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Platão contra a arte Fernando Muniz publicado em HaddockLobo R Os Filósofos e a Arte RJ Ed Rocco 2010 pp 1542 Platão o mais poético dentre os filósofos Shelley Platão o maior inimigo da arte que a Europa jamais conheceu Nietzsche Introdução Entusiasmo e Mímesis são dois conceitos fundamentais para a compreensão do fenômeno artístico em Platão Embora ambos sejam produtos da mesma vontade de exclusão da poesia pertencem a estratégias diferentes Com a doutrina do Entusiasmo Platão retira dos poetas o direito de falar à Cidade em nome de um pretenso conhecimento com a Mímesis ele caça a cidadania da própria poesia Veremos no decorrer do texto que Entusiasmo e Mímesis são conceitos mutuamente excludentes e que aparecem nos Diálogos sempre em diferentes contextos dramáticos A despeito do fato de terem sido cunhados com o propósito firme de combater a poesia tornaramse paradoxalmente pilares da estética moderna Este parece ser o destino de Platão seja em relação à arte seja em relação aos demais tópicos filosóficos as regras do jogo reflexivo estabelecidas por ele mostramse tão definitivas que ainda que se queira reverter o jogo platônico o resultado parece sempre previsto na trama dos Diálogos Talvez por isso influentes pensadores contemporâneos da arte À Maura Iglésias em sinal de admiração e amizade Parte deste texto foi apresentada no X Simpósio da Sociedade Brasileira de Platonistas 1 renovem a crença na célebre sentença de Alfred Whitehead de que a filosofia ocidental não fez mais do que colocar notas de pé de página nos Diálogos de Platão Se tomarmos como exemplo a filosofia da arte seremos forçados ainda que perplexos a concordar com ele Partamos então do ponto mais extremo da crítica platônica à arte o livro 10 de A República Dali poderemos retrospectivamente seguir os passos necessários para que do Entusiasmo Platão tenha chegado à Mímesis e da Mímesis à sua palavra final sobre a arte Na sua grande obra sobre a Justiça A República Platão constrói dialeticamente ao longo de dez livros uma Cidade de palavras2 justa que corresponde ao Indivíduo justo Cidade e Indivíduo espelhamse como macrocosmo e microcosmo são estruturas complexas de partes hierarquizadas em função do Bem e da Verdade A importância da educação nesse processo coloca a poesia entendida aqui num sentido bem amplo3 no centro da cena dramática de A República A tradição grega desde suas mais profundas raízes orais sempre reconheceu na poesia sua principal fonte de conhecimento uma enciclopédia tribal como propõe Havelock4 e nos poetas suas autoridades supremas Do ponto de vista de Platão a pretensão da poesia de responder às grandes questões sobre a vida humana em outras palavras de disputar com a filosofia no terreno éticopolíticometafísico é absolutamente injustificável Eis por que ele apresenta um acurado exame da natureza da poesia do seu modo de funcionamento e do tipo de experiência que ela promove para demonstrar a sua total incapacidade de guiar a vida humana na direção do Bem e da Verdade Além desta pretensão infundada ao conhecimento profundo da realidade Platão detecta na arte algo bem mais grave uma ameaça inseparável de seu próprio modo de operar pois os prazeres que proporciona destroem as condições de acesso ao conhecimento Dotada de uma potência corrosiva a arte arruína o intelecto instaura dentro da alma do indivíduo e fora dela na Cidade o reinado injusto de déspotas selvagens Ao privar desse modo a arte de sua independência e de seu valor próprio Platão ataca o aspecto mais fundamental do que modernamente entendemos por arte a autonomia ou seja a arte tomada como valor separável dos valores éticos políticos ou de qualquer outro tipo de valor Levados muitas vezes por essa crença profundamente enraizada de que a arte se autojustifica alguns amantes da arte poetas e pensadores tomaram a crítica platônica como uma visão equivocada e seus argumentos irrelevantes não merecendo portanto nenhuma resposta séria5 Alguns movidos pelo espanto ou pela indignação tentaram defender a arte das acusações de Platão Outros quiseram ainda defender Platão dele mesmo salvando a arte e o filósofopoeta mesmo que para isso tivessem que esquecer seus textos6 Tais atitudes mantiveram tenso o campo de batalha da antiga disputa entre a Filosofia e a Poesia 607b7 de que nos fala Platão no final de A República Ali julgando acertar um golpe de misericórdia na arte agonizante faz Sócrates proclamar uma das sentenças mais perturbadoras de toda história da filosofia Nosso argumento nos força a expulsar a poesia da Cidade Longe de ser um gesto isolado esse decreto representa o ápice de um movimento que percorre os Diálogos do início ao fim Acompanhar esse movimento nos vários contextos epistemológicos e dramáticos dos Diálogos não é uma tarefa simples Os modos de abordagem são vários os conceitos distintos os contextos diversos as estratégias diferentes em suma seguir atentamente o fio da teia em que essa questão se equilibra implica observar seus múltiplos aspectos sem perder de vista a motivação persistente que a sustenta Nos primeiros diálogos compostos por Platão a estratégia de exclusão da poesia já se manifesta de modo inequívoco A visão predominante desse período é fornecida pela doutrina do Entusiasmo ou seja a poesia entendida como resultado de intervenção divina Dos diálogos do período mediano em diante a Mímesis substitui o Entusiasmo A contradição entre as duas interpretações pode ser esquematicamente colocada da seguinte forma o Entusiasmo neutraliza a participação efetiva do poeta no processo de criação e a Mímesis ao contrário apresenta uma visão positiva desse mesmo processo atribuindo ao artista uma atividade produtora que responde pela autoria da obra Por serem doutrinas incompatíveis Platão tem o cuidado de não as associar em nenhum contexto7 Mas essa incompatibilidade deve ser relativizada Cada doutrina responde a um tipo específico de estratégia de exclusão da poesia e a contextos epistêmicos diferentes e como veremos estão de certo modo coerentemente articuladas Entusiasmo Nos primeiros diálogos como já foi dito a doutrina do Entusiasmo domina a reflexão sobre a poesia Sócrates faz referência explícita a ela na Apologia 22 ac e no Mênon 99cd mas só a apresenta em toda a sua complexidade no pequeno e difícil diálogo Íon8 O diálogo narra o encontro entre Íon o rapsodo e Sócrates o filósofo Íon está chegando de Epidauro onde venceu uma competição de rapsodos Sócrates manifesta de imediato sua inveja e admiração pelos rapsodos Não apenas por estarem sempre tão belissimamente vestidos mas por conviverem com os grandes poetas especialmente o mais divino de todos Homero Difícil não perceber a ironia nessa confissão de inveja de Sócrates A menção às vestimentas e aos adornos coloca sob suspeita não apenas esses mas também os outros objetos da inveja de Sócrates inclusive e principalmente o valor da convivência com os poetas Mas com essa confissão de inveja Sócrates ganha a atenção vaidosa de Íon e pode assim desenvolver seu argumento De saída Sócrates explicita a razão de sua inveja os rapsodos precisam saber de cor não apenas os versos mas também o pensamento do poeta É impossível que ele possa desempenhar belamente sua atividade se não entender o sentido das palavras do poeta 430c Sócrates oferece então uma primeira explicação para a suposta habilidade do rapsodo ele é um hermeneús9 um tradutor do pensamento do poeta para a audiência Platão utiliza esse termo chave em sua estratégia para desqualificar a pretensão do rapsodo de falar em nome da poesia E já na abertura Sócrates convence o confuso rapsodo de que ele é um hermeneús um tradutor do pensamento de Homero para um público que como devemos pressupor não entende a linguagem de Homero O modelo como vemos é linguístico o tradutor conhece o sentido dos versos na realidade fala a língua do poeta e traduz o sentido dos versos para a audiência Com isso Platão faz do artista performático uma espécie de crítico literário10 que fundamenta sua prática numa hermenêutica da decifração do sentido Tal operação cognitiva exige um processo de compreensão intelectual do sentido dos versos cuja expressão se completa na performance do rapsodo O próprio Íon em 530c afirma foi isso o que me deu mais trabalho na minha téchne E acrescenta um ponto crucial Ele se diz detentor de um conhecimento sobre peri Homero Colocada assim em termos cognitivos e intelectuais a questão deve ser resolvida dialeticamente Em outras palavras Íon não pode para resolvêla fazer uma exibição mas precisa sim fazer uma demonstração por meio do exame socrático o elenchos Neste exame a pretensão de Íon é facilmente refutada por Sócrates se a questão da poesia for colocada em termos cognitivos Íon deve ser dotado de um conhecimento rigoroso téchne sobre toda a poesia e não apenas sobre Homero Mas Íon insiste só falo bem Homero qualquer outro me deixa sem ter o que dizer Somos conduzidos então à questão decisiva Se Íon não canta Homero por téchne se não tem um conhecimento especializado o que efetivamente acontece com ele Para responder esta questão será preciso antes saber afinal o que é uma téchne A tradução deste termo costuma provocar mais confusão do que esclarecimento como no caso da tradução usual por arte Uma téchne nada tem a ver com o que chamamos de arte11 Téchne é um saber organizado transmissível didaticamente produtor de efeitos práticos dotado de procedimentos racionalmente justificáveis A carpintaria e a medicina são bons exemplos de téchne12 O leitor moderno obviamente rejeita a discussão da poesia em termos de conhecimentos práticos como a carpintaria e medicina Estaria Platão atacando a poesia naquilo que ela nada tem de poética13 Ao acusar Íon de não ter competência técnica sobre os assuntos de que trata Homero Platão não estaria ignorando os traços mais relevantes do que chamamos experiência estética Teria Platão destacado e reconhecido essa dimensão própria do fenômeno da arte Voltaremos a estas questões mais a frente Uma ideia de inegável pertinência no entanto é proposta pelo diálogo se a poesia não se reduz a aspectos intelectuais característicos dos conhecimentos produtores de objetos ou de eventos como explicála Como explicar que o rapsodo esse ingênuo e confuso interlocutor de Sócrates possa executar à perfeição a poesia homérica eletrizar a plateia e transportála para a espacialidade e a temporalidade dos eventos narrados E ainda mais profundamente por que essa experiência é valorizada pelo público Platão longe de ignorar essas questões responde a todas elas com a doutrina do Entusiasmo Na verdade Sócrates apresenta a doutrina com pretexto de dar conta do fato enigmático de Íon ser dotado de uma especialidade nãotécnica Este fenômeno é explicado em termos de intervenção divina Quando canta Íon está possuído pelas Musas está estusiasmado éntheos Éntheos significa literalmente ter um deus dentro e o substantivo enthusiasmós o estado resultante desta intervenção psíquica O emprego usual dos termos éntheos enthusiasmós no contexto grego arcaico não implica necessariamente perda de consciência possessão ou transe Platão inventa um novo sentido para esses termos criando assim um grau extremo de Entusiasmo que altera a visão de sua época sobre a poesia14 Em 533de o que te move é uma potência divina como a pedra magnética Esta pedra não apenas atrai anéis de ferro como transfere sua potência a eles de modo que passam a fazer o mesmo que a própria pedra atrair outros anéis E a potência que está em todos eles depende unicamente da pedra Do mesmo modo a Musa torna pessoas entusiasmadas e através delas forma uma cadeia de entusiasmados pendurados uns nos outros os poetas portanto se são bons não são por terem téchne mas porque estão entusiasmados possuídos É desse modo que cantam todos esses belos poemas Aqui Platão irá retomar o termo hermeneús não mais no sentido de tradutor mas sim no de transmissor Vendo o rapsodo como o elo de uma cadeia de transmissão de acordo com metáfora da pedra magnética deslizamos então subrepticiamente do modelo linguístico para o modelo eletromagnético De uma hermenêutica da decifração do sentido para uma hermenêutica da intensidade em que um fluxo magnético percorre um circuito que vai da Musa à audiência Desde o início a performance poética epídeixis está na mira da discussão ela é o acontecimento poético por excelência Em grego epídeixis nomeia a ação de mostrar algo diante de um público de fazer uma exibição a performance que em certo momento do diálogo Íon se propõe a fazer para Sócrates mas que este recusa O desprezo de Sócrates pela performance é um dos tópicos centrais da crítica platônica à arte e permanecerá no foco da discussão até A República Quando na única oportunidade Íon recita Homero Sócrates o interrompe bruscamente com um basta A impaciência de Sócrates não parece estar de acordo com seu reconhecimento dos aspectos valorosos da poesia A despeito do efeito poético eletrizante da performance o direito que a poesia tem de falar em nome das muitas coisas admiráveis de que fala a poesia é o objeto da disputa Sócrates contrapõe performance a elenchos seu método de exame e refutação Como tradutor hermenêutico o rapsodo é reprovado no teste não demonstra saber do que fala É capaz de fazer uma epídeixis performance mas não uma apódeixis prova demonstração15 Podemos extrair da conversa socrática no Íon duas formas de comunicação entre deuses e homens a comunicação intensiva eletromagnética da qual poetas e rapsodos são os transmissores e outra dialética mais afinada com a prática filosófica construída a partir de operações da inteligência Através da comunicação intensiva os deuses transmitem muitas coisas belas Íon 533e 534d 534e no mesmo ato em que impedem que haja um acesso discursivo às suas significações primeiras através da comunicação dialética a demonstrativa eles fazem com que os homens saibam que os verdadeiros autores da poesia são eles os deuses A motivação do Íon portanto é clara tornar ilegítima a pretensão dos poetas e rapsodos ao conhecimento das muitas coisas admiráveis de que por intervenção divina cantam Nele não há nenhuma menção à Mímesis16 Se Platão naquele momento já refletia sobre ela não há como saber Sabemos entretanto que a entrada da Mímesis na cena dos Diálogos se dá em um diálogo considerado por muitos transicional17 o Górgias A doutrina da Mímesis pressupõe um procedimento de fabricação de imagens portanto um processo em que o poeta está engajado como produtor e pode ser responsabilizado por isso Resta saber qual é a natureza e o modo de funcionamento desse procedimento que embora se assemelhe a uma técnica não passa segundo Sócrates de empiria de falsatécnica Transições Não há como vimos no Íon nem uma compreensão do modo de fabricação da poesia nem uma rejeição explícita