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Texto de pré-visualização

i r w i w Mário Eduardo Martelotta Mariangela Rios de Oliveira Maria Maura Cezario Angélica Furtado da Cunha Sebastião Votre Marcos Antonio Costa Victoria Wilson Eduardo Kenedy Márcio Martins Leitão Roza Palomanes Manual de lingüística Esta obra discute em lin guagem simples e objetiva os aspectos que caracterizam a lingüística como uma ciência apresenta sua história e desen volvimento os conceitos mais básicos e gerais as principais escolas teóricas assim como os pontos em que apresenta inter face com outras áreas como o ensino de línguas Dividido em três partes este Manual de lingüística tem como objetivo harmonizar tradição e modernidade A primeira parte aborda fundamentos da lingüís tica funções da linguagem con ceitos de gramática e motivações pragmáticas A segunda trata das abordagens lingüísticas com temas como estruturalismo gerativismo sociolinguística e Manual de linguística Mário Eduardo Martelotta org Mariangela Rios de Oliveira Maria Maura Cezario Angélica Furtado da Cunha Sebastião Votre Marcos Antonio Costa Victoria Wilson Eduardo Kenedy Márcio Martins Leitão Roza Palomanes Manual de lingüística Ê 2 editoracontexto Copyright 2008 Mário Eduardo Martelotta Todos os direitos desta edição reservados à Editora Contexto Editora Pinsky Ltda Capa e diagramação Gustavo S Vilas Boas Preparação de textos Daniela Marini Iwamoto Revisão Lilian Aquino Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Manual de lingüística Mário Eduardo Martelotta org 2 ed São Paulo Contexto 2011 Vários autores Bibliografia ISBN 9788572443869 1 Lingüística I Martelotta Mário Eduardo 1 Lingüística 410 EDITORA CONTEXTO Diretor editorial Jaime Pinsky Rua Dr José Elias 520 Alto da Lapa 05083030 São Paulo SP PABX 11 3832 5838 contextoeditoracontextocombr wwweditoracontextocombr Proibida a reprodução total ou parcial Os infratores serão processados na forma da lei 079635 CDD410 índice para catálogo sistemático 2011 íÊM U s Ao Professor Anthony Julius Naro por sua valiosa contribuição à Lingüística brasileira Sumário Apresentação 11 Mário Eduardo Martelotta LINGÜÍSTICA E LINGUAGEM 1 3 Lingüística 15 Angélica Furtado da Cunha Marcos Antonio Costa e Mário Eduardo Martelotta Conceituação 15 A Lingüística como estudo científico 20 Aplicações 26 Exercícios 29 Funções da linguagem 31 Mário Eduardo Martelotta As funções da linguagem segundo Jakobson 32 Exercícios 35 Dupla articulação 3 7 Mário Eduardo Martelotta A noção de articulação 37 A economia da articulação 40 Exercícios 40 Conceitos de gramática 43 Mário Eduardo Martelotta Gramática tradicional 45 Gramática históricocomparativa 47 Gramática estrutural 53 Gramática gerativa 58 Gramática cognitivofuncional 62 Exercícios 68 Arbitrariedade e iconicidade 71 Victoria Wilson e Mário Eduardo Martelotta Os estudos em semiótica 72 Os estudos em lingüística 73 Exercícios 84 Motivações pragmáticas 87 Victoria Wilson Implicaturas conversacionais 90 Teoria dos atos de fala 92 Teorias da polidez 96 Análise da conversação 105 Exercícios 109 ABORDAGENS LINGÜÍSTICAS 1 1 1 Estruturalismo 1 1 3 Marcos Antonio Costa O legado de Saussure 113 A corrente norteamericana 123 Exercícios 126 Gerativismo 127 Eduardo Kenedy A faculdade da linguagem 127 O modelo teórico 130 A gramática como sistema de regras 131 A gramática universal princípios e parâmetros 135 O FOXP2 e a genética da linguagem 138 Exercícios 139 Sociolinguística 141 Maria Maura Cezario e Sebastião Votre O advento da corrente sociolinguística variacionista 146 Os precursores da sociolinguística 147 Sociedade e linguagem 147 Aspectos teóricometodológicos da sociolinguística 149 Expansão da sociolinguística 152 Exercícios 153 Funcionalismo 157 Angélica Furtado da Cunha O funcionalismo europeu 159 O funcionalismo norteamericano 163 Exercícios 174 Lingüística cognitiva 177 Mário Eduardo Martelotta e Roza Pahmanes Repensando a questão da modularidade 178 O caráter interacional da construção do significado 181 O pensamento corporificado 181 A organização do conhecimento 183 O princípio de projeção 187 Mesclagem 189 Exercícios 191 Lingüística textual 193 Mariangela Rios de Oliveira Coesão 195 Coerência 200 Exercícios 203 AQUISIÇÃO PROCESSAMENTO E ENSINO 2 0 5 Aquisição da linguagem 207 Maria Maura Cezario e Mário Eduardo Martelotta Hipótese behaviorista 207 Hipótese do inatismo 208 Hipóteses construtivistas e interacionistas 212 Exercícios 215 Psicolinguística experimental focalizando o processamento da linguagem 2 1 7 Márcio Martins Leitão Um breve resumo histórico 217 A psicolinguística experimental 220 Modelos teóricos associados ao processamento sentenciai 224 Explorando a metodologia experimental descrição de experimentos offline e online em PB 227 Considerações finais 232 Exercícios 233 Lingüística e ensino 235 Mariangela Rios de Oliveira e Victoria Wilson Concepções de linguagem 235 Exercícios 241 Bibliografia 243 O organizador 251 Os autores 253 Apresentação Mário Eduardo Martelotta Este livro foi concebido para suprir as necessidades de alunos e professores nas salas de aula de lingüística e de língua portuguesa em cursos de graduação em letras e em outras áreas como fonoaudiologia e comunicação social Nesse sentido resolvemos juntar esforços para elaborar um manual que nos fornecesse meios mais eficazes de executar a difícil tarefa de introduzir informações básicas acerca de uma ciência que é inteiramente desconhecida para a imensa maioria dos estudantes brasileiros que ingressam em uma universidade além de apresentar uma série de discussões acerca da natureza da linguagem que ajudarão na formação desses alunos no decorrer de sua graduação E mais pretendemos cumprir essa tarefa buscando estimular o estudante a fazer reflexões sobre a natureza e o funcionamento da linguagem através de uma abordagem instigante convidandoo a se aprofundar em seus estudos no sentido de participar de projetos de iniciação científica e em seguida partir para a pósgraduação Cientes das dificuldades ou até da impossibilidade se pensarmos na imensa quantidade de informação disponível que tal tarefa impõe aos que tentam executá la buscamos selecionar o conteúdo transmitido a fim de harmonizar tradição e modernidade Em outras palavras o livro tenta conciliar algumas informações de caráter tradicional buscando dialogar com outros manuais já publicados de conteúdo semelhante com reflexões mais modernas apontando as tendências que atualmente estão se delineando nas pesquisas acerca da linguagem Desse modo este manual introdutório aos princípios da lingüística discute os aspectos que caracterizam esse ramo do conhecimento como uma ciência apresenta sua história e desenvolvimento seus conceitos mais básicos e gerais suas principais escolas teóricas assim como os pontos em que apresenta interface com outras áreas de pesquisa incluindo aí o ensino de línguas Tudo escrito em uma linguagem simples e objetiva por uma equipe de professores todos especialistas nos assuntos sobre os quais escreveram com grande experiência no ensino de lingüística e língua portuguesa e que trabalham em várias universidades brasileiras como Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ Universidade Federal Fluminense UFF Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN e Universidade Federal da Paraíba UFPB Ao final de cada capítulo é oferecida uma série de exercícios Na maioria dos casos tratase de exercícios de fixação ou seja tarefas que o aluno conseguirá resolver com uma mera revisão do texto Isso é claro não impede que ele busque em outras fontes as informações necessárias para uma resposta mais aprofundada como também não impede que o docente proponha outras tarefas acadêmicas em torno dos pontos tratados em cada capítulo Por tudo isso espero que este livro consiga atingir seu objetivo e contribuir de alguma forma para a divulgação das teorias lingüísticas entre os alunos de graduação bem como para a preparação dos alunos para a pósgraduação em lingüística e língua portuguesa Finalizo agradecendo aos autores que participaram do livro não apenas por terem feito um ótimo trabalho em seus textos mas também por terem ajudado com uma leitura crítica dos outros capítulos Pelo mesmo motivo agradeço aos bolsistas de iniciação científica aos mestrandos e doutorandos ligados ao Grupo de Estudos Discurso Gramática e aos colegas professores da UFRJ e de outras instituições por sua contribuição crítica em alguns textos Linguística e linguagem Lingüística Angélica Furtado da Cunha Marcos Antonio Costa Mário Eduardo Martelotta Conceituação A lingüística é definida na maioria dos manuais especializados como a disciplina que estuda cientificamente a linguagem Essa definição pouco elucidativa por sua simplicidade nos obriga a fazer algumas considerações importantes Primeiramente precisamos determinar o que estamos entendendo pelo termo linguagem que nem sempre é empregado com o mesmo sentido Precisamos também delimitar o que significa estudar cientificamente a linguagem Além disso não podemos esquecer que existem outros ramos do conhecimento que à sua maneira também se interessam pelo estudo da linguagem Isso nos leva a estabelecer alguns contrastes entre a lingüística e algumas ciências ou disciplinas afins de modo a delimitar seu campo de atuação A partir de agora tentaremos desenvolver algumas observações sobre os conceitos de linguagem e de língua estabelecendo o que há de científico nos estudos elaborados na área da lingüística Além disso buscaremos estabelecer diferenças entre essa disciplina e outros ramos do conhecimento que também se interessam em compreender a linguagem bem como apresentar algumas áreas de aplicação das teorias lingüísticas Linguagem e língua O termo linguagem apresenta mais de um sentido Ele é mais comumente empregado para referirse a qualquer processo de comunicação como a linguagem dos animais a linguagem corporal a linguagem das artes a linguagem da sinalização a linguagem escrita entre outras Nessa acepção as línguas naturais como o português ou o italiano por exemplo são formas de linguagem já que constituem instrumentos que possibilitam o processo de comunicação entre os membros de uma comunidade Entretanto os lingüistas cientistas que se dedicam à lingüística costumam estabelecer uma relação diferente entre os conceitos de linguagem e língua Entendendo linguagem como uma habilidade os lingüistas definem o termo como a capacidade que apenas os seres humanos possuem de se comunicar por meio de línguas Por sua vez o termo língua é normalmente definido como um sistema de signos vocais1 utilizado como meio de comunicação entre os membros de um grupo social ou de uma comunidade lingüística Quando falamos então que os lingüistas estudam a linguagem queremos dizer que embora observem a estrutura das línguas naturais eles não estão interessados apenas na estrutura particular dessas línguas mas nos processos que estão na base da sua utilização como instrumentos de comunicação Em outras palavras o lingüista não é necessariamente um poliglota ou um conhecedor do funcionamento específico de várias línguas mas um estudioso dos processos através dos quais essas várias línguas refletem em sua estrutura aspectos universais essencialmente humanos A lingüística como ocorre com outras ciências apresenta diferentes escolas teóricas que diferem na sua maneira de compreender o fenômeno da linguagem Em uma tentativa de apresentar uma visão mais geral e sobretudo imparcial em relação a essas escolas propomos que a capacidade da linguagem eminentemente humana parece implicar um conjunto de características Vejamos algumas delas a Uma técnica articulatória complexa Quando falamos em técnica articulatória nos referimos a um conjunto de movimentos corporais necessários para a produção dos sons que compõem a fala Esses movimentos envolvem desde a expulsão de ar a partir dos pulmões através dos brônquios da traqueia e da laringe até sua saída pelas cavidades bucal e nasal A sutileza que caracteriza esses movimentos e sobretudo a particularidade que distingue os vários sons e sua função no sistema da língua fazem com que o domínio desse processo de produção vocal seja uma tarefa de complexidade tal que apenas a espécie humana parece ser capaz de realizar No que diz respeito à produção sonora dos elementos fonéticos vejamos por exemplo a distinção entre b e p Ambos são oclusivos bilabiais orais A única diferença entre eles é que b é sonoro e p é surdo Ou seja na pronúncia do b a glote espaço entre as cordas vocais está semifechada fazendo com que o ar ao passar ponha as cordas vocais em vibração No caso de p a glote está aberta o que faz com que o ar passe sem dificuldade e sem causar a vibração das cordas vocais Essa diferença articulatória é um traço distintivo no sistema da língua portuguesa pois a troca de p por b e viceversa leva a uma mudança de significado das palavras como em bote e pote A esse fato está associado o domínio que o falante tem sobre complexos fenômenos de ordem fonológica que caracterizam o uso diário de uma língua Nesse sentido são interessantes fatos como a troca de lei por i por exemplo que na oposição entre pera e pira causa uma modificação de sentido mas na oposição entre Imeninol e Imininol não Esses fenômenos demonstram que o uso da linguagem implica o domínio de um conjunto de procedimentos bastante complexos associados não apenas à produção e percepção dos diferentes sons da fala mas também aos efeitos característicos da distribuição funcional desses sons pela cadeia sonora b Uma base neurobiológica composta de centros nervosos que são utilizados na comunicação verbal Um exemplo que ilustra bem essa relação entre a linguagem e nossa estrutura neurobiológica pode ser visto nas afasias que se caracterizam como distúrbios de linguagem provenientes de acidentes cardiovasculares ou lesões no cérebro Desde meados do século xix a partir dos estudos de cientistas como Paul Broca e Karl Wernicke ficou estabelecido que lesões ou traumatismos em determinadas áreas do cérebro provocam problemas de linguagem Broca propôs que se as lesões ocorrem na parte frontal do hemisfério esquerdo do cérebro elas causam nas pessoas afetadas uma articulação deficiente e uma séria dificuldade de formar frases sem que no entanto sua compreensão daquilo que as outras pessoas falam seja comprometida Dizse que os pacientes que apresentam esse problema sofrem de afasia de Broca Wernicke por sua vez percebeu que pacientes com lesão na parte posterior do lóbulo temporal esquerdo apresentavam problemas de linguagem diferentes dos descobertos por Broca Embora conseguissem falar fluentemente com boa pronúncia e com frases sintaticamente bem formadas esses pacientes perdiam a capacidade de produzir enunciados com significado assim como a capacidade de compreender a fala de outras pessoas Costumase caracterizar essa deficiência como afasia de Wernicke1 A partir de então vêm sendo desenvolvidos estudos acerca da interface entre cérebromentelinguagem caracterizando uma área de pesquisa normalmente chamada de neurolinguística ou afasiologia Descobriuse por exemplo que as áreas de Broca e de Wernicke são conectadas por um feixe de fibras chamado fasciculus arcuatus cuja lesão gera um terceiro tipo de afasia chamado de afasia de condução O que queremos demonstrar com essas informações sobre as relações entre linguagem e estrutura neurobiológica é que o funcionamento da linguagem tal como ocorre está relacionado a uma estrutura biológica que o veicula c Uma base cognitiva que rege as relações entre o homem e o mundo biossocial e consequentemente a simbolização ou representação desse mundo em termos lingüísticos Associado a essa base neurobiológica está o que poderíamos chamar para usar uma expressão simplificada dt funcionamento mental ou seja os processos associados à nossa capacidade de compreender a realidade que nos cerca armazenar organizadamente na memória as informações conseqüentes dessa compreensão e transmitilas aos nossos semelhantes em situações reais de comunicação Podemos dizer que o termo cognição se relaciona a esse funcionamento mental e que em lingüística existem diferentes teorias que descrevem esse funcionamento Para formarmos uma idéia bem geral de como a lingüística trata esses fenômenos é interessante traçarmos um breve histórico do modo como os lingüistas compreenderam a relação entre o uso da linguagem e o funcionamento da mente ao longo da evolução dos estudos lingüísticos Começaremos da chamada hipótese do relativismo lingüístico que pode ser vista nas idéias apresentadas no início do século xx por Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf3 Segundo essa hipótese cada língua segmenta a realidade de um modo peculiar e impõe tal segmentação a todos os que a falam Isso significa que a linguagem é importante não só para a organização do pensamento como também para a compreensão e categorização do mundo que nos cerca Vejamos um exemplo de como isso ocorre Algumas línguas indígenas apresentam o mesmo termo para designar o sol e a lua Isso significa segundo essa teoria que os falantes dessas línguas identificam esses dois objetos celestes como pertencentes a uma mesma cate goria de coisas Em nossa cultura isso não acontece temos nomes distintos para designá los sol e lua Isso se dá porque acreditamos se tratar de duas coisas de natureza diferente Assim a linguagem determinaria a percepção e o pensamento as pessoas que falam diferentes línguas veem o mundo de modos distintos Por sua vez as diferenças de significados existentes numa língua são relativas às diferenças culturais relevantes para o povo que usa essa língua Os autores procuram mostrar portanto a importância que a linguagem tem na compreensão e na construção da realidade Essa forma de ver a linguagem foi mais tarde severamente criticada por Noam Chomsky e pelos lingüistas gerativistas ver o capítulo Gerativismo os quais propõem uma visão de que o pensamento humano apresenta uma espécie de organização interna e universal que pelo menos em sua essência pouco tem a ver com questões de caráter sociocultural Por sua vez os lingüistas sociocognitivistas ver o capítulo Lingüística cognitiva retomam a proposta relativista atribuindolhe argumentos mais modernos adotam a hipótese de que existem universais conceptuais que apenas motivam os conceitos humanos mas que não têm a capacidade de prevêlos de modo definitivo Segundo essa visão os universais conceptuais não determinam o pensamento humano pois sofrem a influência de fatores socioculturais Não é nosso objetivo no momento entrar nos detalhes associados às discussões sobre a natureza da estrutura cognitiva humana e sim registrar o fato de que a capacidade da linguagem implica um tipo de organização mental sem a qual ela não existiria ou pelo menos não teria as características que tem d Uma base sociocultural que atribui à linguagem humana os aspectos variáveis que ela apresenta no tempo e no espaço A linguagem é um dos ingredientes fundamentais para a vida em sociedade Desse modo ela está relacionada à maneira como interagimos com nossos semelhantes refletindo tendências de comportamento delimitadas socialmente Cada grupo social tem um comportamento que lhe é peculiar e isso vai se manifestar também na maneira de falar de seus representantes os cariocas não falam como os gaúchos ou como os mineiros e do mesmo modo indivíduos pertencentes a um grupo social menos favorecido têm características de fala distintas dos indivíduos de classes favorecidas Além disso um mesmo indivíduo em situações diferentes usa a linguagem de formas diferentes Quando está no trabalho discutindo questões profissionais com seu chefe por exemplo o falante tende a empregar uma linguagem mais formal mas em casa conversando com os familiares a tendência é o falante utilizar uma linguagem mais simples com termos mais corriqueiros e populares E também importante registrar que nossas vidas em função da evolução cultural mudam com o tempo Assim as línguas acabam sofrendo mudanças decorrentes de modificações nas estruturas sociais e políticas Podemos perceber isso com facilidade no vocabulário Palavras referentes a objetos que não são mais utilizados desaparecem é o caso de mataborrão4 por exemplo Por outro lado termos novos aparecem para designar novas atividades ou novos aparelhos surgem com o desenvolvimento cultural ou tecnológico é o caso de uma série de termos utilizados na área da computação como impressora scanner software pen drive entre outros Desse modo podemos dizer que as línguas variam e mudam ao sabor dos fenômenos de natureza sociocultural que caracterizam a vida na sociedade Variam pela vontade que os indivíduos ou os grupos têm de se identificar por meio da linguagem e mudam em função da necessidade de se buscar novas expressões para designar novos objetos novos conceitos ou novas formas de relação social e Uma base comunicativa que fornece os dados que regulam a interação entre os falantes Como a linguagem se manifesta no exercício da comunicação existem aspectos provenientes da interação entre os indivíduos que se revelam na estrutura das línguas Um bom exemplo disso pode ser visto no processo de criação de formas novas e mais expressivas para substituir construções que perderam sua expressividade em função da alta freqüência de uso A construção negativa dupla como em Não quero isso não ilustra bem esse ponto No discurso falado no português do Brasil a pronúncia do não tônico que precede o verbo freqüentemente se reduz a um WMW átono ou até mesmo a uma simples nasalização Para reforçar a idéia de negação o falante utiliza um segundo não no fim da oração como uma estratégia para suprir o enfraquecimento fonético do não préverbal e o conseqüente esvaziamento do seu conteúdo semântico Assim o acréscimo do segundo não tem motivação comunicativa E interessante o fato de que em algumas áreas do Brasil mais especificamente no Nordeste desenvolveuse uma tendência de utilizar apenas o segundo não quero não sei não e assim por diante Essa estrutura frasal só é possível pela existência de um estágio intermediário em que por motivos comunicativos ocorre a negativa dupla mencionada anteriormente A lingüística como estudo científico Para proceder ao estudo científico da linguagem é necessário que se construa uma teoria geral sobre o modo como ela se estrutura eou funciona O lingüista busca sistematizar suas observações sobre a linguagem relacionandoas a uma teoria lingüística construída para esse propósito A partir dessa teoria criamse métodos rigorosos para a descrição das línguas O estatuto científico da lingüística devese portanto à observância de certos requisitos que caracterizam as ciências de um modo geral Em primeiro lugar a lingüística tem um objeto de estudo próprio a capacidade da linguagem que é observada a partir dos enunciados falados e escritos Esses enunciados são investigados e descritos à luz de princípios teóricos e de acordo com uma terminologia específica e apropriada A universalidade desses princípios teóricos é testada através da análise de enunciados em várias línguas Em segundo lugar a lingüística tende a ser empírica5 e não especulativa ou intuitiva ou seja tende a basear suas descobertas em métodos rígidos de observação Ou seja a maioria dos modelos lingüísticos contemporâneos trabalha com dados publicamente verificáveis por meio de observações e experiências Estreitamente relacionada ao caráter empírico da lingüística está a atitude não preconceituosa em relação aos diferentes usos da língua Essa atitude torna a lingüística primordialmente uma ciência descritiva analítica e sobretudo não prescritiva Para tanto examina e analisa as línguas sem preconceitos sociais culturais e nacionalistas normalmente ligados a uma visão leiga acerca do funcionamento das línguas A lingüística considera pois que nenhuma língua é intrinsecamente melhor ou pior do que outra uma vez que todo sistema lingüístico é capaz de expressar adequadamente a cultura do povo que a fala Desse modo uma língua indígena por exemplo não é inferior a línguas de povos considerados mais desenvolvidos como o português o inglês ou o francês Além disso a lingüística respeita qualquer variação que uma língua apresente independentemente da região e do grupo social que a utilize Isso porque é natural que toda língua apresente variações de pronúncia falar vsfald bicicleta vs bicicreta de vocabulário aipimmacaxeira abóborajerimum ou de sintaxe casa de Paulocasa do Paulo que manifestam níveis semelhantes de complexidade estrutural e funcional Desse modo ao observar essas variedades da língua os lingüistas reconhecem sua relação com diferentes regiões do país grupos sociais etários e assim por diante A postura metodológica adotada na lingüística portanto decorre naturalmente da definição do seu objeto e considera sobretudo que todas as línguas e todas as variedades de uma mesma língua são igualmente apropriadas ao estudo uma vez que interessa ao lingüista a construção de uma teoria geral sobre a linguagem humana Cabe ao pesquisador descrever com objetividade o modo como as pessoas realmente usam a sua língua falando ou escrevendo sem atribuir às formas lingüísticas qualquer julgamento de valor como certo ou errado Isso significa dizer que a lingüística é não prescritiva a língua falada excluída durante muito tempo como objeto de pesquisa tem características próprias que a distinguem da escrita e constitui foco de interesse de investigação Ou seja a lingüística apesar de se interessar também pela escrita apresenta interesse especial pela fala uma vez que é nesse meio que a linguagem se manifesta de modo mais natural Como se pode concluir a partir do que foi visto até aqui a lingüística tem como objeto de estudo a linguagem humana através da observação de sua manifestação oral ou escrita ou gestual no caso da língua dos sinais Seu objetivo final é depreender os princípios fundamentais que regem essa capacidade exclusivamente humana de expressão por meio de línguas Para atingir esse objetivo os lingüistas analisam como as línguas naturais se estruturam e funcionam A investigação de diferentes aspectos das diversas línguas do mundo é o procedimento seguido para detectar as características da faculdade da linguagem o que há de universal e inato o que há de cultural e adquirido entre outras coisas Podese portanto dizer que a lingüística executa duas tarefas principais o estudo das línguas particulares como um fim em si mesmo com o propósito de produzir descrições adequadas de cada uma delas e o estudo das línguas como um meio para obter informações sobre a natureza da linguagem de um modo geral Lingüística e sua relação com outras ciências Uma vez afirmada como ciência delimitando objeto e metodologia próprios a lingüística reivindica sua autonomia em relação às outras áreas do conhecimento No passado o estudo da linguagem se subordinava por exemplo às investigações da Filosofia através da Lógica Sobretudo a partir do início do século xx com a publicação do Curso de lingüística geral marco inicial da chamada lingüística moderna obra póstuma do lingüista suíço Ferdinand de Saussure instaurase uma nova postura e os estudiosos da linguagem adquirem consciência da tarefa que lhes cabe utilizando se de uma metodologia adequada estudar analisar e descrever as línguas a partir dos elementos formais que lhes são próprios Entretanto isso não significa dizer que a lingüística encontrase isolada das demais ciências e de outras áreas de pesquisa Ao contrário existem relações bastante estreitas entre elas o que faz com que algumas vezes seus limites não se apresentem nitidamente Desse modo a caracterização dessas disciplinas é útil na medida em que permite delimitar mais claramente o campo de atuação da lingüística contrastandoo com o de outras ciências Temos assim duas faces da relação entre lingüística e as demais ciências Por um lado essa relação é de interface ciências que não têm a linguagem como seu objeto de estudo específico passam a se interessar por ela porque a linguagem faz parte de alguns aspectos do seu objeto de estudo Ou seja quando falamos em interface nos referimos a pontos de interseção entre a lingüística e outras ciências A sociologia por exemplo se interessa pelo estudo da linguagem uma vez que a vida em sociedade só é possível em função da comunicação entre os indivíduos Outros exemplos podem ser vistos na filosofia que se ocupa da natureza da relação entre linguagem e realidade e na psicologia que estudando o funcionamento da mente interessase por essa habilidade essencialmente humana que é a linguagem Por outro lado essa relação é de proximidade ou semelhança lingüística gramática tradicional filologia e em menor grau semiologia estudam específica e exclusivamente a linguagem diferindo na concepção que possuem da natureza da linguagem do foco que dão aos seus diferentes aspectos dos objetivos a que se propõem e da metodologia que adotam Vejamos com mais detalhes essa relação de proximidade ou semelhança entre a lingüística e outras ciências sem perder de vista o fato de que é extremamente difícil estabelecer uma fronteira clara entre duas áreas de conhecimento Lingüística e semiologia Comecemos estabelecendo uma distinção entre a lingüística e a semiologia ou semiótica6 E difícil delimitar o campo de atuação da semiologia mas costumase caracterizar esse campo de pesquisa como a ciência geral dos signos Ou sej a a semiologia não se interessa apenas pela linguagem humana de natureza verbal mas por qualquer sistema de signos naturais a fumaça é um sinal de fogo nuvens negras são um sinal de chuva etc ou culturais sinais de trânsito gestos formas de dança etc A semiologia surgiu a partir das idéias do lingüista suíço Ferdinand de Saussure para quem essa disciplina deveria se interessar pela relação entre linguagem e realidade e pela natureza da intermediação que os sistemas de signos fazem entre os indivíduos Para o lingüista suíço a lingüística seria um ramo da semiologia apresentando um caráter mais específico em função de seu particular interesse pela linguagem verbal Na prática entretanto a semiologia vem se desenvolvendo separadamente da lingüística como conseqüência do trabalho de não lingüistas sobretudo na França Independentemente da dificuldade de delimitar o campo dessas duas disciplinas podemos apontar como fator de diferenciação um aspecto que parece estar presente na maioria dos manuais da disciplina a lingüística estuda a linguagem verbal enquanto a semiologia com seu caráter mais geral interessase por todas as formas de linguagem Lingüística e filologia Quanto à diferença entre lingüística e filologia podemos dizer que a última é uma ciência eminentemente histórica que por tradição se ocupa do estudo de civilizações passadas através da observação dos textos escritos que elas nos deixaram com o intuito de interpretálos comentálos fixálos e de esclarecer ao leitor o processo de transmissão textual Como ocorre com todas as ciências o que é considerado campo de atuação dos estudos filológicos pode variar de acordo com diferentes autores Alguns incluem no campo dessa ciência por exemplo o estudo da evolução das línguas observando entre outras coisas as transformações sofridas pelas formas da língua as palavras seu emprego a construção da frase através da verificação de documentos cronologicamente sucessivos Um exemplo é o estudo da evolução do latim em direção às diferentes línguas românicas tanto nos seus aspectos históricos história externa quanto estruturais história interna Esse campo de estudo tem sido chamado de filologia românica e busca descrever de um lado os aspectos políticos sociais e históricos característicos do crescimento do Império Romano que tiveram influência na evolução da língua e de outro os aspectos lingüísticos associados à mudança fonética morfossintática e semântica Nesse sentido alguns autores identificam a filologia com a lingüística histórica7 cujo objetivo básico é o estudo comparativo entre as línguas a fim de classificálas de acordo com as semelhanças que elas apresentam Essa identificação entretanto não é consensual Muitos autores veem o surgimento da lingüística histórica como o advento da própria lingüística já que marca o desenvolvimento de uma análise voltada para a compreensão da própria estrutura das línguas bem como o aparecimento de teorias mais consistentes acerca da mudança lingüística Segundo essa visão o campo de atuação da filologia se restringe ao estudo do texto escrito Esse estudo engloba a exploração exaustiva dos mais variados aspectos do texto lingüístico literário críticotextual sóciohistórico entre outros Cabe à filologia interpretar e comentar os textos antigos a fim de fornecer as informações necessárias para sua compreensão sentidos que por ventura as palavras possuíam num passado remoto ou recente mas que se perderam formas e usos lingüísticos atualmente não utilizados mas necessários para esclarecernos eventuais passagens obscuras de um texto Além disso a disciplina visa apresentar ao leitor o texto que mais se aproxima da última forma materializada pelo seu autor Assim quando observa um determinado manuscrito o filólogo deve saber de que época é a letra se é texto original ou cópia se o copista foi fiel ou se inseriu modernismos Deve observar não apenas aspectos lingüísticos como por exemplo as características ortográficas mas também aspectos não lingüísticos como a disposição da mancha dos títulos do uso diferenciado dos caracteres gráficos do conjunto de ilustrações entre outros fatores Nesse sentido a filologia busca levantar o contexto em que o texto foi produzido o que inclui seu autor sua época exata suas condições de produção e tudo o que ajuda a compreender a sua estrutura Todo esse material desenvolvido pela filologia é muito importante para cientistas de outras áreas Por exemplo é fundamental para o estudioso da literatura porque fornece as informações necessárias para a caracterização do texto por ele estudado É fundamental também para o lingüista já que fornece para análise um material constituído de textos fidedignos que refletem com maior precisão os diferentes momentos da evolução histórica de uma língua Podemos dizer então resumindo o que foi visto até aqui que a filologia é uma ciência eminentemente histórica ao contrário da lingüística cujo interesse é a compreensão do fenômeno da linguagem através da observação dos mecanismos universais que estão na base da utilização das línguas Isso significa que o estudo chamado sincrônico8 desde Ferdinand de Saussure é um procedimento válido entre os lingüistas A filologia se interessa pelo estudo do texto escrito enquanto a lingüística embora não despreze a escrita se volta para a linguagem oral Essa estratégia se justifica pelo fato de a fala refletir o funcionamento da linguagem de modo mais natural e espontâneo do que a escrita que é mais planejada e muitas vezes retificada em nome de um texto mais elaborado Isso faz da fala um material mais interessante para que se possa compreender o funcionamento da linguagem humana No campo da história das línguas a fdologia se limita a descrever as formas características das diferentes épocas da evolução histórica das línguas tendo um caráter mais didático no sentido de que oferece informações básicas para a compreensão dessas formas A lingüística por outro lado ao desenvolver teorias mais consistentes com relação ao funcionamento da linguagem tende a dar conta de alguns aspectos universais da mudança transcendendo o nível meramente descritivo Os lingüistas não querem apenas saber como o latim gerou o português o francês ou o italiano por exemplo Seu interesse recai sobre os mecanismos universais que regem a mudança lingüística procurando saber se a mudança ocorre por exemplo de geração para geração se os fatores sociais ou interativos influenciam o processo A relação entre mudança e variação demonstrada pela sociolinguística e a teoria da gramaticalização retomada no final do século xx pelos lingüistas funcionalistas são exemplos de propostas mais universais de mudança lingüística Lingüística e gramática tradicional Cabe agora diferenciar a lingüística da chamada gramática tradicional As pessoas freqüentemente pensam que a lingüística é a velha gramática ensinada nas escolas avivada com alguns termos novos Porém a diferença entre ambas se manifesta em vários aspectos básicos Em primeiro lugar devemos registrar que a gramática tradicional foi criada e desenvolvida por filósofos gregos Representa uma tradição que se iniciou em Aristóteles de estabelecer uma relação entre linguagem e lógica buscando sistematizar através da observação das formas lingüísticas as leis de elaboração do raciocínio Essa tradição tem portanto suas raízes na filosofia e predominou na base dos estudos gramaticais até o século xix quando se desenvolveram novas teorias sobre a linguagem que caracterizariam o surgimento de uma nova ciência a lingüística9 Além disso essa tradição gramatical se caracterizava por uma orientação normativa já que ao tentar impor o dialeto ático como ideal buscou instituir uma maneira correta de usar a língua Vale ressaltar que essa concepção normativa é estranha à lingüística ciência que se propõe a analisar e descrever a estrutura e o funcionamento dos sistemas de língua e não prescrever regras de uso para esses sistemas Os lingüistas portanto estão interessados no que é dito e não no que alguns acham que deveria ser dito Eles descrevem a língua em todos os seus aspectos mas não prescrevem regras de correção É um equívoco comum achar que há um padrão absoluto de correção que é dever de lingüistas professores gramáticos e dicionaristas manter A noção de correção absoluta e imutável é alheia aos lingüistas E verdade que através da roda do tempo um tipo de fala pode ser mais prestigiado do que outros mas isso não torna a variedade socialmente aceitável mais interessante para os lingüistas do que as outras Tomemos como exemplo a variação na regência do verbo assistir quando ele significa ver Na língua falada usase comumente assistir o jogo e não assistir ao jogo que representa a formapadrão utilizada preferencialmente na escrita E importante observar que os critérios de correção que privilegiam a formapadrão em detrimento da coloquial não são estritamente lingüísticos mas decorrem de pressões políticas eou socioculturais Isso significa que em termos lingüísticos não há nada em uma forma de falar que a caracterize como correta ou errada As formas consideradas corretas são na realidade aquelas utilizadas pelos grupos sociais predominantes Cabe ainda mencionar que essa posição dos lingüistas em relação à noção de correção é um reflexo de seu trabalho como cientistas da linguagem que observam sem preconceitos todas as formas de expressão a fim de compreender a natureza da linguagem Entretanto é evidente que essa posição não deve ser estendida para o ensino de língua materna sem um mínimo de reflexão Os lingüistas têm plena consciência da importância da normapadrão para o ensino do português e reconhecem que o aprendizado ou não desse padrão tem implicações importantes no desenvolvimento sociocultural dos indivíduos Nesse sentido é válido dizer que para a lingüística não há formas de expressão corretas ou erradas mas adequadas ou não aos diferentes contextos de uso É tão inadequado o uso de formas não padronizadas da língua por parte de um deputado ao discursar na Câmara por exemplo quanto a utilização por parte desse mesmo deputado de uma linguagem formal marcada pelas regras do padrão culto quando ele estiver nas ruas pedindo votos para as pessoas humildes Uma segunda diferença importante entre a lingüística e a gramática tradicional é que os lingüistas consideram a língua falada e não a escrita como primária Qualquer atividade de escrita representa um processo mais sofisticado e adquirido mais tardiamente como comprovam as seguintes observações gerais começamos a falar antes de aprender a escrever falamos mais do que escrevemos em nossa rotina diária todas as línguas naturais foram faladas antes de serem escritas Ao longo dos anos os gramáticos têm enfatizado a importância da língua escrita em parte por causa de seu caráter permanente reforçado pela padronização da ortografia e pelo advento da imprensa A prática educativa tradicional insiste em moldar a língua de acordo com o uso dos melhores autores clássicos mas os lingüistas olham primeiro para a fala que cronologicamente precedeu a escrita em todas as partes do mundo Vale notar que enquanto todas as comunidades humanas existentes ou que já existiram possuem a capacidade de se comunicar através da fala o sistema de escrita pelo que se sabe existe há seis ou sete mil anos no máximo Por outro lado há ainda hoje línguas desprovidas de tradição escrita as chamadas línguas ágrafas como por exemplo algumas línguas indígenas brasileiras e algumas línguas africanas Os lingüistas portanto consideram as formas faladas e escritas pertencentes a sistemas distintos já que exibem diferentes padrões de gramática e vocabulário e seguem regras de uso que lhes são específicas Logo embora sobrepostos esses sistemas devem ser analisados separadamente a fala primeiro depois a escrita Do que foi exposto podemos concluir que em virtude da natureza complexa do objeto de estudo da lingüística tornase difícil se não impossível traçar com clareza os limites dessa disciplina ou mesmo enumerar com segurança suas tendências de análise que como é comum em qualquer ciência variam de acordo com diferentes autores ou escolas Aplicações A lingüística está longe de ser uma disciplina homogênea ao contrário é um vasto território com muitas noções e orientações teóricas em competição Assim sendo ela oferece muitas opções para a pesquisa aplicada e muitos ramos ou teorias lingüísticas são fortemente orientados para a resolução de questões práticas que envolvem a linguagem Nos últimos anos temse registrado o crescimento de uma tendência aplicada comprometida com a utilização dos resultados da pesquisa lingüística e de outras áreas do conhecimento com vistas à resolução de problemas da vida cotidiana que envolvem o uso da linguagem Comecemos pela chamada lingüística aplicada Segundo alguns autores o termo lingüística aplicada surgiu na metade da década de 50 do século passado quase simultaneamente na Inglaterra e nos Estados Unidos motivado talvez pelo desejo dos professores de língua de se distinguirem dos professores de literatura e de se associarem a algo mais científico e objetivo como a lingüística Embora ainda não haja um consenso quanto ao escopo e critérios definidores dessa área do conhecimento é evidente que ela está se tornando uma disciplina reconhecida que vem ampliando seus domínios Em sua origem a lingüística aplicada tem sua atuação voltada para o ensino de línguas especialmente de línguas estrangeiras buscando para isso subsídios de teorias referentes à linguagem sejam elas provenientes da lingüística da filosofia da linguagem ou de qualquer outra área afim A literatura especializada freqüentemente emprega uma definição operacional de lingüística aplicada a lingüística aplicada é uma abordagem multidisciplinar para a solução de problemas associados à linguagem Logo é uma característica central dessa disciplina o fato de que ela está relacionada a tarefas orientada para problemas centrada em projetos e guiada para a demanda Para cumprir seus objetivos ela se fundamenta primeiramente mas não exclusivamente na lingüística já que esta é a disciplina que fornece informações que tratam exclusivamente da linguagem Contudo a lingüística aplicada não está preocupada em descrever a linguagem em si mesma e portanto busca conhecimento também em uma variedade de outras ciências sociais indo da antropologia teoria educacional psicologia e sociologia até a sociologia da aprendizagem a sociologia da informação a sociologia do conhecimento etc E portanto um campo interdisciplinar Para tentar descrever a que tipos de aplicação a lingüística se pode prestar duas questões amplas devem ser respondidas primeiro que parte da lingüística pode ser utilizada nos problemas baseados na linguagem que a lingüística aplicada se propõe a mediar Segundo que tipos de problemas podem ser resolvidos através da mediação da lingüística aplicada Podese dizer que virtualmente todas as áreas da lingüística contribuem para a lingüística aplicada Nesse sentido informação relevante pode vir da fonologia sintaxe semântica lingüística textual sociolinguística e psicolinguística por exemplo Os tipos de problemas com os quais a lingüística aplicada está envolvida podem ser identificados como problemas de comunicação de um modo geral sejam eles entre indivíduos comunidades de indivíduos ou nações Um exame superficial dos títulos dos artigos publicados nas revistas de lingüística aplicada revela algumas tendências Grande volume desses trabalhos está relacionado de um modo ou de outro ao ensino e aprendizagem de língua incluindo aspectos de alfabetização letramento10 aquisição e aprendizagem de línguas estrangeiras elaboração de testes e material educacional de língua A parte remanescente se divide em quatro categorias amplas que incluem política e planejamento lingüísticos usos profissionais da linguagem comportamento lingüístico desviante e bilinguismo multilinguismo e multiculturalismo São essas as áreas em que a lingüística aplicada tem estado ativa intervindo nos modelos teóricos e nos praticantes numa via de mão dupla ajudando a trazer preocupações teóricas a situações concretas e ao mesmo tempo expandindo a teoria ao trazer essas situações problemas e questões que não foram ou não foram adequadamente focalizados pela teoria A relação entre lingüística e lingüística aplicada é pois simbiótica11 A colaboração da lingüística aplicada em projetos lingüísticos tem contribuído para disseminar um maior conhecimento na comunidade letrada da natureza da linguagem e do seu papel na sociedade além de ter despertado uma disposição entre os lingüistas aplicados de examinar conceitos de outras disciplinas e determinar sua relevância para a lingüística aplicada Num contexto em que o ensino de línguas tem sido encarregado da proteção ou defesa da linguagem correta a lingüística tem sido aplicada em maior ou menor grau em contextos de aprendizagem de língua ver o capítulo Lingüística e ensino Os estudiosos da língua têm usado informações lingüísticas em tarefas educacionais e os professores de língua têm se debruçado sobre as descobertas dos estudiosos para definir tanto o que será ensinado em sala de aula quanto o modo como será ensinado Nesse sentido a aplicação de informações lingüísticas na resolução de problemas reais não pode ser considerada uma orientação recente As aplicações da lingüística não se restringem porém ao domínio do ensino de línguas ou ao campo de atuação da disciplina denominada lingüística aplicada outras áreas utilizam produtivamente as descobertas teóricas da pesquisa lingüística para fins práticos como a afasiologia a inteligência artificial a tradução automática e o desenvolvimento de softwares capazes de traduzir a fala humana em escrita e viceversa Em questões de natureza clínica o tratamento e reabilitação de pacientes com problemas de fala como afasia ou mal de Alzheimer por exemplo tem se beneficiado recentemente com a incorporação de conteúdos lingüísticos em cursos que formam terapeutas da fala Psicolinguistas e neurolinguistas têm procurado entender como a linguagem é processada no cérebro e como os vários danos cerebrais afetam tanto a memória lingüística quanto a produção lingüística Em contextos forenses a linguagem tem se tornado um campo de estudo em ascensão Analisamse conversações para descobrir conspiração ameaças difamação e outras questões pertinentes à lei O uso da linguagem em contextos legais afeta não apenas como um advogado apresenta seu caso à corte mas também como se percebe a veracidade de um testemunho a escolha dos membros do júri a compreensão das instruções para os jurados a transcrição de registros de julgamentos a admissão de evidências no julgamento e a força do testemunho de especialistas Os progressos na área da tecnologia da comunicação também requerem informação lingüística sofisticada Na área das telecomunicações engenheiros elétricos e eletrônicos contam com a colaboração de especialistas em fonética para por exemplo aumentar o número de conversações em um único circuito de telefone A participação da lingüística aplicada é especialmente notável em projetos que lidam com o reconhecimento automático da fala a síntese automática do discurso tradução automática inteligência artificial e campos afins Em resumo há vários domínios em que a lingüística pode ser aplicada produtivamente Dependendo do propósito da aplicação as disciplinas relevantes a esses propósitos vão variar A relação entre disciplinas e os domínios da lingüística aplicada é paralela à relação entre por exemplo de um lado a engenharia a matemática a física a química etc e de outro lado os objetivos do engenheiro em determinadas circunstâncias práticas Exercícios 1 Faça um comentário acerca do conceito de lingüística apresentado no início do texto disciplina que estuda cientificamente a linguagem 2 Que argumentos poderiam ser usados para privilegiar a análise da língua falada 3 Aponte um aspecto que caracterize a relação entre a linguagem e nossa estrutura neurobiológica e comente sua escolha 4 Que aspectos caracterizam a lingüística como o estudo científico da linguagem 5 Estabeleça uma distinção entre lingüística filologia e semiologia 6 Cite algumas áreas em que os resultados da pesquisa lingüística podem ser aplicados Notas 1 Cabe registrar a existência da chamada língua dos sinais utilizada pelos surdos em que não há signos vocais mas visuais O sistema de comunicação dos surdos é considerado uma língua pela grande maioria dos autores já que embora não se constitua de sinais sonoros apresenta as características básicas das línguas naturais 2 As zonas cerebrais afetadas nas afasias de Broca e de Wernicke são chamadas respectivamente de área de Broca e área de Wernicke 3 Lingüistas norteamericanos que na primeira metade do século xx ajudaram a criar a tradição dos estudos lingüísticos nos EUA 4 Papel próprio para absorver a tinta fresca 5 O termo empírico deve ser entendido aqui como uma atitude de buscar a comprovação empírica dos fatos ou seja que as hipóteses levantadas pelos lingüistas sejam comprovadas através da observação dos dados 6 O termo semiologia está relacionado à tradição saussuriana constituindo uma tradução do francês sémiologie O termo semiótica de semiotics em inglês está associado ao trabalho desenvolvido nos Estados Unidos pelo filósofo Charles Sanders Peirce 7 Essa identificação provavelmente tem sua origem no fato de o lingüista Georg Curtius no século xix ter colocado a filologia clássica no campo da lingüística 8 Segundo Saussure o termo sincrônico relacionase ao estudo de um língua em um determinado momento de sua evolução histórica em oposição ao estudo diacrônico que se caracteriza pela comparação entre dois momentos diferentes da evolução da língua através do tempo 9 Essa concepção de uma base lógica e universal para a linguagem abandonada pelos primeiros estruturalistas foi retomada por Chomsky em meados da década de 1950 e caracteriza até hoje os estudos gerativistas Entretanto essa posição não se estende a outras escolas lingüísticas da atualidade nem predomina em estudos atuais da filosofia da linguagem 10 O termo letramento referese ao processo de ensinoaprendizagem de leitura e produção textual com vistas à formação cidadã à inserção social plenamente participativa 11 Simbiose é um termo da biologia que designa a associação entre dois ou mais seres de espécies diferentes da qual todos tiram vantagem O exemplo mais citado é o líquen que é constituído pela simbiose de uma alga e de um cogumelo Funções da linguagem Mário Eduardo Martelotta Quando nos deparamos com a expressão funções da linguagem devemos inicialmente nos perguntar em que sentido o vocábulo função está sendo empregado Tratase de um termo de difícil definição já que além de ser utilizado com acepções distintas por autores diferentes não é raro um mesmo autor lhe atribuir significados um pouco distintos Entretanto deixando de lado questões teóricas mais complexas podemos atingir uma boa compreensão do termo apelando para o conceito de função que empregamos no nosso dia a dia Se alguém nos perguntasse qual a função do apagador na sala de aula não teríamos dificuldade em responder que como o próprio nome sugere tal objeto serve para apagar o quadro Do mesmo modo não teríamos problemas em enumerar funções de ferramentas como o martelo ou a chave de fenda Mas quando se trata de algo abstrato e complexo como a linguagem a pergunta se torna mais difícil de responder qual a função ou as funções da linguagem Poderíamos propor que a função da linguagem é transmitir informações de um indivíduo a outro ou de uma geração a outra Mas essa visão se mostra no mínimo ingênua quando presenciamos o seguinte diálogo entre duas pessoas que se encontram na rua um deles pergunta Como vai Tudo bem o outro responde com a mesma pergunta Como vai tudo bem e ambos continuam seu caminho com a consciência de ter cumprido plenamente seu papel social Não podemos dizer que em casos como esse tenha ocorrido de fato transmissão de informação Se a linguagem possui diferentes funções associadas a comportamentos enraizados na vida social que transcendem a mera transmissão de informações como delimitar essas funções Vários cientistas tentaram responder a essa pergunta como o psicólogo alemão Karl Bühler e lingüistas como Roman Jakobson e mais recentemente M A K Halliday Passaremos a analisar a proposta de Jakobson As funções da linguagem segundo Jakobson Segundo o autor a linguagem apresenta uma variedade de funções mas para que possamos compreender cada uma delas devemos levar em conta os elementos constitutivos de todo ato de comunicação que estão abaixo arranjados CONTEXTO REMETENTE MENSAGEM DESTINATÁRIO CONTATO CÓDIGO Devemos entender desse quadro que para que haja comunicação não basta que um remetente envie uma mensagem a um destinatário pois para que essa mensagem seja compreendida é necessário que ela preencha algumas condições Isso significa que uma mensagem eficaz requer a Um contexto apreensível pelo destinatário Estamos aqui diante de outro termo de difícil definição A noção de contexto remete ao próprio conteúdo referencial da mensagem ou seja às informações que fazem referência à realidade biossocial que circunda nossa vida e que estão em evidência na mensagem transmitida Nesse sentido podemos dizer que as informações na prática nunca se limitam ao conteúdo da mensagem em si Ou seja a interpretação adequada de uma frase pode por exemplo depender de informações transmitidas em frases proferidas anteriormente contexto lingüístico ou de dados referentes ao local ao momento da comunicação ou mesmo ao tipo de relação entre os interlocutores situação extralinguística Quando ouvimos por exemplo alguém proferir uma frase como Passei muitos exercícios na aula de hoje acionamos um conjunto de conhecimentos referentes à estrutura de uma aula que são necessários para que possamos compreender plenamente o conteúdo dessa frase Sabemos de antemão que aulas são eventos diários o que nos permite compreender sem problemas a expressão aula de hoje Temos conhecimento através de nossa vivência escolar de que exercícios de fixação fazem parte do procedimento assim como sabemos como eles são normalmente ministrados Essas informações embora não estejam expressas na frase são evocadas pelo destinatário no processo de decodificação e sem elas não seria possível uma interpretação adequada Ampliando um pouco mais a noção de contexto podemos dizer que o termo abrange todas as informações referentes às condições de produção da mensagem o emissor o destinatário o tipo de relação existente entre eles o local e a situação em que a mensagem é proferida entre outras coisas Nesse sentido se a frase acima fosse enunciada por um professor de português por exemplo assumiria um sentido diferente daquele que apresentaria se tivesse sido dita por um professor de ginástica já que no segundo caso os exercícios seriam de natureza física Resumindo para que o destinatário possa compreender a mensagem precisa conhecer um conjunto de informações que vai desde elementos relacionados ao momento da produção dessa mensagem até dados referentes ao conhecimento do assunto em pauta A esse conjunto de conhecimentos podemos chamar de contexto b Um código que seja conhecido por remetente e destinatário O termo código constitui um conjunto de sinais ou signos convencionados para promover a comunicação entre as pessoas São códigos as línguas faladas no mundo como o português ou o italiano assim como suas correspondentes escritas São também códigos a língua de sinais utilizada pelos surdos os painéis de sinalização de trânsito o código Morse entre outros Não é difícil compreender que para que se dê a comunicação remetente e destinatário têm de utilizar e conhecer razoavelmente o mesmo código Um j aponês que não fale português e um brasileiro que não conheça japonês certamente terão muitas dificuldades de se comunicar a solução para seu problema seria buscar outro código para se comunicarem entre si gestos outra língua mais conhecida como o inglês etc c Um contato ou canal físico e uma conexão psicológica entre remetente e destinatário que permita a troca de informações O termo canal referese ao meio pelo qual é transmitida a mensagem No caso da comunicação verbal em presença considerase que o ar através do qual as ondas sonoras se propagam é o canal transmissor No caso de comunicação a distância o telefone é um canal de comunicação assim como as faixas de freqüência de rádio por exemplo Podemos compreender então que um remetente localizado no Ceará terá dificuldades de se comunicar com alguém que esteja no Rio Grande do Sul a menos que consiga utilizar algum canal de comunicação Nesse caso telefone ou email são algumas das alternativas possíveis Por outro lado como uma frase nunca traz todas as informações necessárias para a compreensão adequada da mensagem como dissemos ao analisar a noção de contexto a comunicação é essencialmente uma atividade cooperativa E fundamental portanto algum tipo de interesse comum que crie uma conexão psicológica entre os participantes sem a qual a comunicação seria prejudicada Com base nesses elementos constitutivos do ato da comunicação Jakobson estipulou seis funções da linguagem cada uma centrada em um desses elementos Vej amos 1 Função referencial consiste na transmissão de informações do remetente ao destinatário Essa função está centrada no contexto já que reflete uma preocupação em transmitir conhecimentos referentes a pessoas objetos ou acontecimentos Podemos pensar como exemplos dessa função as notícias apresentadas em um veículo de informações como o jornal 2 Função emotiva consiste na exteriorização da emoção do remetente em relação àquilo que fala de modo que essa emoção transpareça no nível da mensagem Essa função está centrada no próprio remetente já que é sua emoção que está em jogo na mensagem Um exemplo de função emotiva está em uma situação em que um indivíduo ao tentar martelar um prego acerta o próprio dedo e profere um palavrão Em mensagens marcadas por esta função podemos detectar a emoção do remetente na entonação que usa é difícil imaginar um locutor narrando uma partida de futebol com uma entonação sonolenta já que sua tarefa também é passar a emoção do jogo ou em sua escolha vocabular entre as frases Ele saiu de casa e O canalha abandonou o lar a segunda é certamente mais emotiva já que reflete um envolvimento do falante com a situação 3 Função conativa consiste em influenciar o comportamento do destinatário Essa função está centrada no destinatário já que ele é o alvo da informação Um bom exemplo de função conativa é a propaganda cuja função básica é persuadir o público a comprar um produto votar em um político ou agir de determinada maneira 4 Função fática consiste em iniciar prolongar ou terminar um ato de comunicação Está portanto centrada no canal já que não visa propriamente à comunicação mas ao estabelecimento ou ao fim do contato refletindo também a preocupação de testar o contato checar o recebimento da mensagem e em muitos casos tentar manter o contato Um exemplo disso podemos ver na utilização do termo alô no telefone para indicar que estamos na escuta prontos para o que o interlocutor tem a dizer 5 Função metalinguística consiste em usar a linguagem para se referir à própria linguagem Centrada no código essa função se justifica pelo fato de os humanos utilizarem a linguagem para se referir não apenas à realidade biossocial mas também aos aspetos relacionados ao código ou à linguagem utilizados para esse fim Os verbetes de dicionário são um bom exemplo desse tipo de função já que dão pistas do significado das palavras 6 Função poética consiste na projeção do eixo da seleção sobre o eixo da combinação dos elementos lingüísticos Centrada na mensagem essa função caracterizase pelo enfoque na mensagem e em sua forma Para que possamos compreender essa definição temos de nos lembrar daquilo que Jakobson caracterizou como os dois tipos básicos de arranjos utilizados no processo verbal seleção e combinação Nesse sentido podemos dizer que ao formar uma frase inicialmente o falante seleciona as palavras que melhor expressam suas idéias naquela situação de comunicação Além disso o falante combina de acordo com as regras sintáticas de sua língua as palavras selecionadas de modo que elas constituam um enunciado que faça sentido para o interlocutor 2 Função emotiva consiste na exteriorização da emoção do remetente em relação àquilo que fala de modo que essa emoção transpareça no nível da mensagem Essa função está centrada no próprio remetente já que é sua emoção que está em jogo na mensagem Um exemplo de função emotiva está em uma situação em que um indivíduo ao tentar martelar um prego acerta o próprio dedo e profere um palavrão Em mensagens marcadas por esta função podemos detectar a emoção do remetente na entonação que usa é difícil imaginar um locutor narrando uma partida de futebol com uma entonação sonolenta já que sua tarefa também é passar a emoção do jogo ou em sua escolha vocabular entre as frases Ele saiu de casa e O canalha abandonou o lar a segunda é certamente mais emotiva já que reflete um envolvimento do falante com a situação 3 Função conativa consiste em influenciar o comportamento do destinatário Essa função está centrada no destinatário já que ele é o alvo da informação Um bom exemplo de função conativa é a propaganda cuja função básica é persuadir o público a comprar um produto votar em um político ou agir de determinada maneira 4 Função fática consiste em iniciar prolongar ou terminar um ato de comunicação Está portanto centrada no canal já que não visa propriamente à comunicação mas ao estabelecimento ou ao fim do contato refletindo também a preocupação de testar o contato checar o recebimento da mensagem e em muitos casos tentar manter o contato Um exemplo disso podemos ver na utilização do termo alô no telefone para indicar que estamos na escuta prontos para o que o interlocutor tem a dizer 5 Função metalinguística consiste em usar a linguagem para se referir à própria linguagem Centrada no código essa função se justifica pelo fato de os humanos utilizarem a linguagem para se referir não apenas à realidade biossocial mas também aos aspetos relacionados ao código ou à linguagem utilizados para esse fim Os verbetes de dicionário são um bom exemplo desse tipo de função já que dão pistas do significado das palavras 6 Função poética consiste na projeção do eixo da seleção sobre o eixo da combinação dos elementos lingüísticos Centrada na mensagem essa função caracterizase pelo enfoque na mensagem e em sua forma Para que possamos compreender essa definição temos de nos lembrar daquilo que Jakobson caracterizou como os dois tipos básicos de arranjos utilizados no processo verbal seleção e combinação Nesse sentido podemos dizer que ao formar uma frase inicialmente o falante seleciona as palavras que melhor expressam suas idéias naquela situação de comunicação Além disso o falante combina de acordo com as regras sintáticas de sua língua as palavras selecionadas de modo que elas constituam um enunciado que faça sentido para o interlocutor Mas voltemos à definição proposta por Jakobson para função poética Como compreender a noção de projeção do eixo de seleção sobre o eixo da combinação Para isso precisamos entender que a combinação das palavras se manifesta na superfície da frase sendo portanto perceptível para o ouvinte Por outro lado a seleção constitui um processo de cunho psicológico que normalmente não é visível na estrutura da frase Como o ouvinte poderia perceber que o falante escolheu os termos da frase que acabou de transmitir Seguindo Jakobson isso ocorre em mensagens caracterizadas por rimas jogos de palavras aliterações e outros processos de natureza estilística que sugerem uma escolha mais cuidadosa das palavras Vejamos os versos de Chico Buarque apresentados abaixo A gente faz hora faz fila na vila do meiodia Para ver Maria A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia Podemos notar nos versos acima repetições de sons e rimas A presença desses recursos demonstra que essas palavras foram escolhidas de modo meticuloso para nesse caso especificamente criar o efeito estético que caracteriza o discurso poético Ou seja em função desses recursos o eixo da combinação se projeta sobre o da seleção ficando também evidente na superfície da frase Esse é um bom exemplo de função poética É importante registrar aqui que a função poética não está presente apenas em textos literários Segundo Jakobson a função poética não é exclusiva da arte verbal mas predominante nela Isso significa que podemos encontrála também em ditados e expressões populares ex água mole em pedra dura tanto bate até que fura e por fora bela viola por dentro pão bolorento ou em slogans de propaganda ex Quem é vivo faz seguro de vida no fundo Itaú em que a palavra vivo recebe ao mesmo tempo duas interpretações que está vivo e esperto Aliás Jakobson chama atenção para o fato de que embora para efeito de análise possamos distinguir essas seis funções na prática elas não são exclusivas Ou seja uma mesma mensagem apresenta mais de uma dessas funções de modo que a decisão referente a qual a função que caracteriza uma mensagem é mais uma questão de decidir a ordem hierárquica de funções do que de escolher apenas uma Exercícios 1 Apresente uma definição para o termo contexto e comente sua importância segundo a teoria das funções da linguagem para a compreensão de uma mensagem 2 As propagandas de televisão podem ser caracterizadas como apresentando o predomínio de que função da linguagem Justifique sua resposta 3 Levando em conta o texto abaixo responda o que se pede Em código Fui chamado ao telefone Era o chefe de escritório de meu irmão Recebi de Belo Horizonte um recado dele para o senhor É uma mensagem meio esquisita com vários itens convém tomar nota o senhor tem um lápis aí Tenho Pode começar Então lá vai Primeiro minha mãe precisa de uma nora Precisa de quê De uma nora Que história é essa Eu estou dizendo ao senhor que é um recado meio esquisito Posso continuar Continue Segundo pobre vive de teimoso Terceiro não chora morena que eu volto Isso é alguma brincadeira Não é não estou repetindo o que ele escreveu Tem mais Quarto sou amarelo mas não opilado Tomou nota Mas não opilado repeti tomando nota Que diabo ele pretende com isso Não sei não senhor Mandou transmitir o recado estou transmitindo Mas você há de concordar comigo que é um recado meio esquisito Foi o que eu preveni ao senhor E tem mais Quinto não sou colgate mas ando na boca de muita gente Sexto poeira é minha penicilina Sétimo carona só de saia Oitavo Chega protestei estupefato Não vou ficar aqui tomando nota disso feito idiota Deve ser carta em código ou coisa parecida e ele vacilou Estou dizendo ao senhor que também não entendo mas enfim Posso continuar Continua Falta muito Não está acabando são doze Oitavo vou mas volto Nono chega à janela morena Décimo quem fala de mim tem mágoa Décimo primeiro não sou pipoca mas também dou meus pulinhos Não tem dúvida ficou maluco Maluco não digo mas como o senhor mesmo disse a gente fica até com ar meio idiota Está acabando só falta um Décimo segundo Deus eu e o Rocha Que Rocha Não sei é capaz de ser a assinatura Meu irmão não se chama Rocha essa é boa E mas que foi ele que mandou isso foi Desliguei atônito fui até refrescar o rosto com água para poder pensar melhor Só então me lembrei haviamme encomendado uma crônica sobre essas frases que os motoristas costumam pintar como lema à frente dos caminhões Meu irmão que é engenheiro e viaja sempre pelo interior fiscalizando obras prometera ajudarme recolhendo em suas andanças farto e variado material Ele viajou o tempo passou acabei me esquecendo completamente o trato na suposição de que o mesmo lhe acontecera Agora o material ali estava era só fazer a crônica Deus eu e o Rocha Tudo explicado Rocha era o motorista Deus era Deus mesmo e eu o caminhão Fernando Sabino A mulher do vizinho Rio de Janeiro São Paulo Record 1962 a Defina o termo código e diga por que a mensagem recebida pelo narrador foi caracteriza como carta em código b Ao se lembrar de que o irmão havia ficado de recolher frases de caminhão para que ele pudesse juntar material para uma crônica o narrador compreendeu imediatamente o sentido da mensagem Relacione esse fato com o conceito de contexto c Retire do texto trechos que exemplifiquem cada uma das seis funções da linguagem Dupla articulação Mário Eduardo Martelotta Desde o século xix os lingüistas aceitam como verdade que a linguagem humana é articulada De fato a articulação é uma das características essenciais da linguagem humana sendo apontada como um dos principais aspectos que a diferenciam da comunicação dos animais A noção de articulação Para compreendermos bem a noção de articulação devemos lembrar que os termos articulação e articulado derivam do diminutivo articulus do latim artus que significa articulações dos ossos membros do corpo Assim articulado significa constituído de membros ou partes Afirmar que a linguagem humana é articulada significa dizer portanto que os enunciados produzidos em uma língua não se apresentam como um todo indivisível Ao contrário podem ser desmembrados em partes menores j á que constituem o resultado da união de elementos que por sua vez podem ser encontrados em outros enunciados Vejamos abaixo uma sentença possível em língua portuguesa Os violinistas tocavam músicas clássicas Essa sentença como qualquer sentença em qualquer língua é divisível em unidades menores Podemos dividila por exemplo em cinco vocábulos Os violinistas tocavam músicas clássicas Isso significa que para formar sentenças como essas o falante escolhe entre os vocábulos armazenados em sua memória aqueles que no contexto têm o efeito significativo desejado articulandoos de acordo com as regras de formação de sentenças de sua língua Cada um desses vocábulos portanto constitui um elemento autônomo podendo vir a ocorrer em outras sentenças dependendo dos interesses comunicativos do falante Mas continuando a nossa análise da sentença em foco observamos que cada um desses vocábulos resulta da união de unidades morfológicas o que significa que a sentença pode ser dividida em elementos ainda menores Vejamos alguns dos vocábulos Os violinistas músicas clássicas O0 violinista0 música0 clássica0 Nesses quatro vocábulos notamos a oposição entre de um lado a presença do elemento s e de outro a sua ausência que marcamos com o símbolo 0 os vs o violinistas vs violinista e assim por diante A retirada do elemento s acarreta uma diferença no valor do vocábulo que perde a marca de plural passando para o singular Isso significa que o elemento s é responsável pela expressão da noção de plural por isso é tradicionalmente chamado desinência de número E quando quisermos colocar uma palavra no plural acrescentar a desinência s é a estratégia mais comum salas canetas luas carros e assim por diante É claro que nem sempre os vocábulos se limitam ao radical e à desinência de número Violinista música e clássica por exemplo podem ainda ser divididas em outros elementos menores Violinista música clássica Violino músico clássico O elemento a que se liga ao radical da palavra música é uma vogai temática É muito difícil definir com poucas palavras as funções da vogai temática mas podemos dizer que ela ajuda a distinguir os vocábulos em classes e subclasses Já o elemento a de clássica indica o gênero feminino por oposição a clássico sendo normalmente classificado como desinência de gênero O elemento ista de vilolinista por sua vez indica a pessoa que pratica um ofício uma ocupação ocorrendo em outras formações como artista paisagista só para citar algumas Associados aos radicais violin music clássic o sufixo ista a vogai temática a e a desinência a constituem elementos que comumente compõem a estrutura morfológica de vocábulos portugueses O que ocorre com nomes substantivos e adjetivos pode ocorrer com verbos embora no caso dos verbos os elementos morfológicos sejam um pouco diferentes É o que podemos observar com a forma verbal tocavam Tocava m Tocava0 Toca0 Toco No caso da forma verbal tocavam o elemento m indica que o verbo está na terceira pessoa do plural o va é uma marca de pretérito imperfeito do indicativo já que a retirada desses elementos implica a perda desses valores e a vogai temática a indica que se trata de um verbo da primeira conjugação Todos esses elementos assim como ocorre com a desinência de plural s e o sufixo ista dão alguma informação acerca do sentido do vocábulo ou acerca de sua estrutura gramatical Alguns lingüistas têm um nome genérico para designar esses elementos morfemas Os morfemas identificamse com radicais vogais temáticas prefixos sufixos e desinências e constituem a menor unidade significativa da estrutura gramatical de uma língua Levando em conta os morfemas a sentença ficaria dividida então da seguinte maneira Os violinistas tocavam músicas clássicas Mas ainda podemos dividir essa sentença em elementos menores chamados fonemas Desse modo por exemplo todas as palavras da sentença podem ser divididas em unidades de base sonora assim como demonstramos abaixo com os vocábulos músicas e clássicas músicas m u z i k a Isl clássicas k III a Isl ik a Isl Esses fonemas são unidades de natureza diferente dos morfemas pois fazem parte da estrutura fonológica das línguas São utilizados para formar o corpo sonoro do vocábulo e possuem função distintiva já que a troca de um pelo outro acarreta uma mudança no sentido da palavra como ocorre com a troca de kl por Iml na palavra tocavam tocavam vs tomavam É importante compreender que k não é um morfema porque não indica informação alguma acerca do sentido ou da estrutura gramatical da palavra tocavam Entretanto é um elemento estrutural importante na medida em que é capaz de distinguir vocábulos Agora temos condições de entender por que se diz que a linguagem humana é articulada porque se manifesta através de sentenças resultantes da união de elementos menores E podemos também compreender o termo dupla articulação existem dois tipos diferentes de unidades mínimas os morfemas e os fonemas Os primeiros são elementos significativos já que como vimos anteriormente dão alguma informação acerca da estrutura semântica ou da estrutura gramatical dos vocábulos Os segundos são elementos não significativos tendo função distintiva Vejamos de modo resumido Ia articulação ou morfologia Constituída de elementos dotados de significado ou morfemas Os elementos da primeira articulação ou morfemas in feliz e mente compõem o vocábulo infelizmente infelizmente 0felizmente feliz0 2a articulação ou fonologia Constituída de elementos não dotados de significado ou fonemas Os elementos da segunda articulação ou fonemas g a l e a compõem o vocábulo gala gala gala gala gala mala gula gata galo A economia da articulação Esse tipo de organização baseada em um sistema de dupla articulação que caracteriza todas as línguas de todas as partes do mundo tem uma razão de ser é aquela que melhor se adapta às necessidades comunicativas humanas permitindo que se transmita mais informação com menos esforço A questão da economia fica clara quando pensamos nos casos menos comuns em nossa língua de formação de feminino por heteronímia Ou seja casos como os de homemmulher cavaloégua boivaca entre outros em que se tem um vocábulo para designar o masculino da espécie e outro vocábulo totalmente diferente para designar o feminino Não é difícil perceber a pouca praticidade desse processo Se todos os vocábulos masculinos possuíssem como correspondentes femininos vocábulos inteiramente distintos as línguas constituiriam um sistema comunicativo muito pesado Os dicionários que normalmente apresentam em torno de duas mil páginas teriam de apresentar no mínimo quatro mil E nossa memória Conseguiria armazenar tantas palavras acessíveis no dia a dia Certamente a dificuldade seria maior Muito mais fácil é o artifício que as línguas naturais desenvolveram um processo de combinação de partes No português por exemplo há um morfema a cuja função é indicar feminino portanto não precisamos criar palavras diferentes para designar feminino basta colocar o morfema a no final do vocábulo cantorcantora professorprofessora aluno aluna e assim por diante Imaginem agora o mesmo processo para a flexão de número se para indicar o plural tivéssemos de utilizar um vocábulo totalmente diferente daquele que indica o singular da espécie aquele dicionário que já teria quatro mil páginas passaria a ter mais de sete mil e nossa memória já carregada certamente não daria conta de tanta informação Muito mais prático é utilizar o elemento s indicador de plural ao vocábulo como fazemos em bolobolos mesamesas e em vários outros casos Exercícios 1 Indique por meio de comparações os elementos da primeira articulação de maldade escuridão anormalidade desestruturássemos desarmarás explicar incomum deslealdade imoralidade recontávamos descosturariam exportar 2 Faça o mesmo para os elementos da segunda articulação de fala cana calo onda passo carro 3 Com base na afirmativa abaixo disserte sobre o conceito de gramática O vocábulo deslealmente é composto dos elementos da primeira articulação des leal e mente É importante observar entretanto que esses elementos se ligam segundo uma determinada ordem já que algo como mentelealdes ou lealdesmente não faz sentido em português Conceitos de gramática Mário Eduardo Martelvtta No capítulo Dupla articulação vimos que os enunciados lingüísticos resultam da combinação de unidades menores Na construção desses enunciados os falantes unem morfemas para formar vocábulos vocábulos para formar frases e frases para formar unidades ainda maiores que compõem o discurso Essas unidades podem ser caracterizadas como universais já que todas as línguas são articuladas possuem fonemas morfemas palavras frases e não apresentam diferenças significativas quanto à natureza dessas unidades As questões que colocamos agora são Como se dá essa combinação Os falantes combinam os elementos na frase do modo como bem entendem ou existem restrições impostas pelas línguas no que diz respeito a esse processo Se existem restrições qual a sua natureza Elas provêm dos padrões de correção de uso da língua impostos pela comunidade São arbitrárias Refletem o funcionamento natural da mente humana sendo portanto universais Podemos dizer que essas questões retratam as preocupações básicas do cientista que deseja compreender a natureza e o funcionamento das línguas naturais e constituem o tema deste capítulo que busca apresentar resumidamente como essas perguntas foram respondidas pelos que se interessaram sobre o assunto ao longo da evolução dos estudos lingüísticos Para começar devemos levar em conta que os falantes não combinam os elementos do modo como querem já que sua língua apresenta restrições quanto a esse processo Quando pretendemos por exemplo utilizar a desinência s para designar o plural de um vocábulo em português sabemos que devemos encaixála no final desse vocábulo e não no início ou no meio casacasai Restrições de combinação desse tipo existem em todos os níveis gramaticais e se aplicam a todos os elementos lingüísticos Vejamos como isso ocorre no nível da frase a O aluno entregou o trabalho b O trabalho o aluno entregou c Entregou o aluno o trabalho d Aluno o entregou trabalho o Podemos ver no exemplo a o que seria a estrutura sentenciai mais comum do português contemporâneo apresenta a ordenação sujeitoverboobjeto e seus sintagmas nominais exibem a estrutura artigosubstantivo A inversão apresentada em b embora não tão corriqueira pode ser encontrada em enunciados reais sobretudo em contextos em que por algum motivo se quer dar ênfase ao sintagma o trabalho o que indica que algumas tendências sintáticas têm motivação discursiva A inversão apresentada em c é ainda menos comum e pode parecer estranha ou agramatical a certos falantes daí a dúvida expressa pela interrogação antes da frase embora seja possível encontrála em contextos de alta formalidade sobretudo na língua escrita Entretanto a estrutura apresentada em d não é possível em nossa língua não podemos em circunstância alguma colocar os artigos depois dos substantivos aluno o trabalho o já que seu lugar no sintagma é a posição anterior aos substantivos a que se referem o aluno o trabalho Neste ponto já sabemos que os falantes não combinam unidades de qualquer modo Eles seguem tendências de colocação que parecem estar associadas ao conhecimento geral que possuem de sua própria língua que lhes permite formular e compreender frases em contextos específicos de comunicação Resta agora saber qual é a natureza desse conhecimento ou mais especificamente dessas restrições de combinação Desde a Antigüidade Clássica os estudiosos da linguagem vêm sugerindo interpretações que reflitam a natureza e funcionamento das línguas bem como propostas de sistematização descritiva apoiadas nessas interpretações Com a evolução dos estudos lingüísticos essas interpretações foram sendo aperfeiçoadas abandonadas e até mesmo retomadas em função de novas descobertas científicas O conjunto dessas interpretações e descrições acerca do funcionamento da língua recebe o nome de gramática Aqui é importante fazermos uma distinção entre dois sentidos do termo gramática Por um lado esse vocábulo pode ser usado para designar o funcionamento da própria língua que é o objeto a ser descrito pelo cientista Nesse sentido gramática diz respeito ao conjunto e à natureza dos elementos que compõem uma língua e às restrições que comandam sua união para formar unidades maiores nos contextos reais de uso Por outro lado o termo é utilizado para designar os estudos que buscam descrever a natureza desses elementos e suas restrições de combinação Nesse segundo sentido gramática se refere aos modelos teóricos criados pelos cientistas a fim de explicar o funcionamento da língua Quando aqui falarmos em concepções de gramática como a gramática tradicional agramática históricocomparativa entre outras estaremos utilizando o segundo sentido A partir de agora analisaremos algumas dessas concepções de gramática que ainda hoje encontramos nos manuais de lingüística e língua portuguesa Como cada gramática implica uma concepção da língua que descreve buscaremos apresentar informações básicas acerca da concepção de língua a ela relacionada assim como da metodologia específica por ela adotada na abordagem do fenômeno lingüístico Gramática tradicional A gramática tradicional também chamada de gramática normativa ou gramática escolar é aquela que estudamos na escola desde pequenos Nossos professores de português nos ensinam a reconhecer os elementos constituintes formadores dos vocábulos radicais afixos etc a fazer análise sintática a utilizar a concordância adequada sempre recomendando correção no uso que fazemos de nossa língua Entretanto raramente nos é dito o que é esse estudo qual sua origem como ele se desenvolveu e com que finalidades Tentaremos aqui de modo bastante resumido suprir essas informações buscando argumentar que principalmente por apresentar uma visão preconceituosa do uso da linguagem a gramática tradicional não fornece ao estudioso da linguagem uma teoria adequada para descrever o funcionamento gramatical das línguas A chamada gramática tradicional utilizada como modelo teórico para a abordagem e o ensino da nossa língua nas escolas tem origem em uma tradição de estudos de base filosófica que se iniciou na Grécia antiga Os filósofos gregos se interessaram por estudar a linguagem entre outros motivos porque queriam entender alguns aspectos associados à relação entre a linguagem o pensamento e a realidade Desse modo os gregos discutiram questões como por exemplo a relação entre as palavras e as coisas que elas designam alguns viam nas palavras a imagem exata do mundo outros vendoas como criações arbitrárias dos seres humanos consideravamnas incapazes de refletir de modo perfeito a realidade A palavra lápis por exemplo deveria ser vista como apresentando uma relação natural com o objeto que ela designa ou como uma mera invenção humana utilizada para designar arbitrariamente esse objeto Questões como essas estiveram presentes nas reflexões dos filósofos da Grécia antiga entre eles Platão O que melhor caracteriza entretanto essa tradição é a visão inaugurada por Aristóteles de que existe uma forte relação entre linguagem e lógica Desenvolveuse a partir daí a tendência de considerar a gramática um estudo relacionado à disciplina filosófica da lógica que trata das leis de elaboração do raciocínio Segundo essa visão a linguagem é um reflexo da organização interna do pensamento humano Essa organização interna é universal já que por ser inerente aos seres humanos se manifesta em todas as línguas do mundo Para Aristóteles a lógica seria o instrumento que precede o exercício do pensamento e da linguagem oferecendolhes meios para realizar o conhecimento e o discurso Assim a lógica aristotélica buscava descrever a forma pura e geral do pensamento não se preocupando com os conteúdos por ela veiculados Outro aspecto ligado à visão aristotélica que devemos levar em conta é o fato de que o mundo em que vivemos possui existência independente de nossa capacidade de expressálo Ou seja conhecemos o mundo exterior pelas impressões que provoca em nossos sentidos e a linguagem seria portanto uma mera representação de um mundo já pronto um instrumento para nomear idéias preexistentes Esses princípios caracterizam o que alguns autores chamam de fundacionalismo e outros de realismo Ao lado dessa preocupação de caráter filosófico a gramática grega apresentava uma preocupação normativa ou seja assumia a incumbência de ditar padrões que refletissem o uso ideal da língua grega Podemos ver a tendência normativa da gramática grega na atitude de impor o dialeto ático1 como ideal Para que possamos compreender como essa tradição chegou aos dias de hoje devemos nos lembrar de que os princípios básicos da gramática grega foram adotados pelos romanos e adaptados à língua latina Gramáticos importantes como Prisciano e sobretudo Varrão deram valiosas contribuições para a evolução do conhecimento gramatical Entretanto os romanos dedicaram maior atenção ao aspecto normativo já que o crescimento de seu império tornava imprescindível uma unificação lingüística Na época medieval o latim permaneceu como língua da erudição adquirindo ainda mais prestígio por ser adotada pela Igreja Assim a atitude normativa permanece mas dessa vez com o objetivo de conservar o latim puro como língua universal de cultura entre as novas línguas vernáculas A partir do século xvi quando se elaboraram as primeiras gramáticas das línguas faladas no mundo da época as gramáticas latinas foram fonte de inspiração já que o latim por seu prestígio como língua de expressão culta servia como modelo para as novas línguas quanto mais parecidas com o latim fossem as novas línguas melhores elas seriam Sendo assim não era de se admirar que nos tempos modernos a gramática latina tenha servido de base para a descrição das línguas vernáculas da Europa Nos séculos XVII exviii as reflexões sobre a natureza da linguagem assim como as análises de sua estrutura deram continuidade às propostas gregas A chamada Gramática de Port Royal publicada em 1660 retoma de forma vigorosa a visão aristotélica da linguagem como reflexo da razão e busca construir tendo como base a lógica um esquema universal de linguagem que estaria subjacente a todas as línguas do mundo Essa visão de base aristotélica perde força com o surgimento dos primeiros lingüistas no século xix sendo apenas mais tarde retomada por Chomsky e pelos lingüistas gerativistas Com base no que foi exposto até aqui podemos fazer algumas reflexões acerca do poder explanatório da proposta teórica aqui chamada de gramática tradicional Comecemos por seu caráter normativo criticado de um modo geral pela lingüística moderna Não há como negar que existe uma influência dos padrões de correção impostos pela gramática sobre as restrições de combinação dos elementos lingüísticos que tende a crescer à medida que aumenta o nível de escolaridade do falante ou o grau de formalidade exigido pelo contexto de uso Entretanto propor que as restrições de combinação se explicam basicamente pelos ideais de correção não parece ser uma boa estratégia já que todas as línguas do mundo apresentam em número extremamente elevado construções alternativas aos padrões gramaticais como é o caso de construções portuguesas como A gente vamos lá Eu vi ele Isso é pra mim fazer entre outras que são combatidas pelas normas gramaticais Isso significa que o uso da língua não está regido pelo menos em sua essência pelos padrões de correção Ao contrário do que se vê nessa tradição é um processo natural que toda língua mude com o tempo e apresente em um mesmo momento variações com relação aos usos de seus elementos Assim qualquer atitude de valorizar uma variação em detrimento de outra implica critérios de natureza sociocultural e não critérios lingüísticos Ou seja a forma correta tende fortemente a se identificar com o modo como utilizam a língua os falantes de classes sociais privilegiadas que habitam as regiões mais importantes do país Mais do que isso ao conceber a existência de formas gramaticais corretas os gramáticos tradicionais abandonam determinadas formas consideradas erradas mas que são efetivamente utilizadas pelos falantes na comunicação diária Com isso essa gramática adota uma visão parcial da língua sendo incapaz de explicar a natureza da linguagem em sua totalidade No que diz respeito à outra característica da tradição gramatical a que relaciona linguagem e lógica também devemos fazer algumas considerações Embora os gerativistas retomem parcialmente essa perspectiva dessa vez munidos de argumentos e metodologias mais modernos lingüistas que trabalham em outras linhas de pesquisa fazem severas críticas argumentando que essa perspectiva carece de uma abordagem empírica dos fatos ou que ela restringe seu foco aos aspectos formais da língua Uma visão mais completa dessa discussão será oferecida mais adiante quando apresentaremos concepções mais atuais de gramática que foram concebidas por cientistas ligados a uma nova ciência a lingüística Gramática históricocomparativa Na primeira metade do século xix toma força na Alemanha uma tendência nova de estudar as línguas chamada de gramática históricocomparativa que pode ser definida em linhas gerais como uma proposta de comparar elementos gramaticais de línguas de origem comum a fim de detectar a estrutura da língua original da qual elas se desenvolveram Essa nova abordagem dos fenômenos da linguagem surgiu a partir da constatação da grande semelhança do sânscrito língua antiga da índia com o latim com o grego e com uma grande quantidade de línguas europeias Essa semelhança pode ser ilustrada com os termos correspondentes ao sentido da palavra portuguesa mãe mulher que gera filhos maatar em sânscrito mãter em latim mêtêr em grego mother em inglês mutter em alemão Mais do que as semelhanças entre as palavras chamou a atenção dos comparatistas o fato de as diferenças entre duas ou mais línguas apresentarem um alto grau de regularidade e sistematicidade o que foi visto como um sintoma de que essas línguas tinham uma origem comum Como esses cientistas trabalhavam com línguas já desaparecidas a metodologia comparativa ajudava a relacionar línguas que supostamente derivaram dessas línguas mortas É o que ocorre por exemplo com o latim e suas descendentes Vejamos a aplicação dessa regularidade no quadro abaixo que apresenta algumas seqüências de palavras em latim e em quatro línguas românicas LATIM FRANCÊS ITALIANO ESPANHOL PORTUGUÊS caput chef capo cabo cabeça cãrus cher caro caro caro campus champ campo campo campo cabãllus cheval cavallo caballo cavalo Podese notar que há uma regularidade no sentido de que onde em francês temos s nas outras línguas românicas temos kl que também ocorria em latim2 Essa correspondência fonética do tipo skkk somada a uma série de outros fatores fornece base para que se proponha uma descendência comum entre essas quatro línguas o latim Esse é em essência o mecanismo de comparação que caracteriza o chamado método históricocomparativo Considerase que essa tendência marca o início de uma nova ciência a lingüística já que pela primeira vez um grupo de cientistas se interessa por analisar as características inerentes às línguas naturais sem interesses filosóficos ou normativos mas observando critérios estritamente lingüísticos O interesse em analisar a estrutura das diferentes línguas surgiu principalmente a partir de Gottfried Wilhelm von Leibniz filósofo e matemático alemão que no início do século XVIII chamou atenção para a necessidade de se estabelecerem estudos comparativos sobre as línguas abandonando idéias preconcebidas acerca da essência da linguagem Isso viria a dar o caráter empírico e ao mesmo tempo comparativo que marca as pesquisas lingüísticas do século xix A gramática históricocomparativa abandonou os princípios que regiam a tradição gramatical de base grega A visão aristotélica da realidade vinha sofrendo sérios abalos sobretudo a partir do século XVII com o surgimento da ciência moderna através das descobertas de Copérnico Galileu Newton entre outros que trouxeram métodos mais precisos de investigação Ocorre que as propostas aristotélicas que serviram de ponto de partida para os estudiosos da linguagem até o século XVIII apresentavam um conjunto de idéias preconcebidas a respeito da essência da linguagem que não eram resultantes de estudos empíricos ou mesmo de maiores debates constituindo ao contrário uma posição filosófica a que se chegou com base em especulação a priori Isso contrasta com a mentalidade científica do século xrx em que Augusto Comte propõe seu sistema filosófico chamado de positivismo que se caracterizava pela ênfase na experimentação em oposição à especulação Esse ambiente contextualizava a gramática históricocomparativa Costumase dizer também que a gramática históricocomparativa se desenvolveu em função dos seguintes fatores a O surgimento do Romantismo na Alemanha que levou sobretudo no início do movimento a uma busca do passado e da origem dos povos O sentimento romântico levou os primeiros comparatistas a tentar reconstruir através do método comparativo um estado de língua original considerado idealmente perfeito em função de uma concepção da época de que a mudança era uma espécie de degeneração de um estado de língua primitivo e por natureza íntegro Veremos adiante que essa concepção de mudança degenerativa desaparece com o desenvolvimento das pesquisas comparatistas b A descoberta do sânscrito antiga língua da índia que se mostrou muito parecida com as línguas da Europa Essa semelhança aguçou a curiosidade dos pesquisadores incentivando os estudos comparativos entre as línguas Ou seja foi a comparação com o sânscrito que deu bases sólidas à teoria referente ao parentesco e à unidade e origem das línguas indoeuropeias Além disso forneceu uma nova fonte de inspiração ao Romantismo movimento de idéias que se opunham à tradição grecolatina c O surgimento das idéias de Darwin que tiveram influência sobre o pensamento científico da época Seguindo a tendência de incorporar as novas descobertas das ciências naturais alguns lingüistas adotaram inicialmente as concepções darwinianas sobre a origem das espécies e a seleção natural que explicariam as mudanças nas línguas assim como seu desaparecimento Franz Bopp e Jacob Grimm lançaram as bases que nortearam a comparação sistemática das línguas Bopp é considerado o fundador da gramática comparativa do indoeuropeu Seu trabalho publicado em 1816 e que apresenta um estudo comparativo dos verbos do sânscrito grego latim persa e das línguas germânicas observou essencialmente aspectos morfológicos e desenvolveu uma comparação metódica entre as principais famílias indoeuropeias abrindo espaço para a concepção histórica de gramática característica dessa época Grimm3 por sua vez além de interpretar as correspondências fonéticas como o resultado de transformações históricas enumerou algumas regularidades associadas a essas correspondências que constituíram o que ficou conhecido como a Lei de Grimm Essa lei registra um processo histórico que consiste em uma mutação ocorrida nas consoantes oclusivas em um ponto da evolução das línguas germânicas nas quais as oclusivas surdas tornaramse aspiradas e as sonoras tornaramse surdas Essa é uma diferença básica existente entre o grupo germânico das outras línguas indoeuropeias Vejamos algumas correspondências fonéticas regulares previstas na chamada lei de Grimm acrescida da contribuição de outros comparatistas a as línguas germânicas apresentam um líl no lugar em que o grego e o latim apresentam um pi Pãter izúmpatêr grego father inglês Pês latim podos grego foot inglês b as línguas germânicas apresentam um fonema aspirado h pronunciado como na palavra inglesa housé no lugar em que o grego e o latim apresentam um k Canis latim kyõn grego hound inglês Cor latim kardia grego heart inglês Com base nesses métodos de comparação os lingüistas do século xix propuseram a hipótese da existência de um parentesco entre essas e uma série de outras línguas sendo todas provenientes de uma língua préhistórica chamada indoeuropeuprimitivo Essa língua original não pode ser atestada historicamente já que não há registros de sua existência mas pode ser demonstrada por meio de comparações sistemáticas Dela se originam vários grupos de línguas que formam o chamado tronco lingüístico indoeuropeu4 a O grupo indoirânico com um ramo hindu que apresenta entre outras algumas línguas da índia como o védico e o sânscrito e um ramo irânico que compreende entre outros o afegão e o persa b O armênio c O albanês c O baltoeslavo com um ramo báltico composto pelo lituano o leto e o antigo prússio e um ramo eslavo que compreende o russo o búlgaro o esloveno e algumas outras línguas d O itálico dividido em itálico ocidental com o latim e as línguas dele derivadas e o itálico oriental já desaparecido que compreendia línguas como o osco e o umbro e O céltico contendo o celta continental representado pelo gaulês desaparecido e o celta insular que engloba principalmente o címbrico o bretão o irlandês e o escocês das Highlands f O germânico que possui um ramo setentrional que compreende as línguas escandinavas dinamarquês norueguês sueco islandês e feroês falada nas ilhas Feroé um ramo oriental já desaparecido representado entre outros pelo gótico ocidental e oriental e um ramo ocidental englobando o inglês o frisão o neerlandês e o alemão g O grego que reúne os antigos falares da Grécia e o grego moderno Com o desenvolvimento dos estudos comparatistas August Schleicher enriquece as propostas iniciais de Bopp e Grimm e aplica à lingüística as idéias de Darwin sobre a origem das espécies e a hipótese da seleção natural Em seu livro intitulado A teoria dariviniana e a lingüística Schleicher propôs que as línguas assim como as plantas e os animais nascem crescem envelhecem e morrem Isso explicaria o fato de as línguas antigas como o latim por exemplo desaparecerem deixando filhas o português o espanhol o italiano o francês e o romeno Essa concepção de que as línguas mudam em direção a uma espécie de envelhecimento ou deterioração foi combatida por uma segunda geração de comparatistas os chamados neogramáticos5 que propuseram uma visão de mudança uniformitária ou seja circular constante e não degenerativa Nas últimas décadas do século xix os neogramáticos influenciados pelo positivismo de Comte buscaram aproximar o método de pesquisa em lingüística dos das ciências naturais Diferentemente dos comparatistas anteriores apresentaram as leis fonéticas como processos mecânicos que não admitem exceção Quando as leis não se dão do modo esperado a causa está no processo de analogia que gera em determinadas palavras criações e modificações O processo analógico também era visto como um componente universal da mudança lingüística em todos os períodos da história e colocava um ingrediente cultural na visão naturalista dos primeiros comparatistas Como analogia os neogramáticos entendiam o processo segundo o qual a mente humana estabelecendo semelhanças entre formas originalmente distintas interfere nos movimentos naturais dos sons atrapalhando a atuação das leis fonéticas A palavra portuguesa campa sino por exemplo por ser proveniente do latim campana espécie de balança romana deveria ser pronunciada como campa seguindo a evolução campãa e campa Segundo alguns autores por analogia com a palavra campo o acento tônico se deslocou para a primeira sílaba enfraquecendo a nasalidade Esse é um exemplo de como a analogia pode modificar as tendências ditadas pela mudança fonética Outros exemplos de analogia podem ser vistos em casos como o da palavra portuguesa estrela que provém do latim stêlla adquirindo o r por analogia ou influência da palavra astro assim como a palavra floresta proveniente do latim tardio forestis que adquire o l por influência da palavra flor Outro mecanismo utilizado pelos neogramáticos para explicar a exceção referente às leis fonéticas foi o empréstimo ou seja a influência de uma língua sobre outra ou de um falar sobre outro dentro de uma mesma comunidade lingüística Um exemplo de empréstimo pode ser visto no francês em que além da palavra chef decorrente do latim caput cabeça de acordo com aplicação das leis fonéticas encontramos a palavra cap como na expressão depiedem cap que significa dos pés à cabeça A palavra cap viola as leis sonoras que seriam esperadas para a formação de palavras do francês a expectativa era a transformação da oclusiva kl em Isl apresentada anteriormente Ocorre que a forma cap foi tomada de empréstimo pelo francês ao provençal ao qual não se aplicavam as leis sonoras em questão O movimento dos neogramáticos apesar de muito criticado acabou por se tornar a proposta predominante na segunda metade do século xix tendo o mérito de apresentar as leis fonéticas que agiam segundo uma necessidade mecânica independentemente da vontade do indivíduo Além disso chamaram atenção para o fato de que as mudanças ocorrem no indivíduo que ao utilizar a língua efetiva as tendências mecânicas ou as evita utilizando processos analógicos Em outras palavras para esses lingüistas as mudanças são decorrentes de hábitos lingüísticos individuais Desse modo os neogramáticos voltam seus interesses não apenas para o estudo dos dados provenientes de documentos escritos mas também para a observação dos dialetos falados na época A gramática históricocomparativa não foi um movimento unificado como em geral ocorre com as escolas científicas Podese dizer que essa escola teve o mérito de desen volver um método empírico de comparação entre estágios de língua e de propor conceitos básicos acerca do funcionamento da linguagem sendo alguns deles ainda hoje adotados Rompendo com a tradição aristotélica que dominava os estudos lingüísticos até o século XVIII os comparatistas céticos em relação à universalidade proveniente de uma base lógica proposta pela gramática grega ressaltavam o caráter mutável das línguas Isso fez com que esses cientistas acreditassem que uma análise histórica seria mais adequada do que uma abordagem filosófica Assim a tradicional visão lógica e universal das línguas é substituída por uma abordagem de caráter social em que a arbitrariedade e as diferenças culturais passam a ser importantes Cientistas como Herder e Humboldt por exemplo chamavam atenção não apenas para a grande diversidade de estruturas lingüísticas mas também para a influência que essas estruturas exerciam sobre a organização do nosso pensamento e sobre a percepção que temos do mundo em que vivemos Essa concepção ficou conhecida como a tese do relativismo lingüístico segundo a qual cada língua reflete sua própria história não apresentando propriedades universais com exceção de alguns aspectos muito gerais como o fato de ser articulada de ser arbitrária e de apresentar variabilidade e possibilidade de mudança Levando em conta essas informações básicas sobre a gramática histórico comparativa podemos avaliar algumas de suas limitações no sentido de descrever do modo mais completo a estrutura gramatical das línguas Os comparatistas restringiam sua visão a uma abordagem histórica do funcionamento gramatical vendoo como o resultado de mudanças lingüísticas regulares Com isso deixavam de lado a descrição do funcionamento da língua como um fenômeno sincrônico ou seja como um sistema de comunicação utilizado em um momento específico do tempo por falantes que não conhecem e pelo menos aparentemente não precisam conhecer a evolução histórica da língua que utilizam mas que ainda assim se comunicam perfeitamente com seus interlocutores Apesar de a gramática históricocomparativa produzir um grande conhecimento acerca da história das línguas buscar observálas a partir de sua estrutura interna e trazer consideráveis avanços em termos metodológicos ela não chegou a construir uma teoria consistente sobre a estrutura do funcionamento das línguas naturais A corrente colocou sobretudo através dos neogramáticos a mudança lingüística no âmbito do indivíduo mas não explicitou de modo mais sistemático como os contextos de comunicação poderiam interferir no uso individual limitandose nesse sentido a descrever processos de analogia e empréstimo Além disso como Saussure mais tarde viria a salientar os comparatistas analisavam a língua em elementos isolados ocupandose em seguir suas transformações sem observar o funcionamento desses elementos dentro dos sistemas lingüísticos de que faziam parte uma abordagem que ficou conhecida como atomista De acordo com o lingüista suíço como o valor do elemento depende do papel que desempenha no sistema da língua não levar em conta esse fator constituiu uma falha e levou os comparatistas a conclusões precipitadas Gramática estrutural A tendência de analisar as línguas conhecida como gramática estrutural ou estruturalismo se desenvolveu na primeira metade do século xx sob a influência das idéias de Ferdinand de Saussure divulgadas através da publicação póstuma de seu livro o Curso de lingüística geral6 Essas idéias revolucionaram os estudos da época dando às pesquisas em lingüística sobretudo na Europa uma nova direção distinta da que caracterizava a gramática históricocomparativa Nos Estados Unidos o estruturalismo se desenvolveu através do trabalho de Leonard Bloomfield ver o capítulo Estruturalismo Assim como ocorre de um modo geral com as escolas lingüísticas a gramática estrutural não constitui um movimento unificado Entretanto podemos caracterizar essa escola em linhas gerais como uma tendência de descrever a estrutura gramatical das línguas vendoas como um sistema autônomo cujas partes se organizam em uma rede de relações de acordo com leis internas ou seja inerentes ao próprio sistema Para compreendermos bem essa definição é interessante lembrarmos a distinção entre langue eparole proposta por Saussure que como vimos é o precursor dessa tendência nos estudos da linguagem Saussure propunha que a langue constitui um sistema lingüístico de base social que é utilizado como meio de comunicação pelos membros de uma determinada comunidade Portanto para Saussure a Langue constitui um fenômeno coletivo sendo compartilhada e produzida socialmente Isso significa que a língua é exterior ao indivíduo sendo interiorizada coercitivamente por eles Isso nos leva ao conceito de parole que se refere ao uso individual do sistema Em outras palavras os falantes ao se comunicarem adaptam as restrições presentes no sistema de sua língua não apenas aos diferentes contextos de comunicação mas às suas preferências pessoais Dois fatos relacionados a essa dicotomia são importantes O primeiro a ser destacado é o fato de que Saussure ao caracterizar o conceito de langue empregou o termo sistema com uma intenção muito clara queria demonstrar que os elementos de uma língua não estão isolados mas formam um conjunto solidário Desse modo o lingüista genebrino propunha a impossibilidade de analisar os elementos lingüísticos isolados do sistema que eles compõem ressaltando assim a primazia do todo sobre suas partes Essa proposta constitui a base de toda a lingüística estrutural aceitando a idéia de que a língua é um sistema cumpre analisar sua estrutura ou seja o modo como esse sistema se organiza Daí surgiram os termos gramática estrutural e estruturalismo Desenvolvendo um pouco mais essa noção tão importante para a compreensão da concepção estrutural de gramática podemos relacionar a concepção saussuriana de sistema a três aspectos importantes a a existência de um conjunto de elementos b o fato de que cada elemento só tem valor em relação a outros organizandose solidariamente em um todo que deve sempre ter prioridade sobre as partes que contém c a existência de um conjunto de regras que comanda a combinação dos elementos para formar unidades maiores O fato de que as línguas apresentam um conjunto de elementos e que estes se unem formando unidades maiores não é a novidade dessa proposta Foi a idéia indicada no item b que melhor representou a proposta saussuriana e que serviu de base para o desen volvimento dos estudos posteriores A tendência comparatista de trabalhar com unidades isoladas é abandonada em favor de uma metodologia em que a relação entre os elementos dentro do sistema passa a ser essencial para a compreensão da estrutura das línguas O segundo fato a ser destacado em relação à dicotomia entre langue e parole é a atitude assumida por Saussure de propor a langue como objeto de estudo da lingüística retirando a parole do campo de interesse dessa ciência Para ele os atos comunicativos individuais são assistemáticos e ilimitados e uma ciência só pode estudar aquilo que é recorrente e sistemático No caso da linguagem a sistematicidade e a recorrência estão na langue que se mantém subjacente aos atos individuais Isso significa que na concepção saussuriana o estudo lingüístico deve deixar de lado os aspectos interativos associados ao ato concreto da comunicação entre os indivíduos restringindose a observar o conhecimento compartilhado que os interlocutores possuem e sem o qual a comunicação entre eles seria impossível o sistema lingüístico A questão é saber qual a natureza dos elementos formadores do sistema e como eles se agrupam para lhe dar uma estrutura peculiar Voltando aos três aspectos básicos associados à noção de sistema apresentados anteriormente podemos dizer que a análise estrutural das línguas busca descrever cada um deles Assim ao analisar uma língua o estruturalista busca constatar que elementos constituem o sistema daquela língua assim como observar como eles se organizam dentro desse sistema e como eles se unem para formar unidades maiores Como esses dados se concretizam de modo diferente em línguas diferentes a gramática estrutural via nesse processo uma natureza convencional e se limitava a descrever as diferentes línguas Para compreendermos melhor esse ponto tomemos alguns exemplos relacionados ao sistema fonológico das línguas Cada língua exibe um conjunto de sons que lhe é peculiar Algumas línguas africanas como o zulu e o hotentote apresentam em seu sistema de consoantes cliques ou estalidos ou seja sons obtidos basicamente pela sucção da língua contra céu a boca Isso é totalmente estranho para os falantes de português podemos emitir sons desse tipo para demonstrar irritação por exemplo mas eles não constituem fonemas de nossa língua Do mesmo modo o som inicial da palavra inglesa think e o som final da palavra alemã ich não existem em português ou em francês Por outro lado cada língua organiza diferentemente em seu sistema os sons que a compõem de modo que os mesmos sons que constituem fonemas diferentes em uma língua se apresentem como meras variantes de pronúncia em outras Um exemplo de como isso ocorre pode ser visto na oposição de timbre abertofechado pôde pretérito perfeito do verbo poder é uma palavra diferente de pode presente do mesmo verbo se trocarmos o timbre fechado da vogai tônica ô do substantivo almoço pelo timbre aberto ó a palavra se torna um verbo eu almoço Essa distinção típica do português não se dá em outras línguas como o espanhol por exemplo Um terceiro ponto é o modo como os sons se juntam para formar palavras Cada língua processa esse mecanismo de modo diferente Assim se quisermos criar em nossa língua uma palavra para designar um novo objeto essa palavra não poderia ser por exemplo slamro já que não são típicos do português encontros consonantais como sl e mr Portanto há limitações quanto às possibilidades de união de sons para formar palavras e essas restrições são diferentes de língua para língua Em inglês por exemplo a combinação sl é possível como podemos ver em palavras inglesas como slim magro ou slumber dormir8 Agora podemos compreender melhor a definição de gramática estrutural apresentada anteriormente como uma tendência de descrever a estrutura gramatical das línguas vendoas como um sistema autônomo cujas partes se organizam em uma rede de relações internas A retirada da parole restringiu as análises aos fatores de natureza estrutural que se resumem aos elementos que compõem uma determinada língua o modo como eles se estruturam internamente e as restrições que caracterizam sua combinação para formar unidades maiores Como esses fatores diferem de língua para língua a tendência estruturalista é descrever o que ocorre em cada sistema lingüístico Costumase relacionar o movimento estruturalista com a corrente filosófica do empirismo que pode ser identificada por três características básicas 1 Condiciona o conhecimento à experiência Segundo o empirismo o espírito é uma tábua rasa em que se grava a experiência As idéias que constituem nossa estrutura cognitiva são representações mentais das impressões que captamos do mundo com nossas sensações e o comportamento humano de um modo geral é uma conseqüência do contato com o mundo e das experiências que emergem desse contato Inicialmente é importante ressaltarmos que Saussure negava a existência de uma estrutura inata de pensamento adjacente às línguas Para ele o homem possui a capacidade da linguagem mas a estrutura da linguagem é arbitrária cultural e é ela que dita o pensamento e não viceversa De acordo com Saussure o homem seria incapaz de pensar sem o auxílio dos signos Podemos ver um interessante exemplo da concepção empirista na lingüística em uma proposta acerca da relação entre linguagem e percepção do mundo conhecida como hipótese de SapirWhorfou hipótese da relatividade lingüística O lingüista norte americano Edward Sapir e seu discípulo Benjamin Lee Whorf influenciados pelas idéias de Herder e Humboldt propuseram a hipótese de que cada língua possui uma maneira peculiar de interpretar a realidade ressaltando que a linguagem é fundamental para a organização do nosso pensamento e da concepção que temos do mundo que nos cerca Segundo essa visão o mundo tal como o concebemos reflete hábitos de linguagem construídos culturalmente por um determinado grupo social Os humanos interpretam a realidade criando diferentes categorias porque são parte de um acordo para interpretála e organizála dessa maneira Essa concepção nega a existência de um mundo real já pronto e de uma linguagem que apenas criaria símbolos verbais para expressálo como queria a tradição grega A hipótese de SapirWhorf propõe então que o mundo em que vivemos é um ambiente criado socialmente pelos humanos através da linguagem e que as línguas naturais mais do que um conjunto de símbolos para expressar idéias já existentes na mente dos indivíduos funcionam como um guia para a atividade mental Segundo a hipótese o vocabulário das línguas indica bem esse processo Os esquimós apresentam várias palavras para indicar diferentes tipos de neve enquanto o português por exemplo apresenta apenas uma Há línguas africanas que possuem apenas uma palavra para designar as cores verde e azul por exemplo Isso significaria que os esquimós através de sua língua se habituaram a ver na realidade diferentes tipos de neve Por outro lado os falantes dessas línguas africanas entendem que aquilo que nós falantes de português identificamos como cores diferentes azul e verde não passam de tonalidades da mesma cor como o azul claro e o azul escuro para nós Segundo Sapir e Whorf se culturas diferentes veem a realidade de formas diferentes conceitos como os de neve verde ou azul não estão na realidade em si mas na visão que temos dela Essa concepção se opõe de modo radical à proposta de universalidade do pensamento lógico que está na base do racionalismo aristotélico 2 Utiliza o método indutivo Os empiristas não partem de hipóteses estabelecidas em suas análises Suas conclusões são conseqüentes da análise dos dados uma vez que esse método parte dos dados para as conclusões e apenas o que pode ser comprovado pelos dados é admitido como verdade O raciocínio indutivo que parte dos dados para chegar à lei geral pode ser ilustrado do seguinte modo O ferro o cobre e o zinco conduzem eletricidade O ferro o cobre e o zinco são metais Logo metal conduz eletricidade Podemos notar que a primeira premissa O ferro o cobre e o zinco conduzem eletricidade é mais restrita em termos de seu conteúdo uma vez que se restringe a três tipos de metal Essa premissa associada à segunda leva a uma verdade mais geral metal conduz eletricidade A indução como método científico se constitui basicamente das seguintes etapas a observação e o registro dos fatos observados a análise e a classificação desses fatos a elaboração indutiva de uma generalização a partir dos dados a verificação adicional dessas generalizações O método portanto consiste na elaboração de uma teoria a partir da observação dos fatos atribuindo universalidade ao que foi constatado nos dados observados Ou seja o conjunto limitado de dados analisados serve de base para a elaboração de regras aplicáveis a dados novos Esse é o problema desse método uma experiência feita em relação a um conjunto de dados só pode ser aplicada a esse conjunto de dados e a criação de verdades universais pode não ser válida por ser parcial Isso nos leva à terceira característica do empirismo em lingüística 3 Apresenta um caráter descritivo e não universalista Os empiristas assumem uma atitude taxionômica buscando descrever as características de seu objeto de estudo sem detectar aspectos mais gerais que expliquem seu funcionamento no sentido de prever fenômenos novos Os dados lingüísticos são diferentes de língua para língua logo cabe ao lingüista descrever cada língua separadamente apresentando suas peculiaridades Analisando o que vimos até agora sobre a gramática estrutural podemos estabelecer alguns comentários As limitações dessa proposta teórica estão associadas sobretudo aos seus métodos de base empirista que descreviam bem as diferentes línguas mas tinham dificuldade em explicar existência de universais lingüísticos Esse foi um passo importante dado pela próxima proposta teórica que apresentaremos a gramática gerativa Além disso ao colocar de lado a parole Saussure isolou a linguagem dos indivíduos que a utilizam dandolhe vida independente Com isso o estruturalismo promove a exclusão do sujeito e de sua criatividade para adaptar sua fala aos diferentes contextos retirando do âmbito dos estudos lingüísticos fenômenos sociointerativos que pelo menos para alguns lingüistas modernos se mostraram fundamentais para a compreensão da natureza da linguagem Gramática gerativa Na década de 1950 ou mais precisamente em 1957 com a publicação do livro Estruturas sintáticas9 pelo lingüista norteamericano Noam Chomsky ocorre uma nova revolução no modo como a linguagem é analisada através do surgimento da chamada gramática gerativa ver capítulo Gerativismo Seu fundamento está centrado em uma profunda crítica ao behaviorismo representado no clássico trabalho de Skinner intitulado Verbal Behavior 195710 obra profundamente marcada pela postura mecanicista do empirismo Chomsky ressalta o componente criativo da linguagem humana indicando o papel primordial desempenhado por determinados processos mentais que são inerentes à nossa espécie A natureza da linguagem é assim relacionada à estrutura biológica humana e a teoria lingüística passa a ter o objetivo de explicar o funcionamento de um órgão mental particular responsável pelo funcionamento da linguagem humana O papel do estímulo externo fica restrito à função de ativar o funcionamento desse órgão mental o que se dá através da experiência do indivíduo em contato constante com a língua da comunidade em que nasceu Ou seja a experiência estimula a faculdade da linguagem já prevista na estrutura biológica humana a criar uma gramática que respeitando seus princípios básicos gera frases com propriedades formais e semânticas Então podemos dizer que a gramática gerativa analisa a estrutura gramatical das línguas vendoa como o reflexo de um modelo formal de linguagem preexistente às línguas naturais e faz desse modelo o próprio objeto de estudo da lingüística Os fenômenos lingüísticos analisados constituem o material no qual os argumentos são baseados Nessa nova perspectiva a linguagem passa a ser vista como reflexo de um conjunto de princípios inatos e portanto universais referentes à estrutura gramatical das línguas Desse modo as línguas naturais como o português o japonês o swahili e o carajá11 por exemplo embora sejam bastante diferentes em sua aparência apresentam muitas semelhanças em sua essência já que refletem os mesmos princípios inatos que regem o funcionamento gramatical das línguas Dois princípios teóricos básicos caracterizam a concepção gerativa de gramática O primeiro deles é o chamado princípio do inatismo segundo o qual existe uma estrutura inata constituída de um conjunto de princípios gerais que impõem limites na variação entre as línguas e que se manifestam como dados universais ou seja presentes em todas as línguas do mundo Esse conjunto de princípios é chamado pelos gerativistas de gramática universal GU O esquema abaixo busca ilustrar como se dá esse fenômeno GU sU DADOS DA EXPERIÊNCIA LINGÜÍSTICA 4 sl português japonês swahili carajá De acordo com esse esquema a GU transmite princípios gramaticais básicos para as diferentes línguas naturais como o português o swahili o carajá ou qualquer outra língua natural Isso significa não apenas que essas línguas exibem um conjunto de fatores em comum mas também que elas apresentam diferenças que estão previstas dentro do leque de opções disponíveis na própria GU e que são ativadas conforme a experiência lingüística do sujeito em contato com sua língua ambiente O segundo princípio gerativista é o princípio da modularidade da mente que prevê que nossa mente é modular ou seja constituída de módulos ou partes caracterizados como sistemas cognitivos diferentes entre si que trabalham separadamente Em outras palavras cada um desses módulos da mente responde pela estrutura e desenvolvimento de uma atividade cognitiva Um módulo se relaciona por exemplo à nossa capacidade de armazenar informações na memória outro é responsável pela coordenação motora outro pela faculdade da linguagem e assim por diante A essência da idéia da modularidade está no fato de que esses módulos atuam separadamente de maneira que cada um deles só tem contato com o resultado final do trabalho dos outros A noção de modularidade se manifesta nos estudos referentes à relação entre cérebro e linguagem através de uma proposta chamada localista Essa proposta caracteriza pesquisas que partem do princípio de que as atividades mentais entre elas a linguagem podem ser localizadas em partes específicas do cérebro ao contrário da proposta conexionista que admite ser o cérebro um processador mais geral Esse raciocínio se estende para os diferentes níveis ou componentes da gramática que devem ser analisados como módulos autônomos independentes entre si Ou seja o funcionamento do módulo relativo à sintaxe independe das operações relacionadas à fonologia por exemplo E interessante registrar que Chomsky introduz nos estudos lingüísticos a noção de cognição12 acentuando a importância da natureza da mente humana e dos princípios gerais inatos que a caracterizam para a compreensão do fenômeno da linguagem A noção gerativista de cognição está associada à especificidade biológica da linguagem humana isto é ela propõe que a linguagem é regulada por fatores associados ao desenvolvimento de uma capacidade inerente à nossa estrutura genética e que se dissocia de outras capacidades mentais referentes ao processamento de informações ou à inteligência de um modo geral Outro aspecto importante para a caracterização da gramática gerativa está no fato de que Chomsky o criador dessa tradição propôs uma distinção entre competência e desempenho O autor define competência como a capacidade em parte inata e em parte adquirida que o falante possui de formular e compreender frases em uma língua e caracteriza o desempenho como a utilização concreta dessa capacidade Apenas no conhecimento se encontra o módulo da linguagem já que no desempenho o único que é observável diretamente podemos notar vários módulos em interação como linguagem memória emoção concentração entre outros Cabe mencionar que Chomsky assume uma posição semelhante à de Saussure ao sustentar que o objeto de estudo da lingüística deve ser a competência e não o desempenho Isso significa que mais uma vez o sujeito como usuário real da língua e suas habilidades sociointerativas ficam de fora dos estudos lingüísticos Chomsky propõe portanto uma noção idealizada de competência característica de um falante ouvinte igualmente idealizado que utilizaria de modo regular seu conhecimento lingüístico independentemente das diferentes situações reais de comunicação É importante ressaltar que essa postura de priorizar a competência surgiu nos primeiros momentos da evolução dos estudos gerativos Podese dizer que com a proposta minimalista última versão da teoria proposta por Chomsky em 1995 tem ocorrido uma aproximação entre teorias do uso desempenho e do conhecimento lingüístico já que o próprio Chomsky começa a caracterizar a derivação de estruturas levando em conta fatores como memória de trabalho e complexidade estrutural por exemplo que a rigor estão mais relacionados ao desempenho Entretanto podese dizer que a distinção entre competência e desempenho ainda existe para os gerativistas como uma necessidade conceituai diferenciando aquilo que as pessoas sabem daquilo que as pessoas efetivamente fazem Costumase relacionar o movimento gerativista com a corrente filosófica do racionalismo que pode ser identificada por três características básicas 1 A razão é fonte do conhecimento existem idéias inatas Os racionalistas baseiam o conhecimento na razão e não só na experiência ou seja acreditam na existência de uma estrutura mental inata que caracteriza o conhecimento Considerando as línguas naturais o reflexo de princípios inatos e autônomos em relação a outras formas de conhecimento os gerativistas privilegiaram em suas análises a busca de aspectos lingüísticos universais tendendo portanto a deixar de lado as questões sociais e interativas que caracterizam de modo mais localizado o uso concreto da língua nas situações reais de comunicação O papel da experiência como mencionamos anteriormente fica restrito à mera estimulação do desenvolvimento dos princípios gramaticais para uma ou outra direção já prevista na própria GU 2 Utiliza o método dedutivo Os racionalistas em suas análises partem de hipóteses estabelecidas e vão aos dados confirmar ou não essas hipóteses13 O método dedutivo parte de uma verdade universal para chegar a uma verdade menos universal Eis um exemplo de um raciocínio dedutivo Todos os humanos são mortais Os gregos são humanos Logo os gregos são mortais O fato de que Todos os humanos são mortais constitui uma verdade mais geral do que o fato de que Os gregos são mortais estando este fato contido naquele desde que se leve em conta que Os gregos são humanos Chomsky utiliza um raciocínio desse tipo Lobato 1986 enumera as etapas do raciocínio chomskyano que parte das seguintes premissas a estrutura física do corpo humano é geneticamente determinada e os sistemas motor e perceptivo são modulares os órgãos mentais podem ser estudados nas mesmas bases em que se estudam os órgãos físicos e os sistemas motor e perceptivo Essas duas premissas levam à seguinte conclusão as teses do inatismo e da modularidade adotadas para o estudo da estrutura dos corpos podem ser estendidas ao estudo dos órgãos mentais e da linguagem 3 Apresenta um caráter explicativo e universalista O racionalismo transcende o nível da pura descrição formulando hipóteses teóricas a partir dos dados analisados de modo que se pode predizer dados novos e não apenas avaliar os já analisados A noção de gramática universal dá aos gerativistas uma ferramenta teórica que o estruturalismo não possuía fornecendo aos lingüistas a possibilidade de observar o que há de universal nas línguas Isso possibilita a criação de uma expectativa específica em relação ao que se espera encontrar em novos dados ou seja dados que ainda não foram analisados em uma determinada língua ou mesmo em uma língua que ainda não foi objeto de análise lingüística As informações referentes à gramática gerativa até aqui apresentadas nos permitem elaborar alguns comentários Essa escola lingüística deixou para trás uma concepção empirista de linguagem que não conseguia dar conta da aquisição e do uso das línguas demonstrando de forma definitiva a existência de mecanismos inatos subjacentes a esses processos Demonstrou que os humanos não decoram por estímulo externo as frases que utilizam ressaltando a criatividade humana para a linguagem no sentido de que somos capazes de criar um número infinito de frases a partir de princípios básicos finitos Com isso a lingüística deu um importante passo na direção de uma teoria capaz não apenas de descrever indutivamente um conjunto de dados observados mas de prever dados novos ou seja uma teoria não é apenas descritiva mas explicativa Por outro lado os gerativistas focalizando a competência em detrimento do desempenho mais uma vez deixam de lado aspectos de ordem sociointerativa associados à linguagem Nesse sentido mantémse a noção de linguagem como um sistema autônomo indiferente aos interesses do sujeito que o utiliza e às características do ambiente social em que atua Essa noção de linguagem associada à lógica universal que ressalta nossa capacidade de criar um número infinito de frases não leva em conta a perspectiva de quem produz o discurso ou sua criatividade ao adaptar sua fala aos diferentes contextos comunicativos não dando conta adequadamente de traços básicos associados às línguas como variação e mudança Esses aspectos serão abordados pelas escolas que apresentaremos a seguir as quais convivem hoje com a tradição gerativa dando ênfase aos aspectos sociointerativos considerados pelos gerativistas menos importantes para a compreensão do fenômeno da linguagem Gramática cognitivofuncional Antes de tecermos qualquer consideração acerca desse tipo de gramática queremos registrar que estamos utilizando o termo cognitivofuncional14 para designar um conjunto de propostas teóricometodológicas que caracterizam algumas escolas de natureza relativamente distinta que adotando princípios distintos dos que caracterizam o formalismo gerativista apresentam alguns pontos em comum observam o uso da língua considerandoo fundamental para a compreensão da natureza da linguagem observam não apenas o nível da frase analisando sobretudo o texto e o diálogo têm uma visão da dinâmica das línguas ou seja focalizam a criatividade do falante para adaptar as estruturas lingüísticas aos diferentes contextos de comunicação consideram que a linguagem reflete um conjunto complexo de atividades comunicativas sociais e cognitivas integradas com o resto da psicologia humana isto é sua estrutura é conseqüente de processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem significados em situações de interação com outros indivíduos Podemos dizer que de um modo amplo essas características se adaptam a escolas como o funcionalismo norteamericano ou europeu a lingüística sociocognitiva a lingüística textual a sociolinguística a lingüística sociointerativa entre outras Cada uma dessas escolas à sua maneira e com seus objetivos peculiares adota algumas dessas características ou todas elas ver capítulos Funcionalismo Lingüística cognitiva e Lingüística textual Feitas essas considerações podemos afirmar que em linhas gerais a gramática cognitivofuncional alarga o escopo dos estudos lingüísticos para além dos fenômenos estruturais e que portanto seu ponto de vista é distinto Esse tipo de gramática analisa a estrutura gramatical assim como as gramáticas estrutural e gerativa mas também analisa a situação de comunicação inteira o propósito do evento de fala seus participantes e seu contexto discursivo Segundo essa concepção portanto a situação comunicativa motiva a estrutura gramatical o que significa que uma abordagem estrutural ou formal não é apenas limitada a dados artificiais mas inadequada como análise estrutural Em outras palavras no uso da língua determinados aspectos de cunho comunicativo e cognitivo são atualizados e se queremos compreender o funcionamento da linguagem humana temos de levar em conta esses aspectos Isso significa que segundo essa concepção de gramática não se pode analisar a competência como algo distinto do desempenho ou nos termos funcionalistas a gramática não pode ser vista como independente do uso concreto da língua ou seja do discurso Quando falamos valemonos de uma gramática ou seja de um conjunto de procedimentos necessários para através da utilização de elementos lingüísticos produzirmos significados em situações reais de comunicação Mas ao adaptarmos esses procedimentos aos diferentes contextos de comunicação podemos remodelar essa gramática que na prática seria o resultado de um conjunto de princípios dinâmicos que se associam a rotinas cognitivas e interativas moldadas mantidas e modificadas pelo uso Assim temos entre discurso e gramática uma espécie de relação de simbiose15 o discurso precisa dos padrões da gramática para se processar mas a gramática se alimenta do discurso renovandose para se adaptar às novas situações de interação O esquema abaixo ilustra esse processo 71 GRAMÁTICA DISCURSO R Essa é uma visão dinâmica da gramática que prevê a atuação de mecanismos expressivos associados à subjetividade dos falantes que recriam padrões gramaticais a fim de conferir força informativa ao discurso Da ritualização conseqüente da repetição desses novos padrões emerge a gramática Entretanto esse mecanismo não é arbitrário já que reflete dois tipos de habilidades essencialmente humanas que regulam a atividade verbal estando portanto de algum modo relacionado à gramática das línguas O primeiro deles tem natureza sociointerativa e se relaciona com nossa habilidade de compartilhar informações com nossos semelhantes e de nos engajarmos em atividades compartilhadas cuja compreensão é fundamental para o processo comunicativo Imaginemos por exemplo que um cliente retorne a uma loja de eletrodomésticos onde acabou de comprar uma televisão e tenha o seguinte diálogo com o vendedor Cliente Esta televisão não está funcionando Vendedor Não há problema senhor Vamos providenciar a troca do aparelho Obviamente o vendedor não vai entender a frase dita pelo cliente como uma mera informação Naquele contexto específico a frase só pode ser compreendida como um pedido para que o aparelho seja trocado por outro que funcione Aspectos da interpretação dos enunciados do tipo exemplificado são eminentemente interacionais e requerem o conhecimento de práticas sociais A primeira vista questões como essas parecem simples e localizadas apenas a alguns tipos de contexto de uso mas na prática estão na base de toda comunicação lingüística que na visão cognitivofuncional não existiria sem elas O segundo tipo de habilidade está relacionado a aspectos do funcionamento da nossa mente que interferem no modo como processamos as informações e consequentemente no discurso Nossa capacidade de ver e interpretar o mundo assim como nossa habilidade de transferir dados de determinados domínios da experiência para outros se manifesta na maneira como formamos nossas frases É o que acontece com a chamada metáfora espaço discurso que está na base da gramaticalização de alguns conectivos do português Tratase de uma transferência para o domínio do texto de nossas experiências sensóriomotoras da observação que fazemos do movimento dos corpos no espaço e dos aspectos espaciais e temporais relacionados a esses movimentos Isso faz com que utilizemos muito freqüentemente elementos dêiticos espaciais para nos referirmos a partes do texto O exemplo apresentado abaixo ilustra bem o processo O tempo fechou Isso vai me fazer usar o guardachuva O pronome isso que originalmente funciona como um dêitico localizando os objetos no espaço físico e tendo como referência a localização dos participantes do ato da comunicação passa a se referir no exemplo acima a uma informação mencionada dentro do texto o tempo fechou O que temos aqui é uma extensão da dêixis espacial para a dêixis textual procedimento altamente produtivo nas línguas naturais a organização espacialtemporal do mundo físico é usada analogicamente para caracterizar o universo mais abstrato do texto A partir desse valor anafórico o vocábulo pode desenvolver função de conjunção É o que ocorre com isso que associado à preposição por passa a ser usado como conjunção conclusiva O tempo fechou por isso usei o guardachuva Esse é um processo altamente produtivo nas línguas e os lingüistas que trabalham com a perspectiva cognitivofuncional associamno a um fenômeno mais geral segundo o qual a experiência humana mais básica que se estabelece a partir do corpo fornece as bases de nossos sistemas conceptuais A dêixis está associada à localização por parte do falante de um objeto que está em seu campo de visão tendo como base a sua localização no espaço e a localização do interlocutor Esse processo pode ser transferido para o mundo do texto o falante localiza para seu interlocutor partes do texto que por alguma questão comunicativa quer focalizar Isso caracteriza a perspectiva filosófica do chamado realismo corporificado Ocorre que nosso primeiro contato com o mundo se dá através dos nossos sentidos corporais e a partir daí algumas extensões de sentido são estabelecidas Segundo esse ponto de vista nossa estrutura corporal é extremamente importante já que a percepção que temos do mundo é limitada por nossas características físicas Segundo essa concepção a mente não pode ser separada do corpo o pensamento é corporificado no sentido de que a sua estrutura e sua organização estão diretamente associadas à estrutura de nosso corpo bem como às nossas restrições de percepção e de movimento no espaço ver capítulo Lingüística cognitiva O realismo corporificado pode ser identificado por três características básicas 1 Abandona a dicotomia empirismo vs racionalismo A corrente cognitivofuncional segundo Ferrari 2001 propõe que as dicotomias tradicionais do tipo racionalismoempirismo ou inatoaprendido devem ser repensadas já que é difícil distinguir com exatidão o que é inato do que é aprendido A autora argumenta que pesquisas recentes sugerem que bebês aprendem parte do sistema entoacional de suas mães no útero e isso desafia a distinção entre inato e aprendido já que nesse caso tal sistema é aprendido e a criança já nasce com ele O mesmo se dá para a dicotomia relativismofundacionalismo A gramática cognitivofuncional adota a concepção de que realmente existem universais conceptuais mas eles apenas motivam os conceitos humanos não tendo a capacidade de prevêlos de modo determinante Ou seja esses universais conceptuais não delineiam de modo fechado e definitivo o pensamento humano já que por se concretizarem em situações reais de interação social sua natureza admite a influência de fatores socioculturais Isso significa que na concepção cognitivofuncional o uso da linguagem implica restrições provenientes de nossa capacidade de atenção de percepção de armazenamento de informações na memória de simbolização de transferência entre domínios da realidade entre outras atividades que não são estritamente lingüísticas mas que estão altamente conectadas ao processo comunicativo Tratase portanto de uma visão integradora do fenômeno da linguagem que propõe não haver necessidade se distinguir conhecimento lingüístico de conhecimento não lingüístico ou seja de se dotar de uma visão modular da mente humana Admitindo a influência de fatores externos sobre estrutura lingüística a lingüística cognitivofuncional associa os conceitos humanos à época à cultura e até mesmo a tendências individuais que se manifestam no uso da língua Ou seja aspectos de ordem cultural incidem sobre parâmetros biológicos de modo que o comportamento humano somente poderia ser caracterizado por uma relação entre biologia e cultura 2 Incorpora o método abdutivoanalógico De acordo com Givón 1995 as concepções estruturalista e gerativista de gramática têm adotado as posições de filósofos reducionistas mantendose entre os dois extremos a indução que caracteriza o estruturalismo de Saussure na Europa e Bloomfield nos EUA e a dedução que caracteriza o gerativismo de Chomsky Uma nova tendência tem sido observar que nenhum dos extremos é viável e que a ciência empírica envolve um misto de muitas estratégias O método dedutivo por exemplo é utilizado basicamente na testagem de hipóteses e na observação das possíveis implicações delas advindas E também utilizado na elaboração de testes e no momento de decidir se os resultados são ou não compatíveis com as hipóteses O método indutivo é utilizado basicamente para se chegar a novos conheci mentos a partir da observação dos dados podendo também ser usado na testagem de hipóteses selecionando uma amostra a ser observada Nesse caso a inferência indutiva permite generalizar os resultados da população desde que a amostra represente tendências claramente estáveis Um terceiro tipo de raciocínio é o abdutivoanalógico responsável por novas hipóteses e novos insights teóricos O filósofo e lógico norteamericano Charles Sanders Peirce propôs que o raciocínio assim como o discurso também se realiza através de um método que ele chamou de abdução Esse método consiste em uma espécie de intuição que se dá passo a passo até chegar à conclusão ou seja o método caracteriza se pela busca da conclusão através da interpretação de sinais de indícios e de signos Peirce apresenta como exemplo desse método o trabalho dos detetives em contos policiais que vão juntando indícios até concluírem o caso com a identificação do criminoso E também o método que por exemplo os arqueólogos utilizam quando trabalhando com vestígios de antigas civilizações descobertos por meio de escavações buscam criar o quadro completo referente à sua estrutura políticosocial O método abdutivoanalógico é bastante característico da gramática cognitivo funcional e pode ser visto como um mecanismo inerente aos processos de aquisição e uso da língua assim como um tipo de procedimento científico utilizado com a finalidade de formular hipóteses Com relação ao uso da língua podemos perceber que qualquer enunciado pode apresentar sentidos diferentes dependendo da situação em que é proferido A frase Ronaldo pisou na bola por exemplo pode ter um sentido literal em que Ronaldo é um jogador de futebol que realmente cometeu esse erro ou um sentido não literal ou metafórico em que Ronaldo é uma pessoa qualquer não necessariamente um jogador de futebol que agiu de modo errado em alguma situação O que conduz o usuário da língua a uma ou outra dessas possibilidades é a inferência que ele faz a partir dos dados contextuais de que ele dispõe no momento da comunicação Esses dados sugerem que no uso da língua o usuário trabalha com generalização de informações tentando estabelecer relações estáveis entre as estruturas lingüísticas e os efeitos que as caracterizam nos diferentes contextos de uso Desse modo o usuário pode inferir dentro dos valores possíveis da estrutura aquele que melhor se adapta ao contexto ou entre as estruturas possíveis a que naquele contexto vai causar o efeito desejado Vejamos agora a abdução como um método empregado pela gramática cognitivofuncional para formular suas hipóteses básicas Essa concepção de gramática tende a se basear em intuição analogia e abdução o que é compreensível em função da grande preocupação dessa escola com a explanação Vejamos o seguinte raciocínio baseado em Givón 1995 referente à hipótese da função comunicativa das estruturas sintáticas Problema Existem variações possíveis de uma mesma estrutura sintática que não podem ser explicadas por uma perspectiva teórica que observa aspectos estritamente estruturais da língua Hipótese Se partirmos do princípio de que as diferentes estruturas lingüísticas possuem diferentes funções comunicativas seu comportamento pode ser cientificamente previsto Abdução A teoria lingüística deve incorporar a hipótese anterior ampliando o seu foco para além dos fenômenos meramente estruturais Esse método reflete um procedimento abdutivo no sentido de que não há uma implicação necessária entre as três etapas do raciocínio mas uma relação de possibilidade Apresentase um problema há uma incompatibilidade entre a teoria científica existente e determinados fatos observados Entretanto como esses fatos são compatíveis com uma nova hipótese que ainda deverá ser testada esta pode ser utilizada como ponto de partida Mas ainda temos outro problema como caracterizar a função dessas estruturas Não podemos esquecer que funções são entidades mentais não observáveis Para compreendermos isso pensemos em um dos sentidos básicos do termo função a finalidade com que um falante utiliza a linguagem alguém diz algo a fim de atingir um objetivo Em lingüística a intenção ou o propósito não podem ser detectados Como podemos dizer com toda certeza o que o falante exatamente pretende com sua fala Como podemos dizer que o falante tem uma intenção consciente quando fala Na verdade não podemos o que significa dizer que as noções de função e motivação adaptativa são construtos abdutivos Desse modo temos de estabelecer uma relação estável entre as funções não detectáveis e os contextos pragmáticodiscursivos que são mais objetivamente observáveis através principalmente da observação da repetição sistemática dessa relação E esse é o procedimento básico da gramática cognitivofuncional A explicação teórica é também pelo menos em princípio uma noção pragmática não só porque implica raciocínio dedutivo mas porque sempre busca colocar o fenômeno observado em um contexto maior o que só é possível através de procedimento abdutivo e nunca a partir de um procedimento meramente indutivo ou dedutivo 3 Apresenta um caráter explicativo e universalista Como vimos Chomsky demonstrou definitivamente que o paradigma empirista não é capaz de explicar a aquisição e o uso das línguas Assim a gramática gerativa propõe o princípio do inatismo buscando dar conta da existência de um lado dos universais lingüísticos e de outro da facilidade que toda criança tem de aprender uma língua Esse quadro teórico objetiva explicar dados novos além de descrever os já observados A lingüística cognitivofuncional caracterizase por uma tendência semelhante Adota a idéia de que existem universais conceptuais partindo para uma tendência explicativa e não apenas descritiva do fenômeno da linguagem O universalismo da proposta cognitivofuncional entretanto é diferente do universalismo gerativista porque sua procedência não está apenas na biologia mas em uma relação equilibrada entre biologia e cultura A tendência entre os cientistas que adotam a perspectiva cognitivofuncional é aceitar a existência de universais conceptuais Por outro lado esses cientistas também aceitam o fato de que existem conceitos que diferem de língua para língua Em função disso eles tendem a adotar uma terceira posição em relação ao problema baseandose na observação empírica dos fatos lingüísticos Concluindo o que foi visto até aqui podemos dizer que o modo como compre endemos os fenômenos associados à gramática das línguas mudou ao longo dos anos desde a gramática grega até as escolas mais modernas da lingüística de uma concepção filosófica que relacionava sem comprovações empíricas a lógica do pensamento com a linguagem até o surgimento da lingüística no século xix quando foram incorporados procedimentos científicos característicos da chamada ciência moderna surgida no século XVII Com a evolução dos estudos essas concepções foram sendo aperfeiçoadas abandonadas e até mesmo retomadas em função de novas descobertas científicas Atualmente existem duas grandes tendências em lingüística A tendência gerativista com sua visão biológica da linguagem cuja abordagem privilegia os aspectos formais das línguas e a cognitivofuncional que considera o uso da língua importante para a compreensão da estrutura das línguas propondo uma relação entre biologia e cultura Exercícios 1 Comente o conceito de gramática apresentado a seguir É uma disciplina didática por excelência que tem por finalidade codificar o uso idiomático dele induzindo por classificação e sistematização as normas que em determinada época representam o ideal da expressão correta Rocha Lima 1976 5 2 As correspondências fonéticas abaixo são compatíveis com a lei de Grimm Justifique caput latim kephalê grego head inglês cornü latim keras grego bom inglês 3 Nos exemplos que seguem podemos observar processos analógicos cheminé chaminé por influência de chama camion caminhão por influência de caminho Apresente outros exemplos de analogia 4 Ao apresentar a dicotomia entre langue e parole Saussure propôs que a langue deve ser o objeto de estudo da lingüística deixando de fora a parole como atividade lingüística individual Que críticas podem ser feitas a essa atitude à luz da lingüística cognitivofuncional 