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Quarto de despejo Diário de uma favela CAROLINA MARIA DE JESUS sinal aberto ea editora ática Dos livros de Naluas Quarto de despejo Diário de um Favelada Carolina Maria de Jesus 1992 GERENTE editorial Paulo Nascimento Verano editora assistente FabianeZorn COORDENADORA de revisão Ivany Picasso Batista apoio de redação Pólen Editorial e Kelly Mayumi Ishida preparação Renato Nicolai revisão Bárbara Borges ARTE projeto gráfico Tecnopop EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Tecnopop coordenadora de arte Soraia Scarpa assistente de arte Thatiana Kalaes capa Vinícius Rossignol Felipe CIPBRASIL CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS RJ l56q 10 ed Jesus Carolina Maria de 19141977 Quarto de despejo diário de uma favelada Carolina Maria de Jesus 10 ed São Paulo Ática 2014 200p il Inclui apêndice e bibliografia ISBN 9788508171279 1 Romance brasileiro I Felipe Vinícius Rossignol II Título 1416424 CDD 86993 CDU82113438l3 ISBN 978 85 08 171279 aluno ISBN 978 85 08 171286 professor Código da obra CL 738861 CAE 530921 AL CAE 530922 PR 2016 10edição 4ª impressão Impressão e acabamento Edições Loyola Todos os direitos reservados pela Editora Ática 1993 Avenida das Nações Unidas 7221 CEP 05425902 São Paulo SP Atendimento ao cliente 40033061 atendimentoaticacombr wwwaticacombr IMPORTANTE Ao comprar um livro você remunera e reconhece o trabalho do autor e o de muitos outros profissionais envolvidos na produção editorial e na comercialização das obras editores revisores diagramadores ilustradores gráficos divulgadores distribuidores livreiros entre outros Ajudenos a combater a copia ilegal Ela gera desemprego prejudica a difusão da cultura e encarece os livros que você compra Carolina Maria de Jesus Quarto de Despejo Diário de Uma Favelada Editora Ática Nota dos Editores Esta edição respeita fielmente a linguagem da autora que muitas vezes contraria a gramática incluindo a grafia e acentuação das palavras mas que por isto mesmo traduz com realismo a forma de o povo enxergar e expressar seu mundo Apresentação Favela o quarto de despejo de uma cidade O cotidiano da favela já foi contado por diversos autores de diferentes maneiras Neste livro a perspectiva é outra é a de quem vive na favela mais especificamente a de uma catadora de papel que só pôde chegar até o segundo ano do ensino fundamental Quarto de despejo é uma edição dos diários de Carolina Maria de Jesus migrante de Sacramento Minas Gerais mãe solteira e moradora da primeira grande favela de São Paulo a Canindé que foi desocupada em meados dos anos 1960 para a construção da Marginal do Tietê O livro relata a amarga realidade dos favelados na década de 1950 os costumes de seus habitantes a violência a miséria a fome e as dificuldades para se obter comida O tempo passou a cidade cresceu mas a realidade de quem vive na miséria não mudou muito Isso faz do relato de Carolina uma obra atemporal sempre emocionante Bestseller traduzido para 13 línguas Quarto de despejo também é um referencial importante para estudos culturais e sociais tanto no Brasil como no exterior Conheça a história do descobrimento deste livro no prefácio a seguir escrito pelo jornalista Audálio Dantas Ao final do livro veja o depoimento de Carolina sobre a sua luta pela sobrevivência e sobre o seu ponto de vista em relação ao sucesso desta obra Para os leitores desta edição de Quarto de despejo é preciso que eu me apresente Entrei na história deste livro como jornalista verde ainda com a emoção e a certeza de quem acreditava poder mudar o mundo Ou pelo menos a favela do Canindé e outras favelas espalhadas pelo Brasil Repórter fui encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê no bairro do Canindé Lá no rebuliço favelado encontrei a negra Carolina que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer E tinha Tanto que na hora desisti de escrever a reportagem A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco Li e logo vi repórter nenhum escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história a visão de dentro da favela Da reportagem reprodução de trechos do diário publicada na Folha da Noite em 1958 e mais tarde 11959 na revista O Cruzeiro chegouse ao livro em 196O Fui o responsável pelo que se chama edição de texto Li todos aqueles vinte cadernos que continham o diaadia de Carolina e de seus companheiros de triste viagem A repetição da rotina favelada por mais fiel que fosse seria exaustiva Por isso foram feitos cortes selecionados os trechos mais significativos A fome aparece no texto com uma freqüência irritante Personagem trágica inarredável Tão grande e tão marcante que adquire cor na narrativa tragicamente poética de Carolina Em sua rotineira busca da sobrevivência no lixo da cidade ela descobriu que as coisas todas do mundo o céu as árvores as pessoas os bichos ficavam amarelas quando a fome atingia o limite do suportável Carolina viu a cor da fome a Amarela No tratamento que dei ao original muitas vezes por excessiva presença a Amarela saiu de cena mas não de modo a diminuir a sua importância na tragédia favelada Mexi também na pontuação assim como em algumas palavras cuja grafia poderia levar à incompreensão da leitura E foi só até a última linha ESCRITOR NENHUM PODERIA ESCREVER MELHOR AQUELA HISTORIA A VISÃO DE DENTRO DA FAVELA O tempo operou profundas mudanças na vida de Carolina a partir do momento em que os seus escritos registros do diaadia angustiante da miséria favelada foram impressos em letra de fôrma num livro que correu mundo lido discutido e admirado em treze idiomas Um livro assim forte e original só podia gerar muita polêmica Para começar ele rompeu a rotina das magras edições de dois três mil exemplares no Brasil Em poucos meses a partir de agosto de 196O quando foi lançado sucessivas edições atingiram em conjunto as alturas dos 1OO mil exemplares Os jornais as revistas o rádio e a televisão primeiro aqui e depois no mundo inteiro abriram espaço para o livro e para a história de sua autora O sucesso do livro uma tosca acabrunhante e até lírica narrativa do sofrimento do homem relegado à condição mais desesperada e humilhante de vida foi também o sucesso pessoal de sua autora transformada de um dia para outro numa patética Cinderela saída do borralho do lixo para brilhar intensamente sob as luzes da cidade Carolina querendo ou não transformouse em artigo de consumo e em certo sentido num bicho estranho que se exibia como uma excitante curiosidade conforme registrou o escritor Luís Martins Mas acima da excitação dos consumidores fascinados pela novidade pelo inusitado feito daquela negra semianalfabeta que alcançara o estrelato e mais do que isto ganhara dinheiro pairava a força do livro sua importância como depoimento sua autenticidade e sua paradoxal beleza Sobre ele escreveram alguns dos melhores escritores brasileiros Rachel de Queiroz Sérgio Milliet Helena Silveira Manuel Bandeira entre outros O que não impediu que alguns torcessem o nariz para o livro e até lançassem dúvidas sobre a autenticidade do texto de Carolina Aquilo diziam só podia ser obra de um espertalhão um golpe publicitário O poeta Manuel Bandeira em lúcido artigo colocou as coisas no devido lugar ninguém poderia inventar aquela linguagem aquele dizer as coisas com extraordinária força criativa mas típico de quem ficou a meio caminho da instrução primária Exatamente o caso de Carolina que só pôde chegar até o segundo ano de uma escola primária de Sacramento Minas Gerais O impacto causado por Quarto de despejo foi além das discussões sobre o texto O problema da favela na época de dimensões ainda reduzidas em São Paulo foi discutido por técnicos e políticos Um grupo de estudantes fundou o Movimento Universitário de Desfavelamento cuja sigla MUD revelava no mínimo uma intenção generosa Ou um sonho E Carolina era alçada à condição de cidadã com título oficial conferido pela Câmara Municipal de São Paulo O cenário em que foi escrito o diário já não é o mesmo Parte dele deu lugar ao asfalto de uma nova avenida por coincidência chamada Marginal A Marginal do Tietê que passa por ali onde até meados dos anos 6O se erguia o caos semiurbano e subumano da favela do Canindé em São Paulo O resto foi ocupado por construções sólidas ordenadas limpas aprumadas no lugar dos barracos cujos ocupantes foram para outros cantos da cidade para outros quartos de despejo Mais de trinta anos decorridos desde o aparecimento de Quarto de despejo a cidade tem outra cara esparramada para muito além da avenida Marginal E a favela do Canindé onde viveu Carolina Maria de Jesus na rua A barraco n 9 multiplicouse em dezenas centenas de outras Assim Quarto de despejo não é um livro de ontem é de hoje Sua contundente atualidade é dramaticamente demonstrada pelos arrastões que invadiram em 92 as praias da zona sul do Rio de Janeiro Os quartos de despejo multiplicados estão transbordando 15 DE JULHO DE 1955 Aniversário de minha filha Vera Eunice Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela Mas o custo dos generos alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos Atualmente somos escravos do custo de vida Eu achei um par de sapatos no lixo lavei e remendei para ela calçar Eu não tinha um tostão para comprar pão Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo Ele ficou com os litros e deume pão Fui receber o dinheiro do papel Recebi 65 cruzeiros Comprei 20 de carne 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de queijo E o dinheiro acabouse Passei o dia indisposta Percebi que estava resfriada A noite o peito doia me Comecei tussir Resolvi não sair a noite para catar papel Procurei meu filho João José Ele estava na rua Felisberto de Carvalho perto do mercadinho O ônibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiuse Ele estava no núcleo Dei lhe uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa Ablui as crianças aleiteias e abluime e aleiteime Esperei até as 11 horas um certo alguém Ele não veio Tomei um melhorai e deiteime novamente Quando despertei o astro rei deslisava no espaço A minha filha Vera Eunice dizia Vai buscar agua mamãe 16 DE JULHO Levantei Obedeci a Vera Eunice Fui buscar agua Fiz o café Avisei as crianças que não tinha pão Que tomassem café simples e comesse carne com farinha Eu estava indisposta resolvi benzerme Abri a boca duas vezes certifiqueime que estava com mau olhado A indisposição desapareceu sai e fui ao seu Manoel levar umas latas para vender Tudo quanto eu encontro no lixo eu cato para vender Deu 13 cruzeiros Fiquei pensando que precisava comprar pão sabão e leite para a Vera Eunice E os 13 cruzeiros não dava Cheguei em casa aliás no meu barracão nervosa e exausta Pensei na vida atribulada que eu levo Cato papel lavo roupa para dois jovens permaneço na rua o dia todo E estou sempre em falta A Vera não tem sapatos E ela não gosta de andar descalça Faz uns dois anos que eu pretendo comprar uma maquina de moer carne E uma maquina de costura Cheguei em casa fiz o almoço para os dois meninos Arroz feijão e carne E vou sair para catar papel Deixei as crianças Recomendeilhes para brincar no quintal e não sair na rua porque os péssimos vizinhos que eu tenho não dão socego aos meus filhos Saí indisposta com vontade de deitar Mas o pobre não repousa Não tem o previlegio de gosar descanço Eu estava nervosa interiormente ia maldizendo a sorte Catei dois sacos de papel Depois retornei catei uns ferros uma latas e lenha Vinha pensando Quando eu chegar na favela vou encontrar novidades Talvez a D Rosa ou a indolente Maria dos Anjos brigaram com meus filhos Encontrei a Vera Eunice dormindo e os meninos brincando na rua Pensei são duas horas Creio que vou passar o dia sem novidade O João José veio avisarme que a perua que dava dinheiro estava chamando para dar mantimentos Peguei a sacola e fui Era o dono do Centro Espirita da rua Vergueiro 103 Ganhei dois quilos de arroz idem de feijão e dois quilos de macarrão Fiquei contente A perua foise embora O nervoso interior que eu sentia ausentouse Aproveitei a minha calma interior para eu ler Peguei uma revista e sentei no capim recebendo os raios solar para aquecerme Li um conto Quando iniciei outro surgiu os filhos pedindo pão Escrevi um bilhete e dei ao meu filho João José para ir ao Arnaldo comprar um sabão dois melhoraes e o resto pão Puis agua no fogão para fazer café O João retornouse Disse que havia perdido os melhoraes Voltei com ele para procurar Não encontramos Quando eu vinha chegando no portão encontrei uma multidão Crianças e mulheres que vinha reclamar que o José Carlos havia apedrejado suas casas Para eu repreendêlo 17 DE JULHO Domingo Um dia maravilhoso O céu azul sem nuvem O Sol está tépido Deixei o leito as 630 Fui buscar agua Fiz café Tendo só um pedaço de pão e 3 cruzeiros Dei um pedaço a cada um puis feijão no fogo que ganhei ontem do Centro Espirita da Rua Vergueiro 103 Fui lavar minhas roupas Quando retornei do rio o feijão estava cosido Os filhos pediram pão Dei os 3 cruzeiros ao João José para ir comprar pão Hoje é a Nair Mathias quem começou impricar com os meus filhos A Silvia e o esposo já iniciaram o espetáculo ao ar livre Ele está lhe espancando E eu estou revoltada com o que as crianças presenciam Ouvem palavras de baixo calão Oh se eu pudesse mudar daqui para um núcleo mais decente Fui na D Floreia pedir um dente de alho E fui na D Analia E recebi o que esperava Não tenho Fui torcer as minhas roupas A D Aparecida perguntoume A senhora está gravida Não senhora respondi gentilmente E lhe chinguei interiormente Se estou gravida não é de sua conta Tenho pavor destas mulheres da favela Tudo quer saber A lingua delas é como os pés de galinha Tudo espalha Está circulando rumor que eu estou gravida E eu não sabia Saí a noite e fui catar papel Quando eu passava perto do campo do São Paulo1 varias pessoas saiam do campo Todas brancas só um preto E o preto começou insultarme Vai catar papel minha tia Olha o buraco minha tia Eu estava indisposta Com vontade de deitar Mas prossegui Encontrei varias pessoas amigas e parava para falar Quando eu subia a Avenida Tiradentes encontrei umas senhoras Uma perguntoume Sarou as pernas Depois que operei fiquei boa graças a Deus E até pude dançar no Carnaval com minha fantasia de penas Quem operoume foi o Dr José Torres Netto Bom médico E falamos de políticos Quando uma senhora perguntoume o que acho do Carlos Lacerda respondi concientemente Muito inteligente Mas não tem iducação E um político de cortiço Que gosta de intriga Um agitador Uma senhora disse que foi pena A bala que pegou o major podia acertar no Carlos Lacerda2 Mas o seu dia chegará comentou outra Varias pessoas afluiramse Eu era o alvo das atenções Fiquei apreensiva porque eu estava catando papel andrajosa Depois não mais quiz falar com ninguém porque precisava catar papel Precisava de dinheiro Eu não tinha dinheiro em casa para comprar pão Trabalhei até as 1130 Quando cheguei em casa era 24 horas Esquentei comida dei para a Vera Eunice jantei e deiteime Quando despertei os raios solares penetrava pelas frestas do barracão 18 DE JULHO Levantei as 7 horas Alegre e contente Depois que veio os aborrecimentos Fui no deposito receber 60 cruzeiros Passei no Arnaldo Comprei pão leite paguei o que devia e reservei dinheiro para comprar Licor de Cacau para Vera Eunice Cheguei no inferno Abri a porta e pus os meninos para fora A D Rosa assim que viu o meu filho José Carlos começou impricar com ele Não queria que o menino passasse perto do barracão dela Saiu com um pau para espancálo Uma mulher de 48 anos brigar com criança As vezes eu saio ela vem até a minha janela e joga o vaso de fezes nas crianças Quando eu retorno encontro os travesseiros sujos e as crianças fétidas Ela odeiame Diz que sou preferida pelos homens bonitos e distintos E ganho mais dinheiro do que ela Surgio a D Cecilia Veio repreender os meus filhos Lhe joguei uma direta ela retirouse Eu disse Tem mulher que diz saber criar os filhos mas algumas tem filhos na cadeia classificado como mau elemento Ela retirouse Veio a indolente Maria dos Anjos Eu disse Eu estava discutindo com a nota já começou chegar os trocos Os centavos Eu não vou na porta de ninguém E vocês quem vem na minha porta aborrecerme Eu nunca chinguei filhos de ninguém nunca fui na porta de vocês reclamar contra seus filhos Não pensa que eles são santos É que eu tolero crianças Veio a D Silvia reclamar contra os meus filhos Que os meus filhos são mal iducados Mas eu não encontro defeito nas crianças Nem nos meus nem nos dela Sei que criança não nasce com senso Quando falo com uma criança lhe dirijo palavras agradaveis O que aborreceme é elas vir na minha porta para perturbar a minha escassa tranquilidade interior Mesmo elas aborrecendo me eu escrevo Sei dominar meus impulsos Tenho apenas dois anos de grupo escolar mas procurei formar o meu carater A unica coisa que não existe na favela é solidariedade Veio o peixeiro Senhor Antonio Lira e deume uns peixes Vou fazer o almoço As mulheres sairam deixoume em paz por hoje Elas já deram o espetáculo A minha porta atualmente é theatro Todas crianças jogam pedras mas os meus filhos são os bodes expiatórios Elas alude que eu não sou casada Mas eu sou mais feliz do que elas Elas tem marido Mas são obrigadas a pedir esmolas São sustentadas por associações de caridade Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantêlos E elas tem que mendigar e ainda apanhar Parece tambor A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas Não casei e não estou descontente Os que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horríveis Tem a Maria José mais conhecida por Zefa que reside no barracão da Rua B numero 9 E uma alcoólatra Quando está gestante bebe demais E as crianças nascem e morrem antes dos doze meses Ela odeiame porque os meus filhos vingam e por eu ter radio Um dia ela pediume o radio emprestado Disse lhe que não podia emprestar Que ela não tinha filhos podia trabalhar e comprar Mas é sabido que pessoas que são dadas ao vicio da embriaguês não compram nada Nem roupas Os ebrios não prosperam Ela as vezes joga agua nos meus filhos Ela alude que eu não expanco os meus filhos Não sou dada a violência O José Carlos disse Não fique triste mamãe Nossa Senhora Aparecida há de ter dó da senhora Quando eu crescer eu compro uma casa de tijolos para a senhora Fui catar papel e permaneci fora de casa uma hora Quando retornei vi varias pessoas as margens do rio E que lá estava um senhor inconciente pelo álcool e os homens indolentes da favela lhe vasculhavam os bolsos Roubaram o dinheiro e rasgaram os documentos É 5 horas Agora que o Senhor Heitor ligou a luz E eu vou lavar as crianças para irem para o leito porque eu preciso sair Preciso dinheiro para pagar a luz Aqui é assim A gente não gasta luz mas precisa pagar Saí e fui catar papel Andava depressa porque já era tarde Encontrei uma senhora Ia maldizendo sua vida conjugal Observei mas não disse nada Amarrei os sacos puis as latas que catei ao outro saco e vim para casa Quando cheguei liguei o radio para saber as horas Era 2355 Esquentei corrida li despime e depois deitei O sono surgiu logo 19 DE JULHO Despertei as 7 horas com a conversa dos meus filhos Deixei o leito fui buscar agua As mulheres já estavam na torneira As latas em fila Assim que cheguei a Florenciana perguntoume De que partido é aquela faixa Li PSB e respondi Partido Social Brasileiro3 Passou o Senhor Germano ela perguntou novamente Senhor Germano esta faixa é de que partido Do Janio4 Ela rejubilouse e começou dizer que o Dr Ademar de Barros5 é um ladrão Que só as pessoas que não presta é que aprecia e acata o Dr Adhemar Eu e D Maria Puerta uma espanhola muito boa defendíamos o Dr Adhemar D Maria disse Eu sempre fui ademarista Gosto muito dele e de D Leonor A Florenciana perguntou Ele já deu esmola a senhora Já deu o Hospital das Clínicas Chegou a minha vez puis a minha lata para encher A Florenciana prosseguiu elogiando o Janio A agua começou diminuir na torneira Começaram a falar da Rosa Que ela carregava agua desde as 4 horas da madrugada que ela lavava toda roupa em casa Que ela precisa pagar 20 cruzeiros por mês Minha lata encheu eu vim embora Estive revendo os aborrecimentos que tive esses dias Suporto as contingências da vida resoluta Eu não consegui armazenar para viver resolvi armazenar paciência Nunca feri ninguém Tenho muito senso Não quero ter processos O meu risgistro geral é 845936 Fui no deposito receber o dinheiro do papel 55 cruzeiros Retornei depressa comprei leite e pão Preparei Toddy para as crianças arrumei os leitos puis feijão no fogo varri o barraco Chamei o Senhor Ireno Venancio da Silva para fazer um balanço para os meninos Para ver se eles permanece no quintal para os visinhos não brigar com eles Deilhe 16 cruzeiros Enquanto ele fazia o balanço eu fui ensaboar as roupas Quando retornei o Senhor Ireno estava terminando o balanço Fiz alguns reparos e ele terminou Os meninos deu valor ao balanço só na hora Todos queriam balançar ao mesmo tempo Fechei a porta e fui vender as latas Levei os meninos O dia está calido E eu gosto que eles receba os raios solares Que suplício Carregar a Vera e levar o saco na cabeça Vendi as latas e os metais Ganhei 31 cruzeiros Fiquei contente Perguntei Seu Manoel o senhor não errou na conta Não Porque Porque o saco de latas não pesava tanto para eu ganhar 31 cruzeiros E a quantia que eu preciso para pagar a luz Despedime e retorneime Cheguei em casa fiz o almoço Enquanto as panelas fervia eu escrevi um pouco Dei o almoço as crianças e fui no Klabin6 catar papel Deixei as crianças brincando no quintal Tinha muito papel Trabalhei depressa pensando que aquelas bestas humanas são capás de invadir o meu barracão e maltratar meus filhos Trabalhei apreensiva e agitada A minha cabeça começou doer Elas costuma esperar eu sair para vir no meu barracão expancar os meus filhos justamente quando eu não estou em casa Quando as crianças estão sosinhas e não podem defenderse Nas favelas as jovens de 15 anos permanecem até a hora que das querem Mesclase com as meretrizes contam suas aventuras Há os que trabalham E há os que levam a vida a torto e a direito As pessoas de mais idade trabalham os jovens é que renegam o trabalho Tem as mães que catam frutas e legumes nas feiras Tem as igrejas que dá pão Tem o São Francisco que todos os meses dá mantimentos café sabão etc Elas vai na feira cata cabeça de peixe tudo que pode aproveitar Come qualquer coisa Tem estomago de cimento armado As vezes eu ligo o radio e danço com as crianças simulamos uma luta de boxe Hoje comprei marmelada para eles Assim que dei um pedaço a cada um percebi que eles me dirigiam um olhar terno E o meu João José disse Que mamãe boa Quando as mulheres feras invade o meu barraco os meus filhos lhes joga pedras Elas diz Que crianças mal iducadas Eu digo Os meus filhos estão defendendome Vocês são incultas não pode compreender Vou escrever um livro referente a favela Hei de citar tudo que aqui se passa E tudo que vocês me fazem Eu quero escrever o livro e vocês com estas cenas desagradaveis me fornece os argumentos A Silvia pediume para retirar o seu nome do meu livro Ela disse Você é mesmo uma vagabunda Dormia no Albergue Noturno O seu fim era acabar na maloca Eu disse Está certo Quem dorme no Albergue Noturno são os indigentes Não tem recurso e o fim é mesmo nas malocas e Você que diz nunca ter dormido no Albergue Noturno o que veio fazer aqui na maloca Você era para estar residindo numa casa própria Porque a sua vida rodou igual a minha Ela disse A unica coisa que você sabe fazer é catar papel Eu disse Cato papel Estou provando como vivo Estou residindo na favela Mas se Deus me ajudar hei de mudar daqui Espero que os políticos estingue as favelas Há os que prevalecem do meio em que vive demonstram valentia para intimidar os fracos Há casa que tem cinco filhos e a velha é quem anda o dia inteiro pedindo esmola Há as mulheres que os esposos adoece e elas no penado da enfermidade mantem o lar Os esposos quando vê as esposas manter o lar não saram nunca mais Hoje não saí para catar papel Vou deitar Não estou cançada e não tenho sono Hontem eu bebi uma cerveja Hoje estou com vontade de beber outra vez Mas não vou beber Não quero viciar Tenho responsabilidade Os meus filhos E o dinheiro gasto em cerveja faz falta para o escencial O que eu reprovo nas favelas são os pais que mandam os filhos comprar pinga e dá as crianças para beber E diz Ele tem lumbriga Os meus filhos reprova o álcool O meu filho João José diz Mamãe quando eu crescer eu não vou beber O homem que bebe não compra roupas Não tem radio não faz uma casa de tijolo O dia de hoje me foi benefico As rascoas da favela estão vendo eu escrever e sabe que é contra elas Resolveram me deixar em paz Nas favelas os homens são mais tolerantes mais delicados As bagunceiras são as mulheres As intrigas delas é igual a de Carlos Lacerda que irrita os nervos E não há nervos que suporta Mas eu sou forte Não deixo nada imprecionarme profundamente Não me abato 20 DE JULHO Deixei o leito as 4 horas para escrever Abri a porta e contemplei o céu estrelado Quando o astrorei começou despontar eu fui buscar agua Tive sorte As mulheres não estavam na torneira Enchi minha lata e zarpei Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos Disseme que estava a espera do Binidito e do Miguel para matálos que eles lhe expancaram quando ele estava embriagado Lhe aconselhei a não brigar que o crime não trás vantagens a ninguém apenas deturpa a vida Senti o cheiro de álcool disisti Sei que os ebrios não atende O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiência Já foi telegrafista E do Circulo Exoterico Tem conhecimentos biblicos gosta de dar conselhos Mas não tem valor Deixou o álcool lhe dominar embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente Preparei a refeição matinal Cada filho prefere uma coisa A Vera mingau de farinha de trigo torrada O João José café puro O José Carlos leite branco E eu mingau de aveia Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir procuro lhe dar uma refeição condigna Terminaram a refeição Lavei os utensílios Depois fui lavar roupas Eu não tenho homem em casa E só eu e meus filhos Mas eu não pretendo relaxar O meu sonho era andar bem limpinha usar roupas de alto preço residir numa casa confortável mas não é possível Eu não estou descontente com a profissão que exerço Já habitueime andar suja Já faz oito anos que cato papel O desgosto que tenho é residir em favela Durante o dia os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo E já tentaram assaltar o emporio do senhor Raymundo Guello E um ficou carimbado com uma bala O assalto teve inicio as 4 horas Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda E sorria exibindo o dinheiro Mas o juiz foi severo Castigou impiedosamente Fui no rio lavar as roupas e encontrei D Mariana Uma mulher agradavel e decente Tem 9 filhos e um lar modelo Ela e o esposo tratamse com iducação Visam apenas viver em paz E criar filhos Ela também ia lavar roupas Ela disse me que o Binidito da D Geralda todos os dias ia preso Que a Radio Patrulha cançou de vir buscálo Arranjou serviço para ele na cadeia Achei graça Dei risada Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel Que suplicio catar papel atualmente Tenho que levar a minha filha Vera Eunice Ela está com dois anos e não gosta de ficar em casa Eu ponho o saco na cabeça e levoa nos braços Suporto o peso do saco na cabeça e suporto o peso da Vera Eunice nos braços Tem hora que revoltome Depois dominome Ela não tem culpa de estar no mundo Refleti preciso ser tolerante com os meus filhos Eles não tem ninguém no mundo a não ser eu Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar Aqui todas impricam comigo Dizem que falo muito bem Que sei atrair os homens Quando fico nervosa não gosto de discutir Prefiro escrever Todos os dias eu escrevo Sento no quintal e escrevo Não posso sair para catar papel A Vera Eunice não quer dormir e nem o José Carlos A Silvia e o marido estão discutindo Tem 9 filhos e não respeitamse Brigam todos os dias Vendi o papel ganhei 140 cruzeiros Trabalhei em excesso sentime mal Tomei umas pilulas de vida7 e deitei Quando eu ia dormindo despertava com a voz do senhor Antonio Andrade discutindo com a esposa 21 DE JULHO Despertei com a voz de D Maria perguntandome se eu queria comprar banana e alface Olhei as crianças Estavam dormindo Fiquei quieta Quando eles vê as frutas sou obrigada a comprar Mandei o meu filho João José no Arnaldo comprar açúcar e pão Depois fui lavar roupas Enquanto as roupas corava eu sentei na calçada para escrever Passou um senhor e perguntoume O que escreve Todas as lambanças que pratica os favelados estes projetos de gente humana Ele disse Escreve e depois dá a um critico para fazer a revisão Olhou as crianças ao meu redor e perguntou Estes filhos são seus Olhei as crianças Meu era apenas dois Mas como todas eram da mesma cor afirmei que sim Seu marido onde trabalha Não tenho marido e nem quero Uma senhora que estava me olhando escrever despediuse Pensei talvez ela não tenha apreciado a minha resposta É muito filho para sustentar Ele abriu a carteira Pensei agora ele vai dar dinheiro a qualquer uma destas crianças pensando que todas são meus filhos Fui imprudente mentindo Mas a minha filha Vera Eunice ergueu o braço e disse Dá eu té Compá papato Eu disse Ela está dizendo que quer o dinheiro para comprar sapatos Ele disse Dá para sua mãe Ergui os olhos para observálo Duas meninas lhe chamava papai Eu conheçoo de vista Já falei com ele na farmacia quando levei a Vera para tomar injeção contra resfriado Ele seguio Eu olhei o dinheiro que ele deu a Vera Cem cruzeiros Em poucos minutos o boato circulou que a Vera ganhou cem cruzeiros E pensei na eficiência da lingua humana para transmitir uma noticia As crianças aglomeravase Eu levantei e fui sentar perto da casa de D Mariana E lhe pedir um pouco de café Já habituei beber café na casa do Seu Lino Tudo que eu peço a eles emprestado eles empresta Quando eu vou pagar não recebem Depois fui torcer as roupas e vim preparar o almoço Hoje eu estou cantando Estou alegre e já pedi aos visinhos para não me aborrecer Todos nois temos o nosso dia de alegria Hoje é o meu Uma menina por nome Amalia diz a mãe que o espirito lhe pega Saiu correndo para se jogar no rio Varias mulheres lhe impedio o gesto Passei o resto da tarde escrevendo As quatro e meia o senhor Heitor ligou a luz Dei banho nas crianças e preparei para sair Fui catar papel mas estava indisposta Vim embora porque o frio era demais Quando cheguei em casa era 2230 Liguei o radio Tomei banho Esquentei comida Li um pouco Não sei dormir sem ler Gosto de manusear um livro O livro é a melhor invenção do homem 22 DE JULHO Tem hora que revolto com a vida atribulada que levo E tem hora que me conformo Conversei com uma senhora que cria uma menina de cor E tão boa para a menina Lhe compra vestidos de alto preço Eu disse Antigamente eram os pretos que criava os brancos Hoje são os brancos que criam os pretos A senhora disse que cria a menina desde 9 meses E que a negrinha dorme com ela e que lhe chama de mãe Surgiu um moço Disse ser seu filho Contei umas anedotas Eles riram e eu segui cantando Comecei catar papel Subi a rua Tiradentes cumprimentei as senhoras que conheço A dona da tinturaria disse Coitada Ela é tão boazinha Fiquei repetindo no pensamento Ela é boazinha Eu gosto de ficar dentro de casa com as portas fechadas Não gosto de ficar nas esquinas conversando Gosto de ficar sozinha e lendo Ou escrevendo Virei na rua Frei Antonio Galvão Quase não tinha papel A D Nair Barros estava na janela Eu falei que residia em favela Que favela é o pior cortiço que existe Enchi dois sacos na rua Alfredo Maia Levei um até ao ponto e depois voltei para levar outro Percorri outras ruas Conversei um pouco com o senhor João Pedro Fui na casa de uma preta levar umas latas que ela havia pedido Latas grandes para plantar flores Fiquei conhecendo uma pretinha muito limpinha que falava muito bem Disse ser costureira mas que não gostava da profissão E que admiravame Catar papel e cantar Eu sou muito alegre Todas manhãs eu canto Sou como as aves que cantam apenas ao amanhecer De manhã eu estou sempre alegre A primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço 23 DE JULHO Liguei o radio para ouvir o drama8 Fiz o almoço e deitei Dormi uma hora e meia Nem ouvi o final da peça Mas eu já conhecia a peça Comecei fazer o meu diário De vez em quando parava para repreender os meus filhos Bateram na porta Mandei o João José abrir e mandar entrar Era o Seu João Perguntoume onde encontrar folhas de batatas para sua filha buchechar um dente Eu disse que na Portuguesinha era possivel encontrar Quiz saber o que eu escrevia Eu disse ser o meu diário Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você Todos tem um ideal O meu é gostar de ler O Seu João deu cinquenta centavos para cada menino Quando ele me conheceu eu tinha só dois meninos Ninguém tem me aborrecido Graças a Deus 24 DE JULHO Levantei cinco horas para ir buscar agua Hoje é domingo as favelas recolhem agua mais tarde Mas eu já habitueime levantar cedo Comprei pão e sabão Puis feijão no fogo e fui lavar roupas No rio chegou Adair Mathias lamentando que sua mãe tinha saído e ela tinha que fazer almoço e lavar roupas Disse que sua mãe era forte mas que agora lhe puzeram feitiço Que o curador disse que era a feiticeira Mas o feitiço que invade a família Mathias é o álcool Esta é a minha opinião A D Mariana lamentava que seu esposo estava demorando a regressar Puis as roupas para quarar e vim fazer o almoço Quando cheguei em casa encontrei a D Francisca brigando com meu filho João José Uma mulher de quarenta anos discutindo com uma criança de seis anos Puis o menino para dentro e fechei o portão Ela continuou falando Para fazer ela calar é preciso lhe dizer Cala a boca tuberculosa Não gosto de aludir os males físicos porque ninguém tem culpa de adquirir moléstias contagiosas Mas quando a gente percebe que não pode tolerar a impricancia do analfabeto apela para as enfermidades O Seu João veio buscar as folhas de batatas Eu disselhe Se eu pudesse mudar desta favela Tenho a impressão que estou no inferno Sentei ao sol para escrever A filha da Silvia uma menina de seis anos passava e dizia Está escrevendo negra fidida A mãe ouvia e não repreendia São as mães que instigam 25 DE JULHO Amanheci contente Estou cantando As únicas horas que tenho socego aqui na favela é de manhã Hoje a D Francisca mandou sua filha de sete anos provocarme mas eu estava com muito sono Fechei a porta e deitei Fui visitar o filho recem nascido de D Maria Puerta uma espanhola de primeira A jóia da favela E o ouro no meio de chumbo 27 DE JULHO Levantei de manhã e fui buscar agua Discuti com o esposo da Silvia porque ele não queria deixar eu encher minhas latas Não tinha dinheiro em casa Esquentei comida amanhecida e dei aos meninos O Senhor Ireno disseme que esta noite houve roubo na favela Que roubaram roupas da D Floreia e mil cruzeiros de D Paulina O meu barracão também está sendo visado Duas noites que não saio para catar papel Para evitar aborrecimentos eu levei o radio para a casa de D Floreia E eu que estou querendo comprar uma maquina de costura Seu Gino veio dizerme para eu ir no quarto dele Que eu estou lhe despresando Disselhe Não É que eu estou escrevendo um livro para vendêlo Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela Não tenho tempo para ir na casa de ninguém Seu Gino insistia Ele disse Bate que eu abro a porta Mas o meu coração não pede para eu ir no quarto dele 28 DE JULHO Fiquei horrorisada Haviam queimado meus cinco sacos de papel A neta de D Elvira a que tem duas meninas e que não quer mais filhos porque o marido ganha pouco disse Nós vimos a fumaça Também a senhora põe os sacos ali no caminho Ponhe lá no mato onde ninguém os vê Eu ouvi dizer que vocês lá da favela vivem uns roubando os outros Quando elas falam não sabem dizer outra coisa a não ser roubo Percebi que foi ela quem queimou meus sacos Resolvi retirar com nojo delas Aliás já haviam ditome que eles são uns portugueses malvados Que a D Elvira nunca fez um favor a ninguém Para eu ficar previnida Não estou ressentida Já estou tão habituada com a maldade humana Sei que os sacos vão me fazer falta FIM DO DIÁRIO DE 1955 2 DE MAIO DE 1958 Eu não sou indolente Há tempos que eu pretendia fazer o meu diário Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era perder tempo Eu fiz uma reforma em mim Quero tratar as pessoas que eu conheço com mais atenção Quero enviar um sorriso amavel as crianças e aos operários Recebi intimação para comparecer as 8 horas da noite na Delegacia do 12 Passei o dia catando papel A noite os meus pés doiam tanto que eu não podia andar Começou chover Eu ia na Delegacia ia levar o José Carlos A intimação era para ele O José Carlos está com 9 anos 3 DE MAIO Fui na feira da Rua Carlos de Campos catar qualquer coisa Ganhei bastante verdura Mas ficou sem efeito porque eu não tenho gordura Os meninos estão nervosos por não ter o que comer 6 DE MAIO De manhã não fui buscar agua Mandei o João carregar Eu estava contente Recebi outra intimação Eu estava inspirada e os versos eram bonitos e eu esqueci de ir na Delegacia Era 11 horas quando eu recordei do convite do ilustre tenente da 12 Delegacia O que eu aviso aos pretendentes a politica é que o povo não tolera a fome E preciso conhecer a fome para saber descrevêla Estão construindo um circo aqui na Rua Araguaia Circo Theatro Nilo 9 DE MAIO Eu cato papel mas não gosto Então eu penso Faz de conta que eu estou sonhando 10 DE MAIO Fui na delegacia e falei com o tenente Que homem amavel Se eu soubesse que ele era tão amavel eu teria ido na delegacia na primeira intimação O tenente interessouse pela educação dos meus filhos Disseme que a favela é um ambiente propenso que as pessoas tem mais possibilidades de delinquir do que tornarse util a patria e ao país Pensei Se ele sabe disto porque não faz um relatorio e envia para os politicos O senhor Janio Quadros o Kubstchek9 e o Dr Adhemar de Barros Agora falar para mim que sou uma pobre lixeira Não posso resolver nem as minhas dificuldades O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome A fome também é professora Quem passa fome aprende a pensar no proximo e nas crianças 11 DE MAIO Dia das Mães O céu está azul e branco Parece que até a Natureza quer homenagear as mães que atualmente se sentem infeliz por não poder realisar os desejos dos seus filhos O sol vai galgando Hoje não vai chover Hoje é o nosso dia A D Teresinha veio visitarme Ela deume 15 cruzeiros Disseme que era para a Vera ir no circo Mas eu vou deixar o dinheiro para comprar pão amanhã porque eu só tenho 4 cruzeiros Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no Frigorífico Comemos a carne e guardei os ossos E hoje puis os ossos para ferver E com o caldo fiz as batatas Os meus filhos estão sempre com fome Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar Surgiu a noite As estrelas estão ocultas O barraco está cheio de pernilongos Eu vou acender uma folha de jornal e passar pelas paredes E assim que os favelados matam mosquitos 13 DE MAIO Hoje amanheceu chovendo E um dia simpático para mim E o dia da Abolição Dia que comemoramos a libertação dos escravos Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios Mas os brancos agora são mais cultos E não nos trata com despreso Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz Continua chovendo E eu tenho só feijão e sal A chuva está forte Mesmo assim mandei os meninos para a escola Estou escrevendo até passar a chuva para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça A chuva passou um pouco Vou sair Eu tenho tanto dó dos meus filhos Quando eles vê as coisas de comer eles brada Viva a mamãe A manifestação agradame Mas eu já perdi o habito de sorrir Dez minutos depois eles querem mais comida Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida Ela não tinha Mandeilhe um bilhete assim Dona Ida peçote se pode me arranjar um pouco de gordura para eu fazer uma sopa para os meninos Hoje choveu e eu não pude ir catar papel Agradeço Carolina Choveu esfriou E o inverno que chega E no inverno a gente come mais A Vera começou pedir comida E eu não tinha Era a reprise do espetáculo Eu estava com dois cruzeiros Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice Ela deume a banha e arroz Era 9 horas da noite quando comemos E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual a fome 15 DE MAIO Tem noite que eles improvisam uma batucada e não deixa ninguém dormir Os visinhos de alvenaria já tentaram com abaixo assinado retirar os favelados Mas não conseguiram Os visinhos das casas de tijolos diz Os políticos protegem os favelados Quem nos protege é o povo e os Vicentinos Os políticos só aparecem aqui nas épocas eleitoraes O senhor Cantidio Sampaio quando era vereador em 1953 passava os domingos aqui na favela Ele era tão agradavel Tomava nosso café bebia nas nossas xícaras Ele nos dirigia as suas frases de viludo Brincava com nossas crianças Deixou boas impressões por aqui e quando candidatouse a deputado venceu Mas na Camara dos Deputados não criou um progeto para beneficiar o favelado Não nos visitou mais Eu classifico São Paulo assim O Palacio é a sala de visita A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim E a favela é o quintal onde jogam os lixos A noite está tépida O céu já está salpicado de estrelas Eu que sou exótica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido Começo ouvir uns brados Saio para a rua E o Ramiro que quer dar no senhor Binidito Mal entendido Caiu uma ripa no fio da luz e apagou a luz da casa do Ramiro Por isso o Ramiro queria bater no senhor Binidito Porque o Ramiro é forte e o senhor Binidito é fraco O Ramiro ficou zangado porque eu fui a favor do senhor Binidito Tentei concertar os fios Enquanto eu tentava concertar o fio o Ramiro queria expancar o Binidito que estava alcoolisado e não podia parar de pé Estava inconciente Eu não posso descrever o efeito do álcool porque não bebo Já bebi uma vez em carater experimental mas o álcool não me tonteia Enquanto eu pretendia concertar a luz o Ramiro dizia Liga a luz liga a luz sinão eu te quebro a cara O fio não dava para ligar a luz Precisava emendálo Sou leiga na eletricidade Mandei chamar o senhor Alfredo que é o atual encarregado da luz Ele estava nervoso Olhava o senhor Binidito com despreso A Juana que é esposa do Binidito deu cinquenta cruzeiros para o senhor Alfredo Ele pegou o dinheiro Não sorriu Mas ficou alegre Percebi pela sua fisionomia Enfim o dinheiro dissipou o nervosismo 16 DE MAIO Eu amanheci nervosa Porque eu queria ficar em casa mas eu não tinha nada para comer Eu não ia comer porque o pão era pouco Será que é só eu que levo esta vida O que posso esperar do futuro Um leito em Campos do Jordão10 Eu quando estou com fome quero matar o Janio quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos 17 DE MAIO Levantei nervosa Com vontade de morrer Já que os pobres estão mal colocados para que viver Será que os pobres de outro País sofrem igual aos pobres do Brasil Eu estava discontente que até cheguei a brigar com o meu filho José Carlos sem motivo Chegou um caminhão aqui na favela O motorista e o seu ajudante jogam umas latas E linguiça enlatada Penso E assim que fazem esses comerciantes insaciáveis Ficam esperando os preços subir na ganancia de ganhar mais E quando apodrece jogam fora para os corvos e os infelizes favelados Não houve briga Eu até estou achando isto aqui monotono Vejo as crianças abrir as latas de linguiça e exclamar satisfeitas Hum Tá gostosa A Dona Alice deume uma para experimentar Mas a lata está estufada Já está podre 18 DE MAIO Na favela tudo circula num minuto E a noticia já circulou que a D Maria José faleceu Varias pessoas vieram vêla Compareceu o vicentino que cuidava dela Ele vinha visitála todos os domingos Ele não tem nojo dos favelados Cuida dos míseros favelados com carinho Isto competia ao tal Serviço Social Chegou o esquife Cor roxa Cor da amargura que envolve os corações dos favelados A D Maria era crente e dizia que os crentes antes de morrer já estão no céu O enterro é as treis da tarde Os crentes estão entoando um hino As vozes são afinadas Tenho a impressão que são anjos que cantam Não vejo ninguém bêbado Talvez seja por respeito a extinta Mas duvido Acho que é porque eles não tem dinheiro Chegou o carro para conduzir o corpo sem vida de Dona Maria José que vai para a sua verdadeira casa própria que é a sepultura A Dona Maria José era muito boa Dizem que os vivos devem perdoar os mortos Porque todos nós temos os nossos momentos de fraquesa Chegou o carro fúnebre Estão esperando a hora para sair o enterro Vou parar de escrever Vou torcer as roupas que ensaboei ontem Não gosto de ver enterros 19 DE MAIO Deixei o leito as 5 horas Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal As aves deve ser mais feliz que nós Talvez entre elas reina amizade e igualdade O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados que deitam e não dormem porque deitamse sem comer O que o senhor Juscelino tem de aproveitável é a voz Parece um sabiá e a sua voz é agradavel aos ouvidos E agora o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catete11 Cuidado sabiá para não perder esta gaiola porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas E os favelados são os gatos Tem fome Deixei de meditar quando ouvi a voz do padeiro Olha o pão doce que está na hora do café Mal sabe ele que na favela é a minoria quem toma café Os favelados comem quando arranjam o que comer Todas as familias que residem na favela tem filhos Aqui residia uma espanhola Dona Maria Puerta Ela comprou um terreno e começou economisar para fazer a casa Quando terminou a construção da casa os filhos estavam fracos do pulmão E são oito crianças Havia pessoas que nos visitava e dizia Credo para viver num lugar assim só os porcos Isto aqui é o chiqueiro de São Paulo Eu estou começando a perder o interesse pela existência Começo a revoltar E a minha revolta é justa Lavei o assoalho porque estou esperando a visita de um futuro deputado e ele quer que eu faça uns discursos para ele Ele disse que pretende conhecer a favela que se for eleito há de abolir as favelas Contemplava extasiada o céu cor de anil E eu fiquei compreendendo que eu adoro o meu Brasil O meu olhar posou nos arvoredos que existe no inicio da rua Pedro Vicente As folhas moviase Pensei elas estão aplaudindo este meu gesto de amor a minha Patria Toquei o carrinho e fui buscar mais papéis A Vera ia sorrindo E eu pensei no Casemiro de Abreu que disse Ri criança A vida é bela Só se a vida era boa naquele tempo Porque agora a epoca esta apropriada para dizer Chora criança A vida é amarga Eu ando tão preocupada que ainda não contemplei os jardins da cidade É epoca das flores brancas a cor que predomina E o mês de Maria e os altares deve estar adornados com flores brancas Devemos agradecer Deus ou a Natureza que nos deu as estrelas para adornar o céu e as flores para adornar os prados e as varzeas e os bosques Quando eu seguia na Avenida Cruzeiro do Sul ia uma senhora com um sapato azul e uma bolsa azul A Vera disseme Olha mamãe Que mulher bonita Ela vai no meu carro É que a minha filha Vera Eunice diz que vai comprar um carro só para carregar pessoas bonitas A mulher sorrio e a Vera prosseguio A senhora é cheirosa Percebi que a minha filha sabe bajular A mulher abriu a bolsa e deulhe 20 cruzeiros Aqui na favela quase todos lutam com dificuldades para viver Mas quem manifesta o que sofre é só eu E faço isto em prol dos outros Muitos catam sapatos no lixo para calçar Mas os sapatos já estão fracos e aturam só 6 dias Antigamente isto é de 1950 até 1956 os favelados cantavam Faziam batucadas 1957 1958 a vida foi ficando causticante Já não sobra dinheiro para eles comprar pinga As batucadas foram cortandose até extinguirse Outro dia eu encontrei um soldado Perguntoume Você ainda mora na favela Porque Porque vocês deixaram a Radio Patrulha em paz É o dinheiro que não sobra para a aguardente Deitei o João e a Vera e fui procurar o José Carlos Telefonei para a Central Nem sempre o telefone resolve as coisas Tomei o bonde e fui Eu não sentia frio Parece que o meu sangue estava a 40 graus Fui falar com a Policia Feminina que me deu a noticia do José Carlos que estava lá na rua Asdrubal Nascimento12 Que alivio Só quem é mãe é que pode avaliar Eu dirigi para a rua Asdrubal Nascimento Eu não sei andar a noite A fusão das luzes desviamme do roteiro Preciso ir perguntando Eu gosto da noite só para contemplar as estrelas sintilantes ler e escrever Durante a noite há mais silencio Cheguei na rua Asdrubal Nascimento o guarda mandoume esperar Eu contemplava as crianças Umas choravam outras estavam revoltadas com a interferencia da Lei que não lhes permite agir a sua vontade O José Carlos estava chorando Quando ouviu a minha voz ficou alegre Percebi o seu contentamento Olhoume E foi o olhar mais terno que eu já recebi até hoje As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais seus tapetes de viludos almofadas de sitim E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso digno de estar num quarto de despejo 20 DE MAIO O dia vinha surgindo quando eu deixei o leito A Vera despertou e cantou E convidoume para cantar Cantamos O João e o José Carlos tomaram parte Amanheceu garoando O Sol está elevandose Mas o seu calor não dissipa o frio Eu fico pensando tem epoca que é Sol que predomina Tem epoca que é a chuva Tem epoca que é o vento Agora é a vez do frio E entre eles não deve haver rivalidades Cada um por sua vez Abri a janela e vi as mulheres que passam rapidas com seus agasalhos descorados e gastos pelo tempo Daqui a uns tempos estes palitol que elas ganharam de outras e que de há muito devia estar num museu vão ser substituídos por outros E os politicos que há de nos dar Devo incluirme porque eu também sou favelada Sou rebotalho Estou no quarto de despejo e o que está no quarto de despejo ou queimase ou jogase no lixo As mulheres que eu vejo passar vão nas igrejas buscar pães para os filhos Que o Frei Luiz lhes dá enquanto os esposos permanecem debaixo das cobertas Uns porque não encontram emprego Outros porque estão doentes Outros porque embriagamse Eu não preocupome com os homens delas Se fazem bailes eu não compareço porque não gosto de dançar Só interfirome nas brigas onde prevejo um crime Não sei a origem desta antipatia por mim Com os homens e as mulheres eu tenho um olhar duro e frio O meu sorriso as minhas palavras ternas e suaves eu reservo para as crianças Tem um adolescente por nome Julião que as vezes expanca o pai Quando bate no pai é com tanto sadismo e prazer Acha que é invencível Bate como se estivesse batendo num tambor O pai queria que ele estudasse para advocacia Quando o Julião vai preso o pai lhe acompanha com os olhos rasos dagua Como se estivesse acompanhando um santo no andor O Julião é revoltado mas sem motivo Eles não precisa residir na favela Tem casa no Alto de Vila Maria As vezes mudam algumas familias para a favela com crianças No inicio são iducadas amaveis Dias depois usam o calão são soezes e repugnantes São diamantes que transformam em chumbo Transformamse em objetos que estavam na sala de visita e foram para o quarto de despejo Para mim o mundo em vez de evoluir está retornando a primitividade Quem não conhece a fome há de dizer Quem escreve isto é louco Mas quem passa fome há de dizer Muito bem Carolina Os generos alimentícios deve ser ao alcance de todos Como é horrivel ver um filho comer e perguntar Tem mais Esta palavra tem mais fica oscilando dentro do cerebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais Quando um politico diz nos seus discursos que está ao lado do povo que visa incluirse na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas Depois divorciase do povo Olha o povo com os olhos semicerrados Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade Quando cheguei do palacio que é a cidade os meus filhos vieram dizer me que havia encontrado macarrão no lixo E a comida era pouca eu fiz um pouco do macarrão com feijão E o meu filho João José disseme Pois é A senhora disseme que não ia mais comer as coisas do lixo Foi a primeira vez que vi a minha palavra falhar Eu disse É que eu tinha fé no Kubstchek A senhora tinha fé e agora não tem mais Não meu filho A democracia está perdendo os seus adeptos No nosso paiz tudo está enfraquecendo O dinheiro é fraco A democracia é fraca e os políticos fraquissimos E tudo que está fraco morre um dia Os políticos sabem que eu sou poetisa E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido 21 DE MAIO Passei uma noite horrivel Sonhei que eu residia numa casa residivel tinha banheiro cozinha copa e até quarto de criada Eu ia festejar o aniversário de minha filha Vera Eunice Eu ia comprarlhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo Porque eu estava em condições de comprar Sentei na mesa para comer A toalha era alva ao lirio Eu comia bife pão com manteiga batata frita e salada Quando fui pegar outro bife despertei Que realidade amarga Eu não residia na cidade Estava na favela Na lama as margens do Tietê E com 9 cruzeiros apenas Não tenho açúcar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha Quem deve dirigir é quem tem capacidade Quem tem dó e amisade ao povo Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro quem não sabe o que é fome a dor e a aflição do pobre Se a maioria revoltarse o que pode fazer a minoria Eu estou ao lado do pobre que é o braço Braço desnutrido Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores Eu ontem comi aquele macarrão do lixo com receio de morrer porque em 1953 eu vendia ferro lá no Zinho Havia um pretinho bonitinho Ele ia vender ferro lá no Zinho Ele era jovem e dizia que quem deve catar papel são os velhos Um dia eu ia vender ferro quando parei na Avenida Bom Jardim No Lixão como é denominado o local Os lixeiros haviam jogado carne no lixo E de escolhia uns pedaços Disseme Leva Carolina Dá para comer Deume uns pedaços Para não maguálo aceitei Procurei convencêlo a não comer aquela carne Para comer os pães duros ruidos pelos ratos Ele disse me que não Que há dois dias não comia Acendeu o fogo e assou a carne A fome era tanta que ele não poude deixar assar a carne Esquentoua e comeu Para não presenciar aquele quadro saí pensando faz de conta que eu não presenciei esta cena Isto não pode ser real num paiz fértil igual ao meu Revoltei contra o tal Serviço Social que diz ter sido criado para reajustar os desajustados mas não toma conhecimento da existência infausta dos marginais Vendi os ferros no Zinho e voltei para o quintal de São Paulo a favela No outro dia encontraram o pretinho morto Os dedos do seu pé abriram O espaço era de vinte centímetros Ele aumentouse como se fosse de borracha Os dedos do pé parecia leque Não trazia documentos Foi sepultado como um Zé qualquer Ninguém procurou saber seu nome Marginal não tem nome De quatro em quatro anos mudase os políticos e não soluciona a fome que tem a sua matriz nas favelas e as sucursaes nos lares dos operários Quando eu fui buscar agua vi uma infeliz caida perto da torneira porque ontem dormiu sem jantar É que ela está desnutrida Os médicos que nós temos na política sabem disto Agora eu vou na casa da Dona Julita trabalhar para ela Fui catando papel O senhor Samuel pesou Recebi 12 cruzeiros Subi a Avenida Tiradentes catando papel Cheguei na rua Frei Antonio Santana de Galvão 17 trabalhar para a Dona Julita Ela disseme para eu não iludir com os homens que eu posso arranjar outro filho e que os homens não contribui para criar o filho Sorri e pensei em relação aos homens eu tenho experiencias amargas Já estou na maturidade quadra que o senso já criou raizes Achei um cará no lixo uma batata doce e uma batata solsa13 Cheguei na favela os meus meninos estavam roendo um pedaço de pão duro Pensei para comer estes pães era preciso que eles tivessem dentes eletricos Não tinha gordura Puis a carne no fogo com uns tomates que eu catei lã na Fabrica Peixe Puis o cará e a batata E agua Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo Os favelados aos poucos estão convencendose que para viver precisam imitar os corvos Eu não vejo eficiência no Serviço Social cm relação ao favelado Amanhã não vou ter pão Vou cozinhar a batata doce 22 DE MAIO Eu hoje estou triste Estou nervosa Não sei se choro ou saio correndo sem parar até cair inconciente É que hoje amanheceu chovendo E eu não saí para arranjar dinheiro Passei o dia escrevendo Sobrou macarrão eu vou esquentar para os meninos Cosinhei as batatas eles comeram Tem uns metais e um pouco de ferro que eu vou vender no Seu Manuel Quando o João chegou da escola eu mandei ele vender os ferros Recebeu 13 cruzeiros Comprou um copo de agua mineral 2 cruzeiros Zanguei com ele Onde já se viu favelado com estas finezas Os meninos come muito pão Eles gostam de pão mole Mas quando não tem eles comem pão duro Duro é o pão que nós comemos Dura é a cama que dormimos Dura é a vida do favelado Oh São Paulo rainha que ostenta vaidosa a tua coroa de ouro que são os arranhacéus Que veste viludo e seda e calça meias de algodão que é a favela O dinheiro não deu para comprar carne eu fiz macarrão com cenoura Não tinha gordura ficou horrivel A Vera é a única que reclama e pede mais E pede Mamãe vende eu para a Dona Julita porque lá tem comida gostosa Eu sei que existe brasileiros aqui dentro de São Paulo que sofre mais do que eu Em junho de 1957 eu fiquei doente e percorri as sedes do Serviço Social Devido eu carregar muito ferro fiquei com dor nos rins Para não ver os meus filhos passar fome fui pedir auxilio ao propalado Serviço Social Foi lá que eu vi as lagrimas deslisar dos olhos dos pobres Como é pungente ver os dramas que ali se desenrola A ironia com que são tratados os pobres A unica coisa que eles querem saber são os nomes e os endereços dos pobres Fui no Palacio o Palacio mandoume para a sede na Av Brigadeiro Luís Antonio Avenida Brigadeiro me enviou para o Serviço Social da Santa Casa Falei com a Dona Maria Aparecida que ouviume e respondeume tantas coisas e não disse nada Resolvi ir no Palacio e entrei na fila Falei com o senhor Alcides Um homem que não é niponico mas é amarelo como manteiga deteriorada Falei com o senhor Alcides Eu vim aqui pedir um auxilio porque estou doente O senhor mandou me ir na Avenida Brigadeiro Luis Antonio eu fui Avenida Brigadeiro mandou me ir na Santa Casa E eu gastei o unico dinheiro que eu tinha com as conduções Prende ela Não me deixaram sair E um soldado pois a baioneta no meu peito Olhei o soldado nos olhos e percebi que ele estava com dó de mim Disselhe Eu sou pobre porisso é que vim aqui Surgiu o Dr Osvaldo de Barros o falso filantrópico de São Paulo que está fantasiado de São Vicente de Paula E disse Chama um carro de preso 23 DE MAIO Levantei de manhã triste porque estava chovendo O barraco está numa desordem horrivel E que eu não tenho sabão para lavar as louças Digo louça por hábito Mas é as latas Se tivesse sabão eu ia lavar as roupas Eu não sou desmazelada Se ando suja é devido a reviravolta da vida de um favelado Cheguei a conclusão que quem não tem de ir pro céu não adianta olhar para cima E igual a nós que não gostamos da favela mas somos obrigados a residir na favela Fiz a comida Achei bonito a gordura frigindo na panela Que espetáculo deslumbrante As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas Ainda mais quando é arroz e feijão é um dia de festa para eles Antigamente era a macarronada o prato mais caro Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada São os novos ricos Passou para o lado dos fidalgos Até vocês feijão e arroz nos abandona Vocês que eram os amigos dos marginais dos favelados dos indigentes Vejam só Até o feijão nos esqueceu Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo Quem não nos despresou foi o fubá Mas as crianças não gostam de fubá Quando puis a comida o João sorriu Comeram e não aludiram a cor negra do feijão Porque negra é a nossa vida Negro é tudo que nos rodeia Nas ruas e casas comerciais já se vê as faixas indicando os nomes dos futuros deputados Alguns nomes já são conhecidos São reincidentes que já foram preteridos nas urnas Mas o povo não está interessado nas eleições que é o cavalo de Troia que aparece de quatro em quatro anos O céu é belo digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores E o astro rei sempre pontual para despontarse e recluirse As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul Há varias coisas belas no mundo que não é possível descreverse Só uma coisa nos entristece os preços quando vamos fazer compras Ofusca todas as belezas que existe A Theresa irmã da Meyri bebeu soda E sem motivo Disse que encontrou um bilhete de uma mulher no bolso do seu amado Perdeu muito sangue Os médicos diz que se ela sarar ficará imprestável Tem dois filhos um de 4 anos e outro de 9 meses 26 DE MAIO Amanheceu chovendo E eu tenho só 4 cruzeiros e um pouco de comida que sobrou de ontem e uns ossos Fui buscar agua para por os ossos ferver Ainda tem um pouco de macarrão eu faço uma sopa para os meninos Vi uma visinha lavando feijão Fiquei com inveja Faz duas semanas que eu não lavo roupas por não ter sabão Vendi umas taboas por 40 cruzeiros A mulher disseme que paga hoje Se ela pagar eu compro sabão Ha dias que não vinha policia aqui na favela e hoje veio porque o Julião deu no pai Deulhe uma cacetada com tanta violência que o velho chorou e foi chamar a policia 27 DE MAIO Percebi que no Frigorífico jogam creolina no lixo para o favelado não catar a carne para comer Não tomei café ia andando meio tonta A tontura da fome é pior do que a do álcool A tontura do álcool nos impele a cantar Mas a da fome nos faz tremer Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago Comecei sentir a boca amarga Pensei já não basta as amarguras da vida Parece que quando eu nasci o destino marcoume para passar fome Catei um saco de papel Quando eu penetrei na rua Paulino Guimarães uma senhora me deu uns jornais Eram limpos eu deixei e fui para o deposito Ia catando tudo que encontrava Ferro lata carvão tudo serve para o favelado O Leon pegou o papel recibi seis cruzeiros Pensei guardar o dinheiro para comprar feijão Mas vi que não podia porque o meu estômago reclamava e torturavame Resolvi tomar uma media e comprar um pão Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo Eu que antes de comer via o céu as arvores as aves tudo amarelo depois que comi tudo normalizouse aos meus olhos A comida no estomago é como o combustível nas maquinas Passei a trabalhar mais depressa O meu corpo deixou de pesar Comecei andar mais depressa Eu tinha impressão que eu deslisava no espaço Comecei sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida Chegou a Radio Patrulha que veio trazer dois negrinhos que estavam vagando na Estação da Luz 4 e 6 anos É facil perceber que eles são da favela São os mais maltrapilhos da cidade O que vão encontrando pelas ruas vão comendo Cascas de banana casca de melancia e até casca de abacaxi que é tão rústica eles trituram Estavam com os bolsos cheios de moedas de alumínio o novo dinheiro em circulação 28 DE MAIO Amanheceu chovendo Tenho só treis cruzeiros porque emprestei 5 para Leila ir buscar a filha no hospital Estou desorientada sem saber o que iniciar Quero escrever quero trabalhar quero lavar roupa Estou com frio E não tenho sapato para calçar Os sapatos dos meninos estão furados E o pior na favela é o que as crianças presenciam Todas crianças da favela sabem como é o corpo de uma mulher Porque quando os casais que se embriagam brigam a mulher para não apanhar sai nua para a rua Quando começa as brigas os favelados deixam seus afazeres para presenciar os bate fundos De modo que quando a mulher sai correndo nua é um verdadeiro espetáculo para o Zé Povinho Depois começam os comentários entre as crianças A Fernanda saiu nua quando o Armim estava lhe batendo Eu não vi Ah Que pena E que jeito é a mulher nua E o outro para citarlhe aproximalhe a boca do ouvido E ecoase as gargalhadas estrepitosas Tudo que é obseno pornográfico o favelado aprende com rapidez Tem barracões de meretrizes que praticam suas cenas amorosas na presença das crianças Os visinhos ricos de alvenaria dizem que nós somos protegidos pelos politicos É engano Os políticos só aparece aqui no quarto de despejo nas épocas eleitorais Este ano já tivemos a visita do candidato a deputado Dr Paulo de Campos Moura que nos deu feijão e otimos cobertores Que chegou numa epoca oportuna antes do frio O que eu quero esclarecer sobre as pessoas que residem na favela é o seguinte quem tira proveito aqui são os nortistas Que trabalham e não dissipam Compram casa ou retornamse ao Norte Aqui na favela há os que fazem barracões para residir e os que fazem para alugar E os alugueis são 500 a 70000 E os que fazem barracões para vender Gasta 4 mil cruzeiros e vendem por 11 mil cruzeiros