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Artigos originais Economia e Sociedade Campinas Unicamp IE httpdxdoiorg101590198235332020v29n3art07 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto Resumo A industrialização brasileira por substituição de importações proporcionou níveis elevados de adensamento produtivo contudo esses níveis reduziramse após a abertura comercial Porém os estudos existentes utilizaram desagregação setorial que não permite identificar nichos produtivos adensados ou esgarçados dentre dos setores manufatureiros Este trabalho mapeou e analisou pela primeira vez para o Brasil o grau de adensamento produtivo de todas as 258 classes industriais a partir de dados inéditos obtidos do IBGE Assim o estudo identificou os nichos mais e menos adensados possíveis alvos das políticas públicas Resultados relevam que as classes de baixa e médiabaixa tecnologia continuam predominantemente adensadas porém metade das classes industriais de alta e médiaalta tecnologia possui esgarçamento produtivo moderado a elevado sendo algumas classes tecnológicas já maquiladoras Concluise que o esgarçamento das classes industriais mais tecnológicas pode retardar o desenvolvimento brasileiro sobretudo quanto à Ciência Tecnologia e Inovação Palavraschave Adensamento produtivo Desenvolvimento industrial Insumos intermediários Desindustrialização Indústria maquiladora Abstract Productive densification and hollowingout process in Brazilian manufacturing By import substitution Brazilian industrialization provided high levels of productive densification however these levels reduced after trade liberalization The existing studies used sectoral disaggregation that does not allow identifying productive niches that are densified or hollowedout among the manufacturing subsectors For the first time for Brazil this work mapped and analyzed the degree of productive densification in all 258 industrial classes based on unpublished data obtained from the Brazilian Institute of Geography and Statistics IBGE Thus the study identified the niches with the highest and lowest densification which would be possible targets of public policies Results show that the low and mediumlow technology classes are still predominantly densified but half of the high and mediumhigh technology industrial classes have moderate to high productive rarefaction and some technological classes are already maquiladoras We concluded that the more technological industrial classes productive hollowingout process could delay Brazilian development particularly in Science Technology and Innovation Keywords Productive densification Industrial development Intermediate inputs Deindustrialization Maquiladora industry JEL L6 L16 O14 O54 1 Introdução Após cinquenta anos de crescimento elevado desde 1981 a indústria de transformação brasileira vem apresentando estagnação do produto real per capita Morceiro 2018b A partir deste ano a Artigo recebido em 18 de abril de 2019 e aprovado em 13 de dezembro de 2019 Os autores agradecem os pareceristas e editores da Economia e Sociedade pelas melhorias sugeridas assim como os membros do Núcleo de Economia Regional e Urbana da USP NEREUS e do Grupo de Estudos em Economia Industrial GEEIN da Unesp O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil CAPES Código de Financiamento 001 Pósdoutorando no DSTNRF South African Research Chair SARChI in Industrial Development University of Johannesburg Joanesburgo África do Sul Email paulomorceiroalumniuspbr ORCID httpsorcidorg0000000295480996 Economista da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE Paris França Email joaquimguilhotooecdorg ORCID httporcidorg0000000270981209 Professor da Universidade de São Paulo USP São Paulo SP Brasil O conteúdo desta publicação expressa a visão deste autor e não necessariamente representa a visão da OCDE ou dos seus países membros Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 836 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 manufatura começou a crescer abaixo do restante da economia resultando numa grande diminuição da parcela do valor adicionado manufatureiro VAM no Produto Interno Bruto PIB mensurado a preços básicos Entre 1980 e 2018 a parcela do VAM no PIB reduziuse à metade de 245 para 113 Morceiro Guilhoto 2019 Dessa forma o Brasil vem passando por um processo de desindustrialização prematura Cano 2012 Nassif BresserPereira Feijó 2017 Entre os fatores que explicam a perda de dinamismo do setor manufatureiro estão as importações principalmente de insumos e componentes mais competitivas que os produtos domésticos O comércio internacional é dominado por bens intermediários e no Brasil as importações desses itens representam cerca de três quartos do total importado Miroudot Lanz Ragoussis 2009 IBGE 2016a Uma parcela da literatura menciona a abertura comercial ocorrida entre 1988 e 1994 como propagadora da desindustrialização por aumentar os produtos importados na oferta doméstica Antes da abertura comercial a economia brasileira era muito protegida por tarifas alfandegárias elevadas e barreiras não tarifárias que restringiam as importações sobretudo insumos e componentes Alguns autores diagnosticaram que a abertura comercial foi rápida e profunda Bielschowsky 1999 dessa maneira as empresas domésticas tiveram pouco tempo de adaptação ao cenário mais competitivo Coutinho 1997 Isso resultou num aumento expressivo de importações que substituíram fornecedores nacionais por estrangeiros conforme dados apresentados por Coutinho 1997 e Moreira 1999 Outra parcela da literatura responsabiliza os episódios de sobrevalorização cambial da segunda metade da década de 1990 e a partir de 2005 por desestimular as exportações e aumentar as importações de insumos e componentes com elevado encadeamento intersetorial e tecnológico Marconi Rocha 2012a Sarti Hiratuka 2018 Quando o coeficiente de insumos e componentes importados aumenta sem contrapartida da produção industrial podemse fragilizar elos produtivos reduzir os encadeamentos intersetoriais e limitar o desenvolvimento tecnológico cada vez mais conduzido pelos fornecedores dos componentes principais Isso pode agravar a desindustrialização ao reduzir a transformação das operações industriais e aumentar as etapas de montagem com uso de mão de obra pouco qualificada e de baixos salários provocando desse modo menor geração de valor adicionado A literatura tem chamado atenção para isso com os termos especialização regressiva Coutinho 1997 perda de elos da cadeia produtiva Feijó Carvalho Almeida 2005 Cano 2012 rarefação das cadeias produtivas Comin 2009 esgarçamento do tecido industrial Morceiro 2012 processo de maquilagem Marconi Rocha 2012b 2012a esvaziamento da estrutura produtiva Cassiolato Fontaine 2015 e desadensamento produtivo Sarti Hiratuka 2018 Esses estudos analisaram dados empíricos para no máximo trinta e cinco setores manufatureiros De modo geral eles mostraram que dificilmente um setor manufatureiro inteiro encontrase totalmente desadensado No entanto provavelmente os setores mais rarefeitos devem reunir classes1 produtivas muito esgarçadas e outras menos ou até adensadas Assim a ótica setorial é inadequada para identificar os segmentos produtivos bem desadensados Dessa forma há necessidade de avaliar a indústria de transformação bem desagregada a fim de identificar os segmentos produtivos esgarçados bem como responder as seguintes perguntas O país é montador com pouca transformação industrial em alguma classe industrial Quais as classes industriais com menor e maior grau de adensamento produtivo O 1 A Classificação Nacional de Atividades Econômicas CNAE do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE identifica 24 divisões de atividade manufatureiras ao nível de 2 dígitos de agregação setorial 103 grupos a 3 dígitos e 258 classes a quatro dígitos esta última tem o maior detalhamento nas estatísticas de atividades econômicas do Brasil Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 837 tecido industrial brasileiro ficou mais oco ou rarefeito nos anos 2000 As respostas dessas questões são relevantes para melhor entender a perda de dinamismo da indústria brasileira Este trabalho procura mapear e analisar pela primeira vez no Brasil o grau de adensamento produtivo de 258 classes da indústria de transformação brasileira o qual é mensurado pelo coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis CIICC Quanto mais alto esse coeficiente menos adensado domesticamente Com isso buscase identificar as classes industriais mais esgarçadas pelas importações de insumos intermediários isto é os segmentos produtivos mais desindustrializados e com baixo grau de transformação industrial O presente estudo teve acesso a dados não publicados da Pesquisa Industrial Anual Empresa PIAE do IBGE dessa maneira os dados aqui exibidos são inéditos Essas informações são essenciais para elucidar as questões colocadas por este trabalho num nível de detalhamento elevado suprindo uma carência na literatura de estudos que avaliem o segmento industrial mais específico não apenas as divisões de atividade como é comum nos poucos estudos da área Além desta introdução a seção 2 sintetiza o referencial teórico sobre adensamento produtivo no Brasil e define o esgarçamento produtivo e suas implicações A seção 3 apresenta as fontes de informações e procedimentos metodológicos A seção 4 mostra a evolução do CIICC de 24 setores manufatureiros e duas categorias tecnológicas para a década do século XXI de maior crescimento industrial desde os anos setenta A seção 5 mensura o grau de adensamento produtivo para todas as 258 classes industriais organizadas nos setores produtivos permitindo avaliar com exatidão a extensão do esgarçamento do tecido industrial brasileiro no período recente A seção 6 exibe e analisa em maior detalhe o quartil das classes industriais mais esgarçado pelas importações de insumos intermediários A seção 7 conclui 2 Referencial teórico Esta seção dividese em duas A subseção 21 explica os termos adensamento e esgarçamento produtivo e suas implicações para o desenvolvimento industrial A subseção 22 sintetiza a bibliografia brasileira sobre esses termos 21 Ideia de adensamento e esgarçamento produtivo Um segmento industrial está conectado direta e indiretamente com diversos segmentos produtivos por meio das relações de compras e vendas de matériasprimas partes peças acessórios componentes e tecnologias Desse modo cada segmento está vinculado a uma rede de fornecedores e subfornecedores entrelaçados entre si Quanto mais longa a cadeia de fabricação de um produto por exemplo um automóvel maior e mais densa será a teia de ligações intersetoriais Essa rede produtiva é chamada pelos economistas de tecido industrial ou malha manufatureira Utilizase neste trabalho o termo esgarçamento da indústria têxtil para transmitir a ideia de perda de densidade produtiva Em outras palavras se os tecidos têxteis não são usados adequadamente com o tempo se desfiam e se desintegram podendo inclusive causar buracos e rompimentos Nessa situação o tecido encontrase esgarçado como ilustrado na Figura 1 Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 838 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Figura 1 Ilustrações de tecido têxtil esgarçado Fonte Imagens da Internet Num tecido industrial adensado os produtores domésticos comercializam a maioria dos insumos e componentes entre eles mantendo dessa forma ligações intersetoriais densas Ao crescer a demanda por um produto desencadeiase uma produção adicional de segmentos a ele conectados na rede produtiva aumentando também o emprego a massa salarial o desenvolvimento tecnológico e a arrecadação tributária Além da demanda derivada decorrente das interdependências da malha produtiva na medida em que os segmentos industriais vão se adensando eles geram i economias externas à la Marshall 1890 para outros segmentos isto é transbordamentos e ganhos sinérgicos em termos de tecnologia mão de obra qualificada infraestrutura logística e fornecedores especializados ii investimentos complementares à la Hirschman 1958 e iii reduz os custos de produção de produtos novos Hausmann Rodrik 2003 e propicia a diversificação produtiva Rodrik 2005 Logo o esgarçamento dos segmentos industriais provoca efeitos contrários aos mencionados além da diminuição dos encadeamentos intersetoriais Assim quando se importa a maioria dos insumos e componentes a rede produtiva fica rarefeita esburacada ou oca como os tecidos têxteis esgarçados Uma indústria maquiladora é um exemplo clássico dessa situação na qual se importam praticamente todos os insumos e componentes comercializáveis gerando emprego de montagem com salários baixos e pouca contribuição científica e tecnológica para o sistema nacional de inovação Buitelaar Padilla Urrutia 1999 Castillo De Vries 2018 Há de se diferenciar baixo adensamento produtivo em estágios iniciais de industrialização daquele de economias industrializadas De um lado nos estágios iniciais as importações são essenciais para movimentar as plantas industriais recéminstaladas O mesmo ocorre com a produção de aviões pela Embraer Apesar de o Brasil produzir aviões há décadas ele não conseguiu avançar na produção dos componentes principais como turbinas e aviônica Dessa maneira as importações podem gerar a condição para se ter um parque industrial Hirschman 1958 cap 7 Nesse caso as importações complementam a produção industrial por incorporar tecnologias de última geração contribuindo para elevar a competitividade das exportações domésticas Por outro lado em economias industrializadas quando um segmento produtivo muito adensado tornase rarefeito significa que o tecido industrial deste segmento sofreu um processo de esgarçamento que pode leválo à desindustrialização absoluta Vale ressaltar que os avanços no adensamento produtivo ocasionaram industrialização em economias retardatárias ao longo dos séculos XIX e XX O processo inverso de retrocesso do adensamento em grau intenso pode esgarçar substantivamente o tecido produtivo e ocasionar Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 839 desindustrialização relativa conforme explicaram Marconi e Rocha 2012a 2012b ou desindustrialização absoluta eou tecnológica Sampaio 2015 p 76 Neste estudo adotamse os termos desadensamento produtivo rarefação esvaziamento desarticulação fragilização e desintegração com o mesmo sentido de esgarçamento 22 Adensamento produtivo no Brasil Até a década de 1980 a economia brasileira era muito protegida A parcela dos importados na oferta total de produtos industriais era baixíssima assim como o percentual importado de insumos intermediários Ramos 19992 No entanto esse cenário começou a mudar desde fins da década de 1980 e durante a década de 1990 com a abertura comercial e a estabilização monetária A redução significativa das barreiras não tarifárias e a diminuição expressiva das tarifas alfandegárias de 1988 a 1994 desencadearam intensas reestruturações industriais num primeiro momento e num segundo modernização produtiva especialmente após a sobrevalorização cambial a partir de 1994 CASTRO 2001 Com isso ao baratear as importações por um lado aumentou a parcela dos importados na oferta doméstica de bens finais e intermediários e por outro liberou o consumo reprimido das famílias já majorado pela elevação do poder de compra do Plano Real pressionando ainda mais as importações Coutinho 1997 destacou que os coeficientes de importação importações sobre a produção dos setores manufatureiros aumentaram significativamente no período de 1989 a 1996 sobretudo naqueles mais sofisticados com grau mais elevado de agregação de valor e maior dinamismo tecnológico Nesses setores por exemplo bens de capital eletrônicos informática e telecomunicações especialidades químicas autopeças e farmacêutica houve forte substituição de insumos locais por importados fechamento de linhas de produção e de unidades fabris inteiras Coutinho 1997 p 92 logo desindustrialização absoluta O autor concluiu que nas cadeias industriais mais complexas ocorreu um esvaziamento e uma especialização regressiva do ponto de vista industrial no período pós estabilização Marconi e Rocha 2012a 2012b constataram uma substituição de insumos nacionais por importados na economia brasileira durante os períodos de valorização cambial de 1995 a 2008 A partir de testes econométricos em painel os autores demonstraram que a maior participação dos insumos importados no consumo intermediário da manufatura brasileira está negativamente correlacionada com a parcela da manufatura no PIB no período mencionado assim o aumento do percentual de insumos importados contribuiu com a desindustrialização em curso Como resultado deste processo e em função dos resultados obtidos nos testes é possível argumentar que um processo similar aos das maquillas possa estar ocorrendo no país Marconi Rocha 2012b p 5 Desse modo ao se manter uma taxa de câmbio apreciada por muito tempo há riscos de a indústria doméstica se transformar gradualmente numa indústria maquiladora uma vez que esta taxa torna os insumos e componentes importados mais baratos que os domésticos BresserPereira Oreiro 2 As importações representaram na oferta dos produtos industriais respectivamente 58 37 e 48 em 1980 1985 e 1990 E a parcela dos insumos importados no consumo intermediário total da indústria de transformação foi respectivamente 64 40 e 38 em 1980 1985 e 1990 Dados de Ramos 1999 p 1819 Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 840 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Marconi 2015 cap 7 além de provocar um processo de desindustrialização precoce Marconi Rocha 2012a3 A partir de informações anuais das matrizes de insumoproduto estimadas Morceiro 2012 mensurou o coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis CIICC isto é considerou apenas os insumos intermediários que efetivamente sofrem competição estrangeira Entre 2000 e 2008 ocorreu um aumento expressivo no coeficiente em vários setores manufatureiros sendo que em 2008 nos setores de alta e médiaalta tecnologia o CIICC atingiu o mínimo de 407 e o máximo de 686 Morceiro 2012 O autor concluiu que houve um esgarçamento no tecido industrial brasileiro com aprofundamento da dependência tecnológica de fornecedores estrangeiros Para Sarti e Hiratuka 2018 a desindustrialização da economia brasileira foi agravada no período após a crise internacional de 2008 pelo significativo vazamento de demanda para o exterior sobretudo de insumos industriais desse modo os importados supriram parcela crescente e significativa da demanda doméstica por bens industriais Os autores exibiram o coeficiente de insumos industriais importados tabulados pela FuncexCNI para os principais setores manufatureiros A maior parcela de insumos e componentes importados principalmente aqueles mais elaborados que agregam mais valor e têm maior intensidade tecnológica causou redução do adensamento produtivo e dos encadeamentos produtivos e tecnológicos na indústria brasileira bem como corroborou para diminuir a parcela da manufatura no PIB Sarti Hiratuka 2018 Além disso eles afirmaram que os bens intermediários ainda têm um peso significativo na estrutura produtiva doméstica logo a indústria brasileira não pode ser considerada uma indústria de montagem ou maquiladora Mas a tendência em curso é preocupante porque vai nessa direção Sarti Hiratuka 2018 p 145 No entanto para outros autores o tecido industrial brasileiro encontrase atualmente muito adensado devido à proteção excessiva da economia Pinheiro 2014 Canuto Fleischhaker Schellekens 2015 Pinheiro 2014 usou informações da primeira versão da World InputOutput Database WIOD e verificou que apenas 135 do consumo intermediário da indústria de transformação brasileira foi importado em 2011 sendo esse um dos menores percentuais entre os 40 países disponíveis na WIOD Esse panorama pouco se modificou entre 1995 e 2011 Para o autor o isolamento da economia doméstica tem reduzido a competitividade das empresas dado seu acesso restrito a insumos intermediários e bens de capital modernos Canuto 2014 e Canuto Fleischhaker e Schellekens 2015 afirmaram que a indústria de transformação brasileira opera com grau de adensamento produtivo muito elevado Eles