da poesia e da arte em geral Se a poesia representa um perigo é apenas indireto a ameaça implícita na autoridade infundada atribuída a pessoas como Íon para responder a questão fundamental sobre como devemos viver e conduzir as nossas vidas Mas se por um lado poetas e rapsodos são excluídos da discussão sobre as coisas valorosas sob o pretexto de não terem conhecimento do que falam por outro a evidência de que a poesia produz por seus próprios meios certos efeitos permanece inabalável Não sendo pela técnica por qual procedimento seriam então produzidos Íon fala de seu grande esforço para desenvolver o que chamou de sua técnica e demonstra ter consciência dos efeitos que produz na audiência Nesse sentido o Górgias dá um passo adiante Um passo que marca uma transição epistêmica que permitirá a passagem da postura meramente negativa e aporética para a interpretação positiva da performance em geral A retórica será seu modelo exemplar Enquanto no Íon o efeito eletrizante da exibição poética é explicado em termos de intervenção divina no Górgias a ênfase recairá nas habilidades naturais do performer Capacidades e aquisições cognitivas passam a desempenhar a função de condições necessárias para o exercício desse gênero de produção 463a i alma perspicaz e arrojada ii habilidade natural nas relações humanas iii experiência e iv dedicação Tratase portanto de explicar naturalmente o modo de funcionamento da retórica e por extensão da própria poesia18 O poder extraordinário de ambas manifestase através do mesmo modo de comunicação a epídeixis a performance pública Sócrates pergunta a Cálicles em 502b E quanto a augusta e maravilhosa poesia da tragédia terá outro objetivo senão fornecer prazer aos espectadores Cálicles concorda Então segue Sócrates se alguém retirar de todas as composições poéticas a melodia o ritmo e o metro não sobrariam apenas palavras E conclui Não é retórica então o que fazem os poetas nos teatros Obviamente a motivação agora é outra Tratase de mostrar como artistas e retóricos conseguem fazer o que fazem Que tipo de coisa fazem E principalmente como fazem qual o modo de produção das práticas de prazer19 Para dar conta da existência dessas práticas de prazer Platão apresenta pela primeira vez nos Diálogos a distinção inequívoca entre corpo e alma20 A distinção é elaborada a partir da noção de saúde e permite a discriminação das diversas espécies de técnica Para tal Sócrates parte do seguinte argumento como há um corpo e uma saúde do corpo 464ab e uma saúde da alma Há técnicas que dizem respeito ao corpo e outras que dizem respeito à alma para o corpo a Ginástica e a Medicina e para a alma a Legislação que corresponde à Ginástica e a Justiça que corresponde à Medicina Tendo estabelecido assim uma série divergente de elementos Sócrates passa a expor a gênese das práticas de prazer na passagem a seguir Existem então quatro tipos de técnicas que cuidam sempre umas do maior bem do corpo e outras do maior bem da alma A Kolakéia o gênero das práticas de prazer dandose conta disso quero dizer não por conhecimento mas por suposição dividese em quatro travestindose de cada uma das partes e atua como se fosse a parte da qual se travestiu e se por um lado não se preocupa com o melhor dos bens por outro persegue o que é mais prazeroso e engana a falta de inteligência desde que parece ser valiosíssima Assim a Culinária tendose travestido de Medicina atua como se fosse quem conhece os melhores alimentos para o corpo 464c3464d521 A partir dessa gênese das práticas de prazer Sócrates introduz uma nova expressão para caracterizar a Retórica Ela seria não uma técnica mas o eidolon de uma parte da política 463d A reação de perplexidade dos interlocutores prova a novidade do emprego da palavra Por Zeus Sócrates nem eu estou conseguindo acompanhar o que estás dizendo diz Górgias dizeme em que sentido estás falando da Retórica como um eidolon22 fantasma ou aparição de uma parte da política insiste Górgias 463e A escolha dessa palavra para designar a natureza desses procedimentos terá implicações para o desenvolvimento da Mímesis em A República Platão oferece à imagem um novo papel um status fenomênico particular uma semelhança que não mais diz respeito ao real mas à irrealidade23 Na sequência Sócrates indica o aspecto formal do risco que está implicado na existência desses domínios diferenciados A indicação não deixa espaço para dúvidas o perigo está no desaparecimento dessas delimitações e na indiscernibilidade entre os domínios A semelhança aparente teria o poder de eliminar diferenças como as que existem entre o médico e o cozinheiro Uma ameaça que fará com que o Estrangeiro no Sofista 231a alerte Tal como entre o lobo e o cão entre a fera mais selvagem e a mais dócil a segurança está sobretudo em manter as semelhanças sob vigilância constante O Górgias explicita a grande ameaça que pairará sobre a conversa de A República do começo ao fim o embaralhamento dos domínios que implica a ruína do projeto filosófico socrático do estabelecimento do discurso racional como o condutor da vida O Górgias prepara portanto o campo de batalha para o confronto entre filosofia e a poesia em A República Fornece os meios para que a exclusão seja realizada a partir de argumentos éticos políticos e metafísicos Alguns pontos relevantes dessa preparação são os seguintes 1 A análise da natureza fantasmática das falsastécnicas e das condições naturais para o exercício profissional das práticas de prazer fornece uma explicação positiva para aparência de conhecimento que a poesia exibe 2 Entendida assim de forma positiva a performance poética como prática de prazer poderá responder pela cumplicidade tão íntima que faz passar para a alma do público os sentimentos figurados pelo performer alimentando e fortificando as suas paixões A República 606b 3 A afecção psíquica que resulta das práticas de prazer é sintoma de uma transformação dos desejos atitudes e crenças O prazer tem portanto função cognitiva faz crer cria convicções promove uma visão do mundo No Fédon este ponto está bem estabelecido Fédon 83cd Consiste numa inferência inevitável que se impõe à alma de todo homem no instante mesmo em que experimenta uma sensação intensa de prazer ou dor ése levado a tomar a causa da afecção como a coisa mais evidente e verdadeira ainda que não o seja já que se trata de coisas visíveis Na sequência Sócrates não deixa dúvidas são afecções desse tipo que irão encadear cada vez mais estreitamente a alma ao corpo De modo que cada prazer ou cada dor funciona como pregos que prendem a alma ao corpo fixandoa nele e dando a ela uma forma corporal a ponto de fazer com que ela tome por verdadeiro tudo o que o corpo afirma ser Em suma é o prazer por sua capacidade de gerar crenças que apaga a diferença entre as dualidades corpoalma sensívelinteligível artefilosofia Mímesis e Ética Em A República Platão está preparado para enfrentar a arte com novas e velhas armas Nos livros 2 e 3 Sócrates dá uma detalhada explicação sobre o papel da poesia na formação dos jovens especialmente daqueles que devem desempenhar uma função de governantes na Cidade justa A poesia e as outras artes desempenham função extremante positiva e indispensável para a formação do caráter dos futuros governantes Afinal eles serão os Guardiões da Cidade e devem ser treinados como cães de guarda A metáfora indica a formação de um caráter refinado e raro combinação de bravura e docilidade impulsividade e natureza filosófica Mas como à sombra do cão descansa sempre o lobo a tarefa educativa estará permanentemente ameaçada pela produção de efeitos indesejados a criação de lobos em vez de cães de guarda déspotas selvagens em vez de guardiões justos Esta fronteira perigosa que confunde as semelhanças como vimos no Górgias precisa ser vigiada e controlada Eis por que a poesia e as artes em geral como práticas de prazer precisam passar pelo rigoroso crivo de análise que avalia seus efeitos sobre os jovens Não há nos livros 2 e 3 nenhuma condenação explícita à arte Pelo contrário Sócrates prevê uma educação tradicional em que elementos artísticos simetria proporção ritmo são importantes na formação do caráter Fica claro que para Platão uma sociedade não pode prescindir do valor formativo das artes Em 401c a mensagem é clara é necessário que os jovens sigam as pegadas que nos conduzem na direção do belo e da forma graciosa Para isso belas obras devem atingir seus olhos e ouvidos como uma brisa salutar e leválos sem que se deem conta desde a infância à semelhança à amizade à harmonia com a beleza da razão Que a educação pelas artes mousiké seja capital explicase pelo fato de que o ritmo e a harmonia penetram mais fundo na alma e afetandoa assim mais fortemente dandolhe uma graciosa forma 401d Fica reconhecida assim a potência transformadora da arte sua função na formação ética e as consequências políticas dessa formação Este reconhecimento é como já vimos ambivalente A mousiké tanto pode produzir os referidos efeitos de criação dos cães de guarda como pode criar os lobos Como diz Sócrates em 401b podem produzir tanto a ausência de forma graciosa o mau ritmo a desarmonia irmãs do discurso mau e do mau caráter ou produzir qualidades opostas irmãs e imitações do caráter temperante e bom A vigilância deve atingir não apenas os poetas mas também os outros produtores Qualquer que seja a obra seja em imagens de seres vivos ou edifícios ou qualquer tipo de produção deve ser proibida de tratar do vício da licença da baixeza da ausência de forma graciosa Para que as imagens do mal não sejam assimiladas pouco a pouco e inadvertidamente e acabem por acumular um grande mal na alma Este programa de vigilância e controle platônico decorrente da crítica dos livros 2 e 3 apóiase basicamente em uma análise tanto do conteúdo quanto da forma da performance poética No que diz respeito ao conteúdo ou seja sobre o que deve ser dito a análise expõe uma série de aspectos eticamente negativos da representação poética dos deuses e heróis Principalmente os traços distintivos da divindade como a metamorfose os disfarces Segundo Sócrates tais traços não combinam com a perfeição das divindades A imobilidade e a unidade sim dizem respeito à perfeição Os heróis por sua vez não podem ser representados experimentando emoções intensas e entregandose a elas de um modo descontrolado Tal análise sugere assim uma reforma religiosa uma nova teologia e uma correspondente censura que corrija a natureza e a imagem ética dos deuses e heróis Quanto à forma ou seja sobre o modo como essas coisas devem ser ditas Sócrates apresenta três modos de expressão A narrativa simples a mista e a mimética A narrativa simples é aquela em que o relato não envolve a adoção do ponto de vista dos personagens a mimética em que o autor desaparece e os personagens assumem o papel narrativo na mista os dois modos de expressão são empregados A forma do discurso direto24 em que o autor aparece escondido simulando ser cada um dos personagens ganha atenção especial aqui Ao contrário do Íon em que a performance poética é explicada pelo magnetismo Sócrates pretende agora explicar racionalmente este efeito O magnetismo surge agora como o resultado de uma atividade mimética um procedimento que envolve uma série de habilidades naturais procedimentos de simulação calcados em uma base psicológica sólida Mímesis25 esse um termo equívoco em Platão ocupa agora o centro da sua reflexão sobre a arte Neste contexto vinculase diretamente à performance Mimeisthai o verbo significa agir como alguém agir na forma de emulação O foco da discussão portanto concentrase na performance artística Mas qual seria agora a ameaça Vimos no Íon que a ameaça implícita era deixar que a questão sobre como devemos viver fosse respondida por quem não sabe do que fala Agora temos outro contexto a força da performance estaria na capacidade de envolver o espectador no processo de emulação O espectador ao se entregar às emoções que estão em jogo na cena sofre através da imaginação uma identificação empática com o personagem O prazer intenso que experimenta com a performance é inseparável da metamorfose que ele mesmo sofre Um espectador incapaz de simular alteridades emoções e modificações não desfruta do prazer da cena É nesse sentido que Platão atribui ao prazer da representação a expressão de um instinto profundo do ser humano uma espécie de apetite enraizado na alma humana não porém na sua melhor parte que exige ser saciado Mas qual seria esse instinto e qual o malefício por ele gerado Que mal pode haver no jogo imaginativo e lúdico que faz o espectador experimentar ser outro Para sermos justos com Platão é preciso recolocar a questão em termos platônicos quais hábitos atitudes crenças e desejos estão sendo treinados com a Mímesis das ações Se a Mímesis modela o caráter é preciso saber em primeiro lugar que tipo de caráter ela modela qual o tipo de atitude que ela estimula que espécie de crença ela forja não podemos julgar a Mímesis sem responder essas questões Respondêlas no entanto para Sócrates significa reconhecer que o treinamento artístico que a Mímesis oferece é um treinamento para a vida e que pouco a pouco e inadvertidamente os espectadores passam a desfrutar do mesmo prazer intenso em agir da mesma maneira na vida real 395d Para Platão portanto a arte pelo menos a que interessa não é um mero jogo um divertimento inofensivo mas um modo poderoso de transformar a vida Daí Sócrates condenar de modo tão severo o tipo de coisa que se imita e o prazer que se desenvolve a partir do habito da imitação O problema estaria centrado na imitatividade26 a capacidade de tudo imitar o prazer de imitar o que quer que seja A imitatividade esse prazer da metamorfose e da variação gera inevitavelmente um caráter dotado de versatilidade Esta é maior objeção política de Platão à imitatividade Ela faz variar a especialização abole o princípio que prescreve para cada cidadão o exercício de uma e apenas uma função dentro da cidade O espetáculo poético quando funciona bem não pode deixar de produzir variação das emoções nem uma experiência com a alteridade27 mas qual o pressuposto geral desse argumento Platão não distingue qualitativamente emoções e prazeres estéticos e não estéticos As emoções despertadas pela arte não se distinguem das emoções da vida real Se ele está certo devemos acreditar que a poesia envolve imaginativamente nossa vida emocional e aceitar também que ele tem razão em afirmar que esse engajamento emocional funciona como um canal similar à cadeia transmissora do Íon por onde valores atitudes e crenças são transferidos da obra de arte para a mente do espectador A performance pública produziria desse modo indivíduos internamente múltiplos e versáteis repletos de capacidades e portanto incompatíveis com o ideal da cidade organizada em uma hierarquia fundada na especialização Mas os