade além da interpretação proibindo gratificações externas e preservando o anonimato do paciente posição reforçada por Freud em 1918 em seus escritos sobre terapias psicanalíticas Zimerman 2004 Ressaltase a relevância da abstinência analítica conforme proposta por Freud que defende que os analistas evitem gratificações externas e intervenções significativas na vida dos pacientes durante o tratamento Para ele era imperativo que os pacientes não tomassem decisões importantes como escolhas profissionais ou amorosas sem uma análise prévia a fim de evitar que impulsos inconscientes fossem mal direcionados protegendoos de possíveis danos Entretanto críticas contemporâneas apontam que a interpretação rígida dessa recomendação pode levar a um distanciamento excessivo entre analista e analisando prejudicando o tratamento A preocupação freudiana com envolvimentos emocionais e sexuais embora válida corre o risco de ser aplicada de forma extremada gerando uma dinâmica fóbica que compromete a aliança terapêutica Zimmerman 2004 9 Com a evolução da prática psicanalítica observase uma mudança significativa no perfil emocional e situacional dos pacientes assim como nas condições sociológicas e econômicas em que a análise ocorre Muitos analistas contemporâneos adotam portanto uma postura mais flexível promovendo um ambiente acolhedor e interativo sem abandonar a estrutura normativa do setting analítico Argumentase que a rigidez na aplicação das diretrizes originais de Freud pode criar um clima de falsidade e paranoia Assim uma abordagem adaptativa e humanizada é considerada essencial nas práticas atuais permitindo que analistas se conectem de maneira autêntica com seus pacientes fator que pode potencializar a eficácia do processo terapêutico O conceito de amor de transferência na psicanálise evidencia a evolução das práticas desde Freud destacando os riscos de envolvimento emocional entre analista e paciente A abstinência do psicanalista permanece crucial para evitar a gratificação de desejos que refletem carências do próprio terapeuta não do paciente É fundamental diferenciar curiosidades patológicas que demandam interpretação daquelas saudáveis que merecem acolhimento como expressões genuínas do sujeito Além disso as atitudes em relação a encontros sociais entre analistas e pacientes modificaramse antes rigidamente evitados hoje são abordados com maior flexibilidade ainda que cautelosa Zimerman 2004 aponta essa mudança a qual reflete uma adaptação às demandas contemporâneas sem descuidar dos princípios éticos que preservam a integridade do vínculo terapêutico 222 Regra da atenção flutuante A regra da atenção flutuante proposta por Freud estabelece um princípio fundamental para a prática analítica implicando a criação de condições que favoreçam uma comunicação autêntica entre os inconscientes do analista e do paciente Bion amplia essa concepção ao destacar o papel da intuição frequentemente obscurecida pela ênfase excessiva na percepção sensorial como ferramenta essencial para decifrar as camadas simbólicas do discurso Zimerman 2004 Uma das dificuldades centrais para o analista reside em sua capacidade de se desvincular de desejos e memórias pessoais durante o processo Embora seja natural que emoções surjam é importante que o terapeuta mantenha clareza sobre 10 esses sentimentos discriminando adequadamente entre suas experiências subjetivas e as dinâmicas transferenciais em jogo Essa distinção preserva a neutralidade técnica e assegura que as intervenções estejam alinhadas às necessidades do paciente evitando projeções que comprometam a eficácia terapêutica A prática psicanalítica exige assim uma dissociação útil habilidade de reconhecer e diferenciar as diversas áreas do mapa psíquico do analista incluindo emoções que emergem durante a sessão Essa dissociação sustenta tanto a teorização flutuante entendida como a capacidade de elaborar hipóteses sem fixação prévia quanto a atenção flutuante que consiste em uma escuta aberta a múltiplos significados Esses mecanismos facilitam a conexão com a realidade externa e com o inconsciente permitindo uma escuta intuitiva que capta nuances escapadas a abordagens lineares Souza e Coelho 2012 Por outro lado uma atenção excessivamente direcionada pode levar a um estado patogênico no qual o analista busca informações irrelevantes à situação analítica movido por curiosidade pessoal ou necessidade de controle Essa postura desvia o foco do trabalho terapêutico e pode gerar vínculos transferenciais prejudiciais nos quais as projeções do analista contaminam a relação Além disso a tentativa de manter a atenção flutuante de forma rigorosa pode gerar desconforto e sensação de fracasso no analista já que divagações e distrações são inevitáveis durante as sessões A flexibilidade mental tornase portanto um elementochave pois ela permite que o analista navegue entre suas próprias emoções e as dinâmicas do setting terapêutico ajustandose às flutuações do processo sem perder a postura técnica necessária Essa habilidade reconhece que a eficácia reside no equilíbrio entre disciplina clínica e adaptação às contingências humanas Zimerman2004 223 Regra da neutralidade A regra da neutralidade conforme proposta por Freud é um princípio essencial na psicanálise sugerindo que o psicanalista deve atuar como um espelho opaco refletindo apenas o conteúdo apresentado pelo paciente e evitando expor suas próprias emoções Embora o termo neutralidade não seja frequente em seus textos Freud defende uma postura imparcial distante da indiferença que poderia prejudicar o processo analítico Essa neutralidade inclui a gestão dos desejos do 11 analista permitindo uma interação aberta e profunda com o paciente o que cria um ambiente favorável à exploração emocional e psicológica Pinheiro 1999 Contudo a regra da neutralidade tem sido reavaliada na prática contemporânea distante da visão tradicional de Freud que comparava o analista a um espelho mecânico Atualmente entendese que o analista deve funcionar como um espelho que possibilita ao paciente uma reflexão abrangente sobre si mesmo sem que isso implique a supressão total de sua subjetividade A neutralidade é reconhecida como um ideal inatingível já que o analista inevitavelmente traz suas crenças valores e perspectivas para a relação terapêutica influenciando dinâmicas interpretativas e escolhas técnicas Zimerman 2004 O envolvimento afetivo do terapeuta desde que não se torne patológico é considerado essencial para estabelecer uma aliança terapêutica significativa As escolhas interpretativas como decidir quando intervir ou como formular uma interpretação revelam a subjetividade inerente à prática demonstrando que a neutralidade não se traduz em ausência de posicionamento mas em um equilíbrio entre acolhimento e contenção Essa postura permite que o paciente se sinta reconhecido em sua singularidade ao mesmo tempo que preserva o espaço analítico como um campo de investigação livre de projeções excessivas do terapeuta Assim a neutralidade na psicanálise contemporânea não nega a influência do analista mas reconhece a complexidade de sua função ser um interlocutor que mesmo com suas limitações humanas mantém o foco no processo de desvelamento do inconsciente equilibrando técnica e sensibilidade Zimmerman 2004 224 Regra do amor à verdade A psicanálise segundo Freud fundamentase na verdade e na ética sendo a honestidade do psicanalista um elemento fundamental para promover mudanças significativas nos pacientes O terapeuta deve evitar julgamentos sobre terceiros já que os pacientes podem induzir quebras éticas por meio de projeções ou tentativas de envolver o analista em dinâmicas externas à terapia Um dilema recorrente é o envolvimento amoroso entre terapeuta e paciente tratado com rigor por sociedades psicanalíticas para preservar a integridade da relação analítica Dessa forma a ética e a verdade configuramse como pilares indissociáveis da prática freudiana 12 A discussão sobre transgressões éticas e sexuais na psicanálise revela um campo marcado por tensões e controvérsias conforme destacado por Daniel Widlocher expresidente da Associação Psicanalítica Internacional IPA Ele argumenta que tais transgressões não devem ser simplificadas como meros erros ou pecados irreparáveis mas sim compreendidas como fenômenos complexos que exigem análise crítica Widlocher observa ainda que transgressões éticas como vínculos românticos não consumados entre analistas e pacientes que frequentemente permanecem ocultas apesar de seu impacto relevante Freud já enfatizava a necessidade de honestidade mútua afirmando que a falta de verdade por parte do analista comprometeria a eficácia do tratamento corroendo a confiança essencial ao processo Complementando essa perspectiva Bion introduz a reflexão sobre a análise de indivíduos que utilizam a mentira como mecanismo de defesa Ele ressalta que a verdade é um elemento vital para a saúde psíquica comparando a a um alimento indispensável e sua ausência levaria à deterioração do psiquismo Assim a abordagem psicanalítica da verdade deve transcender o moralismo focandose na construção de uma atitude autêntica que permita ao paciente alcançar liberdade interna e engajarse plenamente no processo analítico Zimerman 2004 A preservação do setting analítico é outro aspecto essencial pois garante a estruturação da relação terapêutica mantendo a assimetria necessária entre os papéis de analista e paciente O enquadre estabelece limites claros e promove o princípio da realidade contrapondose ao princípio do prazer que muitas vezes domina a subjetividade do paciente Essa estrutura é especialmente crítica no trabalho com pacientes regressivos que podem enfrentar dificuldades em lidar com limites e frustrações No entanto é fundamental evitar uma rigidez excessiva na aplicação dessas regras pois isso pode gerar uma atmosfera coercitiva prejudicando a aliança terapêutica A própria prática de Freud ilustra a complexidade desse equilíbrio que frequentemente flexibilizava suas próprias recomendações adotando abordagens não convencionais que refletiam o contexto histórico e teórico da psicanálise em sua época Zimerman 2004 13 23 24 A compreensão do relacionamento interpessoal sob a perspectiva da psicanálise A análise do relacionamento interpessoal quando vista sob a ótica psicanalítica exige uma investigação minuciosa das forças inconscientes que moldam as interações humanas Essas forças muitas vezes surgem a partir de experiências precocemente vivenciadas na infância que ficam armazenadas no inconsciente e influenciam não apenas as emoções e comportamentos atuais mas também a maneira como os indivíduos percebem e se relacionam com os outros Este entendimento é fundamental para compreender questões como ciúmes inseguranças projeções e padrões de comunicação disfuncionais já que muitas dessas características têm raízes profundas e subconscientes Além disso essa abordagem permite uma compreensão mais abrangente dos conflitos internos que podem dificultar a construção de vínculos afetivos seguros e satisfatórios favorecendo processos de autoconhecimento que são essenciais tanto na clínica quanto na vida cotidiana De acordo com Freud 1900 as experiências formativas na infância não apenas moldam o desenvolvimento psíquico mas também deixam marcas que podem perdurar ao longo da vida influenciando todas as relações seguintes Essas experiências muitas vezes são reprimidas ou não totalmente resolvidas permanecendo no inconsciente e se manifestando através de sintomas ou padrões relacionales recorrentes na fase adulta Por exemplo uma criança que vivenciou negligência ou rejeição pode desenvolver uma ansiedade de separação ou padrões 14 de busca de validação constantes na vida adulta Assim ao revisar e entender essas experiências e seus efeitos o terapeuta e o indivíduo podem trabalhar a resolução de conflitos internos promovendo relações mais saudáveis e equilibradas e uma melhor gestão emocional 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo Segundo Treiguer 2007 a compreensão da pulsão na psicanálise não se limita à sua força de impulso biológico mas deve ser entendida na relação com os vínculos estabelecidos entre os indivíduos A pulsão como força reguladora das interações atua tanto na esfera consciente quanto na inconsciente moldando desejos necessidades e fantasias O desejo por sua vez é uma força que unifica o sujeito embora seja frequentemente influenciado por fatores externos como o alheio ou seja o outro suas expectativas desejos e projeções Essas dinâmicas complexas resultam na multiplicidade de emoções que experimentamos nas relações como novela de desejo medo mistério e insegurança que enriquecem ou dificultam o relacionamento dependendo de como são elaboradas e integradas 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais Ao analisar as relações amorosas sob a perspectiva simbólica e mitológica a narrativa bíblica de Adão e Eva serve como uma poderosa metáfora para entender a busca pela perfeição a ilusão de imortalidade e a vulnerabilidade inerente aos relacionamentos O desejo de ser igual a Deus simboliza a tentativa de superar os limites humanos o que na relação de casal pode refletir a busca por uma união idealizada que muitas vezes é inatingível A expulsão do Éden revela como a 15 tentativa de alcançar essa perfeição pode resultar na fragilidade e na necessidade de aceitar a vulnerabilidade como parte fundamental do amor e da convivência Na perspectiva psicanalítica há a compreensão de que os casais frequentemente criam uma dinâmica de inseparabilidade na qual as diferenças individuais são minimizadas ou até negadas Para isso usam mecanismos de defesa como a cisão dividir aspectos positivos e negativos e a identificação projetiva que reduzem as diferenças ao transferir aspectos indesejados ou conflitantes para o outro Essa fusão embora possa parecer uma busca por completude tende a ser prejudicial a longo prazo pois impede o desenvolvimento da autonomia emocional e limita a autenticidade no relacionamento Quando essa fusão se torna excessiva a relação pode se transformar em uma ilusão de perfeição que ao se desmoronar leva ao conflito ou à crise de identidade de ambos os parceiros 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso De acordo com Pignataro FerrésCarneiro e Mello 2019 as alianças inconscientes estruturam as relações amorosas formando um sistema de funções que mantêm o vínculo e protegem os indivíduos de ameaças internas e externas Essas alianças que se originam na infância e nas primeiras experiências afetivas podem ser primárias secundárias defensivas ou criativasdestrutivas cada uma desempenhando papéis diferentes na vida psíquica e relacional Elas moldam percepções expectativas e comportamentos além de influenciar a forma como o parceiro é visto e tratado na relação Compreender esses mecanismos ajuda a desmistificar padrões repetitivos e a elaborar vínculos mais conscientes e satisfatórios promovendo maior autonomia emocional e resistência às dificuldades do cotidiano Dentro das alianças inconscientes existe o pacto denegativo também discutido na literatura psicanalítica referese a uma aliança inconsciente que os parceiros assumem muitas vezes de forma automática para proteger a relação de conflitos internos ou de demandas emocionais que podem ameaçála Essa aliança funciona por meio da mobilização de fantasias identificações e realidades psíquicas partilhadas que mantêm o vínculo mesmo que envolvam negação ou repressão de 16 aspectos desagradáveis ou conflitantes Essa dinâmica atua como um mecanismo de defesa contribuindo para a estabilidade emocional do casal ao evitar confrontar certas verdades dolorosas mas também pode limitar o crescimento e a autenticidade na relação Além do pacto denegativo Pignataro FérresCarneiro e Mello 2019 descrevem os contratos inconscientes como entendimentos tácitos que emergem na relação estabelecendo limites expectativas e trocas que sustentam o vínculo Esses contratos podem ser conscientes ou inconscientes e dizem respeito às concessões mútuas necessárias para a convivência Enquanto os acordos representam negociações mais conscientes os pactos envolvem trocas intransmissíveis ou insuspeitas muitas vezes influenciadas por elementos da infância ou experiências passadas Essas dinâmicas facilitam ou dificultam a elaboração de desejos e necessidades moldando o modo como o casal enfrenta as dificuldades e constrói a sua história conjunta 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional Segundo Mondrzak 2007 a teoria de Bion destaca que os vínculos amorosos de ódio ou de conhecimento dependem do espaço psíquico chamado por ele de contenedor e do conteúdo emocional que nele reside O espaço psíquico funciona como um recipiente onde emoções e experiências conflitantes podem ser armazenadas elaboradas e integradas fortalecendo a relação As emoções como inveja ciúme raiva ou insegurança sentimentos típicos de uma relação conjugal não apenas emergem do conteúdo mas são moduladas pelo espaço psíquico que deve ser acolhedor para que os conflitos possam ser trabalhados de forma saudável Essa capacidade de acolhimento e elaboração emocional possibilita uma convivência mais madura empática e segura emocionalmente promovendo um vínculo mais sólido e autêntico No contexto de Bion a relação entre o analista e o espaço psíquico é fundamental para o processo terapêutico O analista ao atuar como um recipiente deve criar um espaço psíquico seguro e receptivo capaz de acolher e processar as experiências emoções e pensamentos do paciente Nesta teoria o analista é um facilitador do espaço psíquico criando uma condição em que o paciente possa explorar processar e integrar suas experiências 17 internas de forma segura e significante Essa dinâmica é essencial para que o processo terapêutico seja efetivo e transformador 241 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional Na psicanálise a concepção de que o casal constitui uma unidade psíquica com estrutura própria traz reflexões importantes sobre a dinâmica do relacionamento Cada indivíduo traz para o casal seu desenvolvimento emocional suas carências suas dores e conflitos internos que ao interagirem podem resultar tanto em harmonia quanto em disfunções Quando há conflitos não resolvidos ou projeções esses fatores podem gerar uma relação disfuncional marcada por conflitos constantes ou mesmo por padrões de fusão excessiva onde os limites entre os parceiros se tornam difusos A intervenção clínica busca muitas vezes desconstruir essas dinâmicas promovendo autonomia emocional e a compreensão dos acontecimentos internos de cada um além de favorecer uma relação mais equilibrada capaz de suportar conflitos de forma construtiva A participação em processos terapêuticos seja individual ou de casal muitas vezes revela ou provoca desequilíbrios na relação como ciúmes resistência às mudanças ou boicotes que surgem como mecanismos de defesa ou tentativas de manter o status quo Essas reações muitas vezes dificultam o avanço do tratamento e requerem atenção específica do terapeuta que deve trabalhar a compreensão dessas resistências promovendo maior autorreflexão e autoconhecimento A terapia assim atua como uma ferramenta de resistência e reconstrução emocional possibilitando a elaboração de conflitos a superação de obstáculos e a promoção de relações mais satisfatórias e maduras 18 3 metodologia A metodologia adotada neste estudo é fundamentada em princípios clássicos da psicanálise utilizando a técnica da associação livre como um dos pilares do processo terapêutico Essa técnica permite ao paciente expressar livremente seus pensamentos sentimentos e imagens sem censura ou restrições o que facilita a acessibilidade a conteúdos inconscientes Ao criar um espaço onde o paciente se sente à vontade para compartilhar suas ideias a associação livre se torna um meio poderoso para explorar as camadas mais profundas da psique A primeira entrevista desempenha um papel crucial nesse contexto uma vez que estabelece as bases para a relação analítica Neste encontro inicial o analista busca criar um ambiente de confiança e segurança onde o paciente se sinta confortável para se abrir É um momento de construção do vínculo onde se discutem as expectativas do tratamento e se delineiam os objetivos da terapia A receptividade e a empatia do analista são essenciais para fazer com que o paciente sinta que sua história e suas vivências são valorizadas Durante as sessões subsequentes a atenção flutuante do analista se torna uma prática fundamental Essa abordagem implica que o analista mantenha uma escuta atenta e flexível permitindo que sua atenção se mova entre diferentes temas e conteúdos que emergem das falas do paciente Essa atenção não é direcionada apenas a pontos específicos mas busca captar nuances sentimentos e associações 19 que possam surgir criando um espaço onde o paciente pode explorar livremente seu mundo interno A interpretação por sua vez é uma ferramenta vital que emerge desse processo Quando o analista oferece interpretações ele busca conectar os conteúdos manifestos do discurso do paciente com questões mais profundas e inconscientes Essas intervenções interpretativas têm o potencial de iluminar padrões de comportamento conflitos internos e dinâmicas emocionais que o paciente pode não ter consciência Através desse processo interpretativo o paciente é incentivado a refletir sobre suas experiências promovendo um entendimento mais profundo de si mesmo e facilitando o avanço do tratamento Assim a combinação da associação livre da construção do vínculo na primeira entrevista da atenção flutuante e das interpretações do analista cria um ambiente terapêutico rico e dinâmico propício para o processo de autoconhecimento e transformação psíquica do paciente Essa metodologia busca não apenas a resolução de sintomas mas a promoção de uma maior compreensão da própria subjetividade contribuindo para o desenvolvimento pessoal e emocional ao longo do tratamento 4processo terapêutico Na sessão de 290425 o paciente J relatou angústia no trabalho devido à pressão do chefe e à carga horária excessiva afetando sua vida familiar Ele enfrenta conflitos com a esposa que possui traumas da infância e preocupase com o comportamento do filho mais velho Apesar das dificuldades J demonstra motivação para o processo terapêutico e deseja explorar suas emoções melhorar a comunicação familiar e promover um ambiente mais saudável Na sessão de 060525 J expressou preocupações sobre a relação tensa entre sua esposa e sua mãe especialmente em relação a uma visita programada Ele também relatou um ambiente de trabalho insustentável devido à pressão do novo chefe apesar da recente promoção e a insatisfação com o salário J enfrenta 20 desafios significativos em sua vida pessoal e profissional que serão explorados nas próximas sessões Na sessão de 20052025 J expressou sobrecarga e falta de apoio no trabalho comparando as exigências de seu chefe e sua esposa Ele relatou frustrações na vida conjugal incluindo incertezas sobre o relacionamento e dificuldades financeiras atribuídas à esposa que geraram ansiedade e medo de perder a família Apesar das queixas J mostrou disposição para agir manifestando interesse em conversar diretamente com seu chefe sobre suas responsabilidades Na sessão de 29052025 J expressou preocupação com as mentiras de seu filho que nega responsabilidades refletindo uma personalidade forte que J reconhece em si mesmo Ele compartilhou sobre sua dependência emocional na infância e como sua relação com os pais influenciou seu comportamento além de relatar sua trajetória de mudança para Maringá e os desafios enfrentados ao se tornar pai J também recordou sua experiência de morar sozinho e a necessidade de se estabelecer uma nova vida com Érica e o filho que estava por vir Na sessão 030625 o paciente não compareceu sem justificar a sua falta Na sessão de 100625 J relatou sobrecarga de trabalho e os desafios emocionais causados pelas oscilações de humor de sua esposa Érica com quem ele enfrenta uma comunicação frágil e dinâmicas de culpa Ele mencionou incidentes em que Érica projeta suas frustrações sobre ele evidenciando a ambivalência no relacionamento A sessão terminou com a proposta de explorar essas dinâmicas e focar na melhoria da comunicação e na compreensão mútua nas próximas conversas 21 Data 29042025 O paciente J apresentouse na sessão realizada em 290425 Ele relatou angústia no trabalho motivada pela pressão exercida pelo chefe e pela carga horária excessiva o que resulta em pouco tempo para sua família Sua esposa expressa insatisfação com a falta de tempo que o marido dedica aos filhos e à situação financeira em que se encontram O paciente descreve sua esposa como uma pessoa difícil de lidar com quem tem enfrentado frequentes conflitos Ele menciona que ela foi criada apenas pela avó materna o que segundo ele contribui para traumas que dificultam a convivência entre eles As discussões se intensificam durante os dias de TPM e o paciente relata que utiliza um aplicativo para monitorar o ciclo menstrual da esposa tentando evitar conflitos nesses períodos Além disso o paciente demonstra preocupação com o comportamento do filho mais velho que se envolveu em episódios de furto incluindo o roubo de dinheiro da irmã e a destruição de figurinhas na escola Essa situação o leva a refletir sobre a educação e o desenvolvimento moral da criança Apesar das dificuldades o paciente está motivado para o processo terapêutico e expressa interesse em continuar as sessões inclusive na modalidade online caso não seja possível realizar atendimentos presenciais Para as próximas sessões será importante explorar seus sentimentos de angústia e identificar as fontes de estresse melhorar a comunicação com a esposa discutir estratégias para equilibrar trabalho e vida familiar abordar o 22 comportamento do filho e considerar formas de incentivar a esposa a buscar terapia respeitando sua resistência O paciente demonstra consciência das dinâmicas familiares que impactam seu bemestar emocional e está disposto a trabalhar nessas questões As futuras sessões deverão focar nas áreas mencionadas visando promover um ambiente familiar mais saudável Data 06052025 J chegou pontualmente às 17h e iniciou a conversa expressando suas preocupações sobre a relação da esposa com sua mãe Ele está apreensivo em relação à visita marcada para o próximo domingo à casa de seus pais Ao investigar essa apreensão J compartilhou um incidente recente durante um almoço na casa de sua mãe onde sua esposa o criticou por sua falta de compromisso com a casa e a família Sua mãe interveio questionando a esposa sobre a falta de reconhecimento e apoio o que levou a esposa a se retirar da mesa e solicitar a saída Perguntei a J sobre a situação atual com a esposa e ele mencionou que as coisas melhoraram um pouco mas a relação com a mãe ainda é tensa Ele expressou a preocupação de não querer deixar os filhos sob os cuidados da mãe uma vez que sua esposa só aceita deixálos com a mãe e a irmã J também revelou receios em deixar seu filho com o pai devido a temores de abuso embora não tenha confirmado se sua esposa já passou por essa experiência No que diz respeito à vida profissional J relatou que a situação com seu chefe se tornou insustentável Ele acredita que a recente mudança na gestão da rede de supermercados está gerando pressão por resultados imediatos e eficazes o que tem impactado negativamente a dinâmica com sua equipe Apesar de ter recebido uma promoção recentemente J não está satisfeito com o salário pois não houve um aumento que correspondesse à nova função Ele 23 suspeita que a empresa esteja realizando uma avaliação prometendo um aumento após seis meses caso os resultados esperados sejam atingidos A sessão foi encerrada destacando que J enfrenta desafios tanto em sua vida pessoal quanto profissional que precisam ser explorados e refletidos nas próximas sessões Data 20052025 Na sessão de hoje J apresentou uma série de queixas relacionadas à sua vida profissional e pessoal destacando a sensação de sobrecarga e a falta de apoio em ambas as esferas Ele relatou que está se sentindo pressionado no trabalho enfrentando um volume elevado de tarefas sem o devido suporte de seu chefe J mencionou que seu chefe propõe a necessidade de um bom desempenho mas paradoxalmente continua a sobrecarregálo com mais responsabilidades Fez uma comparação entre seu chefe e sua esposa ambos considerados sem lógica em suas exigências Em relação à sua vida conjugal J expressou frustração em relação à sua esposa citando um recente convite dela para não chegar tarde em casa mas sem clareza sobre o compromisso Ele observou que essa instabilidade gera ansiedade pois pode se tratar de um convite para um momento agradável ou uma conversa sobre separação J revelou que já considerou a separação em duas ocasiões mas uma oração em um momento de reflexão o levou a interpretar que deveria permanecer no casamento especialmente após a notícia da gravidez de sua filha J também trouxe à tona a dificuldade financeira que enfrenta atribuindo parte da culpa a sua esposa Ele explicou que após ela seguir um guru financeiro e fazer investimentos de alto risco acabou assumindo uma dívida significativa com a compra de um carro cujas parcelas se tornaram uma carga pesada 24 comprometendo seu orçamento Atualmente J mencionou que não recebe ajuda dela para os gastos uma vez que ela também lida com suas próprias dívidas O medo de perder a esposa e os filhos é um tema recorrente em suas queixas J expressou preocupações sobre a possibilidade de sua esposa levar as crianças para morar com a família dela em Amaporã o que o angustia especialmente em relação à influência negativa que a família dela pode ter sobre os filhos Um aspecto positivo observado na sessão foi a disposição de J em agir de forma proativa Ele demonstrou interesse em ter uma conversa direta com seu chefe para discutir suas preocupações e buscar um entendimento mais claro sobre suas responsabilidades Data 29052025 J Comecou a sessão dizendo que seu filho esta mentindo muito que isso está o preocupando Perguntei se as mentiras são histórias inventadas J Explicou que as mentiras são feitas a partir de uma discussão na qual ele faz uma coisa e nega ter feito Como por exemplo quando sua mãe reclamou que ele não tinha feito a tarefa e quando ele perguntou ele disse que havia feito só depois de muita insistência que admitiu não ter feito J disse que seu filho não tem muito gosto pelos estudos e que nisso é muito diferente dele Perguntei se tem coisas semelhantes com filho disse que sim a personalidade forte de confrontar os pais disse que é igual e que inclusive seu comportamento era diferente dos outros dois irmãos pergunte se era o mais velho ele disse que era o mais novo Lembrou de um dia que entrou em confronto com seu pai pois avisou que eatava estava indo para uma festa em astorga e seu pai disse que nao iria ele então falou que estava apenas avisando Lembrou que seus pais fazia tudo por ele desde o levar a escola buscar e que por exemplo nunca cozinhou sendo isso uma das críticas que Érica sua esposa faz a ele Foi se sentir mais dependente quando deixou Marília e veio para Maringa estudar Perguntei entao como foi que os seus pais vieram para Maringá Falou que ele passou no vestibular na UEM e veio morar com um primo dele no segundo ano de faculdade ele foi morar sozinho entao primeiro veio sua mãe mas deixou bem 25 claro que nao queria ser vigiado depois veio seu pai e sua irmã e seu cunhado Após a faculdade arrumou emprego em Astorga em uma usina Morava em um quarto com banheiro apenas Neste período engravidou a Érica então ela foi morar com seus pais e ele se viu obrigado a voltar e arrumar uma casa para morar um junto com a Érica e seu filho que iria nascer Data 10062025 Na sessão de hoje J chegou com um atraso de 20 minutos justificandose com problemas relacionados ao serviço Ele também mencionou a ausência na sessão anterior devido a uma viagem durante a qual não teve acesso ao celular Ao longo da conversa J expressou uma série de dificuldades que enfrenta tanto em sua vida profissional quanto no âmbito familiar Ele relatou uma sobrecarga significativa de trabalho mencionando a dificuldade em gerenciar sua carga horária o que parece impactar sua saúde mental e emocional refletindo um estado de estresse e cansaço J trouxe à tona a situação de sua esposa Érica que continua apresentando oscilações de humor Ao questionálo sobre o cansaço que isso poderia causar ele afirmou ter se acostumado e optado por uma postura passiva diante das oscilações dela Exemplos foram dados para ilustrar essa dinâmica em uma visita recente dos padrinhos do filho Érica começou a reclamar que ele não ajuda em casa J optou por se afastar da situação indicando uma estratégia de evitar conflitos Outro exemplo relevante foi o incidente em que seu filho se queimou com um ferro quente J relatou que Érica o culpou pela situação mesmo reconhecendo que ela deveria ter mais cuidado com a criança que estava sob sua responsabilidade na 26 parte superior da casa Essa dinâmica de culpas parece ser um padrão recorrente no relacionamento onde Érica projeta suas frustrações em J Durante a sessão J foi questionado sobre a natureza do relacionamento com Érica Ele mencionou que embora tenham momentos de boa convivência a situação se torna complicada em momentos de tensão A comunicação entre eles parece frágil especialmente em situações emocionais delicadas J trouxe um episódio marcante de uma terapia de casal onde Érica respondeu não sei quando questionada se ainda se gostam evidenciando a ambivalência no relacionamento J relatou que sempre percebeu Érica com esse comportamento desde o início do relacionamento que começou na empresa onde trabalhavam A narrativa de como se conheceram sugere uma atração inicial mas também revela que desde o início houve uma desarmonia que pode ter se intensificado com o tempo A gravidez planejada e a mudança para a casa dos pais de Érica também foram pontos importantes trazendo à tona atritos familiares que contribuíram para a tensão no relacionamento A sessão foi encerrada com a proposta de retomar as questões levantadas nas próximas conversas permitindo que J reflita sobre as dinâmicas familiares e emocionais discutidas É fundamental continuar trabalhando na comunicação e na compreensão mútua entre J e Érica assim como explorar mais a fundo as questões de culpa e frustração que permeiam o relacionamento Os próximos passos incluem explorar as dinâmicas de culpa e projeção de frustrações focar na melhoria da comunicação entre J e Érica e analisar o impacto da carga de trabalho na saúde emocional de J Data 17062025 J Se atrazou vinte minutos novamente Cemecei a sessão lembrando de uma fala de J A qual dizia que alguma coisa o atraiu na Érica Então fiz a pergunta o que seria esse algo que o atraiu nela Respondeu que ela tinha algo que a sua ex namorada não tinha Perguntei o que seria Disse que teve duas namoradas antes da Érica e que a primeira era mais velha que ele e tinham pensamentos diferentes sobre a vida Ela pensava em casar pois já era formada e quando ele estava ainda 27 na faculdade e queria aproveita mais a vida Então conheceu a segunda namorada e ficaram pouco tempo em torno de 9 meses Ela o achou para jantar e disse que não queria mais continuar ficou muito mal e mantinha contato com ela por mensagens até que um dia ela mandou uma mensagem falando que não queria mais conversar com ele para não dar esperanças foi aí que disse que tinha que deixar de ser trouxa e seguir sua vida e cortar contato com ela Disse que foi interessante pois neste dia que ele viu a Érica pela primeira vez mas apenas achou uma mulher bonita e admirou que ela trabalhando em um chão de fábrica onde os homens de todas as idades mexiam com ela sempre se deu ao respeito Então concluiu que a Érica diferente da antiga namorada sempre o respeitou Mesmo quando não namorava ela se dava ao respeito mantendo a distância das pessoas e até hoje é assim Sua antiga namorada era muito de brincar com as pessoas inclusive com homens isso o deixava e acredita que se permanecesse com ela o deixaria inseguro Perguntei se quanto a palavra respeito o qual diz a Érica ter para com ele não sente desrespeitado quando ela fala mal dele na frente dele para as outras pessoas Respondeu nisso sim é muito ruim isso que ela faz Perguntei se ele acredita que ela tem a imagem dele das reclamações que ela faz dele para as pessoas Respondeu que acha que sim mas também vê momentos em que ela é carinhosa com ele Continuou que percebe quando ela se frustra com alguma coisa no trabalho ela desconta nele mas acredita que ela tenha sentimento por ele Antes do namoro ela era apegada a ele e muito mais carinhosa quando nasceu seu primeiro filho ela se apegou demais e tinha nele uma fixação exagerada depois que nasceu a filha deixou o filho de lado e tem essa fixação com a filha Como o tempo estava acabando concluí a sessão 28 Referencias 1 CHEMAMA R Psicanálise do cotidiano elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano Porto Alegre CMC Editora 2002 2 CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA Código de ética profissional do psicólogo Brasília DF 2005 Disponível em httpssitecfporgbrwpcontentuploads201207codigodeeticapsicologiapdf Acesso em 3 maio 2025 3 FREUD S A interpretação dos sonhos 1900 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2016 736 p 4 FREUD S História de uma neurose infantil o homem dos lobos Além do princípio do prazer e outros textos 19171920 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2010 192 p 29 5 MONDRZAK Viviane Sprinz Processo psicanalítico e pensamento aproximando Bion e MatteBlanco Revista Brasileira de Psicanálise São Paulo v 41 n 3 set 2007 Disponível em httpspepsicbvsaludorgscielophp pidS0486641X2007000300004 Acesso em Sex 20 de Junho 6 PIGNATARO Marina Beatriz FÉRESCARNEIRO Terezinha MELLO Renata A formação do casal conjugal um enfoque psicanalítico Pensando Famílias Porto Alegre v 23 n 1 p 120 janjun 2019 Disponível em httpspepsicbvsaludorg Acesso em sex 20 de junho 7 SAMPAIO Alexandra de Oliveira A clínica de casal canalise das relações vinculares mimesisV30n22009art01250618105356 2009 8 TREIGUER Lisie Ellwanger Moreira O paradoxo vincular no casal desejo constituição e morte Disponível em wwwcontemporâneoorgbrcontemporânea wwwcontemporâneoorgbrcontemporânea PHP 2007 Acesso em sex 20 de junho 9 ZASLAVSKY Jacó PIRES DOS SANTOS Manuel José Sobre o papel das identificações na relação amorosa Revista de Psicanálise SPPA Porto Alegre v II n 2 p 47514933 ago 1996 10 ZIMERMAN D E Manual de técnica psicanalítica um estudo teórico clínico da entrevista inicial dos critérios de analisabilidade e do contrato Porto Alegre Artmed 2004 442 p 30 FACULDADE INGÁ CURSO DE PSICOLOGIA RODOLFO RODRIGO BENEDETTI RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL III CLÍNICA DE PSICOLOGIA UNINGÁ MARINGÁ 2025 RODOLFO RODRIGO BENEDETTI TESTES PSICOLÓGICOS CPM RAVEN Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e CMMS3 Escala de Maturidade Mental Colúmbia Relatório apresentado ao curso de Psicologia do Centro Universitário Ingá na disciplina de estágio de formação profissional III como requisito parcial para obtenção de nota no curso de Psicologia da faculdade INGÁ Prof Ms Bruna Luzia Garcia de Oliveira MARINGÁ 2025 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO4 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA5 21 PRIMEIRO CONTATO E ENTREVISTA COM O PACIENTE6 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica6 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista8 22 A EVOLUÇÃO DO DIAGNÓSTICO PSICANALÍTICO9 23 REGRAS PSICANALÍTICAS DA ATUALIDADE11 231 Regra da abstinência12 232 Regra da atenção flutuante13 233 Regra da neutralidade14 234 Regra do amor à verdade15 24 A COMPREENSÃO DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SOB A PERSPECTIVA DA PSICANÁLISE17 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo17 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais18 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso18 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional 19 245 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional20 3 METODOLOGIA21 4 PROCESSO TERAPÊUTICO22 41 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2904202523 42 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 0605202524 43 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2005202525 44 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2905202525 45 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 1006202526 46 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 1706202527 REFERÊNCIAS28 4 1 INTRODUÇÃO O presente relatório tem como objetivo refletir sobre a experiência de estágio supervisionado em Psicologia com ênfase na prática clínica orientada pela abordagem psicanalítica e a partir da articulação entre teoria e prática buscase apresentar os principais fundamentos teóricos que sustentaram a atuação descrever a vivência do estágio e analisar criticamente os aspectos éticos e técnicos envolvidos no processo Conforme a Resolução n 62011CNEMEC o estágio supervisionado é um componente crucial na formação em Psicologia dividido em duas etapas o Estágio Supervisionado Básico realizado no 3 ano que se concentra na integração de competências por meio de visitas técnicas e observações e os Estágios Supervisionados de Formação desenvolvidos nos 4 e 5 anos voltados ao aprofundamento profissional em áreas específicas como clínica institucional escolar e organizacional Cada etapa é organizada por meio de projetos de ensino elaborados pelos professores supervisores os quais incluem justificativas competências a serem desenvolvidas métodos de trabalho e critérios de avaliação A supervisão ocorre na ClínicaEscola de Psicologia do Centro Universitário Ingá Uningá em grupos de até seis alunos com o propósito de promover uma formação crítica e prática para os futuros psicólogos Este relatório está alinhado à estrutura e regulamentação dos Estágios Supervisionados do curso de Psicologia da Uningá conforme descrito nos documentos institucionais Os alunos do 5º ano devem cumprir um total de 200 horas no Estágio de Formação III e 160 horas no Estágio de Formação IV com carga horária distribuída ao longo dos períodos letivos regulares sem previsão de interrupções para férias intermediárias Os estágios são formalizados por meio de instrumentos jurídicos entre o Centro Universitário Ingá e as instituições concedentes sendo realizados tanto na ClínicaEscola de Psicologia da Uningá quanto em instituições conveniadas como hospitais unidades básicas de saúde instituições de educação infantil e educação especial entre outras A supervisão dos estágios é de responsabilidade dos