observaram que o coeficiente de valor adicionado sobre as exportações de produtos manufaturados foi o mais elevado entre os países cobertos pela base de dados de comércio por valor adicionado da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE em parceria com a Organização Mundial de Comércio A alta parcela do valor adicionado doméstico nas exportações sugere que o Brasil tem ignorado o processo de fragmentação internacional da produção estruturado em cadeias globais de valor sendo a Embraer uma exceção Os autores responsabilizam as políticas comerciais mais protecionistas 3 A desindustrialização prematura ocorre quando a parcela da indústria de transformação no PIB diminui antes de o país alcançar um nível de renda per capita considerado elevado Para Rodrik 2016 esse nível é de US 20 mil em paridade poder de compra PPC de 2016 conforme atualização monetária da estimativa deste autor A desindustrialização prematura reduz o crescimento econômico Rodrik 2016 Tregenna 2016 e armadilha o país na renda média por um longo tempo Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 841 que a dos parceiros a infraestrutura logística precária e as exigências de conteúdo nacional pelo elevado adensamento doméstico Em síntese para alguns autores a estrutura produtiva brasileira sofreu um processo significativo de perda de densidade desde o início da década de 1990 Para outros o tecido industrial ainda é muito adensado devido ao elevado grau de proteção da economia 3 Dados e tratamento das informações 31 Fonte das informações Este estudo teve acesso a uma tabulação especial de informações inéditas da PIAE do IBGE para todas as classes da indústria de transformação brasileira do período de 1998 a 2014 Essa tabulação englobou as seguintes informações a percentual das compras de matériasprimas materiais auxiliares e componentes incluindo material de embalagem combustíveis usados como matériaprima e lubrificantes adquiridos no mercado interno ou importados diretamente para utilização no processo produtivo b número e percentual das empresas que compram matériasprimas materiais auxiliares e componentes ou apenas no mercado doméstico ou apenas no exterior ou no mercado doméstico e no exterior A vantagem desses dados é que eles captam os bens intermediários realmente consumidos no processo produtivo não os bens classificados pelo seu uso final como o dos estudos publicados Além da tabulação especial esta pesquisa acessou as informações públicas da PIAE referentes a valor bruto da produção industrial VBPI pessoal ligado à produção número de empresas e compras de matériasprimas materiais auxiliares e componentes O item a equivale ao coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis proposto por Morceiro 2012 porém com a vantagem de ser dez vezes mais desagregado setorialmente As informações estão detalhadas no nível de classes industriais para o estrato certo do IBGE que corresponde a todas as empresas industriais com 30 ou mais pessoas ocupadas eou aquelas que tiveram receita bruta proveniente das vendas de produtos e serviços industriais superiores a um valor determinado no ano de referência da pesquisa em 2015 esse valor foi de R 128 milhões No triênio de 20132015 as empresas do estrato certo representaram 960 do VBPI da indústria de transformação desse modo as informações deste estudo representam praticamente todo o setor industrial brasileiro 32 Indicador de adensamento produtivo O coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis CIICC conforme em 1 será utilizado para mensurar o adensamento produtivo da indústria de transformação como fez Morceiro 2012 Quanto maior o CIICC menor o adensamento produtivo e viceversa 𝐶𝐼𝐼𝐶𝐶𝑠 𝐼𝐼𝐶𝐶 𝑠 𝑇𝐼𝐶𝐶𝑠 100 1 Em que IICC são as importações de insumos e componentes comercializáveis e TICC o total dos insumos e componentes comercializáveis O subscrito s indica a classe ou setor industrial Os Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 842 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 insumos e componentes comercializáveis são aqueles que efetivamente sofrem concorrência com o exterior os quais são produzidos pela agropecuária indústria extrativa e indústria de transformação Este estudo utilizou como insumos e componentes comercializáveis as matériasprimas materiais auxiliares e componentes incluindo material de embalagem combustíveis usados como matériaprima e lubrificantes da tabulação especial da PIAE O CIICC é um indicador mais depurado porque exclui os insumos intermediários pouco ou não comercializáveis com o exterior os quais são adensados por natureza técnica Os insumos nãopouco comercializáveis são fornecidos pelos setores de serviços de utilidade pública construção civil comércio e serviços Esses insumos são ofertados majoritariamente por fornecedores domésticos logo sofrem pouca pressão competitiva do exterior Por isso eles têm um peso baixo nos insumos e componentes importados De acordo com a matriz de insumoproduto brasileira com dados de 2010 os insumos e componentes nãopouco comercializáveis representaram apenas 71 de todas as importações de insumos intermediários da indústria de transformação portanto 929 das importações de insumos intermediários são de itens comercializáveis Assim necessariamente a análise do grau de adensamento produtivo passa pelos insumos e componentes comercializáveis 33 Tratamento dos dados Classificação setorial Até 2007 as informações da PIAE foram apresentadas na CNAE versão 10 e desde 2007 na CNAE versão 20 Uma tabela de correspondência entre a CNAE 10 e a CNAE 20 fornecida pela Comissão Nacional de Classificação Concla do IBGE foi utilizada para harmonizar eventuais quebras seriais Com o intuito de perder o mínimo de informação e obter uma identificação praticamente perfeita as informações de classes industriais da CNAE 10 foram convertidas para divisões de atividade da CNAE 20 Período As informações analisadas correspondem à atividade industrial ao longo de uma década entre 20032004 e 20132014 Foram adotados biênios médios para diminuir as oscilações setoriais causadas por diversos eventos Adotouse 2003 como a data inicial porque é o primeiro ano antes do crescimento significativo da produção industrial verificado de 2004 a 2013 O ano de 2014 é o mais recente antes da crise políticoeconômica brasileira que teve grande repercussão negativa sobre o setor industrial entre 20152017 Comércio exterior Os dados de exportações e importações fornecidos pelo sistema Alice Web NCM8 foram convertidos para Reais correntes pela taxa de câmbio R US comercial média mensal do Banco Central do Brasil Posteriormente os dados mensais foram agregados em anuais e convertidos para a CNAE 4 dígitos com o auxílio de uma tabela de correspondência NCMCNAE fornecida pela ConclaIBGE Banco de dados Foi montado um banco de dados para todas as classes da indústria de transformação com informações públicas e da tabulação especial da PIAE além das exportações e importações da Alice Web Coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis Para cinco classes industriais4 foi aplicada a média de 20122014 ao invés de 20132014 devido à elevada variação do CIICC em algum dos anos Como a PIAE não divulga informações de classes industriais com menos 4 Códigos CNAE 20 2021 2660 3091 3220 3315 Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 843 de três empresas pesquisadas a coleta de dados de duas classes foi modificada Para a classe catalisadores adotase a média do triênio dos últimos anos em que há informações disponíveis 2004 2005 e 2007 ao invés do biênio 20132014 Para a classe veículos militares de combate utilizase a média das outras classes do setor outros equipamentos de transporte Agregação setorial Adotouse uma agregação por intensidade tecnológica que divide a indústria de transformação em dois grandes grupos i alta e médiaalta tecnologia ATMAT e ii baixa e médiabaixa tecnologia BTMBT de acordo com a classificação elaborada pela OCDE AT MAT inclui as divisões 2021 e 2630 da CNAE 20 e BTMBT inclui as divisões 1019 2225 e 31 33 Neste estudo agrupase AT com MAT e BT com MBT porque há menor variabilidade das intensidades tecnológicas setoriais no Brasil que nos países da OCDE Categorias de uso Entre as 258 classes industriais é possível verificar com o auxílio de um tradutor do IBGE que 117 classes fabricam produtos localizados na ponta final da cadeia sendo 55 bens de consumo não durável BCnD 42 bens de capital BK e 20 bens de consumo durável BCD 126 classes são fornecedoras de insumos intermediários e 15 ofertam serviços industriais como manutenção reparação e instalação de MEs Deflator setorial Deflatores setoriais ao nível das divisões de atividades foram construídos a partir das Tabelas de Recursos e Usos TRU Referência 2010 da série retropolada do IBGE que possui informações de 2000 a 2016 para 51 setores de atividade a preços correntes e a preços do ano anterior Dessa forma foi empregado o deflator setorial da produção para deflacionar os insumos e componentes nacionais e o deflator setorial das importações para deflacionar os insumos e componentes importados 4 Análise do adensamento produtivo setorial nos anos 2000 Esta seção exibe o CIICC ao nível das divisões de atividade para o Brasil ao longo de uma década de 20032004 a 20132014 Tabelas 1 Entre 2004 e 2013 a produção industrial brasileira apresentou crescimento real de 339 em virtude da forte expansão da demanda doméstica Morceiro 2018a Desse modo os dados captam o período de crescimento industrial mais elevado desde a década de 1970 Entre os biênios médios de 20034 e 201314 o CIICC da manufatura brasileira aumentou quase cinquenta por cento de 165 para 244 Tabela 1 justificando as preocupações dos estudos que alertaram para a perda de densidade do tecido industrial brasileiro Setorialmente a diminuição da densidade produtiva foi generalizada principalmente entre os setores de ATMAT Entre 20034 e 2013 4 a categoria de ATMAT apresentou aumento significativo do CIICC de 263 para 387 puxada sobretudo pelos setores de informática eletrônicos e ópticos máquinas e equipamentos máquinas e materiais elétricos outros equipamentos de transportes e indústria química setores com aumento de no mínimo 10 pp no CIICC No último biênio a categoria de ATMAT apresentou CIICC quase três vezes superior ao da categoria de BTMBT Entre os setores de ATMAT o setor automobilístico é o mais adensado e o de informática eletrônicos e ópticos o menos O primeiro importou um quarto dos insumos e componentes comercializáveis e o último importou três quartos no biênio 20134 Neste biênio os três setores menos adensados são informática eletrônicos e ópticos farmacêutica e outros equipamentos de transporte Eles possuem elevado potencial de desenvolvimento tecnológico e grande parte dos gastos em pesquisa e desenvolvimento PD concentramse nos componentes eletrônicos nos princípios ativos para a Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 844 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 fabricação de medicamentos e nos componentes principais dos aviões que o Brasil importa Dessa maneira o país é muito dependente de tecnologia embarcada nos insumos e componentes adquiridos do exterior Tabela 1 Dependência externa de insumos e componentes comercializáveis pelo Brasil Código CNAE 20 Descrição CIICC a preços constantes de 20134 Percentual das empresas que compram parcela dos insumos e componentes no exterior Número de empresas Pessoal ocupado ligado à produção em milhares 20034 20134 20034 20134 20034 20134 20034 20134 IT Indústria de transformação 165 244 189 199 28947 37906 3691 5030 BTMBT Baixa e médiabaixa tecnologia 108 136 133 139 22838 30534 2781 3767 10 Alimentos 53 51 130 110 3348 4613 671 1037 11 Bebidas 59 42 123 121 400 459 53 80 12 Fumo 60 81 231 298 38 33 11 9 13 Têxteis 102 183 241 269 1284 1527 207 208 14 Confecção 21 74 46 71 3527 4907 249 373 15 Calçados e couros 79 64 196 141 1871 1940 343 291 16 Madeira 32 73 57 63 1680 1209 154 102 17 Papel e celulose 85 112 179 161 780 906 106 132 18 Impressão e reprodução 272 179 172 168 324 581 23 45 19 Refino de petróleo e álcool 528 447 97 123 163 221 63 114 22 Borracha e plástico 90 199 208 238 2007 2738 211 284 23 Minerais nãometálicos 41 141 99 88 2080 3178 159 267 24 Metalurgia 172 244 181 222 611 822 142 187 25 Produtos de metal 34 101 124 129 2293 3441 181 281 31 Móveis 34 46 97 138 1487 1793 114 157 32 Diversos 144 226 269 295 687 1121 58 89 33 Manutenção de MEs 188 355 124 111 264 1049 35 111 ATMAT Alta e médiaalta tecnologia 263 387 395 440 6109 7372 910 1263 20 Química 303 403 467 462 1329 1576 144 184 21 Farmacêutica 519 573 576 645 281 258 41 52 26 Informática eletrônicos e ópticos 574 754 573 633 639 676 87 108 27 Máquinas e materiais elétricos 96 268 386 400 729 969 108 182 28 Máquinas e equipamentos 138 319 304 388 1906 2455 201 257 29 Automobilística 193 258 318 395 1010 1149 282 386 30 Outros equipamentos de transporte 431 548 312 433 217 291 48 94 Nota Deflator setorial construído a partir das Tabelas de Recursos e Usos Todas as informações são de empresas com 30 ou mais pessoas ocupadas Fonte Tabulação especial da PIAE estrato certo do IBGE Elaboração dos autores Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 845 Embora a categoria de BTMBT possua CIICC baixo três setores apresentaram aumento superior a 10 pp e cinco superiores a 5 pp e o setor de refino de petróleo ainda continua o menos adensado desta categoria seguido pela indústria metalúrgica O país também importa insumos não competitivos nesses dois últimos setores mencionados isto é não ofertados por fornecedores domésticos por questões técnicoprodutivas assunto da próxima seção No entanto o CIICC poderia ser maior se as empresas instaladas no Brasil mantivessem práticas de importação e processos produtivos atualizados Vale destacar que o Brasil é um país em desenvolvimento distante da fronteira tecnológica e possui um parque industrial relativamente velho5 Além disso dado o atual estágio da fragmentação internacional da produção possuir autossuficiência completa de insumos e componentes não é comum Nesse sentido já se espera que as empresas comprem do exterior uma parcela mínima dos insumos e componentes para movimentar as linhas de produção Apenas duas de cada dez empresas com mais de 30 pessoas ocupadas importaram insumos e componentes no biênio de 20134 e não houve modificação nesse cenário em relação ao início da década de 2000 Tabela 1 Na categoria de BTMBT apenas 139 das empresas importaram insumos e componentes para consumo no processo produtivo O cenário muda um pouco na categoria de ATMAT em que 440 das empresas mantêm práticas de importação de insumos intermediários Certamente empresas maiores têm maior propensão a importar que empresas menores Halpern Koren Szeidl 2015 porém esta pesquisa não teve acesso a informações mais detalhadas por porte De qualquer forma poucas empresas brasileiras com mais de 30 funcionários acessaram os insumos intermediários do exterior que geralmente estão na fronteira tecnológica eou possuem preços mais competitivos Apesar do aumento do CIICC houve expansão significativa no número de empresas e de pessoas ligadas à produção industrial na maioria dos setores manufatureiros ou seja dificilmente houve uma desindustrialização absoluta e generalizada setorialmente Entre 20042013 houve aumento real expressivo do salário mínimo boom na concessão de crédito e saldo líquido de 20 milhões de empregos formais Esses acontecimentos contribuíram diretamente para o crescimento de 553 na demanda total por produtos industriais que foi parcialmente suprida por produção doméstica Morceiro 2018a Assim os empregos ligados às operações fabris da indústria de transformação aumentaram 36 de 20034 a 20134 indicando uma expansão absoluta das capacidades de fabricação manufatureira inclusive nos setores mais fragilizados pelas importações de insumos e componentes No entanto há indícios indiretos de que a qualidade das ocupações piorou no período mencionado com demissões de trabalhadores em todas as faixas salariais superiores a dois salários mínimos e admissões de novos concentradas nas faixas salariais inferiores a dois salários mínimos Morceiro 2018a Além disso vários estudos têm destacado que a produtividade do trabalho da indústria manufatureira diminuiu nos anos 2000 De Negri Cavalcante 2014 2015 Dessa maneira não pode ser descartada a hipótese de que a manufatura brasileira tem contribuído menos na geração de valor adicionado para o PIB pois está importando maior percentual de insumos e componentes e aumentando as etapas de montagem com uso de mão de obra pouco qualificada A avaliação dos setores manufatureiros realizada aqui ainda é agregada e pode esconder segmentos fragilizados pelas importações de insumos intermediários As políticas podem ser mais efetivas quando há informações detalhadas Por isso nas próximas seções avaliase o adensamento produtivo com uma lupa dez vezes maior que os setores manufatureiros 5 Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos as máquinas e equipamentos em operação na manufatura brasileira tem em média 17 anos o dobro do verificado nos principais países desenvolvidos Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 846 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 5 Adensamento produtivo de 258 classes industriais A partir desta seção o foco está apenas no biênio 20132014 O banco de dados montado para este estudo permitiu o rastreamento das classes industriais de 1998 a 2007 na CNAE 10 e de 2007 a 2014 na CNAE 20 Verificouse que não houve uma substituição absoluta da produção doméstica por importações Uma evidência real que confirma isso é que o pessoal ligado à produção aumentou na maioria das classes industriais em apenas um número muito pequeno de classes industriais houve diminuição discreta do emprego No nível de agregação das classes industriais é difícil fazer uma comparação para um período longo devido à mudança de classificação na CNAE em 2007 e à ausência de deflatores confiáveis para todas as classes industriais Mudar a unidade operacional de setores para classes industriais requer alguns cuidados para manter a análise do adensamento produtivo imparcial Alguns fatores de natureza estrutural e conjuntural podem interferir positivamente ou negativamente na importação de insumos e componentes Primeiro alguns insumos e componentes são importados porque o país não possui capacidade de produzilos por motivos técnicos ou escassez de recursos ou tipo de clima por exemplo trigo petróleo leve alguns metais preciosos entre outros Nesses casos as classes podem ser pouco adensadas devido às importações não competitivas Segundo alguns insumos intermediários são pouco comercializáveis como gases industriais água para fabricação de bebidas argila para fabricação de tijolos e cerâmicas entre outros Nesses casos a classe industrial é muito adensada mas seria adensada independente do grau de proteção comercial e do nível da taxa de câmbio Sendo assim o foco desta pesquisa concentrase nas importações competitivas Identificar as importações de insumos e componentes não competitivas e as pouco comercializáveis incorreria num trabalho que foge do escopo deste estudo no entanto na seção 6 os casos mais evidentes serão mencionados A Figura 2 exibe o primeiro mapeamento do adensamento produtivo das 258 classes da indústria de transformação brasileira As formas geométricas correspondem ao VBPI das classes industriais agrupadas nos seus respectivos setores de origem e em duas categorias tecnológicas As cores representam o CIICC as cores branca cinza e azul claro representam nessa ordem as classes industriais mais adensadas que juntas compõem três quartos do número total de classes as cores preta vermelha laranja e amarela representam as classes menos adensadas que juntas formam o quartil mais fragilizado pelas importações de insumos e componentes comercializáveis Para separar esse quartil mais fragilizado de 65 classes industriais utilizaramse as matrizes de insumoproduto da World InputOutput Database WIOD6 para calcular o CIICC médio de 312 do biênio de 20132014 da indústria de transformação dos 15 países que possuem os maiores parques industriais do mundo em 2015 os