argumentos contra a performance mimética embora sejam muito mais eficientes que os apresentados no Íon são ainda insuficientes para levar a cabo projeto platônico de exclusão da arte O anúncio dessa exclusão em vários momentos dos livros 2 e 3 indicanos na realidade que essa promessa só será completamente cumprida quando todos os argumentos forem apresentados Por enquanto Sócrates contentase em ensaiar o veredicto em 397de Se um homem que tivesse a habilidade de transformarse em muitas pessoas e imitar todas as coisas chegasse a nossa Cidade e quisesse fazer uma performance de seus poemas diríamos a ele que esse não existe esse tipo de homem em nossa Cidade e nem sequer é permitido que haja Depois de derramar mirra em sua cabeça e coroálo com louros mandáloíamos para outra Cidade Cabe na Cidade ideal apenas um tipo de poeta o austero aquele que só imita os modelos prescritos pela própria Cidade28 Mas quem de nós modernos o chamaria ainda de poeta Mímesis e Metafísica O livro 10 é o principal texto platônico sobre a arte desde que seja lido como o cume de um processo o resultado conclusivo de uma investigação iniciada nos primeiros diálogos Neste sentido os livros 2 e 3 de A República devem ser tomados como pressupostos incompletos para que os argumentos contra a arte do livro 10 sejam entendidos em toda sua complexidade Já na abertura do último livro de A República Sócrates deixa claro esse processo acumulativo quando garante que a necessidade de recusar a poesia mimética fica evidente desde o momento que definimos em separado as partes da alma 595a Calcado em uma profunda análise da dinâmica da alma no livro 4 cujas consequências políticas são desenvolvidas nos livros 8 e 9 e na Metafísica apresentada nos livros 57 Platão pode apresentar uma noção geral da Mímesis e a partir dela dar a sua palavra final sobre a arte O tema central do livro 10 retoma o conceito de Mímesis dos livros 2 e 3 mas desta vez não mais do ponto de vista éticopolítico ou educacional A Mímesis aparece agora com um sentido novo e até certo ponto surpreendente Para que possamos avançar na direção dos novos argumentos é preciso responder antes à questão central qual é esse novo sentido da Mímesis Nos livros anteriores focalizados especialmente na performance artística a Mímesis está diretamente associada à atuação dramática No livro 10 ela é apresentada com outro sentido mais geral e mais ambicioso que engloba o anterior e o qualifica Inventando uma espécie de compreensão rudimentar da representação artística Platão desenvolve a ideia de que a Mímesis é representação da aparência Tal representação fundamentase em uma semelhança com aspectos secundários e superficiais da coisa representada Desse ponto de vista a Mímesis teria como que inscrita na sua própria natureza a impossibilidade de mostrar as coisas como realmente são limitandose a mostrar apenas como aparecem Como representam a aparência das coisas as artes miméticas mantêm com o original do qual pretendem fornecer a cópia uma relação tênue forjada por uma semelhança superficial Essa mudança em relação ao sentido da Mímesis faz com que muitos comentadores29 vejam uma contradição insolúvel entre os livros 2 e 3 e o livro 10 Afinal vimos que a Mímesis não é rejeitada na sua totalidade nos primeiros livros Algumas exceções são permitidas 396b398b No livro 10 ao contrário toda poesia é Mimética e deve ser banida 595a Mas na verdade o que parece ser uma incoerência é um aprofundamento da crítica e do desdobramento lógico das críticas anteriores O que foi rejeitado nos livros 2 e 3 a performance dramática prazerosa continua sendo rejeitado O ataque agora muito mais radical e profundo toma a Mímesis como um procedimento de fabricação de imagens que responde por toda produção poética audiovisual Uma analogia permite a passagem de um sentido a outro Utilizada de um modo peculiar a doutrina das Formas dá apoio à revelação da natureza das artes miméticas A intenção de Sócrates desta vez não é fazer uma aplicação rigorosa da doutrina das Formas mas usála analogicamente de modo a funcionar como exemplo esclarecedor A analogia é a seguinte quando um carpinteiro constrói uma mesa podemos claramente separar a ideia em que o artesão fixou sua atenção para construir a mesa e a mesa produto da criação do carpinteiro Sócrates supõe aqui que a ideia não é criada pelos artesãos mas pergunta sobre a possibilidade da existência de um artesão que pudesse criar todas as coisas A maneira mais simples diz Sócrates seria mover um espelho produzindo aparições de todas as coisas existentes Dentre esses produtores de coisas desprovidas de existência real ainda que dotadas de aparência encontramos o pintor A analogia está pronta para funcionar O pintor cria um terceiro elemento da série a imagem pintada da cama Temos então o trio a Forma da cama a cama objeto sensível a cama imagemaparência A cama real a Forma é separável da cama sensível mas mantém com ela uma relação de profunda semelhança Essa semelhança dá ao objeto sensível certo grau de realidade Já a cama pintada por ser uma imitação a partir da aparência encontra se ontologicamente degradada É isto o que define o imitador produtor de imagens mas imagens afastadas a dois graus da realidade30 Permanece assim o sentido parasitário da técnica poética O imitador distinguese do produtor como o pintor distinguese do carpinteiro Como no Górgias a mimética é sobretudo falsatécnica República 597c Resultado os artistas miméticos produzem aparências sem qualquer grau de semelhança profunda com a coisa imitada A questão passa portanto do campo ético político para o metafísicoepistemológico que tipo de coisa a arte produz Que tipo de conhecimento seus praticantes possuem Conhecimento para ser verdadeiro precisa ser conhecimento da Forma E como não há caminho contínuo do sensível à Forma a imagem mimética só pode ser imagem da imagem aparência da aparência Mas se por um lado isso explica o estatuto ontológico dos produtos artísticos por outro não dá conta do modo como funcionam e obtêm o seu êxito É nesse ponto capital que o estudo da natureza da arte avança31 A arte potencializa a experiência sensível intensifica as emoções a ponto de impedir a descoberta da natureza do sensível como imagem imperfeita da Forma ou seja impedir que sua deficiência seja exposta A arte oculta a deficiência do sensível Mas de que maneira Tornandoo autossuficiente Daí a educação artística produzir massas de plateias fanáticas pelo audiovisual fanáticas pelos espetáculos de imagens e sons É nesse sentido que a arte é um treinamento para a estetização da experiência humana Aqui onde nós modernos poderíamos ver a fresta de uma luz apolínea Platão vê as trevas da Caverna Os prazeres intensos que a arte produz fomentam nas massas a crença de que só coisas belas merecem crédito As ditas coisas belas são produtos da força cognitiva dessas experiências de prazer intenso São elas que permitem que a Imagem seja tomada como o Original Na verdade a arte apaga a fronteira entre a imagem e o Original Muito distantes da Beleza em si os espectadores extasiamse com as cores as formas os sons e com todas as obras feitas com esses elementos embora o seu espírito seja incapaz de discernir e de amar a natureza do Belo em si 476b4c7 Neste ponto revelase a cumplicidade congênita entre a imagem e o sensível O sensível é imagem ambos a imagem mimética e o fenômeno sensível têm a marca de uma deficiência ontológica A filosofia começa exatamente no reconhecimento da deficiência do sensível e acaba no seu esquecimento32 O mundo sensível concebido como imagem tem a deficiência como um fator inerente à sua condição e necessário para a compreensão de seu estatuto ontológico de realidade segunda Apagar a deficiência do sensível é abolir as fronteiras entre as dualidades inteligível e sensível episteme e doxa corpo e alma prazer e bem Aqui reside a grande ameaça metafísica das artes miméticas as imagens miméticas escondem suas próprias deficiências fazemse plenas e autossuficientes pretendem valer por si mesmas Vemos portanto que a arte não se reduz à mera fruição mas permite a valorização da própria experiência enquanto tal Por esta valorização o fruidor perde a capacidade de julgar por si mesmo o que experimenta deixando que ela a própria experiência modele suas atitudes crenças desejos e emoções33 A causa eficiente dessa transformação psíquica como já anunciara Sócrates no Fédon é o prazer Por meio de uma estranha afinidade entre a parte irracional da alma e a arte o prazer promove a ruína do intelecto Conclusão Para Platão A Beleza é um assunto importante demais para ser tratado por artistas Iris Murdoch O leitor moderno diante do gênio literário de Platão tem dificuldade de aceitar as posições defendidas por ele em relação à arte Dificilmente poderíamos supor que ele não reservasse para a arte um lugar de honra no processo de acesso à Beleza e à Verdade Mas ainda que isso possa parecer chocante pra nós Platão não reservou lugar algum para a arte na busca pela Beleza Como diz Beardsley sobre o Banquete É estranho demais que Diotima e Sócrates não atribuam um papel para as artes no processo de despertar da Beleza A Beleza para Platão está muito distante do nosso conceito moderno Como valor estético em primeiro lugar ela é entendida como algo inteiramente separável dos outros valores Quando dizemos que uma obra de arte é bela não queremos implicar nesse juízo nenhum valor ético ou epistêmico ou útil Em segundo lugar o valor estético está sempre ligado ao modo como experimentamos certas coisas ao tipo de sensação emoção satisfação elevação prazer que no próprio ato de experimentação revela seu valor intrínseco Platão sem dúvida nega os dois pressupostos principais da Estética moderna Daí ser tomado por muitos por Filisteu34 obcecado pela Verdade e pela Ética Alguns comentadores porém buscam uma reconciliação forçada entre Platão e a arte Movidos por uma relutância natural como diz Havelock em tomar de maneira literal o que ele diz esses admiradores de Platão ainda Havelock normalmente tão atentos aos mínimos detalhes quando chegam a um contexto como o mencionado o da recusa da arte começam a olhar em volta à procura de uma porta de emergência e encontram uma que julgam ter sido fornecida pelo autor35 Uma das portas de emergência mais célebres é a imagem do poeta ou artista como uma espécie de criadordivino um homem com poderes especiais de imaginação que teria a capacidade de dar forma a ideias intuitivas e visionárias Desde a Renascença o modelo do artista que tem acesso privilegiado a um plano de realidade que ultrapassa os limites da experiência humana tem tido um lugar cativo nas discussões sobre o valor da arte36 Certos aspectos negativos da crítica platônica à arte são extremamente discutíveis a motivação política que estabelece um princípio de especialização contra a experimentação e a diversidade dificilmente pode ser defendida uma ética desenvolvida a partir de um ponto de vista perfeito de um bem transcendente não é adequada para corresponder à fragilidade inerente à vida humana37 o conhecimento concebido como técnica não é o mais pertinente para avaliar o papel cognitivo da arte compreender o prazer envolvido nas experiências emocionais sempre como desvio da razão acaba por extirpar da vida humana aspectos essenciais Mas os aspectos positivos exigem sim resposta Quando Sócrates solicita dos admiradores da arte uma defesa ele parece bastante sincero Mas o que seria uma defesa eficiente do ponto de vista de Platão Defesas negativas como as que afirmam que Platão vê uma ameaça que não existe porque a arte não representa perigo algum respondem a questão anulandoa Pois se a arte é inofensiva pura distração não teria nenhum valor significativo Não altera a vida não tem importância alguma Mas se aceitamos sua função transformadora temos um problema E Platão tem razão sim em perguntar além do prazer imediato qual o benefício que ela oferece para a vida humana Não temos respostas tão boas para esta questão Se afirmarmos a utilidade da arte como o benefício além do prazer aceitamos a função social e política que Platão atribui a ela o que nos leva de volta aos Diálogos Uma posição que faça mais justiça a Platão e sua visão da arte deve reconhecer que ele não deixou de perceber a força do fenômeno estético as emoções que ela desencadeia o prazer intenso que ela fornece Platão entendeu perfeitamente que esse prazer disputa com a razão a função de medida para a vida que a alma humana é atraída por objetos belos palavras formas sons etc O enigma histórico na expressão de Havelock foi o fato de a despeito de reconhecer o poder da arte ele tenha decidido resistir a ela Vimos as razões que Platão apresenta ao longo dos Diálogos para reconhecer na arte um perigo Mas além dos riscos mencionados a corrupção do caráter e a destruição do intelecto a ameaça maior pressentida por Platão desde o Górgias deve ser reconhecida no risco que corre a própria existência da filosofia38 a abolição das fronteiras entre os planos de realidade o fenomênico e o inteligível o prazer e o bem Bibliografia Annas J An Introduction to Platos Republic Oxford UOP 1981 Beardsley M C Aesthetics from Classical Greece to the Present A Short History Alabama University of Alabama 1966 Belfiori E Platos Greater Accusation against Poetry In New Essays on Plato Canadian Jouranl of Philosophy Supplementary vol IX 3962 1983 Burnyeat M Culture and Society in Platos Republic Tanner Lectures on Human Values 20 217324 1999 Collinwood R G The Principles of Art Oxford UOP 1938 Dorter K The Ion Platos Characterization of Art JAAC 32 6578 1973 Danto A A Transfiguração Do Lugar Comum São Paulo Cosac Naify 2006 The Philosophical Disenfranchisement of Art New York CUP 1986 Ferrari G R F Plato and Poetry In The Cambridge History of Literary Cristicism vol I Classical Criticism Cambridge CUP 1989 Gentilli B Poetry and Its Public in Ancient Greece From Homer to the Fifth Century Transl Thomas Cole Baltimore The Johns Hopkins University Press 1988 Gosling J C B and Taylor C The Greeks on Pleasure Oxford Clarendon Press 1984 Grube G Platos Thought Indianapolis Hackett1980 Guthrie W A History of Greek Philosophy vols IVV Cambridge CUP 1975 Havelock E Prefácio a Platão São Paulo Papirus 1996 Halliwell S The Importance of Plato and Aristotle for Aesthetics Proceedings of the Boston Area Colloquium in Ancient Philosophy 5 32148 1989 Plato Republic 10 Oxford Arts Phillips 1988 The Poetics of Aristotle Chicago UCP 1998 Janaway C Images of Excelence Platos Critique of the Arts Oxford OUP 1995 Muniz F O Prazer e a deficiência do mundo sensível O que nos faz pensar 15 Rio de Janeiro PUCRIO p 185196 2002 Mímesis e Analogia na Crítica à Retórica do Górgias de Platão Gragoatá Revista do Instituto de Letras da UFF vol 8 p 129140 2000 Murdoch I The Fire and the Sun Oxford