professores supervisores do supervisor de estágio e da coordenação do curso Os professores supervisores são docentes do curso de Psicologia atuando conforme suas áreas de formação e experiências profissionais e em casos específicos profissionais de áreas técnicas externas podem ser incluídos na supervisão mediante solicitação escrita e aprovação institucional Durante todo o processo o Código de Ética 5 Profissional do Psicólogo aprovado em agosto de 2005 pelo Conselho Federal de Psicologia serve como guia essencial para a prática profissional Este documento elaborado em um contexto de transformações sociais e demandas profissionais reforça princípios como o respeito à dignidade humana a promoção da saúde e a qualidade dos serviços psicológicos além de definir deveres proibições e penalidades para assegurar uma atuação ética e responsável A estrutura do relatório segue três eixos principais inicialmente uma fundamentação teórica baseada em autores da psicanálise seguida da descrição detalhada da experiência prática em contexto clínicoinstitucional Em seguida são discutidas as implicações éticas da atuação profissional conforme previsto no Código de Ética do Psicólogo e propõese uma análise crítica dos desafios e aprendizados construídos ao longo do estágio Por fim o texto conclui com considerações sobre a integração entre teoria prática e ética na formação do psicólogo ressaltando a importância do estágio supervisionado como espaço de consolidação do conhecimento e da identidade profissional 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A psicanálise desde seus fundamentos estabelecidos por Freud consolidou se como um campo teóricoclínico de grande complexidade enriquecido ao longo do século XX por contribuições de diversos autores Inicialmente Freud estruturou pilares centrais como o conceito de inconsciente a sexualidade infantil os mecanismos de defesa e a transferência que permanecem como eixos estruturantes da prática psicanalítica Em A Interpretação dos Sonhos 1900 obra seminal ele enfatiza a função do inconsciente na produção simbólica demonstrando que os processos psíquicos transcendem a consciência imediata Essa perspectiva revolucionária revela que o sujeito não é plenamente senhor de sua própria razão uma ideia que redefine a compreensão do sofrimento humano Ao reconhecer a dimensão inconsciente como núcleo da subjetividade Freud inaugurou uma metodologia clínica baseada na escuta atenta da singularidade do paciente e na valorização de sua narrativa Essa abordagem detalhada em suas obras FREUD 2016 desloca a ênfase de interpretações normativas para uma prática que acolhe a ambiguidade e a multiplicidade de sentidos presentes no discurso Dessa forma a psicanálise não apenas ampliou o horizonte teórico sobre a 6 mente humana mas também estabeleceu um paradigma ético e técnico orientado pelo respeito à expressão individual legado que continuou a ser expandido e reinterpretado por gerações posteriores de analistas 21 PRIMEIRO CONTATO E ENTREVISTA COM O PACIENTE A comunicação não verbal constitui um elemento fundamental nas interações humanas sobretudo nas etapas iniciais de um relacionamento seja em âmbito pessoal ou profissional Essa forma de expressão que engloba gestos expressões faciais postura e movimentos corporais transcende a dimensão verbal revelando emoções genuínas e facilitando a construção de conexões mais profundas entre os indivíduos Durante os primeiros contatos a habilidade de decifrar esses sinais tornase especialmente relevante já que eles podem transmitir nuances como interesse confiança abertura ou resistência muitas vezes de maneira mais autêntica do que as palavras ZIMMERMAN 2004 Além de expressar sentimentos a comunicação não verbal atua em paralelo à linguagem falada servindo como um complemento essencial para a clareza das mensagens Ao harmonizar gestos tom de voz e expressões com o conteúdo verbal reduzse o risco de ambiguidades e malentendidos permitindo que a intenção comunicativa seja transmitida com maior precisão Segundo Zimerman 2004 Essa sincronia entre o que é dito e o que é demonstrado corporalmente não apenas fortalece a credibilidade do emissor como também promove um diálogo mais coeso e empático Reconhecer a relevância desses elementos é portanto determinante para otimizar a qualidade das interações em diferentes contextos seja em uma negociação profissional no estabelecimento de vínculos afetivos ou em situações cotidianas a atenção aos sinais não verbais possibilita uma leitura mais integral do outro favorecendo relações baseadas em compreensão mútua e efetividade comunicativa 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica A entrevista inicial configurase como um momento decisivo na prática psicanalítica estabelecendo as bases para o relacionamento terapêutico e permitindo que tanto o analista quanto o paciente avaliem a compatibilidade e a viabilidade do tratamento Esse contato preliminar que pode se estender por mais 7 de um encontro dependendo das particularidades do paciente não se limita a uma mera formalidade Mesmo em situações em que o terapeuta já reconhece a impossibilidade de assumir um tratamento sistemático a realização de uma entrevista de avaliação mantém seu valor pois possibilita orientações ou encaminhamentos adequados preservando o compromisso ético com o cuidado ZIMMERMAN 2004 Para Zimerman 2004 será importante diferenciar a entrevista inicial da primeira sessão analítica pois enquanto a primeira ocorre antes da formalização do contrato terapêutico funcionando como um espaço de avaliação mútua a segunda marca o início efetivo da análise A profundidade e a duração dessa etapa variam conforme o repertório prévio do paciente aqueles familiarizados com o processo psicanalítico podem experienciar um fluxo mais ágil enquanto indivíduos que buscam alívio imediato para sintomas demandam uma abordagem mais cautelosa capaz de acolher ansiedades e expectativas não verbalizadas O objetivo central da entrevista inicial reside na avaliação das condições mentais emocionais e contextuais do paciente permitindo ao analista ponderar riscos e benefícios do tratamento Essa análise inclui a identificação da psicopatologia apresentada a elaboração de uma impressão diagnóstica e prognóstica e a atenção aos efeitos contratransferenciais que emergem na interação Nesse contexto o uso de classificações como o DSMIVTR que abrange aspectos sindrômicos transtornos de personalidade e estressores ambientais exige uma abordagem multidimensional integrando dimensões dinâmicas como conflitos inconscientes evolutivas histórico de desenvolvimento e comunicacionais formas de expressão e resistências ZIMMERMAN 2004 Além da avaliação técnica a entrevista demanda uma escuta sensível às motivações e expectativas do paciente que nem sempre coincidem com o projeto terapêutico do analista A veracidade das queixas o grau de insight e a disposição para engajarse em um processo introspectivo são fatores críticos Paralelamente o terapeuta deve confrontar suas próprias limitações e reações emocionais evitando avaliações precipitadas baseadas em impressões superficiais Assim a entrevista inicial transcende sua função diagnóstica é um espaço de negociação simbólica no qual paciente e analista delineiam a possibilidade de uma jornada compartilhada 8 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista O papel do analista assume centralidade já na primeira entrevista momento em que ele se apresenta como profissional fundamentado em sua formação teórica e experiência clínica contudo para o paciente essa figura ainda não está consolidada como referência terapêutica É através da transferência processo no qual o paciente atribui ao analista emoções e expectativas originadas em relações passadas que se estabelece a possibilidade de reconhecêlo como guia no processo analítico Segundo Chemama 2002 esse fenômeno é estruturante nas entrevistas preliminares pois cria um vínculo que permite ao paciente confiar na direção proposta pelo tratamento mesmo em um contexto de incerteza inicial Nesse cenário as expectativas mútuas entre paciente e analista são determinantes para o avanço da terapia O paciente é convidado a assumir uma postura ativa engajandose de maneira autêntica na exploração de suas vivências emocionais Esse compromisso não se resume à verbalização de sintomas mas envolve a disposição para confrontar resistências e ambiguidades inerentes ao processo introspectivo Paralelamente cabe ao psicanalista definir com clareza suas motivações para acolher o caso delineando um projeto terapêutico que oriente suas intervenções Essa delimitação não é estática exige flexibilidade para adaptarse às demandas emergentes sem perder de vista os objetivos centrais do tratamento ZIMMERMAN 2004 A preparação do analista para lidar com desafios emocionais como situações transferenciais intensas ou manifestações de contratransferência é um pilar da prática clínica A empatia aliada ao reconhecimento das próprias limitações e reações inconscientes permite que ele sustente um ambiente seguro onde o paciente se sinta acolhido em sua vulnerabilidade Essa habilidade não se restringe à técnica envolve uma reflexão contínua sobre como as histórias pessoais do terapeuta podem influenciar sua escuta exigindo um equilíbrio delicado entre envolvimento e neutralidade Além disso o contexto físico e emocional em que o analista trabalha repercute diretamente na qualidade do atendimento no qual manter um ambiente organizado e garantir um equilíbrio entre vida profissional e pessoal não são meros detalhes operacionais mas condições essenciais para preservar a integridade do setting terapêutico 9 O autocuidado do analista incluindo a gestão do estresse e a supervisão regular assegura que ele esteja emocionalmente disponível para acolher as demandas complexas do paciente evitando esgotamento ou interferências prejudiciais assim a interação entre paciente e analista revelase uma teia de interdependências na qual a clareza técnica a ética do cuidado e a gestão das emoções se entrelaçam A primeira entrevista longe de ser um mero protocolo é um microcosmo desse processo nela avaliamse não apenas as condições psíquicas do paciente mas também a capacidade do analista de sustentar uma aliança terapêutica pautada pela confiança e pelo rigor metodológico Essa sintonia inicial quando bem conduzida lança as bases para um trabalho transformador onde a complexidade humana é abordada em sua plenitude ZIMMERMAN 2004 22 A EVOLUÇÃO DO DIAGNÓSTICO PSICANALÍTICO O diagnóstico psicanalítico contemporâneo configurase como um campo em constante evolução que busca transcender as classificações clássicas das doenças mentais Essa abordagem prioriza um entendimento profundo do paciente considerando não apenas os aspectos sintomáticos mas também as dinâmicas psíquicas subjacentes Nesse contexto a avaliação do prognóstico emerge como elemento central frequentemente realizada ao longo do processo analítico dinâmica que pode surpreender tanto o analista quanto o analisando revelando nuances que ultrapassam as expectativas iniciais e destacando a complexidade humana em sua busca por autoconhecimento Um dos critérios fundamentais nesse paradigma é o de acessibilidade que se concentra na motivação coragem e capacidade do paciente de permitir o acesso ao seu inconsciente ZIMMERMAN 2004 Essa compreensão é particularmente relevante na seleção de pacientes que à primeira vista podem ser considerados de difícil acesso como aqueles com regressões significativas ou paradoxalmente com estrutura psíquica aparentemente bem ajustada Para Bechara m m 2009 a psicanálise contemporânea tem se mostrado receptiva a configurações diversas adaptando técnicas e táticas para atender às necessidades específicas de cada indivíduo o que reforça sua flexibilidade como ferramenta terapêutica Observase ainda uma diminuição progressiva dos critérios de contraindicação na prática clínica atual refletindo maior abertura à diversidade de 10 pacientes Questões como a idade antes vistas como limitantes são agora abordadas com relativismo permitindo a inclusão de crianças e idosos no tratamento psicanalítico com resultados positivos Além disso a psicanálise contemporânea não hesita em enfrentar situações críticas como quadros emocionais agudos integrandose a outros recursos como psicofármacos em uma abordagem holística que busca eficácia sem abandonar a profundidade analítica O diagnóstico clínico psicanalítico é permeado por um relativismo acentuado no qual condições aparentemente alarmantes como uma reação esquizofrênica aguda podem ter prognóstico favorável se manejadas com competência técnica enquanto neuroses crônicas podem apresentar desafios imprevistos Essa dualidade exige do analista um olhar crítico e atento capaz de discernir as nuances singulares de cada caso sem se apoiar em generalizações Entretanto algumas contraindicações permanecem inegáveis como a degenerescência mental a incapacidade de abstração e casos com motivações distorcidas Em situações de avaliação inicial inconclusiva a análise de prova surge como alternativa viável Essa abordagem que prolonga a entrevista inicial permite uma reflexão mais detalhada sobre as condições do paciente antes da formalização do contrato analítico assegurando que ambos analista e analisando possam estabelecer um vínculo seguro e comprometido Essas práticas alinhamse à Resolução CFP nº 0052025 que enfatiza a supervisão e orientação de estágios em Psicologia com base em fundamentação teórica e ética A psicanálise contribui não apenas com técnicas específicas mas com uma postura clínica que valoriza a alteridade o silêncio a história singular e o tempo subjetivo Essa escuta ética associada ao rigor técnico oferece ao profissional de Psicologia uma base sólida para atuar em contextos clínicos diversos mantendo o compromisso com o sofrimento humano em sua complexidade e singularidade Assim a psicanálise reafirma seu papel na saúde mental contemporânea um campo que se reinventa e se amplia acolhendo a diversidade de pacientes e integrandose a marcos regulatórios que fortalecem a formação crítica e ética dos futuros psicólogos ZIMMERMAN 2004 11 23 REGRAS PSICANALÍTICAS DA ATUALIDADE A evolução das regras fundamentais da psicanálise ao longo do tempo reflete as transformações nas dinâmicas sociais e nas expectativas dos pacientes A regra da livre associação de ideias que enfatiza a verbalização espontânea por parte do paciente mantém sua centralidade mas sua aplicação prática tem se adaptado às demandas atuais Hoje os analistas reconhecem a necessidade de criar um ambiente terapêutico que favoreça não apenas a expressão livre mas também a autenticidade considerando a diversidade de experiências e a complexidade das questões contemporâneas trazidas pelos pacientes Essa adaptação não descaracteriza a técnica mas amplia sua capacidade de acolher subjetividades em contextos cada vez mais pluralizados ZIMMERMAN 2004 A regra da abstinência tradicionalmente associada à contenção de gratificações pessoais por parte do analista tem sido reinterpretada em um cenário clínico que valoriza a empatia e a conexão humana Embora sua essência evitar satisfações substitutivas que desviem o foco do processo analítico permaneça válida a prática contemporânea enfrenta o desafio de equilibrar essa contenção com a construção de uma relação de confiança e segurança Essa tensão produtiva permite que a relação analítica transcenda a função meramente interpretativa tornandose um espaço de interação genuína onde a vulnerabilidade é reconhecida como parte integrante do trabalho terapêutico SOUZA COELHO 2012 Por outro lado Zimerman 2004 também afirma que a regra da neutralidade que historicamente exigia um distanciamento emocional do analista é revisitada à luz de abordagens que defendem maior transparência na relação terapêutica Isso não implica a perda da postura técnica mas o reconhecimento de que a neutralidade pode coexistir com uma presença mais autêntica O analista contemporâneo ao acolher suas próprias emoções e reações contratransferenciais pode oferecer uma escuta mais engajada sem abandonar o rigor metodológico Essa flexibilidade não enfraquece o setting mas o torna mais sensível às nuances afetivas que emergem no processo A ênfase na verdade e na honestidade incorporada como uma quinta regra em discussões recentes responde à demanda por autenticidade nas relações terapêuticas pois os pacientes buscam não apenas uma análise técnica mas uma conexão que os auxilie a navegar realidades emocionais complexas marcadas por 12 incertezas e paradoxos da vida moderna Essa dimensão exige que analista e paciente se envolvam em um processo de descoberta mútua onde a honestidade tanto sobre limites quanto sobre possibilidades fortalece a aliança terapêutica Assim as regras psicanalíticas embora preservem seu núcleo ético e técnico demandam revisão contínua para dialogar com as transformações sociais e científicas A prática clínica atual ao integrar essas adaptações não apenas honra o legado freudiano mas assegura que a psicanálise permaneça relevante como ferramenta de compreensão e intervenção diante das complexidades humanas do século XXI 231 Regra da abstinência A regra da abstinência formulada por Freud em 1915 surgiu em resposta ao desenvolvimento de vínculos eróticos entre pacientes histéricas e analistas em um período em que as análises eram breves Com a expansão da psicanálise e o aumento das críticas sobre a sexualidade na prática clínica Freud viu a necessidade de estabelecer limites claros para evitar envolvimentos sexuais entre analistas e analisandos Em 1912 ele começa a esboçar essa diretriz preocupado com a integridade ética da psicanálise A abstinência implica que o psicanalista deve absterse de qualquer atividade além da interpretação proibindo gratificações externas e preservando o anonimato do paciente posição reforçada por Freud em 1918 em seus escritos sobre terapias psicanalíticas ZIMMERMAN 2004 Ressaltase a relevância da abstinência analítica conforme proposta por Freud que defende que os analistas evitem gratificações externas e intervenções significativas na vida dos pacientes durante o tratamento Para ele era imperativo que os pacientes não tomassem decisões importantes como escolhas profissionais ou amorosas sem uma análise prévia a fim de evitar que impulsos inconscientes fossem mal direcionados protegendoos de possíveis danos Entretanto críticas contemporâneas apontam que a interpretação rígida dessa recomendação pode levar a um distanciamento excessivo entre analista e analisando prejudicando o tratamento A preocupação freudiana com envolvimentos emocionais e sexuais embora válida corre o risco de ser aplicada de forma extremada gerando uma dinâmica fóbica que compromete a aliança terapêutica ZIMMERMAN 2004 13 Com a evolução da prática psicanalítica observase uma mudança significativa no perfil emocional e situacional dos pacientes assim como nas condições sociológicas e econômicas em que a análise ocorre Muitos analistas contemporâneos adotam portanto uma postura mais flexível promovendo um ambiente acolhedor e interativo sem abandonar a estrutura normativa do setting analítico Argumentase que a rigidez na aplicação das diretrizes originais de Freud pode criar um clima de falsidade e paranoia Assim uma abordagem adaptativa e humanizada é considerada essencial nas práticas atuais permitindo que analistas se conectem de maneira autêntica com seus pacientes fator que pode potencializar a eficácia do processo terapêutico O conceito de amor de transferência na psicanálise evidencia a evolução das práticas desde Freud destacando os riscos de envolvimento emocional entre analista e paciente A abstinência do psicanalista permanece crucial para evitar a gratificação de desejos que refletem carências do próprio terapeuta não do paciente É fundamental diferenciar curiosidades patológicas que demandam interpretação daquelas saudáveis que merecem acolhimento como expressões genuínas do sujeito Além disso as atitudes em relação a encontros sociais entre analistas e pacientes modificaramse antes rigidamente evitados hoje são abordados com maior flexibilidade ainda que cautelosa Zimerman 2004 aponta essa mudança a qual reflete uma adaptação às demandas contemporâneas sem descuidar dos princípios éticos que preservam a integridade do vínculo terapêutico 232 Regra da atenção flutuante A regra da atenção flutuante proposta por Freud estabelece um princípio fundamental para a prática analítica implicando a criação de condições que favoreçam uma comunicação autêntica entre os inconscientes do analista e do paciente Bion amplia essa concepção ao destacar o papel da intuição frequentemente obscurecida pela ênfase excessiva na percepção sensorial como ferramenta essencial para decifrar as camadas simbólicas do discurso ZIMMERMAN 2004 Uma das dificuldades centrais para o analista reside em sua capacidade de se desvincular de desejos e memórias pessoais durante o processo Embora seja natural que emoções surjam é importante que o terapeuta mantenha clareza sobre 14 esses sentimentos discriminando adequadamente entre suas experiências subjetivas e as dinâmicas transferenciais em jogo Essa distinção preserva a neutralidade técnica e assegura que as intervenções estejam alinhadas às necessidades do paciente evitando projeções que comprometam a eficácia terapêutica A prática psicanalítica exige assim uma dissociação útil habilidade de reconhecer e diferenciar as diversas áreas do mapa psíquico do analista incluindo emoções que emergem durante a sessão Essa dissociação sustenta tanto a teorização flutuante entendida como a capacidade de elaborar hipóteses sem fixação prévia quanto à atenção flutuante que consiste em uma escuta aberta a múltiplos significados Esses mecanismos facilitam a conexão com a realidade externa e com o inconsciente permitindo uma escuta intuitiva que capta nuances escapadas a abordagens lineares SOUZA COELHO 2012 Por outro lado uma atenção excessivamente direcionada pode levar a um estado patogênico no qual o analista busca informações irrelevantes à situação analítica movido por curiosidade pessoal ou necessidade de controle Essa postura desvia o foco do trabalho terapêutico e pode gerar vínculos transferenciais prejudiciais nos quais as projeções do analista contaminam a relação Além disso a tentativa de manter a atenção flutuante de forma rigorosa pode gerar desconforto e sensação de fracasso no analista já que divagações e distrações são inevitáveis durante as sessões A flexibilidade mental tornase portanto um elementochave pois ela permite que o analista navegue entre suas próprias emoções e as dinâmicas do setting terapêutico ajustandose às flutuações do processo sem perder a postura técnica necessária Essa habilidade reconhece que a eficácia reside no equilíbrio entre disciplina clínica e adaptação às contingências humanas ZIMMERMAN 2004 233 Regra da neutralidade A regra da neutralidade conforme proposta por Freud é um princípio essencial na psicanálise sugerindo que o psicanalista deve atuar como um espelho opaco refletindo apenas o conteúdo apresentado pelo paciente e evitando expor suas próprias emoções Embora o termo neutralidade não seja frequente em seus textos Freud defende uma postura imparcial distante da indiferença que poderia prejudicar o processo analítico Essa neutralidade inclui a gestão dos desejos do 15 analista permitindo uma interação aberta e profunda com o paciente o que cria um ambiente favorável à exploração emocional e psicológica PINHEIRO 1999 Contudo a regra da neutralidade tem sido reavaliada na prática contemporânea distante da visão tradicional de Freud que comparava o analista a um espelho mecânico Atualmente entendese que o analista deve funcionar como um espelho que possibilita ao paciente uma reflexão abrangente sobre si mesmo sem que isso implique a supressão total de sua subjetividade A neutralidade é reconhecida como um ideal inatingível já que o analista inevitavelmente traz suas crenças valores e perspectivas para a relação terapêutica influenciando dinâmicas interpretativas e escolhas técnicas ZIMMERMAN 2004 O envolvimento afetivo do terapeuta desde que não se torne patológico é considerado essencial para estabelecer uma aliança terapêutica significativa As escolhas interpretativas como decidir quando intervir ou como formular uma interpretação revelam a subjetividade inerente à prática demonstrando que a neutralidade não se traduz em ausência de posicionamento mas em um equilíbrio entre acolhimento e contenção Essa postura permite que o paciente se sinta reconhecido em sua singularidade ao mesmo tempo que preserva o espaço analítico como um campo de investigação livre de projeções excessivas do terapeuta Assim a neutralidade na psicanálise contemporânea não nega a influência do analista mas reconhece a complexidade de sua função ser um interlocutor que mesmo com suas limitações humanas mantém o foco no processo de desvelamento do inconsciente equilibrando técnica e sensibilidade ZIMMERMAN 2004 234 Regra do amor à verdade A psicanálise segundo Freud fundamentase na verdade e na ética sendo a honestidade do psicanalista um elemento fundamental para promover mudanças significativas nos pacientes O terapeuta deve evitar julgamentos sobre terceiros já que os pacientes podem induzir quebras éticas por meio de projeções ou tentativas de envolver o analista em dinâmicas externas à terapia Um dilema recorrente é o envolvimento amoroso entre terapeuta e paciente tratado com rigor por sociedades psicanalíticas para preservar a integridade da relação analítica Dessa forma a ética e a verdade configuramse como pilares indissociáveis da prática freudiana 16 A discussão sobre transgressões éticas e sexuais na psicanálise revela um campo marcado por tensões e controvérsias conforme destacado por Daniel Widlocher expresidente da Associação Psicanalítica Internacional IPA Ele argumenta que tais transgressões não devem ser simplificadas como meros erros ou pecados irreparáveis mas sim compreendidas como fenômenos complexos que exigem análise crítica Widlocher observa ainda que transgressões éticas como vínculos românticos não consumados entre analistas e pacientes que frequentemente permanecem ocultas apesar de seu impacto relevante Freud já enfatizava a necessidade de honestidade mútua afirmando que a falta de verdade por parte do analista comprometeria a eficácia do tratamento corroendo a confiança essencial ao processo Complementando essa perspectiva Bion introduz a reflexão sobre a análise de indivíduos que utilizam a mentira como mecanismo de defesa Ele ressalta que a verdade é um elemento vital para a saúde psíquica comparando a a um alimento indispensável e sua ausência levaria à deterioração do psiquismo Assim a abordagem psicanalítica da verdade deve transcender o moralismo focandose na construção de uma atitude autêntica que permita ao paciente alcançar liberdade interna e engajarse plenamente no processo analítico ZIMERMAN 2004 A preservação do setting analítico é outro aspecto essencial pois garante a estruturação da relação terapêutica mantendo a assimetria necessária entre os papéis de analista e paciente O enquadre estabelece limites claros e promove o princípio da realidade contrapondose ao princípio do prazer que muitas vezes domina a subjetividade do paciente Essa estrutura é especialmente crítica no trabalho com pacientes regressivos que podem enfrentar dificuldades em lidar com limites e frustrações No entanto é fundamental evitar uma rigidez excessiva na aplicação dessas regras pois isso pode gerar uma atmosfera coercitiva prejudicando a aliança terapêutica A própria prática de Freud ilustra a complexidade desse equilíbrio que frequentemente flexibilizava suas próprias recomendações adotando abordagens não convencionais que refletiam o contexto histórico e teórico da psicanálise em sua época ZIMERMAN 2004 17 24 A COMPREENSÃO DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SOB A PERSPECTIVA DA PSICANÁLISE A análise do relacionamento interpessoal quando vista sob a ótica psicanalítica exige uma investigação minuciosa das forças inconscientes que moldam as interações humanas Essas forças muitas vezes surgem a partir de experiências precocemente vivenciadas na infância que ficam armazenadas no inconsciente e influenciam não apenas as emoções e comportamentos atuais mas também a maneira como os indivíduos percebem e se relacionam com os outros Este entendimento é fundamental para compreender questões como ciúmes inseguranças projeções e padrões de comunicação disfuncionais já que muitas dessas características têm raízes profundas e subconscientes Além disso essa abordagem permite uma compreensão mais abrangente dos conflitos internos que podem dificultar a construção de vínculos afetivos seguros e satisfatórios favorecendo processos de autoconhecimento que são essenciais tanto na clínica quanto na vida cotidiana De acordo com Freud 1900 as experiências formativas na infância não apenas moldam o desenvolvimento psíquico mas também deixam marcas que podem perdurar ao longo da vida influenciando todas as relações seguintes Essas experiências muitas vezes são reprimidas ou não totalmente resolvidas permanecendo no inconsciente e se manifestando através de sintomas ou padrões relacionais recorrentes na fase adulta Por exemplo uma criança que vivenciou negligência ou rejeição pode desenvolver uma ansiedade de separação ou padrões de busca de validação constantes na vida adulta Assim ao revisar e entender essas experiências e seus efeitos o terapeuta e o indivíduo podem trabalhar a resolução de conflitos internos promovendo relações mais saudáveis e equilibradas e uma melhor gestão emocional 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo Segundo Treiguer 2007 a compreensão da pulsão na psicanálise não se limita à sua força de impulso biológico mas deve ser entendida na relação com os vínculos estabelecidos entre os indivíduos A pulsão como força reguladora das interações atua tanto na esfera consciente quanto na inconsciente moldando 18 desejos necessidades e fantasias O desejo por sua vez é uma força que unifica o sujeito embora seja frequentemente influenciado por fatores externos como o alheio ou seja o outro suas expectativas desejos e projeções Essas dinâmicas complexas resultam na multiplicidade de emoções que experimentamos nas relações como novela de desejo medo mistério e insegurança que enriquecem ou dificultam o relacionamento dependendo de como são elaboradas e integradas 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais Ao analisar as relações amorosas sob a perspectiva simbólica e mitológica a narrativa bíblica de Adão e Eva serve como uma poderosa metáfora para entender a busca pela perfeição a ilusão de imortalidade e a vulnerabilidade inerente aos relacionamentos O desejo de ser igual a Deus simboliza a tentativa de superar os limites humanos o que na relação de casal pode refletir a busca por uma união idealizada que muitas vezes é inatingível A expulsão do Éden revela como a tentativa de alcançar essa perfeição pode resultar na fragilidade e na necessidade de aceitar a vulnerabilidade como parte fundamental do amor e da convivência Na perspectiva psicanalítica há a compreensão de que os casais frequentemente criam uma dinâmica de inseparabilidade na qual as diferenças individuais são minimizadas ou até negadas Para isso usam mecanismos de defesa como a cisão dividir aspectos positivos e negativos e a identificação projetiva que reduzem as diferenças ao transferir aspectos indesejados ou conflitantes para o outro Essa fusão embora possa parecer uma busca por completude tende a ser prejudicial a longo prazo pois impede o desenvolvimento da autonomia emocional e limita a autenticidade no relacionamento Quando essa fusão se torna excessiva a relação pode se transformar em uma ilusão de perfeição que ao se desmoronar leva ao conflito ou à crise de identidade de ambos os parceiros 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso De acordo com Pignataro FerrésCarneiro e Mello 2019 as alianças inconscientes estruturam as relações amorosas formando um sistema de funções 19 que mantêm o vínculo e protegem os indivíduos de ameaças internas e externas Essas alianças que se originam na infância e nas primeiras experiências afetivas podem ser primárias secundárias defensivas ou criativasdestrutivas cada uma desempenhando papéis diferentes na vida psíquica e relacional Elas moldam percepções expectativas e comportamentos além de influenciar a forma como o parceiro é visto e tratado na relação Compreender esses mecanismos ajuda a desmistificar padrões repetitivos e a elaborar vínculos mais conscientes e satisfatórios promovendo maior autonomia emocional e resistência às dificuldades do cotidiano Dentro das alianças inconscientes existe o pacto denegativo também discutido na literatura psicanalítica referese a uma aliança inconsciente que os parceiros assumem muitas vezes de forma automática para proteger a relação de conflitos internos ou de demandas emocionais que podem ameaçála Essa aliança funciona por meio da mobilização de fantasias identificações e realidades psíquicas partilhadas que mantêm o vínculo mesmo que envolvam negação ou repressão de aspectos desagradáveis ou conflitantes Essa dinâmica atua como um mecanismo de defesa contribuindo para a estabilidade emocional do casal ao evitar confrontar certas verdades dolorosas mas também pode limitar o crescimento e a autenticidade na relação Além do pacto denegativo Pignataro FérresCarneiro e Mello 2019 descrevem os contratos inconscientes como entendimentos tácitos que emergem na relação estabelecendo limites expectativas e trocas que sustentam o vínculo Esses contratos podem ser conscientes ou inconscientes e dizem respeito às concessões mútuas necessárias para a convivência Enquanto os acordos representam negociações mais conscientes os pactos envolvem trocas intransmissíveis ou insuspeitas muitas vezes influenciadas por elementos da infância ou experiências passadas Essas dinâmicas facilitam ou dificultam a elaboração de desejos e necessidades moldando o modo como o casal enfrenta as dificuldades e constrói a sua história conjunta 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional Segundo Mondrzak 2007 a teoria de Bion destaca que os vínculos amorosos de ódio ou de conhecimento dependem do espaço psíquico chamado 20 por ele de contenedor e do conteúdo emocional que nele reside O espaço psíquico funciona como um recipiente onde emoções e experiências conflitantes podem ser armazenadas elaboradas e integradas fortalecendo a relação As emoções como inveja ciúme raiva ou insegurança sentimentos típicos de uma relação conjugal não apenas emergem do conteúdo mas são moduladas pelo espaço psíquico que deve ser acolhedor para que os conflitos possam ser trabalhados de forma saudável Essa capacidade de acolhimento e elaboração emocional possibilita uma convivência mais madura empática e segura emocionalmente promovendo um vínculo mais sólido e autêntico No contexto de Bion a relação entre o analista e o espaço psíquico é fundamental para o processo terapêutico O analista ao atuar como um recipiente deve criar um espaço psíquico seguro e receptivo capaz de acolher e processar as experiências emoções e pensamentos do paciente Nesta teoria o analista é um facilitador do espaço psíquico criando uma condição em que o paciente possa explorar processar e integrar suas experiências internas de forma segura e significante Essa dinâmica é essencial para que o processo terapêutico seja efetivo e transformador 245 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional Na psicanálise a concepção de que o casal constitui uma unidade psíquica com estrutura própria traz reflexões importantes sobre a dinâmica do relacionamento Cada indivíduo traz para o casal seu desenvolvimento emocional suas carências suas dores e conflitos internos que ao interagirem podem resultar tanto em harmonia quanto em disfunções Quando há conflitos não resolvidos ou projeções esses fatores podem gerar uma relação disfuncional marcada por conflitos constantes ou mesmo por padrões de fusão excessiva onde os limites entre os parceiros se tornam difusos A intervenção clínica busca muitas vezes desconstruir essas dinâmicas promovendo autonomia emocional e a compreensão dos acontecimentos internos de cada um além de favorecer uma relação mais equilibrada capaz de suportar conflitos de forma construtiva A participação em processos terapêuticos seja individual ou de casal muitas vezes revela ou provoca desequilíbrios na relação como ciúmes resistência às 21 mudanças ou boicotes que surgem como mecanismos de defesa ou tentativas de manter o status quo Essas reações muitas vezes dificultam o avanço do tratamento e requerem atenção específica do terapeuta que deve trabalhar a compreensão dessas resistências promovendo maior autorreflexão e autoconhecimento A terapia assim atua como uma ferramenta de resistência e reconstrução emocional possibilitando a elaboração de conflitos a superação de obstáculos e a promoção de relações mais satisfatórias e maduras 3 METODOLOGIA A metodologia adotada neste estudo é fundamentada em princípios clássicos da psicanálise utilizando a técnica da associação livre como um dos pilares do processo terapêutico Essa técnica permite ao paciente expressar livremente seus pensamentos sentimentos e imagens sem censura ou restrições o que facilita a acessibilidade a conteúdos inconscientes Ao criar um espaço onde o paciente se sente à vontade para compartilhar suas ideias a associação livre se torna um meio poderoso para explorar as camadas mais profundas da psique A primeira entrevista desempenha um papel crucial nesse contexto uma vez que estabelece as bases para a relação analítica Neste encontro inicial o analista busca criar um ambiente de confiança e segurança onde o paciente se sinta confortável para se abrir É um momento de construção do vínculo onde se discutem as expectativas do tratamento e se delineiam os objetivos da terapia A receptividade e a empatia do analista são essenciais para fazer com que o paciente sinta que sua história e suas vivências são valorizadas Durante as sessões subsequentes a atenção flutuante do analista se torna uma prática fundamental Essa abordagem implica que o analista mantenha uma escuta atenta e flexível permitindo que sua atenção se mova entre diferentes temas e conteúdos que emergem das falas do paciente Essa atenção não é direcionada apenas a pontos específicos mas busca captar nuances sentimentos e associações que possam surgir criando um espaço onde o paciente pode explorar livremente seu mundo interno A interpretação por sua vez é uma ferramenta vital que emerge desse processo Quando o analista oferece interpretações ele busca conectar os conteúdos manifestos do discurso do paciente com questões mais profundas e 22 inconscientes Essas intervenções interpretativas têm o potencial de iluminar padrões de comportamento conflitos internos e dinâmicas emocionais que o paciente pode não ter consciência Através desse processo interpretativo o paciente é incentivado a refletir sobre suas experiências promovendo um entendimento mais profundo de si mesmo e facilitando o avanço do tratamento Assim a combinação da associação livre da construção do vínculo na primeira entrevista da atenção flutuante e das interpretações do analista cria um ambiente terapêutico rico e dinâmico propício para o processo de autoconhecimento e transformação psíquica do paciente Essa metodologia busca não apenas a resolução de sintomas mas a promoção de uma maior compreensão da própria subjetividade contribuindo para o desenvolvimento pessoal e emocional ao longo do tratamento 4 PROCESSO TERAPÊUTICO Na sessão de 290425 o paciente J relatou angústia no trabalho devido à pressão do chefe e à carga horária excessiva afetando sua vida familiar Ele enfrenta conflitos com a esposa que possui traumas da infância e preocupase com o comportamento do filho mais velho Apesar das dificuldades J demonstra motivação para o processo terapêutico e deseja explorar suas emoções melhorar a comunicação familiar e promover um ambiente mais saudável Na sessão de 060525 J expressou preocupações sobre a relação tensa entre sua esposa e sua mãe especialmente em relação a uma visita programada Ele também relatou um ambiente de trabalho insustentável devido à pressão do novo chefe apesar da recente promoção e a insatisfação com o salário J enfrenta desafios significativos em sua vida pessoal e profissional que serão explorados nas próximas sessões Na sessão de 20052025 J expressou sobrecarga e falta de apoio no trabalho comparando as exigências de seu chefe e sua esposa Ele relatou frustrações na vida conjugal incluindo incertezas sobre o relacionamento e dificuldades financeiras atribuídas à esposa que geraram ansiedade e medo de perder a família Apesar das queixas J mostrou disposição para agir manifestando interesse em conversar diretamente com seu chefe sobre suas responsabilidades 23 Na sessão de 29052025 J expressou preocupação com as mentiras de seu filho que nega responsabilidades refletindo uma personalidade forte que J reconhece em si mesmo Ele compartilhou sobre sua dependência emocional na infância e como sua relação com os pais influenciou seu comportamento além de relatar sua trajetória de mudança para Maringá e os desafios enfrentados ao se tornar pai J também recordou sua experiência de morar sozinho e a necessidade de se estabelecer uma nova vida com Érica e o filho que estava por vir Na sessão 030625 o paciente não compareceu sem justificar a sua falta Na sessão de 100625 J relatou sobrecarga de trabalho e os desafios emocionais causados pelas oscilações de humor de sua esposa Érica com quem ele enfrenta uma comunicação frágil e dinâmica de culpa Ele mencionou incidentes em que Érica projetou suas frustrações sobre ele evidenciando a ambivalência no relacionamento A sessão terminou com a proposta de explorar essas dinâmicas e focar na melhoria da comunicação e na compreensão mútua nas próximas conversas 41 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 29042025 O paciente J apresentouse na sessão realizada em 290425 Ele relatou angústia no trabalho motivada pela pressão exercida pelo chefe e pela carga horária excessiva o que resulta em pouco tempo para sua família Sua esposa expressa insatisfação com a falta de tempo que o marido dedica aos filhos e à situação financeira em que se encontram O paciente descreve sua esposa como uma pessoa difícil de lidar com quem tem enfrentado frequentes conflitos Ele menciona que ela foi criada apenas pela avó materna o que segundo ele contribui para traumas que dificultam a convivência entre eles As discussões se intensificam durante