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Texto de pré-visualização
Júlio Andrade Ferreira HISTÓRIA DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL Alderi Souza de Matos ORGANIZADOR VOLUME I 18591903 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 18591903 Volume I de Júlio Andrade Ferreira 1992 Editora Cultura Cristã Todos os direitos são reservados 2ª edição 1992 3ª edição 2024 Conselho Editorial Cláudio Marra Presidente Christian Brially Tavares de Medeiros Giuliano Letieri Coccaro Joel Theodoro da Fonseca Jr Misael Batista do Nascimento Pedro Lucas Dulci Pereira Tarcízio José de Freitas Carvalho Victor Alexandre Nascimento Ximenes Produção Editorial Revisão Alderi de Souza Matos org Poliana Coutinho Wilson Neto Sandra Dantas Editoração Lidia de Oliveira Dutra Capa Ideia Dois Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP F383h Ferreira Júlio Andrade História da Igreja Presbiteriana do Brasil volume 1 Júlio Andrade Ferreira São Paulo Cultura Cristã 2024 3ª ed 480 p História da Igreja Presbiteriana do Brasil 1 ISBN 9786559892808 1 História 2 Presbiterianismo II Título CDU2851 Sueli Costa Bibliotecária CRB85213 SC Assessoria Editorial SP Brasil A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus símbolos de fé que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos o Maior e o Breve Como Editora oficial de uma denominação confessional cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição Existe a possibilidade porém de autores às vezes mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral pela denominação e pela Editora de todos os pontos de vista apresentados A posição da denominação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé EDITORA CULTURA CRISTÃ Rua Miguel Teles Júnior 394 CEP 01540040 São Paulo SP Fones 08000141963 11 32077099 wwweditoraculturacristacombr cepceporgbr Editor Cláudio Antônio Batista Marra História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 2 06032024 160238 À família Alzira Helena esposa Eder Elson Eliane filhos de cujo agradável convívio sacrifiquei horas no presente em busca do passado de uma família maior História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 3 06032024 160238 Arão e Hur sustentavamlhe as mãos Êx 1712 Entre os muitos que me sustentaram as mãos devo mencionar nesta página a colaboração econômica da World Alliance of Reformed Churches Aliança Mundial de Igrejas Reformadas e o apoio moral do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil que desde 1942 tem renovado sua confiança pondome à frente da Comissão do Histórico possibilitando a organização do Arquivo Presbiteriano e a redação deste livro A todos os generosos colaboradores que anos a fio olharam com simpatia este trabalho minha gratidão Dentre todos eles ocupa o primeiro lugar embora não o tivesse conhecido pessoalmente o Rev Vicente Temudo Lessa guardião do passado presbiteriano O leitor poderá ter uma ideia de como esta é uma obra coletiva lendo o último capítulo a que chamo um histórico deste histórico Será um prefácio no fim do livro Por ora o melhor é mesmo ir à história que nos propomos narrar História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 4 06032024 160238 Sumário Prefácio à 3ª Edição 9 Parte I Período de penetração 18591869 1 O pioneiro 13 2 Antecedentes 16 3 A igrejamãe 20 4 Reconhecimentos 25 5 O primeiro furlough 28 6 Nova sede missionária 31 7 O fim do romance 34 8 O padre protestante 37 9 Imprensa Evangélica 41 10 Brotas o primeiro núcleo do interior 44 11 O primeiro presbitério 49 12 O missionário itinerante 52 13 Estratégia missionária 54 14 Chamberlain entra para o ministério 58 15 Na esteira de Conceição 60 16 O campo de Santana 49 65 17 Deus encontrará outro 68 18 Seminário primitivo 70 19 Seu manto caia sobre nós 73 20 Quatro igrejas pioneiras 78 21 Balanço do primeiro decênio 83 Parte II Período de expansão 18691888 22 Migrações dos americanos do Sul 89 23 A nova missão 92 24 Preparação de um pioneiro 95 25 O Colégio Internacional 97 26 Carreiras efêmeras 99 27 A figura lendária das estradas 101 28 Schneider vai para a Bahia 108 29 Os frutos do seminário 111 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 5 06032024 160238 6 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 30 Travessa da Barreira 115 31 Escola Americana 117 32 Os valentes de Davi 121 33 O padre José e as origens da igreja em MogiMirim 125 34 Conceição agoniza 127 35 O pioneiro do Nordeste 129 36 O roteiro do Norte 132 37 Correspondências de Campinas 134 38 O outro presbitério 138 39 Jornais presbiterianos 140 40 Foramse de nós 142 41 À Barra do Evangelho 145 42 Seminaristas sem seminário 148 43 Mais notícias do Norte 150 44 Nova geração de igrejas 152 45 O Neófito 159 46 Que era feito dos pioneiros 160 47 Conceição é trasladado 163 48 Antônio Pedro 165 49 Novos pastores brasileiros 168 50 Sociedade Brasileira de Tratados Evangélicos 171 51 Educação e missão 175 52 Templos sem aparência exterior 178 53 Colportores os vanguardeiros 180 54 Perseguições clericais do tempo do império 183 55 Wardlaw em Fortaleza 186 56 Mais reforços missionários para o Nordeste 192 57 Ocupação de Sergipe 197 58 Desdobramentos da igrejamãe 199 59 Eduardo Carlos Pereira em Campanha 201 60 A caminho de Goiás 205 61 Campo de Botucatu 212 62 O sucessor de Antônio Pedro 214 63 A evangelização do Paraná 217 64 Primeira igreja presbiteriana do Rio Grande do Sul 222 65 Composição social das igrejas 224 66 Hinários e suas primeiras edições 230 67 Missões nacionais 234 68 O Sínodo 236 Parte III Período de dissensão 18881903 69 A mudança de período 243 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 6 06032024 160239 Sumário 7 70 As decisões do Sínodo 244 71 Presbitério de Pernambuco 247 72 Presbitério do Rio de Janeiro 254 73 Presbitério de São Paulo 261 74 Presbitério de Minas 269 75 Seminário o pomo da discórdia 282 76 De Escola Americana a Mackenzie College 287 77 Dificuldades eclesiásticas 294 78 A morte dos veteranos 301 79 O seminário em Friburgo 308 80 O Plano de Ação 310 81 Revoluções na imprensa presbiteriana 313 82 Instituto Teológico 318 83 A questão com o Mackenzie se complica 321 84 A 2ª Igreja Presbiteriana de São Paulo 325 85 O terceiro Sínodo 327 86 O seminário em São Paulo 329 87 A desconfiança dos Boards 333 88 A Moção Smith 346 89 Metendo a mão nos bolsos 350 90 A questão missionária 354 91 A questão educativa 360 92 A questão maçônica 365 93 O presbiterianismo do Norte no dobrar do século 369 94 Garanhuns a Antioquia pernambucana 380 95 O evangelista sinódico e o campo baiano 388 96 A igrejamãe recebe um grande pastor 395 97 A expansão rumo ao leste de Minas 399 98 Lavras campo de ação do dr Gammon 403 99 O campo do Rev Boyle 415 100 Raízes da Igreja Unida 420 101 Os sustentadores de velhos campos 422 102 Morrinhos a Sião do litoral Sul Paulista 429 103 Curitiba e o avanço do Sul 433 104 Os herdeiros de Conceição 443 105 Primeiras turmas do Seminário do Sínodo 446 106 A primeira escola evangélica do Norte 453 107 O Século 458 108 O seminário do Martinho 460 109 O Puritano 464 110 A Plataforma 468 111 O Sínodo de 1903 471 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 7 06032024 160239 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 8 06032024 160239 Prefácio à 3ª edição A presente obra é um dos clássicos da historiografia protestante no Brasil Nenhuma outra denominação do país tem sua história narrada em um texto dessa envergadura somando mais de 800 páginas O livro foi inicialmente pre parado para as comemorações do centenário do presbiterianismo pátrio 1959 Seguiuse uma segunda edição três décadas depois 1992 e agora decorridas outras três décadas vem a lume a terceira edição O autor era especialmente talhado para a tarefa Júlio Andrade Ferreira 19122001 foi pastor de várias igrejas professor de teologia e prolífico escritor Notabilizouse como um dos grandes intelectuais da Igreja Presbiteriana do Brasil à qual dedicou toda a sua carreira ministerial Além de lecionar no Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas foi o primeiro historiador oficial da IPB cargo que exerceu com eficiência por várias décadas Nessa função acompanhado de alguns colaboradores criou o Museu Presbiteriano e organizou o Arquivo Histórico da igreja hoje distribuídos entre Campinas e São Paulo De modo significativo ele foi também uma testemunha ocular da história do presbiterianismo Seus pais Joaquim José Ferreira e Gabriela Ernestina Andrade Ferreira conviveram com personagens da primeira geração de presbiterianos brasileiros Ainda no final do século 19 foram recebidos por profissão de fé e unidos em matrimônio pelo Rev Miguel Gonçalves Torres discípulo de Simonton e primeiro pastor evangélico de Minas Gerais O presbítero Joaquim um dos fun dadores da Igreja Presbiteriana de São João da Boa Vista SP teve forte atuação nos antigos concílios da igreja podendo ser visto em muitas fotografias da época Tendo sido o último de dez filhos Julhinho como era conhecido se con siderava o dízimo Vários de seus irmãos também foram fiéis presbiterianos mas só ele alcançou o ministério Sua produção literária foi considerável tanto em quantidade como em qualidade Além de apostilas das disciplinas que minis trava e de outros trabalhos não publicados vieram a lume em forma de livro O Apóstolo de Caldas vida e obra de Miguel Torres Galeria Evangélica ensaios sobre alguns pioneiros Profeta de Unidade biografia de Erasmo Braga Espiritismo Uma Avaliação Conheça sua Bíblia Conheça Sua Fé Apocalipse Ontem e Hoje e muitas outras publicações Todavia sua opus magnum é sem dúvida a presente História da Igreja Presbiteriana do Brasil Júlio foi um historiador extremamente dedicado sendo profundo conhe cedor de um notável acervo de fontes de alta relevância Ele também se destacou por suas reflexões cuidadosas por suas análises altamente esclarecedoras dos fatos sobre os quais se debruçou Finalmente apresentou seus dados e observações num belo e inconfundível estilo literário que confere à narrativa um sabor todo especial História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 9 06032024 160239 10 História da Igreja Presbiteriana do Brasil Na obra em tela ele não teve receio de recorrer a longas e frequentes citações das valiosas fontes que compulsou Na verdade muitos capítulos são transcrições quase integrais de outros autores como Vicente Temudo Lessa Boanerges Ribeiro Clara Gammon e Agláia Ximenes bem como de escritos de sua própria lavra Com isso ele divulgou textos que estavam esgotados ou ainda não tinham sido publicados na época em que o livro foi lançado Por causa das circunstâncias em que foi produzida a obra padeceu de algumas dificuldades A ausência de aspas em algumas citações gera dúvidas sobre quem está falando o autor ou a fonte que utiliza Outro problema está na documentação de certas fontes com notas bibliográficas incompletas ou portadoras de incorreções Com frequência o autor inclui traduções e citações um tanto livres que mais se aproximam de paráfrases Embora os editores e revisores da presente edição tenham feito um grande esforço no sentido de suprir essas e outras lacunas isso nem sem pre foi possível e os leitores atentos certamente descobrirão elementos que ainda carecem de reparos Para facilitar a identificação das citações extensas elas foram colocadas sempre que possível na forma de blocos distintos do texto principal Apesar dos senões o livro de Júlio Andrade Ferreira tem um valor incal culável ao retratar de modo ao mesmo tempo sério e atraente os personagens instituições eventos lutas crises e realizações de uma nova agremiação religiosa no contexto social brasileiro Mesmo havendo transcorrido mais de meio século desde a sua publicação inicial o texto continua a ter alta relevância tanto para os estudiosos quanto para o público leigo informando esclarecendo desafiando inspirando Muitas reflexões certamente se aplicam a situações vividas no presente Os dois volumes correspondem aos dois grandes períodos em que se subdi vide o primeiro século do presbiterianismo brasileiro antes e depois da divisão de 1903 No desejo de ser abrangente o autor considera com igual ênfase tanto a obra dos missionários americanos quanto a de seus colegas brasileiros Também são contemplados eventos ocorridos nas mais diferentes regiões do país do Rio Grande do Sul ao Amazonas Porém é inevitável que haja temas que o leitor não irá encontrar ou desejará que tivessem sido abordados com maiores detalhes O labor historiográfico é um esforço contínuo não só pela passagem inexorável e transformadora do tempo mas pela possibilidade e necessidade de novos enfoques novas interpretações A contribuição de Júlio Andrade Ferreira é um elo importante nessa engrenagem assim como foram e tem sido as de seus antecessores e sucessores O que ouvimos e aprendemos o que nos contaram nossos pais não o encobriremos a seus filhos contaremos à vindoura geração os louvores do Senhor e o seu poder e as maravilhas que fez Sl 783s Rev Alderi Souza de Matos Historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil Abril de 2024 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 10 06032024 160239 Parte I PERÍODO DE PENETRAÇÃO 1859 a 1869 Da chegada de Simonton pioneiro do Board de Nova York até a chegada dos pioneiros do Committee de Nashville Morton e Lane História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 11 06032024 160239 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 12 06032024 160239 O pioneiro 13 1 O pioneiro Sextafeira 12 de agosto de 1859 9 horas e 30 minutos Tenho estado desde as quatro horas observando a entrada de navios no porto onde estarão ao abrigo do vento e da maré Belo lugar o mais original e notável que jamais vi Pela beleza sublimidade segurança quer contra os ventos quer contra as ondas e pela possibilidade de defesa contra os ataques por mar e por terra um porto assim é quase inconcebível A baía se estende em volta guardada por ilhas curiosamente plasmadas de rochas altas e sólidas como se fossem ovos com uma ou outra ponta à mostra Em cumes aqui e ali grimpamse igrejas e alegres vivendas Uma delas é mesmo como pombal no topo de campanário decerto terá mais de duzentos metros de altura A entrada da barra é de meia milha de largura num dos lados há ousado promontório e o Forte Santa Cruz ali encravado com pesados canhões pelas encostas noutra a torre do Pão de Açúcar com mais de trezentos metros de altura Estamos ainda no colo da grande enseada aproveitando cada minuto a olhar ora do lado do forte ora do outro à distância de um tiro de pedra do Pão de Açúcar A água é de tal profundidade que o cuidado do timoneiro não será o de evitar que o mastro transversal toque num ou noutro flanco A cidade jaz a duas milhas de nós em grande extensão de colinas altas e de montanhas Já me desfiz da indumentária marítima deia ao camareiro que me prestou bons serviços na viagem Estou pronto para o desembarque1 Trecho do diário de Simonton Nesse mesmo 12 de agosto o jovem de barba nazarena toma refeição em casa do comerciante Wright a quem trouxera apresentação estando à mesa a família do cônsul Scott Aprecia a culinária e sobretudo as laranjas como nunca provara iguais Boa prosa Diz ele que ao desembarcar quando vinha do navio ainda no bote a mistura de cores deralhe a impressão de portos no Me diterrâneo segundo leituras feitas Um dos sócios da firma Wright se propusera procurarlhe acomodação 1 A G Simonton Journal Diário cópia da Igreja Presbiteriana do Rio 12 de agosto de 1859 Ver O Diário de Simonton 18521866 2ª ed rev São Paulo Cultura Cristã 2002 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 13 06032024 160239 14 História da Igreja Presbiteriana do Brasil E assim se foi o dia O primeiro missionário presbiteriano pisara o Brasil Longe estava da metrópole de hoje o Rio de Janeiro dos meados do século 19 Regulamentos particulares do porto eram tais que navios estrangeiros tinham de ancorar a certa distância da terra Em vez da massa de arranhacéus da Esplanada o morro do Castelo é que lá estava com suas casinholas antiquíssimas Perto do cais o Hotel Pharoux de três andares e além a torre da Candelária mais alta que os maiores prédios de 4 a 5 andares emergindo dentre os telhados escuros O Largo do Paço atual Praça 15 era o verdadeiro coração da cidade Dali partiam para bairros então considerados os mais distantes do Botafogo das Laranjeiras da Gamboa as conduções de aluguel ou coletivos todas de tração animal Nada de Avenida Rio Branco nem Presidente Vargas nem BeiraMar As mais notá veis ruas daquele tempo eram todas das mais estreitas rua do Ouvidor rua do Rosário e as transversais rua da Quitanda e rua Direita hoje 1º de Março Nesse âmago urbano contemplava o estrangeiro com surpresa matalotagem em ombros de escravos em originalíssima orgia de cores Ainda no mês de agosto a 31 diz Simonton ter feito culto a bordo do navio John Adams falando a mais de duzentos ouvintes que o aguardavam e que não tinham sempre oportunidade dessa Combinaram nova reunião para dali a duas semanas Conversou com o Dr Kalley o missionário escocês Este já fundara pequena igreja congregacional no bairro da Saúde Dr Kalley achou oportuna a entrada do missionário norteamericano pois teriam boa proteção de seu país Aconselha não obstante um trabalho velado método que lhe parece mais conveniente em país católico Simonton não compartilha das ideias de Kalley Servirá também aos patrícios e gostará de assegurar a influência social deles Mas veio sobretudo aos brasileiros e sua confiança está na proteção do Senhor Minha presença aqui e meus propósitos não podem ficar ocultos2 Um tal Dr Pacheco da Silva interessado em aulas de hebraico se propõe ajudálo no estudo do português Simonton enquanto aprecia as pectos pitorescos da vida brasileira como a parada do sete de setembro mostrase preocupado com o aprendizado da língua Continua a pregar em navios descobre famílias de língua inglesa na Praia Grande Confortase com as primeiras notícias de casa Sentime como se a atmos fera do lar me envolvesse quando li as cartas Difícil como é estar separado dos amigos é mais duro ainda não ter amigos crentes cujas orações nos acompanhem nas provações e nas alegrias da jornada É confortador quando peço por mim com fé vacilante saber que outros que sei serem povo de Deus oram também com o mesmo propósito 2 D P Kidder e J C Fletcher O Brasil e os Brasileiros Companhia Editora Nacional 1941 João Gomes da Rocha Lembranças do Passado 3 vols Centro Brasileiro de Publicidade 19411946 Ver Simonton Journal 31 de agosto de 1859 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 14 06032024 160239 O pioneiro 15 Prega na Saúde à Igreja de Kalley Confessa não ter sempre domínio comple to quando fala ex tempore Ao dirigir os cultos entre elementos de língua inglesa em terra ou em navios não há quem o ajude a cantar aproveitase por isso de partes da liturgia episcopal Mr G convidao a tomar em sua casa as refeições Simonton aceita agradecido e aprecia o convívio dessa família Faz algumas excursões e namora a natureza brasileira Entrementes aprende a língua Dá aulas aos filhos do Sr Eubank para aprender com eles a língua da terra Já é amigo da colônia de língua inglesa mas não tem interesse em integrarse nas suas preocupações temporais Um tal Sr A ajudao também a pôrse em contato com gente de bons colégios Quanto mais troca de aulas melhor até mesmo o Sr Leão Secretário da Instrução quer aprender inglês com ele Pelo mês de dezembro tem um ajuste de contas com o Dr Kalley Espalhara este um escrito anônimo lamentando que outro viesse ocupar a clareira já aberta para as plantações Por que interferir em campo alheio O Brasil tão vasto teria tantos lugares que poderiam ser ocupados por quem quisesse espalhar a verdade de Deus Simonton convida o Dr Kalley a um encontro privado e lamenta que o papel prejudicial e injusto