OUP 1971 Murray P Poetic Inspiration in Early Greece JHS 101 87100 1981 Nagy G Early Greek views of poets and poetry in The Cambridge History of Literary Cristicism vol I Classical Criticism Cambridge CUP 1989 Nehamas A Plato on Imitation and Poetry in Republic 10 In Moravcsik and Temko eds Plato on Beauty Wisdom and the Arts Devon Ed Rowman Littlefield 1982 Nussbaum M Fragility of the Goodness Cambridge CPU 1986 Burnet J PLATONIS OPERA Oxford Oxford University at Clarendon Press 1944 Plato Complete Works Ed J Cooper Indianapolis Hackett 1997 SternGillet S On mis interpretating Platos Ion In Phronesis A Journal for Ancient Philosophy 492 pp 169201 2004 Tigerstedt E N Furor Poeticus Poetic Inspiration in Greek Literature before Democritus and Plato Journal of History of the Ideas 31 16378 1970 Platos Idea of Poetical Inspiration Commentationes Humanarum Litterarum 441820 1970 Verdenius W LIon de Platon Mnemosyne s3 11 23362 1943 Vernant JP Mito e política São Paulo Edusp 2001 Whitehead A Process and Reality An Essay on Cosmology New York Free Press 1978 Danto A 1986 p 13 p 16 Ver também Murdoch 1971 e Janaway 1995 República 592a10 nossa Cidade de palavras Todas as traduções são baseadas na edição de John MCooper Plato Complete Works 1997 com modificações Poesia nesse sentido amplo traduz o termo grego mousiké artes das Musas A poesia grega antiga é fundamentalmente oral composta e executada em função de determinadas situações da vida sociopolítica como festivais banquetes etc Pressupõe sempre um auditório implica a performance de um cantor que se faz acompanhar de um instrumento musical seja a lira a flauta ou a cítara Responde enfim às exigências de uma prática social específica Dificilmente portanto poderseia compreendêla a partir de critérios da nossa tradição literata ocidental de onde vieram a se desenvolver uma série de gêneros narrativos de apelo meditativo confessional reflexivo etc Para isso ver Gentilli 1988 Havelock 1998 cap 4 A enciclopédia homérica em que a narrativa oral é vista como uma espécie de utensílio usada como valise literária coleção de costumes convenções e procedimentos técnicos p81 Contra a ideia pronta de que os gregos não tinham noção de arte afirma Halliwell 1991 p 323 A alegação constantemente repetida de que os Gregos não tinham um conceito de arte no nosso sentido é injustificadamente drástica Ver também Janaway 1995 p 51 Poiesis poesia designa qualquer tipo de fabricação e Poietés poeta qualquer tipo de produtor Os românticos quiseram ver nesses termos gregos a presença da criação e do criador estético Os textos entretanto não confirmam as aspirações deles No Banquete 205bc lemos poiesis é uma coisa múltipla Tudo que faz algo passar do nãoser ao ser é poiesis e os que fabricam algo são todos poietai Platão nunca menciona os dois conceitos num mesmo contexto dramático Em A República não há uma só referência ao Entusiasmo assim como a Mímesis está completamente ausente do Íon Será preciso entender em que sentido a Mímesis produz efeitos mais drásticos que o Entusiasmo na estratégia de neutralização da poesia Na verdade Téchne e Entusiasmo aparecem associados uma única vez nas Leis 719 c1d3 Nada de novo no entanto é acrescentado Ver Halliwell 1988 p4 Alguns intérpretes querem ver no Fedro uma reabilitação da poesia via inspiração Ver para isso Nussbaum 1986 Uma visão mais cautelosa não iria tão longe Em 284d o poeta é classificado em 6º lugar na hierarquia depois de mestre de ginástica e do médico Para uma crítica dessa visão ver Nehamas 1982 p 60 Hermeneus intérprete de onde deriva hermenêutica interpretação Guthrie 1975p 201 afirma que não há nenhuma evidência de que os rapsodos faziam além da exibição comentários ou críticas Tratase pelo vistode mais um artifício do drama platônico O fato de não haver em Platão ou na Grécia antiga uma palavra que traduz a que nós entendemos por arte não significa que os Gregos não tivessem uma experiência artística Realmente Platão não conhecia a Arte com A maiúsculo mas sabia muito bem do que estava falando Nós pelo contrário temos o conceito mas já não sabemos com certeza quais objetos ele reúne Danto 1986 121 resume mais ou menos assim a situação contemporânea não sabemos exatamente o que é arte muito menos o valor que devemos atribuir a ela Levando em conta esses aspectos passo a traduzir daqui em diante téchne por técnica Curiosamente Collinwood 1938 acusa Platão de fazer da arte uma técnica ou seja um poder de produzir um resultado preconcebido por meio de uma ação direta e conscientemente controlada the power to produce a preconceived result by means of consciously controlled and direct action Entretanto segundo ele duas características da técnica não podem ser atribuídas à arte i a téchne produz coisas que resultam de processos ii e tal resultado está previsto no próprio planejamento Como afirma Janaway 1995p38 a visão de Platão está mais próxima da de Collinwood do que ele pensa A inspiração como invenção platônica ver Tigerstedt 1970 e Murray 1981 Para a apódeixis e a prosa ver Nagy 1989 p 89 De fato não existe nenhuma referência direta à Mímesis poética ou artística em qualquer sentido nos primeiros diálogos Mas das obras do período médio adiante encontramos uma crescente aplicação da linguagem da mímesis Halliwell 1988 p5 Para o caráter transicional do Górgias ver Gosling e Taylor p82 Gorgias is transitional A frequente manifestação de hostilidade de Platão em relação ao fato de a poesia satisfazer os desejos das massas pode ser observada nos seguintes exemplos Apol 18 cd Górgias 501d2d A República 6493 Sobre a teatocracia e o teatro como prática de adulação das massas ver Banquete 175e Ver comentário de Halliwell 1988 para A República 602b3 Janaway 28 a transparência da matéria da poesia e a sua nãotransmissão de conhecimento permanecem fundamentais para a crítica platônica da arte está no centro do livro 10 Dodds 1990 ad loc a antítese platônica aparece aqui talvez pela primeira vez c8d7 Para ressaltar o papel dessa protoMímesis no processo genético das práticas de prazer é importante justificar a nossa tradução de dois verbos dessa passagem hypodýo e prospoiéo A leitura da passagem sugere a acentuação do caráter teatral desses dois verbos daí a escolha por travestirse em hypodýo e por atuar em prospoiéo Na República os poetas produzem apenas imagens nunca a verdade Em 600e todos os poetas começando por Homero enquanto imitadores produzem apenas imagens eidola de virtudes nunca apreendendo a verdade No Banquete 212a O amante da Forma não vai gerar imagens eidola da virtude já que ele não apreende meras imagens mas a verdadeira virtude apreende a verdade Vernant 2001 p297 A teoria da mímesis elaborada de forma totalmente sistemática por Platão marca o momento em que na cultura grega a versão de uma presentificação do invisível à imitação da aparência foi realizada Não foi sem provocar inquietação e crítica que a imagem deixando de encarnar o invisível o além o divino pôde constituirse como imitação da aparência No livro 10 há uma radicalização toda poesia dramática ou não promove a simpatia em relação aos personagens descritos e essas emoções promovem um efeito permanente na vida mental da audiência do poeta 606b58 O aprofundamento desse aspecto psicológico explica o retorno de Platão a esse tema no final de A República Imitar mimeisthai alguém é tornarse semelhante a alguém na voz ou no aspecto 393c O maior equívoco em relação à Mímesis é tomála como reprodução mecânica mero reflexo cópia fotográfica Sobre isso ver Halliwell 1986 cap4 A imitatividade desejo e habilidade de imitar qualquer coisa é um termo usado por Janaway Belfiori 1984 que utiliza a expressão imitação versátil versatile imitation Ferrari adota a mesma expressão Ver em 395a2 definição implícita no termo mimetikos Para a função cognitiva de emoções e desejos ver Burnyeats 1999 Austeridade que significa subordinação da poesia à busca racional pela verdade Segundo Janaway 1995 p183 Platos own portrayal of philosophical dialogue and his mythical Wordpainting exemplify the right kind of subordination Vários comentadores recusam a visão da arte apresentada no livro 10 Parte dessa reação devese à aparente contradição entre as teses sobre o banimento apresentadas nos livros 2 e 3 e as novas teses do livro 10 Ver Annas 1981 por exemplo No livro 2 e 3 a poesia era apenas uma das artes embora a mais importante Aqui no 10 Platão a destaca para o ataque que de um modo impossível de conciliar com o livro 3 Contra Annas vejas as análises de Nehamas 1982 Halliwell 1986 Jannaway 1995 Dois graus de distância é uma metáfora retirada da linguagem da sucessão nas linhagens nobres Em grego contase três Há que se notar que não há continuidade entre os três elementos da série Apenas entre os dois primeiros Agora a performance poética do livro 3 é uma instância da Mímesis do livro 10 quem se faz de outro imita uma aparência Ver Muniz 2002 A poesia é um modo de treinamento de estetização da vida Ferrari 1989 p138 Ver sobre isso Janaway 1995 Havelock 1996 p 21 Halliwell 1986 p 16 Ponto de vista defendido por Martha Nussbaum 1986 Halliwell 1988 p 91 Se Platão não tinha uma teoria estética isso não quer dizer que ele falhou em buscar uma mas por que tinha razões para realmente negar tal necessidade Platão contra a arte Resumo O texto aborda a crítica de Platão à arte em especial à poesia e como suas ideias influenciaram a estética e a filosofia ocidental O ponto central da argumentação platônica contra a arte está nos conceitos de Entusiasmo e Mímesis ambos usados para justificar a exclusão da poesia da Cidade ideal O Entusiasmo deslegitima os poetas ao retratálos como meros instrumentos da inspiração divina sem real conhecimento sobre o que dizem Já a Mímesis coloca a arte como uma imitação do mundo sensível afastada da verdade e potencialmente perigosa para a formação moral dos cidadãos Embora Platão busque eliminar a arte do âmbito filosófico e político paradoxalmente suas reflexões sobre estética estabeleceram bases conceituais que ainda influenciam a teoria da arte moderna Desde os primeiros diálogos Platão já manifesta sua desconfiança em relação à poesia No Íon Sócrates argumenta que os rapsodos recitadores de poesia não possuem conhecimento técnico sobre o que recitam Para exemplificar esse ponto ele usa a metáfora da pedra magnética os poetas seriam como elos de uma corrente magnética transmitindo uma força que não compreendem Quando recitam não o fazem por téchne técnica ou conhecimento sistemático mas por um estado de possessão divina Esse argumento invalida a poesia como fonte legítima de conhecimento pois ela não é fruto da razão mas de um estado de êxtase Dessa forma os poetas não podem guiar a vida dos cidadãos pois eles próprios não sabem de fato aquilo que dizem A argumentação contra a arte se aprofunda nos livros 2 e 3 da República onde Platão começa a tratar a Mímesis como um problema não apenas epistêmico mas também ético e político Aqui ele reconhece que a arte pode ter um papel educativo desde que seja rigidamente controlada A preocupação central de Platão é que a arte não apenas retrata ações e emoções humanas mas também ensina pela imitação Assim a poesia e o teatro teriam o poder de moldar o caráter dos espectadores especialmente dos jovens Se a poesia exibe exemplos negativos como heróis chorosos ou deuses enganadores ela encoraja comportamentos prejudiciais Outro problema destacado por Platão é o fenômeno da imitatividade Para ele o prazer de imitar qualquer coisa característica central da arte cria cidadãos versáteis demais e sem identidade fixa o que ameaça a estabilidade da Cidade ideal Em uma sociedade bem organizada cada indivíduo deve exercer uma única função de maneira eficiente A arte ao incentivar a identificação com diferentes papéis e emoções desfaz essa especialização e pode levar à desordem Dessa forma Platão impõe uma censura rigorosa à arte permitindo apenas representações que promovam valores morais positivos e que sejam compatíveis com a filosofia No livro 10 da República Platão radicaliza sua crítica ao redefinir a Mímesis como uma representação da aparência Ele introduz a ideia de que a arte não apenas copia o mundo sensível que por sua vez já é uma cópia imperfeita do mundo das Formas mas também intensifica as emoções e engana o espectador fazendoo acreditar que está em contato com a verdade Ele exemplifica essa noção com o caso do pintor que representa uma cama Existe a Forma da cama que é eterna e perfeita Existe a cama real feita pelo carpinteiro que é uma cópia imperfeita da Forma Existe a imagem da cama pintada pelo artista que é apenas uma imitação da aparência da cama real Isso significa que a arte está duas vezes afastada da realidade verdadeira pois imita algo que já é imperfeito Como resultado a arte não transmite conhecimento verdadeiro mas apenas simula sabedoria por meio de palavras belas ou imagens sedutoras Esse é um ponto fundamental da crítica platônica a arte não revela a essência das coisas apenas suas aparências e por isso desvia a alma da busca pelo conhecimento verdadeiro Além do problema epistêmico Platão vê na arte um risco psicológico e moral No Fédon ele já havia alertado que as emoções intensas podem prender a alma ao corpo desviandoa do caminho da razão No livro 10 da República ele retoma esse argumento ao afirmar que a arte explora a parte irracional da alma estimulando desejos e paixões em detrimento da razão O espectador se entrega ao prazer da imitação e perde a capacidade de julgar criticamente a realidade Como resultado as pessoas passam a tomar a ilusão pela verdade e a arte se torna um obstáculo ao pensamento filosófico O efeito mais perigoso da arte segundo Platão é que ela dissolve as fronteiras entre aparência e realidade A filosofia busca distinguir claramente o inteligível o mundo das Formas do sensível o mundo material mas a arte reforça a ilusão de que o sensível é autossuficiente Para Platão isso significa um retrocesso filosófico pois impede que a alma reconheça a deficiência do mundo sensível e busque o conhecimento verdadeiro Dessa forma ele vê a arte não como um simples entretenimento mas como uma ameaça à própria existência da filosofia O paradoxo da crítica platônica à arte é que Platão ele mesmo foi um grande artista literário Seus diálogos são repletos de recursos poéticos metáforas e elementos dramáticos que tornam sua filosofia viva e envolvente Esse fato levou muitos estudiosos a questionarem se Platão realmente queria eliminar a arte ou se ele estava apenas tentando reformulála sob uma perspectiva filosófica Alguns intérpretes sugerem que Platão não rejeitava a arte em si mas sim sua forma tradicional e que ele buscava um novo modelo artístico alinhado à busca pela verdade A crítica platônica à arte continua sendo um tema de intenso debate na filosofia Alguns argumentam que Platão foi um inimigo da arte enquanto outros defendem que sua visão era mais complexa e que ele reconhecia o poder transformador da arte mas temia seus efeitos negativos A grande questão que Platão nos deixa é além do prazer imediato qual o verdadeiro benefício da arte para a vida humana Esse questionamento continua relevante até hoje e influencia a forma como pensamos sobre a relação entre estética moral e conhecimento

