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JeanPierre Vernant As Origens do Pensamento Greco Difel 1 CREATED BY S7EEBOOKS As origens do pensamento grego ISBN 9788574320267 Autor JeanPierre Vernant Tradução Ísis da Fonseca Editora Bertrand Brasil Ano 2002 2 Sumário AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Introdução 1 O quadro histórico 2 A realiza micênica 3 A crise da soberania 4 O universo espiritual da polis 5 A crise da cidade Os primeiros sábios 6 A organização do cosmos humano 7 Cosmogonias e mitos de soberania 8 A nova imagem do mundo 3 INTRODUÇÃO Com a decifração do linear B micênico a data dos primeiros textos gregos de que dispomos recuou meio milênio Este aprofundamento da perspectiva cronológica modifica todo o quadro em que se coloca o problema das origens do pensamento helênico O mais antigo mundo grego tal como nolo evocam as plaquetas micênicas aparentase em muitos de seus traços aos reinos do Oriente Próximo que lhe são contemporâneos Um mesmo tipo de organização social um gênero de vida análogo uma humanidade vizinha se revela nos escritos em linear B de Cnossos Pilos ou Micenas e nos antigos documentos em cuneiforme encontrados em Ugarit em Alalakh em Mari ou na Hattusa hitita Em compensação quando se aborda a leitura de Homero o quadro muda é uma outra sociedade um mundo humano já diferente que se descobrem na Ilíada como se desde a idade homérica os gregos não pudessem compreender exatamente o aspecto da civilização micênica à qual se ligavam e que por meio dos aedos criam fazer ressurgir do passado Este corte na história do homem grego devemos tentar compreendêlo situálo exatamente A religião e a mitologia da Grécia clássica arraigamse muito diretamente como M P Nilsson em particular o mostrou no passado micênico1 Mas em outros domínios a ruptura aparece profunda Quando no século XII antes de nossa era o poder micênico desaba sob o ímpeto das tribos dóricas que irrompem na Grécia continental não é uma simples dinastia a sucumbir no incêndio que assola alternadamente Pilos e Micenas é um tipo de realeza que se encontra para sempre destruída toda uma forma de vida social centralizada em torno do palácio que é definitivamente abolida um personagem o Rei divino que desaparece do horizonte grego A derrocada do sistema micênico ultrapassa largamente em suas consequências o domínio da história política e social Ela repercute no próprio homem grego modifica seu universo espiritual transforma algumas de suas 1 Martin P Nilsson The Minoannzycenaean religion and its survival in Greek religion 2a ed Lund 1950 cf também Charles Picard Les religions préhelléniques Paris 1948 e La formation du polythéisme hellénique et les récents problêmes relatifs au linéaire B in Eléments orientaux dans Ia religion grecque ancienne Paris 1960 pp 163177 G Pugliese Carratelli Riflessi di culti micenei nelle tabelle di Cnosso a Pilo in Stucli in onore de U E Paoli Florença 1955 pp 116 L A Stella La religione greca nei testi micenei in Numen 5 1958 pp 1857 4 atitudes psicológicas O desaparecimento do Rei pôde desde então preparar ao termo do longo do sombrio período de isolamento e de reconsideração dos fatos que se chama a Idade Média grega uma dupla e solidária inovação a instituição da Cidade o nascimento de um pensamento racional De fato quando pelos fins da época geométrica 900750 os gregos prosseguem na Europa e na Jônia as relações interrompidas durante vários séculos com o Oriente quando redescobrem com as civilizações que se mantiveram no local alguns aspectos de seu próprio passado na Idade do bronze não tomam como o tinham feito os micênios o rumo da imitação e da assimilação Em plena renovação orientalizante o Helenismo afirmase como tal em face da Ásia como se pelo contato reatado com o Oriente tomasse melhor consciência de si próprio A Grécia se reconhece numa certa forma de vida social num tipo de reflexão que definem a seus próprios olhos sua originalidade sua superioridade sobre o mundo bárbaro no lugar do Rei cuja onipotência se exerce sem controle sem limite no recesso de seu palácio a vida política grega pretende ser o objeto de um debate público Em plena luz do sol na Ágora da parte de cidadãos definidos como iguais e de quem o Estado é a questão comum no lugar das antigas cosmogonias associadas a rituais reais e a mitos de soberania um pensamento novo procura estabelecer a ordem do mundo em relações de simetria de equilíbrio de igualdade entre os diversos elementos que compõem o cosmos Se queremos proceder ao registro de nascimento dessa Razão grega seguir a via por onde ela pôde livrarse de uma mentalidade religiosa indicar o que ela deve ao mito e como o ultrapassou devemos comparar confrontar com o background micênico essa viragem do século VIII ao século VII em que a Grécia toma um novo rumo e explora as vias que lhe são próprias época de mutação decisiva que no momento mesmo em que triunfa o estilo orientalizante lança os fundamentos do regime da Pólis e assegura por essa laicização do pensamento político o advento da filosofia 5 CAPÍTULO I O QUADRO HISTÓRICO No começo do II milênio o Mediterrâneo não marca ainda em suas duas margens uma separação entre Oriente e Ocidente O mundo egeu e a península grega se ligam sem descontinuidade como povoação e como cultura de um lado com o planalto anatólio pela série das Cíclades e das Espórades e do outro por Rodes pela Cilícia por Chipre e costa norte da Síria com a Mesopotâmia e o Irã Quando Creta sai do Cicládico em cujo decurso dominam as relações com a Anatólia e quando constrói em Festos Mália e Cnossos sua primeira civilização palaciana 20001700 permanece orientada para os grandes reinos do Oriente Próximo Entre os palácios cretenses e aqueles que escavações recentes trouxeram a lume em Alalakht na grande curva do Oronte e em Mari na estrada de caravanas que liga a Mesopotâmia ao mar as semelhanças pareceram tão surpreendentes que se pôde ver aí a obra de uma mesma escola de arquitetos de pintores de afresquistas2 Pela costa síria os cretenses entravam igualmente em contato com o Egito do Novo Império cuja influência por não ser sobre eles tão decisiva como se podia supôlo na época de Evans é entretanto bem atestada Entre 2000 e 1900 aC uma população nova irrompe na Grécia continental Suas casas suas sepulturas seus machados de guerra suas armas de bronze seus utensílios sua cerâmica aquela cerâmica cinzenta miniana tão característica são tantos traços que marcam a ruptura com os homens e a civilização da idade anterior o Heládico antigo Os invasores os mínios formam a vanguarda das tribos que por vagas sucessivas virão fixarse na Hélade instalarseão nas ilhas colonizarão o litoral da Ásia Menor marcharão para o Mediterrâneo ocidental e para o Mar Negro para constituir o mundo grego tal como o conhecemos na idade histórica Quer tenham descido dos Bálcãs quer tenham vindo das planícies da Rússia do Sul esses antepassados do homem grego pertencem a povos indoeuropeus que já diferençados pela 2 Cf Leonard Wooley A forgotten Kingdom Londres 1953 e André Parrot Mission archéologique de Mari II Paris 1958 6 língua falam um dialeto grego arcaico Seu aparecimento nas margens do Mediterrâneo não constitui um fenômeno isolado uma invasão paralela manifestase quase na mesma época do outro lado do mar com a chegada dos hititas indoeuropeus na Ásia Menor e sua expansão pelo planalto anatólio No litoral na Tróade a continuidade cultural e étnica que se mantivera por quase um milênio da Tróia I à Tróia V começo da Tróia I entre 3000 e 2600 é repentinamente interrompida O povo que edifica a Tróia VI 1900 cidade principesca mais rica e poderosa que nunca é parente próximo dos mínios da Grécia Fabrica a mesma cerâmica cinzenta modelada no torno e cozida em fornos fechados que se espalha na Grécia continental nas ilhas Jônias na Tessália e Calcídica Um outro traço da civilização sublinha as afinidades dos dois povos nas duas margens do Mediterrâneo E com os homens da Tróia VI que o cavalo surge na Tróade Rica em cavalos tal é ainda no estilo formular que Homero tira de uma tradição oral muito antiga o epíteto que lembra a opulência do país dardânio A fama dos cavalos de Tróia assim como a de seus tecidos não foi sem dúvida estranha ao interesse que os aqueus tinham por essa região antes mesmo da expedição guerreira que destruindo a cidade de Príamo Tróia VII serviu de ponto de partida para a lenda épica Como os mínios da Tróade os da Grécia conheciam o cavalo deviam ter praticado sua domesticação nas estepes em que antes de sua vinda à Grécia tinham permanecido A préhistória do deus Posidão mostra que antes de reinar no mar um Posidão equino Hippos ou Hippios associava no espírito dos primeiros helenos como entre outros povos indoeuropeus o tema do cavalo a todo um complexo mítico cavalo elemento úmido cavalo águas subterrâneas mundo infernal fecundidade cavalo vento trovoada nuvem tempestade3 0 lugar a importância o prestígio do cavalo numa sociedade dependem numa larga medida de sua utilização para fins militares Os primeiros documentos gregos que nos esclarecem a esse respeito datam do século XVI em estelas funerárias descobertas no círculo dos túmulos em fossas de Micenas 15801500 em cenas de batalha ou de caça figuram um guerreiro de pé em seu carro puxado por cavalos a galope 3 Cf F Schachermeyr Poseidon und die Entstehung des Griechischen Gôtterglaubens Berna 1948 7 Nessa época os mínios estreitamente misturados à população local de origem asiática estão há muito tempo estabelecidos na Grécia continental onde a vida urbana surgiu ao pé de fortalezas residências de chefes Eles entraram em contato com a Creta minóica em pleno desenvolvimento após a renovação que veio depois da reconstrução dos palácios destruídos uma primeira vez por 1700 Creta lhes revelou um modo de vida e de pensamento inteiramente novo para eles Já se esboçou esta cretizaçào progressiva do mundo micênico que resultará após 1450 numa civilização palaciana comum na ilha e na Grécia continental Mas o carro de guerra carro leve puxado por dois cavalos não poderia ser uma contribuição cretense Na ilha o cavalo não aparece antes do Minóico recente I 15801450 Se houve empréstimo os minóicos seriam de preferência os devedores neste domínio Em compensação o uso do carro revela ainda as analogias entre o mundo micênico ou aqueu a constituirse e o reino dos hititas que adota pelo século XVI essa tática de combate tomandoa de seus vizinhos de este os hurritas de Mitanni população não indoeuropéia mas que reconhece a suserania de uma dinastia indoiraniana Aos povos familiarizados com a criação do cavalo o uso do carro deve ter apresentado novos problemas de seleção e de adestramento Encontrase uma repercussão disso no tratado de hipologia redigido por um certo Kikkuli do país de Mitanni e que foi traduzido em hitita Nas relações que se estabeleceram no começo do século XVI entre os hititas e os que eles chamam os achaiwoi os aqueus ou micênios as preocupações de ordem eqüestre desempenharão seu papel Os antigos documentos reais de Hattusa entre outras menções da Ahhiyawa a Acaia citam a permanência de príncipes aqueus entre os quais Tawagalawas Eteokles vindos à corte para aí se aperfeiçoar na condução do carro Devese aproximar do nome do rei hitita Mursilis o do escudeiro de Enomau Murtilo cujo papel se conhece na lenda de Pélope antepassado da dinastia dos Átridas reis de Micenas Enomau reina em Pisa na Élida Tem uma filha Hipodâmia Quem quer esposála deve ganhála de seu pai vencendoo na corrida de carros O fracasso significará a morte Muitos pretendentes se apresentaram Todos foram vencidos pelo rei cujos 8 cavalos são indómitos e suas cabeças decoram os muros do palácio Com o auxílio de Hipodâmia Pélope compra a cumplicidade do escudeiro do rei Murtilo em plena corrida o carro de Enomau quebra partindo o eixo por sabotagem Pélope triunfa assim na prova do carro que lhe traz na mesma vitória a filha domadora de cavalos e a soberania real Quanto a Murtilo escudeiro muito hábil e muito empreendedor Pélope livrarseá dele no devido momento Os deuses irão convertêlo na constelação do Auriga do céu noturno Essa narrativa de habilitação à realeza coloca a prova do carro sob o patrocínio de Posidão o velho deus cavalo que aparece nessa época da civilização micênica não mais em seu aspecto pastoral mas como um mestre do carro guerreiro e aristocrático É com efeito o altar de Posidão em Corinto um Posidão Hippios e Damaios que escolhido para marcar o termo do percurso consagra o vencedor na sua chegada Por outro lado Pélope é estreitamente associado em sua lenda a Posidão Quando o jovem renasce após a prova de iniciação que o faz morrer despedaçado no caldeirão do pai é logo raptado por Posidão O deus faz dele seu pajem conforme uma prática cujo arcaísmo se manteve nas sociedades guerreiras de Creta e que Estrabão nos faz conhecer segundo Éforo4 o rapto obedece a um protocolo rigoroso com presentes oferecidos pelo raptor de cuja vida o adolescente vai partilhar durante um retiro de dois meses Na sua libertação o rapaz recebe uma porção de presentes regulamentares sua farda de guerra um boi uma taça A Pélope oferece Posidão também o presente que simboliza os poderes adquiridos pelo jovem na convivência com o deus um carro Exigindo uma aprendizagem difícil a técnica do carro deve ter reforçado a especialização da atividade guerreira traço característico da organização social e da mentalidade dos povos indoeuropeus Por outro lado a necessidade de dispor de uma reserva numerosa de carros para concentrálos no 4 Estrabão X 483c cf Louis Gernet Droit et prédroit en Grêce ancienne LAnnée Sociologique 1951 pp 389 e ss 9 campo de batalha supõe um Estado centralizado suficientemente extenso e poderoso em que os homens dos carros quaisquer que sejam seus privilégios são submetidos a uma autoridade única Tal deve ter sido com efeito a força militar do reino micênico que desde 1450 sabemolo desde a decifração do linear B pôde dominar Creta estabelecerse soberanamente no palácio de Cnossos e ocupálo até sua destruição final no incêndio de 1400 ateado talvez por uma revolta indígena A expansão micênica que prossegue do século XIV ao XII leva os aqueus a tomarem no Mediterrâneo oriental o lugar dos cretenses que eles substituem mais ou menos por toda parte e com certos desníveis no tempo conforme as regiões Desde a aurora do séc XIV Rodes é por eles colonizada Talvez seja nessa ilha ao abrigo dos ataques do continente que se deve situar o reino de Ahhiyawa cujo monarca é tratado pelo rei hitita com a consideração devida a um igual De Rodes o rei da Acaia podia controlar os poucos pontos da costa anatólica em que seus homens se tinham fixado e fundado colónias A presença dos aqueus é atestada em Mileto a Milawunda ou Milawata hitita em Colofão em Claros mais ao norte em Lesbos na Tróade sobretudo com a qual as relações foram estreitas enfim sobre a costa meridional na Cilícia e Panfília É no começo do século XIV igualmente que os micênios se instalam à força em Chipre e constroem em Enkomi uma fortaleza semelhante às da Argólida de lá vão dar na costa da Síria caminho de passagem para a Mesopotâmia e para o Egito Em Ugarit que faz comércio de cobre com Chipre uma colônia cretense tinha no século XV determinado a cultura e até a arquitetura da cidade Cede o lugar no século seguinte a uma povoação micênica assaz numerosa para ocupar um bairro da cidade Na mesma época Alalakh sobre o Oronte porta do Eufrates e da Mesopotâmia tornase um centro aqueu importante Mais ao sul aqueus penetram até a Fenícia Biblos e Palestina Em toda essa região elaborase uma civilização comum cipro micênica em que os elementos minóicos micênicos e asiáticos estão intimamente fundidos e que dispõe de uma escrita derivada como o silabário micênico do linear A O Egito que tinha mantido especialmente no curso do século XV um comércio contínuo com os cretenses abrese aos micênios e os 10 acolhe livremente entre 1400 e 1340 Lá ainda os keftiou os cretenses são pouco a pouco eliminados em benefício de seus concorrentes Creta deixa de desempenhar como o fazia no período anterior um papel de intermediário entre o Egito e o continente grego Talvez uma colónia micênica exista em El Amarna quando Amenhotep IV conhecido com o nome de Akhenaton fixase ali entre 1380 e 1350 abandonando a antiga capital de Tebas Assim em todas as regiões em que os conduziu seu espírito de aventura os micênios aparecem estreitamente associados às grandes civilizações do Mediterrâneo oriental integrados neste mundo do PróximoOriente que apesar de sua diversidade constitui um conjunto pela amplitude de seus contatos intercâmbios e comunicações BIBLIOGRAFIA V Gordon Childe The dawn of European civilization 60 ed Londres 1957 H L Lorimer homer and the monuments Londres 1950 A Severyns Grêce et ProcheOrient avant Homère Bruxelas 1960 Sterling Dow The Greeks in the bronze age in Rapports du XI Congrès international des sciences historiques 2 Antiquité Upsala 1960 pp 134 Denys L Page History and Homeric Iliad Berkeley and Los Angeles 1959 The Aegean and the Near East Studies presented to Hetty Goldman Nova York 1956 11 CAPÍTULO II A REALEZA MICÊNICA A decifração das plaquetas em linear B resolveu certas questões propostas pela arqueologia e levantou novas Aos problemas ordinários de interpretação acrescentamse dificuldades de leitura pois o linear B derivado de uma escrita silábica que não foi feita para notar o grego exprime muito imperfeitamente os sons do dialeto falado pelos micênios Por outro lado o número de nossos documentos é ainda reduzido não se descobriram verdadeiros documentos antigos mas sim alguns inventários anuais redigidos em tijolos crus que teriam sem dúvida sido apagados para servir de novo se o incêndio dos palácios não os tivesse conservado pelo cozimento Um único exemplo bastará para mostrar as lacunas de nossa infomaçâo e as precauções necessárias A palavra tereta que vem frequentemente nos textos não recebeu menos de quatro interpretações sacerdote homem do serviço feudal barão homem do damos sujeito a prestações servidor Não se poderia pois pretender estabelecer o quadro da organização social micênica Todavia as interpretações mesmo as mais opostas concordam em alguns pontos que desejaríamos destacar e que podem ser considerados no estado atual de nossas fontes como suficientemente estabelecidos A vida social aparece centralizada em torno do palácio administrativo e económico Neste sistema de economia que se denominou palaciana o rei concentra e unifica em sua pessoa todos os elementos do poder todos os aspectos da soberania Por intermédio de escribas que formam uma classe profissional fixada na tradição graças a uma hierarquia complexa de dignitários do palácio e de inspetores reais ele controla e regulamenta minuciosamente todos os setores da vida económica todos os domínios da atividade social Os escribas contabilizam em seus arquivos o que concerne ao gado e à agricultura à tenência das terras avaliadas em medidas de cereais ou taxas de censo ou rações de sementes aos diversos ofícios especializados com os subsídios a fornecer em matériasprimas e as 12 encomendas de produtos elaborados à mãodeobra disponível ou ocupada os escravos homens mulheres e crianças quer os dos particulares quer os do rei às contribuições de toda sorte impostas pelo Palácio aos indivíduos e às coletividades os bens já entregues e os ainda por receber às levas de homens a serem fornecidas por certas aldeias para equipar os navios reais de remadores à composição ao comando ao movimento das unidades militares aos sacrifícios aos deuses às taxas previstas pelas oferendas etc Não se compreende que haja lugar numa economia desse gênero para um comércio privado Se existem termos que significam comprar ou vender não se encontra testemunho de uma forma de pagamento em ouro ou em prata nem de uma equivalência estabelecida entre mercadorias e metais preciosos Parece que a administração real regulamentava a distribuição e o intercâmbio assim como a produção dos bens Por intermédio do palácio que comanda no centro da rede o duplo circuito das prestações e das gratificações circulam e são trocados entre si os produtos os trabalhos os serviços igualmente codificados e contabilizados ligando ao mesmo tempo os diversos elementos do país Realeza burocrática talvez se possa dizer O termo que tem ressonâncias excessivamente modernas sublinha um dos aspectos do sistema pois sua lógica o conduz a um controle cada vez mais rigoroso cada vez mais amplo chegando a notar pormenores que nos parecem insignificantes Ele impõe a comparação com os grandes Estados fluviais do Oriente Próximo cuja organização parece responder pelo menos em parte à necessidade de coordenar numa vasta escala os trabalhos de secagem irrigação e conservação dos canais indispensáveis à vida agrícola Os reinos micênicos tiveram que resolver problemas análogos A secagem do lago Copaís foi efetivamente empreendida na época micênica Mas e as planícies da Algólida da Messênia e da Ática Não se compreende que necessidades técnicas de preparo do solo segundo um plano de conjunto tenham podido suscitar ou favorecer na Grécia uma centralização administrativa desenvolvida A economia rural da Grécia antiga aparece 13 dispersa no âmbito da aldeia a coordenação dos trabalhos não vai muito além do grupo dos vizinhos Não é somente no domínio da agricultura que o mundo micênico se distingue das civilizações fluviais do Oriente Próximo Reconhecendo o papel do Palácio como eixo da vida social M E Palmer indicou bem os traços que ligam a sociedade micênica ao mundo indoeuropeu A analogia é sobretudo surpreendente com os hititas que orientalizando se conservaram certas instituições características ligadas à sua organização militar Em tomo do rei a grande família hitita reúne os personagens mais próximos do soberano São dignitários do Palácio cujos títulos destacam as altas funções administrativas mas que exercem também comandos militares Com os combatentes sob suas ordens formam o pankus assembleia que representa a comunidade hitita isto é que agrupa o conjunto dos guerreiros excluindose o resto da população segundo o esquema que opõe nas sociedades indoeuropeias o guerreiro ao homem da aldeia pastor e agricultor É nessa nobreza guerreira constituída em classe separada e pelo menos no que concerne aos mais importantes alimentada nos seus feudos por aldeões ligados à terra que se recrutam os homens dos carros força principal do exército hitita A instituição do pankus pôde dispor na origem de poderes amplos a monarquia teria começado por ser eletiva em seguida para evitar as crises de sucessão teria tirado da assembleia dos guerreiros a ratificação do novo rei o pankus de que se trata pela última vez numa proclamação do rei Telepino do fim do século XVI teria finalmente caído em desuso a realeza hitita terseia aproximado assim do modelo das monarquias absolutas orientais apoiandose menos numa classe de nobres cujos serviços militares criam as prerrogativas políticas do que numa hierarquia de administradores que dependem diretamente do rei5 O exemplo hitita foi invocado pelos eruditos que opunham à interpretação burocrática da realeza micênica um esquema que dava lugar a traços feudais De fato as duas parecem igualmente inadequadas e em sua própria oposição anacrónicas Em todos os graus da administração palaciana é com efeito um vínculo pessoal de submissão que une ao rei os diversos dignitários do Palácio não são 5 Cf O R Gurney The Hittites Londres 1952 14 funcionários a serviço do Estado mas servidores do rei encarregados de manifestar em toda parte onde sua confiança os colocou este poder absoluto de comando que se encarna no monarca Portanto verificase no quadro da economia palaciana ao lado de uma divisão frequentemente muito grande das tarefas de uma especialização de funções com uma série de fiscais e chefes de fiscalização uma flutuação nas atribuições administrativas que se superpõem umas às outras exercendo cada representante do rei por delegação e em seu nível uma autoridade que em princípio cobre sem restrição todo o campo da vida social O problema não é pois opor o conceito de realeza burocrática ao de monarquia feudal mas sim marcar por trás dos elementos comuns ao conjunto das sociedades de economia palaciana os traços que definem mais precisamente o caso micênico e que talvez expliquem por que este tipo de soberania não sobreviveu na Grécia à queda das dinastias dos aqueus Nessa perspectiva a aproximação com os hititas mostra se frutuosa pois dá o maior relevo às diferenças que separam o mundo micênico da civilização palaciana de Creta que lhe serviu de modelo O contraste entre essas duas realezas grava se na arquitetura de seus palácios6 Os de Creta dédalos de compartimentos dispostos em aparente desordem em torno de um pátio central são construídos no mesmo nível que a região circunvizinha sobre a qual se abrem sem defesa por amplas estradas que vão ter ao palácio O solar micênico tendo no centro o mégaron e a sala do trono é uma fortaleza cercada de muros um abrigo de chefes que domina e fiscaliza a região plana que se estende a seus pés Construída para sustentar um bloqueio essa cidadela abriga ao lado da morada principesca e de suas dependências as casas dos familiares do rei chefes militares e dignitários do palácio Seu papel militar parece sobretudo defensivo preserva o tesouro real em que se acumulam ao lado das reservas normalmente controladas postas em estoque repartidas pelo palácio no quadro da economia do país bens preciosos de um tipo diferente Tratase de produtos de uma indústria de luxo jóias 6 J D S Pendlebury A handbook to the Palace of Minos Knossos with its dependencies Londres 1954 George E Mylonas Ancient Mycenae Londres 1957 15 taças tripés caldeirões peças de ourivesaria armas trabalhadas barras de metal tapetes tecidos bordados Símbolos de poder instrumentos de prestígio pessoal exprimem na riqueza um aspecto propriamente régio Formam a matéria de um comércio abundante que ultrapassa amplamente as fronteiras do reino Objetos de dádivas e de retribuições selam alianças matrimoniais e políticas criam obrigações de serviço recompensam vassalos estabelecem até em país longínquo laços de hospitalidade são também motivo de competição de conflito como as pessoas os recebem como presentes ganhamnos de armas na mão é para apoderarse do tesoro que se organiza uma expedição guerreira e que se destrói uma cidade Prestamse enfim mais que outras formas de riqueza a uma apropriação individual que poderá perpetuarse além da morte colocados ao lado do cadáver como pertences do defunto seguiloão a seu túmulo7 O testemunho das plaquetas permitenos precisar esse quadro da corte e do palácio micênicos No cume da organização social o rei usa o título de wanaka ánax Sua autoridade parece exercerse em todos os níveis da vida militar é o palácio que dirige as encomendas de armas o equipamento dos carros os recrutamentos de homens a formação a composição o movimento das unidades Mas a competência do rei não fica confinada ao domínio da guerra mais do que ao da economia O ánax é responsável também pela vida religiosa ordena com precisão o seu calendário vela pela observância do ritual pela celebração das festas em honra dos diversos deuses determina os sacrifícios as oblações vegetais as taxas das oferendas exigíveis de cada um segundo sua classe Podese pensar que se o poder real se exerce assim em todos os domínios é que o soberano como tal encontrase especialmente em relação com o mundo religioso associado a uma classe sacerdotal que surge numerosa e influente8 Em apoio dessa hipótese notarseá que na Grécia a lembrança de uma função religiosa da realeza se perpetuou até no quadro da Cidade e que sobreviveu sob uma forma de mito a lembrança do Rei Divino mágico senhor do tempo distribuidor da 7 Cf a oposição dos Ktémata bens adquiridos pelo indivíduo e que ficam à sua inteira disposição especialmente sua parte de pilhagem e dos patroa bens ligados ao grupo familiar inalienáveis 8 Cf M Lejeune Prêtres et prêtresses dans les documents myceniens in Hommage à Georges Dumézil Latomus 45 pp 129139 16 fertilidade À lenda cretense de Minos que se submetia de nove em nove anos na caverna do Ida à prova que deve renovar por um contato direto com Zeus seu poder real9 corresponde em Esparta à ordália que de nove em nove anos os éforos impõem a seus dois reis escrutando o céu nas profundezas da noite para aí ler se os soberanos não teriam cometido algum erro que os desqualificasse para o exercício da função real Pensese também no rei hitita que abandona em plena campanha a direção de seus exércitos se suas obrigações religiosas exigem sua volta à capital para aí realizar na data determinada os ritos de que tem o encargo Ao lado do wasaka o segundo personagem do reino o lawagetas representa o chefe do laos propriamente o povo em armas o grupo dos guerreiros Vestindo como uniforme um manto de um modelo especial os eqe ta ἑταῖροι cf homérico hetairoi os são como a grande família hitita dignitários do palácio formando o séquito do rei ao mesmo tempo que chefes colocados à testa de uma Okha de uma unidade militar ou oficiais que asseguram a ligação da corte com os comandos locais Talvez sejam igualmente da alçada do laos os tereta telestai no caso de admitirse com Palmer que se trata dos homens do serviço feudal de barões dos feudos Três deles seriam segundo uma lâmina de Pilos personagens assaz importantes para possuir um témenos privilégio do wanaka e do Iawagetas10 0 témenos designa na epopeia em que foi dentre todos os termos do vocabulário micênico relativo aos bens de raiz o único que se manteve uma terra arável ou de vinhas oferecida com os aldeões que a guarnecem ao rei aos deuses ou a um grande personagem em recompensa de seus serviços excepcionais ou de suas façanhas guerreiras A tenência do solo apresentase como um sistema complexo que a ambiguidade de muitas expressões toma ainda mais obscuro11 A plena posse de uma terra como seu usufruto parece ter feito surgir em compensação serviços e prestações 9 Odisseia XIX 179 10 A interpretação dessa plaqueta é discutida Outros documentos parecem ao contrário associar estreitamente os tereta ao damos Tratarseia então de aldeões sujeitos a prestações 11 A complexidade do regime territorial revelase no vocabulário muito diferenciado em que muitos termos permanecem obscuros Discutese o sentido de palavras como Kama kolonooko wowo ona to Este último termo designa uma locação sem que se possa precisar sob que formas era realizada Pode se pensar por outro lado que no que concerne à terra comunal do damos as plaquetas não mencionam senão as alienações que dela se fizeram a título temporário ou definitivo Havia enfim à exceção do damos e dos escravos uma população serva ligada à terra Não se poderia dizêlo 17 múltiplas Frequentemente é difícil decidir se um teimo tem uma significação puramente técnica terra inculta terra arroteada terra de pastagem transformada em terra arável terra de maior ou menor dimensão ou se ele marca um estatuto social Entretanto uma oposição se delineia claramente entre dois tipos de tenência designando as duas formas diferentes que podem revestir uma Kotona um lote uma porção de terra Os kitimena kotona são terras privadas com proprietários contrariamente aos kekemena kotona ligadas ao damos terras comuns dos demos da aldeia propriedade coletiva do grupo rural cultivadas segundo o sistema do openfield e que talvez sejam objeto de uma redistribuição periódica Nesse ponto ainda IM E Palmer pôde fazer uma aproximação sugestiva com o código hitita que distingue paralelamente duas maneiras de tenência da terra A do homem do serviço feudal guerreiro depende diretamente do palácio e volta para este quando o serviço não é mais certo Em compensação os homens da ferramenta isto é os artesãos dispõem de uma terra dita de aldeia que a coletividade rural lhes concede por um tempo e que recupera quando partem12 Evoquemse também os fatos indianos que dão prova de uma estrutura análoga Ao vaiçya o agricultor isto é ao homem da aldeia opõese o ksatrya o guerreiro de ksatram poder posse o homem que tem a posse individual da terra como o barão micênico é o homem da kitimena ko tona da terra adquirida por oposição à terra comum da aldeia As duas formas diferentes de tenência do solo recobririam então na sociedade micênica uma polaridade mais fundamental em face do palácio da corte de todos os que deles dependem seja diretamente seja pela tenência de seu feudo entrevêse um mundo rural organizado em aldeias com sua vida própria Estes demos da aldeia dispõem de uma parte das terras nas quais eles se fixam regularizam de conformidade com as tradições e as hierarquias locais os problemas que põem em seu nível os trabalhos agrícolas a atividade pastoril as relações de vizinhança É nesse quadro provincial que aparece contra toda expectativa o personagem que tem o título que teríamos normalmente traduzido por rei o pasireu o basileus homérico Precisamente ele não é o Rei 12 a interpretação proposta por Palmer do termo grego demiurgós não o que trabalha para o público mas o que cultiva uma terra de aldeia contra cf Kentaró Murakawa Demiurgos Ilistoria 6 1957 pp 385415 18 em seu palácio mas um simples senhor dono de um domínio rural e vassalo do ánax Esse vínculo de vassalidade num sistema de economia em que tudo é contabilizado reveste em suma a forma de uma responsabilidade administrativa vemos o basileus fiscalizar a distribuição das cotas em bronze destinadas aos ferreiros que em seu território trabalham para o palácio e bem entendido contribui ele próprio com outros homens ricos do lugar segundo uma quantidade devidamente estabelecida a esses fornecimentos de metal13 Ao lado do basileus um Conselho dos Velhos a kerosija gerousia confirma esta relativa autonomia da comunidade aldeã Tomam assento nessa assembleia sem dúvida os chefes das casas mais influentes Os simples aldeões homens do damos no sentido próprio que fornecem ao exército os peões e que para retomar a fórmula homérica não são mais considerados no Conselho que na guerra formam no melhor dos casos os espectadores escutam em silêncio os qualificados para falar e não expressam seus sentimentos senão por um rumor de aprovação ou descontentamento Um outro personagem o korete associado ao basileus aparece como uma espécie de regedor de aldeia É possível que se indague se esta dualidade de direçâo no nível local não encobre a que verificamos no quadro do Palácio como o ánax o basileus teria prerrogativas sobretudo religiosas pensese nos phylobasileis da Grécia clássica o korete como o Iawagetas exerceria uma função militar Haveria razão para aproximarse o sentido do homérico mas que parece indicar senão uma oposição pelo menos uma polaridade uma diferença de planos Além disso o chamado Klumenos korete da aldeia de i terewa dependente do palácio de Pilos figura numa outra plaqueta como comandante de unidade militar uma terceira dálhe o qualificativo de moropa possuidor de uma moira de um lote de terra14 13 A assimilação do pasireu ao basileus foi recentemente discutida Segundo Palmer tratarseia de um oficial provincial que controlava as equipes de metalúrgicos que trabalhavam para o palácio cf L R Palmer Linear B texts of economic interest Serta Philologica Aenipontana 78 1961 pp 112 14 Martin S Ruiperez KORETE e POROKOROTERE Remarques sur lorganisation militaire mycénienne Études Mycéniennes Actes du Colloque international sur les textes mycéniens p 105120 contra J 19 Por mais lacunar que seja nossa informação parece possível tirar daí algumas conclusões gerais referentes aos traços característicos das realezas micênicas 1 Primeiramente seu aspecto belicoso O ánax apóiase numa aristocracia guerreira os homens dos carros sujeitos à sua autoridade mas que formam no corpo social e na organização militar do reino um grupo privilegiado com seu estatuto particular seu gênero de vida próprio 2 As comunidades rurais não estão numa dependência tão absoluta em relação ao palácio que não possam subsistir independentemente dele Abolido o controle real o damos continuaria a trabalhar as mesmas terras segundo as mesmas técnicas Como no passado mas num quadro doravante puramente aldeão serlheia necessário alimentar os reis e ricos homens do lugar por meio de remessas presentes e prestações mais ou menos obrigatórias 3 A organização do Palácio com seu pessoal administrativo suas técnicas de contabilidade e de controle sua regulamentação estrita da vida econômica e social apresenta um caráter de plágio Todo o sistema repousa no emprego da escrita e na constituição de arquivos São os escribas cretenses postos ao serviço das dinastias micênicas que transformando o linear em uso no palácio de Cnossos linear A para adaptálo ao dialeto dos novos senhores linear B levaramlhes os meios de implantar na Grécia continental os métodos administrativos próprios da economia palaciana A extraordinária fixidez da língua das plaquetas pelo tempo mais de 150 anos separam as datas dos documentos de Cnossos e de Pilos 15 e no espaço Cnossos Pilos Micenas mas também Tirinto Tebas Orcómeno mostra que se trata de uma tradição mantida nos grupos estritamente fechados Aos Taillardat Notules mycéniennes Mycénien Korete et homérique Revue Etades Grecques 73 1960 pp 15 15 Se é aceita para os documentos de Cnossos a indicação das datas feita por A J Evans Sobre a controvérsia que estabeleceram a esse respeito L R Palmer e S Hood cf J Raison Une controverse sur la chronologie cnossienne Bull de lAss Guillaume Budé 1961 pp 305319 20 reis micênicos esses meios especializados de escribas cretenses forneceram ao mesmo tempo que as técnicas os esquemas para a administração de seu palácio Para os monarcas da Grécia o sistema palaciano representava um notável instrumento de poder Permitia estabelecer um controle rigoroso do Estado sobre um território extenso Atraía para acumulála em suas mãos toda a riqueza do país e concentrava sob uma direção única recursos e forças militares importantes Possibilitava assim as grandes aventuras em países longínquos para lá se estabelecer em terras novas ou para ir buscar além dos mares o metal e os produtos que faltavam no continente grego Entre o sistema de economia palaciana a expansão micênica pelo Mediterrâneo o desenvolvimento na própria Grécia ao lado da vida agrícola de uma indústria artesanal já muito especializada organizada em guildas sob o modelo oriental a relação aparece estreita É todo esse conjunto que a invasão dórica destrói Rompe por longos séculos os vínculos da Grécia com o Oriente Abatida Micenas o mar deixa de ser um caminho de passagem para tornarse uma barreira Isolado voltado para si mesmo o continente grego retorna a uma forma de economia puramente agrícola O mundo homérico não conhece mais uma divisão do trabalho comparável à do mundo micênico nem o emprego numa escala tão vasta da mãodeobra servil Ignora as múltiplas corporações de homens da ferramenta agrupados nos arredores do palácio ou colocados nas aldeias para aí executar as ordens reais Na queda do império micênico o sistema palaciano desaba completamente jamais se erguerá O termo ánax desaparece do vocabulário propriamente político E substituído em seu emprego técnico para designar a função real pela palavra basileus cujo valor estritamente local observamos e que de preferência a uma pessoa única a concentrar em si todas as formas do poder designa empregado no plural uma categoria de Grandes que se colocam igualmente no cume da hierarquia social Abolido o reino do ánax não se encontra mais traço de um controle organizado pelo rei de um aparelho administrativo de uma classe de escribas A própria escrita desaparece como desfeita na ruína dos palácios Quando os gregos a redescobrirem pelo fim do século IX tomandoa esta vez dos fenícios não será 21 somente uma escrita de um tipo diferente fonética mas sim o produto de uma civilização radicalmente distinta não mais a especialidade de uma classe de escribas mas o elemento de uma cultura comum Seu significado social e psicológico ter seá também transformado poderseia dizer invertido a escrita não terá mais por objeto constituir para uso do rei arquivos no recesso de um palácio terá correlação doravante com a função de publicidade vai permitir divulgar colocar igualmente sob o olhar de todos os diversos aspectos da vida social e política BIBLIOGRAFIA John Chadwick The decipherment of Linear B Cambridge 1958 Etudes mycéniennes Actes du Colloque international sur les textes mycéniens Paris 1956 L R Palmer Achaeans and Indoeuropeans Oxford 1955 M Ventris e J Chadwick Documents in Mycenaean Greek Cambridge 1956 Sobre as estruturas sociais e o regime territorial W E Brown Landtenure in mycenaean Pylos Historia 5 1956 pp 385400 E L Bennett The landholders of Pylos American Journal of Archaeology 60 1956 pp 103133 M I Finley Homer and Mycenae Property and Tenure Historia 6 1957 pp 133159 e The mycenaean tablets and economic history The economic history review 2 série 10 j 957 p 128141 com uma réplica de L R Palmer ibid 11 1958 pp 8796 M S Ruiperez Mycenaean landdivision and livestock grazing Minos 5 pp 174207 G Thomson On Greek land tenure in Studies Robinson II pp 840857 E Will Aux origines du régime foncier grec Revue des études anciennes 59 1957 pp 550 22 CAPÍTULO III A CRISE DA SOBERANIA A queda do poder micênico a expansão dos dórios no Peloponeso em Creta e até em Rodes inauguram uma nova idade da civilização grega A metalurgia do ferro sucede à do bronze A incineração dos cadáveres substitui numa larga escala a prática da inumação A cerâmica transformase profundamente deixa as cenas da vida animal e vegetal por uma decoração geométrica Divisão nítida das partes do vaso redução das formas a modelos claros e simples obediência a princípios de aridez e de rigor que excluem os elementos místicos de tradição egéia tais são os traços do novo estilo geométrico T B L Webster chega a falar a esse respeito de uma verdadeira revolução16 nessa arte despojada reduzida ao essencial reconhece uma atitude de espírito que segundo ele marca igualmente as outras inovações do mesmo período os homens já tomaram consciência de um passado separado do presente diferente dele a idade de bronze idade dos heróis contrasta com os tempos novos votados ao ferro o mundo dos mortos distanciouse separado do mundo dos vivos a cremação partiu o liame do cadáver com a terra uma distância insuperável se estabeleceu entre os homens e os deuses o personagem do rei divino desapareceu Assim em toda uma série de domínios uma delimitação mais rigorosa dos diferentes planos do real prepara a obra de Homero esta poesia épica que no seio mesmo da religião tende a afastar o mistério Neste capítulo quereríamos sobretudo sublinhar o alcance das transformações sociais que mais diretamente repercutiram nos esquemas do pensamento O primeiro testemunho dessas transformações é a língua De Micenas a Homero o vocabulário dos títulos dos postos das funções civis e militares da tenência do solo desaparece quase completamente Alguns termos que subsistem como basileus ou témenos não conservam mais após a destruição do antigo 16 T B L Webster From Mycenae to Homer 1958 23 sistema exatamente o mesmo valor Quer dizer que não há entre o mundo micênico e o mundo homérico nenhuma continuidade nenhuma comparação possível Foi o que se pretendeu17 Entretanto o quadro de um pequeno reino como Ítaca com seu basileus sua assembleia seus nobres turbulentos seu demos silencioso em segundo plano prolonga e esclarece manifestamente certos aspectos da realidade micênica Aspectos provincianos certamente e que ficam fora do palácio Mas precisamente o desaparecimento do ánax parece ter deixado subsistir lado a lado as duas forças sociais com as quais seu poder devia terse harmonizado de um lado as comunidades aldeãs de outro uma aristocracia guerreira cujas famílias mais eminentes detêm igualmente como privilégio de genos certos monopólios religiosos Entre essas forças opostas liberadas pelo desmoronamento do sistema palaciano que se vão chocar às vezes com violência a busca de um equilíbrio de um acordo fará nascer num período de desordem uma reflexão moral e especulações políticas que vão definir uma primeira forma de sabedoria humana Esta sophia aparece desde a aurora do século VII está ligada a uma plêiade de personagens bem estranhos aureolados de uma glória quase lendária e sempre celebrados pela Grécia como seus primeiros como seus verdadeiros Sábios Ela não tem por objeto o universo da physis mas o mundo dos homens que elementos o compõem que forças o dividem contra si mesmo como harmonizálas unificálas para que de seus conflitos surja a ordem humana da cidade Essa sabedoria é o fruto de uma longa história difícil e acidentada em que intervêm fatores múltiplos mas que desde o início se afastou da concepção micênica do Soberano para orientarse num outro caminho Os problemas do poder de suas formas de seus componentes foram repentinamente colocados em termos novos Com efeito não é suficiente dizer que no curso desse período a realeza se vê despojada na Grécia de seus privilégios e que mesmo onde subsiste cede de fato o lugar a um estado aristocrático devese acrescentar que essa basileia não era 17 Cf especialmente M I Finley Homer and Mycenae Property and tenure História 1957 pp 133159 24 mais desde então a realeza micênica O rei não só mudou de nome mas de natureza Nem na Grécia nem na Jônia em que uma nova multidão de colonos que fugia da invasão dórica foi estabelecerse encontrase vestígio de um poderio real do tipo micênico Mesmo supondo que a Liga jônica do século VI prolongasse sob a forma de um agrupamento de cidades estados independentes uma organização mais antiga em que reis locais reconheciam a suserania de uma dinastia reinante em Éfeso18 tratarseia de uma supremacia análoga à que Agamenon exerce na Ilíada sobre reis que são seus pares e cuja dependência se limita ao domínio de uma campanha feita em comum sob sua direção Muito diferente é sem dúvida o controle imposto a todo momento sobre toda pessoa toda atividade e toda coisa pelo ánax micênico por intermédio do palácio No que concerne a Atenas único ponto da Grécia em que a continuidade com a época micênica não foi brutalmente rompida o testemunho de Aristóteles apoiado na tradição dos atidógrafos apresentanos as etapas do que se poderia chamar o brilhantismo da soberania19 A presença ao lado do rei do polemarca como chefe dos exércitos já separa do soberano a função militar A instituição do arcontado que Aristóteles situa sob os Codridas isto é no momento em que embarcam para a Jônia os aqueus refugiados de Pilos e do Peloponeso na Ática marca uma ruptura mais decisiva É a própria noção de arché de comando que se separa da basileia conquista sua independência e vai definir o domínio de uma realidade propriamente política Eleitos primeiro por dez anos os arcontes são em seguida renovados cada ano O sistema da eleição mesmo se conservam ou se transpõem certos traços de um processo religioso implica uma concepção nova do poder a arché é todos os anos delegada por uma decisão humana por uma escolha que supõe confronto e discussão Essa delimitação mais estrita do poder político que toma forma de magistratura tem uma contrapartida a basileia vêse relegada a um setor especificamente religioso O basileus não é mais 18 Cf Michel B Sakellariou La migration grecque en Ionie Atenas 1958 19 Aristóteles Constituição de Atenas III 24 cf Chester G Starr The decline of the early Greek Kings História 10 1961 pp 129138 25 este personagem quase divino cujo poder se manifesta em todos os planos seu encargo limitase ao exercício de certas funções sacerdotais À imagem do rei senhor de todo poder substituise a ideia de funções sociais especializadas diferentes umas das outras e cujo ajustamento cria difíceis problemas de equilíbrio As lendas reais de Atenas são a esse respeito significativas Ilustram um tema muito diferente