quais foram ranqueados pelo valor adicionado manufatureiro da Base de Dados de Contas Nacionais das Nações Unidas 6 Disponível em httpwwwwiodorghome Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro 847 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Figura 2 Mapa do adensamento produtivo da indústria de transformação brasileira no biênio 20132014 Nota O tamanho das formas representa o valor bruto da produção industrial VBPI Fonte Tabulação especial da PIAE estrato certo do IBGE Cálculos e elaboração dos autores Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 848 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Ao se observar os setores manufatureiros segmentados pelas suas classes industriais temse a aproximação do adensamento da cadeia produtiva daquele setor pois geralmente tanto os fabricantes da ponta final de cadeia por exemplo montadoras de automóveis quanto os de componentes principais por exemplo autopeças fazem parte do mesmo setor de atividade Assim a visualização da Figura 2 é bastante intuitiva No biênio 20132014 a maioria das classes industriais de BTMBT registra elevado grau de adensamento produtivo por isso quase todos os setores de BTMBT se encontram muito adensados Figura 2 BTMBT representa cerca de dois terços da produção industrial brasileira logo parcela expressiva do tecido industrial é adensada Os setores de alimentos papel e celulose calçados e couros madeira móveis e metalurgia têm elevado adensamento produtivo pois o Brasil possui oferta doméstica competitiva das principais matériasprimas de origem agropecuária e recursos naturais enquanto os de bebidas e minerais nãometálicos como era de se esperar registram um adensamento produtivo elevado uma vez que seus principais insumos são pouco comercializáveis internacionalmente Entre as 162 classes de BTMBT apenas 20 estão no primeiro quartil das classes mais fragilizadas pelas importações de insumos e componentes as quais representaram um quinto da produção industrial de BTMBT sendo uma classe do setor de refino de petróleo muito significativa em valor da produção O setor de refino de petróleo7 é o mais fragilizado da categoria de BTMBT pelas importações seguido pelo de manutenção de máquinas e equipamentos O outro terço do tecido industrial brasileiro encontrase bem menos adensado Das 96 classes de ATMAT 45 estão no primeiro quartil das classes com maiores CIICC e representam cerca de metade da produção industrial de ATMAT O setor de informática eletrônicos e ópticos é o menos adensado com várias classes industriais importando mais de três quartos dos insumos e componentes comercializáveis Também possuem baixo grau de adensamento produtivo o setor farmacêutico e os outros equipamentos de transporte avião navio e motocicleta A indústria química em que algumas classes estão muito adensadas e outras pouco possui grau de adensamento produtivo moderado Já nos setores automobilístico máquinas e equipamentos e máquinas e materiais elétricos predominam classes com elevado grau de adensamento Este estudo foca nos insumos intermediários comercializáveis utilizados nos processos produtivos pela manufatura brasileira assim não capta as importações de bens acabados8 Em um ambiente com taxa de câmbio apreciada por período extenso podese esperar que as empresas primeiro aumentem o conteúdo importado reduzindo assim o custo de produção para defender o mercado doméstico contra as importações de bens acabados e em último caso passem a importar o produto pronto e revendêlos com etiqueta própria Se isso ocorreu em alguma medida durante esse processo a produção industrial da classe diminuiu e perdeu espaço para as importações no mercado doméstico As classes industriais reúnem a produção de vários bens bem final ou intermediário logo aquelas mais fragilizadas concentraram a produção nos produtos que ainda compensam a fabricação no Brasil importando aqueles em que já perderam competitividade Há evidências de que isso já ocorre em parcela expressiva da manufatura especialmente de ATMAT No biênio 20132014 em um quarto das classes de ATMAT as importações superaram a produção industrial brasileira portanto esses segmentos perderam competitividade para os produtos acabados sejam eles insumos ou bens finais ofertados 7 No caso do refino do petróleo parcela relevante dos insumos utilizados no processo industrial produzidos pela Petrobrás para consumo próprio não entra no CIICC exibido na Figura 2 porque os dados desta pesquisa captam apenas as compras de insumos e componentes comercializáveis pelas classes industriais 8 Entre 2004 e 2013 houve um expressivo vazamento de demanda para o exterior em vários setores manufatureiros pois a demanda doméstica cresceu muito acima da produção industrial sendo essa diferença suprida pelas importações de bens finais e intermediários Morceiro 2018a Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 849 em melhores condições pelos fornecedores estrangeiros9 Alguns segmentos chamam atenção pelo expressivo montante monetário importado e a quantidade de vezes que ele superou a produção doméstica como por exemplo a fabricação de turbinas motores e outros componentes e peças para aeronaves teve importações onze vezes superiores ao valor produzido no Brasil a fabricação de produtos farmoquímicos foi oito vezes superior e a fabricação de componentes eletrônicos foi cinco vezes superior No mesmo biênio as importações corresponderam à metade ou mais da produção industrial em 50 das classes de ATMAT no nível setorial as importações representaram 491 da produção do setor de máquinas e equipamentos 541 da farmacêutica e 781 de informática eletrônicos e ópticos sendo os três setores com maiores percentuais Desse modo é provável que houve uma substituição de produção doméstica por importações em algumas classes industriais relevantes na estrutura industrial sobretudo nos segmentos mais tecnológicos No entanto esta pesquisa não teve acesso a informações mais detalhadas para verificar se essa substituição envolveu linhas de produtos inteiras ou parciais mas provavelmente envolveu parcela expressiva dos produtos fabricados por algumas classes industriais Importar produtos acabados em grande quantidade contribui para que alguns setores especialmente de ATMAT sejam pequenos no Brasil comparativamente à economia mundial sobretudo informática eletrônicos e ópticos e a indústria farmacêutica os quais têm um peso na estrutura industrial brasileira relativamente pequeno se comparados aos países industrializados Unido 2017 p 5710 Dessa maneira várias classes industriais especialmente de ATMAT são potencialmente menores do que poderiam ser dada a demanda doméstica por seus produtos Os três parágrafos precedentes dissertaram sobre as importações de bens acabados que devido à perda de competitividade doméstica possivelmente contribuíram para o definhamento das capacidades produtivas em várias classes industriais A Tabela 2 traz informações adicionais para caracterizar melhor a Figura 2 As faixas mais adensadas encontramse no topo da tabela e as menos ao seu final As duas faixas mais adensadas reúnem 146 classes industriais 57 do total e são responsáveis por metade da produção industrial 71 do pessoal ocupado ligado à produção 57 das exportações totais de bens e apenas 21 das importações totais de bens típicos dessas classes industriais obtendo um grande saldo comercial Dessa maneira as classes industriais que importaram menos de 20 dos insumos e componentes comercializáveis constituem metade da produção industrial brasileira e apresentam indicadores ainda melhores de geração de empregos exportações e saldo comercial As últimas quatro faixas menos adensadas representam o quartil mais fragilizado pelas importações de insumos e componentes comercializáveis que é composto por 65 classes industriais responsáveis por 314 da produção industrial e 152 do pessoal ocupado ligado à produção ou seja quartil de elevada produtividade do trabalho produção por trabalhador Além disso essas quatro faixas apresentam intensidade elevada tanto nas importações de insumos e componentes comercializáveis quanto no total de bens importados Apesar de terem um peso de 285 no total de insumos e componentes comercializáveis consumidos no processo produtivo pela indústria de transformação o quartil mais fragilizado foi responsável por 626 dos insumos e componentes comercializáveis importados No caso das importações de todos os produtos da indústria de transformação que inclui os bens acabados esse quartil foi responsável por metade dessas importações As exportações dessas 65 classes foram inferiores às importações de insumos e componentes comercializáveis utilizados no 9 Essas informações provêm do banco de dados mencionado na seção 3 10 Além disso esses são os únicos setores em que Brasil não ficou entre os 15 maiores parques industriais do mundo Unido 2017 p 57 Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 850 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 processo produtivo gerando um déficit expressivo de R 757 bilhões correntes no biênio 20132014 Isso ilustra uma dependência estrutural da economia brasileira por importações de insumos intermediários e também por bens finais de produtos típicos das 65 classes que apresentam o tecido produtivo mais desadensado Tabela 2 Características das faixas de adensamento produtivo da Figura 2 20132014 Coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis Número de classes industriais Valor bruto da produção industrial Pessoal ocupada ligado à produção Total de insumos e componentes comercializáveis Insumos e componentes comercializáveis importados Exportações de bens Importações de bens Exportações menos importações de insumos e componentes comercializáveis bilhões de R 0 a 10 91 357 511 363 57 468 83 1377 101 a 20 55 142 194 144 91 101 128 82 201 a 31 47 187 143 208 226 143 290 147 311 a 40 28 89 70 90 130 105 157 09 401 a 50 17 43 34 51 92 71 51 18 501 a 75 14 152 34 107 275 84 223 471 751 a 100 6 30 14 38 130 29 69 259 Total 258 1000 1000 1000 1000 1000 1000 555 311 a 100 65 314 152 285 626 289 500 757 Fonte PIAE tabulação especial da PIAE estrato certo e Alice Web Cálculos e elaboração dos autores Em síntese a maioria das classes industriais encontrase com grau de adensamento produtivo elevado sobretudo de BTMBT Um número reduzido de classes industriais especialmente dos setores mais tecnológicos possui estrutura produtiva pouco adensada e as importações brasileiras de insumos intermediários e bens finais concentramse nessas classes assim como o déficit comercial A próxima seção exibe em detalhe as 65 classes menos adensadas 6 Adensamento produtivo das classes industriais mais esgarçadas O Gráfico 1 exibe o quartil das classes industriais mais fragilizadas pelas importações de insumos intermediários comercializáveis isto é as classes que possuem CIICC acima de 312 média da indústria de transformação dos 15 países manufatureiros líderes Para facilitar a exposição as classes foram agrupadas por divisão de atividade e nível tecnológico Dentro de cada nível tecnológico os setores estão ordenados do maior para o menor CIICC conforme exibido na Tabela 1 Na parte superior do Gráfico 1 estão as 45 classes de ATMAT que representaram 476 de toda a produção industrial de ATMAT e na parte inferior as 20 classes de BTMBT que corresponderam a 219 da produção industrial de BTMBT Note que as classes de ATMAT possuem CIICC bem maiores que as classes de BTMBT Isso é preocupante tendo em vista que as indústrias de ATMAT contribuem sobremaneira para o desenvolvimento tecnológico empregam mão de obra qualificada e pagam salários elevados comparativamente às indústrias de BTMBT e também tendem a crescer mais rápido devido à maior elasticidaderenda da demanda e maior dinamismo no comércio internacional Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 851 Gráfico 1 Percentual importado de insumos e componentes comercializáveis das 65 classes industriais menos adensadas da manufatura brasileira média 20132014 Fonte Tabulação especial da PIAE estrato certo do IBGE Elaboração dos autores Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 852 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Entre as 65 classes industriais do Gráfico 1 32 são classificadas como bens intermediários BI 16 bens de capital BK 8 bens de consumo durável BCD 5 bens de consumo nãoduráveis BCnD e 4 sem classificação correspondem ao setor de manutenção reparação e instalação de MEs Ou seja bens intermediários compõem uma metade e bens finais a outra Geralmente bens finais têm cadeias produtivas mais longas que bens intermediários dessa maneira quando as classes de bens finais importam elevado percentual de insumos e componentes provavelmente reduzemse ou extinguemse os fornecedores domésticos a montante da cadeia de produção Então do ponto de vista do adensamento produtivo a situação é mais grave quando a classe industrial que possui CIICC elevado produz bens mais próximos da ponta final da cadeia produtiva O setor de informática eletrônicos e ópticos é o mais esgarçado Das 11 classes do setor dez estão exibidas no Gráfico 1 as quais representaram 986 da produção industrial do setor Oito classes produzem bens finais cinco BCD e três BK e duas bens intermediários logo o setor possui cadeias produtivas longas porém os encadeamentos são fracos devido ao CIICC elevado Aparelhos telefônicos e outros equipamentos de comunicação importou 932 do total dos insumos e componentes comercializáveis sendo esta a classe mais esgarçada do tecido industrial brasileiro Assim a cadeia de suprimento doméstica é reduzidíssima As classes equipamentos e instrumento ópticos fotográficos e cinematográficos cronômetros e relógios aparelhos de recepção reprodução gravação e amplificação de áudio e vídeo e periféricos para equipamentos de informática importaram mais de 75 dos insumos e componentes comercializáveis Do ponto de vista do grau da transformação industrial dois terços do setor de informática eletrônicos e ópticos não apresentam diferenças significativas de uma indústria maquiladora e o outro terço está bem próximo disso11 O emprego do termo indústria maquiladora nesse contexto referese apenas aos processos produtivos em que predominam operações de montagem a partir de insumos e componentes importados e uso de mão de obra mais barata do que seria se houvesse maior transformação industrial12 A produção relevante de informática eletrônicos e ópticos é regulada no âmbito da Lei de Informática e da Zona Franca de Manaus as quais concedem vários benefícios fiscais e exigem como contrapartida o cumprimento de um processo produtivo básico PPB para cada produto fabricado e a aplicação de 5 do faturamento em PD Porém o PPB pode ser cumprido com operações fabris mínimas como soldagem pintura montagem usinagem colagem grampeamento e integração de componentes Essas tarefas agregam pouco valor em comparação com as que fabricam os componentes principais A farmacêutica é o segundo setor mais desarticulado pelas importações e todas as suas quatro classes são exibidas no Gráfico 1 A principal delas medicamentos para uso humano representa 90 da produção industrial do setor e importou 589 dos insumos intermediários comercializáveis O país importa principalmente o princípio ativo de farmoquímicos e adjuvantes farmacotécnicos para a fabricação dos medicamentos por estratégia de suprimento das empresas que priorizam insumos mais elaborados e competitivos do exterior Gomes et al 2014 Pinto 2014 O princípio ativo é o composto responsável pela ação ou efeito farmacológico do medicamento sendo o resultado principal da pesquisa científica e tecnológica das empesas farmacêuticas A indústria farmacêutica é estratégica para a segurança nacional em termos de saúde pública e ela ficará mais relevante à medida que a população 11 Nesse setor o México país que possui uma indústria maquiladora relevante importou 814 dos insumos e componentes comercializáveis conforme cálculos próprios a partir das matrizes de insumoproduto da WIOD 12 A indústria brasileira de informática eletrônicos e ópticos difere da maquila mexicana ao exportar pouco Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 853 envelhece logo tende a ser mais importante ainda no futuro Assim a manutenção do grau de desadensamento elevado incorrerá em aumento persistente das importações Outros equipamentos de transporte é o terceiro setor mais desarticulado Ele reúne a produção de aeronaves embarcações navais motocicletas e equipamentos ferroviários os quais são essencialmente bens finais BK e BCD As sete classes exibidas no Gráfico 1 representaram 963 do VBPI do setor A classe aeronaves importou 928 de todos os insumos e componentes comercializáveis sendo a segunda classe mais oca da indústria brasileira O Brasil possui uma empresa relevante a Embraer no segmento de aviação regional Como são importados os componentes principais praticamente toda a cadeia de fornecedores dos aviões encontrase no exterior Assim do ponto de vista do adensamento produtivo a classe aeronaves é uma maquila típica que importa insumos e componentes e exporta o bem final Mas cabe uma ressalva Geralmente o que caracteriza as maquilas além do baixo grau de adensamento produtivo é a utilização de mão de obra de baixa qualificação e remuneração Nesse aspecto a Embraer não pode ser considerada uma maquila porque emprega mão de obra de elevada remuneração já que a montagem de aeronaves envolve protocolos de segurança que exigem profissionais com altíssima qualificação Ademais ela lidera a sua cadeia produtiva ao desenhar os aviões gerencia a cadeia de suprimento e comercializa suas aeronaves tarefas que lhe possibilita capturar uma fatia do valor agregado maior do que seria no caso de uma maquila típica Entretanto ao importar os componentes principais vaza para o exterior grande parte do desenvolvimento científico e tecnológico possível de ser desenvolvido pelos fornecedores dessa classe industrial Com o renascimento da indústria naval desde início dos anos 2000 a classe construção de embarcações e estruturas flutuantes é a segunda mais expressiva em VBPI Ela importou 459 dos insumos e componentes comercializáveis provavelmente aqueles mais tecnológicos das plataformas marítimas de petróleo e sondas de perfuração submarina Esses produtos passaram a ser parcialmente fabricados no país devido ao requerimento de conteúdo local exigido nos investimentos no Brasil pelas operadoras petrolíferas No entanto a legislação petrolífera13 permite que se importe parcela relevante dos componentes principais das embarcações A fabricação de motocicletas utiliza proporção razoável de insumos e componentes comercializáveis importados Por se tratar de um produto que o Brasil possui domínio tecnológico e grande mercado consumidor essa situação é preocupante devido à perda de competitividade no preço dos insumos e componentes O setor de químicos é o quarto mais fragilizado pelas importações e possui 11 das 65 classes industriais representadas no Gráfico 1 que corresponderam a 627 da produção industrial do setor Ele produz majoritariamente insumos intermediários para serem consumidos pelos demais setores especialmente a própria indústria de transformação agricultura construção civil e saneamento básico As classes adubos e fertilizantes defensivos agrícolas e intermediários para fertilizantes importaram respectivamente 696 608 e 545 do total dos insumos e componentes comercializáveis e juntas representam cerca de um terço da produção química O país tem uma dependência externa elevada de fertilizantes químicos já que importa cerca de 60 dos fertilizantes que 13 Desde 2005 um conteúdo local mínimo CLM é exigido nos contratos entre operadoras petrolíferas e a Agência Nacional de Petróleo ANP A empresa vencedora da licitação tem que cumprir um CLM para vários equipamentos utilizados nas etapas de exploração e desenvolvimento do bloco de petróleo ANP 2013 p 165 Em geral o CLM é baixo para componentes tecnológicos que mesmo sendo importados atingem o CLM com operações locais de montagem usinagem e pintura Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 854 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 consome Costa Silva 2012 Entre os três principais