5 Que escola lingüística a afirmação a seguir caracteriza Justifique sua resposta As línguas naturais são adquiridas e faladas espontaneamente apenas pelos membros da espécie humana ou seja por organismos com um determinado tipo de específico de estrutura e organização mental Parece pois difícil escapar à conclusão de que as propriedades essenciais da linguagem são diretamente determinadas por propriedades mentais dos seres que as falam e que estudar a linguagem humana consiste em estudar determinadas propriedades da mente humana radicadas em última instância na organização biológica da espécie Raposo 1992 6 Apresente uma definição de a princípio do inatismo b princípio da modularidade da mente 7 Quais as principais diferenças existentes entre a gramática gerativa e a gramática cognitivofuncional 8 Defina o método indutivo e diga a que conceito de gramática esse método costuma ser relacionado Notas 1 O ático passa a ser dialeto oficial da Grécia como conseqüência da hegemonia política e cultural de Atenas na Grécia conquistada por sua participação nas guerras contra os persas 2 Os símbolos Isl e Ikl representam respectivamente o som de cher ou cheiro em português e o som de capo ou couro em português 3 Grimm não foi o primeiro a perceber as correspondências sistemáticas entre as consoantes germânicas e as indo europeias O dinamarquês Rasmus Rask já havia notado tal correspondência Rask aliás divide com Bopp o status de fundador da gramática históricocomparativa Seu trabalho é anterior ao de Bopp embora tenha sido publicado depois em 1818 dois anos após a publicação de Bopp e não inclui o sânscrito em suas comparações 4 Esse conjunto de grupos de línguas é baseado em Malmberg 1974 5 Movimento surgido na Universidade de Leipzig que teve como representantes principais Karl Brugmann Hermann Osthoff Berthold Delbrück Jakob Wackernagel e Herman Paul Esse movimento apresentava severas críticas às primeiras propostas comparatistas Alguns aspectos de sua visão de mudança foram adotados por correntes lingüísticas modernas interessadas nos fenômenos ligados à variação e à mudança das línguas como a sociolinguística e o funcionalismo 6 E de Saussure Curso de lingüística geral São Paulo Cultrix 1975 7 Esses termos franceses costumam ser traduzidos por língua e fala respectivamente Joaquim Mattoso Câmara Jr costumava utilizar o termo discurso para designar a idéia saussureana de parole 8 Guardadas as devidas proporções esses três aspectos o conjunto de elementos sua organização no sistema e sua combinação que foram exemplificados através de elementos do nível fonológico das línguas podem ser estendidos aos níveis morfológico e sintático N Chomsky Estruturas sintácticas Lisboa Edições 70 1980 10 B F Skinner Comportamento verbal São Paulo Cultrix 1978 11 O swahili é uma língua banto falada no leste da África e o carajá uma língua indígena brasileira do tronco macrojê falada por cerca de três mil pessoas na ilha do Bananal Tocantins 12 O termo cognição referese em linhas gerais ao funcionamento da inteligência humana 13 A lingüística formal de Chomsky é dedutivaaxiomática entretanto o gerativismo praticado em pesquisas em psicolinguística e neurolinguística é eminentemente abdutivoestatístico já que apresentam um caráter experimental 14 Termo retirado deTomasello 1998 2003 15 Simbiose é um termo da biologia que expressa a associação de dois ou mais seres que lhes permite viver com vantagens recíprocas e que os caracteriza como um só organismo Um exemplo disso é o líquen a simbiose de uma alga e de um cogumelo Arbitrariedade e iconicidade Victoria Wilson Mário Eduardo Martelotta Há aproximadamente dois mil e quinhentos anos que estudiosos se dedicam a investigar a linguagem e seus mistérios Na base das indagações iniciais está a tentativa de se compreender não apenas a estrutura da linguagem mas também a sua relação com o mundo que ela simboliza e com o funcionamento da mente humana Já em Platão filósofo grego podemos encontrar reflexões sobre a linguagem questão central na época nos diálogos conhecidos como Crátilo Nesses diálogos tomavam parte três interlocutores Crátilo Hermógenes e Sócrates representando cada qual um ponto de vista a respeito da denominação ou designação isto é da relação existente entre o nome a idéia e a coisa A indagação central estava baseada na existência ou não da relação de similaridade ou para usar um termo mais moderno iconicidade entre a forma o código lingüístico e o sentido por ela expresso Para Crátilo a língua é o espelho do mundo o que significa que existe uma relação natural e portanto similar ou icônica entre os elementos da língua e os seres por eles representados Para Hermógenes a língua é arbitrária isto é convencional pois entre o nome e as idéias ou as coisas designadas não há transparência ou similaridade Sócrates por sua vez tem o papel de fazer a integração entre os dois pontos de vista Essas questões em torno da oposição entre arbitrariedade e iconicidade do signo lingüístico percorrem as correntes lingüísticas até os dias de hoje Anoção de arbitrariedade está baseada no princípio da convenção não há nada no som da palavra que se relacione de forma necessária à coisa que ela designa Não há uma relação natural por exemplo entre a construção que utilizamos para nossa moradia e a palavra casa até porque em outras línguas temos palavras com estruturas sonoras bastante diferentes para designar esse mesmo significado house em inglês e maison em francês apenas para citar algumas Por outro lado a iconicidade do signo lingüístico fundamentase na idéia de uma motivação que se reflete na estrutura das palavras indicando uma espécie de relação natural entre os elementos lingüísticos e os sentidos por eles expressos Uma maneira fácil de compreendermos essa relação icônica é pensarmos nas onomatopéias palavras cuja estrutura sonora imita o som das coisas que designam cocorocó som do canto do galo tiquetaque ruído de um relógio funcionando entre outras Nesses casos há uma similaridade entre o som e o sentido A proposta naturalista ganhou força através de pensadores que se interessaram pela origem das línguas e de fato foram propostas hipóteses de que a linguagem humana se desenvolveu a partir de sons criados pelo homem que imitavam os ruídos encontrados na natureza Obviamente propostas desse tipo carecendo de qualquer base empírica não têm merecido maior consideração pelos lingüistas modernos No âmbito específico dos estudos da linguagem é o lingüista suíço Ferdinand de Saussure quem vai realizar na Europa em fins do século xix e início do século xx a síntese dos conceitos da tradição clássica e moderna inaugurando a lingüística como uma ciência que constituiria um ramo de uma ciência maior a semiologia ou semiótica1 a ciência dos signos Antes de falarmos das posições de Saussure acerca da questão da significação vejamos algumas informações sobre como a semiótica tradicionalmente trata o problema tomando como base as idéias de Peirce Os estudos em semiótica Contemporâneo de Saussure Charles Sanders Peirce filósofo norteamericano inaugurava na mesma época os estudos semióticos ou semiótica também conhecida como ciência dos signos Sua semiótica não se aplica apenas à filosofia mas tem uma grande abrangência nos estudos da linguagem e da comunicação Para ele toda idéia é um signo o homem é um signo e o mundo está permeado de signos Segundo o filósofo toda realidade deve ser estudada sob o ponto de vista semiótico Peirce apresenta muitas e diversificadas definições de signo mas resumidamente poderíamos dizer que o signo ou representamen é uma coisa que representa outra no caso seu objeto ou conforme as palavras do filósofo para que algo possa ser um Signo expressão ou representamen esse algo deve representar alguma outra coisa chamada seu Objeto apesar de ser talvez arbitrária a condição segundo a qual um Signo deve ser algo distinto de seu objeto Peirce 1999 47 A noção de signo implica que um elemento A de natureza diversa funcione como um representante de um elemento B ou seja A guia o comportamento dos indivíduos para um determinado fim de maneira semelhante ao modo como um elemento B os direcionaria para aquele mesmo fim Para uma melhor compreensão desse processo podemos pensar em um motorista que ao perceber uma placa indicativa de curva acentuada compreende o perigo da situação e reduz a velocidade do veículo Isso quer dizer que a placa funciona como um signo já que o motorista reduziu a velocidade como teria feito diante da própria curva perigosa Peirce estabelece uma complexa classificação dos signos agrupandoos em três tricotomias primeira segunda e terceira tricotomia Vamos nos deter aqui apenas à segunda tricotomia porque ela agrupa os principais elementos estudados no âmbito da linguagem o símbolo o índice e o ícone O símbolo de acordo com Peirce referese adeterminado objeto representandoo com base em uma lei hábito ou convenção estabelecendo uma relação entre dois elementos Para citar alguns exemplos a cruz é o símbolo do cristianismo e a balança o símbolo da justiça Uma característica importante do símbolo relacionase ao fato de que ele é parcialmente motivado ou seja há entre o símbolo e conteúdo simbolizado alguns traços relacionados Assim não é à toa que o símbolo do cristianismo é uma cruz uma vez que foi nela que Cristo morreu como também a balança representação do equilíbrio e da ponderação boa imagem para simbolizar a justiça Há uma diferença fundamental entre o símbolo de um lado e o índice e o ícone de outro já que nesses dois últimos há um nível ainda menor de arbitrariedade No caso do índice ocorre uma relação de contiguidade com a realidade exterior a fumaça por exemplo é o índice do fogo e a presença de nuvens negras o índice de chuva iminente Ou seja há nesses casos uma relação mais natural entre o índice e o seu significado Cabe lembrar que o índice não representa a coisa mas é afetado por ela O ícone2 por sua vez tem uma natureza imagística apresentando portanto propriedades que se assemelham ao objeto a que se refere A fotografia de um indivíduo por exemplo é uma representação icônica desse indivíduo assim como o mapa do Rio de Janeiro representa a cidade Assim um ícone é qualquer coisa que seja utilizada para designar algo que lhe seja semelhante em algum aspecto como por exemplo a tinta vermelha usada em uma peça de teatro para representar sangue E enorme a importância da classificação semiótica de Peirce não apenas nos estudos da linguagem mas em outros domínios as artes a literatura a música o cinema a moda a propaganda a arquitetura e a antropologia Na lingüística como veremos adiante Saussure um dos cientistas que lançaram as bases dessa ciência propõe a noção de signo lingüístico e o caracteriza como um elemento de natureza verbal que possui caráter eminentemente arbitrário3 Os estudos em lingüística Ao pensar o fenômeno lingüístico a partir de suas propriedades internas Saussure abandona a discussão clássica sobre o signo reinterpretando o conceito de arbitrariedade desloca para o interior do sistema lingüístico a dimensão da arbitrariedade direcionada às referências externas à língua Em outras palavras Saussure evita o debate filosófico que abarca a conexão entre o nome e coisa que ele designa no mundo biossocial optando por pensar a relação entre o significante e o significado elementos constituintes do que ele convencionou chamar de signo lingüístico4 Para Saussure o signo lingüístico passa a ser o resultado da associação arbitrária entre significante imagem acústica e significado conceito Aqui é importante ressaltar que o significante não é o som material mas seu correlato psíquico ou seja uma estrutura sonora que reconhecemos a partir do conhecimento que temos de nossa língua relacionandoa então a um determinado conceito Do mesmo modo o significado não é o objeto real a que a palavra faz referência mas um conceito ou seja um elemento de natureza mental Desse modo tanto significante como significado são caracterizados por Saussure como entidades psíquicas Esses dois elementos constitutivos do signo lingüístico apresentam entre si uma relação arbitrária ou imotivada ou seja não há entre eles nenhum laço natural Isso significa que no ato de nomeação a língua não se reduz a um mero reflexo da realidade Essa relação se estabelece internamente ao sistema lingüístico na relação do signo com outros signos O esquema abaixo representa a noção de signo com seus componentes SIGNIFICANTE 71 SIGNO LINGÜÍSTICO Relação Arbitrária SIGNIFICADO O argumento mais forte a favor dessa visão está no fato de que existem em línguas diferentes palavras com estruturas sonoras bastante distintas para designar a mesma idéia o significado da palavra inglesa knife por exemplo corresponde ao do vocábulo português faca e ao do vocábulo francês couteau e como podemos notar essas três palavras são bastante diferentes do ponto de vista de sua seqüência sonora Muitas vezes em uma mesma língua temos palavras diferentes para designar o mesmo significado é o caso por um lado das palavras aipim mandioca e macaxeira e por outro dos termos abóbora e jerimum apenas para citar alguns exemplos da língua portuguesa Além disso uma mesma estrutura sonora pode designar sentidos inteiramente diferentes Um exemplo disso é o de banco que pode designar por exemplo um tipo de estabelecimento destinado a operações financeiras como em Vou ao banco pegar dinheiro ou um tipo de assento estreito e comprido com ou sem encosto e utilizado para descanso como em Sentamos no banco da praça Dados como esses constituem segundo Saussure um bom argumento de que o signo lingüístico é arbitrário Entretanto é importante registrar que o lingüista suíço admite a possibilidade de uma arbitrariedade relativa desde que possamos recuperar um conceito e uma forma a partir do signo lingüístico podemos por exemplo abstrair de dezenove a idéia de dezena ou de macieira o termo maçã Tradicionalmente as palavras nas quais há uma arbitrariedade relativa são caracterizadas como casos de motivação Podemos definir motivação como a relação de necessidade estabelecida entre uma palavra e seu sentido ou aproveitando a própria estrutura do termo como um fenômeno característico de determinadas palavras que refletem um motivo para assumirem uma forma em vez de outra É o caso de palavras onomatopaicas como miar que designa o som emitido pelo gato ou de palavras como apagador que como o próprio nome sugere designa o objeto utilizado para apagar o que está no quadro de giz Essas palavras assim como ocorre com macieira ou dezenove citadas anteriormente são motivadas A motivação pode ter uma natureza sonora residir nas características morfológicas da palavra ou ainda estar fundamentada nos seus aspectos semânticos Por isso vamos ver separadamente os três diferentes tipos distintos de motivação 1 Motivação fonética A motivação fonética está relacionada aos casos de onomatopéia ou seja a palavra cuja estrutura sonora apresenta uma semelhança ou uma harmonia em relação ao sentido que ela expressa São exemplos de motivação fonética portanto cocorocó miar cochichar sussurrar tilintar entre muitas outras palavras 2 Motivação morfológica A motivação morfológica está relacionada aos processos de formação de palavras Desse modo leiteiro por exemplo constitui uma palavra motivada morfolo gicamente já que ela pode ser analisada a partir de seus elementos componentes leit radical de leite e eiro sufixo designativo de profissão ou ocupação As palavras compostas são igualmente motivadas já que não é à toa que o móvel onde se guardam roupas e o aparelho para reduzir a velocidade de queda dos corpos no ar são chamados respectivamente de guardaroupa e paraquedas O princípio adjacente a esse processo é o ato de utilizar elementos já existentes na língua para se criar uma nova palavra o que aliás ocorre também no terceiro tipo de motivação que analisaremos 3 Motivação semântica A motivação semântica está relacionada a processos analógicos associados aos sentidos das palavras É o que ocorre quando utilizamos o termo braço originariamente designativo de parte do nosso corpo na expressão braço da cadeira Há aí uma analogia que reflete a relação de semelhança entre o nosso braço e a parte da cadeira designada por essa palavra Mais exemplos desse tipo podem ser vistos em outras catacreses5 como pé de mesa cabeça de prego dentes da serra entre outros Não apenas as catacreses mas as metáforas de um modo geral retratam a motivação semântica já que constituem processos de transferência de domínios que refletem relações associativas feitas pelos usuários da língua Quando dizemos por exemplo que João é o cabeça do grupo estamos utilizando a palavra cabeça com valor correspondente ao de líder ou chefe analogia que se sustenta pelo fato de ser a cabeça a parte do corpo que pensa e que manda informações para que as outras partes do corpo assumam suas funções Isso é uma metáfora A metonímia que se caracteriza por uma transferência no significado de uma palavra com base em uma relação objetiva entre o sentido primeiro e o sentido novo ou seja por uma relação de contiguidade também constitui um caso de motivação E o que vemos em uma frase como Pedro bebeu uma garrafa inteira sozinho que não significa literalmente que Pedro bebeu uma garrafa o que seria impossível em função da estrutura concreta desse objeto mas que ele bebeu o conteúdo da garrafa Essa relação de contiguidade ou proximidade objetiva entre o continente e seu conteúdo é de cunho metonímico e certamente reflete uma motivação de caráter semântico Em muitos casos a palavra é motivada tanto morfológica quanto seman ticamente Vemos isso em casos como o de pé de pato por exemplo que designa um tipo de calçado de borracha utilizado por nadadores e mergulhadores Nesse caso temos por um lado uma palavra composta de elementos mais básicos já existentes na língua e por outro uma relação de semelhança entre o formato do objeto e sua função com o pé do animal chamado pato É uma analogia semelhante à apresentada anteriormente por exemplo em pé de mesa Outros exemplos de palavras motivadas morfológica e sintaticamente são pé de cabra tipo de alavanca de ferro semelhante a uma pata de cabra matacachorro parte da motocicleta que se coloca abaixo do guidom para proteger o motor entre outras Entretanto cabe registrar que esses casos de motivação são considerados arbitrários por Saussure e seus seguidores Em primeiro lugar porque são formados por elementos já existentes na língua que são arbitrários No caso da palavra pé de pato embora expressão seja motivada as palavras pé e pato que a compõem são individualmente arbitrárias ou seja não têm uma origem reconhecível a partir de sua própria estrutura Outro raciocínio normalmente utilizado para argumentar em favor do caráter arbitrário dessas palavras relacionase à casualidade de sua formação Um termo como apagador tem um certo grau de arbitrariedade já que o falante para designar o mesmo objeto poderia se valer de outros elementos formando palavras como por exemplo limpador ou apagante Ou seja embora utilizemos elementos já existentes na língua nós escolhemos esses elementos de modo arbitrário Segundo a visão estruturalista até mesmo as onomatopéias são arbitrárias Comparar onomatopéias em línguas diferentes fornece um bom argumento a favor dessa posição O canto do galo é representado em português pelo vocábulo cocorocó em inglês por cockadoodledoo em alemão por kikeriki palavras não tão iguais entre si Para designar o som de volume baixo o português criou a onomatopéia sussurrar que corresponde à onomatopéia do inglês whisper e à do alemão flüstern Ou seja casos como esses sugerem que mesmo com a imitação do som característica da onomatopéia há um nível de arbitrariedade na formação da estrutura sonora da palavra Podemos concluir então que as noções de arbitrariedade e de motivação ou iconicidade não são exclusivas ou seja não constituem antônimos mas antes visões diferentes de um mesmo fenômeno A noção de arbitrariedade observa exclusivamente a relação existente entre o som e o sentido da palavra já a noção de motivação ou iconicidade leva em conta o fato de o falante de algum modo fazer corresponder a forma da palavra com o significado que ela expressa Com o advento da lingüística funcional e dos princípios teóricos que caracterizam a lingüística cognitiva as questões relativas à discussão arbitrariedade iconicidade ganham novos contornos já que a língua deixa de ser observada apenas como uma estrutura e passa a ser analisada como o reflexo do comportamento de seus usuários em situações reais de comunicação postura metodológica que não era adotada na lingüística estrutural A visão saussuriana que foca apenas a relação entre um som e um sentido já prontos no sistema sincrônico da língua estático por natureza dá lugar a uma concepção mais dinâmica segundo a qual a linguagem funciona como um elemento criador de significação nos diferentes contextos de uso Assim passase a observar não apenas a palavra ou a frase mas o texto o qual reflete um conjunto complexo de atividades comunicativas sociais e cognitivas6 Nessa nova perspectiva a linguagem longe de ser um conhecimento fechado como propõe a visão saussuriana constitui o reflexo de processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem significados adaptandoos a diferentes situações de interação com outros indivíduos E interessante nos demorarmos um pouco mais no aspecto dinâmico que essa nova concepção confere à linguagem O uso da língua nas situações reais de comunicação sugere que estamos constantemente adaptando as estruturas lingüísticas para se tornarem mais expressivas nos contextos em que as empregamos Isso ocorre porque por um lado as formas muito freqüentes na língua acabam perdendo seu grau de novidade ou seja sua expressividade Por outro lado o homem muda e com ele muda também o ambiente social que o cerca Assim surgem novas tecnologias novas profissões e novas relações sociais o que faz com que os falantes busquem novos meios de rotular esses novos conceitos Mas essa dinâmica das línguas não se dá de qualquer maneira ou seja a criatividade que caracteriza o ato comunicativo não é movida por meros artifícios arbitrários de que os falantes lançam mão porque acidentalmente lhes vieram à cabeça Ao contrário parece que esse processo adaptativo é veiculado por determinados mecanismos básicos que refletem a natureza de nossa inteligência e o modo como ela regula nossa vida social Isso sugere que há muito mais motivação ou iconicidade nas línguas do que se poderia inicialmente imaginar Assim após a criação do elevador por exemplo a palavra mais comumente utilizada para designar o ato de apertar o botão para que o elevador chegue ao andar em que estamos foi o verbo chamar Isso reflete uma analogia entre um processo comum no nosso dia a dia que é o ato de chamar uma determinada pessoa e a ação de apertar o botão a fim de que o elevador venha até nós Esse processo analógico em que transferimos determinados dados de um domínio de significação para outro se identifica com o que chamamos de metáfora Foi principalmente com Lakoff e Johnson 2002 que a metáfora assim como a metonímia passou a ser vista não como um mero recurso poético ou estético como se pensava tradicionalmente mas como um mecanismo que desempenha um papel central na definição da nossa realidade cotidiana já que reflete o modo como pensamos ou experienciamos na nossa vida diária Ou seja é da natureza essencial do nosso sistema conceptual compreender e experienciar uma coisa em termos de outra Segundo os autores as metáforas estruturam tudo o que percebemos do mundo e também o modo como nos relacionamos com outras pessoas compartilhando um mesmo sistema conceptual ou seja adotando um mesmo conjunto de interpretações acerca da realidade que nos cerca Dados referentes a diferentes línguas sugerem que a maior parte de nosso sistema conceptual é de natureza metafórica Um dos exemplos apresentados pelos autores de como isso se dá é o fato de que nos habituamos por exemplo a pensar em nossa mente às vezes representada pela palavra cabeça como um recipiente ou seja algo concreto capaz de conter alguma coisa dentro de si Isso pode à primeira vista parecer muito estranho mas na verdade essa metáfora é altamente produtiva e não apenas no português Frases como Minha mente está cheia de idéias e Não consigo tirar esse filme da minha cabeça só são possíveis em função dessa metáfora Ê claro que de modo semelhante dentro desse recipiente que representa de modo metafórico nossa mente colocamse idéias ou conhecimentos os quais são normalmente metaforizados como objetos como sugere a frase Quem colocou essas idéias na sua cabeça entre muitas outras Os processos metafóricos estão presentes nas línguas naturais de um modo geral e constituem portanto uma estratégia cognitiva que permite nosso pensamento navegar por conceitos abstratos Mais do que isso mecanismos desse tipo têm se mostrado fundamentais na criação de palavras para designar novos conceitos Por isso não podem deixar de ser apresentados como fortes fatores motivadores da estrutura da língua Muitos trabalhos em funcionalismo procuram descrever o modo como as pessoas adquirem rótulos para conceitos para os quais ainda não há designação em uma determinada língua ou para os quais há necessidade de uma nova designação Há várias maneiras de se fazer isso e algumas delas estão apresentadas a seguir a inventar uma nova palavra criando de modo inteiramente arbitrário uma estrutura sonora diferente b tomar emprestado de outros dialetos ou de outras línguas7 c criar palavras pelos processos associados ao fenômeno da motivação Ocorre que a opção apresentada no item a é dificilmente usada em função de sua pouca funcionalidade A estratégia apresentada em b é muito comum especialmente em casos em que a coisa designada provém de outro país futebol proveniente de football esporte surgido na Inglaterra ou de outra região acarajé bolinho da culinária baiana A opção expressa em c é a mais produtiva das três imitar o som da coisa designada e sobretudo usar elementos que existem na língua para forj ar a nova palavra oferece menor custo cognitivo para o falante que utiliza o que lhe está disponível assim como para o ouvinte que se vale de seu conhecimento desses elementos preexistentes na língua para melhor inferir o significado da palavra nova Esse processo reflete o princípio apresentado por Werner e Kaplan 1963 chamado princípio da exploração de velhos meios para novas funções conceitos concretos são empregados para descrever fenômenos menos concretos e mais difíceis de serem conceptualizados Ou seja entidades concretas perceptíveis pelos nossos sentidos corporais e portanto mais claramente delineadas e estruturadas servem de base para a nossa compreensão de idéias abstratas sensações e de um modo geral experiências não físicas que por sua natureza mental ou sensorial são mais difíceis de serem conceptualizadas Heine 1991 argumenta que esse processo de extensão semântica apresenta certa regularidade e propõe uma escala que a indique PESSOA OBJETO ATIVIDADE ESPAÇO TEMPO QUALIDADE Os elementos dessa escala apresentam grau crescente de abstratividade e constituem entidades prototípicas que representam domínios de conceptualização importantes para a estruturação de nossa experiência É claro que essa escala deve ser vista como um conjunto muito geral de domínios da experiência e como um reflexo de tendências igualmente gerais Ou seja não devemos inferir que o elemento lingüístico precise cumprir todo o caminho proposto na escala apresentando cada sentido partindo da PESSOA até chegar a QUALIDADE mas sim que um dado relativo a qualquer desses domínios da trajetória pode ser utilizado para expressar qualquer outra entidade à sua direita Sendo assim devemos compreender essa trajetória escalar como um grupo de extensões semânticas básicas e tratála mais como um caminho padrão do que como um processo que não admite exceções Estabelecido o aspecto generalizante dessa escala falemos um pouco mais sobre ela Há três coisas que precisamos ter sempre em mente A primeira é que a relação entre suas entidades é metafórica por natureza ou seja tende a haver uma transferência semântica de um elemento para o outro metáfora objeto para espaço espaço para tempo entre outras A segunda diz respeito ao fato de que essa escala se apresenta como unidirecional partindo daquilo que é mais próximo e mais definido para o ser humano que é seu próprio corpo PESSOA para a designação de elementos concretos do mundo real OBJETO e progredindo em direção à expressão de categorias cada vez mais abstratas ATIVIDADE ESPAÇO TEMPO e QUALIDADE Essa unidirecionalidade deve ser entendida como uma forte tendência de os dados mais concretos serem utilizados para categorizar entidades mais vagas e abstratas e não o contrário8 A terceira é que essa escala tem um caráter translinguístico ou seja não se manifesta apenas no português constituindo um fenômeno inerente às línguas naturais o que por hipótese se explica pelo fato de ser ela o reflexo da atuação de nossa capacidade cognitiva Vejamos alguns exemplos de como essas trajetórias se dão em português Palavras que indicam partes do corpo como braço por exemplo podem passar a designar a um objeto como em braço da cadeira o mesmo ocorre em pé de mesa dentes da serra orelhão etc b uma atividade como em braçada o mesmo ocorre em pernada mani pulação etc c uma medida de espaço como em uma braça o mesmo ocorre em pé pole gada etc9 d uma qualidade como em Ele é meu braço direito o mesmo ocorre em péfrio azarado mãoaberta esbanjador generoso perna de pau mau jogador etc Do mesmo modo palavras que designam noções espaciais como atrás por exemplo atrás da casa podem passar a designar a noções temporais como em duas horas atrás o mesmo ocorre com os elementos originariamente espaciais antes e depois antesdepois da esquina antesdepois da hora etc b qualidades como em Suas idéias são atrasadas o mesmo ocorre com retardado estar à frente de sua época etc Para frisar que essas relações não existem apenas em língua portuguesa vejamos alguns casos de transferência de espaço para tempo em algumas outras línguas Em espanhol temos después de La esquina depois da esquina valor espacial de después ao lado de dos anos después dois anos depois valor temporal de después Em francês temos aprés le coin de La rue depois da esquina valor espacial de après ao lado de palavras como aprèsmidi à tarde ou seja depois do meiodia e aprésdemain depois de amanhã que exemplificam o uso da palavra espacial après com valor temporal O mesmo ocorre com o termo inglês after The hotel is locatedafter third trajftc light O hotel se localiza depois do terceiro sinal de trânsito valor espacial de after coexiste com expressões do tipo the day after o dia seguinte valor temporal de after Desse modo quando observamos a gênese dos elementos lingüísticos notamos que para criar termos novos a fim de designar novos objetos ou novas formas de relação social o falante não inventa uma palavra criando a partir do nada uma estrutura sonora diferente Ao contrário sua tendência é utilizar elementos já existentes em sua língua ou pelo menos pegar emprestado um termo de outra língua ou dialeto O que muitas vezes ocorre com as palavras aparentemente imotivadas ou arbitrárias ou seja aquelas cujo sentido não pode ser previsto a partir de sua estrutura é que sua motivação se perde com o tempo A dinâmica da comunicação vai fazendo com que as palavras tenham sua estrutura e seu sentido modificados e nesse processo os falantes vão perdendo consciência das origens dos vocábulos e das expressões Alguns exemplos são interessantes nesse sentido A palavra portuguesa pensar que hoje designa o ato abstrato de organizar as idéias provém do latim pensare que significava basicamente suspender pesar A analogia entre o ato de pensar e o de pesar as informações ou as idéias certamente não é estranha para nós mas se perdeu no labirinto do tempo de modo que o falante atual utiliza o verbo pensar como uma forma não motivada Casos como esses sugerem que a iconicidade entendida como uma motivação entre forma e sentido está bastante presente nas línguas naturais Como os estudos funcionalistas contrariamente aos estudos formalistas privilegiam a função sobre a forma observando a língua do ponto de vista do contexto lingüístico e da situação extralinguística o princípio de iconicidade tornouse fundamental para a observação e interpretação da relação entre forma e função e para a concepção de gramática das línguas Sendo assim a iconicidade não se manifesta apenas na relação entre a forma e o sentido das palavras mas também na estrutura da frase ou mesmo do texto Bolinger 1977 considerado o precursor do funcionalismo norteamericano foi um dos primeiros a repensar a noção de iconicidade do ponto de vista da função comunicativa que cada forma desempenha Ele postulou que a condição natural da língua é preservar uma forma para um sentido e um sentido para uma forma Isso vale também para a existência de mais de uma forma para indicar o mesmo sentido que segundo o autor constitui uma situação muito improvável Assim morrer falecer partir desta para melhor e bater as botas embora aparentemente designem o mesmo processo não são empregados indiferentemente em situações distintas de comunicação porque na verdade não têm exatamente o mesmo valor ninguém em sã consciência vai informar a um amigo a morte repentina e trágica de sua mãe dizendo Sua mãe bateu as botas Isso demonstra que não há nas línguas sinônimos verdadeiros ou nos termos de Bolinger duas formas com a mesma função Os elementos da língua têm um histórico de usos de modo que uma expressão como bateu as botas é normalmente empregada em situações de pouca seriedade que envolvem normalmente um fator de ironia ou pelo menos de brincadeira Por isso ela não é empregada no contexto descrito anteriormente No nível da frase essas questões associadas à iconicidade também entram em jogo Vejamos as duas frases a seguir a Eu já vi esse filme b Esse filme eu já vi Essas duas frases embora aparentemente tenham o mesmo valor semântico são diferentes do pronto de vista pragmático ou seja de um modo geral não são ditas nos mesmos contextos comunicativos O exemplo b em que o objeto direto esse filme está anteposto ao verbo reflete uma estrutura típica de uma situação em que a informação por ele expressa é conhecida ou seja já foi mencionada anteriormente Não é raro inclusive que na continuidade do discurso esse elemento funcione como tópico ou assunto do qual se está falando aparecendo no início de várias orações em seqüência Quanto ao seu grau de informatividade os elementos da língua se apresentam de modo distinto em diferentes situações O fato de um elemento constituir uma informação conhecida em um determinado contexto de comunicação atribui a ele determinadas características formais No caso do exemplo anterior o elemento vai para o início da frase já que constitui o tópico ou assunto sobre o qual se está falando Essa estrutura portanto não se dá de forma casual ou arbitrária mas é motivada pelo valor informacional que seus elementos apresentam no contexto de uso Esse fenômeno é caracterizado por Givón 1990 como o subprincípio icônico da relação entre ordem seqüencial e topicalidade ver o capítulo Funcionalismo que prevê uma conexão entre o tipo de informação veiculada por um elemento da frase e a ordenação que ele assume nessa frase No que diz respeito à ordenação dos elementos Givón 1990 demonstrou também que em uma narrativa a seqüência de eventos não se dá de forma casual ou arbitrária mas é motivada pela seqüência em que os fatos ocorreram na realidade Desse modo uma seqüência como Cheguei em casa jantei fui para cama e dormi reflete a ordenação real dos fatos não podendo portanto ser alterada sob pena de se obter um outro sentido ou uma frase sem sentido Essa relação entre a ordem das orações no período e a seqüência em que ocorreram na realidade corresponde ao que Givón chama de subprincípio da ordenação linear Outro subprincípio icônico formulado por Givón 1990 é chamado de subprin cípio da quantidade segundo o qual quanto maior a quantidade de informação maior será a quantidade da forma de tal modo que a estrutura de uma construção gramatical indica a estrutura do conceito que ela expressa E o que ocorre no exemplo abaixo retirado do corpus Discurso Gramática10 que apresenta a repetição do verbo rodar Quando eu era pequena eu ficava brincando com aqueles disquinho que era aí eu amarrei fiquei rodando rodando rodando aí fiquei tonta Nesse exemplo a iconicidade se manifesta na relação entre a quantidade de tempo que a informante ficou rodando e a quantidade de material lingüístico que ela utilizou para indicar isso ela repete o verbo rodar em fiquei rodando rodando rodando Isso não apenas traduz com realismo e dinamismo a experiência vivida pela informante como sobretudo reflete uma relação de motivação entre o sentido quantidadetempo associados ao ato de rodar e a forma a repetição do verbo que expressa esse ato Há ainda mais um fenômeno relacionado à iconicidade segundo Givón que está associado ao chamado subprincípio da proximidade Segundo esse subprincípio o que está mais próximo no campo do sentido se mantém mais próximo na forma Ou seja o fato de as entidades estarem próximas funcional conceptual ou cognitivamente motiva os falantes a colocarem os termos designativos dessas entidades próximos no nível da frase Esse talvez seja o subprincípio mais difícil de ser compreendido e se refere entre outras coisas a uma tendência geral de manter os modificadores restritivos perto do seu núcleo nominal e de colocar um sintagma nominal sob um contorno entoacional unificado Isso explicaria por exemplo o fato de os adjetivos estarem sempre ao lado dos substantivos a que se referem como por exemplo no sintagma nominal calça curta Ao conceptualizarmos a entidade calça automaticamente registramos seu tamanho uma característica inerente à calça que estamos querendo expressar Se esses conceitos a entidade e seu tamanho estão próximos em nossa concepção não é estranho que ao falarmos sobre eles coloquemos lado a lado na frase os termos que os designam aquele que indica sua essência como ser o substantivo e aquele que o individualiza em relação a outros do mesmo tipo o adjetivo Essas questões que desenvolvemos neste capítulo nos mostram que as discussões que envolvem as noções de arbitrariedade e iconicidade são bastante complexas e estão longe de refletir um consenso entre os cientistas Elas não se limitam à realidade restrita ou à relação entre o som e o sentido das palavras abrangendo questões muito mais profundas como De que forma o homem codifica o universo à sua volta Qual a relação entre a mente humana e a linguagem e entre esta e a cultura Épossível analisar a linguagem sem levar em conta os aspectos associados ao seu uso em situações concretas de comunicação No curso da história dos estudos da linguagem várias correntes trouxeram visões diferentes acerca do assunto que com o desenvolvimento das pesquisas foram sendo ora abandonadas ora retomadas Este capítulo portanto trouxe algumas informações relacionadas a uma antiga polêmica que por não ter sido ainda solucionada de modo definitivo se apresenta como um tema fascinante aos olhos dos cientistas interessados em compreender o funcionamento da linguagem e da cognição humana Exercícios 1 De que modo os dados apresentados abaixo podem constituir argumento favorável à proposta de Saussure de que o signo lingüístico é arbitrário luva glove gant 2 Durante a Copa do Mundo em 2002 quando o Brasil foi pentacampeão foi publicada uma tirinha cujos personagens exclamavam English Go Go Brasil Gol Gol Podese dizer que este é um caso em que o princípio de arbitrariedade está em jogo Justifique sua resposta 3 O fato de que a cor preta representa luto no ocidente pode ser caracterizado como um símbolo Justifique 4 Defina os três casos de motivação e apresente pelo menos um exemplo de cada um deles 5 O uso da palavra angústia apresentado a seguir pode constituir um caso de perda de motivação conseqüente do passar do tempo Justifique sua resposta A palavra angústia hoje designativa de um sentimento de ansiedade ou aflição intensa provém do latim angustia cujo sentido primeiro era mais concreto espaço apertado estreiteza desfiladeiro 6 Com base nos exemplos em português e inglês que seguem faça um comentário acerca do caráter translinguístico da relação entre a expressão de noções espaciais e noções temporais a Em português Minha casa fica logo depois da padaria Cheguei em casa logo depois das sete horas b Em inglês The hotel is located after third traffic light Two years after the 11 March 2004 terrorist attacks in Madrid 7 A frase abaixo apresenta um recurso muito comum na fala coloquial de repetir uma palavra muitas vezes um adjetivo para intensificar o seu valor Esse fenômeno pode ser explicado por algum dos três subprincípios de iconicidade Justifique sua resposta O filme é lindo lindo lindo Notas 1 O termo semiologia está relacionado à tradição saussuriana constituindo uma tradução do francês sémiobgie Já o termo semiótica do inglês semiotics está associado ao trabalho desenvolvido nos Estados Unidos por Peirce Peça de vestuário que se ajusta à mão e aos dedos funcionando como agasalho adorno ou forma de higiene Termo proveniente do grego eikón que significa imagem Com a evolução dos estudos lingüísticos e o surgimento do funcionalismo e da lingüística cognitiva ver capítulos Funcionalismo e Lingüística cognitiva na segunda metade da década de 1970 o papel da noção de iconicidade na língua voltou a ganhar destaque Saussure evitou o termo símbolo já que este tem como característica não ser completamente arbitrário Catacrese é um termo tradicionalmente empregado para designar um tipo de metáfora já fossilizada na língua e que representa segundo alguns autores mais puristas uma relação de semelhança abusiva representada normalmente por casos como cabeça de alfinete embarcar no trem aterrissar em alto mar além dos apresentados neste texto O termo cognitivo está associado aos aspectos do funcionamento da mente que permitem ao homem construir armazenar e partilhar conhecimento A utilização de elementos de línguas antigas como o latim ou o grego clássico está prevista nessa opção As línguas exibem exceções a essa unidirecionalidade como o caso da palavra abstrata sonho que passa a designar um tipo de pão doce um conceito concreto Mas em termos estatísticos os casos de exceção são de um modo geral pouco expressivos Braça que é um termo proveniente do latim bracchia plural de bracchiu braço e pé designam antigas unidades de medida de comprimento O mesmo ocorre com polegada medida de comprimento aproximadamente igual ao do comprimento da segunda falange do polegar Conjunto de entrevistas gravadas por falantes do Rio de Janeiro de Niterói de Natal de Juiz de Fora e do Rio Grande organizado por pesquisadores do Grupo de Estudos Discurso Gramática formado por professores da UFRJ d a UFF e d a UFRN Motivações pragmáticas Victoria Wilson As discussões teóricas na lingüística giram em torno de dois pontos fundamentais dos quais derivam as escolas lingüísticas a concepção de língua e linguagem e a perspectiva que o pesquisador adota em relação ao seu objeto de estudo Dependendo do modo como os estudiosos concebem a língua surge uma teoria e um método equivalente e adequado para explicar seu funcionamento sua organização sua estrutura e as possíveis relações da língua com outros elementos internos ou externos ao sistema lingüístico A partir do século xx depois da publicação do Curso de lingüística geral de Ferdinand de Saussure podemos afirmar que as pesquisas lingüísticas se dividem em dois grandes polos o polo formalista e o polo funcionalista O primeiro dá ênfase à forma lingüística isto é à idéia de língua como sistema e estrutura A língua é entendida como um objeto autônomo independente das intenções de uso e da situação comunicativa Embora Saussure compreenda a língua em sua dimensão social como um sistema de signos que é ao mesmo tempo produto social da faculdade da linguagem e de um conjunto de convenções adotadas pela comunidade essa dimensão só se infiltra mesmo na sua contraparte a parole isto é a fala Esta corresponde à parte individual e concreta da língua e é conforme Saussure acidental e acessória Seguindo a tendência formalista da língua introduzse a teoria desenvolvida por Noam Chomsky que privilegia a competência lingüística ou gramatical sobre o desempenho performance e que supõe um falante e um ouvinte ideais numa comunidade lingüística homogênea Isso significa que tudo o que diz respeito à heterogeneidade da língua fica restrito a outro âmbito o de sua realização que corresponde à noção de desempenho performance Apesar de mais tarde Chomsky considerar ao lado da competência gramatical a competência pragmática isto é aquela que contempla o conhecimento das condições de uso da língua a noção de comportamento lingüístico é desvinculada das relações entre língua e sociedade Segundo Papi 1996 89 a competência pragmática advogada por Chomsky ainda se mantém no plano da idealização porque se situa no mesmo plano das estruturas mentais hipotéticas independentemente dos usos dessas estruturas em circunstâncias comunicativas ou interativas concretas A segunda tendência que vai em direção ao paradigma funcional se dá no momento em que o enfoque sobre a língua é tomado numa perspectiva sociointeracionista e funcional Esse novo enfoque busca observar as condições de uso da língua em situações reais de comunicação ou seja o momento em que se põe em evidência a chamada competência comunicativa ou pragmática considerando agora as relações entre forma e função entre os fatores gramaticais e os sociais Dentro desse paradigma estão as seguintes escolas da lingüística a sociolinguística a sociolinguística interacional o funcionalismo a lingüística sociocognitiva a análise do discurso a pragmática entre outras Cada uma delas a seu modo ou seja de acordo com seus modelos teóricos e metodológicos considera a língua em uso observando os fenômenos de variação e mudança lingüísticas as interações face a face e de outros tipos entre falante e ouvinte as influências sociais e psicossociais na estrutura da língua a ideologia e a construção da subjetividade os atos de fala no lugar de frases e sentenças verdadeiras e gramaticais as implicaturas conversacionais entre outros fatores Dáse relevo agora à fala ou ao discurso e a noção de falante e ouvinte ideais é substituída pela de falante e ouvinte reais ou seja interlocutores inseridos num tempo e num espaço determinados Mas o que seriam propriamente as motivações pragmáticas As investigações mais recentes na formulação de uma teoria pragmática se movem em duas direções ambas centradas no uso Há várias definições de uso assim como há inúmeras para o termo pragmática A pragmática lingüística está afiliada à filosofia mais precisamente à filosofia da linguagem ao pragmatismo filosófico e à semiótica nasce com a idéia de signo ou melhor das relações que os signos estabelecem em vários âmbitos Dessas relações originaramse três vertentes a semântica que estuda a relação dos signos com os objetos a sintática que estuda a relações dos signos entre si e a pragmática que estuda a relação dos signos com os intérpretes a dimensão pragmática da semiótica Se há signos que não se referem a ou denotam objetos o que fazer para compreendêlos De modo semelhante como também há signos que numa classificação da gramática tradicional podem ser considerados pertencentes a uma determinada classe gramatical mas em contextos específicos exercem função diferenciada como fazer para entendêlos Então o contexto extralinguístico os fatores socioeconômicos culturais e afetivos envolvidos na comunicação e o modo como os participantes desse contexto estabelecem a interação constituirão elementoschave para a abordagem de natureza pragmática A noção do significado como uso nasce com Wittgenstein filósofo alemão que rompe com a concepção tradicional de que a língua tem a função de designar seres para Motivações pragmáticas 89 ele é a língua que cria os objetos e o significado da palavra está associado ao uso da língua que por sua vez é socialmente coordenado e regulado São pertinentes aqui as palavras de Marcondes 1992 41 para entendermos as relações entre significado uso e pragmática Quando a linguagem é adquirida o que se adquire não é pura e simplesmente uma língua com suas regras especificamente lingüísticas mas todo um sistema de práticas e valores crenças e interesses a ele associados É neste sentido que podemos falar da aquisição de uma pragmática Portanto a pragmática lingüística deve muito às contribuições filosóficas no que concerne aos problemas relacionados aos componentes semânticos e pragmáticos do significado A teoria dos atos de fala oriunda da filosofia da linguagem é um modelo teórico desenvolvido dentro do campo de investigação da pragmática conforme será apresentado neste capítulo Mas assim como a filosofia a pragmática também recebeu contribuições importantes da antropologia da psicologia da sociologia da sociolinguística Estudiosos como Basil Bernstein William Labov Charles Fergusson John Gumperz e Dell Hymes desenvolveram vários trabalhos sobre a variabilidade lingüística e o uso da língua em contextos reais de comunicação que constituem um dos enfoques teóricos de estudo da pragmática Na perspectiva do comportamento verbal e da interação a importante contribuição de Erving Goffman na linha da etnografia da fala resultou no advento da teoria da polidez introduzida por Brown e Levinson 1987 e na Análise da Conversação Sacks e Schegloff como campos de investigação da pragmática no sentido de estudar o significado em situações de interação que também serão contemplados neste capítulo Esse panorama leva a concluir o quanto a pragmática se constitui em uma área ampla e diversificada adquirindo várias acepções conforme o enfoque adotado Yule 1996 por exemplo apresenta as seguintes definições a pragmática é o estudo do significado sob o ponto de vista do falante b pragmática é o estudo do significado contextual isto é leva em conta o modo como os falantes organizam seus enunciados aquilo que eles querem dizer de acordo com os seguintes fatores a quem vão dizer como vão dizer onde e quando vão dizer e sob que circunstâncias c pragmática é o estudo do como se diz além daquilo que é dito isto é o estudo do significado subjacente do não dito d pragmática é o estudo da expressão da proximidadedistanciamento relativo isto é de acordo com o tipo de proximidade física social ou conceituai em relação aos ouvintes os falantes determinam como e quanto precisam dizer Com base nessas definições é possível afirmar que a pragmática pode ser entendida como a teoria do uso lingüístico distinguindose radicalmente do chamado polo formalista da língua A concepção de competência gramatical pautada no conceito ideal e abstrato da língua e dos indivíduos que a falam é substituída pela dimensão social do uso lingüístico Desenvolvemse então estudos no âmbito da competência comunicativa e no da competência pragmática de que fazem parte fatores extralinguísticos como o contexto situacional os participantes da cena comunicativa o conhecimento das normas e convenções lingüísticas e sociais pertinentes ao contexto em questão a atribuição de papéis e as funções de cada um dos envolvidos Enfim o estado atual da pragmática reconhece o uso da língua e o modo como ela é empregada na interação verbal não estabelecendo a dicotomia entre o que é interno e externo à língua Essa perspectiva compreende tanto a estabilidade e regularidade do comportamento social e lingüístico padrões crenças e convenções como as tensões as controvérsias e as rupturas Neste capítulo serão apresentados alguns estudos da pragmática tais como as implicaturas conversacionais a teoria dos atos de fala a teoria da polidez e a análise da conversação Implicaturas conversacionais As implicaturas conversacionais constituem um dos mais importantes estudos que exerceram influência decisiva para o desenvolvimento da pragmática Cabe ao filósofo americano H P Grice cujos estudos datam de 1957 e que foram revisados em 1975 as noções de implicatura e o estabelecimento de princípios que regem a comunicação Grice distinguiu dois tipos de implicaturas As convencionais são as implicaturas cuja significação é gerada internamente isto é dentro do sistema lingüístico na frase Apesar de fanfarrão ele é um bom jogador de futebol por exemplo a locução conjuntiva apesar de provoca as relações de sentido entre uma oração e outra no caso uma relação de concessão Já as implicaturas conversacionais estão mais ligadas ao contexto extralinguístico Refletindo sobre este segundo tipo de implicatura Grice criou os princípios de cooperação e as máximas conversacionais Para ele nem sempre o que se diz corresponde à realidade ou é realmente aquilo que se quer dizer donde a importância de se recorrer nestes casos ao contexto comunicativo o significado é obtido então por meio de uma implicatura isto é do resultado da adesão ao princípio de cooperação que guiaria a interação verbal lingüística entre os indivíduos Então num diálogo como esse A Você vai ao cinema com a gente B Estou com dor de cabeça a resposta que a princípio parece inadequada é interpretada através de uma implicatura conversacional Para não dizer não explicitamente B optou por um outro tipo de resposta indireta mantendo o mesmo efeito negativo O princípio de cooperação é elaborado com base em uma fórmula geral e é assim posto faça a sua contribuição na conversação atendendo ao que é solicitado no momento exigido visando aos propósitos comuns e imediatos de forma conseqüente em relação aos compromissos conversacionais estabelecidos Desse princípio geral resultam quatro máximas 1 Máxima da quantidade seja informativo Na conversação coopere de modo a informar aquilo que está sendo requerido em função dos propósitos comunicativos Faça com que sua contribuição não seja mais informativa do que o exigido na situação 2 Máxima da qualidade seja verdadeiro Não diga aquilo que você considera falso Não diga nada que não possa ser comprovado ou para o qual você não possa fornecer evidência 3 Máxima da relação seja relevante 4 Máxima do modo seja claro Evite expressões ambíguas Evite expressões que possam obscurecer o significado Seja breve evite digressões desnecessárias Proceda de modo ordenado As máximas serão exemplificadas com base em exemplos reais de interação Será apresentada abaixo uma carta de reclamação escrita por um proprietário de imóvel residencial à empresa construtora Observe como o proprietário procede em sua reclamação e como as máximas foram contempladas Prezados Senhores Eu XX proprietário do apto 1004 situado à endereço do apto venho através da presente solicitar a V Sas que vistorie e conserte a pia da cozinha O serviço de vedação ao redor da cuba já foi feito há algum tempo atrás mas já está saindo tudo Certos de vossas atenções subscrevome Minha área está provocando uma infiltração do apto 904 há mais de 2 meses Eles já fizeram a reclamação por escrito Atenciosamente De acordo com a máxima da quantidade é necessário ser objetivo e bastante informativo não dizendo mais além do exigido Para fazer a reclamação sobre a pia da cozinha o proprietário limitouse a uma breve solicitação Eu venho através da presente solicitar a V Sas que vistorie e conserte a pia da cozinha A princípio o proprietário também respeitou a máxima da qualidade sendo verdadeiro e não inventando outros defeitos ou aumentando o problema apresentado Evitou ambigüidades e digressões mesmo porque nesse caso qualquer tipo de obscurecimento comprometeria a informação o que poderia levar a um não atendimento do pedidoreclamação por parte da empresa adequandose dessa forma à máxima do modo O serviço de vedação ao redor da cuba já foi feito há algum tempo atrás mas já está saindo tudo O remetente foi relevante no sentido de não dizer nada que segundo a ótica do consumidor não pudesse ser comprovado ou seja atendeu à máxima da relação e da qualidade também nesse caso no seguinte adendo da carta Minha área está provocando infiltração do apto 904 há mais de 2 meses Eles já fizeram a reclamação por escrito Uma das críticas feitas ao princípio de cooperação diz respeito ao fato de este oferecer uma interpretação idealizada das interações sociais não prevendo interações desarmônicas e confiituosas e ainda de que seus postulados e suas máximas estariam baseados no valor de verdade das proposições funcionando bem para atos de fala do tipo declarativos A carta que serviu de modelo para as máximas é predominantemente marcada pelo ato de fala expressivo que caracteriza a reclamação No entanto esse tipo de carta enquadrase num modelo bastante padronizado e formal atenuando todo o tipo de emoção mais forte e explícita no que toca à manifestação de insatisfação atendendo bem às máximas preconizadas por Grice Apesar de controvérsias a esse respeito a importância dos estudos de Grice aplicase não só ao falante como mero usuário da língua mas ao falante na condição de intérprete participante ativo das interações capaz inclusive de modificálas e conduzilas de acordo com seus propósitos eou com a interpretação dos significados que vai construindo ao longo das interações Essa dimensão é que se torna relevante porque coloca o aspecto criativo nas mãos do sujeito pessoa ao mesmo tempo em que recupera em novas bases a relação entre linguagem e conhecimento Teoria dos atos de fala De significativa importância para a pragmática é a teoria dos atos de fala Como o nome já sugere essa teoria considera as frases da língua como ações sobre o real de onde advém a concepção de atos de fala na perspectiva atribuída pelo seu precursor o filósofo inglês John Austin em seu livro Quando dizer éfazer Sob essa perspectiva quando falamos não fazemos apenas declarações mas fazemos coisas como ordenar perguntar pedir desculparnos lamentar rogar julgar reclamar etc Dessa forma Austin também rompe com a noção tradicional da semântica baseada nos valores de verdade e falsidade das sentenças ao introduzir o conceito de performativo Performativo é todo enunciado que realiza o ato que está sendo enunciado Assim se em eu ajoelho para rezar temos um enunciado que pode ser verdadeiro ou falso em ajoelhou tem que rezar está explícita a idéia de comprometimento do locutor com a ação ou melhor com as possíveis conseqüências do ato por ele realizado e não com a verdade ou falsidade do enunciado Para Austin dizer algo eqüivale a executar três atos simultâneos O ato locutório centrado no nível fonético sintático e de referência corresponde ao conteúdo lingüístico usado para dizer algo O ato ilocutório ato central para Austin uma vez que tem a chamada força performativa está associado ao modo de dizer algo e ao modo como esse dizer é recebido em função da força com que é proferido Corresponde ao ato efetuado ao se dizer algo E o ato perlocutório corresponde à indicação dos efeitos causados sobre o outro servindo a outros fins como influenciar o outro persuadilo a fazer algo causar um embaraço ou constrangimento etc Como exemplo destacamos um breve trecho de uma carta de reclamação cujo destinatário é uma empresa do ramo da construção civil a quem o enunciador se dirige Viemos por meio desta solicitar reparos na forração de gesso do teto da varanda Nesse excerto destacado podemos observar a presença do ato locutório quando o cliente faz uso do conteúdo lingüístico o ato ilocutório se faz presente na medida em que esse conteúdo lingüístico ou proposicional visa à obtenção de uma resposta do destinatário E o ato pode ser perlocutório porque além de uma resposta do destinatário o cliente solicita uma ação reparadora diante de um dano ocorrido o teto da varanda precisa de reparos Nem sempre os performativos estão explícitos e são representados pelos verbos no tempo pessoa e modo como ao se fazer um pedido e usar o verbo pedir ou solicitar fazer uma promessa e dizer eu prometo Há casos de performativos implícitos em que pedidos promessas ameaças reclamações e outras ações não são indicadas por verbos correspondentes exatamente às ações Na frase feita promessa é dívida por exemplo a ação de prometer e seu efeito de cumprir a promessa estão implícitos e indicados pelos nomes correspondentes Portanto há performativos puros em eu te batizo eu prometo que virei eu aceito seu convite assim como performativos implícitos como podemos ver no trecho da carta de reclamação apresentado ao pedir um reparo no teto da varanda o cliente também está fazendo uma reclamação A teoria dos atos de fala proposta por Austin abriu novos caminhos para a reflexão do papel das convenções e práticas sociais na constituição dos atos ilocucionários e consequentemente para a questão que envolve a ação e o sujeito que a enunciapratica Novos estudos foram realizados ampliando e reformulando a teoria de Austin É dentro dessa perspectiva que se insere a classificação dos atos ilocucionários em categorias ou tipos básicos elaborada por John Searle Searle em seu livro Speech Acts retoma questões importantes concernentes às tendências contemporâneas da filosofia da linguagem visando à construção de um ponto de vista lingüístico para a teoria dos atos de fala Esse autor adota o conceito de finalidade ilocutória para classificar os usos lingüísticos salientando que há um número limitado de coisas que fazemos com a linguagem e que podem ser simultâneas Para o autor falar uma língua é adaptar uma forma de comportamento regido por regras Searle 198133 Exemplificaremos esses usos e atos com excertos de propaganda e carta do Jornal do Brasii 1 Atos assertivos consistem no fato de dizermos às pessoas como as coisas são esse ato envolve o comprometimento do falante com a verdade da proposição Por exemplo É mais divertido ir e voltar O boomerangue é o ícone do consumo responsável 2 Atos diretivos consistem nas tentativas de levarmos as pessoas a fazer coisas as tentativas podem variar em grau de intensidade mais brandas como um convite uma sugestão ou mais enérgicas como uma ordem Por exemplo convidar sugerir aconselhar ordenar exigir etc Se beber não dirija Volte de táxi ou com o amigo da vez 3 Atos expressivos consistem na expressão de sentimentos e atitudes Por exemplo agradecer desculparse lamentarse etc E de cortar o coração saber que tantas mães não têm notícias de seus filhos que desapareceram por várias razões algumas desconhecidas trecho de carta Um absurdo o que vem acontecendo em relação a projetos para empreendimentos imobiliários trecho de carta 4 Atos comissivos consistem nos atos cujo efeito é produzir uma mudança por meio do que dizemos é o caso do convite e da promessa No exemplo abaixo o trecho em itálico representa a promessa feita pelo jornal aos seus leitores A cultura toma o poder Neste domingo o caderno B estará nas mãos de um novo editor 5 Atos declarativos requerem situações extralinguísticas para a sua atualização baseadas em instituições ocupadas por falantes e ouvintes São atos que podem promover uma mudança na realidade o que as distingue das demais categorias Incluemse entre os atos declarativos o ato de batizar o de fazer uma sentença judicial por exemplo Quando as declarações referemse à linguagem propriamente dita os verbos são eu defino eu nomeio eu abrevio Eu vos declaro marido e mulher Além da taxonomia para a classificação dos atos ilocutórios Searle chamou a atenção para a diferença entre ato ilocutório e força ilocutória ou ilocucional Ato ilocutório é o ato que corresponde às ações que podem ser realizadas força ilocutória ou ilocucional é o componente que determina a diferença entre um ato e outro o que traduz a particularidade de cada ato por exemplo o que faz do pedido ser um pedido e não uma reclamação é a força ilocucional que vai marcar a diferença Segundo Searle existe um marcador de força ilocucional que em português pode ser expresso nos seguintes processos a ordem das palavras o acento tônico a entoação a pontuação o modo do verbo e o uso dos verbos performativos Mas adverte o autor que freqüentemente nas situações concretas do discurso é o contexto que permitirá fixar a força ilocucional da enunciação sem que haja necessidade de recorrer ao marcador explícito apropriado Searle 1984 44 Mas para que um ato de fala seja eficaz é necessário que seja proferido dito executado de modo apropriado às circunstâncias o que deu origem às chamadas condições de felicidade ou sucesso e infelicidade fracasso dos atos de fala Vejamos os seguintes casos extraídos de cartas de leitores do jornal O Globo para observar as circunstâncias e as condições com que são proferidos Não creio que sejam necessários ao país tantos vereadores deputados senadores e o pior tantos assessores e funcionários à disposição dessa turma Para que servem Para dar nome de rua Para fingir que representam o povo Redução dessa turma de políticos já O Globo 100906 Com essa carta podemos destacar alguns aspectos referentes à força ilocucional Fica evidente a carga expressiva afetiva manifestada pelo sentimento de raiva e frustração do leitor cidadão diante do comportamento dos políticos a quem ele se refere como turma A força ilocucional da reclamação Fp em que F é o marcador da força e p o conteúdo da proposição no caso a reclamação se agrava a partir das indagações para que serve para dar nome de rua para fingir que representam o povo E por fim após o desabafo e a constatação da inutilidade de políticos como esses a ordem enunciada expressa não por um verbo mas pelo substantivo dele derivado redução e pelo advérbio modalizador já intensifica o grau de assertividade e imposição do ato São situações como essas que nos levam a concluir que os atos ilocucionais têm graus variados de força desempenhando funções diferentes e consequentemente agregando vários atos e conduzindo a múltiplas interpretações Para entendermos agora o sentido de um enunciado é preciso recorrer além do contexto lingüístico ao extralinguístico considerando quem diz quando diz para quem diz como diz Tratase de elementos circunstanciais que fazem parte de todo o contexto em que o enunciado está inscrito e que reunidos estruturam o seu sentido Além dessa contribuição para a teoria dos atos de fala Searle chama a atenção para outros aspectos em relação aos atos ilocutórios nem todos os atos de fala realizados expressam o significado pretendido pelo falante isto é é possível realizar atos de fala indiretos ou seja em que o falante pode expressar uma ordem por meio de uma pergunta pode fazer um pedido por meio de um desejo de um convite de uma interrogação e assim por diante Por exemplo se digo Está quente hoje não é é possível interpretar esse enunciado como um pedido para ligar o aparelho de ar condicionado ou como querendo dizer várias outras coisas dependendo do contexto De acordo com a tradição esse enunciado designa uma pergunta e poderia ser classificado como uma frase interrogativa Sob a perspectiva pragmática outras significações podem ser obtidas a partir da pergunta tais como a eu estou com calor b aqui do lugar de onde falo está quente c uma introdução para se dar início a uma conversação d um pedido indireto ao interlocutor em forma de pergunta para abrir a janela ligar o ventiladoraparelho de arcondicionado A utilização de atos de fala indiretos corresponde ao tipograu de força ilocucional marcado e ao tipo de interação estabelecido com o interlocutor em questão Derivase da indiretividade dos atos de fala a chamada teoria interacionista e decorrente da mesma a teoria da polidez também importante nos estudos da pragmática Por ora retomemos o que se entende por teoria interacionista dos atos de fala em contraste com a teoria clássica desenvolvida por Austin e Searle Para Marcondes a teoria clássica apesar de conceber a língua em seu aspecto dinâmico de ação parece não dar conta de modo satisfatório da noção de discurso Propõe esse autor Marcondes 1992 123 uma concepção dialógica do discurso em que cada ato de fala passe a ser considerado não isoladamente mas parte de uma troca lingüística um ato de entendimento mútuo A natureza dialógica da linguagem está em que cada ato de fala enquanto parte de um discurso é como um lance em um jogo sendo que cada falante supõe uma resposta como lance do interlocutor caracterizase como uma tomada de posição do falante em relação ao ouvinte Neste sentido cada ato de fala deve conter ao menos potencialmente os elementos de sua validação da possibilidade de justificarse É nesse processo interativo que se constitui a identidade do falante como sujeito lingüístico por meio de um jogo mútuo de autoreconhecimento em que cada participante ao dominar as regras convenções tornará seus atos de fala possíveis plausíveis satisfatórios e eficazes Várias questões como o número e o tipo de atos que se acham envolvidos numa situação particular o tipo de contexto que vai requerer do sujeito um domínio das regras e convenções competência pragmática para se ajustar a elas ou mesmo para rompêlas para exprimir seus sentimentos explicitamente ou não para omitilos reprimilos dissimulálos fazem parte do contexto dos atos de fala em processos interacionais Teorias da polidez O princípio da polidez introduzido por Brown e Levinson 1987 deriva dos trabalhos de E GofFman 1967 sobre face c do princípio da cooperação de Grice 1975 e será aqui apresentado ao lado de outros estudos sobre o mesmo fenômeno como parte de um dos campos de atuação da pragmática Como as pessoas se relacionam entre si As pessoas cooperam umas com as outras Evitam conflitos São solidárias Que regras ou princípios de comportamento atuam como reguladores da interação humana Como manter a solidariedade recíproca entre as pessoas numa interação Em que consistem tais regras ou princípios O que as pessoas realmente fazem em suas ações diárias na interação Perguntas como essas estão entre as preocupações básicas dos que estudam a polidez A polidez está associada aos processos de elaboração de face autoimagem pública dos indivíduos oriunda dos trabalhos sobre face de Erving Goffman e se caracteriza como recurso de dissimulação de afeto do tipo negativo Para Holanda 1995 147 a polidez é de algum modo organização de defesa ante a sociedade Detémse na parte exterior epidérmica do indivíduo podendo mesmo servir quando necessário de peça de resistência Eqüivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar inatas sua sensibilidade e suas emoções Em geral segundo os estudiosos da polidez as pessoas tendem a cooperar entre si para manter a face na interação agindo de modo a assegurar a autoimagem de todos os participantes Partindose desse princípio geral e universal de cooperação vários autores formularam algumas regras de conduta com base no tipo de interação observado e no tipo de cultura implicada Vamos apresentar algumas dessas regras segundo autores como Goffman Lakoff Brown e Levinson e Leech De certa forma todos esses autores objetivam determinar hipóteses e investigar as razões pelas quais as pessoas produzem estratégias a princípio universais embora também particulares a cada cultura na interação verbal Erving Goffman teve um papel fundamental no desenvolvimento dos estudos na pragmática Em meados dos anos 1950 elaborou um estudo de natureza sociológica sobre os elementos rituais na interação Nesse trabalho o autor introduz a noção de face como o valor social positivo que uma pessoa reclama para si mesma através daquilo que os outros presumem ser a linha por ela tomada durante um contato específico Face continua ele é uma imagem do self delineada em termos de atributos sociais aprovados Goffman 1980 77 Nessa perspectiva a face é construída pelo indivíduo e está associada às situações sociais e interacionais nas quais se manifestam determinadas habilidades ou condutas como polidez tato e diplomacia Há sempre um esforço por parte das pessoas em prol da preservação da face que se torna então condição da interação Esta por sua vez baseiase no princípio autorregulador voltado para o equilíbrio do ritual que deve ser perseguido pelos membros da sociedade por meio dos chamados processos corretivos Nesse sentido as ameaças à face são evitadas ou contornadas para que as pessoas atinjam seus objetivos mesmo que sejam motivadas por interesses distintos A elaboração da face é duplamente orientada em termos de uma face defensiva isto é constitui uma prática defensiva que procura salvar a própria face e uma face protetora que procura salvar a face do outro por meio do respeito da polidez da discrição e da cortesia Ou seja a preocupação com a própria face implica a preocupação com a face do outro Se pensarmos em situações de possível confronto como a reclamação por exemplo podemos perguntar o que leva a pessoa a reclamar Ou a reclamar usando estratégias diferenciadas Ou mesmo a não optar pela reclamação Certamente essa pessoa pensará na relação custobenefício na ocasião de reclamar Valerá mesmo a pena fazer uma reclamação O que é colocado em risco O que se ganha ou se perde em termos de face Ao agir desse modo a pessoa está preocupada com a sua própria face sua imagem pública positiva e também preocupada em não ferir ou ameaçar a face do outro dependendo da situação dos riscos e custos que isso envolveria para não ter depois a sua própria face atingida Goffman aponta o orgulho a honra e a dignidade como elementos mantenedores da face e da responsabilidade da pessoa ao passo que gafes insultos maliciosos e ofensas constituem atos de ameaça à face Mas ao se referir a ela Goffman está tratando da face social porque por mais pessoal que seja a face de um indivíduo ela está associada às regras e convenções da sociedade Como exemplo podemos citar atos de fala como pedidos Você poderia me informar as horas ou Que horas são por favor Toda vez que fazemos um pedido a alguém estamos ameaçando a face porque invadimos a privacidade da pessoa por isso em geral os pedidos são feitos de modo a atenuar o grau de ameaça à face do outro Um caso muito comum é aquele em que uma pessoa telefona para a outra para pedir algo depois de muito tempo sem contato Algumas pessoas fazem um enorme rodeio até chegar ao pedido propriamente dito outras já vão direto ao assunto Em ambos os casos a tentativa é de atenuar esse grau de imposição que pode ser agravado também em função daquilo que se pede Imagine o que você responderia e sentiria diante de uma situação como essa Marina eu vou viajar na semana que vem e sei que você tem uma máquina fotográfica digital Você se incomodaria de me emprestála Outros autores como Lakoff 1973 distinguem três regras de polidez não imponha dê opções faça A sentirse bem seja amigável Não imponha e dê opções são regras que se relacionam à polidez positiva A primeira não imponha referese ao grau de proximidadedistanciamento entre os interlocutores dependendo também do tipo de contexto em contextos formais o distanciamento é maior exigindo então uma atitude pouco ou não impositiva com o outro Vejamos um exemplo Como vai Como te enviei um email mas não sei se você recebeu envio outro morrendo de vergonha e me desculpando de antemão pela invasão e insistência Eu gostaria realmente de poder dar início ao meu trabalho por isso preciso da sua resposta Não quero te incomodar ou ser chata Além disso eu gostei tanto de trabalhar com vocês aí Foi um momento de muito encontro e muita importância para mim Reparem como o redator do email transcrito procurou ser o menos impositivo com o seu interlocutor resguardandoo de uma possível situação de constrangimento e ameaça Observem a preocupação com a face do outro pois se trata de um pedido semiformal e portanto de uma ação impositiva e de ameaça à face que requer do outro uma resposta e uma ação efetiva O modo como o emissor da mensagem se dirige ao seu interlocutor revela também a consciência a respeito da distância social e das relações de poder que os separa e os envolve Além disso o emissor parece bastante constrangido por ter de reiterar um pedido feito anteriormente o que agrava ainda mais o ato de ameaça à face e o leva a fazer uso de estratégias de polidez para mitigar a ameaça trecho em destaque A segunda regra dê opções sugere que o falante não deva parecer categórico assertivo demais procurando deixar o interlocutor o mais à vontade e livre possível para tomar decisões Vamos observar o caso abaixo Enfim querida amiga cá estou livre leve e solto Ao menos nestas duas semanas de férias Nosso lanche quem sabe é possível Como estão seus dias Engraçado tanto trabalho me dá uma urgência E você é uma delas beijo Z Reparem que se trata de um convite feito por alguém muito íntimo do emissor do email Apesar do grau de intimidade o convite é expresso por meio de uma pergunta nada retórica no caso nosso lanche quem sabe é possível Tal estratégia funciona como meio de minimizar o custo para o interlocutor com o objetivo de deixálo à vontade para responder e quem sabe aceitar o convite A terceira regra faça A sentirse bem seja amigável ao contrário da primeira sugere a aproximação entre os interlocutores é a regra da camaradagem em que o outro é tratado como igual dependerá também do contexto Vejamos como o exemplo abaixo retrata tipicamente uma conversa entre pessoas muito amigas com um grau alto de intimidade o que leva ao uso de uma linguagem bastante espontânea sem custos para o interlocutor e sem barreiras Bomdia Já aqui estou agarrada no computador insone e arrombada Acordei às 4 Fazer o quê Se ao menos a inspiração piasse por aqui Já abri a janela e tudo que entrou foram dois gatos Mó Te mando então Aline tão piedosa Beijos matinais e ainda reumáticos M PS E quando a tal festa Olha filha depois de tanto sururu de tantos e tão variados preparativos você me apareça por favor pelo menos com uma foto na coluna do Gilson Monteiro Tanto arrepio pra passar em brancas nuvens Nem pensar Nesse tipo de interação há apenas um desejo de compartilhar uma situação conversar sem demandas pedidos favores Não há nada que sugira ameaça à face ao contrário o PS ao final ainda sugere um conselho orientado para a face positiva do receptor da mensagem Vale lembrar porém que a aplicação das três regras está relacionada a fatores como poder distância social e cultura cada um deles determinando diferentes ordens de preferência em relação às regras donde se depreende como o princípio de polidez está sujeito à variação Dando seqüência aos trabalhos de face Brown e Levinson 1987 sistematizam os estudos sobre face na teoria da polidez Tomam o conceito de face como a autoimagem pública que qualquer indivíduo reclama para si e apresentam dois tipos de face que se relacionam face negativa reivindicação básica para a privacidade e a preservação pessoal isto é o desejo da não imposição que corresponde à polidez negativa e face positiva autoimagem positiva incluindo o desejo de ser apreciado e aprovado correspondendo à polidez positiva Impregnada de carga afetiva a face pode ser perdida mantida ou engrandecida em função de cada tipo de situação e está mais voltada às necessidades de face do outro raras são as circunstâncias em que as pessoas se preocupam com as suas próprias faces segundo os autores Mas como a elaboração da face na interação requer esforço permanente por parte das pessoas a polidez consiste exatamente nesse esforço de manter e reparar a face de si mesmo e do outro Em casos de ameaça à face caberá ao falante decidir se deve ou não realizar esse ato lançando mão de recursos que podem minimizálo Embora reconheçam que o conteúdo da face varie de cultura para cultura propondo modelos de caracterização de culturas de polidez positiva e culturas de polidez negativa por exemplo acreditam os autores que o conhecimento mútuo da autoimagem pública ou face dos indivíduos associado à necessidade social para se orientar na interação é universal O fenômeno da polidez em princípio universal parece dar conta não só das relações sociais que se estabelecem mas da maneira como elas ocorrem e se organizam Em termos práticos o que isso significa Vamos retornar ao contexto da reclamação que é propício à manifestação de emoções negativas pois toda reclamação implica a expressão de uma insatisfação Para os teóricos o princípio da polidez está associado ao ato de tornar possível a comunicação entre as partes potencialmente agressivas na tentativa de manutenção do equilíbrio social da cooperação a que Grice se referia Portanto assim como pedir e reivindicar reclamar envolve um custo para quem reclama e um custo para quem recebe a reclamação Tratase de um ato de imposição com um grau de ameaça à face do ouvinte que varia em termos da imposição do ato e do tipo de afeto expressos Como as pessoas agem nessa situação em relação à face envolvida Quais seriam as estratégias de polidez utilizadas nesse caso Vejamos alguns outros exemplos de cartas de reclamação de proprietários de imóveis residenciais direcionadas à empresa construtora 1 Modelo de carta com um grau mínimo de ameaça à face da empresa uso da polidez negativa Prezados Senhores Em recente manutenção realizada na fachada traseira do nome do edifício sito a endereço do edifício por equipe dessa Construtora um objeto se desprendeu do andaime impactando com um dos vidros da janela do quarto do meio provocando uma trinca Solicito suas providências no sentido da substituição do mesmo Sendo o que se apresenta para o momento e ao seu inteiro dispor para informes adicionais subscrevome Atenciosamente X Nessa carta o cliente opta por um discurso objetivo e impessoal peculiar a contextos que exigem formalidade e pouca ou nenhuma intimidade entre as partes A despersonalização associada à formalidade pode ser traduzida em termos da contenção afetiva em que o distanciamento implica simbolicamente a intenção da não confrontação logo um desejo de ser claro e não impositivo A opção pelo discurso neutro distante formal e impessoal ajustase a regras culturais e pragmáticas em situações de confronto há culturas que evitam a manifestação aberta de sentimentos Nesse caso o contexto pode ter influenciado a favor da contenção da expressão afetiva portanto usar uma estratégia de dissimulação eou omissão de sentimento diminui o grau de ameaça à face intrínseco ao ato de fala da reclamação cuja natureza está vinculada à manifestação de sentimentos de contrariedade desaprovação e insatisfação 2 Modelo de carta em que se apela para a face da empresa de forma ambivalente uso da polidez negativa e positiva Nós que confiamos na qualidade lisura e boa tradição da V empresa temos a mais absoluta certeza que ao receber mais uma vez estas reivindicações VS há de tomar as providências cabíveis enérgicas e breves Tratando de modo ambivalente os sentimentos positivos e negativos o cliente diante da incerteza de atendimento tenta ajustarse ao enquadre organizacional para alcançar seus objetivos aliando estratégias de polidez e atitudes cordiais positivas por meio de recursos lingüísticos tais como qualidade lisura e boa tradição da empresa e temos a mais absoluta certeza a atos de ameaça à face há de tomar as providências cabíveis enérgicas e breves A duplicidade lingüística e formal dos recursos empregados aliada à multiplicidade dos atos conduz à ambigüidade discursiva e indeterminação semântica no plano afetivointeracional A alternância de diferentes forças ilocucionárias modifica os efeitos que possam se tornar desagradáveis para o reclamado efeito perlocucionário alargando sua opção para atender satisfatoriamente ao cliente 3 Modelos de cartas em que o reclamante não tem mais nada a perder uso da impolidez são cartas de reiteração dos pedidos e os proprietários já estão esgotados com o descaso da empresa e com as conseqüências da falta de assistência e consideração Na balança custobenefício os reclamantes não temem a perda da face pois já perderam muito mais Estamos cansados deste atendimento por parte da nome da empresa e da qualidade da obra já tive minhas paredes quebradas por mais de 10 vezes fora outros problemas com um índice de reincidência de até 3 vezes tudo isto incompatível com o custo e com o padrão da unidade adquirida O cliente optou nessa carta por recursos de intensificação da força ilocucionária do ato de reclamar por meio de atos de ameaça à face positiva e negativa da empresa por estratégias de impolidez positiva e negativa e pela expressão aberta de hostilidade logo enfatizando e manifestando negativamente o afeto no processo de interação com a empresa As estratégias de polidez destinadas à preservação e à proteção das faces dos interlocutores e utilizadas para manter a harmonia social na interação foram negligenciadas pelo cliente uma vez que todos os seus esforços nesse sentido já haviam sido realizados Mesmo correndo o risco de não ser atendido a cultura brasileira é tradicional mente considerada uma cultura de não confrontação embora seja permeável à expressão de emoções o cliente em face da maximização dos custos não encontra outra saída a não ser manifestarse por meio de estratégias de impolidez e expressões de contrariedade desaprovação e hostilidade Em decorrência do rompimento do equilíbrio do ritual provocado pela empresa o cliente não teme perder a sua própria face nem destruir a face da empresa Portanto nem a opção por recursos que possam atenuar a força negativa do ato de fala ou que possam manter a interação num nível de cooperação e cordialidade são consideradas eficazes e produtivas nessa situação específica Nesses casos o reclamante leva sua ação às últimas conseqüências Culpeper 1996 constrói o princípio da impolidez baseado em Brown e Levinson argumentando que o comportamento impolido não deve ser considerado uma ação marginal desviante mas deve ser visto como representando uma importante função social Leech 1983 aprofundando os estudos de Brown e Levinson compreende a polidez em termos de adequação às normas de comportamento de uma determinada comunidade Segundo o autor o julgamento de um indivíduo quanto à polidez ou falta de polidez só é possível com base nas normas de um grupo social A polidez manifestase tanto no conteúdo da informação quanto no modo como as pessoas a administram Leech estabelece algumas máximas de polidez a saber 1 Máxima do tato a Minimize o custo do outro b Maximize o benefício do outro Como exemplo podemos pensar em situações do tipo Preciso te pedir um favor mas já até te adianto que não é nada demais nada que vá te tomar o teu tempo É o seguinte Outro exemplo pode ser visto na frase dita para um garçom Esta mesa está um pouco suja como uma forma indireta de pedir que ele a limpe 1 Máxima da generosidade a Minimize o benefício de si próprio b Maximize o custo a si próprio Como exemplo podemos pensar em uma pessoa querendo agradar a outra fazendo um favor mesmo que esteja sem disponibilidade para tal Posso sim vou trocar o presente para você 1 Máxima da aprovação a Minimize a aprovação do outro b Maximize a honra do outro Como exemplo podemos ler o trecho abaixo Se Zico não foi campeão do mundo azar da Copa do Mundo Fernando Calazans jornalista revista Língua Portuguesa 1 Máxima da modéstia a Minimize seu orgulho sua vaidade b Maximize sua modéstia Um exemplo da máxima da modéstia pode ser visto em situações em que as pessoas contrariam o interlocutor quando são elogiadas como no diálogo abaixo A Você está tão bem hoje B O que é isso São seus olhos A Que lindo esse vestido B É tão velho 1 Máxima da concordância a Minimize a desavença entre as pessoas b Maximize a concordância entre as pessoas Vejamos um exemplo dessa máxima em Prezado Sr O Itaú tem uma relação de total transparência com seus clientes Por isso queremos manter você sempre bem informado sobre os assuntos relacionados à sua conta Assim estamos informando que o seu LIS o cheque especial do Itaú está suspenso desde 120606 O seu limite porém pode ser disponibilizado automaticamente após o restabelecimento das suas condições de crédito Como se trata de uma interação organizaçãocliente apesar de uma falha desse último o tom da carta distanciase da ameaça aproximandose da concórdia e boa vontade na tentativa de assegurar tranqüilidade ao cliente Essa situação constran gedora para o usuário do banco foi atenuada pela empresa cujo interesse de mantêlo como cliente parece até uma novidade num país como o Brasil cujas leis são severas para o consumidor e frouxas para as grandes empresas Ou a lei do consumidor está surtindo efeito ou o cliente pode ser especial porque faz uso do LIS e paga altos juros ao banco o que gera esse tipo polido de interação A transparência no discurso da empresa também não oculta a pena atribuída a suspensão do cheque especial No entanto essa suspensão será automaticamente restabelecida após os ajustes necessários por parte do cliente e desde que sejam feitos o que valoriza a autoimagem positiva da empresa diante do mercado transparente justa e generosa 1 Máxima da simpatia a Minimize a antipatia b Maximize a simpatia Vejamos um exemplo dessa máxima em Oi L Desculpeme pela demora na resposta Estou com um semestre muitíssimo atribulado Estive em São Paulo voltei anteontem da Argentina onde fui para um congresso e viajo domingo para uma reunião em Brasília que vai até quarta à noite No dia 15 começa outra aventura Uma loucura E ainda estou dando aula orientando indo para reuniões Desculpeme mesmo Um beijo grande A Nesse email é evidente a tentativa de aproximação com o interlocutor maximizando o grau de simpatia por ele A seqüência de desculpas pelo atraso e demora da resposta é indicadora dessa tentativa Como se pode notar todo o princípio de polidez estabelecido por Leech está orientado em direção ao bemestar do outro Isso não significa que as sociedades de um modo geral se comportem dessa maneira A sociedade brasileira por exemplo vem se esmerando em valorizar o eu sobre o outro muitas vezes a qualquer preço O que as teorias da polidez estabelecem é na verdade um ideai de conduta humana centrado na cooperação Por isso não se pode confundir polidez com cordialidade Aquela está fundada em princípios racionais reguladores esta na expressão dos sentimentos sejam eles positivos ou negativos As máximas correspondem a situações prototípicas praticamente ideais no que se refere ao princípio de cooperação Mas é fato que podemos ser polidos usando estratégias indiretas negando um convite ou um pedido indesejável de forma a não magoar o outro Tudo dependerá do contexto e das condições em que a interação ocorre Estudos posteriores sobre polidez já tratam de casos reais de interação revelando inúmeras formas que as pessoas têm de se relacionarem umas com as outras As diferenças culturais os aspectos emocionais dentre outros são fatores determinantes para a atenuação ou o agravamento de atos de ameaça à face e que concorrem com as estratégias de polidez Análise da conversação A análise da conversação AC se aplica à investigação das práticas e atividades conversacionais Desenvolveuse inicialmente a partir de 1960 com pesquisas de Harvey Sacks Emanuel Schegloff e Gail Jefferson Nessa década a ênfase das análises residia na descrição das estruturas e na organização da conversação e no papel dos gestos na interação em contextos institucionais Por volta da década de 1980 não só os contextos se diversificaram como também as análises se expandiram em torno de descrições e interpretações acerca do modo como os falantes agem e interpretam a ação e a conduta dos outros nas situações interacionais mais espontâneas especialmente na conversação comum Assim as questões estruturais originais referentes à organização da atividade conversacional expandemse para o estudo dos conhecimentos lingüísticos paralinguísticos e socioculturais que são postos em ação no momento da conversação ou seja para a interpretação desses conhecimentos A análise da conversação é de natureza empírica e qualitativa o que significa que seu material de análise assim como ocorre com as propostas anteriormente apresentadas é constituído de manifestações reaisnaturais de conversação e não extraído de situações de conversação artificialmente ou ficticiamente recriadas ou reproduzidas O objetivo é tornar a análise a mais realista possível para que se possam examinar quais os recursos que são livre e espontaneamente empregados pelos falantes num determinado tipo de situação de fala e como eles lidam com as contingências oriundas da situação e da interação em foco O interesse consiste em investigar a interação em sua manifestação espontânea Como os dados para análise são fruto de situações reais do cotidiano como diálogos entre amigos namorados família entrevistas sessões de terapia conversas telefônicas domésticas e comerciais etc a metodologia empregada requer a gravação em áudio e quando possível em vídeo das conversas que são posteriormente transcritas segundo determinadas normas e símbolos que sejam capazes de reproduzir com a máxima fidelidade as ocorrências verificadas nos eventos ou nas atividades de fala Nas atividades conversacionais é possível observar a manifestação regular de estruturas lingüísticas e comunicativas que são relativamente estáveis como se pudéssemos fazer uma gramática da conversação observando e extraindo as regras que a moldam Toda conversação estruturase por meio de seqüências ou turnos conversacionais dos interlocutores interrupções hesitações truncamentos sobreposições e também pausas isto é os momentos de silêncio que ocorrem na fala humana A AC portanto vai procurar estabelecer os traços estáveis da organização seqüencial da conversação Além disso vários fatores precisam ser observados numa conversação a o contexto graus de formalidade de acordo com o tipo de interação e participantes envolvidos como conversas em família com os amigos entrevistas interação jurídica institucional entre outras b as relações interpessoais construídas na interação c o tipo de interlocutores relações simétricas ou assimétricas entre os falantes que envolvem aspectos como poder envolvimento distanciamento grau de intimidade d o tipo de conversação das mais espontâneas às mais formais como conversas face a face conversas telefônicas entrevistas e os elementos que caracterizam e estruturam a própria conversação tais como o assunto da conversa tópico discursivo ou unidade tópica os turnos conversacionais isto é as seqüências de fala as hesitações os truncamentos e as pausas Outros fatores intervém e fazem parte da organização da conversação como a aptidão lingüística o conhecimento partilhado e o domínio de situações sociais vividas pelos interlocutores Marcuschi 1991 destaca cinco elementos básicos que caracterizam uma conversação a interação entre pelo menos dois falantes b ocorrência de pelo menos uma troca de falantes c presença de uma seqüência de ações coordenadas d execução de uma identidade temporal isto é a conversação deve ocorrer num mesmo tempo ainda que em espaços distintos a conversa telefônica ilustra esse caso e interação centrada isto é é preciso que os interlocutores tenham algo sobre o que conversar Quanto aos aspectos relativos à estrutura e à organização da atividade conversacional a AC criou um modelo teórico próprio empregando uma terminologia como seqüências e turnos no lugar da nomenclatura tradicional como frases e sentenças Por turno entendemos como Castilho 2000 36 o segmento produzido por um falante com direito a voz que de acordo com o tipo de análise a ser realizada pode ser constituído de um item prélexical ahn uhn uma palavra um sintagma uma sentença ou toda uma unidade discursiva Ou seja turno é toda intervenção dos interlocutores constituída ao menos por uma unidade construcional unidade cuja definição deve atender a critérios de natureza sintáticosemânticopragmática e a critérios entonacionais incluindo até o silêncio A distribuição e a construção do turno conversacional constituem elementos centrais na organização da conversação e fundamentais para se compreender como ela funciona Como as pessoas fazem a tomada de turno Quando se passa de um turno a outro Como um falante consegue manter o turno praticamente até o fim Em geral sobretudo se as relações entre os participantes são simétricas parece haver um princípio de cooperação entre as partes Goffman Grice Brown e Levinson um princípio de ordem pragmática Por outro lado segundo os analistas existe um sistema básico de regras responsável pela transição de um turno a outro e o assalto a um turno constituiria um princípio de violação do fala um de cada vez O exemplo abaixo extraído do Inquérito NurcRJ 147 é um diálogo entre dois informantes do sexo feminino de formação universitária do ano de 1973 O tema versa sobre vida social diversões cidade e comércio Observe a presença de alguns sinais que marcam superposição de vozes dúvidas e inserções de informações de quem transcreveu o texto risos Também podemos identificar com nitidez nesse início de conversa a alternância dos turnos entre os falantes no sentido relativo ao segmento produzido por um falante com direito a voz o que significa a presença de 14 turnos LI eh você é carioca né quantos anos já há quantos anos você mora no Rio L2 a vida inteira LI nasceu aqui L2 nasci aqui LI está ok bom e você eh mora em Copacabana mesmo L2 não moro em Ipanema mas queria teperguntar uma coisa qualéa tua imagem você mora em Copacabana né qual qual a imagem que você faz de Ipanema L2 olha eu L1 não é sobre o bairro não eu quero saber como vivem as pessoas que moram lá L2 das pessoas da vida LI é qual a imagem que você faz L2 olha eu acho LI pode ser franca hein L2 está ok risos eu não vou malhar não olha eu acho LI não mesmo se malhar No entanto há controvérsias quanto ao conceito de turno no que diz respeito à identificação do momento em que se passa de um a outro turno ou seja nem sempre a simples troca de falantes significa a conclusão de uma unidade constitutiva de turno Portanto fica a critério do analista de posse de determinados conceitos básicos julgar numa determinada conversação o que se pode entender por turno Por exemplo podemos admitir que os trechos em itálico correspondentes à fala de LI constituem um único turno porque mantêm a mesma unidade tópica ou temática Como a conversação é algo mais do que uma simples sucessãoalternância de turnos o mesmo se pode dizer acerca do tópico conversacional Quando estamos conversando podemos abordar mais de um assunto ou privilegiarmos um determinado tópico denominado macrotópico ou unidade tópica da conversação de onde podem emergir os subtópicos relativos àquele tema Da mesma forma que os turnos entre os falantes se alternam conforme a situação também a continuidade tópica varia em função dos interesses e objetivos dos interlocutores mudança tópica essa sujeita ao sistema de troca de turnos entre eles Do mesmo inquérito já citado a conversa entre as informantes passa do tema cidade para diversão conduzida explicitamente por LI No entanto quando LI introduz o tópico diversão esse se desdobra em um subtópico no momento em que uma das informantes descobre que a outra é descendente de árabes e esta de israelitas Observe LI e em matéria assim de diversão o que você acha assim do Rio de Janeiro pra você sair assim de casa pra onde vamos o que fa fazer no sábado domingo fim de semana que que você acha da nossa cidade L2 olha tem muita coisa boa mas eu não sei se é porque já é tanto tempo já está virando um saco sabe eu já não sei nem pra onde eu vou mais vira e mexe LI L2 eu vou pro mesmo lugar você tem muito lugar pra ir entendeu LI que lugar você gosta ir geralmente L2 é bar restaurante teatro cinema de noite praia eu sei lá de vez em quando piscinaaíalgum clube algum conhecido LI você é sócia de algum clube L2 sou LI de qual L2 é o Monte Sinai sabe LI sei L2 na Tijuca mas eu quase não eu vou quando eu vou LI está correndo acho que está correndo uma coisa muito interessante aqui você é de família de israelita L2 sou LI você vê que coisa bacana né eu sou descendente direta de árabe por parte de pai e parte de mãe L2 risos Turno e topicalidade portanto estão bastante interligados e representam o princípio organizador e regulador da conversa muitas vezes desempenhando funções pragmáticas responsáveis pelo fator de integração entre os interlocutores E claro que outros fatores também contribuem para a manutenção e continuidade tópica numa conversa como por exemplo as estratégias de polidez e envolvimento e o uso de marcadores conversacionais como os marcadores lingüísticos de abertura olha bem bom ou finais né sabe Enfim procuramos neste capítulo apresentar as questões mais gerais acerca da conversação Certamente não esgotamos o assunto mas procuramos oferecer um painel para que os leitores iniciantes pudessem ter uma noção a respeito do assunto Os interessados e aqueles que precisam se aprofundar na teoria têm em autores brasileiros como Luiz Antonio Marcuschi Dino Pretti Ataliba de Castilho e tantos outros que trabalham com o discurso oral fonte inesgotável para o aprofundamento de estudos nessa área cabendo distinguir as diferentes perspectivas teóricas adotadas Exercícios 1 Leia o texto abaixo para responder às questões Chatear e encher Um amigo meu me ensina a diferença entre chatear e encher Chatear é assim você telefona para um escritório qualquer na cidade Alô Quer me chamar por favor o Valdemar Aqui não tem nenhum Valdemar Daí a alguns minutos você liga de novo O Valdemar por obséquio Cavalheiro aqui não tem nenhum Valdemar Mas não é do número tal É mas aqui nunca teve nenhum Valdemar Mais cinco minutos você liga o mesmo número Por favor o Valdemar já chegou Vê se te manca palhaço Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí Não chateia Daí a dez minutos liga de novo Escute uma coisa O Valdemar não deixou pelo menos um recado O outro dessa vez esquece a presença da datilografa e diz coisas impublicáveis Até aqui é chatear Para encher espere passar mais dez minutos faça nova ligação Alô Quem fala Quem fala aqui é o Valdemar Alguém telefonou para mim Paulo Mendes Campos Chatear e encher In Para gostar de ler vol 2 São Paulo Atica 1983 p 35 a Após a leitura do texto caracterize cada diálogo como polido e impolido identificando os itens lingüísticos que caracterizam ora a atitude polida ora a impolida b Mostre com passagens do texto como o personagem infringiu as três regras de polidez apresentadas por Lakofif não imponha dê opções faça A sentirse bem seja amigável c Proceda como no exercício anterior a partir das máximas estabelecidas por Leech d Estabeleça a diferença entre chatear e encher explicando a teoria da polidez e Pensando na afirmação quando dizer é fazer que ações atos de fala são realizadas pelo personagem que indiquem o que é chatear de um lado e o que é encher de outro f Segundo Searle os atos de fala classificamse em assertivos quando dizemos às pessoas como as coisas são declarativos quando tentamos levar as pessoas a fazer coisas expressivos quando expressamos sentimentos e atitudes comissivos quando produzimos mudanças por meio de nossas ações De acordo com essa classificação caracterize os atos de fala com base em sua resposta do exercício anterior Abordagens linguísticas Estruturalismo Marcos Antonio Costa Este capítulo trata da escola estruturalista dando ênfase às propostas de Ferdinand de Saussure e de Leonard Bloomfield O legado de Saussure A rigor não podemos falar de um conceito único para o termo estruturalismo Mesmo sem levarmos em consideração que a antropologia a sociologia a psicologia entre outras áreas das ciências humanas podem se apresentar sob a orientação de uma teoria estruturalista e nos restringindo aos domínios exclusivos das diversas escolas lingüísticas tornase evidente a impropriedade do uso indistinto do termo para todas elas Entretanto essas escolas de um modo ou de outro apresentam concepções e métodos que implicam o reconhecimento de que a língua é uma estrutura ou sistema1 e que é tarefa do lingüista analisar a organização e o funcionamento dos seus elementos constituintes Sistema estrutura estruturalismo Sabemos que um sistema resulta da aproximação e da organização de determinadas unidades Por possuírem características semelhantes e obedecerem a certos princípios de funcionamento essas unidades constituem um todo coerente coeso É essa idéia que nos permite falar por exemplo da existência de um sistema solar de um sistema circulatório respiratório digestivo etc Descrever cada um desses sistemas significa revelar a organização de suas unidades constituintes e os princípios que orientam tal organização Saussure o precursor do estruturalismo enfatizou a idéia de que a língua é um sistema ou seja um conjunto de unidades que obedecem a certos princípios de funcionamento constituindo um todo coerente À geração seguinte coube observar mais detalhadamente como o sistema se estrutura daí o termo estruturalismo para designar a nova tendência de se analisar as línguas O estruturalismo portanto compreende que a língua uma vez formada por elementos coesos interrelacionados que funcionam a partir de um conjunto de regras constitui uma organização um sistema uma estrutura Essa organização dos elementos se estrutura seguindo leis internas ou seja estabelecidas dentro do próprio sistema O desenvolvimento da lingüística estrutural representa um dos acontecimentos mais significativos do pensamento científico do século xx Não poderíamos compreender os incontestáveis progressos verificados no quadro das ciências humanas sem compreen dermos a elaboração do conceito de estrutura desenvolvido a partir das investigações do fenômeno da linguagem Toda uma geração de pensadores entre os quais Jacques Lacan Claude LéviStrauss Louis Althusser Roland Barthes evidencia em suas obras a contribui ção pioneira de Ferdinand de Saussure relacionada à organização estrutural da linguagem Curiosamente as idéias de Saussure que se tornaram ponto de partida do pensamento que caracteriza a lingüística moderna tornaramse públicas com o famoso Curso de lingüística geral livro que na verdade é a reconstrução a partir de notas redigidas por alunos de três cursos lecionados por Saussure entre 1907 e 1911 na Universidade de Genebra cidade onde o lingüista nasceu O trabalho foi organizado por dois discípulos Charles Bally e Albert Sechehaye É no Curso publicado em 1916 três anos após a morte de Saussure que encontramos os conceitos fundamentais do modelo teórico estruturalista Esse modelo como já mencionamos anteriormente apresenta a linguagem como um sistema articulado uma estrutura em que tal como no jogo de xadrez analogia abundan temente utilizada por Saussure o valor de cada peça não é determinado por sua materialidade ele não existe em si mesmo mas é instituído no interior do jogo É fácil entendermos que pouco importa se no xadrez as peças são de madeira ferro marfim ou de outro material qualquer A possibilidade de darmos andamento ao jogo depende exclusivamente de nossa compreensão de como as peças se relacionam entre si das regras que as governam da função estabelecida para cada uma delas e em relação às demais Se substituirmos o material das peças isso em nada afetará o sistema já que o valor de cada peça depende unicamente das relações das oposições entre as unidades Podemos por exemplo utilizar uma simples tampinha de garrafa como se ela valesse a torre de nosso jogo Para isso é necessário tão somente que o valor atribuído a essa tampinha não seja correspondente ao valor do peão do bispo da rainha ou de qualquer outra unidade do sistema de jogo do xadrez Em relação e em oposição a todas as outras unidades nossa tampinha precisará valer uma torre Podemos como quer Saussure pensar a estrutura lingüística a partir desse mesmo entendimento estabelecemos comunicação porque conhecemos as regras da gramática de uma determinada língua Ou seja conhecemos as peças disponíveis do jogo e suas possibilidades de movimento como elas se organizam e se distribuem Não se trata obviamente do conhecimento acerca das regras normativas que encontramos nos livros de gramática Não estamos falando de regras estabelecidas por um grupo de estudiosos em um determinado momento da história Se assim fosse aqueles que desconhecessem tais regras não se comunicariam O que regula o funcionamento das unidades que compõem o sistema lingüístico são normas que internalizamos muito cedo e que começam a se manifestar na fase de aquisição da linguagem Tratase de um conhecimento adquirido no social na relação que mantemos com o grupo de falantes do qual fazemos parte Esse conhecimento tal como no jogo de xadrez independe da materialidade da substância da qual as peças são formadas Podemos lembrar que o sistema fonológico de uma língua pode ser expresso não a partir de uma substância sonora mas por exemplo a partir de sensações visuais movimento dos lábios É desse modo que em geral as pessoas surdas de nascença aprendem o sistema de uma determinada língua sem nunca ter ouvido seus sons O que se pretende demonstrar a partir dessa realidade é que a substância não determina de modo algum as regras do jogo lingüístico que são independentes do suporte físico som movimento labial gestos etc em que se realizam Em resumo a abordagem estruturalista entende que a língua é forma estrutura e não substância a matéria a partir da qual ela se manifesta Reconhece entretanto a necessidade da análise da substância para que possamos formular hipóteses acerca do sistema a ela relacionado Um sistema que não apresenta qualquer manifestação material que não seja expresso por algum tipo de substância não desperta qualquer interesse científico uma vez que não pode ser investigado Essa concepção de linguagem tem como conseqüência um outro princípio do estruturalismo o de que a língua deve ser estudada em si mesma epor si mesma É o que chamamos estudo imanente da língua o que significa dizer que toda preocupação extralinguística precisa ser abandonada uma vez que a estrutura da língua deve ser descrita apenas a partir de suas relações internas Nessa perspectiva ficam excluídas as relações entre língua e sociedade língua e cultura língua e distribuição geográfica língua e literatura ou qualquer outra relação que não seja absolutamente relacionada com a organização interna dos elementos que constituem o sistema lingüístico2 Língua e fala Quando estudamos Saussure é freqüente encontrarmos um grupo de dicotomias relacionado ao pensamento do famoso lingüista O termo dicotomia designa a divisão lógica de um conceito em dois de modo que se obtenha um par opositivo Podemos assim observar dualidades como língua e fala sincronia e diacronia paradigma e sintagma forma e substância significado e significante motivado e arbitrário Essas são algumas das chamadas dicotomias saussureanas A partir de agora vamos observar algumas delas começando pela dicotomia entre língua e fala Até agora usamos sem maior rigor o termo linguagem Para Saussure entretanto a linguagem deve ser tomada como um objeto duplo uma vez que o fenômeno lingüístico apresenta perpetuamente duas faces que se correspondem e das quais uma não vale senão pela outra Saussure 1975 15 Assim sendo a linguagem tem um lado social a língua ou langue nos termos saussureanos e um lado individual a fala ouparole nos termos saussureanos sendo impossível conceber um sem o outro Para Saussure a língua é um sistema supraindividual utilizado como meio de comunicação entre os membros de uma comunidade O entendimento saussureano é o de que a língua corresponde à parte essencial da linguagem e constitui um tesouro um sistema gramatical depositado virtualmente nos cérebros de um conjunto de indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade lingüística Sua existência decorre de uma espécie de contrato implícito que é estabelecido entre os membros dessa comunidade Daí seu caráter social Para Saussure o indivíduo sozinho não pode criar nem modificar a língua Diferentemente a fala constitui o uso individual do sistema que caracteriza a língua Nas palavras de Saussure é um ato individual de vontade e de inteligência 1975 22 que corresponde a dois momentos as combinações realizadas pelo falante entre as unidades que compõem o sistema da língua objetivando exprimir seu pensamento e o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações Tratase portanto da utilização prática e concreta de um código de língua por um determinado falante num momento preciso de comunicação Em outras palavras é a maneira pessoal de atualizar esse código Daí seu caráter individual De acordo com Saussure a língua é a condição da fala uma vez que quando falamos estamos submetidos ao sistema estabelecido de regras que corresponde à língua Portanto o objeto de estudo específico da lingüística estrutural é a língua e não a fala sendo esta última tomada como objeto secundário Isso se dá porque é na língua conhecimento comum a todos que se encontra a essência da atividade comunicativa e não naquilo que é específico de cada um Como já mencionamos anteriormente toda preocupação extralinguística é abandonada e a estrutura da língua é descrita apenas a partir de suas relações internas Isso não significa que se possa estudar a língua independentemente da fala uma vez que entre os dois objetos existe uma estreita ligação a língua é necessária para que a fala seja compreensível e para que o falante consequentemente possa vir a atingir os seus propósitos comunicativos por outro lado a língua só se estabelece a partir das manifestações concretas de cada ato lingüístico efetivo Assim a língua é ao mesmo tempo o instrumento e o produto da fala Sincronia e diacronia Nesta seção conheceremos mais uma dicotomia saussureana relacionada ao mé todo de investigação a ser adotado pelo lingüista em suas pesquisas sincronia e diacronia No início do século xix as semelhanças encontradas entre determinadas línguas levaram os pesquisadores a acreditar na existência de parentescos entre elas As investigações passaram a ter como um de seus principais objetivos o agrupamento dessas línguas em famílias o que acontecia através de um método de estudo chamado históricocomparativo Entre essas famílias temos a indoeuropeia que reúne entre outras a maior parte das línguas europeias assim como as línguas do chamado grupo indoirânico como o persa e o sânscrito língua sagrada utilizada pelos hindus nos cerimoniais religiosos há cerca de 1220800 aC Aos 21 anos Saussure havia escrito Mémoire sur le systemeprimitifdes voyelles indoeuropèene apud Malmberg 1974 obra que faz parte da bibliografia relativa ao pensamento do século xix Durante todo esse século a investigação acerca da linguagem foi marcadamente de caráter histórico Pouco interesse havia em se estudar a língua de um determinado grupo de falantes fora de um quadro de considerações históricas A partir dos anos de 1870 a geração dos neogramáticos procurou mostrar que a mudança das línguas possui uma regularidade segue uma necessidade própria não de pendendo da vontade dos homens Com esse objetivo desenvolveram uma teoria das trans formações lingüísticas baseada em método estritamente científico afastandose das espe culações vagas e subjetivas que marcaram os estudos da linguagem no início do século xix De acordo com a escola dos neogramáticos a lingüística necessariamente deveria ter um caráter histórico já que sua tarefa seria estudar as transformações das línguas em busca de explicações e formulações de regras de um vir a ser dessas línguas Para Hermann Paul o grande teórico da escola a simples descrição de uma língua representaria unicamente a constatação de um fato mas de forma alguma uma ciência A distinção feita por Saussure entre a investigação diacrônica e a investigação sincrônica representa duas rotas que separam a lingüística estática da lingüística evolutiva É sincrônico tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência diacrônico tudo que diz respeito às evoluções Do mesmo modo sincronia e diacronia designarão respectivamente um estado de língua e uma fase de evolução Saussure 197596 Assim enquanto o estudo sincrônico de uma língua tem como finalidade a descrição de um determinado estado dessa língua em um determinado momento no tempo o estudo diacrônico através do tempo busca estabelecer uma comparação entre dois momentos da evolução histórica de uma determinada língua Podemos citar a análise da variação entre o uso de ter e haver no português contemporâneo no Brasil como exemplo de estudo de caráter sincrônico já que o termo variação implica a coexistência de duas ou mais formas em uma mesma época Por outro lado a análise da trajetória de mudançapane pãe pão do latim ao português caracterizase como uma abordagem diacrônica O estruturalismo proposto por Saussure não apenas aponta as diferenças entre essas duas formas de investigação mas sobretudo registra a prioridade do estudo sincrônico sobre o diacrônico Ou seja para Saussure o lingüista deve estudar principalmente o sistema da língua observando como se configuram as relações internas entre seus elementos em um determinado momento do tempo Esse tipo de estudo é possível porque os falantes não têm informações acerca da história de sua língua e não precisam ter informações etimológicas a respeito dos termos que utilizam no dia a dia para os falantes a realidade da língua é o seu estado sincrônico Na defesa de tais idéias o lingüista utiliza mais uma vez a analogia entre o sistema lingüístico e o jogo de xadrez Conforme a análise de Saussure tanto no jogo da língua como durante uma partida de xadrez estamos diante de um sistema de valores e assistimos às suas modificações assim como ocorre com os sistemas lingüísticos a disposição das peças no tabuleiro sofre contínuas mudanças A qualquer instante porém essa disposição pode ser descrita conforme a posição das peças naquele momento específico do jogo o mesmo acontecendo quando se trata da descrição de um estado particular de língua Não importa o caminho percorrido o que acompanhou toda a partida não tem a menor vantagem sobre o curioso que vem espiar o estado do jogo no momento crítico para descrever a posição é perfeitamente inútil recordar o que ocorreu dez segundo antes Saussure 1975 105 Além disso argumentase que embora não sejam muitos os falantes conhecedores profundos da evolução histórica da língua que utilizam todos nós demonstramos dominar ainda na infância os princípios sistemáticos as regras da língua que ouvimos à nossa volta A descrição lingüística sincrônica tem por tarefa formular essas regras sistemáticas conforme elas operam num momento estado específico independentemente da combinação particular de movimentos das mudanças já ocorridos Cabe observar ainda que o movimento de uma pedra no tabuleiro implica a constituição de uma nova sincronia uma vez que tal movimento repercute em todo o sistema O conjunto das regras do jogo porém é mantido Essas regras como já vimos anteriormente situamse fora do tempo do jogo e são prévias à sua existência e realização É o próprio Saussure contudo que nos alerta quanto ao ponto em que a analogia entre o jogo de xadrez e o sistema lingüístico se mostra falha a ação do jogador ao deslocar uma pedra e consequentemente exercer uma alteração no sistema é intencional Na língua diferentemente nada é premeditado é espontânea e fortuitamente que suas peças se deslocam ou melhor se modificam Saussure 1975 105 O signo lingüístico Uma vez compreendido que a língua representa um conjunto de elementos solidários uma estrutura cabenos conhecer a natureza desses elementos Saussure afirma que a língua é um sistema de signos O signo é portanto a unidade constituinte do sistema lingüístico Ele é formado por sua vez de duas partes absolutamente inseparáveis sendo impossível conceber uma sem a outra como acontece com as duas faces de uma folha de papel um significante e um significado Poderíamos dizer que o significante consiste numa seqüência de fonemas como acontece por exemplo com a seqüência linguagem Precisamos porém de um pouco mais de cautela para entender o verdadeiro sentido atribuído por Saussure ao conceito de significante Comecemos por compreender que de acordo com a proposta estruturalista saussureana a língua é uma realidade psíquica Como já dito um tesouro um sistema gramatical depositado virtualmente no cérebro de um conjunto de indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade lingüística Assim sendo as faces que compõem o signo lingüístico são ambas psíquicas e estão ligadas em nosso cérebro por um vínculo de associação Sendo assim o significante também chamado de imagem acústica não pode ser confundido com o som material algo puramente físico mas deve ser identificado com a impressão psíquica desse som a representação da palavra enquanto fato de língua virtual estando a fala absolutamente excluída dessa realidade A outra face do signo o significado também chamada de conceito representa o sentido que é atribuído ao significante o sentido por exemplo que atribuímos ao significante linguagem anteriormente mencionado como capacidade humana de comunicação verbal Daí o entendimento de que o signo unidade constituinte do sistema lingüístico resulta da associação de um conceito com uma imagem acústica A arbitrariedade do signo lingüístico A filosofia desenvolvida na Grécia antiga é um marco inicial no Ocidente do debate sobre as relações entre a linguagem e o mundo A discussão era se os recursos lingüísticos através dos quais as pessoas descrevem o mundo à sua volta são arbitrários ou se esses recursos sofrem algum tipo de motivação natural Essas duas teses representam desdobramentos das especulações filosóficas que dividiram os gregos na antigüidade clássica em convencionalistas e naturalistas Enquanto os primeiros defendiam que tudo na língua era convencional mero resultado do costume e da tradição os naturalistas afirmavam que todas as palavras eram de fato relacionadas por natureza às coisas que elas significavam Que relação podemos observar entre a seqüência linguagem e o sentido a ela atribuído Quando nos referimos a livro como conjunto de folhas de papel capaz de guardar uma obra literária científica artística etc haveria alguma motivação especial para a escolha desse termo livro e não a de um outro qualquer Afirmar que o signo lingüístico é arbitrário como fez Saussure significa reconhecer que não existe uma relação necessária natural entre a sua imagem acústica seu significante e o sentido a que ela nos remete seu significado Isso significa dizer que o signo lingüístico não é motivado e sim cultural convencional já que resulta do acordo implícito realizado entre os membros de uma determinada comunidade Tratase portanto de uma convenção A arbitrariedade do signo lingüístico pode ser mais bem compreendida quando observamos a diversidade das línguas Cada língua apresenta um modo particular de expressar os conceitos ninguém discute por exemplo se livro ou book se aproximam mais ou menos do conceito apresentado anteriormente Por outro lado poderíamos argumentar que certas unidades lingüísticas apresentamse como contraexemplos da arbitrariedade As onomatopéias do tipo auau tictac3 parecem ser motivadas não arbitrárias No entanto argumenta Saussure elas não apenas são pouco numerosas mas sua escolha é já em certa medida arbitrária pois não passam da imitação aproximativa e já meio convencional de certos ruídos 197583 Contudo Saussure reconhece que a arbitrariedade é limitada por associações e motivações relativas assim vinte é imotivado mas dezenove não o é no mesmo grau porque evoca os termos dos quais se compõe dez e nove Saussure observa ainda que o princípio da arbitrariedade do signo lingüístico não implica a compreensão de que o significado dependa da livre escolha do falante A língua como já apresentado anteriormente é social não estando ao alcance do indivíduo nela promover mudanças Relações sintagmáticas e relações paradigmáticas Sendo a língua um sistema cabenos compreender a forma como as unidades constitutivas desse sistema encontramse relacionadas umas às outras Quando descrevemos essas relações estamos explicitando a organização dos elementos constituintes da estrutura lingüística e em última instância reconhecendo o funcionamento do sistema Comecemos por entender que o signo lingüístico exibe uma característica bastante particular a qual embora considerada demasiadamente simples tornase fundamental para a compreensão da língua como um sistema o signo lingüístico representa uma extensão Isso significa que ao ser transmitido ele constitui uma seqüência cuja dimensão só pode ser mensurável linearmente Decorre daí o chamado caráter linear da linguagem articulada Uma frase por exemplo é constituída por um certo número de signos lingüísticos que são apresentados em linha no tempo um após o outro Sabemos contudo que por se tratar de um instrumento de comunicação a frase deve ser construída de acordo com determinadas regras Por isso mesmo a distribuição das palavras dos signos não ocorre de maneira aleatória e sim pela exclusão de outros possíveis arranjos distribucionais Quando combinamos duas ou mais unidades por exemplo reter várias pessoas a lingüística estrutural eu tenho alguns projetos para a minha vida etc estamos compondo sintagmas As relações sintagmáticas decorrentes do caráter linear da linguagem dizem respeito às articulações entre os sintagmas e relacionamse às diversas possibilidades de combinação entre essas unidades Devemos portanto entender como sintagmáticas as relações in praesentia ou seja entre dois ou mais termos que estão presentes antecedentes ou subsequentes em um mesmo contexto sintático Por englobar diferentes níveis de análise a noção de sintagma deve ser compreendida de uma maneira ampla a No nível fonológico as unidades se combinam para formar as sílabas Quanto às restrições impostas pelas regras do sistema lingüístico sabemos por exemplo que a língua portuguesa não admite sílaba formada sem som vocálico Ex Casa bar lslNJ cv cvc b No nível morfológico os morfemas se unem para formar a palavra ou sintagma vocabular como caracterizam alguns autores Desse modo prefixos e sufixos respectivamente antecedem e sucedem o radical com Rad radical VT vogai temática Pref prefixo e Suf sufixo Ex Menin o in feliz mente Rad VT Pref Rad Suf c No nível sintático as palavras se combinam para formar frases É inadmissível como frase construções tais como De gosta bolo menino o SN sintagma nominal SV sintagma verbal Ex O menino gosta de bolo sl SN SV Além das relações sintagmáticas que dizem respeito à distribuição linear das unidades na estrutura sintática as línguas apresentam relações paradigmáticas ou associativas que dizem respeito à associação mental que se dá entre a unidade lingüística que ocupa um determinado contexto uma determinada posição na frase e todas as outras unidades ausentes que por pertencerem à mesma classe daquela que está presente poderiam substituíla nesse mesmo contexto As relações paradigmáticas manifestamse como relações in absentia pois caracterizam a associação entre um termo que está presente em um determinado contexto sintático com outros que estão ausentes desse contexto mas que são importantes para a sua caracterização em termos opositivos Ocorre que os elementos da língua nunca estão isolados em nossa memória Eles são armazenados em termos de determinados traços que os caracterizam como estrutura classe gramatical tipo semântico entre outros Assim a palavra livreiro por exemplo está associada a elementos como livro e livraria a partir do radical que está na base desses elementos Por outro lado podemos estabelecer uma outra série de relações paradigmáticas tomando como base o sufixo leiteiro sapateiro garimpeiro entre outros De algum modo essa organização dos elementos lingüísticos na nossa memória para Saussure é importante na caracterização de uma frase Por exemplo podemos substituir uma desinência verbal de pessoa e número por outra do mesmo tipo estudas estudamos um adjetivo por outro adjetivo ou locução adjetiva Ele é bondosoEle é caridosoEle é do bem um substantivo por outro substantivo Gostaria de comprar um livroGostaria de comprar uma fazenda etc Para Saussure além da possibilidade de ocorrência em um mesmo contexto as relações paradigmáticas são também decorrentes da semelhança de significação educaçãoaprendizagem da semelhança sonora livro crivo ou de qualquer outra situação em que a presença de um elemento lingüístico suscita no falante ou no ouvinte a associação com outros elementos ausentes Desse modo podemos concluir que as relações sintagmáticas e as relações paradigmáticas ocorrem concomitantemente Na seqüência Gostaria de comprar uma fazenda a unidade comprar por exemplo ao mesmo tempo em que se encontra em relação paradigmática com vender entregar olhar e tantas outras unidades também mantém relações sintagmáticas com gostaria de uma e fazenda Da mesma maneira no nível fonológico em se tratando da seqüência bola o fonema b se encontra em relação paradigmática com Isl m g etc e em relação sintagmática com Ibl ll e laJ Esses fatos nos permitem compreender melhor o porquê da língua ser um sistema uma estrutura e não uma mera reunião de elementos Adotando uma perspectiva estruturalista podemos afirmar então que o que permite o funcionamento da língua é o sistema de valores constituído pelas associações combinações e exclusões verificadas entre as unidades lingüísticas Essas são em linhas gerais as principais idéias formuladas por Saussure Elas represen tam o alicerce da lingüística estrutural e ao mesmo tempo fundam a lingüística moderna Durante a primeira metade do século xx privilegiando diferentes aspectos das idéias de Saussure surgem na Europa pelo menos três importantes grupos de estudos lingüísticos a Escola de Genebra a Escola de Praga e a Escola de Copenhague As duas primeiras não se limitaram ao estudo meramente formal da linguagem adotando a visão de que a língua deve ser vista como um sistema funcional no sentido de que é utilizada para um determinado fim a comunicação Por outro lado a Escola de Copenhague focalizou o aspecto formal das línguas deixando sua função num plano secundário Ou seja essa escola adotou concepção saussureana de língua como um sistema autônomo e através de Hjelmslev desenvolveu uma teoria chamada de glossemática aprofundando principalmente os conceitos de forma e substância expressão e conteúdo Sob o rótulo de estruturalismo a lingüística moderna conhece duas vertentes principais a europeia4 e a norteamericana A corrente norteamericana O estruturalismo norteamericano é representado pelas idéias de Leonard Bloomfield desenvolvidas e sistematizadas sob o rótulo de distribucionalismo ou lingüística distribucional A teoria da linguagem proposta por Bloomfield dominante nos Estados Unidos até aproximadamente 1950 é apresentada de maneira independente no momento em que o pensamento de Saussure começa a ser conhecido na Europa Ocorre que ao lado de algumas diferenças muitos são os pontos em comum ou pelo menos convergentes entre as propostas formuladas pelos dois autores o que nos permite conceber a teoria distribucionalista como uma vertente do estruturalismo O objetivo da teoria formulada por Bloomfield é a elaboração de um sistema de conceitos aplicáveis à descrição sincrônica de qualquer língua Para tanto parte dos seguintes pressupostos cada língua apresenta uma estrutura específica essa estruturação é evidenciada a partir de três níveis o fonológico o morfológico e o sintático que constituem uma hierarquia com o fonológico na base e o sintático no topo cada nível é constituído por unidades do nível imediatamente inferior as construções são seqüências de palavras as palavras seqüências de morfemas os morfemas seqüências de fonemas a descrição de uma língua deve começar pelas unidades mais simples prosseguindo então à descrição das unidades cada vez mais complexas cada unidade é definida em função de sua posição estrutural de acordo com os elementos que a precedem e que a seguem na construção na descrição é necessária absoluta objetividade o que exclui o estudo da semântica do escopo da lingüística O autor pressupõe ainda que o processo de combinação de unidades para formar construções de nível superior combinação de fonemas que resulta em morfemas combinação de morfemas que resulta em palavras e combinação de palavras que resulta em frases é guiado por leis próprias do sistema lingüístico Ou seja enquanto determinadas construções são permitidas outras são totalmente bloqueadas na língua No português por exemplo uma construção do tipo Lingüística aluno de gosta estudar o seria indiscutivelmente inaceitável De acordo com a concepção da lingüística distribucional para que possamos estudar uma língua fazse necessário a constituição de um corpus isto é a reunião de um conjunto o mais variado possível de enunciados efetivamente emitidos por usuários de uma determinada língua em uma determinada época a elaboração de um inventário a partir desse corpus que permita determinar as unidades elementares em cada nível de análise assim como as classes que agrupam tais unidades a verificação das leis de combinação de elementos de diferentes classes a exclusão de qualquer indagação sobre o significado dos enunciados que compõem o corpus Essa postura mecanicista da lingüística de Bloomfield apoiase na psicologia behaviorista fortemente difundida nos Estados Unidos a partir de 1920 que tem Skinner como um de seus maiores teóricos Ao tomar o próprio comportamento como objeto de estudo da psicologia e não como indicador de alguma outra coisa que se expresse por ele ou através dele o behaviorismo rompe com a compreensão de que as impressões criadas na mente do homem pelos objetos e eventos geram seu comportamento Segundo essa corrente o comportamento humano é totalmente explicável e portanto previsível a partir das situações em que se manifesta independentemente de qualquer fator interno Logo ele pode ser compreendido como o conjunto de uma excitação ou estímulo e de uma resposta ou ação No que diz respeito ao comportamento lingüístico a psicologia behaviorista fornece a seguinte explicação uma comunidade ensina o indivíduo a emitir uma dada resposta verbal a expressar um termo provendo estímulos reforçadores quando essa resposta ocorre na presença da coisa para a qual o termo proferido é tomado como referente O indivíduo por exemplo aprende a dizer cadeira na presença de uma cadeira ou objeto similar não por uma questão de apreensão do significado de cadeira mas porque essa resposta na presença do objeto tem uma história de reforço provido pela comunidade verbal Na perspectiva de Skinner termos como conteúdo significado ou referente devem ser desprezados pelo menos enquanto propriedades de respostas verbais O método de análise que caracteriza a vertente americana da lingüística estrutural é conhecido como análise distribucional apresentado nos Estados Unidos por Bloomfield com a publicação de Language em 1933 Objetivando chegar à descrição total de um estado sincrônico de língua esse método parte da observação de um corpus para descrever seus elementos constituintes de acordo com a possibilidade de eles se associarem entre si de maneira linear Pressupõese assim que as partes de um língua não se organizam arbitrariamente mas ao contrário apresentamse em certas posições particulares relacionadas umas às outras Tratase portanto de um método puramente descritivo e indutivo que corrobora o entendimento de que todas as frases de uma língua são formadas pela combinação de construçõesos seus constituintes e não de uma simples seqüência de elementos discretos Esses constituintes por sua vez são formados por unidades de ordem inferior Assim para decompor os enunciados do corpus os distribucionalistas utilizam um método chamado de análise em constituintes imediatos Nessa perspectiva uma frase é o resultado de diversas camadas de constituintes Por exemplo a estrutura da frase O aluno comprou um livro é descrita como a combinação de dois constituintes um sintagma nominal o aluno e um sintagma verbal comprou um livro Por sua vez cada um desses dois constituintes imediatos é formado por outros constituintes o sintagma nominal o aluno é formado por um determinante o e por um substantivo aluno o sintagma verbal comprou um livro é formado por um verbo comprou e por um sintagma nominal um livro Podemos observar abaixo como nossa frase pode ainda ser segmentada em outros constituintes Frase o aluno comprou um livro Sintagmas o aluno comprou um livro Palavras o aluno comprou um livro Morfemas o aluno comprou um livro Fonema o aluno kõprou ü livro Conforme podemos observar a análise distribucional e o modelo estruturalista como um todo apresenta uma perspectiva demasiadamente formal acerca do fenômeno lingüístico restringindo a tarefa do pesquisador ao descrever uma língua à classificação dos segmentos que aparecem nos enunciados do corpus e à identificação das leis de combinação de tais segmentos As formulações propostas por Bloomfield sob a inspiração do behaviorismo representaram nos estudos lingüísticos desenvolvidos nos Estados Unidos durante as primeiras décadas do século xx uma oposição às idéias mentalistas que defendiam que a fala deveria ser explicada como um efeito dos pensamentos intenções crenças sentimentos do sujeito falante Ao lado de Bloomfield Edward Sapir é apontado como um autor clássico da lingüística norteamericana do início do século xx Entretanto os estudos de Sapir rompem os limites do estruturalismo saussureano uma vez que adotam o postulado de que os resultados da análise estrutural de uma língua devem ser confrontados com os resultados da análise estrutural de toda a cultura material e espiritual do povo que fala tal língua As seguintes idéias estão relacionadas à hipótese SapirWhorf cada língua segmenta a realidade à sua maneira e impõe tal modo de segmentação do mundo a todos os que a falam Nesse sentido a língua configura o pensamento as pessoas que falam diferentes línguas veem o mundo diferentemente os modelos lingüísticos relacionamse aos modelos socioculturais As distinções gramaticais e lexicais obrigatórias numa dada língua correspondem às distinções de comportamento obrigatórias numa dada cultura Tanto a teoria proposta por SapirWhorf como o modelo de análise distribucional formulado por Bloomfield inseremse na situação lingüística específica dos Estados Unidos naquele início de século Havia no continente americano cento e cinqüenta famílias de línguas ameríndias o equivalente a aproximadamente mil línguas apresentadas sob a forma de material lingüístico oral ainda não descrito o que representava um grande problema para os administradores e etnólogos da época A perspectiva antropológica presente nos postulados de SapirWhorf e a psicologia comportamental que influenciou as idéias de Bloomfield encontram terreno fértil nesse contexto particular Esse contexto portanto marcou o estruturalismo dos Estados Unidos diferenciandoo da lingüística europeia Podese dizer que enquanto Sapir foi o pioneiro Bloomfield foi o consolidador da lingüística naquele país criando uma teoria mais bem delimitada do que os lingüistas anteriores Exercícios 1 Comente a afirmativa saussuriana A língua é um sistema cujas partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica Saussure 1975 2 Defina os conceitos de língua e fala 3 Um dos postulados de base da lingüística estrutural é que o signo é arbitrário Explique o que significa essa afirmação 4 A lingüística estrutural reconhece o princípio saussuriano de que todo o mecanismo lingüístico repousa sobre relações de dois tipos sintagmáticas e paradigmáticas Explique tal princípio 5 A afirmativa de que a lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma que finaliza o texto do Curso de lingüística geral é fundamental para que possamos compreender os postulados de Saussure Faça alguns comentários a respeito dessa questão 6 Aponte três características da lingüística descritiva norteamericana distribucionalismo que fazem dela uma vertente do estruturalismo saussuriano Notas 1 A noção inicial era a de sistema proposta por Saussure A noção de estrutura se desenvolveu do termo saussuriano tendo sido estabelecido que a língua constitui um sistema cumpre estabelecer como se estrutura esse sistema 2 Essa característica se desenvolveu de modo mais forte na chamada Escola de Copenhague sobretudo com Louis Hjelmslev As chamadas escolas de Praga e de Genebra desenvolvendo uma linha um pouco diferente procuraram relacionar essa estrutura com a noção de função 3 Saussure caracteriza as onomatopéias autênticas como aquelas que representam imitações aproximativas e já meio convencionais de certos ruídos em oposição àquelas que impressionam por sua sonoridade sugestiva como por exemplo tilintar chover e piar 4 O estruturalismo europeu está representado principalmente pela lingüística funcional desenvolvida pela Escola de Praga As questões relacionadas a essa vertente são tratadas em capítulo específico Gerativismo Eduardo Kenedy Neste capítulo apresentamse em linhas gerais os principais aspectos que caracterizam a corrente de estudos lingüísticos conhecida como gerativismo Analisaremos a concepção de linguagem humana que norteia as pesquisas dessa corrente bem como faremos uma exposição da maneira gerativista de observar descrever e explicar os fatos das línguas naturais Tratase de uma visão geral introdutória e simplificada destinada ao estudante que conhece pouco ou nada sobre o gerativismo Nas indicações bibliográficas apresentadas no fim do livro o leitor encontrará sugestões de leituras em português para prosseguir nos estudos sobre o assunto A faculdade da linguagem A lingüística gerativaou gerativismo ou ainda gramática gerativaé uma corrente de estudos da ciência da linguagem que teve início nos Estados Unidos no final da década de 1950 a partir dos trabalhos do lingüista Noam Chomsky professor do Instituto de Tecnologia de Massachussets o MIT Considerase o ano de 1957 a data do nascimento da lingüística gerativa ano em que Chomsky publicou seu primeiro livro Estruturas sintáticas Tratase portanto de uma linha de pesquisa lingüística que já possui cinqüenta anos de plena atividade e produtividade Ao longo desse meio século o gerativismo passou por diversas modificações e reformulações que refletem a preocupação dos pesquisadores dessa corrente em elaborar um modelo teórico formal inspirado na matemática capaz de descrever e explicar abstratamente o que é e como funciona a linguagem humana A lingüística gerativa foi inicialmente formulada como uma espécie de resposta e rejeição ao modelo behaviorista de descrição dos fatos da linguagem modelo esse que foi dominante na lingüística e nas ciências de uma maneira geral durante toda a primeira metade do século xx Para os behavioristas dentre os quais se destacava o lingüista norteamericano Leonard Bloomfield a linguagem humana era interpretada como um condicionamento social uma resposta que o organismo humano produzia mediante os estímulos que recebia da interação social Essa resposta a partir da repetição constante e mecânica seria convertida em hábitos que caracterizariam o comportamento lingüístico de um falante Vejamos por exemplo como Bloomfield 1933 2930 descrevia a maneira pela qual uma criança aprendia a falar uma língua Cada criança que nasce num grupo social adquire hábitos de fala e de resposta nos primeiros anos de sua vida Sob estimulação variada a criança repete sons vocais Alguém por exemplo a mãe produz na presença da criança um som que se assemelha a uma das sílabas de seu balbucio Por exemplo ela diz doll boneca Quando esses sons chegam aos ouvidos da criança seu hábito entra em jogo e ela produz a sílaba de balbucio mais próxima da Dizemos que nesse momento a criança começa a imitar A visão e o manuseio da boneca e a audição e a produção da palavra doll isto é da ocorrem repetidas vezes em conjunto até que a criança forma um hábito Ela tem agora o uso de uma palavra Para um behaviorista a linguagem humana é exatamente o que descreveu Bloomfield um fenômeno externo ao indivíduo um sistema de hábitos gerado como resposta a estímulos e fixado pela repetição Numa resenha feita em 1959 sobre o livro Comportamento verbal escrito por B E Skinner professor da famosa universidade de Harvard e principal teórico do behaviorismo Chomsky apresentou uma radical e impiedosa crítica à visão comportamentalista da linguagem sustentada pelos behavioristas Na resenha Chomsky chamou a atenção para o fato de um indivíduo humano sempre agir criativamente no uso da linguagem isto é a todo momento os seres humanos estão construindo frases novas e inéditas ou seja jamais ditas antes pelo próprio falante que as produziu ou por qualquer outro indivíduo Por isso todos os falantes são criativos desde os analfabetos até os autores dos clássicos da literatura já que todos criam infinitamente frases novas das mais simples e despretensiosas às mais elaboradas e eruditas Pensemos por exemplo na frase que acabamos de produzir aqui mesmo neste texto É muito provável que ela nunca tenha sido proferida exatamente da maneira como o fizemos bem como jamais será dita novamente da mesma forma Chomsky chegou a afirmar inclusive que a criatividade é o principal aspecto caracterizador do comportamento lingüístico humano aquilo que mais fundamentalmente distingue a linguagem humana dos sistemas de comunicação animal De acordo com esse pensamento de Chomsky se considerarmos a criatividade a principal característica da linguagem humana então devemos abandonar o modelo teórico e metodológico do behaviorismo já que nele não há espaço para eventos criativos pois para lingüistas como Bloomfield o comportamento lingüístico de um indivíduo deve ser interpretado como uma resposta completamente previsível a partir de um dado estímulo tal como é possível prever que um cão começará a latir ao ouvir por exemplo o som de uma campainha caso tenha sido treinado para isso1 Se o behaviorismo deve ser abandonado como de fato foi após a publicação da resenha de Chomsky o gerativismo se apresenta como um modelo capaz de superálo e substituílo Com as suas idéias Chomsky revitalizou a concepção racionalista dos estudos da linguagem em oposição franca e direta à concepção empiricista de Skinner Bloomfield e demais estruturalistas norteamericanos e europeus Para Chomsky a capacidade humana de falar e entender uma língua pelo menos isto é o comportamento lingüístico dos indivíduos deve ser compreendida como o resultado de um dispositivo inato uma capacidade genética e portanto interna ao organismo humano e não completamente determinada pelo mundo exterior como diziam os behavioristas a qual deve estar radicada na biologia do cérebromente da espécie e é destinada a constituir a competência lingüística de um falante Essa disposição inata para a competência lingüística é o que ficou conhecido como faculdade da linguagem Há de fato muitas evidências de que a linguagem seja uma faculdade natural à espécie humana Pensemos por exemplo que excluindose os casos patológicos graves todos os indivíduos humanos de todas as raças em qualquer condição social em todas as regiões do planeta e em todos os tempos da história foram e são capazes de manifestar ao cabo de alguns anos de vida e sem receber instrução explícita para tanto uma competência lingüística a capacidade natural e inconsciente de produzir e entender frases É notável que nenhum outro ser do planeta a não ser o próprio homem seja capaz de dominar naturalmente um sistema de linguagem tão complexo como uma língua natural mesmo após muitos anos de treinamento E nem mesmo o mais potente e arrojado dos computadores modernos é capaz de reproduzir artificialmente os aspectos mais elementares do comportamento lingüístico de uma criança de menos de 3 anos de idade como criar ou compreender uma frase completamente nova Não é por outra razão que a faculdade da linguagem é a característica mental mais marcante que separa os humanos dos demais primatas superiores e do resto do mundo natural O papel do gerativismo no seio da lingüística é constituir um modelo teórico capaz de descrever e explicar a natureza e o funcionamento dessa faculdade o que significa procurar compreender um dos aspectos mais importantes da mente humana como afirmou o próprio Chomsky 1980 9 Uma das razões para estudar a linguagem exatamente a razão gerativista e para mim pessoalmente a mais premente delas é a possibilidade instigante de ver a linguagem como um espelho do espírito como diz a expressão tradicional Com isto não quero apenas dizer que os conceitos expressados e as distinções desenvolvidas no uso normal da linguagem nos revelam os modelos do pensamento e o universo do senso comum construídos pela mente humana Mais instigante ainda pelo menos para mim é apossibilidade de descobrir através do estudo da linguagem princípios abstratos que governam sua estrutura e uso princípios que são universais por necessidade biológica e não por simples acidente histórico e que decorrem de características mentais da espécie humana Com o gerativismo as línguas deixam de ser interpretadas como um comportamento socialmente condicionado e passam a ser analisadas como uma faculdade mental natural A morada da linguagem passa a ser a mente humana O modelo teórico Naturalmente apenas postular a existência da faculdade da linguagem como um dispositivo inato que permite aos humanos desenvolver uma competência lingüística não resolveria todos os problemas da lingüística gerativa Era e ainda é preciso descrever exatamente como é essa faculdade como ela funciona e como é possível que ela seja geneticamente determinada se as línguas do mundo parecem tão diferentes entre si Para dar conta dessa aparente contradição entre a hipótese da faculdade da linguagem e as milhares de línguas existentes no planeta os lingüistas da corrente gerativa vêm elaborando teorias que procuram explicar o funcionamento da linguagem na mente das pessoas Ao observar os fatos das línguas naturais um gerativista fazse perguntas como O que há em comum entre todas as línguas humanas e de que maneira elas diferem entre si Em que consiste o conhecimento que um indivíduo possui quando é capaz de falar e compreender uma língua Como o indivíduo adquire esse conhecimento De que maneira esse conhecimento é posto em uso pelo indivíduo Quais são as sustentações físicas presentes no cérebromente que esse conhecimento recebe Para procurar responder a perguntas como essas a lingüística gerativa propõese a analisar a linguagem humana de uma forma matemática e abstrata formal que se afasta bastante do trabalho empírico da gramática tradicional da lingüística estrutural e da sociolinguística e se aproxima da linha interdisciplinar de estudos da mente humana conhecida como ciências cognitivas A maneira pela qual tais perguntas vêm sendo respondidas constitui o modelo teórico do gerativismo Ao longo dos anos lingüistas de todas as partes do mundo inclusive do Brasil desde a década de 1970 têm trabalhado na formulação e no refinamento do modelo teórico gerativista O mais importante deles é o próprio Chomsky mas existem muitos estudiosos que dele discordam e acabam formalizando modelos alternativos que às vezes divergem crucialmente do modelo chomskyano Não há qualquer dúvida de que Chomsky seja não só o criador como principalmente o mais influente teórico da lingüística gerativa e um dos mais importantes estudiosos da linguagem de todos os tempos no entanto não se deve traçar um sinal de igual entre Chomsky e o