11
Sociologia do Direito
UNESC
17
Sociologia do Direito
FAT
4
Sociologia do Direito
FACAMP
2
Sociologia do Direito
UEG
2
Sociologia do Direito
UFSM
10
Sociologia do Direito
FAPAS
24
Sociologia do Direito
UEMG
5
Sociologia do Direito
FADIMAB
58
Sociologia do Direito
UFSM
1
Sociologia do Direito
UCSAL
Texto de pré-visualização
Antes o mundo não existia Ailton Krenak Os intelectuais da cultura ocidental escrevem livros fazem filmes dão conferências dão aulas nas universidades Um intelectual na tradição indígena não tem tantas responsabilidades institucionais assim tão diversas mas ele tem uma responsabilidade permanente que é estar no meio do seu povo narrando a sua história com seu grupo suas famílias os clãs o sentido permanente dessa herança cultural Aqui nesta região do mundo que a memória mais recente instituiu que se chama América aqui nesta parte mais restrita que nós chamamos de Brasil muito antes de ser América e muito antes de ter um carimbo de fronteiras que separa os países vizinhos e distantes nossas famílias grandes já viviam aqui são essa gente que hoje é reconhecida como tribos As nossas tribos Muito mais do que somos hoje porque nós tínhamos muitas etnias muitos grupos com culturas diversas com territórios distintos Esses territórios se confrontavam ou às vezes tinham vastas extensões onde nenhuma tribo estava localizada e aquilo se constituía em grandes áreas livres sem domínio cultural ou político Nos lugares onde cada povo tinha sua marca cultural seus domínios nesses lugares na tradição da maioria das nossas tribos de cada um de nossos povos é que está fundado um registro uma memória da criação do mundo Nessa antiguidade desses lugares a nossa narrativa brota e recupera o feito dos nossos heróis fundadores Ali onde estão os rios as montanhas está a formação das paisagens com nomes com humor com significado direto ligado com a nossa vida e com todos os relatos da antiguidade que marcam a criação de cada um desses seres que suportam nossa passagem no mundo Nesse lugar que hoje o cientista talvez o ecologista chama de habitat não está um sítio não está uma cidade nem um país É um lugar onde a alma de cada povo o espírito de um povo encontra a sua resposta resposta verdadeira De onde sai e volta atualizando tudo o sentido da tradição o suporte da vida mesma O sentido da vida corporal da indumentária da coreografia das danças dos cantos A fonte que alimenta os sonhos os sonhos grandes o sonho que não é somente a experiência de estar tendo impressões enquanto você dorme mas o sonho como casa da sabedoria Vocês têm uma instituição que se chama universidade escola e têm a instituição que se chama educação Todas estas instituições educação escola universidade elas estão no sonho na casa do conhecimento Esse sonho tem um aprendizado para o sonho E quando nós sonhamos nós estamos entrando num outro plano de conhecimento onde nós trocamos impressões com os nossos ancestrais não só no sentido de nossos antigos meus avós meu bisavô gerações anteriores mas com os fundadores do mundo Tomara que a palavra habitat tenha esse sentido que estou pensando que ela não seja só um sítio uma cidade ou lugar só na geografia que ela tenha também espírito porque se ela tiver espírito então eu consigo expressar uma idéia que aproxima para você o lugar de onde estou tentando contar um pouco da memória que nós temos de criação do mundo quando o tempo não existia Quando eu vejo as narrativas mesmo as narrativas chamadas antigas do Ocidente as mais antigas elas sempre são datadas Nas narrativas tradicionais do nosso povo das nossas tribos não tem data é quando foi criado o fogo é quando foi criada a lua quando nasceram as estrelas quando nasceram as montanhas quando nasceram os rios Antes antes já existe uma memória puxando o sentido das coisas relacionando o sentido dessa fundação do mundo com a vida com o comportamento nosso como aquilo que pode ser entendido como o jeito de viver Esse jeito de viver que informa a nossa arquitetura nossa medicina a nossa arte as nossas músicas nossos cantos Nós não temos uma moda porque nós não podemos inventar modas Nós temos tradição e ela está fincada em uma memória de antiguidade do mundo quando nós nos fazemos parentes irmãos primos cunhados da montanha que forma o vale onde estão nossas moradias nossas vidas nosso território Aí onde os igarapés as cachoeiras são nossos parentes ele está ligado a um clã está ligado a outro ele está relacionado com seres que são aquilo que chamaria de fauna está ligado com os seres da água do vento do ar do céu que liga cada um dos nossos clãs e de cada um das nossas grandes famílias no sentido universal da criação Algumas danças nossas que algumas pessoas não entendem talvez achem que a gente esteja pulando somente reagindo a um ritmo da música porque não sabem que todos esses gestos estão fundados num sentido imemorial sagrado Alguns desses movimentos coreografias se você prestar atenção ele é o movimento que o peixe faz na piracema ele é um movimento que um bando de araras faz organizando o vôo o movimento que o vento faz no espelho da água girando e espalhando ele é o movimento que o sol faz no céu marcando sua jornada no firmamento e é também o caminho das estrelas em cada uma das suas estações Por isso que eu falei a você de um lugar que a nossa memória busca a fundação do mundo informa a nossa arte a nossa arquitetura o nosso conhecimento universal Alguns anos atrás quando eu vi o quanto que a ciência dos brancos estava desenvolvida com seus aviões máquinas computadores mísseis eu fiquei um pouco assustado Eu comecei a duvidar que a tradição do meu povo que a memória ancestral do meu povo pudesse subsistir num mundo dominado pela tecnologia pesada concreta E que talvez fosse um povo como a folha que cai E que a nossa cultura os nossos valores fossem muito frágeis pra subsistirem num mundo preciso prático onde os homens organizam seu poder e submetem a natureza derrubam as montanhas Onde um homem olha uma montanha e calcula quantos milhões de toneladas de cassiterita bauxita ouro ali pode ter Enquanto meu pai meu avô meus primos olham aquela montanha e vêem o humor da montanha e vêem se ela está triste feliz ou ameaçadora e fazem cerimônia para a montanha cantam para ela cantam para o rio mas o cientista olha o rio e calcula quantos megawatts ele vai produzir construindo uma hidrelétrica uma barragem Nós acampamos no mato e ficamos esperando o vento nas folhas das árvores para ver se ele ensina uma cantiga nova um canto cerimonial novo se ele ensina e você ouve você repete muitas vezes esse canto até você aprender E depois você mostra esse canto para os seus parentes para ver se ele é reconhecido se ele é verdadeiro Se ele é verdadeiro ele passa a fazer parte do acervo dos nossos cantos Mas um engenheiro florestal olha a floresta e calcula quantos milhares de metros cúbicos de madeira ele pode ter Ali não tem música a montanha não tem humor e o rio não tem nome É tudo coisa Essa mesma cultura essa mesma tradição que transforma a natureza em coisa ela transforma os eventos em datas tem antes e depois Data tudo tem velho e tem novo Velho é geralmente algo que você joga fora descarta o novo é algo que você explora usa Não há reverência não existe o sentido das coisas sagradas Eu fiquei com medo Eu fiquei pensando e agora Parecia que eu estava vendo um grande granito parado na minha frente Eu não podia olhar Fiquei muitos dias sem graça até que eu ganhei um sonho Ganhei um sonho desses que eu falei com vocês que não é só uma impressão de estar vendo coisas dormindo Mas para nós o sonho é um sonho de verdade um sonho verdadeiro e tem sonho sonho de verdade é quando você sente comunica recupera a memória da criação do mundo onde o fundamento da vida e o sentido do caminho do homem no mundo é contado pra você Você toma aprende como se estivesse dentro de um rio Este rio você fica olhando ele depois você volta aí você olha Não é o mesmo rio que você está vendo mas é o mesmo Porque se você fica olhando o rio a alma dele está correndo passando passando mas o rio está ali Então ele é sempre ele não foi é sempre Não existiu uma criação do mundo e acabou Todo instante todo momento o tempo todo é a criação do mundo Por isso que no sonho a gente entra dentro dele aprende alimenta o espírito Esse sonho veio me mostrar que aquela caricatura de poder que os homens estavam inventando aqui na terra é só uma simulação porque eu pude encontrar andar junto com os meus parentes meu irmão mais velho que na nossa língua original se chama Kiãnkumakiã Este irmão mais velho que estava com a gente sempre desde a fundação do mundo só que não é Deus E nós vimos os meninos os rapazes andando num campo bonito vasto Uma relva baixinha e os rapazes traziam na mão esquerda feixes de varas daquelas varas sem gomo lisas taboca de fazer flecha mas na ponta não tinha lâmina na ponta tinha pendão assim igual ao trigo florando Um grupo grande incontável de rapazes e um guerreiro mais maduro que estava de lado só mostrando uma parte do rosto a vista apontando para o leste Quando olhei assim eu vi um grande lago saindo quase da mesma altura da terra firme Aí aqueles moços foram andando para lá e num gesto eles se transportavam para outro lugar firme para a outra margem de um lago muito grande que liga tudo numa canoa grande de luz como se fosse de luzes assim com gesto de vontade só com a vontade Não tem foguete míssil que faz isso tecnologia que se inventa E todo esse futuro já aconteceu na fundação do mundo Os meus irmãos mais velhos já conhecem tudo isso Então de sonho é isso É um caminho que só podemos fazer dentro da tradição e aprender que além do nosso conhecimento restrito sobre uma ou outra coisa avançada para uma percepção que é integral tudo está ligado as coisas que têm existência física elas foram todas fundadas a partir da palavra que foi ordenando a criação do mundo que quando nós narramos as histórias antigas nós criamos o mundo de novo limpamos o mundo Então antes do mundo existia não só a história dos espíritos dos elementos mas a história de todos os nossos povos antigos que conseguiram ao longo dos tempos manter esta memória da criação do mundo Existem milhões de toneladas de livros arquivos acervos museus guardando uma chamada memória da humanidade E que humanidade é essa que precisa depositar sua memória nos museus nos caixotes Ela não sabe sonhar mais Então ela precisa guardar depressa as anotações dessa memória Como estas duas memórias se juntam ou não se juntam É muito importante para nossos povos tradicionais que ainda guardam esta memória herdeiros dessa tradição cada vez mais restrita no planeta ilhados em alguns cantinhos do Pacífico da Ásia da África aqui da América num mundo cada vez mais mudado pelo homem onde o dia e a noite já não têm mais fronteira porque inventaram artifícios para ele rodar direto dianoitedia Quando o homem rompe a separação entre o dia e a noite como ele vai sonhar Quando os homens trabalham de dia de noite de dia de noite qualquer hora eles estão se parecendo muito com a criação dos homens mesmo que são as máquinas mas muito pouco parecido com o criador do homem que é o espírito Para estes pequeninos grupos humanos nossas tribos que ainda guardam esta herança de antiguidade esta maneira de estar no mundo é muito importante que essa humanidade que está cada vez mais ocidental civilizada e tecnológica lembre ela também dessa memória comum que os humanos têm da criação do mundo e que consigam dar uma medida para sua história para sua história que está guardada registrada nos livros nos museus nas datas porque se essa sociedade se reportar a uma memória nós podemos ter alguma chance Senão nós vamos assistir à contagem regressiva dessa memória no planeta até que só reste a história E entre a história e a memória eu quero ficar com a memória KRENAK Ailton Antes o mundo não existia In NOVAES Adauto org Tempo e história São Paulo Companhia das Letras 1992 m sua análise da memória c0 letiva Maurice Halbwachs en fatiza a força dos diferentes pontos de referência que estru turam nossa memória e que a inserem na memória da coletividade a que pertencemos 1 Entre eles incluemse evidentemente os monumentos esses lugares da memória analisados por Pierre Nora o patrimônio arquitetô nico e seu estilo que nos acompanham por toda a nossa vida as paisagens as datas e personagens históricas de cuja importância somos incessante mente relembrados as tradições e cos tumes certas regras de interação o folclore e a mUSlca e por que nao as tradições culinárias Na tradição me todológica durkheimiana que consiste em tratar fatos sociais como coisasJ tomase possível tomar esses diferen tes pontos de referência como indica dores empíricos da memória coletiva de um determinado grupo uma me mória estruturada com suas hierar quias e classificações uma memória também que ao definir o que é co Memória Esquecimento Silêncio Michael Pollak mum a um grupo e o que o diferen cia dos outros fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as f ron tei ras s6ciouhurais Na abordagem durkheimiana a ên fase é dada à força quase institucional dessa memória coletiva à duração à continuidade e à estabilidade Assim também Halbwachs longe de ver Des sa memória coletiva uma imposição uma forma específica de dominação ou violência simbólica acentua as funções positivas desempenhadas pela memóría comum a saber de reforçar a coesão social não pela coerção mas pela adesão afetiva ao grupo donde o termo que utiliza de comunidade afetiva Na tradição européia do século XIX em Halbwachs iDclusive a nação é a forma mais acabada de um grupo e a memória Dacional a forma mais completa de lima memÓ ria co1etlva Em vários momentos Maurice Halbwachs insinua não apenas a sele tividade de toda memória mas tam bém um procesSQ de negociação para conciliar memória coletiva e me NOJa Esta tradução é de Dora Rocha Flauman Estudol HIs6rlcos Rio de Janeiro 01 2 n l 1989 p 1 4 ESTUDOS HISTÓRICOS 19893 mórias individuais Para que nossa memória se beneficie da dos outros não basta que eles nos tragam seus testemunhos é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja sufi cientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser recons truída sobre uma base comum Esse reconhecimento do caráter po tencialmente problemático de uma memória coletiva já anuncia a inversão de perspectiva que marca os trabalhos atuais sobre esse fenômeno Numa perspectiva construtivista não se trata mais de lidar com os fatos sociais como coisas mas de analisar como os fatos sociais se tornam coisas como e por quem eles são solidificados e do tados de duração e estabilidade Apli cada à memória coletiva essa aborda gem irá se interessar portanto pelos processos e atores que intervêm no trabalho de constituição e de formali zação das memórias Ao privilegiar a análise dos excluídos dos marginaliza dos e das minorias a história oral res saltou a importância de memórias sub terrâneas que como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas se opõem à memória oficial no caso a memória nacional Num primeiro momento essa abordagem faz da em patia com os grupos dominados estu dados uma regra metodológica e rea bilita a periferia e a marginalidade Ao contrário de Maurice Halbwachs ela acentua o caráter destruidor unifor mizador e opressor da memória cole tiva nacional Por outro lado essas memórias subterrâneas que prosse guem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase impercep tível afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerba dos A memória entra em disputa Os objetos de pesquisa são escolhidos de preferência onde existe conflito e com petição entre memórias concorrentes A memória em disputa Essa predileção atual dos pesquisa dores pelos conflitos e disputas em detrimento dos fatores de continuida de e de estabilidade deve ser relacio nada com as verdadeiras batalhas da memória a que assistimos e que assu miram uma amplitude particular nes ses últimos quinze anos na Europa Tomemos a título de ilustração o papel desempenhado pela reescrita da história em dois momentos fortes da destalinização o primeiro deles após o XX Congresso do PC da União So viética quando Nikita Kruschev de nunciou pela primeira vez os crimes stalinistas Essa reviravolta da visão da história indissociavelmente ligada à da linha política traduziuse na des truição progressiva dos signos e sím bolos que lembravam Stalin na União Soviética e nos países satélites e final mente na retirada dos despojos de Stalin do mausoléu da Praça Verme lha Essa primeira etapa da destalini zação conduzida de maneira discreta dentro do aparelho gerou transborda mentos e manifestações das quais a mais importante foi a revolta húngara que se apropriaram da destruição das estátuas de Stalin e a integraram em uma estratégia de independência e de autonomia Embora tivesse arranhado o mito histórico dominante do Stalin pai dos pobres essa primeira destalinização não conseguiu realmente se impor e com o fim da era kruschevista cessa ram também as tentações de revisão da mem6ria coletiva Essa preocupa ção reemergiu cerca de trinta anos mais tarde no quadro da gasnost e da pereslroika Aí também o movimento foi lançado pela nova direção do par tido ligada a Gorbachev Mas ao contrário dos anos 1950 essa nova abertura logo gerou um movimento intelectual com a reabilitação de alguns dissidentes atuais e de maneira póstuma de dirigentes que nos anos 1930 e 1940 haviam sido vítimas do terror stalinista Esse sopro de liberdade de crítica despertou traumatismos profundamente ancorados que ganharam forma num movimento popular que se organiza em torno do projeto de construção de um monumento à memória das vítimas do stalinismo 7 Esse fenômeno mesmo que possa objetivamente desempenhar o papel de um reforço à corrente reformadora contra a ortodoxia que continua a ocupar importantes posições no partido e no Estado não pode porém ser reduzido a este aspecto Ele consiste muito mais na irrupção de ressentimentos acumulados no tempo e de uma memória da dominação e de sofrimentos que jamais puderam se exprimir publicamente Essa memória proibida e portanto clandestina ocupa toda a cena cultural o setor editorial os meios de comunicação o cinema e a pintura comprovando caso seja necessário o fosso que separa de fato a sociedade civil e a ideologia oficial de um partido e de um Estado que pretende a dominação hegemônica Uma vez rompido o tabu uma vez que as memórias subterrâneas conseguem invadir o espaço público reivindicações múltiplas e dificilmente previsíveis se acoplam a essa disputa da memória no caso as reivindicações das diferentes nacionalidades Este exemplo mostra a necessidade para os dirigentes de associar uma profunda mudança política a uma revisão autocrítica do passado Ele remete igualmente aos riscos inerentes a essa revisão na medida em que os dominantes não podem jamais controlar perfeitamente até onde levarão as reivindicações que se formam ao mesmo tempo em que caem os tabus conservados pela memória oficial anterior Este exemplo mostra também a sobrevivência durante dezenas de anos de lembranças traumatizantes lembranças que esperam o momento propício para serem expressas A despeito da importante doutrinação ideológica essas lembranças durante tanto tempo confinadas ao silêncio e transmitidas de uma geração a outra oralmente e não através de publicações permanecem vivas O longo silêncio sobre o passado longe de conduzir ao esquecimento é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais Ao mesmo tempo ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes familiares e de amizades esperando a hora da verdade e da redistribuição das cartas políticas e ideológicas Embora na maioria das vezes esteja ligada a fenômenos de dominação a clivagem entre memória oficial e dominante e memórias subterrâneas assim como a significação do silêncio sobre o passado não remete forçosamente à oposição entre Estado dominador e sociedade civil Encontramos com mais frequência esse problema nas relações entre grupos minoritários e sociedade englobante O exemplo seguinte completamente diferente é o dos sobreviventes dos campos de concentração que após serem libertados retornaram à Alemanha ou à Áustria Seu silêncio sobre o passado está ligado em primeiro lugar à necessidade de encontrar um modus vivendi com aqueles que de perto ou de longe ao menos sob a forma de consentimento tácito assistiram à sua deportação Não provocar o sentimento de culpa da maioria tornase então um reflexo de proteção da minoria judia Contudo essa atitude é ainda reforçada pelo sentimento de 6 ESTUDOS HISTÓR ICOS 19893 culpa que as próprias vítimas podem ter oculto no fundo de si mesmas E sabido que a administração nazista conseguiu impor à comunidade judia uma parte importante da gestão administrativa de sua política antise mita como a preparação das listas dos futuros deportados ou até mesmo a gestão de certos locais de trânsito ou a organização do abastecimento nos comboios Os representantes da comu nidade judia deixaramse levar a ne gociar com as autoridades nazistas es perando primeiro poder alterar a polí tica oficial mais tarde Ulimitar as per das para finalmente chegar a uma situação na qual se havia esboroado até mesmo a esperança de poder ne gociar um melhor tratamento para os últimos empregados da comunidade Esta situação que se repetiu em todas as cidades onde havia comunidades judaicas importantes ilustra parti cularmente bem o encolhimento pro gressivo daquilo que é negociável e também a diferença ínfima que às ve zes separa a defesa do grupo e sua re sistência da colaboração e do compro metimento Seria tão espantoso assim que um historiador do nazismo tão eminente como Walter Laqueur tenha escolhido o gênero do romance para dar conta dessa situação inextricável Em face dessa lembrança traumati zante o silêncio parece se impor a to dos aqueles que querem evitar culpar as vítimas E algumas vítimas que compartilham essa mesma lembran ça comprometedora preferem elas também guardar silêncio Em lugar de se arriscar a um malentendido sobre uma questão tão grave ou até mesmo de reforçar a consciência tranqüila e a propensão ao esquecimento dos an tigos carrascos não seria melhor se abster de falar Poucos períodos históricos foram tao estudados como o nazismo in cluindose aí sua política antisemita e a exterminação dos judeus Entretan to a despeito da abundante literatura e do lugar concedido a esse período nos meios de comunicação freqüente mente ele permanece 11m tabu nas his tórias individuais na Alemanha e na Áustria nas conversas famiJiares e mais ainda nas biografias dos perso nagens públicos Assim como as ra zões de um tal silêncio são compreen síveis no caso de antigos nazistas ou dos milhões de simpatizantes do regi me elas são difíceis de deslindar no caso das vítimas Nesse caso o silêncio tem razões bastante complexas Para poder rela tar seus sofrimentos uma pessoa pre cisa antes de mais nada encontrar uma escuta Em seu retorno os deportados encontraram efetivamente essa escuta mas rapidamente o investimento de to das as energias na reconstrução do pósguerra exauriu a vontade de ouvir a mensagem culpabilizante dos horro res dos campos A deportação evoca necessariamente sentimentos ambiva lentes até mesmo de culpa e isso tam bém nos países vencedores onde como na França a indiferença e a colabo ração marcaram a vida cotidiana ao menos tanto quanto a resistência Não vemos desde 1945 desaparecerem das comemorações oficiais os antigos de portados de roupa listrada que des pertam também o sentimento de culpa e que com exceção dos deportados políticos se integram mal em um des file de excombatentes 1945 organi za o esquecimento da deportação os deportados chegam quando as ideolo gias já estão colocadas quando a ba talha pela memória já começou a cena política já está atulhada eles são de mais JO A essas razões políticas do silêncio acrescentamse aquelas pes soais que consistem em querer poupar os filhos de crescer na lembrança das feridas dos pais Quarenta anos depois convergem razões políticas e familia MEMÓRIA ESQUECIMENTO SILÊNCIO 7 res que concorrem para romper esse silêncio no momento em que as tes temunhas oculares sabem que vão de saparecer em breve elas querem ins crever suas lembranças contra o es quecimento E seus filhos eles tam bém querem saber donde a prolifera ção atual de testemunhos e de publica ções de jovens intelectuais judeus que fazem da pesquisa de suas origens a origem de sua pesquisa 11 Nesse meio tempo oram as associações de deportados que mal ou bem conser varam e transmitiram essa memória Um último exemplo mostra até que ponto uma situação ambígua e passí vel de gerar malentendidos pode ela também levar ao silêncio antes de pro duzir O ressentimento que eSlá na ori gem das reivindicações e colltestações inesperadas Tratase dos recrutados a força alsacianos estudados por Freddy Raphael 12 Após O fracosso de uma política de recrutamento voluntário acionada no início da Segunda Guerra Mundial pelo exército alemão na AI sácia anexada o recrutamento forçado foi decidido por decretos de 25 e 29 de agosto de 1942 De outubro de 1942 a novembro de t944 130000 alsacianos e lorenos foram incorpora dos a diferentes ormaçães do exér cito alemão Ocorreram atos de re volta de resistência e de desobediên cia bem como um número significa