daquele que se encontra em muitos mitos indoeuropeus de soberania20 Para tomar um exemplo característico as lendas reais citas narradas por Heródoto mostram no Soberano um personagem que se situa fora e acima das diversas classes funcionais de que a sociedade é composta porque ele as representa todas porque todas encontram igualmente nele a origem das virtudes que as definem ele não pertence mais a nenhuma21 Os três tipos de objetos de ouro a taça de libações a acha de armas a charrua relho e canga que simbolizam as três categorias sociais sacerdotes guerreiros agricultores nas quais os citas estão divididos o Rei e só o Rei os possui todos ao mesmo tempo As atividades humanas que se opõem na sociedade se encontram integradas e unidas na pessoa do soberano As lendas de Atenas descrevem um processo inverso uma crise sucessória que em vez de pautarse pela vitória de um pretendente sobre os outros e a concentração de toda a arché em suas mãos conduz a uma divisão da soberania apropriandose cada um deles exclusivamente de um dos aspectos do poder e abandonando os outros a seus irmãos Não se põe mais em destaque um personagem único que domina a vida social mas uma multiplicidade de funções que opondose umas às outras necessitam de uma divisão uma delimitação recíproca 20 Sobre os problemas da soberania no nível humano sobre as relações do rei com as diversas classes e o conjunto do grupo social leiamse as observações de M Georges Dumézil Religion indoeuropéene Examen de quelques critiques récentes Revue de lHistoire des Religions 152 1957 pp 830 21 Heródoto IV 56 cf E Benveniste Traditions indoiraniennes sur les classes sociales Journal asiatique 230 1938 pp 529549 G Dumézil Lidéologie tripartie des Indoeuropéens Bruxelas 1958 pp 910 Les trois trésors des ancêtres dans lépopée Narte Revue de lHistoire des Religions 157 1960 pp 141 154 Encontrarseá na lenda real de Orcómene um tema análogo cf F Vían La triade des rois dOrchoméne Eteoclès Phlegyas Minyas in Hommage à G Dumézil pp 215224 26 Por ocasião da morte de Pandião seus dois filhos dividem entre si a herança paterna Erecteu recebe a basileia Butes esposo de Ctônia filha de seu irmão fica com a hierosyne o sacerdócio A basileia de Erecteu repousa sobre o poder guerreiro Erecteu é um combatente o inventor do carro morto em plena batalha Essa primeira divisão não basta para regulamentar o problema dinástico Erecteu deixa por sua vez três filhos Cécrope Metião Pandoro A partir dos dois mais velhos fundadores de linhagens rivais o conflito pelo trono propagase de geração para geração até Egeu sem interromper aliás um circuito regular de intercâmbios matrimoniais entre os dois ramos familiares Como H Jeanmaire o mostrou a luta dos cecrópidas e dos metiônidas exprime a tensão no próprio seio da basileia de dois aspectos opostos22 Recolocandose esse episódio no conjunto da narrativa sobre a sucessão verificase que a crise dinástica revela quatro princípios concorrentes atuando na soberania um princípio especificamente religioso com Butes um princípio de força guerreira com Erecteu a linhagem dos Cecrópidas Egeu ele próprio dividirá a arché em quatro guardando para si todo o Kratos um princípio ligado ao solo e às suas virtudes Ctônia Pandoro a aproximar de Pandora um princípio de poder mágico personificado pela deusa métis esposa de Zeus e que interessa mais especialmente as artes do fogo colocadas sob a proteção de Hefesto e Atena deuses da metis patronos dos artesãos Tentese aproximar esses quatro princípios das quatro tribos jônicas que puderam ter e às quais os gregos deram explicitamente valor funcional23 O que o mito sugere pela narrativa de um conflito entre irmãos a história e a teoria política o exporão por sua vez sob uma forma sistemática apresentando o corpo social como um composto feito de elementos heterogêneos de partes separadas de classes de funções que se excluem umas às 22 H Jeanmaire La naissance dAthéna et la royauté magique de Zeus Revue Archéologique 48 1956 pp 1240 23 As quatro tribos jônicas são chamadas Hópletes Argades Geléontes Aigicoréis que H Jeanmaire interpreta como artesãosagricultores nobres de função religiosa guerreiros Couroi et Courètes Lille 1939 Contra cf M P Nilsson Cults myths oracles and politic in ancient Greece Lund 1951 App 1 The Ionian Phylae cf também G Dumézil Métiers et classes fonctionnelles chez divers peuples indo européens Annales Economies Sociétés Civilisations 1958 pp 716724 27 outras mas cuja mistura e fusão devem entretanto realizar se24 Desaparecido o ánax que pela virtude de um poder mais que humano unificava e ordenava os diversos elementos do reino novos problemas surgem como a ordem pode nascer do conflito entre grupos rivais do choque das prerrogativas e das funções opostas Como uma vida comum pode apoiarse em elementos discordantes Ou para retomar a própria formula dos Órficos como no plano social o uno pode sair do múltiplo e o múltiplo do uno25 Poder de conflito poder de união ErisPhilia essas duas entidades divinas opostas e complementares marcam como que os dois pólos da vida social no mundo aristocrático que sucede as antigas realezas A exaltação dos valores de luta de concorrência de rivalidade associase ao sentimento de dependência para com uma só e mesma comunidade para com uma exigência de unidade e de unificação sociais O espírito de agón que anima os gene nobiliários se manifesta em todos os domínios Na guerra primeiramente a técnica do carro desapareceu com tudo o que implicava centralização política e administrativa mas por isso o cavalo não assegurara menos a seu possuidor uma qualificação guerreira excepcional os Hippeis os Hippobotes definem uma elite militar ao mesmo tempo que uma aristocracia da terra a imagem do cavaleiro associa o valor ao combate o brilho do nascimento a riqueza de bens de raiz e a participação de direito na vida pública No plano religioso em seguida cada genos se afirma como senhor de certos ritos possuidor de fórmulas de narrativas secretas de símbolos divinos especialmente eficazes que lhe conferem poderes e títulos de comando Todo o domínio do péjurídico enfim que governa as relações entre famílias constitui em si uma espécie de agón 24 Particularmente Aristóteles Política II 1261 a 25 V Ehrenberg verifica que há no centro da concepção grega da sociedade uma contradição fundamental o Estado é uno e homogêneo o grupo humano é feito de partes múltiplas e heterogéneas Essa contradição fica implícita não formulada porque os gregos jamais distinguiram claramente Estado e sociedade plano político e plano social Daí o embaraço para não dizer a confusão de um Aristóteles quando trata da unidade e da pluralidade da polis V Ehrenberg The Greek state Oxford 1960 p 89 Vivida implicitamente na prática social essa problemática do uno e do múltiplo que se exprime também em certas correntes religiosas será formulada com todo rigor ao nível do pensamento filosófico 28 um combate codificado e sujeito a regras em que se defrontam grupos uma prova de força entre gene comparável à que põe em combate os atletas no curso dos Jogos E a política toma por sua vez forma de agón uma disputa oratória um combate de argumentos cujo teatro é a ágora praça pública lugar de reunião antes de ser um mercado26 Os que se medem pela palavra que opõem discurso a discurso formam nessa sociedade hierarquizada um grupo de iguais Como Hesíodo o observará toda rivalidade toda eris supõe relações de igualdade a concorrência jamais pode existir senão entre iguais27 Esse espírito igualitário no próprio seio de uma concepção agonística da vida social é um dos traços que marca a mentalidade da aristocracia guerreira da Grécia e que contribui para dar à noção do poder um conteúdo novo A arché não poderia mais ser a propriedade exclusiva de quem quer que seja o Estado é precisamente o que se despojou de todo caráter privado particular o que escapando da alçada dos gene já aparece como a questão de todos As expressões de que se serve o grego são a esse respeito surpreendentes dirá que certas deliberações certas decisões devem ser levadas que os antigos privilégios do Rei que a própria arché são depositadas no meio no centro O recurso a uma imagem especial para exprimir a consciência que um grupo humano toma de si mesmo e o sentimento de sua existência como unidade política não têm simples valor de comparação Refletem o advento de um espaço social inteiramente novo As construções urbanas não são mais com efeito agrupadas como antes em torno de um palácio real cercado de fortificações A cidade está agora centralizada na Ágora espaço comum sede da Hestia Koiné espaço público em que são debatidos os problemas de interesse geral É a própria cidade que se cerca de muralhas protegendo e delimitando em sua totalidade o grupo humano que a constitui No local em que se elevava a cidade real residência privada privilegiada ela edifica templos que abre a um culto 26 O termo guarda a lembrança da assembleia dos guerreiros do laos reunido em formação militar Entre a antiga assembleia guerreira a assembleia dos cidadãos nos Estados oligárquicos e a Ecclesia democrática percebese uma espécie de linha contínua 27 Hesíodo Os Trabalhos e os Dias 256 29 público Nas ruínas do palácio nessa Acrópole que ela consagra doravante a seus deuses é ainda a si mesma que a comunidade projeta sobre o plano do sagrado assim como se realiza no plano profano no espaço da Ágora Esse quadro urbano define efetivamente um espaço mental descobre um novo horizonte espiritual Desde que se centraliza na praça pública a cidade já é no sentido pleno do termo uma polis 30 CAPÍTULO IV O UNIVERSO ESPIRITUAL DA POLIS O aparecimento da polis constitui na história do pensamento grego um acontecimento decisivo Certamente no plano intelectual como no domínio das instituições só no fim alcançará todas as suas consequências a polis conhecerá etapas múltiplas e formas variadas Entretanto desde seu advento que se pode situar entre os séculos VIII e VII marca um começo uma verdadeira invenção por ela a vida social e as relações entre os homens tomam uma forma nova cuja originalidade será plenamente sentida pelos gregos28 O que implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder Tornase o instrumento político por excelência a chave de toda autoridade no Estado o meio de comando e de domínio sobre outrem Esse poder da palavra de que os gregos farão uma divindade Peithó a força de persuasão lembra a eficácia das palavras e das formulas em certos rituais religiosos ou o valor atribuído aos ditos do rei quando pronuncia soberanamente a themis entretanto trata se na realidade de coisa bem diferente A palavra não é mais o termo ritual a fórmula justa mas o debate contraditório a discussão a argumentação Supõe um público ao qual ela se dirige como a um juiz que decide em última instância de mãos erguidas entre os dois partidos que lhe são apresentados é essa escolha puramente humana que mede a força de persuasão respectiva dos dois discursos assegurando a vitória de um dos oradores sobre seu adversário Todas as questões de interesse geral que o Soberano tinha por função regularizar e que definem o campo da arché são agora submetidas à arte oratória e deverão resolverse na conclusão de um debate é preciso pois que possam ser formuladas em discursos amoldadas às demonstrações antitéticas e às argumentações opostas Entre a política e o logos há assim relação estreita vínculo recíproco A arte 28 Cf V Ehrenberg When did the Polis rise Journal of Hellenic Studies 57 1937 pp 147159 Origins of democracy historia 1 1950 pp 519548 31 política é essencialmente exercício da linguagem e o logos na origem toma consciência de si mesmo de suas regras de sua eficácia por intermédio de sua função política Historicamente são a retórica e a sofística que pela análise que empreendem das formas do discurso como instrumento de vitória nas lutas da assembleia e do tribunal abrem caminho às pesquisas de Aristóteles ao definir ao lado de uma técnica da persuasão regras da demonstração e ao pôr uma lógica do verdadeiro própria do saber teórico em face da lógica do verossímil ou do provável que preside aos debates arriscados na prática Uma segunda característica da polis é o cunho de plena publicidade dada às manifestações mais importantes da vida social Podese mesmo dizer que a polis existe apenas na medida em que se distinguiu um domínio público nos dois sentidos diferentes mas solidários do termo um setor de interesse comum opondose aos assuntos privados práticas abertas estabelecidas em pleno dia opondose a processos secretos Essa exigência de publicidade leva a apreender progressivamente em proveito do grupo e a colocar sob o olhar de todos o conjunto das condutas dos processos dos conhecimentos que constituíam na origem o privilégio exclusivo do basileus ou dos gene detentores da arché Esse duplo movimento de democratização e de divulgação terá no plano intelectual consequências decisivas A cultura grega constituise dando a um círculo sempre mais amplo finalmente ao demos todo o acesso ao mundo espiritual reservado no início a uma aristocracia de caráter guerreiro e sacerdotal a epopeia homérica é um primeiro exemplo desse processo uma poesia de corte cantada primeiramente nas salas dos palácios depois sai deles desenvolvese e transpõe se em poesia de festa Mas esse desenvolvimento comporta uma profunda transformação Tornandose elementos de uma cultura comum os conhecimentos os valores as técnicas mentais são levados à praça pública sujeitos à crítica e à controvérsia Não são mais conservados como garantia de poder no recesso de tradições familiares sua publicação motivará exegeses interpretações diversas oposições debates apaixonados Doravante a discussão a argumentação a polêmica tornamse as regras do jogo intelectual assim como 32 do jogo político O controle constante da comunidade se exerce sobre as criações do espírito assim como sobre as magistraturas do Estado A lei da polis por oposição ao poder absoluto do monarca exige que umas e outras sejam igualmente submetidas à prestação de contas Já se não impõem pela força de um prestígio pessoal ou religioso devem mostrar sua retidão por processos de ordem dialética Era a palavra que formava no quadro da cidade o instrumento da vida política é a escrita que vai fornecer no plano propriamente intelectual o meio de uma cultura comum e permitir uma completa divulgação de conhecimentos previamente reservados ou interditos Tomada dos fenícios e modificada por uma transcrição mais precisa dos sons gregos a escrita poderá satisfazer essa função de publicidade porque ela própria se tornou quase com o mesmo direito da língua falada o bem comum de todos os cidadãos As mais antigas inscrições em alfabeto grego que conhecíamos mostram que desde o século VIII não se trata mais de um saber especializado reservado a escribas mas de uma técnica de amplo uso livremente difundida no público29 Ao lado da recitação decorada de textos de Homero ou de Hesíodo que continua sendo tradicional a escrita constituirá o elemento de base da paideia grega Compreendese assim o alcance de uma reivindicação que surge desde o nascimento da cidade a redação das leis Ao escrevêlas não se faz mais que assegurarlhes permanência e fixidez subtraemse à autoridade privada dos basileis cuja função era dizer o direito tornamse bem comum regra geral suscetível de ser aplicada a todos da mesma maneira No mundo de Hesíodo anterior ao regime da Cidade a dike atuava ainda em dois planos como dividida entre o céu e a terra para o pequeno cultivador beócio a dike é neste mundo uma decisão de fato dependente da arbitrariedade dos reis comedores de presentes no céu é uma divindade soberana mas longínqua e inacessível Ao 29 John Forsdyke Greece before Homer Ancient chronology and mythology Londres 1956 pp 18 e ss cf também as notas de Cl Préaux Du linéaire B crétomycénien aux ostraca grecs dEgypte Chronique dEgypte 34 1959 pp 7985 33 contrário pela publicidade que lhe confere a escrita a dike sem deixar de aparecer como um valor ideal vai poder encarnarse num plano propriamente humano realizarse na lei regra comum a todos mas superior a todos norma racional sujeita à discussão e modificável por decreto mas que nem por isso deixa de exprimir uma ordem concebida como sagrada Quando por sua vez os indivíduos decidirem tornar público o seu saber por meio da escrita seja sob forma de livro como os que Anaximandro e Ferecides teriam sido os primeiros a escrever ou como o que Heráclito depositaria no templo de Ártemis em Éfeso seja sob forma de parápegma inscrição monumental em pedra análoga às que a cidade faz gravar em nome de seus magistrados ou de seus sacerdotes cidadãos particulares nelas inscreverão observações astronômicas ou tábuas de cronologia sua ambição não será fazer conhecer a outros uma descoberta ou uma opinião pessoal o que vão querer depositando sua mensagem é fazer dela o bem comum da cidade uma norma suscetível como a lei de imporse a todos30 Uma vez divulgada sua sabedoria toma uma consistência e uma objetividade nova ela constituise em si mesma como verdade Não se trata mais de um segredo religioso reservado a alguns eleitos favorecidos por uma graça divina Certamente a verdade do sábio como o segredo religioso é revelação do essencial descoberta de uma realidade superior que ultrapassa muito o comum dos homens mas entregue à escrita ela é destacada do círculo fechado das seitas para ser exposta em plena luz aos olhares da cidade inteira isto significa reconhecer que ela é por direito acessível a todos aceitar submetêla como o debate político ao julgamento de todos com a esperança de que em definitivo será por todos aceita e reconhecida Essa transformação de um saber secreto de tipo esotérico num corpo de verdades divulgadas no público tem seu paralelo num outro setor da vida social Os antigos sacerdócios pertenciam como propriedade particular a certos gene e marcavam seu parentesco especial com um poder 30 Cf Diógenes Laércio I 43 carta de Tales a Ferecides 34 divino a polis quando é constituída confiscaos em seu proveito e os transforma em cultos oficiais da cidade A proteção que a divindade reservava outrora a seus favoritos vai doravante exercerse em benefício da comunidade toda Mas quem diz culto de cidade diz culto público Todos os antigos sacra sinais de investidura símbolos religiosos brasões xóana de madeira zelosamente conservados como talismãs de poderio no recesso dos palácios ou no fundo das casas de sacerdote vão emigrar para o templo morada aberta morada pública Nesse espaço impessoal que se volta para fora e doravante projeta no exterior a decoração de seus frisos esculpidos os velhos ídolos transformamse por sua vez perdem com seu caráter secreto sua virtude de símbolo eficaz eis que se tornam imagens sem outra função ritual senão a de serem vistos sem outra realidade religiosa senão sua aparência Da grande estátua cultual alojada no templo para nele manifestar o deus poderseia dizer que todo seu esse consiste doravante em um percipi Os sacra outrora carregados de uma força perigosa e não expostos à vista do público tornamse sob o olhar da cidade um espetáculo um ensinamento sobre os deuses como sob o olhar da cidade as narrativas secretas as fórmulas ocultas se despojam de seu mistério e seu poder religioso para se tornarem as verdades que os Sábios vão debater Entretanto não é sem dificuldade nem sem resistência que a vida social é assim entregue a uma publicidade completa O processo de divulgação fazse por etapas encontra em todos os domínios obstáculos que limitam seus progressos Mesmo no plano político práticas de governo secreto mantêm em pleno período clássico uma forma de poder que opera por vias misteriosas e meios sobrenaturais O regime de Esparta oferece os melhores exemplos desses processos secretos Mas a utilização como técnicas de governo de santuários secretos de oráculos privados reservados exclusivamente a certos magistrados ou coleções divinatórias não divulgadas de que se apropriam certos dirigentes também está atestada em outros lugares Além disso muitas cidades colocam sua salvação na posse de relíquias secretas ossadas de heróis cujo túmulo ignorado do 35 público não deve ser conhecido sob pena de arruinar o Estado senão apenas pelos magistrados qualificados para receber por ocasião de seu acesso ao cargo essa perigosa revelação O valor político atribuído a esses talismãs secretos não é simples sobrevivência do passado Corresponde a necessidades sociais definidas A salvação da cidade não põe necessariamente em jogo de forças que escapam ao cálculo da razão humana elementos que não são possíveis apreciar num debate nem prever ao termo de uma deliberação Essa intervenção de um poder sobrenatural cujo papel é finalmente decisivo a providência de Heródoto a tyche de Tucídides deve ser bem considerada e ter seu lugar na economia dos fatores políticos Ora o culto público das divindades olímpicas só pode responder em parte a essa função Referese a um mundo divino geral demais e também distante demais define uma ordem do sagrado que precisamente se opõe como o hierós ao hósios ao domínio profano no qual se situa a administração da cidade A dessacralização de todo um plano da vida política tem como contrapartida uma religião oficial que se distanciou das questões humanas e que não está mais tão diretamente ligada às vicissitudes da arché Entretanto quaisquer que sejam a lucidez dos chefes políticos e a sabedoria dos cidadãos as decisões da assembleia têm por objeto um futuro que permanece fundamentalmente opaco e que não pode ser alcançado completamente pela inteligência É então essencial assegurarse o seu controle na medida do possível por outras diligências que empregam não mais meios humanos mas a eficácia do rito O racionalismo político que preside às instituições da cidade se opõe certamente aos antigos processos religiosos do governo mas sem por isso excluílos de maneira radical31 Além disso no domínio da religião desenvolvemse à margem da cidade e ao lado do culto público associações fundadas secretamente Seitas confrarias e mistérios são 31 Pensese no papel da adivinhação na vida política dos gregos De maneira mais geral observarseá que toda magistratura conserva um caráter sagrado Mas a esse respeito dáse no plano político o mesmo que no jurídico Os processos religiosos que tinham na origem valor em si mesmos tornamse no quadro do direito introdutores de instância Do mesmo modo os ritos como o sacrifício ou o juramento aos quais os magistrados ficam sujeitos ao assumir o cargo constituem o esquema formal e não mais a força interna da vida política Neste sentido há certamente secularização 36 grupos fechados hierarquizados comportando escalas e graus Organizados sob o modelo das sociedades de iniciação sua função é selecionar por meio de uma série de provas uma minoria de eleitos que se beneficiarão com privilégios inacessíveis ao comum Mas contrariamente às iniciações antigas às quais os jovens guerreiros os couroi eram submetidos e que lhes conferiam uma habilitação ao poder os novos agrupamentos secretos são doravante confinados a um terreno puramente religioso No quadro da cidade a iniciação não pode mais trazer senão uma transformação espiritual sem repercussão política Os eleitos os epoptas são puros santos Aparentados com o divino estão certamente votados a um destino excepcional mas conhecêloão no além A promoção com que eles se beneficiam pertence a um outro mundo A todos que desejam conhecer a iniciação o mistério oferece sem restrição de nascimento nem de classe a promessa de uma imortalidade bemaventurada que era na origem privilégio exclusivamente real divulga no círculo mais amplo dos iniciados os segredos religiosos que pertencem como propriedade particular a famílias sacerdotais como os Kérykes ou os Eumólpides Mas apesar dessa democratização de um privilégio religioso o mistério em nenhum momento se coloca numa perspectiva de publicidade Ao contrário o que o define como mistério é a pretensão de atingir uma verdade inacessível por vias normais e que não poderia de maneira alguma ser exposta é a pretensão de obter uma revelação tão excepcional que dá acesso a uma vida religiosa desconhecida do culto de Estado e que reserva aos iniciados uma sorte sem comparação com a condição ordinária do cidadão O segredo toma assim em contraste com a publicidade do culto oficial uma significação religiosa particular define uma religião de salvação pessoal visando transformar o indivíduo independentemente da ordem social a realizar nele uma espécie de novo nascimento que o destaque do estatuto comum e o faça penetrar num plano de vida diferente Mas nesse terreno as pesquisas dos primeiros Sábios iam retomar as preocupações das seitas a ponto de se 37 confundirem às vezes com elas Os ensinamentos da Sabedoria como as revelações dos mistérios pretendem transformar o homem no íntimo eleválo a uma condição superior fazer dele um ser único quase um deus um theios anér Se a cidade se dirige ao Sábio quando se sente entregue à desordem e à impureza se lhe pede a solução de seus males é precisamente porque ele lhe aparece como um ser à parte excepcional um homem divino que todo seu gênero de vida isola e coloca à margem da comunidade Reciprocamente quando o Sábio se dirige à cidade pela palavra ou por escrito é sempre para transmitirlhe uma verdade que vem do alto e que mesmo divulgada não deixa de pertencer a um outro mundo estranho à vida ordinária A primeira sabedoria constituise assim numa espécie de contradição em que se exprime sua natureza paradoxal entrega ao público um saber que proclama ao mesmo tempo inacessível à maior parte Não tem ele por objeto revelar o invisível fazer ver esse mundo dos ádela que se dissimula atrás das aparências A sabedoria revela uma verdade tão prestigiosa que deve ser paga ao preço de duros esforços e que fica como a visão dos epoptas oculta aos olhos do vulgo exprime certamente o segredo formulao em palavras mas o povo não pode apreender seu sentido Leva o mistério para a praça pública faz dele o objeto de um exame de um estudo sem deixar entretanto completamente de ser um mistério Aos ritos de iniciação tradicionais que proibiam o acesso às revelações interditas a sophia e a philosophia substituem outras provas uma regra de vida um caminho de ascese uma via de pesquisa que ao lado das técnicas de discussão de argumentação ou dos novos instrumentos mentais como as matemáticas conservam em seu lugar antigas práticas divinatórias exercícios espirituais de concentração de êxtase de separação da alma e do corpo A filosofia vai encontrarse pois ao nascer numa posição ambígua em seus métodos em sua inspiração aparentarse á ao mesmo tempo às iniciações dos mistérios e às controvérsias da ágora flutuará entre o espírito de segredo próprio das seitas e a publicidade do debate contraditório que caracteriza a atividade política Segundo os meios os momentos as tendências verseá que como a seita pitagórica 38 na Grande Grécia no século VI ela organizase em confraria fechada e recusa entregar à escrita uma doutrina puramente esotérica Poderá também como o fará o movimento dos Sofistas integrarse inteiramente na vida pública apresentar se como uma preparação ao exercício do poder na cidade e oferecerse livremente a cada cidadão mediante lições pagas a dinheiro Dessa ambiguidade que marca sua origem a filosofia grega talvez jamais se tenha libertado inteiramente O filósofo não deixará de oscilar entre duas atitudes de hesitar entre duas tentações contrárias Ora afirmará ser o único qualificado para dirigir o Estado e tomando orgulhosamente a posição do reidivino pretenderá em nome desse saber que o eleva acima dos homens reformar toda a vida social e ordenar soberanamente a cidade Ora ele se retirará do mundo para recolherse numa sabedoria puramente privada agrupando em torno de si alguns discípulos desejará com eles instaurar na cidade uma cidade diferente à margem da primeira e renunciando à vida pública buscará sua salvação no conhecimento e na contemplação Aos dois aspectos que assinalamos prestígio da palavra desenvolvimento das práticas públicas um outro traço se acrescenta para caracterizar o universo espiritual da polis Os que compõem a cidade por mais diferentes que sejam por sua origem sua classe sua função aparecem de uma certa maneira semelhantes uns aos outros Esta semelhança cria a unidade da polis porque para os gregos só os semelhantes podem encontrarse mutuamente unidos pela Philia associados numa mesma comunidade O vínculo do homem com o homem vai tomar assim no esquema da cidade a forma de uma relação recíproca reversível substituindo as relações hierárquicas de submissão e de domínio Todos os que participam do Estado vão definirse como Hómoioi semelhantes depois de maneira mais abstrata como os Isoi iguais Apesar de tudo o que os opõe no concreto da vida social os cidadãos se concebem no plano político como unidades permutáveis no interior de um sistema cuja lei é o equilíbrio cuja norma é a igualdade Essa imagem do mundo humano encontrará no século VI sua expressão rigorosa num conceito o de isonomia igual participação de todos os cidadãos no 39 exercício do poder Mas antes de adquirir esse valor plenamente democrático e de inspirar no plano institucional reformas como as de Clístenes o ideal de isonomia pôde traduzir ou prolongar aspirações comunitárias que remontam muito mais alto até as origens da polis Vários testemunhos mostram que os termos isonomia isocratia serviram em círculos aristocráticos para definir por oposição ao poder absoluto de um só a monarchia ou a tyrannís um regime oligárquico em que a arché é reservada a um pequeno número excetuandose a massa mas é partilhada de maneira igual entre todos os membros dessa elite32 Se a exigência de isonomia pôde adquirir no fim do século VI uma tal força pôde se justificar a reivindicação popular de um livre acesso do demos a todas as magistraturas foi sem dúvida porque se enraizava numa tradição igualitária muito antiga foi porque correspondia mesmo a certas atitudes psicológicas da aristocracia dos hippeis É com efeito essa nobreza militar que estabelece pela primeira vez entre a qualificação guerreira e o direito de participar nos negócios públicos uma equivalência que não será mais discutida Na polis o estado de soldado coincide com o de cidadão quem tem seu lugar na formação militar da cidade igualmente o tem na sua organização política Ora desde o meio do século VII as modificações do armamento e uma revolução na técnica do combate transformam o personagem do guerreiro renovam seu estatuto social e seu retrato psicológico33 O aparecimento do hoplita pesadamente armado combatendo em linha e seu emprego em formação cerrada segundo o princípio da falange dão um golpe decisivo nas prerrogativas militares dos hippeis Todos os que podem fazer as despesas de seu equipamento de hoplitas isto é os pequenos proprietários livres que formam o demos como são em Atenas os zeugitas achamse colocados no mesmo plano que os possuidores de cavalos Mas mesmo neste caso a 32 Cf V Ehrenberg Origins of democracy Ic que lembra que o canto de Harmódios e Aristogíton glorifica esses eupátridas por terem feito os atenienses isonomous cf também Tucídides III 62 33 Cf A Andrews The Greek tyrants Londres 1956 cap 3 The military factor F E Adcock The Greek and Macedonian art of war Berkeley and Los Angeles 1957 sobre a data do aparecimento do hoplita cf P Courbin Une tombe géométrique dArgos Bulletin de correspondance hellénique 81 1957 pp 322384 40 democratização da função militar antigo privilégio aristocrático causa uma transformação completa da ética do guerreiro O herói homérico o bom condutor de carros podia ainda sobreviver na pessoa do hippeus já não tem muita coisa em comum com o hoplita esse soldadocidadão O que contava para o primeiro era a façanha individual a proeza feita em combate singular Na batalha mosaico de duelos em que se enfrentam os prómachoi o valor militar afirmavase sob forma de uma aristeia de uma superioridade pessoal A audácia que permitia ao guerreiro executar aquelas ações brilhantes encontravaa numa espécie de exaltação de furor belicoso a lyssa onde o lançava como fora de si mesmo o menos o ardor inspirado por um deus Mas o hoplita já não conhece o combate singular deve recusar se lhe oferece a tentação de uma proeza puramente individual É o homem da batalha de braço a braço da luta ombro a ombro Foi treinado em manter a posição marchar em ordem lançarse com passos iguais contra o inimigo cuidar no meio da peleja de não deixar seu posto A virtude guerreira não é mais da ordem do thymós é feita de sophrosyne um domínio completo de si um constante controle para submeterse a uma disciplina comum o sangue frio necessário para refrear os impulsos instintivos que correriam o risco de perturbar a ordem geral da formação A falange faz do hoplita como a cidade faz do cidadão uma unidade permutável um elemento semelhante a todos os outros e cuja aristeia o valor individual não deve jamais se manifestar senão no quadro imposto pela manobra de conjunto pela coesão de grupo pelo efeito de massa novos instrumentos da vitória Até na guerra a Eris o desejo de triunfar do adversário de afirmar sua superioridade sobre outrem deve submeterse à Philia ao espírito de comunidade o poder dos indivíduos deve inclinarse diante da lei do grupo Heródoto ao mencionar após cada narrativa de batalha os nomes das cidades e dos indivíduos que se mostraram os mais valentes em Platéia dá a palma entre os espartanos a Aristodamo o homem fazia parte dos trezentos lacedemônios que tinham defendido as Termópilas só ele tinha voltado são e salvo preocupado em lavar o opróbrio que os espartanos ligavam a essa sobrevivência procurou e encontrou a morte 41 em Platéia ao realizar façanhas admiráveis Mas não foi a ele que os espartanos concederam com o prêmio da bravura as honras fúnebres devidas aos melhores recusaramlhe a aristeia porque combatendo furiosamente como um homem alucinado pela Iyssa tinha abandonado seu posto34 A narrativa ilustra de maneira surpreendente uma atitude psicológica que não se manifesta somente no domínio da guerra mas que em todos os planos da vida social marca uma viragem decisiva na história da Polis Chega um momento em que a cidade rejeita as atitudes tradicionais da aristocracia tendentes a exaltar o prestígio a reforçar o poder dos indivíduos e dos gene a eleválos acima do comum São assim condenados como descomedimento como hybris do mesmo modo que o furor guerreiro e a busca no combate de uma glória puramente particular a ostentação da riqueza o luxo das vestimentas a suntuosidade dos funerais as manifestações excessivas da dor em caso de luto um comportamento muito ostensivo das mulheres ou o comportamento demasiado seguro demasiado audacioso da juventude nobre Todas essas práticas são doravante rejeitadas porque acusando as desigualdades sociais e o sentimento de distância entre os indivíduos suscitam a inveja criam dissonâncias no grupo põem em perigo seu equilíbrio sua unidade dividem a cidade contra si mesma O que agora é preconizado é um ideal austero de reserva e de moderação um estilo de vida severo quase ascético que faz desaparecer entre os cidadãos as diferenças de costumes e de condição para melhor aproximá los uns dos outros unilos como os membros de uma só família Em Esparta é o fator militar que parece efetivamente ter desempenhado no advento da mentalidade nova o papel decisivo A Esparta do século VII não é ainda aquele estado cuja originalidade provocará entre os outros gregos um espanto misturado de admiração Está então empenhada no movimento geral da civilização que leva as aristocracias das diversas cidades ao luxo fazendoas desejar uma vida mais 34 Heródoto IX 71 42 refinada e buscar as empresas lucrativas A ruptura se produz entre os séculos VII e VI Esparta concentrase em si mesma fixase em instituições que a consagram completamente à guerra Não somente repudia a ostentação da riqueza mas fechase a tudo o que é intercâmbio com o estrangeiro comércio atividade artesanal proíbe o uso dos metais preciosos depois a moeda de ouro e de prata permanece fora das grandes correntes intelectuais negligência as letras e as artes em que se tinha celebrizado antes A filosofia e o pensamento grego parecem assim não lhe dever nada Devese dizer somente parecem As transformações sociais e políticas que as novas técnicas de guerra produzem em Esparta e que resultam numa cidade de hoplitas traduzem no plano das instituições aquela mesma exigência de um mundo humano equilibrado ordenado pela lei que os Sábios pela mesma época formularão no plano propriamente conceptual nas cidades que por falta de uma solução do tipo espartano conhecerão sedições e conflitos interiores Insistiu se com razão no arcaísmo de instituições às quais Esparta ficará obstinadamente presa classes de idades iniciações guerreiras criptia Mas devese também sublinhar outras características que a tornam adiantada para o seu tempo o espírito igualitário de uma reforma que suprime a oposição antiga do laós e do demos para constituir um corpo de soldadoscidadãos definidos como hómoioi e dispondo todos eles em princípio de um lote de terra de um kleros exatamente igual ao dos outros A essa primeira forma de isomoira talvez houvesse então uma nova partilha das terras devese acrescentar o aspecto comunitário de uma vida social que impõe a todos um mesmo regime de austeridade que codifica por aversão ao luxo até a maneira pela qual as casas particulares devem ser construídas e que institui a prática das sissitias das refeições comuns a que cada um leva todos os meses seu escote regulamentar de cevada de vinho de queijo e de figos Devese notar enfim que o regime de Esparta com sua dupla realeza a apella os éphoroi e a gerousia realiza um equilíbrio entre os elementos sociais que representam funções virtudes ou valores opostos Nesse equilíbrio recíproco assentase a unidade do Estado ficando cada 43 elemento contido pelos outros nos limites que não deve ultrapassar Plutarco atribui assim à gerousia um papel de contrapeso que mantém entre a apella popular e a autoridade real um constante equilíbrio que se coloca segundo o caso do lado dos reis para oporse à democracia ou do lado do povo para impedir o poder de um só35 Da mesma maneira a instituição dos éphoroi representa no corpo social um elemento guerreiro junior e popular por oposição à gerousia aristocrática qualificada como convém a seniores por uma ponderação e uma sabedoria que devem contrabalançar a audácia e o vigor guerreiros dos couroi No Estado espartano a sociedade já não forma como nos reinos micênicos uma pirâmide cujo cimo o rei ocupa Todos os que tendo recebido o treino militar com a série das provas e iniciações que comporta possuem um kleros e participam das sissitias encontramse elevados ao mesmo plano É esse plano que define a cidade36 A ordem social já não aparece então sob a dependência do soberano já não está ligada ao poder criador de um personagem excepcional à sua atividade de ordenador É a ordem ao contrário que regula o poder de todos os indivíduos que impõe um limite à sua vontade de expansão A ordem é primeira em relação ao poder A arché pertence na realidade exclusivamente à lei Todo indivíduo ou toda facção que pretende assegurarse o monopólio da arché ameaça por esse golpe contra o equilíbrio das outras forças a homónoia do corpo social e põe em risco com isso a própria existência da cidade Mas se a nova Esparta reconhece assim a supremacia da lei e da ordem é por terse orientado para a guerra a transformação do Estado ali obedece primeiramente a preocupações militares É na prática dos combates mais que nas controvérsias da ágora que os hómoioi se exercitam Igualmente a palavra não poderá tornarse em Esparta o instrumento político que será em outros lugares nem adotará forma de discussão de argumentação de refutação No lugar 35 Plutarco Vida de Lucurgo V 11 e Aristóteles Política 1265 b 35 36 Bem entendido a cidade implica ao lado dos cidadãos e em contraste com eles todos aqueles que em graus diversos são privados dos valores ligados à plena cidadania em Esparta os hipoméionas os periecos os hilotas os escravos A igualdade se esboça num fundo de desigualdade 44 de Peithó força de persuasão os lacedemônios celebrarão como instrumento da lei o poder de Phobos esse temor que curva todos os cidadãos à obediência Gabarseão de apreciar nos discursos somente a concisão e de preferir às sutilezas dos debates contraditórios as fórmulas sentenciosas e definitivas A palavra continua a ser para eles aquelas rhetrai aquelas leis quase oraculares a que eles se submetem sem discussão e que recusam entregar pela escrita a uma plena publicidade Por mais avançada que possa ter sido Esparta deixará a outros a honra de exprimir plenamente a nova concepção da ordem quando sob o reino da lei a Cidade se tornar um cosmos equilibrado e harmonioso Não serão os lacedemônios que vão saber destacar e explicitar em todas as suas consequências as noções morais e políticas que eles entre os primeiros terão encarnado em suas instituições 45 CAPÍTULO V A CRISE DA CIDADE OS PRIMEIRO SÁBIOS Num diálogo hoje perdido Sobre a filosofia Aristóteles evocava os grandes cataclismas que periodicamente destroem a humanidade retraçava as etapas que devem percorrer cada vez os raros sobreviventes e sua descendência para refazer a civilização os que escaparam assim ao dilúvio de Deucalião tiveram primeiramente que redescobrir os meios elementares de subsistência e depois reencontrar as artes que embelezam a vida num terceiro estádio prosseguia Aristóteles dirigiram seus olhares para a organização da Polis inventaram as leis e todos os vínculos que reúnem as partes de uma cidade e essa invenção nomearamna Sabedoria é desta sabedoria anterior à ciência física a physiké theoria e à Sabedoria suprema que tem por objeto as realidades divinas que foram providos os Sete Sábios que precisamente inventaram as virtudes próprias do cidadão37 Sobre esse dado tradicional dos Sete Sábios seria vão apoiar uma conclusão histórica a lista dos Sete é flutuante e variável não observa nem cronologia nem verossimilhança Entretanto o papel político e social atribuído aos Sábios as máximas que são consideradas de sua autoria permitem aproximar uns dos outros personagens que quanto ao resto em tudo se opõem um Tales unindo a tantas outras competências a do homem de Estado um Sólon poeta elegíaco árbitro das lutas políticas atenienses recusando a tirania um Periandro tirano de Corinto um Epimênides o próprio tipo do mago inspirado do theios aner que se alimentava de malva e de asfódelo e cuja alma se liberta do corpo à vontade Por meio de uma mistura de dados puramente lendários de alusões históricas de sentenças políticas e de chavões morais a tradição mais ou menos mítica dos Sete Sábios faznos atingir e compreender um momento de história social Momento de crise que começa no fim do século 37 Sobre o Perí philosophias de Aristóteles cf A J Festugière La révélation dHermès Trismégiste II Le dieu cosmique Paris 1949 pp 219 e ss e App 1 46 VII e se desenvolve no VI período de confusões e de conflitos internos de que distinguimos algumas das condições econômicas período que os gregos viveram num plano religioso e moral como uma discussão de todo seu sistema de valores um golpe contra a própria ordem do mundo um estado de erro e de impureza As consequências dessa crise serão no domínio do direito e da vida social as reformas às quais se acham precisamente associados não só adivinhos purificadores como Epimênides mas também nomótetas como Sólon aisimnetas como Pítaco ou tiranos como Periandro Será também no domínio intelectual um esforço para traçar o quadro e para elaborar as noções fundamentais da nova ética grega Poderseia dizer esquematizando muito que o ponto de partida da crise é de ordem económica que ela reveste na origem a forma de uma efervescência religiosa ao mesmo tempo que social mas que nas condições próprias à cidade leva definitivamente ao nascimento de uma reflexão moral e política de caráter laico que encara de maneira puramente positiva os problemas da ordem e da desordem no mundo humano As transformações econômicas que devemos limitar nos a mencionar estão ligadas a um fenômeno cuja importância aparece igualmente decisiva no plano espiritual a retomada e o desenvolvimento dos contatos com o Oriente que com a queda do império micênico tinham sido rompidos Na Grécia continental as relações encontramse restabelecidas no século VIII por intermédio dos navegadores fenícios Nas costas da Jônia os gregos entram em contato com o interior da Anatólia especialmente com a Lídia Mas é no último quartel do século VII que a economia das cidades na Europa e na Ásia voltase decididamente para o exterior o tráfico por mar vai então amplamente ultrapassar a bacia oriental do Mediterrâneo entregue a seu papel de via de comunicação A zona dos intercâmbios estendese a oeste até a África e à Espanha a leste até ao Mar Negro38 Esse alargamento do 38 Sobre a expansão dos gregos no Mediterrâneo e a retomada dos contatos com o Oriente cf Jean Bérard La colonisation grecque de LItalie Méridionale et de la Sicile dans lAntiquité Paris 1957 La migration éolienne Revue Archéologique 1959 pp 128 Thomas J Dunbabin The Greeks and their eastern neighbours Studies in the relation between Greece and the countries of the Near East in the eight and 47 horizonte marítimo responde aliás a uma exigência muito imperiosa o desenvolvimento demográfico dispõe o problema dos cereais de maneira tão mais ampla que a agricultura helênica tende doravante a favorecer as culturas mais lucrativas como a vinha e a oliveira cujos produtos podem ser por sua vez exportados e trocados Procura de terra procura de alimento procura também do metal tal é o tríplice objetivo que se pôde atribuir à expansão grega pelo Mediterrâneo No decurso da época sombria numa Grécia isolada e desprovida de riquezas de minas o ouro e a prata tinhamse tornado raros quando não tinham desaparecido de todo A partir do século VIII abremse fontes novas de abastecimento em metais preciosos durante todo o século VII a quantidade de ouro de prata e de electro posta em circulação no mundo grego aumenta seu uso desenvolvesse sob formas diversas joias trabalho de ourivesaria objetos pessoais ex votos riqueza acumulada a título privado ou entesourada nos templos enfim moedagem após sua invenção no fim do século VII pelos reis da Lídia Não é fácil apreciar exatamente as mudanças de estrutura social causada por essa orientação de todo um setor da economia grega para o comércio marítimo Por falta de evidência direta não se pode inferir sua natureza e amplidão senão a partir de testemunhos literários que concernem às formas novas de sensibilidade e de pensamento A poesia lírica é a esse respeito uma fonte preciosa Mostra que a influência do Oriente não se fixa somente na cerâmica nos temas figurados na ornamentação da vida Seduzida pelo luxo pelo requinte pela opulência a aristocracia grega do século VII inspirase em seus gostos em seus costumes nesse ideal faustoso e delicado que caracteriza o mundo oriental39 A ostentação da riqueza tornase desde então um dos elementos do prestígio dos gene um meio que se une ao valor guerreiro e às qualificações religiosas para marcar a supremacia assegurar o domínio sobre os rivais Exercendo se no terreno da riqueza como em outros a Eris aristocrática seventh centuries Londres 1957 Carl Roebuck Ionan trade and colonization Nova York 1959 Michel B Sakellariou La migration grecque en Ionie Atenas 1958 39 Cf Santo Mazzarino Fra oriente e occidente Ricerche di storia grecia arcaica Florença 1947 48 pôde agir na sociedade grega como um fermento de dissociação de divisão Personagens novos aparecem no próprio seio da nobreza o homem bemnascido o kalós kagathós que por espírito de lucro ou por necessidade entregase ao tráfego marítimo uma parte da aristocracia transformase como o escreve