Quem fez muitos barracões para vender foi o Tiburcio 29 DE MAIO Até que enfim parou de chover As nuvens deslisase para o poente Apenas o frio nos fustiga E varias pessoas da favela não tem agasalhos Quando uns tem sapatos não tem palitol E eu fico condoida vendo as crianças pisar na lama Percebi que chegaram novas pessoas para a favela Estão maltrapilhas e as faces desnutridas Improvisaram um barracão Condoí me de ver tantas agruras reservadas aos proletários Fitei a nova companheira de infortúnio Ela olhava a favela suas lamas e suas crianças paupérrimas Foi o olhar mais triste que eu já presenciei Talvez ela não mais tem ilusão Entregou sua vida aos cuidados da vida Há de existir alguém que lendo o que eu escrevo dirá isto é mentira Mas as misérias são reais O que eu revolto é contra a ganancia dos homens que espremem uns aos outros como se espremesse uma laranja 30 DE MAIO Troquei a Vera e saímos Ia pensando será que Deus vai ter pena de mim Será que eu arranjo dinheiro hoje Será que Deus sabe que existe as favelas e que os favelados passam fome O José Carlos chegou com uma sacola de biscoitos que catou no lixo Quando eu vejo eles comendo as coisas do lixo penso E se tiver veneno É que as crianças não suporta a fome Os biscoitos estavam gostosos Eu comi pensando naquele provérbio quem entra na dança deve dançar E como eu também tenho fome devo comer Chegaram novas pessoas para a favela Estão esfarrapadas andar curvado e os olhos fitos no solo como se pensasse na sua desdita por residir num lugar sem atração Um lugar que não se pode plantar uma flor para aspirar o seu perfume para ouvir o zumbido das abelhas ou o colibri acariciandoa com seu frágil biquinho O unico perfume que exala na favela é a lama podre os excrementos e a pinga Hoje ninguém vai dormir porque os favelados que não trabalham já estão começando a fazer batucada Lata frigideira panelas tudo serve para acompanhar o cantar desafinado dos notivagos 31 DE MAIO Sabado o dia que quase fico louca porque preciso arranjar o que comer para sabado e o domingo Fiz o café e os pães que eu ganhei ontem Puis feijão no fogo Quando eu lavava o feijão pensava eu hoje estou parecendo gente bem vou cozinhar feijão Parece até um sonho Ganhei bananas e mandiocas na quitanda da rua Guaporé Quando eu voltava para a favela na Avenida Cruzeiro do Sul 728 uma senhora pediume para eu ir jogar um cachorro morto dentro do Tietê que ela davame 5 cruzeiros Deixei a Vera com a mulher e fui O cachorro estava dentro de um saco A mulher ficou observando os meus passos à paulistana Quer dizer andar depressa Quando voltei ela deume 6 cruzeiros Quando recebi os 6 cruzeiros pensei já dá para comprar um sabão Cheguei na favela eu não acho geito de dizer cheguei em casa Casa é casa Barracão é barracão O barraco tanto no interior como no exterior estava sujo E aquela desordem aborreceume Fitei o quintal o lixo podre exalava mau cheiro Só aos domingos que eu tenho tempo de limpar Eu havia comprado um ovo e 15 cruzeiros de banha no Seu Eduardo E fritei o ovo para ver se parava as nauseas Parou Percebi que era fraquesa O medico mandoume comer oleo mas eu não posso comprar Fui fazendo o jantar Arroz feijão pimentão e choriço e mandioca frita Quando a Vera viu tanta coisa disse hoje é festa de negro Perguntei a uma senhora que vi pela primeira vez A senhora está morando aqui Estou Mas faz de conta que não estou porque eu tenho muito nojo daqui Isto aqui é lugar para os porcos Mas se puzessem os porcos aqui haviam de protestar e fazer greve Eu sempre ouvi falar na favela mas não pensava que era um lugar tão asqueroso assim Só mesmo Deus para ter dó de nós 1 DE JUNHO É o inicio do mês E o ano que deslisa E a gente vendo os amigos morrer e outros nascer E treis e meia da manhã Não posso durmir Chegou o tal Vitor o homem mais feio da favela O representante do bicho papão Tão feio e tem duas mulheres Ambas vivem juntas no mesmo barraco Quando ele veio residir na favela veio demonstrando valentia Dizia Eu fui vacinado com o sangue do Lampeão14 Dia 1 de janeiro de 1958 ele disseme que ia quebrarme a cara Mas eu lhe ensinei que a é a e b é b Ele é de ferro e eu sou de aço Não tenho força física mas as minhas palavras ferem mais do que espada E as feridas são incicatrisaveis Ele deixou de aborrecerme porque eu chamei a radio patrulha para ele e ele ficou 4 horas detido Quando ele saiu andou dizendo que ia matar me Então o Adalberto disselhe E o pior negocio que você vai fazer Porque se você não matála ela é quem te mata Eu tenho uma habilidade que não vou relatar aqui porque isto há de defenderme Quem vive na favela deve procurar isolarse viver só O Vitor está tocando radio Penso hoje é domingo e nós podiamos dormir até as 8 Mas aqui não há consideração mutua Eu nada tenho que dizer da minha saudosa mãe Ela era muito boa Queria que eu estudasse para professora Foi as contigencias da vida que lhe impossibilitou concretizar o seu sonho Mas ela formou o meu carater ensinandome a gostar dos humildes e dos fracos É porisso que eu tenho dó dos favelados Se bem que aqui tem pessoas dignas de despreso pessoas de espirito perverso Esta noite a Dona Amélia e o seu companheiro brigaram Ela disselhe que ele está com ela por causa do dinheiro que ela lhe dá Só se ouvia a voz de Dona Amélia que demonstrava prazer na polemica Ela teve vários filhos Distribuio todos Tem dois filhos moços que ela não os quer em casa Pretere os filhos e prefere os homens O homem entra pela porta O filho é raiz do coração É quatro horas Eu já fiz o almoço hoje foi almoço Tinha arroz feijão e repolho e linguiça Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguém Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão o alimento que não está ao alcance do favelado fico sorrindo atoa Como se eu estivesse assistindo um espetáculo deslumbrante Lavei as roupas e o barracão Agora vou ler e escrever Vejo os jovens jogando bola E eles correm pelo campo demonstrando energia Penso se eles tomassem leite puro e comessem carne 2 DE JUNHO Amanheceu fazendo frio Acendi o fogo e mandei o João ir comprar pão e café O pão o Chico do Mercadinho cortou um pedaço Eu chinguei o Chico de ordinário cachorro eu queria ser um raio para cortarlhe em mil pedaços O pão não deu e os meninos não levaram lanche De manhã eu estou sempre nervosa Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer Mas hoje é segundafeira e tem muito papel na rua O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casarse comigo Mas eu não quero porque já estou na maturidade E depois um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler E que levanta para escrever E que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal Ele deume 50 cruzeiros e eu paguei a costureira Um vestido que fez para a Vera A Dona Alice veiu queixarse que o senhor Alexandre estava lhe insultando por causa de 65 cruzeiros Pensei ah o dinheiro Que faz morte que faz odio criar raiz 3 DE JUNHO Quando eu estava no ponto do bonde a Vera começou a chorar Queria pasteis Eu estava só com 10 cruzeiros 2 para pagar o bonde e 8 para comprar carne moida A Dona Geralda deume 4 cruzeiros para eu comprar os pasteis ela comia e cantava E eu pensava o meu dilema é sempre a comida Tomei o bonde A Vera começou a chorar porque não queria ir em pé e não tinha lugar para sentar Quando eu estou com pouco dinheiro procuro não pensar nos filhos que vão pedir pão pão café Desvio meu pensamento para o céu Penso será que lá em cima tem habitantes Será que eles são melhores do que nós Será que o predomínio de lá suplanta o nosso Será que as nações de lá é variada igual aqui na terra Ou é uma nação unica Será que lá existe favela E se lá existe favela será que quando eu morrer eu vou morar na favela Quando eu comecei escrever ouvi vozes alteradas Faz tanto tempo que não há briga na favela Era a Odete e o seu esposo que estão separados Brigavam porque ele trouxe outra mulher no carro que ele trabalha Elas estavam na casa do Seu Francisco irmão do Alcino Sairam para a rua Eu fui ver a briga Agrediram a mulher que estava com o Alcino Quatro mulheres e um menino avançaram na mulher com tanta violência e lhe jogaram no solo A Marli saiu Disse que ia buscar uma pedra para jogar na cabeça da mulher Eu puis a mulher no carro e o Alcino e mandei eles irse embora Pensei em ir chamar a Policia Mas até a Policia chegar elas matavam a mulher O Alcino deu uns tapas na sogra que é a pior agitadora Se eu não entro para auxiliar o Alcino ele ia levar desvantagem As mulheres da favela são horríveis numa briga O que podem resolver com palavras elas transformam em conflito Parecem corvos numa disputa A Odete revoltouse comigo por ter defendido o Alcino Eu disse Você tem quatro filhos para criar Eu não me importo Eu queria era matála Quando eu empurrava a mulher para dentro do carro ela disseme Só a senhora é que é boa Eu tinha a impressão que estava retirando um pedaço de osso da boca dos cachorros E a Odete vendo o seu esposo sair com a outra no carro ficou furiosa Vieram chingarme de entrometida Eu penso que a violência não resolve nada Assembléia de favelados é com paus facas pedradas e violências A favela é o quarto das surpresas Esta é a quinta mulher que o Alcino traz aqui na favela E a sua esposa quando vê briga A favela hoje está quente Durante o dia a Leila e o seu companheiro Arnaldo brigaram O Arnaldo é preto Quando veio para a favela era menino Mas que menino Era bom iducado meigo obidiente Era o orgulho do pai e de quem lhe conhecia Este vai ser um negro sim senhor E que na África os negros são classificados assim Negro tú Negro turututú É negro sim senhor Negro tú é o negro mais ou menos Negro turututú é o que não vale nada E o negro Sim Senhor é o da alta sociedade Mas o Arnaldo transformouse em negro turututú depois que cresceu Ficou estúpido pornográfico obceno e alcoólatra Não sei como é que uma pessoa pode desfazerse assim Ele é compadre da Dona Domingas Mas que compadre Dona Domingas é uma preta boa igual ao pão Calma e util Quando a Leila ficou sem casa foi morar com a Dona Domingas A Dona Domingas era quem lavava a roupa da Leila que lhe obrigou a dormir no chão e lhe dar o leito Passou a ser a dona da casa Eu dizia Reage Domingas Ela é feiticeira pode botar um feitiço em mim Mas o feitiço não existe Existe sim Eu vi ela fazê É porque a Leila andava dizendo que consertava vidas E eu vi varias senhoras ricas aparecer por aqui Havia a tal Dona Guiomar Edviges Gonçalves a mulher que tem vários nomes e varias residências porque compra a prestação e não paga e dá o nome trocado onde compra Quando sai na rua parece a Maria Antonieta E a Dona Guiomar concorreu para escravisar a Dona Domingas A Dona Domingas recebe uma pensão do seu extinto esposo E era obrigada a dar dinheiro para a Leila que é companheira do Arnaldo Ele sendo compadre da Domingas era para defender a comadre Mas ele explorava Dividia o dinheiro entre os dois E ainda praticava suas cenas amorosas perto do afilhado A Dona Domingas saiu de casa Foi para Carapicuiba morar com Dona Iracema Ficou o seu filho Nikon Eu fiz tudo para retirar o menino Mas a Leila lhe dizia Eu sou feiticeira Se você for embora eu faço você virar um elefante Eu encontrava o Nikon Bom dia Nikon Você não quer ir com a tua mãe Eu não vou porque a Leila disseme que ela é feiticeira e se eu for embora ela vai fazer eu virar um elefante e o elefante é um bicho muito muito feio Sabe Dona Carolina e se ela fazer tu virar um porco Eu tenho que comer lavagem e alguém há de querer me por num chiqueiro para eu engordar Vão me capar E se ela fazer eu virar um cavalo alguém há de me por para puchar uma carroça e ainda me dá chicotada Quando o Nikon começou passar fome foi com a mãe Pensei A fome também serve de juiz Um dia eu discutia com a Leila Ela e o Arnaldo puzeram fogo no meu barracão Os vizinhos apagaram 5 DE JUNHO Mas eu já observei os nossos políticos Para observálos fui na Assembléia A sucursal do Purgatório porque a matriz é a sede do Serviço Social no palacio do Governo Foi lá que eu vi ranger de dentes Vi os pobres sair chorando E as lagrimas dos pobres comove os poetas Não comove os poetas de salão Mas os poetas do lixo os idealistas das favelas um expectador que assiste e observa as trajedias que os politicos representam em relação ao povo 6 DE JUNHO O José Carlos faz dias que não para em casa Quando chega para dormir é dez e meia da noite Hoje de manhã ele apanhou Aviseilhe que se chegar as 10 da noite não abro a porta Comprei um pão as 2 horas E 5 horas fui partir um pedaço já está duro O pão atual fez uma dupla com o coração dos politicos Duro diante do clamor publico Hoje brigaram aqui na favela Brigaram por causa de um cachorro A briga foi com uns baianos15 que só falavam em peixeiras 7 DE JUNHO Os meninos tomaram café e foram a aula Eles estão alegres porque hoje teve café Só quem passa fome é que dá valor a comida Eu e a Vera fomos catar papel Passei no Frigorífico para pegar linguiça Contei 9 mulheres na fila Eu tenho a mania de observar tudo contar tudo marcar os fatos Encontrei muito papel nas ruas Ganhei 20 cruzeiros Fui no bar tomar uma media Uma para mim e outra para a Vera Gastei 11 cruzeiros Fiquei catando papel até as 11 e meia Ganhei 50 cruzeiros Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o Brasil porque eu lia a Historia do Brasil e ficava sabendo que existia guerra Só lia os nomes masculinos como defensor da patria Então eu dizia para a minha mãe Porque a senhora não faz eu virar homem Ela dizia Se você passar por debaixo do arcoiris você vira homem Quando o arcoiris surgia eu ia correndo na sua direção Mas o arcoiris estava sempre distanciando Igual os políticos distante do povo Eu cançava e sentava Depois começava a chorar Mas o povo não deve cançar Não deve chorar Deve lutar para melhorar o Brasil para os nossos filhos não sofrer o que estamos sofrendo Eu voltava e dizia para a mamãe O arcoiris foge de mim Nós somos pobres viemos para as margens do rio As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais Gente da favela é considerado marginais Não mais se vê os corvos voando as margens do rio perto dos lixos Os homens desempregados substituiram os corvos Quando eu fui catar papel encontrei um preto Estava rasgado e sujo que dava pena Nos seus trajes rotos ele podia representarse como diretor do sindicato dos miseráveis O seu olhar era um olhar angustiado como se olhasse o mundo com despreso Indigno para um ser humano Estava comendo uns doces que a fabrica havia jogado na lama Ele limpava o barro e comia os doces Não estava embriagado mas vacilava no andar Cambaleava Estava tonto de fome Encontrei com ele outra vez peno do deposito e disselhe O senhor espera que eu vou vender este papel e doute cinco cruzeiros para o senhor tomar uma media E bom beber um cafezinho de manhã Eu não quero A senhora cata estes papéis com tantas dificuldades para manter os teus filhos e deve receber uma migalha e ainda quer dividir comigo Este serviço que a senhora faz é serviço de cavalo Eu já sei o que vou fazer da minha vida Daqui uns dias eu não vou precisar de mais nada deste mundo Eu não pude viver nas fazendas Os fazendeiros me explorava muito Eu não posso trabalhar na cidade porque aqui tudo é a dinheiro e eu não encontro emprego porque já sou idoso Eu sei que eu vou morrer porque a fome é a pior das enfermidades O homem parou de falar bruscamente Eu segui com o meu saco de papel nas costas Tem pessoas que aos sabados vão dançar Eu não danço Adio bobagem ficar rodando pra aqui pra ali Eu já rodo tanto para arranjar dinheiro para comer Procurei a Vera não encontrei Gritei não apareceu Fui na Purtuguesa de Desportos Já está iniciando os festejos juninos Ela não estava lá Fui no ponto de bonde treis vezes Eu já estava pensando ir no Juizado de Menores ia gastar o dinheiro reservado para o pão Quando cheguei na favela para pegar os documentos para eu ir na cidade a Vera estava procurandome Disseme que estava procurando balões E que estava cançada de correr 8 DE JUNHO Hoje eu fiz almoço Quando tem carne eu fico mais animada Mas quando é polenta eu já sei que vou ter complicações com as crianças Feijão arroz e pasteis Já faz tempo que os meninos estão pedindo pasteis O João está sorrindo atoa O pasteis é um acontecimento aqui em casa Quando eu digo casa penso que estou ofendendo as casas de tijolos Hoje os favelados estão apreciando os briguentos São dois irmãos O Vicente e o João Coque Lá em frente ao mercadinho estão brigando dois baianos e são irmãos Nem parece que geraram no mesmo ventre Os visinhos de alvenaria olha os favelados com repugnância Percebo seus olhares de odio porque eles não quer a favela aqui Que a favela deturpou o bairro Que tem nojo da pobresa Esquecem eles que na morte todos ficam pobres O que eu sei é que a praga dos favelados pega Quando nós mudamos para a favela nós iamos pedir agua nos visinhos de alvenaria Quem nos dava agua era a Dona Ida Cardoso Treis vezes ela nos deu agua Ela nos disse que nos dava agua só nos dias uteis Aos domingos ela queria dormir até mais tarde Mas o favelado não é burro Mas foi vacinado com sangue de burro Um dia foram buscar agua e não encontraram a torneira do jardim onde os favelados pegava agua Formouse uma fila na porta da Dona Ida E todas chamavam Eu queria agua para fazer a mamadeira Meu Deus como é que nós vamos fazer sem agua Nois iamos noutras casas batíamos na porta Ninguém respondia Não aparecia ninguém para nos atender para não ouvir isto A senhora pode nos dar um pouco dagua Eu carregava agua da rua Guaporé Do deposito de papel Outros trazia agua do Serviço nos garrafões Uma tarde de terçafeira A sogra de Dona Ida estava sentada e disse Podia dar uma enchente e arrazar a favela e matar estes pobres cacetes Tem hora que eu revolto contra Deus por ter posto gente pobre no mundo que só serve para amolar os outros A Tina da Dona Mulata quando soube que a sogra da Dona Ida pedia a Deus para enviar uma enchente para matar os pobres favelados disse Quem há de morrer afogado há de ser ela Na enchente de 49 morreu o Pedro Cardoso filho de Dona Ida Quando eu soube que o Pedrinho havia morrido afogado pensei na decepção que teve a sua avó que pedia agua agua bastante agua para matar os favelados e veio agua e matoulhe o neto E para ela compreender que Deus é sobrio E o advogado dos humildes Os pobres são criaturas de Deus E o dinheiro é um metal criado e valorisado pelo homem Se Deus avisasse a Dona Ida que ela por não nos dar agua ia perder o seu filho para sempre creio que ela estaria nos dando agua até hoje O Pedro pagou em holocausto o orgulho de sua avó E a maldade de sua mãe E assim que Deus repreende 9 DE JUNHO Eu saí Quando eu estava catando papel em frente a Bela Vista eu tive um aviso que eu ia ter aborrecimento Fiquei triste Quando eu passava na rua Pedro Vicente um senhor deu uma bichiga de borracha para a Vera Ela ficou contente e disse que ele ia para o céu Quando nasceu a Vera eu fiquei sosinha aqui na favela Não apareceu uma mulher para lavar minhas roupas olhar os meus filhos Os meus filhos dormiam sujos Eu fiquei na cama pensando nos filhos com medo deles ir brincar nas margens do rio Depois do parto a mulher não tem forças para erguer um braço Depois do parto eu fiquei numa posição incomoda Até quando Deus deume forças para ajeitarme Eu já estava deitada quando ouvi as vozes das crianças anunciando que estavam passando cinema na rua Não acreditei no que ouvia Resolvi ir ver Era a Secretaria da Saude Veio passar um filme para os favelados ver como é que o caramujo transmite a doença anêmica16 Para não usar as aguas do rio Que as larvas desenvolvese nas aguas Até a agua que em vez de nos auxiliar nos contamina Nem o ar que respiramos não é puro porque jogam lixo aqui na favela Mandaram os favelados fazer mictorios 11 DE JUNHO Já faz seis meses que eu não pago a agua 25 cruzeiros por mês E por falar na agua o que eu não gosto e tenho pavor é de ir buscar agua Quando as mulheres aglomeram na torneira enquanto esperam a sua vez para encher a lata vai falando de tudo e de todos Se uma mulher está engordando elas dizem que está gravida Se está emagrecendo elas dizem que está tuberculosa Temos aqui a Dona Binidita que está com 82 anos Começou engordar É filho A Dona Benidita está gravida Não diga Naquela idade Isto é o fim do mundo De quantos meses Seis sete a data que vinha na mente E quando alguém ia levar roupinhas para a Dona Binidita ela chingava e rogava praga Dizia Eu sou mãe da que já saiu da circulação Como é que eu posso ter filho Eu já estou aposentada Quando eu ouvia os rumores pensava quem teve filhos nesta idade foi só Santa Isabel mãe de São João Batista Todos os dias há uma novidade aqui na favela Quando inaugurou a Purtuguesa de Desportos os purtugueses que reside aqui por perto foram E a Dona Isaltina esqueceu umas roupas no quintal No outro dia não encontrou as roupas A Dona Sebastiana disse para a Dona Isaltina que a ladra era a Leila A Dona Isaltina foi chamar a Radio Patrulha E ela interrogava a Leila com tanta energia que acabou descobrindo as roupas no fosso de excrementos Pegaram um pau e retiraram as roupas E a policia obrigou a Leila lavar Um carro da Prefeitura que vinha trazer agua jogava agua e a Leila lavava Ela dizia Não fui eu quem tirou as roupas Eu sou vagabunda mas não sou ladra O povo da favela sempre achava tempo para presenciar estes espetáculos O juiz pegou uma jovem debil mental Disseram que ela havia fugido com um japonês Hoje ela apareceu e disse ser mentira Eu fui na Dona Julita Ela deume café sabão e pão Na Avenida do Estado 1140 ganhei muito papel Recebi 98 cruzeiros Deu para comprar oleo carne e açúcar Ganhei umas bananas fiz doce O José Carlos está mais calmo depois que botou os vermes 21 vermes 12 DE JUNHO Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa pensar nas misérias que nos rodeia Deixei o leito para escrever Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades E preciso criar este ambiente de fantasia para esquecer que estou na favela Fiz o café e fui carregar agua Olhei o céu a estrela Dalva já estava no céu Como é horrivel pisar na lama As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários O tal Valdemar hoje agrediu o senhor Alexandre com uma enxada As mulheres interviram Eu fico admirada do senhor Alexandre temer o Valdemar Porque as mulheres resulutas da favela expancam o Valdemar com vassouras e chinelos Mas quando alguém lhe teme ele prevalece 13 DE JUNHO Vesti as crianças e eles foram para a escola Eu fui catar papel No Frigorifico vi uma mocinha comendo salchichas do lixo Você pode arranjar um emprego e levar uma vida reajustada Ela perguntoume se catar papel ganha dinheiro Afirmei que sim Ela disseme que quer um serviço para andar bem bonita Ela está com 15 anos Epoca que achamos o mundo maravilhoso Epoca em que a rosa desabrocha Depois vai caindo pétala por pétala e surgem os espinhos Uns cançam da vida suicidam Outros passam a roubar Olhei o rosto da mocinha Está com boqueira Os preços aumentam igual as ondas do mar Cada qual mais forte Quem luta com as ondas Só os tubarões Mas o tubarão mais feroz é o racional E o terrestre E o atacadista A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo Um fato que alegroume imensamente Eu dancei cantei e pulei E agradeci o rei dos juizes que é Deus Foi em janeiro quando as aguas invadiu os armazéns e estragou os alimentos Bem feito Em vez de vender barato guarda esperando alta de preços Vi os homens jogar sacos de arroz dentro do rio Bacalhau queijo doces Fiquei com inveja dos peixes que não trabalham e passam bem Hoje eu estou lendo E li o crime do Deputado de Recife Nei Maranhão17 li o jornal para as mulheres da favela ouvir Elas ficaram revoltadas e começaram chingar o assassino E lhe rogar praga Eu já observei que as pragas dos favelados pegam Os bons eu enalteço os maus eu critico Devo reservar as palavras suaves para os operários para os mendigos que são escravos da miséria 14 DE JUNHO Está chovendo Eu não posso ir catar papel O dia que chove eu sou mendiga Já ando mesmo trapuda e suja Já uso o uniforme dos indigentes E hoje é sabado Os favelados são considerados mendigos Vou aproveitar a deixa A Vera não vai sair comigo porque está chovendo Ageitei um guardachuva velho que achei no lixo e saí Fui no Frigorífico ganhei uns ossos já serve Faço uma sopa Já que a barriga não fica vazia tentei viver com ar Comecei desmaiar Então eu resolvi trabalhar porque eu não quero desistir da vida Quero ver como é que eu vou morrer Ninguém deve alimentar a ideia de suicídio Mas hoje em dia os que vivem até chegar a hora da morte é um heroi Porque quem não é forte desanima Vi uma senhora reclamar que ganhou só ossos no Frigorífico e que os ossos estavam limpos E eu gosto tanto de carne Fiquei nervosa ouvindo a mulher lamentarse porque é duro a gente vir ao mundo e não poder nem comer Pelo que observo Deus é o rei dos sábios Ele pois os homens e os animais no mundo Mas os animais quem lhes alimenta é a Natureza porque se os animais fossem alimentados igual aos homens havia de sofrer muito Eu penso isto porque quando eu não tenho nada para comer invejo os animais Enquanto eu esperava na fila para ganhar bolachas ia ouvindo as mulheres lamentarse Outra mulher reclamava que passou numa casa e pediu uma esmola A dona da casa mandou esperar A mulher continuou dizendo que a dona da casa surgiu com um embrulho e deulhe Ela não quiz abrir o embrulho perto das colegas com receio que elas pedissem Começou pensar Será um pedaço de queijo Será carne Quando ela chegou em casa a primeira coisa que fez foi desfazer o embrulho porque a curiosidade é amiga das mulheres Quando desfez o embrulho viu que eram ratos mortos Tem pessoas que zombam dos que pedem Na fabrica de bolacha o homem disse que não ia dar mais bolacha Mas as mulheres continuaram quietas E a fila estava aumentando Quando chegava alguém para comprar ele explicava O senhor desculpe o aspecto hediondo que este povo dá na porta da fabrica Mas por infelicidade minha todos os sábados é este inferno Eu ficava impaciente porque queria ouvir o que o dono da fabrica dizia E queria ouvir o que as mulheres dizia Que dilema triste para quem presencia As pobres querendo ganhar E o rico não queria dar Ele dá só os pedaços de bolacha E elas saem contentes como se fossem a Rainha Elisabethe da Inglaterra quando recebeu os treze milhões em joias que o presidente Kubstchek lhe enviou como presente de aniversário O dono da fabrica vendo que elas não iam embora mandou dar A empregada nos dava e dizia Quem ganhar deve irse embora Eles alegam que não estão em condições de dar esmola porque a farinha de trigo subiu muito Mas os mendigos já estão habituados a ganhar as bolachas todos os sabados Não ganhei bolacha e fui na feira catar verduras Encontrei com a dona Maria do José Bento e começamos a falar sobre o custo de vida 15 DE JUNHO Fui comprar carne pão e sabão Parei na banca de jornaes Li que uma senhora e três filho havia suicidado por encontrar dificuldade de viver A mulher que suicidouse não tinha alma de favelado que quando tem fome recorre ao lixo cata verduras nas feiras pedem esmola e assim vão vivendo Pobre mulher Quem sabe se de há muito ela vem pensando em eliminarse porque as mães tem muito dó dos filhos Mas é uma vergonha para uma nação Uma pessoa matarse porque passa fome E a pior coisa para uma mãe é ouvir esta sinfonia Mamãe eu quero pão Mamãe eu estou com fome Penso será que ela procurou a Legião Brasileira ou Serviço Social Ela devia ir nos palacios falar com os manda chuva A noticia do jornal deixoume nervosa Passei o dia chingando os politicos porque eu também quando não tenho nada para dar aos meus filhos fico quase louca Aqui na favela tem um quadro de footbol O Rubro Negro As camisas são pretas e vermelhas O fundador é o Almir Castilho O quadro não é conhecido pelo publico mas já é conhecido pela policia A dois anos atrás o quadro foi jogar na Penha e brigaram com o quadro adversário e a briga transformouse em conflito Com a intervenção da policia os briguentos renderamse E havia um morto e vários feridos Não houve prisões Mas abriram inquérito Cada um teve que pagar dois mil cruzeiros ao advogado Hoje teve uma briga Na rua A residem 10 baianos num barracão de 3 por dois e meio Cinco são irmãos E as outras cinco são irmãs São robustos mal incarados Homens que havia de ter valor para o Lampeão Os dez são pernambucanos E brigaram os dez com um paraibano Quando os pernambucanos avançaram no paraibano as mulheres abraçaram o paraibano e levaram para dentro do barracão e fecharam a porta Os pernambucanos ficaram falando que matavam e repicavam o paraibano Queriam invadir o barracão Estavam furiosos igual os cães quando alguém lhes retira a cadela Ela teve seis filhos 3 do Manolo e três de outros Ela teve um menino que podia estar com 4 anos Mas um dia eles embriagaram e brigaram e lutaram dentro de casa A luta foi tremenda O barraco oscilava E as panelas caiam fazendo ruidos Na confusão o menino caiu no assoalho e pisaramlhe em cima Passado uns dias perceberam que o menino estava todo quebrado Levaram para o Hospital das Clinicas Engessaram o menino Mas os ossos não ligaram O menino morreu Agora ela está com duas meninas Uma de dois anos e outra recém nascida O seu companheiro atual bebe e brigam E as vezes rolam no assoalho Quando eu vejo estas cenas fico pensando no menino que morreu Tinha um soldado que aparecia por aqui Ele procurava agradarme E eu fugia dele Caí na asneira de dizer para a Leila que achava o soldado muito bonito mas não queria nada com ele porque ele bebe pinga E um dia ele veio falar comigo cheirando pinga Uma noite apareceu e perguntoume Então Dona Carolina a senhora anda dizendo que eu bebo pinga Recordei imediatamente da Leila porque eu tinha dito só pra ela Respondi Eu acho o senhor bonito mas tenho medo do senhor beber pinga Percebi que o soldado não apreciou minhas observações O senhor sabe que o soldado alemão não pode beber O soldado olhoume e disse Graças a Deus sou brasileiro 16 DE JUNHO O José Carlos está melhor Deilhe uma lavagem de alho e uma chá de ortelã Eu zombei do remedio da mulher mas fui obrigada a darlhe porque atualmente a gente se arranja como pode Devido ao custo de vida temos que voltar ao primitivismo Lavar nas tinas cosinhar com lenha Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos Eles respondia me É pena você ser preta Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra e o meu cabelo rústico Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco Porque o cabelo de preto onde põe fica É obediente E o cabelo de branco é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar E indisciplinado Se é que existe reincarnações eu quero voltar sempre preta Um dia um branco disseme Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos aí os brancos podiam protestar com razão Mas nem o branco nem o preto conhece a sua origem O branco é que diz que é superior Mas que superioridade apresenta o branco Se o negro bebe pinga o branco bebe A enfermidade que atinge o preto atinge o branco Se o branco sente fome o negro também A natureza não seleciona ninguém 17 DE JUNHO Passei a noite assim eu despertava e escrevia Depois eu adormecia novamente As 5 da manhã a Vera começou vomitar Eu deilhe um calmante ela dormiu Quando a chuva passou eu aproveitei para sair Catei um saco de papel Eu recebi só 12 cruzeiros Catei uns tomates e um pouco de alho e vim para casa correndo porque a Vera está doente Cheguei ela estava dormindo Com os meus ruidos ela despertouse Disse estar com fome Fui comprar leite e fiz um mingau para ela Ela tomou e vomitou um verme Depois levantouse e andou um pouco e deitouse outra vez Eu fui no Seu Manuel vender uns ferros para arranjar dinheiro Estou nervosa com medo da Vera piorar porque o dinheiro que eu tenho não dá para pagar medico Hoje eu estou rezando e pedindo a Deus para a Vera melhorar 18 DE JUNHO Hoje amanheceu chovendo A Vera ontem pois dois vermes pela boca Está com febre Hoje não vai ter aulas em homenagem ao Principe do Japão18 19 DE JUNHO A Vera ainda está doente Ela disseme que foi a lavagem de alho que eu deilhe que lhe fez mal Mas aqui na favela varias crianças está atacadas com vermes O José Carlos não quer ir na escola porque está fazendo frio e ele não tem sapato Mas hoje é dia de exame ele foi Eu fiquei com medo porque o frio está congelando Mas o que hei de fazer Eu saí e fui catar papel Fui na Dona Julita ela estava na feira Passei na sapataria para pegar o papel O saco estava pesado Eu devia carregar o papel em duas viagem Mas carreguei de uma vez porque queria chegar em casa porque a Vera estava doente e sosinha 20 DE JUNHO Dei leite para a Vera O que eu sei é que o leite está sendo despesas extras e está prejudicando a minha minguada bolsa Deitei a Vera e saí Eu estava tão nervosa Acho que se eu estivesse num campo de batalha não ia sobrar ninguém com vida Eu pensava nas roupas por lavar Na Vera E se a doença fosse piorar Eu não posso contar com o pai dela Ele não conhece a Vera E nem a Vera conhece ele Tudo na minha vida é fantástico Pai não conhece filho filho não conhece pai Não tinha papéis nas ruas E eu queria comprar um par de sapatos para a Vera Segui catando papel Ganhei 41 cruzeiros Fiquei pensando na Vera que ia bradar e chorar porque ela quando não tem o que calçar fica lamentando que não gosta de ser pobre Penso se a miséria revolta até as crianças 21 DE JUNHO Vesti o José Carlos para ir na escola Quando eu estava na rua comecei ficar nervosa Todos os dias é a mesma luta Andar igual um judeu errante atraz de dinheiro e o dinheiro que se ganha não dá pra nada Passei no Frigorífico ganhei uns ossos Quando eu saí a Vera recomendoume para trazer os sapatos Deixei o João brincando com ela porque hoje não tem aula para o segundo ano Percorri varias ruas e não havia papel Quando ganhei 30 cruzeiros pensei já dá para pagar os sapatos da Vera Mas era sabado e precisava arranjar dinheiro para o domingo E Vera já estava idealizando o cardapio de domingo Na Avenida Tiradentes eu ganhei uma folhas de flandres e fui vender no deposito do Senhor Salvador Zanutti na rua Voluntários da Patria Eu estava de mal com ele Mas ele não me fez mal nenhum Até emprestoume dinheiro quando eu fiquei doente Quando eu fiquei doente eu andava até querendo suicidar por falta de recursos O senhor Salvador perguntoume porque foi que eu sumi de lá Eu fiquei envergonhada com a sua acolhida tão gentil Ele deume 31 cruzeiros Fiquei alegre Saí correndo Ia comprar os sapatos para a Vera lembrei que havia deixado a sacola no deposito Mas o transito estava impedido Consegui atravessar para pegar a sacola Ele disseme Você saiu correndo e esqueceu a sacola Catei mais um pouco de papel e recebi 10 cruzeiros Fiquei com 71 cruzeiros Dei 30 para os sapatos fiquei com 41 E não ia dar para comprar café pão açúcar e arroz e gordura Pensei nos ossos Eu ia fazer uma sopa Tem um pouco de arroz um pouco de macarrão Eu misturo tudo e faço uma sopa E a Vera se quizer comer come se não quizer que se aperte A epoca atual não é de ter preferencia e nem nojo Cheguei em casa para ver a Vera Ela estava brincando Pensei Ela já está melhor Ela estava coçandose e com a pele toda irritada Acho que foi o chá de alho que lhe dei Jurei nunca mais darlhe remedios indicados por lavadeiras de hospitais Mostreilhe os sapatos ela ficou alegre Ela sorriu e disseme que está contente comigo e não vai comprar uma mãe branca Que não sou mentirosa Que falei que ia comprar os sapatos e comprei Que eu tenho palavra Eu estava tão cançada Eu queria sair para arranjar mais dinheiro Mas a canceira dominoume Ouvi as crianças gritar que estão dando cartões Corri como flexa A canceira sumiu Encontrei o João que já vinha com um cartão acenando na mão Todos estavam sorrindo como se tivesse ganhado um prêmio Li o cartão Era para ir buscar um prêmio e uma surpresa para seu filho na rua Javaés 171 22 DE JUNHO Deixei o leito as 5 horas preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés Dei comida para a Vera O João não quiz a minha comida Disse Eu vou comer lá na festa A comida de lá deve ser melhor do que a da senhora Ele não gosta de festa Mas se ele sabe que vai ter comida é o primeiro a insistir e faz questão de levar a sacola Passei na Dona Julita para dizerlhe que nós iamos numa festa Pensei deve ser banquete porque São Luiz Rei de França quando convidava o povo para comer preparava um banquete Tomei o bonde O dinheiro não dava Cheguei lá as 2 horas A fila estava enorme Podia ter umas 3 mil pessoas Quando eles vieram nos convidar os favelados ficaram contentes Os que não ganhou cartão ficou chorando e dizendo que não tinha sorte Percebi que povo da favela gosta de ganhar esmolas Puzeram umas tabuas na calçada e forraram com jornaes e puzeram os pães em cima Ouvi uma mulher dizer Não é ruim ser pobre Todos usava roupas humildes Alguns calçados outros descalços Apareceu um preto alto e gordo como se fosse decendente de elefante Falava para todos ouvir Eu não sou deputado Sou simplesmente amigo do povo humilde Comecei a escrever o que observava daquela agromeração O senhor Zuza viume escrevendo Porque eu sou alta e estava toda de vermelho Fui falarlhe Pergunteilhe Quem é o senhor Ô gente Eu sou o Zuza A senhora nunca ouviu falar no Zuza Pois o Zuza sou eu Com que finalidade o senhor faz esta festa Faço esta festa para o povo Eu vou por o senhor no jornal Você pode me por onde você quizer Não simpatizei com o tal Zuza Falta qualquer coisa naquele homem para ele ser um homem completo Ele notando a impaciência do povo dizia Espera Vocês estão mortos de fome Vi mulher gravida desmaiar O Zuza deu uns pães para as mulheres e mandou elas erguer os pães para o ar para ser fotografadas Os carros e os ônibus da CMTC19 encontrava dificuldades para percorrer a rua devido as crianças que atravessavam a rua de um lado para outro A qualquer instante eu esperava um atropelamento Alguns reclamava Se eu soubesse que era só pão eu não vinha O senhor Zuza mandou dois violeiros tocar e apareceu um palhaço Que festa sem graça Era domingo e o povo ficou expantado quando viu os indigentes superlotar o ônibus Bom Retiro Tivemos sorte Fomos com um cobrador que aceitava a quantia que nós davamos Uns dava 1 cruzeiro outros dava só um passe Tinha uma mulher com crianças que vieram de Santos e ganhou só um pão e um saquinho de bala e uma regua escolar que estava escrito Lembrança do Deputado Paulo Teixeira de Camargo Tinha mulher que gastou vinte cruzeiros nas conduções E não ganharam nada Onde estava a fila estava frio por estar na sombra Eu saí da fila e passei para o outro lado Devido eu ter bajulado inconcientemente o senhor Zuza ele deume vários pães Contei até seis Depois parei e pedi a Deus para ele não dar me mais pães Ouvi varias mulheres lhe rogando praga Tivemos sorte ao voltar Era o mesmo condutor Eu estava com cinco crianças e eu seis Porisso eu fui obrigada a suplicar ao condutor que deixasse nós voltar por três cruzeiros Era o unico dinheiro que eu tinha A Vera ficou com os pés inchados de tanto andar Quando eu cheguei na favela vi as mulheres rogando praga no Zuza As mulheres que estavam com crianças não ganharam pão porque não ia entrar no meio do povo que dizia Vamos pegar alguns pães para não perder a viagem Encontrei o senhor Alexandre brigando com o Vicente por causa de um metro que emprestoulhe Era 6 horas quando apareceu um carro Era um senhor que havia casado e veio nos dar os sanduíches que sobrou Eu ganhei alguns Depois os favelados invadiram o carro Os moços foram embora e disse que iam jogar os sanduíches no lixo que gente de favela são estúpidos e quadrúpedes que estão precisando de ferraduras 23 DE JUNHO Passei no açougue para comprar meio quilo de carne para bife Os preços era 24 e 28 Fiquei nervosa com a diferença dos preços O açougueiro explicoume que o filé é mais caro Pensei na desventura da vaca a escrava do homem Que passa a existência no mato se alimenta com vegetais gosta de sal mas o homem não dá porque custa caro Depois de morta é dividida Tabelada e selecionada E morre quando o homem quer Em vida dá dinheiro ao homem E morta enriquece o homem Enfim o mundo é como o branco quer Eu não sou branca não tenho nada com estas desorganizações Quando cheguei na favela os meninos estavam brincando Perguntei lhes se alguém havia brigado com eles Responderamme que só a baiana Uma vizinha que tem 3 filhos E que a Leila brigou com o Arnaldo e queria jogar a sua filha recemnascida dentro do rio Tietê E foram brigando até a rua do Porto E a Leila jogou a criança no chão A criança tem dois meses As mulheres queriam ir chamar a policia para levar a menina no Juizado Eu estava cançada deitei Não tive coragem nem de trocar roupa 24 DE JUNHO Quando eu cheguei na favela encontrei com a Vera que estava na rua Ela já sabe contar tudo que presencia Disseme que a policia tinha vindo avisar que a mãe do Paredão tinha morrido Ela era muito boa Só que bebia muito Eu estava fazendo o almoço quando a Vera veio dizerme que havia briga na favela Fui ver Era a Maria Mathias que estava dando seu espetáculo histérico Espetáculo da idade critica Só as mulheres e os médicos é quem vai entender o que eu disse Os favelados todos os anos fazem fogueiras Mas em vez de arranjar lenha rouba uns aos outros Entram nos quintaes e carregam as madeiras de outros favelados Eu tinha um caibro eles levaram para queimar Não sei porque é que os favelados são tão nocivos Alem deles não ter qualidades ainda surgem os maus elementos que mesclamse com eles Quem vem perturbar é o Chico o BomBril e o Valdemar O Valdemar levanta de manhã e vem para a favela Porque este homem não vai trabalhar Ele não gosta de mim Eu gostava imensamente da mãe dele Mas a Dona Aparecida disseme que foi nos os favelados quem deturpamos o seu filho Mas os homens da favela alguns vão trabalhar Os outros quando não trabalham ficam na favela Ninguém chama o Valdemar aqui E que ele já nasceu com o espirito inferior Se a gente pudesse escrever sempre elogiando Se eu escrever que o Valdemar é bom elemento quando alguém lhe conhecer não vai comprovar o que eu escrevi Eu sentei ao redor da fogueira O Joaquim e sua esposa Pitita brigaram Pobre Joaquim Demonstrou tolerância para não desfazer o lar 25 DE JUNHO Fiz o café e vesti eles para ir na escola Puis feijão no fogo Vesti a Vera e saimos O João estava brincando Quando me viu correu E o José Carlos assustouse quando ouviu a minha voz Vi uma pirua do Governo do Estado Serviço de Saude que vinha recolher as fezes O jornal disse que há 160 casos positivos aqui na favela Será que eles vão dar remedios A maioria dos favelados não há de poder comprar Eu não fiz o exame Fui catar papel Ganhei só 25 cruzeiros É que agora tem um homem que cata na minha zona Mas eu não brigo porisso Porque daqui uns dias ele desiste O homem já está dizendo que o que ele ganha não dá nem para a pinga Que é melhor pedir esmola Passei na fábrica e catei uns tomates O gerente quando vê repreende Mas quem é pobre deve fingir que não ouve Quando cheguei na favela fiz uma salada para os meninos Ouvi as crianças dizendo que estavam brigando Fui ver Era a Nair e a Meiry A Nair é branca A Meiry é preta Já faz tempo que a Meiry anda prometendo que vai bater na Nair A Meiry é temida porque anda com gilete E ela foi bater na Nair e apanhou A Nair rasgoulhe as roupas deixandolhe nua Que gargalhada sonora Que espetáculo apreciadissimo para o favelado que aprecia profundamente tudo que é pornográfico As crianças sorri e batem palmas como se estivessem aplaudindo Depois as crianças se dividem em grupos e ficam comentando Eu vi Eu não vi Eu queria ver Atualmente as crianças não mais emocionam quando vê uma mulher nua Já estão habituadas As crianças acham que nas mulheres os corpos são iguais A diferença é a cor Os meus filhos vem perguntarme porque é que o corpo da mulher tem isto ou aquilo Eu finjo que não compreendo estas perguntas incomodas Eles dizem A mamãe é boba Ela não compreende nada 26 DE JUNHO Ouvi uns buatos que os fiscaes vieram requerer que os favelados desocupem o terreno do Estado onde eles fizeram barracões sem ordem Varias pessoas que tinham barracões aqui na favela transferiram para o terreno do Estado porque lá quando chove não há lama Eles disseram que vão construir parque infantil O que eu acho esquisito é que o terreno tiniu alvenaria E foi desapropriado E agora o Zé Povinho está construindo barraco 27 DE JUNHO Hoje a Leila está embriagada E eu fico pensando como é que uma mulher que tem duas filhas em idade tenra pode embriagarse até ficar inconciente Dois homens vieram nos braços E se ela rolar na cama e esmagar a recem nascida O que eu acho interessante é quando alguém entra num bar ou emporio logo aparece um que oferece pinga Porque não oferece um quilo de arroz feijão doce etc Tem pessoas aqui na favela que diz que eu quero ser muita coisa porque não bebo pinga Eu sou sozinha Tenho três filhos Se eu viciar no álcool os meus filhos não irá respeitarme Escrevendo isto estou cometendo uma tolice Eu não tenho que dar satisfações a ninguém Para concluir eu não bebo porque não gosto e acabouse Eu prefiro empregar o meu dinheiro em livros do que no álcool Se você achar que eu estou agindo acertadamente peçote para dizer Muito bem Carolina 28 DE JUNHO Hoje a noite vai ter uma corrida aqui na favela A corrida é promovida pelo Rubro Negro Tipo corrida São Silvestre Compraram pinga para fazer quentão Quentão para os adultos e batata doce para as crianças Fizeram uma fogueira Puzeram 4 luzes na praça Estou aguardando a corrida para ver quem vai vencer Para o primeiro colocado o prêmio é uma medalha e uma garrafa de vinho e doce para o segundo E para o ultimo ovos podres e uma vela O trajeto é da favela até a igreja do Pari O unico que está alcoolisado é o Valdemar Há decencia na favela Na favela tem muitas crianças As crianças são sempre em maior numero Um casal tem 8 filhos outro tem 6 e daí por diante O senhor Alfredo fez um baile Está tocando vitrola Dança só os nortistas porque os paulistas aborreceram de ouvir e dançar Pisa na fulô Aproveitei enquanto o povo dança para pegar agua Arrumei a cozinha e fui para a fogueira Quando faltava 10 para as nove iniciaram a corrida Enquanto eu aguardava o retorno dos corredores fiquei passeando A Dona Ida Cardoso fez fogueira Eu disse que no centro da cidade não fazem fogueiras Uma senhora respondeume que na cidade a fogueira é de outra forma Retorna os corredores O primeiro colocado é o Joaquim Quando foi para premiar o terceiro colocado o Armim que era o juiz encontrou dificuldades porque havia dois homens que dizia ter chegado em primeiro lugar E as mulheres entraram como juiz E exaltaram tanto que o Armim acabou premiando os designados pelas mulheres atrabiliarias que predominam Serviram quentão e vinho Eu bebi duas xicaras Fiquei alegre Dancei com o senhor Binidito E com o Armim Quando eu percebi que o álcool estava desviando o meu senso eu fui deitar Antes de deitar dei uma surra no João porque ele está muito malcriado Esqueci de citar que quando eu estava esquentando fogo as mulheres começaram a falar que haviam visto o retrato do Zuza no jornal E estavam alegres Percebi que o senhor Zuza com a festa que fez para o povo em vez de atrair amigos atraiu inimigos Eis o que estava escrito no jornal do dia 26 de junho de 1958 ZUZA PAI DE SANTO EM CANA Zuza está em cana desde ontem pois ele que se chama na realidade José Onofre e tem uma aparência realmente imponente mantinha para lucros extraordinários uma tenda de Umbanda no Bom Retiro a Tenda Pae Miguel Xangô É também diretor de uma industria de cadeiras suspeita de irregularidades na Delegacia de Costumes Zuza foto foi autuado em flagrante Eu disse ao Zuza que ele ia sair no jornal Eu ouvi um senhor dizendo que o Zuza era malandro Mas foi as pragas das mães que gastaram dinheiro e não ganharam nada que pegou igual o visgo 29 DE JUNHO Na igreja eu ganhei dois quilos de macarrão balas e biscoitos Comprei 3 sanduiches para os meninos Quando eu retornava para a favela encontrei com o senhor Aldo Quando cheguei na favela estavam organizando uma corrida só para mulheres Na rua A tem um baile Depois que a favela superlotouse de nortistas tem mais intriga Mais polemica e mais distrações A favela ficou quente igual a pimenta Fiquei na rua até nove horas para prestar atenção nos movimentos da favela Para ver como é que o povo age a noite Eu já ia retirando quando surgiu a Florenciana e o Binidito A Florenciana a morta de fome Vinha reclamando que a sua filha Vilma não havia ganhado nada E havia participado da corrida precisava uma medalha Quem chegou em primeiro lugar foi a Iracema A Florenciana é preta Mas é tão diferente dos pretos por ser muito ambiciosa Tudo que ela faz é visando lucro Creio que se ela fosse dona de matadouro havia de comer os chifres e os cascos dos bois Que descontentamento na corrida das mulheres Todas queriam ser classificadas Eu fico só olhando Não interfirome porque eu não gosto de polemica A dona Rosa que aluga barracões aqui na favela é arranca couro Veio dizer o senhor Francisco para arranjarlhe quatro mil cruzeiros que ela está com as lições dos terrenos E esse dinheiro que já dei não pode ser íncluido na venda do barraco Não Não pode Esse dinheiro fica para pagar o aluguel Foi a resposta de dona Rosa ao senhor Francisco Pobre senhor Francisco Ele está doente na Caixa de Aposentadoria e paga 70000 por mês de aluguel e 10000 de luz Sustenta 4 pessoas Eu vou deitar Creio que já é 1 da manhã Quando eu ia deitar ar ouvi uns rumores que na rua A os baianos estavam brigando Fui ver É que o Sérgio havia feito um baile E os nortistas havia feito outro E estavam dançando com a porta fechada E a mulher do Chó foi dançar no baile dos nortistas Mas ela dançava só com os bonitinhos E um pernambucano convidoulhe para dançar com ele Ela não quiz dançar Olhou o pernambucano minuciosamente e não quiz dançar com ele O Pernambucano quando se viu preterido enfureceuse Arrancou a peixeira da cinta e investiu na mulher do Chó A única coisa que eu vejo correr com rapidez são os ratos e coelhos E os relâmpagos Mas a mulher do Chó quando viu a peixeira na sua direção suplantou o relampago O povo arrebatoulhe a peixeira O pernambucano saiu correndo fungando e bradando Hoje eu mato hoje corre sangue na favela Veio correndo para a Rua B e arrancou um pau da cerca do senhor Antonio Venancio e voltou para a Rua A Chegou na casa do Chó e bradava Sai pra fora Sai pra fora biscate vagabunda Deuse uma confusão tremenda Os nortistas falavam e eu não entendia nada Se no Norte eles for assim o Norte deve ser horroroso E naquela confusão a mulher do Chó desapareceu igual fumaça Outra coisa que observei hoje noite de São Pedro O que observei na favela e não está certo é isto tem um soldado vulgo Taubaté É o predileto de algumas mulheres aqui da favela Ele passa as noites aqui O soldado é turbulento Que bom se o tenente retirasse este soldado da favela Qualquer coisa para ele é tiro Já feriu dois da favela Na rua B na casa do extinto senhor Sebastião Gonçalves fizeram uma fogueira Eu fiquei sem sono porque eu não posso beber álcool E eu bebi quentão Apareceu a RP 44 Eu segui os guardas Como eu já expliquei os nortistas falavam tanto que ninguém compreendia Os guardas foramse E eu saí da Rua A e fui para a Rua B Sentei perto da fogueira Todos falavam A conversa não me interessava mas eu fiquei Falavam nas brigas No jogo de footbol na Suissa20 E na pretenção do homem ir na lua Uns dizia que o homem vai Outros que não vai E eu quando ouvi o vai não vai já fiquei pensando numa briga porque aqui na favela tudo inicia bem e termina com brigas Fiquei esperando a Purtuguesa de Desportos soltar os foguetes porque se eu deitasse antes tinha que despertar com os foguetes Uma senhora que esquentava fogo disseme que a Angelina Preta bateu no seu filho Argemiro de oito anos e não quer que ele passe na Rua A para pegar agua 30 DE JUNHO Fiz café e fui buscar agua Ouvi um grito fui ver o que era Era a Odete brigando com o seu companheiro Ela dizia Dona Carolina vai chamar a Policia Eu lhe aconselhava para ficar quieta Odete você está gravida Eles estavam atracados Eu já estou na favela há 11 anos e tenho nojo de presenciar estas cenas A Odete estava seminua com os seios a mostra Eles brigam sem saber porque é que estão brigando As visinhas contou me que a Odete jogou agua fervendo no rosto do seu companheiro Hoje vários homens não foram trabalhar Coisa de segundasfeiras Parece que eles já estão cançados de trabalhar 1 DE JULHO Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente Tem pessoa que quando me vê passar saem da janela ou fecham as portas Estes gestos não me ofendem Eu até gosto porque não preciso parar para conversar Quando passei perto da fabrica vi vários tomates Ia pegar quando vi o gerente Não aproximei porque ele não gosta que pega Quando descarregam os caminhões os tomates caem no solo e quando os caminhões saem esmagaos Mas a humanidade é assim Prefere vê estragar do que deixar seus semelhantes aproveitar Quando ele afastouse fui pegar uns tomates Depois fui catar mais papéis Encontrei o Sansão O carteiro Ele ainda não cortou os cabelos Ele estava com os olhos vermelhos Pensei será que ele chorou Ou vontade de fumar ou está com fome Coisas tão comum aqui no Brasil Fitei o seu uniforme descorado O senhor Kubstchek que aprecia pompas devia dar outros uniformes para os carteiros Ele olhame com o meu saco de papel Percebi que ele confia em mim As pessoas sem apoio igual ao carteiro quando encontra alguém que condoise deles reanimam o espirito Eu não gosto do Kubstchek O homem que tem um nome esquisito que o povo sabe falar mas não sabe escrever O baiano esposo de dona Zefa é meu vizinho e veio queixarse que o José Carlos lhe aborrece O que eu sei é que com tantos baianos na favela os favelados veteranos estão mudandose Eles querem ser superior pela força Para ficar livre deles os favelados fazem um sacrifício e compram um terreno e zarpamse Eu disselhe Teus filhos também aborreceme Abre as minhas gavetas e o que eles encontram carregam Eu não sabia disso E nem ia saber porque eu não faço reclamações de crianças Porque eu gosto das crianças Aqui reside uma nortista que é costureira Eu gostava muito dela Lhe favorecia no que eu podia Um dia o meu filho José Carlos estava brincando perto da casa dela e ela jogoulhe agua No outro dia veio um caminhão jogar abacaxi podre aqui na favela e eu perguntei a ela porque havia jogado agua no meu filho Eu joguei fria Mas se ele me aborrecer outra vez eu quero jogar é agua quente com soda para ele não enchergar mais e não aborrecer mais ninguém A minha simpatia pela dona Chiquinha arrefeceu No outro dia a dona Chiquinha veio perguntar se eu queria brigar com ela que ela ia buscar a peixeira Não lhe dei confiança 3 DE JULHO Eu estava escrevendo quando ouvi o meu visinho Antonio Nascimento repreendendo o meu filho José Carlos Ele anda dizendo que vai bater no menino Se fosse uma reprensão justa mas a dele é impricancia Onde é que já se viu um homem de 48 anos desafiar uma criança de 9 anos para brigar Mas o Antonio Nascimento nasceu com as idéias ao avesso A filha da Dirce morreu Era duas gemeas Atualmente ela tem tido partos duplos O ano passado morreu o casal de gemeos O menino num dia e a menina no outro E agora fenece outra Quando morre alguém aqui na favela os malandros saem pelas ruas pidindo esmolas para sepultar os que falece Embolsam o dinheiro e gastam na bebida Os favelados estão comentando o retorno dos jogadores 4 DE JULHO Quando eu passava na rua Eduardo Chaves uma senhora chamoume e deume umas panelas de alumínio papeis e um quilo de carne assada com batatas Creio que ela deume a carne por causa da Vera que disselhe que gostaria de levar o seu berço para o Mercado e morar lá Porque lá tem muitas coisas boa para comer Que ela gosta de carne e quer casar com o açougueiro Já percebi que minha filha é revoltada Ela tem pavor de morar na favela Um dia apareceu aqui na favela uma preta que disse chamar Vitoria Veio com um menino por nome Cezar A preta disseme que era empregada de Dona Mara que dança na Boite Oásis na Rua 7 de Abril Para eu emprestarlhe um caderno de poesia e ir procurála na Avenida São João A preta disseme que estava estudando musica no Conservatorio Dramatico Musical Quem indicou o meu barraco para a preta foi a Florenciana Ela deume este endereço Avenida São João 190 82 andar apartamento 23 O que deixoume preocupada foi o prédio ter 82 andar Ainda não li que São Paulo tem prédio tão elevado assim Depois pensei eu não saio do quarto de despejo o que posso sabei o que se passa na sala de visita Com a insistência da Florenciana eu emprestei Quando fui na cidade procurar o numero 190 não encontrei Fui na Boite Oásis procurar a Dona Mara para saber como é que eu poderia localisar sua empregada ordinaria Informaramme que Dona Mara frequenta a boite e que chegava a 1 da manhã Deixei uma carta para a Dona Mara e não obtive resposta Mas o dia eu encontrar esta tal Vitoria ela vai apanhar Ensaboei as roupas Depois fui acabar de lavar na lagoa O Serviço de Saude do Estado disse que a agua da lagoa transmite as doenças caramujo Vieram nos revelar o que ignorávamos Mas não soluciona a deficiência da agua A Dona Alice está triste porque ela alugou o barracão da Dona Rosa E ela quer vender o barracão Quer 400000 E o seu esposo tem o dinheiro E a Dona Rosa não lhe cumprimenta Eu nunca vi uma pessoa tão ambiciosa assim Ainda se fosse só a ambição mas a inveja é a sua sombra Quando eu ganhei a minha saia vermelha ela ficou furiosa Dizia Só eu é que não ganho nada Agora ela faz outro barracão e alugou o outro que ela residia É o que está residindo o senhor Francisco Quando os meus filhos eram menores eu deixava eles fechado e saía para catar papel Um dia eu cheguei e encontrei o João chorando Ele disseme Sabe mamãe a Dona Rosa me jogou bosta no rosto Eu acendi o fogo esquentei agua e lavei as crianças Fiquei horrorisada com a maldade da Dona Rosa Ela sabe que aqui na favela não pode alugar barracão Mas ela aluga E a pior senhoria que eu já vi na vida Porque será que o pobre não tem dó do outro pobre 5 DE JULHO O Frei Luiz hoje nos visitou com o seu carro capela Nos disse que vai ensinar o catecismo as crianças para fazer a primeira comunhão E aos sabados vem nos ensinar a conhecer os trechos biblicos 6 DE JULHO Despertei as 4 horas e meia com a tosse da Neide Percebi que aquela tosse não ia deixarme dormir Levantei e deilhe um pouco de xarope porque fiquei com dó Ela é orfã de pai Quando o pai estava doente a mãe deixouas São treis filhas A mãe da Neide é uma desalmada Não prestou para tratar do esposo enfermo e nem para criar as filhas que ficaram aos cuidados dos avós Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos Depois fui catar lenha Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar Só não cato a felicidade Estendi as roupas para quarar Ao meu lado estava a mulher do nortista que dormia com a mulher do Chó Estava nervosa e falava tanto Parece que tem a lingua eletrica Parecia o Carlos Lacerda quando falava do Getulio Dizia que era ela quem lavava as roupas da mulher do Chó E o seu esposo é quem lhe dava dinheiro para ela lhe pagar É 5 e meia O frei Luiz está chegando para passar o cinema aqui na favela Já puzeram a tela e os favelados estão presentes As pessoas de alvenaria que residem perto da favela diz que não sabe como é que as pessoas de cultura dá atenção ao povo da favela As crianças da favela bradaram quando iniciaram o cinema representando trechos da Biblia O nascimento de Cristo Chegou o carro capela com o Frei Luiz Um vigário que é util aos favelados Quando passava uma tela o Frei explicava Quando passou os Reis Magos o Frei explicou que a denominação Magos é porque eles liam a sorte das pessoas nas estrelas E se alguém sabia o nome dos Reis Magos Que um é muito conhecido e chamava Baltazar E o outro Pelé21 respondeu um moleque Todos riram Chegou o caminhão com os jogadores na hora que o padre estava rezando Resolvi tomar parte no coro Os meus filhos chegaram do cinema e eu fui dar o jantar para eles A Vera estava contente e contava as travessuras de José Carlos O João perdeu os 11 cruzeiros que eu deilhe para ir no Rialto Ele levava o dinheiro na carteira e foi com os meninos da favela E alguns deles ja sabem bater carteira 7 DE JULHO Fui na dona Juana ela deume pães Passei na fabrica para ver se tinha tomates Havia muitas lenhas Eu ia pegar uns pedaços quando ouvi um preto dizer para eu não mecher nas lenhas que ele ia baterme Eu disse para bater que eu não tenho medo Ele estava pondo as lenhas dentro do caminhão Olhoume com desprezo e disse Maloqueira Por eu ser de maloca é que você não deve mecher comigo Eu estou habituada a tudo A roubar brigar e beber Eu passo 15 dias em casa e quinze dias na prisão Já fui sentenciada em Santos Ele fez menção de agredirme e eu disselhe Eu sou da favela do Canindé Sei cortar de gilete e navalha e estou aprendendo a manejar a peixeira Um nordestino está dando aulas Se vai me bater pode vir Comecei apalpar os bolsos Onde será que está minha navalha Hoje o senhor fica só com uma orelha Quando eu bebo umas pingas fico meio louca Na favela é assim tudo que aparece por lá nós batemos e roubamos o dinheiro e tudo que tiver no bolso O preto ficou quieto Eu vim embora Quando alguém nos insulta é só falar que é da favela e pronto Nos deixa em paz Percebi que nós da favela somos temido Eu desafiei o preto porque eu sabia que ele não ia vir Eu não gosto de briga Quando eu voltava encontrei com o Nelson da Vila Guilherme Disse algo que eu não gostei Fingi que não compreendia o que ele dizia Mas você é tão inteligente e não compreende porque é que eu ando atrás de você Quando eu cheguei na favela os meus filhos não estavam Gritei Não apareceu ninguém Fui no senhor Eduardo e comprei meio litro de óleo e 1600 de linguiça Encontrei o dinheiro que o João recebeu quando vendeu os ferros 46 com 20 66 Quando eu voltava fiquei olhando os homens da favela A maioria não trabalha as segundasfeiras Fui no senhor Manuel vender os ferros que eu achei pelas ruas e ver se via os meus filhos Quando eu ia chegando no senhor Manoel vi o João que retornava Disseme que catou umas latas e ganhou 400 Pergunteilhe pela Vera Disseme que deixou em casa E que ela estava com o José Carlos Quando eu retornava ouvi a voz da Vera Ela dizia José Carlos olha a mamãe Veio correndo na minha direção Disse que ela e José Carlos tinham ido pedir esmolas Ele estava com o saco nas costas Eu vinha na frente e dizia que ele devia era fazer lições Eu precisava ir na cidade Enquanto eu vestia ouvia a voz do Durvalino que discutia com um bêbado desconhecido por aqui Começou surgir as mulheres Elas não perdem estas funções Passam horas e horas contemplando Não lembram de nada se deixou panela no fogo A briga para elas é tão importante como as touradas de Madri para os espanhóis Vi o Durvalino agredindo o bêbado e tentando enforca lo O bêbado não tinha forças para reagir O Armim e outros retirou as mãos do Durvalino do pescoço do bêbado e levaram ele para o outro lado do rio E o Durvalino ficou comentando o seu feito Fui trocar o meu titulo de eleitor Quando cheguei na rua Seminário fui tirar fotografia no Foto Lara 6000 Enquanto eu esperava as fotografias eu conversava com as pessoas presentes Todas agradaveis Recebi as fotografias e fui para a fila Conversei com uma senhora que o seu esposo é funcionário da Prefeitura E quis saber em quem eu ia votar Disselhe que vou votar no Dr Adhemar Deixei o tribunal e tomei o bonde Quando desci no ponto final fui no açougue comprar carne moida Passei na COAP22 e comprei meio quilo de arroz Perguntei a jornaleira se ela tem titulo de eleitor Eu pensava nos filhos que devia estar com fome A Vera começou pedir comida Esquentei e dei lhe O João jantou e o José Carlos também Contoume que o cunhado da Dona Aparecida havia chegado na assistência Que foi atropelado Que estava engessado Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas Tão diferentes da favela As casas com seus vasos de flores e cores variadas Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo que ignoram que a cidade mais afamada da America do Sul está enferma Com as suas úlceras As favelas 8 DE JULHO Eu estava indisposta deitei cedo Despertei com a algazarra que fazia na rua Não dava para compreender o que diziam porque todos falavam ao mesmo tempo e era muitas vozes reunidas Vozes de todos os tipos Eu queria levantar para pedirlhe que deixasse o povo durmir Mas percebi que ia perder tempo Eles já estavam alcoolizados A Leila deu o seu shou E os seus gritos não deixou os visinhos dormir As quatro horas comecei escrever Quando eu desperto custo adormecer Fico pensando da vida atribulada e pensando nas palavras do Frei Luiz que nos diz para sermos humildes Penso se o Frei Luiz fosse casado e tivesse filhos e ganhasse salario minimo ai eu queria ver se o Frei Luiz era humilde Diz