tivo de deserções A despeito desses indícios do caráter coercitivo dessa participação na guerra ao lado dos na zistas colocouse a questão depois da guerra do grau de colaboração e com prometimento desses homens Feitos prisioneiros de guerra no Iron oriental pelo Exército Vermelho muitos deles morreram ou regressaram apenas em meados dos anos 1950 Tratase por definição de uma experiência dificil mente dizível no contexto do mito de uma nação de resistentes tão rico de sentido nas primeiras décadas do pós guerra A partir daí Freddy Raphael distin gue três grandes etapas à memória envergonhada de uma geração perdi da seguiuse a das associaçães de de sertores evadidos e recrutados a força que lutam pelo reconhecimento de lima situação valorizadora das vítimas e dos Malgré nous sublinhando sua atitude de recusa e de resistência pas siva Mas hoje essa memória canali zada e esterilizada se revolta e se afir ma a partir de um sentimento de absurdo e de abandono Ela se consi dera mal compreendida e vilipendiada e se engaja num combate contestat6 rio e militante 13 A memória subter rânea dos recrutados n força alsacia nos toma a dianteira e se erige então contra aqueles que tentaram forjar um mito a fim de eliminar o estigma da vergonha A organização das lem branças se articula igualmente com a vontade de denunciar aqueles aos quais se atribui a maior responsabili dade pelas afrontas sofridas Pare ce no entanto que a culpabilidade alemã como fator de reorganização das lembranças intervém relativamen te pouco em todo caso sua illcidên cia é significativamente reduzida em comparação com a denúncia da barbá rie russa bem como da covardia e da indiferença francesas te No momen to do retorno do reprimido não é o autor do crime a Alemanha que ocupa o primeiro lugar entre os acusa dos mas aqueles que ao forjar uma memória oficial conduziram as víti mas da história ao silêncio e à rene gação de si mesmas Esse mecanismo é comum a muitas populações fronteiriças da Europa que em lugar de poderem agir sobre sua história freqüentemente se subme teram a ela de bom ou mau grado Meu avô francês foi feito prisioneiro pelos prussianos em 1870 meu pai 8 ESTUDOS HISTÓRICOS 19893 alemão foi feito prisioneiro pelos fran ceses em 1918 eu francês fui feito prisioneiro pelos alemães em junho de 1940 e depois recrutado a força pela Webrmacht em 1943 fui feito prisioneiro pelos russos em 1945 Veja o senhor que nÓs temos um sentido da história muito particular Estamos sempre do lado errado da história sis tematicamente sempre acabamos as guerras com O uniforme do prisionei ro o nosso único uniforme perma nente 15 A função do nãodito À primeira vista os três exemplos expostos acima não têm nada em co mum a irrupção de uma memória subterrânea favorecida quando não suscitada por uma política de refor mas que coloca em crise o aparelho do partido e do Estado o silêncio dos deportados vítimas por excelência fora de suas redes de sociabilidade mostrando as dificuldades de integrar suas lembranças na memória coletiva da nação os recrutados a força alsa cianos remetendo à revolta da figura do ffmalamado e do incompreendi do que visa superar seu sentimento de exclusão e restabelecer o que COn sidera ser a verdade e a justiça Mas esses exemplos têm em comum o fato de testemunharem a vivacidade das lembranças individuais e de gru pos durante dezenas de anos e até mesmo séculos Opondose à mais le gítima das memórias coletivas a me mória nacional essas lembranças são transmitidas no quadro familiar em associações em redes de sociabilidade afetiva eou política Essas lembran ças proibidas caso dos crimes stali nistas indizíveis caso dos deporta dos ou vergonhosas caso dos recru tados à força são zelosamente guar dadas em estruturas de comunicação informais e passam despercebidas pela sociedade englobante Por consegujnte existem nas lem branças de uns e de outros zonas de sombra silêncios nãoditos As fronteiras desses silêncios e nãodi tos com o esquecimento definitivo e o reprimido inconsciente não são evi dentemente estanques e estão em per pétuo deslocamento 17 Essa tipologia de discursos de silêncios e também de alusões e metáforas é moldada pela angústia de não encontrar uma escuta de ser punido por aquilo que se diz ou ao menos de se expor a malenten didos No plano coletivo esses proces sos não são tão diferentes dos meca nismos psíquicos ressaltados por Clau de Olievenstein A linguagem é ape nas a vigia da angústia Mas a lin guagem se condena a ser impotente porque organiza o distanciamento da quilo que não pode ser posto à dis tãncia E aí que intervém com todo o poder o discurso interior o com promisso do nãodito entre aquilo que o sujeito se conFessa a si mesmo e aquilo que ele pode transmitir ao ex terior 18 A fronteira entre o di7Ível e o indi zível o confessável e o inconfessável separa em nossos exemplos uma me mária coletiva subterrânea da socieda de civil dominada ou de grupos espe cíficos de uma memória coletiva or ganizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor Distinguir entre conjunturas favorá veis ou desfavoráveis às memórias marginalizadas é de saída reconhecer a que ponto o presente colore o pas sado Conforme as circunstâncias ocorre a emergência de certas lem branças a ênfase é dada a um ou outro aspecto Sobretudo a lembrança de guerras ou de grandes convulsões internas remete sempre ao presente deformando e reinterpretando o pas sado Assim também há uma permanente interação entre o vivido e o aprendido o vivido e o transmitido E essas constatações se aplicam a toda forma de memória individual e coletiva familiar nacional e de pequenos grupos 19 O problema que se coloca a longo prazo para as memórias clandestinas e inaudíveis é o de sua transmissão intacta até o dia em que elas possam aproveitar uma ocasião para invadir o espaço público e passar do nãodito à contestação e à reivindicação o problema de toda memória oficial é o de sua credibilidade de sua aceitação e também de sua organização Para que emerja nos discursos políticos um fundo comum de referências que possam constituir uma memória nacional um intenso trabalho de organização é indispensável para superar a simples montagem ideológica por definição precária e frágil O enquadramento da memória Estudar as memórias coletivas fortemente constituídas como a memória nacional implica preliminarmente a análise de sua função A memória essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar se integra como vimos em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes partidos sindicatos igrejas aldeias regiões clãs famílias nações etc A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõem uma sociedade para definir seu lugar respectivo sua complementariedade mas também as oposições irredutíveis Manter a coesão interna e defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum em que se inclui o território no caso de Estados bis as duas funções essenciais da memória comum Isso significa fornecer um quadro de referências e de pontos de referência É portanto absolutamente adequado falar como faz Henry Rousso em memória enquadrada um termo mais específico do que memória coletiva 20 Quem diz enquadrada diz trabalho de enquadramento 21 Todo trabalho de enquadramento de uma memória de grupo tem limites pois ela não pode ser construída arbitrariamente Esse trabalho deve satisfazer a certas exigências de justificação 22 Recusar levar a sério o imperativo de justificação sobre o qual repousa a possibilidade de coordenação das condutas humanas significa admitir o reino da injustiça e da violência À luz de tudo o que foi dito acima sobre as memórias subterrâneas podese colocar a questão das condições de possibilidade e de duração de uma memória imposta sem a preocupação com esse imperativo de justificação Nesse caso esse imperativo pode se impor após adiamentos mais ou menos longos Ainda que quase sempre acreditem que o tempo trabalha a seu favor e que o esquecimento e o perdão se instalam com o tempo os dominantes frequentemente são levados a reconhecer demasiado tarde e com pesar que o intervalo pode contribuir para reforçar a amargura o ressentimento e o ódio dos dominados que se exprimem então com os gritos da contraviolência O trabalho de enquadramento da memória se alimenta do material fornecido pela história Esse material pode sem dúvida ser interpretado e combinado a um semnúmero de referências associadas guiado pela preocupação não apenas de manter as fronteiras sociais mas também de modificálas esse trabalho reinterpreta in I 10 ESTUDOS HISTÓRICOS 19893 cessantemente O passado em função dos combates do presente e do futuro Mas assim como a exigência de jus tificação discutida acima limita a fal sificação pura e simples do passado na sua reconstrução política o traba lho permanente de reinterpretação do passado é contido por uma exigência de credibilidade que depende da coe rência dos discursos sucessivos Toda organização política por exemplo sindicato partido etc veicula seu próprio passado e a imagem que ela forjou para si mesma Ela não pode mudar de direção e de imagem brutal mente 8 não ser sob risco de tensões difíceis de dominar de cisões e mes mo de seu desaparecimento se os ade rentes não puderem mais se reconhe cer na nova imagem nas novas inter pretões de seu passado individual e no de sua organização O que está em jogo na memória é também o sentido da identidade individual e do grupo Temos exemplos disso por ocasião de congressos de partidos em que ocor rem reorientações que produzem ra chas mas também por ocasião de uma volta reflexiva sobre o passado na cional3 como a passagem na Fran ça de urna memória idealizante que exagera o papel da Resistência a uma visão mais realista que reconhece a importância da colaboração Esse trabalho de enquadramento da memória tem seus atores profissiona lizados profissionais da história das diferentes organizações de que são membros clubes e células de refle xão Esse papel existe também embo ra de maneira menos claramente defi nida nas associações de deportados ou de excombatentes Podese perceber isso quando se aborda no contexto de uma pesquisa de história oral os res ponsáveis por tais associações Em mi nha pesquisa sobre as sobreviventes do campo de AuschwitzBirkenau uma das responsáveis pela associação me disse antes de me pôr em contato com algumas de suas companheiras O senhor deve compreender que nós nos consideramos um pouco como as guardiãs da verdade Esse trabalho de controle da imagem da associação implica uma oposição forte entre o subjetivo e o objetivo entre a re construção de fatos e as reações e sen timentos pessoais A escolha das tes temunhas feita pelas responsáveis pela associação é percebida como tanto mais importante quanto a inevitável diversidade dos testemunhos corre sempre o risco de ser percebida como prova da inautenticidade de todos os fatos relatados Dentro da preocupa çaa com a Imagem que a aSSOClaçao passa de si mesma e da história que é sua razão de ser ou seja a memó ria de seus deportados é preciso por tanto escolher testemunhas sóbrias e confiáveis aos olhos dos dirigentes e evitar que mitômanos que nós tam bém temos tomem publicamente a palavra 25 Se o controle da memória se esten de aqui à escolha de testemunhas au torizadas ele é efetuado nas organiza ções mais formais pelo acesso dos pes quisadores aos arquivos e pelo empre go de historiadores da casa Além de uma produção de discur sos organizados em torno de aconte cimentos e de grandes personagens os rastros desse trabalho de enquadra mento são os objetos materiais mo numentos museus bibliotecas etc2f1 A memória é assim guardada e solidi ficada nas pedras as pirâmides os vestígios arqueológicos as catedrais da Idade Média os grandes teatros as óperas da época burguesa do século XIX c atualmente os edifícios dos grandes bancos Quando vemos esses pontos de referência de uma época longínqua freqüentemente os integra mos em nossos próprios sentimentos de filiação e de origem de modo que MEMÓRIA ESQUECIMENTO SILêNCIO 1 1 certos elementos são progressivamente integrados num Cundo cultural comum a toda a humanidade Nesse sentido não podemos nós todos dizer que des cendemos dos gregos e dos romanos dos egípcios em suma de todas as cul turas que mesmo tendo desaparecido estão de alguma forma à disposição de todos nós O que aliás não impede que aqueles que vivem nos locais des sas heranças extraiam disso um orgu lho especial Nas lembranças mais próximas aquelas de que guardamos recordações pessoais os pontos de referência ge ralmente apresentados nas discussões são como mostrou Dominique Veil lon de brdem sensorial o barulho os cheiros as cores Em relação ao de sembarque da Normandia e à liberta ção da França os habitantes de Caen ou de SaintLô situadas no centro das batalhas não atribuem um lugar cen trai em suas recordações à data do acontecimento lembrada em inúmeras publicações e comemorações o 6 de junho de 1944 e sim aos roocos dos aviões explosões barulho de vi dros quebrados gritos de terror cho ro de crianças Assim também com os cheiros dos explosivos de enxofre de fósforo de poeira ou de quei mado registrados com precisão Ain da que seja tecnicamente difícil ou impossível captar todas essas lembran ças em objetos de memória conCeccio nados hoje o filme é o melhor suporte para CazêIo donde seu papel cres cente na formação e reorganização e portanto no enquadramento da memó ria Ele se dirige não apenas às capa cidades cognitivas mas capta as emo ções Basta pensar no impacto do fil me Holocausto que apesar de todas as suas fraquezas permitiu captar a atenção e as emoções suscitar ques tões e assim Corçar uma melhor com preensão desse acontecimento trágico em programas de ensino e pesquisa e indiretamente na memória coletiva A obra monumental de Lanzmann Shoah sob todos os aspectos fora de comparação com o filme de grande público Holocausto quer impedir o esquecimento pelo testemunho do in sustentável O filmetestemunho e documentário tornouse um instrumento poderoso para os rearranjos sucessivos da me mória coletiva e através da televisão da memória nacional Assim os fil mes Le chagrin et la pitié e depois Français si vous saviez desempenha ram um papelchave na mudança de apreciação do período de Vichy por parte da opinião pública Crancesa donde as controvérsias que esses fil mes suscitaram e sua proibição na te levisão durante longos anos 2 Vêse que as memórias coletivas im postas e deCendidas por um trabalho especializado de enquadramento sem serem o único fator aglutinador são certamente um ingrediente importante para a pereoidade do tecido social e das estruturas institucionais de uma sociedade Assim o denominador co mum de todas essas memórias mas também as tensões entre elas inter vêm na definição do consenso social e dos conflitos num determinado mo mento conjuntural Mas nenhum gru po social nenhuma instituição por mais estáveis e sólidos que possam parecer têm sua perenidade assegu rada Sua memória contudo pode sobreviver a seu desaparecimento assumindo em geral a forma de um mito que por não poder se ancorar na realidade política do momento ali mentase de referências culturais li terrias ou religiosas O passado lon gínquo pode então se tornar promes sa de futuro e às vezes desafio lan çado à ordem estabelecida Observouse a existência numa so ciedade de memórias coletivas tão nu merosas quanto as unidades que com põem a sociedade Quando elas se integram bem na memória nacional dominante sua coexistência não coloca problemas ao contrário das memórias subterrâneas discutidas acima Fora dos momentos de crise estas últimas são difíceis de localizar e exigem que se recorra ao instrumento da história oral Indivíduos e certos grupos podem teimar em venerar justamente aquilo que os enquadradores de uma memória coletiva em um nível mais global se esforçam por minimizar ou eliminar Se a análise do trabalho de enquadramento de seus agentes e seus traços materiais é uma chave para estudar de cima para baixo como as memórias coletivas são construídas desconstruídas e reconstruídas o procedimento inverso aquele que com os instrumentos da história oral parte das memórias individuais faz aparecerem os limites desse trabalho de enquadramento e ao mesmo tempo revela um trabalho psicológico do indivíduo que tende a controlar as feridas as tensões e contradições entre a imagem oficial do passado e suas lembranças pessoais O mal do passado Tais dificuldades e contradições são particularmente marcadas em países que atravessaram guerras civis num passado próximo como a Espanha a Áustria ou a Grécia Um outro exemplo muito ilustrativo são as discussões na Alemanha sobre o fim da Segunda Guerra Mundial Foi uma libertação ou uma guerra perdida ou as duas coisas ao mesmo tempo Como organizar a comemoração de um acontecimento que provoca tantos sentimentos ambivalentes perpassando não apenas todas as organizações políticas mas muitas vezes um mesmo indivíduo Do lado oposto a vontade de esquecer os traumatismos do passado freqüentemente surge em resposta à comemoração de acontecimentos dilaceradores Uma análise de conteúdo de cerca de quarenta relatos autobiográficos de mulheres sobreviventes do campo de concentração de AuschwitzBirkenau publicados em francês inglês e alemão e completados por entrevistas revela em muitos casos o desejo simultâneo ao regresso do campo de testemunhar e esquecer para poder retomar uma vida normal 29 Muitas vezes também o silêncio de vítimas internadas oficialmente nos campos por motivos outros que não políticos reflete uma necessidade de fazer boa figura diante das representações dominantes que valorizam as vítimas da perseguição política mais que as outras Assim o fato de ter sido condenada por vergonha racial delito que segundo a legislação de 1935 proibia as relações sexuais entre arianos e judeus constituiu um dos maiores obstáculos que uma das mulheres entrevistadas sentia para falar de si mesma 30 Uma pesquisa de história oral feita na Alemanha junto aos sobreviventes homossexuais dos campos comprova tragicamente o silêncio coletivo daqueles que depois da guerra muitas vezes temeram que a revelação das razões de seu internamento pudesse provocar denúncia perda de emprego ou revogação de um contrato de locação 31 Compreendese por que certas vítimas da máquina de repressão do EstadoSS os criminosos as prostitutas os associais os vagabundos os ciganos e os homossexuais tenham sido conscienciosamente evitadas na maioria das memórias enquadradas e não tenham praticamente tido voz na historiografia Pelo fato de a repressão de que são objeto ser aceita há muito tempo a história oficial evitou tam bém durante muito tempo submeter a intensificação assassina de sua repressão sob o nazismo a uma análise científica Assim como uma memória enquadrada uma história de vida colhida por meio da entrevista oral esse resumo condensado de uma história social individual é também suscetível de ser apresentada de inúmeras maneiras em função do contexto no qual é relatada Mas assim como no caso de uma memória coletiva essas variações de uma história de vida são limitadas Tanto no nível individual como no nível do grupo tudo se passa como se coerência e continuidade fossem comumente admitidas como os sinais distintivos de uma memória crível e de um sentido de identidade assegurados 39 Em todas as entrevistas sucessivas no caso de histórias de vida de longa duração em que a mesma pessoa volta várias vezes a um número restrito de acontecimentos seja por sua própria iniciativa seja provocada pelo entrevistador esse fenômeno pode ser constatado até na entonação A despeito de variações importantes encontrase um núcleo resistente um fio condutor uma espécie de leitmotiv em cada história de vida Essas características de todas as histórias de vida sugerem que estas últimas devem ser consideradas como instrumentos de reconstrução da identidade e não apenas como relatos factuais Por definição reconstrução a posteriori a história de vida ordena acontecimentos que balizaram uma existência Além disso ao contarmos nossa vida em geral tentamos estabelecer uma certa coerência por meio de laços lógicos entre acontecimentosthaves que aparecem então de uma forma cada vez mais solidificada e estereotipada e de uma continuidade resultante da ordenação cronológica Através desse trabalho de reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros Podese imaginar para aqueles e aquelas cuja vida foi marcada por múltiplas rupturas e traumatismos a dificuldade colocada por esse trabalho de construção de uma coerência e de uma continuidade de sua própria história Assim como as memórias coletivas e a ordem social que elas contribuem para construir a memória individual resulta da gestão de um equilíbrio precário de um semnúmero de contradições e de tensões Encontramos traços disso em nossa pesquisa sobre as mulheres sobreviventes do campo de concentração de AuschwitzBirkenau sobretudo entre aquelas para as quais a inexistência de um engajamento político impossibilitou conferir um sentido mais geral ao sofrimento individual Assim as dificuldades e bloqueios que eventualmente surgiram ao longo de uma entrevista só raramente resultavam de brancos da memória ou de esquecimentos mas de uma reflexão sobre a própria utilidade de falar e transmitir seu passado Na ausência de toda possibilidade de se fazer compreender o silêncio sobre si próprio difference do esquecimento pode mesmo ser uma condição necessária presumida ou real para a manutenção da comunicação com o meioambiente como no caso de uma sobrevivente judia que escolheu permanecer na Alemanha Uma entrevista feita com uma deportada residente em Berlim mostrou que um passado que permanece mudo é muitas vezes menos o produto do esquecimento do que de um trabalho de gestão da memória segundo as possibilidades de comunicação Durante toda a entrevista a significação das palavras alemã e judia se alterou em função das situações que apareciam no relato Ao utilizar esses termos essa mulher ora se integrava ora se excluía do grupo e das características por eles designados Da mesma forma o desenrolar dessa entrevista revelou que ela havia organizado toda a sua vida social em Berlim não em torno da possibilidade de poder falar de sua experiência no campo mas de uma maneira capaz de lhe proporcionar um sentimento de segurança ou seja de ser compreendida sem ter que falar sobre isso 33 Esse exemplo sugere que mesmo no nível individual o trabalho da memória é indissociável da organização social da vida Para certas vítimas de uma forma limite da classificação social aquela que quis reduzilas à condição de subhomens o silêncio além da acomodação ao meio social poderia representar também uma recusa em deixar que a experiência do campo uma situação limite da experiência humana fosse integrada em uma forma qualquer de memória enquadrada que por princípio não escapa ao trabalho de definição de fronteiras sociais E como se esse sofrimento extremo exigisse uma ancoragem numa memória muito geral a da humanidade uma memória que não dispõe nem de portavoz nem de pessoal de enquadramento adequado Notas 1 M Halbwachs La mémoire collective Paris PUF 1968 2 P Nora Les lieux de mémoire Paris Gallimard 1985 3 Para o conceito de violência simbólica ver P Bourdieu Le sens pratique Paris Minuit 1980 p 224 4 M Halbwachs op cit p 12 5 M Pollak Pour un inventaire Cahiers de IlHTP n 4 Questions à lhistoire orale Paris 1987 p 17 6 G HerberichMarx F Raphael Les incorporés de force alsaciens Déni convocation et provocation de la mémoire Vingtième Siècle 2 1985 p 83 7 H Carrère dEncausse Le malheur russe Paris Fayard 1988 8 W Laqueur Jahre auf Abruf Stuttgart WDV 1983 9 Entre todos os exemplos desse fenômeno de esquecimentos sucessivos e de reescritas da história biográfica um dos últimos o do presidente austríaco Kurt Waldheim é particularmente expressivo 10 G Namer La commémoration en France 19441982 Paris Papyros 1983 p 157 e seg M Pollak e N Heinich Le témoignage Actes de la recherche en sciences sociales 6263 1986 p 3 e seg 11 N Lapierre Le silence de la mémoire A la recherche des Juifs de Plock Paris Plon 1989 p 28 12 G HerberichMarx F Raphael op cit 13 Idem ib p 83 e 93 14 Idem ib p 94 15 Memórias de um mineiro loreno colhidas por Jean Hurtel citadas em G HerberichMarx F Raphael op cit 16 Ver Ph Joutard Ces voix qui nous viennent du passé Paris Hachette 1983 17 C Olievenstein Les nondits de lémotion Paris Odile Jacob 1988 18 Idem ib p 57 19 D Veillon La Seconde Guerre Mondiale à travers les sources orales Cahiers de llHTP n 4 Questions à lhistoire orale 1987 p 53 e seg 20 H Rousso Vichy le grand fossé Vingtième Siècle 5 1985 p 73 21 O trabalho político é sem dúvida a expressão mais visível desse trabalho de enquadramento da memória P Bourdieu La représentation politique Actes de la recherche en sciences sociales 3637 1981 p 3 e seg 22 L Boltanski Les économies de la grandeur Paris PUF 1987 p 14 e seg 23 D Veillon op cit 24 H Rousso Le syndrome de Vichy Paris Le Seuil 1987 25 M Pollak e N Heinich Le témoignage Actes de la recherche en sciences sociales 6263 1986 p 13 26 G Namer Mémoire et société Paris MéridiensKlincksiek 1987 analisa essa MEMÓRIA ESQUECIMENTO S I LÊNCIO 15 função aplicada ãs bibliotecas e F Raphael e G HerberichMarx analisam os museus nessa mesma perspectiva Le musée plo vacarian de la mémaire