Louis Gernet passa do estágio do feudal ao de gentleman farmer40 Vêse surgir um tipo de proprietário de bens de raiz que vela pelo rendimento de suas terras que torna sua cultura especializada procura aumentá las interessandose por essa reserva que fica ao lado das tenências de servos e dos kleroi dos pequenos cultivadores livres aberta às obras de arroteamento o nobre que é também agora um rico estende sua empresa sobre a eschatié a expensas das coletividades aldeãs pode mesmo apropriarse dos bens de seus obrigados clientes ou devedores eventuais A concentração da propriedade territorial em pouquíssimas mãos o avassalamento da maior parte do demos reduzido ao estado de sesmeiro fazem da questão agrária o problema capital desse período arcaico Sem dúvida desenvolveuse uma população de artesãos que pôde ser relativamente numerosa em certos setores como a cerâmica e a metalurgia devese assinalar a esse respeito um fato técnico de grande alcance a metalurgia do ferro no fim do século VIII substitui a do bronze nos objetos de produção corrente com os lojistas e todo o populacho que na costa e no porto vive do mar os artesãos formam até na cidade residência aristocrática uma categoria social nova cuja importância irá crescendo Mas no século VII a oposição que se aviva entre urbanos e rurais ergue ainda contra os nobres que vivem en asty na cidade onde se encontram agrupados os edifícios públicos associados à arché uma classe aldeã encarregada de alimentálos e que povoa as aldeias periféricas os demoi As mudanças técnicas e económicas que evocamos não se limitam ao mundo grego as cidades fenícias em pleno desenvolvimento comercial desde o século IX conheceram análogas transformações41 O que é próprio da Grécia é a 40 L Gernet Horoi Studi in onore de U E Paoli p 348 41 Sobre as analogias e as diferenças no plano socioeconómico entre o mundo fenício e o mundo grego cf as notas de G Thomson Studies in ancient Greek society II The first philosophers Londres 1955 49 reação que elas suscitam no grupo humano sua recusa a uma situação sentida e denunciada como um estado de anomia a refundição de toda a vida social para organizála em conformidade com aspirações comunitárias e igualitárias tão fortes que nessa idade do Ferro em que os poderosos perderam toda vergonha em que a Aidós teve de deixar a terra pelo céu deixando o campo livre ao desencadeamento das paixões individuais e à Hybris as relações sociais aparecem marcadas pela violência pela astúcia pela arbitrariedade e pela injustiça O esforço da renovação atua em muitos planos é ao mesmo tempo religioso jurídico político económico sempre visa restringir a dynamis dos gene quer fixar um limite à sua ambição à sua iniciativa ao seu desejo de poder submetendoos a uma regra geral cuja coação se aplique igualmente a todos Essa norma superior é a Dike que o Mago invoca como um poder divino que o nomóteta promulga em suas leis e de que pode às vezes inspirarse o tirano mesmo se a deturpa impondoa pela violência é ela que deve estabelecer entre os cidadãos um justo equilíbrio a garantir a eunomia a divisão eqüitativa dos cargos das honras do poder entre os indivíduos e as facções que compõem o corpo social A Dike assim concilia harmoniza esses elementos para deles fazer uma só e mesma comunidade uma cidade unida Os primeiros testemunhos do espírito novo têm relação com certas matérias de Direito A legislação sobre o homicídio marca o momento em que o assassínio deixa de ser uma questão privada um ajuste de contas entre gene à vingança do sangue limitada a um círculo estreito mas obrigatório para os parentes do morto e que pode engendrar um ciclo fatal de assassínios e de vinganças substituise uma repressão organizada no quadro da cidade controlada pelo grupo e onde a coletividade se encontra comprometida como tal Não é mais somente para os parentes da vítima mas para a comunidade inteira que o assassino se torna um objeto de impureza Essa universalização da condenação do crime o horror inspirado doravante por toda espécie de assassínio a obsessão do miasma que pode representar para uma cidade para um território o sangue derramado a exigência de uma expiação que é ao mesmo tempo uma purificação do mal todas essas 50 atitudes estão ligadas ao despertar religioso que se manifesta nos campos pelo progresso do dionisismo e que reveste em meios mais especializados a forma de um movimento de seitas como a dos Órficos Ao lado de um ensino sobre o destino das almas seu castigo no Hades a hereditariedade da falta o ciclo das reencarnações e a comunidade de todos os seres animados essa renovação religiosa caracterizase pela instituição de processos purificatórios em relação com as crenças novas No livro IX das Leis Platão tratando do homicídio sentirá ainda a necessidade de referirse explicitamente à doutrina ao logos dos sacerdotes que se ocupam das teletai Na classe desses magos purificadores a figura de Epimênides destacase com um relevo particular Plutarco defineo como um Sábio em matéria divina dotado de uma sophia entusiasta e iniciática42 é ele que é chamado a Atenas para expulsar o miasma que pesa sobre a cidade após o assassínio dos Cilonides Promotor de ritos catárticos é também um adivinho inspirado cujo saber diznos Aristóteles descobre o passado não o futuro seu dom de dupla visão faz conhecer com efeito as faltas antigas desvela os crimes ignorados cuja impureza engendra nos indivíduos e nas cidades um estado de perturbação e de enfermidade o delírio frenético da mania com seu cortejo de desordens de violências e assassínios Mas esse reformador religioso fundador de santuários e de ritos aparece aliás como um conselheiro político que Sólon associa à sua obra legislativa É que se trata no fundo nos dois casos de uma atividade orientada no mesmo sentido e que visa tanto num plano como no outro ordenar a vida social reconciliar e unificar a cidade Na Vida de Sólon Plutarco sublinhando o papel de Epimênides na regulamentação do luto que ele torna mais equilibrado e mais pacífico e nas medidas referentes ao bom comportamento das mulheres conclui Tendo como ao termo de uma iniciação santificado e consagrado a cidade por ritos expiatórios purificações fundações tornoua obediente ao direito e mais dócil deixandose mais facilmente persuadir no sentido da homónoia 42 Plutarco Vida de Sólon XII 712 51 Uma observação de Aristóteles breve mas sugestiva permitenos melhor apreender como nessa viragem da história da cidade o religioso o jurídico e o social podem acharse associados num mesmo esforço de renovação43 Aristóteles quer demonstrar o caráter natural da Polis ela é como uma família ampliada pois que se forma agrupando aldeias que por sua vez reúnem núcleos familiares Nota que o oikos a família doméstica é uma comunidade natural uma koinonia e lembra nessa ocasião os nomes pelos quais os membros do oikos eram designados por Carondas e por Epimênides A aproximação é em si mesma interessante Carondas é o legislador de Catânia como Zaleuco de Locres que é considerado seu mestre e ao qual seu nome é normalmente associado teria feito preceder suas Leis de um prelúdio análogo ao que Platão introduz como Prólogo no capítulo IX consagrado ao direito criminal tratase de uma verdadeira encantação que deve ser cantada e que se dirige àqueles cujo espírito é obsedado pelo pensamento de atos ímpios e criminosos Antes de promulgar as penas repressivas os legisladores querem agir preventivamente sobre os maus por uma magia purificante que utiliza a virtude calmante da música e da palavra cantada o criminoso é apresentado como um possesso um furioso enlouquecido por um mau daimon encarnação de uma impureza ancestral Nessa alma perturbada enferma a cátharsis mágica do legislador faz voltar a ordem e a saúde do mesmo modo que os ritos purificatórios de Epimênides restabelecem na cidade conturbada pelas dissensões e pelas violências causadas por crimes antigos a calma a moderação a homónoia Mas a observação de Aristóteles vai mais longe Carondas e Epimênides designam os membros do oikos pelos termos que sublinham entre eles uma similaridade ilustrada pelo fato de que partilham o mesmo pão comem à mesma mesa É precisamente o estado de espírito que preside como vimos à instituição espartana das sissitias entre hómoioi Tratase de dar aos cidadãos o sentimento de que eles são de alguma maneira irmãos Nada é mais suscetível de fortalecer essa 43 Aristóteles Política 1252 b 15 52 convicção do que a consumição de um alimento cozido na mesma lareira e dividido na mesma mesa a refeição é uma comunhão que realiza entre convivas uma identidade de ser uma espécie de consanguinidade Compreendese desde então que o assassínio de um concidadão possa provocar no corpo social o mesmo horror religioso o mesmo sentimento de uma impureza sacrílega que se se tivesse tratado de um crime contra um parente de mesmo sangue Prova de que a consciência social tenha efetivamente influído nesse sentido temse na evolução semântica do termo que designa o assassino primeiramente é o assassino de um parente depois o assassino estranho à família da vítima mas encarado em sua relação com essa família marcado pelos parentes da vítima que sentem a seu respeito ódio e repulsa religiosa com a mesma palavra forte que designa o assassino de um homem de seu próprio sangue enfim o assassino de um indivíduo qualquer sem ideia de uma relação especial com a família da vítima Quando se passou da vingança privada à repressão judiciária do crime a palavra que definia o assassino de um parente depois o assassino em relação aos parentes da vítima pôde manterse para designar o criminoso à vista de todos seus concidadãos44 Além disso o que é válido para os crimes de sangue é também para os outros delitos Aristóteles e Plutarco contam entre as inovações mais felizes da constituição de Sólon o princípio segundo o qual o dano causado a um indivíduo particular é na realidade um atentado contra todos portanto Sólon dá a cada um o direito de intervir em justiça em favor de quem quer que seja lesado e de fazer punir a adikia sem ser pessoalmente sua vítima Os diversos traços que os gregos agruparam para compor a figura de um Epimênides não formam um testemunho isolado Um personagem como Abaris que se inscreve com outros magos Aristeas Hermótimo na tradição lendária do Pitagorismo não é somente um xamã que voa pelos ares com sua flecha de ouro vive sem alimento e manda sua alma vaguear longe de seu corpo é ao mesmo tempo que um 44 Cf L Gernet Droit et société dans Ia Grèce ancienne Paris 1955 pp 2950 Ver entretanto contra P Chantraine Atenas 1960 pp 8993 53 cresmólogo um reformador religioso e um purificador funda no quadro da religião pública ritos novos em Atenas abre santuários protetores da comunidade em Esparta o de Core salvadora institui processos catárticos que permitem às cidades impedir o desencadeamento de um loimós Um personagem histórico como Onomácrito que se liga a Museu cujos oráculos compila e se for preciso falsifica desempenha junto aos Psistrátidas um papel de adivinho que coleciona para uso de seus amos compilações de oráculos secretos adaptados às circunstâncias mas é também um conselheiro político e até um embaixador Aristóteles indicanos que alguns o associavam a Licurgo a Carondas e a Zaleuco para dele fazer um dos primeiros peritos em matéria de legislação Não se poderia pois conceber o começo do direito fora de um certo clima religioso o movimento místico corresponde a uma consciência comunitária mais exigente traduz uma sensibilidade nova do grupo a respeito do assassínio sua angústia diante das violências e os ódios que a vingança privada engendra o sentimento de estar coletivamente comprometido coletivamente ameaçado cada vez que corre o sangue a vontade de regulamentar as relações dos gene e de quebrar seu particularismo Entretanto essa efervescência mística não se prolongará senão em meios sectários muito estreitamente circunscritos Não dá origem a um vasto movimento de renovação religiosa que absorveria finalmente a política E o inverso que se produz As aspirações comunitárias e unitárias vão inserirse mais diretamente na realidade social orientar um esforço de legislação e de reforma mas remodelando assim a vida pública elas próprias vão transformarse laicizarse encarnandose na instituição judiciária e na organização política vão prestarse a um trabalho de elaboração conceptual transporse ao plano de um pensamento positivo Louis Genet bem mostrou em particular a mutação intelectual que o advento do direito propriamente dito realiza45 No processo arcaico os gene enfrentavamse tendo por armas as fórmulas rituais e as provas previstas pelo costume 45 Ib pp 6181 54 o juramento o juramento solidário o testemunho Essas provas tinham valor decisório possuíam um poder religioso asseguravam automaticamente o êxito no curso do processo se eram corretamente utilizadas sem que o juiz em seu papel de puro árbitro que se limitava a verificar e a declarar a vitória ao termo da prova de força tivesse que se indagar sobre o fundo reconstituir o objeto do litígio conhecer fatos em si mesmos Mas quando com a cidade o juiz representa o corpo cívico a comunidade em seu conjunto e que encarnando este ser impessoal superior às partes ele próprio pode decidir resolver segundo sua consciência e de acordo com a lei são as próprias noções de prova de testemunho e de julgamento que se encontram radicalmente transformadas O juiz deve com efeito trazer à luz uma verdade em função da qual terá doravante de pronunciarse Pede às testemunhas que não mais jurem afirmandose solidários de uma das duas partes mas que façam um relato dos fatos Por essa concepção inteiramente nova da prova e do testemunho o processo empregará toda uma técnica de demonstração de reconstrução do plausível e do provável de dedução a partir de indícios ou de sinais e a atividade judiciária contribuirá para elaborar a noção de uma verdade objetiva que o processo antigo ignorava no quadro do préjurídico 55 CAPÍTULO VI A ORGANIZAÇÃO DO COSMOS HUMANO46 A efervescência religiosa não contribuiu somente para o nascimento do Direito Preparou também um esforço de reflexão moral orientado por especulações políticas O temor da impureza a cujo papel na origem da legislação sobre o homicídio que nos referimos encontrava sua mais intensa expressão na aspiração mística a uma vida pura de todo contato sangrento Da mesma maneira ao ideal de austeridade que se afirma no grupo em reação contra o desenvolvimento do comércio a ostentação do luxo a brutal insolência dos ricos corresponde sob uma forma extrema o ascetismo preconizado em certos agrupamentos religiosos Os meios sectários puderam assim contribuir para fazer uma imagem nova da areté A virtude aristocrática era uma qualidade natural ligada ao brilho do nascimento manifestandose pelo valor no combate e pela opulência do gênero de vida Nos agrupamentos religiosos não somente a areté se despojou de seu aspecto guerreiro tradicional mas definiuse por sua oposição a tudo que representasse como comportamento e forma de sensibilidade o ideal de habrosyne a virtude é o fruto de uma longa e penosa áskesis de uma disciplina dura e severa a meleté emprega uma epiméléia um controle vigilante sobre si uma atenção sem descanso para escapar às tentações do prazer à hedoné ao atrativo da moleza e da sensualidade a malachia e a tryphé para preferir uma vida inteira votada ao ponos ao esforço penoso As mesmas tendências rigoristas que percebemos de certa maneira avultadas nos meios sectários onde definem uma disciplina de ascese que permite aos iniciados escapar às injustiças deste mundo sair do ciclo das reencarnações e voltar ao divino voltamos a encontrálas em ação em plena vida social modificando as condutas os valores as instituições fora essa vez de toda preocupação de ordem 46 Utilizamos amplamente neste capítulo as indicações dadas por L Gernet num curso não publicado dado na Ecole Pratique des Hautes Etudes em 1951 sobre as origens do pensamento político entre os gregos 87 56 escatológica O fausto a moleza o prazer são rejeitados o luxo proscrito do costume da habitação das refeições a riqueza é denunciada e com que violência Mas a condenação visa a suas consequências sociais aos males que ela engendra no grupo às divisões e aos ódios que suscita na cidade ao estado de stasis que provoca compor uma espécie de lei natural A riqueza substitui todos os valores aristocráticos casamento honras privilégios reputação poder tudo pode obter Doravante é o dinheiro que conta o dinheiro que faz o homem Ora contrariamente a todos os outros poderes a riqueza não comporta nenhum limite nada há nela que possa marcar seu termo limitála realizála totalmente A essência da riqueza é o descomedimento ela é a própria figura que a hybris toma no mundo Tal é o tema que volta de maneira obsedante no pensamento moral do século VI Às fórmulas de Sólon passadas a provérbios Não há termo para a riqueza Koros a saciedade engendra hybris fazem eco as palavras de Teógnis Os que hoje têm mais ambicionam o dobro A riqueza ta chrémata tornase na homem loucura aphrosyne Quem possui quer mais ainda A riqueza acaba por já não ter outro objeto senão a si própria feita para satisfazer as necessidades da vida simples meio de subsistência tornase seu próprio fim colocase como necessidade universal insaciável ilimitada que nada poderá jamais saciar Na raiz da riqueza descobrese pois uma natureza viciada uma vontade pervertida e má uma pleonexia desejo de ter mais que os outros mais que sua parte toda a parte Ploutos comporta efetivamente aos olhos do grego uma fatalidade mas não de ordem econômica é a necessidade imanente a um caráter a um ethos a lógica de um tipo de comportamento Koros hybris pleonexia são as formas de contrassenso de que se reveste na Idade do Ferro a arrogância aristocrática este espírito de Eris que em lugar de uma nobre emulação não pode mais gerar senão injustiça opressão dysnomia Em contraste com a hybris do rico delineiase o ideal da sophrosyne É feito de temperança de proporção de justa medida de justo meio Nada em excesso é a fórmula da nova sabedoria Essa valorização do ponderado do que é mediador dá à areté grega um aspecto mais ou menos burguês é a 57 classe média que poderá desempenhar na cidade o papel moderador estabelecendo um equilíbrio entre os extremos dos dois bordos a minoria dos ricos que querem tudo conservar a multidão das pessoas pobres que querem tudo obter Aqueles que são chamados não são apenas os membros de uma categoria social particular a igual distância da indigência e da opulência representam um tipo de homem encarnam os valores cívicos novos como os ricos a loucura da hybris Em posição mediana no grupo os mesoi têm por papel estabelecer uma proporção um traço de união entre os dois partidos que dilaceram a cidade porque cada um reivindica para si a totalidade da arché Sendo ele próprio homem do centro Sólon põese como árbitro como mediador como reconciliador Fará da Polis presa da dysnomia um cosmos harmonioso se conseguir proporcionar a seus méritos respectivos a parte que cabe na arché aos diversos elementos que compõem a cidade Mas essa distribuição equilibrada essa eunomia impõe um limite à ambição daqueles que o espírito de descomedimento anima traça diante deles uma fronteira que não têm o direito de transpor Sólon erguese no centro do Estado como um marco inabalável um horos a fixar entre duas facções adversas o limite a não ser franqueado À sophrosyne virtude do justo meio corresponde a imagem de uma ordem política que impõe um equilíbrio a forças contrárias que estabelece um acordo entre elementos rivais Mas como no processo sob sua forma nova a arbitragem supõe um juiz que para aplicar sua decisão ou para impôla se necessário referese a uma lei superior às partes uma dike que deve ser para todos igual e a mesma Redigi dirá Sólon leis iguais para o kakós e para o agathós fixando para cada um uma justiça direita É para preservar o reino dessa lei comum a todos que Sólon recusa a tirania já a seu alcance Como tomar em suas mãos as mãos de um só homem essa arché que deve permanecer en meso O que Sólon realizou fê lo em nome da comunidade pela força da lei unindo ao mesmo tempo a violência e a justiça Kratos e Bia os dois velhos acólitos de Zeus que não deviam afastarse um instante de seu trono porque personificavam o que o poder do Soberano comporta ao mesmo tempo de absoluto de irresistível e de 58 irracional passaram ao serviço da Lei eilos servidores de Nomos que domina doravante no lugar do rei no centro da cidade Esse Nomos guarda por sua relação com a Dike uma espécie de ressonância religiosa mas exprimese também e sobretudo num esforço positivo de legislação numa tentativa racional para pôr fim a um conflito equilibrar forças sociais antagónicas ajustar atitudes humanas opostas O testemunho desse racionalismo político será encontrado no fragmento 4 de Sólon47 Como estamos longe da imagem hesiódica do Bom Rei cuja virtude religiosa é a única que pode aplacar as querelas fazer florir com a paz todas as bênçãos da terra A justiça aparece como uma ordem inteiramente natural que por si mesma se regulamenta É a maldade dos homens seu espírito de hybris sua sede insaciável de riqueza que produzem naturalmente a desordem segundo um processo de que se pode marcar de antemão cada fase a injustiça engendra a escravidão do povo e esta provoca em troca a sedição A justa medida para restabelecer a ordem e a besychie deve pois ao mesmo tempo quebrar a arrogância dos ricos fazer cessar a escravidão do demos sem ceder por isso à subversão Tal é o ensinamento que Sólon expõe aos olhos de todos os cidadãos A lição poderá ser momentaneamente desconhecida ou rejeitada o Sábio confia no tempo tendose tornado pública a verdade ou como ele próprio o diz sendo colocada es to meson dia virá em que os atenienses a reconhecerão Com Sólon Dike e Sophrosyne tendo descido do céu à Terra instalamse na ágora Quer dizer que elas doravante vão ter que prestar contas Os gregos continuarão certamente a invocálas mas não deixarão também de submetêlas à discussão Por meio dessa laicização tão acentuada do pensamento moral a imagem de uma virtude como a sophrosyne pôde renovarse precisarse Em Homero a sophrosyne tem um valor muito geral é o bom senso os deuses restituemno a quem o perdeu como podem fazer que o percam os espíritos mais prudentes48 Mas antes de ser reinterpretada pelos 47 Cf G Vlastos Solonian Justice Classical Philology 41 1946 pp 6583 48 Odiss XXIII 13 59 Sábios num contexto político a noção parece ter sido já elaborada em certos meios religiosos Designa neles a volta após um período de confusão e de possessão a um estado de calma de equilíbrio de controle Os meios empregados são do tipo dos que já assinalamos música cantos danças ritos purificatórios Puderam ser às vezes mais diretos e utilizados como um efeito de choque Pausânias viu no santuário de Hércules em Tebas uma pedra que pensavase Atena tinha lançado na cabeça do herói furioso quando alucinado pela mania e tendo massacrado seus filhos preparavase para matar Anfitrião49 Essa pedra que o tinha adormecido e acalmado chamavase sophronister A cura de Orestes tinha se operado em condições um pouco diferentes Em pleno delírio após o assassínio de sua mãe o infeliz chega a um lugar chamado as Fúrias Maníai Detémse ali mutila um dedo seu na época de Pausânias o dedo era ainda representado por uma pedra depositada sobre uma elevação de terra que se chamava mnema Dactylou o túmulo do Dedo É nesse lugar batizado Remédio Aké que ele reencontra a sophrosyne Pausânias acrescenta o seguinte detalhe as Fúrias que possuíam Orestes por todo o tempo em que o tornavam ekphron demente apareciamlhe negras mostraramse brancas logo que tendo cortado o dedo ele se tornou sophron são de espírito50 Esse mesmo jogo de contrastes entre impurezapurificação possessãocura loucurasaúde notase até no cenário em que opera o adivinho Melampous quando acalma por ritos secretos e por katharmói o delírio das filhas de Proito enterradas numa caverna de um lado correm as águas do Styx rio de impureza levando a toda criatura viva a doença e a morte do outro a fonte Alyssos cujas águas benfazejas curam os raivosos e todos os que o delírio da Lyssa possui51 Mas definindose assim por oposição a uma loucura que é ao mesmo tempo uma impureza a ponderação da sophrosyne ia tomar no clima religioso das seitas uma coloração ascética Virtude de inibição de abstinência consiste em afastarse do mal em evitar toda 49 Pausânias IX 11 2 50 Id VIII 34 1 e ss 51 Id VIII 17 6 e ss e 19 23 60 impureza não somente recusar as solicitações criminosas que um mau demônio pode suscitar em nós mas manterse puro do comércio sexual refrear os impulsos do eros e de todos os apetites ligados à carne fazer a aprendizagem por meio das provas previstas pelo caminho de vida de iniciação de sua capacidade de dominarse de vencerse a si próprio O domínio de si de que é feita a sophrosyne parece implicar senão um dualismo pelo menos uma certa tensão no homem entre dois elementos opostos o que é da ordem do thymós a afetividade as emoções as paixões temas favoritos da poesia lírica e o que é da ordem de uma prudência refletida de um cálculo raciocinado celebrados pelos Gnômicos Essas forças da alma não estão no mesmo plano O thymós é feito para obedecer para submeterse A cura da loucura como também sua prevenção emprega os meios que permitem persuadir o thymós tomálo disciplinado dócil ao comando para que não seja tentado jamais a entrar em rebelião a reivindicar uma supremacia que entregaria a alma à desordem Essas técnicas formam uma paideia que não tem valor somente no nível dos indivíduos Realiza neles a saúde o equilíbrio torna suas almas continentes mantendo em sujeição a parte que é feita para obedecer mas ao mesmo tempo adquire uma virtude social uma função política os males de que sofre a coletividade são precisamente a incontinência dos ricos o espírito de subversão dos maus Fazendo desaparecer um e outro a sophrosyne realiza uma cidade harmoniosa e concorde onde os ricos longe de desejar sempre mais dão aos pobres o que lhes sobra e onde a massa longe de entrar em revolta aceita submeterse àqueles que sendo melhores têm direito a possuir mais Essas preocupações de ordem política não foram talvez estranhas ao espírito de certas seitas no santuário de Demeter em Pérgamo onde o culto celebrado por uma confraria religiosa comportava o canto de hinos órficos como deviam fazêlo em Atenas os Licômides encontrase ao lado dos Olímpicos e das divindades de Elêusis uma série de 61 deuses órficos que personificavam ideias abstratas entre eles dois pares Areté e Sophrosyne Pistis e Homónoia52 Esse agrupamento merece ser destacado Em Teógnis Pistis é igualmente associada à Sophrosyne53 Tratase de uma noção social e política tal como a homónoia de que constitui o aspecto subjetivo a confiança que os cidadãos sentem entre si é a expressão interna a contrapartida psicológica da concórdia social Na alma como na cidade é pela força dessa Pistis que os elementos inferiores se deixam persuadir a obedecer àqueles que têm o encargo de comandar e aceitam submeterse a uma ordem que os mantém em sua função subalterna No conjunto entretanto é fora das seitas que a Sophrosyne adquire uma significação moral e política precisa Uma separação operase muito cedo entre duas correntes de pensamento de orientação bem diferente uma preocupase com a salvação individual a outra interessase pela salvação da cidade de um lado agrupamentos religiosos à margem da comunidade voltados para si mesmos em sua procura da pureza do outro meios diretamente comprometidos na vida pública expostos aos problemas causados pela divisão do Estado e que utilizam noções tradicionais como a de sophrosyne para conferirlhes com um conteúdo político novo uma forma não mais religiosa mas positiva Já numa instituição como a agogé espartana a sophrosyne aparece com um caráter essencialmente social É um comportamento imposto regulamentado marcado pelo comedimento que o jovem deve observar em todas circunstâncias comedimento em seu andar em seu olhar em suas expressões comedimento diante das mulheres em face dos mais velhos na ágora comedimento com respeito aos prazeres à bebida Xenofonte evoca essa reserva impregnada de gravidade quando compara o jovem couros lacedemônio que anda em silêncio e de olhos baixos a uma estátua de virgem A dignidade do comportamento tem uma significação 52 Cf W K C Guthrie Orphée et la religion grecque Étude sur la pensée orphique Paris 1956 pp 228 e ss H Usener Götternamen Versuch einer Lehre von der Keligiösen Begriffsbildung Bonn 1896 p 368 53 Teógnis 113738 62 institucional exterioriza uma atitude moral uma forma psicológica que se impõem como obrigações o futuro cidadão deve ser exercitado em dominar suas paixões suas emoções e seus instintos a agogé lacedemônia é precisamente destinada a experimentar esse poder de domínio de si A sophrosyne submete assim cada indivíduo em suas relações com outrem a um modelo comum conforme a imagem que a cidade se faz do homem político Por seu comedimento o comportamento do cidadão afastase tanto da negligência das trivialidades grotescas próprias do vulgo quanto da condescendência da arrogância altiva dos aristocratas O novo estilo das relações humanas obedece às mesmas normas de controle de equilíbrio de moderação que traduzem as sentenças como conhecete a ti mesmo nada em excesso a justa medida é o melhor O papel dos Sábios é ter em suas máximas ou em seus poemas destacado e expressado verbalmente os valores que ficavam mais ou menos implícitos nas condutas e na vida social do cidadão Mas seu esforço de reflexão não resultou somente numa formulação conceptual situou o problema moral em seu contexto político uniuo ao desenvolvimento da vida pública Envolvidos nas lutas civis preocupados em pôr lhes um termo por sua obra de legisladores é em função de uma situação social de fato no quadro de uma história marcada por um conflito de forças um choque de grupos que os Sábios elaboraram sua ética e definiram de maneira positiva as condições que permitem instaurar a ordem no mundo da cidade Para compreender que realidades sociais recobrem o ideal da sophrosyne como se inserem no concreto as noções de métrion de pistis de homónoia de eunomia é necessário referirse a reformas constitucionais como as de Sólon Estas criam um espaço para a igualdade a isotes que já aparece como um dos fundamentos da nova concepção da ordem Sem isotes não há cidade porque não há philia O igual escreve Sólon não pode engendrar guerra Mas tratase de uma igualdade hierárquica ou como o dirão os gregos geométrica e não aritmética a noção essencial é de fato a de proporção A cidade forma um conjunto organizado um cosmos que se torna harmonioso se cada um de seus componentes está em 63 seu lugar e possui a porção de poder que lhe cabe em função de sua própria virtude Ao demos dirá Sólon dei tanto kratos ou geras quanto era suficiente sem nada suprimir nem acrescentar à sua timé Não há pois nem direito igual a todas as magistraturas pois que as mais altas estão reservadas aos melhores nem direito igual à propriedade territorial Sólon recusouse a uma partilha das terras que teria dado aos kakói e aos esthlói uma parte igual da fértil terra da pátria Onde se encontra então a igualdade Ela reside no fato de que a lei que agora foi fixada é a mesma para todos os cidadãos e que todos podem fazer parte dos tribunais como da assembleia Antes eram o orgulho a violência de ânimo dos ricos que regulavam as relações sociais Portanto Sólon era o primeiro que se recusava a obedecer a deixarse persuadir Agora é a dike que fixa a ordem de divisão das timaí são leis escritas que substituem a prova de força em que sempre os fortes triunfavam e que impõem sua norma de equidade sua exigência de equilíbrio A homónoia a concórdia é uma harmonia obtida por proporções tão exatas que Sólon lhes dá uma forma quase numérica as quatro classes nas quais são divididos os cidadãos e que correspondem a uma gradação honorífica são baseadas em medidas de produtos agrícolas quinhentas medidas para a mais alta classe trezentas para os hippeis duzentas para os zeugitas O acordo das diversas partes da cidade tornouse possível graças à ação dos mediadores as classes intermediárias que não queriam ver nenhum dos extremos apoderarse da arché O nomóteta e a lei que ele promulga são em si a expressão dessa vontade mediana dessa média proporcional que dará à cidade seu ponto de equilíbrio O desenvolvimento do pensamento moral e da reflexão política prosseguirá nessa linha às relações de força tentar seá substituir relações de tipo racional estabelecendo em todos os domínios uma regulamentação baseada na medida e visando proporcionar igualar os diversos tipos de intercâmbio que formam o tecido da vida social Uma observação atribuída a Sólon esclarece a significação dessa mudança operada como o nota Plutarco 64 pela razão e pela regra54 Anárcasis zombava do sábio ateniense que imaginava por leis escritas reprimir a adikia e a pleonexia de seus concidadãos semelhantes a teias de aranha as leis deteriam os fracos e os pequenos os ricos e os poderosos as despedaçariam A isso Sólon opunha o exemplo das convenções que os homens observam porque nenhuma das duas partes contratantes tem interesse em violálas55 Tratase pois de promulgar para a cidade regras que codificam as relações entre indivíduos segundo os mesmos princípios positivos de vantagem recíproca que presidem ao estabelecimento de um contrato Como E Will o indicou56 é no quadro desse esforço geral de codificação e de medida que se deve situar a instituição da moeda em seu sentido próprio isto é da moeda de Estado emitida e garantida pela Cidade O fenômeno terá as consequências económicas que se conhecem nesse plano representará na sociedade grega uma espécie de fator de profunda transformação orientandoa no sentido do mercantilismo Mas no início por sua significação social moral e intelectual a instituição da moeda integrase no empreendimento de conjunto dos legisladores Marca a confiscação em proveito da comunidade do privilégio aristocrático da emissão de lingotes puncionados a retenção pelo Estado das fontes de metal precioso a substituição dos brasões nobiliários pela cunhagem da Cidade é ao mesmo tempo o meio de codificar regrar ordenar os intercâmbios de bens e de serviços entre cidadãos por intermédio de uma avaliação numérica precisa talvez seja também como E Will o sugere uma tentativa de igualar de uma certa maneira as fortunas por distribuição de numerário ou modificação da taxa do valor sem recorrer a uma confiscação ilegítima No plano intelectual a moeda titulada substitui a imagem antiga toda carregada de força afetiva e de implicações religiosas de uma riqueza feita de hybris pela noção abstraia do nómisma 54 Plutarco Vida de Sólon 14 5 55 Ibid 5 45 56 E Will Korinthiaka Recherches sur lhistoire et la civilisation de Corinthe des origines aux guerres médiques Paris 1955 pp 495502 De laspect éthique de lorigine grecque de la monnaie Revue historique 212 1954 pp 209 e ss Reflexions et hypothéses sur les origines du monnayage Revue numismatique 17 1955 pp 523 65 padrão social de valor artifício racional que permite estabelecer entre realidades diferentes uma medida comum e igualar assim o intercâmbio como relação social E efetivamente notável que as duas grandes correntes que se opõem no mundo grego uma de inspiração aristocrática e outra de espírito democrático coloquemse em sua polêmica no mesmo terreno e reclamem igualmente a equidade a isotes A corrente aristocrática encara na perspectiva da eunomia de Sólon a cidade como um cosmos feito de partes diversas mantidas pela lei numa ordem hierárquica A homónoia análoga a um acorde harmónico repousa sobre uma relação do tipo musical 21 32 43 A medida justa deve conciliar forças naturalmente desiguais assegurando uma preponderância sem excesso de uma sobre a outra A harmonia da eunomia implica pois o reconhecimento no corpo social como no indivíduo de um certo dualismo de uma polaridade entre o bem e o mal a necessidade de assegurar a preponderância do melhor sobre o pior E essa orientação que triunfa no pitagorismo57 é ela ainda que preside à teoria da sophrosyne tal como Platão a exporá na República58 Não é uma virtude especial de uma das partes do Estado mas a harmonia do conjunto que faz da cidade um cosmos que a torna senhora de si no sentido em que se diz que um indivíduo é senhor de seus prazeres e de seus desejos Comparandoa a um canto em uníssono Platão a define um acorde segundo a natureza entre as vozes do menos bom e do melhor sobre a questão de saber a quem deve caber o comando no Estado e no indivíduo Um texto de Arquitas o homem de Estado pitagórico faznos deixar as alturas filosóficas da República para estreitar de mais perto o concreto social Mostranos o que a prática dos intercâmbios comerciais e sua necessária regulamentação por via de contrato puderam trazer à noção de uma medida das relações sociais avaliando exatamente em conformidade com os princípios da igualdade proporcional as relações entre atividades funções serviços vantagens e honras das diversas categorias sociais Uma vez 57 Cf A Delatte Essai sur la politique pythagoricienne Liège et Paris 1922 58 Platão República IV 430 d e ss 66 descoberto o cálculo raciocinado logismós escreve Arquitas põe fim ao estado de stasis e traz a homónoia pois em consequência disso não há mais pleonexia e a isotes se realiza e é por ela que se efetua o comércio em matéria de intercâmbio contratual graças a isso os pobres recebem dos poderosos e os ricos dão aos necessitados pois têm uns e outros a pistis de que terão por esse meio a isotes a igualdade Percebese bem aqui como a relação social assimilada a um vínculo contratual e não mais a um estatuto de domínio e de submissão vai exprimirse em termos de reciprocidade de reversibilidade Segundo o testemunho de Aristóteles sobre a situação em Tarento a intenção de Arquitas teria sido na prática manter a apropriação individual dos bens nas mãos dos melhores na condição de que concedessem que deles desfrutasse a massa dos pobres de maneira que encontrasse cada um sua conveniência na situação assim regulamentada Para os partidários da eunomia a equidade é introduzida nas relações sociais graças a uma conversão moral a uma transformação psicológica da elite em vez de procurarem poder e riquezas os melhores são formados por uma paideia filosófica para não desejar ter mais pleonectein mas ao contrário por espírito de generosa liberalidade para dar aos pobres que de seu lado se encontram na impossibilidade material de pleonectein59 Assim as classes baixas são mantidas na posição inferior que lhes convém sem sofrer entretanto nenhuma injustiça A igualdade realizada permanece proporcional ao mérito A corrente democrática vai mais longe define todos os cidadãos como tais sem consideração de fortuna nem de virtude como iguais que têm os mesmos direitos de participar de todos os aspectos da vida pública Tal é o ideal de isonomia que encara a igualdade sob a forma da relação mais simples 11 A única justa medida suscetível de harmonizar as relações entre os cidadãos é a igualdade plena e total Não se trata mais então como precedentemente de encontrar a escala que faça os poderes proporcionais ao mérito e que realize entre elementos diferentes dissonantes mesmo 59 Aristóteles Política II 1267b 67 um acorde harmônico mas de igualar estritamente entre todos a participação na arché o acesso às magistraturas fazer desaparecer todas as diferenças que opõem entre si as diversas partes da cidade unificálas por mistura e fusão para que nada as distinga mais no plano político umas das outras É esse objetivo que realizam as reformas de Clístenes constituem uma organização política de conjunto que por sua coerência pela clareza de seus traços por seu espírito plenamente positivo apresentase como a solução de um problema que lei deve ordenar a Cidade para que ela seja uma na multiplicidade de seus concidadãos para que eles sejam iguais em sua necessária diversidade No decurso do período anterior a Clístenes que vai do arcontado de Sólon à tirania depois à queda dos Pisistrátidas a história ateniense tinha sido dominada pelo conflito de três facções revoltadas umas contra as outras em sua luta pelo poder O que representam essas facções Traduzem um conjunto complexo de realidades sociais que nossas categorias políticas e econômicas não encobrem exatamente Assinalam primeiramente solidariedades tribais e territoriais Cada partido tira seu nome de uma das três regiões em que a terra da Ática aparece dividida os pediakoí são os homens da planície do pedíon isto é na realidade os habitantes da cidade com as ricas terras que cercam a aglomeração urbana os parálios povoam o litoral marítimo os diácrios são os homens da montanha os do interior do país isto é dos demos periféricos mais afastados do centro urbano A essas divisões territoriais correspondem diferenças de gênero de vida de estatuto social de orientação política os pediakoí são aristocratas que defendem seus privilégios de eupátridas e seus interesses de proprietários de bens de raiz os parálios formam a nova camada social dos mesoi que procuram evitar o triunfo dos extremos os diácrios constituem o partido popular agrupam uma população de pequenos aldeões de tetas de lenhadores de carvoeiros muitos dos quais não têm lugar na organização tribal e que não estão ainda integrados no quadro da cidade aristocrática Enfim essas três facções aparecem como grupos de clientela ao serviço de grandes famílias aristocráticas cuja rivalidade domina o jogo político 68 Entre essas facções que formam no Estado por assim dizer tantas partes separadas e opostas luta aberta e compromissos sucedemse até o momento em que Clístenes funda a Polis sobre uma base nova60 A antiga organização tribal é abolida Em lugar das quatro tribos jônicas da África que delimitavam o corpo social Clístenes cria um sistema de dez tribos das quais cada uma agrupa como antes três trítias mas entre as quais se acham divididos todos os demos da Ática A cidade situase assim num outro plano distinto do das relações de gene e dos vínculos de consanguinidade tribos e demos são estabelecidos numa base puramente geográfica reúnem habitantes de um mesmo território não parentes de mesmo sangue como os gene e as frátrias que subsistem sob sua forma antiga mas que agora ficam fora da organização propriamente política Além disso cada uma das dez tribos novamente formadas realiza o amálgama das três partes diferentes entre as quais a cidade estava antes dividida Com efeito das três trítias que uma tribo compreende a primeira deve necessariamente pertencer à região costeira a segunda ao interior do país a terceira à região urbana e a seu território circundante Cada tribo realiza assim a mistura das populações dos territórios dos tipos de atividade de que é constituída a cidade Como o assinala Aristóteles se Clístenes tivesse instituído doze tribos em lugar das dez que criou teria então classificado os cidadãos nas trítias que já existiam havia com efeito para as quatro tribos antigas doze trítias E assim não teria conseguido unificar por mistura a massa dos cidadãos61 A organização administrativa responde pois a uma vontade deliberada de fusão de unificação do corpo social Além disso uma divisão artificial do tempo civil permite a igualação completa da arché entre todos os grupos semelhantes assim criados O calendário lunar continua a 60 Uma das soluções de compromisso parece ter consistido na atribuição sucessiva do arcontado a cada um dos chefes dos três clãs rivais cf sobre essa questão Benjamin D Meritt Greek inscription An early archon list Hesperia 8 1939 pp 5965 H T Wade Gery Miltiades Journal of hellenic Studies 71 1951 pp 212221 Comparese essa tentativa de divisão equilibrada do poder entre facções opostas com a que nos é relatada por Aristóteles para um período anterior nomeação de dez arcontes compreendendo cinco eupátridas três agroikói dois demiurgói Constituição de Atenas 13 2 61 Aristóteles Constituição de Atenas 21 4 69 regulamentar a vida religiosa Mas o ano administrativo é dividido em dez períodos de 36 ou 37 dias correspondendo a cada uma das dez tribos O Conselho dos Quatrocentos é elevado a quinhentos membros cinquenta por tribo de maneira que no decurso desses dez períodos do ano alternadamente cada tribo forma a comissão permanente do Conselho Com Clístenes o ideal igualitário ao mesmo tempo que se exprime no conceito abstrato de isonomia ligase diretamente à realidade política inspira uma transformação completa das instituições O mundo das relações sociais forma então um sistema coerente regulado por relações e correspondências numéricas que permitem aos cidadãos manterse idênticos entrar uns com os outros nas relações de igualdade de simetria de reciprocidade compor todos em conjunto um cosmos unido A Polis apresentase como um universo homogêneo sem hierarquia sem planos diversos sem diferenciação A arché já se não concentra num personagem único no cume da organização social Está dividida igualmente por meio de todo o domínio da vida pública nesse espaço comum em que a cidade encontra seu centro seu meson Segundo um ciclo regulamentado a soberania passa de um grupo a outro de um indivíduo a outro de tal maneira que comandar e obedecer em vez de se oporem como dois absolutos tornamse os dois termos inseparáveis de uma mesma relação reversível Sob a lei de isonomia o mundo social toma a forma de um cosmos circular e centrado em que cada cidadão por ser semelhante a todos os outros terá que percorrer a totalidade do circuito ocupando e cedendo sucessivamente segundo a ordem do tempo todas as posições simétricas que compõem o espaço cívico 70 CAPÍTULO VII COSMOGONIAS E MITOS DE SOBERANIA Na história do homem as origens geralmente nos escapam Entretanto se o advento da filosofia na Grécia marca o declínio do pensamento mítico e o começo de um saber de tipo racional podem ser fixados a data e o lugar de nascimento da razão grega e estabelecido seu estado civil É no princípio do século VI na Mileto jônica que homens como Tales Anaximandro Anaxímenes inauguram um novo modo de reflexão concernente à natureza que tomam por objeto de uma investigação sistemática e desinteressada de uma história da qual apresentam um quadro de conjunto uma theoria Da origem do mundo de sua composição de sua ordem dos fenômenos meteorológicos propõem explicações livres de toda a imaginária dramática das teogonias e cosmogonias antigas as grandes figuras das Potências primordiais já se extinguiram nada de agentes sobrenaturais cujas aventuras lutas façanhas formavam a trama dos mitos de gênese que narravam o aparecimento do mundo e a instituição da ordem nem mesmo alusão aos deuses que a religião oficial associava nas crenças e no culto às forças da natureza Entre os físicos da Jônia o caráter positivo invadiu de chofre a totalidade do ser Nada existe que não seja natureza physis Os homens a divindade o mundo formam um universo unificado homogêneo todo ele no mesmo plano são as partes ou os aspectos de uma só e mesma physis que põem em jogo por toda parte as mesmas forças manifestam a mesma potência de vida As vias pelas quais essa physis nasceu diversificou se e organizouse são perfeitamente acessíveis à inteligência humana a natureza não operou no começo de maneira diferente de como o faz ainda cada dia quando o fogo seca uma vestimenta molhada ou quando num crivo agitado pela mão as partes mais grossas se isolam e se reúnem Como não há senão uma só natureza que exclui a própria noção de sobrenatural não há senão uma só temporalidade O original e o primordial despojamse de sua majestade e de seu mistério têm a banalidade tranquilizadora dos fenômenos familiares 71 Para o pensamento mítico a experiência cotidiana se esclarecia e adquiria sentido em relação aos atos exemplares praticados pelos deuses na origem Invertemse os