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Platão contra a arte Fernando Muniz publicado em HaddockLobo R Os Filósofos e a Arte RJ Ed Rocco 2010 pp 1542 Platão o mais poético dentre os filósofos Shelley Platão o maior inimigo da arte que a Europa jamais conheceu Nietzsche Introdução Entusiasmo e Mímesis são dois conceitos fundamentais para a compreensão do fenômeno artístico em Platão Embora ambos sejam produtos da mesma vontade de exclusão da poesia pertencem a estratégias diferentes Com a doutrina do Entusiasmo Platão retira dos poetas o direito de falar à Cidade em nome de um pretenso conhecimento com a Mímesis ele caça a cidadania da própria poesia Veremos no decorrer do texto que Entusiasmo e Mímesis são conceitos mutuamente excludentes e que aparecem nos Diálogos sempre em diferentes contextos dramáticos A despeito do fato de terem sido cunhados com o propósito firme de combater a poesia tornaramse paradoxalmente pilares da estética moderna Este parece ser o destino de Platão seja em relação à arte seja em relação aos demais tópicos filosóficos as regras do jogo reflexivo estabelecidas por ele mostramse tão definitivas que ainda que se queira reverter o jogo platônico o resultado parece sempre previsto na trama dos Diálogos Talvez por isso influentes pensadores contemporâneos da arte À Maura Iglésias em sinal de admiração e amizade Parte deste texto foi apresentada no X Simpósio da Sociedade Brasileira de Platonistas 1 renovem a crença na célebre sentença de Alfred Whitehead de que a filosofia ocidental não fez mais do que colocar notas de pé de página nos Diálogos de Platão Se tomarmos como exemplo a filosofia da arte seremos forçados ainda que perplexos a concordar com ele Partamos então do ponto mais extremo da crítica platônica à arte o livro 10 de A República Dali poderemos retrospectivamente seguir os passos necessários para que do Entusiasmo Platão tenha chegado à Mímesis e da Mímesis à sua palavra final sobre a arte Na sua grande obra sobre a Justiça A República Platão constrói dialeticamente ao longo de dez livros uma Cidade de palavras2 justa que corresponde ao Indivíduo justo Cidade e Indivíduo espelhamse como macrocosmo e microcosmo são estruturas complexas de partes hierarquizadas em função do Bem e da Verdade A importância da educação nesse processo coloca a poesia entendida aqui num sentido bem amplo3 no centro da cena dramática de A República A tradição grega desde suas mais profundas raízes orais sempre reconheceu na poesia sua principal fonte de conhecimento uma enciclopédia tribal como propõe Havelock4 e nos poetas suas autoridades supremas Do ponto de vista de Platão a pretensão da poesia de responder às grandes questões sobre a vida humana em outras palavras de disputar com a filosofia no terreno éticopolíticometafísico é absolutamente injustificável Eis por que ele apresenta um acurado exame da natureza da poesia do seu modo de funcionamento e do tipo de experiência que ela promove para demonstrar a sua total incapacidade de guiar a vida humana na direção do Bem e da Verdade Além desta pretensão infundada ao conhecimento profundo da realidade Platão detecta na arte algo bem mais grave uma ameaça inseparável de seu próprio modo de operar pois os prazeres que proporciona destroem as condições de acesso ao conhecimento Dotada de uma potência corrosiva a arte arruína o intelecto instaura dentro da alma do indivíduo e fora dela na Cidade o reinado injusto de déspotas selvagens Ao privar desse modo a arte de sua independência e de seu valor próprio Platão ataca o aspecto mais fundamental do que modernamente entendemos por arte a autonomia ou seja a arte tomada como valor separável dos valores éticos políticos ou de qualquer outro tipo de valor Levados muitas vezes por essa crença profundamente enraizada de que a arte se autojustifica alguns amantes da arte poetas e pensadores tomaram a crítica platônica como uma visão equivocada e seus argumentos irrelevantes não merecendo portanto nenhuma resposta séria5 Alguns movidos pelo espanto ou pela indignação tentaram defender a arte das acusações de Platão Outros quiseram ainda defender Platão dele mesmo salvando a arte e o filósofopoeta mesmo que para isso tivessem que esquecer seus textos6 Tais atitudes mantiveram tenso o campo de batalha da antiga disputa entre a Filosofia e a Poesia 607b7 de que nos fala Platão no final de A República Ali julgando acertar um golpe de misericórdia na arte agonizante faz Sócrates proclamar uma das sentenças mais perturbadoras de toda história da filosofia Nosso argumento nos força a expulsar a poesia da Cidade Longe de ser um gesto isolado esse decreto representa o ápice de um movimento que percorre os Diálogos do início ao fim Acompanhar esse movimento nos vários contextos epistemológicos e dramáticos dos Diálogos não é uma tarefa simples Os modos de abordagem são vários os conceitos distintos os contextos diversos as estratégias diferentes em suma seguir atentamente o fio da teia em que essa questão se equilibra implica observar seus múltiplos aspectos sem perder de vista a motivação persistente que a sustenta Nos primeiros diálogos compostos por Platão a estratégia de exclusão da poesia já se manifesta de modo inequívoco A visão predominante desse período é fornecida pela doutrina do Entusiasmo ou seja a poesia entendida como resultado de intervenção divina Dos diálogos do período mediano em diante a Mímesis substitui o Entusiasmo A contradição entre as duas interpretações pode ser esquematicamente colocada da seguinte forma o Entusiasmo neutraliza a participação efetiva do poeta no processo de criação e a Mímesis ao contrário apresenta uma visão positiva desse mesmo processo atribuindo ao artista uma atividade produtora que responde pela autoria da obra Por serem doutrinas incompatíveis Platão tem o cuidado de não as associar em nenhum contexto7 Mas essa incompatibilidade deve ser relativizada Cada doutrina responde a um tipo específico de estratégia de exclusão da poesia e a contextos epistêmicos diferentes e como veremos estão de certo modo coerentemente articuladas Entusiasmo Nos primeiros diálogos como já foi dito a doutrina do Entusiasmo domina a reflexão sobre a poesia Sócrates faz referência explícita a ela na Apologia 22 ac e no Mênon 99cd mas só a apresenta em toda a sua complexidade no pequeno e difícil diálogo Íon8 O diálogo narra o encontro entre Íon o rapsodo e Sócrates o filósofo Íon está chegando de Epidauro onde venceu uma competição de rapsodos Sócrates manifesta de imediato sua inveja e admiração pelos rapsodos Não apenas por estarem sempre tão belissimamente vestidos mas por conviverem com os grandes poetas especialmente o mais divino de todos Homero Difícil não perceber a ironia nessa confissão de inveja de Sócrates A menção às vestimentas e aos adornos coloca sob suspeita não apenas esses mas também os outros objetos da inveja de Sócrates inclusive e principalmente o valor da convivência com os poetas Mas com essa confissão de inveja Sócrates ganha a atenção vaidosa de Íon e pode assim desenvolver seu argumento De saída Sócrates explicita a razão de sua inveja os rapsodos precisam saber de cor não apenas os versos mas também o pensamento do poeta É impossível que ele possa desempenhar belamente sua atividade se não entender o sentido das palavras do poeta 430c Sócrates oferece então uma primeira explicação para a suposta habilidade do rapsodo ele é um hermeneús9 um tradutor do pensamento do poeta para a audiência Platão utiliza esse termo chave em sua estratégia para desqualificar a pretensão do rapsodo de falar em nome da poesia E já na abertura Sócrates convence o confuso rapsodo de que ele é um hermeneús um tradutor do pensamento de Homero para um público que como devemos pressupor não entende a linguagem de Homero O modelo como vemos é linguístico o tradutor conhece o sentido dos versos na realidade fala a língua do poeta e traduz o sentido dos versos para a audiência Com isso Platão faz do artista performático uma espécie de crítico literário10 que fundamenta sua prática numa hermenêutica da decifração do sentido Tal operação cognitiva exige um processo de compreensão intelectual do sentido dos versos cuja expressão se completa na performance do rapsodo O próprio Íon em 530c afirma foi isso o que me deu mais trabalho na minha téchne E acrescenta um ponto crucial Ele se diz detentor de um conhecimento sobre peri Homero Colocada assim em termos cognitivos e intelectuais a questão deve ser resolvida dialeticamente Em outras palavras Íon não pode para resolvêla fazer uma exibição mas precisa sim fazer uma demonstração por meio do exame socrático o elenchos Neste exame a pretensão de Íon é facilmente refutada por Sócrates se a questão da poesia for colocada em termos cognitivos Íon deve ser dotado de um conhecimento rigoroso téchne sobre toda a poesia e não apenas sobre Homero Mas Íon insiste só falo bem Homero qualquer outro me deixa sem ter o que dizer Somos conduzidos então à questão decisiva Se Íon não canta Homero por téchne se não tem um conhecimento especializado o que efetivamente acontece com ele Para responder esta questão será preciso antes saber afinal o que é uma téchne A tradução deste termo costuma provocar mais confusão do que esclarecimento como no caso da tradução usual por arte Uma téchne nada tem a ver com o que chamamos de arte11 Téchne é um saber organizado transmissível didaticamente produtor de efeitos práticos dotado de procedimentos racionalmente justificáveis A carpintaria e a medicina são bons exemplos de téchne12 O leitor moderno obviamente rejeita a discussão da poesia em termos de conhecimentos práticos como a carpintaria e medicina Estaria Platão atacando a poesia naquilo que ela nada tem de poética13 Ao acusar Íon de não ter competência técnica sobre os assuntos de que trata Homero Platão não estaria ignorando os traços mais relevantes do que chamamos experiência estética Teria Platão destacado e reconhecido essa dimensão própria do fenômeno da arte Voltaremos a estas questões mais a frente Uma ideia de inegável pertinência no entanto é proposta pelo diálogo se a poesia não se reduz a aspectos intelectuais característicos dos conhecimentos produtores de objetos ou de eventos como explicála Como explicar que o rapsodo esse ingênuo e confuso interlocutor de Sócrates possa executar à perfeição a poesia homérica eletrizar a plateia e transportála para a espacialidade e a temporalidade dos eventos narrados E ainda mais profundamente por que essa experiência é valorizada pelo público Platão longe de ignorar essas questões responde a todas elas com a doutrina do Entusiasmo Na verdade Sócrates apresenta a doutrina com pretexto de dar conta do fato enigmático de Íon ser dotado de uma especialidade nãotécnica Este fenômeno é explicado em termos de intervenção divina Quando canta Íon está possuído pelas Musas está estusiasmado éntheos Éntheos significa literalmente ter um deus dentro e o substantivo enthusiasmós o estado resultante desta intervenção psíquica O emprego usual dos termos éntheos enthusiasmós no contexto grego arcaico não implica necessariamente perda de consciência possessão ou transe Platão inventa um novo sentido para esses termos criando assim um grau extremo de Entusiasmo que altera a visão de sua época sobre a poesia14 Em 533de o que te move é uma potência divina como a pedra magnética Esta pedra não apenas atrai anéis de ferro como transfere sua potência a eles de modo que passam a fazer o mesmo que a própria pedra atrair outros anéis E a potência que está em todos eles depende unicamente da pedra Do mesmo modo a Musa torna pessoas entusiasmadas e através delas forma uma cadeia de entusiasmados pendurados uns nos outros os poetas portanto se são bons não são por terem téchne mas porque estão entusiasmados possuídos É desse modo que cantam todos esses belos poemas Aqui Platão irá retomar o termo hermeneús não mais no sentido de tradutor mas sim no de transmissor Vendo o rapsodo como o elo de uma cadeia de transmissão de acordo com metáfora da pedra magnética deslizamos então subrepticiamente do modelo linguístico para o modelo eletromagnético De uma hermenêutica da decifração do sentido para uma hermenêutica da intensidade em que um fluxo magnético percorre um circuito que vai da Musa à audiência Desde o início a performance poética epídeixis está na mira da discussão ela é o acontecimento poético por excelência Em grego epídeixis nomeia a ação de mostrar algo diante de um público de fazer uma exibição a performance que em certo momento do diálogo Íon se propõe a fazer para Sócrates mas que este recusa O desprezo de Sócrates pela performance é um dos tópicos centrais da crítica platônica à arte e permanecerá no foco da discussão até A República Quando na única oportunidade Íon recita Homero Sócrates o interrompe bruscamente com um basta A impaciência de Sócrates não parece estar de acordo com seu reconhecimento dos aspectos valorosos da poesia A despeito do efeito poético eletrizante da performance o direito que a poesia tem de falar em nome das muitas coisas admiráveis de que fala a poesia é o objeto da disputa Sócrates contrapõe performance a elenchos seu método de exame e refutação Como tradutor hermenêutico o rapsodo é reprovado no teste não demonstra saber do que fala É capaz de fazer uma epídeixis performance mas não uma apódeixis prova demonstração15 Podemos extrair da conversa socrática no Íon duas formas de comunicação entre deuses e homens a comunicação intensiva eletromagnética da qual poetas e rapsodos são os transmissores e outra dialética mais afinada com a prática filosófica construída a partir de operações da inteligência Através da comunicação intensiva os deuses transmitem muitas coisas belas Íon 533e 534d 534e no mesmo ato em que impedem que haja um acesso discursivo às suas significações primeiras através da comunicação dialética a demonstrativa eles fazem com que os homens saibam que os verdadeiros autores da poesia são eles os deuses A motivação do Íon portanto é clara tornar ilegítima a pretensão dos poetas e rapsodos ao conhecimento das muitas coisas admiráveis de que por intervenção divina cantam Nele não há nenhuma menção à Mímesis16 Se Platão naquele momento já refletia sobre ela não há como saber Sabemos entretanto que a entrada da Mímesis na cena dos Diálogos se dá em um diálogo considerado por muitos transicional17 o Górgias A doutrina