gerativismo É muito comum encontrarmos gerativistas que não são chomskyanos apesar de que quase sempre ser chomskyano significa ser gerativista Vejamos a seguir as principais características dos modelos chomskyanos e convidamos o leitor ao avançar em seus estudos a conhecer os modelos diferentes A gramática como sistema de regras A primeira elaboração do modelo gerativista ficou conhecida como gramática transformacional e foi desenvolvida e reformulada diversas vezes durante as décadas de 1960 e 1970 Os objetivos dessa fase do gerativismo consistiam em descrever como os constituintes das sentenças eram formados e como tais constituintes transformavamse em outros por meio da aplicação de regras Por exemplo a sentença o estudante leu o livro possui cinco itens lexicais que estão organizados entre si através de relações estruturais que chamamos de marcadores sintagmáticos e tais marcadores poderiam sofrer regras de transformação de modo a formar outras sentenças como o livro foi lido pelo estudante o que o estudante leu quem leu o livro etc Ou seja os gerativistas perceberam que as infinitas sentenças de uma língua eram formadas a partir da aplicação de um finito sistema de regras a gramática que transformava uma estrutura em outra sentença ativa em sentença passiva declarativa em interrogativa afirmativa em negativa etc e é precisamente esse sistema de regras que então se assumia como o conhecimento lingüístico existente na mente do falante de uma língua o qual deveria ser descrito e explicado pelo lingüista gerativista Vejamos um exemplo A sentença s o aluno leu o livro é formada pela relação estrutural entre o sintagma nominal SN O aluno e o sintagma verbal sv leu o livro O SN é formado pelo determinante DET O e pelo nome N aluno e o sv por sua vez é formado pelo verbo v leu e pelo outro SN o livro o qual se forma também por uma relação entre DET e N no caso o e livro respectivamente Toda essa estrutura sintagmática pode ser mais claramente visualizada no esquema abaixo denominado diagrama arbóreo ou simplesmente árvore que é a famosa maneira pela qual os gerativistas representam estruturas sintáticas O livro Figura 1 representação arbórea Essas regras de composição sintagmática explicam como uma estrutura simples como esta é gerada mas não são suficientes para explicar como uma outra estrutura relacionada como a voz passiva seria formada a partir da estrutura de base no caso a voz ativa Para dar conta da relação entre estruturas diferentes mas relacionadas os gerativistas formularam as regras transformacionais Essencialmente uma transformação forma uma estrutura a partir de uma outra previamente existente A estrutura primeiramente formada é chamada de estrutura profunda e a estrutura dela derivada chamase estrutura superficial Nesse sentido a voz ativa é interpretada como a estrutura profunda sobre a qual são aplicadas as regras transformacionais que geram a voz passiva a estrutura superficial s SN SV DET N V SN o estudante leu DET N o livro ESTRUTURA PROFUNDA REGRAS DE TRANSFORMAÇÃO 1 seleção do verbo ser participio 2 movimento do objeto para a posição de sujeito 3 manifestação do agente como Sintagma Preposicionado SP S SN SV DET N V SP o livro AUX PART P SN foi lido por pelo DET N l i o estudante ESTRUTURA SUPERFICIAL Figura 2 transformação passiva Na década de 1990 a idéia da transformação de uma estrutura profunda numa estrutura superficial seria abandonada em favor de uma visão que não mais representava estruturas e sim as derivava mostrando os passos pelos quais uma estrutura é formada derivada sem que ela tenha de ser comparada com uma outra estrutura independente Não obstante a idéia das transformações como operações computacionais fenômenos sintáticos que derivam sentenças é o tópico central da pesquisa gerativista até o presente momento Outro centro de atenção dos gerativistas sempre foi compreender como é possível que os falantes de uma língua tenham intuições sobre as estruturas sintáticas que produzem e ouvem Por exemplo todo falante nativo do português sabe que uma frase como quantos livros você já escreveu é perfeitamente normal e pode ser falada por qualquer um de nós sem causar estranhamento Tratase portanto de uma frase gramatical normal na língua Esse mesmo falante do português também sabe pela sua intuição que uma frase como que livro você conhece uma pessoa que escreveu não é normal é estranha é uma frase agramatical da língua e por isso aparece antecedida do asterisco que indica a agramaticalidade Ora como é que o falante sabe disso Como ele consegue distinguir uma frase gramatical de uma frase agramatical em sua língua Note bem estamos falando de um conhecimento implícito inconsciente e natural acerca da língua que todos os falantes nativos possuem e não das regras da gramática normativa que aprendemos na escola Na escola nunca são analisadas construções como a frase agramatical citada a quantos livros você já escreveu gramatical b que livro você conhece uma pessoa que escreveu agramatical Figura 3 gramaticalidade vs agramaticalidade Um outro exemplo na sentença João disse que ele vai se casar todo falante nativo de português sabe que o pronome ele pode referirse tanto a João quanto a outra pessoa qualquer do sexo masculino diferente de João e citada anteriormente no discurso isto é a frase pode dizer que o próprio João vai se casar ou que um outro homem vai se casar Mas na frase Ele disse que João vai se casar o falante sabe que ele não pode ser a mesma pessoa que João e nesse caso a frase diz somente que João vai se casar Todos os falantes de português conhecem inconscientemente essas pequenas regras que acabamos de descrever e é por isso que entendem e produzem as frases de sua língua Mas como isso é possível Como podemos saber essas coisas se ninguém nos ensina explicitamente como a língua funciona Esse conhecimento lingüístico inconsciente que o falante possui sobre a sua língua e que lhe permite essas intuições é o que denominamos competência lingüística o conhecimento interno e tácito das regras que governam a formação das frases da língua A competência lingüística não é a mesma coisa que o comportamento lingüístico do indivíduo aquelas frases que de fato uma pessoa pronuncia quando usa a língua Esse uso concreto da língua denominase desempenho lingüístico também conhecido por performance ou ainda atuação e envolve diversos tipos de habilidade que não são lingüísticas como atenção memória emoção nível de estresse conhecimento de mundo etc Imagine que você desejava pronunciar a frase Vou tentar a sorte mas enrolou a língua e acabou dizendo vou tentar a torte Ora o que aconteceu foi apenas um erro de execução com a preservação do segmento 1 no início da palavra sorte o que não significa que seu conhecimento sobre o português tenha sido abalado O que ocorreu não foi um problema de conhecimento mas de uso de desempenho de performance da língua Classicamente o interesse central das pesquisas gerativistas recai na competência lingüística dos falantesmuito embora só se possa ter acesso a ela através do desempenho pois é essa competência que torna o indivíduo capaz de falar e compreender uma língua De acordo com essa abordagem é somente através do estudo da competência que será possível elaborar uma teoria formal que explique o funcionamento abstrato da linguagem na mente dos indivíduos Em razão desse interesse central na competência lingüística os estudos clássicos do gerativismo não costumam usar dados lingüísticos reais performance retirados do uso concreto da língua na vida cotidiana O que interessa fundamentalmente ao gerativista é o funcionamento da mente que permite a geração das estruturas lingüísticas observadas nos dados de qualquer corpus de fala mas não lhe interessam esses dados em si mesmos ou em função de qualquer fator extralinguístico como o contexto comunicativo ou as variáveis sociais que influenciam o uso da linguagem Os gerativistas usam como dados para as suas análises principalmente 1 testes de gramaticalidade nos quais frases são expostas a falantes nativos de uma língua que devem utilizar sua intuição e distinguir as frases gramaticais das agramaticais e 2 a intuição do próprio lingüista que afinal também é um falante nativo de sua própria língua Não obstante os gerativistas que fazem pesquisas aplicadas psicolinguistas neurolinguistas etc2 também observam os dados do uso da língua em situação natural ou em situação experimental procurando extrair deles informações para o modelo de explicação da competência lingüística Por exemplo esses gerativistas se interessam por 1 testes e experimentos psicolinguísticos com pessoas de todas as idades nos quais os informantes são levados a produzir ou interpretar determinados tipos de estruturas lingüísticas 2 testes e experimentos de aquisição da linguagem com crianças além de gravações da fala natural destas 3 testes e experimentos neurolinguísticos através dos quais se observa o funcionamento do cérebro quando em atividade lingüística e também o desempenho lingüístico de pacientes afásicos pessoas que possuem dificuldades no desempenho lingüístico em decorrência de uma lesão cerebral na maior parte das vezes 4 evidências das mudanças lingüísticas por que passam as línguas como uma maneira de compreender o que ocorre com a gramática quando algum de seus componentes se transforma ao longo do tempo perdendo ou ganhando formas Esse último tipo de análise gerativista é o que mais se aproxima da lingüística baseada em dados concretos do uso da língua corpus No Brasil trabalharam e trabalham nessa linha que ficou conhecida como sociolinguística paramétrica lingüistas de importância e reconhecimento internacional como Fernando Tarallo Mary Kato Maria Eugênia Duarte entre outros A gramática universal princípios e parâmetros Com a evolução da lingüística gerativa no início dos anos 1980 a idéia da competência lingüística como um sistema de regras específicas cedeu lugar à hipótese da gramática universal GU Devese entender por GU O conjunto das propriedades gramaticais comuns compartilhadas por todas as línguas naturais bem como as diferenças entre elas que são previsíveis segundo o leque de opções disponíveis na própria GU A hipótese da GU representa um refinamento da noção de faculdade da linguagem sustentada pelo gerativismo desde o seu início a faculdade da linguagem é o dispositivo inato presente em todos os seres humanos como herança biológica que nos fornece um algoritmo isto é um sistema gerativo um conjunto de instruções passo a passo como as inscritas num programa de computador o qual nos torna aptos para desenvolver ou adquirir a gramática de uma língua Esse algoritmo é a GU Para procurar descrever a natureza e o funcionamento da GU os gerativistas formularam uma teoria chamada de princípios e parâmetros Essa teoria possui pelo menos duas fases a fase da teoria da regência e da ligação TRL que perdurou por toda a década de 1980 e o programa minimalista PM em desenvolvimento desde o início da década de 1990 até o presente As pesquisas da teoria de princípios e parâmetros foram e são desenvolvidas sobretudo na área da sintaxe pois é exatamente nas estruturas sintáticas que mais evidentemente se percebem as grandes semelhanças entre todas as línguas do mundo mesmo entre aquelas que não possuem nenhum parentesco o que facilita o estudo da GU Por exemplo todas as línguas do mundo possuem estruturas como orações adjetivas orações interrogativas e funções sintáticas como sujeito predicado complementos A possibilidade de estudar a sintaxe isolada dos demais componentes da gramática léxico fonologia morfologia semântica é conseqüência de um conceito fundamental do gerativismo o de gramática modular Segundo ele os componentes da gramática devem ser analisados como módulos autônomos independentes entre si no sentido de que são governados por suas próprias regras e não sofrem influência direta dos outros módulos Isto é o funcionamento de um módulo como digamos a sintaxe é cego em relação às operações da fonologia por exemplo Naturalmente existem pontos de interseção entre os módulos da gramática afinal a sintaxe cria sintagmas e sentenças a partir das palavras do léxico e o produto final da sintaxe a sentença deve receber uma leitura fonológica e também uma interpretação semântica básica que no gerativismo se chama forma lógica Podemos visualizar essa interação entre os módulos da gramática no esquema a seguir FONOLOGIA LÉXICO I SINTAXE SEMÂNTICA Figura 4 o modelo de gramática Nessa ilustração vemos que o elemento central da gramática é a sintaxe Ela retira do léxico as palavras com as quais construirá segundo suas próprias regras estruturas como sintagmas e sentenças que da sintaxe são encaminhadas à preparação para a pronúncia no módulo fonológico e para a interpretação formal no módulo semântico Nessa maneira de compreender o funcionamento da gramática a morfologia é interpretada como parte do léxico já que dá conta da estrutura interna da palavra e também como parte da fonologia uma vez que deve dar conta das alterações mórficas fonologicamente condicionadas No programa minimalista atual entendemos por princípio as propriedades gramaticais que são válidas para todas as línguas naturais ao passo que parâmetro deve ser compreendido como as possibilidades limitadas sempre de maneira binária de variação entre as línguas Por exemplo quando analisamos as sentenças a João disse que ele vai se casar e b Ele disse que João vai se casar vimos que em a o pronome ele pode referirse tanto a João quanto a qualquer outro homem anteriormente citado no discurso mas na frase b ele não pode se referir a João e necessariamente faz referência a um outro homem Essa diferenciação entre a referencialidade do pronome ele nas duas frases pode ser explicada da seguinte maneira nesse contexto o pronome faz referência a algum elemento que precisa ter sido citado anteriormente no texto tratase de um pronome anafórico É um princípio da GU que uma anáfora necessariamente deve suceder o seu referente e nunca o contrário É por isso que na frase a ele pode ser tanto João quanto outro homem citado numa frase anterior já que ambos os termos antecedem o pronome Já no caso de b João não pode ser o referente de ele pois o pronome antecede o nome Se traduzíssemos a e b para qualquer língua do mundo o resultado seria sempre o mesmo em b seria impossível ligar o pronome ao nome citado mas em a isso pode ocorrer Tratase portanto de um princípio da GU exatamente igual em todas as línguas naturais Vejamos agora um exemplo de parâmetro Se considerarmos que o valor semântico básico da frase a seja digamos algo como João disse que ele mesmo o próprio João vai se casar saberemos que ele se refere a João João é o sujeito da oração principal e ele é o sujeito da oração subordinada Dizemos então que os sujeitos das duas orações são correferenciais O que é interessante nesse exemplo é que o sujeito da segunda oração poderia não ser preenchido por um pronome anafórico isto é o sujeito da oração subordinada poderia ser oculto que na lingüística gerativa chamamos tecnicamente de sujeito nulo representado aqui informalmente por 0 como ocorre na sentença c João disse que 0 vai se casar i João disse que ele vai se casar ele sujeito preenchido ii João disse que 0 vai se casar 0 sujeito nulo Podemos dizer que a língua portuguesa se caracteriza por suportar a ocorrência de sujeitos nulos como ocorre também nessas frases 0 saí ontem 0 fomos ao cinema 0 fez o trabalho 0 choveu ontem etc Tanto nesses casos quanto na oração subordinada em ii o SN sujeito do sv predicado não possui nenhum elemento pronunciado está vazio nulo como se ilustra na sentença S abaixo s SN SV 0 vai se casar saí ontem choveu hoje Figura 5 parâmetro do sujeito nulo Deixar o sujeito nulo é uma propriedade do português e também de outras línguas como o espanhol o italiano mas essa propriedade não é comum a todas as línguas humanas Se traduzíssemos as sentenças do quadro acima para línguas como o inglês e o francês teríamos necessariamente de preencher o SN sujeito com um elemento pronominal pois nessas línguas o sujeito nulo é uma estrutura agramatical A frase ii por exemplo só poderia apresentar em inglês o pronome anafórico he e nunca o sujeito nulo 0 independentemente da referencialidade da anáfora pronominal ou zero i John said that he is going to get married ii John said that 0 is going to get married A existência de sujeitos nas sentenças é um princípio da GU mas a possibilidade de deixálos nulos nas frases é um parâmetro da GU pois línguas como o português se caracterizam como sujeito nulo enquanto línguas como o inglês são sujeito nulo E por essa razão que dissemos que os parâmetros que diferenciam as línguas são previsíveis e distribuídos sempre de maneira binária ou o parâmetro x O léxico por exemplo não é um fator de diferenciação entre as línguas que possa ser interpretado como opção paramétrica já que o léxico é sempre arbitrário e por isso mesmo imprevisível S S S SN c r SV SN SV He Is going 1 to get married went out yesterday It rained today Figura 6 parâmetro do sujeito nulo Ao compararmos as figuras 5 e 6 percebemos que somente línguas como o português e também o espanhol o italiano etc permitem o sujeito nulo 0 casos que conhecemos pela gramática tradicional como sujeito oculto indeterminado e inexistente Como indica a figura 6 línguas como o inglês bem como o francês o alemão etc não permitem o sujeito nulo e exigem o preenchimento do SN sujeito da frase nem que seja com um pronome expletivo sem conteúdo semântico como o itdo inglês O projeto da lingüística gerativa é observar comparativamente as línguas humanas com os seus milhares de fenômenos morfofonológicos sintáticos semânticos e sua suntuosa complexidade com o objetivo de descrever os princípios e os parâmetros da GU que subjazem à competência lingüística dos falantes para assim poder explicar como é a faculdade da linguagem essa parte notável da capacidade mental humana O FOXP2 e a genética da linguagem Em outubro de 2001 um geneticista inglês chamado Anthony Monaco professor da Universidade de Oxford e integrante do Projeto Genoma Humano anunciou a descoberta do primeiro gene que aparentemente está destinado a controlar a capacidade lingüística humana o FOXP2 Monaco estudou diversas gerações da família K E3 e constatou que todos os seus membros possuíam distúrbios de linguagem que não estavam associados a algum problema físico superficial como língua presa audição ineficiente etc Esses distúrbios diziam respeito à conjugação verbal à distribuição e à referencialidade dos pronomes à elaboração de estruturas sintáticas complexas como as orações subordinadas O interessante é que os avós pais filhos e netos da família K E não possuíam aparentemente nenhum outro distúrbio cognitivo além desses problemas com o sistema lingüístico Monaco analisou amostras de DNA dessa família e descobriu que uma única unidade de DNA de um só gene estava corrompida O FOXP2 é um dos setenta genes diferentes que compõem o cromossomo 7 que é responsável pela arquitetura genética do cérebro humano Esse gene o FOXP2 possui 2500 unidades de DNA e só uma delas apresenta problemas na genética da família K E Monaco estava quase certo de que esse gene deveria ser responsável pela capacidade genética associada à linguagem e teve certeza disso quando descobriu o jovem inglês C S que não possuía parentesco com os K E mas apresentava os mesmos distúrbios lingüísticos que os membros dessa família Monaco analisou o FOXP2 de C S e constatou o que presumia C S apresentava um defeito na mesma unidade de DNA do FOXP2 deficiente da família K E Daí o geneticista proclamou o que pode ser a descoberta do primeiro gene responsável pela genética dalinguagem humana Independentemente de as pesquisas de Anthony Monaco serem confirmadas ou não e há muitos geneticistas que as refutam o importante é que elas abriram ou aprofundaram a discussão fora do âmbito da lingüística gerativa sobre as bases genéticas da linguagem humana O FOXP2 é um gene existente também em outros primatas como chimpanzé e gorilas mas em quantidade muito reduzida e isso pode explicar a limitada capacidade de comunicação lingüística desses animais De fato se o mapeamento dos genes humanos apontar como a hipótese FOXP2 esboça a existência de genes cuja função na genética de nossa espécie é controlar o uso de pronomes a construção de orações subordinadas a flexão de verbos etc então a faculdade da linguagem e sua disposição na GU através de princípios e parâmetros podem passar a ser considerados não mais hipóteses abstratas mas sim fatos do mundo natural Consequentemente a lingüística gerativa será a corrente da ciência da linguagem que travará forte diálogo com as ciências naturais Exercícios 1 Em seu livro O instinto da linguagem o lingüista e psicólogo norteamericano Steven Pinker afirmou que a linguagem natural é um instinto da espécie humana uma capacidade que herdamos da natureza Para Pinker assim como as aranhas são naturalmente programadas para tecer teias os humanos são programados para falar pelo menos uma língua Explique por que essa afirmação de Pinker deve ser considerada coerente com os fundamentos da lingüística gerativa Você concorda em parte ou completamente com a afirmação do psicólogolinguista Vê nela algum exagero Comente 2 Leia as sentenças abaixo Ponha um asterisco antes daquelas que considerar segundo a sua intuição agramaticais e escreva OK depois daquelas que considerar gramaticais Logo após explique de onde vem essa intuição sobre as frases da língua a Parece que os alunos estão cansados b Os alunos parece que estão cansados c Os alunos parecem estar cansados d Os alunos parecem estarem cansados e Parece os alunos estarem cansados f Parece os alunos estar cansados g Os alunos parece que eles estão cansados 3 No final da festa do aniversário do seu filho dona Maria ia anunciar que estava na hora de cortar o bolo e disse a seguinte frase Vamos gente está na hora de Cortar o mio A própria falante riu do que disse e corrigiu a frase logo depois O erro lingüístico que dona Maria cometeu deve ser explicado como um problema na competência ou no desempenho lingüístico Explique 4 Observe o que diz John Lyons a respeito da propriedade lingüística da produtividade O que é impressionante na produtividade das línguas naturais na medida em que é manifesto na estrutura gramatical é a extrema complexidade e heterogeneidade dos princípios que a mantêm e constituem Mas como insistiu Chomsky esta complexidade e heterogeneidade não é irrestrita é regida por regras Dentro dos limites estabelecidos pelas regras da gramática que são em parte universais e em parte específicos de determinadas línguas os falantes nativos de uma língua têm a liberdade de agir criativamente de uma maneira que Chomsky classificaria de distintivamente humana construindo um número indefinido de enunciados Lyons 198734 Explique o que é a criatividade como qualidade distintivamente humana e b criatividade regida por regras 5 O estruturalismo lingüístico concebia a linguagem humana como uma forma de comportamento e este era interpretado como uma resposta fisiológica a estímulos externos podendo ser condicionado e programado da mesma forma que ratos de laboratório podem ser treinados a puxar uma alavanca para obter comida O Globo 2000 414 Explique por que o gerativismo pode ser interpretado como um modelo de análise lingüística radicalmente oposto ao modelo estruturalistabehaviorista 6 Observe os dados do inglês e do espanhol abaixo Leve em consideração também a tradução dessas frases para o português Explique o comportamento dos sujeitos e dos objetos nulos ou preenchidos nessas três línguas de acordo com as noções de princípios e parâmetros Inglês Espanhol Did you see John Tu viste a Juan Int você viu João Você viu João Yes I saw him Si yo lo vi Sim eu vio Sim eu 0 vi Yes I saw Si lo vi Sim eu vi 0 Sim 0 0 vi Yes saw him Si yo vi Sim 0 vio Sim eu vi 0 Yes saw Si vi Sim 0 vi 0 Sim 0 vi 0 7 Explique por que descobertas genéticas como a do gene FOXP2 e pesquisas em neurolinguística e em psicolinguística em geral são uma forma de pôr à prova para refutar ou confirmar a validade epistemológica das hipóteses da lingüística gerativa Notas 1 Para uma melhor caracterização da epistemologia behaviorista e sua superação pela psicologia recente ver Mehler e Dupoux 1990 2 Cabe ressaltar que os estudos de psicolinguística de neurolinguística e de lingüística histórica não são conduzidos exclusivamente sob um viés gerativista Existem inúmeros pesquisadores de orientação não formalista nessas áreas 3 A família e os indivíduos que participam de experiências científicas são sempre referidos por suas iniciais como é o caso aqui ou por nomes fictícios para preservar sua privacidade Sociolinguística Maria Maura Cezario Sebastião Votre A sociolinguística é uma área que estuda a língua em seu uso real levando em consideração as relações entre a estrutura lingüística e os aspectos sociais e culturais da produção lingüística Para essa corrente a língua é uma instituição social e portanto não pode ser estudada como uma estrutura autônoma independente do contexto situacional da cultura e da história das pessoas que a utilizam como meio de comunicação A sociolinguística parte do princípio de que a variação e a mudança são inerentes às línguas e que por isso devem sempre ser levadas em conta na análise lingüística O sociolinguista se interessa por todas as manifestações verbais nas diferentes variedades de uma língua Um de seus objetivos é entender quais são os principais fatores que motivam a variação lingüística e qual a importância de cada um desses fatores na configuração do quadro que se apresenta variável O estudo procura verificar o grau de estabilidade de um fenômeno se está em seu início ou se completou uma trajetória que aponta para mudança Em outras palavras a variação não é vista como um efeito do acaso mas como um fenômeno cultural motivado por fatores lingüísticos também conhecidos como fatores estruturais e por fatores extralinguísticos de vários tipos conforme mostraremos através de vários exemplos A variação ilustra o caráter adaptativo da língua como código de comunicação e portanto a variação não é assistemática O lingüista ao estudar os diversos domínios da variação deve demonstrar como ela se configura na comunidade de fala bem como quais são os contextos lingüísticos e extralinguísticos que a favorecem ou que a inibem A sociolinguística abordada neste presente manual firmouse nos Estados Unidos na década de 1960 com a liderança do lingüista William Labov e é comumente denominada de sociolinguística variacionista ou teoria da variação Possui uma metodologia bem delimitada que fornece ao pesquisador ferramentas para estabelecer variáveis para coleta e codificação dos dados bem como instrumentos computacionais para definir e analisar o fenômeno variável que se quer estudar A abordagem variacionista baseiase em pressupostos teóricos que permitem ver regularidade e sistematicidade por trás do aparente caos da comunicação do dia a dia Procura demonstrar como uma variante se implementa na língua ou desaparece O termo variante é utilizado para identificar uma forma que é usada ao lado de outra na língua sem que se verifique mudança no significado básico Tomemos por exemplo a variação nos pronomes pessoais na primeira pessoa do plural ilustrada com o verbo falar Temos as formas nós falamos e a gente fala como variantes do presente do indicativo Ambas as expressões são aceitas pelas pessoas em geral mas a estrutura nós falamos é considerada mais formal enquanto a gente fala soa mais coloquial Tendo essas duas variantes em vista um sociolinguista poderia se perguntar a Em que contexto social um mesmo falante se utiliza de cada uma das duas variantes b Ou será que há um contexto específico para uma das formas c Há diferença nos usos dessas formas ao se compararem crianças jovens e adultos d Há diferenças ao se compararem pessoas cultas com pessoas analfabetas e E quanto a pessoas de nível socioeconômico distinto f É possível saber se a forma mais coloquial a gente fala está substituindo a forma canônica nós falamos g Há verbos provavelmente os mais formais que motivam o uso de nós Quais seriam esses verbos E quais outros provavelmente os menos formais motivariam o uso de a gente Além das variantes citadas que combinam a gente com a terceira pessoa do singular e nós com primeira do plural temos mais duas variantes mais estigmatizadas que são nós fala e a gente falamos Diante dessas variantes mais perguntas podem ser feitas a Qual o grau de escolaridade das pessoas que usam essas formas b Há incidência da forma a gente mais verbo na primeira do plural na fala de pessoas cultas Em que contexto tais incidências tendem a ocorrer Uma das contribuições da pesquisa sociolinguística foi a constatação de que muitas formas não padrão também ocorrem na fala de pessoas com nível superior principalmente nos momentos mais informais Graças a sua metodologia de análise da língua em situação real de comunicação a sociolinguística consegue medir o número de ocorrências de usos de uma variante e sobretudo fazer previsões sobre as principais tendências de uso em relação a essa variante Assim por exemplo num estudo sobre a concordância verbal que se iniciou com a fala dos analfabetos adultos do Rio de Janeiro na década de 1970 constatouse que ao lado da variante As meninas brincam no quintal os analfabetos privilegiavam o uso de As menina brinca no quintal Verificouse também que a falta de concordância podia ocorrer tanto na fala de pessoas analfabetas como na fala de alunos universitários por exemplo Mas a freqüência de uso era muito diferente e continua a ser muito diferente As pessoas analfabetas têm tendência a marcar o número plural apenas no primeiro elemento do sujeito deixando o substantivo e sobretudo o verbo sem marcas Já as pessoas mais instruídas têm tendência alta de expressar o plural no núcleo dos sujeitos nos determinantes e no verbo que assim concorda com o sujeito em número e pessoa Mas isso não significa que a forma padrão não ocorra na fala não culta também não significa que a forma não padrão não apareça na classe dos universitários Entretanto as probabilidades de ocorrência num e noutro grupo são distintas e relevantes Cabe ao sociolinguista descobrir os contextos que favorecem a variação a na fala de um mesmo grupo de falantes b entre grupos distintos de falantes divididos segundo variáveis convencionais a exemplo de sexo idade escolaridade procedência etnia nível socioeconômico A partir da freqüência de uso das variantes cabe a ele estimar as tendências associadas a cada freqüência e verificar se se trata de variação instável ou estável No primeiro caso poderia ainda indagar se algum tipo de mudança lingüística está ocorrendo ou se está prestes a ocorrer Como vimos pelos dois exemplos citados o conjunto das variantes denomina se grupo de fatores ou variável lingüística Cabe ao lingüista estabelecer através da análise quais são as variáveis lingüísticas relevantes para a descrição e interpretação do fenômeno que está estudando Por exemplo a sibilante e a ausência da mesma em meninas e menina são variantes de número Podemos dizer que a variável s cuja representação é feita com parênteses angulares tem as variantes sibilante e zero Uma variável pode ser binária como a de número singular e plural com duas variantes ou eneária com três ou mais variantes Vamos ilustrar a variável eneária com a vibrante final O r final que ocorre em palavras como cantar for der qualquer melhor mulher tem diversas variantes fonéticas no Brasil a a pronúncia vibrante alveolar do Sul do Brasil b a pronúncia retroflexa com a ponta da língua voltada para trás do interior de estados como São Paulo c a pronúncia velar do Rio de Janeiro por exemplo d a fricativa glotal e e zero ou seja a ausência de som Podemos dizer que essas são as principais variantes da variável vibrante r na realidade Para simplificar a análise vamos reduzir a variável vibrante a duas variantes presença ou ausência de consoante vibrante final E vamos chamála de variável dependente Examinemos agora algumas das variáveis lingüísticas associadas à presença ou à ausência de vibração Vamos chamálas de variáveis independentes As variáveis lingüísticas podem ser 1 a classe sintática da forma em r verbo nome adjetivo outros 2 no caso de verbo a classe modotemporal infinitivo subjuntivo 3 ainda no caso de verbo a vogai temática indicadora de conjugação a e i o 4 a variável extensão com as variantes monossílabo dissílabo trissílabo e polissílabo As variáveis extralinguísticas envolvem a gênero com as variantes masculino e feminino b idade com as variantes criança jovem adulto velho ou uma escala de idade A pergunta agora seria qual é a variante de r que é mais eliminada em cada situação As pesquisas mostram que o r final de verbo no infinitivo é na maioria das vezes mais eliminado da fala de informantes de todos os graus de escolaridade do que o r final de substantivos e adjetivos A variável escolaridade por exemplo é relevante para a descrição do fenômeno dado que os falantes com mais tempo de escolarização tendem a manter o r mais do que os analfabetos Ambos os grupos tendem a manter mais no caso dos substantivos do que com verbos Há outras variáveis que podem influenciar a variação além das mencionadas acima Assim por exemplo o grau de formalidade do item é um fator relevante o r final de um verbo menos usado como postergar tem maior chance de ser pronunciado do que de um verbo do dia a dia como falar O contexto fonológico da seqüência que segue é também relevante Com efeito a presença de um fonema vocálico na palavra seguinte favorece a manutenção do fonema consonantal por um processo de reorganização da sílaba como em pegar a criança enquanto um som consonantal desfavorece a presença dessa variante de prestígio como em tomar banho Tomemos um segundo exemplo da variação no uso da língua dessa vez com foco na alternância entre presença e ausência do pronome eu Podemos constatar que no português brasileiro é variável a manifestação da primeira pessoa1 como comprei um livro ou eu comprei um livro A primeira forma ocorre com mais freqüência na língua escrita e a segunda na língua oral Com relação à língua oral o sujeito oculto tende a ocorrer nas orações que apresentam uma seqüência de ações realizadas pelo mesmo sujeito Somente a primeira oração de uma seqüência é que apresenta o sujeito explícito como no exemplo tinha uma árvore um tronco aí eu me abaixei pra poder não bater bati com isso aqui aí fiquei desmaiado uma hora e meia duas horas aí acordei no hospital com isso aqui aberto e as costas toda arranhada RJ Em várias línguas em que o sujeito pode ser explícito ou oculto ele tende a ocorrer no início do enunciado e na mudança de referente por exemplo se o informante está falando de Pedro e passa a falar de si próprio e o sujeito oculto tende a ocorrer na cadeia de tópico ou seja quando há várias orações se referindo a uma mesma pessoa tornando o discurso mais coeso e econômico ver o capítulo Funcionalismo Dessa forma o aparente caos da variação é desfeito e o lingüista demonstra a sistematização que existe no uso das variantes de uma língua A diversidade e a variabilidade são características inerentes aos sistemas lingüísticos e passam também a ser objeto de estudo com o advento da sociolinguística O estudo dos processos de variação e mudança permite estabelecer três tipos básicos de variação lingüística a variação regional associada a distâncias espaciais entre cidades estados regiões ou países diferentes a variável geográfica permite opor por exemplo Brasil e Portugal b variação social associada a diferenças entre grupos socioeconômicos compreende variáveis já citadas como faixa etária grau de escolaridade procedência etc c variação de registro tem como variantes o grau de formalidade do contexto interacional ou do meio usado para a comunicação como a própria fala o email o jornal a carta etc Estamos apresentando cada variável como se a mesma operasse de forma autônoma sem interferência das demais variáveis associadas ao comportamento da variação Entretanto o que ocorre normalmente nas línguas é uma interação mais ou menos estreita entre as diferentes variáveis Assim uma inovação lingüística começa numa determinada região variável regional mas é própria de um grupo socioeconômico desfavorecido variável social A variante pode passar a ser usada pelo grupo socioeconômico mais alto nos momentos mais informais a variável é então o registro Um exemplo em que podemos ver a atuação dos três tipos de variável independente é o caso do uso de tu vs você com o verbo na terceira pessoa do singular tu fez tu quer Do ponto de vista regional podemos dizer que há cidades como o Rio de Janeiro que apresentam tanto a variante você quanto a variante tu a variável idade aponta a preferência de jovens pelo uso de tu e a variável escolaridade a associa com os menos escolarizados já a variável registro mostra que o pronome tu tende a ser usado nos momentos mais informais Podemos flagrar variação em todos os níveis da língua Por exemplo no nível lexical poderíamos citar conhecidas oposições de forma jerimum Bahia e abóbora Rio de Janeiro guri Rio Grande do Sul e menino Rio de Janeiro2 No nível gramatical vimos a variação elas brincamelas brinca No nível fonéticofonológico podemos dar como exemplo a variação regional das pronúncias de uma palavra como morena com a vogai prétônica aberta no Nordeste e fechada na maior parte do Brasil Nesse nível situase grande parte da variação que contém formas estigmatizadas como o segundo membro dos pares seguintes flamengo flamengo lagarta largata bicicleta bicicreta Na dimensão propriamente social estão as diferenças lingüísticas verificadas com a comparação entre o dialeto padrão considerado correto superior puro e os dialetos não padrão considerados incorretos inferiores corrompidos A variante padrão é ensinada na escola e valorizada pelos membros da sociedade tanto pelos que a dominam como pelos que gostariam de dominála posto que sabem da sua importância para se adquirir prestígio O contexto situacional é responsável por uma série de variações lingüísticas Dependendo da situação em que o falante se encontre ele utiliza mecanismos lingüísticos diferentes para se expressar Assim a sua linguagem apresenta diferenças lexicais gramaticais e fonéticas distintas devido ao contexto ao ouvinte ou ao meio através do qual a informação é transmitida fala ou escrita carta email artigo etc Desse modo por exemplo um diretor de faculdade se expressa de diferentes formas dependendo se está discutindo os novos recursos tecnológicos da educação com outro profissional da área se está dando uma aula se está explicando para o reitor a necessidade de contratar um professor se está conversando com o filho sobre a escola com o amigo sobre o futebol com a família sobre a próxima viagem etc Cada pessoa tem um enorme repertório lingüístico que a torna capaz de adaptar sua linguagem às diferentes situações vividas Em síntese a língua é uma estrutura maleável que apresenta variações mas há muitos elementos gramaticais fonéticos e léxicos que são comuns às variedades de uma língua Nem tudo é variação havendo um número enorme de elementos comuns que são estáveis A variação configurase como um conjunto de elementos diferentes de outro conjunto de outro grupo de outra localidade ou de outro contexto O lingüista pode demonstrar que a variação é previsível e determinada por fatores lingüísticos eou extralinguísticos como veremos nas próximas seções O advento da corrente sociolinguística variacionista O estruturalismo e o gerativismo não incluíram nas suas análises a variação porque esta estava fora do âmbito do objeto da lingüística o qual deveria ser abstraído do caos da realidade do uso lingüístico Como fruto da insatisfação diante dos modelos existentes que afastavam o objeto da lingüística da realização da língua e de suas diversas manifestações vários lingüistas procuraram outros caminhos Um desses caminhos culminou com o surgimento da sociolinguística O termo sociolinguística surge pela primeira vez na década de 1950 mas se desenvolve como corrente nos Estados Unidos na década de 1960 especialmente com os trabalhos de Labov bem como os de Gumperz e Dell Hymes e a conferência The Dimensions ofSociolinguistics de William Bright publicada em 1966 sob o título de Sociolinguistics Na conferência o autor afirma que o escopo da sociolinguística está na demonstração de que existe uma sistemática covariação entre a estrutura lingüística e a estrutura social Dell Hymes 1977 como antropólogo concebe a sociolinguística como um campo que inclui contribuição de várias disciplinas como a sociologia a lingüística a antropologia a educação a poética o folclore e a psicologia Enfatiza que apesar de englobar tantas áreas a sociolinguística é uma disciplina autônoma pois seu objetivo final é diferente dos objetivos de cada uma das disciplinas citadas Interessalhe identificar descrever e interpretar as variáveis que interferem na variação e mudança lingüística Labov tal qual Saussure vê a lingüística como uma ciência do social dessa forma a sociolinguística eqüivale à lingüística com ênfase na atenção às variáveis de natureza extralinguística Assim como a etnolinguística e a psicolinguística a sociolinguística veio preencher um vazio deixado pelo gerativismo que considera objetivo legítimo de estudo apenas o aspecto interior das línguas e a competência lingüística Dessa forma as novas disciplinas vêm priorizar os fatores sociais culturais e psíquicos que interagem na linguagem Esses fatores são considerados essenciais para o estudo lingüístico porque o homem adquire a linguagem e dela se utiliza dentro de uma comunidade de fala tendo como objetivos a comunicação com os indivíduos e a atuação sobre os interlocutores Portanto muito se perde ao abstrair a língua de seu uso real Labov demonstrou que a mudança lingüística é impossível de ser compreendida fora da vida social da comunidade em que ela se produz pois pressões sociais são exercidas constantemente sobre a língua Os precursores da sociolinguística Conforme podemos imaginar a variação lingüística não era ignorada pelos antigos estudiosos da língua nem pela lingüística como ciência antes da década de 1960 Muitos lingüistas procuraram demonstrar a relação entre língua cultura e sociedade e podem ser considerados os precursores da corrente sociolinguística Aqui apenas faremos menção a movimentos em favor da inclusão de variáveis sociais nos Estados Unidos e na França Na década de 1930 os dialetólogos que trabalhavam no Linguistic Atlas of the United States and Canada passaram a incorporar informações sociais além das geográficas para o levantamento dos dialetos dividindo os informantes em três grupos de acordo com o nível de escolaridade Meillet 1926 procurando uma explicação para as mudanças lingüísticas na França afirmou que toda modificação na estrutura social acarreta uma mudança nas condições nas quais a linguagem se desenvolve e que portanto a história das línguas é inseparável da história da cultura e da sociedade Os sociolinguistas contemporâneos vêm consolidando as bases teóricas e metodológicas do estudo da língua em situação real de comunicação e demonstrando a existência da natureza socioestrutural da linguagem As pessoas provenientes de diferentes classes sociais falam dialetos bastante diferentes com divergências em todos os níveis incluindo o gramatical Sociedade e linguagem O indivíduo inserido numa comunidade de fala partilha com os membros dessa comunidade uma série de experiências e atividades Daí resultam várias semelhanças entre o modo como ele fala a língua e o modo dos outros indivíduos Nas comunidades organizamse agrupamentos de indivíduos constituídos por traços comuns a exemplo de religião lazeres trabalho faixa etária escolaridade profissão e sexo Dependendo do número de traços que as pessoas compartilham e da intensidade da convivência podem constituirse subcomunidades lingüísticas a exemplo dos jornalistas professores profissionais da informática pregadores e estudantes Nas sociedades em que é nítida a separação da população em classes sociais e econômicas a relação entre língua e classes sociais se verifica com bastante evidência Para exemplificar vejamos o trabalho de Labov 1966 sobre a emissão da consoante r pósvocálica em Nova York pesquisa que é um marco para a história dessa corrente Labov pesquisou o referido fenômeno em três lojas de departamento de Nova York uma freqüentada pela classe alta outra pela média e a terceira freqüentada pela classe baixa Induziu os empregados a proferir as palavras fourth numerai quarto e floor piso andar como resposta à sua pergunta sobre em que andar se encontrariam produtos que lhe interessavam Observese que a consoante r aparece em dois contextos diferentes posição pósvocálica final e posição pósvocálica não final Labov descobriu que a preservação da vibrante ocorria com maior freqüência na loja da classe alta e média do que na loja da classe mais baixa revelando que a pronúncia do r pósvocálico é considerada de prestígio Além disso o autor ao comparar o que se verificava com os registros sobre o grau de manutenção da vibrante em Nova York em décadas anteriores concluiu que o r estava sendo recuperado na cidade após a Segunda Guerra A situação é diferente do que ocorre no inglês padrão da Inglaterra e de algumas regiões dos Estados Unidos locais onde a pronúncia padrão não emite o som consonantal ou pelo menos não emitia na época da realização da pesquisa Dessa forma a variação entre a realização e a omissão do Ivl está relacionada com a comunidade lingüística e a classe social Um outro exemplo para ilustrar a relação entre variação lingüística e classe social é o não uso da desinência s da terceira pessoa do presente do inglês Hesheit traveis plays sleeps Trudgill 1974 compara os resultados de pesquisas realizadas em duas cidades Norwich na Inglaterra e Detroit nos Estados Unidos Os resultados demonstram que nas duas cidades a classe média elimina a marca s em menos de 10 dos dados enquanto a classe trabalhadora baixa elimina em mais de 70 dos dados em Norwich a taxa de eliminação do s chega a quase 100 Dessa forma a percentagem média leva a um modelo previsível representando toda a comunidade Assim por exemplo se um falante é da classe trabalhadora baixa provavelmente omitirá a desinência s Um outro exemplo para ilustrar a relação entre sociedade e linguagem é a diferença entre os falantes do sexo masculino de um lado e os do sexo feminino de outro Nas sociedades em que as funções entre homens e mulheres são muito distintas os falantes de um e outro sexo falam dialetos bastante diferenciados como é o caso de línguas de várias partes do mundo Uma das razões desta diferenciação é reportada ao tabu3 determinadas palavras só podem ser proferidas pelos homens e outras apenas pelas mulheres Por exemplo em zulu uma língua falada na África a mulher é proibida de dizer o nome do sogro o nome dos irmãos deste e o nome do genro quer estejam vivos ou mortos e também não pode falar uma palavra semelhante ou derivada uma mulher cujo genro chamese Umánzi com o radical mánzi água por exemplo deverá evitar todos os vocábulos em que se apresenta a palavra mánzi e os complexos fônicos semelhantes4 Nas sociedades em que as funções sociais entre homens e mulheres se aproximam a diferença de linguagem de um e outro é menos nítida mas existe Por exemplo em nossa língua o marido pode dizer Esta é minha mulher já a mulher deve evitar a frase Este é o meu homem que em determinados contextos soa vulgar Pesquisas mostram que as mulheres tendem a usar as formas padrão de uma língua com maior freqüência do que os homens Há muitas tentativas de explicação para a diferença nenhuma totalmente convincente ou suficiente Segundo alguns estudiosos isso se dá porque dentre outros fatores da mulher é cobrado um comportamento mais rígido em conformidade com as normas em todos os sentidos inclusive no que se refere ao comportamento lingüístico Devido a essa cobrança social a mulher teria uma preocupação maior em reproduzir as formas lingüísticas consideradas de prestígio dentro de uma comunidade lingüística Nos estudos efetuados sobre o português do Brasil quando uma variante é estigmatizada e outra é prestigiada verificase a tendência de as mulheres empregarem a variante de prestígio Quando uma forma nova deixa de ser estigmatizada as mulheres utilizamna geralmente com maior freqüência que os homens Aspectos teóricometodológicos do sociolinguística A pesquisa sociolinguística tem como ponto de partida o objeto de estudo para daí construir o modelo teórico O objeto de estudo normalmente se localiza no uso do vernáculo ou seja da língua falada em situações naturais espontâneas em que supostamente o falante se preocupa mais com o que dizer do que com o como dizer Trabalhase com o falanteouvinte real em situações reais de linguagem Busca se através do estudo das manifestações lingüísticas concretas descrever e explicar o fenômeno da linguagem A análise dos fenômenos de mudança lingüística mais do que de variação procura levar em conta cinco grandes dimensões estabelecidas por Weinreich Labov e Herzog em seu estudo clássico de 1968 1 os fatores universais limitadores da mudança e variação que podem ser sociais ou lingüísticos 2 o encaixamento das mudanças no sistema lingüístico e social da comunidade 3 a avaliação das mudanças em termos dos possíveis efeitos sobre a estrutura lingüística e sobre a eficiência comunicativa 4 a transição momento em que há mudanças intermediárias 5 a implementação da mudança estudo dos fatores responsáveis pela implementação de uma determinada mudança explicação para o fato de a mudança ocorrer numa língua e não em outras ou na mesma língua em outros momentos O sociolinguista procura recolher um grande número de dados através da gravação em fitas magnetofônicas de um número considerável de informantes Hoje todos os tipos de produção lingüística são gravados Na busca da fala menos monitorada costumase pedir aos informantes para produzirem narrativas de experiência pessoal para que o envolvimento emocional com o assunto narrado os fizesse produzir um discurso espontâneo informal Os informantes escolhidos são aqueles nascidos e criados na comunidade a ser estudada ou aqueles que aí vivem desde os 5 anos de idade O ideal é que se formem células de dados com o mesmo número de informantes dois sexos cada qual com o mesmo número de informantes três níveis de escolaridade e quatro faixas etárias por exemplo A sistematicidade da linguagem é buscada através do estudo da variação As variantes entendidas como modos diferentes de dizer a mesma coisa são concebidas como estando em competição na língua sendo que o favorecimento de uma sobre outra ocorre devido a fatores lingüísticos e não lingüísticos contexto lingüístico classe social sexo faixa etária etc O lingüista busca formular regras variáveis que descrevem e explicam os pesos relativos ligados aos fatores associados à ocorrência de duas formas variantes A regra é variável porque não é categórica ou seja não se aplica sempre Por exemplo em português a regra que estabelece que o artigo vem antes do substantivo e não depois é categórica mas a regra que estabelece a concordância entre o artigo e o substantivo é variável as casasas casa Nas décadas de 1960 e 1970 os fatores extralinguísticos da linguagem foram por demais valorizados mas a partir da década de 1980 Labov postulou que o aspecto lingüístico deveria ser privilegiado sobre o social A variação é reconhecida como existindo dentro do sistema lingüístico A teoria recebeu reformulações reduzindo o peso do social para destacar as motivações essencialmente lingüísticas Os resultados da análise de variantes podem definir duas situações a a existência de estabilidade entre variantes b a competição entre as variantes com aumento de uso de uma das variantes No primeiro caso dizse que ocorre variação e no segundo mudança em curso A variação é facilmente detectada pois para ela ocorrer é necessário simplesmente o favorecimento do ambiente lingüístico Para ocorrer uma mudança lingüística no entanto é necessária a interferência de fatores sociais refletindo as lutas pelo poder o prestígio entre classes sexos e gerações Mas para ocorrer a mudança é necessário um período de variação entre formas A variação estável consiste em diferenças lingüísticas que caracterizam cada grupo social cada cidade região cada canal oral ou escrito A variação está presente em todas as línguas num dado momento Assim por exemplo podemos citar a variação entre q consoante velar e n consoante alveolar para a terminação ing dos verbos do inglês speakinglfalando walkinglandando watchiassistindo que é um caso de variação que permanece estável na língua inglesa há séculos Essa variação é determinada pelo grau de escolaridade e pela classe social falantes com grau alto de escolaridade usam a forma padrão r e falantes com grau baixo de escolaridade e da classe baixa tendem a usar a forma não padrão n Outro exemplo é o caso da alternância 1 vs r dos grupos consonantais do português claro cfaro bicicleta bicicfeta Pesquisas demonstram que esse é um caso de variação estável que caracteriza duas comunidades de fala a forma não padrão f é usada pelos falantes das classes menos favorecidas e com baixo grau de escolaridade A outra forma canônica é usada pelo grupo mais escolarizado A medida que as crianças entram na escola e o seu nível de escolaridade sobe aumenta a ocorrência da forma padrão 1 na sua fala5 A mudança ocorre quando após um período de variação de duas ou mais formas a forma mais nova e de menor prestígio se espalha e substitui a forma antes mais usada Podemos dar como exemplo a pronúncia l pósvocálico do português do Brasil que passou a ser pronunciado como uma semivogal saw papew em todo o território brasileiro exceto na região Sul que mantém a consoante Ao analisar o momento atual de uma língua é difícil dizer se um determinado fenômeno lingüístico é um caso de variação estável ou de mudança em curso Os sociolinguistas têm uma metodologia para dizer se uma forma está ou não vencendo outra forma mais antiga É possível analisar o tempo real ou o tempo aparente O tempo real é observado através da pesquisa de duas ou mais épocas sendo ideal o estudo de dois momentos que se distanciam no mínimo em 12 anos e no máximo em 50 anos O lingüista pode gravar informantes e revisitálos anos mais tarde para ver como é o comportamento de determinadas variáveis como concordância nominal concordância verbal uso de pronomes pronúncia do r final etc Pode também comparar gravações de entrevistas atuais com entrevistas dadas em rádio há várias décadas Pode comparar dados de textos antigos observar atlas lingüísticos estudar as descrições feitas por outros lingüistas ou gramáticos Ele terá assim diversos meios de verificar se duas formas estão em variação ou se são um caso de mudança Muito comum também é a técnica de estudo do tempo aparente o lingüista grava amostras de informantes de diferentes faixas etárias para observar se uma dada forma ocorre mais na fala de crianças e jovens do que na de adultos e idosos Um uso muito elevado de ocorrência da forma nova na fala de jovens pode indicar mudança em curso Outros fatores devem ser somados à faixa etária para dar mais certeza ao pesquisador A escolaridade por exemplo é um importante fator quando falantes mais cultos estão usando uma forma que anteriormente não tinha prestígio isso significa que ela deixou de ser estigmatizada e passou a ser normal dentro da comunidade de fala de pessoas escolarizadas o que pode significar mudança ou seja substituição de uma forma mais antiga pela forma nova Vemos que a sociolinguística não trabalha com a idéia de se separar a sincronia da diacronia como era normal na metodologia estruturalista Ao analisar um determinado momento é possível verificar aspectos relativos à mudança da língua quando por exemplo se compara a fala de jovens e adultos de mais de 40 anos O lingüista está também estudando a sincronia porque jovens e adultos realizam a língua num dado recorte do tempo Portanto a sociolinguística tanto descreve o que ocorre nas diferentes comunidades de fala tendo em vista diferentes fatores lingüísticos e extralinguísticos como dá explicações relativas às tendências de mudanças Essa corrente trabalha com dados estatísticos mas os números são apenas o ponto de partida para o lingüista fazer as suas análises Só ele pode chegar a conclusões sobre os fatores que motivam ou desfavorecem uma variante Ele seleciona os fatores importantes a partir de sua experiência de seu conhecimento sobre a teoria e sobre o fenômeno em questão e de sua intuição Depois de acordo com os resultados preliminares de sua pesquisa fará os cruzamentos de fatores como por exemplo a a forma a gente e o grau de formalidade do verbo e b a forma a gente o grau de formalidade do verbo e o fator idade Os dados estatísticos servem para comprovar refutar e reconstruir hipóteses a partir do olhar treinado do lingüista Para aprimorar as análises com um número grande de dados e de fatores houve um grande desenvolvimento de programas computacionais para essa área Expansão da sociolinguística Além de contribuir para a descrição e explicação de fenômenos lingüísticos a sociolinguística também fornece subsídios para a área do ensino de línguas Os sociolinguistas postulam que os dialetos das classes desfavorecidas não são inferiores insuficientes ou corrompidos Afirmam que esses dialetos são estruturados com base em regras gramaticais muitas das quais diferentes das regras do dialeto padrão Dessa forma a sociolinguística cria nos futuros professores uma visão menos preconceituosa e incentivaos a valorizar todos os dialetos e a mostrar à criança que o dialeto culto é considerado melhor socialmente mas que estrutural e funcionalmente não é nem melhor nem pior que o dialeto da comunidade do aluno A sociolinguística com suas pesquisas baseadas na produção real dos indivíduos dános informações detalhadas acerca da variante produzida pelas pessoas mais escolarizadas sobre as variantes que deixaram de ser estigmatizadas e das mudanças já implementadas na fala mas que ainda não são aceitas nas gramáticas normativas Com isso a área da educação se enriquece com as informações que podem ser usadas também no ensino da língua culta que passa a ser baseada em dados reais No que se refere ao ensino de línguas estrangeiras as pesquisas acerca da variação podem contribuir para fornecer material para que as aulas sejam baseadas na forma como realmente os nativos falam na preparação de material com diversos tipos de registros com as suas variações lingüísticas típicas na escolha do dialeto a ser ensinado dentre outros elementos Os pressupostos teóricometodológicos da sociolinguística são trabalhados em diversos centros de pesquisa no mundo No Brasil as pesquisas nessa linha começaram a ser desenvolvidas na década de 1970 através da atuação de alguns grupos de pesquisadores a saber o grupo do projeto Mobral Central o grupo do projeto da Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro Nurc e o do projeto Censo da Variação Lingüística no Estado do Rio de Janeiro Censo tendo como coordenadores os professores Miriam Lemle Celso Cunha e Anthony Naro respectivamente A partir daquela década muitos trabalhos foram realizados nessa linha Hoje em várias universidades brasileiras há grupos que seguem os pressupostos téoricometodológicos da sociolinguística como o Programa de Estudos sobre o Uso da Língua Peul continuidade do Projeto Censo o próprio Nurc na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ o projeto de Variação Lingüística da Região Sul do Brasil Varsul na Universidade Federal de Santa Catarina UFSC e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRS Diversas teses foram defendidas com o objetivo de descrever as formas variantes do português do Brasil e de explicar os fatores lingüísticos e extralinguísticos que favorecemdesfavorecem as variantes lingüísticas Muitos projetos buscam novas alternativas para explicar a variação e a mudança a partir de outras áreas da lingüística como o funcionalismo Por outro lado há grupos funcionalistas que aproveitam o aparato teóricometodológico da sociolinguística para preparar o corpus e para coletar e analisar os dados como é o caso do projeto Discurso Gramática iniciado pelo professor Sebastião Votre na UFRJ e que hoje conta com representantes em diversas universidades do Brasil Exercícios 1 Caracterize a área de estudos denominada de sociolinguística 2 Quais são os três tipos básicos de variação lingüística Cite exemplos no nível fonéticofonológico 3 Cite algumas variáveis lingüísticas e extralinguísticas que podem explicar o uso das variantes do fonema r em português em posição pósvocálica final de sílaba 4 Cite um exemplo em que fique claro que há uma relação intrínseca entre língua e sociedade 5 Diferencie variação estável de mudança em curso Que recursos metodológicos o lingüista pode utilizar para afirmar se um fenômeno lingüístico é caso de mudança em curso 6 Qual o papel da variável gênero sexo na metodologia sociovariacionista 7 Para se estudar a mudança lingüística o pesquisador pode fazer um estudo em tempo real ou em tempo aparente Qual a diferença entre os dois métodos de pesquisa 8 Cite alguns grupos de pesquisa que fazem estudos sociovariacionistas no Brasil 9 Compare os contextos fonéticos em que ocorrem os sons t som alveolar e tj som africado no Rio de Janeiro Qual a regra que descreve a variação entre o som alveolar e o africado nessa cidade Observe nos exemplos a seguir que o mesmo tipo de variação também ocorre em d e d3 time tfimi teto tetu tolo tolu tive tjivi tudo tudu dito d3itu dedo fdedu adiado ad3iadu 10 Compare a produção oral com a escrita de um mesmo informante Valéria nível superior incompleto Apresente algumas das diferenças entre as duas modalidades variação de registro FALA E eh e agora eu queria que você me contasse uma história que tenha acontecido com alguém algum amigo seu seu pai seu irmão que você não estivesse presente alguém te contou e que você achou a história engraçada ou triste ou I ahn ahn ah essa eu eu me lembro sim achei tão engraçada foi um ami um noi não um amigo de um amigo meu que foi jantar na casa da noiva aquele jantar assim primeira vez e tal oficializar o noivado aí ele estava jantando e tal ele ele já não gosta muito de bife de carne aí estava lá não conseguia partir o bife de jeito nenhum e tal aí ele chamou a atenção do pessoal pra uma outra coisa entendeu apontou assim pro outro lado da mesa e ele viu que tinha uma janela atrás riso de E ele pegou o bife e tacou riso mas ele não reparou muito a janela estava fechada riso sério o bife saiu bateu na janela e começou a escorrer grudou escorreu quando eu ouvi ele contando aquilo cara eu dei muito foi muito engraçado ele contando ele contando o que aconteceu com ele cara foi muito engraçado E e ninguém viu que o bife I não aí depois todo mundo olhou ele viu que o bife o bife ali a família toda sem graça risos aí é o fim da história E e ele casou com a menina ou naquele dia acabou I não não casou não chegou a casar com essa não foi casar com uma outra riso ESCRITA Um conhecido meu foi jantar na casa da noiva era o primeiro jantar com a família toda reunida foi servido bife sendo que o Ricardo não gostava muito de carne e ainda por cima o bife estava duro que mal dava para partir Atrás do Ricardo havia uma janela aproveitando a oportunidade em que todos olhavam em sentido oposto não pensou duas vezes fincou o garfo no bife e o arremessou para trás ele só não contava com a janela fechada Foi uma vergonha quando todos viraram para frente e viram a janela suja de gordura e o bife no chão o Ricardo só quis abrir um buraco no chão e se enfiar Não sei se foi por isso mas o Ricardo não se casou com a Roberta Corpus Discurso Gramática RJ Notas Cf Paredes da Silva 1988 e Cezario 1994 1 Cada exemplo ocorre em vários estados da federação Os mencionados são apenas para figurar como ilustração Segundo Trudgill 1974 na língua o tabu está associado às coisas que não são ditas e às palavras que não devem ser usadas O tabu pode estar associado ao sagrado ou às coisas proibidas 1 Cf Guérrios 1979 p 33 1 Cf Mollica 1987 e Cezario 1991 Funcionalismo Angélica Furtado da Cunha O funcionalismo é uma corrente lingüística que em oposição ao estruturalismo e ao gerativismo1 se preocupa em estudar a relação entre a estrutura gramatical das línguas e os diferentes contextos comunicativos em que elas são usadas Assim a abordagem funcionalista apresenta não apenas propostas teóricas distintas acerca da natureza geral da linguagem mas diferentes concepções no que diz respeito aos objetivos da análise lingüística aos métodos nela utilizados e ao tipo dos dados utilizados como evidência empírica Os funcionalistas concebem a linguagem como um instrumento de interação social alinhandose assim à tendência que analisa a relação entre linguagem e sociedade Seu interesse de investigação lingüística vai além da estrutura gramatical buscando na situação comunicativa que envolve os interlocutores seus propósitos e o contexto discursivo a motivação para os fatos da língua A abordagem funcionalista procura explicar as regularidades observadas no uso interativo da língua analisando as condições discursivas em que se verifica esse uso Para compreender isso melhor vejamos dois exemplos que refletem um fenômeno relativamente comum no nosso dia a dia a Você é desonesto b Desonesto é você Como explicar a diferença entre essas duas sentenças Certamente uma análise que observasse apenas seu caráter sintático não daria conta de indicar por que o falante usaria a sentença exemplificada em a em lugar da exemplificada em b Ocorre que ao contrário do que acontece em a que constitui uma afirmativa a sentença b está relacionada a uma situação comunicativa típica de réplica marcada pela inversão do predicado desonesto que vai para o início da frase Isso significa que essa sentença só faz sentido em um contexto em que o interlocutor tenha feito anteriormente o mesmo insulto Esse exemplo demonstra a essência da análise funcionalista que amplia seu campo de visão recorrendo ao contexto de uso o qual por hipótese motiva as diferentes estruturas sintáticas Ou seja na análise de cunho funcionalista os enunciados e os textos são relacionados às funções que eles desempenham na comunicação interpessoal Ou seja o funcionalismo procura essencialmente trabalhar com dados reais de fala ou escrita retirados de contextos efetivos de comunicação evitando lidar com frases inventadas dissociadas de sua função no ato da comunicação É a universalidade dos usos a que a linguagem serve nas sociedades humanas que explica a existência dos universais lingüísticos2 em contraposição à postura gerativista que considera que os universais derivam de uma herança lingüística genética comum à espécie humana Funcionalistas e gerativistas divergem também com relação ao processo de aquisição da linguagem Os funcionalistas tendem a explicálo em termos do desenvolvimento das necessidades e habilidades comunicativas da criança na sociedade A criança é dotada de uma capacidade cognitiva3 rica que torna possível a aprendizagem da linguagem assim como outros tipos de aprendizagem É com base nos dados lingüísticos a que é exposta em situação de interação com os membros de sua comunidade de fala que a criança constrói a gramática da sua língua Os gerativistas por outro lado explicam a aquisição da linguagem em termos de uma capacidade humana específica para a aprendizagem da língua Ao mencionarmos a idéia de uma capacidade cognitiva rica frisamos mais uma importante característica do funcionalismo a visão de que a linguagem não constitui um conhecimento específico como propõem os gerativistas mas um conjunto complexo de atividades comunicativas sociais e cognitivas integradas ao resto da psicologia humana Assim a visão funcionalista de cognição assume que a linguagem reflete processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem significados adaptandoos a diferentes situações de interação com outros indivíduos Ou seja os conceitos humanos associamse à época à cultura e até mesmo a inclinações individuais caracterizadas no uso da linguagem Resumindo o que foi visto até aqui o modelo funcionalista de análise lingüística caracterizase por duas propostas básicas a a língua desempenha funções que são externas ao sistema lingüístico em si b as funções externas influenciam a organização interna do sistema lingüístico Sendo assim a língua não constitui um conhecimento autônomo independente do comportamento social ao contrário reflete uma adaptação pelo falante às diferentes situações comunicativas Por um lado essas propostas opõem o funcionalismo às abordagens que não se interessam pela atuação de fenômenos externos à estrutura das línguas como o estruturalismo e o gerativismo por outro lado elas contrastam diferentes visões funcionalistas opondo modelos mais antigos que focalizam as funções associadas à organização interna do sistema lingüístico como na fonologia de Praga por exemplo a modelos mais recentes que consideram as funções que a linguagem pode desempenhar nas situações comunicativas dando maior ou menor peso aos aspectos cognitivos relacionados à comunicação É costume distinguir as análises na linha funcionalista com base no grau em que se considera o condicionamento do sistema lingüístico pelas funções externas A postura mais radical propõe que as funções externas tais como os propósitos comunicativos dos interlocutores definem as categorias gramaticais de modo que não seria necessário postular categorias autônomas e independentes Em outras palavras não existiria o nível estrutural chamado sintaxe a língua poderia ser descrita unicamente com base nos princípios comunicativos Nessa linha inseremse o trabalho de Du Bois 1985 sobre a estrutura dos argumentos preferida em uma dada língua e o trabalho de Hopper Thompson 1980 que trata a transitividade como uma categoria que deriva do discurso Uma postura mais moderada admite uma interação entre forma e função de modo que as funções externas atuariam concomitantemente com a organização formal inerente ao sistema lingüístico influenciandoa em certos pontos sem fundamental mente definir suas categorias básicas Servem como exemplo dessa postura mais moderada o funcionalismo de Dik e de Halliday que reconhecendo a inadequação do formalismo propõem a incorporação da semântica e da pragmática4 à análise sintática Vejamos mais detalhadamente alguns desses diferentes modelos funcionalistas O funcionalismo europeu Embora freqüentemente contrastado ao estruturalismo o funcionalismo surge como um movimento particular dentro do estruturalismo enfatizando a função das unidades lingüísticas na fonologia o papel dos fonemas segmentais e suprassegmentais na distinção e demarcação das palavras na sintaxe o papel da estrutura da sentença no contexto Atribuise aos membros da Escola de Praga que se originou no Círculo Lingüístico de Praga fundado em 1926 pelo lingüista tcheco Vilém Mathesius as primeiras análises na linha funcionalista Com relação ao ponto de vista saussuriano esses lingüistas se opunham à distinção nítida entre sincronia e diacronia assim como à noção de homogeneidade do sistema lingüístico Sua contribuição pode ser sintetizada no uso dos termos funçãoIfuncional no estabelecimento dos fundamentos teóricos básicos do funcionalismo e nas análises que levam em conta parâmetros pragmáticos e discursivos Foi na área dos estudos fonológicos principalmente que a Escola de Praga obteve maior projeção Entre os seus principais representantes destacamse Nikolaj Trubetzkoy e Roman Jakobson ambos de origem russa Os trabalhos de Trubetzkoy lançaram os fundamentos para o desenvolvimento da fonologia de um modo geral Devese a ele a teoria estruturalista do fonema a noção de contraste funcional utilizada na distinção entre fonética e fonologia a teoria dos sistemas fonológicos desenvolvida com Jakobson e o conceito de traços distintivos mais tarde incorporado à teoria da fonologia gerativa em 1960 por Chomsky e Halle discípulo e colaborador de Jakobson De acordo com a fonologia desenvolvida em Praga os fonemas definidos como elementos mínimos do sistema lingüístico não são elementos mínimos em si mas feixes ou conjuntos de traços distintivos simultâneos Por exemplo o fonema p é constituído dos traços oclusivo bilabial surdo enquanto o fonemab reúne os traços oclusivo bilabial sonoro Logo p e b diferem quanto à sonoridade e é esse traço ou sonoro que distingue pares mínimos como as palavras ata e ata ou ico e ico Além da função distintiva Trubetzkoy e seus seguidores estabeleceram também a função demarcadora e a função expressiva dos fonemas A função demarcadora serve para marcar a fronteira entre uma forma e outra na cadeia da fala O acento tônico das palavras por exemplo tem uma função demarcadora importante no português como em fábrica substantivo e fabrica verbo A função expressiva de um traço fonológico indica o estado de espírito do falante seus sentimentos ou sua atitude como por exemplo a pronúncia enfática de uma palavra com o alongamento da vogai liiiiindo Jakobson por sua vez é responsável pela introdução do conceito de marcação na morfologia Aplicado primeiramente na fonologia o princípio de marcação estabelece a distinção entre categorias marcadas e categorias não marcadas em um contraste binário Por exemplo a oposição entre Ipl e Ibl vista anteriormente se dá através do traço sonoridade Quanto a esse traço então Ibl que se caracteriza pelo traço sonoro é marcado já p caracterizado pelo traço sonoro é não marcado Na morfologia com relação à categoria de número a forma meninos plural é marcada em oposição a menino plural forma não marcada As idéias de Jakobson extrapolaram a lingüística refletindose nas áreas da poesia e da antropologia Os lingüistas da Escola de Praga estenderam o funcionalismo para além da fonologia Com relação à estrutura gramatical das línguas Mathesius antecipou uma concepção funcional da sentença que deu origem mais tarde à teoria da perspectiva funcional da sentença um tipo de análise em termos da informação transmitida pela organização das palavras O conceito de informação tal como é usado na lingüística é definido como um processo de interação entre o que já é conhecido ou predizível e o que é novo ou imprevisto Halliday 1985 A categoria perspectiva dá conta do contraste entre sentenças sintaticamente distintas que descrevem o mesmo estado de coisas Vejamos dois enunciados como os apresentados abaixo a Eu já li esse livro b Esse livro eu já li Podemos tratar esses enunciados como sentenças diferentes com base nas diferenças na ordenação dos seus elementos ou podemos tratálos como versões alternativas de dizer a mesma sentença já que transmitem o mesmo conteúdo semântico ou a mesma informação Temos aqui um problema semelhante ao que apresentamos no exemplo anterior como justificar o uso de uma ou outra dessas sentenças em um determinado contexto Se considerarmos como costumam fazer os funcionalistas que a organização sintática da cláusula é motivada pelo contexto discursivo em que esta ocorre não podemos dizer que a e b seriam empregadas na mesma situação de comunicação Ou seja embora essas cláusulas pareçam equivalentes do ponto de vista semântico elas diferem do ponto de vista pragmático Essa diferença pragmática está relacionada ao status informacional dos elementos que compõem a cláusula nos exemplos em questão é interessante o fato de esse livro ter ou não sido mencionado anteriormente ou seja constituir ou não informação nova para o interlocutor No caso do exemplo b o termo esse livro já foi mencionado apresentando status de informação dada ou informação velha o que motiva sua colocação no início da sentença Questões dessa ordem estão diretamente envolvidas no papel funcional da sentença tal como sugerido por Mathesius Seguindo a tradição da Escola de Praga Jan Firbas desenvolveu no começo da década de 1960 um modelo da estrutura informacional da sentença que buscava analisar sentenças efetivamente enunciadas para determinar sua função comunicativa Nesse modelo a parte da sentença que representa informação dada ou já conhecida pelo ouvinte tem o menor grau de dinamismo comunicativo ou seja a quantidade de informação que ela comunica aos interlocutores no contexto é a menor possível Essa parte é denominada tema A parte que contem a informação nova apresenta o grau máximo de dinamismo e forma o rema Suponhamos o seguinte diálogo A O que Maria comprou B Maria comprou uma bolsa preta Nesse contexto Maria comprou é o tema e uma bolsa preta é o rema Como mencionamos anteriormente a tendência geral é que as partes que contêm o menor grau de dinamismo comunicativo tendem a vir no início da sentença enquanto as partes com o grau mais alto vêm por último Em oposição à corrente lingüística que focalizava o estudo da linguagem enquanto expressão do pensamento os funcionalistas de Praga enfatizaram o caráter multifuncional da linguagem ressaltando a importância das funções expressiva e conotativa entre outras além da referencial ver o capítulo Funções da linguagem A influência da Escola de Praga foi duradoura e profunda As idéias originadas nesse período são a fonte para diversos trabalhos posteriores principalmente de Roman Jakobson e André Martinet considerados os dois divulgadores mais importantes do pensamento lingüístico internacional da Escola de Praga Dentre as principais contribuições dessa escola estão a distinção entre as análises fonética e fonológica dos sons a análise dos fonemas em traços distintivos e as noções correlatas de binário e marcado O funcionalismo também se faz representar em algumas outras correntes lingüísticas póssaussurianas da Europa no século xx Saussure influenciou mais de perto a chamada Escola de Genebra cujos principais representantes são Charles Bally Albert Sechehaye e Henri Frei Enquanto Sechehaye limitouse basicamente a discutir as idéias de Saussure Bally interessado na relação entre o pensamento e sua expressão lingüística deu novo impulso à estilística que definiu como o estudo dos elementos afetivos da linguagem Concentrou sua atenção nos desvios que o uso individual a fala é levado a impor ao sistema a língua Essa proposta baseiase no fato de que não há separação intransponível entre esses dois aspectos da linguagem língua e fala posição teórica por definição funcionalista Por sua vez Frei notabilizouse por sua análise referente aos desvios da gramática normativa que segundo sua proposta não são fortuitos mas refletem tendências resultantes da necessidade de comunicação e constituem portanto uma rica fonte de estudos lingüísticos Frei se fez o promotor da lingüística de base funcional que associa os fatos lingüísticos a determinadas funções a eles relacionadas Essa influência chegou até Martinet que manteve freqüente contato com os principais lingüistas de Praga sobretudo com Trubetzkoy por quem foi bastante influenciado Outra manifestação funcionalista podemos ver na Escola de Londres sobretudo através das idéias de Michael K Halliday A teoria funcional de Halliday que surge na década de 1970 está centrada em um conceito amplo de função que inclui tanto as funções de enunciados e textos quanto as funções de unidades dentro de uma estrutura Apoiado na tradição etnográfica de BoasSapirWhorf e de Bronislav Malinowski Halliday defende a tese de que a natureza da linguagem enquanto sistema semiótico e seu desenvolvimento em cada indivíduo devem ser estudados no contexto dos papéis sociais que os indivíduos desempenham A postura de Halliday reflete também a influência do lingüista inglês John Firth para quem a linguagem deve ser considerada parte de um processo social A tendência de analisar a língua de um ponto de vista funcional está também presente no chamado grupo holandês No final da década de 1970 o lingüista holandês Simon Dik e seus seguidores desenvolveram um modelo de sintaxe funcional em que as funções em uma sentença são analisadas em três níveis distintos Tomemos como exemplo a sentença João chegou cedo João desempenha a função sintática de sujeito a função semântica de agente e a função pragmática de tema Primeiro as funções semânticas são associadas com os predicados no léxico por exemplo agente chegar e o núcleo de uma sentença no nosso exemplo João chegou pode ser ampliado por satélites cedo nesse caso As funções sintáticas são então relacionadas aos seus elementos e por último às funções pragmáticas A lingüística portanto tem que tratar de dois tipos de sistemas de regras de um lado as regras semânticas sintáticas morfológicas e fonológicas responsáveis pela constituição das estruturas lingüísticas de outro lado as regras pragmáticas responsáveis pelos modelos de interação verbal em que as estruturas lingüísticas são usadas Dik trabalha com uma concepção teleológica de linguagem Para ele o principal interesse de uma lingüística funcionalista está nos processos relacionados ao êxito dos falantes ao se comunicarem por meio de expressões lingüísticas5 O funcionalismo norteamericano A partir do estruturalismo a lingüística norteamericana foi dominada por uma tendência formalista que se enraizou com Leonard Bloomfield e se mantém até hoje com a lingüística gerativa Entretanto paralelamente foi se desenvolvendo uma tendência para o funcionalismo sob influência dos trabalhos de etnolinguistas como Franz Boas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf Dwight Bolinger é freqüentemente apontado como um dos precursores da abordagem funcionalista norteamericana Ainda durante o predomínio das teorias formais Bolinger chamava a atenção para o fato de que fatores pragmáticos operavam em determinados fenômenos lingüísticos estudados pelos estruturalistas e gerativistas Embora não tenha avançado um esboço completo de uma gramática funcionalista Bolinger impulsionou o funcionalismo com suas análises de fenômenos particulares em especial seu estudo pioneiro sobre a pragmática da ordenação das palavras na cláusula Em contraposição à postura estruturalista que enfatiza o princípio da arbitrariedade a questão da iconicidade que prediz uma correlação direta entre um conceito e sua representação lingüística volta a atrair o interesse dos lingüistas em especial a partir da década de 1960 quando o foco da atenção recai sobre os estudos tipológicos e os universais lingüísticos Essa área de investigação foi enfatizada sobretudo pelos crioulistas6 e pelo lingüista Joseph Greenberg 1966 interessado na variação tipológica entre as línguas E por volta de 1975 que as análises lingüísticas explicitamente classificadas como funcionalistas começam a proliferar na literatura norteamericana Essa corrente surge como reação às impropriedades constatadas nos estudos de cunho estritamente formal ou seja nas pesquisas estruturalistas e gerativistas Os funcionalistas norte americanos advogam que uma dada estrutura da língua não pode ser proveitosamente estudada descrita ou explicada sem referência à sua função comunicativa o que aliás caracteriza todos os funcionalismos até aqui mencionados Diferentemente das teorias formais o funcionalismo pretende explicar a língua com base no contexto lingüístico e na situação extralinguística De acordo com essa concepção a sintaxe é uma estrutura em constante mutação em conseqüência das vicissitudes do discurso ao qual se molda Ou seja há uma forte vinculação entre discurso e gramática a sintaxe tem a forma que tem em razão das estratégias de organização da informação empregadas pelos falantes no momento da interação discursiva Dessa maneira para compreender o fenômeno sintático seria preciso estudar a língua em uso em seus contextos discursivos específicos pois é neste espaço que a gramática é constituída Em termos funcionalistas essa concepção de sintaxe corresponde às noções de gramática emergente Hopper 1998 ou sistema adaptativo DuBois 1985 Considerar a gramática como um organismo maleável que se adapta às necessidades comunicativas e cognitivas dos falantes implica reconhecer que a gramática de qualquer língua exibe padrões morfossintáticos estáveis sistematizados pelo uso ao lado de mecanismos de codificação emergentes Em outras palavras as regras da gramática são modificadas pelo uso isto é as línguas variam e mudam e portanto é necessário observar a língua como ela é falada Nesse sentido a análise dos processos de variação e mudança lingüística constitui uma das áreas de interesse privilegiado da lingüística funcional O texto considerado pioneiro no desenvolvimento das idéias da escola funcionalista norteamericana é The Origins of Syntax in Discourse publicado por Gillian Sankoff e Penelope Brown em 1976 Nesse trabalho as autoras fornecem evidências das motivações discursivas geradoras das estruturas sintáticas do tok pisin língua de origem pidgin de PapuaNova Guiné ilha ao norte da Austrália Em 1979 Talmy Givón influenciado pelas descobertas de Sankoff e Brown publica From Discourse to Syntax texto explicitamente antigerativista que afirma que a sintaxe existe para desempenhar uma certa função e é essa função que determina a sua maneira de ser Os trabalhos de Givón 1984 1990 1995 2001 entre outros se caracterizam pela busca de parâmetros substantivos isto é motivados comunicativa ou cognitivamente para a explicação de fatos gramaticais Se ainda não há uma teoria gramatical funcionalista completa e unificada há uma quantidade expressiva de análises funcionalistas sobretudo do inglês Alguns lingüistas norteamericanos como Givón Sandra Thompson e Paul Hopper sobressaem pelos seus estudos individuais Sozinha ou em coautoria Thompson produziu alguns trabalhos considerados marcos na análise funcionalista Entre esses podemos destacar seu estudo sobre as passivas em inglês em que Thompson observa que a ocorrência de uma cláusula passiva em inglês é motivada por dois fatores pragmáticos distintos um deles prediz uma passiva sem agente e o outro uma passiva com agente Em Transitivity ingrammar and discourse 1980 em coautoria com Paul Hopper os autores reinterpretam o conceito tradicional de transitividade como uma propriedade escalar constituída de dez parâmetros sintático semânticos independentes e covariantes De acordo com a presença ou ausência desses parâmetros a cláusula pode ser mais ou menos transitiva O complexo de transitividade e seus parâmetros individuais se associam a uma função discursivocomunicativa a de assinalar as porções centrais e periféricas de um texto narrativo Fatores discursivos portanto interferem na codificação da transitividade como veremos adiante Além desses autores há um grupo de funcionalistas europeus na Alemanha que trabalha com questões de mudança lingüística gramaticalização e empréstimo e segue um modelo semelhante ao dos lingüistas norteamericanos Esse grupo reúne entre outros Bernd Heine na universidade de Colônia Tânia Kuteva em Dusseldorf Vale destacar a recente aproximação entre a lingüística funcional e a lingüística cognitiva representada por antigos gerativistas como Ronald Langacker 1991 George Lakoff 1987 e ainda por psicolinguistas como Michael Tomasello 1999 e John Taylor 1995 que também rejeitam a tese da autonomia da sintaxe proposta pela gramática gerativa e propõem a incorporação das dimensões sociais e cognitivas nos estudos lingüísticos No panorama brasileiro os estudos de cunho funcionalista ganham impulso a partir da década de 1980 com a constituição de grupos de pesquisadores que propõem fatores de natureza comunicativa e cognitiva para interpretar o funcionamento de tópicos morfossintáticos em textos falados e escritos Aqui também se acha refletida a diversidade de orientações teóricas de base funcionalista e os pesquisadores costumam combinar diferentes perspectivas em suas análises Em trabalho pioneiro Rodolfo Ilari publicou em 1987 Perspectiva funcional da frase portuguesa que trata do dinamismo comunicativo em termos de tema e rema na linha dos estudos da Escola de Praga Entre os grupos constituídos destacamse os pesquisadores do Projeto Norma Urbana Culta que abrange várias capitais do país do Projeto de Estudo do Uso da Língua da Universidade Federal do Rio de Janeiro PeulUFRJ e do Grupo de Estudos Discurso Gramática sediado em várias universidades Universidade Federal do Rio de Janeiro Universidade Federal Fluminense Universidade do Estado do Rio de Janeiro Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Universidade Federal do Rio Grande do Norte O Peul tem formação sociolinguística seus trabalhos focalizam a variação lingüística sob a perspectiva da função discursiva das variantes selecionadas de acordo com o quadro do funcionalismo norteamericano Destacase nesse grupo a participação de Anthony Julius Naro que em parceria com Sebastião Votre publicou vários artigos seguindo a orientação de Givón O Grupo de Estudos Discurso Gramática criado por Sebastião Votre também trabalha com os pressupostos do funcionalismo norteamericano tendo como foco central de interesse o estudo dos processos de gramaticalização Os resultados de suas pesquisas podem ser vistos em Martelo tta Votre e Cezario 1996 Rios de Oliveira 1998 Furtado da Cunha 2000 e Furtado da Cunha Rios de Oliveira e Martelotta 2003 Dentre os princípios e as categorias centrais dessa corrente funcionalista estão informatividade iconicidade marcação transitividade e plano discursivo e gramaticalização Nesse quadro os processos de gramaticalização e discursivização constituem pontos privilegiados de investigação Informatividade O princípio de informatividade focaliza o conhecimento que os interlocutores compartilham ou supõem que compartilham na interação verbal De um modo geral a aplicação desse princípio se tem voltado para o exame do status informacional dos referentes nominais Desse modo um sintagma nominal pode ser classificado como dado novo disponível e inferível Um referente pode ser dado ou velho se já tiver ocorrido no texto referente textualmente dado ou se estiver disponível na situação de fala referente situacionalmente dado como os próprios participantes do discurso falante e ouvinte Vejamos os dois casos respectivos nos exemplos seguintes retirados do corpus Discurso Gramática7 aaíomecânicofalouque0nãosabiaqualohomemquetinhaapertado aquilo riso b E e agora eu queria que você me me dissesse alguma coisa que você sabe fazer ou que você goste de fazer e como é que se faz isso No exemplo a o sujeito do verbo saber marcado pelo símbolo 0 que indica sua omissão foi mencionado na primeira cláusula constituindo um caso de referente anteriormente dado o mecânico Por isso ele não precisa ser repetido na sentença seguinte No exemplo b em que o entrevistador pede ao informante que ele diga algo que sabe fazer embora a palavra você seja ambígua no sentido de que pode se referir a qualquer pessoa o contexto permite que interlocutor o entrevistado perceba que é a ele que o falante deseja se referir Em circunstâncias desse tipo como a situação contextual não deixa dúvidas quanto ao sentido do termo temos um caso de referente situacionalmente dado Um referente é novo quando é introduzido pela primeira vez no discurso como no exemplo c Se já está na mente do ouvinte por ser geralmente um referente único num dado contexto é chamado disponível São exemplos de referentes disponíveis termos como a lua o sol Pelé ou Petrópolis como no caso d c aí quando chegou ali na decida porque é Barra Tijuca né quando estava quase chegando a Tijuca vinha um ônibus na direção deles e tinha um caminhão parado aqui Informante 12 Dario Discurso Gramática RJ d mas eu fui a Petrópolis com uma amiga que nunca tinha subido a serra Um referente denominase inferível quando é identificado através de um processo de inferência exemplo e a partir de outras informações dadas As entidades inferíveis geralmente são codificadas com um artigo definido e quando ela viu o ônibus passar mas o ônibus já estava indo e ela começou a gritar e todo o ponto de ônibus assim lotado né ela começou a gritarpro motorista mas ela estava um pouco longe Nesse caso o referente o motorista não foi mencionado não constituindo informação dada ou velha Entretanto como um ônibus implica a existência de um motorista o ouvinte não tem problemas em identificar essa informação que por isso também não pode ser classificada como nova Temos aí um caso de referente inferível O status informacional dos elementos lingüísticos é importante no sentido de que interfere por exemplo na ordenação que eles assumem na cláusula como veremos a seguir no conceito de iconicidade Iconicidade O princípio de iconicidade é definido como a correlação natural e motivada entre forma e função isto é entre o código lingüístico expressão e seu significado conteúdo Os lingüistas funcionais defendem a idéia de que a estrutura da língua reflete de algum modo a estrutura da experiência Como a linguagem é uma faculdade humana a suposição geral é a de que a estrutura lingüística revela o funcionamento da mente bem como as propriedades da conceitualização humana do mundo Em sua versão original o princípio de iconicidade postula uma relação isomórfica de um para um entre forma e conteúdo Bolinger 1977 Contudo estudos sobre os processos de variação e mudança ao constatar a existência de duas ou mais formas alternativas de dizer a mesma coisa levaram à reformulação dessa versão forte Na língua que usamos diariamente em especial na língua escrita existem por certo muitos casos em que não há uma relação clara transparente entre expressão e conteúdo Nesses casos a relação entre forma e significado é aparentemente arbitrária uma vez que o significado original do elemento lingüístico se perdeu total ou parcialmente assim como a motivação para sua criação Por exemplo o item entretanto hoje tem um valor opositivo que justifica sua classificação como conjunção adversativa ex Estudou muito entretanto não passou Esse uso é completamente distinto de seu significado original utilizado em textos arcaicos do português como advérbio temporal com valor de enquanto isso ao mesmo tempo entre tantos acontecimentos essa idéia permanece no item entre encontrado na construção entre tanto8 O mesmo se deu com a conjunção concessiva embora exEmbora tenha estudado muito não passou proveniente da expressão com valor temporal em boa hora muito comum sobretudo na era medieval Essa expressão era comumente acrescida a determinadas frases em virtude da crença de que o sucesso dos atos estava relacionado ao momento em que eram praticados Há portanto contextos comunicativos em que a codificação morfossintática é opaca em termos da função que desempenha Isso ocorre porque a iconicidade do código lingüístico está sujeita a pressões diacrônicas corrosivas tanto na forma quanto na função a o código forma sofre constante erosão pelo atrito fonológico tendo sua forma diminuída Ex em boa hora embora b a mensagem função é constantemente alterada pela elaboração criativa através de processos metafóricos e metonímicos Ex na conjunção entretanto o valor espacial expresso originalmente pela preposição entre ex A casa fica entre a igreja e o supermercado é estendida para uma noção mais abstrata referente a um espaço existente entre seqüências de acontecimentos ex Muita coisa aconteceu entre a discussão e a briga Esse é o ponto de partida para o uso arcaico com valor de concomitância temporal que acaba se estendendo para o atual valor concessivo Os dois tipos de pressão geram ambigüidade Quanto ao código verificase correlação entre uma forma e várias funções é o que ocorre com embora que pode ser empregado como concessivo ex Embora tenha estudado muito não passou ou com o valor que alguns gramáticos chamam de partícula de afastamento ex Vou embora assim que a aula acabar Quanto à mensagem observase correlação entre várias formas e uma função no português atual coexistem com a conjunção concessiva embora e várias outras com mesmo valor como mesmo que ainda que apesar de entre outras Em sua versão mais branda o princípio de iconicidade se manifesta em três subprincípios que se relacionam à quantidade de informação ao grau de integração entre os constituintes da expressão e do conteúdo e à ordenação seqüencial dos segmentos Vejamos cada um deles Segundo o subprincípio da quantidade quanto maior a quantidade de informação maior a quantidade de forma de tal modo que a estrutura de uma construção gramatical indica a estrutura do conceito que ela expressa Isso significa que a complexidade de pensamento tende a refletirse na complexidade de expressão Slobin 1980 aquilo que é mais simples e esperado se expressa com o mecanismo morfológico e gramatical menos complexo A atuação desse subprincípio pode ser vista no comprimento maior das palavras derivadas que tendem a veicular mais informações semânticas eou gramaticais em comparação com as palavras primitivas de que se originam refletindo na forma a ampliação do seu campo conceituai BELO BELEZA EMBELEZAR EMBELEZAMENTO Outro exemplo é a repetição de certas estruturas verbais em que o falante deseja expressar o aspecto iterativo eou a intensidade da ação descrita como em ele fugiu com a moça daí fugiram começaram a correr e o h o m e m atrás deles correram correram correram enquanto isso o h o m e m correndo correndo atrás deles O subprincípio da integração prevê que os conteúdos que estão mais próximos cognitivamente também estarão mais integrados no nível da codificação o que está próximo mentalmente colocase próximo sintaticamente Esse subprincípio se manifesta por exemplo no grau de integração que o verbo da oração principal exibe em relação ao verbo da subordinada a Maria ordenou fique aqui b Maria fez a filha ficar ali c A filha não queria ficar ali Essas orações indicam que quanto menos integrados os dois eventos estão tanto mais provável que um elemento de subordinação ou uma pausa separe a oração subordinada da principal Em outras palavras o subprincípio da integração correlaciona a distância linear entre expressões à distância conceptual entre as idéias que elas representam Na primeira oração temos dois eventos separados o ato de dizer algo e o ato de ficar ali além disso os verbos núcleos da oração referemse a sujeitos distintos e apresentam codificação modotemporal distinta Na segunda frase a integração semântica e sintática é maior já não é tão fácil dizer que são dois eventos separados e não há um elemento explícito que separe sintaticamente as duas orações O sujeito da segunda é objeto da primeira Na terceira oração a fusão semântica e sintática é ainda maior pois também não é nítida a distinção de eventos diferentes e o sujeito de querer é o mesmo de ficar e obrigatoriamente o sujeito desse segundo verbo aparece apagado Há ainda o fenômeno da iconicidade relacionado à ordenação dos elementos na cadeia sintática Nesse caso temos os chamados subprincípios de ordenação seqüencial O primeiro deles é o subprincípio da ordenação linear segundo o qual a ordenação das orações no discurso tende a espelhar a seqüência temporal em que os eventos descritos ocorreram sabe como é feito um bom strogonof compra o camarão limpa o camarão põe o camarão boto cebola pimentão tomate cozinho ele deixo ele cozinhar um pouquinho assim As orações acima estão colocadas sintaticamente na mesma ordem em que ocorreram na realidade primeiro comprase o camarão depois limpase o camarão e assim por diante A inversão da ordem das orações implicaria também uma mudança na seqüência real dos fatos O segundo subprincípio ligado à ordenação é o subprincípio da relação entre ordem seqüencial e topicalidade Nesse caso temos uma conexão entre o tipo de informação veiculada por um elemento da cláusula e a ordenação que ele assume Um exemplo de como isso ocorrer pode ser visto no fato de que informações velhas ou já mencionadas tendem a ocorrer no início da cláusula e informações novas no final Vejamos o exemplo que segue Tenho vários amigos mas meu preferido é Carlos Carlos está sempre comigo nas horas de diversão Podemos notar que o referente Carlos quando mencionado pela primeira vez aparece no final da frase meu preferido é Carlos ao invés de Carlos é meu preferido Entretanto na cláusula seguinte Carlos é novamente mencionado constituindo portanto informação velha Nesse caso ele ocorre no início da cláusula Esse subprincípio pode assumir características diferentes quando associado à noção de contrastividade Esse caso pode ser visto por exemplo na tendência de se antepor na cláusula determinados trechos para efeito de contraste a João comprou um carro b Foi João que comprou um carro c Foi um carro que João comprou Tanto o sujeito João quanto o objeto um carro da cláusula a apresentada anteriormente podem ser colocados em situação de foco contrastivo como ocorre em b foi João e não outra pessoa que comprou o carro e em c foi um carro e não outra coisa que João comprou Essas construções refletem a preocupação do funcionalismo em trabalhar com as expectativas do falante em um contexto particular a crença por exemplo de que outra pessoa que não João tivesse comprado o carro no caso de b ou de que João comprou outra coisa que não um carro no caso de c Marcação Os termos marcado e não marcado foram introduzidos na lingüística pela Escola de Praga Aqui a ideiachave é a de contraste entre dois elementos de uma dada categoria lingüística seja ela fonológica morfológica ou sintática Um entre dois elementos que se opõem é considerado marcado quando exibe uma propriedade ausente no outro membro considerado não marcado Assim no campo da morfologia por exemplo é interessante observar nesse sentido a categoria de número a forma meninos plural é marcada em oposição a menino plural forma não marcada As formas não marcadas apresentam várias características tais como a maior freqüência de ocorrência nas línguas em geral e em uma língua particular b contexto de ocorrência mais amplo c forma mais simples ou menor d aquisição mais precoce pelas crianças Se observarmos com cuidado veremos que o elemento que está no singular apresenta essas características das formas não marcadas ocorre mais na língua pois usamos mais palavras no singular do que no plural apresenta contexto de ocorrência mais amplo pois dizemos por exemplo que vamos ao mercado comprar cenoura mesmo sabendo que compraremos mais de uma o que significa que o singular é utilizado no contexto do plural apresenta forma mais simples ou seja ocorre sem a desinência s e possivelmente por isso é aprendida mais facilmente pelas crianças do que as formas de plural No nível sintático o conceito de marcação também apresenta conseqüências interessantes no uso da língua Comparemos as duas construções abaixo a Eu uso esta roupa b Esta roupa eu uso A sentença exemplificada em b é mais marcada já que a ordenação mais comum é a que está indicada em a sujeito Eu verbo uso objeto esta roupa Essa questão tem implicações interessantes quando pensamos na expressividade dessas estruturas Qual seria a mais expressiva das duas A resposta seria a do exemplo b já que expressa algum tipo de força argumentativa associada à idéia de que aquela roupa é de um tipo que agrada mais ao falante do que alguma outra Isso não ocorre no primeiro exemplo em que temos uma simples afirmação que não apresenta necessariamente qualquer argumento desse tipo Essa é a importância do conceito de marcação no que diz respeito ao uso da língua uma forma lingüística mais corriqueira que apresenta alta freqüência de uso tende a ser conceptualizada de modo mais automatizado pelo usuário da língua e isso significa que essa forma tem pouca expressividade Assim quando querem ser expressivos os falantes usam formas marcadas É o que ocorre em frases como a apresentada em b Vale ressaltar que a marcação que caracteriza uma forma lingüística é relativa pois uma construção pode ser marcada num dado contexto e não marcada em outro Por exemplo a voz passiva sintética Vendese casa é muito marcada na língua oral por ser bastante incomum Entretanto num texto escrito formal ela não é marcada já que ocorre com relativa freqüência Transitividade e plano discursivo Para a gramática tradicional a transitividade é uma propriedade dos verbos que são classificados como transitivos quando acompanhados de objeto direto ou indireto ou intransitivos quando não há complemento A proposta de Hopper e Thompson 1980 não opõe binariamente verbos transitivos a intransitivos mas trata a transitividade como uma propriedade escalar que focaliza diferentes ângulos da transferência da ação de um agente para um paciente em diferentes porções da oração Vejamos os exemplos seguintes extraídos de uma narrativa que reconta o filme Batman a Batman derrubou o Pingüim com um soco b A Mulher Gato não gostava do Batman c Esse rio tem uma forte correnteza d Então o Pingüim chegou na festa Pela classificação da gramática tradicional as três primeiras orações são transitivas pois apresentam um objeto como complemento do verbo Segundo a formulação de Hopper e Thompson a é a que ocupa lugar mais alto na escala de transitividade seguida de d b e por último c tendo em vista aspectos como a dinamicidade do verbo a agentividade do sujeito e o afetação do objeto Hopper e Thompson associam a transitividade a uma função pragmática o modo como o falante organiza seu texto é determinado em parte pelos seus objetivos comunicativos e em parte pela sua percepção das necessidades do seu interlocutor Nesse sentido o texto apresenta diferentes planos discursivos que distinguem as informações centrais das periféricas O grau de transitividade de uma oração ou o lugar que ela ocupa na escala de transitividade de Hopper e Thompson reflete sua função discursiva característica de modo que orações com alta transitividade assinalam porções centrais do texto correspondentes à figura enquanto orações com baixa transitividade marcam as porções periféricas correspondentes ao fundo Vejamos o seguinte fragmento meu pai estava andando ele morava no outro lado da Penha e ele estava passando por por baixo da pa da passagem subterrânea do trem aí dois caras um escuro alto forte e um branco também alto forte esbarraram nele e ele anda com aquelas capangas aí a capanga caiu no chão abriu os documentos dinheiro ficou tudo espalhado no chão e eu ele abaixou pra catar os documentos quando ele abaixou os caras falaram que era um assalto aí pegaram o dinheiro a conta de luz tudo que tinha juntaram colocaram na capanga e levaram a capanga embora e aí meu pai foi pra casa falou que tinha sido assaltado aí eles resolveram ir na polícia né pra dar queixa e depois teve todo trabalho de pedir segunda via de documento de conta de luz de conta de água e ficou sem o dinheiro era o dia de pagamento Em figura estão os eventos perfectivos em itálico que expressam a seqüência de ações que caracteriza a narrativa FIGURA a dois caras esbarraram nele b a capanga caiu no chão c abriu d ele abaixou e os caras falaram f aí pegaram o dinheiro g colocaram na capanga e h levaram a capanga embora i meu pai foi pra casa j falou que tinha sido assaltado 1 aí resolveram ir pra polícia m depois teve todo trabalho de pedir segunda via n e ficou sem o dinheiro Em fundo estão as informações que são colocadas no texto para dar suporte às orações de figura São as informações básicas que contextualizam as ações de figura indicando normalmente o local ou o momento em que elas ocorrem como elas ocorrem assim como expressam as causas e as finalidades dessas ações Freqüentemente são expressas por orações que apresentam verbos estáticos como ser e estar na forma de presente do indicativo ou de pretérito imperfeito FUNDO a meu pai estava andando b ele morava no outro lado da Penha c ele estava passando por por baixo da pa da passagem subterrânea do trem d ele anda com aquelas capangas e era um assalto f era o dia de pagamento O texto anterior mostra oposição de tempo aspecto e dinamicidade as sentenças da primeira seqüência da figura contêm verbos de ação como esbarrar abrir pegar entre outros que estão no pretérito perfeito Em fundo exemplificado na segunda seqüência de orações vemos orações que contextualizam o evento narrado com comentários descritivos e avaliativos do narrador Gramaticalização Como já mencionamos anteriormente o funcionalismo caracterizase por uma concepção dinâmica do funcionamento das línguas Nessa perspectiva a gramática é vista como um organismo maleável que se adapta às necessidades comunicativas e cognitivas dos falantes Isso implica reconhecer que ao lado de padrões morfossintáticos estáveis sistematizados pelo uso a gramática de qualquer língua exibe mecanismos de codificação emergentes que são conseqüentes da necessidade de formas mais expressivas A gramaticalização é um fenômeno relacionado a essa necessidade de se refazer que toda gramática apresenta Gramaticalização designa um processo unidirecional segundo o qual itens lexicais e construções sintáticas em determinados contextos passam a assumir funções gramaticais e uma vez gramaticalizados continuam a desenvolver novas funções gramaticais A tendência é que esse processo ocorra com itens ou expressões muito freqüentes o que faz com que o termo normalmente sofra desgaste fonético perdendo assim expressividade Com isso o elemento deixa de fazer referência a entidades do mundo biossocial para assumir funções de caráter gramatical como ligar partes do texto indicar categorias gramaticais como o tempo de um verbo ou o gênero de um nome etc Considerando que substantivos verbos e adjetivos são elementos lexicais e que preposições conjunções artigos morfemas derivacionais e flexionais entre outros têm valor gramatical são exemplos de gramaticalização a A trajetória de substantivos e verbos para conjunções É o que ocorre com o verbo querer que passa a ser utilizado como conjunção alternativa em Quer chova quer faça sol estarei lá ou com o elemento logo que no português arcaico tinha valor de substantivo e que atualmente pode ser empregado como conjunção conclusiva em cláusulas como Penso logo existo b A trajetória de nomes e verbos para morfemas E o que se dá em passagens como a que ocorre com a expressão tranqüila mente em que o substantivo mente intelecto passa a desempenhar papel de sufixo formador de advérbio tranqüilamente Ou em trajetórias como a que acontece com a locução amar hei em que a forma do verbo haver hei se incorpora ao verbo passando a funcionar como desinência de futuro amarei Concluindo vimos neste capítulo que o funcionalismo difere das abordagens formalistas estruturalismo e gerativismo primeiro por conceber a linguagem como um instrumento de interação social e segundo porque seu interesse de investigação lingüística vai além da estrutura gramatical buscando no contexto discursivo a motivação para os fatos da língua A abordagem funcionalista procura explicar as regularidades observadas no uso interativo da língua analisando as condições discursivas em que se verifica esse uso O funcionalismo admite que um grande conjunto de fenômenos lingüísticos é o resultado da adaptação da estrutura gramatical às necessidades comunicativas dos usuários da língua Se a função mais importante da língua é a contínua interação entre as pessoas que se alternam como falantes e ouvintes essa função deve de algum modo condicionar a forma do código lingüístico Para essa corrente teórica os domínios da sintaxe semântica e pragmática são relacionados e interdependentes Por um lado não há estruturas lingüísticas que operem independentes do significado por outro lado se fatores discursivos contribuem para a codificação sintática então a pragmática deve ser incorporada à gramática Ao lado da descrição sintática cabe investigar as circunstâncias discursivas que envolvem as estruturas lingüísticas seus contextos específicos de uso e os propósitos comunicativos dos interlocutores Segundo a hipótese funcionalista a estrutura é uma variável dependente pois são os usos da língua que ao longo dos tempos dão forma ao sistema A necessidade de investigar a sintaxe em termos da semântica e da pragmática é comum a todas as abordagens funcionalistas atuais Exercícios 1 A abordagem funcionalista da linguagem não corresponde a uma teoria particular mas a vários modelos teóricos que embora diferentes em certos aspectos apresentam pontos essenciais em comum Quais são esses pontos 2 Estabeleça uma correspondência entre as diferentes escolas funcionalistas e as características apre sentadas abaixo a O funcionalismo estruturalista b A teoria funcional de Halliday c O modelo de Dik d O funcionalismo norteamericano analisa as expressões lingüísticas com o intuito de compreender os processos relacionados ao êxito comunicativo dos falantes utiliza um conceito abrangente de função que compreende tanto as funções de enunciados e textos quanto as funções de unidades lingüísticas dentro de uma sentença postula uma forte vinculação entre discurso e gramática de tal modo que a sintaxe resulta em grande parte das estratégias de organização da informação utilizadas pelos falantes no evento comunicativo ressalta a função dos fonemas na distinção das palavras e o papel da organização estrutural da sentença na transmissão de informação contextual 3 Assinale as afirmativas que estão de acordo com os postulados da abordagem funcionalista a A existência de universais lingüísticos é explicada em termos de uma dotação lingüística genética compartilhada pela espécie humana b A existência de universais lingüísticos é motivada pelos usos comuns a que a linguagem se presta nas comunidades de fala c As funções que a língua desempenha têm influência sobre a organização interna do sistema lingüístico o que significa que a relação entre forma e conteúdo é motivada d A arbitrariedade ou ausência de relação direta entre expressão e significado permeia todos os níveis de organização do sistema lingüístico e A gramática é um organismo maleável que se adapta às necessidades comunicativas e cognitivas dos usuários da língua 4 Classifique os elementos em itálico em termos do seu status informacional nas duas passagens retiradas do corpus do Grupo de Estudos Discurso Gramática de Natal RN a Eu tive um namorado meu vizinho que minha mãe não queria e por este motivo eu não conseguia de deixar de namorar este rapaz fiz muita coisa que hoje eu não faria mentia apanhei por causa dele mais não valeu a pena porque hoje nós estamos com outras pessoas b Eu vou contar uma viagem que a gente fez hoje faz quinze dias lá pra casa de minha avó sabe Bom Jesus Aí quando meu pai chegou lá começou beber umas né Aí a gente veio No caminho o carro ficava no meio da pista e a gente tudo preocupado Parecia que eu que vinha dirigindo sabe Notas 1 As correntes estruturalista e gerativista focalizam em suas análises os aspectos estruturais ou formais da sentença deixando de lado os fenômenos interacionais a ela relacionados 2 Em sentido estrito universal lingüístico é um termo designativo de uma propriedade que todas as línguas têm por exemplo todas as línguas têm elementos que são foneticamente vogais Mais recentemente admitese que os universais lingüísticos não são absolutos mas uma questão de grau ou tendência de modo que refletem uma propriedade que se manifesta na maioria das línguas 3 O termo cognição está associado ao exercício da inteligência humana e pode englobar nossa capacidade de compreender o mundo em que vivemos de organizar e armazenar mentalmente os resultados dessa compreensão bem como de adaptar esse conhecimento a fim de transmitilo aos nossos interlocutores nos diferentes contextos de comunicação 4 O termo pragmática associase normalmente os estudos que focalizam a relação entre a estrutura da língua e o comportamento dos seus usuários no ato concreto da comunicação 5 Atualmente Kees Hengeveld J Lachlan Mackenzie e outros vêm desenvolvendo os estudos de Dik em direção ao que eles chamam de gramática discursivofuncional 6 Lingüistas que se dedicam ao estudo de crioulos línguas que se desenvolveram historicamente de um pidgin uma forma relativamente simplificada de falar que surgiu através do contato em geral comercial entre grupos lingüísticos heterogêneos Quando o pidgin se torna a língua materna de uma comunidade de fala e passa a ser usado para todos os fins ele é chamado crioulo Ex tok pisin língua de origem pidgin de PapuaNova Guiné ilha ao norte da Austrália 7 Conjunto de entrevistas gravadas por falantes do Rio de Janeiro de Niterói de Natal de Juiz de Fora e do Rio Grande organizado por pesquisadores do Grupo de Estudos Discurso Gramática formado por professores da UFRJ d a UFF e d a UFRN 8 A preposição entre dá uma idéia de algo localizado no interior de algum espaço físico de algum espaço de tempo e por extensão no espaço localizado entre dois ou mais acontecimentos Lingüística cognitiva Mário Eduardo Martelotta Roza Palomanes Para uma melhor compreensão dos pressupostos da chamada lingüística cognitiva é importante que façamos uma análise resumida do cenário que caracterizava os estudos lingüísticos no momento em que surgiu essa nova proposta teórica Nesse sentido comecemos com algumas informações básicas sobre o lingüista norteamericano Noam Chomsky e o gerativismo escola lingüística que se desenvolveu a partir de suas teorias Desde seu surgimento no final da década de 1950 o gerativismo de Chomsky fundou uma tendência nos estudos lingüísticos de considerar a linguagem um sistema de conhecimento autônomo depositado no cérebro dos indivíduos e constituído de uma série de princípios inatos referentes à estrutura gramatical das línguas ver o capítulo Gerativismo Esses princípios por hipótese restringem as possibilidades de variação na estrutura das línguas que se manifestam como dados universais ou seja presentes em todas as línguas do mundo Chomsky demonstrou de modo definitivo a importância para a compreensão da linguagem dos fenômenos de natureza cognitiva ou seja relativos ao modo como nossa mente interage com o mundo que nos cerca bem como os processos que permeiam essa interação Entretanto limitou sua abordagem a questões relacionadas ao desenvolvimento ou à maturação de uma capacidade biológica postulando uma estrutura racional e universal inerente ao organismo humano Considerando as línguas naturais o reflexo de princípios inatos e autônomos em relação a outras formas de conhecimento os gerativistas privilegiaram em suas análises a busca de aspectos lingüísticos universais deixando de lado portanto as questões sociais e interativas que caracterizam de modo mais localizado o uso concreto da língua nas situações reais de comunicação Para efetivar essa estratégia Chomsky postula um falanteouvinte ideal pertencente a uma comunidade lingüística ideal cuja criatividade se limita à manipulação de um conjunto finito de regras para gerar um conjunto infinito de sentenças Outro aspecto importante da teoria chomskiana está no princípio da modularidade da mente segundo o qual a mente é composta de módulos ou partes Cada um desses módulos responde pela estrutura e desenvolvimento de uma forma de conhecimento Um módulo é responsável pela capacidade do raciocínio matemático outro pela habilidade de criar e compreender estruturas musicais outro pela faculdade da linguagem apenas para citar alguns exemplos E o mais importante é que esses módulos atuam separadamente de maneira que cada um deles só tem contato com o resultado final do trabalho dos outros A esse princípio está relacionada a proposta de que a sintaxe é autônoma e constitui a essência da descrição lingüística Além de ser autônomo em relação a outros aspectos da cognição humana que tradicionalmente não são associados à linguagem o nível sintático se caracteriza por ser independente dos outros níveis de estrutura gramatical como o nível fonológico e o nível semântico Nesse sentido quando construímos frases estamos utilizando pelo menos em essência mecanismos sintáticos inatos que pouco têm a ver com questões relacionadas aos significados que elas veiculam A hipótese da autonomia da sintaxe tem relação com uma abordagem matemática das línguas O gerativismo tendo base racionalista busca na matemática que é uma forma de razão transcendental a descrição dos processos mecânicos de manipulação de símbolos abstratos que se refletem na sintaxe das línguas Em termos mais gerais a linguagem é vista como um sistema formal interpretado no sentido lógico isto é as expressões são construídas por um sistema de regras exclusivamente formais que são posteriormente investidas de significação Muitos pesquisadores se posicionaram contra essa tradição Entre eles podemos citar lingüistas como George Lakoff e Charles Fillmore cujas reflexões referentes à estrutura semântica das línguas acabaram levando a um questionamento dos pressupostos gerativistas e abrindo caminho para uma nova abordagem do fenômeno da linguagem Recentemente os lingüistas que seguem essa nova tendência têm utilizado termos como cognitivo ou cognitivista para designar seu modo de analisar as línguas Para que possamos compreender a proposta teórica da chamada lingüística cognitiva é importante que analisemos alguns de seus princípios básicos Repensando a questão da modularidade Inicialmente é importante registrar que a principal crítica que os cognitivistas fazem à tradição gerativista não se refere à hipótese do inatismo Os humanos parecem possuir estruturas e habilidades inatas que os capacita a aprender e usar uma ou mais línguas embora seja extremamente difícil distinguir de modo categórico o que é inato do que é aprendido A crítica recai principalmente sobre a proposta de que essas estruturas e habilidades são específicas da linguagem Segundo os cognitivistas a linguagem não constitui um componente autônomo da mente ou seja não é independente de outras faculdades mentais Sua proposta teórica portanto busca uma visão integradora do fenômeno da linguagem com base na hipótese de que não há necessidade de se distinguir conhecimento lingüístico de conhecimento não lingüístico Mas que implicações advêm da proposta de não separar o conhecimento lingüístico do não lingüístico Em primeiro lugar podemos dizer que as línguas não podem ser explicadas apenas por mecanismos formais autossuficientes Ao contrário é fundamental levar em consideração os processos de pensamento subjacentes à utilização de estruturas lingüísticas e sua adequação aos contextos reais nos quais essas estruturas são construídas Em termos mais específicos podemos dizer que de um modo geral a proposta cognitivista leva em conta aspectos relacionados a restrições cognitivas que incluem a captação de dados da experiência sua compreensão e seu armazenamento na memória assim como a capacidade de organização acesso conexão utilização e transmissão adequada desses dados É importante aqui registrar que esses aspectos somente se concretizam socialmente ou seja não refletem apenas o funcionamento de nossa mente como indivíduos mas como seres inseridos em um ambiente cultural Em outras palavras segundo essa visão teórica há uma relação sistemática entre linguagem pensamento e experiência Isso nos leva a um outro aspecto da proposta cognitivista que incorpora os fenômenos referentes à interação social Esse outro aspecto de cunho social leva alguns autores a acrescentar ao vocábulo designativo dessa escola lingüística o elemento socio criando o termo sociocognitivismo1 Esse termo enfatiza a importância do contexto nos processos de significação e o aspecto social da cognição humana Mais do que isso focaliza a linguagem como uma forma de ação ou seja através da linguagem comentamos oramos ensinamos discursamos informamos enfim enquadramonos nos milhares de papéis sociais que compõem nossa vida diária A expressão processos de significação foi empregada no parágrafo anterior com o objetivo de frisar que na concepção cognitivista não há significados prontos mas mecanismos de construção de sentidos a partir de dados contextuais essencialmente ricos e dinâmicos Em outras palavras os significados não são elementos mentais únicos e estáveis mas resultam de processos complexos de integração entre diferentes domínios do conhecimento2 O processo de categorização da realidade é um bom exemplo de como isso acontece Cognitivistas como Gilles Fauconnier e Mark Turner ressaltam que a mais simples das atividades do nosso dia a dia como por exemplo reconhecer que um objeto é uma xícara de café implica associar ao mesmo tempo representações visuais e táteis de sua forma a temperatura o odor e o gosto do café e também o modo como esse objeto é manuseado e utilizado Todas essas representações são recriadas em regiões diferentes do cérebro a cada momento em que ouvimos essa expressão A abordagem formal que caracteriza a lingüística gerativa nos leva a pensar que os elementos da nossa vida mental são primitivos formais quando na verdade constituem o produto de um trabalho imaginativo da mente humana Não é a forma dos objetos que causa a percepção de uma unidade nosso cérebro e nosso corpo dão a eles esse status do mesmo modo que o sentido de um quadro não está no quadro em si mas na interpretação que fazemos dele Assim nós dividimos o mundo criando categorias associadas à nossa condição de seres humanos para que possamos manipulá las em nossas vidas humanas Esse nosso modo de interagir com a realidade que nos cerca é o resultado de bilhões de anos de evolução e alguns meses de treinamento durante a infância Da mesma forma que os objetos as atividades recebem categorização Gestos simples de nosso dia a dia podem apresentar significações diferentes Um mesmo gesto de movimentar um objeto na direção de um interlocutor pode ser visto como ato de empréstimo de doação de aproximação do objeto para que o interlocutor veja melhor algum detalhe de sua estrutura de repulsa em relação a esse objeto e assim por diante Essa interpretação do gesto é um fato eminentemente sociocultural e provém de nossa capacidade de compreender as intenções que estão por trás desses gestos Isso está associado ao que os cognitivistas chamam de princípio da escassez do significante Segundo esse princípio a forma lingüística é uma pista para as complexas tarefas cognitivas associadas à linguagem Ou seja o sentido não constitui uma propriedade intrínseca da linguagem mas o resultado de uma atividade conjunta que pressupõe cooperação associada a operações de projeção e transferência entre domínios Os conceitos de domínio e de projeção serão apresentados mais detalhadamente no decorrer do texto Se esses aspectos cognitivos e interativos estão associados ao funcionamento das línguas podemos dizer que a formação de frases em qualquer língua recebe influência desses fatores Ou seja a visão integradora da linguagem proposta pelos cognitivistas se manifesta também na hipótese de que léxico morfologia e sintaxe são uma espécie de continuum de unidades simbólicas que se subordinam à estrutura conceptual para fins comunicativos Consequentemente podemos dizer que os cognitivistas consideram incoerente o tratamento da estrutura gramatical como algo dissociado do significado assim como a segmentação da estrutura gramatical em componentes discretos e isolados Em outras palavras eles não concordam com a hipótese da autonomia da sintaxe O caráter interacional da construção do significado Alinguística cognitivapropõe uma mudança de perspectiva no estudo da linguagem colocando os usuários da língua no centro da construção do significado Ou seja a busca da compreensão do fenômeno da significação impossibilita a exclusão dos principais personagens desse processo o falante e o ouvinte O falante não é mais visto como um mero manipulador de regras preestabelecidas mas como um produtor de significados em situações comunicativas reais nas quais interage com interlocutores reais Desse modo fenômenos característicos do uso da língua passam a ter maior importância para a compreensão do fenômeno da linguagem Para os cognitivistas a gramática de uma língua constitui um conjunto de princípios dinâmicos os quais nas palavras do lingüista Ronald Langacker se associam a rotinas cognitivas que são moldadas mantidas e modificadas pelo uso Mais do que isso para os cognitivistas a comunicação é uma atividade compartilhada ou seja implica uma série de movimentos feitos em conjunto pelos interlocutores em direção à compreensão mútua Isso quer dizer que a significação é negociada pelos interlocutores em situações contextuais específicas o que torna possível que os elementos lingüísticos se adaptem às diferentes intenções comunicativas apresentando flutuações de sentido como por exemplo as que caracterizam as metáforas como as que apresentaremos mais adiante O pensamento corporificado Como foi mencionado anteriormente a análise cognitivista com sua visão integradora do fenômeno da linguagem leva em conta a captação dos dados da experiência para a construção da significação referente ao nosso universo cultural Mas como se dá esse processo Como nos relacionamos culturalmente com o ambiente em que vivemos A resposta a essa pergunta obviamente não é simples Entretanto podemos postular como fazem alguns cognitivistas que nosso primeiro contato com o mundo se dá através dos nossos sentidos corporais e a partir daí algumas extensões de sentido são estabelecidas Segundo esse ponto de vista nossa estrutura corporal é extremamente importante já que a percepção que temos do mundo é limitada por nossas características físicas A mente portanto não é separada do corpo Ao contrário o pensamento é corporificado1 no sentido de que a sua estrutura e sua organização estão diretamente associadas à estrutura de nosso corpo bem como às nossas restrições de percepção e de movimento no espaço Para melhor compreender essa hipótese tomemos uma parte de nosso corpo a cabeça É interessante lembrar que a grande maioria dos órgãos dos sentidos boca nariz olhos localizamse na parte frontal da cabeça Por esse e por vários outros motivos é difícil escapar à conclusão de que somos seres feitos para andar para frente Entre as conseqüências desse fato no modo como organizamos nosso pensamento podemos citar o fato de que nos habituamos a pensar situações da nossa vida que já vivenciamos e que ainda vamos vivenciar em termos respectivamente de lugares pelos quais já passamos e de locais à nossa frente a que ainda pretendemos chegar Um exemplo interessante são os usos de elementos com valores originalmente espaciais para formar expressões temporais que o trecho a seguir apresenta Cem anos atrás o mundo era bem diferente Portanto podemos esperar que daqui para frente as coisas continuem mudando Podemos notar que as expressões originalmente espaciais atrás e daqui para frente estão sendo utilizadas no exemplo não para se referir a pontos no espaço mas a momentos no tempo É interessante registrar que esse tipo de fenômeno não se restringe à língua portuguesa o que dá a esse processo um caráter de universalidade Os cognitivistas associam esse tipo de fenômeno à hipótese de que a experiência humana mais básica que se estabelece a partir do corpo fornece as bases de nossos sistemas conceptuais Em termos mais específicos de acordo com as características de nosso corpo nós andamos para frente e nos habituamos a pensar os pontos da paisagem que vamos deixando para trás na medida em que nos movimentamos em termos de tempo passado Por outro lado os pontos que estão à nossa frente e que ainda vamos atingir servem de referência para a expressão do futuro Isso significa que nós compreendemos o tempo que é uma noção mais abstrata a partir de uma noção mais básica que é a noção de espaço Podemos estender esse processo para outros domínios do conhecimento propondo que de um modo geral os conceitos abstratos são inerentemente metafóricos já que refletem movimentos dessa natureza que como veremos mais adiante constituem o que se convencionou chamar de projeção entre domínios Segundo os cognitivistas essas relações associativas somente são possíveis pela existência prévia de um processo cognitivo chamado mesclagem o qual estabelece uma conexão entre diferentes domínios conceptuais ou seja diferentes conjuntos de conhecimentos prélinguísticos que são estruturados por nossas experiências coletivas ou individuais É interessante notarmos como esse processo de extensão de sentidos na direção de noções mais abstratas se reflete na construção das frases Os exemplos a seguir ilustram isso a O ministro foi para São Paulo b O ministro adiou a entrevista para o dia seguinte c O ministro elaborou o relatório para mudar a opinião do presidente d O ministro entregou o relatório para o presidente Analisemos a presença da preposição para Preposições são elementos de valor gramatical ou seja sua função em termos sintáticos é basicamente a de estabelecer uma relação entre dois termos da frase Entretanto há questões semânticas interessantes envolvidas nos usos dessa preposição nos exemplos A preposição para originalmente designa movimento em direção a um ponto no espaço é o que se vê no exemplo a em que o ponto de chegada no espaço é o estado de São Paulo No exemplo b podemos notar que essa mesma preposição passa a indicar movimento no tempo para o dia seguinte Temos aqui mais um exemplo de como noções temporais são extensões de valores espaciais Mas os usos mais interessantes estão nos exemplos c e d Em c a preposição para é utilizada para unir duas orações fazendo da segunda a finalidade ou objetivo do que está expresso na primeira Em outras palavras o ponto de chegada nesse exemplo não é mais um ponto no espaço ou no tempo e sim uma reação de outra pessoa causada pelo que está expresso na primeira frase umafinalidade Já no exemplo d a preposição para se justifica pelo movimento que um objeto relatório realiza em direção à pessoa que o recebe presidente Esses exemplos sugerem que essas relações sintáticas são estruturadas em termos de relações espaciais ou ampliando mais o campo de visão que aspectos semânticos estão associados à construção sintática o que põe em xeque a hipótese gerativista da autonomia da sintaxe A organização do conhecimento Enfatizar a importância do corpo e das restrições que ele impõe ao modo como experienciamos o mundo implica admitir a importância da noção de perspectiva no processo de significação e expressão do mundo Os cognitivistas tomam os sentidos como sendo entidades conceptuais e as palavras e as estruturas da língua como recursos para simbolizar a construção que o falante faz de cenas ou fatos da vida cotidiana A construção de uma cena envolve sempre uma relação entre um falante ou um conceptualizador e uma situação que ele toma em consideração Toda informação é posicionada no sentido de que normalmente não falamos a respeito do que o mundo é mas da visão que temos dele Ou seja os conceitos humanos associamse à época à cultura e até mesmo a inclinações individuais caracterizadas no uso da linguagem Incorporase portanto ao processo de significação o sujeito ou seja a perspectiva de quem produz no discurso Isso reforça o que já dissemos anteriormente quando mencionamos a centralidade do sujeito na construção do significado Os elementos lingüísticos possuem a função de garantir a perspectiva que o falante quer transmitir no ato comunicativo Nesse sentido os cognitivistas propõem por exemplo noções como ponto de vista alinhamento de figura e fundo e conhecimento de base em relação ao qual o conhecimento é compreendido A noção de ponto de vista relacionase com as diferentes possibilidades de o falante realizar mentalmente a cena Os exemplos que seguem ilustram essa questão a O caminho para dentro da floresta é tortuoso b O caminho para fora da floresta é tortuoso O que diferencia essas duas frases é o modo como o falante conceptualiza o referente As expressões caminho para dentro da floresta e caminho para fora da floresta designam a mesma entidade a diferença está no movimento mental que o conceptualizador faz da cena ou seja como ele vê mentalmente o sentido da trajetória Por outro lado a noção de alinhamento de figura e fundo diz respeito à maior proeminência que nós atribuímos a um dos elementos de uma cena colocandoo em primeiro plano de nossa atenção ou seja em figura Nesse sentido não é difícil compreender a diferença entre as expressões apresentadas a seguir a O quadro que está sobre o sofá b O sofá que está sob o quadro As duas frases designam a mesma cena A diferença está em qual das entidades envolvidas é apontada como primeiro ponto de atenção ou figura e qual é representada como segundo plano ou fundo Com relação à noção de conhecimento de base em relação ao qual o conceito é compreendido é interessante falarmos um pouco mais A linguagem é um instrumento cognitivo que tem como função organizar e fixar a experiência humana Desse modo os significados só podem ser descritos com base nessas experiências assim como no conjunto de conhecimentos delas provenientes Um exemplo disso é o termo joelho que não pode ser compreendido sem a necessária referência à concepção do que é uma perna de como ela se estrutura de como se movimenta e de um modo geral de como ela funciona Sendo compreendida como uma parte de um todo a palavra joelho necessariamente ativa uma estrutura de conhecimentos subjacentes pertencente a algo mais amplo Em outras palavras perna atua como domínio cognitivo de joelho Subjacente a esses fenômenos está a noção de enquadre ou enquadramento Por enquadre entendese a base do conhecimento em relação à qual se impõe uma determinada mobilização atencional O efeito do enquadre é colocar em foco determinados aspectos do significado que se quer transmitir e consequentemente deixar em segundo plano outros aspectos que podem ser inferidos a partir da informação transmitida Os domínios conceptuais ou conjuntos de conhecimentos estruturados são espaços de referenciação4 ativados quer por formas lingüísticas quer pragmaticamente ajudando a construir assim os significados São de duas naturezas a Domínios estáveis São conjuntos de conhecimentos armazenados na memória pessoal ou social que se constituíram historicamente como uma herança da espécie humana ou seja é um conjunto de informações que o homem aprendeu a partilhar É importante compreendermos que qualquer transmissão de informação implica trazer da memória esses conhecimentos Os chamados domínios estáveis subdvidemse em três tipos modelos cognitivos idealizados molduras comunicativas e esquemas imagéticos Comecemos falando do conceito de modelo cognitivo idealizado MCI Os modelos cognitivos idealizados são estruturas através das quais nosso conhecimento se organiza Têm importância fundamental para a cognição humana no sentido de que aliviam a memória organizando a imensa quantidade de informações adquiridas no nosso dia a dia Para que possamos compreender a noção de MCI tomemos o termo domingo qual é o sentido desse termo A resposta a essa pergunta envolve o conceito de semana já que domingo é o primeiro dia da semana Ou seja o termo domingo implica a criação de um ciclo determinado pelo movimento do sol que indica o fim de um dia e o início de outro caracterizandose por uma seqüência de sete dias assim como implica a nossa experiência diária ao longo desses sete dias É importante ressaltar que essa divisão do tempo em termos de semanas de sete dias assim como em meses e anos é uma convenção humana tendo portanto fundamento cultural Em outras palavras a semana de sete dias constitui o domínio semântico ou o MCI como veremos adiante em relação ao qual o termo domingo é normalmente compreendido Do mesmo modo a concepção do que é uma perna como mencionamos anteriormente atua como domínio cognitivo de joelho e o espaço tridimensional é o domínio em relação ao qual são entendidos termos como acima e abaixo Já as molduras comunicativas constituem estruturas de conhecimento relacionadas a formas organizadas de interação Caracterizamse por um conjunto de procedimentos que identificam um tipo de atividade social uma aula uma reunião uma conversa casual típica do nosso dia a dia ou seja atividades que implicam comportamentos estabelecidos em que cada participante possui um papel previamente determinado Tomemos como exemplo uma aula de lingüística em uma universidade Nessa situação temos um professor que provido do saber necessário faz uso quase exclusivo da palavra para transmitir aos alunos seu conhecimento e que dotado de autoridade dá ao aluno a palavra no momento em que ele acha conveniente podendo repreendêlo caso o seu comportamento não seja adequado ao que se espera dessa situação de interação Assim não cabe ao professor falar de seus problemas pessoais virar cambalhotas ou tomar qualquer atitude que não seja adequada ao contexto da sala de aula Por outro lado ao aluno cabe ouvir e absorver as informações dadas pelo professor sem interrompêlo Para se manifestar o aluno deverá fazer algum sinal como levantar a mão e após o consentimento do professor utilizar a palavra para fazer perguntas que melhorem sua compreensão do assunto da aula e não para contar uma piada por exemplo Esses comportamentos são estabelecidos culturalmente e é claro nem sempre são tomados de modo radical de maneira que os indivíduos muitas vezes se permitem uma certa liberdade em relação a essas regras Entretanto essas convenções são importantes já que constituem molduras comunicativas partilhadas em nossa comunidade ou cultura que nos permitem identificar o que está acontecendo naquele momento e saber exatamente qual o comportamento consensual desejado Essas molduras comunicativas possuem um caráter histórico e são construções resultantes da cristalização consensual de comportamentos negociada por grupos sociais Mas o mais importante é compreender que as molduras comunicativas funcionam cognitivamente como instrumentos indispensáveis à construção dos significados Para compreender isso basta pensarmos na pergunta Como você tem passado dita por um médico em uma interação médicopaciente dentro de um consultório por exemplo ou por um transeunte que cruza com uma pessoa conhecida na rua Não apenas o sentido da frase é diferente como a expectativa de resposta é totalmente distinta não se espera por exemplo que a pessoa conhecida em resposta àquela pergunta pare no meio da rua para contar seus problemas de saúde Os esquemas genéricos são configurações conceptuais de natureza mais ampla global abstrata e portanto mais flexíveis em suas aplicações Eles se relacionam ao processamento de fluxos muito heterogêneos de informação pois são estruturas que organizam o nosso pensamento projetandose nos usos diários que fazemos da linguagem Entre os esquemas genéricos estão os chamados esquemas imagéticos Para compreendermos o que são esses esquemas devemos nos lembrar de que grande parte do nosso conhecimento não é estático E estruturado por padrões dinâmicos não proposicionais e imagéticos dos nossos movimentos no espaço da nossa manipulação dos objetos e de interações perceptivas As relações espaciais constituem um esquema imagético que serve de base para uma série de outras representações como vimos nos exemplos envolvendo a preposição para apresentados anteriormente Entre os esquemas imagéticos mais freqüentes e linguisticamente realizados de muitas variadas maneiras estão os seguintes contentor ou contêiner ou recipiente origempercursodestinopercurso ou caminho elo link força equilíbrio ou balança bloqueio remoção contraforça compulsão partetodo centroperiferia em cima embaixo à frenteatrds dentrofora pertolonge contato ordem linear Os esquemas imagéticos não existem como entidades individuais e isoladas mas ligamse entre si através de transformações de esquemas imagéticos imageschema transformations Cada transformação de esquema imagético reflete pois aspectos importantes da experiência humana sobretudo corporal visual auditiva ou sinestésica b Domínios locais Os domínios locais recebem o nome de espaços mentais e constituem operadores do processamento cognitivo ou seja têm um caráter dinâmico e seqüencial já que são produzidos na medida em que falamos Esses espaços mentais são domínios dinâmicos Lingüística cognitiva 187 estruturados internamente por domínios estáveis o que significa que são elementos que suscitam aspectos do conhecimento compartilhado entre os interlocutores em um determinado ponto do discurso Por outro lado os espaços mentais são ativados através de conectores chamados construtores de espaços mentais5 que no nível gramatical podem assumir estrutura de conectivos de sintagmas preposicionais ou adverbiais de orações entre outras possibilidades criando diferentes tipos de espaço Vejamos um exemplo No filme a atriz loura tem cabelos escuros No exemplo acima o sintagma preposicional no filme indica a situação ou espaço mental em que o restante da frase deve ser interpretado Ou seja constrói um espaço mental que poderíamos caracterizar como espaço de drama em que a atriz loura tem cabelos escuros o que difere do espaço da realidade em que a frase seria contraditória Eis outros exemplos de construtores de espaços mentais Modelo cultural Na novela o ator brasileiro é americano Imagem Na fotografia Brad Pitt está feio Lugar No Brasil as pessoas não falam inglês Tempo Quando eu era pequeno eu gostava de assistir desenho animado Hipótese Se ele estivesse aqui certamente saberia como agir Em todos os exemplos acima os elementos em itálico expressam o espaço em que a informação passada no resto da frase deve ser tomada como verdadeira O princípio de projeção A construção do sentido implica como já vimos o estabelecimento de conexões entre domínios cognitivos Essas conexões se dão através de um processo chamado projeção Existem diferentes tipos de projeções a Projeções de domínios conceptuais estruturados ou MClsprojetam parte de um domínio em outro As metáforas e as analogias exemplificam esse tipo de projeção O processo de projeção consiste em tomar a estrutura de um determinado domínio chamado domíniofonte para falar ou pensar outro domínio chamado domínioalvo Ilustra bem esse fenômeno o exemplo mencionado anteriormente Cem anos atrás o mundo era bem diferente Portanto podemos esperar que daqui parafrente as coisas continuem mudando Nesse caso os elementos atrás e daqui para frente que originalmente expressam noções relativas ao espaço domíniofonte no contexto são usados para a expressão do tempo domínioalvo Temos aí a metáfora do tempo como espaço Outra metáfora interessante nesse aspecto é a metáfora comunicar é enviar Segundo Lakoff através dessa metáfora as idéias comparadas a objetos são inseridas pelo falante dentro de palavras comparadas a recipientes que são enviadas através de algum canal para um ouvinte Por sua vez o ouvinte retira de dentro das palavras recipientes essas ideiasobjetos Essa metáfora propicia construções do tipo a Vou tentar passar minha idéia para você b Ele me enviou umas palavras de carinho c O deputado não recebeu bem as palavras do ministro d Não sei como colocar isso em palavras e Você só utiliza palavras vazias f Estas são palavras sem conteúdo Nesses casos os domínios podem ser sistematizados da seguinte maneira Domíniofonte Domínioalvo ENVIAR COMUNICAR Remetente Destinatário Recipiente Objetos MCI Lakoff apresenta vários exemplos como esse demonstrando que a metáfora longe de ser um mero recurso poético é uma constante em nossa linguagem cotidiana e está enraizada no nosso sistema conceptual ordinário segundo o qual pensamos e agimos b Projeções de funções pragmáticas projetam um domínio em outro a ele relevante em conseqüência de uma relação estabelecida localmente por uma função de caráter pragmático Esse tipo de projeção é característico das metonímias e desempenha um papel importante na organização do nosso conhecimento provendo meios de identificar elemen tos de um domínio através de sua contraparte em um outro domínio Vejamos um exemplo Joana nunca leu Machado de Assis No exemplo há uma relação entre o autor do livro e sua obra Ou seja o que Joana nunca leu não é o autor mas os livros que compõem sua obra Esse típico exemplo de metonímia é representado através do esquema abaixo Falante Ouvinte Palavras Idéias MCI a Machado de Assis autor de livro a livro Esse esquema implica a atuação de um princípio da identificação que vai permitir que se estabeleça a relação entre a entidade a chamada de gatilho por prover a fonte da relação e sua contraparte a chamada de alvo Podemos ver outros exemplos desses fenômenos nas frases a seguir a Deixei meu Aurélio em casa b Ele bebeu uma garrafa inteirinha No primeiro exemplo temos novamente a relação entre livro dicionário e autor Aurélio e no segundo entre o conteúdo bebida e o continente garrafa Em todos esses casos nosso conhecimento de mundo juntamente com informações contextuais mais localizadas fornecem os dados necessários para que o princípio da identificação atue estabelecendo a relação entre as entidades gatilho e alvo c Projeções entre espaços mentais a partir do contexto discursivo e situacional construímos os significados através de uma rede de espaços mentais operando um sistema de referenciação entre domínios cognitivos responsável pela compreensão e produção dos significados Quando se insere um introdutor de espaços mentais no discurso estabelecese uma conexão entre diferentes espaços de referenciação Como já foi visto anteriormente a projeção de um domínio sobre outro é feita através do princípio de identificação No caso dos espaços mentais essa projeção é propiciada pelos construtores de espaços mentais com a conseqüente construção de um novo significado Tomemos como exemplo a frase A vida tem a cor que você pinta Nessa frase a vida é projetada como uma tela fazendonos ativar um espaço mental em que temos a pintura e outro espaço mental em que temos a vida Há uma projeção entre os elementos desses dois espaços e da relação analógica entre eles é construído um espaçomescla em que pintura e vida se integram Dessa rede de espaços projeções e integrações surgem várias interpretações das relações entre pinturavida dentre as quais podemos citar a idéia de que a vida é vista de várias perspectivas e que nós somos os seus autores imprimindolhe o colorido que quisermos Mesclagem Segundo os cognitivistas relações associativas como as apresentadas na seção anterior são possíveis pela existência prévia do processo de mesclagem o qual estabelece uma conexão entre diferentes domínios conceptuais ou seja diferentes conjuntos de conhecimentos prélinguísticos que são estruturados por nossas experiências coletivas ou individuais A teoria dos espaços mentais desenvolvida por Gilles Fauconnier na década de 1980 permitiu que se analisasse de modo mais sistemático o processo de projeção entre bases de conhecimento projeto cujo desenvolvimento desembocou na noção de mesclagem correspondente português ao termo inglês blending O conceito de mesclagem é definido pelo referido autor como o espaço que herda estruturas parciais de espaços denominados fonte e que possui uma estrutura emergente própria Logo o espaçomescla surge a partir da composição de elementos provenientes de um esquema genérico dos MCIS ativos e dos espaços mentais locais Assim um enunciado ativa domínios conceptuais sobre os sentidos que veicula Dependendo do que é referido múltiplos domínios podem ser ativados e informações são transferidas dessas estruturas cognitivas para a construção de novos significados na linguagem Esses novos significados mesclam informações