EthlJoogc ral1 çai 17 I 1 987 p 87 e sego 27 D Veillon op cito 28 A análise desses exemplos encon Irase em H Rousso op cit 29 M Poltak e N Heinich op ciL 30 G Ban M Pollnk Survivre dans un camp de concentratian Actes de la recherche en scionccs sociales 4 1 1982 p 3 e sego 3 1 R Lautmann Der ZWQ1lg zur Tugelld Frankfurt Su1ukamp t984 p t56 e sego 32 M Pollak Encadrement el siJence le Iravail de la mémoire Pénélope 12 t985 p 37 33 M Pollak La gestion de Jindici ble Actes de la recherche en sciences social 6263 1986 p 30 e sego Michael Pollak é pesquisador do Centre National de Recherches Scientifiques CNRS ligado ao InstituI dHistoire du Temps Prcsent e ao Groupe de Sociologie Polilique el Morale Estuda as relações entre política e ciências sociais e desenvolve atualmente uma pesquisa sobre os sobrevi ventes dos campos de concentração e sobre 8 Aids Sentimentos de incompletude inadequação e atraso parecem ter sido uma tópica no interior da experiência do tempo e da história que vigoraram em contextos pós coloniais3 A decorrência mais fundamental desse quadro parece ser a vivência de uma dualidade marcada por fazer mas não integralmente parte de uma determinada história narrativa ou trajetória temporal Tendo simultânea e esquizofrenicamente um caminho ditado incentivado louvado e interditado afinal esses contextos jamais serão capazes de alcançar integralmente as virtudes que são definidas por entes com histórias e percursos temporais próprios e diferentes daqueles que ambicionam se desenvolver No Brasil decididamente este não é um tema qualquer Embora possa aparecer com as mais diversas situações e definições há muito tempo esse tema move intelectuais e personagens públicos Como no caso em que Carlos Drummond de Andrade recordando passagens de Minha formação 1900 nas quais Joaquim Nabuco se queixa de que o Novo Mundo para tudo que o que é imaginação estética ou histórica é uma verdadeira solidão alega para Mário de Andrade não sou ainda suficientemente brasileiro Mas às vezes me pergunto se vale a pena sêlo O Brasil não tem atmosfera mental não tem literatura não tem arte tem apenas uns políticos muito vagabundos e razoavelmente imbecis e velhacos Sou hereditariamente europeu ou antes francês Ao que Mário contestava você fala na tragédia de Nabuco que todos sofremos Engraçado Eu há dias escrevia numa carta justamente isso só de que maneira mais engraçada de quem não sofre com isso Dizia mais ou menos O doutor Carlos Chagas descobriu que grassava no país uma doença transmitida por barbeiros que foi chamada moléstia de Chagas Eu descobri outra doença mais grave de que todos nós estamos infeccionados a moléstia de Nabuco É preciso começar esse trabalho de abrasileiramento do Brasil ANDRADE Mário de apud BOTELHO 2012 p 15 Se a brasilidade de Mário de Andrade não é aqui segundo André Botelho sinônimo de nacionalismo ingênuo e tampouco de patriotismo mas sim fruto das tensões e ambiguidades da sua relação com o Brasil constitutivas de seu pensamento e de sua ação como muitas delas são constitutivas do próprio Brasil BOTELHO p 109 então combater a moléstia de Nabuco parece ser uma tarefa fundamental para tornar o Brasil mais familiar aos brasileiros BOTELHO p 106 Sem eliminar suas contradições tal tarefa parece apontar para uma virtude decisiva aquela de expor para uma tradição acostumada a classificar sua própria cultura por características como a falta a incompletude e o atraso as facetas mais complexas e diversas que foram até ali obscurecidas É primordial assim compreender as características do percurso de formação dessa postura que se por Mário de Andrade foi chamada de moléstia de Nabuco bem mais recentemente foi conceitualizada pela psicanalista Maria Rita Kehl como o bovarismo brasileiro Com isso a psicanalista identificava o processo pelo qual o burguês oitocentista já não mais se observava como continuador de uma tradição mas sim fundador de uma nova linhagem operando uma verdadeira ruptura com a experiência então vigente É essa reviravolta subjetiva do burguês moderno que passa a negar a tradição e ocupar sozinho o lugar do herói mítico tão detalhado na obra de Flaubert a que se faz alusão que lança as bases para um desejo de tornarse outro a despeito de qualquer circunstância histórica geográfica etc O tornarse outro desse novo sujeito prima sobretudo pelo rebaixamento da história a mero obstáculo facilmente superável em prol de alcançar o mesmo estatuto de um outro por vezes idealizado e não observado em toda sua complexidade Tal gesto dista radicalmente do tornarse outro exigido em certo momento pelo gesto antropofágico de Oswald de Andrade Pois esse gesto a todos em suas virtudes devora ao contrário da seletividade do gesto moderno que ao escolher um dado outro como sua fonte de desejo e emulação efetua o apagamento de outros que na antropofagia seriam fundamentais para a constituição de um sujeito plural complexo e que se materializa na poética rimbaudiana na qual o eu é um outro Em palavras mais concretas decorrências dessa nova subjetividade parecem segundo Kehl se materializar nas sociedades da periferia do capitalismo que se modernizaram tomando como referência as revoluções industrial e burguesa europeias sem no entanto realizar nem uma nem outra a relação com os ideais passa forçosamente pela fantasia de tornarse um outro Só que esse outro é por definição inatingível na medida em que o momento histórico que favoreceu a modernização a expansão e o enriquecimento dos impérios coloniais não se repetirá KEHL 2018 p 3031 Assim o principal efeito da fantasia moderna e periférica de tornarse outro a despeito das condições objetivas que levaram a isso é o obscurecimento de caminhos próprios não entendendo a particularidade e a potência de sua formação histórica Caminhos emancipatórios capazes de resolver as contradições próprias de sua posição no cenário internacional a começar pela dependência em relação aos países ricos KEHL p 31 Oswald de Andrade brincou com isso no Manifesto antropófago nos vários aforismos em que contra a esquizofrenia de manter os olhos fincados apenas no outro externo e em suas histórias que começam no cabo Finisterra a Revolução Francesa o comunismo e outras realizações que de modo jocoso aparecem no Manifesto Afinal antes dos portugueses chegarem ao Brasil o Brasil já tinha descoberto a felicidade e assim contra todos os importadores de consciência enlatada o Manifesto apresenta a existência palpável da vida além da mentalidade prélógica para o Sr Levy Bruhl estudar ANDRADE 1978 1928 p 14 Aqui argumentando com Beatriz Azevedo vemos que a referência irônica ao filósofo francês Lucien LévyBruhl se deve ao fato de suas teses especialmente aquelas expostas em A mentalidade primitiva 1922 e em LÂme primitive 1927 qualificarem enquanto prélógica a mentalidade de sociedades inferiores As teses de LévyBruhl que receberam posteriormente severas críticas da disciplina antropológica contemporânea e de Lévi Strauss tiveram importante impacto no modernismo brasileiro AZEVEDO 2015 p 123 A partir do chiste vêse que a terapêutica antropofágica não pretende oferecer uma dose de identidadeidentificação e um caminho seguro ao qual seguir e copiar àquele sujeito que pode ser coletivo que vê os seus desejos de tornarse outro permanentemente negados Para o sujeito em crise e constantemente frustrado com a interdição de suas possibilidades não se oferece um paliativo um conforto identitário que asseguraria o seu lugar ao sol junto aos outros sujeitos emulados Oferecese na verdade a diferença A imagem de um outro que tensione permanentemente os desejos desse sujeito e questione os próprios caminhos escolhidos por ele não sendo estes únicos lineares e predefinidos Contra a paralisia e a homogeneização a terapêutica antropofágica oferece uma história errática viva e por longo período reprimida Algo semelhante àquilo que outra psicanalista Suely Rolnik chamou de reserva tropical de heterogênese ou seja uma rica biodiversidade de que o Brasil disporia não só no reino vegetal e animal mas também no humano principalmente no campo da subjetividade capaz de revitalizar a partir da diferença os caminhos de uma civilização que se voltava para a homogeneização4 Ao contrário portanto de uma simplória positivação do particular da margem ou da periferia o que apenas reforçaria a sede por identidades homogêneas a terapêutica antropofágica propõe a diferença como força ativa na reconfguração da experiência operando uma alteração não apenas de conteúdo mas nos próprios termos da identidade o que haveria de vital nessa reserva não é uma imagem a mais da subjetividade nem uma variedade de imagens para alimentar o mundo em sua ânsia de consumo de fguras que possam servir de identidade Pelo contrário essa reserva conteria a fórmula de uma vacina contra a tendência dominante à homogeneização tanto em sua necessidade de identidades globais quanto em seus efeitos colaterais de reivindicação de identidades locais ou de dissolução no caos a vacina de heterogênese provocaria nas subjetividades um desinvestimento do modo identitário ROLNIK 1996 p 10 O desinvestimento do modo identitário tinha na história um componente fundamental Esta seria decisiva aqui nietzschianamente na medida em que contribuísse para a recriação da vida apostando na diferença como elemento vitalizador Reconhecendo a importância do esquecimento não seria todo e qualquer elemento do passado capaz de produzir um efeito disruptivo sobre a temporalidade História e diferença atuariam assim no tensionamento de um presente que desprovido dessas forças antihegemônicas se veria entregue à homogeneização que grandes estruturas históricas como o patriarcado e a filosofa messiânica estimulariam A conclamada reabilitação do primitivo presente no gesto antropofágico atuava de tal forma como força de choque diante de uma dupla consciência5 num Brasil incapaz de se autoobservar que não de maneira míope Ao menos era o que aparecia em pequena carta redigida por Oswald e endereçada ao Encontro dos Intelectuais realizado no Rio de Janeiro poucos meses antes de sua morte ANDRADE 1992 1954 Desde os tempos da Revista de Antropofagia 1929 porém a terapêutica antropofágica já dava sinais de que não lhe interessava essa reabilitação como puro gesto identitário no sentido de uma imagem fixa do primitivo a ser celebrada e cultuada tal qual a reabilitação do primitivo promovida pelo grupo Verdamarelo Nas páginas da revista era possível assim ler que os verdamarelos querem o grilhão e a escravatura moral a colonização do europeu arrogante e idiota e no meio disso o Guarani do Alencar dançando valsa Uma adesão como essa não nos serve de nada pois o antropófago não é índio de rótulo de garrafa ANDRADE 1928 Quando se tratava do olhar externo a terapêutica antropofágica para a dupla consciência sugeriria que em países como o Brasil se pressuporia que o olhar para a Europa estaria relacionado aos relatos de falência de uma civilização e na medida em que esses relatos terminassem apontando para o nosso índio como o mensageiro do futuro como Oswald já havia escrito em Mensagem ao antropófago desconhecido o homem europeu falou demais É preciso ouvir o homem nu Em resposta a Tristão de Athayde pseudônimo do crítico católico Alceu Amoroso Lima que acusara Oswald de ser demasiado fiel às vanguardas europeias de então Oswald afirmava o que vastamente me interessa nesses homens Keyserling e Spengler seja qual for a importância exata deles ou a sua atualidade horária é a confssão que todos eles trazem da falência de toda cultura artificial humana que aliás foi a guerra que pôs em xeque O que me interessa pois nessa curiosa Europa que para não morrer se recolheu à única trincheira que lhe restara a do homem primitivo a fim de dali partir você verá para qualquer construção oposta à lamentável Babel da civilização ocidental católicopuritana O que me interessa é só a retirada dessa civilização ocidental na direção moral e mental do nosso índio Isso sim porque dá razão à única coisa que é nossa o índio ANDRADE 1992 1929 p 4243 Viase a história portanto mobilizada a partir da reabilitação do primitivo com a finalidade da recriação do presente e um futuro que não mais seria apenas aquele de realizar tardiamente um caminho já delineado e com suas possibilidades previamente definidas como aquele oferecido pela desejada imagem europeia Menos que apontar para caminhos que naquela altura Oswald observava como exauridos vide a experiência soviética ou aquela do capitalismo burguês ocidental o futuro apontava para a experiência matriarcal a nova idade do ouro e com isso o Brasil era convidado a reavaliar sua experiência histórica e o sentido do seu devir Não à toa no Manifesto Antropófago emergem determinadas imagens do passado que revelam a natureza do tratamento oferecido por Oswald a fenômenos relativos à historicidade sempre apontando para uma conexão entre a experiência histórica e a recriação do presente A mencionada reabilitação do primitivo por exemplo não expõe um regresso a algumas formas arcaizantes Tratase antes de escutar um dado passado como fonte de tensionamento e que mais verdadeiramente coloque em evidência o elemento ali recalcado e latente e que vem a aparecer em formas fragmentárias no presente Uma imagem do passado que parece ainda caminhar em dois sentidos primeiro na relação de interdependência temporal com o presente e o futuro por meio da utopia a Revolução Caraíba e segundo na crítica de um procedimento tão frequente no sistema intelectual brasileiro vivenciado por Oswald que é a arqueologia das ausências no caso da citação abaixo as revoluções europeias aqui não realizadas queremos a Revolução Caraíba Maior que a Revolução Francesa A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem Filiação O contato com o Brasil Caraíba Ori Villegaignon print terre Montaigne O homem natural Rousseau Da Revolução Francesa ao Romantismo à Revolução Bolchevista à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling Caminhamos ANDRADE 1978 1928 p 14 grifo do autor Mesmo em seus ensaios tardios como nA Crise da filosofa messiânica Oswald realizou operações reveladoras de sua compreensão da historicidade Na obra mencionada Oswald opera através da inversão de um conjunto de categorias das quais o homem do Ocidente teria se valido durante uma longa duração temporal Então se a historiografia nos fez conhecer os principais acontecimentos e legados da civilização ocidental da Grécia ao século XX tendo como vetor da narrativa o longo processo de institucionalização do mundo da vida a narrativa agora se encaminharia para um olhar inverso isto é sobre aquilo que se perdeu ao longo dessa trajetória e se colocaria como o objeto por excelência da Errática uma ciência criada objetivamente para reunir esses fragmentos dispersos na trajetória histórica A inversão operada deslocaria de tal modo a atenção da historiografia para um determinado conjunto de fenômenos que poderiam ser chamados de latentes isto é em algum grau presentes nessa trajetória mas que foram assim reprimidos e ocultados de modo a retirar da história seu conteúdo revoltoso seu inacabamento constitutivo para afirmar um certo caminho evolutivo a ser mantido e justificado NETO GAIO 2020 Na própria Revista de Antropofagia o procedimento da inversão deu o tom da concepção de história presente no gesto antropofágico O escritor potiguar Jayme Adour da Câmara provocava em 1929 com seu artigo História do Brasil em 10 tomos ao afirmar que o surrealisme comunicou ao espírito francês a mais intensa violação já existia no Caraíba como um estado latente CÂMARA 1929 Câmara iria ainda além criando uma longa cadeia temporal na qual a América teria revelado à Europa o homem natural livre e simples capaz de impressionar Montaigne inspirar a escrita da Enciclopédia e do contrato social por Rousseau No mesmo ano mas em algumas edições anteriores Oswald Costa afirmava em sua Revisão necessária que a nossa história tem sido mal contada Exige uma revisão Remetiase à escolha equivocada na sua visão de se estudar a cultura brasileira a partir da falsa cultura e falsa moral do ocidente Urgia segundo Costa que a terapêutica antropofágica entrasse em cena com sua revisão histórica a fim de reverter o processo iniciado quando nas mãos do índio puseram um terço e o catecismo e na inocência dele viram o fantasma do pecado sexual COSTA 1929 No interior da noite colonizadora nossa noite sem lua e que dela precisamos sair um papel decisivo estaria reservado não só ao Brasil mas à América Latina de história rica dramática colorida e coriscada de gestos libertários ANDRADE 1971 p 63 A nova idade do ouro anunciada pela antropofagia pede de espaços que experimentaram a situação colonial uma mudança de foco que Oswald resumiu nas seguintes palavras não podemos esperar da Europa europeia para onde vivemos por tanto tempo voltados com a luz de Paris em nossos espíritos Foi uma época que terminou Tínhamos pelo latino americano um desprezo que participava do conhecimento de nós mesmos de nossos pobres recursos civilizados perdidos no esmagamento de uma fiança torpe ligada à fome dos imperialismos ANDRADE p 6364 Como metáfora da cerimônia guerreira da imolação dos inimigos pelos tupis como diagnóstico de uma sociedade traumatizada pela repressão colonizadora e incapaz de olhar que não de maneira míope para o outro interno6 a antropofagia se completava então como terapêutica que se propunha a desafiar a dupla consciência sempre a partir da provocativa apresentação de histórias obscurecidas e de maneira a intensificar uma reavaliação integral da experiência histórica de espaços como aqueles brasileiro e latinoamericano em consonância com o seu devir É preciso ouvir o homem nu Talvez seja a possibilidade de se seguir contando histórias uma das variáveis possíveis para que se desafem as dinâmicas inerentes à dupla consciência Como já observado a dupla consciência estaria na origem de alguns fenômenos particularmente presentes em espaços advindos de situações coloniais como aquele da invisibilização social de um outro interno diante de uma inclinação favorável a um outro externo consag rado por sua associação intrínseca a um caminho evolutivo e irrefreável do tempo Além disso e como decorrência de tal fenômeno a dupla consciência e a percepção de um caminho único e de uma história única em direção ao progresso traziam na sua antessala o ocultamento e a repressão de uma história que não parecia particularmente atraente na composição do mosaico que levaria nações advindas de contextos coloniais rumo à modernidade História ou histórias que colocada numa perspectiva temporal trazia a marca indelével do atraso e da diferença que se queria ocultar a fim de não se desestabilizar identidades e imagens de mundo Seguir contando história portanto e seguir contando a história da diferença acaba por atuar na contramão dos pretensos desejos de um tempo chapado linear e de uma história única No diagnóstico de alguém para o qual negação e apagamento formam na história brasileira uma experiência bastante viva nosso tempo é especialista em criar ausências do sentido de viver em sociedade do próprio sentido da experiência da vida Então pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos Um antídoto contra esse tempo que busca neutralizar toda força que o distende e assim caminhar para o imobilismo poderia ser contar mais uma história e seguir promovendo um tipo de abertura e tensão indesejadas e a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história Se pudermos fazer isso estaremos adiando o fim do mundo KRENAK 2019 p 26 Cumpre notar porém que adiar o fim do mundo nesse caso não se trata de acenar com uma utopia de mundo recomposto KRENAK 2015 p 28 como se ainda houvesse saída dentro das formas contemporâneas e a partir de algo sustentável Tratase sim de adiar o fim do mundo com a garantia da possibilidade de existência da diferença diante de um tempo que não se interessa por ser incomodado pelo seu avesso e suas margens E para isso contar mais uma história parece fundamental Mas não a mesma história Aquela que mais do que abrir a historicidade parece aprisionála à camisa de força de uma narrativa já predefinida Uma história que insistimos tanto e durante tanto tempo em participar sendo que na maioria das vezes só limita a nossa capacidade de invenção criação existência e liberdade KRENAK 2019 p 13 Uma história que só pode ser ocupada com as regras do jogo já estabelecidas de antemão como essa novidade de todo mundo virar cidadão de forma compulsória que tira também das pessoas a possibilidade de elas continuarem vivendo de alguma maneira a memória de sua tradição de sua cultura KRENAK 2015 p 212 Para adiar o fim do mundo pelo contrário serviriam exatamente aquelas histórias que vão sendo esquecidas e apagadas em favor de uma narrativa globalizante superficial KRENAK 2019 p 19 e que por muito tempo nos pareceram datadas ou superadas Talvez seja exatamente seu conteúdo de outro tempo anacrônico que traz nesse momento um potencial irruptivo para um tempo carregado de si mesmo e das suas próprias formas Se por muito tempo por exemplo éramos nós os povos indígenas que estávamos ameaçados de ruptura ou da extinção dos sentidos das nossas vidas hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda KRENAK 2019 p 45 A experiência do fim do mundo e por consequência as diversas histórias que emergem de povos que vivenciaram o que para a civilização só agora parece ser uma crise parecem se colocar como momentos propícios para pensar se o fim do mundo já não existiu outras vezes quando por exemplo a história e o tempo foram capturados colonizados e traduzidos hierarquicamente em termos de progresso e atraso Caberia perguntar na esteira de Ailton Krenak se diante do atual fim do mundo a potência de transformação não viria justamente daquilo que fora negado pela coluna temporal moderna e que justamente por isso isto é por não trazer a imagem e a semelhança mas sim a diferença de um mundo refém de sua própria autoconsciência poderia tensionar esse mundo nas suas próprias determinações Renunciar por exemplo à ideia de que sonhar é abdicar da realidade renunciar ao sentido prático da vida KRENAK 2019 p 52 Sob tal baliza o tempo do mito tempo em que é possível tudo em que é possível que os mundos se intercambiem KRENAK 2017 p 73 não se colocaria como uma falsificação da realidade mas mais propriamente como uma janela KRENAK 2017 p 74 algo que Oswald de Andrade chegou a chamar de esquinas da história Lá nas esquinas onde determinadas compreensões se perderam para favorecer um tronco que se sedimentou e se alongou historicamente obscurecendo outras trajetórias mas que sempre permaneceram ali na espera de serem retematizadas Assim quando nós narramos as histórias antigas nós criamos o mundo de novo limpamos o mundo KRENAK 1992 p 204 Reencontrar o tempo do mito traria no seu seio a necessidade de também discutir as políticas temporais modernas que arbitrariamente tentaram escalonar o que pertenceria a um passado aquilo que já foi e não volta mais e o que seria contemporâneo e digno de se carregar para o futuro Discutir tais políticas tornaria possível considerar que para reencontrar o tempo do mito não é preciso partir em busca do passado porque o tempo mítico não é algo que já se foi Para encontrar o tempo mítico é preciso exercitarse na abertura para o presente para a atualidade real e completa SANTOS 1992 p 199 Redefinir as estanques fronteiras temporais modernas e discutir as categorias de contemporaneidade parece ser uma preocupação seminal da obra de Ailton Krenak Com isso busca uma abertura para distintas formas de se relacionar com o tempo e a história que não apenas aquela que modernamente produziu em série fenômenos como a dupla consciência impossibilitando a percepção das dinâmicas temporais próprias que compunham o interior do território brasileiro para afirmar um olhar ao outro externo enquanto ao outro interno caberia ser traduzido em categorias temporais do atraso e do passado Por isso e não à toa Krenak observa como os maiores confitos da nação brasileira não são com os de fora mas com ela mesma KRENAK 2015 p 95 Incapaz de tratar o Brasil a partir da diversidade que lhe constitui e com a qual os projetos de futuro pretenderam romper e localizar temporalmente no passado a nação brasileira estaria condenada a repetir algo que já vem fazendo há bastante tempo se descobrir Afinal sintetiza Krenak o Brasil está sempre se descobrindo Descobre descobre descobre pela segunda terceira quinta vez KRENAK 2015 p 178 A trajetória de Ailton Krenak se confunde com a de um Brasil recente o da Nova República gestado a partir da Constituição de 1988 em que sua atuação7 na defesa da garantia da proteção dos direitos indígenas é bastante lembrada chegando até ao ano de 2015 quando sua etnia os Krenak ficou nacionalmente conhecida por habitar a margem esquerda do rio Doce que possuía papel central na sua subsistência e foi severamente castigado pelo rompimento de uma barragem com rejeitos de minério Ao longo dessas décadas além de se dedicar com outras lideranças indígenas às causas políticas que muitas vezes envolveram confitos com projetos de expansão do Estado brasileiro e de corporações sobre territórios dos povos originários Krenak também foi construindo um legado