à sua reputação estivesse sendo espalhado anoni mamente e viesse ao seu conhecimento por mãos de terceiros Como crentes e guias espirituais deviam lealdade um ao outro estava convencido de que os dois trabalhos não seriam prejudiciais um ao outro pois que pretendia usar métodos diferentes Kalley depois de algumas horas de reflexão voltou atrás procurando recolher os papéis distribuídos e pediu a Simonton que lhe desse a mão e orassem juntos Foi um belo triunfo da graça Vem o natal nos trópicos O primeiro passado assim do arrepio a todas as gratas associações da neve recobrindo a natureza e do aconchego dos seus Foi à capela inglesa com seus hospedeiros o casal G sempre tão agradável Vê escoaremse as últimas horas de 1859 grato porque seu campo de trabalho se delineia Não teve em 59 as indecisões do ano anterior O rumo estava traçado as perspectivas eram excelentes Aguarda a vinda da irmã Lille e de seu cunhado Blackford que a ele vão se aliar A Providência o guiava Já era conhecido de muitos brasileiros os passos com Kalley foram acertados já caminha no domínio da língua Por que inquietarse quanto ao futuro O que precisa é obedecer Passa a residir com o Sr Eubank cujos filhos seus alunos e mestres toma ramse de amizade por ele festejamlhe o aniversário a 20 de janeiro Apesar do calor que o obriga a subir a Tijuca e a Petrópolis e a febre amarela que o obriga a acompanhar alguns enterros está ele contente O cônsul Scott fazlhe declarações formais de que zelará pela liberdade religiosa e Kalley recebe cartas de advogados influentes seus amigos garantindo que tal liberdade será garantida Simonton registra crescente amizade pelo Dr Kalley e reconhecimento do seu valor como homem e como cristão História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 15 06032024 160239 16 História da Igreja Presbiteriana do Brasil Recebe notícia de que a viagem de Blackford fora adiada Mesmo antes do reforço importa prosseguir No último domingo dia 22 reuni uma escola dominical aqui em casa mesmo Foi meu primeiro culto em português As crianças do Sr Eubank estavam todas Também Amália e Marroquinas Knaak A Bíblia um catecismo de his tória sagrada e a Viagem do Peregrino de Bunyan foram nossos livros de texto3 Sabia português para fazer seu primeiro culto mas Marroquinas deve ser certamente sua maneira de escrever Mariquinhas São passados apenas 250 dias após seu desembarque 2 Antecedentes Ashbel Green Simonton nascera em West Hanover município de Dauphin Pensilvânia em 1833 Seu pai o Dr William bom médico e político influente morrera quando Simonton contava apenas treze anos Deralhe o nome de Ashbel Green em homenagem ao presidente do Nassau Hall na esperança de que algum dia viesse a ser como o Dr Green Sua mãe Martha Davis filha do piedoso pastor Snodgrass já tinha os filhos conduzidos na senda de educação sadia e de firme piedade Eram nove ao todo dos quais cinco homens sendo Ashbel o caçula Fez curso primário em Harrisburg e começando os estudos secundários aí mesmo foi terminálos no Colégio de Nova Jersey Nem bem formado em colégio com o propósito de adquirir experiência no ensino no trato das coisas e mesmo com a expectativa de ver definida a sua vocação dirigiuse ao sul Inicia então o diário cujo registro é às vezes espaçado mas que está repleto de observações interessantes Norfolk Petersburg Raleigh Fayetteville Columbia Atlanta Decatur Starkville Em Starkville Mississipi fixouse por algum tempo Em janeiro de 1853 a julho de 54 ali esteve ele regendo escola Academy for boys Retrata com humor as ocorrências do lugar e suas próprias reflexões sobre a vida de jovem Embora não seja um crente no sentido pleno da palavra é sensato e deseja acertar Aprende muito no sul Mas volta contente para o lar A escolha de uma profissão é matéria importante e requer decisão Não tenho tido pressa e até agora a tenho adiado uma vez tomada a decisão fico a pensar se os motivos que me influenciaram seriam os melhores Embora amigos dissessem ter ele jeito para o ministério evangélico não pensa ser este o caso Escolhe advocacia Tentações serão inevitáveis mas é uma carreira nobre E atirase ao estudo das leis 3 Simonton Journal 15 de setembro de 1859 19 de dezembro de 1859 28 de abril de 1860 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 16 06032024 160239 Antecedentes 17 Prossegue seu diário com observações finas sobre situações e pessoas às vezes viagem de recreio com colegas ou com irmãos Namoros Vêse contudo através daquelas páginas que é ele sensível às impressões religiosas e sempre respeitoso para com as coisas santas No dia 20 de janeiro de 1855 ao completar seu 22º aniversário propõe a si mesmo a pergunta se a vida não lhe tem sido muito sem propósito A 10 de março registra que um reavivamento se passa sobretudo em Nova Jersey O assunto religioso predomina Reconhece que o caso merece atenção ora e lê a Bíblia Já doutra vez em Princeton interesse desta ordem o alcançara mas ele julgava ter ficado pior do que antes Agora porém seu interesse era profundo não por qualquer razão emocional mas porque compreendeu que devia definirse Expôs mesmo em público seu propósito Não é um grande sentimento que se requer de um pecador para ser salvo Perseverarei até que a luz se faça no meu caminho E dia a dia reconhece lealmente que a insensibilidade de seu coração permanece Estuda Observa Ora Lê os Ensaios de Foster Ainda a 14 de abril após a reunião semanal de oração diz que compreende o evangelho mas não o sente Quer devotarse a Deus ao seu serviço mas 3 de maio Na terçafeira o conselho da Igreja reuniuse com os que queriam professar Vinte e dois ao todo Simonton é desse número Embora vacilante diz entrar para a Igreja para que a sua fé se confirme e possa se fortalecer Para conhecer o Senhor é preciso seguilo Ante a pergunta do Sr Weir se não gostaria de ser pregador reconhece que o fato de ter sido consagrado ao ministério por ocasião do batismo exerce sobre ele impressiva influência Professa a 6 de maio e assume os votos feitos pelos pais O serviço do Senhor será meu supremo alvo de vida No dia 20 desse mês tem sua primeira lição de hebraico pois não tem dúvida de que entrará para o Seminário de Princeton e os professores lá julgam que o contato com essa língua lhe será útil Iniciase efetivamente a segura preparação cursando o Seminário de Princeton Impõese disciplina corporal mental e espiritual Seu programa é cheio Um sermão do Dr Hodge a 14 de outubro o faz pensar seriamente em campos missionários No mesmo mês após reunião de oração a que pela segunda vez esteve presente declara a si próprio que o tempo virá em que terá de decidirse quanto ao trabalho missionário O importante será fazer a vontade do Senhor Meses depois ouvindo relatórios de missionários da Nova Zelândia as lutas e as vitórias entre canibais Simonton sente a beleza dessa empresa A gloriosa obra se processa por instrumentalidade frágil Mesmo que eu fosse trabalhar e morresse sem que me fosse dado ver o tempo da promessa não me importaria Eu teria tomado parte Submetermeei à sua vontade Em férias faz viagem de colportagem ao middlewest Voltando a Prin ceton está quase decidido a oferecerse ao Board de Missões Maravilhase História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 17 06032024 160239 18 História da Igreja Presbiteriana do Brasil também após as férias de que línguas como hebraico árabe ou cognatas sejam bem aprendidas e melhor desaprendidas gotten and forgotten4 Já no fim do curso fere o joelho quando fazia exercício no ginasium Depois de semana o Dr Pancoast prescreve séria operação para que não fique pelo resto da vida defeituoso Considera nesse período mais seriamente a vocação missionária Em vir tude de entrevista com o Dr J Leighton Wilson um dos secretários do Board of Foreign Missions sua atenção é seriamente voltada para Bogotá como seu campo de trabalho Correspondese com o Dr Horace Pratt missionário já estabelecido naquela cidade Muitas igrejas em que pregara disputavamlhe os serviços na pátria Mesmo um de seus professores procurou dissuadilo de ir ao estrangeiro sua carreira como pregador dizia garantirlheia lugar preeminente Nada porém o demove Obtido o consentimento da velha mãe candida tase como missionário perante o Board em novembro de 1858 mencionando o Brasil como o campo de sua preferência O Board em dezembro respondeulhe favoravelmente com a condição de removêlo caso as condições no Brasil não estivessem maduras para o estabelecimento do campo missionário Faz estágio com o Rev W H Foot em Romney Virgínia com vistas à ex periência pastoral As igrejas da região pedemlhe formalmente que reconsidere a decisão de partir Queriamno como pastor Simonton considera que a decisão é definitiva Vai a Nova York e põese a estudar português É ordenado pelo Presbitério de Carlisle a 14 de abril de 1859 O sermão que pregou sobre Passa à Macedônia foi publicado no Presbyterian Magazine Seu tio o Rev W Snodgrass fez a parênese Por conselho do Dr J Leighton Wilson visitou o Western Seminary em Allegheny Pensilvânia para conhecer o Sr Alexander L Blackford que acabara de ser ordenado e fora também aceito como missionário para o Brasil Alguns dias de convívio alicerçaram sólida amizade Blackford tornouse seu cunhado e veio depois efetivamente para o mesmo setor missionário5 Sua mãe e John seu mano acompanharamno até Baltimore No Banshee navio mercante oraram com ele na cabine em que viajaria Era 18 de junho de 1859 Da estada de franceses e de holandeses no Brasil nos tempos coloniais nenhum traço de protestantismo restara O catolicismo romano que aqui estivera muito tempo isolado do mundo assumira características não combativas O povo simples supersticioso e ignorante apresentava reservas de sinceridade Uma vez introduzidas no Brasil as Escrituras e isto só no século 19 encontraram terreno propício ao florescimento da fé O clero não era abundante nem sempre levava 4 Simonton Journal 12 de julho de 1854 4 defevereiro de 1856 e 8 de fevereiro de 1858 5 Joseph Wilson The Presbyterian Historical Almanach 1868 Coleção Boanerges Ribeiro História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 18 06032024 160239 Antecedentes 19 a sério seus deveres religiosos e constituído de elementos nacionais envolviase não raro na política Se não ajudava a espiritualidade do povo também não exercia a opressão que mais tarde veio a exercer O romanismo do século 19 não estava alerta Tudo era seu Salvo exceções não houve a princípio sérias oposições à disseminação da Bíblia A influência maçônica a que muitos padres tinham servido era a favor da liberdade de cons ciência Feijó pregou o celibato e desejou a vinda de Irmãos Morávios para que se dedicassem a educar nossos indígenas Em virtude de tratado comercial com a Inglaterra desde 1810 era facultada aos estrangeiros a construção de suas capelas contudo sem formas exteriores de templos Ingleses e alemães as haviam construído em 1823 e 1837 respecti vamente mas imigrantes que eram não se empenhavam em fazer conhecida e aceita sua fé Muito mais significativa para a evangelização do país tinha sido a atuação de sociedades bíblicas a Britânica e a Americana que fundadas no princípio do século 19 não tardavam em enviar exemplares das Escrituras ao Brasil Para isso valiamse especialmente dos bons ofícios de comerciantes em viagem os quais as colocavam à disposição de quem as desejasse deixandoas mesmo algumas vezes pura e simplesmente abertas nas alfândegas Os metodistas de Tennessee promoveram a vinda do Rev Fountain Pitts em 1835 Fez pouco mais que ins peções Logo depois aqui aportou o Rev J Spaulding o qual chegou a fundar escolas Não ficou porém no Brasil Daniel Kidder primeiro e depois James Fletcher exerceram a função de agentes de Sociedades Bíblicas Até 1854 essas duas sociedades bíblicas haviam distribuído 4000 exemplares das Escrituras nos cinco anos seguintes distribuíram 20000 Em 1855 viera o médico escocês Robert R Kalley já perseguido na Ilha da Madeira onde exercera grande atividade evangelística Kalley fundou no Brasil a primeira Igreja de cunho missionário e de caráter estável Até hoje ela existe no Rio de Janeiro É a Igreja Evangélica Fluminense À chegada de Simonton já há quatro anos Kalley desenvolvia sua atividade evangelística Convidara três famílias de madeirenses Gama Jardim e Fernandes a virem dos Estados Unidos onde se haviam refugiado para cooperarem com ele Chegaram cerca de um ano após Kalley Dois de seus crentes William Pitt vindo da Inglaterra em 1855 e Esher também de família estrangeira fundaram uma escola em 1857 Os demais davam parte do tempo à colportagem por conta de Kalley e parte ao trabalho ordinário no Arsenal da Marinha Em 1858 a 11 de julho Kalley recebera Pedro Nolasco de Andrade o primeiro professo primícias da Igreja Fluminense Damas ilustres como Gabriela Augusta Carneiro Leão e Dona Henriqueta Soares do Couto haviam sido recebidas à Igreja no início do ano de 1859 Kalley pelas atividades profissionais pelos cultos pela colportagem de seus auxiliares pela publicação de artigos e traduções no Correio Mercantil já despertara a atenção do clero que contestava a legitimidade de sua propaganda História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 19 06032024 160239 20 História da Igreja Presbiteriana do Brasil A oposição chegara ao ponto de exigir que deixasse a clínica Ele fez exame e revalidou seu diploma O Núncio Apostólico dissera ser necessário tapar a boca do inglês Valerase da própria legação inglesa Kalley porém além da legislação e do diploma tomara pareceres por escrito de três grandes jurisconsultos sobre a liberdade religiosa Kalley alcança a vitória dandose o governo por satisfeito com suas explicações A legação inglesa precisava dar satisfações ao Ministro do Exterior do Brasil Sr Paranhos Kalley já ia conseguindo ganhar terreno6 Simonton chegara pois em hora plena de oportunidade O Brasil se abria ao evangelho Ao candidatarse como missionário do Board de Nova York naquele 25 de novembro de 1858 dissera o pioneiro presbiteriano fiz menção do Brasil como o campo pelo qual me sinto mais profundamente interessado mas deixei ao Board a decisão final do meu destino7 Tempo de penetração O Brasil estava pronto para ouvir o evangelho estava porém ainda por ouvir o evangelho 3 A igrejamãe No começo do ano de 1860 mesmo após seu primeiro culto em português sob a expectativa da chegada de Blackford a fase da vida de Simonton é ainda de conveniente preparação Outra semana de estudo sossegado Não faço mais do que prepararme Sintome às vezes impaciente com minha inutilidade e quase in vejoso dos pastores que na pátria domingo a domingo têm multidões a ouvilos Monticello o pequeno navio a vela em que Blackford e Lille a irmã de Simonton partiram de Baltimore em fins de abril não chegara até meados de julho e dele não havia notícias Sabiase apenas que fora surpreendido por tremenda tempestade As esperanças de Simonton na cooperação do cunhado e no carinho da irmã iam sendo consumidas dia a dia Nem mesmo nos Estados Unidos ou na Inglaterra sabiam do paradeiro do Monticello Dizia Simonton não estar desesperado pela misericórdia do Senhor8 Blackford contanos depois a história de sua aventura Levantamos ferro quintafeira à tarde a 26 de abril e na altura de 28 graus de latitude fomos tomados por tempestade do Gulf Stream Todos estavam acordes em que nunca tinham visto coisa semelhante Prosseguiu a tormenta 6 Kidder e Fletcher O Brasil e os Brasileiros Vicente Temudo Lessa Anais da 1ª Igreja Presbiteriana de São Paulo João Gomes da Rocha Lembranças do Passado ÉmileG Léonard O Protestantismo Brasileiro Revista de História da Universidade de São Paulo 19511952 7 Simonton Journal 27 de novembro de 1858 8 Ibid 8 de julho de 1860 e 21 de julho de 1860 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 20 06032024 160239 A presente obra é um dos clássicos da historiografia protestante no Brasil Nenhuma outra denominação do país tem sua história narrada em um texto dessa envergadura somando mais de 800 páginas O livro foi inicialmente preparado para as comemorações do centenário do presbiterianismo pátrio 1959 Seguiuse uma segunda edição três décadas depois 1992 e agora decorrido pouco mais de três décadas vem a lume a terceira edição O Rev Alderi Souza de Matos é o historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil O Rev Júlio Andrade Ferreira 19122001 foi pastor de várias igrejas professor de teologia e prolífico escritor Notabilizouse como um dos grandes intelectuais da Igreja Presbiteriana do Brasil à qual dedicou toda a sua carreira ministerial Além de lecionar no Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas foi o primeiro historiador oficial da IPB cargo que exerceu por várias décadas Nessa função acompanhado de alguns colaboradores criou o Museu Presbiteriano e organizou o Arquivo Histórico da igreja EDITORA CULTURA CRISTÃ wwweditoraculturacristacombr História da Igreja Presbiteriana do Brasil 18591959 Júlio Andrade Ferreira HISTÓRIA DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL Alderi Souza de Matos ORGANIZADOR VOLUME II 19031959 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 19031959 Volume II de Júlio Andrade Ferreira 1992 Editora Cultura Cristã Todos os direitos são reservados 2ª edição 1992 3ª edição 2024 Conselho Editorial Cláudio Marra Presidente Christian Brially Tavares de Medeiros Giuliano Letieri Coccaro Joel Theodoro da Fonseca Jr Misael Batista do Nascimento Pedro Lucas Dulci Pereira Tarcízio José de Freitas Carvalho Victor Alexandre Nascimento Ximenes Produção Editorial Revisão Alderi de Souza Matos org Poliana Coutinho Wilson Neto Sandra Dantas Editoração Lidia de Oliveira Dutra Capa Ideia Dois Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP F383h Ferreira Júlio Andrade História da Igreja Presbiteriana do Brasil volume 2 Júlio Andrade Ferreira São Paulo Cultura Cristã 2024 3ª ed 376 p História da Igreja Presbiteriana do Brasil 2 ISBN 9786559892815 1 História 2 Presbiterianismo II Título CDU2851 Sueli Costa Bibliotecária CRB85213 SC Assessoria Editorial SP Brasil A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus símbolos de fé que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos o Maior e o Breve Como Editora oficial de uma denominação confessional cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição Existe a possibilidade porém de autores às vezes mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral pela denominação e pela Editora de todos os pontos de vista apresentados A posição da denominação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé EDITORA CULTURA CRISTÃ Rua Miguel Teles Júnior 394 CEP 01540040 São Paulo SP Fones 08000141963 11 32077099 wwweditoraculturacristacombr cepceporgbr Editor Cláudio Antônio Batista Marra História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 2 06032024 155957 Sumário Parte IV Período de reconstituição 19031917 112 Uma terceira igreja independente 9 113 A pena de ouro 12 114 O julgamento de um historiador 17 115 Adesões à Igreja Independente 22 116 Rua Maranhão 38 117 Memórias do Rev Matatias41 118 Entrada do presbiterianismo no Estado do Espírito Santo 54 119 Velhos campos do Sul e do Oeste 59 120 Separase a Missão Leste 63 121 Os campos do Centro 65 122 Perseguição clerical no tempo da República 68 123 Formase o Presbitério BahiaSergipe 72 124 Evangelizando o Setentrião 78 125 A obra educativa do Nordeste 85 126 Seminário do Norte 88 127 O Seminário do Sínodo em Campinas afinal 94 128 Organizase a Assembleia Geral 100 129 O delegado brasileiro 102 130 Obreiros da Missão Sul 105 131 As missões de Nashville 106 132 Mackenzie College 111 133 Obreiros da Missão Central perspectivas e entraves 113 134 Mais histórias do Rev MacCall 115 135 Alto Jequitibá dos itinerantes 119 136 Samuel Barbosa o consagrado 122 137 Outros obreiros ao organizarse a Assembleia 124 138 A inspeção