termos da comparação entre os jônios Os acontecimentos primitivos as forças que produziram o cosmos se concebem à imagem dos fatos que se observam hoje e dependem de uma explicação análoga Já não é o original que ilumina e transfigura o cotidiano é o cotidiano que torna o original inteligível fornecendo modelos para compreender como o mundo se formou e ordenou Essa revolução intelectual aparece tão súbita e tão profunda que foi considerada inexplicável em termos de causalidade histórica falouse de um milagre grego Na terra jônica o logos terseia desprendido bruscamente do mito como as escamas caem dos olhos do cego E a luz desta razão uma vez por todas revelada não teria mais deixado de iluminar os progressos do espírito humano Os filósofos jônios escreve Burnet abriram o caminho que a ciência depois só teve que seguir62 E precisa em outra passagem Seria inteiramente falso procurar as origens da ciência jônica numa concepção mítica qualquer A essa interpretação opõese ponto por ponto a de F M Cornford Segundo ele a primeira filosofia aproximase mais de uma construção mítica do que de uma teoria científica A física jônica nada tem em comum nem em sua inspiração nem em seus métodos com o que chamamos ciência em particular ignora tudo sobre a experimentação Não é também o produto de uma reflexão ingênua e espontânea da razão sobre a natureza Transpõe sob uma forma laica e num vocabulário mais abstrato a concepção do mundo elaborada pela religião As cosmologias retomam e prolongam os temas essenciais dos mitos cosmogônicos Trazem uma resposta ao mesmo tipo de questão não procuram como a ciência leis da natureza interrogamse com o mito como a ordem foi estabelecida como o cosmos pôde surgir do caos Dos mitos de gênese os milésios tomam não só uma imagem do universo mas ainda todo um material conceptual e esquemas explicativos atrás dos elementos da physis perfilamse antigas divindades da 62 J Burnet Early Greek philosophy 3 ed Londres 1920 p v 72 mitologia Tornandose natureza os elementos despojaramse do aspecto de deuses individualizados mas permanecem forças ativas e animadas ainda sentidas como divinas a physis quando opera está toda impregnada desta sabedoria e desta justiça que eram o apanágio de Zeus O mundo de Homero ordenavase por uma distribuição dos domínios e funções entre grandes deuses a Zeus cabe a luz brilhante do céu aither e a Hades a sombra brumosa aer a Posidão o elemento líquido a todos os três em comum Gaia a terra onde vivem com os homens todas as criaturas mortais que resultam da mistura O cosmos dos jônios organizase por uma divisão das províncias das estações entre forças elementares que se opõem equilibramse ou se combinam Não se trata de uma vaga analogia Entre a Teogonia de Hesíodo e a filosofia de um Anaximandro a análise de Cornford faz aparecer estreitas correspondências Certamente enquanto uma fala ainda de gerações divinas o outro já descreve processos naturais é que o segundo se recusa a jogar com a ambiguidade de termos como phyein e génesis que significam igualmente engendrar e produzir nascimento e origem Durante todo o tempo em que esses diversos sentidos permaneciam confusos podiase exprimir o devir em termos de união sexual dar a razão de um fenômeno nomeando seu pai e sua mãe estabelecendo sua árvore genealógica Entretanto por mais importante que seja esta diferença entre o físico e o teólogo a organização geral de seu pensamento permanece a mesma Põem igualmente na origem um estado de indistinção em que nada ainda aparece Chaos em Hesíodo Nyx Érebos Tártaros em certas Teogonias atribuídas a Orfeu Museu e a Epimênides Ápeiron o ilimitado em Anaximandro Desta unidade primordial emergem por segregação e diferenciação progressivas pares de opostos o sombrio e o luminoso o quente e o frio o seco e o úmido o denso e o raro o alto e o baixo que vão delimitar no mundo realidades e regiões diversas o céu brilhante e quente o ar sombrio e frio a terra seca o mar úmido Esses opostos que chegaram ao ser separandose uns dos outros também podem unirse e misturarse para produzir certos fenômenos como o 73 nascimento e a morte de tudo que vive plantas animais e homens Mas não é somente o esquema de conjunto que é conservado no essencial Até nas minúcias a simetria dos desenvolvimentos a concordância de certos temas assinalam a persistência no pensamento do físico de representações míticas que nada perderam de sua força de sugestão63 A geração sexual o ovo cósmico a árvore cósmica a separação da terra e do céu anteriormente confundidos tantas imagens que aparecem como em filigrana por meio das explicações físicas de um Anaximandro sobre a formação do mundo do Ápeiron foi segregada apokrínesthai uma semente ou um germe gónimon capaz de engendar o quente e o frio no centro desse germe reside o frio sob forma de aer em sua periferia envolvendo o frio o quente desenvolvese periphyenai num invólucro de fogo semelhante à casca phloiós em torno de uma árvore Chega um momento em que esse envoltório esférico inflamado se separa aporrégnysthai do núcleo ao qual estava unido e como uma casca de ovo se quebra estala em círculos de fogo que são os astros Notouse o emprego de termos embriológicos que evocam racionalizandoos temas de geração sexual e de hierogamia gónimon apokrínesthai aporrégnysthai phloiós este último derivado de phleo verbo ligado à ideia de geração e que pode designar a placenta do embrião a casca do ovo a casca da árvore e mais geralmente toda membrana que envolve à maneira de um véu o organismo vegetal ou animal no decurso de seu crescimento64 Entretanto apesar dessas analogias e dessas reminiscências não há realmente continuidade entre o mito e a filosofia O filósofo não se contenta em repetir em termos de physis o que o teólogo tinha expressado em termos de Poder divino À mudança de registro à utilização de um vocabulário profano correspondem uma nova atitude de espírito e um clima intelectual diferente Com os milésios pela primeira vez a origem e a ordem do mundo tomam a forma de um problema 63 Cf Marcel De Corte Mythe et philosophie chez Anaximandre Laval théologique et philosophique 14 1958 1960 pp 929 64 H G Baldry Embryological analogies in presoratic cosmogony Classical Quarterly 26 1932 pp 2734 74 explicitamente colocado a que se deve dar uma resposta sem mistério ao nível da inteligência humana suscetível de ser exposta e debatida publicamente diante do conjunto dos cidadãos como as outras questões da vida corrente Assim se afirma uma função de conhecimento livre de toda preocupação de ordem ritual Os físicos deliberadamente ignoram o mundo da religião Sua pesquisa nada mais tem a ver com esses processos do culto aos quais o mito apesar de sua relativa autonomia permanecia sempre mais ou menos ligado Dessacralização do saber advento de um tipo de pensamento exterior à religião não são fenômenos isolados e incompreensíveis Em sua forma a filosofia relacionase de maneira direta com o universo espiritual que nos pareceu definir a ordem da cidade e se caracteriza precisamente por uma laicização uma racionalização da vida social Mas a dependência da filosofia com relação às instituições da Polis marcase igualmente em seu conteúdo Se é verdade que os milésios se serviram do mito também é verdade que transformaram profundamente a imagem do universo integraramna num quadro espacial ordenado segundo um modelo mais geométrico Para construir as cosmologias novas utilizaram as noções que os pensamentos morais e políticos tinham elaborado projetaram sobre o mundo da natureza esta concepção da ordem e da lei que triunfando na cidade tinha feito do mundo humano um cosmo As teogonias e as cosmogonias gregas comportam como as cosmologias que lhes sucederam relatos de gênese que expõem a emergência progressiva de um mundo ordenado Mas são também antes de tudo outra coisa mitos de soberania Exaltam o poder de um deus que reina sobre todo o universo falam de seu nascimento suas lutas seu triunfo Em todos os domínios natural social ritual a ordem é o produto dessa vitória do deus soberano Se o mundo não está mais entregue à instabilidade e à confusão é que ao terminarem os combates que o deus teve que sustentar contra rivais e contra monstros sua supremacia aparece definitivamente assegurada sem que nada possa doravante pôla em discussão A Teogonia de Hesíodo apresentase assim 75 como um hino à glória de Zeus rei A derrota dos Titãs e a de Tifeu igualmente vencidos pelo filho de Crono não vêm somente coroar como sua conclusão o edifício do poema Cada episódio retoma e resume toda a arquitetura do mito cosmogónico A vitória de Zeus em cada vez é uma criação do mundo A narrativa da batalha que lança uma contra a outra as duas gerações rivais dos Titãs e dos Olímpicos evoca explicitamente o retorno do universo a um estado original de indistinção e de desordem Abaladas pelo combate as potências primordiais Gaia Ouranós Pontos Okéanos Tártaros que antes se tinham separado e ocupavam seu lugar encontramse de novo misturadas Gaia e Ouranós cuja separação Hesíodo tinha narrado parecem encontrarse e unirse de novo como se desabassem um sobre o outro Crer seia que o mundo subterrâneo irrompeu à luz o universo visível em vez de assentar seu cenário estável e ordenado nas duas fronteiras fixas que o limitam embaixo a terra residência dos homens em cima o céu onde moram os deuses retomou seu aspecto primitivo de caos65 um abismo obscuro e vertiginoso uma abertura sem fundo o sorvedouro de um espaço sem direções percorrido ao acaso por turbilhões de vento que sopram em todos os sentidos A vitória de Zeus recoloca tudo no lugar Os Titãs seres ctônicos são enviados carregados de cadeias ao fundo do Tártaro ventoso Doravante no abismo subterrâneo em que a Terra o Céu e o Mar cravam suas raízes comuns as borrascas poderão agitar se sem fim em desordem Posidão cerrou aos Titãs as portas que fecham para sempre as moradas da Noite Chaos não corre mais o risco de ressurgir à luz para submergir o mundo visível A batalha contra Tifeu tratase de uma interpolação que data sem dúvida do fim do século VII retoma temas análogos Em páginas sugestivas Cornford pôde relacionar este episódio do combate de Marduk contra Tiamat Como Tiamat Tifeu representa as forças de confusão e de desordem o retorno ao informe o caos O que teria acontecido ao mundo se o monstro de mil vozes filho de Ge e de Tártaros tivesse conseguido reinar no lugar de Zeus sobre os deuses e os homens imagina 65 Hesíodo Teogonia 700740 76 se facilmente de seus despojos mortais nascem os ventos que em vez de soprar sempre no mesmo sentido de maneira fixa e regular como fazem o Noto o Bóreas e o Zéfiro abatemse em borrascas prodigiosas ao acaso em direções imprevisíveis ora aqui e ora lá Derrotados os Titãs fulminado Tifeu Zeus coagido pelos deuses toma para si a soberania e sentase no trono dos Imortais depois reparte entre os Olímpicos os encargos e as honras timai Da mesma maneira proclamado rei dos deuses Marduk matava Tiamat cortava em duas partes seu cadáver lançava ao ar uma de suas metades que formava o céu determinava então o lugar e o movimento dos astros fixava o ano e o mês ordenava o tempo e o espaço criava a raça humana repartia os privilégios e os destinos Essas semelhanças entre a teogonia grega e o mito babilônico da Criação não são fortuitas A hipótese formulada por Cornford de um empréstimo foi confirmada mas também matizada e completada pela descoberta recente de uma dupla série de documentos de um lado as plaquetas fenícias de Ras Shamra início do século XIV antes de Cristo de outro textos hititas em cuneiforme que retomam uma antiga saga hurrita do século XV A ressurreição quase simultânea desses dois conjuntos teogónicos revelou toda uma série de convergências novas que explicam a presença na trama da narrativa hesiódica de detalhes que parecem deslocados ou incompreensíveis O problema das influências orientais sobre os mitos gregos de gênese o de sua extensão e seus limites o das vias e da data de sua penetração encontramse assim colocados de maneira precisa e sólida Nessas teogonias orientais como nas da Grécia às quais elas puderam fornecer modelos os temas de gênese ficam integrados numa vasta epopeia real que faz se enfrentarem para a dominação do mundo as gerações sucessivas dos deuses e diversas potências sagradas O estabelecimento do poder soberano e a fundação da ordem aparecem como os dois aspectos inseparáveis do mesmo drama divino o troféu de uma mesma luta o fruto de uma mesma vitória Esse caráter geral marca a dependência da narrativa mítica com relação a rituais reais de que constitui a princípio um elemento formando seu 77 acompanhamento oral O poema babilônico da Criação o Enuma elis era assim cantado todos os anos no quarto dia da festa real de Criação do Ano Novo no mês de Nisan na Babilônia Nessa data julgavase que o tempo tinha acabado seu ciclo o mundo voltava a seu ponto de partida Momento crítico em que a ordem em sua totalidade voltava a ser posta em discussão No decurso da festa o rei representava por gestos um combate ritual contra um dragão Com isso repetia cada ano a façanha realizada por Marduk contra Tiamat na origem do mundo A prova e a vitória reais tinham uma dupla significação ao mesmo tempo que confirmavam o poder da soberania do monarca adquiriam o valor de uma nova criação da ordem cósmica social e das estações Pela virtude religiosa do rei a organização do universo após um período de crise viase renovada e mantida por um novo ciclo temporal Por meio de ritos e mitos babilônicos exprimese uma concepção particular das relações da soberania e da ordem O rei não domina somente a hierarquia social intervém também na marcha dos fenômenos naturais A ordenação do espaço a criação do tempo a regulação do ciclo das estações aparece integrado na atividade real são aspectos da função de soberania Como natureza e sociedade permanecem confundidas a ordem sob todas suas formas e em todos os domínios é posta sob a dependência do Soberano Nem no grupo humano nem no universo é concebida ainda de maneira abstrata em si mesma e por si mesma Para existir tem necessidade de ser estabelecida e para durar de ser mantida sempre supõe um agente ordenador uma força criadora suscetível de promovêla No quadro desse pensamento mítico não se poderia imaginar um domínio autônomo da natureza nem uma lei de organização imanente ao universo Na Grécia não somente a Teogonia de Hesíodo em seu plano geral ordenase segundo a mesma perspectiva mas também cosmogonias mais tardias e mais elaboradas como a de Ferecides de Siros que Aristóteles classifica entre os teólogos no número daqueles que souberam misturar a filosofia ao mito Contemporâneo de Anaximandro Ferecides 78 se conserva as figuras das grandes divindades tradicionais transforma entretanto seus nomes por jogos de palavras etimológicas para sugerir ou sublinhar seu aspecto de forças naturais Cronos transformase em Chronos o Tempo Rhea em Re que evoca um fluxo uma corrente Zeus é chamado Zas para exprimir talvez a intensidade da Força Mas o milo fica centrado no tema de uma luta pelo reinado universal Pelo que se pode julgar pelos fragmentos que chegaram até nós Ferecides narrava a batalha de Cronos contra Ophion o choque de seus dois exércitos a queda dos vencidos no Oceano o reino de Cronos em pleno céu depois deviam sobrevir o assalto de Zeus sua conquista do poder sua união solene com Chtonia por intermédio ou com a assistência de Eros Durante o hierós gamos de Zeus rei com a deusa subterrânea a emergência do mundo visível produziase enquanto se fixava pela primeira vez o modelo do rito matrimonial das Anacalyptéria do desvelamento Pela força desse casamento a sombria Chtonia tinhase transformado Tinhase envolvido no véu que Zeus havia tecido e bordado para ela fazendo aparecer nele o contorno dos mares e a forma dos continentes Aceitando o presente que Zeus lhe oferecia em testemunho de sua nova prerrogativa geras a obscura deusa subterrânea tinhase tornado Gé a terra visível Zeus atribuía então às diversas divindades seu quinhão sua moira fixando para cada uma a porção de cosmos que devia caberlhe Enviava ao Tártaro sob a guarda dos ventos e das tempestades as forças de desordem e de hybris O problema da gênese no sentido estrito fica pois nas teogonias se não inteiramente implícito pelo menos em segundo plano O mito não se interroga sobre como um mundo ordenado surgiu do caos responde à questão Quem é o deus soberano Quem conseguiu reinar anassein basileuein sobre o universo Neste sentido a função do mito é estabelecer uma distinção e como uma distância entre o que é primeiro do ponto de vista temporal e o que é primeiro do ponto de vista do poder entre o princípio que está cronologicamente na origem do mundo e o princípio que preside à sua ordenação atual O mito constituise nessa distância tornao o próprio objeto de sua narração descrevendo por meio da série das gerações divinas 79 os avatares da soberania até o momento em que uma supremacia esta definitiva põe um termo à elaboração dramática da dynasteia Devese sublinhar que o termo arché que fará carreira no pensamento filosófico não pertence ao vocabulário político do mito66 Não é só que o mito fique ligado a expressões mais especificamente de realeza é que também a palavra arché designando indistintamente a origem numa série temporal e a primazia na hierarquia social suprime essa distância sobre a qual o mito se fundava Quando Anaximandro adotar esse termo conferindolhe pela primeira vez seu sentido filosófico de princípio elementar essa inovação não marcará somente a rejeição pela filosofia do vocabulário monárquico próprio do mito traduzirá também sua vontade de aproximar o que os teólogos necessariamente separavam de unificar na medida do possível o que é primeiro cronologicamente aquilo a partir de que as coisas se formaram e o que domina o que governa o universo Com efeito para o físico a ordem do mundo não pode mais ter sido instituída num momento dado pela virtude de um agente singular imanente à physis a grande lei que rege o universo devia estar já presente de alguma maneira no elemento original de que o mundo surgiu pouco a pouco Falando dos antigos poetas e dos teólogos Aristóteles fará observar na Metafísica que para eles não são hoi prótoi as forças originárias Nyx Okéanos Chaos Ouranós mas um retardatário Zeus que exerce sobre o mundo a arché e a basileia67 Ao contrário Anaximandro assegura que não há nada que seja arché em relação com o ápeiron pois que este sempre existiu mas que o ápeiron é arché para tudo mais que ele envolve periechein e governa kybernan tudo68 Tentemos pois definir em grandes linhas o quadro no qual as teogonias gregas esboçam a imagem do mundo 1 O universo é uma hierarquia de poderes Análogo em sua estrutura a uma sociedade humana não poderia ser corretamente representado por um esquema puramente 66 Em Hesíodo arché é empregada com um valor exclusivamente temporal 67 Aristóteles Metafisica 1091 a 33b7 68 Física 203 b7 80 espacial nem descrito em termos de posição de distância de movimento Sua ordem complexa e rigorosa exprime relações entre agentes é constituída por relações de força de escalas de precedência de autoridade de dignidade de vínculos de domínio e de submissão Seus aspectos espaciais níveis cósmicos e direções do espaço expressam menos propriedades geométricas que diferenças de função de valor e de classe 2 Essa ordem não surgiu necessariamente em consequência do jogo dinâmico dos elementos que constituem o universo foi instituída dramaticamente pela iniciativa de um agente 3 O mundo é dominado pelo poder excepcional desse agente que aparece único e privilegiado num plano superior aos outros deuses o mito projetao como soberano sobre o cume do edifício cósmico é sua monarchia que mantém o equilíbrio entre as Potências que constituem o universo fixando a cada uma seu lugar na hierarquia delimitando suas atribuições suas prerrogativas sua parte de honra Esses três traços são solidários dão à narração mítica sua coerência sua lógica própria Marcam também sua ligação na Grécia como no Oriente com essa concepção da soberania que coloca sob a dependência do rei a ordem das estações os fenômenos atmosféricos a fecundidade da terra dos rebanhos e das mulheres A imagem do rei senhor do Tempo fazedor de chuva distribuidor das riquezas naturais imagem que pôde na época micênica traduzir realidades sociais e responder a práticas rituais transparência ainda em certas passagens de Homero e de Hesíodo69 em lendas como as de Salmoneu ou de Éaco Mas não pode tratarse no mundo grego senão de sobrevivências Após o desmoronamento da realeza micênica quando o sistema palaciano e o personagem do ánax desapareceram não subsistem dos antigos ritos reais senão 69 Homero Odisséia XIX 109 Hesíodo Trabalhos 225 e ss 81 vestígios cujo sentido se perdeu Apagouse a lembrança do rei que periodicamente voltava a criar a ordem do mundo já não aparece também claramente o vínculo entre as façanhas míticas atribuídas a um soberano e a organização dos fenômenos naturais O fracasso da soberania e a limitação do poder real contribuíram assim para destacar o mito do ritual em que se enraizava na origem Liberada da prática do culto de que constituía a princípio o comentário oral a narrativa pôde adquirir um caráter mais desinteressado mais autônomo Pôde em certos aspectos preparar e prefigurar a obra do filósofo Já em Hesíodo em algumas passagens a ordem cósmica aparecia dissociada da função real livre de todo vínculo com o rito O problema de sua gênese colocase então de maneira mais independente A emergência do mundo é descrita não mais em termos de façanha mas como um processo de geração por Potências cujo nome evoca de maneira direta realidades físicas céu terra mar luz noite etc Notou se a este respeito o acento naturalista do começo da Teogonia versos 116 a 133 que contrasta com a continuação do poema Mas o que comporta talvez de mais significativo essa primeira tentativa para descrever a gênese do cosmos segundo uma lei de desenvolvimento espontâneo é precisamente seu fracasso Apesar do esforço de delimitação conceptual que se manifesta nele o pensamento de Hesíodo permanece prisioneiro de seu quadro mítico Ouranós Gaia Pontos são realidades perfeitamente físicas em seu aspecto concreto de céu de terra de mar mas são ao mesmo tempo divindades que agem unemse e reproduzemse à semelhança dos homens Atuando em dois planos o pensamento apreende o mesmo fenômeno como por exemplo a separação da terra e das águas simultaneamente como fato natural no mundo visível e como produção divina num tempo primordial Para romper com o vocabulário e com a lógica do mito teria sido necessária a Hesíodo uma concepção de conjunto capaz de substituir o esquema mítico de uma hierarquia de Poderes dominada por um Soberano O que lhe faltou foi poder representarse um universo submetido ao reino da lei um cosmos que se organizaria impondo a todas as suas partes uma 82 mesma ordem de isonomia feita de equilíbrio de reciprocidade de simetria BIBLIOGRAFIA Sobre as origens do pensamento grego e os inícios da reflexão filosófica cf John Burnet Early greek philosophy 3 ed Londres 1920 trad francesa Laurore de Ia philosophie grecque Paris 1919 F M Cornford From religion to philosophy A Study in the origins of western speculation Londres 1912 e Principiam sapientiae The origins of Greek philosophical thought 1952 H Frankel Dichtung und Philosophie des frühens Griechentums 1951 e Wege und Formen frühgriechischen Denkens Munique 1955 L Gernet Les origines de la philosophie Balletin de lEnseignement public du Maroc 183 1945 pp 9 e ss O Gigon Der Ursprung der griechischen Philosophie von Hesiod bis Parmenides Basiléia 1945 W R C Guthrie In the beginning Some Greek views on the origins o flife and the early State oft man Londres 1957 W Jaeger The theology of early Gteek philosophers Oxford 1947 G S Kirk e J E Raven The presocratic philosophers A critical history with a selection of texts Cambridge 1957 W Nestle Vom mythos zum logos Die Selbstentfaltung des griechischen Denkens von Homer bis auf die Sophistik und Sokrates Stuttgart 1940 R B Onians The origins Of European thought about the body the mind the soul the world time and fate Cambridge 1951 P M Schuhl Essai sur la formation de la pensée grecque Introduction historique à une étude de la philosophie platonicienne Paris 1934 20 ed 1948 B Snell Die Entdeckung des Geistes Studien zur Entstehung des europaïschen Denkens bei den Griechen 20 ed Hamburgo 1948 G Thomson Studies in ancient Greek society II The first Philosophers Londres 1955 e From religion to philosophy Journal of Hellenic Studies 73 1953 pp 7784 J P Vernant Du mythe à la raison La formation de la pensée positive duns la Grèce archaïque Annales Economies Sociétés Civilisations 1957 pp 183206 Sobre as relações entre teogonias gregas e orientais cf R D Barnett The Epic of Kumarbi and the Theogony of Hesiod Journal of hellenic studies 65 1945 pp 1001 J Duchemin Sources grecques et orientales de la Théogonie dHésiode Linformation littéraire 1952 pp 146151 R Dussaud Antécédents orientaux à la Théogonie dHésiode Mélanges Grégoire I 1949 pp 226231 O Eissfeldt Phönikische und Griechische Kosmogonie in Eléments orientaux dans la religion grecque ancienne Paris 1960 pp 155 E O Forrer Eine Geschichte des Götterkönigtums aus dem HattiReiche Mélanges Fr Cumont 1936 pp 687713 H C Güterbock The hiltite version Of lhe burrian Kumarpi myths Oriental Forerunners of Hesiod American Journal Of archaeology 52 1948 pp 12334 H Schwabe Die griechischen Theogonien und der Orient Eléments orientaux dans Ia religion grecque ancienne pp 3956 F Vian Le mythe de Typhée et le problême de ses origines orientales ibid pp 1737 e Influences orientales et survivances indoeuropéennes dans la Théogonie dHésiode Revue de la Francoancienne 126 1958 pp 32936 S Wikander Histoire des Ouranides Cahiers du Sud 1952 314 pp 917 Encontrarseão os textos orientais editados por J B Pritchard Ancient Near Eastern texts relating to the Old Testament 2a ed Princeton 1955 83 CAPÍTULO VIII A NOVA IMAGEM DO MUNDO Para medir a amplitude da revolução intelectual realizada pelos milésios a análise deve apoiarse essencialmente na obra de Anaximandro A doxografia dános dela uma visão mais completa ou menos sumária que das teorias de Tales e de Anaxímenes Além disso e sobretudo Anaximandro não introduziu apenas em seu vocabulário um termo da importância de arché preferindo escrever em prosa completa a ruptura com o estilo poético das teogonias e inaugura o novo gênero literário próprio da historía perí physeos É nele finalmente que se encontra expresso com o maior rigor o novo esquema cosmológico que marcará de maneira profunda e durável a concepção grega do universo Esse esquema permanece genético Como physis como gênesis arché conserva seu valor temporal a origem a fonte Os físicos pesquisam de onde e por que caminho o mundo veio a ser Mas essa reconstrução genética explica a formação de uma ordem que se encontra agora projetada num quadro espacial Um ponto deve ser aqui fortemente sublinhado A dívida dos milésios para com a astronomia babilônica é incontestável Dela tomaram as observações e os métodos que segundo a lenda teriam permitido a Tales predizer um eclipse devemlhe também instrumentos como o gnomon que Anaximandro teria levado a Esparta O restabelecimento dos contatos com o Oriente revelase esta vez ainda de uma importância decisiva para o desenvolvimento de uma ciência grega em que as preocupações de ordem astronômica desempenharam no início um papel considerável E no entanto por seu aspecto geométrico não mais aritmético por seu caráter profano livre de toda religião astral a astronomia grega colocase desde o primeiro momento num plano diferente do da ciência babilônica de que se inspira Os jônios situam no espaço a ordem do cosmos representam a organização do universo as posições as distâncias as dimensões e os movimentos dos astros segundo esquemas 84 geométricos Assim como desenham num mapa num pínax o plano da terra inteira colocando sob os olhos de todos a imagem do mundo habitado com seus países seus mares e seus rios assim também constroem modelos mecânicos do universo como aquela esfera que Anaximandro segundo alguns teria fabricado Fazendo ver assim o mundo fazem dele no sentido pleno do termo uma theoria um espetáculo Essa geometrização do universo físico acarreta uma transformação geral das perspectivas cosmológicas consagra o advento de uma forma de pensamento e de um sistema de explicação sem analogia no mito Para exemplificar Anaximandro localiza a terra imóvel no centro do universo Acrescenta que se ela permanece em repouso nesse lugar sem ter necessidade de nenhum suporte é porque está a igual distância de todos os pontos da circunferência celeste e não tem nenhuma razão para ir para baixo mais que para cima nem para um lado mais que para outro Anaximandro situa pois o cosmos num espaço matematizado constituído por relações puramente geométricas Assim se encontra apagada a imagem mítica de um mundo em planos em que o alto e o baixo em sua posição absoluta marcam níveis cósmicos que diferenciam Potências divinas e em que as direções do espaço têm significações religiosas opostas Além disso todas as explicações pelas quais o mito pretendia justificar a estabilidade da terra base segura para todos os vivos Hesíodo revelamse inúteis e irrisórias a terra não tem mais necessidade de suporte de raízes não tem de flutuar como em Tales sobre um elemento líquido de onde teria surgido nem de repousar sobre um turbilhão ou como em Anaxímenes sobre uma almofada de ar Tudo está dito tudo está claro logo que se esboça o esquema espacial Para compreender por que os homens podem com toda segurança andar sobre o solo por que a Terra não cai como o fazem os objetos em sua superfície basta saber que todos os raios de um círculo são iguais Sua estrutura geométrica confere ao cosmos uma organização de tipo oposto àquele que o mito lhe atribuía Já não se encontra nenhum elemento ou porção do mundo 85 privilegiado em detrimento dos outros já nenhum poder físico está situado na posição dominante de um basileus que exerça sua dynasteia sobre todas as coisas Se a terra está situada no centro de um universo perfeitamente circular pode permanecer imóvel em razão de sua igualdade de distância sem estar submetida à dominação de qualquer coisa que seja Essa fórmula de Anaximandro que faz intervir a noção do Kratos do poder de domínio sobre outrem mostra a persistência de um vocabulário e de conceitos políticos no pensamento cosmológico dos jônios Mas como o sublinha muito justamente Charles H Kahn num estudo recente Anaximandro sustenta neste domínio uma tese que vai bem além da que expõe depois dele seu discípulo Anaxímenes70 Para este último a Terra tem necessidade de repousar no ar que a domina synkratei como a alma domina o corpo Para Anaximandro ao contrário nenhum elemento singular nenhuma porção do mundo poderia dominar as demais São a igualdade e a simetria dos diversos poderes constituintes do cosmos que caracterizam a nova ordem da natureza A supremacia pertence exclusivamente a uma lei de equilíbrio e de constante reciprocidade À monarchia um regime de isonomia se substituiu na natureza como na cidade Daí a recusa de atribuir à água como Tales ao ar como Anaxímenes ou a qualquer outro elemento particular a dignidade de arché A substância primeira infinita imortal e divina que envolve e governa todas as coisas Anaximandro a concebe como uma realidade à parte distinta de todos os elementos formando sua origem comum a fonte inesgotável em que todos igualmente se alimentam Aristóteles dános as razões desta escolha se um dos elementos possuísse essa infinidade que pertence ao ápeiron os outros seriam destruídos por ele os elementos definemse com efeito por sua oposição recíproca é preciso pois que se encontrem sempre numa relação de igualdade uns com os outros isázei aei tanantia ou como Aristóteles o dirá em outra parte em igualdade de poder isotes tes dynámeos71 Não há razão para 70 Charles H Kahn Anaximander and the origins of Greek cosmology Nova York 1960 71 Aristóteles Física 204 b 22 e 1319 Meteorológica 340 a 16 86 pôr em dúvida e pertinência do raciocínio de Aristóteles e rejeitar a interpretação que propõe do pensamento de Anaximandro Notarseá que a argumentação aristotélica implica uma mudança radical nas relações do poder e da ordem A basileia a monarchia que no mito estabeleciam a ordem e a sustentavam aparecem na perspectiva nova de Anaximandro como destruidoras da ordem A ordem não é mais hierárquica consiste na manutenção de um equilíbrio entre potências doravante iguais sem que nenhuma delas deva obter sobre as outras um domínio definitivo que ocasionaria a ruína do cosmos Se o ápeiron possui a arché e governa todas as coisas é precisamente porque seu reino exclui a possibilidade para um elemento de apoderarse da dynasteia A primazia do ápeiron garante a permanência de uma ordem igualitária fundada na reciprocidade das relações e que superior a todos os elementos impõelhes uma lei comum De resto esse equilíbrio das potências não é de maneira nenhuma estático encobre oposições e é feito de conflitos Cada potência por sua vez domina sucessivamente apoderandose do poder recuando depois para cedêlo na proporção de seu primeiro avanço No universo na sucessão das estações no corpo do homem um ciclo regular faz passar assim a supremacia de um a outro ligando como dois termos simétricos e reversíveis o domínio e a submissão a extensão e a retração a força e a fraqueza o nascimento e a morte de todos os elementos esses elementos que para Anaximandro segundo a ordem do tempo se fazem mutuamente reparação tisis e justiça dike pela adikia que cometeram Constituído por dynámeis opostas e incessantemente em conflito o mundo as submete a uma regra de justiça compensatória a uma ordem que mantém nelas uma exata isotes Sob o jugo dessa dike igual para todos as potências elementares associamse coordenamse segundo uma oscilação regular para compor apesar de sua multiplicidade e de sua diversidade um cosmos único Essa nova imagem do mundo Anaximandro destacoua com suficiente rigor para que se impusesse como uma espécie 87 de lugar comum ao conjunto dos filósofos présocráticos assim como ao pensamento médico No começo do século V Alcmeão a formulará em termos que dizem tão claramente sua origem política que não parece necessário sobretudo após os artigos que A G Vlastos consagrou a esse problema que se insista nisso mais tempo72 Alcmeão define com efeito a saúde como a isonomia ton dynámeon o equilíbrio dos poderes o úmido e o seco o frio e o quente o amargo e o doce etc a doença resulta ao contrário da monarchia de um elemento sobre os outros pois a dominação exclusiva de um elemento particular é destrutiva Mas a experiência social não forneceu somente ao pensamento cosmológico o modelo de uma lei e de uma ordem igualitárias que se substituem à dominação onipotente do monarca O regime da cidade pareceunos solidário de uma concepção nova do espaço ao se projetarem e se encarnarem as instituições da Polis no que se pode chamar um espaço político Notese a este respeito que os primeiros urbanistas como Hipodamo de Mileto são na realidade teóricos políticos a organização do espaço urbano não é mais que um aspecto de um esforço mais geral para ordenar e racionalizar o mundo humano O vínculo entre o espaço da cidade e suas instituições aparece ainda muito claramente em Platão e em Aristóteles O novo espaço social está centrado O kratos a arché a dynasteia já não estão situados no ápice da escala social ficam es meson no centro no meio do grupo humano É este centro que é agora valorizado a salvação da polis repousa sobre os que se chamam hoi mesoi porque estando a igual distância dos extremos constituem um ponto fixo para equilibrar a cidade Com relação a este centro os indivíduos e os grupos ocupam todas posições simétricas A ágora que realiza sobre o terreno essa ordenação espacial forma o centro de um espaço público e comum Todos os que nele penetram se definem por isso mesmo como iguais como isoi Por sua presença nesse espaço político entram uns com os outros em 72 A G Vlastos Equality and justice in early greek cosmologies Classical Philology 42 1947 p 156178 Theology and philosophy in early Greek thought The philosophical Ouarterly 1952 p 97123 Isonomia American Journal Of Philology 74 1953 p 337 366 e a análise da obra de P M Cornford Principium Sapientiae em Gnomon 27 1955 p 6576 88 relações de perfeita reciprocidade A instituição da Hestia Koiné do Lar público é símbolo dessa comunidade política73 instalado no Pritaneu em geral na ágora o Lar público acha se em suas relações com os múltiplos lares domésticos mais ou menos a igual distância das diversas famílias que constituem a cidade deve representálas todas sem se identificar mais com uma que com outra Espaço centrado espaço comum e público igualitário e simétrico mas também espaço laicizado feito para a confrontação o debate a argumentação e que se opõe ao espaço religiosamente qualificado da Acrópole assim como o domínio dos hósia dos assuntos profanos da cidade humana opõese ao dos hierá o dos interesses sagrados que concernem aos deuses Que este novo quadro espacial tenha favorecido a orientação geométrica que caracteriza a astronomia grega que haja uma profunda analogia de estrutura entre o espaço institucional no qual se exprime o cosmos humano e o espaço físico no qual os milésios projetam o cosmos natural é o que sugere a comparação de certos textos Segundo a doxografia se para Anaximandro a terra pode permanecer imóvel e fixa é em razão de sua situação central perí meson mese da homoiotes a similitude e do equilíbrio a isotropia Encontrandose assim no centro não está acrescentava Anaximandro dominada kratoumene por nada O vínculo tão paradoxal para nós que Anaximandro estabelece entre a ausência de dominação a centralidade a similaridade autoriza a comparação com um texto político de Heródoto em que voltamos a encontrar o mesmo vocabulário e a mesma solidariedade conceptual Heródoto conta que ao morrer o tirano Polícrates Meandro designado pelo finado para tomar o skeptron depois dele convoca todos os cidadãos para a assembléia e anuncialhes sua decisão de abolir a tirania Polícrates dizlhes em resumo não tinha minha aprovação quando reinava como déspota sobre os homens que eram seus semelhantes despozon andrôn homoion eautó De 73 Cf L Gernet Sur le symbolisme politique en Grèce ancienne le Foyer commun Cahiers internationaux de Sociologie 11 1951 p 2143 89 minha parte deponho a arché es meson no centro e proclamo para vós a isonomia74 A comparação parecerá ainda mais significativa porque entre os milésios mesmos a concepção de um espaço físico simetricamente organizado em torno de um centro reproduz certas representações de ordem social Segundo Agatêmero Anaximandro de Mileto discípulo de Tales foi o primeiro a desenhar a terra habitada num pínax como devia fazêlo depois dele de maneira mais precisa Hecateu de Mileto75 0 autor acrescenta Os antigos imaginavam a Terra habitada mais ou menos redonda com a Grécia no centro e Delfos no centro da Grécia Sabese que essa concepção devia provocar a ironia de Heródoto Rio escreve ele quando vejo os mapas da terra que muitos desenharam no passado e que ninguém explicou de maneira sensata Desenham o Oceano fluindo em torno da Terra que é redonda como se tivesse sido feita a compasso e fazem a Ásia igual à Europa76 Em outra passagem Heródoto revelanos o fundamento institucional e político dessa geometrização a seus olhos demasiado avançada do espaço físico Após o desastre que sofreram todos os jônios se encontram reunidos no Paniônio Bias de Priene um dos Sábios aconselha formar primeiro uma frota comum para ganhar a Sardenha e ali fundar uma cidade única panjônica Tales de Mileto fala em seguida Propõe que se tenha um conselho único en Bouleutérion e que se fixe sua sede em Teos porque esta ilha se acha no centro da Jôânia meson Ioníes as outras cidades continuariam a ser habitadas mas estariam doravante na situação de demos periféricos integrados numa polis única77 Temos de resto uma prova das interferências que puderam produzirse entre os valores políticos geométricos e fisicos do centro concebido como o ponto fixo em torno do qual se ordena na sociedade e na natureza um espaço igualitário 74 Heródoto 3 142 75 Agatêmero 1 1 76 Heródoto 4 36 77 Heródoto 1 170 90 feito de relações simétricas e reversíveis78 Hestia símbolo na ágora da nova ordem humana poderá designar em Filolao o fogo cósmico central em outros filósofos a Terra que permanece imóvel no meio do universo físico 79 Destas correspondências entre a estrutura do cosmos natural e a organização do cosmos social Platão mostrase ainda plenamente consciente no século IV O filósofo que faz inscrever no limiar da Academia que ninguém entre dá testemunho dos vínculos aqui se não é geómetra que uma mesma origem uma orientação comum estabeleceu e mantivera por muito tempo entre os gregos entre pensamento geométrico e pensamento político Fustigando no Górgias na pessoa de Cálicles e pela boca de Sócrates todos os que se recusam a estudar a geometria Platão associa estreitamente o conhecimento da isotes da igualdade geométrica fundamento do cosmos físico às virtudes políticas sobre as quais repousa a nova ordem da cidade a dikaiosyne e a sophrosyne Pelo que asseguram os doutos Cálicles o céu e a terra os deuses e os homens estão ligados entre si numa comunidade koinonia feita de amizade philia de ordenação cosmiotes de moderação sophrosyne de justiça dikaiotes mas tu não lhes dás atenção por mais sábio que sejas e esqueces que a igualdade geométrica geometriké isotes é onipotente entre os deuses e entre os homens é por isso que negligências a geometria80 78 Certamente o pensamento mítico conhecia a circularidade e o centro também ele valoriza a uma e ao outro Mas a imagem religiosa do centro não ordena um espaço simétrico implica ao contrário um espaço hierarquizado que comporta níveis cósmicos entre os quais o centro permite estabelecer uma comunicação O simbolismo político do Centro o Lar comum aparece como uma mediação entre a expressão religiosa do centro ómphalos hestia e o conceito geométrico do centro num espaço homogéneo cf sobre este ponto L Gernet 1 c p 42 e ss 79 Cf R E Siegel On the relation between early scientific thought and mysticism is Hestia the central fire an abstract astronomical concept Janus 49 1960 p 120 80 Platão Górgias 508 a 91 CONCLUSÃO Advento da Polis nascimento da filosofia entre as duas ordens de fenômenos os vínculos são demasiado estreitos para que o pensamento racional não apareça em suas origens solidário das estruturas sociais e mentais próprias da cidade grega Assim recolocada na história a filosofia despojase desse caráter de revelação absoluta que às vezes lhe foi atribuído saudando na jovem ciência dos jônios a razão intemporal que veio encarnarse no Tempo A escola de Mileto não viu nascer a Razão ela construiu uma Razão uma primeira forma de racionalidade Essa razão grega não é a razão experimental da ciência contemporânea orientada para a exploração do meio físico e cujos métodos instrumentos intelectuais e quadros mentais foram elaborados no curso dos últimos séculos no esforço laboriosamente continuado para conhecer e dominar a Natureza Quando Aristóteles define o homem como animal político sublinha o que separa a Razão grega da de hoje Se o homo sapiens é a seus olhos um homo politicus é que a própria Razão em sua essência é política De fato é no plano político que a Razão na Grécia primeiramente se exprimiu constituiuse e formouse A experiência social pôde tornarse entre os gregos o objeto de uma reflexão positiva porque se prestava na cidade a um debate público de argumentos O declínio do mito data do dia em que os primeiros Sábios puseram em discussão a ordem humana procuraram definila em si mesma traduzila em fórmulas acessíveis à sua inteligência aplicarlhe a norma do número e da medida Assim se destacou e se definiu um pensamento propriamente político exterior à religião com seu vocabulário seus conceitos seus princípios suas vistas teóricas Este pensamento marcou profundamente a mentalidade do homem antigo caracteriza uma civilização que não deixou enquanto permaneceu viva de considerar a vida pública como o coroamento da atividade humana Para o grego o homem não se separa do cidadão a phrónesis a reflexão é o privilégio dos homens livres que exercem correlativamente sua razão e seus direitos cívicos Assim ao fornecer aos cidadãos o quadro no qual concebiam suas 92 relações recíprocas o pensamento político orientou e estabeleceu simultaneamente os processos de seu espírito nos outros domínios Quando nasce em Mileto a filosofia está enraizada nesse pensamento político cujas preocupações fundamentais traduz e do qual tira uma parte de seu vocabulário É verdade que bem depressa se reitera com maior independência Desde Parmênides encontrou seu caminho próprio explora um domínio novo coloca problemas que só a ela pertencem Os filósofos já se não interrogam como o faziam os milésios sobre o que é a ordem como se formou como se mantém mas sim qual é a natureza do Ser e do Saber e quais são suas relações Os gregos acrescentam assim uma nova dimensão à história do pensamento humano Para resolver as dificuldades teóricas as aporias que o próprio progresso de seus processos fazia surgir a filosofia teve de forjar para si uma linguagem elaborar seus conceitos edificar uma lógica construir sua própria racionalidade Mas nessa tarefa não se aproximou muito da realidade física pouco tomou da observação dos fenómenos naturais não fez experiência A própria noção de experimentação foilhe sempre estranha Edificou uma matemática sem que procurasse utilizála na exploração da natureza Entre o matemático e o físico o cálculo e a experiência faltou essa conexão que nos pareceu unir no começo o geométrico e o político Para o pensamento grego se o mundo social deve estar sujeito ao número e à medida a natureza representa de preferência o domínio do aproximadamente ao qual não se aplicam nem cálculo exato nem raciocínio rigoroso A razão grega não se formou tanto no comércio humano com as coisas quanto nas relações dos homens entre si Desenvolveuse menos com as técnicas que operam no mundo que por aquelas que dão meios para domínio de outrem e cujo instrumento comum é a linguagem a arte do político do reitor do professor A razão grega é a que de maneira positiva refletida metódica permite agir sobre os homens não transformar a natureza Dentro de seus limites como em suas inovações é filha da cidade JeanPierre Vernant As Origens do Pensamento Greco É opinião de quantos se dedicam em profundidade ao estudo e mesmo à simples observação de nossa época que o mundo atravessa hoje uma crise caracterizada em grande escala pela ausência de humanismo Isso nos leva a um tipo de civilização essencialmente tecnocrata esquecida ou simplesmente desinteressada de grande parte dos valores tão caros às gerações que nos antecederam valores esses que constituíam a base dos conhecimentos necessários à idéia que então se tinha do que deveria ser a Cultura Entre esses conhecimentos figurava necessariamente o da história e do pensamento gregos paradigmas do humanismo hoje ausente porém constantemente reclamado a fim de atenuar o predomínio absoluto de um pragmatismo em geral malaplicado Tendo em vista as necessidades de estudantes e pesquisadores da matéria sempre enfrentando as dificuldades advindas da escassez de textos abalizados em língua portuguesa a Difel foi buscar na conceituada coleção Mythes et Réligions das Presses Universitaires de France dirigida por Georges Dumézil este pequeno mas precioso livro de JeanPierre Vernant especialista na Grécia antiga mundialmente respeitado e que já exerceu o cargo de Diretor de Estudos na École Pratique de Hautes Études de Paris