de várias entrevistas que hoje já se encontram publicadas em livros e refetem a postura de um intelectual situado por sempre reforçar que um intelectual na tradição indígena tem uma responsabilidade permanente que é estar no meio do seu povo KRENAK 1992 p 201 mas também sempre atento às dinâmicas históricas que o excedem Reconhece Ailton Krenak que seu povo descende dos antigos botocudos assim nomeado nas fontes oficiais que desde o período colonial e com o agravamento da situação no início do século XIX pela decretação da Guerra Justa autorizada pelo governo português por meio das Cartas Régias em 1808 fora inimigo declarado do governo português8 No século XX como Krenak as primeiras notícias estão associadas à construção da estrada de ferro ligando Vitória no Espírito Santo à atual cidade de Governador Valadares em Minas Gerais Além disso também há relatos sobre desde 1968 índios Krenak serem mantidos no Centro de Reeducação Indígena Krenak para onde eram enviados os indígenas que opunham resistência aos ditames dos administradores de suas aldeias ou eram considerados como desajustados socialmente Ali eram mantidos em regime de cárcere sofrendo repressões como o confinamento em solitária e castigos físicos em casos de insubordinação9 Diante do problema aqui colocado nos interessa observar como no âmago da refexão de Krenak se encontra um questionamento acerca das justificativas temporais que conformaram a nação brasileira e sua particular relação com os povos indígenas Mais exatamente como esse outro interno à nação estava marcado pelas dinâmicas da dupla consciência que tinha na sua raiz uma relação de ruptura e negação com um passado indesejado10 Atento a esse movimento Krenak aponta para toda a debilidade de um projeto que acredita ser possível superar a história tendo dela uma compreensão objetificada e museificada e não a compreendendo como a condição de possibilidade do próprio ser Tal incompreensão estaria segundo Ailton Krenak no cerne da tentativa moderna de promover uma ruptura com a experiência para se criar algo ex nihilo Ou melhor mais do que uma ruptura talvez se trata de uma relação objetificada com a experiência que acaba por ser traduzida em grandes realizações do progresso como quando os homens botam torres prédios e essas máquinas barulhentas por todo lado não fazendo nada mais do que berrar pra dizer que ele está aqui KRENAK 2015 p 49 Grita tanto a sua existência que de tal maneira já se evidencia o seu próprio descolamento desse mundo Com significados bastante próximos nas falas de Ailton Krenak história experiência e tradição aparecem como a própria condição do ser e da existência Se um dos traços marcantes do horizonte moderno é o próprio esfacelamento da experiência Krenak provoca com uma experiência que se confunde com a própria existência na qual a primeira não é externalizada ao próprio ser assim como a história ou a tradição Algo do qual podemos nos remeter como se já não nos pertencesse mais e pudéssemos tratar com distanciamento diante do próprio ser Algo como a experiência religiosa na qual por exemplo uma religião está vinculada a um conjunto de normas e condutas Para nós isso não existe Eu não tenho que ir a um templo não tenho que ir a uma missa Eu me relaciono com a natureza e com os fundamentos da tradição do meu povo KRENAK 2015 p 83 Ter a história em suas próprias mãos pretender moldála como um objeto inteiramente disponível seriam compreensões particularmente características de uma sociedade que vive a angústia da certeza Uma sociedade que divide os povos que têm história e os que passariam a ter mito KRENAK 2017 p 71 Mas não só O que se observa é uma ideia de civilização que começa a viver a angústia de ter certeza de alguma coisa De ter certeza de que vão poder controlar aquele lugar onde estão vivendo aquela paisagem que vão conseguir através do conhecimento da ciência da experimentação controlar a passagem do tempo KRENAK 2017 p 7172 As políticas temporais modernas objetificam e externalizam o tempo em relação ao ser de tal forma que o tempo pode ser tratado como uma espécie de commodity um recurso que se controla e com o qual se torna possível efetuar classificações e categorizações O tempo passa a ser desinvestido de seu conteúdo existencial e despolitizado de forma a aparentar uma pretensa neutralidade nessas mesmas categorizações Colonizase o tempo de tal forma a delimitar então o que é passado presente e futuro tornando incompreensível num certo sentido outros possíveis arranjos temporais que não partem de pressupostos assim estanques11 Sob tal dinâmica um dos seus efeitos é justamente a sensação de uma indisponibilidade da história como se não restasse alternativa senão a adaptação contínua Na contramão disso politizar o tempo em sua dimensão linguística ecológica cotidiana talvez permita elaborar sobre novas bases outra concepção de disponibilidade da história sem que isso naturalmente reforce a dimensão de um fm final que nos justificaria tão característico da dimensão redentora e singularizante da modernidade clássica TURIN 2019 p 49 Retomar a disponibilidade da história e promover certa politização do tempo significaria acima de tudo entender que o tempo não pode ser descolado do seu caráter performático como as políticas temporais modernas pretenderam ocultar ao mesmo tempo em que a executavam e com isso abrir espaço para uma compreensão segundo a qual formas de experiências distintas requerem formas temporais distintas TURIN 2019 p 47 Ainda sobre o tratamento do tempo como um recurso e portanto como algo a ser manuseado é na ideia de futuro que jaz uma de suas fgurações mais características e sintomáticas desse processo Falase do futuro como algo que pode ser moldado e desenhado ao gosto humano e a partir de projeções A história brasileira é segundo Krenak prenhe dessas projeçõesprojetos de futuro Na maioria das vezes porém são projetos que não condizem com projetos de futuro de comunidades tradicionais e indígenas distribuídas pelo país Não só no conteúdo mas especialmente na forma É a forma de um existir temporal que não aparta o futuro das outras dimensões que revela a diferença mais substancial afinal o projeto de futuro dessas populações não é aquilo que eles estão vivendo hoje ou que viveram no passado o que vivem hoje e o que vão viver no futuro é o projeto de futuro dessas populações KRENAK 2015 p 61 O fato de tais populações enredarem a existência numa dinâmica temporal orgânica e interdependente não se justificando majoritariamente no futuro produz por decorrência uma relação de choque com os projetos de futuro do Estado e da sociedade brasileira No conteúdo e na forma tais projetos de futuro se distanciam radicalmente daqueles futuros aludidos por Ailton Krenak que então se pergunta que progresso é esse Parece que nós tínhamos muito mais progresso e muito mais desenvolvimento quando a gente podia beber na água de todos os rios daqui que podíamos respirar todos os ares daqui KRENAK 2015 p 167 A crítica do prog resso e sua colonização temporal pelo f uturo fator como já afirmamos decisivo na constituição da dupla consciência aparece continuamente na obra de Ailton Krenak revelando seu estranhamento ao habitar o interior de uma sociedade que age como se a gente estivesse numa corrida maluca onde ninguém tem lugar para chegar mas todo mundo está correndo essa pressa toda com que vocês estão andando está levando vocês exatamente para onde KRENAK 2015 p 241 A vivência do choque que o contato entre a sociedade moderna brasileira e a experiência de comunidades tradicionais torna evidente uma demanda por refazer o encontro Um certo Brasil que vai descobrindo sua antessala negada por um longo período pela primeira segunda quinta vez com casos na maior parte das vezes de choque exibe a possibilidade de se refazer o encontro sob novas balizas temporais críticas a uma história única e temporalmente colonizada Refazer o encontro por intermédio de uma história na qual as políticas temporais não estejam tão sedimentadas e míopes possibilitando certa permeabilidade afinal a história não está caminhando linearmente para um fim preciso mas é também prenhe de contradições vida e potência nós sabemos que toda catástrofe era o prenúncio de um novo tempo KRENAK 2015 p 91 Expor a nu as dinâmicas da dupla consciência poderia ter como condição portanto abrir espaço para uma compreensão que não mortifque a história Abrir a história assim seria também reorganizar estes espaços do outro interno e do outro externo e reconhecer que os papéis e as posições esperados a serem ocupadas já não estão dados de antemão Abrir a história assim significaria ainda que por sua intimidade com a existência essa história que traz o mesmo e o avesso seria a própria condição da mudança e da transformação A história externalizada à própria existência por sua vez fica passível de tábula rasa como se fosse algo que pudéssemos escolher ter ou não superar ou não apagar ou não A pretensão modernizadora e seu particular desejo em arquivar superar ou mesmo museificar certo passado em particular aquele que pudesse remeter a um outro interno invisibilizado como no caso da modernização brasileira já acaba por revelar nas palavras de Krenak uma humanidade que não sabe sonhar mais confusa num certo tratamento externalizado da história que é registrada em milhões de toneladas de livros arquivos acervos museus guardando uma chamada memória da humanidade E que humanidade é essa que precisa depositar sua memória nos museus nos caixotes KRENAK 1992 p 204 Imaginar a possibilidade de superar a história portanto em particular quando traduzida na ideia de superar uma história numa face tão viva como aquela da experiência indígena no Brasil levou Krenak a profetizar ainda nos anos 1990 que quando não houver mais lugar para os índios na Terra não haverá lugar para mais ninguém12 Questionar as dinâmicas da dupla consciência e da invisibilização do outro interno passa portanto por uma abertura e pela reconsideração da história sob outros espectros Pode a história assim deixar de ser apenas aquilo que se possui e que se registra a partir de marcas documentais institucionais etc para ser remetida também a uma experiência viva indelével potencializada e capaz de embaralhar e inviabilizar as prerrogativas de formulações como povos com história e povos sem história Tal distinção legitima e retira do espaço de incompreensão formulações como a minha história é a experiência coletiva de meu povo A minha história de maneira alguma se resume ao conjunto de documentos públicos que o governo me deu KRENAK 2015 p 84 Paradoxalmente portanto o que aqui se afirma é que uma das formas possíveis de tensionar a dupla consciência pode mesmo estar numa compreensão de um grupo o mesmo grupo que fora um dos mais aviltados pelas dinâmicas decorrentes de tal fenômeno A reconsideração da história como algo vivo como é viva a cultura vivo como é dinâmica e viva qualquer sociedade humana KRENAK 2015 p 161 abre espaço para uma crítica das pretensões de se varrer a história para um posto silenciado e irrelevante Mais do que estar registrado na história num dado momento do tempo a história compõe a própria existência num sentido vital como aquele da tradição para povos tradicionais haja vista que os fundamentos da tradição são como o esteio do universo KRENAK 2015 p 94 Claro está que não se trata aqui do sentido de tradição como algo a ser perpetuado no tempo a despeito das mudanças e das contingências históricas como algo que deve ser mantido mesmo quando seu conteúdo já não vigore Muito mais próximo se estaria de um sentido da tradição como vida e experiência como em determinados lugares que transportam para Krenak narrativas de povos de onde se sai e volta atualizando tudo o sentido da tradição o suporte da vida mesma KRENAK 1992 p 201 Não haveria sentido de tal forma partir a história entre passado presente e futuro como se fosse possível localizar uma experiência apenas num dado compartimento do tempo pois vejo nas narrativas mesmo as narrativas chamadas antigas do Ocidente que sempre são datadas KRENAK 1992 p 202 A fundação do mundo mais do que um evento que aconteceu no passado e por isso pode ser tratado como algo independente de nossa existência no presente é compreendido por Krenak pelo seu exato oposto isto é uma memória puxando o sentido das coisas relacionando o sentido dessa fundação do mundo com a vida Tal compreensão abre a brecha decisiva para uma compreensão da história que a desassocie apenas do passado de momentos fundacionais que lá existiram e por lá ficaram para tornar possível sua aproximação com a vida uma vez que todo instante a todo momento o tempo todo é a criação do mundo KRENAK 1992 p 202203 As dificuldades criadas pelas políticas temporais modernas ao sequencializarem e partirem a história acabaram tendo na colonialidade e na dupla consciência suas decorrências mais fundamentais em contextos como aqueles aqui mencionados tendo na invisibilização histórica de certos grupos seu ponto nodal A história transformada numa mera contagem e empilhamento de tempo é desinvestida de qualquer relação vital com o presente e permanece próxima do significado de passado Pode parecer natural portanto que entre essa história e a memória Ailton Krenak escolha ficar com a memória Esta menos que sinônimo de algo que passou aparece de modo energizado e capaz de apontar para o sonho e para a transformação Diante de tantas demandas insurgentes do nosso tempo realizar a crítica das políticas temporais da colonialidade políticas essas alicerce e raiz de diversas outras compreensões não parece uma questão menor Ao fm resta o alerta se essa sociedade se reportar a uma memória nós podemos ter alguma chance Senão nós vamos assistir à contagem regressiva dessa memória no planeta até que só reste a história E entre a história e a memória eu quero ficar com a memória KRENAK 1992 p 204 Considerações finais o bárbaro tecnizado uma forma do nosso tempo Diante do conjunto de questões tematizadas neste artigo caberia legitimamente perguntar portanto como sociedades advindas de uma experiência colonial e por isso involucradas em dinâmicas históricas de negação e apagamento podem recriar suas formas de imaginação histórica e temporal Menos que oferecer soluções e fórmulas mágicas que solucionariam questões tão complexas caberia reconhecer como a história e o tempo são mobilizados em práticas e discursos e talvez esboçar ao menos uma forma mais atenta às dinâmicas históricotemporais que permeiam tais contextos do que aquela que a partição moderna permite Há uma conhecida expressão de José Ortega y Gasset em Meditaciones del Quijote que pode ser traduzida como eu sou eu e minha circunstância e se não salvo a ela não salvo a mim ORTEGA Y GASSET 1966 1914 p 322 Tradução nossa que parece despertar o interesse de Ailton Krenak quando refete acerca da circunstância de a gente ter sido encontrado aqui nos trópicos psicotrópicos e termos sido confundidos pelos portugueses como uma coisa pré estabelecida que era essa gente que eles chamaram de índio KRENAK 2015 p 259 Pensar seriamente e avaliar o alcance de uma formulação como eu e minhas circunstâncias apontaria segundo Krenak para dois caminhos complementares O primeiro e mais evidente aproxima o significado de circunstância de um espaço vital de partilha que não pode ser separado do conjunto de pessoas e seres vivos que ali habitam de modo que a hora que me tiram daqui e me jogam em qualquer canto eu não ouço mais a voz da montanha eu não escuto mais em que linguagem o rio está falando KRENAK 2015 p 256 Essa seria portanto uma primeira dinâmica da circunstância isto é viver o espaço intensamente sendo em alguma medida impossível dissociar quem o vive da circunstância mesma Se se dissocia e se o seu coletivo não compartilha um espaço que é recriado o tempo todo pela alma pelo espírito pela cultura você está visando uma coisa totalmente miserável sem sentido nenhum Você foi jogado em qualquer lugar KRENAK 2015 p 256 Se um primeiro caminho apontaria assim para a circunstância como algo a ser assimilado e vivido a fim de não se viver uma vida miserável e perambulante na qual a comunidade não reconhece mais o seu elã vital um segundo caminho apontaria sim para o não fechamento da circunstância em si mesma possibilitando que se excedam suas determinações Não assumir a circunstância como algo fatal e imutável é para Krenak um movimento não menos importante que o primeiro No caso tratase fundamentalmente em esperar que esse embrulho que rolou aqui esse meio milênio de confusão vai ser outra coisa lá na frente KRENAK 2015 p 259 e o encontro entre essa gente que eles chamaram de índio e a empresa colonial possa ser radicalmente refeito Retomando a sentença de Ortega y Gasset essa é a garantia da circunstância eu e minhas circunstâncias não é só uma aposta no vazio é uma confiança num porvir em alguma coisa KRENAK 2015 p 259 Tal garantia da circunstância manteria aberta sobretudo a possibilidade de que o eu seja também outra coisa porque senão vira uma arrogância um eu sou eu e não tem nada a ver KRENAK 2015 p 259 afinal como na clássica formulação de Rimbaud eu é um outro Talvez seja esta então uma questão decisiva no redesenho do encontro assumir a circunstância de uma maneira que ela não seja irrelevante nem tampouco fatal e fechada em si mesma Seria como se recolocássemos a questão da ação na história nos perguntando se seria efetivo nadar contra a correnteza ao que Krenak sempre munido de metáforas responde a lição da água é você acompanhar o movimento dela Agora acompanhar o movimento da água como uma tábua é uma coisa e acompanhar esse movimento como um peixe vivo é outra KRENAK 2015 p 232 Emerge assim uma interessante forma de se desafiar a circunstância e a história a partir de experiências coloniais nas quais a negação da circunstância oposto do primeiro caminho mencionado acima ou sua utilização para fins de naturalização da história oposto do segundo caminho foram escolhas muitas vezes feitas e cinicamente justificadas Indo mais além seria possível ainda deslocar a atenção para algumas formas provocativas que ajudam a imaginar alternativas às rígidas fronteiras temporais definidas pelas políticas modernas e coloniais do tempo Formas que Ailton Krenak e Oswald de Andrade lançaram mão e possuem uma força particular de desatualização do hoje e afirmação da diferença Formas por exemplo que Oswald de Andrade chamaria provocativamente de primitivas por seu evidente caráter disruptivo em relação ao presente e que ficavam visíveis em imagens como as utopias antropofágica e matriarcal ou nas pessoas coletivas KRENAK 2019 p 28 fartamente aludidas por Ailton Krenak Imagens cuja força reside justamente no seu conteúdo anacrônico e espantoso Imagens como a do matriarcado que aliás reaparece na obra de Krenak ao ser contraposto às formas patriarcais de depredação e dominação do planeta Imagens que proliferaram em várias culturas mas que como também sugeriu Oswald se perderam nas esquinas da história a Terra Mãe Pachamama Gaia Uma deusa perfeita e infindável fluxo de graça beleza e fartura Vejase a imagem grega da deusa da prosperidade que tem uma canastra que fica o tempo todo jorrando riqueza sobre o mundo Noutras tradições na China e na Índia nas Américas em todas as culturas mais antigas a referência é uma provedora maternal Não tem nada a ver com a imagem masculina do pai KRENAK 2017 p 139 Ao fim e ao cabo o que se pode depreender é que refexões como aquelas de Ailton Krenak e Oswald de Andrade estavam sobretudo preocupadas em compreender as dinâmicas históricas e temporais que os enredavam sem apelar a saídas simplórias como passadismos ou futurismos com evidente natureza essencialista Bem mais que isso suas preocupações parecem direcionadas a fazer emergir formas tensionadoras e que testassem os limites da representação do tempo em sua forma moderna privilegiando o que se justapõe e se complementa mais do que busca superar ou essencializar determinadas imagens históricas Como afirmava Oswald com a metáfora do primitivo se apostava numa ida não num regresso para de tal forma desafiar e embaralhar pretensos escalonamentos e hierarquizações históricotemporais Torna interessante observar que mesmo separados por mais de meio século Oswald e Krenak se mostrem absolutamente atentos aos desafos das atualizações tecnológicas e busquem formas de imaginação que deem conta da convergência de fluxos temporais que desaguavam no seu presente No caso do poeta antropófago a imagem do bárbaro tecnizado que aparece já no manifesto de 1928 e depois na tese apresentada para a cadeira de filosofa na USP em 1950 tratavase de compreender as transformações e as atualizações científicas industriais e tecnológicas do convulso contexto das décadas de 1920 1930 e 1940 de modo a imaginar também como a civilização brasileira não se contraporia àquele caldo de cultivo moderno além de trazer o potencial de revelar os limites e as lacunas daquele progresso O bárbaro tecnizado seria então uma imagem potente de um novo modelo de cidadão se equilibrando entre as formas históricas revolucionárias como o matriarcado a sabedoria ameríndia e as mais avançadas realizações técnicas e científicas do século XX Um equilíbrio que só seria possível com o enfrentamento das formas patriarcais e messiânicas que insistiam em resistir à força dos novos tempos Seria o caso então segundo Oswald de procurar soluções paralelas ao primitivismo naquele presente como nA Revolução dos Gerentes de James Burham13 no qual a técnica trouxe é claro uma nova dimensão ao mundo em mudança ANDRADE 1978 1950 p 127 Antes mesmo da publicação da Crise o então jovem crítico e amigo de Oswald Antônio Cândido escrevia em 1947 e já identificava o gesto de comunhão do poeta e ensaísta em não se fechar às transformações do seu tempo e imaginar soluções que decantassem imagens de mundo tanto primitivas como tecnológicas para delas antropofagicamente extrair o alimento vital o sentimento por ele Oswald comunicado de que o mais importante é decantar nos produtos complexos da cultura de servidão as partículas inestimáveis de liberdade ou seja depurar o movimento revolucionário indo buscálo onde estiver na sinfonia na equação ou no gesto para integrá lo livre de ganga no gráfico ascendente que busca a cultura da liberdade CANDIDO 2008 1947 p 172 A escolha do exemplo de Burham não é casual O modus operandi dos managers só fora eligido por Oswald por sua fagrante semelhança com a gerontocracia da tribo por seu projeto de pouco a pouco suprimir o Estado a propriedade privada e a família indissolúvel ou seja as formas essenciais do patriarcado ANDRADE 1978 1950 p 129 Assim o bárbaro tecnizado como imagemprovocação tornaria incompreensível raciocínios que oponham simploriamente progresso e atraso primitivo e civilizado Ou mais para resolver os problemas do homem e da filosofa só a restauração tecnizada de uma cultura antropofágica ANDRADE 1978 1950 p 129 Preocupação essa fulcral na obra de Krenak sempre desafiado a justificar qual o lugar e o estatuto que populações indígenas deveriam ocupar dentro da sociedade capitalista e tecnológica com as persistentes hierarquizações que essencializavam o índio como imagem de um passado lá fixado e inapto para as atualizações tecnológicas do século XXI Uma junção que na maioria das vezes é apresentada como contraditória para a qual Krenak prontamente contesta não não é uma contradição as comunidades indígenas precisam ter tecnologia que consiga aplicar com intensidade o conhecimento tradicional deles De tal modo essa atualização tecnológica é afirmativa da tradição não é negativa da tradição Ninguém sendo proprietário do que inventa é feito uma espécie assim de aproveitamento seletivo de práticas e de técnicas que a ciência e que os brancos inventaram Criaram KRENAK 2015 p 5960 Da mesma maneira seria no sentido oposto desapropriando o conhecimento e o tornando acervo universal já que se houver sensibilidade e respeito essas populações são capazes de dar resposta a problemas muito sérios que essa civilização moderna não consegue responder KRENAK 2015 p 61 Emerge de tal forma o bárbaro tecnizado como uma imagemmundo se não suficiente ao menos mais completa para lidar com as formas temporais múltiplas complexas na qual outros arranjos temporais são possíveis e desejados não havendo uma simplória associação entre primitivo e passado tecnológico e futuro Tais arranjos primariam antes de tudo pela retomada da disponibilidade da história e pela contestação das políticas temporais modernas abrindo espaço para experiências e formas decididamente soterradas nas esquinas da história moderna Arranjos que para serem captados porém dada sua natureza de imagens que se apresentam como uma espécie de iluminação necessitariam de uma sensibilidade distinta como no exemplo escolhido por Krenak para encerrar sua conversa com o Txai Terri Valle de Aquino em 1991 o Caetano Veloso tem uma música bonita aquela que fala do índio onde ele canta que um dia um índio descerá com a mais fina das tecnologias Unindo a tradição indígena com a mais moderna das tecnologias Quando os Suruí fzeram aquela circunferência em torno do Caetano naquela hora eu senti que o cientista e o pajé se encontraram e que não precisa esperar o século XXI não KRENAK 2015 p 146