fertilizantes demandados o Brasil importou 90 76 e 41 respectivamente dos fertilizantes potássicos nitrogenados e fosfatados consumidos em 2010 Costa Silva 2012 p 3741 No caso dos potássicos existem grandes reservas na Amazônia que não são economicamente viáveis e oferecem grandes riscos ambientais em relação aos nitrogenados o preço do gás natural principal matériaprima é superior ao praticado no mercado internacional e quanto aos fosfatados o país não possui produção satisfatória de enxofre matériaprima básica do ácido sulfúrico utilizado para obter o ácido fosfórico que é um intermediário dos fertilizantes fosfatados Costa Silva 2012 Dessa maneira uma parcela dessas importações é pouco competitiva Como o uso de fertilizantes químicos foi vital à elevação da produtividade agrícola brasileira desde 1990 Costa Silva 2012 p 31 e a agricultura doméstica tem contribuído bastante para fechar o balanço de pagamentos melhorar a oferta doméstica de fertilizantes garantirá um futuro sustentável à produção agrícola e contribuirá para evitar restrições de divisas estrangeiras Notase que os quatro setores com baixo grau de adensamento produtivo são extremamente relevantes para o desenvolvimento tecnológico mundial GalindoRueda Verger 2016 p 10 O setor de informática eletrônicos e ópticos e a indústria farmacêutica foram responsáveis respectivamente por 240 e 221 dos gastos em PD das 1000 maiores empresas que mais investiram em PD em 2016 Jaruzelski Staack Shinozaki 2016 sendo os dois principais setores que mais investem em ciência e tecnologia com finalidade comercial no planeta Nos Estados Unidos em 2014 o primeiro setor realizou 217 de todos os gastos empresariais em PD a indústria farmacêutica 166 o setor de outros equipamentos de transportes 83 e a indústria química 28 logo esses quatro setores foram responsáveis por metade dos gastos empresariais em PD estadunidense e por três quartos da PD investida pela indústria de transformação conforme cálculos do autor a partir da OECDANBERD Database 2017 Desse modo o ritmo do desenvolvimento tecnológico mundial depende bastante dos investimentos em PD desses quatro setores Assim da perspectiva tecnológica o baixo grau do adensamento produtivo tem consequências ruins para o sistema nacional de inovação A principal delas é o baixo gasto em PD realizado pelas empresas brasileiras comparativamente às dos países líderes Em 2014 o esforço tecnológico PD dividido pela receita líquida de vendas ou pelo valor da produção brasileiro foi apenas uma fração pequena do realizado pelos Estados Unidos nos quatro setores acima mencionados14 A industrialização brasileira ocorreu com forte presença das filiais de empesas transnacionais ETNs sobretudo nos setores mais tecnológicos que operam com alto índice de importação de insumos e componentes tecnológicos Cassiolato Szapiro Lastres 2015 Os dados exibidos pelos autores confirmam que as filiais de ETNs têm tido fraco desenvolvimento tecnológico no Brasil Cassiolato Fontaine 2015 comparativamente ao realizado pelas matrizes nos paísessede Tessarin 2018 Da mesma forma também têm consequências ruins para o emprego de mão de obra qualificada e bem remunerada seja nos laboratórios empresariais de pesquisas científicas e tecnológicas seja no próprio chão de fábrica ao exigir dos trabalhadores tarefas mais simples e de menor habilidade cognitiva 14 Em 2014 o esforço tecnológico brasileiro no setor de informática eletrônicos e ópticos foi de apenas 88 do realizado pelos Estados Unidos na farmacêutica de apenas 92 nos outros equipamentos de transportes de apenas 268 e na indústria química de 451 conforme cálculos do autor a partir de várias fontes PINTEC 2016 OECDANBERD Database 2017 OECDSTAN Database 2018 Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 855 Outra implicação negativa direta do menor grau de adensamento produtivo referese às ligações intersetoriais Os multiplicadores de produção15 dos quatro setores foram inferiores à média de 213 registrada pela indústria de transformação brasileira sendo que os setores de informática eletrônicos e ópticos e farmacêutico possuem os menores multiplicadores da manufatura respectivamente de 168 e 169 IBGE 2016a Isso significa que o tecido industrial está esburacado pelas importações de insumos e componentes especialmente no setor de informática eletrônicos e ópticos que possui cadeia produtiva bem longa Os setores de máquinas e equipamentos máquinas aparelhos e materiais elétricos e automobilístico foram os mais adensados da indústria de ATMAT As classes muito fragilizadas pelas importações de insumos e componentes são poucas No geral esses setores possuem cadeias produtivas longas pois os principais produtos são bens finais compostos de muitas partes peças e componentes No entanto em sessenta por cento das classes de máquinas e equipamentos e máquinas aparelhos e materiais elétricos as importações representaram 50 ou percentual superior da produção doméstica conforme mencionado antes o país perdeu competitividade em parte dos produtos acabados que antes tinham domínio tecnológico e preço competitivo logo a estratégia de substituir insumos e componentes domésticos por importados tem limite Com exceção do refino de petróleo os setores de BTMBT possuem poucas classes desadensadas pelas importações de insumos e componentes as quais têm um peso relativamente pequeno no valor da produção setorial A classe produtos do refino de petróleo importou 621 dos insumos e componentes comercializáveis sendo o maior percentual das classes de BTMBT Vale mencionar novamente que nesta classe parcela relevante dos insumos utilizados no processo industrial produzidos pela Petrobrás para consumo próprio não entra no CIICC exibido no Gráfico 1 pois os dados desta pesquisa captam apenas as compras de insumos e componentes comercializáveis pelas classes industriais e não levam em consideração o consumo intermediário para consumo próprio16 Essa classe representou 878 da produção industrial brasileira sendo a maior de todas Ela fabrica produtos como gasolina querosene de aviação óleo diesel e diversos insumos para a indústria química como a nafta daí sua importância na estrutura produtiva manufatureira O Brasil importa petróleo mais leve que o produzido domesticamente para refinar pois não possui capacidade de produção do óleo leve na quantidade requerida por escassez desse recurso no território doméstico Nesse caso tratase de importações não competitivas que vêm complementar a insuficiente produção doméstica de óleo de excelente qualidade O país também importa alguns insumos derivados do petróleo em volume expressivo Nas indústrias de BTMBT existem casos de importações não competitivas com as quais o país convive há várias décadas como nas classes moagem de trigo e fabricação de derivados metalurgia dos metais preciosos metalurgia do cobre impressão de material de segurança pneumáticos e câmaras de ar e cimento Alguns insumos e componentes relevantes dessas classes não têm capacidade de produção doméstica na quantidade e qualidade demandadas principalmente devido à 15 O multiplicador da produção mede o quanto se gera de produção doméstica adicional a partir do aumento de uma unidade monetária na demanda final 16 Dados da ANP informam que do total do petróleo refinado no Brasil cerca de ¾ foram produzidos domesticamente no biênio 20132014 Vale salientar que o CIICC também leva em consideração outros insumos além do petróleo Apesar isso o CIICC seria certamente menor se fosse levado em conta o petróleo produzido pela Petrobras para consumo próprio Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 856 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 escassez de recursos naturais matériasprimas e ao clima pouco favorável à produção desses itens no Brasil Desse modo são poucas as classes de BTMBT desarticuladas por importações competitivas Em resumo as empresas brasileiras de várias classes industriais sobretudo de elevada intensidade tecnológica importaram um percentual elevado de insumos intermediários comercializáveis Dessa maneira as cadeias produtivas que produzem os produtos mais elaborados encontramse esgarçadas e com encadeamentos intersetoriais fracos Ademais as importações não competitivas foram as principais responsáveis pelos poucos segmentos mais desarticulados de BTMBT No entanto as importações são indispensáveis à produção de qualquer país e é difícil saber se o país produziria com a mesma eficiência se importasse menos 7 Considerações finais Atualmente os processos produtivos são mais fragmentados que no passado desse modo o desenvolvimento tecnológico incorporado nos insumos e componentes e os encadeamentos intersetoriais são maiores Quando o coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis CIICC aumenta sem contrapartida da produção podese fragilizar elos produtivos reduzir os encadeamentos intersetoriais e limitar o desenvolvimento tecnológico que é cada vez mais conduzido pelos fornecedores dos componentes principais Isso pode agravar a desindustrialização ao reduzir a transformação das operações industriais e aumentar as etapas de montagem com uso de mão de obra pouco qualificada e de baixos salários provocando desse modo menor geração de valor adicionado A literatura tem chamado atenção para as causas e impactos da diminuição de densidade do tecido industrial brasileiro desde a década de 1990 Coutinho 1997 Feijó Carvalho Almeida 2005 Comin 2009 Cano 2012 Morceiro 2012 Marconi Rocha 2012a 2012b Cassiolato Fontaine 2015 Sarti Hiratuka 2018 Este estudo contribui com essa literatura ao realizar uma avaliação empírica inédita do adensamento produtivo para 258 classes da indústria de transformação brasileira assim adota uma desagregação setorial no mínimo sete vezes maior que os estudos precedentes A partir de informações oficiais inéditas obtidas do IBGE o adensamento produtivo foi mensurado pelo CIICC para captar os insumos intermediários que efetivamente sofrem competição com o exterior Assim quanto maior o CIICC menor serão as ligações intersetoriais e o desenvolvimento tecnológico domésticos por unidade de produção industrial As principais considerações a partir das evidências empíricas encontramse a seguir Primeiro a manufatura brasileira apresentou uma diminuição significativa do adensamento produtivo na década do século XXI de maior crescimento industrial após os anos setenta No entanto o retrocesso no adensamento não provocou desindustrialização absoluta das classes industriais pois estas não apresentaram diminuição do emprego ligado as operações industriais Certamente o crescimento industrial do século XXI ocorreu com menor transformação industrial e maior uso de mão de obra pouco qualificada ligada as operações de montagem de insumos e componentes importados fato que corrobora para a diminuição da parcela manufatureira no PIB conforme apontaram Marconi e Rocha 2012a 2012b e Sarti e Hiratuka 2018 Segundo a indústria de transformação brasileira ainda possui grau de adensamento produtivo alto sobretudo porque os setores manufatureiros de baixa e médiabaixa tecnologia BTMBT são muito adensados e possuem um peso grande na estrutura industrial do país BTMBT correspondem a dois terços da produção manufatureira e o país possui competitividade nas indústrias intensivas em Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 857 insumos agropecuários minerais e energéticos No entanto a categoria de alta e médiaalta tecnologia ATMAT possui adensamento relativamente baixo e inferior à média dos 15 países detentores dos maiores parques industriais do mundo Terceiro a maioria das classes industriais apresentaram adensamento produtivo elevado mas não é uma característica de toda a indústria de transformação conforme afirmaram Pinheiro 2014 e Canuto Fleischhaker e Schellekens 2015 Não se pode generalizar tais afirmações uma vez que parcela substantiva das classes industriais de ATMAT possui baixo adensamento produtivo Quarto as classes industriais dos setores eletrônicos informática e ópticos farmacêutica e outros equipamentos de transportes estão muito esgarçadas pelas importações Do ponto de vista do grau de transformação industrial partes expressivas do tecido industrial desses setores encontramse em processo de desindustrialização avançado e assemelhamse a uma indústria de aparafusamento ou maquiladora O setor químico possui grau de adensamento produtivo intermediário ao passar por esgarçamento produtivo significativo em poucas classes expressivas em produção industrial Esses quatro setores são responsáveis por cerca de metade dos gastos empresariais em pesquisa e desenvolvimento PD do planeta Dessa forma o esgarçamento diagnosticado restringe bastante o desenvolvimento tecnológico do país Quinto os demais setores de ATMAT automobilístico máquinas e equipamentos e máquinas e aparelhos elétricos possuem grau de adensamento elevado e poucas classes encontramse fragilizadas pelas importações de insumos intermediários porém há indícios de aumento significativo de importações de produtos acabados finais ou intermediários Sexto no caso das poucas classes de BTMBT com maior CIICC predominaram importações não competitivas de insumos e componentes porque o país não possui capacidade de produção na quantidade e qualidade demandadas principalmente devido à técnica produtiva escassez de alguns recursos minerais como metais preciosos tipo de clima pouco favorável à produção de trigo entre outros Portanto o desadensamento produtivo foi mais forte nos segmentos de ATMAT que possuem maior qualidade em termos tecnológicos maiores ligações entre os setores manufatureiros alta remuneração por trabalhador além de alta elasticidaderenda da demanda e grande dinamismo no comércio internacional Vale mencionar que este estudo foi o primeiro que mensurou com exatidão e em maior nível de detalhamento setorial quais partes do tecido industrial são maquilas e quais estão em vias de serem maquilas assunto que frequentemente é preocupação dos autores brasileiros como de Marconi e Rocha 2012a e Sarti e Hiratuka 2018 Embora a proposição de políticas não esteja no escopo deste estudo os resultados documentados dão suporte ao uso de políticas industriais focalizadas Assim as políticas futuras poderiam por exemplo focalizar os incentivos nas classes industriais esgarçadas das quais que o Brasil tem e provavelmente continuará tendo demanda elevada como as que fornecem insumos químicos destinados à agricultura e as produtoras dos insumos farmacêuticos Ademais nas negociações comerciais as classes industriais em que as importações de insumos intermediários já são elevadas deveriam receber tratamento diferenciado levando em conta não transformar segmentos produtivos inteiros numa maquila que não exporta como observado no setor de informática e eletrônicos Essas recomendações procuram Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 858 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 distinguir as classes industriais a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrarse em políticas macroeconômicas como defendem os novosdesenvolvimentistas BresserPereira Oreiro Marconi 2015 e aqueles que propõem uma abertura comercial universal Quanto à agenda de pesquisa foi verificado na seção 4 que o CIICC evoluiu num ritmo muito superior que o percentual de empresas que compram insumos e componentes do exterior Além disso uma baixa proporção de empresas importou insumos intermediários em vários setores manufatureiros Nesse sentido surgem algumas questões essas empresas que adquiriram insumos apenas no mercado doméstico acessaram produtos no mesmo patamar da fronteira tecnológica Ou não precisaram contar com fornecedores estrangeiros porque atuam apenas no mercado doméstico protegido das importações Pode ser que há empresas maiores especializadas na importação de insumos intermediários que se utilizaram desse expediente por pressão competitiva devido à falta de competitividade dos fornecedores brasileiros ou à apreciação cambial De qualquer forma por algum motivo oitenta por cento das empresas não precisaram importar insumos intermediários para competir nos mercados doméstico e estrangeiro Esses questionamentos são temas para a evolução deste trabalho Referências bibliográficas ANP Edital de licitações para a outorga dos contratos de concessão para atividades de exploração e produção de petróleo e gás natural décima primeira rodada de licitações Rio de Janeiro ANP 2013 BIELSCHOWSKY R Investimentos na indústria brasileira depois da abertura e do Real o miniciclo de modernizações 19951997 Brasília CEPAL 1999 Série Reformas Económicas n 44 BRESSERPEREIRA L C OREIRO J L MARCONI N Developmental macroeconomics new developmentalism as a growth strategy Abingdon and New York Routledge 2015 BUITELAAR R M PADILLA R URRUTIA R Industria maquiladora y cambio técnico Revista de la CEPAL 67 p 133152 1999 CANO W A desindustrialização no Brasil Economia e Sociedade v 21 n Número Especial p 831 851 2012 CANUTO O The high density of Brazilian production chains Disponível em httpblogsworldbankorgdevelopmenttalkhighdensitybrazilianproductionchains Acesso em 14 fev 2018 CANUTO O FLEISCHHAKER C SCHELLEKENS P The curious case of Brazils closedness to trade Washington DC World Bank Group 2015 Policy Research Working Papers n 7228 CASSIOLATO J E FONTAINE P O papel das empresas transnacionais no sistema nacional de inovação brasileiro In CASSIOLATO J E PODCAMENI M G SOARES M C C Ed Políticas estratégicas de inovação e mudança estrutural Rio de Janeiro Epapers 2015 p 233262 CASSIOLATO J E SZAPIRO M LASTRES H Dilemas e perspectivas da política de inovação In BARBOSA N MARCONI N PINHEIRO M C CARVALHO L Ed Indústria e desenvolvimento produtivo no Brasil Rio de Janeiro Elsevier 2015 p 377416 CASTILLO J C DE VRIES G The domestic content of Mexicos maquiladora exports a longrun perspective The Journal of International Trade Economic Development v 27 n 2 p 200219 2018 CASTRO A B de A reestruturação industrial brasielira nos anos 90 uma interpretação Revista de Economia Politica v 21 n 3 p 326 2001 Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 859 COMIN A A desindustrialização truncada perspectivas do desenvolvimento economico brasileiro 257f Tese DoutoradoInstituto de Economia Universidade Estadual de Campinas Campinas 2009 COSTA L M da SILVA M F de O e A indústria química e o setor de fertilizantes In SOUSA F L DE Ed BNDES 60 anos perspectivas setoriais Rio de Janeiro BNDES 2012 p 1260 COUTINHO L A especialização regressiva um balanço do desempenho industrial pósestabilização In VELOSO J P DOS R Ed Brasil desafios de um país em transformação Rio de Janeiro José Olympio 1997 p 81106 DE NEGRI F CAVALCANTE L R Ed Produtividade no Brasil desempenho e determinantes Brasília ABDI IPEA 2014 v 1 DE NEGRI F CAVALCANTE L R Ed Produtividade no Brasil desempenbo e determinantes Brasília ABDI IPEA 2015 v 2 FEIJÓ C A CARVALHO P G M de ALMEIDA J S G de Ocorreu uma desindustrialização no Brasil São Paulo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial IEDI 2005 GALINDORUEDA F VERGER F OECD taxonomy of economic activities based on RD intensity OECD Science Technology and Industry Paris OECD 2016 Working Papers n 201604 GOMES R PIMENTEL V LOUSADA M PIERONI J P O novo cenário de concorrência na indústria farmacêutica brasileira BNDES Setorial n 39 p 97134 2014 HALPERN L KOREN M SZEIDL A Imported inputs and productivity American Economic Review v 105 n 12 p 36603703 2015 HAUSMANN R RODRIK D Economic development as selfdiscovery Journal of Development Economics v 72 n 2 p 603633 2003 HIRSCHMAN A O The strategy of economic development New Haven Yale University Press 1958 IBGE INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA Matriz de insumoproduto Brasil 2010 Rio de Janeiro IBGE 2016 JARUZELSKI B STAACK V SHINOZAKI A Global innovation 1000 softwareasacatalyst StrategyBusiness n 85 p 16 Winter 2016 MARCONI N ROCHA M Taxa de câmbio comércio exterior e desindustrialização precoce o caso brasileiro Economia e Sociedade v 21 n Número Especial p 853888 2012a MARCONI N ROCHA M Insumos importados e evolução do setor manufatureiro no Brasil Brasília IPEA 2012b Texto para Discussão n 1780 MARSHALL A Principles of economics London MacMillan 