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JeanPierre Vernant As Origens do Pensamento Greco Difel 1 CREATED BY S7EEBOOKS As origens do pensamento grego ISBN 9788574320267 Autor JeanPierre Vernant Tradução Ísis da Fonseca Editora Bertrand Brasil Ano 2002 2 Sumário AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Introdução 1 O quadro histórico 2 A realiza micênica 3 A crise da soberania 4 O universo espiritual da polis 5 A crise da cidade Os primeiros sábios 6 A organização do cosmos humano 7 Cosmogonias e mitos de soberania 8 A nova imagem do mundo 3 INTRODUÇÃO Com a decifração do linear B micênico a data dos primeiros textos gregos de que dispomos recuou meio milênio Este aprofundamento da perspectiva cronológica modifica todo o quadro em que se coloca o problema das origens do pensamento helênico O mais antigo mundo grego tal como nolo evocam as plaquetas micênicas aparentase em muitos de seus traços aos reinos do Oriente Próximo que lhe são contemporâneos Um mesmo tipo de organização social um gênero de vida análogo uma humanidade vizinha se revela nos escritos em linear B de Cnossos Pilos ou Micenas e nos antigos documentos em cuneiforme encontrados em Ugarit em Alalakh em Mari ou na Hattusa hitita Em compensação quando se aborda a leitura de Homero o quadro muda é uma outra sociedade um mundo humano já diferente que se descobrem na Ilíada como se desde a idade homérica os gregos não pudessem compreender exatamente o aspecto da civilização micênica à qual se ligavam e que por meio dos aedos criam fazer ressurgir do passado Este corte na história do homem grego devemos tentar compreendêlo situálo exatamente A religião e a mitologia da Grécia clássica arraigamse muito diretamente como M P Nilsson em particular o mostrou no passado micênico1 Mas em outros domínios a ruptura aparece profunda Quando no século XII antes de nossa era o poder micênico desaba sob o ímpeto das tribos dóricas que irrompem na Grécia continental não é uma simples dinastia a sucumbir no incêndio que assola alternadamente Pilos e Micenas é um tipo de realeza que se encontra para sempre destruída toda uma forma de vida social centralizada em torno do palácio que é definitivamente abolida um personagem o Rei divino que desaparece do horizonte grego A derrocada do sistema micênico ultrapassa largamente em suas consequências o domínio da história política e social Ela repercute no próprio homem grego modifica seu universo espiritual transforma algumas de suas 1 Martin P Nilsson The Minoannzycenaean religion and its survival in Greek religion 2a ed Lund 1950 cf também Charles Picard Les religions préhelléniques Paris 1948 e La formation du polythéisme hellénique et les récents problêmes relatifs au linéaire B in Eléments orientaux dans Ia religion grecque ancienne Paris 1960 pp 163177 G Pugliese Carratelli Riflessi di culti micenei nelle tabelle di Cnosso a Pilo in Stucli in onore de U E Paoli Florença 1955 pp 116 L A Stella La religione greca nei testi micenei in Numen 5 1958 pp 1857 4 atitudes psicológicas O desaparecimento do Rei pôde desde então preparar ao termo do longo do sombrio período de isolamento e de reconsideração dos fatos que se chama a Idade Média grega uma dupla e solidária inovação a instituição da Cidade o nascimento de um pensamento racional De fato quando pelos fins da época geométrica 900750 os gregos prosseguem na Europa e na Jônia as relações interrompidas durante vários séculos com o Oriente quando redescobrem com as civilizações que se mantiveram no local alguns aspectos de seu próprio passado na Idade do bronze não tomam como o tinham feito os micênios o rumo da imitação e da assimilação Em plena renovação orientalizante o Helenismo afirmase como tal em face da Ásia como se pelo contato reatado com o Oriente tomasse melhor consciência de si próprio A Grécia se reconhece numa certa forma de vida social num tipo de reflexão que definem a seus próprios olhos sua originalidade sua superioridade sobre o mundo bárbaro no lugar do Rei cuja onipotência se exerce sem controle sem limite no recesso de seu palácio a vida política grega pretende ser o objeto de um debate público Em plena luz do sol na Ágora da parte de cidadãos definidos como iguais e de quem o Estado é a questão comum no lugar das antigas cosmogonias associadas a rituais reais e a mitos de soberania um pensamento novo procura estabelecer a ordem do mundo em relações de simetria de equilíbrio de igualdade entre os diversos elementos que compõem o cosmos Se queremos proceder ao registro de nascimento dessa Razão grega seguir a via por onde ela pôde livrarse de uma mentalidade religiosa indicar o que ela deve ao mito e como o ultrapassou devemos comparar confrontar com o background micênico essa viragem do século VIII ao século VII em que a Grécia toma um novo rumo e explora as vias que lhe são próprias época de mutação decisiva que no momento mesmo em que triunfa o estilo orientalizante lança os fundamentos do regime da Pólis e assegura por essa laicização do pensamento político o advento da filosofia 5 CAPÍTULO I O QUADRO HISTÓRICO No começo do II milênio o Mediterrâneo não marca ainda em suas duas margens uma separação entre Oriente e Ocidente O mundo egeu e a península grega se ligam sem descontinuidade como povoação e como cultura de um lado com o planalto anatólio pela série das Cíclades e das Espórades e do outro por Rodes pela Cilícia por Chipre e costa norte da Síria com a Mesopotâmia e o Irã Quando Creta sai do Cicládico em cujo decurso dominam as relações com a Anatólia e quando constrói em Festos Mália e Cnossos sua primeira civilização palaciana 20001700 permanece orientada para os grandes reinos do Oriente Próximo Entre os palácios cretenses e aqueles que escavações recentes trouxeram a lume em Alalakht na grande curva do Oronte e em Mari na estrada de caravanas que liga a Mesopotâmia ao mar as semelhanças pareceram tão surpreendentes que se pôde ver aí a obra de uma mesma escola de arquitetos de pintores de afresquistas2 Pela costa síria os cretenses entravam igualmente em contato com o Egito do Novo Império cuja influência por não ser sobre eles tão decisiva como se podia supôlo na época de Evans é entretanto bem atestada Entre 2000 e 1900 aC uma população nova irrompe na Grécia continental Suas casas suas sepulturas seus machados de guerra suas armas de bronze seus utensílios sua cerâmica aquela cerâmica cinzenta miniana tão característica são tantos traços que marcam a ruptura com os homens e a civilização da idade anterior o Heládico antigo Os invasores os mínios formam a vanguarda das tribos que por vagas sucessivas virão fixarse na Hélade instalarseão nas ilhas colonizarão o litoral da Ásia Menor marcharão para o Mediterrâneo ocidental e para o Mar Negro para constituir o mundo grego tal como o conhecemos na idade histórica Quer tenham descido dos Bálcãs quer tenham vindo das planícies da Rússia do Sul esses antepassados do homem grego pertencem a povos indoeuropeus que já diferençados pela 2 Cf Leonard Wooley A forgotten Kingdom Londres 1953 e André Parrot Mission archéologique de Mari II Paris 1958 6 língua falam um dialeto grego arcaico Seu aparecimento nas margens do Mediterrâneo não constitui um fenômeno isolado uma invasão paralela manifestase quase na mesma época do outro lado do mar com a chegada dos hititas indoeuropeus na Ásia Menor e sua expansão pelo planalto anatólio No litoral na Tróade a continuidade cultural e étnica que se mantivera por quase um milênio da Tróia I à Tróia V começo da Tróia I entre 3000 e 2600 é repentinamente interrompida O povo que edifica a Tróia VI 1900 cidade principesca mais rica e poderosa que nunca é parente próximo dos mínios da Grécia Fabrica a mesma cerâmica cinzenta modelada no torno e cozida em fornos fechados que se espalha na Grécia continental nas ilhas Jônias na Tessália e Calcídica Um outro traço da civilização sublinha as afinidades dos dois povos nas duas margens do Mediterrâneo E com os homens da Tróia VI que o cavalo surge na Tróade Rica em cavalos tal é ainda no estilo formular que Homero tira de uma tradição oral muito antiga o epíteto que lembra a opulência do país dardânio A fama dos cavalos de Tróia assim como a de seus tecidos não foi sem dúvida estranha ao interesse que os aqueus tinham por essa região antes mesmo da expedição guerreira que destruindo a cidade de Príamo Tróia VII serviu de ponto de partida para a lenda épica Como os mínios da Tróade os da Grécia conheciam o cavalo deviam ter praticado sua domesticação nas estepes em que antes de sua vinda à Grécia tinham permanecido A préhistória do deus Posidão mostra que antes de reinar no mar um Posidão equino Hippos ou Hippios associava no espírito dos primeiros helenos como entre outros povos indoeuropeus o tema do cavalo a todo um complexo mítico cavalo elemento úmido cavalo águas subterrâneas mundo infernal fecundidade cavalo vento trovoada nuvem tempestade3 0 lugar a importância o prestígio do cavalo numa sociedade dependem numa larga medida de sua utilização para fins militares Os primeiros documentos gregos que nos esclarecem a esse respeito datam do século XVI em estelas funerárias descobertas no círculo dos túmulos em fossas de Micenas 15801500 em cenas de batalha ou de caça figuram um guerreiro de pé em seu carro puxado por cavalos a galope 3 Cf F Schachermeyr Poseidon und die Entstehung des Griechischen Gôtterglaubens Berna 1948 7 Nessa época os mínios estreitamente misturados à população local de origem asiática estão há muito tempo estabelecidos na Grécia continental onde a vida urbana surgiu ao pé de fortalezas residências de chefes Eles entraram em contato com a Creta minóica em pleno desenvolvimento após a renovação que veio depois da reconstrução dos palácios destruídos uma primeira vez por 1700 Creta lhes revelou um modo de vida e de pensamento inteiramente novo para eles Já se esboçou esta cretizaçào progressiva do mundo micênico que resultará após 1450 numa civilização palaciana comum na ilha e na Grécia continental Mas o carro de guerra carro leve puxado por dois cavalos não poderia ser uma contribuição cretense Na ilha o cavalo não aparece antes do Minóico recente I 15801450 Se houve empréstimo os minóicos seriam de preferência os devedores neste domínio Em compensação o uso do carro revela ainda as analogias entre o mundo micênico ou aqueu a constituirse e o reino dos hititas que adota pelo século XVI essa tática de combate tomandoa de seus vizinhos de este os hurritas de Mitanni população não indoeuropéia mas que reconhece a suserania de uma dinastia indoiraniana Aos povos familiarizados com a criação do cavalo o uso do carro deve ter apresentado novos problemas de seleção e de adestramento Encontrase uma repercussão disso no tratado de hipologia redigido por um certo Kikkuli do país de Mitanni e que foi traduzido em hitita Nas relações que se estabeleceram no começo do século XVI entre os hititas e os que eles chamam os achaiwoi os aqueus ou micênios as preocupações de ordem eqüestre desempenharão seu papel Os antigos documentos reais de Hattusa entre outras menções da Ahhiyawa a Acaia citam a permanência de príncipes aqueus entre os quais Tawagalawas Eteokles vindos à corte para aí se aperfeiçoar na condução do carro Devese aproximar do nome do rei hitita Mursilis o do escudeiro de Enomau Murtilo cujo papel se conhece na lenda de Pélope antepassado da dinastia dos Átridas reis de Micenas Enomau reina em Pisa na Élida Tem uma filha Hipodâmia Quem quer esposála deve ganhála de seu pai vencendoo na corrida de carros O fracasso significará a morte Muitos pretendentes se apresentaram Todos foram vencidos pelo rei cujos 8 cavalos são indómitos e suas cabeças decoram os muros do palácio Com o auxílio de Hipodâmia Pélope compra a cumplicidade do escudeiro do rei Murtilo em plena corrida o carro de Enomau quebra partindo o eixo por sabotagem Pélope triunfa assim na prova do carro que lhe traz na mesma vitória a filha domadora de cavalos e a soberania real Quanto a Murtilo escudeiro muito hábil e muito empreendedor Pélope livrarseá dele no devido momento Os deuses irão convertêlo na constelação do Auriga do céu noturno Essa narrativa de habilitação à realeza coloca a prova do carro sob o patrocínio de Posidão o velho deus cavalo que aparece nessa época da civilização micênica não mais em seu aspecto pastoral mas como um mestre do carro guerreiro e aristocrático É com efeito o altar de Posidão em Corinto um Posidão Hippios e Damaios que escolhido para marcar o termo do percurso consagra o vencedor na sua chegada Por outro lado Pélope é estreitamente associado em sua lenda a Posidão Quando o jovem renasce após a prova de iniciação que o faz morrer despedaçado no caldeirão do pai é logo raptado por Posidão O deus faz dele seu pajem conforme uma prática cujo arcaísmo se manteve nas sociedades guerreiras de Creta e que Estrabão nos faz conhecer segundo Éforo4 o rapto obedece a um protocolo rigoroso com presentes oferecidos pelo raptor de cuja vida o adolescente vai partilhar durante um retiro de dois meses Na sua libertação o rapaz recebe uma porção de presentes regulamentares sua farda de guerra um boi uma taça A Pélope oferece Posidão também o presente que simboliza os poderes adquiridos pelo jovem na convivência com o deus um carro Exigindo uma aprendizagem difícil a técnica do carro deve ter reforçado a especialização da atividade guerreira traço característico da organização social e da mentalidade dos povos indoeuropeus Por outro lado a necessidade de dispor de uma reserva numerosa de carros para concentrálos no 4 Estrabão X 483c cf Louis Gernet Droit et prédroit en Grêce ancienne LAnnée Sociologique 1951 pp 389 e ss 9 campo de batalha supõe um Estado centralizado suficientemente extenso e poderoso em que os homens dos carros quaisquer que sejam seus privilégios são submetidos a uma autoridade única Tal deve ter sido com efeito a força militar do reino micênico que desde 1450 sabemolo desde a decifração do linear B pôde dominar Creta estabelecerse soberanamente no palácio de Cnossos e ocupálo até sua destruição final no incêndio de 1400 ateado talvez por uma revolta indígena A expansão micênica que prossegue do século XIV ao XII leva os aqueus a tomarem no Mediterrâneo oriental o lugar dos cretenses que eles substituem mais ou menos por toda parte e com certos desníveis no tempo conforme as regiões Desde a aurora do séc XIV Rodes é por eles colonizada Talvez seja nessa ilha ao abrigo dos ataques do continente que se deve situar o reino de Ahhiyawa cujo monarca é tratado pelo rei hitita com a consideração devida a um igual De Rodes o rei da Acaia podia controlar os poucos pontos da costa anatólica em que seus homens se tinham fixado e fundado colónias A presença dos aqueus é atestada em Mileto a Milawunda ou Milawata hitita em Colofão em Claros mais ao norte em Lesbos na Tróade sobretudo com a qual as relações foram estreitas enfim sobre a costa meridional na Cilícia e Panfília É no começo do século XIV igualmente que os micênios se instalam à força em Chipre e constroem em Enkomi uma fortaleza semelhante às da Argólida de lá vão dar na costa da Síria caminho de passagem para a Mesopotâmia e para o Egito Em Ugarit que faz comércio de cobre com Chipre uma colônia cretense tinha no século XV determinado a cultura e até a arquitetura da cidade Cede o lugar no século seguinte a uma povoação micênica assaz numerosa para ocupar um bairro da cidade Na mesma época Alalakh sobre o Oronte porta do Eufrates e da Mesopotâmia tornase um centro aqueu importante Mais ao sul aqueus penetram até a Fenícia Biblos e Palestina Em toda essa região elaborase uma civilização comum cipro micênica em que os elementos minóicos micênicos e asiáticos estão intimamente fundidos e que dispõe de uma escrita derivada como o silabário micênico do linear A O Egito que tinha mantido especialmente no curso do século XV um comércio contínuo com os cretenses abrese aos micênios e os 10 acolhe livremente entre 1400 e 1340 Lá ainda os keftiou os cretenses são pouco a pouco eliminados em benefício de seus concorrentes Creta deixa de desempenhar como o fazia no período anterior um papel de intermediário entre o Egito e o continente grego Talvez uma colónia micênica exista em El Amarna quando Amenhotep IV conhecido com o nome de Akhenaton fixase ali entre 1380 e 1350 abandonando a antiga capital de Tebas Assim em todas as regiões em que os conduziu seu espírito de aventura os micênios aparecem estreitamente associados às grandes civilizações do Mediterrâneo oriental integrados neste mundo do PróximoOriente que apesar de sua diversidade constitui um conjunto pela amplitude de seus contatos intercâmbios e comunicações BIBLIOGRAFIA V Gordon Childe The dawn of European civilization 60 ed Londres 1957 H L Lorimer homer and the monuments Londres 1950 A Severyns Grêce et ProcheOrient avant Homère Bruxelas 1960 Sterling Dow The Greeks in the bronze age in Rapports du XI Congrès international des sciences historiques 2 Antiquité Upsala 1960 pp 134 Denys L Page History and Homeric Iliad Berkeley and Los Angeles 1959 The Aegean and the Near East Studies presented to Hetty Goldman Nova York 1956 11 CAPÍTULO II A REALEZA MICÊNICA A decifração das plaquetas em linear B resolveu certas questões propostas pela arqueologia e levantou novas Aos problemas ordinários de interpretação acrescentamse dificuldades de leitura pois o linear B derivado de uma escrita silábica que não foi feita para notar o grego exprime muito imperfeitamente os sons do dialeto falado pelos micênios Por outro lado o número de nossos documentos é ainda reduzido não se descobriram verdadeiros documentos antigos mas sim alguns inventários anuais redigidos em tijolos crus que teriam sem dúvida sido apagados para servir de novo se o incêndio dos palácios não os tivesse conservado pelo cozimento Um único exemplo bastará para mostrar as lacunas de nossa infomaçâo e as precauções necessárias A palavra tereta que vem frequentemente nos textos não recebeu menos de quatro interpretações sacerdote homem do serviço feudal barão homem do damos sujeito a prestações servidor Não se poderia pois pretender estabelecer o quadro da organização social micênica Todavia as interpretações mesmo as mais opostas concordam em alguns pontos que desejaríamos destacar e que podem ser considerados no estado atual de nossas fontes como suficientemente estabelecidos A vida social aparece centralizada em torno do palácio administrativo e económico Neste sistema de economia que se denominou palaciana o rei concentra e unifica em sua pessoa todos os elementos do poder todos os aspectos da soberania Por intermédio de escribas que formam uma classe profissional fixada na tradição graças a uma hierarquia complexa de dignitários do palácio e de inspetores reais ele controla e regulamenta minuciosamente todos os setores da vida económica todos os domínios da atividade social Os escribas contabilizam em seus arquivos o que concerne ao gado e à agricultura à tenência das terras avaliadas em medidas de cereais ou taxas de censo ou rações de sementes aos diversos ofícios especializados com os subsídios a fornecer em matériasprimas e as 12 encomendas de produtos elaborados à mãodeobra disponível ou ocupada os escravos homens mulheres e crianças quer os dos particulares quer os do rei às contribuições de toda sorte impostas pelo Palácio aos indivíduos e às coletividades os bens já entregues e os ainda por receber às levas de homens a serem fornecidas por certas aldeias para equipar os navios reais de remadores à composição ao comando ao movimento das unidades militares aos sacrifícios aos deuses às taxas previstas pelas oferendas etc Não se compreende que haja lugar numa economia desse gênero para um comércio privado Se existem termos que significam comprar ou vender não se encontra testemunho de uma forma de pagamento em ouro ou em prata nem de uma equivalência estabelecida entre mercadorias e metais preciosos Parece que a administração real regulamentava a distribuição e o intercâmbio assim como a produção dos bens Por intermédio do palácio que comanda no centro da rede o duplo circuito das prestações e das gratificações circulam e são trocados entre si os produtos os trabalhos os serviços igualmente codificados e contabilizados ligando ao mesmo tempo os diversos elementos do país Realeza burocrática talvez se possa dizer O termo que tem ressonâncias excessivamente modernas sublinha um dos aspectos do sistema pois sua lógica o conduz a um controle cada vez mais rigoroso cada vez mais amplo chegando a notar pormenores que nos parecem insignificantes Ele impõe a comparação com os grandes Estados fluviais do Oriente Próximo cuja organização parece responder pelo menos em parte à necessidade de coordenar numa vasta escala os trabalhos de secagem irrigação e conservação dos canais indispensáveis à vida agrícola Os reinos micênicos tiveram que resolver problemas análogos A secagem do lago Copaís foi efetivamente empreendida na época micênica Mas e as planícies da Algólida da Messênia e da Ática Não se compreende que necessidades técnicas de preparo do solo segundo um plano de conjunto tenham podido suscitar ou favorecer na Grécia uma centralização administrativa desenvolvida A economia rural da Grécia antiga aparece 13 dispersa no âmbito da aldeia a coordenação dos trabalhos não vai muito além do grupo dos vizinhos Não é somente no domínio da agricultura que o mundo micênico se distingue das civilizações fluviais do Oriente Próximo Reconhecendo o papel do Palácio como eixo da vida social M E Palmer indicou bem os traços que ligam a sociedade micênica ao mundo indoeuropeu A analogia é sobretudo surpreendente com os hititas que orientalizando se conservaram certas instituições características ligadas à sua organização militar Em tomo do rei a grande família hitita reúne os personagens mais próximos do soberano São dignitários do Palácio cujos títulos destacam as altas funções administrativas mas que exercem também comandos militares Com os combatentes sob suas ordens formam o pankus assembleia que representa a comunidade hitita isto é que agrupa o conjunto dos guerreiros excluindose o resto da população segundo o esquema que opõe nas sociedades indoeuropeias o guerreiro ao homem da aldeia pastor e agricultor É nessa nobreza guerreira constituída em classe separada e pelo menos no que concerne aos mais importantes alimentada nos seus feudos por aldeões ligados à terra que se recrutam os homens dos carros força principal do exército hitita A instituição do pankus pôde dispor na origem de poderes amplos a monarquia teria começado por ser eletiva em seguida para evitar as crises de sucessão teria tirado da assembleia dos guerreiros a ratificação do novo rei o pankus de que se trata pela última vez numa proclamação do rei Telepino do fim do século XVI teria finalmente caído em desuso a realeza hitita terseia aproximado assim do modelo das monarquias absolutas orientais apoiandose menos numa classe de nobres cujos serviços militares criam as prerrogativas políticas do que numa hierarquia de administradores que dependem diretamente do rei5 O exemplo hitita foi invocado pelos eruditos que opunham à interpretação burocrática da realeza micênica um esquema que dava lugar a traços feudais De fato as duas parecem igualmente inadequadas e em sua própria oposição anacrónicas Em todos os graus da administração palaciana é com efeito um vínculo pessoal de submissão que une ao rei os diversos dignitários do Palácio não são 5 Cf O R Gurney The Hittites Londres 1952 14 funcionários a serviço do Estado mas servidores do rei encarregados de manifestar em toda parte onde sua confiança os colocou este poder absoluto de comando que se encarna no monarca Portanto verificase no quadro da economia palaciana ao lado de uma divisão frequentemente muito grande das tarefas de uma especialização de funções com uma série de fiscais e chefes de fiscalização uma flutuação nas atribuições administrativas que se superpõem umas às outras exercendo cada representante do rei por delegação e em seu nível uma autoridade que em princípio cobre sem restrição todo o campo da vida social O problema não é pois opor o conceito de realeza burocrática ao de monarquia feudal mas sim marcar por trás dos elementos comuns ao conjunto das sociedades de economia palaciana os traços que definem mais precisamente o caso micênico e que talvez expliquem por que este tipo de soberania não sobreviveu na Grécia à queda das dinastias dos aqueus Nessa perspectiva a aproximação com os hititas mostra se frutuosa pois dá o maior relevo às diferenças que separam o mundo micênico da civilização palaciana de Creta que lhe serviu de modelo O contraste entre essas duas realezas grava se na arquitetura de seus palácios6 Os de Creta dédalos de compartimentos dispostos em aparente desordem em torno de um pátio central são construídos no mesmo nível que a região circunvizinha sobre a qual se abrem sem defesa por amplas estradas que vão ter ao palácio O solar micênico tendo no centro o mégaron e a sala do trono é uma fortaleza cercada de muros um abrigo de chefes que domina e fiscaliza a região plana que se estende a seus pés Construída para sustentar um bloqueio essa cidadela abriga ao lado da morada principesca e de suas dependências as casas dos familiares do rei chefes militares e dignitários do palácio Seu papel militar parece sobretudo defensivo preserva o tesouro real em que se acumulam ao lado das reservas normalmente controladas postas em estoque repartidas pelo palácio no quadro da economia do país bens preciosos de um tipo diferente Tratase de produtos de uma indústria de luxo jóias 6 J D S Pendlebury A handbook to the Palace of Minos Knossos with its dependencies Londres 1954 George E Mylonas Ancient Mycenae Londres 1957 15 taças tripés caldeirões peças de ourivesaria armas trabalhadas barras de metal tapetes tecidos bordados Símbolos de poder instrumentos de prestígio pessoal exprimem na riqueza um aspecto propriamente régio Formam a matéria de um comércio abundante que ultrapassa amplamente as fronteiras do reino Objetos de dádivas e de retribuições selam alianças matrimoniais e políticas criam obrigações de serviço recompensam vassalos estabelecem até em país longínquo laços de hospitalidade são também motivo de competição de conflito como as pessoas os recebem como presentes ganhamnos de armas na mão é para apoderarse do tesoro que se organiza uma expedição guerreira e que se destrói uma cidade Prestamse enfim mais que outras formas de riqueza a uma apropriação individual que poderá perpetuarse além da morte colocados ao lado do cadáver como pertences do defunto seguiloão a seu túmulo7 O testemunho das plaquetas permitenos precisar esse quadro da corte e do palácio micênicos No cume da organização social o rei usa o título de wanaka ánax Sua autoridade parece exercerse em todos os níveis da vida militar é o palácio que dirige as encomendas de armas o equipamento dos carros os recrutamentos de homens a formação a composição o movimento das unidades Mas a competência do rei não fica confinada ao domínio da guerra mais do que ao da economia O ánax é responsável também pela vida religiosa ordena com precisão o seu calendário vela pela observância do ritual pela celebração das festas em honra dos diversos deuses determina os sacrifícios as oblações vegetais as taxas das oferendas exigíveis de cada um segundo sua classe Podese pensar que se o poder real se exerce assim em todos os domínios é que o soberano como tal encontrase especialmente em relação com o mundo religioso associado a uma classe sacerdotal que surge numerosa e influente8 Em apoio dessa hipótese notarseá que na Grécia a lembrança de uma função religiosa da realeza se perpetuou até no quadro da Cidade e que sobreviveu sob uma forma de mito a lembrança do Rei Divino mágico senhor do tempo distribuidor da 7 Cf a oposição dos Ktémata bens adquiridos pelo indivíduo e que ficam à sua inteira disposição especialmente sua parte de pilhagem e dos patroa bens ligados ao grupo familiar inalienáveis 8 Cf M Lejeune Prêtres et prêtresses dans les documents myceniens in Hommage à Georges Dumézil Latomus 45 pp 129139 16 fertilidade À lenda cretense de Minos que se submetia de nove em nove anos na caverna do Ida à prova que deve renovar por um contato direto com Zeus seu poder real9 corresponde em Esparta à ordália que de nove em nove anos os éforos impõem a seus dois reis escrutando o céu nas profundezas da noite para aí ler se os soberanos não teriam cometido algum erro que os desqualificasse para o exercício da função real Pensese também no rei hitita que abandona em plena campanha a direção de seus exércitos se suas obrigações religiosas exigem sua volta à capital para aí realizar na data determinada os ritos de que tem o encargo Ao lado do wasaka o segundo personagem do reino o lawagetas representa o chefe do laos propriamente o povo em armas o grupo dos guerreiros Vestindo como uniforme um manto de um modelo especial os eqe ta ἑταῖροι cf homérico hetairoi os são como a grande família hitita dignitários do palácio formando o séquito do rei ao mesmo tempo que chefes colocados à testa de uma Okha de uma unidade militar ou oficiais que asseguram a ligação da corte com os comandos locais Talvez sejam igualmente da alçada do laos os tereta telestai no caso de admitirse com Palmer que se trata dos homens do serviço feudal de barões dos feudos Três deles seriam segundo uma lâmina de Pilos personagens assaz importantes para possuir um témenos privilégio do wanaka e do Iawagetas10 0 témenos designa na epopeia em que foi dentre todos os termos do vocabulário micênico relativo aos bens de raiz o único que se manteve uma terra arável ou de vinhas oferecida com os aldeões que a guarnecem ao rei aos deuses ou a um grande personagem em recompensa de seus serviços excepcionais ou de suas façanhas guerreiras A tenência do solo apresentase como um sistema complexo que a ambiguidade de muitas expressões toma ainda mais obscuro11 A plena posse de uma terra como seu usufruto parece ter feito surgir em compensação serviços e prestações 9 Odisseia XIX 179 10 A interpretação dessa plaqueta é discutida Outros documentos parecem ao contrário associar estreitamente os tereta ao damos Tratarseia então de aldeões sujeitos a prestações 11 A complexidade do regime territorial revelase no vocabulário muito diferenciado em que muitos termos permanecem obscuros Discutese o sentido de palavras como Kama kolonooko wowo ona to Este último termo designa uma locação sem que se possa precisar sob que formas era realizada Pode se pensar por outro lado que no que concerne à terra comunal do damos as plaquetas não mencionam senão as alienações que dela se fizeram a título temporário ou definitivo Havia enfim à exceção do damos e dos escravos uma população serva ligada à terra Não se poderia dizêlo 17 múltiplas Frequentemente é difícil decidir se um teimo tem uma significação puramente técnica terra inculta terra arroteada terra de pastagem transformada em terra arável terra de maior ou menor dimensão ou se ele marca um estatuto social Entretanto uma oposição se delineia claramente entre dois tipos de tenência designando as duas formas diferentes que podem revestir uma Kotona um lote uma porção de terra Os kitimena kotona são terras privadas com proprietários contrariamente aos kekemena kotona ligadas ao damos terras comuns dos demos da aldeia propriedade coletiva do grupo rural cultivadas segundo o sistema do openfield e que talvez sejam objeto de uma redistribuição periódica Nesse ponto ainda IM E Palmer pôde fazer uma aproximação sugestiva com o código hitita que distingue paralelamente duas maneiras de tenência da terra A do homem do serviço feudal guerreiro depende diretamente do palácio e volta para este quando o serviço não é mais certo Em compensação os homens da ferramenta isto é os artesãos dispõem de uma terra dita de aldeia que a coletividade rural lhes concede por um tempo e que recupera quando partem12 Evoquemse também os fatos indianos que dão prova de uma estrutura análoga Ao vaiçya o agricultor isto é ao homem da aldeia opõese o ksatrya o guerreiro de ksatram poder posse o homem que tem a posse individual da terra como o barão micênico é o homem da kitimena ko tona da terra adquirida por oposição à terra comum da aldeia As duas formas diferentes de tenência do solo recobririam então na sociedade micênica uma polaridade mais fundamental em face do palácio da corte de todos os que deles dependem seja diretamente seja pela tenência de seu feudo entrevêse um mundo rural organizado em aldeias com sua vida própria Estes demos da aldeia dispõem de uma parte das terras nas quais eles se fixam regularizam de conformidade com as tradições e as hierarquias locais os problemas que põem em seu nível os trabalhos agrícolas a atividade pastoril as relações de vizinhança É nesse quadro provincial que aparece contra toda expectativa o personagem que tem o título que teríamos normalmente traduzido por rei o pasireu o basileus homérico Precisamente ele não é o Rei 12 a interpretação proposta por Palmer do termo grego demiurgós não o que trabalha para o público mas o que cultiva uma terra de aldeia contra cf Kentaró Murakawa Demiurgos Ilistoria 6 1957 pp 385415 18 em seu palácio mas um simples senhor dono de um domínio rural e vassalo do ánax Esse vínculo de vassalidade num sistema de economia em que tudo é contabilizado reveste em suma a forma de uma responsabilidade administrativa vemos o basileus fiscalizar a distribuição das cotas em bronze destinadas aos ferreiros que em seu território trabalham para o palácio e bem entendido contribui ele próprio com outros homens ricos do lugar segundo uma quantidade devidamente estabelecida a esses fornecimentos de metal13 Ao lado do basileus um Conselho dos Velhos a kerosija gerousia confirma esta relativa autonomia da comunidade aldeã Tomam assento nessa assembleia sem dúvida os chefes das casas mais influentes Os simples aldeões homens do damos no sentido próprio que fornecem ao exército os peões e que para retomar a fórmula homérica não são mais considerados no Conselho que na guerra formam no melhor dos casos os espectadores escutam em silêncio os qualificados para falar e não expressam seus sentimentos senão por um rumor de aprovação ou descontentamento Um outro personagem o korete associado ao basileus aparece como uma espécie de regedor de aldeia É possível que se indague se esta dualidade de direçâo no nível local não encobre a que verificamos no quadro do Palácio como o ánax o basileus teria prerrogativas sobretudo religiosas pensese nos phylobasileis da Grécia clássica o korete como o Iawagetas exerceria uma função militar Haveria razão para aproximarse o sentido do homérico mas que parece indicar senão uma oposição pelo menos uma polaridade uma diferença de planos Além disso o chamado Klumenos korete da aldeia de i terewa dependente do palácio de Pilos figura numa outra plaqueta como comandante de unidade militar uma terceira dálhe o qualificativo de moropa possuidor de uma moira de um lote de terra14 13 A assimilação do pasireu ao basileus foi recentemente discutida Segundo Palmer tratarseia de um oficial provincial que controlava as equipes de metalúrgicos que trabalhavam para o palácio cf L R Palmer Linear B texts of economic interest Serta Philologica Aenipontana 78 1961 pp 112 14 Martin S Ruiperez KORETE e POROKOROTERE Remarques sur lorganisation militaire mycénienne Études Mycéniennes Actes du Colloque international sur les textes mycéniens p 105120 contra J 19 Por mais lacunar que seja nossa informação parece possível tirar daí algumas conclusões gerais referentes aos traços característicos das realezas micênicas 1 Primeiramente seu aspecto belicoso O ánax apóiase numa aristocracia guerreira os homens dos carros sujeitos à sua autoridade mas que formam no corpo social e na organização militar do reino um grupo privilegiado com seu estatuto particular seu gênero de vida próprio 2 As comunidades rurais não estão numa dependência tão absoluta em relação ao palácio que não possam subsistir independentemente dele Abolido o controle real o damos continuaria a trabalhar as mesmas terras segundo as mesmas técnicas Como no passado mas num quadro doravante puramente aldeão serlheia necessário alimentar os reis e ricos homens do lugar por meio de remessas presentes e prestações mais ou menos obrigatórias 3 A organização do Palácio com seu pessoal administrativo suas técnicas de contabilidade e de controle sua regulamentação estrita da vida econômica e social apresenta um caráter de plágio Todo o sistema repousa no emprego da escrita e na constituição de arquivos São os escribas cretenses postos ao serviço das dinastias micênicas que transformando o linear em uso no palácio de Cnossos linear A para adaptálo ao dialeto dos novos senhores linear B levaramlhes os meios de implantar na Grécia continental os métodos administrativos próprios da economia palaciana A extraordinária fixidez da língua das plaquetas pelo tempo mais de 150 anos separam as datas dos documentos de Cnossos e de Pilos 15 e no espaço Cnossos Pilos Micenas mas também Tirinto Tebas Orcómeno mostra que se trata de uma tradição mantida nos grupos estritamente fechados Aos Taillardat Notules mycéniennes Mycénien Korete et homérique Revue Etades Grecques 73 1960 pp 15 15 Se é aceita para os documentos de Cnossos a indicação das datas feita por A J Evans Sobre a controvérsia que estabeleceram a esse respeito L R Palmer e S Hood cf J Raison Une controverse sur la chronologie cnossienne Bull de lAss Guillaume Budé 1961 pp 305319 20 reis micênicos esses meios especializados de escribas cretenses forneceram ao mesmo tempo que as técnicas os esquemas para a administração de seu palácio Para os monarcas da Grécia o sistema palaciano representava um notável instrumento de poder Permitia estabelecer um controle rigoroso do Estado sobre um território extenso Atraía para acumulála em suas mãos toda a riqueza do país e concentrava sob uma direção única recursos e forças militares importantes Possibilitava assim as grandes aventuras em países longínquos para lá se estabelecer em terras novas ou para ir buscar além dos mares o metal e os produtos que faltavam no continente grego Entre o sistema de economia palaciana a expansão micênica pelo Mediterrâneo o desenvolvimento na própria Grécia ao lado da vida agrícola de uma indústria artesanal já muito especializada organizada em guildas sob o modelo oriental a relação aparece estreita É todo esse conjunto que a invasão dórica destrói Rompe por longos séculos os vínculos da Grécia com o Oriente Abatida Micenas o mar deixa de ser um caminho de passagem para tornarse uma barreira Isolado voltado para si mesmo o continente grego retorna a uma forma de economia puramente agrícola O mundo homérico não conhece mais uma divisão do trabalho comparável à do mundo micênico nem o emprego numa escala tão vasta da mãodeobra servil Ignora as múltiplas corporações de homens da ferramenta agrupados nos arredores do palácio ou colocados nas aldeias para aí executar as ordens reais Na queda do império micênico o sistema palaciano desaba completamente jamais se erguerá O termo ánax desaparece do vocabulário propriamente político E substituído em seu emprego técnico para designar a função real pela palavra basileus cujo valor estritamente local observamos e que de preferência a uma pessoa única a concentrar em si todas as formas do poder designa empregado no plural uma categoria de Grandes que se colocam igualmente no cume da hierarquia social Abolido o reino do ánax não se encontra mais traço de um controle organizado pelo rei de um aparelho administrativo de uma classe de escribas A própria escrita desaparece como desfeita na ruína dos palácios Quando os gregos a redescobrirem pelo fim do século IX tomandoa esta vez dos fenícios não será 21 somente uma escrita de um tipo diferente fonética mas sim o produto de uma civilização radicalmente distinta não mais a especialidade de uma classe de escribas mas o elemento de uma cultura comum Seu significado social e psicológico ter seá também transformado poderseia dizer invertido a escrita não terá mais por objeto constituir para uso do rei arquivos no recesso de um palácio terá correlação doravante com a função de publicidade vai permitir divulgar colocar igualmente sob o olhar de todos os diversos aspectos da vida social e política BIBLIOGRAFIA John Chadwick The decipherment of Linear B Cambridge 1958 Etudes mycéniennes Actes du Colloque international sur les textes mycéniens Paris 1956 L R Palmer Achaeans and Indoeuropeans Oxford 1955 M Ventris e J Chadwick Documents in Mycenaean Greek Cambridge 1956 Sobre as estruturas sociais e o regime territorial W E Brown Landtenure in mycenaean Pylos Historia 5 1956 pp 385400 E L Bennett The landholders of Pylos American Journal of Archaeology 60 1956 pp 103133 M I Finley Homer and Mycenae Property and Tenure Historia 6 1957 pp 133159 e The mycenaean tablets and economic history The economic history review 2 série 10 j 957 p 128141 com uma réplica de L R Palmer ibid 11 1958 pp 8796 M S Ruiperez Mycenaean landdivision and livestock grazing Minos 5 pp 174207 G Thomson On Greek land tenure in Studies Robinson II pp 840857 E Will Aux origines du régime foncier grec Revue des études anciennes 59 1957 pp 550 22 CAPÍTULO III A CRISE DA SOBERANIA A queda do poder micênico a expansão dos dórios no Peloponeso em Creta e até em Rodes inauguram uma nova idade da civilização grega A metalurgia do ferro sucede à do bronze A incineração dos cadáveres substitui numa larga escala a prática da inumação A cerâmica transformase profundamente deixa as cenas da vida animal e vegetal por uma decoração geométrica Divisão nítida das partes do vaso redução das formas a modelos claros e simples obediência a princípios de aridez e de rigor que excluem os elementos místicos de tradição egéia tais são os traços do novo estilo geométrico T B L Webster chega a falar a esse respeito de uma verdadeira revolução16 nessa arte despojada reduzida ao essencial reconhece uma atitude de espírito que segundo ele marca igualmente as outras inovações do mesmo período os homens já tomaram consciência de um passado separado do presente diferente dele a idade de bronze idade dos heróis contrasta com os tempos novos votados ao ferro o mundo dos mortos distanciouse separado do mundo dos vivos a cremação partiu o liame do cadáver com a terra uma distância insuperável se estabeleceu entre os homens e os deuses o personagem do rei divino desapareceu Assim em toda uma série de domínios uma delimitação mais rigorosa dos diferentes planos do real prepara a obra de Homero esta poesia épica que no seio mesmo da religião tende a afastar o mistério Neste capítulo quereríamos sobretudo sublinhar o alcance das transformações sociais que mais diretamente repercutiram nos esquemas do pensamento O primeiro testemunho dessas transformações é a língua De Micenas a Homero o vocabulário dos títulos dos postos das funções civis e militares da tenência do solo desaparece quase completamente Alguns termos que subsistem como basileus ou témenos não conservam mais após a destruição do antigo 16 T B L Webster From Mycenae to Homer 1958 23 sistema exatamente o mesmo valor Quer dizer que não há entre o mundo micênico e o mundo homérico nenhuma continuidade nenhuma comparação possível Foi o que se pretendeu17 Entretanto o quadro de um pequeno reino como Ítaca com seu basileus sua assembleia seus nobres turbulentos seu demos silencioso em segundo plano prolonga e esclarece manifestamente certos aspectos da realidade micênica Aspectos provincianos certamente e que ficam fora do palácio Mas precisamente o desaparecimento do ánax parece ter deixado subsistir lado a lado as duas forças sociais com as quais seu poder devia terse harmonizado de um lado as comunidades aldeãs de outro uma aristocracia guerreira cujas famílias mais eminentes detêm igualmente como privilégio de genos certos monopólios religiosos Entre essas forças opostas liberadas pelo desmoronamento do sistema palaciano que se vão chocar às vezes com violência a busca de um equilíbrio de um acordo fará nascer num período de desordem uma reflexão moral e especulações políticas que vão definir uma primeira forma de sabedoria humana Esta sophia aparece desde a aurora do século VII está ligada a uma plêiade de personagens bem estranhos aureolados de uma glória quase lendária e sempre celebrados pela Grécia como seus primeiros como seus verdadeiros Sábios Ela não tem por objeto o universo da physis mas o mundo dos homens que elementos o compõem que forças o dividem contra si mesmo como harmonizálas unificálas para que de seus conflitos surja a ordem humana da cidade Essa sabedoria é o fruto de uma longa história difícil e acidentada em que intervêm fatores múltiplos mas que desde o início se afastou da concepção micênica do Soberano para orientarse num outro caminho Os problemas do poder de suas formas de seus componentes foram repentinamente colocados em termos novos Com efeito não é suficiente dizer que no curso desse período a realeza se vê despojada na Grécia de seus privilégios e que mesmo onde subsiste cede de fato o lugar a um estado aristocrático devese acrescentar que essa basileia não era 17 Cf especialmente M I Finley Homer and Mycenae Property and tenure História 1957 pp 133159 24 mais desde então a realeza micênica O rei não só mudou de nome mas de natureza Nem na Grécia nem na Jônia em que uma nova multidão de colonos que fugia da invasão dórica foi estabelecerse encontrase vestígio de um poderio real do tipo micênico Mesmo supondo que a Liga jônica do século VI prolongasse sob a forma de um agrupamento de cidades estados independentes uma organização mais antiga em que reis locais reconheciam a suserania de uma dinastia reinante em Éfeso18 tratarseia de uma supremacia análoga à que Agamenon exerce na Ilíada sobre reis que são seus pares e cuja dependência se limita ao domínio de uma campanha feita em comum sob sua direção Muito diferente é sem dúvida o controle imposto a todo momento sobre toda pessoa toda atividade e toda coisa pelo ánax micênico por intermédio do palácio No que concerne a Atenas único ponto da Grécia em que a continuidade com a época micênica não foi brutalmente rompida o testemunho de Aristóteles apoiado na tradição dos atidógrafos apresentanos as etapas do que se poderia chamar o brilhantismo da soberania19 A presença ao lado do rei do polemarca como chefe dos exércitos já separa do soberano a função militar A instituição do arcontado que Aristóteles situa sob os Codridas isto é no momento em que embarcam para a Jônia os aqueus refugiados de Pilos e do Peloponeso na Ática marca uma ruptura mais decisiva É a própria noção de arché de comando que se separa da basileia conquista sua independência e vai definir o domínio de uma realidade propriamente política Eleitos primeiro por dez anos os arcontes são em seguida renovados cada ano O sistema da eleição mesmo se conservam ou se transpõem certos traços de um processo religioso implica uma concepção nova do poder a arché é todos os anos delegada por uma decisão humana por uma escolha que supõe confronto e discussão Essa delimitação mais estrita do poder político que toma forma de magistratura tem uma contrapartida a basileia vêse relegada a um setor especificamente religioso O basileus não é mais 18 Cf Michel B Sakellariou La migration grecque en Ionie Atenas 1958 19 Aristóteles Constituição de Atenas III 24 cf Chester G Starr The decline of the early Greek Kings História 10 1961 pp 129138 25 este personagem quase divino cujo poder se manifesta em todos os planos seu encargo limitase ao exercício de certas funções sacerdotais À imagem do rei senhor de todo poder substituise a ideia de funções sociais especializadas diferentes umas das outras e cujo ajustamento cria difíceis problemas de equilíbrio As lendas reais de Atenas são a esse respeito significativas Ilustram um tema muito diferente daquele que se encontra em