do Brasil Central 126 139 Ressurreição das Missões Nacionais 130 140 Fundase a Missão em Portugal 134 141 Começos da evangelização de Mato Grosso 140 142 Contato com outras igrejas 142 143 Aproximação com os independentes 145 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 3 06032024 155957 4 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 144 O médico amado 149 145 O fim da primeira geração 153 146 O primeiro missionário do Brasil em Portugal 156 147 Os campos que precederam o Modus Operandi 162 148 Modus Operandi 171 Parte V Período de organização 19171946 149 Uma palavra aos leitores de hoje e aos futuros historiadores 181 150 O roteiro das Américas 182 151 Congresso de Ação Cristã na América Latina 188 152 Comissão Brasileira de Cooperação 192 153 Seminário Unido 196 154 Vida e morte na imprensa presbiteriana 201 155 Evolução das instituições educacionais do Nordeste 204 156 Jerônimo Gueiros 206 157 Efêmera congregação presbiteriana no Rio Grande do Sul 209 158 A morte de Álvaro Reis 211 159 Tombam os heróis de Lavras 214 160 JMC 219 161 O resto da história do Unido 221 162 O Seminário do Norte em Recife 223 163 Seminários do meu tempo 226 164 Os presbiterianos e os hinários 229 165 A Bíblia no Brasil e a colaboração presbiteriana 231 166 Formase a Confederação Evangélica 233 167 O casal Pitta e as cartas de Lisboa 235 168 A questão Facchini 243 169 Literatura evangélica e editoras no Brasil 252 170 Capítulo inacabado uma galeria de leigos 255 171 Famílias presbiterianas 263 172 Sínodo Setentrional 264 173 Sínodo BahiaSergipe 269 174 Sínodo MinasEspírito Santo 271 175 Sínodo Central 281 176 Sínodo Oeste do Brasil 285 177 Sínodo Meridional 289 178 A Missão Norte 293 179 A Missão Leste 295 180 A Mssão Oeste297 181 A Missão Central 302 182 A Missão Sul 306 183 Landes e seus companheiros 312 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 4 06032024 155957 Sumário 5 184 Instituto Bíblico de Patrocínio 314 185 A Missão Caiuá 316 186 A organização das senhoras321 187 A organização da mocidade324 188 Junta Mista de Missões Nacionais 330 189 Orfanatos presbiterianos 335 190 Igrejas presbiterianas independentes 337 191 Casa Editora Presbiteriana 339 192 O último capítulo da Missão em Portugal 340 193 As Constituintes 346 194 Conselho Interpresbiteriano CIP 348 195 Problemas atuais 350 196 Movimentos de cooperação 358 197 Campanha do centenário 359 Índice de personagens 365 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 5 06032024 155957 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 6 06032024 155957 Parte IV Período de Reconstituição 19031917 Desde a origem da Igreja Presbiteriana Independente até a Comissão do Modus Operandi História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 7 06032024 155957 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 8 06032024 155958 Uma terceira igreja independente 9 112 Uma terceira igreja independente Quando ia saindo o grupo do templo do Largo dos Guaianazes bradou alguém À 1ª Igreja E perto das onze da noite abriramse as portas do templo da rua 24 de Maio para acolher os que vinham reunirse ali em hora tão adiantada Era como se fosse um culto de vigília Passava de meianoite quando foi regressando cada um ao seu lar Foi uma hora de emoção Lágrimas deslizavam pelas faces Subiam expressivas orações Entoavamse hinos ao Senhor alguns dos quais foram sempre repe tidos naquelas primeiras reuniões Um deles o Chuvas de bênçãos Outro o Cantai a Cristo o Salvador Um pendão real foi o mais celebrado e converteuse em Marselhesa do novo ramo presbiteriano Pela Coroa Real do Salvador era o brado de guerra Orações hinos e breves discursos naquela noite De joelhos em terra pediram luzes para as jornadas seguintes Em 1º de agosto quando o Sínodo abriu as suas sessões na Igreja Unida um grupo deixou de responder motivo de tristeza para os espíritos piedosos O grupo dissidente reuniuse às onze e quarenta e cinco na 1ª Igreja para dar início a um trabalho de organização Na reunião da noite havia sido lembrado pelo Rev Ernesto o nome do Rev Eduardo C Pereira para a presidência Por prudência o recusou No regime passado fora muito acusado de querer elevarse Foi então aclamado moderador o Rev Caetano Nogueira Júnior que era um verdadeiro homem de Deus por todos assim reconhecido Para secretário temporário foi apontado o Rev Vicente Temudo que também veio a ser o secretário permanente Após os exercícios religiosos dirigidos pelo moderador verificouse a presença de sete ministros Caetano Nogueira E C Pereira Bento Ferraz Ernesto de Oliveira Otoniel Mota Alfredo Teixeira e V Temudo e dos presbíteros que haviam tomado parte no Sínodo Dinarte Ferreira Coutinho de Ribeirão do Veado Delfino Augusto de Morais de Avaré Saturnino Borges Teixeira de Borda da Mata Antônio José de Souza de São Bartolomeu Júlio Olinto de Cabo Verde Aquilino Nogueira Cesar de Matão Paraná José Celestino de Aguiar de Lençóis João da Mata Coelho de Cruzeiro Sebastião Pinheiro de Campinas e José Antônio de Lemos de São Manoel Na sessão seguinte compareceu o presbítero de Campestre Severo Virgílio Franco Ao todo onze presbíteros que se desligaram do Sínodo Manoel da Costa que se conservou no Concílio deveria ser o décimo segundo Embora concordando com a incompatibilidade votou com a maioria com restrições fundamentando o seu voto que ficou História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 9 06032024 155958 10 História da Igreja Presbiteriana do Brasil nas atas do Sínodo nos seguintes termos O abaixoassinado votando sim no último parecer da comissão de papéis e consultas não concorda entretanto com os seus considerandos por entender que a maçonaria é incompatível com o evangelho Ao número porém dos onze desligados do Supremo Concílio foram acres centados outros de presbíteros que haviam tomado parte nas sessões dos presbitérios ao lado do Sínodo e que agora aderiam Foram assim arrolados naquela sessão de 1º de agosto Joaquim Honório Pinheiro da 1ª Igreja de São Paulo Francisco Pires de Camargo de Lençóis João Garcia Novo de MogiMirim e João do Amaral Camargo de Bela Vista de Tatuí Com isso elevouse o número dos membros fundadores do novo presbitério sete ministros e quinze presbíteros Depois de constituída a mesa foi exposto o desígnio da reunião Deuse à nova organização o nome de Igreja Presbiteriana Independente e ao presbitério o de Presbitério da Igreja Presbiteriana Independente ou mais simplesmente Presbitério Independente Embora não conste da ata é bom registrar que o Rev Alfredo Teixeira havia proposto o nome da Igreja Presbiteriana Livre à semelhança do que se dera na Escócia Como porém os casos não eram análogos não foi aceita a sugestão Foi então proposto o ato constitutivo Nós abaixoassinados ministros e pres bíteros regentes que nos desligamos do Sínodo da Igreja Presbiteriana do Brasil pelos motivos constantes do Protesto que publicaremos nos constituímos em Presbitério com poderes de Assembleia Geral com o nome de Presbitério da Igreja Presbiteriana Independente aceitando como constituição de nossa igreja a Confissão de Fé da Igreja Presbiteriana e os Catecismos Maior e Breve bem como o Livro de Ordem que abrange a forma de governo e as regras de disciplina e o diretório do culto Três documentos foram logo redigidos um Protesto dirigido ao Sínodo contendo as razões da separação Vinham nele os tópicos que representavam os inconvenientes da maçonaria na vida cristã Assim terminava o Protesto que foi incluído e publicado nas Atas do Sínodo Nós abaixoassinados ministros do santo evangelho e representantes de diversas igrejas em nome da suprema autoridade da Palavra de Deus sobre todo o entendimento solenemente protestamos contra o ato do Sínodo em colocar os erros maçônicos no rol de coisas secundárias e declaramos a maçonaria incompatível com o evangelho e com a supremacia de Jesus Cristo como Profeta Sacerdote e Rei no seio da igreja e isto fazemos para honra e glória de nosso Senhor Jesus Cristo Os outros eram um Manifesto à Igreja Presbiteriana no Brasil e outro às Igre jasMães por intermédio das juntas missionárias de Nova York e Nashville Nestes manifestos era explicada a nova situação O protesto tinha a assinatura dos membros dissidentes do Sínodo Os manifestos tinham mais a dos quatro representantes de presbitérios J Honório Pinheiro João Garcia Novo João do Amaral Camargo e F Pires de Camargo Vinha ainda a de dois presbíteros História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 10 06032024 155958 Uma terceira igreja independente 11 da 1ª Igreja que haviam tomado parte saliente no movimento Remígio de Cerqueira Leite e Antônio Ernesto da Silva Um dos pontos tratados nos primeiros trabalhos da reunião do novo presbitério foi o reconhecimento da incompatibilidade entre a maçonaria e a igreja Tomaramse medidas para a distribuição das forças evangelizadoras Nomearamse comissões para diversos fins uma das quais para o estudo de um plano de educação O Rev Otoniel foi nomeado tesoureiro do presbitério Receberamse comunicados da adesão de duas igrejas ao movimento a de Itatiba e a 1ª Igreja Presbiteriana A de Itatiba foi a primeira Não deixa de ser interessante que estas duas primeiras adesões eram de igrejas que representavam os dois grupos missionários a de Itatiba organizada pelos missionários do sul a de São Paulo pelos missionários do norte A reunião do Presbitério Independente encerrouse a 5 de agosto Na noite do dia 3 reuniuse a Assembleia Geral da 1ª Igreja para definir a sua posição em face do novo regime Foi convocado para a presidência o presbí tero Manoel da Costa que apesar de ter ficado com o Sínodo tinha o seu coração ligado à igreja de sua mocidade A proposta de adesão foi assinada por Guilherme Castanho Outra de J A Corrêa solicitava ao presbítero Manoel da Costa que continuasse no seu posto de presbítero Os seis ministros inde pendentes que estavam presentes além do pastor foram convidados a tomar assento como membros correspondentes e a dirigir palavras de animação à assembleia Na véspera havia sido levantada uma coleta para o novo fundo de Missões Presbiterianas criado pelo presbitério Rendera 480000 Mais uma coleta na assembleia 1115000 As duas 1595000 Havia já com que ocorrer às primeiras despesas O Sínodo prolongou as suas sessões até ao dia 6 Até ao dia 5 na véspera todas as manhãs haviam sido chamados e dados como ausentes os membros dissidentes Era uma prova de atenção do concílio Foi só na sessão das 3 da tarde do referido dia 5 que por proposta de Erasmo Braga e Laudelino de Oliveira foram riscados do rol os seus nomes sendo o Protesto arquivado sem resposta Naqueles dias que se seguiram ao 31 nos dois concílios separados experimen tavase uma sensação de pesar e de alívio ao mesmo tempo De pesar pelas amarguras da separação Israel cindiase mais uma vez Era cruciante a dor De alívio porquanto ambos os grupos podiam trabalhar mais livremente sem suspeitas nem desconfianças numa unanimidade de vistas Triste é dizêlo O espírito humano é sempre o mesmo ainda quando debaixo de benéficas influências Assim foi de início na igreja de Jerusalém Igualmente com Paulo e Barnabé Assim nas longas páginas da história eclesiástica do oriente e do ocidente Controvérsias amargas dissídios separações cruzadas guerras santas assim chamadas muita coisa justa e muita coisa condenável tudo em nome da religião cada qual entendendo lutar pela causa da verdade e da justiça Ausência manifesta dos sentimentos de caridade e de prudência História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 11 06032024 155958 12 História da Igreja Presbiteriana do Brasil Agora o nome da nova denominação presbiteriana Igreja Presbiteriana In dependente A história se repete Foi o nome que acudiu aos lábios do Rev Dagama quando em 1892 se desligou do Presbitério de Minas O grupo que lhe ficou fiel tomou o nome de Igreja Presbiteriana Independente Foi tam bém o nome que tomou a 2ª Igreja Presbiteriana de São Paulo em meados de 1898 quando o Rev Carvalhosa renunciou a jurisdição do Presbitério de São Paulo Em números de O Estandarte e de O Puritano da época o velho ministro era chamado de pastor da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo Vinha agora um terceiro caso de consequências mais sérias Aquela que vinha a ser a terceira Igreja Presbiteriana Independente cinco meses depois na 2ª reunião do presbitério em Campinas apresentava um relatório de 100 profissões de fé O número de adesões passava de 2600 Tal não se dera com os movimentos de 1892 e de 1898 que se restringiram à esfera local O de 1903 teve repercussão em todo o arraial presbiteriano de Manaus a Santa Catarina e Goiás1 Esse capítulo é da autoria de Vicente Temudo 113 A pena de ouro O capítulo que se segue é nosso Retiramolo de Galeria Evangélica A vida de José Zacarias de Miranda ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil está presa a um difícil contexto É impossível apreciar a fase mais destacada de seu ministério sem entrar nas penosas lutas que motivaram a separação de membros do Sínodo Presbiteriano do Brasil em 1903 e que resultaram na formação da Igreja Presbiteriana Independente Para os que apreciam a paz e estimam os irmãos independentes como é o nosso caso a revivescência desses fatos não pode deixar de ser penosa e o contexto dessa vida não pode deixar de ser difícil Foi exatamente esse o motivo por que até hoje não se escreveu a vida de tal homem a quem a Igreja Presbite riana muito deve Foi esse o motivo sim pois o Rev Miguel Rizzo Júnior que conserva carinhosamente dados sobre a vida do antigo lidador não chegou a publicálos senão em parte receando diz ele fazer antes mal do que bem Resta saber penso eu se é bastante o motivo para deixar no esquecimento o nome do herói Não o entenderam assim os independentes em relação ao Rev Eduardo Carlos Pereira Opositor que foi do Sínodo Presbiteriano pole mista brilhante e severo seu nome aparece invariavelmente todos os anos nas colunas de O Estandarte bem como em outras publicações da denominação 1 Lessa Anais p 674 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 12 06032024 155958 A pena de ouro 13 Não há talvez ministro evangélico no Brasil cuja biografia seja tão conhecida quanto a do adversário de Zacarias de Miranda Deste não há nenhuma Os independentes hão de convir pois que a biografia de Zacarias é inspirada mais num dever de gratidão que no desejo de molestálos O estudo das causas e das consequências do cisma de 1903 não cabe todo ele evidentemente dentro deste capítulo Assim sendo não pretendemos explicar erros e valores mas apenas apontar certas feições da época e dos homens sabendo embora que desse inventário incompleto dos fatos pode resultar interpretação infeliz Que fazer De ambos os lados estou em aberto não quero deixar no esquecimento um varão trabalhador e para reviverlhe a memória cumpreme recordar fatos desagradáveis sem o espaço necessário para tudo esclarecer se é que se pode esclarecer convenientemente esse período de nossa história presbiteriana Vicente Temudo Lessa que de outro ângulo teve oportunidade de tratar do assunto confessava Presbiterianos e presbiterianos independentes pe nitenciemonos ambos nós daqueles erros de nossos pais e resguardemonos no futuro lançando nas águas do esquecimento o que ficou para trás O juiz está à porta Ele mesmo porém historiador que era levantou o véu A história é feita para rememorar o passado e trazer advertência para o futuro A exaltação dos ânimos naquela época concorria para muitas injustiças De uma e outra parte desconheciamse os méritos de consagração dos obreiros Alfredo Borges Teixeira também do campo oposto ao de Zacarias também veterano daquelas refregas traznos testemunho insuspeito em artigo inserto em O Estandarte de 1º de agosto de 1938 Diz ele Na convicção de que o Sínodo de 1903 tinha se tornado herético a Igreja Presbiteriana Independente não só cortou a comunhão com todos os membros daquele concílio individualmente mas cogitou seriamente de tomar igual medida para com toda a igreja representada pelo mesmo A enormidade da coisa porém provocou uma reação chefiada aliás pelo Rev Bento Ferraz em que o bom senso triunfou impedindonos de dar o referido injusto e descaridoso passo Reconheceuse então que o ato do Sínodo considerado no conjunto dos motivos que o determinaram maçonaria problema educativo e paixões pessoais foi antes um erro grave do que uma apostasia O decorrer dos tempos justificou e acentuou cada vez mais esta maneira de considerar o caso A Igreja Presbiteriana continuou a crer e a propagar com fervor todas as doutrinas que a filosofia maçônica rejeita Incoerência Não importa o fato é que hoje e há muito tempo já em nossa igreja ninguém ousa dizer que a Igreja Presbiteriana é herética Estamos em plena comunhão com ela apesar de não estar oficialmente revo gada a resolução que causou a separação Razão tinha pois o Rev Carvalhosa de nos acusar de quebra do nono mandamento porque se eles não são hereges agora não o eram também naquele tempo Estávamos de fato levantando História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 13 06032024 155958 14 História da Igreja Presbiteriana do Brasil contra os irmãos um falso testemunho embora firmados em fatos verdadeiros e logicamente entendidos E agora acrescentamos nós Na convicção de que o Sínodo era herético os independentes se atiravam aos nossos campos propondo aos crentes desprevenidos o triste e impressionante dilema Cristo ou maçonaria Tal se deu em Campinas em MogiMirim em Botucatu em São Bartolomeu em Curitiba Eram verdadeiras convulsões em nossos campos evangelísticos com sinistro acompanhamento de discussões desavenças de família de luta pela posse das propriedades dos templos de acesso aos tribunais profanos Zacarias de Miranda redator da Revista das Missões Nacionais órgão de publici dade da Igreja Presbiteriana destinado aos assuntos internos da denominação viuse na contingência de fazer a defesa do Sínodo Fora ele o redator do triênio de 1900 a 1903 Mantiverase em silêncio ante essa efervescência das questões eclesiásticas por ordem do próprio Sínodo anterior Agora porém importava esclarecer a situação A princípio são artigos que apenas registram os fatos ocorridos Começa assim Passou o tufão Das nuvens negras amontoadas há tempo no horizonte de nossa igreja pressagiando medonho cataclismo acaba de romper a tempestade cujos estragos aí se acham em sua triste e dolorosa realidade Os da minoria alegavam que os missionários tinham desejado mesmo ba terlhes nas costas as portas do Sínodo que este não cria na mediação de Cristo que Importava esclarecer os fatos e as palavras A pena de Zacarias de Miranda o fez Pontos nos iii é o título de alguns artigos Reafirma sempre o desprazer com que é obrigado a entrar em questões dessa natureza Mas abismo chama abismo Os tempos eram acalorados demais para que adversários aceitassem explicações Ante novas circunstâncias como por exemplo a conversão do Dr Silva Rodrigues ao antimaçonismo a pena de Zacarias põese de novo a analisar as razões contrárias Que quer S S Pois lutemos ainda que isso nos seja sobremodo desagradável Uma das notas interessantes é que Zacarias de Miranda que procurava opor Eduardo a Eduardo usa da mesma arma analisando os dizeres de Silva Ro drigues antimaçonista contra Silva Rodrigues maçonista da fase anterior O assunto chega às vezes a ser fastidioso Notase não obstante além da segurança de linguagem e mesmo da beleza do estilo desse nosso escritor a firmeza com que defendia a posição do Sínodo que deixara o problema maçônico afeto à consciência individual A situação se complica ante a insistência com que se atribuíam aos Sínodos intenções que não eram suas Uma pastoral do Presbi tério Independente arranca da pena do nosso advogado o que ele chama de História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 14 06032024 155958 A pena