que Deus dá valor só aos que sofrem com resignação Se o Frei visse os seus filhos comendo generos deteriorados comidos pelos corvos e ratos havia de revoltarse porque a revolta surge das agruras Mandei o João comprar 1000 de queijo Ele encontrouse com o Adalberto e disselhe para ele vir falar comigo E que eu ganhei umas tabuas e vou fazer um quartinho para eu escrever e guardar os meus livros Eu sai e fui catar papel Pouco papel nas ruas porque outro coitado também está catando papel Ele vende o papel e compra pinga e bebe Depois senta e chora em silencio Eu estava com tanto sono que não podia andar A Dona Anita deu me doces e ganhei só 2300 Quando cheguei na favela o João estava lendo gibi Esquentei a comida e deilhes O barulho noturno que ouvi as mulheres estavam comentando que os homens beberam 14 litros de pinga E a Leila insultou um jovem e ele espancoua Lhe jogou no solo e deu um pontapé no rosto O ato é selvagem Mas a Leila quando bebe irrita as pessoas Ela já apanhou até do Chiclé um preto bom que reside aqui na favela Ele não queria espancála Mas ela desclassificoulhe demais Ele deulhe tanto que até arrancoulhe dois dentes E por isso o apelido dele aqui na favela é Dentista A Leila ficou com o rosto tão inchado que foi preciso tomar pinicilina Hoje é dia das choronas Aqui reside uma nortista que quando bebe torra a paciencia O filho da nortista arranjou uma namorada Uma mulher que pode ser a sua avó A futura esposa veio residir com a sua mãe Quando a velha bebe fica aborrecendo e discutem E a velha não lhes dava socego Ele fugiu com a mulher E a velha está chorando Quer o retorno do filho E cinco horas José Carlos chegou Vou trocalo para ir na Casa Gouveia comprar um par de sapatos para ele Na Casa Gouveia ele escolheu o sapato 15900 O senhor Gouveia deixou por 15000 Ele está contente E olha as pessoas que passam para ver estão notando seus sapatos novos Quando eu cheguei na favela encontrei com o senhor Francisco Ele emprestoume a carrocinha e eu fui buscar as tabuas Levei a Vera dentro da carrocinha O José Carlos e o Ninho Para ir foi facil A carrocinha deslisava no asfalto como se fosse automatica Coloquei as madeiras de vários modos Ora ficava dianteira ora trazeira Percebi que precisava trazer em duas vezes O que é preciso fazer eu faço sem achar que é sacrifício Na rua Araguaia com a rua Canindé tem muita lama e eu encontrei dificuldade porque eu estava descalça e os meus pés deslizava na lama Não havia possibilidade de firmar os pés Eu escorregava Apareceu um senhor e empurrou a carrocinha para mim Disseme para eu ageitar as tabuas Agradeci e segui No ponto do bonde as tábuas escorregaram da carrocinha E o José Carlos vendo a minha luta disseme Porque é que a senhora não casouse Agora a senhora tinha um homem para ajudar Dei graças a Deus quando cheguei na favela Uma senhora estava esperandome Disseme que o João havia machucado a sua filha Ela disseme que o meu filho tentou violentar a sua filha de 2 anos e que ela ia dar parte no Juiz Se ele fez isto quem há de internálo sou eu Chorei Deitei o José Carlos e saí com o João Fui no Juizado para saber se havia possibilidade de internálo Preciso retiralo da rua porque agora tudo que aparecer de mal vão dizer que foi ele No Juizado o Dr que estava de plantão disse para eu voltar dia 10 que o dia 9 era feriado Saí do Juizado e fui tomar o bonde por ser mais barato No ponto do bonde o João plantouse na porta da pastelaria e eu sentei para descançar um pouco Quando cheguei na favela era meia noite Eu estava nervosa 9 DE JULHO Tive sonhos agitados Eu estava tão nervosa que se eu tivesse azas eu voaria para o deserto ou para o sertão Tem hora que eu revolto comigo por ter iludido com os homens e arranjado estes filhos Quando eu estava preparandome para sair a Dona Alice veio dizer que dois meninos do Juiz estava vagando aqui na favela Fui ver Estavam com roupas amarelas Descalços e sem camisa Só com aquele blusão em cima da pele Eles estavam desorientados Perguntei se queriam café Responderam que não Eu entrei e fui preparar para sair para a rua O José Carlos acompanhou os meninos Depois veio perguntarme se eu podia arranjar umas roupas para os meninos Vá chamálos Ele foi e voltou com os meninos Um era mulato claro Um rosto feio Um narigão O outro era branco bonito Contaramme os horrores do Juizado Que passam fome frio e que apanham initerruptamente Perguntaram se eu podia arranjarlhes umas camisas Deilhes as camisas e as calças Pergunteilhes os nomes O mulato é Antonio e o branco é Nelson Pergunteilhes se sabiam ler Responderam que sim Deilhes café Falaram que residem na Vila Maria e que tem mãe Aconselharam meus filhos para ser bons para mim Que os filhos estão melhor com as mães Que a coisa melhor do mundo é a mãe Eles pegaram as roupas que eu deilhes A calça do Nelson tinha tantos remendos que podia pesar 3 quilos Quando eles sairam olharam o numero do meu barracão e pediume para não internar o João que a comida é deficiente Que eles era obrigado a lavar louça Que se uma criança jogar fora o resto da comida do lixo que eles obriga a criança catar e comer Os meus filhos ficaram horrorisados com a narração dos fugitivos Decidi não internar o João porque ele tem apetite O que eu observei é que eles queriam livrarse das roupas amarelas Os meninos perguntaram o meu nome e sairam sorrindo para mim Penso porque será que os meninos que fogem do Juizado vem difamando a organisação Percebi que no Juizado as crianças degrada a moral Os Juizes não tem capacidade para formar o carater das crianças O que é que lhes falta Interesse pelos infelizes ou verba do Estado Em 1952 eu procurava ingressar na Vera Cruz e fui no Juizado falar com o Dr Nascimento se havia possibilidade de internar os meus filhos Ele disseme que se os meus filhos fossem para o Abrigo que ia sair ladrões Fiquei horrorisada ouvindo um Juiz dizer isto Quando existia a saudosa Rua Itaboca eu digo saudosa porque vejo tantos homens lamentando a extinção da zona do meritricio Quando eu ia lá e via as mulheres mais nogentas e perguntava Onde vocês foram criadas No Abrigo de Menores Vocês sabem ler Não Porque Você é padre Eu parava a interrogação Elas não sabiam ler nem cuidar de uma casa A unica coisa que elas conhecem minuciosamente e pode lecionar e dar diplomas é pornografia Pobres orfãs do Juiz Fui catar papel Estava indisposta O povo da rua percebe quando eu estou triste Ganhei 3600 Voltei Não conversei com ninguém Estou sem ação com a vida Começo achar a minha vida insipida e longa demais Hoje o sol não saiu O dia está triste igual a minha alma Deixei o João fechado estudando Disselhe que o homem que erra está vacinado na opinião publica O que eu observo é que os que vivem aqui na favela não podem esperar boa coisa deste ambiente São os adultos que contribue para delinquir os menores Temos os professores de escândalos A Leila a Meiry a Zefa a Pitita e a Deolinda Quando eu cheguei na favela encontrei com um nortista que estava com uma peixeira procurando o meu filho Quando me viu não disse nada Mas eu conversei com ele Ouvi as mulheres do deposito dizer que o senhor João da Rua do Porto faleceu e que ficou dois dias aguardando recursos para ser sepultado Eu ia vêlo Mas comecei sentir indisposição e resolvi deitar um pouco Já faz uns dois anos que eu não deito durante o dia Penso no senhor João que já ha tempos estava doente Paralisia Ele dizia que queria morrer porque não apreciava ser sustentado pela esposa Que a vida sem doença já é dura de conduzir A sua esposa dona Angelina é quem trabalhava para os dois Ela tinha um auxilio das vicentinas mas fizeram tanta intriga e as vicentinas deixou de auxiliála Injustiça Eu dormi um pouco Depois comecei escrever A dona Alice deume um prato de sopa O dia que eu mudar da favela vou acender uma vela para São Sebastião Ouço a Deolinda brigando com seu esposo Eles eram amasiados e as vicentinas aconselhouos a casar Ele bebe muito e ela o dobro Ela disse que o seu estomago não aceita café de manhã Que se beber vomita De manhã ela bebe pinga e passa o resto do dia chupando o dedo E nojento ver uma mulher de 50 anos chupando o dedo Ela foi chamar a Radio Patrulha porque ambos estão com a cabeça quebrada A sogra também bebe E forma o trio mais escandaloso da rua C Eu guardei as roupas dos meninos do Juizado para comprovante Fiquei horrorisada com o cheiro de suor E achei desmazelo 10 DE JULHO Deixei o leito as 5 e meia para pegar agua Não gosto de estar entre as mulheres porque é na torneira que elas falam de todos e de tudo Estou tão indisposta que se eu pudesse deitar um pouco Mas eu não tenho nada para os meninos comer O unico geito é sair Deixei o João estudando Ganhei só 1000 e achei metais Achei um arco de pua e um estudante pediume Deilhe Ele deume 3 cruzeiros para um café Passei na feira Comprei batata doce e peixe Quando cheguei na favela era 12 horas Esquentei a comida para o João e fui ajeitando o barracão Depois fui vender umas latas e ganhei 40 cruzeiros Retornei a favela e fiz o jantar A Deolinda e o seu esposo que foram na Radio Patrulha ainda não voltaram Será que ficaram presos Cai a tarde lentamente Já estão chegando os crentes com seus instrumentos musicaes para louvar Deus Aqui na favela tem um barracão na rua B onde os crentes vem rezar treis vezes por semana Uma parte do barracão é coberto com folha de flandres e a outra de telha Tem dia que eles estão rezando e os vagabundos da favela jogam pedras no barracão e quebram as telhas As que cai em cima das folhas faz barulho Mesmo sendo insultados eles não desanimam Aconselha os favelados para não roubar não beber e amar ao proximo como a si mesmo Os crentes não permite a entrada das mulheres que usa calças e nem vestidos decotados Os favelados zombam dos conselhos Fui buscar uma lata de agua e uma senhora estava lamentando Se eu fosse jovem eu não residia nesta favela nem um dia Mas eu já sou velha E velho não se governa Aqui nesta favela a gente vê coisa de arrepiar os cabelos A favela é uma cidade esquisita e o prefeito daqui é o Diabo E os pinguços que durante o dia estão oculto a noite aparecem para atentar Percebo que todas as pessoas que residem na favela não aprecia o lugar 11 DE JULHO Deixei o leito as 5 e meia Já estava cansada de escrever e com sono Mas aqui na favela não se pode dormir porque os barracões são úmidos e a Neide tosse muito e despertame Fui buscar agua e a fila já estava enorme Que coisa horrivel é ficar na torneira Sai briga ou alguém quer saber a vida dos outros Ao redor da torneira amanhece cheio de bosta E quem limpa sou eu Porque as outras não interessam Quando cheguei na favela estava indisposta e com dor nas pernas A minha enfermidade é física e moral 12 DE JULHO Fui no Frigorifico ganhei uns ossos Estou indisposta Comprei dois pães doce para o João e a Vera Catei tomates Encontrei um preto iducado e elegante no falar Disseme que reside em Jaçanã Eu ia perguntarlhe o nome mas fiquei com vergonha Ele deu dois cruzeiros ao João e eu comprei querozene Cheguei em casa fui no senhor Manoel vender os ferros O deposito já estava fechado Cheguei em casa e deitei Estava com frio e mal estar O povo da favela já sabe que eu estou doente Mas não aparece ninguém para prestarme um favor Não deixo o João sair Ele passa o dia lendo Ele conversa comigo e eu vou revelando as coisas inconvinientes que existe no mundo Já que o meu filho já sabe como é o mundo a linguagem infantil entre nós acabouse O José Carlos foi na feira Eu servi os ossos para fazer uma sopa A Vera não quiz O Frei Luiz está pondo a tela para passar o cineminha Não vou comparecer porque estou doente O João pediume para irmos Disselhe que enquanto nós residirmos aqui na favela ele não há de brincar com mais ninguém Antes eu falava e ele revoltava Agora eu falo e ele ouve Eu pretendia conversar com o meu filho as coisas serias da vida só quando ele atingisse a maioridade Mas quem reside na favela não tem quadra de vida Não tem infancia juventude e maturidade O meu filho com 11 anos já quer mulher Expliqueilhe que ele precisa tirar o diploma de grupo E estudar depois que o curso primário23 é muito pouco 13 DE JULHO Estão chegando as enfermeiras do Frei Luiz que vem curar as chagas dos favelados Elas estão ensinando as crianças rezar Eu queria saber como é que o Frei Luiz descobriu que os favelados tem chagas Esquentei o jantar para as crianças Ouço a Meire convidando a Nair para ir no baile da Rua A A Vera está tussindo Levantome para darlhe um comprimido Estou com febre Não posso levantar Estou esperando o José Carlos chegar Quando ele chegou deume a caixa onde eu guardo os remedios e tomei uma Salofeno e a dor foi desaparecendo e eu adormeci Despertei as 2 da madrugada com o Arnaldo e a Leila brigando 14 DE JULHO Passei o dia deitada por estar com febre e dor nas pernas Não tinha dinheiro mas eu havia deixado uns ferros lá no senhor Manoel e mandei o José Carlos ir pesar e receber Ganhou 22 cruzeiros Comprei 5 de pão e 5 de açúcar e comprimido Levantei só para preparar as refeições Passei o dia deitada O José Carlos ouviu a Florenciana dizer que eu pareço louca Que escrevo e não ganho nada 15 DE JULHO Hoje é o aniversário de minha filha Vera Eunice Eu não posso fazer uma festinha porque isto é o mesmo que querer agarrar o sol com as mãos Hoje não vai ter almoço Só jantar Estou mais disposta Ontem supliquei ao Padre Donizete24 para eu sarar Graças a Deus que atualmente os santos estão protegendo Porque não sobra dinheiro para eu ir no medico Fui catar papel levei os filhos Eu agora quero ter o João debaixo dos meus olhos Fui na Dona Julita Ela está em SantoAndré Cheguei em casa fiz o almoço Fui no Senhor Manoel vender os ferros Ganhei 25 cruzeiros Comprei pão Quando cheguei na favela tinha um purtuguês vendendo miudo de vaca Comprei meio quilo de bucho Mas eu não gosto de negociar com purtuguês Eles não tem iducação São obcenos pornográficos e estúpidos Quando procura uma preta é pensando explorala Eles pensam que são mais inteligentes do que os outros O purtuguês disse para a Fernanda que lhe dava um pedaço de fígado se ela lhe aceitasse Ela não quiz Tem preta que não gosta de branco Ela saiu sem comprar Ele deixou de vender por ser atrevido 16 DE JULHO Não havia papel nas ruas Passei no Frigorifico Havia jogado muitas linguiças no lixo Separei as que não estava estragadas Eu não quero enfraquecer e não posso comprar E tenho um apetite de Leão Então recorro ao lixo 17 DE JULHO A Leila e o Arnaldo brigaram toda a noite Não nos deixou dormir Deixei o leito às 5 e meia e carregueiagua Na torneira sempre sai encrenca Você passou na minha frente Não passei E daí prossegue Um dia o esposo da Dona Silvia estava na torneira e discutiram ele e um nortista o senhor Manoel pai do Zé Maria Enquanto eles trocavam insultos eu presenciava O nortista tirou a peixeira O Antonio de Andrade tem 65 anos Mas quando viu a peixeira reluzir saltou igual ao Ademar Ferreira no salto triple25 Saí e fui catar papel Ganhei 60 cruzeiros Parei para conversar com a Dona Anita Ela está preocupada com as noticia de guerra Que a guerra é ingrata para os jovens Que é pungente a condição dos pracinhas Que herói são os jogadores defutbol Os pracinhas são venerados pelas mulheres E que os pracinhas são nossos filhos Eu ouvi dizer que o General Teixeira Lot26 não vai enviar tropas para o Oriente Medio Se for assim creio que devemos considerar e venerar o nosso general que já demonstrou o seu desvelo pelo povo e o paíz 18 DE JULHO Saí e fui catar papel Ouvia as mulheres lamentando com lagrimas nos olhos que não mais aguenta o custo de vida Levei o João para evitar encrenca Passei na banca de jornal na Avenida Tiradentes e parei para conversar com uns senhores e com o jornaleiro Cheguei na favela era 12 e meia O Durvalino passou com um pedaço de carne na mão Parou para brincar com a Neide e começou falar do Bobo Que ele não presta e vai ser um péssimo esposo Deu um pedaço de carne para a Dona Aparecida 19 DE JULHO Fui na bolacha O dono disse que não dava mais bolacha Voltei catando tudo que encontrava Está chovendo e eu não quiz catar papel Quando cheguei na favela a Vera contoume que a baiana havia lhe chingado Uma mulher de 32 anos brigar com uma criança de 5 anos Uma visinha que viu a baiana chingando a Vera confirmou Assim que a nojenta viu me começou insultarme Mostrou uma peixeira para o José Carlos e disse que pretende lhe picar Fui no senhor Manoel vender uns ferros Ganhei 55 cruzeiros Levei pouco material e achei que era muito dinheiro Perguntei ao senhor Manoel se não errou no troco Fui na feira comprei 1 quilo de feijão e 1 rim O resto eu catei Quando um purtuguês jogou uns pés de alface no chão e eu peguei o purtuguês gritou Chegou a freguesia do Bastião Hoje eu não lavo as roupas porque não tenho dinheiro para comprar sabão Vou ler e escrever A Leila pegou machado e repicou o fundo da bacia A bacia é da Ivone Horacio que deume as 5 canivetadas em 1952 O processo foi cancelado porque ela não compareceu no foro A Ivone pediu a bacia a Leila não queria devolver Picou o fundo Eu fiquei horrorisada e com dó Dois nortistas brigaram Só procuram insultos O Vitor Franquistém o valentão apanhou do Valdemar Espadela Todos gostaram porque o Vitor quer ser o Lampeão da Favela Foram 2 cacetadas Agora as mulheres estão dizendo que vão cotisar e comprar uma camisa de lã para dar de presente ao Valdemar para comemorar o seu grande feito 20 DE JULHO Eu estava escrevendo quando ouvi a voz do senhor Binidito Mandei ele entrar Ele conduziu um senhor do Centro Espirita Divino Mestre localisado na Rua Oriente que veio dar cartão para a gente buscar agasalho para as crianças dia 23 Fiquei tão contente que sai da cama com rapidez E expliquei ao senhor o que é que eu escrevo Ia recomeçar escrever quando o Adalberto chegou Veio fazer uma cerca para mim Para evitar a entrada dos nortistas que por qualquer motivo vem aborrecer Quem trabalhou na cerca foi o Adalberto o Luiz hospede recente da favela e o José da Dona Rosa Compraram pinga e eu fiz caipirinha E fiz almoço para eles Era 1 hora quando eu ia recomeçar escrever O senhor Alexandre começou a bater na sua esposa A Dona Rosa interviu Ele dava pontapé nos filhos Quando ele ia enforcar a Dona Nena a Dona Rosa pediu socorro Então o soldado Edison Fernandes foi pedir ao senhor Alexandre para não bater na sua esposa Ele não obedeceu e ameaçou o soldado com uma peixeira O Edison Fernandes deulhe uns tapas O Alexandre avoou que nem balão impelido pelo vento O soldado Edison mandoume telefonar para a Radio Patrulha Eu fui avuando Telefonei e voltei correndo Quando cheguei na favela a briga estava quente O Alexandre chingava as crianças que iam olhar e avançou para o meu filho João E desacatava o soldado Edison querendo baterlhe no rosto e dizendolhe Leva a minha mulher para você Mulher depois que casa é para suportar o marido e eu não adimito soldado dentro da minha casa Você está interessado na minha mulher Assim que os favelados me viram gritaram Cadê a Policia Já telefonei Em 5 minutos a Radio Patrulha apareceu Eu e a Vera entramos no carro A Vera começou sorrir achando delicioso andar de carro Quando o povo da alvenaria me viram na Radio Patrulha gritaram Crime na favela E corriam na direção da favela Vi entre as pessoas o meu compadre José Nogueira O José Carlos regressou do cinema e eu conteilhe o shou do seu Alexandre Ele disseme que o Alexandre estava no ponto do bonde Não acreditei Será possível que a Policia ia soltar um homem tão turbulento que não respeita as crianças Como eu já estava previnida não assustei quando ouvi a voz do Alexandre discutindo com a mãe do soldado Edison Eu intervi porque ela está gestante Eu saí para procurar o Bobo para ele retirar o Alexandre de dentro da casa Mas o Binidito já havia empurrado o Alexandre para fora Ele entrou no seu barraco e fechou a porta Estava tão bêbado que não podia parar de pé Deitamos Eu estava agitada e nervosa porque queria passar o dia escrevendo Custei durmir Eu fiquei cançada de tanto correr para ir chamar a Radio Patrulha Despertei as 4 horas da manhã com a voz do Alexandre que estava maltratando a sua esposa e chingando o soldado Edison Dizia Aquele negro sujo me bateu Mas ele me paga Eu me vingo Vendo que o Alexandre não parava de falar eu fui na Delegacia O soldado que estava de plantão disse Favela é de morte Disseme que se o Alexandre continuasse a perturbar para eu voltar as 6 horas Voltei para a favela ele estava na rua insultando Resolvi fazer café Abri a janela e joguei um pouco dagua no Alexandre Você chamou a Radio Patrulha para mim Negra fidida Mas você me paga 21 DE JULHO Fui catar papel Estava horrorisada com a cena que o Alexandre representou de madrugada Catei muitos ferros e pouco papel Quando eu estava perto da banca de jornal tropecei e caí Devido eu estar muito suja um homem gritou É fome E me deram esmola Mas eu caí porque estava com sono Pensei no Alexandre porque ele não precisa pensar no trabalho Porque obriga a esposa a pedir esmola Ele tem uma filha a Dica A menina tem 9 anos Ela pede esmola de manhã e vai para a escola a tarde A menina conhece as letras e os números Mas não sabe formar palavras Quando escreve ela põe qualquer letra que lhe vem na mente Mistura números com letras Escreve assim ACR85CZbo4Up7Mnol0E20 E já faz dois anos que ela está na escola Enquanto eu estava na rua o Alexandre maltratou a mãe do soldado Edison Quando eu cheguei ele começou insultarme Negra suja Ordinaria Vagabunda Lixeira Eu não tenho paciência lhe chinguei jogueilhe um vidro no rosto Ele fechou a janela Abriu outra vez eu lhe joguei uma escova de lavar casa Ele fechou a janela Depois abriu e começou descompor o soldado Edison O soldado Edison foi falar com ele Quando ele viu o soldado assustouse e disse Aquele tapa que você me deu você vai me pagar O soldado Edison disselhe Então vamos resolver isto logo Ajuntou a criançada para presenciar a cena que eu reprovo Espetáculo improprio Enquanto o soldado discutia com o Alexandre eu fui catar pedras O soldado Edison deulhe um tapa no rosto E a criançada deu uma vaia O Alexandre ficou com medo do soldado entrou para dentro e fechou a porta Apagou a luz e não perturbou durante a noite 22 DE JULHO Eu fui trabalhar e avisei os visinhos Se o Alexandre aborrecer avise Saí pensando na minha vida infausta Já faz duas semanas que eu não lavo roupa por falta de sabão As camas estão sujas que até dá nojo Não fiquei revoltada com a observação do homem desconhecido referindose a minha sujeira Creio que devo andar com um cartas nas costas Se estou suja é porque não tenho sabão Cheguei no Frigorifico Os meninos entraram e cada um ganhou uma salchicha Quando eu estava catando o papel surgiu o espanhol que faz a limpesa e começou gritar comigo Hoje eu estou nervosa e não adimito que um extrangeiro grite comigo Tem uma espanhola que vai no Frigorifico catar carne no lixo e quando vê o espanhol diz Este non é de mi tierra Isto é purtugués E tem uma purtuguesa que diz Esta besta não é de Portugal E eu para arrematar digo Graças a Deus ele não é brasileiro 23 DE JULHO Deixei o leito as 7 horas Estava indisposta Graças a Deus o Alexandre socegou Esquentei comida para os meninos e comecei preparar para irmos no Centro Divino Mestre para ganhar roupas para as crianças Quando o povo via as mulheres da favela nas ruas perguntava se nós iamos no Gabinete prestar declarações Houve um conflito respondi E as mulheres sorriam No Centro Divino Mestre o senhor Pinheiro nos recebeu sorrindo Não havia preconceitos nem distinção de classe Eu ganhei duas blusas de malha Uma para a Vera e outra para o José Carlos Quando nós iamos para o Centro Espirita Divino Mestre o João ganhou um pulôver As palavras do senhor Pinheiro reanimoume 24 DE JULHO Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer Pensei até em suicidar Eu suicidandome é por deficiência de alimentação no estomago E por infelicidade eu amanheci com fome Os meninos ganharam uns pães duro mas estava recheiado com pernas de barata Joguei fora e tomamos café Puis o unico feijão para cosinhar Peguei a sacola e saí Levei os meninos Fui na Dona Guilhermina na Rua Carlos de Campos E pedi para ela um pouco de arroz Ela deume arroz e macarrão E eu fiquei conversando com o seu esposo Ele deume umas garrafas para eu vender E eu catei uns ferros Depois de conseguir algumas coisas para os meninos comer Reanimei me Acalmei o espirito Fui no senhor Manoel vender as garrafas Ganhei 22 cruzeiros Comprei 10 de pão e um cafezinho Cheguei na favela fiz o almoço e fui lavar roupas 3 semanas sem lavar roupas por falta de sabão As visinhas ficaram horrorisadas vendo a quantidade de roupas que eu lavei A Dona Geralda esposa do senhor João da Purtuguesa veio procurar a Fernanda dizendo que havia roubado a sua bacia de roupas E foi vasculhar a casa da mãe da Fernanda A Fernanda lhe acompanhou até a sua casa e encontraram a bacia na cosinha Ela pediu desculpas a Fernanda e deulhe uma garrafa de pinga Quando recebeu a garrafa de pinga ela ficou tão contente Sorria contemplando a garrafa Veio elogiando a Dona Geralda Que mulher boa O rancor da Fernanda desapareceu porque a pinga entrou como intermediaria 25 DE JULHO Achei o dia bonito e alegre Fui catando papel 26 DE JULHO Eu estava tonta de fome devido ter levantado muito cedo Fiz mais café Depois fui lavar as roupas na lagoa pensando no departamento Estadual de Saude que publicou no jornal que aqui na favela do Canindé há 160 casos positivos de doença caramujo Mas não deu remedio para os favelados A mulher que passou o filme com as demonstrações da doença caramujo nos disse que a doença é muito difícil de curarse Eu não fiz o exame porque eu não posso comprar os remedios Mandei o João ir no senhor Manoel vender os ferros E eu fui catar papel No lixo do Frigorífico tinha muitas linguiças Catei as melhores para eu fazer uma sopa Vim pelas ruas catando ferros Quando cheguei no ponto do bonde encontrei o José Carlos que ia na feira catar verduras O Adalberto veio procurar roupas Não lhe atendi porque ele está ficando muito confiado Ontem falou pornografia perto da Vera E está aborrecendome O senhor Manoel chegou Deume 80 cruzeiros eu não quiz pegar Procurei as crianças para tomar banho Ficaram alegre quando viu o senhor Manoel Eu disse para o senhor Manoel que ia passar a noite escrevendo Ele despediuse e disse Até outro dia Nossos olhares se encontraram e eu lhe disse Vê se não volta mais aqui Eu já estou velha Não quero homens Quero só os meus filhos Ele saiu Ele é muito bom e iducado E bonito Qualquer mulher há de gostar de ter um homem bonito como ele é Agradavel no falar O Frei Luiz apareceu e deu aula de catecismo para as crianças Fizeram uma procissão Eu não compareci 27 DE JULHO Esquentei a comida para os meninos e comecei escrever Procurei um lugar para eu escrever socegada Mas aqui na favela não tem estes lugares No sol eu sentia calor Na sombra eu sentia frio Eu estava girando com os cadernos na mão quando ouvi vozes alteradas fui ver o que era percebi que era briga Vi o Zé Povinho correndo Briga é um espetáculo que eles não perdem Eu já estou tão habituada a ver brigas que já não impreciono E que haviam jogado fogo dentro do automovel do senhor Mario Pelasi Queimou a chuteira as meias e os tapetes do carro Os meninos viu a fumaça no carro e foi avisálo Ele estava jogando futbol 28 DE JULHO Deixei o João e levei só a Vera e o José Carlos Eu estava tão triste Com vontade de suicidar Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado heroi O verso preferido era este Ouço o povo dizer O Adhemar tem muito dinheiro Não tem direito de enriquecer Quem é nacional quem é brasileiro Bem vamos deixar o Dr Adhemar em paz porque ele está com a vida mansa Não passa fome Não come nas latas de lixo igual os pobres Quando eu ia na residência do Dr Adhemar encontrei um senhor que deume este cartão Edison Marreira Branco Estava tão bem vistido que atraiu os olhares Disseme que pretendia incluirse na política Pergunteilhe Quais são suas pretensões na política Quero ficar rico igual ao Adhemar Fiquei horrorisada Ninguém mais apresenta amor patriótico Quando passei no Frigorífico encontrei com a dona Maria do José Bento que disseme Se a gente não catar um pouco vamos acabar ficando loucos Só Deus pode ter dó de nós os pobres Ensineilhe a catar os alhos E eu catei um pouco de carvão Despedi da dona Maria e segui Encontrei com a dona Nenê a diretora da Escola Municipal professora do meu filho João José Disselhe que ando muito nervosa e que tem hora que eu penso em suicidar Ela disseme para eu acalmar Eu disselhe que tem dia que eu não tenho nada para os meus filhos comer 30 DE JULHO Ganhei 30 cruzeiros e passei no sapateiro para ver se os sapatos da Vera estavam prontos porque ela reclama quando está descalça Estava pronto e ela calçou o sapato e começou a sorrir Fiquei olhando a minha filha sorrir porque eu já não sei sorrir Encontrei a Rosalina que estava discutindo com o Helio Ele não quer que fala que ele e a Olga pede esmola A Rosalina dizia que ela é sosinha e sustenta 3 filhos É que ela não sabe que o seu filho Celso anda dizendo que quer fugir de casa porque tem nojo dela Acha a mãe muito barbara e avarenta Ele diz que queria ser meu filho Então eu lhe digo Se você fosse meu filho você era preto E sendo filho de Rosalina você é branco Ele respondeume Mas seu eu fosse teu filho eu não passava fome A mamãe ganha pão duro e nos obriga a comer os pães duro até acabar Segui pensando nas desventuras das crianças que desde pequeno lamenta sua condição no mundo Dizem que a Princesa Margareth da Inglaterra tem desgosto de ser princesa27 São os dilemas da vida 31 DE JULHO Acendi o fogo e fui buscar agua Mandei o João Carlos buscar 6 de açúcar O Luiz que fez a cerca para mim entrou e sentouse Eu disselhe que eu ia sair e quando saio gosto de deixar os meus filhos sosinhos Eu saí correndo e fui catar papel Havia pouco papéis nas ruas Eu já estou aborrecendo de catar papel porque quando eu chego no deposito tem a Cicilia que trabalha lá e é muito bruta Insultame e eu finjo não ouvir Diz que sou fidida Dia 27 a Cicilia não deixou o José Carlos ir no mitorio A Cicilia é tão bruta que a sua presença afasta o dono no deposito Hoje eu não estou nervosa Estou triste Porque eu penso as coisas de um jeito e corre de outro O Antonio Nascimento que residia aqui na favela mudou se Ele e a sua companheira Eles estavam mal colocados aqui na favela Ninguém apreciava eles aqui favela Porque ele abandonou os 4 filhos e ela os 3 filhos 7 crianças sofrendo por causa dos pais O que ela lucrou deixando o seu esposo e os filhos Largou um homem calçado e pegou outro descalço 1 DE AGOSTO A Assistência28 estava chegando Vinha examinar o Purtuguês que vende doces Dia 28 de julho eu fui visitalo Ele queria uma Assistência Aludiam que ele não paga IAPTC29 e não vinham Quando cheguei na favela fui visitálo Ela estava gemendo e tinha duas senhoras purtuguesas que lhe visitava Pergunteilhe se estava melhor Disseme que não A purtuguesa perguntoume O que é que a senhora faz Eu cato papel ferro e nas horas vagas escrevo Ela disseme com a voz mais sensata que já ouvi até hoje A senhora vai cuidar de sua vida 2 DE AGOSTO Vesti os meninos que foram para a escola Eu saí e fui girar para arrancar dinheiro Passei no Frigorifico peguei uns ossos As mulheres vasculham o lixo procurando carne para comer E elas dizem que é para os cachorros Até eu digo que é para os cachorros 3 DE AGOSTO Hoje os meninos vão comer só pão duro e feijão com farinha Eu estou com tanto sono que não posso parar de pé Estou com frio E graças a Deus não estamos com fome Hoje Deus está ajudandome Estou indecisa sem saber o que fazer Estou andando de um lado para outro porque não suporto permanecer no barracão limpo como está Casa que não tem lume no fogo fica tão triste As panelas fervendo no fogo também serve de adorno Enfeita um lar Fui na dona Nenê Ela estava na cosinha Que espetáculo maravilhoso Ela estava fazendo frango carne e macarronada Ia ralar meio queijo para por na macarronada Ela deume polenta com frango E já faz uns 10 anos que eu não sei o que é isto Na casa de dona Nenê o cheiro de comida era tão agradavel que as lagrimas emanavase dos meus olhos que eu fiquei com dó dos meus filhos Eles haviam de gostar daqueles quitutes Quando cheguei na favela a Leila e o Arnaldo estavam dando os seus espetáculos E a criançada estavam apreciando Eu estava escrevendo quando a Vera veio avisarme que estavam dando cartões e que havia muitas pessoas na rua Fui correndo para ver Varias pessoas acompanhava um senhor alto e loiro que conduzia um menino de 10 anos pela mão Ele usava calças cinza claro e paletó azul anil Passou por mim e deume um abraço Fiquei perplexa com aquele abraço sem apresentação É a primeira vez que vejo o homem A cunhada do CocaCola disseme Este é nosso deputado Dr Contrini Quando ela disse deputado federal pensei é época de eleições porisso é que eles está tão amavel O senhor Contrini veio nos dizer que é candidato nas eleições Nós da favela não somos favorecidos pelo senhor Não te conhecemos 6 DE AGOSTO Fiz café para o João e o José Carlos que hoje completa 10 anos E eu apenas posso darlhe os parabéns porque hoje nem sei se vamos comer 7 DE AGOSTO Deixei o leito as 4 horas Eu não dormi porque deitei com fome E quem deita com fome não dorme Vi o fiscal circulando e falando Fui ver do que se tratava Estava procurando o senhor Tiburcio Ele faz barracão para vender Ele pede esmola na rua Direita Ele não precisa e não reside na favela Ele já construiu sete barracões e vendeu O Tiburcio tem o físico defeituoso e a alma também Quando o João chegou da escola deilhe almoço Depois fomos na cidade Fomos a pé porque não tinha dinheiro para pagar a condução Levei uma sacola e ia catando os ferros que encontrava nas ruas Passamos pela rua da Cantareira A Vera olhava os queijos e engulia as salivas A dona Alice contoume que o Policarpo nortista que reside aqui na favela pois uma preta para residir na sua casa Disse para a mulher que ela era sua prima E a mulher é muito boa e aceitou a prima em casa com prazer E a prima ficou em casa varios dias A mulher do Policarpo saía e ele ficava com a prima E um dia a dona Maria ao chegar em casa encontrou o Policarpo e a prima na copola Ela não gostou e brigaram E o Policarpo saiu de casa com a prima e foi para Descalvado Levou os moveis e deixou só a cama 8 DE AGOSTO Saí de casa as 8 horas Parei na banca de jornais para ler as noticias principais A Policia ainda não prendeu o Promessinha O bandido insensato porque a sua idade não lhe permite conhecer as regras do bom viver Promessinha é da favela Vila Prudente Ele comprova o que eu digo que as favelas não formam carater A favela é o quarto de despejo E as autoridades ignoram que tem o quarto de despejo Fui lavar as roupas Na lagoa estava a Nalia a Fernanda e a Iracema que discutiam religião com uma senhora que dizia que a verdadeira religião é a dos crentes A Fernanda diz que a Biblia não manda ninguém casarse Que manda crescer e multiplicar Eu disse para a Fernanda que o Policarpo é crente e tinha varias mulheres Então a Fernanda disse que o Policarpo não é crente É quente Achei graça no trocadilho e sorri Dei uma gargalhada E coisa que eu não discuto é religião Terminei as roupas e deixei a discussão no auge Hoje a Assistência esteve aqui duas vezes porque a Aparecida teve um aborto A Quita veio no meu barracão reclamar que o José Carlos havia jogado bosta no rosto da Marli e que eu devo dar mais iducação ao meu filho 9 DE AGOSTO Deixei o leito furiosa Com vontade de quebrar e destruir tudo Porque eu tinha só feijão e sal E amanhã é domingo Fui na sapataria retirar os papéis Um sapateiro perguntoume se o meu livro é comunista Respondi que é realista Ele disseme que não é aconselhável escrever a realidade Aqui na favela está um reboliço E que o deputado Francisco Franco deu material para terminar a sede do Rubro Negro Deu as telhas e as camisas e o povo da favela fala diariamente neste deputado Vão fazer uma festa para homenageálo 10 DE AGOSTO Dia do Papai Um dia sem graça 11 DE AGOSTO Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa arvore O guarda civil é branco E há certos brancos que transforma preto em bode expiatório Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata Assustei quando ouvi meus filhos gritar Conheci a voz da Vera Vim ver o que havia Era o Joãozinho filho da Deolinda que estava com um chicote na mão e atirando pedra nas crianças Corri e arrebateilhe o chicote das mãos Senti o cheiro de álcool Pensei ele está bêbado porque ele nunca fez isto Um menino de 9 anos O padrasto bebe a mãe bebe e a avó bebe E ele é quem vai comprar pinga E vem bebendo pelo caminho Quando chega a mãe pergunta admirada Só isto Como os negociantes são ladrões 12 DE AGOSTO Deixei o leito as 6 e meia e fui buscar agua Estava na fila enorme E o pior de tudo é a meledicencia que é o assunto principal Tinha uma preta que parece que foi vacinada com agulha de vitrola Falava do genro que brigava com sua filha E a Dona Clara ouvia porque era a unica que lhe dava atenção Atualmente é difícil para pegar agua porque o povo da favela duplicase E a torneira é só uma 13 DE AGOSTO Vieram queixarse que a Zefa brigou com uma nortista e discutiram Os calões entraram em ação Eu só tenho dó das crianças que ouvem os impropérios A Zefa é mulata É bonita É uma pena não saber ler Só que ela bebe muito Ela teve duas filhas e bebia muito Esquecia de alimentar as crianças e elas morreram Eu mandei o João levar um bilhete no Circo Irmãos Mello pidindo se aceitavame para cantar Depois fui lavar as roupas Eu estava preparando para ir no circo quando ouvi rumores que o Anselmo havia atirado no João Coque Eu estava escrevendo esperando o arroz secar Guardei o caderno e fiquei girando procurando o João Encontrei ele sentado no campo da Purtuguesa segurando as pernas com uma mão e a bola na outra Pergunteilhe se já tinha ido chamar a Policia Ele disseme que sim Queixouse que a perna estava sem ação Ele tentou calçar o sapatos e encontrou dificuldades Deilhe os meus chinelos Os curiosos aglomeraram Não havia comentários O povo chingava o Anselmo Vou contar quem é o Anselmo Depois relato quem é o João O Anselmo apareceu aqui em 1950 com uma mulher que estava gravida Quando a mulher deu a luz um menino ele começou maltratála Ela estava de dieta e ele lhe expancava e lhe expulsava de casa Ela chorava tanto que o leite secou Agora impricou com o João porque ele está namorando a Iracema E O barracão da Iracema é perto do barraco do Anselmo E o João conversa com a noiva perto da casa do Anselmo que não quer Deu ordem ao João para ir namorar perto do rio O João estava na sua casa tomando café quando o Anselmo lhe chamou para conversar O João disselhe que havia chegado do trabalho e não podia atendêlo Ia entrando quando o Anselmo lhe atirou Ele não viu o Anselmo puchar a arma O Anselmo visava o peito Mas a bala atingiu a perna O Anselmo fugiu O povo diz que vai reunir para expancar o Anselmo O João foi fazer curativo na Central e retornouse Pergunteilhe se havia tomado anestesia Disseme que tomou só ingeção contra o teto E assim é mais um processo para a Delegacia 14 DE AGOSTO O Ditinho filho da Nena é um veterano da favela Mas é um pelado Não aprendeu ler Não aprendeu um ofício Só aprendeu beber pinga A Nena tinha um barracão na Rua do Porto Bem construído Mas o Tiburcio tapeou a pobre Nena Trocou os barracões Deulhe um mal construido e ficou com o dela Depois ele vendeu por quinze mil cruzeiros Fui até o Deposito ganhei 15 cruzeiros Passei no sapateiro para mandar ele concertar os sapatos da Vera Fiquei percorrendo as ruas Estava nervosa porque estava com pouco dinheiro e amanhã é feriado Uma senhora que regressava da feira disseme para eu ir buscar papéis na rua Porto Seguro no prédio da esquina 4 andar 44 Subi no elevador eu e a Vera Mas eu estava com tanto medo que os minutos que permaneci dentro do elevador pareceume séculos Quando cheguei no quarto andar respirei aliviada Tinha a impressão que estava saindo de um tumulo Toquei a campainha Surgiu a dona da casa e a criada Ela deume um saco de papéis Os dois filhos dela conduziume no elevador O elevador em vez de descer subiu mais dois andares Mas eu estava acompanhada não tive receio Fiquei pensando a gente fala que não tem medo de nada as vezes tem medo de algo inofensivo No sexto andar o senhor que penetrou no elevador olhoume com repugnância Já estou familiarisada com estes olhares Não entristeço Quiz saber o que eu estava fazendo no elevador Expliqueis lhe que a mãe dos meninos havia dadome uns jornaes Era este o motivo da minha presença no elevador Pergunteilhe se era medico ou deputado Disseme que era senador O homem estava bem vestido Eu estava descalça Não estava em condições de andar no elevador Pedi ao jornaleiro para ajudarme a por o saco nas costas que o dia que eu estivesse limpa eu lhe dava um abraço Ele sorriu e disseme Então já sei que vou morrer sem receber o teu abraço porque você nunca está limpa Ele ajudoume por os papéis na cabeça Fui na fabrica depois fui no senhor Rodolfo Ganhei mais 20 cruzeiros Depois fiquei cançada Voltei para casa Estava tão cançada que não podia ficar de pé Tinha a impressão que ia morrer Eu pensava se eu não morrer nunca mais hei de trabalhar assim Eu estava com falta de ar Ganhei 100 cruzeiros Fui deitarme As pulgas não me deixou em paz Eu já estou cançada desta vida que levo 15 DE AGOSTO Eu ia catar esterco para levar na casa da Ivani quando vi um caminhão na Rua A parado na porta do Anselmo A Florenciana e a Dona Lurdes vinha avisar o João Coque que o Anselmo ia mudarse Para ele ir chamar a policia Ele não pode andar porque levou o tiro na perna Eu fui Em cinco minutos a noticia circulou que eu tinha ido telefonar para a policia para impedir a mudança do Anselmo Eu cheguei antes da Policia e os favelados assim que me viram perguntaram Cadê a Policia Carolina Se eu guardasse todo o dinheiro que já gastei telefonando para a Radio Patrulha eu podia comprar um quilo de carne O povo estava esperando o Anselmo aparecer para lhe expancar Reuniram homens e mulheres para o batefundo Ouvi dizer que o Anselmo pulou a cerca e saiu pelo fundo Eu disse que eu queria ser homem porque assim eu podia quebrar e bater Então um homem respondeu Eu queria ser mulher mas só de dia E todos sorriram O Lalau e a sogra brigaram Ela deulhe com o cabo da tesoura Ela corria e lhe perseguia Estavam bebados 16 DE AGOSTO Passei na sapataria O senhor Jacó estava nervoso Dizia que se viesse o comunismo ele havia de viver melhor porque o que a fabrica produz não dá para as despesas Antigamente era os operarios que queria o comunismo Agora são os patrões O custo de vida faz o operario perder a simpatia pela democracia O saco de papéis estava muito pesado e um operário ajudoume erguêlo Estes dias eu carreguei tanto papel que o meu ombro esquerdo está ferido Quando eu passava na Avenida Tiradentes uns operários que saíam da fabrica disseme Carolina já que você gosta de escrever instiga o povo para adotar outro regime Um operario perguntoume E verdade que você come o que encontra no lixo O custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada Temos que imitar os animaes 17 DE AGOSTO Quando eu fui almoçar fiquei nervosa porque não tinha mistura Comecei ficar nervosa Vi um jornal com o retrato da deputada Conceição da Costa Neves rasguei e puis no fogo Nas épocas eleitoraes ela diz que luta por nós 18 DE AGOSTO As segundasfeiras eu não gosto de perder Saio cedo porque encontrase muitas coisas no lixo Saí com a Vera Eu tenho tanto dó da minha filha Fui na Dona Julita peguei papel Ganhei 55 cruzeiros O que é que se compra com 55 cruzeiros Fiquei nervosa Quando cheguei em casa deitei porque eu catei uns trinta quilos de ferros e latas E conduzi na cabeça Depois que eu descansei fui na Rosalina pedir o carrinho para levar os ferros no deposito Ela emprestoume e eu carreguei o carrinho Eu estava com frio Fui recebida com alegria pelo senhor Manoel Pesamos o material e eu recebi 191 cruzeiros Passei na Padaria Guiné e comprei uma guaraná e bananas Puis a Vera no carrinho Quando cheguei na favela estava moida O João disseme Já que a senhora tem dinheiro podia mandar arrancar o meu dente porque está doendo Mandei ele vestirse e lavar os pés Eu ia sair suja Depois pensei é melhor trocarme Troqueime Saí as pressas Quando ia na rua Felisberto de Carvalho ouvi dizer que havia briga Fui ver Era a Meiry a Pitita o Valdemar e o Armim O purtuguês tripeiro já havia terminado a venda dos miúdos e ia para casa Ele conhece a Meiry e parou para conversar Surgiu o Valdemar e lhe pediu a bicicleta para dar umas voltas O purtuguês respondeu Quer bicicleta compra E assim começou a troca de insultos O Valdemar está habituado a dar nos favelados deu um tapa no purtuguês O purtuguês deu um soco no Valdemar e jogoulhe no chão O Armim foi a favor do Valdemar e jogou um tijolo no rosto do purtuguês que caiu e a carteira caiulhe do bolso Quando as faveladas viram a carteira ficaram loucas E avançaram todos ao mesmo tempo para pegar a carteira Quando cheguei perto da Ana do Tiburcio perguntei o que houve ela começou explicarme E a Isabel sorria e dizia Parecia chuva de dinheiro Eu corri e passei perto do Valdemar e do Armim que estavam Sorrindo como se tivessem praticado um ato nobre De longe eu vi o purtuguês que estava cheio de sangue E o Valdemar disse Não foi nada D Carolina Eu disse para o Armim Dá o dinheiro do purtuguês Ele respondeume Eu não sei de nada Quando eu cheguei perto do purtuguês a Meiry estava lhe entregando a carteira E o purtuguês dizia Está faltando dinheiro Tinha uma moça branca perto da Meiry que lhe chamava Vamos Meiry O purtuguês deu um pouco de carne para a Meiry Era um coração Fui levar o João no dentista Vi uma placa na rua Itaqui 2 Dentista Dr Paulo de Oliveira Porto Toquei a campanhinha e entrei Uma senhora veio atenderme Eu sentei para esperar Mas estava aflita por causa dos filhos que haviam ficado sosinho O Dr Paulo veio atender e eu disselhe que ele é o dentista que está mais perto da favela e queria que extraísse um dente do meu filho João O João sentouse na cadeira Quanto é doutor Cem cruzeiros Achei o preço exagerado Mas ele já estava sentado na cadeira Abri a bolsa e sentei E comecei contar as notas de 5 Separei 20 notas de 5 19 DE AGOSTO Eu não dormi Saí do leito nervosa Fui carregar agua O soldado Flausino disseme que a C era amante do pai Que ela havia dito que ia com o pai e ganhava 50 cruzeiros Eu contei na torneira e as mulheres disseram que havia desconfiado Dia a dia a vida dos favelados piora com a fila de agua A Vera estava alegre porque eu comprei uma alpargata para ela De manhã ela havia chorado porque estava com os sapatos furados 20 DE AGOSTO Saí e fui catar papel Não conversei com ninguém Encontrei com o fiscal da Prefeitura que brinca com a Vera dizendo que ela é sua namorada E deulhe 1 cruzeiro e pediulhe um abraço Penetrou um espinho no meu pé e eu parei para retirálo Depois amarrei um pano no pé Catei uns tomates e vim para casa Agora eu estou disposta Parece que trocaram as peças do meu corpo Só a minha alma está triste Cheguei no ponto final do Canindé Passei na COAP para comprar arroz O mais barato que já está velho e com gosto de terra 21 DE AGOSTO Fiz café e mandei os filhos lavarse para ir na escola Depois saí e fui catar papel Passei no Frigorífico e a Vera foi pedir salchicha Ganhei só 55 cruzeiros Depois voltei e fiquei pensando na minha vida O Brasil é predominado pelos brancos Em muitas coisas eles precisam dos pretos e os pretos precisam deles Quando eu estava preparando para fazer o jantar ouvi a voz da Juana que pediume alho Deilhe 5 cabeças Depois fui fazer o jantar e não tinha sal Ela deume um pouco 22 DE AGOSTO Deixei o leito as 5 horas e fui carregar agua A fila já estava enorme Eu tinha só 4 cruzeiros e um litro Fui no senhor Eduardo ele ficou com o litro e os 4 cruzeiros e deume um pão Eu achei pequeno mas o dinheiro era pouco Fiz café e preparei os filhos para ir a escola Fui catando papel Catei estopas para vender Passei numa casa da Avenida Tiradentes e levei 50 quilos de papel que uma senhora deume para vender para ela Levei na cabeça e vendi Deu 100 cruzeiros Ela ficou alegre Tem dia que eu invejo a vida das aves Eu ando tão nervosa que estou com medo de ficar louca 23 DE AGOSTO Hoje não tem aula porque é dia de reunião das professoras com os pais Eu pretendo ir Saí e levei os três filhos Hoje eles estão distintos Não estão brigando Até eu estou mais calma Noto transformação em mim Passei no Frigorifico para pegar os ossos No inicio eles nos dava linguiça Agora nos dá osso Eu fico horrorisada vendo a paciência da mulher pobre que contenta com qualquer coisa As crianças ficam contente porque ganham salchicha Eu segui e fui para o deposito Encontrei umas latas ocultei no mato Quando eu atravessava a linha do trem olhei para ver se surgia algum trem e vi a Dona Armanda Pergunteilhe se o seu filho Aldo havia deixado um caderno para mim Havia tanto papel nas ruas que ganhei 100 cruzeiros Comprei sanduiche para os filhos Eles gostam de andar comigo porque compro algo para eles comer A mãe está sempre pensando que os filhos estão com fome Lavei as louças e varri o barraco Depois fui deitar Escrevi um pouco Senti sono dormi Acordei varias vezes na noite com as pulgas que penetra nas nossas casas sem convite 24 DE AGOSTO Fui lavar roupas O sabão era pouco A Dona Dolores deume uns pedaços Eu comecei sentir tonturas porque estava com fome Fui na Chica Ela disseme que o Policarpo veio brigar com a esposa porque ela deu parte dele no Juiz A Dorça disseme que o peixeiro que o Armim e o Valdemar já assaltaram jogou um saco no rosto do Valdemar e enquanto ele procurava livrarse do saco ele lhe arrebatou o porrete das mãos e vibroulhe umas cacetadas e eles correram O João e o José Carlos foram no cinema da igreja do Pari Hoje eu estou indisposta Lavei as roupas de qualquer geito porque não sei se amanhã eu amanheço doente Não sei qual é o desgraçado que entra no barracão para roubar Porque sumiu a minha machadinha 25 DE AGOSTO Fui buscar agua e fiz café Não comprei pão Não tinha dinheiro Eu ia levar os filhos vi uma menina que ia na aula pergunteilhe se ia ter aula Disseme que sim Eu vesti o José Carlos e o João foi do geito que estava Prometi levarlhe um lanche E saí com a Vera Não havia papéis nas ruas porque apareceu outro homem para catar Achei ferros e metaes 26 DE AGOSTO Cheguei na favela e esquentei a comida Estava indisposta Almocei e deitei Adormeci Que sono gostoso Sem sonho sem pesadelos Despertei com a voz da baiana que estava chingando os meus filhos e jogando pedras nas crianças Aqui na favela ninguém lhe dá confiança porque ela briga por causa de criança Fui falar com a Dona Alice Que estou muito triste Ela disseme que a Pitita estava brigando com um senhor e disselhe que a mãe dele é pior do que a galinha O homem deu parte e a policia veio procurala E ela fugiu 27 DE AGOSTO A Dona Irene deume jornaes Vendi ganhei 30 cruzeiros Vendi uns jornaes para uma professora Ganhei 40 cruzeiros Ela deu me 20 Eu ganhei mais 5 Fiquei com 55 Passei na Fabrica para catar uns tomates Cheguei em casa e pedi o carrinho da Rosalina emprestado e fui buscar madeira para fazer o chiqueiro Levei a Vera e o José Carlos Depois fiquei vagabundando Depois que eu trabalho e ganho dinheiro para os meus filhos vou descançar É um descanço justo 28 DE AGOSTO Fui carregar agua Que fila Quando eu vejo a fila de latas fico desanimada de viver Deixei as latas na fila e vim fazer café Despertei o João Ele abluiuse e foi comprar pão Eu lavei as louças e desinfetei o José Carlos Troqueilhe deilhe café Eles foram para a escola Eu fui buscar agua Havia querelas por causa de umas passar na frente das outras 30 DE AGOSTO Passei no Frigorífico ganhei ossos Cheguei no deposito ganhei 10 cruzeiros Depois circulei pela rua Porto Seguro Encontrei com aquele moço loiro alto e bonito O tipo de homem que as mulheres gostam de abraçar Ele trabalha no Transporte Ele parece o Nelson Edy30 Ele parou para comprimentarme Fui no senhor Eduardo comprar querosene oleo e tinta para escrever Quando eu pedi o tinteiro um homem que estava perto perguntoume se eu sabia ler Disselhe que sim Ele pegou o lapis e escreveu A senhora é casada Se não for quer dormir comigo Eu li e entregueilhe sem dizer nada 31 DE AGOSTO Dizem que vai ter baile por causa do batisado da menina da Leila Estão cantando e bebendo 1 DE SETEMBRO Eu fui na feira comprei uma laranja Cheguei em casa a Vera estava no quintal Deilhe uma sova 2 DE SETEMBRO Acendi o fogo e esquentei comida para os filhos porque não tinha dinheiro para comprar pão Troquei os filhos que foram para a escola E eu saí com a Vera Quase fiquei louca Porque havia pouco papel na rua Agora até os lixeiros avançam no que os catadores de papéis podem pegar Eles são egoístas Na rua Paulino Guimarães tem um deposito de ferro Todos os dias eles põe o lixo na rua e lixo tem muito ferro Eu catava os ferros para vender Agora o carro que faz a coleta antes de iniciar a coleta vem na rua Paulino Guimarães e pega o lixo e põe no carro Nogentos Egoístas Eles ja tem emprego tem hospital farmacia médicos E ainda vende no ferro velho tudo que encontra no lixo Podia deixar os ferros para mim Passei a tarde arranjando as latas Depois fui na Bela Vista buscar um caixote Quando eu passava perto do Frigorífico o caminhão de ossos estava estacionado Pedi uns ossos para o motorista Ele deume um que eu escolhi Tinha muita gordura Fiz a sopa e comecei escrever A noite surgiu O João jantouse e deitouse Puis a Vera no berço O José Carlos estava na rua com medo de apanhar porque ele é muito porco Sujou a camisa de barro Eu fiz um chiqueiro e vou por ele morando com o porco Hão de darse bem A Pitoca passou na rua convidando o povo para ir ver o cineminha Chamou o João Eu disse que ele já estava dormindo Fui ver o cineminha Era desenho da Igreja No Play Boy31 que o Adhemar pois aqui para as crianças a noite são os marmanjos que brincam O Bobo fazia tanto barulho que deturpava o espetáculo Os favelados pizam no fio eletrico que liga a maquina E a maquina desligava Os proprios favelados falam que favelado não tem iducação Pensei vou escrever Quando eu voltava encontrei com o Paulo que vive com a Dona Aurora Ela tem uma filha mulata clara Ela diz que a filha é filha do Paulo Mas as feições não condiz Eu durmi E tive um sonho maravilhoso Sonhei que eu era um anjo Meu vistido era amplo Mangas longas cor de rosa Eu ia da terra para o céu E pegava as estrelas na mão para contemplálas Conversar com as estrelas Elas organisaram um espetáculo para homenagearme Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso Quando despertei pensei eu sou tão pobre Não posso ir num espetáculo porisso Deus enviame estes sonhos deslumbrantes para minhalma dolorida Ao Deus que me proteje envio os meus agradecimentos 3 DE SETEMBRO Ontem comemos mal E hoje pior 8 DE SETEMBRO Hoje eu estou alegre Estou rindo sem motivo Estou cantando Quando eu canto eu componho uns versos Eu canto até aborrecer da canção Hoje eu fiz esta canção Te mandaram uma macumba e eu já sei quem mandou Foi a Mariazinha Aquela que você amou Ela disse que te amava Você não acreditou 9 DE SETEMBRO Não houve aula porque o presidente da Italia32 vai chegar em São Paulo Não saí porque está chovendo Passei o dia escrevendo E a tarde fiz uma sopa de feijão com arroz 14 DE SETEMBRO Hoje é o dia da pascoa de Moysés O Deus dos judeus Que libertou os judeus até hoje O preto é perseguido porque a sua pele é da cor da noite E o judeu porque é inteligente Moysés quando via os judeus descalços e rotos orava pedindo a Deus para darlhe conforto e riquesas É por isso que os judeus quase todos são ricos Já nós os pretos não tivemos um profeta para orar por nós 18 DE SETEMBRO Hoje eu estou alegre Eu estou procurando aprender viver com o espirito calmo Acho que é porque estes dias eu tenho tido o que comer Quando eu vi os empregados da Fabrica olhei os letreiros que eles trazem nas costas e escrevi estes versos Alguns homens em São Paulo Andam todos carimbados Traz um letreiro nas costas Dizendo onde é empregado 19 DE SETEMBRO No Frigorífico eles não põe mais lixo na rua por causa das mulheres que catavam carne podre para comer 20 DE SETEMBRO Fui no emporio levei 44 cruzeiros Comprei um quilo de açúcar um de feijão e dois ovos Sobrou dois cruzeiros Uma senhora que fez compra gastou 43 cruzeiros E o senhor Eduardo disse Nos gastos quase que vocês empataram Eu disse Ela é branca Tem direito de gastar mais Ela disseme A cor não influi Então começamos a falar sobre o preconceito Ela disseme que nos Estados Unidos eles não querem negros nas escolas Fico pensando os norteamericanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol O homem não pode lutar com os produtos da Natureza Deus criou todas as raças na mesma epoca Se criasse os negros depois dos brancos aí os brancos podia revoltarse 23 DE SETEMBRO Fui na Dona Julita Ela deume comida Ela está nervosa porque o senhor João está doente Ele disse que não odeia os que lhe lesaram Que ele ficando pobre viu muitas nobresas nas pobresas Percebi que entre os ricos há sempre uma divergência por questões de dinheiro Não posso esclarecer estas questões porque sou pobre como rato 25 DE SETEMBRO Não dormi por estar exausta Pensei até que ia morrer Eu tenho impressão que estou num deserto Tem hora que eu odeio o repórter Audalio Dantas33 Se ele não prendesse o meu livro eu enviava os manuscritos para os Estados Unidos e já estava socegada Levanteime duas vezes para matar os pernilongos Quando eu estava conversando com a Chica a companheira do Policarpo chamoume Eu não fui Ela dirigiuse para o interior de sua casa e voltou com uma intimação e entregoume Para eu ir no Gabinete de Investigação amanhã dia 26 e levar o João É que no dia 8 de julho de 1958 ela disseme que o meu filho João de 11 anos havia tentado violentar a sua filha Eu não vi porque eu estava trabalhando E ela não apresentou testemunha 26 DE SETEMBRO Preparei o almoço para os filhos Eles chegaram da escola almoçaram e eu troqueime e fui no Gabinete Levei os filhos No Gabinete resolveram alugar um automovel para nos conduzir até a Rua Asdrubal do Nascimento Nós éramos sete pessoas no carro Condoeume ver uma jovem que nos acompanhava Ela disseme que faz um ano que sua mãe faleceu Que o seu pai lhe dirige uns olhares que lhe apavora E que ela tem medo de ficar com ele em casa Chegamos na Rua Asdrubal do Nascimento Eu fui falar com uma senhora que queria saber o que ocorria com o João Ela perguntou ao João se ele sabia o que era fazer porcaria Ele disse que sabia E se ele havia feito porcaria na menina Ele disse que não A funcionaria que interrogava parou de escrever e leu uns papéis Ela prosseguiu o seu interrogatório Usava o calão com o menino E as perguntas obcenas querendo que o menino descrevesse e relatasse os prazeres sexuaes Achei o interrogatório horroroso A Vera e o José Carlos ficaram perto para ouvir o que a mulher dizia Quando a funcionaria falava eu tinha a impressão que estava na favela 30 DE SETEMBRO Eu estou a espera do oficial de Justiça senhor Feliciano Godoy Ele deume umas intimações para distribuir aqui na favela A Isabel não foi porque quem bebe não obedece Ela fez as pazes com o negro dela Para ela hoje é dia de amor 3 DE OUTUBRO Deixei o leito as 5 horas porque quero votar Na ruas só se vê cédulas pelo chão Fico pensando nos desperdícios que as eleições acarreta no Brasil Eu achei mais difícil votar do que tirar o titulo E havia fila A Vera começou chorar dizendo que estava com fome O presidente da mesa disse me que nas eleições não pode levar crianças Respondi que não tinha com quem deixála 4 DE OUTUBRO Eu deixei o leito indisposta porque eu não dormi O visinho é ademarista roxo e passou a noite com o radio ligado Passei no Frigorifico para pegar ossos Graças as eleições havia muito papel nas ruas Os rádios estão transmitindo os resultados eleitoraes As urnas favorece o senhor Carvalho Pinto34 7 DE OUTUBRO Morreu um menino aqui na favela Tinha dois meses Se vivesse ia passar fome 12 DE OUTUBRO Houve briga aqui na favela porque o homem que está tomando conta da luz quer 30 cruzeiros por bico A conta da agua atinge só 1100 e ele quer cobrar 25 de cada barracão Já faz tanto tempo que estou no mundo que eu estou enjoando de viver Também com a fome que eu passo quem é que pode viver contente 16 DE OUTUBRO Vocês já sabem que eu vou carregar agua todos os dias Agora eu vou modificar o inicio da narrativa diurna isto é o que ocorreu comigo durante o dia 17 DE OUTUBRO Eu fiz os meus deveres e saí com a Vera Fui na Dona Julita buscar a cama que ela deume Ela está mais alegre porque o seu esposo está melhorando Enquanto eu estava conversando com a Dona Julita dentro de casa dois meninos carregaram a cama Corri e alcancei os meninos e tomei a cama Levei a cama e fui vender para um judeu que compra moveis usados Ele examinou a cama e disse Eu dá 20 É pouco A cama vale mais Eu dá 25 É pouco A cama vale mais Eu dá 30 É pouco A cama vale mais Eu dá 35 É pouco A cama vale mais Eu dá 40 Mais não dá Eu já estava começando a ficar nervosa com o nosso dialogo Ele deu 40 e eu fui embora e parei no portão para observar a Vera que queria mais dinheiro E dizia Se o senhor não dá mais dinheiro eu levo a cama O judeu deu um tapa no rosto da Vera e ela começou chorar Ele disse me A senhora dá um cruzeiro para ela porque eu não tenho trocado Depois que eu jantei fiquei indisposta e fui deitar Sonhei No sonho eu estava alegre 22 DE OUTUBRO O Orlando veio cobrar a água 25 cruzeiros Ele disseme que não admite atraso com ele Dei o jantar aos filhos eles foram deitarse e eu fui escrever Não podia escrever socegada com as cenas amorosas que se desenrolavam perto do meu barracão Pensei que iam quebrar a parede Fiquei horrorizada porque a mulher que estava com o Lalau é casada Pensei que mulher suja e ordinaria Homem por homem mil vezes o esposo Creio que um homem só chega para uma mulher Uma mulher que casou se precisa ser normal Esta historia das mulheres trocarse de homens como se estivesse trocando de roupa é muito feio Agora uma mulher livre que não tem compromissos pode imitar o baralho passar de mão em mão 23 DE OUTUBRO O Orlando vivia fazendo biscate Agora que passou a ser o encarregado da luz e da água deixou de trabalhar De manhã ele senta lá na torneira e fica dando palpites Eu penso ele perde porque a lingua das mulheres da favela é de amargar Não é de ossos mas quebra ossos Até o Lacerda perde para as mulheres da favela 24 DE OUTUBRO Eu fiz café e mandei o José Carlos comprar 7 cruzeiros de pão Deilhe uma cédula de 5 e 2 de aluminio o dinheiro que está circulando no paíz Fiquei nervosa quando contemplei o dinheiro de aluminio O dinheiro devia ter mais valor que os generos E no entretanto os generos tem mais valor que o dinheiro Tenho nojo tenho pavor Do dinheiro de aluminio O dinheiro sem valor Dinheiro do Juscelino Eu descancei fiz a sopa de lentilha com arroz e carne Mandei o João comprar meio quilo de açúcar o burro comprou arroz Ele passa o dia lendo Gibi e não presta atenção em nada Vive pensando que é o homem invisível Mandraque e outras porcarias 25 DE OUTUBRO A favela hoje está em festa Vai ter uma procissão Os padres enviaram uma imagem de Nossa Senhora Quem quer a imagem permanece 15 dias em cada barracão Hoje estão rezando o terço na praça A procissão vaiaté o ponto do bonde No barraco da Chica estão dançando 28 DE OUTUBRO A I separouse do esposo e está morando com a Zefa O esposo dela encontrou ela com o primo Agora a I veio comercializar o seu corpo na presença do esposo Penso a mulher que separase do esposo não deve prostituirse Deve procurar um emprego A prostituição é a derrota moral de uma mulher É como um edifício que desaba Mas tem mulher que não quer ser só de um homem Quer ser dos homens É uma unica dama dançando quadrilha com vários homens Sai dos braços de um vai para os braços de outro A Dona Maria Preta trouxe a filha para eu desinfetála Ela está com boqueira 29 DE OUTUBRO Deixei o leito as 6 horas Fiquei nervosa porque não dormi Passei a noite concertando o telhado por causa das goteiras Concertava de um lado pingava de outro Quando chove eu fico quase louca porque não posso ir catar papel para arranjar dinheiro Eu sinto muito frio Costumo vestir três palitó E tem pessoas que me vê nas ruas e diz Como você engordou Já se foi o tempo que a gente engordava A mulher do Zé Baiano primo do Ramiro contoume e pediume para eu não dizer nada a ninguém que o José lhe expulsou de casa Que já faz 20 dias que eles não falam Eu disse para ela fazer as pazes que o José é muito bom 30 DE OUTUBRO Saí com a Vera Notei anormalidade porque a Policia está nas ruas Fui conversar com um servidor municipal Ele queixouse que pagou 5 cruzeiros de ônibus Eu segui Olhando os paulistas circular pelas ruas com a