muitos mitos indoeuropeus de soberania20 Para tomar um exemplo característico as lendas reais citas narradas por Heródoto mostram no Soberano um personagem que se situa fora e acima das diversas classes funcionais de que a sociedade é composta porque ele as representa todas porque todas encontram igualmente nele a origem das virtudes que as definem ele não pertence mais a nenhuma21 Os três tipos de objetos de ouro a taça de libações a acha de armas a charrua relho e canga que simbolizam as três categorias sociais sacerdotes guerreiros agricultores nas quais os citas estão divididos o Rei e só o Rei os possui todos ao mesmo tempo As atividades humanas que se opõem na sociedade se encontram integradas e unidas na pessoa do soberano As lendas de Atenas descrevem um processo inverso uma crise sucessória que em vez de pautarse pela vitória de um pretendente sobre os outros e a concentração de toda a arché em suas mãos conduz a uma divisão da soberania apropriandose cada um deles exclusivamente de um dos aspectos do poder e abandonando os outros a seus irmãos Não se põe mais em destaque um personagem único que domina a vida social mas uma multiplicidade de funções que opondose umas às outras necessitam de uma divisão uma delimitação recíproca 20 Sobre os problemas da soberania no nível humano sobre as relações do rei com as diversas classes e o conjunto do grupo social leiamse as observações de M Georges Dumézil Religion indoeuropéene Examen de quelques critiques récentes Revue de lHistoire des Religions 152 1957 pp 830 21 Heródoto IV 56 cf E Benveniste Traditions indoiraniennes sur les classes sociales Journal asiatique 230 1938 pp 529549 G Dumézil Lidéologie tripartie des Indoeuropéens Bruxelas 1958 pp 910 Les trois trésors des ancêtres dans lépopée Narte Revue de lHistoire des Religions 157 1960 pp 141 154 Encontrarseá na lenda real de Orcómene um tema análogo cf F Vían La triade des rois dOrchoméne Eteoclès Phlegyas Minyas in Hommage à G Dumézil pp 215224 26 Por ocasião da morte de Pandião seus dois filhos dividem entre si a herança paterna Erecteu recebe a basileia Butes esposo de Ctônia filha de seu irmão fica com a hierosyne o sacerdócio A basileia de Erecteu repousa sobre o poder guerreiro Erecteu é um combatente o inventor do carro morto em plena batalha Essa primeira divisão não basta para regulamentar o problema dinástico Erecteu deixa por sua vez três filhos Cécrope Metião Pandoro A partir dos dois mais velhos fundadores de linhagens rivais o conflito pelo trono propagase de geração para geração até Egeu sem interromper aliás um circuito regular de intercâmbios matrimoniais entre os dois ramos familiares Como H Jeanmaire o mostrou a luta dos cecrópidas e dos metiônidas exprime a tensão no próprio seio da basileia de dois aspectos opostos22 Recolocandose esse episódio no conjunto da narrativa sobre a sucessão verificase que a crise dinástica revela quatro princípios concorrentes atuando na soberania um princípio especificamente religioso com Butes um princípio de força guerreira com Erecteu a linhagem dos Cecrópidas Egeu ele próprio dividirá a arché em quatro guardando para si todo o Kratos um princípio ligado ao solo e às suas virtudes Ctônia Pandoro a aproximar de Pandora um princípio de poder mágico personificado pela deusa métis esposa de Zeus e que interessa mais especialmente as artes do fogo colocadas sob a proteção de Hefesto e Atena deuses da metis patronos dos artesãos Tentese aproximar esses quatro princípios das quatro tribos jônicas que puderam ter e às quais os gregos deram explicitamente valor funcional23 O que o mito sugere pela narrativa de um conflito entre irmãos a história e a teoria política o exporão por sua vez sob uma forma sistemática apresentando o corpo social como um composto feito de elementos heterogêneos de partes separadas de classes de funções que se excluem umas às 22 H Jeanmaire La naissance dAthéna et la royauté magique de Zeus Revue Archéologique 48 1956 pp 1240 23 As quatro tribos jônicas são chamadas Hópletes Argades Geléontes Aigicoréis que H Jeanmaire interpreta como artesãosagricultores nobres de função religiosa guerreiros Couroi et Courètes Lille 1939 Contra cf M P Nilsson Cults myths oracles and politic in ancient Greece Lund 1951 App 1 The Ionian Phylae cf também G Dumézil Métiers et classes fonctionnelles chez divers peuples indo européens Annales Economies Sociétés Civilisations 1958 pp 716724 27 outras mas cuja mistura e fusão devem entretanto realizar se24 Desaparecido o ánax que pela virtude de um poder mais que humano unificava e ordenava os diversos elementos do reino novos problemas surgem como a ordem pode nascer do conflito entre grupos rivais do choque das prerrogativas e das funções opostas Como uma vida comum pode apoiarse em elementos discordantes Ou para retomar a própria formula dos Órficos como no plano social o uno pode sair do múltiplo e o múltiplo do uno25 Poder de conflito poder de união ErisPhilia essas duas entidades divinas opostas e complementares marcam como que os dois pólos da vida social no mundo aristocrático que sucede as antigas realezas A exaltação dos valores de luta de concorrência de rivalidade associase ao sentimento de dependência para com uma só e mesma comunidade para com uma exigência de unidade e de unificação sociais O espírito de agón que anima os gene nobiliários se manifesta em todos os domínios Na guerra primeiramente a técnica do carro desapareceu com tudo o que implicava centralização política e administrativa mas por isso o cavalo não assegurara menos a seu possuidor uma qualificação guerreira excepcional os Hippeis os Hippobotes definem uma elite militar ao mesmo tempo que uma aristocracia da terra a imagem do cavaleiro associa o valor ao combate o brilho do nascimento a riqueza de bens de raiz e a participação de direito na vida pública No plano religioso em seguida cada genos se afirma como senhor de certos ritos possuidor de fórmulas de narrativas secretas de símbolos divinos especialmente eficazes que lhe conferem poderes e títulos de comando Todo o domínio do péjurídico enfim que governa as relações entre famílias constitui em si uma espécie de agón 24 Particularmente Aristóteles Política II 1261 a 25 V Ehrenberg verifica que há no centro da concepção grega da sociedade uma contradição fundamental o Estado é uno e homogêneo o grupo humano é feito de partes múltiplas e heterogéneas Essa contradição fica implícita não formulada porque os gregos jamais distinguiram claramente Estado e sociedade plano político e plano social Daí o embaraço para não dizer a confusão de um Aristóteles quando trata da unidade e da pluralidade da polis V Ehrenberg The Greek state Oxford 1960 p 89 Vivida implicitamente na prática social essa problemática do uno e do múltiplo que se exprime também em certas correntes religiosas será formulada com todo rigor ao nível do pensamento filosófico 28 um combate codificado e sujeito a regras em que se defrontam grupos uma prova de força entre gene comparável à que põe em combate os atletas no curso dos Jogos E a política toma por sua vez forma de agón uma disputa oratória um combate de argumentos cujo teatro é a ágora praça pública lugar de reunião antes de ser um mercado26 Os que se medem pela palavra que opõem discurso a discurso formam nessa sociedade hierarquizada um grupo de iguais Como Hesíodo o observará toda rivalidade toda eris supõe relações de igualdade a concorrência jamais pode existir senão entre iguais27 Esse espírito igualitário no próprio seio de uma concepção agonística da vida social é um dos traços que marca a mentalidade da aristocracia guerreira da Grécia e que contribui para dar à noção do poder um conteúdo novo A arché não poderia mais ser a propriedade exclusiva de quem quer que seja o Estado é precisamente o que se despojou de todo caráter privado particular o que escapando da alçada dos gene já aparece como a questão de todos As expressões de que se serve o grego são a esse respeito surpreendentes dirá que certas deliberações certas decisões devem ser levadas que os antigos privilégios do Rei que a própria arché são depositadas no meio no centro O recurso a uma imagem especial para exprimir a consciência que um grupo humano toma de si mesmo e o sentimento de sua existência como unidade política não têm simples valor de comparação Refletem o advento de um espaço social inteiramente novo As construções urbanas não são mais com efeito agrupadas como antes em torno de um palácio real cercado de fortificações A cidade está agora centralizada na Ágora espaço comum sede da Hestia Koiné espaço público em que são debatidos os problemas de interesse geral É a própria cidade que se cerca de muralhas protegendo e delimitando em sua totalidade o grupo humano que a constitui No local em que se elevava a cidade real residência privada privilegiada ela edifica templos que abre a um culto 26 O termo guarda a lembrança da assembleia dos guerreiros do laos reunido em formação militar Entre a antiga assembleia guerreira a assembleia dos cidadãos nos Estados oligárquicos e a Ecclesia democrática percebese uma espécie de linha contínua 27 Hesíodo Os Trabalhos e os Dias 256 29 público Nas ruínas do palácio nessa Acrópole que ela consagra doravante a seus deuses é ainda a si mesma que a comunidade projeta sobre o plano do sagrado assim como se realiza no plano profano no espaço da Ágora Esse quadro urbano define efetivamente um espaço mental descobre um novo horizonte espiritual Desde que se centraliza na praça pública a cidade já é no sentido pleno do termo uma polis 30 CAPÍTULO IV O UNIVERSO ESPIRITUAL DA POLIS O aparecimento da polis constitui na história do pensamento grego um acontecimento decisivo Certamente no plano intelectual como no domínio das instituições só no fim alcançará todas as suas consequências a polis conhecerá etapas múltiplas e formas variadas Entretanto desde seu advento que se pode situar entre os séculos VIII e VII marca um começo uma verdadeira invenção por ela a vida social e as relações entre os homens tomam uma forma nova cuja originalidade será plenamente sentida pelos gregos28 O que implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder Tornase o instrumento político por excelência a chave de toda autoridade no Estado o meio de comando e de domínio sobre outrem Esse poder da palavra de que os gregos farão uma divindade Peithó a força de persuasão lembra a eficácia das palavras e das formulas em certos rituais religiosos ou o valor atribuído aos ditos do rei quando pronuncia soberanamente a themis entretanto trata se na realidade de coisa bem diferente A palavra não é mais o termo ritual a fórmula justa mas o debate contraditório a discussão a argumentação Supõe um público ao qual ela se dirige como a um juiz que decide em última instância de mãos erguidas entre os dois partidos que lhe são apresentados é essa escolha puramente humana que mede a força de persuasão respectiva dos dois discursos assegurando a vitória de um dos oradores sobre seu adversário Todas as questões de interesse geral que o Soberano tinha por função regularizar e que definem o campo da arché são agora submetidas à arte oratória e deverão resolverse na conclusão de um debate é preciso pois que possam ser formuladas em discursos amoldadas às demonstrações antitéticas e às argumentações opostas Entre a política e o logos há assim relação estreita vínculo recíproco A arte 28 Cf V Ehrenberg When did the Polis rise Journal of Hellenic Studies 57 1937 pp 147159 Origins of democracy historia 1 1950 pp 519548 31 política é essencialmente exercício da linguagem e o logos na origem toma consciência de si mesmo de suas regras de sua eficácia por intermédio de sua função política Historicamente são a retórica e a sofística que pela análise que empreendem das formas do discurso como instrumento de vitória nas lutas da assembleia e do tribunal abrem caminho às pesquisas de Aristóteles ao definir ao lado de uma técnica da persuasão regras da demonstração e ao pôr uma lógica do verdadeiro própria do saber teórico em face da lógica do verossímil ou do provável que preside aos debates arriscados na prática Uma segunda característica da polis é o cunho de plena publicidade dada às manifestações mais importantes da vida social Podese mesmo dizer que a polis existe apenas na medida em que se distinguiu um domínio público nos dois sentidos diferentes mas solidários do termo um setor de interesse comum opondose aos assuntos privados práticas abertas estabelecidas em pleno dia opondose a processos secretos Essa exigência de publicidade leva a apreender progressivamente em proveito do grupo e a colocar sob o olhar de todos o conjunto das condutas dos processos dos conhecimentos que constituíam na origem o privilégio exclusivo do basileus ou dos gene detentores da arché Esse duplo movimento de democratização e de divulgação terá no plano intelectual consequências decisivas A cultura grega constituise dando a um círculo sempre mais amplo finalmente ao demos todo o acesso ao mundo espiritual reservado no início a uma aristocracia de caráter guerreiro e sacerdotal a epopeia homérica é um primeiro exemplo desse processo uma poesia de corte cantada primeiramente nas salas dos palácios depois sai deles desenvolvese e transpõe se em poesia de festa Mas esse desenvolvimento comporta uma profunda transformação Tornandose elementos de uma cultura comum os conhecimentos os valores as técnicas mentais são levados à praça pública sujeitos à crítica e à controvérsia Não são mais conservados como garantia de poder no recesso de tradições familiares sua publicação motivará exegeses interpretações diversas oposições debates apaixonados Doravante a discussão a argumentação a polêmica tornamse as regras do jogo intelectual assim como 32 do jogo político O controle constante da comunidade se exerce sobre as criações do espírito assim como sobre as magistraturas do Estado A lei da polis por oposição ao poder absoluto do monarca exige que umas e outras sejam igualmente submetidas à prestação de contas Já se não impõem pela força de um prestígio pessoal ou religioso devem mostrar sua retidão por processos de ordem dialética Era a palavra que formava no quadro da cidade o instrumento da vida política é a escrita que vai fornecer no plano propriamente intelectual o meio de uma cultura comum e permitir uma completa divulgação de conhecimentos previamente reservados ou interditos Tomada dos fenícios e modificada por uma transcrição mais precisa dos sons gregos a escrita poderá satisfazer essa função de publicidade porque ela própria se tornou quase com o mesmo direito da língua falada o bem comum de todos os cidadãos As mais antigas inscrições em alfabeto grego que conhecíamos mostram que desde o século VIII não se trata mais de um saber especializado reservado a escribas mas de uma técnica de amplo uso livremente difundida no público29 Ao lado da recitação decorada de textos de Homero ou de Hesíodo que continua sendo tradicional a escrita constituirá o elemento de base da paideia grega Compreendese assim o alcance de uma reivindicação que surge desde o nascimento da cidade a redação das leis Ao escrevêlas não se faz mais que assegurarlhes permanência e fixidez subtraemse à autoridade privada dos basileis cuja função era dizer o direito tornamse bem comum regra geral suscetível de ser aplicada a todos da mesma maneira No mundo de Hesíodo anterior ao regime da Cidade a dike atuava ainda em dois planos como dividida entre o céu e a terra para o pequeno cultivador beócio a dike é neste mundo uma decisão de fato dependente da arbitrariedade dos reis comedores de presentes no céu é uma divindade soberana mas longínqua e inacessível Ao 29 John Forsdyke Greece before Homer Ancient chronology and mythology Londres 1956 pp 18 e ss cf também as notas de Cl Préaux Du linéaire B crétomycénien aux ostraca grecs dEgypte Chronique dEgypte 34 1959 pp 7985 33 contrário pela publicidade que lhe confere a escrita a dike sem deixar de aparecer como um valor ideal vai poder encarnarse num plano propriamente humano realizarse na lei regra comum a todos mas superior a todos norma racional sujeita à discussão e modificável por decreto mas que nem por isso deixa de exprimir uma ordem concebida como sagrada Quando por sua vez os indivíduos decidirem tornar público o seu saber por meio da escrita seja sob forma de livro como os que Anaximandro e Ferecides teriam sido os primeiros a escrever ou como o que Heráclito depositaria no templo de Ártemis em Éfeso seja sob forma de parápegma inscrição monumental em pedra análoga às que a cidade faz gravar em nome de seus magistrados ou de seus sacerdotes cidadãos particulares nelas inscreverão observações astronômicas ou tábuas de cronologia sua ambição não será fazer conhecer a outros uma descoberta ou uma opinião pessoal o que vão querer depositando sua mensagem é fazer dela o bem comum da cidade uma norma suscetível como a lei de imporse a todos30 Uma vez divulgada sua sabedoria toma uma consistência e uma objetividade nova ela constituise em si mesma como verdade Não se trata mais de um segredo religioso reservado a alguns eleitos favorecidos por uma graça divina Certamente a verdade do sábio como o segredo religioso é revelação do essencial descoberta de uma realidade superior que ultrapassa muito o comum dos homens mas entregue à escrita ela é destacada do círculo fechado das seitas para ser exposta em plena luz aos olhares da cidade inteira isto significa reconhecer que ela é por direito acessível a todos aceitar submetêla como o debate político ao julgamento de todos com a esperança de que em definitivo será por todos aceita e reconhecida Essa transformação de um saber secreto de tipo esotérico num corpo de verdades divulgadas no público tem seu paralelo num outro setor da vida social Os antigos sacerdócios pertenciam como propriedade particular a certos gene e marcavam seu parentesco especial com um poder 30 Cf Diógenes Laércio I 43 carta de Tales a Ferecides 34 divino a polis quando é constituída confiscaos em seu proveito e os transforma em cultos oficiais da cidade A proteção que a divindade reservava outrora a seus favoritos vai doravante exercerse em benefício da comunidade toda Mas quem diz culto de cidade diz culto público Todos os antigos sacra sinais de investidura símbolos religiosos brasões xóana de madeira zelosamente conservados como talismãs de poderio no recesso dos palácios ou no fundo das casas de sacerdote vão emigrar para o templo morada aberta morada pública Nesse espaço impessoal que se volta para fora e doravante projeta no exterior a decoração de seus frisos esculpidos os velhos ídolos transformamse por sua vez perdem com seu caráter secreto sua virtude de símbolo eficaz eis que se tornam imagens sem outra função ritual senão a de serem vistos sem outra realidade religiosa senão sua aparência Da grande estátua cultual alojada no templo para nele manifestar o deus poderseia dizer que todo seu esse consiste doravante em um percipi Os sacra outrora carregados de uma força perigosa e não expostos à vista do público tornamse sob o olhar da cidade um espetáculo um ensinamento sobre os deuses como sob o olhar da cidade as narrativas secretas as fórmulas ocultas se despojam de seu mistério e seu poder religioso para se tornarem as verdades que os Sábios vão debater Entretanto não é sem dificuldade nem sem resistência que a vida social é assim entregue a uma publicidade completa O processo de divulgação fazse por etapas encontra em todos os domínios obstáculos que limitam seus progressos Mesmo no plano político práticas de governo secreto mantêm em pleno período clássico uma forma de poder que opera por vias misteriosas e meios sobrenaturais O regime de Esparta oferece os melhores exemplos desses processos secretos Mas a utilização como técnicas de governo de santuários secretos de oráculos privados reservados exclusivamente a certos magistrados ou coleções divinatórias não divulgadas de que se apropriam certos dirigentes também está atestada em outros lugares Além disso muitas cidades colocam sua salvação na posse de relíquias secretas ossadas de heróis cujo túmulo ignorado do 35 público não deve ser conhecido sob pena de arruinar o Estado senão apenas pelos magistrados qualificados para receber por ocasião de seu acesso ao cargo essa perigosa revelação O valor político atribuído a esses talismãs secretos não é simples sobrevivência do passado Corresponde a necessidades sociais definidas A salvação da cidade não põe necessariamente em jogo de forças que escapam ao cálculo da razão humana elementos que não são possíveis apreciar num debate nem prever ao termo de uma deliberação Essa intervenção de um poder sobrenatural cujo papel é finalmente decisivo a providência de Heródoto a tyche de Tucídides deve ser bem considerada e ter seu lugar na economia dos fatores políticos Ora o culto público das divindades olímpicas só pode responder em parte a essa função Referese a um mundo divino geral demais e também distante demais define uma ordem do sagrado que precisamente se opõe como o hierós ao hósios ao domínio profano no qual se situa a administração da cidade A dessacralização de todo um plano da vida política tem como contrapartida uma religião oficial que se distanciou das questões humanas e que não está mais tão diretamente ligada às vicissitudes da arché Entretanto quaisquer que sejam a lucidez dos chefes políticos e a sabedoria dos cidadãos as decisões da assembleia têm por objeto um futuro que permanece fundamentalmente opaco e que não pode ser alcançado completamente pela inteligência É então essencial assegurarse o seu controle na medida do possível por outras diligências que empregam não mais meios humanos mas a eficácia do rito O racionalismo político que preside às instituições da cidade se opõe certamente aos antigos processos religiosos do governo mas sem por isso excluílos de maneira radical31 Além disso no domínio da religião desenvolvemse à margem da cidade e ao lado do culto público associações fundadas secretamente Seitas confrarias e mistérios são 31 Pensese no papel da adivinhação na vida política dos gregos De maneira mais geral observarseá que toda magistratura conserva um caráter sagrado Mas a esse respeito dáse no plano político o mesmo que no jurídico Os processos religiosos que tinham na origem valor em si mesmos tornamse no quadro do direito introdutores de instância Do mesmo modo os ritos como o sacrifício ou o juramento aos quais os magistrados ficam sujeitos ao assumir o cargo constituem o esquema formal e não mais a força interna da vida política Neste sentido há certamente secularização 36 grupos fechados hierarquizados comportando escalas e graus Organizados sob o modelo das sociedades de iniciação sua função é selecionar por meio de uma série de provas uma minoria de eleitos que se beneficiarão com privilégios inacessíveis ao comum Mas contrariamente às iniciações antigas às quais os jovens guerreiros os couroi eram submetidos e que lhes conferiam uma habilitação ao poder os novos agrupamentos secretos são doravante confinados a um terreno puramente religioso No quadro da cidade a iniciação não pode mais trazer senão uma transformação espiritual sem repercussão política Os eleitos os epoptas são puros santos Aparentados com o divino estão certamente votados a um destino excepcional mas conhecêloão no além A promoção com que eles se beneficiam pertence a um outro mundo A todos que desejam conhecer a iniciação o mistério oferece sem restrição de nascimento nem de classe a promessa de uma imortalidade bemaventurada que era na origem privilégio exclusivamente real divulga no círculo mais amplo dos iniciados os segredos religiosos que pertencem como propriedade particular a famílias sacerdotais como os Kérykes ou os Eumólpides Mas apesar dessa democratização de um privilégio religioso o mistério em nenhum momento se coloca numa perspectiva de publicidade Ao contrário o que o define como mistério é a pretensão de atingir uma verdade inacessível por vias normais e que não poderia de maneira alguma ser exposta é a pretensão de obter uma revelação tão excepcional que dá acesso a uma vida religiosa desconhecida do culto de Estado e que reserva aos iniciados uma sorte sem comparação com a condição ordinária do cidadão O segredo toma assim em contraste com a publicidade do culto oficial uma significação religiosa particular define uma religião de salvação pessoal visando transformar o indivíduo independentemente da ordem social a realizar nele uma espécie de novo nascimento que o destaque do estatuto comum e o faça penetrar num plano de vida diferente Mas nesse terreno as pesquisas dos primeiros Sábios iam retomar as preocupações das seitas a ponto de se 37 confundirem às vezes com elas Os ensinamentos da Sabedoria como as revelações dos mistérios pretendem transformar o homem no íntimo eleválo a uma condição superior fazer dele um ser único quase um deus um theios anér Se a cidade se dirige ao Sábio quando se sente entregue à desordem e à impureza se lhe pede a solução de seus males é precisamente porque ele lhe aparece como um ser à parte excepcional um homem divino que todo seu gênero de vida isola e coloca à margem da comunidade Reciprocamente quando o Sábio se dirige à cidade pela palavra ou por escrito é sempre para transmitirlhe uma verdade que vem do alto e que mesmo divulgada não deixa de pertencer a um outro mundo estranho à vida ordinária A primeira sabedoria constituise assim numa espécie de contradição em que se exprime sua natureza paradoxal entrega ao público um saber que proclama ao mesmo tempo inacessível à maior parte Não tem ele por objeto revelar o invisível fazer ver esse mundo dos ádela que se dissimula atrás das aparências A sabedoria revela uma verdade tão prestigiosa que deve ser paga ao preço de duros esforços e que fica como a visão dos epoptas oculta aos olhos do vulgo exprime certamente o segredo formulao em palavras mas o povo não pode apreender seu sentido Leva o mistério para a praça pública faz dele o objeto de um exame de um estudo sem deixar entretanto completamente de ser um mistério Aos ritos de iniciação tradicionais que proibiam o acesso às revelações interditas a sophia e a philosophia substituem outras provas uma regra de vida um caminho de ascese uma via de pesquisa que ao lado das técnicas de discussão de argumentação ou dos novos instrumentos mentais como as matemáticas conservam em seu lugar antigas práticas divinatórias exercícios espirituais de concentração de êxtase de separação da alma e do corpo A filosofia vai encontrarse pois ao nascer numa posição ambígua em seus métodos em sua inspiração aparentarse á ao mesmo tempo às iniciações dos mistérios e às controvérsias da ágora flutuará entre o espírito de segredo próprio das seitas e a publicidade do debate contraditório que caracteriza a atividade política Segundo os meios os momentos as tendências verseá que como a seita pitagórica 38 na Grande Grécia no século VI ela organizase em confraria fechada e recusa entregar à escrita uma doutrina puramente esotérica Poderá também como o fará o movimento dos Sofistas integrarse inteiramente na vida pública apresentar se como uma preparação ao exercício do poder na cidade e oferecerse livremente a cada cidadão mediante lições pagas a dinheiro Dessa ambiguidade que marca sua origem a filosofia grega talvez jamais se tenha libertado inteiramente O filósofo não deixará de oscilar entre duas atitudes de hesitar entre duas tentações contrárias Ora afirmará ser o único qualificado para dirigir o Estado e tomando orgulhosamente a posição do reidivino pretenderá em nome desse saber que o eleva acima dos homens reformar toda a vida social e ordenar soberanamente a cidade Ora ele se retirará do mundo para recolherse numa sabedoria puramente privada agrupando em torno de si alguns discípulos desejará com eles instaurar na cidade uma cidade diferente à margem da primeira e renunciando à vida pública buscará sua salvação no conhecimento e na contemplação Aos dois aspectos que assinalamos prestígio da palavra desenvolvimento das práticas públicas um outro traço se acrescenta para caracterizar o universo espiritual da polis Os que compõem a cidade por mais diferentes que sejam por sua origem sua classe sua função aparecem de uma certa maneira semelhantes uns aos outros Esta semelhança cria a unidade da polis porque para os gregos só os semelhantes podem encontrarse mutuamente unidos pela Philia associados numa mesma comunidade O vínculo do homem com o homem vai tomar assim no esquema da cidade a forma de uma relação recíproca reversível substituindo as relações hierárquicas de submissão e de domínio Todos os que participam do Estado vão definirse como Hómoioi semelhantes depois de maneira mais abstrata como os Isoi iguais Apesar de tudo o que os opõe no concreto da vida social os cidadãos se concebem no plano político como unidades permutáveis no interior de um sistema cuja lei é o equilíbrio cuja norma é a igualdade Essa imagem do mundo humano encontrará no século VI sua expressão rigorosa num conceito o de isonomia igual participação de todos os cidadãos no 39 exercício do poder Mas antes de adquirir esse valor plenamente democrático e de inspirar no plano institucional reformas como as de Clístenes o ideal de isonomia pôde traduzir ou prolongar aspirações comunitárias que remontam muito mais alto até as origens da polis Vários testemunhos mostram que os termos isonomia isocratia serviram em círculos aristocráticos para definir por oposição ao poder absoluto de um só a monarchia ou a tyrannís um regime oligárquico em que a arché é reservada a um pequeno número excetuandose a massa mas é partilhada de maneira igual entre todos os membros dessa elite32 Se a exigência de isonomia pôde adquirir no fim do século VI uma tal força pôde se justificar a reivindicação popular de um livre acesso do demos a todas as magistraturas foi sem dúvida porque se enraizava numa tradição igualitária muito antiga foi porque correspondia mesmo a certas atitudes psicológicas da aristocracia dos hippeis É com efeito essa nobreza militar que estabelece pela primeira vez entre a qualificação guerreira e o direito de participar nos negócios públicos uma equivalência que não será mais discutida Na polis o estado de soldado coincide com o de cidadão quem tem seu lugar na formação militar da cidade igualmente o tem na sua organização política Ora desde o meio do século VII as modificações do armamento e uma revolução na técnica do combate transformam o personagem do guerreiro renovam seu estatuto social e seu retrato psicológico33 O aparecimento do hoplita pesadamente armado combatendo em linha e seu emprego em formação cerrada segundo o princípio da falange dão um golpe decisivo nas prerrogativas militares dos hippeis Todos os que podem fazer as despesas de seu equipamento de hoplitas isto é os pequenos proprietários livres que formam o demos como são em Atenas os zeugitas achamse colocados no mesmo plano que os possuidores de cavalos Mas mesmo neste caso a 32 Cf V Ehrenberg Origins of democracy Ic que lembra que o canto de Harmódios e Aristogíton glorifica esses eupátridas por terem feito os atenienses isonomous cf também Tucídides III 62 33 Cf A Andrews The Greek tyrants Londres 1956 cap 3 The military factor F E Adcock The Greek and Macedonian art of war Berkeley and Los Angeles 1957 sobre a data do aparecimento do hoplita cf P Courbin Une tombe géométrique dArgos Bulletin de correspondance hellénique 81 1957 pp 322384 40 democratização da função militar antigo privilégio aristocrático causa uma transformação completa da ética do guerreiro O herói homérico o bom condutor de carros podia ainda sobreviver na pessoa do hippeus já não tem muita coisa em comum com o hoplita esse soldadocidadão O que contava para o primeiro era a façanha individual a proeza feita em combate singular Na batalha mosaico de duelos em que se enfrentam os prómachoi o valor militar afirmavase sob forma de uma aristeia de uma superioridade pessoal A audácia que permitia ao guerreiro executar aquelas ações brilhantes encontravaa numa espécie de exaltação de furor belicoso a lyssa onde o lançava como fora de si mesmo o menos o ardor inspirado por um deus Mas o hoplita já não conhece o combate singular deve recusar se lhe oferece a tentação de uma proeza puramente individual É o homem da batalha de braço a braço da luta ombro a ombro Foi treinado em manter a posição marchar em ordem lançarse com passos iguais contra o inimigo cuidar no meio da peleja de não deixar seu posto A virtude guerreira não é mais da ordem do thymós é feita de sophrosyne um domínio completo de si um constante controle para submeterse a uma disciplina comum o sangue frio necessário para refrear os impulsos instintivos que correriam o risco de perturbar a ordem geral da formação A falange faz do hoplita como a cidade faz do cidadão uma unidade permutável um elemento semelhante a todos os outros e cuja aristeia o valor individual não deve jamais se manifestar senão no quadro imposto pela manobra de conjunto pela coesão de grupo pelo efeito de massa novos instrumentos da vitória Até na guerra a Eris o desejo de triunfar do adversário de afirmar sua superioridade sobre outrem deve submeterse à Philia ao espírito de comunidade o poder dos indivíduos deve inclinarse diante da lei do grupo Heródoto ao mencionar após cada narrativa de batalha os nomes das cidades e dos indivíduos que se mostraram os mais valentes em Platéia dá a palma entre os espartanos a Aristodamo o homem fazia parte dos trezentos lacedemônios que tinham defendido as Termópilas só ele tinha voltado são e salvo preocupado em lavar o opróbrio que os espartanos ligavam a essa sobrevivência procurou e encontrou a morte 41 em Platéia ao realizar façanhas admiráveis Mas não foi a ele que os espartanos concederam com o prêmio da bravura as honras fúnebres devidas aos melhores recusaramlhe a aristeia porque combatendo furiosamente como um homem alucinado pela Iyssa tinha abandonado seu posto34 A narrativa ilustra de maneira surpreendente uma atitude psicológica que não se manifesta somente no domínio da guerra mas que em todos os planos da vida social marca uma viragem decisiva na história da Polis Chega um momento em que a cidade rejeita as atitudes tradicionais da aristocracia tendentes a exaltar o prestígio a reforçar o poder dos indivíduos e dos gene a eleválos acima do comum São assim condenados como descomedimento como hybris do mesmo modo que o furor guerreiro e a busca no combate de uma glória puramente particular a ostentação da riqueza o luxo das vestimentas a suntuosidade dos funerais as manifestações excessivas da dor em caso de luto um comportamento muito ostensivo das mulheres ou o comportamento demasiado seguro demasiado audacioso da juventude nobre Todas essas práticas são doravante rejeitadas porque acusando as desigualdades sociais e o sentimento de distância entre os indivíduos suscitam a inveja criam dissonâncias no grupo põem em perigo seu equilíbrio sua unidade dividem a cidade contra si mesma O que agora é preconizado é um ideal austero de reserva e de moderação um estilo de vida severo quase ascético que faz desaparecer entre os cidadãos as diferenças de costumes e de condição para melhor aproximá los uns dos outros unilos como os membros de uma só família Em Esparta é o fator militar que parece efetivamente ter desempenhado no advento da mentalidade nova o papel decisivo A Esparta do século VII não é ainda aquele estado cuja originalidade provocará entre os outros gregos um espanto misturado de admiração Está então empenhada no movimento geral da civilização que leva as aristocracias das diversas cidades ao luxo fazendoas desejar uma vida mais 34 Heródoto IX 71 42 refinada e buscar as empresas lucrativas A ruptura se produz entre os séculos VII e VI Esparta concentrase em si mesma fixase em instituições que a consagram completamente à guerra Não somente repudia a ostentação da riqueza mas fechase a tudo o que é intercâmbio com o estrangeiro comércio atividade artesanal proíbe o uso dos metais preciosos depois a moeda de ouro e de prata permanece fora das grandes correntes intelectuais negligência as letras e as artes em que se tinha celebrizado antes A filosofia e o pensamento grego parecem assim não lhe dever nada Devese dizer somente parecem As transformações sociais e políticas que as novas técnicas de guerra produzem em Esparta e que resultam numa cidade de hoplitas traduzem no plano das instituições aquela mesma exigência de um mundo humano equilibrado ordenado pela lei que os Sábios pela mesma época formularão no plano propriamente conceptual nas cidades que por falta de uma solução do tipo espartano conhecerão sedições e conflitos interiores Insistiu se com razão no arcaísmo de instituições às quais Esparta ficará obstinadamente presa classes de idades iniciações guerreiras criptia Mas devese também sublinhar outras características que a tornam adiantada para o seu tempo o espírito igualitário de uma reforma que suprime a oposição antiga do laós e do demos para constituir um corpo de soldadoscidadãos definidos como hómoioi e dispondo todos eles em princípio de um lote de terra de um kleros exatamente igual ao dos outros A essa primeira forma de isomoira talvez houvesse então uma nova partilha das terras devese acrescentar o aspecto comunitário de uma vida social que impõe a todos um mesmo regime de austeridade que codifica por aversão ao luxo até a maneira pela qual as casas particulares devem ser construídas e que institui a prática das sissitias das refeições comuns a que cada um leva todos os meses seu escote regulamentar de cevada de vinho de queijo e de figos Devese notar enfim que o regime de Esparta com sua dupla realeza a apella os éphoroi e a gerousia realiza um equilíbrio entre os elementos sociais que representam funções virtudes ou valores opostos Nesse equilíbrio recíproco assentase a unidade do Estado ficando cada 43 elemento contido pelos outros nos limites que não deve ultrapassar Plutarco atribui assim à gerousia um papel de contrapeso que mantém entre a apella popular e a autoridade real um constante equilíbrio que se coloca segundo o caso do lado dos reis para oporse à democracia ou do lado do povo para impedir o poder de um só35 Da mesma maneira a instituição dos éphoroi representa no corpo social um elemento guerreiro junior e popular por oposição à gerousia aristocrática qualificada como convém a seniores por uma ponderação e uma sabedoria que devem contrabalançar a audácia e o vigor guerreiros dos couroi No Estado espartano a sociedade já não forma como nos reinos micênicos uma pirâmide cujo cimo o rei ocupa Todos os que tendo recebido o treino militar com a série das provas e iniciações que comporta possuem um kleros e participam das sissitias encontramse elevados ao mesmo plano É esse plano que define a cidade36 A ordem social já não aparece então sob a dependência do soberano já não está ligada ao poder criador de um personagem excepcional à sua atividade de ordenador É a ordem ao contrário que regula o poder de todos os indivíduos que impõe um limite à sua vontade de expansão A ordem é primeira em relação ao poder A arché pertence na realidade exclusivamente à lei Todo indivíduo ou toda facção que pretende assegurarse o monopólio da arché ameaça por esse golpe contra o equilíbrio das outras forças a homónoia do corpo social e põe em risco com isso a própria existência da cidade Mas se a nova Esparta reconhece assim a supremacia da lei e da ordem é por terse orientado para a guerra a transformação do Estado ali obedece primeiramente a preocupações militares É na prática dos combates mais que nas controvérsias da ágora que os hómoioi se exercitam Igualmente a palavra não poderá tornarse em Esparta o instrumento político que será em outros lugares nem adotará forma de discussão de argumentação de refutação No lugar 35 Plutarco Vida de Lucurgo V 11 e Aristóteles Política 1265 b 35 36 Bem entendido a cidade implica ao lado dos cidadãos e em contraste com eles todos aqueles que em graus diversos são privados dos valores ligados à plena cidadania em Esparta os hipoméionas os periecos os hilotas os escravos A igualdade se esboça num fundo de desigualdade 44 de Peithó força de persuasão os lacedemônios celebrarão como instrumento da lei o poder de Phobos esse temor que curva todos os cidadãos à obediência Gabarseão de apreciar nos discursos somente a concisão e de preferir às sutilezas dos debates contraditórios as fórmulas sentenciosas e definitivas A palavra continua a ser para eles aquelas rhetrai aquelas leis quase oraculares a que eles se submetem sem discussão e que recusam entregar pela escrita a uma plena publicidade Por mais avançada que possa ter sido Esparta deixará a outros a honra de exprimir plenamente a nova concepção da ordem quando sob o reino da lei a Cidade se tornar um cosmos equilibrado e harmonioso Não serão os lacedemônios que vão saber destacar e explicitar em todas as suas consequências as noções morais e políticas que eles entre os primeiros terão encarnado em suas instituições 45 CAPÍTULO V A CRISE DA CIDADE OS PRIMEIRO SÁBIOS Num diálogo hoje perdido Sobre a filosofia Aristóteles evocava os grandes cataclismas que periodicamente destroem a humanidade retraçava as etapas que devem percorrer cada vez os raros sobreviventes e sua descendência para refazer a civilização os que escaparam assim ao dilúvio de Deucalião tiveram primeiramente que redescobrir os meios elementares de subsistência e depois reencontrar as artes que embelezam a vida num terceiro estádio prosseguia Aristóteles dirigiram seus olhares para a organização da Polis inventaram as leis e todos os vínculos que reúnem as partes de uma cidade e essa invenção nomearamna Sabedoria é desta sabedoria anterior à ciência física a physiké theoria e à Sabedoria suprema que tem por objeto as realidades divinas que foram providos os Sete Sábios que precisamente inventaram as virtudes próprias do cidadão37 Sobre esse dado tradicional dos Sete Sábios seria vão apoiar uma conclusão histórica a lista dos Sete é flutuante e variável não observa nem cronologia nem verossimilhança Entretanto o papel político e social atribuído aos Sábios as máximas que são consideradas de sua autoria permitem aproximar uns dos outros personagens que quanto ao resto em tudo se opõem um Tales unindo a tantas outras competências a do homem de Estado um Sólon poeta elegíaco árbitro das lutas políticas atenienses recusando a tirania um Periandro tirano de Corinto um Epimênides o próprio tipo do mago inspirado do theios aner que se alimentava de malva e de asfódelo e cuja alma se liberta do corpo à vontade Por meio de uma mistura de dados puramente lendários de alusões históricas de sentenças políticas e de chavões morais a tradição mais ou menos mítica dos Sete Sábios faznos atingir e compreender um momento de história social Momento de crise que começa no fim do século 37 Sobre o Perí philosophias de Aristóteles cf A J Festugière La révélation dHermès Trismégiste II Le dieu cosmique Paris 1949 pp 219 e ss e App 1 46 VII e se desenvolve no VI período de confusões e de conflitos internos de que distinguimos algumas das condições econômicas período que os gregos viveram num plano religioso e moral como uma discussão de todo seu sistema de valores um golpe contra a própria ordem do mundo um estado de erro e de impureza As consequências dessa crise serão no domínio do direito e da vida social as reformas às quais se acham precisamente associados não só adivinhos purificadores como Epimênides mas também nomótetas como Sólon aisimnetas como Pítaco ou tiranos como Periandro Será também no domínio intelectual um esforço para traçar o quadro e para elaborar as noções fundamentais da nova ética grega Poderseia dizer esquematizando muito que o ponto de partida da crise é de ordem económica que ela reveste na origem a forma de uma efervescência religiosa ao mesmo tempo que social mas que nas condições próprias à cidade leva definitivamente ao nascimento de uma reflexão moral e política de caráter laico que encara de maneira puramente positiva os problemas da ordem e da desordem no mundo humano As transformações econômicas que devemos limitar nos a mencionar estão ligadas a um fenômeno cuja importância aparece igualmente decisiva no plano espiritual a retomada e o desenvolvimento dos contatos com o Oriente que com a queda do império micênico tinham sido rompidos Na Grécia continental as relações encontramse restabelecidas no século VIII por intermédio dos navegadores fenícios Nas costas da Jônia os gregos entram em contato com o interior da Anatólia especialmente com a Lídia Mas é no último quartel do século VII que a economia das cidades na Europa e na Ásia voltase decididamente para o exterior o tráfico por mar vai então amplamente ultrapassar a bacia oriental do Mediterrâneo entregue a seu papel de via de comunicação A zona dos intercâmbios estendese a oeste até a África e à Espanha a leste até ao Mar Negro38 Esse alargamento do 38 Sobre a expansão dos gregos no Mediterrâneo e a retomada dos contatos com o Oriente cf Jean Bérard La colonisation grecque de LItalie Méridionale et de la Sicile dans lAntiquité Paris 1957 La migration éolienne Revue Archéologique 1959 pp 128 Thomas J Dunbabin The Greeks and their eastern neighbours Studies in the relation between Greece and the countries of the Near East in the eight and 47 horizonte marítimo responde aliás a uma exigência muito imperiosa o desenvolvimento demográfico dispõe o problema dos cereais de maneira tão mais ampla que a agricultura helênica tende doravante a favorecer as culturas mais lucrativas como a vinha e a oliveira cujos produtos podem ser por sua vez exportados e trocados Procura de terra procura de alimento procura também do metal tal é o tríplice objetivo que se pôde atribuir à expansão grega pelo Mediterrâneo No decurso da época sombria numa Grécia isolada e desprovida de riquezas de minas o ouro e a prata tinhamse tornado raros quando não tinham desaparecido de todo A partir do século VIII abremse fontes novas de abastecimento em metais preciosos durante todo o século VII a quantidade de ouro de prata e de electro posta em circulação no mundo grego aumenta seu uso desenvolvesse sob formas diversas joias trabalho de ourivesaria objetos pessoais ex votos riqueza acumulada a título privado ou entesourada nos templos enfim moedagem após sua invenção no fim do século VII pelos reis da Lídia Não é fácil apreciar exatamente as mudanças de estrutura social causada por essa orientação de todo um setor da economia grega para o comércio marítimo Por falta de evidência direta não se pode inferir sua natureza e amplidão senão a partir de testemunhos literários que concernem às formas novas de sensibilidade e de pensamento A poesia lírica é a esse respeito uma fonte preciosa Mostra que a influência do Oriente não se fixa somente na cerâmica nos temas figurados na ornamentação da vida Seduzida pelo luxo pelo requinte pela opulência a aristocracia grega do século VII inspirase em seus gostos em seus costumes nesse ideal faustoso e delicado que caracteriza o mundo oriental39 A ostentação da riqueza tornase desde então um dos elementos do prestígio dos gene um meio que se une ao valor guerreiro e às qualificações religiosas para marcar a supremacia assegurar o domínio sobre os rivais Exercendo se no terreno da riqueza como em outros a Eris aristocrática seventh centuries Londres 1957 Carl Roebuck Ionan trade and colonization Nova York 1959 Michel B Sakellariou La migration grecque en Ionie Atenas 1958 39 Cf Santo Mazzarino Fra oriente e occidente Ricerche di storia grecia arcaica Florença 1947 48 pôde agir na sociedade grega como um fermento de dissociação de divisão Personagens novos aparecem no próprio seio da nobreza o homem bemnascido o kalós kagathós que por espírito de lucro ou por necessidade entregase ao tráfego marítimo uma parte da aristocracia transformase como o escreve Louis Gernet passa do estágio