11
Sociologia do Direito
UNESC
17
Sociologia do Direito
FAT
4
Sociologia do Direito
FACAMP
2
Sociologia do Direito
UEG
2
Sociologia do Direito
UFSM
10
Sociologia do Direito
FAPAS
24
Sociologia do Direito
UEMG
5
Sociologia do Direito
FADIMAB
58
Sociologia do Direito
UFSM
1
Sociologia do Direito
UCSAL
Texto de pré-visualização
Antes o mundo não existia Ailton Krenak Os intelectuais da cultura ocidental escrevem livros fazem filmes dão conferências dão aulas nas universidades Um intelectual na tradição indígena não tem tantas responsabilidades institucionais assim tão diversas mas ele tem uma responsabilidade permanente que é estar no meio do seu povo narrando a sua história com seu grupo suas famílias os clãs o sentido permanente dessa herança cultural Aqui nesta região do mundo que a memória mais recente instituiu que se chama América aqui nesta parte mais restrita que nós chamamos de Brasil muito antes de ser América e muito antes de ter um carimbo de fronteiras que separa os países vizinhos e distantes nossas famílias grandes já viviam aqui são essa gente que hoje é reconhecida como tribos As nossas tribos Muito mais do que somos hoje porque nós tínhamos muitas etnias muitos grupos com culturas diversas com territórios distintos Esses territórios se confrontavam ou às vezes tinham vastas extensões onde nenhuma tribo estava localizada e aquilo se constituía em grandes áreas livres sem domínio cultural ou político Nos lugares onde cada povo tinha sua marca cultural seus domínios nesses lugares na tradição da maioria das nossas tribos de cada um de nossos povos é que está fundado um registro uma memória da criação do mundo Nessa antiguidade desses lugares a nossa narrativa brota e recupera o feito dos nossos heróis fundadores Ali onde estão os rios as montanhas está a formação das paisagens com nomes com humor com significado direto ligado com a nossa vida e com todos os relatos da antiguidade que marcam a criação de cada um desses seres que suportam nossa passagem no mundo Nesse lugar que hoje o cientista talvez o ecologista chama de habitat não está um sítio não está uma cidade nem um país É um lugar onde a alma de cada povo o espírito de um povo encontra a sua resposta resposta verdadeira De onde sai e volta atualizando tudo o sentido da tradição o suporte da vida mesma O sentido da vida corporal da indumentária da coreografia das danças dos cantos A fonte que alimenta os sonhos os sonhos grandes o sonho que não é somente a experiência de estar tendo impressões enquanto você dorme mas o sonho como casa da sabedoria Vocês têm uma instituição que se chama universidade escola e têm a instituição que se chama educação Todas estas instituições educação escola universidade elas estão no sonho na casa do conhecimento Esse sonho tem um aprendizado para o sonho E quando nós sonhamos nós estamos entrando num outro plano de conhecimento onde nós trocamos impressões com os nossos ancestrais não só no sentido de nossos antigos meus avós meu bisavô gerações anteriores mas com os fundadores do mundo Tomara que a palavra habitat tenha esse sentido que estou pensando que ela não seja só um sítio uma cidade ou lugar só na geografia que ela tenha também espírito porque se ela tiver espírito então eu consigo expressar uma idéia que aproxima para você o lugar de onde estou tentando contar um pouco da memória que nós temos de criação do mundo quando o tempo não existia Quando eu vejo as narrativas mesmo as narrativas chamadas antigas do Ocidente as mais antigas elas sempre são datadas Nas narrativas tradicionais do nosso povo das nossas tribos não tem data é quando foi criado o fogo é quando foi criada a lua quando nasceram as estrelas quando nasceram as montanhas quando nasceram os rios Antes antes já existe uma memória puxando o sentido das coisas relacionando o sentido dessa fundação do mundo com a vida com o comportamento nosso como aquilo que pode ser entendido como o jeito de viver Esse jeito de viver que informa a nossa arquitetura nossa medicina a nossa arte as nossas músicas nossos cantos Nós não temos uma moda porque nós não podemos inventar modas Nós temos tradição e ela está fincada em uma memória de antiguidade do mundo quando nós nos fazemos parentes irmãos primos cunhados da montanha que forma o vale onde estão nossas moradias nossas vidas nosso território Aí onde os igarapés as cachoeiras são nossos parentes ele está ligado a um clã está ligado a outro ele está relacionado com seres que são aquilo que chamaria de fauna está ligado com os seres da água do vento do ar do céu que liga cada um dos nossos clãs e de cada um das nossas grandes famílias no sentido universal da criação Algumas danças nossas que algumas pessoas não entendem talvez achem que a gente esteja pulando somente reagindo a um ritmo da música porque não sabem que todos esses gestos estão fundados num sentido imemorial sagrado Alguns desses movimentos coreografias se você prestar atenção ele é o movimento que o peixe faz na piracema ele é um movimento que um bando de araras faz organizando o vôo o movimento que o vento faz no espelho da água girando e espalhando ele é o movimento que o sol faz no céu marcando sua jornada no firmamento e é também o caminho das estrelas em cada uma das suas estações Por isso que eu falei a você de um lugar que a nossa memória busca a fundação do mundo informa a nossa arte a nossa arquitetura o nosso conhecimento universal Alguns anos atrás quando eu vi o quanto que a ciência dos brancos estava desenvolvida com seus aviões máquinas computadores mísseis eu fiquei um pouco assustado Eu comecei a duvidar que a tradição do meu povo que a memória ancestral do meu povo pudesse subsistir num mundo dominado pela tecnologia pesada concreta E que talvez fosse um povo como a folha que cai E que a nossa cultura os nossos valores fossem muito frágeis pra subsistirem num mundo preciso prático onde os homens organizam seu poder e submetem a natureza derrubam as montanhas Onde um homem olha uma montanha e calcula quantos milhões de toneladas de cassiterita bauxita ouro ali pode ter Enquanto meu pai meu avô meus primos olham aquela montanha e vêem o humor da montanha e vêem se ela está triste feliz ou ameaçadora e fazem cerimônia para a montanha cantam para ela cantam para o rio mas o cientista olha o rio e calcula quantos megawatts ele vai produzir construindo uma hidrelétrica uma barragem Nós acampamos no mato e ficamos esperando o vento nas folhas das árvores para ver se ele ensina uma cantiga nova um canto cerimonial novo se ele ensina e você ouve você repete muitas vezes esse canto até você aprender E depois você mostra esse canto para os seus parentes para ver se ele é reconhecido se ele é verdadeiro Se ele é verdadeiro ele passa a fazer parte do acervo dos nossos cantos Mas um engenheiro florestal olha a floresta e calcula quantos milhares de metros cúbicos de madeira ele pode ter Ali não tem música a montanha não tem humor e o rio não tem nome É tudo coisa Essa mesma cultura essa mesma tradição que transforma a natureza em coisa ela transforma os eventos em datas tem antes e depois Data tudo tem velho e tem novo Velho é geralmente algo que você joga fora descarta o novo é algo que você explora usa Não há reverência não existe o sentido das coisas sagradas Eu fiquei com medo Eu fiquei pensando e agora Parecia que eu estava vendo um grande granito parado na minha frente Eu não podia olhar Fiquei muitos dias sem graça até que eu ganhei um sonho Ganhei um sonho desses que eu falei com vocês que não é só uma impressão de estar vendo coisas dormindo Mas para nós o sonho é um sonho de verdade um sonho verdadeiro e tem sonho sonho de verdade é quando você sente comunica recupera a memória da criação do mundo onde o fundamento da vida e o sentido do caminho do homem no mundo é contado pra você Você toma aprende como se estivesse dentro de um rio Este rio você fica olhando ele depois você volta aí você olha Não é o mesmo rio que você está vendo mas é o mesmo Porque se você fica olhando o rio a alma dele está correndo passando passando mas o rio está ali Então ele é sempre ele não foi é sempre Não existiu uma criação do mundo e acabou Todo instante todo momento o tempo todo é a criação do mundo Por isso que no sonho a gente entra dentro dele aprende alimenta o espírito Esse sonho veio me mostrar que aquela caricatura de poder que os homens estavam inventando aqui na terra é só uma simulação porque eu pude encontrar andar junto com os meus parentes meu irmão mais velho que na nossa língua original se chama Kiãnkumakiã Este irmão mais velho que estava com a gente sempre desde a fundação do mundo só que não é Deus E nós vimos os meninos os rapazes andando num campo bonito vasto Uma relva baixinha e os rapazes traziam na mão esquerda feixes de varas daquelas varas sem gomo lisas taboca de fazer flecha mas na ponta não tinha lâmina na ponta tinha pendão assim igual ao trigo florando Um grupo grande incontável de rapazes e um guerreiro mais maduro que estava de lado só mostrando uma parte do rosto a vista apontando para o leste Quando olhei assim eu vi um grande lago saindo quase da mesma altura da terra firme Aí aqueles moços foram andando para lá e num gesto eles se transportavam para outro lugar firme para a outra margem de um lago muito grande que liga tudo numa canoa grande de luz como se fosse de luzes assim com gesto de vontade só com a vontade Não tem foguete míssil que faz isso tecnologia que se inventa E todo esse futuro já aconteceu na fundação do mundo Os meus irmãos mais velhos já conhecem tudo isso Então de sonho é isso É um caminho que só podemos fazer dentro da tradição e aprender que além do nosso conhecimento restrito sobre uma ou outra coisa avançada para uma percepção que é integral tudo está ligado as coisas que têm existência física elas foram todas fundadas a partir da palavra que foi ordenando a criação do mundo que quando nós narramos as histórias antigas nós criamos o mundo de novo limpamos o mundo Então antes do mundo existia não só a história dos espíritos dos elementos mas a história de todos os nossos povos antigos que conseguiram ao longo dos tempos manter esta memória da criação do mundo Existem milhões de toneladas de livros arquivos acervos museus guardando uma chamada memória da humanidade E que humanidade é essa que precisa depositar sua memória nos museus nos caixotes Ela não sabe sonhar mais Então ela precisa guardar depressa as anotações dessa memória Como estas duas memórias se juntam ou não se juntam É muito importante para nossos povos tradicionais que ainda guardam esta memória herdeiros dessa tradição cada vez mais restrita no planeta ilhados em alguns cantinhos do Pacífico da Ásia da África aqui da América num mundo cada vez mais mudado pelo homem onde o dia e a noite já não têm mais fronteira porque inventaram artifícios para ele rodar direto dianoitedia Quando o homem rompe a separação entre o dia e a noite como ele vai sonhar Quando os homens trabalham de dia de noite de dia de noite qualquer hora eles estão se parecendo muito com a criação dos homens mesmo que são as máquinas mas muito pouco parecido com o criador do homem que é o espírito Para estes pequeninos grupos humanos nossas tribos que ainda guardam esta herança de antiguidade esta maneira de estar no mundo é muito importante que essa humanidade que está cada vez mais ocidental civilizada e tecnológica lembre ela também dessa memória comum que os humanos têm da criação do mundo e que consigam dar uma medida para sua história para sua história que está guardada registrada nos livros nos museus nas datas porque se essa sociedade se reportar a uma memória nós podemos ter alguma chance Senão nós vamos assistir à contagem regressiva dessa memória no planeta até que só reste a história E entre a história e a memória eu quero ficar com a memória KRENAK Ailton Antes o mundo não existia In NOVAES Adauto org Tempo e história São Paulo Companhia das Letras 1992 m sua análise da memória c0 letiva Maurice Halbwachs en fatiza a força dos diferentes pontos de referência que estru turam nossa memória e que a inserem na memória da coletividade a que pertencemos 1 Entre eles incluemse evidentemente os monumentos esses lugares da memória analisados por Pierre Nora o patrimônio arquitetô nico e seu estilo que nos acompanham por toda a nossa vida as paisagens as datas e personagens históricas de cuja importância somos incessante mente relembrados as tradições e cos tumes certas regras de interação o folclore e a mUSlca e por que nao as tradições culinárias Na tradição me todológica durkheimiana que consiste em tratar fatos sociais como coisasJ tomase possível tomar esses diferen tes pontos de referência como indica dores empíricos da memória coletiva de um determinado grupo uma me mória estruturada com suas hierar quias e classificações uma memória também que ao definir o que é co Memória Esquecimento Silêncio Michael Pollak mum a um grupo e o que o diferen cia dos outros fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as f ron tei ras s6ciouhurais Na abordagem durkheimiana a ên fase é dada à força quase institucional dessa memória coletiva à duração à continuidade e à estabilidade Assim também Halbwachs longe de ver Des sa memória coletiva uma imposição uma forma específica de dominação ou violência simbólica acentua as funções positivas desempenhadas pela memóría comum a saber de reforçar a coesão social não pela coerção mas pela adesão afetiva ao grupo donde o termo que utiliza de comunidade afetiva Na tradição européia do século XIX em Halbwachs iDclusive a nação é a forma mais acabada de um grupo e a memória Dacional a forma mais completa de lima memÓ ria co1etlva Em vários momentos Maurice Halbwachs insinua não apenas a sele tividade de toda memória mas tam bém um procesSQ de negociação para conciliar memória coletiva e me NOJa Esta tradução é de Dora Rocha Flauman Estudol HIs6rlcos Rio de Janeiro 01 2 n l 1989 p 1 4 ESTUDOS HISTÓRICOS 19893 mórias individuais Para que nossa memória se beneficie da dos outros não basta que eles nos tragam seus testemunhos é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja sufi cientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser recons truída sobre uma base comum Esse reconhecimento do caráter po tencialmente problemático de uma memória coletiva já anuncia a inversão de perspectiva que marca os trabalhos atuais sobre esse fenômeno Numa perspectiva construtivista não se trata mais de lidar com os fatos sociais como coisas mas de analisar como os fatos sociais se tornam coisas como e por quem eles são solidificados e do tados de duração e estabilidade Apli cada à memória coletiva essa aborda gem irá se interessar portanto pelos processos e atores que intervêm no trabalho de constituição e de formali zação das memórias Ao privilegiar a análise dos excluídos dos marginaliza dos e das minorias a história oral res saltou a importância de memórias sub terrâneas que como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas se opõem à memória oficial no caso a memória nacional Num primeiro momento essa abordagem faz da em patia com os grupos dominados estu dados uma regra metodológica e rea bilita a periferia e a marginalidade Ao contrário de Maurice Halbwachs ela acentua o caráter destruidor unifor mizador e opressor da memória cole tiva nacional Por outro lado essas memórias subterrâneas que prosse guem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase impercep tível afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerba dos A memória entra em disputa Os objetos de pesquisa são escolhidos de preferência onde existe conflito e com petição entre memórias concorrentes A memória em disputa Essa predileção atual dos pesquisa dores pelos conflitos e disputas em detrimento dos fatores de continuida de e de estabilidade deve ser relacio nada com as verdadeiras batalhas da memória a que assistimos e que assu miram uma amplitude particular nes ses últimos quinze anos na Europa Tomemos a título de ilustração o papel desempenhado pela reescrita da história em dois momentos fortes da destalinização o primeiro deles após o XX Congresso do PC da União So viética quando Nikita Kruschev de nunciou pela primeira vez os crimes stalinistas Essa reviravolta da visão da história indissociavelmente ligada à da linha política traduziuse na des truição progressiva dos signos e sím bolos que lembravam Stalin na União Soviética e nos países satélites e final mente na retirada dos despojos de Stalin do mausoléu da Praça Verme lha Essa primeira etapa da destalini zação conduzida de maneira discreta dentro do aparelho gerou transborda mentos e manifestações das quais a mais importante foi a revolta húngara que se apropriaram da destruição das estátuas de Stalin e a integraram em uma estratégia de independência e de autonomia Embora tivesse arranhado o mito histórico dominante do Stalin pai dos pobres essa primeira destalinização não conseguiu realmente se impor e com o fim da era kruschevista cessa ram também as tentações de revisão da mem6ria coletiva Essa preocupa ção reemergiu cerca de trinta anos mais tarde no quadro da gasnost e da pereslroika Aí também o movimento foi lançado pela nova direção do par tido ligada a Gorbachev Mas ao contrário dos anos 1950 essa nova abertura logo gerou um movimento intelectual com a reabilitação de alguns dissidentes atuais e de maneira póstuma de dirigentes que nos anos 1930 e 1940 haviam sido vítimas do terror stalinista Esse sopro de liberdade de crítica despertou traumatismos profundamente ancorados que ganharam forma num movimento popular que se organiza em torno do projeto de construção de um monumento à memória das vítimas do stalinismo 7 Esse fenômeno mesmo que possa objetivamente desempenhar o papel de um reforço à corrente reformadora contra a ortodoxia que continua a ocupar importantes posições no partido e no Estado não pode porém ser reduzido a este aspecto Ele consiste muito mais na irrupção de ressentimentos acumulados no tempo e de uma memória da dominação e de sofrimentos que jamais puderam se exprimir publicamente Essa memória proibida e portanto clandestina ocupa toda a cena cultural o setor editorial os meios de comunicação o cinema e a pintura comprovando caso seja necessário o fosso que separa de fato a sociedade civil e a ideologia oficial de um partido e de um Estado que pretende a dominação hegemônica Uma vez rompido o tabu uma vez que as memórias subterrâneas conseguem invadir o espaço público reivindicações múltiplas e dificilmente previsíveis se acoplam a essa disputa da memória no caso as reivindicações das diferentes nacionalidades Este exemplo mostra a necessidade para os dirigentes de associar uma profunda mudança política a uma revisão autocrítica do passado Ele remete igualmente aos riscos inerentes a essa revisão na medida em que os dominantes não podem jamais controlar perfeitamente até onde levarão as reivindicações que se formam ao mesmo tempo em que caem os tabus conservados pela memória oficial anterior Este exemplo mostra também a sobrevivência durante dezenas de anos de lembranças traumatizantes lembranças que esperam o momento propício para serem expressas A despeito da importante doutrinação ideológica essas lembranças durante tanto tempo confinadas ao silêncio e transmitidas de uma geração a outra oralmente e não através de publicações permanecem vivas O longo silêncio sobre o passado longe de conduzir ao esquecimento é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais Ao mesmo tempo ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes familiares e de amizades esperando a hora da verdade e da redistribuição das cartas políticas e ideológicas Embora na maioria das vezes esteja ligada a fenômenos de dominação a clivagem entre memória oficial e dominante e memórias subterrâneas assim como a significação do silêncio sobre o passado não remete forçosamente à oposição entre Estado dominador e sociedade civil Encontramos com mais frequência esse problema nas relações entre grupos minoritários e sociedade englobante O exemplo seguinte completamente diferente é o dos sobreviventes dos campos de concentração que após serem libertados retornaram à Alemanha ou à Áustria Seu silêncio sobre o passado está ligado em primeiro lugar à necessidade de encontrar um modus vivendi com aqueles que de perto ou de longe ao menos sob a forma de consentimento tácito assistiram à sua deportação Não provocar o sentimento de culpa da maioria tornase então um reflexo de proteção da minoria judia Contudo essa atitude é ainda reforçada pelo sentimento de 6 ESTUDOS HISTÓR ICOS 19893 culpa que as próprias vítimas podem ter oculto no fundo de si mesmas E sabido que a administração nazista conseguiu impor à comunidade judia uma parte importante da gestão administrativa de sua política antise mita como a preparação das listas dos futuros deportados ou até mesmo a gestão de certos locais de trânsito ou a organização do abastecimento nos comboios Os representantes da comu nidade judia deixaramse levar a ne gociar com as autoridades nazistas es perando primeiro poder alterar a polí tica oficial mais tarde Ulimitar as per das para finalmente chegar a uma situação na qual se havia esboroado até mesmo a esperança de poder ne gociar um melhor tratamento para os últimos empregados da comunidade Esta situação que se repetiu em todas as cidades onde havia comunidades judaicas importantes ilustra parti cularmente bem o encolhimento pro gressivo daquilo que é negociável e também a diferença ínfima que às ve zes separa a defesa do grupo e sua re sistência da colaboração e do compro metimento Seria tão espantoso assim que um historiador do nazismo tão eminente como Walter Laqueur tenha escolhido o gênero do romance para dar conta dessa situação inextricável Em face dessa lembrança traumati zante o silêncio parece se impor a to dos aqueles que querem evitar culpar as vítimas E algumas vítimas que compartilham essa mesma lembran ça comprometedora preferem elas também guardar silêncio Em lugar de se arriscar a um malentendido sobre uma questão tão grave ou até mesmo de reforçar a consciência tranqüila e a propensão ao esquecimento dos an tigos carrascos não seria melhor se abster de falar Poucos períodos históricos foram tao estudados como o nazismo in cluindose aí sua política antisemita e a exterminação dos judeus Entretan to a despeito da abundante literatura e do lugar concedido a esse período nos meios de comunicação freqüente mente ele permanece 11m tabu nas his tórias individuais na Alemanha e na Áustria nas conversas famiJiares e mais ainda nas biografias dos perso nagens públicos Assim como as ra zões de um tal silêncio são compreen síveis no caso de antigos nazistas ou dos milhões de simpatizantes do regi me elas são difíceis de deslindar no caso das vítimas Nesse caso o silêncio tem razões bastante complexas Para poder rela tar seus sofrimentos uma pessoa pre cisa antes de mais nada encontrar uma escuta Em seu retorno os deportados encontraram efetivamente essa escuta mas rapidamente o investimento de to das as energias na reconstrução do pósguerra exauriu a vontade de ouvir a mensagem culpabilizante dos horro res dos campos A deportação evoca necessariamente sentimentos ambiva lentes até mesmo de culpa e isso tam bém nos países vencedores onde como na França a indiferença e a colabo ração marcaram a vida cotidiana ao menos tanto quanto a resistência Não vemos desde 1945 desaparecerem das comemorações oficiais os antigos de portados de roupa listrada que des pertam também o sentimento de culpa e que com exceção dos deportados políticos se integram mal em um des file de excombatentes 1945 organi za o esquecimento da deportação os deportados chegam quando as ideolo gias já estão colocadas quando a ba talha pela memória já começou a cena política já está atulhada eles são de mais JO A essas razões políticas do silêncio acrescentamse aquelas pes soais que consistem em querer poupar os filhos de crescer na lembrança das feridas dos pais Quarenta anos depois convergem razões políticas e familia MEMÓRIA ESQUECIMENTO SILÊNCIO 7 res que concorrem para romper esse silêncio no momento em que as tes temunhas oculares sabem que vão de saparecer em breve elas querem ins crever suas lembranças contra o es quecimento E seus filhos eles tam bém querem saber donde a prolifera ção atual de testemunhos e de publica ções de jovens intelectuais judeus que fazem da pesquisa de suas origens a origem de sua pesquisa 11 Nesse meio tempo oram as associações de deportados que mal ou bem conser varam e transmitiram essa memória Um último exemplo mostra até que ponto uma situação ambígua e passí vel de gerar malentendidos pode ela também levar ao silêncio antes de pro duzir O ressentimento que eSlá na ori gem das reivindicações e colltestações inesperadas Tratase dos recrutados a força alsacianos estudados por Freddy Raphael 12 Após O fracosso de uma política de recrutamento voluntário acionada no início da Segunda Guerra Mundial pelo exército alemão na AI sácia anexada o recrutamento forçado foi decidido por decretos de 25 e 29 de agosto de 1942 De outubro de 1942 a novembro de t944 130000 alsacianos e lorenos foram incorpora dos a diferentes ormaçães do exér cito alemão Ocorreram atos de re volta de resistência e de desobediên cia bem como um número significa