fisionomia triste Não vi ninguém sorrir Hoje pode denominarse o dia da tristeza Eu comecei fazer as contas quando levar os filhos na cidade quanto eu vou gastar de bonde 3 filhos e eu 24 cruzeiros ida e Volta Pensei no arroz a 30 o quilo Uma senhora chamoume para darme papéis Disselhe que devido o aumento da condução a policia estava nas ruas Ela ficou triste Percebi que a noticia do aumento entristece todos Ela disseme Eles gastam nas eleições e depois aumentam qualquer coisa O Auro35 perdeu aumentou a carne O Adhemar perdeu aumentou as passagens Um pouquinho de cada um eles vão recuperando o que gastam Quem paga as despezas das eleições é o povo 31 DE OUTUBRO Fui carregar agua Que bom Não tem fila Porque está chovendo Vi as mulheres da favela agitadas e falando Perguntei o que havia Disseram que o Orlando Lopes o atual dono da luz havia espancado a Zefa E que ela deu parte e de foi preso Perguntei para o Geraldino se era verdade Afirmou que sim A Nena disse que o Orlando bateu na Zefa para valer Eu fui catar papel A Vera passou no Frigorífico para pedir a salchicha Ganhei 106 cruzeiros A Vera ganhou 6 cruzeiros porque ela entrou num bar para pedir agua e pensaram que ela estava pedindo esmola O Povo está dizendo que o Dr Adhemar elevou as passagens para vingar do povo porque lhe preteriram nas urnas Quando cheguei em casa os filhos já estavam em casa Esquentei a comida Era pouca E eles ficaram com fome Nos bondes que circulam vai um policial E nos ônibus também O povo não sabe revoltarse Deviam ir no Palacio do Ibirapuera36 e na Assembléia e dar uma surra nestes politicos alinhavados que não sabem administrar o país Eu estou triste porque não tenho nada para comer Não sei como havemos de fazer Se a gente trabalha passa fome se não trabalha passa fome Várias pessoas estão dizendo que precisamos matar o Dr Adhemar Que ele está prejudicando o paiz Quem viaja quatro vezes de ônibus contribui com 6000037 para a CMTC Deste geito ninguém mais pode De manhã quando eu ia saindo o Orlando e o Joaquim Paraiba vinham voltando da prisão 1 DE NOVEMBRO Achei um saco de fubá no lixo e trouxe para dar ao porco Eu já estou tão habituada com as latas de lixo que não sei passar por elas sem ver o que há dentro Hoje eu vou catar papel porque sei que não vou encontrar nada Tem um velho que circula na minha frente Ontem eu li aquela fabula da rã e a vaca38 Tenho a impressão que sou rã Queria crescer até ficar do tamanho da vaca Percebi que o povo continua achando que devemos revoltar contra os preços dos generos e não atacarmos só a CMTC Quem lê o que o Dr Adhemar disse nos jornais que foi com dor no coração que assinou o aumento diz O Adhemar está enganado Ele não tem coração Se o custo de vida continuar subindo até 1960 vamos ter revolução 2 DE NOVEMBRO Fui lavar roupas e permaneci no rio até as sete e meia A Dorça foi lavar roupas e ficamos conversando sobre as poucavergonhas que ocorrem aqui na favela Falamos da Zefa que apanha todos os dias Falei das mulheres que não trabalham e estão sempre com dinheiro Falamos do namoro do Lalau com a Dona M E a dona M diz que ele namora é com a Nena A Nena é boba Lavei as roupas de cor e vim fazer café Pensei que tinha café Não tinha A coisa que eu tenho pavor é de entrar no quartinho onde durmo porque é muito apertado Para eu varrer o quarto preciso desarmar a cama Eu varro o quartinho de 15 em 15 dias O almoço ficou pronto e os filhos não vieram almoçar O João desapareceu Percebi que ele foi no cinema Eu almocei um pouquinho Peguei um livro para eu ler Depois senti frio Fui sentar no sol Achei o sol muito quente fui sentar na sombra Conversei com um senhor Disselhe que circula um boato que a favela vai acabar porque vão fazer avenida Ele disse que não é pra já Que a Prefeitura está sem dinheiro O João chegou do cinema Deilhe uma surra e ele saiu correndo 3 DE NOVEMBRO Catei uns ferros Deixei um pouco no deposito e outro pouco eu trouxe Quando passei na banca de jornais li este slogan dos estudantes Juscelino esfola Adhemar rouba Jânio mata A Gamara apoia E o povo paga Parei na linha do trem para pegar umas latas porque eu havia deixado perto da gurita e pedi ao guarda para guardar O guarda perguntou quanto eu ia receber das latas Respondi que era 30000 Que já estou farta de biscates Ele disse que antes isso do que nada Eu disselhe que as latas de oleo eram a 7000 e agora está a 6000 Ele disse Em vez de subir desce Disse que a vida está muito cara Que até as mulheres estão caras Que quando ele quer dar uma f as mulheres quer tanto dinheiro que ele acaba desistindo Fingi que não ouvi porque eu não falo pornografia Saí sem agradecêlo Dei um banho nos filhos Eles foram deitarse E eu fui lavar as louças Depois fui escrever Senti canceira e sono Fui deitar Matei umas pulgas que estava circulando na cama e deitei E não vi mais nada Dormi umas três horas seguidas Despertei com a voz do Joaquim Paraiba que estava reclamando que arrumou uma namorada que não quer namorar no escuro Só lhe namora durante o dia e a noite perto da luz Penso Ele não está com boas intenções com a namorada 4 DE NOVEMBRO Fui catar papel Quando eu voltava parei numa banca de jornais Vi um homem chingando os policiais de burros No clichê um policial expancava um velho O jornal dizia que era um policial do DOPS39 Resolvi tomar o bonde e ir para casa Fomos falando do Dr Adhemar unico nome que está em evidencia por causa do aumento das conduções O homem disseme que os nossos políticos são carnavalescos Eu acho que o Dr Adhemar está revoltado E resolveu ser enérgico com o povo para demonstrar que ele tem força para nos castigar Eu acho que os espíritos superiores não se vingam Cheguei em casa cançada e com dor no corpo Encontrei a Vera na rua O bendito João o meu filho manequim não presta atenção em nada O barraco estava aberto e os sapatos espalhados pelo assoalho Ele não pois fogo no feijão Era 6 e meia quando o João apareceu Mandei ele acender o fogo Depois deilhe uma surra Com uma vara e uma correia E rasgueilhe os Gibis desgraçados Tipo da leitura que eu detesto 5 DE NOVEMBRO Passei no emporio vendi um litro para o senhor Eduardo por 3 cruzeiros para pagar o ônibus Quando cheguei no ponto de ônibus encontrei com o Toninho da Dona Adelaide Ele trabalha na Livraria Saraiva Disselhe Pois é Toninho os editores do Brasil não imprime o que escrevo porque sou pobre e não tenho dinheiro para pagar Por isso eu vou enviar o meu livro para os Estados Unidos Ele deume vários endereços de editoras que eu devia procurar Vinha pela rua catando os pedaços de ferro que encontrava Passei na Dona Julita e pedi comida Ela esquentou comida para mim A dona Julita deu me sopa café e pão Eu comi lá na Dona Julita Era treis horas Fiquei indisposta Os moveis girando ao meu redor É que o meu organismo não está habituado com reconfortantes Preparei a sopa para os filhos Eles dormiram antes da sopa cosinhar Quando ficou pronta desperteilhes para comer Jantamos e dormimos Eu sonhei com a Dona Julita Que havia dito para eu trabalhar para ela que ela pagavame 4 mil cruzeiros por mes Disselhe que eu ia internar os filhos E levava só a Vera Despertei Não adormeci mais Comecei sentir fome E quem está com fome não dorme Quando Jesus disse para as mulheres de Jerusalem Não Chores por mim Chorae por vós suas palavras profetisava o inverno do Senhor Juscelino Penado de agruras para o povo brasileiro Penado que o pobre há de comer o que encontrar no lixo ou então dormir com fome Você já viu um cão quando quer segurar a cauda com a boca e fica rodando sem pegála E igual o governo do Juscelino 6 DE NOVEMBRO Quando eu cheguei na Dona Julita era 8 e meia Ela deume café A Vera começou a dizer que gostava de residir numa casa igual a da Dona Julita Ela fez o almoço E eu almocei A Vera comia e dizia Que comida gostosa A comida da Dona Julita me deixa tonta Findo o serviço ela deume sabão queijo gordura e arroz Aquele arroz agulha O arroz das pessoas de posses 8 DE NOVEMBRO Fui fazer compras no japonês Comprei um quilo e meio de feijão 2 de arroz e meio de açúcar 1 sabão Mandei somar 100 cruzeiros O açúcar aumentou A palavra da moda agora é aumentou Aumentou Isto me faz lembrar esta quadrinha que o Roque fez e deume para eu incluir no meu repertório poético e dizer que é minha Político quando candidato Promete que dá aumento E o povo vê que de fato Aumenta o seu sofrimento Eu fui buscar o guardaroupa velho Quando cheguei para pegar o guardaroupa uma jovem que reside lá auxilioume a descer o guardaroupa e deume um colchão Eu não conseguia travar o guardaroupa no carrinho O João já estava começando a ficar nervoso Disse Maldita hora que eu vim buscar este guardaroupa O dono da loja de sapatos auxilioume a por o guardaroupa no carrinho Caiu porque o carrinho deslisouse Tinha uns homens da Light trabalhando Surgiu um e deume uma corda Comecei a amarrar Mas não conseguia Começou afluir pessoas para verme O João ficou nervoso com os olhares Eu olhava os empregados da Light e pensava no Brasil não tem homens Se tivesse ageitava isto aqui para mim Eu devia ter nascido no Inferno Eu puis o colchão dentro do guardaroupa Piorou Os homens da Light olhavam a minha luta E eu pensava para olhar eles prestam Pensei eu não vim ao mundo para esperar auxilios de quem quer que seja Eu tenho vencido tantas coisas sosinha hei de vencer isto aqui Hei de ageitar este guardaroupa Não estava pensando nos homens da Light Eu estava suando e sentia o odor do suor Assustei quando ouvi uma voz no meu ouvido Deixa que eu ageito para a senhora Pensei agora vai Olhei o homem e achei ele bonito Ele retirou o colchão de dentro do guardaroupa e pois no carrinho Depois pois o guarda roupa por cima para não escorregar Pegou a corda e amarrou O João ficou contente e disse Graças ao homem Eu estava chingando o senhor Manoel quando ele chegou Deume boa noite Disselhe Eu estava te chingando O senhor ouviu Não ouvi Eu estava dizendo aos filhos que eu desejava ser preta E você não é preta Eu sou Mas eu queria ser destas negras escandalosas para bater e rasgar as tuas roupas Quando ele passa uns dias sem vir aqui eu fico lhe chingando Falo quando ele chegar eu quero expancarlhe e lhe jogar agua Quando ele chega eu fico sem ação Ele disseme que quer casarse comigo Olho e penso este homem não serve para mim Parece um ator que vai entrar em cena Eu gosto dos homens que pregam pregos concertam algo na casa Mas quando eu estou deitada com ele acho que ele me serve Fiz arroz e puis agua esquentar para eu tomar banho Pensei nas palavras da mulher do Policarpo que disse que quando passa perto de mim eu estou fedendo bacalhau Disselhe que eu trabalho muito que havia carregado mais de 100 quilos de papel E estava fazendo calor E o corpo humano não presta Quem trabalha como eu tem que feder 9 DE NOVEMBRO Preparei a refeição para os filhos e fui lavar roupas Quem estava no rio era a Dorça e uma nortista que dizia que a nora estava em trabalho de parto Há treis dias E não conseguia hospital Chamaram a Radio Patrulha para internála e ainda não havia dado solução A velha dizia São Paulo não presta Se fosse no Norte era só chamar uma mulher e pronto Mas a senhora não está no Norte Precisa providenciar hospital para a mulher O marido vende na feira Mas não quer gastar com a esposa porque quer ir para o Norte e está ajuntando dinheiro 12 DE NOVEMBRO Eu ia sair mas estou tão desanimada Lavei as louças varri o barraco arrumei as camas Fiquei horrorisada com tantas pulgas Quando eu fui pegar agua contei para a D Angelina que eu havia sonhado que tinha comprado um terreno muito bonito Mas eu não queria ir residir lá porque era litoral e eu tinha medo dos filhos cair no mar Ela disseme que só mesmo no sonho é que podemos comprar terrenos No sonho eu via as palmeiras inclinandose para o mar Que bonito A coisa mais linda é o sonho Achei graça nas palavras da D Angelina que disseme a verdade O povo brasileiro só é feliz quando está dormindo 14 DE NOVEMBRO Deixei o leito às 5 horas e fui pegar agua Era só homens que estavam na torneira Ninguém falava Enchiam as vasilhas e saíam Pensei se fosse mulheres 15 DE NOVEMBRO O dia surgiu claro para todos Porque hoje não tem fumaça das fabricas para deixar o céu cinzento 17 DE NOVEMBRO A I e a C estão começando a prostituirse Com os jovens de 16 anos É uma folia Mais de 20 homens atrás delas Tem um mocinho que mora na Rua do Porto E amarelo e magro Parece um esqueleto ambulante A mãe lhe obriga a ficar só na cama porque ele é doente e cança atoa Ele sai com a mãe só para pedir esmola porque o seu aspecto comove Aquele filho amarelo é o seu ganha pão Mas até ele anda atrás da I e da C Apareceu tantos jovens de 15 e 16 anos aqui na favela que vou dar parte as autoridades Vi as moças da Fabrica de Doces tão limpinhas A I c a C podiam trabalhar Ainda não tem 18 anos São infelizes que iniciam a vida no lodo Hoje eu estou triste Deus devia dar uma alma alegre para o poeta A Pitita saiu correndo e o seu esposo atrás As crianças olham estas cenas com deleite A Pitita estava seminua E as partes que a mulher deve ocultar estava visivel Ela correu parou e pegou uma pedra Jogou no Joaquim Ele desviouse e a pedra pegou na parede por cima da cabeça da Teresinha Pensei esta nasceu de novo A Francisca começou dizendo que o Joaquim não prestava Que é homem só para fazer filho A Leila gritou que a Pitita estava brigando com o Joaquim porque ele está dormindo com a I A I está sendo disputada na favela Ela abandonou o esposo A Leila numa briga é como a gasolina no fogo Ela instiga e substitui a aranha com a sua teia Quando a Pitita briga todos saem para ver É um espetáculo pornográfico As crianças começaram a falar que a Pitita havia erguido o vestido Eu vim para dentro de casa Eu já estava deitada e ouvia a voz da Pitita A tarde na favela foi de amargar E assim as crianças ficaram sabendo que os homens fazem com as mulheres Estas coisas eles não olvidam Tenho dó destas crianças que vivem no Quarto de Despejo mais imundo que há no mundo 20 DE NOVEMBRO Olhei o céu Parece que vamos ter chuva Levantei tomei café e fui varrer o barraco Vi as mulheres olhando na direção do rio Fui ver o que era Eu estava com umas Cebolas que a Juana do Binidito deu me porque eu deilhe uns tomates Mandei a Vera guardar os tomates e fui perguntar as mulheres o que havia no rio É uma criança que não pode sair do rio Fui ver Pensei se for criança eu vou atravessar o Tietê para retirala e se for preciso nadar eu entro na agua Corri para ver o que era Era um jacá de queijo que flutuava Voltei e fui escrever 21 DE NOVEMBRO Vi várias pessoas no barracão da Leila Fui ver o que havia Perguntei para Dona Camila o que houve É a menina que morreu De que foi que morreu a menina Não sei O sono surgiu Eu deitei Despertei com um batefundo perto da minha janela Era a Ida e a Analia A briga começou lá na Leila Elas não respeitam nem a extinta O Joaquim intervio pedindo para respeitar o corpo Elas foram brigar na rua Hoje de manhã eu disse para o Seu Joaquim Purtuguês que a filha da D Mariquinha não sabia ler Ele disse F elas aprendem E aprendem sem professor Eu dei uma risada e disse Purtuguês não presta Da minha janela eu vejo a filha da Leila no seu esquife O diabo é que lá não há respeito no velorio Parece até uma festa O luar está maravilhoso A noite tépida Por isso o favelado está agitado Uns tocam sanfona outros cantam Já rezaram um terço para a filha da Leila O esquife é branco Eu vou deitar O barulho é muito mas eu vou deitar Aqui tudo é motivo para farra 22 DE NOVEMBRO Deixei o leito as 5 horas e fui carregar agua Olhei o barraco da Leila Vi o José do Pinho no meio das vagabundas Pensei um moço tão bonito No terreiro todos queixavam que o velorio da filha da Leila foi de amargar Que andaram a noite toda e não deixaram ninguém dormir Chegou o carro para levar a filha da Leila Ela começou chorar Assim que a criança saiu a Leila foi beber O que eu fico admirada é das almas da favela Bebem porque estão alegres E bebem porque estão tristes A bebida aqui é o paliativo Nas épocas funestas e nas alegrias 23 DE NOVEMBRO Preparei uns ferros para ir vender no deposito de ferro velho Dei duas viagens Ganhei 178 cruzeiros Telefonei para as Folhas40 para mandar uns repórteres na favela para expulsar uns ciganos que estão acampados aqui Eles jogam excrementos na rua As pessoas que reside perto dos ciganos estão queixando que eles falam a noite toda E não deixam ninguém dormir Eles são violentos e os favelados tem medo deles Mas eu já preveni que comigo a sopa é mais grossa Devido as mocinhas ficar nuas os vagabundos ficam sentados perto do barracão observandoas O diabo é que se alguém agredilas os ciganos revoltam Mas a nudez delas excita Parece que já estou vendo um batefundo de cigano com favelado Mil vezes os nossos vagabundos do que os ciganos 26 DE NOVEMBRO Fui pegar agua Olhei o local onde os ciganos acamparam Eles ficaram só treis dias Mas foi o bastante para nos aborrecer Eles são nojentos O local onde eles acamparam está sujo e exala mau cheiro Um odor desconhecido 27 DE NOVEMBRO Eu estou contente com os meus filhos alfabetizados Compreendem tudo O José Carlos disseme que vai ser um homem distinto e que eu vou tratalo de Seu José Já tem pretensões quer residir em alvenaria Eu fui retirar os papelões Ganhei 55 cruzeiros Quando eu retornava para a favela encontrei com uma senhora que se queixava porque foi despejada pela Prefeitura Como é horrivel ouvir um pobre lamentandose A voz do pobre não tem poesia Para reanimála eu disselhe que havia lido na Biblia que Deus disse que vai concertar o mundo Ela ficou alegre e perguntoume Quando vai ser isto Dona Carolina Que bom E eu que já queria me suicidar Disselhe para ela ter paciência e esperar que Jesus Cristo vem ao mundo para julgar os bons e os maus Ah então eu vou esperar Ela sorriu Despedime da mulher que já estava mais animada Parei para concertar o saco que deslisava da minha cabeça Contemplei a paisagem Vi as flores roxas A cor da agrura que está nos corações dos brasileiros famintos 28 DE NOVEMBRO Fui carregar agua Não tinha ninguém Só eu e a filha do T a mulher que fica gravida e ninguém sabe quem é o pai de seus filhos Ela diz que os seus filhos são filhos de seu pai 29 DE NOVEMBRO Era 11 horas quando eu fui deitar Ouvi vozes alteradas Era 2 mulheres brigando Ouvi a voz do Lalau E que ele já saiu da cadeia Já faz 3 dias que ele estava preso por causa do pato do Paulo Acho que o Lalau nunca mais há de querer pato dos visinhos 30 DE NOVEMBRO Vi um menino mechendo no pé Fui ver o que havia Era um espinho Retirei um alfinete do vestido e tirei o espinho do pé do menino Ele foi mostrar o espinho para o seu pai O menino olhoume Que olhar Pensei arranjei mais um amiguinho 5 DE DEZEMBRO A Leila contoume que a filha da Dona D está presa porque o seu esposo lhe pegou em adultério com um baiano que tem dois dentes de ouro Hoje eu estou estreando um radio Toquei o radio até as 12 Ouvi os programas de tango O Orlando ligou a luz Agora tenho de pagar 75 cruzeiros por mês porque ele cobra 25 por bico 6 DE DEZEMBRO Deixei o leito as 4 da manhã Liguei o radio para ouvir o amanhecer do tango Eu fiquei horrorisada quando ouvi as crianças comentando que o filho do senhor Joaquim foi na escola embriagado É que o menino está com 12 anos Eu hoje estou muito triste 8 DE DEZEMBRO De manhã o padre veio dizer missa Ontem ele veio com o carro capela e disse aos favelados que eles precisam ter filhos Penso porque há de ser o pobre quem há de ter filhos se filhos de pobre tem que ser operário Na minha fraca opinião quem deve ter filhos são os ricos que podem dar alvenaria para os filhos E eles podem comer o que desejam Quando o carro capela vem na favela surge vários debates sobre a religião As mulheres dizia que o padre disselhes que podem ter filhos e quando precisar de pão podem ir buscar na igreja Para o senhor vigário os filhos de pobres criam só com pão Não vestem e não calçam 11 DE DEZEMBRO Começei queixar para a Dona Maria das Coelhas que o que eu ganho não dá para tratar os meus filhos Eles não tem roupas nem o que calçar E eu não paro um minuto Cato tudo que se pode vender e a miséria continua firme ao meu lado Ela disseme que já está com nojo da vida Ouvi seus lamentos em silêncio E disselhe Nós já estamos predestinados a morrer de fome 13 DE DEZEMBRO A nortista começou queixarse que os seus filhos vão voltar para o interior porque não encontram serviço aqui em São Paulo Vão colher algodão Fiquei com dó da nortista Eu já colhi algodão Fiquei com dó da nortista 14 DE DEZEMBRO De manhã teve missa O padre disse para nós não beber porque o homem que bebe não sabe o que faz Que devemos beber limonada e agua Varias pessoas veio assistir a missa Ele disse que sente prazer de estar entre nós Mas se o padre residisse entre nós havia de expressar de outra forma 16 DE DEZEMBRO Quando eu estava conversando com o senhor Venancio presenciei uma cena repugnante A mulher daquele mulato que mora de frente ao Sr A namorando o João Nortista Aquele que tem dois dentes de ouro 18 DE DEZEMBRO Eu estava escrevendo Ela perguntoume Dona Carolina eu estou neste livro Deixa eu ver Não Quem vai ler isto é o senhor Audálio Dantas que vai publicálo E porque é que eu estou nisto Você está aqui por que naquele dia que o Armim brigou com você e começou a baterte você saiu correndo nua para a rua Ela não gostou e disseme O que é que a senhora ganha com isto Resolvi entrar para dentro de casa Olhei o céu com suas nuvens negras que estavam prestes a transformarse em chuva 19 DE DEZEMBRO Amanheci com dor de barriga e vomitando Doente e sem ter nada para comer Eu mandei o João no ferro velho vender um pouco de estopa e uns ferros Ele ganhou 23 cruzeiros Não dava nem para fazer uma sopa Que suplicio adoecer aqui na favela Pensei hoje é o meu ultimo dia em cima da terra Percebi que havia melhorado Sentei na cama e comecei catar pulgas A idéia da morte já ia se afastando E eu comecei a fazer planos para o futuro Hoje eu não saí para catar papel Seja o que Deus quiser 20 DE DEZEMBRO Dizem os velhos que no fim do mundo a vida ia ficar insípida Creio que é historia porque a Natureza ainda continua nos dando de tudo Temos as estrelas que brilham Temos o sol que nos aquece As chuvas que cai do alto para nos dar o pão de cada dia Eu preparava para deitar quando surgiu a Duca que pediume para eu dar parte do senhor Manoel porque ele comprou uma televisão e a televisão captava toda a força eletrica e deixava favela sem luz Equivoco A televisão não estava ligada Coisa que nunca hei de fazer é difamar o senhor Manoel E o homem mais distinto da favela Ele está aqui já faz 9 anos Sai de casa e vai para o trabalho Não falta ao serviço Nunca brigou com ninguém Nunca foi preso Ele é o homem mais bem remunerado da favela Trabalha para o Conde Francisco Matarazzo41 24 DE DEZEMBRO Hoje estou com sorte Tem muitos papeis na rua As 5 horas comecei vestirme para eu ir no Centro Espirita Divino Mestre receber os donativos natalinos Preparei os filhos e saí Eu ouvi vozes Estão dando cartões Corri para ver Vi os favelados rodeando um carro E o povo correndo para ganhar cartões No carro estava apenas o motorista e o povo pedia Dá um para mim Dá um para mim O motorista dizia Vocês sujam o carro Pergunteilhe O que é que o senhor está distribuindo Eu vim aqui trazer um homem Nem sei o que este povo está pedindo E que na epoca de Natal quando vem um automovel aqui eles pensam que vieram dar presentes Nunca mais hei de vir aqui no Natal disse o motorista nos olhando com repugnância Havia tantas pessoas ao redor do automovel que não pude anotar a placa No centro Espirita a fila já estava enorme quando nós chegamos Os 10 filhos de uma nortista estavam pedindo pão A Dona Maria Preta deu 15 cruzeiros para ela Ela foi comprar pão O senhor Pinheiro digníssimo presidente do Centro Espirita saiu para conversar com os indigentes Passou um senhor parou e nos olhou E disse perceptível Será que este povo é deste mundo Eu achei graça e respondi Nós somos feios e mal vestidos mas somos deste mundo Passei o olhar naquele povo para ver se apresentava aspecto humano ou aspecto de fantasma O homem seguiu sorrindo E eu fiquei analisando Quando penetramos para receber os prêmios o meu numero era 90 Eu e os demais ganhamos presentes e generos roupas chá mate batatas arroz e feijão O senhor Pinheiro convidoume para eu ir no Centro Era 9 e meia quando nós chegamos no ponto do bonde e fomos ver um presepio que fizeram na garagem que está vaga Havia uma placa onde se lia Entrada grátis Mas no presepio tinha uma bandeja com cédula de 1 a 100 Quando saí elogiei o presepio Unica coisa que eu posso fazer Quando cheguei na favela encontrei a porta aberta O luar está maravilhoso 25 DE DEZEMBRO O João entrou dizendo que estava com dor de barriga Percebi que foi por ele ter comido melancia deturpada Hoje jogaram um caminhão de melancia perto do rio Não sei porque é que estes comerciantes inconscientes vem jogar seus produtos deteriorados aqui perto da favela para as crianças ver e comer Na minha opinião os atacadistas de São Paulo estão se divertindo com o povo igual os Cesar quando torturava os cristãos Só que o Cesar da atualidade supera o Cesar do passado Os outros era perseguido pela fé E nós pela fome Naquela epoca os que não queriam morrer deixavam de amar a Cristo Mas nós não podemos deixar de comer 26 DE DEZEMBRO Aquela senhora que reside na rua Paulino Guimarães numero 308 deu uma boneca para a Vera Nós iamos passando quando ela chamou a Vera e disselhe para esperar A Vera disseme Acho que vou ganhar uma boneca Respondi E eu acho que vamos ganhar pão Eu notava a sua anciedade e curiosidade de saber o que ia ganhar A senhora saiu do interior da casa com a boneca A Vera disseme Eu não disse Eu acertei E foi correndo pegar a boneca Pegou a boneca e voltou correndo para mostrarme Ela agradeceu e disse que as meninas da favela iam ficar com inveja E que ela ia rezar todos os dias para a mulher ser feliz Que ela vai ensinar a boneca a rezar E vai levala na missa para ela rezar para a mulher ir para o céu e não ter doença que dói muito 27 DE DEZEMBRO Eu cancei de escrever adormeci Despertei com uma voz chamando Dona Maria Fiquei quieta porque não sou Maria A voz dizia Ela disse que mora no numero 9 Levantei de mau humor e fui atender Era o senhor Dario Um senhor que eu fiquei conhecendo na eleição Eu mandei o senhor Dario entrar Mas fiquei com vergonha O vaso noturno estava cheio O senhor Dario ficou horrorizado com a primitividade em que eu vivo Ele olhava tudo com assombro Mas ele deve aprender que a favela é o quarto de despejo de São Paulo E que eu sou uma despejada 28 DE DEZEMBRO Eu acendi o fogo puis agua para esquentar e comecei lavar as louças e vasculhar as paredes Encontrei um rato morto Já faz dias que eu ando atrás dele Armei a ratoeira Mas quem matou ele foi uma gata preta Ela é do senhor Antonio Sapateiro O gato é um sabio Não tem amor profundo e não deixa ninguém escravisálo E quando vai embora não retorna provando que tem opinião Se faço esta narração do gato é porque fiquei contente dela ter matado o rato que estava estragando os meus livros 29 DE DEZEMBRO Saí com o João e a Vera e o José Carlos O João levou o radio para concertar Quando eu ia na rua Pedro Vicente o guarda do deposito chamoume e disseme para eu ir buscar uns sacos de papel que estavam perto do rio Agradeci e fui ver os sacos Eram sacos de arroz que estavam nos armazéns e apodreceram Mandaram jogar fora Fiquei horrorizada vendo o arroz podre Contemplei as traças que circulavam as baratas e os ratos que corriam de um lado para outro Pensei porque é que o homem branco é tão perverso assim Ele tem dinheiro compra e põe nos armazéns Fica brincando com o povo igual gato com rato 30 DE DEZEMBRO Quando eu fui lavar as roupas encontrei com algumas mulheres que estavam comentando a coragem da Maria companheira do baiano Que se separaram e ela foi viver com outro baiano seu visinho A lingua das mulheres é um pavio Fica incendiando 31 DE DEZEMBRO Eu passei a tarde escrevendo Os meus filhos estavam jogando bola perto dos barracões Os visinhos começaram a reclamar Quando é os filhos deles que brinca eu não digo nada Eu não implico com as crianças porque eu não tenho vidraça e a bola não estraga as paredes de tabuas O José Carlos e o João estavam jogando bola A bola do Tonico A bola caiu no quintal do Vitor E a mulher do Vitor furou a bola do menino E os meninos começaram a chingar Ela pegou um revolver e correu atrás dos meninos E se o revolver disparasse Eu não vou deitar Quero ouvir a corrida de São Silvestre Eu fui na casa de um cigano que reside aqui Condoeume vêlos dormindo no solo Disse lhe para vir no meu barracão a noite que eu ia darlhe duas camas Se ele fosse durante o dia as mulheres iam transmitindo a novidade porque aqui tudo é novidade Quando a noite surgiu ele veio Disse que quer estabelecer porque quer por os filhos na escola Que ele é viuvo e gosta muito de mim Se eu quero viver ou casar com ele Abraçoume e beijoume Contemplei a sua boca adornada de ouro e platina Trocamos presentes Eu deilhe doces e roupas para os seus filhos e ele deume pimenta e perfumes A nossa palestra foi sobre arte e musica Disseme que se eu casar com ele que retirame da favela Disselhe que não me adapto a andar nas caravanas Ele disseme que é poética a existência andarilha Ele disseme que o amor de cigano é imenso igual o mar É quente igual o sol Era só o que me faltava Depois de velha virar cigana Entre eu e o cigano existe uma atração espiritual Ele não queria sair do meu barraco E se eu pudesse não lhe deixava sair Convideilhe para vir ouvir o radio Ele perguntou me se sou sozinha Respondilhe que eu tenho uma vida confusa igual um quebracabeça Ele gosta de ler Deilhe livros para ele ler Fui ver o aspecto do barracão Ficou mais agradavel depois que ele armou as camas O João foi chamarme dizendo que eu estava demorando A favela está agitada Os favelados demonstram júbilo porque findaram um ano de vida Hoje uma nortista foi para o hospital ter filhos e a criança nasceu morta Ela está tomando soro A sua mãe está chorando porque ela é filha unica Tem baile na casa do Vitor 1 DE JANEIRO DE 1959 Deixei o leito as 4 horas e fui carregar agua Fui lavar as roupas Não fiz almoço Não tem arroz A tarde vou fazer feijão com macarrão Os filhos não comeram nada Eu vou deitar porque estou com sono Era 9 horas o João despertoume para abrir a porta Hoje eu estou triste 4 DE JANEIRO Antigamente eu cantava Agora deixei de cantar porque a alegria afastouse para dar lugar a tristeza que envelhece o coração Todos os dias aparece um pobre coitado aqui na favela encosta num parente e vão vivendo O Ireno é um coitado que está com anemia Procura a esposa A esposa não lhe quer Ele disseme que a sua sogra instiga a esposa contra ele Agora ele está na casa do irmão Ele foi passar uns dias na casa da irmã Retornouse Disseme que lhe jogavam indiretas por causa da comida O Ireno disse que já está descontente da vida Porque a vida com saude já é tão pungente 5 DE JANEIRO Está chovendo Fiquei quase louca com as goteiras nas camas porque o telhado é coberto com papelões e os papelões já apodreceram As aguas estão aumentando e invadindo os quintais dos favelados 6 DE JANEIRO Deixei o leito as 4 horas liguei o radio e fui carregar agua Que suplicio entrar na agua de manhã E eu que sou frienta Mas a vida é assim mesmo Os homens estão saindo para o trabalho Levam as meias e os sapatos nas mãos As mães prendem as crianças em casa Elas ficam ansiosas para ir brincar na agua As pessoas de espirito jocoso dizem que a favela é a cidade nautica Outros dizem que é a Veneza Paulista Eu estava escrevendo quando o filho do cigano veio dizerme que o seu pai estava chamandome Fui ver o que ele queria Começou queixarse que encontra dificuldades para viver aqui em São Paulo Sai para procurar emprego e não encontra Disse que vai voltar para o Rio porque lá é melhor para viver Eu disse lhe que aqui ganhase mais dinheiro No Rio ganha mais afirmou Lá eu benzia crianças vendia carne e ganhava muito dinheiro Percebi que o cigano quando conversa com uma pessoa fala horas e horas Até a pessoa oferecer dinheiro Não é vantagem ter amisade com cigano Quando eu ia sair ele disseme para eu ficar Saí e fui no emporio Comprei arroz café e sabão Depois fui no Açougue Bom Jardim comprar carne Cheguei no açougue a caixa olhou me com um olhar descontente Tem banha Não tem Tem carne Não tem Entrou um japonês e perguntou Tem banha Ela esperou eu sair para dizerlhe Tem Voltei para a favela furiosa Então o dinheiro do favelado não tem valor Pensei hoje eu vou escrever e vou chingar a caixa desgraçada do Açougue Bom Jardim Ordinaria 7 DE JANEIRO Hoje eu fiz arroz e feijão e fritei ovos Que alegria Ao escrever isto vão pensar que no Brasil não há o que comer Nós temos Só que os preços nos impossibilita de adquirir Temos bacalhau nas vendas que ficam anos e anos a espera de compradores As moscas sujam o bacalhau Então o bacalhau apodrece e os atacadistas jogam no lixo e jogam creolina para o pobre não catar e comer Os meus filhos nunca comeu bacalhau Eles pedem Compra mamãe Mas comprar como a 180 o quilo Espero se Deus ajudarme antes deu morrer hei de comprar bacalhau para eles 8 DE JANEIRO Encontrei com o motorista que veio despejar a serragem aqui na favela Convidoume para entrar no caminhão O motorista loiro perguntoume se aqui na favela é facil arranjar mulher E se ele podia ir no meu barracão O motorista disseme que ele ainda estava em forma O ajudante dizia que o motorista já havia aposentado Despedi do motorista e voltei para a favela Acendi o fogo lavei as mãos e comecei fazer comida para os filhos 10 DE JANEIRO O senhor Manoel veio Era 8 horas Perguntoume se eu ainda converso com o cigano Respondi que sim Que ele tem terreno em Osasco e que se acabar a favela e eu não tiver onde ir poderei ir para o seu terreno Que ele admira a minha disposição e se pudesse vivia ao meu lado O senhor Manoel zangouse e disseme que não retorna mais Que eu posso ficar com o cigano O que eu admiro no cigano é a calma e a compreensão Coisa que o senhor Manoel não possue O senhor Manoel disseme que não mais aparece Vamos ver 11 DE JANEIRO Não estou gostando do meu estado espiritual Não gosto da minha mente inquieta O cigano está perturbandome Mas eu vou dominar esta simpatia Já percebi que ele quando me vê fica alegre E eu também Eu tenho a impressão que eu sou um pé de sapato e que só agora é que encontrei o outro pé Ouvi falar varias coisas dos ciganos E ele não tem as más qualidades que propalam Parece que este cigano quer hospedarse no meu coração No inicio receei a sua amisade E agora se ela medrar para mim será um prazer Se regridir eu vou sofrer Se eu pudesse ligarme a ele Ele tem dois filhos O menino acompanhame sempre Se eu vou lavar roupas ele vai comigo senta ao meu lado Os meninos da favela tem inveja quando me vê agradando o menino Agradando o filho hei de conseguir o pai O nome do cigano é Raimundo Nasceu na capital da Bahia Mas não usa peixeira Ele parece o Castro Alves Suas sobrancelhas unemse 12 DE JANEIRO Fiz a janta E dei jantar as crianças A Rosalina surgiu Veio buscar um pouco de feijão Eu dei O senhor Raimundo chegou Veio chamar os filhos Olhou as crianças jantando Eu lhe ofereci jantar Ele não quiz Pegou uma sardinha e perguntou se tinha pimenta Não ponho pimenta na comida por causa das crianças Pensei se eu estivesse sozinha davalhe um abraço Que emoção que eu sentia vendoo ao meu lado Pensei se algum dia eu for exilada e este homem indo na minha companhia ele há de suavizar o castigo Mandei a Rosalina comer sardinha Deilhe o feijão O Raimundo disse me que vai embora para a sua casa E que se um dia a favela acabar para eu procurálo Fez o mesmo convite a Rosalina Eu não apreciei Não foi egoismo Foi ciume Ele saiu e eu fiquei pensando Ele não estaciona É o seu sangue cigano Pensei se algum dia este homem for meu hei de prendêlo ao meu lado Quero apresentarlhe o mundo de outra forma 14 DE JANEIRO Circulei pelas ruas Fui na Dona Julita Fui na Cruz Azul receber o dinheiro das latas Cheguei em casa antes da chuva O senhor Raimundo mandou sua filha chamarme Troqueime e fui atendêlo Ele disse me que vai para Volta Redonda Creio que vou sentir saudades Despedime dele dizendo que precisava escrever e que não podia demorar 15 DE JANEIRO Deixei o leito as 4 horas e fui carregar agua Liguei o radio para ouvir o programa de tango O senhor Manoel disse que não vinha mais e apareceu Ele penetrou na agua para chegar até o meu barracão Resfriouse Hoje eu estou contente Ganhei dinheiro Contei até 300 Hoje eu vou comprar carne Atualmente quando o pobre come carne fica rindo atoa 16 DE JANEIRO Fui no Correio retirar os cadernos que retornaram dos Estados Unidos Cheguei na favela Triste como se tivessem mutilado os meus membros O The Reader Digest devolvia os originais A pior bofetada para quem escreve é a devolução de sua obra Para dissipar a tristeza que estava arroxeando a minha alma eu fui falar com o cigano Peguei os cadernos e o tinteiro e fui lá Disselhe que tinha retirado os originais do Correio e estava com vontade de queimar os cadernos Ele começou citar as suas aventuras Disse que vai para Volta Redonda E vai ficar na casa da jovem de 14 anos que está com ele Se a menina saía para brincar ele ia procurála olhandolhe com cuidados Eu não apreciava os seus olhares com a jovem Pensei o que será que ele quer com esta jovem Os meus filhos entravam dentro do barracão Ele estava deitado no assoalho Eu pergunteilhe se usava peixeira Não Prefiro um bom revolver como este Mostroume um revolver 32 Eu não simpatiso com revolver Deu o revolver ao João para segurar Disselhe Você é homem E o homem precisa aprender lidar com essas coisas Recomendoulhe para não dizer nada a ninguém que ele não quer que o povo da favela saiba que ele tem revolver Eu mostro para a sua mãe porque ela gosta de mim E mulher quando gosta de um homem não lhe denuncia Quando eu era soldado eu comprei este revolver O senhor já foi soldado Já Na Bahia Deixei a farda porque ganhava muito pouco Mostroume o seu retrato fardado Quando eu ia levantandome para sair ele dizia É cedo Ele mandou fazer café A mocinha disse que não tinha açúcar Eu mandei o João buscar o açúcar e manteiga Ele mandou o seu filho comprar 6 cruzeiros de pão Disse Eu nunca comi sem carne Nunca comi pão sem manteiga E aqui neste barracão eu comi Este barracão deume peso O seu filho retornouse com o pão O José Carlos entrou e começou a brigar com o seu filho Ele disse para eles não brigar que todos somos irmãos O José Carlos protestouse Eu não sou irmão dele não Vocês são irmãos por parte de Adão e Eva Ele segurou o José Carlos nos braços obrigando a deitarse ao seu lado no assoalho O José Carlos desvencilhouse e saiu para a rua Eu puis o olhar no caderno e comecei a escrever Quando ergui a cabeça o seu olhar estava pousado no rosto da mocinha Não gostei do seu olhar histérico O meu pensamento começou a desvendar a sordidez do cigano Ele tira proveito da sua beleza Sabe que as mulheres se ilude com rostos bonitos Ele atrai as mocinhas dizendo que casa com elas Satisfaz seus desejos e depois manda elas ir embora Agora eu compreendia os seus olhares com a mocinha Isto me serve de advertência Nunca hei de deixar a Vera na casa de quem quer que seja Olhei o rosto do cigano O rosto bonito Mas fiquei com nojo Era um rosto de anjo com alma de diabo Vim para o meu barraco Eu estava pondo os cadernos em cima da mesa quando senti que alguém me pegava pelas costas Era o cigano que me abraçava Beijoume na boca Os seus braços me apertavam tanto Disseme Eu voume embora Deixo as minhas roupas Você laveas para mim Quando eu voltar doute uma maquina de costura Eu não faço conta de dinheiro Sei que você vai pensar em mim e sei que você vai sentir falta de mim Sei que vou ser hospede do teu coração E você ainda vai ter oportunidade de dormir nos meus braços Enquanto ele me abraçava eu pensava este diabo devia estar era na cadeia Eu sentei na cama ele sentouse ao meu lado Eu fechei a janela e continuamos beijandonos O meu carinho representava interesse para descobrir suas atividades Ele disseme Eu venho dormir aqui Nós dois dormimos nesta cama e a minha irmã dorme no quartinho Eu não durmo com ninguém perto dos meus filhos Ele olhoume e disseme Você é boba As crianças quando deitam dormem logo Ele saiu Estava preocupado com a mocinha que ele dizia que era sua irmã não querendo perdêla de vista Percebi que ele já está habituado a seduzir as mocinhas Ele vivia mechendo com elas Estava interessado na Dirce Ele não conseguio a Dirce porque ela não lhe viu de perto Porque a sua beleza é igual o mel atraindo as abelhas Ele prometeu voltar Quero apresentálo a Dona Lei Eu fui chamar o José Carlos O cigano estava na janela A Pitita aproximouse e disselhe Você é muito bonito mas parece que não gosta disso Ela ergueu o vestido Ela estava sem calça As crianças olharam e ficaram serias O unico que sorriu foi o cigano Fiz a janta e fui procurar a Vera Ela estava lá no emporio com o cigano que comprou doces e mortadela para os seus filhos e os meus filhos Mandou o José Carlos dizer que não vinha dormir aqui Fiquei contente O senhor Manoel chegou Percebeu que eu estava nervosa Foise embora Eu deitei nervosa com o José Carlos que ainda estava na rua Dormi até meianoite Despertei pensei no filho que ainda estava na rua Hoje eu estou descontente O José Carlos chegou Eu disselhe que não ia abrirlhe a porta Que dormisse na rua Ele sentouse nos degraus Depois começou a chorar Resolvi abrirlhe a porta Era 2 horas Deilhe banho esquentei comida para ele ele foi deitarse Eu não adormeci porque estava supernervosa Estou decidida quando o cigano voltar hei de apresentálo a Dona Lei Dizem que cigano não pode ficar parado Mas a Dona Lei há de fazer ele estacionar uma temporada atrás das grades Ele há de ter tempo para pensar e repensar no que disseme Você é boba Ele prometeu trazerme um presente E eu prometo darlhe um a masmorra 17 DE JANEIRO Deixei o leito as 4 horas quando ouvi o radio do visinho tocando Comecei escrever Liguei o radio para ouvir o amanhecer do tango Despertei pensando no cigano que é pior do que o negro Não aconselho ninguém a fazer amizade com eles Acendi o fogo lavei as louças e fui carregar agua Encontrei com o senhor Adelino perguntei pelo cigano Ele brigou com o meu cunhado Ele dizia que é baiano e o meu cunhado respondia Quem é baiano sou eu Eu fui na Dona Julita Ela deume comida eu esquentei e comi Acabei de comer fiquei triste E que a comida de lá é muito forte Sopa carne e outras iguarias Quando o pobre come uma comida forte dá tontura A Dona Julita me disse que eu estava triste por causado cigano 20 DE JANEIRO Passei o dia na cama Vomitei bilis e melhorei um pouco Fui carregar agua O João ficou contente Perguntoume se eu estou melhor Fiquei com tontura deitei novamente Os filhos estão com receio de eu morrer Não me deixam sozinha Quando um sai outro vem vigiarme Dizem Eu quero ficar perto da senhora porque quando a morte chegar eu dou uma porretada nela Eles estão tão comportados Ficam confabulando Se ela morrer nós vamos para o Juiz42 O José Carlos perguntoume se a gente vê a morte chegar A Vera me mandou cantar O José Carlos foi na feira catar qualquer coisa Catou milho tomate e beringelas Eu almocei fiquei mais disposta Quando eu dou um gemido os filhos choram com medo do Juiz O José Carlos disseme Sabe mamãe quando a morte chegar eu vou pedir para ela deixar nós crescer e depois ela leva a senhora Para tranquilizálos eu disse que não ia morrer mais Ficaram alegres e foram brincar O senhor Manoel chegou Veio ver se eu melhorei Fiquei contente com a visita 3 DE FEVEREIRO Tenho de dizer que eu não escrevi nos dias que decorreram porque eu fiquei doente Vou recapitular o que ocorreu comigo nestes dias A Fernanda veio e perguntoume se eu sei onde está o cigano E a mesma coisa que ela perguntarme onde é a casa do vento Disse que ele é muito bonito e que ela ia lá comprar pimenta só para vê lo Durante os dias que eu estive doente o senhor Manoel não me deixou sem dinheiro O senhor Manoel disseme que o cigano faz muito bem em seduzir as mocinhas de 14 anos Elas dá confiança Estes dias eu fiz umas poesias Não pensas que vais conseguir o meu afeto novamente o meu odio vai evoluir criar raizes e dar semente 15 DE FEVEREIRO Hoje eu estou mais animada Estou rindo Achando graça do sururu que houve aqui na favela Esta noite a Leila começou insultar o baiano senhor Valdomiro Chingou até as 2 horas Ele resolveu espancála Foi no seu barracão arrebentou a porta Quando a Leila foi saltar prendeu um pé no peitoril da janela Hoje o tal Orlando Lopes veio cobrar a luz Quer cobrar ferro 25 cruzeiros Eu disselhe que não passo roupas Ele disseme que sabe que eu tenho ferro Que vai ligar o fio de chumbo na luz e se eu ligar o ferro a luz queima e ele não liga mais Disse que ligou a luz para mim e não cobrou deposito Mas o deposito já foi abolido desde 1948 Ele disse que pode cobrar deposito porque a Light deulhe plenos poderes Que ele pode cobrar o que quiser dos favelados 16 DE FEVEREIRO Quando eu dirigiame para casa vi varias pessoas olhando na mesma direção Pensei é briga Corri para ver o que era Era o Arnaldo e o baiano O Arnaldo apanhava igual uma criança Interferi e procurei separálos A Juana do Binidito Onça veio auxiliarme Vários homens olhavam e ninguém interferia O baiano deu duas cacetadas no Arnaldo Surgiu o Armim que disse que ia matar o baiano Tentei impedilo segurandolhe o braço Ele deume um empurrão Eu deixei ele ir mas gritava Não vai que o baiano te mata Resolvi chamar a Policia Saí correndo Creio que corria mais depressa do que o Manoel Faria43 Cheguei na 12ª Delegacia gritando Briga na favela Estão brigando a foice Eu estava com nojo de retomar a favela Mas precisava voltar porque havia deixado os meus filhos Quando eu descia para o Inferno as mulheres dizia A Policia já desceu Quando cheguei na favela o povo me olhava A Dona Sebastiana chingava Estava embriagada Dizia que ela degolava o baiano Eu dizia para ela não chegar que ela ia morrer Ela começou a chingarme Negra ordinaria Você não é advogada não é repórter e se mete em tudo O povo gritava O baiano fugiu Surgiu o Antonio vulgo Bonitão Pediume se eu tinha uma calça para emprestarlhe porque ele havia molhado quando saiu correndo atrás do baiano Comecei a procurar a calça para o Bonitão Deilhe a calça e saí Fui no barraco do Arnaldo perguntar se ele havia retornado da Central porque ele e o Armim havia ido na Assistência 23 DE FEVEREIRO Na rua o povo perguntava o que houve na favela Eu explicava Eu estava impaciente porque não sabia o paradeiro do baiano Eu queria que ele se entregasse a Policia Quando cheguei na favela os comentários ferviam O povo dizia que o Armim tinha morrido Fui na Estação do Norte O baiano surgiu Perguntoume pela sua esposa disselhe que estava comigo Que ele podia ir para a favela que ninguém ia lhe fazer mal Ele disseme que estava sem comer Deilhe 25 cruzeiros Perguntou se o Armim tinha morrido Não Está em Pirituba Ele disse pesaroso Ah Eu não presto Está se vendo que eu não faço o serviço completo Esta historia de machucar só e não matar logo só serve para arranjar inimigo Eu não conheço o homem que eu dei a foiçada Eu não quero ficar lá porque ele há de querer me matar e a Policia há de querer me prender Mas você tem que prestar declarações na Policia Se você for preso e eu estiver perto hei de favorecerte 29 DE ABRIL Hoje eu estou disposta O que me entristece é o suicidio do senhor Tomás Coitado Suicidouse porque cansou de sofrer com o custo da vida Quando eu encontro algo no lixo que eu posso comer eu como Eu não tenho coragem de suicidarme E não posso morrer de fome Eu parei de escrever o Diário porque fíquei desiludida E por falta de tempo 1 DE MAIO Deixei o leito as 4 horas Lavei as louças e fui carregar agua Não havia fila Não tenho radio não vou ouvir o desfile Hoje é o Dia do Trabalho 2 DE MAIO Ontem eu comprei açúcar e bananas Os meus filhos comeram banana com açúcar porque não tinha gordura para fazer comida Pensei no senhor Tomás que suicidouse Mas se os pobres do Brasil resolver suicidarse porque estão passando fome não ficaria nenhum vivo 3 DE MAIO Hoje é domingo Eu vou passar o dia em casa Não tenho nada para comer Hoje eu estou nervosa desorientada e triste Tem um purtuguês que quer morar comigo Mas eu não preciso de homem Eu já lhe supliquei para não vir aborrecerme Hoje o Frei veio rezar a missa na favela Ele pois nome na favela de Bairro do Rosário Vem varias pessoas ouvir a missa No sermão o padre pede ao povo para não roubar O senhor Manoel chegou e começamos a conversar Falei de uma menina de um ano e meio que não pode ver ninguém mover a boca que pergunta O que é que você está comendo E a ultima filha do Binidito Onça Percebi que a menina vai ser inteligente 4 DE MAIO Deixei o leito as 6 horas porque o senhor Manoel quando dorme aqui não deixa eu levantar cedo Eu não nasci ambiciosa Recordei este trecho da Biblia Não acumules tesouros porque lá estará o teu coração Sempre ouvi dizer que o rico não tem tranquilidade de espirito Mas o pobre também não tem porque luta para arranjar dinheiro para comer 5 DE MAIO Escrevi até as 2 horas Depois fui carregar agua Enchi a barrica e as latas Fiz uma trempe de tropeiro e puis agua a ferver para pelar o porco Comecei pensar no que ia preparar chouriço lombo assado e couro de porco no feijão Fiquei contente Eu ia comer carne na realidade Comecei cantar cantei Fiquei pensando quanto tempo que eu não como carne de porco Fui ver se o senhor Manoel estava em casa para matar o porco Não estava Fiquei nervosa Chegou o irmão do senhor Manoel dono do porco Vinha buscar a sua parte Eu engordei o porco a meia Encontrei com o Orlando Lopes Pedi se ele podia matar o porco para mim Disse que sim Eu voltei alegre O Orlando surgiu Foi até o chiqueiro olhou o porco Assim que o porco lhe viu deu um ronco Ficou agitado Comecei a agradálo mas ele estava agitado O Orlando amarroulhe uma corda no pé Retiraram o porco para fora O Orlando deulhe uma punhalada Vendo o sangue correr peguei uma bacia para aproveitálo para fazer chouriço Contemplava o extertor do porco que não queria exalar o último suspiro O Orlando deulhe outra facada Esperamos ele morrer Os minutos passavam Eles pelaram e quando abriram o porco eu fiquei contente A criançada invadiu o quintal As mulheres surgiram dizendo que queriam um pedaço O Chiclé queria as tripas Eu não vou vender nem dar Eu engordei este porco para os meus filhos Eles protestavam Surgiu a Maria mãe da Analia pediu se eu podia vender um pedaço de toucinho Não vou vender Quando você engordou e matou o teu porco eu não fui aborrecerte Ela começou dizer que queria só o toucinho Perpassei o olhar no povo que fitava o toucinho igual a raposa quando fita uma galinha Pensei e se eles invadir o quintal Resolvi levar o toucinho para dentro de casa o mais depressa possível Fitei as tabuas do barraco que já estão podres Se eles invadir adeus barraco Juro que fiquei com medo dos favelados A Vera não foi no parque porque queria ver matar o porco Os filhos retornaram da escola e perguntaram Mamãe a senhora matou o porco Matei O Ninho disse que foi 3 facadas e 2 pauladas Os meus sorriam Eu também Dei uns pedaços para o Orlando e para o senhor Antonio Sapateiro Fiz bifes para os filhos A carne estava em cima da mesa Cobri com um pano O João disse Parece uma pessoa morta Eu disse Eu vou lavar a barrigada e você não sai daqui por causa dos gatos A Vera acompanhoume Eu fui lavar na lagoa O José Carlos surgiu ensineilhe a virar as tripas A Vera sorria vendo a agua circular dentro da tripa do porco O José Carlos perguntava se o nosso corpo é igual o corpo do porco Afirmei que o interior do porco é igual ao do homem Então o porco já foi homem Não sei Voltei para casa porque estava cançada Percebi que a Maria estava com inveja por eu ter matado o porco A Vera queria jantar fiz arroz e ela comeu com carne O João moeu o toucinho Eu puis para fritar O João adormeceu Fiquei olhando seus pés sujos que estavam pendendo da cama Lavei os meus braços e o meu rosto que estava gorduroso Escovei 05 dentes e fui deitar Era 2 horas da manhã 6 DE MAIO As 9 e meia o repórter surgiu Bradei O senhor disse que estaria aqui as 9 e meia e não atrasouse Disselhe que varias pessoas queriam vêlo porque apreciam as suas reportagens Entramos num taxi A Vera estava contente porque estava de carro Descemos no Largo do Arouche e o repórter começou fotografarme Levoume no prédio da Academia Paulista de Letras Eu sentei na porta e puis o saco de papel a esquerda O porteiro apareceu e disse para eu sair da porta O porteiro pegou o meu saco de catar papel o saco que para mim tem um valor inestimável porque é por seu intermédio que eu ganho o pão de cada dia O repórter surgiu e disse que foi ele quem me mandou eu sentar no degrau O porteiro disse que não tinha permissão para deixar que quem quer que fosse sentarse na porta do prédio Fomos na Rua 7 de Abril e o repórter comprou uma boneca para a Vera Eu disse aos balconistas que escrevi um diário que vai ser divulgado no O Cruzeiro44 7 DE MAIO Lavei todas as roupas Jurei nunca mais matar porco na favela Eu estou tão nervosa que recordei o meu provérbio não há coisa pior na vida do que a própria vida Favela sucursal do Inferno ou o proprio Inferno Para o jantar fiz feijão arroz e carne A Vera está tão contente porque temos carne Quando as crianças me vê pedem Carolina me dá carne Cães e gatos rondam o meu barracão Eu estou cançada Vou deitar Adormeci Despertei com o Adalberto que está ebrio Batia no barraco e pedia Carolina me dá um pedaço de carne de porco Que odio E eu com tanto sono Fiquei ouvindo ele cantar Depois adormeci novamente Despertei com algo que passeava por cima das cobertas Acendi a luz Era um gato Não mais deitei Fiquei escrevendo até o raiar do dia Quando ouvi aquele homem que passa dizendo Olha o pão doce 8 DE MAIO Fiz arroz e lombo de porco porque não tenho feijão Tomei banho e trocavame para ir na cidade Quando eu ia saindo a Vera penetrouse e disse que não tinha expediente no Parque Antes de sair recordei que devia dar comida para a cachorrinha Olhei ela que estava deitada Deilhe um pedaço de carne e tentei despertála Ela estava morta Morreu de tanto comer carne Fui no Juiz Receber o dinheiro que o pai da Vera me dá por intermédio do Juizado O advogado não quiz me dar a Ficha Sem a ficha eu não atendo E bateu a porta no meu rosto Fui falar com o advogado que o Dr Walter não queria atenderme sem a ficha Ele mandou um guarda acompanharme e disseme Muito bem Carolina Põe todo o mundo no Diário Acompanhei o guarda que disse para o Dr Walter Aymberê que devia atenderme sem a ficha Não atendo Se não trazer a ficha vou falar com o advogado chefe A Vera assustouse e disse Que homem Porque é que a gente precisa de advogado mamãe Eu disse para o guarda deixar Eu vou embora O Dr Walter já está no meu Diário Ele é muito grosseiro Fui na Tesouraria para receber o dinheiro Quando chegou a minha vez não encontrei o dinheiro A Vera queria comprar um vestido Eu disselhe que o seu pai não havia levado o dinheiro Ela ficou triste e disse Mamãe o meu pai não presta 10 DE MAIO Eu não dormi porque o visinho tocou o radio toda a noite E a L fez um fuá dos diabos Ela estava dormindo com o Valdemar quando o Arnaldo chegou Era 2 horas O Arnaldo dizia Vai embora Valdemar A negra é minha O Valdemar respondia A negra é nossa Eu cheguei primeiro 12 DE MAIO Eu fui na Dona Julita e ela deume café e arroz Quando eu retornava encontrei com a Dona Maria aquela que cata papel na fabrica de pudim Ela disseme que roubaramlhe um saco de papel Fiquei com dó Encontrei com o Capitão Pergunteilhe porque havia abandonado o seu lar Ele disseme com a voz triste Sabe Carolina eu não pretendia deixar o meu lar Mas a ingratidão da minha esposa obrigoume a tomar esta decisão E contoume o motivo Eu disselhe Ela não fez bom negocio trocandote por outro Ele disseme Se eu continuasse no meu lar um dia ou outro eu tinha que matar aquele canalha Eu acho que aquele homem que interferiuse no lar do Capitão para destruilo não presta 28 DE MAIO A vida é igual um livro Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu A minha até aqui tem sido preta Preta é a minha pele Preto é o lugar onde eu moro 29 DE MAIO O Adalberto errou o quarto Em vez de entrar no dele entrou no quartinho da Aparecida E os favelados queriam retirálo de lá porque se o Negrão chegasse havia de espancálo Eu fui retirálo de lá porque ele me obedece Resolveu sair Quando eu fui deitálo ele disse Sabe Carolina eu sou um homem infeliz Depois que morreu Marina nunca mais ninguém me quiz Eu dei uma risada porque percebi que ele havia falado e formado uma quadrinha Parei de rir porque a tristeza de sua voz comoveume Marina foi uma mulher negra que viveu com ele Bebia muito E morreu tuberculosa com 21 anos 1 DE JUNHO Hoje eu não fui trabalhar porque a Vera e o José Carlos estão doentes Eu fui vender uns ferros e um pouco de estopa Ganhei só 31 cruzeiros 2 DE JUNHO Hoje eu não vou sair porque os filhos ainda estão doentes As quatro da manhã a Vera começou tussir Levantei e fiz um mingau de fubá para ela 3 DE JUNHO De manhã eu carreguei só um caldeirão com agua Fiz café Mandei o João comprar um tinteiro e duas agulhas O José Carlos está melhor e vai para a escola Eu deixei a Vera Vou sair porque eu tenho só um pouquinho de feijão sal e meio quilo de açúcar 4 DE JUNHO O senhor Manoel chegou Agora eu estou lhe tratando bem porque percebi que gosto dele Passei vários dias sem vêlo e senti saudades A saudade é amostra do afeto A Dona Adelaide veio trazer a minha blusa de lã e ficou admirada vendo o senhor Manoel dentro de casa Ele é quieto Fala baixinho e anda muito bem vestido Ela me olhava e olhava ele Ele com seus sapatos reluzentes E eu suja parecendo um marginal de rua Ela ficou horrorizada porque eu durmo com ele Ela me olhou com repugnância quando eu disse que ele vai me dar uma maquina de costura e um radio O senhor é solteiro Sou Para a senhora ele está bem porque ele é solteiro e a senhora também Percebi que a sua intenção era diminuirme aos olhos dele Mas ela chegou tarde demais porque a nossa amizade é igual uma raiz que segura uma planta na terra Já está firme Dormi com ele E a noite foi deliciosa 5 DE JUNHO Quando cheguei em casa fiz sopa de aveia A Vera chorou Não queria comer aveia Dizia Eu não gosto Deilhe uma surra e ela comeu Fomos deitar As 10 da noite começou o espetáculo na favela Aparecida a nova visinha bebeu muito e começou a brigar com a Leila Os homens da Leila queriam invadir o barracão dela Ela foi chamar a cavalaria O Adalberto levantouse para socorrer a Leila Começou falar Quando ouviram o tropel da cavalaria silenciaram O Euclides o negro preto que mora com a Aparecida é horrivel quando bebe Fala por cem Eu dou tiro Eu mato Quando ele parou de falar era 3 horas da manhã O visinho ligou o radio Eu não dormi com o sururu da favela Até as crianças despertaram Ouvi no radio o desastre da Central De manhã o José Carlos disse que tinha vontade de ver um encontro de trens Eu disselhe Não pense nisso Coitados dos operários 8 DE JUNHO Quando cheguei e abri a porta vi um bilhete Conheci a letra do repórter Perguntei a Dona Nena se ele esteve aqui Disse que sim O bilhete dizia que a reportagem vai sair no dia 10 no Cruzeiro Que o livro vai ser editado Fiquei emocionada O senhor Manoel chegou Disselhe que a reportagem vai sair 4ª feira e que o repórter quer levar o livro para imprimir Eles ganham dinheiro nas tuas costas e não te pagam Eles estão te embrulhando Você não deve entregarlhe o livro Eu não imprecionei com as ironias do senhor Manoel 9 DE JUNHO Eu disse para a Mulata e a Circe que a reportagem vai sair amanhã Eu vou gastar 15 cruzeiros para comprar o Cruzeiro e se eu não encontrar a reportagem você me paga Eu disse para a Dona Celestina que a mulher do CocaCola disse que tudo que eu escrevo ela escreve também A Dona Celestina disse que não sabe se ela escreve Que eu ela sabe que escrevo Eu estava ensinando contas para os filhos quando bateram na janela O João disse Mamãe atende o homem de oculos Fui ver Era o pai da Vera Entra Por onde entra aqui Dá a volta Ele entrou E perpassou o olhar pelo barracão Perguntou Você não sente frio aqui Isto aqui não chove Chove mas eu vou tolerando Você me escreveu que a menina estava doente eu vim visitála Obrigado pelas cartas Te agradeço porque você me protege e não revela o meu nome no teu diário Ele deu dinheiro aos filhos e eles foram comprar balas Nós ficamos sozinhos Quando os meninos voltaram a Vera disse que quer ser pianista Ele sorriu Então você quer ser granfina Ele sorriu porque os filhos dele são músicos A Vera pediu um radio Ele disse que dá um no Natal Quando ele saiu eu fiquei nervosa Depois cantei e fui comprar pão para os filhos Eles comeram E fomos deitar Eu disse para o pai da Vera que ia sair no Cruzeiro Ele deu 100 cruzeiros O José Carlos achou pouco porque ele estava com notas de 1000 10 DE JUNHO Hoje eu não vou sair porque o barraco está muito sujo Eu vou limpálo Varri o assoalho e as teias de aranha Pentiei os meus cabelos Os filhos foram na escola Quando os filhos chegaram almoçaram O João foi levar almoço para a Vera Eu disse para ele olhar se a reportagem havia saido no Cruzeiro Eu estava com medo da reportagem não ter saido e as pessoas que eu avisei para comprar o Cruzeiro dizer que eu sou pernóstica O João quando retornouse disse que a reportagem havia saido Vasculhei os bolsos procurando dinheiro Tinha 13 cruzeiros Faltava 2 O senhor Luis emprestoume E o João foi buscar O meu coração ficou oscilando igual as molas de um relogio O que será que eles escreveram a meu respeito Quando o João voltou com a revista li Retrato da favela no Diário da Carolina Li o artigo e sorri Pensei no repórter e pretendo agradecêlo Troquei roupas e fui na cidade receber o dinheiro da Vera Na cidade eu disse para os jornaleiros que a reportagem do O Cruzeiro era minha Fui receber o dinheiro e avisei o tesoureiro que eu estava no O Cruzeiro Eu estava impaciente porque havia deixado os meus filhos e na favela atualmente tem um espirito de porco Tomei o ônibus e quando cheguei no ponto final a jornaleira disse que as negrinhas da favela havia me chingado que eu estava desmoralizando a favela Fui no parque buscar a Vera E mostreilhe a revista Eu fui comprar meio quilo de carne Quando voltei para a favela passei no Emporio do senhor Eduardo Mostrei a revista para os operários do Erigorifico O João disseme que o Orlando Lopes o atual encarregado da luz havia me chingado Disse que eu fiquei devendo 4 meses Fui falar com o Orlando Ele disseme que eu puis na revista que ele não trabalha Que historia é esta que eu fíquei devendo 4 meses de luz e agua Ficou sim sua nojenta Sua vagabunda Eu escrevo porque preciso mostrar aos políticos as péssimas qualidades de vocês E eu vou contar ao repórter Eu não tenho medo daquele puto daquele fresco Que nojo que eu senti do tal Orlando Lopes Vim para o meu barraco Fiz uns bifes e os filhos comeram Eu jantei Depois cantei a valsa Rio Grande do Sul 11 DE JUNHO Levantei e fui carregar agua Depois fui fazer compras Troquei os filhos eles foram para a escola Eu não queria sair mas estou com pouco dinheiro Precisei sair Quando circulava pelas ruas o povo abordavame para dizer que havia me visto no O Cruzeiro Eu fui na banca e comprei uma revista Mostrei para o farmacêutico Eu comprei outra revista e fui levar para o José do Bar dos Esportes Ele comprou a revista Eu passei na banca e comprei outra Mostrei para o sapateiro Ele sorriu Passei no emporio do José Martins e falei se ele queria ler a revista Deixa aí Depois vamos ler Dei jantar para os filhos e sentei na cama para escrever Bateram na porta Mandei o João ver quem era e disse Entra negra Ela não é negra mamãe E uma mulher branquinha e está com 0 Cruzeiro na mão Ela entrou Uma loira muito bonita Disseme que havia lido a reportagem no O Cruzeiro e queria levarme no Diáriopara conseguir auxilio para mim Na redação eu fiquei emocionada O senhor Antonio fica no terceiro andar na sala do Dr Assis Chatobriand45 Ele deume revista para eu ler Depois foi buscar uma refeição para mim Bife batatas e saladas Eu comendo o que sonhei Estou na sala bonita A realidade é muito mais bonita do que o sonho Depois fomos na redação e fotografaramme Prometeramme que eu vou sair no Diário da Noite amanhã Eu estou tão alegre Parece que a minha vida estava suja e agora estão lavando 13 DE JUNHO Eu saí Fui catar um pouco de papel Ouço varias pessoas dizer E aquela que está no O Cruzeirol Mas como está suja Conversei com os operários Desfiz as caixas de papelão ensaquei outros papéis Ganhei 100 cruzeiros As moças do deposito começaram a cantar Carolina hum hum hum O Leon disse Ela saiu no O Cruzeiro Com ela agora é mais cruzeiro Eles te pagaram Vão darme uma casa Vai esperando