1890 MIROUDOT S LANZ R RAGOUSSIS A Trade in intermediate goods and services OECD Trade Paris OECD 2009 Policy Papers n 93 MORCEIRO P C Desindustrialização na economia brasileira no período 20002011 abordagens e indicadores São Paulo Cultura Acadêmica 2012 MORCEIRO P C Evolution and sectoral competiveness of the Brazilian manufacturing industry In AMANN E AZZONI C BAER W Ed The Oxford handbook of the Brazilian economy New York Oxford University Press 2018a p 243265 Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 860 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 MORCEIRO P C A indústria brasileira no limiar do século XXI uma análise da sua evolução estrutural comercial e tecnológica Tese DoutoradoFaculdade de Economia Administração e Contabilidade Universidade de São Paulo São Paulo 2018b MORCEIRO P C GUILHOTO J J M Desindustrialização setorial e estagnação de longo prazo da manufatura brasileira São Paulo Department of Economics FEAUSP 2019 Working Paper Series n 201901 MOREIRA M M A indústria brasileira nos anos 90 o que já se pode dizer In GIAMBIAGI F MOREIRA M M Ed A economia brasileira nos anos 90 Rio de Janeiro BNDES 1999 p 293 332 NASSIF A BRESSERPEREIRA L C FEIJÓ C The case for reindustrialisation in developing countries towards the connection between the macroeconomic regime and the industrial policy in Brazil Cambridge Journal of Economics v 42 n 2 p 355381 2017 OECDANBERD DATABASE Analytical business enterprise research and development database ANBERD ISIC Rev 4 Paris OECD 2017 Disponível em httpoecdanberd OECDSTAN DATABASE Database for structural analysis STAN ISIC Rev 4 SNA08 Paris OECD 2018 Disponível em httpoecdstan PINHEIRO M C Abertura inserção nas cadeias globais de valor e a política industrial brasileira In NEVES L P Ed A inserção do Brasil nas cadeias globais de valor Rio de Janeiro Centro Brasileiro de Relações Internacionais 2014 p 3440 PINTEC Pesquisa de inovação 2014 Rio de Janeiro IBGE 2016 PINTO C A S A indústria farmacêutica da América Latina um estudo comparativo 174f Dissertação MestradoDepartamento de Economia Universidade Estadual Paulista UNESP Júlio de Mesquita Filho AraraquaraSP 2014 RAMOS R L O O comportamento das importações e exportações brasileiras com base no sistema de contas nacionais 19801997 Rio de Janeiro IBGE 1999 Texto para Discussão n 95 RODRIK D Policies for economic diversification CEPAL Review v 87 p 723 2005 RODRIK D Premature deindustrialization Journal of Economic Growth v 21 n 1 p 133 2016 SAMPAIO D P Desindustrialização e estruturas produtivas regionais no Brasil 2015 234f Tese DoutoradoInstituto de Economia Universidade Estadual de Campinas Campinas 2015 SARTI F HIRATUKA C Desempenho recente da indústria brasileira no contexto de mudanças estruturais domésticas e globais In CARNEIRO R BALTAR P SARTI F Ed Para além da política econômica São Paulo Editora Unesp Digital 2018 p 127170 TESSARIN M S O papel da inovação diversificação e vizinhança setorial no desenvolvimento industrial recente do Brasil 162f Tese DoutoradoFaculdade de Economia Administração e Contabilidade Universidade de São Paulo São Paulo 2018 TREGENNA F Deindustrialization and premature deindustrialization In REINERT E GHOSH J KATTEL R Ed Handbook of alternative theories of economic development Cheltenham UK Northampton MA USA Edward Elgar Publishing 2016 p 710728 UNIDO International yearbook of industrial statistics 2017 Vienna Edward Elgar Publishing 2017
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Texto de pré-visualização
Artigos originais Economia e Sociedade Campinas Unicamp IE httpdxdoiorg101590198235332020v29n3art07 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto Resumo A industrialização brasileira por substituição de importações proporcionou níveis elevados de adensamento produtivo contudo esses níveis reduziramse após a abertura comercial Porém os estudos existentes utilizaram desagregação setorial que não permite identificar nichos produtivos adensados ou esgarçados dentre dos setores manufatureiros Este trabalho mapeou e analisou pela primeira vez para o Brasil o grau de adensamento produtivo de todas as 258 classes industriais a partir de dados inéditos obtidos do IBGE Assim o estudo identificou os nichos mais e menos adensados possíveis alvos das políticas públicas Resultados relevam que as classes de baixa e médiabaixa tecnologia continuam predominantemente adensadas porém metade das classes industriais de alta e médiaalta tecnologia possui esgarçamento produtivo moderado a elevado sendo algumas classes tecnológicas já maquiladoras Concluise que o esgarçamento das classes industriais mais tecnológicas pode retardar o desenvolvimento brasileiro sobretudo quanto à Ciência Tecnologia e Inovação Palavraschave Adensamento produtivo Desenvolvimento industrial Insumos intermediários Desindustrialização Indústria maquiladora Abstract Productive densification and hollowingout process in Brazilian manufacturing By import substitution Brazilian industrialization provided high levels of productive densification however these levels reduced after trade liberalization The existing studies used sectoral disaggregation that does not allow identifying productive niches that are densified or hollowedout among the manufacturing subsectors For the first time for Brazil this work mapped and analyzed the degree of productive densification in all 258 industrial classes based on unpublished data obtained from the Brazilian Institute of Geography and Statistics IBGE Thus the study identified the niches with the highest and lowest densification which would be possible targets of public policies Results show that the low and mediumlow technology classes are still predominantly densified but half of the high and mediumhigh technology industrial classes have moderate to high productive rarefaction and some technological classes are already maquiladoras We concluded that the more technological industrial classes productive hollowingout process could delay Brazilian development particularly in Science Technology and Innovation Keywords Productive densification Industrial development Intermediate inputs Deindustrialization Maquiladora industry JEL L6 L16 O14 O54 1 Introdução Após cinquenta anos de crescimento elevado desde 1981 a indústria de transformação brasileira vem apresentando estagnação do produto real per capita Morceiro 2018b A partir deste ano a Artigo recebido em 18 de abril de 2019 e aprovado em 13 de dezembro de 2019 Os autores agradecem os pareceristas e editores da Economia e Sociedade pelas melhorias sugeridas assim como os membros do Núcleo de Economia Regional e Urbana da USP NEREUS e do Grupo de Estudos em Economia Industrial GEEIN da Unesp O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil CAPES Código de Financiamento 001 Pósdoutorando no DSTNRF South African Research Chair SARChI in Industrial Development University of Johannesburg Joanesburgo África do Sul Email paulomorceiroalumniuspbr ORCID httpsorcidorg0000000295480996 Economista da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE Paris França Email joaquimguilhotooecdorg ORCID httporcidorg0000000270981209 Professor da Universidade de São Paulo USP São Paulo SP Brasil O conteúdo desta publicação expressa a visão deste autor e não necessariamente representa a visão da OCDE ou dos seus países membros Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 836 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 manufatura começou a crescer abaixo do restante da economia resultando numa grande diminuição da parcela do valor adicionado manufatureiro VAM no Produto Interno Bruto PIB mensurado a preços básicos Entre 1980 e 2018 a parcela do VAM no PIB reduziuse à metade de 245 para 113 Morceiro Guilhoto 2019 Dessa forma o Brasil vem passando por um processo de desindustrialização prematura Cano 2012 Nassif BresserPereira Feijó 2017 Entre os fatores que explicam a perda de dinamismo do setor manufatureiro estão as importações principalmente de insumos e componentes mais competitivas que os produtos domésticos O comércio internacional é dominado por bens intermediários e no Brasil as importações desses itens representam cerca de três quartos do total importado Miroudot Lanz Ragoussis 2009 IBGE 2016a Uma parcela da literatura menciona a abertura comercial ocorrida entre 1988 e 1994 como propagadora da desindustrialização por aumentar os produtos importados na oferta doméstica Antes da abertura comercial a economia brasileira era muito protegida por tarifas alfandegárias elevadas e barreiras não tarifárias que restringiam as importações sobretudo insumos e componentes Alguns autores diagnosticaram que a abertura comercial foi rápida e profunda Bielschowsky 1999 dessa maneira as empresas domésticas tiveram pouco tempo de adaptação ao cenário mais competitivo Coutinho 1997 Isso resultou num aumento expressivo de importações que substituíram fornecedores nacionais por estrangeiros conforme dados apresentados por Coutinho 1997 e Moreira 1999 Outra parcela da literatura responsabiliza os episódios de sobrevalorização cambial da segunda metade da década de 1990 e a partir de 2005 por desestimular as exportações e aumentar as importações de insumos e componentes com elevado encadeamento intersetorial e tecnológico Marconi Rocha 2012a Sarti Hiratuka 2018 Quando o coeficiente de insumos e componentes importados aumenta sem contrapartida da produção industrial podemse fragilizar elos produtivos reduzir os encadeamentos intersetoriais e limitar o desenvolvimento tecnológico cada vez mais conduzido pelos fornecedores dos componentes principais Isso pode agravar a desindustrialização ao reduzir a transformação das operações industriais e aumentar as etapas de montagem com uso de mão de obra pouco qualificada e de baixos salários provocando desse modo menor geração de valor adicionado A literatura tem chamado atenção para isso com os termos especialização regressiva Coutinho 1997 perda de elos da cadeia produtiva Feijó Carvalho Almeida 2005 Cano 2012 rarefação das cadeias produtivas Comin 2009 esgarçamento do tecido industrial Morceiro 2012 processo de maquilagem Marconi Rocha 2012b 2012a esvaziamento da estrutura produtiva Cassiolato Fontaine 2015 e desadensamento produtivo Sarti Hiratuka 2018 Esses estudos analisaram dados empíricos para no máximo trinta e cinco setores manufatureiros De modo geral eles mostraram que dificilmente um setor manufatureiro inteiro encontrase totalmente desadensado No entanto provavelmente os setores mais rarefeitos devem reunir classes1 produtivas muito esgarçadas e outras menos ou até adensadas Assim a ótica setorial é inadequada para identificar os segmentos produtivos bem desadensados Dessa forma há necessidade de avaliar a indústria de transformação bem desagregada a fim de identificar os segmentos produtivos esgarçados bem como responder as seguintes perguntas O país é montador com pouca transformação industrial em alguma classe industrial Quais as classes industriais com menor e maior grau de adensamento produtivo O 1 A Classificação Nacional de Atividades Econômicas CNAE do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE identifica 24 divisões de atividade manufatureiras ao nível de 2 dígitos de agregação setorial 103 grupos a 3 dígitos e 258 classes a quatro dígitos esta última tem o maior detalhamento nas estatísticas de atividades econômicas do Brasil Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 837 tecido industrial brasileiro ficou mais oco ou rarefeito nos anos 2000 As respostas dessas questões são relevantes para melhor entender a perda de dinamismo da indústria brasileira Este trabalho procura mapear e analisar pela primeira vez no Brasil o grau de adensamento produtivo de 258 classes da indústria de transformação brasileira o qual é mensurado pelo coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis CIICC Quanto mais alto esse coeficiente menos adensado domesticamente Com isso buscase identificar as classes industriais mais esgarçadas pelas importações de insumos intermediários isto é os segmentos produtivos mais desindustrializados e com baixo grau de transformação industrial O presente estudo teve acesso a dados não publicados da Pesquisa Industrial Anual Empresa PIAE do IBGE dessa maneira os dados aqui exibidos são inéditos Essas informações são essenciais para elucidar as questões colocadas por este trabalho num nível de detalhamento elevado suprindo uma carência na literatura de estudos que avaliem o segmento industrial mais específico não apenas as divisões de atividade como é comum nos poucos estudos da área Além desta introdução a seção 2 sintetiza o referencial teórico sobre adensamento produtivo no Brasil e define o esgarçamento produtivo e suas implicações A seção 3 apresenta as fontes de informações e procedimentos metodológicos A seção 4 mostra a evolução do CIICC de 24 setores manufatureiros e duas categorias tecnológicas para a década do século XXI de maior crescimento industrial desde os anos setenta A seção 5 mensura o grau de adensamento produtivo para todas as 258 classes industriais organizadas nos setores produtivos permitindo avaliar com exatidão a extensão do esgarçamento do tecido industrial brasileiro no período recente A seção 6 exibe e analisa em maior detalhe o quartil das classes industriais mais esgarçado pelas importações de insumos intermediários A seção 7 conclui 2 Referencial teórico Esta seção dividese em duas A subseção 21 explica os termos adensamento e esgarçamento produtivo e suas implicações para o desenvolvimento industrial A subseção 22 sintetiza a bibliografia brasileira sobre esses termos 21 Ideia de adensamento e esgarçamento produtivo Um segmento industrial está conectado direta e indiretamente com diversos segmentos produtivos por meio das relações de compras e vendas de matériasprimas partes peças acessórios componentes e tecnologias Desse modo cada segmento está vinculado a uma rede de fornecedores e subfornecedores entrelaçados entre si Quanto mais longa a cadeia de fabricação de um produto por exemplo um automóvel maior e mais densa será a teia de ligações intersetoriais Essa rede produtiva é chamada pelos economistas de tecido industrial ou malha manufatureira Utilizase neste trabalho o termo esgarçamento da indústria têxtil para transmitir a ideia de perda de densidade produtiva Em outras palavras se os tecidos têxteis não são usados adequadamente com o tempo se desfiam e se desintegram podendo inclusive causar buracos e rompimentos Nessa situação o tecido encontrase esgarçado como ilustrado na Figura 1 Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 838 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Figura 1 Ilustrações de tecido têxtil esgarçado Fonte Imagens da Internet Num tecido industrial adensado os produtores domésticos comercializam a maioria dos insumos e componentes entre eles mantendo dessa forma ligações intersetoriais densas Ao crescer a demanda por um produto desencadeiase uma produção adicional de segmentos a ele conectados na rede produtiva aumentando também o emprego a massa salarial o desenvolvimento tecnológico e a arrecadação tributária Além da demanda derivada decorrente das interdependências da malha produtiva na medida em que os segmentos industriais vão se adensando eles geram i economias externas à la Marshall 1890 para outros segmentos isto é transbordamentos e ganhos sinérgicos em termos de tecnologia mão de obra qualificada infraestrutura logística e fornecedores especializados ii investimentos complementares à la Hirschman 1958 e iii reduz os custos de produção de produtos novos Hausmann Rodrik 2003 e propicia a diversificação produtiva Rodrik 2005 Logo o esgarçamento dos segmentos industriais provoca efeitos contrários aos mencionados além da diminuição dos encadeamentos intersetoriais Assim quando se importa a maioria dos insumos e componentes a rede produtiva fica rarefeita esburacada ou oca como os tecidos têxteis esgarçados Uma indústria maquiladora é um exemplo clássico dessa situação na qual se importam praticamente todos os insumos e componentes comercializáveis gerando emprego de montagem com salários baixos e pouca contribuição científica e tecnológica para o sistema nacional de inovação Buitelaar Padilla Urrutia 1999 Castillo De Vries 2018 Há de se diferenciar baixo adensamento produtivo em estágios iniciais de industrialização daquele de economias industrializadas De um lado nos estágios iniciais as importações são essenciais para movimentar as plantas industriais recéminstaladas O mesmo ocorre com a produção de aviões pela Embraer Apesar de o Brasil produzir aviões há décadas ele não conseguiu avançar na produção dos componentes principais como turbinas e aviônica Dessa maneira as importações podem gerar a condição para se ter um parque industrial Hirschman 1958 cap 7 Nesse caso as importações complementam a produção industrial por incorporar tecnologias de última geração contribuindo para elevar a competitividade das exportações domésticas Por outro lado em economias industrializadas quando um segmento produtivo muito adensado tornase rarefeito significa que o tecido industrial deste segmento sofreu um processo de esgarçamento que pode leválo à desindustrialização absoluta Vale ressaltar que os avanços no adensamento produtivo ocasionaram industrialização em economias retardatárias ao longo dos séculos XIX e XX O processo inverso de retrocesso do adensamento em grau intenso pode esgarçar substantivamente o tecido produtivo e ocasionar Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 839 desindustrialização relativa conforme explicaram Marconi e Rocha 2012a 2012b ou desindustrialização absoluta eou tecnológica Sampaio 2015 p 76 Neste estudo adotamse os termos desadensamento produtivo rarefação esvaziamento desarticulação fragilização e desintegração com o mesmo sentido de esgarçamento 22 Adensamento produtivo no Brasil Até a década de 1980 a economia brasileira era muito protegida A parcela dos importados na oferta total de produtos industriais era baixíssima assim como o percentual importado de insumos intermediários Ramos 19992 No entanto esse cenário começou a mudar desde fins da década de 1980 e durante a década de 1990 com a abertura comercial e a estabilização monetária A redução significativa das barreiras não tarifárias e a diminuição expressiva das tarifas alfandegárias de 1988 a 1994 desencadearam intensas reestruturações industriais num primeiro momento e num segundo modernização produtiva especialmente após a sobrevalorização cambial a partir de 1994 CASTRO 2001 Com isso ao baratear as importações por um lado aumentou a parcela dos importados na oferta doméstica de bens finais e intermediários e por outro liberou o consumo reprimido das famílias já majorado pela elevação do poder de compra do Plano Real pressionando ainda mais as importações Coutinho 1997 destacou que os coeficientes de importação importações sobre a produção dos setores manufatureiros aumentaram significativamente no período de 1989 a 1996 sobretudo naqueles mais sofisticados com grau mais elevado de agregação de valor e maior dinamismo tecnológico Nesses setores por exemplo bens de capital eletrônicos informática e telecomunicações especialidades químicas autopeças e farmacêutica houve forte substituição de insumos locais por importados fechamento de linhas de produção e de unidades fabris inteiras Coutinho 1997 p 92 logo desindustrialização absoluta O autor concluiu que nas cadeias industriais mais complexas ocorreu um esvaziamento e uma especialização regressiva do ponto de vista industrial no período pós estabilização Marconi e Rocha 2012a 2012b constataram uma substituição de insumos nacionais por importados na economia brasileira durante os períodos de valorização cambial de 1995 a 2008 A partir de testes econométricos em painel os autores demonstraram que a maior participação dos insumos importados no consumo intermediário da manufatura brasileira está negativamente correlacionada com a parcela da manufatura no PIB no período mencionado assim o aumento do percentual de insumos importados contribuiu com a desindustrialização em curso Como resultado deste processo e em função dos resultados obtidos nos testes é