de ouro 15 protesto manso e pacífico Mas um protesto Não admira pois as palavras textuais do Rev Caetano Nogueira do grupo adversário foram Para cumprirmos com a caridade estamos prontos a romper com a pastoral do presbitério As coisas já estavam em tal ponto nem um ano depois da separação que o Jornal Batista dizia serem as consequências do cisma muito mais graves do que mesmo as razões que o produziram Assim como os independentes tinham os sinodais por heréticos os que haviam permanecido fiéis ao Sínodo já não criam na sinceridade dos independentes Ante a interpretação dada pelo jornal O Estandarte à atitude paternal dos Boards missionários americanos a luta recrudesce Seguese uma série de artigos do redator da Revista com título Defendamonos É nosso direito é nosso dever Por menos edificante que fosse a matéria não se pode negar a elevação ao lado da energia de nosso advogado É verdade que ele encampou não na Revista mas noutro jornal o paralelo de mau gosto a que se tem feito referência entre Eduardo Carlos Pereira e Inácio de Loiola sendo o grupo inicial de ministros independentes comparado ao dos primeiros jesuítas Coisa da época Também O Estandarte num esboço do presbiterianismo paulistano refe rindose à fusão das igrejas Filadelfa e 2ª Presbiteriana de que nasceu a atual Igreja Unida com crua mordacidade assim se exprime Celebrouse o pacto de união nasceu a Igreja Unida Pilatos e Herodes se congraçaram Os dois pastores das igrejas que compuseram a Unida eram Modesto Carvalhosa amigo dos missionários e Zacarias de Miranda exmaçom Admira que em tal ambiente os artigos de Zacarias na Revista tenham sido o que realmente foram Zacarias de Miranda visto apenas o interesse da igreja sinodal foi o pulso gigantesco que lhe possibilitou a unidade Lamentamos contudo quem não o lamentaria que a tais angústias tivesse chegado a igreja O assunto é bem mais complexo Malentendidos e diversida des de opinião datavam já de uns quinze anos Os sucessos do próprio 31 de julho que não vão narrados neste lugar são pungentes Resta porém neste capítulo da vida de Zacarias de Miranda dizer uma palavra sobre a mão de gato Na noite de 31 de julho a hora temida Carlos Pereira ao despedirse do Sínodo usou as seguintes expressões Irmãos missionários permitime dirigirvos cordial despedida Procurei nas bases apresentadas pelo Dr Chester e Dr Ellinwood um plano de cooperação entre os missionários e os nacionais Vós o não quisestes creio que errastes o futuro porém o dirá E vós meus patrícios reagi quanto pude em favor do vosso prestígio moral nada consegui A maçonaria cavou um abismo entre nós e vós Ela foi porém o instrumento e se me permitis a expressão a mão de gato para tirar as castanhas do fogo Como vistes Cristo foi levantado no seio deste concílio por uns pregado numa cruz por outros e ainda por outros coroado de glória Vós ouvireis falar de História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 15 06032024 155958 16 História da Igreja Presbiteriana do Brasil nós nós ouviremos falar de vós e um dia perante o Juiz nos encontraremos Felicidades meus patrícios Foi hora de lágrimas Para se entender a expressão de que se serviu Pereira nessa hora a mão de gato há um contexto sobre o qual os independentes chamaram a atenção Antes do Sínodo em O Estandarte de 2 de julho há este trecho A maçonaria completamente desprestigiada em nosso meio religioso não teria por si só força para dividir a nossa Igreja Presbiteriana Ela vai talvez fazer apenas o papel de mão de gato e tirar para o Mackenzie as castanhas do fogo Reservalhe talvez a Providência o tremendo castigo de entregar uma parte da igreja aos planos de uma instituição fora da igreja Lamentamos hoje que tais palavras não tenham despertado convenientemente a atenção dos sinodais e que os artigos de Zacarias onde apesar dos pesares notase ainda elevação e energia tenham sido vazados numa interpretação avessa de a mão de gato Efetivamente para Zacarias a mão de gato era a ma çonaria não nas mãos do Mackenzie mas nas mãos de Pereira Teria sido uma confissão de que o motivo de todas as lutas não era primariamente a maçonaria O que nós hoje desprevenidos reconhecemos o advogado do Sínodo de então não conseguiu ver Outro contexto se lhe afigurava o verdadeiro É que na reunião do Presbitério de São Paulo Eduardo Carlos Pereira em proposta muito conhecida alegava que a retirada dos missionários de nossos concílios era o único meio de restabelecer a concórdia entre os membros do Sínodo Ora raciocinavam os sinodais se o problema missionário é o que perturba a nossa concórdia a maçonaria é desculpa E como já não acreditavam na sinceridade de Pereira É mesmo comédia de erros Ou melhor tragé dia de erros Já escrevi sobre esse assunto em apreciação ao livro do Prof Émile Léonard Erraram os missionários do Brasil erraram os dirigentes das Missões nos Estados Unidos erraram os maçons erraram os eduardistas errou o próprio Eduardo errou o Sínodo Quem é que não errou naquela fase tristemente inesquecível de nossa história E qual de nós não teria errado se fosse também protagonista daquela daquele quiproquó Erraram missionários no Brasil por atitudes antipáticas e descaridosas vejase a retirada ostensiva de Waddell de um de nossos concílios vejase a circular que Kyle distribuiu no Sínodo de 1903 Erraram os dirigentes das Missões em Nova York ouvindo informações tenden ciosas de Waddell Horácio Lane e de outros Erraram os ministros maçons A maçonaria não valia de qualquer modo o que custou à igreja nacional Só Lino da Costa e Zacarias de Miranda tiveram gesto nobre oferecendose para deixar a ordem por amor à paz da igreja Alguns outros não fizeram apesar de muitas consciências visivelmente escandalizadas Notamos até argumentos de maçons dentro do Sínodo que nos deixam boquiabertos Erraram os eduardistas por terem espírito faccioso por também desejarem forçar as consciências alheias com ameaça de separatismo que o Sínodo bem desejava evitar Errou o próprio Eduardo pois seus planos educativos História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 16 06032024 155958 O julgamento de um historiador 17 considerados inoportunos pelo Sínodo bem poderiam ficar de lado por algum tempo para o bem da igreja Sua retirada da diretoria do seminário a retração clamorosa de sua igreja nas contribuições sua falta de diplomacia às vezes como se pode ver de sua proposta ao Presbitério de São Paulo em 1902 Errou o Sínodo procurando racionalizar suas explicações Erraram jornalis tas invectivando uns aos outros Erraram crentes assinando em adesões sem ter conhecimento de causa Erraram pastores em correrias aos campos com objetivos proselitistas erraram assembleias de igrejas modificando estatutos Erraram Que as lições de seus erros nos sejam proveitosas Repetimos esta página para ficar claro que reconhecendo o valor de Zacarias Miranda não ignoramos as condições excepcionais em que escreveu como sem dúvida há de acontecer com os do campo oposto em relação a Carlos Pereira O Presbitério de São Paulo ainda sob o calor dos debates com espírito partidário ofereceu ao redator da Revista das Missões Nacionais uma pena de ouro em gratidão pelos serviços prestados à causa do Sínodo Guardamos no museu presbiteriano essa pena de ouro Faz parte de nossa história Guarda mola porém com uma fita negra Luto pelo espírito daquela época ouro pelo reconhecimento do valor de um homem de um escritor2 114 O julgamento de um historiador O professor ÉmileG Léonard da Escola de Altos Estudos da Sorbonne em Paris teve ocasião de estudar o que chamou as experiências eclesiásticas da Igreja Presbiteriana do Brasil Sobre o problema da formação da Igreja Indepen dente emitiu juízos que julgamos o leitor gostará de conhecer As questões pessoais e as reações humanas ofuscavam cada vez mais os pro blemas reais que estavam em jogo eles mesmos duma gravidade excepcional e que justificavam perfeitamente contanto fossem vistos e definidos com nitidez as lutas eclesiásticas e a separação pois tratavase de independência da igreja brasileira em relação às igrejasmães estrangeiras cujo papel poderia ser considerado como terminado e de modalidades de evangelização por meios unicamente eclesiásticos e religiosos mais direitos e mais francos do que a tática muito hábil da educação nos grandes colégios mistos Ora às questões e atitudes pessoais veio juntarse para acabar de complicar um problema falso através do qual as questões fundamentais que referimos vie ram a exprimirse mas num conjunto de circunstâncias as mais embaraçosas possíveis Tal foi a questão maçônica por cuja causa a divisão sem dúvida 2 Ferreira Galeria Evangélica p 151159 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 17 06032024 155958 A presente obra é um dos clássicos da historiografia protestante no Brasil Nenhuma outra denominação do país tem sua história narrada em um texto dessa envergadura somando mais de 800 páginas O livro foi inicialmente preparado para as comemorações do centenário do presbiterianismo pátrio 1959 Seguiuse uma segunda edição três décadas depois 1992 e agora decorrido pouco mais de três décadas vem a lume a terceira edição O Rev Alderi Souza de Matos é o historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil O Rev Júlio Andrade Ferreira 19122001 foi pastor de várias igrejas professor de teologia e prolífico escritor Notabilizouse como um dos grandes intelectuais da Igreja Presbiteriana do Brasil à qual dedicou toda a sua carreira ministerial Além de lecionar no Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas foi o primeiro historiador oficial da IPB cargo que exerceu por várias décadas Nessa função acompanhado de alguns colaboradores criou o Museu Presbiteriano e organizou o Arquivo Histórico da igreja História da Igreja Presbiteriana do Brasil 18591959 EDITORA CULTURA CRISTÃ wwweditoraculturacristacombr Resenha do Volume 1 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 1859 1903 A obra História da Igreja Presbiteriana do Brasil de Júlio Andrade Ferreira é um trabalho monumental que reconstitui com minúcia e riqueza documental os primórdios e o desenvolvimento do presbiterianismo no Brasil O primeiro volume dividido em três períodos históricos bem delimitados Penetração Expansão e Dissensão oferece ao leitor uma narrativa fluida que combina rigor histórico com sensibilidade para captar as nuances dos movimentos religiosos e as particularidades dos personagens que construíram essa denominação no país Assim na Parte I dedicada ao Período de Penetração 18591869 o autor nos apresenta a figura emblemática de Ashbel Green Simonton o pioneiro da missão presbiteriana no Brasil No capítulo 1 O Pioneiro Ferreira utiliza com maestria o diário pessoal de Simonton para reconstruir a chegada deste ao Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1859 suas primeiras impressões da Baía de Guanabara e os desafios iniciais da adaptação ao país As descrições vívidas transportam o leitor para o Rio de Janeiro do século XIX com suas ruas estreitas e peculiaridades urbanas tão distintas da metrópole atual Já no capítulo 2 Antecedentes complementa essa introdução ao traçar a trajetória de Simonton antes de sua vinda ao Brasil desde seu nascimento na Pensilvânia em 1833 até sua formação acadêmica e vocação missionária É especialmente tocante acompanhar sua jornada espiritual desde a decisão de seguir a carreira jurídica até a profunda transformação que o levou ao ministério e ao campo missionário A contextualização do Brasil religioso da época com menção à chegada prévia do Dr Robert Kalley e à distribuição das Escrituras pelas sociedades bíblicas situa adequadamente o terreno que Simonton encontraria Ainda nesta primeira parte destacase o capítulo 8 O padre protestante que narra a fascinante história de José Manoel da Conceição o primeiro pastor protestante brasileiro Nascido no ano da Independência e ordenado sacerdote católico Conceição representa um caso emblemático de conversão e ruptura com a tradição religiosa dominante Seu primeiro contato com protestantes em Sorocaba na Fábrica de Ferro de Ipanema e sua posterior transformação espiritual constituem um dos episódios mais significativos desse período inicial O capítulo 9 Imprensa Evangélica aborda a criação de um dos mais importantes instrumentos de difusão do protestantismo no Brasil oitocentista A fundação desse periódico representou um marco fundamental na estratégia missionária presbiteriana ampliando o alcance da mensagem para além dos limites das congregações Na Parte II que aborda o Período de Expansão 18691888 o autor demonstra como o presbiterianismo deixou de ser um fenômeno localizado para ganhar contornos nacionais Os capítulos 33 e 34 trazem histórias particularmente interessantes O padre José e as origens da igreja em Mogi Mirim e Conceição agoniza apresentam eventos significativos que ilustram tanto a expansão quanto os desafios enfrentados pelos primeiros presbiterianos brasileiros A figura do padre José outro sacerdote católico convertido reforça o padrão de ruptura religiosa que caracterizou alguns dos primeiros líderes presbiterianos nacionais Já os capítulos 35 e 36 Pioneiros do Nordeste e O Roteiro do Norte documentam a expansão geográfica do movimento para regiões distantes do eixo RioSão Paulo evidenciando o caráter nacional que o presbiterianismo assumia Essas narrativas mostram como apesar das distâncias e dificuldades logísticas da época formouse uma rede de igrejas e congregações em diversas províncias do Império Na Parte III dedicada ao Período de Dissensão 18881903 já aborda as tensões e conflitos que culminaram na divisão da igreja O capítulo 76 De Escola Americana a Mackenzie College oferece um estudo detalhado sobre a transformação de uma instituição educacional presbiteriana que se tornaria um dos pontos de discórdia dentro da denominação Sob a direção do Dr Horácio Lane essa instituição desenvolveu métodos pedagógicos inovadores e produziu material didático pioneiro com destaque para a gramática de Pereira e as aritméticas de Trajano A modernização dos métodos educacionais e a crescente influência da instituição sobre o próprio sistema educacional público de São Paulo ilustram tanto o sucesso do empreendimento quanto as tensões que gerava dentro da denominação Assim Ferreira demonstra grande habilidade na reconstrução desse período complexo utilizando ampla documentação primária e apresentando as diferentes perspectivas em jogo Portanto a obra constitui assim não apenas uma história denominacional mas um importante estudo sobre o protestantismo brasileiro e sua inserção na sociedade nacional durante o Império e os primeiros anos da República Resenha do Volume 2 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 1903 1959 O segundo volume da História da Igreja Presbiteriana do Brasil de Júlio Andrade Ferreira dá continuidade à narrativa histórica iniciada no primeiro volume concentrandose nos períodos de Reconstituição 19031917 e Organização 19171946 Com a mesma abordagem cuidadosa e rigorosa o autor examina como a denominação se reestruturou após o cisma de 1903 e estabeleceu bases institucionais mais sólidas nas décadas seguintes consolidando sua presença e influência no cenário religioso brasileiro Na Parte IV dedicada ao Período de Reconstituição 19031917 o autor aborda diretamente as consequências imediatas da divisão que deu origem à Igreja Presbiteriana Independente O capítulo 112 Uma terceira igreja independente escrito originalmente por Vicente Temudo Lessa reconstitui com detalhes o momento dramático da separação quando o grupo dissidente liderado por Eduardo Carlos Pereira reuniuse para organizar formalmente a nova denominação A narrativa da emocionante reunião noturna no templo da rua 24 de Maio após a saída do grupo do templo do Largo dos Guaianazes captura a tensão e a emoção daquele momento histórico Foi uma hora de emoção Lágrimas deslizavam pelas faces Subiam expressivas orações Entoavamse hinos ao Senhor O autor detalha minuciosamente o processo de constituição do Presbitério Independente em 1º de agosto de 1903 com a presença de sete ministros e onze presbíteros que se desligaram do Sínodo É particularmente interessante observar como rapidamente a nova denominação cresceu apresentando um relatório de 100 profissões de fé apenas cinco meses depois com o número de adesões passando de 2600 No capítulo 113 A pena de ouro extraído de sua obra Galeria Evangélica Ferreira oferece uma análise equilibrada sobre José Zacarias de Miranda defensor do Sínodo durante a controvérsia que levou ao cisma O autor demonstra notável sensibilidade ao abordar esse tema delicado reconhecendo que para os que apreciam a paz e estimam os irmãos independentes a revivescência desses fatos não pode deixar de ser penosa Ao mesmo tempo ressalta a importância de não deixar no esquecimento figuras relevantes da história denominacional O texto apresenta uma análise nuançada do conflito utilizando até mesmo testemunhos de membros da Igreja Independente que anos depois reconheceram excessos cometidos durante o período de separação A metáfora da pena de ouro com uma fita negra guardada no museu presbiteriano sintetiza brilhantemente a ambiguidade daquele momento histórico Luto pelo espírito daquela época ouro pelo reconhecimento do valor de um homem de um escritor Já o capítulo 125 A obra educativa do Nordeste ilustra como a denominação mesmo após o cisma continuou investindo em educação área tradicionalmente forte no presbiterianismo brasileiro O autor destaca a fundação do Colégio Americano de Pernambuco atual Agnes Erskine por Miss Elisa Reed em 1º de agosto de 1904 apresentando a lista nominal dos dezoito primeiros alunos e utilizando poemas memorialísticos de exalunos como Cecília Rodrigues e Maurício Wanderley para caracterizar tanto a instituição quanto sua fundadora Era a mulher mais forte era a mulher mais cultaQue já vi entre nós Costumava dizerA mulher superior tudo pode ainda exultaEm cumprir o que à outra é impossível fazer A obra educativa no Nordeste não se limitou ao trabalho de Miss Reed incluindo também os esforços do Rev Henderlite que em Garanhuns iniciou a formação de pastores para a região Tenho quatro estudantes sob meus cuidados e já estou tomando providências para receber mais um Essa atenção às diferentes regiões do país demonstra a visão abrangente do autor que não se limita a narrar a história do presbiterianismo nos centros mais desenvolvidos Na Parte V dedicada ao Período de Organização 19171946 o livro documenta o amadurecimento institucional da denominação Destacase o capítulo 191 Casa Editora Presbiteriana que narra a criação de uma instituição fundamental para a disseminação do pensamento e da literatura presbiteriana no Brasil Fundada em 1946 durante a Campanha do Centenário a editora representou um esforço cooperativo significativo com uma estrutura de sociedade por ações das quais 60 ficariam com a igreja Supremo presbitérios ou igrejas locais O autor destaca as dificuldades iniciais enfrentadas pela editora e o papel decisivo de figuras como o Rev Boanerges Ribeiro e os presbíteros João Lupion Filho Armando Azevedo e Péricles de Oliveira Prado O crescimento vertiginoso da empresa é documentado por meio de números impressionantes para a época a CEP já publicou 2387500 folhetos 364000 opúsculos 153000 livros Já tem em sua lista de edições 77 títulos diferentes Suas vendas nestes nove anos ultrapassaram seis milhões de cruzeiros Ao longo de todo o segundo volume Ferreira mantém o estilo característico do primeiro combinando rigor histórico uso extensivo de fontes primárias e sensibilidade para captar as complexidades humanas por trás dos eventos institucionais Portanto o resultado é uma obra que transcende o interesse meramente denominacional constituindo um importante documento para a compreensão da história religiosa e cultural do Brasil na primeira metade do século XX