Fiquei pensando num preto que é meu visinho O senhor Euclides Ele disseme Dona Carolina eu gosto muito da senhora A senhora quer escrever muitos livros Oh se quero Mas a senhora não tem quem te dê nada Precisa trabalhar Eu preciso trabalhar e escrevo nas horas vagas Eu vejo que a sua vida é muito sacrificada Eu já estou habituada Se a senhora quizer ficar comigo eu peço esmolas e te sustento E de dinheiro que as mulheres gostam E dinheiro eu arranjo para você Eu não tenho ninguém que gosta de mim Eu sou aleijado Eu gosto muito da senhora A senhora tá dentro da minha cabeça Tá dentro do meu coração Quando ele ia me dar um abraço afastei 16 DE JUNHO Hoje não temos nada para comer Queria convidar os filhos para suicidarnos Desisti Olhei meus filhos e fiquei com dó Eles estão cheios de vida Quem vive precisa comer Fiquei nervosa pensando será que Deus esqueceume Será que ele ficou de mal comigo 18 DE JUNHO O barraco da Aparecida é o ponto para reunir os pinguços Beberam e depois brigaram O Lalau disse que eu ponho varias pessoas no jornal mas ele eu não ponho Se você me por no jornal eu te quebro toda vagabunda Esta negra precisa sair daqui da favela A Aparecida veio dizer que o João mandou ela tomar no Eu disse Vocês são as professoras Quando bebem falam coisas horríveis 19 DE JUNHO O senhor Manoel apareceu Disse que comprou a revista para ver o meu retrato Quiz saber se o repórter deume algo Não mas vai dar Eu não acredito Só creio quando eu ver Eu disselhe que só depois que o livro circular é que o escritor recebe 22 DE JUNHO Saí triste porque não tinha nada em casa para comer Olhei o céu Graças a Deus não vai chover Hoje é segundafeira Tem muitos papéis nas ruas No ponto do bonde eu me separei da Vera Ela disse Faz comida que eu vou chegar com fome A frase comida ficou eclodindo dentro do meu cerebro Parece que o meu pensamento repetia Comida Comida Comida Dizem que o Brasil já foi bom Mas eu não sou da epoca do Brasil bom Hoje eu fui me olhar no espelho Fiquei horrorizada O meu rosto é quase igual ao de minha saudosa mãe E estou sem dente Magra Pudera O medo de morrer de fome 25 DE JUNHO Voltei para o meu barraco imundo Olhava o meu barraco envelhecido As tabuas negras e podres Pensei está igual a minha vida Quando eu preparava para escrever o tal Orlando surgiu e disse que queria o dinheiro Deilhe 100 cruzeiros Eu quero 250 Quero o deposito Eu não pago deposito porque já foi abolido pela Light Então eu corto a luz E desligoua 27 DE JUNHO O tal Orlando Lopes passava de bicicleta Os meus filhos falaram Olha o Orlando Eu disselhes Eu não vou olhar este nojento Ele ouviu e respondeu Nojento é a puta que te pariu Eu disselhe que ia escrever e não podia perder tempo com vagabundos Fechei a porta 29 DE JUNHO Hoje eu amanheci rouca Era 4 horas quando eu fui pegar agua porque o tal Orlando Lopes disse que não deixa eu pegar agua Puis agua para fazer café Estou só com 18 cruzeiros Estou tão triste Se eu pudesse mudar desta favela Isto é obra do Diabo Aqui já morou homens malvados mas este tal de Orlando suplantaos Hoje eu passei o dia escrevendo Contei quantos barracões tem na favela para ver quanto este tal Orlando Lopes vai arrecadar se os favelados pagarlhe os 150 cruzeiros de deposito Contei 119 barracões com luz O céu está maravilhoso Azul claro e com nuvens brancas esparsas Os balões tom suas cores variadas percorrem o espaço As crianças ficam agitadas quando um balão vem desprendendose Como é lindo o dia de São Pedro Porque será que os santos juninos são homenageados com fogos O tal Orlando Lopes passou na minha rua Ele disse que tudo que eu falo dele as mulheres lhe conta São umas idiotas Eu quero defendêlas porque há ladrões de toda especie Mas elas não compreendem 30 DE JUNHO Aquele preto que cata verdura no Mercado veio venderme umas batatas murchas e brotadas Olhandoas vi que ninguém ia comprar Pensei este pobre deve ter vagado inutilmente sem conseguir dinheiro para a refeição Pergunteilhe se queria comida Quero Dirigiume um olhar tão terno como se estivesse olhando uma santa Esquentei macarrão bofe e torresmo para ele 1 DE JULHO Eu estou cançada e enojada da favela Eu disse para o senhor Manoel que eu estou passando tantos apuros O pai da Vera é rico podia ajudarme um pouco Ele pede para eu não divulgarlhe o nome no Diário não divulgo Podia reconhecer o meu silêncio E se eu fosse uma destas pretas escandalosas e chegasse lá na oficina e fizesse um escandalo Dá dinheiro para a tua filha 2 DE JULHO Levantei acendi o fogo e mandei o João comprar 10 de açúcar Bateram no barracão Os filhos falaram E o pai da Vera É o papai ela sorria para ele Eu é que não fiquei com a tal visita Ele disseme que não levou o dinheiro lá no Juiz porque não teve tempo Mostreilhe os sapatos da Vera que estão furados e a agua penetra Quanto pagou isto 240 É caro Ele deume 120 cruzeiros e 20 para cada filho Ele mandou os filhos comprar doces para nós ficarmos sozinhos Tem hora que eu tenho desgosto de ser mulher Dei graças a Deus quando ele despediuse 3 DE JULHO Não tem gordura Hoje acabouse a gordura do porco E agora tenho que comprar gordura Tomei banho e fui deitar Que noite horrivel A tal Terezinha e o companheiro não nos deixou dormir Eu não sei onde eles arranjaram uma galinha E discutiam Vai Euclides depenar a galinha Vai você E ficaram nesta lengalenga até as 2 da madrugada 6 DE JULHO O senhor Manoel saiu E eu fiquei deitada Depois levantei e fui carregar agua Que nojo Ficar ouvindo as mulheres falar Falaram da D que ela namora qualquer um Que a R irmã do B pertence aos homens Falamos do J P que quer amasiarse com a sua filha I Ele mostra para a filha e convida Vem minha filha Dá para o seu papaizinho Dá só um pouquinho Eu já estou cançada de ouvir isto porque infelizmente eu sou visinha do J P É um homem que não pode ser admitido numa casa onde tem crianças Eu disse E por isso que eu digo que a favela é o chiqueiro de São Paulo Enchi minha lata e zarpei dando graças a Deus por sair da torneira A C disse que pediu dinheiro ao seu pai para comprar um par de sapatos e ele disse Se você me dar a eu te dou 100 Ela deu E ele deulhe só 50 Ela rasgou o dinheiro e a I catou os pedaços e colou Por isso que eu digo que a favela é o Gabinete do Diabo Fiz o almoço depois fui escrever Estou nervosa O mundo está tão insipido que eu tenho vontade de morrer Fiquei sentada no sol para aquecer Com as agruras da vida somos uns infelizes perambulando aqui neste mundo Sentindo frio interior e exterior Percebi que estava me reanimando Quando anoiteceu eu fiquei alegre Cantei O João e o José Carlos tomaram parte Os visinhos ebrios interferiram com suas vozes desafinadas Cantamos a Jardineira 7 DE JULHO A Dona Angelina Preta estava dizendo que vai vender o seu barraco e vai mudar para Guaianazes Que não suporta mais morar na rua A Fiquei contente ouvindo ela dizer que vai mudar Até eu o dia que me mudar hei de queimar incenso para agradecer a Deus Hei de fazer jejum mental pensar só nas coisas boas que agradam a Deus 11 DE JULHO Era 7 horas da noite Os filhos estavam na rua O João penetrou veloz como se estivesse sendo impelido pelo foguete russo46 Disse Mamãe o José Carlos vai para o Juiz de Menores Porque Ele jogou uma pedra na vidraça da fabrica de peças de automovel e quebrou E o nortista que toma conta da fabrica disse que vai mandalo para o Juiz Pensei uma vidraça qualquer mãe pode pagar Levantei vesti o casaco peguei o dinheiro e puis no bolso Peguei a revista com a minha reportagem e saí Fui ver a vidraça Estava quebrada E a pedra foi arremessada com estilingue E o furo na vidraça ficou oval O vigia da fabrica abriu a janela e viu o João e perguntou O que é que você está fazendo aqui Sou eu que vim ver o furo da vidraça O nortista começou a falar Eu dizia para o José Carlos o que ele foi fazer lá que anda atoa e arranja encrenca Perguntei ao nortista se havia batido nele Respondeume que não O José Carlos dizia que ele havia lhe apertado o braço Eu acreditei no meu filho Em geral as mães acreditam nos filhos 12 DE JULHO Minha luta hoje foi para fazer almoço Não tenho gordura Deixei a carne cosinhar e puis linguiça junto para fritar e apurar gordura para fazer o arroz e o feijão Temperei a salada com caldo de carne Os filhos gostaram Quando a Vera come carne fica alegre e canta 13 DE JULHO Comprei 30 cruzeiros de carne e fiquei nervosa porque os 30 que sobrou não vai dar para comprar gordura e arroz Estava apreensiva receando que meus filhos brigassem com os visinhos Quando cheguei eles estavam sentados dentro do chiqueiro lendo gibi Ouvi a voz da Dona Adelaide Dizia aos meus filhos Vocês pararam de brigar Perguntei a Vera o que havia e com quem brigaram Ela relatou que o João e o José Carlos brigaram Que deixaram o violão cair no chão e puseram perfume no fogo para acender Quebraram a escova de lavar o assoalho e abriram um pacote de tinta verde que eu estou guardando Não sei pra que mas estou guardando Puis brasas no ferro passei a minha saia verde lavei a blusa de renda que eu achei no lixo tomei banho e troqueime Troquei a Vera e fomos para a cidade Eu estava só com 6 cruzeiros Pensava e se o pai da Vera não levou o dinheiro como é que eu vou voltar Fui receber o dinheiro da Vera Que fila Era as mulheres que iam receber as mensalidades dos esposos e dos pais de seus filhos Eu tenho que dizer nossos filhos porque eu também estava no núcleo Dizem que quem entra na restea vira cebola As mulheres falavam dos esposos E lá que os homens tomam nomes de animaes O meu é um cavalo bruto e ordinário E o meu é um burro Aquele desgraçado Outro dia ele viajou na Central e eu pedi a Deus para acontecer um desastre e ele morrer e ir pro Inferno Perguntei a uma mulher que estava atrás de mim Quem é o seu advogado Dr Walter Aymberê Ele é o meu também Mas eu não gosto dele Eu recebi o grande dinheiro 250 cruzeiros A Vera sorria e dizia Agora eu gosto do meu pai Passei na sapataria e comprei um par de sapatos para a Vera Quando o senhor Manoel um nortista lhe experimentava os sapatos ela dizia Sapato não acaba porque depois a mamãe custa a comprar outro E eu não gosto de andar descalça Passei no emporio do senhor Eduardo e comprei um quilo de arroz Sobrou só 7 cruzeiros Só na cidade eu gastei 25 A cidade é um morcego que chupa o nosso sangue 15 DE JULHO Quando eu deixava o leito a Vera já estava acordada e perguntoume Mamãe é hoje que eu faço anos É E meus parabéns Desejote felicidades A senhora vai fazer um bolo para mim Não sei Se eu arranjar dinheiro Acendi o fogo e fui carregar agua As mulheres reclamavam que a agua é pouca Os lixeiros já haviam passado Catei pouco papel Passei na fabrica para catar estopas Comecei sentir tontura Resolvi ir na casa da Dona Angelina pedir um pouco de café A Dona Angelina deume Quando eu saí disselhe que já estava melhor É fome Você precisa comer Mas o que se ganha não dá Já emagreci 8 quilos Eu não tenho carne e o pouco que tenho desaparece Peguei os papéis e saí Quando passei diante de uma vitrine vi o meu reflexo Desviei o olhar porque tinha a impressão de estar vendo um fantasma Eu fritei peixe e fiz polenta para os filhos comer com peixe Quando a Vera chegou viu a polenta dentro da marmita e perguntou E o bolo Hoje eu faço anos Não é bolo E polenta Polenta eu não gosto Ela trouxe leite Eu deilhe leite com polenta Ela comeu chorando Quem sou eu para fazer bolo 18 DE JULHO Quando eu ia catar papel encontrei a Dona Binidita mãe da Nena preta Eu digo Nena preta porque nós temos aqui na favela a Nena branca Começamos a falar do menino que morreu nos fios da Light Ela disseme que foi o filho da Laura do Vicentão Oh exclamei Porque conhecia o menino e a sua historia de filho engeitado Aí vai a historia do infausto Miguel Colona Quando a Laura foi para a maternidade ter filho o seu nasceu e morreu Ela ficou triste porque queria criar o filho E chorava Ao seu lado uma mulher jovem teve um filho E chorava com inveja da Laura Ela é que desejava que o seu filho nascesse e morresse Mas o seu filho estava vivo Aquelas lagrimas preocupou a Laura que interrogoulhe Porque chora se o teu filho está vivo e é bonito A mulher disse que veio do Norte Virgem Chegou em São Paulo arranjou aquele filho E o pai da criança não queria casarse com ela Que seus pais queriam que ela voltasse para o Norte E ela ia voltar para o Norte mas não queria levar o filho Se a Laura queria o menino ela davao A Laura aceitou Ficou tão contente como se tivesse ganho todo o ouro que existe no mundo Quando ela saiu da maternidade revelou que o seu filho morreu e ela ganhou aquele Ela era boa para ele Comprou televisão porque ele insistiu Ele estava com 9 anos e no 2º primário E agora foi arrebatado tragicamente pela morte Temos só um geito de nascer e muitos de morrer Hoje tem muito papel no lixo Tem tantos catadores de papéis nas ruas Tem os que catam e deitamse embriagados Conversei com um catador de papel Porque é que não guarda o dinheiro que ganha Ele olhoume com o seu olhar de tristeza A senhora me faz rir Já foi o tempo que a gente podia guardar dinheiro Eu sou um infeliz Com a vida que levo não posso ter aspiração Não posso ter um lar porque um lar inicia com dois depois vai multiplicando Ele olhoume e disseme Porque falamos disso O nosso mundo é a margem Sabe onde estou dormindo Debaixo das pontes Eu estou doido Eu quero morrer Quantos anos tem 24 Mas já enjoei da vida Segui pensando quem escreve gosta de coisas bonitas Eu só encontro tristezas e lamentos 22 DE JULHO Eu estava deitada Era 5 horas quando a Teresinha e o Euclides começaram a falar Adalberto Levanta e vai comprar pinga O Euclides disse Você não vai escrever Não vai catar papel Levanta para você escrever a vida dos outros Eu levantei peguei um pau de vassoura e fui falarlhe para não aborrecerme que eu estou cançada de tanto trabalhar E dei umas cacetadas no barraco Ele calou e não disse mais nada 26 DE JULHO Era 19 horas quando o senhor Alexandre começou a brigar com a sua esposa Dizia que ela havia deixado seu relogio cair no chão e quebrarse Foi alterando a voz e começou a espancála Ela pedia socorro Eu não imprecionei porque já estou acostumada com os espetáculos que ele representa A Dona Rosa correu para socorrer Em um minuto a noticia circulou que um homem estava matando a mulher Ele deulhe com um ferro na cabeça O sangue jorrava Fiquei nervosa O meu coração parecia a mola de um trem em movimento Deume dor de cabeça Os homens pularam a cerca para impedilo de bater na pobre mulher Abriram a porta da frente e as mulheres e as crianças invadiram O Alexandre saiu lá de dentro enfurecido e disse Vão embora cambada Estão pensando que isso aqui é a casa da sogra Todos correram Era uns 20 querendo passar na porta As crianças ele chutou A Vera recebeu um chute e caiu de quatro Os filhos da Juana foram chutados Os favelados começaram a rir A cena não era para rir Não era comedia Era drama 28 DE JULHO Eu fui escrever Ninguém aborreceume hoje Quando o crepúsculo vinha surgindo eu fui procurar a Vera Os favelados estavam reunidos na rua apreciando a briga da Leila e da Pitita com uma negrinha que apareceu por aqui Mas eu já estou enfastiada de brigas E tantas brigas na favela A luz da favela estava acesa E a porta do barracão da Leila estava fechada Vi varias crianças olhando pela fresta Queria ir ver Mas há certas coisas que desabonam o adulto Quando o José Carlos entrou disse Eu tenho uma coisa para contar O que é Eu vi o Chico fazendo bobagem com a P Não dei margem ao assunto Ele prosseguia O Chico fazia bobagem com a P e a Vanilda estava perto olhando A Vanilda tem 2 anos 30 DE JULHO Escrevi até tarde porque estou sem sono Quando deitei adormeci logo e sonhei que estava noutra casa E eu tinha tudo Sacos de feijão Eu olhava os sacos e sorria Eu dizia para o João Agora podemos dar um pontapé na miséria E gritei Vai embora miséria A Vera despertouse e perguntou Quem é que a senhora está mandando irse embora 31 DE JULHO Comprei 20 de carne gorda porque eu não tenho gordura Passei no emporio do senhor Eduardo para comprar 1 quilo de arroz Deixei os sacos na calçada A Vera pois a carne em cima do saco o cachorro pegou Chinguei a Vera Ordinaria preguiçosa Hoje você vai comer m Ela dizia Deixa mamãe Quando eu encontrar o cachorro eu bato nele Quando cheguei em casa estava com tanta fome Surgiu um gato miando Olhei e pensei eu nunca comi gato mas se este estivesse numa panela ensopado com cebola tomate juro que comia Porque a fome é a pior coisa do mundo Eu disse para os filhos que hoje nós não vamos comer Eles ficaram tristes 1 DE AGOSTO Eu deitei mas não dormi Estava tão cançada Ouvi um ruido dentro do barraco Levantei para ver o que era Era um gato Eu ri porque eu não tenho nada para comer Fiquei com dó do gato 4 DE AGOSTO Amanheceu chovendo Eu fiz café e mandei o João comprar 15 cruzeiros de pão Emprestei 15 para o Adalberto Não carreguei agua Já enjoei de ficar naquela fila desgraçada Deixei a Vera deitada Estava chovendo uma chuva miudinha e fria Eu achei um par de sapatos no lixo e estou usando Quando eu ia catar papel a Dona Esmeralda pediume 20 emprestado Deilhe 30 cruzeiros porque ela tem 7 filhos e o esposo está no Juqueri47 Saí e fui no roteiro habitual Fui catando papel ferros e estopas Encontrei um cego Há quantos anos perdeste a vista 10 anos Achou ruim Não Porque tudo que Deus faz é bom Qual foi a causa da perda visual Fraqueza E não teve possibilidade de cura Não Só se fizer transplantação Mas é preciso encontrar quem me dê os olhos Então o senhor já viu o sol as flores e o céu cheio de estrelas Já vi Graças a Deus 6 DE AGOSTO Hoje é o aniversário do José Carlos 9 anos Ele é de 1950 Tempo bom Mas ele quer ter 10 anos porque quer namorar a Clarinda Eu saí Levei a Vera Catei papéis achei um par de sapatos no lixo Vendi por 20 cruzeiros Voltei para a favela Comprei meio quilo de carne Fiz bife Almocei 7 DE AGOSTO Catei 2 sacos de papel e ganhei 45 cruzeiros Fiquei desesperada O que é que eu vou fazer com 45 cruzeiros Catei um pouco de estopa e voltei Eu fui no ferro velho vender as estopas Ganhei 33 cruzeiros Estava indecisa pensando o que ia fazer para comer Eu estava lavando as louças quando bateram na porta O José Carlos disse E a Dona Teresinha Becker Ela deume 500 cruzeiros Eu disselhe que ia comprar sapatos para o José Carlos e agradeci Lhe acompanhei até o automóvel Eu fui conversar com a Chica e mostreilhe os 500 cruzeiros e disselhe que a Dona Teresinha é a minha mãe branca 8 DE AGOSTO Morreu um menino aqui na favela O sepultamento foi 9 horas Os negros que iam acompanhar o extinto alugaram um caminhão e levaram violão pandeiro e pinga O Zirico dizia Japonês quando morre os vivos cantam Então vamos cantar também A pior praga da favela atualmente são os ladrões Roubam a noite e dormem durante o dia Se eu fosse homem não deixava os meus filhos residir nesta espelunca Se Deus auxiliarme hei de sair daqui e não hei de olhar para trás 12 DE AGOSTO Troqueime e fui receber o dinheiro da Vera O senhor Luiz emprestoume 3 cruzeiros Achei 1 no bolso ficou 4 cruzeiros Eu queria ir de ônibus encontrei com um favelado muito bom pedi 1 cruzeiro emprestado Ele deume 2 cruzeiros Fui de ônibus Fui na chuva porque eu não tenho guardachuva Na cidade eu ouvia o povo reclamar contra a falta de feijão Que os atacadistas estão sonegando o produto ao povo E os preços atuais Isto não é mundo para o pobre viver Quando cheguei no Juizado o senhor J A M V o pai da Vera não levou o dinheiro O pai da Vera sempre me pede para eu não por o nome dele no jornal Que ele tem vários empregados e não quer ver o nome propalado Mas ele não contribui para eu ocultar o seu nome Ele está bem de vida e dá só 230 cruzeiros para a Vera Ele só aparece quando eu saio nos jornais Vem saber quanto eu ganhei 13 DE AGOSTO Levantei as 6 horas Estava furiosa com a vida Com vontade de chorar porque eu não tenho dinheiro para comprar pão Os filhos foram na escola Eu saí sozinha Deixei a Vera porque vai chover Fui catar estopas e fui catar papelões Ganhei 30 cruzeiros Fiquei triste pensando o que hei de fazer com 30 cruzeiros Estava com fome Tomei uma media com pão doce Voltei para a favela Quando eu cheguei a Vera estava na janela olhando as maquinas da Vera Cruz48que vieram filmar o Promessinha Vi varias pessoas olhando as cenas Fui ver Quando eu ia chegando os vagabundos disseram Olha a Elisabety Thaylor Vão criticar o Diabo Voltei e fui esquentar comida para os filhos Arroz e peixe O arroz e o peixe era pouco Os filhos comeram e ficaram com fome Pensei Se Jesus Cristo pudesse multiplicar estes peixes O senhor Manoel apareceu Quando eu voltava do deposito de papel ele vinha acompanhandome Deume 200 cruzeiros eu não quiz aceitar Você não me quer mais Eu tenho muito serviço Não posso preocupar com homens Meu ideal é comprar uma casa decente para os meus filhos Eu nunca tive sorte com homens Por isso não amei ninguém Os homens que passaram na minha vida só arranjaram complicações para mim Filhos para eu criálos Ele despediuse e pegou os 200 cruzeiros e saiu Lavei as louças Depois fui no deposito de ferro velho vender estopas e ferros Ganhei 21 cruzeiros Fui ver a filmagem do documentário do Promessinha Pedi os nomes dos diretores do filme para por no meu diário As mulheres da favela perguntavamme Carolina é verdade que vão acabar a favela Não Eles estão fazendo uma fita de cinema O que se nota é que ninguém gosta da favela mas precisa dela Eu olhava o pavor estampado nos rostos dos favelados Eles estão filmando as proezas do Promessinha Mas o Promessinha não é da nossa favela Quando os artistas foram almoçar os favelados queriam invadir e tomar as comidas dos artistas Pudera Frangos empadinhas carne assada cervejas Admirei a polidez dos artistas da Vera Cruz E uma companhia cinematográfica nacional Merece deferencia especial Permaneceram o dia todo na favela A favela superlotouse E os visinhos de alvenaria ficaram comentando que os intelectuais dão preferencia aos favelados As pessoas que olhavam a filmagem faziam tanto barulho O Bonito veio ver a filmagem Pergunteilhe se já foi filmado porque ele é cantor Não porque não sou popular 15 DE AGOSTO As mulheres chingavam os artistas Estes vagabundos vieram sujar a nossa porta As pessoas que passavam na via Dutra e viam os bombeiros vinham ver se era incêndio ou se era alguém que havia morrido afogado O povo dizia Estão filmando o Promessinha Mas o titulo do filme é Cidade Ameaçada49 16 DE AGOSTO Passei a tarde escrevendo Lavei todas as roupas Hoje eu estou alegre Tem festa no barraco de um nortista E a favela está superlotada de nortistas O Orlando Lopes está girando pela favela Quer dinheiro Ele cobra a luz no cambio negro E tem pessoas aqui na favela que estão passando fome 26 DE AGOSTO A pior coisa do mundo é a fome 31 DE DEZEMBRO Levantei as 3 e meia e fui carregar agua Despertei os filhos eles tomaram café Saimos O João foi catando papel porque quer dinheiro para ir no cinema Que suplicio carregar 3 sacos de papéis Ganhamos 80 cruzeiros Dei 30 ao João Eu fui fazer compras porque amanhã é dia de Ano Comprei arroz sabão querosene e açúcar O João e a Vera deitaramse Eu fiquei escrevendo O sono surgiu eu adormeci Despertei com o apito da Gazetaanunciando o Ano Novo Pensei nas corridas e no Manoel de Faria Pedi a Deus para ele ganhar a corrida Pedi para abençoar o Brasil Espero que 1960 seja melhor do que 1959 Sofremos tanto no 1959 que dá para a gente dizer Vai vai mesmo Eu não quero você mais Nunca mais 1 DE JANEIRO DE 1960 Levantei as 5 horas e fui carregar agua O CAROLINA DE JESUS QUARTO DE DESPEJO MUITOS PRESENTES E UM NATAL CLÁUDIA É comum a expressão voz do povo Também se popularizou a expressão voz do morro uma referência à musicalidade nem sempre carnavalesca dos sambistas favelados do Rio de Janeiro Não seria injusto que se falasse em portavoz da favela se se quisesse explicar em poucas palavras quem é a autora de Quarto de despejo Ao escrever um diário um gênero de texto em princípio pessoal e intransferível Carolina Maria de Jesus ultrapassou os limites individuais e deu voz à coletividade miserável e anônima que habita os barracos e os vãos das pontes nas grandes cidades brasileiras A partir da narração de seu diaadia acabou por traçar um painel variado da vida dos favelados e de sua luta pela sobrevivência Mais do que isso com sua linguagem simples e objetiva a que os erros gramaticais apenas conferem maior realismo atingiu momentos de grande lirismo e força expressiva inscrevendose sem sombra de dúvida na literatura brasileira Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais por volta de 1915 Foi empregada doméstica em São Paulo onde mais tarde passou a catar papel e outros tipos de lixo reaproveitáveis para sobreviver Em reportagem sobre a favela do Canindé onde vivia Carolina o repórter Audálio Dantas a conheceu e descobriu que a favelada escrevia um diário Surpreso com a força do texto o jornalista apresentouo a um editor Uma vez publicado o livro trouxe fama e algum dinheiro para Carolina O suficiente para deixar a favela mas não o bastante para escapar à pobreza Quase esquecida pelo público e a imprensa a escritora morreu num pequeno sítio na periferia de São Paulo em 14 de agosto de 1977 A entrevista que segue foi organizada a partir de depoimentos e textos da autora e reproduz fielmente a linguagem dos originais Por que a senhora começou a escrever Quando eu não tinha nada o que comer em vez de xingar eu escrevia Tem pessoas que quando estão nervosas xingam ou pensam na morte como solução Eu escrevia o meu diário Como surgiu seu interesse pela literatura Seria uma deslealdade de minha parte não revelar que o meu amor pela literatura foime incutido por minha professora dona Lanita Salvina que aconselhavame para eu ler e escrever tudo que surgisse na minha mente E consultasse o dicionário quando ignorasse a origem de uma palavra Que as pessoas instruídas vivem com mais facilidade O que significou a literatura para sua vida A transição de minha vida foi impulsionada pelos livros Tive uma infância atribulada É por intermédio dos livros que adquirimos boas maneiras e formamos nosso caráter Se não fosse por intermédio dos livros que deume boa formação eu teria me transviado porque passei 23 anos mesclada com os marginais QUANDO EU NÃO TINHA NADA O QUE COMER EM VEZ DE XINGAR EU ESCREVIA Como é que uma pessoa que não teve educação escolar consegue compreender e expressar tão bem a realidade dos pobres e dos miseráveis Não é preciso ser letrado para compreender que o custo de vida está nos oprimindo A senhora pensava em publicar o que escrevia Como é que a senhora fazia e como foi que conseguiu a publicação afinai Cansei de suplicar às editoras do país e pedi à editora Seleções do Readers Digest nos Estados Unidos se queria publicar meus livros em troca de casa e comida e enviei uns manuscritos para eles ler Devolveramme Depois que conheci o repórter Audálio Dantas tudo transformouse E eu enalteço o repórter por gratidão A FAVELA É O QUARTO DE DESPEJO DE UMA CIDADE NÓS OS POBRES SOMOS OS TRASTES VELHOS O que a senhora sentiu quando viu o livro Quarto de despejo pronto encadernado com seu texto em letras de imprensa Fiquei alegre olhando o livro e disse o que eu sempre invejei nos livros foi o nome do autor E li o meu nome na capa do livro Carolina Maria de Jesus Diário de uma favelada Quarto de despejo Fiquei emocionada É preciso gostar de livros para sentir o que eu senti De onde veio a idéia para o titulo de seu livro E que em 1948 quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios nós os pobres que residíamos nas habitações coletivas fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes É porisso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade Nós os pobres somos os trastes velhos Ao que a senhora atribui o sucesso de público do seu Quarto de despejo Eu não sei o que eles acham no meu diário Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados Fico pensando o que será Quarto de despejo umas coisas que eu escrevia há tanto tempo para desafogar as misérias que enlaçavamme igual o cipó quando enlaça as árvores unindo todas Depois da publicação a senhora ficou famosa Passou a frequentar ambientes diferentes do da favela Conheceu intelectuais políticos gente rica Foi difícil seu contato com esse outro tipo de gente Não Conversamos e eu fui perdendo o acanhamento e tinha a impressão de estar no céu A minha cor preta não foi obstáculo para mim E nem os meus trajes humildes Chegavam repórteres entrevistavam me fotografavamme ficavam lendo trechos do meu diário E o seu relacionamento com o pessoal da favela mudou depois da fama Muita gente passou a achar que eu fiquei rica Procuravamme como se eu fosse dona de uma fortuna Queriam propor negócios malucos Queriam pedir empréstimos pedir auxílios descabidos O que me dói é que se aproximam fantasiados de honestos Pedem exigem quase como se eu não fosse apenas mãe da Vera do João e do José Carlos mas a mãe de todos Pedem e depois não pagam A atriz Ruth de Souza à esquerda interpretou Carolina de Jesus na versão teatral de O quarto de despejo ESCREVO A MISÉRIA E A VIDA INFAUSTA DOS FAVELADOS Mas foi bom mudar de vida escapar da miséria e conhecer um mundo diferente daquele da favela Decepção Pensei que houvesse mais idealismo menos inveja Mas aqui há não só muita ambição mas também o desejo de vencer a qualquer preço Mesmo que os meios empregados sejam podres Quando matei um porco lá na favela do Canindé alguns vizinhos exigiram um pedaço de carne Rondavam meu barraco feito bicho que fareja presa Lá na favela era o porco aqui é o dinheiro No fundo é a mesma coisa Lembrei do meu provérbio Não há coisa pior na vida do que a própria vida Em seu livro a senhora além de mostrar a realidade dos favelados falo mal dos políticos dos poderosos A senhora sendo pobre e desprotegida não tinha medo de fazer essas denúncias e acusações Eu era revoltada não acreditava em ninguém Odiava os políticos e os patrões porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre Eu sabia que ia angariar inimigos porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura Seja o que Deus quiser Eu escrevi a realidade Casa de alvenaria Rio de Janeiro Francisco Alves 1961 Provérbios São Paulo Átila 1963 Pedaços da fome São Paulo Átila 1963 Diário de Bitita Rio de Janeiro Nova Fronteira sd Notas 1 Na época o campo do São Paulo Futebol Clube localizavase no bairro do Canindé onde hoje é o estádio da Portuguesa de Desportos NE 2 Carlos Lacerda 19141977 político carioca opositor ferrenho do segundo governo de Getúlio Vargas Em 1954 sofreu um atentado em que morreu o major Rubens Vaz fato que desencadeou grave crise política no país NE 3 Na verdade Partido Socialista Brasileiro que tinha apoiado Jânio Quadros ao governo do estado no ano anterior e que agora apoiava Juarez Távora à Presidência da República NE 4 Jânio Quadros 191719921 vereador e deputado estadual por São Paulo foi prefeito da capital e governador do estado antes de chegar à Presidência da República em 1961 renunciando sete meses depois de assumir o cargo N E 5 Ademar de Barros 19011969 político paulista foi por duas vezes governador do estado NE 6 Companhia Fabricadora de Papel fundada por Maurício Klabin um dos pioneiros da industrialização no país NE 7 Medicamento indicado como laxante ou purgante NE 8 Referência às radionovelas dramas radiofônicos de grande popularidade no Brasil no período do pósguerra até meados da década de 50 NE 9 Juscelino Kubitschek 19021976 presidente da República entre 1956 e 1961 No seu governo buscou o desenvolvimento do país peta abertura aos investimentos estrangeiros e transferiu o Distrito Federa para Brasília NE 10 Campos do Jordão estância climática paulista tradicionalmente procurada para tratamento de tuberculose NE 11 Referência ao palácio do Catete situado no Rio de Janeiro e na época residência oficial do presidente da República NE 12 Na rua Asdrúbal do Nascimento funcionava na época o Juizado de Menores NE 13 O correto é salsa o mesmo que salgada NE 14 Referência ao famoso cangaceiro que com seu bando dominou várias cidades nordestinas saqueando o comércio e atacando fazendas no início do século NE 15 O termo baianos referese aqui aos nordestinos em geral Com esse mesmo sentido a autora usa também a palavra nortista NE 16 Referência à esquistossomose doença parasitária que provoca diarréias e aumento do fígado e do baço NE 17 Referência ao incidente ocorrido no cais de Santa Rita PE envolvendo o deputado Ney Maranhão que durante uma discussão acabou matando um homem NE 18 Tratase do príncipe Míkasa irmão mais novo do então imperador Hirohito que visitou o país por ocasião dos 50 anos da imigração japonesa no Brasil NE 19 Companhia Municipal de Transportes Coletivos NE 20 Na verdade a Copa do Mundo de Futebol de 1958 que acabou sendo vencida pelo Brasil realizouse na Suécia A Suíça sediou a copa de 1954 NE 21 A brincadeira se justifica Baltazar era o apelido do centroavante do Corinthians e Pelé ainda em início de carreira no Santos já se destacava como um grande jogador NE 22 Comissão de Abastecimento e Preços órgão governamental que distribuía produtos a preços abaixo do mercado N E 23 Até 1971 os quatro primeiros anos do atuai curso de 1 grau constituíam o curso primário a que se seguia o ginasial também com a duração de quatro anos NE 24 Referência ao padre Donizetti que com fama de milagroso atraía muitos fieis até a cidade paulista de Tambaú onde morava N E 25 O atleta paulista Ademar Ferreira da Silva foi medalha de ouro nas olimpíadas de 1952 e 1956 e estabeleceu por três vezes o recorde mundial do salto triplo NE 26 O General Teixeira Lott era o Ministro da Guerra do Brasil em 1958 quando o Oriente Médio vivia sérios conflitos provocados pela queda do rei do Iraque Tropas estrangeiras eram enviadas à região NE 27 A princesa Margareth irmã mais nova da rainha escandalizou a sociedade britânica com seus casos amorosos e quebras de protocolo Casouse com um plebeu de quem logo se divorciou N E 28 O mesmo que ambulância NE 29 Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes de Carga hoje extinto NE 30 Nelson Eddy 19011978 cantor e ator de cinema americano formou com Jeanette MacDonald uma popular dupla em operetas e comédias musicais N E 31 A autora referese ao playground instalado pela prefeitura na favela do Canindé NE 32 Tratase de Giovanni Gronchi presidente da Itália de 1955 a 1962 NE 33 O jornalista Audálio Dantas na época repórter da Folha da Manhã e da revista O Cruzeiro foi quem descobriu os manuscritos da autora e encaminhouos para publicação NE 34 Carlos Alberto de Carvalho Pinto 19101987 foi efetivamente eleito governador de São Paulo em 1958 Seria ainda Ministro da Fazenda e senador N E 35 Auro Soares de Moura Andrade 19151982 deputado federal e senador por São Paulo NE 36 Na época o Gabinete do prefeito de São Paulo NE 37 O cálculo se refere ao gasto mensal com ônibus NE 38 Segundo a fábula a rã avista um boi e inveja seu grande tamanho começa a inchar a pele rugosa enquanto pergunta a seus filhos se já está maior do que o boi De tanto se esforçar a rã acaba morrendo NE 39 Departamento de Ordem Política e Social encarregado de reprimir manifestações políticas NE 40 Referência ao grupo de jornais Folhas formado por Folha da Noite Folha da Manhã e Folha da Tarde NE 41 O imigrante italiano Francisco Matarazzo foi um dos pioneiros da Industrialização no país e criador de um dos maiores complexos fabris to América Latina NE 42 Juizado de Menores N E 43 O atleta português Manoel de Faria venceu por duas vezes a Corrida Internacional de São Silvestre realizada nas ruas de São Paulo no último dia do ano NE 44 A revista O Cruzeiro criada em 1928 foi por muito tempo o mais importante semanário do Brasil contando com a colaboração dos maiores escritores do país NE 45 Assis Chateaubriand fundou em 1924 a cadeia jornalística Diários Associados que chegou a reunir mais de 34 jornais em todo o pais atém de diversas estações de rádio emissoras de televisão e revistas Foi o fundador do Museu de Arte de São Paulo NE 46 Em fins de 1957 a URSS lançou o primeiro satélite artificial da Terra e fogo em seguida mandou ao espaço uma cadela fatos que marcaram o inicio da corrida espacial N E 47 Famoso hospital psiquiátrico paulista localizado no bairro do Juqueri na cidade de Franco da Rocha N E 48 A companhia cinematográfica Vera Cruz foi fundada em 1949 na cidade de São Bernardo do Campo SP Vítima de grave crise financeira veio a encerrar suas atividades em 1955 Assim a informação da aurora é equivocada NE 49 Esse filme grande fracasso de bilheteria serviu para lançar no mercado o diretor Roberto Farias considerado precursor do Cinema Novo entre nós NE Table of Contents 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49

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Quarto de despejo Diário de uma favela CAROLINA MARIA DE JESUS sinal aberto ea editora ática Dos livros de Naluas Quarto de despejo Diário de um Favelada Carolina Maria de Jesus 1992 GERENTE editorial Paulo Nascimento Verano editora assistente FabianeZorn COORDENADORA de revisão Ivany Picasso Batista apoio de redação Pólen Editorial e Kelly Mayumi Ishida preparação Renato Nicolai revisão Bárbara Borges ARTE projeto gráfico Tecnopop EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Tecnopop coordenadora de arte Soraia Scarpa assistente de arte Thatiana Kalaes capa Vinícius Rossignol Felipe CIPBRASIL CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS RJ l56q 10 ed Jesus Carolina Maria de 19141977 Quarto de despejo diário de uma favelada Carolina Maria de Jesus 10 ed São Paulo Ática 2014 200p il Inclui apêndice e bibliografia ISBN 9788508171279 1 Romance brasileiro I Felipe Vinícius Rossignol II Título 1416424 CDD 86993 CDU82113438l3 ISBN 978 85 08 171279 aluno ISBN 978 85 08 171286 professor Código da obra CL 738861 CAE 530921 AL CAE 530922 PR 2016 10edição 4ª impressão Impressão e acabamento Edições Loyola Todos os direitos reservados pela Editora Ática 1993 Avenida das Nações Unidas 7221 CEP 05425902 São Paulo SP Atendimento ao cliente 40033061 atendimentoaticacombr wwwaticacombr IMPORTANTE Ao comprar um livro você remunera e reconhece o trabalho do autor e o de muitos outros profissionais envolvidos na produção editorial e na comercialização das obras editores revisores diagramadores ilustradores gráficos divulgadores distribuidores livreiros entre outros Ajudenos a combater a copia ilegal Ela gera desemprego prejudica a difusão da cultura e encarece os livros que você compra Carolina Maria de Jesus Quarto de Despejo Diário de Uma Favelada Editora Ática Nota dos Editores Esta edição respeita fielmente a linguagem da autora que muitas vezes contraria a gramática incluindo a grafia e acentuação das palavras mas que por isto mesmo traduz com realismo a forma de o povo enxergar e expressar seu mundo Apresentação Favela o quarto de despejo de uma cidade O cotidiano da favela já foi contado por diversos autores de diferentes maneiras Neste livro a perspectiva é outra é a de quem vive na favela mais especificamente a de uma catadora de papel que só pôde chegar até o segundo ano do ensino fundamental Quarto de despejo é uma edição dos diários de Carolina Maria de Jesus migrante de Sacramento Minas Gerais mãe solteira e moradora da primeira grande favela de São Paulo a Canindé que foi desocupada em meados dos anos 1960 para a construção da Marginal do Tietê O livro relata a amarga realidade dos favelados na década de 1950 os costumes de seus habitantes a violência a miséria a fome e as dificuldades para se obter comida O tempo passou a cidade cresceu mas a realidade de quem vive na miséria não mudou muito Isso faz do relato de Carolina uma obra atemporal sempre emocionante Bestseller traduzido para 13 línguas Quarto de despejo também é um referencial importante para estudos culturais e sociais tanto no Brasil como no exterior Conheça a história do descobrimento deste livro no prefácio a seguir escrito pelo jornalista Audálio Dantas Ao final do livro veja o depoimento de Carolina sobre a sua luta pela sobrevivência e sobre o seu ponto de vista em relação ao sucesso desta obra Para os leitores desta edição de Quarto de despejo é preciso que eu me apresente Entrei na história deste livro como jornalista verde ainda com a emoção e a certeza de quem acreditava poder mudar o mundo Ou pelo menos a favela do Canindé e outras favelas espalhadas pelo Brasil Repórter fui encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê no bairro do Canindé Lá no rebuliço favelado encontrei a negra Carolina que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer E tinha Tanto que na hora desisti de escrever a reportagem A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco Li e logo vi repórter nenhum escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história a visão de dentro da favela Da reportagem reprodução de trechos do diário publicada na Folha da Noite em 1958 e mais tarde 11959 na revista O Cruzeiro chegouse ao livro em 196O Fui o responsável pelo que se chama edição de texto Li todos aqueles vinte cadernos que continham o diaadia de Carolina e de seus companheiros de triste viagem A repetição da rotina favelada por mais fiel que fosse seria exaustiva Por isso foram feitos cortes selecionados os trechos mais significativos A fome aparece no texto com uma freqüência irritante Personagem trágica inarredável Tão grande e tão marcante que adquire cor na narrativa tragicamente poética de Carolina Em sua rotineira busca da sobrevivência no lixo da cidade ela descobriu que as coisas todas do mundo o céu as árvores as pessoas os bichos ficavam amarelas quando a fome atingia o limite do suportável Carolina viu a cor da fome a Amarela No tratamento que dei ao original muitas vezes por excessiva presença a Amarela saiu de cena mas não de modo a diminuir a sua importância na tragédia favelada Mexi também na pontuação assim como em algumas palavras cuja grafia poderia levar à incompreensão da leitura E foi só até a última linha ESCRITOR NENHUM PODERIA ESCREVER MELHOR AQUELA HISTORIA A VISÃO DE DENTRO DA FAVELA O tempo operou profundas mudanças na vida de Carolina a partir do momento em que os seus escritos registros do diaadia angustiante da miséria favelada foram impressos em letra de fôrma num livro que correu mundo lido discutido e admirado em treze idiomas Um livro assim forte e original só podia gerar muita polêmica Para começar ele rompeu a rotina das magras edições de dois três mil exemplares no Brasil Em poucos meses a partir de agosto de 196O quando foi lançado sucessivas edições atingiram em conjunto as alturas dos 1OO mil exemplares Os jornais as revistas o rádio e a televisão primeiro aqui e depois no mundo inteiro abriram espaço para o livro e para a história de sua autora O sucesso do livro uma tosca acabrunhante e até lírica narrativa do sofrimento do homem relegado à condição mais desesperada e humilhante de vida foi também o sucesso pessoal de sua autora transformada de um dia para outro numa patética Cinderela saída do borralho do lixo para brilhar intensamente sob as luzes da cidade Carolina querendo ou não transformouse em artigo de consumo e em certo sentido num bicho estranho que se exibia como uma excitante curiosidade conforme registrou o escritor Luís Martins Mas acima da excitação dos consumidores fascinados pela novidade pelo inusitado feito daquela negra semianalfabeta que alcançara o estrelato e mais do que isto ganhara dinheiro pairava a força do livro sua importância como depoimento sua autenticidade e sua paradoxal beleza Sobre ele escreveram alguns dos melhores escritores brasileiros Rachel de Queiroz Sérgio Milliet Helena Silveira Manuel Bandeira entre outros O que não impediu que alguns torcessem o nariz para o livro e até lançassem dúvidas sobre a autenticidade do texto de Carolina Aquilo diziam só podia ser obra de um espertalhão um golpe publicitário O poeta Manuel Bandeira em lúcido artigo colocou as coisas no devido lugar ninguém poderia inventar aquela linguagem aquele dizer as coisas com extraordinária força criativa mas típico de quem ficou a meio caminho da instrução primária Exatamente o caso de Carolina que só pôde chegar até o segundo ano de uma escola primária de Sacramento Minas Gerais O impacto causado por Quarto de despejo foi além das discussões sobre o texto O problema da favela na época de dimensões ainda reduzidas em São Paulo foi discutido por técnicos e políticos Um grupo de estudantes fundou o Movimento Universitário de Desfavelamento cuja sigla MUD revelava no mínimo uma intenção generosa Ou um sonho E Carolina era alçada à condição de cidadã com título oficial conferido pela Câmara Municipal de São Paulo O cenário em que foi escrito o diário já não é o mesmo Parte dele deu lugar ao asfalto de uma nova avenida por coincidência chamada Marginal A Marginal do Tietê que passa por ali onde até meados dos anos 6O se erguia o caos semiurbano e subumano da favela do Canindé em São Paulo O resto foi ocupado por construções sólidas ordenadas limpas aprumadas no lugar dos barracos cujos ocupantes foram para outros cantos da cidade para outros quartos de despejo Mais de trinta anos decorridos desde o aparecimento de Quarto de despejo a cidade tem outra cara esparramada para muito além da avenida Marginal E a favela do Canindé onde viveu Carolina Maria de Jesus na rua A barraco n 9 multiplicouse em dezenas centenas de outras Assim Quarto de despejo não é um livro de ontem é de hoje Sua contundente atualidade é dramaticamente demonstrada pelos arrastões que invadiram em 92 as praias da zona sul do Rio de Janeiro Os quartos de despejo multiplicados estão transbordando 15 DE JULHO DE 1955 Aniversário de minha filha Vera Eunice Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela Mas o custo dos generos alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos Atualmente somos escravos do custo de vida Eu achei um par de sapatos no lixo lavei e remendei para ela calçar Eu não tinha um tostão para comprar pão Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo Ele ficou com os litros e deume pão Fui receber o dinheiro do papel Recebi 65 cruzeiros Comprei 20 de carne 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de queijo E o dinheiro acabouse Passei o dia indisposta Percebi que estava resfriada A noite o peito doia me Comecei tussir Resolvi não sair a noite para catar papel Procurei meu filho João José Ele estava na rua Felisberto de Carvalho perto do mercadinho O ônibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiuse Ele estava no núcleo Dei lhe uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa Ablui as crianças aleiteias e abluime e aleiteime Esperei até as 11 horas um certo alguém Ele não veio Tomei um melhorai e deiteime novamente Quando despertei o astro rei deslisava no espaço A minha filha Vera Eunice dizia Vai buscar agua mamãe 16 DE JULHO Levantei Obedeci a Vera Eunice Fui buscar agua Fiz o café Avisei as crianças que não tinha pão Que tomassem café simples e comesse carne com farinha Eu estava indisposta resolvi benzerme Abri a boca duas vezes certifiqueime que estava com mau olhado A indisposição desapareceu sai e fui ao seu Manoel levar umas latas para vender Tudo quanto eu encontro no lixo eu cato para vender Deu 13 cruzeiros Fiquei pensando que precisava comprar pão sabão e leite para a Vera Eunice E os 13 cruzeiros não dava Cheguei em casa aliás no meu barracão nervosa e exausta Pensei na vida atribulada que eu levo Cato papel lavo roupa para dois jovens permaneço na rua o dia todo E estou sempre em falta A Vera não tem sapatos E ela não gosta de andar descalça Faz uns dois anos que eu pretendo comprar uma maquina de moer carne E uma maquina de costura Cheguei em casa fiz o almoço para os dois meninos Arroz feijão e carne E vou sair para catar papel Deixei as crianças Recomendeilhes para brincar no quintal e não sair na rua porque os péssimos vizinhos que eu tenho não dão socego aos meus filhos Saí indisposta com vontade de deitar Mas o pobre não repousa Não tem o previlegio de gosar descanço Eu estava nervosa interiormente ia maldizendo a sorte Catei dois sacos de papel Depois retornei catei uns ferros uma latas e lenha Vinha pensando Quando eu chegar na favela vou encontrar novidades Talvez a D Rosa ou a indolente Maria dos Anjos brigaram com meus filhos Encontrei a Vera Eunice dormindo e os meninos brincando na rua Pensei são duas horas Creio que vou passar o dia sem novidade O João José veio avisarme que a perua que dava dinheiro estava chamando para dar mantimentos Peguei a sacola e fui Era o dono do Centro Espirita da rua Vergueiro 103 Ganhei dois quilos de arroz idem de feijão e dois quilos de macarrão Fiquei contente A perua foise embora O nervoso interior que eu sentia ausentouse Aproveitei a minha calma interior para eu ler Peguei uma revista e sentei no capim recebendo os raios solar para aquecerme Li um conto Quando iniciei outro surgiu os filhos pedindo pão Escrevi um bilhete e dei ao meu filho João José para ir ao Arnaldo comprar um sabão dois melhoraes e o resto pão Puis agua no fogão para fazer café O João retornouse Disse que havia perdido os melhoraes Voltei com ele para procurar Não encontramos Quando eu vinha chegando no portão encontrei uma multidão Crianças e mulheres que vinha reclamar que o José Carlos havia apedrejado suas casas Para eu repreendêlo 17 DE JULHO Domingo Um dia maravilhoso O céu azul sem nuvem O Sol está tépido Deixei o leito as 630 Fui buscar agua Fiz café Tendo só um pedaço de pão e 3 cruzeiros Dei um pedaço a cada um puis feijão no fogo que ganhei ontem do Centro Espirita da Rua Vergueiro 103 Fui lavar minhas roupas Quando retornei do rio o feijão estava cosido Os filhos pediram pão Dei os 3 cruzeiros ao João José para ir comprar pão Hoje é a Nair Mathias quem começou impricar com os meus filhos A Silvia e o esposo já iniciaram o espetáculo ao ar livre Ele está lhe espancando E eu estou revoltada com o que as crianças presenciam Ouvem palavras de baixo calão Oh se eu pudesse mudar daqui para um núcleo mais decente Fui na D Floreia pedir um dente de alho E fui na D Analia E recebi o que esperava Não tenho Fui torcer as minhas roupas A D Aparecida perguntoume A senhora está gravida Não senhora respondi gentilmente E lhe chinguei interiormente Se estou gravida não é de sua conta Tenho pavor destas mulheres da favela Tudo quer saber A lingua delas é como os pés de galinha Tudo espalha Está circulando rumor que eu estou gravida E eu não sabia Saí a noite e fui catar papel Quando eu passava perto do campo do São Paulo1 varias pessoas saiam do campo Todas brancas só um preto E o preto começou insultarme Vai catar papel minha tia Olha o buraco minha tia Eu estava indisposta Com vontade de deitar Mas prossegui Encontrei varias pessoas amigas e parava para falar Quando eu subia a Avenida Tiradentes encontrei umas senhoras Uma perguntoume Sarou as pernas Depois que operei fiquei boa graças a Deus E até pude dançar no Carnaval com minha fantasia de penas Quem operoume foi o Dr José Torres Netto Bom médico E falamos de políticos Quando uma senhora perguntoume o que acho do Carlos Lacerda respondi concientemente Muito inteligente Mas não tem iducação E um político de cortiço Que gosta de intriga Um agitador Uma senhora disse que foi pena A bala que pegou o major podia acertar no Carlos Lacerda2 Mas o seu dia chegará comentou outra Varias pessoas afluiramse Eu era o alvo das atenções Fiquei apreensiva porque eu estava catando papel andrajosa Depois não mais quiz falar com ninguém porque precisava catar papel Precisava de dinheiro Eu não tinha dinheiro em casa para comprar pão Trabalhei até as 1130 Quando cheguei em casa era 24 horas Esquentei comida dei para a Vera Eunice jantei e deiteime Quando despertei os raios solares penetrava pelas frestas do barracão 18 DE JULHO Levantei as 7 horas Alegre e contente Depois que veio os aborrecimentos Fui no deposito receber 60 cruzeiros Passei no Arnaldo Comprei pão leite paguei o que devia e reservei dinheiro para comprar Licor de Cacau para Vera Eunice Cheguei no inferno Abri a porta e pus os meninos para fora A D Rosa assim que viu o meu filho José Carlos começou impricar com ele Não queria que o menino passasse perto do barracão dela Saiu com um pau para espancálo Uma mulher de 48 anos brigar com criança As vezes eu saio ela vem até a minha janela e joga o vaso de fezes nas crianças Quando eu retorno encontro os travesseiros sujos e as crianças fétidas Ela odeiame Diz que sou preferida pelos homens bonitos e distintos E ganho mais dinheiro do que ela Surgio a D Cecilia Veio repreender os meus filhos Lhe joguei uma direta ela retirouse Eu disse Tem mulher que diz saber criar os filhos mas algumas tem filhos na cadeia classificado como mau elemento Ela retirouse Veio a indolente Maria dos Anjos Eu disse Eu estava discutindo com a nota já começou chegar os trocos Os centavos Eu não vou na porta de ninguém E vocês quem vem na minha porta aborrecerme Eu nunca chinguei filhos de ninguém nunca fui na porta de vocês reclamar contra seus filhos Não pensa que eles são santos É que eu tolero crianças Veio a D Silvia reclamar contra os meus filhos Que os meus filhos são mal iducados Mas eu não encontro defeito nas crianças Nem nos meus nem nos dela Sei que criança não nasce com senso Quando falo com uma criança lhe dirijo palavras agradaveis O que aborreceme é elas vir na minha porta para perturbar a minha escassa tranquilidade interior Mesmo elas aborrecendo me eu escrevo Sei dominar meus impulsos Tenho apenas dois anos de grupo escolar mas procurei formar o meu carater A unica coisa que não existe na favela é solidariedade Veio o peixeiro Senhor Antonio Lira e deume uns peixes Vou fazer o almoço As mulheres sairam deixoume em paz por hoje Elas já deram o espetáculo A minha porta atualmente é theatro Todas crianças jogam pedras mas os meus filhos são os bodes expiatórios Elas alude que eu não sou casada Mas eu sou mais feliz do que elas Elas tem marido Mas são obrigadas a pedir esmolas São sustentadas por associações de caridade Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantêlos E elas tem que mendigar e ainda apanhar Parece tambor A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas Não casei e não estou descontente Os que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horríveis Tem a Maria José mais conhecida por Zefa que reside no barracão da Rua B numero 9 E uma alcoólatra Quando está gestante bebe demais E as crianças nascem e morrem antes dos doze meses Ela odeiame porque os meus filhos vingam e por eu ter radio Um dia ela pediume o radio emprestado Disse lhe que não podia emprestar Que ela não tinha filhos podia trabalhar e comprar Mas é sabido que pessoas que são dadas ao vicio da embriaguês não compram nada Nem roupas Os ebrios não prosperam Ela as vezes joga agua nos meus filhos Ela alude que eu não expanco os meus filhos Não sou dada a violência O José Carlos disse Não fique triste mamãe Nossa Senhora Aparecida há de ter dó da senhora Quando eu crescer eu compro uma casa de tijolos para a senhora Fui catar papel e permaneci fora de casa uma hora Quando retornei vi varias pessoas as margens do rio E que lá estava um senhor inconciente pelo álcool e os homens indolentes da favela lhe vasculhavam os bolsos Roubaram o dinheiro e rasgaram os documentos É 5 horas Agora que o Senhor Heitor ligou a luz E eu vou lavar as crianças para irem para o leito porque eu preciso sair Preciso dinheiro para pagar a luz Aqui é assim A gente não gasta luz mas precisa pagar Saí e fui catar papel Andava depressa porque já era tarde Encontrei uma senhora Ia maldizendo sua vida conjugal Observei mas não disse nada Amarrei os sacos puis as latas que catei ao outro saco e vim para casa Quando cheguei liguei o radio para saber as horas Era 2355 Esquentei corrida li despime e depois deitei O sono surgiu logo 19 DE JULHO Despertei as 7 horas com a conversa dos meus filhos Deixei o leito fui buscar agua As mulheres já estavam na torneira As latas em fila Assim que cheguei a Florenciana perguntoume De que partido é aquela faixa Li PSB e respondi Partido Social Brasileiro3 Passou o Senhor Germano ela perguntou novamente Senhor Germano esta faixa é de que partido Do Janio4 Ela rejubilouse e começou dizer que o Dr Ademar de Barros5 é um ladrão Que só as pessoas que não presta é que aprecia e acata o Dr Adhemar Eu e D Maria Puerta uma espanhola muito boa defendíamos o Dr Adhemar D Maria disse Eu sempre fui ademarista Gosto muito dele e de D Leonor A Florenciana perguntou Ele já deu esmola a senhora Já deu o Hospital das Clínicas Chegou a minha vez puis a minha lata para encher A Florenciana prosseguiu elogiando o Janio A agua começou diminuir na torneira Começaram a falar da Rosa Que ela carregava agua desde as 4 horas da madrugada que ela lavava toda roupa em casa Que ela precisa pagar 20 cruzeiros por mês Minha lata encheu eu vim embora Estive revendo os aborrecimentos que tive esses dias Suporto as contingências da vida resoluta Eu não consegui armazenar para viver resolvi armazenar paciência Nunca feri ninguém Tenho muito senso Não quero ter processos O meu risgistro geral é 845936 Fui no deposito receber o dinheiro do papel 55 cruzeiros Retornei depressa comprei leite e pão Preparei Toddy para as crianças arrumei os leitos puis feijão no fogo varri o barraco Chamei o Senhor Ireno Venancio da Silva para fazer um balanço para os meninos Para ver se eles permanece no quintal para os visinhos não brigar com eles Deilhe 16 cruzeiros Enquanto ele fazia o balanço eu fui ensaboar as roupas Quando retornei o Senhor Ireno estava terminando o balanço Fiz alguns reparos e ele terminou Os meninos deu valor ao balanço só na hora Todos queriam balançar ao mesmo tempo Fechei a porta e fui vender as latas Levei os meninos O dia está calido E eu gosto que eles receba os raios solares Que suplício Carregar a Vera e levar o saco na cabeça Vendi as latas e os metais Ganhei 31 cruzeiros Fiquei contente Perguntei Seu Manoel o senhor não errou na conta Não Porque Porque o saco de latas não pesava tanto para eu ganhar 31 cruzeiros E a quantia que eu preciso para pagar a luz Despedime e retorneime Cheguei em casa fiz o almoço Enquanto as panelas fervia eu escrevi um pouco Dei o almoço as crianças e fui no Klabin6 catar papel Deixei as crianças brincando no quintal Tinha muito papel Trabalhei depressa pensando que aquelas bestas humanas são capás de invadir o meu barracão e maltratar meus filhos Trabalhei apreensiva e agitada A minha cabeça começou doer Elas costuma esperar eu sair para vir no meu barracão expancar os meus filhos justamente quando eu não estou em casa Quando as crianças estão sosinhas e não podem defenderse Nas favelas as jovens de 15 anos permanecem até a hora que das querem Mesclase com as meretrizes contam suas aventuras Há os que trabalham E há os que levam a vida a torto e a direito As pessoas de mais idade trabalham os jovens é que renegam o trabalho Tem as mães que catam frutas e legumes nas feiras Tem as igrejas que dá pão Tem o São Francisco que todos os meses dá mantimentos café sabão etc Elas vai na feira cata cabeça de peixe tudo que pode aproveitar Come qualquer coisa Tem estomago de cimento armado As vezes eu ligo o radio e danço com as crianças simulamos uma luta de boxe Hoje comprei marmelada para eles Assim que dei um pedaço a cada um percebi que eles me dirigiam um olhar terno E o meu João José disse Que mamãe boa Quando as mulheres feras invade o meu barraco os meus filhos lhes joga pedras Elas diz Que crianças mal iducadas Eu digo Os meus filhos estão defendendome Vocês são incultas não pode compreender Vou escrever um livro referente a favela Hei de citar tudo que aqui se passa E tudo que vocês me fazem Eu quero escrever o livro e vocês com estas cenas desagradaveis me fornece os argumentos A Silvia pediume para retirar o seu nome do meu livro Ela disse Você é mesmo uma vagabunda Dormia no Albergue Noturno O seu fim era acabar na maloca Eu disse Está certo Quem dorme no Albergue Noturno são os indigentes Não tem recurso e o fim é mesmo nas malocas e Você que diz nunca ter dormido no Albergue Noturno o que veio fazer aqui na maloca Você era para estar residindo numa casa própria Porque a sua vida rodou igual a minha Ela disse A unica coisa que você sabe fazer é catar papel Eu disse Cato papel Estou provando como vivo Estou residindo na favela Mas se Deus me ajudar hei de mudar daqui Espero que os políticos estingue as favelas Há os que prevalecem do meio em que vive demonstram valentia para intimidar os fracos Há casa que tem cinco filhos e a velha é quem anda o dia inteiro pedindo esmola Há as mulheres que os esposos adoece e elas no penado da enfermidade mantem o lar Os esposos quando vê as esposas manter o lar não saram nunca mais Hoje não saí para catar papel Vou deitar Não estou cançada e não tenho sono Hontem eu bebi uma cerveja Hoje estou com vontade de beber outra vez Mas não vou beber Não quero viciar Tenho responsabilidade Os meus filhos E o dinheiro gasto em cerveja faz falta para o escencial O que eu reprovo nas favelas são os pais que mandam os filhos comprar pinga e dá as crianças para beber E diz Ele tem lumbriga Os meus filhos reprova o álcool O meu filho João José diz Mamãe quando eu crescer eu não vou beber O homem que bebe não compra roupas Não tem radio não faz uma casa de tijolo O dia de hoje me foi benefico As rascoas da favela estão vendo eu escrever e sabe que é contra elas Resolveram me deixar em paz Nas favelas os homens são mais tolerantes mais delicados As bagunceiras são as mulheres As intrigas delas é igual a de Carlos Lacerda que irrita os nervos E não há nervos que suporta Mas eu sou forte Não deixo nada imprecionarme profundamente Não me abato 20 DE JULHO Deixei o leito as 4 horas para escrever Abri a porta e contemplei o céu estrelado Quando o astrorei começou despontar eu fui buscar agua Tive sorte As mulheres não estavam na torneira Enchi minha lata e zarpei Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos Disseme que estava a espera do Binidito e do Miguel para matálos que eles lhe expancaram quando ele estava embriagado Lhe aconselhei a não brigar que o crime não trás vantagens a ninguém apenas deturpa a vida Senti o cheiro de álcool disisti Sei que os ebrios não atende O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiência Já foi telegrafista E do Circulo Exoterico Tem conhecimentos biblicos gosta de dar conselhos Mas não tem valor Deixou o álcool lhe dominar embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente Preparei a refeição matinal Cada filho prefere uma coisa A Vera mingau de farinha de trigo torrada O João José café puro O José Carlos leite branco E eu mingau de aveia Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir procuro lhe dar uma refeição condigna Terminaram a refeição Lavei os utensílios Depois fui lavar roupas Eu não tenho homem em casa E só eu e meus filhos Mas eu não pretendo relaxar O meu sonho era andar bem limpinha usar roupas de alto preço residir numa casa confortável mas não é possível Eu não estou descontente com a profissão que exerço Já habitueime andar suja Já faz oito anos que cato papel O desgosto que tenho é residir em favela Durante o dia os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo E já tentaram assaltar o emporio do senhor Raymundo Guello E um ficou carimbado com uma bala O assalto teve inicio as 4 horas Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda E sorria exibindo o dinheiro Mas o juiz foi severo Castigou impiedosamente Fui no rio lavar as roupas e encontrei D Mariana Uma mulher agradavel e decente Tem 9 filhos e um lar modelo Ela e o esposo tratamse com iducação Visam apenas viver em paz E criar filhos Ela também ia lavar roupas Ela disse me que o Binidito da D Geralda todos os dias ia preso Que a Radio Patrulha cançou de vir buscálo Arranjou serviço para ele na cadeia Achei graça Dei risada Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel Que suplicio catar papel atualmente Tenho que levar a minha filha Vera Eunice Ela está com dois anos e não gosta de ficar em casa Eu ponho o saco na cabeça e levoa nos braços Suporto o peso do saco na cabeça e suporto o peso da Vera Eunice nos braços Tem hora que revoltome Depois dominome Ela não tem culpa de estar no mundo Refleti preciso ser tolerante com os meus filhos Eles não tem ninguém no mundo a não ser eu Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar Aqui todas impricam comigo Dizem que falo muito bem Que sei atrair os homens Quando fico nervosa não gosto de discutir Prefiro escrever Todos os dias eu escrevo Sento no quintal e escrevo Não posso sair para catar papel A Vera Eunice não quer dormir e nem o José Carlos A Silvia e o marido estão discutindo Tem 9 filhos e não respeitamse Brigam todos os dias Vendi o papel ganhei 140 cruzeiros Trabalhei em excesso sentime mal Tomei umas pilulas de vida7 e deitei Quando eu ia dormindo despertava com a voz do senhor Antonio Andrade