os dias de TPM e o paciente relata que utiliza um aplicativo para monitorar o ciclo menstrual da esposa tentando evitar conflitos nesses períodos Além disso o paciente demonstra preocupação com o comportamento do filho mais velho que se envolveu em episódios de furto incluindo o roubo de dinheiro da irmã e a destruição de figurinhas na escola Essa situação o leva a refletir sobre a educação e o desenvolvimento moral da criança Apesar das dificuldades o paciente está motivado para o processo terapêutico e expressa interesse em continuar as sessões inclusive na modalidade online caso não seja possível realizar 24 atendimentos presenciais Para as próximas sessões será importante explorar seus sentimentos de angústia e identificar as fontes de estresse melhorar a comunicação com a esposa discutir estratégias para equilibrar trabalho e vida familiar abordar o comportamento do filho e considerar formas de incentivar a esposa a buscar terapia respeitando sua resistência O paciente demonstra consciência das dinâmicas familiares que impactam seu bemestar emocional e está disposto a trabalhar nessas questões As futuras sessões deverão focar nas áreas mencionadas visando promover um ambiente familiar mais saudável 42 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 06052025 J chegou pontualmente às 17h e iniciou a conversa expressando suas preocupações sobre a relação da esposa com sua mãe Ele está apreensivo em relação à visita marcada para o próximo domingo à casa de seus pais Ao investigar essa apreensão J compartilhou um incidente recente durante um almoço na casa de sua mãe onde sua esposa o criticou por sua falta de compromisso com a casa e a família Sua mãe interveio questionando a esposa sobre a falta de reconhecimento e apoio o que levou a esposa a se retirar da mesa e solicitar a saída Perguntei a J sobre a situação atual com a esposa e ele mencionou que as coisas melhoraram um pouco mas a relação com a mãe ainda é tensa Ele expressou a preocupação de não querer deixar os filhos sob os cuidados da mãe uma vez que sua esposa só aceita deixálos com a mãe e a irmã J também revelou receios em deixar seu filho com o pai devido a temores de abuso embora não tenha confirmado se sua esposa já passou por essa experiência No que diz respeito à vida profissional J relatou que a situação com seu chefe se tornou insustentável Ele acredita que a recente mudança na gestão da rede de supermercados está gerando pressão por resultados imediatos e eficazes o que tem impactado negativamente a dinâmica com sua equipe Apesar de ter recebido uma promoção recentemente J não está satisfeito com o salário pois não houve um aumento que correspondesse à nova função Ele suspeita que a empresa esteja realizando uma avaliação prometendo um aumento após seis meses caso os resultados esperados sejam atingidos A sessão foi encerrada destacando que J enfrenta desafios tanto em sua vida pessoal quanto profissional que precisam ser explorados e refletidos nas próximas sessões 25 43 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 20052025 Na sessão de hoje J apresentou uma série de queixas relacionadas à sua vida profissional e pessoal destacando a sensação de sobrecarga e a falta de apoio em ambas as esferas Ele relatou que está se sentindo pressionado no trabalho enfrentando um volume elevado de tarefas sem o devido suporte de seu chefe J mencionou que seu chefe propõe a necessidade de um bom desempenho mas paradoxalmente continua a sobrecarregálo com mais responsabilidades Fez uma comparação entre seu chefe e sua esposa ambos considerados sem lógica em suas exigências Em relação à sua vida conjugal J expressou frustração em relação à sua esposa citando um recente convite dela para não chegar tarde em casa mas sem clareza sobre o compromisso Ele observou que essa instabilidade gera ansiedade pois pode se tratar de um convite para um momento agradável ou uma conversa sobre separação J revelou que já considerou a separação em duas ocasiões mas uma oração em um momento de reflexão o levou a interpretar que deveria permanecer no casamento especialmente após a notícia da gravidez de sua filha J também trouxe à tona a dificuldade financeira que enfrenta atribuindo parte da culpa a sua esposa Ele explicou que após ela seguir um guru financeiro e fazer investimentos de alto risco acabou assumindo uma dívida significativa com a compra de um carro cujas parcelas se tornaram uma carga pesada comprometendo seu orçamento Atualmente J mencionou que não recebe ajuda dela para os gastos uma vez que ela também lida com suas próprias dívidas O medo de perder a esposa e os filhos é um tema recorrente em suas queixas J expressou preocupações sobre a possibilidade de sua esposa levar as crianças para morar com a família dela em Amaporã o que o angustia especialmente em relação à influência negativa que a família dela pode ter sobre os filhos Um aspecto positivo observado na sessão foi a disposição de J em agir de forma proativa Ele demonstrou interesse em ter uma conversa direta com seu chefe para discutir suas preocupações e buscar um entendimento mais claro sobre suas responsabilidades 44 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 29052025 J Começou a sessão dizendo que seu filho está mentindo muito que isso está o preocupando Perguntei se as mentiras são histórias inventadas J Explicou que as mentiras são feitas a partir de uma discussão na qual ele faz uma coisa e nega 26 ter feito Como por exemplo quando sua mãe reclamou que ele não tinha feito a tarefa e quando ele perguntou ele disse que havia feito só depois de muita insistência que admitiu não ter feito J disse que seu filho não tem muito gosto pelos estudos e que nisso é muito diferente dele Perguntei se tem coisas semelhantes com filho disse que sim a personalidade forte de confrontar os pais disse que é igual e que inclusive seu comportamento era diferente dos outros dois irmãos perguntei se era o mais velho ele disse que era o mais novo Lembrou de um dia que entrou em confronto com seu pai pois avisou que estava estava indo para uma festa em Astorga e seu pai disse que não iria ele então falou que estava apenas avisando Lembrou que seus pais faziam tudo por ele desde o levar a escola buscar e que por exemplo nunca cozinhou sendo isso uma das críticas que Érica sua esposa faz a ele Foi se sentir mais dependente quando deixou Marília e veio para Maringá estudar Perguntei então como foi que os seus pais vieram para Maringá Falou que ele passou no vestibular na UEM e veio morar com um primo dele no segundo ano de faculdade ele foi morar sozinho então primeiro veio sua mãe mas deixou bem claro que não queria ser vigiado depois veio seu pai sua irmã e seu cunhado Após a faculdade arrumou emprego em Astorga em uma usina Morava em um quarto com banheiro apenas Neste período engravidou a Érica então ela foi morar com seus pais e ele se viu obrigado a voltar e arrumar uma casa para morar junto com a Érica e seu filho que iria nascer 45 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 10062025 Na sessão de hoje J chegou com um atraso de 20 minutos justificandose com problemas relacionados ao serviço Ele também mencionou a ausência na sessão anterior devido a uma viagem durante a qual não teve acesso ao celular Ao longo da conversa J expressou uma série de dificuldades que enfrenta tanto em sua vida profissional quanto no âmbito familiar Ele relatou uma sobrecarga significativa de trabalho mencionando a dificuldade em gerenciar sua carga horária o que parece impactar sua saúde mental e emocional refletindo um estado de estresse e cansaço J trouxe à tona a situação de sua esposa Érica que continua apresentando oscilações de humor Ao questionálo sobre o cansaço que isso poderia causar ele afirmou ter se acostumado e optado por uma postura passiva diante das oscilações dela 27 Exemplos foram dados para ilustrar essa dinâmica em uma visita recente dos padrinhos do filho Érica começou a reclamar que ele não ajuda em casa J optou por se afastar da situação indicando uma estratégia de evitar conflitos Outro exemplo relevante foi o incidente em que seu filho se queimou com um ferro quente J relatou que Érica o culpou pela situação mesmo reconhecendo que ela deveria ter mais cuidado com a criança que estava sob sua responsabilidade na parte superior da casa Essa dinâmica de culpas parece ser um padrão recorrente no relacionamento onde Érica projeta suas frustrações em J Durante a sessão J foi questionado sobre a natureza do relacionamento com Érica Ele mencionou que embora tenham momentos de boa convivência a situação se torna complicada em momentos de tensão A comunicação entre eles parece frágil especialmente em situações emocionais delicadas J trouxe um episódio marcante de uma terapia de casal onde Érica respondeu não sei quando questionada se ainda se gostam evidenciando a ambivalência no relacionamento J relatou que sempre percebeu Érica com esse comportamento desde o início do relacionamento que começou na empresa onde trabalhavam A narrativa de como se conheceram sugere uma atração inicial mas também revela que desde o início houve uma desarmonia que pode ter se intensificado com o tempo A gravidez planejada e a mudança para a casa dos pais de Érica também foram pontos importantes trazendo à tona atritos familiares que contribuíram para a tensão no relacionamento A sessão foi encerrada com a proposta de retomar as questões levantadas nas próximas conversas permitindo que J reflita sobre as dinâmicas familiares e emocionais discutidas É fundamental continuar trabalhando na comunicação e na compreensão mútua entre J e Érica assim como explorar mais a fundo as questões de culpa e frustração que permeiam o relacionamento Os próximos passos incluem explorar as dinâmicas de culpa e projeção de frustrações focar na melhoria da comunicação entre J e Érica e analisar o impacto da carga de trabalho na saúde emocional de J 46 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 17062025 J Se atrasou vinte minutos novamente Comecei a sessão lembrando de uma fala de J A qual dizia que alguma coisa o atraiu à Érica Então fiz a pergunta o 28 que seria esse algo que o atraiu nela Respondeu que ela tinha algo que a sua ex namorada não tinha Perguntei o que seria Disse que teve duas namoradas antes da Érica e que a primeira era mais velha que ele e tinham pensamentos diferentes sobre a vida Ela pensava em casar pois já era formada e quando estava ainda na faculdade queria aproveitar mais a vida Então conheceu a segunda namorada e ficaram pouco tempo em torno de 9 meses Ela o achou para jantar e disse que não queria mais continuar ficou muito mal e mantinha contato com ela por mensagens até que um dia ela mandou uma mensagem falando que não queria mais conversar com ele para não dar esperanças foi aí que disse que tinha que deixar de ser trouxa e seguir sua vida e cortar contato com ela Disse que foi interessante pois neste dia que ele viu a Érica pela primeira vez mas apenas achou uma mulher bonita e admirou que ela trabalhando em um chão de fábrica onde os homens de todas as idades mexiam com ela sempre se deu ao respeito Então concluiu que a Érica diferente da antiga namorada sempre o respeitou Mesmo quando não namorava ela se dava ao respeito mantendo a distância das pessoas e até hoje é assim Sua antiga namorada era muito de brincar com as pessoas inclusive com homens isso o deixava e acreditava que se permanecesse com ela o deixaria inseguro Perguntei se quanto a palavra respeito o qual diz a Érica ter para com ele não se sente desrespeitado quando ela fala mal dele na frente dele para as outras pessoas Respondeu nisso sim é muito ruim isso que ela faz Perguntei se ele acredita que ela tem a imagem dele das reclamações que ela faz dele para as pessoas Respondeu que acha que sim mas também vê momentos em que ela é carinhosa com ele Continuou que percebe quando ela se frustra com alguma coisa no trabalho ela desconta nele mas acredita que ela tenha sentimento por ele Antes do namoro ela era apegada a ele e muito mais carinhosa quando nasceu seu primeiro filho ela se apegou demais e tinha nele uma fixação exagerada depois que nasceu a filha deixou o filho de lado e tem essa fixação com a filha Como o tempo estava acabando concluí a sessão REFERÊNCIAS CHEMAMA R Psicanálise do cotidiano elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano Porto Alegre CMC Editora 2002 29 CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA Código de ética profissional do psicólogo Brasília DF 2005 Disponível em httpssitecfporgbrwpcontentuploads201207codigodeeticapsicologiapdf Acesso em 3 maio 2025 FREUD S A interpretação dos sonhos 1900 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2016 FREUD S História de uma neurose infantil o homem dos lobos Além do princípio do prazer e outros textos 19171920 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2010 FREUD Sigmund Obras completas volume 4 A interpretação dos sonhos Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2019 MONDRZAK Viviane Sprinz Processo psicanalítico e pensamento aproximando Bion e MatteBlanco Revista Brasileira de Psicanálise São Paulo v 41 n 3 set 2007 Disponível em httpspepsicbvsaludorgscielophppidS0486 641X2007000300004 Acesso em Sex 20 de Junho PIGNATARO Marina Beatriz FÉRESCARNEIRO Terezinha MELLO Renata A formação do casal conjugal um enfoque psicanalítico Pensando Famílias Porto Alegre v 23 n 1 p 120 janjun 2019 Disponível em httpspepsicbvsaludorg Acesso em 20 de junho de 2025 SAMPAIO Alexandra de Oliveira A clínica de casal canalise das relações vinculares MIMESIS v 30 n2 2009 TREIGUER Lisie Ellwanger Moreira O paradoxo vincular no casal desejo constituição e morte Disponível em wwwcontemporâneoorgbrcontemporânea PHP 2007 Acesso em 20 de junho de 2025 ZASLAVSKY Jacó PIRES DOS SANTOS Manuel José Sobre o papel das identificações na relação amorosa Revista de Psicanálise SPPA Porto Alegre v II n 2 p 47514933 ago 1996 ZIMERMAN D E Manual de técnica psicanalítica um estudo teóricoclínico da entrevista inicial dos critérios de analisabilidade e do contrato Porto Alegre Artmed 2004 442 p FACULDADE INGÁ CURSO DE PSICOLOGIA RODOLFO RODRIGO BENEDETTI RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL III CLÍNICA DE PSICOLOGIA UNINGÁ MARINGÁ 2025 RODOLFO RODRIGO BENEDETTI TESTES PSICOLÓGICOS CPM RAVEN Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e CMMS3 Escala de Maturidade Mental Colúmbia Relatório apresentado ao curso de Psicologia do Centro Universitário Ingá na disciplina de estágio de formação profissional III como requisito parcial para obtenção de nota no curso de Psicologia da faculdade INGÁ Prof Ms Bruna Luzia Garcia de Oliveira MARINGÁ 2025 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 4 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 5 21 PRIMEIRO CONTATO E ENTREVISTA COM O PACIENTE6 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica6 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista 8 22 A EVOLUÇÃO DO DIAGNÓSTICO PSICANALÍTICO9 23 REGRAS PSICANALÍTICAS DA ATUALIDADE 11 231 Regra da abstinência12 232 Regra da atenção flutuante13 233 Regra da neutralidade14 234 Regra do amor à verdade15 24 A COMPREENSÃO DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SOB A PERSPECTIVA DA PSICANÁLISE17 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo17 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais18 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso 19 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional20 245 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional20 3 METODOLOGIA 21 4 PROCESSO TERAPÊUTICO 22 41 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2904202523 42 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 0605202524 43 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2005202525 44 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2905202526 45 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 1006202526 46 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 1706202528 REFERÊNCIAS29 4 1 INTRODUÇÃO O presente relatório tem como objetivo refletir sobre a experiência de estágio supervisionado em Psicologia com ênfase na prática clínica orientada pela abordagem psicanalítica e a partir da articulação entre teoria e prática buscase apresentar os principais fundamentos teóricos que sustentaram a atuação descrever a vivência do estágio e analisar criticamente os aspectos éticos e técnicos envolvidos no processo Conforme a Resolução n 62011CNEMEC o estágio supervisionado é um componente crucial na formação em Psicologia dividido em duas etapas o Estágio Supervisionado Básico realizado no 3 ano que se concentra na integração de competências por meio de visitas técnicas e observações e os Estágios Supervisionados de Formação desenvolvidos nos 4 e 5 anos voltados ao aprofundamento profissional em áreas específicas como clínica institucional escolar e organizacional Cada etapa é organizada por meio de projetos de ensino elaborados pelos professores supervisores os quais incluem justificativas competências a serem desenvolvidas métodos de trabalho e critérios de avaliação A supervisão ocorre na ClínicaEscola de Psicologia do Centro Universitário Ingá Uningá em grupos de até seis alunos com o propósito de promover uma formação crítica e prática para os futuros psicólogos Este relatório está alinhado à estrutura e regulamentação dos Estágios Supervisionados do curso de Psicologia da Uningá conforme descrito nos documentos institucionais Os alunos do 5º ano devem cumprir um total de 200 horas no Estágio de Formação III e 160 horas no Estágio de Formação IV com carga horária distribuída ao longo dos períodos letivos regulares sem previsão de interrupções para férias intermediárias Os estágios são formalizados por meio de instrumentos jurídicos entre o Centro Universitário Ingá e as instituições concedentes sendo realizados tanto na ClínicaEscola de Psicologia da Uningá quanto em instituições conveniadas como hospitais unidades básicas de saúde instituições de educação infantil e educação especial entre outras A supervisão dos estágios é de responsabilidade dos professores supervisores do supervisor de estágio e da coordenação do curso Os professores supervisores são docentes do curso de Psicologia atuando conforme suas áreas de formação e experiências profissionais e em casos específicos profissionais de áreas técnicas externas podem ser incluídos na supervisão mediante solicitação escrita e aprovação institucional Durante todo o processo o Código de Ética 5 Profissional do Psicólogo aprovado em agosto de 2005 pelo Conselho Federal de Psicologia serve como guia essencial para a prática profissional Este documento elaborado em um contexto de transformações sociais e demandas profissionais reforça princípios como o respeito à dignidade humana a promoção da saúde e a qualidade dos serviços psicológicos além de definir deveres proibições e penalidades para assegurar uma atuação ética e responsável A estrutura do relatório segue três eixos principais inicialmente uma fundamentação teórica baseada em autores da psicanálise seguida da descrição detalhada da experiência prática em contexto clínicoinstitucional Em seguida são discutidas as implicações éticas da atuação profissional conforme previsto no Código de Ética do Psicólogo e propõese uma análise crítica dos desafios e aprendizados construídos ao longo do estágio Por fim o texto conclui com considerações sobre a integração entre teoria prática e ética na formação do psicólogo ressaltando a importância do estágio supervisionado como espaço de consolidação do conhecimento e da identidade profissional 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A psicanálise desde seus fundamentos estabelecidos por Freud consolidouse como um campo teóricoclínico de grande complexidade enriquecido ao longo do século XX por contribuições de diversos autores Inicialmente Freud estruturou pilares centrais como o conceito de inconsciente a sexualidade infantil os mecanismos de defesa e a transferência que permanecem como eixos estruturantes da prática psicanalítica Em A Interpretação dos Sonhos 1900 obra seminal ele enfatiza a função do inconsciente na produção simbólica demonstrando que os processos psíquicos transcendem a consciência imediata Essa perspectiva revolucionária revela que o sujeito não é plenamente senhor de sua própria razão uma ideia que redefine a compreensão do sofrimento humano Ao reconhecer a dimensão inconsciente como núcleo da subjetividade Freud inaugurou uma metodologia clínica baseada na escuta atenta da singularidade do paciente e na valorização de sua narrativa Essa abordagem detalhada em suas obras FREUD 2016 desloca a ênfase de interpretações normativas para uma prática que acolhe a ambiguidade e a multiplicidade de sentidos presentes no discurso Dessa forma a psicanálise não apenas ampliou o horizonte teórico sobre a 6 mente humana mas também estabeleceu um paradigma ético e técnico orientado pelo respeito à expressão individual legado que continuou a ser expandido e reinterpretado por gerações posteriores de analistas 21 PRIMEIRO CONTATO E ENTREVISTA COM O PACIENTE A comunicação não verbal constitui um elemento fundamental nas interações humanas sobretudo nas etapas iniciais de um relacionamento seja em âmbito pessoal ou profissional Essa forma de expressão que engloba gestos expressões faciais postura e movimentos corporais transcende a dimensão verbal revelando emoções genuínas e facilitando a construção de conexões mais profundas entre os indivíduos Durante os primeiros contatos a habilidade de decifrar esses sinais tornase especialmente relevante já que eles podem transmitir nuances como interesse confiança abertura ou resistência muitas vezes de maneira mais autêntica do que as palavras ZIMMERMAN 2004 Além de expressar sentimentos a comunicação não verbal atua em paralelo à linguagem falada servindo como um complemento essencial para a clareza das mensagens Ao harmonizar gestos tom de voz e expressões com o conteúdo verbal reduzse o risco de ambiguidades e malentendidos permitindo que a intenção comunicativa seja transmitida com maior precisão Segundo Zimerman 2004 Essa sincronia entre o que é dito e o que é demonstrado corporalmente não apenas fortalece a credibilidade do emissor como também promove um diálogo mais coeso e empático Reconhecer a relevância desses elementos é portanto determinante para otimizar a qualidade das interações em diferentes contextos seja em uma negociação profissional no estabelecimento de vínculos afetivos ou em situações cotidianas a atenção aos sinais não verbais possibilita uma leitura mais integral do outro favorecendo relações baseadas em compreensão mútua e efetividade comunicativa 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica A entrevista inicial configurase como um momento decisivo na prática psicanalítica estabelecendo as bases para o relacionamento terapêutico e permitindo que tanto o analista quanto o paciente avaliem a compatibilidade e a 7 viabilidade do tratamento Esse contato preliminar que pode se estender por mais de um encontro dependendo das particularidades do paciente não se limita a uma mera formalidade Mesmo em situações em que o terapeuta já reconhece a impossibilidade de assumir um tratamento sistemático a realização de uma entrevista de avaliação mantém seu valor pois possibilita orientações ou encaminhamentos adequados preservando o compromisso ético com o cuidado ZIMMERMAN 2004 Para Zimerman 2004 será importante diferenciar a entrevista inicial da primeira sessão analítica pois enquanto a primeira ocorre antes da formalização do contrato terapêutico funcionando como um espaço de avaliação mútua a segunda marca o início efetivo da análise A profundidade e a duração dessa etapa variam conforme o repertório prévio do paciente aqueles familiarizados com o processo psicanalítico podem experienciar um fluxo mais ágil enquanto indivíduos que buscam alívio imediato para sintomas demandam uma abordagem mais cautelosa capaz de acolher ansiedades e expectativas não verbalizadas O objetivo central da entrevista inicial reside na avaliação das condições mentais emocionais e contextuais do paciente permitindo ao analista ponderar riscos e benefícios do tratamento Essa análise inclui a identificação da psicopatologia apresentada a elaboração de uma impressão diagnóstica e prognóstica e a atenção aos efeitos contratransferenciais que emergem na interação Nesse contexto o uso de classificações como o DSMIVTR que abrange aspectos sindrômicos transtornos de personalidade e estressores ambientais exige uma abordagem multidimensional integrando dimensões dinâmicas como conflitos inconscientes evolutivas histórico de desenvolvimento e comunicacionais formas de expressão e resistências ZIMMERMAN 2004 Além da avaliação técnica a entrevista demanda uma escuta sensível às motivações e expectativas do paciente que nem sempre coincidem com o projeto terapêutico do analista A veracidade das queixas o grau de insight e a disposição para engajarse em um processo introspectivo são fatores críticos Paralelamente o terapeuta deve confrontar suas próprias limitações e reações emocionais evitando avaliações precipitadas baseadas em impressões superficiais Assim a entrevista inicial transcende sua função diagnóstica é um espaço de negociação simbólica no qual paciente e analista delineiam a possibilidade de uma jornada compartilhada 8 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista O papel do analista assume centralidade já na primeira entrevista momento em que ele se apresenta como profissional fundamentado em sua formação teórica e experiência clínica contudo para o paciente essa figura ainda não está consolidada como referência terapêutica É através da transferência processo no qual o paciente atribui ao analista emoções e expectativas originadas em relações passadas que se estabelece a possibilidade de reconhecêlo como guia no processo analítico Segundo Chemama 2002 esse fenômeno é estruturante nas entrevistas preliminares pois cria um vínculo que permite ao paciente confiar na direção proposta pelo tratamento mesmo em um contexto de incerteza inicial Nesse cenário as expectativas mútuas entre paciente e analista são determinantes para o avanço da terapia O paciente é convidado a assumir uma postura ativa engajandose de maneira autêntica na exploração de suas vivências emocionais Esse compromisso não se resume à verbalização de sintomas mas envolve a disposição para confrontar resistências e ambiguidades inerentes ao processo introspectivo Paralelamente cabe ao psicanalista definir com clareza suas motivações para acolher o caso delineando um projeto terapêutico que oriente suas intervenções Essa delimitação não é estática exige flexibilidade para adaptarse às demandas emergentes sem perder de vista os objetivos centrais do tratamento ZIMMERMAN 2004 A preparação do analista para lidar com desafios emocionais como situações transferenciais intensas ou manifestações de contratransferência é um pilar da prática clínica A empatia aliada ao reconhecimento das próprias limitações e reações inconscientes permite que ele sustente um ambiente seguro onde o paciente se sinta acolhido em sua vulnerabilidade Essa habilidade não se restringe à técnica envolve uma reflexão contínua sobre como as histórias pessoais do terapeuta podem influenciar sua escuta exigindo um equilíbrio delicado entre envolvimento e neutralidade Além disso o contexto físico e emocional em que o analista trabalha repercute diretamente na qualidade do atendimento no qual manter um ambiente organizado e garantir um equilíbrio entre vida profissional e pessoal não são meros detalhes operacionais mas condições essenciais para preservar a integridade do setting terapêutico 9 O autocuidado do analista incluindo a gestão do estresse e a supervisão regular assegura que ele esteja emocionalmente disponível para acolher as demandas complexas do paciente evitando esgotamento ou interferências prejudiciais assim a interação entre paciente e analista revelase uma teia de interdependências na qual a clareza técnica a ética do cuidado e a gestão das emoções se entrelaçam A primeira entrevista longe de ser um mero protocolo é um microcosmo desse processo nela avaliamse não apenas as condições psíquicas do paciente mas também a capacidade do analista de sustentar uma aliança terapêutica pautada pela confiança e pelo rigor metodológico Essa sintonia inicial quando bem conduzida lança as bases para um trabalho transformador onde a complexidade humana é abordada em sua plenitude ZIMMERMAN 2004 22 A EVOLUÇÃO DO DIAGNÓSTICO PSICANALÍTICO O diagnóstico psicanalítico contemporâneo configurase como um campo em constante evolução que busca transcender as classificações clássicas das doenças mentais Essa abordagem prioriza um entendimento profundo do paciente considerando não apenas os aspectos sintomáticos mas também as dinâmicas psíquicas subjacentes Nesse contexto a avaliação do prognóstico emerge como elemento central frequentemente realizada ao longo do processo analítico dinâmica que pode surpreender tanto o analista quanto o analisando revelando nuances que ultrapassam as expectativas iniciais e destacando a complexidade humana em sua busca por autoconhecimento Um dos critérios fundamentais nesse paradigma é o de acessibilidade que se concentra na motivação coragem e capacidade do paciente de permitir o acesso ao seu inconsciente ZIMMERMAN 2004 Essa compreensão é particularmente relevante na seleção de pacientes que à primeira vista podem ser considerados de difícil acesso como aqueles com regressões significativas ou paradoxalmente com estrutura psíquica aparentemente bem ajustada Para Bechara m m 2009 a psicanálise contemporânea tem se mostrado receptiva a configurações diversas adaptando técnicas e táticas para atender às necessidades específicas de cada indivíduo o que reforça sua flexibilidade como ferramenta terapêutica Observase ainda uma diminuição progressiva dos critérios de contraindicação na prática clínica atual refletindo maior abertura à diversidade de 10 pacientes Questões como a idade antes vistas como limitantes são agora abordadas com relativismo permitindo a inclusão de crianças e idosos no tratamento psicanalítico com resultados positivos Além disso a psicanálise contemporânea não hesita em enfrentar situações críticas como quadros emocionais agudos integrandose a outros recursos como psicofármacos em uma abordagem holística que busca eficácia sem abandonar a profundidade analítica O diagnóstico clínico psicanalítico é permeado por um relativismo acentuado no qual condições aparentemente alarmantes como uma reação esquizofrênica aguda podem ter prognóstico favorável se manejadas com competência técnica enquanto neuroses crônicas podem apresentar desafios imprevistos Essa dualidade exige do analista um olhar crítico e atento capaz de discernir as nuances singulares de cada caso sem se apoiar em generalizações Entretanto algumas contraindicações permanecem inegáveis como a degenerescência mental a incapacidade de abstração e casos com motivações distorcidas Em situações de avaliação inicial inconclusiva a análise de prova surge como alternativa viável Essa abordagem que prolonga a entrevista inicial permite uma reflexão mais detalhada sobre as condições do paciente antes da formalização do contrato analítico assegurando que ambos analista e analisando possam estabelecer um vínculo seguro e comprometido Essas práticas alinhamse à Resolução CFP nº 0052025 que enfatiza a supervisão e orientação de estágios em Psicologia com base em fundamentação teórica e ética A psicanálise contribui não apenas com técnicas específicas mas com uma postura clínica que valoriza a alteridade o silêncio a história singular e o tempo subjetivo Essa escuta ética associada ao rigor técnico oferece ao profissional de Psicologia uma base sólida para atuar em contextos clínicos diversos mantendo o compromisso com o sofrimento humano em sua complexidade e singularidade Assim a psicanálise reafirma seu papel na saúde mental contemporânea um campo que se reinventa e se amplia acolhendo a diversidade de pacientes e integrandose a marcos regulatórios que fortalecem a formação crítica e ética dos futuros psicólogos ZIMMERMAN 2004 11 23 REGRAS PSICANALÍTICAS DA ATUALIDADE A evolução das regras fundamentais da psicanálise ao longo do tempo reflete as transformações nas dinâmicas sociais e nas expectativas dos pacientes A regra da livre associação de ideias que enfatiza a verbalização espontânea por parte do paciente mantém sua centralidade mas sua aplicação prática tem se adaptado às demandas atuais Hoje os analistas reconhecem a necessidade de criar um ambiente terapêutico que favoreça não apenas a expressão livre mas também a autenticidade considerando a diversidade de experiências e a complexidade das questões contemporâneas trazidas pelos pacientes Essa adaptação não descaracteriza a técnica mas amplia sua capacidade de acolher subjetividades em contextos cada vez mais pluralizados ZIMMERMAN 2004 A regra da abstinência tradicionalmente associada à contenção de gratificações pessoais por parte do analista tem sido reinterpretada em um cenário clínico que valoriza a empatia e a conexão humana Embora sua essência evitar satisfações substitutivas que desviem o foco do processo analítico permaneça válida a prática contemporânea enfrenta o desafio de equilibrar essa contenção com a construção de uma relação de confiança e segurança Essa tensão produtiva permite que a relação analítica transcenda a função meramente interpretativa tornandose um espaço de interação genuína onde a vulnerabilidade é reconhecida como parte integrante do trabalho terapêutico SOUZA COELHO 2012 Por outro lado Zimerman 2004 também afirma que a regra da neutralidade que historicamente exigia um distanciamento emocional do analista é revisitada à luz de abordagens que defendem maior transparência na relação terapêutica Isso não implica a perda da postura técnica mas o reconhecimento de que a neutralidade pode coexistir com uma presença mais autêntica O analista contemporâneo ao acolher suas próprias emoções e reações contratransferenciais pode oferecer uma escuta mais engajada sem abandonar o rigor metodológico Essa flexibilidade não enfraquece o setting mas o torna mais sensível às nuances afetivas que emergem no processo A ênfase na verdade e na honestidade incorporada como uma quinta regra em discussões recentes responde à demanda por autenticidade nas relações terapêuticas pois os pacientes buscam não apenas uma análise técnica mas uma conexão que os auxilie a navegar realidades emocionais complexas marcadas por 12 incertezas e paradoxos da vida moderna Essa dimensão exige que analista e paciente se envolvam em um processo de descoberta mútua onde a honestidade tanto sobre limites quanto sobre possibilidades fortalece a aliança terapêutica Assim as regras psicanalíticas embora preservem seu núcleo ético e técnico demandam revisão contínua para dialogar com as transformações sociais e científicas A prática clínica atual ao integrar essas adaptações não apenas honra o legado freudiano mas assegura que a psicanálise permaneça relevante como ferramenta de compreensão e intervenção diante das complexidades humanas do século XXI 231 Regra da abstinência A regra da abstinência formulada por Freud em 1915 surgiu em resposta ao desenvolvimento de vínculos eróticos entre pacientes histéricas e analistas em um período em que as análises eram breves Com a expansão da psicanálise e o aumento das críticas sobre a sexualidade na prática clínica Freud viu a necessidade de estabelecer limites claros para evitar envolvimentos sexuais entre analistas e analisandos Em 1912 ele começa a esboçar essa diretriz preocupado com a integridade ética da psicanálise A abstinência implica que o psicanalista deve absterse de qualquer atividade além da interpretação proibindo gratificações externas e preservando o anonimato do paciente posição reforçada por Freud em 1918 em seus escritos sobre terapias psicanalíticas ZIMMERMAN 2004 Ressaltase a relevância da abstinência analítica conforme proposta por Freud que defende que os analistas evitem gratificações externas e intervenções significativas na vida dos pacientes durante o tratamento Para ele era imperativo que os pacientes não tomassem decisões importantes como escolhas profissionais ou amorosas sem uma análise prévia a fim de evitar que impulsos inconscientes fossem mal direcionados protegendoos de possíveis danos Entretanto críticas contemporâneas apontam que a interpretação rígida dessa recomendação pode levar a um distanciamento excessivo entre analista e analisando prejudicando o tratamento A preocupação freudiana com envolvimentos emocionais e sexuais embora válida corre o risco de ser aplicada de forma extremada gerando uma dinâmica fóbica que compromete a aliança terapêutica ZIMMERMAN 2004 13 Com a evolução da prática psicanalítica observase uma mudança significativa no perfil emocional e situacional dos pacientes assim como nas condições sociológicas e econômicas em que a análise ocorre Muitos analistas contemporâneos adotam portanto uma postura mais flexível promovendo um ambiente acolhedor e interativo sem abandonar a estrutura normativa do setting analítico Argumentase que a rigidez na aplicação das diretrizes originais de Freud pode criar um clima de falsidade e paranoia Assim uma abordagem adaptativa e humanizada é considerada essencial nas práticas atuais permitindo que analistas se conectem de maneira autêntica com seus pacientes fator que pode potencializar a eficácia do processo terapêutico O conceito de amor de transferência na psicanálise evidencia a evolução das práticas desde Freud destacando os riscos de envolvimento emocional entre analista e paciente A abstinência do psicanalista permanece crucial para evitar a gratificação de desejos que refletem carências do próprio terapeuta não do paciente É fundamental diferenciar curiosidades patológicas que demandam interpretação daquelas saudáveis que merecem acolhimento como expressões genuínas do sujeito Além disso as atitudes em relação a encontros sociais entre analistas e pacientes modificaramse antes rigidamente evitados hoje são abordados com maior flexibilidade ainda que cautelosa Zimerman 2004 aponta essa mudança a qual reflete uma adaptação às demandas contemporâneas sem descuidar dos princípios éticos que preservam a integridade do vínculo terapêutico 232 Regra da atenção flutuante A regra da atenção flutuante proposta por Freud estabelece um princípio fundamental para a prática analítica implicando a criação de condições que favoreçam uma comunicação autêntica entre os inconscientes do analista e do paciente Bion amplia essa concepção ao destacar o papel da intuição frequentemente obscurecida pela ênfase excessiva na percepção sensorial como ferramenta essencial para decifrar as camadas simbólicas do discurso ZIMMERMAN 2004 Uma das dificuldades centrais para o analista reside em sua capacidade de se desvincular de desejos e memórias pessoais durante o processo Embora seja natural que emoções surjam é importante que o terapeuta mantenha clareza sobre 14 esses sentimentos discriminando adequadamente entre suas experiências subjetivas e as dinâmicas transferenciais em jogo Essa distinção preserva a neutralidade técnica e assegura que as intervenções estejam alinhadas às necessidades do paciente evitando projeções que comprometam a eficácia terapêutica A prática psicanalítica exige assim uma dissociação útil habilidade de reconhecer e diferenciar as diversas áreas do mapa psíquico do analista incluindo emoções que emergem durante a sessão Essa dissociação sustenta tanto a teorização flutuante entendida como a capacidade de elaborar hipóteses sem fixação prévia quanto à atenção flutuante que consiste em uma escuta aberta a múltiplos significados Esses mecanismos facilitam a conexão com a realidade externa e com o inconsciente permitindo uma escuta intuitiva que capta nuances escapadas a abordagens lineares SOUZA COELHO 2012 Por outro lado uma atenção excessivamente direcionada pode levar a um estado patogênico no qual o analista busca informações irrelevantes à situação analítica movido por curiosidade pessoal ou necessidade de controle Essa postura desvia o foco do trabalho terapêutico e pode gerar vínculos transferenciais prejudiciais nos quais as projeções do analista contaminam a relação Além disso a tentativa de manter a atenção flutuante de forma rigorosa pode gerar desconforto e sensação de fracasso no analista já que divagações e distrações são inevitáveis durante as sessões A flexibilidade mental tornase portanto um elementochave pois ela permite que o analista navegue entre suas próprias emoções e as dinâmicas do setting terapêutico ajustandose às flutuações do processo sem perder a postura técnica necessária Essa habilidade reconhece que a eficácia reside no equilíbrio entre disciplina clínica e adaptação às contingências humanas ZIMMERMAN 2004 233 Regra da neutralidade A regra da neutralidade conforme proposta por Freud é um princípio essencial na psicanálise sugerindo que o psicanalista deve atuar como um espelho opaco refletindo apenas o conteúdo apresentado pelo paciente e evitando expor suas próprias emoções Embora o termo neutralidade não seja frequente em seus textos Freud defende uma postura imparcial distante da indiferença que poderia prejudicar o processo analítico Essa neutralidade inclui a gestão dos desejos do 15 analista permitindo uma interação aberta e profunda com o paciente o que cria um ambiente favorável à exploração emocional e psicológica PINHEIRO 1999 Contudo a regra da neutralidade tem sido reavaliada na prática contemporânea distante da visão tradicional de Freud que comparava o analista a um espelho mecânico Atualmente entendese que o analista deve funcionar como um espelho que possibilita ao paciente uma reflexão abrangente sobre si mesmo sem que isso implique a supressão total de sua subjetividade A neutralidade é reconhecida como um ideal inatingível já que o analista inevitavelmente traz suas crenças valores e perspectivas para a relação terapêutica influenciando dinâmicas interpretativas e escolhas técnicas ZIMMERMAN 2004 O envolvimento afetivo do terapeuta desde que não se torne patológico é considerado essencial para estabelecer uma aliança terapêutica significativa As escolhas interpretativas como decidir quando intervir ou como formular uma interpretação revelam a subjetividade inerente à prática demonstrando que a neutralidade não se traduz em ausência de posicionamento mas em um equilíbrio entre acolhimento e contenção Essa postura permite que o paciente se sinta reconhecido em sua singularidade ao mesmo tempo que preserva o