da Mímesis pressupõe um procedimento de fabricação de imagens portanto um processo em que o poeta está engajado como produtor e pode ser responsabilizado por isso Resta saber qual é a natureza e o modo de funcionamento desse procedimento que embora se assemelhe a uma técnica não passa segundo Sócrates de empiria de falsatécnica Transições Não há como vimos no Íon nem uma compreensão do modo de fabricação da poesia nem uma rejeição explícita da poesia e da arte em geral Se a poesia representa um perigo é apenas indireto a ameaça implícita na autoridade infundada atribuída a pessoas como Íon para responder a questão fundamental sobre como devemos viver e conduzir as nossas vidas Mas se por um lado poetas e rapsodos são excluídos da discussão sobre as coisas valorosas sob o pretexto de não terem conhecimento do que falam por outro a evidência de que a poesia produz por seus próprios meios certos efeitos permanece inabalável Não sendo pela técnica por qual procedimento seriam então produzidos Íon fala de seu grande esforço para desenvolver o que chamou de sua técnica e demonstra ter consciência dos efeitos que produz na audiência Nesse sentido o Górgias dá um passo adiante Um passo que marca uma transição epistêmica que permitirá a passagem da postura meramente negativa e aporética para a interpretação positiva da performance em geral A retórica será seu modelo exemplar Enquanto no Íon o efeito eletrizante da exibição poética é explicado em termos de intervenção divina no Górgias a ênfase recairá nas habilidades naturais do performer Capacidades e aquisições cognitivas passam a desempenhar a função de condições necessárias para o exercício desse gênero de produção 463a i alma perspicaz e arrojada ii habilidade natural nas relações humanas iii experiência e iv dedicação Tratase portanto de explicar naturalmente o modo de funcionamento da retórica e por extensão da própria poesia18 O poder extraordinário de ambas manifestase através do mesmo modo de comunicação a epídeixis a performance pública Sócrates pergunta a Cálicles em 502b E quanto a augusta e maravilhosa poesia da tragédia terá outro objetivo senão fornecer prazer aos espectadores Cálicles concorda Então segue Sócrates se alguém retirar de todas as composições poéticas a melodia o ritmo e o metro não sobrariam apenas palavras E conclui Não é retórica então o que fazem os poetas nos teatros Obviamente a motivação agora é outra Tratase de mostrar como artistas e retóricos conseguem fazer o que fazem Que tipo de coisa fazem E principalmente como fazem qual o modo de produção das práticas de prazer19 Para dar conta da existência dessas práticas de prazer Platão apresenta pela primeira vez nos Diálogos a distinção inequívoca entre corpo e alma20 A distinção é elaborada a partir da noção de saúde e permite a discriminação das diversas espécies de técnica Para tal Sócrates parte do seguinte argumento como há um corpo e uma saúde do corpo 464ab e uma saúde da alma Há técnicas que dizem respeito ao corpo e outras que dizem respeito à alma para o corpo a Ginástica e a Medicina e para a alma a Legislação que corresponde à Ginástica e a Justiça que corresponde à Medicina Tendo estabelecido assim uma série divergente de elementos Sócrates passa a expor a gênese das práticas de prazer na passagem a seguir Existem então quatro tipos de técnicas que cuidam sempre umas do maior bem do corpo e outras do maior bem da alma A Kolakéia o gênero das práticas de prazer dandose conta disso quero dizer não por conhecimento mas por suposição dividese em quatro travestindose de cada uma das partes e atua como se fosse a parte da qual se travestiu e se por um lado não se preocupa com o melhor dos bens por outro persegue o que é mais prazeroso e engana a falta de inteligência desde que parece ser valiosíssima Assim a Culinária tendose travestido de Medicina atua como se fosse quem conhece os melhores alimentos para o corpo 464c3464d521 A partir dessa gênese das práticas de prazer Sócrates introduz uma nova expressão para caracterizar a Retórica Ela seria não uma técnica mas o eidolon de uma parte da política 463d A reação de perplexidade dos interlocutores prova a novidade do emprego da palavra Por Zeus Sócrates nem eu estou conseguindo acompanhar o que estás dizendo diz Górgias dizeme em que sentido estás falando da Retórica como um eidolon22 fantasma ou aparição de uma parte da política insiste Górgias 463e A escolha dessa palavra para designar a natureza desses procedimentos terá implicações para o desenvolvimento da Mímesis em A República Platão oferece à imagem um novo papel um status fenomênico particular uma semelhança que não mais diz respeito ao real mas à irrealidade23 Na sequência Sócrates indica o aspecto formal do risco que está implicado na existência desses domínios diferenciados A indicação não deixa espaço para dúvidas o perigo está no desaparecimento dessas delimitações e na indiscernibilidade entre os domínios A semelhança aparente teria o poder de eliminar diferenças como as que existem entre o médico e o cozinheiro Uma ameaça que fará com que o Estrangeiro no Sofista 231a alerte Tal como entre o lobo e o cão entre a fera mais selvagem e a mais dócil a segurança está sobretudo em manter as semelhanças sob vigilância constante O Górgias explicita a grande ameaça que pairará sobre a conversa de A República do começo ao fim o embaralhamento dos domínios que implica a ruína do projeto filosófico socrático do estabelecimento do discurso racional como o condutor da vida O Górgias prepara portanto o campo de batalha para o confronto entre filosofia e a poesia em A República Fornece os meios para que a exclusão seja realizada a partir de argumentos éticos políticos e metafísicos Alguns pontos relevantes dessa preparação são os seguintes 1 A análise da natureza fantasmática das falsastécnicas e das condições naturais para o exercício profissional das práticas de prazer fornece uma explicação positiva para aparência de conhecimento que a poesia exibe 2 Entendida assim de forma positiva a performance poética como prática de prazer poderá responder pela cumplicidade tão íntima que faz passar para a alma do público os sentimentos figurados pelo performer alimentando e fortificando as suas paixões A República 606b 3 A afecção psíquica que resulta das práticas de prazer é sintoma de uma transformação dos desejos atitudes e crenças O prazer tem portanto função cognitiva faz crer cria convicções promove uma visão do mundo No Fédon este ponto está bem estabelecido Fédon 83cd Consiste numa inferência inevitável que se impõe à alma de todo homem no instante mesmo em que experimenta uma sensação intensa de prazer ou dor ése levado a tomar a causa da afecção como a coisa mais evidente e verdadeira ainda que não o seja já que se trata de coisas visíveis Na sequência Sócrates não deixa dúvidas são afecções desse tipo que irão encadear cada vez mais estreitamente a alma ao corpo De modo que cada prazer ou cada dor funciona como pregos que prendem a alma ao corpo fixandoa nele e dando a ela uma forma corporal a ponto de fazer com que ela tome por verdadeiro tudo o que o corpo afirma ser Em suma é o prazer por sua capacidade de gerar crenças que apaga a diferença entre as dualidades corpoalma sensívelinteligível artefilosofia Mímesis e Ética Em A República Platão está preparado para enfrentar a arte com novas e velhas armas Nos livros 2 e 3 Sócrates dá uma detalhada explicação sobre o papel da poesia na formação dos jovens especialmente daqueles que devem desempenhar uma função de governantes na Cidade justa A poesia e as outras artes desempenham função extremante positiva e indispensável para a formação do caráter dos futuros governantes Afinal eles serão os Guardiões da Cidade e devem ser treinados como cães de guarda A metáfora indica a formação de um caráter refinado e raro combinação de bravura e docilidade impulsividade e natureza filosófica Mas como à sombra do cão descansa sempre o lobo a tarefa educativa estará permanentemente ameaçada pela produção de efeitos indesejados a criação de lobos em vez de cães de guarda déspotas selvagens em vez de guardiões justos Esta fronteira perigosa que confunde as semelhanças como vimos no Górgias precisa ser vigiada e controlada Eis por que a poesia e as artes em geral como práticas de prazer precisam passar pelo rigoroso crivo de análise que avalia seus efeitos sobre os jovens Não há nos livros 2 e 3 nenhuma condenação explícita à arte Pelo contrário Sócrates prevê uma educação tradicional em que elementos artísticos simetria proporção ritmo são importantes na formação do caráter Fica claro que para Platão uma sociedade não pode prescindir do valor formativo das artes Em 401c a mensagem é clara é necessário que os jovens sigam as pegadas que nos conduzem na direção do belo e da forma graciosa Para isso belas obras devem atingir seus olhos e ouvidos como uma brisa salutar e leválos sem que se deem conta desde a infância à semelhança à amizade à harmonia com a beleza da razão Que a educação pelas artes mousiké seja capital explicase pelo fato de que o ritmo e a harmonia penetram mais fundo na alma e afetandoa assim mais fortemente dandolhe uma graciosa forma 401d Fica reconhecida assim a potência transformadora da arte sua função na formação ética e as consequências políticas dessa formação Este reconhecimento é como já vimos ambivalente A mousiké tanto pode produzir os referidos efeitos de criação dos cães de guarda como pode criar os lobos Como diz Sócrates em 401b podem produzir tanto a ausência de forma graciosa o mau ritmo a desarmonia irmãs do discurso mau e do mau caráter ou produzir qualidades opostas irmãs e imitações do caráter temperante e bom A vigilância deve atingir não apenas os poetas mas também os outros produtores Qualquer que seja a obra seja em imagens de seres vivos ou edifícios ou qualquer tipo de produção deve ser proibida de tratar do vício da licença da baixeza da ausência de forma graciosa Para que as imagens do mal não sejam assimiladas pouco a pouco e inadvertidamente e acabem por acumular um grande mal na alma Este programa de vigilância e controle platônico decorrente da crítica dos livros 2 e 3 apóiase basicamente em uma análise tanto do conteúdo quanto da forma da performance poética No que diz respeito ao conteúdo ou seja sobre o que deve ser dito a análise expõe uma série de aspectos eticamente negativos da representação poética dos deuses e heróis Principalmente os traços distintivos da divindade como a metamorfose os disfarces Segundo Sócrates tais traços não combinam com a perfeição das divindades A imobilidade e a unidade sim dizem respeito à perfeição Os heróis por sua vez não podem ser representados experimentando emoções intensas e entregandose a elas de um modo descontrolado Tal análise sugere assim uma reforma religiosa uma nova teologia e uma correspondente censura que corrija a natureza e a imagem ética dos deuses e heróis Quanto à forma ou seja sobre o modo como essas coisas devem ser ditas Sócrates apresenta três modos de expressão A narrativa simples a mista e a mimética A narrativa simples é aquela em que o relato não envolve a adoção do ponto de vista dos personagens a mimética em que o autor desaparece e os personagens assumem o papel narrativo na mista os dois modos de expressão são empregados A forma do discurso direto24 em que o autor aparece escondido simulando ser cada um dos personagens ganha atenção especial aqui Ao contrário do Íon em que a performance poética é explicada pelo magnetismo Sócrates pretende agora explicar racionalmente este efeito O magnetismo surge agora como o resultado de uma atividade mimética um procedimento que envolve uma série de habilidades naturais procedimentos de simulação calcados em uma base psicológica sólida Mímesis25 esse um termo equívoco em Platão ocupa agora o centro da sua reflexão sobre a arte Neste contexto vinculase diretamente à performance Mimeisthai o verbo significa agir como alguém agir na forma de emulação O foco da discussão portanto concentrase na performance artística Mas qual seria agora a ameaça Vimos no Íon que a ameaça implícita era deixar que a questão sobre como devemos viver fosse respondida por quem não sabe do que fala Agora temos outro contexto a força da performance estaria na capacidade de envolver o espectador no processo de emulação O espectador ao se entregar às emoções que estão em jogo na cena sofre através da imaginação uma identificação empática com o personagem O prazer intenso que experimenta com a performance é inseparável da metamorfose que ele mesmo sofre Um espectador incapaz de simular alteridades emoções e modificações não desfruta do prazer da cena É nesse sentido que Platão atribui ao prazer da representação a expressão de um instinto profundo do ser humano uma espécie de apetite enraizado na alma humana não porém na sua melhor parte que exige ser saciado Mas qual seria esse instinto e qual o malefício por ele gerado Que mal pode haver no jogo imaginativo e lúdico que faz o espectador experimentar ser outro Para sermos justos com Platão é preciso recolocar a questão em termos platônicos quais hábitos atitudes crenças e desejos estão sendo treinados com a Mímesis das ações Se a Mímesis modela o caráter é preciso saber em primeiro lugar que tipo de caráter ela modela qual o tipo de atitude que ela estimula que espécie de crença ela forja não podemos julgar a Mímesis sem responder essas questões Respondêlas no entanto para Sócrates significa reconhecer que o treinamento artístico que a Mímesis oferece é um treinamento para a vida e que pouco a pouco e inadvertidamente os espectadores passam a desfrutar do mesmo prazer intenso em agir da mesma maneira na vida real 395d Para Platão portanto a arte pelo menos a que interessa não é um mero jogo um divertimento inofensivo mas um modo poderoso de transformar a vida Daí Sócrates condenar de modo tão severo o tipo de coisa que se imita e o prazer que se desenvolve a partir do habito da imitação O problema estaria centrado na imitatividade26 a capacidade de tudo imitar o prazer de imitar o que quer que seja A imitatividade esse prazer da metamorfose e da variação gera inevitavelmente um caráter dotado de versatilidade Esta é maior objeção política de Platão à imitatividade Ela faz variar a especialização abole o princípio que prescreve para cada cidadão o exercício de uma e apenas uma função dentro da cidade O espetáculo poético quando funciona bem não pode deixar de produzir variação das emoções nem uma experiência com a alteridade27 mas qual o pressuposto geral desse argumento Platão não distingue qualitativamente emoções e prazeres estéticos e não estéticos As emoções despertadas pela arte não se distinguem das emoções da vida real Se ele está certo devemos acreditar que a poesia envolve imaginativamente nossa vida emocional e aceitar também