discutindo com a esposa 21 DE JULHO Despertei com a voz de D Maria perguntandome se eu queria comprar banana e alface Olhei as crianças Estavam dormindo Fiquei quieta Quando eles vê as frutas sou obrigada a comprar Mandei o meu filho João José no Arnaldo comprar açúcar e pão Depois fui lavar roupas Enquanto as roupas corava eu sentei na calçada para escrever Passou um senhor e perguntoume O que escreve Todas as lambanças que pratica os favelados estes projetos de gente humana Ele disse Escreve e depois dá a um critico para fazer a revisão Olhou as crianças ao meu redor e perguntou Estes filhos são seus Olhei as crianças Meu era apenas dois Mas como todas eram da mesma cor afirmei que sim Seu marido onde trabalha Não tenho marido e nem quero Uma senhora que estava me olhando escrever despediuse Pensei talvez ela não tenha apreciado a minha resposta É muito filho para sustentar Ele abriu a carteira Pensei agora ele vai dar dinheiro a qualquer uma destas crianças pensando que todas são meus filhos Fui imprudente mentindo Mas a minha filha Vera Eunice ergueu o braço e disse Dá eu té Compá papato Eu disse Ela está dizendo que quer o dinheiro para comprar sapatos Ele disse Dá para sua mãe Ergui os olhos para observálo Duas meninas lhe chamava papai Eu conheçoo de vista Já falei com ele na farmacia quando levei a Vera para tomar injeção contra resfriado Ele seguio Eu olhei o dinheiro que ele deu a Vera Cem cruzeiros Em poucos minutos o boato circulou que a Vera ganhou cem cruzeiros E pensei na eficiência da lingua humana para transmitir uma noticia As crianças aglomeravase Eu levantei e fui sentar perto da casa de D Mariana E lhe pedir um pouco de café Já habituei beber café na casa do Seu Lino Tudo que eu peço a eles emprestado eles empresta Quando eu vou pagar não recebem Depois fui torcer as roupas e vim preparar o almoço Hoje eu estou cantando Estou alegre e já pedi aos visinhos para não me aborrecer Todos nois temos o nosso dia de alegria Hoje é o meu Uma menina por nome Amalia diz a mãe que o espirito lhe pega Saiu correndo para se jogar no rio Varias mulheres lhe impedio o gesto Passei o resto da tarde escrevendo As quatro e meia o senhor Heitor ligou a luz Dei banho nas crianças e preparei para sair Fui catar papel mas estava indisposta Vim embora porque o frio era demais Quando cheguei em casa era 2230 Liguei o radio Tomei banho Esquentei comida Li um pouco Não sei dormir sem ler Gosto de manusear um livro O livro é a melhor invenção do homem 22 DE JULHO Tem hora que revolto com a vida atribulada que levo E tem hora que me conformo Conversei com uma senhora que cria uma menina de cor E tão boa para a menina Lhe compra vestidos de alto preço Eu disse Antigamente eram os pretos que criava os brancos Hoje são os brancos que criam os pretos A senhora disse que cria a menina desde 9 meses E que a negrinha dorme com ela e que lhe chama de mãe Surgiu um moço Disse ser seu filho Contei umas anedotas Eles riram e eu segui cantando Comecei catar papel Subi a rua Tiradentes cumprimentei as senhoras que conheço A dona da tinturaria disse Coitada Ela é tão boazinha Fiquei repetindo no pensamento Ela é boazinha Eu gosto de ficar dentro de casa com as portas fechadas Não gosto de ficar nas esquinas conversando Gosto de ficar sozinha e lendo Ou escrevendo Virei na rua Frei Antonio Galvão Quase não tinha papel A D Nair Barros estava na janela Eu falei que residia em favela Que favela é o pior cortiço que existe Enchi dois sacos na rua Alfredo Maia Levei um até ao ponto e depois voltei para levar outro Percorri outras ruas Conversei um pouco com o senhor João Pedro Fui na casa de uma preta levar umas latas que ela havia pedido Latas grandes para plantar flores Fiquei conhecendo uma pretinha muito limpinha que falava muito bem Disse ser costureira mas que não gostava da profissão E que admiravame Catar papel e cantar Eu sou muito alegre Todas manhãs eu canto Sou como as aves que cantam apenas ao amanhecer De manhã eu estou sempre alegre A primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço 23 DE JULHO Liguei o radio para ouvir o drama8 Fiz o almoço e deitei Dormi uma hora e meia Nem ouvi o final da peça Mas eu já conhecia a peça Comecei fazer o meu diário De vez em quando parava para repreender os meus filhos Bateram na porta Mandei o João José abrir e mandar entrar Era o Seu João Perguntoume onde encontrar folhas de batatas para sua filha buchechar um dente Eu disse que na Portuguesinha era possivel encontrar Quiz saber o que eu escrevia Eu disse ser o meu diário Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você Todos tem um ideal O meu é gostar de ler O Seu João deu cinquenta centavos para cada menino Quando ele me conheceu eu tinha só dois meninos Ninguém tem me aborrecido Graças a Deus 24 DE JULHO Levantei cinco horas para ir buscar agua Hoje é domingo as favelas recolhem agua mais tarde Mas eu já habitueime levantar cedo Comprei pão e sabão Puis feijão no fogo e fui lavar roupas No rio chegou Adair Mathias lamentando que sua mãe tinha saído e ela tinha que fazer almoço e lavar roupas Disse que sua mãe era forte mas que agora lhe puzeram feitiço Que o curador disse que era a feiticeira Mas o feitiço que invade a família Mathias é o álcool Esta é a minha opinião A D Mariana lamentava que seu esposo estava demorando a regressar Puis as roupas para quarar e vim fazer o almoço Quando cheguei em casa encontrei a D Francisca brigando com meu filho João José Uma mulher de quarenta anos discutindo com uma criança de seis anos Puis o menino para dentro e fechei o portão Ela continuou falando Para fazer ela calar é preciso lhe dizer Cala a boca tuberculosa Não gosto de aludir os males físicos porque ninguém tem culpa de adquirir moléstias contagiosas Mas quando a gente percebe que não pode tolerar a impricancia do analfabeto apela para as enfermidades O Seu João veio buscar as folhas de batatas Eu disselhe Se eu pudesse mudar desta favela Tenho a impressão que estou no inferno Sentei ao sol para escrever A filha da Silvia uma menina de seis anos passava e dizia Está escrevendo negra fidida A mãe ouvia e não repreendia São as mães que instigam 25 DE JULHO Amanheci contente Estou cantando As únicas horas que tenho socego aqui na favela é de manhã Hoje a D Francisca mandou sua filha de sete anos provocarme mas eu estava com muito sono Fechei a porta e deitei Fui visitar o filho recem nascido de D Maria Puerta uma espanhola de primeira A jóia da favela E o ouro no meio de chumbo 27 DE JULHO Levantei de manhã e fui buscar agua Discuti com o esposo da Silvia porque ele não queria deixar eu encher minhas latas Não tinha dinheiro em casa Esquentei comida amanhecida e dei aos meninos O Senhor Ireno disseme que esta noite houve roubo na favela Que roubaram roupas da D Floreia e mil cruzeiros de D Paulina O meu barracão também está sendo visado Duas noites que não saio para catar papel Para evitar aborrecimentos eu levei o radio para a casa de D Floreia E eu que estou querendo comprar uma maquina de costura Seu Gino veio dizerme para eu ir no quarto dele Que eu estou lhe despresando Disselhe Não É que eu estou escrevendo um livro para vendêlo Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela Não tenho tempo para ir na casa de ninguém Seu Gino insistia Ele disse Bate que eu abro a porta Mas o meu coração não pede para eu ir no quarto dele 28 DE JULHO Fiquei horrorisada Haviam queimado meus cinco sacos de papel A neta de D Elvira a que tem duas meninas e que não quer mais filhos porque o marido ganha pouco disse Nós vimos a fumaça Também a senhora põe os sacos ali no caminho Ponhe lá no mato onde ninguém os vê Eu ouvi dizer que vocês lá da favela vivem uns roubando os outros Quando elas falam não sabem dizer outra coisa a não ser roubo Percebi que foi ela quem queimou meus sacos Resolvi retirar com nojo delas Aliás já haviam ditome que eles são uns portugueses malvados Que a D Elvira nunca fez um favor a ninguém Para eu ficar previnida Não estou ressentida Já estou tão habituada com a maldade humana Sei que os sacos vão me fazer falta FIM DO DIÁRIO DE 1955 2 DE MAIO DE 1958 Eu não sou indolente Há tempos que eu pretendia fazer o meu diário Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era perder tempo Eu fiz uma reforma em mim Quero tratar as pessoas que eu conheço com mais atenção Quero enviar um sorriso amavel as crianças e aos operários Recebi intimação para comparecer as 8 horas da noite na Delegacia do 12 Passei o dia catando papel A noite os meus pés doiam tanto que eu não podia andar Começou chover Eu ia na Delegacia ia levar o José Carlos A intimação era para ele O José Carlos está com 9 anos 3 DE MAIO Fui na feira da Rua Carlos de Campos catar qualquer coisa Ganhei bastante verdura Mas ficou sem efeito porque eu não tenho gordura Os meninos estão nervosos por não ter o que comer 6 DE MAIO De manhã não fui buscar agua Mandei o João carregar Eu estava contente Recebi outra intimação Eu estava inspirada e os versos eram bonitos e eu esqueci de ir na Delegacia Era 11 horas quando eu recordei do convite do ilustre tenente da 12 Delegacia O que eu aviso aos pretendentes a politica é que o povo não tolera a fome E preciso conhecer a fome para saber descrevêla Estão construindo um circo aqui na Rua Araguaia Circo Theatro Nilo 9 DE MAIO Eu cato papel mas não gosto Então eu penso Faz de conta que eu estou sonhando 10 DE MAIO Fui na delegacia e falei com o tenente Que homem amavel Se eu soubesse que ele era tão amavel eu teria ido na delegacia na primeira intimação O tenente interessouse pela educação dos meus filhos Disseme que a favela é um ambiente propenso que as pessoas tem mais possibilidades de delinquir do que tornarse util a patria e ao país Pensei Se ele sabe disto porque não faz um relatorio e envia para os politicos O senhor Janio Quadros o Kubstchek9 e o Dr Adhemar de Barros Agora falar para mim que sou uma pobre lixeira Não posso resolver nem as minhas dificuldades O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome A fome também é professora Quem passa fome aprende a pensar no proximo e nas crianças 11 DE MAIO Dia das Mães O céu está azul e branco Parece que até a Natureza quer homenagear as mães que atualmente se sentem infeliz por não poder realisar os desejos dos seus filhos O sol vai galgando Hoje não vai chover Hoje é o nosso dia A D Teresinha veio visitarme Ela deume 15 cruzeiros Disseme que era para a Vera ir no circo Mas eu vou deixar o dinheiro para comprar pão amanhã porque eu só tenho 4 cruzeiros Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no Frigorífico Comemos a carne e guardei os ossos E hoje puis os ossos para ferver E com o caldo fiz as batatas Os meus filhos estão sempre com fome Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar Surgiu a noite As estrelas estão ocultas O barraco está cheio de pernilongos Eu vou acender uma folha de jornal e passar pelas paredes E assim que os favelados matam mosquitos 13 DE MAIO Hoje amanheceu chovendo E um dia simpático para mim E o dia da Abolição Dia que comemoramos a libertação dos escravos Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios Mas os brancos agora são mais cultos E não nos trata com despreso Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz Continua chovendo E eu tenho só feijão e sal A chuva está forte Mesmo assim mandei os meninos para a escola Estou escrevendo até passar a chuva para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça A chuva passou um pouco Vou sair Eu tenho tanto dó dos meus filhos Quando eles vê as coisas de comer eles brada Viva a mamãe A manifestação agradame Mas eu já perdi o habito de sorrir Dez minutos depois eles querem mais comida Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida Ela não tinha Mandeilhe um bilhete assim Dona Ida peçote se pode me arranjar um pouco de gordura para eu fazer uma sopa para os meninos Hoje choveu e eu não pude ir catar papel Agradeço Carolina Choveu esfriou E o inverno que chega E no inverno a gente come mais A Vera começou pedir comida E eu não tinha Era a reprise do espetáculo Eu estava com dois cruzeiros Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice Ela deume a banha e arroz Era 9 horas da noite quando comemos E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual a fome 15 DE MAIO Tem noite que eles improvisam uma batucada e não deixa ninguém dormir Os visinhos de alvenaria já tentaram com abaixo assinado retirar os favelados Mas não conseguiram Os visinhos das casas de tijolos diz Os políticos protegem os favelados Quem nos protege é o povo e os Vicentinos Os políticos só aparecem aqui nas épocas eleitoraes O senhor Cantidio Sampaio quando era vereador em 1953 passava os domingos aqui na favela Ele era tão agradavel Tomava nosso café bebia nas nossas xícaras Ele nos dirigia as suas frases de viludo Brincava com nossas crianças Deixou boas impressões por aqui e quando candidatouse a deputado venceu Mas na Camara dos Deputados não criou um progeto para beneficiar o favelado Não nos visitou mais Eu classifico São Paulo assim O Palacio é a sala de visita A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim E a favela é o quintal onde jogam os lixos A noite está tépida O céu já está salpicado de estrelas Eu que sou exótica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido Começo ouvir uns brados Saio para a rua E o Ramiro que quer dar no senhor Binidito Mal entendido Caiu uma ripa no fio da luz e apagou a luz da casa do Ramiro Por isso o Ramiro queria bater no senhor Binidito Porque o Ramiro é forte e o senhor Binidito é fraco O Ramiro ficou zangado porque eu fui a favor do senhor Binidito Tentei concertar os fios Enquanto eu tentava concertar o fio o Ramiro queria expancar o Binidito que estava alcoolisado e não podia parar de pé Estava inconciente Eu não posso descrever o efeito do álcool porque não bebo Já bebi uma vez em carater experimental mas o álcool não me tonteia Enquanto eu pretendia concertar a luz o Ramiro dizia Liga a luz liga a luz sinão eu te quebro a cara O fio não dava para ligar a luz Precisava emendálo Sou leiga na eletricidade Mandei chamar o senhor Alfredo que é o atual encarregado da luz Ele estava nervoso Olhava o senhor Binidito com despreso A Juana que é esposa do Binidito deu cinquenta cruzeiros para o senhor Alfredo Ele pegou o dinheiro Não sorriu Mas ficou alegre Percebi pela sua fisionomia Enfim o dinheiro dissipou o nervosismo 16 DE MAIO Eu amanheci nervosa Porque eu queria ficar em casa mas eu não tinha nada para comer Eu não ia comer porque o pão era pouco Será que é só eu que levo esta vida O que posso esperar do futuro Um leito em Campos do Jordão10 Eu quando estou com fome quero matar o Janio quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos 17 DE MAIO Levantei nervosa Com vontade de morrer Já que os pobres estão mal colocados para que viver Será que os pobres de outro País sofrem igual aos pobres do Brasil Eu estava discontente que até cheguei a brigar com o meu filho José Carlos sem motivo Chegou um caminhão aqui na favela O motorista e o seu ajudante jogam umas latas E linguiça enlatada Penso E assim que fazem esses comerciantes insaciáveis Ficam esperando os preços subir na ganancia de ganhar mais E quando apodrece jogam fora para os corvos e os infelizes favelados Não houve briga Eu até estou achando isto aqui monotono Vejo as crianças abrir as latas de linguiça e exclamar satisfeitas Hum Tá gostosa A Dona Alice deume uma para experimentar Mas a lata está estufada Já está podre 18 DE MAIO Na favela tudo circula num minuto E a noticia já circulou que a D Maria José faleceu Varias pessoas vieram vêla Compareceu o vicentino que cuidava dela Ele vinha visitála todos os domingos Ele não tem nojo dos favelados Cuida dos míseros favelados com carinho Isto competia ao tal Serviço Social Chegou o esquife Cor roxa Cor da amargura que envolve os corações dos favelados A D Maria era crente e dizia que os crentes antes de morrer já estão no céu O enterro é as treis da tarde Os crentes estão entoando um hino As vozes são afinadas Tenho a impressão que são anjos que cantam Não vejo ninguém bêbado Talvez seja por respeito a extinta Mas duvido Acho que é porque eles não tem dinheiro Chegou o carro para conduzir o corpo sem vida de Dona Maria José que vai para a sua verdadeira casa própria que é a sepultura A Dona Maria José era muito boa Dizem que os vivos devem perdoar os mortos Porque todos nós temos os nossos momentos de fraquesa Chegou o carro fúnebre Estão esperando a hora para sair o enterro Vou parar de escrever Vou torcer as roupas que ensaboei ontem Não gosto de ver enterros 19 DE MAIO Deixei o leito as 5 horas Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal As aves deve ser mais feliz que nós Talvez entre elas reina amizade e igualdade O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados que deitam e não dormem porque deitamse sem comer O que o senhor Juscelino tem de aproveitável é a voz Parece um sabiá e a sua voz é agradavel aos ouvidos E agora o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catete11 Cuidado sabiá para não perder esta gaiola porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas E os favelados são os gatos Tem fome Deixei de meditar quando ouvi a voz do padeiro Olha o pão doce que está na hora do café Mal sabe ele que na favela é a minoria quem toma café Os favelados comem quando arranjam o que comer Todas as familias que residem na favela tem filhos Aqui residia uma espanhola Dona Maria Puerta Ela comprou um terreno e começou economisar para fazer a casa Quando terminou a construção da casa os filhos estavam fracos do pulmão E são oito crianças Havia pessoas que nos visitava e dizia Credo para viver num lugar assim só os porcos Isto aqui é o chiqueiro de São Paulo Eu estou começando a perder o interesse pela existência Começo a revoltar E a minha revolta é justa Lavei o assoalho porque estou esperando a visita de um futuro deputado e ele quer que eu faça uns discursos para ele Ele disse que pretende conhecer a favela que se for eleito há de abolir as favelas Contemplava extasiada o céu cor de anil E eu fiquei compreendendo que eu adoro o meu Brasil O meu olhar posou nos arvoredos que existe no inicio da rua Pedro Vicente As folhas moviase Pensei elas estão aplaudindo este meu gesto de amor a minha Patria Toquei o carrinho e fui buscar mais papéis A Vera ia sorrindo E eu pensei no Casemiro de Abreu que disse Ri criança A vida é bela Só se a vida era boa naquele tempo Porque agora a epoca esta apropriada para dizer Chora criança A vida é amarga Eu ando tão preocupada que ainda não contemplei os jardins da cidade É epoca das flores brancas a cor que predomina E o mês de Maria e os altares deve estar adornados com flores brancas Devemos agradecer Deus ou a Natureza que nos deu as estrelas para adornar o céu e as flores para adornar os prados e as varzeas e os bosques Quando eu seguia na Avenida Cruzeiro do Sul ia uma senhora com um sapato azul e uma bolsa azul A Vera disseme Olha mamãe Que mulher bonita Ela vai no meu carro É que a minha filha Vera Eunice diz que vai comprar um carro só para carregar pessoas bonitas A mulher sorrio e a Vera prosseguio A senhora é cheirosa Percebi que a minha filha sabe bajular A mulher abriu a bolsa e deulhe 20 cruzeiros Aqui na favela quase todos lutam com dificuldades para viver Mas quem manifesta o que sofre é só eu E faço isto em prol dos outros Muitos catam sapatos no lixo para calçar Mas os sapatos já estão fracos e aturam só 6 dias Antigamente isto é de 1950 até 1956 os favelados cantavam Faziam batucadas 1957 1958 a vida foi ficando causticante Já não sobra dinheiro para eles comprar pinga As batucadas foram cortandose até extinguirse Outro dia eu encontrei um soldado Perguntoume Você ainda mora na favela Porque Porque vocês deixaram a Radio Patrulha em paz É o dinheiro que não sobra para a aguardente Deitei o João e a Vera e fui procurar o José Carlos Telefonei para a Central Nem sempre o telefone resolve as coisas Tomei o bonde e fui Eu não sentia frio Parece que o meu sangue estava a 40 graus Fui falar com a Policia Feminina que me deu a noticia do José Carlos que estava lá na rua Asdrubal Nascimento12 Que alivio Só quem é mãe é que pode avaliar Eu dirigi para a rua Asdrubal Nascimento Eu não sei andar a noite A fusão das luzes desviamme do roteiro Preciso ir perguntando Eu gosto da noite só para contemplar as estrelas sintilantes ler e escrever Durante a noite há mais silencio Cheguei na rua Asdrubal Nascimento o guarda mandoume esperar Eu contemplava as crianças Umas choravam outras estavam revoltadas com a interferencia da Lei que não lhes permite agir a sua vontade O José Carlos estava chorando Quando ouviu a minha voz ficou alegre Percebi o seu contentamento Olhoume E foi o olhar mais terno que eu já recebi até hoje As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais seus tapetes de viludos almofadas de sitim E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso digno de estar num quarto de despejo 20 DE MAIO O dia vinha surgindo quando eu deixei o leito A Vera despertou e cantou E convidoume para cantar Cantamos O João e o José Carlos tomaram parte Amanheceu garoando O Sol está elevandose Mas o seu calor não dissipa o frio Eu fico pensando tem epoca que é Sol que predomina Tem epoca que é a chuva Tem epoca que é o vento Agora é a vez do frio E entre eles não deve haver rivalidades Cada um por sua vez Abri a janela e vi as mulheres que passam rapidas com seus agasalhos descorados e gastos pelo tempo Daqui a uns tempos estes palitol que elas ganharam de outras e que de há muito devia estar num museu vão ser substituídos por outros E os politicos que há de nos dar Devo incluirme porque eu também sou favelada Sou rebotalho Estou no quarto de despejo e o que está no quarto de despejo ou queimase ou jogase no lixo As mulheres que eu vejo passar vão nas igrejas buscar pães para os filhos Que o Frei Luiz lhes dá enquanto os esposos permanecem debaixo das cobertas Uns porque não encontram emprego Outros porque estão doentes Outros porque embriagamse Eu não preocupome com os homens delas Se fazem bailes eu não compareço porque não gosto de dançar Só interfirome nas brigas onde prevejo um crime Não sei a origem desta antipatia por mim Com os homens e as mulheres eu tenho um olhar duro e frio O meu sorriso as minhas palavras ternas e suaves eu reservo para as crianças Tem um adolescente por nome Julião que as vezes expanca o pai Quando bate no pai é com tanto sadismo e prazer Acha que é invencível Bate como se estivesse batendo num tambor O pai queria que ele estudasse para advocacia Quando o Julião vai preso o pai lhe acompanha com os olhos rasos dagua Como se estivesse acompanhando um santo no andor O Julião é revoltado mas sem motivo Eles não precisa residir na favela Tem casa no Alto de Vila Maria As vezes mudam algumas familias para a favela com crianças No inicio são iducadas amaveis Dias depois usam o calão são soezes e repugnantes São diamantes que transformam em chumbo Transformamse em objetos que estavam na sala de visita e foram para o quarto de despejo Para mim o mundo em vez de evoluir está retornando a primitividade Quem não conhece a fome há de dizer Quem escreve isto é louco Mas quem passa fome há de dizer Muito bem Carolina Os generos alimentícios deve ser ao alcance de todos Como é horrivel ver um filho comer e perguntar Tem mais Esta palavra tem mais fica oscilando dentro do cerebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais Quando um politico diz nos seus discursos que está ao lado do povo que visa incluirse na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas Depois divorciase do povo Olha o povo com os olhos semicerrados Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade Quando cheguei do palacio que é a cidade os meus filhos vieram dizer me que havia encontrado macarrão no lixo E a comida era pouca eu fiz um pouco do macarrão com feijão E o meu filho João José disseme Pois é A senhora disseme que não ia mais comer as coisas do lixo Foi a primeira vez que vi a minha palavra falhar Eu disse É que eu tinha fé no Kubstchek A senhora tinha fé e agora não tem mais Não meu filho A democracia está perdendo os seus adeptos No nosso paiz tudo está enfraquecendo O dinheiro é fraco A democracia é fraca e os políticos fraquissimos E tudo que está fraco morre um dia Os políticos sabem que eu sou poetisa E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido 21 DE MAIO Passei uma noite horrivel Sonhei que eu residia numa casa residivel tinha banheiro cozinha copa e até quarto de criada Eu ia festejar o aniversário de minha filha Vera Eunice Eu ia comprarlhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo Porque eu estava em condições de comprar Sentei na mesa para comer A toalha era alva ao lirio Eu comia bife pão com manteiga batata frita e salada Quando fui pegar outro bife despertei Que realidade amarga Eu não residia na cidade Estava na favela Na lama as margens do Tietê E com 9 cruzeiros apenas Não tenho açúcar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha Quem deve dirigir é quem tem capacidade Quem tem dó e amisade ao povo Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro quem não sabe o que é fome a dor e a aflição do pobre Se a maioria revoltarse o que pode fazer a minoria Eu estou ao lado do pobre que é o braço Braço desnutrido Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores Eu ontem comi aquele macarrão do lixo com receio de morrer porque em 1953 eu vendia ferro lá no Zinho Havia um pretinho bonitinho Ele ia vender ferro lá no Zinho Ele era jovem e dizia que quem deve catar papel são os velhos Um dia eu ia vender ferro quando parei na Avenida Bom Jardim No Lixão como é denominado o local Os lixeiros haviam jogado carne no lixo E de escolhia uns pedaços Disseme Leva Carolina Dá para comer Deume uns pedaços Para não maguálo aceitei Procurei convencêlo a não comer aquela carne Para comer os pães duros ruidos pelos ratos Ele disse me que não Que há dois dias não comia Acendeu o fogo e assou a carne A fome era tanta que ele não poude deixar assar a carne Esquentoua e comeu Para não presenciar aquele quadro saí pensando faz de conta que eu não presenciei esta cena Isto não pode ser real num paiz fértil igual ao meu Revoltei contra o tal Serviço Social que diz ter sido criado para reajustar os desajustados mas não toma conhecimento da existência infausta dos marginais Vendi os ferros no Zinho e voltei para o quintal de São Paulo a favela No outro dia encontraram o pretinho morto Os dedos do seu pé abriram O espaço era de vinte centímetros Ele aumentouse como se fosse de borracha Os dedos do pé parecia leque Não trazia documentos Foi sepultado como um Zé qualquer Ninguém procurou saber seu nome Marginal não tem nome De quatro em quatro anos mudase os políticos e não soluciona a fome que tem a sua matriz nas favelas e as sucursaes nos lares dos operários Quando eu fui buscar agua vi uma infeliz caida perto da torneira porque ontem dormiu sem jantar É que ela está desnutrida Os médicos que nós temos na política sabem disto Agora eu vou na casa da Dona Julita trabalhar para ela Fui catando papel O senhor Samuel pesou Recebi 12 cruzeiros Subi a Avenida Tiradentes catando papel Cheguei na rua Frei Antonio Santana de Galvão 17 trabalhar para a Dona Julita Ela disseme para eu não iludir com os homens que eu posso arranjar outro filho e que os homens não contribui para criar o filho Sorri e pensei em relação aos homens eu tenho experiencias amargas Já estou na maturidade quadra que o senso já criou raizes Achei um cará no lixo uma batata doce e uma batata solsa13 Cheguei na favela os meus meninos estavam roendo um pedaço de pão duro Pensei para comer estes pães era preciso que eles tivessem dentes eletricos Não tinha gordura Puis a carne no fogo com uns tomates que eu catei lã na Fabrica Peixe Puis o cará e a batata E agua Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo Os favelados aos poucos estão convencendose que para viver precisam imitar os corvos Eu não vejo eficiência no Serviço Social cm relação ao favelado Amanhã não vou ter pão Vou cozinhar a batata doce 22 DE MAIO Eu hoje estou triste Estou nervosa Não sei se choro ou saio correndo sem parar até cair inconciente É que hoje amanheceu chovendo E eu não saí para arranjar dinheiro Passei o dia escrevendo Sobrou macarrão eu vou esquentar para os meninos Cosinhei as batatas eles comeram Tem uns metais e um pouco de ferro que eu vou vender no Seu Manuel Quando o João chegou da escola eu mandei ele vender os ferros Recebeu 13 cruzeiros Comprou um copo de agua mineral 2 cruzeiros Zanguei com ele Onde já se viu favelado com estas finezas Os meninos come muito pão Eles gostam de pão mole Mas quando não tem eles comem pão duro Duro é o pão que nós comemos Dura é a cama que dormimos Dura é a vida do favelado Oh São Paulo rainha que ostenta vaidosa a tua coroa de ouro que são os arranhacéus Que veste viludo e seda e calça meias de algodão que é a favela O dinheiro não deu para comprar carne eu fiz macarrão com cenoura Não tinha gordura ficou horrivel A Vera é a única que reclama e pede mais E pede Mamãe vende eu para a Dona Julita porque lá tem comida gostosa Eu sei que existe brasileiros aqui dentro de São Paulo que sofre mais do que eu Em junho de 1957 eu fiquei doente e percorri as sedes do Serviço Social Devido eu carregar muito ferro fiquei com dor nos rins Para não ver os meus filhos passar fome fui pedir auxilio ao propalado Serviço Social Foi lá que eu vi as lagrimas deslisar dos olhos dos pobres Como é pungente ver os dramas que ali se desenrola A ironia com que são tratados os pobres A unica coisa que eles querem saber são os nomes e os endereços dos pobres Fui no Palacio o Palacio mandoume para a sede na Av Brigadeiro Luís Antonio Avenida Brigadeiro me enviou para o Serviço Social da Santa Casa Falei com a Dona Maria Aparecida que ouviume e respondeume tantas coisas e não disse nada Resolvi ir no Palacio e entrei na fila Falei com o senhor Alcides Um homem que não é niponico mas é amarelo como manteiga deteriorada Falei com o senhor Alcides Eu vim aqui pedir um auxilio porque estou doente O senhor mandou me ir na Avenida Brigadeiro Luis Antonio eu fui Avenida Brigadeiro mandou me ir na Santa Casa E eu gastei o unico dinheiro que eu tinha com as conduções Prende ela Não me deixaram sair E um soldado pois a baioneta no meu peito Olhei o soldado nos olhos e percebi que ele estava com dó de mim Disselhe Eu sou pobre porisso é que vim aqui Surgiu o Dr Osvaldo de Barros o falso filantrópico de São Paulo que está fantasiado de São Vicente de Paula E disse Chama um carro de preso 23 DE MAIO Levantei de manhã triste porque estava chovendo O barraco está numa desordem horrivel E que eu não tenho sabão para lavar as louças Digo louça por hábito Mas é as latas Se tivesse sabão eu ia lavar as roupas Eu não sou desmazelada Se ando suja é devido a reviravolta da vida de um favelado Cheguei a conclusão que quem não tem de ir pro céu não adianta olhar para cima E igual a nós que não gostamos da favela mas somos obrigados a residir na favela Fiz a comida Achei bonito a gordura frigindo na panela Que espetáculo deslumbrante As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas Ainda mais quando é arroz e feijão é um dia de festa para eles Antigamente era a macarronada o prato mais caro Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada São os novos ricos Passou para o lado dos fidalgos Até vocês feijão e arroz nos abandona Vocês que eram os amigos dos marginais dos favelados dos indigentes Vejam só Até o feijão nos esqueceu Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo Quem não nos despresou foi o fubá Mas as crianças não gostam de fubá Quando puis a comida o João sorriu Comeram e não aludiram a cor negra do feijão Porque negra é a nossa vida Negro é tudo que nos rodeia Nas ruas e casas comerciais já se vê as faixas indicando os nomes dos futuros deputados Alguns nomes já são conhecidos São reincidentes que já foram preteridos nas urnas Mas o povo não está interessado nas eleições que é o cavalo de Troia que aparece de quatro em quatro anos O céu é belo digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores E o astro rei sempre pontual para despontarse e recluirse As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul Há varias coisas belas no mundo que não é possível descreverse Só uma coisa nos entristece os preços quando vamos fazer compras Ofusca todas as belezas que existe A Theresa irmã da Meyri bebeu soda E sem motivo Disse que encontrou um bilhete de uma mulher no bolso do seu amado Perdeu muito sangue Os médicos diz que se ela sarar ficará imprestável Tem dois filhos um de 4 anos e outro de 9 meses 26 DE MAIO Amanheceu chovendo E eu tenho só 4 cruzeiros e um pouco de comida que sobrou de ontem e uns ossos Fui buscar agua para por os ossos ferver Ainda tem um pouco de macarrão eu faço uma sopa para os meninos Vi uma visinha lavando feijão Fiquei com inveja Faz duas semanas que eu não lavo roupas por não ter sabão Vendi umas taboas por 40 cruzeiros A mulher disseme que paga hoje Se ela pagar eu compro sabão Ha dias que não vinha policia aqui na favela e hoje veio porque o Julião deu no pai Deulhe uma cacetada com tanta violência que o velho chorou e foi chamar a policia 27 DE MAIO Percebi que no Frigorífico jogam creolina no lixo para o favelado não catar a carne para comer Não tomei café ia andando meio tonta A tontura da fome é pior do que a do álcool A tontura do álcool nos impele a cantar Mas a da fome nos faz tremer Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago Comecei sentir a boca amarga Pensei já não basta as amarguras da vida Parece que quando eu nasci o destino marcoume para passar fome Catei um saco de papel Quando eu penetrei na rua Paulino Guimarães uma senhora me deu uns jornais Eram limpos eu deixei e fui para o deposito Ia catando tudo que encontrava Ferro lata carvão tudo serve para o favelado O Leon pegou o papel recibi seis cruzeiros Pensei guardar o dinheiro para comprar feijão Mas vi que não podia porque o meu estômago reclamava e torturavame Resolvi tomar uma media e comprar um pão Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo Eu que antes de comer via o céu as arvores as aves tudo amarelo depois que comi tudo normalizouse aos meus olhos A comida no estomago é como o combustível nas maquinas Passei a trabalhar mais depressa O meu corpo deixou de pesar Comecei andar mais depressa Eu tinha impressão que eu deslisava no espaço Comecei sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida Chegou a Radio Patrulha que veio trazer dois negrinhos que estavam vagando na Estação da Luz 4 e 6 anos É facil perceber que eles são da favela São os mais maltrapilhos da cidade O que vão encontrando pelas ruas vão comendo Cascas de banana casca de melancia e até casca de abacaxi que é tão rústica eles trituram Estavam com os bolsos cheios de moedas de alumínio o novo dinheiro em circulação 28 DE MAIO Amanheceu chovendo Tenho só treis cruzeiros porque emprestei 5 para Leila ir buscar a filha no hospital Estou desorientada sem saber o que iniciar Quero escrever quero trabalhar quero lavar roupa Estou com frio E não tenho sapato para calçar Os sapatos dos meninos estão furados E o pior na favela é o que as crianças presenciam Todas crianças da favela sabem como é o corpo de uma mulher Porque quando os casais que se embriagam brigam a mulher para não apanhar sai nua para a rua Quando começa as brigas os favelados deixam seus afazeres para presenciar os bate fundos De modo que quando a mulher sai correndo nua é um verdadeiro espetáculo para o Zé Povinho Depois começam os comentários entre as crianças A Fernanda saiu nua quando o Armim estava lhe batendo Eu não vi Ah Que pena E que jeito é a mulher nua E o outro para citarlhe aproximalhe a boca do ouvido E ecoase as gargalhadas estrepitosas Tudo que é obseno pornográfico o favelado aprende com rapidez Tem barracões de meretrizes que praticam suas cenas amorosas na presença das crianças Os visinhos ricos de alvenaria dizem que nós somos protegidos pelos politicos É engano Os políticos só aparece aqui no quarto de despejo nas épocas eleitorais Este ano já tivemos a visita do candidato a deputado Dr Paulo de Campos Moura que nos deu feijão e otimos cobertores Que chegou numa epoca oportuna antes do frio O que eu quero esclarecer sobre as pessoas que residem na favela é o seguinte quem tira proveito aqui são os nortistas Que trabalham e não dissipam Compram casa ou retornamse ao Norte Aqui na favela há os que fazem barracões para residir e os que fazem para alugar E os alugueis são 500 a 70000 E os que fazem barracões para vender Gasta 4 mil cruzeiros e vendem por 11 mil cruzeiros Quem fez muitos barracões para vender foi o Tiburcio 29 DE MAIO Até que enfim parou de chover As nuvens deslisase para o poente Apenas o frio nos fustiga E varias pessoas da favela não tem agasalhos Quando uns tem sapatos não tem palitol E eu fico condoida vendo as crianças pisar na lama Percebi que chegaram novas pessoas para a favela Estão maltrapilhas e as faces desnutridas Improvisaram um barracão Condoí me de ver tantas agruras reservadas aos proletários Fitei a nova companheira de infortúnio Ela olhava a favela suas lamas e suas crianças paupérrimas Foi o olhar mais triste que eu já presenciei Talvez ela não mais tem ilusão Entregou sua vida aos cuidados da vida Há de existir alguém que lendo o que eu escrevo dirá isto é mentira Mas as misérias são reais O que eu revolto é contra a ganancia dos homens que espremem uns aos outros como se espremesse uma laranja 30 DE MAIO Troquei a Vera e saímos Ia pensando será que Deus vai ter pena de mim Será que eu arranjo dinheiro hoje Será que Deus sabe que existe as favelas e que os favelados passam fome O José Carlos chegou com uma sacola de biscoitos que catou no lixo Quando eu vejo eles comendo as coisas do lixo penso E se tiver veneno É que as crianças não suporta a fome Os biscoitos estavam gostosos Eu comi pensando naquele provérbio quem entra na dança deve dançar E como eu também tenho fome devo comer Chegaram novas pessoas para a favela Estão esfarrapadas andar curvado e os olhos fitos no solo como se pensasse na sua desdita por residir num lugar sem atração Um lugar que não se pode plantar uma flor para aspirar o seu perfume para ouvir o zumbido das abelhas ou o colibri acariciandoa com seu frágil biquinho O unico perfume que exala na favela é a lama podre os excrementos e a pinga Hoje ninguém vai dormir porque os favelados que não trabalham já estão começando a fazer batucada Lata frigideira panelas tudo serve para acompanhar o cantar desafinado dos notivagos 31 DE MAIO Sabado o dia que quase fico louca porque preciso arranjar o que comer para sabado e o domingo Fiz o café e os pães que eu ganhei ontem Puis feijão no fogo Quando eu lavava o feijão pensava eu hoje estou parecendo gente bem vou cozinhar feijão Parece até um sonho Ganhei bananas e mandiocas na quitanda da rua Guaporé Quando eu voltava para a favela na Avenida Cruzeiro do Sul 728 uma senhora pediume para eu ir jogar um cachorro morto dentro do Tietê que ela davame 5 cruzeiros Deixei a Vera com a mulher e fui O cachorro estava dentro de um saco A mulher ficou observando os meus passos à paulistana Quer dizer andar depressa Quando voltei ela deume 6 cruzeiros Quando recebi os 6 cruzeiros pensei já dá para comprar um sabão Cheguei na favela eu não acho geito de dizer cheguei em casa Casa é casa Barracão é barracão O barraco tanto no interior como no exterior estava sujo E aquela desordem aborreceume Fitei o quintal o lixo podre exalava mau cheiro Só aos domingos que eu tenho tempo de limpar Eu havia comprado um ovo e 15 cruzeiros de banha no Seu Eduardo E fritei o ovo para ver se parava as nauseas Parou Percebi que era fraquesa O medico mandoume comer oleo mas eu não posso comprar Fui fazendo o jantar Arroz feijão pimentão e choriço e mandioca frita Quando a Vera viu tanta coisa disse hoje é festa de negro Perguntei a uma senhora que vi pela primeira vez A senhora está morando aqui Estou Mas faz de conta que não estou porque eu tenho muito nojo daqui Isto aqui é lugar para os porcos Mas se puzessem os porcos aqui haviam de protestar e fazer greve Eu sempre ouvi falar na favela mas não pensava que era um lugar tão asqueroso assim Só mesmo Deus para ter dó de nós 1 DE JUNHO É o inicio do mês E o ano que deslisa E a gente vendo os amigos morrer e outros nascer E treis e meia da manhã Não posso durmir Chegou o tal Vitor o homem mais feio da favela O representante do bicho papão Tão feio e tem duas mulheres Ambas vivem juntas no mesmo barraco Quando ele veio residir na favela veio demonstrando valentia Dizia Eu fui vacinado com o sangue do Lampeão14 Dia 1 de janeiro de 1958 ele disseme que ia quebrarme a cara Mas eu lhe ensinei que a é a e b é b Ele é de ferro e eu sou de aço Não tenho força física mas as minhas palavras ferem mais do que espada E as feridas são incicatrisaveis Ele deixou de aborrecerme porque eu chamei a radio patrulha para ele e ele ficou 4 horas detido Quando ele saiu andou dizendo que ia matar me Então o Adalberto disselhe E o pior negocio que você vai fazer Porque se você não matála ela é quem te mata Eu tenho uma habilidade que não vou relatar aqui porque isto há de defenderme Quem vive na favela deve procurar isolarse viver só O Vitor está tocando radio Penso hoje é domingo e nós podiamos dormir até as 8 Mas aqui não há consideração mutua Eu nada tenho que dizer da minha saudosa mãe Ela era muito boa Queria que eu estudasse para professora Foi as contigencias da vida que lhe impossibilitou concretizar o seu sonho Mas ela formou o meu carater ensinandome a gostar dos humildes e dos fracos É porisso que eu tenho dó dos favelados Se bem que aqui tem pessoas dignas de despreso pessoas de espirito perverso Esta noite a Dona Amélia e o seu companheiro brigaram Ela disselhe que ele está com ela por causa do dinheiro que ela lhe dá Só se ouvia a voz de Dona Amélia que demonstrava prazer na polemica Ela teve vários filhos Distribuio todos Tem dois filhos moços que ela não os quer em casa Pretere os filhos e prefere os homens O homem entra pela porta O filho é raiz do coração É quatro horas Eu já fiz o almoço hoje foi almoço Tinha arroz feijão e repolho e linguiça Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguém Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão o alimento que não está ao alcance do favelado fico sorrindo atoa Como se eu estivesse assistindo um espetáculo deslumbrante Lavei as roupas e o barracão Agora vou ler e escrever Vejo os jovens jogando bola E eles correm pelo campo demonstrando energia Penso se eles tomassem leite puro e comessem carne 2 DE JUNHO Amanheceu fazendo frio Acendi o fogo e mandei o João ir comprar pão e café O pão o Chico do Mercadinho cortou um pedaço Eu chinguei o Chico de ordinário cachorro eu queria ser um raio para cortarlhe em mil pedaços O pão não deu e os meninos não levaram lanche De manhã eu estou sempre nervosa Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer Mas hoje é segundafeira e tem muito papel na rua O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casarse comigo Mas eu não quero porque já estou na maturidade E depois um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler E que levanta para escrever E que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal Ele deume 50 cruzeiros e eu paguei a costureira Um vestido que fez para a Vera A Dona Alice veiu queixarse que o senhor Alexandre estava lhe insultando por causa de 65 cruzeiros Pensei ah o dinheiro Que faz morte que faz odio criar raiz 3 DE JUNHO Quando eu estava no ponto do bonde a Vera começou a chorar Queria pasteis Eu estava só com 10 cruzeiros 2 para pagar o bonde e 8 para comprar carne moida A Dona Geralda deume 4 cruzeiros para eu comprar os pasteis ela comia e cantava E eu pensava o meu dilema é sempre a comida Tomei o bonde A Vera começou a chorar porque não queria ir em pé e não tinha lugar para sentar Quando eu estou com pouco dinheiro procuro não pensar nos filhos que vão pedir pão pão café Desvio meu pensamento para o céu Penso será que lá em cima tem habitantes Será que eles são melhores do que nós Será que o predomínio de lá suplanta o nosso Será que as nações de lá é variada igual aqui na terra Ou é uma nação unica Será que lá existe favela E se lá existe favela será que quando eu morrer eu vou morar na favela Quando eu comecei escrever ouvi vozes alteradas Faz tanto tempo que não há briga na favela Era a Odete e o seu esposo que estão separados Brigavam porque ele trouxe outra mulher no carro que ele trabalha Elas estavam na casa do Seu Francisco irmão do Alcino Sairam para a rua Eu fui ver a briga Agrediram a mulher que estava com o Alcino Quatro mulheres e um menino avançaram na mulher com tanta violência e lhe jogaram no solo A Marli saiu Disse que ia buscar uma pedra para jogar na cabeça da mulher Eu puis a mulher no carro e o Alcino e mandei eles irse embora Pensei em ir chamar a Policia Mas até a Policia chegar elas matavam a mulher O Alcino deu uns tapas na sogra que é a pior agitadora Se eu não entro para auxiliar o Alcino ele ia levar desvantagem As mulheres da favela são horríveis numa briga O que podem resolver com palavras elas transformam em conflito Parecem corvos numa disputa A Odete revoltouse comigo por ter defendido o Alcino Eu disse Você tem quatro filhos para criar Eu não me importo Eu queria era matála Quando eu empurrava a mulher para dentro do carro ela disseme Só a senhora é que é boa Eu tinha a impressão que estava retirando um pedaço de osso da boca dos cachorros E a Odete vendo o seu esposo sair com a outra no carro ficou furiosa Vieram chingarme de entrometida Eu penso que a violência não resolve nada Assembléia de favelados é com paus facas pedradas e violências A favela é o quarto das surpresas Esta é a quinta mulher que o Alcino traz aqui na favela E a sua esposa quando vê briga A favela hoje está quente Durante o dia a Leila e o seu companheiro Arnaldo brigaram O Arnaldo é preto Quando veio para a favela era menino Mas que menino Era bom iducado meigo obidiente Era o orgulho do pai e de quem lhe conhecia Este vai ser um negro sim senhor E que na África os negros são classificados assim Negro tú Negro turututú É negro sim senhor Negro tú é o negro mais ou menos Negro turututú é o que não vale nada E o negro Sim Senhor é o da alta sociedade Mas o Arnaldo transformouse em negro turututú depois que cresceu Ficou estúpido pornográfico obceno e alcoólatra Não sei como é que uma pessoa pode desfazerse assim Ele é compadre da Dona Domingas Mas que compadre Dona Domingas é uma preta boa igual ao pão Calma e util Quando a Leila ficou sem casa foi morar com a Dona Domingas A Dona Domingas era quem lavava a roupa da Leila que lhe obrigou a dormir no chão e lhe dar o leito Passou a ser a dona da casa Eu dizia Reage Domingas Ela é feiticeira pode botar um feitiço em mim Mas o feitiço não existe Existe sim Eu vi ela fazê É porque a Leila andava dizendo que consertava vidas E eu vi varias senhoras ricas aparecer por aqui Havia a tal Dona Guiomar Edviges Gonçalves a mulher que tem vários nomes e varias residências porque compra a prestação e não paga e dá o nome trocado onde compra Quando sai na rua parece a Maria Antonieta E a Dona Guiomar concorreu para escravisar a Dona Domingas A Dona Domingas recebe uma pensão do seu extinto esposo E era obrigada a dar dinheiro para a Leila que é companheira do Arnaldo Ele sendo compadre da Domingas era para defender a comadre Mas ele explorava Dividia o dinheiro entre os dois E ainda praticava suas cenas amorosas perto do afilhado A Dona Domingas saiu de casa Foi para Carapicuiba morar com Dona Iracema Ficou o seu filho Nikon Eu fiz tudo para retirar o menino Mas a Leila lhe dizia Eu sou feiticeira Se você for embora eu faço você virar um elefante Eu encontrava o Nikon Bom dia Nikon Você não quer ir com a tua mãe Eu não vou porque a Leila disseme que ela é feiticeira e se eu for embora ela vai fazer eu virar um elefante e o elefante é um bicho muito muito feio Sabe Dona Carolina e se ela fazer tu virar um porco Eu tenho que comer lavagem e alguém há de querer me por num chiqueiro para eu engordar Vão me capar E se ela fazer eu virar um cavalo alguém há de me por para puchar uma carroça e ainda me dá chicotada Quando o Nikon começou passar fome foi com a mãe Pensei A fome também serve de juiz Um dia eu discutia com a Leila Ela e o Arnaldo puzeram fogo no meu barracão Os vizinhos apagaram 5 DE JUNHO Mas eu já observei os nossos políticos Para observálos fui na Assembléia A sucursal do Purgatório porque a matriz é a sede do Serviço Social no palacio do Governo Foi lá que eu vi ranger de dentes Vi os pobres sair chorando E as lagrimas dos pobres comove os poetas Não comove os poetas de salão Mas os poetas do lixo os idealistas das favelas um expectador que assiste e observa as trajedias que os politicos representam em relação ao povo 6 DE JUNHO O José Carlos faz dias que não para em casa Quando chega para dormir é dez e meia da noite Hoje de manhã ele apanhou Aviseilhe que se chegar as 10 da noite não abro a porta Comprei um pão as 2 horas E 5 horas fui partir um pedaço já está duro O pão atual fez uma dupla com o coração dos politicos Duro diante do clamor publico Hoje brigaram aqui na favela Brigaram por causa de um cachorro A briga foi com uns baianos15 que só falavam em peixeiras 7 DE JUNHO Os meninos tomaram café e foram a aula Eles estão alegres porque hoje teve café Só quem passa fome é que dá valor a comida Eu e a Vera fomos catar papel Passei no Frigorífico para pegar linguiça Contei 9 mulheres na fila Eu tenho a mania de observar tudo contar tudo marcar os fatos Encontrei muito papel nas ruas Ganhei 20 cruzeiros Fui no bar tomar uma media Uma para mim e outra para a Vera Gastei 11 cruzeiros Fiquei catando papel até as 11 e meia Ganhei 50 cruzeiros Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o Brasil porque eu lia a Historia do Brasil e ficava sabendo que existia guerra Só lia os nomes masculinos como defensor da patria Então eu dizia para a minha mãe Porque a senhora não faz eu virar homem Ela dizia Se você passar por debaixo do arcoiris você vira homem Quando o arcoiris surgia eu ia correndo na sua direção Mas o arcoiris estava sempre distanciando Igual os políticos distante do povo Eu cançava e sentava Depois começava a chorar Mas o povo não deve cançar Não deve chorar Deve lutar para melhorar o Brasil para os nossos filhos não sofrer o que estamos sofrendo Eu voltava e dizia para a mamãe O arcoiris foge de mim Nós somos pobres viemos para as margens do rio As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais Gente da favela é considerado marginais Não mais se vê os corvos voando as margens do rio perto dos lixos Os homens desempregados substituiram os corvos Quando eu fui catar papel encontrei um preto Estava rasgado e sujo que dava pena Nos seus trajes rotos ele podia representarse como diretor do sindicato dos miseráveis O seu olhar era um olhar angustiado como se olhasse o mundo com despreso Indigno para um ser humano Estava comendo uns doces que a fabrica havia jogado na lama Ele limpava o barro e comia os doces Não estava embriagado mas vacilava no andar Cambaleava Estava tonto de fome Encontrei com ele outra vez peno do deposito e disselhe O senhor espera que eu vou vender este papel e doute cinco cruzeiros para o senhor tomar uma media E bom beber um cafezinho de manhã Eu não quero A senhora cata estes papéis com tantas dificuldades para manter os teus filhos e deve receber uma migalha e ainda quer dividir comigo Este serviço que a senhora faz é serviço de cavalo Eu já sei o que vou fazer da minha vida Daqui uns dias eu não vou precisar de mais nada deste mundo Eu não pude viver nas fazendas Os fazendeiros me explorava muito Eu não posso trabalhar na cidade porque aqui tudo é a dinheiro e eu não encontro emprego porque já sou idoso Eu sei que eu vou morrer porque a fome é a pior das enfermidades O homem parou de falar bruscamente Eu segui com o meu saco de papel nas costas Tem pessoas que aos sabados vão dançar Eu não danço Adio bobagem ficar rodando pra aqui pra ali Eu já rodo tanto para arranjar dinheiro para comer Procurei a Vera não encontrei Gritei não apareceu Fui na Purtuguesa de Desportos Já está iniciando os festejos juninos Ela não estava lá Fui no ponto de bonde treis vezes Eu já estava pensando ir no Juizado de Menores ia gastar o dinheiro reservado para o pão Quando cheguei na favela para pegar os documentos para eu ir na cidade a Vera estava procurandome Disseme que estava procurando balões E que estava cançada de correr 8 DE JUNHO Hoje eu fiz almoço Quando tem carne eu fico mais animada Mas quando é polenta eu já sei que vou ter complicações com as crianças Feijão arroz e pasteis Já faz tempo que os meninos estão pedindo pasteis O João está sorrindo atoa O pasteis é um acontecimento aqui em casa Quando eu digo casa penso que estou ofendendo as casas de tijolos Hoje os favelados estão apreciando os briguentos São dois irmãos O Vicente e o João Coque Lá em frente ao mercadinho estão brigando dois baianos e são irmãos Nem parece que geraram no mesmo ventre Os visinhos de alvenaria olha os favelados com repugnância Percebo seus olhares de odio porque eles não quer a favela aqui Que a favela deturpou o bairro Que tem nojo da pobresa Esquecem eles que na morte todos ficam pobres O que eu sei é que a praga dos favelados pega Quando nós mudamos para a favela nós iamos pedir agua nos visinhos de alvenaria Quem nos dava agua era a Dona Ida Cardoso Treis vezes ela nos deu agua Ela nos disse que nos dava agua só nos dias uteis Aos domingos ela queria dormir até mais tarde Mas o favelado não é burro Mas foi vacinado com sangue de burro Um dia foram buscar agua e não encontraram a torneira do jardim onde os favelados pegava agua Formouse uma fila na porta da Dona Ida E todas chamavam Eu queria agua para fazer a mamadeira Meu Deus como é que nós vamos fazer sem agua Nois iamos noutras casas batíamos na porta Ninguém respondia Não aparecia ninguém para nos atender para não ouvir isto A senhora pode nos dar um pouco dagua Eu carregava agua da rua Guaporé Do deposito de papel Outros trazia agua do Serviço nos garrafões Uma tarde de terçafeira A sogra de Dona Ida estava sentada e disse Podia dar uma enchente e arrazar a favela e matar estes pobres cacetes Tem hora que eu revolto contra Deus por ter posto gente pobre no mundo que só serve para amolar os outros A Tina da Dona Mulata quando soube que a sogra da Dona Ida pedia a Deus para enviar uma enchente para matar os pobres favelados disse Quem há de morrer afogado há de ser ela Na enchente de 49 morreu o Pedro Cardoso filho de Dona Ida Quando eu soube que o Pedrinho havia morrido afogado pensei na decepção que teve a sua avó que pedia agua agua bastante agua para matar os favelados e veio agua e matoulhe o neto E para ela compreender que Deus é sobrio E o advogado dos humildes Os pobres são criaturas de Deus E o dinheiro é um metal criado e valorisado pelo homem Se Deus avisasse a Dona Ida que ela por não nos dar agua ia perder o seu filho para sempre creio que ela estaria nos dando agua até hoje O Pedro pagou em holocausto o orgulho de sua avó E a maldade de sua mãe E assim que Deus repreende 9 DE JUNHO Eu saí Quando eu estava catando papel em frente a Bela Vista eu tive um aviso que eu ia ter aborrecimento Fiquei triste Quando eu passava na rua Pedro Vicente um senhor deu uma bichiga de borracha para a Vera Ela ficou contente e disse que ele ia para o céu Quando nasceu a Vera eu fiquei sosinha aqui na favela Não apareceu uma mulher para lavar minhas roupas olhar os meus filhos Os meus filhos dormiam sujos Eu fiquei na cama pensando nos filhos com medo deles ir brincar nas margens do rio Depois do parto a mulher não tem forças para erguer um braço Depois do parto eu fiquei numa posição incomoda Até quando Deus deume forças para ajeitarme Eu já estava deitada quando ouvi as vozes das crianças anunciando que estavam passando cinema na rua Não acreditei no que ouvia Resolvi ir ver Era a Secretaria da Saude Veio passar um filme para os favelados ver como é que o caramujo transmite a doença anêmica16 Para não usar as aguas do rio Que as larvas desenvolvese nas aguas Até a agua que em vez de nos auxiliar nos contamina Nem o ar que respiramos não é puro porque jogam lixo aqui na favela Mandaram os favelados fazer mictorios 11 DE JUNHO Já faz seis meses que eu não pago a agua 25 cruzeiros por mês E por falar na agua o que eu não gosto e tenho pavor é de ir buscar agua Quando as mulheres aglomeram na torneira enquanto esperam a sua vez para encher a lata vai falando de tudo e de todos Se uma mulher está engordando elas dizem que está gravida Se está emagrecendo elas dizem que está tuberculosa Temos aqui a Dona Binidita que está com 82 anos Começou engordar É filho A Dona Benidita está gravida Não diga Naquela idade Isto é o fim do mundo De quantos meses Seis sete a data que vinha na mente E quando alguém ia levar roupinhas para a Dona Binidita ela chingava e rogava praga Dizia Eu sou mãe da que já saiu da circulação Como é que eu posso ter filho Eu já estou aposentada Quando eu ouvia os rumores pensava quem teve filhos nesta idade foi só Santa Isabel mãe de São João Batista Todos os dias há uma novidade aqui na favela Quando inaugurou a Purtuguesa de Desportos os purtugueses que reside aqui por perto foram E a Dona Isaltina esqueceu umas roupas no quintal No outro dia não encontrou as roupas A Dona Sebastiana disse para a Dona Isaltina que a ladra era a Leila A Dona Isaltina foi chamar a Radio Patrulha E ela interrogava a Leila com tanta energia que acabou descobrindo as roupas no fosso de excrementos Pegaram um pau e retiraram as roupas E a policia obrigou a Leila lavar Um carro da Prefeitura que vinha trazer agua jogava agua e a Leila lavava Ela dizia Não fui eu quem tirou as roupas Eu sou vagabunda mas não sou ladra O povo da favela sempre achava tempo para presenciar estes espetáculos O juiz pegou uma jovem debil mental Disseram que ela havia fugido com um japonês Hoje ela apareceu e disse ser mentira Eu fui na Dona Julita Ela deume café sabão e pão Na Avenida do Estado 1140 ganhei muito papel Recebi 98 cruzeiros Deu para comprar oleo carne e açúcar Ganhei umas bananas fiz doce O José Carlos está mais calmo depois que botou os vermes 21 vermes 12 DE JUNHO Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa pensar nas misérias que nos rodeia Deixei o leito para escrever Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades E preciso criar este ambiente de fantasia para esquecer que estou na favela Fiz o café e fui carregar agua Olhei o céu a estrela Dalva já estava no céu Como é horrivel pisar na lama As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários O tal Valdemar hoje agrediu o senhor Alexandre com uma enxada As mulheres interviram Eu fico admirada do senhor Alexandre temer o Valdemar Porque as mulheres resulutas da favela expancam o Valdemar com vassouras e chinelos Mas quando alguém lhe teme ele prevalece 13 DE JUNHO Vesti as crianças e eles foram para a escola Eu fui catar papel No Frigorifico vi uma mocinha comendo salchichas do lixo Você pode arranjar um emprego e levar uma vida reajustada Ela perguntoume se catar papel ganha dinheiro Afirmei que sim Ela disseme que quer um serviço para andar bem bonita Ela está com 15 anos Epoca que achamos o mundo maravilhoso Epoca em que a rosa desabrocha Depois vai caindo pétala por pétala e surgem os espinhos Uns cançam da vida suicidam Outros passam a roubar Olhei o rosto da mocinha Está com boqueira Os preços aumentam igual as ondas do mar Cada qual mais forte Quem luta com as ondas Só os tubarões Mas o tubarão mais feroz é o racional E o terrestre E o atacadista A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo Um fato que alegroume imensamente Eu dancei cantei e pulei E agradeci o rei dos juizes que é Deus Foi em janeiro quando as aguas invadiu os armazéns e estragou os alimentos Bem feito Em vez de vender barato guarda esperando alta de preços Vi os homens jogar sacos de arroz dentro do rio Bacalhau queijo doces Fiquei com inveja dos peixes que não trabalham e passam bem Hoje eu estou lendo E li o crime do Deputado de Recife Nei Maranhão17 li o jornal para as mulheres da favela ouvir Elas ficaram revoltadas e começaram chingar o assassino E lhe rogar praga Eu já observei que as pragas dos favelados pegam Os bons eu enalteço os maus eu critico Devo reservar as palavras suaves para os operários para os mendigos que são escravos da miséria 14 DE JUNHO Está chovendo Eu não posso ir catar papel O dia que chove eu sou mendiga Já ando mesmo trapuda e suja Já uso o uniforme dos indigentes E hoje é sabado Os favelados são considerados mendigos Vou aproveitar a deixa A Vera não vai sair comigo porque está chovendo Ageitei um guardachuva velho que achei no lixo e saí Fui no Frigorífico ganhei uns ossos já serve Faço uma sopa Já que a barriga não fica vazia tentei viver com ar Comecei desmaiar Então eu resolvi trabalhar porque eu não quero desistir da vida Quero ver como é que eu vou morrer Ninguém deve alimentar a ideia de suicídio Mas hoje em dia os que vivem até chegar a hora da morte é um heroi Porque quem não é forte desanima Vi uma senhora reclamar que ganhou só ossos no Frigorífico e que os ossos estavam limpos E eu gosto tanto de carne Fiquei nervosa ouvindo a mulher lamentarse porque é duro a gente vir ao mundo e não poder nem comer Pelo que observo Deus é o rei dos sábios Ele pois os homens e os animais no mundo Mas os animais quem lhes alimenta é a Natureza porque se os animais fossem alimentados igual aos homens havia de sofrer muito Eu penso isto porque quando eu não tenho nada para comer invejo os animais Enquanto eu esperava na fila para ganhar bolachas ia ouvindo as mulheres lamentarse Outra mulher reclamava que passou numa casa e pediu uma esmola A dona da casa mandou esperar A mulher continuou dizendo que a dona da casa surgiu com um embrulho e deulhe Ela não quiz abrir o embrulho perto das colegas com receio que elas pedissem Começou pensar Será um pedaço de queijo Será carne Quando ela chegou em casa a primeira coisa que fez foi desfazer o embrulho porque a curiosidade é amiga das mulheres Quando desfez o embrulho viu que eram ratos mortos Tem pessoas que zombam dos que pedem Na fabrica de bolacha o homem disse que não ia dar mais bolacha Mas as mulheres continuaram quietas E a fila estava aumentando Quando chegava alguém para comprar ele explicava O senhor desculpe o aspecto hediondo que este povo dá na porta da fabrica Mas por infelicidade minha todos os sábados é este inferno Eu ficava impaciente porque queria ouvir o que o dono da fabrica dizia E queria ouvir o que as mulheres dizia Que dilema triste para quem presencia As pobres querendo ganhar E o rico não queria dar Ele dá só os pedaços de bolacha E elas saem contentes como se fossem a Rainha Elisabethe da Inglaterra quando recebeu os treze milhões em joias que o presidente Kubstchek lhe enviou como presente de aniversário O dono da fabrica vendo que elas não iam embora mandou dar A empregada nos dava e dizia Quem ganhar deve irse embora Eles alegam que não estão em condições de dar esmola porque a farinha de trigo subiu muito Mas os mendigos já estão habituados a ganhar as bolachas todos os sabados Não ganhei bolacha e fui na feira catar verduras Encontrei com a dona Maria do José Bento e começamos a falar sobre o custo de vida 15 DE JUNHO Fui comprar carne pão e sabão Parei na banca de jornaes Li que uma senhora e três filho havia suicidado por encontrar dificuldade de viver A mulher que suicidouse não tinha alma de favelado que quando tem fome recorre ao lixo cata verduras nas feiras pedem esmola e assim vão vivendo Pobre mulher Quem sabe se de há muito ela vem pensando em eliminarse porque as mães tem muito dó dos filhos Mas é uma vergonha para uma nação Uma pessoa matarse porque passa fome E a pior coisa para uma mãe é ouvir esta sinfonia Mamãe eu quero pão Mamãe eu estou com fome Penso será que ela procurou a Legião Brasileira ou Serviço Social Ela devia ir nos palacios falar com os manda chuva A noticia do jornal deixoume nervosa Passei o dia chingando os politicos porque eu também quando não tenho nada para dar aos meus filhos fico quase louca Aqui na favela tem um quadro de footbol O Rubro Negro As camisas são pretas e vermelhas O fundador é o Almir Castilho O quadro não é conhecido pelo publico mas já é conhecido pela policia A dois anos atrás o quadro foi jogar na Penha e brigaram com o quadro adversário e a briga transformouse em conflito Com a intervenção da policia os briguentos renderamse E havia um morto e vários feridos Não houve prisões Mas abriram inquérito Cada um teve que pagar dois mil cruzeiros ao advogado Hoje teve uma briga Na rua A residem 10 baianos num barracão de 3 por dois e