do feudal ao de gentleman farmer40 Vêse surgir um tipo de proprietário de bens de raiz que vela pelo rendimento de suas terras que torna sua cultura especializada procura aumentá las interessandose por essa reserva que fica ao lado das tenências de servos e dos kleroi dos pequenos cultivadores livres aberta às obras de arroteamento o nobre que é também agora um rico estende sua empresa sobre a eschatié a expensas das coletividades aldeãs pode mesmo apropriarse dos bens de seus obrigados clientes ou devedores eventuais A concentração da propriedade territorial em pouquíssimas mãos o avassalamento da maior parte do demos reduzido ao estado de sesmeiro fazem da questão agrária o problema capital desse período arcaico Sem dúvida desenvolveuse uma população de artesãos que pôde ser relativamente numerosa em certos setores como a cerâmica e a metalurgia devese assinalar a esse respeito um fato técnico de grande alcance a metalurgia do ferro no fim do século VIII substitui a do bronze nos objetos de produção corrente com os lojistas e todo o populacho que na costa e no porto vive do mar os artesãos formam até na cidade residência aristocrática uma categoria social nova cuja importância irá crescendo Mas no século VII a oposição que se aviva entre urbanos e rurais ergue ainda contra os nobres que vivem en asty na cidade onde se encontram agrupados os edifícios públicos associados à arché uma classe aldeã encarregada de alimentálos e que povoa as aldeias periféricas os demoi As mudanças técnicas e económicas que evocamos não se limitam ao mundo grego as cidades fenícias em pleno desenvolvimento comercial desde o século IX conheceram análogas transformações41 O que é próprio da Grécia é a 40 L Gernet Horoi Studi in onore de U E Paoli p 348 41 Sobre as analogias e as diferenças no plano socioeconómico entre o mundo fenício e o mundo grego cf as notas de G Thomson Studies in ancient Greek society II The first philosophers Londres 1955 49 reação que elas suscitam no grupo humano sua recusa a uma situação sentida e denunciada como um estado de anomia a refundição de toda a vida social para organizála em conformidade com aspirações comunitárias e igualitárias tão fortes que nessa idade do Ferro em que os poderosos perderam toda vergonha em que a Aidós teve de deixar a terra pelo céu deixando o campo livre ao desencadeamento das paixões individuais e à Hybris as relações sociais aparecem marcadas pela violência pela astúcia pela arbitrariedade e pela injustiça O esforço da renovação atua em muitos planos é ao mesmo tempo religioso jurídico político económico sempre visa restringir a dynamis dos gene quer fixar um limite à sua ambição à sua iniciativa ao seu desejo de poder submetendoos a uma regra geral cuja coação se aplique igualmente a todos Essa norma superior é a Dike que o Mago invoca como um poder divino que o nomóteta promulga em suas leis e de que pode às vezes inspirarse o tirano mesmo se a deturpa impondoa pela violência é ela que deve estabelecer entre os cidadãos um justo equilíbrio a garantir a eunomia a divisão eqüitativa dos cargos das honras do poder entre os indivíduos e as facções que compõem o corpo social A Dike assim concilia harmoniza esses elementos para deles fazer uma só e mesma comunidade uma cidade unida Os primeiros testemunhos do espírito novo têm relação com certas matérias de Direito A legislação sobre o homicídio marca o momento em que o assassínio deixa de ser uma questão privada um ajuste de contas entre gene à vingança do sangue limitada a um círculo estreito mas obrigatório para os parentes do morto e que pode engendrar um ciclo fatal de assassínios e de vinganças substituise uma repressão organizada no quadro da cidade controlada pelo grupo e onde a coletividade se encontra comprometida como tal Não é mais somente para os parentes da vítima mas para a comunidade inteira que o assassino se torna um objeto de impureza Essa universalização da condenação do crime o horror inspirado doravante por toda espécie de assassínio a obsessão do miasma que pode representar para uma cidade para um território o sangue derramado a exigência de uma expiação que é ao mesmo tempo uma purificação do mal todas essas 50 atitudes estão ligadas ao despertar religioso que se manifesta nos campos pelo progresso do dionisismo e que reveste em meios mais especializados a forma de um movimento de seitas como a dos Órficos Ao lado de um ensino sobre o destino das almas seu castigo no Hades a hereditariedade da falta o ciclo das reencarnações e a comunidade de todos os seres animados essa renovação religiosa caracterizase pela instituição de processos purificatórios em relação com as crenças novas No livro IX das Leis Platão tratando do homicídio sentirá ainda a necessidade de referirse explicitamente à doutrina ao logos dos sacerdotes que se ocupam das teletai Na classe desses magos purificadores a figura de Epimênides destacase com um relevo particular Plutarco defineo como um Sábio em matéria divina dotado de uma sophia entusiasta e iniciática42 é ele que é chamado a Atenas para expulsar o miasma que pesa sobre a cidade após o assassínio dos Cilonides Promotor de ritos catárticos é também um adivinho inspirado cujo saber diznos Aristóteles descobre o passado não o futuro seu dom de dupla visão faz conhecer com efeito as faltas antigas desvela os crimes ignorados cuja impureza engendra nos indivíduos e nas cidades um estado de perturbação e de enfermidade o delírio frenético da mania com seu cortejo de desordens de violências e assassínios Mas esse reformador religioso fundador de santuários e de ritos aparece aliás como um conselheiro político que Sólon associa à sua obra legislativa É que se trata no fundo nos dois casos de uma atividade orientada no mesmo sentido e que visa tanto num plano como no outro ordenar a vida social reconciliar e unificar a cidade Na Vida de Sólon Plutarco sublinhando o papel de Epimênides na regulamentação do luto que ele torna mais equilibrado e mais pacífico e nas medidas referentes ao bom comportamento das mulheres conclui Tendo como ao termo de uma iniciação santificado e consagrado a cidade por ritos expiatórios purificações fundações tornoua obediente ao direito e mais dócil deixandose mais facilmente persuadir no sentido da homónoia 42 Plutarco Vida de Sólon XII 712 51 Uma observação de Aristóteles breve mas sugestiva permitenos melhor apreender como nessa viragem da história da cidade o religioso o jurídico e o social podem acharse associados num mesmo esforço de renovação43 Aristóteles quer demonstrar o caráter natural da Polis ela é como uma família ampliada pois que se forma agrupando aldeias que por sua vez reúnem núcleos familiares Nota que o oikos a família doméstica é uma comunidade natural uma koinonia e lembra nessa ocasião os nomes pelos quais os membros do oikos eram designados por Carondas e por Epimênides A aproximação é em si mesma interessante Carondas é o legislador de Catânia como Zaleuco de Locres que é considerado seu mestre e ao qual seu nome é normalmente associado teria feito preceder suas Leis de um prelúdio análogo ao que Platão introduz como Prólogo no capítulo IX consagrado ao direito criminal tratase de uma verdadeira encantação que deve ser cantada e que se dirige àqueles cujo espírito é obsedado pelo pensamento de atos ímpios e criminosos Antes de promulgar as penas repressivas os legisladores querem agir preventivamente sobre os maus por uma magia purificante que utiliza a virtude calmante da música e da palavra cantada o criminoso é apresentado como um possesso um furioso enlouquecido por um mau daimon encarnação de uma impureza ancestral Nessa alma perturbada enferma a cátharsis mágica do legislador faz voltar a ordem e a saúde do mesmo modo que os ritos purificatórios de Epimênides restabelecem na cidade conturbada pelas dissensões e pelas violências causadas por crimes antigos a calma a moderação a homónoia Mas a observação de Aristóteles vai mais longe Carondas e Epimênides designam os membros do oikos pelos termos que sublinham entre eles uma similaridade ilustrada pelo fato de que partilham o mesmo pão comem à mesma mesa É precisamente o estado de espírito que preside como vimos à instituição espartana das sissitias entre hómoioi Tratase de dar aos cidadãos o sentimento de que eles são de alguma maneira irmãos Nada é mais suscetível de fortalecer essa 43 Aristóteles Política 1252 b 15 52 convicção do que a consumição de um alimento cozido na mesma lareira e dividido na mesma mesa a refeição é uma comunhão que realiza entre convivas uma identidade de ser uma espécie de consanguinidade Compreendese desde então que o assassínio de um concidadão possa provocar no corpo social o mesmo horror religioso o mesmo sentimento de uma impureza sacrílega que se se tivesse tratado de um crime contra um parente de mesmo sangue Prova de que a consciência social tenha efetivamente influído nesse sentido temse na evolução semântica do termo que designa o assassino primeiramente é o assassino de um parente depois o assassino estranho à família da vítima mas encarado em sua relação com essa família marcado pelos parentes da vítima que sentem a seu respeito ódio e repulsa religiosa com a mesma palavra forte que designa o assassino de um homem de seu próprio sangue enfim o assassino de um indivíduo qualquer sem ideia de uma relação especial com a família da vítima Quando se passou da vingança privada à repressão judiciária do crime a palavra que definia o assassino de um parente depois o assassino em relação aos parentes da vítima pôde manterse para designar o criminoso à vista de todos seus concidadãos44 Além disso o que é válido para os crimes de sangue é também para os outros delitos Aristóteles e Plutarco contam entre as inovações mais felizes da constituição de Sólon o princípio segundo o qual o dano causado a um indivíduo particular é na realidade um atentado contra todos portanto Sólon dá a cada um o direito de intervir em justiça em favor de quem quer que seja lesado e de fazer punir a adikia sem ser pessoalmente sua vítima Os diversos traços que os gregos agruparam para compor a figura de um Epimênides não formam um testemunho isolado Um personagem como Abaris que se inscreve com outros magos Aristeas Hermótimo na tradição lendária do Pitagorismo não é somente um xamã que voa pelos ares com sua flecha de ouro vive sem alimento e manda sua alma vaguear longe de seu corpo é ao mesmo tempo que um 44 Cf L Gernet Droit et société dans Ia Grèce ancienne Paris 1955 pp 2950 Ver entretanto contra P Chantraine Atenas 1960 pp 8993 53 cresmólogo um reformador religioso e um purificador funda no quadro da religião pública ritos novos em Atenas abre santuários protetores da comunidade em Esparta o de Core salvadora institui processos catárticos que permitem às cidades impedir o desencadeamento de um loimós Um personagem histórico como Onomácrito que se liga a Museu cujos oráculos compila e se for preciso falsifica desempenha junto aos Psistrátidas um papel de adivinho que coleciona para uso de seus amos compilações de oráculos secretos adaptados às circunstâncias mas é também um conselheiro político e até um embaixador Aristóteles indicanos que alguns o associavam a Licurgo a Carondas e a Zaleuco para dele fazer um dos primeiros peritos em matéria de legislação Não se poderia pois conceber o começo do direito fora de um certo clima religioso o movimento místico corresponde a uma consciência comunitária mais exigente traduz uma sensibilidade nova do grupo a respeito do assassínio sua angústia diante das violências e os ódios que a vingança privada engendra o sentimento de estar coletivamente comprometido coletivamente ameaçado cada vez que corre o sangue a vontade de regulamentar as relações dos gene e de quebrar seu particularismo Entretanto essa efervescência mística não se prolongará senão em meios sectários muito estreitamente circunscritos Não dá origem a um vasto movimento de renovação religiosa que absorveria finalmente a política E o inverso que se produz As aspirações comunitárias e unitárias vão inserirse mais diretamente na realidade social orientar um esforço de legislação e de reforma mas remodelando assim a vida pública elas próprias vão transformarse laicizarse encarnandose na instituição judiciária e na organização política vão prestarse a um trabalho de elaboração conceptual transporse ao plano de um pensamento positivo Louis Genet bem mostrou em particular a mutação intelectual que o advento do direito propriamente dito realiza45 No processo arcaico os gene enfrentavamse tendo por armas as fórmulas rituais e as provas previstas pelo costume 45 Ib pp 6181 54 o juramento o juramento solidário o testemunho Essas provas tinham valor decisório possuíam um poder religioso asseguravam automaticamente o êxito no curso do processo se eram corretamente utilizadas sem que o juiz em seu papel de puro árbitro que se limitava a verificar e a declarar a vitória ao termo da prova de força tivesse que se indagar sobre o fundo reconstituir o objeto do litígio conhecer fatos em si mesmos Mas quando com a cidade o juiz representa o corpo cívico a comunidade em seu conjunto e que encarnando este ser impessoal superior às partes ele próprio pode decidir resolver segundo sua consciência e de acordo com a lei são as próprias noções de prova de testemunho e de julgamento que se encontram radicalmente transformadas O juiz deve com efeito trazer à luz uma verdade em função da qual terá doravante de pronunciarse Pede às testemunhas que não mais jurem afirmandose solidários de uma das duas partes mas que façam um relato dos fatos Por essa concepção inteiramente nova da prova e do testemunho o processo empregará toda uma técnica de demonstração de reconstrução do plausível e do provável de dedução a partir de indícios ou de sinais e a atividade judiciária contribuirá para elaborar a noção de uma verdade objetiva que o processo antigo ignorava no quadro do préjurídico 55 CAPÍTULO VI A ORGANIZAÇÃO DO COSMOS HUMANO46 A efervescência religiosa não contribuiu somente para o nascimento do Direito Preparou também um esforço de reflexão moral orientado por especulações políticas O temor da impureza a cujo papel na origem da legislação sobre o homicídio que nos referimos encontrava sua mais intensa expressão na aspiração mística a uma vida pura de todo contato sangrento Da mesma maneira ao ideal de austeridade que se afirma no grupo em reação contra o desenvolvimento do comércio a ostentação do luxo a brutal insolência dos ricos corresponde sob uma forma extrema o ascetismo preconizado em certos agrupamentos religiosos Os meios sectários puderam assim contribuir para fazer uma imagem nova da areté A virtude aristocrática era uma qualidade natural ligada ao brilho do nascimento manifestandose pelo valor no combate e pela opulência do gênero de vida Nos agrupamentos religiosos não somente a areté se despojou de seu aspecto guerreiro tradicional mas definiuse por sua oposição a tudo que representasse como comportamento e forma de sensibilidade o ideal de habrosyne a virtude é o fruto de uma longa e penosa áskesis de uma disciplina dura e severa a meleté emprega uma epiméléia um controle vigilante sobre si uma atenção sem descanso para escapar às tentações do prazer à hedoné ao atrativo da moleza e da sensualidade a malachia e a tryphé para preferir uma vida inteira votada ao ponos ao esforço penoso As mesmas tendências rigoristas que percebemos de certa maneira avultadas nos meios sectários onde definem uma disciplina de ascese que permite aos iniciados escapar às injustiças deste mundo sair do ciclo das reencarnações e voltar ao divino voltamos a encontrálas em ação em plena vida social modificando as condutas os valores as instituições fora essa vez de toda preocupação de ordem 46 Utilizamos amplamente neste capítulo as indicações dadas por L Gernet num curso não publicado dado na Ecole Pratique des Hautes Etudes em 1951 sobre as origens do pensamento político entre os gregos 87 56 escatológica O fausto a moleza o prazer são rejeitados o luxo proscrito do costume da habitação das refeições a riqueza é denunciada e com que violência Mas a condenação visa a suas consequências sociais aos males que ela engendra no grupo às divisões e aos ódios que suscita na cidade ao estado de stasis que provoca compor uma espécie de lei natural A riqueza substitui todos os valores aristocráticos casamento honras privilégios reputação poder tudo pode obter Doravante é o dinheiro que conta o dinheiro que faz o homem Ora contrariamente a todos os outros poderes a riqueza não comporta nenhum limite nada há nela que possa marcar seu termo limitála realizála totalmente A essência da riqueza é o descomedimento ela é a própria figura que a hybris toma no mundo Tal é o tema que volta de maneira obsedante no pensamento moral do século VI Às fórmulas de Sólon passadas a provérbios Não há termo para a riqueza Koros a saciedade engendra hybris fazem eco as palavras de Teógnis Os que hoje têm mais ambicionam o dobro A riqueza ta chrémata tornase na homem loucura aphrosyne Quem possui quer mais ainda A riqueza acaba por já não ter outro objeto senão a si própria feita para satisfazer as necessidades da vida simples meio de subsistência tornase seu próprio fim colocase como necessidade universal insaciável ilimitada que nada poderá jamais saciar Na raiz da riqueza descobrese pois uma natureza viciada uma vontade pervertida e má uma pleonexia desejo de ter mais que os outros mais que sua parte toda a parte Ploutos comporta efetivamente aos olhos do grego uma fatalidade mas não de ordem econômica é a necessidade imanente a um caráter a um ethos a lógica de um tipo de comportamento Koros hybris pleonexia são as formas de contrassenso de que se reveste na Idade do Ferro a arrogância aristocrática este espírito de Eris que em lugar de uma nobre emulação não pode mais gerar senão injustiça opressão dysnomia Em contraste com a hybris do rico delineiase o ideal da sophrosyne É feito de temperança de proporção de justa medida de justo meio Nada em excesso é a fórmula da nova sabedoria Essa valorização do ponderado do que é mediador dá à areté grega um aspecto mais ou menos burguês é a 57 classe média que poderá desempenhar na cidade o papel moderador estabelecendo um equilíbrio entre os extremos dos dois bordos a minoria dos ricos que querem tudo conservar a multidão das pessoas pobres que querem tudo obter Aqueles que são chamados não são apenas os membros de uma categoria social particular a igual distância da indigência e da opulência representam um tipo de homem encarnam os valores cívicos novos como os ricos a loucura da hybris Em posição mediana no grupo os mesoi têm por papel estabelecer uma proporção um traço de união entre os dois partidos que dilaceram a cidade porque cada um reivindica para si a totalidade da arché Sendo ele próprio homem do centro Sólon põese como árbitro como mediador como reconciliador Fará da Polis presa da dysnomia um cosmos harmonioso se conseguir proporcionar a seus méritos respectivos a parte que cabe na arché aos diversos elementos que compõem a cidade Mas essa distribuição equilibrada essa eunomia impõe um limite à ambição daqueles que o espírito de descomedimento anima traça diante deles uma fronteira que não têm o direito de transpor Sólon erguese no centro do Estado como um marco inabalável um horos a fixar entre duas facções adversas o limite a não ser franqueado À sophrosyne virtude do justo meio corresponde a imagem de uma ordem política que impõe um equilíbrio a forças contrárias que estabelece um acordo entre elementos rivais Mas como no processo sob sua forma nova a arbitragem supõe um juiz que para aplicar sua decisão ou para impôla se necessário referese a uma lei superior às partes uma dike que deve ser para todos igual e a mesma Redigi dirá Sólon leis iguais para o kakós e para o agathós fixando para cada um uma justiça direita É para preservar o reino dessa lei comum a todos que Sólon recusa a tirania já a seu alcance Como tomar em suas mãos as mãos de um só homem essa arché que deve permanecer en meso O que Sólon realizou fê lo em nome da comunidade pela força da lei unindo ao mesmo tempo a violência e a justiça Kratos e Bia os dois velhos acólitos de Zeus que não deviam afastarse um instante de seu trono porque personificavam o que o poder do Soberano comporta ao mesmo tempo de absoluto de irresistível e de 58 irracional passaram ao serviço da Lei eilos servidores de Nomos que domina doravante no lugar do rei no centro da cidade Esse Nomos guarda por sua relação com a Dike uma espécie de ressonância religiosa mas exprimese também e sobretudo num esforço positivo de legislação numa tentativa racional para pôr fim a um conflito equilibrar forças sociais antagónicas ajustar atitudes humanas opostas O testemunho desse racionalismo político será encontrado no fragmento 4 de Sólon47 Como estamos longe da imagem hesiódica do Bom Rei cuja virtude religiosa é a única que pode aplacar as querelas fazer florir com a paz todas as bênçãos da terra A justiça aparece como uma ordem inteiramente natural que por si mesma se regulamenta É a maldade dos homens seu espírito de hybris sua sede insaciável de riqueza que produzem naturalmente a desordem segundo um processo de que se pode marcar de antemão cada fase a injustiça engendra a escravidão do povo e esta provoca em troca a sedição A justa medida para restabelecer a ordem e a besychie deve pois ao mesmo tempo quebrar a arrogância dos ricos fazer cessar a escravidão do demos sem ceder por isso à subversão Tal é o ensinamento que Sólon expõe aos olhos de todos os cidadãos A lição poderá ser momentaneamente desconhecida ou rejeitada o Sábio confia no tempo tendose tornado pública a verdade ou como ele próprio o diz sendo colocada es to meson dia virá em que os atenienses a reconhecerão Com Sólon Dike e Sophrosyne tendo descido do céu à Terra instalamse na ágora Quer dizer que elas doravante vão ter que prestar contas Os gregos continuarão certamente a invocálas mas não deixarão também de submetêlas à discussão Por meio dessa laicização tão acentuada do pensamento moral a imagem de uma virtude como a sophrosyne pôde renovarse precisarse Em Homero a sophrosyne tem um valor muito geral é o bom senso os deuses restituemno a quem o perdeu como podem fazer que o percam os espíritos mais prudentes48 Mas antes de ser reinterpretada pelos 47 Cf G Vlastos Solonian Justice Classical Philology 41 1946 pp 6583 48 Odiss XXIII 13 59 Sábios num contexto político a noção parece ter sido já elaborada em certos meios religiosos Designa neles a volta após um período de confusão e de possessão a um estado de calma de equilíbrio de controle Os meios empregados são do tipo dos que já assinalamos música cantos danças ritos purificatórios Puderam ser às vezes mais diretos e utilizados como um efeito de choque Pausânias viu no santuário de Hércules em Tebas uma pedra que pensavase Atena tinha lançado na cabeça do herói furioso quando alucinado pela mania e tendo massacrado seus filhos preparavase para matar Anfitrião49 Essa pedra que o tinha adormecido e acalmado chamavase sophronister A cura de Orestes tinha se operado em condições um pouco diferentes Em pleno delírio após o assassínio de sua mãe o infeliz chega a um lugar chamado as Fúrias Maníai Detémse ali mutila um dedo seu na época de Pausânias o dedo era ainda representado por uma pedra depositada sobre uma elevação de terra que se chamava mnema Dactylou o túmulo do Dedo É nesse lugar batizado Remédio Aké que ele reencontra a sophrosyne Pausânias acrescenta o seguinte detalhe as Fúrias que possuíam Orestes por todo o tempo em que o tornavam ekphron demente apareciamlhe negras mostraramse brancas logo que tendo cortado o dedo ele se tornou sophron são de espírito50 Esse mesmo jogo de contrastes entre impurezapurificação possessãocura loucurasaúde notase até no cenário em que opera o adivinho Melampous quando acalma por ritos secretos e por katharmói o delírio das filhas de Proito enterradas numa caverna de um lado correm as águas do Styx rio de impureza levando a toda criatura viva a doença e a morte do outro a fonte Alyssos cujas águas benfazejas curam os raivosos e todos os que o delírio da Lyssa possui51 Mas definindose assim por oposição a uma loucura que é ao mesmo tempo uma impureza a ponderação da sophrosyne ia tomar no clima religioso das seitas uma coloração ascética Virtude de inibição de abstinência consiste em afastarse do mal em evitar toda 49 Pausânias IX 11 2 50 Id VIII 34 1 e ss 51 Id VIII 17 6 e ss e 19 23 60 impureza não somente recusar as solicitações criminosas que um mau demônio pode suscitar em nós mas manterse puro do comércio sexual refrear os impulsos do eros e de todos os apetites ligados à carne fazer a aprendizagem por meio das provas previstas pelo caminho de vida de iniciação de sua capacidade de dominarse de vencerse a si próprio O domínio de si de que é feita a sophrosyne parece implicar senão um dualismo pelo menos uma certa tensão no homem entre dois elementos opostos o que é da ordem do thymós a afetividade as emoções as paixões temas favoritos da poesia lírica e o que é da ordem de uma prudência refletida de um cálculo raciocinado celebrados pelos Gnômicos Essas forças da alma não estão no mesmo plano O thymós é feito para obedecer para submeterse A cura da loucura como também sua prevenção emprega os meios que permitem persuadir o thymós tomálo disciplinado dócil ao comando para que não seja tentado jamais a entrar em rebelião a reivindicar uma supremacia que entregaria a alma à desordem Essas técnicas formam uma paideia que não tem valor somente no nível dos indivíduos Realiza neles a saúde o equilíbrio torna suas almas continentes mantendo em sujeição a parte que é feita para obedecer mas ao mesmo tempo adquire uma virtude social uma função política os males de que sofre a coletividade são precisamente a incontinência dos ricos o espírito de subversão dos maus Fazendo desaparecer um e outro a sophrosyne realiza uma cidade harmoniosa e concorde onde os ricos longe de desejar sempre mais dão aos pobres o que lhes sobra e onde a massa longe de entrar em revolta aceita submeterse àqueles que sendo melhores têm direito a possuir mais Essas preocupações de ordem política não foram talvez estranhas ao espírito de certas seitas no santuário de Demeter em Pérgamo onde o culto celebrado por uma confraria religiosa comportava o canto de hinos órficos como deviam fazêlo em Atenas os Licômides encontrase ao lado dos Olímpicos e das divindades de Elêusis uma série de 61 deuses órficos que personificavam ideias abstratas entre eles dois pares Areté e Sophrosyne Pistis e Homónoia52 Esse agrupamento merece ser destacado Em Teógnis Pistis é igualmente associada à Sophrosyne53 Tratase de uma noção social e política tal como a homónoia de que constitui o aspecto subjetivo a confiança que os cidadãos sentem entre si é a expressão interna a contrapartida psicológica da concórdia social Na alma como na cidade é pela força dessa Pistis que os elementos inferiores se deixam persuadir a obedecer àqueles que têm o encargo de comandar e aceitam submeterse a uma ordem que os mantém em sua função subalterna No conjunto entretanto é fora das seitas que a Sophrosyne adquire uma significação moral e política precisa Uma separação operase muito cedo entre duas correntes de pensamento de orientação bem diferente uma preocupase com a salvação individual a outra interessase pela salvação da cidade de um lado agrupamentos religiosos à margem da comunidade voltados para si mesmos em sua procura da pureza do outro meios diretamente comprometidos na vida pública expostos aos problemas causados pela divisão do Estado e que utilizam noções tradicionais como a de sophrosyne para conferirlhes com um conteúdo político novo uma forma não mais religiosa mas positiva Já numa instituição como a agogé espartana a sophrosyne aparece com um caráter essencialmente social É um comportamento imposto regulamentado marcado pelo comedimento que o jovem deve observar em todas circunstâncias comedimento em seu andar em seu olhar em suas expressões comedimento diante das mulheres em face dos mais velhos na ágora comedimento com respeito aos prazeres à bebida Xenofonte evoca essa reserva impregnada de gravidade quando compara o jovem couros lacedemônio que anda em silêncio e de olhos baixos a uma estátua de virgem A dignidade do comportamento tem uma significação 52 Cf W K C Guthrie Orphée et la religion grecque Étude sur la pensée orphique Paris 1956 pp 228 e ss H Usener Götternamen Versuch einer Lehre von der Keligiösen Begriffsbildung Bonn 1896 p 368 53 Teógnis 113738 62 institucional exterioriza uma atitude moral uma forma psicológica que se impõem como obrigações o futuro cidadão deve ser exercitado em dominar suas paixões suas emoções e seus instintos a agogé lacedemônia é precisamente destinada a experimentar esse poder de domínio de si A sophrosyne submete assim cada indivíduo em suas relações com outrem a um modelo comum conforme a imagem que a cidade se faz do homem político Por seu comedimento o comportamento do cidadão afastase tanto da negligência das trivialidades grotescas próprias do vulgo quanto da condescendência da arrogância altiva dos aristocratas O novo estilo das relações humanas obedece às mesmas normas de controle de equilíbrio de moderação que traduzem as sentenças como conhecete a ti mesmo nada em excesso a justa medida é o melhor O papel dos Sábios é ter em suas máximas ou em seus poemas destacado e expressado verbalmente os valores que ficavam mais ou menos implícitos nas condutas e na vida social do cidadão Mas seu esforço de reflexão não resultou somente numa formulação conceptual situou o problema moral em seu contexto político uniuo ao desenvolvimento da vida pública Envolvidos nas lutas civis preocupados em pôr lhes um termo por sua obra de legisladores é em função de uma situação social de fato no quadro de uma história marcada por um conflito de forças um choque de grupos que os Sábios elaboraram sua ética e definiram de maneira positiva as condições que permitem instaurar a ordem no mundo da cidade Para compreender que realidades sociais recobrem o ideal da sophrosyne como se inserem no concreto as noções de métrion de pistis de homónoia de eunomia é necessário referirse a reformas constitucionais como as de Sólon Estas criam um espaço para a igualdade a isotes que já aparece como um dos fundamentos da nova concepção da ordem Sem isotes não há cidade porque não há philia O igual escreve Sólon não pode engendrar guerra Mas tratase de uma igualdade hierárquica ou como o dirão os gregos geométrica e não aritmética a noção essencial é de fato a de proporção A cidade forma um conjunto organizado um cosmos que se torna harmonioso se cada um de seus componentes está em 63 seu lugar e possui a porção de poder que lhe cabe em função de sua própria virtude Ao demos dirá Sólon dei tanto kratos ou geras quanto era suficiente sem nada suprimir nem acrescentar à sua timé Não há pois nem direito igual a todas as magistraturas pois que as mais altas estão reservadas aos melhores nem direito igual à propriedade territorial Sólon recusouse a uma partilha das terras que teria dado aos kakói e aos esthlói uma parte igual da fértil terra da pátria Onde se encontra então a igualdade Ela reside no fato de que a lei que agora foi fixada é a mesma para todos os cidadãos e que todos podem fazer parte dos tribunais como da assembleia Antes eram o orgulho a violência de ânimo dos ricos que regulavam as relações sociais Portanto Sólon era o primeiro que se recusava a obedecer a deixarse persuadir Agora é a dike que fixa a ordem de divisão das timaí são leis escritas que substituem a prova de força em que sempre os fortes triunfavam e que impõem sua norma de equidade sua exigência de equilíbrio A homónoia a concórdia é uma harmonia obtida por proporções tão exatas que Sólon lhes dá uma forma quase numérica as quatro classes nas quais são divididos os cidadãos e que correspondem a uma gradação honorífica são baseadas em medidas de produtos agrícolas quinhentas medidas para a mais alta classe trezentas para os hippeis duzentas para os zeugitas O acordo das diversas partes da cidade tornouse possível graças à ação dos mediadores as classes intermediárias que não queriam ver nenhum dos extremos apoderarse da arché O nomóteta e a lei que ele promulga são em si a expressão dessa vontade mediana dessa média proporcional que dará à cidade seu ponto de equilíbrio O desenvolvimento do pensamento moral e da reflexão política prosseguirá nessa linha às relações de força tentar seá substituir relações de tipo racional estabelecendo em todos os domínios uma regulamentação baseada na medida e visando proporcionar igualar os diversos tipos de intercâmbio que formam o tecido da vida social Uma observação atribuída a Sólon esclarece a significação dessa mudança operada como o nota Plutarco 64 pela razão e pela regra54 Anárcasis zombava do sábio ateniense que imaginava por leis escritas reprimir a adikia e a pleonexia de seus concidadãos semelhantes a teias de aranha as leis deteriam os fracos e os pequenos os ricos e os poderosos as despedaçariam A isso Sólon opunha o exemplo das convenções que os homens observam porque nenhuma das duas partes contratantes tem interesse em violálas55 Tratase pois de promulgar para a cidade regras que codificam as relações entre indivíduos segundo os mesmos princípios positivos de vantagem recíproca que presidem ao estabelecimento de um contrato Como E Will o indicou56 é no quadro desse esforço geral de codificação e de medida que se deve situar a instituição da moeda em seu sentido próprio isto é da moeda de Estado emitida e garantida pela Cidade O fenômeno terá as consequências económicas que se conhecem nesse plano representará na sociedade grega uma espécie de fator de profunda transformação orientandoa no sentido do mercantilismo Mas no início por sua significação social moral e intelectual a instituição da moeda integrase no empreendimento de conjunto dos legisladores Marca a confiscação em proveito da comunidade do privilégio aristocrático da emissão de lingotes puncionados a retenção pelo Estado das fontes de metal precioso a substituição dos brasões nobiliários pela cunhagem da Cidade é ao mesmo tempo o meio de codificar regrar ordenar os intercâmbios de bens e de serviços entre cidadãos por intermédio de uma avaliação numérica precisa talvez seja também como E Will o sugere uma tentativa de igualar de uma certa maneira as fortunas por distribuição de numerário ou modificação da taxa do valor sem recorrer a uma confiscação ilegítima No plano intelectual a moeda titulada substitui a imagem antiga toda carregada de força afetiva e de implicações religiosas de uma riqueza feita de hybris pela noção abstraia do nómisma 54 Plutarco Vida de Sólon 14 5 55 Ibid 5 45 56 E Will Korinthiaka Recherches sur lhistoire et la civilisation de Corinthe des origines aux guerres médiques Paris 1955 pp 495502 De laspect éthique de lorigine grecque de la monnaie Revue historique 212 1954 pp 209 e ss Reflexions et hypothéses sur les origines du monnayage Revue numismatique 17 1955 pp 523 65 padrão social de valor artifício racional que permite estabelecer entre realidades diferentes uma medida comum e igualar assim o intercâmbio como relação social E efetivamente notável que as duas grandes correntes que se opõem no mundo grego uma de inspiração aristocrática e outra de espírito democrático coloquemse em sua polêmica no mesmo terreno e reclamem igualmente a equidade a isotes A corrente aristocrática encara na perspectiva da eunomia de Sólon a cidade como um cosmos feito de partes diversas mantidas pela lei numa ordem hierárquica A homónoia análoga a um acorde harmónico repousa sobre uma relação do tipo musical 21 32 43 A medida justa deve conciliar forças naturalmente desiguais assegurando uma preponderância sem excesso de uma sobre a outra A harmonia da eunomia implica pois o reconhecimento no corpo social como no indivíduo de um certo dualismo de uma polaridade entre o bem e o mal a necessidade de assegurar a preponderância do melhor sobre o pior E essa orientação que triunfa no pitagorismo57 é ela ainda que preside à teoria da sophrosyne tal como Platão a exporá na República58 Não é uma virtude especial de uma das partes do Estado mas a harmonia do conjunto que faz da cidade um cosmos que a torna senhora de si no sentido em que se diz que um indivíduo é senhor de seus prazeres e de seus desejos Comparandoa a um canto em uníssono Platão a define um acorde segundo a natureza entre as vozes do menos bom e do melhor sobre a questão de saber a quem deve caber o comando no Estado e no indivíduo Um texto de Arquitas o homem de Estado pitagórico faznos deixar as alturas filosóficas da República para estreitar de mais perto o concreto social Mostranos o que a prática dos intercâmbios comerciais e sua necessária regulamentação por via de contrato puderam trazer à noção de uma medida das relações sociais avaliando exatamente em conformidade com os princípios da igualdade proporcional as relações entre atividades funções serviços vantagens e honras das diversas categorias sociais Uma vez 57 Cf A Delatte Essai sur la politique pythagoricienne Liège et Paris 1922 58 Platão República IV 430 d e ss 66 descoberto o cálculo raciocinado logismós escreve Arquitas põe fim ao estado de stasis e traz a homónoia pois em consequência disso não há mais pleonexia e a isotes se realiza e é por ela que se efetua o comércio em matéria de intercâmbio contratual graças a isso os pobres recebem dos poderosos e os ricos dão aos necessitados pois têm uns e outros a pistis de que terão por esse meio a isotes a igualdade Percebese bem aqui como a relação social assimilada a um vínculo contratual e não mais a um estatuto de domínio e de submissão vai exprimirse em termos de reciprocidade de reversibilidade Segundo o testemunho de Aristóteles sobre a situação em Tarento a intenção de Arquitas teria sido na prática manter a apropriação individual dos bens nas mãos dos melhores na condição de que concedessem que deles desfrutasse a massa dos pobres de maneira que encontrasse cada um sua conveniência na situação assim regulamentada Para os partidários da eunomia a equidade é introduzida nas relações sociais graças a uma conversão moral a uma transformação psicológica da elite em vez de procurarem poder e riquezas os melhores são formados por uma paideia filosófica para não desejar ter mais pleonectein mas ao contrário por espírito de generosa liberalidade para dar aos pobres que de seu lado se encontram na impossibilidade material de pleonectein59 Assim as classes baixas são mantidas na posição inferior que lhes convém sem sofrer entretanto nenhuma injustiça A igualdade realizada permanece proporcional ao mérito A corrente democrática vai mais longe define todos os cidadãos como tais sem consideração de fortuna nem de virtude como iguais que têm os mesmos direitos de participar de todos os aspectos da vida pública Tal é o ideal de isonomia que encara a igualdade sob a forma da relação mais simples 11 A única justa medida suscetível de harmonizar as relações entre os cidadãos é a igualdade plena e total Não se trata mais então como precedentemente de encontrar a escala que faça os poderes proporcionais ao mérito e que realize entre elementos diferentes dissonantes mesmo 59 Aristóteles Política II 1267b 67 um acorde harmônico mas de igualar estritamente entre todos a participação na arché o acesso às magistraturas fazer desaparecer todas as diferenças que opõem entre si as diversas partes da cidade unificálas por mistura e fusão para que nada as distinga mais no plano político umas das outras É esse objetivo que realizam as reformas de Clístenes constituem uma organização política de conjunto que por sua coerência pela clareza de seus traços por seu espírito plenamente positivo apresentase como a solução de um problema que lei deve ordenar a Cidade para que ela seja uma na multiplicidade de seus concidadãos para que eles sejam iguais em sua necessária diversidade No decurso do período anterior a Clístenes que vai do arcontado de Sólon à tirania depois à queda dos Pisistrátidas a história ateniense tinha sido dominada pelo conflito de três facções revoltadas umas contra as outras em sua luta pelo poder O que representam essas facções Traduzem um conjunto complexo de realidades sociais que nossas categorias políticas e econômicas não encobrem exatamente Assinalam primeiramente solidariedades tribais e territoriais Cada partido tira seu nome de uma das três regiões em que a terra da Ática aparece dividida os pediakoí são os homens da planície do pedíon isto é na realidade os habitantes da cidade com as ricas terras que cercam a aglomeração urbana os parálios povoam o litoral marítimo os diácrios são os homens da montanha os do interior do país isto é dos demos periféricos mais afastados do centro urbano A essas divisões territoriais correspondem diferenças de gênero de vida de estatuto social de orientação política os pediakoí são aristocratas que defendem seus privilégios de eupátridas e seus interesses de proprietários de bens de raiz os parálios formam a nova camada social dos mesoi que procuram evitar o triunfo dos extremos os diácrios constituem o partido popular agrupam uma população de pequenos aldeões de tetas de lenhadores de carvoeiros muitos dos quais não têm lugar na organização tribal e que não estão ainda integrados no quadro da cidade aristocrática Enfim essas três facções aparecem como grupos de clientela ao serviço de grandes famílias aristocráticas cuja rivalidade domina o jogo político 68 Entre essas facções que formam no Estado por assim dizer tantas partes separadas e opostas luta aberta e compromissos sucedemse até o momento em que Clístenes funda a Polis sobre uma base nova60 A antiga organização tribal é abolida Em lugar das quatro tribos jônicas da África que delimitavam o corpo social Clístenes cria um sistema de dez tribos das quais cada uma agrupa como antes três trítias mas entre as quais se acham divididos todos os demos da Ática A cidade situase assim num outro plano distinto do das relações de gene e dos vínculos de consanguinidade tribos e demos são estabelecidos numa base puramente geográfica reúnem habitantes de um mesmo território não parentes de mesmo sangue como os gene e as frátrias que subsistem sob sua forma antiga mas que agora ficam fora da organização propriamente política Além disso cada uma das dez tribos novamente formadas realiza o amálgama das três partes diferentes entre as quais a cidade estava antes dividida Com efeito das três trítias que uma tribo compreende a primeira deve necessariamente pertencer à região costeira a segunda ao interior do país a terceira à região urbana e a seu território circundante Cada tribo realiza assim a mistura das populações dos territórios dos tipos de atividade de que é constituída a cidade Como o assinala Aristóteles se Clístenes tivesse instituído doze tribos em lugar das dez que criou teria então classificado os cidadãos nas trítias que já existiam havia com efeito para as quatro tribos antigas doze trítias E assim não teria conseguido unificar por mistura a massa dos cidadãos61 A organização administrativa responde pois a uma vontade deliberada de fusão de unificação do corpo social Além disso uma divisão artificial do tempo civil permite a igualação completa da arché entre todos os grupos semelhantes assim criados O calendário lunar continua a 60 Uma das soluções de compromisso parece ter consistido na atribuição sucessiva do arcontado a cada um dos chefes dos três clãs rivais cf sobre essa questão Benjamin D Meritt Greek inscription An early archon list Hesperia 8 1939 pp 5965 H T Wade Gery Miltiades Journal of hellenic Studies 71 1951 pp 212221 Comparese essa tentativa de divisão equilibrada do poder entre facções opostas com a que nos é relatada por Aristóteles para um período anterior nomeação de dez arcontes compreendendo cinco eupátridas três agroikói dois demiurgói Constituição de Atenas 13 2 61 Aristóteles Constituição de Atenas 21 4 69 regulamentar a vida religiosa Mas o ano administrativo é dividido em dez períodos de 36 ou 37 dias correspondendo a cada uma das dez tribos O Conselho dos Quatrocentos é elevado a quinhentos membros cinquenta por tribo de maneira que no decurso desses dez períodos do ano alternadamente cada tribo forma a comissão permanente do Conselho Com Clístenes o ideal igualitário ao mesmo tempo que se exprime no conceito abstrato de isonomia ligase diretamente à realidade política inspira uma transformação completa das instituições O mundo das relações sociais forma então um sistema coerente regulado por relações e correspondências numéricas que permitem aos cidadãos manterse idênticos entrar uns com os outros nas relações de igualdade de simetria de reciprocidade compor todos em conjunto um cosmos unido A Polis apresentase como um universo homogêneo sem hierarquia sem planos diversos sem diferenciação A arché já se não concentra num personagem único no cume da organização social Está dividida igualmente por meio de todo o domínio da vida pública nesse espaço comum em que a cidade encontra seu centro seu meson Segundo um ciclo regulamentado a soberania passa de um grupo a outro de um indivíduo a outro de tal maneira que comandar e obedecer em vez de se oporem como dois absolutos tornamse os dois termos inseparáveis de uma mesma relação reversível Sob a lei de isonomia o mundo social toma a forma de um cosmos circular e centrado em que cada cidadão por ser semelhante a todos os outros terá que percorrer a totalidade do circuito ocupando e cedendo sucessivamente segundo a ordem do tempo todas as posições simétricas que compõem o espaço cívico 70 CAPÍTULO VII COSMOGONIAS E MITOS DE SOBERANIA Na história do homem as origens geralmente nos escapam Entretanto se o advento da filosofia na Grécia marca o declínio do pensamento mítico e o começo de um saber de tipo racional podem ser fixados a data e o lugar de nascimento da razão grega e estabelecido seu estado civil É no princípio do século VI na Mileto jônica que homens como Tales Anaximandro Anaxímenes inauguram um novo modo de reflexão concernente à natureza que tomam por objeto de uma investigação sistemática e desinteressada de uma história da qual apresentam um quadro de conjunto uma theoria Da origem do mundo de sua composição de sua ordem dos fenômenos meteorológicos propõem explicações livres de toda a imaginária dramática das teogonias e cosmogonias antigas as grandes figuras das Potências primordiais já se extinguiram nada de agentes sobrenaturais cujas aventuras lutas façanhas formavam a trama dos mitos de gênese que narravam o aparecimento do mundo e a instituição da ordem nem mesmo alusão aos deuses que a religião oficial associava nas crenças e no culto às forças da natureza Entre os físicos da Jônia o caráter positivo invadiu de chofre a totalidade do ser Nada existe que não seja natureza physis Os homens a divindade o mundo formam um universo unificado homogêneo todo ele no mesmo plano são as partes ou os aspectos de uma só e mesma physis que põem em jogo por toda parte as mesmas forças manifestam a mesma potência de vida As vias pelas quais essa physis nasceu diversificou se e organizouse são perfeitamente acessíveis à inteligência humana a natureza não operou no começo de maneira diferente de como o faz ainda cada dia quando o fogo seca uma vestimenta molhada ou quando num crivo agitado pela mão as partes mais grossas se isolam e se reúnem Como não há senão uma só natureza que exclui a própria noção de sobrenatural não há senão uma só temporalidade O original e o primordial despojamse de sua majestade e de seu mistério têm a banalidade tranquilizadora dos fenômenos familiares 71 Para o pensamento mítico a experiência cotidiana se esclarecia e adquiria sentido em relação aos atos exemplares praticados pelos deuses na origem Invertemse os termos da comparação entre