espaço analítico como um campo de investigação livre de projeções excessivas do terapeuta Assim a neutralidade na psicanálise contemporânea não nega a influência do analista mas reconhece a complexidade de sua função ser um interlocutor que mesmo com suas limitações humanas mantém o foco no processo de desvelamento do inconsciente equilibrando técnica e sensibilidade ZIMMERMAN 2004 234 Regra do amor à verdade A psicanálise segundo Freud fundamentase na verdade e na ética sendo a honestidade do psicanalista um elemento fundamental para promover mudanças significativas nos pacientes O terapeuta deve evitar julgamentos sobre terceiros já que os pacientes podem induzir quebras éticas por meio de projeções ou tentativas de envolver o analista em dinâmicas externas à terapia Um dilema recorrente é o envolvimento amoroso entre terapeuta e paciente tratado com rigor por sociedades psicanalíticas para preservar a integridade da relação analítica Dessa forma a ética e a verdade configuramse como pilares indissociáveis da prática freudiana 16 A discussão sobre transgressões éticas e sexuais na psicanálise revela um campo marcado por tensões e controvérsias conforme destacado por Daniel Widlocher expresidente da Associação Psicanalítica Internacional IPA Ele argumenta que tais transgressões não devem ser simplificadas como meros erros ou pecados irreparáveis mas sim compreendidas como fenômenos complexos que exigem análise crítica Widlocher observa ainda que transgressões éticas como vínculos românticos não consumados entre analistas e pacientes que frequentemente permanecem ocultas apesar de seu impacto relevante Freud já enfatizava a necessidade de honestidade mútua afirmando que a falta de verdade por parte do analista comprometeria a eficácia do tratamento corroendo a confiança essencial ao processo Complementando essa perspectiva Bion introduz a reflexão sobre a análise de indivíduos que utilizam a mentira como mecanismo de defesa Ele ressalta que a verdade é um elemento vital para a saúde psíquica comparandoa a um alimento indispensável e sua ausência levaria à deterioração do psiquismo Assim a abordagem psicanalítica da verdade deve transcender o moralismo focandose na construção de uma atitude autêntica que permita ao paciente alcançar liberdade interna e engajarse plenamente no processo analítico ZIMERMAN 2004 A preservação do setting analítico é outro aspecto essencial pois garante a estruturação da relação terapêutica mantendo a assimetria necessária entre os papéis de analista e paciente O enquadre estabelece limites claros e promove o princípio da realidade contrapondose ao princípio do prazer que muitas vezes domina a subjetividade do paciente Essa estrutura é especialmente crítica no trabalho com pacientes regressivos que podem enfrentar dificuldades em lidar com limites e frustrações No entanto é fundamental evitar uma rigidez excessiva na aplicação dessas regras pois isso pode gerar uma atmosfera coercitiva prejudicando a aliança terapêutica A própria prática de Freud ilustra a complexidade desse equilíbrio que frequentemente flexibilizava suas próprias recomendações adotando abordagens não convencionais que refletiam o contexto histórico e teórico da psicanálise em sua época ZIMERMAN 2004 17 24 A COMPREENSÃO DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SOB A PERSPECTIVA DA PSICANÁLISE A análise do relacionamento interpessoal quando vista sob a ótica psicanalítica exige uma investigação minuciosa das forças inconscientes que moldam as interações humanas Essas forças muitas vezes surgem a partir de experiências precocemente vivenciadas na infância que ficam armazenadas no inconsciente e influenciam não apenas as emoções e comportamentos atuais mas também a maneira como os indivíduos percebem e se relacionam com os outros Este entendimento é fundamental para compreender questões como ciúmes inseguranças projeções e padrões de comunicação disfuncionais já que muitas dessas características têm raízes profundas e subconscientes Além disso essa abordagem permite uma compreensão mais abrangente dos conflitos internos que podem dificultar a construção de vínculos afetivos seguros e satisfatórios favorecendo processos de autoconhecimento que são essenciais tanto na clínica quanto na vida cotidiana De acordo com Freud 1900 as experiências formativas na infância não apenas moldam o desenvolvimento psíquico mas também deixam marcas que podem perdurar ao longo da vida influenciando todas as relações seguintes Essas experiências muitas vezes são reprimidas ou não totalmente resolvidas permanecendo no inconsciente e se manifestando através de sintomas ou padrões relacionais recorrentes na fase adulta Por exemplo uma criança que vivenciou negligência ou rejeição pode desenvolver uma ansiedade de separação ou padrões de busca de validação constantes na vida adulta Assim ao revisar e entender essas experiências e seus efeitos o terapeuta e o indivíduo podem trabalhar a resolução de conflitos internos promovendo relações mais saudáveis e equilibradas e uma melhor gestão emocional 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo Segundo Treiguer 2007 a compreensão da pulsão na psicanálise não se limita à sua força de impulso biológico mas deve ser entendida na relação com os 18 vínculos estabelecidos entre os indivíduos A pulsão como força reguladora das interações atua tanto na esfera consciente quanto na inconsciente moldando desejos necessidades e fantasias O desejo por sua vez é uma força que unifica o sujeito embora seja frequentemente influenciado por fatores externos como o alheio ou seja o outro suas expectativas desejos e projeções Essas dinâmicas complexas resultam na multiplicidade de emoções que experimentamos nas relações como novela de desejo medo mistério e insegurança que enriquecem ou dificultam o relacionamento dependendo de como são elaboradas e integradas 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais Ao analisar as relações amorosas sob a perspectiva simbólica e mitológica a narrativa bíblica de Adão e Eva serve como uma poderosa metáfora para entender a busca pela perfeição a ilusão de imortalidade e a vulnerabilidade inerente aos relacionamentos O desejo de ser igual a Deus simboliza a tentativa de superar os limites humanos o que na relação de casal pode refletir a busca por uma união idealizada que muitas vezes é inatingível A expulsão do Éden revela como a tentativa de alcançar essa perfeição pode resultar na fragilidade e na necessidade de aceitar a vulnerabilidade como parte fundamental do amor e da convivência Na perspectiva psicanalítica há a compreensão de que os casais frequentemente criam uma dinâmica de inseparabilidade na qual as diferenças individuais são minimizadas ou até negadas Para isso usam mecanismos de defesa como a cisão dividir aspectos positivos e negativos e a identificação projetiva que reduzem as diferenças ao transferir aspectos indesejados ou conflitantes para o outro Essa fusão embora possa parecer uma busca por completude tende a ser prejudicial a longo prazo pois impede o desenvolvimento da autonomia emocional e limita a autenticidade no relacionamento Quando essa fusão se torna excessiva a relação pode se transformar em uma ilusão de perfeição que ao se desmoronar leva ao conflito ou à crise de identidade de ambos os parceiros 19 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso De acordo com Pignataro FerrésCarneiro e Mello 2019 as alianças inconscientes estruturam as relações amorosas formando um sistema de funções que mantêm o vínculo e protegem os indivíduos de ameaças internas e externas Essas alianças que se originam na infância e nas primeiras experiências afetivas podem ser primárias secundárias defensivas ou criativasdestrutivas cada uma desempenhando papéis diferentes na vida psíquica e relacional Elas moldam percepções expectativas e comportamentos além de influenciar a forma como o parceiro é visto e tratado na relação Compreender esses mecanismos ajuda a desmistificar padrões repetitivos e a elaborar vínculos mais conscientes e satisfatórios promovendo maior autonomia emocional e resistência às dificuldades do cotidiano Dentro das alianças inconscientes existe o pacto denegativo também discutido na literatura psicanalítica referese a uma aliança inconsciente que os parceiros assumem muitas vezes de forma automática para proteger a relação de conflitos internos ou de demandas emocionais que podem ameaçála Essa aliança funciona por meio da mobilização de fantasias identificações e realidades psíquicas partilhadas que mantêm o vínculo mesmo que envolvam negação ou repressão de aspectos desagradáveis ou conflitantes Essa dinâmica atua como um mecanismo de defesa contribuindo para a estabilidade emocional do casal ao evitar confrontar certas verdades dolorosas mas também pode limitar o crescimento e a autenticidade na relação Além do pacto denegativo Pignataro FérresCarneiro e Mello 2019 descrevem os contratos inconscientes como entendimentos tácitos que emergem na relação estabelecendo limites expectativas e trocas que sustentam o vínculo Esses contratos podem ser conscientes ou inconscientes e dizem respeito às concessões mútuas necessárias para a convivência Enquanto os acordos representam negociações mais conscientes os pactos envolvem trocas intransmissíveis ou insuspeitas muitas vezes influenciadas por elementos da infância ou experiências passadas Essas dinâmicas facilitam ou dificultam a elaboração de desejos e necessidades moldando o modo como o casal enfrenta as dificuldades e constrói a sua história conjunta 20 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional Segundo Mondrzak 2007 a teoria de Bion destaca que os vínculos amorosos de ódio ou de conhecimento dependem do espaço psíquico chamado por ele de contenedor e do conteúdo emocional que nele reside O espaço psíquico funciona como um recipiente onde emoções e experiências conflitantes podem ser armazenadas elaboradas e integradas fortalecendo a relação As emoções como inveja ciúme raiva ou insegurança sentimentos típicos de uma relação conjugal não apenas emergem do conteúdo mas são moduladas pelo espaço psíquico que deve ser acolhedor para que os conflitos possam ser trabalhados de forma saudável Essa capacidade de acolhimento e elaboração emocional possibilita uma convivência mais madura empática e segura emocionalmente promovendo um vínculo mais sólido e autêntico No contexto de Bion a relação entre o analista e o espaço psíquico é fundamental para o processo terapêutico O analista ao atuar como um recipiente deve criar um espaço psíquico seguro e receptivo capaz de acolher e processar as experiências emoções e pensamentos do paciente Nesta teoria o analista é um facilitador do espaço psíquico criando uma condição em que o paciente possa explorar processar e integrar suas experiências internas de forma segura e significante Essa dinâmica é essencial para que o processo terapêutico seja efetivo e transformador 245 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional Na psicanálise a concepção de que o casal constitui uma unidade psíquica com estrutura própria traz reflexões importantes sobre a dinâmica do relacionamento Cada indivíduo traz para o casal seu desenvolvimento emocional suas carências suas dores e conflitos internos que ao interagirem podem resultar tanto em harmonia quanto em disfunções Quando há conflitos não resolvidos ou projeções esses fatores podem gerar uma relação disfuncional marcada por conflitos constantes ou mesmo por padrões de fusão excessiva onde os limites entre os parceiros se tornam difusos A intervenção clínica busca muitas vezes 21 desconstruir essas dinâmicas promovendo autonomia emocional e a compreensão dos acontecimentos internos de cada um além de favorecer uma relação mais equilibrada capaz de suportar conflitos de forma construtiva A participação em processos terapêuticos seja individual ou de casal muitas vezes revela ou provoca desequilíbrios na relação como ciúmes resistência às mudanças ou boicotes que surgem como mecanismos de defesa ou tentativas de manter o status quo Essas reações muitas vezes dificultam o avanço do tratamento e requerem atenção específica do terapeuta que deve trabalhar a compreensão dessas resistências promovendo maior autorreflexão e autoconhecimento A terapia assim atua como uma ferramenta de resistência e reconstrução emocional possibilitando a elaboração de conflitos a superação de obstáculos e a promoção de relações mais satisfatórias e maduras 3 METODOLOGIA A metodologia adotada neste estudo é fundamentada em princípios clássicos da psicanálise utilizando a técnica da associação livre como um dos pilares do processo terapêutico Essa técnica permite ao paciente expressar livremente seus pensamentos sentimentos e imagens sem censura ou restrições o que facilita a acessibilidade a conteúdos inconscientes Ao criar um espaço onde o paciente se sente à vontade para compartilhar suas ideias a associação livre se torna um meio poderoso para explorar as camadas mais profundas da psique A primeira entrevista desempenha um papel crucial nesse contexto uma vez que estabelece as bases para a relação analítica Neste encontro inicial o analista busca criar um ambiente de confiança e segurança onde o paciente se sinta confortável para se abrir É um momento de construção do vínculo onde se discutem as expectativas do tratamento e se delineiam os objetivos da terapia A receptividade e a empatia do analista são essenciais para fazer com que o paciente sinta que sua história e suas vivências são valorizadas Durante as sessões subsequentes a atenção flutuante do analista se torna uma prática fundamental Essa abordagem implica que o analista mantenha uma escuta atenta e flexível permitindo que sua atenção se mova entre diferentes temas e conteúdos que emergem das falas do paciente Essa atenção não é direcionada 22 apenas a pontos específicos mas busca captar nuances sentimentos e associações que possam surgir criando um espaço onde o paciente pode explorar livremente seu mundo interno A interpretação por sua vez é uma ferramenta vital que emerge desse processo Quando o analista oferece interpretações ele busca conectar os conteúdos manifestos do discurso do paciente com questões mais profundas e inconscientes Essas intervenções interpretativas têm o potencial de iluminar padrões de comportamento conflitos internos e dinâmicas emocionais que o paciente pode não ter consciência Através desse processo interpretativo o paciente é incentivado a refletir sobre suas experiências promovendo um entendimento mais profundo de si mesmo e facilitando o avanço do tratamento Assim a combinação da associação livre da construção do vínculo na primeira entrevista da atenção flutuante e das interpretações do analista cria um ambiente terapêutico rico e dinâmico propício para o processo de autoconhecimento e transformação psíquica do paciente Essa metodologia busca não apenas a resolução de sintomas mas a promoção de uma maior compreensão da própria subjetividade contribuindo para o desenvolvimento pessoal e emocional ao longo do tratamento 4 PROCESSO TERAPÊUTICO Na sessão de 290425 o paciente J relatou angústia no trabalho devido à pressão do chefe e à carga horária excessiva afetando sua vida familiar Ele enfrenta conflitos com a esposa que possui traumas da infância e preocupase com o comportamento do filho mais velho Apesar das dificuldades J demonstra motivação para o processo terapêutico e deseja explorar suas emoções melhorar a comunicação familiar e promover um ambiente mais saudável Na sessão de 060525 J expressou preocupações sobre a relação tensa entre sua esposa e sua mãe especialmente em relação a uma visita programada Ele também relatou um ambiente de trabalho insustentável devido à pressão do novo chefe apesar da recente promoção e a insatisfação com o salário J enfrenta desafios significativos em sua vida pessoal e profissional que serão explorados nas próximas sessões 23 Na sessão de 20052025 J expressou sobrecarga e falta de apoio no trabalho comparando as exigências de seu chefe e sua esposa Ele relatou frustrações na vida conjugal incluindo incertezas sobre o relacionamento e dificuldades financeiras atribuídas à esposa que geraram ansiedade e medo de perder a família Apesar das queixas J mostrou disposição para agir manifestando interesse em conversar diretamente com seu chefe sobre suas responsabilidades Na sessão de 29052025 J expressou preocupação com as mentiras de seu filho que nega responsabilidades refletindo uma personalidade forte que J reconhece em si mesmo Ele compartilhou sobre sua dependência emocional na infância e como sua relação com os pais influenciou seu comportamento além de relatar sua trajetória de mudança para Maringá e os desafios enfrentados ao se tornar pai J também recordou sua experiência de morar sozinho e a necessidade de se estabelecer uma nova vida com Érica e o filho que estava por vir Na sessão 030625 o paciente não compareceu sem justificar a sua falta Na sessão de 100625 J relatou sobrecarga de trabalho e os desafios emocionais causados pelas oscilações de humor de sua esposa Érica com quem ele enfrenta uma comunicação frágil e dinâmica de culpa Ele mencionou incidentes em que Érica projetou suas frustrações sobre ele evidenciando a ambivalência no relacionamento A sessão terminou com a proposta de explorar essas dinâmicas e focar na melhoria da comunicação e na compreensão mútua nas próximas conversas 41 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 29042025 O paciente J apresentouse na sessão realizada em 290425 Ele relatou angústia no trabalho motivada pela pressão exercida pelo chefe e pela carga horária excessiva o que resulta em pouco tempo para sua família Sua esposa expressa insatisfação com a falta de tempo que o marido dedica aos filhos e à situação financeira em que se encontram O paciente descreve sua esposa como uma pessoa difícil de lidar com quem tem enfrentado frequentes conflitos Ele menciona que ela foi criada apenas pela avó materna o que segundo ele contribui para traumas que dificultam a convivência entre eles As discussões se intensificam durante os dias de TPM e o paciente relata que utiliza um aplicativo para monitorar o ciclo menstrual da esposa tentando evitar conflitos nesses períodos Além disso o 24 paciente demonstra preocupação com o comportamento do filho mais velho que se envolveu em episódios de furto incluindo o roubo de dinheiro da irmã e a destruição de figurinhas na escola Essa situação o leva a refletir sobre a educação e o desenvolvimento moral da criança Apesar das dificuldades o paciente está motivado para o processo terapêutico e expressa interesse em continuar as sessões inclusive na modalidade online caso não seja possível realizar atendimentos presenciais Para as próximas sessões será importante explorar seus sentimentos de angústia e identificar as fontes de estresse melhorar a comunicação com a esposa discutir estratégias para equilibrar trabalho e vida familiar abordar o comportamento do filho e considerar formas de incentivar a esposa a buscar terapia respeitando sua resistência O paciente demonstra consciência das dinâmicas familiares que impactam seu bemestar emocional e está disposto a trabalhar nessas questões As futuras sessões deverão focar nas áreas mencionadas visando promover um ambiente familiar mais saudável 42 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 06052025 J chegou pontualmente às 17h e iniciou a conversa expressando suas preocupações sobre a relação da esposa com sua mãe Ele está apreensivo em relação à visita marcada para o próximo domingo à casa de seus pais Ao investigar essa apreensão J compartilhou um incidente recente durante um almoço na casa de sua mãe onde sua esposa o criticou por sua falta de compromisso com a casa e a família Sua mãe interveio questionando a esposa sobre a falta de reconhecimento e apoio o que levou a esposa a se retirar da mesa e solicitar a saída Perguntei a J sobre a situação atual com a esposa e ele mencionou que as coisas melhoraram um pouco mas a relação com a mãe ainda é tensa Ele expressou a preocupação de não querer deixar os filhos sob os cuidados da mãe uma vez que sua esposa só aceita deixálos com a mãe e a irmã J também revelou receios em deixar seu filho com o pai devido a temores de abuso embora não tenha confirmado se sua esposa já passou por essa experiência No que diz respeito à vida profissional J relatou que a situação com seu chefe se tornou insustentável Ele acredita que a recente mudança na gestão da rede de supermercados está gerando pressão por resultados imediatos e eficazes o que tem impactado negativamente a dinâmica com sua 25 equipe Apesar de ter recebido uma promoção recentemente J não está satisfeito com o salário pois não houve um aumento que correspondesse à nova função Ele suspeita que a empresa esteja realizando uma avaliação prometendo um aumento após seis meses caso os resultados esperados sejam atingidos A sessão foi encerrada destacando que J enfrenta desafios tanto em sua vida pessoal quanto profissional que precisam ser explorados e refletidos nas próximas sessões 43 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 20052025 Na sessão de hoje J apresentou uma série de queixas relacionadas à sua vida profissional e pessoal destacando a sensação de sobrecarga e a falta de apoio em ambas as esferas Ele relatou que está se sentindo pressionado no trabalho enfrentando um volume elevado de tarefas sem o devido suporte de seu chefe J mencionou que seu chefe propõe a necessidade de um bom desempenho mas paradoxalmente continua a sobrecarregálo com mais responsabilidades Fez uma comparação entre seu chefe e sua esposa ambos considerados sem lógica em suas exigências Em relação à sua vida conjugal J expressou frustração em relação à sua esposa citando um recente convite dela para não chegar tarde em casa mas sem clareza sobre o compromisso Ele observou que essa instabilidade gera ansiedade pois pode se tratar de um convite para um momento agradável ou uma conversa sobre separação J revelou que já considerou a separação em duas ocasiões mas uma oração em um momento de reflexão o levou a interpretar que deveria permanecer no casamento especialmente após a notícia da gravidez de sua filha J também trouxe à tona a dificuldade financeira que enfrenta atribuindo parte da culpa a sua esposa Ele explicou que após ela seguir um guru financeiro e fazer investimentos de alto risco acabou assumindo uma dívida significativa com a compra de um carro cujas parcelas se tornaram uma carga pesada comprometendo seu orçamento Atualmente J mencionou que não recebe ajuda dela para os gastos uma vez que ela também lida com suas próprias dívidas O medo de perder a esposa e os filhos é um tema recorrente em suas queixas J expressou preocupações sobre a possibilidade de sua esposa levar as crianças para morar com a família dela em Amaporã o que o angustia especialmente em relação à influência negativa que a família dela pode ter sobre os filhos Um aspecto positivo observado na sessão foi a disposição de J em agir de forma proativa Ele 26 demonstrou interesse em ter uma conversa direta com seu chefe para discutir suas preocupações e buscar um entendimento mais claro sobre suas responsabilidades 44 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 29052025 J Começou a sessão dizendo que seu filho está mentindo muito que isso está o preocupando Perguntei se as mentiras são histórias inventadas J Explicou que as mentiras são feitas a partir de uma discussão na qual ele faz uma coisa e nega ter feito Como por exemplo quando sua mãe reclamou que ele não tinha feito a tarefa e quando ele perguntou ele disse que havia feito só depois de muita insistência que admitiu não ter feito J disse que seu filho não tem muito gosto pelos estudos e que nisso é muito diferente dele Perguntei se tem coisas semelhantes com filho disse que sim a personalidade forte de confrontar os pais disse que é igual e que inclusive seu comportamento era diferente dos outros dois irmãos perguntei se era o mais velho ele disse que era o mais novo Lembrou de um dia que entrou em confronto com seu pai pois avisou que estava estava indo para uma festa em Astorga e seu pai disse que não iria ele então falou que estava apenas avisando Lembrou que seus pais faziam tudo por ele desde o levar a escola buscar e que por exemplo nunca cozinhou sendo isso uma das críticas que Érica sua esposa faz a ele Foi se sentir mais dependente quando deixou Marília e veio para Maringá estudar Perguntei então como foi que os seus pais vieram para Maringá Falou que ele passou no vestibular na UEM e veio morar com um primo dele no segundo ano de faculdade ele foi morar sozinho então primeiro veio sua mãe mas deixou bem claro que não queria ser vigiado depois veio seu pai sua irmã e seu cunhado Após a faculdade arrumou emprego em Astorga em uma usina Morava em um quarto com banheiro apenas Neste período engravidou a Érica então ela foi morar com seus pais e ele se viu obrigado a voltar e arrumar uma casa para morar junto com a Érica e seu filho que iria nascer 45 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 10062025 Na sessão de hoje J chegou com um atraso de 20 minutos justificandose com problemas relacionados ao serviço Ele também mencionou a ausência na sessão anterior devido a uma viagem durante a qual não teve acesso ao celular Ao 27 longo da conversa J expressou uma série de dificuldades que enfrenta tanto em sua vida profissional quanto no âmbito familiar Ele relatou uma sobrecarga significativa de trabalho mencionando a dificuldade em gerenciar sua carga horária o que parece impactar sua saúde mental e emocional refletindo um estado de estresse e cansaço J trouxe à tona a situação de sua esposa Érica que continua apresentando oscilações de humor Ao questionálo sobre o cansaço que isso poderia causar ele afirmou ter se acostumado e optado por uma postura passiva diante das oscilações dela Exemplos foram dados para ilustrar essa dinâmica em uma visita recente dos padrinhos do filho Érica começou a reclamar que ele não ajuda em casa J optou por se afastar da situação indicando uma estratégia de evitar conflitos Outro exemplo relevante foi o incidente em que seu filho se queimou com um ferro quente J relatou que Érica o culpou pela situação mesmo reconhecendo que ela deveria ter mais cuidado com a criança que estava sob sua responsabilidade na parte superior da casa Essa dinâmica de culpas parece ser um padrão recorrente no relacionamento onde Érica projeta suas frustrações em J Durante a sessão J foi questionado sobre a natureza do relacionamento com Érica Ele mencionou que embora tenham momentos de boa convivência a situação se torna complicada em momentos de tensão A comunicação entre eles parece frágil especialmente em situações emocionais delicadas J trouxe um episódio marcante de uma terapia de casal onde Érica respondeu não sei quando questionada se ainda se gostam evidenciando a ambivalência no relacionamento J relatou que sempre percebeu Érica com esse comportamento desde o início do relacionamento que começou na empresa onde trabalhavam A narrativa de como se conheceram sugere uma atração inicial mas também revela que desde o início houve uma desarmonia que pode ter se intensificado com o tempo A gravidez planejada e a mudança para a casa dos pais de Érica também foram pontos importantes trazendo à tona atritos familiares que contribuíram para a tensão no relacionamento A sessão foi encerrada com a proposta de retomar as questões levantadas nas próximas conversas permitindo que J reflita sobre as dinâmicas familiares e emocionais discutidas É fundamental continuar trabalhando na comunicação e na compreensão mútua entre J e Érica assim como explorar mais a fundo as questões de culpa e frustração que permeiam o relacionamento Os próximos passos incluem 28 explorar as dinâmicas de culpa e projeção de frustrações focar na melhoria da comunicação entre J e Érica e analisar o impacto da carga de trabalho na saúde emocional de J 46 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 17062025 J Se atrasou vinte minutos novamente Comecei a sessão lembrando de uma fala de J A qual dizia que alguma coisa o atraiu à Érica Então fiz a pergunta o que seria esse algo que o atraiu nela Respondeu que ela tinha algo que a sua ex namorada não tinha Perguntei o que seria Disse que teve duas namoradas antes da Érica e que a primeira era mais velha que ele e tinham pensamentos diferentes sobre a vida Ela pensava em casar pois já era formada e quando estava ainda na faculdade queria aproveitar mais a vida Então conheceu a segunda namorada e ficaram pouco tempo em torno de 9 meses Ela o achou para jantar e disse que não queria mais continuar ficou muito mal e mantinha contato com ela por mensagens até que um dia ela mandou uma mensagem falando que não queria mais conversar com ele para não dar esperanças foi aí que disse que tinha que deixar de ser trouxa e seguir sua vida e cortar contato com ela Disse que foi interessante pois neste dia que ele viu a Érica pela primeira vez mas apenas achou uma mulher bonita e admirou que ela trabalhando em um chão de fábrica onde os homens de todas as idades mexiam com ela sempre se deu ao respeito Então concluiu que a Érica diferente da antiga namorada sempre o respeitou Mesmo quando não namorava ela se dava ao respeito mantendo a distância das pessoas e até hoje é assim Sua antiga namorada era muito de brincar com as pessoas inclusive com homens isso o deixava e acreditava que se permanecesse com ela o deixaria inseguro Perguntei se quanto a palavra respeito o qual diz a Érica ter para com ele não se sente desrespeitado quando ela fala mal dele na frente dele para as outras pessoas Respondeu nisso sim é muito ruim isso que ela faz Perguntei se ele acredita que ela tem a imagem dele das reclamações que ela faz dele para as pessoas Respondeu que acha que sim mas também vê momentos em que ela é carinhosa com ele Continuou que percebe quando ela se frustra com alguma coisa no trabalho ela desconta nele mas acredita que ela tenha sentimento por ele Antes do namoro ela era apegada a ele e muito mais carinhosa quando nasceu seu primeiro filho ela se apegou demais e tinha nele uma fixação exagerada depois que nasceu 29 a filha deixou o filho de lado e tem essa fixação com a filha Como o tempo estava acabando concluí a sessão REFERÊNCIAS CHEMAMA R Psicanálise do cotidiano elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano Porto Alegre CMC Editora 2002 CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA Código de ética profissional do psicólogo Brasília DF 2005 Disponível em httpssitecfporgbrwpcontentuploads201207codigodeeticapsicologiapdf Acesso em 3 maio 2025 FREUD S A interpretação dos sonhos 1900 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2016 FREUD S História de uma neurose infantil o homem dos lobos Além do princípio do prazer e outros textos 19171920 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2010 FREUD Sigmund Obras completas volume 4 A interpretação dos sonhos Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2019 MONDRZAK Viviane Sprinz Processo psicanalítico e pensamento aproximando Bion e MatteBlanco Revista Brasileira de Psicanálise São Paulo v 41 n 3 set 2007 Disponível em httpspepsicbvsaludorgscielophppidS0486641X2007000300004 Acesso em Sex 20 de Junho PIGNATARO Marina Beatriz FÉRESCARNEIRO Terezinha MELLO Renata A formação do casal conjugal um enfoque psicanalítico Pensando Famílias Porto Alegre v 23 n 1 p 120 janjun 2019 Disponível em httpspepsicbvsaludorg Acesso em 20 de junho de 2025 SAMPAIO Alexandra de Oliveira A clínica de casal canalise das relações vinculares MIMESIS v 30 n2 2009 TREIGUER Lisie Ellwanger Moreira O paradoxo vincular no casal desejo constituição e morte Disponível em wwwcontemporâneoorgbrcontemporânea PHP 2007 Acesso em 20 de junho de 2025 30 ZASLAVSKY Jacó PIRES DOS SANTOS Manuel José Sobre o papel das identificações na relação amorosa Revista de Psicanálise SPPA Porto Alegre v II n 2 p 47514933 ago 1996 ZIMERMAN D E Manual de técnica psicanalítica um estudo teóricoclínico da entrevista inicial dos critérios de analisabilidade e do 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FACULDADE INGÁ CURSO DE PSICOLOGIA RODOLFO RODRIGO BENEDETTI RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL III CLÍNICA DE PSICOLOGIA UNINGÁ MARINGÁ 2025 1 RODOLFO RODRIGO BENEDETTI TESTES PSICOLÓGICOS CPM RAVEN Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e CMMS3 Escala de Maturidade Mental Colúmbia Relatório apresentado ao curso de Psicologia do Centro Universitário Ingá na disciplina de estágio de formação profissional III como requisito parcial para obtenção de nota no curso de Psicologia da faculdade INGÁ Prof Ms Bruna Luzia Garcia de Oliveira MARINGÁ 2025 2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO1 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA2 21 Primeiro contato e entrevista com o paciente3 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica3 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista5 22 A evolução do diagnóstico psicanalítico6 22 Regras psicanalíticas da atualidade8 221 Regra da abstinência9 222 Regra da atenção flutuante10 223 Regra da neutralidade11 224 Regra do amor à verdade12 23 3 1 INTRODUÇÃO O presente relatório tem como objetivo refletir sobre a experiência de estágio supervisionado em Psicologia com ênfase na prática clínica orientada pela abordagem psicanalítica e a partir da articulação entre teoria e prática buscase apresentar os principais fundamentos teóricos que sustentaram a atuação descrever a vivência do estágio e analisar criticamente os aspectos éticos e técnicos envolvidos no processo Conforme a Resolução n 62011CNEMEC o estágio supervisionado é um componente crucial na formação em Psicologia dividido em duas etapas o Estágio Supervisionado Básico realizado no 3 ano que se concentra na integração de competências por meio de visitas técnicas e observações e os Estágios Supervisionados de Formação desenvolvidos nos 4 e 5 anos voltados ao aprofundamento profissional em áreas específicas como clínica institucional escolar e organizacional Cada etapa é organizada por meio de projetos de ensino elaborados pelos professores supervisores os quais incluem justificativas competências a serem desenvolvidas métodos de trabalho e critérios de avaliação A supervisão ocorre na ClínicaEscola de Psicologia do Centro Universitário Ingá Uningá em grupos de até seis alunos com o propósito de promover uma formação crítica e prática para os futuros psicólogos Este relatório está alinhado à estrutura e regulamentação dos Estágios Supervisionados do curso de Psicologia da Uningá conforme descrito nos documentos institucionais Os alunos do 5º ano devem cumprir um total de 200 horas no Estágio de Formação III e 160 horas no Estágio de Formação IV com carga horária distribuída ao longo dos períodos letivos regulares sem previsão de interrupções para férias intermediárias Os estágios são formalizados por meio de instrumentos jurídicos entre o Centro Universitário Ingá e as instituições concedentes sendo realizados tanto na ClínicaEscola de Psicologia da Uningá quanto em instituições conveniadas como hospitais unidades básicas de saúde instituições de educação infantil e educação especial entre outras A supervisão dos estágios é de responsabilidade dos professores supervisores do supervisor de estágio e da coordenação do curso Os professores supervisores são docentes do curso de Psicologia atuando conforme suas áreas de formação e experiências profissionais e em casos específicos profissionais de áreas técnicas externas podem ser incluídos na supervisão mediante solicitação escrita e aprovação institucional Durante todo o processo o Código de Ética 1 Profissional do Psicólogo aprovado em agosto de 2005 pelo Conselho Federal de Psicologia serve como guia essencial para a prática profissional Este documento elaborado em um contexto de transformações sociais e demandas profissionais reforça princípios como o respeito à dignidade humana a promoção da saúde e a qualidade dos serviços psicológicos além de definir deveres proibições e penalidades para assegurar uma atuação ética e responsável A estrutura do relatório segue três eixos principais inicialmente uma fundamentação teórica baseada em autores da psicanálise seguida da descrição detalhada da experiência prática em contexto clínicoinstitucional Em seguida são discutidas as implicações éticas da atuação profissional conforme previsto no Código de Ética do Psicólogo e propõese uma análise crítica dos desafios e aprendizados construídos ao longo do estágio Por fim o texto conclui com considerações sobre a integração entre teoria prática e ética na formação do psicólogo ressaltando a importância do estágio supervisionado como espaço de consolidação do conhecimento e da identidade profissional 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A psicanálise desde seus fundamentos estabelecidos por Freud consolidou se como um campo teóricoclínico de grande complexidade enriquecido ao longo do século XX por contribuições de diversos autores Inicialmente Freud estruturou pilares centrais como o conceito de inconsciente a sexualidade infantil os mecanismos de defesa e a transferência que permanecem como eixos estruturantes da prática psicanalítica Em A Interpretação dos Sonhos 1900 obra seminal ele enfatiza a função do inconsciente na produção simbólica demonstrando que os processos psíquicos transcendem a consciência imediata Essa perspectiva revolucionária revela que o sujeito não é plenamente senhor de sua própria razão uma ideia que redefine a compreensão do sofrimento humano Ao reconhecer a dimensão inconsciente como núcleo da subjetividade Freud inaugurou uma metodologia clínica baseada na escuta atenta da singularidade do paciente e na valorização de sua narrativa Essa abordagem detalhada em suas obras Freud 2016 desloca a ênfase de interpretações normativas para uma prática que acolhe a ambiguidade e a multiplicidade de sentidos presentes no discurso Dessa forma a psicanálise não apenas ampliou o horizonte teórico sobre a 2 mente humana mas também estabeleceu um paradigma ético e técnico orientado pelo respeito à expressão individual legado que continuou a ser expandido e reinterpretado por gerações posteriores de analistas 21 Primeiro contato e entrevista com o paciente A comunicação não verbal constitui um elemento fundamental nas interações humanas sobretudo nas etapas iniciais de um relacionamento seja em âmbito pessoal ou profissional Essa forma de expressão que engloba gestos expressões faciais postura e movimentos corporais transcende a dimensão verbal revelando emoções genuínas e facilitando a construção de conexões mais profundas entre os indivíduos Durante os primeiros contatos a habilidade de decifrar esses sinais tornase especialmente relevante já que eles podem transmitir nuances como interesse confiança abertura ou resistência muitas vezes de maneira mais autêntica do que as palavras Zimerman2004 Além de expressar sentimentos a comunicação não verbal atua em paralelo à linguagem falada servindo como um complemento essencial para a clareza das mensagens Ao harmonizar gestos tom de voz e expressões com o conteúdo verbal reduzse o risco de ambiguidades e malentendidos permitindo que a intenção comunicativa seja transmitida com maior precisão Segundo Zimerman 2004 Essa sincronia entre o que é dito e o que é demonstrado corporalmente não apenas fortalece a credibilidade do emissor como também promove um diálogo mais coeso e empático Reconhecer a relevância desses elementos é portanto determinante para otimizar a qualidade das interações em diferentes contextos seja em uma negociação profissional no estabelecimento de vínculos afetivos ou em situações cotidianas a atenção aos sinais não verbais possibilita uma leitura mais integral do outro favorecendo relações baseadas em compreensão mútua e efetividade comunicativa 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica A entrevista inicial configurase como um momento decisivo na prática psicanalítica estabelecendo as bases para o relacionamento terapêutico e permitindo que tanto o analista quanto o paciente avaliem a compatibilidade e a viabilidade do tratamento Esse contato preliminar que pode se estender por mais 3 de um encontro dependendo das particularidades do paciente não se limita a uma mera formalidade Mesmo em situações em que o terapeuta já reconhece a impossibilidade de assumir um tratamento sistemático a realização de uma entrevista de avaliação mantém seu valor pois possibilita orientações ou encaminhamentos adequados preservando o compromisso ético com o cuidado Zimerman 2004 Para Zimerman 2004 será importante diferenciar a entrevista inicial da primeira sessão analítica pois enquanto a primeira ocorre antes da formalização do contrato terapêutico funcionando como um espaço de avaliação mútua a segunda marca o início efetivo da análise A profundidade e a duração dessa etapa variam conforme o repertório prévio do paciente aqueles familiarizados com o processo psicanalítico podem experienciar um fluxo mais ágil enquanto indivíduos que buscam alívio imediato para sintomas demandam uma abordagem mais cautelosa capaz de acolher ansiedades e expectativas não verbalizadas O objetivo central da entrevista inicial reside na avaliação das condições mentais emocionais e contextuais do paciente permitindo ao analista ponderar riscos e benefícios do tratamento Essa análise inclui a identificação da psicopatologia apresentada a elaboração de uma impressão diagnóstica e prognóstica e a atenção aos efeitos contratransferenciais que emergem na interação Nesse contexto o uso de classificações como o DSMIVTR que abrange aspectos sindrômicos transtornos de personalidade e estressores ambientais exige uma abordagem multidimensional integrando dimensões dinâmicas como conflitos inconscientes evolutivas histórico de desenvolvimento e comunicacionais formas de expressão e resistências Zimerman 2004 Além da avaliação técnica a entrevista demanda uma escuta sensível às motivações e expectativas do paciente que nem sempre coincidem com o projeto terapêutico do analista A veracidade das queixas o grau de insight e a disposição para engajarse em um processo introspectivo são fatores críticos Paralelamente o terapeuta deve confrontar suas próprias limitações e reações emocionais evitando avaliações precipitadas baseadas em impressões superficiais Assim a entrevista inicial transcende sua função diagnóstica é um espaço de negociação simbólica no qual paciente e analista delineiam a possibilidade de uma jornada compartilhada 4 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista O papel