tivo de deserções A despeito desses indícios do caráter coercitivo dessa participação na guerra ao lado dos na zistas colocouse a questão depois da guerra do grau de colaboração e com prometimento desses homens Feitos prisioneiros de guerra no Iron oriental pelo Exército Vermelho muitos deles morreram ou regressaram apenas em meados dos anos 1950 Tratase por definição de uma experiência dificil mente dizível no contexto do mito de uma nação de resistentes tão rico de sentido nas primeiras décadas do pós guerra A partir daí Freddy Raphael distin gue três grandes etapas à memória envergonhada de uma geração perdi da seguiuse a das associaçães de de sertores evadidos e recrutados a força que lutam pelo reconhecimento de lima situação valorizadora das vítimas e dos Malgré nous sublinhando sua atitude de recusa e de resistência pas siva Mas hoje essa memória canali zada e esterilizada se revolta e se afir ma a partir de um sentimento de absurdo e de abandono Ela se consi dera mal compreendida e vilipendiada e se engaja num combate contestat6 rio e militante 13 A memória subter rânea dos recrutados n força alsacia nos toma a dianteira e se erige então contra aqueles que tentaram forjar um mito a fim de eliminar o estigma da vergonha A organização das lem branças se articula igualmente com a vontade de denunciar aqueles aos quais se atribui a maior responsabili dade pelas afrontas sofridas Pare ce no entanto que a culpabilidade alemã como fator de reorganização das lembranças intervém relativamen te pouco em todo caso sua illcidên cia é significativamente reduzida em comparação com a denúncia da barbá rie russa bem como da covardia e da indiferença francesas te No momen to do retorno do reprimido não é o autor do crime a Alemanha que ocupa o primeiro lugar entre os acusa dos mas aqueles que ao forjar uma memória oficial conduziram as víti mas da história ao silêncio e à rene gação de si mesmas Esse mecanismo é comum a muitas populações fronteiriças da Europa que em lugar de poderem agir sobre sua história freqüentemente se subme teram a ela de bom ou mau grado Meu avô francês foi feito prisioneiro pelos prussianos em 1870 meu pai 8 ESTUDOS HISTÓRICOS 19893 alemão foi feito prisioneiro pelos fran ceses em 1918 eu francês fui feito prisioneiro pelos alemães em junho de 1940 e depois recrutado a força pela Webrmacht em 1943 fui feito prisioneiro pelos russos em 1945 Veja o senhor que nÓs temos um sentido da história muito particular Estamos sempre do lado errado da história sis tematicamente sempre acabamos as guerras com O uniforme do prisionei ro o nosso único uniforme perma nente 15 A função do nãodito À primeira vista os três exemplos expostos acima não têm nada em co mum a irrupção de uma memória subterrânea favorecida quando não suscitada por uma política de refor mas que coloca em crise o aparelho do partido e do Estado o silêncio dos deportados vítimas por excelência fora de suas redes de sociabilidade mostrando as dificuldades de integrar suas lembranças na memória coletiva da nação os recrutados a força alsa cianos remetendo à revolta da figura do ffmalamado e do incompreendi do que visa superar seu sentimento de exclusão e restabelecer o que COn sidera ser a verdade e a justiça Mas esses exemplos têm em comum o fato de testemunharem a vivacidade das lembranças individuais e de gru pos durante dezenas de anos e até mesmo séculos Opondose à mais le gítima das memórias coletivas a me mória nacional essas lembranças são transmitidas no quadro familiar em associações em redes de sociabilidade afetiva eou política Essas lembran ças proibidas caso dos crimes stali nistas indizíveis caso dos deporta dos ou vergonhosas caso dos recru tados à força são zelosamente guar dadas em estruturas de comunicação informais e passam despercebidas pela sociedade englobante Por consegujnte existem nas lem branças de uns e de outros zonas de sombra silêncios nãoditos As fronteiras desses silêncios e nãodi tos com o esquecimento definitivo e o reprimido inconsciente não são evi dentemente estanques e estão em per pétuo deslocamento 17 Essa tipologia de discursos de silêncios e também de alusões e metáforas é moldada pela angústia de não encontrar uma escuta de ser punido por aquilo que se diz ou ao menos de se expor a malenten didos No plano coletivo esses proces sos não são tão diferentes dos meca nismos psíquicos ressaltados por Clau de Olievenstein A linguagem é ape nas a vigia da angústia Mas a lin guagem se condena a ser impotente porque organiza o distanciamento da quilo que não pode ser posto à dis tãncia E aí que intervém com todo o poder o discurso interior o com promisso do nãodito entre aquilo que o sujeito se conFessa a si mesmo e aquilo que ele pode transmitir ao ex terior 18 A fronteira entre o di7Ível e o indi zível o confessável e o inconfessável separa em nossos exemplos uma me mária coletiva subterrânea da socieda de civil dominada ou de grupos espe cíficos de uma memória coletiva or ganizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor Distinguir entre conjunturas favorá veis ou desfavoráveis às memórias marginalizadas é de saída reconhecer a que ponto o presente colore o pas sado Conforme as circunstâncias ocorre a emergência de certas lem branças a ênfase é dada a um ou outro aspecto Sobretudo a lembrança de guerras ou de grandes convulsões internas remete sempre ao presente deformando e reinterpretando o pas sado Assim também há uma permanente interação entre o vivido e o aprendido o vivido e o transmitido E essas constatações se aplicam a toda forma de memória individual e coletiva familiar nacional e de pequenos grupos 19 O problema que se coloca a longo prazo para as memórias clandestinas e inaudíveis é o de sua transmissão intacta até o dia em que elas possam aproveitar uma ocasião para invadir o espaço público e passar do nãodito à contestação e à reivindicação o problema de toda memória oficial é o de sua credibilidade de sua aceitação e também de sua organização Para que emerja nos discursos políticos um fundo comum de referências que possam constituir uma memória nacional um intenso trabalho de organização é indispensável para superar a simples montagem ideológica por definição precária e frágil O enquadramento da memória Estudar as memórias coletivas fortemente constituídas como a memória nacional implica preliminarmente a análise de sua função A memória essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar se integra como vimos em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes partidos sindicatos igrejas aldeias regiões clãs famílias nações etc A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõem uma sociedade para definir seu lugar respectivo sua complementariedade mas também as oposições irredutíveis Manter a coesão interna e defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum em que se inclui o território no caso de Estados bis as duas funções essenciais da memória comum Isso significa fornecer um quadro de referências e de pontos de referência É portanto absolutamente adequado falar como faz Henry Rousso em memória enquadrada um termo mais específico do que memória coletiva 20 Quem diz enquadrada diz trabalho de enquadramento 21 Todo trabalho de enquadramento de uma memória de grupo tem limites pois ela não pode ser construída arbitrariamente Esse trabalho deve satisfazer a certas exigências de justificação 22 Recusar levar a sério o imperativo de justificação sobre o qual repousa a possibilidade de coordenação das condutas humanas significa admitir o reino da injustiça e da violência À luz de tudo o que foi dito acima sobre as memórias subterrâneas podese colocar a questão das condições de possibilidade e de duração de uma memória imposta sem a preocupação com esse imperativo de justificação Nesse caso esse imperativo pode se impor após adiamentos mais ou menos longos Ainda que quase sempre acreditem que o tempo trabalha a seu favor e que o esquecimento e o perdão se instalam com o tempo os dominantes frequentemente são levados a reconhecer demasiado tarde e com pesar que o intervalo pode contribuir para reforçar a amargura o ressentimento e o ódio dos dominados que se exprimem então com os gritos da contraviolência O trabalho de enquadramento da memória se alimenta do material fornecido pela história Esse material pode sem dúvida ser interpretado e combinado a um semnúmero de referências associadas guiado pela preocupação não apenas de manter as fronteiras sociais mas também de modificálas esse trabalho reinterpreta in I 10 ESTUDOS HISTÓRICOS 19893 cessantemente O passado em função dos combates do presente e do futuro Mas assim como a exigência de jus tificação discutida acima limita a fal sificação pura e simples do passado na sua reconstrução política o traba lho permanente de reinterpretação do passado é contido por uma exigência de credibilidade que depende da coe rência dos discursos sucessivos Toda organização política por exemplo sindicato partido etc veicula seu próprio passado e a imagem que ela forjou para si mesma Ela não pode mudar de direção e de imagem brutal mente 8 não ser sob risco de tensões difíceis de dominar de cisões e mes mo de seu desaparecimento se os ade rentes não puderem mais se reconhe cer na nova imagem nas novas inter pretões de seu passado individual e no de sua organização O que está em jogo na memória é também o sentido da identidade individual e do grupo Temos exemplos disso por ocasião de congressos de partidos em que ocor rem reorientações que produzem ra chas mas também por ocasião de uma volta reflexiva sobre o passado na cional3 como a passagem na Fran ça de urna memória idealizante que exagera o papel da Resistência a uma visão mais realista que reconhece a importância da colaboração Esse trabalho de enquadramento da memória tem seus atores profissiona lizados profissionais da história das diferentes organizações de que são membros clubes e células de refle xão Esse papel existe também embo ra de maneira menos claramente defi nida nas associações de deportados ou de excombatentes Podese perceber isso quando se aborda no contexto de uma pesquisa de história oral os res ponsáveis por tais associações Em mi nha pesquisa sobre as sobreviventes do campo de AuschwitzBirkenau uma das responsáveis pela associação me disse antes de me pôr em contato com algumas de suas companheiras O senhor deve compreender que nós nos consideramos um pouco como as guardiãs da verdade Esse trabalho de controle da imagem da associação implica uma oposição forte entre o subjetivo e o objetivo entre a re construção de fatos e as reações e sen timentos pessoais A escolha das tes temunhas feita pelas responsáveis pela associação é percebida como tanto mais importante quanto a inevitável diversidade dos testemunhos corre sempre o risco de ser percebida como prova da inautenticidade de todos os fatos relatados Dentro da preocupa çaa com a Imagem que a aSSOClaçao passa de si mesma e da história que é sua razão de ser ou seja a memó ria de seus deportados é preciso por tanto escolher testemunhas sóbrias e confiáveis aos olhos dos dirigentes e evitar que mitômanos que nós tam bém temos tomem publicamente a palavra 25 Se o controle da memória se esten de aqui à escolha de testemunhas au torizadas ele é efetuado nas organiza ções mais formais pelo acesso dos pes quisadores aos arquivos e pelo empre go de historiadores da casa Além de uma produção de discur sos organizados em torno de aconte cimentos e de grandes personagens os rastros desse trabalho de enquadra mento são os objetos materiais mo numentos museus bibliotecas etc2f1 A memória é assim guardada e solidi ficada nas pedras as pirâmides os vestígios arqueológicos as catedrais da Idade Média os grandes teatros as óperas da época burguesa do século XIX c atualmente os edifícios dos grandes bancos Quando vemos esses pontos de referência de uma época longínqua freqüentemente os integra mos em nossos próprios sentimentos de filiação e de origem de modo que MEMÓRIA ESQUECIMENTO SILêNCIO 1 1 certos elementos são progressivamente integrados num Cundo cultural comum a toda a humanidade Nesse sentido não podemos nós todos dizer que des cendemos dos gregos e dos romanos dos egípcios em suma de todas as cul turas que mesmo tendo desaparecido estão de alguma forma à disposição de todos nós O que aliás não impede que aqueles que vivem nos locais des sas heranças extraiam disso um orgu lho especial Nas lembranças mais próximas aquelas de que guardamos recordações pessoais os pontos de referência ge ralmente apresentados nas discussões são como mostrou Dominique Veil lon de brdem sensorial o barulho os cheiros as cores Em relação ao de sembarque da Normandia e à liberta ção da França os habitantes de Caen ou de SaintLô situadas no centro das batalhas não atribuem um lugar cen trai em suas recordações à data do acontecimento lembrada em inúmeras publicações e comemorações o 6 de junho de 1944 e sim aos roocos dos aviões explosões barulho de vi dros quebrados gritos de terror cho ro de crianças Assim também com os cheiros dos explosivos de enxofre de fósforo de poeira ou de quei mado registrados com precisão Ain da que seja tecnicamente difícil ou impossível captar todas essas lembran ças em objetos de memória conCeccio nados hoje o filme é o melhor suporte para CazêIo donde seu papel cres cente na formação e reorganização e portanto no enquadramento da memó ria Ele se dirige não apenas às capa cidades cognitivas mas capta as emo ções Basta pensar no impacto do fil me Holocausto que apesar de todas as suas fraquezas permitiu captar a atenção e as emoções suscitar ques tões e assim Corçar uma melhor com preensão desse acontecimento trágico em programas de ensino e pesquisa e indiretamente na memória coletiva A obra monumental de Lanzmann Shoah sob todos os aspectos fora de comparação com o filme de grande público Holocausto quer impedir o esquecimento pelo testemunho do in sustentável O filmetestemunho e documentário tornouse um instrumento poderoso para os rearranjos sucessivos da me mória coletiva e através da televisão da memória nacional Assim os fil mes Le chagrin et la pitié e depois Français si vous saviez desempenha ram um papelchave na mudança de apreciação do período de Vichy por parte da opinião pública Crancesa donde as controvérsias que esses fil mes suscitaram e sua proibição na te levisão durante longos anos 2 Vêse que as memórias coletivas im postas e deCendidas por um trabalho especializado de enquadramento sem serem o único fator aglutinador são certamente um ingrediente importante para a pereoidade do tecido social e das estruturas institucionais de uma sociedade Assim o denominador co mum de todas essas memórias mas também as tensões entre elas inter vêm na definição do consenso social e dos conflitos num determinado mo mento conjuntural Mas nenhum gru po social nenhuma instituição por mais estáveis e sólidos que possam parecer têm sua perenidade assegu rada Sua memória contudo pode sobreviver a seu desaparecimento assumindo em geral a forma de um mito que por não poder se ancorar na realidade política do momento ali mentase de referências culturais li terrias ou religiosas O passado lon gínquo pode então se tornar promes sa de futuro e às vezes desafio lan çado à ordem estabelecida Observouse a existência numa so ciedade de memórias coletivas tão nu merosas quanto as unidades que com põem a sociedade Quando elas se integram bem na memória nacional dominante sua coexistência não coloca problemas ao contrário das memórias subterrâneas discutidas acima Fora dos momentos de crise estas últimas são difíceis de localizar e exigem que se recorra ao instrumento da história oral Indivíduos e certos grupos podem teimar em venerar justamente aquilo que os enquadradores de uma memória coletiva em um nível mais global se esforçam por minimizar ou eliminar Se a análise do trabalho de enquadramento de seus agentes e seus traços materiais é uma chave para estudar de cima para baixo como as memórias coletivas são construídas desconstruídas e reconstruídas o procedimento inverso aquele que com os instrumentos da história oral parte das memórias individuais faz aparecerem os limites desse trabalho de enquadramento e ao mesmo tempo revela um trabalho psicológico do indivíduo que tende a controlar as feridas as tensões e contradições entre a imagem oficial do passado e suas lembranças pessoais O mal do passado Tais dificuldades e contradições são particularmente marcadas em países que atravessaram guerras civis num passado próximo como a Espanha a Áustria ou a Grécia Um outro exemplo muito ilustrativo são as discussões na Alemanha sobre o fim da Segunda Guerra Mundial Foi uma libertação ou uma guerra perdida ou as duas coisas ao mesmo tempo Como organizar a comemoração de um acontecimento que provoca tantos sentimentos ambivalentes perpassando não apenas todas as organizações políticas mas muitas vezes um mesmo indivíduo Do lado oposto a vontade de esquecer os traumatismos do passado freqüentemente surge em resposta à comemoração de acontecimentos dilaceradores Uma análise de conteúdo de cerca de quarenta relatos autobiográficos de mulheres sobreviventes do campo de concentração de AuschwitzBirkenau publicados em francês inglês e alemão e completados por entrevistas revela em muitos casos o desejo simultâneo ao regresso do campo de testemunhar e esquecer para poder retomar uma vida normal 29 Muitas vezes também o silêncio de vítimas internadas oficialmente nos campos por motivos outros que não políticos reflete uma necessidade de fazer boa figura diante das representações dominantes que valorizam as vítimas da perseguição política mais que as outras Assim o fato de ter sido condenada por vergonha racial delito que segundo a legislação de 1935 proibia as relações sexuais entre arianos e judeus constituiu um dos maiores obstáculos que uma das mulheres entrevistadas sentia para falar de si mesma 30 Uma pesquisa de história oral feita na Alemanha junto aos sobreviventes homossexuais dos campos comprova tragicamente o silêncio coletivo daqueles que depois da guerra muitas vezes temeram que a revelação das razões de seu internamento pudesse provocar denúncia perda de emprego ou revogação de um contrato de locação 31 Compreendese por que certas vítimas da máquina de repressão do EstadoSS os criminosos as prostitutas os associais os vagabundos os ciganos e os homossexuais tenham sido conscienciosamente evitadas na maioria das memórias enquadradas e não tenham praticamente tido voz na historiografia Pelo fato de a repressão de que são objeto ser aceita há muito tempo a história oficial evitou tam bém durante muito tempo submeter a intensificação assassina de sua repressão sob o nazismo a uma análise científica Assim como uma memória enquadrada uma história de vida colhida por meio da entrevista oral esse resumo condensado de uma história social individual é também suscetível de ser apresentada de inúmeras maneiras em função do contexto no qual é relatada Mas assim como no caso de uma memória coletiva essas variações de uma história de vida são limitadas Tanto no nível individual como no nível do grupo tudo se passa como se coerência e continuidade fossem comumente admitidas como os sinais distintivos de uma memória crível e de um sentido de identidade assegurados 39 Em todas as entrevistas sucessivas no caso de histórias de vida de longa duração em que a mesma pessoa volta várias vezes a um número restrito de acontecimentos seja por sua própria iniciativa seja provocada pelo entrevistador esse fenômeno pode ser constatado até na entonação A despeito de variações importantes encontrase um núcleo resistente um fio condutor uma espécie de leitmotiv em cada história de vida Essas características de todas as histórias de vida sugerem que estas últimas devem ser consideradas como instrumentos de reconstrução da identidade e não apenas como relatos factuais Por definição reconstrução a posteriori a história de vida ordena acontecimentos que balizaram uma existência Além disso ao contarmos nossa vida em geral tentamos estabelecer uma certa coerência por meio de laços lógicos entre acontecimentosthaves que aparecem então de uma forma cada vez mais solidificada e estereotipada e de uma continuidade resultante da ordenação cronológica Através desse trabalho de reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros Podese imaginar para aqueles e aquelas cuja vida foi marcada por múltiplas rupturas e traumatismos a dificuldade colocada por esse trabalho de construção de uma coerência e de uma continuidade de sua própria história Assim como as memórias coletivas e a ordem social que elas contribuem para construir a memória individual resulta da gestão de um equilíbrio precário de um semnúmero de contradições e de tensões Encontramos traços disso em nossa pesquisa sobre as mulheres sobreviventes do campo de concentração de AuschwitzBirkenau sobretudo entre aquelas para as quais a inexistência de um engajamento político impossibilitou conferir um sentido mais geral ao sofrimento individual Assim as dificuldades e bloqueios que eventualmente surgiram ao longo de uma entrevista só raramente resultavam de brancos da memória ou de esquecimentos mas de uma reflexão sobre a própria utilidade de falar e transmitir seu passado Na ausência de toda possibilidade de se fazer compreender o silêncio sobre si próprio difference do esquecimento pode mesmo ser uma condição necessária presumida ou real para a manutenção da comunicação com o meioambiente como no caso de uma sobrevivente judia que escolheu permanecer na Alemanha Uma entrevista feita com uma deportada residente em Berlim mostrou que um passado que permanece mudo é muitas vezes menos o produto do esquecimento do que de um trabalho de gestão da memória segundo as possibilidades de comunicação Durante toda a entrevista a significação das palavras alemã e judia se alterou em função das situações que apareciam no relato Ao utilizar esses termos essa mulher ora se integrava ora se excluía do grupo e das características por eles designados Da mesma forma o desenrolar dessa entrevista revelou que ela havia organizado toda a sua vida social em Berlim não em torno da possibilidade de poder falar de sua experiência no campo mas de uma maneira capaz de lhe proporcionar um sentimento de segurança ou seja de ser compreendida sem ter que falar sobre isso 33 Esse exemplo sugere que mesmo no nível individual o trabalho da memória é indissociável da organização social da vida Para certas vítimas de uma forma limite da classificação social aquela que quis reduzilas à condição de subhomens o silêncio além da acomodação ao meio social poderia representar também uma recusa em deixar que a experiência do campo uma situação limite da experiência humana fosse integrada em uma forma qualquer de memória enquadrada que por princípio não escapa ao trabalho de definição de fronteiras sociais E como se esse sofrimento extremo exigisse uma ancoragem numa memória muito geral a da humanidade uma memória que não dispõe nem de portavoz nem de pessoal de enquadramento adequado Notas 1 M Halbwachs La mémoire collective Paris PUF 1968 2 P Nora Les lieux de mémoire Paris Gallimard 1985 3 Para o conceito de violência simbólica ver P Bourdieu Le sens pratique Paris Minuit 1980 p 224 4 M Halbwachs op cit p 12 5 M Pollak Pour un inventaire Cahiers de IlHTP n 4 Questions à lhistoire orale Paris 1987 p 17 6 G HerberichMarx F Raphael Les incorporés de force alsaciens Déni convocation et provocation de la mémoire Vingtième Siècle 2 1985 p 83 7 H Carrère dEncausse Le malheur russe Paris Fayard 1988 8 W Laqueur Jahre auf Abruf Stuttgart WDV 1983 9 Entre todos os exemplos desse fenômeno de esquecimentos sucessivos e de reescritas da história biográfica um dos últimos o do presidente austríaco Kurt Waldheim é particularmente expressivo 10 G Namer La commémoration en France 19441982 Paris Papyros 1983 p 157 e seg M Pollak e N Heinich Le témoignage Actes de la recherche en sciences sociales 6263 1986 p 3 e seg 11 N Lapierre Le silence de la mémoire A la recherche des Juifs de Plock Paris Plon 1989 p 28 12 G HerberichMarx F Raphael op cit 13 Idem ib p 83 e 93 14 Idem ib p 94 15 Memórias de um mineiro loreno colhidas por Jean Hurtel citadas em G HerberichMarx F Raphael op cit 16 Ver Ph Joutard Ces voix qui nous viennent du passé Paris Hachette 1983 17 C Olievenstein Les nondits de lémotion Paris Odile Jacob 1988 18 Idem ib p 57 19 D Veillon La Seconde Guerre Mondiale à travers les sources orales Cahiers de llHTP n 4 Questions à lhistoire orale 1987 p 53 e seg 20 H Rousso Vichy le grand fossé Vingtième Siècle 5 1985 p 73 21 O trabalho político é sem dúvida a expressão mais visível desse trabalho de enquadramento da memória P Bourdieu La représentation politique Actes de la recherche en sciences sociales 3637 1981 p 3 e seg 22 L Boltanski Les économies de la grandeur Paris PUF 1987 p 14 e seg 23 D Veillon op cit 24 H Rousso Le syndrome de Vichy Paris Le Seuil 1987 25 M Pollak e N Heinich Le témoignage Actes de la recherche en sciences sociales 6263 1986 p 13 26 G Namer Mémoire et société Paris MéridiensKlincksiek 1987 analisa essa MEMÓRIA ESQUECIMENTO S I LÊNCIO 15 função aplicada ãs bibliotecas e F Raphael e G HerberichMarx analisam os museus nessa mesma perspectiva Le musée plo vacarian de la