os jônios Os acontecimentos primitivos as forças que produziram o cosmos se concebem à imagem dos fatos que se observam hoje e dependem de uma explicação análoga Já não é o original que ilumina e transfigura o cotidiano é o cotidiano que torna o original inteligível fornecendo modelos para compreender como o mundo se formou e ordenou Essa revolução intelectual aparece tão súbita e tão profunda que foi considerada inexplicável em termos de causalidade histórica falouse de um milagre grego Na terra jônica o logos terseia desprendido bruscamente do mito como as escamas caem dos olhos do cego E a luz desta razão uma vez por todas revelada não teria mais deixado de iluminar os progressos do espírito humano Os filósofos jônios escreve Burnet abriram o caminho que a ciência depois só teve que seguir62 E precisa em outra passagem Seria inteiramente falso procurar as origens da ciência jônica numa concepção mítica qualquer A essa interpretação opõese ponto por ponto a de F M Cornford Segundo ele a primeira filosofia aproximase mais de uma construção mítica do que de uma teoria científica A física jônica nada tem em comum nem em sua inspiração nem em seus métodos com o que chamamos ciência em particular ignora tudo sobre a experimentação Não é também o produto de uma reflexão ingênua e espontânea da razão sobre a natureza Transpõe sob uma forma laica e num vocabulário mais abstrato a concepção do mundo elaborada pela religião As cosmologias retomam e prolongam os temas essenciais dos mitos cosmogônicos Trazem uma resposta ao mesmo tipo de questão não procuram como a ciência leis da natureza interrogamse com o mito como a ordem foi estabelecida como o cosmos pôde surgir do caos Dos mitos de gênese os milésios tomam não só uma imagem do universo mas ainda todo um material conceptual e esquemas explicativos atrás dos elementos da physis perfilamse antigas divindades da 62 J Burnet Early Greek philosophy 3 ed Londres 1920 p v 72 mitologia Tornandose natureza os elementos despojaramse do aspecto de deuses individualizados mas permanecem forças ativas e animadas ainda sentidas como divinas a physis quando opera está toda impregnada desta sabedoria e desta justiça que eram o apanágio de Zeus O mundo de Homero ordenavase por uma distribuição dos domínios e funções entre grandes deuses a Zeus cabe a luz brilhante do céu aither e a Hades a sombra brumosa aer a Posidão o elemento líquido a todos os três em comum Gaia a terra onde vivem com os homens todas as criaturas mortais que resultam da mistura O cosmos dos jônios organizase por uma divisão das províncias das estações entre forças elementares que se opõem equilibramse ou se combinam Não se trata de uma vaga analogia Entre a Teogonia de Hesíodo e a filosofia de um Anaximandro a análise de Cornford faz aparecer estreitas correspondências Certamente enquanto uma fala ainda de gerações divinas o outro já descreve processos naturais é que o segundo se recusa a jogar com a ambiguidade de termos como phyein e génesis que significam igualmente engendrar e produzir nascimento e origem Durante todo o tempo em que esses diversos sentidos permaneciam confusos podiase exprimir o devir em termos de união sexual dar a razão de um fenômeno nomeando seu pai e sua mãe estabelecendo sua árvore genealógica Entretanto por mais importante que seja esta diferença entre o físico e o teólogo a organização geral de seu pensamento permanece a mesma Põem igualmente na origem um estado de indistinção em que nada ainda aparece Chaos em Hesíodo Nyx Érebos Tártaros em certas Teogonias atribuídas a Orfeu Museu e a Epimênides Ápeiron o ilimitado em Anaximandro Desta unidade primordial emergem por segregação e diferenciação progressivas pares de opostos o sombrio e o luminoso o quente e o frio o seco e o úmido o denso e o raro o alto e o baixo que vão delimitar no mundo realidades e regiões diversas o céu brilhante e quente o ar sombrio e frio a terra seca o mar úmido Esses opostos que chegaram ao ser separandose uns dos outros também podem unirse e misturarse para produzir certos fenômenos como o 73 nascimento e a morte de tudo que vive plantas animais e homens Mas não é somente o esquema de conjunto que é conservado no essencial Até nas minúcias a simetria dos desenvolvimentos a concordância de certos temas assinalam a persistência no pensamento do físico de representações míticas que nada perderam de sua força de sugestão63 A geração sexual o ovo cósmico a árvore cósmica a separação da terra e do céu anteriormente confundidos tantas imagens que aparecem como em filigrana por meio das explicações físicas de um Anaximandro sobre a formação do mundo do Ápeiron foi segregada apokrínesthai uma semente ou um germe gónimon capaz de engendar o quente e o frio no centro desse germe reside o frio sob forma de aer em sua periferia envolvendo o frio o quente desenvolvese periphyenai num invólucro de fogo semelhante à casca phloiós em torno de uma árvore Chega um momento em que esse envoltório esférico inflamado se separa aporrégnysthai do núcleo ao qual estava unido e como uma casca de ovo se quebra estala em círculos de fogo que são os astros Notouse o emprego de termos embriológicos que evocam racionalizandoos temas de geração sexual e de hierogamia gónimon apokrínesthai aporrégnysthai phloiós este último derivado de phleo verbo ligado à ideia de geração e que pode designar a placenta do embrião a casca do ovo a casca da árvore e mais geralmente toda membrana que envolve à maneira de um véu o organismo vegetal ou animal no decurso de seu crescimento64 Entretanto apesar dessas analogias e dessas reminiscências não há realmente continuidade entre o mito e a filosofia O filósofo não se contenta em repetir em termos de physis o que o teólogo tinha expressado em termos de Poder divino À mudança de registro à utilização de um vocabulário profano correspondem uma nova atitude de espírito e um clima intelectual diferente Com os milésios pela primeira vez a origem e a ordem do mundo tomam a forma de um problema 63 Cf Marcel De Corte Mythe et philosophie chez Anaximandre Laval théologique et philosophique 14 1958 1960 pp 929 64 H G Baldry Embryological analogies in presoratic cosmogony Classical Quarterly 26 1932 pp 2734 74 explicitamente colocado a que se deve dar uma resposta sem mistério ao nível da inteligência humana suscetível de ser exposta e debatida publicamente diante do conjunto dos cidadãos como as outras questões da vida corrente Assim se afirma uma função de conhecimento livre de toda preocupação de ordem ritual Os físicos deliberadamente ignoram o mundo da religião Sua pesquisa nada mais tem a ver com esses processos do culto aos quais o mito apesar de sua relativa autonomia permanecia sempre mais ou menos ligado Dessacralização do saber advento de um tipo de pensamento exterior à religião não são fenômenos isolados e incompreensíveis Em sua forma a filosofia relacionase de maneira direta com o universo espiritual que nos pareceu definir a ordem da cidade e se caracteriza precisamente por uma laicização uma racionalização da vida social Mas a dependência da filosofia com relação às instituições da Polis marcase igualmente em seu conteúdo Se é verdade que os milésios se serviram do mito também é verdade que transformaram profundamente a imagem do universo integraramna num quadro espacial ordenado segundo um modelo mais geométrico Para construir as cosmologias novas utilizaram as noções que os pensamentos morais e políticos tinham elaborado projetaram sobre o mundo da natureza esta concepção da ordem e da lei que triunfando na cidade tinha feito do mundo humano um cosmo As teogonias e as cosmogonias gregas comportam como as cosmologias que lhes sucederam relatos de gênese que expõem a emergência progressiva de um mundo ordenado Mas são também antes de tudo outra coisa mitos de soberania Exaltam o poder de um deus que reina sobre todo o universo falam de seu nascimento suas lutas seu triunfo Em todos os domínios natural social ritual a ordem é o produto dessa vitória do deus soberano Se o mundo não está mais entregue à instabilidade e à confusão é que ao terminarem os combates que o deus teve que sustentar contra rivais e contra monstros sua supremacia aparece definitivamente assegurada sem que nada possa doravante pôla em discussão A Teogonia de Hesíodo apresentase assim 75 como um hino à glória de Zeus rei A derrota dos Titãs e a de Tifeu igualmente vencidos pelo filho de Crono não vêm somente coroar como sua conclusão o edifício do poema Cada episódio retoma e resume toda a arquitetura do mito cosmogónico A vitória de Zeus em cada vez é uma criação do mundo A narrativa da batalha que lança uma contra a outra as duas gerações rivais dos Titãs e dos Olímpicos evoca explicitamente o retorno do universo a um estado original de indistinção e de desordem Abaladas pelo combate as potências primordiais Gaia Ouranós Pontos Okéanos Tártaros que antes se tinham separado e ocupavam seu lugar encontramse de novo misturadas Gaia e Ouranós cuja separação Hesíodo tinha narrado parecem encontrarse e unirse de novo como se desabassem um sobre o outro Crer seia que o mundo subterrâneo irrompeu à luz o universo visível em vez de assentar seu cenário estável e ordenado nas duas fronteiras fixas que o limitam embaixo a terra residência dos homens em cima o céu onde moram os deuses retomou seu aspecto primitivo de caos65 um abismo obscuro e vertiginoso uma abertura sem fundo o sorvedouro de um espaço sem direções percorrido ao acaso por turbilhões de vento que sopram em todos os sentidos A vitória de Zeus recoloca tudo no lugar Os Titãs seres ctônicos são enviados carregados de cadeias ao fundo do Tártaro ventoso Doravante no abismo subterrâneo em que a Terra o Céu e o Mar cravam suas raízes comuns as borrascas poderão agitar se sem fim em desordem Posidão cerrou aos Titãs as portas que fecham para sempre as moradas da Noite Chaos não corre mais o risco de ressurgir à luz para submergir o mundo visível A batalha contra Tifeu tratase de uma interpolação que data sem dúvida do fim do século VII retoma temas análogos Em páginas sugestivas Cornford pôde relacionar este episódio do combate de Marduk contra Tiamat Como Tiamat Tifeu representa as forças de confusão e de desordem o retorno ao informe o caos O que teria acontecido ao mundo se o monstro de mil vozes filho de Ge e de Tártaros tivesse conseguido reinar no lugar de Zeus sobre os deuses e os homens imagina 65 Hesíodo Teogonia 700740 76 se facilmente de seus despojos mortais nascem os ventos que em vez de soprar sempre no mesmo sentido de maneira fixa e regular como fazem o Noto o Bóreas e o Zéfiro abatemse em borrascas prodigiosas ao acaso em direções imprevisíveis ora aqui e ora lá Derrotados os Titãs fulminado Tifeu Zeus coagido pelos deuses toma para si a soberania e sentase no trono dos Imortais depois reparte entre os Olímpicos os encargos e as honras timai Da mesma maneira proclamado rei dos deuses Marduk matava Tiamat cortava em duas partes seu cadáver lançava ao ar uma de suas metades que formava o céu determinava então o lugar e o movimento dos astros fixava o ano e o mês ordenava o tempo e o espaço criava a raça humana repartia os privilégios e os destinos Essas semelhanças entre a teogonia grega e o mito babilônico da Criação não são fortuitas A hipótese formulada por Cornford de um empréstimo foi confirmada mas também matizada e completada pela descoberta recente de uma dupla série de documentos de um lado as plaquetas fenícias de Ras Shamra início do século XIV antes de Cristo de outro textos hititas em cuneiforme que retomam uma antiga saga hurrita do século XV A ressurreição quase simultânea desses dois conjuntos teogónicos revelou toda uma série de convergências novas que explicam a presença na trama da narrativa hesiódica de detalhes que parecem deslocados ou incompreensíveis O problema das influências orientais sobre os mitos gregos de gênese o de sua extensão e seus limites o das vias e da data de sua penetração encontramse assim colocados de maneira precisa e sólida Nessas teogonias orientais como nas da Grécia às quais elas puderam fornecer modelos os temas de gênese ficam integrados numa vasta epopeia real que faz se enfrentarem para a dominação do mundo as gerações sucessivas dos deuses e diversas potências sagradas O estabelecimento do poder soberano e a fundação da ordem aparecem como os dois aspectos inseparáveis do mesmo drama divino o troféu de uma mesma luta o fruto de uma mesma vitória Esse caráter geral marca a dependência da narrativa mítica com relação a rituais reais de que constitui a princípio um elemento formando seu 77 acompanhamento oral O poema babilônico da Criação o Enuma elis era assim cantado todos os anos no quarto dia da festa real de Criação do Ano Novo no mês de Nisan na Babilônia Nessa data julgavase que o tempo tinha acabado seu ciclo o mundo voltava a seu ponto de partida Momento crítico em que a ordem em sua totalidade voltava a ser posta em discussão No decurso da festa o rei representava por gestos um combate ritual contra um dragão Com isso repetia cada ano a façanha realizada por Marduk contra Tiamat na origem do mundo A prova e a vitória reais tinham uma dupla significação ao mesmo tempo que confirmavam o poder da soberania do monarca adquiriam o valor de uma nova criação da ordem cósmica social e das estações Pela virtude religiosa do rei a organização do universo após um período de crise viase renovada e mantida por um novo ciclo temporal Por meio de ritos e mitos babilônicos exprimese uma concepção particular das relações da soberania e da ordem O rei não domina somente a hierarquia social intervém também na marcha dos fenômenos naturais A ordenação do espaço a criação do tempo a regulação do ciclo das estações aparece integrado na atividade real são aspectos da função de soberania Como natureza e sociedade permanecem confundidas a ordem sob todas suas formas e em todos os domínios é posta sob a dependência do Soberano Nem no grupo humano nem no universo é concebida ainda de maneira abstrata em si mesma e por si mesma Para existir tem necessidade de ser estabelecida e para durar de ser mantida sempre supõe um agente ordenador uma força criadora suscetível de promovêla No quadro desse pensamento mítico não se poderia imaginar um domínio autônomo da natureza nem uma lei de organização imanente ao universo Na Grécia não somente a Teogonia de Hesíodo em seu plano geral ordenase segundo a mesma perspectiva mas também cosmogonias mais tardias e mais elaboradas como a de Ferecides de Siros que Aristóteles classifica entre os teólogos no número daqueles que souberam misturar a filosofia ao mito Contemporâneo de Anaximandro Ferecides 78 se conserva as figuras das grandes divindades tradicionais transforma entretanto seus nomes por jogos de palavras etimológicas para sugerir ou sublinhar seu aspecto de forças naturais Cronos transformase em Chronos o Tempo Rhea em Re que evoca um fluxo uma corrente Zeus é chamado Zas para exprimir talvez a intensidade da Força Mas o milo fica centrado no tema de uma luta pelo reinado universal Pelo que se pode julgar pelos fragmentos que chegaram até nós Ferecides narrava a batalha de Cronos contra Ophion o choque de seus dois exércitos a queda dos vencidos no Oceano o reino de Cronos em pleno céu depois deviam sobrevir o assalto de Zeus sua conquista do poder sua união solene com Chtonia por intermédio ou com a assistência de Eros Durante o hierós gamos de Zeus rei com a deusa subterrânea a emergência do mundo visível produziase enquanto se fixava pela primeira vez o modelo do rito matrimonial das Anacalyptéria do desvelamento Pela força desse casamento a sombria Chtonia tinhase transformado Tinhase envolvido no véu que Zeus havia tecido e bordado para ela fazendo aparecer nele o contorno dos mares e a forma dos continentes Aceitando o presente que Zeus lhe oferecia em testemunho de sua nova prerrogativa geras a obscura deusa subterrânea tinhase tornado Gé a terra visível Zeus atribuía então às diversas divindades seu quinhão sua moira fixando para cada uma a porção de cosmos que devia caberlhe Enviava ao Tártaro sob a guarda dos ventos e das tempestades as forças de desordem e de hybris O problema da gênese no sentido estrito fica pois nas teogonias se não inteiramente implícito pelo menos em segundo plano O mito não se interroga sobre como um mundo ordenado surgiu do caos responde à questão Quem é o deus soberano Quem conseguiu reinar anassein basileuein sobre o universo Neste sentido a função do mito é estabelecer uma distinção e como uma distância entre o que é primeiro do ponto de vista temporal e o que é primeiro do ponto de vista do poder entre o princípio que está cronologicamente na origem do mundo e o princípio que preside à sua ordenação atual O mito constituise nessa distância tornao o próprio objeto de sua narração descrevendo por meio da série das gerações divinas 79 os avatares da soberania até o momento em que uma supremacia esta definitiva põe um termo à elaboração dramática da dynasteia Devese sublinhar que o termo arché que fará carreira no pensamento filosófico não pertence ao vocabulário político do mito66 Não é só que o mito fique ligado a expressões mais especificamente de realeza é que também a palavra arché designando indistintamente a origem numa série temporal e a primazia na hierarquia social suprime essa distância sobre a qual o mito se fundava Quando Anaximandro adotar esse termo conferindolhe pela primeira vez seu sentido filosófico de princípio elementar essa inovação não marcará somente a rejeição pela filosofia do vocabulário monárquico próprio do mito traduzirá também sua vontade de aproximar o que os teólogos necessariamente separavam de unificar na medida do possível o que é primeiro cronologicamente aquilo a partir de que as coisas se formaram e o que domina o que governa o universo Com efeito para o físico a ordem do mundo não pode mais ter sido instituída num momento dado pela virtude de um agente singular imanente à physis a grande lei que rege o universo devia estar já presente de alguma maneira no elemento original de que o mundo surgiu pouco a pouco Falando dos antigos poetas e dos teólogos Aristóteles fará observar na Metafísica que para eles não são hoi prótoi as forças originárias Nyx Okéanos Chaos Ouranós mas um retardatário Zeus que exerce sobre o mundo a arché e a basileia67 Ao contrário Anaximandro assegura que não há nada que seja arché em relação com o ápeiron pois que este sempre existiu mas que o ápeiron é arché para tudo mais que ele envolve periechein e governa kybernan tudo68 Tentemos pois definir em grandes linhas o quadro no qual as teogonias gregas esboçam a imagem do mundo 1 O universo é uma hierarquia de poderes Análogo em sua estrutura a uma sociedade humana não poderia ser corretamente representado por um esquema puramente 66 Em Hesíodo arché é empregada com um valor exclusivamente temporal 67 Aristóteles Metafisica 1091 a 33b7 68 Física 203 b7 80 espacial nem descrito em termos de posição de distância de movimento Sua ordem complexa e rigorosa exprime relações entre agentes é constituída por relações de força de escalas de precedência de autoridade de dignidade de vínculos de domínio e de submissão Seus aspectos espaciais níveis cósmicos e direções do espaço expressam menos propriedades geométricas que diferenças de função de valor e de classe 2 Essa ordem não surgiu necessariamente em consequência do jogo dinâmico dos elementos que constituem o universo foi instituída dramaticamente pela iniciativa de um agente 3 O mundo é dominado pelo poder excepcional desse agente que aparece único e privilegiado num plano superior aos outros deuses o mito projetao como soberano sobre o cume do edifício cósmico é sua monarchia que mantém o equilíbrio entre as Potências que constituem o universo fixando a cada uma seu lugar na hierarquia delimitando suas atribuições suas prerrogativas sua parte de honra Esses três traços são solidários dão à narração mítica sua coerência sua lógica própria Marcam também sua ligação na Grécia como no Oriente com essa concepção da soberania que coloca sob a dependência do rei a ordem das estações os fenômenos atmosféricos a fecundidade da terra dos rebanhos e das mulheres A imagem do rei senhor do Tempo fazedor de chuva distribuidor das riquezas naturais imagem que pôde na época micênica traduzir realidades sociais e responder a práticas rituais transparência ainda em certas passagens de Homero e de Hesíodo69 em lendas como as de Salmoneu ou de Éaco Mas não pode tratarse no mundo grego senão de sobrevivências Após o desmoronamento da realeza micênica quando o sistema palaciano e o personagem do ánax desapareceram não subsistem dos antigos ritos reais senão 69 Homero Odisséia XIX 109 Hesíodo Trabalhos 225 e ss 81 vestígios cujo sentido se perdeu Apagouse a lembrança do rei que periodicamente voltava a criar a ordem do mundo já não aparece também claramente o vínculo entre as façanhas míticas atribuídas a um soberano e a organização dos fenômenos naturais O fracasso da soberania e a limitação do poder real contribuíram assim para destacar o mito do ritual em que se enraizava na origem Liberada da prática do culto de que constituía a princípio o comentário oral a narrativa pôde adquirir um caráter mais desinteressado mais autônomo Pôde em certos aspectos preparar e prefigurar a obra do filósofo Já em Hesíodo em algumas passagens a ordem cósmica aparecia dissociada da função real livre de todo vínculo com o rito O problema de sua gênese colocase então de maneira mais independente A emergência do mundo é descrita não mais em termos de façanha mas como um processo de geração por Potências cujo nome evoca de maneira direta realidades físicas céu terra mar luz noite etc Notou se a este respeito o acento naturalista do começo da Teogonia versos 116 a 133 que contrasta com a continuação do poema Mas o que comporta talvez de mais significativo essa primeira tentativa para descrever a gênese do cosmos segundo uma lei de desenvolvimento espontâneo é precisamente seu fracasso Apesar do esforço de delimitação conceptual que se manifesta nele o pensamento de Hesíodo permanece prisioneiro de seu quadro mítico Ouranós Gaia Pontos são realidades perfeitamente físicas em seu aspecto concreto de céu de terra de mar mas são ao mesmo tempo divindades que agem unemse e reproduzemse à semelhança dos homens Atuando em dois planos o pensamento apreende o mesmo fenômeno como por exemplo a separação da terra e das águas simultaneamente como fato natural no mundo visível e como produção divina num tempo primordial Para romper com o vocabulário e com a lógica do mito teria sido necessária a Hesíodo uma concepção de conjunto capaz de substituir o esquema mítico de uma hierarquia de Poderes dominada por um Soberano O que lhe faltou foi poder representarse um universo submetido ao reino da lei um cosmos que se organizaria impondo a todas as suas partes uma 82 mesma ordem de isonomia feita de equilíbrio de reciprocidade de simetria BIBLIOGRAFIA Sobre as origens do pensamento grego e os inícios da reflexão filosófica cf John Burnet Early greek philosophy 3 ed Londres 1920 trad francesa Laurore de Ia philosophie grecque Paris 1919 F M Cornford From religion to philosophy A Study in the origins of western speculation Londres 1912 e Principiam sapientiae The origins of Greek philosophical thought 1952 H Frankel Dichtung und Philosophie des frühens Griechentums 1951 e Wege und Formen frühgriechischen Denkens Munique 1955 L Gernet Les origines de la philosophie Balletin de lEnseignement public du Maroc 183 1945 pp 9 e ss O Gigon Der Ursprung der griechischen Philosophie von Hesiod bis Parmenides Basiléia 1945 W R C Guthrie In the beginning Some Greek views on the origins o flife and the early State oft man Londres 1957 W Jaeger The theology of early Gteek philosophers Oxford 1947 G S Kirk e J E Raven The presocratic philosophers A critical history with a selection of texts Cambridge 1957 W Nestle Vom mythos zum logos Die Selbstentfaltung des griechischen Denkens von Homer bis auf die Sophistik und Sokrates Stuttgart 1940 R B Onians The origins Of European thought about the body the mind the soul the world time and fate Cambridge 1951 P M Schuhl Essai sur la formation de la pensée grecque Introduction historique à une étude de la philosophie platonicienne Paris 1934 20 ed 1948 B Snell Die Entdeckung des Geistes Studien zur Entstehung des europaïschen Denkens bei den Griechen 20 ed Hamburgo 1948 G Thomson Studies in ancient Greek society II The first Philosophers Londres 1955 e From religion to philosophy Journal of Hellenic Studies 73 1953 pp 7784 J P Vernant Du mythe à la raison La formation de la pensée positive duns la Grèce archaïque Annales Economies Sociétés Civilisations 1957 pp 183206 Sobre as relações entre teogonias gregas e orientais cf R D Barnett The Epic of Kumarbi and the Theogony of Hesiod Journal of hellenic studies 65 1945 pp 1001 J Duchemin Sources grecques et orientales de la Théogonie dHésiode Linformation littéraire 1952 pp 146151 R Dussaud Antécédents orientaux à la Théogonie dHésiode Mélanges Grégoire I 1949 pp 226231 O Eissfeldt Phönikische und Griechische Kosmogonie in Eléments orientaux dans la religion grecque ancienne Paris 1960 pp 155 E O Forrer Eine Geschichte des Götterkönigtums aus dem HattiReiche Mélanges Fr Cumont 1936 pp 687713 H C Güterbock The hiltite version Of lhe burrian Kumarpi myths Oriental Forerunners of Hesiod American Journal Of archaeology 52 1948 pp 12334 H Schwabe Die griechischen Theogonien und der Orient Eléments orientaux dans Ia religion grecque ancienne pp 3956 F Vian Le mythe de Typhée et le problême de ses origines orientales ibid pp 1737 e Influences orientales et survivances indoeuropéennes dans la Théogonie dHésiode Revue de la Francoancienne 126 1958 pp 32936 S Wikander Histoire des Ouranides Cahiers du Sud 1952 314 pp 917 Encontrarseão os textos orientais editados por J B Pritchard Ancient Near Eastern texts relating to the Old Testament 2a ed Princeton 1955 83 CAPÍTULO VIII A NOVA IMAGEM DO MUNDO Para medir a amplitude da revolução intelectual realizada pelos milésios a análise deve apoiarse essencialmente na obra de Anaximandro A doxografia dános dela uma visão mais completa ou menos sumária que das teorias de Tales e de Anaxímenes Além disso e sobretudo Anaximandro não introduziu apenas em seu vocabulário um termo da importância de arché preferindo escrever em prosa completa a ruptura com o estilo poético das teogonias e inaugura o novo gênero literário próprio da historía perí physeos É nele finalmente que se encontra expresso com o maior rigor o novo esquema cosmológico que marcará de maneira profunda e durável a concepção grega do universo Esse esquema permanece genético Como physis como gênesis arché conserva seu valor temporal a origem a fonte Os físicos pesquisam de onde e por que caminho o mundo veio a ser Mas essa reconstrução genética explica a formação de uma ordem que se encontra agora projetada num quadro espacial Um ponto deve ser aqui fortemente sublinhado A dívida dos milésios para com a astronomia babilônica é incontestável Dela tomaram as observações e os métodos que segundo a lenda teriam permitido a Tales predizer um eclipse devemlhe também instrumentos como o gnomon que Anaximandro teria levado a Esparta O restabelecimento dos contatos com o Oriente revelase esta vez ainda de uma importância decisiva para o desenvolvimento de uma ciência grega em que as preocupações de ordem astronômica desempenharam no início um papel considerável E no entanto por seu aspecto geométrico não mais aritmético por seu caráter profano livre de toda religião astral a astronomia grega colocase desde o primeiro momento num plano diferente do da ciência babilônica de que se inspira Os jônios situam no espaço a ordem do cosmos representam a organização do universo as posições as distâncias as dimensões e os movimentos dos astros segundo esquemas 84 geométricos Assim como desenham num mapa num pínax o plano da terra inteira colocando sob os olhos de todos a imagem do mundo habitado com seus países seus mares e seus rios assim também constroem modelos mecânicos do universo como aquela esfera que Anaximandro segundo alguns teria fabricado Fazendo ver assim o mundo fazem dele no sentido pleno do termo uma theoria um espetáculo Essa geometrização do universo físico acarreta uma transformação geral das perspectivas cosmológicas consagra o advento de uma forma de pensamento e de um sistema de explicação sem analogia no mito Para exemplificar Anaximandro localiza a terra imóvel no centro do universo Acrescenta que se ela permanece em repouso nesse lugar sem ter necessidade de nenhum suporte é porque está a igual distância de todos os pontos da circunferência celeste e não tem nenhuma razão para ir para baixo mais que para cima nem para um lado mais que para outro Anaximandro situa pois o cosmos num espaço matematizado constituído por relações puramente geométricas Assim se encontra apagada a imagem mítica de um mundo em planos em que o alto e o baixo em sua posição absoluta marcam níveis cósmicos que diferenciam Potências divinas e em que as direções do espaço têm significações religiosas opostas Além disso todas as explicações pelas quais o mito pretendia justificar a estabilidade da terra base segura para todos os vivos Hesíodo revelamse inúteis e irrisórias a terra não tem mais necessidade de suporte de raízes não tem de flutuar como em Tales sobre um elemento líquido de onde teria surgido nem de repousar sobre um turbilhão ou como em Anaxímenes sobre uma almofada de ar Tudo está dito tudo está claro logo que se esboça o esquema espacial Para compreender por que os homens podem com toda segurança andar sobre o solo por que a Terra não cai como o fazem os objetos em sua superfície basta saber que todos os raios de um círculo são iguais Sua estrutura geométrica confere ao cosmos uma organização de tipo oposto àquele que o mito lhe atribuía Já não se encontra nenhum elemento ou porção do mundo 85 privilegiado em detrimento dos outros já nenhum poder físico está situado na posição dominante de um basileus que exerça sua dynasteia sobre todas as coisas Se a terra está situada no centro de um universo perfeitamente circular pode permanecer imóvel em razão de sua igualdade de distância sem estar submetida à dominação de qualquer coisa que seja Essa fórmula de Anaximandro que faz intervir a noção do Kratos do poder de domínio sobre outrem mostra a persistência de um vocabulário e de conceitos políticos no pensamento cosmológico dos jônios Mas como o sublinha muito justamente Charles H Kahn num estudo recente Anaximandro sustenta neste domínio uma tese que vai bem além da que expõe depois dele seu discípulo Anaxímenes70 Para este último a Terra tem necessidade de repousar no ar que a domina synkratei como a alma domina o corpo Para Anaximandro ao contrário nenhum elemento singular nenhuma porção do mundo poderia dominar as demais São a igualdade e a simetria dos diversos poderes constituintes do cosmos que caracterizam a nova ordem da natureza A supremacia pertence exclusivamente a uma lei de equilíbrio e de constante reciprocidade À monarchia um regime de isonomia se substituiu na natureza como na cidade Daí a recusa de atribuir à água como Tales ao ar como Anaxímenes ou a qualquer outro elemento particular a dignidade de arché A substância primeira infinita imortal e divina que envolve e governa todas as coisas Anaximandro a concebe como uma realidade à parte distinta de todos os elementos formando sua origem comum a fonte inesgotável em que todos igualmente se alimentam Aristóteles dános as razões desta escolha se um dos elementos possuísse essa infinidade que pertence ao ápeiron os outros seriam destruídos por ele os elementos definemse com efeito por sua oposição recíproca é preciso pois que se encontrem sempre numa relação de igualdade uns com os outros isázei aei tanantia ou como Aristóteles o dirá em outra parte em igualdade de poder isotes tes dynámeos71 Não há razão para 70 Charles H Kahn Anaximander and the origins of Greek cosmology Nova York 1960 71 Aristóteles Física 204 b 22 e 1319 Meteorológica 340 a 16 86 pôr em dúvida e pertinência do raciocínio de Aristóteles e rejeitar a interpretação que propõe do pensamento de Anaximandro Notarseá que a argumentação aristotélica implica uma mudança radical nas relações do poder e da ordem A basileia a monarchia que no mito estabeleciam a ordem e a sustentavam aparecem na perspectiva nova de Anaximandro como destruidoras da ordem A ordem não é mais hierárquica consiste na manutenção de um equilíbrio entre potências doravante iguais sem que nenhuma delas deva obter sobre as outras um domínio definitivo que ocasionaria a ruína do cosmos Se o ápeiron possui a arché e governa todas as coisas é precisamente porque seu reino exclui a possibilidade para um elemento de apoderarse da dynasteia A primazia do ápeiron garante a permanência de uma ordem igualitária fundada na reciprocidade das relações e que superior a todos os elementos impõelhes uma lei comum De resto esse equilíbrio das potências não é de maneira nenhuma estático encobre oposições e é feito de conflitos Cada potência por sua vez domina sucessivamente apoderandose do poder recuando depois para cedêlo na proporção de seu primeiro avanço No universo na sucessão das estações no corpo do homem um ciclo regular faz passar assim a supremacia de um a outro ligando como dois termos simétricos e reversíveis o domínio e a submissão a extensão e a retração a força e a fraqueza o nascimento e a morte de todos os elementos esses elementos que para Anaximandro segundo a ordem do tempo se fazem mutuamente reparação tisis e justiça dike pela adikia que cometeram Constituído por dynámeis opostas e incessantemente em conflito o mundo as submete a uma regra de justiça compensatória a uma ordem que mantém nelas uma exata isotes Sob o jugo dessa dike igual para todos as potências elementares associamse coordenamse segundo uma oscilação regular para compor apesar de sua multiplicidade e de sua diversidade um cosmos único Essa nova imagem do mundo Anaximandro destacoua com suficiente rigor para que se impusesse como uma espécie 87 de lugar comum ao conjunto dos filósofos présocráticos assim como ao pensamento médico No começo do século V Alcmeão a formulará em termos que dizem tão claramente sua origem política que não parece necessário sobretudo após os artigos que A G Vlastos consagrou a esse problema que se insista nisso mais tempo72 Alcmeão define com efeito a saúde como a isonomia ton dynámeon o equilíbrio dos poderes o úmido e o seco o frio e o quente o amargo e o doce etc a doença resulta ao contrário da monarchia de um elemento sobre os outros pois a dominação exclusiva de um elemento particular é destrutiva Mas a experiência social não forneceu somente ao pensamento cosmológico o modelo de uma lei e de uma ordem igualitárias que se substituem à dominação onipotente do monarca O regime da cidade pareceunos solidário de uma concepção nova do espaço ao se projetarem e se encarnarem as instituições da Polis no que se pode chamar um espaço político Notese a este respeito que os primeiros urbanistas como Hipodamo de Mileto são na realidade teóricos políticos a organização do espaço urbano não é mais que um aspecto de um esforço mais geral para ordenar e racionalizar o mundo humano O vínculo entre o espaço da cidade e suas instituições aparece ainda muito claramente em Platão e em Aristóteles O novo espaço social está centrado O kratos a arché a dynasteia já não estão situados no ápice da escala social ficam es meson no centro no meio do grupo humano É este centro que é agora valorizado a salvação da polis repousa sobre os que se chamam hoi mesoi porque estando a igual distância dos extremos constituem um ponto fixo para equilibrar a cidade Com relação a este centro os indivíduos e os grupos ocupam todas posições simétricas A ágora que realiza sobre o terreno essa ordenação espacial forma o centro de um espaço público e comum Todos os que nele penetram se definem por isso mesmo como iguais como isoi Por sua presença nesse espaço político entram uns com os outros em 72 A G Vlastos Equality and justice in early greek cosmologies Classical Philology 42 1947 p 156178 Theology and philosophy in early Greek thought The philosophical Ouarterly 1952 p 97123 Isonomia American Journal Of Philology 74 1953 p 337 366 e a análise da obra de P M Cornford Principium Sapientiae em Gnomon 27 1955 p 6576 88 relações de perfeita reciprocidade A instituição da Hestia Koiné do Lar público é símbolo dessa comunidade política73 instalado no Pritaneu em geral na ágora o Lar público acha se em suas relações com os múltiplos lares domésticos mais ou menos a igual distância das diversas famílias que constituem a cidade deve representálas todas sem se identificar mais com uma que com outra Espaço centrado espaço comum e público igualitário e simétrico mas também espaço laicizado feito para a confrontação o debate a argumentação e que se opõe ao espaço religiosamente qualificado da Acrópole assim como o domínio dos hósia dos assuntos profanos da cidade humana opõese ao dos hierá o dos interesses sagrados que concernem aos deuses Que este novo quadro espacial tenha favorecido a orientação geométrica que caracteriza a astronomia grega que haja uma profunda analogia de estrutura entre o espaço institucional no qual se exprime o cosmos humano e o espaço físico no qual os milésios projetam o cosmos natural é o que sugere a comparação de certos textos Segundo a doxografia se para Anaximandro a terra pode permanecer imóvel e fixa é em razão de sua situação central perí meson mese da homoiotes a similitude e do equilíbrio a isotropia Encontrandose assim no centro não está acrescentava Anaximandro dominada kratoumene por nada O vínculo tão paradoxal para nós que Anaximandro estabelece entre a ausência de dominação a centralidade a similaridade autoriza a comparação com um texto político de Heródoto em que voltamos a encontrar o mesmo vocabulário e a mesma solidariedade conceptual Heródoto conta que ao morrer o tirano Polícrates Meandro designado pelo finado para tomar o skeptron depois dele convoca todos os cidadãos para a assembléia e anuncialhes sua decisão de abolir a tirania Polícrates dizlhes em resumo não tinha minha aprovação quando reinava como déspota sobre os homens que eram seus semelhantes despozon andrôn homoion eautó De 73 Cf L Gernet Sur le symbolisme politique en Grèce ancienne le Foyer commun Cahiers internationaux de Sociologie 11 1951 p 2143 89 minha parte deponho a arché es meson no centro e proclamo para vós a isonomia74 A comparação parecerá ainda mais significativa porque entre os milésios mesmos a concepção de um espaço físico simetricamente organizado em torno de um centro reproduz certas representações de ordem social Segundo Agatêmero Anaximandro de Mileto discípulo de Tales foi o primeiro a desenhar a terra habitada num pínax como devia fazêlo depois dele de maneira mais precisa Hecateu de Mileto75 0 autor acrescenta Os antigos imaginavam a Terra habitada mais ou menos redonda com a Grécia no centro e Delfos no centro da Grécia Sabese que essa concepção devia provocar a ironia de Heródoto Rio escreve ele quando vejo os mapas da terra que muitos desenharam no passado e que ninguém explicou de maneira sensata Desenham o Oceano fluindo em torno da Terra que é redonda como se tivesse sido feita a compasso e fazem a Ásia igual à Europa76 Em outra passagem Heródoto revelanos o fundamento institucional e político dessa geometrização a seus olhos demasiado avançada do espaço físico Após o desastre que sofreram todos os jônios se encontram reunidos no Paniônio Bias de Priene um dos Sábios aconselha formar primeiro uma frota comum para ganhar a Sardenha e ali fundar uma cidade única panjônica Tales de Mileto fala em seguida Propõe que se tenha um conselho único en Bouleutérion e que se fixe sua sede em Teos porque esta ilha se acha no centro da Jôânia meson Ioníes as outras cidades continuariam a ser habitadas mas estariam doravante na situação de demos periféricos integrados numa polis única77 Temos de resto uma prova das interferências que puderam produzirse entre os valores políticos geométricos e fisicos do centro concebido como o ponto fixo em torno do qual se ordena na sociedade e na natureza um espaço igualitário 74 Heródoto 3 142 75 Agatêmero 1 1 76 Heródoto 4 36 77 Heródoto 1 170 90 feito de relações simétricas e reversíveis78 Hestia símbolo na ágora da nova ordem humana poderá designar em Filolao o fogo cósmico central em outros filósofos a Terra que permanece imóvel no meio do universo físico 79 Destas correspondências entre a estrutura do cosmos natural e a organização do cosmos social Platão mostrase ainda plenamente consciente no século IV O filósofo que faz inscrever no limiar da Academia que ninguém entre dá testemunho dos vínculos aqui se não é geómetra que uma mesma origem uma orientação comum estabeleceu e mantivera por muito tempo entre os gregos entre pensamento geométrico e pensamento político Fustigando no Górgias na pessoa de Cálicles e pela boca de Sócrates todos os que se recusam a estudar a geometria Platão associa estreitamente o conhecimento da isotes da igualdade geométrica fundamento do cosmos físico às virtudes políticas sobre as quais repousa a nova ordem da cidade a dikaiosyne e a sophrosyne Pelo que asseguram os doutos Cálicles o céu e a terra os deuses e os homens estão ligados entre si numa comunidade koinonia feita de amizade philia de ordenação cosmiotes de moderação sophrosyne de justiça dikaiotes mas tu não lhes dás atenção por mais sábio que sejas e esqueces que a igualdade geométrica geometriké isotes é onipotente entre os deuses e entre os homens é por isso que negligências a geometria80 78 Certamente o pensamento mítico conhecia a circularidade e o centro também ele valoriza a uma e ao outro Mas a imagem religiosa do centro não ordena um espaço simétrico implica ao contrário um espaço hierarquizado que comporta níveis cósmicos entre os quais o centro permite estabelecer uma comunicação O simbolismo político do Centro o Lar comum aparece como uma mediação entre a expressão religiosa do centro ómphalos hestia e o conceito geométrico do centro num espaço homogéneo cf sobre este ponto L Gernet 1 c p 42 e ss 79 Cf R E Siegel On the relation between early scientific thought and mysticism is Hestia the central fire an abstract astronomical concept Janus 49 1960 p 120 80 Platão Górgias 508 a 91 CONCLUSÃO Advento da Polis nascimento da filosofia entre as duas ordens de fenômenos os vínculos são demasiado estreitos para que o pensamento racional não apareça em suas origens solidário das estruturas sociais e mentais próprias da cidade grega Assim recolocada na história a filosofia despojase desse caráter de revelação absoluta que às vezes lhe foi atribuído saudando na jovem ciência dos jônios a razão intemporal que veio encarnarse no Tempo A escola de Mileto não viu nascer a Razão ela construiu uma Razão uma primeira forma de racionalidade Essa razão grega não é a razão experimental da ciência contemporânea orientada para a exploração do meio físico e cujos métodos instrumentos intelectuais e quadros mentais foram elaborados no curso dos últimos séculos no esforço laboriosamente continuado para conhecer e dominar a Natureza Quando Aristóteles define o homem como animal político sublinha o que separa a Razão grega da de hoje Se o homo sapiens é a seus olhos um homo politicus é que a própria Razão em sua essência é política De fato é no plano político que a Razão na Grécia primeiramente se exprimiu constituiuse e formouse A experiência social pôde tornarse entre os gregos o objeto de uma reflexão positiva porque se prestava na cidade a um debate público de argumentos O declínio do mito data do dia em que os primeiros Sábios puseram em discussão a ordem humana procuraram definila em si mesma traduzila em fórmulas acessíveis à sua inteligência aplicarlhe a norma do número e da medida Assim se destacou e se definiu um pensamento propriamente político exterior à religião com seu vocabulário seus conceitos seus princípios suas vistas teóricas Este pensamento marcou profundamente a mentalidade do homem antigo caracteriza uma civilização que não deixou enquanto permaneceu viva de considerar a vida pública como o coroamento da atividade humana Para o grego o homem não se separa do cidadão a phrónesis a reflexão é o privilégio dos homens livres que exercem correlativamente sua razão e seus direitos cívicos Assim ao fornecer aos cidadãos o quadro no qual concebiam suas 92 relações recíprocas o pensamento político orientou e estabeleceu simultaneamente os processos de seu espírito nos outros domínios Quando nasce em Mileto a filosofia está enraizada nesse pensamento político cujas preocupações fundamentais traduz e do qual tira uma parte de seu vocabulário É verdade que bem depressa se reitera com maior independência Desde Parmênides encontrou seu caminho próprio explora um domínio novo coloca problemas que só a ela pertencem Os filósofos já se não interrogam como o faziam os milésios sobre o que é a ordem como se formou como se mantém mas sim qual é a natureza do Ser e do Saber e quais são suas relações Os gregos acrescentam assim uma nova dimensão à história do pensamento humano Para resolver as dificuldades teóricas as aporias que o próprio progresso de seus processos fazia surgir a filosofia teve de forjar para si uma linguagem elaborar seus conceitos edificar uma lógica construir sua própria racionalidade Mas nessa tarefa não se aproximou muito da realidade física pouco tomou da observação dos fenómenos naturais não fez experiência A própria noção de experimentação foilhe sempre estranha Edificou uma matemática sem que procurasse utilizála na exploração da natureza Entre o matemático e o físico o cálculo e a experiência faltou essa conexão que nos pareceu unir no começo o geométrico e o político Para o pensamento grego se o mundo social deve estar sujeito ao número e à medida a natureza representa de preferência o domínio do aproximadamente ao qual não se aplicam nem cálculo exato nem raciocínio rigoroso A razão grega não se formou tanto no comércio humano com as coisas quanto nas relações dos homens entre si Desenvolveuse menos com as técnicas que operam no mundo que por aquelas que dão meios para domínio de outrem e cujo instrumento comum é a linguagem a arte do político do reitor do professor A razão grega é a que de maneira positiva refletida metódica permite agir sobre os homens não transformar a natureza Dentro de seus limites como em suas inovações é filha da cidade JeanPierre Vernant As Origens do Pensamento Greco É opinião de quantos se dedicam em profundidade ao estudo e mesmo à simples observação de nossa época que o mundo atravessa hoje uma crise caracterizada em grande escala pela ausência de humanismo Isso nos leva a um tipo de civilização essencialmente tecnocrata esquecida ou simplesmente desinteressada de grande parte dos valores tão caros às gerações que nos antecederam valores esses que constituíam a base dos conhecimentos necessários à idéia que então se tinha do que deveria ser a Cultura Entre esses conhecimentos figurava necessariamente o da história e do pensamento gregos paradigmas do humanismo hoje ausente porém constantemente reclamado a fim de atenuar o predomínio absoluto de um pragmatismo em geral malaplicado Tendo em vista as necessidades de estudantes e pesquisadores da matéria sempre enfrentando as dificuldades advindas da escassez de textos abalizados em língua portuguesa a Difel foi buscar na conceituada coleção Mythes et Réligions das Presses Universitaires de France dirigida por Georges Dumézil este pequeno mas precioso livro de JeanPierre Vernant especialista na Grécia antiga mundialmente respeitado e que já exerceu o cargo de Diretor de Estudos na École Pratique de Hautes Études de Paris

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