do analista assume centralidade já na primeira entrevista momento em que ele se apresenta como profissional fundamentado em sua formação teórica e experiência clínica contudo para o paciente essa figura ainda não está consolidada como referência terapêutica É através da transferência processo no qual o paciente atribui ao analista emoções e expectativas originadas em relações passadas que se estabelece a possibilidade de reconhecêlo como guia no processo analítico Segundo Chemama 2002 esse fenômeno é estruturante nas entrevistas preliminares pois cria um vínculo que permite ao paciente confiar na direção proposta pelo tratamento mesmo em um contexto de incerteza inicial Nesse cenário as expectativas mútuas entre paciente e analista são determinantes para o avanço da terapia O paciente é convidado a assumir uma postura ativa engajandose de maneira autêntica na exploração de suas vivências emocionais Esse compromisso não se resume à verbalização de sintomas mas envolve a disposição para confrontar resistências e ambiguidades inerentes ao processo introspectivo Paralelamente cabe ao psicanalista definir com clareza suas motivações para acolher o caso delineando um projeto terapêutico que oriente suas intervenções Essa delimitação não é estática exige flexibilidade para adaptarse às demandas emergentes sem perder de vista os objetivos centrais do tratamento Zimerman 2004 A preparação do analista para lidar com desafios emocionais como situações transferenciais intensas ou manifestações de contratransferência é um pilar da prática clínica A empatia aliada ao reconhecimento das próprias limitações e reações inconscientes permite que ele sustente um ambiente seguro onde o paciente se sinta acolhido em sua vulnerabilidade Essa habilidade não se restringe à técnica envolve uma reflexão contínua sobre como as histórias pessoais do terapeuta podem influenciar sua escuta exigindo um equilíbrio delicado entre envolvimento e neutralidade Além disso o contexto físico e emocional em que o analista trabalha repercute diretamente na qualidade do atendimento no qual manter um ambiente organizado e garantir um equilíbrio entre vida profissional e pessoal não são meros detalhes operacionais mas condições essenciais para preservar a integridade do setting terapêutico 5 O autocuidado do analista incluindo a gestão do estresse e a supervisão regular assegura que ele esteja emocionalmente disponível para acolher as demandas complexas do paciente evitando esgotamento ou interferências prejudiciais assim a interação entre paciente e analista revelase uma teia de interdependências na qual a clareza técnica a ética do cuidado e a gestão das emoções se entrelaçam A primeira entrevista longe de ser um mero protocolo é um microcosmo desse processo nela avaliamse não apenas as condições psíquicas do paciente mas também a capacidade do analista de sustentar uma aliança terapêutica pautada pela confiança e pelo rigor metodológico Essa sintonia inicial quando bem conduzida lança as bases para um trabalho transformador onde a complexidade humana é abordada em sua plenitude Zimerman 2004 22 A evolução do diagnóstico psicanalítico O diagnóstico psicanalítico contemporâneo configurase como um campo em constante evolução que busca transcender as classificações clássicas das doenças mentais Essa abordagem prioriza um entendimento profundo do paciente considerando não apenas os aspectos sintomáticos mas também as dinâmicas psíquicas subjacentes Nesse contexto a avaliação do prognóstico emerge como elemento central frequentemente realizada ao longo do processo analítico dinâmica que pode surpreender tanto o analista quanto o analisando revelando nuances que ultrapassam as expectativas iniciais e destacando a complexidade humana em sua busca por autoconhecimento Um dos critérios fundamentais nesse paradigma é o de acessibilidade que se concentra na motivação coragem e capacidade do paciente de permitir o acesso ao seu inconsciente Zimerman 2004 Essa compreensão é particularmente relevante na seleção de pacientes que à primeira vista podem ser considerados de difícil acesso como aqueles com regressões significativas ou paradoxalmente com estrutura psíquica aparentemente bem ajustada Para Bechara m m 2009 a psicanálise contemporânea tem se mostrado receptiva a configurações diversas adaptando técnicas e táticas para atender às necessidades específicas de cada indivíduo o que reforça sua flexibilidade como ferramenta terapêutica Observase ainda uma diminuição progressiva dos critérios de contraindicação na prática clínica atual refletindo maior abertura à diversidade de 6 pacientes Questões como a idade antes vistas como limitantes são agora abordadas com relativismo permitindo a inclusão de crianças e idosos no tratamento psicanalítico com resultados positivos Além disso a psicanálise contemporânea não hesita em enfrentar situações críticas como quadros emocionais agudos integrandose a outros recursos como psicofármacos em uma abordagem holística que busca eficácia sem abandonar a profundidade analítica O diagnóstico clínico psicanalítico é permeado por um relativismo acentuado no qual condições aparentemente alarmantes como uma reação esquizofrênica aguda podem ter prognóstico favorável se manejadas com competência técnica enquanto neuroses crônicas podem apresentar desafios imprevistos Essa dualidade exige do analista um olhar crítico e atento capaz de discernir as nuances singulares de cada caso sem se apoiar em generalizações Entretanto algumas contraindicações permanecem inegáveis como a degenerescência mental a incapacidade de abstração e casos com motivações distorcidas Em situações de avaliação inicial inconclusiva a análise de prova surge como alternativa viável Essa abordagem que prolonga a entrevista inicial permite uma reflexão mais detalhada sobre as condições do paciente antes da formalização do contrato analítico assegurando que ambos analista e analisando possam estabelecer um vínculo seguro e comprometido Essas práticas alinhamse à Resolução CFP nº 0052025 que enfatiza a supervisão e orientação de estágios em Psicologia com base em fundamentação teórica e ética A psicanálise contribui não apenas com técnicas específicas mas com uma postura clínica que valoriza a alteridade o silêncio a história singular e o tempo subjetivo Essa escuta ética associada ao rigor técnico oferece ao profissional de Psicologia uma base sólida para atuar em contextos clínicos diversos mantendo o compromisso com o sofrimento humano em sua complexidade e singularidade Assim a psicanálise reafirma seu papel na saúde mental contemporânea um campo que se reinventa e se amplia acolhendo a diversidade de pacientes e integrandose a marcos regulatórios que fortalecem a formação crítica e ética dos futuros psicólogos Zimerman2004 7 22 Regras psicanalíticas da atualidade A evolução das regras fundamentais da psicanálise ao longo do tempo reflete as transformações nas dinâmicas sociais e nas expectativas dos pacientes A regra da livre associação de ideias que enfatiza a verbalização espontânea por parte do paciente mantém sua centralidade mas sua aplicação prática tem se adaptado às demandas atuais Hoje os analistas reconhecem a necessidade de criar um ambiente terapêutico que favoreça não apenas a expressão livre mas também a autenticidade considerando a diversidade de experiências e a complexidade das questões contemporâneas trazidas pelos pacientes Essa adaptação não descaracteriza a técnica mas amplia sua capacidade de acolher subjetividades em contextos cada vez mais pluralizados Zimerman 2004 A regra da abstinência tradicionalmente associada à contenção de gratificações pessoais por parte do analista tem sido reinterpretada em um cenário clínico que valoriza a empatia e a conexão humana Embora sua essência evitar satisfações substitutivas que desviem o foco do processo analítico permaneça válida a prática contemporânea enfrenta o desafio de equilibrar essa contenção com a construção de uma relação de confiança e segurança Essa tensão produtiva permite que a relação analítica transcenda a função meramente interpretativa tornandose um espaço de interação genuína onde a vulnerabilidade é reconhecida como parte integrante do trabalho terapêutico Souza e Coelho 2012 Por outro lado Zimerman 2004 também afirma que a regra da neutralidade que historicamente exigia um distanciamento emocional do analista é revisitada à luz de abordagens que defendem maior transparência na relação terapêutica Isso não implica a perda da postura técnica mas o reconhecimento de que a neutralidade pode coexistir com uma presença mais autêntica O analista contemporâneo ao acolher suas próprias emoções e reações contratransferenciais pode oferecer uma escuta mais engajada sem abandonar o rigor metodológico Essa flexibilidade não enfraquece o setting mas o torna mais sensível às nuances afetivas que emergem no processo A ênfase na verdade e na honestidade incorporada como uma quinta regra em discussões recentes responde à demanda por autenticidade nas relações terapêuticas pois os pacientes buscam não apenas uma análise técnica mas uma conexão que os auxilie a navegar realidades emocionais complexas marcadas por 8 incertezas e paradoxos da vida moderna Essa dimensão exige que analista e paciente se envolvam em um processo de descoberta mútua onde a honestidade tanto sobre limites quanto sobre possibilidades fortalece a aliança terapêutica Assim as regras psicanalíticas embora preservem seu núcleo ético e técnico demandam revisão contínua para dialogar com as transformações sociais e científicas A prática clínica atual ao integrar essas adaptações não apenas honra o legado freudiano mas assegura que a psicanálise permaneça relevante como ferramenta de compreensão e intervenção diante das complexidades humanas do século XXI 221 Regra da abstinência A regra da abstinência formulada por Freud em 1915 surgiu em resposta ao desenvolvimento de vínculos eróticos entre pacientes histéricas e analistas em um período em que as análises eram breves Com a expansão da psicanálise e o aumento das críticas sobre a sexualidade na prática clínica Freud viu a necessidade de estabelecer limites claros para evitar envolvimentos sexuais entre analistas e analisandos Em 1912 ele começa a esboçar essa diretriz preocupado com a integridade ética da psicanálise A abstinência implica que o psicanalista deve absterse de qualquer atividade além da interpretação proibindo gratificações externas e preservando o anonimato do paciente posição reforçada por Freud em 1918 em seus escritos sobre terapias psicanalíticas Zimerman 2004 Ressaltase a relevância da abstinência analítica conforme proposta por Freud que defende que os analistas evitem gratificações externas e intervenções significativas na vida dos pacientes durante o tratamento Para ele era imperativo que os pacientes não tomassem decisões importantes como escolhas profissionais ou amorosas sem uma análise prévia a fim de evitar que impulsos inconscientes fossem mal direcionados protegendoos de possíveis danos Entretanto críticas contemporâneas apontam que a interpretação rígida dessa recomendação pode levar a um distanciamento excessivo entre analista e analisando prejudicando o tratamento A preocupação freudiana com envolvimentos emocionais e sexuais embora válida corre o risco de ser aplicada de forma extremada gerando uma dinâmica fóbica que compromete a aliança terapêutica Zimmerman 2004 9 Com a evolução da prática psicanalítica observase uma mudança significativa no perfil emocional e situacional dos pacientes assim como nas condições sociológicas e econômicas em que a análise ocorre Muitos analistas contemporâneos adotam portanto uma postura mais flexível promovendo um ambiente acolhedor e interativo sem abandonar a estrutura normativa do setting analítico Argumentase que a rigidez na aplicação das diretrizes originais de Freud pode criar um clima de falsidade e paranoia Assim uma abordagem adaptativa e humanizada é considerada essencial nas práticas atuais permitindo que analistas se conectem de maneira autêntica com seus pacientes fator que pode potencializar a eficácia do processo terapêutico O conceito de amor de transferência na psicanálise evidencia a evolução das práticas desde Freud destacando os riscos de envolvimento emocional entre analista e paciente A abstinência do psicanalista permanece crucial para evitar a gratificação de desejos que refletem carências do próprio terapeuta não do paciente É fundamental diferenciar curiosidades patológicas que demandam interpretação daquelas saudáveis que merecem acolhimento como expressões genuínas do sujeito Além disso as atitudes em relação a encontros sociais entre analistas e pacientes modificaramse antes rigidamente evitados hoje são abordados com maior flexibilidade ainda que cautelosa Zimerman 2004 aponta essa mudança a qual reflete uma adaptação às demandas contemporâneas sem descuidar dos princípios éticos que preservam a integridade do vínculo terapêutico 222 Regra da atenção flutuante A regra da atenção flutuante proposta por Freud estabelece um princípio fundamental para a prática analítica implicando a criação de condições que favoreçam uma comunicação autêntica entre os inconscientes do analista e do paciente Bion amplia essa concepção ao destacar o papel da intuição frequentemente obscurecida pela ênfase excessiva na percepção sensorial como ferramenta essencial para decifrar as camadas simbólicas do discurso Zimerman 2004 Uma das dificuldades centrais para o analista reside em sua capacidade de se desvincular de desejos e memórias pessoais durante o processo Embora seja natural que emoções surjam é importante que o terapeuta mantenha clareza sobre 10 esses sentimentos discriminando adequadamente entre suas experiências subjetivas e as dinâmicas transferenciais em jogo Essa distinção preserva a neutralidade técnica e assegura que as intervenções estejam alinhadas às necessidades do paciente evitando projeções que comprometam a eficácia terapêutica A prática psicanalítica exige assim uma dissociação útil habilidade de reconhecer e diferenciar as diversas áreas do mapa psíquico do analista incluindo emoções que emergem durante a sessão Essa dissociação sustenta tanto a teorização flutuante entendida como a capacidade de elaborar hipóteses sem fixação prévia quanto a atenção flutuante que consiste em uma escuta aberta a múltiplos significados Esses mecanismos facilitam a conexão com a realidade externa e com o inconsciente permitindo uma escuta intuitiva que capta nuances escapadas a abordagens lineares Souza e Coelho 2012 Por outro lado uma atenção excessivamente direcionada pode levar a um estado patogênico no qual o analista busca informações irrelevantes à situação analítica movido por curiosidade pessoal ou necessidade de controle Essa postura desvia o foco do trabalho terapêutico e pode gerar vínculos transferenciais prejudiciais nos quais as projeções do analista contaminam a relação Além disso a tentativa de manter a atenção flutuante de forma rigorosa pode gerar desconforto e sensação de fracasso no analista já que divagações e distrações são inevitáveis durante as sessões A flexibilidade mental tornase portanto um elementochave pois ela permite que o analista navegue entre suas próprias emoções e as dinâmicas do setting terapêutico ajustandose às flutuações do processo sem perder a postura técnica necessária Essa habilidade reconhece que a eficácia reside no equilíbrio entre disciplina clínica e adaptação às contingências humanas Zimerman2004 223 Regra da neutralidade A regra da neutralidade conforme proposta por Freud é um princípio essencial na psicanálise sugerindo que o psicanalista deve atuar como um espelho opaco refletindo apenas o conteúdo apresentado pelo paciente e evitando expor suas próprias emoções Embora o termo neutralidade não seja frequente em seus textos Freud defende uma postura imparcial distante da indiferença que poderia prejudicar o processo analítico Essa neutralidade inclui a gestão dos desejos do 11 analista permitindo uma interação aberta e profunda com o paciente o que cria um ambiente favorável à exploração emocional e psicológica Pinheiro 1999 Contudo a regra da neutralidade tem sido reavaliada na prática contemporânea distante da visão tradicional de Freud que comparava o analista a um espelho mecânico Atualmente entendese que o analista deve funcionar como um espelho que possibilita ao paciente uma reflexão abrangente sobre si mesmo sem que isso implique a supressão total de sua subjetividade A neutralidade é reconhecida como um ideal inatingível já que o analista inevitavelmente traz suas crenças valores e perspectivas para a relação terapêutica influenciando dinâmicas interpretativas e escolhas técnicas Zimerman 2004 O envolvimento afetivo do terapeuta desde que não se torne patológico é considerado essencial para estabelecer uma aliança terapêutica significativa As escolhas interpretativas como decidir quando intervir ou como formular uma interpretação revelam a subjetividade inerente à prática demonstrando que a neutralidade não se traduz em ausência de posicionamento mas em um equilíbrio entre acolhimento e contenção Essa postura permite que o paciente se sinta reconhecido em sua singularidade ao mesmo tempo que preserva o espaço analítico como um campo de investigação livre de projeções excessivas do terapeuta Assim a neutralidade na psicanálise contemporânea não nega a influência do analista mas reconhece a complexidade de sua função ser um interlocutor que mesmo com suas limitações humanas mantém o foco no processo de desvelamento do inconsciente equilibrando técnica e sensibilidade Zimmerman 2004 224 Regra do amor à verdade A psicanálise segundo Freud fundamentase na verdade e na ética sendo a honestidade do psicanalista um elemento fundamental para promover mudanças significativas nos pacientes O terapeuta deve evitar julgamentos sobre terceiros já que os pacientes podem induzir quebras éticas por meio de projeções ou tentativas de envolver o analista em dinâmicas externas à terapia Um dilema recorrente é o envolvimento amoroso entre terapeuta e paciente tratado com rigor por sociedades psicanalíticas para preservar a integridade da relação analítica Dessa forma a ética e a verdade configuramse como pilares indissociáveis da prática freudiana 12 A discussão sobre transgressões éticas e sexuais na psicanálise revela um campo marcado por tensões e controvérsias conforme destacado por Daniel Widlocher expresidente da Associação Psicanalítica Internacional IPA Ele argumenta que tais transgressões não devem ser simplificadas como meros erros ou pecados irreparáveis mas sim compreendidas como fenômenos complexos que exigem análise crítica Widlocher observa ainda que transgressões éticas como vínculos românticos não consumados entre analistas e pacientes que frequentemente permanecem ocultas apesar de seu impacto relevante Freud já enfatizava a necessidade de honestidade mútua afirmando que a falta de verdade por parte do analista comprometeria a eficácia do tratamento corroendo a confiança essencial ao processo Complementando essa perspectiva Bion introduz a reflexão sobre a análise de indivíduos que utilizam a mentira como mecanismo de defesa Ele ressalta que a verdade é um elemento vital para a saúde psíquica comparando a a um alimento indispensável e sua ausência levaria à deterioração do psiquismo Assim a abordagem psicanalítica da verdade deve transcender o moralismo focandose na construção de uma atitude autêntica que permita ao paciente alcançar liberdade interna e engajarse plenamente no processo analítico Zimerman 2004 A preservação do setting analítico é outro aspecto essencial pois garante a estruturação da relação terapêutica mantendo a assimetria necessária entre os papéis de analista e paciente O enquadre estabelece limites claros e promove o princípio da realidade contrapondose ao princípio do prazer que muitas vezes domina a subjetividade do paciente Essa estrutura é especialmente crítica no trabalho com pacientes regressivos que podem enfrentar dificuldades em lidar com limites e frustrações No entanto é fundamental evitar uma rigidez excessiva na aplicação dessas regras pois isso pode gerar uma atmosfera coercitiva prejudicando a aliança terapêutica A própria prática de Freud ilustra a complexidade desse equilíbrio que frequentemente flexibilizava suas próprias recomendações adotando abordagens não convencionais que refletiam o contexto histórico e teórico da psicanálise em sua época Zimerman 2004 13 23 24 A compreensão do relacionamento interpessoal sob a perspectiva da psicanálise A análise do relacionamento interpessoal quando vista sob a ótica psicanalítica exige uma investigação minuciosa das forças inconscientes que moldam as interações humanas Essas forças muitas vezes surgem a partir de experiências precocemente vivenciadas na infância que ficam armazenadas no inconsciente e influenciam não apenas as emoções e comportamentos atuais mas também a maneira como os indivíduos percebem e se relacionam com os outros Este entendimento é fundamental para compreender questões como ciúmes inseguranças projeções e padrões de comunicação disfuncionais já que muitas dessas características têm raízes profundas e subconscientes Além disso essa abordagem permite uma compreensão mais abrangente dos conflitos internos que podem dificultar a construção de vínculos afetivos seguros e satisfatórios favorecendo processos de autoconhecimento que são essenciais tanto na clínica quanto na vida cotidiana De acordo com Freud 1900 as experiências formativas na infância não apenas moldam o desenvolvimento psíquico mas também deixam marcas que podem perdurar ao longo da vida influenciando todas as relações seguintes Essas experiências muitas vezes são reprimidas ou não totalmente resolvidas permanecendo no inconsciente e se manifestando através de sintomas ou padrões relacionales recorrentes na fase adulta Por exemplo uma criança que vivenciou negligência ou rejeição pode desenvolver uma ansiedade de separação ou padrões 14 de busca de validação constantes na vida adulta Assim ao revisar e entender essas experiências e seus efeitos o terapeuta e o indivíduo podem trabalhar a resolução de conflitos internos promovendo relações mais saudáveis e equilibradas e uma melhor gestão emocional 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo Segundo Treiguer 2007 a compreensão da pulsão na psicanálise não se limita à sua força de impulso biológico mas deve ser entendida na relação com os vínculos estabelecidos entre os indivíduos A pulsão como força reguladora das interações atua tanto na esfera consciente quanto na inconsciente moldando desejos necessidades e fantasias O desejo por sua vez é uma força que unifica o sujeito embora seja frequentemente influenciado por fatores externos como o alheio ou seja o outro suas expectativas desejos e projeções Essas dinâmicas complexas resultam na multiplicidade de emoções que experimentamos nas relações como novela de desejo medo mistério e insegurança que enriquecem ou dificultam o relacionamento dependendo de como são elaboradas e integradas 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais Ao analisar as relações amorosas sob a perspectiva simbólica e mitológica a narrativa bíblica de Adão e Eva serve como uma poderosa metáfora para entender a busca pela perfeição a ilusão de imortalidade e a vulnerabilidade inerente aos relacionamentos O desejo de ser igual a Deus simboliza a tentativa de superar os limites humanos o que na relação de casal pode refletir a busca por uma união idealizada que muitas vezes é inatingível A expulsão do Éden revela como a 15 tentativa de alcançar essa perfeição pode resultar na fragilidade e na necessidade de aceitar a vulnerabilidade como parte fundamental do amor e da convivência Na perspectiva psicanalítica há a compreensão de que os casais frequentemente criam uma dinâmica de inseparabilidade na qual as diferenças individuais são minimizadas ou até negadas Para isso usam mecanismos de defesa como a cisão dividir aspectos positivos e negativos e a identificação projetiva que reduzem as diferenças ao transferir aspectos indesejados ou conflitantes para o outro Essa fusão embora possa parecer uma busca por completude tende a ser prejudicial a longo prazo pois impede o desenvolvimento da autonomia emocional e limita a autenticidade no relacionamento Quando essa fusão se torna excessiva a relação pode se transformar em uma ilusão de perfeição que ao se desmoronar leva ao conflito ou à crise de identidade de ambos os parceiros 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso De acordo com Pignataro FerrésCarneiro e Mello 2019 as alianças inconscientes estruturam as relações amorosas formando um sistema de funções que mantêm o vínculo e protegem os indivíduos de ameaças internas e externas Essas alianças que se originam na infância e nas primeiras experiências afetivas podem ser primárias secundárias defensivas ou criativasdestrutivas cada uma desempenhando papéis diferentes na vida psíquica e relacional Elas moldam percepções expectativas e comportamentos além de influenciar a forma como o parceiro é visto e tratado na relação Compreender esses mecanismos ajuda a desmistificar padrões repetitivos e a elaborar vínculos mais conscientes e satisfatórios promovendo maior autonomia emocional e resistência às dificuldades do cotidiano Dentro das alianças inconscientes existe o pacto denegativo também discutido na literatura psicanalítica referese a uma aliança inconsciente que os parceiros assumem muitas vezes de forma automática para proteger a relação de conflitos internos ou de demandas emocionais que podem ameaçála Essa aliança funciona por meio da mobilização de fantasias identificações e realidades psíquicas partilhadas que mantêm o vínculo mesmo que envolvam negação ou repressão de 16 aspectos desagradáveis ou conflitantes Essa dinâmica atua como um mecanismo de defesa contribuindo para a estabilidade emocional do casal ao evitar confrontar certas verdades dolorosas mas também pode limitar o crescimento e a autenticidade na relação Além do pacto denegativo Pignataro FérresCarneiro e Mello 2019 descrevem os contratos inconscientes como entendimentos tácitos que emergem na relação estabelecendo limites expectativas e trocas que sustentam o vínculo Esses contratos podem ser conscientes ou inconscientes e dizem respeito às concessões mútuas necessárias para a convivência Enquanto os acordos representam negociações mais conscientes os pactos envolvem trocas intransmissíveis ou insuspeitas muitas vezes influenciadas por elementos da infância ou experiências passadas Essas dinâmicas facilitam ou dificultam a elaboração de desejos e necessidades moldando o modo como o casal enfrenta as dificuldades e constrói a sua história conjunta 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional Segundo Mondrzak 2007 a teoria de Bion destaca que os vínculos amorosos de ódio ou de conhecimento dependem do espaço psíquico chamado por ele de contenedor e do conteúdo emocional que nele reside O espaço psíquico funciona como um recipiente onde emoções e experiências conflitantes podem ser armazenadas elaboradas e integradas fortalecendo a relação As emoções como inveja ciúme raiva ou insegurança sentimentos típicos de uma relação conjugal não apenas emergem do conteúdo mas são moduladas pelo espaço psíquico que deve ser acolhedor para que os conflitos possam ser trabalhados de forma saudável Essa capacidade de acolhimento e elaboração emocional possibilita uma convivência mais madura empática e segura emocionalmente promovendo um vínculo mais sólido e autêntico No contexto de Bion a relação entre o analista e o espaço psíquico é fundamental para o processo terapêutico O analista ao atuar como um recipiente deve criar um espaço psíquico seguro e receptivo capaz de acolher e processar as experiências emoções e pensamentos do paciente Nesta teoria o analista é um facilitador do espaço psíquico criando uma condição em que o paciente possa explorar processar e integrar suas experiências 17 internas de forma segura e significante Essa dinâmica é essencial para que o processo terapêutico seja efetivo e transformador 241 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional Na psicanálise a concepção de que o casal constitui uma unidade psíquica com estrutura própria traz reflexões importantes sobre a dinâmica do relacionamento Cada indivíduo traz para o casal seu desenvolvimento emocional suas carências suas dores e conflitos internos que ao interagirem podem resultar tanto em harmonia quanto em disfunções Quando há conflitos não resolvidos ou projeções esses fatores podem gerar uma relação disfuncional marcada por conflitos constantes ou mesmo por padrões de fusão excessiva onde os limites entre os parceiros se tornam difusos A intervenção clínica busca muitas vezes desconstruir essas dinâmicas promovendo autonomia emocional e a compreensão dos acontecimentos internos de cada um além de favorecer uma relação mais equilibrada capaz de suportar conflitos de forma construtiva A participação em processos terapêuticos seja individual ou de casal muitas vezes revela ou provoca desequilíbrios na relação como ciúmes resistência às mudanças ou boicotes que surgem como mecanismos de defesa ou tentativas de manter o status quo Essas reações muitas vezes dificultam o avanço do tratamento e requerem atenção específica do terapeuta que deve trabalhar a compreensão dessas resistências promovendo maior autorreflexão e autoconhecimento A terapia assim atua como uma ferramenta de resistência e reconstrução emocional possibilitando a elaboração de conflitos a superação de obstáculos e a promoção de relações mais satisfatórias e maduras 18 3 metodologia A metodologia adotada neste estudo é fundamentada em princípios clássicos da psicanálise utilizando a técnica da associação livre como um dos pilares do processo terapêutico Essa técnica permite ao paciente expressar livremente seus pensamentos sentimentos e imagens sem censura ou restrições o que facilita a acessibilidade a conteúdos inconscientes Ao criar um espaço onde o paciente se sente à vontade para compartilhar suas ideias a associação livre se torna um meio poderoso para explorar as camadas mais profundas da psique A primeira entrevista desempenha um papel crucial nesse contexto uma vez que estabelece as bases para a relação analítica Neste encontro inicial o analista busca criar um ambiente de confiança e segurança onde o paciente se sinta confortável para se abrir É um momento de construção do vínculo onde se discutem as expectativas do tratamento e se delineiam os objetivos da terapia A receptividade e a empatia do analista são essenciais para fazer com que o paciente sinta que sua história e suas vivências são valorizadas Durante as sessões subsequentes a atenção flutuante do analista se torna uma prática fundamental Essa abordagem implica que o analista mantenha uma escuta atenta e flexível permitindo que sua atenção se mova entre diferentes temas e conteúdos que emergem das falas do paciente Essa atenção não é direcionada apenas a pontos específicos mas busca captar nuances sentimentos e associações 19 que possam surgir criando um espaço onde o paciente pode explorar livremente seu mundo interno A interpretação por sua vez é uma ferramenta vital que emerge desse processo Quando o analista oferece interpretações ele busca conectar os conteúdos manifestos do discurso do paciente com questões mais profundas e inconscientes Essas intervenções interpretativas têm o potencial de iluminar padrões de comportamento conflitos internos e dinâmicas emocionais que o paciente pode não ter consciência Através desse processo interpretativo o paciente é incentivado a refletir sobre suas experiências promovendo um entendimento mais profundo de si mesmo e facilitando o avanço do tratamento Assim a combinação da associação livre da construção do vínculo na primeira entrevista da atenção flutuante e das interpretações do analista cria um ambiente terapêutico rico e dinâmico propício para o processo de autoconhecimento e transformação psíquica do paciente Essa metodologia busca não apenas a resolução de sintomas mas a promoção de uma maior compreensão da própria subjetividade contribuindo para o desenvolvimento pessoal e emocional ao longo do tratamento 4processo terapêutico Na sessão de 290425 o paciente J relatou angústia no trabalho devido à pressão do chefe e à carga horária excessiva afetando sua vida familiar Ele enfrenta conflitos com a esposa que possui traumas da infância e preocupase com o comportamento do filho mais velho Apesar das dificuldades J demonstra motivação para o processo terapêutico e deseja explorar suas emoções melhorar a comunicação familiar e promover um ambiente mais saudável Na sessão de 060525 J expressou preocupações sobre a relação tensa entre sua esposa e sua mãe especialmente em relação a uma visita programada Ele também relatou um ambiente de trabalho insustentável devido à pressão do novo chefe apesar da recente promoção e a insatisfação com o salário J enfrenta 20 desafios significativos em sua vida pessoal e profissional que serão explorados nas próximas sessões Na sessão de 20052025 J expressou sobrecarga e falta de apoio no trabalho comparando as exigências de seu chefe e sua esposa Ele relatou frustrações na vida conjugal incluindo incertezas sobre o relacionamento e dificuldades financeiras atribuídas à esposa que geraram ansiedade e medo de perder a família Apesar das queixas J mostrou disposição para agir manifestando interesse em conversar diretamente com seu chefe sobre suas responsabilidades Na sessão de 29052025 J expressou preocupação com as mentiras de seu filho que nega responsabilidades refletindo uma personalidade forte que J reconhece em si mesmo Ele compartilhou sobre sua dependência emocional na infância e como sua relação com os pais influenciou seu comportamento além de relatar sua trajetória de mudança para Maringá e os desafios enfrentados ao se tornar pai J também recordou sua experiência de morar sozinho e a necessidade de se estabelecer uma nova vida com Érica e o filho que estava por vir Na sessão 030625 o paciente não compareceu sem justificar a sua falta Na sessão de 100625 J relatou sobrecarga de trabalho e os desafios emocionais causados pelas oscilações de humor de sua esposa Érica com quem ele enfrenta uma comunicação frágil e dinâmicas de culpa Ele mencionou incidentes em que Érica projeta suas frustrações sobre ele evidenciando a ambivalência no relacionamento A sessão terminou com a proposta de explorar essas dinâmicas e focar na melhoria da comunicação e na compreensão mútua nas próximas conversas 21 Data 29042025 O paciente J apresentouse na sessão realizada em 290425 Ele relatou angústia no trabalho motivada pela pressão exercida pelo chefe e pela carga horária excessiva o que resulta em pouco tempo para sua família Sua esposa expressa insatisfação com a falta de tempo que o marido dedica aos filhos e à situação financeira em que se encontram O paciente descreve sua esposa como uma pessoa difícil de lidar com quem tem enfrentado frequentes conflitos Ele menciona que ela foi criada apenas pela avó materna o que segundo ele contribui para traumas que dificultam a convivência entre eles As discussões se intensificam durante os dias de TPM e o paciente relata que utiliza um aplicativo para monitorar o ciclo menstrual da esposa tentando evitar conflitos nesses períodos Além disso o paciente demonstra preocupação com o comportamento do filho mais velho que se envolveu em episódios de furto incluindo o roubo de dinheiro da irmã e a destruição de figurinhas na escola Essa situação o leva a refletir sobre a educação e o desenvolvimento moral da criança Apesar das dificuldades o paciente está motivado para o processo terapêutico e expressa interesse em continuar as sessões inclusive na modalidade online caso não seja possível realizar atendimentos presenciais Para as próximas sessões será importante explorar seus sentimentos de angústia e identificar as fontes de estresse melhorar a comunicação com a esposa discutir estratégias para equilibrar trabalho e vida familiar abordar o 22 comportamento do filho e considerar formas de incentivar a esposa a buscar terapia respeitando sua resistência O paciente demonstra consciência das dinâmicas familiares que impactam seu bemestar emocional e está disposto a trabalhar nessas questões As futuras sessões deverão focar nas áreas mencionadas visando promover um ambiente familiar mais saudável Data 06052025 J chegou pontualmente às 17h e iniciou a conversa expressando suas preocupações sobre a relação da esposa com sua mãe Ele está apreensivo em relação à visita marcada para o próximo domingo à casa de seus pais Ao investigar essa apreensão J compartilhou um incidente recente durante um almoço na casa de sua mãe onde sua esposa o criticou por sua falta de compromisso com a casa e a família Sua mãe interveio questionando a esposa sobre a falta de reconhecimento e apoio o que levou a esposa a se retirar da mesa e solicitar a saída Perguntei a J sobre a situação atual com a esposa e ele mencionou que as coisas melhoraram um pouco mas a relação com a mãe ainda é tensa Ele expressou a preocupação de não querer deixar os filhos sob os cuidados da mãe uma vez que sua esposa só aceita deixálos com a mãe e a irmã J também revelou receios em deixar seu filho com o pai devido a temores de abuso embora não tenha confirmado se sua esposa já passou por essa experiência No que diz respeito à vida profissional J relatou que a situação com seu chefe se tornou insustentável Ele acredita que a recente mudança na gestão da rede de supermercados está gerando pressão por resultados imediatos e eficazes o que tem impactado negativamente a dinâmica com sua equipe Apesar de ter recebido uma promoção recentemente J não está satisfeito com o salário pois não houve um aumento que correspondesse à nova função Ele 23 suspeita que a empresa esteja realizando uma avaliação prometendo um aumento após seis meses caso os resultados esperados sejam atingidos A sessão foi encerrada destacando que J enfrenta desafios tanto em sua vida pessoal quanto profissional que precisam ser explorados e refletidos nas próximas sessões Data 20052025 Na sessão de hoje J apresentou uma série de queixas relacionadas à sua vida profissional e pessoal destacando a sensação de sobrecarga e a falta de apoio em ambas as esferas Ele relatou que está se sentindo pressionado no trabalho enfrentando um volume elevado de tarefas sem o devido suporte de seu chefe J mencionou que seu chefe propõe a necessidade de um bom desempenho mas paradoxalmente continua a sobrecarregálo com mais responsabilidades Fez uma comparação entre seu chefe e sua esposa ambos considerados sem lógica em suas exigências Em relação à sua vida conjugal J expressou frustração em relação à sua esposa citando um recente convite dela para não chegar tarde em casa mas sem clareza sobre o compromisso Ele observou que essa instabilidade gera ansiedade pois pode se tratar de um convite para um momento agradável ou uma conversa sobre separação J revelou que já considerou a separação em duas ocasiões mas uma oração em um momento de reflexão o levou a interpretar que deveria permanecer no casamento especialmente após a notícia da gravidez de sua filha J também trouxe à tona a dificuldade financeira que enfrenta atribuindo parte da culpa a sua esposa Ele explicou que após ela seguir um guru financeiro e fazer investimentos de alto risco acabou assumindo uma dívida significativa com a compra de um carro cujas parcelas se tornaram uma carga pesada 24 comprometendo seu orçamento Atualmente J mencionou que não recebe ajuda dela para os gastos uma vez que ela também lida com suas próprias dívidas O medo de perder a esposa e os filhos é um tema recorrente em suas queixas J expressou preocupações sobre a possibilidade de sua esposa levar as crianças para morar com a família dela em Amaporã o que o angustia especialmente em relação à influência negativa que a família dela pode ter sobre os filhos Um aspecto positivo observado na sessão foi a disposição de J em agir de forma proativa Ele demonstrou interesse em ter uma conversa direta com seu chefe para discutir suas preocupações e buscar um entendimento mais claro sobre suas responsabilidades Data 29052025 J Comecou a sessão dizendo que seu filho esta mentindo muito que isso está o preocupando Perguntei se as mentiras são histórias inventadas J Explicou que as mentiras são feitas a partir de uma discussão na qual ele faz uma coisa e nega ter feito Como por exemplo quando sua mãe reclamou que ele não tinha feito a tarefa e quando ele perguntou ele disse que havia feito só depois de muita insistência que admitiu não ter feito J disse que seu filho não tem muito gosto pelos estudos e que nisso é muito diferente dele Perguntei se tem coisas semelhantes com filho disse que sim a personalidade forte de confrontar os pais disse que é igual e que inclusive seu comportamento era diferente dos outros dois irmãos pergunte se era o mais velho ele disse que era o mais novo Lembrou de um dia que entrou em confronto com seu pai pois avisou que eatava estava indo para uma festa em astorga e seu pai disse que nao iria ele então falou que estava apenas avisando Lembrou que seus pais fazia tudo por ele desde o levar a escola buscar e que por exemplo nunca cozinhou sendo isso uma das críticas que Érica sua esposa faz a ele Foi se sentir mais dependente quando deixou Marília e veio para Maringa estudar Perguntei entao como foi que os seus pais vieram para Maringá Falou que ele passou no vestibular na UEM e veio morar com um primo dele no segundo ano de faculdade ele foi morar sozinho entao primeiro veio sua mãe mas deixou bem 25 claro que nao queria ser vigiado depois veio seu pai e sua irmã e seu cunhado Após a faculdade arrumou emprego em Astorga em uma usina Morava em um quarto com banheiro apenas Neste período engravidou a Érica então ela foi morar com seus pais e ele se viu obrigado a voltar e arrumar uma casa para morar um junto com a Érica e seu filho que iria nascer Data 10062025 Na sessão de hoje J chegou com um atraso de 20 minutos justificandose com problemas relacionados ao serviço Ele também mencionou a ausência na sessão anterior devido a uma viagem durante a qual não teve acesso ao celular Ao longo da conversa J expressou uma série de dificuldades que enfrenta tanto em sua vida profissional quanto no âmbito familiar Ele relatou uma sobrecarga significativa de trabalho mencionando a dificuldade em gerenciar sua carga horária o que parece impactar sua saúde mental e emocional refletindo um estado de estresse e cansaço J trouxe à tona a situação de sua esposa Érica que continua