possível argumentar que um processo similar aos das maquillas possa estar ocorrendo no país Marconi Rocha 2012b p 5 Desse modo ao se manter uma taxa de câmbio apreciada por muito tempo há riscos de a indústria doméstica se transformar gradualmente numa indústria maquiladora uma vez que esta taxa torna os insumos e componentes importados mais baratos que os domésticos BresserPereira Oreiro 2 As importações representaram na oferta dos produtos industriais respectivamente 58 37 e 48 em 1980 1985 e 1990 E a parcela dos insumos importados no consumo intermediário total da indústria de transformação foi respectivamente 64 40 e 38 em 1980 1985 e 1990 Dados de Ramos 1999 p 1819 Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 840 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Marconi 2015 cap 7 além de provocar um processo de desindustrialização precoce Marconi Rocha 2012a3 A partir de informações anuais das matrizes de insumoproduto estimadas Morceiro 2012 mensurou o coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis CIICC isto é considerou apenas os insumos intermediários que efetivamente sofrem competição estrangeira Entre 2000 e 2008 ocorreu um aumento expressivo no coeficiente em vários setores manufatureiros sendo que em 2008 nos setores de alta e médiaalta tecnologia o CIICC atingiu o mínimo de 407 e o máximo de 686 Morceiro 2012 O autor concluiu que houve um esgarçamento no tecido industrial brasileiro com aprofundamento da dependência tecnológica de fornecedores estrangeiros Para Sarti e Hiratuka 2018 a desindustrialização da economia brasileira foi agravada no período após a crise internacional de 2008 pelo significativo vazamento de demanda para o exterior sobretudo de insumos industriais desse modo os importados supriram parcela crescente e significativa da demanda doméstica por bens industriais Os autores exibiram o coeficiente de insumos industriais importados tabulados pela FuncexCNI para os principais setores manufatureiros A maior parcela de insumos e componentes importados principalmente aqueles mais elaborados que agregam mais valor e têm maior intensidade tecnológica causou redução do adensamento produtivo e dos encadeamentos produtivos e tecnológicos na indústria brasileira bem como corroborou para diminuir a parcela da manufatura no PIB Sarti Hiratuka 2018 Além disso eles afirmaram que os bens intermediários ainda têm um peso significativo na estrutura produtiva doméstica logo a indústria brasileira não pode ser considerada uma indústria de montagem ou maquiladora Mas a tendência em curso é preocupante porque vai nessa direção Sarti Hiratuka 2018 p 145 No entanto para outros autores o tecido industrial brasileiro encontrase atualmente muito adensado devido à proteção excessiva da economia Pinheiro 2014 Canuto Fleischhaker Schellekens 2015 Pinheiro 2014 usou informações da primeira versão da World InputOutput Database WIOD e verificou que apenas 135 do consumo intermediário da indústria de transformação brasileira foi importado em 2011 sendo esse um dos menores percentuais entre os 40 países disponíveis na WIOD Esse panorama pouco se modificou entre 1995 e 2011 Para o autor o isolamento da economia doméstica tem reduzido a competitividade das empresas dado seu acesso restrito a insumos intermediários e bens de capital modernos Canuto 2014 e Canuto Fleischhaker e Schellekens 2015 afirmaram que a indústria de transformação brasileira opera com grau de adensamento produtivo muito elevado Eles observaram que o coeficiente de valor adicionado sobre as exportações de produtos manufaturados foi o mais elevado entre os países cobertos pela base de dados de comércio por valor adicionado da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE em parceria com a Organização Mundial de Comércio A alta parcela do valor adicionado doméstico nas exportações sugere que o Brasil tem ignorado o processo de fragmentação internacional da produção estruturado em cadeias globais de valor sendo a Embraer uma exceção Os autores responsabilizam as políticas comerciais mais protecionistas 3 A desindustrialização prematura ocorre quando a parcela da indústria de transformação no PIB diminui antes de o país alcançar um nível de renda per capita considerado elevado Para Rodrik 2016 esse nível é de US 20 mil em paridade poder de compra PPC de 2016 conforme atualização monetária da estimativa deste autor A desindustrialização prematura reduz o crescimento econômico Rodrik 2016 Tregenna 2016 e armadilha o país na renda média por um longo tempo Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 841 que a dos parceiros a infraestrutura logística precária e as exigências de conteúdo nacional pelo elevado adensamento doméstico Em síntese para alguns autores a estrutura produtiva brasileira sofreu um processo significativo de perda de densidade desde o início da década de 1990 Para outros o tecido industrial ainda é muito adensado devido ao elevado grau de proteção da economia 3 Dados e tratamento das informações 31 Fonte das informações Este estudo teve acesso a uma tabulação especial de informações inéditas da PIAE do IBGE para todas as classes da indústria de transformação brasileira do período de 1998 a 2014 Essa tabulação englobou as seguintes informações a percentual das compras de matériasprimas materiais auxiliares e componentes incluindo material de embalagem combustíveis usados como matériaprima e lubrificantes adquiridos no mercado interno ou importados diretamente para utilização no processo produtivo b número e percentual das empresas que compram matériasprimas materiais auxiliares e componentes ou apenas no mercado doméstico ou apenas no exterior ou no mercado doméstico e no exterior A vantagem desses dados é que eles captam os bens intermediários realmente consumidos no processo produtivo não os bens classificados pelo seu uso final como o dos estudos publicados Além da tabulação especial esta pesquisa acessou as informações públicas da PIAE referentes a valor bruto da produção industrial VBPI pessoal ligado à produção número de empresas e compras de matériasprimas materiais auxiliares e componentes O item a equivale ao coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis proposto por Morceiro 2012 porém com a vantagem de ser dez vezes mais desagregado setorialmente As informações estão detalhadas no nível de classes industriais para o estrato certo do IBGE que corresponde a todas as empresas industriais com 30 ou mais pessoas ocupadas eou aquelas que tiveram receita bruta proveniente das vendas de produtos e serviços industriais superiores a um valor determinado no ano de referência da pesquisa em 2015 esse valor foi de R 128 milhões No triênio de 20132015 as empresas do estrato certo representaram 960 do VBPI da indústria de transformação desse modo as informações deste estudo representam praticamente todo o setor industrial brasileiro 32 Indicador de adensamento produtivo O coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis CIICC conforme em 1 será utilizado para mensurar o adensamento produtivo da indústria de transformação como fez Morceiro 2012 Quanto maior o CIICC menor o adensamento produtivo e viceversa 𝐶𝐼𝐼𝐶𝐶𝑠 𝐼𝐼𝐶𝐶 𝑠 𝑇𝐼𝐶𝐶𝑠 100 1 Em que IICC são as importações de insumos e componentes comercializáveis e TICC o total dos insumos e componentes comercializáveis O subscrito s indica a classe ou setor industrial Os Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 842 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 insumos e componentes comercializáveis são aqueles que efetivamente sofrem concorrência com o exterior os quais são produzidos pela agropecuária indústria extrativa e indústria de transformação Este estudo utilizou como insumos e componentes comercializáveis as matériasprimas materiais auxiliares e componentes incluindo material de embalagem combustíveis usados como matériaprima e lubrificantes da tabulação especial da PIAE O CIICC é um indicador mais depurado porque exclui os insumos intermediários pouco ou não comercializáveis com o exterior os quais são adensados por natureza técnica Os insumos nãopouco comercializáveis são fornecidos pelos setores de serviços de utilidade pública construção civil comércio e serviços Esses insumos são ofertados majoritariamente por fornecedores domésticos logo sofrem pouca pressão competitiva do exterior Por isso eles têm um peso baixo nos insumos e componentes importados De acordo com a matriz de insumoproduto brasileira com dados de 2010 os insumos e componentes nãopouco comercializáveis representaram apenas 71 de todas as importações de insumos intermediários da indústria de transformação portanto 929 das importações de insumos intermediários são de itens comercializáveis Assim necessariamente a análise do grau de adensamento produtivo passa pelos insumos e componentes comercializáveis 33 Tratamento dos dados Classificação setorial Até 2007 as informações da PIAE foram apresentadas na CNAE versão 10 e desde 2007 na CNAE versão 20 Uma tabela de correspondência entre a CNAE 10 e a CNAE 20 fornecida pela Comissão Nacional de Classificação Concla do IBGE foi utilizada para harmonizar eventuais quebras seriais Com o intuito de perder o mínimo de informação e obter uma identificação praticamente perfeita as informações de classes industriais da CNAE 10 foram convertidas para divisões de atividade da CNAE 20 Período As informações analisadas correspondem à atividade industrial ao longo de uma década entre 20032004 e 20132014 Foram adotados biênios médios para diminuir as oscilações setoriais causadas por diversos eventos Adotouse 2003 como a data inicial porque é o primeiro ano antes do crescimento significativo da produção industrial verificado de 2004 a 2013 O ano de 2014 é o mais recente antes da crise políticoeconômica brasileira que teve grande repercussão negativa sobre o setor industrial entre 20152017 Comércio exterior Os dados de exportações e importações fornecidos pelo sistema Alice Web NCM8 foram convertidos para Reais correntes pela taxa de câmbio R US comercial média mensal do Banco Central do Brasil Posteriormente os dados mensais foram agregados em anuais e convertidos para a CNAE 4 dígitos com o auxílio de uma tabela de correspondência NCMCNAE fornecida pela ConclaIBGE Banco de dados Foi montado um banco de dados para todas as classes da indústria de transformação com informações públicas e da tabulação especial da PIAE além das exportações e importações da Alice Web Coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis Para cinco classes industriais4 foi aplicada a média de 20122014 ao invés de 20132014 devido à elevada variação do CIICC em algum dos anos Como a PIAE não divulga informações de classes industriais com menos 4 Códigos CNAE 20 2021 2660 3091 3220 3315 Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 843 de três empresas pesquisadas a coleta de dados de duas classes foi modificada Para a classe catalisadores adotase a média do triênio dos últimos anos em que há informações disponíveis 2004 2005 e 2007 ao invés do biênio 20132014 Para a classe veículos militares de combate utilizase a média das outras classes do setor outros equipamentos de transporte Agregação setorial Adotouse uma agregação por intensidade tecnológica que divide a indústria de transformação em dois grandes grupos i alta e médiaalta tecnologia ATMAT e ii baixa e médiabaixa tecnologia BTMBT de acordo com a classificação elaborada pela OCDE AT MAT inclui as divisões 2021 e 2630 da CNAE 20 e BTMBT inclui as divisões 1019 2225 e 31 33 Neste estudo agrupase AT com MAT e BT com MBT porque há menor variabilidade das intensidades tecnológicas setoriais no Brasil que nos países da OCDE Categorias de uso Entre as 258 classes industriais é possível verificar com o auxílio de um tradutor do IBGE que 117 classes fabricam produtos localizados na ponta final da cadeia sendo 55 bens de consumo não durável BCnD 42 bens de capital BK e 20 bens de consumo durável BCD 126 classes são fornecedoras de insumos intermediários e 15 ofertam serviços industriais como manutenção reparação e instalação de MEs Deflator setorial Deflatores setoriais ao nível das divisões de atividades foram construídos a partir das Tabelas de Recursos e Usos TRU Referência 2010 da série retropolada do IBGE que possui informações de 2000 a 2016 para 51 setores de atividade a preços correntes e a preços do ano anterior Dessa forma foi empregado o deflator setorial da produção para deflacionar os insumos e componentes nacionais e o deflator setorial das importações para deflacionar os insumos e componentes importados 4 Análise do adensamento produtivo setorial nos anos 2000 Esta seção exibe o CIICC ao nível das divisões de atividade para o Brasil ao longo de uma década de 20032004 a 20132014 Tabelas 1 Entre 2004 e 2013 a produção industrial brasileira apresentou crescimento real de 339 em virtude da forte expansão da demanda doméstica Morceiro 2018a Desse modo os dados captam o período de crescimento industrial mais elevado desde a década de 1970 Entre os biênios médios de 20034 e 201314 o CIICC da manufatura brasileira aumentou quase cinquenta por cento de 165 para 244 Tabela 1 justificando as preocupações dos estudos que alertaram para a perda de densidade do tecido industrial brasileiro Setorialmente a diminuição da densidade produtiva foi generalizada principalmente entre os setores de ATMAT Entre 20034 e 2013 4 a categoria de ATMAT apresentou aumento significativo do CIICC de 263 para 387 puxada sobretudo pelos setores de informática eletrônicos e ópticos máquinas e equipamentos máquinas e materiais elétricos outros equipamentos de transportes e indústria química setores com aumento de no mínimo 10 pp no CIICC No último biênio a categoria de ATMAT apresentou CIICC quase três vezes superior ao da categoria de BTMBT Entre os setores de ATMAT o setor automobilístico é o mais adensado e o de informática eletrônicos e ópticos o menos O primeiro importou um quarto dos insumos e componentes comercializáveis e o último importou três quartos no biênio 20134 Neste biênio os três setores menos adensados são informática eletrônicos e ópticos farmacêutica e outros equipamentos de transporte Eles possuem elevado potencial de desenvolvimento tecnológico e grande parte dos gastos em pesquisa e desenvolvimento PD concentramse nos componentes eletrônicos nos princípios ativos para a Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 844 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 fabricação de medicamentos e nos componentes principais dos aviões que o Brasil importa Dessa maneira o país é muito dependente de tecnologia embarcada nos insumos e componentes adquiridos do exterior Tabela 1 Dependência externa de insumos e componentes comercializáveis pelo Brasil Código CNAE 20 Descrição CIICC a preços constantes de 20134 Percentual das empresas que compram parcela dos insumos e componentes no exterior Número de empresas Pessoal ocupado ligado à produção em milhares 20034 20134 20034 20134 20034 20134 20034 20134 IT Indústria de transformação 165 244 189 199 28947 37906 3691 5030 BTMBT Baixa e médiabaixa tecnologia 108 136 133 139 22838 30534 2781 3767 10 Alimentos 53 51 130 110 3348 4613 671 1037 11 Bebidas 59 42 123 121 400 459 53 80 12 Fumo 60 81 231 298 38 33 11 9 13 Têxteis 102 183 241 269 1284 1527 207 208 14 Confecção 21 74 46 71 3527 4907 249 373 15 Calçados e couros 79 64 196 141 1871 1940 343 291 16 Madeira 32 73 57 63 1680 1209 154 102 17 Papel e celulose 85 112 179 161 780 906 106 132 18 Impressão e reprodução 272 179 172 168 324 581 23 45 19 Refino de petróleo e álcool 528 447 97 123 163 221 63 114 22 Borracha e plástico 90 199 208 238 2007 2738 211 284 23 Minerais nãometálicos 41 141 99 88 2080 3178 159 267 24 Metalurgia 172 244 181 222 611 822 142 187 25 Produtos de metal 34 101 124 129 2293 3441 181 281 31 Móveis 34 46 97 138 1487 1793 114 157 32 Diversos 144 226 269 295 687 1121 58 89 33 Manutenção de MEs 188 355 124 111 264 1049 35 111 ATMAT Alta e médiaalta tecnologia 263 387 395 440 6109 7372 910 1263 20 Química 303 403 467 462 1329 1576 144 184 21 Farmacêutica 519 573 576 645 281 258 41 52 26 Informática eletrônicos e ópticos 574 754 573 633 639 676 87 108 27 Máquinas e materiais elétricos 96 268 386 400 729 969 108 182 28 Máquinas e equipamentos 138 319 304 388 1906 2455 201 257 29 Automobilística 193 258 318 395 1010 1149 282 386 30 Outros equipamentos de transporte 431 548 312 433 217 291 48 94 Nota Deflator setorial construído a partir das Tabelas de Recursos e Usos Todas as informações são de empresas com 30 ou mais pessoas ocupadas Fonte Tabulação especial da PIAE estrato certo do IBGE Elaboração dos autores Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 845 Embora a categoria de BTMBT possua CIICC baixo três setores apresentaram aumento superior a 10 pp e cinco superiores a 5 pp e o setor de refino de petróleo ainda continua o menos adensado desta categoria seguido pela indústria metalúrgica O país também importa insumos não competitivos nesses dois últimos setores mencionados isto é não ofertados por fornecedores domésticos por questões técnicoprodutivas assunto da próxima seção No entanto o CIICC poderia ser maior se as empresas instaladas no Brasil mantivessem práticas de importação e processos produtivos atualizados Vale destacar que o Brasil é um país em desenvolvimento distante da fronteira tecnológica e possui um parque industrial relativamente velho5 Além disso dado o atual estágio da fragmentação internacional da produção possuir autossuficiência completa de insumos e componentes não é comum Nesse sentido já se espera que as empresas comprem do exterior uma parcela mínima dos insumos e componentes para movimentar as linhas de produção Apenas duas de cada dez empresas com mais de 30 pessoas ocupadas importaram insumos e componentes no biênio de 20134 e não houve modificação nesse cenário em relação ao início da década de 2000 Tabela 1 Na categoria de BTMBT apenas 139 das empresas importaram insumos e componentes para consumo no processo produtivo O cenário muda um pouco na categoria de ATMAT em que 440 das empresas mantêm práticas de importação de insumos intermediários Certamente empresas maiores têm maior propensão a importar que empresas menores Halpern Koren Szeidl 2015 porém esta pesquisa não teve acesso a informações mais detalhadas por porte De qualquer forma poucas empresas brasileiras com mais de 30 funcionários acessaram os insumos intermediários do exterior que geralmente estão na fronteira tecnológica eou possuem preços mais competitivos Apesar do aumento do CIICC houve expansão significativa no número de empresas e de pessoas ligadas à produção industrial na maioria dos setores manufatureiros ou seja dificilmente houve uma desindustrialização absoluta e generalizada setorialmente Entre 20042013 houve aumento real expressivo do salário mínimo boom na concessão de crédito e saldo líquido de 20 milhões de empregos formais Esses acontecimentos contribuíram diretamente para o crescimento de 553 na demanda total por produtos industriais que foi parcialmente suprida por produção doméstica Morceiro 2018a Assim os empregos ligados às operações fabris da indústria de transformação aumentaram 36 de 20034 a 20134 indicando uma expansão absoluta das capacidades de fabricação manufatureira inclusive nos setores mais fragilizados pelas importações de insumos e componentes No entanto há indícios indiretos de que a qualidade das ocupações piorou no período mencionado com demissões de trabalhadores em todas as faixas salariais superiores a dois salários mínimos e admissões de novos concentradas nas faixas salariais inferiores a dois salários mínimos Morceiro 2018a Além disso vários estudos têm destacado que a produtividade do trabalho da indústria manufatureira diminuiu nos anos 2000 De Negri Cavalcante 2014 2015 Dessa maneira não pode ser descartada a hipótese de que a manufatura brasileira tem contribuído menos na geração de valor adicionado para o PIB pois está importando maior percentual de insumos e componentes e aumentando as etapas de montagem com uso de mão de obra pouco qualificada A avaliação dos setores manufatureiros realizada aqui ainda é agregada e pode esconder segmentos fragilizados pelas