dos domínios dos quais partiram Logo o enunciado resultante dessas combinações é préorganizado na mente pelo processo cognitivo de mesclagem O processo da mesclagem portanto implica a conexão de pelo menos quatro domí nios dois espaçosfonte EF 1 e 2 um esquema genérico EG que define a homologia entre eles possibilitando assim a migração parcial da informação para o espaçomescla resultante Apresentamos a seguir a título de exemplificação como se configuram as relações que se efetivam na préorganização das mesclagens A floresta amazônica é o pulmão do mundo Na mesclagem podemse perceber as visões distintas que se combinaram na estruturação do espaço que emerge para préorganizar o enunciado mesclado floresta e pulmão ativam dois MCIS o geográfico e o biológico Criase então um espaço genérico EG com estrutura mais abstrata que é compartilhada por ambas as fontes e mais dois outros espaçosfonte EF um criado a partir do MCI geográfico e outro do MCI biológico Importando somente o que é relevante de cada EF temos o espaço mescla resultante da projeção entre os EFS Exercícios 1 E muito comum na linguagem do dia a dia a criação de expressões de sentido abstrato a partir de termos designativos de partes do nosso corpo São exemplos disso expressões como dar uma mãozinha oferecer ajuda e ser o cabeça do grupo ser o líder Encontre outros exemplos de expressões formadas a partir de partes do corpo humano apresentando também seu significado 2 Indique os marcadores de espaços mentais nas frases a seguir a Na novela a moça de cabelos castanhos era loura b No retrato a moça de cabelos castanhos era loura c Em 1998 a moça de cabelos castanhos era loura d Paulo acha que a moça de cabelos castanhos era loura 3 Lakoff fala em metáforas orientacionais que organizam todo um sistema de conceitos a partir de orientações espaciais do tipo para cimapara baixo frentetrás dentrofora entre outros casos Essas orientações são também conseqüentes da estrutura do nosso corpo e sua atuação no mundo físico São exemplos desse fenômeno as seguintes frases que contêm metáforas do tipo FELIZ É PARA CIMA TRISTE É PARA BAIXO Ex a Ele é um cara para cima b Ele tem estado pra baixo esses últimos dias c Pensar em dinheiro levanta o meu astral Crie exemplos em que apareçam informações associadas aos termos frente e trás 4 Uma metáfora comum em várias línguas é a metáfora DISCUSSÃO É GUERRA AS frases abaixo exemplificam esse caso a Seus argumentos são indefensáveis b Destruí sua argumentação Crie outros exemplos que exemplifiquem essa metáfora Notas 1 O termo também aparece grafado como sociocognitivismo 2 A visão dinâmica e interativa do significado se deve sobretudo às inovações de Giles Fauconnier que introduziu a teoria dos espaços mentais e a noção de mesclagem nos Estados Unidos No Brasil essa visão foi implantada através da proposta sociocognitivista de Margarida Salomão 3 Alguns autores preferem o termo encarnado que parece passar também a idéia de que o falante não deve ser visto como algo idealizado mas como ser real inserido no ambiente cultural em que atua 4 Turner propõe que as expressões lingüísticas por si só não possuem significado pois são sinalizações para que o homem possa construir significados a partir do que ele já conhece e dos poderosos processos cognitivos que são acionados por ele Um processo de referenciação parte do conhecimento da realidade do mundo captáveis por uma forma de cognição de compreensão e interpretação do discurso 5 Alguns autores preferem utilizar a expressão introdutores de espaços mentais Optamos portanto pela utilização do termo construtores de espaços mentais por ser uma tradução mais fiel ao termo inglês space builders termo de Fauconnier 1997 Lingüística textual Mariangela Rios de Oliveira Ao contrário dos capítulos antecedentes que apresentam e descrevem distintas abordagens lingüísticas com base em distintos enfoques teóricos ou seja em variadas concepções de linguagem vamos a partir de agora tratar de um ramo dos estudos lingüísticos que se caracteriza pelo escopo de sua investigação pelo objeto que toma como unidade de foco analítico o texto Nessa forma de tratamento cujo material de análise também é compartilhado com outras abordagens os propósitos são outros uma vez que o que está em jogo agora é a observação das relações textuais em seus variados matizes e interseções A lingüística textual começou a se desenvolver na Europa no século xx durante a década de 1960 e a partir daí se disseminou no Brasil conta com expressivo número de pesquisadores1 Tratase portanto de uma abordagem relativamente recente se comparada por exemplo à obra de Saussure que data do início do século xx A lingüística textual representa um momento em que se procura a superação do tratamento lingüístico em termos de unidades menores palavra frase ou período no entendimento de que as relações textuais são muito mais do que um somatório de itens ou sintagmas nessa perspectiva dois mais dois é mais que quatro Um dos maiores desafios para a lingüística textual é exatamente definir seu objeto de análise o texto Fávero e Koch 1994 apresentamno em uma multiplicidade de conceituações partindo de um enfoque bastante amplo na base da concepção de texto como toda e qualquer forma de comunicação fundada num sistema de signos como um romance uma peça teatral uma escultura um ato religioso entre outros e chegando a uma definição mais estrita Nessa última definição o conceito de texto se refere a uma unidade lingüística de sentido e de forma falada ou escrita de extensão variável dotada de textualidade ou seja de um conjunto de propriedades que lhe conferem a condição de ser compreendido pela comunidade lingüística como um texto Assim podemos dizer que o texto é a unidade comunicativa básica aquilo que as pessoas têm a declarar umas às outras Essa declaração pode ser um pedido um relato uma opinião uma prece enfim as mais diversas formas de comunicação Neste capítulo estamos partindo do sentido estrito da conceituação de texto A seguir apresentamos as propriedades mais salientes e relevantes que têm sido apontadas em termos de textualidade de acordo com Beaugrande e Dressler 1981 Por motivos meramente didáticos essas propriedades encontramse distribuídas em dois grandes rótulos já consagrados na área coesão e coerência na verdade tratase de faces da mesma moeda uma vez que dizem respeito respectivamente às articulações de forma e de sentido construtoras da malha textual articulações que em geral se sobrepõem se interseccionam numa verdadeira confluência funcional Para ilustrar os comentários teóricos utilizaremos dois textos em versão falada e em sua correspondente escrita componentes do Corpus Discurso Gramática A língua falada e escrita na cidade de Niterói Esses textos foram produzidos pela informante Eliane do último período universitário no final da década de 1990 sob forma de entrevista a partir da seguinte proposta eu gostaria que você me narrasse uma história que pode ser uma história triste ou alegre que tenha ocorrido com alguém que você conhece e que esse alguém contou para você FALA bom eu lembrei agora não sei por que de uma de uma história assim um pouco um pouco triste né de uma colega que estava trabalhando comigo que eu não vou dizer o nome dela é que ela tem problema de ela tem uma assim muita timidez então ocorreu um fato na vida dela de separação dos pais tal e ela estava apaixonada por um rapaz esse rapaz morreu atropelado e ela tentou cortar um dos pulsos ela me contou assim eu fiquei tão um pouco chocada porque eu assim não conheci ninguém que já tenha eh praticado assim tentando suicídio entendeu então eu fiquei muito chocada com isso aí depois eu tive até que rir porque ela contando né como é que ela cortou o pulso então ela cortou só um pulso e numa linhazinha assim bem fininha né eu tive que rir porque risos porque ela contando estou crente que é uma coisa assim aquele suicídio aquela coisa assim forte mas ela cortou graças a Deus cortou bem de leve o braço então eu cheguei a rir quer dizer parecia ser uma história triste mas no final deu tudo certo ela não aconteceu nada com ela foi uma pequena tentativa mas que fracassou graças a Deus ESCRITA Certo dia eu e uma colega de Faculdade conversávamos sobre alguns problemas existenciais E em determinado momento da conversa contoume que sofreu muito na época em que seus pais estavam se separando que tinha sido um processo muito doloroso para todos de sua família e ela nunca soube lidar direito com esse problema No decorrer de sua adolescência ela conheceu e se apaixonou por um menino que morava perto da casa de seu padrinho E como a vida tem seus percalços volta e meia prega uma peça na gente esse menino veio a falecer sendo vítima de um atropelamento Parecia que a vida estava lhe roubando a melhor parte de sua própria vida Foi quando ela me contou que tentou cortar os pulsos logo após o acontecido Fiquei chocadíssima e pergunteilhe mais detalhes sobre o ocorrido Pergunteilhe se havia tentado cortar os dois pulsos ela olhoume com um olhar meio enigmático que eu não consegui decifrálo Disseme que só havia cortado um dos pulsos e o corte foi de leve Senti um grande alívio e ao mesmo tempo uma vontade de rir afinal graças a Deus a sua tentativa de suicídio não se configurou Acabamos rindo e fazendo piadas da triste situação Pedilhe que nunca mais ousasse repetir a dose Coesão Esta propriedade uma das mais fundamentais para o estabelecimento da textualidade diz respeito à unidade semânticosintática que deve marcar a produção textual A coesão pode ser definida como o conjunto de estratégias de sequencialização responsável pelas ligações lingüísticas relevantes entre os constituintes articulados no texto Essas ligações podem ocorrer tanto no nível semântico referentes aos sentidos veiculados como no nível sintático relativas às questões de ordenação desses constituintes A coesão pois se obtém por intermédio da ativação do sistema léxicogramatical Segundo Halliday e Hasan 1976 são cinco os mecanismos básicos de coesão textual a Referência Tratase do relacionamento dos constituintes textuais com outros constituintes do texto ou não numa correspondência necessária à interpretação e expansão dos sentidos articulados A referência pode se processar no nível situacional numa relação extralinguística ou exofóricaoi nos limites do texto denominada então de endofórica Dos dois tipos de referência a endofórica parece representar o modelo mais comum sendo inclusive mais tratada e pesquisada pelos estudiosos da lingüística textual A referência exofórica diz respeito à situação comunicativa em que o referente está fora do texto Em geral tratase de um tipo de relação coesiva recorrente em textos orais devido às condições de produção da fala em que a situação comunicativa tem papel fundamental Dentre os textos de Eliane observamos apenas no início de sua fala uma referência desse tipo quando ela diz eu lembrei agora não sei por que em que o advérbio agora referese ao momento em que o entrevistador faz a proposta da narrativa horário dia mês e ano em que ocorre a entrevista Na remissão endofórica o referente se situa no texto podendo preceder ou suceder o item com o qual se relaciona Tomemos as duas produções de Eliane em ambas temos a história da tentativa de suicídio de sua amiga Assim ao longo das narrativas falada e escrita encontramos diversas referências a essa personagem principal constantemente retomada pelos pronomes dela sua e lhe por exemplo O tipo mais comum de referência endofórica é aquele em que a remissão ocorre por precedência o que chamamos classicamente de anáfora Procedimentos anafóricos garantem a unidade temática dos textos ao promoverem a manutenção dos sentidos referidos Constituintes pronominais prestamse especialmente a esse modo de referenciação Voltemos aos textos de Eliane na fala após a menção da história de uma colega que estava trabalhando comigo já comentada temos a seqüência e ela estava apaixonada por um rapaz esse rapaz morreu atropelado e ela tentou cortar um dos pulsos ela me contou assim em que o pronome ela anaforicamente referese a uma colega que estava trabalhando comigo Na escrita o mesmo tipo de referenciação se verifica no início do segundo parágrafo os pronomes ela e seusua remetem ao sintagma uma colega de Faculdade No decorrer de sua adolescência ela conheceu e se apaixonou por um menino que morava perto da casa de seu padrinho Como todos os comentários tanto na fala como na escrita giram em torno das dificuldades da amiga de Eliane é natural e mesmo previsível que por meio da anáfora se mantenha tal remissão Quando a referência endofórica se articula numa conexão com o item subsequente a nomeamos catáfora Embora menos freqüentes do que os procedimentos anafóricos os mecanismos catafóricos contribuem de modo considerável para a coesão textual Diferentemente da anáfora a catáfora está a serviço da expansão temática dos sentidos novos articulados na superfície textual Nas produções de Eliane encontramse alguns exemplos dessa articulação Na fala o sintagma uma história assim um pouco um pouco triste prepara a cena para o que vai ser contado a história dos problemas da amiga e o desfecho final quase trágico e portanto todo o relato referese a esse sintagma Na escrita logo no primeiro período a seqüência problemas existenciais catafori camente inaugura o texto e a partir daí a referência dessa expressão será preenchida por intermédio da informação acerca da separação dos pais da morte do rapaz por quem era apaixonada e por fim da tentativa de suicídio da amiga Os procedimentos de referenciação endofórica representam eficazes recursos de unidade e de sequenciação semânticosintáticas Anáfora e catafóra constituem faces da mesma moeda responsáveis respectivamente pela manutenção e expansão do fluxo textual num jogo que organiza progressivamente informações recorrentes já conhecidas pelos interlocutores e outras novas mencionadas pela primeira vez no texto Num texto por vezes o mesmo constituinte apresenta essa dupla função como podemos observar com o assim no trecho citado uma história assim um pouco um pouco triste Nesse fragmento podemos dizer que o assim tem valor anafórico e catafórico já que remete ao nome antecedente história anáfora para lhe fazer a atribuição um pouco triste catáfora b Substituição Consiste num tipo de remissão coesiva em que distintamente da referenciação o termo substituído não recupera totalmente o item a que se refere na substituição há uma certa matização dos sentidos então articulados que pode se traduzir sob a forma de uma maior especificação uma reorientação ou reavaliação Em língua portuguesa por exemplo ao substituirmos feliz por contente ou alegre num fragmento textual não estamos lidando com a mera troca de qualificadores já que esses adjetivos embora se aproximem em termos semânticos não possuem equivalência absoluta de sentido Esse comentário ilustrativo se aplica em geral às palavras tratadas como sinônimos Dentre os recursos lingüísticos utilizados nessa modalidade de coesão citamse sintagmas nominais e mesmo sintagmas oracionais No texto oral de Eliane a história da amiga anônima começa a ser mencionada pelo sintagma uma história assim um pouco um pouco triste A partir daí Eliane conta o ocorrido coesivamente Esse sintagma inicial vai progressivamente sendo substituído por outros que passam a atuar como formas correferentes a contribuir para a progressão narrativa assim atuam os sintagmas e ela tentou cortar um dos pulsos suicídio e ela cortou só um pulso até a substituição final foi uma pequena tentativa Na escrita verificamos a substituição coesiva na seqüência alguns problemas existenciais que evolui textualmente no segundo parágrafo para percalços e uma peça Como declaramos no parágrafo anterior esses sintagmas nas duas modalidades da narrativa não correspondem ou substituem totalmente os termos antecedentes mas sim recuperam parte do conteúdo da referência inicial Devemos ressaltar que a substituição representa muito mais que questão de estilo individual Tratase de uma estratégia comprometida com a progressão informacional representa uma expansão da forma termos substituídos correlata à expansão do sentido conteúdos veiculados c Elisão Também chamada de anáfora zero constitui um mecanismo de coesão em que a recuperação de um constituinte é processada num espaço formalmente vazio o preenchimento se faz no plano semântico com a ativação das informações subentendidas e essas informações em princípio já ocorreram no texto num momento anterior Em português podem ser elididos ou suprimidos constituintes de natureza morfolológica ou extensão distintas Por se tratar de recurso muito recorrente e consagrado principalmente na modalidade escrita não há maiores dificuldades para na recepção os usuários recuperarem ou preencherem as elisÕes A morfologia verbal portuguesa por exemplo muito rica em seus paradigmas flexionais por vezes torna dispensável a presença formal do sujeito na sequencialização textual Nesses casos a própria norma culta orienta no sentido de que se processe a elisão sob pena de o texto se tornar um tanto redundante ou pleonástico É o que observamos por exemplo com as frases nós narramos ou eu narrei em que a referência à primeira pessoa respectivamente do plural e do singular encontrase tanto no pronome reto quanto no verbo em seqüências como essas bastaria a utilização da forma verbal já que as desinências mos e rei são privativas de primeira pessoa do plural e do singular Os textos de nossa informante Eliane ilustram o comentário Na fala como já mencionamos a elisão é pouco recorrente uma vez que o modo de produção oral tende a se articular com maior preenchimento de constituintes assim apenas na estrutura estou crente que é uma coisa assim encontramos a forma verbal de primeira pessoa elidida do pronome eu em todas as demais referências a si Eliane utilizase do referido pronome Já na produção escrita a informante recorre mais à elisão como verificamos em fiquei chocadíssima e pergunteilhe senti um grande alívio e pedilhe que nunca mais As condições de organização do texto escrito motivam a baixa freqüência do pronome eu nessa modalidade cabendo às desinências número pessoais dos verbos a função de referenciar a primeira pessoa eu d Conjunção Distintas dos mecanismos coesivos anteriores as relações conjuntivas caracterizamse por estabelecer vínculos de natureza lógicosemântica na sequencialização textual como temporalidade causatividade conseqüência condição finalidade proporcionalidade entre outros Constituintes de natureza adverbial ou de função relacionai como conjunções ou preposições prestamse especialmente a esse tipo de articulação ao concorrerem para a integração das partes constitutivas do texto Voltemos à narrativa oral de Eliane e observemos as quatro ocorrências de então tradicionalmente classificado como advérbio de tempo numa abordagem restrita ao âmbito da frase ou do período Numa perspectiva textual tal como a aqui apresentada esse termo circunstanciador sem deixar de preservar sua referência temporal assume outros valores abstratizase em distintos graus redimensiona sua funcionalidade ao articular praticamente todo o relato da informante Com a primeira ocorrência então ocorreu um fato na vida dela inaugurase efetivamente a narrativa após um comentário introdutório de Eliane em que prepara a cena para o que será contado Assim podemos dizer que esse então iniciador do relato retoma e amplia coesivamente a citação de uma história assim um pouco um pouco triste articulado preliminarmente A terceira ocorrência então ela cortou só um pulso e a quarta então eu cheguei a rir também articulam essa função de retomada do fio narrativo concorrendo para a unidade semânticosintática de todo o relato como a informante vai contando e comentando a história ao mesmo tempo recorre a mecanismos de retomada do eixo narrativo ao se desviar em comentários e avaliações pessoais para tanto um dos instrumentos de que se utiliza é a reiteração de então tal como se estivesse voltando a olhar a cena a rememorar o acontecido Devemos destacar a segunda ocorrência então eu fiquei muito chocada com isso em que a noção de temporalidade tornase mais abstrata ainda na medida em que aquilo que se retoma não é o eixo narrativo e sim o estado emocional da informante diante do ocorrido que já constava da declaração inicial eu lembrei agora não sei por que de uma de uma história assim um pouco um pouco triste né Tratase de um comentário paralelo à história contada Em contextos como esse a referência temporal de então abstratizase de tal forma que pode assumir outros sentidos como conseqüência ou conclusão ou ainda adicionalmente como o exemplo aqui comentado pode retomar a informação anteriormente veiculada No texto escrito em termos de relações conjuntivas um dos destaques é o uso dos sintagmas adverbiais certo dia e no decorrer de sua adolescência a iniciar respectivamente o primeiro e o segundo parágrafos Na verdade esses constituintes não fazem referência somente aos períodos em que se integram Eles circunstancializam todo o parágrafo é o conjunto de períodos a que se referem numa ampliação de seu escopo já que tradicionalmente o advérbio é considerado termo modificador de um verbo um nome ou outro advérbio2 Tomemos o segundo parágrafo como ilustração o encontro da amiga com o amor de sua vida a paixão subsequente primeiro período o atropelamento do rapaz e sua morte segundo período bem como a sensação de que havia sido roubada de boa parte da vida terceiro período tudo se enquadra no decorrer de sua adolescência A função relacionai de constituintes adverbiais estendese ainda mais com o sintagma introdutor do terceiro parágrafo foi quando que atua aí como conjunção Na verdade essa estrutura não só concorre para a expansão dos dois últimos parágrafos que articulam o grande acontecimento narrativo a tentativa de suicídio como também retoma coesivamente o parágrafo inicial que trata da conversa com Eliane e sua amiga de certa forma interrompida pelo segundo parágrafo com os comentários da fase adolescente da amiga Quando os constituintes examinados nesta seção organizam ou retomam porções textuais mais amplas promovendo a orientação ou reorientação dos sentidos ou termos articulados tal como se verifica com então no texto falado e foi quando no texto escrito são denominados no âmbito da lingüística textual de operadores discursivos3 Tratase de uma função macrossintática relativamente recente na descrição do português uma vez que a abordagem da gramática tradicional restringese ao âmbito do chamado período composto por coordenação ou subordinação Com o advento da investigação do texto e a conseqüente análise de seus mecanismos de expansão semânticosintáticos é possível a depreensão e pesquisa dos operadores discursivos e Coesão lexical Essa última modalidade de coesão relacionase a pelo menos dois mecanismos aqui já mencionados a referenciação endofórica por promover certa remissão a constituintes já ocorridos na superfície textual e a substituição uma vez que diz respeito a processos de sinonímia e hiperonímia entre outros Destacada sua característica de dependência em relação aos demais mecanismos citados passemos à definição da coesão lexical tratase de um tipo de vinculação textual fundado na seleção e na relação dos termos lexicais articulados termos esses retomados literalmente como no caso da repetição ou parcialmente por intermédio de sinônimos ou hiperônimos por exemplo Vale ressaltar que dadas as especificidades do oral e do escrito há certa distinção entre esses termos na escrita os itens lexicais costumam ser mais específicos ou precisos enquanto na oralidade utilizamse itens mais genéricos ou imprecisos Observados os textos de Eliane sob a perspectiva da coesão lexical podemos depreender em sua organização a concorrência de dois eixos polares e complementares a tristeza o que parecia e o riso o que era em outros termos o suicídio frustrado No primeiro eixo encontramos no texto falado termos como história assim um pouco triste separação dos pais esse rapaz morreu atropelado ela tentou cortar um dos pulsos tentado suicídio eu fiquei muito chocada aquele suicídio e aquela coisa assim forte No texto escrito levantamos os termos alguns problemas existenciais sofreu muito seus pais estavam se separando processo muito doloroso esse problema a vida tem seus percalços prega uma peça vítima de atropelamento a vida estava lhe roubando tentou cortar os pulsos e fiquei chocadíssima Já o segundo eixo na oralidade apresentase articulado em torno dos itens eu tive até que rir cortou só um pulso linhazinha bem fininha eu tive que rir estou crente eu cheguei a rir deu tudo certo não aconteceu nada pequena tentativa fracassou e graças a Deus Na escrita verificamos olhar meio enigmático o corte foi de leve grande alívio vontade de rir graças a Deus não se configurou acabamos rindo fazendo piadas triste situação e dose Esses termos semanticamente vinculados e dispostos num mesmo espaço textual concorrem para a unidade de conteúdo e forma das produções lingüísticas um dos mais básicos fatores de textualidade Coerência Estamos assumindo aqui a coerência com uma propriedade marcada pelo traço da interpretabilidade A coerência diz respeito à construção do sentido textual seja na perspectiva da produção pelo locutor seja na da recepção da codificação lingüística pelo interlocutor A coerência portanto trata da possibilidade e mesmo da necessidade de atribuição de sentido às produções textuais condição básica para que essas produções sejam entendidas e assumidas como tais Diante dessa conclusão o que dizer a respeito de textos com problemas de coerência localizados motivados por uso indevido de mecanismos de coesão Ou ainda daqueles textos aparentemente incoerentes marcados por sérios e generalizados desvios de padrões gramaticais básicos de ordem morfossintática Ou das produções lingüísticas de indivíduos portadores de distúrbios psíquicos Ou de certas obras literárias que parecem romper com os princípios de aceitabilidade provocando o chamado estranhamento na recepção Nossa resposta a esses questionamentos é que essas produções não podem ser vistas como incoerentes em termos absolutos já que o contexto comunicativo em que estão inseridas precisa ser levado em conta na atribuição de sentido às mesmas Essa perspectiva permitenos declarar com ressalva à falta de consenso dos estudiosos da área a respeito dessa questão que a em princípio não há textos totalmente incoerentes b é possível alguma incoerência localizada em textos escritos que numa atividade de reescritura ou releitura pode ser superada c as aparentes incoerências de textos falados se resolvem em geral no contexto situacional nas condições comunicativas específicas da interação Tratase a coerência de uma propriedade articulada no âmbito da situação comunicativa levandose em conta para se chegar a tal articulação os domínios lingüístico pragmático e extralinguístico Passemos a examinar cada um desses componentes a Domínio lingüístico Diz respeito ao controle e à utilização de recursos gramaticais nos níveis fonéticofonológico semântico e morfossintático e à seleção de itens lexicais tanto no âmbito do sintagma nominal ou verbal como nos limites do período do parágrafo ou do texto como um todo Em termos lingüísticos tanto a versão falada quanto a escrita da narrativa de Eliane mostramse igualmente coerentes Na fala Eliane conforme o processamento característico da oralidade produz unidades menores marcadas por pausas reticências algumas hesitações alongamentos quatro pontos e rupturas barras além de se utilizar de conectores próprios da conversação bom né tal eh Na escrita a aluna trabalha adequadamente com a paragrafação e com a pontuação parâmetros específicos dessa modalidade que atuam a serviço da progressão de sua narrativa a escrita favorece ainda a utilização de clíticos como em contoume e pergunteilhe além de termos mais convencionais como problemas existenciais percalços falecer por exemplo constituintes estes ausentes em sua produção oral b Domínio pragmático Referese às condições de processamento da interação Nesse sentido diz respeito às questões envolvidas no ato comunicativo em que o texto é produzido e recebido Assim pertencem ao domínio pragmático fatores como contexto situacional tipo de ato de fala intenção e aceitação comunicativas valores e crenças dos participantes da interação produtor e receptor enfim todos os aspectos ou constituintes situacionais que interferem na produção de sentido textual definindoa Voltemos às produções de Eliane para nossa exemplificação da propriedade de coerência pragmática Seus dois textos respondem suficientemente ao comando inicial do entrevistador eu gostaria de que você me narrasse uma história que pode ser uma história triste ou alegre que tenha ocorrido com alguém que você conhece e que esse alguém contou para você Diante da proposta Eliane elabora em versão falada e escrita uma narrativa que começa em tom meio triste no oral encontramos a referência inicial a uma história assim um pouco um pouco triste na escrita ela menciona preliminarmente os problemas existenciais e progressivamente vai tomando novo rumo atingindo níveis de comicidade inclusive nas duas modalidades com a menção ao riso final A personagem da história é uma amiga no oral tratase de uma colega de trabalho na escrita passa a uma colega de faculdade de qualquer forma é uma pessoa conhecida o que satisfaz o comando do entrevistador que lhe solicita uma história ocorrida com alguém conhecido e que esse alguém lhe havia contado Portanto do ponto de vista pragmático os textos apresentamse coerentemente Dentre os vários episódios que poderia relatar Eliane cooperativamente seleciona um que considera aceitável e preenchedor dos quesitos referidos pelo entrevistador procurando algo interessante e inusitado mas preservando o anonimato de sua amiga a protagonista do narrado c Domínio extralinguístico É relativo ao conhecimento de mundo às vivências e experiências daqueles envolvidos na situação comunicativa Essa bagagem experiencial representa o conj unto de informações advindas do cotidiano fruto da condição de todos os humanos de estarem no mundo e de contextos mais específicos como o acadêmico o artístico entre outros O conhecimento de mundo vai depender de fato da trajetória de vida de cada indivíduo daquilo que teve oportunidade de ver sentir fazer ler trocar enfim de viver Quando aludimos ao conhecimento de mundo estamos falando tanto do conhecimento do produtor do texto daqueles conteúdos e informações necessários à elaboração lingüística quanto do conhecimento do receptor do texto que necessita compartilhar pelo menos parte das experiências do produtor para que possa dar sentido ao que lê ou ouve No que concerne ao domínio extralinguístico ambos os textos revelamse igualmente coerentes Contam uma história aparentemente triste já que em nossa sociedade em geral pessoas que tentam o suicídio encontramse em situação de extrema dificuldade perdem o controle da própria vida em momento de total desespero E a amiga de Eliane enquadrase coerentemente nesse rol sofreu com a separação dos pais com a qual não soube lidar e o rapaz por quem era apaixonada morreu vítima de um atropelamento em plena juventude Mas o que seria trágico se transforma em cômico devido ao procedimento suicida pouco arriscado já que o corte dos pulsos da amiga na verdade foi num só deles e como declara Eliane numa linhazinha assim bem fininha o corte foi de leve Esse desfecho meio inusitado que de certa forma frustra a expectativa de morte conduz ao riso à comicidade No final dos relatos ocorre a expressão graças a Deus forma lingüística estereotipada de desfecho e de agradecimento em consonância com os princípios da doutrina cristã vigente em nossa sociedade Esse aspecto interacional ou dialógico do domínio extralinguístico no nível da coerência tem a ver com questões mais específicas da organização textual no nível da coesão A interrelação pode ser observada no processamento do fluxo informa cional no jogo entre informes dados e novos ou seja entre referências já conhecidas ou compartilhadas pelos envolvidos na interação no âmbito intra ou extralinguístico e outras introduzidas ou apresentadas pela primeira vez na superfície textual Assim não por acaso as referências iniciais à personagem principal e ao rapaz atropelado são feitas respectivamente por intermédio de artigo indefinido uma colega um rapaz e um menino Após essa primeira menção ou seja uma vez conhecidos os referentes eles passam a figurar como dados como informação já conhecida e portanto alteramse também os instrumentos lingüísticos para sua retomada Nessas recorrências têm papel fundamental os pronomes como eficientes alternativas de reintrodução informacional tais como o nome dela esse rapaz e seus pais Com o comentário anterior ratificamos a sobreposição das propriedades textuais a inter e multifuncionalidade dos constituintes lingüísticos quando examinados numa perspectiva mais ampla A lingüística textual como uma das recentes áreas de investigação científica ainda tem muito o que trilhar uma vez que centra seu olhar num amálgama de sentidos e de formas o texto Exercícios 1 A partir da leitura da crônica a seguir de Luis Fernando Veríssimo faça os exercícios sugeridos O homem trocado O homem acorda da anestesia e olha em volta Ainda está na sala de recuperação Há uma enfermeira do seu lado Ele pergunta se foi tudo bem Tudo perfeito diz a enfermeira sorrindo Eu estava com medo desta operação Por quê Não havia risco nenhum Comigo sempre há risco Minha vida tem sido uma série de enganos E conta que os enganos começaram com seu nascimento Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos Descoberto o erro ele fora viver com seus verdadeiros pais Ou com sua verdadeira mãe pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês E o meu nome Outro engano Seu nome não é Lírio Era para ser Lauro Se enganaram no cartório e Os enganos se sucediam Na escola vivia recebendo castigo pelo que não fazia Fizera o vestibular com sucesso mas não conseguia entrar na universidade O computador se enganara seu nome não apareceu na lista Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis No mês passado tive que pagar mais de Cr 300 mil O senhor não faz chamadas interurbanas Eu não tenho telefone Conhecera sua mulher por engano Ela o confundira com outro Não foram felizes Por quê Ela me enganava Fora preso por engano Várias vezes Recebia informações para pagar dívidas que não fazia Até tivera uma breve pouca alegria quando ouvira o médico dizer O senhor está desenganado Mas também fora um engano do médico Não era tão grave assim Uma simples apendicite E se você diz que a operação foi bem A enfermeira parou de sorrir Apendicite perguntou hesitante É A operação era para tirar o apêndice Não era para trocar de sexo Luís Fernando Veríssimo Seleção de crônicas do livro Comédia da vida privada Porto Alegre LPM 1996 a Toda a crônica se desenvolve linguisticamente em torno do que o título sugere O homem trocado Destaque do texto termos que retomam as sucessivas e marcantes trocas do personagem b No primeiro parágrafo o homem é referido inicialmente e em seguida é retomado por intermédio de outras três estratégias de remissão coesiva Informe que artifícios são esses c Observe o trecho do diálogo entre a enfermeira e o homem Por quê Não havia risco nenhum Comigo sempre há risco O termo destacado embora formalmente repetido é articulado com distintos sentidos O que risco significa para cada uma das personagens d O que justifica dizer que em Comigo sempre há risco Minha vida é uma série de enganos O termo em destaque articula uma referência catafórica e Qual o papel dos termos em destaque nas seguintes seqüências para a configuração da unidade textual Mas também fora um engano do médico E se você diz que a operação foi bem f Como a declaração do médico O senhor está desenganado pode ser interpretada pelo personagem como uma boa informação Por que essa possibilidade leva ao humor g Por que podemos classificar a crônica O homem trocado como um texto coerente Notas 1 Dentre as produções mais expressivas da lingüística textual no Brasil citamse entre outros os trabalhos de Ingedore Koch Leonor Fávero Luiz Antonio Marcuschi Luiz Carlos Travaglia e Hudinilson Urbano 2 Segundo a Nomenclatura Gramatical Brasileira o advérbio pode chegar a modificar uma oração por inteiro quando é nomeado de advérbio de oração Cunha e Cintra 1985 530 Mas a tradição gramatical não vai além deixando sem classificação ou referência as funções textuais mais amplas desse termo 3 Há muita variação na denominação e às vezes na definição desses constituintes por parte dos especialistas da área podem ser chamados também de operadores argumentativos Koch 1987 marcadores discursivos Risso 1999 entre outras denominações No âmbito da análise da conversação são encontrados também sob o rótulo de marcadores conversacionais Urbano 1993 Aquisição processamento e ensino Aquisição da linguagem Maria Maura Cezario Mário Eduardo Martelotta Como as crianças aprendem a falar O papel do adulto na aprendizagem da língua pelas crianças é fundamental Existe uma gramática universal guiando a aquisição das línguas Essas e outras questões intrigam os estudiosos da linguagem há muito tempo Neste capítulo veremos algumas das hipóteses existentes para explicar a aquisição da linguagem Daremos maior ênfase à hipótese do inatismo porque sua descrição aprofunda algumas noções da linha teórica gerativista corrente bastante estudada nos cursos de letras Hipótese behaviorista O estruturalismo americano ver o capítulo Estruturalismo buscou na psicologia behaviorista a explicação para a aprendizagem de língua Segundo essa corrente da psicologia os conhecimentos são adquiridos através das experiências vividas A aprendizagem dáse através de respostas bemsucedidas a determinados estímulos do meio e a repetição das respostas associadas aos estímulos é fundamental para essa aprendizagem O behaviorismo teve muita influência sobre a lingüística e por muitas décadas serviu de base para o ensino de línguas estrangeiras e também para o ensino em geral No que se refere à aprendizagem de língua materna o processo seria também feito através de respostas a estímulos No entanto nesse processo a resposta física é substituída por uma resposta lingüística e o estímulo pode ser lingüístico ou não Segundo Bloomfield a criança herda a capacidade de pronunciar e de repetir sons vocais sob diferentes estímulos A articulação tornase um hábito e a criança numa etapa seguinte passa a imitar os sons que ouve Ela faz associações entre sons e coisas inicialmente e em seguida aprende a associar uma palavra a uma coisa que está ausente Um estímulo como por exemplo sede terá como resposta a palavra aga água Essa resposta será reforçada se a mãe pegar água para seu filho A criança abandona as respostas erradas pois não haveria reforço externo Portanto a aprendizagem lingüística se dá segundo a concepção behaviorista em decorrência da seqüência estímulo resposta reforço Dessa forma para essa concepção o meio é fundamental para a aprendizagem de todos os conhecimentos inclusive o conhecimento lingüístico Hipótese do inatismo Outros estudiosos não aceitaram uma explicação tão simples como a formulada pelo estruturalismo americano para um fenômeno tão complexo e tão diferente de outros tipos de aprendizagem O behaviorismo não consegue explicar como produzimos e compreendemos frases que nunca foram proferidas como entendemos frases cuja referência não se encontra no contexto em que são produzidas ou como as crianças aprendem a falar tão rapidamente Na metade do século xx o lingüista Noam Chomsky fez uma crítica severa a essa abordagem que dava grande importância ao meio Ao formular a teoria gerativa com base no racionalismo cartesiano ver o capítulo Gerativismo Chomsky afirma que existe uma gramática universal que é uma matriz biológica responsável pela grande semelhança entre as línguas e pela rapidez com que as crianças aprendem a falar Segundo essa concepção o homem já nasce provido de uma grande variedade de conhecimentos lingüísticos e não lingüísticos Essa corrente dá maior importância ao organismo à codificação genética que traz muitas informações sobre o comportamento humano a personalidade a capacidade de compreensão de quantidades a capacidade de distinção entre os sons da fala e outros sons entre outras informações No caso da aquisição da linguagem o meio cumpriria o papel de acionar o dispositivo responsável pela aquisição de língua Os gerativistas procuram descrever a gramática universal GU composta por princípios os quais determinam a estrutura comum a todas as línguas e limitam as variações entre elas e por parâmetros que são as variações possíveis que as línguas podem ter As crianças aprendem a falar rapidamente porque na verdade já nascem dotadas de um dispositivo inato de aquisição da linguagem Para Chomsky a criança fica exposta a uma fala fragmentada repleta de frases incompletas mas é capaz de internalizar num tempo muito curto a gramática de uma língua devido a esse dispositivo inato que aciona o conhecimento lingüístico prévio geneticamente herdado Na idade certa o dispositivo será acionado e ela começará a falar Seu argumento é conhecido como pobreza do estímulo e se vincula ao chamado problema de Platão que assim se desdobra como o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras enganosas e fragmentárias As crianças criam palavras fazem analogias falam frases inéditas ainda muito cedo Além disso com 4 ou 5 anos já utilizam praticamente todas as estruturas gramaticais de sua língua Para Chomsky e seus seguidores esses fatos são fortes argumentos para se conceber a existência de uma GU específica do ser humano Os gerativistas também se questionam sobre a forma como as crianças adquirem os elementos lingüísticos Para os estudiosos dessa linha existem as categorias lexicais que são os substantivos os verbos os adjetivos e as preposições e existem as categorias funcionais que são os instrumentos gramaticais das línguas como os artigos os pronomes as conjunções e os advérbios além das categorias gramaticais de número gênero caso pessoa tempo etc Uma das hipóteses mais conhecidas para explicar a aquisição desses elementos é a hipótese maturacional da aquisição da linguagem bastante trabalhada por Radford 1993 Segundo o autor existem diferentes fases para a aquisição da linguagem e a passagem de uma fase para outra é determinada pela maturação do organismo Existe uma ordem na configuração da GU que determina que as categorias lexicais surjam antes das categorias funcionais Para Radford todas as crianças passam pelas seguintes fases de aquisição da linguagem a faseprélinguística 0 a 12 meses b fase de uma palavra de 12 a 18 meses c fase multivocabular inicial de 18 a 24 meses d fase multivocabular tardia de 24 a 30 meses1 Ele só considera uma forma como adquirida quando esta é usada de modo sistemático seletivo e contrastivo Assim por exemplo com cerca de 18 meses de idade a criança faz algumas concordâncias de gênero e de número mas de forma bastante assistemática o que não é considerado aquisição Quando a criança começa a usar repetidas vezes em sua fala e de modo contrastivo o masculino e o feminino o singular e o plural considerase que houve aquisição das categorias de gênero e de número Das quatro fases propostas por Radford a primeira é caracterizada pela falta de qualquer manifestação lingüística Há apenas gestos e balbucios A segunda fase é caracterizada pela presença de sentenças com apenas uma palavra É uma fase acategorial por natureza pois não há produção de sintagmas e sentenças propriamente ditas assim como faltam as categorias funcionais que estabelecem relações gramaticais entre as palavras Na fase seguinte há o desenvolvimento dos sistemas lexicais que são aqueles que englobam o sistema nominal o sistema verbal o sistema adjetivai e o sistema preposicional As crianças adquirem as categorias lexicais juntamente com as suas características temáticas2 É a chamada fase lexical ou temáticolexical em que não há ainda os sistemas funcionais sistema determinante sistema complementizador e sistema flexionai Nessa fase surgem as flexões nominais e a fixação dos parâmetros de ordem das palavras Mas em decorrência da falta das categorias funcionais não há elementos como determinantes artigos e pronomes demonstrativos e possessivos pronomes pessoais a criança não utiliza a flexão de caso como por exemplo eulmelmim auxiliares modais verbos de ligação e flexões verbais Para Radford a estrutura da sentença de crianças nessa terceira fase de aquisição assemelhase à estrutura chamada sentença curta do adulto como as destacadas a seguir Eu acho Pedro inteligente Eu considero Pedro bom Vejamos os exemplos de fala de uma menina brasileira com menos de 2 anos a Neném tá mexendo no mimédio de vovô aos 20 meses e 21 dias b Cigaga qué papá aos 21 meses c Fa faz bibi pequeno aos 21 meses e 6 dias ela pede para a mãe desenhar d Faz sol gande aos 21 meses idem f Casa de poquinho aos 21 meses g Panta de vovó aos 21 meses e 6 dias h Coocá na cama aos 21 meses e 21 dias i Mamãe é pequeno aos 21 meses e 6 dias j Bichinho tá escondida aos 21 meses e 21 dias 1 Carro é minha A23 Verificamos nas frases a presença dos elementos da terceira fase sintagmas nominais como neném cigaga bichinho e carro sintagmas verbais como tá mexendo no mimédio de vovô qué papá faz bibi pequeno e tá escondida sintagmas adjetivais como sol gande escondida e bibi pequena e sintagmas preposicionais como casa de poquinho e mimédio de vovô Além disso verificamos que ela já tinha fixado os parâmetros de ordem vocabular do português como preposição substantivo e substantivo adjetivo por exemplo Observando os dados também vemos que ela não adquiriu ainda os artigos como demonstram sentenças como c d e g os pronomes ela fala nénem no lugar do pronome eu por exemplo e também não faz concordância como em i j e 1 Esses dados indicam que a menina está no terceiro estágio proposto por Radford A última etapa denominada fase multivocabular tardia ou fase funcional se caracteriza pela presença dos sistemas funcionais Dessa forma a criança utiliza todos os elementos que faltavam na fase anterior Para Radford essa fase só é atingida quando a criança dominou totalmente os sistemas lexicais Como explicar o fato de todas as categorias lexicais serem adquiridas antes das categorias funcionais Para responder esta questão o autor utiliza a hipótese maturacional de aquisição segundo a qual os diferentes princípios da gramática universal são geneticamente programados para entrarem em operação em diferentes estágios da maturação biologicamente predeterminados Radford 1993 274 A criança aos 20 meses aproximadamente está biologicamente pronta para adquirir os sistemas de categorias lexicais Nesse estágio as crianças podem criar estruturas que têm um núcleo nominal adjetivai verbal ou preposicional O início dessa fase caracterizase por ser uma fase crítica de maturação que facilita o aumento do vocabulário porque o desenvolvimento das estruturas dos sistemas lexicais simplifica a tarefa de identificar a estrutura argumentai do predicado4 Nesse estágio não há estruturas com artigo pronome flexão nominal e verbal e conjunção porque não houve maturação para a aquisição dos sistemas funcionais Essa maturação ocorre aos 24 meses aproximadamente época em que há outra fase crítica agora voltada para a sintaxe Essa fase caracterizase pelo aumento do número de sentenças na fala das crianças e pela aquisição das categorias funcionais As pesquisas de Radford foram voltadas para a fase multivocabular inicial a terceira descrita aqui Não houve uma pesquisa aprofundada sobre a forma de aquisição das categorias funcionais A análise da fala de crianças americanas com 26 meses mostra que elas já possuem todas as categorias funcionais nessa idade Uma abordagem inatista também bastante conhecida é a continuísta Hyams 1986 segundo a qual todos os elementos lexicais e funcionais já estão disponíveis desde o início do desenvolvimento lingüístico Essa hipótese descarta a idéia de maturação e de fases de aquisição Para Hyams 1986 os elementos funcionais não aparecem na fala inicial por causa da limitação do vocabulário infantil o qual é desprovido de palavras que não tenham referência externa Mas isso segundo a autora não significa que as categorias funcionais não existam na gramática da criança As pesquisas de Cezario 1996 e de Soares 2001 com base na fala da mesma menina mostram que a criança tinha todos os elementos da terceira fase e alguns elementos da quarta fase Como demonstram os exemplos a seguir ela não fazia concordância nominal e não usava pronome e artigo Mas já fazia flexão de tempo exemplos a e b e utilizava regularmente auxiliares verbos de ligação e modais exemplos c d e e que são elementos funcionais a Mamãe abe mamãe a mãe abre um objeto Abiu Esse abe não abe não referência a outro objeto aos 21 meses e 6 dias b B Nené vai caí Neném vai caí E Vai se continuar andando prá trás vai B Michel E Michel B E E Cadê Michel B Michel caiu ela lembrase de um fato ocorrido no dia anterior c Mamãe é pequeno aos 21 meses e 6 dias d Tá sujo aos 21 meses e 14 dias e Gaiinha tá comendo pão aos 21 meses f Pode mexe aos 21 meses e 6 dias Hipóteses construtivistas e interacionistas Há diferentes abordagens que tentam dar conta da linguagem a partir das relações interativas entre a criança e o ambiente sendo a linguagem conseqüência da construção da inteligência em geral hipótese construtivista de Piaget ou entre a criança e as pessoas com quem ela convive hipóteses interacionistas Veremos resumidamente algumas dessas concepções Cognitivismo construtivista Uma abordagem bastante conhecida é a denominada cognitivismo construtivista ou epigenético desenvolvida pelo estudioso suíço Jean Piaget 1978 e 1990 Sua visão tem por base a idéia de que o desenvolvimento das estruturas do conhecimento ou estruturas cognitivas é feito pela interação entre ambiente e organismo Em outras palavras para Piaget não existe uma gramática independente de outros domínios cognitivos O aparecimento da linguagem dáse por volta dos 18 meses de idade na superação do estágio que o autor denominou de estágio sensóriomotor Nesse momento há o desenvolvimento da função simbólica por meio da qual um significante representa um objeto significado Também há o desenvolvimento da representação que permite que experiências sejam armazenadas e recuperadas Nessa fase a criança começa a se reconhecer como indivíduo como senhora de seus movimentos diferenciandose das outras pessoas ou seja a criança faz uma oposição entre o eu e os outros Quando a criança chega a esse estágio cognitivo começa o desenvolvimento da linguagem a qual é entendida por Piaget como um sistema simbólico de representações Dessa forma o conhecimento lingüístico não seria inato mas sim desenvolvido através da interação entre o ambiente e o organismo sendo uma conseqüência da construção da inteligência em geral O interacionismo social Uma outra proposta não inatista é a do psicólogo soviético Vygotslcy 1996 que explica o desenvolvimento da linguagem e do pensamento com base na interação entre os indivíduos Segundo o autor a fala e o pensamento têm origens genéticas diferentes havendo uma fase préverbal do pensamento ligada à inteligência prática e uma fase préintelectual da fala relacionada ao balbucio e ao choro Aos 2 anos a fala e o pensamento se unem e a fala passa a servir ao intelecto A criança nessa idade fala sozinha quando está brincando desenhando e fazendo outras tarefas Essa fala egocêntrica é para Vygostsky muito importante pois serve de instrumento para a criança planejar e encontrar a solução de um problema A fala será internalizada à medida que a criança cresce Para o autor é na troca comunicativa entre a criança e o adulto que a linguagem e o pensamento são desenvolvidos As estruturas construídas socialmente são internalizadas quando a criança passa a controlar o ambiente e o próprio comportamento A história das relações reais entre a criança e as outras pessoas é constitutiva dos processos de internalização A visão sociocognitivista A abordagem sociocognitivista junta a base social interacional com a base cognitiva A explicação para a aquisição da linguagem dáse em termos fúncionalistas a aquisição começa quando a criança passa a entender que existe uma intenção no ato comunicativo dos adultos Segundo essa visão não faz sentido caracterizar o homem como detentor exclusivo da linguagem cujas propriedades gerais são determinadas por aspectos mentais radicados na organização biológica da espécie Isso porque os seis milhões de anos que separam os humanos dos grandes macacos constituem um período de tempo muito curto para que ocorressem os processos relativos à evolução biológica e seleção natural essenciais ao surgimento das habilidades necessárias para os humanos lidarem com tecnologias formas complexas de organização social e comunicação Nesse sentido o conjunto de habilidades cognitivas que caracterizam os humanos modernos constitui o resultado de algum tipo de processo característico unicamente da espécie de transmissão cultural uma espécie de evolução cultural cumulativa que não envolve apenas criação mas principalmente transmissão social Os humanos portanto parecem ter uma capacidade de socializar suas habilidades o que os outros animais não têm O aprendizado cultural tornase possível em função de uma única e especial forma de cognição social que é a habilidade que os indivíduos possuem de compreender seus semelhantes como seres iguais os quais têm vida mental e intencional como eles mesmos Essa compreensão capacita os indivíduos a imaginaremse na pele de outra pessoa e portanto ela pode aprender não apenas com a outra pessoa mas através da outra pessoa A compreensão do outro como um ser intencional é crucial no aprendizado cultural humano porque os artefatos culturais instrumentos e as práticas sociais apontam para além de si mesmos os artefatos apontam para sua função utilitária e os símbolos lingüísticos para a situação comunicativa Portanto para aprender socialmente o uso de um instrumento ou de um símbolo a criança precisa compreender por que e para que as outras pessoas estão utilizando aquele instrumento ou aquele símbolo Isso significa que elas precisam entender o significado intencional do uso do instrumento ou da prática simbólica No que se refere à aquisição da linguagem por volta dos 9 meses de idade a criança segundo essa proposta desenvolve a habilidade de compreender outras pessoas como agentes intencionais Isso porque nessa fase ela começa a interagir com outras pessoas de vários modos Para compreender os sons e os movimentos de mão feitos pelos adultos como algo com valor comunicativo que precisa ser aprendido e usado a criança tem de entender que eles são motivados por um tipo especial de intenção chamada intenção comunicativa Mas o entendimento da intenção comunicativa só pode ocorrer dentro de algum tipo de cena de atenção compartilhada que provê a base sociocognitiva para esse entendimento Essa cena de atenção compartilhada é fundamental quando se considera que a referência lingüística é sobretudo um ato social em que uma pessoa chama a atenção de outra para algo no mundo real Nesse sentido a referência só pode ser compreendida como um tipo de interação social em que a criança e o adulto estão com a atenção voltada para um terceiro elemento por um determinado espaço de tempo A cena de atenção compartilhada implica dois aspectos importantes 1 Por um lado as cenas de atenção compartilhada não são eventos perceptuais Elas incluem apenas uma parte das coisas do mundo perceptual da criança Por outro lado as cenas de atenção compartilhada são também eventos lingüísticos pois contêm mais coisas do que aquelas explicitamente indicadas por qualquer conjunto de símbolos lingüísticos As cenas de atenção compartilhada constituem algum tipo de meiotermo um meiotermo essencial da realidade socialmente compartilhada entre o grande mundo perceptual e o pequeno mundo lingüístico 2 A compreensão da criança de uma cena de atenção compartilhada inclui como elemento constituinte integrante de cena a própria criança e o seu papel na interação conceptualizada a partir do mesmo perceptual externo da outra pessoa e do objeto Isso significa que a criança entende que todos participam de um formato representacional comum o que é de importância crucial para o processo de aquisição dos símbolos lingüísticos Para funcionar como um formato para a aquisição da linguagem as cenas de atenção compartilhada têm de ser compreendidas pela criança como tendo funções participativas que são em certo sentido intercambiáveis Isso permite que a criança tome a função do adulto e use uma nova palavra para direcionar a atenção dele da mesma maneira que o adulto acabou de usar para direcionar a dela Tomasello 1999 chama esse processo de imitação por reversão de papel ou seja aprender a expressar a mesma situação comunicativa usar os mesmos meios comunicativos que as outras pessoas requer a compreensão de que as funções participativas do evento comunicativo podem ser trocadas eu faço por ela o que ela fez por mim Como podemos ver os lingüistas dão diferentes respostas às perguntas que abrem este capítulo Entretanto não conseguiram ainda desvendar por completo os segredos da aquisição da linguagem pelas crianças A questão do inatismo continua sendo discutida Há pesquisadores que defendem a idéia de que existe uma gramática universal no nosso código genético responsável pelas características das línguas e pela aquisição da linguagem assim como há cientistas que não admitem o inatismo tal como proposto por Chomsky e enfatizam outros pontos importantes para a aquisição a o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem em geral b a interação entre os indivíduos e c a percepção das intenções comunicativas Caberá às próximas pesquisas validar ou refutar as hipóteses de uma ou de outra abordagem ou ainda criar novas hipóteses para a questão da aquisição da linguagem Exercícios 1 Caracterize a hipótese behaviorista para a aprendizagem da linguagem 2 Segundo a teoria chomskiana como se explica o fato de as crianças aprenderem uma língua num período tão curto de tempo 3 Quais são as fases de aquisição de linguagem segundo Radford Caracterize cada uma delas 4 Com base em elementos morfológicos e sintáticos observar elementos como concordância nominal concordância verbal oposição dos tempos verbais artigo pronome verbo auxiliar etc presentes na amostra de fala a seguir retirada de Cezario 1996 em qual das fases propostas por Radford esta criança parece estar E O que é que neném tá fazendo C Neném tá mexendo no mimédio de vovô E No remédio de vovô né Dá pra titia guardar E É o lobo mal e isso aqui C Hau E É assim que ele faz C Qué casa tá coendo tá coendo tá coendo lobo mal hô hô Hô comê poquinho qué comê uma poquinho E Lobo mal quer comer o porquinho E e agora C Qué qué moiá porquinho qué moiá aobo E Por quê C pé pé E Quer molhar o pé C Qué cigaga cimiga é cimiga é cimiga E Hum hum C Aqui fô aqui a pata aqui a panta E Ih é a planta C É a panta di cigaga E A planta da cigarra C criança E entrevistador 5 Segundo a hipótese maturacional as categorias lexicais ocorrem na fala antes das categorias funcionais Por que isso acontece nesta ordem O capítulo apresenta uma outra hipótese inatista que refuta a hipótese maturacional Caracterizea 6 Como a abordagem construtivista explica a aquisição da linguagem 7 Segundo a visão sociocognitivista como o aprendizado cultural se torna possível Como isso se relaciona com a aquisição da linguagem Notas 1 Segundo autor pode haver diferença de 20 em relação à mudança de uma fase de aquisição 2 As características temáticas ou papéis temáticos são as funções semânticas que expressam numa sentença quem fez o que a quem como onde de que modo São noções como a de agente paciente instrumento experienciador etc 3 Cf Cezario 1996 4 A estrutura argumentai diz respeito à relação entre o verbo e seus argumentos e se refere não só ao número mas também ao tipo de argumento que um predicado toma Psicolinguística experimental focalizando o processamento da linguagem Márcio Martins Leitão Este capítulo tem como obj etivo básico informar para os alunos a evolução da área de psicolinguística desde seu surgimento no início da década de 1950 até os dias de hoje Apresentaremos de forma resumida um histórico das principais mudanças ocorridas na pesquisa e na relação da psicolinguística com as teorias lingüísticas durante esse período de consolidação da área Além disso focalizaremos a subárea da psicolinguística experimental mais especificamente a subárea do processamento lingüístico cujos avanços vêm se desdobrando de modo rápido devido à utilização cada vez maior da tecnologia especificamente de equipamentos utilizados nos experimentos científicos Isso implica o aumento das possibilidades de acesso aos processos que ocorrem na mentecérebro enquanto compreendemos e produzimos estímulos lingüísticos Serão explicitados os modelos teóricos que atualmente vigoram na área Serão também descritas e exemplificadas algumas das técnicas experimentais utilizadas no estudo do processamento sentenciai e do processamento da correferência e por fim serão também abordados alguns conceitos básicos dessas áreas do processamento Todos os exemplos serão baseados em estudos já realizados em português para que seja mais fácil a assimilação dos conceitos e da metodologia descritos Um breve resumo histórico Os conceitos com que a psicolinguística trabalha de alguma forma têm sua origem nas idéias de Humboldt retomadas por Wundt psicólogo alemão que na virada do século xix para o xx já se mostrava preocupado com a relação entre os processos mentais e o comportamento verbal Entre outras coisas Wundt defendia a impossibilidade de a psicologia cognitiva ser autônoma em relação à lingüística e viceversa E é justamente na interação entre essas duas áreas das ciências cognitivas que a psicolinguística vai surgir e se desenvolver Como descreve Gardner 19951 a psicolinguística moderna começa como uma aventura cooperativa entre lingüistas e psicólogos durante os primeiros anos da década de 1950 Em 1951 ocorre o seminário de verão de pesquisa entre psicologia e lingüística na Universidade de Cornell seguido dois anos depois 1953 por outro seminário de verão sobre psicolinguística na Universidade de Indiana patrocinado pelo Conselho de Pesquisa em Ciência Social Social Science Research Council SSRC em que lingüistas e psicólogos interagiram produtivamente sendo creditado a esse evento o nascimento da psicolinguística Nesse segundo seminário foram expostos procedimentos que refletiam um consenso entre os participantes as tarefas teóricas e metodológicas desenvolvidas por psicólogos poderiam ser utilizadas para explorar e explicar as estruturas lingüísticas que estavam sendo descobertas pelos lingüistas Esse consenso foi o que delineou naquele momento a agenda das pesquisas na área da psicolinguística Depois disso a história da psicolinguística atravessou cinqüenta anos em que ocorreram mudanças radicais na abordagem dos estudos da cognição humana Quando a psicolinguística nasceu teve suas raízes na tradição behaviorista muito aceita e difundida na época Acreditavase em uma teoria do aprendizado que tinha como base associações a determinados comportamentos lingüísticos gerados em resposta a estímulos externos ao indivíduo que seriam fixados pela repetição Acreditavase que pela relação estímuloresposta seria possível explicar a estrutura da linguagem bem como se acreditava que essa linguagem seria adquirida e utilizada por seus falantes Durante a década de 1960 a psicolinguística foi dominada pela teoria chomskiana ver o capítulo Gerativismo que surge como uma revolução no campo da lingüística propondo explicações sobre a natureza do conhecimento lingüístico contrárias à tradição behaviorista ao mostrar que a linguagem humana não pode ser caracterizada como um sistema de hábitos e repetições já que um dos princípios que a norteiam a distinguindoa da linguagem animal é o da criatividade ou seja produzimos frases que nunca ouvimos ou lemos antes Além disso a proposta gerativa internaliza o conceito de linguagem definindo uma faculdade da linguagem que seria inata e localizada na mente das pessoas marcando claramente uma das distinções entre o modelo estruturalista de Saussure que vê a linguagem como um fato social e não como uma capacidade inata do ser humano Decorre daí a diferença também refletida na metodologia baseada na análise de corpora utilizada pelo estruturalismo e a metodologia do gerativismo baseada na introspecção e nos julgamentos de gramaticalidade A psicolinguística então avança rapidamente por uma abordagem gerativa da cognição em que regras e transformações formam o vocabulário das análises que foram sendo elaboradas A partir dessa mudança de paradigma teórico a psicolinguística começa uma fase de pesquisas que tentam buscar nas regras da teoria da gramática transformacional de Chomsky uma estruturação explicativa para os resultados de experimentos psicolinguísticos Nessa ocasião surgem os estudos de Miller que inicialmente encontram apoio na teoria gerativa para evidenciar que as transformações propostas por essa teoria ao explicar a estrutura da linguagem são utilizadas durante o processamento lingüístico Tomemos como exemplo as sentenças abaixo a Os exercícios foram feitos por Eduardo b Eduardo fez os exercícios Uma sentença na voz passiva como a apresentada em a seria o produto ou a estrutura superficial de uma série de transformações que ocorreriam com base em uma sentença matriz ou estrutura profunda no caso a voz ativa que vemos no exemplo b Daí provém a chamada teoria da complexidade derivacional abreviada DTC em inglês que assumia como idéia básica que sentenças com uma história derivacional mais complexa deveriam ser mais difíceis para o processamento ou seja os ouvintes primeiro computariam a estrutura superficial das sentenças e depois usariam as transformações para mapear essa estrutura a partir de sua estrutura profunda com isso a predição era de que o processamento da frase a seria mais demorado do que o da frase b já que essa última é menos complexa derivacionalmente Na década de 1970 a tendência geral da psicolinguística foi abandonar seus laços com a teoria da gramática transformacional Isso porque os experimentos psicolinguísticos não conseguiam relacionar de maneira harmoniosa o arcabouço teórico transformacional com os resultados das pesquisas experimentais O que foi concluído depois de uma série de pesquisas experimentais é que as estruturas sintáticas analisadas pela teoria da gramática transformacional eram reais psicologicamente isto é eram utilizadas durante o processamento mas as regras utilizadas para transformar essas estruturas não o eram Isso quer dizer que sentenças como as dos exemplos a e b tinham suas estruturas sintáticas levadas em conta ao serem processadas mas as regras transformacionais que fariam a frase b transformarse na frase a não eram utilizadas no processamento Prova disso é que nos experimentos com rigor metodológico os participantes processavam com a mesma rapidez tanto as sentenças ativas quanto as sentenças passivas Com essa desvinculação da psicolinguística com os estudos teóricos gerativistas em meados dos anos 1970 as pesquisas na área começam a ser norteadas pela corrente teórica majoritária da psicologia cognitiva Enquanto nos anos 60 a psicolinguística havia se concentrado nas variáveis sintáticas do processamento sentenciai na década seguinte os estudos focalizaram processos relacionados à compreensão do discurso e também ao reconhecimento de palavras acesso lexical Os estudos com foco na sintaxe dão lugar aos estudos com foco na semântica Influenciados pela teoria da lógica conversacional de Grice e pelas análises dos atos de fala de Searle os psicolinguistas começam a analisar também vários aspectos da pragmática tais como pedidos indiretos e processos relacionados à metáfora Surgem também nessa época a partir da compreensão de narrativas e de textos vários modelos de representação textual que abarcam como um dos tópicos centrais de pesquisa a interpretação da anáfora e de processos inferenciais Após as mudanças no arcabouço teórico gerativo que vêm se processando nas décadas recentes a aproximação entre psicolinguística e teoria gerativa se dá de novo de forma bem produtiva mais especificamente pelo modelo gerativo adotado no programa minimalista Chomsky1995 1999 em que condições de legibilidade da informação lingüística são ou não satisfeitas pelos sistemas de desempenho nas interfaces forma lógica e forma fonológica servindo como critério de validação empírica do modelo lingüístico Além disso na proposta minimalista os procedimentos gerativos passam a ser entendidos como um sistema computacional não mais desvinculado da produção compreensão de enunciados mas sim como uma derivação que atua sobre itens lexicais ativos na memória o que implica necessariamente uma relação mais íntima entre competência e desempenho modelo lingüístico e modelo psicolinguístico2 Entretanto não se pode deixar de dizer que ainda há muita polêmica a respeito da autonomia e independência da sintaxe em relação a outros componentes lingüísticos semântica léxico fonologia no que concerne ao processamento de sentenças por exemplo e ainda há muito o que se pesquisar para que essa relação entre modelo de língua e modelo de processamento lingüístico seja observada e analisada com maior precisão A partir desse brevíssimo resumo dos caminhos seguidos pela psicolinguística faremos um recorte necessário a um texto de natureza introdutória e encaminharemos nas seções a seguir conceitos teóricos e metodológicos básicos relacionados à psicolinguística experimental focalizando o campo do processamento lingüístico Essa escolha é baseada em alguns critérios o primeiro e fundamental é calcado na ausência de textos que se debrucem sobre essa área da psicolinguística nas recentes obras de introdução à lingüística publicadas no Brasil3 e em segundo lugar por essa área ser um campo de estudos em fase de crescimento no país A psicolinguística experimental O interesse central da psicolinguística pode ser resumido em três questões básicas a Como as pessoas adquirem a linguagem verbal b Como as pessoas produzem a linguagem verbal c Como as pessoas compreendem a linguagem verbal A primeira questão se enquadra no campo da aquisição da linguagem psicolinguística desenvolvimentista e as duas outras questões formam o campo da psicolinguística experimental E claro que em muitas situações esses campos se inter relacionam e podem trocar informações relevantes para o avanço das pesquisas em suas áreas específicas4 Sendo assim a psicolinguística experimental tem como objetivo básico descrever e analisar a maneira como o ser humano compreende e produz linguagem observando fenômenos lingüísticos relacionados ao processamento da linguagem Ou seja esses fenômenos são tratados e focalizados do ponto de vista de sua execução pelos falantes ouvintes a partir de seu aparato perceptualarticulatório e de seus sistemas de memória Mais especificamente ao conversarmos com alguém oralmente por exemplo temos de transformar o sinal acústico que chega a nosso aparelho auditivo em algo que nos seja compreensível Temos de retirar desse sinal informação sobre os sons e para traduzila em informação sintática passando depois para o reconhecimento dos itens lexicais e para a projeção das propriedades formais e semânticas desses itens em estruturas hierarquicamente constituídas a partir de um núcleo Ou seja ocorre o processamento dos sintagmas e das sentenças formadas por eles o que permite a interpretação do significado do que está sendo dito Por sua vez em resposta ao que foi compreendido temos que utilizar nossa capacidade de construir enunciados em que estão envolvidos todos esses aspectos fonéticofonológicos morfológicos lexicais sintáticos e semânticos para coerente mente produzirmos também um sinal acústico verbal que permita toda essa decodificação tornandoa compreensível para o nosso interlocutor Mesmo agora no momento em que está lendo este texto por exemplo você tem que transformar os sinais visuais constituídos de letras que compõem as palavras as frases e o próprio texto de maneira a também compreender o que neste exato momento estamos produzindo em forma de escrita Você está transformando a informação visual em informação lingüística relevante para reconhecer as estruturas sintáticas e o conteúdo semântico do texto Em ambos os processos seja via oralidade seja via escrita o que se está colocando em funcionamento são as habilidades cognitivas relacionadas à linguagem Esse processo de compreender e produzir linguagem verbal em nosso cotidiano que parece extremamente simples é na verdade algo complexo e que requer um conjunto de procedimentos mentais denominado de processamento lingüístico A psicolinguística experimental busca fornecer hipóteses que deem conta de explicar como esse processamento lingüístico se estrutura na mente dos seres humanos E para que esse objetivo seja alcançado a psicolinguística lança mão de uma série de procedimentos metodológicos de acordo com o tipo de fenômeno ou de objeto lingüístico que se está focalizando nas pesquisas Essas pesquisas abrangem subdomínios associados à compreensão e à produção de linguagem Aqui cabe um esclarecimento sobre essas duas atividades fundamentais no estudo do processamento lingüístico compreensão e produção Ambas são atividades básicas da linguagem humana tanto em sua forma oral quanto em sua forma escrita Inicialmente nos estudos psicolinguísticos considerouse que essas duas atividades eram realizadas pelos mesmos processos cognitivos que atuavam de maneira inversa na compreensão os estímulos externos eram convertidos em significados e na produção ao contrário os significados eram convertidos em estímulos externos Mais tarde percebeuse que as coisas não são tão simples assim pois tanto dados experimentais de indivíduos normais como aqueles realizados com pacientes com algum tipo de lesão cerebral indicam que na verdade a compreensão e a produção são processos distintos claramente dissociáveis e não completamente simétricos Exemplos clássicos de estudos referentes a lesões cerebrais que evidenciam essa dissociação entre a compreensão e a produção da linguagem verbal são aqueles sobre os tipos de afasia5 ou disfasia relacionados ora a distúrbios de produção sem maiores danos na compreensão como é o caso das afasias com lesão na área de Broca ora a distúrbios de compreensão sem maiores danos na produção como é o caso das afasias com lesão na área de Wernicke6 Outro argumento para a distinção entre essas duas atividades diz respeito ao fato de o esquema de funcionamento da produção ser de certa maneira mais complexo do que o esquema da compreensão Quando o falanteescritor produz um enunciado oral ou escrito ele ao mesmo tempo escuta ou lê e compreende o que diz ou escreve o que afeta de algum modo o que está sendo dito ou escrito e o que se vai ainda dizer ou escrever Sendo assim podemos dizer que a compreensão realimenta o sistema de produção da linguagem ao passo que a compreensão não tem uma realimentação equivalente compreendemos sem reproduzir o que compreendemos Feita essa distinção entre produção e compreensão temos ainda que explicitar que apesar de os estudos de ambas serem extremamente relevantes para o entendimento do processamento lingüístico há um desequilíbrio notório a favor da compreensão em termos do número de pesquisas o que se refletirá nos exemplos comentados neste capítulo Em grande medida esse desequilíbrio se explica pelo mesmo fato de que há algum tempo os estudos sobre a modalidade escrita tornavamse muito mais freqüentes do que os estudos sobre a modalidade oral há muito mais vantagens e facilidades metodológicas para execução de experimentos sobre compreensão do que sobre produção assim como era muito mais fácil estudar os textos escritos antes de existir a possibilidade de gravação dos sons da fala Tentando entender os processos mentais relacionados à compreensão e à produção da linguagem a psicolinguística experimental investiga o processamento lingüístico nos vários níveis gramaticais que estão envolvidos nesses processos fonológico morfológico sintático semântico Isso se reflete na especificidade de alguns campos de investigação a estudos sobre a percepção da fala em que se analisa o sinal acústico em seus vários aspectos Por exemplo tentase entender como o processamento desse sinal acústico é possível a partir de estímulos que são variáveis tanto em um indivíduo quanto em uma dada sociedade ou investigase como ocorre a segmentação desse sinal acústico que se apresenta em um contínuo na fala etc b estudos sobre o reconhecimento de palavras ou sobre o acesso lexical que investigam como os elementos morfemas traços que as compõem são acessados no momento em que as ouvimos ou lemos c estudos sobre o processamento de frases que investigam a organização da estrutura sintá tica construída a partir doparser ou processador sintático uma espécie de processador mental que analisa a sintaxe dos enunciados lingüísticos para que possamos compreendêlos d o estudo da interpretação semântica dos enunciados lingüísticos que investiga como os níveis lingüísticos fonológico morfológico sintático são integrados ao conjunto de conhecimentos de mundo que os indivíduos têm viabilizando uma interpretação mais consciente e abrangente seja no escopo sentenciai seja no escopo discursivo A tarefa de compreender quais são e como se dão os processos mentais envolvidos no processamento lingüístico é complexa entre outras coisas por não se ter acesso in loco aos procedimentos mentais que acontecem durante o processamento lingüístico Ou seja apesar de as técnicas utilizadas pela neurolinguística por exemplo serem capazes de medir o fluxo sangüíneo ou a atividade elétrica no cérebro durante uma tarefa lingüística ainda não há como estabelecer uma relação transparente e inequívoca entre essas medidas e os processos mentais especificamente lingüísticos Na verdade isso vem sendo buscado pela neurolinguística e muito já se caminhou nessa direção A psicolinguística por sua vez também busca entender esses processos e utilizase de aferições mais indiretas por meio de experimentos denominados offline e online Os experimentos offline são baseados em respostas dadas por indivíduos após estes terem lido ou ouvido uma frase ou um texto isto é capturamse reações após a leituraaudição dessa frase ou desse texto momento em que o processamento já foi finalizado De modo contrário os experimentos online como o próprio nome diz baseiamse em medidas a reações obtidas no momento em que a leituraaudição está em curso são medidas praticamente simultâneas ao processamento A distinção entre essas duas metodologias experimentais reflete os tipos de informação lingüística que se quer capturar em tempo real As aferições obtidas a partir de experimentos offline dão informação a respeito da interpretação momento de reflexão das frases ou enunciados ou seja conseguem capturar reações a estímulos lingüísticos quando já houve uma integração entre todos os níveis lingüísticos fonológico morfo lógico lexical sintático e semântico Já as aferições obtidas a partir de experimentos online dão informação a respeito de processos mentais que acontecem antes que a integração entre todos esses níveis lingüísticos esteja completa momento reflexo Isso permite averificação e a análise de como esses níveis interagem e em que ordem temporal eles atuam7 Para que fique mais claro o que é um experimento offline e o que é um experimento online descreveremos mais adiante alguns experimentos elaborados para estudar fenômenos lingüísticos em português brasileiro PB Contudo antes disso descreveremos em linhas bem gerais os três principais modelos da arquitetura de processamento sentenciai que de alguma forma vigoram e permeiam os estudos atuais na área da psicolinguística experimental Modelos teóricos associados ao processamento sentenciai A psicolinguística experimental apesar de ser portadora de um arcabouço teórico independente busca relacionarse com teorias lingüísticas de natureza cognitiva que apresentem um modelo de linguagem capaz de expressar a universalidade e as especificidades contidas e manifestas no conjunto das línguas humanas Como vimos no breve histórico traçado no início do capítulo desde o nascimento da psicolinguística vários modelos teóricos são associados a ela e servem não só de suporte aos estudos experimentais como também muitas vezes guiam a agenda desses estudos No início temos a influência do modelo behaviorista de Skinner e logo a seguir temos a revolucionária influência do modelo da gramática gerativa transformacional de Chomsky que focaliza aspectos sintáticos Mais adiante com o afastamento do modelo gerativista há a influência da psicologia cognitiva que encaminha a psicolinguística para a área do discurso Como já foi dito mais recentemente com as reformulações no modelo teórico gerativista houve uma reaproximação muito produtiva entre psicolinguística e gerativismo o que fez com que o foco nos aspectos sintáticos retornasse Hoje em dia temos modelos teóricos voltados para questões da sintaxe e modelos voltados para questões do discurso Mais uma vez nos atendo ao processamento sentenciai mostraremos alguns modelos que têm maneiras diferentes de explicar como o processamento de uma frase acontece O primeiro modelo proposto foi o da teoria da complexidade derivacional DTC que não se manteve após uma série de experimentos de metodologia rigorosa em que se mostrou sua incapacidade de dar conta do processamento de frases a partir da teoria lingüística da gramática transformacional em suas primeiras versões Modelos mais recentes surgiram tentando dar conta de questões básicas para o processamento sentenciai atualmente se sabe que depois de ouvidas ou lidas as palavras ficam retidas na memória de trabalho por cerca de um segundo no caso da percepção visual escrita8 e cerca de quatro segundos no caso da percepção auditiva fala9 Dessa forma de que maneira podemos estabelecer relações complexas para processar e compreender frases tão rapidamente a partir de uma cadeia de palavras ouvidas ou lidas encontradas uma a uma como está ocorrendo agora com você leitor ao ler estas palavras Um dos modelos que tentam responder a essa questão é a teoria do gardenpath TGP OU como alguns traduzem em português teoriado labirinto Esse modelo é baseado na seguinte metáfora quando ouvimos ou lemos uma frase seria como se entrássemos em uma casa sem janelas e sem nenhuma referência externa e a partir daí quiséssemos chegar por exemplo no quarto Quando entramos na casa nos deparamos com uma série de cômodos contendo várias portas vamos rapidamente escolhendo as portas por onde achamos que encontraríamos o quarto mais rápido mas de repente abrimos uma porta que dá para o jardim garden e percebemos então que temos que voltar e refazer o caminho para encontrar a porta que nos leva corretamente ao quarto A questão é o que nos fez ir pelo caminho equivocado e sair no jardim Da mesma maneira acontece quando lemos ou ouvimos uma frase ambígua como a apresentada a seguir Alguém atirou no empregado da atriz que estava na varanda Nessa frase temos dois caminhos estruturalmente legítimos para interpretar a oração relativa ou oração subordinada adjetiva podemos ligála ao sintagma nominal empregado ou ao sintagma nominal atriz O que o processador sintático faz Ele escolhe um dos caminhos O que faz com que escolhamos um dos caminhos em vez do outro Por que ligamos nesse caso a sentença relativa com empregado e não com atriz ou viceversa Essas são perguntas que interessam aos estudos de psicolinguística experimental que buscam entender como o processamento lingüístico acontece A TGP faz a analogia ao labirinto para argumentar que assim como ao entrarmos na casa só temos a informação que a sua estrutura interna nos dá a partir de suas paredes e portas o processador de frases parser usa o seu conhecimento gramatical estrutura sintática isoladamente do conhecimento de mundo e de outras informações de caráter semântico para a identificação inicial das relações entre as palavras e os sintagmas Essa analogia demonstra que a TGP é uma teoria modularista10 Além disso a TGP argumenta que como no exemplo da casa em que vamos abrindo uma porta de cada vez seguindo cegamente sem testar as outras portas possíveis no processamento de frases também seguimos cegamente uma das possibilidades e nos comprometendo com uma estrutura sintática única o que faz desse modelo um modelo serial Argumenta ainda a TGP que as escolhas que vão sendo feitas no momento do processamento seguem princípios baseados na economia dos nossos recursos cognitivos relacionados à linguagem já que temos um sistema de memória com restrições de tempo de armazenamento ou seja escolhemos geralmente a estrutura menos complexa sintaticamente ou com menos nós se pensarmos em termos de árvore sintática ou escolhemos o caminho a seguir por meio de uma estratégia que ofereça menos ônus à nossa memória de trabalho Um outro modelo de processamento sentenciai é o da teoria interativa incrementacional TII que em vez de funcionar como a TGP de forma serial funciona em paralelo pois antes de escolhermos uma das possibilidades da frase ambígua ou uma das portas de dentro da casa para chegarmos ao quarto esse modelo prevê que checaríamos as outras possibilidades e portas para só então decidirmos o caminho a seguir Além disso a TII diverge com a TGP também pelo fato de ser um modelo interativo apesar de ser modular ou seja a TII argumenta que além de podermos ter acesso às possibilidades dos caminhos a serem seguidos a cada momento da leitura audição de frases podemos também ter acesso à informação de natureza léxico semântica logo no início do processamento e essa informação ajudaria a trilhar todo o caminho Voltando à metáfora da casa é como se agora entrássemos em uma construção com janelas e com um telhado de vidro e que com as informações que temos acesso através dessas janelas e desse telhado pudéssemos mais facilmente nos guiar pelo labirinto de cômodos até chegarmos ao objetivo que é o quarto no caso da casa ou a estruturação e compreensão da frase no caso do processamento sentenciai Além desses modelos de processamento sentenciai temos o modelo conexionista da teoria da satisfação de condições TSC que é altamente interativo e não modular baseado no sistema cerebral de redes neurais Esse modelo argumenta que o caminho que seguimos no processamento de frases é guiado por uma constante e alta interação entre todos os tipos de informação seja contextual sejaléxicosemântica e fundamentalmente informação relacionada à freqüência de uso das frases e das palavras que as constituem e de suas estruturas sintáticas ou seja cada vez que usamos determinada estrutura isso contribui para que as condições de processamento sejam satisfeitas Mais uma vez voltando à metáfora da casa é como se não existisse mais a estrutura física da construção e sim só o caminho que nos leva até onde fica o quarto para percorremos esse caminho temos como guia a nossa experiência lingüística que já fez e refez o mesmo circuito muitas e muitas vezes e assim quanto mais vezes percorremos o caminho menos dificuldades teremos de processar as frases dentro de um contexto Para exemplificar com uma evidência empírica a importância da freqüência para esse modelo temos a frase a seguir Um navio brasileiro entrava na baía de Guanabara um enorme rebocador Nessa frase entramos em um efeito labirinto porque processamos o verbo como sendo o verbo entrar na terceira pessoa do singular do pretérito imperfeito então ao chegarmos ao sintagma um enorme rebocador temos um estranhamento e reanalisando a frase podemos perceber que o verbo da frase é entravar obstruir na terceira pessoa do singular do presente do indicativo Isso aconteceria segundo o modelo de TSC porque a freqüência de uso do verbo entrar é muito mais alta do que a do verbo entravar e essa taxa alta de freqüência faria com que seguíssemos o caminho mais provável o de acessar a estrutura prevista para o verbo entrar Quando nos deparamos com uma estrutura diferente surge o estranhamento e a necessidade de uma reanálise da frase Esses são três dos principais modelos de processamento sentenciai que ilustram as vertentes teóricas que norteiam essa área da psicolinguística experimental Como podemos ver os modelos se dividem em vertentes que têm como foco central a sintaxe modelo da TGP e que dialogam produtivamente com a teoria gerativa atual conhecida como programa minimalista e em modelos conexionistas que têm como foco a semântica e que dialogam mais produtivamente com a teoria sociocognitiva ver o capítulo Lingüística cognitiva Explorando a metodologia experimental descrição de experimentos offline e online em PB Um tipo de frase que classicamente é estudada pela psicolinguística que investiga o processamento sentenciai é a frase ambígua sintaticamente ou seja a frase que pode ter mais de uma interpretação em função da sua estrutura sintática ambígua Veja a seguir dois exemplos desse tipo de frase11 a O policial viu o turista com o binóculo b A mãe suspeita do assassinato do filho e vai para a delegacia A frase a pode ser interpretada de duas maneiras o policial tinha um binóculo e de posse do mesmo viu o turista e o policial viu o turista que portava um binóculo Há nessa frase uma ambigüidade que só contextualmente poderia ser desfeita Tratase de uma ambigüidade estrutural permanente Já na frase b temos uma ambigüidade local e temporária ou seja a ambigüidade não se mantém até o final da leitura da frase permanece apenas até o momento em que se lê seu segmento final que começa com a conj unção coordenativa e ou quando se nota a ausência dela A ambigüidade dessa frase consiste na interpretação da palavra suspeita como um adjetivo a mãe que é suspeita ou da interpretação da palavra suspeita como terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo suspeitar a mãe suspeita de alguma coisa Com a conjunção a interpretação é a de que suspeita é verbo e sem a conjunção a interpretação é de que esse vocábulo é adjetivo Esses são apenas dois exemplos de frases estruturalmente ambíguas que são utilizadas em experimentos psicolinguísticos na busca do entendimento dos processos mentais utilizados na hora em que se lê ou se ouve uma frase Existem muitos estudos em inglês sobre esse tipo de estrutura ambígua mas nos ateremos aqui às pesquisas recentes em português Dentre elas iniciaremos focalizando as que investigam as sentenças relativas12 as tradicionalmente denominadas orações subordinadas adjetivas que foram investigadas por vários estudiosos do PB e que têm suscitado um interesse grande não só em inglês e em português como em várias línguas do mundo pois a partir da observação do processamento de sentenças relativas ambíguas podese estabelecer uma série de resultados interessantes que se convertem em reflexões relevantes para o arcabouço teórico da psicolinguística experimental Vejamos então uma das frases utilizadas experimentalmente nesses vários estudos Alguém atirou no empregado da atriz que estava na varanda A pergunta seria quem estava na varanda Essa pergunta poderia ser respondida tanto com o empregado é que estava na varanda quanto com a atriz é que estava na varanda pois a sentença relativa que estava na varanda pode ser ligada a empregado ou a atriz Com base nessa ambigüidade estrutural foram elaborados vários experimentos usando uma vasta gama de procedimentos metodológicos que capturaram a maior e a menor tendência entre as duas possibilidades de resposta o que indicaria um caminho preferencial seguido no processamento Foi elaborada uma série de experimentos ojfline que consistia na aplicação de um questionário em que várias frases com a mesma estrutura de 7 fossem lidas por sujeitos voluntários ao experimento que logo em seguida a cada frase respondiam à pergunta correspondente Após a leitura e a resposta de um número determinado de pessoas os resultados foram analisados estatisticamente isto é observandose a probabilidade de a diferença entre o número de respostas que acharam que era o empregado e o número de respostas que acharam que era a atriz que estava na varanda não ter acontecido casualmente Nos experimentos ojfline aplicados a falantes do PB os resultados foram os seguintes a maioria dos sujeitos respondeu que quem estava na varanda era o empregado e a minoria respondeu que era a atriz Isso é um indício de que os sujeitos que têm como língua materna o português brasileiro processam a sentença relativa ligada ao sintagma nominal empregado semelhante ao que acontece no espanhol e diferentemente do que ocorre no inglês em que os sujeitos tendem a ligar a relativa à atriz Por ser um experimento ojfline não podemos dizer com esses resultados que o parser ou processador sintático tenha analisado exatamente dessa forma a estrutura sintática do tipo exemplificado pois as respostas dadas são medidas ou capturadas depois que o processamento já ocorreu na mente dos sujeitos do experimento Sendo assim a partir desses resultados foram elaborados experimentos online para tentar capturar essa ligação ou aposição da sentença relativa com o sintagma nominal empregado na frase do exemplo anterior no curso do processamento e não depois do seu término como nos experimentos baseados no estudo de questionário ojfline anterior Para que essa aferição online possa ocorrer utilizase por exemplo uma técnica experimental denominada selfpaced reading ou leitura automonitorada em português em que se segmenta a frase e cabe ao sujeito a tarefa de ler cada segmento que aparece na tela de um computador tendo ele mesmo o controle sobre o tempo de leitura de cada segmento ao apertar um botão sendo esse tempo registrado também pelo computador Diferenças de tempo aferidas em um experimento online no curso do processamento podem indicar a maneira como as demandas cognitivas relacionadas à linguagem atuam já que operações mais complexas cognitivamente demandam mais tempo do que outras mais simples ou que possíveis dificuldades no processamento podem se materializar em uma demanda de tempo também maior Com esse procedimento é possível capturar efeitos durante a leitura da frase Aplicando essa técnica experimental em sentenças relativas temos frases experimentais com ambigüidade temporária do tipo a e frases de controle sem ambigüidade do tipo b a seguir a Alguém atirou no empregado da atriz que estava na varanda com seu marido b Alguém atirou na cabeça da atriz que estava na varanda com seu marido Com base em frases do tipo a as tarefas do experimento de leitura automonitorada são as seguintes o sujeito aperta um botão e aparece na tela do computador o segmento Alguém atirou no empregado da atriz em seguida ele aperta o mais rápido possível novamente o botão para continuar a leitura da frase e aparece imediatamente o segmento seguinte que estava na varanda após o mesmo procedimento aparece o último segmento com seu marido e então o sujeito aperta o botão finalizando a leitura Esse procedimento é executado também com as frases de controle do tipo b em que não há ambigüidade Para cada passo que o sujeito dá em sua leitura apertando o botão o tempo é medido em milésimos de segundo Nas frases em questão o último segmento é o crítico ou seja é o segmento em que o tempo medido é a base de dados para que se infira com que sintagma nominal a sentença relativa está sendo ligada durante o processamento com empregado ou com atriz O raciocínio é de que se nas frases do tipo a a leitura do segmento com seu marido for feita em tempos semelhantes à leitura desse mesmo segmento em frases do tipo b isso indicaria que a aposição em a estaria sendo feita em favor de atriz e não de empregado Esse raciocínio é possível devido ao fato de que em b somente atriz pode ser interpretada como estando na varanda enquanto que em a a ambigüidade entre empregado e atriz existe até a leitura do último segmento com seu marido que desambiguisa a frase em favor de atriz por meio de uma informação semântico pragmática de que só a atriz pode ter marido Ao obter essa informação com a leitura do segmento com seu marido na frase ambígua a o leitor que tiver feito a aposição da oração relativa com empregado terá algum tipo de efeito surpresa e terá que reanalisar a frase ligando a oração relativa que estava na varanda a atriz Dessa maneira se esperaria um tempo de leitura realmente maior no segmento com seu marido na leitura da frase do tipo a do que na leitura do mesmo segmento na frase do tipo b Dependendo então da semelhança ou da diferença entre os tempos de leitura do segmento com seu marido nas frases do tipo a e b podemos ter indícios de que tipo de ligação está sendo feita em relação à oração relativa que estava na varanda e podemos a partir disso tirar conclusões a respeito de qual modelo de processamento pode dar conta mais adequadamente do processamento desse tipo de estrutura O que os primeiros estudos13 mostram em experimentos com estruturas semelhantes às que exemplificamos anteriormente é que assim como os resultados dos experimentos o f f l i n e demonstraram a ligação preferencial em PB é pelo sintagma nominal empregado pois os tempos de leitura do segmento final em frases como a de a foram significativamente mais altos do que os tempos de leitura do mesmo segmento em frases do tipo b Dessa forma até onde os estudos recentes mostram o PB se enquadraria no mesmo grupo de línguas que o espanhol o italiano o francês o alemão o croata o japonês entre outras que têm a mesma preferência de ligação ou aposição pelo sintagma empregado diferentemente do outro grupo de línguas como o inglês árabe norueguês romeno sueco entre outras em que a preferência de ligação ou aposição é pelo sintagma nominal atriz Outra área de interesse da psicolinguística experimental é a que investiga as relações referenciais entre elementos de uma frase ou de um texto Essas relações são cruciais para a coesão e para a coerência textualdiscursiva já que servem como um mecanismo que evita uma série de redundâncias e repetições que sobrecarregariam a memória de trabalho se não existisse a possibilidade do estabelecimento de correferência ou referir de novo a partir de elementos lingüísticos já mencionados em um texto ou mesmo se não fosse possível fazer referência a elementos lingüísticos estocados na memória lexical dos indivíduos por meio de outros elementos que ativam ou reativam na memória de trabalho esses referentes Essa área é conhecida como processamento correferencial ou processamento da correferência ou ainda processamento anafórico e tem origem já no início dos estudos psicolinguísticos Em relação à compreensão de frases Miller 1962 por exemplo já discute o papel que o conhecimento gramatical desempenha nesse processo de correferência O estudo de Chang 1980 estabeleceu de modo pioneiro a chamada realidade psicológica dos pronomes do inglês demonstrando que esses elementos possuem a propriedade de facilitar a compreensão de um sintagma nominal mencionado anterior mente Os pronomes por serem psicologicamente reais ou relevantes perceptualmente provocariam na memória do leitor um efeito de reativação priming do referente denotado no sintagma nominal antecedente Esse efeito será explicado mais adiante Em português já existem também estudos experimentais que mostram a relevância perceptual da correferência seja ela estabelecida por pronomes por categorias vazias seja pela repetição de nomes ou ainda pela repetição de elementos relacionados semanticamente a um antecedente Observemos o exemplo a seguir Ontem eu vi o carroi de perto e a Eu achei elei bonito b Eu oi achei bonito c Eu achei i bonito d Eu achei o carroi bonito e Eu achei o veículoi bonito f Eu achei o chevetei bonito Podemos observar no exemplo uma série de possibilidades no estabelecimento da correferência em PB entre o antecedente o carro e o pronome lexical ele em a o pronome oblíquo o em b a categoria vazia em c a repetição do nome o carro em d o hiperônimo o veículo em e e o hipônimo o chevete em f Existem estudos em psicolinguística experimental que investigaram algumas dessas formas de retomada correferencial em estruturas semelhantes a essas Leitão 2005 por exemplo mostrou a partir da técnica online de leitura automonitorada que assim como em outras línguas já estudadas os pronomes lexicais ele ou ela como em a são mais eficientes em termos de processamento da correferência do que os nomes repetidos como em d O estudo mostrou também que hiperônimos como em e são mais eficientes em termos de processamento do que hipônimos como em f Além da utilização do paradigma metodológico da leitura automonitorada no estudo do processamento da correferência em português já explicado com os exemplos referentes às orações relativas utilizamos também um paradigma baseado no efeito de reativação oupriming em inglês Esse efeito tem como conceito básico a possibilidade de um estímulo lingüístico ser capaz de facilitar o processamento de outros estímulos lingüísticos Por exemplo se apresentamos a frase ontem fui visitar minha avó doente no hospital e depois mostramos a palavra médico essa palavra será processada mais rapidamente do que se tivéssemos apresentado a frase ontem fui na escola para falar com a diretora sobre minha transferência e depois mostrássemos a mesma palavra médico Por outro lado a palavra professor seria processada mais rapidamente após a apresentação dessa última frase relacionada à escola A lógica nesse caso é que ocorre uma reativação priming semântica ou seja quando lemos a primeira frase sobre hospital e nos deparamos com a palavra médico relacionamos imediatamente as duas e por isso processamos a palavra médico mais rapidamente pois a frase ativa em nossa memória uma série de palavras relacionadas a hospital tais como médico e enfermeira por exemplo Já a segunda frase relacionada à escola ativa em nossa memória palavras relacionadas semantica mente a ela como professor e aluno Esse exemplo ilustra uma reativação ou priming no nível semântico mas podemos obter o mesmo efeito no nível morfológico como por exemplo ao relacionarmos palavras a partir de sua estrutura morfológica ou da sua forma canto canteiro cantor encantamento etc Podemos também obter o mesmo efeito no nível sintático o que ocorre no caso do estabelecimento da correferência do antecedente o carro do exemplo anterior pela retomada com um pronome ou com uma categoria vazia a e c respectivamente que são capazes de reativar na memória de trabalho o antecedente o carro Experimentos elaborados por Leitão 2005 e Maia 1994 1997 utilizando o paradigma de reativação priming por exemplo mostram resultados nessa direção evidenciando que os pronomes e as categorias vazias são reais psicologicamente ou seja são relevantes perceptualmente tendo um papel crucial em termos de processamento lingüístico e consequentemente no estabelecimento da coesão e da coerência sintáticotextual Uma outra técnica experimental muito usada nos estudos de psicolinguística é a que utiliza um aparelho denominado eyetracker ou monitorador ocular em português Esse equipamento é capaz de localizar onde está o foco de visão no momento em que se está lendo uma frase ou um texto ou mesmo quando figuras são vista Além de localizar onde está o foco de visão o aparelho mede em milésimos de segundo quanto tempo esse foco permanece em cada sílaba ou em cada palavra constituinte de uma frase ou texto Devido à precisão desse equipamento a sua utilização fornece resultados mais sensíveis do que a técnica de leitura automonitorada pois são obtidas medidas em uma fase bem reflexa ou inicial da leitura O aparelho também permite estudar os movimentos oculares regressivos ou seja os movimentos que os olhos fazem retroativamente quando estão lendo uma frase ou um texto Considerações finais Como mencionamos no início do capítulo a área da psicolinguística é vasta e vem crescendo a cada dia seguindo as várias pesquisas executadas pelo mundo afora que vêm sendo facilitadas e aprofundadas graças às evoluções tecnológicas que permitem aferições mais precisas em relação ao processamento lingüístico online Também com base nesses avanços tecnológicos tem havido uma aproximação forte entre as áreas da psicolinguística e da neurolinguística pois com equipamentos capazes de aferir reações cerebrais a estímulos lingüísticos a neurolinguística consegue determinar áreas no cérebro com maior ou menor ativação no momento da execução de tarefas especificamente lingüísticas o que permite uma rica e precisa aferição de dados referentes ao processamento Aqui neste capítulo apenas definimos alguns conceitos básicos relacionados ao estudo da psicolinguística como o que é processamento lingüístico e o que é o processador sintático parser Além disso delineamos três dos principais modelos teóricos de processamento de frases que tentam dar conta das explicações a respeito de como o processamento é executado na mente das pessoas Depois descrevemos de maneira genérica como são aplicados alguns tipos de técnicas experimentais no intuito de fornecer noções acerca da metodologia utilizada nos estudos de psicolinguística experimental mostramos o que são experimentos online e ojfline descrevemos técnicas experimentais de questionário de leitura automonitorada de reativação ou priming e técnicas que utilizam o monitorador ocular eyetracker Os estudos sobre o processamento lingüístico envolvendo vários tipos de estruturas estão em pleno vapor em várias partes do mundo investigando uma série de línguas na busca de padrões e princípios universais envolvidos no processamento da compreensão e da produção da linguagem humana Muito há que se descobrir ainda mas o importante é frisarmos que o Brasil por meio de vários de seus pesquisadores faz parte do grupo de países que avança nas pesquisas em psicolinguística experimental do processamento lingüístico tanto na compreensão quanto na produção de frases e avança também nas subáreas da psicolinguística que focalizam o processamento discursivo em que porções maiores que a sentença são estudadas Para finalizar indicaremos alguns dos grupos de pesquisas que estão envolvidos com o estudo do processamento lingüístico Na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro temos o Laboratório de Psicolinguística e Aquisição da Linguagem LAPAL coordenado pela professora Letícia Maria Sicuro Corrêa na Universidade Estadual de Campinas temos o Laboratório de Fonética Acústica e Psicolinguística Experimental LAFAPE e na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ temos o Laboratório de Psicolinguística Experimental LAPEX coordenado pelo professor Marcus Maia e na Universidade Federal da Paraíba o Laboratório de Processamento Lingüístico LAPROL coordenado pelo professor Márcio Leitão Além desses laboratórios temos pesquisadores isolados que desenvolvem trabalhos importantes na área da psicolinguística em várias partes do Brasil Aqui não podemos deixar de citar o nome da professora Leonor ScliarCabral da Universidade Federal de Santa Catarina pioneira nos estudos de psicolinguística no Brasil e ainda atuante na área e o seu livro de Introdução à psicolinguística é sempre uma referência importante para quem se interessa por essa área de estudo Outro livro que não podemos deixar de destacar é o Processamento da linguagem organizado pelo professor Marcus Maia da UFRJ e pela professora Ingrid Finger da UCPEL que reúne uma série de artigos que fornece um panorama atualizado do que vem sendo feito na área de processamento lingüístico no Brasil Exercícios 1 Com base na metodologia utilizada na psicolinguística experimental responda a O que caracteriza as técnicas experimentais online e as técnicas ojfline Exemplifique b Por que as técnicas online são mais interessantes do que as ojfline no que se refere aos estudos na área de processamento lingüístico 2 Observe a estrutura sintática da frase ambígua abaixo e responda às perguntas Encontrei o amigo do porteiro que cantava no coral da escola a Quais as duas interpretações possíveis b Por que esse tipo de estrutura é relevante para os estudos de processamento sentenciai 3 Em que consiste a técnica experimental de reativação priming e como ela pode ser utilizada no estudo do processamento correferencial Exemplifique 4 Com a analogia utilizada no texto entre a estrutura de uma casa e a estrutura de uma sentença explique as diferenças entre os três modelos de processamento sentenciai presentes na literatura da área 5 Como se deu o desprestígio da teoria da complexidade derivacional DTC que relacionava as transformações propostas pelo primeiro modelo gerativista com o custo de processamento em determinados tipos de sentença Exemplifique Notas 1 Essa é a data da primeira edição em português Em inglês a data da primeira edição é 1985 com o título de The Minds New Science a history of cognitive revolution 2 Os conceitos de desempenho e de competência são explicitados no capítulo Gerativismo deste livro 3 Temos que mencionar aqui o capítulo sobre psicolinguística escrito por Ari Pedro Balieiro Jr contido em Mussalim e Bentes 2001 Devemos no entanto ressaltar que o conteúdo tem um enfoque mais abrangente e só tangencia em alguns momentos a área de processamento lingüístico 4 Podemos citar como exemplo o trabalho que vem sendo feito no âmbito do Laboratório de Psicolinguística e Aquisição da Linguagem LAPAL da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro em que são executados experimentos sobre a aquisição do gênero de nomes novos em bebês entre outros estudos que estabelecem uma ponte entre aquisição da linguagem e processamento lingüístico Name 2002 Corrêa e Name 2003 5 Uma definição genérica de afasia encontrase em Ortiz 2005 uma alteração no conteúdo na forma e no uso da linguagem e de seus processos cognitivos subjacentes tais como percepção e memória Essa alteração é caracterizada por redução e disfunção que se manifestam tanto no aspecto expressivo quanto no receptivo da linguagem oral e escrita embora em diferentes graus em cada uma dessas modalidades Tal dano cerebral ocorre com maior freqüência em pacientes que sofrem um acidente vascular cerebral ou seja obstrução ou ruptura de vaso sangüíneo que nutre parte de um hemisfério cerebral 6 As áreas de Broca e de Wernicke têm esses nomes em função dos primeiros estudos relacionados a esses tipos de distúrbio que foram feitos respectivamente por Paul Broca em 1861 e por Karl Wernicke em 1873 7 Essa é uma das questões principais nos estudos sobre o processamento sentenciai saber em que momento no curso temporal os níveis sintático prosódico e semânticopragmático atuam e em que ordem essa atuação se dá além de saber como se dá a interação entre esses níveis e em que momento ela ocorre e se há uma autonomia entre esses níveis ou se há uma interação constante e uma atuação simultânea dos mesmos 8 Essa média de tempo referente à escrita foi estabelecida por estudos de Sperling 1960 9 Essa média de tempo referente à fala foi estabelecida por estudos de Darvwin Turvin e Crowder 1972 10 Ver conceito de modularidade no capítulo Gerativismo 11 Essas estruturas foram estudadas com base em experimentos offline e online em Maia et al 1974 12 Para maior detalhamento dos estudos sobre relativas em português ver Ribeiro 1998 2005 Maia e Maia 2005 LourençoGomes Maia e Moraes 2005 que serviram como referência para este capítulo 13 Os primeiros estudos experimentais feitos no Brasil referentes às orações relativas utilizando como sujeitos voluntários indivíduos monolíngues falantes nativos do PB foram realizados por Ribeiro 1998 e já no início foram encontrados resultados compatíveis com o espanhol em que a preferência pela aposição é alta Lingüística e ensino Mariangela Rios de Oliveira Victoria Wilson Reservamos para a parte final deste livro um capítulo dedicado à interface linguísticaensino Conforme vimos no capítulo Lingüística um dos momentos em que os estudos lingüísticos têm tentado contribuir no sentido de que seus resultados de pesquisa possam ter um retorno social um caráter de maior utilidade pública digamos assim é justamente quando estão voltados para as questões relativas ao ensino de língua seja esta materna LI ou estrangeira L2 Dedicaremos este capítulo à exposição sobre as diferentes concepções de língua e gramática e seu impacto sobre o ensino de língua Na verdade não se trata de um capítulo específico sobre lingüística aplicada LA ramo da lingüística que se dedica ao estudo de vários aspectos relacionados à língua em situações reais de comunicação e interação tais como o ensino de língua materna e estrangeira as crenças os valores e a questão do processo de construção de identidades em contextos institucionais variados entre outros aspectos O ponto importante a ser ressaltado aqui é que a língua sob a perspectiva da LA é tomada em seu aspecto pragmático e interacional centrada no uso do código e não no código em si o que implica pensar segundo Moita Lopes 199852 nas práticas de uso da linguagem em tempos lugares sociedades e culturas específicas relações antes consideradas extralinguísticas e portanto fora do escopo das ciências lingüísticas Na seção que segue trataremos das definições e concepções de língua e gramática e das implicações das referidas perspectivas e abordagens em relação ao ensino Concepções de linguagem O primeiro desafio a ser superado na abordagem do binômio linguísticaensino é o de se chegar à resposta da seguinte pergunta A partir de que concepção de linguagem serão tratadas as questões lingüísticas Conforme Geraldi 1997 esse é um ponto crucial e fundamental para a outra indagação que deve se constituir na reflexão maior dos docentes da área de letras Para que os alunos aprendem o que aprendem nas salas de aula de língua Conforme vimos ao longo da unidade Abordagens Lingüísticas há diversas e contrastivas ou complementares formas de pensar e compreender o fenômeno lingüístico cada qual com sua validade e contribuição para o maior conhecimento dessa entidade tão complexa Ocorre que ao fazermos opção por uma dessas maneiras de tratamento estamos fazendo muito mais do que somente a eleição de uma perspectiva de abordagem Automaticamente estamos aderindo a determinadas práticas e metodologias a um aparato teórico específico e a objetos de análise mais ou menos definidos Assim ao adotarmos um enfoque estruturalista que vê a língua como um sistema virtual abstrato apartado das influências das condições interacionais ou um enfoque gerativista para o qual a gramática das línguas é um processo mental e inato fundado num conjunto de princípios universais estamos na verdade assumindo uma concepção formalista de linguagem Lidar com o fenômeno lingüístico nessa perspectiva é tratálo de modo abstrato considerandoo objeto único de investigação De acordo com tal perspectiva não importa à análise quem como quando ou para que se faz uso da língua uma vez que o que está no foco da atenção é tão somente a própria estrutura lingüística de certa forma descolada de todas as interferências comunicativas que cercam sua produção e recepção Em termos de ensino assumir uma concepção formalista significa considerar a linguagem uma entidade capaz de encerrar e veicular sentidos por si mesma de expressar o pensamento De modo geral a vertente dos chamados estudos tradicionais incluídos aí os gramaticais situamse nessa perspectiva A perspectiva formalista trata assim de uma concepção antiga e de forte prestígio que concorreu e muito concorre ainda na formação dos docentes de letras As noções de certo e de errado as tarefas de análise lingüística que ficam apenas no âmbito da palavra do sintagma ou da oração a atividade de interpretação de textos como o exercício da procura do verdadeiro sentido ou do que o autor quer dizer são poucos dos muitos exemplos que poderíamos citar de práticas envolvidas nas salas de aula sob a luz da concepção formalista da linguagem Outro contexto em que verificamos numa distinta versão a presença dessa concepção é o tratamento da linguagem como fenômeno de comunicação e expressão com base no consagrado quadro de funções da linguagem proposto por Roman Jakobson um dos mais importantes membros do Círculo Lingüístico de Praga comunidade acadêmica de tendência funcionalista Ocorre que embora para o Círculo a língua fosse concebida como um sistema funcional por conta do caráter de finalidade de propósito comunicativo com que era tratada a atividade lingüística parece ter havido em termos de ensino certa incompreensão dessa proposta com sua redução a um conjunto estruturado das seis funções da linguagem Assim na década de 1970 a influência desse tratamento chegou até a legislação oficial com a fixação do rótulo comunicação e expressão para referência ao ensino de língua materna no âmbito do primeiro grau de então equivalente ao hoje denominado ensino fundamental Por conta da nova tendência os livros didáticos passaram a incluir ao lado da descrição fonéticofonológica e morfossintática da língua portuguesa dos exercícios de leitura de interpretação e de redação um detalhamento dos elementos envolvidos na situação comunicativa emissor receptor código mensagem canal e contexto Com base na centração ou preponderância da atuação de cada um desses elementos foram apresentadas e classificadas as funções da linguagem respectivamente emotiva conativa metalinguística poética fática e referencial Nos dias atuais devido à incompreensão já mencionada por parte de pesquisadores professores autores de livros didáticos e legisladores que reduziu a proposta de Jakobson a um esquema estruturado de seis funções tendemos a compreendêla como de caráter mais formal do que funcional Embora sejam considerados os constituintes da situação comunicativa esses elementos são descritos e tratados fora de contextos reais de interação como entidades ideais prontas a cumprir cada uma seu papel virtual sem maiores problemas ou interferências que possam abalar as condições de comunicação Dessa forma apesar de os funcionalistas do Círculo de Praga terem alargado o foco de tratamento do fenômeno lingüístico os materiais didáticos restringiram as concepções de língua e código formuladas por Jakobson especialmente aos seis constituintes envolvidos na comunicação apenas tratandoos estruturalmente e desvinculados dos aspectos interacionais não superando a concepção formalista da língua Vale ressaltar que a contribuição de Jakobson para os estudos enunciativos se insere no campo daquilo que ele considera a necessidade de revisão da hipótese monolítica da linguagem e o reconhecimento e da interdependência no interior de uma mesma língua Machado 2001 52 Nos materiais didáticos de ensino de língua geralmente o denominado livro do professor manual que traz as respostas aos exercícios do livro correspondente do aluno ou o conjunto de orientações didáticas para utilização do livro didático ilustra também a concepção formalista da linguagem como instrumento de comunicação Tratase de um material que em geral propõe uma série de instruções para o procedimento do professor desconsiderando maiores especificidades envolvidas na questão do ensinoaprendizagem como a região onde se localiza a escola o perfil do aluno e do professor as condições históricoculturais que cercam e marcam a experiência com a linguagem entre muitas outras A outra vertente de concepção da linguagem que contrasta com a que acabamos de apresentar é a que podemos chamar em termos gerais de concepção funcional e pragmática O que a marca é a visão do fenômeno lingüístico como produto e processo da interação humana da atividade sociocultural Segundo tal concepção os sentidos veiculados pelas estruturas da língua têm relação motivada o que significa que estas são moldadas em termos daqueles De modo geral podemos dizer que do capítulo Sociolinguística ao capítulo Lingüística textual encontramos uma concepção funcional em que se destaca a questão do uso da linguagem como resultante das condições intra e extralinguísticas de sua produção e recepção No âmbito da sociolinguística por exemplo as formas da língua são vistas como portadoras de marcas resultantes da interferência de fatores sociais como escolaridade localidade sexo profissão entre outros Nesse tipo de abordagem entendemse os diversos usos lingüísticos como contextos reveladores da pluralidade e diversidade de lugares sociais ocupados pelos membros de uma comunidade A influência da abordagem sociolinguística também chamada variacionista no ensino de língua materna no Brasil tem história recente e mais efetiva em termos gerais a partir da última década do século xx Há inúmeras publicações na área em torno da sociolinguística na sala de aula tratando dos aspectos que dizem respeito às variações no uso da língua e sua relação direta com o ensino Quando as aulas de português se voltam para a observação e análise de distintos e específicos usos lingüísticos como as gírias os jargões profissionais as marcas dialetais das diversas regiões brasileiras entre outras manifestações relacionando esses usos com os fatores sociais que cercam os grupos que assim se expressam assumese uma forma específica de concepção funcional de linguagem Uma das grandes contribuições da abordagem variacionista para o ensino de língua foi a possibilidade efetiva de se superar o tratamento estigmatizado dos usos lingüísticos por intermédio da consideração de que todas as expressões têm sua legitimação e motivação justificadas pela multiplicidade de fatores intervenientes do âmbito social Com base nessa perspectiva a chamada norma culta ou língua padrão passa a ser vista como mais uma variante de uso uma forma de expressão tão eficiente como todas as outras que circulam na comunidade lingüística que assume a posição de forma modelar e exemplar do bom uso idiomático mais por razões extralinguísticas ligadas à situação de prestígio social político cultural financeiro por exemplo do grupo que a detém Assim a norma culta passa a ser entendida como uma entre outras tantas possíveis marca de status social seu domínio é entendido como o aprendizado de uma prática necessária à ocupação dos postos de prestígio uma ferramenta capaz de concorrer para a ascensão a lugares de maior visibilidade e mérito social Outra contribuição efetiva da abordagem variacionista está relacionada com a formação de professores notadamente os de língua materna Por intermédio das contribuições da abordagem sociolinguística pode o professor iniciar seu trabalho a partir dos usos de seus alunos incorporando e valorizando essa expressão em suas aulas Não nos esqueçamos de que nos dias atuais com a democratização do ensino em nível nacional as chamadas classes populares têm acesso à escolarização e esses grupos expressamse por marcas lingüísticas específicas muitas vezes distantes e distintas da chamada norma culta da língua mas nem por isso menos eficientes ou linguisticamente inferiores Portanto cabe à escola munirse de instrumental teórico e metodológico eficiente para lidar com esses novos alunos cidadãos brasileiros com direito a uma educação de qualidade Nesse sentido uma das primeiras tarefas da escola é a consideração dos usos lingüísticos desses alunos como formas genuínas de expressão da língua portuguesa convenientes e adequadas à sua inserção social A partir da experiência educacional deverão ser apresentadas as demais variantes sociolinguísticas do português dentre as quais se destaca como forma prestigiada de expressão a norma culta em sua modalidade falada e escrita que cabe também à escola trabalhar considerando sempre o caráter político e ideológico que recobre essa questão Infelizmente os manuais didáticos embora já apresentem a preocupação em apontar para os diferentes usos da língua o fazem em geral de forma desvinculada das situações reais de comunicação isto é desconsiderando as relações entre língua e homem e entre este e seu meio social O material didático disponível no mercado em geral ainda mantém a visão uniforme e homogênea da língua seja na forma de concebêla seja no modo com que elabora os enunciados e estrutura as unidades As denominadas correntes funcionalistas apresentadas a partir do capítulo Sociolinguística inseremse como o próprio nome indica nessa concepção funcional mais ampla Dois pressupostos básicos orientadores da abordagem funcionalista podem ser considerados valiosos para a atividade de ensino de língua a os usos lingüísticos são forjados e organizados nos contextos de interação nas situações comunicativas e a partir daí se sistematizam para formar as rotinas ou padrões convencionais de expressão b as funções desempenhadas pela língua são motivadas por fatores externos e é possível em alguns níveis de análise como o textual e o morfossintático se chegar à depreensão dessas funções Desse aparato teórico destacamos como subsídio ao ensino de língua a concepção de gramática entendida nesse contexto como o conjunto de regularidades fixadas e definidas pela comunidade lingüística como as formas ritualizadas de uso ou seja aquelas que se tornam rotineiras e se constituem como valor de troca e interação entre os usuários Assim quando no trato dos conteúdos gramaticais a escola privilegiar as questões mais regulares as expressões de maior freqüência ou debruçarse sobre uma investigação de categorias que passa do que é mais sistemático e geral para posteriormente lidar com as chamadas exceções ela estará efetivamente trabalhando com base num enfoque funcionalista Em termos de avaliação esse entendimento de gramática pode responder satisfatoriamente a algumas questões sobre as quais refletem hoje os professores de língua tais como a O que é saber gramática b Para que conhecer e sistematizar os conteúdos gramaticais c Como se verifica ou se avalia a aprendizagem de uma categoria gramati cal pelo conhecimento de seus representantes mais gerais ou dos casos raros as exceções Como a abordagem funcionalista tem seu foco de investigação mais amplo tratando não só dos constituintes que se limitam ao período mas chegando à análise da instância textual algumas das questões examinadas por essa abordagem são de interesse para as aulas de língua Nos dias atuais em que o magistério se pergunta como lidar com o texto em sala de aula sem transformálo em pretexto para continuar privilegiando antigas práticas de ensino de conteúdos gramaticais a abordagem funcionalista pode realmente trazer alguma luz a essa indagação Com o advento da pragmática a concepção funcional do ensino de língua enriquecese pela incorporação na investigação do fenômeno lingüístico de elementos constitutivos dos contextos externos de produção e de recepção da linguagem sob o ponto de vista da interação entre as pessoas Ganham destaque os modos de dizer as intenções conscientes ou não comunicativas as informações implícitas a eficácia do ato de fala isto é as condições de felicidade desse ato enfim privilegiase o contexto extralinguístico e o ponto de vista do usuário da língua para se atingir os sentidos veiculados pelo texto Da abordagem pragmática podemos citar algumas contribuições relevantes para o ensinoaprendizagem de língua como a os estudos sobre modalização que focam não especificamente os conteúdos veiculados mas os modos de produção e de organização do dizer b a investigação das formas de comportamento e expressão de sentimentos calcadas na teoria da polidez de acordo com a cultura de cada comunidade c a relevância do caráter interacional da linguagem da necessária e previsível presença do outro do interlocutor a quem se dirige qualquer mensagem veiculada em versão falada ou escrita À luz dessas perspectivas o professor passa a ser visto e também a agir como um mediador da tarefa de ensinoaprendizagem deixando o lugar de centro de primazia sobre um saber preconcebido uma vez que assim como o saber é coconstruído as relações humanas também o são seja em que âmbito ocorram Numa perspectiva marcadamente interacional como é hoje concebida e proposta a tarefa de ensino de língua a abordagem funcionalpragmática tem muito a contribuir na formação dos professores na conscientização do deslocamento de seu papel que passa a ser o de intermediário da experiência com o uso lingüístico Notemos que não se trata da diminuição ou do desprestígio da tarefa de docência mas da mudança na centração do grau e da amplitude dessa ação que passa a recair no conjunto dos elementos envolvidos na atividade interacional da qual faz parte o professor como um interlocutor privilegiado um mediador mais experiente que irá concorrer para que seus alunos usem efetiva e eficientemente os recursos lingüísticos a fim de produzirem e receberem textos com competência Mas como afirmamos no início deste capítulo se as concepções de língua e gramática se alteraram em função das novas abordagens e perspectivas adotadas em relação ao conhecimento teórico estendendose para as noções de uso e interação cabe também ao professor assumir o papel que de fato lhe diz respeito O professor é leitorcoprodutor de saberes estudando e pesquisando atualizandose nas novas pesquisas que envolvem o seu trabalho a fim de optar por concepções de língua e gramática afinadas teórica e metodologicamente com os avanços científicos produzidos para assim desenvolver práticas de ensino transformadoras As dimensões social funcional interacional e pragmática incorporadas à noção de língua possibilitam a inclusão da noção de sujeito Não se trata do sujeito teórico mas de um sujeito real inserido em situações concretas com papéis sociais múltiplos e diversificados sobretudo aqueles pertencentes às sociedades urbanas e industrializadas e em constante processo de adaptação e readaptação Assumir uma perspectiva teóricometodológica implica assumir crenças e valores a ela vinculados Tais crenças e valores estão relacionados à questão de apropriação de conhecimento e à forma com que essa apropriação é realizada No tocante à aquisição do conhecimento é imprescindível lembrar que se estamos reivindicando uma prática democrática de ensino com uma perspectiva de língua distante do conceito de homogeneidade e idealização do modelo lingüístico é preciso ressaltar a importância do modo como tais práticas são apropriadas e incorporadas pelos alunos de diferentes classes sociais E preciso haver espaço possível para a circulação de formas plurais de conhecimento e consequentemente de linguagem e de tantas competências pragmáticodiscursivas para quantas manifestações de comunicação e expressão houver Como propõe Orlandi 1993 93 Dessa maneira considero que se deva de um lado reivindicar politicamente o direito de acesso ao conhecimento legítimo e de outro estabelecer condições para que se elaborem outras formas de saber que não sejam a mera reprodução do conhecimento dominante Já que as diferentes formas de saber têm funções sociais distintas e que derivam sua diferença dos antagonismos das classes Exercícios 1 Para responder à questão que se segue consulte um livro didático de sua escolha Observe o modo como as unidades são apresentadas em termos da concepção sobre o trabalho de texto interpretação língua gramática e redação Caso o livro seja assim concebido ou não há obras em que essa divisão pode estar implícita detenhase particularmente na seção referente aos aspectos gramaticais da língua Comente a respeito do modo como o autor do livro didático entende o fenômeno gramatical ou melhor como ele concebe o ensino de língua justificando seus comentários com base em cada um dos tópicos citados a seguir a Os manuais tradicionais mesmo os mais recentes descrevem somente a língua escrita e deixam de lado a língua falada ou confundem os dois códigos b Os manuais tradicionais com freqüência detêmse longamente em pontos secundários abordando em particular o domínio da ortografia mas negligenciam construções importantes c Os manuais tradicionais apresentam definições regras explicações mais freqüentemente de caráter lógicosemântico insuficientemente explícitas ou mesmo equivocadas e portanto pouco úteis ou perigosas d Os manuais tradicionais apresentam definições e explicações que são muitas vezes incoerentes por se referirem a critérios de ordens diversas e Os manuais tradicionais são caracterizados por uma fragmentação e uma dispersão nocivas das informações gramaticais Roulet Teorias lingüísticas gramaticais e ensino de línguas 1972 2 Levando em conta os tipos de concepção sobre o ensino de língua já estudados como você caracterizaria a concepção proposta nos Parâmetros Curriculares Nacionais do ensino médio para o ensino da língua materna Leia o que os Parâmetros Curriculares Nacionais definem como as competências a serem desenvolvidas em língua portuguesa no que tange à representação e informação a Considerar a língua portuguesa como fonte de legitimação de acordos e condutas sociais e como representação simbólica de experiências humanas manifestas nas formas de sentir pensar e agir na vida social b Analisar os recursos expressivos da linguagem relacionando textoscontextos mediante a natureza função organização estrutura de acordo com as condições de produçãorecepção intenção época local interlocutores participantes da criação e propagação de idéias e escolhas c Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes manifestações da linguagem verbal d Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade Parâmetros Nacionais Curriculares ensino médio Linguagens códigos e suas tecnologias Ministério da Educação Brasília Ministério da educaçãosecretaria de educação Média e Tecnológica 1999 29 Bibliografia ALKMIN Tânia Sociolinguística Parte i In MUSSALIM F BENTES A C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 pp 2147 Volume 1 ALMEIDA Guido Resgatando a contribuição da sociolinguística laboviana DELTA v 5 São Paulo Educ 1 9 8 9 p p 7 1 9 9 AUSTIN J L Quando dizer éfazer palavras e ações Porto Alegre Artes Médicas 1990 BAGNO Marcos GAGNÉ Gilles STUBBS Michael Língua materna letramento variação e ensino São Paulo Parábola 2002 BALIEIRO JR Ari Pedro Psicolinguística In MUSSALIM F BENTES A C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 Volume 2 BATORÉO Hanna Jakubowicz Expressão do espaço no português europeu contributo psicolinguístcio para o estudo da linguagem e cognição Coimbra Fundação Calouste Gulbenkian Fundação para a Ciência e a Tecnologia 2000 BEAUGRANDE R 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Contextos OtherMinds the pragmatics ofsociality cognition and communication AmsterdamPhiladelphia John Benjamins 2005 GOFFMANN E Interacional ritual essays on face to face behavior New York Pautton 1967 A representação do EU na vida cotidiana Petrópolis Vozes 1979 A elaboração da face Uma análise dos elementos rituais da interação social In FIGUEIRA S org Psicanálise e ciências sociais Trad I Russo Rio de Janeiro Francisco Alves 1980 pp 76114 GOLDBERG Adele E Constructionsatwork thenature ofgeneralization in language Oxford Oxford University Press 2006 GONÇALVES Sebastião Carlos L LIMAHERNANDES Maria Célia CASSEBGALVÃO Vânia Cristina orgs Introdução à gramaticalização São Paulo Parábola 2007 GORSKI Edair O tópico semânticodiscursivo na narrativa oral e escrita Rio de Janeiro 1994 Tese Doutorado em Lingüística Universidade Federal do Rio de Janeiro GREENBERG J H Language universais The Hague Netherlands Mouton 1966 GRICE H P Logic and conversation In COLE P MORGAN J eds SpeechActs New 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M FINGER I orgs Processamento da linguagem Pelotas Educat 2005 MAIA M et al O processamento de concatenações sintáticas em três tipos de estruturas frasais ambíguas em português In MALMBERG Bertil As novas tendências da lingüística uma orientação à lingüística moderna 2 ed São Paulo Companhia Editora Nacional 1974 MARCONDES Danilo Filosofia linguagem e comunicação São Paulo Cortez 1992 MARCUSCHI Luiz Antonio Análise da conversação São Paulo Ática 1991 MARTELOTTA Mário E VOTRE Sebastião J CEZARIO Maria Maura Gramaticalização no português do Brasil uma abordagem funcional Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1996 Funcionalismo e cognição In FURTADO DA CUNHA Maria Angélica Lingüística funcional a interface linguagem e ensino Natal EDUFRN 2006 MARTINET André A lingüística sincrônica Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1974 Elementos de lingüística geral Rio de Janeiro Martins Fontes 1978 Função e dinâmica das línguas Coimbra Almeina 1995 MARTINS Helena Sobre linguagem e pensamento no paradigma experiencialista Veredas Revista de Estudos Lingüísticos nl v 6 janjun 2002 pp 7590 MEHLER Jacques DUPOUX Emmanuel Nascer humano Lisboa Instituto Piaget 1990 MEILLET A Linguistique historique et linguistique genérale Paris Klincksieck 1926 MENDONÇA Marina Célia Língua e ensino políticas de fechamento In MUSSALIM F BENTES A C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 MENDES Ronald Beline org Passando a palavra uma homenagem a Maria Luiza Braga São Paulo Paulistana 2 0 0 7 MILLER G A Some psychological studies of grammar American Psychologist 17 1 9 6 2 pp 7 4 8 6 2 MIOTO C et al Novo manual de sintaxe Santa Catarina Insular 2005 MOERI A C Fonologia In MUSSALIM E BENTES A C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 v 1 pp 2364 MOITA LOPES Luiz Paulo da Oficina de lingüística aplicada a natureza social e educacional dos processos de ensino aprendizagem de língua Campinas Mercado de Letras 1998 MOLLICA Maria Cecília BRAGA Maria Luiza Introdução à sociolinguística o tratamento da variação São Paulo Contexto 2003 org Introdução à sociolinguística variacionista Rio de Janeiro UFRJ 1996 Cadernos didáticos Influência da fala na alfabetização Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1998 PAIVA Maria da Conceição de Condicionamentos sociais na alternância das líquidas na fala carioca Rio de Janeiro 1987 Mimeo MONTEIRO José Lemos Para compreender Labov Petrópolis Vozes 2 0 0 0 MOUNIN Georges A lingüística do século XX PortugalBrasil Editorial PresençaMartins Fontes 1972 MUSSALIM F BENTES AC orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2 0 0 1 NAME M C L Habilidades perceptuais e lingüísticas na identificação do sistema gênero no português Tese Doutorado Rio de Janeiro PUCRÍO 2002 NEGRÃO E SCHER A VIOTTI E A competência lingüística In FIORIN J L org Introdução à lingüística São Paulo Contexto 2002 v 1 Sintaxe explorando a estrutura da sentença In FIORIN L org Introdução à lingüística São Paulo Contexto 2003 v 2 NEVES Maria Helena de Moura A gramática funcional São Paulo Martins Fontes 1997 Gramática de usos do português São Paulo Unesp 2000 NEWMAYER Frederick J The opposition to autonomus linguistics The Politics of Linguistics Chicago The University of Chicago Press 1986 pp 99126 NÔTH Winfried Panorama da semiótica de Platão a Peirce São Paulo Annablume 1998 OLIVEIRA Maria do Carmo Leite Polidez uma estratégia de dissimulação Análise de cartas de pedido em empresas brasileiras Rio de Janeiro 1992 Tese Doutorado em Lingüística Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro OLIVEIRA Mariângela Rios de Repetição em diálogos análise funcional da conversação Niterói EDUPF 1 9 9 8 COELHO Victoria Lingüística funcional aplicada ao ensino do português In CUNHA M A F OLIVEIRA M R MARTELOTTA M E orgs Lingüística funcional teoria e prática Rio de Janeiro DPAFaperj 2 0 0 3 OLIVEIRA E SILVA Giselle M de VOTRE Sebastião J Estudos sociolinguísticos no Rio de JaneiroTLEDA DELTA 7 São Paulo Educ 1991 pp 3 5 7 7 6 SCHERRE Maria Marta Pereira Padrões sociolinguísticos Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1996 ORLANDI Eni Discurso e leitura São Paulo Cortez 1993 ORTIZ K Z org Distúrbios neurológicos adquiridos Barueri Manole 2005 PAPI Marcella Bertuccelli Que és la pragmática Barcelona Paidós 1996 PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS Língua portuguesa Secretaria de Educação fundamental Rio de Janeiro DPA 2 0 0 0 PAREDES DA SILVA V L P Cartas cariocas a variação do pronome na escrita informal Rio de Janeiro 1 9 8 8 Tese Doutorado em Lingüística Universidade Federal do Rio de Janeiro PAVEAU MarieAnne SARFATI Georges Élia As grandes teorias da lingüística da gramática comparada À pragmática São Carlos Claraluz 2006 PEDERSEN Holger LinguisticScinceintheNineteenth Century methods andresults Cambridge HarvardUniversity Press 1 9 3 1 PEIRCE Charles S Semiótica São Paulo Perspectiva 1999 PIAGET J A formação do símbolo na criança imitação jogo e sonho imagem e representação Rio de Janeiro Zahar 1978a A psicogênese dos conhecimentos e seu signficado epistemológico In PIATELLIPALMARINI org Teorias da linguagem teorias da aprendizagem o debate entre Jean Piaget e Noam Chomsky Rio de Janeiro Zahar 1978b INHELDER B A psicologia da criança Rio de Janeiro Bertrand Basil 1990 PIETROFORTE Antonio V A língua como objeto da lingüística In FIORIN J L org Introdução à lingüística São Paulo Contexto 2002 pp7594 Volume PINKER Steven O instinto da linguagem como a mente cria a linguagem São Paulo Martins Fontes 2002 PINTO Joana Plaza Pragmática In MUSSALIM Fernanda BENTES Anna C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 Volume 2 RADFORD A Syntactic Theory and the Acquisition ofEnglish Syntax Oxford Blackwell Publishers 1993 RAPOSO Eduardo Paiva Teoria da gramática a faculdade da linguagem Lisboa Caminho 1992 RIBEIRO A Um caso de não aplicação preferencial do princípio de late closure Rio de Janeiro 1998 Manuscrito Late closure em parsing no português do Brasil In MAIA M FINGER I orgs Processamento da linguagem Pelotas Educat 2005 Rios de OLIVEIRA Mariângela Repetição em diálogos análise funcional da conversação Niterói EDUFF 1998 Risso Mercedes Aspectos textuaisinterativos dos marcadores discursivos de abertura bom bem olha ah no português culto falado In NEVES M H org Gramática do português falado São PauloCampinas HumanitasFFLCH uspUnicamp 1999 pp 25996 Volume 7 Novos estudos ROBINS R H Pequena história da lingüística Rio de Janeiro Ao Livro Técnico 1983 Rocco M T Oral e escrito secções e intersecções Leitura teoria e prática n 14 Porto Alegre Mercado Aberto 1989 pp 2431 ROCHA LIMA Carlos Henrique da Gramática normativa da língua portuguesa Rio de Janeiro José Olympio 1976 ROMAINE Suzanne SocioHistorical Linguistics its status and methodology Cambridge Cambridge University Press 1982 RONCARATI Cláudia ABRAÇADO Jussara orgs Português brasileiro contato lingüístico heterogeneidade e história Rio de Janeiro 7Letras 2003 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relatives Language v 52 n 3 set 1976 pp 631666 SANTOS R A aquisição da linguagem In FIORIN J L org Lntrodução à lingüística i São Paulo Contexto 2002 SANTOS Leonor Werneck dos A articulação textual na literatura infantil e juvenil Rio de Janeiro Lucerna 2003 SAUSSURE Ferdinand de Curso de lingüística geral São Paulo Cultrix 1 9 7 5 SCARPA E M Aquisição da linguagem In MUSSALIM Fernanda BENTES Anna C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 Volume 2 SCHIFFRIN Deborah Approaches to Discourse OxfordCambridge Blackwell 1994 SCLIARCABRAL Leonor Introdução à psicolinguística São Paulo Ática 1991 SEARLE John R A classification of illocutioanry acts Language in Society n 5 Londres Cambridge University Press 1976 pp 123 Os actos de fala Coimbra Almedina 1984 SIGNORINI Inês CAVALCANTI Marilda orgs Lingüística aplicada e transdisciplinaridade questões e perspectivas Campinas Mercado de Letras 1996 SILVA Thais Cristóíãro Fonética efbnologia do português roteiro de estudos e guia de exercícios São Paulo Contexto 1999 SKINNER B F O comportamento verbal São Paulo Cultrix 1978 SLOBIN Dan Isaac Psicolinguística São Paulo NacionalEdusp 1980 SOARES S S Aquisição deflexão verbal no português como primeira língua hipótese maturacional x continuidade Rio de Janeiro 2001 Mimeo SPERLING G The information available in brief visual presentations PsychologicalMonographs general and applied 74 11 1960 pp 130 TAYLOR John Linguistic categorization prototypes in linguistic theory Oxford Clarendon Press 1995 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística São Paulo Ática 1986 A estrutura na variação do falanteouvinte ideal ao falante ouvinte real DELTA n 5 São Paulo Educ 1990a pp 195222 Tempos lingüísticos itinerário histórico da língua portuguesa São Paulo Ática 1990b Debate a Oliveira e Silva e Votre DELTA n 7 São Paulo Educ 1991 pp 37793 TOMASELLO Michael ed The new psychohgie of language cognitive and functional approaches to language structures New JerseyLondon 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Macrospeech acts Text and context London Longman 1977 pp 23242 VERÍSSIMO L F Seleção de crônicas do livro Comédia da vida privada Porro Alegre LPM 1 9 9 6 VOTRE Sebastião Josué Lingüística e educação ou por uma teoria da atividade linguageira em sala de aula In PASSEGI L OLIVEIRA M do S orgs Lingüística e educação gramática discurso ensino São Paulo Terceira Margem 2001 pp 954 CEZARIO MariaMauraMARTELOTIA MárioE Gramaticalização RiodeJaneiro FaculdadedeLetras UFRJ 2004 OLIVEIRA M R Corpus Discurso Gramática a língua falada e escrita na cidade de Niterói Niterói 1998 Inédito VYGOTSKY L S A formação social da mente o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores São Paulo Martins Fontes 1996a Pensamento e linguagem São Paulo Martins Fontes 1996b WERNER Heinz KAPLAN Bernard Symbolformation an organismic developmental approach to language and the expression of thought New YorkLondonSidney Wiley 1963 WENREICH U LABOV W HERZOG M Empirical foundations for a theory in language change 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pela UFRJ E professor de Língua Portuguesa da UERJ atuando no curso de Letras da Faculdade de Formação de Professores em São Gonçalo RJ Mariangela Rios de Oliveira Doutora em Letras VernáculasLíngua Portuguesa pela UFRJ e professora dessa disciplina na Universidade Federal Fluminense UFF Coordenadora do Grupo de Estudos Discurso Gramática e do Programa de PósGraduação em Letras da UFF Autora e organizadora de livros e revistas científicas na área Maria Maura Cezario Doutora em Lingüística pela UFRJ e professora dessa disciplina também na mesma universidade Atual Chefe do Departamento de Lingüística e Filologia e coordenadora do Grupo de Estudos Discurso Gramática E organizadora e coautora de importantes obras na área Márcio Martins Leitão Doutor em Lingüística pela UFRJ Membro do grupo de pesquisa Laboratório de Psicolinguística Experimental Lapex da UFRJcNPq Professor da Universidade Federal da Paraíba UFPB Tem trabalhos publicados também na área de lingüística histórica e lingüística funcional Marcos Antonio Costa Doutor em Lingüística pela UFRJ e professor dessa disciplina na UFRN Desenvolve atualmente pesquisa em torno de aspectos semânticopragmáticos relacionados a diferentes processos de referenciação Autor de capítulos e artigos diversos na área da morfossintaxe da língua portuguesa Roza Palomanes Mestra e doutoranda em Lingüística pela UFRJ Possui especialização em Língua Portuguesa e ensino de língua materna pela UERJ além de contar com 22 anos de experiência na rede pública de ensino Atualmente trabalha em uma escola municipal onde vem desenvolvendo projetos voltados para a prática da leitura e escrita dois deles contemplados com indicações para publicação pelo Prêmio Anísio Teixeira de 2005 e 2006 Além dessas publicações é autora de vários artigos em revistas eletrônicas e coautora de artigos publicados em revistas científicas de sua área de atuação Victoria Wilson Doutora em Lingüística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professora dessa disciplina na Faculdade de Formação de Professores da UERJ Autora e coautora de artigos e livros na sua área de atuação funcionalismo A última en cerra a obra com tópicos sobre aquisição da linguagem psico linguística experimental e ensi no Ao final de cada capítulo há uma série de exercícios de fixação especialmente elaborados para este livro Escrita por uma equipe de professores todos especialistas nos assuntos sobre os quais escre veram com grande experiência no ensino esta obra estimula o leitor a refletir sobre a natureza e o funcionamento da linguagem Atende alunos e professores nas salas de aula de lingüística e de língua portuguesa em cursos de graduação em letras e em ou tras áreas como fonoaudiologia e comunicação social Manual de lingüística Este Manual de lingüística pensado e elaborado cuidadosamente para alunos de letras lingüística e áreas afins fornece meios eficazes para a difícil tarefa de introduzir informações sobre uma ciência inteiramente desconhecida para a maioria dos estudantes brasileiros que ingressam em uma universidade Estruturada em um único volume a obra apresenta princípios e conceitos básicos de várias correntes da lingüística moderna concilia informações de caráter tradicional dialoga com outros manuais e aponta tendências Além disso estimula o leitor a navegar nos rumos do funcionamento da linguagem através de uma abordagem instigante editora contexto Promovendo a Circulação do Saber ISBN 9788572443869 EXPLICAÇÃO DO PARÁGRAFO Existem diversas formas de compreender a linguagem porque ela é um meio de comunicação que decorre por interações sociais e também auxilia na aprendizagem do homem Além disso a linguagem se torna complexa por ser multifacetada e por se constituir em um sistema de signos cada o qual estabelece uma determinada função A linguagem não se trata em apenas comunicação diário mas em textos verbais e não verbais na morfologia nos sons fonética etc Em resumo é um assunto bem amplo EXPLICAÇÃO DO PARÁGRAFO O enfoque estruturalista vê a língua como um conjunto de regras e estruturas No entanto a língua não é limitada em regras gramaticais pois envolve relações de sentido e contextos de uso A língua é dinâmica e autônoma sendo utilizada na prática tanto que quando falamos não pensamos em tais regras gramaticais o abstrato deixamos a comunicação leve e natural respeitando a entidade cultural Então a língua pode ser estudada em diversas formas EXPLICAÇÃO DO PARÁGRAFO A concepção formalista nos diz respeito de que a linguagem é uma entidade que contém e transmite significados e pensamentos por si só