apresentando oscilações de humor Ao questionálo sobre o cansaço que isso poderia causar ele afirmou ter se acostumado e optado por uma postura passiva diante das oscilações dela Exemplos foram dados para ilustrar essa dinâmica em uma visita recente dos padrinhos do filho Érica começou a reclamar que ele não ajuda em casa J optou por se afastar da situação indicando uma estratégia de evitar conflitos Outro exemplo relevante foi o incidente em que seu filho se queimou com um ferro quente J relatou que Érica o culpou pela situação mesmo reconhecendo que ela deveria ter mais cuidado com a criança que estava sob sua responsabilidade na 26 parte superior da casa Essa dinâmica de culpas parece ser um padrão recorrente no relacionamento onde Érica projeta suas frustrações em J Durante a sessão J foi questionado sobre a natureza do relacionamento com Érica Ele mencionou que embora tenham momentos de boa convivência a situação se torna complicada em momentos de tensão A comunicação entre eles parece frágil especialmente em situações emocionais delicadas J trouxe um episódio marcante de uma terapia de casal onde Érica respondeu não sei quando questionada se ainda se gostam evidenciando a ambivalência no relacionamento J relatou que sempre percebeu Érica com esse comportamento desde o início do relacionamento que começou na empresa onde trabalhavam A narrativa de como se conheceram sugere uma atração inicial mas também revela que desde o início houve uma desarmonia que pode ter se intensificado com o tempo A gravidez planejada e a mudança para a casa dos pais de Érica também foram pontos importantes trazendo à tona atritos familiares que contribuíram para a tensão no relacionamento A sessão foi encerrada com a proposta de retomar as questões levantadas nas próximas conversas permitindo que J reflita sobre as dinâmicas familiares e emocionais discutidas É fundamental continuar trabalhando na comunicação e na compreensão mútua entre J e Érica assim como explorar mais a fundo as questões de culpa e frustração que permeiam o relacionamento Os próximos passos incluem explorar as dinâmicas de culpa e projeção de frustrações focar na melhoria da comunicação entre J e Érica e analisar o impacto da carga de trabalho na saúde emocional de J Data 17062025 J Se atrazou vinte minutos novamente Cemecei a sessão lembrando de uma fala de J A qual dizia que alguma coisa o atraiu na Érica Então fiz a pergunta o que seria esse algo que o atraiu nela Respondeu que ela tinha algo que a sua ex namorada não tinha Perguntei o que seria Disse que teve duas namoradas antes da Érica e que a primeira era mais velha que ele e tinham pensamentos diferentes sobre a vida Ela pensava em casar pois já era formada e quando ele estava ainda 27 na faculdade e queria aproveita mais a vida Então conheceu a segunda namorada e ficaram pouco tempo em torno de 9 meses Ela o achou para jantar e disse que não queria mais continuar ficou muito mal e mantinha contato com ela por mensagens até que um dia ela mandou uma mensagem falando que não queria mais conversar com ele para não dar esperanças foi aí que disse que tinha que deixar de ser trouxa e seguir sua vida e cortar contato com ela Disse que foi interessante pois neste dia que ele viu a Érica pela primeira vez mas apenas achou uma mulher bonita e admirou que ela trabalhando em um chão de fábrica onde os homens de todas as idades mexiam com ela sempre se deu ao respeito Então concluiu que a Érica diferente da antiga namorada sempre o respeitou Mesmo quando não namorava ela se dava ao respeito mantendo a distância das pessoas e até hoje é assim Sua antiga namorada era muito de brincar com as pessoas inclusive com homens isso o deixava e acredita que se permanecesse com ela o deixaria inseguro Perguntei se quanto a palavra respeito o qual diz a Érica ter para com ele não sente desrespeitado quando ela fala mal dele na frente dele para as outras pessoas Respondeu nisso sim é muito ruim isso que ela faz Perguntei se ele acredita que ela tem a imagem dele das reclamações que ela faz dele para as pessoas Respondeu que acha que sim mas também vê momentos em que ela é carinhosa com ele Continuou que percebe quando ela se frustra com alguma coisa no trabalho ela desconta nele mas acredita que ela tenha sentimento por ele Antes do namoro ela era apegada a ele e muito mais carinhosa quando nasceu seu primeiro filho ela se apegou demais e tinha nele uma fixação exagerada depois que nasceu a filha deixou o filho de lado e tem essa fixação com a filha Como o tempo estava acabando concluí a sessão 28 Referencias 1 CHEMAMA R Psicanálise do cotidiano elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano Porto Alegre CMC Editora 2002 2 CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA Código de ética profissional do psicólogo Brasília DF 2005 Disponível em httpssitecfporgbrwpcontentuploads201207codigodeeticapsicologiapdf Acesso em 3 maio 2025 3 FREUD S A interpretação dos sonhos 1900 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2016 736 p 4 FREUD S História de uma neurose infantil o homem dos lobos Além do princípio do prazer e outros textos 19171920 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2010 192 p 29 5 MONDRZAK Viviane Sprinz Processo psicanalítico e pensamento aproximando Bion e MatteBlanco Revista Brasileira de Psicanálise São Paulo v 41 n 3 set 2007 Disponível em httpspepsicbvsaludorgscielophp pidS0486641X2007000300004 Acesso em Sex 20 de Junho 6 PIGNATARO Marina Beatriz FÉRESCARNEIRO Terezinha MELLO Renata A formação do casal conjugal um enfoque psicanalítico Pensando Famílias Porto Alegre v 23 n 1 p 120 janjun 2019 Disponível em httpspepsicbvsaludorg Acesso em sex 20 de junho 7 SAMPAIO Alexandra de Oliveira A clínica de casal canalise das relações vinculares mimesisV30n22009art01250618105356 2009 8 TREIGUER Lisie Ellwanger Moreira O paradoxo vincular no casal desejo constituição e morte Disponível em wwwcontemporâneoorgbrcontemporânea wwwcontemporâneoorgbrcontemporânea PHP 2007 Acesso em sex 20 de junho 9 ZASLAVSKY Jacó PIRES DOS SANTOS Manuel José Sobre o papel das identificações na relação amorosa Revista de Psicanálise SPPA Porto Alegre v II n 2 p 47514933 ago 1996 10 ZIMERMAN D E Manual de técnica psicanalítica um estudo teórico clínico da entrevista inicial dos critérios de analisabilidade e do contrato Porto Alegre Artmed 2004 442 p 30 FACULDADE INGÁ CURSO DE PSICOLOGIA RODOLFO RODRIGO BENEDETTI RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL III CLÍNICA DE PSICOLOGIA UNINGÁ MARINGÁ 2025 RODOLFO RODRIGO BENEDETTI TESTES PSICOLÓGICOS CPM RAVEN Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e CMMS3 Escala de Maturidade Mental Colúmbia Relatório apresentado ao curso de Psicologia do Centro Universitário Ingá na disciplina de estágio de formação profissional III como requisito parcial para obtenção de nota no curso de Psicologia da faculdade INGÁ Prof Ms Bruna Luzia Garcia de Oliveira MARINGÁ 2025 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO4 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA5 21 PRIMEIRO CONTATO E ENTREVISTA COM O PACIENTE6 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica6 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista8 22 A EVOLUÇÃO DO DIAGNÓSTICO PSICANALÍTICO9 23 REGRAS PSICANALÍTICAS DA ATUALIDADE11 231 Regra da abstinência12 232 Regra da atenção flutuante13 233 Regra da neutralidade14 234 Regra do amor à verdade15 24 A COMPREENSÃO DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SOB A PERSPECTIVA DA PSICANÁLISE17 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo17 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais18 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso18 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional 19 245 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional20 3 METODOLOGIA21 4 PROCESSO TERAPÊUTICO22 41 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2904202523 42 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 0605202524 43 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2005202525 44 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2905202525 45 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 1006202526 46 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 1706202527 REFERÊNCIAS28 4 1 INTRODUÇÃO O presente relatório tem como objetivo refletir sobre a experiência de estágio supervisionado em Psicologia com ênfase na prática clínica orientada pela abordagem psicanalítica e a partir da articulação entre teoria e prática buscase apresentar os principais fundamentos teóricos que sustentaram a atuação descrever a vivência do estágio e analisar criticamente os aspectos éticos e técnicos envolvidos no processo Conforme a Resolução n 62011CNEMEC o estágio supervisionado é um componente crucial na formação em Psicologia dividido em duas etapas o Estágio Supervisionado Básico realizado no 3 ano que se concentra na integração de competências por meio de visitas técnicas e observações e os Estágios Supervisionados de Formação desenvolvidos nos 4 e 5 anos voltados ao aprofundamento profissional em áreas específicas como clínica institucional escolar e organizacional Cada etapa é organizada por meio de projetos de ensino elaborados pelos professores supervisores os quais incluem justificativas competências a serem desenvolvidas métodos de trabalho e critérios de avaliação A supervisão ocorre na ClínicaEscola de Psicologia do Centro Universitário Ingá Uningá em grupos de até seis alunos com o propósito de promover uma formação crítica e prática para os futuros psicólogos Este relatório está alinhado à estrutura e regulamentação dos Estágios Supervisionados do curso de Psicologia da Uningá conforme descrito nos documentos institucionais Os alunos do 5º ano devem cumprir um total de 200 horas no Estágio de Formação III e 160 horas no Estágio de Formação IV com carga horária distribuída ao longo dos períodos letivos regulares sem previsão de interrupções para férias intermediárias Os estágios são formalizados por meio de instrumentos jurídicos entre o Centro Universitário Ingá e as instituições concedentes sendo realizados tanto na ClínicaEscola de Psicologia da Uningá quanto em instituições conveniadas como hospitais unidades básicas de saúde instituições de educação infantil e educação especial entre outras A supervisão dos estágios é de responsabilidade dos professores supervisores do supervisor de estágio e da coordenação do curso Os professores supervisores são docentes do curso de Psicologia atuando conforme suas áreas de formação e experiências profissionais e em casos específicos profissionais de áreas técnicas externas podem ser incluídos na supervisão mediante solicitação escrita e aprovação institucional Durante todo o processo o Código de Ética 5 Profissional do Psicólogo aprovado em agosto de 2005 pelo Conselho Federal de Psicologia serve como guia essencial para a prática profissional Este documento elaborado em um contexto de transformações sociais e demandas profissionais reforça princípios como o respeito à dignidade humana a promoção da saúde e a qualidade dos serviços psicológicos além de definir deveres proibições e penalidades para assegurar uma atuação ética e responsável A estrutura do relatório segue três eixos principais inicialmente uma fundamentação teórica baseada em autores da psicanálise seguida da descrição detalhada da experiência prática em contexto clínicoinstitucional Em seguida são discutidas as implicações éticas da atuação profissional conforme previsto no Código de Ética do Psicólogo e propõese uma análise crítica dos desafios e aprendizados construídos ao longo do estágio Por fim o texto conclui com considerações sobre a integração entre teoria prática e ética na formação do psicólogo ressaltando a importância do estágio supervisionado como espaço de consolidação do conhecimento e da identidade profissional 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A psicanálise desde seus fundamentos estabelecidos por Freud consolidou se como um campo teóricoclínico de grande complexidade enriquecido ao longo do século XX por contribuições de diversos autores Inicialmente Freud estruturou pilares centrais como o conceito de inconsciente a sexualidade infantil os mecanismos de defesa e a transferência que permanecem como eixos estruturantes da prática psicanalítica Em A Interpretação dos Sonhos 1900 obra seminal ele enfatiza a função do inconsciente na produção simbólica demonstrando que os processos psíquicos transcendem a consciência imediata Essa perspectiva revolucionária revela que o sujeito não é plenamente senhor de sua própria razão uma ideia que redefine a compreensão do sofrimento humano Ao reconhecer a dimensão inconsciente como núcleo da subjetividade Freud inaugurou uma metodologia clínica baseada na escuta atenta da singularidade do paciente e na valorização de sua narrativa Essa abordagem detalhada em suas obras FREUD 2016 desloca a ênfase de interpretações normativas para uma prática que acolhe a ambiguidade e a multiplicidade de sentidos presentes no discurso Dessa forma a psicanálise não apenas ampliou o horizonte teórico sobre a 6 mente humana mas também estabeleceu um paradigma ético e técnico orientado pelo respeito à expressão individual legado que continuou a ser expandido e reinterpretado por gerações posteriores de analistas 21 PRIMEIRO CONTATO E ENTREVISTA COM O PACIENTE A comunicação não verbal constitui um elemento fundamental nas interações humanas sobretudo nas etapas iniciais de um relacionamento seja em âmbito pessoal ou profissional Essa forma de expressão que engloba gestos expressões faciais postura e movimentos corporais transcende a dimensão verbal revelando emoções genuínas e facilitando a construção de conexões mais profundas entre os indivíduos Durante os primeiros contatos a habilidade de decifrar esses sinais tornase especialmente relevante já que eles podem transmitir nuances como interesse confiança abertura ou resistência muitas vezes de maneira mais autêntica do que as palavras ZIMMERMAN 2004 Além de expressar sentimentos a comunicação não verbal atua em paralelo à linguagem falada servindo como um complemento essencial para a clareza das mensagens Ao harmonizar gestos tom de voz e expressões com o conteúdo verbal reduzse o risco de ambiguidades e malentendidos permitindo que a intenção comunicativa seja transmitida com maior precisão Segundo Zimerman 2004 Essa sincronia entre o que é dito e o que é demonstrado corporalmente não apenas fortalece a credibilidade do emissor como também promove um diálogo mais coeso e empático Reconhecer a relevância desses elementos é portanto determinante para otimizar a qualidade das interações em diferentes contextos seja em uma negociação profissional no estabelecimento de vínculos afetivos ou em situações cotidianas a atenção aos sinais não verbais possibilita uma leitura mais integral do outro favorecendo relações baseadas em compreensão mútua e efetividade comunicativa 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica A entrevista inicial configurase como um momento decisivo na prática psicanalítica estabelecendo as bases para o relacionamento terapêutico e permitindo que tanto o analista quanto o paciente avaliem a compatibilidade e a viabilidade do tratamento Esse contato preliminar que pode se estender por mais 7 de um encontro dependendo das particularidades do paciente não se limita a uma mera formalidade Mesmo em situações em que o terapeuta já reconhece a impossibilidade de assumir um tratamento sistemático a realização de uma entrevista de avaliação mantém seu valor pois possibilita orientações ou encaminhamentos adequados preservando o compromisso ético com o cuidado ZIMMERMAN 2004 Para Zimerman 2004 será importante diferenciar a entrevista inicial da primeira sessão analítica pois enquanto a primeira ocorre antes da formalização do contrato terapêutico funcionando como um espaço de avaliação mútua a segunda marca o início efetivo da análise A profundidade e a duração dessa etapa variam conforme o repertório prévio do paciente aqueles familiarizados com o processo psicanalítico podem experienciar um fluxo mais ágil enquanto indivíduos que buscam alívio imediato para sintomas demandam uma abordagem mais cautelosa capaz de acolher ansiedades e expectativas não verbalizadas O objetivo central da entrevista inicial reside na avaliação das condições mentais emocionais e contextuais do paciente permitindo ao analista ponderar riscos e benefícios do tratamento Essa análise inclui a identificação da psicopatologia apresentada a elaboração de uma impressão diagnóstica e prognóstica e a atenção aos efeitos contratransferenciais que emergem na interação Nesse contexto o uso de classificações como o DSMIVTR que abrange aspectos sindrômicos transtornos de personalidade e estressores ambientais exige uma abordagem multidimensional integrando dimensões dinâmicas como conflitos inconscientes evolutivas histórico de desenvolvimento e comunicacionais formas de expressão e resistências ZIMMERMAN 2004 Além da avaliação técnica a entrevista demanda uma escuta sensível às motivações e expectativas do paciente que nem sempre coincidem com o projeto terapêutico do analista A veracidade das queixas o grau de insight e a disposição para engajarse em um processo introspectivo são fatores críticos Paralelamente o terapeuta deve confrontar suas próprias limitações e reações emocionais evitando avaliações precipitadas baseadas em impressões superficiais Assim a entrevista inicial transcende sua função diagnóstica é um espaço de negociação simbólica no qual paciente e analista delineiam a possibilidade de uma jornada compartilhada 8 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista O papel do analista assume centralidade já na primeira entrevista momento em que ele se apresenta como profissional fundamentado em sua formação teórica e experiência clínica contudo para o paciente essa figura ainda não está consolidada como referência terapêutica É através da transferência processo no qual o paciente atribui ao analista emoções e expectativas originadas em relações passadas que se estabelece a possibilidade de reconhecêlo como guia no processo analítico Segundo Chemama 2002 esse fenômeno é estruturante nas entrevistas preliminares pois cria um vínculo que permite ao paciente confiar na direção proposta pelo tratamento mesmo em um contexto de incerteza inicial Nesse cenário as expectativas mútuas entre paciente e analista são determinantes para o avanço da terapia O paciente é convidado a assumir uma postura ativa engajandose de maneira autêntica na exploração de suas vivências emocionais Esse compromisso não se resume à verbalização de sintomas mas envolve a disposição para confrontar resistências e ambiguidades inerentes ao processo introspectivo Paralelamente cabe ao psicanalista definir com clareza suas motivações para acolher o caso delineando um projeto terapêutico que oriente suas intervenções Essa delimitação não é estática exige flexibilidade para adaptarse às demandas emergentes sem perder de vista os objetivos centrais do tratamento ZIMMERMAN 2004 A preparação do analista para lidar com desafios emocionais como situações transferenciais intensas ou manifestações de contratransferência é um pilar da prática clínica A empatia aliada ao reconhecimento das próprias limitações e reações inconscientes permite que ele sustente um ambiente seguro onde o paciente se sinta acolhido em sua vulnerabilidade Essa habilidade não se restringe à técnica envolve uma reflexão contínua sobre como as histórias pessoais do terapeuta podem influenciar sua escuta exigindo um equilíbrio delicado entre envolvimento e neutralidade Além disso o contexto físico e emocional em que o analista trabalha repercute diretamente na qualidade do atendimento no qual manter um ambiente organizado e garantir um equilíbrio entre vida profissional e pessoal não são meros detalhes operacionais mas condições essenciais para preservar a integridade do setting terapêutico 9 O autocuidado do analista incluindo a gestão do estresse e a supervisão regular assegura que ele esteja emocionalmente disponível para acolher as demandas complexas do paciente evitando esgotamento ou interferências prejudiciais assim a interação entre paciente e analista revelase uma teia de interdependências na qual a clareza técnica a ética do cuidado e a gestão das emoções se entrelaçam A primeira entrevista longe de ser um mero protocolo é um microcosmo desse processo nela avaliamse não apenas as condições psíquicas do paciente mas também a capacidade do analista de sustentar uma aliança terapêutica pautada pela confiança e pelo rigor metodológico Essa sintonia inicial quando bem conduzida lança as bases para um trabalho transformador onde a complexidade humana é abordada em sua plenitude ZIMMERMAN 2004 22 A EVOLUÇÃO DO DIAGNÓSTICO PSICANALÍTICO O diagnóstico psicanalítico contemporâneo configurase como um campo em constante evolução que busca transcender as classificações clássicas das doenças mentais Essa abordagem prioriza um entendimento profundo do paciente considerando não apenas os aspectos sintomáticos mas também as dinâmicas psíquicas subjacentes Nesse contexto a avaliação do prognóstico emerge como elemento central frequentemente realizada ao longo do processo analítico dinâmica que pode surpreender tanto o analista quanto o analisando revelando nuances que ultrapassam as expectativas iniciais e destacando a complexidade humana em sua busca por autoconhecimento Um dos critérios fundamentais nesse paradigma é o de acessibilidade que se concentra na motivação coragem e capacidade do paciente de permitir o acesso ao seu inconsciente ZIMMERMAN 2004 Essa compreensão é particularmente relevante na seleção de pacientes que à primeira vista podem ser considerados de difícil acesso como aqueles com regressões significativas ou paradoxalmente com estrutura psíquica aparentemente bem ajustada Para Bechara m m 2009 a psicanálise contemporânea tem se mostrado receptiva a configurações diversas adaptando técnicas e táticas para atender às necessidades específicas de cada indivíduo o que reforça sua flexibilidade como ferramenta terapêutica Observase ainda uma diminuição progressiva dos critérios de contraindicação na prática clínica atual refletindo maior abertura à diversidade de 10 pacientes Questões como a idade antes vistas como limitantes são agora abordadas com relativismo permitindo a inclusão de crianças e idosos no tratamento psicanalítico com resultados positivos Além disso a psicanálise contemporânea não hesita em enfrentar situações críticas como quadros emocionais agudos integrandose a outros recursos como psicofármacos em uma abordagem holística que busca eficácia sem abandonar a profundidade analítica O diagnóstico clínico psicanalítico é permeado por um relativismo acentuado no qual condições aparentemente alarmantes como uma reação esquizofrênica aguda podem ter prognóstico favorável se manejadas com competência técnica enquanto neuroses crônicas podem apresentar desafios imprevistos Essa dualidade exige do analista um olhar crítico e atento capaz de discernir as nuances singulares de cada caso sem se apoiar em generalizações Entretanto algumas contraindicações permanecem inegáveis como a degenerescência mental a incapacidade de abstração e casos com motivações distorcidas Em situações de avaliação inicial inconclusiva a análise de prova surge como alternativa viável Essa abordagem que prolonga a entrevista inicial permite uma reflexão mais detalhada sobre as condições do paciente antes da formalização do contrato analítico assegurando que ambos analista e analisando possam estabelecer um vínculo seguro e comprometido Essas práticas alinhamse à Resolução CFP nº 0052025 que enfatiza a supervisão e orientação de estágios em Psicologia com base em fundamentação teórica e ética A psicanálise contribui não apenas com técnicas específicas mas com uma postura clínica que valoriza a alteridade o silêncio a história singular e o tempo subjetivo Essa escuta ética associada ao rigor técnico oferece ao profissional de Psicologia uma base sólida para atuar em contextos clínicos diversos mantendo o compromisso com o sofrimento humano em sua complexidade e singularidade Assim a psicanálise reafirma seu papel na saúde mental contemporânea um campo que se reinventa e se amplia acolhendo a diversidade de pacientes e integrandose a marcos regulatórios que fortalecem a formação crítica e ética dos futuros psicólogos ZIMMERMAN 2004 11 23 REGRAS PSICANALÍTICAS DA ATUALIDADE A evolução das regras fundamentais da psicanálise ao longo do tempo reflete as transformações nas dinâmicas sociais e nas expectativas dos pacientes A regra da livre associação de ideias que enfatiza a verbalização espontânea por parte do paciente mantém sua centralidade mas sua aplicação prática tem se adaptado às demandas atuais Hoje os analistas reconhecem a necessidade de criar um ambiente terapêutico que favoreça não apenas a expressão livre mas também a autenticidade considerando a diversidade de experiências e a complexidade das questões contemporâneas trazidas pelos pacientes Essa adaptação não descaracteriza a técnica mas amplia sua capacidade de acolher subjetividades em contextos cada vez mais pluralizados ZIMMERMAN 2004 A regra da abstinência tradicionalmente associada à contenção de gratificações pessoais por parte do analista tem sido reinterpretada em um cenário clínico que valoriza a empatia e a conexão humana Embora sua essência evitar satisfações substitutivas que desviem o foco do processo analítico permaneça válida a prática contemporânea enfrenta o desafio de equilibrar essa contenção com a construção de uma relação de confiança e segurança Essa tensão produtiva permite que a relação analítica transcenda a função meramente interpretativa tornandose um espaço de interação genuína onde a vulnerabilidade é reconhecida como parte integrante do trabalho terapêutico SOUZA COELHO 2012 Por outro lado Zimerman 2004 também afirma que a regra da neutralidade que historicamente exigia um distanciamento emocional do analista é revisitada à luz de abordagens que defendem maior transparência na relação terapêutica Isso não implica a perda da postura técnica mas o reconhecimento de que a neutralidade pode coexistir com uma presença mais autêntica O analista contemporâneo ao acolher suas próprias emoções e reações contratransferenciais pode oferecer uma escuta mais engajada sem abandonar o rigor metodológico Essa flexibilidade não enfraquece o setting mas o torna mais sensível às nuances afetivas que emergem no processo A ênfase na verdade e na honestidade incorporada como uma quinta regra em discussões recentes responde à demanda por autenticidade nas relações terapêuticas pois os pacientes buscam não apenas uma análise técnica mas uma conexão que os auxilie a navegar realidades emocionais complexas marcadas por 12 incertezas e paradoxos da vida moderna Essa dimensão exige que analista e paciente se envolvam em um processo de descoberta mútua onde a honestidade tanto sobre limites quanto sobre possibilidades fortalece a aliança terapêutica Assim as regras psicanalíticas embora preservem seu núcleo ético e técnico demandam revisão contínua para dialogar com as transformações sociais e científicas A prática clínica atual ao integrar essas adaptações não apenas honra o legado freudiano mas assegura que a psicanálise permaneça relevante como ferramenta de compreensão e intervenção diante das complexidades humanas do século XXI 231 Regra da abstinência A regra da abstinência formulada por Freud em 1915 surgiu em resposta ao desenvolvimento de vínculos eróticos entre pacientes histéricas e analistas em um período em que as análises eram breves Com a expansão da psicanálise e o aumento das críticas sobre a sexualidade na prática clínica Freud viu a necessidade de estabelecer limites claros para evitar envolvimentos sexuais entre analistas e analisandos Em 1912 ele começa a esboçar essa diretriz preocupado com a integridade ética da psicanálise A abstinência implica que o psicanalista deve absterse de qualquer atividade além da interpretação proibindo gratificações externas e preservando o anonimato do paciente posição reforçada por Freud em 1918 em seus escritos sobre terapias psicanalíticas ZIMMERMAN 2004 Ressaltase a relevância da abstinência analítica conforme proposta por Freud que defende que os analistas evitem gratificações externas e intervenções significativas na vida dos pacientes durante o tratamento Para ele era imperativo que os pacientes não tomassem decisões importantes como escolhas profissionais ou amorosas sem uma análise prévia a fim de evitar que impulsos inconscientes fossem mal direcionados protegendoos de possíveis danos Entretanto críticas contemporâneas apontam que a interpretação rígida dessa recomendação pode levar a um distanciamento excessivo entre analista e analisando prejudicando o tratamento A preocupação freudiana com envolvimentos emocionais e sexuais embora válida corre o risco de ser aplicada de forma extremada gerando uma dinâmica fóbica que compromete a aliança terapêutica ZIMMERMAN 2004 13 Com a evolução da prática psicanalítica observase uma mudança significativa no perfil emocional e situacional dos pacientes assim como nas condições sociológicas e econômicas em que a análise ocorre Muitos analistas contemporâneos adotam portanto uma postura mais flexível promovendo um ambiente acolhedor e interativo sem abandonar a estrutura normativa do setting analítico Argumentase que a rigidez na aplicação das diretrizes originais de Freud pode criar um clima de falsidade e paranoia Assim uma abordagem adaptativa e humanizada é considerada essencial nas práticas atuais permitindo que analistas se conectem de maneira autêntica com seus pacientes fator que pode potencializar a eficácia do processo terapêutico O conceito de amor de transferência na psicanálise evidencia a evolução das práticas desde Freud destacando os riscos de envolvimento emocional entre analista e paciente A abstinência do psicanalista permanece crucial para evitar a gratificação de desejos que refletem carências do próprio terapeuta não do paciente É fundamental diferenciar curiosidades patológicas que demandam interpretação daquelas saudáveis que merecem acolhimento como expressões genuínas do sujeito Além disso as atitudes em relação a encontros sociais entre analistas e pacientes modificaramse antes rigidamente evitados hoje são abordados com maior flexibilidade ainda que cautelosa Zimerman 2004 aponta essa mudança a qual reflete uma adaptação às demandas contemporâneas sem descuidar dos princípios éticos que preservam a integridade do vínculo terapêutico 232 Regra da atenção flutuante A regra da atenção flutuante proposta por Freud estabelece um princípio fundamental para a prática analítica implicando a criação de condições que favoreçam uma comunicação autêntica entre os inconscientes do analista e do paciente Bion amplia essa concepção ao destacar o papel da intuição frequentemente obscurecida pela ênfase excessiva na percepção sensorial como ferramenta essencial para decifrar as camadas simbólicas do discurso ZIMMERMAN 2004 Uma das dificuldades centrais para o analista reside em sua capacidade de se desvincular de desejos e memórias pessoais durante o processo Embora seja natural que emoções surjam é importante que o terapeuta mantenha clareza sobre 14 esses sentimentos discriminando adequadamente entre suas experiências subjetivas e as dinâmicas transferenciais em jogo Essa distinção preserva a neutralidade técnica e assegura que as intervenções estejam alinhadas às necessidades do paciente evitando projeções que comprometam a eficácia terapêutica A prática psicanalítica exige assim uma dissociação útil habilidade de reconhecer e diferenciar as diversas áreas do mapa psíquico do analista incluindo emoções que emergem durante a sessão Essa dissociação sustenta tanto a teorização flutuante entendida como a capacidade de elaborar hipóteses sem fixação prévia quanto à atenção flutuante que consiste em uma escuta aberta a múltiplos significados Esses mecanismos facilitam a conexão com a realidade externa e com o inconsciente permitindo uma escuta intuitiva que capta nuances escapadas a abordagens lineares SOUZA COELHO 2012 Por outro lado uma atenção excessivamente direcionada pode levar a um estado patogênico no qual o analista busca informações irrelevantes à situação analítica movido por curiosidade pessoal ou necessidade de controle Essa postura desvia o foco do trabalho terapêutico e pode gerar vínculos transferenciais prejudiciais nos quais as projeções do analista contaminam a relação Além disso a tentativa de manter a atenção flutuante de forma rigorosa pode gerar desconforto e sensação de fracasso no analista já que divagações e distrações são inevitáveis durante as sessões A flexibilidade mental tornase portanto um elementochave pois ela permite que o analista navegue entre suas próprias emoções e as dinâmicas do setting terapêutico ajustandose às flutuações do processo sem perder a postura técnica necessária Essa habilidade reconhece que a eficácia reside no equilíbrio entre disciplina clínica e adaptação às contingências humanas ZIMMERMAN 2004 233 Regra da neutralidade A regra da neutralidade conforme proposta por Freud é um princípio essencial na psicanálise sugerindo que o psicanalista deve atuar como um espelho opaco refletindo apenas o conteúdo apresentado pelo paciente e evitando expor suas próprias emoções Embora o termo neutralidade não seja frequente em seus textos Freud defende uma postura imparcial distante da indiferença que poderia prejudicar o processo analítico Essa neutralidade inclui a gestão dos desejos do 15 analista permitindo uma interação aberta e profunda com o paciente o que cria um ambiente favorável à exploração emocional e psicológica PINHEIRO 1999 Contudo a regra da neutralidade tem sido reavaliada na prática contemporânea distante da visão tradicional de Freud que comparava o analista a um espelho mecânico Atualmente entendese que o analista deve funcionar como um espelho que possibilita ao paciente uma reflexão abrangente sobre si mesmo sem que isso implique a supressão total de sua subjetividade A neutralidade é reconhecida como um ideal inatingível já que o analista inevitavelmente traz suas crenças valores e perspectivas para a relação terapêutica influenciando dinâmicas interpretativas e escolhas técnicas ZIMMERMAN 2004 O envolvimento afetivo do terapeuta desde que não se torne patológico é considerado essencial para estabelecer uma aliança terapêutica significativa As escolhas interpretativas como decidir quando intervir ou como formular uma interpretação revelam a subjetividade inerente à prática demonstrando que a neutralidade não se traduz em ausência de posicionamento mas em um equilíbrio entre acolhimento e contenção Essa postura permite que o paciente se sinta reconhecido em sua singularidade ao mesmo tempo que preserva o espaço analítico como um campo de investigação livre de projeções excessivas do terapeuta Assim a neutralidade na psicanálise contemporânea não nega a influência do analista mas reconhece a complexidade de sua função ser um interlocutor que mesmo com suas limitações humanas mantém o foco no processo de desvelamento do inconsciente equilibrando técnica e sensibilidade ZIMMERMAN 2004 234 Regra do amor à verdade A psicanálise segundo Freud fundamentase na verdade e na ética sendo a honestidade do psicanalista um elemento fundamental para promover mudanças significativas nos pacientes O terapeuta deve evitar julgamentos sobre terceiros já que os pacientes podem induzir quebras éticas por meio de projeções ou tentativas de envolver o analista em dinâmicas externas à terapia Um dilema recorrente é o envolvimento amoroso entre terapeuta e paciente tratado com rigor por sociedades psicanalíticas para preservar a integridade da relação analítica Dessa forma a ética e a verdade configuramse como pilares indissociáveis da prática freudiana 16 A discussão sobre transgressões éticas e sexuais na psicanálise revela um campo marcado por tensões e controvérsias conforme destacado por Daniel Widlocher expresidente da Associação Psicanalítica Internacional IPA Ele argumenta que tais transgressões não devem ser simplificadas como meros erros ou pecados irreparáveis mas sim compreendidas como fenômenos complexos que exigem análise crítica Widlocher observa ainda que transgressões éticas como vínculos românticos não consumados entre analistas e pacientes que frequentemente permanecem ocultas apesar de seu impacto relevante Freud já enfatizava a necessidade de honestidade mútua afirmando que a falta de verdade por parte do analista comprometeria a eficácia do tratamento corroendo a confiança essencial ao processo Complementando essa perspectiva Bion introduz a reflexão sobre a análise de indivíduos que utilizam a mentira como mecanismo de defesa Ele ressalta que a verdade é um elemento vital para a saúde psíquica comparando a a um alimento indispensável e sua ausência levaria à deterioração do psiquismo Assim a abordagem psicanalítica da verdade deve transcender o moralismo focandose na construção de uma atitude autêntica que permita ao paciente alcançar liberdade interna e engajarse plenamente no processo analítico ZIMERMAN 2004 A preservação do setting analítico é outro aspecto essencial pois garante a estruturação da relação terapêutica mantendo a assimetria necessária entre os papéis de analista e paciente O enquadre estabelece limites claros e promove o princípio da realidade contrapondose ao princípio do prazer que muitas vezes domina a subjetividade do paciente Essa estrutura é especialmente crítica no trabalho com pacientes regressivos que podem enfrentar dificuldades em lidar com limites e frustrações No entanto é fundamental evitar uma rigidez excessiva na aplicação dessas regras pois isso pode gerar uma atmosfera coercitiva prejudicando a aliança terapêutica A própria prática de Freud ilustra a complexidade desse equilíbrio que frequentemente flexibilizava suas próprias recomendações adotando abordagens não convencionais que refletiam o contexto histórico e teórico da psicanálise em sua época ZIMERMAN 2004 17 24 A COMPREENSÃO DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SOB A PERSPECTIVA DA PSICANÁLISE A análise do relacionamento interpessoal quando vista sob a ótica psicanalítica exige uma investigação minuciosa das forças inconscientes que moldam as interações humanas Essas forças muitas vezes surgem a partir de experiências precocemente vivenciadas na infância que ficam armazenadas no inconsciente e influenciam não apenas as emoções e comportamentos atuais mas também a maneira como os indivíduos percebem e se relacionam com os outros Este entendimento é fundamental para compreender questões como ciúmes inseguranças projeções e padrões de comunicação disfuncionais já que muitas dessas características têm raízes profundas e subconscientes Além disso essa abordagem permite uma compreensão mais abrangente dos conflitos internos que podem dificultar a construção de vínculos afetivos seguros e satisfatórios favorecendo processos de autoconhecimento que são essenciais tanto na clínica quanto na vida cotidiana De acordo com Freud 1900 as experiências formativas na infância não apenas moldam o desenvolvimento psíquico mas também deixam marcas que podem perdurar ao longo da vida influenciando todas as relações seguintes Essas experiências muitas vezes são reprimidas ou não totalmente resolvidas permanecendo no inconsciente e se manifestando através de sintomas ou padrões relacionais recorrentes na fase adulta Por exemplo uma criança que vivenciou negligência ou rejeição pode desenvolver uma ansiedade de separação ou padrões de busca de validação constantes na vida adulta Assim ao revisar e entender essas experiências e seus efeitos o terapeuta e o indivíduo podem trabalhar a resolução de conflitos internos promovendo relações mais saudáveis e equilibradas e uma melhor gestão emocional 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo Segundo Treiguer 2007 a compreensão da pulsão na psicanálise não se limita à sua força de impulso biológico mas deve ser entendida na relação com os vínculos estabelecidos entre os indivíduos A pulsão como força reguladora das interações atua tanto na esfera consciente quanto na inconsciente moldando 18 desejos necessidades e fantasias O desejo por sua vez é uma força que unifica o sujeito embora seja frequentemente influenciado por fatores externos como o alheio ou seja o outro suas expectativas desejos e projeções Essas dinâmicas complexas resultam na multiplicidade de emoções que experimentamos nas relações como novela de desejo medo mistério e insegurança que enriquecem ou dificultam o relacionamento dependendo de como são elaboradas e integradas 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais Ao analisar as relações amorosas sob a perspectiva simbólica e mitológica a narrativa bíblica de Adão e Eva serve como uma poderosa metáfora para entender a busca pela perfeição a ilusão de imortalidade e a vulnerabilidade inerente aos relacionamentos O desejo de ser igual a Deus simboliza a tentativa de superar os limites humanos o que na relação de casal pode refletir a busca por uma união idealizada que muitas vezes é inatingível A expulsão do Éden revela como a tentativa de alcançar essa perfeição pode resultar na fragilidade e na necessidade de aceitar a vulnerabilidade como parte fundamental do amor e da convivência Na perspectiva psicanalítica há a compreensão de que os casais frequentemente criam uma dinâmica de inseparabilidade na qual as diferenças individuais são minimizadas ou até negadas Para isso usam mecanismos de defesa como a cisão dividir aspectos positivos e negativos e a identificação projetiva que reduzem as diferenças ao transferir aspectos indesejados ou conflitantes para o outro Essa fusão embora possa parecer uma busca por completude tende a ser prejudicial a longo prazo pois impede o desenvolvimento da autonomia emocional e limita a autenticidade no relacionamento Quando essa fusão se torna excessiva a relação pode se transformar em uma ilusão de perfeição que ao se desmoronar leva ao conflito ou à crise de identidade de ambos os parceiros 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso De acordo com Pignataro FerrésCarneiro e Mello 2019 as alianças inconscientes estruturam as relações amorosas formando um sistema de funções 19 que mantêm o vínculo e protegem os indivíduos de ameaças internas e externas Essas alianças que se originam na infância e nas primeiras experiências afetivas podem ser primárias secundárias defensivas ou criativasdestrutivas