meio Cinco são irmãos E as outras cinco são irmãs São robustos mal incarados Homens que havia de ter valor para o Lampeão Os dez são pernambucanos E brigaram os dez com um paraibano Quando os pernambucanos avançaram no paraibano as mulheres abraçaram o paraibano e levaram para dentro do barracão e fecharam a porta Os pernambucanos ficaram falando que matavam e repicavam o paraibano Queriam invadir o barracão Estavam furiosos igual os cães quando alguém lhes retira a cadela Ela teve seis filhos 3 do Manolo e três de outros Ela teve um menino que podia estar com 4 anos Mas um dia eles embriagaram e brigaram e lutaram dentro de casa A luta foi tremenda O barraco oscilava E as panelas caiam fazendo ruidos Na confusão o menino caiu no assoalho e pisaramlhe em cima Passado uns dias perceberam que o menino estava todo quebrado Levaram para o Hospital das Clinicas Engessaram o menino Mas os ossos não ligaram O menino morreu Agora ela está com duas meninas Uma de dois anos e outra recém nascida O seu companheiro atual bebe e brigam E as vezes rolam no assoalho Quando eu vejo estas cenas fico pensando no menino que morreu Tinha um soldado que aparecia por aqui Ele procurava agradarme E eu fugia dele Caí na asneira de dizer para a Leila que achava o soldado muito bonito mas não queria nada com ele porque ele bebe pinga E um dia ele veio falar comigo cheirando pinga Uma noite apareceu e perguntoume Então Dona Carolina a senhora anda dizendo que eu bebo pinga Recordei imediatamente da Leila porque eu tinha dito só pra ela Respondi Eu acho o senhor bonito mas tenho medo do senhor beber pinga Percebi que o soldado não apreciou minhas observações O senhor sabe que o soldado alemão não pode beber O soldado olhoume e disse Graças a Deus sou brasileiro 16 DE JUNHO O José Carlos está melhor Deilhe uma lavagem de alho e uma chá de ortelã Eu zombei do remedio da mulher mas fui obrigada a darlhe porque atualmente a gente se arranja como pode Devido ao custo de vida temos que voltar ao primitivismo Lavar nas tinas cosinhar com lenha Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos Eles respondia me É pena você ser preta Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra e o meu cabelo rústico Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco Porque o cabelo de preto onde põe fica É obediente E o cabelo de branco é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar E indisciplinado Se é que existe reincarnações eu quero voltar sempre preta Um dia um branco disseme Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos aí os brancos podiam protestar com razão Mas nem o branco nem o preto conhece a sua origem O branco é que diz que é superior Mas que superioridade apresenta o branco Se o negro bebe pinga o branco bebe A enfermidade que atinge o preto atinge o branco Se o branco sente fome o negro também A natureza não seleciona ninguém 17 DE JUNHO Passei a noite assim eu despertava e escrevia Depois eu adormecia novamente As 5 da manhã a Vera começou vomitar Eu deilhe um calmante ela dormiu Quando a chuva passou eu aproveitei para sair Catei um saco de papel Eu recebi só 12 cruzeiros Catei uns tomates e um pouco de alho e vim para casa correndo porque a Vera está doente Cheguei ela estava dormindo Com os meus ruidos ela despertouse Disse estar com fome Fui comprar leite e fiz um mingau para ela Ela tomou e vomitou um verme Depois levantouse e andou um pouco e deitouse outra vez Eu fui no Seu Manuel vender uns ferros para arranjar dinheiro Estou nervosa com medo da Vera piorar porque o dinheiro que eu tenho não dá para pagar medico Hoje eu estou rezando e pedindo a Deus para a Vera melhorar 18 DE JUNHO Hoje amanheceu chovendo A Vera ontem pois dois vermes pela boca Está com febre Hoje não vai ter aulas em homenagem ao Principe do Japão18 19 DE JUNHO A Vera ainda está doente Ela disseme que foi a lavagem de alho que eu deilhe que lhe fez mal Mas aqui na favela varias crianças está atacadas com vermes O José Carlos não quer ir na escola porque está fazendo frio e ele não tem sapato Mas hoje é dia de exame ele foi Eu fiquei com medo porque o frio está congelando Mas o que hei de fazer Eu saí e fui catar papel Fui na Dona Julita ela estava na feira Passei na sapataria para pegar o papel O saco estava pesado Eu devia carregar o papel em duas viagem Mas carreguei de uma vez porque queria chegar em casa porque a Vera estava doente e sosinha 20 DE JUNHO Dei leite para a Vera O que eu sei é que o leite está sendo despesas extras e está prejudicando a minha minguada bolsa Deitei a Vera e saí Eu estava tão nervosa Acho que se eu estivesse num campo de batalha não ia sobrar ninguém com vida Eu pensava nas roupas por lavar Na Vera E se a doença fosse piorar Eu não posso contar com o pai dela Ele não conhece a Vera E nem a Vera conhece ele Tudo na minha vida é fantástico Pai não conhece filho filho não conhece pai Não tinha papéis nas ruas E eu queria comprar um par de sapatos para a Vera Segui catando papel Ganhei 41 cruzeiros Fiquei pensando na Vera que ia bradar e chorar porque ela quando não tem o que calçar fica lamentando que não gosta de ser pobre Penso se a miséria revolta até as crianças 21 DE JUNHO Vesti o José Carlos para ir na escola Quando eu estava na rua comecei ficar nervosa Todos os dias é a mesma luta Andar igual um judeu errante atraz de dinheiro e o dinheiro que se ganha não dá pra nada Passei no Frigorífico ganhei uns ossos Quando eu saí a Vera recomendoume para trazer os sapatos Deixei o João brincando com ela porque hoje não tem aula para o segundo ano Percorri varias ruas e não havia papel Quando ganhei 30 cruzeiros pensei já dá para pagar os sapatos da Vera Mas era sabado e precisava arranjar dinheiro para o domingo E Vera já estava idealizando o cardapio de domingo Na Avenida Tiradentes eu ganhei uma folhas de flandres e fui vender no deposito do Senhor Salvador Zanutti na rua Voluntários da Patria Eu estava de mal com ele Mas ele não me fez mal nenhum Até emprestoume dinheiro quando eu fiquei doente Quando eu fiquei doente eu andava até querendo suicidar por falta de recursos O senhor Salvador perguntoume porque foi que eu sumi de lá Eu fiquei envergonhada com a sua acolhida tão gentil Ele deume 31 cruzeiros Fiquei alegre Saí correndo Ia comprar os sapatos para a Vera lembrei que havia deixado a sacola no deposito Mas o transito estava impedido Consegui atravessar para pegar a sacola Ele disseme Você saiu correndo e esqueceu a sacola Catei mais um pouco de papel e recebi 10 cruzeiros Fiquei com 71 cruzeiros Dei 30 para os sapatos fiquei com 41 E não ia dar para comprar café pão açúcar e arroz e gordura Pensei nos ossos Eu ia fazer uma sopa Tem um pouco de arroz um pouco de macarrão Eu misturo tudo e faço uma sopa E a Vera se quizer comer come se não quizer que se aperte A epoca atual não é de ter preferencia e nem nojo Cheguei em casa para ver a Vera Ela estava brincando Pensei Ela já está melhor Ela estava coçandose e com a pele toda irritada Acho que foi o chá de alho que lhe dei Jurei nunca mais darlhe remedios indicados por lavadeiras de hospitais Mostreilhe os sapatos ela ficou alegre Ela sorriu e disseme que está contente comigo e não vai comprar uma mãe branca Que não sou mentirosa Que falei que ia comprar os sapatos e comprei Que eu tenho palavra Eu estava tão cançada Eu queria sair para arranjar mais dinheiro Mas a canceira dominoume Ouvi as crianças gritar que estão dando cartões Corri como flexa A canceira sumiu Encontrei o João que já vinha com um cartão acenando na mão Todos estavam sorrindo como se tivesse ganhado um prêmio Li o cartão Era para ir buscar um prêmio e uma surpresa para seu filho na rua Javaés 171 22 DE JUNHO Deixei o leito as 5 horas preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés Dei comida para a Vera O João não quiz a minha comida Disse Eu vou comer lá na festa A comida de lá deve ser melhor do que a da senhora Ele não gosta de festa Mas se ele sabe que vai ter comida é o primeiro a insistir e faz questão de levar a sacola Passei na Dona Julita para dizerlhe que nós iamos numa festa Pensei deve ser banquete porque São Luiz Rei de França quando convidava o povo para comer preparava um banquete Tomei o bonde O dinheiro não dava Cheguei lá as 2 horas A fila estava enorme Podia ter umas 3 mil pessoas Quando eles vieram nos convidar os favelados ficaram contentes Os que não ganhou cartão ficou chorando e dizendo que não tinha sorte Percebi que povo da favela gosta de ganhar esmolas Puzeram umas tabuas na calçada e forraram com jornaes e puzeram os pães em cima Ouvi uma mulher dizer Não é ruim ser pobre Todos usava roupas humildes Alguns calçados outros descalços Apareceu um preto alto e gordo como se fosse decendente de elefante Falava para todos ouvir Eu não sou deputado Sou simplesmente amigo do povo humilde Comecei a escrever o que observava daquela agromeração O senhor Zuza viume escrevendo Porque eu sou alta e estava toda de vermelho Fui falarlhe Pergunteilhe Quem é o senhor Ô gente Eu sou o Zuza A senhora nunca ouviu falar no Zuza Pois o Zuza sou eu Com que finalidade o senhor faz esta festa Faço esta festa para o povo Eu vou por o senhor no jornal Você pode me por onde você quizer Não simpatizei com o tal Zuza Falta qualquer coisa naquele homem para ele ser um homem completo Ele notando a impaciência do povo dizia Espera Vocês estão mortos de fome Vi mulher gravida desmaiar O Zuza deu uns pães para as mulheres e mandou elas erguer os pães para o ar para ser fotografadas Os carros e os ônibus da CMTC19 encontrava dificuldades para percorrer a rua devido as crianças que atravessavam a rua de um lado para outro A qualquer instante eu esperava um atropelamento Alguns reclamava Se eu soubesse que era só pão eu não vinha O senhor Zuza mandou dois violeiros tocar e apareceu um palhaço Que festa sem graça Era domingo e o povo ficou expantado quando viu os indigentes superlotar o ônibus Bom Retiro Tivemos sorte Fomos com um cobrador que aceitava a quantia que nós davamos Uns dava 1 cruzeiro outros dava só um passe Tinha uma mulher com crianças que vieram de Santos e ganhou só um pão e um saquinho de bala e uma regua escolar que estava escrito Lembrança do Deputado Paulo Teixeira de Camargo Tinha mulher que gastou vinte cruzeiros nas conduções E não ganharam nada Onde estava a fila estava frio por estar na sombra Eu saí da fila e passei para o outro lado Devido eu ter bajulado inconcientemente o senhor Zuza ele deume vários pães Contei até seis Depois parei e pedi a Deus para ele não dar me mais pães Ouvi varias mulheres lhe rogando praga Tivemos sorte ao voltar Era o mesmo condutor Eu estava com cinco crianças e eu seis Porisso eu fui obrigada a suplicar ao condutor que deixasse nós voltar por três cruzeiros Era o unico dinheiro que eu tinha A Vera ficou com os pés inchados de tanto andar Quando eu cheguei na favela vi as mulheres rogando praga no Zuza As mulheres que estavam com crianças não ganharam pão porque não ia entrar no meio do povo que dizia Vamos pegar alguns pães para não perder a viagem Encontrei o senhor Alexandre brigando com o Vicente por causa de um metro que emprestoulhe Era 6 horas quando apareceu um carro Era um senhor que havia casado e veio nos dar os sanduíches que sobrou Eu ganhei alguns Depois os favelados invadiram o carro Os moços foram embora e disse que iam jogar os sanduíches no lixo que gente de favela são estúpidos e quadrúpedes que estão precisando de ferraduras 23 DE JUNHO Passei no açougue para comprar meio quilo de carne para bife Os preços era 24 e 28 Fiquei nervosa com a diferença dos preços O açougueiro explicoume que o filé é mais caro Pensei na desventura da vaca a escrava do homem Que passa a existência no mato se alimenta com vegetais gosta de sal mas o homem não dá porque custa caro Depois de morta é dividida Tabelada e selecionada E morre quando o homem quer Em vida dá dinheiro ao homem E morta enriquece o homem Enfim o mundo é como o branco quer Eu não sou branca não tenho nada com estas desorganizações Quando cheguei na favela os meninos estavam brincando Perguntei lhes se alguém havia brigado com eles Responderamme que só a baiana Uma vizinha que tem 3 filhos E que a Leila brigou com o Arnaldo e queria jogar a sua filha recemnascida dentro do rio Tietê E foram brigando até a rua do Porto E a Leila jogou a criança no chão A criança tem dois meses As mulheres queriam ir chamar a policia para levar a menina no Juizado Eu estava cançada deitei Não tive coragem nem de trocar roupa 24 DE JUNHO Quando eu cheguei na favela encontrei com a Vera que estava na rua Ela já sabe contar tudo que presencia Disseme que a policia tinha vindo avisar que a mãe do Paredão tinha morrido Ela era muito boa Só que bebia muito Eu estava fazendo o almoço quando a Vera veio dizerme que havia briga na favela Fui ver Era a Maria Mathias que estava dando seu espetáculo histérico Espetáculo da idade critica Só as mulheres e os médicos é quem vai entender o que eu disse Os favelados todos os anos fazem fogueiras Mas em vez de arranjar lenha rouba uns aos outros Entram nos quintaes e carregam as madeiras de outros favelados Eu tinha um caibro eles levaram para queimar Não sei porque é que os favelados são tão nocivos Alem deles não ter qualidades ainda surgem os maus elementos que mesclamse com eles Quem vem perturbar é o Chico o BomBril e o Valdemar O Valdemar levanta de manhã e vem para a favela Porque este homem não vai trabalhar Ele não gosta de mim Eu gostava imensamente da mãe dele Mas a Dona Aparecida disseme que foi nos os favelados quem deturpamos o seu filho Mas os homens da favela alguns vão trabalhar Os outros quando não trabalham ficam na favela Ninguém chama o Valdemar aqui E que ele já nasceu com o espirito inferior Se a gente pudesse escrever sempre elogiando Se eu escrever que o Valdemar é bom elemento quando alguém lhe conhecer não vai comprovar o que eu escrevi Eu sentei ao redor da fogueira O Joaquim e sua esposa Pitita brigaram Pobre Joaquim Demonstrou tolerância para não desfazer o lar 25 DE JUNHO Fiz o café e vesti eles para ir na escola Puis feijão no fogo Vesti a Vera e saimos O João estava brincando Quando me viu correu E o José Carlos assustouse quando ouviu a minha voz Vi uma pirua do Governo do Estado Serviço de Saude que vinha recolher as fezes O jornal disse que há 160 casos positivos aqui na favela Será que eles vão dar remedios A maioria dos favelados não há de poder comprar Eu não fiz o exame Fui catar papel Ganhei só 25 cruzeiros É que agora tem um homem que cata na minha zona Mas eu não brigo porisso Porque daqui uns dias ele desiste O homem já está dizendo que o que ele ganha não dá nem para a pinga Que é melhor pedir esmola Passei na fábrica e catei uns tomates O gerente quando vê repreende Mas quem é pobre deve fingir que não ouve Quando cheguei na favela fiz uma salada para os meninos Ouvi as crianças dizendo que estavam brigando Fui ver Era a Nair e a Meiry A Nair é branca A Meiry é preta Já faz tempo que a Meiry anda prometendo que vai bater na Nair A Meiry é temida porque anda com gilete E ela foi bater na Nair e apanhou A Nair rasgoulhe as roupas deixandolhe nua Que gargalhada sonora Que espetáculo apreciadissimo para o favelado que aprecia profundamente tudo que é pornográfico As crianças sorri e batem palmas como se estivessem aplaudindo Depois as crianças se dividem em grupos e ficam comentando Eu vi Eu não vi Eu queria ver Atualmente as crianças não mais emocionam quando vê uma mulher nua Já estão habituadas As crianças acham que nas mulheres os corpos são iguais A diferença é a cor Os meus filhos vem perguntarme porque é que o corpo da mulher tem isto ou aquilo Eu finjo que não compreendo estas perguntas incomodas Eles dizem A mamãe é boba Ela não compreende nada 26 DE JUNHO Ouvi uns buatos que os fiscaes vieram requerer que os favelados desocupem o terreno do Estado onde eles fizeram barracões sem ordem Varias pessoas que tinham barracões aqui na favela transferiram para o terreno do Estado porque lá quando chove não há lama Eles disseram que vão construir parque infantil O que eu acho esquisito é que o terreno tiniu alvenaria E foi desapropriado E agora o Zé Povinho está construindo barraco 27 DE JUNHO Hoje a Leila está embriagada E eu fico pensando como é que uma mulher que tem duas filhas em idade tenra pode embriagarse até ficar inconciente Dois homens vieram nos braços E se ela rolar na cama e esmagar a recem nascida O que eu acho interessante é quando alguém entra num bar ou emporio logo aparece um que oferece pinga Porque não oferece um quilo de arroz feijão doce etc Tem pessoas aqui na favela que diz que eu quero ser muita coisa porque não bebo pinga Eu sou sozinha Tenho três filhos Se eu viciar no álcool os meus filhos não irá respeitarme Escrevendo isto estou cometendo uma tolice Eu não tenho que dar satisfações a ninguém Para concluir eu não bebo porque não gosto e acabouse Eu prefiro empregar o meu dinheiro em livros do que no álcool Se você achar que eu estou agindo acertadamente peçote para dizer Muito bem Carolina 28 DE JUNHO Hoje a noite vai ter uma corrida aqui na favela A corrida é promovida pelo Rubro Negro Tipo corrida São Silvestre Compraram pinga para fazer quentão Quentão para os adultos e batata doce para as crianças Fizeram uma fogueira Puzeram 4 luzes na praça Estou aguardando a corrida para ver quem vai vencer Para o primeiro colocado o prêmio é uma medalha e uma garrafa de vinho e doce para o segundo E para o ultimo ovos podres e uma vela O trajeto é da favela até a igreja do Pari O unico que está alcoolisado é o Valdemar Há decencia na favela Na favela tem muitas crianças As crianças são sempre em maior numero Um casal tem 8 filhos outro tem 6 e daí por diante O senhor Alfredo fez um baile Está tocando vitrola Dança só os nortistas porque os paulistas aborreceram de ouvir e dançar Pisa na fulô Aproveitei enquanto o povo dança para pegar agua Arrumei a cozinha e fui para a fogueira Quando faltava 10 para as nove iniciaram a corrida Enquanto eu aguardava o retorno dos corredores fiquei passeando A Dona Ida Cardoso fez fogueira Eu disse que no centro da cidade não fazem fogueiras Uma senhora respondeume que na cidade a fogueira é de outra forma Retorna os corredores O primeiro colocado é o Joaquim Quando foi para premiar o terceiro colocado o Armim que era o juiz encontrou dificuldades porque havia dois homens que dizia ter chegado em primeiro lugar E as mulheres entraram como juiz E exaltaram tanto que o Armim acabou premiando os designados pelas mulheres atrabiliarias que predominam Serviram quentão e vinho Eu bebi duas xicaras Fiquei alegre Dancei com o senhor Binidito E com o Armim Quando eu percebi que o álcool estava desviando o meu senso eu fui deitar Antes de deitar dei uma surra no João porque ele está muito malcriado Esqueci de citar que quando eu estava esquentando fogo as mulheres começaram a falar que haviam visto o retrato do Zuza no jornal E estavam alegres Percebi que o senhor Zuza com a festa que fez para o povo em vez de atrair amigos atraiu inimigos Eis o que estava escrito no jornal do dia 26 de junho de 1958 ZUZA PAI DE SANTO EM CANA Zuza está em cana desde ontem pois ele que se chama na realidade José Onofre e tem uma aparência realmente imponente mantinha para lucros extraordinários uma tenda de Umbanda no Bom Retiro a Tenda Pae Miguel Xangô É também diretor de uma industria de cadeiras suspeita de irregularidades na Delegacia de Costumes Zuza foto foi autuado em flagrante Eu disse ao Zuza que ele ia sair no jornal Eu ouvi um senhor dizendo que o Zuza era malandro Mas foi as pragas das mães que gastaram dinheiro e não ganharam nada que pegou igual o visgo 29 DE JUNHO Na igreja eu ganhei dois quilos de macarrão balas e biscoitos Comprei 3 sanduiches para os meninos Quando eu retornava para a favela encontrei com o senhor Aldo Quando cheguei na favela estavam organizando uma corrida só para mulheres Na rua A tem um baile Depois que a favela superlotouse de nortistas tem mais intriga Mais polemica e mais distrações A favela ficou quente igual a pimenta Fiquei na rua até nove horas para prestar atenção nos movimentos da favela Para ver como é que o povo age a noite Eu já ia retirando quando surgiu a Florenciana e o Binidito A Florenciana a morta de fome Vinha reclamando que a sua filha Vilma não havia ganhado nada E havia participado da corrida precisava uma medalha Quem chegou em primeiro lugar foi a Iracema A Florenciana é preta Mas é tão diferente dos pretos por ser muito ambiciosa Tudo que ela faz é visando lucro Creio que se ela fosse dona de matadouro havia de comer os chifres e os cascos dos bois Que descontentamento na corrida das mulheres Todas queriam ser classificadas Eu fico só olhando Não interfirome porque eu não gosto de polemica A dona Rosa que aluga barracões aqui na favela é arranca couro Veio dizer o senhor Francisco para arranjarlhe quatro mil cruzeiros que ela está com as lições dos terrenos E esse dinheiro que já dei não pode ser íncluido na venda do barraco Não Não pode Esse dinheiro fica para pagar o aluguel Foi a resposta de dona Rosa ao senhor Francisco Pobre senhor Francisco Ele está doente na Caixa de Aposentadoria e paga 70000 por mês de aluguel e 10000 de luz Sustenta 4 pessoas Eu vou deitar Creio que já é 1 da manhã Quando eu ia deitar ar ouvi uns rumores que na rua A os baianos estavam brigando Fui ver É que o Sérgio havia feito um baile E os nortistas havia feito outro E estavam dançando com a porta fechada E a mulher do Chó foi dançar no baile dos nortistas Mas ela dançava só com os bonitinhos E um pernambucano convidoulhe para dançar com ele Ela não quiz dançar Olhou o pernambucano minuciosamente e não quiz dançar com ele O Pernambucano quando se viu preterido enfureceuse Arrancou a peixeira da cinta e investiu na mulher do Chó A única coisa que eu vejo correr com rapidez são os ratos e coelhos E os relâmpagos Mas a mulher do Chó quando viu a peixeira na sua direção suplantou o relampago O povo arrebatoulhe a peixeira O pernambucano saiu correndo fungando e bradando Hoje eu mato hoje corre sangue na favela Veio correndo para a Rua B e arrancou um pau da cerca do senhor Antonio Venancio e voltou para a Rua A Chegou na casa do Chó e bradava Sai pra fora Sai pra fora biscate vagabunda Deuse uma confusão tremenda Os nortistas falavam e eu não entendia nada Se no Norte eles for assim o Norte deve ser horroroso E naquela confusão a mulher do Chó desapareceu igual fumaça Outra coisa que observei hoje noite de São Pedro O que observei na favela e não está certo é isto tem um soldado vulgo Taubaté É o predileto de algumas mulheres aqui da favela Ele passa as noites aqui O soldado é turbulento Que bom se o tenente retirasse este soldado da favela Qualquer coisa para ele é tiro Já feriu dois da favela Na rua B na casa do extinto senhor Sebastião Gonçalves fizeram uma fogueira Eu fiquei sem sono porque eu não posso beber álcool E eu bebi quentão Apareceu a RP 44 Eu segui os guardas Como eu já expliquei os nortistas falavam tanto que ninguém compreendia Os guardas foramse E eu saí da Rua A e fui para a Rua B Sentei perto da fogueira Todos falavam A conversa não me interessava mas eu fiquei Falavam nas brigas No jogo de footbol na Suissa20 E na pretenção do homem ir na lua Uns dizia que o homem vai Outros que não vai E eu quando ouvi o vai não vai já fiquei pensando numa briga porque aqui na favela tudo inicia bem e termina com brigas Fiquei esperando a Purtuguesa de Desportos soltar os foguetes porque se eu deitasse antes tinha que despertar com os foguetes Uma senhora que esquentava fogo disseme que a Angelina Preta bateu no seu filho Argemiro de oito anos e não quer que ele passe na Rua A para pegar agua 30 DE JUNHO Fiz café e fui buscar agua Ouvi um grito fui ver o que era Era a Odete brigando com o seu companheiro Ela dizia Dona Carolina vai chamar a Policia Eu lhe aconselhava para ficar quieta Odete você está gravida Eles estavam atracados Eu já estou na favela há 11 anos e tenho nojo de presenciar estas cenas A Odete estava seminua com os seios a mostra Eles brigam sem saber porque é que estão brigando As visinhas contou me que a Odete jogou agua fervendo no rosto do seu companheiro Hoje vários homens não foram trabalhar Coisa de segundasfeiras Parece que eles já estão cançados de trabalhar 1 DE JULHO Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente Tem pessoa que quando me vê passar saem da janela ou fecham as portas Estes gestos não me ofendem Eu até gosto porque não preciso parar para conversar Quando passei perto da fabrica vi vários tomates Ia pegar quando vi o gerente Não aproximei porque ele não gosta que pega Quando descarregam os caminhões os tomates caem no solo e quando os caminhões saem esmagaos Mas a humanidade é assim Prefere vê estragar do que deixar seus semelhantes aproveitar Quando ele afastouse fui pegar uns tomates Depois fui catar mais papéis Encontrei o Sansão O carteiro Ele ainda não cortou os cabelos Ele estava com os olhos vermelhos Pensei será que ele chorou Ou vontade de fumar ou está com fome Coisas tão comum aqui no Brasil Fitei o seu uniforme descorado O senhor Kubstchek que aprecia pompas devia dar outros uniformes para os carteiros Ele olhame com o meu saco de papel Percebi que ele confia em mim As pessoas sem apoio igual ao carteiro quando encontra alguém que condoise deles reanimam o espirito Eu não gosto do Kubstchek O homem que tem um nome esquisito que o povo sabe falar mas não sabe escrever O baiano esposo de dona Zefa é meu vizinho e veio queixarse que o José Carlos lhe aborrece O que eu sei é que com tantos baianos na favela os favelados veteranos estão mudandose Eles querem ser superior pela força Para ficar livre deles os favelados fazem um sacrifício e compram um terreno e zarpamse Eu disselhe Teus filhos também aborreceme Abre as minhas gavetas e o que eles encontram carregam Eu não sabia disso E nem ia saber porque eu não faço reclamações de crianças Porque eu gosto das crianças Aqui reside uma nortista que é costureira Eu gostava muito dela Lhe favorecia no que eu podia Um dia o meu filho José Carlos estava brincando perto da casa dela e ela jogoulhe agua No outro dia veio um caminhão jogar abacaxi podre aqui na favela e eu perguntei a ela porque havia jogado agua no meu filho Eu joguei fria Mas se ele me aborrecer outra vez eu quero jogar é agua quente com soda para ele não enchergar mais e não aborrecer mais ninguém A minha simpatia pela dona Chiquinha arrefeceu No outro dia a dona Chiquinha veio perguntar se eu queria brigar com ela que ela ia buscar a peixeira Não lhe dei confiança 3 DE JULHO Eu estava escrevendo quando ouvi o meu visinho Antonio Nascimento repreendendo o meu filho José Carlos Ele anda dizendo que vai bater no menino Se fosse uma reprensão justa mas a dele é impricancia Onde é que já se viu um homem de 48 anos desafiar uma criança de 9 anos para brigar Mas o Antonio Nascimento nasceu com as idéias ao avesso A filha da Dirce morreu Era duas gemeas Atualmente ela tem tido partos duplos O ano passado morreu o casal de gemeos O menino num dia e a menina no outro E agora fenece outra Quando morre alguém aqui na favela os malandros saem pelas ruas pidindo esmolas para sepultar os que falece Embolsam o dinheiro e gastam na bebida Os favelados estão comentando o retorno dos jogadores 4 DE JULHO Quando eu passava na rua Eduardo Chaves uma senhora chamoume e deume umas panelas de alumínio papeis e um quilo de carne assada com batatas Creio que ela deume a carne por causa da Vera que disselhe que gostaria de levar o seu berço para o Mercado e morar lá Porque lá tem muitas coisas boa para comer Que ela gosta de carne e quer casar com o açougueiro Já percebi que minha filha é revoltada Ela tem pavor de morar na favela Um dia apareceu aqui na favela uma preta que disse chamar Vitoria Veio com um menino por nome Cezar A preta disseme que era empregada de Dona Mara que dança na Boite Oásis na Rua 7 de Abril Para eu emprestarlhe um caderno de poesia e ir procurála na Avenida São João A preta disseme que estava estudando musica no Conservatorio Dramatico Musical Quem indicou o meu barraco para a preta foi a Florenciana Ela deume este endereço Avenida São João 190 82 andar apartamento 23 O que deixoume preocupada foi o prédio ter 82 andar Ainda não li que São Paulo tem prédio tão elevado assim Depois pensei eu não saio do quarto de despejo o que posso sabei o que se passa na sala de visita Com a insistência da Florenciana eu emprestei Quando fui na cidade procurar o numero 190 não encontrei Fui na Boite Oásis procurar a Dona Mara para saber como é que eu poderia localisar sua empregada ordinaria Informaramme que Dona Mara frequenta a boite e que chegava a 1 da manhã Deixei uma carta para a Dona Mara e não obtive resposta Mas o dia eu encontrar esta tal Vitoria ela vai apanhar Ensaboei as roupas Depois fui acabar de lavar na lagoa O Serviço de Saude do Estado disse que a agua da lagoa transmite as doenças caramujo Vieram nos revelar o que ignorávamos Mas não soluciona a deficiência da agua A Dona Alice está triste porque ela alugou o barracão da Dona Rosa E ela quer vender o barracão Quer 400000 E o seu esposo tem o dinheiro E a Dona Rosa não lhe cumprimenta Eu nunca vi uma pessoa tão ambiciosa assim Ainda se fosse só a ambição mas a inveja é a sua sombra Quando eu ganhei a minha saia vermelha ela ficou furiosa Dizia Só eu é que não ganho nada Agora ela faz outro barracão e alugou o outro que ela residia É o que está residindo o senhor Francisco Quando os meus filhos eram menores eu deixava eles fechado e saía para catar papel Um dia eu cheguei e encontrei o João chorando Ele disseme Sabe mamãe a Dona Rosa me jogou bosta no rosto Eu acendi o fogo esquentei agua e lavei as crianças Fiquei horrorisada com a maldade da Dona Rosa Ela sabe que aqui na favela não pode alugar barracão Mas ela aluga E a pior senhoria que eu já vi na vida Porque será que o pobre não tem dó do outro pobre 5 DE JULHO O Frei Luiz hoje nos visitou com o seu carro capela Nos disse que vai ensinar o catecismo as crianças para fazer a primeira comunhão E aos sabados vem nos ensinar a conhecer os trechos biblicos 6 DE JULHO Despertei as 4 horas e meia com a tosse da Neide Percebi que aquela tosse não ia deixarme dormir Levantei e deilhe um pouco de xarope porque fiquei com dó Ela é orfã de pai Quando o pai estava doente a mãe deixouas São treis filhas A mãe da Neide é uma desalmada Não prestou para tratar do esposo enfermo e nem para criar as filhas que ficaram aos cuidados dos avós Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos Depois fui catar lenha Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar Só não cato a felicidade Estendi as roupas para quarar Ao meu lado estava a mulher do nortista que dormia com a mulher do Chó Estava nervosa e falava tanto Parece que tem a lingua eletrica Parecia o Carlos Lacerda quando falava do Getulio Dizia que era ela quem lavava as roupas da mulher do Chó E o seu esposo é quem lhe dava dinheiro para ela lhe pagar É 5 e meia O frei Luiz está chegando para passar o cinema aqui na favela Já puzeram a tela e os favelados estão presentes As pessoas de alvenaria que residem perto da favela diz que não sabe como é que as pessoas de cultura dá atenção ao povo da favela As crianças da favela bradaram quando iniciaram o cinema representando trechos da Biblia O nascimento de Cristo Chegou o carro capela com o Frei Luiz Um vigário que é util aos favelados Quando passava uma tela o Frei explicava Quando passou os Reis Magos o Frei explicou que a denominação Magos é porque eles liam a sorte das pessoas nas estrelas E se alguém sabia o nome dos Reis Magos Que um é muito conhecido e chamava Baltazar E o outro Pelé21 respondeu um moleque Todos riram Chegou o caminhão com os jogadores na hora que o padre estava rezando Resolvi tomar parte no coro Os meus filhos chegaram do cinema e eu fui dar o jantar para eles A Vera estava contente e contava as travessuras de José Carlos O João perdeu os 11 cruzeiros que eu deilhe para ir no Rialto Ele levava o dinheiro na carteira e foi com os meninos da favela E alguns deles ja sabem bater carteira 7 DE JULHO Fui na dona Juana ela deume pães Passei na fabrica para ver se tinha tomates Havia muitas lenhas Eu ia pegar uns pedaços quando ouvi um preto dizer para eu não mecher nas lenhas que ele ia baterme Eu disse para bater que eu não tenho medo Ele estava pondo as lenhas dentro do caminhão Olhoume com desprezo e disse Maloqueira Por eu ser de maloca é que você não deve mecher comigo Eu estou habituada a tudo A roubar brigar e beber Eu passo 15 dias em casa e quinze dias na prisão Já fui sentenciada em Santos Ele fez menção de agredirme e eu disselhe Eu sou da favela do Canindé Sei cortar de gilete e navalha e estou aprendendo a manejar a peixeira Um nordestino está dando aulas Se vai me bater pode vir Comecei apalpar os bolsos Onde será que está minha navalha Hoje o senhor fica só com uma orelha Quando eu bebo umas pingas fico meio louca Na favela é assim tudo que aparece por lá nós batemos e roubamos o dinheiro e tudo que tiver no bolso O preto ficou quieto Eu vim embora Quando alguém nos insulta é só falar que é da favela e pronto Nos deixa em paz Percebi que nós da favela somos temido Eu desafiei o preto porque eu sabia que ele não ia vir Eu não gosto de briga Quando eu voltava encontrei com o Nelson da Vila Guilherme Disse algo que eu não gostei Fingi que não compreendia o que ele dizia Mas você é tão inteligente e não compreende porque é que eu ando atrás de você Quando eu cheguei na favela os meus filhos não estavam Gritei Não apareceu ninguém Fui no senhor Eduardo e comprei meio litro de óleo e 1600 de linguiça Encontrei o dinheiro que o João recebeu quando vendeu os ferros 46 com 20 66 Quando eu voltava fiquei olhando os homens da favela A maioria não trabalha as segundasfeiras Fui no senhor Manuel vender os ferros que eu achei pelas ruas e ver se via os meus filhos Quando eu ia chegando no senhor Manoel vi o João que retornava Disseme que catou umas latas e ganhou 400 Pergunteilhe pela Vera Disseme que deixou em casa E que ela estava com o José Carlos Quando eu retornava ouvi a voz da Vera Ela dizia José Carlos olha a mamãe Veio correndo na minha direção Disse que ela e José Carlos tinham ido pedir esmolas Ele estava com o saco nas costas Eu vinha na frente e dizia que ele devia era fazer lições Eu precisava ir na cidade Enquanto eu vestia ouvia a voz do Durvalino que discutia com um bêbado desconhecido por aqui Começou surgir as mulheres Elas não perdem estas funções Passam horas e horas contemplando Não lembram de nada se deixou panela no fogo A briga para elas é tão importante como as touradas de Madri para os espanhóis Vi o Durvalino agredindo o bêbado e tentando enforca lo O bêbado não tinha forças para reagir O Armim e outros retirou as mãos do Durvalino do pescoço do bêbado e levaram ele para o outro lado do rio E o Durvalino ficou comentando o seu feito Fui trocar o meu titulo de eleitor Quando cheguei na rua Seminário fui tirar fotografia no Foto Lara 6000 Enquanto eu esperava as fotografias eu conversava com as pessoas presentes Todas agradaveis Recebi as fotografias e fui para a fila Conversei com uma senhora que o seu esposo é funcionário da Prefeitura E quis saber em quem eu ia votar Disselhe que vou votar no Dr Adhemar Deixei o tribunal e tomei o bonde Quando desci no ponto final fui no açougue comprar carne moida Passei na COAP22 e comprei meio quilo de arroz Perguntei a jornaleira se ela tem titulo de eleitor Eu pensava nos filhos que devia estar com fome A Vera começou pedir comida Esquentei e dei lhe O João jantou e o José Carlos também Contoume que o cunhado da Dona Aparecida havia chegado na assistência Que foi atropelado Que estava engessado Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas Tão diferentes da favela As casas com seus vasos de flores e cores variadas Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo que ignoram que a cidade mais afamada da America do Sul está enferma Com as suas úlceras As favelas 8 DE JULHO Eu estava indisposta deitei cedo Despertei com a algazarra que fazia na rua Não dava para compreender o que diziam porque todos falavam ao mesmo tempo e era muitas vozes reunidas Vozes de todos os tipos Eu queria levantar para pedirlhe que deixasse o povo durmir Mas percebi que ia perder tempo Eles já estavam alcoolizados A Leila deu o seu shou E os seus gritos não deixou os visinhos dormir As quatro horas comecei escrever Quando eu desperto custo adormecer Fico pensando da vida atribulada e pensando nas palavras do Frei Luiz que nos diz para sermos humildes Penso se o Frei Luiz fosse casado e tivesse filhos e ganhasse salario minimo ai eu queria ver se o Frei Luiz era humilde Diz que Deus dá valor só aos que sofrem com resignação Se o Frei visse os seus filhos comendo generos deteriorados comidos pelos corvos e ratos havia de revoltarse porque a revolta surge das agruras Mandei o João comprar 1000 de queijo Ele encontrouse com o Adalberto e disselhe para ele vir falar comigo E que eu ganhei umas tabuas e vou fazer um quartinho para eu escrever e guardar os meus livros Eu sai e fui catar papel Pouco papel nas ruas porque outro coitado também está catando papel Ele vende o papel e compra pinga e bebe Depois senta e chora em silencio Eu estava com tanto sono que não podia andar A Dona Anita deu me doces e ganhei só 2300 Quando cheguei na favela o João estava lendo gibi Esquentei a comida e deilhes O barulho noturno que ouvi as mulheres estavam comentando que os homens beberam 14 litros de pinga E a Leila insultou um jovem e ele espancoua Lhe jogou no solo e deu um pontapé no rosto O ato é selvagem Mas a Leila quando bebe irrita as pessoas Ela já apanhou até do Chiclé um preto bom que reside aqui na favela Ele não queria espancála Mas ela desclassificoulhe demais Ele deulhe tanto que até arrancoulhe dois dentes E por isso o apelido dele aqui na favela é Dentista A Leila ficou com o rosto tão inchado que foi preciso tomar pinicilina Hoje é dia das choronas Aqui reside uma nortista que quando bebe torra a paciencia O filho da nortista arranjou uma namorada Uma mulher que pode ser a sua avó A futura esposa veio residir com a sua mãe Quando a velha bebe fica aborrecendo e discutem E a velha não lhes dava socego Ele fugiu com a mulher E a velha está chorando Quer o retorno do filho E cinco horas José Carlos chegou Vou trocalo para ir na Casa Gouveia comprar um par de sapatos para ele Na Casa Gouveia ele escolheu o sapato 15900 O senhor Gouveia deixou por 15000 Ele está contente E olha as pessoas que passam para ver estão notando seus sapatos novos Quando eu cheguei na favela encontrei com o senhor Francisco Ele emprestoume a carrocinha e eu fui buscar as tabuas Levei a Vera dentro da carrocinha O José Carlos e o Ninho Para ir foi facil A carrocinha deslisava no asfalto como se fosse automatica Coloquei as madeiras de vários modos Ora ficava dianteira ora trazeira Percebi que precisava trazer em duas vezes O que é preciso fazer eu faço sem achar que é sacrifício Na rua Araguaia com a rua Canindé tem muita lama e eu encontrei dificuldade porque eu estava descalça e os meus pés deslizava na lama Não havia possibilidade de firmar os pés Eu escorregava Apareceu um senhor e empurrou a carrocinha para mim Disseme para eu ageitar as tabuas Agradeci e segui No ponto do bonde as tábuas escorregaram da carrocinha E o José Carlos vendo a minha luta disseme Porque é que a senhora não casouse Agora a senhora tinha um homem para ajudar Dei graças a Deus quando cheguei na favela Uma senhora estava esperandome Disseme que o João havia machucado a sua filha Ela disseme que o meu filho tentou violentar a sua filha de 2 anos e que ela ia dar parte no Juiz Se ele fez isto quem há de internálo sou eu Chorei Deitei o José Carlos e saí com o João Fui no Juizado para saber se havia possibilidade de internálo Preciso retiralo da rua porque agora tudo que aparecer de mal vão dizer que foi ele No Juizado o Dr que estava de plantão disse para eu voltar dia 10 que o dia 9 era feriado Saí do Juizado e fui tomar o bonde por ser mais barato No ponto do bonde o João plantouse na porta da pastelaria e eu sentei para descançar um pouco Quando cheguei na favela era meia noite Eu estava nervosa 9 DE JULHO Tive sonhos agitados Eu estava tão nervosa que se eu tivesse azas eu voaria para o deserto ou para o sertão Tem hora que eu revolto comigo por ter iludido com os homens e arranjado estes filhos Quando eu estava preparandome para sair a Dona Alice veio dizer que dois meninos do Juiz estava vagando aqui na favela Fui ver Estavam com roupas amarelas Descalços e sem camisa Só com aquele blusão em cima da pele Eles estavam desorientados Perguntei se queriam café Responderam que não Eu entrei e fui preparar para sair para a rua O José Carlos acompanhou os meninos Depois veio perguntarme se eu podia arranjar umas roupas para os meninos Vá chamálos Ele foi e voltou com os meninos Um era mulato claro Um rosto feio Um narigão O outro era branco bonito Contaramme os horrores do Juizado Que passam fome frio e que apanham initerruptamente Perguntaram se eu podia arranjarlhes umas camisas Deilhes as camisas e as calças Pergunteilhes os nomes O mulato é Antonio e o branco é Nelson Pergunteilhes se sabiam ler Responderam que sim Deilhes café Falaram que residem na Vila Maria e que tem mãe Aconselharam meus filhos para ser bons para mim Que os filhos estão melhor com as mães Que a coisa melhor do mundo é a mãe Eles pegaram as roupas que eu deilhes A calça do Nelson tinha tantos remendos que podia pesar 3 quilos Quando eles sairam olharam o numero do meu barracão e pediume para não internar o João que a comida é deficiente Que eles era obrigado a lavar louça Que se uma criança jogar fora o resto da comida do lixo que eles obriga a criança catar e comer Os meus filhos ficaram horrorisados com a narração dos fugitivos Decidi não internar o João porque ele tem apetite O que eu observei é que eles queriam livrarse das roupas amarelas Os meninos perguntaram o meu nome e sairam sorrindo para mim Penso porque será que os meninos que fogem do Juizado vem difamando a organisação Percebi que no Juizado as crianças degrada a moral Os Juizes não tem capacidade para formar o carater das crianças O que é que lhes falta Interesse pelos infelizes ou verba do Estado Em 1952 eu procurava ingressar na Vera Cruz e fui no Juizado falar com o Dr Nascimento se havia possibilidade de internar os meus filhos Ele disseme que se os meus filhos fossem para o Abrigo que ia sair ladrões Fiquei horrorisada ouvindo um Juiz dizer isto Quando existia a saudosa Rua Itaboca eu digo saudosa porque vejo tantos homens lamentando a extinção da zona do meritricio Quando eu ia lá e via as mulheres mais nogentas e perguntava Onde vocês foram criadas No Abrigo de Menores Vocês sabem ler Não Porque Você é padre Eu parava a interrogação Elas não sabiam ler nem cuidar de uma casa A unica coisa que elas conhecem minuciosamente e pode lecionar e dar diplomas é pornografia Pobres orfãs do Juiz Fui catar papel Estava indisposta O povo da rua percebe quando eu estou triste Ganhei 3600 Voltei Não conversei com ninguém Estou sem ação com a vida Começo achar a minha vida insipida e longa demais Hoje o sol não saiu O dia está triste igual a minha alma Deixei o João fechado estudando Disselhe que o homem que erra está vacinado na opinião publica O que eu observo é que os que vivem aqui na favela não podem esperar boa coisa deste ambiente São os adultos que contribue para delinquir os menores Temos os professores de escândalos A Leila a Meiry a Zefa a Pitita e a Deolinda Quando eu cheguei na favela encontrei com um nortista que estava com uma peixeira procurando o meu filho Quando me viu não disse nada Mas eu conversei com ele Ouvi as mulheres do deposito dizer que o senhor João da Rua do Porto faleceu e que ficou dois dias aguardando recursos para ser sepultado Eu ia vêlo Mas comecei sentir indisposição e resolvi deitar um pouco Já faz uns dois anos que eu não deito durante o dia Penso no senhor João que já ha tempos estava doente Paralisia Ele dizia que queria morrer porque não apreciava ser sustentado pela esposa Que a vida sem doença já é dura de conduzir A sua esposa dona Angelina é quem trabalhava para os dois Ela tinha um auxilio das vicentinas mas fizeram tanta intriga e as vicentinas deixou de auxiliála Injustiça Eu dormi um pouco Depois comecei escrever A dona Alice deume um prato de sopa O dia que eu mudar da favela vou acender uma vela para São Sebastião Ouço a Deolinda brigando com seu esposo Eles eram amasiados e as vicentinas aconselhouos a casar Ele bebe muito e ela o dobro Ela disse que o seu estomago não aceita café de manhã Que se beber vomita De manhã ela bebe pinga e passa o resto do dia chupando o dedo E nojento ver uma mulher de 50 anos chupando o dedo Ela foi chamar a Radio Patrulha porque ambos estão com a cabeça quebrada A sogra também bebe E forma o trio mais escandaloso da rua C Eu guardei as roupas dos meninos do Juizado para comprovante Fiquei horrorisada com o cheiro de suor E achei desmazelo 10 DE JULHO Deixei o leito as 5 e meia para pegar agua Não gosto de estar entre as mulheres porque é na torneira que elas falam de todos e de tudo Estou tão indisposta que se eu pudesse deitar um pouco Mas eu não tenho nada para os meninos comer O unico geito é sair Deixei o João estudando Ganhei só 1000 e achei metais Achei um arco de pua e um estudante pediume Deilhe Ele deume 3 cruzeiros para um café Passei na feira Comprei batata doce e peixe Quando cheguei na favela era 12 horas Esquentei a comida para o João e fui ajeitando o barracão Depois fui vender umas latas e ganhei 40 cruzeiros Retornei a favela e fiz o jantar A Deolinda e o seu esposo que foram na Radio Patrulha ainda não voltaram Será que ficaram presos Cai a tarde lentamente Já estão chegando os crentes com seus instrumentos musicaes para louvar Deus Aqui na favela tem um barracão na rua B onde os crentes vem rezar treis vezes por semana Uma parte do barracão é coberto com folha de flandres e a outra de telha Tem dia que eles estão rezando e os vagabundos da favela jogam pedras no barracão e quebram as telhas As que cai em cima das folhas faz barulho Mesmo sendo insultados eles não desanimam Aconselha os favelados para não roubar não beber e amar ao proximo como a si mesmo Os crentes não permite a entrada das mulheres que usa calças e nem vestidos decotados Os favelados zombam dos conselhos Fui buscar uma lata de agua e uma senhora estava lamentando Se eu fosse jovem eu não residia nesta favela nem um dia Mas eu já sou velha E velho não se governa Aqui nesta favela a gente vê coisa de arrepiar os cabelos A favela é uma cidade esquisita e o prefeito daqui é o Diabo E os pinguços que durante o dia estão oculto a noite aparecem para atentar Percebo que todas as pessoas que residem na favela não aprecia o lugar 11 DE JULHO Deixei o leito as 5 e meia Já estava cansada de escrever e com sono Mas aqui na favela não se pode dormir porque os barracões são úmidos e a Neide tosse muito e despertame Fui buscar agua e a fila já estava enorme Que coisa horrivel é ficar na torneira Sai briga ou alguém quer saber a vida dos outros Ao redor da torneira amanhece cheio de bosta E quem limpa sou eu Porque as outras não interessam Quando cheguei na favela estava indisposta e com dor nas pernas A minha enfermidade é física e moral 12 DE JULHO Fui no Frigorifico ganhei uns ossos Estou indisposta Comprei dois pães doce para o João e a Vera Catei tomates Encontrei um preto iducado e elegante no falar Disseme que reside em Jaçanã Eu ia perguntarlhe o nome mas fiquei com vergonha Ele deu dois cruzeiros ao João e eu comprei querozene Cheguei em casa fui no senhor Manoel vender os ferros O deposito já estava fechado Cheguei em casa e deitei Estava com frio e mal estar O povo da favela já sabe que eu estou doente Mas não aparece ninguém para prestarme um favor Não deixo o João sair Ele passa o dia lendo Ele conversa comigo e eu vou revelando as coisas inconvinientes que existe no mundo Já que o meu filho já sabe como é o mundo a linguagem infantil entre nós acabouse O José Carlos foi na feira Eu servi os ossos para fazer uma sopa A Vera não quiz O Frei Luiz está pondo a tela para passar o cineminha Não vou comparecer porque estou doente O João pediume para irmos Disselhe que enquanto nós residirmos aqui na favela ele não há de brincar com mais ninguém Antes eu falava e ele revoltava Agora eu falo e ele ouve Eu pretendia conversar com o meu filho as coisas serias da vida só quando ele atingisse a maioridade Mas quem reside na favela não tem quadra de vida Não tem infancia juventude e maturidade O meu filho com 11 anos já quer mulher Expliqueilhe que ele precisa tirar o diploma de grupo E estudar depois que o curso primário23 é muito pouco 13 DE JULHO Estão chegando as enfermeiras do Frei Luiz que vem curar as chagas dos favelados Elas estão ensinando as crianças rezar Eu queria saber como é que o Frei Luiz descobriu que os favelados tem chagas Esquentei o jantar para as crianças Ouço a Meire convidando a Nair para ir no baile da Rua A A Vera está tussindo Levantome para darlhe um comprimido Estou com febre Não posso levantar Estou esperando o José Carlos chegar Quando ele chegou deume a caixa onde eu guardo os remedios e tomei uma Salofeno e a dor foi desaparecendo e eu adormeci Despertei as 2 da madrugada com o Arnaldo e a Leila brigando 14 DE JULHO Passei o dia deitada por estar com febre e dor nas pernas Não tinha dinheiro mas eu havia deixado uns ferros lá no senhor Manoel e mandei o José Carlos ir pesar e receber Ganhou 22 cruzeiros Comprei 5 de pão e 5 de açúcar e comprimido Levantei só para preparar as refeições Passei o dia deitada O José Carlos ouviu a Florenciana dizer que eu pareço louca Que escrevo e não ganho nada 15 DE JULHO Hoje é o aniversário de minha filha Vera Eunice Eu não posso fazer uma festinha porque isto é o mesmo que querer agarrar o sol com as mãos Hoje não vai ter almoço Só jantar Estou mais disposta Ontem supliquei ao Padre Donizete24 para eu sarar Graças a Deus que atualmente os santos estão protegendo Porque não sobra dinheiro para eu ir no medico Fui catar papel levei os filhos Eu agora quero ter o João debaixo dos meus olhos Fui na Dona Julita Ela está em SantoAndré Cheguei em casa fiz o almoço Fui no Senhor Manoel vender os ferros Ganhei 25 cruzeiros Comprei pão Quando cheguei na favela tinha um purtuguês vendendo miudo de vaca Comprei meio quilo de bucho Mas eu não gosto de negociar com purtuguês Eles não tem iducação São obcenos pornográficos e estúpidos Quando procura uma preta é pensando explorala Eles pensam que são mais inteligentes do que os outros O purtuguês disse para a Fernanda que lhe dava um pedaço de fígado se ela lhe aceitasse Ela não quiz Tem preta que não gosta de branco Ela saiu sem comprar Ele deixou de vender por ser atrevido 16 DE JULHO Não havia papel nas ruas Passei no Frigorifico Havia jogado muitas linguiças no lixo Separei as que não estava estragadas Eu não quero enfraquecer e não posso comprar E tenho um apetite de Leão Então recorro ao lixo 17 DE JULHO A Leila e o Arnaldo brigaram toda a noite Não nos deixou dormir Deixei o leito às 5 e meia e carregueiagua Na torneira sempre sai encrenca Você passou na minha frente Não passei E daí prossegue Um dia o esposo da Dona Silvia estava na torneira e discutiram ele e um nortista o senhor Manoel pai do Zé Maria Enquanto eles trocavam insultos eu presenciava O nortista tirou a peixeira O Antonio de Andrade tem 65 anos Mas quando viu a peixeira reluzir saltou igual ao Ademar Ferreira no salto triple25 Saí e fui catar papel Ganhei 60 cruzeiros Parei para conversar com a Dona Anita Ela está preocupada com as noticia de guerra Que a guerra é ingrata para os jovens Que é pungente a condição dos pracinhas Que herói são os jogadores defutbol Os pracinhas são venerados pelas mulheres E que os pracinhas são nossos filhos Eu ouvi dizer que o General Teixeira Lot26 não vai enviar tropas para o Oriente Medio Se for assim creio que devemos considerar e venerar o nosso general que já demonstrou o seu desvelo pelo povo e o paíz 18 DE JULHO Saí e fui catar papel Ouvia as mulheres lamentando com lagrimas nos olhos que não mais aguenta o custo de vida Levei o João para evitar encrenca Passei na banca de jornal na Avenida Tiradentes e parei para conversar com uns senhores e com o jornaleiro Cheguei na favela era 12 e meia O Durvalino passou com um pedaço de carne na mão Parou para brincar com a Neide e começou falar do Bobo Que ele não presta e vai ser um péssimo esposo Deu um pedaço de carne para a Dona Aparecida 19 DE JULHO Fui na bolacha O dono disse que não dava mais bolacha Voltei catando tudo que encontrava Está chovendo e eu não quiz catar papel Quando cheguei na favela a Vera contoume que a baiana havia lhe chingado Uma mulher de 32 anos brigar com uma criança de 5 anos Uma visinha que viu a baiana chingando a Vera confirmou Assim que a nojenta viu me começou insultarme Mostrou uma peixeira para o José Carlos e disse que pretende lhe picar Fui no senhor Manoel vender uns ferros Ganhei 55 cruzeiros Levei pouco material e achei que era muito dinheiro Perguntei ao senhor Manoel se não errou no troco Fui na feira comprei 1 quilo de feijão e 1 rim O resto eu catei Quando um purtuguês jogou uns pés de alface no chão e eu peguei o purtuguês gritou Chegou a freguesia do Bastião Hoje eu não lavo as roupas porque não tenho dinheiro para comprar sabão Vou ler e escrever A Leila pegou machado e repicou o fundo da bacia A bacia é da Ivone Horacio que deume as 5 canivetadas em 1952 O processo foi cancelado porque ela não compareceu no foro A Ivone pediu a bacia a Leila não queria devolver Picou o fundo Eu fiquei horrorisada e com dó Dois nortistas brigaram Só procuram insultos O Vitor Franquistém o valentão apanhou do Valdemar Espadela Todos gostaram porque o Vitor quer ser o Lampeão da Favela Foram 2 cacetadas Agora as mulheres estão dizendo que vão cotisar e comprar uma camisa de lã para dar de presente ao Valdemar para comemorar o seu grande feito 20 DE JULHO Eu estava escrevendo quando ouvi a voz do senhor Binidito Mandei ele entrar Ele conduziu um senhor do Centro Espirita Divino Mestre localisado na Rua Oriente que veio dar cartão para a gente buscar agasalho para as crianças dia 23 Fiquei tão contente que sai da cama com rapidez E expliquei ao senhor o que é que eu escrevo Ia recomeçar escrever quando o Adalberto chegou Veio fazer uma cerca para mim Para evitar a entrada dos nortistas que por qualquer motivo vem aborrecer Quem trabalhou na cerca foi o Adalberto o Luiz hospede recente da favela e o José da Dona Rosa Compraram pinga e eu fiz caipirinha E fiz almoço para eles Era 1 hora quando eu ia recomeçar escrever O senhor Alexandre começou a bater na sua esposa A Dona Rosa interviu Ele dava pontapé nos filhos Quando ele ia enforcar a Dona Nena a Dona Rosa pediu socorro Então o soldado Edison Fernandes foi pedir ao senhor Alexandre para não bater na sua esposa Ele não obedeceu e ameaçou o soldado com uma peixeira O Edison Fernandes deulhe uns tapas O Alexandre avoou que nem balão impelido pelo vento O soldado Edison mandoume telefonar para a Radio Patrulha Eu fui avuando Telefonei e voltei correndo Quando cheguei na favela a briga estava quente O Alexandre chingava as crianças que iam olhar e avançou para o meu filho João E desacatava o soldado Edison querendo baterlhe no rosto e dizendolhe Leva a minha mulher para você Mulher depois que casa é para suportar o marido e eu não adimito soldado dentro da minha casa Você está interessado na minha mulher Assim que os favelados me viram gritaram Cadê a Policia Já telefonei Em 5 minutos a Radio Patrulha apareceu Eu e a Vera entramos no carro A Vera começou sorrir achando delicioso andar de carro Quando o povo da alvenaria me viram na Radio Patrulha gritaram Crime na favela E corriam na direção da favela Vi entre as pessoas o meu compadre José Nogueira O José Carlos regressou do cinema e eu conteilhe o shou do seu Alexandre Ele disseme que o Alexandre estava no ponto do bonde Não acreditei Será possível que a Policia ia soltar um homem tão turbulento que não respeita as crianças Como eu já estava previnida não assustei quando ouvi a voz do Alexandre discutindo com a mãe do soldado Edison Eu intervi porque ela está gestante Eu saí para procurar o Bobo para ele retirar o Alexandre de dentro da casa Mas o Binidito já havia empurrado o Alexandre para fora Ele entrou no seu barraco e fechou a porta Estava tão bêbado que não podia parar de pé Deitamos Eu estava agitada e nervosa porque queria passar o dia escrevendo Custei durmir Eu fiquei cançada de tanto correr para ir chamar a Radio Patrulha Despertei as 4 horas da manhã com a voz do Alexandre que estava maltratando a sua esposa e chingando o soldado Edison Dizia Aquele negro sujo me bateu Mas ele me paga Eu me vingo Vendo que o Alexandre não parava de falar eu fui na Delegacia O soldado que estava de plantão disse Favela é de morte Disseme que se o Alexandre continuasse a perturbar para eu voltar as 6 horas Voltei para a favela ele estava na rua insultando Resolvi fazer café Abri a janela e joguei um pouco dagua no Alexandre Você chamou a Radio Patrulha para mim Negra fidida Mas você me paga 21 DE JULHO Fui catar papel Estava horrorisada com a cena que o Alexandre representou de madrugada Catei muitos ferros e pouco papel Quando eu estava perto da banca de jornal tropecei e caí Devido eu estar muito suja um homem gritou É fome E me deram esmola Mas eu caí porque estava com sono Pensei no Alexandre porque ele não precisa pensar no trabalho Porque obriga a esposa a pedir esmola Ele tem uma filha a Dica A menina tem 9 anos Ela pede esmola de manhã e vai para a escola a tarde A menina conhece as letras e os números Mas não sabe formar palavras Quando escreve ela põe qualquer letra que lhe vem na mente Mistura números com letras Escreve assim ACR85CZbo4Up7Mnol0E20 E já faz dois anos que ela está na escola Enquanto eu estava na rua o Alexandre maltratou a mãe do soldado Edison Quando eu cheguei ele começou insultarme Negra suja Ordinaria Vagabunda Lixeira Eu não tenho paciência lhe chinguei jogueilhe um vidro no rosto Ele fechou a janela Abriu outra vez eu lhe joguei uma escova de lavar casa Ele fechou a janela Depois abriu e começou descompor o soldado Edison O soldado Edison foi falar com ele Quando ele viu o soldado assustouse e disse Aquele tapa que você me deu você vai me pagar O soldado Edison disselhe Então vamos resolver isto logo Ajuntou a criançada para presenciar a cena que eu reprovo Espetáculo improprio Enquanto o soldado discutia com o Alexandre eu fui catar pedras O soldado Edison deulhe um tapa no rosto E a criançada deu uma vaia O Alexandre ficou com medo do soldado entrou para dentro e fechou a porta Apagou a luz e não perturbou durante a noite 22 DE JULHO Eu fui trabalhar e avisei os visinhos Se o Alexandre aborrecer avise Saí pensando na minha vida infausta Já faz duas semanas que eu não lavo roupa por falta de sabão As camas estão sujas que até dá nojo Não fiquei revoltada com a observação do homem desconhecido referindose a minha sujeira Creio que devo andar com um cartas nas costas Se estou suja é porque não tenho sabão Cheguei no Frigorifico Os meninos entraram e cada um ganhou uma salchicha Quando eu estava catando o papel surgiu o espanhol que faz a limpesa e começou gritar comigo Hoje eu estou nervosa e não adimito que um extrangeiro grite comigo Tem uma espanhola que vai no Frigorifico catar carne no lixo e quando vê o espanhol diz Este non é de mi tierra Isto é purtugués E tem uma purtuguesa que diz Esta besta não é de Portugal E eu para arrematar digo Graças a Deus ele não é brasileiro 23 DE JULHO Deixei o leito as 7 horas Estava indisposta Graças a Deus o Alexandre socegou Esquentei comida para os meninos e comecei preparar para irmos no Centro Divino Mestre para ganhar roupas para as crianças Quando o povo via as mulheres da favela nas ruas perguntava se nós iamos no Gabinete prestar declarações Houve um conflito respondi E as mulheres sorriam No Centro Divino Mestre o senhor Pinheiro nos recebeu sorrindo Não havia preconceitos nem distinção de classe Eu ganhei duas blusas de malha Uma para a Vera e outra para o José Carlos Quando nós iamos para o Centro Espirita Divino Mestre o João ganhou um pulôver As palavras do senhor Pinheiro reanimoume 24 DE JULHO Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer Pensei até em suicidar Eu suicidandome é por deficiência de alimentação no estomago E por infelicidade eu amanheci com fome Os meninos ganharam uns pães duro mas estava recheiado com pernas de barata Joguei fora e tomamos café Puis o unico feijão para cosinhar Peguei a sacola e saí Levei os meninos Fui na Dona Guilhermina na Rua Carlos de Campos E pedi para ela um pouco de arroz Ela deume arroz e macarrão E eu fiquei conversando com o seu esposo Ele deume umas garrafas para eu vender E eu catei uns ferros Depois de conseguir algumas coisas para os meninos comer Reanimei me Acalmei o espirito Fui no senhor Manoel vender as garrafas Ganhei 22 cruzeiros Comprei 10 de pão e um cafezinho Cheguei na favela fiz o almoço e fui lavar roupas 3 semanas sem lavar roupas por falta de sabão As visinhas ficaram horrorisadas vendo a quantidade de roupas que eu lavei A Dona Geralda esposa do senhor João da Purtuguesa veio procurar a Fernanda dizendo que havia roubado a sua bacia de roupas E foi vasculhar a casa da mãe da Fernanda A Fernanda lhe acompanhou até a sua casa e encontraram a bacia na cosinha Ela pediu desculpas a Fernanda e deulhe uma garrafa de pinga Quando recebeu a garrafa de pinga ela ficou tão contente Sorria contemplando a garrafa Veio elogiando a Dona Geralda Que mulher boa O rancor da Fernanda desapareceu porque a pinga entrou como intermediaria 25 DE JULHO Achei o dia bonito e alegre Fui catando papel 26 DE JULHO Eu estava tonta de fome devido ter levantado muito cedo Fiz mais café Depois fui lavar as roupas na lagoa pensando no departamento Estadual de Saude que publicou no jornal que aqui na favela do Canindé há 160 casos positivos de doença caramujo Mas não deu remedio para os favelados A mulher que passou o filme com as demonstrações da doença caramujo nos disse que a doença é muito difícil de curarse Eu não fiz o exame porque eu não posso comprar os remedios Mandei o João ir no senhor Manoel vender os ferros E eu fui catar papel No lixo do Frigorífico tinha muitas linguiças Catei as melhores para eu fazer uma sopa Vim pelas ruas catando ferros Quando cheguei no ponto do bonde encontrei o José Carlos que ia na feira catar verduras O Adalberto veio procurar roupas Não lhe atendi porque ele está ficando muito confiado Ontem falou pornografia perto da Vera E está aborrecendome O senhor Manoel chegou Deume 80 cruzeiros eu não quiz pegar Procurei as crianças para tomar banho Ficaram alegre quando viu o senhor Manoel Eu disse para o senhor Manoel que ia passar a noite escrevendo Ele despediuse e disse Até outro dia Nossos olhares se encontraram e eu lhe disse Vê se não volta mais aqui Eu já estou velha Não quero homens Quero só os meus filhos Ele saiu Ele é muito bom e iducado E bonito Qualquer mulher há de gostar de ter um homem bonito como ele é Agradavel no falar O Frei Luiz apareceu e deu aula de catecismo para as crianças Fizeram uma procissão Eu não compareci 27 DE JULHO Esquentei a comida para os meninos e comecei escrever Procurei um lugar para eu escrever socegada Mas aqui na favela não tem estes lugares No sol eu sentia calor Na sombra eu sentia frio Eu estava girando com os cadernos na mão quando ouvi vozes alteradas fui ver o que era percebi que era briga Vi o Zé Povinho correndo Briga é um espetáculo que eles não perdem Eu já estou tão habituada a ver brigas que já não impreciono E que haviam jogado fogo dentro do automovel do senhor Mario Pelasi Queimou a chuteira as meias e os tapetes do carro Os meninos viu a fumaça no carro e foi avisálo Ele estava jogando futbol 28 DE JULHO Deixei o João e levei só a Vera e o José Carlos Eu estava tão triste Com vontade de suicidar Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado heroi O verso preferido era este Ouço o povo dizer O Adhemar tem muito dinheiro Não tem direito de enriquecer Quem é nacional quem é brasileiro Bem vamos deixar o Dr Adhemar em paz porque ele está com a vida mansa Não passa fome Não come nas latas de lixo igual os pobres Quando eu ia na residência do Dr Adhemar encontrei um senhor que deume este cartão Edison Marreira Branco Estava tão bem vistido que atraiu os olhares Disseme que pretendia incluirse na política Pergunteilhe Quais são suas pretensões na política Quero ficar rico igual ao Adhemar Fiquei horrorisada Ninguém mais apresenta amor patriótico Quando passei no Frigorífico encontrei com a dona Maria do José Bento que disseme Se a gente não catar um pouco vamos acabar ficando loucos Só