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i r w i w Mário Eduardo Martelotta Mariangela Rios de Oliveira Maria Maura Cezario Angélica Furtado da Cunha Sebastião Votre Marcos Antonio Costa Victoria Wilson Eduardo Kenedy Márcio Martins Leitão Roza Palomanes Manual de lingüística Esta obra discute em lin guagem simples e objetiva os aspectos que caracterizam a lingüística como uma ciência apresenta sua história e desen volvimento os conceitos mais básicos e gerais as principais escolas teóricas assim como os pontos em que apresenta inter face com outras áreas como o ensino de línguas Dividido em três partes este Manual de lingüística tem como objetivo harmonizar tradição e modernidade A primeira parte aborda fundamentos da lingüís tica funções da linguagem con ceitos de gramática e motivações pragmáticas A segunda trata das abordagens lingüísticas com temas como estruturalismo gerativismo sociolinguística e Manual de linguística Mário Eduardo Martelotta org Mariangela Rios de Oliveira Maria Maura Cezario Angélica Furtado da Cunha Sebastião Votre Marcos Antonio Costa Victoria Wilson Eduardo Kenedy Márcio Martins Leitão Roza Palomanes Manual de lingüística Ê 2 editoracontexto Copyright 2008 Mário Eduardo Martelotta Todos os direitos desta edição reservados à Editora Contexto Editora Pinsky Ltda Capa e diagramação Gustavo S Vilas Boas Preparação de textos Daniela Marini Iwamoto Revisão Lilian Aquino Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Manual de lingüística Mário Eduardo Martelotta org 2 ed São Paulo Contexto 2011 Vários autores Bibliografia ISBN 9788572443869 1 Lingüística I Martelotta Mário Eduardo 1 Lingüística 410 EDITORA CONTEXTO Diretor editorial Jaime Pinsky Rua Dr José Elias 520 Alto da Lapa 05083030 São Paulo SP PABX 11 3832 5838 contextoeditoracontextocombr wwweditoracontextocombr Proibida a reprodução total ou parcial Os infratores serão processados na forma da lei 079635 CDD410 índice para catálogo sistemático 2011 íÊM U s Ao Professor Anthony Julius Naro por sua valiosa contribuição à Lingüística brasileira Sumário Apresentação 11 Mário Eduardo Martelotta LINGÜÍSTICA E LINGUAGEM 1 3 Lingüística 15 Angélica Furtado da Cunha Marcos Antonio Costa e Mário Eduardo Martelotta Conceituação 15 A Lingüística como estudo científico 20 Aplicações 26 Exercícios 29 Funções da linguagem 31 Mário Eduardo Martelotta As funções da linguagem segundo Jakobson 32 Exercícios 35 Dupla articulação 3 7 Mário Eduardo Martelotta A noção de articulação 37 A economia da articulação 40 Exercícios 40 Conceitos de gramática 43 Mário Eduardo Martelotta Gramática tradicional 45 Gramática históricocomparativa 47 Gramática estrutural 53 Gramática gerativa 58 Gramática cognitivofuncional 62 Exercícios 68 Arbitrariedade e iconicidade 71 Victoria Wilson e Mário Eduardo Martelotta Os estudos em semiótica 72 Os estudos em lingüística 73 Exercícios 84 Motivações pragmáticas 87 Victoria Wilson Implicaturas conversacionais 90 Teoria dos atos de fala 92 Teorias da polidez 96 Análise da conversação 105 Exercícios 109 ABORDAGENS LINGÜÍSTICAS 1 1 1 Estruturalismo 1 1 3 Marcos Antonio Costa O legado de Saussure 113 A corrente norteamericana 123 Exercícios 126 Gerativismo 127 Eduardo Kenedy A faculdade da linguagem 127 O modelo teórico 130 A gramática como sistema de regras 131 A gramática universal princípios e parâmetros 135 O FOXP2 e a genética da linguagem 138 Exercícios 139 Sociolinguística 141 Maria Maura Cezario e Sebastião Votre O advento da corrente sociolinguística variacionista 146 Os precursores da sociolinguística 147 Sociedade e linguagem 147 Aspectos teóricometodológicos da sociolinguística 149 Expansão da sociolinguística 152 Exercícios 153 Funcionalismo 157 Angélica Furtado da Cunha O funcionalismo europeu 159 O funcionalismo norteamericano 163 Exercícios 174 Lingüística cognitiva 177 Mário Eduardo Martelotta e Roza Pahmanes Repensando a questão da modularidade 178 O caráter interacional da construção do significado 181 O pensamento corporificado 181 A organização do conhecimento 183 O princípio de projeção 187 Mesclagem 189 Exercícios 191 Lingüística textual 193 Mariangela Rios de Oliveira Coesão 195 Coerência 200 Exercícios 203 AQUISIÇÃO PROCESSAMENTO E ENSINO 2 0 5 Aquisição da linguagem 207 Maria Maura Cezario e Mário Eduardo Martelotta Hipótese behaviorista 207 Hipótese do inatismo 208 Hipóteses construtivistas e interacionistas 212 Exercícios 215 Psicolinguística experimental focalizando o processamento da linguagem 2 1 7 Márcio Martins Leitão Um breve resumo histórico 217 A psicolinguística experimental 220 Modelos teóricos associados ao processamento sentenciai 224 Explorando a metodologia experimental descrição de experimentos offline e online em PB 227 Considerações finais 232 Exercícios 233 Lingüística e ensino 235 Mariangela Rios de Oliveira e Victoria Wilson Concepções de linguagem 235 Exercícios 241 Bibliografia 243 O organizador 251 Os autores 253 Apresentação Mário Eduardo Martelotta Este livro foi concebido para suprir as necessidades de alunos e professores nas salas de aula de lingüística e de língua portuguesa em cursos de graduação em letras e em outras áreas como fonoaudiologia e comunicação social Nesse sentido resolvemos juntar esforços para elaborar um manual que nos fornecesse meios mais eficazes de executar a difícil tarefa de introduzir informações básicas acerca de uma ciência que é inteiramente desconhecida para a imensa maioria dos estudantes brasileiros que ingressam em uma universidade além de apresentar uma série de discussões acerca da natureza da linguagem que ajudarão na formação desses alunos no decorrer de sua graduação E mais pretendemos cumprir essa tarefa buscando estimular o estudante a fazer reflexões sobre a natureza e o funcionamento da linguagem através de uma abordagem instigante convidandoo a se aprofundar em seus estudos no sentido de participar de projetos de iniciação científica e em seguida partir para a pósgraduação Cientes das dificuldades ou até da impossibilidade se pensarmos na imensa quantidade de informação disponível que tal tarefa impõe aos que tentam executá la buscamos selecionar o conteúdo transmitido a fim de harmonizar tradição e modernidade Em outras palavras o livro tenta conciliar algumas informações de caráter tradicional buscando dialogar com outros manuais já publicados de conteúdo semelhante com reflexões mais modernas apontando as tendências que atualmente estão se delineando nas pesquisas acerca da linguagem Desse modo este manual introdutório aos princípios da lingüística discute os aspectos que caracterizam esse ramo do conhecimento como uma ciência apresenta sua história e desenvolvimento seus conceitos mais básicos e gerais suas principais escolas teóricas assim como os pontos em que apresenta interface com outras áreas de pesquisa incluindo aí o ensino de línguas Tudo escrito em uma linguagem simples e objetiva por uma equipe de professores todos especialistas nos assuntos sobre os quais escreveram com grande experiência no ensino de lingüística e língua portuguesa e que trabalham em várias universidades brasileiras como Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ Universidade Federal Fluminense UFF Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN e Universidade Federal da Paraíba UFPB Ao final de cada capítulo é oferecida uma série de exercícios Na maioria dos casos tratase de exercícios de fixação ou seja tarefas que o aluno conseguirá resolver com uma mera revisão do texto Isso é claro não impede que ele busque em outras fontes as informações necessárias para uma resposta mais aprofundada como também não impede que o docente proponha outras tarefas acadêmicas em torno dos pontos tratados em cada capítulo Por tudo isso espero que este livro consiga atingir seu objetivo e contribuir de alguma forma para a divulgação das teorias lingüísticas entre os alunos de graduação bem como para a preparação dos alunos para a pósgraduação em lingüística e língua portuguesa Finalizo agradecendo aos autores que participaram do livro não apenas por terem feito um ótimo trabalho em seus textos mas também por terem ajudado com uma leitura crítica dos outros capítulos Pelo mesmo motivo agradeço aos bolsistas de iniciação científica aos mestrandos e doutorandos ligados ao Grupo de Estudos Discurso Gramática e aos colegas professores da UFRJ e de outras instituições por sua contribuição crítica em alguns textos Linguística e linguagem Lingüística Angélica Furtado da Cunha Marcos Antonio Costa Mário Eduardo Martelotta Conceituação A lingüística é definida na maioria dos manuais especializados como a disciplina que estuda cientificamente a linguagem Essa definição pouco elucidativa por sua simplicidade nos obriga a fazer algumas considerações importantes Primeiramente precisamos determinar o que estamos entendendo pelo termo linguagem que nem sempre é empregado com o mesmo sentido Precisamos também delimitar o que significa estudar cientificamente a linguagem Além disso não podemos esquecer que existem outros ramos do conhecimento que à sua maneira também se interessam pelo estudo da linguagem Isso nos leva a estabelecer alguns contrastes entre a lingüística e algumas ciências ou disciplinas afins de modo a delimitar seu campo de atuação A partir de agora tentaremos desenvolver algumas observações sobre os conceitos de linguagem e de língua estabelecendo o que há de científico nos estudos elaborados na área da lingüística Além disso buscaremos estabelecer diferenças entre essa disciplina e outros ramos do conhecimento que também se interessam em compreender a linguagem bem como apresentar algumas áreas de aplicação das teorias lingüísticas Linguagem e língua O termo linguagem apresenta mais de um sentido Ele é mais comumente empregado para referirse a qualquer processo de comunicação como a linguagem dos animais a linguagem corporal a linguagem das artes a linguagem da sinalização a linguagem escrita entre outras Nessa acepção as línguas naturais como o português ou o italiano por exemplo são formas de linguagem já que constituem instrumentos que possibilitam o processo de comunicação entre os membros de uma comunidade Entretanto os lingüistas cientistas que se dedicam à lingüística costumam estabelecer uma relação diferente entre os conceitos de linguagem e língua Entendendo linguagem como uma habilidade os lingüistas definem o termo como a capacidade que apenas os seres humanos possuem de se comunicar por meio de línguas Por sua vez o termo língua é normalmente definido como um sistema de signos vocais1 utilizado como meio de comunicação entre os membros de um grupo social ou de uma comunidade lingüística Quando falamos então que os lingüistas estudam a linguagem queremos dizer que embora observem a estrutura das línguas naturais eles não estão interessados apenas na estrutura particular dessas línguas mas nos processos que estão na base da sua utilização como instrumentos de comunicação Em outras palavras o lingüista não é necessariamente um poliglota ou um conhecedor do funcionamento específico de várias línguas mas um estudioso dos processos através dos quais essas várias línguas refletem em sua estrutura aspectos universais essencialmente humanos A lingüística como ocorre com outras ciências apresenta diferentes escolas teóricas que diferem na sua maneira de compreender o fenômeno da linguagem Em uma tentativa de apresentar uma visão mais geral e sobretudo imparcial em relação a essas escolas propomos que a capacidade da linguagem eminentemente humana parece implicar um conjunto de características Vejamos algumas delas a Uma técnica articulatória complexa Quando falamos em técnica articulatória nos referimos a um conjunto de movimentos corporais necessários para a produção dos sons que compõem a fala Esses movimentos envolvem desde a expulsão de ar a partir dos pulmões através dos brônquios da traqueia e da laringe até sua saída pelas cavidades bucal e nasal A sutileza que caracteriza esses movimentos e sobretudo a particularidade que distingue os vários sons e sua função no sistema da língua fazem com que o domínio desse processo de produção vocal seja uma tarefa de complexidade tal que apenas a espécie humana parece ser capaz de realizar No que diz respeito à produção sonora dos elementos fonéticos vejamos por exemplo a distinção entre b e p Ambos são oclusivos bilabiais orais A única diferença entre eles é que b é sonoro e p é surdo Ou seja na pronúncia do b a glote espaço entre as cordas vocais está semifechada fazendo com que o ar ao passar ponha as cordas vocais em vibração No caso de p a glote está aberta o que faz com que o ar passe sem dificuldade e sem causar a vibração das cordas vocais Essa diferença articulatória é um traço distintivo no sistema da língua portuguesa pois a troca de p por b e viceversa leva a uma mudança de significado das palavras como em bote e pote A esse fato está associado o domínio que o falante tem sobre complexos fenômenos de ordem fonológica que caracterizam o uso diário de uma língua Nesse sentido são interessantes fatos como a troca de lei por i por exemplo que na oposição entre pera e pira causa uma modificação de sentido mas na oposição entre Imeninol e Imininol não Esses fenômenos demonstram que o uso da linguagem implica o domínio de um conjunto de procedimentos bastante complexos associados não apenas à produção e percepção dos diferentes sons da fala mas também aos efeitos característicos da distribuição funcional desses sons pela cadeia sonora b Uma base neurobiológica composta de centros nervosos que são utilizados na comunicação verbal Um exemplo que ilustra bem essa relação entre a linguagem e nossa estrutura neurobiológica pode ser visto nas afasias que se caracterizam como distúrbios de linguagem provenientes de acidentes cardiovasculares ou lesões no cérebro Desde meados do século xix a partir dos estudos de cientistas como Paul Broca e Karl Wernicke ficou estabelecido que lesões ou traumatismos em determinadas áreas do cérebro provocam problemas de linguagem Broca propôs que se as lesões ocorrem na parte frontal do hemisfério esquerdo do cérebro elas causam nas pessoas afetadas uma articulação deficiente e uma séria dificuldade de formar frases sem que no entanto sua compreensão daquilo que as outras pessoas falam seja comprometida Dizse que os pacientes que apresentam esse problema sofrem de afasia de Broca Wernicke por sua vez percebeu que pacientes com lesão na parte posterior do lóbulo temporal esquerdo apresentavam problemas de linguagem diferentes dos descobertos por Broca Embora conseguissem falar fluentemente com boa pronúncia e com frases sintaticamente bem formadas esses pacientes perdiam a capacidade de produzir enunciados com significado assim como a capacidade de compreender a fala de outras pessoas Costumase caracterizar essa deficiência como afasia de Wernicke1 A partir de então vêm sendo desenvolvidos estudos acerca da interface entre cérebromentelinguagem caracterizando uma área de pesquisa normalmente chamada de neurolinguística ou afasiologia Descobriuse por exemplo que as áreas de Broca e de Wernicke são conectadas por um feixe de fibras chamado fasciculus arcuatus cuja lesão gera um terceiro tipo de afasia chamado de afasia de condução O que queremos demonstrar com essas informações sobre as relações entre linguagem e estrutura neurobiológica é que o funcionamento da linguagem tal como ocorre está relacionado a uma estrutura biológica que o veicula c Uma base cognitiva que rege as relações entre o homem e o mundo biossocial e consequentemente a simbolização ou representação desse mundo em termos lingüísticos Associado a essa base neurobiológica está o que poderíamos chamar para usar uma expressão simplificada dt funcionamento mental ou seja os processos associados à nossa capacidade de compreender a realidade que nos cerca armazenar organizadamente na memória as informações conseqüentes dessa compreensão e transmitilas aos nossos semelhantes em situações reais de comunicação Podemos dizer que o termo cognição se relaciona a esse funcionamento mental e que em lingüística existem diferentes teorias que descrevem esse funcionamento Para formarmos uma idéia bem geral de como a lingüística trata esses fenômenos é interessante traçarmos um breve histórico do modo como os lingüistas compreenderam a relação entre o uso da linguagem e o funcionamento da mente ao longo da evolução dos estudos lingüísticos Começaremos da chamada hipótese do relativismo lingüístico que pode ser vista nas idéias apresentadas no início do século xx por Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf3 Segundo essa hipótese cada língua segmenta a realidade de um modo peculiar e impõe tal segmentação a todos os que a falam Isso significa que a linguagem é importante não só para a organização do pensamento como também para a compreensão e categorização do mundo que nos cerca Vejamos um exemplo de como isso ocorre Algumas línguas indígenas apresentam o mesmo termo para designar o sol e a lua Isso significa segundo essa teoria que os falantes dessas línguas identificam esses dois objetos celestes como pertencentes a uma mesma cate goria de coisas Em nossa cultura isso não acontece temos nomes distintos para designá los sol e lua Isso se dá porque acreditamos se tratar de duas coisas de natureza diferente Assim a linguagem determinaria a percepção e o pensamento as pessoas que falam diferentes línguas veem o mundo de modos distintos Por sua vez as diferenças de significados existentes numa língua são relativas às diferenças culturais relevantes para o povo que usa essa língua Os autores procuram mostrar portanto a importância que a linguagem tem na compreensão e na construção da realidade Essa forma de ver a linguagem foi mais tarde severamente criticada por Noam Chomsky e pelos lingüistas gerativistas ver o capítulo Gerativismo os quais propõem uma visão de que o pensamento humano apresenta uma espécie de organização interna e universal que pelo menos em sua essência pouco tem a ver com questões de caráter sociocultural Por sua vez os lingüistas sociocognitivistas ver o capítulo Lingüística cognitiva retomam a proposta relativista atribuindolhe argumentos mais modernos adotam a hipótese de que existem universais conceptuais que apenas motivam os conceitos humanos mas que não têm a capacidade de prevêlos de modo definitivo Segundo essa visão os universais conceptuais não determinam o pensamento humano pois sofrem a influência de fatores socioculturais Não é nosso objetivo no momento entrar nos detalhes associados às discussões sobre a natureza da estrutura cognitiva humana e sim registrar o fato de que a capacidade da linguagem implica um tipo de organização mental sem a qual ela não existiria ou pelo menos não teria as características que tem d Uma base sociocultural que atribui à linguagem humana os aspectos variáveis que ela apresenta no tempo e no espaço A linguagem é um dos ingredientes fundamentais para a vida em sociedade Desse modo ela está relacionada à maneira como interagimos com nossos semelhantes refletindo tendências de comportamento delimitadas socialmente Cada grupo social tem um comportamento que lhe é peculiar e isso vai se manifestar também na maneira de falar de seus representantes os cariocas não falam como os gaúchos ou como os mineiros e do mesmo modo indivíduos pertencentes a um grupo social menos favorecido têm características de fala distintas dos indivíduos de classes favorecidas Além disso um mesmo indivíduo em situações diferentes usa a linguagem de formas diferentes Quando está no trabalho discutindo questões profissionais com seu chefe por exemplo o falante tende a empregar uma linguagem mais formal mas em casa conversando com os familiares a tendência é o falante utilizar uma linguagem mais simples com termos mais corriqueiros e populares E também importante registrar que nossas vidas em função da evolução cultural mudam com o tempo Assim as línguas acabam sofrendo mudanças decorrentes de modificações nas estruturas sociais e políticas Podemos perceber isso com facilidade no vocabulário Palavras referentes a objetos que não são mais utilizados desaparecem é o caso de mataborrão4 por exemplo Por outro lado termos novos aparecem para designar novas atividades ou novos aparelhos surgem com o desenvolvimento cultural ou tecnológico é o caso de uma série de termos utilizados na área da computação como impressora scanner software pen drive entre outros Desse modo podemos dizer que as línguas variam e mudam ao sabor dos fenômenos de natureza sociocultural que caracterizam a vida na sociedade Variam pela vontade que os indivíduos ou os grupos têm de se identificar por meio da linguagem e mudam em função da necessidade de se buscar novas expressões para designar novos objetos novos conceitos ou novas formas de relação social e Uma base comunicativa que fornece os dados que regulam a interação entre os falantes Como a linguagem se manifesta no exercício da comunicação existem aspectos provenientes da interação entre os indivíduos que se revelam na estrutura das línguas Um bom exemplo disso pode ser visto no processo de criação de formas novas e mais expressivas para substituir construções que perderam sua expressividade em função da alta freqüência de uso A construção negativa dupla como em Não quero isso não ilustra bem esse ponto No discurso falado no português do Brasil a pronúncia do não tônico que precede o verbo freqüentemente se reduz a um WMW átono ou até mesmo a uma simples nasalização Para reforçar a idéia de negação o falante utiliza um segundo não no fim da oração como uma estratégia para suprir o enfraquecimento fonético do não préverbal e o conseqüente esvaziamento do seu conteúdo semântico Assim o acréscimo do segundo não tem motivação comunicativa E interessante o fato de que em algumas áreas do Brasil mais especificamente no Nordeste desenvolveuse uma tendência de utilizar apenas o segundo não quero não sei não e assim por diante Essa estrutura frasal só é possível pela existência de um estágio intermediário em que por motivos comunicativos ocorre a negativa dupla mencionada anteriormente A lingüística como estudo científico Para proceder ao estudo científico da linguagem é necessário que se construa uma teoria geral sobre o modo como ela se estrutura eou funciona O lingüista busca sistematizar suas observações sobre a linguagem relacionandoas a uma teoria lingüística construída para esse propósito A partir dessa teoria criamse métodos rigorosos para a descrição das línguas O estatuto científico da lingüística devese portanto à observância de certos requisitos que caracterizam as ciências de um modo geral Em primeiro lugar a lingüística tem um objeto de estudo próprio a capacidade da linguagem que é observada a partir dos enunciados falados e escritos Esses enunciados são investigados e descritos à luz de princípios teóricos e de acordo com uma terminologia específica e apropriada A universalidade desses princípios teóricos é testada através da análise de enunciados em várias línguas Em segundo lugar a lingüística tende a ser empírica5 e não especulativa ou intuitiva ou seja tende a basear suas descobertas em métodos rígidos de observação Ou seja a maioria dos modelos lingüísticos contemporâneos trabalha com dados publicamente verificáveis por meio de observações e experiências Estreitamente relacionada ao caráter empírico da lingüística está a atitude não preconceituosa em relação aos diferentes usos da língua Essa atitude torna a lingüística primordialmente uma ciência descritiva analítica e sobretudo não prescritiva Para tanto examina e analisa as línguas sem preconceitos sociais culturais e nacionalistas normalmente ligados a uma visão leiga acerca do funcionamento das línguas A lingüística considera pois que nenhuma língua é intrinsecamente melhor ou pior do que outra uma vez que todo sistema lingüístico é capaz de expressar adequadamente a cultura do povo que a fala Desse modo uma língua indígena por exemplo não é inferior a línguas de povos considerados mais desenvolvidos como o português o inglês ou o francês Além disso a lingüística respeita qualquer variação que uma língua apresente independentemente da região e do grupo social que a utilize Isso porque é natural que toda língua apresente variações de pronúncia falar vsfald bicicleta vs bicicreta de vocabulário aipimmacaxeira abóborajerimum ou de sintaxe casa de Paulocasa do Paulo que manifestam níveis semelhantes de complexidade estrutural e funcional Desse modo ao observar essas variedades da língua os lingüistas reconhecem sua relação com diferentes regiões do país grupos sociais etários e assim por diante A postura metodológica adotada na lingüística portanto decorre naturalmente da definição do seu objeto e considera sobretudo que todas as línguas e todas as variedades de uma mesma língua são igualmente apropriadas ao estudo uma vez que interessa ao lingüista a construção de uma teoria geral sobre a linguagem humana Cabe ao pesquisador descrever com objetividade o modo como as pessoas realmente usam a sua língua falando ou escrevendo sem atribuir às formas lingüísticas qualquer julgamento de valor como certo ou errado Isso significa dizer que a lingüística é não prescritiva a língua falada excluída durante muito tempo como objeto de pesquisa tem características próprias que a distinguem da escrita e constitui foco de interesse de investigação Ou seja a lingüística apesar de se interessar também pela escrita apresenta interesse especial pela fala uma vez que é nesse meio que a linguagem se manifesta de modo mais natural Como se pode concluir a partir do que foi visto até aqui a lingüística tem como objeto de estudo a linguagem humana através da observação de sua manifestação oral ou escrita ou gestual no caso da língua dos sinais Seu objetivo final é depreender os princípios fundamentais que regem essa capacidade exclusivamente humana de expressão por meio de línguas Para atingir esse objetivo os lingüistas analisam como as línguas naturais se estruturam e funcionam A investigação de diferentes aspectos das diversas línguas do mundo é o procedimento seguido para detectar as características da faculdade da linguagem o que há de universal e inato o que há de cultural e adquirido entre outras coisas Podese portanto dizer que a lingüística executa duas tarefas principais o estudo das línguas particulares como um fim em si mesmo com o propósito de produzir descrições adequadas de cada uma delas e o estudo das línguas como um meio para obter informações sobre a natureza da linguagem de um modo geral Lingüística e sua relação com outras ciências Uma vez afirmada como ciência delimitando objeto e metodologia próprios a lingüística reivindica sua autonomia em relação às outras áreas do conhecimento No passado o estudo da linguagem se subordinava por exemplo às investigações da Filosofia através da Lógica Sobretudo a partir do início do século xx com a publicação do Curso de lingüística geral marco inicial da chamada lingüística moderna obra póstuma do lingüista suíço Ferdinand de Saussure instaurase uma nova postura e os estudiosos da linguagem adquirem consciência da tarefa que lhes cabe utilizando se de uma metodologia adequada estudar analisar e descrever as línguas a partir dos elementos formais que lhes são próprios Entretanto isso não significa dizer que a lingüística encontrase isolada das demais ciências e de outras áreas de pesquisa Ao contrário existem relações bastante estreitas entre elas o que faz com que algumas vezes seus limites não se apresentem nitidamente Desse modo a caracterização dessas disciplinas é útil na medida em que permite delimitar mais claramente o campo de atuação da lingüística contrastandoo com o de outras ciências Temos assim duas faces da relação entre lingüística e as demais ciências Por um lado essa relação é de interface ciências que não têm a linguagem como seu objeto de estudo específico passam a se interessar por ela porque a linguagem faz parte de alguns aspectos do seu objeto de estudo Ou seja quando falamos em interface nos referimos a pontos de interseção entre a lingüística e outras ciências A sociologia por exemplo se interessa pelo estudo da linguagem uma vez que a vida em sociedade só é possível em função da comunicação entre os indivíduos Outros exemplos podem ser vistos na filosofia que se ocupa da natureza da relação entre linguagem e realidade e na psicologia que estudando o funcionamento da mente interessase por essa habilidade essencialmente humana que é a linguagem Por outro lado essa relação é de proximidade ou semelhança lingüística gramática tradicional filologia e em menor grau semiologia estudam específica e exclusivamente a linguagem diferindo na concepção que possuem da natureza da linguagem do foco que dão aos seus diferentes aspectos dos objetivos a que se propõem e da metodologia que adotam Vejamos com mais detalhes essa relação de proximidade ou semelhança entre a lingüística e outras ciências sem perder de vista o fato de que é extremamente difícil estabelecer uma fronteira clara entre duas áreas de conhecimento Lingüística e semiologia Comecemos estabelecendo uma distinção entre a lingüística e a semiologia ou semiótica6 E difícil delimitar o campo de atuação da semiologia mas costumase caracterizar esse campo de pesquisa como a ciência geral dos signos Ou sej a a semiologia não se interessa apenas pela linguagem humana de natureza verbal mas por qualquer sistema de signos naturais a fumaça é um sinal de fogo nuvens negras são um sinal de chuva etc ou culturais sinais de trânsito gestos formas de dança etc A semiologia surgiu a partir das idéias do lingüista suíço Ferdinand de Saussure para quem essa disciplina deveria se interessar pela relação entre linguagem e realidade e pela natureza da intermediação que os sistemas de signos fazem entre os indivíduos Para o lingüista suíço a lingüística seria um ramo da semiologia apresentando um caráter mais específico em função de seu particular interesse pela linguagem verbal Na prática entretanto a semiologia vem se desenvolvendo separadamente da lingüística como conseqüência do trabalho de não lingüistas sobretudo na França Independentemente da dificuldade de delimitar o campo dessas duas disciplinas podemos apontar como fator de diferenciação um aspecto que parece estar presente na maioria dos manuais da disciplina a lingüística estuda a linguagem verbal enquanto a semiologia com seu caráter mais geral interessase por todas as formas de linguagem Lingüística e filologia Quanto à diferença entre lingüística e filologia podemos dizer que a última é uma ciência eminentemente histórica que por tradição se ocupa do estudo de civilizações passadas através da observação dos textos escritos que elas nos deixaram com o intuito de interpretálos comentálos fixálos e de esclarecer ao leitor o processo de transmissão textual Como ocorre com todas as ciências o que é considerado campo de atuação dos estudos filológicos pode variar de acordo com diferentes autores Alguns incluem no campo dessa ciência por exemplo o estudo da evolução das línguas observando entre outras coisas as transformações sofridas pelas formas da língua as palavras seu emprego a construção da frase através da verificação de documentos cronologicamente sucessivos Um exemplo é o estudo da evolução do latim em direção às diferentes línguas românicas tanto nos seus aspectos históricos história externa quanto estruturais história interna Esse campo de estudo tem sido chamado de filologia românica e busca descrever de um lado os aspectos políticos sociais e históricos característicos do crescimento do Império Romano que tiveram influência na evolução da língua e de outro os aspectos lingüísticos associados à mudança fonética morfossintática e semântica Nesse sentido alguns autores identificam a filologia com a lingüística histórica7 cujo objetivo básico é o estudo comparativo entre as línguas a fim de classificálas de acordo com as semelhanças que elas apresentam Essa identificação entretanto não é consensual Muitos autores veem o surgimento da lingüística histórica como o advento da própria lingüística já que marca o desenvolvimento de uma análise voltada para a compreensão da própria estrutura das línguas bem como o aparecimento de teorias mais consistentes acerca da mudança lingüística Segundo essa visão o campo de atuação da filologia se restringe ao estudo do texto escrito Esse estudo engloba a exploração exaustiva dos mais variados aspectos do texto lingüístico literário críticotextual sóciohistórico entre outros Cabe à filologia interpretar e comentar os textos antigos a fim de fornecer as informações necessárias para sua compreensão sentidos que por ventura as palavras possuíam num passado remoto ou recente mas que se perderam formas e usos lingüísticos atualmente não utilizados mas necessários para esclarecernos eventuais passagens obscuras de um texto Além disso a disciplina visa apresentar ao leitor o texto que mais se aproxima da última forma materializada pelo seu autor Assim quando observa um determinado manuscrito o filólogo deve saber de que época é a letra se é texto original ou cópia se o copista foi fiel ou se inseriu modernismos Deve observar não apenas aspectos lingüísticos como por exemplo as características ortográficas mas também aspectos não lingüísticos como a disposição da mancha dos títulos do uso diferenciado dos caracteres gráficos do conjunto de ilustrações entre outros fatores Nesse sentido a filologia busca levantar o contexto em que o texto foi produzido o que inclui seu autor sua época exata suas condições de produção e tudo o que ajuda a compreender a sua estrutura Todo esse material desenvolvido pela filologia é muito importante para cientistas de outras áreas Por exemplo é fundamental para o estudioso da literatura porque fornece as informações necessárias para a caracterização do texto por ele estudado É fundamental também para o lingüista já que fornece para análise um material constituído de textos fidedignos que refletem com maior precisão os diferentes momentos da evolução histórica de uma língua Podemos dizer então resumindo o que foi visto até aqui que a filologia é uma ciência eminentemente histórica ao contrário da lingüística cujo interesse é a compreensão do fenômeno da linguagem através da observação dos mecanismos universais que estão na base da utilização das línguas Isso significa que o estudo chamado sincrônico8 desde Ferdinand de Saussure é um procedimento válido entre os lingüistas A filologia se interessa pelo estudo do texto escrito enquanto a lingüística embora não despreze a escrita se volta para a linguagem oral Essa estratégia se justifica pelo fato de a fala refletir o funcionamento da linguagem de modo mais natural e espontâneo do que a escrita que é mais planejada e muitas vezes retificada em nome de um texto mais elaborado Isso faz da fala um material mais interessante para que se possa compreender o funcionamento da linguagem humana No campo da história das línguas a fdologia se limita a descrever as formas características das diferentes épocas da evolução histórica das línguas tendo um caráter mais didático no sentido de que oferece informações básicas para a compreensão dessas formas A lingüística por outro lado ao desenvolver teorias mais consistentes com relação ao funcionamento da linguagem tende a dar conta de alguns aspectos universais da mudança transcendendo o nível meramente descritivo Os lingüistas não querem apenas saber como o latim gerou o português o francês ou o italiano por exemplo Seu interesse recai sobre os mecanismos universais que regem a mudança lingüística procurando saber se a mudança ocorre por exemplo de geração para geração se os fatores sociais ou interativos influenciam o processo A relação entre mudança e variação demonstrada pela sociolinguística e a teoria da gramaticalização retomada no final do século xx pelos lingüistas funcionalistas são exemplos de propostas mais universais de mudança lingüística Lingüística e gramática tradicional Cabe agora diferenciar a lingüística da chamada gramática tradicional As pessoas freqüentemente pensam que a lingüística é a velha gramática ensinada nas escolas avivada com alguns termos novos Porém a diferença entre ambas se manifesta em vários aspectos básicos Em primeiro lugar devemos registrar que a gramática tradicional foi criada e desenvolvida por filósofos gregos Representa uma tradição que se iniciou em Aristóteles de estabelecer uma relação entre linguagem e lógica buscando sistematizar através da observação das formas lingüísticas as leis de elaboração do raciocínio Essa tradição tem portanto suas raízes na filosofia e predominou na base dos estudos gramaticais até o século xix quando se desenvolveram novas teorias sobre a linguagem que caracterizariam o surgimento de uma nova ciência a lingüística9 Além disso essa tradição gramatical se caracterizava por uma orientação normativa já que ao tentar impor o dialeto ático como ideal buscou instituir uma maneira correta de usar a língua Vale ressaltar que essa concepção normativa é estranha à lingüística ciência que se propõe a analisar e descrever a estrutura e o funcionamento dos sistemas de língua e não prescrever regras de uso para esses sistemas Os lingüistas portanto estão interessados no que é dito e não no que alguns acham que deveria ser dito Eles descrevem a língua em todos os seus aspectos mas não prescrevem regras de correção É um equívoco comum achar que há um padrão absoluto de correção que é dever de lingüistas professores gramáticos e dicionaristas manter A noção de correção absoluta e imutável é alheia aos lingüistas E verdade que através da roda do tempo um tipo de fala pode ser mais prestigiado do que outros mas isso não torna a variedade socialmente aceitável mais interessante para os lingüistas do que as outras Tomemos como exemplo a variação na regência do verbo assistir quando ele significa ver Na língua falada usase comumente assistir o jogo e não assistir ao jogo que representa a formapadrão utilizada preferencialmente na escrita E importante observar que os critérios de correção que privilegiam a formapadrão em detrimento da coloquial não são estritamente lingüísticos mas decorrem de pressões políticas eou socioculturais Isso significa que em termos lingüísticos não há nada em uma forma de falar que a caracterize como correta ou errada As formas consideradas corretas são na realidade aquelas utilizadas pelos grupos sociais predominantes Cabe ainda mencionar que essa posição dos lingüistas em relação à noção de correção é um reflexo de seu trabalho como cientistas da linguagem que observam sem preconceitos todas as formas de expressão a fim de compreender a natureza da linguagem Entretanto é evidente que essa posição não deve ser estendida para o ensino de língua materna sem um mínimo de reflexão Os lingüistas têm plena consciência da importância da normapadrão para o ensino do português e reconhecem que o aprendizado ou não desse padrão tem implicações importantes no desenvolvimento sociocultural dos indivíduos Nesse sentido é válido dizer que para a lingüística não há formas de expressão corretas ou erradas mas adequadas ou não aos diferentes contextos de uso É tão inadequado o uso de formas não padronizadas da língua por parte de um deputado ao discursar na Câmara por exemplo quanto a utilização por parte desse mesmo deputado de uma linguagem formal marcada pelas regras do padrão culto quando ele estiver nas ruas pedindo votos para as pessoas humildes Uma segunda diferença importante entre a lingüística e a gramática tradicional é que os lingüistas consideram a língua falada e não a escrita como primária Qualquer atividade de escrita representa um processo mais sofisticado e adquirido mais tardiamente como comprovam as seguintes observações gerais começamos a falar antes de aprender a escrever falamos mais do que escrevemos em nossa rotina diária todas as línguas naturais foram faladas antes de serem escritas Ao longo dos anos os gramáticos têm enfatizado a importância da língua escrita em parte por causa de seu caráter permanente reforçado pela padronização da ortografia e pelo advento da imprensa A prática educativa tradicional insiste em moldar a língua de acordo com o uso dos melhores autores clássicos mas os lingüistas olham primeiro para a fala que cronologicamente precedeu a escrita em todas as partes do mundo Vale notar que enquanto todas as comunidades humanas existentes ou que já existiram possuem a capacidade de se comunicar através da fala o sistema de escrita pelo que se sabe existe há seis ou sete mil anos no máximo Por outro lado há ainda hoje línguas desprovidas de tradição escrita as chamadas línguas ágrafas como por exemplo algumas línguas indígenas brasileiras e algumas línguas africanas Os lingüistas portanto consideram as formas faladas e escritas pertencentes a sistemas distintos já que exibem diferentes padrões de gramática e vocabulário e seguem regras de uso que lhes são específicas Logo embora sobrepostos esses sistemas devem ser analisados separadamente a fala primeiro depois a escrita Do que foi exposto podemos concluir que em virtude da natureza complexa do objeto de estudo da lingüística tornase difícil se não impossível traçar com clareza os limites dessa disciplina ou mesmo enumerar com segurança suas tendências de análise que como é comum em qualquer ciência variam de acordo com diferentes autores ou escolas Aplicações A lingüística está longe de ser uma disciplina homogênea ao contrário é um vasto território com muitas noções e orientações teóricas em competição Assim sendo ela oferece muitas opções para a pesquisa aplicada e muitos ramos ou teorias lingüísticas são fortemente orientados para a resolução de questões práticas que envolvem a linguagem Nos últimos anos temse registrado o crescimento de uma tendência aplicada comprometida com a utilização dos resultados da pesquisa lingüística e de outras áreas do conhecimento com vistas à resolução de problemas da vida cotidiana que envolvem o uso da linguagem Comecemos pela chamada lingüística aplicada Segundo alguns autores o termo lingüística aplicada surgiu na metade da década de 50 do século passado quase simultaneamente na Inglaterra e nos Estados Unidos motivado talvez pelo desejo dos professores de língua de se distinguirem dos professores de literatura e de se associarem a algo mais científico e objetivo como a lingüística Embora ainda não haja um consenso quanto ao escopo e critérios definidores dessa área do conhecimento é evidente que ela está se tornando uma disciplina reconhecida que vem ampliando seus domínios Em sua origem a lingüística aplicada tem sua atuação voltada para o ensino de línguas especialmente de línguas estrangeiras buscando para isso subsídios de teorias referentes à linguagem sejam elas provenientes da lingüística da filosofia da linguagem ou de qualquer outra área afim A literatura especializada freqüentemente emprega uma definição operacional de lingüística aplicada a lingüística aplicada é uma abordagem multidisciplinar para a solução de problemas associados à linguagem Logo é uma característica central dessa disciplina o fato de que ela está relacionada a tarefas orientada para problemas centrada em projetos e guiada para a demanda Para cumprir seus objetivos ela se fundamenta primeiramente mas não exclusivamente na lingüística já que esta é a disciplina que fornece informações que tratam exclusivamente da linguagem Contudo a lingüística aplicada não está preocupada em descrever a linguagem em si mesma e portanto busca conhecimento também em uma variedade de outras ciências sociais indo da antropologia teoria educacional psicologia e sociologia até a sociologia da aprendizagem a sociologia da informação a sociologia do conhecimento etc E portanto um campo interdisciplinar Para tentar descrever a que tipos de aplicação a lingüística se pode prestar duas questões amplas devem ser respondidas primeiro que parte da lingüística pode ser utilizada nos problemas baseados na linguagem que a lingüística aplicada se propõe a mediar Segundo que tipos de problemas podem ser resolvidos através da mediação da lingüística aplicada Podese dizer que virtualmente todas as áreas da lingüística contribuem para a lingüística aplicada Nesse sentido informação relevante pode vir da fonologia sintaxe semântica lingüística textual sociolinguística e psicolinguística por exemplo Os tipos de problemas com os quais a lingüística aplicada está envolvida podem ser identificados como problemas de comunicação de um modo geral sejam eles entre indivíduos comunidades de indivíduos ou nações Um exame superficial dos títulos dos artigos publicados nas revistas de lingüística aplicada revela algumas tendências Grande volume desses trabalhos está relacionado de um modo ou de outro ao ensino e aprendizagem de língua incluindo aspectos de alfabetização letramento10 aquisição e aprendizagem de línguas estrangeiras elaboração de testes e material educacional de língua A parte remanescente se divide em quatro categorias amplas que incluem política e planejamento lingüísticos usos profissionais da linguagem comportamento lingüístico desviante e bilinguismo multilinguismo e multiculturalismo São essas as áreas em que a lingüística aplicada tem estado ativa intervindo nos modelos teóricos e nos praticantes numa via de mão dupla ajudando a trazer preocupações teóricas a situações concretas e ao mesmo tempo expandindo a teoria ao trazer essas situações problemas e questões que não foram ou não foram adequadamente focalizados pela teoria A relação entre lingüística e lingüística aplicada é pois simbiótica11 A colaboração da lingüística aplicada em projetos lingüísticos tem contribuído para disseminar um maior conhecimento na comunidade letrada da natureza da linguagem e do seu papel na sociedade além de ter despertado uma disposição entre os lingüistas aplicados de examinar conceitos de outras disciplinas e determinar sua relevância para a lingüística aplicada Num contexto em que o ensino de línguas tem sido encarregado da proteção ou defesa da linguagem correta a lingüística tem sido aplicada em maior ou menor grau em contextos de aprendizagem de língua ver o capítulo Lingüística e ensino Os estudiosos da língua têm usado informações lingüísticas em tarefas educacionais e os professores de língua têm se debruçado sobre as descobertas dos estudiosos para definir tanto o que será ensinado em sala de aula quanto o modo como será ensinado Nesse sentido a aplicação de informações lingüísticas na resolução de problemas reais não pode ser considerada uma orientação recente As aplicações da lingüística não se restringem porém ao domínio do ensino de línguas ou ao campo de atuação da disciplina denominada lingüística aplicada outras áreas utilizam produtivamente as descobertas teóricas da pesquisa lingüística para fins práticos como a afasiologia a inteligência artificial a tradução automática e o desenvolvimento de softwares capazes de traduzir a fala humana em escrita e viceversa Em questões de natureza clínica o tratamento e reabilitação de pacientes com problemas de fala como afasia ou mal de Alzheimer por exemplo tem se beneficiado recentemente com a incorporação de conteúdos lingüísticos em cursos que formam terapeutas da fala Psicolinguistas e neurolinguistas têm procurado entender como a linguagem é processada no cérebro e como os vários danos cerebrais afetam tanto a memória lingüística quanto a produção lingüística Em contextos forenses a linguagem tem se tornado um campo de estudo em ascensão Analisamse conversações para descobrir conspiração ameaças difamação e outras questões pertinentes à lei O uso da linguagem em contextos legais afeta não apenas como um advogado apresenta seu caso à corte mas também como se percebe a veracidade de um testemunho a escolha dos membros do júri a compreensão das instruções para os jurados a transcrição de registros de julgamentos a admissão de evidências no julgamento e a força do testemunho de especialistas Os progressos na área da tecnologia da comunicação também requerem informação lingüística sofisticada Na área das telecomunicações engenheiros elétricos e eletrônicos contam com a colaboração de especialistas em fonética para por exemplo aumentar o número de conversações em um único circuito de telefone A participação da lingüística aplicada é especialmente notável em projetos que lidam com o reconhecimento automático da fala a síntese automática do discurso tradução automática inteligência artificial e campos afins Em resumo há vários domínios em que a lingüística pode ser aplicada produtivamente Dependendo do propósito da aplicação as disciplinas relevantes a esses propósitos vão variar A relação entre disciplinas e os domínios da lingüística aplicada é paralela à relação entre por exemplo de um lado a engenharia a matemática a física a química etc e de outro lado os objetivos do engenheiro em determinadas circunstâncias práticas Exercícios 1 Faça um comentário acerca do conceito de lingüística apresentado no início do texto disciplina que estuda cientificamente a linguagem 2 Que argumentos poderiam ser usados para privilegiar a análise da língua falada 3 Aponte um aspecto que caracterize a relação entre a linguagem e nossa estrutura neurobiológica e comente sua escolha 4 Que aspectos caracterizam a lingüística como o estudo científico da linguagem 5 Estabeleça uma distinção entre lingüística filologia e semiologia 6 Cite algumas áreas em que os resultados da pesquisa lingüística podem ser aplicados Notas 1 Cabe registrar a existência da chamada língua dos sinais utilizada pelos surdos em que não há signos vocais mas visuais O sistema de comunicação dos surdos é considerado uma língua pela grande maioria dos autores já que embora não se constitua de sinais sonoros apresenta as características básicas das línguas naturais 2 As zonas cerebrais afetadas nas afasias de Broca e de Wernicke são chamadas respectivamente de área de Broca e área de Wernicke 3 Lingüistas norteamericanos que na primeira metade do século xx ajudaram a criar a tradição dos estudos lingüísticos nos EUA 4 Papel próprio para absorver a tinta fresca 5 O termo empírico deve ser entendido aqui como uma atitude de buscar a comprovação empírica dos fatos ou seja que as hipóteses levantadas pelos lingüistas sejam comprovadas através da observação dos dados 6 O termo semiologia está relacionado à tradição saussuriana constituindo uma tradução do francês sémiologie O termo semiótica de semiotics em inglês está associado ao trabalho desenvolvido nos Estados Unidos pelo filósofo Charles Sanders Peirce 7 Essa identificação provavelmente tem sua origem no fato de o lingüista Georg Curtius no século xix ter colocado a filologia clássica no campo da lingüística 8 Segundo Saussure o termo sincrônico relacionase ao estudo de um língua em um determinado momento de sua evolução histórica em oposição ao estudo diacrônico que se caracteriza pela comparação entre dois momentos diferentes da evolução da língua através do tempo 9 Essa concepção de uma base lógica e universal para a linguagem abandonada pelos primeiros estruturalistas foi retomada por Chomsky em meados da década de 1950 e caracteriza até hoje os estudos gerativistas Entretanto essa posição não se estende a outras escolas lingüísticas da atualidade nem predomina em estudos atuais da filosofia da linguagem 10 O termo letramento referese ao processo de ensinoaprendizagem de leitura e produção textual com vistas à formação cidadã à inserção social plenamente participativa 11 Simbiose é um termo da biologia que designa a associação entre dois ou mais seres de espécies diferentes da qual todos tiram vantagem O exemplo mais citado é o líquen que é constituído pela simbiose de uma alga e de um cogumelo Funções da linguagem Mário Eduardo Martelotta Quando nos deparamos com a expressão funções da linguagem devemos inicialmente nos perguntar em que sentido o vocábulo função está sendo empregado Tratase de um termo de difícil definição já que além de ser utilizado com acepções distintas por autores diferentes não é raro um mesmo autor lhe atribuir significados um pouco distintos Entretanto deixando de lado questões teóricas mais complexas podemos atingir uma boa compreensão do termo apelando para o conceito de função que empregamos no nosso dia a dia Se alguém nos perguntasse qual a função do apagador na sala de aula não teríamos dificuldade em responder que como o próprio nome sugere tal objeto serve para apagar o quadro Do mesmo modo não teríamos problemas em enumerar funções de ferramentas como o martelo ou a chave de fenda Mas quando se trata de algo abstrato e complexo como a linguagem a pergunta se torna mais difícil de responder qual a função ou as funções da linguagem Poderíamos propor que a função da linguagem é transmitir informações de um indivíduo a outro ou de uma geração a outra Mas essa visão se mostra no mínimo ingênua quando presenciamos o seguinte diálogo entre duas pessoas que se encontram na rua um deles pergunta Como vai Tudo bem o outro responde com a mesma pergunta Como vai tudo bem e ambos continuam seu caminho com a consciência de ter cumprido plenamente seu papel social Não podemos dizer que em casos como esse tenha ocorrido de fato transmissão de informação Se a linguagem possui diferentes funções associadas a comportamentos enraizados na vida social que transcendem a mera transmissão de informações como delimitar essas funções Vários cientistas tentaram responder a essa pergunta como o psicólogo alemão Karl Bühler e lingüistas como Roman Jakobson e mais recentemente M A K Halliday Passaremos a analisar a proposta de Jakobson As funções da linguagem segundo Jakobson Segundo o autor a linguagem apresenta uma variedade de funções mas para que possamos compreender cada uma delas devemos levar em conta os elementos constitutivos de todo ato de comunicação que estão abaixo arranjados CONTEXTO REMETENTE MENSAGEM DESTINATÁRIO CONTATO CÓDIGO Devemos entender desse quadro que para que haja comunicação não basta que um remetente envie uma mensagem a um destinatário pois para que essa mensagem seja compreendida é necessário que ela preencha algumas condições Isso significa que uma mensagem eficaz requer a Um contexto apreensível pelo destinatário Estamos aqui diante de outro termo de difícil definição A noção de contexto remete ao próprio conteúdo referencial da mensagem ou seja às informações que fazem referência à realidade biossocial que circunda nossa vida e que estão em evidência na mensagem transmitida Nesse sentido podemos dizer que as informações na prática nunca se limitam ao conteúdo da mensagem em si Ou seja a interpretação adequada de uma frase pode por exemplo depender de informações transmitidas em frases proferidas anteriormente contexto lingüístico ou de dados referentes ao local ao momento da comunicação ou mesmo ao tipo de relação entre os interlocutores situação extralinguística Quando ouvimos por exemplo alguém proferir uma frase como Passei muitos exercícios na aula de hoje acionamos um conjunto de conhecimentos referentes à estrutura de uma aula que são necessários para que possamos compreender plenamente o conteúdo dessa frase Sabemos de antemão que aulas são eventos diários o que nos permite compreender sem problemas a expressão aula de hoje Temos conhecimento através de nossa vivência escolar de que exercícios de fixação fazem parte do procedimento assim como sabemos como eles são normalmente ministrados Essas informações embora não estejam expressas na frase são evocadas pelo destinatário no processo de decodificação e sem elas não seria possível uma interpretação adequada Ampliando um pouco mais a noção de contexto podemos dizer que o termo abrange todas as informações referentes às condições de produção da mensagem o emissor o destinatário o tipo de relação existente entre eles o local e a situação em que a mensagem é proferida entre outras coisas Nesse sentido se a frase acima fosse enunciada por um professor de português por exemplo assumiria um sentido diferente daquele que apresentaria se tivesse sido dita por um professor de ginástica já que no segundo caso os exercícios seriam de natureza física Resumindo para que o destinatário possa compreender a mensagem precisa conhecer um conjunto de informações que vai desde elementos relacionados ao momento da produção dessa mensagem até dados referentes ao conhecimento do assunto em pauta A esse conjunto de conhecimentos podemos chamar de contexto b Um código que seja conhecido por remetente e destinatário O termo código constitui um conjunto de sinais ou signos convencionados para promover a comunicação entre as pessoas São códigos as línguas faladas no mundo como o português ou o italiano assim como suas correspondentes escritas São também códigos a língua de sinais utilizada pelos surdos os painéis de sinalização de trânsito o código Morse entre outros Não é difícil compreender que para que se dê a comunicação remetente e destinatário têm de utilizar e conhecer razoavelmente o mesmo código Um j aponês que não fale português e um brasileiro que não conheça japonês certamente terão muitas dificuldades de se comunicar a solução para seu problema seria buscar outro código para se comunicarem entre si gestos outra língua mais conhecida como o inglês etc c Um contato ou canal físico e uma conexão psicológica entre remetente e destinatário que permita a troca de informações O termo canal referese ao meio pelo qual é transmitida a mensagem No caso da comunicação verbal em presença considerase que o ar através do qual as ondas sonoras se propagam é o canal transmissor No caso de comunicação a distância o telefone é um canal de comunicação assim como as faixas de freqüência de rádio por exemplo Podemos compreender então que um remetente localizado no Ceará terá dificuldades de se comunicar com alguém que esteja no Rio Grande do Sul a menos que consiga utilizar algum canal de comunicação Nesse caso telefone ou email são algumas das alternativas possíveis Por outro lado como uma frase nunca traz todas as informações necessárias para a compreensão adequada da mensagem como dissemos ao analisar a noção de contexto a comunicação é essencialmente uma atividade cooperativa E fundamental portanto algum tipo de interesse comum que crie uma conexão psicológica entre os participantes sem a qual a comunicação seria prejudicada Com base nesses elementos constitutivos do ato da comunicação Jakobson estipulou seis funções da linguagem cada uma centrada em um desses elementos Vej amos 1 Função referencial consiste na transmissão de informações do remetente ao destinatário Essa função está centrada no contexto já que reflete uma preocupação em transmitir conhecimentos referentes a pessoas objetos ou acontecimentos Podemos pensar como exemplos dessa função as notícias apresentadas em um veículo de informações como o jornal 2 Função emotiva consiste na exteriorização da emoção do remetente em relação àquilo que fala de modo que essa emoção transpareça no nível da mensagem Essa função está centrada no próprio remetente já que é sua emoção que está em jogo na mensagem Um exemplo de função emotiva está em uma situação em que um indivíduo ao tentar martelar um prego acerta o próprio dedo e profere um palavrão Em mensagens marcadas por esta função podemos detectar a emoção do remetente na entonação que usa é difícil imaginar um locutor narrando uma partida de futebol com uma entonação sonolenta já que sua tarefa também é passar a emoção do jogo ou em sua escolha vocabular entre as frases Ele saiu de casa e O canalha abandonou o lar a segunda é certamente mais emotiva já que reflete um envolvimento do falante com a situação 3 Função conativa consiste em influenciar o comportamento do destinatário Essa função está centrada no destinatário já que ele é o alvo da informação Um bom exemplo de função conativa é a propaganda cuja função básica é persuadir o público a comprar um produto votar em um político ou agir de determinada maneira 4 Função fática consiste em iniciar prolongar ou terminar um ato de comunicação Está portanto centrada no canal já que não visa propriamente à comunicação mas ao estabelecimento ou ao fim do contato refletindo também a preocupação de testar o contato checar o recebimento da mensagem e em muitos casos tentar manter o contato Um exemplo disso podemos ver na utilização do termo alô no telefone para indicar que estamos na escuta prontos para o que o interlocutor tem a dizer 5 Função metalinguística consiste em usar a linguagem para se referir à própria linguagem Centrada no código essa função se justifica pelo fato de os humanos utilizarem a linguagem para se referir não apenas à realidade biossocial mas também aos aspetos relacionados ao código ou à linguagem utilizados para esse fim Os verbetes de dicionário são um bom exemplo desse tipo de função já que dão pistas do significado das palavras 6 Função poética consiste na projeção do eixo da seleção sobre o eixo da combinação dos elementos lingüísticos Centrada na mensagem essa função caracterizase pelo enfoque na mensagem e em sua forma Para que possamos compreender essa definição temos de nos lembrar daquilo que Jakobson caracterizou como os dois tipos básicos de arranjos utilizados no processo verbal seleção e combinação Nesse sentido podemos dizer que ao formar uma frase inicialmente o falante seleciona as palavras que melhor expressam suas idéias naquela situação de comunicação Além disso o falante combina de acordo com as regras sintáticas de sua língua as palavras selecionadas de modo que elas constituam um enunciado que faça sentido para o interlocutor 2 Função emotiva consiste na exteriorização da emoção do remetente em relação àquilo que fala de modo que essa emoção transpareça no nível da mensagem Essa função está centrada no próprio remetente já que é sua emoção que está em jogo na mensagem Um exemplo de função emotiva está em uma situação em que um indivíduo ao tentar martelar um prego acerta o próprio dedo e profere um palavrão Em mensagens marcadas por esta função podemos detectar a emoção do remetente na entonação que usa é difícil imaginar um locutor narrando uma partida de futebol com uma entonação sonolenta já que sua tarefa também é passar a emoção do jogo ou em sua escolha vocabular entre as frases Ele saiu de casa e O canalha abandonou o lar a segunda é certamente mais emotiva já que reflete um envolvimento do falante com a situação 3 Função conativa consiste em influenciar o comportamento do destinatário Essa função está centrada no destinatário já que ele é o alvo da informação Um bom exemplo de função conativa é a propaganda cuja função básica é persuadir o público a comprar um produto votar em um político ou agir de determinada maneira 4 Função fática consiste em iniciar prolongar ou terminar um ato de comunicação Está portanto centrada no canal já que não visa propriamente à comunicação mas ao estabelecimento ou ao fim do contato refletindo também a preocupação de testar o contato checar o recebimento da mensagem e em muitos casos tentar manter o contato Um exemplo disso podemos ver na utilização do termo alô no telefone para indicar que estamos na escuta prontos para o que o interlocutor tem a dizer 5 Função metalinguística consiste em usar a linguagem para se referir à própria linguagem Centrada no código essa função se justifica pelo fato de os humanos utilizarem a linguagem para se referir não apenas à realidade biossocial mas também aos aspetos relacionados ao código ou à linguagem utilizados para esse fim Os verbetes de dicionário são um bom exemplo desse tipo de função já que dão pistas do significado das palavras 6 Função poética consiste na projeção do eixo da seleção sobre o eixo da combinação dos elementos lingüísticos Centrada na mensagem essa função caracterizase pelo enfoque na mensagem e em sua forma Para que possamos compreender essa definição temos de nos lembrar daquilo que Jakobson caracterizou como os dois tipos básicos de arranjos utilizados no processo verbal seleção e combinação Nesse sentido podemos dizer que ao formar uma frase inicialmente o falante seleciona as palavras que melhor expressam suas idéias naquela situação de comunicação Além disso o falante combina de acordo com as regras sintáticas de sua língua as palavras selecionadas de modo que elas constituam um enunciado que faça sentido para o interlocutor Mas voltemos à definição proposta por Jakobson para função poética Como compreender a noção de projeção do eixo de seleção sobre o eixo da combinação Para isso precisamos entender que a combinação das palavras se manifesta na superfície da frase sendo portanto perceptível para o ouvinte Por outro lado a seleção constitui um processo de cunho psicológico que normalmente não é visível na estrutura da frase Como o ouvinte poderia perceber que o falante escolheu os termos da frase que acabou de transmitir Seguindo Jakobson isso ocorre em mensagens caracterizadas por rimas jogos de palavras aliterações e outros processos de natureza estilística que sugerem uma escolha mais cuidadosa das palavras Vejamos os versos de Chico Buarque apresentados abaixo A gente faz hora faz fila na vila do meiodia Para ver Maria A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia Podemos notar nos versos acima repetições de sons e rimas A presença desses recursos demonstra que essas palavras foram escolhidas de modo meticuloso para nesse caso especificamente criar o efeito estético que caracteriza o discurso poético Ou seja em função desses recursos o eixo da combinação se projeta sobre o da seleção ficando também evidente na superfície da frase Esse é um bom exemplo de função poética É importante registrar aqui que a função poética não está presente apenas em textos literários Segundo Jakobson a função poética não é exclusiva da arte verbal mas predominante nela Isso significa que podemos encontrála também em ditados e expressões populares ex água mole em pedra dura tanto bate até que fura e por fora bela viola por dentro pão bolorento ou em slogans de propaganda ex Quem é vivo faz seguro de vida no fundo Itaú em que a palavra vivo recebe ao mesmo tempo duas interpretações que está vivo e esperto Aliás Jakobson chama atenção para o fato de que embora para efeito de análise possamos distinguir essas seis funções na prática elas não são exclusivas Ou seja uma mesma mensagem apresenta mais de uma dessas funções de modo que a decisão referente a qual a função que caracteriza uma mensagem é mais uma questão de decidir a ordem hierárquica de funções do que de escolher apenas uma Exercícios 1 Apresente uma definição para o termo contexto e comente sua importância segundo a teoria das funções da linguagem para a compreensão de uma mensagem 2 As propagandas de televisão podem ser caracterizadas como apresentando o predomínio de que função da linguagem Justifique sua resposta 3 Levando em conta o texto abaixo responda o que se pede Em código Fui chamado ao telefone Era o chefe de escritório de meu irmão Recebi de Belo Horizonte um recado dele para o senhor É uma mensagem meio esquisita com vários itens convém tomar nota o senhor tem um lápis aí Tenho Pode começar Então lá vai Primeiro minha mãe precisa de uma nora Precisa de quê De uma nora Que história é essa Eu estou dizendo ao senhor que é um recado meio esquisito Posso continuar Continue Segundo pobre vive de teimoso Terceiro não chora morena que eu volto Isso é alguma brincadeira Não é não estou repetindo o que ele escreveu Tem mais Quarto sou amarelo mas não opilado Tomou nota Mas não opilado repeti tomando nota Que diabo ele pretende com isso Não sei não senhor Mandou transmitir o recado estou transmitindo Mas você há de concordar comigo que é um recado meio esquisito Foi o que eu preveni ao senhor E tem mais Quinto não sou colgate mas ando na boca de muita gente Sexto poeira é minha penicilina Sétimo carona só de saia Oitavo Chega protestei estupefato Não vou ficar aqui tomando nota disso feito idiota Deve ser carta em código ou coisa parecida e ele vacilou Estou dizendo ao senhor que também não entendo mas enfim Posso continuar Continua Falta muito Não está acabando são doze Oitavo vou mas volto Nono chega à janela morena Décimo quem fala de mim tem mágoa Décimo primeiro não sou pipoca mas também dou meus pulinhos Não tem dúvida ficou maluco Maluco não digo mas como o senhor mesmo disse a gente fica até com ar meio idiota Está acabando só falta um Décimo segundo Deus eu e o Rocha Que Rocha Não sei é capaz de ser a assinatura Meu irmão não se chama Rocha essa é boa E mas que foi ele que mandou isso foi Desliguei atônito fui até refrescar o rosto com água para poder pensar melhor Só então me lembrei haviamme encomendado uma crônica sobre essas frases que os motoristas costumam pintar como lema à frente dos caminhões Meu irmão que é engenheiro e viaja sempre pelo interior fiscalizando obras prometera ajudarme recolhendo em suas andanças farto e variado material Ele viajou o tempo passou acabei me esquecendo completamente o trato na suposição de que o mesmo lhe acontecera Agora o material ali estava era só fazer a crônica Deus eu e o Rocha Tudo explicado Rocha era o motorista Deus era Deus mesmo e eu o caminhão Fernando Sabino A mulher do vizinho Rio de Janeiro São Paulo Record 1962 a Defina o termo código e diga por que a mensagem recebida pelo narrador foi caracteriza como carta em código b Ao se lembrar de que o irmão havia ficado de recolher frases de caminhão para que ele pudesse juntar material para uma crônica o narrador compreendeu imediatamente o sentido da mensagem Relacione esse fato com o conceito de contexto c Retire do texto trechos que exemplifiquem cada uma das seis funções da linguagem Dupla articulação Mário Eduardo Martelotta Desde o século xix os lingüistas aceitam como verdade que a linguagem humana é articulada De fato a articulação é uma das características essenciais da linguagem humana sendo apontada como um dos principais aspectos que a diferenciam da comunicação dos animais A noção de articulação Para compreendermos bem a noção de articulação devemos lembrar que os termos articulação e articulado derivam do diminutivo articulus do latim artus que significa articulações dos ossos membros do corpo Assim articulado significa constituído de membros ou partes Afirmar que a linguagem humana é articulada significa dizer portanto que os enunciados produzidos em uma língua não se apresentam como um todo indivisível Ao contrário podem ser desmembrados em partes menores j á que constituem o resultado da união de elementos que por sua vez podem ser encontrados em outros enunciados Vejamos abaixo uma sentença possível em língua portuguesa Os violinistas tocavam músicas clássicas Essa sentença como qualquer sentença em qualquer língua é divisível em unidades menores Podemos dividila por exemplo em cinco vocábulos Os violinistas tocavam músicas clássicas Isso significa que para formar sentenças como essas o falante escolhe entre os vocábulos armazenados em sua memória aqueles que no contexto têm o efeito significativo desejado articulandoos de acordo com as regras de formação de sentenças de sua língua Cada um desses vocábulos portanto constitui um elemento autônomo podendo vir a ocorrer em outras sentenças dependendo dos interesses comunicativos do falante Mas continuando a nossa análise da sentença em foco observamos que cada um desses vocábulos resulta da união de unidades morfológicas o que significa que a sentença pode ser dividida em elementos ainda menores Vejamos alguns dos vocábulos Os violinistas músicas clássicas O0 violinista0 música0 clássica0 Nesses quatro vocábulos notamos a oposição entre de um lado a presença do elemento s e de outro a sua ausência que marcamos com o símbolo 0 os vs o violinistas vs violinista e assim por diante A retirada do elemento s acarreta uma diferença no valor do vocábulo que perde a marca de plural passando para o singular Isso significa que o elemento s é responsável pela expressão da noção de plural por isso é tradicionalmente chamado desinência de número E quando quisermos colocar uma palavra no plural acrescentar a desinência s é a estratégia mais comum salas canetas luas carros e assim por diante É claro que nem sempre os vocábulos se limitam ao radical e à desinência de número Violinista música e clássica por exemplo podem ainda ser divididas em outros elementos menores Violinista música clássica Violino músico clássico O elemento a que se liga ao radical da palavra música é uma vogai temática É muito difícil definir com poucas palavras as funções da vogai temática mas podemos dizer que ela ajuda a distinguir os vocábulos em classes e subclasses Já o elemento a de clássica indica o gênero feminino por oposição a clássico sendo normalmente classificado como desinência de gênero O elemento ista de vilolinista por sua vez indica a pessoa que pratica um ofício uma ocupação ocorrendo em outras formações como artista paisagista só para citar algumas Associados aos radicais violin music clássic o sufixo ista a vogai temática a e a desinência a constituem elementos que comumente compõem a estrutura morfológica de vocábulos portugueses O que ocorre com nomes substantivos e adjetivos pode ocorrer com verbos embora no caso dos verbos os elementos morfológicos sejam um pouco diferentes É o que podemos observar com a forma verbal tocavam Tocava m Tocava0 Toca0 Toco No caso da forma verbal tocavam o elemento m indica que o verbo está na terceira pessoa do plural o va é uma marca de pretérito imperfeito do indicativo já que a retirada desses elementos implica a perda desses valores e a vogai temática a indica que se trata de um verbo da primeira conjugação Todos esses elementos assim como ocorre com a desinência de plural s e o sufixo ista dão alguma informação acerca do sentido do vocábulo ou acerca de sua estrutura gramatical Alguns lingüistas têm um nome genérico para designar esses elementos morfemas Os morfemas identificamse com radicais vogais temáticas prefixos sufixos e desinências e constituem a menor unidade significativa da estrutura gramatical de uma língua Levando em conta os morfemas a sentença ficaria dividida então da seguinte maneira Os violinistas tocavam músicas clássicas Mas ainda podemos dividir essa sentença em elementos menores chamados fonemas Desse modo por exemplo todas as palavras da sentença podem ser divididas em unidades de base sonora assim como demonstramos abaixo com os vocábulos músicas e clássicas músicas m u z i k a Isl clássicas k III a Isl ik a Isl Esses fonemas são unidades de natureza diferente dos morfemas pois fazem parte da estrutura fonológica das línguas São utilizados para formar o corpo sonoro do vocábulo e possuem função distintiva já que a troca de um pelo outro acarreta uma mudança no sentido da palavra como ocorre com a troca de kl por Iml na palavra tocavam tocavam vs tomavam É importante compreender que k não é um morfema porque não indica informação alguma acerca do sentido ou da estrutura gramatical da palavra tocavam Entretanto é um elemento estrutural importante na medida em que é capaz de distinguir vocábulos Agora temos condições de entender por que se diz que a linguagem humana é articulada porque se manifesta através de sentenças resultantes da união de elementos menores E podemos também compreender o termo dupla articulação existem dois tipos diferentes de unidades mínimas os morfemas e os fonemas Os primeiros são elementos significativos já que como vimos anteriormente dão alguma informação acerca da estrutura semântica ou da estrutura gramatical dos vocábulos Os segundos são elementos não significativos tendo função distintiva Vejamos de modo resumido Ia articulação ou morfologia Constituída de elementos dotados de significado ou morfemas Os elementos da primeira articulação ou morfemas in feliz e mente compõem o vocábulo infelizmente infelizmente 0felizmente feliz0 2a articulação ou fonologia Constituída de elementos não dotados de significado ou fonemas Os elementos da segunda articulação ou fonemas g a l e a compõem o vocábulo gala gala gala gala gala mala gula gata galo A economia da articulação Esse tipo de organização baseada em um sistema de dupla articulação que caracteriza todas as línguas de todas as partes do mundo tem uma razão de ser é aquela que melhor se adapta às necessidades comunicativas humanas permitindo que se transmita mais informação com menos esforço A questão da economia fica clara quando pensamos nos casos menos comuns em nossa língua de formação de feminino por heteronímia Ou seja casos como os de homemmulher cavaloégua boivaca entre outros em que se tem um vocábulo para designar o masculino da espécie e outro vocábulo totalmente diferente para designar o feminino Não é difícil perceber a pouca praticidade desse processo Se todos os vocábulos masculinos possuíssem como correspondentes femininos vocábulos inteiramente distintos as línguas constituiriam um sistema comunicativo muito pesado Os dicionários que normalmente apresentam em torno de duas mil páginas teriam de apresentar no mínimo quatro mil E nossa memória Conseguiria armazenar tantas palavras acessíveis no dia a dia Certamente a dificuldade seria maior Muito mais fácil é o artifício que as línguas naturais desenvolveram um processo de combinação de partes No português por exemplo há um morfema a cuja função é indicar feminino portanto não precisamos criar palavras diferentes para designar feminino basta colocar o morfema a no final do vocábulo cantorcantora professorprofessora aluno aluna e assim por diante Imaginem agora o mesmo processo para a flexão de número se para indicar o plural tivéssemos de utilizar um vocábulo totalmente diferente daquele que indica o singular da espécie aquele dicionário que já teria quatro mil páginas passaria a ter mais de sete mil e nossa memória já carregada certamente não daria conta de tanta informação Muito mais prático é utilizar o elemento s indicador de plural ao vocábulo como fazemos em bolobolos mesamesas e em vários outros casos Exercícios 1 Indique por meio de comparações os elementos da primeira articulação de maldade escuridão anormalidade desestruturássemos desarmarás explicar incomum deslealdade imoralidade recontávamos descosturariam exportar 2 Faça o mesmo para os elementos da segunda articulação de fala cana calo onda passo carro 3 Com base na afirmativa abaixo disserte sobre o conceito de gramática O vocábulo deslealmente é composto dos elementos da primeira articulação des leal e mente É importante observar entretanto que esses elementos se ligam segundo uma determinada ordem já que algo como mentelealdes ou lealdesmente não faz sentido em português Conceitos de gramática Mário Eduardo Martelvtta No capítulo Dupla articulação vimos que os enunciados lingüísticos resultam da combinação de unidades menores Na construção desses enunciados os falantes unem morfemas para formar vocábulos vocábulos para formar frases e frases para formar unidades ainda maiores que compõem o discurso Essas unidades podem ser caracterizadas como universais já que todas as línguas são articuladas possuem fonemas morfemas palavras frases e não apresentam diferenças significativas quanto à natureza dessas unidades As questões que colocamos agora são Como se dá essa combinação Os falantes combinam os elementos na frase do modo como bem entendem ou existem restrições impostas pelas línguas no que diz respeito a esse processo Se existem restrições qual a sua natureza Elas provêm dos padrões de correção de uso da língua impostos pela comunidade São arbitrárias Refletem o funcionamento natural da mente humana sendo portanto universais Podemos dizer que essas questões retratam as preocupações básicas do cientista que deseja compreender a natureza e o funcionamento das línguas naturais e constituem o tema deste capítulo que busca apresentar resumidamente como essas perguntas foram respondidas pelos que se interessaram sobre o assunto ao longo da evolução dos estudos lingüísticos Para começar devemos levar em conta que os falantes não combinam os elementos do modo como querem já que sua língua apresenta restrições quanto a esse processo Quando pretendemos por exemplo utilizar a desinência s para designar o plural de um vocábulo em português sabemos que devemos encaixála no final desse vocábulo e não no início ou no meio casacasai Restrições de combinação desse tipo existem em todos os níveis gramaticais e se aplicam a todos os elementos lingüísticos Vejamos como isso ocorre no nível da frase a O aluno entregou o trabalho b O trabalho o aluno entregou c Entregou o aluno o trabalho d Aluno o entregou trabalho o Podemos ver no exemplo a o que seria a estrutura sentenciai mais comum do português contemporâneo apresenta a ordenação sujeitoverboobjeto e seus sintagmas nominais exibem a estrutura artigosubstantivo A inversão apresentada em b embora não tão corriqueira pode ser encontrada em enunciados reais sobretudo em contextos em que por algum motivo se quer dar ênfase ao sintagma o trabalho o que indica que algumas tendências sintáticas têm motivação discursiva A inversão apresentada em c é ainda menos comum e pode parecer estranha ou agramatical a certos falantes daí a dúvida expressa pela interrogação antes da frase embora seja possível encontrála em contextos de alta formalidade sobretudo na língua escrita Entretanto a estrutura apresentada em d não é possível em nossa língua não podemos em circunstância alguma colocar os artigos depois dos substantivos aluno o trabalho o já que seu lugar no sintagma é a posição anterior aos substantivos a que se referem o aluno o trabalho Neste ponto já sabemos que os falantes não combinam unidades de qualquer modo Eles seguem tendências de colocação que parecem estar associadas ao conhecimento geral que possuem de sua própria língua que lhes permite formular e compreender frases em contextos específicos de comunicação Resta agora saber qual é a natureza desse conhecimento ou mais especificamente dessas restrições de combinação Desde a Antigüidade Clássica os estudiosos da linguagem vêm sugerindo interpretações que reflitam a natureza e funcionamento das línguas bem como propostas de sistematização descritiva apoiadas nessas interpretações Com a evolução dos estudos lingüísticos essas interpretações foram sendo aperfeiçoadas abandonadas e até mesmo retomadas em função de novas descobertas científicas O conjunto dessas interpretações e descrições acerca do funcionamento da língua recebe o nome de gramática Aqui é importante fazermos uma distinção entre dois sentidos do termo gramática Por um lado esse vocábulo pode ser usado para designar o funcionamento da própria língua que é o objeto a ser descrito pelo cientista Nesse sentido gramática diz respeito ao conjunto e à natureza dos elementos que compõem uma língua e às restrições que comandam sua união para formar unidades maiores nos contextos reais de uso Por outro lado o termo é utilizado para designar os estudos que buscam descrever a natureza desses elementos e suas restrições de combinação Nesse segundo sentido gramática se refere aos modelos teóricos criados pelos cientistas a fim de explicar o funcionamento da língua Quando aqui falarmos em concepções de gramática como a gramática tradicional agramática históricocomparativa entre outras estaremos utilizando o segundo sentido A partir de agora analisaremos algumas dessas concepções de gramática que ainda hoje encontramos nos manuais de lingüística e língua portuguesa Como cada gramática implica uma concepção da língua que descreve buscaremos apresentar informações básicas acerca da concepção de língua a ela relacionada assim como da metodologia específica por ela adotada na abordagem do fenômeno lingüístico Gramática tradicional A gramática tradicional também chamada de gramática normativa ou gramática escolar é aquela que estudamos na escola desde pequenos Nossos professores de português nos ensinam a reconhecer os elementos constituintes formadores dos vocábulos radicais afixos etc a fazer análise sintática a utilizar a concordância adequada sempre recomendando correção no uso que fazemos de nossa língua Entretanto raramente nos é dito o que é esse estudo qual sua origem como ele se desenvolveu e com que finalidades Tentaremos aqui de modo bastante resumido suprir essas informações buscando argumentar que principalmente por apresentar uma visão preconceituosa do uso da linguagem a gramática tradicional não fornece ao estudioso da linguagem uma teoria adequada para descrever o funcionamento gramatical das línguas A chamada gramática tradicional utilizada como modelo teórico para a abordagem e o ensino da nossa língua nas escolas tem origem em uma tradição de estudos de base filosófica que se iniciou na Grécia antiga Os filósofos gregos se interessaram por estudar a linguagem entre outros motivos porque queriam entender alguns aspectos associados à relação entre a linguagem o pensamento e a realidade Desse modo os gregos discutiram questões como por exemplo a relação entre as palavras e as coisas que elas designam alguns viam nas palavras a imagem exata do mundo outros vendoas como criações arbitrárias dos seres humanos consideravamnas incapazes de refletir de modo perfeito a realidade A palavra lápis por exemplo deveria ser vista como apresentando uma relação natural com o objeto que ela designa ou como uma mera invenção humana utilizada para designar arbitrariamente esse objeto Questões como essas estiveram presentes nas reflexões dos filósofos da Grécia antiga entre eles Platão O que melhor caracteriza entretanto essa tradição é a visão inaugurada por Aristóteles de que existe uma forte relação entre linguagem e lógica Desenvolveuse a partir daí a tendência de considerar a gramática um estudo relacionado à disciplina filosófica da lógica que trata das leis de elaboração do raciocínio Segundo essa visão a linguagem é um reflexo da organização interna do pensamento humano Essa organização interna é universal já que por ser inerente aos seres humanos se manifesta em todas as línguas do mundo Para Aristóteles a lógica seria o instrumento que precede o exercício do pensamento e da linguagem oferecendolhes meios para realizar o conhecimento e o discurso Assim a lógica aristotélica buscava descrever a forma pura e geral do pensamento não se preocupando com os conteúdos por ela veiculados Outro aspecto ligado à visão aristotélica que devemos levar em conta é o fato de que o mundo em que vivemos possui existência independente de nossa capacidade de expressálo Ou seja conhecemos o mundo exterior pelas impressões que provoca em nossos sentidos e a linguagem seria portanto uma mera representação de um mundo já pronto um instrumento para nomear idéias preexistentes Esses princípios caracterizam o que alguns autores chamam de fundacionalismo e outros de realismo Ao lado dessa preocupação de caráter filosófico a gramática grega apresentava uma preocupação normativa ou seja assumia a incumbência de ditar padrões que refletissem o uso ideal da língua grega Podemos ver a tendência normativa da gramática grega na atitude de impor o dialeto ático1 como ideal Para que possamos compreender como essa tradição chegou aos dias de hoje devemos nos lembrar de que os princípios básicos da gramática grega foram adotados pelos romanos e adaptados à língua latina Gramáticos importantes como Prisciano e sobretudo Varrão deram valiosas contribuições para a evolução do conhecimento gramatical Entretanto os romanos dedicaram maior atenção ao aspecto normativo já que o crescimento de seu império tornava imprescindível uma unificação lingüística Na época medieval o latim permaneceu como língua da erudição adquirindo ainda mais prestígio por ser adotada pela Igreja Assim a atitude normativa permanece mas dessa vez com o objetivo de conservar o latim puro como língua universal de cultura entre as novas línguas vernáculas A partir do século xvi quando se elaboraram as primeiras gramáticas das línguas faladas no mundo da época as gramáticas latinas foram fonte de inspiração já que o latim por seu prestígio como língua de expressão culta servia como modelo para as novas línguas quanto mais parecidas com o latim fossem as novas línguas melhores elas seriam Sendo assim não era de se admirar que nos tempos modernos a gramática latina tenha servido de base para a descrição das línguas vernáculas da Europa Nos séculos XVII exviii as reflexões sobre a natureza da linguagem assim como as análises de sua estrutura deram continuidade às propostas gregas A chamada Gramática de Port Royal publicada em 1660 retoma de forma vigorosa a visão aristotélica da linguagem como reflexo da razão e busca construir tendo como base a lógica um esquema universal de linguagem que estaria subjacente a todas as línguas do mundo Essa visão de base aristotélica perde força com o surgimento dos primeiros lingüistas no século xix sendo apenas mais tarde retomada por Chomsky e pelos lingüistas gerativistas Com base no que foi exposto até aqui podemos fazer algumas reflexões acerca do poder explanatório da proposta teórica aqui chamada de gramática tradicional Comecemos por seu caráter normativo criticado de um modo geral pela lingüística moderna Não há como negar que existe uma influência dos padrões de correção impostos pela gramática sobre as restrições de combinação dos elementos lingüísticos que tende a crescer à medida que aumenta o nível de escolaridade do falante ou o grau de formalidade exigido pelo contexto de uso Entretanto propor que as restrições de combinação se explicam basicamente pelos ideais de correção não parece ser uma boa estratégia já que todas as línguas do mundo apresentam em número extremamente elevado construções alternativas aos padrões gramaticais como é o caso de construções portuguesas como A gente vamos lá Eu vi ele Isso é pra mim fazer entre outras que são combatidas pelas normas gramaticais Isso significa que o uso da língua não está regido pelo menos em sua essência pelos padrões de correção Ao contrário do que se vê nessa tradição é um processo natural que toda língua mude com o tempo e apresente em um mesmo momento variações com relação aos usos de seus elementos Assim qualquer atitude de valorizar uma variação em detrimento de outra implica critérios de natureza sociocultural e não critérios lingüísticos Ou seja a forma correta tende fortemente a se identificar com o modo como utilizam a língua os falantes de classes sociais privilegiadas que habitam as regiões mais importantes do país Mais do que isso ao conceber a existência de formas gramaticais corretas os gramáticos tradicionais abandonam determinadas formas consideradas erradas mas que são efetivamente utilizadas pelos falantes na comunicação diária Com isso essa gramática adota uma visão parcial da língua sendo incapaz de explicar a natureza da linguagem em sua totalidade No que diz respeito à outra característica da tradição gramatical a que relaciona linguagem e lógica também devemos fazer algumas considerações Embora os gerativistas retomem parcialmente essa perspectiva dessa vez munidos de argumentos e metodologias mais modernos lingüistas que trabalham em outras linhas de pesquisa fazem severas críticas argumentando que essa perspectiva carece de uma abordagem empírica dos fatos ou que ela restringe seu foco aos aspectos formais da língua Uma visão mais completa dessa discussão será oferecida mais adiante quando apresentaremos concepções mais atuais de gramática que foram concebidas por cientistas ligados a uma nova ciência a lingüística Gramática históricocomparativa Na primeira metade do século xix toma força na Alemanha uma tendência nova de estudar as línguas chamada de gramática históricocomparativa que pode ser definida em linhas gerais como uma proposta de comparar elementos gramaticais de línguas de origem comum a fim de detectar a estrutura da língua original da qual elas se desenvolveram Essa nova abordagem dos fenômenos da linguagem surgiu a partir da constatação da grande semelhança do sânscrito língua antiga da índia com o latim com o grego e com uma grande quantidade de línguas europeias Essa semelhança pode ser ilustrada com os termos correspondentes ao sentido da palavra portuguesa mãe mulher que gera filhos maatar em sânscrito mãter em latim mêtêr em grego mother em inglês mutter em alemão Mais do que as semelhanças entre as palavras chamou a atenção dos comparatistas o fato de as diferenças entre duas ou mais línguas apresentarem um alto grau de regularidade e sistematicidade o que foi visto como um sintoma de que essas línguas tinham uma origem comum Como esses cientistas trabalhavam com línguas já desaparecidas a metodologia comparativa ajudava a relacionar línguas que supostamente derivaram dessas línguas mortas É o que ocorre por exemplo com o latim e suas descendentes Vejamos a aplicação dessa regularidade no quadro abaixo que apresenta algumas seqüências de palavras em latim e em quatro línguas românicas LATIM FRANCÊS ITALIANO ESPANHOL PORTUGUÊS caput chef capo cabo cabeça cãrus cher caro caro caro campus champ campo campo campo cabãllus cheval cavallo caballo cavalo Podese notar que há uma regularidade no sentido de que onde em francês temos s nas outras línguas românicas temos kl que também ocorria em latim2 Essa correspondência fonética do tipo skkk somada a uma série de outros fatores fornece base para que se proponha uma descendência comum entre essas quatro línguas o latim Esse é em essência o mecanismo de comparação que caracteriza o chamado método históricocomparativo Considerase que essa tendência marca o início de uma nova ciência a lingüística já que pela primeira vez um grupo de cientistas se interessa por analisar as características inerentes às línguas naturais sem interesses filosóficos ou normativos mas observando critérios estritamente lingüísticos O interesse em analisar a estrutura das diferentes línguas surgiu principalmente a partir de Gottfried Wilhelm von Leibniz filósofo e matemático alemão que no início do século XVIII chamou atenção para a necessidade de se estabelecerem estudos comparativos sobre as línguas abandonando idéias preconcebidas acerca da essência da linguagem Isso viria a dar o caráter empírico e ao mesmo tempo comparativo que marca as pesquisas lingüísticas do século xix A gramática históricocomparativa abandonou os princípios que regiam a tradição gramatical de base grega A visão aristotélica da realidade vinha sofrendo sérios abalos sobretudo a partir do século XVII com o surgimento da ciência moderna através das descobertas de Copérnico Galileu Newton entre outros que trouxeram métodos mais precisos de investigação Ocorre que as propostas aristotélicas que serviram de ponto de partida para os estudiosos da linguagem até o século XVIII apresentavam um conjunto de idéias preconcebidas a respeito da essência da linguagem que não eram resultantes de estudos empíricos ou mesmo de maiores debates constituindo ao contrário uma posição filosófica a que se chegou com base em especulação a priori Isso contrasta com a mentalidade científica do século xrx em que Augusto Comte propõe seu sistema filosófico chamado de positivismo que se caracterizava pela ênfase na experimentação em oposição à especulação Esse ambiente contextualizava a gramática históricocomparativa Costumase dizer também que a gramática históricocomparativa se desenvolveu em função dos seguintes fatores a O surgimento do Romantismo na Alemanha que levou sobretudo no início do movimento a uma busca do passado e da origem dos povos O sentimento romântico levou os primeiros comparatistas a tentar reconstruir através do método comparativo um estado de língua original considerado idealmente perfeito em função de uma concepção da época de que a mudança era uma espécie de degeneração de um estado de língua primitivo e por natureza íntegro Veremos adiante que essa concepção de mudança degenerativa desaparece com o desenvolvimento das pesquisas comparatistas b A descoberta do sânscrito antiga língua da índia que se mostrou muito parecida com as línguas da Europa Essa semelhança aguçou a curiosidade dos pesquisadores incentivando os estudos comparativos entre as línguas Ou seja foi a comparação com o sânscrito que deu bases sólidas à teoria referente ao parentesco e à unidade e origem das línguas indoeuropeias Além disso forneceu uma nova fonte de inspiração ao Romantismo movimento de idéias que se opunham à tradição grecolatina c O surgimento das idéias de Darwin que tiveram influência sobre o pensamento científico da época Seguindo a tendência de incorporar as novas descobertas das ciências naturais alguns lingüistas adotaram inicialmente as concepções darwinianas sobre a origem das espécies e a seleção natural que explicariam as mudanças nas línguas assim como seu desaparecimento Franz Bopp e Jacob Grimm lançaram as bases que nortearam a comparação sistemática das línguas Bopp é considerado o fundador da gramática comparativa do indoeuropeu Seu trabalho publicado em 1816 e que apresenta um estudo comparativo dos verbos do sânscrito grego latim persa e das línguas germânicas observou essencialmente aspectos morfológicos e desenvolveu uma comparação metódica entre as principais famílias indoeuropeias abrindo espaço para a concepção histórica de gramática característica dessa época Grimm3 por sua vez além de interpretar as correspondências fonéticas como o resultado de transformações históricas enumerou algumas regularidades associadas a essas correspondências que constituíram o que ficou conhecido como a Lei de Grimm Essa lei registra um processo histórico que consiste em uma mutação ocorrida nas consoantes oclusivas em um ponto da evolução das línguas germânicas nas quais as oclusivas surdas tornaramse aspiradas e as sonoras tornaramse surdas Essa é uma diferença básica existente entre o grupo germânico das outras línguas indoeuropeias Vejamos algumas correspondências fonéticas regulares previstas na chamada lei de Grimm acrescida da contribuição de outros comparatistas a as línguas germânicas apresentam um líl no lugar em que o grego e o latim apresentam um pi Pãter izúmpatêr grego father inglês Pês latim podos grego foot inglês b as línguas germânicas apresentam um fonema aspirado h pronunciado como na palavra inglesa housé no lugar em que o grego e o latim apresentam um k Canis latim kyõn grego hound inglês Cor latim kardia grego heart inglês Com base nesses métodos de comparação os lingüistas do século xix propuseram a hipótese da existência de um parentesco entre essas e uma série de outras línguas sendo todas provenientes de uma língua préhistórica chamada indoeuropeuprimitivo Essa língua original não pode ser atestada historicamente já que não há registros de sua existência mas pode ser demonstrada por meio de comparações sistemáticas Dela se originam vários grupos de línguas que formam o chamado tronco lingüístico indoeuropeu4 a O grupo indoirânico com um ramo hindu que apresenta entre outras algumas línguas da índia como o védico e o sânscrito e um ramo irânico que compreende entre outros o afegão e o persa b O armênio c O albanês c O baltoeslavo com um ramo báltico composto pelo lituano o leto e o antigo prússio e um ramo eslavo que compreende o russo o búlgaro o esloveno e algumas outras línguas d O itálico dividido em itálico ocidental com o latim e as línguas dele derivadas e o itálico oriental já desaparecido que compreendia línguas como o osco e o umbro e O céltico contendo o celta continental representado pelo gaulês desaparecido e o celta insular que engloba principalmente o címbrico o bretão o irlandês e o escocês das Highlands f O germânico que possui um ramo setentrional que compreende as línguas escandinavas dinamarquês norueguês sueco islandês e feroês falada nas ilhas Feroé um ramo oriental já desaparecido representado entre outros pelo gótico ocidental e oriental e um ramo ocidental englobando o inglês o frisão o neerlandês e o alemão g O grego que reúne os antigos falares da Grécia e o grego moderno Com o desenvolvimento dos estudos comparatistas August Schleicher enriquece as propostas iniciais de Bopp e Grimm e aplica à lingüística as idéias de Darwin sobre a origem das espécies e a hipótese da seleção natural Em seu livro intitulado A teoria dariviniana e a lingüística Schleicher propôs que as línguas assim como as plantas e os animais nascem crescem envelhecem e morrem Isso explicaria o fato de as línguas antigas como o latim por exemplo desaparecerem deixando filhas o português o espanhol o italiano o francês e o romeno Essa concepção de que as línguas mudam em direção a uma espécie de envelhecimento ou deterioração foi combatida por uma segunda geração de comparatistas os chamados neogramáticos5 que propuseram uma visão de mudança uniformitária ou seja circular constante e não degenerativa Nas últimas décadas do século xix os neogramáticos influenciados pelo positivismo de Comte buscaram aproximar o método de pesquisa em lingüística dos das ciências naturais Diferentemente dos comparatistas anteriores apresentaram as leis fonéticas como processos mecânicos que não admitem exceção Quando as leis não se dão do modo esperado a causa está no processo de analogia que gera em determinadas palavras criações e modificações O processo analógico também era visto como um componente universal da mudança lingüística em todos os períodos da história e colocava um ingrediente cultural na visão naturalista dos primeiros comparatistas Como analogia os neogramáticos entendiam o processo segundo o qual a mente humana estabelecendo semelhanças entre formas originalmente distintas interfere nos movimentos naturais dos sons atrapalhando a atuação das leis fonéticas A palavra portuguesa campa sino por exemplo por ser proveniente do latim campana espécie de balança romana deveria ser pronunciada como campa seguindo a evolução campãa e campa Segundo alguns autores por analogia com a palavra campo o acento tônico se deslocou para a primeira sílaba enfraquecendo a nasalidade Esse é um exemplo de como a analogia pode modificar as tendências ditadas pela mudança fonética Outros exemplos de analogia podem ser vistos em casos como o da palavra portuguesa estrela que provém do latim stêlla adquirindo o r por analogia ou influência da palavra astro assim como a palavra floresta proveniente do latim tardio forestis que adquire o l por influência da palavra flor Outro mecanismo utilizado pelos neogramáticos para explicar a exceção referente às leis fonéticas foi o empréstimo ou seja a influência de uma língua sobre outra ou de um falar sobre outro dentro de uma mesma comunidade lingüística Um exemplo de empréstimo pode ser visto no francês em que além da palavra chef decorrente do latim caput cabeça de acordo com aplicação das leis fonéticas encontramos a palavra cap como na expressão depiedem cap que significa dos pés à cabeça A palavra cap viola as leis sonoras que seriam esperadas para a formação de palavras do francês a expectativa era a transformação da oclusiva kl em Isl apresentada anteriormente Ocorre que a forma cap foi tomada de empréstimo pelo francês ao provençal ao qual não se aplicavam as leis sonoras em questão O movimento dos neogramáticos apesar de muito criticado acabou por se tornar a proposta predominante na segunda metade do século xix tendo o mérito de apresentar as leis fonéticas que agiam segundo uma necessidade mecânica independentemente da vontade do indivíduo Além disso chamaram atenção para o fato de que as mudanças ocorrem no indivíduo que ao utilizar a língua efetiva as tendências mecânicas ou as evita utilizando processos analógicos Em outras palavras para esses lingüistas as mudanças são decorrentes de hábitos lingüísticos individuais Desse modo os neogramáticos voltam seus interesses não apenas para o estudo dos dados provenientes de documentos escritos mas também para a observação dos dialetos falados na época A gramática históricocomparativa não foi um movimento unificado como em geral ocorre com as escolas científicas Podese dizer que essa escola teve o mérito de desen volver um método empírico de comparação entre estágios de língua e de propor conceitos básicos acerca do funcionamento da linguagem sendo alguns deles ainda hoje adotados Rompendo com a tradição aristotélica que dominava os estudos lingüísticos até o século XVIII os comparatistas céticos em relação à universalidade proveniente de uma base lógica proposta pela gramática grega ressaltavam o caráter mutável das línguas Isso fez com que esses cientistas acreditassem que uma análise histórica seria mais adequada do que uma abordagem filosófica Assim a tradicional visão lógica e universal das línguas é substituída por uma abordagem de caráter social em que a arbitrariedade e as diferenças culturais passam a ser importantes Cientistas como Herder e Humboldt por exemplo chamavam atenção não apenas para a grande diversidade de estruturas lingüísticas mas também para a influência que essas estruturas exerciam sobre a organização do nosso pensamento e sobre a percepção que temos do mundo em que vivemos Essa concepção ficou conhecida como a tese do relativismo lingüístico segundo a qual cada língua reflete sua própria história não apresentando propriedades universais com exceção de alguns aspectos muito gerais como o fato de ser articulada de ser arbitrária e de apresentar variabilidade e possibilidade de mudança Levando em conta essas informações básicas sobre a gramática histórico comparativa podemos avaliar algumas de suas limitações no sentido de descrever do modo mais completo a estrutura gramatical das línguas Os comparatistas restringiam sua visão a uma abordagem histórica do funcionamento gramatical vendoo como o resultado de mudanças lingüísticas regulares Com isso deixavam de lado a descrição do funcionamento da língua como um fenômeno sincrônico ou seja como um sistema de comunicação utilizado em um momento específico do tempo por falantes que não conhecem e pelo menos aparentemente não precisam conhecer a evolução histórica da língua que utilizam mas que ainda assim se comunicam perfeitamente com seus interlocutores Apesar de a gramática históricocomparativa produzir um grande conhecimento acerca da história das línguas buscar observálas a partir de sua estrutura interna e trazer consideráveis avanços em termos metodológicos ela não chegou a construir uma teoria consistente sobre a estrutura do funcionamento das línguas naturais A corrente colocou sobretudo através dos neogramáticos a mudança lingüística no âmbito do indivíduo mas não explicitou de modo mais sistemático como os contextos de comunicação poderiam interferir no uso individual limitandose nesse sentido a descrever processos de analogia e empréstimo Além disso como Saussure mais tarde viria a salientar os comparatistas analisavam a língua em elementos isolados ocupandose em seguir suas transformações sem observar o funcionamento desses elementos dentro dos sistemas lingüísticos de que faziam parte uma abordagem que ficou conhecida como atomista De acordo com o lingüista suíço como o valor do elemento depende do papel que desempenha no sistema da língua não levar em conta esse fator constituiu uma falha e levou os comparatistas a conclusões precipitadas Gramática estrutural A tendência de analisar as línguas conhecida como gramática estrutural ou estruturalismo se desenvolveu na primeira metade do século xx sob a influência das idéias de Ferdinand de Saussure divulgadas através da publicação póstuma de seu livro o Curso de lingüística geral6 Essas idéias revolucionaram os estudos da época dando às pesquisas em lingüística sobretudo na Europa uma nova direção distinta da que caracterizava a gramática históricocomparativa Nos Estados Unidos o estruturalismo se desenvolveu através do trabalho de Leonard Bloomfield ver o capítulo Estruturalismo Assim como ocorre de um modo geral com as escolas lingüísticas a gramática estrutural não constitui um movimento unificado Entretanto podemos caracterizar essa escola em linhas gerais como uma tendência de descrever a estrutura gramatical das línguas vendoas como um sistema autônomo cujas partes se organizam em uma rede de relações de acordo com leis internas ou seja inerentes ao próprio sistema Para compreendermos bem essa definição é interessante lembrarmos a distinção entre langue eparole proposta por Saussure que como vimos é o precursor dessa tendência nos estudos da linguagem Saussure propunha que a langue constitui um sistema lingüístico de base social que é utilizado como meio de comunicação pelos membros de uma determinada comunidade Portanto para Saussure a Langue constitui um fenômeno coletivo sendo compartilhada e produzida socialmente Isso significa que a língua é exterior ao indivíduo sendo interiorizada coercitivamente por eles Isso nos leva ao conceito de parole que se refere ao uso individual do sistema Em outras palavras os falantes ao se comunicarem adaptam as restrições presentes no sistema de sua língua não apenas aos diferentes contextos de comunicação mas às suas preferências pessoais Dois fatos relacionados a essa dicotomia são importantes O primeiro a ser destacado é o fato de que Saussure ao caracterizar o conceito de langue empregou o termo sistema com uma intenção muito clara queria demonstrar que os elementos de uma língua não estão isolados mas formam um conjunto solidário Desse modo o lingüista genebrino propunha a impossibilidade de analisar os elementos lingüísticos isolados do sistema que eles compõem ressaltando assim a primazia do todo sobre suas partes Essa proposta constitui a base de toda a lingüística estrutural aceitando a idéia de que a língua é um sistema cumpre analisar sua estrutura ou seja o modo como esse sistema se organiza Daí surgiram os termos gramática estrutural e estruturalismo Desenvolvendo um pouco mais essa noção tão importante para a compreensão da concepção estrutural de gramática podemos relacionar a concepção saussuriana de sistema a três aspectos importantes a a existência de um conjunto de elementos b o fato de que cada elemento só tem valor em relação a outros organizandose solidariamente em um todo que deve sempre ter prioridade sobre as partes que contém c a existência de um conjunto de regras que comanda a combinação dos elementos para formar unidades maiores O fato de que as línguas apresentam um conjunto de elementos e que estes se unem formando unidades maiores não é a novidade dessa proposta Foi a idéia indicada no item b que melhor representou a proposta saussuriana e que serviu de base para o desen volvimento dos estudos posteriores A tendência comparatista de trabalhar com unidades isoladas é abandonada em favor de uma metodologia em que a relação entre os elementos dentro do sistema passa a ser essencial para a compreensão da estrutura das línguas O segundo fato a ser destacado em relação à dicotomia entre langue e parole é a atitude assumida por Saussure de propor a langue como objeto de estudo da lingüística retirando a parole do campo de interesse dessa ciência Para ele os atos comunicativos individuais são assistemáticos e ilimitados e uma ciência só pode estudar aquilo que é recorrente e sistemático No caso da linguagem a sistematicidade e a recorrência estão na langue que se mantém subjacente aos atos individuais Isso significa que na concepção saussuriana o estudo lingüístico deve deixar de lado os aspectos interativos associados ao ato concreto da comunicação entre os indivíduos restringindose a observar o conhecimento compartilhado que os interlocutores possuem e sem o qual a comunicação entre eles seria impossível o sistema lingüístico A questão é saber qual a natureza dos elementos formadores do sistema e como eles se agrupam para lhe dar uma estrutura peculiar Voltando aos três aspectos básicos associados à noção de sistema apresentados anteriormente podemos dizer que a análise estrutural das línguas busca descrever cada um deles Assim ao analisar uma língua o estruturalista busca constatar que elementos constituem o sistema daquela língua assim como observar como eles se organizam dentro desse sistema e como eles se unem para formar unidades maiores Como esses dados se concretizam de modo diferente em línguas diferentes a gramática estrutural via nesse processo uma natureza convencional e se limitava a descrever as diferentes línguas Para compreendermos melhor esse ponto tomemos alguns exemplos relacionados ao sistema fonológico das línguas Cada língua exibe um conjunto de sons que lhe é peculiar Algumas línguas africanas como o zulu e o hotentote apresentam em seu sistema de consoantes cliques ou estalidos ou seja sons obtidos basicamente pela sucção da língua contra céu a boca Isso é totalmente estranho para os falantes de português podemos emitir sons desse tipo para demonstrar irritação por exemplo mas eles não constituem fonemas de nossa língua Do mesmo modo o som inicial da palavra inglesa think e o som final da palavra alemã ich não existem em português ou em francês Por outro lado cada língua organiza diferentemente em seu sistema os sons que a compõem de modo que os mesmos sons que constituem fonemas diferentes em uma língua se apresentem como meras variantes de pronúncia em outras Um exemplo de como isso ocorre pode ser visto na oposição de timbre abertofechado pôde pretérito perfeito do verbo poder é uma palavra diferente de pode presente do mesmo verbo se trocarmos o timbre fechado da vogai tônica ô do substantivo almoço pelo timbre aberto ó a palavra se torna um verbo eu almoço Essa distinção típica do português não se dá em outras línguas como o espanhol por exemplo Um terceiro ponto é o modo como os sons se juntam para formar palavras Cada língua processa esse mecanismo de modo diferente Assim se quisermos criar em nossa língua uma palavra para designar um novo objeto essa palavra não poderia ser por exemplo slamro já que não são típicos do português encontros consonantais como sl e mr Portanto há limitações quanto às possibilidades de união de sons para formar palavras e essas restrições são diferentes de língua para língua Em inglês por exemplo a combinação sl é possível como podemos ver em palavras inglesas como slim magro ou slumber dormir8 Agora podemos compreender melhor a definição de gramática estrutural apresentada anteriormente como uma tendência de descrever a estrutura gramatical das línguas vendoas como um sistema autônomo cujas partes se organizam em uma rede de relações internas A retirada da parole restringiu as análises aos fatores de natureza estrutural que se resumem aos elementos que compõem uma determinada língua o modo como eles se estruturam internamente e as restrições que caracterizam sua combinação para formar unidades maiores Como esses fatores diferem de língua para língua a tendência estruturalista é descrever o que ocorre em cada sistema lingüístico Costumase relacionar o movimento estruturalista com a corrente filosófica do empirismo que pode ser identificada por três características básicas 1 Condiciona o conhecimento à experiência Segundo o empirismo o espírito é uma tábua rasa em que se grava a experiência As idéias que constituem nossa estrutura cognitiva são representações mentais das impressões que captamos do mundo com nossas sensações e o comportamento humano de um modo geral é uma conseqüência do contato com o mundo e das experiências que emergem desse contato Inicialmente é importante ressaltarmos que Saussure negava a existência de uma estrutura inata de pensamento adjacente às línguas Para ele o homem possui a capacidade da linguagem mas a estrutura da linguagem é arbitrária cultural e é ela que dita o pensamento e não viceversa De acordo com Saussure o homem seria incapaz de pensar sem o auxílio dos signos Podemos ver um interessante exemplo da concepção empirista na lingüística em uma proposta acerca da relação entre linguagem e percepção do mundo conhecida como hipótese de SapirWhorfou hipótese da relatividade lingüística O lingüista norte americano Edward Sapir e seu discípulo Benjamin Lee Whorf influenciados pelas idéias de Herder e Humboldt propuseram a hipótese de que cada língua possui uma maneira peculiar de interpretar a realidade ressaltando que a linguagem é fundamental para a organização do nosso pensamento e da concepção que temos do mundo que nos cerca Segundo essa visão o mundo tal como o concebemos reflete hábitos de linguagem construídos culturalmente por um determinado grupo social Os humanos interpretam a realidade criando diferentes categorias porque são parte de um acordo para interpretála e organizála dessa maneira Essa concepção nega a existência de um mundo real já pronto e de uma linguagem que apenas criaria símbolos verbais para expressálo como queria a tradição grega A hipótese de SapirWhorf propõe então que o mundo em que vivemos é um ambiente criado socialmente pelos humanos através da linguagem e que as línguas naturais mais do que um conjunto de símbolos para expressar idéias já existentes na mente dos indivíduos funcionam como um guia para a atividade mental Segundo a hipótese o vocabulário das línguas indica bem esse processo Os esquimós apresentam várias palavras para indicar diferentes tipos de neve enquanto o português por exemplo apresenta apenas uma Há línguas africanas que possuem apenas uma palavra para designar as cores verde e azul por exemplo Isso significaria que os esquimós através de sua língua se habituaram a ver na realidade diferentes tipos de neve Por outro lado os falantes dessas línguas africanas entendem que aquilo que nós falantes de português identificamos como cores diferentes azul e verde não passam de tonalidades da mesma cor como o azul claro e o azul escuro para nós Segundo Sapir e Whorf se culturas diferentes veem a realidade de formas diferentes conceitos como os de neve verde ou azul não estão na realidade em si mas na visão que temos dela Essa concepção se opõe de modo radical à proposta de universalidade do pensamento lógico que está na base do racionalismo aristotélico 2 Utiliza o método indutivo Os empiristas não partem de hipóteses estabelecidas em suas análises Suas conclusões são conseqüentes da análise dos dados uma vez que esse método parte dos dados para as conclusões e apenas o que pode ser comprovado pelos dados é admitido como verdade O raciocínio indutivo que parte dos dados para chegar à lei geral pode ser ilustrado do seguinte modo O ferro o cobre e o zinco conduzem eletricidade O ferro o cobre e o zinco são metais Logo metal conduz eletricidade Podemos notar que a primeira premissa O ferro o cobre e o zinco conduzem eletricidade é mais restrita em termos de seu conteúdo uma vez que se restringe a três tipos de metal Essa premissa associada à segunda leva a uma verdade mais geral metal conduz eletricidade A indução como método científico se constitui basicamente das seguintes etapas a observação e o registro dos fatos observados a análise e a classificação desses fatos a elaboração indutiva de uma generalização a partir dos dados a verificação adicional dessas generalizações O método portanto consiste na elaboração de uma teoria a partir da observação dos fatos atribuindo universalidade ao que foi constatado nos dados observados Ou seja o conjunto limitado de dados analisados serve de base para a elaboração de regras aplicáveis a dados novos Esse é o problema desse método uma experiência feita em relação a um conjunto de dados só pode ser aplicada a esse conjunto de dados e a criação de verdades universais pode não ser válida por ser parcial Isso nos leva à terceira característica do empirismo em lingüística 3 Apresenta um caráter descritivo e não universalista Os empiristas assumem uma atitude taxionômica buscando descrever as características de seu objeto de estudo sem detectar aspectos mais gerais que expliquem seu funcionamento no sentido de prever fenômenos novos Os dados lingüísticos são diferentes de língua para língua logo cabe ao lingüista descrever cada língua separadamente apresentando suas peculiaridades Analisando o que vimos até agora sobre a gramática estrutural podemos estabelecer alguns comentários As limitações dessa proposta teórica estão associadas sobretudo aos seus métodos de base empirista que descreviam bem as diferentes línguas mas tinham dificuldade em explicar existência de universais lingüísticos Esse foi um passo importante dado pela próxima proposta teórica que apresentaremos a gramática gerativa Além disso ao colocar de lado a parole Saussure isolou a linguagem dos indivíduos que a utilizam dandolhe vida independente Com isso o estruturalismo promove a exclusão do sujeito e de sua criatividade para adaptar sua fala aos diferentes contextos retirando do âmbito dos estudos lingüísticos fenômenos sociointerativos que pelo menos para alguns lingüistas modernos se mostraram fundamentais para a compreensão da natureza da linguagem Gramática gerativa Na década de 1950 ou mais precisamente em 1957 com a publicação do livro Estruturas sintáticas9 pelo lingüista norteamericano Noam Chomsky ocorre uma nova revolução no modo como a linguagem é analisada através do surgimento da chamada gramática gerativa ver capítulo Gerativismo Seu fundamento está centrado em uma profunda crítica ao behaviorismo representado no clássico trabalho de Skinner intitulado Verbal Behavior 195710 obra profundamente marcada pela postura mecanicista do empirismo Chomsky ressalta o componente criativo da linguagem humana indicando o papel primordial desempenhado por determinados processos mentais que são inerentes à nossa espécie A natureza da linguagem é assim relacionada à estrutura biológica humana e a teoria lingüística passa a ter o objetivo de explicar o funcionamento de um órgão mental particular responsável pelo funcionamento da linguagem humana O papel do estímulo externo fica restrito à função de ativar o funcionamento desse órgão mental o que se dá através da experiência do indivíduo em contato constante com a língua da comunidade em que nasceu Ou seja a experiência estimula a faculdade da linguagem já prevista na estrutura biológica humana a criar uma gramática que respeitando seus princípios básicos gera frases com propriedades formais e semânticas Então podemos dizer que a gramática gerativa analisa a estrutura gramatical das línguas vendoa como o reflexo de um modelo formal de linguagem preexistente às línguas naturais e faz desse modelo o próprio objeto de estudo da lingüística Os fenômenos lingüísticos analisados constituem o material no qual os argumentos são baseados Nessa nova perspectiva a linguagem passa a ser vista como reflexo de um conjunto de princípios inatos e portanto universais referentes à estrutura gramatical das línguas Desse modo as línguas naturais como o português o japonês o swahili e o carajá11 por exemplo embora sejam bastante diferentes em sua aparência apresentam muitas semelhanças em sua essência já que refletem os mesmos princípios inatos que regem o funcionamento gramatical das línguas Dois princípios teóricos básicos caracterizam a concepção gerativa de gramática O primeiro deles é o chamado princípio do inatismo segundo o qual existe uma estrutura inata constituída de um conjunto de princípios gerais que impõem limites na variação entre as línguas e que se manifestam como dados universais ou seja presentes em todas as línguas do mundo Esse conjunto de princípios é chamado pelos gerativistas de gramática universal GU O esquema abaixo busca ilustrar como se dá esse fenômeno GU sU DADOS DA EXPERIÊNCIA LINGÜÍSTICA 4 sl português japonês swahili carajá De acordo com esse esquema a GU transmite princípios gramaticais básicos para as diferentes línguas naturais como o português o swahili o carajá ou qualquer outra língua natural Isso significa não apenas que essas línguas exibem um conjunto de fatores em comum mas também que elas apresentam diferenças que estão previstas dentro do leque de opções disponíveis na própria GU e que são ativadas conforme a experiência lingüística do sujeito em contato com sua língua ambiente O segundo princípio gerativista é o princípio da modularidade da mente que prevê que nossa mente é modular ou seja constituída de módulos ou partes caracterizados como sistemas cognitivos diferentes entre si que trabalham separadamente Em outras palavras cada um desses módulos da mente responde pela estrutura e desenvolvimento de uma atividade cognitiva Um módulo se relaciona por exemplo à nossa capacidade de armazenar informações na memória outro é responsável pela coordenação motora outro pela faculdade da linguagem e assim por diante A essência da idéia da modularidade está no fato de que esses módulos atuam separadamente de maneira que cada um deles só tem contato com o resultado final do trabalho dos outros A noção de modularidade se manifesta nos estudos referentes à relação entre cérebro e linguagem através de uma proposta chamada localista Essa proposta caracteriza pesquisas que partem do princípio de que as atividades mentais entre elas a linguagem podem ser localizadas em partes específicas do cérebro ao contrário da proposta conexionista que admite ser o cérebro um processador mais geral Esse raciocínio se estende para os diferentes níveis ou componentes da gramática que devem ser analisados como módulos autônomos independentes entre si Ou seja o funcionamento do módulo relativo à sintaxe independe das operações relacionadas à fonologia por exemplo E interessante registrar que Chomsky introduz nos estudos lingüísticos a noção de cognição12 acentuando a importância da natureza da mente humana e dos princípios gerais inatos que a caracterizam para a compreensão do fenômeno da linguagem A noção gerativista de cognição está associada à especificidade biológica da linguagem humana isto é ela propõe que a linguagem é regulada por fatores associados ao desenvolvimento de uma capacidade inerente à nossa estrutura genética e que se dissocia de outras capacidades mentais referentes ao processamento de informações ou à inteligência de um modo geral Outro aspecto importante para a caracterização da gramática gerativa está no fato de que Chomsky o criador dessa tradição propôs uma distinção entre competência e desempenho O autor define competência como a capacidade em parte inata e em parte adquirida que o falante possui de formular e compreender frases em uma língua e caracteriza o desempenho como a utilização concreta dessa capacidade Apenas no conhecimento se encontra o módulo da linguagem já que no desempenho o único que é observável diretamente podemos notar vários módulos em interação como linguagem memória emoção concentração entre outros Cabe mencionar que Chomsky assume uma posição semelhante à de Saussure ao sustentar que o objeto de estudo da lingüística deve ser a competência e não o desempenho Isso significa que mais uma vez o sujeito como usuário real da língua e suas habilidades sociointerativas ficam de fora dos estudos lingüísticos Chomsky propõe portanto uma noção idealizada de competência característica de um falante ouvinte igualmente idealizado que utilizaria de modo regular seu conhecimento lingüístico independentemente das diferentes situações reais de comunicação É importante ressaltar que essa postura de priorizar a competência surgiu nos primeiros momentos da evolução dos estudos gerativos Podese dizer que com a proposta minimalista última versão da teoria proposta por Chomsky em 1995 tem ocorrido uma aproximação entre teorias do uso desempenho e do conhecimento lingüístico já que o próprio Chomsky começa a caracterizar a derivação de estruturas levando em conta fatores como memória de trabalho e complexidade estrutural por exemplo que a rigor estão mais relacionados ao desempenho Entretanto podese dizer que a distinção entre competência e desempenho ainda existe para os gerativistas como uma necessidade conceituai diferenciando aquilo que as pessoas sabem daquilo que as pessoas efetivamente fazem Costumase relacionar o movimento gerativista com a corrente filosófica do racionalismo que pode ser identificada por três características básicas 1 A razão é fonte do conhecimento existem idéias inatas Os racionalistas baseiam o conhecimento na razão e não só na experiência ou seja acreditam na existência de uma estrutura mental inata que caracteriza o conhecimento Considerando as línguas naturais o reflexo de princípios inatos e autônomos em relação a outras formas de conhecimento os gerativistas privilegiaram em suas análises a busca de aspectos lingüísticos universais tendendo portanto a deixar de lado as questões sociais e interativas que caracterizam de modo mais localizado o uso concreto da língua nas situações reais de comunicação O papel da experiência como mencionamos anteriormente fica restrito à mera estimulação do desenvolvimento dos princípios gramaticais para uma ou outra direção já prevista na própria GU 2 Utiliza o método dedutivo Os racionalistas em suas análises partem de hipóteses estabelecidas e vão aos dados confirmar ou não essas hipóteses13 O método dedutivo parte de uma verdade universal para chegar a uma verdade menos universal Eis um exemplo de um raciocínio dedutivo Todos os humanos são mortais Os gregos são humanos Logo os gregos são mortais O fato de que Todos os humanos são mortais constitui uma verdade mais geral do que o fato de que Os gregos são mortais estando este fato contido naquele desde que se leve em conta que Os gregos são humanos Chomsky utiliza um raciocínio desse tipo Lobato 1986 enumera as etapas do raciocínio chomskyano que parte das seguintes premissas a estrutura física do corpo humano é geneticamente determinada e os sistemas motor e perceptivo são modulares os órgãos mentais podem ser estudados nas mesmas bases em que se estudam os órgãos físicos e os sistemas motor e perceptivo Essas duas premissas levam à seguinte conclusão as teses do inatismo e da modularidade adotadas para o estudo da estrutura dos corpos podem ser estendidas ao estudo dos órgãos mentais e da linguagem 3 Apresenta um caráter explicativo e universalista O racionalismo transcende o nível da pura descrição formulando hipóteses teóricas a partir dos dados analisados de modo que se pode predizer dados novos e não apenas avaliar os já analisados A noção de gramática universal dá aos gerativistas uma ferramenta teórica que o estruturalismo não possuía fornecendo aos lingüistas a possibilidade de observar o que há de universal nas línguas Isso possibilita a criação de uma expectativa específica em relação ao que se espera encontrar em novos dados ou seja dados que ainda não foram analisados em uma determinada língua ou mesmo em uma língua que ainda não foi objeto de análise lingüística As informações referentes à gramática gerativa até aqui apresentadas nos permitem elaborar alguns comentários Essa escola lingüística deixou para trás uma concepção empirista de linguagem que não conseguia dar conta da aquisição e do uso das línguas demonstrando de forma definitiva a existência de mecanismos inatos subjacentes a esses processos Demonstrou que os humanos não decoram por estímulo externo as frases que utilizam ressaltando a criatividade humana para a linguagem no sentido de que somos capazes de criar um número infinito de frases a partir de princípios básicos finitos Com isso a lingüística deu um importante passo na direção de uma teoria capaz não apenas de descrever indutivamente um conjunto de dados observados mas de prever dados novos ou seja uma teoria não é apenas descritiva mas explicativa Por outro lado os gerativistas focalizando a competência em detrimento do desempenho mais uma vez deixam de lado aspectos de ordem sociointerativa associados à linguagem Nesse sentido mantémse a noção de linguagem como um sistema autônomo indiferente aos interesses do sujeito que o utiliza e às características do ambiente social em que atua Essa noção de linguagem associada à lógica universal que ressalta nossa capacidade de criar um número infinito de frases não leva em conta a perspectiva de quem produz o discurso ou sua criatividade ao adaptar sua fala aos diferentes contextos comunicativos não dando conta adequadamente de traços básicos associados às línguas como variação e mudança Esses aspectos serão abordados pelas escolas que apresentaremos a seguir as quais convivem hoje com a tradição gerativa dando ênfase aos aspectos sociointerativos considerados pelos gerativistas menos importantes para a compreensão do fenômeno da linguagem Gramática cognitivofuncional Antes de tecermos qualquer consideração acerca desse tipo de gramática queremos registrar que estamos utilizando o termo cognitivofuncional14 para designar um conjunto de propostas teóricometodológicas que caracterizam algumas escolas de natureza relativamente distinta que adotando princípios distintos dos que caracterizam o formalismo gerativista apresentam alguns pontos em comum observam o uso da língua considerandoo fundamental para a compreensão da natureza da linguagem observam não apenas o nível da frase analisando sobretudo o texto e o diálogo têm uma visão da dinâmica das línguas ou seja focalizam a criatividade do falante para adaptar as estruturas lingüísticas aos diferentes contextos de comunicação consideram que a linguagem reflete um conjunto complexo de atividades comunicativas sociais e cognitivas integradas com o resto da psicologia humana isto é sua estrutura é conseqüente de processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem significados em situações de interação com outros indivíduos Podemos dizer que de um modo amplo essas características se adaptam a escolas como o funcionalismo norteamericano ou europeu a lingüística sociocognitiva a lingüística textual a sociolinguística a lingüística sociointerativa entre outras Cada uma dessas escolas à sua maneira e com seus objetivos peculiares adota algumas dessas características ou todas elas ver capítulos Funcionalismo Lingüística cognitiva e Lingüística textual Feitas essas considerações podemos afirmar que em linhas gerais a gramática cognitivofuncional alarga o escopo dos estudos lingüísticos para além dos fenômenos estruturais e que portanto seu ponto de vista é distinto Esse tipo de gramática analisa a estrutura gramatical assim como as gramáticas estrutural e gerativa mas também analisa a situação de comunicação inteira o propósito do evento de fala seus participantes e seu contexto discursivo Segundo essa concepção portanto a situação comunicativa motiva a estrutura gramatical o que significa que uma abordagem estrutural ou formal não é apenas limitada a dados artificiais mas inadequada como análise estrutural Em outras palavras no uso da língua determinados aspectos de cunho comunicativo e cognitivo são atualizados e se queremos compreender o funcionamento da linguagem humana temos de levar em conta esses aspectos Isso significa que segundo essa concepção de gramática não se pode analisar a competência como algo distinto do desempenho ou nos termos funcionalistas a gramática não pode ser vista como independente do uso concreto da língua ou seja do discurso Quando falamos valemonos de uma gramática ou seja de um conjunto de procedimentos necessários para através da utilização de elementos lingüísticos produzirmos significados em situações reais de comunicação Mas ao adaptarmos esses procedimentos aos diferentes contextos de comunicação podemos remodelar essa gramática que na prática seria o resultado de um conjunto de princípios dinâmicos que se associam a rotinas cognitivas e interativas moldadas mantidas e modificadas pelo uso Assim temos entre discurso e gramática uma espécie de relação de simbiose15 o discurso precisa dos padrões da gramática para se processar mas a gramática se alimenta do discurso renovandose para se adaptar às novas situações de interação O esquema abaixo ilustra esse processo 71 GRAMÁTICA DISCURSO R Essa é uma visão dinâmica da gramática que prevê a atuação de mecanismos expressivos associados à subjetividade dos falantes que recriam padrões gramaticais a fim de conferir força informativa ao discurso Da ritualização conseqüente da repetição desses novos padrões emerge a gramática Entretanto esse mecanismo não é arbitrário já que reflete dois tipos de habilidades essencialmente humanas que regulam a atividade verbal estando portanto de algum modo relacionado à gramática das línguas O primeiro deles tem natureza sociointerativa e se relaciona com nossa habilidade de compartilhar informações com nossos semelhantes e de nos engajarmos em atividades compartilhadas cuja compreensão é fundamental para o processo comunicativo Imaginemos por exemplo que um cliente retorne a uma loja de eletrodomésticos onde acabou de comprar uma televisão e tenha o seguinte diálogo com o vendedor Cliente Esta televisão não está funcionando Vendedor Não há problema senhor Vamos providenciar a troca do aparelho Obviamente o vendedor não vai entender a frase dita pelo cliente como uma mera informação Naquele contexto específico a frase só pode ser compreendida como um pedido para que o aparelho seja trocado por outro que funcione Aspectos da interpretação dos enunciados do tipo exemplificado são eminentemente interacionais e requerem o conhecimento de práticas sociais A primeira vista questões como essas parecem simples e localizadas apenas a alguns tipos de contexto de uso mas na prática estão na base de toda comunicação lingüística que na visão cognitivofuncional não existiria sem elas O segundo tipo de habilidade está relacionado a aspectos do funcionamento da nossa mente que interferem no modo como processamos as informações e consequentemente no discurso Nossa capacidade de ver e interpretar o mundo assim como nossa habilidade de transferir dados de determinados domínios da experiência para outros se manifesta na maneira como formamos nossas frases É o que acontece com a chamada metáfora espaço discurso que está na base da gramaticalização de alguns conectivos do português Tratase de uma transferência para o domínio do texto de nossas experiências sensóriomotoras da observação que fazemos do movimento dos corpos no espaço e dos aspectos espaciais e temporais relacionados a esses movimentos Isso faz com que utilizemos muito freqüentemente elementos dêiticos espaciais para nos referirmos a partes do texto O exemplo apresentado abaixo ilustra bem o processo O tempo fechou Isso vai me fazer usar o guardachuva O pronome isso que originalmente funciona como um dêitico localizando os objetos no espaço físico e tendo como referência a localização dos participantes do ato da comunicação passa a se referir no exemplo acima a uma informação mencionada dentro do texto o tempo fechou O que temos aqui é uma extensão da dêixis espacial para a dêixis textual procedimento altamente produtivo nas línguas naturais a organização espacialtemporal do mundo físico é usada analogicamente para caracterizar o universo mais abstrato do texto A partir desse valor anafórico o vocábulo pode desenvolver função de conjunção É o que ocorre com isso que associado à preposição por passa a ser usado como conjunção conclusiva O tempo fechou por isso usei o guardachuva Esse é um processo altamente produtivo nas línguas e os lingüistas que trabalham com a perspectiva cognitivofuncional associamno a um fenômeno mais geral segundo o qual a experiência humana mais básica que se estabelece a partir do corpo fornece as bases de nossos sistemas conceptuais A dêixis está associada à localização por parte do falante de um objeto que está em seu campo de visão tendo como base a sua localização no espaço e a localização do interlocutor Esse processo pode ser transferido para o mundo do texto o falante localiza para seu interlocutor partes do texto que por alguma questão comunicativa quer focalizar Isso caracteriza a perspectiva filosófica do chamado realismo corporificado Ocorre que nosso primeiro contato com o mundo se dá através dos nossos sentidos corporais e a partir daí algumas extensões de sentido são estabelecidas Segundo esse ponto de vista nossa estrutura corporal é extremamente importante já que a percepção que temos do mundo é limitada por nossas características físicas Segundo essa concepção a mente não pode ser separada do corpo o pensamento é corporificado no sentido de que a sua estrutura e sua organização estão diretamente associadas à estrutura de nosso corpo bem como às nossas restrições de percepção e de movimento no espaço ver capítulo Lingüística cognitiva O realismo corporificado pode ser identificado por três características básicas 1 Abandona a dicotomia empirismo vs racionalismo A corrente cognitivofuncional segundo Ferrari 2001 propõe que as dicotomias tradicionais do tipo racionalismoempirismo ou inatoaprendido devem ser repensadas já que é difícil distinguir com exatidão o que é inato do que é aprendido A autora argumenta que pesquisas recentes sugerem que bebês aprendem parte do sistema entoacional de suas mães no útero e isso desafia a distinção entre inato e aprendido já que nesse caso tal sistema é aprendido e a criança já nasce com ele O mesmo se dá para a dicotomia relativismofundacionalismo A gramática cognitivofuncional adota a concepção de que realmente existem universais conceptuais mas eles apenas motivam os conceitos humanos não tendo a capacidade de prevêlos de modo determinante Ou seja esses universais conceptuais não delineiam de modo fechado e definitivo o pensamento humano já que por se concretizarem em situações reais de interação social sua natureza admite a influência de fatores socioculturais Isso significa que na concepção cognitivofuncional o uso da linguagem implica restrições provenientes de nossa capacidade de atenção de percepção de armazenamento de informações na memória de simbolização de transferência entre domínios da realidade entre outras atividades que não são estritamente lingüísticas mas que estão altamente conectadas ao processo comunicativo Tratase portanto de uma visão integradora do fenômeno da linguagem que propõe não haver necessidade se distinguir conhecimento lingüístico de conhecimento não lingüístico ou seja de se dotar de uma visão modular da mente humana Admitindo a influência de fatores externos sobre estrutura lingüística a lingüística cognitivofuncional associa os conceitos humanos à época à cultura e até mesmo a tendências individuais que se manifestam no uso da língua Ou seja aspectos de ordem cultural incidem sobre parâmetros biológicos de modo que o comportamento humano somente poderia ser caracterizado por uma relação entre biologia e cultura 2 Incorpora o método abdutivoanalógico De acordo com Givón 1995 as concepções estruturalista e gerativista de gramática têm adotado as posições de filósofos reducionistas mantendose entre os dois extremos a indução que caracteriza o estruturalismo de Saussure na Europa e Bloomfield nos EUA e a dedução que caracteriza o gerativismo de Chomsky Uma nova tendência tem sido observar que nenhum dos extremos é viável e que a ciência empírica envolve um misto de muitas estratégias O método dedutivo por exemplo é utilizado basicamente na testagem de hipóteses e na observação das possíveis implicações delas advindas E também utilizado na elaboração de testes e no momento de decidir se os resultados são ou não compatíveis com as hipóteses O método indutivo é utilizado basicamente para se chegar a novos conheci mentos a partir da observação dos dados podendo também ser usado na testagem de hipóteses selecionando uma amostra a ser observada Nesse caso a inferência indutiva permite generalizar os resultados da população desde que a amostra represente tendências claramente estáveis Um terceiro tipo de raciocínio é o abdutivoanalógico responsável por novas hipóteses e novos insights teóricos O filósofo e lógico norteamericano Charles Sanders Peirce propôs que o raciocínio assim como o discurso também se realiza através de um método que ele chamou de abdução Esse método consiste em uma espécie de intuição que se dá passo a passo até chegar à conclusão ou seja o método caracteriza se pela busca da conclusão através da interpretação de sinais de indícios e de signos Peirce apresenta como exemplo desse método o trabalho dos detetives em contos policiais que vão juntando indícios até concluírem o caso com a identificação do criminoso E também o método que por exemplo os arqueólogos utilizam quando trabalhando com vestígios de antigas civilizações descobertos por meio de escavações buscam criar o quadro completo referente à sua estrutura políticosocial O método abdutivoanalógico é bastante característico da gramática cognitivo funcional e pode ser visto como um mecanismo inerente aos processos de aquisição e uso da língua assim como um tipo de procedimento científico utilizado com a finalidade de formular hipóteses Com relação ao uso da língua podemos perceber que qualquer enunciado pode apresentar sentidos diferentes dependendo da situação em que é proferido A frase Ronaldo pisou na bola por exemplo pode ter um sentido literal em que Ronaldo é um jogador de futebol que realmente cometeu esse erro ou um sentido não literal ou metafórico em que Ronaldo é uma pessoa qualquer não necessariamente um jogador de futebol que agiu de modo errado em alguma situação O que conduz o usuário da língua a uma ou outra dessas possibilidades é a inferência que ele faz a partir dos dados contextuais de que ele dispõe no momento da comunicação Esses dados sugerem que no uso da língua o usuário trabalha com generalização de informações tentando estabelecer relações estáveis entre as estruturas lingüísticas e os efeitos que as caracterizam nos diferentes contextos de uso Desse modo o usuário pode inferir dentro dos valores possíveis da estrutura aquele que melhor se adapta ao contexto ou entre as estruturas possíveis a que naquele contexto vai causar o efeito desejado Vejamos agora a abdução como um método empregado pela gramática cognitivofuncional para formular suas hipóteses básicas Essa concepção de gramática tende a se basear em intuição analogia e abdução o que é compreensível em função da grande preocupação dessa escola com a explanação Vejamos o seguinte raciocínio baseado em Givón 1995 referente à hipótese da função comunicativa das estruturas sintáticas Problema Existem variações possíveis de uma mesma estrutura sintática que não podem ser explicadas por uma perspectiva teórica que observa aspectos estritamente estruturais da língua Hipótese Se partirmos do princípio de que as diferentes estruturas lingüísticas possuem diferentes funções comunicativas seu comportamento pode ser cientificamente previsto Abdução A teoria lingüística deve incorporar a hipótese anterior ampliando o seu foco para além dos fenômenos meramente estruturais Esse método reflete um procedimento abdutivo no sentido de que não há uma implicação necessária entre as três etapas do raciocínio mas uma relação de possibilidade Apresentase um problema há uma incompatibilidade entre a teoria científica existente e determinados fatos observados Entretanto como esses fatos são compatíveis com uma nova hipótese que ainda deverá ser testada esta pode ser utilizada como ponto de partida Mas ainda temos outro problema como caracterizar a função dessas estruturas Não podemos esquecer que funções são entidades mentais não observáveis Para compreendermos isso pensemos em um dos sentidos básicos do termo função a finalidade com que um falante utiliza a linguagem alguém diz algo a fim de atingir um objetivo Em lingüística a intenção ou o propósito não podem ser detectados Como podemos dizer com toda certeza o que o falante exatamente pretende com sua fala Como podemos dizer que o falante tem uma intenção consciente quando fala Na verdade não podemos o que significa dizer que as noções de função e motivação adaptativa são construtos abdutivos Desse modo temos de estabelecer uma relação estável entre as funções não detectáveis e os contextos pragmáticodiscursivos que são mais objetivamente observáveis através principalmente da observação da repetição sistemática dessa relação E esse é o procedimento básico da gramática cognitivofuncional A explicação teórica é também pelo menos em princípio uma noção pragmática não só porque implica raciocínio dedutivo mas porque sempre busca colocar o fenômeno observado em um contexto maior o que só é possível através de procedimento abdutivo e nunca a partir de um procedimento meramente indutivo ou dedutivo 3 Apresenta um caráter explicativo e universalista Como vimos Chomsky demonstrou definitivamente que o paradigma empirista não é capaz de explicar a aquisição e o uso das línguas Assim a gramática gerativa propõe o princípio do inatismo buscando dar conta da existência de um lado dos universais lingüísticos e de outro da facilidade que toda criança tem de aprender uma língua Esse quadro teórico objetiva explicar dados novos além de descrever os já observados A lingüística cognitivofuncional caracterizase por uma tendência semelhante Adota a idéia de que existem universais conceptuais partindo para uma tendência explicativa e não apenas descritiva do fenômeno da linguagem O universalismo da proposta cognitivofuncional entretanto é diferente do universalismo gerativista porque sua procedência não está apenas na biologia mas em uma relação equilibrada entre biologia e cultura A tendência entre os cientistas que adotam a perspectiva cognitivofuncional é aceitar a existência de universais conceptuais Por outro lado esses cientistas também aceitam o fato de que existem conceitos que diferem de língua para língua Em função disso eles tendem a adotar uma terceira posição em relação ao problema baseandose na observação empírica dos fatos lingüísticos Concluindo o que foi visto até aqui podemos dizer que o modo como compre endemos os fenômenos associados à gramática das línguas mudou ao longo dos anos desde a gramática grega até as escolas mais modernas da lingüística de uma concepção filosófica que relacionava sem comprovações empíricas a lógica do pensamento com a linguagem até o surgimento da lingüística no século xix quando foram incorporados procedimentos científicos característicos da chamada ciência moderna surgida no século XVII Com a evolução dos estudos essas concepções foram sendo aperfeiçoadas abandonadas e até mesmo retomadas em função de novas descobertas científicas Atualmente existem duas grandes tendências em lingüística A tendência gerativista com sua visão biológica da linguagem cuja abordagem privilegia os aspectos formais das línguas e a cognitivofuncional que considera o uso da língua importante para a compreensão da estrutura das línguas propondo uma relação entre biologia e cultura Exercícios 1 Comente o conceito de gramática apresentado a seguir É uma disciplina didática por excelência que tem por finalidade codificar o uso idiomático dele induzindo por classificação e sistematização as normas que em determinada época representam o ideal da expressão correta Rocha Lima 1976 5 2 As correspondências fonéticas abaixo são compatíveis com a lei de Grimm Justifique caput latim kephalê grego head inglês cornü latim keras grego bom inglês 3 Nos exemplos que seguem podemos observar processos analógicos cheminé chaminé por influência de chama camion caminhão por influência de caminho Apresente outros exemplos de analogia 4 Ao apresentar a dicotomia entre langue e parole Saussure propôs que a langue deve ser o objeto de estudo da lingüística deixando de fora a parole como atividade lingüística individual Que críticas podem ser feitas a essa atitude à luz da lingüística cognitivofuncional 5 Que escola lingüística a afirmação a seguir caracteriza Justifique sua resposta As línguas naturais são adquiridas e faladas espontaneamente apenas pelos membros da espécie humana ou seja por organismos com um determinado tipo de específico de estrutura e organização mental Parece pois difícil escapar à conclusão de que as propriedades essenciais da linguagem são diretamente determinadas por propriedades mentais dos seres que as falam e que estudar a linguagem humana consiste em estudar determinadas propriedades da mente humana radicadas em última instância na organização biológica da espécie Raposo 1992 6 Apresente uma definição de a princípio do inatismo b princípio da modularidade da mente 7 Quais as principais diferenças existentes entre a gramática gerativa e a gramática cognitivofuncional 8 Defina o método indutivo e diga a que conceito de gramática esse método costuma ser relacionado Notas 1 O ático passa a ser dialeto oficial da Grécia como conseqüência