cada uma desempenhando papéis diferentes na vida psíquica e relacional Elas moldam percepções expectativas e comportamentos além de influenciar a forma como o parceiro é visto e tratado na relação Compreender esses mecanismos ajuda a desmistificar padrões repetitivos e a elaborar vínculos mais conscientes e satisfatórios promovendo maior autonomia emocional e resistência às dificuldades do cotidiano Dentro das alianças inconscientes existe o pacto denegativo também discutido na literatura psicanalítica referese a uma aliança inconsciente que os parceiros assumem muitas vezes de forma automática para proteger a relação de conflitos internos ou de demandas emocionais que podem ameaçála Essa aliança funciona por meio da mobilização de fantasias identificações e realidades psíquicas partilhadas que mantêm o vínculo mesmo que envolvam negação ou repressão de aspectos desagradáveis ou conflitantes Essa dinâmica atua como um mecanismo de defesa contribuindo para a estabilidade emocional do casal ao evitar confrontar certas verdades dolorosas mas também pode limitar o crescimento e a autenticidade na relação Além do pacto denegativo Pignataro FérresCarneiro e Mello 2019 descrevem os contratos inconscientes como entendimentos tácitos que emergem na relação estabelecendo limites expectativas e trocas que sustentam o vínculo Esses contratos podem ser conscientes ou inconscientes e dizem respeito às concessões mútuas necessárias para a convivência Enquanto os acordos representam negociações mais conscientes os pactos envolvem trocas intransmissíveis ou insuspeitas muitas vezes influenciadas por elementos da infância ou experiências passadas Essas dinâmicas facilitam ou dificultam a elaboração de desejos e necessidades moldando o modo como o casal enfrenta as dificuldades e constrói a sua história conjunta 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional Segundo Mondrzak 2007 a teoria de Bion destaca que os vínculos amorosos de ódio ou de conhecimento dependem do espaço psíquico chamado 20 por ele de contenedor e do conteúdo emocional que nele reside O espaço psíquico funciona como um recipiente onde emoções e experiências conflitantes podem ser armazenadas elaboradas e integradas fortalecendo a relação As emoções como inveja ciúme raiva ou insegurança sentimentos típicos de uma relação conjugal não apenas emergem do conteúdo mas são moduladas pelo espaço psíquico que deve ser acolhedor para que os conflitos possam ser trabalhados de forma saudável Essa capacidade de acolhimento e elaboração emocional possibilita uma convivência mais madura empática e segura emocionalmente promovendo um vínculo mais sólido e autêntico No contexto de Bion a relação entre o analista e o espaço psíquico é fundamental para o processo terapêutico O analista ao atuar como um recipiente deve criar um espaço psíquico seguro e receptivo capaz de acolher e processar as experiências emoções e pensamentos do paciente Nesta teoria o analista é um facilitador do espaço psíquico criando uma condição em que o paciente possa explorar processar e integrar suas experiências internas de forma segura e significante Essa dinâmica é essencial para que o processo terapêutico seja efetivo e transformador 245 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional Na psicanálise a concepção de que o casal constitui uma unidade psíquica com estrutura própria traz reflexões importantes sobre a dinâmica do relacionamento Cada indivíduo traz para o casal seu desenvolvimento emocional suas carências suas dores e conflitos internos que ao interagirem podem resultar tanto em harmonia quanto em disfunções Quando há conflitos não resolvidos ou projeções esses fatores podem gerar uma relação disfuncional marcada por conflitos constantes ou mesmo por padrões de fusão excessiva onde os limites entre os parceiros se tornam difusos A intervenção clínica busca muitas vezes desconstruir essas dinâmicas promovendo autonomia emocional e a compreensão dos acontecimentos internos de cada um além de favorecer uma relação mais equilibrada capaz de suportar conflitos de forma construtiva A participação em processos terapêuticos seja individual ou de casal muitas vezes revela ou provoca desequilíbrios na relação como ciúmes resistência às 21 mudanças ou boicotes que surgem como mecanismos de defesa ou tentativas de manter o status quo Essas reações muitas vezes dificultam o avanço do tratamento e requerem atenção específica do terapeuta que deve trabalhar a compreensão dessas resistências promovendo maior autorreflexão e autoconhecimento A terapia assim atua como uma ferramenta de resistência e reconstrução emocional possibilitando a elaboração de conflitos a superação de obstáculos e a promoção de relações mais satisfatórias e maduras 3 METODOLOGIA A metodologia adotada neste estudo é fundamentada em princípios clássicos da psicanálise utilizando a técnica da associação livre como um dos pilares do processo terapêutico Essa técnica permite ao paciente expressar livremente seus pensamentos sentimentos e imagens sem censura ou restrições o que facilita a acessibilidade a conteúdos inconscientes Ao criar um espaço onde o paciente se sente à vontade para compartilhar suas ideias a associação livre se torna um meio poderoso para explorar as camadas mais profundas da psique A primeira entrevista desempenha um papel crucial nesse contexto uma vez que estabelece as bases para a relação analítica Neste encontro inicial o analista busca criar um ambiente de confiança e segurança onde o paciente se sinta confortável para se abrir É um momento de construção do vínculo onde se discutem as expectativas do tratamento e se delineiam os objetivos da terapia A receptividade e a empatia do analista são essenciais para fazer com que o paciente sinta que sua história e suas vivências são valorizadas Durante as sessões subsequentes a atenção flutuante do analista se torna uma prática fundamental Essa abordagem implica que o analista mantenha uma escuta atenta e flexível permitindo que sua atenção se mova entre diferentes temas e conteúdos que emergem das falas do paciente Essa atenção não é direcionada apenas a pontos específicos mas busca captar nuances sentimentos e associações que possam surgir criando um espaço onde o paciente pode explorar livremente seu mundo interno A interpretação por sua vez é uma ferramenta vital que emerge desse processo Quando o analista oferece interpretações ele busca conectar os conteúdos manifestos do discurso do paciente com questões mais profundas e 22 inconscientes Essas intervenções interpretativas têm o potencial de iluminar padrões de comportamento conflitos internos e dinâmicas emocionais que o paciente pode não ter consciência Através desse processo interpretativo o paciente é incentivado a refletir sobre suas experiências promovendo um entendimento mais profundo de si mesmo e facilitando o avanço do tratamento Assim a combinação da associação livre da construção do vínculo na primeira entrevista da atenção flutuante e das interpretações do analista cria um ambiente terapêutico rico e dinâmico propício para o processo de autoconhecimento e transformação psíquica do paciente Essa metodologia busca não apenas a resolução de sintomas mas a promoção de uma maior compreensão da própria subjetividade contribuindo para o desenvolvimento pessoal e emocional ao longo do tratamento 4 PROCESSO TERAPÊUTICO Na sessão de 290425 o paciente J relatou angústia no trabalho devido à pressão do chefe e à carga horária excessiva afetando sua vida familiar Ele enfrenta conflitos com a esposa que possui traumas da infância e preocupase com o comportamento do filho mais velho Apesar das dificuldades J demonstra motivação para o processo terapêutico e deseja explorar suas emoções melhorar a comunicação familiar e promover um ambiente mais saudável Na sessão de 060525 J expressou preocupações sobre a relação tensa entre sua esposa e sua mãe especialmente em relação a uma visita programada Ele também relatou um ambiente de trabalho insustentável devido à pressão do novo chefe apesar da recente promoção e a insatisfação com o salário J enfrenta desafios significativos em sua vida pessoal e profissional que serão explorados nas próximas sessões Na sessão de 20052025 J expressou sobrecarga e falta de apoio no trabalho comparando as exigências de seu chefe e sua esposa Ele relatou frustrações na vida conjugal incluindo incertezas sobre o relacionamento e dificuldades financeiras atribuídas à esposa que geraram ansiedade e medo de perder a família Apesar das queixas J mostrou disposição para agir manifestando interesse em conversar diretamente com seu chefe sobre suas responsabilidades 23 Na sessão de 29052025 J expressou preocupação com as mentiras de seu filho que nega responsabilidades refletindo uma personalidade forte que J reconhece em si mesmo Ele compartilhou sobre sua dependência emocional na infância e como sua relação com os pais influenciou seu comportamento além de relatar sua trajetória de mudança para Maringá e os desafios enfrentados ao se tornar pai J também recordou sua experiência de morar sozinho e a necessidade de se estabelecer uma nova vida com Érica e o filho que estava por vir Na sessão 030625 o paciente não compareceu sem justificar a sua falta Na sessão de 100625 J relatou sobrecarga de trabalho e os desafios emocionais causados pelas oscilações de humor de sua esposa Érica com quem ele enfrenta uma comunicação frágil e dinâmica de culpa Ele mencionou incidentes em que Érica projetou suas frustrações sobre ele evidenciando a ambivalência no relacionamento A sessão terminou com a proposta de explorar essas dinâmicas e focar na melhoria da comunicação e na compreensão mútua nas próximas conversas 41 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 29042025 O paciente J apresentouse na sessão realizada em 290425 Ele relatou angústia no trabalho motivada pela pressão exercida pelo chefe e pela carga horária excessiva o que resulta em pouco tempo para sua família Sua esposa expressa insatisfação com a falta de tempo que o marido dedica aos filhos e à situação financeira em que se encontram O paciente descreve sua esposa como uma pessoa difícil de lidar com quem tem enfrentado frequentes conflitos Ele menciona que ela foi criada apenas pela avó materna o que segundo ele contribui para traumas que dificultam a convivência entre eles As discussões se intensificam durante os dias de TPM e o paciente relata que utiliza um aplicativo para monitorar o ciclo menstrual da esposa tentando evitar conflitos nesses períodos Além disso o paciente demonstra preocupação com o comportamento do filho mais velho que se envolveu em episódios de furto incluindo o roubo de dinheiro da irmã e a destruição de figurinhas na escola Essa situação o leva a refletir sobre a educação e o desenvolvimento moral da criança Apesar das dificuldades o paciente está motivado para o processo terapêutico e expressa interesse em continuar as sessões inclusive na modalidade online caso não seja possível realizar 24 atendimentos presenciais Para as próximas sessões será importante explorar seus sentimentos de angústia e identificar as fontes de estresse melhorar a comunicação com a esposa discutir estratégias para equilibrar trabalho e vida familiar abordar o comportamento do filho e considerar formas de incentivar a esposa a buscar terapia respeitando sua resistência O paciente demonstra consciência das dinâmicas familiares que impactam seu bemestar emocional e está disposto a trabalhar nessas questões As futuras sessões deverão focar nas áreas mencionadas visando promover um ambiente familiar mais saudável 42 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 06052025 J chegou pontualmente às 17h e iniciou a conversa expressando suas preocupações sobre a relação da esposa com sua mãe Ele está apreensivo em relação à visita marcada para o próximo domingo à casa de seus pais Ao investigar essa apreensão J compartilhou um incidente recente durante um almoço na casa de sua mãe onde sua esposa o criticou por sua falta de compromisso com a casa e a família Sua mãe interveio questionando a esposa sobre a falta de reconhecimento e apoio o que levou a esposa a se retirar da mesa e solicitar a saída Perguntei a J sobre a situação atual com a esposa e ele mencionou que as coisas melhoraram um pouco mas a relação com a mãe ainda é tensa Ele expressou a preocupação de não querer deixar os filhos sob os cuidados da mãe uma vez que sua esposa só aceita deixálos com a mãe e a irmã J também revelou receios em deixar seu filho com o pai devido a temores de abuso embora não tenha confirmado se sua esposa já passou por essa experiência No que diz respeito à vida profissional J relatou que a situação com seu chefe se tornou insustentável Ele acredita que a recente mudança na gestão da rede de supermercados está gerando pressão por resultados imediatos e eficazes o que tem impactado negativamente a dinâmica com sua equipe Apesar de ter recebido uma promoção recentemente J não está satisfeito com o salário pois não houve um aumento que correspondesse à nova função Ele suspeita que a empresa esteja realizando uma avaliação prometendo um aumento após seis meses caso os resultados esperados sejam atingidos A sessão foi encerrada destacando que J enfrenta desafios tanto em sua vida pessoal quanto profissional que precisam ser explorados e refletidos nas próximas sessões 25 43 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 20052025 Na sessão de hoje J apresentou uma série de queixas relacionadas à sua vida profissional e pessoal destacando a sensação de sobrecarga e a falta de apoio em ambas as esferas Ele relatou que está se sentindo pressionado no trabalho enfrentando um volume elevado de tarefas sem o devido suporte de seu chefe J mencionou que seu chefe propõe a necessidade de um bom desempenho mas paradoxalmente continua a sobrecarregálo com mais responsabilidades Fez uma comparação entre seu chefe e sua esposa ambos considerados sem lógica em suas exigências Em relação à sua vida conjugal J expressou frustração em relação à sua esposa citando um recente convite dela para não chegar tarde em casa mas sem clareza sobre o compromisso Ele observou que essa instabilidade gera ansiedade pois pode se tratar de um convite para um momento agradável ou uma conversa sobre separação J revelou que já considerou a separação em duas ocasiões mas uma oração em um momento de reflexão o levou a interpretar que deveria permanecer no casamento especialmente após a notícia da gravidez de sua filha J também trouxe à tona a dificuldade financeira que enfrenta atribuindo parte da culpa a sua esposa Ele explicou que após ela seguir um guru financeiro e fazer investimentos de alto risco acabou assumindo uma dívida significativa com a compra de um carro cujas parcelas se tornaram uma carga pesada comprometendo seu orçamento Atualmente J mencionou que não recebe ajuda dela para os gastos uma vez que ela também lida com suas próprias dívidas O medo de perder a esposa e os filhos é um tema recorrente em suas queixas J expressou preocupações sobre a possibilidade de sua esposa levar as crianças para morar com a família dela em Amaporã o que o angustia especialmente em relação à influência negativa que a família dela pode ter sobre os filhos Um aspecto positivo observado na sessão foi a disposição de J em agir de forma proativa Ele demonstrou interesse em ter uma conversa direta com seu chefe para discutir suas preocupações e buscar um entendimento mais claro sobre suas responsabilidades 44 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 29052025 J Começou a sessão dizendo que seu filho está mentindo muito que isso está o preocupando Perguntei se as mentiras são histórias inventadas J Explicou que as mentiras são feitas a partir de uma discussão na qual ele faz uma coisa e nega 26 ter feito Como por exemplo quando sua mãe reclamou que ele não tinha feito a tarefa e quando ele perguntou ele disse que havia feito só depois de muita insistência que admitiu não ter feito J disse que seu filho não tem muito gosto pelos estudos e que nisso é muito diferente dele Perguntei se tem coisas semelhantes com filho disse que sim a personalidade forte de confrontar os pais disse que é igual e que inclusive seu comportamento era diferente dos outros dois irmãos perguntei se era o mais velho ele disse que era o mais novo Lembrou de um dia que entrou em confronto com seu pai pois avisou que estava estava indo para uma festa em Astorga e seu pai disse que não iria ele então falou que estava apenas avisando Lembrou que seus pais faziam tudo por ele desde o levar a escola buscar e que por exemplo nunca cozinhou sendo isso uma das críticas que Érica sua esposa faz a ele Foi se sentir mais dependente quando deixou Marília e veio para Maringá estudar Perguntei então como foi que os seus pais vieram para Maringá Falou que ele passou no vestibular na UEM e veio morar com um primo dele no segundo ano de faculdade ele foi morar sozinho então primeiro veio sua mãe mas deixou bem claro que não queria ser vigiado depois veio seu pai sua irmã e seu cunhado Após a faculdade arrumou emprego em Astorga em uma usina Morava em um quarto com banheiro apenas Neste período engravidou a Érica então ela foi morar com seus pais e ele se viu obrigado a voltar e arrumar uma casa para morar junto com a Érica e seu filho que iria nascer 45 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 10062025 Na sessão de hoje J chegou com um atraso de 20 minutos justificandose com problemas relacionados ao serviço Ele também mencionou a ausência na sessão anterior devido a uma viagem durante a qual não teve acesso ao celular Ao longo da conversa J expressou uma série de dificuldades que enfrenta tanto em sua vida profissional quanto no âmbito familiar Ele relatou uma sobrecarga significativa de trabalho mencionando a dificuldade em gerenciar sua carga horária o que parece impactar sua saúde mental e emocional refletindo um estado de estresse e cansaço J trouxe à tona a situação de sua esposa Érica que continua apresentando oscilações de humor Ao questionálo sobre o cansaço que isso poderia causar ele afirmou ter se acostumado e optado por uma postura passiva diante das oscilações dela 27 Exemplos foram dados para ilustrar essa dinâmica em uma visita recente dos padrinhos do filho Érica começou a reclamar que ele não ajuda em casa J optou por se afastar da situação indicando uma estratégia de evitar conflitos Outro exemplo relevante foi o incidente em que seu filho se queimou com um ferro quente J relatou que Érica o culpou pela situação mesmo reconhecendo que ela deveria ter mais cuidado com a criança que estava sob sua responsabilidade na parte superior da casa Essa dinâmica de culpas parece ser um padrão recorrente no relacionamento onde Érica projeta suas frustrações em J Durante a sessão J foi questionado sobre a natureza do relacionamento com Érica Ele mencionou que embora tenham momentos de boa convivência a situação se torna complicada em momentos de tensão A comunicação entre eles parece frágil especialmente em situações emocionais delicadas J trouxe um episódio marcante de uma terapia de casal onde Érica respondeu não sei quando questionada se ainda se gostam evidenciando a ambivalência no relacionamento J relatou que sempre percebeu Érica com esse comportamento desde o início do relacionamento que começou na empresa onde trabalhavam A narrativa de como se conheceram sugere uma atração inicial mas também revela que desde o início houve uma desarmonia que pode ter se intensificado com o tempo A gravidez planejada e a mudança para a casa dos pais de Érica também foram pontos importantes trazendo à tona atritos familiares que contribuíram para a tensão no relacionamento A sessão foi encerrada com a proposta de retomar as questões levantadas nas próximas conversas permitindo que J reflita sobre as dinâmicas familiares e emocionais discutidas É fundamental continuar trabalhando na comunicação e na compreensão mútua entre J e Érica assim como explorar mais a fundo as questões de culpa e frustração que permeiam o relacionamento Os próximos passos incluem explorar as dinâmicas de culpa e projeção de frustrações focar na melhoria da comunicação entre J e Érica e analisar o impacto da carga de trabalho na saúde emocional de J 46 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 17062025 J Se atrasou vinte minutos novamente Comecei a sessão lembrando de uma fala de J A qual dizia que alguma coisa o atraiu à Érica Então fiz a pergunta o 28 que seria esse algo que o atraiu nela Respondeu que ela tinha algo que a sua ex namorada não tinha Perguntei o que seria Disse que teve duas namoradas antes da Érica e que a primeira era mais velha que ele e tinham pensamentos diferentes sobre a vida Ela pensava em casar pois já era formada e quando estava ainda na faculdade queria aproveitar mais a vida Então conheceu a segunda namorada e ficaram pouco tempo em torno de 9 meses Ela o achou para jantar e disse que não queria mais continuar ficou muito mal e mantinha contato com ela por mensagens até que um dia ela mandou uma mensagem falando que não queria mais conversar com ele para não dar esperanças foi aí que disse que tinha que deixar de ser trouxa e seguir sua vida e cortar contato com ela Disse que foi interessante pois neste dia que ele viu a Érica pela primeira vez mas apenas achou uma mulher bonita e admirou que ela trabalhando em um chão de fábrica onde os homens de todas as idades mexiam com ela sempre se deu ao respeito Então concluiu que a Érica diferente da antiga namorada sempre o respeitou Mesmo quando não namorava ela se dava ao respeito mantendo a distância das pessoas e até hoje é assim Sua antiga namorada era muito de brincar com as pessoas inclusive com homens isso o deixava e acreditava que se permanecesse com ela o deixaria inseguro Perguntei se quanto a palavra respeito o qual diz a Érica ter para com ele não se sente desrespeitado quando ela fala mal dele na frente dele para as outras pessoas Respondeu nisso sim é muito ruim isso que ela faz Perguntei se ele acredita que ela tem a imagem dele das reclamações que ela faz dele para as pessoas Respondeu que acha que sim mas também vê momentos em que ela é carinhosa com ele Continuou que percebe quando ela se frustra com alguma coisa no trabalho ela desconta nele mas acredita que ela tenha sentimento por ele Antes do namoro ela era apegada a ele e muito mais carinhosa quando nasceu seu primeiro filho ela se apegou demais e tinha nele uma fixação exagerada depois que nasceu a filha deixou o filho de lado e tem essa fixação com a filha Como o tempo estava acabando concluí a sessão REFERÊNCIAS CHEMAMA R Psicanálise do cotidiano elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano Porto Alegre CMC Editora 2002 29 CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA Código de ética profissional do psicólogo Brasília DF 2005 Disponível em httpssitecfporgbrwpcontentuploads201207codigodeeticapsicologiapdf Acesso em 3 maio 2025 FREUD S A interpretação dos sonhos 1900 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2016 FREUD S História de uma neurose infantil o homem dos lobos Além do princípio do prazer e outros textos 19171920 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2010 FREUD Sigmund Obras completas volume 4 A interpretação dos sonhos Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2019 MONDRZAK Viviane Sprinz Processo psicanalítico e pensamento aproximando Bion e MatteBlanco Revista Brasileira de Psicanálise São Paulo v 41 n 3 set 2007 Disponível em httpspepsicbvsaludorgscielophppidS0486 641X2007000300004 Acesso em Sex 20 de Junho PIGNATARO Marina Beatriz FÉRESCARNEIRO Terezinha MELLO Renata A formação do casal conjugal um enfoque psicanalítico Pensando Famílias Porto Alegre v 23 n 1 p 120 janjun 2019 Disponível em httpspepsicbvsaludorg Acesso em 20 de junho de 2025 SAMPAIO Alexandra de Oliveira A clínica de casal canalise das relações vinculares MIMESIS v 30 n2 2009 TREIGUER Lisie Ellwanger Moreira O paradoxo vincular no casal desejo constituição e morte Disponível em wwwcontemporâneoorgbrcontemporânea PHP 2007 Acesso em 20 de junho de 2025 ZASLAVSKY Jacó PIRES DOS SANTOS Manuel José Sobre o papel das identificações na relação amorosa Revista de Psicanálise SPPA Porto Alegre v II n 2 p 47514933 ago 1996 ZIMERMAN D E Manual de técnica psicanalítica um estudo teóricoclínico da entrevista inicial dos critérios de analisabilidade e do contrato Porto Alegre Artmed 2004 442 p FACULDADE INGÁ CURSO DE PSICOLOGIA RODOLFO RODRIGO BENEDETTI RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL III CLÍNICA DE PSICOLOGIA UNINGÁ MARINGÁ 2025 RODOLFO RODRIGO BENEDETTI TESTES PSICOLÓGICOS CPM RAVEN Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e CMMS3 Escala de Maturidade Mental Colúmbia Relatório apresentado ao curso de Psicologia do Centro Universitário Ingá na disciplina de estágio de formação profissional III como requisito parcial para obtenção de nota no curso de Psicologia da faculdade INGÁ Prof Ms Bruna Luzia Garcia de Oliveira MARINGÁ 2025 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 4 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 5 21 PRIMEIRO CONTATO E ENTREVISTA COM O PACIENTE6 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica6 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista 8 22 A EVOLUÇÃO DO DIAGNÓSTICO PSICANALÍTICO9 23 REGRAS PSICANALÍTICAS DA ATUALIDADE 11 231 Regra da abstinência12 232 Regra da atenção flutuante13 233 Regra da neutralidade14 234 Regra do amor à verdade15 24 A COMPREENSÃO DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SOB A PERSPECTIVA DA PSICANÁLISE17 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo17 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais18 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso 19 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional20 245 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional20 3 METODOLOGIA 21 4 PROCESSO TERAPÊUTICO 22 41 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2904202523 42 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 0605202524 43 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2005202525 44 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 2905202526 45 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 1006202526 46 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 1706202528 REFERÊNCIAS29 4 1 INTRODUÇÃO O presente relatório tem como objetivo refletir sobre a experiência de estágio supervisionado em Psicologia com ênfase na prática clínica orientada pela abordagem psicanalítica e a partir da articulação entre teoria e prática buscase apresentar os principais fundamentos teóricos que sustentaram a atuação descrever a vivência do estágio e analisar criticamente os aspectos éticos e técnicos envolvidos no processo Conforme a Resolução n 62011CNEMEC o estágio supervisionado é um componente crucial na formação em Psicologia dividido em duas etapas o Estágio Supervisionado Básico realizado no 3 ano que se concentra na integração de competências por meio de visitas técnicas e observações e os Estágios Supervisionados de Formação desenvolvidos nos 4 e 5 anos voltados ao aprofundamento profissional em áreas específicas como clínica institucional escolar e organizacional Cada etapa é organizada por meio de projetos de ensino elaborados pelos professores supervisores os quais incluem justificativas competências a serem desenvolvidas métodos de trabalho e critérios de avaliação A supervisão ocorre na ClínicaEscola de Psicologia do Centro Universitário Ingá Uningá em grupos de até seis alunos com o propósito de promover uma formação crítica e prática para os futuros psicólogos Este relatório está alinhado à estrutura e regulamentação dos Estágios Supervisionados do curso de Psicologia da Uningá conforme descrito nos documentos institucionais Os alunos do 5º ano devem cumprir um total de 200 horas no Estágio de Formação III e 160 horas no Estágio de Formação IV com carga horária distribuída ao longo dos períodos letivos regulares sem previsão de interrupções para férias intermediárias Os estágios são formalizados por meio de instrumentos jurídicos entre o Centro Universitário Ingá e as instituições concedentes sendo realizados tanto na ClínicaEscola de Psicologia da Uningá quanto em instituições conveniadas como hospitais unidades básicas de saúde instituições de educação infantil e educação especial entre outras A supervisão dos estágios é de responsabilidade dos professores supervisores do supervisor de estágio e da coordenação do curso Os professores supervisores são docentes do curso de Psicologia atuando conforme suas áreas de formação e experiências profissionais e em casos específicos profissionais de áreas técnicas externas podem ser incluídos na supervisão mediante solicitação escrita e aprovação institucional Durante todo o processo o Código de Ética 5 Profissional do Psicólogo aprovado em agosto de 2005 pelo Conselho Federal de Psicologia serve como guia essencial para a prática profissional Este documento elaborado em um contexto de transformações sociais e demandas profissionais reforça princípios como o respeito à dignidade humana a promoção da saúde e a qualidade dos serviços psicológicos além de definir deveres proibições e penalidades para assegurar uma atuação ética e responsável A estrutura do relatório segue três eixos principais inicialmente uma fundamentação teórica baseada em autores da psicanálise seguida da descrição detalhada da experiência prática em contexto clínicoinstitucional Em seguida são discutidas as implicações éticas da atuação profissional conforme previsto no Código de Ética do Psicólogo e propõese uma análise crítica dos desafios e aprendizados construídos ao longo do estágio Por fim o texto conclui com considerações sobre a integração entre teoria prática e ética na formação do psicólogo ressaltando a importância do estágio supervisionado como espaço de consolidação do conhecimento e da identidade profissional 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A psicanálise desde seus fundamentos estabelecidos por Freud consolidouse como um campo teóricoclínico de grande complexidade enriquecido ao longo do século XX por contribuições de diversos autores Inicialmente Freud estruturou pilares centrais como o conceito de inconsciente a sexualidade infantil os mecanismos de defesa e a transferência que permanecem como eixos estruturantes da prática psicanalítica Em A Interpretação dos Sonhos 1900 obra seminal ele enfatiza a função do inconsciente na produção simbólica demonstrando que os processos psíquicos transcendem a consciência imediata Essa perspectiva revolucionária revela que o sujeito não é plenamente senhor de sua própria razão uma ideia que redefine a compreensão do sofrimento humano Ao reconhecer a dimensão inconsciente como núcleo da subjetividade Freud inaugurou uma metodologia clínica baseada na escuta atenta da singularidade do paciente e na valorização de sua narrativa Essa abordagem detalhada em suas obras FREUD 2016 desloca a ênfase de interpretações normativas para uma prática que acolhe a ambiguidade e a multiplicidade de sentidos presentes no discurso Dessa forma a psicanálise não apenas ampliou o horizonte teórico sobre a 6 mente humana mas também estabeleceu um paradigma ético e técnico orientado pelo respeito à expressão individual legado que continuou a ser expandido e reinterpretado por gerações posteriores de analistas 21 PRIMEIRO CONTATO E ENTREVISTA COM O PACIENTE A comunicação não verbal constitui um elemento fundamental nas interações humanas sobretudo nas etapas iniciais de um relacionamento seja em âmbito pessoal ou profissional Essa forma de expressão que engloba gestos expressões faciais postura e movimentos corporais transcende a dimensão verbal revelando emoções genuínas e facilitando a construção de conexões mais profundas entre os indivíduos Durante os primeiros contatos a habilidade de decifrar esses sinais tornase especialmente relevante já que eles podem transmitir nuances como interesse confiança abertura ou resistência muitas vezes de maneira mais autêntica do que as palavras ZIMMERMAN 2004 Além de expressar sentimentos a comunicação não verbal atua em paralelo à linguagem falada servindo como um complemento essencial para a clareza das mensagens Ao harmonizar gestos tom de voz e expressões com o conteúdo verbal reduzse o risco de ambiguidades e malentendidos permitindo que a intenção comunicativa seja transmitida com maior precisão Segundo Zimerman 2004 Essa sincronia entre o que é dito e o que é demonstrado corporalmente não apenas fortalece a credibilidade do emissor como também promove um diálogo mais coeso e empático Reconhecer a relevância desses elementos é portanto determinante para otimizar a qualidade das interações em diferentes contextos seja em uma negociação profissional no estabelecimento de vínculos afetivos ou em situações cotidianas a atenção aos sinais não verbais possibilita uma leitura mais integral do outro favorecendo relações baseadas em compreensão mútua e efetividade comunicativa 211 A importância da entrevista inicial na terapia psicanalítica A entrevista inicial configurase como um momento decisivo na prática psicanalítica estabelecendo as bases para o relacionamento terapêutico e permitindo que tanto o analista quanto o paciente avaliem a compatibilidade e a 7 viabilidade do tratamento Esse contato preliminar que pode se estender por mais de um encontro dependendo das particularidades do paciente não se limita a uma mera formalidade Mesmo em situações em que o terapeuta já reconhece a impossibilidade de assumir um tratamento sistemático a realização de uma entrevista de avaliação mantém seu valor pois possibilita orientações ou encaminhamentos adequados preservando o compromisso ético com o cuidado ZIMMERMAN 2004 Para Zimerman 2004 será importante diferenciar a entrevista inicial da primeira sessão analítica pois enquanto a primeira ocorre antes da formalização do contrato terapêutico funcionando como um espaço de avaliação mútua a segunda marca o início efetivo da análise A profundidade e a duração dessa etapa variam conforme o repertório prévio do paciente aqueles familiarizados com o processo psicanalítico podem experienciar um fluxo mais ágil enquanto indivíduos que buscam alívio imediato para sintomas demandam uma abordagem mais cautelosa capaz de acolher ansiedades e expectativas não verbalizadas O objetivo central da entrevista inicial reside na avaliação das condições mentais emocionais e contextuais do paciente permitindo ao analista ponderar riscos e benefícios do tratamento Essa análise inclui a identificação da psicopatologia apresentada a elaboração de uma impressão diagnóstica e prognóstica e a atenção aos efeitos contratransferenciais que emergem na interação Nesse contexto o uso de classificações como o DSMIVTR que abrange aspectos sindrômicos transtornos de personalidade e estressores ambientais exige uma abordagem multidimensional integrando dimensões dinâmicas como conflitos inconscientes evolutivas histórico de desenvolvimento e comunicacionais formas de expressão e resistências ZIMMERMAN 2004 Além da avaliação técnica a entrevista demanda uma escuta sensível às motivações e expectativas do paciente que nem sempre coincidem com o projeto terapêutico do analista A veracidade das queixas o grau de insight e a disposição para engajarse em um processo introspectivo são fatores críticos Paralelamente o terapeuta deve confrontar suas próprias limitações e reações emocionais evitando avaliações precipitadas baseadas em impressões superficiais Assim a entrevista inicial transcende sua função diagnóstica é um espaço de negociação simbólica no qual paciente e analista delineiam a possibilidade de uma jornada compartilhada 8 212 Expectativas na terapia analítica o papel do paciente e do psicanalista O papel do analista assume centralidade já na primeira entrevista momento em que ele se apresenta como profissional fundamentado em sua formação teórica e experiência clínica contudo para o paciente essa figura ainda não está consolidada como referência terapêutica É através da transferência processo no qual o paciente atribui ao analista emoções e expectativas originadas em relações passadas que se estabelece a possibilidade de reconhecêlo como guia no processo analítico Segundo Chemama 2002 esse fenômeno é estruturante nas entrevistas preliminares pois cria um vínculo que permite ao paciente confiar na direção proposta pelo tratamento mesmo em um contexto de incerteza inicial Nesse cenário as expectativas mútuas entre paciente e analista são determinantes para o avanço da terapia O paciente é convidado a assumir uma postura ativa engajandose de maneira autêntica na exploração de suas vivências emocionais Esse compromisso não se resume à verbalização de sintomas mas envolve a disposição para confrontar resistências e ambiguidades inerentes ao processo introspectivo Paralelamente cabe ao psicanalista definir com clareza suas motivações para acolher o caso delineando um projeto terapêutico que oriente suas intervenções Essa delimitação não é estática exige flexibilidade para adaptarse às demandas emergentes sem perder de vista os objetivos centrais do tratamento ZIMMERMAN 2004 A preparação do analista para lidar com desafios emocionais como situações transferenciais intensas ou manifestações de contratransferência é um pilar da prática clínica A empatia aliada ao reconhecimento das próprias limitações e reações inconscientes permite que ele sustente um ambiente seguro onde o paciente se sinta acolhido em sua vulnerabilidade Essa habilidade não se restringe à técnica envolve uma reflexão contínua sobre como as histórias pessoais do terapeuta podem influenciar sua escuta exigindo um equilíbrio delicado entre envolvimento e neutralidade Além disso o contexto físico e emocional em que o analista trabalha repercute diretamente na qualidade do atendimento no qual manter um ambiente organizado e garantir um equilíbrio entre vida profissional e pessoal não são meros detalhes operacionais mas condições essenciais para preservar a integridade do setting terapêutico 9 O autocuidado do analista incluindo a gestão do estresse e a supervisão regular assegura que ele esteja emocionalmente disponível para acolher as demandas complexas do paciente evitando esgotamento ou interferências prejudiciais assim a interação entre paciente e analista revelase uma teia de interdependências na qual a clareza técnica a ética do cuidado e a gestão das emoções se entrelaçam A primeira entrevista longe de ser um mero protocolo é um microcosmo desse processo nela avaliamse não apenas as condições psíquicas do paciente mas também a capacidade do analista de sustentar uma aliança terapêutica pautada pela confiança e pelo rigor metodológico Essa sintonia inicial quando bem conduzida lança as bases para um trabalho transformador onde a complexidade humana é abordada em sua plenitude ZIMMERMAN 2004 22 A EVOLUÇÃO DO DIAGNÓSTICO PSICANALÍTICO O diagnóstico psicanalítico contemporâneo configurase como um campo em constante evolução que busca transcender as classificações clássicas das doenças mentais Essa abordagem prioriza um entendimento profundo do paciente considerando não apenas os aspectos sintomáticos mas também as dinâmicas psíquicas subjacentes Nesse contexto a avaliação do prognóstico emerge como elemento central frequentemente realizada ao longo do processo analítico dinâmica que pode surpreender tanto o analista quanto o analisando revelando nuances que ultrapassam as expectativas iniciais e destacando a complexidade humana em sua busca por autoconhecimento Um dos critérios fundamentais nesse paradigma é o de acessibilidade que se concentra na motivação coragem e capacidade do paciente de permitir o acesso ao seu inconsciente ZIMMERMAN 2004 Essa compreensão é particularmente relevante na seleção de pacientes que à primeira vista podem ser considerados de difícil acesso como aqueles com regressões significativas ou paradoxalmente com estrutura psíquica aparentemente bem ajustada Para Bechara m m 2009 a psicanálise contemporânea tem se mostrado receptiva a configurações diversas adaptando técnicas e táticas para atender às necessidades específicas de cada indivíduo o que reforça sua flexibilidade como ferramenta terapêutica Observase ainda uma diminuição progressiva dos critérios de contraindicação na prática clínica atual refletindo maior abertura à diversidade de 10 pacientes Questões como a idade antes vistas como limitantes são agora abordadas com relativismo permitindo a inclusão de crianças e idosos no tratamento psicanalítico com resultados positivos Além disso a psicanálise contemporânea não hesita em enfrentar situações críticas como quadros emocionais agudos integrandose a outros recursos como psicofármacos em uma abordagem holística que busca eficácia sem abandonar a profundidade analítica O diagnóstico clínico psicanalítico é permeado por um relativismo acentuado no qual condições aparentemente alarmantes como uma reação esquizofrênica aguda podem ter prognóstico favorável se manejadas com competência técnica enquanto neuroses crônicas podem apresentar desafios imprevistos Essa dualidade exige do analista um olhar crítico e atento capaz de discernir as nuances singulares de cada caso sem se apoiar em generalizações Entretanto algumas contraindicações permanecem inegáveis como a degenerescência mental a incapacidade de abstração e casos com motivações distorcidas Em situações de avaliação inicial inconclusiva a análise de prova surge como alternativa viável Essa abordagem que prolonga a entrevista inicial permite uma reflexão mais detalhada sobre as condições do paciente antes da formalização do contrato analítico assegurando que ambos analista e analisando possam estabelecer um vínculo seguro e comprometido Essas práticas alinhamse à Resolução CFP nº 0052025 que enfatiza a supervisão e orientação de estágios em Psicologia com base em fundamentação teórica e ética A psicanálise contribui não apenas com técnicas específicas mas com uma postura clínica que valoriza a alteridade o silêncio a história singular e o tempo subjetivo Essa escuta ética associada ao rigor técnico oferece ao profissional de Psicologia uma base sólida para atuar em contextos clínicos diversos mantendo o compromisso com o sofrimento humano em sua complexidade e singularidade Assim a psicanálise reafirma seu papel na saúde mental contemporânea um campo que se reinventa e se amplia acolhendo a diversidade de pacientes e integrandose a marcos regulatórios que fortalecem a formação crítica e ética dos futuros psicólogos ZIMMERMAN 2004 11 23 REGRAS PSICANALÍTICAS DA ATUALIDADE A evolução das regras fundamentais