importações de insumos intermediários As políticas podem ser mais efetivas quando há informações detalhadas Por isso nas próximas seções avaliase o adensamento produtivo com uma lupa dez vezes maior que os setores manufatureiros 5 Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos as máquinas e equipamentos em operação na manufatura brasileira tem em média 17 anos o dobro do verificado nos principais países desenvolvidos Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 846 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 5 Adensamento produtivo de 258 classes industriais A partir desta seção o foco está apenas no biênio 20132014 O banco de dados montado para este estudo permitiu o rastreamento das classes industriais de 1998 a 2007 na CNAE 10 e de 2007 a 2014 na CNAE 20 Verificouse que não houve uma substituição absoluta da produção doméstica por importações Uma evidência real que confirma isso é que o pessoal ligado à produção aumentou na maioria das classes industriais em apenas um número muito pequeno de classes industriais houve diminuição discreta do emprego No nível de agregação das classes industriais é difícil fazer uma comparação para um período longo devido à mudança de classificação na CNAE em 2007 e à ausência de deflatores confiáveis para todas as classes industriais Mudar a unidade operacional de setores para classes industriais requer alguns cuidados para manter a análise do adensamento produtivo imparcial Alguns fatores de natureza estrutural e conjuntural podem interferir positivamente ou negativamente na importação de insumos e componentes Primeiro alguns insumos e componentes são importados porque o país não possui capacidade de produzilos por motivos técnicos ou escassez de recursos ou tipo de clima por exemplo trigo petróleo leve alguns metais preciosos entre outros Nesses casos as classes podem ser pouco adensadas devido às importações não competitivas Segundo alguns insumos intermediários são pouco comercializáveis como gases industriais água para fabricação de bebidas argila para fabricação de tijolos e cerâmicas entre outros Nesses casos a classe industrial é muito adensada mas seria adensada independente do grau de proteção comercial e do nível da taxa de câmbio Sendo assim o foco desta pesquisa concentrase nas importações competitivas Identificar as importações de insumos e componentes não competitivas e as pouco comercializáveis incorreria num trabalho que foge do escopo deste estudo no entanto na seção 6 os casos mais evidentes serão mencionados A Figura 2 exibe o primeiro mapeamento do adensamento produtivo das 258 classes da indústria de transformação brasileira As formas geométricas correspondem ao VBPI das classes industriais agrupadas nos seus respectivos setores de origem e em duas categorias tecnológicas As cores representam o CIICC as cores branca cinza e azul claro representam nessa ordem as classes industriais mais adensadas que juntas compõem três quartos do número total de classes as cores preta vermelha laranja e amarela representam as classes menos adensadas que juntas formam o quartil mais fragilizado pelas importações de insumos e componentes comercializáveis Para separar esse quartil mais fragilizado de 65 classes industriais utilizaramse as matrizes de insumoproduto da World InputOutput Database WIOD6 para calcular o CIICC médio de 312 do biênio de 20132014 da indústria de transformação dos 15 países que possuem os maiores parques industriais do mundo em 2015 os quais foram ranqueados pelo valor adicionado manufatureiro da Base de Dados de Contas Nacionais das Nações Unidas 6 Disponível em httpwwwwiodorghome Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro 847 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Figura 2 Mapa do adensamento produtivo da indústria de transformação brasileira no biênio 20132014 Nota O tamanho das formas representa o valor bruto da produção industrial VBPI Fonte Tabulação especial da PIAE estrato certo do IBGE Cálculos e elaboração dos autores Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 848 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Ao se observar os setores manufatureiros segmentados pelas suas classes industriais temse a aproximação do adensamento da cadeia produtiva daquele setor pois geralmente tanto os fabricantes da ponta final de cadeia por exemplo montadoras de automóveis quanto os de componentes principais por exemplo autopeças fazem parte do mesmo setor de atividade Assim a visualização da Figura 2 é bastante intuitiva No biênio 20132014 a maioria das classes industriais de BTMBT registra elevado grau de adensamento produtivo por isso quase todos os setores de BTMBT se encontram muito adensados Figura 2 BTMBT representa cerca de dois terços da produção industrial brasileira logo parcela expressiva do tecido industrial é adensada Os setores de alimentos papel e celulose calçados e couros madeira móveis e metalurgia têm elevado adensamento produtivo pois o Brasil possui oferta doméstica competitiva das principais matériasprimas de origem agropecuária e recursos naturais enquanto os de bebidas e minerais nãometálicos como era de se esperar registram um adensamento produtivo elevado uma vez que seus principais insumos são pouco comercializáveis internacionalmente Entre as 162 classes de BTMBT apenas 20 estão no primeiro quartil das classes mais fragilizadas pelas importações de insumos e componentes as quais representaram um quinto da produção industrial de BTMBT sendo uma classe do setor de refino de petróleo muito significativa em valor da produção O setor de refino de petróleo7 é o mais fragilizado da categoria de BTMBT pelas importações seguido pelo de manutenção de máquinas e equipamentos O outro terço do tecido industrial brasileiro encontrase bem menos adensado Das 96 classes de ATMAT 45 estão no primeiro quartil das classes com maiores CIICC e representam cerca de metade da produção industrial de ATMAT O setor de informática eletrônicos e ópticos é o menos adensado com várias classes industriais importando mais de três quartos dos insumos e componentes comercializáveis Também possuem baixo grau de adensamento produtivo o setor farmacêutico e os outros equipamentos de transporte avião navio e motocicleta A indústria química em que algumas classes estão muito adensadas e outras pouco possui grau de adensamento produtivo moderado Já nos setores automobilístico máquinas e equipamentos e máquinas e materiais elétricos predominam classes com elevado grau de adensamento Este estudo foca nos insumos intermediários comercializáveis utilizados nos processos produtivos pela manufatura brasileira assim não capta as importações de bens acabados8 Em um ambiente com taxa de câmbio apreciada por período extenso podese esperar que as empresas primeiro aumentem o conteúdo importado reduzindo assim o custo de produção para defender o mercado doméstico contra as importações de bens acabados e em último caso passem a importar o produto pronto e revendêlos com etiqueta própria Se isso ocorreu em alguma medida durante esse processo a produção industrial da classe diminuiu e perdeu espaço para as importações no mercado doméstico As classes industriais reúnem a produção de vários bens bem final ou intermediário logo aquelas mais fragilizadas concentraram a produção nos produtos que ainda compensam a fabricação no Brasil importando aqueles em que já perderam competitividade Há evidências de que isso já ocorre em parcela expressiva da manufatura especialmente de ATMAT No biênio 20132014 em um quarto das classes de ATMAT as importações superaram a produção industrial brasileira portanto esses segmentos perderam competitividade para os produtos acabados sejam eles insumos ou bens finais ofertados 7 No caso do refino do petróleo parcela relevante dos insumos utilizados no processo industrial produzidos pela Petrobrás para consumo próprio não entra no CIICC exibido na Figura 2 porque os dados desta pesquisa captam apenas as compras de insumos e componentes comercializáveis pelas classes industriais 8 Entre 2004 e 2013 houve um expressivo vazamento de demanda para o exterior em vários setores manufatureiros pois a demanda doméstica cresceu muito acima da produção industrial sendo essa diferença suprida pelas importações de bens finais e intermediários Morceiro 2018a Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 849 em melhores condições pelos fornecedores estrangeiros9 Alguns segmentos chamam atenção pelo expressivo montante monetário importado e a quantidade de vezes que ele superou a produção doméstica como por exemplo a fabricação de turbinas motores e outros componentes e peças para aeronaves teve importações onze vezes superiores ao valor produzido no Brasil a fabricação de produtos farmoquímicos foi oito vezes superior e a fabricação de componentes eletrônicos foi cinco vezes superior No mesmo biênio as importações corresponderam à metade ou mais da produção industrial em 50 das classes de ATMAT no nível setorial as importações representaram 491 da produção do setor de máquinas e equipamentos 541 da farmacêutica e 781 de informática eletrônicos e ópticos sendo os três setores com maiores percentuais Desse modo é provável que houve uma substituição de produção doméstica por importações em algumas classes industriais relevantes na estrutura industrial sobretudo nos segmentos mais tecnológicos No entanto esta pesquisa não teve acesso a informações mais detalhadas para verificar se essa substituição envolveu linhas de produtos inteiras ou parciais mas provavelmente envolveu parcela expressiva dos produtos fabricados por algumas classes industriais Importar produtos acabados em grande quantidade contribui para que alguns setores especialmente de ATMAT sejam pequenos no Brasil comparativamente à economia mundial sobretudo informática eletrônicos e ópticos e a indústria farmacêutica os quais têm um peso na estrutura industrial brasileira relativamente pequeno se comparados aos países industrializados Unido 2017 p 5710 Dessa maneira várias classes industriais especialmente de ATMAT são potencialmente menores do que poderiam ser dada a demanda doméstica por seus produtos Os três parágrafos precedentes dissertaram sobre as importações de bens acabados que devido à perda de competitividade doméstica possivelmente contribuíram para o definhamento das capacidades produtivas em várias classes industriais A Tabela 2 traz informações adicionais para caracterizar melhor a Figura 2 As faixas mais adensadas encontramse no topo da tabela e as menos ao seu final As duas faixas mais adensadas reúnem 146 classes industriais 57 do total e são responsáveis por metade da produção industrial 71 do pessoal ocupado ligado à produção 57 das exportações totais de bens e apenas 21 das importações totais de bens típicos dessas classes industriais obtendo um grande saldo comercial Dessa maneira as classes industriais que importaram menos de 20 dos insumos e componentes comercializáveis constituem metade da produção industrial brasileira e apresentam indicadores ainda melhores de geração de empregos exportações e saldo comercial As últimas quatro faixas menos adensadas representam o quartil mais fragilizado pelas importações de insumos e componentes comercializáveis que é composto por 65 classes industriais responsáveis por 314 da produção industrial e 152 do pessoal ocupado ligado à produção ou seja quartil de elevada produtividade do trabalho produção por trabalhador Além disso essas quatro faixas apresentam intensidade elevada tanto nas importações de insumos e componentes comercializáveis quanto no total de bens importados Apesar de terem um peso de 285 no total de insumos e componentes comercializáveis consumidos no processo produtivo pela indústria de transformação o quartil mais fragilizado foi responsável por 626 dos insumos e componentes comercializáveis importados No caso das importações de todos os produtos da indústria de transformação que inclui os bens acabados esse quartil foi responsável por metade dessas importações As exportações dessas 65 classes foram inferiores às importações de insumos e componentes comercializáveis utilizados no 9 Essas informações provêm do banco de dados mencionado na seção 3 10 Além disso esses são os únicos setores em que Brasil não ficou entre os 15 maiores parques industriais do mundo Unido 2017 p 57 Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 850 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 processo produtivo gerando um déficit expressivo de R 757 bilhões correntes no biênio 20132014 Isso ilustra uma dependência estrutural da economia brasileira por importações de insumos intermediários e também por bens finais de produtos típicos das 65 classes que apresentam o tecido produtivo mais desadensado Tabela 2 Características das faixas de adensamento produtivo da Figura 2 20132014 Coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis Número de classes industriais Valor bruto da produção industrial Pessoal ocupada ligado à produção Total de insumos e componentes comercializáveis Insumos e componentes comercializáveis importados Exportações de bens Importações de bens Exportações menos importações de insumos e componentes comercializáveis bilhões de R 0 a 10 91 357 511 363 57 468 83 1377 101 a 20 55 142 194 144 91 101 128 82 201 a 31 47 187 143 208 226 143 290 147 311 a 40 28 89 70 90 130 105 157 09 401 a 50 17 43 34 51 92 71 51 18 501 a 75 14 152 34 107 275 84 223 471 751 a 100 6 30 14 38 130 29 69 259 Total 258 1000 1000 1000 1000 1000 1000 555 311 a 100 65 314 152 285 626 289 500 757 Fonte PIAE tabulação especial da PIAE estrato certo e Alice Web Cálculos e elaboração dos autores Em síntese a maioria das classes industriais encontrase com grau de adensamento produtivo elevado sobretudo de BTMBT Um número reduzido de classes industriais especialmente dos setores mais tecnológicos possui estrutura produtiva pouco adensada e as importações brasileiras de insumos intermediários e bens finais concentramse nessas classes assim como o déficit comercial A próxima seção exibe em detalhe as 65 classes menos adensadas 6 Adensamento produtivo das classes industriais mais esgarçadas O Gráfico 1 exibe o quartil das classes industriais mais fragilizadas pelas importações de insumos intermediários comercializáveis isto é as classes que possuem CIICC acima de 312 média da indústria de transformação dos 15 países manufatureiros líderes Para facilitar a exposição as classes foram agrupadas por divisão de atividade e nível tecnológico Dentro de cada nível tecnológico os setores estão ordenados do maior para o menor CIICC conforme exibido na Tabela 1 Na parte superior do Gráfico 1 estão as 45 classes de ATMAT que representaram 476 de toda a produção industrial de ATMAT e na parte inferior as 20 classes de BTMBT que corresponderam a 219 da produção industrial de BTMBT Note que as classes de ATMAT possuem CIICC bem maiores que as classes de BTMBT Isso é preocupante tendo em vista que as indústrias de ATMAT contribuem sobremaneira para o desenvolvimento tecnológico empregam mão de obra qualificada e pagam salários elevados comparativamente às indústrias de BTMBT e também tendem a crescer mais rápido devido à maior elasticidaderenda da demanda e maior dinamismo no comércio internacional Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 851 Gráfico 1 Percentual importado de insumos e componentes comercializáveis das 65 classes industriais menos adensadas da manufatura brasileira média 20132014 Fonte Tabulação especial da PIAE estrato certo do IBGE Elaboração dos autores Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 852 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 Entre as 65 classes industriais do Gráfico 1 32 são classificadas como bens intermediários BI 16 bens de capital BK 8 bens de consumo durável BCD 5 bens de consumo nãoduráveis BCnD e 4 sem classificação correspondem ao setor de manutenção reparação e instalação de MEs Ou seja bens intermediários compõem uma metade e bens finais a outra Geralmente bens finais têm cadeias produtivas mais longas que bens intermediários dessa maneira quando as classes de bens finais importam elevado percentual de insumos e componentes provavelmente reduzemse ou extinguemse os fornecedores domésticos a montante da cadeia de produção Então do ponto de vista do adensamento produtivo a situação é mais grave quando a classe industrial que possui CIICC elevado produz bens mais próximos da ponta final da cadeia produtiva O setor de informática eletrônicos e ópticos é o mais esgarçado Das 11 classes do setor dez estão exibidas no Gráfico 1 as quais representaram 986 da produção industrial do setor Oito classes produzem bens finais cinco BCD e três BK e duas bens intermediários logo o setor possui cadeias produtivas longas porém os encadeamentos são fracos devido ao CIICC elevado Aparelhos telefônicos e outros equipamentos de comunicação importou 932 do total dos insumos e componentes comercializáveis sendo esta a classe mais esgarçada do tecido industrial brasileiro Assim a cadeia de suprimento doméstica é reduzidíssima As classes equipamentos e instrumento ópticos fotográficos e cinematográficos cronômetros e relógios aparelhos de recepção reprodução gravação e amplificação de áudio e vídeo e periféricos para equipamentos de informática importaram mais de 75 dos insumos e componentes comercializáveis Do ponto de vista do grau da transformação industrial dois terços do setor de informática eletrônicos e ópticos não apresentam diferenças significativas de uma indústria maquiladora e o outro terço está bem próximo disso11 O emprego do termo indústria maquiladora nesse contexto referese apenas aos processos produtivos em que predominam operações de montagem a partir de insumos e componentes importados e uso de mão de obra mais barata do que seria se houvesse maior transformação industrial12 A produção relevante de informática eletrônicos e ópticos é regulada no âmbito da Lei de Informática e da Zona Franca de Manaus as quais concedem vários benefícios fiscais e exigem como contrapartida o cumprimento de um processo produtivo básico PPB para cada produto fabricado e a aplicação de 5 do faturamento em PD Porém o PPB pode ser cumprido com operações fabris mínimas como soldagem pintura montagem usinagem colagem grampeamento e integração de componentes Essas tarefas agregam pouco valor em comparação com as que fabricam os componentes principais A farmacêutica é o segundo setor mais desarticulado pelas importações e todas as suas quatro classes são exibidas no Gráfico 1 A principal delas medicamentos para uso humano representa 90 da produção industrial do setor e importou 589 dos insumos intermediários comercializáveis O país importa principalmente o princípio ativo de farmoquímicos e adjuvantes farmacotécnicos para a fabricação dos medicamentos por estratégia de suprimento das empresas que priorizam insumos mais elaborados e competitivos do exterior Gomes et al 2014 Pinto 2014 O princípio ativo é o composto responsável pela ação ou efeito farmacológico do medicamento sendo o resultado principal da pesquisa científica e tecnológica das empesas farmacêuticas A indústria farmacêutica é estratégica para a segurança nacional em termos de saúde pública e ela ficará mais relevante à medida que a população 11 Nesse setor o México país que possui uma indústria maquiladora relevante importou 814 dos insumos e componentes comercializáveis conforme cálculos próprios a partir das matrizes de insumoproduto da WIOD 12 A indústria brasileira de informática eletrônicos e ópticos difere da maquila mexicana ao exportar pouco Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 853 envelhece logo tende a ser mais importante ainda no futuro Assim a manutenção do grau de desadensamento elevado incorrerá em aumento persistente das importações Outros equipamentos de transporte é o terceiro setor mais desarticulado Ele reúne a produção de aeronaves embarcações navais motocicletas e equipamentos ferroviários os quais são essencialmente bens finais BK e BCD As sete classes exibidas no Gráfico 1 representaram 963 do VBPI do setor A classe aeronaves importou 928 de todos os insumos e componentes comercializáveis sendo a segunda classe mais oca da