que ele tem razão em afirmar que esse engajamento emocional funciona como um canal similar à cadeia transmissora do Íon por onde valores atitudes e crenças são transferidos da obra de arte para a mente do espectador A performance pública produziria desse modo indivíduos internamente múltiplos e versáteis repletos de capacidades e portanto incompatíveis com o ideal da cidade organizada em uma hierarquia fundada na especialização Mas os argumentos contra a performance mimética embora sejam muito mais eficientes que os apresentados no Íon são ainda insuficientes para levar a cabo projeto platônico de exclusão da arte O anúncio dessa exclusão em vários momentos dos livros 2 e 3 indicanos na realidade que essa promessa só será completamente cumprida quando todos os argumentos forem apresentados Por enquanto Sócrates contentase em ensaiar o veredicto em 397de Se um homem que tivesse a habilidade de transformarse em muitas pessoas e imitar todas as coisas chegasse a nossa Cidade e quisesse fazer uma performance de seus poemas diríamos a ele que esse não existe esse tipo de homem em nossa Cidade e nem sequer é permitido que haja Depois de derramar mirra em sua cabeça e coroálo com louros mandáloíamos para outra Cidade Cabe na Cidade ideal apenas um tipo de poeta o austero aquele que só imita os modelos prescritos pela própria Cidade28 Mas quem de nós modernos o chamaria ainda de poeta Mímesis e Metafísica O livro 10 é o principal texto platônico sobre a arte desde que seja lido como o cume de um processo o resultado conclusivo de uma investigação iniciada nos primeiros diálogos Neste sentido os livros 2 e 3 de A República devem ser tomados como pressupostos incompletos para que os argumentos contra a arte do livro 10 sejam entendidos em toda sua complexidade Já na abertura do último livro de A República Sócrates deixa claro esse processo acumulativo quando garante que a necessidade de recusar a poesia mimética fica evidente desde o momento que definimos em separado as partes da alma 595a Calcado em uma profunda análise da dinâmica da alma no livro 4 cujas consequências políticas são desenvolvidas nos livros 8 e 9 e na Metafísica apresentada nos livros 57 Platão pode apresentar uma noção geral da Mímesis e a partir dela dar a sua palavra final sobre a arte O tema central do livro 10 retoma o conceito de Mímesis dos livros 2 e 3 mas desta vez não mais do ponto de vista éticopolítico ou educacional A Mímesis aparece agora com um sentido novo e até certo ponto surpreendente Para que possamos avançar na direção dos novos argumentos é preciso responder antes à questão central qual é esse novo sentido da Mímesis Nos livros anteriores focalizados especialmente na performance artística a Mímesis está diretamente associada à atuação dramática No livro 10 ela é apresentada com outro sentido mais geral e mais ambicioso que engloba o anterior e o qualifica Inventando uma espécie de compreensão rudimentar da representação artística Platão desenvolve a ideia de que a Mímesis é representação da aparência Tal representação fundamentase em uma semelhança com aspectos secundários e superficiais da coisa representada Desse ponto de vista a Mímesis teria como que inscrita na sua própria natureza a impossibilidade de mostrar as coisas como realmente são limitandose a mostrar apenas como aparecem Como representam a aparência das coisas as artes miméticas mantêm com o original do qual pretendem fornecer a cópia uma relação tênue forjada por uma semelhança superficial Essa mudança em relação ao sentido da Mímesis faz com que muitos comentadores29 vejam uma contradição insolúvel entre os livros 2 e 3 e o livro 10 Afinal vimos que a Mímesis não é rejeitada na sua totalidade nos primeiros livros Algumas exceções são permitidas 396b398b No livro 10 ao contrário toda poesia é Mimética e deve ser banida 595a Mas na verdade o que parece ser uma incoerência é um aprofundamento da crítica e do desdobramento lógico das críticas anteriores O que foi rejeitado nos livros 2 e 3 a performance dramática prazerosa continua sendo rejeitado O ataque agora muito mais radical e profundo toma a Mímesis como um procedimento de fabricação de imagens que responde por toda produção poética audiovisual Uma analogia permite a passagem de um sentido a outro Utilizada de um modo peculiar a doutrina das Formas dá apoio à revelação da natureza das artes miméticas A intenção de Sócrates desta vez não é fazer uma aplicação rigorosa da doutrina das Formas mas usála analogicamente de modo a funcionar como exemplo esclarecedor A analogia é a seguinte quando um carpinteiro constrói uma mesa podemos claramente separar a ideia em que o artesão fixou sua atenção para construir a mesa e a mesa produto da criação do carpinteiro Sócrates supõe aqui que a ideia não é criada pelos artesãos mas pergunta sobre a possibilidade da existência de um artesão que pudesse criar todas as coisas A maneira mais simples diz Sócrates seria mover um espelho produzindo aparições de todas as coisas existentes Dentre esses produtores de coisas desprovidas de existência real ainda que dotadas de aparência encontramos o pintor A analogia está pronta para funcionar O pintor cria um terceiro elemento da série a imagem pintada da cama Temos então o trio a Forma da cama a cama objeto sensível a cama imagemaparência A cama real a Forma é separável da cama sensível mas mantém com ela uma relação de profunda semelhança Essa semelhança dá ao objeto sensível certo grau de realidade Já a cama pintada por ser uma imitação a partir da aparência encontra se ontologicamente degradada É isto o que define o imitador produtor de imagens mas imagens afastadas a dois graus da realidade30 Permanece assim o sentido parasitário da técnica poética O imitador distinguese do produtor como o pintor distinguese do carpinteiro Como no Górgias a mimética é sobretudo falsatécnica República 597c Resultado os artistas miméticos produzem aparências sem qualquer grau de semelhança profunda com a coisa imitada A questão passa portanto do campo ético político para o metafísicoepistemológico que tipo de coisa a arte produz Que tipo de conhecimento seus praticantes possuem Conhecimento para ser verdadeiro precisa ser conhecimento da Forma E como não há caminho contínuo do sensível à Forma a imagem mimética só pode ser imagem da imagem aparência da aparência Mas se por um lado isso explica o estatuto ontológico dos produtos artísticos por outro não dá conta do modo como funcionam e obtêm o seu êxito É nesse ponto capital que o estudo da natureza da arte avança31 A arte potencializa a experiência sensível intensifica as emoções a ponto de impedir a descoberta da natureza do sensível como imagem imperfeita da Forma ou seja impedir que sua deficiência seja exposta A arte oculta a deficiência do sensível Mas de que maneira Tornandoo autossuficiente Daí a educação artística produzir massas de plateias fanáticas pelo audiovisual fanáticas pelos espetáculos de imagens e sons É nesse sentido que a arte é um treinamento para a estetização da experiência humana Aqui onde nós modernos poderíamos ver a fresta de uma luz apolínea Platão vê as trevas da Caverna Os prazeres intensos que a arte produz fomentam nas massas a crença de que só coisas belas merecem crédito As ditas coisas belas são produtos da força cognitiva dessas experiências de prazer intenso São elas que permitem que a Imagem seja tomada como o Original Na verdade a arte apaga a fronteira entre a imagem e o Original Muito distantes da Beleza em si os espectadores extasiamse com as cores as formas os sons e com todas as obras feitas com esses elementos embora o seu espírito seja incapaz de discernir e de amar a natureza do Belo em si 476b4c7 Neste ponto revelase a cumplicidade congênita entre a imagem e o sensível O sensível é imagem ambos a imagem mimética e o fenômeno sensível têm a marca de uma deficiência ontológica A filosofia começa exatamente no reconhecimento da deficiência do sensível e acaba no seu esquecimento32 O mundo sensível concebido como imagem tem a deficiência como um fator inerente à sua condição e necessário para a compreensão de seu estatuto ontológico de realidade segunda Apagar a deficiência do sensível é abolir as fronteiras entre as dualidades inteligível e sensível episteme e doxa corpo e alma prazer e bem Aqui reside a grande ameaça metafísica das artes miméticas as imagens miméticas escondem suas próprias deficiências fazemse plenas e autossuficientes pretendem valer por si mesmas Vemos portanto que a arte não se reduz à mera fruição mas permite a valorização da própria experiência enquanto tal Por esta valorização o fruidor perde a capacidade de julgar por si mesmo o que experimenta deixando que ela a própria experiência modele suas atitudes crenças desejos e emoções33 A causa eficiente dessa transformação psíquica como já anunciara Sócrates no Fédon é o prazer Por meio de uma estranha afinidade entre a parte irracional da alma e a arte o prazer promove a ruína do intelecto Conclusão Para Platão A Beleza é um assunto importante demais para ser tratado por artistas Iris Murdoch O leitor moderno diante do gênio literário de Platão tem dificuldade de aceitar as posições defendidas por ele em relação à arte Dificilmente poderíamos supor que ele não reservasse para a arte um lugar de honra no processo de acesso à Beleza e à Verdade Mas ainda que isso possa parecer chocante pra nós Platão não reservou lugar algum para a arte na busca pela Beleza Como diz Beardsley sobre o Banquete É estranho demais que Diotima e Sócrates não atribuam um papel para as artes no processo de despertar da Beleza A Beleza para Platão está muito distante do nosso conceito moderno Como valor estético em primeiro lugar ela é entendida como algo inteiramente separável dos outros valores Quando dizemos que uma obra de arte é bela não queremos implicar nesse juízo nenhum valor ético ou epistêmico ou útil Em segundo lugar o valor estético está sempre ligado ao modo como experimentamos certas coisas ao tipo de sensação emoção satisfação elevação prazer que no próprio ato de experimentação revela seu valor intrínseco Platão sem dúvida nega os dois pressupostos principais da Estética moderna Daí ser tomado por muitos por Filisteu34 obcecado pela Verdade e pela Ética Alguns comentadores porém buscam uma reconciliação forçada entre Platão e a arte Movidos por uma relutância natural como diz Havelock em tomar de maneira literal o que ele diz esses admiradores de Platão ainda Havelock normalmente tão atentos aos mínimos detalhes quando chegam a um contexto como o mencionado o da recusa da arte começam a olhar em volta à procura de uma porta de emergência e encontram uma que julgam ter sido fornecida pelo autor35 Uma das portas de emergência mais célebres é a imagem do poeta ou artista como uma espécie de criadordivino um homem com poderes especiais de imaginação que teria a capacidade de dar forma a ideias intuitivas e visionárias Desde a Renascença o modelo do artista que tem acesso privilegiado a um plano de realidade que ultrapassa os limites da experiência humana tem tido um lugar cativo nas discussões sobre o valor da arte36 Certos aspectos negativos da crítica platônica à arte são extremamente discutíveis a motivação política que estabelece um princípio de especialização contra a experimentação e a diversidade dificilmente pode ser defendida uma ética desenvolvida a partir de um ponto de vista perfeito de um bem transcendente não é adequada para corresponder à fragilidade inerente à vida humana37 o conhecimento concebido como técnica não é o mais pertinente para avaliar o papel cognitivo da arte compreender o prazer envolvido nas experiências emocionais sempre como desvio da razão acaba por extirpar da vida humana aspectos essenciais Mas os aspectos positivos exigem sim resposta Quando Sócrates solicita dos admiradores da arte uma defesa ele parece bastante sincero Mas o que seria uma defesa eficiente do ponto de vista de Platão Defesas negativas como as que afirmam que Platão vê uma ameaça que não existe porque a arte não representa perigo algum respondem a questão anulandoa Pois se a arte é inofensiva pura distração não teria nenhum valor significativo Não altera a vida não tem importância alguma Mas se aceitamos sua função transformadora temos um problema E Platão tem razão sim em perguntar além do prazer imediato qual o benefício que ela oferece para a vida humana Não temos respostas tão boas para esta questão Se afirmarmos a utilidade da arte como o benefício além do prazer aceitamos a função social e política que Platão atribui a ela o que nos leva de volta aos Diálogos Uma posição que faça mais justiça a Platão e sua visão da arte deve reconhecer que ele não deixou de perceber a força do fenômeno estético as emoções que ela desencadeia o prazer intenso que ela fornece Platão entendeu perfeitamente que esse prazer disputa com a razão a função de medida para a vida que a alma humana é atraída por objetos belos palavras formas sons etc O enigma histórico na expressão de Havelock foi o fato de a despeito de reconhecer o poder da arte ele tenha decidido resistir a ela Vimos as razões que Platão apresenta ao longo dos Diálogos para reconhecer na arte um perigo Mas além dos riscos mencionados a corrupção do caráter e a destruição do intelecto a ameaça maior pressentida por Platão desde o Górgias deve ser reconhecida no risco que corre a própria existência da filosofia38 a abolição das fronteiras entre os planos de realidade o fenomênico e o inteligível o prazer e o bem Bibliografia Annas J An Introduction to Platos Republic Oxford UOP 1981 Beardsley M C Aesthetics from Classical Greece to the Present A Short History Alabama University of Alabama 1966 Belfiori E Platos Greater Accusation against Poetry In New Essays on Plato Canadian Jouranl of Philosophy Supplementary vol IX 3962 1983 Burnyeat M Culture and Society in Platos Republic Tanner Lectures on Human Values 20 217324 1999 Collinwood R G The Principles of Art Oxford UOP 1938 Dorter K The Ion Platos Characterization of Art JAAC 32 6578 1973 Danto A A Transfiguração Do Lugar Comum São Paulo Cosac Naify 2006 The Philosophical Disenfranchisement of Art New York CUP 1986 Ferrari G R F Plato and Poetry In The Cambridge History of Literary Cristicism vol I Classical Criticism Cambridge CUP 1989 Gentilli B Poetry and Its Public in Ancient Greece From Homer to the Fifth Century Transl Thomas Cole Baltimore The Johns Hopkins University Press 1988 Gosling J C B and Taylor C The Greeks on Pleasure Oxford Clarendon Press 1984 Grube G Platos Thought Indianapolis Hackett1980 Guthrie W A History of Greek Philosophy vols IVV Cambridge CUP 1975 Havelock E Prefácio a Platão São Paulo Papirus 1996 Halliwell S The Importance of Plato and Aristotle for Aesthetics Proceedings of the Boston Area Colloquium in Ancient Philosophy 5 