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Texto de pré-visualização
Júlio Andrade Ferreira HISTÓRIA DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL Alderi Souza de Matos ORGANIZADOR VOLUME I 18591903 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 18591903 Volume I de Júlio Andrade Ferreira 1992 Editora Cultura Cristã Todos os direitos são reservados 2ª edição 1992 3ª edição 2024 Conselho Editorial Cláudio Marra Presidente Christian Brially Tavares de Medeiros Giuliano Letieri Coccaro Joel Theodoro da Fonseca Jr Misael Batista do Nascimento Pedro Lucas Dulci Pereira Tarcízio José de Freitas Carvalho Victor Alexandre Nascimento Ximenes Produção Editorial Revisão Alderi de Souza Matos org Poliana Coutinho Wilson Neto Sandra Dantas Editoração Lidia de Oliveira Dutra Capa Ideia Dois Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP F383h Ferreira Júlio Andrade História da Igreja Presbiteriana do Brasil volume 1 Júlio Andrade Ferreira São Paulo Cultura Cristã 2024 3ª ed 480 p História da Igreja Presbiteriana do Brasil 1 ISBN 9786559892808 1 História 2 Presbiterianismo II Título CDU2851 Sueli Costa Bibliotecária CRB85213 SC Assessoria Editorial SP Brasil A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus símbolos de fé que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos o Maior e o Breve Como Editora oficial de uma denominação confessional cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição Existe a possibilidade porém de autores às vezes mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral pela denominação e pela Editora de todos os pontos de vista apresentados A posição da denominação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé EDITORA CULTURA CRISTÃ Rua Miguel Teles Júnior 394 CEP 01540040 São Paulo SP Fones 08000141963 11 32077099 wwweditoraculturacristacombr cepceporgbr Editor Cláudio Antônio Batista Marra História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 2 06032024 160238 À família Alzira Helena esposa Eder Elson Eliane filhos de cujo agradável convívio sacrifiquei horas no presente em busca do passado de uma família maior História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 3 06032024 160238 Arão e Hur sustentavamlhe as mãos Êx 1712 Entre os muitos que me sustentaram as mãos devo mencionar nesta página a colaboração econômica da World Alliance of Reformed Churches Aliança Mundial de Igrejas Reformadas e o apoio moral do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil que desde 1942 tem renovado sua confiança pondome à frente da Comissão do Histórico possibilitando a organização do Arquivo Presbiteriano e a redação deste livro A todos os generosos colaboradores que anos a fio olharam com simpatia este trabalho minha gratidão Dentre todos eles ocupa o primeiro lugar embora não o tivesse conhecido pessoalmente o Rev Vicente Temudo Lessa guardião do passado presbiteriano O leitor poderá ter uma ideia de como esta é uma obra coletiva lendo o último capítulo a que chamo um histórico deste histórico Será um prefácio no fim do livro Por ora o melhor é mesmo ir à história que nos propomos narrar História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 4 06032024 160238 Sumário Prefácio à 3ª Edição 9 Parte I Período de penetração 18591869 1 O pioneiro 13 2 Antecedentes 16 3 A igrejamãe 20 4 Reconhecimentos 25 5 O primeiro furlough 28 6 Nova sede missionária 31 7 O fim do romance 34 8 O padre protestante 37 9 Imprensa Evangélica 41 10 Brotas o primeiro núcleo do interior 44 11 O primeiro presbitério 49 12 O missionário itinerante 52 13 Estratégia missionária 54 14 Chamberlain entra para o ministério 58 15 Na esteira de Conceição 60 16 O campo de Santana 49 65 17 Deus encontrará outro 68 18 Seminário primitivo 70 19 Seu manto caia sobre nós 73 20 Quatro igrejas pioneiras 78 21 Balanço do primeiro decênio 83 Parte II Período de expansão 18691888 22 Migrações dos americanos do Sul 89 23 A nova missão 92 24 Preparação de um pioneiro 95 25 O Colégio Internacional 97 26 Carreiras efêmeras 99 27 A figura lendária das estradas 101 28 Schneider vai para a Bahia 108 29 Os frutos do seminário 111 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 5 06032024 160238 6 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 30 Travessa da Barreira 115 31 Escola Americana 117 32 Os valentes de Davi 121 33 O padre José e as origens da igreja em MogiMirim 125 34 Conceição agoniza 127 35 O pioneiro do Nordeste 129 36 O roteiro do Norte 132 37 Correspondências de Campinas 134 38 O outro presbitério 138 39 Jornais presbiterianos 140 40 Foramse de nós 142 41 À Barra do Evangelho 145 42 Seminaristas sem seminário 148 43 Mais notícias do Norte 150 44 Nova geração de igrejas 152 45 O Neófito 159 46 Que era feito dos pioneiros 160 47 Conceição é trasladado 163 48 Antônio Pedro 165 49 Novos pastores brasileiros 168 50 Sociedade Brasileira de Tratados Evangélicos 171 51 Educação e missão 175 52 Templos sem aparência exterior 178 53 Colportores os vanguardeiros 180 54 Perseguições clericais do tempo do império 183 55 Wardlaw em Fortaleza 186 56 Mais reforços missionários para o Nordeste 192 57 Ocupação de Sergipe 197 58 Desdobramentos da igrejamãe 199 59 Eduardo Carlos Pereira em Campanha 201 60 A caminho de Goiás 205 61 Campo de Botucatu 212 62 O sucessor de Antônio Pedro 214 63 A evangelização do Paraná 217 64 Primeira igreja presbiteriana do Rio Grande do Sul 222 65 Composição social das igrejas 224 66 Hinários e suas primeiras edições 230 67 Missões nacionais 234 68 O Sínodo 236 Parte III Período de dissensão 18881903 69 A mudança de período 243 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 6 06032024 160239 Sumário 7 70 As decisões do Sínodo 244 71 Presbitério de Pernambuco 247 72 Presbitério do Rio de Janeiro 254 73 Presbitério de São Paulo 261 74 Presbitério de Minas 269 75 Seminário o pomo da discórdia 282 76 De Escola Americana a Mackenzie College 287 77 Dificuldades eclesiásticas 294 78 A morte dos veteranos 301 79 O seminário em Friburgo 308 80 O Plano de Ação 310 81 Revoluções na imprensa presbiteriana 313 82 Instituto Teológico 318 83 A questão com o Mackenzie se complica 321 84 A 2ª Igreja Presbiteriana de São Paulo 325 85 O terceiro Sínodo 327 86 O seminário em São Paulo 329 87 A desconfiança dos Boards 333 88 A Moção Smith 346 89 Metendo a mão nos bolsos 350 90 A questão missionária 354 91 A questão educativa 360 92 A questão maçônica 365 93 O presbiterianismo do Norte no dobrar do século 369 94 Garanhuns a Antioquia pernambucana 380 95 O evangelista sinódico e o campo baiano 388 96 A igrejamãe recebe um grande pastor 395 97 A expansão rumo ao leste de Minas 399 98 Lavras campo de ação do dr Gammon 403 99 O campo do Rev Boyle 415 100 Raízes da Igreja Unida 420 101 Os sustentadores de velhos campos 422 102 Morrinhos a Sião do litoral Sul Paulista 429 103 Curitiba e o avanço do Sul 433 104 Os herdeiros de Conceição 443 105 Primeiras turmas do Seminário do Sínodo 446 106 A primeira escola evangélica do Norte 453 107 O Século 458 108 O seminário do Martinho 460 109 O Puritano 464 110 A Plataforma 468 111 O Sínodo de 1903 471 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 7 06032024 160239 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 8 06032024 160239 Prefácio à 3ª edição A presente obra é um dos clássicos da historiografia protestante no Brasil Nenhuma outra denominação do país tem sua história narrada em um texto dessa envergadura somando mais de 800 páginas O livro foi inicialmente pre parado para as comemorações do centenário do presbiterianismo pátrio 1959 Seguiuse uma segunda edição três décadas depois 1992 e agora decorridas outras três décadas vem a lume a terceira edição O autor era especialmente talhado para a tarefa Júlio Andrade Ferreira 19122001 foi pastor de várias igrejas professor de teologia e prolífico escritor Notabilizouse como um dos grandes intelectuais da Igreja Presbiteriana do Brasil à qual dedicou toda a sua carreira ministerial Além de lecionar no Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas foi o primeiro historiador oficial da IPB cargo que exerceu com eficiência por várias décadas Nessa função acompanhado de alguns colaboradores criou o Museu Presbiteriano e organizou o Arquivo Histórico da igreja hoje distribuídos entre Campinas e São Paulo De modo significativo ele foi também uma testemunha ocular da história do presbiterianismo Seus pais Joaquim José Ferreira e Gabriela Ernestina Andrade Ferreira conviveram com personagens da primeira geração de presbiterianos brasileiros Ainda no final do século 19 foram recebidos por profissão de fé e unidos em matrimônio pelo Rev Miguel Gonçalves Torres discípulo de Simonton e primeiro pastor evangélico de Minas Gerais O presbítero Joaquim um dos fun dadores da Igreja Presbiteriana de São João da Boa Vista SP teve forte atuação nos antigos concílios da igreja podendo ser visto em muitas fotografias da época Tendo sido o último de dez filhos Julhinho como era conhecido se con siderava o dízimo Vários de seus irmãos também foram fiéis presbiterianos mas só ele alcançou o ministério Sua produção literária foi considerável tanto em quantidade como em qualidade Além de apostilas das disciplinas que minis trava e de outros trabalhos não publicados vieram a lume em forma de livro O Apóstolo de Caldas vida e obra de Miguel Torres Galeria Evangélica ensaios sobre alguns pioneiros Profeta de Unidade biografia de Erasmo Braga Espiritismo Uma Avaliação Conheça sua Bíblia Conheça Sua Fé Apocalipse Ontem e Hoje e muitas outras publicações Todavia sua opus magnum é sem dúvida a presente História da Igreja Presbiteriana do Brasil Júlio foi um historiador extremamente dedicado sendo profundo conhe cedor de um notável acervo de fontes de alta relevância Ele também se destacou por suas reflexões cuidadosas por suas análises altamente esclarecedoras dos fatos sobre os quais se debruçou Finalmente apresentou seus dados e observações num belo e inconfundível estilo literário que confere à narrativa um sabor todo especial História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 9 06032024 160239 10 História da Igreja Presbiteriana do Brasil Na obra em tela ele não teve receio de recorrer a longas e frequentes citações das valiosas fontes que compulsou Na verdade muitos capítulos são transcrições quase integrais de outros autores como Vicente Temudo Lessa Boanerges Ribeiro Clara Gammon e Agláia Ximenes bem como de escritos de sua própria lavra Com isso ele divulgou textos que estavam esgotados ou ainda não tinham sido publicados na época em que o livro foi lançado Por causa das circunstâncias em que foi produzida a obra padeceu de algumas dificuldades A ausência de aspas em algumas citações gera dúvidas sobre quem está falando o autor ou a fonte que utiliza Outro problema está na documentação de certas fontes com notas bibliográficas incompletas ou portadoras de incorreções Com frequência o autor inclui traduções e citações um tanto livres que mais se aproximam de paráfrases Embora os editores e revisores da presente edição tenham feito um grande esforço no sentido de suprir essas e outras lacunas isso nem sem pre foi possível e os leitores atentos certamente descobrirão elementos que ainda carecem de reparos Para facilitar a identificação das citações extensas elas foram colocadas sempre que possível na forma de blocos distintos do texto principal Apesar dos senões o livro de Júlio Andrade Ferreira tem um valor incal culável ao retratar de modo ao mesmo tempo sério e atraente os personagens instituições eventos lutas crises e realizações de uma nova agremiação religiosa no contexto social brasileiro Mesmo havendo transcorrido mais de meio século desde a sua publicação inicial o texto continua a ter alta relevância tanto para os estudiosos quanto para o público leigo informando esclarecendo desafiando inspirando Muitas reflexões certamente se aplicam a situações vividas no presente Os dois volumes correspondem aos dois grandes períodos em que se subdi vide o primeiro século do presbiterianismo brasileiro antes e depois da divisão de 1903 No desejo de ser abrangente o autor considera com igual ênfase tanto a obra dos missionários americanos quanto a de seus colegas brasileiros Também são contemplados eventos ocorridos nas mais diferentes regiões do país do Rio Grande do Sul ao Amazonas Porém é inevitável que haja temas que o leitor não irá encontrar ou desejará que tivessem sido abordados com maiores detalhes O labor historiográfico é um esforço contínuo não só pela passagem inexorável e transformadora do tempo mas pela possibilidade e necessidade de novos enfoques novas interpretações A contribuição de Júlio Andrade Ferreira é um elo importante nessa engrenagem assim como foram e tem sido as de seus antecessores e sucessores O que ouvimos e aprendemos o que nos contaram nossos pais não o encobriremos a seus filhos contaremos à vindoura geração os louvores do Senhor e o seu poder e as maravilhas que fez Sl 783s Rev Alderi Souza de Matos Historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil Abril de 2024 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 10 06032024 160239 Parte I PERÍODO DE PENETRAÇÃO 1859 a 1869 Da chegada de Simonton pioneiro do Board de Nova York até a chegada dos pioneiros do Committee de Nashville Morton e Lane História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 11 06032024 160239 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 12 06032024 160239 O pioneiro 13 1 O pioneiro Sextafeira 12 de agosto de 1859 9 horas e 30 minutos Tenho estado desde as quatro horas observando a entrada de navios no porto onde estarão ao abrigo do vento e da maré Belo lugar o mais original e notável que jamais vi Pela beleza sublimidade segurança quer contra os ventos quer contra as ondas e pela possibilidade de defesa contra os ataques por mar e por terra um porto assim é quase inconcebível A baía se estende em volta guardada por ilhas curiosamente plasmadas de rochas altas e sólidas como se fossem ovos com uma ou outra ponta à mostra Em cumes aqui e ali grimpamse igrejas e alegres vivendas Uma delas é mesmo como pombal no topo de campanário decerto terá mais de duzentos metros de altura A entrada da barra é de meia milha de largura num dos lados há ousado promontório e o Forte Santa Cruz ali encravado com pesados canhões pelas encostas noutra a torre do Pão de Açúcar com mais de trezentos metros de altura Estamos ainda no colo da grande enseada aproveitando cada minuto a olhar ora do lado do forte ora do outro à distância de um tiro de pedra do Pão de Açúcar A água é de tal profundidade que o cuidado do timoneiro não será o de evitar que o mastro transversal toque num ou noutro flanco A cidade jaz a duas milhas de nós em grande extensão de colinas altas e de montanhas Já me desfiz da indumentária marítima deia ao camareiro que me prestou bons serviços na viagem Estou pronto para o desembarque1 Trecho do diário de Simonton Nesse mesmo 12 de agosto o jovem de barba nazarena toma refeição em casa do comerciante Wright a quem trouxera apresentação estando à mesa a família do cônsul Scott Aprecia a culinária e sobretudo as laranjas como nunca provara iguais Boa prosa Diz ele que ao desembarcar quando vinha do navio ainda no bote a mistura de cores deralhe a impressão de portos no Me diterrâneo segundo leituras feitas Um dos sócios da firma Wright se propusera procurarlhe acomodação 1 A G Simonton Journal Diário cópia da Igreja Presbiteriana do Rio 12 de agosto de 1859 Ver O Diário de Simonton 18521866 2ª ed rev São Paulo Cultura Cristã 2002 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 13 06032024 160239 14 História da Igreja Presbiteriana do Brasil E assim se foi o dia O primeiro missionário presbiteriano pisara o Brasil Longe estava da metrópole de hoje o Rio de Janeiro dos meados do século 19 Regulamentos particulares do porto eram tais que navios estrangeiros tinham de ancorar a certa distância da terra Em vez da massa de arranhacéus da Esplanada o morro do Castelo é que lá estava com suas casinholas antiquíssimas Perto do cais o Hotel Pharoux de três andares e além a torre da Candelária mais alta que os maiores prédios de 4 a 5 andares emergindo dentre os telhados escuros O Largo do Paço atual Praça 15 era o verdadeiro coração da cidade Dali partiam para bairros então considerados os mais distantes do Botafogo das Laranjeiras da Gamboa as conduções de aluguel ou coletivos todas de tração animal Nada de Avenida Rio Branco nem Presidente Vargas nem BeiraMar As mais notá veis ruas daquele tempo eram todas das mais estreitas rua do Ouvidor rua do Rosário e as transversais rua da Quitanda e rua Direita hoje 1º de Março Nesse âmago urbano contemplava o estrangeiro com surpresa matalotagem em ombros de escravos em originalíssima orgia de cores Ainda no mês de agosto a 31 diz Simonton ter feito culto a bordo do navio John Adams falando a mais de duzentos ouvintes que o aguardavam e que não tinham sempre oportunidade dessa Combinaram nova reunião para dali a duas semanas Conversou com o Dr Kalley o missionário escocês Este já fundara pequena igreja congregacional no bairro da Saúde Dr Kalley achou oportuna a entrada do missionário norteamericano pois teriam boa proteção de seu país Aconselha não obstante um trabalho velado método que lhe parece mais conveniente em país católico Simonton não compartilha das ideias de Kalley Servirá também aos patrícios e gostará de assegurar a influência social deles Mas veio sobretudo aos brasileiros e sua confiança está na proteção do Senhor Minha presença aqui e meus propósitos não podem ficar ocultos2 Um tal Dr Pacheco da Silva interessado em aulas de hebraico se propõe ajudálo no estudo do português Simonton enquanto aprecia as pectos pitorescos da vida brasileira como a parada do sete de setembro mostrase preocupado com o aprendizado da língua Continua a pregar em navios descobre famílias de língua inglesa na Praia Grande Confortase com as primeiras notícias de casa Sentime como se a atmos fera do lar me envolvesse quando li as cartas Difícil como é estar separado dos amigos é mais duro ainda não ter amigos crentes cujas orações nos acompanhem nas provações e nas alegrias da jornada É confortador quando peço por mim com fé vacilante saber que outros que sei serem povo de Deus oram também com o mesmo propósito 2 D P Kidder e J C Fletcher O Brasil e os Brasileiros Companhia Editora Nacional 1941 João Gomes da Rocha Lembranças do Passado 3 vols Centro Brasileiro de Publicidade 19411946 Ver Simonton Journal 31 de agosto de 1859 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 14 06032024 160239 O pioneiro 15 Prega na Saúde à Igreja de Kalley Confessa não ter sempre domínio comple to quando fala ex tempore Ao dirigir os cultos entre elementos de língua inglesa em terra ou em navios não há quem o ajude a cantar aproveitase por isso de partes da liturgia episcopal Mr G convidao a tomar em sua casa as refeições Simonton aceita agradecido e aprecia o convívio dessa família Faz algumas excursões e namora a natureza brasileira Entrementes aprende a língua Dá aulas aos filhos do Sr Eubank para aprender com eles a língua da terra Já é amigo da colônia de língua inglesa mas não tem interesse em integrarse nas suas preocupações temporais Um tal Sr A ajudao também a pôrse em contato com gente de bons colégios Quanto mais troca de aulas melhor até mesmo o Sr Leão Secretário da Instrução quer aprender inglês com ele Pelo mês de dezembro tem um ajuste de contas com o Dr Kalley Espalhara este um escrito anônimo lamentando que outro viesse ocupar a clareira já aberta para as plantações Por que interferir em campo alheio O Brasil tão vasto teria tantos lugares que poderiam ser ocupados por quem quisesse espalhar a verdade de Deus Simonton convida o Dr Kalley a um encontro privado e lamenta que o papel