da hegemonia política e cultural de Atenas na Grécia conquistada por sua participação nas guerras contra os persas 2 Os símbolos Isl e Ikl representam respectivamente o som de cher ou cheiro em português e o som de capo ou couro em português 3 Grimm não foi o primeiro a perceber as correspondências sistemáticas entre as consoantes germânicas e as indo europeias O dinamarquês Rasmus Rask já havia notado tal correspondência Rask aliás divide com Bopp o status de fundador da gramática históricocomparativa Seu trabalho é anterior ao de Bopp embora tenha sido publicado depois em 1818 dois anos após a publicação de Bopp e não inclui o sânscrito em suas comparações 4 Esse conjunto de grupos de línguas é baseado em Malmberg 1974 5 Movimento surgido na Universidade de Leipzig que teve como representantes principais Karl Brugmann Hermann Osthoff Berthold Delbrück Jakob Wackernagel e Herman Paul Esse movimento apresentava severas críticas às primeiras propostas comparatistas Alguns aspectos de sua visão de mudança foram adotados por correntes lingüísticas modernas interessadas nos fenômenos ligados à variação e à mudança das línguas como a sociolinguística e o funcionalismo 6 E de Saussure Curso de lingüística geral São Paulo Cultrix 1975 7 Esses termos franceses costumam ser traduzidos por língua e fala respectivamente Joaquim Mattoso Câmara Jr costumava utilizar o termo discurso para designar a idéia saussureana de parole 8 Guardadas as devidas proporções esses três aspectos o conjunto de elementos sua organização no sistema e sua combinação que foram exemplificados através de elementos do nível fonológico das línguas podem ser estendidos aos níveis morfológico e sintático N Chomsky Estruturas sintácticas Lisboa Edições 70 1980 10 B F Skinner Comportamento verbal São Paulo Cultrix 1978 11 O swahili é uma língua banto falada no leste da África e o carajá uma língua indígena brasileira do tronco macrojê falada por cerca de três mil pessoas na ilha do Bananal Tocantins 12 O termo cognição referese em linhas gerais ao funcionamento da inteligência humana 13 A lingüística formal de Chomsky é dedutivaaxiomática entretanto o gerativismo praticado em pesquisas em psicolinguística e neurolinguística é eminentemente abdutivoestatístico já que apresentam um caráter experimental 14 Termo retirado deTomasello 1998 2003 15 Simbiose é um termo da biologia que expressa a associação de dois ou mais seres que lhes permite viver com vantagens recíprocas e que os caracteriza como um só organismo Um exemplo disso é o líquen a simbiose de uma alga e de um cogumelo Arbitrariedade e iconicidade Victoria Wilson Mário Eduardo Martelotta Há aproximadamente dois mil e quinhentos anos que estudiosos se dedicam a investigar a linguagem e seus mistérios Na base das indagações iniciais está a tentativa de se compreender não apenas a estrutura da linguagem mas também a sua relação com o mundo que ela simboliza e com o funcionamento da mente humana Já em Platão filósofo grego podemos encontrar reflexões sobre a linguagem questão central na época nos diálogos conhecidos como Crátilo Nesses diálogos tomavam parte três interlocutores Crátilo Hermógenes e Sócrates representando cada qual um ponto de vista a respeito da denominação ou designação isto é da relação existente entre o nome a idéia e a coisa A indagação central estava baseada na existência ou não da relação de similaridade ou para usar um termo mais moderno iconicidade entre a forma o código lingüístico e o sentido por ela expresso Para Crátilo a língua é o espelho do mundo o que significa que existe uma relação natural e portanto similar ou icônica entre os elementos da língua e os seres por eles representados Para Hermógenes a língua é arbitrária isto é convencional pois entre o nome e as idéias ou as coisas designadas não há transparência ou similaridade Sócrates por sua vez tem o papel de fazer a integração entre os dois pontos de vista Essas questões em torno da oposição entre arbitrariedade e iconicidade do signo lingüístico percorrem as correntes lingüísticas até os dias de hoje Anoção de arbitrariedade está baseada no princípio da convenção não há nada no som da palavra que se relacione de forma necessária à coisa que ela designa Não há uma relação natural por exemplo entre a construção que utilizamos para nossa moradia e a palavra casa até porque em outras línguas temos palavras com estruturas sonoras bastante diferentes para designar esse mesmo significado house em inglês e maison em francês apenas para citar algumas Por outro lado a iconicidade do signo lingüístico fundamentase na idéia de uma motivação que se reflete na estrutura das palavras indicando uma espécie de relação natural entre os elementos lingüísticos e os sentidos por eles expressos Uma maneira fácil de compreendermos essa relação icônica é pensarmos nas onomatopéias palavras cuja estrutura sonora imita o som das coisas que designam cocorocó som do canto do galo tiquetaque ruído de um relógio funcionando entre outras Nesses casos há uma similaridade entre o som e o sentido A proposta naturalista ganhou força através de pensadores que se interessaram pela origem das línguas e de fato foram propostas hipóteses de que a linguagem humana se desenvolveu a partir de sons criados pelo homem que imitavam os ruídos encontrados na natureza Obviamente propostas desse tipo carecendo de qualquer base empírica não têm merecido maior consideração pelos lingüistas modernos No âmbito específico dos estudos da linguagem é o lingüista suíço Ferdinand de Saussure quem vai realizar na Europa em fins do século xix e início do século xx a síntese dos conceitos da tradição clássica e moderna inaugurando a lingüística como uma ciência que constituiria um ramo de uma ciência maior a semiologia ou semiótica1 a ciência dos signos Antes de falarmos das posições de Saussure acerca da questão da significação vejamos algumas informações sobre como a semiótica tradicionalmente trata o problema tomando como base as idéias de Peirce Os estudos em semiótica Contemporâneo de Saussure Charles Sanders Peirce filósofo norteamericano inaugurava na mesma época os estudos semióticos ou semiótica também conhecida como ciência dos signos Sua semiótica não se aplica apenas à filosofia mas tem uma grande abrangência nos estudos da linguagem e da comunicação Para ele toda idéia é um signo o homem é um signo e o mundo está permeado de signos Segundo o filósofo toda realidade deve ser estudada sob o ponto de vista semiótico Peirce apresenta muitas e diversificadas definições de signo mas resumidamente poderíamos dizer que o signo ou representamen é uma coisa que representa outra no caso seu objeto ou conforme as palavras do filósofo para que algo possa ser um Signo expressão ou representamen esse algo deve representar alguma outra coisa chamada seu Objeto apesar de ser talvez arbitrária a condição segundo a qual um Signo deve ser algo distinto de seu objeto Peirce 1999 47 A noção de signo implica que um elemento A de natureza diversa funcione como um representante de um elemento B ou seja A guia o comportamento dos indivíduos para um determinado fim de maneira semelhante ao modo como um elemento B os direcionaria para aquele mesmo fim Para uma melhor compreensão desse processo podemos pensar em um motorista que ao perceber uma placa indicativa de curva acentuada compreende o perigo da situação e reduz a velocidade do veículo Isso quer dizer que a placa funciona como um signo já que o motorista reduziu a velocidade como teria feito diante da própria curva perigosa Peirce estabelece uma complexa classificação dos signos agrupandoos em três tricotomias primeira segunda e terceira tricotomia Vamos nos deter aqui apenas à segunda tricotomia porque ela agrupa os principais elementos estudados no âmbito da linguagem o símbolo o índice e o ícone O símbolo de acordo com Peirce referese adeterminado objeto representandoo com base em uma lei hábito ou convenção estabelecendo uma relação entre dois elementos Para citar alguns exemplos a cruz é o símbolo do cristianismo e a balança o símbolo da justiça Uma característica importante do símbolo relacionase ao fato de que ele é parcialmente motivado ou seja há entre o símbolo e conteúdo simbolizado alguns traços relacionados Assim não é à toa que o símbolo do cristianismo é uma cruz uma vez que foi nela que Cristo morreu como também a balança representação do equilíbrio e da ponderação boa imagem para simbolizar a justiça Há uma diferença fundamental entre o símbolo de um lado e o índice e o ícone de outro já que nesses dois últimos há um nível ainda menor de arbitrariedade No caso do índice ocorre uma relação de contiguidade com a realidade exterior a fumaça por exemplo é o índice do fogo e a presença de nuvens negras o índice de chuva iminente Ou seja há nesses casos uma relação mais natural entre o índice e o seu significado Cabe lembrar que o índice não representa a coisa mas é afetado por ela O ícone2 por sua vez tem uma natureza imagística apresentando portanto propriedades que se assemelham ao objeto a que se refere A fotografia de um indivíduo por exemplo é uma representação icônica desse indivíduo assim como o mapa do Rio de Janeiro representa a cidade Assim um ícone é qualquer coisa que seja utilizada para designar algo que lhe seja semelhante em algum aspecto como por exemplo a tinta vermelha usada em uma peça de teatro para representar sangue E enorme a importância da classificação semiótica de Peirce não apenas nos estudos da linguagem mas em outros domínios as artes a literatura a música o cinema a moda a propaganda a arquitetura e a antropologia Na lingüística como veremos adiante Saussure um dos cientistas que lançaram as bases dessa ciência propõe a noção de signo lingüístico e o caracteriza como um elemento de natureza verbal que possui caráter eminentemente arbitrário3 Os estudos em lingüística Ao pensar o fenômeno lingüístico a partir de suas propriedades internas Saussure abandona a discussão clássica sobre o signo reinterpretando o conceito de arbitrariedade desloca para o interior do sistema lingüístico a dimensão da arbitrariedade direcionada às referências externas à língua Em outras palavras Saussure evita o debate filosófico que abarca a conexão entre o nome e coisa que ele designa no mundo biossocial optando por pensar a relação entre o significante e o significado elementos constituintes do que ele convencionou chamar de signo lingüístico4 Para Saussure o signo lingüístico passa a ser o resultado da associação arbitrária entre significante imagem acústica e significado conceito Aqui é importante ressaltar que o significante não é o som material mas seu correlato psíquico ou seja uma estrutura sonora que reconhecemos a partir do conhecimento que temos de nossa língua relacionandoa então a um determinado conceito Do mesmo modo o significado não é o objeto real a que a palavra faz referência mas um conceito ou seja um elemento de natureza mental Desse modo tanto significante como significado são caracterizados por Saussure como entidades psíquicas Esses dois elementos constitutivos do signo lingüístico apresentam entre si uma relação arbitrária ou imotivada ou seja não há entre eles nenhum laço natural Isso significa que no ato de nomeação a língua não se reduz a um mero reflexo da realidade Essa relação se estabelece internamente ao sistema lingüístico na relação do signo com outros signos O esquema abaixo representa a noção de signo com seus componentes SIGNIFICANTE 71 SIGNO LINGÜÍSTICO Relação Arbitrária SIGNIFICADO O argumento mais forte a favor dessa visão está no fato de que existem em línguas diferentes palavras com estruturas sonoras bastante distintas para designar a mesma idéia o significado da palavra inglesa knife por exemplo corresponde ao do vocábulo português faca e ao do vocábulo francês couteau e como podemos notar essas três palavras são bastante diferentes do ponto de vista de sua seqüência sonora Muitas vezes em uma mesma língua temos palavras diferentes para designar o mesmo significado é o caso por um lado das palavras aipim mandioca e macaxeira e por outro dos termos abóbora e jerimum apenas para citar alguns exemplos da língua portuguesa Além disso uma mesma estrutura sonora pode designar sentidos inteiramente diferentes Um exemplo disso é o de banco que pode designar por exemplo um tipo de estabelecimento destinado a operações financeiras como em Vou ao banco pegar dinheiro ou um tipo de assento estreito e comprido com ou sem encosto e utilizado para descanso como em Sentamos no banco da praça Dados como esses constituem segundo Saussure um bom argumento de que o signo lingüístico é arbitrário Entretanto é importante registrar que o lingüista suíço admite a possibilidade de uma arbitrariedade relativa desde que possamos recuperar um conceito e uma forma a partir do signo lingüístico podemos por exemplo abstrair de dezenove a idéia de dezena ou de macieira o termo maçã Tradicionalmente as palavras nas quais há uma arbitrariedade relativa são caracterizadas como casos de motivação Podemos definir motivação como a relação de necessidade estabelecida entre uma palavra e seu sentido ou aproveitando a própria estrutura do termo como um fenômeno característico de determinadas palavras que refletem um motivo para assumirem uma forma em vez de outra É o caso de palavras onomatopaicas como miar que designa o som emitido pelo gato ou de palavras como apagador que como o próprio nome sugere designa o objeto utilizado para apagar o que está no quadro de giz Essas palavras assim como ocorre com macieira ou dezenove citadas anteriormente são motivadas A motivação pode ter uma natureza sonora residir nas características morfológicas da palavra ou ainda estar fundamentada nos seus aspectos semânticos Por isso vamos ver separadamente os três diferentes tipos distintos de motivação 1 Motivação fonética A motivação fonética está relacionada aos casos de onomatopéia ou seja a palavra cuja estrutura sonora apresenta uma semelhança ou uma harmonia em relação ao sentido que ela expressa São exemplos de motivação fonética portanto cocorocó miar cochichar sussurrar tilintar entre muitas outras palavras 2 Motivação morfológica A motivação morfológica está relacionada aos processos de formação de palavras Desse modo leiteiro por exemplo constitui uma palavra motivada morfolo gicamente já que ela pode ser analisada a partir de seus elementos componentes leit radical de leite e eiro sufixo designativo de profissão ou ocupação As palavras compostas são igualmente motivadas já que não é à toa que o móvel onde se guardam roupas e o aparelho para reduzir a velocidade de queda dos corpos no ar são chamados respectivamente de guardaroupa e paraquedas O princípio adjacente a esse processo é o ato de utilizar elementos já existentes na língua para se criar uma nova palavra o que aliás ocorre também no terceiro tipo de motivação que analisaremos 3 Motivação semântica A motivação semântica está relacionada a processos analógicos associados aos sentidos das palavras É o que ocorre quando utilizamos o termo braço originariamente designativo de parte do nosso corpo na expressão braço da cadeira Há aí uma analogia que reflete a relação de semelhança entre o nosso braço e a parte da cadeira designada por essa palavra Mais exemplos desse tipo podem ser vistos em outras catacreses5 como pé de mesa cabeça de prego dentes da serra entre outros Não apenas as catacreses mas as metáforas de um modo geral retratam a motivação semântica já que constituem processos de transferência de domínios que refletem relações associativas feitas pelos usuários da língua Quando dizemos por exemplo que João é o cabeça do grupo estamos utilizando a palavra cabeça com valor correspondente ao de líder ou chefe analogia que se sustenta pelo fato de ser a cabeça a parte do corpo que pensa e que manda informações para que as outras partes do corpo assumam suas funções Isso é uma metáfora A metonímia que se caracteriza por uma transferência no significado de uma palavra com base em uma relação objetiva entre o sentido primeiro e o sentido novo ou seja por uma relação de contiguidade também constitui um caso de motivação E o que vemos em uma frase como Pedro bebeu uma garrafa inteira sozinho que não significa literalmente que Pedro bebeu uma garrafa o que seria impossível em função da estrutura concreta desse objeto mas que ele bebeu o conteúdo da garrafa Essa relação de contiguidade ou proximidade objetiva entre o continente e seu conteúdo é de cunho metonímico e certamente reflete uma motivação de caráter semântico Em muitos casos a palavra é motivada tanto morfológica quanto seman ticamente Vemos isso em casos como o de pé de pato por exemplo que designa um tipo de calçado de borracha utilizado por nadadores e mergulhadores Nesse caso temos por um lado uma palavra composta de elementos mais básicos já existentes na língua e por outro uma relação de semelhança entre o formato do objeto e sua função com o pé do animal chamado pato É uma analogia semelhante à apresentada anteriormente por exemplo em pé de mesa Outros exemplos de palavras motivadas morfológica e sintaticamente são pé de cabra tipo de alavanca de ferro semelhante a uma pata de cabra matacachorro parte da motocicleta que se coloca abaixo do guidom para proteger o motor entre outras Entretanto cabe registrar que esses casos de motivação são considerados arbitrários por Saussure e seus seguidores Em primeiro lugar porque são formados por elementos já existentes na língua que são arbitrários No caso da palavra pé de pato embora expressão seja motivada as palavras pé e pato que a compõem são individualmente arbitrárias ou seja não têm uma origem reconhecível a partir de sua própria estrutura Outro raciocínio normalmente utilizado para argumentar em favor do caráter arbitrário dessas palavras relacionase à casualidade de sua formação Um termo como apagador tem um certo grau de arbitrariedade já que o falante para designar o mesmo objeto poderia se valer de outros elementos formando palavras como por exemplo limpador ou apagante Ou seja embora utilizemos elementos já existentes na língua nós escolhemos esses elementos de modo arbitrário Segundo a visão estruturalista até mesmo as onomatopéias são arbitrárias Comparar onomatopéias em línguas diferentes fornece um bom argumento a favor dessa posição O canto do galo é representado em português pelo vocábulo cocorocó em inglês por cockadoodledoo em alemão por kikeriki palavras não tão iguais entre si Para designar o som de volume baixo o português criou a onomatopéia sussurrar que corresponde à onomatopéia do inglês whisper e à do alemão flüstern Ou seja casos como esses sugerem que mesmo com a imitação do som característica da onomatopéia há um nível de arbitrariedade na formação da estrutura sonora da palavra Podemos concluir então que as noções de arbitrariedade e de motivação ou iconicidade não são exclusivas ou seja não constituem antônimos mas antes visões diferentes de um mesmo fenômeno A noção de arbitrariedade observa exclusivamente a relação existente entre o som e o sentido da palavra já a noção de motivação ou iconicidade leva em conta o fato de o falante de algum modo fazer corresponder a forma da palavra com o significado que ela expressa Com o advento da lingüística funcional e dos princípios teóricos que caracterizam a lingüística cognitiva as questões relativas à discussão arbitrariedade iconicidade ganham novos contornos já que a língua deixa de ser observada apenas como uma estrutura e passa a ser analisada como o reflexo do comportamento de seus usuários em situações reais de comunicação postura metodológica que não era adotada na lingüística estrutural A visão saussuriana que foca apenas a relação entre um som e um sentido já prontos no sistema sincrônico da língua estático por natureza dá lugar a uma concepção mais dinâmica segundo a qual a linguagem funciona como um elemento criador de significação nos diferentes contextos de uso Assim passase a observar não apenas a palavra ou a frase mas o texto o qual reflete um conjunto complexo de atividades comunicativas sociais e cognitivas6 Nessa nova perspectiva a linguagem longe de ser um conhecimento fechado como propõe a visão saussuriana constitui o reflexo de processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem significados adaptandoos a diferentes situações de interação com outros indivíduos E interessante nos demorarmos um pouco mais no aspecto dinâmico que essa nova concepção confere à linguagem O uso da língua nas situações reais de comunicação sugere que estamos constantemente adaptando as estruturas lingüísticas para se tornarem mais expressivas nos contextos em que as empregamos Isso ocorre porque por um lado as formas muito freqüentes na língua acabam perdendo seu grau de novidade ou seja sua expressividade Por outro lado o homem muda e com ele muda também o ambiente social que o cerca Assim surgem novas tecnologias novas profissões e novas relações sociais o que faz com que os falantes busquem novos meios de rotular esses novos conceitos Mas essa dinâmica das línguas não se dá de qualquer maneira ou seja a criatividade que caracteriza o ato comunicativo não é movida por meros artifícios arbitrários de que os falantes lançam mão porque acidentalmente lhes vieram à cabeça Ao contrário parece que esse processo adaptativo é veiculado por determinados mecanismos básicos que refletem a natureza de nossa inteligência e o modo como ela regula nossa vida social Isso sugere que há muito mais motivação ou iconicidade nas línguas do que se poderia inicialmente imaginar Assim após a criação do elevador por exemplo a palavra mais comumente utilizada para designar o ato de apertar o botão para que o elevador chegue ao andar em que estamos foi o verbo chamar Isso reflete uma analogia entre um processo comum no nosso dia a dia que é o ato de chamar uma determinada pessoa e a ação de apertar o botão a fim de que o elevador venha até nós Esse processo analógico em que transferimos determinados dados de um domínio de significação para outro se identifica com o que chamamos de metáfora Foi principalmente com Lakoff e Johnson 2002 que a metáfora assim como a metonímia passou a ser vista não como um mero recurso poético ou estético como se pensava tradicionalmente mas como um mecanismo que desempenha um papel central na definição da nossa realidade cotidiana já que reflete o modo como pensamos ou experienciamos na nossa vida diária Ou seja é da natureza essencial do nosso sistema conceptual compreender e experienciar uma coisa em termos de outra Segundo os autores as metáforas estruturam tudo o que percebemos do mundo e também o modo como nos relacionamos com outras pessoas compartilhando um mesmo sistema conceptual ou seja adotando um mesmo conjunto de interpretações acerca da realidade que nos cerca Dados referentes a diferentes línguas sugerem que a maior parte de nosso sistema conceptual é de natureza metafórica Um dos exemplos apresentados pelos autores de como isso se dá é o fato de que nos habituamos por exemplo a pensar em nossa mente às vezes representada pela palavra cabeça como um recipiente ou seja algo concreto capaz de conter alguma coisa dentro de si Isso pode à primeira vista parecer muito estranho mas na verdade essa metáfora é altamente produtiva e não apenas no português Frases como Minha mente está cheia de idéias e Não consigo tirar esse filme da minha cabeça só são possíveis em função dessa metáfora Ê claro que de modo semelhante dentro desse recipiente que representa de modo metafórico nossa mente colocamse idéias ou conhecimentos os quais são normalmente metaforizados como objetos como sugere a frase Quem colocou essas idéias na sua cabeça entre muitas outras Os processos metafóricos estão presentes nas línguas naturais de um modo geral e constituem portanto uma estratégia cognitiva que permite nosso pensamento navegar por conceitos abstratos Mais do que isso mecanismos desse tipo têm se mostrado fundamentais na criação de palavras para designar novos conceitos Por isso não podem deixar de ser apresentados como fortes fatores motivadores da estrutura da língua Muitos trabalhos em funcionalismo procuram descrever o modo como as pessoas adquirem rótulos para conceitos para os quais ainda não há designação em uma determinada língua ou para os quais há necessidade de uma nova designação Há várias maneiras de se fazer isso e algumas delas estão apresentadas a seguir a inventar uma nova palavra criando de modo inteiramente arbitrário uma estrutura sonora diferente b tomar emprestado de outros dialetos ou de outras línguas7 c criar palavras pelos processos associados ao fenômeno da motivação Ocorre que a opção apresentada no item a é dificilmente usada em função de sua pouca funcionalidade A estratégia apresentada em b é muito comum especialmente em casos em que a coisa designada provém de outro país futebol proveniente de football esporte surgido na Inglaterra ou de outra região acarajé bolinho da culinária baiana A opção expressa em c é a mais produtiva das três imitar o som da coisa designada e sobretudo usar elementos que existem na língua para forj ar a nova palavra oferece menor custo cognitivo para o falante que utiliza o que lhe está disponível assim como para o ouvinte que se vale de seu conhecimento desses elementos preexistentes na língua para melhor inferir o significado da palavra nova Esse processo reflete o princípio apresentado por Werner e Kaplan 1963 chamado princípio da exploração de velhos meios para novas funções conceitos concretos são empregados para descrever fenômenos menos concretos e mais difíceis de serem conceptualizados Ou seja entidades concretas perceptíveis pelos nossos sentidos corporais e portanto mais claramente delineadas e estruturadas servem de base para a nossa compreensão de idéias abstratas sensações e de um modo geral experiências não físicas que por sua natureza mental ou sensorial são mais difíceis de serem conceptualizadas Heine 1991 argumenta que esse processo de extensão semântica apresenta certa regularidade e propõe uma escala que a indique PESSOA OBJETO ATIVIDADE ESPAÇO TEMPO QUALIDADE Os elementos dessa escala apresentam grau crescente de abstratividade e constituem entidades prototípicas que representam domínios de conceptualização importantes para a estruturação de nossa experiência É claro que essa escala deve ser vista como um conjunto muito geral de domínios da experiência e como um reflexo de tendências igualmente gerais Ou seja não devemos inferir que o elemento lingüístico precise cumprir todo o caminho proposto na escala apresentando cada sentido partindo da PESSOA até chegar a QUALIDADE mas sim que um dado relativo a qualquer desses domínios da trajetória pode ser utilizado para expressar qualquer outra entidade à sua direita Sendo assim devemos compreender essa trajetória escalar como um grupo de extensões semânticas básicas e tratála mais como um caminho padrão do que como um processo que não admite exceções Estabelecido o aspecto generalizante dessa escala falemos um pouco mais sobre ela Há três coisas que precisamos ter sempre em mente A primeira é que a relação entre suas entidades é metafórica por natureza ou seja tende a haver uma transferência semântica de um elemento para o outro metáfora objeto para espaço espaço para tempo entre outras A segunda diz respeito ao fato de que essa escala se apresenta como unidirecional partindo daquilo que é mais próximo e mais definido para o ser humano que é seu próprio corpo PESSOA para a designação de elementos concretos do mundo real OBJETO e progredindo em direção à expressão de categorias cada vez mais abstratas ATIVIDADE ESPAÇO TEMPO e QUALIDADE Essa unidirecionalidade deve ser entendida como uma forte tendência de os dados mais concretos serem utilizados para categorizar entidades mais vagas e abstratas e não o contrário8 A terceira é que essa escala tem um caráter translinguístico ou seja não se manifesta apenas no português constituindo um fenômeno inerente às línguas naturais o que por hipótese se explica pelo fato de ser ela o reflexo da atuação de nossa capacidade cognitiva Vejamos alguns exemplos de como essas trajetórias se dão em português Palavras que indicam partes do corpo como braço por exemplo podem passar a designar a um objeto como em braço da cadeira o mesmo ocorre em pé de mesa dentes da serra orelhão etc b uma atividade como em braçada o mesmo ocorre em pernada mani pulação etc c uma medida de espaço como em uma braça o mesmo ocorre em pé pole gada etc9 d uma qualidade como em Ele é meu braço direito o mesmo ocorre em péfrio azarado mãoaberta esbanjador generoso perna de pau mau jogador etc Do mesmo modo palavras que designam noções espaciais como atrás por exemplo atrás da casa podem passar a designar a noções temporais como em duas horas atrás o mesmo ocorre com os elementos originariamente espaciais antes e depois antesdepois da esquina antesdepois da hora etc b qualidades como em Suas idéias são atrasadas o mesmo ocorre com retardado estar à frente de sua época etc Para frisar que essas relações não existem apenas em língua portuguesa vejamos alguns casos de transferência de espaço para tempo em algumas outras línguas Em espanhol temos después de La esquina depois da esquina valor espacial de después ao lado de dos anos después dois anos depois valor temporal de después Em francês temos aprés le coin de La rue depois da esquina valor espacial de après ao lado de palavras como aprèsmidi à tarde ou seja depois do meiodia e aprésdemain depois de amanhã que exemplificam o uso da palavra espacial après com valor temporal O mesmo ocorre com o termo inglês after The hotel is locatedafter third trajftc light O hotel se localiza depois do terceiro sinal de trânsito valor espacial de after coexiste com expressões do tipo the day after o dia seguinte valor temporal de after Desse modo quando observamos a gênese dos elementos lingüísticos notamos que para criar termos novos a fim de designar novos objetos ou novas formas de relação social o falante não inventa uma palavra criando a partir do nada uma estrutura sonora diferente Ao contrário sua tendência é utilizar elementos já existentes em sua língua ou pelo menos pegar emprestado um termo de outra língua ou dialeto O que muitas vezes ocorre com as palavras aparentemente imotivadas ou arbitrárias ou seja aquelas cujo sentido não pode ser previsto a partir de sua estrutura é que sua motivação se perde com o tempo A dinâmica da comunicação vai fazendo com que as palavras tenham sua estrutura e seu sentido modificados e nesse processo os falantes vão perdendo consciência das origens dos vocábulos e das expressões Alguns exemplos são interessantes nesse sentido A palavra portuguesa pensar que hoje designa o ato abstrato de organizar as idéias provém do latim pensare que significava basicamente suspender pesar A analogia entre o ato de pensar e o de pesar as informações ou as idéias certamente não é estranha para nós mas se perdeu no labirinto do tempo de modo que o falante atual utiliza o verbo pensar como uma forma não motivada Casos como esses sugerem que a iconicidade entendida como uma motivação entre forma e sentido está bastante presente nas línguas naturais Como os estudos funcionalistas contrariamente aos estudos formalistas privilegiam a função sobre a forma observando a língua do ponto de vista do contexto lingüístico e da situação extralinguística o princípio de iconicidade tornouse fundamental para a observação e interpretação da relação entre forma e função e para a concepção de gramática das línguas Sendo assim a iconicidade não se manifesta apenas na relação entre a forma e o sentido das palavras mas também na estrutura da frase ou mesmo do texto Bolinger 1977 considerado o precursor do funcionalismo norteamericano foi um dos primeiros a repensar a noção de iconicidade do ponto de vista da função comunicativa que cada forma desempenha Ele postulou que a condição natural da língua é preservar uma forma para um sentido e um sentido para uma forma Isso vale também para a existência de mais de uma forma para indicar o mesmo sentido que segundo o autor constitui uma situação muito improvável Assim morrer falecer partir desta para melhor e bater as botas embora aparentemente designem o mesmo processo não são empregados indiferentemente em situações distintas de comunicação porque na verdade não têm exatamente o mesmo valor ninguém em sã consciência vai informar a um amigo a morte repentina e trágica de sua mãe dizendo Sua mãe bateu as botas Isso demonstra que não há nas línguas sinônimos verdadeiros ou nos termos de Bolinger duas formas com a mesma função Os elementos da língua têm um histórico de usos de modo que uma expressão como bateu as botas é normalmente empregada em situações de pouca seriedade que envolvem normalmente um fator de ironia ou pelo menos de brincadeira Por isso ela não é empregada no contexto descrito anteriormente No nível da frase essas questões associadas à iconicidade também entram em jogo Vejamos as duas frases a seguir a Eu já vi esse filme b Esse filme eu já vi Essas duas frases embora aparentemente tenham o mesmo valor semântico são diferentes do pronto de vista pragmático ou seja de um modo geral não são ditas nos mesmos contextos comunicativos O exemplo b em que o objeto direto esse filme está anteposto ao verbo reflete uma estrutura típica de uma situação em que a informação por ele expressa é conhecida ou seja já foi mencionada anteriormente Não é raro inclusive que na continuidade do discurso esse elemento funcione como tópico ou assunto do qual se está falando aparecendo no início de várias orações em seqüência Quanto ao seu grau de informatividade os elementos da língua se apresentam de modo distinto em diferentes situações O fato de um elemento constituir uma informação conhecida em um determinado contexto de comunicação atribui a ele determinadas características formais No caso do exemplo anterior o elemento vai para o início da frase já que constitui o tópico ou assunto sobre o qual se está falando Essa estrutura portanto não se dá de forma casual ou arbitrária mas é motivada pelo valor informacional que seus elementos apresentam no contexto de uso Esse fenômeno é caracterizado por Givón 1990 como o subprincípio icônico da relação entre ordem seqüencial e topicalidade ver o capítulo Funcionalismo que prevê uma conexão entre o tipo de informação veiculada por um elemento da frase e a ordenação que ele assume nessa frase No que diz respeito à ordenação dos elementos Givón 1990 demonstrou também que em uma narrativa a seqüência de eventos não se dá de forma casual ou arbitrária mas é motivada pela seqüência em que os fatos ocorreram na realidade Desse modo uma seqüência como Cheguei em casa jantei fui para cama e dormi reflete a ordenação real dos fatos não podendo portanto ser alterada sob pena de se obter um outro sentido ou uma frase sem sentido Essa relação entre a ordem das orações no período e a seqüência em que ocorreram na realidade corresponde ao que Givón chama de subprincípio da ordenação linear Outro subprincípio icônico formulado por Givón 1990 é chamado de subprin cípio da quantidade segundo o qual quanto maior a quantidade de informação maior será a quantidade da forma de tal modo que a estrutura de uma construção gramatical indica a estrutura do conceito que ela expressa E o que ocorre no exemplo abaixo retirado do corpus Discurso Gramática10 que apresenta a repetição do verbo rodar Quando eu era pequena eu ficava brincando com aqueles disquinho que era aí eu amarrei fiquei rodando rodando rodando aí fiquei tonta Nesse exemplo a iconicidade se manifesta na relação entre a quantidade de tempo que a informante ficou rodando e a quantidade de material lingüístico que ela utilizou para indicar isso ela repete o verbo rodar em fiquei rodando rodando rodando Isso não apenas traduz com realismo e dinamismo a experiência vivida pela informante como sobretudo reflete uma relação de motivação entre o sentido quantidadetempo associados ao ato de rodar e a forma a repetição do verbo que expressa esse ato Há ainda mais um fenômeno relacionado à iconicidade segundo Givón que está associado ao chamado subprincípio da proximidade Segundo esse subprincípio o que está mais próximo no campo do sentido se mantém mais próximo na forma Ou seja o fato de as entidades estarem próximas funcional conceptual ou cognitivamente motiva os falantes a colocarem os termos designativos dessas entidades próximos no nível da frase Esse talvez seja o subprincípio mais difícil de ser compreendido e se refere entre outras coisas a uma tendência geral de manter os modificadores restritivos perto do seu núcleo nominal e de colocar um sintagma nominal sob um contorno entoacional unificado Isso explicaria por exemplo o fato de os adjetivos estarem sempre ao lado dos substantivos a que se referem como por exemplo no sintagma nominal calça curta Ao conceptualizarmos a entidade calça automaticamente registramos seu tamanho uma característica inerente à calça que estamos querendo expressar Se esses conceitos a entidade e seu tamanho estão próximos em nossa concepção não é estranho que ao falarmos sobre eles coloquemos lado a lado na frase os termos que os designam aquele que indica sua essência como ser o substantivo e aquele que o individualiza em relação a outros do mesmo tipo o adjetivo Essas questões que desenvolvemos neste capítulo nos mostram que as discussões que envolvem as noções de arbitrariedade e iconicidade são bastante complexas e estão longe de refletir um consenso entre os cientistas Elas não se limitam à realidade restrita ou à relação entre o som e o sentido das palavras abrangendo questões muito mais profundas como De que forma o homem codifica o universo à sua volta Qual a relação entre a mente humana e a linguagem e entre esta e a cultura Épossível analisar a linguagem sem levar em conta os aspectos associados ao seu uso em situações concretas de comunicação No curso da história dos estudos da linguagem várias correntes trouxeram visões diferentes acerca do assunto que com o desenvolvimento das pesquisas foram sendo ora abandonadas ora retomadas Este capítulo portanto trouxe algumas informações relacionadas a uma antiga polêmica que por não ter sido ainda solucionada de modo definitivo se apresenta como um tema fascinante aos olhos dos cientistas interessados em compreender o funcionamento da linguagem e da cognição humana Exercícios 1 De que modo os dados apresentados abaixo podem constituir argumento favorável à proposta de Saussure de que o signo lingüístico é arbitrário luva glove gant 2 Durante a Copa do Mundo em 2002 quando o Brasil foi pentacampeão foi publicada uma tirinha cujos personagens exclamavam English Go Go Brasil Gol Gol Podese dizer que este é um caso em que o princípio de arbitrariedade está em jogo Justifique sua resposta 3 O fato de que a cor preta representa luto no ocidente pode ser caracterizado como um símbolo Justifique 4 Defina os três casos de motivação e apresente pelo menos um exemplo de cada um deles 5 O uso da palavra angústia apresentado a seguir pode constituir um caso de perda de motivação conseqüente do passar do tempo Justifique sua resposta A palavra angústia hoje designativa de um sentimento de ansiedade ou aflição intensa provém do latim angustia cujo sentido primeiro era mais concreto espaço apertado estreiteza desfiladeiro 6 Com base nos exemplos em português e inglês que seguem faça um comentário acerca do caráter translinguístico da relação entre a expressão de noções espaciais e noções temporais a Em português Minha casa fica logo depois da padaria Cheguei em casa logo depois das sete horas b Em inglês The hotel is located after third traffic light Two years after the 11 March 2004 terrorist attacks in Madrid 7 A frase abaixo apresenta um recurso muito comum na fala coloquial de repetir uma palavra muitas vezes um adjetivo para intensificar o seu valor Esse fenômeno pode ser explicado por algum dos três subprincípios de iconicidade Justifique sua resposta O filme é lindo lindo lindo Notas 1 O termo semiologia está relacionado à tradição saussuriana constituindo uma tradução do francês sémiobgie Já o termo semiótica do inglês semiotics está associado ao trabalho desenvolvido nos Estados Unidos por Peirce Peça de vestuário que se ajusta à mão e aos dedos funcionando como agasalho adorno ou forma de higiene Termo proveniente do grego eikón que significa imagem Com a evolução dos estudos lingüísticos e o surgimento do funcionalismo e da lingüística cognitiva ver capítulos Funcionalismo e Lingüística cognitiva na segunda metade da década de 1970 o papel da noção de iconicidade na língua voltou a ganhar destaque Saussure evitou o termo símbolo já que este tem como característica não ser completamente arbitrário Catacrese é um termo tradicionalmente empregado para designar um tipo de metáfora já fossilizada na língua e que representa segundo alguns autores mais puristas uma relação de semelhança abusiva representada normalmente por casos como cabeça de alfinete embarcar no trem aterrissar em alto mar além dos apresentados neste texto O termo cognitivo está associado aos aspectos do funcionamento da mente que permitem ao homem construir armazenar e partilhar conhecimento A utilização de elementos de línguas antigas como o latim ou o grego clássico está prevista nessa opção As línguas exibem exceções a essa unidirecionalidade como o caso da palavra abstrata sonho que passa a designar um tipo de pão doce um conceito concreto Mas em termos estatísticos os casos de exceção são de um modo geral pouco expressivos Braça que é um termo proveniente do latim bracchia plural de bracchiu braço e pé designam antigas unidades de medida de comprimento O mesmo ocorre com polegada medida de comprimento aproximadamente igual ao do comprimento da segunda falange do polegar Conjunto de entrevistas gravadas por falantes do Rio de Janeiro de Niterói de Natal de Juiz de Fora e do Rio Grande organizado por pesquisadores do Grupo de Estudos Discurso Gramática formado por professores da UFRJ d a UFF e d a UFRN Motivações pragmáticas Victoria Wilson As discussões teóricas na lingüística giram em torno de dois pontos fundamentais dos quais derivam as escolas lingüísticas a concepção de língua e linguagem e a perspectiva que o pesquisador adota em relação ao seu objeto de estudo Dependendo do modo como os estudiosos concebem a língua surge uma teoria e um método equivalente e adequado para explicar seu funcionamento sua organização sua estrutura e as possíveis relações da língua com outros elementos internos ou externos ao sistema lingüístico A partir do século xx depois da publicação do Curso de lingüística geral de Ferdinand de Saussure podemos afirmar que as pesquisas lingüísticas se dividem em dois grandes polos o polo formalista e o polo funcionalista O primeiro dá ênfase à forma lingüística isto é à idéia de língua como sistema e estrutura A língua é entendida como um objeto autônomo independente das intenções de uso e da situação comunicativa Embora Saussure compreenda a língua em sua dimensão social como um sistema de signos que é ao mesmo tempo produto social da faculdade da linguagem e de um conjunto de convenções adotadas pela comunidade essa dimensão só se infiltra mesmo na sua contraparte a parole isto é a fala Esta corresponde à parte individual e concreta da língua e é conforme Saussure acidental e acessória Seguindo a tendência formalista da língua introduzse a teoria desenvolvida por Noam Chomsky que privilegia a competência lingüística ou gramatical sobre o desempenho performance e que supõe um falante e um ouvinte ideais numa comunidade lingüística homogênea Isso significa que tudo o que diz respeito à heterogeneidade da língua fica restrito a outro âmbito o de sua realização que corresponde à noção de desempenho performance Apesar de mais tarde Chomsky considerar ao lado da competência gramatical a competência pragmática isto é aquela que contempla o conhecimento das condições de uso da língua a noção de comportamento lingüístico é desvinculada das relações entre língua e sociedade Segundo Papi 1996 89 a competência pragmática advogada por Chomsky ainda se mantém no plano da idealização porque se situa no mesmo plano das estruturas mentais hipotéticas independentemente dos usos dessas estruturas em circunstâncias comunicativas ou interativas concretas A segunda tendência que vai em direção ao paradigma funcional se dá no momento em que o enfoque sobre a língua é tomado numa perspectiva sociointeracionista e funcional Esse novo enfoque busca observar as condições de uso da língua em situações reais de comunicação ou seja o momento em que se põe em evidência a chamada competência comunicativa ou pragmática considerando agora as relações entre forma e função entre os fatores gramaticais e os sociais Dentro desse paradigma estão as seguintes escolas da lingüística a sociolinguística a sociolinguística interacional o funcionalismo a lingüística sociocognitiva a análise do discurso a pragmática entre outras Cada uma delas a seu modo ou seja de acordo com seus modelos teóricos e metodológicos considera a língua em uso observando os fenômenos de variação e mudança lingüísticas as interações face a face e de outros tipos entre falante e ouvinte as influências sociais e psicossociais na estrutura da língua a ideologia e a construção da subjetividade os atos de fala no lugar de frases e sentenças verdadeiras e gramaticais as implicaturas conversacionais entre outros fatores Dáse relevo agora à fala ou ao discurso e a noção de falante e ouvinte ideais é substituída pela de falante e ouvinte reais ou seja interlocutores inseridos num tempo e num espaço determinados Mas o que seriam propriamente as motivações pragmáticas As investigações mais recentes na formulação de uma teoria pragmática se movem em duas direções ambas centradas no uso Há várias definições de uso assim como há inúmeras para o termo pragmática A pragmática lingüística está afiliada à filosofia mais precisamente à filosofia da linguagem ao pragmatismo filosófico e à semiótica nasce com a idéia de signo ou melhor das relações que os signos estabelecem em vários âmbitos Dessas relações originaramse três vertentes a semântica que estuda a relação dos signos com os objetos a sintática que estuda a relações dos signos entre si e a pragmática que estuda a relação dos signos com os intérpretes a dimensão pragmática da semiótica Se há signos que não se referem a ou denotam objetos o que fazer para compreendêlos De modo semelhante como também há signos que numa classificação da gramática tradicional podem ser considerados pertencentes a uma determinada classe gramatical mas em contextos específicos exercem função diferenciada como fazer para entendêlos Então o contexto extralinguístico os fatores socioeconômicos culturais e afetivos envolvidos na comunicação e o modo como os participantes desse contexto estabelecem a interação constituirão elementoschave para a abordagem de natureza pragmática A noção do significado como uso nasce com Wittgenstein filósofo alemão que rompe com a concepção tradicional de que a língua tem a função de designar seres para Motivações pragmáticas 89 ele é a língua que cria os objetos e o significado da palavra está associado ao uso da língua que por sua vez é socialmente coordenado e regulado São pertinentes aqui as palavras de Marcondes 1992 41 para entendermos as relações entre significado uso e pragmática Quando a linguagem é adquirida o que se adquire não é pura e simplesmente uma língua com suas regras especificamente lingüísticas mas todo um sistema de práticas e valores crenças e interesses a ele associados É neste sentido que podemos falar da aquisição de uma pragmática Portanto a pragmática lingüística deve muito às contribuições filosóficas no que concerne aos problemas relacionados aos componentes semânticos e pragmáticos do significado A teoria dos atos de fala oriunda da filosofia da linguagem é um modelo teórico desenvolvido dentro do campo de investigação da pragmática conforme será apresentado neste capítulo Mas assim como a filosofia a pragmática também recebeu contribuições importantes da antropologia da psicologia da sociologia da sociolinguística Estudiosos como Basil Bernstein William Labov Charles Fergusson John Gumperz e Dell Hymes desenvolveram vários trabalhos sobre a variabilidade lingüística e o uso da língua em contextos reais de comunicação que constituem um dos enfoques teóricos de estudo da pragmática Na perspectiva do comportamento verbal e da interação a importante contribuição de Erving Goffman na linha da etnografia da fala resultou no advento da teoria da polidez introduzida por Brown e Levinson 1987 e na Análise da Conversação Sacks e Schegloff como campos de investigação da pragmática no sentido de estudar o significado em situações de interação que também serão contemplados neste capítulo Esse panorama leva a concluir o quanto a pragmática se constitui em uma área ampla e diversificada adquirindo várias acepções conforme o enfoque adotado Yule 1996 por exemplo apresenta as seguintes definições a pragmática é o estudo do significado sob o ponto de vista do falante b pragmática é o estudo do significado contextual isto é leva em conta o modo como os falantes organizam seus enunciados aquilo que eles querem dizer de acordo com os seguintes fatores a quem vão dizer como vão dizer onde e quando vão dizer e sob que circunstâncias c pragmática é o estudo do como se diz além daquilo que é dito isto é o estudo do significado subjacente do não dito d pragmática é o estudo da expressão da proximidadedistanciamento relativo isto é de acordo com o tipo de proximidade física social ou conceituai em relação aos ouvintes os falantes determinam como e quanto precisam dizer Com base nessas definições é possível afirmar que a pragmática pode ser entendida como a teoria do uso lingüístico distinguindose radicalmente do chamado polo formalista da língua A concepção de competência gramatical pautada no conceito ideal e abstrato da língua e dos indivíduos que a falam é substituída pela dimensão social do uso lingüístico Desenvolvemse então estudos no âmbito da competência comunicativa e no da competência pragmática de que fazem parte fatores extralinguísticos como o contexto situacional os participantes da cena comunicativa o conhecimento das normas e convenções lingüísticas e sociais pertinentes ao contexto em questão a atribuição de papéis e as funções de cada um dos envolvidos Enfim o estado atual da pragmática reconhece o uso da língua e o modo como ela é empregada na interação verbal não estabelecendo a dicotomia entre o que é interno e externo à língua Essa perspectiva compreende tanto a estabilidade e regularidade do comportamento social e lingüístico padrões crenças e convenções como as tensões as controvérsias e as rupturas Neste capítulo serão apresentados alguns estudos da pragmática tais como as implicaturas conversacionais a teoria dos atos de fala a teoria da polidez e a análise da conversação Implicaturas conversacionais As implicaturas conversacionais constituem um dos mais importantes estudos que exerceram influência decisiva para o desenvolvimento da pragmática Cabe ao filósofo americano H P Grice cujos estudos datam de 1957 e que foram revisados em 1975 as noções de implicatura e o estabelecimento de princípios que regem a comunicação Grice distinguiu dois tipos de implicaturas As convencionais são as implicaturas cuja significação é gerada internamente isto é dentro do sistema lingüístico na frase Apesar de fanfarrão ele é um bom jogador de futebol por exemplo a locução conjuntiva apesar de provoca as relações de sentido entre uma oração e outra no caso uma relação de concessão Já as implicaturas conversacionais estão mais ligadas ao contexto extralinguístico Refletindo sobre este segundo tipo de implicatura Grice criou os princípios de cooperação e as máximas conversacionais Para ele nem sempre o que se diz corresponde à realidade ou é realmente aquilo que se quer dizer donde a importância de se recorrer nestes casos ao contexto comunicativo o significado é obtido então por meio de uma implicatura isto é do resultado da adesão ao princípio de cooperação que guiaria a interação verbal lingüística entre os indivíduos Então num diálogo como esse A Você vai ao cinema com a gente B Estou com dor de cabeça a resposta que a princípio parece inadequada é interpretada através de uma implicatura conversacional Para não dizer não explicitamente B optou por um outro tipo de resposta indireta mantendo o mesmo efeito negativo O princípio de cooperação é elaborado com base em uma fórmula geral e é assim posto faça a sua contribuição na conversação atendendo ao que é solicitado no momento exigido visando aos propósitos comuns e imediatos de forma conseqüente em relação aos compromissos conversacionais estabelecidos Desse princípio geral resultam quatro máximas 1 Máxima da quantidade seja informativo Na conversação coopere de modo a informar aquilo que está sendo requerido em função dos propósitos comunicativos Faça com que sua contribuição não seja mais informativa do que o exigido na situação 2 Máxima da qualidade seja verdadeiro Não diga aquilo que você considera falso Não diga nada que não possa ser comprovado ou para o qual você não possa fornecer evidência 3 Máxima da relação seja relevante 4 Máxima do modo seja claro Evite expressões ambíguas Evite expressões que possam obscurecer o significado Seja breve evite digressões desnecessárias Proceda de modo ordenado As máximas serão exemplificadas com base em exemplos reais de interação Será apresentada abaixo uma carta de reclamação escrita por um proprietário de imóvel residencial à empresa construtora Observe como o proprietário procede em sua reclamação e como as máximas foram contempladas Prezados Senhores Eu XX proprietário do apto 1004 situado à endereço do apto venho através da presente solicitar a V Sas que vistorie e conserte a pia da cozinha O serviço de vedação ao redor da cuba já foi feito há algum tempo atrás mas já está saindo tudo Certos de vossas atenções subscrevome Minha área está provocando uma infiltração do apto 904 há mais de 2 meses Eles já fizeram a reclamação por escrito Atenciosamente De acordo com a máxima da quantidade é necessário ser objetivo e bastante informativo não dizendo mais além do exigido Para fazer a reclamação sobre a pia da cozinha o proprietário limitouse a uma breve solicitação Eu venho através da presente solicitar a V Sas que vistorie e conserte a pia da cozinha A princípio o proprietário também respeitou a máxima da qualidade sendo verdadeiro e não inventando outros defeitos ou aumentando o problema apresentado Evitou ambigüidades e digressões mesmo porque nesse caso qualquer tipo de obscurecimento comprometeria a informação o que poderia levar a um não atendimento do pedidoreclamação por parte da empresa adequandose dessa forma à máxima do modo O serviço de vedação ao redor da cuba já foi feito há algum tempo atrás mas já está saindo tudo O remetente foi relevante no sentido de não dizer nada que segundo a ótica do consumidor não pudesse ser comprovado ou seja atendeu à máxima da relação e da qualidade também nesse caso no seguinte adendo da carta Minha área está provocando infiltração do apto 904 há mais de 2 meses Eles já fizeram a reclamação por escrito Uma das críticas feitas ao princípio de cooperação diz respeito ao fato de este oferecer uma interpretação idealizada das interações sociais não prevendo interações desarmônicas e confiituosas e ainda de que seus postulados e suas máximas estariam baseados no valor de verdade das proposições funcionando bem para atos de fala do tipo declarativos A carta que serviu de modelo para as máximas é predominantemente marcada pelo ato de fala expressivo que caracteriza a reclamação No entanto esse tipo de carta enquadrase num modelo bastante padronizado e formal atenuando todo o tipo de emoção mais forte e explícita no que toca à manifestação de insatisfação atendendo bem às máximas preconizadas por Grice Apesar de controvérsias a esse respeito a importância dos estudos de Grice aplicase não só ao falante como mero usuário da língua mas ao falante na condição de intérprete participante ativo das interações capaz inclusive de modificálas e conduzilas de acordo com seus propósitos eou com a interpretação dos significados que vai construindo ao longo das interações Essa dimensão é que se torna relevante porque coloca o aspecto criativo nas mãos do sujeito pessoa ao mesmo tempo em que recupera em novas bases a relação entre linguagem e conhecimento Teoria dos atos de fala De significativa importância para a pragmática é a teoria dos atos de fala Como o nome já sugere essa teoria considera as frases da língua como ações sobre o real de onde advém a concepção de atos de fala na perspectiva atribuída pelo seu precursor o filósofo inglês John Austin em seu livro Quando dizer éfazer Sob essa perspectiva quando falamos não fazemos apenas declarações mas fazemos coisas como ordenar perguntar pedir desculparnos lamentar rogar julgar reclamar etc Dessa forma Austin também rompe com a noção tradicional da semântica baseada nos valores de verdade e falsidade das sentenças ao introduzir o conceito de performativo Performativo é todo enunciado que realiza o ato que está sendo enunciado Assim se em eu ajoelho para rezar temos um enunciado que pode ser verdadeiro ou falso em ajoelhou tem que rezar está explícita a idéia de comprometimento do locutor com a ação ou melhor com as possíveis conseqüências do ato por ele realizado e não com a verdade ou falsidade do enunciado Para Austin dizer algo eqüivale a executar três atos simultâneos O ato locutório centrado no nível fonético sintático e de referência corresponde ao conteúdo lingüístico usado para dizer algo O ato ilocutório ato central para Austin uma vez que tem a chamada força performativa está associado ao modo de dizer algo e ao modo como esse dizer é recebido em função da força com que é proferido Corresponde ao ato efetuado ao se dizer algo E o ato perlocutório corresponde à indicação dos efeitos causados sobre o outro servindo a outros fins como influenciar o outro persuadilo a fazer algo causar um embaraço ou constrangimento etc Como exemplo destacamos um breve trecho de uma carta de reclamação cujo destinatário é uma empresa do ramo da construção civil a quem o enunciador se dirige Viemos por meio desta solicitar reparos na forração de gesso do teto da varanda Nesse excerto destacado podemos observar a presença do ato locutório quando o cliente faz uso do conteúdo lingüístico o ato ilocutório se faz presente na medida em que esse conteúdo lingüístico ou proposicional visa à obtenção de uma resposta do destinatário E o ato pode ser perlocutório porque além de uma resposta do destinatário o cliente solicita uma ação reparadora diante de um dano ocorrido o teto da varanda precisa de reparos Nem sempre os performativos estão explícitos e são representados pelos verbos no tempo pessoa e modo como ao se fazer um pedido e usar o verbo pedir ou solicitar fazer uma promessa e dizer eu prometo Há casos de performativos implícitos em que pedidos promessas ameaças reclamações e outras ações não são indicadas por verbos correspondentes exatamente às ações Na frase feita promessa é dívida por exemplo a ação de prometer e seu efeito de cumprir a promessa estão implícitos e indicados pelos nomes correspondentes Portanto há performativos puros em eu te batizo eu prometo que virei eu aceito seu convite assim como performativos implícitos como podemos ver no trecho da carta de reclamação apresentado ao pedir um reparo no teto da varanda o cliente também está fazendo uma reclamação A teoria dos atos de fala proposta por Austin abriu novos caminhos para a reflexão do papel das convenções e práticas sociais na constituição dos atos ilocucionários e consequentemente para a questão que envolve a ação e o sujeito que a enunciapratica Novos estudos foram realizados ampliando e reformulando a teoria de Austin É dentro dessa perspectiva que se insere a classificação dos atos ilocucionários em categorias ou tipos básicos elaborada por John Searle Searle em seu livro Speech Acts retoma questões importantes concernentes às tendências contemporâneas da filosofia da linguagem visando à construção de um ponto de vista lingüístico para a teoria dos atos de fala Esse autor adota o conceito de finalidade ilocutória para classificar os usos lingüísticos salientando que há um número limitado de coisas que fazemos com a linguagem e que podem ser simultâneas Para o autor falar uma língua é adaptar uma forma de comportamento regido por regras Searle 198133 Exemplificaremos esses usos e atos com excertos de propaganda e carta do Jornal do Brasii 1 Atos assertivos consistem no fato de dizermos às pessoas como as coisas são esse ato envolve o comprometimento do falante com a verdade da proposição Por exemplo É mais divertido ir e voltar O boomerangue é o ícone do consumo responsável 2 Atos diretivos consistem nas tentativas de levarmos as pessoas a fazer coisas as tentativas podem variar em grau de intensidade mais brandas como um convite uma sugestão ou mais enérgicas como uma ordem Por exemplo convidar sugerir aconselhar ordenar exigir etc Se beber não dirija Volte de táxi ou com o amigo da vez 3 Atos expressivos consistem na expressão de sentimentos e atitudes Por exemplo agradecer desculparse lamentarse etc E de cortar o coração saber que tantas mães não têm notícias de seus filhos que desapareceram por várias razões algumas desconhecidas trecho de carta Um absurdo o que vem acontecendo em relação a projetos para empreendimentos imobiliários trecho de carta 4 Atos comissivos consistem nos atos cujo efeito é produzir uma mudança por meio do que dizemos é o caso do convite e da promessa No exemplo abaixo o trecho em itálico representa a promessa feita pelo jornal aos seus leitores A cultura toma o poder Neste domingo o caderno B estará nas mãos de um novo editor 5 Atos declarativos requerem situações extralinguísticas para a sua atualização baseadas em instituições ocupadas por falantes e ouvintes São atos que podem promover uma mudança na realidade o que as distingue das demais categorias Incluemse entre os atos declarativos o ato de batizar o de fazer uma sentença judicial por exemplo Quando as declarações referemse à linguagem propriamente dita os verbos são eu defino eu nomeio eu abrevio Eu vos declaro marido e mulher Além da taxonomia para a classificação dos atos ilocutórios Searle chamou a atenção para a diferença entre ato ilocutório e força ilocutória ou ilocucional Ato ilocutório é o ato que corresponde às ações que podem ser realizadas força ilocutória ou ilocucional é o componente que determina a diferença entre um ato e outro o que traduz a particularidade de cada ato por exemplo o que faz do pedido ser um pedido e não uma reclamação é a força ilocucional que vai marcar a diferença Segundo Searle existe um marcador de força ilocucional que em português pode ser expresso nos seguintes processos a ordem das palavras o acento tônico a entoação a pontuação o modo do verbo e o uso dos verbos performativos Mas adverte o autor que freqüentemente nas situações concretas do discurso é o contexto que permitirá fixar a força ilocucional da enunciação sem que haja necessidade de recorrer ao marcador explícito apropriado Searle 1984 44 Mas para que um ato de fala seja eficaz é necessário que seja proferido dito executado de modo apropriado às circunstâncias o que deu origem às chamadas condições de felicidade ou sucesso e infelicidade fracasso dos atos de fala Vejamos os seguintes casos extraídos de cartas de leitores do jornal O Globo para observar as circunstâncias e as condições com que são proferidos Não creio que sejam necessários ao país tantos vereadores deputados senadores e o pior tantos assessores e funcionários à disposição dessa turma Para que servem Para dar nome de rua Para fingir que representam o povo Redução dessa turma de políticos já O Globo 100906 Com essa carta podemos destacar alguns aspectos referentes à força ilocucional Fica evidente a carga expressiva afetiva manifestada pelo sentimento de raiva e frustração do leitor cidadão diante do comportamento dos políticos a quem ele se refere como turma A força ilocucional da reclamação Fp em que F é o marcador da força e p o conteúdo da proposição no caso a reclamação se agrava a partir das indagações para que serve para dar nome de rua para fingir que representam o povo E por fim após o desabafo e a constatação da inutilidade de políticos como esses a ordem enunciada expressa não por um verbo mas pelo substantivo dele derivado redução e pelo advérbio modalizador já intensifica o grau de assertividade e imposição do ato São situações como essas que nos levam a concluir que os atos ilocucionais têm graus variados de força desempenhando funções diferentes e consequentemente agregando vários atos e conduzindo a múltiplas interpretações Para entendermos agora o sentido de um enunciado é preciso recorrer além do contexto lingüístico ao extralinguístico considerando quem diz quando diz para quem diz como diz Tratase de elementos circunstanciais que fazem parte de todo o contexto em que o enunciado está inscrito e que reunidos estruturam o seu sentido Além dessa contribuição para a teoria dos atos de fala Searle chama a atenção para outros aspectos em relação aos atos ilocutórios nem todos os atos de fala realizados expressam o significado pretendido pelo falante isto é é possível realizar atos de fala indiretos ou seja em que o falante pode expressar uma ordem por meio de uma pergunta pode fazer um pedido por meio de um desejo de um convite de uma interrogação e assim por diante Por exemplo se digo Está quente hoje não é é possível interpretar esse enunciado como um pedido para ligar o aparelho de ar condicionado ou como querendo dizer várias outras coisas dependendo do contexto De acordo com a tradição esse enunciado designa uma pergunta e poderia ser classificado como uma frase interrogativa Sob a perspectiva pragmática outras significações podem ser obtidas a partir da pergunta tais como a eu estou com calor b aqui do lugar de onde falo está quente c uma introdução para se dar início a uma conversação d um pedido indireto ao interlocutor em forma de pergunta para abrir a janela ligar o ventiladoraparelho de arcondicionado A utilização de atos de fala indiretos corresponde ao tipograu de força ilocucional marcado e ao tipo de interação estabelecido com o interlocutor em questão Derivase da indiretividade dos atos de fala a chamada teoria interacionista e decorrente da mesma a teoria da polidez também importante nos estudos da pragmática Por ora retomemos o que se entende por teoria interacionista dos atos de fala em contraste com a teoria clássica desenvolvida por Austin e Searle Para Marcondes a teoria clássica apesar de conceber a língua em seu aspecto dinâmico de ação parece não dar conta de modo satisfatório da noção de discurso Propõe esse autor Marcondes 1992 123 uma concepção dialógica do discurso em que cada ato de fala passe a ser considerado não isoladamente mas parte de uma troca lingüística um ato de entendimento mútuo A natureza dialógica da linguagem está em que cada ato de fala enquanto parte de um discurso é como um lance em um jogo sendo que cada falante supõe uma resposta como lance do interlocutor caracterizase como uma tomada de posição do falante em relação ao ouvinte Neste sentido cada ato de fala deve conter ao menos potencialmente os elementos de sua validação da possibilidade de justificarse É nesse processo interativo que se constitui a identidade do falante como sujeito lingüístico por meio de um jogo mútuo de autoreconhecimento em que cada participante ao dominar as regras convenções tornará seus atos de fala possíveis plausíveis satisfatórios e eficazes Várias questões como o número e o tipo de atos que se acham envolvidos numa situação particular o tipo de contexto que vai requerer do sujeito um domínio das regras e convenções competência pragmática para se ajustar a elas ou mesmo para rompêlas para exprimir seus sentimentos explicitamente ou não para omitilos reprimilos dissimulálos fazem parte do contexto dos atos de fala em processos interacionais Teorias da polidez O princípio da polidez introduzido por Brown e Levinson 1987 deriva dos trabalhos de E GofFman 1967 sobre face c do princípio da cooperação de Grice 1975 e será aqui apresentado ao lado de outros estudos sobre o mesmo fenômeno como parte de um dos campos de atuação da pragmática Como as pessoas se relacionam entre si As pessoas cooperam umas com as outras Evitam conflitos São solidárias Que regras ou princípios de comportamento atuam como reguladores da interação humana Como manter a solidariedade recíproca entre as pessoas numa interação Em que consistem tais regras ou princípios O que as pessoas realmente fazem em suas ações diárias na interação Perguntas como essas estão entre as preocupações básicas dos que estudam a polidez A polidez está associada aos processos de elaboração de face autoimagem pública dos indivíduos oriunda dos trabalhos sobre face de Erving Goffman e se caracteriza como recurso de dissimulação de afeto do tipo negativo Para Holanda 1995 147 a polidez é de algum modo organização de defesa ante a sociedade Detémse na parte exterior epidérmica do indivíduo podendo mesmo servir quando necessário de peça de resistência Eqüivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar inatas sua sensibilidade e suas emoções Em geral segundo os estudiosos da polidez as pessoas tendem a cooperar entre si para manter a face na interação agindo de modo a assegurar a autoimagem de todos os participantes Partindose desse princípio geral e universal de cooperação vários autores formularam algumas regras de conduta com base no tipo de interação observado e no tipo de cultura implicada Vamos apresentar algumas dessas regras segundo autores como Goffman Lakoff Brown e Levinson e Leech De certa forma todos esses autores objetivam determinar hipóteses e investigar as razões pelas quais as pessoas produzem estratégias a princípio universais embora também particulares a cada cultura na interação verbal Erving Goffman teve um papel fundamental no desenvolvimento dos estudos na pragmática Em meados dos anos 1950 elaborou um estudo de natureza sociológica sobre os elementos rituais na interação Nesse trabalho o autor introduz a noção de face como o valor social positivo que uma pessoa reclama para si mesma através daquilo que os outros presumem ser a linha por ela tomada durante um contato específico Face continua ele é uma imagem do self delineada em termos de atributos sociais aprovados Goffman 1980 77 Nessa perspectiva a face é construída pelo indivíduo e está associada às situações sociais e interacionais nas quais se manifestam determinadas habilidades ou condutas como polidez tato e diplomacia Há sempre um esforço por parte das pessoas em prol da preservação da face que se torna então condição da interação Esta por sua vez baseiase no princípio autorregulador voltado para o equilíbrio do ritual que deve ser perseguido pelos membros da sociedade por meio dos chamados processos corretivos Nesse sentido as ameaças à face são evitadas ou contornadas para que as pessoas atinjam seus objetivos mesmo que sejam motivadas por interesses distintos A elaboração da face é duplamente orientada em termos de uma face defensiva isto é constitui uma prática defensiva que procura salvar a própria face e uma face protetora que procura salvar a face do outro por meio do respeito da polidez da discrição e da cortesia Ou seja a preocupação com a própria face implica a preocupação com a face do outro Se pensarmos em situações de possível confronto como a reclamação por exemplo podemos perguntar o que leva a pessoa a reclamar Ou a reclamar usando estratégias diferenciadas Ou mesmo a não optar pela reclamação Certamente essa pessoa pensará na relação custobenefício na ocasião de reclamar Valerá mesmo a pena fazer uma reclamação O que é colocado em risco O que se ganha ou se perde em termos de face Ao agir desse modo a pessoa está preocupada com a sua própria face sua imagem pública positiva e também preocupada em não ferir ou ameaçar a face do outro dependendo da situação dos riscos e custos que isso envolveria para não ter depois a sua própria face atingida Goffman aponta o orgulho a honra e a dignidade como elementos mantenedores da face e da responsabilidade da pessoa ao passo que gafes insultos maliciosos e ofensas constituem atos de ameaça à face Mas ao se referir a ela Goffman está tratando da face social porque por mais pessoal que seja a face de um indivíduo ela está associada às regras e convenções da sociedade Como exemplo podemos citar atos de fala como pedidos Você poderia me informar as horas ou Que horas são por favor Toda vez que fazemos um pedido a alguém estamos ameaçando a face porque invadimos a privacidade da pessoa por isso em geral os pedidos são feitos de modo a atenuar o grau de ameaça à face do outro Um caso muito comum é aquele em que uma pessoa telefona para a outra para pedir algo depois de muito tempo sem contato Algumas pessoas fazem um enorme rodeio até chegar ao pedido propriamente dito outras já vão direto ao assunto Em ambos os casos a tentativa é de atenuar esse grau de imposição que pode ser agravado também em função daquilo que se pede Imagine o que você responderia e sentiria diante de uma situação como essa Marina eu vou viajar na semana que vem e sei que você tem uma máquina fotográfica digital Você se incomodaria de me emprestála Outros autores como Lakoff 1973 distinguem três regras de polidez não imponha dê opções faça A sentirse bem seja amigável Não imponha e dê opções são regras que se relacionam à polidez positiva A primeira não imponha referese ao grau de proximidadedistanciamento entre os interlocutores dependendo também do tipo de contexto em contextos formais o distanciamento é maior exigindo então uma atitude pouco ou não impositiva com o outro Vejamos um exemplo Como vai Como te enviei um email mas não sei se você recebeu envio outro morrendo de vergonha e me desculpando de antemão pela invasão e insistência Eu gostaria realmente de poder dar início ao meu trabalho por isso preciso da sua resposta Não quero te incomodar ou ser chata Além disso eu gostei tanto de trabalhar com vocês aí Foi um momento de muito encontro e muita importância para mim Reparem como o redator do email transcrito procurou ser o menos impositivo com o seu interlocutor resguardandoo de uma possível situação de constrangimento e ameaça Observem a preocupação com a face do outro pois se trata de um pedido semiformal e portanto de uma ação impositiva e de ameaça à face que requer do outro uma resposta e uma ação efetiva O modo como o emissor da mensagem se dirige ao seu interlocutor revela também a consciência a respeito da distância social e das relações de poder que os separa e os envolve Além disso o emissor parece bastante constrangido por ter de reiterar um pedido feito anteriormente o que agrava ainda mais o ato de ameaça à face e o leva a fazer uso de estratégias de polidez para mitigar a ameaça trecho em destaque A segunda regra dê opções sugere que o falante não deva parecer categórico assertivo demais procurando deixar o interlocutor o mais à vontade e livre possível para tomar decisões Vamos observar o caso abaixo Enfim querida amiga cá estou livre leve e solto Ao menos nestas duas semanas de férias Nosso lanche quem sabe é possível Como estão seus dias Engraçado tanto trabalho me dá uma urgência E você é uma delas beijo Z Reparem que se trata de um convite feito por alguém muito íntimo do emissor do email Apesar do grau de intimidade o convite é expresso por meio de uma pergunta nada retórica no caso nosso lanche quem sabe é possível Tal estratégia funciona como meio de minimizar o custo para o interlocutor com o objetivo de deixálo à vontade para responder e quem sabe aceitar o convite A terceira regra faça A sentirse bem seja amigável ao contrário da primeira sugere a aproximação entre os interlocutores é a regra da camaradagem em que o outro é tratado como igual dependerá também do contexto Vejamos como o exemplo abaixo retrata tipicamente uma conversa entre pessoas muito amigas com um grau alto de intimidade o que leva ao uso de uma linguagem bastante espontânea sem custos para o interlocutor e sem barreiras Bomdia Já aqui estou agarrada no computador insone e arrombada Acordei às 4 Fazer o quê Se ao menos a inspiração piasse por aqui Já abri a janela e tudo que entrou foram dois gatos Mó Te mando então Aline tão piedosa Beijos matinais e ainda reumáticos M PS E quando a tal festa Olha filha depois de tanto sururu de tantos e tão variados preparativos você me apareça por favor pelo menos com uma foto na coluna do Gilson Monteiro Tanto arrepio pra passar em brancas nuvens Nem pensar Nesse tipo de interação há apenas um desejo de compartilhar uma situação conversar sem demandas pedidos favores Não há nada que sugira ameaça à face ao contrário o PS ao final ainda sugere um conselho orientado para a face positiva do receptor da mensagem Vale lembrar porém que a aplicação das três regras está relacionada a fatores como poder distância social e cultura cada um deles determinando diferentes ordens de preferência em relação às regras donde se depreende como o princípio de polidez está sujeito à variação Dando seqüência aos trabalhos de face Brown e Levinson 1987 sistematizam os estudos sobre face na teoria da polidez Tomam o conceito de face como a autoimagem pública que qualquer indivíduo reclama para si e apresentam dois tipos de face que se relacionam face negativa reivindicação básica para a privacidade e a preservação pessoal isto é o desejo da não imposição que corresponde à polidez negativa e face positiva autoimagem positiva incluindo o desejo de ser apreciado e aprovado correspondendo à polidez positiva Impregnada de carga afetiva a face pode ser perdida mantida ou engrandecida em função de cada tipo de situação e está mais voltada às necessidades de face do outro raras são as circunstâncias em que as pessoas se preocupam com as suas próprias faces segundo os autores Mas como a elaboração da face na interação requer esforço permanente por parte das pessoas a polidez consiste exatamente nesse esforço de manter e reparar a face de si mesmo e do outro Em casos de ameaça à face caberá ao falante decidir se deve ou não realizar esse ato lançando mão de recursos que podem minimizálo Embora reconheçam que o conteúdo da face varie de cultura para cultura propondo modelos de caracterização de culturas de polidez positiva e culturas de polidez negativa por exemplo acreditam os autores que o conhecimento mútuo da autoimagem pública ou face dos indivíduos associado à necessidade social para se orientar na interação é universal O fenômeno da polidez em princípio universal parece dar conta não só das relações sociais que se estabelecem mas da maneira como elas ocorrem e se organizam Em termos práticos o que isso significa Vamos retornar ao contexto da reclamação que é propício à manifestação de emoções negativas pois toda reclamação implica a expressão de uma insatisfação Para os teóricos o princípio da polidez está associado ao ato de tornar possível a comunicação entre as partes potencialmente agressivas na tentativa de manutenção do equilíbrio social da cooperação a que Grice se referia Portanto assim como pedir e reivindicar reclamar envolve um custo para quem reclama e um custo para quem recebe a reclamação Tratase de um ato de imposição com um grau de ameaça à face do ouvinte que varia em termos da imposição do ato e do tipo de afeto expressos Como as pessoas agem nessa situação em relação à face envolvida Quais seriam as estratégias de polidez utilizadas nesse caso Vejamos alguns outros exemplos de cartas de reclamação de proprietários de imóveis residenciais direcionadas à empresa construtora 1 Modelo de carta com um grau mínimo de ameaça à face da empresa uso da polidez negativa Prezados Senhores Em recente manutenção realizada na fachada traseira do nome do edifício sito a endereço do edifício por equipe dessa Construtora um objeto se desprendeu do andaime impactando com um dos vidros da janela do quarto do meio provocando uma trinca Solicito suas providências no sentido da substituição do mesmo Sendo o que se apresenta para o momento e ao seu inteiro dispor para informes adicionais subscrevome Atenciosamente X Nessa carta o cliente opta por um discurso objetivo e impessoal peculiar a contextos que exigem formalidade e pouca ou nenhuma intimidade entre as partes A despersonalização associada à formalidade pode ser traduzida em termos da contenção afetiva em que o distanciamento implica simbolicamente a intenção da não confrontação logo um desejo de ser claro e não impositivo A opção pelo discurso neutro distante formal e impessoal ajustase a regras culturais e pragmáticas em situações de confronto há culturas que evitam a manifestação aberta de sentimentos Nesse caso o contexto pode ter influenciado a favor da contenção da expressão afetiva portanto usar uma estratégia de dissimulação eou omissão de sentimento diminui o grau de ameaça à face intrínseco ao ato de fala da reclamação cuja natureza está vinculada à manifestação de sentimentos de contrariedade desaprovação e insatisfação 2 Modelo de carta em que se apela para a face da empresa de forma ambivalente uso da polidez negativa e positiva Nós que confiamos na qualidade lisura e boa tradição da V empresa temos a mais absoluta certeza que ao receber mais uma vez estas reivindicações VS há de tomar as providências cabíveis enérgicas e breves Tratando de modo ambivalente os sentimentos positivos e negativos o cliente diante da incerteza de atendimento tenta ajustarse ao enquadre organizacional para alcançar seus objetivos aliando estratégias de polidez e atitudes cordiais positivas por meio de recursos lingüísticos tais como qualidade lisura e boa tradição da empresa e temos a mais absoluta certeza a atos de ameaça à face há de tomar as providências cabíveis enérgicas e breves A duplicidade lingüística e formal dos recursos empregados aliada à multiplicidade dos atos conduz à ambigüidade discursiva e indeterminação semântica no plano afetivointeracional A alternância de diferentes forças ilocucionárias modifica os efeitos que possam se tornar desagradáveis para o reclamado efeito perlocucionário alargando sua opção para atender satisfatoriamente ao cliente 3 Modelos de cartas em que o reclamante não tem mais nada a perder uso da impolidez são cartas de reiteração dos pedidos e os proprietários já estão esgotados com o descaso da empresa e com as conseqüências da falta de assistência e consideração Na balança custobenefício os reclamantes não temem a perda da face pois já perderam muito mais Estamos cansados deste atendimento por parte da nome da empresa e da qualidade da obra já tive minhas paredes quebradas por mais de 10 vezes fora outros problemas com um índice de reincidência de até 3 vezes tudo isto incompatível com o custo e com o padrão da unidade adquirida O cliente optou nessa carta por recursos de intensificação da força ilocucionária do ato de reclamar por meio de atos de ameaça à face positiva e negativa da empresa por estratégias de impolidez positiva e negativa e pela expressão aberta de hostilidade logo enfatizando e manifestando negativamente o afeto no processo de interação com a empresa As estratégias de polidez destinadas à preservação e à proteção das faces dos interlocutores e utilizadas para manter a harmonia social na interação foram negligenciadas pelo cliente uma vez que todos os seus esforços nesse sentido já haviam sido realizados Mesmo correndo o risco de não ser atendido a cultura brasileira é tradicional mente considerada uma cultura de não confrontação embora seja permeável à expressão de emoções o cliente em face da maximização dos custos não encontra outra saída a não ser manifestarse por meio de estratégias de impolidez e expressões de contrariedade desaprovação e hostilidade Em decorrência do rompimento do equilíbrio do ritual provocado pela empresa o cliente não teme perder a sua própria face nem destruir a face da empresa Portanto nem a opção por recursos que possam atenuar a força negativa do ato de fala ou que possam manter a interação num nível de cooperação e cordialidade são consideradas eficazes e produtivas nessa situação específica Nesses casos o reclamante leva sua ação às últimas conseqüências Culpeper 1996 constrói o princípio da impolidez baseado em Brown e Levinson argumentando que o comportamento impolido não deve ser considerado uma ação marginal desviante mas deve ser visto como representando uma importante função social Leech 1983 aprofundando os estudos de Brown e Levinson compreende a polidez em termos de adequação às normas de comportamento de uma determinada comunidade Segundo o autor o julgamento de um indivíduo quanto à polidez ou falta de polidez só é possível com base nas normas de um grupo social A polidez manifestase tanto no conteúdo da informação quanto no modo como as pessoas a administram Leech estabelece algumas máximas de polidez a saber 1 Máxima do tato a Minimize o custo do outro b Maximize o benefício do outro Como exemplo podemos pensar em situações do tipo Preciso te pedir um favor mas já até te adianto que não é nada demais nada que vá te tomar o teu tempo É o seguinte Outro exemplo pode ser visto na frase dita para um garçom Esta mesa está um pouco suja como uma forma indireta de pedir que ele a limpe 1 Máxima da generosidade a Minimize o benefício de si próprio b Maximize o custo a si próprio Como exemplo podemos pensar em uma pessoa querendo agradar a outra fazendo um favor mesmo que esteja sem disponibilidade para tal Posso sim vou trocar o presente para você 1 Máxima da aprovação a Minimize a aprovação do outro b Maximize a honra do outro Como exemplo podemos ler o trecho abaixo Se Zico não foi campeão do mundo azar da Copa do Mundo Fernando Calazans jornalista revista Língua Portuguesa 1 Máxima da modéstia a Minimize seu orgulho sua vaidade b Maximize sua modéstia Um exemplo da máxima da modéstia pode ser visto em situações em que as pessoas contrariam o interlocutor quando são elogiadas como no diálogo abaixo A Você está tão bem hoje B O que é isso São seus olhos A Que lindo esse vestido B É tão velho 1 Máxima da concordância a Minimize a desavença entre as pessoas b Maximize a concordância entre as pessoas Vejamos um exemplo dessa máxima em Prezado Sr O Itaú tem uma relação de total transparência com seus clientes Por isso queremos manter você sempre bem informado sobre os assuntos relacionados à sua conta Assim estamos informando que o seu LIS o cheque especial do Itaú está suspenso desde 120606 O seu limite porém pode ser disponibilizado automaticamente após o restabelecimento das suas condições de crédito Como se trata de uma interação organizaçãocliente apesar de uma falha desse último o tom da carta distanciase da ameaça aproximandose da concórdia e boa vontade na tentativa de assegurar tranqüilidade ao cliente Essa situação constran gedora para o usuário do banco foi atenuada pela empresa cujo interesse de mantêlo como cliente parece até uma novidade num país como o Brasil cujas leis são severas para o consumidor e frouxas para as grandes empresas Ou a lei do consumidor está surtindo efeito ou o cliente pode ser especial porque faz uso do LIS e paga altos juros ao banco o que gera esse tipo polido de interação A transparência no discurso da empresa também não oculta a pena atribuída a suspensão do cheque especial No entanto essa suspensão será automaticamente restabelecida após os ajustes necessários por parte do cliente e desde que sejam feitos o que valoriza a autoimagem positiva da empresa diante do mercado transparente justa e generosa 1 Máxima da simpatia a Minimize a antipatia b Maximize a simpatia Vejamos um exemplo dessa máxima em Oi L Desculpeme pela demora na resposta Estou com um semestre muitíssimo atribulado Estive em São Paulo voltei anteontem da Argentina onde fui para um congresso e viajo domingo para uma reunião em Brasília que vai até quarta à noite No dia 15 começa outra aventura Uma loucura E ainda estou dando aula orientando indo para reuniões Desculpeme mesmo Um beijo grande A Nesse email é evidente a tentativa de aproximação com o interlocutor maximizando o grau de simpatia por ele A seqüência de desculpas pelo atraso e demora da resposta é indicadora dessa tentativa Como se pode notar todo o princípio de polidez estabelecido por Leech está orientado em direção ao bemestar do outro Isso não significa que as sociedades de um modo geral se comportem dessa maneira A sociedade brasileira por exemplo vem se esmerando em valorizar o eu sobre o outro muitas vezes a qualquer preço O que as teorias da polidez estabelecem é na verdade um ideai de conduta humana centrado na cooperação Por isso não se pode confundir polidez com cordialidade Aquela está fundada em princípios racionais reguladores esta na expressão dos sentimentos sejam eles positivos ou negativos As máximas correspondem a situações prototípicas praticamente ideais no que se refere ao princípio de cooperação Mas é fato que podemos ser polidos usando estratégias indiretas negando um convite ou um pedido indesejável de forma a não magoar o outro Tudo dependerá do contexto e das condições em que a interação ocorre Estudos posteriores sobre polidez já tratam de casos reais de interação revelando inúmeras formas que as pessoas têm de se relacionarem umas com as outras As diferenças culturais os aspectos emocionais dentre outros são fatores determinantes para a atenuação ou o agravamento de atos de ameaça à face e que concorrem com as estratégias de polidez Análise da conversação A análise da conversação AC se aplica à investigação das práticas e atividades conversacionais Desenvolveuse inicialmente a partir de 1960 com pesquisas de Harvey Sacks Emanuel Schegloff e Gail Jefferson Nessa década a ênfase das análises residia na descrição das estruturas e na organização da conversação e no papel dos gestos na interação em contextos institucionais Por volta da década de 1980 não só os contextos se diversificaram como também as análises se expandiram em torno de descrições e interpretações acerca do modo como os falantes agem e interpretam a ação e a conduta dos outros nas situações interacionais mais espontâneas especialmente na conversação comum Assim as questões estruturais originais referentes à organização da atividade conversacional expandemse para o estudo dos conhecimentos lingüísticos paralinguísticos e socioculturais que são postos em ação no momento da conversação ou seja para a interpretação desses conhecimentos A análise da conversação é de natureza empírica e qualitativa o que significa que seu material de análise assim como ocorre com as propostas anteriormente apresentadas é constituído de manifestações reaisnaturais de conversação e não extraído de situações de conversação artificialmente ou ficticiamente recriadas ou reproduzidas O objetivo é tornar a análise a mais realista possível para que se possam examinar quais os recursos que são livre e espontaneamente empregados pelos falantes num determinado tipo de situação de fala e como eles lidam com as contingências oriundas da situação e da interação em foco O interesse consiste em investigar a interação em sua manifestação espontânea Como os dados para análise são fruto de situações reais do cotidiano como diálogos entre amigos namorados família entrevistas sessões de terapia conversas telefônicas domésticas e comerciais etc a metodologia empregada requer a gravação em áudio e quando possível em vídeo das conversas que são posteriormente transcritas segundo determinadas normas e símbolos que sejam capazes de reproduzir com a máxima fidelidade as ocorrências verificadas nos eventos ou nas atividades de fala Nas atividades conversacionais é possível observar a manifestação regular de estruturas lingüísticas e comunicativas que são relativamente estáveis como se pudéssemos fazer uma gramática da conversação observando e extraindo as regras que a moldam Toda conversação estruturase por meio de seqüências ou turnos conversacionais dos interlocutores interrupções hesitações truncamentos sobreposições e também pausas isto é os momentos de silêncio que ocorrem na fala humana A AC portanto vai procurar estabelecer os traços estáveis da organização seqüencial da conversação Além disso vários fatores precisam ser observados numa conversação a o contexto graus de formalidade de acordo com o tipo de interação e participantes envolvidos como conversas em família com os amigos entrevistas interação jurídica institucional entre outras b as relações interpessoais construídas na interação c o tipo de interlocutores relações simétricas ou assimétricas entre os falantes que envolvem aspectos como poder envolvimento distanciamento grau de intimidade d o tipo de conversação das mais espontâneas às mais formais como conversas face a face conversas telefônicas entrevistas e os elementos que caracterizam e estruturam a própria conversação tais como o assunto da conversa tópico discursivo ou unidade tópica os turnos conversacionais isto é as seqüências de fala as hesitações os truncamentos e as pausas Outros fatores intervém e fazem parte da organização da conversação como a aptidão lingüística o conhecimento partilhado e o domínio de situações sociais vividas pelos interlocutores Marcuschi 1991 destaca cinco elementos básicos que caracterizam uma conversação a interação entre pelo menos dois falantes b ocorrência de pelo menos uma troca de falantes c presença de uma seqüência de ações coordenadas d execução de uma identidade temporal isto é a conversação deve ocorrer num mesmo tempo ainda que em espaços distintos a conversa telefônica ilustra esse caso e interação centrada isto é é preciso que os interlocutores tenham algo sobre o que conversar Quanto aos aspectos relativos à estrutura e à organização da atividade conversacional a AC criou um modelo teórico próprio empregando uma terminologia como seqüências e turnos no lugar da nomenclatura tradicional como frases e sentenças Por turno entendemos como Castilho 2000 36 o segmento produzido por um falante com direito a voz que de acordo com o tipo de análise a ser realizada pode ser constituído de um item prélexical ahn uhn uma palavra um sintagma uma sentença ou toda uma unidade discursiva Ou seja turno é toda intervenção dos interlocutores constituída ao menos por uma unidade construcional unidade cuja definição deve atender a critérios de natureza sintáticosemânticopragmática e a critérios entonacionais incluindo até o silêncio A distribuição e a construção do turno conversacional constituem elementos centrais na organização da conversação e fundamentais para se compreender como ela funciona Como as pessoas fazem a tomada de turno Quando se passa de um turno a outro Como um falante consegue manter o turno praticamente até o fim Em geral sobretudo se as relações entre os participantes são simétricas parece haver um princípio de cooperação entre as partes Goffman Grice Brown e Levinson um princípio de ordem pragmática Por outro lado segundo os analistas existe um sistema básico de regras responsável pela transição de um turno a outro e o assalto a um turno constituiria um princípio de violação do fala um de cada vez O exemplo abaixo extraído do Inquérito NurcRJ 147 é um diálogo entre dois informantes do sexo feminino de formação universitária do ano de 1973 O tema versa sobre vida social diversões cidade e comércio Observe a presença de alguns sinais que marcam superposição de vozes dúvidas e inserções de informações de quem transcreveu o texto risos Também podemos identificar com nitidez nesse início de conversa a alternância dos turnos entre os falantes no sentido relativo ao segmento produzido por um falante com direito a voz o que significa a presença de 14 turnos LI eh você é carioca né quantos anos já há quantos anos você mora no Rio L2 a vida inteira LI nasceu aqui L2 nasci aqui LI está ok bom e você eh mora em Copacabana mesmo L2 não moro em Ipanema mas queria teperguntar uma coisa qualéa tua imagem você mora em Copacabana né qual qual a imagem que você faz de Ipanema L2 olha eu L1 não é sobre o bairro não eu quero saber como vivem as pessoas que moram lá L2 das pessoas da vida LI é qual a imagem que você faz L2 olha eu acho LI pode ser franca hein L2 está ok risos eu não vou malhar não olha eu acho LI não mesmo se malhar No entanto há controvérsias quanto ao conceito de turno no que diz respeito à identificação do momento em que se passa de um a outro turno ou seja nem sempre a simples troca de falantes significa a conclusão de uma unidade constitutiva de turno Portanto fica a critério do analista de posse de determinados conceitos básicos julgar numa determinada conversação o que se pode entender por turno Por exemplo podemos admitir que os trechos em itálico correspondentes à fala de LI constituem um único turno porque mantêm a mesma unidade tópica ou temática Como a conversação é algo mais do que uma simples sucessãoalternância de turnos o mesmo se pode dizer acerca do tópico conversacional Quando estamos conversando podemos abordar mais de um assunto ou privilegiarmos um determinado tópico denominado macrotópico ou unidade tópica da conversação de onde podem emergir os subtópicos relativos àquele tema Da mesma forma que os turnos entre os falantes se alternam conforme a situação também a continuidade tópica varia em função dos interesses e objetivos dos interlocutores mudança tópica essa sujeita ao sistema de troca de turnos entre eles Do mesmo inquérito já citado a conversa entre as informantes passa do tema cidade para diversão conduzida explicitamente por LI No entanto quando LI introduz o tópico diversão esse se desdobra em um subtópico no momento em que uma das informantes descobre que a outra é descendente de árabes e esta de israelitas Observe LI e em matéria assim de diversão o que você acha assim do Rio de Janeiro pra você sair assim de casa pra onde vamos o que fa fazer no sábado domingo fim de semana que que você acha da nossa cidade L2 olha tem muita coisa boa mas eu não sei se é porque já é tanto tempo já está virando um saco sabe eu já não sei nem pra onde eu vou mais vira e mexe LI L2 eu vou pro mesmo lugar você tem muito lugar pra ir entendeu LI que lugar você gosta ir geralmente L2 é bar restaurante teatro cinema de noite praia eu sei lá de vez em quando piscinaaíalgum clube algum conhecido LI você é sócia de algum clube L2 sou LI de qual L2 é o Monte Sinai sabe LI sei L2 na Tijuca mas eu quase não eu vou quando eu vou LI está correndo acho que está correndo uma coisa muito interessante aqui você é de família de israelita L2 sou LI você vê que coisa bacana né eu sou descendente direta de árabe por parte de pai e parte de mãe L2 risos Turno e topicalidade portanto estão bastante interligados e representam o princípio organizador e regulador da conversa muitas vezes desempenhando funções pragmáticas responsáveis pelo fator de integração entre os interlocutores E claro que outros fatores também contribuem para a manutenção e continuidade tópica numa conversa como por exemplo as estratégias de polidez e envolvimento e o uso de marcadores conversacionais como os marcadores lingüísticos de abertura olha bem bom ou finais né sabe Enfim procuramos neste capítulo apresentar as questões mais gerais acerca da conversação Certamente não esgotamos o assunto mas procuramos oferecer um painel para que os leitores iniciantes pudessem ter uma noção a respeito do assunto Os interessados e aqueles que precisam se aprofundar na teoria têm em autores brasileiros como Luiz Antonio Marcuschi Dino Pretti Ataliba de Castilho e tantos outros que trabalham com o discurso oral fonte inesgotável para o aprofundamento de estudos nessa área cabendo distinguir as diferentes perspectivas teóricas adotadas Exercícios 1 Leia o texto abaixo para responder às questões Chatear e encher Um amigo meu me ensina a diferença entre chatear e encher Chatear é assim você telefona para um escritório qualquer na cidade Alô Quer me chamar por favor o Valdemar Aqui não tem nenhum Valdemar Daí a alguns minutos você liga de novo O Valdemar por obséquio Cavalheiro aqui não tem nenhum Valdemar Mas não é do número tal É mas aqui nunca teve nenhum Valdemar Mais cinco minutos você liga o mesmo número Por favor o Valdemar já chegou Vê se te manca palhaço Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí Não chateia Daí a dez minutos liga de novo Escute uma coisa O Valdemar não deixou pelo menos um recado O outro dessa vez esquece a presença da datilografa e diz coisas impublicáveis Até aqui é chatear Para encher espere passar mais dez minutos faça nova ligação Alô Quem fala Quem fala aqui é o Valdemar Alguém telefonou para mim Paulo Mendes Campos Chatear e encher In Para gostar de ler vol 2 São Paulo Atica 1983 p 35 a Após a leitura do texto caracterize cada diálogo como polido e impolido identificando os itens lingüísticos que caracterizam ora a atitude polida ora a impolida b Mostre com passagens do texto como o personagem infringiu as três regras de polidez apresentadas por Lakofif não imponha dê opções faça A sentirse bem seja amigável c Proceda como no exercício anterior a partir das máximas estabelecidas por Leech d Estabeleça a diferença entre chatear e encher explicando a teoria da polidez e Pensando na afirmação quando dizer é fazer que ações atos de fala são realizadas pelo personagem que indiquem o que é chatear de um lado e o que é encher de outro f Segundo Searle os atos de fala classificamse em assertivos quando dizemos às pessoas como as coisas são declarativos quando tentamos levar as pessoas a fazer coisas expressivos quando expressamos sentimentos e atitudes comissivos quando produzimos mudanças por meio de nossas ações De acordo com essa classificação caracterize os atos de fala com base em sua resposta do exercício anterior Abordagens linguísticas Estruturalismo Marcos Antonio Costa Este capítulo trata da escola estruturalista dando ênfase às propostas de Ferdinand de Saussure e de Leonard Bloomfield O legado de Saussure A rigor não podemos falar de um conceito único para o termo estruturalismo Mesmo sem levarmos em consideração que a antropologia a sociologia a psicologia entre outras áreas das ciências humanas podem se apresentar sob a orientação de uma teoria estruturalista e nos restringindo aos domínios exclusivos das diversas escolas lingüísticas tornase evidente a impropriedade do uso indistinto do termo para todas elas Entretanto essas escolas de um modo ou de outro apresentam concepções e métodos que implicam o reconhecimento de que a língua é uma estrutura ou sistema1 e que é tarefa do lingüista analisar a organização e o funcionamento dos seus elementos constituintes Sistema estrutura estruturalismo Sabemos que um sistema resulta da aproximação e da organização de determinadas unidades Por possuírem características semelhantes e obedecerem a certos princípios de funcionamento essas unidades constituem um todo coerente coeso É essa idéia que nos permite falar por exemplo da existência de um sistema solar de um sistema circulatório respiratório digestivo etc Descrever cada um desses sistemas significa revelar a organização de suas unidades constituintes e os princípios que orientam tal organização Saussure o precursor do estruturalismo enfatizou a idéia de que a língua é um sistema ou seja um conjunto de unidades que obedecem a certos princípios de funcionamento constituindo um todo coerente À geração seguinte coube observar mais detalhadamente como o sistema se estrutura daí o termo estruturalismo para designar a nova tendência de se analisar as línguas O estruturalismo portanto compreende que a língua uma vez formada por elementos coesos interrelacionados que funcionam a partir de um conjunto de regras constitui uma organização um sistema uma estrutura Essa organização dos elementos se estrutura seguindo leis internas ou seja estabelecidas dentro do próprio sistema O desenvolvimento da lingüística estrutural representa um dos acontecimentos mais significativos do pensamento científico do século xx Não poderíamos compreender os incontestáveis progressos verificados no quadro das ciências humanas sem compreen dermos a elaboração do conceito de estrutura desenvolvido a partir das investigações do fenômeno da linguagem Toda uma geração de pensadores entre os quais Jacques Lacan Claude LéviStrauss Louis Althusser Roland Barthes evidencia em suas obras a contribui ção pioneira de Ferdinand de Saussure relacionada à organização estrutural da linguagem Curiosamente as idéias de Saussure que se tornaram ponto de partida do pensamento que caracteriza a lingüística moderna tornaramse públicas com o famoso Curso de lingüística geral livro que na verdade é a reconstrução a partir de notas redigidas por alunos de três cursos lecionados por Saussure entre 1907 e 1911 na Universidade de Genebra cidade onde o lingüista nasceu O trabalho foi organizado por dois discípulos Charles Bally e Albert Sechehaye É no Curso publicado em 1916 três anos após a morte de Saussure que encontramos os conceitos fundamentais do modelo teórico estruturalista Esse modelo como já mencionamos anteriormente apresenta a linguagem como um sistema articulado uma estrutura em que tal como no jogo de xadrez analogia abundan temente utilizada por Saussure o valor de cada peça não é determinado por sua materialidade ele não existe em si mesmo mas é instituído no interior do jogo É fácil entendermos que pouco importa se no xadrez as peças são de madeira ferro marfim ou de outro material qualquer A possibilidade de darmos andamento ao jogo depende exclusivamente de nossa compreensão de como as peças se relacionam entre si das regras que as governam da função estabelecida para cada uma delas e em relação às demais Se substituirmos o material das peças isso em nada afetará o sistema já que o valor de cada peça depende unicamente das relações das oposições entre as unidades Podemos por exemplo utilizar uma simples tampinha de garrafa como se ela valesse a torre de nosso jogo Para isso é necessário tão somente que o valor atribuído a essa tampinha não seja correspondente ao valor do peão do bispo da rainha ou de qualquer outra unidade do sistema de jogo do xadrez Em relação e em oposição a todas as outras unidades nossa tampinha precisará valer uma torre Podemos como quer Saussure pensar a estrutura lingüística a partir desse mesmo entendimento estabelecemos comunicação porque conhecemos as regras da gramática de uma determinada língua Ou seja conhecemos as peças disponíveis do jogo e suas possibilidades de movimento como elas se organizam e se distribuem Não se trata obviamente do conhecimento acerca das regras normativas que encontramos nos livros de gramática Não estamos falando de regras estabelecidas por um grupo de estudiosos em um determinado momento da história Se assim fosse aqueles que desconhecessem tais regras não se comunicariam O que regula o funcionamento das unidades que compõem o sistema lingüístico são normas que internalizamos muito cedo e que começam a se manifestar na fase de aquisição da linguagem Tratase de um conhecimento adquirido no social na relação que mantemos com o grupo de falantes do qual fazemos parte Esse conhecimento tal como no jogo de xadrez independe da materialidade da substância da qual as peças são formadas Podemos lembrar que o sistema fonológico de uma língua pode ser expresso não a partir de uma substância sonora mas por exemplo a partir de sensações visuais movimento dos lábios É desse modo que em geral as pessoas surdas de nascença aprendem o sistema de uma determinada língua sem nunca ter ouvido seus sons O que se pretende demonstrar a partir dessa realidade é que a substância não determina de modo algum as regras do jogo lingüístico que são independentes do suporte físico som movimento labial gestos etc em que se realizam Em resumo a abordagem estruturalista entende que a língua é forma estrutura e não substância a matéria a partir da qual ela se manifesta Reconhece entretanto a necessidade da análise da substância para que possamos formular hipóteses acerca do sistema a ela relacionado Um sistema que não apresenta qualquer manifestação material que não seja expresso por algum tipo de substância não desperta qualquer interesse científico uma vez que não pode ser investigado Essa concepção de linguagem tem como conseqüência um outro princípio do estruturalismo o de que a língua deve ser estudada em si mesma epor si mesma É o que chamamos estudo imanente da língua o que significa dizer que toda preocupação extralinguística precisa ser abandonada uma vez que a estrutura da língua deve ser descrita apenas a partir de suas relações internas Nessa perspectiva ficam excluídas as relações entre língua e sociedade língua e cultura língua e distribuição geográfica língua e literatura ou qualquer outra relação que não seja absolutamente relacionada com a organização interna dos elementos que constituem o sistema lingüístico2 Língua e fala Quando estudamos Saussure é freqüente encontrarmos um grupo de dicotomias relacionado ao pensamento do famoso lingüista O termo dicotomia designa a divisão lógica de um conceito em dois de modo que se obtenha um par opositivo Podemos assim observar dualidades como língua e fala sincronia e diacronia paradigma e sintagma forma e substância significado e significante motivado e arbitrário Essas são algumas das chamadas dicotomias saussureanas A partir de agora vamos observar algumas delas começando pela dicotomia entre língua e fala Até agora usamos sem maior rigor o termo linguagem Para Saussure entretanto a linguagem deve ser tomada como um objeto duplo uma vez que o fenômeno lingüístico apresenta perpetuamente duas faces que se correspondem e das quais uma não vale senão pela outra Saussure 1975 15 Assim sendo a linguagem tem um lado social a língua ou langue nos termos saussureanos e um lado individual a fala ouparole nos termos saussureanos sendo impossível conceber um sem o outro Para Saussure a língua é um sistema supraindividual utilizado como meio de comunicação entre os membros de uma comunidade O entendimento saussureano é o de que a língua corresponde à parte essencial da linguagem e constitui um tesouro um sistema gramatical depositado virtualmente nos cérebros de um conjunto de indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade lingüística Sua existência decorre de uma espécie de contrato implícito que é estabelecido entre os membros dessa comunidade Daí seu caráter social Para Saussure o indivíduo sozinho não pode criar nem modificar a língua Diferentemente a fala constitui o uso individual do sistema que caracteriza a língua Nas palavras de Saussure é um ato individual de vontade e de inteligência 1975 22 que corresponde a dois momentos as combinações realizadas pelo falante entre as unidades que compõem o sistema da língua objetivando exprimir seu pensamento e o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações Tratase portanto da utilização prática e concreta de um código de língua por um determinado falante num momento preciso de comunicação Em outras palavras é a maneira pessoal de atualizar esse código Daí seu caráter individual De acordo com Saussure a língua é a condição da fala uma vez que quando falamos estamos submetidos ao sistema estabelecido de regras que corresponde à língua Portanto o objeto de estudo específico da lingüística estrutural é a língua e não a fala sendo esta última tomada como objeto secundário Isso se dá porque é na língua conhecimento comum a todos que se encontra a essência da atividade comunicativa e não naquilo que é específico de cada um Como já mencionamos anteriormente toda preocupação extralinguística é abandonada e a estrutura da língua é descrita apenas a partir de suas relações internas Isso não significa que se possa estudar a língua independentemente da fala uma vez que entre os dois objetos existe uma estreita ligação a língua é necessária para que a fala seja compreensível e para que o falante consequentemente possa vir a atingir os seus propósitos comunicativos por outro lado a língua só se estabelece a partir das manifestações concretas de cada ato lingüístico efetivo Assim a língua é ao mesmo tempo o instrumento e o produto da fala Sincronia e diacronia Nesta seção conheceremos mais uma dicotomia saussureana relacionada ao mé todo de investigação a ser adotado pelo lingüista em suas pesquisas sincronia e diacronia No início do século xix as semelhanças encontradas entre determinadas línguas levaram os pesquisadores a acreditar na existência de parentescos entre elas As investigações passaram a ter como um de seus principais objetivos o agrupamento dessas línguas em famílias o que acontecia através de um método de estudo chamado históricocomparativo Entre essas famílias temos a indoeuropeia que reúne entre outras a maior parte das línguas europeias assim como as línguas do chamado grupo indoirânico como o persa e o sânscrito língua sagrada utilizada pelos hindus nos cerimoniais religiosos há cerca de 1220800 aC Aos 21 anos Saussure havia escrito Mémoire sur le systemeprimitifdes voyelles indoeuropèene apud Malmberg 1974 obra que faz parte da bibliografia relativa ao pensamento do século xix Durante todo esse século a investigação acerca da linguagem foi marcadamente de caráter histórico Pouco interesse havia em se estudar a língua de um determinado grupo de falantes fora de um quadro de considerações históricas A partir dos anos de 1870 a geração dos neogramáticos procurou mostrar que a mudança das línguas possui uma regularidade segue uma necessidade própria não de pendendo da vontade dos homens Com esse objetivo desenvolveram uma teoria das trans formações lingüísticas baseada em método estritamente científico afastandose das espe culações vagas e subjetivas que marcaram os estudos da linguagem no início do século xix De acordo com a escola dos neogramáticos a lingüística necessariamente deveria ter um caráter histórico já que sua tarefa seria estudar as transformações das línguas em busca de explicações e formulações de regras de um vir a ser dessas línguas Para Hermann Paul o grande teórico da escola a simples descrição de uma língua representaria unicamente a constatação de um fato mas de forma alguma uma ciência A distinção feita por Saussure entre a investigação diacrônica e a investigação sincrônica representa duas rotas que separam a lingüística estática da lingüística evolutiva É sincrônico tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência diacrônico tudo que diz respeito às evoluções Do mesmo modo sincronia e diacronia designarão respectivamente um estado de língua e uma fase de evolução Saussure 197596 Assim enquanto o estudo sincrônico de uma língua tem como finalidade a descrição de um determinado estado dessa língua em um determinado momento no tempo o estudo diacrônico através do tempo busca estabelecer uma comparação entre dois momentos da evolução histórica de uma determinada língua Podemos citar a análise da variação entre o uso de ter e haver no português contemporâneo no Brasil como exemplo de estudo de caráter sincrônico já que o termo variação implica a coexistência de duas ou mais formas em uma mesma época Por outro lado a análise da trajetória de mudançapane pãe pão do latim ao português caracterizase como uma abordagem diacrônica O estruturalismo proposto por Saussure não apenas aponta as diferenças entre essas duas formas de investigação mas sobretudo registra a prioridade do estudo sincrônico sobre o diacrônico Ou seja para Saussure o lingüista deve estudar principalmente o sistema da língua observando como se configuram as relações internas entre seus elementos em um determinado momento do tempo Esse tipo de estudo é possível porque os falantes não têm informações acerca da história de sua língua e não precisam ter informações etimológicas a respeito dos termos que utilizam no dia a dia para os falantes a realidade da língua é o seu estado sincrônico Na defesa de tais idéias o lingüista utiliza mais uma vez a analogia entre o sistema lingüístico e o jogo de xadrez Conforme a análise de Saussure tanto no jogo da língua como durante uma partida de xadrez estamos diante de um sistema de valores e assistimos às suas modificações assim como ocorre com os sistemas lingüísticos a disposição das peças no tabuleiro sofre contínuas mudanças A qualquer instante porém essa disposição pode ser descrita conforme a posição das peças naquele momento específico do jogo o mesmo acontecendo quando se trata da descrição de um estado particular de língua Não importa o caminho percorrido o que acompanhou toda a partida não tem a menor vantagem sobre o curioso que vem espiar o estado do jogo no momento crítico para descrever a posição é perfeitamente inútil recordar o que ocorreu dez segundo antes Saussure 1975 105 Além disso argumentase que embora não sejam muitos os falantes conhecedores profundos da evolução histórica da língua que utilizam todos nós demonstramos dominar ainda na infância os princípios sistemáticos as regras da língua que ouvimos à nossa volta A descrição lingüística sincrônica tem por tarefa formular essas regras sistemáticas conforme elas operam num momento estado específico independentemente da combinação particular de movimentos das mudanças já ocorridos Cabe observar ainda que o movimento de uma pedra no tabuleiro implica a constituição de uma nova sincronia uma vez que tal movimento repercute em todo o sistema O conjunto das regras do jogo porém é mantido Essas regras como já vimos anteriormente situamse fora do tempo do jogo e são prévias à sua existência e realização É o próprio Saussure contudo que nos alerta quanto ao ponto em que a analogia entre o jogo de xadrez e o sistema lingüístico se mostra falha a ação do jogador ao deslocar uma pedra e consequentemente exercer uma alteração no sistema é intencional Na língua diferentemente nada é premeditado é espontânea e fortuitamente que suas peças se deslocam ou melhor se modificam Saussure 1975 105 O signo lingüístico Uma vez compreendido que a língua representa um conjunto de elementos solidários uma estrutura cabenos conhecer a natureza desses elementos Saussure afirma que a língua é um sistema de signos O signo é portanto a unidade constituinte do sistema lingüístico Ele é formado por sua vez de duas partes absolutamente inseparáveis sendo impossível conceber uma sem a outra como acontece com as duas faces de uma folha de papel um significante e um significado Poderíamos dizer que o significante consiste numa seqüência de fonemas como acontece por exemplo com a seqüência linguagem Precisamos porém de um pouco mais de cautela para entender o verdadeiro sentido atribuído por Saussure ao conceito de significante Comecemos por compreender que de acordo com a proposta estruturalista saussureana a língua é uma realidade psíquica Como já dito um tesouro um sistema gramatical depositado virtualmente no cérebro de um conjunto de indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade lingüística Assim sendo as faces que compõem o signo lingüístico são ambas psíquicas e estão ligadas em nosso cérebro por um vínculo de associação Sendo assim o significante também chamado de imagem acústica não pode ser confundido com o som material algo puramente físico mas deve ser identificado com a impressão psíquica desse som a representação da palavra enquanto fato de língua virtual estando a fala absolutamente excluída dessa realidade A outra face do signo o significado também chamada de conceito representa o sentido que é atribuído ao significante o sentido por exemplo que atribuímos ao significante linguagem anteriormente mencionado como capacidade humana de comunicação verbal Daí o entendimento de que o signo unidade constituinte do sistema lingüístico resulta da associação de um conceito com uma imagem acústica A arbitrariedade do signo lingüístico A filosofia desenvolvida na Grécia antiga é um marco inicial no Ocidente do debate sobre as relações entre a linguagem e o mundo A discussão era se os recursos lingüísticos através dos quais as pessoas descrevem o mundo à sua volta são arbitrários ou se esses recursos sofrem algum tipo de motivação natural Essas duas teses representam desdobramentos das especulações filosóficas que dividiram os gregos na antigüidade clássica em convencionalistas e naturalistas Enquanto os primeiros defendiam que tudo na língua era convencional mero resultado do costume e da tradição os naturalistas afirmavam que todas as palavras eram de fato relacionadas por natureza às coisas que elas significavam Que relação podemos observar entre a seqüência linguagem e o sentido a ela atribuído Quando nos referimos a livro como conjunto de folhas de papel capaz de guardar uma obra literária científica artística etc haveria alguma motivação especial para a escolha desse termo livro e não a de um outro qualquer Afirmar que o signo lingüístico é arbitrário como fez Saussure significa reconhecer que não existe uma relação necessária natural entre a sua imagem acústica seu significante e o sentido a que ela nos remete seu significado Isso significa dizer que o signo lingüístico não é motivado e sim cultural convencional já que resulta do acordo implícito realizado entre os membros de uma determinada comunidade Tratase portanto de uma convenção A arbitrariedade do signo lingüístico pode ser mais bem compreendida quando observamos a diversidade das línguas Cada língua apresenta um modo particular de expressar os conceitos ninguém discute por exemplo se livro ou book se aproximam mais ou menos do conceito apresentado anteriormente Por outro lado poderíamos argumentar que certas unidades lingüísticas apresentamse como contraexemplos da arbitrariedade As onomatopéias do tipo auau tictac3 parecem ser motivadas não arbitrárias No entanto argumenta Saussure elas não apenas são pouco numerosas mas sua escolha é já em certa medida arbitrária pois não passam da imitação aproximativa e já meio convencional de certos ruídos 197583 Contudo Saussure reconhece que a arbitrariedade é limitada por associações e motivações relativas assim vinte é imotivado mas dezenove não o é no mesmo grau porque evoca os termos dos quais se compõe dez e nove Saussure observa ainda que o princípio da arbitrariedade do signo lingüístico não implica a compreensão de que o significado dependa da livre escolha do falante A língua como já apresentado anteriormente é social não estando ao alcance do indivíduo nela promover mudanças Relações sintagmáticas e relações paradigmáticas Sendo a língua um sistema cabenos compreender a forma como as unidades constitutivas desse sistema encontramse relacionadas umas às outras Quando descrevemos essas relações estamos explicitando a organização dos elementos constituintes da estrutura lingüística e em última instância reconhecendo o funcionamento do sistema Comecemos por entender que o signo lingüístico exibe uma característica bastante particular a qual embora considerada demasiadamente simples tornase fundamental para a compreensão da língua como um sistema o signo lingüístico representa uma extensão Isso significa que ao ser transmitido ele constitui uma seqüência cuja dimensão só pode ser mensurável linearmente Decorre daí o chamado caráter linear da linguagem articulada Uma frase por exemplo é constituída por um certo número de signos lingüísticos que são apresentados em linha no tempo um após o outro Sabemos contudo que por se tratar de um instrumento de comunicação a frase deve ser construída de acordo com determinadas regras Por isso mesmo a distribuição das palavras dos signos não ocorre de maneira aleatória e sim pela exclusão de outros possíveis arranjos distribucionais Quando combinamos duas ou mais unidades por exemplo reter várias pessoas a lingüística estrutural eu tenho alguns projetos para a minha vida etc estamos compondo sintagmas As relações sintagmáticas decorrentes do caráter linear da linguagem dizem respeito às articulações entre os sintagmas e relacionamse às diversas possibilidades de combinação entre essas unidades Devemos portanto entender como sintagmáticas as relações in praesentia ou seja entre dois ou mais termos que estão presentes antecedentes ou subsequentes em um mesmo contexto sintático Por englobar diferentes níveis de análise a noção de sintagma deve ser compreendida de uma maneira ampla a No nível fonológico as unidades se combinam para formar as sílabas Quanto às restrições impostas pelas regras do sistema lingüístico sabemos por exemplo que a língua portuguesa não admite sílaba formada sem som vocálico Ex Casa bar lslNJ cv cvc b No nível morfológico os morfemas se unem para formar a palavra ou sintagma vocabular como caracterizam alguns autores Desse modo prefixos e sufixos respectivamente antecedem e sucedem o radical com Rad radical VT vogai temática Pref prefixo e Suf sufixo Ex Menin o in feliz mente Rad VT Pref Rad Suf c No nível sintático as palavras se combinam para formar frases É inadmissível como frase construções tais como De gosta bolo menino o SN sintagma nominal SV sintagma verbal Ex O menino gosta de bolo sl SN SV Além das relações sintagmáticas que dizem respeito à distribuição linear das unidades na estrutura sintática as línguas apresentam relações paradigmáticas ou associativas que dizem respeito à associação mental que se dá entre a unidade lingüística que ocupa um determinado contexto uma determinada posição na frase e todas as outras unidades ausentes que por pertencerem à mesma classe daquela que está presente poderiam substituíla nesse mesmo contexto As relações paradigmáticas manifestamse como relações in absentia pois caracterizam a associação entre um termo que está presente em um determinado contexto sintático com outros que estão ausentes desse contexto mas que são importantes para a sua caracterização em termos opositivos Ocorre que os elementos da língua nunca estão isolados em nossa memória Eles são armazenados em termos de determinados traços que os caracterizam como estrutura classe gramatical tipo semântico entre outros Assim a palavra livreiro por exemplo está associada a elementos como livro e livraria a partir do radical que está na base desses elementos Por outro lado podemos estabelecer uma outra série de relações paradigmáticas tomando como base o sufixo leiteiro sapateiro garimpeiro entre outros De algum modo essa organização dos elementos lingüísticos na nossa memória para Saussure é importante na caracterização de uma frase Por exemplo podemos substituir uma desinência verbal de pessoa e número por outra do mesmo tipo estudas estudamos um adjetivo por outro adjetivo ou locução adjetiva Ele é bondosoEle é caridosoEle é do bem um substantivo por outro substantivo Gostaria de comprar um livroGostaria de comprar uma fazenda etc Para Saussure além da possibilidade de ocorrência em um mesmo contexto as relações paradigmáticas são também decorrentes da semelhança de significação educaçãoaprendizagem da semelhança sonora livro crivo ou de qualquer outra situação em que a presença de um elemento lingüístico suscita no falante ou no ouvinte a associação com outros elementos ausentes Desse modo podemos concluir que as relações sintagmáticas e as relações paradigmáticas ocorrem concomitantemente Na seqüência Gostaria de comprar uma fazenda a unidade comprar por exemplo ao mesmo tempo em que se encontra em relação paradigmática com vender entregar olhar e tantas outras unidades também mantém relações sintagmáticas com gostaria de uma e fazenda Da mesma maneira no nível fonológico em se tratando da seqüência bola o fonema b se encontra em relação paradigmática com Isl m g etc e em relação sintagmática com Ibl ll e laJ Esses fatos nos permitem compreender melhor o porquê da língua ser um sistema uma estrutura e não uma mera reunião de elementos Adotando uma perspectiva estruturalista podemos afirmar então que o que permite o funcionamento da língua é o sistema de valores constituído pelas associações combinações e exclusões verificadas entre as unidades lingüísticas Essas são em linhas gerais as principais idéias formuladas por Saussure Elas represen tam o alicerce da lingüística estrutural e ao mesmo tempo fundam a lingüística moderna Durante a primeira metade do século xx privilegiando diferentes aspectos das idéias de Saussure surgem na Europa pelo menos três importantes grupos de estudos lingüísticos a Escola de Genebra a Escola de Praga e a Escola de Copenhague As duas primeiras não se limitaram ao estudo meramente formal da linguagem adotando a visão de que a língua deve ser vista como um sistema funcional no sentido de que é utilizada para um determinado fim a comunicação Por outro lado a Escola de Copenhague focalizou o aspecto formal das línguas deixando sua função num plano secundário Ou seja essa escola adotou concepção saussureana de língua como um sistema autônomo e através de Hjelmslev desenvolveu uma teoria chamada de glossemática aprofundando principalmente os conceitos de forma e substância expressão e conteúdo Sob o rótulo de estruturalismo a lingüística moderna conhece duas vertentes principais a europeia4 e a norteamericana A corrente norteamericana O estruturalismo norteamericano é representado pelas idéias de Leonard Bloomfield desenvolvidas e sistematizadas sob o rótulo de distribucionalismo ou lingüística distribucional A teoria da linguagem proposta por Bloomfield dominante nos Estados Unidos até aproximadamente 1950 é apresentada de maneira independente no momento em que o pensamento de Saussure começa a ser conhecido na Europa Ocorre que ao lado de algumas diferenças muitos são os pontos em comum ou pelo menos convergentes entre as propostas formuladas pelos dois autores o que nos permite conceber a teoria distribucionalista como uma vertente do estruturalismo O objetivo da teoria formulada por Bloomfield é a elaboração de um sistema de conceitos aplicáveis à descrição sincrônica de qualquer língua Para tanto parte dos seguintes pressupostos cada língua apresenta uma estrutura específica essa estruturação é evidenciada a partir de três níveis o fonológico o morfológico e o sintático que constituem uma hierarquia com o fonológico na base e o sintático no topo cada nível é constituído por unidades do nível imediatamente inferior as construções são seqüências de palavras as palavras seqüências de morfemas os morfemas seqüências de fonemas a descrição de uma língua deve começar pelas unidades mais simples prosseguindo então à descrição das unidades cada vez mais complexas cada unidade é definida em função de sua posição estrutural de acordo com os elementos que a precedem e que a seguem na construção na descrição é necessária absoluta objetividade o que exclui o estudo da semântica do escopo da lingüística O autor pressupõe ainda que o processo de combinação de unidades para formar construções de nível superior combinação de fonemas que resulta em morfemas combinação de morfemas que resulta em palavras e combinação de palavras que resulta em frases é guiado por leis próprias do sistema lingüístico Ou seja enquanto determinadas construções são permitidas outras são totalmente bloqueadas na língua No português por exemplo uma construção do tipo Lingüística aluno de gosta estudar o seria indiscutivelmente inaceitável De acordo com a concepção da lingüística distribucional para que possamos estudar uma língua fazse necessário a constituição de um corpus isto é a reunião de um conjunto o mais variado possível de enunciados efetivamente emitidos por usuários de uma determinada língua em uma determinada época a elaboração de um inventário a partir desse corpus que permita determinar as unidades elementares em cada nível de análise assim como as classes que agrupam tais unidades a verificação das leis de combinação de elementos de diferentes classes a exclusão de qualquer indagação sobre o significado dos enunciados que compõem o corpus Essa postura mecanicista da lingüística de Bloomfield apoiase na psicologia behaviorista fortemente difundida nos Estados Unidos a partir de 1920 que tem Skinner como um de seus maiores teóricos Ao tomar o próprio comportamento como objeto de estudo da psicologia e não como indicador de alguma outra coisa que se expresse por ele ou através dele o behaviorismo rompe com a compreensão de que as impressões criadas na mente do homem pelos objetos e eventos geram seu comportamento Segundo essa corrente o comportamento humano é totalmente explicável e portanto previsível a partir das situações em que se manifesta independentemente de qualquer fator interno Logo ele pode ser compreendido como o conjunto de uma excitação ou estímulo e de uma resposta ou ação No que diz respeito ao comportamento lingüístico a psicologia behaviorista fornece a seguinte explicação uma comunidade ensina o indivíduo a emitir uma dada resposta verbal a expressar um termo provendo estímulos reforçadores quando essa resposta ocorre na presença da coisa para a qual o termo proferido é tomado como referente O indivíduo por exemplo aprende a dizer cadeira na presença de uma cadeira ou objeto similar não por uma questão de apreensão do significado de cadeira mas porque essa resposta na presença do objeto tem uma história de reforço provido pela comunidade verbal Na perspectiva de Skinner termos como conteúdo significado ou referente devem ser desprezados pelo menos enquanto propriedades de respostas verbais O método de análise que caracteriza a vertente americana da lingüística estrutural é conhecido como análise distribucional apresentado nos Estados Unidos por Bloomfield com a publicação de Language em 1933 Objetivando chegar à descrição total de um estado sincrônico de língua esse método parte da observação de um corpus para descrever seus elementos constituintes de acordo com a possibilidade de eles se associarem entre si de maneira linear Pressupõese assim que as partes de um língua não se organizam arbitrariamente mas ao contrário apresentamse em certas posições particulares relacionadas umas às outras Tratase portanto de um método puramente descritivo e indutivo que corrobora o entendimento de que todas as frases de uma língua são formadas pela combinação de construçõesos seus constituintes e não de uma simples seqüência de elementos discretos Esses constituintes por sua vez são formados por unidades de ordem inferior Assim para decompor os enunciados do corpus os distribucionalistas utilizam um método chamado de análise em constituintes imediatos Nessa perspectiva uma frase é o resultado de diversas camadas de constituintes Por exemplo a estrutura da frase O aluno comprou um livro é descrita como a combinação de dois constituintes um sintagma nominal o aluno e um sintagma verbal comprou um livro Por sua vez cada um desses dois constituintes imediatos é formado por outros constituintes o sintagma nominal o aluno é formado por um determinante o e por um substantivo aluno o sintagma verbal comprou um livro é formado por um verbo comprou e por um sintagma nominal um livro Podemos observar abaixo como nossa frase pode ainda ser segmentada em outros constituintes Frase o aluno comprou um livro Sintagmas o aluno comprou um livro Palavras o aluno comprou um livro Morfemas o aluno comprou um livro Fonema o aluno kõprou ü livro Conforme podemos observar a análise distribucional e o modelo estruturalista como um todo apresenta uma perspectiva demasiadamente formal acerca do fenômeno lingüístico restringindo a tarefa do pesquisador ao descrever uma língua à classificação dos segmentos que aparecem nos enunciados do corpus e à identificação das leis de combinação de tais segmentos As formulações propostas por Bloomfield sob a inspiração do behaviorismo representaram nos estudos lingüísticos desenvolvidos nos Estados Unidos durante as primeiras décadas do século xx uma oposição às idéias mentalistas que defendiam que a fala deveria ser explicada como um efeito dos pensamentos intenções crenças sentimentos do sujeito falante Ao lado de Bloomfield Edward Sapir é apontado como um autor clássico da lingüística norteamericana do início do século xx Entretanto os estudos de Sapir rompem os limites do estruturalismo saussureano uma vez que adotam o postulado de que os resultados da análise estrutural de uma língua devem ser confrontados com os resultados da análise estrutural de toda a cultura material e espiritual do povo que fala tal língua As seguintes idéias estão relacionadas à hipótese SapirWhorf cada língua segmenta a realidade à sua maneira e impõe tal modo de segmentação do mundo a todos os que a falam Nesse sentido a língua configura o pensamento as pessoas que falam diferentes línguas veem o mundo diferentemente os modelos lingüísticos relacionamse aos modelos socioculturais As distinções gramaticais e lexicais obrigatórias numa dada língua correspondem às distinções de comportamento obrigatórias numa dada cultura Tanto a teoria proposta por SapirWhorf como o modelo de análise distribucional formulado por Bloomfield inseremse na situação lingüística específica dos Estados Unidos naquele início de século Havia no continente americano cento e cinqüenta famílias de línguas ameríndias o equivalente a aproximadamente mil línguas apresentadas sob a forma de material lingüístico oral ainda não descrito o que representava um grande problema para os administradores e etnólogos da época A perspectiva antropológica presente nos postulados de SapirWhorf e a psicologia comportamental que influenciou as idéias de Bloomfield encontram terreno fértil nesse contexto particular Esse contexto portanto marcou o estruturalismo dos Estados Unidos diferenciandoo da lingüística europeia Podese dizer que enquanto Sapir foi o pioneiro Bloomfield foi o consolidador da lingüística naquele país criando uma teoria mais bem delimitada do que os lingüistas anteriores Exercícios 1 Comente a afirmativa saussuriana A língua é um sistema cujas partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica Saussure 1975 2 Defina os conceitos de língua e fala 3 Um dos postulados de base da lingüística estrutural é que o signo é arbitrário Explique o que significa essa afirmação 4 A lingüística estrutural reconhece o princípio saussuriano de que todo o mecanismo lingüístico repousa sobre relações de dois tipos sintagmáticas e paradigmáticas Explique tal princípio 5 A afirmativa de que a lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma que finaliza o texto do Curso de lingüística geral é fundamental para que possamos compreender os postulados de Saussure Faça alguns comentários a respeito dessa questão 6 Aponte três características da lingüística descritiva norteamericana distribucionalismo que fazem dela uma vertente do estruturalismo saussuriano Notas 1 A noção inicial era a de sistema proposta por Saussure A noção de estrutura se desenvolveu do termo saussuriano tendo sido estabelecido que a língua constitui um sistema cumpre estabelecer como se estrutura esse sistema 2 Essa característica se desenvolveu de modo mais forte na chamada Escola de Copenhague sobretudo com Louis Hjelmslev As chamadas escolas de Praga e de Genebra desenvolvendo uma linha um pouco diferente procuraram relacionar essa estrutura com a noção de função 3 Saussure caracteriza as onomatopéias autênticas como aquelas que representam imitações aproximativas e já meio convencionais de certos ruídos em oposição àquelas que impressionam por sua sonoridade sugestiva como por exemplo tilintar chover e piar 4 O estruturalismo europeu está representado principalmente pela lingüística funcional desenvolvida pela Escola de Praga As questões relacionadas a essa vertente são tratadas em capítulo específico Gerativismo Eduardo Kenedy Neste capítulo apresentamse em linhas gerais os principais aspectos que caracterizam a corrente de estudos lingüísticos conhecida como gerativismo Analisaremos a concepção de linguagem humana que norteia as pesquisas dessa corrente bem como faremos uma exposição da maneira gerativista de observar descrever e explicar os fatos das línguas naturais Tratase de uma visão geral introdutória e simplificada destinada ao estudante que conhece pouco ou nada sobre o gerativismo Nas indicações bibliográficas apresentadas no fim do livro o leitor encontrará sugestões de leituras em português para prosseguir nos estudos sobre o assunto A faculdade da linguagem A lingüística gerativaou gerativismo ou ainda gramática gerativaé uma corrente de estudos da ciência da linguagem que teve início nos Estados Unidos no final da década de 1950 a partir dos trabalhos do lingüista Noam Chomsky professor do Instituto de Tecnologia de Massachussets o MIT Considerase o ano de 1957 a data do nascimento da lingüística gerativa ano em que Chomsky publicou seu primeiro livro Estruturas sintáticas Tratase portanto de uma linha de pesquisa lingüística que já possui cinqüenta anos de plena atividade e produtividade Ao longo desse meio século o gerativismo passou por diversas modificações e reformulações que refletem a preocupação dos pesquisadores dessa corrente em elaborar um modelo teórico formal inspirado na matemática capaz de descrever e explicar abstratamente o que é e como funciona a linguagem humana A lingüística gerativa foi inicialmente formulada como uma espécie de resposta e rejeição ao modelo behaviorista de descrição dos fatos da linguagem modelo esse que foi dominante na lingüística e nas ciências de uma maneira geral durante toda a primeira metade do século xx Para os behavioristas dentre os quais se destacava o lingüista norteamericano Leonard Bloomfield a linguagem humana era interpretada como um condicionamento social uma resposta que o organismo humano produzia mediante os estímulos que recebia da interação social Essa resposta a partir da repetição constante e mecânica seria convertida em hábitos que caracterizariam o comportamento lingüístico de um falante Vejamos por exemplo como Bloomfield 1933 2930 descrevia a maneira pela qual uma criança aprendia a falar uma língua Cada criança que nasce num grupo social adquire hábitos de fala e de resposta nos primeiros anos de sua vida Sob estimulação variada a criança repete sons vocais Alguém por exemplo a mãe produz na presença da criança um som que se assemelha a uma das sílabas de seu balbucio Por exemplo ela diz doll boneca Quando esses sons chegam aos ouvidos da criança seu hábito entra em jogo e ela produz a sílaba de balbucio mais próxima da Dizemos que nesse momento a criança começa a imitar A visão e o manuseio da boneca e a audição e a produção da palavra doll isto é da ocorrem repetidas vezes em conjunto até que a criança forma um hábito Ela tem agora o uso de uma palavra Para um behaviorista a linguagem humana é exatamente o que descreveu Bloomfield um fenômeno externo ao indivíduo um sistema de hábitos gerado como resposta a estímulos e fixado pela repetição Numa resenha feita em 1959 sobre o livro Comportamento verbal escrito por B E Skinner professor da famosa universidade de Harvard e principal teórico do behaviorismo Chomsky apresentou uma radical e impiedosa crítica à visão comportamentalista da linguagem sustentada pelos behavioristas Na resenha Chomsky chamou a atenção para o fato de um indivíduo humano sempre agir criativamente no uso da linguagem isto é a todo momento os seres humanos estão construindo frases novas e inéditas ou seja jamais ditas antes pelo próprio falante que as produziu ou por qualquer outro indivíduo Por isso todos os falantes são criativos desde os analfabetos até os autores dos clássicos da literatura já que todos criam infinitamente frases novas das mais simples e despretensiosas às mais elaboradas e eruditas Pensemos por exemplo na frase que acabamos de produzir aqui mesmo neste texto É muito provável que ela nunca tenha sido proferida exatamente da maneira como o fizemos bem como jamais será dita novamente da mesma forma Chomsky chegou a afirmar inclusive que a criatividade é o principal aspecto caracterizador do comportamento lingüístico humano aquilo que mais fundamentalmente distingue a linguagem humana dos sistemas de comunicação animal De acordo com esse pensamento de Chomsky se considerarmos a criatividade a principal característica da linguagem humana então devemos abandonar o modelo teórico e metodológico do behaviorismo já que nele não há espaço para eventos criativos pois para lingüistas como Bloomfield o comportamento lingüístico de um indivíduo deve ser interpretado como uma resposta completamente previsível a partir de um dado estímulo tal como é possível prever que um cão começará a latir ao ouvir por exemplo o som de uma campainha caso tenha sido treinado para isso1 Se o behaviorismo deve ser abandonado como de fato foi após a publicação da resenha de Chomsky o gerativismo se apresenta como um modelo capaz de superálo e substituílo Com as suas idéias Chomsky revitalizou a concepção racionalista dos estudos da linguagem em oposição franca e direta à concepção empiricista de Skinner Bloomfield e demais estruturalistas norteamericanos e europeus Para Chomsky a capacidade humana de falar e entender uma língua pelo menos isto é o comportamento lingüístico dos indivíduos deve ser compreendida como o resultado de um dispositivo inato uma capacidade genética e portanto interna ao organismo humano e não completamente determinada pelo mundo exterior como diziam os behavioristas a qual deve estar radicada na biologia do cérebromente da espécie e é destinada a constituir a competência lingüística de um falante Essa disposição inata para a competência lingüística é o que ficou conhecido como faculdade da linguagem Há de fato muitas evidências de que a linguagem seja uma faculdade natural à espécie humana Pensemos por exemplo que excluindose os casos patológicos graves todos os indivíduos humanos de todas as raças em qualquer condição social em todas as regiões do planeta e em todos os tempos da história foram e são capazes de manifestar ao cabo de alguns anos de vida e sem receber instrução explícita para tanto uma competência lingüística a capacidade natural e inconsciente de produzir e entender frases É notável que nenhum outro ser do planeta a não ser o próprio homem seja capaz de dominar naturalmente um sistema de linguagem tão complexo como uma língua natural mesmo após muitos anos de treinamento E nem mesmo o mais potente e arrojado dos computadores modernos é capaz de reproduzir artificialmente os aspectos mais elementares do comportamento lingüístico de uma criança de menos de 3 anos de idade como criar ou compreender uma frase completamente nova Não é por outra razão que a faculdade da linguagem é a característica mental mais marcante que separa os humanos dos demais primatas superiores e do resto do mundo natural O papel do gerativismo no seio da lingüística é constituir um modelo teórico capaz de descrever e explicar a natureza e o funcionamento dessa faculdade o que significa procurar compreender um dos aspectos mais importantes da mente humana como afirmou o próprio Chomsky 1980 9 Uma das razões para estudar a linguagem exatamente a razão gerativista e para mim pessoalmente a mais premente delas é a possibilidade instigante de ver a linguagem como um espelho do espírito como diz a expressão tradicional Com isto não quero apenas dizer que os conceitos expressados e as distinções desenvolvidas no uso normal da linguagem nos revelam os modelos do pensamento e o universo do senso comum construídos pela mente humana Mais instigante ainda pelo menos para mim é apossibilidade de descobrir através do estudo da linguagem princípios abstratos que governam sua estrutura e uso princípios que são universais por necessidade biológica e não por simples acidente histórico e que decorrem de características mentais da espécie humana Com o gerativismo as línguas deixam de ser interpretadas como um comportamento socialmente condicionado e passam a ser analisadas como uma faculdade mental natural A morada da linguagem passa a ser a mente humana O modelo teórico Naturalmente apenas postular a existência da faculdade da linguagem como um dispositivo inato que permite aos humanos desenvolver uma competência lingüística não resolveria todos os problemas da lingüística gerativa Era e ainda é preciso descrever exatamente como é essa faculdade como ela funciona e como é possível que ela seja geneticamente determinada se as línguas do mundo parecem tão diferentes entre si Para dar conta dessa aparente contradição entre a hipótese da faculdade da linguagem e as milhares de línguas existentes no planeta os lingüistas da corrente gerativa vêm elaborando teorias que procuram explicar o funcionamento da linguagem na mente das pessoas Ao observar os fatos das línguas naturais um gerativista fazse perguntas como O que há em comum entre todas as línguas humanas e de que maneira elas diferem entre si Em que consiste o conhecimento que um indivíduo possui quando é capaz de falar e compreender uma língua Como o indivíduo adquire esse conhecimento De que maneira esse conhecimento é posto em uso pelo indivíduo Quais são as sustentações físicas presentes no cérebromente que esse conhecimento recebe Para procurar responder a perguntas como essas a lingüística gerativa propõese a analisar a linguagem humana de uma forma matemática e abstrata formal que se afasta bastante do trabalho empírico da gramática tradicional da lingüística estrutural e da sociolinguística e se aproxima da linha interdisciplinar de estudos da mente humana conhecida como ciências cognitivas A maneira pela qual tais perguntas vêm sendo respondidas constitui o modelo teórico do gerativismo Ao longo dos anos lingüistas de todas as partes do mundo inclusive do Brasil desde a década de 1970 têm trabalhado na formulação e no refinamento do modelo teórico gerativista O mais importante deles é o próprio Chomsky mas existem muitos estudiosos que dele discordam e acabam formalizando modelos alternativos que às vezes divergem crucialmente do modelo chomskyano Não há qualquer dúvida de que Chomsky seja não só o criador como principalmente o mais influente teórico da lingüística gerativa e um dos mais importantes estudiosos da linguagem de todos os tempos no entanto não se deve traçar um sinal de igual entre Chomsky e o gerativismo É muito comum encontrarmos gerativistas que não são chomskyanos apesar de que quase sempre ser chomskyano significa ser gerativista Vejamos a seguir as principais características dos modelos chomskyanos e convidamos o leitor ao avançar em seus estudos a conhecer os modelos diferentes A gramática como sistema de regras A primeira elaboração do modelo gerativista ficou conhecida como gramática transformacional e foi desenvolvida e reformulada diversas vezes durante as décadas de 1960 e 1970 Os objetivos dessa fase do gerativismo consistiam em descrever como os constituintes das sentenças eram formados e como tais constituintes transformavamse em outros por meio da aplicação de regras Por exemplo a sentença o estudante leu o livro possui cinco itens lexicais que estão organizados entre si através de relações estruturais que chamamos de marcadores sintagmáticos e tais marcadores poderiam sofrer regras de transformação de modo a formar outras sentenças