indústria brasileira O Brasil possui uma empresa relevante a Embraer no segmento de aviação regional Como são importados os componentes principais praticamente toda a cadeia de fornecedores dos aviões encontrase no exterior Assim do ponto de vista do adensamento produtivo a classe aeronaves é uma maquila típica que importa insumos e componentes e exporta o bem final Mas cabe uma ressalva Geralmente o que caracteriza as maquilas além do baixo grau de adensamento produtivo é a utilização de mão de obra de baixa qualificação e remuneração Nesse aspecto a Embraer não pode ser considerada uma maquila porque emprega mão de obra de elevada remuneração já que a montagem de aeronaves envolve protocolos de segurança que exigem profissionais com altíssima qualificação Ademais ela lidera a sua cadeia produtiva ao desenhar os aviões gerencia a cadeia de suprimento e comercializa suas aeronaves tarefas que lhe possibilita capturar uma fatia do valor agregado maior do que seria no caso de uma maquila típica Entretanto ao importar os componentes principais vaza para o exterior grande parte do desenvolvimento científico e tecnológico possível de ser desenvolvido pelos fornecedores dessa classe industrial Com o renascimento da indústria naval desde início dos anos 2000 a classe construção de embarcações e estruturas flutuantes é a segunda mais expressiva em VBPI Ela importou 459 dos insumos e componentes comercializáveis provavelmente aqueles mais tecnológicos das plataformas marítimas de petróleo e sondas de perfuração submarina Esses produtos passaram a ser parcialmente fabricados no país devido ao requerimento de conteúdo local exigido nos investimentos no Brasil pelas operadoras petrolíferas No entanto a legislação petrolífera13 permite que se importe parcela relevante dos componentes principais das embarcações A fabricação de motocicletas utiliza proporção razoável de insumos e componentes comercializáveis importados Por se tratar de um produto que o Brasil possui domínio tecnológico e grande mercado consumidor essa situação é preocupante devido à perda de competitividade no preço dos insumos e componentes O setor de químicos é o quarto mais fragilizado pelas importações e possui 11 das 65 classes industriais representadas no Gráfico 1 que corresponderam a 627 da produção industrial do setor Ele produz majoritariamente insumos intermediários para serem consumidos pelos demais setores especialmente a própria indústria de transformação agricultura construção civil e saneamento básico As classes adubos e fertilizantes defensivos agrícolas e intermediários para fertilizantes importaram respectivamente 696 608 e 545 do total dos insumos e componentes comercializáveis e juntas representam cerca de um terço da produção química O país tem uma dependência externa elevada de fertilizantes químicos já que importa cerca de 60 dos fertilizantes que 13 Desde 2005 um conteúdo local mínimo CLM é exigido nos contratos entre operadoras petrolíferas e a Agência Nacional de Petróleo ANP A empresa vencedora da licitação tem que cumprir um CLM para vários equipamentos utilizados nas etapas de exploração e desenvolvimento do bloco de petróleo ANP 2013 p 165 Em geral o CLM é baixo para componentes tecnológicos que mesmo sendo importados atingem o CLM com operações locais de montagem usinagem e pintura Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 854 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 consome Costa Silva 2012 Entre os três principais fertilizantes demandados o Brasil importou 90 76 e 41 respectivamente dos fertilizantes potássicos nitrogenados e fosfatados consumidos em 2010 Costa Silva 2012 p 3741 No caso dos potássicos existem grandes reservas na Amazônia que não são economicamente viáveis e oferecem grandes riscos ambientais em relação aos nitrogenados o preço do gás natural principal matériaprima é superior ao praticado no mercado internacional e quanto aos fosfatados o país não possui produção satisfatória de enxofre matériaprima básica do ácido sulfúrico utilizado para obter o ácido fosfórico que é um intermediário dos fertilizantes fosfatados Costa Silva 2012 Dessa maneira uma parcela dessas importações é pouco competitiva Como o uso de fertilizantes químicos foi vital à elevação da produtividade agrícola brasileira desde 1990 Costa Silva 2012 p 31 e a agricultura doméstica tem contribuído bastante para fechar o balanço de pagamentos melhorar a oferta doméstica de fertilizantes garantirá um futuro sustentável à produção agrícola e contribuirá para evitar restrições de divisas estrangeiras Notase que os quatro setores com baixo grau de adensamento produtivo são extremamente relevantes para o desenvolvimento tecnológico mundial GalindoRueda Verger 2016 p 10 O setor de informática eletrônicos e ópticos e a indústria farmacêutica foram responsáveis respectivamente por 240 e 221 dos gastos em PD das 1000 maiores empresas que mais investiram em PD em 2016 Jaruzelski Staack Shinozaki 2016 sendo os dois principais setores que mais investem em ciência e tecnologia com finalidade comercial no planeta Nos Estados Unidos em 2014 o primeiro setor realizou 217 de todos os gastos empresariais em PD a indústria farmacêutica 166 o setor de outros equipamentos de transportes 83 e a indústria química 28 logo esses quatro setores foram responsáveis por metade dos gastos empresariais em PD estadunidense e por três quartos da PD investida pela indústria de transformação conforme cálculos do autor a partir da OECDANBERD Database 2017 Desse modo o ritmo do desenvolvimento tecnológico mundial depende bastante dos investimentos em PD desses quatro setores Assim da perspectiva tecnológica o baixo grau do adensamento produtivo tem consequências ruins para o sistema nacional de inovação A principal delas é o baixo gasto em PD realizado pelas empresas brasileiras comparativamente às dos países líderes Em 2014 o esforço tecnológico PD dividido pela receita líquida de vendas ou pelo valor da produção brasileiro foi apenas uma fração pequena do realizado pelos Estados Unidos nos quatro setores acima mencionados14 A industrialização brasileira ocorreu com forte presença das filiais de empesas transnacionais ETNs sobretudo nos setores mais tecnológicos que operam com alto índice de importação de insumos e componentes tecnológicos Cassiolato Szapiro Lastres 2015 Os dados exibidos pelos autores confirmam que as filiais de ETNs têm tido fraco desenvolvimento tecnológico no Brasil Cassiolato Fontaine 2015 comparativamente ao realizado pelas matrizes nos paísessede Tessarin 2018 Da mesma forma também têm consequências ruins para o emprego de mão de obra qualificada e bem remunerada seja nos laboratórios empresariais de pesquisas científicas e tecnológicas seja no próprio chão de fábrica ao exigir dos trabalhadores tarefas mais simples e de menor habilidade cognitiva 14 Em 2014 o esforço tecnológico brasileiro no setor de informática eletrônicos e ópticos foi de apenas 88 do realizado pelos Estados Unidos na farmacêutica de apenas 92 nos outros equipamentos de transportes de apenas 268 e na indústria química de 451 conforme cálculos do autor a partir de várias fontes PINTEC 2016 OECDANBERD Database 2017 OECDSTAN Database 2018 Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 855 Outra implicação negativa direta do menor grau de adensamento produtivo referese às ligações intersetoriais Os multiplicadores de produção15 dos quatro setores foram inferiores à média de 213 registrada pela indústria de transformação brasileira sendo que os setores de informática eletrônicos e ópticos e farmacêutico possuem os menores multiplicadores da manufatura respectivamente de 168 e 169 IBGE 2016a Isso significa que o tecido industrial está esburacado pelas importações de insumos e componentes especialmente no setor de informática eletrônicos e ópticos que possui cadeia produtiva bem longa Os setores de máquinas e equipamentos máquinas aparelhos e materiais elétricos e automobilístico foram os mais adensados da indústria de ATMAT As classes muito fragilizadas pelas importações de insumos e componentes são poucas No geral esses setores possuem cadeias produtivas longas pois os principais produtos são bens finais compostos de muitas partes peças e componentes No entanto em sessenta por cento das classes de máquinas e equipamentos e máquinas aparelhos e materiais elétricos as importações representaram 50 ou percentual superior da produção doméstica conforme mencionado antes o país perdeu competitividade em parte dos produtos acabados que antes tinham domínio tecnológico e preço competitivo logo a estratégia de substituir insumos e componentes domésticos por importados tem limite Com exceção do refino de petróleo os setores de BTMBT possuem poucas classes desadensadas pelas importações de insumos e componentes as quais têm um peso relativamente pequeno no valor da produção setorial A classe produtos do refino de petróleo importou 621 dos insumos e componentes comercializáveis sendo o maior percentual das classes de BTMBT Vale mencionar novamente que nesta classe parcela relevante dos insumos utilizados no processo industrial produzidos pela Petrobrás para consumo próprio não entra no CIICC exibido no Gráfico 1 pois os dados desta pesquisa captam apenas as compras de insumos e componentes comercializáveis pelas classes industriais e não levam em consideração o consumo intermediário para consumo próprio16 Essa classe representou 878 da produção industrial brasileira sendo a maior de todas Ela fabrica produtos como gasolina querosene de aviação óleo diesel e diversos insumos para a indústria química como a nafta daí sua importância na estrutura produtiva manufatureira O Brasil importa petróleo mais leve que o produzido domesticamente para refinar pois não possui capacidade de produção do óleo leve na quantidade requerida por escassez desse recurso no território doméstico Nesse caso tratase de importações não competitivas que vêm complementar a insuficiente produção doméstica de óleo de excelente qualidade O país também importa alguns insumos derivados do petróleo em volume expressivo Nas indústrias de BTMBT existem casos de importações não competitivas com as quais o país convive há várias décadas como nas classes moagem de trigo e fabricação de derivados metalurgia dos metais preciosos metalurgia do cobre impressão de material de segurança pneumáticos e câmaras de ar e cimento Alguns insumos e componentes relevantes dessas classes não têm capacidade de produção doméstica na quantidade e qualidade demandadas principalmente devido à 15 O multiplicador da produção mede o quanto se gera de produção doméstica adicional a partir do aumento de uma unidade monetária na demanda final 16 Dados da ANP informam que do total do petróleo refinado no Brasil cerca de ¾ foram produzidos domesticamente no biênio 20132014 Vale salientar que o CIICC também leva em consideração outros insumos além do petróleo Apesar isso o CIICC seria certamente menor se fosse levado em conta o petróleo produzido pela Petrobras para consumo próprio Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 856 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 escassez de recursos naturais matériasprimas e ao clima pouco favorável à produção desses itens no Brasil Desse modo são poucas as classes de BTMBT desarticuladas por importações competitivas Em resumo as empresas brasileiras de várias classes industriais sobretudo de elevada intensidade tecnológica importaram um percentual elevado de insumos intermediários comercializáveis Dessa maneira as cadeias produtivas que produzem os produtos mais elaborados encontramse esgarçadas e com encadeamentos intersetoriais fracos Ademais as importações não competitivas foram as principais responsáveis pelos poucos segmentos mais desarticulados de BTMBT No entanto as importações são indispensáveis à produção de qualquer país e é difícil saber se o país produziria com a mesma eficiência se importasse menos 7 Considerações finais Atualmente os processos produtivos são mais fragmentados que no passado desse modo o desenvolvimento tecnológico incorporado nos insumos e componentes e os encadeamentos intersetoriais são maiores Quando o coeficiente importado de insumos e componentes comercializáveis CIICC aumenta sem contrapartida da produção podese fragilizar elos produtivos reduzir os encadeamentos intersetoriais e limitar o desenvolvimento tecnológico que é cada vez mais conduzido pelos fornecedores dos componentes principais Isso pode agravar a desindustrialização ao reduzir a transformação das operações industriais e aumentar as etapas de montagem com uso de mão de obra pouco qualificada e de baixos salários provocando desse modo menor geração de valor adicionado A literatura tem chamado atenção para as causas e impactos da diminuição de densidade do tecido industrial brasileiro desde a década de 1990 Coutinho 1997 Feijó Carvalho Almeida 2005 Comin 2009 Cano 2012 Morceiro 2012 Marconi Rocha 2012a 2012b Cassiolato Fontaine 2015 Sarti Hiratuka 2018 Este estudo contribui com essa literatura ao realizar uma avaliação empírica inédita do adensamento produtivo para 258 classes da indústria de transformação brasileira assim adota uma desagregação setorial no mínimo sete vezes maior que os estudos precedentes A partir de informações oficiais inéditas obtidas do IBGE o adensamento produtivo foi mensurado pelo CIICC para captar os insumos intermediários que efetivamente sofrem competição com o exterior Assim quanto maior o CIICC menor serão as ligações intersetoriais e o desenvolvimento tecnológico domésticos por unidade de produção industrial As principais considerações a partir das evidências empíricas encontramse a seguir Primeiro a manufatura brasileira apresentou uma diminuição significativa do adensamento produtivo na década do século XXI de maior crescimento industrial após os anos setenta No entanto o retrocesso no adensamento não provocou desindustrialização absoluta das classes industriais pois estas não apresentaram diminuição do emprego ligado as operações industriais Certamente o crescimento industrial do século XXI ocorreu com menor transformação industrial e maior uso de mão de obra pouco qualificada ligada as operações de montagem de insumos e componentes importados fato que corrobora para a diminuição da parcela manufatureira no PIB conforme apontaram Marconi e Rocha 2012a 2012b e Sarti e Hiratuka 2018 Segundo a indústria de transformação brasileira ainda possui grau de adensamento produtivo alto sobretudo porque os setores manufatureiros de baixa e médiabaixa tecnologia BTMBT são muito adensados e possuem um peso grande na estrutura industrial do país BTMBT correspondem a dois terços da produção manufatureira e o país possui competitividade nas indústrias intensivas em Adensamento produtivo e esgarçamento do tecido industrial brasileiro Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 857 insumos agropecuários minerais e energéticos No entanto a categoria de alta e médiaalta tecnologia ATMAT possui adensamento relativamente baixo e inferior à média dos 15 países detentores dos maiores parques industriais do mundo Terceiro a maioria das classes industriais apresentaram adensamento produtivo elevado mas não é uma característica de toda a indústria de transformação conforme afirmaram Pinheiro 2014 e Canuto Fleischhaker e Schellekens 2015 Não se pode generalizar tais afirmações uma vez que parcela substantiva das classes industriais de ATMAT possui baixo adensamento produtivo Quarto as classes industriais dos setores eletrônicos informática e ópticos farmacêutica e outros equipamentos de transportes estão muito esgarçadas pelas importações Do ponto de vista do grau de transformação industrial partes expressivas do tecido industrial desses setores encontramse em processo de desindustrialização avançado e assemelhamse a uma indústria de aparafusamento ou maquiladora O setor químico possui grau de adensamento produtivo intermediário ao passar por esgarçamento produtivo significativo em poucas classes expressivas em produção industrial Esses quatro setores são responsáveis por cerca de metade dos gastos empresariais em pesquisa e desenvolvimento PD do planeta Dessa forma o esgarçamento diagnosticado restringe bastante o desenvolvimento tecnológico do país Quinto os demais setores de ATMAT automobilístico máquinas e equipamentos e máquinas e aparelhos elétricos possuem grau de adensamento elevado e poucas classes encontramse fragilizadas pelas importações de insumos intermediários porém há indícios de aumento significativo de importações de produtos acabados finais ou intermediários Sexto no caso das poucas classes de BTMBT com maior CIICC predominaram importações não competitivas de insumos e componentes porque o país não possui capacidade de produção na quantidade e qualidade demandadas principalmente devido à técnica produtiva escassez de alguns recursos minerais como metais preciosos tipo de clima pouco favorável à produção de trigo entre outros Portanto o desadensamento produtivo foi mais forte nos segmentos de ATMAT que possuem maior qualidade em termos tecnológicos maiores ligações entre os setores manufatureiros alta remuneração por trabalhador além de alta elasticidaderenda da demanda e grande dinamismo no comércio internacional Vale mencionar que este estudo foi o primeiro que mensurou com exatidão e em maior nível de detalhamento setorial quais partes do tecido industrial são maquilas e quais estão em vias de serem maquilas assunto que frequentemente é preocupação dos autores brasileiros como de Marconi e Rocha 2012a e Sarti e Hiratuka 2018 Embora a proposição de políticas não esteja no escopo deste estudo os resultados documentados dão suporte ao uso de políticas industriais focalizadas Assim as políticas futuras poderiam por exemplo focalizar os incentivos nas classes industriais esgarçadas das quais que o Brasil tem e provavelmente continuará tendo demanda elevada como as que fornecem insumos químicos destinados à agricultura e as produtoras dos insumos farmacêuticos Ademais nas negociações comerciais as classes industriais em que as importações de insumos intermediários já são elevadas deveriam receber tratamento diferenciado levando em conta não transformar segmentos produtivos inteiros numa maquila que não exporta como observado no setor de informática e eletrônicos Essas recomendações procuram Paulo César Morceiro Joaquim José Martins Guilhoto 858 Economia e Sociedade Campinas v 29 n 3 70 p 835860 setembrodezembro 2020 distinguir as classes industriais a fim de alcançar maior efetividade e não apenas concentrarse em políticas macroeconômicas como defendem os novosdesenvolvimentistas BresserPereira Oreiro Marconi 2015 e aqueles que propõem uma abertura comercial universal Quanto à agenda de pesquisa foi verificado na seção 4 que o CIICC evoluiu num ritmo muito superior que o percentual de empresas que compram insumos e componentes do exterior Além disso uma baixa proporção de empresas importou insumos intermediários em vários setores manufatureiros Nesse sentido surgem algumas questões essas empresas que adquiriram insumos apenas no mercado doméstico acessaram produtos no mesmo patamar da fronteira tecnológica Ou não precisaram contar com fornecedores estrangeiros porque atuam apenas no mercado doméstico protegido das importações Pode ser que há empresas maiores especializadas na importação de insumos intermediários que se utilizaram desse expediente por pressão competitiva devido à falta de competitividade dos fornecedores brasileiros ou à apreciação cambial De qualquer forma por algum motivo oitenta por cento das empresas não precisaram importar insumos intermediários para competir nos mercados doméstico e estrangeiro Esses questionamentos são temas para a evolução deste trabalho Referências bibliográficas ANP Edital de licitações para a outorga dos contratos de concessão para atividades de exploração e produção de petróleo e gás natural décima primeira rodada de licitações Rio de Janeiro ANP 2013 BIELSCHOWSKY R Investimentos na indústria brasileira depois da abertura e do Real o miniciclo de modernizações 19951997 Brasília CEPAL 1999 Série Reformas Económicas n 44 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