prejudicial e injusto à sua reputação estivesse sendo espalhado anoni mamente e viesse ao seu conhecimento por mãos de terceiros Como crentes e guias espirituais deviam lealdade um ao outro estava convencido de que os dois trabalhos não seriam prejudiciais um ao outro pois que pretendia usar métodos diferentes Kalley depois de algumas horas de reflexão voltou atrás procurando recolher os papéis distribuídos e pediu a Simonton que lhe desse a mão e orassem juntos Foi um belo triunfo da graça Vem o natal nos trópicos O primeiro passado assim do arrepio a todas as gratas associações da neve recobrindo a natureza e do aconchego dos seus Foi à capela inglesa com seus hospedeiros o casal G sempre tão agradável Vê escoaremse as últimas horas de 1859 grato porque seu campo de trabalho se delineia Não teve em 59 as indecisões do ano anterior O rumo estava traçado as perspectivas eram excelentes Aguarda a vinda da irmã Lille e de seu cunhado Blackford que a ele vão se aliar A Providência o guiava Já era conhecido de muitos brasileiros os passos com Kalley foram acertados já caminha no domínio da língua Por que inquietarse quanto ao futuro O que precisa é obedecer Passa a residir com o Sr Eubank cujos filhos seus alunos e mestres toma ramse de amizade por ele festejamlhe o aniversário a 20 de janeiro Apesar do calor que o obriga a subir a Tijuca e a Petrópolis e a febre amarela que o obriga a acompanhar alguns enterros está ele contente O cônsul Scott fazlhe declarações formais de que zelará pela liberdade religiosa e Kalley recebe cartas de advogados influentes seus amigos garantindo que tal liberdade será garantida Simonton registra crescente amizade pelo Dr Kalley e reconhecimento do seu valor como homem e como cristão História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 15 06032024 160239 16 História da Igreja Presbiteriana do Brasil Recebe notícia de que a viagem de Blackford fora adiada Mesmo antes do reforço importa prosseguir No último domingo dia 22 reuni uma escola dominical aqui em casa mesmo Foi meu primeiro culto em português As crianças do Sr Eubank estavam todas Também Amália e Marroquinas Knaak A Bíblia um catecismo de his tória sagrada e a Viagem do Peregrino de Bunyan foram nossos livros de texto3 Sabia português para fazer seu primeiro culto mas Marroquinas deve ser certamente sua maneira de escrever Mariquinhas São passados apenas 250 dias após seu desembarque 2 Antecedentes Ashbel Green Simonton nascera em West Hanover município de Dauphin Pensilvânia em 1833 Seu pai o Dr William bom médico e político influente morrera quando Simonton contava apenas treze anos Deralhe o nome de Ashbel Green em homenagem ao presidente do Nassau Hall na esperança de que algum dia viesse a ser como o Dr Green Sua mãe Martha Davis filha do piedoso pastor Snodgrass já tinha os filhos conduzidos na senda de educação sadia e de firme piedade Eram nove ao todo dos quais cinco homens sendo Ashbel o caçula Fez curso primário em Harrisburg e começando os estudos secundários aí mesmo foi terminálos no Colégio de Nova Jersey Nem bem formado em colégio com o propósito de adquirir experiência no ensino no trato das coisas e mesmo com a expectativa de ver definida a sua vocação dirigiuse ao sul Inicia então o diário cujo registro é às vezes espaçado mas que está repleto de observações interessantes Norfolk Petersburg Raleigh Fayetteville Columbia Atlanta Decatur Starkville Em Starkville Mississipi fixouse por algum tempo Em janeiro de 1853 a julho de 54 ali esteve ele regendo escola Academy for boys Retrata com humor as ocorrências do lugar e suas próprias reflexões sobre a vida de jovem Embora não seja um crente no sentido pleno da palavra é sensato e deseja acertar Aprende muito no sul Mas volta contente para o lar A escolha de uma profissão é matéria importante e requer decisão Não tenho tido pressa e até agora a tenho adiado uma vez tomada a decisão fico a pensar se os motivos que me influenciaram seriam os melhores Embora amigos dissessem ter ele jeito para o ministério evangélico não pensa ser este o caso Escolhe advocacia Tentações serão inevitáveis mas é uma carreira nobre E atirase ao estudo das leis 3 Simonton Journal 15 de setembro de 1859 19 de dezembro de 1859 28 de abril de 1860 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 16 06032024 160239 Antecedentes 17 Prossegue seu diário com observações finas sobre situações e pessoas às vezes viagem de recreio com colegas ou com irmãos Namoros Vêse contudo através daquelas páginas que é ele sensível às impressões religiosas e sempre respeitoso para com as coisas santas No dia 20 de janeiro de 1855 ao completar seu 22º aniversário propõe a si mesmo a pergunta se a vida não lhe tem sido muito sem propósito A 10 de março registra que um reavivamento se passa sobretudo em Nova Jersey O assunto religioso predomina Reconhece que o caso merece atenção ora e lê a Bíblia Já doutra vez em Princeton interesse desta ordem o alcançara mas ele julgava ter ficado pior do que antes Agora porém seu interesse era profundo não por qualquer razão emocional mas porque compreendeu que devia definirse Expôs mesmo em público seu propósito Não é um grande sentimento que se requer de um pecador para ser salvo Perseverarei até que a luz se faça no meu caminho E dia a dia reconhece lealmente que a insensibilidade de seu coração permanece Estuda Observa Ora Lê os Ensaios de Foster Ainda a 14 de abril após a reunião semanal de oração diz que compreende o evangelho mas não o sente Quer devotarse a Deus ao seu serviço mas 3 de maio Na terçafeira o conselho da Igreja reuniuse com os que queriam professar Vinte e dois ao todo Simonton é desse número Embora vacilante diz entrar para a Igreja para que a sua fé se confirme e possa se fortalecer Para conhecer o Senhor é preciso seguilo Ante a pergunta do Sr Weir se não gostaria de ser pregador reconhece que o fato de ter sido consagrado ao ministério por ocasião do batismo exerce sobre ele impressiva influência Professa a 6 de maio e assume os votos feitos pelos pais O serviço do Senhor será meu supremo alvo de vida No dia 20 desse mês tem sua primeira lição de hebraico pois não tem dúvida de que entrará para o Seminário de Princeton e os professores lá julgam que o contato com essa língua lhe será útil Iniciase efetivamente a segura preparação cursando o Seminário de Princeton Impõese disciplina corporal mental e espiritual Seu programa é cheio Um sermão do Dr Hodge a 14 de outubro o faz pensar seriamente em campos missionários No mesmo mês após reunião de oração a que pela segunda vez esteve presente declara a si próprio que o tempo virá em que terá de decidirse quanto ao trabalho missionário O importante será fazer a vontade do Senhor Meses depois ouvindo relatórios de missionários da Nova Zelândia as lutas e as vitórias entre canibais Simonton sente a beleza dessa empresa A gloriosa obra se processa por instrumentalidade frágil Mesmo que eu fosse trabalhar e morresse sem que me fosse dado ver o tempo da promessa não me importaria Eu teria tomado parte Submetermeei à sua vontade Em férias faz viagem de colportagem ao middlewest Voltando a Prin ceton está quase decidido a oferecerse ao Board de Missões Maravilhase História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 17 06032024 160239 18 História da Igreja Presbiteriana do Brasil também após as férias de que línguas como hebraico árabe ou cognatas sejam bem aprendidas e melhor desaprendidas gotten and forgotten4 Já no fim do curso fere o joelho quando fazia exercício no ginasium Depois de semana o Dr Pancoast prescreve séria operação para que não fique pelo resto da vida defeituoso Considera nesse período mais seriamente a vocação missionária Em vir tude de entrevista com o Dr J Leighton Wilson um dos secretários do Board of Foreign Missions sua atenção é seriamente voltada para Bogotá como seu campo de trabalho Correspondese com o Dr Horace Pratt missionário já estabelecido naquela cidade Muitas igrejas em que pregara disputavamlhe os serviços na pátria Mesmo um de seus professores procurou dissuadilo de ir ao estrangeiro sua carreira como pregador dizia garantirlheia lugar preeminente Nada porém o demove Obtido o consentimento da velha mãe candida tase como missionário perante o Board em novembro de 1858 mencionando o Brasil como o campo de sua preferência O Board em dezembro respondeulhe favoravelmente com a condição de removêlo caso as condições no Brasil não estivessem maduras para o estabelecimento do campo missionário Faz estágio com o Rev W H Foot em Romney Virgínia com vistas à ex periência pastoral As igrejas da região pedemlhe formalmente que reconsidere a decisão de partir Queriamno como pastor Simonton considera que a decisão é definitiva Vai a Nova York e põese a estudar português É ordenado pelo Presbitério de Carlisle a 14 de abril de 1859 O sermão que pregou sobre Passa à Macedônia foi publicado no Presbyterian Magazine Seu tio o Rev W Snodgrass fez a parênese Por conselho do Dr J Leighton Wilson visitou o Western Seminary em Allegheny Pensilvânia para conhecer o Sr Alexander L Blackford que acabara de ser ordenado e fora também aceito como missionário para o Brasil Alguns dias de convívio alicerçaram sólida amizade Blackford tornouse seu cunhado e veio depois efetivamente para o mesmo setor missionário5 Sua mãe e John seu mano acompanharamno até Baltimore No Banshee navio mercante oraram com ele na cabine em que viajaria Era 18 de junho de 1859 Da estada de franceses e de holandeses no Brasil nos tempos coloniais nenhum traço de protestantismo restara O catolicismo romano que aqui estivera muito tempo isolado do mundo assumira características não combativas O povo simples supersticioso e ignorante apresentava reservas de sinceridade Uma vez introduzidas no Brasil as Escrituras e isto só no século 19 encontraram terreno propício ao florescimento da fé O clero não era abundante nem sempre levava 4 Simonton Journal 12 de julho de 1854 4 defevereiro de 1856 e 8 de fevereiro de 1858 5 Joseph Wilson The Presbyterian Historical Almanach 1868 Coleção Boanerges Ribeiro História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 18 06032024 160239 Antecedentes 19 a sério seus deveres religiosos e constituído de elementos nacionais envolviase não raro na política Se não ajudava a espiritualidade do povo também não exercia a opressão que mais tarde veio a exercer O romanismo do século 19 não estava alerta Tudo era seu Salvo exceções não houve a princípio sérias oposições à disseminação da Bíblia A influência maçônica a que muitos padres tinham servido era a favor da liberdade de cons ciência Feijó pregou o celibato e desejou a vinda de Irmãos Morávios para que se dedicassem a educar nossos indígenas Em virtude de tratado comercial com a Inglaterra desde 1810 era facultada aos estrangeiros a construção de suas capelas contudo sem formas exteriores de templos Ingleses e alemães as haviam construído em 1823 e 1837 respecti vamente mas imigrantes que eram não se empenhavam em fazer conhecida e aceita sua fé Muito mais significativa para a evangelização do país tinha sido a atuação de sociedades bíblicas a Britânica e a Americana que fundadas no princípio do século 19 não tardavam em enviar exemplares das Escrituras ao Brasil Para isso valiamse especialmente dos bons ofícios de comerciantes em viagem os quais as colocavam à disposição de quem as desejasse deixandoas mesmo algumas vezes pura e simplesmente abertas nas alfândegas Os metodistas de Tennessee promoveram a vinda do Rev Fountain Pitts em 1835 Fez pouco mais que ins peções Logo depois aqui aportou o Rev J Spaulding o qual chegou a fundar escolas Não ficou porém no Brasil Daniel Kidder primeiro e depois James Fletcher exerceram a função de agentes de Sociedades Bíblicas Até 1854 essas duas sociedades bíblicas haviam distribuído 4000 exemplares das Escrituras nos cinco anos seguintes distribuíram 20000 Em 1855 viera o médico escocês Robert R Kalley já perseguido na Ilha da Madeira onde exercera grande atividade evangelística Kalley fundou no Brasil a primeira Igreja de cunho missionário e de caráter estável Até hoje ela existe no Rio de Janeiro É a Igreja Evangélica Fluminense À chegada de Simonton já há quatro anos Kalley desenvolvia sua atividade evangelística Convidara três famílias de madeirenses Gama Jardim e Fernandes a virem dos Estados Unidos onde se haviam refugiado para cooperarem com ele Chegaram cerca de um ano após Kalley Dois de seus crentes William Pitt vindo da Inglaterra em 1855 e Esher também de família estrangeira fundaram uma escola em 1857 Os demais davam parte do tempo à colportagem por conta de Kalley e parte ao trabalho ordinário no Arsenal da Marinha Em 1858 a 11 de julho Kalley recebera Pedro Nolasco de Andrade o primeiro professo primícias da Igreja Fluminense Damas ilustres como Gabriela Augusta Carneiro Leão e Dona Henriqueta Soares do Couto haviam sido recebidas à Igreja no início do ano de 1859 Kalley pelas atividades profissionais pelos cultos pela colportagem de seus auxiliares pela publicação de artigos e traduções no Correio Mercantil já despertara a atenção do clero que contestava a legitimidade de sua propaganda História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 19 06032024 160239 20 História da Igreja Presbiteriana do Brasil A oposição chegara ao ponto de exigir que deixasse a clínica Ele fez exame e revalidou seu diploma O Núncio Apostólico dissera ser necessário tapar a boca do inglês Valerase da própria legação inglesa Kalley porém além da legislação e do diploma tomara pareceres por escrito de três grandes jurisconsultos sobre a liberdade religiosa Kalley alcança a vitória dandose o governo por satisfeito com suas explicações A legação inglesa precisava dar satisfações ao Ministro do Exterior do Brasil Sr Paranhos Kalley já ia conseguindo ganhar terreno6 Simonton chegara pois em hora plena de oportunidade O Brasil se abria ao evangelho Ao candidatarse como missionário do Board de Nova York naquele 25 de novembro de 1858 dissera o pioneiro presbiteriano fiz menção do Brasil como o campo pelo qual me sinto mais profundamente interessado mas deixei ao Board a decisão final do meu destino7 Tempo de penetração O Brasil estava pronto para ouvir o evangelho estava porém ainda por ouvir o evangelho 3 A igrejamãe No começo do ano de 1860 mesmo após seu primeiro culto em português sob a expectativa da chegada de Blackford a fase da vida de Simonton é ainda de conveniente preparação Outra semana de estudo sossegado Não faço mais do que prepararme Sintome às vezes impaciente com minha inutilidade e quase in vejoso dos pastores que na pátria domingo a domingo têm multidões a ouvilos Monticello o pequeno navio a vela em que Blackford e Lille a irmã de Simonton partiram de Baltimore em fins de abril não chegara até meados de julho e dele não havia notícias Sabiase apenas que fora surpreendido por tremenda tempestade As esperanças de Simonton na cooperação do cunhado e no carinho da irmã iam sendo consumidas dia a dia Nem mesmo nos Estados Unidos ou na Inglaterra sabiam do paradeiro do Monticello Dizia Simonton não estar desesperado pela misericórdia do Senhor8 Blackford contanos depois a história de sua aventura Levantamos ferro quintafeira à tarde a 26 de abril e na altura de 28 graus de latitude fomos tomados por tempestade do Gulf Stream Todos estavam acordes em que nunca tinham visto coisa semelhante Prosseguiu a tormenta 6 Kidder e Fletcher O Brasil e os Brasileiros Vicente Temudo Lessa Anais da 1ª Igreja Presbiteriana de São Paulo João Gomes da Rocha Lembranças do Passado ÉmileG Léonard O Protestantismo Brasileiro Revista de História da Universidade de São Paulo 19511952 7 Simonton Journal 27 de novembro de 1858 8 Ibid 8 de julho de 1860 e 21 de julho de 1860 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 20 06032024 160239 A presente obra é um dos clássicos da historiografia protestante no Brasil Nenhuma outra denominação do país tem sua história narrada em um texto dessa envergadura somando mais de 800 páginas O livro foi inicialmente preparado para as comemorações do centenário do presbiterianismo pátrio 1959 Seguiuse uma segunda edição três décadas depois 1992 e agora decorrido pouco mais de três décadas vem a lume a terceira edição O Rev Alderi Souza de Matos é o historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil O Rev Júlio Andrade Ferreira 19122001 foi pastor de várias igrejas professor de teologia e prolífico escritor Notabilizouse como um dos grandes intelectuais da Igreja Presbiteriana do Brasil à qual dedicou toda a sua carreira ministerial Além de lecionar no Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas foi o primeiro historiador oficial da IPB cargo que exerceu por várias décadas Nessa função acompanhado de alguns colaboradores criou o Museu Presbiteriano e organizou o Arquivo Histórico da igreja EDITORA CULTURA CRISTÃ wwweditoraculturacristacombr História da Igreja Presbiteriana do Brasil 18591959 Júlio Andrade Ferreira HISTÓRIA DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL Alderi Souza de Matos ORGANIZADOR VOLUME II 19031959 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 19031959 Volume II de Júlio Andrade Ferreira 1992 Editora Cultura Cristã Todos os direitos são reservados 2ª edição 1992 3ª edição 2024 Conselho Editorial Cláudio Marra Presidente Christian Brially Tavares de Medeiros Giuliano Letieri Coccaro Joel Theodoro da Fonseca Jr Misael Batista do Nascimento Pedro Lucas Dulci Pereira Tarcízio José de Freitas Carvalho Victor Alexandre Nascimento Ximenes Produção Editorial Revisão Alderi de Souza Matos org Poliana Coutinho Wilson Neto Sandra Dantas Editoração Lidia de Oliveira Dutra Capa Ideia Dois Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP F383h Ferreira Júlio Andrade História da Igreja Presbiteriana do Brasil volume 2 Júlio Andrade Ferreira São Paulo Cultura Cristã 2024 3ª ed 376 p História da Igreja Presbiteriana do Brasil 2 ISBN 9786559892815 1 História 2 Presbiterianismo II Título CDU2851 Sueli Costa Bibliotecária CRB85213 SC Assessoria Editorial SP Brasil A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus símbolos de fé que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos o Maior e o Breve Como Editora oficial de uma denominação confessional cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição Existe a possibilidade porém de autores às vezes mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral pela denominação e pela Editora de todos os pontos de vista apresentados A posição da denominação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé EDITORA CULTURA CRISTÃ Rua Miguel Teles Júnior 394 CEP 01540040 São Paulo SP Fones 08000141963 11 32077099 wwweditoraculturacristacombr cepceporgbr Editor Cláudio Antônio Batista Marra História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 2 06032024 155957 Sumário Parte IV Período de reconstituição 19031917 112 Uma terceira igreja independente 9 113 A pena de ouro 12 114 O julgamento de um historiador 17 115 Adesões à Igreja Independente 22 116 Rua Maranhão 38 117 Memórias do Rev Matatias41 118 Entrada do presbiterianismo no Estado do Espírito Santo 54 119 Velhos campos do Sul e do Oeste 59 120 Separase a Missão Leste 63 121 Os campos do Centro 65 122 Perseguição clerical no tempo da República 68 123 Formase o Presbitério BahiaSergipe 72 124 Evangelizando o Setentrião 78 125 A obra educativa do Nordeste 85 126 Seminário do Norte 88 127 O Seminário do Sínodo em Campinas afinal 94 128 Organizase a Assembleia Geral 100 129 O delegado brasileiro 102 130 Obreiros da Missão Sul 105 131 As missões de Nashville 106 132 Mackenzie College 111 133 Obreiros da Missão Central perspectivas e entraves 113 134 Mais histórias do Rev MacCall 115 135 Alto Jequitibá dos itinerantes 119 136 Samuel Barbosa o consagrado 122 137 Outros obreiros ao organizarse a Assembleia 