32148 1989 Plato Republic 10 Oxford Arts Phillips 1988 The Poetics of Aristotle Chicago UCP 1998 Janaway C Images of Excelence Platos Critique of the Arts Oxford OUP 1995 Muniz F O Prazer e a deficiência do mundo sensível O que nos faz pensar 15 Rio de Janeiro PUCRIO p 185196 2002 Mímesis e Analogia na Crítica à Retórica do Górgias de Platão Gragoatá Revista do Instituto de Letras da UFF vol 8 p 129140 2000 Murdoch I The Fire and the Sun Oxford OUP 1971 Murray P Poetic Inspiration in Early Greece JHS 101 87100 1981 Nagy G Early Greek views of poets and poetry in The Cambridge History of Literary Cristicism vol I Classical Criticism Cambridge CUP 1989 Nehamas A Plato on Imitation and Poetry in Republic 10 In Moravcsik and Temko eds Plato on Beauty Wisdom and the Arts Devon Ed Rowman Littlefield 1982 Nussbaum M 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fundamentalmente oral composta e executada em função de determinadas situações da vida sociopolítica como festivais banquetes etc Pressupõe sempre um auditório implica a performance de um cantor que se faz acompanhar de um instrumento musical seja a lira a flauta ou a cítara Responde enfim às exigências de uma prática social específica Dificilmente portanto poderseia compreendêla a partir de critérios da nossa tradição literata ocidental de onde vieram a se desenvolver uma série de gêneros narrativos de apelo meditativo confessional reflexivo etc Para isso ver Gentilli 1988 Havelock 1998 cap 4 A enciclopédia homérica em que a narrativa oral é vista como uma espécie de utensílio usada como valise literária coleção de costumes convenções e procedimentos técnicos p81 Contra a ideia pronta de que os gregos não tinham noção de arte afirma Halliwell 1991 p 323 A alegação constantemente repetida de que os Gregos não tinham um conceito de arte no nosso sentido é injustificadamente drástica Ver também Janaway 1995 p 51 Poiesis poesia designa qualquer tipo de fabricação e Poietés poeta qualquer tipo de produtor Os românticos quiseram ver nesses termos gregos a presença da criação e do criador estético Os textos entretanto não confirmam as aspirações deles No Banquete 205bc lemos poiesis é uma coisa múltipla Tudo que faz algo passar do nãoser ao ser é poiesis e os que fabricam algo são todos poietai Platão nunca menciona os dois conceitos num mesmo contexto dramático Em A República não há uma só referência ao Entusiasmo assim como a Mímesis está completamente ausente do Íon Será preciso entender em que sentido a Mímesis produz efeitos mais drásticos que o Entusiasmo na estratégia de neutralização da poesia Na verdade Téchne e Entusiasmo aparecem associados uma única vez nas Leis 719 c1d3 Nada de novo no entanto é acrescentado Ver Halliwell 1988 p4 Alguns intérpretes querem ver no Fedro uma reabilitação da poesia via inspiração Ver para isso Nussbaum 1986 Uma visão mais cautelosa não iria tão longe Em 284d o poeta é classificado em 6º lugar na hierarquia depois de mestre de ginástica e do médico Para uma crítica dessa visão ver Nehamas 1982 p 60 Hermeneus intérprete de onde deriva hermenêutica interpretação Guthrie 1975p 201 afirma que não há nenhuma evidência de que os rapsodos faziam além da exibição comentários ou críticas Tratase pelo vistode mais um artifício do drama platônico O fato de não haver em Platão ou na Grécia antiga uma palavra que traduz a que nós entendemos por arte não significa que os Gregos não tivessem uma experiência artística Realmente Platão não conhecia a Arte com A maiúsculo mas sabia muito bem do que estava falando Nós pelo contrário temos o conceito mas já não sabemos com certeza quais objetos ele reúne Danto 1986 121 resume mais ou menos assim a situação contemporânea não sabemos exatamente o que é arte muito menos o valor que devemos atribuir a ela Levando em conta esses aspectos passo a traduzir daqui em diante téchne por técnica Curiosamente Collinwood 1938 acusa Platão de fazer da arte uma técnica ou seja um poder de produzir um resultado preconcebido por meio de uma ação direta e conscientemente controlada the power to produce a preconceived result by means of consciously controlled and direct action Entretanto segundo ele duas características da técnica não podem ser atribuídas à arte i a téchne produz coisas que resultam de processos ii e tal resultado está previsto no próprio planejamento Como afirma Janaway 1995p38 a visão de Platão está mais próxima da de Collinwood do que ele pensa A inspiração como invenção platônica ver Tigerstedt 1970 e Murray 1981 Para a apódeixis e a prosa ver Nagy 1989 p 89 De fato não existe nenhuma referência direta à Mímesis poética ou artística em qualquer sentido nos primeiros diálogos Mas das obras do período médio adiante encontramos uma crescente aplicação da linguagem da mímesis Halliwell 1988 p5 Para o caráter transicional do Górgias ver Gosling e Taylor p82 Gorgias is transitional A frequente manifestação de hostilidade de Platão em relação ao fato de a poesia satisfazer os desejos das massas pode ser observada nos seguintes exemplos Apol 18 cd Górgias 501d2d A República 6493 Sobre a teatocracia e o teatro como prática de adulação das massas ver Banquete 175e Ver comentário de Halliwell 1988 para A República 602b3 Janaway 28 a transparência da matéria da poesia e a sua nãotransmissão de conhecimento permanecem fundamentais para a crítica platônica da arte está no centro do livro 10 Dodds 1990 ad loc a antítese platônica aparece aqui talvez pela primeira vez c8d7 Para ressaltar o papel dessa protoMímesis no processo genético das práticas de prazer é importante justificar a nossa tradução de dois verbos dessa passagem hypodýo e prospoiéo A leitura da passagem sugere a acentuação do caráter teatral desses dois verbos daí a escolha por travestirse em hypodýo e por atuar em prospoiéo Na República os poetas produzem apenas imagens nunca a verdade Em 600e todos os poetas começando por Homero enquanto imitadores produzem apenas imagens eidola de virtudes nunca apreendendo a verdade No Banquete 212a O amante da Forma não vai gerar imagens eidola da virtude já que ele não apreende meras imagens mas a verdadeira virtude apreende a verdade Vernant 2001 p297 A teoria da mímesis elaborada de forma totalmente sistemática por Platão marca o momento em que na cultura grega a versão de uma presentificação do invisível à imitação da aparência foi realizada Não foi sem provocar inquietação e crítica que a imagem deixando de encarnar o invisível o além o divino pôde constituirse como imitação da aparência No livro 10 há uma radicalização toda poesia dramática ou não promove a simpatia em relação aos personagens descritos e essas emoções promovem um efeito permanente na vida mental da audiência do poeta 606b58 O aprofundamento desse aspecto psicológico explica o retorno de Platão a esse tema no final de A República Imitar mimeisthai alguém é tornarse semelhante a alguém na voz ou no aspecto 393c O maior equívoco em relação à Mímesis é tomála como reprodução mecânica mero reflexo cópia fotográfica Sobre isso ver Halliwell 1986 cap4 A imitatividade desejo e habilidade de imitar qualquer coisa é um termo usado por Janaway Belfiori 1984 que utiliza a expressão imitação versátil versatile imitation Ferrari adota a mesma expressão Ver em 395a2 definição implícita no termo mimetikos Para a função cognitiva de emoções e desejos ver Burnyeats 1999 Austeridade que significa subordinação da poesia à busca racional pela verdade Segundo Janaway 1995 p183 Platos own portrayal of philosophical dialogue and his mythical Wordpainting exemplify the right kind of subordination Vários comentadores recusam a visão da arte apresentada no livro 10 Parte dessa reação devese à aparente contradição entre as teses sobre o banimento apresentadas nos livros 2 e 3 e as novas teses do livro 10 Ver Annas 1981 por exemplo No livro 2 e 3 a poesia era apenas uma das artes embora a mais importante Aqui no 10 Platão a destaca para o ataque que de um modo impossível de conciliar com o livro 3 Contra Annas vejas as análises de Nehamas 1982 Halliwell 1986 Jannaway 1995 Dois graus de distância é uma metáfora retirada da linguagem da sucessão nas linhagens nobres Em grego contase três Há que se notar que não há continuidade entre os três elementos da série Apenas entre os dois primeiros Agora a performance poética do livro 3 é uma instância da Mímesis do livro 10 quem se faz de outro imita uma aparência Ver Muniz 2002 A poesia é um modo de treinamento de estetização da vida Ferrari 1989 p138 Ver sobre isso Janaway 1995 Havelock 1996 p 21 Halliwell 1986 p 16 Ponto de vista defendido por Martha Nussbaum 1986 Halliwell 1988 p 91 Se Platão não tinha uma teoria estética isso não quer dizer que ele falhou em buscar uma mas por que tinha razões para realmente negar tal necessidade Platão contra a arte Resumo O texto aborda a crítica de Platão à arte em especial à poesia e como suas ideias influenciaram a estética e a filosofia ocidental O ponto central da argumentação platônica contra a arte está nos conceitos de Entusiasmo e Mímesis ambos usados para justificar a exclusão da poesia da Cidade ideal O Entusiasmo deslegitima os poetas ao retratálos como meros instrumentos da inspiração divina sem real conhecimento sobre o que dizem Já a Mímesis coloca a arte como uma imitação do mundo sensível afastada da verdade e potencialmente perigosa para a formação moral dos cidadãos Embora Platão busque eliminar a arte do âmbito filosófico e político paradoxalmente suas reflexões sobre estética estabeleceram bases conceituais que ainda influenciam a teoria da arte moderna Desde os primeiros diálogos Platão já manifesta sua desconfiança em relação à poesia No Íon Sócrates argumenta que os rapsodos recitadores de poesia não possuem conhecimento técnico sobre o que recitam Para exemplificar esse ponto ele usa a metáfora da pedra magnética os poetas seriam como elos de uma corrente magnética transmitindo uma força que não compreendem Quando recitam não o fazem por téchne técnica ou conhecimento sistemático mas por um estado de possessão divina Esse argumento invalida a poesia como fonte legítima de conhecimento pois ela não é fruto da razão mas de um estado de êxtase Dessa forma os poetas não podem guiar a vida dos cidadãos pois eles próprios não sabem de fato aquilo que dizem A argumentação contra a arte se aprofunda nos livros 2 e 3 da República onde Platão começa a tratar a Mímesis como um problema não apenas epistêmico mas também ético e político Aqui ele reconhece que a arte pode ter um papel educativo desde que seja rigidamente controlada A preocupação central de Platão é que a arte não apenas retrata ações e emoções humanas mas também ensina pela imitação Assim a poesia e o teatro teriam o poder de moldar o caráter dos espectadores especialmente dos jovens Se a poesia exibe exemplos negativos como heróis chorosos ou deuses enganadores ela encoraja comportamentos prejudiciais Outro problema destacado por Platão é o fenômeno da imitatividade Para ele o prazer de imitar qualquer coisa característica central da arte cria cidadãos versáteis demais e sem identidade fixa o que ameaça a estabilidade da Cidade ideal Em uma sociedade bem organizada cada indivíduo deve exercer uma única função de maneira eficiente A arte ao incentivar a identificação com diferentes papéis e emoções desfaz essa especialização e pode levar à desordem Dessa forma Platão impõe uma censura rigorosa à arte permitindo apenas representações que promovam valores morais positivos e que sejam compatíveis com a filosofia No livro 10 da República Platão radicaliza sua crítica ao redefinir a Mímesis como uma representação da aparência Ele introduz a ideia de que a arte não apenas copia o mundo sensível que por sua vez já é uma cópia imperfeita do mundo das Formas mas também intensifica as emoções e engana o espectador fazendoo acreditar que está em contato com a verdade Ele exemplifica essa noção com o caso do pintor que representa uma cama Existe a Forma da cama que é eterna e perfeita Existe a cama real feita pelo carpinteiro que é uma cópia imperfeita da Forma Existe a imagem da cama pintada pelo artista que é apenas uma imitação da aparência da cama real Isso significa que a arte está duas vezes afastada da realidade verdadeira pois imita algo que já é imperfeito Como resultado a arte não transmite conhecimento verdadeiro mas apenas simula sabedoria por meio de palavras belas ou imagens sedutoras Esse é um ponto fundamental da crítica platônica a arte não revela a essência das coisas apenas suas aparências e por isso desvia a alma da busca pelo conhecimento verdadeiro Além do problema epistêmico Platão vê na arte um risco psicológico e moral No Fédon ele já havia alertado que as emoções intensas podem prender a alma ao corpo desviandoa do caminho da razão No livro 10 da República ele retoma esse argumento ao afirmar que a arte explora a parte irracional da alma estimulando desejos e paixões em detrimento da razão O espectador se entrega ao prazer da imitação e perde a capacidade de julgar criticamente a realidade Como resultado as pessoas passam a tomar a ilusão pela verdade e a arte se torna um obstáculo ao pensamento filosófico O efeito mais perigoso da arte segundo Platão é que ela dissolve as fronteiras entre aparência e realidade A filosofia busca distinguir claramente o inteligível o mundo das Formas do sensível o mundo material mas a arte reforça a ilusão de que o sensível é autossuficiente Para Platão isso significa um retrocesso filosófico pois impede que a alma reconheça a deficiência do mundo sensível e busque o conhecimento verdadeiro Dessa forma ele vê a arte não como um simples entretenimento mas como uma ameaça à própria existência da filosofia O paradoxo da crítica platônica à arte é que Platão ele mesmo foi um grande artista literário Seus diálogos são repletos de recursos poéticos metáforas e elementos dramáticos que tornam sua filosofia viva e envolvente Esse fato levou muitos estudiosos a questionarem se Platão realmente queria eliminar a arte ou se ele estava apenas tentando reformulála sob uma perspectiva filosófica Alguns intérpretes sugerem que Platão não rejeitava a arte em si mas sim sua forma tradicional e que ele buscava um novo modelo artístico alinhado à busca pela verdade A crítica platônica à arte continua sendo um tema de intenso debate na filosofia Alguns argumentam que Platão foi um inimigo da arte enquanto outros defendem que sua visão era mais complexa e que ele reconhecia o poder transformador da arte mas temia seus efeitos negativos A grande questão que Platão nos deixa é além do prazer imediato qual o verdadeiro benefício da arte para a vida humana Esse questionamento continua relevante até hoje e influencia a forma como pensamos sobre a relação entre estética moral e conhecimento

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