da psicanálise ao longo do tempo reflete as transformações nas dinâmicas sociais e nas expectativas dos pacientes A regra da livre associação de ideias que enfatiza a verbalização espontânea por parte do paciente mantém sua centralidade mas sua aplicação prática tem se adaptado às demandas atuais Hoje os analistas reconhecem a necessidade de criar um ambiente terapêutico que favoreça não apenas a expressão livre mas também a autenticidade considerando a diversidade de experiências e a complexidade das questões contemporâneas trazidas pelos pacientes Essa adaptação não descaracteriza a técnica mas amplia sua capacidade de acolher subjetividades em contextos cada vez mais pluralizados ZIMMERMAN 2004 A regra da abstinência tradicionalmente associada à contenção de gratificações pessoais por parte do analista tem sido reinterpretada em um cenário clínico que valoriza a empatia e a conexão humana Embora sua essência evitar satisfações substitutivas que desviem o foco do processo analítico permaneça válida a prática contemporânea enfrenta o desafio de equilibrar essa contenção com a construção de uma relação de confiança e segurança Essa tensão produtiva permite que a relação analítica transcenda a função meramente interpretativa tornandose um espaço de interação genuína onde a vulnerabilidade é reconhecida como parte integrante do trabalho terapêutico SOUZA COELHO 2012 Por outro lado Zimerman 2004 também afirma que a regra da neutralidade que historicamente exigia um distanciamento emocional do analista é revisitada à luz de abordagens que defendem maior transparência na relação terapêutica Isso não implica a perda da postura técnica mas o reconhecimento de que a neutralidade pode coexistir com uma presença mais autêntica O analista contemporâneo ao acolher suas próprias emoções e reações contratransferenciais pode oferecer uma escuta mais engajada sem abandonar o rigor metodológico Essa flexibilidade não enfraquece o setting mas o torna mais sensível às nuances afetivas que emergem no processo A ênfase na verdade e na honestidade incorporada como uma quinta regra em discussões recentes responde à demanda por autenticidade nas relações terapêuticas pois os pacientes buscam não apenas uma análise técnica mas uma conexão que os auxilie a navegar realidades emocionais complexas marcadas por 12 incertezas e paradoxos da vida moderna Essa dimensão exige que analista e paciente se envolvam em um processo de descoberta mútua onde a honestidade tanto sobre limites quanto sobre possibilidades fortalece a aliança terapêutica Assim as regras psicanalíticas embora preservem seu núcleo ético e técnico demandam revisão contínua para dialogar com as transformações sociais e científicas A prática clínica atual ao integrar essas adaptações não apenas honra o legado freudiano mas assegura que a psicanálise permaneça relevante como ferramenta de compreensão e intervenção diante das complexidades humanas do século XXI 231 Regra da abstinência A regra da abstinência formulada por Freud em 1915 surgiu em resposta ao desenvolvimento de vínculos eróticos entre pacientes histéricas e analistas em um período em que as análises eram breves Com a expansão da psicanálise e o aumento das críticas sobre a sexualidade na prática clínica Freud viu a necessidade de estabelecer limites claros para evitar envolvimentos sexuais entre analistas e analisandos Em 1912 ele começa a esboçar essa diretriz preocupado com a integridade ética da psicanálise A abstinência implica que o psicanalista deve absterse de qualquer atividade além da interpretação proibindo gratificações externas e preservando o anonimato do paciente posição reforçada por Freud em 1918 em seus escritos sobre terapias psicanalíticas ZIMMERMAN 2004 Ressaltase a relevância da abstinência analítica conforme proposta por Freud que defende que os analistas evitem gratificações externas e intervenções significativas na vida dos pacientes durante o tratamento Para ele era imperativo que os pacientes não tomassem decisões importantes como escolhas profissionais ou amorosas sem uma análise prévia a fim de evitar que impulsos inconscientes fossem mal direcionados protegendoos de possíveis danos Entretanto críticas contemporâneas apontam que a interpretação rígida dessa recomendação pode levar a um distanciamento excessivo entre analista e analisando prejudicando o tratamento A preocupação freudiana com envolvimentos emocionais e sexuais embora válida corre o risco de ser aplicada de forma extremada gerando uma dinâmica fóbica que compromete a aliança terapêutica ZIMMERMAN 2004 13 Com a evolução da prática psicanalítica observase uma mudança significativa no perfil emocional e situacional dos pacientes assim como nas condições sociológicas e econômicas em que a análise ocorre Muitos analistas contemporâneos adotam portanto uma postura mais flexível promovendo um ambiente acolhedor e interativo sem abandonar a estrutura normativa do setting analítico Argumentase que a rigidez na aplicação das diretrizes originais de Freud pode criar um clima de falsidade e paranoia Assim uma abordagem adaptativa e humanizada é considerada essencial nas práticas atuais permitindo que analistas se conectem de maneira autêntica com seus pacientes fator que pode potencializar a eficácia do processo terapêutico O conceito de amor de transferência na psicanálise evidencia a evolução das práticas desde Freud destacando os riscos de envolvimento emocional entre analista e paciente A abstinência do psicanalista permanece crucial para evitar a gratificação de desejos que refletem carências do próprio terapeuta não do paciente É fundamental diferenciar curiosidades patológicas que demandam interpretação daquelas saudáveis que merecem acolhimento como expressões genuínas do sujeito Além disso as atitudes em relação a encontros sociais entre analistas e pacientes modificaramse antes rigidamente evitados hoje são abordados com maior flexibilidade ainda que cautelosa Zimerman 2004 aponta essa mudança a qual reflete uma adaptação às demandas contemporâneas sem descuidar dos princípios éticos que preservam a integridade do vínculo terapêutico 232 Regra da atenção flutuante A regra da atenção flutuante proposta por Freud estabelece um princípio fundamental para a prática analítica implicando a criação de condições que favoreçam uma comunicação autêntica entre os inconscientes do analista e do paciente Bion amplia essa concepção ao destacar o papel da intuição frequentemente obscurecida pela ênfase excessiva na percepção sensorial como ferramenta essencial para decifrar as camadas simbólicas do discurso ZIMMERMAN 2004 Uma das dificuldades centrais para o analista reside em sua capacidade de se desvincular de desejos e memórias pessoais durante o processo Embora seja natural que emoções surjam é importante que o terapeuta mantenha clareza sobre 14 esses sentimentos discriminando adequadamente entre suas experiências subjetivas e as dinâmicas transferenciais em jogo Essa distinção preserva a neutralidade técnica e assegura que as intervenções estejam alinhadas às necessidades do paciente evitando projeções que comprometam a eficácia terapêutica A prática psicanalítica exige assim uma dissociação útil habilidade de reconhecer e diferenciar as diversas áreas do mapa psíquico do analista incluindo emoções que emergem durante a sessão Essa dissociação sustenta tanto a teorização flutuante entendida como a capacidade de elaborar hipóteses sem fixação prévia quanto à atenção flutuante que consiste em uma escuta aberta a múltiplos significados Esses mecanismos facilitam a conexão com a realidade externa e com o inconsciente permitindo uma escuta intuitiva que capta nuances escapadas a abordagens lineares SOUZA COELHO 2012 Por outro lado uma atenção excessivamente direcionada pode levar a um estado patogênico no qual o analista busca informações irrelevantes à situação analítica movido por curiosidade pessoal ou necessidade de controle Essa postura desvia o foco do trabalho terapêutico e pode gerar vínculos transferenciais prejudiciais nos quais as projeções do analista contaminam a relação Além disso a tentativa de manter a atenção flutuante de forma rigorosa pode gerar desconforto e sensação de fracasso no analista já que divagações e distrações são inevitáveis durante as sessões A flexibilidade mental tornase portanto um elementochave pois ela permite que o analista navegue entre suas próprias emoções e as dinâmicas do setting terapêutico ajustandose às flutuações do processo sem perder a postura técnica necessária Essa habilidade reconhece que a eficácia reside no equilíbrio entre disciplina clínica e adaptação às contingências humanas ZIMMERMAN 2004 233 Regra da neutralidade A regra da neutralidade conforme proposta por Freud é um princípio essencial na psicanálise sugerindo que o psicanalista deve atuar como um espelho opaco refletindo apenas o conteúdo apresentado pelo paciente e evitando expor suas próprias emoções Embora o termo neutralidade não seja frequente em seus textos Freud defende uma postura imparcial distante da indiferença que poderia prejudicar o processo analítico Essa neutralidade inclui a gestão dos desejos do 15 analista permitindo uma interação aberta e profunda com o paciente o que cria um ambiente favorável à exploração emocional e psicológica PINHEIRO 1999 Contudo a regra da neutralidade tem sido reavaliada na prática contemporânea distante da visão tradicional de Freud que comparava o analista a um espelho mecânico Atualmente entendese que o analista deve funcionar como um espelho que possibilita ao paciente uma reflexão abrangente sobre si mesmo sem que isso implique a supressão total de sua subjetividade A neutralidade é reconhecida como um ideal inatingível já que o analista inevitavelmente traz suas crenças valores e perspectivas para a relação terapêutica influenciando dinâmicas interpretativas e escolhas técnicas ZIMMERMAN 2004 O envolvimento afetivo do terapeuta desde que não se torne patológico é considerado essencial para estabelecer uma aliança terapêutica significativa As escolhas interpretativas como decidir quando intervir ou como formular uma interpretação revelam a subjetividade inerente à prática demonstrando que a neutralidade não se traduz em ausência de posicionamento mas em um equilíbrio entre acolhimento e contenção Essa postura permite que o paciente se sinta reconhecido em sua singularidade ao mesmo tempo que preserva o espaço analítico como um campo de investigação livre de projeções excessivas do terapeuta Assim a neutralidade na psicanálise contemporânea não nega a influência do analista mas reconhece a complexidade de sua função ser um interlocutor que mesmo com suas limitações humanas mantém o foco no processo de desvelamento do inconsciente equilibrando técnica e sensibilidade ZIMMERMAN 2004 234 Regra do amor à verdade A psicanálise segundo Freud fundamentase na verdade e na ética sendo a honestidade do psicanalista um elemento fundamental para promover mudanças significativas nos pacientes O terapeuta deve evitar julgamentos sobre terceiros já que os pacientes podem induzir quebras éticas por meio de projeções ou tentativas de envolver o analista em dinâmicas externas à terapia Um dilema recorrente é o envolvimento amoroso entre terapeuta e paciente tratado com rigor por sociedades psicanalíticas para preservar a integridade da relação analítica Dessa forma a ética e a verdade configuramse como pilares indissociáveis da prática freudiana 16 A discussão sobre transgressões éticas e sexuais na psicanálise revela um campo marcado por tensões e controvérsias conforme destacado por Daniel Widlocher expresidente da Associação Psicanalítica Internacional IPA Ele argumenta que tais transgressões não devem ser simplificadas como meros erros ou pecados irreparáveis mas sim compreendidas como fenômenos complexos que exigem análise crítica Widlocher observa ainda que transgressões éticas como vínculos românticos não consumados entre analistas e pacientes que frequentemente permanecem ocultas apesar de seu impacto relevante Freud já enfatizava a necessidade de honestidade mútua afirmando que a falta de verdade por parte do analista comprometeria a eficácia do tratamento corroendo a confiança essencial ao processo Complementando essa perspectiva Bion introduz a reflexão sobre a análise de indivíduos que utilizam a mentira como mecanismo de defesa Ele ressalta que a verdade é um elemento vital para a saúde psíquica comparandoa a um alimento indispensável e sua ausência levaria à deterioração do psiquismo Assim a abordagem psicanalítica da verdade deve transcender o moralismo focandose na construção de uma atitude autêntica que permita ao paciente alcançar liberdade interna e engajarse plenamente no processo analítico ZIMERMAN 2004 A preservação do setting analítico é outro aspecto essencial pois garante a estruturação da relação terapêutica mantendo a assimetria necessária entre os papéis de analista e paciente O enquadre estabelece limites claros e promove o princípio da realidade contrapondose ao princípio do prazer que muitas vezes domina a subjetividade do paciente Essa estrutura é especialmente crítica no trabalho com pacientes regressivos que podem enfrentar dificuldades em lidar com limites e frustrações No entanto é fundamental evitar uma rigidez excessiva na aplicação dessas regras pois isso pode gerar uma atmosfera coercitiva prejudicando a aliança terapêutica A própria prática de Freud ilustra a complexidade desse equilíbrio que frequentemente flexibilizava suas próprias recomendações adotando abordagens não convencionais que refletiam o contexto histórico e teórico da psicanálise em sua época ZIMERMAN 2004 17 24 A COMPREENSÃO DO RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SOB A PERSPECTIVA DA PSICANÁLISE A análise do relacionamento interpessoal quando vista sob a ótica psicanalítica exige uma investigação minuciosa das forças inconscientes que moldam as interações humanas Essas forças muitas vezes surgem a partir de experiências precocemente vivenciadas na infância que ficam armazenadas no inconsciente e influenciam não apenas as emoções e comportamentos atuais mas também a maneira como os indivíduos percebem e se relacionam com os outros Este entendimento é fundamental para compreender questões como ciúmes inseguranças projeções e padrões de comunicação disfuncionais já que muitas dessas características têm raízes profundas e subconscientes Além disso essa abordagem permite uma compreensão mais abrangente dos conflitos internos que podem dificultar a construção de vínculos afetivos seguros e satisfatórios favorecendo processos de autoconhecimento que são essenciais tanto na clínica quanto na vida cotidiana De acordo com Freud 1900 as experiências formativas na infância não apenas moldam o desenvolvimento psíquico mas também deixam marcas que podem perdurar ao longo da vida influenciando todas as relações seguintes Essas experiências muitas vezes são reprimidas ou não totalmente resolvidas permanecendo no inconsciente e se manifestando através de sintomas ou padrões relacionais recorrentes na fase adulta Por exemplo uma criança que vivenciou negligência ou rejeição pode desenvolver uma ansiedade de separação ou padrões de busca de validação constantes na vida adulta Assim ao revisar e entender essas experiências e seus efeitos o terapeuta e o indivíduo podem trabalhar a resolução de conflitos internos promovendo relações mais saudáveis e equilibradas e uma melhor gestão emocional 241 As pulsações e vínculos na teoria psicanalítica o papel da pulsão e do desejo Segundo Treiguer 2007 a compreensão da pulsão na psicanálise não se limita à sua força de impulso biológico mas deve ser entendida na relação com os 18 vínculos estabelecidos entre os indivíduos A pulsão como força reguladora das interações atua tanto na esfera consciente quanto na inconsciente moldando desejos necessidades e fantasias O desejo por sua vez é uma força que unifica o sujeito embora seja frequentemente influenciado por fatores externos como o alheio ou seja o outro suas expectativas desejos e projeções Essas dinâmicas complexas resultam na multiplicidade de emoções que experimentamos nas relações como novela de desejo medo mistério e insegurança que enriquecem ou dificultam o relacionamento dependendo de como são elaboradas e integradas 242 Significado simbólico e mitológico das relações conjugais Ao analisar as relações amorosas sob a perspectiva simbólica e mitológica a narrativa bíblica de Adão e Eva serve como uma poderosa metáfora para entender a busca pela perfeição a ilusão de imortalidade e a vulnerabilidade inerente aos relacionamentos O desejo de ser igual a Deus simboliza a tentativa de superar os limites humanos o que na relação de casal pode refletir a busca por uma união idealizada que muitas vezes é inatingível A expulsão do Éden revela como a tentativa de alcançar essa perfeição pode resultar na fragilidade e na necessidade de aceitar a vulnerabilidade como parte fundamental do amor e da convivência Na perspectiva psicanalítica há a compreensão de que os casais frequentemente criam uma dinâmica de inseparabilidade na qual as diferenças individuais são minimizadas ou até negadas Para isso usam mecanismos de defesa como a cisão dividir aspectos positivos e negativos e a identificação projetiva que reduzem as diferenças ao transferir aspectos indesejados ou conflitantes para o outro Essa fusão embora possa parecer uma busca por completude tende a ser prejudicial a longo prazo pois impede o desenvolvimento da autonomia emocional e limita a autenticidade no relacionamento Quando essa fusão se torna excessiva a relação pode se transformar em uma ilusão de perfeição que ao se desmoronar leva ao conflito ou à crise de identidade de ambos os parceiros 19 243 Alianças inconscientes e a formação psíquica do vínculo amoroso De acordo com Pignataro FerrésCarneiro e Mello 2019 as alianças inconscientes estruturam as relações amorosas formando um sistema de funções que mantêm o vínculo e protegem os indivíduos de ameaças internas e externas Essas alianças que se originam na infância e nas primeiras experiências afetivas podem ser primárias secundárias defensivas ou criativasdestrutivas cada uma desempenhando papéis diferentes na vida psíquica e relacional Elas moldam percepções expectativas e comportamentos além de influenciar a forma como o parceiro é visto e tratado na relação Compreender esses mecanismos ajuda a desmistificar padrões repetitivos e a elaborar vínculos mais conscientes e satisfatórios promovendo maior autonomia emocional e resistência às dificuldades do cotidiano Dentro das alianças inconscientes existe o pacto denegativo também discutido na literatura psicanalítica referese a uma aliança inconsciente que os parceiros assumem muitas vezes de forma automática para proteger a relação de conflitos internos ou de demandas emocionais que podem ameaçála Essa aliança funciona por meio da mobilização de fantasias identificações e realidades psíquicas partilhadas que mantêm o vínculo mesmo que envolvam negação ou repressão de aspectos desagradáveis ou conflitantes Essa dinâmica atua como um mecanismo de defesa contribuindo para a estabilidade emocional do casal ao evitar confrontar certas verdades dolorosas mas também pode limitar o crescimento e a autenticidade na relação Além do pacto denegativo Pignataro FérresCarneiro e Mello 2019 descrevem os contratos inconscientes como entendimentos tácitos que emergem na relação estabelecendo limites expectativas e trocas que sustentam o vínculo Esses contratos podem ser conscientes ou inconscientes e dizem respeito às concessões mútuas necessárias para a convivência Enquanto os acordos representam negociações mais conscientes os pactos envolvem trocas intransmissíveis ou insuspeitas muitas vezes influenciadas por elementos da infância ou experiências passadas Essas dinâmicas facilitam ou dificultam a elaboração de desejos e necessidades moldando o modo como o casal enfrenta as dificuldades e constrói a sua história conjunta 20 244 Vínculos afetivos segundo Bion espaço psíquico e conteúdo emocional Segundo Mondrzak 2007 a teoria de Bion destaca que os vínculos amorosos de ódio ou de conhecimento dependem do espaço psíquico chamado por ele de contenedor e do conteúdo emocional que nele reside O espaço psíquico funciona como um recipiente onde emoções e experiências conflitantes podem ser armazenadas elaboradas e integradas fortalecendo a relação As emoções como inveja ciúme raiva ou insegurança sentimentos típicos de uma relação conjugal não apenas emergem do conteúdo mas são moduladas pelo espaço psíquico que deve ser acolhedor para que os conflitos possam ser trabalhados de forma saudável Essa capacidade de acolhimento e elaboração emocional possibilita uma convivência mais madura empática e segura emocionalmente promovendo um vínculo mais sólido e autêntico No contexto de Bion a relação entre o analista e o espaço psíquico é fundamental para o processo terapêutico O analista ao atuar como um recipiente deve criar um espaço psíquico seguro e receptivo capaz de acolher e processar as experiências emoções e pensamentos do paciente Nesta teoria o analista é um facilitador do espaço psíquico criando uma condição em que o paciente possa explorar processar e integrar suas experiências internas de forma segura e significante Essa dinâmica é essencial para que o processo terapêutico seja efetivo e transformador 245 O casal como uma unidade psíquica e a influência do desenvolvimento emocional Na psicanálise a concepção de que o casal constitui uma unidade psíquica com estrutura própria traz reflexões importantes sobre a dinâmica do relacionamento Cada indivíduo traz para o casal seu desenvolvimento emocional suas carências suas dores e conflitos internos que ao interagirem podem resultar tanto em harmonia quanto em disfunções Quando há conflitos não resolvidos ou projeções esses fatores podem gerar uma relação disfuncional marcada por conflitos constantes ou mesmo por padrões de fusão excessiva onde os limites entre os parceiros se tornam difusos A intervenção clínica busca muitas vezes 21 desconstruir essas dinâmicas promovendo autonomia emocional e a compreensão dos acontecimentos internos de cada um além de favorecer uma relação mais equilibrada capaz de suportar conflitos de forma construtiva A participação em processos terapêuticos seja individual ou de casal muitas vezes revela ou provoca desequilíbrios na relação como ciúmes resistência às mudanças ou boicotes que surgem como mecanismos de defesa ou tentativas de manter o status quo Essas reações muitas vezes dificultam o avanço do tratamento e requerem atenção específica do terapeuta que deve trabalhar a compreensão dessas resistências promovendo maior autorreflexão e autoconhecimento A terapia assim atua como uma ferramenta de resistência e reconstrução emocional possibilitando a elaboração de conflitos a superação de obstáculos e a promoção de relações mais satisfatórias e maduras 3 METODOLOGIA A metodologia adotada neste estudo é fundamentada em princípios clássicos da psicanálise utilizando a técnica da associação livre como um dos pilares do processo terapêutico Essa técnica permite ao paciente expressar livremente seus pensamentos sentimentos e imagens sem censura ou restrições o que facilita a acessibilidade a conteúdos inconscientes Ao criar um espaço onde o paciente se sente à vontade para compartilhar suas ideias a associação livre se torna um meio poderoso para explorar as camadas mais profundas da psique A primeira entrevista desempenha um papel crucial nesse contexto uma vez que estabelece as bases para a relação analítica Neste encontro inicial o analista busca criar um ambiente de confiança e segurança onde o paciente se sinta confortável para se abrir É um momento de construção do vínculo onde se discutem as expectativas do tratamento e se delineiam os objetivos da terapia A receptividade e a empatia do analista são essenciais para fazer com que o paciente sinta que sua história e suas vivências são valorizadas Durante as sessões subsequentes a atenção flutuante do analista se torna uma prática fundamental Essa abordagem implica que o analista mantenha uma escuta atenta e flexível permitindo que sua atenção se mova entre diferentes temas e conteúdos que emergem das falas do paciente Essa atenção não é direcionada 22 apenas a pontos específicos mas busca captar nuances sentimentos e associações que possam surgir criando um espaço onde o paciente pode explorar livremente seu mundo interno A interpretação por sua vez é uma ferramenta vital que emerge desse processo Quando o analista oferece interpretações ele busca conectar os conteúdos manifestos do discurso do paciente com questões mais profundas e inconscientes Essas intervenções interpretativas têm o potencial de iluminar padrões de comportamento conflitos internos e dinâmicas emocionais que o paciente pode não ter consciência Através desse processo interpretativo o paciente é incentivado a refletir sobre suas experiências promovendo um entendimento mais profundo de si mesmo e facilitando o avanço do tratamento Assim a combinação da associação livre da construção do vínculo na primeira entrevista da atenção flutuante e das interpretações do analista cria um ambiente terapêutico rico e dinâmico propício para o processo de autoconhecimento e transformação psíquica do paciente Essa metodologia busca não apenas a resolução de sintomas mas a promoção de uma maior compreensão da própria subjetividade contribuindo para o desenvolvimento pessoal e emocional ao longo do tratamento 4 PROCESSO TERAPÊUTICO Na sessão de 290425 o paciente J relatou angústia no trabalho devido à pressão do chefe e à carga horária excessiva afetando sua vida familiar Ele enfrenta conflitos com a esposa que possui traumas da infância e preocupase com o comportamento do filho mais velho Apesar das dificuldades J demonstra motivação para o processo terapêutico e deseja explorar suas emoções melhorar a comunicação familiar e promover um ambiente mais saudável Na sessão de 060525 J expressou preocupações sobre a relação tensa entre sua esposa e sua mãe especialmente em relação a uma visita programada Ele também relatou um ambiente de trabalho insustentável devido à pressão do novo chefe apesar da recente promoção e a insatisfação com o salário J enfrenta desafios significativos em sua vida pessoal e profissional que serão explorados nas próximas sessões 23 Na sessão de 20052025 J expressou sobrecarga e falta de apoio no trabalho comparando as exigências de seu chefe e sua esposa Ele relatou frustrações na vida conjugal incluindo incertezas sobre o relacionamento e dificuldades financeiras atribuídas à esposa que geraram ansiedade e medo de perder a família Apesar das queixas J mostrou disposição para agir manifestando interesse em conversar diretamente com seu chefe sobre suas responsabilidades Na sessão de 29052025 J expressou preocupação com as mentiras de seu filho que nega responsabilidades refletindo uma personalidade forte que J reconhece em si mesmo Ele compartilhou sobre sua dependência emocional na infância e como sua relação com os pais influenciou seu comportamento além de relatar sua trajetória de mudança para Maringá e os desafios enfrentados ao se tornar pai J também recordou sua experiência de morar sozinho e a necessidade de se estabelecer uma nova vida com Érica e o filho que estava por vir Na sessão 030625 o paciente não compareceu sem justificar a sua falta Na sessão de 100625 J relatou sobrecarga de trabalho e os desafios emocionais causados pelas oscilações de humor de sua esposa Érica com quem ele enfrenta uma comunicação frágil e dinâmica de culpa Ele mencionou incidentes em que Érica projetou suas frustrações sobre ele evidenciando a ambivalência no relacionamento A sessão terminou com a proposta de explorar essas dinâmicas e focar na melhoria da comunicação e na compreensão mútua nas próximas conversas 41 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 29042025 O paciente J apresentouse na sessão realizada em 290425 Ele relatou angústia no trabalho motivada pela pressão exercida pelo chefe e pela carga horária excessiva o que resulta em pouco tempo para sua família Sua esposa expressa insatisfação com a falta de tempo que o marido dedica aos filhos e à situação financeira em que se encontram O paciente descreve sua esposa como uma pessoa difícil de lidar com quem tem enfrentado frequentes conflitos Ele menciona que ela foi criada apenas pela avó materna o que segundo ele contribui para traumas que dificultam a convivência entre eles As discussões se intensificam durante os dias de TPM e o paciente relata que utiliza um aplicativo para monitorar o ciclo menstrual da esposa tentando evitar conflitos nesses períodos Além disso o 24 paciente demonstra preocupação com o comportamento do filho mais velho que se envolveu em episódios de furto incluindo o roubo de dinheiro da irmã e a destruição de figurinhas na escola Essa situação o leva a refletir sobre a educação e o desenvolvimento moral da criança Apesar das dificuldades o paciente está motivado para o processo terapêutico e expressa interesse em continuar as sessões inclusive na modalidade online caso não seja possível realizar atendimentos presenciais Para as próximas sessões será importante explorar seus sentimentos de angústia e identificar as fontes de estresse melhorar a comunicação com a esposa discutir estratégias para equilibrar trabalho e vida familiar abordar o comportamento do filho e considerar formas de incentivar a esposa a buscar terapia respeitando sua resistência O paciente demonstra consciência das dinâmicas familiares que impactam seu bemestar emocional e está disposto a trabalhar nessas questões As futuras sessões deverão focar nas áreas mencionadas visando promover um ambiente familiar mais saudável 42 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 06052025 J chegou pontualmente às 17h e iniciou a conversa expressando suas preocupações sobre a relação da esposa com sua mãe Ele está apreensivo em relação à visita marcada para o próximo domingo à casa de seus pais Ao investigar essa apreensão J compartilhou um incidente recente durante um almoço na casa de sua mãe onde sua esposa o criticou por sua falta de compromisso com a casa e a família Sua mãe interveio questionando a esposa sobre a falta de reconhecimento e apoio o que levou a esposa a se retirar da mesa e solicitar a saída Perguntei a J sobre a situação atual com a esposa e ele mencionou que as coisas melhoraram um pouco mas a relação com a mãe ainda é tensa Ele expressou a preocupação de não querer deixar os filhos sob os cuidados da mãe uma vez que sua esposa só aceita deixálos com a mãe e a irmã J também revelou receios em deixar seu filho com o pai devido a temores de abuso embora não tenha confirmado se sua esposa já passou por essa experiência No que diz respeito à vida profissional J relatou que a situação com seu chefe se tornou insustentável Ele acredita que a recente mudança na gestão da rede de supermercados está gerando pressão por resultados imediatos e eficazes o que tem impactado negativamente a dinâmica com sua 25 equipe Apesar de ter recebido uma promoção recentemente J não está satisfeito com o salário pois não houve um aumento que correspondesse à nova função Ele suspeita que a empresa esteja realizando uma avaliação prometendo um aumento após seis meses caso os resultados esperados sejam atingidos A sessão foi encerrada destacando que J enfrenta desafios tanto em sua vida pessoal quanto profissional que precisam ser explorados e refletidos nas próximas sessões 43 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 20052025 Na sessão de hoje J apresentou uma série de queixas relacionadas à sua vida profissional e pessoal destacando a sensação de sobrecarga e a falta de apoio em ambas as esferas Ele relatou que está se sentindo pressionado no trabalho enfrentando um volume elevado de tarefas sem o devido suporte de seu chefe J mencionou que seu chefe propõe a necessidade de um bom desempenho mas paradoxalmente continua a sobrecarregálo com mais responsabilidades Fez uma comparação entre seu chefe e sua esposa ambos considerados sem lógica em suas exigências Em relação à sua vida conjugal J expressou frustração em relação à sua esposa citando um recente convite dela para não chegar tarde em casa mas sem clareza sobre o compromisso Ele observou que essa instabilidade gera ansiedade pois pode se tratar de um convite para um momento agradável ou uma conversa sobre separação J revelou que já considerou a separação em duas ocasiões mas uma oração em um momento de reflexão o levou a interpretar que deveria permanecer no casamento especialmente após a notícia da gravidez de sua filha J também trouxe à tona a dificuldade financeira que enfrenta atribuindo parte da culpa a sua esposa Ele explicou que após ela seguir um guru financeiro e fazer investimentos de alto risco acabou assumindo uma dívida significativa com a compra de um carro cujas parcelas se tornaram uma carga pesada comprometendo seu orçamento Atualmente J mencionou que não recebe ajuda dela para os gastos uma vez que ela também lida com suas próprias dívidas O medo de perder a esposa e os filhos é um tema recorrente em suas queixas J expressou preocupações sobre a possibilidade de sua esposa levar as crianças para morar com a família dela em Amaporã o que o angustia especialmente em relação à influência negativa que a família dela pode ter sobre os filhos Um aspecto positivo observado na sessão foi a disposição de J em agir de forma proativa Ele 26 demonstrou interesse em ter uma conversa direta com seu chefe para discutir suas preocupações e buscar um entendimento mais claro sobre suas responsabilidades 44 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 29052025 J Começou a sessão dizendo que seu filho está mentindo muito que isso está o preocupando Perguntei se as mentiras são histórias inventadas J Explicou que as mentiras são feitas a partir de uma discussão na qual ele faz uma coisa e nega ter feito Como por exemplo quando sua mãe reclamou que ele não tinha feito a tarefa e quando ele perguntou ele disse que havia feito só depois de muita insistência que admitiu não ter feito J disse que seu filho não tem muito gosto pelos estudos e que nisso é muito diferente dele Perguntei se tem coisas semelhantes com filho disse que sim a personalidade forte de confrontar os pais disse que é igual e que inclusive seu comportamento era diferente dos outros dois irmãos perguntei se era o mais velho ele disse que era o mais novo Lembrou de um dia que entrou em confronto com seu pai pois avisou que estava estava indo para uma festa em Astorga e seu pai disse que não iria ele então falou que estava apenas avisando Lembrou que seus pais faziam tudo por ele desde o levar a escola buscar e que por exemplo nunca cozinhou sendo isso uma das críticas que Érica sua esposa faz a ele Foi se sentir mais dependente quando deixou Marília e veio para Maringá estudar Perguntei então como foi que os seus pais vieram para Maringá Falou que ele passou no vestibular na UEM e veio morar com um primo dele no segundo ano de faculdade ele foi morar sozinho então primeiro veio sua mãe mas deixou bem claro que não queria ser vigiado depois veio seu pai sua irmã e seu cunhado Após a faculdade arrumou emprego em Astorga em uma usina Morava em um quarto com banheiro apenas Neste período engravidou a Érica então ela foi morar com seus pais e ele se viu obrigado a voltar e arrumar uma casa para morar junto com a Érica e seu filho que iria nascer 45 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 10062025 Na sessão de hoje J chegou com um atraso de 20 minutos justificandose com problemas relacionados ao serviço Ele também mencionou a ausência na sessão anterior devido a uma viagem durante a qual não teve acesso ao celular Ao 27 longo da conversa J expressou uma série de dificuldades que enfrenta tanto em sua vida profissional quanto no âmbito familiar Ele relatou uma sobrecarga significativa de trabalho mencionando a dificuldade em gerenciar sua carga horária o que parece impactar sua saúde mental e emocional refletindo um estado de estresse e cansaço J trouxe à tona a situação de sua esposa Érica que continua apresentando oscilações de humor Ao questionálo sobre o cansaço que isso poderia causar ele afirmou ter se acostumado e optado por uma postura passiva diante das oscilações dela Exemplos foram dados para ilustrar essa dinâmica em uma visita recente dos padrinhos do filho Érica começou a reclamar que ele não ajuda em casa J optou por se afastar da situação indicando uma estratégia de evitar conflitos Outro exemplo relevante foi o incidente em que seu filho se queimou com um ferro quente J relatou que Érica o culpou pela situação mesmo reconhecendo que ela deveria ter mais cuidado com a criança que estava sob sua responsabilidade na parte superior da casa Essa dinâmica de culpas parece ser um padrão recorrente no relacionamento onde Érica projeta suas frustrações em J Durante a sessão J foi questionado sobre a natureza do relacionamento com Érica Ele mencionou que embora tenham momentos de boa convivência a situação se torna complicada em momentos de tensão A comunicação entre eles parece frágil especialmente em situações emocionais delicadas J trouxe um episódio marcante de uma terapia de casal onde Érica respondeu não sei quando questionada se ainda se gostam evidenciando a ambivalência no relacionamento J relatou que sempre percebeu Érica com esse comportamento desde o início do relacionamento que começou na empresa onde trabalhavam A narrativa de como se conheceram sugere uma atração inicial mas também revela que desde o início houve uma desarmonia que pode ter se intensificado com o tempo A gravidez planejada e a mudança para a casa dos pais de Érica também foram pontos importantes trazendo à tona atritos familiares que contribuíram para a tensão no relacionamento A sessão foi encerrada com a proposta de retomar as questões levantadas nas próximas conversas permitindo que J reflita sobre as dinâmicas familiares e emocionais discutidas É fundamental continuar trabalhando na comunicação e na compreensão mútua entre J e Érica assim como explorar mais a fundo as questões de culpa e frustração que permeiam o relacionamento Os próximos passos incluem 28 explorar as dinâmicas de culpa e projeção de frustrações focar na melhoria da comunicação entre J e Érica e analisar o impacto da carga de trabalho na saúde emocional de J 46 DESCRIÇÃO DA SESSÃO DO DIA 17062025 J Se atrasou vinte minutos novamente Comecei a sessão lembrando de uma fala de J A qual dizia que alguma coisa o atraiu à Érica Então fiz a pergunta o que seria esse algo que o atraiu nela Respondeu que ela tinha algo que a sua ex namorada não tinha Perguntei o que seria Disse que teve duas namoradas antes da Érica e que a primeira era mais velha que ele e tinham pensamentos diferentes sobre a vida Ela pensava em casar pois já era formada e quando estava ainda na faculdade queria aproveitar mais a vida Então conheceu a segunda namorada e ficaram pouco tempo em torno de 9 meses Ela o achou para jantar e disse que não queria mais continuar ficou muito mal e mantinha contato com ela por mensagens até que um dia ela mandou uma mensagem falando que não queria mais conversar com ele para não dar esperanças foi aí que disse que tinha que deixar de ser trouxa e seguir sua vida e cortar contato com ela Disse que foi interessante pois neste dia que ele viu a Érica pela primeira vez mas apenas achou uma mulher bonita e admirou que ela trabalhando em um chão de fábrica onde os homens de todas as idades mexiam com ela sempre se deu ao respeito Então concluiu que a Érica diferente da antiga namorada sempre o respeitou Mesmo quando não namorava ela se dava ao respeito mantendo a distância das pessoas e até hoje é assim Sua antiga namorada era muito de brincar com as pessoas inclusive com homens isso o deixava e acreditava que se permanecesse com ela o deixaria inseguro Perguntei se quanto a palavra respeito o qual diz a Érica ter para com ele não se sente desrespeitado quando ela fala mal dele na frente dele para as outras pessoas Respondeu nisso sim é muito ruim isso que ela faz Perguntei se ele acredita que ela tem a imagem dele das reclamações que ela faz dele para as pessoas Respondeu que acha que sim mas também vê momentos em que ela é carinhosa com ele Continuou que percebe quando ela se frustra com alguma coisa no trabalho ela desconta nele mas acredita que ela tenha sentimento por ele Antes do namoro ela era apegada a ele e muito mais carinhosa quando nasceu seu primeiro filho ela se apegou demais e tinha nele uma fixação exagerada depois que nasceu 29 a filha deixou o filho de lado e tem essa fixação com a filha Como o tempo estava acabando concluí a sessão REFERÊNCIAS CHEMAMA R Psicanálise do cotidiano elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano Porto Alegre CMC Editora 2002 CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA Código de ética profissional do psicólogo Brasília DF 2005 Disponível em httpssitecfporgbrwpcontentuploads201207codigodeeticapsicologiapdf Acesso em 3 maio 2025 FREUD S A interpretação dos sonhos 1900 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2016 FREUD S História de uma neurose infantil o homem dos lobos Além do princípio do prazer e outros textos 19171920 Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2010 FREUD Sigmund Obras completas volume 4 A interpretação dos sonhos Tradução Paulo César de Souza 1 ed São Paulo Companhia das Letras 2019 MONDRZAK Viviane Sprinz Processo psicanalítico e pensamento aproximando Bion e MatteBlanco Revista Brasileira de Psicanálise São Paulo v 41 n 3 set 2007 Disponível em httpspepsicbvsaludorgscielophppidS0486641X2007000300004 Acesso em Sex 20 de Junho PIGNATARO Marina Beatriz FÉRESCARNEIRO Terezinha MELLO Renata A formação do casal conjugal um enfoque psicanalítico Pensando Famílias Porto Alegre v 23 n 1 p 120 janjun 2019 Disponível em httpspepsicbvsaludorg Acesso em 20 de junho de 2025 SAMPAIO Alexandra de Oliveira A clínica de casal canalise das relações vinculares MIMESIS v 30 n2 2009 TREIGUER Lisie Ellwanger Moreira O paradoxo vincular no casal desejo constituição e morte Disponível em wwwcontemporâneoorgbrcontemporânea PHP 2007 Acesso em 20 de junho de 2025 30 ZASLAVSKY Jacó PIRES DOS SANTOS Manuel José Sobre o papel das identificações na relação amorosa Revista de Psicanálise SPPA Porto Alegre v II n 2 p 47514933 ago 1996 ZIMERMAN D E Manual de técnica psicanalítica um estudo teóricoclínico da entrevista inicial dos critérios de analisabilidade e do contrato Porto Alegre Artmed 2004 442 p

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