mémaire EthlJoogc ral1 çai 17 I 1 987 p 87 e sego 27 D Veillon op cito 28 A análise desses exemplos encon Irase em H Rousso op cit 29 M Poltak e N Heinich op ciL 30 G Ban M Pollnk Survivre dans un camp de concentratian Actes de la recherche en scionccs sociales 4 1 1982 p 3 e sego 3 1 R Lautmann Der ZWQ1lg zur Tugelld Frankfurt Su1ukamp t984 p t56 e sego 32 M Pollak Encadrement el siJence le Iravail de la mémoire Pénélope 12 t985 p 37 33 M Pollak La gestion de Jindici ble Actes de la recherche en sciences social 6263 1986 p 30 e sego Michael Pollak é pesquisador do Centre National de Recherches Scientifiques CNRS ligado ao InstituI dHistoire du Temps Prcsent e ao Groupe de Sociologie Polilique el Morale Estuda as relações entre política e ciências sociais e desenvolve atualmente uma pesquisa sobre os sobrevi ventes dos campos de concentração e sobre 8 Aids Sentimentos de incompletude inadequação e atraso parecem ter sido uma tópica no interior da experiência do tempo e da história que vigoraram em contextos pós coloniais3 A decorrência mais fundamental desse quadro parece ser a vivência de uma dualidade marcada por fazer mas não integralmente parte de uma determinada história narrativa ou trajetória temporal Tendo simultânea e esquizofrenicamente um caminho ditado incentivado louvado e interditado afinal esses contextos jamais serão capazes de alcançar integralmente as virtudes que são definidas por entes com histórias e percursos temporais próprios e diferentes daqueles que ambicionam se desenvolver No Brasil decididamente este não é um tema qualquer Embora possa aparecer com as mais diversas situações e definições há muito tempo esse tema move intelectuais e personagens públicos Como no caso em que Carlos Drummond de Andrade recordando passagens de Minha formação 1900 nas quais Joaquim Nabuco se queixa de que o Novo Mundo para tudo que o que é imaginação estética ou histórica é uma verdadeira solidão alega para Mário de Andrade não sou ainda suficientemente brasileiro Mas às vezes me pergunto se vale a pena sêlo O Brasil não tem atmosfera mental não tem literatura não tem arte tem apenas uns políticos muito vagabundos e razoavelmente imbecis e velhacos Sou hereditariamente europeu ou antes francês Ao que Mário contestava você fala na tragédia de Nabuco que todos sofremos Engraçado Eu há dias escrevia numa carta justamente isso só de que maneira mais engraçada de quem não sofre com isso Dizia mais ou menos O doutor Carlos Chagas descobriu que grassava no país uma doença transmitida por barbeiros que foi chamada moléstia de Chagas Eu descobri outra doença mais grave de que todos nós estamos infeccionados a moléstia de Nabuco É preciso começar esse trabalho de abrasileiramento do Brasil ANDRADE Mário de apud BOTELHO 2012 p 15 Se a brasilidade de Mário de Andrade não é aqui segundo André Botelho sinônimo de nacionalismo ingênuo e tampouco de patriotismo mas sim fruto das tensões e ambiguidades da sua relação com o Brasil constitutivas de seu pensamento e de sua ação como muitas delas são constitutivas do próprio Brasil BOTELHO p 109 então combater a moléstia de Nabuco parece ser uma tarefa fundamental para tornar o Brasil mais familiar aos brasileiros BOTELHO p 106 Sem eliminar suas contradições tal tarefa parece apontar para uma virtude decisiva aquela de expor para uma tradição acostumada a classificar sua própria cultura por características como a falta a incompletude e o atraso as facetas mais complexas e diversas que foram até ali obscurecidas É primordial assim compreender as características do percurso de formação dessa postura que se por Mário de Andrade foi chamada de moléstia de Nabuco bem mais recentemente foi conceitualizada pela psicanalista Maria Rita Kehl como o bovarismo brasileiro Com isso a psicanalista identificava o processo pelo qual o burguês oitocentista já não mais se observava como continuador de uma tradição mas sim fundador de uma nova linhagem operando uma verdadeira ruptura com a experiência então vigente É essa reviravolta subjetiva do burguês moderno que passa a negar a tradição e ocupar sozinho o lugar do herói mítico tão detalhado na obra de Flaubert a que se faz alusão que lança as bases para um desejo de tornarse outro a despeito de qualquer circunstância histórica geográfica etc O tornarse outro desse novo sujeito prima sobretudo pelo rebaixamento da história a mero obstáculo facilmente superável em prol de alcançar o mesmo estatuto de um outro por vezes idealizado e não observado em toda sua complexidade Tal gesto dista radicalmente do tornarse outro exigido em certo momento pelo gesto antropofágico de Oswald de Andrade Pois esse gesto a todos em suas virtudes devora ao contrário da seletividade do gesto moderno que ao escolher um dado outro como sua fonte de desejo e emulação efetua o apagamento de outros que na antropofagia seriam fundamentais para a constituição de um sujeito plural complexo e que se materializa na poética rimbaudiana na qual o eu é um outro Em palavras mais concretas decorrências dessa nova subjetividade parecem segundo Kehl se materializar nas sociedades da periferia do capitalismo que se modernizaram tomando como referência as revoluções industrial e burguesa europeias sem no entanto realizar nem uma nem outra a relação com os ideais passa forçosamente pela fantasia de tornarse um outro Só que esse outro é por definição inatingível na medida em que o momento histórico que favoreceu a modernização a expansão e o enriquecimento dos impérios coloniais não se repetirá KEHL 2018 p 3031 Assim o principal efeito da fantasia moderna e periférica de tornarse outro a despeito das condições objetivas que levaram a isso é o obscurecimento de caminhos próprios não entendendo a particularidade e a potência de sua formação histórica Caminhos emancipatórios capazes de resolver as contradições próprias de sua posição no cenário internacional a começar pela dependência em relação aos países ricos KEHL p 31 Oswald de Andrade brincou com isso no Manifesto antropófago nos vários aforismos em que contra a esquizofrenia de manter os olhos fincados apenas no outro externo e em suas histórias que começam no cabo Finisterra a Revolução Francesa o comunismo e outras realizações que de modo jocoso aparecem no Manifesto Afinal antes dos portugueses chegarem ao Brasil o Brasil já tinha descoberto a felicidade e assim contra todos os importadores de consciência enlatada o Manifesto apresenta a existência palpável da vida além da mentalidade prélógica para o Sr Levy Bruhl estudar ANDRADE 1978 1928 p 14 Aqui argumentando com Beatriz Azevedo vemos que a referência irônica ao filósofo francês Lucien LévyBruhl se deve ao fato de suas teses especialmente aquelas expostas em A mentalidade primitiva 1922 e em LÂme primitive 1927 qualificarem enquanto prélógica a mentalidade de sociedades inferiores As teses de LévyBruhl que receberam posteriormente severas críticas da disciplina antropológica contemporânea e de Lévi Strauss tiveram importante impacto no modernismo brasileiro AZEVEDO 2015 p 123 A partir do chiste vêse que a terapêutica antropofágica não pretende oferecer uma dose de identidadeidentificação e um caminho seguro ao qual seguir e copiar àquele sujeito que pode ser coletivo que vê os seus desejos de tornarse outro permanentemente negados Para o sujeito em crise e constantemente frustrado com a interdição de suas possibilidades não se oferece um paliativo um conforto identitário que asseguraria o seu lugar ao sol junto aos outros sujeitos emulados Oferecese na verdade a diferença A imagem de um outro que tensione permanentemente os desejos desse sujeito e questione os próprios caminhos escolhidos por ele não sendo estes únicos lineares e predefinidos Contra a paralisia e a homogeneização a terapêutica antropofágica oferece uma história errática viva e por longo período reprimida Algo semelhante àquilo que outra psicanalista Suely Rolnik chamou de reserva tropical de heterogênese ou seja uma rica biodiversidade de que o Brasil disporia não só no reino vegetal e animal mas também no humano principalmente no campo da subjetividade capaz de revitalizar a partir da diferença os caminhos de uma civilização que se voltava para a homogeneização4 Ao contrário portanto de uma simplória positivação do particular da margem ou da periferia o que apenas reforçaria a sede por identidades homogêneas a terapêutica antropofágica propõe a diferença como força ativa na reconfguração da experiência operando uma alteração não apenas de conteúdo mas nos próprios termos da identidade o que haveria de vital nessa reserva não é uma imagem a mais da subjetividade nem uma variedade de imagens para alimentar o mundo em sua ânsia de consumo de fguras que possam servir de identidade Pelo contrário essa reserva conteria a fórmula de uma vacina contra a tendência dominante à homogeneização tanto em sua necessidade de identidades globais quanto em seus efeitos colaterais de reivindicação de identidades locais ou de dissolução no caos a vacina de heterogênese provocaria nas subjetividades um desinvestimento do modo identitário ROLNIK 1996 p 10 O desinvestimento do modo identitário tinha na história um componente fundamental Esta seria decisiva aqui nietzschianamente na medida em que contribuísse para a recriação da vida apostando na diferença como elemento vitalizador Reconhecendo a importância do esquecimento não seria todo e qualquer elemento do passado capaz de produzir um efeito disruptivo sobre a temporalidade História e diferença atuariam assim no tensionamento de um presente que desprovido dessas forças antihegemônicas se veria entregue à homogeneização que grandes estruturas históricas como o patriarcado e a filosofa messiânica estimulariam A conclamada reabilitação do primitivo presente no gesto antropofágico atuava de tal forma como força de choque diante de uma dupla consciência5 num Brasil incapaz de se autoobservar que não de maneira míope Ao menos era o que aparecia em pequena carta redigida por Oswald e endereçada ao Encontro dos Intelectuais realizado no Rio de Janeiro poucos meses antes de sua morte ANDRADE 1992 1954 Desde os tempos da Revista de Antropofagia 1929 porém a terapêutica antropofágica já dava sinais de que não lhe interessava essa reabilitação como puro gesto identitário no sentido de uma imagem fixa do primitivo a ser celebrada e cultuada tal qual a reabilitação do primitivo promovida pelo grupo Verdamarelo Nas páginas da revista era possível assim ler que os verdamarelos querem o grilhão e a escravatura moral a colonização do europeu arrogante e idiota e no meio disso o Guarani do Alencar dançando valsa Uma adesão como essa não nos serve de nada pois o antropófago não é índio de rótulo de garrafa ANDRADE 1928 Quando se tratava do olhar externo a terapêutica antropofágica para a dupla consciência sugeriria que em países como o Brasil se pressuporia que o olhar para a Europa estaria relacionado aos relatos de falência de uma civilização e na medida em que esses relatos terminassem apontando para o nosso índio como o mensageiro do futuro como Oswald já havia escrito em Mensagem ao antropófago desconhecido o homem europeu falou demais É preciso ouvir o homem nu Em resposta a Tristão de Athayde pseudônimo do crítico católico Alceu Amoroso Lima que acusara Oswald de ser demasiado fiel às vanguardas europeias de então Oswald afirmava o que vastamente me interessa nesses homens Keyserling e Spengler seja qual for a importância exata deles ou a sua atualidade horária é a confssão que todos eles trazem da falência de toda cultura artificial humana que aliás foi a guerra que pôs em xeque O que me interessa pois nessa curiosa Europa que para não morrer se recolheu à única trincheira que lhe restara a do homem primitivo a fim de dali partir você verá para qualquer construção oposta à lamentável Babel da civilização ocidental católicopuritana O que me interessa é só a retirada dessa civilização ocidental na direção moral e mental do nosso índio Isso sim porque dá razão à única coisa que é nossa o índio ANDRADE 1992 1929 p 4243 Viase a história portanto mobilizada a partir da reabilitação do primitivo com a finalidade da recriação do presente e um futuro que não mais seria apenas aquele de realizar tardiamente um caminho já delineado e com suas possibilidades previamente definidas como aquele oferecido pela desejada imagem europeia Menos que apontar para caminhos que naquela altura Oswald observava como exauridos vide a experiência soviética ou aquela do capitalismo burguês ocidental o futuro apontava para a experiência matriarcal a nova idade do ouro e com isso o Brasil era convidado a reavaliar sua experiência histórica e o sentido do seu devir Não à toa no Manifesto Antropófago emergem determinadas imagens do passado que revelam a natureza do tratamento oferecido por Oswald a fenômenos relativos à historicidade sempre apontando para uma conexão entre a experiência histórica e a recriação do presente A mencionada reabilitação do primitivo por exemplo não expõe um regresso a algumas formas arcaizantes Tratase antes de escutar um dado passado como fonte de tensionamento e que mais verdadeiramente coloque em evidência o elemento ali recalcado e latente e que vem a aparecer em formas fragmentárias no presente Uma imagem do passado que parece ainda caminhar em dois sentidos primeiro na relação de interdependência temporal com o presente e o futuro por meio da utopia a Revolução Caraíba e segundo na crítica de um procedimento tão frequente no sistema intelectual brasileiro vivenciado por Oswald que é a arqueologia das ausências no caso da citação abaixo as revoluções europeias aqui não realizadas queremos a Revolução Caraíba Maior que a Revolução Francesa A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem Filiação O contato com o Brasil Caraíba Ori Villegaignon print terre Montaigne O homem natural Rousseau Da Revolução Francesa ao Romantismo à Revolução Bolchevista à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling Caminhamos ANDRADE 1978 1928 p 14 grifo do autor Mesmo em seus ensaios tardios como nA Crise da filosofa messiânica Oswald realizou operações reveladoras de sua compreensão da historicidade Na obra mencionada Oswald opera através da inversão de um conjunto de categorias das quais o homem do Ocidente teria se valido durante uma longa duração temporal Então se a historiografia nos fez conhecer os principais acontecimentos e legados da civilização ocidental da Grécia ao século XX tendo como vetor da narrativa o longo processo de institucionalização do mundo da vida a narrativa agora se encaminharia para um olhar inverso isto é sobre aquilo que se perdeu ao longo dessa trajetória e se colocaria como o objeto por excelência da Errática uma ciência criada objetivamente para reunir esses fragmentos dispersos na trajetória histórica A inversão operada deslocaria de tal modo a atenção da historiografia para um determinado conjunto de fenômenos que poderiam ser chamados de latentes isto é em algum grau presentes nessa trajetória mas que foram assim reprimidos e ocultados de modo a retirar da história seu conteúdo revoltoso seu inacabamento constitutivo para afirmar um certo caminho evolutivo a ser mantido e justificado NETO GAIO 2020 Na própria Revista de Antropofagia o procedimento da inversão deu o tom da concepção de história presente no gesto antropofágico O escritor potiguar Jayme Adour da Câmara provocava em 1929 com seu artigo História do Brasil em 10 tomos ao afirmar que o surrealisme comunicou ao espírito francês a mais intensa violação já existia no Caraíba como um estado latente CÂMARA 1929 Câmara iria ainda além criando uma longa cadeia temporal na qual a América teria revelado à Europa o homem natural livre e simples capaz de impressionar Montaigne inspirar a escrita da Enciclopédia e do contrato social por Rousseau No mesmo ano mas em algumas edições anteriores Oswald Costa afirmava em sua Revisão necessária que a nossa história tem sido mal contada Exige uma revisão Remetiase à escolha equivocada na sua visão de se estudar a cultura brasileira a partir da falsa cultura e falsa moral do ocidente Urgia segundo Costa que a terapêutica antropofágica entrasse em cena com sua revisão histórica a fim de reverter o processo iniciado quando nas mãos do índio puseram um terço e o catecismo e na inocência dele viram o fantasma do pecado sexual COSTA 1929 No interior da noite colonizadora nossa noite sem lua e que dela precisamos sair um papel decisivo estaria reservado não só ao Brasil mas à América Latina de história rica dramática colorida e coriscada de gestos libertários ANDRADE 1971 p 63 A nova idade do ouro anunciada pela antropofagia pede de espaços que experimentaram a situação colonial uma mudança de foco que Oswald resumiu nas seguintes palavras não podemos esperar da Europa europeia para onde vivemos por tanto tempo voltados com a luz de Paris em nossos espíritos Foi uma época que terminou Tínhamos pelo latino americano um desprezo que participava do conhecimento de nós mesmos de nossos pobres recursos civilizados perdidos no esmagamento de uma fiança torpe ligada à fome dos imperialismos ANDRADE p 6364 Como metáfora da cerimônia guerreira da imolação dos inimigos pelos tupis como diagnóstico de uma sociedade traumatizada pela repressão colonizadora e incapaz de olhar que não de maneira míope para o outro interno6 a antropofagia se completava então como terapêutica que se propunha a desafiar a dupla consciência sempre a partir da provocativa apresentação de histórias obscurecidas e de maneira a intensificar uma reavaliação integral da experiência histórica de espaços como aqueles brasileiro e latinoamericano em consonância com o seu devir É preciso ouvir o homem nu Talvez seja a possibilidade de se seguir contando histórias uma das variáveis possíveis para que se desafem as dinâmicas inerentes à dupla consciência Como já observado a dupla consciência estaria na origem de alguns fenômenos particularmente presentes em espaços advindos de situações coloniais como aquele da invisibilização social de um outro interno diante de uma inclinação favorável a um outro externo consag rado por sua associação intrínseca a um caminho evolutivo e irrefreável do tempo Além disso e como decorrência de tal fenômeno a dupla consciência e a percepção de um caminho único e de uma história única em direção ao progresso traziam na sua antessala o ocultamento e a repressão de uma história que não parecia particularmente atraente na composição do mosaico que levaria nações advindas de contextos coloniais rumo à modernidade História ou histórias que colocada numa perspectiva temporal trazia a marca indelével do atraso e da diferença que se queria ocultar a fim de não se desestabilizar identidades e imagens de mundo Seguir contando história portanto e seguir contando a história da diferença acaba por atuar na contramão dos pretensos desejos de um tempo chapado linear e de uma história única No diagnóstico de alguém para o qual negação e apagamento formam na história brasileira uma experiência bastante viva nosso tempo é especialista em criar ausências do sentido de viver em sociedade do próprio sentido da experiência da vida Então pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos Um antídoto contra esse tempo que busca neutralizar toda força que o distende e assim caminhar para o imobilismo poderia ser contar mais uma história e seguir promovendo um tipo de abertura e tensão indesejadas e a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história Se pudermos fazer isso estaremos adiando o fim do mundo KRENAK 2019 p 26 Cumpre notar porém que adiar o fim do mundo nesse caso não se trata de acenar com uma utopia de mundo recomposto KRENAK 2015 p 28 como se ainda houvesse saída dentro das formas contemporâneas e a partir de algo sustentável Tratase sim de adiar o fim do mundo com a garantia da possibilidade de existência da diferença diante de um tempo que não se interessa por ser incomodado pelo seu avesso e suas margens E para isso contar mais uma história parece fundamental Mas não a mesma história Aquela que mais do que abrir a historicidade parece aprisionála à camisa de força de uma narrativa já predefinida Uma história que insistimos tanto e durante tanto tempo em participar sendo que na maioria das vezes só limita a nossa capacidade de invenção criação existência e liberdade KRENAK 2019 p 13 Uma história que só pode ser ocupada com as regras do jogo já estabelecidas de antemão como essa novidade de todo mundo virar cidadão de forma compulsória que tira também das pessoas a possibilidade de elas continuarem vivendo de alguma maneira a memória de sua tradição de sua cultura KRENAK 2015 p 212 Para adiar o fim do mundo pelo contrário serviriam exatamente aquelas histórias que vão sendo esquecidas e apagadas em favor de uma narrativa globalizante superficial KRENAK 2019 p 19 e que por muito tempo nos pareceram datadas ou superadas Talvez seja exatamente seu conteúdo de outro tempo anacrônico que traz nesse momento um potencial irruptivo para um tempo carregado de si mesmo e das suas próprias formas Se por muito tempo por exemplo éramos nós os povos indígenas que estávamos ameaçados de ruptura ou da extinção dos sentidos das nossas vidas hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda KRENAK 2019 p 45 A experiência do fim do mundo e por consequência as diversas histórias que emergem de povos que vivenciaram o que para a civilização só agora parece ser uma crise parecem se colocar como momentos propícios para pensar se o fim do mundo já não existiu outras vezes quando por exemplo a história e o tempo foram capturados colonizados e traduzidos hierarquicamente em termos de progresso e atraso Caberia perguntar na esteira de Ailton Krenak se diante do atual fim do mundo a potência de transformação não viria justamente daquilo que fora negado pela coluna temporal moderna e que justamente por isso isto é por não trazer a imagem e a semelhança mas sim a diferença de um mundo refém de sua própria autoconsciência poderia tensionar esse mundo nas suas próprias determinações Renunciar por exemplo à ideia de que sonhar é abdicar da realidade renunciar ao sentido prático da vida KRENAK 2019 p 52 Sob tal baliza o tempo do mito tempo em que é possível tudo em que é possível que os mundos se intercambiem KRENAK 2017 p 73 não se colocaria como uma falsificação da realidade mas mais propriamente como uma janela KRENAK 2017 p 74 algo que Oswald de Andrade chegou a chamar de esquinas da história Lá nas esquinas onde determinadas compreensões se perderam para favorecer um tronco que se sedimentou e se alongou historicamente obscurecendo outras trajetórias mas que sempre permaneceram ali na espera de serem retematizadas Assim quando nós narramos as histórias antigas nós criamos o mundo de novo limpamos o mundo KRENAK 1992 p 204 Reencontrar o tempo do mito traria no seu seio a necessidade de também discutir as políticas temporais modernas que arbitrariamente tentaram escalonar o que pertenceria a um passado aquilo que já foi e não volta mais e o que seria contemporâneo e digno de se carregar para o futuro Discutir tais políticas tornaria possível considerar que para reencontrar o tempo do mito não é preciso partir em busca do passado porque o tempo mítico não é algo que já se foi Para encontrar o tempo mítico é preciso exercitarse na abertura para o presente para a atualidade real e completa SANTOS 1992 p 199 Redefinir as estanques fronteiras temporais modernas e discutir as categorias de contemporaneidade parece ser uma preocupação seminal da obra de Ailton Krenak Com isso busca uma abertura para distintas formas de se relacionar com o tempo e a história que não apenas aquela que modernamente produziu em série fenômenos como a dupla consciência impossibilitando a percepção das dinâmicas temporais próprias que compunham o interior do território brasileiro para afirmar um olhar ao outro externo enquanto ao outro interno caberia ser traduzido em categorias temporais do atraso e do passado Por isso e não à toa Krenak observa como os maiores confitos da nação brasileira não são com os de fora mas com ela mesma KRENAK 2015 p 95 Incapaz de tratar o Brasil a partir da diversidade que lhe constitui e com a qual os projetos de futuro pretenderam romper e localizar temporalmente no passado a nação brasileira estaria condenada a repetir algo que já vem fazendo há bastante tempo se descobrir Afinal sintetiza Krenak o Brasil está sempre se descobrindo Descobre descobre descobre pela segunda terceira quinta vez KRENAK 2015 p 178 A trajetória de Ailton Krenak se confunde com a de um Brasil recente o da Nova República gestado a partir da Constituição de 1988 em que sua atuação7 na defesa da garantia da proteção dos direitos indígenas é bastante lembrada chegando até ao ano de 2015 quando sua etnia os Krenak ficou nacionalmente conhecida por habitar a margem esquerda do rio Doce que possuía papel central na sua subsistência e foi severamente castigado pelo rompimento de uma barragem com rejeitos de minério Ao longo dessas décadas além de se dedicar com outras lideranças indígenas às causas políticas que muitas vezes envolveram confitos com projetos de expansão do Estado brasileiro e de corporações sobre territórios dos povos originários Krenak também foi construindo um legado