124 138 A inspeção do Brasil Central 126 139 Ressurreição das Missões Nacionais 130 140 Fundase a Missão em Portugal 134 141 Começos da evangelização de Mato Grosso 140 142 Contato com outras igrejas 142 143 Aproximação com os independentes 145 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 3 06032024 155957 4 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 144 O médico amado 149 145 O fim da primeira geração 153 146 O primeiro missionário do Brasil em Portugal 156 147 Os campos que precederam o Modus Operandi 162 148 Modus Operandi 171 Parte V Período de organização 19171946 149 Uma palavra aos leitores de hoje e aos futuros historiadores 181 150 O roteiro das Américas 182 151 Congresso de Ação Cristã na América Latina 188 152 Comissão Brasileira de Cooperação 192 153 Seminário Unido 196 154 Vida e morte na imprensa presbiteriana 201 155 Evolução das instituições educacionais do Nordeste 204 156 Jerônimo Gueiros 206 157 Efêmera congregação presbiteriana no Rio Grande do Sul 209 158 A morte de Álvaro Reis 211 159 Tombam os heróis de Lavras 214 160 JMC 219 161 O resto da história do Unido 221 162 O Seminário do Norte em Recife 223 163 Seminários do meu tempo 226 164 Os presbiterianos e os hinários 229 165 A Bíblia no Brasil e a colaboração presbiteriana 231 166 Formase a Confederação Evangélica 233 167 O casal Pitta e as cartas de Lisboa 235 168 A questão Facchini 243 169 Literatura evangélica e editoras no Brasil 252 170 Capítulo inacabado uma galeria de leigos 255 171 Famílias presbiterianas 263 172 Sínodo Setentrional 264 173 Sínodo BahiaSergipe 269 174 Sínodo MinasEspírito Santo 271 175 Sínodo Central 281 176 Sínodo Oeste do Brasil 285 177 Sínodo Meridional 289 178 A Missão Norte 293 179 A Missão Leste 295 180 A Mssão Oeste297 181 A Missão Central 302 182 A Missão Sul 306 183 Landes e seus companheiros 312 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 4 06032024 155957 Sumário 5 184 Instituto Bíblico de Patrocínio 314 185 A Missão Caiuá 316 186 A organização das senhoras321 187 A organização da mocidade324 188 Junta Mista de Missões Nacionais 330 189 Orfanatos presbiterianos 335 190 Igrejas presbiterianas independentes 337 191 Casa Editora Presbiteriana 339 192 O último capítulo da Missão em Portugal 340 193 As Constituintes 346 194 Conselho Interpresbiteriano CIP 348 195 Problemas atuais 350 196 Movimentos de cooperação 358 197 Campanha do centenário 359 Índice de personagens 365 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 5 06032024 155957 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 6 06032024 155957 Parte IV Período de Reconstituição 19031917 Desde a origem da Igreja Presbiteriana Independente até a Comissão do Modus Operandi História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 7 06032024 155957 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 8 06032024 155958 Uma terceira igreja independente 9 112 Uma terceira igreja independente Quando ia saindo o grupo do templo do Largo dos Guaianazes bradou alguém À 1ª Igreja E perto das onze da noite abriramse as portas do templo da rua 24 de Maio para acolher os que vinham reunirse ali em hora tão adiantada Era como se fosse um culto de vigília Passava de meianoite quando foi regressando cada um ao seu lar Foi uma hora de emoção Lágrimas deslizavam pelas faces Subiam expressivas orações Entoavamse hinos ao Senhor alguns dos quais foram sempre repe tidos naquelas primeiras reuniões Um deles o Chuvas de bênçãos Outro o Cantai a Cristo o Salvador Um pendão real foi o mais celebrado e converteuse em Marselhesa do novo ramo presbiteriano Pela Coroa Real do Salvador era o brado de guerra Orações hinos e breves discursos naquela noite De joelhos em terra pediram luzes para as jornadas seguintes Em 1º de agosto quando o Sínodo abriu as suas sessões na Igreja Unida um grupo deixou de responder motivo de tristeza para os espíritos piedosos O grupo dissidente reuniuse às onze e quarenta e cinco na 1ª Igreja para dar início a um trabalho de organização Na reunião da noite havia sido lembrado pelo Rev Ernesto o nome do Rev Eduardo C Pereira para a presidência Por prudência o recusou No regime passado fora muito acusado de querer elevarse Foi então aclamado moderador o Rev Caetano Nogueira Júnior que era um verdadeiro homem de Deus por todos assim reconhecido Para secretário temporário foi apontado o Rev Vicente Temudo que também veio a ser o secretário permanente Após os exercícios religiosos dirigidos pelo moderador verificouse a presença de sete ministros Caetano Nogueira E C Pereira Bento Ferraz Ernesto de Oliveira Otoniel Mota Alfredo Teixeira e V Temudo e dos presbíteros que haviam tomado parte no Sínodo Dinarte Ferreira Coutinho de Ribeirão do Veado Delfino Augusto de Morais de Avaré Saturnino Borges Teixeira de Borda da Mata Antônio José de Souza de São Bartolomeu Júlio Olinto de Cabo Verde Aquilino Nogueira Cesar de Matão Paraná José Celestino de Aguiar de Lençóis João da Mata Coelho de Cruzeiro Sebastião Pinheiro de Campinas e José Antônio de Lemos de São Manoel Na sessão seguinte compareceu o presbítero de Campestre Severo Virgílio Franco Ao todo onze presbíteros que se desligaram do Sínodo Manoel da Costa que se conservou no Concílio deveria ser o décimo segundo Embora concordando com a incompatibilidade votou com a maioria com restrições fundamentando o seu voto que ficou História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 9 06032024 155958 10 História da Igreja Presbiteriana do Brasil nas atas do Sínodo nos seguintes termos O abaixoassinado votando sim no último parecer da comissão de papéis e consultas não concorda entretanto com os seus considerandos por entender que a maçonaria é incompatível com o evangelho Ao número porém dos onze desligados do Supremo Concílio foram acres centados outros de presbíteros que haviam tomado parte nas sessões dos presbitérios ao lado do Sínodo e que agora aderiam Foram assim arrolados naquela sessão de 1º de agosto Joaquim Honório Pinheiro da 1ª Igreja de São Paulo Francisco Pires de Camargo de Lençóis João Garcia Novo de MogiMirim e João do Amaral Camargo de Bela Vista de Tatuí Com isso elevouse o número dos membros fundadores do novo presbitério sete ministros e quinze presbíteros Depois de constituída a mesa foi exposto o desígnio da reunião Deuse à nova organização o nome de Igreja Presbiteriana Independente e ao presbitério o de Presbitério da Igreja Presbiteriana Independente ou mais simplesmente Presbitério Independente Embora não conste da ata é bom registrar que o Rev Alfredo Teixeira havia proposto o nome da Igreja Presbiteriana Livre à semelhança do que se dera na Escócia Como porém os casos não eram análogos não foi aceita a sugestão Foi então proposto o ato constitutivo Nós abaixoassinados ministros e pres bíteros regentes que nos desligamos do Sínodo da Igreja Presbiteriana do Brasil pelos motivos constantes do Protesto que publicaremos nos constituímos em Presbitério com poderes de Assembleia Geral com o nome de Presbitério da Igreja Presbiteriana Independente aceitando como constituição de nossa igreja a Confissão de Fé da Igreja Presbiteriana e os Catecismos Maior e Breve bem como o Livro de Ordem que abrange a forma de governo e as regras de disciplina e o diretório do culto Três documentos foram logo redigidos um Protesto dirigido ao Sínodo contendo as razões da separação Vinham nele os tópicos que representavam os inconvenientes da maçonaria na vida cristã Assim terminava o Protesto que foi incluído e publicado nas Atas do Sínodo Nós abaixoassinados ministros do santo evangelho e representantes de diversas igrejas em nome da suprema autoridade da Palavra de Deus sobre todo o entendimento solenemente protestamos contra o ato do Sínodo em colocar os erros maçônicos no rol de coisas secundárias e declaramos a maçonaria incompatível com o evangelho e com a supremacia de Jesus Cristo como Profeta Sacerdote e Rei no seio da igreja e isto fazemos para honra e glória de nosso Senhor Jesus Cristo Os outros eram um Manifesto à Igreja Presbiteriana no Brasil e outro às Igre jasMães por intermédio das juntas missionárias de Nova York e Nashville Nestes manifestos era explicada a nova situação O protesto tinha a assinatura dos membros dissidentes do Sínodo Os manifestos tinham mais a dos quatro representantes de presbitérios J Honório Pinheiro João Garcia Novo João do Amaral Camargo e F Pires de Camargo Vinha ainda a de dois presbíteros História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 10 06032024 155958 Uma terceira igreja independente 11 da 1ª Igreja que haviam tomado parte saliente no movimento Remígio de Cerqueira Leite e Antônio Ernesto da Silva Um dos pontos tratados nos primeiros trabalhos da reunião do novo presbitério foi o reconhecimento da incompatibilidade entre a maçonaria e a igreja Tomaramse medidas para a distribuição das forças evangelizadoras Nomearamse comissões para diversos fins uma das quais para o estudo de um plano de educação O Rev Otoniel foi nomeado tesoureiro do presbitério Receberamse comunicados da adesão de duas igrejas ao movimento a de Itatiba e a 1ª Igreja Presbiteriana A de Itatiba foi a primeira Não deixa de ser interessante que estas duas primeiras adesões eram de igrejas que representavam os dois grupos missionários a de Itatiba organizada pelos missionários do sul a de São Paulo pelos missionários do norte A reunião do Presbitério Independente encerrouse a 5 de agosto Na noite do dia 3 reuniuse a Assembleia Geral da 1ª Igreja para definir a sua posição em face do novo regime Foi convocado para a presidência o presbí tero Manoel da Costa que apesar de ter ficado com o Sínodo tinha o seu coração ligado à igreja de sua mocidade A proposta de adesão foi assinada por Guilherme Castanho Outra de J A Corrêa solicitava ao presbítero Manoel da Costa que continuasse no seu posto de presbítero Os seis ministros inde pendentes que estavam presentes além do pastor foram convidados a tomar assento como membros correspondentes e a dirigir palavras de animação à assembleia Na véspera havia sido levantada uma coleta para o novo fundo de Missões Presbiterianas criado pelo presbitério Rendera 480000 Mais uma coleta na assembleia 1115000 As duas 1595000 Havia já com que ocorrer às primeiras despesas O Sínodo prolongou as suas sessões até ao dia 6 Até ao dia 5 na véspera todas as manhãs haviam sido chamados e dados como ausentes os membros dissidentes Era uma prova de atenção do concílio Foi só na sessão das 3 da tarde do referido dia 5 que por proposta de Erasmo Braga e Laudelino de Oliveira foram riscados do rol os seus nomes sendo o Protesto arquivado sem resposta Naqueles dias que se seguiram ao 31 nos dois concílios separados experimen tavase uma sensação de pesar e de alívio ao mesmo tempo De pesar pelas amarguras da separação Israel cindiase mais uma vez Era cruciante a dor De alívio porquanto ambos os grupos podiam trabalhar mais livremente sem suspeitas nem desconfianças numa unanimidade de vistas Triste é dizêlo O espírito humano é sempre o mesmo ainda quando debaixo de benéficas influências Assim foi de início na igreja de Jerusalém Igualmente com Paulo e Barnabé Assim nas longas páginas da história eclesiástica do oriente e do ocidente Controvérsias amargas dissídios separações cruzadas guerras santas assim chamadas muita coisa justa e muita coisa condenável tudo em nome da religião cada qual entendendo lutar pela causa da verdade e da justiça Ausência manifesta dos sentimentos de caridade e de prudência História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 11 06032024 155958 12 História da Igreja Presbiteriana do Brasil Agora o nome da nova denominação presbiteriana Igreja Presbiteriana In dependente A história se repete Foi o nome que acudiu aos lábios do Rev Dagama quando em 1892 se desligou do Presbitério de Minas O grupo que lhe ficou fiel tomou o nome de Igreja Presbiteriana Independente Foi tam bém o nome que tomou a 2ª Igreja Presbiteriana de São Paulo em meados de 1898 quando o Rev Carvalhosa renunciou a jurisdição do Presbitério de São Paulo Em números de O Estandarte e de O Puritano da época o velho ministro era chamado de pastor da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo Vinha agora um terceiro caso de consequências mais sérias Aquela que vinha a ser a terceira Igreja Presbiteriana Independente cinco meses depois na 2ª reunião do presbitério em Campinas apresentava um relatório de 100 profissões de fé O número de adesões passava de 2600 Tal não se dera com os movimentos de 1892 e de 1898 que se restringiram à esfera local O de 1903 teve repercussão em todo o arraial presbiteriano de Manaus a Santa Catarina e Goiás1 Esse capítulo é da autoria de Vicente Temudo 113 A pena de ouro O capítulo que se segue é nosso Retiramolo de Galeria Evangélica A vida de José Zacarias de Miranda ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil está presa a um difícil contexto É impossível apreciar a fase mais destacada de seu ministério sem entrar nas penosas lutas que motivaram a separação de membros do Sínodo Presbiteriano do Brasil em 1903 e que resultaram na formação da Igreja Presbiteriana Independente Para os que apreciam a paz e estimam os irmãos independentes como é o nosso caso a revivescência desses fatos não pode deixar de ser penosa e o contexto dessa vida não pode deixar de ser difícil Foi exatamente esse o motivo por que até hoje não se escreveu a vida de tal homem a quem a Igreja Presbite riana muito deve Foi esse o motivo sim pois o Rev Miguel Rizzo Júnior que conserva carinhosamente dados sobre a vida do antigo lidador não chegou a publicálos senão em parte receando diz ele fazer antes mal do que bem Resta saber penso eu se é bastante o motivo para deixar no esquecimento o nome do herói Não o entenderam assim os independentes em relação ao Rev Eduardo Carlos Pereira Opositor que foi do Sínodo Presbiteriano pole mista brilhante e severo seu nome aparece invariavelmente todos os anos nas colunas de O Estandarte bem como em outras publicações da denominação 1 Lessa Anais p 674 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 12 06032024 155958 A pena de ouro 13 Não há talvez ministro evangélico no Brasil cuja biografia seja tão conhecida quanto a do adversário de Zacarias de Miranda Deste não há nenhuma Os independentes hão de convir pois que a biografia de Zacarias é inspirada mais num dever de gratidão que no desejo de molestálos O estudo das causas e das consequências do cisma de 1903 não cabe todo ele evidentemente dentro deste capítulo Assim sendo não pretendemos explicar erros e valores mas apenas apontar certas feições da época e dos homens sabendo embora que desse inventário incompleto dos fatos pode resultar interpretação infeliz Que fazer De ambos os lados estou em aberto não quero deixar no esquecimento um varão trabalhador e para reviverlhe a memória cumpreme recordar fatos desagradáveis sem o espaço necessário para tudo esclarecer se é que se pode esclarecer convenientemente esse período de nossa história presbiteriana Vicente Temudo Lessa que de outro ângulo teve oportunidade de tratar do assunto confessava Presbiterianos e presbiterianos independentes pe nitenciemonos ambos nós daqueles erros de nossos pais e resguardemonos no futuro lançando nas águas do esquecimento o que ficou para trás O juiz está à porta Ele mesmo porém historiador que era levantou o véu A história é feita para rememorar o passado e trazer advertência para o futuro A exaltação dos ânimos naquela época concorria para muitas injustiças De uma e outra parte desconheciamse os méritos de consagração dos obreiros Alfredo Borges Teixeira também do campo oposto ao de Zacarias também veterano daquelas refregas traznos testemunho insuspeito em artigo inserto em O Estandarte de 1º de agosto de 1938 Diz ele Na convicção de que o Sínodo de 1903 tinha se tornado herético a Igreja Presbiteriana Independente não só cortou a comunhão com todos os membros daquele concílio individualmente mas cogitou seriamente de tomar igual medida para com toda a igreja representada pelo mesmo A enormidade da coisa porém provocou uma reação chefiada aliás pelo Rev Bento Ferraz em que o bom senso triunfou impedindonos de dar o referido injusto e descaridoso passo Reconheceuse então que o ato do Sínodo considerado no conjunto dos motivos que o determinaram maçonaria problema educativo e paixões pessoais foi antes um erro grave do que uma apostasia O decorrer dos tempos justificou e acentuou cada vez mais esta maneira de considerar o caso A Igreja Presbiteriana continuou a crer e a propagar com fervor todas as doutrinas que a filosofia maçônica rejeita Incoerência Não importa o fato é que hoje e há muito tempo já em nossa igreja ninguém ousa dizer que a Igreja Presbiteriana é herética Estamos em plena comunhão com ela apesar de não estar oficialmente revo gada a resolução que causou a separação Razão tinha pois o Rev Carvalhosa de nos acusar de quebra do nono mandamento porque se eles não são hereges agora não o eram também naquele tempo Estávamos de fato levantando História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 13 06032024 155958 14 História da Igreja Presbiteriana do Brasil contra os irmãos um falso testemunho embora firmados em fatos verdadeiros e logicamente entendidos E agora acrescentamos nós Na convicção de que o Sínodo era herético os independentes se atiravam aos nossos campos propondo aos crentes desprevenidos o triste e impressionante dilema Cristo ou maçonaria Tal se deu em Campinas em MogiMirim em Botucatu em São Bartolomeu em Curitiba Eram verdadeiras convulsões em nossos campos evangelísticos com sinistro acompanhamento de discussões desavenças de família de luta pela posse das propriedades dos templos de acesso aos tribunais profanos Zacarias de Miranda redator da Revista das Missões Nacionais órgão de publici dade da Igreja Presbiteriana destinado aos assuntos internos da denominação viuse na contingência de fazer a defesa do Sínodo Fora ele o redator do triênio de 1900 a 1903 Mantiverase em silêncio ante essa efervescência das questões eclesiásticas por ordem do próprio Sínodo anterior Agora porém importava esclarecer a situação A princípio são artigos que apenas registram os fatos ocorridos Começa assim Passou o tufão Das nuvens negras amontoadas há tempo no horizonte de nossa igreja pressagiando medonho cataclismo acaba de romper a tempestade cujos estragos aí se acham em sua triste e dolorosa realidade Os da minoria alegavam que os missionários tinham desejado mesmo ba terlhes nas costas as portas do Sínodo que este não cria na mediação de Cristo que Importava esclarecer os fatos e as palavras A pena de Zacarias de Miranda o fez Pontos nos iii é o título de alguns artigos Reafirma sempre o desprazer com que é obrigado a entrar em questões dessa natureza Mas abismo chama abismo Os tempos eram acalorados demais para que adversários aceitassem explicações Ante novas circunstâncias como por exemplo a conversão do Dr Silva Rodrigues ao antimaçonismo a pena de Zacarias põese de novo a analisar as razões contrárias Que quer S S Pois lutemos ainda que isso nos seja sobremodo desagradável Uma das notas interessantes é que Zacarias de Miranda que procurava opor Eduardo a Eduardo usa da mesma arma analisando os dizeres de Silva Ro drigues antimaçonista contra Silva Rodrigues maçonista da fase anterior O assunto chega às vezes a ser fastidioso Notase não obstante além da segurança de linguagem e mesmo da beleza do estilo desse nosso escritor a firmeza com que defendia a posição do Sínodo que deixara o problema maçônico afeto à consciência individual A situação se complica ante a insistência com que se atribuíam aos Sínodos intenções que não eram suas Uma pastoral do Presbi tério Independente arranca da pena do nosso advogado o que ele chama de História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 14 06032024 