como o livro foi lido pelo estudante o que o estudante leu quem leu o livro etc Ou seja os gerativistas perceberam que as infinitas sentenças de uma língua eram formadas a partir da aplicação de um finito sistema de regras a gramática que transformava uma estrutura em outra sentença ativa em sentença passiva declarativa em interrogativa afirmativa em negativa etc e é precisamente esse sistema de regras que então se assumia como o conhecimento lingüístico existente na mente do falante de uma língua o qual deveria ser descrito e explicado pelo lingüista gerativista Vejamos um exemplo A sentença s o aluno leu o livro é formada pela relação estrutural entre o sintagma nominal SN O aluno e o sintagma verbal sv leu o livro O SN é formado pelo determinante DET O e pelo nome N aluno e o sv por sua vez é formado pelo verbo v leu e pelo outro SN o livro o qual se forma também por uma relação entre DET e N no caso o e livro respectivamente Toda essa estrutura sintagmática pode ser mais claramente visualizada no esquema abaixo denominado diagrama arbóreo ou simplesmente árvore que é a famosa maneira pela qual os gerativistas representam estruturas sintáticas O livro Figura 1 representação arbórea Essas regras de composição sintagmática explicam como uma estrutura simples como esta é gerada mas não são suficientes para explicar como uma outra estrutura relacionada como a voz passiva seria formada a partir da estrutura de base no caso a voz ativa Para dar conta da relação entre estruturas diferentes mas relacionadas os gerativistas formularam as regras transformacionais Essencialmente uma transformação forma uma estrutura a partir de uma outra previamente existente A estrutura primeiramente formada é chamada de estrutura profunda e a estrutura dela derivada chamase estrutura superficial Nesse sentido a voz ativa é interpretada como a estrutura profunda sobre a qual são aplicadas as regras transformacionais que geram a voz passiva a estrutura superficial s SN SV DET N V SN o estudante leu DET N o livro ESTRUTURA PROFUNDA REGRAS DE TRANSFORMAÇÃO 1 seleção do verbo ser participio 2 movimento do objeto para a posição de sujeito 3 manifestação do agente como Sintagma Preposicionado SP S SN SV DET N V SP o livro AUX PART P SN foi lido por pelo DET N l i o estudante ESTRUTURA SUPERFICIAL Figura 2 transformação passiva Na década de 1990 a idéia da transformação de uma estrutura profunda numa estrutura superficial seria abandonada em favor de uma visão que não mais representava estruturas e sim as derivava mostrando os passos pelos quais uma estrutura é formada derivada sem que ela tenha de ser comparada com uma outra estrutura independente Não obstante a idéia das transformações como operações computacionais fenômenos sintáticos que derivam sentenças é o tópico central da pesquisa gerativista até o presente momento Outro centro de atenção dos gerativistas sempre foi compreender como é possível que os falantes de uma língua tenham intuições sobre as estruturas sintáticas que produzem e ouvem Por exemplo todo falante nativo do português sabe que uma frase como quantos livros você já escreveu é perfeitamente normal e pode ser falada por qualquer um de nós sem causar estranhamento Tratase portanto de uma frase gramatical normal na língua Esse mesmo falante do português também sabe pela sua intuição que uma frase como que livro você conhece uma pessoa que escreveu não é normal é estranha é uma frase agramatical da língua e por isso aparece antecedida do asterisco que indica a agramaticalidade Ora como é que o falante sabe disso Como ele consegue distinguir uma frase gramatical de uma frase agramatical em sua língua Note bem estamos falando de um conhecimento implícito inconsciente e natural acerca da língua que todos os falantes nativos possuem e não das regras da gramática normativa que aprendemos na escola Na escola nunca são analisadas construções como a frase agramatical citada a quantos livros você já escreveu gramatical b que livro você conhece uma pessoa que escreveu agramatical Figura 3 gramaticalidade vs agramaticalidade Um outro exemplo na sentença João disse que ele vai se casar todo falante nativo de português sabe que o pronome ele pode referirse tanto a João quanto a outra pessoa qualquer do sexo masculino diferente de João e citada anteriormente no discurso isto é a frase pode dizer que o próprio João vai se casar ou que um outro homem vai se casar Mas na frase Ele disse que João vai se casar o falante sabe que ele não pode ser a mesma pessoa que João e nesse caso a frase diz somente que João vai se casar Todos os falantes de português conhecem inconscientemente essas pequenas regras que acabamos de descrever e é por isso que entendem e produzem as frases de sua língua Mas como isso é possível Como podemos saber essas coisas se ninguém nos ensina explicitamente como a língua funciona Esse conhecimento lingüístico inconsciente que o falante possui sobre a sua língua e que lhe permite essas intuições é o que denominamos competência lingüística o conhecimento interno e tácito das regras que governam a formação das frases da língua A competência lingüística não é a mesma coisa que o comportamento lingüístico do indivíduo aquelas frases que de fato uma pessoa pronuncia quando usa a língua Esse uso concreto da língua denominase desempenho lingüístico também conhecido por performance ou ainda atuação e envolve diversos tipos de habilidade que não são lingüísticas como atenção memória emoção nível de estresse conhecimento de mundo etc Imagine que você desejava pronunciar a frase Vou tentar a sorte mas enrolou a língua e acabou dizendo vou tentar a torte Ora o que aconteceu foi apenas um erro de execução com a preservação do segmento 1 no início da palavra sorte o que não significa que seu conhecimento sobre o português tenha sido abalado O que ocorreu não foi um problema de conhecimento mas de uso de desempenho de performance da língua Classicamente o interesse central das pesquisas gerativistas recai na competência lingüística dos falantesmuito embora só se possa ter acesso a ela através do desempenho pois é essa competência que torna o indivíduo capaz de falar e compreender uma língua De acordo com essa abordagem é somente através do estudo da competência que será possível elaborar uma teoria formal que explique o funcionamento abstrato da linguagem na mente dos indivíduos Em razão desse interesse central na competência lingüística os estudos clássicos do gerativismo não costumam usar dados lingüísticos reais performance retirados do uso concreto da língua na vida cotidiana O que interessa fundamentalmente ao gerativista é o funcionamento da mente que permite a geração das estruturas lingüísticas observadas nos dados de qualquer corpus de fala mas não lhe interessam esses dados em si mesmos ou em função de qualquer fator extralinguístico como o contexto comunicativo ou as variáveis sociais que influenciam o uso da linguagem Os gerativistas usam como dados para as suas análises principalmente 1 testes de gramaticalidade nos quais frases são expostas a falantes nativos de uma língua que devem utilizar sua intuição e distinguir as frases gramaticais das agramaticais e 2 a intuição do próprio lingüista que afinal também é um falante nativo de sua própria língua Não obstante os gerativistas que fazem pesquisas aplicadas psicolinguistas neurolinguistas etc2 também observam os dados do uso da língua em situação natural ou em situação experimental procurando extrair deles informações para o modelo de explicação da competência lingüística Por exemplo esses gerativistas se interessam por 1 testes e experimentos psicolinguísticos com pessoas de todas as idades nos quais os informantes são levados a produzir ou interpretar determinados tipos de estruturas lingüísticas 2 testes e experimentos de aquisição da linguagem com crianças além de gravações da fala natural destas 3 testes e experimentos neurolinguísticos através dos quais se observa o funcionamento do cérebro quando em atividade lingüística e também o desempenho lingüístico de pacientes afásicos pessoas que possuem dificuldades no desempenho lingüístico em decorrência de uma lesão cerebral na maior parte das vezes 4 evidências das mudanças lingüísticas por que passam as línguas como uma maneira de compreender o que ocorre com a gramática quando algum de seus componentes se transforma ao longo do tempo perdendo ou ganhando formas Esse último tipo de análise gerativista é o que mais se aproxima da lingüística baseada em dados concretos do uso da língua corpus No Brasil trabalharam e trabalham nessa linha que ficou conhecida como sociolinguística paramétrica lingüistas de importância e reconhecimento internacional como Fernando Tarallo Mary Kato Maria Eugênia Duarte entre outros A gramática universal princípios e parâmetros Com a evolução da lingüística gerativa no início dos anos 1980 a idéia da competência lingüística como um sistema de regras específicas cedeu lugar à hipótese da gramática universal GU Devese entender por GU O conjunto das propriedades gramaticais comuns compartilhadas por todas as línguas naturais bem como as diferenças entre elas que são previsíveis segundo o leque de opções disponíveis na própria GU A hipótese da GU representa um refinamento da noção de faculdade da linguagem sustentada pelo gerativismo desde o seu início a faculdade da linguagem é o dispositivo inato presente em todos os seres humanos como herança biológica que nos fornece um algoritmo isto é um sistema gerativo um conjunto de instruções passo a passo como as inscritas num programa de computador o qual nos torna aptos para desenvolver ou adquirir a gramática de uma língua Esse algoritmo é a GU Para procurar descrever a natureza e o funcionamento da GU os gerativistas formularam uma teoria chamada de princípios e parâmetros Essa teoria possui pelo menos duas fases a fase da teoria da regência e da ligação TRL que perdurou por toda a década de 1980 e o programa minimalista PM em desenvolvimento desde o início da década de 1990 até o presente As pesquisas da teoria de princípios e parâmetros foram e são desenvolvidas sobretudo na área da sintaxe pois é exatamente nas estruturas sintáticas que mais evidentemente se percebem as grandes semelhanças entre todas as línguas do mundo mesmo entre aquelas que não possuem nenhum parentesco o que facilita o estudo da GU Por exemplo todas as línguas do mundo possuem estruturas como orações adjetivas orações interrogativas e funções sintáticas como sujeito predicado complementos A possibilidade de estudar a sintaxe isolada dos demais componentes da gramática léxico fonologia morfologia semântica é conseqüência de um conceito fundamental do gerativismo o de gramática modular Segundo ele os componentes da gramática devem ser analisados como módulos autônomos independentes entre si no sentido de que são governados por suas próprias regras e não sofrem influência direta dos outros módulos Isto é o funcionamento de um módulo como digamos a sintaxe é cego em relação às operações da fonologia por exemplo Naturalmente existem pontos de interseção entre os módulos da gramática afinal a sintaxe cria sintagmas e sentenças a partir das palavras do léxico e o produto final da sintaxe a sentença deve receber uma leitura fonológica e também uma interpretação semântica básica que no gerativismo se chama forma lógica Podemos visualizar essa interação entre os módulos da gramática no esquema a seguir FONOLOGIA LÉXICO I SINTAXE SEMÂNTICA Figura 4 o modelo de gramática Nessa ilustração vemos que o elemento central da gramática é a sintaxe Ela retira do léxico as palavras com as quais construirá segundo suas próprias regras estruturas como sintagmas e sentenças que da sintaxe são encaminhadas à preparação para a pronúncia no módulo fonológico e para a interpretação formal no módulo semântico Nessa maneira de compreender o funcionamento da gramática a morfologia é interpretada como parte do léxico já que dá conta da estrutura interna da palavra e também como parte da fonologia uma vez que deve dar conta das alterações mórficas fonologicamente condicionadas No programa minimalista atual entendemos por princípio as propriedades gramaticais que são válidas para todas as línguas naturais ao passo que parâmetro deve ser compreendido como as possibilidades limitadas sempre de maneira binária de variação entre as línguas Por exemplo quando analisamos as sentenças a João disse que ele vai se casar e b Ele disse que João vai se casar vimos que em a o pronome ele pode referirse tanto a João quanto a qualquer outro homem anteriormente citado no discurso mas na frase b ele não pode se referir a João e necessariamente faz referência a um outro homem Essa diferenciação entre a referencialidade do pronome ele nas duas frases pode ser explicada da seguinte maneira nesse contexto o pronome faz referência a algum elemento que precisa ter sido citado anteriormente no texto tratase de um pronome anafórico É um princípio da GU que uma anáfora necessariamente deve suceder o seu referente e nunca o contrário É por isso que na frase a ele pode ser tanto João quanto outro homem citado numa frase anterior já que ambos os termos antecedem o pronome Já no caso de b João não pode ser o referente de ele pois o pronome antecede o nome Se traduzíssemos a e b para qualquer língua do mundo o resultado seria sempre o mesmo em b seria impossível ligar o pronome ao nome citado mas em a isso pode ocorrer Tratase portanto de um princípio da GU exatamente igual em todas as línguas naturais Vejamos agora um exemplo de parâmetro Se considerarmos que o valor semântico básico da frase a seja digamos algo como João disse que ele mesmo o próprio João vai se casar saberemos que ele se refere a João João é o sujeito da oração principal e ele é o sujeito da oração subordinada Dizemos então que os sujeitos das duas orações são correferenciais O que é interessante nesse exemplo é que o sujeito da segunda oração poderia não ser preenchido por um pronome anafórico isto é o sujeito da oração subordinada poderia ser oculto que na lingüística gerativa chamamos tecnicamente de sujeito nulo representado aqui informalmente por 0 como ocorre na sentença c João disse que 0 vai se casar i João disse que ele vai se casar ele sujeito preenchido ii João disse que 0 vai se casar 0 sujeito nulo Podemos dizer que a língua portuguesa se caracteriza por suportar a ocorrência de sujeitos nulos como ocorre também nessas frases 0 saí ontem 0 fomos ao cinema 0 fez o trabalho 0 choveu ontem etc Tanto nesses casos quanto na oração subordinada em ii o SN sujeito do sv predicado não possui nenhum elemento pronunciado está vazio nulo como se ilustra na sentença S abaixo s SN SV 0 vai se casar saí ontem choveu hoje Figura 5 parâmetro do sujeito nulo Deixar o sujeito nulo é uma propriedade do português e também de outras línguas como o espanhol o italiano mas essa propriedade não é comum a todas as línguas humanas Se traduzíssemos as sentenças do quadro acima para línguas como o inglês e o francês teríamos necessariamente de preencher o SN sujeito com um elemento pronominal pois nessas línguas o sujeito nulo é uma estrutura agramatical A frase ii por exemplo só poderia apresentar em inglês o pronome anafórico he e nunca o sujeito nulo 0 independentemente da referencialidade da anáfora pronominal ou zero i John said that he is going to get married ii John said that 0 is going to get married A existência de sujeitos nas sentenças é um princípio da GU mas a possibilidade de deixálos nulos nas frases é um parâmetro da GU pois línguas como o português se caracterizam como sujeito nulo enquanto línguas como o inglês são sujeito nulo E por essa razão que dissemos que os parâmetros que diferenciam as línguas são previsíveis e distribuídos sempre de maneira binária ou o parâmetro x O léxico por exemplo não é um fator de diferenciação entre as línguas que possa ser interpretado como opção paramétrica já que o léxico é sempre arbitrário e por isso mesmo imprevisível S S S SN c r SV SN SV He Is going 1 to get married went out yesterday It rained today Figura 6 parâmetro do sujeito nulo Ao compararmos as figuras 5 e 6 percebemos que somente línguas como o português e também o espanhol o italiano etc permitem o sujeito nulo 0 casos que conhecemos pela gramática tradicional como sujeito oculto indeterminado e inexistente Como indica a figura 6 línguas como o inglês bem como o francês o alemão etc não permitem o sujeito nulo e exigem o preenchimento do SN sujeito da frase nem que seja com um pronome expletivo sem conteúdo semântico como o itdo inglês O projeto da lingüística gerativa é observar comparativamente as línguas humanas com os seus milhares de fenômenos morfofonológicos sintáticos semânticos e sua suntuosa complexidade com o objetivo de descrever os princípios e os parâmetros da GU que subjazem à competência lingüística dos falantes para assim poder explicar como é a faculdade da linguagem essa parte notável da capacidade mental humana O FOXP2 e a genética da linguagem Em outubro de 2001 um geneticista inglês chamado Anthony Monaco professor da Universidade de Oxford e integrante do Projeto Genoma Humano anunciou a descoberta do primeiro gene que aparentemente está destinado a controlar a capacidade lingüística humana o FOXP2 Monaco estudou diversas gerações da família K E3 e constatou que todos os seus membros possuíam distúrbios de linguagem que não estavam associados a algum problema físico superficial como língua presa audição ineficiente etc Esses distúrbios diziam respeito à conjugação verbal à distribuição e à referencialidade dos pronomes à elaboração de estruturas sintáticas complexas como as orações subordinadas O interessante é que os avós pais filhos e netos da família K E não possuíam aparentemente nenhum outro distúrbio cognitivo além desses problemas com o sistema lingüístico Monaco analisou amostras de DNA dessa família e descobriu que uma única unidade de DNA de um só gene estava corrompida O FOXP2 é um dos setenta genes diferentes que compõem o cromossomo 7 que é responsável pela arquitetura genética do cérebro humano Esse gene o FOXP2 possui 2500 unidades de DNA e só uma delas apresenta problemas na genética da família K E Monaco estava quase certo de que esse gene deveria ser responsável pela capacidade genética associada à linguagem e teve certeza disso quando descobriu o jovem inglês C S que não possuía parentesco com os K E mas apresentava os mesmos distúrbios lingüísticos que os membros dessa família Monaco analisou o FOXP2 de C S e constatou o que presumia C S apresentava um defeito na mesma unidade de DNA do FOXP2 deficiente da família K E Daí o geneticista proclamou o que pode ser a descoberta do primeiro gene responsável pela genética dalinguagem humana Independentemente de as pesquisas de Anthony Monaco serem confirmadas ou não e há muitos geneticistas que as refutam o importante é que elas abriram ou aprofundaram a discussão fora do âmbito da lingüística gerativa sobre as bases genéticas da linguagem humana O FOXP2 é um gene existente também em outros primatas como chimpanzé e gorilas mas em quantidade muito reduzida e isso pode explicar a limitada capacidade de comunicação lingüística desses animais De fato se o mapeamento dos genes humanos apontar como a hipótese FOXP2 esboça a existência de genes cuja função na genética de nossa espécie é controlar o uso de pronomes a construção de orações subordinadas a flexão de verbos etc então a faculdade da linguagem e sua disposição na GU através de princípios e parâmetros podem passar a ser considerados não mais hipóteses abstratas mas sim fatos do mundo natural Consequentemente a lingüística gerativa será a corrente da ciência da linguagem que travará forte diálogo com as ciências naturais Exercícios 1 Em seu livro O instinto da linguagem o lingüista e psicólogo norteamericano Steven Pinker afirmou que a linguagem natural é um instinto da espécie humana uma capacidade que herdamos da natureza Para Pinker assim como as aranhas são naturalmente programadas para tecer teias os humanos são programados para falar pelo menos uma língua Explique por que essa afirmação de Pinker deve ser considerada coerente com os fundamentos da lingüística gerativa Você concorda em parte ou completamente com a afirmação do psicólogolinguista Vê nela algum exagero Comente 2 Leia as sentenças abaixo Ponha um asterisco antes daquelas que considerar segundo a sua intuição agramaticais e escreva OK depois daquelas que considerar gramaticais Logo após explique de onde vem essa intuição sobre as frases da língua a Parece que os alunos estão cansados b Os alunos parece que estão cansados c Os alunos parecem estar cansados d Os alunos parecem estarem cansados e Parece os alunos estarem cansados f Parece os alunos estar cansados g Os alunos parece que eles estão cansados 3 No final da festa do aniversário do seu filho dona Maria ia anunciar que estava na hora de cortar o bolo e disse a seguinte frase Vamos gente está na hora de Cortar o mio A própria falante riu do que disse e corrigiu a frase logo depois O erro lingüístico que dona Maria cometeu deve ser explicado como um problema na competência ou no desempenho lingüístico Explique 4 Observe o que diz John Lyons a respeito da propriedade lingüística da produtividade O que é impressionante na produtividade das línguas naturais na medida em que é manifesto na estrutura gramatical é a extrema complexidade e heterogeneidade dos princípios que a mantêm e constituem Mas como insistiu Chomsky esta complexidade e heterogeneidade não é irrestrita é regida por regras Dentro dos limites estabelecidos pelas regras da gramática que são em parte universais e em parte específicos de determinadas línguas os falantes nativos de uma língua têm a liberdade de agir criativamente de uma maneira que Chomsky classificaria de distintivamente humana construindo um número indefinido de enunciados Lyons 198734 Explique o que é a criatividade como qualidade distintivamente humana e b criatividade regida por regras 5 O estruturalismo lingüístico concebia a linguagem humana como uma forma de comportamento e este era interpretado como uma resposta fisiológica a estímulos externos podendo ser condicionado e programado da mesma forma que ratos de laboratório podem ser treinados a puxar uma alavanca para obter comida O Globo 2000 414 Explique por que o gerativismo pode ser interpretado como um modelo de análise lingüística radicalmente oposto ao modelo estruturalistabehaviorista 6 Observe os dados do inglês e do espanhol abaixo Leve em consideração também a tradução dessas frases para o português Explique o comportamento dos sujeitos e dos objetos nulos ou preenchidos nessas três línguas de acordo com as noções de princípios e parâmetros Inglês Espanhol Did you see John Tu viste a Juan Int você viu João Você viu João Yes I saw him Si yo lo vi Sim eu vio Sim eu 0 vi Yes I saw Si lo vi Sim eu vi 0 Sim 0 0 vi Yes saw him Si yo vi Sim 0 vio Sim eu vi 0 Yes saw Si vi Sim 0 vi 0 Sim 0 vi 0 7 Explique por que descobertas genéticas como a do gene FOXP2 e pesquisas em neurolinguística e em psicolinguística em geral são uma forma de pôr à prova para refutar ou confirmar a validade epistemológica das hipóteses da lingüística gerativa Notas 1 Para uma melhor caracterização da epistemologia behaviorista e sua superação pela psicologia recente ver Mehler e Dupoux 1990 2 Cabe ressaltar que os estudos de psicolinguística de neurolinguística e de lingüística histórica não são conduzidos exclusivamente sob um viés gerativista Existem inúmeros pesquisadores de orientação não formalista nessas áreas 3 A família e os indivíduos que participam de experiências científicas são sempre referidos por suas iniciais como é o caso aqui ou por nomes fictícios para preservar sua privacidade Sociolinguística Maria Maura Cezario Sebastião Votre A sociolinguística é uma área que estuda a língua em seu uso real levando em consideração as relações entre a estrutura lingüística e os aspectos sociais e culturais da produção lingüística Para essa corrente a língua é uma instituição social e portanto não pode ser estudada como uma estrutura autônoma independente do contexto situacional da cultura e da história das pessoas que a utilizam como meio de comunicação A sociolinguística parte do princípio de que a variação e a mudança são inerentes às línguas e que por isso devem sempre ser levadas em conta na análise lingüística O sociolinguista se interessa por todas as manifestações verbais nas diferentes variedades de uma língua Um de seus objetivos é entender quais são os principais fatores que motivam a variação lingüística e qual a importância de cada um desses fatores na configuração do quadro que se apresenta variável O estudo procura verificar o grau de estabilidade de um fenômeno se está em seu início ou se completou uma trajetória que aponta para mudança Em outras palavras a variação não é vista como um efeito do acaso mas como um fenômeno cultural motivado por fatores lingüísticos também conhecidos como fatores estruturais e por fatores extralinguísticos de vários tipos conforme mostraremos através de vários exemplos A variação ilustra o caráter adaptativo da língua como código de comunicação e portanto a variação não é assistemática O lingüista ao estudar os diversos domínios da variação deve demonstrar como ela se configura na comunidade de fala bem como quais são os contextos lingüísticos e extralinguísticos que a favorecem ou que a inibem A sociolinguística abordada neste presente manual firmouse nos Estados Unidos na década de 1960 com a liderança do lingüista William Labov e é comumente denominada de sociolinguística variacionista ou teoria da variação Possui uma metodologia bem delimitada que fornece ao pesquisador ferramentas para estabelecer variáveis para coleta e codificação dos dados bem como instrumentos computacionais para definir e analisar o fenômeno variável que se quer estudar A abordagem variacionista baseiase em pressupostos teóricos que permitem ver regularidade e sistematicidade por trás do aparente caos da comunicação do dia a dia Procura demonstrar como uma variante se implementa na língua ou desaparece O termo variante é utilizado para identificar uma forma que é usada ao lado de outra na língua sem que se verifique mudança no significado básico Tomemos por exemplo a variação nos pronomes pessoais na primeira pessoa do plural ilustrada com o verbo falar Temos as formas nós falamos e a gente fala como variantes do presente do indicativo Ambas as expressões são aceitas pelas pessoas em geral mas a estrutura nós falamos é considerada mais formal enquanto a gente fala soa mais coloquial Tendo essas duas variantes em vista um sociolinguista poderia se perguntar a Em que contexto social um mesmo falante se utiliza de cada uma das duas variantes b Ou será que há um contexto específico para uma das formas c Há diferença nos usos dessas formas ao se compararem crianças jovens e adultos d Há diferenças ao se compararem pessoas cultas com pessoas analfabetas e E quanto a pessoas de nível socioeconômico distinto f É possível saber se a forma mais coloquial a gente fala está substituindo a forma canônica nós falamos g Há verbos provavelmente os mais formais que motivam o uso de nós Quais seriam esses verbos E quais outros provavelmente os menos formais motivariam o uso de a gente Além das variantes citadas que combinam a gente com a terceira pessoa do singular e nós com primeira do plural temos mais duas variantes mais estigmatizadas que são nós fala e a gente falamos Diante dessas variantes mais perguntas podem ser feitas a Qual o grau de escolaridade das pessoas que usam essas formas b Há incidência da forma a gente mais verbo na primeira do plural na fala de pessoas cultas Em que contexto tais incidências tendem a ocorrer Uma das contribuições da pesquisa sociolinguística foi a constatação de que muitas formas não padrão também ocorrem na fala de pessoas com nível superior principalmente nos momentos mais informais Graças a sua metodologia de análise da língua em situação real de comunicação a sociolinguística consegue medir o número de ocorrências de usos de uma variante e sobretudo fazer previsões sobre as principais tendências de uso em relação a essa variante Assim por exemplo num estudo sobre a concordância verbal que se iniciou com a fala dos analfabetos adultos do Rio de Janeiro na década de 1970 constatouse que ao lado da variante As meninas brincam no quintal os analfabetos privilegiavam o uso de As menina brinca no quintal Verificouse também que a falta de concordância podia ocorrer tanto na fala de pessoas analfabetas como na fala de alunos universitários por exemplo Mas a freqüência de uso era muito diferente e continua a ser muito diferente As pessoas analfabetas têm tendência a marcar o número plural apenas no primeiro elemento do sujeito deixando o substantivo e sobretudo o verbo sem marcas Já as pessoas mais instruídas têm tendência alta de expressar o plural no núcleo dos sujeitos nos determinantes e no verbo que assim concorda com o sujeito em número e pessoa Mas isso não significa que a forma padrão não ocorra na fala não culta também não significa que a forma não padrão não apareça na classe dos universitários Entretanto as probabilidades de ocorrência num e noutro grupo são distintas e relevantes Cabe ao sociolinguista descobrir os contextos que favorecem a variação a na fala de um mesmo grupo de falantes b entre grupos distintos de falantes divididos segundo variáveis convencionais a exemplo de sexo idade escolaridade procedência etnia nível socioeconômico A partir da freqüência de uso das variantes cabe a ele estimar as tendências associadas a cada freqüência e verificar se se trata de variação instável ou estável No primeiro caso poderia ainda indagar se algum tipo de mudança lingüística está ocorrendo ou se está prestes a ocorrer Como vimos pelos dois exemplos citados o conjunto das variantes denomina se grupo de fatores ou variável lingüística Cabe ao lingüista estabelecer através da análise quais são as variáveis lingüísticas relevantes para a descrição e interpretação do fenômeno que está estudando Por exemplo a sibilante e a ausência da mesma em meninas e menina são variantes de número Podemos dizer que a variável s cuja representação é feita com parênteses angulares tem as variantes sibilante e zero Uma variável pode ser binária como a de número singular e plural com duas variantes ou eneária com três ou mais variantes Vamos ilustrar a variável eneária com a vibrante final O r final que ocorre em palavras como cantar for der qualquer melhor mulher tem diversas variantes fonéticas no Brasil a a pronúncia vibrante alveolar do Sul do Brasil b a pronúncia retroflexa com a ponta da língua voltada para trás do interior de estados como São Paulo c a pronúncia velar do Rio de Janeiro por exemplo d a fricativa glotal e e zero ou seja a ausência de som Podemos dizer que essas são as principais variantes da variável vibrante r na realidade Para simplificar a análise vamos reduzir a variável vibrante a duas variantes presença ou ausência de consoante vibrante final E vamos chamála de variável dependente Examinemos agora algumas das variáveis lingüísticas associadas à presença ou à ausência de vibração Vamos chamálas de variáveis independentes As variáveis lingüísticas podem ser 1 a classe sintática da forma em r verbo nome adjetivo outros 2 no caso de verbo a classe modotemporal infinitivo subjuntivo 3 ainda no caso de verbo a vogai temática indicadora de conjugação a e i o 4 a variável extensão com as variantes monossílabo dissílabo trissílabo e polissílabo As variáveis extralinguísticas envolvem a gênero com as variantes masculino e feminino b idade com as variantes criança jovem adulto velho ou uma escala de idade A pergunta agora seria qual é a variante de r que é mais eliminada em cada situação As pesquisas mostram que o r final de verbo no infinitivo é na maioria das vezes mais eliminado da fala de informantes de todos os graus de escolaridade do que o r final de substantivos e adjetivos A variável escolaridade por exemplo é relevante para a descrição do fenômeno dado que os falantes com mais tempo de escolarização tendem a manter o r mais do que os analfabetos Ambos os grupos tendem a manter mais no caso dos substantivos do que com verbos Há outras variáveis que podem influenciar a variação além das mencionadas acima Assim por exemplo o grau de formalidade do item é um fator relevante o r final de um verbo menos usado como postergar tem maior chance de ser pronunciado do que de um verbo do dia a dia como falar O contexto fonológico da seqüência que segue é também relevante Com efeito a presença de um fonema vocálico na palavra seguinte favorece a manutenção do fonema consonantal por um processo de reorganização da sílaba como em pegar a criança enquanto um som consonantal desfavorece a presença dessa variante de prestígio como em tomar banho Tomemos um segundo exemplo da variação no uso da língua dessa vez com foco na alternância entre presença e ausência do pronome eu Podemos constatar que no português brasileiro é variável a manifestação da primeira pessoa1 como comprei um livro ou eu comprei um livro A primeira forma ocorre com mais freqüência na língua escrita e a segunda na língua oral Com relação à língua oral o sujeito oculto tende a ocorrer nas orações que apresentam uma seqüência de ações realizadas pelo mesmo sujeito Somente a primeira oração de uma seqüência é que apresenta o sujeito explícito como no exemplo tinha uma árvore um tronco aí eu me abaixei pra poder não bater bati com isso aqui aí fiquei desmaiado uma hora e meia duas horas aí acordei no hospital com isso aqui aberto e as costas toda arranhada RJ Em várias línguas em que o sujeito pode ser explícito ou oculto ele tende a ocorrer no início do enunciado e na mudança de referente por exemplo se o informante está falando de Pedro e passa a falar de si próprio e o sujeito oculto tende a ocorrer na cadeia de tópico ou seja quando há várias orações se referindo a uma mesma pessoa tornando o discurso mais coeso e econômico ver o capítulo Funcionalismo Dessa forma o aparente caos da variação é desfeito e o lingüista demonstra a sistematização que existe no uso das variantes de uma língua A diversidade e a variabilidade são características inerentes aos sistemas lingüísticos e passam também a ser objeto de estudo com o advento da sociolinguística O estudo dos processos de variação e mudança permite estabelecer três tipos básicos de variação lingüística a variação regional associada a distâncias espaciais entre cidades estados regiões ou países diferentes a variável geográfica permite opor por exemplo Brasil e Portugal b variação social associada a diferenças entre grupos socioeconômicos compreende variáveis já citadas como faixa etária grau de escolaridade procedência etc c variação de registro tem como variantes o grau de formalidade do contexto interacional ou do meio usado para a comunicação como a própria fala o email o jornal a carta etc Estamos apresentando cada variável como se a mesma operasse de forma autônoma sem interferência das demais variáveis associadas ao comportamento da variação Entretanto o que ocorre normalmente nas línguas é uma interação mais ou menos estreita entre as diferentes variáveis Assim uma inovação lingüística começa numa determinada região variável regional mas é própria de um grupo socioeconômico desfavorecido variável social A variante pode passar a ser usada pelo grupo socioeconômico mais alto nos momentos mais informais a variável é então o registro Um exemplo em que podemos ver a atuação dos três tipos de variável independente é o caso do uso de tu vs você com o verbo na terceira pessoa do singular tu fez tu quer Do ponto de vista regional podemos dizer que há cidades como o Rio de Janeiro que apresentam tanto a variante você quanto a variante tu a variável idade aponta a preferência de jovens pelo uso de tu e a variável escolaridade a associa com os menos escolarizados já a variável registro mostra que o pronome tu tende a ser usado nos momentos mais informais Podemos flagrar variação em todos os níveis da língua Por exemplo no nível lexical poderíamos citar conhecidas oposições de forma jerimum Bahia e abóbora Rio de Janeiro guri Rio Grande do Sul e menino Rio de Janeiro2 No nível gramatical vimos a variação elas brincamelas brinca No nível fonéticofonológico podemos dar como exemplo a variação regional das pronúncias de uma palavra como morena com a vogai prétônica aberta no Nordeste e fechada na maior parte do Brasil Nesse nível situase grande parte da variação que contém formas estigmatizadas como o segundo membro dos pares seguintes flamengo flamengo lagarta largata bicicleta bicicreta Na dimensão propriamente social estão as diferenças lingüísticas verificadas com a comparação entre o dialeto padrão considerado correto superior puro e os dialetos não padrão considerados incorretos inferiores corrompidos A variante padrão é ensinada na escola e valorizada pelos membros da sociedade tanto pelos que a dominam como pelos que gostariam de dominála posto que sabem da sua importância para se adquirir prestígio O contexto situacional é responsável por uma série de variações lingüísticas Dependendo da situação em que o falante se encontre ele utiliza mecanismos lingüísticos diferentes para se expressar Assim a sua linguagem apresenta diferenças lexicais gramaticais e fonéticas distintas devido ao contexto ao ouvinte ou ao meio através do qual a informação é transmitida fala ou escrita carta email artigo etc Desse modo por exemplo um diretor de faculdade se expressa de diferentes formas dependendo se está discutindo os novos recursos tecnológicos da educação com outro profissional da área se está dando uma aula se está explicando para o reitor a necessidade de contratar um professor se está conversando com o filho sobre a escola com o amigo sobre o futebol com a família sobre a próxima viagem etc Cada pessoa tem um enorme repertório lingüístico que a torna capaz de adaptar sua linguagem às diferentes situações vividas Em síntese a língua é uma estrutura maleável que apresenta variações mas há muitos elementos gramaticais fonéticos e léxicos que são comuns às variedades de uma língua Nem tudo é variação havendo um número enorme de elementos comuns que são estáveis A variação configurase como um conjunto de elementos diferentes de outro conjunto de outro grupo de outra localidade ou de outro contexto O lingüista pode demonstrar que a variação é previsível e determinada por fatores lingüísticos eou extralinguísticos como veremos nas próximas seções O advento da corrente sociolinguística variacionista O estruturalismo e o gerativismo não incluíram nas suas análises a variação porque esta estava fora do âmbito do objeto da lingüística o qual deveria ser abstraído do caos da realidade do uso lingüístico Como fruto da insatisfação diante dos modelos existentes que afastavam o objeto da lingüística da realização da língua e de suas diversas manifestações vários lingüistas procuraram outros caminhos Um desses caminhos culminou com o surgimento da sociolinguística O termo sociolinguística surge pela primeira vez na década de 1950 mas se desenvolve como corrente nos Estados Unidos na década de 1960 especialmente com os trabalhos de Labov bem como os de Gumperz e Dell Hymes e a conferência The Dimensions ofSociolinguistics de William Bright publicada em 1966 sob o título de Sociolinguistics Na conferência o autor afirma que o escopo da sociolinguística está na demonstração de que existe uma sistemática covariação entre a estrutura lingüística e a estrutura social Dell Hymes 1977 como antropólogo concebe a sociolinguística como um campo que inclui contribuição de várias disciplinas como a sociologia a lingüística a antropologia a educação a poética o folclore e a psicologia Enfatiza que apesar de englobar tantas áreas a sociolinguística é uma disciplina autônoma pois seu objetivo final é diferente dos objetivos de cada uma das disciplinas citadas Interessalhe identificar descrever e interpretar as variáveis que interferem na variação e mudança lingüística Labov tal qual Saussure vê a lingüística como uma ciência do social dessa forma a sociolinguística eqüivale à lingüística com ênfase na atenção às variáveis de natureza extralinguística Assim como a etnolinguística e a psicolinguística a sociolinguística veio preencher um vazio deixado pelo gerativismo que considera objetivo legítimo de estudo apenas o aspecto interior das línguas e a competência lingüística Dessa forma as novas disciplinas vêm priorizar os fatores sociais culturais e psíquicos que interagem na linguagem Esses fatores são considerados essenciais para o estudo lingüístico porque o homem adquire a linguagem e dela se utiliza dentro de uma comunidade de fala tendo como objetivos a comunicação com os indivíduos e a atuação sobre os interlocutores Portanto muito se perde ao abstrair a língua de seu uso real Labov demonstrou que a mudança lingüística é impossível de ser compreendida fora da vida social da comunidade em que ela se produz pois pressões sociais são exercidas constantemente sobre a língua Os precursores da sociolinguística Conforme podemos imaginar a variação lingüística não era ignorada pelos antigos estudiosos da língua nem pela lingüística como ciência antes da década de 1960 Muitos lingüistas procuraram demonstrar a relação entre língua cultura e sociedade e podem ser considerados os precursores da corrente sociolinguística Aqui apenas faremos menção a movimentos em favor da inclusão de variáveis sociais nos Estados Unidos e na França Na década de 1930 os dialetólogos que trabalhavam no Linguistic Atlas of the United States and Canada passaram a incorporar informações sociais além das geográficas para o levantamento dos dialetos dividindo os informantes em três grupos de acordo com o nível de escolaridade Meillet 1926 procurando uma explicação para as mudanças lingüísticas na França afirmou que toda modificação na estrutura social acarreta uma mudança nas condições nas quais a linguagem se desenvolve e que portanto a história das línguas é inseparável da história da cultura e da sociedade Os sociolinguistas contemporâneos vêm consolidando as bases teóricas e metodológicas do estudo da língua em situação real de comunicação e demonstrando a existência da natureza socioestrutural da linguagem As pessoas provenientes de diferentes classes sociais falam dialetos bastante diferentes com divergências em todos os níveis incluindo o gramatical Sociedade e linguagem O indivíduo inserido numa comunidade de fala partilha com os membros dessa comunidade uma série de experiências e atividades Daí resultam várias semelhanças entre o modo como ele fala a língua e o modo dos outros indivíduos Nas comunidades organizamse agrupamentos de indivíduos constituídos por traços comuns a exemplo de religião lazeres trabalho faixa etária escolaridade profissão e sexo Dependendo do número de traços que as pessoas compartilham e da intensidade da convivência podem constituirse subcomunidades lingüísticas a exemplo dos jornalistas professores profissionais da informática pregadores e estudantes Nas sociedades em que é nítida a separação da população em classes sociais e econômicas a relação entre língua e classes sociais se verifica com bastante evidência Para exemplificar vejamos o trabalho de Labov 1966 sobre a emissão da consoante r pósvocálica em Nova York pesquisa que é um marco para a história dessa corrente Labov pesquisou o referido fenômeno em três lojas de departamento de Nova York uma freqüentada pela classe alta outra pela média e a terceira freqüentada pela classe baixa Induziu os empregados a proferir as palavras fourth numerai quarto e floor piso andar como resposta à sua pergunta sobre em que andar se encontrariam produtos que lhe interessavam Observese que a consoante r aparece em dois contextos diferentes posição pósvocálica final e posição pósvocálica não final Labov descobriu que a preservação da vibrante ocorria com maior freqüência na loja da classe alta e média do que na loja da classe mais baixa revelando que a pronúncia do r pósvocálico é considerada de prestígio Além disso o autor ao comparar o que se verificava com os registros sobre o grau de manutenção da vibrante em Nova York em décadas anteriores concluiu que o r estava sendo recuperado na cidade após a Segunda Guerra A situação é diferente do que ocorre no inglês padrão da Inglaterra e de algumas regiões dos Estados Unidos locais onde a pronúncia padrão não emite o som consonantal ou pelo menos não emitia na época da realização da pesquisa Dessa forma a variação entre a realização e a omissão do Ivl está relacionada com a comunidade lingüística e a classe social Um outro exemplo para ilustrar a relação entre variação lingüística e classe social é o não uso da desinência s da terceira pessoa do presente do inglês Hesheit traveis plays sleeps Trudgill 1974 compara os resultados de pesquisas realizadas em duas cidades Norwich na Inglaterra e Detroit nos Estados Unidos Os resultados demonstram que nas duas cidades a classe média elimina a marca s em menos de 10 dos dados enquanto a classe trabalhadora baixa elimina em mais de 70 dos dados em Norwich a taxa de eliminação do s chega a quase 100 Dessa forma a percentagem média leva a um modelo previsível representando toda a comunidade Assim por exemplo se um falante é da classe trabalhadora baixa provavelmente omitirá a desinência s Um outro exemplo para ilustrar a relação entre sociedade e linguagem é a diferença entre os falantes do sexo masculino de um lado e os do sexo feminino de outro Nas sociedades em que as funções entre homens e mulheres são muito distintas os falantes de um e outro sexo falam dialetos bastante diferenciados como é o caso de línguas de várias partes do mundo Uma das razões desta diferenciação é reportada ao tabu3 determinadas palavras só podem ser proferidas pelos homens e outras apenas pelas mulheres Por exemplo em zulu uma língua falada na África a mulher é proibida de dizer o nome do sogro o nome dos irmãos deste e o nome do genro quer estejam vivos ou mortos e também não pode falar uma palavra semelhante ou derivada uma mulher cujo genro chamese Umánzi com o radical mánzi água por exemplo deverá evitar todos os vocábulos em que se apresenta a palavra mánzi e os complexos fônicos semelhantes4 Nas sociedades em que as funções sociais entre homens e mulheres se aproximam a diferença de linguagem de um e outro é menos nítida mas existe Por exemplo em nossa língua o marido pode dizer Esta é minha mulher já a mulher deve evitar a frase Este é o meu homem que em determinados contextos soa vulgar Pesquisas mostram que as mulheres tendem a usar as formas padrão de uma língua com maior freqüência do que os homens Há muitas tentativas de explicação para a diferença nenhuma totalmente convincente ou suficiente Segundo alguns estudiosos isso se dá porque dentre outros fatores da mulher é cobrado um comportamento mais rígido em conformidade com as normas em todos os sentidos inclusive no que se refere ao comportamento lingüístico Devido a essa cobrança social a mulher teria uma preocupação maior em reproduzir as formas lingüísticas consideradas de prestígio dentro de uma comunidade lingüística Nos estudos efetuados sobre o português do Brasil quando uma variante é estigmatizada e outra é prestigiada verificase a tendência de as mulheres empregarem a variante de prestígio Quando uma forma nova deixa de ser estigmatizada as mulheres utilizamna geralmente com maior freqüência que os homens Aspectos teóricometodológicos do sociolinguística A pesquisa sociolinguística tem como ponto de partida o objeto de estudo para daí construir o modelo teórico O objeto de estudo normalmente se localiza no uso do vernáculo ou seja da língua falada em situações naturais espontâneas em que supostamente o falante se preocupa mais com o que dizer do que com o como dizer Trabalhase com o falanteouvinte real em situações reais de linguagem Busca se através do estudo das manifestações lingüísticas concretas descrever e explicar o fenômeno da linguagem A análise dos fenômenos de mudança lingüística mais do que de variação procura levar em conta cinco grandes dimensões estabelecidas por Weinreich Labov e Herzog em seu estudo clássico de 1968 1 os fatores universais limitadores da mudança e variação que podem ser sociais ou lingüísticos 2 o encaixamento das mudanças no sistema lingüístico e social da comunidade 3 a avaliação das mudanças em termos dos possíveis efeitos sobre a estrutura lingüística e sobre a eficiência comunicativa 4 a transição momento em que há mudanças intermediárias 5 a implementação da mudança estudo dos fatores responsáveis pela implementação de uma determinada mudança explicação para o fato de a mudança ocorrer numa língua e não em outras ou na mesma língua em outros momentos O sociolinguista procura recolher um grande número de dados através da gravação em fitas magnetofônicas de um número considerável de informantes Hoje todos os tipos de produção lingüística são gravados Na busca da fala menos monitorada costumase pedir aos informantes para produzirem narrativas de experiência pessoal para que o envolvimento emocional com o assunto narrado os fizesse produzir um discurso espontâneo informal Os informantes escolhidos são aqueles nascidos e criados na comunidade a ser estudada ou aqueles que aí vivem desde os 5 anos de idade O ideal é que se formem células de dados com o mesmo número de informantes dois sexos cada qual com o mesmo número de informantes três níveis de escolaridade e quatro faixas etárias por exemplo A sistematicidade da linguagem é buscada através do estudo da variação As variantes entendidas como modos diferentes de dizer a mesma coisa são concebidas como estando em competição na língua sendo que o favorecimento de uma sobre outra ocorre devido a fatores lingüísticos e não lingüísticos contexto lingüístico classe social sexo faixa etária etc O lingüista busca formular regras variáveis que descrevem e explicam os pesos relativos ligados aos fatores associados à ocorrência de duas formas variantes A regra é variável porque não é categórica ou seja não se aplica sempre Por exemplo em português a regra que estabelece que o artigo vem antes do substantivo e não depois é categórica mas a regra que estabelece a concordância entre o artigo e o substantivo é variável as casasas casa Nas décadas de 1960 e 1970 os fatores extralinguísticos da linguagem foram por demais valorizados mas a partir da década de 1980 Labov postulou que o aspecto lingüístico deveria ser privilegiado sobre o social A variação é reconhecida como existindo dentro do sistema lingüístico A teoria recebeu reformulações reduzindo o peso do social para destacar as motivações essencialmente lingüísticas Os resultados da análise de variantes podem definir duas situações a a existência de estabilidade entre variantes b a competição entre as variantes com aumento de uso de uma das variantes No primeiro caso dizse que ocorre variação e no segundo mudança em curso A variação é facilmente detectada pois para ela ocorrer é necessário simplesmente o favorecimento do ambiente lingüístico Para ocorrer uma mudança lingüística no entanto é necessária a interferência de fatores sociais refletindo as lutas pelo poder o prestígio entre classes sexos e gerações Mas para ocorrer a mudança é necessário um período de variação entre formas A variação estável consiste em diferenças lingüísticas que caracterizam cada grupo social cada cidade região cada canal oral ou escrito A variação está presente em todas as línguas num dado momento Assim por exemplo podemos citar a variação entre q consoante velar e n consoante alveolar para a terminação ing dos verbos do inglês speakinglfalando walkinglandando watchiassistindo que é um caso de variação que permanece estável na língua inglesa há séculos Essa variação é determinada pelo grau de escolaridade e pela classe social falantes com grau alto de escolaridade usam a forma padrão r e falantes com grau baixo de escolaridade e da classe baixa tendem a usar a forma não padrão n Outro exemplo é o caso da alternância 1 vs r dos grupos consonantais do português claro cfaro bicicleta bicicfeta Pesquisas demonstram que esse é um caso de variação estável que caracteriza duas comunidades de fala a forma não padrão f é usada pelos falantes das classes menos favorecidas e com baixo grau de escolaridade A outra forma canônica é usada pelo grupo mais escolarizado A medida que as crianças entram na escola e o seu nível de escolaridade sobe aumenta a ocorrência da forma padrão 1 na sua fala5 A mudança ocorre quando após um período de variação de duas ou mais formas a forma mais nova e de menor prestígio se espalha e substitui a forma antes mais usada Podemos dar como exemplo a pronúncia l pósvocálico do português do Brasil que passou a ser pronunciado como uma semivogal saw papew em todo o território brasileiro exceto na região Sul que mantém a consoante Ao analisar o momento atual de uma língua é difícil dizer se um determinado fenômeno lingüístico é um caso de variação estável ou de mudança em curso Os sociolinguistas têm uma metodologia para dizer se uma forma está ou não vencendo outra forma mais antiga É possível analisar o tempo real ou o tempo aparente O tempo real é observado através da pesquisa de duas ou mais épocas sendo ideal o estudo de dois momentos que se distanciam no mínimo em 12 anos e no máximo em 50 anos O lingüista pode gravar informantes e revisitálos anos mais tarde para ver como é o comportamento de determinadas variáveis como concordância nominal concordância verbal uso de pronomes pronúncia do r final etc Pode também comparar gravações de entrevistas atuais com entrevistas dadas em rádio há várias décadas Pode comparar dados de textos antigos observar atlas lingüísticos estudar as descrições feitas por outros lingüistas ou gramáticos Ele terá assim diversos meios de verificar se duas formas estão em variação ou se são um caso de mudança Muito comum também é a técnica de estudo do tempo aparente o lingüista grava amostras de informantes de diferentes faixas etárias para observar se uma dada forma ocorre mais na fala de crianças e jovens do que na de adultos e idosos Um uso muito elevado de ocorrência da forma nova na fala de jovens pode indicar mudança em curso Outros fatores devem ser somados à faixa etária para dar mais certeza ao pesquisador A escolaridade por exemplo é um importante fator quando falantes mais cultos estão usando uma forma que anteriormente não tinha prestígio isso significa que ela deixou de ser estigmatizada e passou a ser normal dentro da comunidade de fala de pessoas escolarizadas o que pode significar mudança ou seja substituição de uma forma mais antiga pela forma nova Vemos que a sociolinguística não trabalha com a idéia de se separar a sincronia da diacronia como era normal na metodologia estruturalista Ao analisar um determinado momento é possível verificar aspectos relativos à mudança da língua quando por exemplo se compara a fala de jovens e adultos de mais de 40 anos O lingüista está também estudando a sincronia porque jovens e adultos realizam a língua num dado recorte do tempo Portanto a sociolinguística tanto descreve o que ocorre nas diferentes comunidades de fala tendo em vista diferentes fatores lingüísticos e extralinguísticos como dá explicações relativas às tendências de mudanças Essa corrente trabalha com dados estatísticos mas os números são apenas o ponto de partida para o lingüista fazer as suas análises Só ele pode chegar a conclusões sobre os fatores que motivam ou desfavorecem uma variante Ele seleciona os fatores importantes a partir de sua experiência de seu conhecimento sobre a teoria e sobre o fenômeno em questão e de sua intuição Depois de acordo com os resultados preliminares de sua pesquisa fará os cruzamentos de fatores como por exemplo a a forma a gente e o grau de formalidade do verbo e b a forma a gente o grau de formalidade do verbo e o fator idade Os dados estatísticos servem para comprovar refutar e reconstruir hipóteses a partir do olhar treinado do lingüista Para aprimorar as análises com um número grande de dados e de fatores houve um grande desenvolvimento de programas computacionais para essa área Expansão da sociolinguística Além de contribuir para a descrição e explicação de fenômenos lingüísticos a sociolinguística também fornece subsídios para a área do ensino de línguas Os sociolinguistas postulam que os dialetos das classes desfavorecidas não são inferiores insuficientes ou corrompidos Afirmam que esses dialetos são estruturados com base em regras gramaticais muitas das quais diferentes das regras do dialeto padrão Dessa forma a sociolinguística cria nos futuros professores uma visão menos preconceituosa e incentivaos a valorizar todos os dialetos e a mostrar à criança que o dialeto culto é considerado melhor socialmente mas que estrutural e funcionalmente não é nem melhor nem pior que o dialeto da comunidade do aluno A sociolinguística com suas pesquisas baseadas na produção real dos indivíduos dános informações detalhadas acerca da variante produzida pelas pessoas mais escolarizadas sobre as variantes que deixaram de ser estigmatizadas e das mudanças já implementadas na fala mas que ainda não são aceitas nas gramáticas normativas Com isso a área da educação se enriquece com as informações que podem ser usadas também no ensino da língua culta que passa a ser baseada em dados reais No que se refere ao ensino de línguas estrangeiras as pesquisas acerca da variação podem contribuir para fornecer material para que as aulas sejam baseadas na forma como realmente os nativos falam na preparação de material com diversos tipos de registros com as suas variações lingüísticas típicas na escolha do dialeto a ser ensinado dentre outros elementos Os pressupostos teóricometodológicos da sociolinguística são trabalhados em diversos centros de pesquisa no mundo No Brasil as pesquisas nessa linha começaram a ser desenvolvidas na década de 1970 através da atuação de alguns grupos de pesquisadores a saber o grupo do projeto Mobral Central o grupo do projeto da Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro Nurc e o do projeto Censo da Variação Lingüística no Estado do Rio de Janeiro Censo tendo como coordenadores os professores Miriam Lemle Celso Cunha e Anthony Naro respectivamente A partir daquela década muitos trabalhos foram realizados nessa linha Hoje em várias universidades brasileiras há grupos que seguem os pressupostos téoricometodológicos da sociolinguística como o Programa de Estudos sobre o Uso da Língua Peul continuidade do Projeto Censo o próprio Nurc na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ o projeto de Variação Lingüística da Região Sul do Brasil Varsul na Universidade Federal de Santa Catarina UFSC e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRS Diversas teses foram defendidas com o objetivo de descrever as formas variantes do português do Brasil e de explicar os fatores lingüísticos e extralinguísticos que favorecemdesfavorecem as variantes lingüísticas Muitos projetos buscam novas alternativas para explicar a variação e a mudança a partir de outras áreas da lingüística como o funcionalismo Por outro lado há grupos funcionalistas que aproveitam o aparato teóricometodológico da sociolinguística para preparar o corpus e para coletar e analisar os dados como é o caso do projeto Discurso Gramática iniciado pelo professor Sebastião Votre na UFRJ e que hoje conta com representantes em diversas universidades do Brasil Exercícios 1 Caracterize a área de estudos denominada de sociolinguística 2 Quais são os três tipos básicos de variação lingüística Cite exemplos no nível fonéticofonológico 3 Cite algumas variáveis lingüísticas e extralinguísticas que podem explicar o uso das variantes do fonema r em português em posição pósvocálica final de sílaba 4 Cite um exemplo em que fique claro que há uma relação intrínseca entre língua e sociedade 5 Diferencie variação estável de mudança em curso Que recursos metodológicos o lingüista pode utilizar para afirmar se um fenômeno lingüístico é caso de mudança em curso 6 Qual o papel da variável gênero sexo na metodologia sociovariacionista 7 Para se estudar a mudança lingüística o pesquisador pode fazer um estudo em tempo real ou em tempo aparente Qual a diferença entre os dois métodos de pesquisa 8 Cite alguns grupos de pesquisa que fazem estudos sociovariacionistas no Brasil 9 Compare os contextos fonéticos em que ocorrem os sons t som alveolar e tj som africado no Rio de Janeiro Qual a regra que descreve a variação entre o som alveolar e o africado nessa cidade Observe nos exemplos a seguir que o mesmo tipo de variação também ocorre em d e d3 time tfimi teto tetu tolo tolu tive tjivi tudo tudu dito d3itu dedo fdedu adiado ad3iadu 10 Compare a produção oral com a escrita de um mesmo informante Valéria nível superior incompleto Apresente algumas das diferenças entre as duas modalidades variação de registro FALA E eh e agora eu queria que você me contasse uma história que tenha acontecido com alguém algum amigo seu seu pai seu irmão que você não estivesse presente alguém te contou e que você achou a história engraçada ou triste ou I ahn ahn ah essa eu eu me lembro sim achei tão engraçada foi um ami um noi não um amigo de um amigo meu que foi jantar na casa da noiva aquele jantar assim primeira vez e tal oficializar o noivado aí ele estava jantando e tal ele ele já não gosta muito de bife de carne aí estava lá não conseguia partir o bife de jeito nenhum e tal aí ele chamou a atenção do pessoal pra uma outra coisa entendeu apontou assim pro outro lado da mesa e ele viu que tinha uma janela atrás riso de E ele pegou o bife e tacou riso mas ele não reparou muito a janela estava fechada riso sério o bife saiu bateu na janela e começou a escorrer grudou escorreu quando eu ouvi ele contando aquilo cara eu dei muito foi muito engraçado ele contando ele contando o que aconteceu com ele cara foi muito engraçado E e ninguém viu que o bife I não aí depois todo mundo olhou ele viu que o bife o bife ali a família toda sem graça risos aí é o fim da história E e ele casou com a menina ou naquele dia acabou I não não casou não chegou a casar com essa não foi casar com uma outra riso ESCRITA Um conhecido meu foi jantar na casa da noiva era o primeiro jantar com a família toda reunida foi servido bife sendo que o Ricardo não gostava muito de carne e ainda por cima o bife estava duro que mal dava para partir Atrás do Ricardo havia uma janela aproveitando a oportunidade em que todos olhavam em sentido oposto não pensou duas vezes fincou o garfo no bife e o arremessou para trás ele só não contava com a janela fechada Foi uma vergonha quando todos viraram para frente e viram a janela suja de gordura e o bife no chão o Ricardo só quis abrir um buraco no chão e se enfiar Não sei se foi por isso mas o Ricardo não se casou com a Roberta Corpus Discurso Gramática RJ Notas Cf Paredes da Silva 1988 e Cezario 1994 1 Cada exemplo ocorre em vários estados da federação Os mencionados são apenas para figurar como ilustração Segundo Trudgill 1974 na língua o tabu está associado às coisas que não são ditas e às palavras que não devem ser usadas O tabu pode estar associado ao sagrado ou às coisas proibidas 1 Cf Guérrios 1979 p 33 1 Cf Mollica 1987 e Cezario 1991 Funcionalismo Angélica Furtado da Cunha O funcionalismo é uma corrente lingüística que em oposição ao estruturalismo e ao gerativismo1 se preocupa em estudar a relação entre a estrutura gramatical das línguas e os diferentes contextos comunicativos em que elas são usadas Assim a abordagem funcionalista apresenta não apenas propostas teóricas distintas acerca da natureza geral da linguagem mas diferentes concepções no que diz respeito aos objetivos da análise lingüística aos métodos nela utilizados e ao tipo dos dados utilizados como evidência empírica Os funcionalistas concebem a linguagem como um instrumento de interação social alinhandose assim à tendência que analisa a relação entre linguagem e sociedade Seu interesse de investigação lingüística vai além da estrutura gramatical buscando na situação comunicativa que envolve os interlocutores seus propósitos e o contexto discursivo a motivação para os fatos da língua A abordagem funcionalista procura explicar as regularidades observadas no uso interativo da língua analisando as condições discursivas em que se verifica esse uso Para compreender isso melhor vejamos dois exemplos que refletem um fenômeno relativamente comum no nosso dia a dia a Você é desonesto b Desonesto é você Como explicar a diferença entre essas duas sentenças Certamente uma análise que observasse apenas seu caráter sintático não daria conta de indicar por que o falante usaria a sentença exemplificada em a em lugar da exemplificada em b Ocorre que ao contrário do que acontece em a que constitui uma afirmativa a sentença b está relacionada a uma situação comunicativa típica de réplica marcada pela inversão do predicado desonesto que vai para o início da frase Isso significa que essa sentença só faz sentido em um contexto em que o interlocutor tenha feito anteriormente o mesmo insulto Esse exemplo demonstra a essência da análise funcionalista que amplia seu campo de visão recorrendo ao contexto de uso o qual por hipótese motiva as diferentes estruturas sintáticas Ou seja na análise de cunho funcionalista os enunciados e os textos são relacionados às funções que eles desempenham na comunicação interpessoal Ou seja o funcionalismo procura essencialmente trabalhar com dados reais de fala ou escrita retirados de contextos efetivos de comunicação evitando lidar com frases inventadas dissociadas de sua função no ato da comunicação É a universalidade dos usos a que a linguagem serve nas sociedades humanas que explica a existência dos universais lingüísticos2 em contraposição à postura gerativista que considera que os universais derivam de uma herança lingüística genética comum à espécie humana Funcionalistas e gerativistas divergem também com relação ao processo de aquisição da linguagem Os funcionalistas tendem a explicálo em termos do desenvolvimento das necessidades e habilidades comunicativas da criança na sociedade A criança é dotada de uma capacidade cognitiva3 rica que torna possível a aprendizagem da linguagem assim como outros tipos de aprendizagem É com base nos dados lingüísticos a que é exposta em situação de interação com os membros de sua comunidade de fala que a criança constrói a gramática da sua língua Os gerativistas por outro lado explicam a aquisição da linguagem em termos de uma capacidade humana específica para a aprendizagem da língua Ao mencionarmos a idéia de uma capacidade cognitiva rica frisamos mais uma importante característica do funcionalismo a visão de que a linguagem não constitui um conhecimento específico como propõem os gerativistas mas um conjunto complexo de atividades comunicativas sociais e cognitivas integradas ao resto da psicologia humana Assim a visão funcionalista de cognição assume que a linguagem reflete processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem significados adaptandoos a diferentes situações de interação com outros indivíduos Ou seja os conceitos humanos associamse à época à cultura e até mesmo a inclinações individuais caracterizadas no uso da linguagem Resumindo o que foi visto até aqui o modelo funcionalista de análise lingüística caracterizase por duas propostas básicas a a língua desempenha funções que são externas ao sistema lingüístico em si b as funções externas influenciam a organização interna do sistema lingüístico Sendo assim a língua não constitui um conhecimento autônomo independente do comportamento social ao contrário reflete uma adaptação pelo falante às diferentes situações comunicativas Por um lado essas propostas opõem o funcionalismo às abordagens que não se interessam pela atuação de fenômenos externos à estrutura das línguas como o estruturalismo e o gerativismo por outro lado elas contrastam diferentes visões funcionalistas opondo modelos mais antigos que focalizam as funções associadas à organização interna do sistema lingüístico como na fonologia de Praga por exemplo a modelos mais recentes que consideram as funções que a linguagem pode desempenhar nas situações comunicativas dando maior ou menor peso aos aspectos cognitivos relacionados à comunicação É costume distinguir as análises na linha funcionalista com base no grau em que se considera o condicionamento do sistema lingüístico pelas funções externas A postura mais radical propõe que as funções externas tais como os propósitos comunicativos dos interlocutores definem as categorias gramaticais de modo que não seria necessário postular categorias autônomas e independentes Em outras palavras não existiria o nível estrutural chamado sintaxe a língua poderia ser descrita unicamente com base nos princípios comunicativos Nessa linha inseremse o trabalho de Du Bois 1985 sobre a estrutura dos argumentos preferida em uma dada língua e o trabalho de Hopper Thompson 1980 que trata a transitividade como uma categoria que deriva do discurso Uma postura mais moderada admite uma interação entre forma e função de modo que as funções externas atuariam concomitantemente com a organização formal inerente ao sistema lingüístico influenciandoa em certos pontos sem fundamental mente definir suas categorias básicas Servem como exemplo dessa postura mais moderada o funcionalismo de Dik e de Halliday que reconhecendo a inadequação do formalismo propõem a incorporação da semântica e da pragmática4 à análise sintática Vejamos mais detalhadamente alguns desses diferentes modelos funcionalistas O funcionalismo europeu Embora freqüentemente contrastado ao estruturalismo o funcionalismo surge como um movimento particular dentro do estruturalismo enfatizando a função das unidades lingüísticas na fonologia o papel dos fonemas segmentais e suprassegmentais na distinção e demarcação das palavras na sintaxe o papel da estrutura da sentença no contexto Atribuise aos membros da Escola de Praga que se originou no Círculo Lingüístico de Praga fundado em 1926 pelo lingüista tcheco Vilém Mathesius as primeiras análises na linha funcionalista Com relação ao ponto de vista saussuriano esses lingüistas se opunham à distinção nítida entre sincronia e diacronia assim como à noção de homogeneidade do sistema lingüístico Sua contribuição pode ser sintetizada no uso dos termos funçãoIfuncional no estabelecimento dos fundamentos teóricos básicos do funcionalismo e nas análises que levam em conta parâmetros pragmáticos e discursivos Foi na área dos estudos fonológicos principalmente que a Escola de Praga obteve maior projeção Entre os seus principais representantes destacamse Nikolaj Trubetzkoy e Roman Jakobson ambos de origem russa Os trabalhos de Trubetzkoy lançaram os fundamentos para o desenvolvimento da fonologia de um modo geral Devese a ele a teoria estruturalista do fonema a noção de contraste funcional utilizada na distinção entre fonética e fonologia a teoria dos sistemas fonológicos desenvolvida com Jakobson e o conceito de traços distintivos mais tarde incorporado à teoria da fonologia gerativa em 1960 por Chomsky e Halle discípulo e colaborador de Jakobson De acordo com a fonologia desenvolvida em Praga os fonemas definidos como elementos mínimos do sistema lingüístico não são elementos mínimos em si mas feixes ou conjuntos de traços distintivos simultâneos Por exemplo o fonema p é constituído dos traços oclusivo bilabial surdo enquanto o fonemab reúne os traços oclusivo bilabial sonoro Logo p e b diferem quanto à sonoridade e é esse traço ou sonoro que distingue pares mínimos como as palavras ata e ata ou ico e ico Além da função distintiva Trubetzkoy e seus seguidores estabeleceram também a função demarcadora e a função expressiva dos fonemas A função demarcadora serve para marcar a fronteira entre uma forma e outra na cadeia da fala O acento tônico das palavras por exemplo tem uma função demarcadora importante no português como em fábrica substantivo e fabrica verbo A função expressiva de um traço fonológico indica o estado de espírito do falante seus sentimentos ou sua atitude como por exemplo a pronúncia enfática de uma palavra com o alongamento da vogai liiiiindo Jakobson por sua vez é responsável pela introdução do conceito de marcação na morfologia Aplicado primeiramente na fonologia o princípio de marcação estabelece a distinção entre categorias marcadas e categorias não marcadas em um contraste binário Por exemplo a oposição entre Ipl e Ibl vista anteriormente se dá através do traço sonoridade Quanto a esse traço então Ibl que se caracteriza pelo traço sonoro é marcado já p caracterizado pelo traço sonoro é não marcado Na morfologia com relação à categoria de número a forma meninos plural é marcada em oposição a menino plural forma não marcada As idéias de Jakobson extrapolaram a lingüística refletindose nas áreas da poesia e da antropologia Os lingüistas da Escola de Praga estenderam o funcionalismo para além da fonologia Com relação à estrutura gramatical das línguas Mathesius antecipou uma concepção funcional da sentença que deu origem mais tarde à teoria da perspectiva funcional da sentença um tipo de análise em termos da informação transmitida pela organização das palavras O conceito de informação tal como é usado na lingüística é definido como um processo de interação entre o que já é conhecido ou predizível e o que é novo ou imprevisto Halliday 1985 A categoria perspectiva dá conta do contraste entre sentenças sintaticamente distintas que descrevem o mesmo estado de coisas Vejamos dois enunciados como os apresentados abaixo a Eu já li esse livro b Esse livro eu já li Podemos tratar esses enunciados como sentenças diferentes com base nas diferenças na ordenação dos seus elementos ou podemos tratálos como versões alternativas de dizer a mesma sentença já que transmitem o mesmo conteúdo semântico ou a mesma informação Temos aqui um problema semelhante ao que apresentamos no exemplo anterior como justificar o uso de uma ou outra dessas sentenças em um determinado contexto Se considerarmos como costumam fazer os funcionalistas que a organização sintática da cláusula é motivada pelo contexto discursivo em que esta ocorre não podemos dizer que a e b seriam empregadas na mesma situação de comunicação Ou seja embora essas cláusulas pareçam equivalentes do ponto de vista semântico elas diferem do ponto de vista pragmático Essa diferença pragmática está relacionada ao status informacional dos elementos que compõem a cláusula nos exemplos em questão é interessante o fato de esse livro ter ou não sido mencionado anteriormente ou seja constituir ou não informação nova para o interlocutor No caso do exemplo b o termo esse livro já foi mencionado apresentando status de informação dada ou informação velha o que motiva sua colocação no início da sentença Questões dessa ordem estão diretamente envolvidas no papel funcional da sentença tal como sugerido por Mathesius Seguindo a tradição da Escola de Praga Jan Firbas desenvolveu no começo da década de 1960 um modelo da estrutura informacional da sentença que buscava analisar sentenças efetivamente enunciadas para determinar sua função comunicativa Nesse modelo a parte da sentença que representa informação dada ou já conhecida pelo ouvinte tem o menor grau de dinamismo comunicativo ou seja a quantidade de informação que ela comunica aos interlocutores no contexto é a menor possível Essa parte é denominada tema A parte que contem a informação nova apresenta o grau máximo de dinamismo e forma o rema Suponhamos o seguinte diálogo A O que Maria comprou B Maria comprou uma bolsa preta Nesse contexto Maria comprou é o tema e uma bolsa preta é o rema Como mencionamos anteriormente a tendência geral é que as partes que contêm o menor grau de dinamismo comunicativo tendem a vir no início da sentença enquanto as partes com o grau mais alto vêm por último Em oposição à corrente lingüística que focalizava o estudo da linguagem enquanto expressão do pensamento os funcionalistas de Praga enfatizaram o caráter multifuncional da linguagem ressaltando a importância das funções expressiva e conotativa entre outras além da referencial ver o capítulo Funções da linguagem A influência da Escola de Praga foi duradoura e profunda As idéias originadas nesse período são a fonte para diversos trabalhos posteriores principalmente de Roman Jakobson e André Martinet considerados os dois divulgadores mais importantes do pensamento lingüístico internacional da Escola de Praga Dentre as principais contribuições dessa escola estão a distinção entre as análises fonética e fonológica dos sons a análise dos fonemas em traços distintivos e as noções correlatas de binário e marcado O funcionalismo também se faz representar em algumas outras correntes lingüísticas póssaussurianas da Europa no século xx Saussure influenciou mais de perto a chamada Escola de Genebra cujos principais representantes são Charles Bally Albert Sechehaye e Henri Frei Enquanto Sechehaye limitouse basicamente a discutir as idéias de Saussure Bally interessado na relação entre o pensamento e sua expressão lingüística deu novo impulso à estilística que definiu como o estudo dos elementos afetivos da linguagem Concentrou sua atenção nos desvios que o uso individual a fala é levado a impor ao sistema a língua Essa proposta baseiase no fato de que não há separação intransponível entre esses dois aspectos da linguagem língua e fala posição teórica por definição funcionalista Por sua vez Frei notabilizouse por sua análise referente aos desvios da gramática normativa que segundo sua proposta não são fortuitos mas refletem tendências resultantes da necessidade de comunicação e constituem portanto uma rica fonte de estudos lingüísticos Frei se fez o promotor da lingüística de base funcional que associa os fatos lingüísticos a determinadas funções a eles relacionadas Essa influência chegou até Martinet que manteve freqüente contato com os principais lingüistas de Praga sobretudo com Trubetzkoy por quem foi bastante influenciado Outra manifestação funcionalista podemos ver na Escola de Londres sobretudo através das idéias de Michael K Halliday A teoria funcional de Halliday que surge na década de 1970 está centrada em um conceito amplo de função que inclui tanto as funções de enunciados e textos quanto as funções de unidades dentro de uma estrutura Apoiado na tradição etnográfica de BoasSapirWhorf e de Bronislav Malinowski Halliday defende a tese de que a natureza da linguagem enquanto sistema semiótico e seu desenvolvimento em cada indivíduo devem ser estudados no contexto dos papéis sociais que os indivíduos desempenham A postura de Halliday reflete também a influência do lingüista inglês John Firth para quem a linguagem deve ser considerada parte de um processo social A tendência de analisar a língua de um ponto de vista funcional está também presente no chamado grupo holandês No final da década de 1970 o lingüista holandês Simon Dik e seus seguidores desenvolveram um modelo de sintaxe funcional em que as funções em uma sentença são analisadas em três níveis distintos Tomemos como exemplo a sentença João chegou cedo João desempenha a função sintática de sujeito a função semântica de agente e a função pragmática de tema Primeiro as funções semânticas são associadas com os predicados no léxico por exemplo agente chegar e o núcleo de uma sentença no nosso exemplo João chegou pode ser ampliado por satélites cedo nesse caso As funções sintáticas são então relacionadas aos seus elementos e por último às funções pragmáticas A lingüística portanto tem que tratar de dois tipos de sistemas de regras de um lado as regras semânticas sintáticas morfológicas e fonológicas responsáveis pela constituição das estruturas lingüísticas de outro lado as regras pragmáticas responsáveis pelos modelos de interação verbal em que as estruturas lingüísticas são usadas Dik trabalha com uma concepção teleológica de linguagem Para ele o principal interesse de uma lingüística funcionalista está nos processos relacionados ao êxito dos falantes ao se comunicarem por meio de expressões lingüísticas5 O funcionalismo norteamericano A partir do estruturalismo a lingüística norteamericana foi dominada por uma tendência formalista que se enraizou com Leonard Bloomfield e se mantém até hoje com a lingüística gerativa Entretanto paralelamente foi se desenvolvendo uma tendência para o funcionalismo sob influência dos trabalhos de etnolinguistas como Franz Boas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf Dwight Bolinger é freqüentemente apontado como um dos precursores da abordagem funcionalista norteamericana Ainda durante o predomínio das teorias formais Bolinger chamava a atenção para o fato de que fatores pragmáticos operavam em determinados fenômenos lingüísticos estudados pelos estruturalistas e gerativistas Embora não tenha avançado um esboço completo de uma gramática funcionalista Bolinger impulsionou o funcionalismo com suas análises de fenômenos particulares em especial seu estudo pioneiro sobre a pragmática da ordenação das palavras na cláusula Em contraposição à postura estruturalista que enfatiza o princípio da arbitrariedade a questão da iconicidade que prediz uma correlação direta entre um conceito e sua representação lingüística volta a atrair o interesse dos lingüistas em especial a partir da década de 1960 quando o foco da atenção recai sobre os estudos tipológicos e os universais lingüísticos Essa área de investigação foi enfatizada sobretudo pelos crioulistas6 e pelo lingüista Joseph Greenberg 1966 interessado na variação tipológica entre as línguas E por volta de 1975 que as análises lingüísticas explicitamente classificadas como funcionalistas começam a proliferar na literatura norteamericana Essa corrente surge como reação às impropriedades constatadas nos estudos de cunho estritamente formal ou seja nas pesquisas estruturalistas e gerativistas Os funcionalistas norte americanos advogam que uma dada estrutura da língua não pode ser proveitosamente estudada descrita ou explicada sem referência à sua função comunicativa o que aliás caracteriza todos os funcionalismos até aqui mencionados Diferentemente das teorias formais o funcionalismo pretende explicar a língua com base no contexto lingüístico e na situação extralinguística De acordo com essa concepção a sintaxe é uma estrutura em constante mutação em conseqüência das vicissitudes do discurso ao qual se molda Ou seja há uma forte vinculação entre discurso e gramática a sintaxe tem a forma que tem em razão das estratégias de organização da informação empregadas pelos falantes no momento da interação discursiva Dessa maneira para compreender o fenômeno sintático seria preciso estudar a língua em uso em seus contextos discursivos específicos pois é neste espaço que a gramática é constituída Em termos funcionalistas essa concepção de sintaxe corresponde às noções de gramática emergente Hopper 1998 ou sistema adaptativo DuBois 1985 Considerar a gramática como um organismo maleável que se adapta às necessidades comunicativas e cognitivas dos falantes implica reconhecer que a gramática de qualquer língua exibe padrões morfossintáticos estáveis sistematizados pelo uso ao lado de mecanismos de codificação emergentes Em outras palavras as regras da gramática são modificadas pelo uso isto é as línguas variam e mudam e portanto é necessário observar a língua como ela é falada Nesse sentido a análise dos processos de variação e mudança lingüística constitui uma das áreas de interesse privilegiado da lingüística funcional O texto considerado pioneiro no desenvolvimento das idéias da escola funcionalista norteamericana é The Origins of Syntax in Discourse publicado por Gillian Sankoff e Penelope Brown em 1976 Nesse trabalho as autoras fornecem evidências das motivações discursivas geradoras das estruturas sintáticas do tok pisin língua de origem pidgin de PapuaNova Guiné ilha ao norte da Austrália Em 1979 Talmy Givón influenciado pelas descobertas de Sankoff e Brown publica From Discourse to Syntax texto explicitamente antigerativista que afirma que a sintaxe existe para desempenhar uma certa função e é essa função que determina a sua maneira de ser Os trabalhos de Givón 1984 1990 1995 2001 entre outros se caracterizam pela busca de parâmetros substantivos isto é motivados comunicativa ou cognitivamente para a explicação de fatos gramaticais Se ainda não há uma teoria gramatical funcionalista completa e unificada há uma quantidade expressiva de análises funcionalistas sobretudo do inglês Alguns lingüistas norteamericanos como Givón Sandra Thompson e Paul Hopper sobressaem pelos seus estudos individuais Sozinha ou em coautoria Thompson produziu alguns trabalhos considerados marcos na análise funcionalista Entre esses podemos destacar seu estudo sobre as passivas em inglês em que Thompson observa que a ocorrência de uma cláusula passiva em inglês é motivada por dois fatores pragmáticos distintos um deles prediz uma passiva sem agente e o outro uma passiva com agente Em Transitivity ingrammar and discourse 1980 em coautoria com Paul Hopper os autores reinterpretam o conceito tradicional de transitividade como uma propriedade escalar constituída de dez parâmetros sintático semânticos independentes e covariantes De acordo com a presença ou ausência desses parâmetros a cláusula pode ser mais ou menos transitiva O complexo de transitividade e seus parâmetros individuais se associam a uma função discursivocomunicativa a de assinalar as porções centrais e periféricas de um texto narrativo Fatores discursivos portanto interferem na codificação da transitividade como veremos adiante Além desses autores há um grupo de funcionalistas europeus na Alemanha que trabalha com questões de mudança lingüística gramaticalização e empréstimo e segue um modelo semelhante ao dos lingüistas norteamericanos Esse grupo reúne entre outros Bernd Heine na universidade de Colônia Tânia Kuteva em Dusseldorf Vale destacar a recente aproximação entre a lingüística funcional e a lingüística cognitiva representada por antigos gerativistas como Ronald Langacker 1991 George Lakoff 1987 e ainda por psicolinguistas como Michael Tomasello 1999 e John Taylor 1995 que também rejeitam a tese da autonomia da sintaxe proposta pela gramática gerativa e propõem a incorporação das dimensões sociais e cognitivas nos estudos lingüísticos No panorama brasileiro os estudos de cunho funcionalista ganham impulso a partir da década de 1980 com a constituição de grupos de pesquisadores que propõem fatores de natureza comunicativa e cognitiva para interpretar o funcionamento de tópicos morfossintáticos em textos falados e escritos Aqui também se acha refletida a diversidade de orientações teóricas de base funcionalista e os pesquisadores costumam combinar diferentes perspectivas em suas análises Em trabalho pioneiro Rodolfo Ilari publicou em 1987 Perspectiva funcional da frase portuguesa que trata do dinamismo comunicativo em termos de tema e rema na linha dos estudos da Escola de Praga Entre os grupos constituídos destacamse os pesquisadores do Projeto Norma Urbana Culta que abrange várias capitais do país do Projeto de Estudo do Uso da Língua da Universidade Federal do Rio de Janeiro PeulUFRJ e do Grupo de Estudos Discurso Gramática sediado em várias universidades Universidade Federal do Rio de Janeiro Universidade Federal Fluminense Universidade do Estado do Rio de Janeiro Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Universidade Federal do Rio Grande do Norte O Peul tem formação sociolinguística seus trabalhos focalizam a variação lingüística sob a perspectiva da função discursiva das variantes selecionadas de acordo com o quadro do funcionalismo norteamericano Destacase nesse grupo a participação de Anthony Julius Naro que em parceria com Sebastião Votre publicou vários artigos seguindo a orientação de Givón O Grupo de Estudos Discurso Gramática criado por Sebastião Votre também trabalha com os pressupostos do funcionalismo norteamericano tendo como foco central de interesse o estudo dos processos de gramaticalização Os resultados de suas pesquisas podem ser vistos em Martelo tta Votre e Cezario 1996 Rios de Oliveira 1998 Furtado da Cunha 2000 e Furtado da Cunha Rios de Oliveira e Martelotta 2003 Dentre os princípios e as categorias centrais dessa corrente funcionalista estão informatividade iconicidade marcação transitividade e plano discursivo e gramaticalização Nesse quadro os processos de gramaticalização e discursivização constituem pontos privilegiados de investigação Informatividade O princípio de informatividade focaliza o conhecimento que os interlocutores compartilham ou supõem que compartilham na interação verbal De um modo geral a aplicação desse princípio se tem voltado para o exame do status informacional dos referentes nominais Desse modo um sintagma nominal pode ser classificado como dado novo disponível e inferível Um referente pode ser dado ou velho se já tiver ocorrido no texto referente textualmente dado ou se estiver disponível na situação de fala referente situacionalmente dado como os próprios participantes do discurso falante e ouvinte Vejamos os dois casos respectivos nos exemplos seguintes retirados do corpus Discurso Gramática7 aaíomecânicofalouque0nãosabiaqualohomemquetinhaapertado aquilo riso b E e agora eu queria que você me me dissesse alguma coisa que você sabe fazer ou que você goste de fazer e como é que se faz isso No exemplo a o sujeito do verbo saber marcado pelo símbolo 0 que indica sua omissão foi mencionado na primeira cláusula constituindo um caso de referente anteriormente dado o mecânico Por isso ele não precisa ser repetido na sentença seguinte No exemplo b em que o entrevistador pede ao informante que ele diga algo que sabe fazer embora a palavra você seja ambígua no sentido de que pode se referir a qualquer pessoa o contexto permite que interlocutor o entrevistado perceba que é a ele que o falante deseja se referir Em circunstâncias desse tipo como a situação contextual não deixa dúvidas quanto ao sentido do termo temos um caso de referente situacionalmente dado Um referente é novo quando é introduzido pela primeira vez no discurso como no exemplo c Se já está na mente do ouvinte por ser geralmente um referente único num dado contexto é chamado disponível São exemplos de referentes disponíveis termos como a lua o sol Pelé ou Petrópolis como no caso d c aí quando chegou ali na decida porque é Barra Tijuca né quando estava quase chegando a Tijuca vinha um ônibus na direção deles e tinha um caminhão parado aqui Informante 12 Dario Discurso Gramática RJ d mas eu fui a Petrópolis com uma amiga que nunca tinha subido a serra Um referente denominase inferível quando é identificado através de um processo de inferência exemplo e a partir de outras informações dadas As entidades inferíveis geralmente são codificadas com um artigo definido e quando ela viu o ônibus passar mas o ônibus já estava indo e ela começou a gritar e todo o ponto de ônibus assim lotado né ela começou a gritarpro motorista mas ela estava um pouco longe Nesse caso o referente o motorista não foi mencionado não constituindo informação dada ou velha Entretanto como um ônibus implica a existência de um motorista o ouvinte não tem problemas em identificar essa informação que por isso também não pode ser classificada como nova Temos aí um caso de referente inferível O status informacional dos elementos lingüísticos é importante no sentido de que interfere por exemplo na ordenação que eles assumem na cláusula como veremos a seguir no conceito de iconicidade Iconicidade O princípio de iconicidade é definido como a correlação natural e motivada entre forma e função isto é entre o código lingüístico expressão e seu significado conteúdo Os lingüistas funcionais defendem a idéia de que a estrutura da língua reflete de algum modo a estrutura da experiência Como a linguagem é uma faculdade humana a suposição geral é a de que a estrutura lingüística revela o funcionamento da mente bem como as propriedades da conceitualização humana do mundo Em sua versão original o princípio de iconicidade postula uma relação isomórfica de um para um entre forma e conteúdo Bolinger 1977 Contudo estudos sobre os processos de variação e mudança ao constatar a existência de duas ou mais formas alternativas de dizer a mesma coisa levaram à reformulação dessa versão forte Na língua que usamos diariamente em especial na língua escrita existem por certo muitos casos em que não há uma relação clara transparente entre expressão e conteúdo Nesses casos a relação entre forma e significado é aparentemente arbitrária uma vez que o significado original do elemento lingüístico se perdeu total ou parcialmente assim como a motivação para sua criação Por exemplo o item entretanto hoje tem um valor opositivo que justifica sua classificação como conjunção adversativa ex Estudou muito entretanto não passou Esse uso é completamente distinto de seu significado original utilizado em textos arcaicos do português como advérbio temporal com valor de enquanto isso ao mesmo tempo entre tantos acontecimentos essa idéia permanece no item entre encontrado na construção entre tanto8 O mesmo se deu com a conjunção concessiva embora exEmbora tenha estudado muito não passou proveniente da expressão com valor temporal em boa hora muito comum sobretudo na era medieval Essa expressão era comumente acrescida a determinadas frases em virtude da crença de que o sucesso dos atos estava relacionado ao momento em que eram praticados Há portanto contextos comunicativos em que a codificação morfossintática é opaca em termos da função que desempenha Isso ocorre porque a iconicidade do código lingüístico está sujeita a pressões diacrônicas corrosivas tanto na forma quanto na função a o código forma sofre constante erosão pelo atrito fonológico tendo sua forma diminuída Ex em boa hora embora b a mensagem função é constantemente alterada pela elaboração criativa através de processos metafóricos e metonímicos Ex na conjunção entretanto o valor espacial expresso originalmente pela preposição entre ex A casa fica entre a igreja e o supermercado é estendida para uma noção mais abstrata referente a um espaço existente entre seqüências de acontecimentos ex Muita coisa aconteceu entre a discussão e a briga Esse é o ponto de partida para o uso arcaico com valor de concomitância temporal que acaba se estendendo para o atual valor concessivo Os dois tipos de pressão geram ambigüidade Quanto ao código verificase correlação entre uma forma e várias funções é o que ocorre com embora que pode ser empregado como concessivo ex Embora tenha estudado muito não passou ou com o valor que alguns gramáticos chamam de partícula de afastamento ex Vou embora assim que a aula acabar Quanto à mensagem observase correlação entre várias formas e uma função no português atual coexistem com a conjunção concessiva embora e várias outras com mesmo valor como mesmo que ainda que apesar de entre outras Em sua versão mais branda o princípio de iconicidade se manifesta em três subprincípios que se relacionam à quantidade de informação ao grau de integração entre os constituintes da expressão e do conteúdo e à ordenação seqüencial dos segmentos Vejamos cada um deles Segundo o subprincípio da quantidade quanto maior a quantidade de informação maior a quantidade de forma de tal modo que a estrutura de uma construção gramatical indica a estrutura do conceito que ela expressa Isso significa que a complexidade de pensamento tende a refletirse na complexidade de expressão Slobin 1980 aquilo que é mais simples e esperado se expressa com o mecanismo morfológico e gramatical menos complexo A atuação desse subprincípio pode ser vista no comprimento maior das palavras derivadas que tendem a veicular mais informações semânticas eou gramaticais em comparação com as palavras primitivas de que se originam refletindo na forma a ampliação do seu campo conceituai BELO BELEZA EMBELEZAR EMBELEZAMENTO Outro exemplo é a repetição de certas estruturas verbais em que o falante deseja expressar o aspecto iterativo eou a intensidade da ação descrita como em ele fugiu com a moça daí fugiram começaram a correr e o h o m e m atrás deles correram correram correram enquanto isso o h o m e m correndo correndo atrás deles O subprincípio da integração prevê que os conteúdos que estão mais próximos cognitivamente também estarão mais integrados no nível da codificação o que está próximo mentalmente colocase próximo sintaticamente Esse subprincípio se manifesta por exemplo no grau de integração que o verbo da oração principal exibe em relação ao verbo da subordinada a Maria ordenou fique aqui b Maria fez a filha ficar ali c A filha não queria ficar ali Essas orações indicam que quanto menos integrados os dois eventos estão tanto mais provável que um elemento de subordinação ou uma pausa separe a oração subordinada da principal Em outras palavras o subprincípio da integração correlaciona a distância linear entre expressões à distância conceptual entre as idéias que elas representam Na primeira oração temos dois eventos separados o ato de dizer algo e o ato de ficar ali além disso os verbos núcleos da oração referemse a sujeitos distintos e apresentam codificação modotemporal distinta Na segunda frase a integração semântica e sintática é maior já não é tão fácil dizer que são dois eventos separados e não há um elemento explícito que separe sintaticamente as duas orações O sujeito da segunda é objeto da primeira Na terceira oração a fusão semântica e sintática é ainda maior pois também não é nítida a distinção de eventos diferentes e o sujeito de querer é o mesmo de ficar e obrigatoriamente o sujeito desse segundo verbo aparece apagado Há ainda o fenômeno da iconicidade relacionado à ordenação dos elementos na cadeia sintática Nesse caso temos os chamados subprincípios de ordenação seqüencial O primeiro deles é o subprincípio da ordenação linear segundo o qual a ordenação das orações no discurso tende a espelhar a seqüência temporal em que os eventos descritos ocorreram sabe como é feito um bom strogonof compra o camarão limpa o camarão põe o camarão boto cebola pimentão tomate cozinho ele deixo ele cozinhar um pouquinho assim As orações acima estão colocadas sintaticamente na mesma ordem em que ocorreram na realidade primeiro comprase o camarão depois limpase o camarão e assim por diante A inversão da ordem das orações implicaria também uma mudança na seqüência real dos fatos O segundo subprincípio ligado à ordenação é o subprincípio da relação entre ordem seqüencial e topicalidade Nesse caso temos uma conexão entre o tipo de informação veiculada por um elemento da cláusula e a ordenação que ele assume Um exemplo de como isso ocorrer pode ser visto no fato de que informações velhas ou já mencionadas tendem a ocorrer no início da cláusula e informações novas no final Vejamos o exemplo que segue Tenho vários amigos mas meu preferido é Carlos Carlos está sempre comigo nas horas de diversão Podemos notar que o referente Carlos quando mencionado pela primeira vez aparece no final da frase meu preferido é Carlos ao invés de Carlos é meu preferido Entretanto na cláusula seguinte Carlos é novamente mencionado constituindo portanto informação velha Nesse caso ele ocorre no início da cláusula Esse subprincípio pode assumir características diferentes quando associado à noção de contrastividade Esse caso pode ser visto por exemplo na tendência de se antepor na cláusula determinados trechos para efeito de contraste a João comprou um carro b Foi João que comprou um carro c Foi um carro que João comprou Tanto o sujeito João quanto o objeto um carro da cláusula a apresentada anteriormente podem ser colocados em situação de foco contrastivo como ocorre em b foi João e não outra pessoa que comprou o carro e em c foi um carro e não outra coisa que João comprou Essas construções refletem a preocupação do funcionalismo em trabalhar com as expectativas do falante em um contexto particular a crença por exemplo de que outra pessoa que não João tivesse comprado o carro no caso de b ou de que João comprou outra coisa que não um carro no caso de c Marcação Os termos marcado e não marcado foram introduzidos na lingüística pela Escola de Praga Aqui a ideiachave é a de contraste entre dois elementos de uma dada categoria lingüística seja ela fonológica morfológica ou sintática Um entre dois elementos que se opõem é considerado marcado quando exibe uma propriedade ausente no outro membro considerado não marcado Assim no campo da morfologia por exemplo é interessante observar nesse sentido a categoria de número a forma meninos plural é marcada em oposição a menino plural forma não marcada As formas não marcadas apresentam várias características tais como a maior freqüência de ocorrência nas línguas em geral e em uma língua particular b contexto de ocorrência mais amplo c forma mais simples ou menor d aquisição mais precoce pelas crianças Se observarmos com cuidado veremos que o elemento que está no singular apresenta essas características das formas não marcadas ocorre mais na língua pois usamos mais palavras no singular do que no plural apresenta contexto de ocorrência mais amplo pois dizemos por exemplo que vamos ao mercado comprar cenoura mesmo sabendo que compraremos mais de uma o que significa que o singular é utilizado no contexto do plural apresenta forma mais simples ou seja ocorre sem a desinência s e possivelmente por isso é aprendida mais facilmente pelas crianças do que as formas de plural No nível sintático o conceito de marcação também apresenta conseqüências interessantes no uso da língua Comparemos as duas construções abaixo a Eu uso esta roupa b Esta roupa eu uso A sentença exemplificada em b é mais marcada já que a ordenação mais comum é a que está indicada em a sujeito Eu verbo uso objeto esta roupa Essa questão tem implicações interessantes quando pensamos na expressividade dessas estruturas Qual seria a mais expressiva das duas A resposta seria a do exemplo b já que expressa algum tipo de força argumentativa associada à idéia de que aquela roupa é de um tipo que agrada mais ao falante do que alguma outra Isso não ocorre no primeiro exemplo em que temos uma simples afirmação que não apresenta necessariamente qualquer argumento desse tipo Essa é a importância do conceito de marcação no que diz respeito ao uso da língua uma forma lingüística mais corriqueira que apresenta alta freqüência de uso tende a ser conceptualizada de modo mais automatizado pelo usuário da língua e isso significa que essa forma tem pouca expressividade Assim quando querem ser expressivos os falantes usam formas marcadas É o que ocorre em frases como a apresentada em b Vale ressaltar que a marcação que caracteriza uma forma lingüística é relativa pois uma construção pode ser marcada num dado contexto e não marcada em outro Por exemplo a voz passiva sintética Vendese casa é muito marcada na língua oral por ser bastante incomum Entretanto num texto escrito formal ela não é marcada já que ocorre com relativa freqüência Transitividade e plano discursivo Para a gramática tradicional a transitividade é uma propriedade dos verbos que são classificados como transitivos quando acompanhados de objeto direto ou indireto ou intransitivos quando não há complemento A proposta de Hopper e Thompson 1980 não opõe binariamente verbos transitivos a intransitivos mas trata a transitividade como uma propriedade escalar que focaliza diferentes ângulos da transferência da ação de um agente para um paciente em diferentes porções da oração Vejamos os exemplos seguintes extraídos de uma narrativa que reconta o filme Batman a Batman derrubou o Pingüim com um soco b A Mulher Gato não gostava do Batman c Esse rio tem uma forte correnteza d Então o Pingüim chegou na festa Pela classificação da gramática tradicional as três primeiras orações são transitivas pois apresentam um objeto como complemento do verbo Segundo a formulação de Hopper e Thompson a é a que ocupa lugar mais alto na escala de transitividade seguida de d b e por último c tendo em vista aspectos como a dinamicidade do verbo a agentividade do sujeito e o afetação do objeto Hopper e Thompson associam a transitividade a uma função pragmática o modo como o falante organiza seu texto é determinado em parte pelos seus objetivos comunicativos e em parte pela sua percepção das necessidades do seu interlocutor Nesse sentido o texto apresenta diferentes planos discursivos que distinguem as informações centrais das periféricas O grau de transitividade de uma oração ou o lugar que ela ocupa na escala de transitividade de Hopper e Thompson reflete sua função discursiva característica de modo que orações com alta transitividade assinalam porções centrais do texto correspondentes à figura enquanto orações com baixa transitividade marcam as porções periféricas correspondentes ao fundo Vejamos o seguinte fragmento meu pai estava andando ele morava no outro lado da Penha e ele estava passando por por baixo da pa da passagem subterrânea do trem aí dois caras um escuro alto forte e um branco também alto forte esbarraram nele e ele anda com aquelas capangas aí a capanga caiu no chão abriu os documentos dinheiro ficou tudo espalhado no chão e eu ele abaixou pra catar os documentos quando ele abaixou os caras falaram que era um assalto aí pegaram o dinheiro a conta de luz tudo que tinha juntaram colocaram na capanga e levaram a capanga embora e aí meu pai foi pra casa falou que tinha sido assaltado aí eles resolveram ir na polícia né pra dar queixa e depois teve todo trabalho de pedir segunda via de documento de conta de luz de conta de água e ficou sem o dinheiro era o dia de pagamento Em figura estão os eventos perfectivos em itálico que expressam a seqüência de ações que caracteriza a narrativa FIGURA a dois caras esbarraram nele b a capanga caiu no chão c abriu d ele abaixou e os caras falaram f aí pegaram o dinheiro g colocaram na capanga e h levaram a capanga embora i meu pai foi pra casa j falou que tinha sido assaltado 1 aí resolveram ir pra polícia m depois teve todo trabalho de pedir segunda via n e ficou sem o dinheiro Em fundo estão as informações que são colocadas no texto para dar suporte às orações de figura São as informações básicas que contextualizam as ações de figura indicando normalmente o local ou o momento em que elas ocorrem como elas ocorrem assim como expressam as causas e as finalidades dessas ações Freqüentemente são expressas por orações que apresentam verbos estáticos como ser e estar na forma de presente do indicativo ou de pretérito imperfeito FUNDO a meu pai estava andando b ele morava no outro lado da Penha c ele estava passando por por baixo da pa da passagem subterrânea do trem d ele anda com aquelas capangas e era um assalto f era o dia de pagamento O texto anterior mostra oposição de tempo aspecto e dinamicidade as sentenças da primeira seqüência da figura contêm verbos de ação como esbarrar abrir pegar entre outros que estão no pretérito perfeito Em fundo exemplificado na segunda seqüência de orações vemos orações que contextualizam o evento narrado com comentários descritivos e avaliativos do narrador Gramaticalização Como já mencionamos anteriormente o funcionalismo caracterizase por uma concepção dinâmica do funcionamento das línguas Nessa perspectiva a gramática é vista como um organismo maleável que se adapta às necessidades comunicativas e cognitivas dos falantes Isso implica reconhecer que ao lado de padrões morfossintáticos estáveis sistematizados pelo uso a gramática de qualquer língua exibe mecanismos de codificação emergentes que são conseqüentes da necessidade de formas mais expressivas A gramaticalização é um fenômeno relacionado a essa necessidade de se refazer que toda gramática apresenta Gramaticalização designa um processo unidirecional segundo o qual itens lexicais e construções sintáticas em determinados contextos passam a assumir funções gramaticais e uma vez gramaticalizados continuam a desenvolver novas funções gramaticais A tendência é que esse processo ocorra com itens ou expressões muito freqüentes o que faz com que o termo normalmente sofra desgaste fonético perdendo assim expressividade Com isso o elemento deixa de fazer referência a entidades do mundo biossocial para assumir funções de caráter gramatical como ligar partes do texto indicar categorias gramaticais como o tempo de um verbo ou o gênero de um nome etc Considerando que substantivos verbos e adjetivos são elementos lexicais e que preposições conjunções artigos morfemas derivacionais e flexionais entre outros têm valor gramatical são exemplos de gramaticalização a A trajetória de substantivos e verbos para conjunções É o que ocorre com o verbo querer que passa a ser utilizado como conjunção alternativa em Quer chova quer faça sol estarei lá ou com o elemento logo que no português arcaico tinha valor de substantivo e que atualmente pode ser empregado como conjunção conclusiva em cláusulas como Penso logo existo b A trajetória de nomes e verbos para morfemas E o que se dá em passagens como a que ocorre com a expressão tranqüila mente em que o substantivo mente intelecto passa a desempenhar papel de sufixo formador de advérbio tranqüilamente Ou em trajetórias como a que acontece com a locução amar hei em que a forma do verbo haver hei se incorpora ao verbo passando a funcionar como desinência de futuro amarei Concluindo vimos neste capítulo que o funcionalismo difere das abordagens formalistas estruturalismo e gerativismo primeiro por conceber a linguagem como um instrumento de interação social e segundo porque seu interesse de investigação lingüística vai além da estrutura gramatical buscando no contexto discursivo a motivação para os fatos da língua A abordagem funcionalista procura explicar as regularidades observadas no uso interativo da língua analisando as condições discursivas em que se verifica esse uso O funcionalismo admite que um grande conjunto de fenômenos lingüísticos é o resultado da adaptação da estrutura gramatical às necessidades comunicativas dos usuários da língua Se a função mais importante da língua é a contínua interação entre as pessoas que se alternam como falantes e ouvintes essa função deve de algum modo condicionar a forma do código lingüístico Para essa corrente teórica os domínios da sintaxe semântica e pragmática são relacionados e interdependentes Por um lado não há estruturas lingüísticas que operem independentes do significado por outro lado se fatores discursivos contribuem para a codificação sintática então a pragmática deve ser incorporada à gramática Ao lado da descrição sintática cabe investigar as circunstâncias discursivas que envolvem as estruturas lingüísticas seus contextos específicos de uso e os propósitos comunicativos dos interlocutores Segundo a hipótese funcionalista a estrutura é uma variável dependente pois são os usos da língua que ao longo dos tempos dão forma ao sistema A necessidade de investigar a sintaxe em termos da semântica e da pragmática é comum a todas as abordagens funcionalistas atuais Exercícios 1 A abordagem funcionalista da linguagem não corresponde a uma teoria particular mas a vários modelos teóricos que embora diferentes em certos aspectos apresentam pontos essenciais em comum Quais são esses pontos 2 Estabeleça uma correspondência entre as diferentes escolas funcionalistas e as características apre sentadas abaixo a O funcionalismo estruturalista b A teoria funcional de Halliday c O modelo de Dik d O funcionalismo norteamericano analisa as expressões lingüísticas com o intuito de compreender os processos relacionados ao êxito comunicativo dos falantes utiliza um conceito abrangente de função que compreende tanto as funções de enunciados e textos quanto as funções de unidades lingüísticas dentro de uma sentença postula uma forte vinculação entre discurso e gramática de tal modo que a sintaxe resulta em grande parte das estratégias de organização da informação utilizadas pelos falantes no evento comunicativo ressalta a função dos fonemas na distinção das palavras e o papel da organização estrutural da sentença na transmissão de informação contextual 3 Assinale as afirmativas que estão de acordo com os postulados da abordagem funcionalista a A existência de universais lingüísticos é explicada em termos de uma dotação lingüística genética compartilhada pela espécie humana b A existência de universais lingüísticos é motivada pelos usos comuns a que a linguagem se presta nas comunidades de fala c As funções que a língua desempenha têm influência sobre a organização interna do sistema lingüístico o que significa que a relação entre forma e conteúdo é motivada d A arbitrariedade ou ausência de relação direta entre expressão e significado permeia todos os níveis de organização do sistema lingüístico e A gramática é um organismo maleável que se adapta às necessidades comunicativas e cognitivas dos usuários da língua 4 Classifique os elementos em itálico em termos do seu status informacional nas duas passagens retiradas do corpus do Grupo de Estudos Discurso Gramática de Natal RN a Eu tive um namorado meu vizinho que minha mãe não queria e por este motivo eu não conseguia de deixar de namorar este rapaz fiz muita coisa que hoje eu não faria mentia apanhei por causa dele mais não valeu a pena porque hoje nós estamos com outras pessoas b Eu vou contar uma viagem que a gente fez hoje faz quinze dias lá pra casa de minha avó sabe Bom Jesus Aí quando meu pai chegou lá começou beber umas né Aí a gente veio No caminho o carro ficava no meio da pista e a gente tudo preocupado Parecia que eu que vinha dirigindo sabe Notas 1 As correntes estruturalista e gerativista focalizam em suas análises os aspectos estruturais ou formais da sentença deixando de lado os fenômenos interacionais a ela relacionados 2 Em sentido estrito universal lingüístico é um termo designativo de uma propriedade que todas as línguas têm por exemplo todas as línguas têm elementos que são foneticamente vogais Mais recentemente admitese que os universais lingüísticos não são absolutos mas uma questão de grau ou tendência de modo que refletem uma propriedade que se manifesta na maioria das línguas 3 O termo cognição está associado ao exercício da inteligência humana e pode englobar nossa capacidade de compreender o mundo em que vivemos de organizar e armazenar mentalmente os resultados dessa compreensão bem como de adaptar esse conhecimento a fim de transmitilo aos nossos interlocutores nos diferentes contextos de comunicação 4 O termo pragmática associase normalmente os estudos que focalizam a relação entre a estrutura da língua e o comportamento dos seus usuários no ato concreto da comunicação 5 Atualmente Kees Hengeveld J Lachlan Mackenzie e outros vêm desenvolvendo os estudos de Dik em direção ao que eles chamam de gramática discursivofuncional 6 Lingüistas que se dedicam ao estudo de crioulos línguas que se desenvolveram historicamente de um pidgin uma forma relativamente simplificada de falar que surgiu através do contato em geral comercial entre grupos lingüísticos heterogêneos Quando o pidgin se torna a língua materna de uma comunidade de fala e passa a ser usado para todos os fins ele é chamado crioulo Ex tok pisin língua de origem pidgin de PapuaNova Guiné ilha ao norte da Austrália 7 Conjunto de entrevistas gravadas por falantes do Rio de Janeiro de Niterói de Natal de Juiz de Fora e do Rio Grande organizado por pesquisadores do Grupo de Estudos Discurso Gramática formado por professores da UFRJ d a UFF e d a UFRN 8 A preposição entre dá uma idéia de algo localizado no interior de algum espaço físico de algum espaço de tempo e por extensão no espaço localizado entre dois ou mais acontecimentos Lingüística cognitiva Mário Eduardo Martelotta Roza Palomanes Para uma melhor compreensão dos pressupostos da chamada lingüística cognitiva é importante que façamos uma análise resumida do cenário que caracterizava os estudos lingüísticos no momento em que surgiu essa nova proposta teórica Nesse sentido comecemos com algumas informações básicas sobre o lingüista norteamericano Noam Chomsky e o gerativismo escola lingüística que se desenvolveu a partir de suas teorias Desde seu surgimento no final da década de 1950 o gerativismo de Chomsky fundou uma tendência nos estudos lingüísticos de considerar a linguagem um sistema de conhecimento autônomo depositado no cérebro dos indivíduos e constituído de uma série de princípios inatos referentes à estrutura gramatical das línguas ver o capítulo Gerativismo Esses princípios por hipótese restringem as possibilidades de variação na estrutura das línguas que se manifestam como dados universais ou seja presentes em todas as línguas do mundo Chomsky demonstrou de modo definitivo a importância para a compreensão da linguagem dos fenômenos de natureza cognitiva ou seja relativos ao modo como nossa mente interage com o mundo que nos cerca bem como os processos que permeiam essa interação Entretanto limitou sua abordagem a questões relacionadas ao desenvolvimento ou à maturação de uma capacidade biológica postulando uma estrutura racional e universal inerente ao organismo humano Considerando as línguas naturais o reflexo de princípios inatos e autônomos em relação a outras formas de conhecimento os gerativistas privilegiaram em suas análises a busca de aspectos lingüísticos universais deixando de lado portanto as questões sociais e interativas que caracterizam de modo mais localizado o uso concreto da língua nas situações reais de comunicação Para efetivar essa estratégia Chomsky postula um falanteouvinte ideal pertencente a uma comunidade lingüística ideal cuja criatividade se limita à manipulação de um conjunto finito de regras para gerar um conjunto infinito de sentenças Outro aspecto importante da teoria chomskiana está no princípio da modularidade da mente segundo o qual a mente é composta de módulos ou partes Cada um desses módulos responde pela estrutura e desenvolvimento de uma forma de conhecimento Um módulo é responsável pela capacidade do raciocínio matemático outro pela habilidade de criar e compreender estruturas musicais outro pela faculdade da linguagem apenas para citar alguns exemplos E o mais importante é que esses módulos atuam separadamente de maneira que cada um deles só tem contato com o resultado final do trabalho dos outros A esse princípio está relacionada a proposta de que a sintaxe é autônoma e constitui a essência da descrição lingüística Além de ser autônomo em relação a outros aspectos da cognição humana que tradicionalmente não são associados à linguagem o nível sintático se caracteriza por ser independente dos outros níveis de estrutura gramatical como o nível fonológico e o nível semântico Nesse sentido quando construímos frases estamos utilizando pelo menos em essência mecanismos sintáticos inatos que pouco têm a ver com questões relacionadas aos significados que elas veiculam A hipótese da autonomia da sintaxe tem relação com uma abordagem matemática das línguas O gerativismo tendo base racionalista busca na matemática que é uma forma de razão transcendental a descrição dos processos mecânicos de manipulação de símbolos abstratos que se refletem na sintaxe das línguas Em termos mais gerais a linguagem é vista como um sistema formal interpretado no sentido lógico isto é as expressões são construídas por um sistema de regras exclusivamente formais que são posteriormente investidas de significação Muitos pesquisadores se posicionaram contra essa tradição Entre eles podemos citar lingüistas como George Lakoff e Charles Fillmore cujas reflexões referentes à estrutura semântica das línguas acabaram levando a um questionamento dos pressupostos gerativistas e abrindo caminho para uma nova abordagem do fenômeno da linguagem Recentemente os lingüistas que seguem essa nova tendência têm utilizado termos como cognitivo ou cognitivista para designar seu modo de analisar as línguas Para que possamos compreender a proposta teórica da chamada lingüística cognitiva é importante que analisemos alguns de seus princípios básicos Repensando a questão da modularidade Inicialmente é importante registrar que a principal crítica que os cognitivistas fazem à tradição gerativista não se refere à hipótese do inatismo Os humanos parecem possuir estruturas e habilidades inatas que os capacita a aprender e usar uma ou mais línguas embora seja extremamente difícil distinguir de modo categórico o que é inato do que é aprendido A crítica recai principalmente sobre a proposta de que essas estruturas e habilidades são específicas da linguagem Segundo os cognitivistas a linguagem não constitui um componente autônomo da mente ou seja não é independente de outras faculdades mentais Sua proposta teórica portanto busca uma visão integradora do fenômeno da linguagem com base na hipótese de que não há necessidade de se distinguir conhecimento lingüístico de conhecimento não lingüístico Mas que implicações advêm da proposta de não separar o conhecimento lingüístico do não lingüístico Em primeiro lugar podemos dizer que as línguas não podem ser explicadas apenas por mecanismos formais autossuficientes Ao contrário é fundamental levar em consideração os processos de pensamento subjacentes à utilização de estruturas lingüísticas e sua adequação aos contextos reais nos quais essas estruturas são construídas Em termos mais específicos podemos dizer que de um modo geral a proposta cognitivista leva em conta aspectos relacionados a restrições cognitivas que incluem a captação de dados da experiência sua compreensão e seu armazenamento na memória assim como a capacidade de organização acesso conexão utilização e transmissão adequada desses dados É importante aqui registrar que esses aspectos somente se concretizam socialmente ou seja não refletem apenas o funcionamento de nossa mente como indivíduos mas como seres inseridos em um ambiente cultural Em outras palavras segundo essa visão teórica há uma relação sistemática entre linguagem pensamento e experiência Isso nos leva a um outro aspecto da proposta cognitivista que incorpora os fenômenos referentes à interação social Esse outro aspecto de cunho social leva alguns autores a acrescentar ao vocábulo designativo dessa escola lingüística o elemento socio criando o termo sociocognitivismo1 Esse termo enfatiza a importância do contexto nos processos de significação e o aspecto social da cognição humana Mais do que isso focaliza a linguagem como uma forma de ação ou seja através da linguagem comentamos oramos ensinamos discursamos informamos enfim enquadramonos nos milhares de papéis sociais que compõem nossa vida diária A expressão processos de significação foi empregada no parágrafo anterior com o objetivo de frisar que na concepção cognitivista não há significados prontos mas mecanismos de construção de sentidos a partir de dados contextuais essencialmente ricos e dinâmicos Em outras palavras os significados não são elementos mentais únicos e estáveis mas resultam de processos complexos de integração entre diferentes domínios do conhecimento2 O processo de categorização da realidade é um bom exemplo de como isso acontece Cognitivistas como Gilles Fauconnier e Mark Turner ressaltam que a mais simples das atividades do nosso dia a dia como por exemplo reconhecer que um objeto é uma xícara de café implica associar ao mesmo tempo representações visuais e táteis de sua forma a temperatura o odor e o gosto do café e também o modo como esse objeto é manuseado e utilizado Todas essas representações são recriadas em regiões diferentes do cérebro a cada momento em que ouvimos essa expressão A abordagem formal que caracteriza a lingüística gerativa nos leva a pensar que os elementos da nossa vida mental são primitivos formais quando na verdade constituem o produto de um trabalho imaginativo da mente humana Não é a forma dos objetos que causa a percepção de uma unidade nosso cérebro e nosso corpo dão a eles esse status do mesmo modo que o sentido de um quadro não está no quadro em si mas na interpretação que fazemos dele Assim nós dividimos o mundo criando categorias associadas à nossa condição de seres humanos para que possamos manipulá las em nossas vidas humanas Esse nosso modo de interagir com a realidade que nos cerca é o resultado de bilhões de anos de evolução e alguns meses de treinamento durante a infância Da mesma forma que os objetos as atividades recebem categorização Gestos simples de nosso dia a dia podem apresentar significações diferentes Um mesmo gesto de movimentar um objeto na direção de um interlocutor pode ser visto como ato de empréstimo de doação de aproximação do objeto para que o interlocutor veja melhor algum detalhe de sua estrutura de repulsa em relação a esse objeto e assim por diante Essa interpretação do gesto é um fato eminentemente sociocultural e provém de nossa capacidade de compreender as intenções que estão por trás desses gestos Isso está associado ao que os cognitivistas chamam de princípio da escassez do significante Segundo esse princípio a forma lingüística é uma pista para as complexas tarefas cognitivas associadas à linguagem Ou seja o sentido não constitui uma propriedade intrínseca da linguagem mas o resultado de uma atividade conjunta que pressupõe cooperação associada a operações de projeção e transferência entre domínios Os conceitos de domínio e de projeção serão apresentados mais detalhadamente no decorrer do texto Se esses aspectos cognitivos e interativos estão associados ao funcionamento das línguas podemos dizer que a formação de frases em qualquer língua recebe influência desses fatores Ou seja a visão integradora da linguagem proposta pelos cognitivistas se manifesta também na hipótese de que léxico morfologia e sintaxe são uma espécie de continuum de unidades simbólicas que se subordinam à estrutura conceptual para fins comunicativos Consequentemente podemos dizer que os cognitivistas consideram incoerente o tratamento da estrutura gramatical como algo dissociado do significado assim como a segmentação da estrutura gramatical em componentes discretos e isolados Em outras palavras eles não concordam com a hipótese da autonomia da sintaxe O caráter interacional da construção do significado Alinguística cognitivapropõe uma mudança de perspectiva no estudo da linguagem colocando os usuários da língua no centro da construção do significado Ou seja a busca da compreensão do fenômeno da significação impossibilita a exclusão dos principais personagens desse processo o falante e o ouvinte O falante não é mais visto como um mero manipulador de regras preestabelecidas mas como um produtor de significados em situações comunicativas reais nas quais interage com interlocutores reais Desse modo fenômenos característicos do uso da língua passam a ter maior importância para a compreensão do fenômeno da linguagem Para os cognitivistas a gramática de uma língua constitui um conjunto de princípios dinâmicos os quais nas palavras do lingüista Ronald Langacker se associam a rotinas cognitivas que são moldadas mantidas e modificadas pelo uso Mais do que isso para os cognitivistas a comunicação é uma atividade compartilhada ou seja implica uma série de movimentos feitos em conjunto pelos interlocutores em direção à compreensão mútua Isso quer dizer que a significação é negociada pelos interlocutores em situações contextuais específicas o que torna possível que os elementos lingüísticos se adaptem às diferentes intenções comunicativas apresentando flutuações de sentido como por exemplo as que caracterizam as metáforas como as que apresentaremos mais adiante O pensamento corporificado Como foi mencionado anteriormente a análise cognitivista com sua visão integradora do fenômeno da linguagem leva em conta a captação dos dados da experiência para a construção da significação referente ao nosso universo cultural Mas como se dá esse processo Como nos relacionamos culturalmente com o ambiente em que vivemos A resposta a essa pergunta obviamente não é simples Entretanto podemos postular como fazem alguns cognitivistas que nosso primeiro contato com o mundo se dá através dos nossos sentidos corporais e a partir daí algumas extensões de sentido são estabelecidas Segundo esse ponto de vista nossa estrutura corporal é extremamente importante já que a percepção que temos do mundo é limitada por nossas características físicas A mente portanto não é separada do corpo Ao contrário o pensamento é corporificado1 no sentido de que a sua estrutura e sua organização estão diretamente associadas à estrutura de nosso corpo bem como às nossas restrições de percepção e de movimento no espaço Para melhor compreender essa hipótese tomemos uma parte de nosso corpo a cabeça É interessante lembrar que a grande maioria dos órgãos dos sentidos boca nariz olhos localizamse na parte frontal da cabeça Por esse e por vários outros motivos é difícil escapar à conclusão de que somos seres feitos para andar para frente Entre as conseqüências desse fato no modo como organizamos nosso pensamento podemos citar o fato de que nos habituamos a pensar situações da nossa vida que já vivenciamos e que ainda vamos vivenciar em termos respectivamente de lugares pelos quais já passamos e de locais à nossa frente a que ainda pretendemos chegar Um exemplo interessante são os usos de elementos com valores originalmente espaciais para formar expressões temporais que o trecho a seguir apresenta Cem anos atrás o mundo era bem diferente Portanto podemos esperar que daqui para frente as coisas continuem mudando Podemos notar que as expressões originalmente espaciais atrás e daqui para frente estão sendo utilizadas no exemplo não para se referir a pontos no espaço mas a momentos no tempo É interessante registrar que esse tipo de fenômeno não se restringe à língua portuguesa o que dá a esse processo um caráter de universalidade Os cognitivistas associam esse tipo de fenômeno à hipótese de que a experiência humana mais básica que se estabelece a partir do corpo fornece as bases de nossos sistemas conceptuais Em termos mais específicos de acordo com as características de nosso corpo nós andamos para frente e nos habituamos a pensar os pontos da paisagem que vamos deixando para trás na medida em que nos movimentamos em termos de tempo passado Por outro lado os pontos que estão à nossa frente e que ainda vamos atingir servem de referência para a expressão do futuro Isso significa que nós compreendemos o tempo que é uma noção mais abstrata a partir de uma noção mais básica que é a noção de espaço Podemos estender esse processo para outros domínios do conhecimento propondo que de um modo geral os conceitos abstratos são inerentemente metafóricos já que refletem movimentos dessa natureza que como veremos mais adiante constituem o que se convencionou chamar de projeção entre domínios Segundo os cognitivistas essas relações associativas somente são possíveis pela existência prévia de um processo cognitivo chamado mesclagem o qual estabelece uma conexão entre diferentes domínios conceptuais ou seja diferentes conjuntos de conhecimentos prélinguísticos que são estruturados por nossas experiências coletivas ou individuais É interessante notarmos como esse processo de extensão de sentidos na direção de noções mais abstratas se reflete na construção das frases Os exemplos a seguir ilustram isso a O ministro foi para São Paulo b O ministro adiou a entrevista para o dia seguinte c O ministro elaborou o relatório para mudar a opinião do presidente d O ministro entregou o relatório para o presidente Analisemos a presença da preposição para Preposições são elementos de valor gramatical ou seja sua função em termos sintáticos é basicamente a de estabelecer uma relação entre dois termos da frase Entretanto há questões semânticas interessantes envolvidas nos usos dessa preposição nos exemplos A preposição para originalmente designa movimento em direção a um ponto no espaço é o que se vê no exemplo a em que o ponto de chegada no espaço é o estado de São Paulo No exemplo b podemos notar que essa mesma preposição passa a indicar movimento no tempo para o dia seguinte Temos aqui mais um exemplo de como noções temporais são extensões de valores espaciais Mas os usos mais interessantes estão nos exemplos c e d Em c a preposição para é utilizada para unir duas orações fazendo da segunda a finalidade ou objetivo do que está expresso na primeira Em outras palavras o ponto de chegada nesse exemplo não é mais um ponto no espaço ou no tempo e sim uma reação de outra pessoa causada pelo que está expresso na primeira frase umafinalidade Já no exemplo d a preposição para se justifica pelo movimento que um objeto relatório realiza em direção à pessoa que o recebe presidente Esses exemplos sugerem que essas relações sintáticas são estruturadas em termos de relações espaciais ou ampliando mais o campo de visão que aspectos semânticos estão associados à construção sintática o que põe em xeque a hipótese gerativista da autonomia da sintaxe A organização do conhecimento Enfatizar a importância do corpo e das restrições que ele impõe ao modo como experienciamos o mundo implica admitir a importância da noção de perspectiva no processo de significação e expressão do mundo Os cognitivistas tomam os sentidos como sendo entidades conceptuais e as palavras e as estruturas da língua como recursos para simbolizar a construção que o falante faz de cenas ou fatos da vida cotidiana A construção de uma cena envolve sempre uma relação entre um falante ou um conceptualizador e uma situação que ele toma em consideração Toda informação é posicionada no sentido de que normalmente não falamos a respeito do que o mundo é mas da visão que temos dele Ou seja os conceitos humanos associamse à época à cultura e até mesmo a inclinações individuais caracterizadas no uso da linguagem Incorporase portanto ao processo de significação o sujeito ou seja a perspectiva de quem produz no discurso Isso reforça o que já dissemos anteriormente quando mencionamos a centralidade do sujeito na construção do significado Os elementos lingüísticos possuem a função de garantir a perspectiva que o falante quer transmitir no ato comunicativo Nesse sentido os cognitivistas propõem por exemplo noções como ponto de vista alinhamento de figura e fundo e conhecimento de base em relação ao qual o conhecimento é compreendido A noção de ponto de vista relacionase com as diferentes possibilidades de o falante realizar mentalmente a cena Os exemplos que seguem ilustram essa questão a O caminho para dentro da floresta é tortuoso b O caminho para fora da floresta é tortuoso O que diferencia essas duas frases é o modo como o falante conceptualiza o referente As expressões caminho para dentro da floresta e caminho para fora da floresta designam a mesma entidade a diferença está no movimento mental que o conceptualizador faz da cena ou seja como ele vê mentalmente o sentido da trajetória Por outro lado a noção de alinhamento de figura e fundo diz respeito à maior proeminência que nós atribuímos a um dos elementos de uma cena colocandoo em primeiro plano de nossa atenção ou seja em figura Nesse sentido não é difícil compreender a diferença entre as expressões apresentadas a seguir a O quadro que está sobre o sofá b O sofá que está sob o quadro As duas frases designam a mesma cena A diferença está em qual das entidades envolvidas é apontada como primeiro ponto de atenção ou figura e qual é representada como segundo plano ou fundo Com relação à noção de conhecimento de base em relação ao qual o conceito é compreendido é interessante falarmos um pouco mais A linguagem é um instrumento cognitivo que tem como função organizar e fixar a experiência humana Desse modo os significados só podem ser descritos com base nessas experiências assim como no conjunto de conhecimentos delas provenientes Um exemplo disso é o termo joelho que não pode ser compreendido sem a necessária referência à concepção do que é uma perna de como ela se estrutura de como se movimenta e de um modo geral de como ela funciona Sendo compreendida como uma parte de um todo a palavra joelho necessariamente ativa uma estrutura de conhecimentos subjacentes pertencente a algo mais amplo Em outras palavras perna atua como domínio cognitivo de joelho Subjacente a esses fenômenos está a noção de enquadre ou enquadramento Por enquadre entendese a base do conhecimento em relação à qual se impõe uma determinada mobilização atencional O efeito do enquadre é colocar em foco determinados aspectos do significado que se quer transmitir e consequentemente deixar em segundo plano outros aspectos que podem ser inferidos a partir da informação transmitida Os domínios conceptuais ou conjuntos de conhecimentos estruturados são espaços de referenciação4 ativados quer por formas lingüísticas quer pragmaticamente ajudando a construir assim os significados São de duas naturezas a Domínios estáveis São conjuntos de conhecimentos armazenados na memória pessoal ou social que se constituíram historicamente como uma herança da espécie humana ou seja é um conjunto de informações que o homem aprendeu a partilhar É importante compreendermos que qualquer transmissão de informação implica trazer da memória esses conhecimentos Os chamados domínios estáveis subdvidemse em três tipos modelos cognitivos idealizados molduras comunicativas e esquemas imagéticos Comecemos falando do conceito de modelo cognitivo idealizado MCI Os modelos cognitivos idealizados são estruturas através das quais nosso conhecimento se organiza Têm importância fundamental para a cognição humana no sentido de que aliviam a memória organizando a imensa quantidade de informações adquiridas no nosso dia a dia Para que possamos compreender a noção de MCI tomemos o termo domingo qual é o sentido desse termo A resposta a essa pergunta envolve o conceito de semana já que domingo é o primeiro dia da semana Ou seja o termo domingo implica a criação de um ciclo determinado pelo movimento do sol que indica o fim de um dia e o início de outro caracterizandose por uma seqüência de sete dias assim como implica a nossa experiência diária ao longo desses sete dias É importante ressaltar que essa divisão do tempo em termos de semanas de sete dias assim como em meses e anos é uma convenção humana tendo portanto fundamento cultural Em outras palavras a semana de sete dias constitui o domínio semântico ou o MCI como veremos adiante em relação ao qual o termo domingo é normalmente compreendido Do mesmo modo a concepção do que é uma perna como mencionamos anteriormente atua como domínio cognitivo de joelho e o espaço tridimensional é o domínio em relação ao qual são entendidos termos como acima e abaixo Já as molduras comunicativas constituem estruturas de conhecimento relacionadas a formas organizadas de interação Caracterizamse por um conjunto de procedimentos que identificam um tipo de atividade social uma aula uma reunião uma conversa casual típica do nosso dia a dia ou seja atividades que implicam comportamentos estabelecidos em que cada participante possui um papel previamente determinado Tomemos como exemplo uma aula de lingüística em uma universidade Nessa situação temos um professor que provido do saber necessário faz uso quase exclusivo da palavra para transmitir aos alunos seu conhecimento e que dotado de autoridade dá ao aluno a palavra no momento em que ele acha conveniente podendo repreendêlo caso o seu comportamento não seja adequado ao que se espera dessa situação de interação Assim não cabe ao professor falar de seus problemas pessoais virar cambalhotas ou tomar qualquer atitude que não seja adequada ao contexto da sala de aula Por outro lado ao aluno cabe ouvir e absorver as informações dadas pelo professor sem interrompêlo Para se manifestar o aluno deverá fazer algum sinal como levantar a mão e após o consentimento do professor utilizar a palavra para fazer perguntas que melhorem sua compreensão do assunto da aula e não para contar uma piada por exemplo Esses comportamentos são estabelecidos culturalmente e é claro nem sempre são tomados de modo radical de maneira que os indivíduos muitas vezes se permitem uma certa liberdade em relação a essas regras Entretanto essas convenções são importantes já que constituem molduras comunicativas partilhadas em nossa comunidade ou cultura que nos permitem identificar o que está acontecendo naquele momento e saber exatamente qual o comportamento consensual desejado Essas molduras comunicativas possuem um caráter histórico e são construções resultantes da cristalização consensual de comportamentos negociada por grupos sociais Mas o mais importante é compreender que as molduras comunicativas funcionam cognitivamente como instrumentos indispensáveis à construção dos significados Para compreender isso basta pensarmos na pergunta Como você tem passado dita por um médico em uma interação médicopaciente dentro de um consultório por exemplo ou por um transeunte que cruza com uma pessoa conhecida na rua Não apenas o sentido da frase é diferente como a expectativa de resposta é totalmente distinta não se espera por exemplo que a pessoa conhecida em resposta àquela pergunta pare no meio da rua para contar seus problemas de saúde Os esquemas genéricos são configurações conceptuais de natureza mais ampla global abstrata e portanto mais flexíveis em suas aplicações Eles se relacionam ao processamento de fluxos muito heterogêneos de informação pois são estruturas que organizam o nosso pensamento projetandose nos usos diários que fazemos da linguagem Entre os esquemas genéricos estão os chamados esquemas imagéticos Para compreendermos o que são esses esquemas devemos nos lembrar de que grande parte do nosso conhecimento não é estático E estruturado por padrões dinâmicos não proposicionais e imagéticos dos nossos movimentos no espaço da nossa manipulação dos objetos e de interações perceptivas As relações espaciais constituem um esquema imagético que serve de base para uma série de outras representações como vimos nos exemplos envolvendo a preposição para apresentados anteriormente Entre os esquemas imagéticos mais freqüentes e linguisticamente realizados de muitas variadas maneiras estão os seguintes contentor ou contêiner ou recipiente origempercursodestinopercurso ou caminho elo link força equilíbrio ou balança bloqueio remoção contraforça compulsão partetodo centroperiferia em cima embaixo à frenteatrds dentrofora pertolonge contato ordem linear Os esquemas imagéticos não existem como entidades individuais e isoladas mas ligamse entre si através de transformações de esquemas imagéticos imageschema transformations Cada transformação de esquema imagético reflete pois aspectos importantes da experiência humana sobretudo corporal visual auditiva ou sinestésica b Domínios locais Os domínios locais recebem o nome de espaços mentais e constituem operadores do processamento cognitivo ou seja têm um caráter dinâmico e seqüencial já que são produzidos na medida em que falamos Esses espaços mentais são domínios dinâmicos Lingüística cognitiva 187 estruturados internamente por domínios estáveis o que significa que são elementos que suscitam aspectos do conhecimento compartilhado entre os interlocutores em um determinado ponto do discurso Por outro lado os espaços mentais são ativados através de conectores chamados construtores de espaços mentais5 que no nível gramatical podem assumir estrutura de conectivos de sintagmas preposicionais ou adverbiais de orações entre outras possibilidades criando diferentes tipos de espaço Vejamos um exemplo No filme a atriz loura tem cabelos escuros No exemplo acima o sintagma preposicional no filme indica a situação ou espaço mental em que o restante da frase deve ser interpretado Ou seja constrói um espaço mental que poderíamos caracterizar como espaço de drama em que a atriz loura tem cabelos escuros o que difere do espaço da realidade em que a frase seria contraditória Eis outros exemplos de construtores de espaços mentais Modelo cultural Na novela o ator brasileiro é americano Imagem Na fotografia Brad Pitt está feio Lugar No Brasil as pessoas não falam inglês Tempo Quando eu era pequeno eu gostava de assistir desenho animado Hipótese Se ele estivesse aqui certamente saberia como agir Em todos os exemplos acima os elementos em itálico expressam o espaço em que a informação passada no resto da frase deve ser tomada como verdadeira O princípio de projeção A construção do sentido implica como já vimos o estabelecimento de conexões entre domínios cognitivos Essas conexões se dão através de um processo chamado projeção Existem diferentes tipos de projeções a Projeções de domínios conceptuais estruturados ou MClsprojetam parte de um domínio em outro As metáforas e as analogias exemplificam esse tipo de projeção O processo de projeção consiste em tomar a estrutura de um determinado domínio chamado domíniofonte para falar ou pensar outro domínio chamado domínioalvo Ilustra bem esse fenômeno o exemplo mencionado anteriormente Cem anos atrás o mundo era bem diferente Portanto podemos esperar que daqui parafrente as coisas continuem mudando Nesse caso os elementos atrás e daqui para frente que originalmente expressam noções relativas ao espaço domíniofonte no contexto são usados para a expressão do tempo domínioalvo Temos aí a metáfora do tempo como espaço Outra metáfora interessante nesse aspecto é a metáfora comunicar é enviar Segundo Lakoff através dessa metáfora as idéias comparadas a objetos são inseridas pelo falante dentro de palavras comparadas a recipientes que são enviadas através de algum canal para um ouvinte Por sua vez o ouvinte retira de dentro das palavras recipientes essas ideiasobjetos Essa metáfora propicia construções do tipo a Vou tentar passar minha idéia para você b Ele me enviou umas palavras de carinho c O deputado não recebeu bem as palavras do ministro d Não sei como colocar isso em palavras e Você só utiliza palavras vazias f Estas são palavras sem conteúdo Nesses casos os domínios podem ser sistematizados da seguinte maneira Domíniofonte Domínioalvo ENVIAR COMUNICAR Remetente Destinatário Recipiente Objetos MCI Lakoff apresenta vários exemplos como esse demonstrando que a metáfora longe de ser um mero recurso poético é uma constante em nossa linguagem cotidiana e está enraizada no nosso sistema conceptual ordinário segundo o qual pensamos e agimos b Projeções de funções pragmáticas projetam um domínio em outro a ele relevante em conseqüência de uma relação estabelecida localmente por uma função de caráter pragmático Esse tipo de projeção é característico das metonímias e desempenha um papel importante na organização do nosso conhecimento provendo meios de identificar elemen tos de um domínio através de sua contraparte em um outro domínio Vejamos um exemplo Joana nunca leu Machado de Assis No exemplo há uma relação entre o autor do livro e sua obra Ou seja o que Joana nunca leu não é o autor mas os livros que compõem sua obra Esse típico exemplo de metonímia é representado através do esquema abaixo Falante Ouvinte Palavras Idéias MCI a Machado de Assis autor de livro a livro Esse esquema implica a atuação de um princípio da identificação que vai permitir que se estabeleça a relação entre a entidade a chamada de gatilho por prover a fonte da relação e sua contraparte a chamada de alvo Podemos ver outros exemplos desses fenômenos nas frases a seguir a Deixei meu Aurélio em casa b Ele bebeu uma garrafa inteirinha No primeiro exemplo temos novamente a relação entre livro dicionário e autor Aurélio e no segundo entre o conteúdo bebida e o continente garrafa Em todos esses casos nosso conhecimento de mundo juntamente com informações contextuais mais localizadas fornecem os dados necessários para que o princípio da identificação atue estabelecendo a relação entre as entidades gatilho e alvo c Projeções entre espaços mentais a partir do contexto discursivo e situacional construímos os significados através de uma rede de espaços mentais operando um sistema de referenciação entre domínios cognitivos responsável pela compreensão e produção dos significados Quando se insere um introdutor de espaços mentais no discurso estabelecese uma conexão entre diferentes espaços de referenciação Como já foi visto anteriormente a projeção de um domínio sobre outro é feita através do princípio de identificação No caso dos espaços mentais essa projeção é propiciada pelos construtores de espaços mentais com a conseqüente construção de um novo significado Tomemos como exemplo a frase A vida tem a cor que você pinta Nessa frase a vida é projetada como uma tela fazendonos ativar um espaço mental em que temos a pintura e outro espaço mental em que temos a vida Há uma projeção entre os elementos desses dois espaços e da relação analógica entre eles é construído um espaçomescla em que pintura e vida se integram Dessa rede de espaços projeções e integrações surgem várias interpretações das relações entre pinturavida dentre as quais podemos citar a idéia de que a vida é vista de várias perspectivas e que nós somos os seus autores imprimindolhe o colorido que quisermos Mesclagem Segundo os cognitivistas relações associativas como as apresentadas na seção anterior são possíveis pela existência prévia do processo de mesclagem o qual estabelece uma conexão entre diferentes domínios conceptuais ou seja diferentes conjuntos de conhecimentos prélinguísticos que são estruturados por nossas experiências coletivas ou individuais A teoria dos espaços mentais desenvolvida por Gilles Fauconnier na década de 1980 permitiu que se analisasse de modo mais sistemático o processo de projeção entre bases de conhecimento projeto cujo desenvolvimento desembocou na noção de mesclagem correspondente português ao termo inglês blending O conceito de mesclagem é definido pelo referido autor como o espaço que herda estruturas parciais de espaços denominados fonte e que possui uma estrutura emergente própria Logo o espaçomescla surge a partir da composição de elementos provenientes de um esquema genérico dos MCIS ativos e dos espaços mentais locais Assim um enunciado ativa domínios conceptuais sobre os sentidos que veicula Dependendo do que é referido múltiplos domínios podem ser ativados e informações são transferidas dessas estruturas cognitivas para a construção de novos significados na linguagem Esses novos significados mesclam informações dos domínios dos quais partiram Logo o enunciado resultante dessas combinações é préorganizado na mente pelo processo cognitivo de mesclagem O processo da mesclagem portanto implica a conexão de pelo menos quatro domí nios dois espaçosfonte EF 1 e 2 um esquema genérico EG que define a homologia entre eles possibilitando assim a migração parcial da informação para o espaçomescla resultante Apresentamos a seguir a título de exemplificação como se configuram as relações que se efetivam na préorganização das mesclagens A floresta amazônica é o pulmão do mundo Na mesclagem podemse perceber as visões distintas que se combinaram na estruturação do espaço que emerge para préorganizar o enunciado mesclado floresta e pulmão ativam dois MCIS o geográfico e o biológico Criase então um espaço genérico EG com estrutura mais abstrata que é compartilhada por ambas as fontes e mais dois outros espaçosfonte EF um criado a partir do MCI geográfico e outro do MCI biológico