de várias entrevistas que hoje já se encontram publicadas em livros e refetem a postura de um intelectual situado por sempre reforçar que um intelectual na tradição indígena tem uma responsabilidade permanente que é estar no meio do seu povo KRENAK 1992 p 201 mas também sempre atento às dinâmicas históricas que o excedem Reconhece Ailton Krenak que seu povo descende dos antigos botocudos assim nomeado nas fontes oficiais que desde o período colonial e com o agravamento da situação no início do século XIX pela decretação da Guerra Justa autorizada pelo governo português por meio das Cartas Régias em 1808 fora inimigo declarado do governo português8 No século XX como Krenak as primeiras notícias estão associadas à construção da estrada de ferro ligando Vitória no Espírito Santo à atual cidade de Governador Valadares em Minas Gerais Além disso também há relatos sobre desde 1968 índios Krenak serem mantidos no Centro de Reeducação Indígena Krenak para onde eram enviados os indígenas que opunham resistência aos ditames dos administradores de suas aldeias ou eram considerados como desajustados socialmente Ali eram mantidos em regime de cárcere sofrendo repressões como o confinamento em solitária e castigos físicos em casos de insubordinação9 Diante do problema aqui colocado nos interessa observar como no âmago da refexão de Krenak se encontra um questionamento acerca das justificativas temporais que conformaram a nação brasileira e sua particular relação com os povos indígenas Mais exatamente como esse outro interno à nação estava marcado pelas dinâmicas da dupla consciência que tinha na sua raiz uma relação de ruptura e negação com um passado indesejado10 Atento a esse movimento Krenak aponta para toda a debilidade de um projeto que acredita ser possível superar a história tendo dela uma compreensão objetificada e museificada e não a compreendendo como a condição de possibilidade do próprio ser Tal incompreensão estaria segundo Ailton Krenak no cerne da tentativa moderna de promover uma ruptura com a experiência para se criar algo ex nihilo Ou melhor mais do que uma ruptura talvez se trata de uma relação objetificada com a experiência que acaba por ser traduzida em grandes realizações do progresso como quando os homens botam torres prédios e essas máquinas barulhentas por todo lado não fazendo nada mais do que berrar pra dizer que ele está aqui KRENAK 2015 p 49 Grita tanto a sua existência que de tal maneira já se evidencia o seu próprio descolamento desse mundo Com significados bastante próximos nas falas de Ailton Krenak história experiência e tradição aparecem como a própria condição do ser e da existência Se um dos traços marcantes do horizonte moderno é o próprio esfacelamento da experiência Krenak provoca com uma experiência que se confunde com a própria existência na qual a primeira não é externalizada ao próprio ser assim como a história ou a tradição Algo do qual podemos nos remeter como se já não nos pertencesse mais e pudéssemos tratar com distanciamento diante do próprio ser Algo como a experiência religiosa na qual por exemplo uma religião está vinculada a um conjunto de normas e condutas Para nós isso não existe Eu não tenho que ir a um templo não tenho que ir a uma missa Eu me relaciono com a natureza e com os fundamentos da tradição do meu povo KRENAK 2015 p 83 Ter a história em suas próprias mãos pretender moldála como um objeto inteiramente disponível seriam compreensões particularmente características de uma sociedade que vive a angústia da certeza Uma sociedade que divide os povos que têm história e os que passariam a ter mito KRENAK 2017 p 71 Mas não só O que se observa é uma ideia de civilização que começa a viver a angústia de ter certeza de alguma coisa De ter certeza de que vão poder controlar aquele lugar onde estão vivendo aquela paisagem que vão conseguir através do conhecimento da ciência da experimentação controlar a passagem do tempo KRENAK 2017 p 7172 As políticas temporais modernas objetificam e externalizam o tempo em relação ao ser de tal forma que o tempo pode ser tratado como uma espécie de commodity um recurso que se controla e com o qual se torna possível efetuar classificações e categorizações O tempo passa a ser desinvestido de seu conteúdo existencial e despolitizado de forma a aparentar uma pretensa neutralidade nessas mesmas categorizações Colonizase o tempo de tal forma a delimitar então o que é passado presente e futuro tornando incompreensível num certo sentido outros possíveis arranjos temporais que não partem de pressupostos assim estanques11 Sob tal dinâmica um dos seus efeitos é justamente a sensação de uma indisponibilidade da história como se não restasse alternativa senão a adaptação contínua Na contramão disso politizar o tempo em sua dimensão linguística ecológica cotidiana talvez permita elaborar sobre novas bases outra concepção de disponibilidade da história sem que isso naturalmente reforce a dimensão de um fm final que nos justificaria tão característico da dimensão redentora e singularizante da modernidade clássica TURIN 2019 p 49 Retomar a disponibilidade da história e promover certa politização do tempo significaria acima de tudo entender que o tempo não pode ser descolado do seu caráter performático como as políticas temporais modernas pretenderam ocultar ao mesmo tempo em que a executavam e com isso abrir espaço para uma compreensão segundo a qual formas de experiências distintas requerem formas temporais distintas TURIN 2019 p 47 Ainda sobre o tratamento do tempo como um recurso e portanto como algo a ser manuseado é na ideia de futuro que jaz uma de suas fgurações mais características e sintomáticas desse processo Falase do futuro como algo que pode ser moldado e desenhado ao gosto humano e a partir de projeções A história brasileira é segundo Krenak prenhe dessas projeçõesprojetos de futuro Na maioria das vezes porém são projetos que não condizem com projetos de futuro de comunidades tradicionais e indígenas distribuídas pelo país Não só no conteúdo mas especialmente na forma É a forma de um existir temporal que não aparta o futuro das outras dimensões que revela a diferença mais substancial afinal o projeto de futuro dessas populações não é aquilo que eles estão vivendo hoje ou que viveram no passado o que vivem hoje e o que vão viver no futuro é o projeto de futuro dessas populações KRENAK 2015 p 61 O fato de tais populações enredarem a existência numa dinâmica temporal orgânica e interdependente não se justificando majoritariamente no futuro produz por decorrência uma relação de choque com os projetos de futuro do Estado e da sociedade brasileira No conteúdo e na forma tais projetos de futuro se distanciam radicalmente daqueles futuros aludidos por Ailton Krenak que então se pergunta que progresso é esse Parece que nós tínhamos muito mais progresso e muito mais desenvolvimento quando a gente podia beber na água de todos os rios daqui que podíamos respirar todos os ares daqui KRENAK 2015 p 167 A crítica do prog resso e sua colonização temporal pelo f uturo fator como já afirmamos decisivo na constituição da dupla consciência aparece continuamente na obra de Ailton Krenak revelando seu estranhamento ao habitar o interior de uma sociedade que age como se a gente estivesse numa corrida maluca onde ninguém tem lugar para chegar mas todo mundo está correndo essa pressa toda com que vocês estão andando está levando vocês exatamente para onde KRENAK 2015 p 241 A vivência do choque que o contato entre a sociedade moderna brasileira e a experiência de comunidades tradicionais torna evidente uma demanda por refazer o encontro Um certo Brasil que vai descobrindo sua antessala negada por um longo período pela primeira segunda quinta vez com casos na maior parte das vezes de choque exibe a possibilidade de se refazer o encontro sob novas balizas temporais críticas a uma história única e temporalmente colonizada Refazer o encontro por intermédio de uma história na qual as políticas temporais não estejam tão sedimentadas e míopes possibilitando certa permeabilidade afinal a história não está caminhando linearmente para um fim preciso mas é também prenhe de contradições vida e potência nós sabemos que toda catástrofe era o prenúncio de um novo tempo KRENAK 2015 p 91 Expor a nu as dinâmicas da dupla consciência poderia ter como condição portanto abrir espaço para uma compreensão que não mortifque a história Abrir a história assim seria também reorganizar estes espaços do outro interno e do outro externo e reconhecer que os papéis e as posições esperados a serem ocupadas já não estão dados de antemão Abrir a história assim significaria ainda que por sua intimidade com a existência essa história que traz o mesmo e o avesso seria a própria condição da mudança e da transformação A história externalizada à própria existência por sua vez fica passível de tábula rasa como se fosse algo que pudéssemos escolher ter ou não superar ou não apagar ou não A pretensão modernizadora e seu particular desejo em arquivar superar ou mesmo museificar certo passado em particular aquele que pudesse remeter a um outro interno invisibilizado como no caso da modernização brasileira já acaba por revelar nas palavras de Krenak uma humanidade que não sabe sonhar mais confusa num certo tratamento externalizado da história que é registrada em milhões de toneladas de livros arquivos acervos museus guardando uma chamada memória da humanidade E que humanidade é essa que precisa depositar sua memória nos museus nos caixotes KRENAK 1992 p 204 Imaginar a possibilidade de superar a história portanto em particular quando traduzida na ideia de superar uma história numa face tão viva como aquela da experiência indígena no Brasil levou Krenak a profetizar ainda nos anos 1990 que quando não houver mais lugar para os índios na Terra não haverá lugar para mais ninguém12 Questionar as dinâmicas da dupla consciência e da invisibilização do outro interno passa portanto por uma abertura e pela reconsideração da história sob outros espectros Pode a história assim deixar de ser apenas aquilo que se possui e que se registra a partir de marcas documentais institucionais etc para ser remetida também a uma experiência viva indelével potencializada e capaz de embaralhar e inviabilizar as prerrogativas de formulações como povos com história e povos sem história Tal distinção legitima e retira do espaço de incompreensão formulações como a minha história é a experiência coletiva de meu povo A minha história de maneira alguma se resume ao conjunto de documentos públicos que o governo me deu KRENAK 2015 p 84 Paradoxalmente portanto o que aqui se afirma é que uma das formas possíveis de tensionar a dupla consciência pode mesmo estar numa compreensão de um grupo o mesmo grupo que fora um dos mais aviltados pelas dinâmicas decorrentes de tal fenômeno A reconsideração da história como algo vivo como é viva a cultura vivo como é dinâmica e viva qualquer sociedade humana KRENAK 2015 p 161 abre espaço para uma crítica das pretensões de se varrer a história para um posto silenciado e irrelevante Mais do que estar registrado na história num dado momento do tempo a história compõe a própria existência num sentido vital como aquele da tradição para povos tradicionais haja vista que os fundamentos da tradição são como o esteio do universo KRENAK 2015 p 94 Claro está que não se trata aqui do sentido de tradição como algo a ser perpetuado no tempo a despeito das mudanças e das contingências históricas como algo que deve ser mantido mesmo quando seu conteúdo já não vigore Muito mais próximo se estaria de um sentido da tradição como vida e experiência como em determinados lugares que transportam para Krenak narrativas de povos de onde se sai e volta atualizando tudo o sentido da tradição o suporte da vida mesma KRENAK 1992 p 201 Não haveria sentido de tal forma partir a história entre passado presente e futuro como se fosse possível localizar uma experiência apenas num dado compartimento do tempo pois vejo nas narrativas mesmo as narrativas chamadas antigas do Ocidente que sempre são datadas KRENAK 1992 p 202 A fundação do mundo mais do que um evento que aconteceu no passado e por isso pode ser tratado como algo independente de nossa existência no presente é compreendido por Krenak pelo seu exato oposto isto é uma memória puxando o sentido das coisas relacionando o sentido dessa fundação do mundo com a vida Tal compreensão abre a brecha decisiva para uma compreensão da história que a desassocie apenas do passado de momentos fundacionais que lá existiram e por lá ficaram para tornar possível sua aproximação com a vida uma vez que todo instante a todo momento o tempo todo é a criação do mundo KRENAK 1992 p 202203 As dificuldades criadas pelas políticas temporais modernas ao sequencializarem e partirem a história acabaram tendo na colonialidade e na dupla consciência suas decorrências mais fundamentais em contextos como aqueles aqui mencionados tendo na invisibilização histórica de certos grupos seu ponto nodal A história transformada numa mera contagem e empilhamento de tempo é desinvestida de qualquer relação vital com o presente e permanece próxima do significado de passado Pode parecer natural portanto que entre essa história e a memória Ailton Krenak escolha ficar com a memória Esta menos que sinônimo de algo que passou aparece de modo energizado e capaz de apontar para o sonho e para a transformação Diante de tantas demandas insurgentes do nosso tempo realizar a crítica das políticas temporais da colonialidade políticas essas alicerce e raiz de diversas outras compreensões não parece uma questão menor Ao fm resta o alerta se essa sociedade se reportar a uma memória nós podemos ter alguma chance Senão nós vamos assistir à contagem regressiva dessa memória no planeta até que só reste a história E entre a história e a memória eu quero ficar com a memória KRENAK 1992 p 204 Considerações finais o bárbaro tecnizado uma forma do nosso tempo Diante do conjunto de questões tematizadas neste artigo caberia legitimamente perguntar portanto como sociedades advindas de uma experiência colonial e por isso involucradas em dinâmicas históricas de negação e apagamento podem recriar suas formas de imaginação histórica e temporal Menos que oferecer soluções e fórmulas mágicas que solucionariam questões tão complexas caberia reconhecer como a história e o tempo são mobilizados em práticas e discursos e talvez esboçar ao menos uma forma mais atenta às dinâmicas históricotemporais que permeiam tais contextos do que aquela que a partição moderna permite Há uma conhecida expressão de José Ortega y Gasset em Meditaciones del Quijote que pode ser traduzida como eu sou eu e minha circunstância e se não salvo a ela não salvo a mim ORTEGA Y GASSET 1966 1914 p 322 Tradução nossa que parece despertar o interesse de Ailton Krenak quando refete acerca da circunstância de a gente ter sido encontrado aqui nos trópicos psicotrópicos e termos sido confundidos pelos portugueses como uma coisa pré estabelecida que era essa gente que eles chamaram de índio KRENAK 2015 p 259 Pensar seriamente e avaliar o alcance de uma formulação como eu e minhas circunstâncias apontaria segundo Krenak para dois caminhos complementares O primeiro e mais evidente aproxima o significado de circunstância de um espaço vital de partilha que não pode ser separado do conjunto de pessoas e seres vivos que ali habitam de modo que a hora que me tiram daqui e me jogam em qualquer canto eu não ouço mais a voz da montanha eu não escuto mais em que linguagem o rio está falando KRENAK 2015 p 256 Essa seria portanto uma primeira dinâmica da circunstância isto é viver o espaço intensamente sendo em alguma medida impossível dissociar quem o vive da circunstância mesma Se se dissocia e se o seu coletivo não compartilha um espaço que é recriado o tempo todo pela alma pelo espírito pela cultura você está visando uma coisa totalmente miserável sem sentido nenhum Você foi jogado em qualquer lugar KRENAK 2015 p 256 Se um primeiro caminho apontaria assim para a circunstância como algo a ser assimilado e vivido a fim de não se viver uma vida miserável e perambulante na qual a comunidade não reconhece mais o seu elã vital um segundo caminho apontaria sim para o não fechamento da circunstância em si mesma possibilitando que se excedam suas determinações Não assumir a circunstância como algo fatal e imutável é para Krenak um movimento não menos importante que o primeiro No caso tratase fundamentalmente em esperar que esse embrulho que rolou aqui esse meio milênio de confusão vai ser outra coisa lá na frente KRENAK 2015 p 259 e o encontro entre essa gente que eles chamaram de índio e a empresa colonial possa ser radicalmente refeito Retomando a sentença de Ortega y Gasset essa é a garantia da circunstância eu e minhas circunstâncias não é só uma aposta no vazio é uma confiança num porvir em alguma coisa KRENAK 2015 p 259 Tal garantia da circunstância manteria aberta sobretudo a possibilidade de que o eu seja também outra coisa porque senão vira uma arrogância um eu sou eu e não tem nada a ver KRENAK 2015 p 259 afinal como na clássica formulação de Rimbaud eu é um outro Talvez seja esta então uma questão decisiva no redesenho do encontro assumir a circunstância de uma maneira que ela não seja irrelevante nem tampouco fatal e fechada em si mesma Seria como se recolocássemos a questão da ação na história nos perguntando se seria efetivo nadar contra a correnteza ao que Krenak sempre munido de metáforas responde a lição da água é você acompanhar o movimento dela Agora acompanhar o movimento da água como uma tábua é uma coisa e acompanhar esse movimento como um peixe vivo é outra KRENAK 2015 p 232 Emerge assim uma interessante forma de se desafiar a circunstância e a história a partir de experiências coloniais nas quais a negação da circunstância oposto do primeiro caminho mencionado acima ou sua utilização para fins de naturalização da história oposto do segundo caminho foram escolhas muitas vezes feitas e cinicamente justificadas Indo mais além seria possível ainda deslocar a atenção para algumas formas provocativas que ajudam a imaginar alternativas às rígidas fronteiras temporais definidas pelas políticas modernas e coloniais do tempo Formas que Ailton Krenak e Oswald de Andrade lançaram mão e possuem uma força particular de desatualização do hoje e afirmação da diferença Formas por exemplo que Oswald de Andrade chamaria provocativamente de primitivas por seu evidente caráter disruptivo em relação ao presente e que ficavam visíveis em imagens como as utopias antropofágica e matriarcal ou nas pessoas coletivas KRENAK 2019 p 28 fartamente aludidas por Ailton Krenak Imagens cuja força reside justamente no seu conteúdo anacrônico e espantoso Imagens como a do matriarcado que aliás reaparece na obra de Krenak ao ser contraposto às formas patriarcais de depredação e dominação do planeta Imagens que proliferaram em várias culturas mas que como também sugeriu Oswald se perderam nas esquinas da história a Terra Mãe Pachamama Gaia Uma deusa perfeita e infindável fluxo de graça beleza e fartura Vejase a imagem grega da deusa da prosperidade que tem uma canastra que fica o tempo todo jorrando riqueza sobre o mundo Noutras tradições na China e na Índia nas Américas em todas as culturas mais antigas a referência é uma provedora maternal Não tem nada a ver com a imagem masculina do pai KRENAK 2017 p 139 Ao fim e ao cabo o que se pode depreender é que refexões como aquelas de Ailton Krenak e Oswald de Andrade estavam sobretudo preocupadas em compreender as dinâmicas históricas e temporais que os enredavam sem apelar a saídas simplórias como passadismos ou futurismos com evidente natureza essencialista Bem mais que isso suas preocupações parecem direcionadas a fazer emergir formas tensionadoras e que testassem os limites da representação do tempo em sua forma moderna privilegiando o que se justapõe e se complementa mais do que busca superar ou essencializar determinadas imagens históricas Como afirmava Oswald com a metáfora do primitivo se apostava numa ida não num regresso para de tal forma desafiar e embaralhar pretensos escalonamentos e hierarquizações históricotemporais Torna interessante observar que mesmo separados por mais de meio século Oswald e Krenak se mostrem absolutamente atentos aos desafos das atualizações tecnológicas e busquem formas de imaginação que deem conta da convergência de fluxos temporais que desaguavam no seu presente No caso do poeta antropófago a imagem do bárbaro tecnizado que aparece já no manifesto de 1928 e depois na tese apresentada para a cadeira de filosofa na USP em 1950 tratavase de compreender as transformações e as atualizações científicas industriais e tecnológicas do convulso contexto das décadas de 1920 1930 e 1940 de modo a imaginar também como a civilização brasileira não se contraporia àquele caldo de cultivo moderno além de trazer o potencial de revelar os limites e as lacunas daquele progresso O bárbaro tecnizado seria então uma imagem potente de um novo modelo de cidadão se equilibrando entre as formas históricas revolucionárias como o matriarcado a sabedoria ameríndia e as mais avançadas realizações técnicas e científicas do século XX Um equilíbrio que só seria possível com o enfrentamento das formas patriarcais e messiânicas que insistiam em resistir à força dos novos tempos Seria o caso então segundo Oswald de procurar soluções paralelas ao primitivismo naquele presente como nA Revolução dos Gerentes de James Burham13 no qual a técnica trouxe é claro uma nova dimensão ao mundo em mudança ANDRADE 1978 1950 p 127 Antes mesmo da publicação da Crise o então jovem crítico e amigo de Oswald Antônio Cândido escrevia em 1947 e já identificava o gesto de comunhão do poeta e ensaísta em não se fechar às transformações do seu tempo e imaginar soluções que decantassem imagens de mundo tanto primitivas como tecnológicas para delas antropofagicamente extrair o alimento vital o sentimento por ele Oswald comunicado de que o mais importante é decantar nos produtos complexos da cultura de servidão as partículas inestimáveis de liberdade ou seja depurar o movimento revolucionário indo buscálo onde estiver na sinfonia na equação ou no gesto para integrá lo livre de ganga no gráfico ascendente que busca a cultura da liberdade CANDIDO 2008 1947 p 172 A escolha do exemplo de Burham não é casual O modus operandi dos managers só fora eligido por Oswald por sua fagrante semelhança com a gerontocracia da tribo por seu projeto de pouco a pouco suprimir o Estado a propriedade privada e a família indissolúvel ou seja as formas essenciais do patriarcado ANDRADE 1978 1950 p 129 Assim o bárbaro tecnizado como imagemprovocação tornaria incompreensível raciocínios que oponham simploriamente progresso e atraso primitivo e civilizado Ou mais para resolver os problemas do homem e da filosofa só a restauração tecnizada de uma cultura antropofágica ANDRADE 1978 1950 p 129 Preocupação essa fulcral na obra de Krenak sempre desafiado a justificar qual o lugar e o estatuto que populações indígenas deveriam ocupar dentro da sociedade capitalista e tecnológica com as persistentes hierarquizações que essencializavam o índio como imagem de um passado lá fixado e inapto para as atualizações tecnológicas do século XXI Uma junção que na maioria das vezes é apresentada como contraditória para a qual Krenak prontamente contesta não não é uma contradição as comunidades indígenas precisam ter tecnologia que consiga aplicar com intensidade o conhecimento tradicional deles De tal modo essa atualização tecnológica é afirmativa da tradição não é negativa da tradição Ninguém sendo proprietário do que inventa é feito uma espécie assim de aproveitamento seletivo de práticas e de técnicas que a ciência e que os brancos inventaram Criaram KRENAK 2015 p 5960 Da mesma maneira seria no sentido oposto desapropriando o conhecimento e o tornando acervo universal já que se houver sensibilidade e respeito essas populações são capazes de dar resposta a problemas muito sérios que essa civilização moderna não consegue responder KRENAK 2015 p 61 Emerge de tal forma o bárbaro tecnizado como uma imagemmundo se não suficiente ao menos mais completa para lidar com as formas temporais múltiplas complexas na qual outros arranjos temporais são possíveis e desejados não havendo uma simplória associação entre primitivo e passado tecnológico e futuro Tais arranjos primariam antes de tudo pela retomada da disponibilidade da história e pela contestação das políticas temporais modernas abrindo espaço para experiências e formas decididamente soterradas nas esquinas da história moderna Arranjos que para serem captados porém dada sua natureza de imagens que se apresentam como uma espécie de iluminação necessitariam de uma sensibilidade distinta como no exemplo escolhido por Krenak para encerrar sua conversa com o Txai Terri Valle de Aquino em 1991 o Caetano Veloso tem uma música bonita aquela que fala do índio onde ele canta que um dia um índio descerá com a mais fina das tecnologias Unindo a tradição indígena com a mais moderna das tecnologias Quando os Suruí fzeram aquela circunferência em torno do Caetano naquela hora eu senti que o cientista e o pajé se encontraram e que não precisa esperar o século XXI não KRENAK 2015 p 146