155958 A pena de ouro 15 protesto manso e pacífico Mas um protesto Não admira pois as palavras textuais do Rev Caetano Nogueira do grupo adversário foram Para cumprirmos com a caridade estamos prontos a romper com a pastoral do presbitério As coisas já estavam em tal ponto nem um ano depois da separação que o Jornal Batista dizia serem as consequências do cisma muito mais graves do que mesmo as razões que o produziram Assim como os independentes tinham os sinodais por heréticos os que haviam permanecido fiéis ao Sínodo já não criam na sinceridade dos independentes Ante a interpretação dada pelo jornal O Estandarte à atitude paternal dos Boards missionários americanos a luta recrudesce Seguese uma série de artigos do redator da Revista com título Defendamonos É nosso direito é nosso dever Por menos edificante que fosse a matéria não se pode negar a elevação ao lado da energia de nosso advogado É verdade que ele encampou não na Revista mas noutro jornal o paralelo de mau gosto a que se tem feito referência entre Eduardo Carlos Pereira e Inácio de Loiola sendo o grupo inicial de ministros independentes comparado ao dos primeiros jesuítas Coisa da época Também O Estandarte num esboço do presbiterianismo paulistano refe rindose à fusão das igrejas Filadelfa e 2ª Presbiteriana de que nasceu a atual Igreja Unida com crua mordacidade assim se exprime Celebrouse o pacto de união nasceu a Igreja Unida Pilatos e Herodes se congraçaram Os dois pastores das igrejas que compuseram a Unida eram Modesto Carvalhosa amigo dos missionários e Zacarias de Miranda exmaçom Admira que em tal ambiente os artigos de Zacarias na Revista tenham sido o que realmente foram Zacarias de Miranda visto apenas o interesse da igreja sinodal foi o pulso gigantesco que lhe possibilitou a unidade Lamentamos contudo quem não o lamentaria que a tais angústias tivesse chegado a igreja O assunto é bem mais complexo Malentendidos e diversida des de opinião datavam já de uns quinze anos Os sucessos do próprio 31 de julho que não vão narrados neste lugar são pungentes Resta porém neste capítulo da vida de Zacarias de Miranda dizer uma palavra sobre a mão de gato Na noite de 31 de julho a hora temida Carlos Pereira ao despedirse do Sínodo usou as seguintes expressões Irmãos missionários permitime dirigirvos cordial despedida Procurei nas bases apresentadas pelo Dr Chester e Dr Ellinwood um plano de cooperação entre os missionários e os nacionais Vós o não quisestes creio que errastes o futuro porém o dirá E vós meus patrícios reagi quanto pude em favor do vosso prestígio moral nada consegui A maçonaria cavou um abismo entre nós e vós Ela foi porém o instrumento e se me permitis a expressão a mão de gato para tirar as castanhas do fogo Como vistes Cristo foi levantado no seio deste concílio por uns pregado numa cruz por outros e ainda por outros coroado de glória Vós ouvireis falar de História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 15 06032024 155958 16 História da Igreja Presbiteriana do Brasil nós nós ouviremos falar de vós e um dia perante o Juiz nos encontraremos Felicidades meus patrícios Foi hora de lágrimas Para se entender a expressão de que se serviu Pereira nessa hora a mão de gato há um contexto sobre o qual os independentes chamaram a atenção Antes do Sínodo em O Estandarte de 2 de julho há este trecho A maçonaria completamente desprestigiada em nosso meio religioso não teria por si só força para dividir a nossa Igreja Presbiteriana Ela vai talvez fazer apenas o papel de mão de gato e tirar para o Mackenzie as castanhas do fogo Reservalhe talvez a Providência o tremendo castigo de entregar uma parte da igreja aos planos de uma instituição fora da igreja Lamentamos hoje que tais palavras não tenham despertado convenientemente a atenção dos sinodais e que os artigos de Zacarias onde apesar dos pesares notase ainda elevação e energia tenham sido vazados numa interpretação avessa de a mão de gato Efetivamente para Zacarias a mão de gato era a ma çonaria não nas mãos do Mackenzie mas nas mãos de Pereira Teria sido uma confissão de que o motivo de todas as lutas não era primariamente a maçonaria O que nós hoje desprevenidos reconhecemos o advogado do Sínodo de então não conseguiu ver Outro contexto se lhe afigurava o verdadeiro É que na reunião do Presbitério de São Paulo Eduardo Carlos Pereira em proposta muito conhecida alegava que a retirada dos missionários de nossos concílios era o único meio de restabelecer a concórdia entre os membros do Sínodo Ora raciocinavam os sinodais se o problema missionário é o que perturba a nossa concórdia a maçonaria é desculpa E como já não acreditavam na sinceridade de Pereira É mesmo comédia de erros Ou melhor tragé dia de erros Já escrevi sobre esse assunto em apreciação ao livro do Prof Émile Léonard Erraram os missionários do Brasil erraram os dirigentes das Missões nos Estados Unidos erraram os maçons erraram os eduardistas errou o próprio Eduardo errou o Sínodo Quem é que não errou naquela fase tristemente inesquecível de nossa história E qual de nós não teria errado se fosse também protagonista daquela daquele quiproquó Erraram missionários no Brasil por atitudes antipáticas e descaridosas vejase a retirada ostensiva de Waddell de um de nossos concílios vejase a circular que Kyle distribuiu no Sínodo de 1903 Erraram os dirigentes das Missões em Nova York ouvindo informações tenden ciosas de Waddell Horácio Lane e de outros Erraram os ministros maçons A maçonaria não valia de qualquer modo o que custou à igreja nacional Só Lino da Costa e Zacarias de Miranda tiveram gesto nobre oferecendose para deixar a ordem por amor à paz da igreja Alguns outros não fizeram apesar de muitas consciências visivelmente escandalizadas Notamos até argumentos de maçons dentro do Sínodo que nos deixam boquiabertos Erraram os eduardistas por terem espírito faccioso por também desejarem forçar as consciências alheias com ameaça de separatismo que o Sínodo bem desejava evitar Errou o próprio Eduardo pois seus planos educativos História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 16 06032024 155958 O julgamento de um historiador 17 considerados inoportunos pelo Sínodo bem poderiam ficar de lado por algum tempo para o bem da igreja Sua retirada da diretoria do seminário a retração clamorosa de sua igreja nas contribuições sua falta de diplomacia às vezes como se pode ver de sua proposta ao Presbitério de São Paulo em 1902 Errou o Sínodo procurando racionalizar suas explicações Erraram jornalis tas invectivando uns aos outros Erraram crentes assinando em adesões sem ter conhecimento de causa Erraram pastores em correrias aos campos com objetivos proselitistas erraram assembleias de igrejas modificando estatutos Erraram Que as lições de seus erros nos sejam proveitosas Repetimos esta página para ficar claro que reconhecendo o valor de Zacarias Miranda não ignoramos as condições excepcionais em que escreveu como sem dúvida há de acontecer com os do campo oposto em relação a Carlos Pereira O Presbitério de São Paulo ainda sob o calor dos debates com espírito partidário ofereceu ao redator da Revista das Missões Nacionais uma pena de ouro em gratidão pelos serviços prestados à causa do Sínodo Guardamos no museu presbiteriano essa pena de ouro Faz parte de nossa história Guarda mola porém com uma fita negra Luto pelo espírito daquela época ouro pelo reconhecimento do valor de um homem de um escritor2 114 O julgamento de um historiador O professor ÉmileG Léonard da Escola de Altos Estudos da Sorbonne em Paris teve ocasião de estudar o que chamou as experiências eclesiásticas da Igreja Presbiteriana do Brasil Sobre o problema da formação da Igreja Indepen dente emitiu juízos que julgamos o leitor gostará de conhecer As questões pessoais e as reações humanas ofuscavam cada vez mais os pro blemas reais que estavam em jogo eles mesmos duma gravidade excepcional e que justificavam perfeitamente contanto fossem vistos e definidos com nitidez as lutas eclesiásticas e a separação pois tratavase de independência da igreja brasileira em relação às igrejasmães estrangeiras cujo papel poderia ser considerado como terminado e de modalidades de evangelização por meios unicamente eclesiásticos e religiosos mais direitos e mais francos do que a tática muito hábil da educação nos grandes colégios mistos Ora às questões e atitudes pessoais veio juntarse para acabar de complicar um problema falso através do qual as questões fundamentais que referimos vie ram a exprimirse mas num conjunto de circunstâncias as mais embaraçosas possíveis Tal foi a questão maçônica por cuja causa a divisão sem dúvida 2 Ferreira Galeria Evangélica p 151159 História da IPB Vol 1 e 2 livroindb 17 06032024 155958 A presente obra é um dos clássicos da historiografia protestante no Brasil Nenhuma outra denominação do país tem sua história narrada em um texto dessa envergadura somando mais de 800 páginas O livro foi inicialmente preparado para as comemorações do centenário do presbiterianismo pátrio 1959 Seguiuse uma segunda edição três décadas depois 1992 e agora decorrido pouco mais de três décadas vem a lume a terceira edição O Rev Alderi Souza de Matos é o historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil O Rev Júlio Andrade Ferreira 19122001 foi pastor de várias igrejas professor de teologia e prolífico escritor Notabilizouse como um dos grandes intelectuais da Igreja Presbiteriana do Brasil à qual dedicou toda a sua carreira ministerial Além de lecionar no Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas foi o primeiro historiador oficial da IPB cargo que exerceu por várias décadas Nessa função acompanhado de alguns colaboradores criou o Museu Presbiteriano e organizou o Arquivo Histórico da igreja História da Igreja Presbiteriana do Brasil 18591959 EDITORA CULTURA CRISTÃ wwweditoraculturacristacombr Resenha do Volume 1 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 1859 1903 A obra História da Igreja Presbiteriana do Brasil de Júlio Andrade Ferreira é um trabalho monumental que reconstitui com minúcia e riqueza documental os primórdios e o desenvolvimento do presbiterianismo no Brasil O primeiro volume dividido em três períodos históricos bem delimitados Penetração Expansão e Dissensão oferece ao leitor uma narrativa fluida que combina rigor histórico com sensibilidade para captar as nuances dos movimentos religiosos e as particularidades dos personagens que construíram essa denominação no país Assim na Parte I dedicada ao Período de Penetração 18591869 o autor nos apresenta a figura emblemática de Ashbel Green Simonton o pioneiro da missão presbiteriana no Brasil No capítulo 1 O Pioneiro Ferreira utiliza com maestria o diário pessoal de Simonton para reconstruir a chegada deste ao Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1859 suas primeiras impressões da Baía de Guanabara e os desafios iniciais da adaptação ao país As descrições vívidas transportam o leitor para o Rio de Janeiro do século XIX com suas ruas estreitas e peculiaridades urbanas tão distintas da metrópole atual Já no capítulo 2 Antecedentes complementa essa introdução ao traçar a trajetória de Simonton antes de sua vinda ao Brasil desde seu nascimento na Pensilvânia em 1833 até sua formação acadêmica e vocação missionária É especialmente tocante acompanhar sua jornada espiritual desde a decisão de seguir a carreira jurídica até a profunda transformação que o levou ao ministério e ao campo missionário A contextualização do Brasil religioso da época com menção à chegada prévia do Dr Robert Kalley e à distribuição das Escrituras pelas sociedades bíblicas situa adequadamente o terreno que Simonton encontraria Ainda nesta primeira parte destacase o capítulo 8 O padre protestante que narra a fascinante história de José Manoel da Conceição o primeiro pastor protestante brasileiro Nascido no ano da Independência e ordenado sacerdote católico Conceição representa um caso emblemático de conversão e ruptura com a tradição religiosa dominante Seu primeiro contato com protestantes em Sorocaba na Fábrica de Ferro de Ipanema e sua posterior transformação espiritual constituem um dos episódios mais significativos desse período inicial O capítulo 9 Imprensa Evangélica aborda a criação de um dos mais importantes instrumentos de difusão do protestantismo no Brasil oitocentista A fundação desse periódico representou um marco fundamental na estratégia missionária presbiteriana ampliando o alcance da mensagem para além dos limites das congregações Na Parte II que aborda o Período de Expansão 18691888 o autor demonstra como o presbiterianismo deixou de ser um fenômeno localizado para ganhar contornos nacionais Os capítulos 33 e 34 trazem histórias particularmente interessantes O padre José e as origens da igreja em Mogi Mirim e Conceição agoniza apresentam eventos significativos que ilustram tanto a expansão quanto os desafios enfrentados pelos primeiros presbiterianos brasileiros A figura do padre José outro sacerdote católico convertido reforça o padrão de ruptura religiosa que caracterizou alguns dos primeiros líderes presbiterianos nacionais Já os capítulos 35 e 36 Pioneiros do Nordeste e O Roteiro do Norte documentam a expansão geográfica do movimento para regiões distantes do eixo RioSão Paulo evidenciando o caráter nacional que o presbiterianismo assumia Essas narrativas mostram como apesar das distâncias e dificuldades logísticas da época formouse uma rede de igrejas e congregações em diversas províncias do Império Na Parte III dedicada ao Período de Dissensão 18881903 já aborda as tensões e conflitos que culminaram na divisão da igreja O capítulo 76 De Escola Americana a Mackenzie College oferece um estudo detalhado sobre a transformação de uma instituição educacional presbiteriana que se tornaria um dos pontos de discórdia dentro da denominação Sob a direção do Dr Horácio Lane essa instituição desenvolveu métodos pedagógicos inovadores e produziu material didático pioneiro com destaque para a gramática de Pereira e as aritméticas de Trajano A modernização dos métodos educacionais e a crescente influência da instituição sobre o próprio sistema educacional público de São Paulo ilustram tanto o sucesso do empreendimento quanto as tensões que gerava dentro da denominação Assim Ferreira demonstra grande habilidade na reconstrução desse período complexo utilizando ampla documentação primária e apresentando as diferentes perspectivas em jogo Portanto a obra constitui assim não apenas uma história denominacional mas um importante estudo sobre o protestantismo brasileiro e sua inserção na sociedade nacional durante o Império e os primeiros anos da República Resenha do Volume 2 História da Igreja Presbiteriana do Brasil 1903 1959 O segundo volume da História da Igreja Presbiteriana do Brasil de Júlio Andrade Ferreira dá continuidade à narrativa histórica iniciada no primeiro volume concentrandose nos períodos de Reconstituição 19031917 e Organização 19171946 Com a mesma abordagem cuidadosa e rigorosa o autor examina como a denominação se reestruturou após o cisma de 1903 e estabeleceu bases institucionais mais sólidas nas décadas seguintes consolidando sua presença e influência no cenário religioso brasileiro Na Parte IV dedicada ao Período de Reconstituição 19031917 o autor aborda diretamente as consequências imediatas da divisão que deu origem à Igreja Presbiteriana Independente O capítulo 112 Uma terceira igreja independente escrito originalmente por Vicente Temudo Lessa reconstitui com detalhes o momento dramático da separação quando o grupo dissidente liderado por Eduardo Carlos Pereira reuniuse para organizar formalmente a nova denominação A narrativa da emocionante reunião noturna no templo da rua 24 de Maio após a saída do grupo do templo do Largo dos Guaianazes captura a tensão e a emoção daquele momento histórico Foi uma hora de emoção Lágrimas deslizavam pelas faces Subiam expressivas orações Entoavamse hinos ao Senhor O autor detalha minuciosamente o processo de constituição do Presbitério Independente em 1º de agosto de 1903 com a presença de sete ministros e onze presbíteros que se desligaram do Sínodo É particularmente interessante observar como rapidamente a nova denominação cresceu apresentando um relatório de 100 profissões de fé apenas cinco meses depois com o número de adesões passando de 2600 No capítulo 113 A pena de ouro extraído de sua obra Galeria Evangélica Ferreira oferece uma análise equilibrada sobre José Zacarias de Miranda defensor do Sínodo durante a controvérsia que levou ao cisma O autor demonstra notável sensibilidade ao abordar esse tema delicado reconhecendo que para os que apreciam a paz e estimam os irmãos independentes a revivescência desses fatos não pode deixar de ser penosa Ao mesmo tempo ressalta a importância de não deixar no esquecimento figuras relevantes da história denominacional O texto apresenta uma análise nuançada do conflito utilizando até mesmo testemunhos de membros da Igreja Independente que anos depois reconheceram excessos cometidos durante o período de separação A metáfora da pena de ouro com uma fita negra guardada no museu presbiteriano sintetiza brilhantemente a ambiguidade daquele momento histórico Luto pelo espírito daquela época ouro pelo reconhecimento do valor de um homem de um escritor Já o capítulo 125 A obra educativa do Nordeste ilustra como a denominação mesmo após o cisma continuou investindo em educação área tradicionalmente forte no presbiterianismo brasileiro O autor destaca a fundação do Colégio Americano de Pernambuco atual Agnes Erskine por Miss Elisa Reed em 1º de agosto de 1904 apresentando a lista nominal dos dezoito primeiros alunos e utilizando poemas memorialísticos de exalunos como Cecília Rodrigues e Maurício Wanderley para caracterizar tanto a instituição quanto sua fundadora Era a mulher mais forte era a mulher mais cultaQue já vi entre nós Costumava dizerA mulher superior tudo pode ainda exultaEm cumprir o que à outra é impossível fazer A obra educativa no Nordeste não se limitou ao trabalho de Miss Reed incluindo também os esforços do Rev Henderlite que em Garanhuns iniciou a formação de pastores para a região Tenho quatro estudantes sob meus cuidados e já estou tomando providências para receber mais um Essa atenção às diferentes regiões do país demonstra a visão abrangente do autor que não se limita a narrar a história do presbiterianismo nos centros mais desenvolvidos Na Parte V dedicada ao Período de Organização 19171946 o livro documenta o amadurecimento institucional da denominação Destacase o capítulo 191 Casa Editora Presbiteriana que narra a criação de uma instituição fundamental para a disseminação do pensamento e da literatura presbiteriana no Brasil Fundada em 1946 durante a Campanha do Centenário a editora representou um esforço cooperativo significativo com uma estrutura de sociedade por ações das quais 60 ficariam com a igreja Supremo presbitérios ou igrejas locais O autor destaca as dificuldades iniciais enfrentadas pela editora e o papel decisivo de figuras como o Rev Boanerges Ribeiro e os presbíteros João Lupion Filho Armando Azevedo e Péricles de Oliveira Prado O crescimento vertiginoso da empresa é documentado por meio de números impressionantes para a época a CEP já publicou 2387500 folhetos 364000 opúsculos 153000 livros Já tem em sua lista de edições 77 títulos diferentes Suas vendas nestes nove anos ultrapassaram seis milhões de cruzeiros Ao longo de todo o segundo volume Ferreira mantém o estilo característico do primeiro combinando rigor histórico uso extensivo de fontes primárias e sensibilidade para captar as complexidades humanas por trás dos eventos institucionais Portanto o resultado é uma obra que transcende o interesse meramente denominacional constituindo um importante documento para a compreensão da história religiosa e cultural do Brasil na primeira metade do século XX