Importando somente o que é relevante de cada EF temos o espaço mescla resultante da projeção entre os EFS Exercícios 1 E muito comum na linguagem do dia a dia a criação de expressões de sentido abstrato a partir de termos designativos de partes do nosso corpo São exemplos disso expressões como dar uma mãozinha oferecer ajuda e ser o cabeça do grupo ser o líder Encontre outros exemplos de expressões formadas a partir de partes do corpo humano apresentando também seu significado 2 Indique os marcadores de espaços mentais nas frases a seguir a Na novela a moça de cabelos castanhos era loura b No retrato a moça de cabelos castanhos era loura c Em 1998 a moça de cabelos castanhos era loura d Paulo acha que a moça de cabelos castanhos era loura 3 Lakoff fala em metáforas orientacionais que organizam todo um sistema de conceitos a partir de orientações espaciais do tipo para cimapara baixo frentetrás dentrofora entre outros casos Essas orientações são também conseqüentes da estrutura do nosso corpo e sua atuação no mundo físico São exemplos desse fenômeno as seguintes frases que contêm metáforas do tipo FELIZ É PARA CIMA TRISTE É PARA BAIXO Ex a Ele é um cara para cima b Ele tem estado pra baixo esses últimos dias c Pensar em dinheiro levanta o meu astral Crie exemplos em que apareçam informações associadas aos termos frente e trás 4 Uma metáfora comum em várias línguas é a metáfora DISCUSSÃO É GUERRA AS frases abaixo exemplificam esse caso a Seus argumentos são indefensáveis b Destruí sua argumentação Crie outros exemplos que exemplifiquem essa metáfora Notas 1 O termo também aparece grafado como sociocognitivismo 2 A visão dinâmica e interativa do significado se deve sobretudo às inovações de Giles Fauconnier que introduziu a teoria dos espaços mentais e a noção de mesclagem nos Estados Unidos No Brasil essa visão foi implantada através da proposta sociocognitivista de Margarida Salomão 3 Alguns autores preferem o termo encarnado que parece passar também a idéia de que o falante não deve ser visto como algo idealizado mas como ser real inserido no ambiente cultural em que atua 4 Turner propõe que as expressões lingüísticas por si só não possuem significado pois são sinalizações para que o homem possa construir significados a partir do que ele já conhece e dos poderosos processos cognitivos que são acionados por ele Um processo de referenciação parte do conhecimento da realidade do mundo captáveis por uma forma de cognição de compreensão e interpretação do discurso 5 Alguns autores preferem utilizar a expressão introdutores de espaços mentais Optamos portanto pela utilização do termo construtores de espaços mentais por ser uma tradução mais fiel ao termo inglês space builders termo de Fauconnier 1997 Lingüística textual Mariangela Rios de Oliveira Ao contrário dos capítulos antecedentes que apresentam e descrevem distintas abordagens lingüísticas com base em distintos enfoques teóricos ou seja em variadas concepções de linguagem vamos a partir de agora tratar de um ramo dos estudos lingüísticos que se caracteriza pelo escopo de sua investigação pelo objeto que toma como unidade de foco analítico o texto Nessa forma de tratamento cujo material de análise também é compartilhado com outras abordagens os propósitos são outros uma vez que o que está em jogo agora é a observação das relações textuais em seus variados matizes e interseções A lingüística textual começou a se desenvolver na Europa no século xx durante a década de 1960 e a partir daí se disseminou no Brasil conta com expressivo número de pesquisadores1 Tratase portanto de uma abordagem relativamente recente se comparada por exemplo à obra de Saussure que data do início do século xx A lingüística textual representa um momento em que se procura a superação do tratamento lingüístico em termos de unidades menores palavra frase ou período no entendimento de que as relações textuais são muito mais do que um somatório de itens ou sintagmas nessa perspectiva dois mais dois é mais que quatro Um dos maiores desafios para a lingüística textual é exatamente definir seu objeto de análise o texto Fávero e Koch 1994 apresentamno em uma multiplicidade de conceituações partindo de um enfoque bastante amplo na base da concepção de texto como toda e qualquer forma de comunicação fundada num sistema de signos como um romance uma peça teatral uma escultura um ato religioso entre outros e chegando a uma definição mais estrita Nessa última definição o conceito de texto se refere a uma unidade lingüística de sentido e de forma falada ou escrita de extensão variável dotada de textualidade ou seja de um conjunto de propriedades que lhe conferem a condição de ser compreendido pela comunidade lingüística como um texto Assim podemos dizer que o texto é a unidade comunicativa básica aquilo que as pessoas têm a declarar umas às outras Essa declaração pode ser um pedido um relato uma opinião uma prece enfim as mais diversas formas de comunicação Neste capítulo estamos partindo do sentido estrito da conceituação de texto A seguir apresentamos as propriedades mais salientes e relevantes que têm sido apontadas em termos de textualidade de acordo com Beaugrande e Dressler 1981 Por motivos meramente didáticos essas propriedades encontramse distribuídas em dois grandes rótulos já consagrados na área coesão e coerência na verdade tratase de faces da mesma moeda uma vez que dizem respeito respectivamente às articulações de forma e de sentido construtoras da malha textual articulações que em geral se sobrepõem se interseccionam numa verdadeira confluência funcional Para ilustrar os comentários teóricos utilizaremos dois textos em versão falada e em sua correspondente escrita componentes do Corpus Discurso Gramática A língua falada e escrita na cidade de Niterói Esses textos foram produzidos pela informante Eliane do último período universitário no final da década de 1990 sob forma de entrevista a partir da seguinte proposta eu gostaria que você me narrasse uma história que pode ser uma história triste ou alegre que tenha ocorrido com alguém que você conhece e que esse alguém contou para você FALA bom eu lembrei agora não sei por que de uma de uma história assim um pouco um pouco triste né de uma colega que estava trabalhando comigo que eu não vou dizer o nome dela é que ela tem problema de ela tem uma assim muita timidez então ocorreu um fato na vida dela de separação dos pais tal e ela estava apaixonada por um rapaz esse rapaz morreu atropelado e ela tentou cortar um dos pulsos ela me contou assim eu fiquei tão um pouco chocada porque eu assim não conheci ninguém que já tenha eh praticado assim tentando suicídio entendeu então eu fiquei muito chocada com isso aí depois eu tive até que rir porque ela contando né como é que ela cortou o pulso então ela cortou só um pulso e numa linhazinha assim bem fininha né eu tive que rir porque risos porque ela contando estou crente que é uma coisa assim aquele suicídio aquela coisa assim forte mas ela cortou graças a Deus cortou bem de leve o braço então eu cheguei a rir quer dizer parecia ser uma história triste mas no final deu tudo certo ela não aconteceu nada com ela foi uma pequena tentativa mas que fracassou graças a Deus ESCRITA Certo dia eu e uma colega de Faculdade conversávamos sobre alguns problemas existenciais E em determinado momento da conversa contoume que sofreu muito na época em que seus pais estavam se separando que tinha sido um processo muito doloroso para todos de sua família e ela nunca soube lidar direito com esse problema No decorrer de sua adolescência ela conheceu e se apaixonou por um menino que morava perto da casa de seu padrinho E como a vida tem seus percalços volta e meia prega uma peça na gente esse menino veio a falecer sendo vítima de um atropelamento Parecia que a vida estava lhe roubando a melhor parte de sua própria vida Foi quando ela me contou que tentou cortar os pulsos logo após o acontecido Fiquei chocadíssima e pergunteilhe mais detalhes sobre o ocorrido Pergunteilhe se havia tentado cortar os dois pulsos ela olhoume com um olhar meio enigmático que eu não consegui decifrálo Disseme que só havia cortado um dos pulsos e o corte foi de leve Senti um grande alívio e ao mesmo tempo uma vontade de rir afinal graças a Deus a sua tentativa de suicídio não se configurou Acabamos rindo e fazendo piadas da triste situação Pedilhe que nunca mais ousasse repetir a dose Coesão Esta propriedade uma das mais fundamentais para o estabelecimento da textualidade diz respeito à unidade semânticosintática que deve marcar a produção textual A coesão pode ser definida como o conjunto de estratégias de sequencialização responsável pelas ligações lingüísticas relevantes entre os constituintes articulados no texto Essas ligações podem ocorrer tanto no nível semântico referentes aos sentidos veiculados como no nível sintático relativas às questões de ordenação desses constituintes A coesão pois se obtém por intermédio da ativação do sistema léxicogramatical Segundo Halliday e Hasan 1976 são cinco os mecanismos básicos de coesão textual a Referência Tratase do relacionamento dos constituintes textuais com outros constituintes do texto ou não numa correspondência necessária à interpretação e expansão dos sentidos articulados A referência pode se processar no nível situacional numa relação extralinguística ou exofóricaoi nos limites do texto denominada então de endofórica Dos dois tipos de referência a endofórica parece representar o modelo mais comum sendo inclusive mais tratada e pesquisada pelos estudiosos da lingüística textual A referência exofórica diz respeito à situação comunicativa em que o referente está fora do texto Em geral tratase de um tipo de relação coesiva recorrente em textos orais devido às condições de produção da fala em que a situação comunicativa tem papel fundamental Dentre os textos de Eliane observamos apenas no início de sua fala uma referência desse tipo quando ela diz eu lembrei agora não sei por que em que o advérbio agora referese ao momento em que o entrevistador faz a proposta da narrativa horário dia mês e ano em que ocorre a entrevista Na remissão endofórica o referente se situa no texto podendo preceder ou suceder o item com o qual se relaciona Tomemos as duas produções de Eliane em ambas temos a história da tentativa de suicídio de sua amiga Assim ao longo das narrativas falada e escrita encontramos diversas referências a essa personagem principal constantemente retomada pelos pronomes dela sua e lhe por exemplo O tipo mais comum de referência endofórica é aquele em que a remissão ocorre por precedência o que chamamos classicamente de anáfora Procedimentos anafóricos garantem a unidade temática dos textos ao promoverem a manutenção dos sentidos referidos Constituintes pronominais prestamse especialmente a esse modo de referenciação Voltemos aos textos de Eliane na fala após a menção da história de uma colega que estava trabalhando comigo já comentada temos a seqüência e ela estava apaixonada por um rapaz esse rapaz morreu atropelado e ela tentou cortar um dos pulsos ela me contou assim em que o pronome ela anaforicamente referese a uma colega que estava trabalhando comigo Na escrita o mesmo tipo de referenciação se verifica no início do segundo parágrafo os pronomes ela e seusua remetem ao sintagma uma colega de Faculdade No decorrer de sua adolescência ela conheceu e se apaixonou por um menino que morava perto da casa de seu padrinho Como todos os comentários tanto na fala como na escrita giram em torno das dificuldades da amiga de Eliane é natural e mesmo previsível que por meio da anáfora se mantenha tal remissão Quando a referência endofórica se articula numa conexão com o item subsequente a nomeamos catáfora Embora menos freqüentes do que os procedimentos anafóricos os mecanismos catafóricos contribuem de modo considerável para a coesão textual Diferentemente da anáfora a catáfora está a serviço da expansão temática dos sentidos novos articulados na superfície textual Nas produções de Eliane encontramse alguns exemplos dessa articulação Na fala o sintagma uma história assim um pouco um pouco triste prepara a cena para o que vai ser contado a história dos problemas da amiga e o desfecho final quase trágico e portanto todo o relato referese a esse sintagma Na escrita logo no primeiro período a seqüência problemas existenciais catafori camente inaugura o texto e a partir daí a referência dessa expressão será preenchida por intermédio da informação acerca da separação dos pais da morte do rapaz por quem era apaixonada e por fim da tentativa de suicídio da amiga Os procedimentos de referenciação endofórica representam eficazes recursos de unidade e de sequenciação semânticosintáticas Anáfora e catafóra constituem faces da mesma moeda responsáveis respectivamente pela manutenção e expansão do fluxo textual num jogo que organiza progressivamente informações recorrentes já conhecidas pelos interlocutores e outras novas mencionadas pela primeira vez no texto Num texto por vezes o mesmo constituinte apresenta essa dupla função como podemos observar com o assim no trecho citado uma história assim um pouco um pouco triste Nesse fragmento podemos dizer que o assim tem valor anafórico e catafórico já que remete ao nome antecedente história anáfora para lhe fazer a atribuição um pouco triste catáfora b Substituição Consiste num tipo de remissão coesiva em que distintamente da referenciação o termo substituído não recupera totalmente o item a que se refere na substituição há uma certa matização dos sentidos então articulados que pode se traduzir sob a forma de uma maior especificação uma reorientação ou reavaliação Em língua portuguesa por exemplo ao substituirmos feliz por contente ou alegre num fragmento textual não estamos lidando com a mera troca de qualificadores já que esses adjetivos embora se aproximem em termos semânticos não possuem equivalência absoluta de sentido Esse comentário ilustrativo se aplica em geral às palavras tratadas como sinônimos Dentre os recursos lingüísticos utilizados nessa modalidade de coesão citamse sintagmas nominais e mesmo sintagmas oracionais No texto oral de Eliane a história da amiga anônima começa a ser mencionada pelo sintagma uma história assim um pouco um pouco triste A partir daí Eliane conta o ocorrido coesivamente Esse sintagma inicial vai progressivamente sendo substituído por outros que passam a atuar como formas correferentes a contribuir para a progressão narrativa assim atuam os sintagmas e ela tentou cortar um dos pulsos suicídio e ela cortou só um pulso até a substituição final foi uma pequena tentativa Na escrita verificamos a substituição coesiva na seqüência alguns problemas existenciais que evolui textualmente no segundo parágrafo para percalços e uma peça Como declaramos no parágrafo anterior esses sintagmas nas duas modalidades da narrativa não correspondem ou substituem totalmente os termos antecedentes mas sim recuperam parte do conteúdo da referência inicial Devemos ressaltar que a substituição representa muito mais que questão de estilo individual Tratase de uma estratégia comprometida com a progressão informacional representa uma expansão da forma termos substituídos correlata à expansão do sentido conteúdos veiculados c Elisão Também chamada de anáfora zero constitui um mecanismo de coesão em que a recuperação de um constituinte é processada num espaço formalmente vazio o preenchimento se faz no plano semântico com a ativação das informações subentendidas e essas informações em princípio já ocorreram no texto num momento anterior Em português podem ser elididos ou suprimidos constituintes de natureza morfolológica ou extensão distintas Por se tratar de recurso muito recorrente e consagrado principalmente na modalidade escrita não há maiores dificuldades para na recepção os usuários recuperarem ou preencherem as elisÕes A morfologia verbal portuguesa por exemplo muito rica em seus paradigmas flexionais por vezes torna dispensável a presença formal do sujeito na sequencialização textual Nesses casos a própria norma culta orienta no sentido de que se processe a elisão sob pena de o texto se tornar um tanto redundante ou pleonástico É o que observamos por exemplo com as frases nós narramos ou eu narrei em que a referência à primeira pessoa respectivamente do plural e do singular encontrase tanto no pronome reto quanto no verbo em seqüências como essas bastaria a utilização da forma verbal já que as desinências mos e rei são privativas de primeira pessoa do plural e do singular Os textos de nossa informante Eliane ilustram o comentário Na fala como já mencionamos a elisão é pouco recorrente uma vez que o modo de produção oral tende a se articular com maior preenchimento de constituintes assim apenas na estrutura estou crente que é uma coisa assim encontramos a forma verbal de primeira pessoa elidida do pronome eu em todas as demais referências a si Eliane utilizase do referido pronome Já na produção escrita a informante recorre mais à elisão como verificamos em fiquei chocadíssima e pergunteilhe senti um grande alívio e pedilhe que nunca mais As condições de organização do texto escrito motivam a baixa freqüência do pronome eu nessa modalidade cabendo às desinências número pessoais dos verbos a função de referenciar a primeira pessoa eu d Conjunção Distintas dos mecanismos coesivos anteriores as relações conjuntivas caracterizamse por estabelecer vínculos de natureza lógicosemântica na sequencialização textual como temporalidade causatividade conseqüência condição finalidade proporcionalidade entre outros Constituintes de natureza adverbial ou de função relacionai como conjunções ou preposições prestamse especialmente a esse tipo de articulação ao concorrerem para a integração das partes constitutivas do texto Voltemos à narrativa oral de Eliane e observemos as quatro ocorrências de então tradicionalmente classificado como advérbio de tempo numa abordagem restrita ao âmbito da frase ou do período Numa perspectiva textual tal como a aqui apresentada esse termo circunstanciador sem deixar de preservar sua referência temporal assume outros valores abstratizase em distintos graus redimensiona sua funcionalidade ao articular praticamente todo o relato da informante Com a primeira ocorrência então ocorreu um fato na vida dela inaugurase efetivamente a narrativa após um comentário introdutório de Eliane em que prepara a cena para o que será contado Assim podemos dizer que esse então iniciador do relato retoma e amplia coesivamente a citação de uma história assim um pouco um pouco triste articulado preliminarmente A terceira ocorrência então ela cortou só um pulso e a quarta então eu cheguei a rir também articulam essa função de retomada do fio narrativo concorrendo para a unidade semânticosintática de todo o relato como a informante vai contando e comentando a história ao mesmo tempo recorre a mecanismos de retomada do eixo narrativo ao se desviar em comentários e avaliações pessoais para tanto um dos instrumentos de que se utiliza é a reiteração de então tal como se estivesse voltando a olhar a cena a rememorar o acontecido Devemos destacar a segunda ocorrência então eu fiquei muito chocada com isso em que a noção de temporalidade tornase mais abstrata ainda na medida em que aquilo que se retoma não é o eixo narrativo e sim o estado emocional da informante diante do ocorrido que já constava da declaração inicial eu lembrei agora não sei por que de uma de uma história assim um pouco um pouco triste né Tratase de um comentário paralelo à história contada Em contextos como esse a referência temporal de então abstratizase de tal forma que pode assumir outros sentidos como conseqüência ou conclusão ou ainda adicionalmente como o exemplo aqui comentado pode retomar a informação anteriormente veiculada No texto escrito em termos de relações conjuntivas um dos destaques é o uso dos sintagmas adverbiais certo dia e no decorrer de sua adolescência a iniciar respectivamente o primeiro e o segundo parágrafos Na verdade esses constituintes não fazem referência somente aos períodos em que se integram Eles circunstancializam todo o parágrafo é o conjunto de períodos a que se referem numa ampliação de seu escopo já que tradicionalmente o advérbio é considerado termo modificador de um verbo um nome ou outro advérbio2 Tomemos o segundo parágrafo como ilustração o encontro da amiga com o amor de sua vida a paixão subsequente primeiro período o atropelamento do rapaz e sua morte segundo período bem como a sensação de que havia sido roubada de boa parte da vida terceiro período tudo se enquadra no decorrer de sua adolescência A função relacionai de constituintes adverbiais estendese ainda mais com o sintagma introdutor do terceiro parágrafo foi quando que atua aí como conjunção Na verdade essa estrutura não só concorre para a expansão dos dois últimos parágrafos que articulam o grande acontecimento narrativo a tentativa de suicídio como também retoma coesivamente o parágrafo inicial que trata da conversa com Eliane e sua amiga de certa forma interrompida pelo segundo parágrafo com os comentários da fase adolescente da amiga Quando os constituintes examinados nesta seção organizam ou retomam porções textuais mais amplas promovendo a orientação ou reorientação dos sentidos ou termos articulados tal como se verifica com então no texto falado e foi quando no texto escrito são denominados no âmbito da lingüística textual de operadores discursivos3 Tratase de uma função macrossintática relativamente recente na descrição do português uma vez que a abordagem da gramática tradicional restringese ao âmbito do chamado período composto por coordenação ou subordinação Com o advento da investigação do texto e a conseqüente análise de seus mecanismos de expansão semânticosintáticos é possível a depreensão e pesquisa dos operadores discursivos e Coesão lexical Essa última modalidade de coesão relacionase a pelo menos dois mecanismos aqui já mencionados a referenciação endofórica por promover certa remissão a constituintes já ocorridos na superfície textual e a substituição uma vez que diz respeito a processos de sinonímia e hiperonímia entre outros Destacada sua característica de dependência em relação aos demais mecanismos citados passemos à definição da coesão lexical tratase de um tipo de vinculação textual fundado na seleção e na relação dos termos lexicais articulados termos esses retomados literalmente como no caso da repetição ou parcialmente por intermédio de sinônimos ou hiperônimos por exemplo Vale ressaltar que dadas as especificidades do oral e do escrito há certa distinção entre esses termos na escrita os itens lexicais costumam ser mais específicos ou precisos enquanto na oralidade utilizamse itens mais genéricos ou imprecisos Observados os textos de Eliane sob a perspectiva da coesão lexical podemos depreender em sua organização a concorrência de dois eixos polares e complementares a tristeza o que parecia e o riso o que era em outros termos o suicídio frustrado No primeiro eixo encontramos no texto falado termos como história assim um pouco triste separação dos pais esse rapaz morreu atropelado ela tentou cortar um dos pulsos tentado suicídio eu fiquei muito chocada aquele suicídio e aquela coisa assim forte No texto escrito levantamos os termos alguns problemas existenciais sofreu muito seus pais estavam se separando processo muito doloroso esse problema a vida tem seus percalços prega uma peça vítima de atropelamento a vida estava lhe roubando tentou cortar os pulsos e fiquei chocadíssima Já o segundo eixo na oralidade apresentase articulado em torno dos itens eu tive até que rir cortou só um pulso linhazinha bem fininha eu tive que rir estou crente eu cheguei a rir deu tudo certo não aconteceu nada pequena tentativa fracassou e graças a Deus Na escrita verificamos olhar meio enigmático o corte foi de leve grande alívio vontade de rir graças a Deus não se configurou acabamos rindo fazendo piadas triste situação e dose Esses termos semanticamente vinculados e dispostos num mesmo espaço textual concorrem para a unidade de conteúdo e forma das produções lingüísticas um dos mais básicos fatores de textualidade Coerência Estamos assumindo aqui a coerência com uma propriedade marcada pelo traço da interpretabilidade A coerência diz respeito à construção do sentido textual seja na perspectiva da produção pelo locutor seja na da recepção da codificação lingüística pelo interlocutor A coerência portanto trata da possibilidade e mesmo da necessidade de atribuição de sentido às produções textuais condição básica para que essas produções sejam entendidas e assumidas como tais Diante dessa conclusão o que dizer a respeito de textos com problemas de coerência localizados motivados por uso indevido de mecanismos de coesão Ou ainda daqueles textos aparentemente incoerentes marcados por sérios e generalizados desvios de padrões gramaticais básicos de ordem morfossintática Ou das produções lingüísticas de indivíduos portadores de distúrbios psíquicos Ou de certas obras literárias que parecem romper com os princípios de aceitabilidade provocando o chamado estranhamento na recepção Nossa resposta a esses questionamentos é que essas produções não podem ser vistas como incoerentes em termos absolutos já que o contexto comunicativo em que estão inseridas precisa ser levado em conta na atribuição de sentido às mesmas Essa perspectiva permitenos declarar com ressalva à falta de consenso dos estudiosos da área a respeito dessa questão que a em princípio não há textos totalmente incoerentes b é possível alguma incoerência localizada em textos escritos que numa atividade de reescritura ou releitura pode ser superada c as aparentes incoerências de textos falados se resolvem em geral no contexto situacional nas condições comunicativas específicas da interação Tratase a coerência de uma propriedade articulada no âmbito da situação comunicativa levandose em conta para se chegar a tal articulação os domínios lingüístico pragmático e extralinguístico Passemos a examinar cada um desses componentes a Domínio lingüístico Diz respeito ao controle e à utilização de recursos gramaticais nos níveis fonéticofonológico semântico e morfossintático e à seleção de itens lexicais tanto no âmbito do sintagma nominal ou verbal como nos limites do período do parágrafo ou do texto como um todo Em termos lingüísticos tanto a versão falada quanto a escrita da narrativa de Eliane mostramse igualmente coerentes Na fala Eliane conforme o processamento característico da oralidade produz unidades menores marcadas por pausas reticências algumas hesitações alongamentos quatro pontos e rupturas barras além de se utilizar de conectores próprios da conversação bom né tal eh Na escrita a aluna trabalha adequadamente com a paragrafação e com a pontuação parâmetros específicos dessa modalidade que atuam a serviço da progressão de sua narrativa a escrita favorece ainda a utilização de clíticos como em contoume e pergunteilhe além de termos mais convencionais como problemas existenciais percalços falecer por exemplo constituintes estes ausentes em sua produção oral b Domínio pragmático Referese às condições de processamento da interação Nesse sentido diz respeito às questões envolvidas no ato comunicativo em que o texto é produzido e recebido Assim pertencem ao domínio pragmático fatores como contexto situacional tipo de ato de fala intenção e aceitação comunicativas valores e crenças dos participantes da interação produtor e receptor enfim todos os aspectos ou constituintes situacionais que interferem na produção de sentido textual definindoa Voltemos às produções de Eliane para nossa exemplificação da propriedade de coerência pragmática Seus dois textos respondem suficientemente ao comando inicial do entrevistador eu gostaria de que você me narrasse uma história que pode ser uma história triste ou alegre que tenha ocorrido com alguém que você conhece e que esse alguém contou para você Diante da proposta Eliane elabora em versão falada e escrita uma narrativa que começa em tom meio triste no oral encontramos a referência inicial a uma história assim um pouco um pouco triste na escrita ela menciona preliminarmente os problemas existenciais e progressivamente vai tomando novo rumo atingindo níveis de comicidade inclusive nas duas modalidades com a menção ao riso final A personagem da história é uma amiga no oral tratase de uma colega de trabalho na escrita passa a uma colega de faculdade de qualquer forma é uma pessoa conhecida o que satisfaz o comando do entrevistador que lhe solicita uma história ocorrida com alguém conhecido e que esse alguém lhe havia contado Portanto do ponto de vista pragmático os textos apresentamse coerentemente Dentre os vários episódios que poderia relatar Eliane cooperativamente seleciona um que considera aceitável e preenchedor dos quesitos referidos pelo entrevistador procurando algo interessante e inusitado mas preservando o anonimato de sua amiga a protagonista do narrado c Domínio extralinguístico É relativo ao conhecimento de mundo às vivências e experiências daqueles envolvidos na situação comunicativa Essa bagagem experiencial representa o conj unto de informações advindas do cotidiano fruto da condição de todos os humanos de estarem no mundo e de contextos mais específicos como o acadêmico o artístico entre outros O conhecimento de mundo vai depender de fato da trajetória de vida de cada indivíduo daquilo que teve oportunidade de ver sentir fazer ler trocar enfim de viver Quando aludimos ao conhecimento de mundo estamos falando tanto do conhecimento do produtor do texto daqueles conteúdos e informações necessários à elaboração lingüística quanto do conhecimento do receptor do texto que necessita compartilhar pelo menos parte das experiências do produtor para que possa dar sentido ao que lê ou ouve No que concerne ao domínio extralinguístico ambos os textos revelamse igualmente coerentes Contam uma história aparentemente triste já que em nossa sociedade em geral pessoas que tentam o suicídio encontramse em situação de extrema dificuldade perdem o controle da própria vida em momento de total desespero E a amiga de Eliane enquadrase coerentemente nesse rol sofreu com a separação dos pais com a qual não soube lidar e o rapaz por quem era apaixonada morreu vítima de um atropelamento em plena juventude Mas o que seria trágico se transforma em cômico devido ao procedimento suicida pouco arriscado já que o corte dos pulsos da amiga na verdade foi num só deles e como declara Eliane numa linhazinha assim bem fininha o corte foi de leve Esse desfecho meio inusitado que de certa forma frustra a expectativa de morte conduz ao riso à comicidade No final dos relatos ocorre a expressão graças a Deus forma lingüística estereotipada de desfecho e de agradecimento em consonância com os princípios da doutrina cristã vigente em nossa sociedade Esse aspecto interacional ou dialógico do domínio extralinguístico no nível da coerência tem a ver com questões mais específicas da organização textual no nível da coesão A interrelação pode ser observada no processamento do fluxo informa cional no jogo entre informes dados e novos ou seja entre referências já conhecidas ou compartilhadas pelos envolvidos na interação no âmbito intra ou extralinguístico e outras introduzidas ou apresentadas pela primeira vez na superfície textual Assim não por acaso as referências iniciais à personagem principal e ao rapaz atropelado são feitas respectivamente por intermédio de artigo indefinido uma colega um rapaz e um menino Após essa primeira menção ou seja uma vez conhecidos os referentes eles passam a figurar como dados como informação já conhecida e portanto alteramse também os instrumentos lingüísticos para sua retomada Nessas recorrências têm papel fundamental os pronomes como eficientes alternativas de reintrodução informacional tais como o nome dela esse rapaz e seus pais Com o comentário anterior ratificamos a sobreposição das propriedades textuais a inter e multifuncionalidade dos constituintes lingüísticos quando examinados numa perspectiva mais ampla A lingüística textual como uma das recentes áreas de investigação científica ainda tem muito o que trilhar uma vez que centra seu olhar num amálgama de sentidos e de formas o texto Exercícios 1 A partir da leitura da crônica a seguir de Luis Fernando Veríssimo faça os exercícios sugeridos O homem trocado O homem acorda da anestesia e olha em volta Ainda está na sala de recuperação Há uma enfermeira do seu lado Ele pergunta se foi tudo bem Tudo perfeito diz a enfermeira sorrindo Eu estava com medo desta operação Por quê Não havia risco nenhum Comigo sempre há risco Minha vida tem sido uma série de enganos E conta que os enganos começaram com seu nascimento Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos Descoberto o erro ele fora viver com seus verdadeiros pais Ou com sua verdadeira mãe pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês E o meu nome Outro engano Seu nome não é Lírio Era para ser Lauro Se enganaram no cartório e Os enganos se sucediam Na escola vivia recebendo castigo pelo que não fazia Fizera o vestibular com sucesso mas não conseguia entrar na universidade O computador se enganara seu nome não apareceu na lista Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis No mês passado tive que pagar mais de Cr 300 mil O senhor não faz chamadas interurbanas Eu não tenho telefone Conhecera sua mulher por engano Ela o confundira com outro Não foram felizes Por quê Ela me enganava Fora preso por engano Várias vezes Recebia informações para pagar dívidas que não fazia Até tivera uma breve pouca alegria quando ouvira o médico dizer O senhor está desenganado Mas também fora um engano do médico Não era tão grave assim Uma simples apendicite E se você diz que a operação foi bem A enfermeira parou de sorrir Apendicite perguntou hesitante É A operação era para tirar o apêndice Não era para trocar de sexo Luís Fernando Veríssimo Seleção de crônicas do livro Comédia da vida privada Porto Alegre LPM 1996 a Toda a crônica se desenvolve linguisticamente em torno do que o título sugere O homem trocado Destaque do texto termos que retomam as sucessivas e marcantes trocas do personagem b No primeiro parágrafo o homem é referido inicialmente e em seguida é retomado por intermédio de outras três estratégias de remissão coesiva Informe que artifícios são esses c Observe o trecho do diálogo entre a enfermeira e o homem Por quê Não havia risco nenhum Comigo sempre há risco O termo destacado embora formalmente repetido é articulado com distintos sentidos O que risco significa para cada uma das personagens d O que justifica dizer que em Comigo sempre há risco Minha vida é uma série de enganos O termo em destaque articula uma referência catafórica e Qual o papel dos termos em destaque nas seguintes seqüências para a configuração da unidade textual Mas também fora um engano do médico E se você diz que a operação foi bem f Como a declaração do médico O senhor está desenganado pode ser interpretada pelo personagem como uma boa informação Por que essa possibilidade leva ao humor g Por que podemos classificar a crônica O homem trocado como um texto coerente Notas 1 Dentre as produções mais expressivas da lingüística textual no Brasil citamse entre outros os trabalhos de Ingedore Koch Leonor Fávero Luiz Antonio Marcuschi Luiz Carlos Travaglia e Hudinilson Urbano 2 Segundo a Nomenclatura Gramatical Brasileira o advérbio pode chegar a modificar uma oração por inteiro quando é nomeado de advérbio de oração Cunha e Cintra 1985 530 Mas a tradição gramatical não vai além deixando sem classificação ou referência as funções textuais mais amplas desse termo 3 Há muita variação na denominação e às vezes na definição desses constituintes por parte dos especialistas da área podem ser chamados também de operadores argumentativos Koch 1987 marcadores discursivos Risso 1999 entre outras denominações No âmbito da análise da conversação são encontrados também sob o rótulo de marcadores conversacionais Urbano 1993 Aquisição processamento e ensino Aquisição da linguagem Maria Maura Cezario Mário Eduardo Martelotta Como as crianças aprendem a falar O papel do adulto na aprendizagem da língua pelas crianças é fundamental Existe uma gramática universal guiando a aquisição das línguas Essas e outras questões intrigam os estudiosos da linguagem há muito tempo Neste capítulo veremos algumas das hipóteses existentes para explicar a aquisição da linguagem Daremos maior ênfase à hipótese do inatismo porque sua descrição aprofunda algumas noções da linha teórica gerativista corrente bastante estudada nos cursos de letras Hipótese behaviorista O estruturalismo americano ver o capítulo Estruturalismo buscou na psicologia behaviorista a explicação para a aprendizagem de língua Segundo essa corrente da psicologia os conhecimentos são adquiridos através das experiências vividas A aprendizagem dáse através de respostas bemsucedidas a determinados estímulos do meio e a repetição das respostas associadas aos estímulos é fundamental para essa aprendizagem O behaviorismo teve muita influência sobre a lingüística e por muitas décadas serviu de base para o ensino de línguas estrangeiras e também para o ensino em geral No que se refere à aprendizagem de língua materna o processo seria também feito através de respostas a estímulos No entanto nesse processo a resposta física é substituída por uma resposta lingüística e o estímulo pode ser lingüístico ou não Segundo Bloomfield a criança herda a capacidade de pronunciar e de repetir sons vocais sob diferentes estímulos A articulação tornase um hábito e a criança numa etapa seguinte passa a imitar os sons que ouve Ela faz associações entre sons e coisas inicialmente e em seguida aprende a associar uma palavra a uma coisa que está ausente Um estímulo como por exemplo sede terá como resposta a palavra aga água Essa resposta será reforçada se a mãe pegar água para seu filho A criança abandona as respostas erradas pois não haveria reforço externo Portanto a aprendizagem lingüística se dá segundo a concepção behaviorista em decorrência da seqüência estímulo resposta reforço Dessa forma para essa concepção o meio é fundamental para a aprendizagem de todos os conhecimentos inclusive o conhecimento lingüístico Hipótese do inatismo Outros estudiosos não aceitaram uma explicação tão simples como a formulada pelo estruturalismo americano para um fenômeno tão complexo e tão diferente de outros tipos de aprendizagem O behaviorismo não consegue explicar como produzimos e compreendemos frases que nunca foram proferidas como entendemos frases cuja referência não se encontra no contexto em que são produzidas ou como as crianças aprendem a falar tão rapidamente Na metade do século xx o lingüista Noam Chomsky fez uma crítica severa a essa abordagem que dava grande importância ao meio Ao formular a teoria gerativa com base no racionalismo cartesiano ver o capítulo Gerativismo Chomsky afirma que existe uma gramática universal que é uma matriz biológica responsável pela grande semelhança entre as línguas e pela rapidez com que as crianças aprendem a falar Segundo essa concepção o homem já nasce provido de uma grande variedade de conhecimentos lingüísticos e não lingüísticos Essa corrente dá maior importância ao organismo à codificação genética que traz muitas informações sobre o comportamento humano a personalidade a capacidade de compreensão de quantidades a capacidade de distinção entre os sons da fala e outros sons entre outras informações No caso da aquisição da linguagem o meio cumpriria o papel de acionar o dispositivo responsável pela aquisição de língua Os gerativistas procuram descrever a gramática universal GU composta por princípios os quais determinam a estrutura comum a todas as línguas e limitam as variações entre elas e por parâmetros que são as variações possíveis que as línguas podem ter As crianças aprendem a falar rapidamente porque na verdade já nascem dotadas de um dispositivo inato de aquisição da linguagem Para Chomsky a criança fica exposta a uma fala fragmentada repleta de frases incompletas mas é capaz de internalizar num tempo muito curto a gramática de uma língua devido a esse dispositivo inato que aciona o conhecimento lingüístico prévio geneticamente herdado Na idade certa o dispositivo será acionado e ela começará a falar Seu argumento é conhecido como pobreza do estímulo e se vincula ao chamado problema de Platão que assim se desdobra como o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras enganosas e fragmentárias As crianças criam palavras fazem analogias falam frases inéditas ainda muito cedo Além disso com 4 ou 5 anos já utilizam praticamente todas as estruturas gramaticais de sua língua Para Chomsky e seus seguidores esses fatos são fortes argumentos para se conceber a existência de uma GU específica do ser humano Os gerativistas também se questionam sobre a forma como as crianças adquirem os elementos lingüísticos Para os estudiosos dessa linha existem as categorias lexicais que são os substantivos os verbos os adjetivos e as preposições e existem as categorias funcionais que são os instrumentos gramaticais das línguas como os artigos os pronomes as conjunções e os advérbios além das categorias gramaticais de número gênero caso pessoa tempo etc Uma das hipóteses mais conhecidas para explicar a aquisição desses elementos é a hipótese maturacional da aquisição da linguagem bastante trabalhada por Radford 1993 Segundo o autor existem diferentes fases para a aquisição da linguagem e a passagem de uma fase para outra é determinada pela maturação do organismo Existe uma ordem na configuração da GU que determina que as categorias lexicais surjam antes das categorias funcionais Para Radford todas as crianças passam pelas seguintes fases de aquisição da linguagem a faseprélinguística 0 a 12 meses b fase de uma palavra de 12 a 18 meses c fase multivocabular inicial de 18 a 24 meses d fase multivocabular tardia de 24 a 30 meses1 Ele só considera uma forma como adquirida quando esta é usada de modo sistemático seletivo e contrastivo Assim por exemplo com cerca de 18 meses de idade a criança faz algumas concordâncias de gênero e de número mas de forma bastante assistemática o que não é considerado aquisição Quando a criança começa a usar repetidas vezes em sua fala e de modo contrastivo o masculino e o feminino o singular e o plural considerase que houve aquisição das categorias de gênero e de número Das quatro fases propostas por Radford a primeira é caracterizada pela falta de qualquer manifestação lingüística Há apenas gestos e balbucios A segunda fase é caracterizada pela presença de sentenças com apenas uma palavra É uma fase acategorial por natureza pois não há produção de sintagmas e sentenças propriamente ditas assim como faltam as categorias funcionais que estabelecem relações gramaticais entre as palavras Na fase seguinte há o desenvolvimento dos sistemas lexicais que são aqueles que englobam o sistema nominal o sistema verbal o sistema adjetivai e o sistema preposicional As crianças adquirem as categorias lexicais juntamente com as suas características temáticas2 É a chamada fase lexical ou temáticolexical em que não há ainda os sistemas funcionais sistema determinante sistema complementizador e sistema flexionai Nessa fase surgem as flexões nominais e a fixação dos parâmetros de ordem das palavras Mas em decorrência da falta das categorias funcionais não há elementos como determinantes artigos e pronomes demonstrativos e possessivos pronomes pessoais a criança não utiliza a flexão de caso como por exemplo eulmelmim auxiliares modais verbos de ligação e flexões verbais Para Radford a estrutura da sentença de crianças nessa terceira fase de aquisição assemelhase à estrutura chamada sentença curta do adulto como as destacadas a seguir Eu acho Pedro inteligente Eu considero Pedro bom Vejamos os exemplos de fala de uma menina brasileira com menos de 2 anos a Neném tá mexendo no mimédio de vovô aos 20 meses e 21 dias b Cigaga qué papá aos 21 meses c Fa faz bibi pequeno aos 21 meses e 6 dias ela pede para a mãe desenhar d Faz sol gande aos 21 meses idem f Casa de poquinho aos 21 meses g Panta de vovó aos 21 meses e 6 dias h Coocá na cama aos 21 meses e 21 dias i Mamãe é pequeno aos 21 meses e 6 dias j Bichinho tá escondida aos 21 meses e 21 dias 1 Carro é minha A23 Verificamos nas frases a presença dos elementos da terceira fase sintagmas nominais como neném cigaga bichinho e carro sintagmas verbais como tá mexendo no mimédio de vovô qué papá faz bibi pequeno e tá escondida sintagmas adjetivais como sol gande escondida e bibi pequena e sintagmas preposicionais como casa de poquinho e mimédio de vovô Além disso verificamos que ela já tinha fixado os parâmetros de ordem vocabular do português como preposição substantivo e substantivo adjetivo por exemplo Observando os dados também vemos que ela não adquiriu ainda os artigos como demonstram sentenças como c d e g os pronomes ela fala nénem no lugar do pronome eu por exemplo e também não faz concordância como em i j e 1 Esses dados indicam que a menina está no terceiro estágio proposto por Radford A última etapa denominada fase multivocabular tardia ou fase funcional se caracteriza pela presença dos sistemas funcionais Dessa forma a criança utiliza todos os elementos que faltavam na fase anterior Para Radford essa fase só é atingida quando a criança dominou totalmente os sistemas lexicais Como explicar o fato de todas as categorias lexicais serem adquiridas antes das categorias funcionais Para responder esta questão o autor utiliza a hipótese maturacional de aquisição segundo a qual os diferentes princípios da gramática universal são geneticamente programados para entrarem em operação em diferentes estágios da maturação biologicamente predeterminados Radford 1993 274 A criança aos 20 meses aproximadamente está biologicamente pronta para adquirir os sistemas de categorias lexicais Nesse estágio as crianças podem criar estruturas que têm um núcleo nominal adjetivai verbal ou preposicional O início dessa fase caracterizase por ser uma fase crítica de maturação que facilita o aumento do vocabulário porque o desenvolvimento das estruturas dos sistemas lexicais simplifica a tarefa de identificar a estrutura argumentai do predicado4 Nesse estágio não há estruturas com artigo pronome flexão nominal e verbal e conjunção porque não houve maturação para a aquisição dos sistemas funcionais Essa maturação ocorre aos 24 meses aproximadamente época em que há outra fase crítica agora voltada para a sintaxe Essa fase caracterizase pelo aumento do número de sentenças na fala das crianças e pela aquisição das categorias funcionais As pesquisas de Radford foram voltadas para a fase multivocabular inicial a terceira descrita aqui Não houve uma pesquisa aprofundada sobre a forma de aquisição das categorias funcionais A análise da fala de crianças americanas com 26 meses mostra que elas já possuem todas as categorias funcionais nessa idade Uma abordagem inatista também bastante conhecida é a continuísta Hyams 1986 segundo a qual todos os elementos lexicais e funcionais já estão disponíveis desde o início do desenvolvimento lingüístico Essa hipótese descarta a idéia de maturação e de fases de aquisição Para Hyams 1986 os elementos funcionais não aparecem na fala inicial por causa da limitação do vocabulário infantil o qual é desprovido de palavras que não tenham referência externa Mas isso segundo a autora não significa que as categorias funcionais não existam na gramática da criança As pesquisas de Cezario 1996 e de Soares 2001 com base na fala da mesma menina mostram que a criança tinha todos os elementos da terceira fase e alguns elementos da quarta fase Como demonstram os exemplos a seguir ela não fazia concordância nominal e não usava pronome e artigo Mas já fazia flexão de tempo exemplos a e b e utilizava regularmente auxiliares verbos de ligação e modais exemplos c d e e que são elementos funcionais a Mamãe abe mamãe a mãe abre um objeto Abiu Esse abe não abe não referência a outro objeto aos 21 meses e 6 dias b B Nené vai caí Neném vai caí E Vai se continuar andando prá trás vai B Michel E Michel B E E Cadê Michel B Michel caiu ela lembrase de um fato ocorrido no dia anterior c Mamãe é pequeno aos 21 meses e 6 dias d Tá sujo aos 21 meses e 14 dias e Gaiinha tá comendo pão aos 21 meses f Pode mexe aos 21 meses e 6 dias Hipóteses construtivistas e interacionistas Há diferentes abordagens que tentam dar conta da linguagem a partir das relações interativas entre a criança e o ambiente sendo a linguagem conseqüência da construção da inteligência em geral hipótese construtivista de Piaget ou entre a criança e as pessoas com quem ela convive hipóteses interacionistas Veremos resumidamente algumas dessas concepções Cognitivismo construtivista Uma abordagem bastante conhecida é a denominada cognitivismo construtivista ou epigenético desenvolvida pelo estudioso suíço Jean Piaget 1978 e 1990 Sua visão tem por base a idéia de que o desenvolvimento das estruturas do conhecimento ou estruturas cognitivas é feito pela interação entre ambiente e organismo Em outras palavras para Piaget não existe uma gramática independente de outros domínios cognitivos O aparecimento da linguagem dáse por volta dos 18 meses de idade na superação do estágio que o autor denominou de estágio sensóriomotor Nesse momento há o desenvolvimento da função simbólica por meio da qual um significante representa um objeto significado Também há o desenvolvimento da representação que permite que experiências sejam armazenadas e recuperadas Nessa fase a criança começa a se reconhecer como indivíduo como senhora de seus movimentos diferenciandose das outras pessoas ou seja a criança faz uma oposição entre o eu e os outros Quando a criança chega a esse estágio cognitivo começa o desenvolvimento da linguagem a qual é entendida por Piaget como um sistema simbólico de representações Dessa forma o conhecimento lingüístico não seria inato mas sim desenvolvido através da interação entre o ambiente e o organismo sendo uma conseqüência da construção da inteligência em geral O interacionismo social Uma outra proposta não inatista é a do psicólogo soviético Vygotslcy 1996 que explica o desenvolvimento da linguagem e do pensamento com base na interação entre os indivíduos Segundo o autor a fala e o pensamento têm origens genéticas diferentes havendo uma fase préverbal do pensamento ligada à inteligência prática e uma fase préintelectual da fala relacionada ao balbucio e ao choro Aos 2 anos a fala e o pensamento se unem e a fala passa a servir ao intelecto A criança nessa idade fala sozinha quando está brincando desenhando e fazendo outras tarefas Essa fala egocêntrica é para Vygostsky muito importante pois serve de instrumento para a criança planejar e encontrar a solução de um problema A fala será internalizada à medida que a criança cresce Para o autor é na troca comunicativa entre a criança e o adulto que a linguagem e o pensamento são desenvolvidos As estruturas construídas socialmente são internalizadas quando a criança passa a controlar o ambiente e o próprio comportamento A história das relações reais entre a criança e as outras pessoas é constitutiva dos processos de internalização A visão sociocognitivista A abordagem sociocognitivista junta a base social interacional com a base cognitiva A explicação para a aquisição da linguagem dáse em termos fúncionalistas a aquisição começa quando a criança passa a entender que existe uma intenção no ato comunicativo dos adultos Segundo essa visão não faz sentido caracterizar o homem como detentor exclusivo da linguagem cujas propriedades gerais são determinadas por aspectos mentais radicados na organização biológica da espécie Isso porque os seis milhões de anos que separam os humanos dos grandes macacos constituem um período de tempo muito curto para que ocorressem os processos relativos à evolução biológica e seleção natural essenciais ao surgimento das habilidades necessárias para os humanos lidarem com tecnologias formas complexas de organização social e comunicação Nesse sentido o conjunto de habilidades cognitivas que caracterizam os humanos modernos constitui o resultado de algum tipo de processo característico unicamente da espécie de transmissão cultural uma espécie de evolução cultural cumulativa que não envolve apenas criação mas principalmente transmissão social Os humanos portanto parecem ter uma capacidade de socializar suas habilidades o que os outros animais não têm O aprendizado cultural tornase possível em função de uma única e especial forma de cognição social que é a habilidade que os indivíduos possuem de compreender seus semelhantes como seres iguais os quais têm vida mental e intencional como eles mesmos Essa compreensão capacita os indivíduos a imaginaremse na pele de outra pessoa e portanto ela pode aprender não apenas com a outra pessoa mas através da outra pessoa A compreensão do outro como um ser intencional é crucial no aprendizado cultural humano porque os artefatos culturais instrumentos e as práticas sociais apontam para além de si mesmos os artefatos apontam para sua função utilitária e os símbolos lingüísticos para a situação comunicativa Portanto para aprender socialmente o uso de um instrumento ou de um símbolo a criança precisa compreender por que e para que as outras pessoas estão utilizando aquele instrumento ou aquele símbolo Isso significa que elas precisam entender o significado intencional do uso do instrumento ou da prática simbólica No que se refere à aquisição da linguagem por volta dos 9 meses de idade a criança segundo essa proposta desenvolve a habilidade de compreender outras pessoas como agentes intencionais Isso porque nessa fase ela começa a interagir com outras pessoas de vários modos Para compreender os sons e os movimentos de mão feitos pelos adultos como algo com valor comunicativo que precisa ser aprendido e usado a criança tem de entender que eles são motivados por um tipo especial de intenção chamada intenção comunicativa Mas o entendimento da intenção comunicativa só pode ocorrer dentro de algum tipo de cena de atenção compartilhada que provê a base sociocognitiva para esse entendimento Essa cena de atenção compartilhada é fundamental quando se considera que a referência lingüística é sobretudo um ato social em que uma pessoa chama a atenção de outra para algo no mundo real Nesse sentido a referência só pode ser compreendida como um tipo de interação social em que a criança e o adulto estão com a atenção voltada para um terceiro elemento por um determinado espaço de tempo A cena de atenção compartilhada implica dois aspectos importantes 1 Por um lado as cenas de atenção compartilhada não são eventos perceptuais Elas incluem apenas uma parte das coisas do mundo perceptual da criança Por outro lado as cenas de atenção compartilhada são também eventos lingüísticos pois contêm mais coisas do que aquelas explicitamente indicadas por qualquer conjunto de símbolos lingüísticos As cenas de atenção compartilhada constituem algum tipo de meiotermo um meiotermo essencial da realidade socialmente compartilhada entre o grande mundo perceptual e o pequeno mundo lingüístico 2 A compreensão da criança de uma cena de atenção compartilhada inclui como elemento constituinte integrante de cena a própria criança e o seu papel na interação conceptualizada a partir do mesmo perceptual externo da outra pessoa e do objeto Isso significa que a criança entende que todos participam de um formato representacional comum o que é de importância crucial para o processo de aquisição dos símbolos lingüísticos Para funcionar como um formato para a aquisição da linguagem as cenas de atenção compartilhada têm de ser compreendidas pela criança como tendo funções participativas que são em certo sentido intercambiáveis Isso permite que a criança tome a função do adulto e use uma nova palavra para direcionar a atenção dele da mesma maneira que o adulto acabou de usar para direcionar a dela Tomasello 1999 chama esse processo de imitação por reversão de papel ou seja aprender a expressar a mesma situação comunicativa usar os mesmos meios comunicativos que as outras pessoas requer a compreensão de que as funções participativas do evento comunicativo podem ser trocadas eu faço por ela o que ela fez por mim Como podemos ver os lingüistas dão diferentes respostas às perguntas que abrem este capítulo Entretanto não conseguiram ainda desvendar por completo os segredos da aquisição da linguagem pelas crianças A questão do inatismo continua sendo discutida Há pesquisadores que defendem a idéia de que existe uma gramática universal no nosso código genético responsável pelas características das línguas e pela aquisição da linguagem assim como há cientistas que não admitem o inatismo tal como proposto por Chomsky e enfatizam outros pontos importantes para a aquisição a o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem em geral b a interação entre os indivíduos e c a percepção das intenções comunicativas Caberá às próximas pesquisas validar ou refutar as hipóteses de uma ou de outra abordagem ou ainda criar novas hipóteses para a questão da aquisição da linguagem Exercícios 1 Caracterize a hipótese behaviorista para a aprendizagem da linguagem 2 Segundo a teoria chomskiana como se explica o fato de as crianças aprenderem uma língua num período tão curto de tempo 3 Quais são as fases de aquisição de linguagem segundo Radford Caracterize cada uma delas 4 Com base em elementos morfológicos e sintáticos observar elementos como concordância nominal concordância verbal oposição dos tempos verbais artigo pronome verbo auxiliar etc presentes na amostra de fala a seguir retirada de Cezario 1996 em qual das fases propostas por Radford esta criança parece estar E O que é que neném tá fazendo C Neném tá mexendo no mimédio de vovô E No remédio de vovô né Dá pra titia guardar E É o lobo mal e isso aqui C Hau E É assim que ele faz C Qué casa tá coendo tá coendo tá coendo lobo mal hô hô Hô comê poquinho qué comê uma poquinho E Lobo mal quer comer o porquinho E e agora C Qué qué moiá porquinho qué moiá aobo E Por quê C pé pé E Quer molhar o pé C Qué cigaga cimiga é cimiga é cimiga E Hum hum C Aqui fô aqui a pata aqui a panta E Ih é a planta C É a panta di cigaga E A planta da cigarra C criança E entrevistador 5 Segundo a hipótese maturacional as categorias lexicais ocorrem na fala antes das categorias funcionais Por que isso acontece nesta ordem O capítulo apresenta uma outra hipótese inatista que refuta a hipótese maturacional Caracterizea 6 Como a abordagem construtivista explica a aquisição da linguagem 7 Segundo a visão sociocognitivista como o aprendizado cultural se torna possível Como isso se relaciona com a aquisição da linguagem Notas 1 Segundo autor pode haver diferença de 20 em relação à mudança de uma fase de aquisição 2 As características temáticas ou papéis temáticos são as funções semânticas que expressam numa sentença quem fez o que a quem como onde de que modo São noções como a de agente paciente instrumento experienciador etc 3 Cf Cezario 1996 4 A estrutura argumentai diz respeito à relação entre o verbo e seus argumentos e se refere não só ao número mas também ao tipo de argumento que um predicado toma Psicolinguística experimental focalizando o processamento da linguagem Márcio Martins Leitão Este capítulo tem como obj etivo básico informar para os alunos a evolução da área de psicolinguística desde seu surgimento no início da década de 1950 até os dias de hoje Apresentaremos de forma resumida um histórico das principais mudanças ocorridas na pesquisa e na relação da psicolinguística com as teorias lingüísticas durante esse período de consolidação da área Além disso focalizaremos a subárea da psicolinguística experimental mais especificamente a subárea do processamento lingüístico cujos avanços vêm se desdobrando de modo rápido devido à utilização cada vez maior da tecnologia especificamente de equipamentos utilizados nos experimentos científicos Isso implica o aumento das possibilidades de acesso aos processos que ocorrem na mentecérebro enquanto compreendemos e produzimos estímulos lingüísticos Serão explicitados os modelos teóricos que atualmente vigoram na área Serão também descritas e exemplificadas algumas das técnicas experimentais utilizadas no estudo do processamento sentenciai e do processamento da correferência e por fim serão também abordados alguns conceitos básicos dessas áreas do processamento Todos os exemplos serão baseados em estudos já realizados em português para que seja mais fácil a assimilação dos conceitos e da metodologia descritos Um breve resumo histórico Os conceitos com que a psicolinguística trabalha de alguma forma têm sua origem nas idéias de Humboldt retomadas por Wundt psicólogo alemão que na virada do século xix para o xx já se mostrava preocupado com a relação entre os processos mentais e o comportamento verbal Entre outras coisas Wundt defendia a impossibilidade de a psicologia cognitiva ser autônoma em relação à lingüística e viceversa E é justamente na interação entre essas duas áreas das ciências cognitivas que a psicolinguística vai surgir e se desenvolver Como descreve Gardner 19951 a psicolinguística moderna começa como uma aventura cooperativa entre lingüistas e psicólogos durante os primeiros anos da década de 1950 Em 1951 ocorre o seminário de verão de pesquisa entre psicologia e lingüística na Universidade de Cornell seguido dois anos depois 1953 por outro seminário de verão sobre psicolinguística na Universidade de Indiana patrocinado pelo Conselho de Pesquisa em Ciência Social Social Science Research Council SSRC em que lingüistas e psicólogos interagiram produtivamente sendo creditado a esse evento o nascimento da psicolinguística Nesse segundo seminário foram expostos procedimentos que refletiam um consenso entre os participantes as tarefas teóricas e metodológicas desenvolvidas por psicólogos poderiam ser utilizadas para explorar e explicar as estruturas lingüísticas que estavam sendo descobertas pelos lingüistas Esse consenso foi o que delineou naquele momento a agenda das pesquisas na área da psicolinguística Depois disso a história da psicolinguística atravessou cinqüenta anos em que ocorreram mudanças radicais na abordagem dos estudos da cognição humana Quando a psicolinguística nasceu teve suas raízes na tradição behaviorista muito aceita e difundida na época Acreditavase em uma teoria do aprendizado que tinha como base associações a determinados comportamentos lingüísticos gerados em resposta a estímulos externos ao indivíduo que seriam fixados pela repetição Acreditavase que pela relação estímuloresposta seria possível explicar a estrutura da linguagem bem como se acreditava que essa linguagem seria adquirida e utilizada por seus falantes Durante a década de 1960 a psicolinguística foi dominada pela teoria chomskiana ver o capítulo Gerativismo que surge como uma revolução no campo da lingüística propondo explicações sobre a natureza do conhecimento lingüístico contrárias à tradição behaviorista ao mostrar que a linguagem humana não pode ser caracterizada como um sistema de hábitos e repetições já que um dos princípios que a norteiam a distinguindoa da linguagem animal é o da criatividade ou seja produzimos frases que nunca ouvimos ou lemos antes Além disso a proposta gerativa internaliza o conceito de linguagem definindo uma faculdade da linguagem que seria inata e localizada na mente das pessoas marcando claramente uma das distinções entre o modelo estruturalista de Saussure que vê a linguagem como um fato social e não como uma capacidade inata do ser humano Decorre daí a diferença também refletida na metodologia baseada na análise de corpora utilizada pelo estruturalismo e a metodologia do gerativismo baseada na introspecção e nos julgamentos de gramaticalidade A psicolinguística então avança rapidamente por uma abordagem gerativa da cognição em que regras e transformações formam o vocabulário das análises que foram sendo elaboradas A partir dessa mudança de paradigma teórico a psicolinguística começa uma fase de pesquisas que tentam buscar nas regras da teoria da gramática transformacional de Chomsky uma estruturação explicativa para os resultados de experimentos psicolinguísticos Nessa ocasião surgem os estudos de Miller que inicialmente encontram apoio na teoria gerativa para evidenciar que as transformações propostas por essa teoria ao explicar a estrutura da linguagem são utilizadas durante o processamento lingüístico Tomemos como exemplo as sentenças abaixo a Os exercícios foram feitos por Eduardo b Eduardo fez os exercícios Uma sentença na voz passiva como a apresentada em a seria o produto ou a estrutura superficial de uma série de transformações que ocorreriam com base em uma sentença matriz ou estrutura profunda no caso a voz ativa que vemos no exemplo b Daí provém a chamada teoria da complexidade derivacional abreviada DTC em inglês que assumia como idéia básica que sentenças com uma história derivacional mais complexa deveriam ser mais difíceis para o processamento ou seja os ouvintes primeiro computariam a estrutura superficial das sentenças e depois usariam as transformações para mapear essa estrutura a partir de sua estrutura profunda com isso a predição era de que o processamento da frase a seria mais demorado do que o da frase b já que essa última é menos complexa derivacionalmente Na década de 1970 a tendência geral da psicolinguística foi abandonar seus laços com a teoria da gramática transformacional Isso porque os experimentos psicolinguísticos não conseguiam relacionar de maneira harmoniosa o arcabouço teórico transformacional com os resultados das pesquisas experimentais O que foi concluído depois de uma série de pesquisas experimentais é que as estruturas sintáticas analisadas pela teoria da gramática transformacional eram reais psicologicamente isto é eram utilizadas durante o processamento mas as regras utilizadas para transformar essas estruturas não o eram Isso quer dizer que sentenças como as dos exemplos a e b tinham suas estruturas sintáticas levadas em conta ao serem processadas mas as regras transformacionais que fariam a frase b transformarse na frase a não eram utilizadas no processamento Prova disso é que nos experimentos com rigor metodológico os participantes processavam com a mesma rapidez tanto as sentenças ativas quanto as sentenças passivas Com essa desvinculação da psicolinguística com os estudos teóricos gerativistas em meados dos anos 1970 as pesquisas na área começam a ser norteadas pela corrente teórica majoritária da psicologia cognitiva Enquanto nos anos 60 a psicolinguística havia se concentrado nas variáveis sintáticas do processamento sentenciai na década seguinte os estudos focalizaram processos relacionados à compreensão do discurso e também ao reconhecimento de palavras acesso lexical Os estudos com foco na sintaxe dão lugar aos estudos com foco na semântica Influenciados pela teoria da lógica conversacional de Grice e pelas análises dos atos de fala de Searle os psicolinguistas começam a analisar também vários aspectos da pragmática tais como pedidos indiretos e processos relacionados à metáfora Surgem também nessa época a partir da compreensão de narrativas e de textos vários modelos de representação textual que abarcam como um dos tópicos centrais de pesquisa a interpretação da anáfora e de processos inferenciais Após as mudanças no arcabouço teórico gerativo que vêm se processando nas décadas recentes a aproximação entre psicolinguística e teoria gerativa se dá de novo de forma bem produtiva mais especificamente pelo modelo gerativo adotado no programa minimalista Chomsky1995 1999 em que condições de legibilidade da informação lingüística são ou não satisfeitas pelos sistemas de desempenho nas interfaces forma lógica e forma fonológica servindo como critério de validação empírica do modelo lingüístico Além disso na proposta minimalista os procedimentos gerativos passam a ser entendidos como um sistema computacional não mais desvinculado da produção compreensão de enunciados mas sim como uma derivação que atua sobre itens lexicais ativos na memória o que implica necessariamente uma relação mais íntima entre competência e desempenho modelo lingüístico e modelo psicolinguístico2 Entretanto não se pode deixar de dizer que ainda há muita polêmica a respeito da autonomia e independência da sintaxe em relação a outros componentes lingüísticos semântica léxico fonologia no que concerne ao processamento de sentenças por exemplo e ainda há muito o que se pesquisar para que essa relação entre modelo de língua e modelo de processamento lingüístico seja observada e analisada com maior precisão A partir desse brevíssimo resumo dos caminhos seguidos pela psicolinguística faremos um recorte necessário a um texto de natureza introdutória e encaminharemos nas seções a seguir conceitos teóricos e metodológicos básicos relacionados à psicolinguística experimental focalizando o campo do processamento lingüístico Essa escolha é baseada em alguns critérios o primeiro e fundamental é calcado na ausência de textos que se debrucem sobre essa área da psicolinguística nas recentes obras de introdução à lingüística publicadas no Brasil3 e em segundo lugar por essa área ser um campo de estudos em fase de crescimento no país A psicolinguística experimental O interesse central da psicolinguística pode ser resumido em três questões básicas a Como as pessoas adquirem a linguagem verbal b Como as pessoas produzem a linguagem verbal c Como as pessoas compreendem a linguagem verbal A primeira questão se enquadra no campo da aquisição da linguagem psicolinguística desenvolvimentista e as duas outras questões formam o campo da psicolinguística experimental E claro que em muitas situações esses campos se inter relacionam e podem trocar informações relevantes para o avanço das pesquisas em suas áreas específicas4 Sendo assim a psicolinguística experimental tem como objetivo básico descrever e analisar a maneira como o ser humano compreende e produz linguagem observando fenômenos lingüísticos relacionados ao processamento da linguagem Ou seja esses fenômenos são tratados e focalizados do ponto de vista de sua execução pelos falantes ouvintes a partir de seu aparato perceptualarticulatório e de seus sistemas de memória Mais especificamente ao conversarmos com alguém oralmente por exemplo temos de transformar o sinal acústico que chega a nosso aparelho auditivo em algo que nos seja compreensível Temos de retirar desse sinal informação sobre os sons e para traduzila em informação sintática passando depois para o reconhecimento dos itens lexicais e para a projeção das propriedades formais e semânticas desses itens em estruturas hierarquicamente constituídas a partir de um núcleo Ou seja ocorre o processamento dos sintagmas e das sentenças formadas por eles o que permite a interpretação do significado do que está sendo dito Por sua vez em resposta ao que foi compreendido temos que utilizar nossa capacidade de construir enunciados em que estão envolvidos todos esses aspectos fonéticofonológicos morfológicos lexicais sintáticos e semânticos para coerente mente produzirmos também um sinal acústico verbal que permita toda essa decodificação tornandoa compreensível para o nosso interlocutor Mesmo agora no momento em que está lendo este texto por exemplo você tem que transformar os sinais visuais constituídos de letras que compõem as palavras as frases e o próprio texto de maneira a também compreender o que neste exato momento estamos produzindo em forma de escrita Você está transformando a informação visual em informação lingüística relevante para reconhecer as estruturas sintáticas e o conteúdo semântico do texto Em ambos os processos seja via oralidade seja via escrita o que se está colocando em funcionamento são as habilidades cognitivas relacionadas à linguagem Esse processo de compreender e produzir linguagem verbal em nosso cotidiano que parece extremamente simples é na verdade algo complexo e que requer um conjunto de procedimentos mentais denominado de processamento lingüístico A psicolinguística experimental busca fornecer hipóteses que deem conta de explicar como esse processamento lingüístico se estrutura na mente dos seres humanos E para que esse objetivo seja alcançado a psicolinguística lança mão de uma série de procedimentos metodológicos de acordo com o tipo de fenômeno ou de objeto lingüístico que se está focalizando nas pesquisas Essas pesquisas abrangem subdomínios associados à compreensão e à produção de linguagem Aqui cabe um esclarecimento sobre essas duas atividades fundamentais no estudo do processamento lingüístico compreensão e produção Ambas são atividades básicas da linguagem humana tanto em sua forma oral quanto em sua forma escrita Inicialmente nos estudos psicolinguísticos considerouse que essas duas atividades eram realizadas pelos mesmos processos cognitivos que atuavam de maneira inversa na compreensão os estímulos externos eram convertidos em significados e na produção ao contrário os significados eram convertidos em estímulos externos Mais tarde percebeuse que as coisas não são tão simples assim pois tanto dados experimentais de indivíduos normais como aqueles realizados com pacientes com algum tipo de lesão cerebral indicam que na verdade a compreensão e a produção são processos distintos claramente dissociáveis e não completamente simétricos Exemplos clássicos de estudos referentes a lesões cerebrais que evidenciam essa dissociação entre a compreensão e a produção da linguagem verbal são aqueles sobre os tipos de afasia5 ou disfasia relacionados ora a distúrbios de produção sem maiores danos na compreensão como é o caso das afasias com lesão na área de Broca ora a distúrbios de compreensão sem maiores danos na produção como é o caso das afasias com lesão na área de Wernicke6 Outro argumento para a distinção entre essas duas atividades diz respeito ao fato de o esquema de funcionamento da produção ser de certa maneira mais complexo do que o esquema da compreensão Quando o falanteescritor produz um enunciado oral ou escrito ele ao mesmo tempo escuta ou lê e compreende o que diz ou escreve o que afeta de algum modo o que está sendo dito ou escrito e o que se vai ainda dizer ou escrever Sendo assim podemos dizer que a compreensão realimenta o sistema de produção da linguagem ao passo que a compreensão não tem uma realimentação equivalente compreendemos sem reproduzir o que compreendemos Feita essa distinção entre produção e compreensão temos ainda que explicitar que apesar de os estudos de ambas serem extremamente relevantes para o entendimento do processamento lingüístico há um desequilíbrio notório a favor da compreensão em termos do número de pesquisas o que se refletirá nos exemplos comentados neste capítulo Em grande medida esse desequilíbrio se explica pelo mesmo fato de que há algum tempo os estudos sobre a modalidade escrita tornavamse muito mais freqüentes do que os estudos sobre a modalidade oral há muito mais vantagens e facilidades metodológicas para execução de experimentos sobre compreensão do que sobre produção assim como era muito mais fácil estudar os textos escritos antes de existir a possibilidade de gravação dos sons da fala Tentando entender os processos mentais relacionados à compreensão e à produção da linguagem a psicolinguística experimental investiga o processamento lingüístico nos vários níveis gramaticais que estão envolvidos nesses processos fonológico morfológico sintático semântico Isso se reflete na especificidade de alguns campos de investigação a estudos sobre a percepção da fala em que se analisa o sinal acústico em seus vários aspectos Por exemplo tentase entender como o processamento desse sinal acústico é possível a partir de estímulos que são variáveis tanto em um indivíduo quanto em uma dada sociedade ou investigase como ocorre a segmentação desse sinal acústico que se apresenta em um contínuo na fala etc b estudos sobre o reconhecimento de palavras ou sobre o acesso lexical que investigam como os elementos morfemas traços que as compõem são acessados no momento em que as ouvimos ou lemos c estudos sobre o processamento de frases que investigam a organização da estrutura sintá tica construída a partir doparser ou processador sintático uma espécie de processador mental que analisa a sintaxe dos enunciados lingüísticos para que possamos compreendêlos d o estudo da interpretação semântica dos enunciados lingüísticos que investiga como os níveis lingüísticos fonológico morfológico sintático são integrados ao conjunto de conhecimentos de mundo que os indivíduos têm viabilizando uma interpretação mais consciente e abrangente seja no escopo sentenciai seja no escopo discursivo A tarefa de compreender quais são e como se dão os processos mentais envolvidos no processamento lingüístico é complexa entre outras coisas por não se ter acesso in loco aos procedimentos mentais que acontecem durante o processamento lingüístico Ou seja apesar de as técnicas utilizadas pela neurolinguística por exemplo serem capazes de medir o fluxo sangüíneo ou a atividade elétrica no cérebro durante uma tarefa lingüística ainda não há como estabelecer uma relação transparente e inequívoca entre essas medidas e os processos mentais especificamente lingüísticos Na verdade isso vem sendo buscado pela neurolinguística e muito já se caminhou nessa direção A psicolinguística por sua vez também busca entender esses processos e utilizase de aferições mais indiretas por meio de experimentos denominados offline e online Os experimentos offline são baseados em respostas dadas por indivíduos após estes terem lido ou ouvido uma frase ou um texto isto é capturamse reações após a leituraaudição dessa frase ou desse texto momento em que o processamento já foi finalizado De modo contrário os experimentos online como o próprio nome diz baseiamse em medidas a reações obtidas no momento em que a leituraaudição está em curso são medidas praticamente simultâneas ao processamento A distinção entre essas duas metodologias experimentais reflete os tipos de informação lingüística que se quer capturar em tempo real As aferições obtidas a partir de experimentos offline dão informação a respeito da interpretação momento de reflexão das frases ou enunciados ou seja conseguem capturar reações a estímulos lingüísticos quando já houve uma integração entre todos os níveis lingüísticos fonológico morfo lógico lexical sintático e semântico Já as aferições obtidas a partir de experimentos online dão informação a respeito de processos mentais que acontecem antes que a integração entre todos esses níveis lingüísticos esteja completa momento reflexo Isso permite averificação e a análise de como esses níveis interagem e em que ordem temporal eles atuam7 Para que fique mais claro o que é um experimento offline e o que é um experimento online descreveremos mais adiante alguns experimentos elaborados para estudar fenômenos lingüísticos em português brasileiro PB Contudo antes disso descreveremos em linhas bem gerais os três principais modelos da arquitetura de processamento sentenciai que de alguma forma vigoram e permeiam os estudos atuais na área da psicolinguística experimental Modelos teóricos associados ao processamento sentenciai A psicolinguística experimental apesar de ser portadora de um arcabouço teórico independente busca relacionarse com teorias lingüísticas de natureza cognitiva que apresentem um modelo de linguagem capaz de expressar a universalidade e as especificidades contidas e manifestas no conjunto das línguas humanas Como vimos no breve histórico traçado no início do capítulo desde o nascimento da psicolinguística vários modelos teóricos são associados a ela e servem não só de suporte aos estudos experimentais como também muitas vezes guiam a agenda desses estudos No início temos a influência do modelo behaviorista de Skinner e logo a seguir temos a revolucionária influência do modelo da gramática gerativa transformacional de Chomsky que focaliza aspectos sintáticos Mais adiante com o afastamento do modelo gerativista há a influência da psicologia cognitiva que encaminha a psicolinguística para a área do discurso Como já foi dito mais recentemente com as reformulações no modelo teórico gerativista houve uma reaproximação muito produtiva entre psicolinguística e gerativismo o que fez com que o foco nos aspectos sintáticos retornasse Hoje em dia temos modelos teóricos voltados para questões da sintaxe e modelos voltados para questões do discurso Mais uma vez nos atendo ao processamento sentenciai mostraremos alguns modelos que têm maneiras diferentes de explicar como o processamento de uma frase acontece O primeiro modelo proposto foi o da teoria da complexidade derivacional DTC que não se manteve após uma série de experimentos de metodologia rigorosa em que se mostrou sua incapacidade de dar conta do processamento de frases a partir da teoria lingüística da gramática transformacional em suas primeiras versões Modelos mais recentes surgiram tentando dar conta de questões básicas para o processamento sentenciai atualmente se sabe que depois de ouvidas ou lidas as palavras ficam retidas na memória de trabalho por cerca de um segundo no caso da percepção visual escrita8 e cerca de quatro segundos no caso da percepção auditiva fala9 Dessa forma de que maneira podemos estabelecer relações complexas para processar e compreender frases tão rapidamente a partir de uma cadeia de palavras ouvidas ou lidas encontradas uma a uma como está ocorrendo agora com você leitor ao ler estas palavras Um dos modelos que tentam responder a essa questão é a teoria do gardenpath TGP OU como alguns traduzem em português teoriado labirinto Esse modelo é baseado na seguinte metáfora quando ouvimos ou lemos uma frase seria como se entrássemos em uma casa sem janelas e sem nenhuma referência externa e a partir daí quiséssemos chegar por exemplo no quarto Quando entramos na casa nos deparamos com uma série de cômodos contendo várias portas vamos rapidamente escolhendo as portas por onde achamos que encontraríamos o quarto mais rápido mas de repente abrimos uma porta que dá para o jardim garden e percebemos então que temos que voltar e refazer o caminho para encontrar a porta que nos leva corretamente ao quarto A questão é o que nos fez ir pelo caminho equivocado e sair no jardim Da mesma maneira acontece quando lemos ou ouvimos uma frase ambígua como a apresentada a seguir Alguém atirou no empregado da atriz que estava na varanda Nessa frase temos dois caminhos estruturalmente legítimos para interpretar a oração relativa ou oração subordinada adjetiva podemos ligála ao sintagma nominal empregado ou ao sintagma nominal atriz O que o processador sintático faz Ele escolhe um dos caminhos O que faz com que escolhamos um dos caminhos em vez do outro Por que ligamos nesse caso a sentença relativa com empregado e não com atriz ou viceversa Essas são perguntas que interessam aos estudos de psicolinguística experimental que buscam entender como o processamento lingüístico acontece A TGP faz a analogia ao labirinto para argumentar que assim como ao entrarmos na casa só temos a informação que a sua estrutura interna nos dá a partir de suas paredes e portas o processador de frases parser usa o seu conhecimento gramatical estrutura sintática isoladamente do conhecimento de mundo e de outras informações de caráter semântico para a identificação inicial das relações entre as palavras e os sintagmas Essa analogia demonstra que a TGP é uma teoria modularista10 Além disso a TGP argumenta que como no exemplo da casa em que vamos abrindo uma porta de cada vez seguindo cegamente sem testar as outras portas possíveis no processamento de frases também seguimos cegamente uma das possibilidades e nos comprometendo com uma estrutura sintática única o que faz desse modelo um modelo serial Argumenta ainda a TGP que as escolhas que vão sendo feitas no momento do processamento seguem princípios baseados na economia dos nossos recursos cognitivos relacionados à linguagem já que temos um sistema de memória com restrições de tempo de armazenamento ou seja escolhemos geralmente a estrutura menos complexa sintaticamente ou com menos nós se pensarmos em termos de árvore sintática ou escolhemos o caminho a seguir por meio de uma estratégia que ofereça menos ônus à nossa memória de trabalho Um outro modelo de processamento sentenciai é o da teoria interativa incrementacional TII que em vez de funcionar como a TGP de forma serial funciona em paralelo pois antes de escolhermos uma das possibilidades da frase ambígua ou uma das portas de dentro da casa para chegarmos ao quarto esse modelo prevê que checaríamos as outras possibilidades e portas para só então decidirmos o caminho a seguir Além disso a TII diverge com a TGP também pelo fato de ser um modelo interativo apesar de ser modular ou seja a TII argumenta que além de podermos ter acesso às possibilidades dos caminhos a serem seguidos a cada momento da leitura audição de frases podemos também ter acesso à informação de natureza léxico semântica logo no início do processamento e essa informação ajudaria a trilhar todo o caminho Voltando à metáfora da casa é como se agora entrássemos em uma construção com janelas e com um telhado de vidro e que com as informações que temos acesso através dessas janelas e desse telhado pudéssemos mais facilmente nos guiar pelo labirinto de cômodos até chegarmos ao objetivo que é o quarto no caso da casa ou a estruturação e compreensão da frase no caso do processamento sentenciai Além desses modelos de processamento sentenciai temos o modelo conexionista da teoria da satisfação de condições TSC que é altamente interativo e não modular baseado no sistema cerebral de redes neurais Esse modelo argumenta que o caminho que seguimos no processamento de frases é guiado por uma constante e alta interação entre todos os tipos de informação seja contextual sejaléxicosemântica e fundamentalmente informação relacionada à freqüência de uso das frases e das palavras que as constituem e de suas estruturas sintáticas ou seja cada vez que usamos determinada estrutura isso contribui para que as condições de processamento sejam satisfeitas Mais uma vez voltando à metáfora da casa é como se não existisse mais a estrutura física da construção e sim só o caminho que nos leva até onde fica o quarto para percorremos esse caminho temos como guia a nossa experiência lingüística que já fez e refez o mesmo circuito muitas e muitas vezes e assim quanto mais vezes percorremos o caminho menos dificuldades teremos de processar as frases dentro de um contexto Para exemplificar com uma evidência empírica a importância da freqüência para esse modelo temos a frase a seguir Um navio brasileiro entrava na baía de Guanabara um enorme rebocador Nessa frase entramos em um efeito labirinto porque processamos o verbo como sendo o verbo entrar na terceira pessoa do singular do pretérito imperfeito então ao chegarmos ao sintagma um enorme rebocador temos um estranhamento e reanalisando a frase podemos perceber que o verbo da frase é entravar obstruir na terceira pessoa do singular do presente do indicativo Isso aconteceria segundo o modelo de TSC porque a freqüência de uso do verbo entrar é muito mais alta do que a do verbo entravar e essa taxa alta de freqüência faria com que seguíssemos o caminho mais provável o de acessar a estrutura prevista para o verbo entrar Quando nos deparamos com uma estrutura diferente surge o estranhamento e a necessidade de uma reanálise da frase Esses são três dos principais modelos de processamento sentenciai que ilustram as vertentes teóricas que norteiam essa área da psicolinguística experimental Como podemos ver os modelos se dividem em vertentes que têm como foco central a sintaxe modelo da TGP e que dialogam produtivamente com a teoria gerativa atual conhecida como programa minimalista e em modelos conexionistas que têm como foco a semântica e que dialogam mais produtivamente com a teoria sociocognitiva ver o capítulo Lingüística cognitiva Explorando a metodologia experimental descrição de experimentos offline e online em PB Um tipo de frase que classicamente é estudada pela psicolinguística que investiga o processamento sentenciai é a frase ambígua sintaticamente ou seja a frase que pode ter mais de uma interpretação em função da sua estrutura sintática ambígua Veja a seguir dois exemplos desse tipo de frase11 a O policial viu o turista com o binóculo b A mãe suspeita do assassinato do filho e vai para a delegacia A frase a pode ser interpretada de duas maneiras o policial tinha um binóculo e de posse do mesmo viu o turista e o policial viu o turista que portava um binóculo Há nessa frase uma ambigüidade que só contextualmente poderia ser desfeita Tratase de uma ambigüidade estrutural permanente Já na frase b temos uma ambigüidade local e temporária ou seja a ambigüidade não se mantém até o final da leitura da frase permanece apenas até o momento em que se lê seu segmento final que começa com a conj unção coordenativa e ou quando se nota a ausência dela A ambigüidade dessa frase consiste na interpretação da palavra suspeita como um adjetivo a mãe que é suspeita ou da interpretação da palavra suspeita como terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo suspeitar a mãe suspeita de alguma coisa Com a conjunção a interpretação é a de que suspeita é verbo e sem a conjunção a interpretação é de que esse vocábulo é adjetivo Esses são apenas dois exemplos de frases estruturalmente ambíguas que são utilizadas em experimentos psicolinguísticos na busca do entendimento dos processos mentais utilizados na hora em que se lê ou se ouve uma frase Existem muitos estudos em inglês sobre esse tipo de estrutura ambígua mas nos ateremos aqui às pesquisas recentes em português Dentre elas iniciaremos focalizando as que investigam as sentenças relativas12 as tradicionalmente denominadas orações subordinadas adjetivas que foram investigadas por vários estudiosos do PB e que têm suscitado um interesse grande não só em inglês e em português como em várias línguas do mundo pois a partir da observação do processamento de sentenças relativas ambíguas podese estabelecer uma série de resultados interessantes que se convertem em reflexões relevantes para o arcabouço teórico da psicolinguística experimental Vejamos então uma das frases utilizadas experimentalmente nesses vários estudos Alguém atirou no empregado da atriz que estava na varanda A pergunta seria quem estava na varanda Essa pergunta poderia ser respondida tanto com o empregado é que estava na varanda quanto com a atriz é que estava na varanda pois a sentença relativa que estava na varanda pode ser ligada a empregado ou a atriz Com base nessa ambigüidade estrutural foram elaborados vários experimentos usando uma vasta gama de procedimentos metodológicos que capturaram a maior e a menor tendência entre as duas possibilidades de resposta o que indicaria um caminho preferencial seguido no processamento Foi elaborada uma série de experimentos ojfline que consistia na aplicação de um questionário em que várias frases com a mesma estrutura de 7 fossem lidas por sujeitos voluntários ao experimento que logo em seguida a cada frase respondiam à pergunta correspondente Após a leitura e a resposta de um número determinado de pessoas os resultados foram analisados estatisticamente isto é observandose a probabilidade de a diferença entre o número de respostas que acharam que era o empregado e o número de respostas que acharam que era a atriz que estava na varanda não ter acontecido casualmente Nos experimentos ojfline aplicados a falantes do PB os resultados foram os seguintes a maioria dos sujeitos respondeu que quem estava na varanda era o empregado e a minoria respondeu que era a atriz Isso é um indício de que os sujeitos que têm como língua materna o português brasileiro processam a sentença relativa ligada ao sintagma nominal empregado semelhante ao que acontece no espanhol e diferentemente do que ocorre no inglês em que os sujeitos tendem a ligar a relativa à atriz Por ser um experimento ojfline não podemos dizer com esses resultados que o parser ou processador sintático tenha analisado exatamente dessa forma a estrutura sintática do tipo exemplificado pois as respostas dadas são medidas ou capturadas depois que o processamento já ocorreu na mente dos sujeitos do experimento Sendo assim a partir desses resultados foram elaborados experimentos online para tentar capturar essa ligação ou aposição da sentença relativa com o sintagma nominal empregado na frase do exemplo anterior no curso do processamento e não depois do seu término como nos experimentos baseados no estudo de questionário ojfline anterior Para que essa aferição online possa ocorrer utilizase por exemplo uma técnica experimental denominada selfpaced reading ou leitura automonitorada em português em que se segmenta a frase e cabe ao sujeito a tarefa de ler cada segmento que aparece na tela de um computador tendo ele mesmo o controle sobre o tempo de leitura de cada segmento ao apertar um botão sendo esse tempo registrado também pelo computador Diferenças de tempo aferidas em um experimento online no curso do processamento podem indicar a maneira como as demandas cognitivas relacionadas à linguagem atuam já que operações mais complexas cognitivamente demandam mais tempo do que outras mais simples ou que possíveis dificuldades no processamento podem se materializar em uma demanda de tempo também maior Com esse procedimento é possível capturar efeitos durante a leitura da frase Aplicando essa técnica experimental em sentenças relativas temos frases experimentais com ambigüidade temporária do tipo a e frases de controle sem ambigüidade do tipo b a seguir a Alguém atirou no empregado da atriz que estava na varanda com seu marido b Alguém atirou na cabeça da atriz que estava na varanda com seu marido Com base em frases do tipo a as tarefas do experimento de leitura automonitorada são as seguintes o sujeito aperta um botão e aparece na tela do computador o segmento Alguém atirou no empregado da atriz em seguida ele aperta o mais rápido possível novamente o botão para continuar a leitura da frase e aparece imediatamente o segmento seguinte que estava na varanda após o mesmo procedimento aparece o último segmento com seu marido e então o sujeito aperta o botão finalizando a leitura Esse procedimento é executado também com as frases de controle do tipo b em que não há ambigüidade Para cada passo que o sujeito dá em sua leitura apertando o botão o tempo é medido em milésimos de segundo Nas frases em questão o último segmento é o crítico ou seja é o segmento em que o tempo medido é a base de dados para que se infira com que sintagma nominal a sentença relativa está sendo ligada durante o processamento com empregado ou com atriz O raciocínio é de que se nas frases do tipo a a leitura do segmento com seu marido for feita em tempos semelhantes à leitura desse mesmo segmento em frases do tipo b isso indicaria que a aposição em a estaria sendo feita em favor de atriz e não de empregado Esse raciocínio é possível devido ao fato de que em b somente atriz pode ser interpretada como estando na varanda enquanto que em a a ambigüidade entre empregado e atriz existe até a leitura do último segmento com seu marido que desambiguisa a frase em favor de atriz por meio de uma informação semântico pragmática de que só a atriz pode ter marido Ao obter essa informação com a leitura do segmento com seu marido na frase ambígua a o leitor que tiver feito a aposição da oração relativa com empregado terá algum tipo de efeito surpresa e terá que reanalisar a frase ligando a oração relativa que estava na varanda a atriz Dessa maneira se esperaria um tempo de leitura realmente maior no segmento com seu marido na leitura da frase do tipo a do que na leitura do mesmo segmento na frase do tipo b Dependendo então da semelhança ou da diferença entre os tempos de leitura do segmento com seu marido nas frases do tipo a e b podemos ter indícios de que tipo de ligação está sendo feita em relação à oração relativa que estava na varanda e podemos a partir disso tirar conclusões a respeito de qual modelo de processamento pode dar conta mais adequadamente do processamento desse tipo de estrutura O que os primeiros estudos13 mostram em experimentos com estruturas semelhantes às que exemplificamos anteriormente é que assim como os resultados dos experimentos o f f l i n e demonstraram a ligação preferencial em PB é pelo sintagma nominal empregado pois os tempos de leitura do segmento final em frases como a de a foram significativamente mais altos do que os tempos de leitura do mesmo segmento em frases do tipo b Dessa forma até onde os estudos recentes mostram o PB se enquadraria no mesmo grupo de línguas que o espanhol o italiano o francês o alemão o croata o japonês entre outras que têm a mesma preferência de ligação ou aposição pelo sintagma empregado diferentemente do outro grupo de línguas como o inglês árabe norueguês romeno sueco entre outras em que a preferência de ligação ou aposição é pelo sintagma nominal atriz Outra área de interesse da psicolinguística experimental é a que investiga as relações referenciais entre elementos de uma frase ou de um texto Essas relações são cruciais para a coesão e para a coerência textualdiscursiva já que servem como um mecanismo que evita uma série de redundâncias e repetições que sobrecarregariam a memória de trabalho se não existisse a possibilidade do estabelecimento de correferência ou referir de novo a partir de elementos lingüísticos já mencionados em um texto ou mesmo se não fosse possível fazer referência a elementos lingüísticos estocados na memória lexical dos indivíduos por meio de outros elementos que ativam ou reativam na memória de trabalho esses referentes Essa área é conhecida como processamento correferencial ou processamento da correferência ou ainda processamento anafórico e tem origem já no início dos estudos psicolinguísticos Em relação à compreensão de frases Miller 1962 por exemplo já discute o papel que o conhecimento gramatical desempenha nesse processo de correferência O estudo de Chang 1980 estabeleceu de modo pioneiro a chamada realidade psicológica dos pronomes do inglês demonstrando que esses elementos possuem a propriedade de facilitar a compreensão de um sintagma nominal mencionado anterior mente Os pronomes por serem psicologicamente reais ou relevantes perceptualmente provocariam na memória do leitor um efeito de reativação priming do referente denotado no sintagma nominal antecedente Esse efeito será explicado mais adiante Em português já existem também estudos experimentais que mostram a relevância perceptual da correferência seja ela estabelecida por pronomes por categorias vazias seja pela repetição de nomes ou ainda pela repetição de elementos relacionados semanticamente a um antecedente Observemos o exemplo a seguir Ontem eu vi o carroi de perto e a Eu achei elei bonito b Eu oi achei bonito c Eu achei i bonito d Eu achei o carroi bonito e Eu achei o veículoi bonito f Eu achei o chevetei bonito Podemos observar no exemplo uma série de possibilidades no estabelecimento da correferência em PB entre o antecedente o carro e o pronome lexical ele em a o pronome oblíquo o em b a categoria vazia em c a repetição do nome o carro em d o hiperônimo o veículo em e e o hipônimo o chevete em f Existem estudos em psicolinguística experimental que investigaram algumas dessas formas de retomada correferencial em estruturas semelhantes a essas Leitão 2005 por exemplo mostrou a partir da técnica online de leitura automonitorada que assim como em outras línguas já estudadas os pronomes lexicais ele ou ela como em a são mais eficientes em termos de processamento da correferência do que os nomes repetidos como em d O estudo mostrou também que hiperônimos como em e são mais eficientes em termos de processamento do que hipônimos como em f Além da utilização do paradigma metodológico da leitura automonitorada no estudo do processamento da correferência em português já explicado com os exemplos referentes às orações relativas utilizamos também um paradigma baseado no efeito de reativação oupriming em inglês Esse efeito tem como conceito básico a possibilidade de um estímulo lingüístico ser capaz de facilitar o processamento de outros estímulos lingüísticos Por exemplo se apresentamos a frase ontem fui visitar minha avó doente no hospital e depois mostramos a palavra médico essa palavra será processada mais rapidamente do que se tivéssemos apresentado a frase ontem fui na escola para falar com a diretora sobre minha transferência e depois mostrássemos a mesma palavra médico Por outro lado a palavra professor seria processada mais rapidamente após a apresentação dessa última frase relacionada à escola A lógica nesse caso é que ocorre uma reativação priming semântica ou seja quando lemos a primeira frase sobre hospital e nos deparamos com a palavra médico relacionamos imediatamente as duas e por isso processamos a palavra médico mais rapidamente pois a frase ativa em nossa memória uma série de palavras relacionadas a hospital tais como médico e enfermeira por exemplo Já a segunda frase relacionada à escola ativa em nossa memória palavras relacionadas semantica mente a ela como professor e aluno Esse exemplo ilustra uma reativação ou priming no nível semântico mas podemos obter o mesmo efeito no nível morfológico como por exemplo ao relacionarmos palavras a partir de sua estrutura morfológica ou da sua forma canto canteiro cantor encantamento etc Podemos também obter o mesmo efeito no nível sintático o que ocorre no caso do estabelecimento da correferência do antecedente o carro do exemplo anterior pela retomada com um pronome ou com uma categoria vazia a e c respectivamente que são capazes de reativar na memória de trabalho o antecedente o carro Experimentos elaborados por Leitão 2005 e Maia 1994 1997 utilizando o paradigma de reativação priming por exemplo mostram resultados nessa direção evidenciando que os pronomes e as categorias vazias são reais psicologicamente ou seja são relevantes perceptualmente tendo um papel crucial em termos de processamento lingüístico e consequentemente no estabelecimento da coesão e da coerência sintáticotextual Uma outra técnica experimental muito usada nos estudos de psicolinguística é a que utiliza um aparelho denominado eyetracker ou monitorador ocular em português Esse equipamento é capaz de localizar onde está o foco de visão no momento em que se está lendo uma frase ou um texto ou mesmo quando figuras são vista Além de localizar onde está o foco de visão o aparelho mede em milésimos de segundo quanto tempo esse foco permanece em cada sílaba ou em cada palavra constituinte de uma frase ou texto Devido à precisão desse equipamento a sua utilização fornece resultados mais sensíveis do que a técnica de leitura automonitorada pois são obtidas medidas em uma fase bem reflexa ou inicial da leitura O aparelho também permite estudar os movimentos oculares regressivos ou seja os movimentos que os olhos fazem retroativamente quando estão lendo uma frase ou um texto Considerações finais Como mencionamos no início do capítulo a área da psicolinguística é vasta e vem crescendo a cada dia seguindo as várias pesquisas executadas pelo mundo afora que vêm sendo facilitadas e aprofundadas graças às evoluções tecnológicas que permitem aferições mais precisas em relação ao processamento lingüístico online Também com base nesses avanços tecnológicos tem havido uma aproximação forte entre as áreas da psicolinguística e da neurolinguística pois com equipamentos capazes de aferir reações cerebrais a estímulos lingüísticos a neurolinguística consegue determinar áreas no cérebro com maior ou menor ativação no momento da execução de tarefas especificamente lingüísticas o que permite uma rica e precisa aferição de dados referentes ao processamento Aqui neste capítulo apenas definimos alguns conceitos básicos relacionados ao estudo da psicolinguística como o que é processamento lingüístico e o que é o processador sintático parser Além disso delineamos três dos principais modelos teóricos de processamento de frases que tentam dar conta das explicações a respeito de como o processamento é executado na mente das pessoas Depois descrevemos de maneira genérica como são aplicados alguns tipos de técnicas experimentais no intuito de fornecer noções acerca da metodologia utilizada nos estudos de psicolinguística experimental mostramos o que são experimentos online e ojfline descrevemos técnicas experimentais de questionário de leitura automonitorada de reativação ou priming e técnicas que utilizam o monitorador ocular eyetracker Os estudos sobre o processamento lingüístico envolvendo vários tipos de estruturas estão em pleno vapor em várias partes do mundo investigando uma série de línguas na busca de padrões e princípios universais envolvidos no processamento da compreensão e da produção da linguagem humana Muito há que se descobrir ainda mas o importante é frisarmos que o Brasil por meio de vários de seus pesquisadores faz parte do grupo de países que avança nas pesquisas em psicolinguística experimental do processamento lingüístico tanto na compreensão quanto na produção de frases e avança também nas subáreas da psicolinguística que focalizam o processamento discursivo em que porções maiores que a sentença são estudadas Para finalizar indicaremos alguns dos grupos de pesquisas que estão envolvidos com o estudo do processamento lingüístico Na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro temos o Laboratório de Psicolinguística e Aquisição da Linguagem LAPAL coordenado pela professora Letícia Maria Sicuro Corrêa na Universidade Estadual de Campinas temos o Laboratório de Fonética Acústica e Psicolinguística Experimental LAFAPE e na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ temos o Laboratório de Psicolinguística Experimental LAPEX coordenado pelo professor Marcus Maia e na Universidade Federal da Paraíba o Laboratório de Processamento Lingüístico LAPROL coordenado pelo professor Márcio Leitão Além desses laboratórios temos pesquisadores isolados que desenvolvem trabalhos importantes na área da psicolinguística em várias partes do Brasil Aqui não podemos deixar de citar o nome da professora Leonor ScliarCabral da Universidade Federal de Santa Catarina pioneira nos estudos de psicolinguística no Brasil e ainda atuante na área e o seu livro de Introdução à psicolinguística é sempre uma referência importante para quem se interessa por essa área de estudo Outro livro que não podemos deixar de destacar é o Processamento da linguagem organizado pelo professor Marcus Maia da UFRJ e pela professora Ingrid Finger da UCPEL que reúne uma série de artigos que fornece um panorama atualizado do que vem sendo feito na área de processamento lingüístico no Brasil Exercícios 1 Com base na metodologia utilizada na psicolinguística experimental responda a O que caracteriza as técnicas experimentais online e as técnicas ojfline Exemplifique b Por que as técnicas online são mais interessantes do que as ojfline no que se refere aos estudos na área de processamento lingüístico 2 Observe a estrutura sintática da frase ambígua abaixo e responda às perguntas Encontrei o amigo do porteiro que cantava no coral da escola a Quais as duas interpretações possíveis b Por que esse tipo de estrutura é relevante para os estudos de processamento sentenciai 3 Em que consiste a técnica experimental de reativação priming e como ela pode ser utilizada no estudo do processamento correferencial Exemplifique 4 Com a analogia utilizada no texto entre a estrutura de uma casa e a estrutura de uma sentença explique as diferenças entre os três modelos de processamento sentenciai presentes na literatura da área 5 Como se deu o desprestígio da teoria da complexidade derivacional DTC que relacionava as transformações propostas pelo primeiro modelo gerativista com o custo de processamento em determinados tipos de sentença Exemplifique Notas 1 Essa é a data da primeira edição em português Em inglês a data da primeira edição é 1985 com o título de The Minds New Science a history of cognitive revolution 2 Os conceitos de desempenho e de competência são explicitados no capítulo Gerativismo deste livro 3 Temos que mencionar aqui o capítulo sobre psicolinguística escrito por Ari Pedro Balieiro Jr contido em Mussalim e Bentes 2001 Devemos no entanto ressaltar que o conteúdo tem um enfoque mais abrangente e só tangencia em alguns momentos a área de processamento lingüístico 4 Podemos citar como exemplo o trabalho que vem sendo feito no âmbito do Laboratório de Psicolinguística e Aquisição da Linguagem LAPAL da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro em que são executados experimentos sobre a aquisição do gênero de nomes novos em bebês entre outros estudos que estabelecem uma ponte entre aquisição da linguagem e processamento lingüístico Name 2002 Corrêa e Name 2003 5 Uma definição genérica de afasia encontrase em Ortiz 2005 uma alteração no conteúdo na forma e no uso da linguagem e de seus processos cognitivos subjacentes tais como percepção e memória Essa alteração é caracterizada por redução e disfunção que se manifestam tanto no aspecto expressivo quanto no receptivo da linguagem oral e escrita embora em diferentes graus em cada uma dessas modalidades Tal dano cerebral ocorre com maior freqüência em pacientes que sofrem um acidente vascular cerebral ou seja obstrução ou ruptura de vaso sangüíneo que nutre parte de um hemisfério cerebral 6 As áreas de Broca e de Wernicke têm esses nomes em função dos primeiros estudos relacionados a esses tipos de distúrbio que foram feitos respectivamente por Paul Broca em 1861 e por Karl Wernicke em 1873 7 Essa é uma das questões principais nos estudos sobre o processamento sentenciai saber em que momento no curso temporal os níveis sintático prosódico e semânticopragmático atuam e em que ordem essa atuação se dá além de saber como se dá a interação entre esses níveis e em que momento ela ocorre e se há uma autonomia entre esses níveis ou se há uma interação constante e uma atuação simultânea dos mesmos 8 Essa média de tempo referente à escrita foi estabelecida por estudos de Sperling 1960 9 Essa média de tempo referente à fala foi estabelecida por estudos de Darvwin Turvin e Crowder 1972 10 Ver conceito de modularidade no capítulo Gerativismo 11 Essas estruturas foram estudadas com base em experimentos offline e online em Maia et al 1974 12 Para maior detalhamento dos estudos sobre relativas em português ver Ribeiro 1998 2005 Maia e Maia 2005 LourençoGomes Maia e Moraes 2005 que serviram como referência para este capítulo 13 Os primeiros estudos experimentais feitos no Brasil referentes às orações relativas utilizando como sujeitos voluntários indivíduos monolíngues falantes nativos do PB foram realizados por Ribeiro 1998 e já no início foram encontrados resultados compatíveis com o espanhol em que a preferência pela aposição é alta Lingüística e ensino Mariangela Rios de Oliveira Victoria Wilson Reservamos para a parte final deste livro um capítulo dedicado à interface linguísticaensino Conforme vimos no capítulo Lingüística um dos momentos em que os estudos lingüísticos têm tentado contribuir no sentido de que seus resultados de pesquisa possam ter um retorno social um caráter de maior utilidade pública digamos assim é justamente quando estão voltados para as questões relativas ao ensino de língua seja esta materna LI ou estrangeira L2 Dedicaremos este capítulo à exposição sobre as diferentes concepções de língua e gramática e seu impacto sobre o ensino de língua Na verdade não se trata de um capítulo específico sobre lingüística aplicada LA ramo da lingüística que se dedica ao estudo de vários aspectos relacionados à língua em situações reais de comunicação e interação tais como o ensino de língua materna e estrangeira as crenças os valores e a questão do processo de construção de identidades em contextos institucionais variados entre outros aspectos O ponto importante a ser ressaltado aqui é que a língua sob a perspectiva da LA é tomada em seu aspecto pragmático e interacional centrada no uso do código e não no código em si o que implica pensar segundo Moita Lopes 199852 nas práticas de uso da linguagem em tempos lugares sociedades e culturas específicas relações antes consideradas extralinguísticas e portanto fora do escopo das ciências lingüísticas Na seção que segue trataremos das definições e concepções de língua e gramática e das implicações das referidas perspectivas e abordagens em relação ao ensino Concepções de linguagem O primeiro desafio a ser superado na abordagem do binômio linguísticaensino é o de se chegar à resposta da seguinte pergunta A partir de que concepção de linguagem serão tratadas as questões lingüísticas Conforme Geraldi 1997 esse é um ponto crucial e fundamental para a outra indagação que deve se constituir na reflexão maior dos docentes da área de letras Para que os alunos aprendem o que aprendem nas salas de aula de língua Conforme vimos ao longo da unidade Abordagens Lingüísticas há diversas e contrastivas ou complementares formas de pensar e compreender o fenômeno lingüístico cada qual com sua validade e contribuição para o maior conhecimento dessa entidade tão complexa Ocorre que ao fazermos opção por uma dessas maneiras de tratamento estamos fazendo muito mais do que somente a eleição de uma perspectiva de abordagem Automaticamente estamos aderindo a determinadas práticas e metodologias a um aparato teórico específico e a objetos de análise mais ou menos definidos Assim ao adotarmos um enfoque estruturalista que vê a língua como um sistema virtual abstrato apartado das influências das condições interacionais ou um enfoque gerativista para o qual a gramática das línguas é um processo mental e inato fundado num conjunto de princípios universais estamos na verdade assumindo uma concepção formalista de linguagem Lidar com o fenômeno lingüístico nessa perspectiva é tratálo de modo abstrato considerandoo objeto único de investigação De acordo com tal perspectiva não importa à análise quem como quando ou para que se faz uso da língua uma vez que o que está no foco da atenção é tão somente a própria estrutura lingüística de certa forma descolada de todas as interferências comunicativas que cercam sua produção e recepção Em termos de ensino assumir uma concepção formalista significa considerar a linguagem uma entidade capaz de encerrar e veicular sentidos por si mesma de expressar o pensamento De modo geral a vertente dos chamados estudos tradicionais incluídos aí os gramaticais situamse nessa perspectiva A perspectiva formalista trata assim de uma concepção antiga e de forte prestígio que concorreu e muito concorre ainda na formação dos docentes de letras As noções de certo e de errado as tarefas de análise lingüística que ficam apenas no âmbito da palavra do sintagma ou da oração a atividade de interpretação de textos como o exercício da procura do verdadeiro sentido ou do que o autor quer dizer são poucos dos muitos exemplos que poderíamos citar de práticas envolvidas nas salas de aula sob a luz da concepção formalista da linguagem Outro contexto em que verificamos numa distinta versão a presença dessa concepção é o tratamento da linguagem como fenômeno de comunicação e expressão com base no consagrado quadro de funções da linguagem proposto por Roman Jakobson um dos mais importantes membros do Círculo Lingüístico de Praga comunidade acadêmica de tendência funcionalista Ocorre que embora para o Círculo a língua fosse concebida como um sistema funcional por conta do caráter de finalidade de propósito comunicativo com que era tratada a atividade lingüística parece ter havido em termos de ensino certa incompreensão dessa proposta com sua redução a um conjunto estruturado das seis funções da linguagem Assim na década de 1970 a influência desse tratamento chegou até a legislação oficial com a fixação do rótulo comunicação e expressão para referência ao ensino de língua materna no âmbito do primeiro grau de então equivalente ao hoje denominado ensino fundamental Por conta da nova tendência os livros didáticos passaram a incluir ao lado da descrição fonéticofonológica e morfossintática da língua portuguesa dos exercícios de leitura de interpretação e de redação um detalhamento dos elementos envolvidos na situação comunicativa emissor receptor código mensagem canal e contexto Com base na centração ou preponderância da atuação de cada um desses elementos foram apresentadas e classificadas as funções da linguagem respectivamente emotiva conativa metalinguística poética fática e referencial Nos dias atuais devido à incompreensão já mencionada por parte de pesquisadores professores autores de livros didáticos e legisladores que reduziu a proposta de Jakobson a um esquema estruturado de seis funções tendemos a compreendêla como de caráter mais formal do que funcional Embora sejam considerados os constituintes da situação comunicativa esses elementos são descritos e tratados fora de contextos reais de interação como entidades ideais prontas a cumprir cada uma seu papel virtual sem maiores problemas ou interferências que possam abalar as condições de comunicação Dessa forma apesar de os funcionalistas do Círculo de Praga terem alargado o foco de tratamento do fenômeno lingüístico os materiais didáticos restringiram as concepções de língua e código formuladas por Jakobson especialmente aos seis constituintes envolvidos na comunicação apenas tratandoos estruturalmente e desvinculados dos aspectos interacionais não superando a concepção formalista da língua Vale ressaltar que a contribuição de Jakobson para os estudos enunciativos se insere no campo daquilo que ele considera a necessidade de revisão da hipótese monolítica da linguagem e o reconhecimento e da interdependência no interior de uma mesma língua Machado 2001 52 Nos materiais didáticos de ensino de língua geralmente o denominado livro do professor manual que traz as respostas aos exercícios do livro correspondente do aluno ou o conjunto de orientações didáticas para utilização do livro didático ilustra também a concepção formalista da linguagem como instrumento de comunicação Tratase de um material que em geral propõe uma série de instruções para o procedimento do professor desconsiderando maiores especificidades envolvidas na questão do ensinoaprendizagem como a região onde se localiza a escola o perfil do aluno e do professor as condições históricoculturais que cercam e marcam a experiência com a linguagem entre muitas outras A outra vertente de concepção da linguagem que contrasta com a que acabamos de apresentar é a que podemos chamar em termos gerais de concepção funcional e pragmática O que a marca é a visão do fenômeno lingüístico como produto e processo da interação humana da atividade sociocultural Segundo tal concepção os sentidos veiculados pelas estruturas da língua têm relação motivada o que significa que estas são moldadas em termos daqueles De modo geral podemos dizer que do capítulo Sociolinguística ao capítulo Lingüística textual encontramos uma concepção funcional em que se destaca a questão do uso da linguagem como resultante das condições intra e extralinguísticas de sua produção e recepção No âmbito da sociolinguística por exemplo as formas da língua são vistas como portadoras de marcas resultantes da interferência de fatores sociais como escolaridade localidade sexo profissão entre outros Nesse tipo de abordagem entendemse os diversos usos lingüísticos como contextos reveladores da pluralidade e diversidade de lugares sociais ocupados pelos membros de uma comunidade A influência da abordagem sociolinguística também chamada variacionista no ensino de língua materna no Brasil tem história recente e mais efetiva em termos gerais a partir da última década do século xx Há inúmeras publicações na área em torno da sociolinguística na sala de aula tratando dos aspectos que dizem respeito às variações no uso da língua e sua relação direta com o ensino Quando as aulas de português se voltam para a observação e análise de distintos e específicos usos lingüísticos como as gírias os jargões profissionais as marcas dialetais das diversas regiões brasileiras entre outras manifestações relacionando esses usos com os fatores sociais que cercam os grupos que assim se expressam assumese uma forma específica de concepção funcional de linguagem Uma das grandes contribuições da abordagem variacionista para o ensino de língua foi a possibilidade efetiva de se superar o tratamento estigmatizado dos usos lingüísticos por intermédio da consideração de que todas as expressões têm sua legitimação e motivação justificadas pela multiplicidade de fatores intervenientes do âmbito social Com base nessa perspectiva a chamada norma culta ou língua padrão passa a ser vista como mais uma variante de uso uma forma de expressão tão eficiente como todas as outras que circulam na comunidade lingüística que assume a posição de forma modelar e exemplar do bom uso idiomático mais por razões extralinguísticas ligadas à situação de prestígio social político cultural financeiro por exemplo do grupo que a detém Assim a norma culta passa a ser entendida como uma entre outras tantas possíveis marca de status social seu domínio é entendido como o aprendizado de uma prática necessária à ocupação dos postos de prestígio uma ferramenta capaz de concorrer para a ascensão a lugares de maior visibilidade e mérito social Outra contribuição efetiva da abordagem variacionista está relacionada com a formação de professores notadamente os de língua materna Por intermédio das contribuições da abordagem sociolinguística pode o professor iniciar seu trabalho a partir dos usos de seus alunos incorporando e valorizando essa expressão em suas aulas Não nos esqueçamos de que nos dias atuais com a democratização do ensino em nível nacional as chamadas classes populares têm acesso à escolarização e esses grupos expressamse por marcas lingüísticas específicas muitas vezes distantes e distintas da chamada norma culta da língua mas nem por isso menos eficientes ou linguisticamente inferiores Portanto cabe à escola munirse de instrumental teórico e metodológico eficiente para lidar com esses novos alunos cidadãos brasileiros com direito a uma educação de qualidade Nesse sentido uma das primeiras tarefas da escola é a consideração dos usos lingüísticos desses alunos como formas genuínas de expressão da língua portuguesa convenientes e adequadas à sua inserção social A partir da experiência educacional deverão ser apresentadas as demais variantes sociolinguísticas do português dentre as quais se destaca como forma prestigiada de expressão a norma culta em sua modalidade falada e escrita que cabe também à escola trabalhar considerando sempre o caráter político e ideológico que recobre essa questão Infelizmente os manuais didáticos embora já apresentem a preocupação em apontar para os diferentes usos da língua o fazem em geral de forma desvinculada das situações reais de comunicação isto é desconsiderando as relações entre língua e homem e entre este e seu meio social O material didático disponível no mercado em geral ainda mantém a visão uniforme e homogênea da língua seja na forma de concebêla seja no modo com que elabora os enunciados e estrutura as unidades As denominadas correntes funcionalistas apresentadas a partir do capítulo Sociolinguística inseremse como o próprio nome indica nessa concepção funcional mais ampla Dois pressupostos básicos orientadores da abordagem funcionalista podem ser considerados valiosos para a atividade de ensino de língua a os usos lingüísticos são forjados e organizados nos contextos de interação nas situações comunicativas e a partir daí se sistematizam para formar as rotinas ou padrões convencionais de expressão b as funções desempenhadas pela língua são motivadas por fatores externos e é possível em alguns níveis de análise como o textual e o morfossintático se chegar à depreensão dessas funções Desse aparato teórico destacamos como subsídio ao ensino de língua a concepção de gramática entendida nesse contexto como o conjunto de regularidades fixadas e definidas pela comunidade lingüística como as formas ritualizadas de uso ou seja aquelas que se tornam rotineiras e se constituem como valor de troca e interação entre os usuários Assim quando no trato dos conteúdos gramaticais a escola privilegiar as questões mais regulares as expressões de maior freqüência ou debruçarse sobre uma investigação de categorias que passa do que é mais sistemático e geral para posteriormente lidar com as chamadas exceções ela estará efetivamente trabalhando com base num enfoque funcionalista Em termos de avaliação esse entendimento de gramática pode responder satisfatoriamente a algumas questões sobre as quais refletem hoje os professores de língua tais como a O que é saber gramática b Para que conhecer e sistematizar os conteúdos gramaticais c Como se verifica ou se avalia a aprendizagem de uma categoria gramati cal pelo conhecimento de seus representantes mais gerais ou dos casos raros as exceções Como a abordagem funcionalista tem seu foco de investigação mais amplo tratando não só dos constituintes que se limitam ao período mas chegando à análise da instância textual algumas das questões examinadas por essa abordagem são de interesse para as aulas de língua Nos dias atuais em que o magistério se pergunta como lidar com o texto em sala de aula sem transformálo em pretexto para continuar privilegiando antigas práticas de ensino de conteúdos gramaticais a abordagem funcionalista pode realmente trazer alguma luz a essa indagação Com o advento da pragmática a concepção funcional do ensino de língua enriquecese pela incorporação na investigação do fenômeno lingüístico de elementos constitutivos dos contextos externos de produção e de recepção da linguagem sob o ponto de vista da interação entre as pessoas Ganham destaque os modos de dizer as intenções conscientes ou não comunicativas as informações implícitas a eficácia do ato de fala isto é as condições de felicidade desse ato enfim privilegiase o contexto extralinguístico e o ponto de vista do usuário da língua para se atingir os sentidos veiculados pelo texto Da abordagem pragmática podemos citar algumas contribuições relevantes para o ensinoaprendizagem de língua como a os estudos sobre modalização que focam não especificamente os conteúdos veiculados mas os modos de produção e de organização do dizer b a investigação das formas de comportamento e expressão de sentimentos calcadas na teoria da polidez de acordo com a cultura de cada comunidade c a relevância do caráter interacional da linguagem da necessária e previsível presença do outro do interlocutor a quem se dirige qualquer mensagem veiculada em versão falada ou escrita À luz dessas perspectivas o professor passa a ser visto e também a agir como um mediador da tarefa de ensinoaprendizagem deixando o lugar de centro de primazia sobre um saber preconcebido uma vez que assim como o saber é coconstruído as relações humanas também o são seja em que âmbito ocorram Numa perspectiva marcadamente interacional como é hoje concebida e proposta a tarefa de ensino de língua a abordagem funcionalpragmática tem muito a contribuir na formação dos professores na conscientização do deslocamento de seu papel que passa a ser o de intermediário da experiência com o uso lingüístico Notemos que não se trata da diminuição ou do desprestígio da tarefa de docência mas da mudança na centração do grau e da amplitude dessa ação que passa a recair no conjunto dos elementos envolvidos na atividade interacional da qual faz parte o professor como um interlocutor privilegiado um mediador mais experiente que irá concorrer para que seus alunos usem efetiva e eficientemente os recursos lingüísticos a fim de produzirem e receberem textos com competência Mas como afirmamos no início deste capítulo se as concepções de língua e gramática se alteraram em função das novas abordagens e perspectivas adotadas em relação ao conhecimento teórico estendendose para as noções de uso e interação cabe também ao professor assumir o papel que de fato lhe diz respeito O professor é leitorcoprodutor de saberes estudando e pesquisando atualizandose nas novas pesquisas que envolvem o seu trabalho a fim de optar por concepções de língua e gramática afinadas teórica e metodologicamente com os avanços científicos produzidos para assim desenvolver práticas de ensino transformadoras As dimensões social funcional interacional e pragmática incorporadas à noção de língua possibilitam a inclusão da noção de sujeito Não se trata do sujeito teórico mas de um sujeito real inserido em situações concretas com papéis sociais múltiplos e diversificados sobretudo aqueles pertencentes às sociedades urbanas e industrializadas e em constante processo de adaptação e readaptação Assumir uma perspectiva teóricometodológica implica assumir crenças e valores a ela vinculados Tais crenças e valores estão relacionados à questão de apropriação de conhecimento e à forma com que essa apropriação é realizada No tocante à aquisição do conhecimento é imprescindível lembrar que se estamos reivindicando uma prática democrática de ensino com uma perspectiva de língua distante do conceito de homogeneidade e idealização do modelo lingüístico é preciso ressaltar a importância do modo como tais práticas são apropriadas e incorporadas pelos alunos de diferentes classes sociais E preciso haver espaço possível para a circulação de formas plurais de conhecimento e consequentemente de linguagem e de tantas competências pragmáticodiscursivas para quantas manifestações de comunicação e expressão houver Como propõe Orlandi 1993 93 Dessa maneira considero que se deva de um lado reivindicar politicamente o direito de acesso ao conhecimento legítimo e de outro estabelecer condições para que se elaborem outras formas de saber que não sejam a mera reprodução do conhecimento dominante Já que as diferentes formas de saber têm funções sociais distintas e que derivam sua diferença dos antagonismos das classes Exercícios 1 Para responder à questão que se segue consulte um livro didático de sua escolha Observe o modo como as unidades são apresentadas em termos da concepção sobre o trabalho de texto interpretação língua gramática e redação Caso o livro seja assim concebido ou não há obras em que essa divisão pode estar implícita detenhase particularmente na seção referente aos aspectos gramaticais da língua Comente a respeito do modo como o autor do livro didático entende o fenômeno gramatical ou melhor como ele concebe o ensino de língua justificando seus comentários com base em cada um dos tópicos citados a seguir a Os manuais tradicionais mesmo os mais recentes descrevem somente a língua escrita e deixam de lado a língua falada ou confundem os dois códigos b Os manuais tradicionais com freqüência detêmse longamente em pontos secundários abordando em particular o domínio da ortografia mas negligenciam construções importantes c Os manuais tradicionais apresentam definições regras explicações mais freqüentemente de caráter lógicosemântico insuficientemente explícitas ou mesmo equivocadas e portanto pouco úteis ou perigosas d Os manuais tradicionais apresentam definições e explicações que são muitas vezes incoerentes por se referirem a critérios de ordens diversas e Os manuais tradicionais são caracterizados por uma fragmentação e uma dispersão nocivas das informações gramaticais Roulet Teorias lingüísticas gramaticais e ensino de línguas 1972 2 Levando em conta os tipos de concepção sobre o ensino de língua já estudados como você caracterizaria a concepção proposta nos Parâmetros Curriculares Nacionais do ensino médio para o ensino da língua materna Leia o que os Parâmetros Curriculares Nacionais definem como as competências a serem desenvolvidas em língua portuguesa no que tange à representação e informação a Considerar a língua portuguesa como fonte de legitimação de acordos e condutas sociais e como representação simbólica de experiências humanas manifestas nas formas de sentir pensar e agir na vida social b Analisar os recursos expressivos da linguagem relacionando textoscontextos mediante a natureza função organização estrutura de acordo com as condições de produçãorecepção intenção época local interlocutores participantes da criação e propagação de idéias e escolhas c Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes manifestações da linguagem verbal d Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade Parâmetros Nacionais Curriculares ensino médio Linguagens códigos e suas tecnologias Ministério da Educação Brasília Ministério da educaçãosecretaria de educação Média e Tecnológica 1999 29 Bibliografia ALKMIN Tânia Sociolinguística Parte i In MUSSALIM F BENTES A C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 pp 2147 Volume 1 ALMEIDA Guido Resgatando a contribuição da sociolinguística laboviana DELTA v 5 São Paulo Educ 1 9 8 9 p p 7 1 9 9 AUSTIN J L Quando dizer éfazer palavras e ações Porto Alegre Artes Médicas 1990 BAGNO Marcos GAGNÉ Gilles STUBBS Michael Língua materna letramento variação e ensino São Paulo Parábola 2002 BALIEIRO JR Ari Pedro Psicolinguística In MUSSALIM F BENTES A C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 Volume 2 BATORÉO Hanna Jakubowicz Expressão do espaço no português europeu contributo psicolinguístcio para o estudo da linguagem e cognição Coimbra Fundação Calouste Gulbenkian Fundação para a Ciência e a Tecnologia 2000 BEAUGRANDE R 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contemporânea São Paulo Cultrix 1979 LOURENÇOGOMES M C MAIA M MORAES J Prosódia implícita na leitura silenciosa um estudo com orações relativas estruturalmente ambíguas In MAIA M FINGER I orgs Processamento da linguagem Peklotas Educar 2005 LYONS John Introdução à lingüística teórica São Paulo NacionalUniversidade de São Paulo 1979 Linguagem e lingüística uma introdução Rio de Janeiro Guanabara Koogan 1987 MACHADO Irene A Comunicação e estudos enunciativos a contribuição de Roman Jakobson In BRAIT Beth org Estudos enunciativos no Brasil histórias e perspectivas CampinasSão Paulo PontesFapesp 2001 pp 87106 MAIA M The Comprehension of Object Anaphora in Brazilian Portuguese Califórnia 1994 Tese Doutorado University of Southern Califórnia A compreensão da anáfora objeto em português brasileiro Palavra v 4 pp 5876 1997 FINGER I orgs Processamento da linguagem Pelotas Educat 2005 MAIA J A compreensão de orações relativas por falantes monolíngues e bilingües de português e de inglês In MAIA M FINGER I orgs Processamento da linguagem Pelotas Educat 2005 MAIA M et al O processamento de concatenações sintáticas em três tipos de estruturas frasais ambíguas em português In MALMBERG Bertil As novas tendências da lingüística uma orientação à lingüística moderna 2 ed São Paulo Companhia Editora Nacional 1974 MARCONDES Danilo Filosofia linguagem e comunicação São Paulo Cortez 1992 MARCUSCHI Luiz Antonio Análise da conversação São Paulo Ática 1991 MARTELOTTA Mário E VOTRE Sebastião J CEZARIO Maria Maura Gramaticalização no português do Brasil uma abordagem funcional Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1996 Funcionalismo e cognição In FURTADO DA CUNHA Maria Angélica Lingüística funcional a interface linguagem e ensino Natal EDUFRN 2006 MARTINET André A lingüística sincrônica Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1974 Elementos de lingüística geral Rio de Janeiro Martins Fontes 1978 Função e dinâmica das línguas Coimbra Almeina 1995 MARTINS Helena Sobre linguagem e pensamento no paradigma 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Maria Luiza Introdução à sociolinguística o tratamento da variação São Paulo Contexto 2003 org Introdução à sociolinguística variacionista Rio de Janeiro UFRJ 1996 Cadernos didáticos Influência da fala na alfabetização Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1998 PAIVA Maria da Conceição de Condicionamentos sociais na alternância das líquidas na fala carioca Rio de Janeiro 1987 Mimeo MONTEIRO José Lemos Para compreender Labov Petrópolis Vozes 2 0 0 0 MOUNIN Georges A lingüística do século XX PortugalBrasil Editorial PresençaMartins Fontes 1972 MUSSALIM F BENTES AC orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2 0 0 1 NAME M C L Habilidades perceptuais e lingüísticas na identificação do sistema gênero no português Tese Doutorado Rio de Janeiro PUCRÍO 2002 NEGRÃO E SCHER A VIOTTI E A competência lingüística In FIORIN J L org Introdução à lingüística São Paulo Contexto 2002 v 1 Sintaxe explorando a estrutura da sentença In FIORIN L org Introdução à lingüística São Paulo Contexto 2003 v 2 NEVES Maria Helena de Moura A gramática funcional São Paulo Martins Fontes 1997 Gramática de usos do português São Paulo Unesp 2000 NEWMAYER Frederick J The opposition to autonomus linguistics The Politics of Linguistics Chicago The University of Chicago Press 1986 pp 99126 NÔTH Winfried Panorama da semiótica de Platão a Peirce São Paulo Annablume 1998 OLIVEIRA Maria do Carmo Leite Polidez uma estratégia de dissimulação Análise de cartas de pedido em empresas brasileiras Rio de Janeiro 1992 Tese Doutorado em Lingüística Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro OLIVEIRA Mariângela Rios de Repetição em diálogos análise funcional da conversação Niterói EDUPF 1 9 9 8 COELHO Victoria Lingüística funcional aplicada ao ensino do português In CUNHA M A F OLIVEIRA M R MARTELOTTA M E orgs Lingüística funcional teoria e prática Rio de Janeiro DPAFaperj 2 0 0 3 OLIVEIRA E SILVA Giselle M de VOTRE Sebastião J Estudos sociolinguísticos no Rio de JaneiroTLEDA DELTA 7 São Paulo Educ 1991 pp 3 5 7 7 6 SCHERRE Maria Marta Pereira Padrões sociolinguísticos Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1996 ORLANDI Eni Discurso e leitura São Paulo Cortez 1993 ORTIZ K Z org Distúrbios neurológicos adquiridos Barueri Manole 2005 PAPI Marcella Bertuccelli Que és la pragmática Barcelona Paidós 1996 PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS Língua portuguesa Secretaria de Educação fundamental Rio de Janeiro DPA 2 0 0 0 PAREDES DA SILVA V L P Cartas cariocas a variação do pronome na escrita informal Rio de Janeiro 1 9 8 8 Tese Doutorado em Lingüística Universidade Federal do Rio de Janeiro PAVEAU MarieAnne SARFATI Georges Élia As grandes teorias da lingüística da gramática comparada À pragmática São Carlos Claraluz 2006 PEDERSEN Holger LinguisticScinceintheNineteenth Century methods andresults Cambridge HarvardUniversity Press 1 9 3 1 PEIRCE Charles S Semiótica São Paulo Perspectiva 1999 PIAGET J A formação do símbolo na criança imitação jogo e sonho imagem e representação Rio de Janeiro Zahar 1978a A psicogênese dos conhecimentos e seu signficado epistemológico In PIATELLIPALMARINI org Teorias da linguagem teorias da aprendizagem o debate entre Jean Piaget e Noam Chomsky Rio de Janeiro Zahar 1978b INHELDER B A psicologia da criança Rio de Janeiro Bertrand Basil 1990 PIETROFORTE Antonio V A língua como objeto da lingüística In FIORIN J L org Introdução à lingüística São Paulo Contexto 2002 pp7594 Volume PINKER Steven O instinto da linguagem como a mente cria a linguagem São Paulo Martins Fontes 2002 PINTO Joana Plaza Pragmática In MUSSALIM Fernanda BENTES Anna C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 Volume 2 RADFORD A Syntactic Theory and the Acquisition ofEnglish Syntax Oxford Blackwell Publishers 1993 RAPOSO Eduardo Paiva Teoria da gramática a faculdade da linguagem Lisboa Caminho 1992 RIBEIRO A Um caso de não aplicação preferencial do princípio de late closure Rio de Janeiro 1998 Manuscrito Late closure em parsing no português do Brasil In MAIA M FINGER I orgs Processamento da linguagem Pelotas Educat 2005 Rios de OLIVEIRA Mariângela Repetição em diálogos análise funcional da conversação Niterói EDUFF 1998 Risso Mercedes Aspectos textuaisinterativos dos marcadores discursivos de abertura bom bem olha ah no português culto falado In NEVES M H org Gramática do português falado São PauloCampinas HumanitasFFLCH uspUnicamp 1999 pp 25996 Volume 7 Novos estudos ROBINS R H Pequena história da lingüística Rio de Janeiro Ao Livro Técnico 1983 Rocco M T Oral e escrito secções e intersecções Leitura teoria e prática n 14 Porto Alegre Mercado Aberto 1989 pp 2431 ROCHA LIMA Carlos Henrique da Gramática normativa da língua portuguesa Rio de Janeiro José Olympio 1976 ROMAINE Suzanne SocioHistorical Linguistics its status and methodology Cambridge Cambridge University Press 1982 RONCARATI Cláudia ABRAÇADO Jussara orgs Português brasileiro contato lingüístico heterogeneidade e história Rio de Janeiro 7Letras 2003 ROULET Eddy Teorias lingüísticas gramáticas e ensino de línguas São Paulo Pioneira 1972 Roxo Maria do Rosário WILSON Victoria Entretextos leitura e produção de textos em língua portuguesa São Paulo Moderna 1995 Caderno do professor SABINO Fernando A mulher do vizinho Rio de JaneiroSão Paulo Record 1962 SACKS H SCHEGLOFF E JEFFERSON G A simplest systematics for the organization of turntaking for conversation Language n 50 1974 pp 696735 SALOMÃO Maria Margarida Martins A questão da construção do sentido e a revisão da agenda dos estudos da linguagem Veredas Revista de Estudos Lingüísticos nlv 3 janjun 1999 pp 6374 Gramática das construções a questão da integração entre sintaxe e léxico Veredas Revista de Estudos Lingüísticos nl v 6 janjun 2002 pp 6374 SANDALO F Morfologia In MUSSALIM Fernanda BENTES Anna C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 Volume 1 SANKOFF Gillian e BROWN Penélope The origins of syntax in discourse a case study ofTok Pisin relatives Language v 52 n 3 set 1976 pp 631666 SANTOS R A aquisição da linguagem In FIORIN J L org Lntrodução à lingüística i São Paulo Contexto 2002 SANTOS Leonor Werneck dos A articulação textual na literatura infantil e juvenil Rio de Janeiro Lucerna 2003 SAUSSURE Ferdinand de Curso de lingüística geral São Paulo Cultrix 1 9 7 5 SCARPA E M Aquisição da linguagem In MUSSALIM Fernanda BENTES Anna C orgs Introdução à lingüística domínios e fronteiras São Paulo Cortez 2001 Volume 2 SCHIFFRIN Deborah Approaches to Discourse OxfordCambridge Blackwell 1994 SCLIARCABRAL Leonor Introdução à psicolinguística São Paulo Ática 1991 SEARLE John R A classification of illocutioanry acts Language in Society n 5 Londres Cambridge University Press 1976 pp 123 Os actos de fala Coimbra Almedina 1984 SIGNORINI Inês CAVALCANTI Marilda orgs Lingüística aplicada e transdisciplinaridade questões e perspectivas Campinas Mercado de Letras 1996 SILVA Thais Cristóíãro Fonética efbnologia do português roteiro de estudos e guia de exercícios São Paulo Contexto 1999 SKINNER B F O comportamento verbal São Paulo Cultrix 1978 SLOBIN Dan Isaac Psicolinguística São Paulo NacionalEdusp 1980 SOARES S S Aquisição deflexão verbal no português como primeira língua hipótese maturacional x continuidade Rio de Janeiro 2001 Mimeo SPERLING G The information available in brief visual presentations PsychologicalMonographs general and applied 74 11 1960 pp 130 TAYLOR John Linguistic categorization prototypes in linguistic theory Oxford Clarendon Press 1995 TARALLO Fernando A pesquisa sociolinguística São Paulo Ática 1986 A estrutura na variação do falanteouvinte ideal ao falante ouvinte real DELTA n 5 São Paulo Educ 1990a pp 195222 Tempos lingüísticos itinerário histórico da língua portuguesa São Paulo Ática 1990b Debate a Oliveira e Silva e Votre DELTA n 7 São Paulo Educ 1991 pp 37793 TOMASELLO Michael ed The new psychohgie of language cognitive and functional approaches to language structures New JerseyLondon Lawrence Erlbaun Associates Publishers 1998 v 1 The cultural origins of human cognition Cambridge London Harvard University Press 1999 ed The new psychologie of language cognitive and functional approaches to langtiage structures Newjersey London Lawrence Erlbaun Associates Publishers 2003 Volume 2 Origens culturais do conhecimento humano São Paulo Martins Fontes 2003 TRAUGOTT Elizabeth Closs ADSHER Richard B Regularity in semantic change Cambridge Cambridge University Press 2005 TRAVAGLIA Luiz Carlos KOCH Ingedore Villaça A coerência textual São Paulo Cultrix 1992 TRUDGILL Peter Sociolinguistics an introduction Great Britain Penguin Books 1974 ULLMANN Stephen Semântica uma introdução à ciência do significado Lisboa Fundação Calouste Gulbebkian 1964 UNGERER Friedrich SCHMID HansJõrg An introduction to cognitive linguistics LondonNew York Longman 1996 URBANO Hunilson Marcadores conversacionais In PRETI Dino Análise de textos orais São Paulo FFLCHUSP 1993 pp 81101 VXN DIJK T A Macrospeech acts Text and context London Longman 1977 pp 23242 VERÍSSIMO L F Seleção de crônicas do livro Comédia da vida privada Porro Alegre LPM 1 9 9 6 VOTRE Sebastião Josué Lingüística e educação ou por uma teoria da atividade linguageira em sala de aula In PASSEGI L OLIVEIRA M do S orgs Lingüística e educação gramática discurso ensino São Paulo Terceira Margem 2001 pp 954 CEZARIO MariaMauraMARTELOTIA MárioE Gramaticalização RiodeJaneiro FaculdadedeLetras UFRJ 2004 OLIVEIRA M R Corpus Discurso Gramática a língua falada e escrita na cidade de Niterói Niterói 1998 Inédito VYGOTSKY L S A formação social da mente o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores São Paulo Martins Fontes 1996a Pensamento e linguagem São Paulo Martins Fontes 1996b WERNER Heinz KAPLAN Bernard Symbolformation an organismic developmental approach to language and the expression of thought New YorkLondonSidney Wiley 1963 WENREICH U LABOV W HERZOG M Empirical foundations for a theory in language change In LEHMANN W P MALKIEL Yakov eds Directionsfor historicallinguistics Austin University ofTexas Press 1968 pp 95188 WILSON Victoria MARTELOTTA Mário Eduardo CEZARIO Maria Maura Lingüística fundamentos 1 ed Rio de Janeiro CCAA 2006 YULE George Pragmatics Oxford Oxford University Press 1996 O organizador Mário Eduardo Martelotta Doutor em Lingüística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ e professor dessa disciplina na mesma universidade Coordenador geral do Grupo de Estudos Discurso Gramática Membro do Projeto para a história do português brasileiro é organizador e coautor de diversos livros de destaque na área Os autores Angélica Furtado da Cunha Doutora em Lingüística pela UFRJ e professora dessa disciplina na Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN Tem dois pósdoutorados nos Estados Unidos com a orientação de Sandra Thompson Coordenadora do Grupo de Estudos Discurso Gramática da UFRN É organizadora de livros na área Eduardo Kenedy Mestre e doutorando em Lingüística pela UFRJ E professor de Língua Portuguesa da UERJ atuando no curso de Letras da Faculdade de Formação de Professores em São Gonçalo RJ Mariangela Rios de Oliveira Doutora em Letras VernáculasLíngua Portuguesa pela UFRJ e professora dessa disciplina na Universidade Federal Fluminense UFF Coordenadora do Grupo de Estudos Discurso Gramática e do Programa de PósGraduação em Letras da UFF Autora e organizadora de livros e revistas científicas na área Maria Maura Cezario Doutora em Lingüística pela UFRJ e professora dessa disciplina também na mesma universidade Atual Chefe do Departamento de Lingüística e Filologia e coordenadora do Grupo de Estudos Discurso Gramática E organizadora e coautora de importantes obras na área Márcio Martins Leitão Doutor em Lingüística pela UFRJ Membro do grupo de pesquisa Laboratório de Psicolinguística Experimental Lapex da UFRJcNPq Professor da Universidade Federal da Paraíba UFPB Tem trabalhos publicados também na área de lingüística histórica e lingüística funcional Marcos Antonio Costa Doutor em Lingüística pela UFRJ e professor dessa disciplina na UFRN Desenvolve atualmente pesquisa em torno de aspectos semânticopragmáticos relacionados a diferentes processos de referenciação Autor de capítulos e artigos diversos na área da morfossintaxe da língua portuguesa Roza Palomanes Mestra e doutoranda em Lingüística pela UFRJ Possui especialização em Língua Portuguesa e ensino de língua materna pela UERJ além de contar com 22 anos de experiência na rede pública de ensino Atualmente trabalha em uma escola municipal onde vem desenvolvendo projetos voltados para a prática da leitura e escrita dois deles contemplados com indicações para publicação pelo Prêmio Anísio Teixeira de 2005 e 2006 Além dessas publicações é autora de vários artigos em revistas eletrônicas e coautora de artigos publicados em revistas científicas de sua área de atuação Victoria Wilson Doutora em Lingüística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professora dessa disciplina na Faculdade de Formação de Professores da UERJ Autora e coautora de artigos e livros na sua área de atuação funcionalismo A última en cerra a obra com tópicos sobre aquisição da linguagem psico linguística experimental e ensi no Ao final de cada capítulo há uma série de exercícios de fixação especialmente elaborados para este livro Escrita por uma equipe de professores todos especialistas nos assuntos sobre os quais escre veram com grande experiência no ensino esta obra estimula o leitor a refletir sobre a natureza e o funcionamento da linguagem Atende alunos e professores nas salas de aula de lingüística e de língua portuguesa em cursos de graduação em letras e em ou tras áreas como fonoaudiologia e comunicação social Manual de lingüística Este Manual de lingüística pensado e elaborado cuidadosamente para alunos de letras lingüística e áreas afins fornece meios eficazes para a difícil tarefa de introduzir informações sobre uma ciência inteiramente desconhecida para a maioria dos estudantes brasileiros que ingressam em uma universidade Estruturada em um único volume a obra apresenta princípios e conceitos básicos de várias correntes da lingüística moderna concilia informações de caráter tradicional dialoga com outros manuais e aponta tendências Além disso estimula o leitor a navegar nos rumos do funcionamento da linguagem através de uma abordagem instigante editora contexto Promovendo a Circulação do Saber ISBN 9788572443869 EXPLICAÇÃO DO PARÁGRAFO Existem diversas formas de compreender a linguagem porque ela é um meio de comunicação que decorre por interações sociais e também auxilia na aprendizagem do homem Além disso a linguagem se torna complexa por ser multifacetada e por se constituir em um sistema de signos cada o qual estabelece uma determinada função A linguagem não se trata em apenas comunicação diário mas em textos verbais e não verbais na morfologia nos sons fonética etc Em resumo é um assunto bem amplo EXPLICAÇÃO DO PARÁGRAFO O enfoque estruturalista vê a língua como um conjunto de regras e estruturas No entanto a língua não é limitada em regras gramaticais pois envolve relações de sentido e contextos de uso A língua é dinâmica e autônoma sendo utilizada na prática tanto que quando falamos não pensamos em tais regras gramaticais o abstrato deixamos a comunicação leve e natural respeitando a entidade cultural Então a língua pode ser estudada em diversas formas EXPLICAÇÃO DO PARÁGRAFO A concepção formalista nos diz respeito de que a linguagem é uma entidade que contém e transmite significados e pensamentos por si só

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