Deus pode ter dó de nós os pobres Ensineilhe a catar os alhos E eu catei um pouco de carvão Despedi da dona Maria e segui Encontrei com a dona Nenê a diretora da Escola Municipal professora do meu filho João José Disselhe que ando muito nervosa e que tem hora que eu penso em suicidar Ela disseme para eu acalmar Eu disselhe que tem dia que eu não tenho nada para os meus filhos comer 30 DE JULHO Ganhei 30 cruzeiros e passei no sapateiro para ver se os sapatos da Vera estavam prontos porque ela reclama quando está descalça Estava pronto e ela calçou o sapato e começou a sorrir Fiquei olhando a minha filha sorrir porque eu já não sei sorrir Encontrei a Rosalina que estava discutindo com o Helio Ele não quer que fala que ele e a Olga pede esmola A Rosalina dizia que ela é sosinha e sustenta 3 filhos É que ela não sabe que o seu filho Celso anda dizendo que quer fugir de casa porque tem nojo dela Acha a mãe muito barbara e avarenta Ele diz que queria ser meu filho Então eu lhe digo Se você fosse meu filho você era preto E sendo filho de Rosalina você é branco Ele respondeume Mas seu eu fosse teu filho eu não passava fome A mamãe ganha pão duro e nos obriga a comer os pães duro até acabar Segui pensando nas desventuras das crianças que desde pequeno lamenta sua condição no mundo Dizem que a Princesa Margareth da Inglaterra tem desgosto de ser princesa27 São os dilemas da vida 31 DE JULHO Acendi o fogo e fui buscar agua Mandei o João Carlos buscar 6 de açúcar O Luiz que fez a cerca para mim entrou e sentouse Eu disselhe que eu ia sair e quando saio gosto de deixar os meus filhos sosinhos Eu saí correndo e fui catar papel Havia pouco papéis nas ruas Eu já estou aborrecendo de catar papel porque quando eu chego no deposito tem a Cicilia que trabalha lá e é muito bruta Insultame e eu finjo não ouvir Diz que sou fidida Dia 27 a Cicilia não deixou o José Carlos ir no mitorio A Cicilia é tão bruta que a sua presença afasta o dono no deposito Hoje eu não estou nervosa Estou triste Porque eu penso as coisas de um jeito e corre de outro O Antonio Nascimento que residia aqui na favela mudou se Ele e a sua companheira Eles estavam mal colocados aqui na favela Ninguém apreciava eles aqui favela Porque ele abandonou os 4 filhos e ela os 3 filhos 7 crianças sofrendo por causa dos pais O que ela lucrou deixando o seu esposo e os filhos Largou um homem calçado e pegou outro descalço 1 DE AGOSTO A Assistência28 estava chegando Vinha examinar o Purtuguês que vende doces Dia 28 de julho eu fui visitalo Ele queria uma Assistência Aludiam que ele não paga IAPTC29 e não vinham Quando cheguei na favela fui visitálo Ela estava gemendo e tinha duas senhoras purtuguesas que lhe visitava Pergunteilhe se estava melhor Disseme que não A purtuguesa perguntoume O que é que a senhora faz Eu cato papel ferro e nas horas vagas escrevo Ela disseme com a voz mais sensata que já ouvi até hoje A senhora vai cuidar de sua vida 2 DE AGOSTO Vesti os meninos que foram para a escola Eu saí e fui girar para arrancar dinheiro Passei no Frigorifico peguei uns ossos As mulheres vasculham o lixo procurando carne para comer E elas dizem que é para os cachorros Até eu digo que é para os cachorros 3 DE AGOSTO Hoje os meninos vão comer só pão duro e feijão com farinha Eu estou com tanto sono que não posso parar de pé Estou com frio E graças a Deus não estamos com fome Hoje Deus está ajudandome Estou indecisa sem saber o que fazer Estou andando de um lado para outro porque não suporto permanecer no barracão limpo como está Casa que não tem lume no fogo fica tão triste As panelas fervendo no fogo também serve de adorno Enfeita um lar Fui na dona Nenê Ela estava na cosinha Que espetáculo maravilhoso Ela estava fazendo frango carne e macarronada Ia ralar meio queijo para por na macarronada Ela deume polenta com frango E já faz uns 10 anos que eu não sei o que é isto Na casa de dona Nenê o cheiro de comida era tão agradavel que as lagrimas emanavase dos meus olhos que eu fiquei com dó dos meus filhos Eles haviam de gostar daqueles quitutes Quando cheguei na favela a Leila e o Arnaldo estavam dando os seus espetáculos E a criançada estavam apreciando Eu estava escrevendo quando a Vera veio avisarme que estavam dando cartões e que havia muitas pessoas na rua Fui correndo para ver Varias pessoas acompanhava um senhor alto e loiro que conduzia um menino de 10 anos pela mão Ele usava calças cinza claro e paletó azul anil Passou por mim e deume um abraço Fiquei perplexa com aquele abraço sem apresentação É a primeira vez que vejo o homem A cunhada do CocaCola disseme Este é nosso deputado Dr Contrini Quando ela disse deputado federal pensei é época de eleições porisso é que eles está tão amavel O senhor Contrini veio nos dizer que é candidato nas eleições Nós da favela não somos favorecidos pelo senhor Não te conhecemos 6 DE AGOSTO Fiz café para o João e o José Carlos que hoje completa 10 anos E eu apenas posso darlhe os parabéns porque hoje nem sei se vamos comer 7 DE AGOSTO Deixei o leito as 4 horas Eu não dormi porque deitei com fome E quem deita com fome não dorme Vi o fiscal circulando e falando Fui ver do que se tratava Estava procurando o senhor Tiburcio Ele faz barracão para vender Ele pede esmola na rua Direita Ele não precisa e não reside na favela Ele já construiu sete barracões e vendeu O Tiburcio tem o físico defeituoso e a alma também Quando o João chegou da escola deilhe almoço Depois fomos na cidade Fomos a pé porque não tinha dinheiro para pagar a condução Levei uma sacola e ia catando os ferros que encontrava nas ruas Passamos pela rua da Cantareira A Vera olhava os queijos e engulia as salivas A dona Alice contoume que o Policarpo nortista que reside aqui na favela pois uma preta para residir na sua casa Disse para a mulher que ela era sua prima E a mulher é muito boa e aceitou a prima em casa com prazer E a prima ficou em casa varios dias A mulher do Policarpo saía e ele ficava com a prima E um dia a dona Maria ao chegar em casa encontrou o Policarpo e a prima na copola Ela não gostou e brigaram E o Policarpo saiu de casa com a prima e foi para Descalvado Levou os moveis e deixou só a cama 8 DE AGOSTO Saí de casa as 8 horas Parei na banca de jornais para ler as noticias principais A Policia ainda não prendeu o Promessinha O bandido insensato porque a sua idade não lhe permite conhecer as regras do bom viver Promessinha é da favela Vila Prudente Ele comprova o que eu digo que as favelas não formam carater A favela é o quarto de despejo E as autoridades ignoram que tem o quarto de despejo Fui lavar as roupas Na lagoa estava a Nalia a Fernanda e a Iracema que discutiam religião com uma senhora que dizia que a verdadeira religião é a dos crentes A Fernanda diz que a Biblia não manda ninguém casarse Que manda crescer e multiplicar Eu disse para a Fernanda que o Policarpo é crente e tinha varias mulheres Então a Fernanda disse que o Policarpo não é crente É quente Achei graça no trocadilho e sorri Dei uma gargalhada E coisa que eu não discuto é religião Terminei as roupas e deixei a discussão no auge Hoje a Assistência esteve aqui duas vezes porque a Aparecida teve um aborto A Quita veio no meu barracão reclamar que o José Carlos havia jogado bosta no rosto da Marli e que eu devo dar mais iducação ao meu filho 9 DE AGOSTO Deixei o leito furiosa Com vontade de quebrar e destruir tudo Porque eu tinha só feijão e sal E amanhã é domingo Fui na sapataria retirar os papéis Um sapateiro perguntoume se o meu livro é comunista Respondi que é realista Ele disseme que não é aconselhável escrever a realidade Aqui na favela está um reboliço E que o deputado Francisco Franco deu material para terminar a sede do Rubro Negro Deu as telhas e as camisas e o povo da favela fala diariamente neste deputado Vão fazer uma festa para homenageálo 10 DE AGOSTO Dia do Papai Um dia sem graça 11 DE AGOSTO Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa arvore O guarda civil é branco E há certos brancos que transforma preto em bode expiatório Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata Assustei quando ouvi meus filhos gritar Conheci a voz da Vera Vim ver o que havia Era o Joãozinho filho da Deolinda que estava com um chicote na mão e atirando pedra nas crianças Corri e arrebateilhe o chicote das mãos Senti o cheiro de álcool Pensei ele está bêbado porque ele nunca fez isto Um menino de 9 anos O padrasto bebe a mãe bebe e a avó bebe E ele é quem vai comprar pinga E vem bebendo pelo caminho Quando chega a mãe pergunta admirada Só isto Como os negociantes são ladrões 12 DE AGOSTO Deixei o leito as 6 e meia e fui buscar agua Estava na fila enorme E o pior de tudo é a meledicencia que é o assunto principal Tinha uma preta que parece que foi vacinada com agulha de vitrola Falava do genro que brigava com sua filha E a Dona Clara ouvia porque era a unica que lhe dava atenção Atualmente é difícil para pegar agua porque o povo da favela duplicase E a torneira é só uma 13 DE AGOSTO Vieram queixarse que a Zefa brigou com uma nortista e discutiram Os calões entraram em ação Eu só tenho dó das crianças que ouvem os impropérios A Zefa é mulata É bonita É uma pena não saber ler Só que ela bebe muito Ela teve duas filhas e bebia muito Esquecia de alimentar as crianças e elas morreram Eu mandei o João levar um bilhete no Circo Irmãos Mello pidindo se aceitavame para cantar Depois fui lavar as roupas Eu estava preparando para ir no circo quando ouvi rumores que o Anselmo havia atirado no João Coque Eu estava escrevendo esperando o arroz secar Guardei o caderno e fiquei girando procurando o João Encontrei ele sentado no campo da Purtuguesa segurando as pernas com uma mão e a bola na outra Pergunteilhe se já tinha ido chamar a Policia Ele disseme que sim Queixouse que a perna estava sem ação Ele tentou calçar o sapatos e encontrou dificuldades Deilhe os meus chinelos Os curiosos aglomeraram Não havia comentários O povo chingava o Anselmo Vou contar quem é o Anselmo Depois relato quem é o João O Anselmo apareceu aqui em 1950 com uma mulher que estava gravida Quando a mulher deu a luz um menino ele começou maltratála Ela estava de dieta e ele lhe expancava e lhe expulsava de casa Ela chorava tanto que o leite secou Agora impricou com o João porque ele está namorando a Iracema E O barracão da Iracema é perto do barraco do Anselmo E o João conversa com a noiva perto da casa do Anselmo que não quer Deu ordem ao João para ir namorar perto do rio O João estava na sua casa tomando café quando o Anselmo lhe chamou para conversar O João disselhe que havia chegado do trabalho e não podia atendêlo Ia entrando quando o Anselmo lhe atirou Ele não viu o Anselmo puchar a arma O Anselmo visava o peito Mas a bala atingiu a perna O Anselmo fugiu O povo diz que vai reunir para expancar o Anselmo O João foi fazer curativo na Central e retornouse Pergunteilhe se havia tomado anestesia Disseme que tomou só ingeção contra o teto E assim é mais um processo para a Delegacia 14 DE AGOSTO O Ditinho filho da Nena é um veterano da favela Mas é um pelado Não aprendeu ler Não aprendeu um ofício Só aprendeu beber pinga A Nena tinha um barracão na Rua do Porto Bem construído Mas o Tiburcio tapeou a pobre Nena Trocou os barracões Deulhe um mal construido e ficou com o dela Depois ele vendeu por quinze mil cruzeiros Fui até o Deposito ganhei 15 cruzeiros Passei no sapateiro para mandar ele concertar os sapatos da Vera Fiquei percorrendo as ruas Estava nervosa porque estava com pouco dinheiro e amanhã é feriado Uma senhora que regressava da feira disseme para eu ir buscar papéis na rua Porto Seguro no prédio da esquina 4 andar 44 Subi no elevador eu e a Vera Mas eu estava com tanto medo que os minutos que permaneci dentro do elevador pareceume séculos Quando cheguei no quarto andar respirei aliviada Tinha a impressão que estava saindo de um tumulo Toquei a campainha Surgiu a dona da casa e a criada Ela deume um saco de papéis Os dois filhos dela conduziume no elevador O elevador em vez de descer subiu mais dois andares Mas eu estava acompanhada não tive receio Fiquei pensando a gente fala que não tem medo de nada as vezes tem medo de algo inofensivo No sexto andar o senhor que penetrou no elevador olhoume com repugnância Já estou familiarisada com estes olhares Não entristeço Quiz saber o que eu estava fazendo no elevador Expliqueis lhe que a mãe dos meninos havia dadome uns jornaes Era este o motivo da minha presença no elevador Pergunteilhe se era medico ou deputado Disseme que era senador O homem estava bem vestido Eu estava descalça Não estava em condições de andar no elevador Pedi ao jornaleiro para ajudarme a por o saco nas costas que o dia que eu estivesse limpa eu lhe dava um abraço Ele sorriu e disseme Então já sei que vou morrer sem receber o teu abraço porque você nunca está limpa Ele ajudoume por os papéis na cabeça Fui na fabrica depois fui no senhor Rodolfo Ganhei mais 20 cruzeiros Depois fiquei cançada Voltei para casa Estava tão cançada que não podia ficar de pé Tinha a impressão que ia morrer Eu pensava se eu não morrer nunca mais hei de trabalhar assim Eu estava com falta de ar Ganhei 100 cruzeiros Fui deitarme As pulgas não me deixou em paz Eu já estou cançada desta vida que levo 15 DE AGOSTO Eu ia catar esterco para levar na casa da Ivani quando vi um caminhão na Rua A parado na porta do Anselmo A Florenciana e a Dona Lurdes vinha avisar o João Coque que o Anselmo ia mudarse Para ele ir chamar a policia Ele não pode andar porque levou o tiro na perna Eu fui Em cinco minutos a noticia circulou que eu tinha ido telefonar para a policia para impedir a mudança do Anselmo Eu cheguei antes da Policia e os favelados assim que me viram perguntaram Cadê a Policia Carolina Se eu guardasse todo o dinheiro que já gastei telefonando para a Radio Patrulha eu podia comprar um quilo de carne O povo estava esperando o Anselmo aparecer para lhe expancar Reuniram homens e mulheres para o batefundo Ouvi dizer que o Anselmo pulou a cerca e saiu pelo fundo Eu disse que eu queria ser homem porque assim eu podia quebrar e bater Então um homem respondeu Eu queria ser mulher mas só de dia E todos sorriram O Lalau e a sogra brigaram Ela deulhe com o cabo da tesoura Ela corria e lhe perseguia Estavam bebados 16 DE AGOSTO Passei na sapataria O senhor Jacó estava nervoso Dizia que se viesse o comunismo ele havia de viver melhor porque o que a fabrica produz não dá para as despesas Antigamente era os operarios que queria o comunismo Agora são os patrões O custo de vida faz o operario perder a simpatia pela democracia O saco de papéis estava muito pesado e um operário ajudoume erguêlo Estes dias eu carreguei tanto papel que o meu ombro esquerdo está ferido Quando eu passava na Avenida Tiradentes uns operários que saíam da fabrica disseme Carolina já que você gosta de escrever instiga o povo para adotar outro regime Um operario perguntoume E verdade que você come o que encontra no lixo O custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada Temos que imitar os animaes 17 DE AGOSTO Quando eu fui almoçar fiquei nervosa porque não tinha mistura Comecei ficar nervosa Vi um jornal com o retrato da deputada Conceição da Costa Neves rasguei e puis no fogo Nas épocas eleitoraes ela diz que luta por nós 18 DE AGOSTO As segundasfeiras eu não gosto de perder Saio cedo porque encontrase muitas coisas no lixo Saí com a Vera Eu tenho tanto dó da minha filha Fui na Dona Julita peguei papel Ganhei 55 cruzeiros O que é que se compra com 55 cruzeiros Fiquei nervosa Quando cheguei em casa deitei porque eu catei uns trinta quilos de ferros e latas E conduzi na cabeça Depois que eu descansei fui na Rosalina pedir o carrinho para levar os ferros no deposito Ela emprestoume e eu carreguei o carrinho Eu estava com frio Fui recebida com alegria pelo senhor Manoel Pesamos o material e eu recebi 191 cruzeiros Passei na Padaria Guiné e comprei uma guaraná e bananas Puis a Vera no carrinho Quando cheguei na favela estava moida O João disseme Já que a senhora tem dinheiro podia mandar arrancar o meu dente porque está doendo Mandei ele vestirse e lavar os pés Eu ia sair suja Depois pensei é melhor trocarme Troqueime Saí as pressas Quando ia na rua Felisberto de Carvalho ouvi dizer que havia briga Fui ver Era a Meiry a Pitita o Valdemar e o Armim O purtuguês tripeiro já havia terminado a venda dos miúdos e ia para casa Ele conhece a Meiry e parou para conversar Surgiu o Valdemar e lhe pediu a bicicleta para dar umas voltas O purtuguês respondeu Quer bicicleta compra E assim começou a troca de insultos O Valdemar está habituado a dar nos favelados deu um tapa no purtuguês O purtuguês deu um soco no Valdemar e jogoulhe no chão O Armim foi a favor do Valdemar e jogou um tijolo no rosto do purtuguês que caiu e a carteira caiulhe do bolso Quando as faveladas viram a carteira ficaram loucas E avançaram todos ao mesmo tempo para pegar a carteira Quando cheguei perto da Ana do Tiburcio perguntei o que houve ela começou explicarme E a Isabel sorria e dizia Parecia chuva de dinheiro Eu corri e passei perto do Valdemar e do Armim que estavam Sorrindo como se tivessem praticado um ato nobre De longe eu vi o purtuguês que estava cheio de sangue E o Valdemar disse Não foi nada D Carolina Eu disse para o Armim Dá o dinheiro do purtuguês Ele respondeume Eu não sei de nada Quando eu cheguei perto do purtuguês a Meiry estava lhe entregando a carteira E o purtuguês dizia Está faltando dinheiro Tinha uma moça branca perto da Meiry que lhe chamava Vamos Meiry O purtuguês deu um pouco de carne para a Meiry Era um coração Fui levar o João no dentista Vi uma placa na rua Itaqui 2 Dentista Dr Paulo de Oliveira Porto Toquei a campanhinha e entrei Uma senhora veio atenderme Eu sentei para esperar Mas estava aflita por causa dos filhos que haviam ficado sosinho O Dr Paulo veio atender e eu disselhe que ele é o dentista que está mais perto da favela e queria que extraísse um dente do meu filho João O João sentouse na cadeira Quanto é doutor Cem cruzeiros Achei o preço exagerado Mas ele já estava sentado na cadeira Abri a bolsa e sentei E comecei contar as notas de 5 Separei 20 notas de 5 19 DE AGOSTO Eu não dormi Saí do leito nervosa Fui carregar agua O soldado Flausino disseme que a C era amante do pai Que ela havia dito que ia com o pai e ganhava 50 cruzeiros Eu contei na torneira e as mulheres disseram que havia desconfiado Dia a dia a vida dos favelados piora com a fila de agua A Vera estava alegre porque eu comprei uma alpargata para ela De manhã ela havia chorado porque estava com os sapatos furados 20 DE AGOSTO Saí e fui catar papel Não conversei com ninguém Encontrei com o fiscal da Prefeitura que brinca com a Vera dizendo que ela é sua namorada E deulhe 1 cruzeiro e pediulhe um abraço Penetrou um espinho no meu pé e eu parei para retirálo Depois amarrei um pano no pé Catei uns tomates e vim para casa Agora eu estou disposta Parece que trocaram as peças do meu corpo Só a minha alma está triste Cheguei no ponto final do Canindé Passei na COAP para comprar arroz O mais barato que já está velho e com gosto de terra 21 DE AGOSTO Fiz café e mandei os filhos lavarse para ir na escola Depois saí e fui catar papel Passei no Frigorífico e a Vera foi pedir salchicha Ganhei só 55 cruzeiros Depois voltei e fiquei pensando na minha vida O Brasil é predominado pelos brancos Em muitas coisas eles precisam dos pretos e os pretos precisam deles Quando eu estava preparando para fazer o jantar ouvi a voz da Juana que pediume alho Deilhe 5 cabeças Depois fui fazer o jantar e não tinha sal Ela deume um pouco 22 DE AGOSTO Deixei o leito as 5 horas e fui carregar agua A fila já estava enorme Eu tinha só 4 cruzeiros e um litro Fui no senhor Eduardo ele ficou com o litro e os 4 cruzeiros e deume um pão Eu achei pequeno mas o dinheiro era pouco Fiz café e preparei os filhos para ir a escola Fui catando papel Catei estopas para vender Passei numa casa da Avenida Tiradentes e levei 50 quilos de papel que uma senhora deume para vender para ela Levei na cabeça e vendi Deu 100 cruzeiros Ela ficou alegre Tem dia que eu invejo a vida das aves Eu ando tão nervosa que estou com medo de ficar louca 23 DE AGOSTO Hoje não tem aula porque é dia de reunião das professoras com os pais Eu pretendo ir Saí e levei os três filhos Hoje eles estão distintos Não estão brigando Até eu estou mais calma Noto transformação em mim Passei no Frigorifico para pegar os ossos No inicio eles nos dava linguiça Agora nos dá osso Eu fico horrorisada vendo a paciência da mulher pobre que contenta com qualquer coisa As crianças ficam contente porque ganham salchicha Eu segui e fui para o deposito Encontrei umas latas ocultei no mato Quando eu atravessava a linha do trem olhei para ver se surgia algum trem e vi a Dona Armanda Pergunteilhe se o seu filho Aldo havia deixado um caderno para mim Havia tanto papel nas ruas que ganhei 100 cruzeiros Comprei sanduiche para os filhos Eles gostam de andar comigo porque compro algo para eles comer A mãe está sempre pensando que os filhos estão com fome Lavei as louças e varri o barraco Depois fui deitar Escrevi um pouco Senti sono dormi Acordei varias vezes na noite com as pulgas que penetra nas nossas casas sem convite 24 DE AGOSTO Fui lavar roupas O sabão era pouco A Dona Dolores deume uns pedaços Eu comecei sentir tonturas porque estava com fome Fui na Chica Ela disseme que o Policarpo veio brigar com a esposa porque ela deu parte dele no Juiz A Dorça disseme que o peixeiro que o Armim e o Valdemar já assaltaram jogou um saco no rosto do Valdemar e enquanto ele procurava livrarse do saco ele lhe arrebatou o porrete das mãos e vibroulhe umas cacetadas e eles correram O João e o José Carlos foram no cinema da igreja do Pari Hoje eu estou indisposta Lavei as roupas de qualquer geito porque não sei se amanhã eu amanheço doente Não sei qual é o desgraçado que entra no barracão para roubar Porque sumiu a minha machadinha 25 DE AGOSTO Fui buscar agua e fiz café Não comprei pão Não tinha dinheiro Eu ia levar os filhos vi uma menina que ia na aula pergunteilhe se ia ter aula Disseme que sim Eu vesti o José Carlos e o João foi do geito que estava Prometi levarlhe um lanche E saí com a Vera Não havia papéis nas ruas porque apareceu outro homem para catar Achei ferros e metaes 26 DE AGOSTO Cheguei na favela e esquentei a comida Estava indisposta Almocei e deitei Adormeci Que sono gostoso Sem sonho sem pesadelos Despertei com a voz da baiana que estava chingando os meus filhos e jogando pedras nas crianças Aqui na favela ninguém lhe dá confiança porque ela briga por causa de criança Fui falar com a Dona Alice Que estou muito triste Ela disseme que a Pitita estava brigando com um senhor e disselhe que a mãe dele é pior do que a galinha O homem deu parte e a policia veio procurala E ela fugiu 27 DE AGOSTO A Dona Irene deume jornaes Vendi ganhei 30 cruzeiros Vendi uns jornaes para uma professora Ganhei 40 cruzeiros Ela deu me 20 Eu ganhei mais 5 Fiquei com 55 Passei na Fabrica para catar uns tomates Cheguei em casa e pedi o carrinho da Rosalina emprestado e fui buscar madeira para fazer o chiqueiro Levei a Vera e o José Carlos Depois fiquei vagabundando Depois que eu trabalho e ganho dinheiro para os meus filhos vou descançar É um descanço justo 28 DE AGOSTO Fui carregar agua Que fila Quando eu vejo a fila de latas fico desanimada de viver Deixei as latas na fila e vim fazer café Despertei o João Ele abluiuse e foi comprar pão Eu lavei as louças e desinfetei o José Carlos Troqueilhe deilhe café Eles foram para a escola Eu fui buscar agua Havia querelas por causa de umas passar na frente das outras 30 DE AGOSTO Passei no Frigorífico ganhei ossos Cheguei no deposito ganhei 10 cruzeiros Depois circulei pela rua Porto Seguro Encontrei com aquele moço loiro alto e bonito O tipo de homem que as mulheres gostam de abraçar Ele trabalha no Transporte Ele parece o Nelson Edy30 Ele parou para comprimentarme Fui no senhor Eduardo comprar querosene oleo e tinta para escrever Quando eu pedi o tinteiro um homem que estava perto perguntoume se eu sabia ler Disselhe que sim Ele pegou o lapis e escreveu A senhora é casada Se não for quer dormir comigo Eu li e entregueilhe sem dizer nada 31 DE AGOSTO Dizem que vai ter baile por causa do batisado da menina da Leila Estão cantando e bebendo 1 DE SETEMBRO Eu fui na feira comprei uma laranja Cheguei em casa a Vera estava no quintal Deilhe uma sova 2 DE SETEMBRO Acendi o fogo e esquentei comida para os filhos porque não tinha dinheiro para comprar pão Troquei os filhos que foram para a escola E eu saí com a Vera Quase fiquei louca Porque havia pouco papel na rua Agora até os lixeiros avançam no que os catadores de papéis podem pegar Eles são egoístas Na rua Paulino Guimarães tem um deposito de ferro Todos os dias eles põe o lixo na rua e lixo tem muito ferro Eu catava os ferros para vender Agora o carro que faz a coleta antes de iniciar a coleta vem na rua Paulino Guimarães e pega o lixo e põe no carro Nogentos Egoístas Eles ja tem emprego tem hospital farmacia médicos E ainda vende no ferro velho tudo que encontra no lixo Podia deixar os ferros para mim Passei a tarde arranjando as latas Depois fui na Bela Vista buscar um caixote Quando eu passava perto do Frigorífico o caminhão de ossos estava estacionado Pedi uns ossos para o motorista Ele deume um que eu escolhi Tinha muita gordura Fiz a sopa e comecei escrever A noite surgiu O João jantouse e deitouse Puis a Vera no berço O José Carlos estava na rua com medo de apanhar porque ele é muito porco Sujou a camisa de barro Eu fiz um chiqueiro e vou por ele morando com o porco Hão de darse bem A Pitoca passou na rua convidando o povo para ir ver o cineminha Chamou o João Eu disse que ele já estava dormindo Fui ver o cineminha Era desenho da Igreja No Play Boy31 que o Adhemar pois aqui para as crianças a noite são os marmanjos que brincam O Bobo fazia tanto barulho que deturpava o espetáculo Os favelados pizam no fio eletrico que liga a maquina E a maquina desligava Os proprios favelados falam que favelado não tem iducação Pensei vou escrever Quando eu voltava encontrei com o Paulo que vive com a Dona Aurora Ela tem uma filha mulata clara Ela diz que a filha é filha do Paulo Mas as feições não condiz Eu durmi E tive um sonho maravilhoso Sonhei que eu era um anjo Meu vistido era amplo Mangas longas cor de rosa Eu ia da terra para o céu E pegava as estrelas na mão para contemplálas Conversar com as estrelas Elas organisaram um espetáculo para homenagearme Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso Quando despertei pensei eu sou tão pobre Não posso ir num espetáculo porisso Deus enviame estes sonhos deslumbrantes para minhalma dolorida Ao Deus que me proteje envio os meus agradecimentos 3 DE SETEMBRO Ontem comemos mal E hoje pior 8 DE SETEMBRO Hoje eu estou alegre Estou rindo sem motivo Estou cantando Quando eu canto eu componho uns versos Eu canto até aborrecer da canção Hoje eu fiz esta canção Te mandaram uma macumba e eu já sei quem mandou Foi a Mariazinha Aquela que você amou Ela disse que te amava Você não acreditou 9 DE SETEMBRO Não houve aula porque o presidente da Italia32 vai chegar em São Paulo Não saí porque está chovendo Passei o dia escrevendo E a tarde fiz uma sopa de feijão com arroz 14 DE SETEMBRO Hoje é o dia da pascoa de Moysés O Deus dos judeus Que libertou os judeus até hoje O preto é perseguido porque a sua pele é da cor da noite E o judeu porque é inteligente Moysés quando via os judeus descalços e rotos orava pedindo a Deus para darlhe conforto e riquesas É por isso que os judeus quase todos são ricos Já nós os pretos não tivemos um profeta para orar por nós 18 DE SETEMBRO Hoje eu estou alegre Eu estou procurando aprender viver com o espirito calmo Acho que é porque estes dias eu tenho tido o que comer Quando eu vi os empregados da Fabrica olhei os letreiros que eles trazem nas costas e escrevi estes versos Alguns homens em São Paulo Andam todos carimbados Traz um letreiro nas costas Dizendo onde é empregado 19 DE SETEMBRO No Frigorífico eles não põe mais lixo na rua por causa das mulheres que catavam carne podre para comer 20 DE SETEMBRO Fui no emporio levei 44 cruzeiros Comprei um quilo de açúcar um de feijão e dois ovos Sobrou dois cruzeiros Uma senhora que fez compra gastou 43 cruzeiros E o senhor Eduardo disse Nos gastos quase que vocês empataram Eu disse Ela é branca Tem direito de gastar mais Ela disseme A cor não influi Então começamos a falar sobre o preconceito Ela disseme que nos Estados Unidos eles não querem negros nas escolas Fico pensando os norteamericanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol O homem não pode lutar com os produtos da Natureza Deus criou todas as raças na mesma epoca Se criasse os negros depois dos brancos aí os brancos podia revoltarse 23 DE SETEMBRO Fui na Dona Julita Ela deume comida Ela está nervosa porque o senhor João está doente Ele disse que não odeia os que lhe lesaram Que ele ficando pobre viu muitas nobresas nas pobresas Percebi que entre os ricos há sempre uma divergência por questões de dinheiro Não posso esclarecer estas questões porque sou pobre como rato 25 DE SETEMBRO Não dormi por estar exausta Pensei até que ia morrer Eu tenho impressão que estou num deserto Tem hora que eu odeio o repórter Audalio Dantas33 Se ele não prendesse o meu livro eu enviava os manuscritos para os Estados Unidos e já estava socegada Levanteime duas vezes para matar os pernilongos Quando eu estava conversando com a Chica a companheira do Policarpo chamoume Eu não fui Ela dirigiuse para o interior de sua casa e voltou com uma intimação e entregoume Para eu ir no Gabinete de Investigação amanhã dia 26 e levar o João É que no dia 8 de julho de 1958 ela disseme que o meu filho João de 11 anos havia tentado violentar a sua filha Eu não vi porque eu estava trabalhando E ela não apresentou testemunha 26 DE SETEMBRO Preparei o almoço para os filhos Eles chegaram da escola almoçaram e eu troqueime e fui no Gabinete Levei os filhos No Gabinete resolveram alugar um automovel para nos conduzir até a Rua Asdrubal do Nascimento Nós éramos sete pessoas no carro Condoeume ver uma jovem que nos acompanhava Ela disseme que faz um ano que sua mãe faleceu Que o seu pai lhe dirige uns olhares que lhe apavora E que ela tem medo de ficar com ele em casa Chegamos na Rua Asdrubal do Nascimento Eu fui falar com uma senhora que queria saber o que ocorria com o João Ela perguntou ao João se ele sabia o que era fazer porcaria Ele disse que sabia E se ele havia feito porcaria na menina Ele disse que não A funcionaria que interrogava parou de escrever e leu uns papéis Ela prosseguiu o seu interrogatório Usava o calão com o menino E as perguntas obcenas querendo que o menino descrevesse e relatasse os prazeres sexuaes Achei o interrogatório horroroso A Vera e o José Carlos ficaram perto para ouvir o que a mulher dizia Quando a funcionaria falava eu tinha a impressão que estava na favela 30 DE SETEMBRO Eu estou a espera do oficial de Justiça senhor Feliciano Godoy Ele deume umas intimações para distribuir aqui na favela A Isabel não foi porque quem bebe não obedece Ela fez as pazes com o negro dela Para ela hoje é dia de amor 3 DE OUTUBRO Deixei o leito as 5 horas porque quero votar Na ruas só se vê cédulas pelo chão Fico pensando nos desperdícios que as eleições acarreta no Brasil Eu achei mais difícil votar do que tirar o titulo E havia fila A Vera começou chorar dizendo que estava com fome O presidente da mesa disse me que nas eleições não pode levar crianças Respondi que não tinha com quem deixála 4 DE OUTUBRO Eu deixei o leito indisposta porque eu não dormi O visinho é ademarista roxo e passou a noite com o radio ligado Passei no Frigorifico para pegar ossos Graças as eleições havia muito papel nas ruas Os rádios estão transmitindo os resultados eleitoraes As urnas favorece o senhor Carvalho Pinto34 7 DE OUTUBRO Morreu um menino aqui na favela Tinha dois meses Se vivesse ia passar fome 12 DE OUTUBRO Houve briga aqui na favela porque o homem que está tomando conta da luz quer 30 cruzeiros por bico A conta da agua atinge só 1100 e ele quer cobrar 25 de cada barracão Já faz tanto tempo que estou no mundo que eu estou enjoando de viver Também com a fome que eu passo quem é que pode viver contente 16 DE OUTUBRO Vocês já sabem que eu vou carregar agua todos os dias Agora eu vou modificar o inicio da narrativa diurna isto é o que ocorreu comigo durante o dia 17 DE OUTUBRO Eu fiz os meus deveres e saí com a Vera Fui na Dona Julita buscar a cama que ela deume Ela está mais alegre porque o seu esposo está melhorando Enquanto eu estava conversando com a Dona Julita dentro de casa dois meninos carregaram a cama Corri e alcancei os meninos e tomei a cama Levei a cama e fui vender para um judeu que compra moveis usados Ele examinou a cama e disse Eu dá 20 É pouco A cama vale mais Eu dá 25 É pouco A cama vale mais Eu dá 30 É pouco A cama vale mais Eu dá 35 É pouco A cama vale mais Eu dá 40 Mais não dá Eu já estava começando a ficar nervosa com o nosso dialogo Ele deu 40 e eu fui embora e parei no portão para observar a Vera que queria mais dinheiro E dizia Se o senhor não dá mais dinheiro eu levo a cama O judeu deu um tapa no rosto da Vera e ela começou chorar Ele disse me A senhora dá um cruzeiro para ela porque eu não tenho trocado Depois que eu jantei fiquei indisposta e fui deitar Sonhei No sonho eu estava alegre 22 DE OUTUBRO O Orlando veio cobrar a água 25 cruzeiros Ele disseme que não admite atraso com ele Dei o jantar aos filhos eles foram deitarse e eu fui escrever Não podia escrever socegada com as cenas amorosas que se desenrolavam perto do meu barracão Pensei que iam quebrar a parede Fiquei horrorizada porque a mulher que estava com o Lalau é casada Pensei que mulher suja e ordinaria Homem por homem mil vezes o esposo Creio que um homem só chega para uma mulher Uma mulher que casou se precisa ser normal Esta historia das mulheres trocarse de homens como se estivesse trocando de roupa é muito feio Agora uma mulher livre que não tem compromissos pode imitar o baralho passar de mão em mão 23 DE OUTUBRO O Orlando vivia fazendo biscate Agora que passou a ser o encarregado da luz e da água deixou de trabalhar De manhã ele senta lá na torneira e fica dando palpites Eu penso ele perde porque a lingua das mulheres da favela é de amargar Não é de ossos mas quebra ossos Até o Lacerda perde para as mulheres da favela 24 DE OUTUBRO Eu fiz café e mandei o José Carlos comprar 7 cruzeiros de pão Deilhe uma cédula de 5 e 2 de aluminio o dinheiro que está circulando no paíz Fiquei nervosa quando contemplei o dinheiro de aluminio O dinheiro devia ter mais valor que os generos E no entretanto os generos tem mais valor que o dinheiro Tenho nojo tenho pavor Do dinheiro de aluminio O dinheiro sem valor Dinheiro do Juscelino Eu descancei fiz a sopa de lentilha com arroz e carne Mandei o João comprar meio quilo de açúcar o burro comprou arroz Ele passa o dia lendo Gibi e não presta atenção em nada Vive pensando que é o homem invisível Mandraque e outras porcarias 25 DE OUTUBRO A favela hoje está em festa Vai ter uma procissão Os padres enviaram uma imagem de Nossa Senhora Quem quer a imagem permanece 15 dias em cada barracão Hoje estão rezando o terço na praça A procissão vaiaté o ponto do bonde No barraco da Chica estão dançando 28 DE OUTUBRO A I separouse do esposo e está morando com a Zefa O esposo dela encontrou ela com o primo Agora a I veio comercializar o seu corpo na presença do esposo Penso a mulher que separase do esposo não deve prostituirse Deve procurar um emprego A prostituição é a derrota moral de uma mulher É como um edifício que desaba Mas tem mulher que não quer ser só de um homem Quer ser dos homens É uma unica dama dançando quadrilha com vários homens Sai dos braços de um vai para os braços de outro A Dona Maria Preta trouxe a filha para eu desinfetála Ela está com boqueira 29 DE OUTUBRO Deixei o leito as 6 horas Fiquei nervosa porque não dormi Passei a noite concertando o telhado por causa das goteiras Concertava de um lado pingava de outro Quando chove eu fico quase louca porque não posso ir catar papel para arranjar dinheiro Eu sinto muito frio Costumo vestir três palitó E tem pessoas que me vê nas ruas e diz Como você engordou Já se foi o tempo que a gente engordava A mulher do Zé Baiano primo do Ramiro contoume e pediume para eu não dizer nada a ninguém que o José lhe expulsou de casa Que já faz 20 dias que eles não falam Eu disse para ela fazer as pazes que o José é muito bom 30 DE OUTUBRO Saí com a Vera Notei anormalidade porque a Policia está nas ruas Fui conversar com um servidor municipal Ele queixouse que pagou 5 cruzeiros de ônibus Eu segui Olhando os paulistas circular pelas ruas com a fisionomia triste Não vi ninguém sorrir Hoje pode denominarse o dia da tristeza Eu comecei fazer as contas quando levar os filhos na cidade quanto eu vou gastar de bonde 3 filhos e eu 24 cruzeiros ida e Volta Pensei no arroz a 30 o quilo Uma senhora chamoume para darme papéis Disselhe que devido o aumento da condução a policia estava nas ruas Ela ficou triste Percebi que a noticia do aumento entristece todos Ela disseme Eles gastam nas eleições e depois aumentam qualquer coisa O Auro35 perdeu aumentou a carne O Adhemar perdeu aumentou as passagens Um pouquinho de cada um eles vão recuperando o que gastam Quem paga as despezas das eleições é o povo 31 DE OUTUBRO Fui carregar agua Que bom Não tem fila Porque está chovendo Vi as mulheres da favela agitadas e falando Perguntei o que havia Disseram que o Orlando Lopes o atual dono da luz havia espancado a Zefa E que ela deu parte e de foi preso Perguntei para o Geraldino se era verdade Afirmou que sim A Nena disse que o Orlando bateu na Zefa para valer Eu fui catar papel A Vera passou no Frigorífico para pedir a salchicha Ganhei 106 cruzeiros A Vera ganhou 6 cruzeiros porque ela entrou num bar para pedir agua e pensaram que ela estava pedindo esmola O Povo está dizendo que o Dr Adhemar elevou as passagens para vingar do povo porque lhe preteriram nas urnas Quando cheguei em casa os filhos já estavam em casa Esquentei a comida Era pouca E eles ficaram com fome Nos bondes que circulam vai um policial E nos ônibus também O povo não sabe revoltarse Deviam ir no Palacio do Ibirapuera36 e na Assembléia e dar uma surra nestes politicos alinhavados que não sabem administrar o país Eu estou triste porque não tenho nada para comer Não sei como havemos de fazer Se a gente trabalha passa fome se não trabalha passa fome Várias pessoas estão dizendo que precisamos matar o Dr Adhemar Que ele está prejudicando o paiz Quem viaja quatro vezes de ônibus contribui com 6000037 para a CMTC Deste geito ninguém mais pode De manhã quando eu ia saindo o Orlando e o Joaquim Paraiba vinham voltando da prisão 1 DE NOVEMBRO Achei um saco de fubá no lixo e trouxe para dar ao porco Eu já estou tão habituada com as latas de lixo que não sei passar por elas sem ver o que há dentro Hoje eu vou catar papel porque sei que não vou encontrar nada Tem um velho que circula na minha frente Ontem eu li aquela fabula da rã e a vaca38 Tenho a impressão que sou rã Queria crescer até ficar do tamanho da vaca Percebi que o povo continua achando que devemos revoltar contra os preços dos generos e não atacarmos só a CMTC Quem lê o que o Dr Adhemar disse nos jornais que foi com dor no coração que assinou o aumento diz O Adhemar está enganado Ele não tem coração Se o custo de vida continuar subindo até 1960 vamos ter revolução 2 DE NOVEMBRO Fui lavar roupas e permaneci no rio até as sete e meia A Dorça foi lavar roupas e ficamos conversando sobre as poucavergonhas que ocorrem aqui na favela Falamos da Zefa que apanha todos os dias Falei das mulheres que não trabalham e estão sempre com dinheiro Falamos do namoro do Lalau com a Dona M E a dona M diz que ele namora é com a Nena A Nena é boba Lavei as roupas de cor e vim fazer café Pensei que tinha café Não tinha A coisa que eu tenho pavor é de entrar no quartinho onde durmo porque é muito apertado Para eu varrer o quarto preciso desarmar a cama Eu varro o quartinho de 15 em 15 dias O almoço ficou pronto e os filhos não vieram almoçar O João desapareceu Percebi que ele foi no cinema Eu almocei um pouquinho Peguei um livro para eu ler Depois senti frio Fui sentar no sol Achei o sol muito quente fui sentar na sombra Conversei com um senhor Disselhe que circula um boato que a favela vai acabar porque vão fazer avenida Ele disse que não é pra já Que a Prefeitura está sem dinheiro O João chegou do cinema Deilhe uma surra e ele saiu correndo 3 DE NOVEMBRO Catei uns ferros Deixei um pouco no deposito e outro pouco eu trouxe Quando passei na banca de jornais li este slogan dos estudantes Juscelino esfola Adhemar rouba Jânio mata A Gamara apoia E o povo paga Parei na linha do trem para pegar umas latas porque eu havia deixado perto da gurita e pedi ao guarda para guardar O guarda perguntou quanto eu ia receber das latas Respondi que era 30000 Que já estou farta de biscates Ele disse que antes isso do que nada Eu disselhe que as latas de oleo eram a 7000 e agora está a 6000 Ele disse Em vez de subir desce Disse que a vida está muito cara Que até as mulheres estão caras Que quando ele quer dar uma f as mulheres quer tanto dinheiro que ele acaba desistindo Fingi que não ouvi porque eu não falo pornografia Saí sem agradecêlo Dei um banho nos filhos Eles foram deitarse E eu fui lavar as louças Depois fui escrever Senti canceira e sono Fui deitar Matei umas pulgas que estava circulando na cama e deitei E não vi mais nada Dormi umas três horas seguidas Despertei com a voz do Joaquim Paraiba que estava reclamando que arrumou uma namorada que não quer namorar no escuro Só lhe namora durante o dia e a noite perto da luz Penso Ele não está com boas intenções com a namorada 4 DE NOVEMBRO Fui catar papel Quando eu voltava parei numa banca de jornais Vi um homem chingando os policiais de burros No clichê um policial expancava um velho O jornal dizia que era um policial do DOPS39 Resolvi tomar o bonde e ir para casa Fomos falando do Dr Adhemar unico nome que está em evidencia por causa do aumento das conduções O homem disseme que os nossos políticos são carnavalescos Eu acho que o Dr Adhemar está revoltado E resolveu ser enérgico com o povo para demonstrar que ele tem força para nos castigar Eu acho que os espíritos superiores não se vingam Cheguei em casa cançada e com dor no corpo Encontrei a Vera na rua O bendito João o meu filho manequim não presta atenção em nada O barraco estava aberto e os sapatos espalhados pelo assoalho Ele não pois fogo no feijão Era 6 e meia quando o João apareceu Mandei ele acender o fogo Depois deilhe uma surra Com uma vara e uma correia E rasgueilhe os Gibis desgraçados Tipo da leitura que eu detesto 5 DE NOVEMBRO Passei no emporio vendi um litro para o senhor Eduardo por 3 cruzeiros para pagar o ônibus Quando cheguei no ponto de ônibus encontrei com o Toninho da Dona Adelaide Ele trabalha na Livraria Saraiva Disselhe Pois é Toninho os editores do Brasil não imprime o que escrevo porque sou pobre e não tenho dinheiro para pagar Por isso eu vou enviar o meu livro para os Estados Unidos Ele deume vários endereços de editoras que eu devia procurar Vinha pela rua catando os pedaços de ferro que encontrava Passei na Dona Julita e pedi comida Ela esquentou comida para mim A dona Julita deu me sopa café e pão Eu comi lá na Dona Julita Era treis horas Fiquei indisposta Os moveis girando ao meu redor É que o meu organismo não está habituado com reconfortantes Preparei a sopa para os filhos Eles dormiram antes da sopa cosinhar Quando ficou pronta desperteilhes para comer Jantamos e dormimos Eu sonhei com a Dona Julita Que havia dito para eu trabalhar para ela que ela pagavame 4 mil cruzeiros por mes Disselhe que eu ia internar os filhos E levava só a Vera Despertei Não adormeci mais Comecei sentir fome E quem está com fome não dorme Quando Jesus disse para as mulheres de Jerusalem Não Chores por mim Chorae por vós suas palavras profetisava o inverno do Senhor Juscelino Penado de agruras para o povo brasileiro Penado que o pobre há de comer o que encontrar no lixo ou então dormir com fome Você já viu um cão quando quer segurar a cauda com a boca e fica rodando sem pegála E igual o governo do Juscelino 6 DE NOVEMBRO Quando eu cheguei na Dona Julita era 8 e meia Ela deume café A Vera começou a dizer que gostava de residir numa casa igual a da Dona Julita Ela fez o almoço E eu almocei A Vera comia e dizia Que comida gostosa A comida da Dona Julita me deixa tonta Findo o serviço ela deume sabão queijo gordura e arroz Aquele arroz agulha O arroz das pessoas de posses 8 DE NOVEMBRO Fui fazer compras no japonês Comprei um quilo e meio de feijão 2 de arroz e meio de açúcar 1 sabão Mandei somar 100 cruzeiros O açúcar aumentou A palavra da moda agora é aumentou Aumentou Isto me faz lembrar esta quadrinha que o Roque fez e deume para eu incluir no meu repertório poético e dizer que é minha Político quando candidato Promete que dá aumento E o povo vê que de fato Aumenta o seu sofrimento Eu fui buscar o guardaroupa velho Quando cheguei para pegar o guardaroupa uma jovem que reside lá auxilioume a descer o guardaroupa e deume um colchão Eu não conseguia travar o guardaroupa no carrinho O João já estava começando a ficar nervoso Disse Maldita hora que eu vim buscar este guardaroupa O dono da loja de sapatos auxilioume a por o guardaroupa no carrinho Caiu porque o carrinho deslisouse Tinha uns homens da Light trabalhando Surgiu um e deume uma corda Comecei a amarrar Mas não conseguia Começou afluir pessoas para verme O João ficou nervoso com os olhares Eu olhava os empregados da Light e pensava no Brasil não tem homens Se tivesse ageitava isto aqui para mim Eu devia ter nascido no Inferno Eu puis o colchão dentro do guardaroupa Piorou Os homens da Light olhavam a minha luta E eu pensava para olhar eles prestam Pensei eu não vim ao mundo para esperar auxilios de quem quer que seja Eu tenho vencido tantas coisas sosinha hei de vencer isto aqui Hei de ageitar este guardaroupa Não estava pensando nos homens da Light Eu estava suando e sentia o odor do suor Assustei quando ouvi uma voz no meu ouvido Deixa que eu ageito para a senhora Pensei agora vai Olhei o homem e achei ele bonito Ele retirou o colchão de dentro do guardaroupa e pois no carrinho Depois pois o guarda roupa por cima para não escorregar Pegou a corda e amarrou O João ficou contente e disse Graças ao homem Eu estava chingando o senhor Manoel quando ele chegou Deume boa noite Disselhe Eu estava te chingando O senhor ouviu Não ouvi Eu estava dizendo aos filhos que eu desejava ser preta E você não é preta Eu sou Mas eu queria ser destas negras escandalosas para bater e rasgar as tuas roupas Quando ele passa uns dias sem vir aqui eu fico lhe chingando Falo quando ele chegar eu quero expancarlhe e lhe jogar agua Quando ele chega eu fico sem ação Ele disseme que quer casarse comigo Olho e penso este homem não serve para mim Parece um ator que vai entrar em cena Eu gosto dos homens que pregam pregos concertam algo na casa Mas quando eu estou deitada com ele acho que ele me serve Fiz arroz e puis agua esquentar para eu tomar banho Pensei nas palavras da mulher do Policarpo que disse que quando passa perto de mim eu estou fedendo bacalhau Disselhe que eu trabalho muito que havia carregado mais de 100 quilos de papel E estava fazendo calor E o corpo humano não presta Quem trabalha como eu tem que feder 9 DE NOVEMBRO Preparei a refeição para os filhos e fui lavar roupas Quem estava no rio era a Dorça e uma nortista que dizia que a nora estava em trabalho de parto Há treis dias E não conseguia hospital Chamaram a Radio Patrulha para internála e ainda não havia dado solução A velha dizia São Paulo não presta Se fosse no Norte era só chamar uma mulher e pronto Mas a senhora não está no Norte Precisa providenciar hospital para a mulher O marido vende na feira Mas não quer gastar com a esposa porque quer ir para o Norte e está ajuntando dinheiro 12 DE NOVEMBRO Eu ia sair mas estou tão desanimada Lavei as louças varri o barraco arrumei as camas Fiquei horrorisada com tantas pulgas Quando eu fui pegar agua contei para a D Angelina que eu havia sonhado que tinha comprado um terreno muito bonito Mas eu não queria ir residir lá porque era litoral e eu tinha medo dos filhos cair no mar Ela disseme que só mesmo no sonho é que podemos comprar terrenos No sonho eu via as palmeiras inclinandose para o mar Que bonito A coisa mais linda é o sonho Achei graça nas palavras da D Angelina que disseme a verdade O povo brasileiro só é feliz quando está dormindo 14 DE NOVEMBRO Deixei o leito às 5 horas e fui pegar agua Era só homens que estavam na torneira Ninguém falava Enchiam as vasilhas e saíam Pensei se fosse mulheres 15 DE NOVEMBRO O dia surgiu claro para todos Porque hoje não tem fumaça das fabricas para deixar o céu cinzento 17 DE NOVEMBRO A I e a C estão começando a prostituirse Com os jovens de 16 anos É uma folia Mais de 20 homens atrás delas Tem um mocinho que mora na Rua do Porto E amarelo e magro Parece um esqueleto ambulante A mãe lhe obriga a ficar só na cama porque ele é doente e cança atoa Ele sai com a mãe só para pedir esmola porque o seu aspecto comove Aquele filho amarelo é o seu ganha pão Mas até ele anda atrás da I e da C Apareceu tantos jovens de 15 e 16 anos aqui na favela que vou dar parte as autoridades Vi as moças da Fabrica de Doces tão limpinhas A I c a C podiam trabalhar Ainda não tem 18 anos São infelizes que iniciam a vida no lodo Hoje eu estou triste Deus devia dar uma alma alegre para o poeta A Pitita saiu correndo e o seu esposo atrás As crianças olham estas cenas com deleite A Pitita estava seminua E as partes que a mulher deve ocultar estava visivel Ela correu parou e pegou uma pedra Jogou no Joaquim Ele desviouse e a pedra pegou na parede por cima da cabeça da Teresinha Pensei esta nasceu de novo A Francisca começou dizendo que o Joaquim não prestava Que é homem só para fazer filho A Leila gritou que a Pitita estava brigando com o Joaquim porque ele está dormindo com a I A I está sendo disputada na favela Ela abandonou o esposo A Leila numa briga é como a gasolina no fogo Ela instiga e substitui a aranha com a sua teia Quando a Pitita briga todos saem para ver É um espetáculo pornográfico As crianças começaram a falar que a Pitita havia erguido o vestido Eu vim para dentro de casa Eu já estava deitada e ouvia a voz da Pitita A tarde na favela foi de amargar E assim as crianças ficaram sabendo que os homens fazem com as mulheres Estas coisas eles não olvidam Tenho dó destas crianças que vivem no Quarto de Despejo mais imundo que há no mundo 20 DE NOVEMBRO Olhei o céu Parece que vamos ter chuva Levantei tomei café e fui varrer o barraco Vi as mulheres olhando na direção do rio Fui ver o que era Eu estava com umas Cebolas que a Juana do Binidito deu me porque eu deilhe uns tomates Mandei a Vera guardar os tomates e fui perguntar as mulheres o que havia no rio É uma criança que não pode sair do rio Fui ver Pensei se for criança eu vou atravessar o Tietê para retirala e se for preciso nadar eu entro na agua Corri para ver o que era Era um jacá de queijo que flutuava Voltei e fui escrever 21 DE NOVEMBRO Vi várias pessoas no barracão da Leila Fui ver o que havia Perguntei para Dona Camila o que houve É a menina que morreu De que foi que morreu a menina Não sei O sono surgiu Eu deitei Despertei com um batefundo perto da minha janela Era a Ida e a Analia A briga começou lá na Leila Elas não respeitam nem a extinta O Joaquim intervio pedindo para respeitar o corpo Elas foram brigar na rua Hoje de manhã eu disse para o Seu Joaquim Purtuguês que a filha da D Mariquinha não sabia ler Ele disse F elas aprendem E aprendem sem professor Eu dei uma risada e disse Purtuguês não presta Da minha janela eu vejo a filha da Leila no seu esquife O diabo é que lá não há respeito no velorio Parece até uma festa O luar está maravilhoso A noite tépida Por isso o favelado está agitado Uns tocam sanfona outros cantam Já rezaram um terço para a filha da Leila O esquife é branco Eu vou deitar O barulho é muito mas eu vou deitar Aqui tudo é motivo para farra 22 DE NOVEMBRO Deixei o leito as 5 horas e fui carregar agua Olhei o barraco da Leila Vi o José do Pinho no meio das vagabundas Pensei um moço tão bonito No terreiro todos queixavam que o velorio da filha da Leila foi de amargar Que andaram a noite toda e não deixaram ninguém dormir Chegou o carro para levar a filha da Leila Ela começou chorar Assim que a criança saiu a Leila foi beber O que eu fico admirada é das almas da favela Bebem porque estão alegres E bebem porque estão tristes A bebida aqui é o paliativo Nas épocas funestas e nas alegrias 23 DE NOVEMBRO Preparei uns ferros para ir vender no deposito de ferro velho Dei duas viagens Ganhei 178 cruzeiros Telefonei para as Folhas40 para mandar uns repórteres na favela para expulsar uns ciganos que estão acampados aqui Eles jogam excrementos na rua As pessoas que reside perto dos ciganos estão queixando que eles falam a noite toda E não deixam ninguém dormir Eles são violentos e os favelados tem medo deles Mas eu já preveni que comigo a sopa é mais grossa Devido as mocinhas ficar nuas os vagabundos ficam sentados perto do barracão observandoas O diabo é que se alguém agredilas os ciganos revoltam Mas a nudez delas excita Parece que já estou vendo um batefundo de cigano com favelado Mil vezes os nossos vagabundos do que os ciganos 26 DE NOVEMBRO Fui pegar agua Olhei o local onde os ciganos acamparam Eles ficaram só treis dias Mas foi o bastante para nos aborrecer Eles são nojentos O local onde eles acamparam está sujo e exala mau cheiro Um odor desconhecido 27 DE NOVEMBRO Eu estou contente com os meus filhos alfabetizados Compreendem tudo O José Carlos disseme que vai ser um homem distinto e que eu vou tratalo de Seu José Já tem pretensões quer residir em alvenaria Eu fui retirar os papelões Ganhei 55 cruzeiros Quando eu retornava para a favela encontrei com uma senhora que se queixava porque foi despejada pela Prefeitura Como é horrivel ouvir um pobre lamentandose A voz do pobre não tem poesia Para reanimála eu disselhe que havia lido na Biblia que Deus disse que vai concertar o mundo Ela ficou alegre e perguntoume Quando vai ser isto Dona Carolina Que bom E eu que já queria me suicidar Disselhe para ela ter paciência e esperar que Jesus Cristo vem ao mundo para julgar os bons e os maus Ah então eu vou esperar Ela sorriu Despedime da mulher que já estava mais animada Parei para concertar o saco que deslisava da minha cabeça Contemplei a paisagem Vi as flores roxas A cor da agrura que está nos corações dos brasileiros famintos 28 DE NOVEMBRO Fui carregar agua Não tinha ninguém Só eu e a filha do T a mulher que fica gravida e ninguém sabe quem é o pai de seus filhos Ela diz que os seus filhos são filhos de seu pai 29 DE NOVEMBRO Era 11 horas quando eu fui deitar Ouvi vozes alteradas Era 2 mulheres brigando Ouvi a voz do Lalau E que ele já saiu da cadeia Já faz 3 dias que ele estava preso por causa do pato do Paulo Acho que o Lalau nunca mais há de querer pato dos visinhos 30 DE NOVEMBRO Vi um menino mechendo no pé Fui ver o que havia Era um espinho Retirei um alfinete do vestido e tirei o espinho do pé do menino Ele foi mostrar o espinho para o seu pai O menino olhoume Que olhar Pensei arranjei mais um amiguinho 5 DE DEZEMBRO A Leila contoume que a filha da Dona D está presa porque o seu esposo lhe pegou em adultério com um baiano que tem dois dentes de ouro Hoje eu estou estreando um radio Toquei o radio até as 12 Ouvi os programas de tango O Orlando ligou a luz Agora tenho de pagar 75 cruzeiros por mês porque ele cobra 25 por bico 6 DE DEZEMBRO Deixei o leito as 4 da manhã Liguei o radio para ouvir o amanhecer do tango Eu fiquei horrorisada quando ouvi as crianças comentando que o filho do senhor Joaquim foi na escola embriagado É que o menino está com 12 anos Eu hoje estou muito triste 8 DE DEZEMBRO De manhã o padre veio dizer missa Ontem ele veio com o carro capela e disse aos favelados que eles precisam ter filhos Penso porque há de ser o pobre quem há de ter filhos se filhos de pobre tem que ser operário Na minha fraca opinião quem deve ter filhos são os ricos que podem dar alvenaria para os filhos E eles podem comer o que desejam Quando o carro capela vem na favela surge vários debates sobre a religião As mulheres dizia que o padre disselhes que podem ter filhos e quando precisar de pão podem ir buscar na igreja Para o senhor vigário os filhos de pobres criam só com pão Não vestem e não calçam 11 DE DEZEMBRO Começei queixar para a Dona Maria das Coelhas que o que eu ganho não dá para tratar os meus filhos Eles não tem roupas nem o que calçar E eu não paro um minuto Cato tudo que se pode vender e a miséria continua firme ao meu lado Ela disseme que já está com nojo da vida Ouvi seus lamentos em silêncio E disselhe Nós já estamos predestinados a morrer de fome 13 DE DEZEMBRO A nortista começou queixarse que os seus filhos vão voltar para o interior porque não encontram serviço aqui em São Paulo Vão colher algodão Fiquei com dó da nortista Eu já colhi algodão Fiquei com dó da nortista 14 DE DEZEMBRO De manhã teve missa O padre disse para nós não beber porque o homem que bebe não sabe o que faz Que devemos beber limonada e agua Varias pessoas veio assistir a missa Ele disse que sente prazer de estar entre nós Mas se o padre residisse entre nós havia de expressar de outra forma 16 DE DEZEMBRO Quando eu estava conversando com o senhor Venancio presenciei uma cena repugnante A mulher daquele mulato que mora de frente ao Sr A namorando o João Nortista Aquele que tem dois dentes de ouro 18 DE DEZEMBRO Eu estava escrevendo Ela perguntoume Dona Carolina eu estou neste livro Deixa eu ver Não Quem vai ler isto é o senhor Audálio Dantas que vai publicálo E porque é que eu estou nisto Você está aqui por que naquele dia que o Armim brigou com você e começou a baterte você saiu correndo nua para a rua Ela não gostou e disseme O que é que a senhora ganha com isto Resolvi entrar para dentro de casa Olhei o céu com suas nuvens negras que estavam prestes a transformarse em chuva 19 DE DEZEMBRO Amanheci com dor de barriga e vomitando Doente e sem ter nada para comer Eu mandei o João no ferro velho vender um pouco de estopa e uns ferros Ele ganhou 23 cruzeiros Não dava nem para fazer uma sopa Que suplicio adoecer aqui na favela Pensei hoje é o meu ultimo dia em cima da terra Percebi que havia melhorado Sentei na cama e comecei catar pulgas A idéia da morte já ia se afastando E eu comecei a fazer planos para o futuro Hoje eu não saí para catar papel Seja o que Deus quiser 20 DE DEZEMBRO Dizem os velhos que no fim do mundo a vida ia ficar insípida Creio que é historia porque a Natureza ainda continua nos dando de tudo Temos as estrelas que brilham Temos o sol que nos aquece As chuvas que cai do alto para nos dar o pão de cada dia Eu preparava para deitar quando surgiu a Duca que pediume para eu dar parte do senhor Manoel porque ele comprou uma televisão e a televisão captava toda a força eletrica e deixava favela sem luz Equivoco A televisão não estava ligada Coisa que nunca hei de fazer é difamar o senhor Manoel E o homem mais distinto da favela Ele está aqui já faz 9 anos Sai de casa e vai para o trabalho Não falta ao serviço Nunca brigou com ninguém Nunca foi preso Ele é o homem mais bem remunerado da favela Trabalha para o Conde Francisco Matarazzo41 24 DE DEZEMBRO Hoje estou com sorte Tem muitos papeis na rua As 5 horas comecei vestirme para eu ir no Centro Espirita Divino Mestre receber os donativos natalinos Preparei os filhos e saí Eu ouvi vozes Estão dando cartões Corri para ver Vi os favelados rodeando um carro E o povo correndo para ganhar cartões No carro estava apenas o motorista e o povo pedia Dá um para mim Dá um para mim O motorista dizia Vocês sujam o carro Pergunteilhe O que é que o senhor está distribuindo Eu vim aqui trazer um homem Nem sei o que este povo está pedindo E que na epoca de Natal quando vem um automovel aqui eles pensam que vieram dar presentes Nunca mais hei de vir aqui no Natal disse o motorista nos olhando com repugnância Havia tantas pessoas ao redor do automovel que não pude anotar a placa No centro Espirita a fila já estava enorme quando nós chegamos Os 10 filhos de uma nortista estavam pedindo pão A Dona Maria Preta deu 15 cruzeiros para ela Ela foi comprar pão O senhor Pinheiro digníssimo presidente do Centro Espirita saiu para conversar com os indigentes Passou um senhor parou e nos olhou E disse perceptível Será que este povo é deste mundo Eu achei graça e respondi Nós somos feios e mal vestidos mas somos deste mundo Passei o olhar naquele povo para ver se apresentava aspecto humano ou aspecto de fantasma O homem seguiu sorrindo E eu fiquei analisando Quando penetramos para receber os prêmios o meu numero era 90 Eu e os demais ganhamos presentes e generos roupas chá mate batatas arroz e feijão O senhor Pinheiro convidoume para eu ir no Centro Era 9 e meia quando nós chegamos no ponto do bonde e fomos ver um presepio que fizeram na garagem que está vaga Havia uma placa onde se lia Entrada grátis Mas no presepio tinha uma bandeja com cédula de 1 a 100 Quando saí elogiei o presepio Unica coisa que eu posso fazer Quando cheguei na favela encontrei a porta aberta O luar está maravilhoso 25 DE DEZEMBRO O João entrou dizendo que estava com dor de barriga Percebi que foi por ele ter comido melancia deturpada Hoje jogaram um caminhão de melancia perto do rio Não sei porque é que estes comerciantes inconscientes vem jogar seus produtos deteriorados aqui perto da favela para as crianças ver e comer Na minha opinião os atacadistas de São Paulo estão se divertindo com o povo igual os Cesar quando torturava os cristãos Só que o Cesar da atualidade supera o Cesar do passado Os outros era perseguido pela fé E nós pela fome Naquela epoca os que não queriam morrer deixavam de amar a Cristo Mas nós não podemos deixar de comer 26 DE DEZEMBRO Aquela senhora que reside na rua Paulino Guimarães numero 308 deu uma boneca para a Vera Nós iamos passando quando ela chamou a Vera e disselhe para esperar A Vera disseme Acho que vou ganhar uma boneca Respondi E eu acho que vamos ganhar pão Eu notava a sua anciedade e curiosidade de saber o que ia ganhar A senhora saiu do interior da casa com a boneca A Vera disseme Eu não disse Eu acertei E foi correndo pegar a boneca Pegou a boneca e voltou correndo para mostrarme Ela agradeceu e disse que as meninas da favela iam ficar com inveja E que ela ia rezar todos os dias para a mulher ser feliz Que ela vai ensinar a boneca a rezar E vai levala na missa para ela rezar para a mulher ir para o céu e não ter doença que dói muito 27 DE DEZEMBRO Eu cancei de escrever adormeci Despertei com uma voz chamando Dona Maria Fiquei quieta porque não sou Maria A voz dizia Ela disse que mora no numero 9 Levantei de mau humor e fui atender Era o senhor Dario Um senhor que eu fiquei conhecendo na eleição Eu mandei o senhor Dario entrar Mas fiquei com vergonha O vaso noturno estava cheio O senhor Dario ficou horrorizado com a primitividade em que eu vivo Ele olhava tudo com assombro Mas ele deve aprender que a favela é o quarto de despejo de São Paulo E que eu sou uma despejada 28 DE DEZEMBRO Eu acendi o fogo puis agua para esquentar e comecei lavar as louças e vasculhar as paredes Encontrei um rato morto Já faz dias que eu ando atrás dele Armei a ratoeira Mas quem matou ele foi uma gata preta Ela é do senhor Antonio Sapateiro O gato é um sabio Não tem amor profundo e não deixa ninguém escravisálo E quando vai embora não retorna provando que tem opinião Se faço esta narração do gato é porque fiquei contente dela ter matado o rato que estava estragando os meus livros 29 DE DEZEMBRO Saí com o João e a Vera e o José Carlos O João levou o radio para concertar Quando eu ia na rua Pedro Vicente o guarda do deposito chamoume e disseme para eu ir buscar uns sacos de papel que estavam perto do rio Agradeci e fui ver os sacos Eram sacos de arroz que estavam nos armazéns e apodreceram Mandaram jogar fora Fiquei horrorizada vendo o arroz podre Contemplei as traças que circulavam as baratas e os ratos que corriam de um lado para outro Pensei porque é que o homem branco é tão perverso assim Ele tem dinheiro compra e põe nos armazéns Fica brincando com o povo igual gato com rato 30 DE DEZEMBRO Quando eu fui lavar as roupas encontrei com algumas mulheres que estavam comentando a coragem da Maria companheira do baiano Que se separaram e ela foi viver com outro baiano seu visinho A lingua das mulheres é um pavio Fica incendiando 31 DE DEZEMBRO Eu passei a tarde escrevendo Os meus filhos estavam jogando bola perto dos barracões Os visinhos começaram a reclamar Quando é os filhos deles que brinca eu não digo nada Eu não implico com as crianças porque eu não tenho vidraça e a bola não estraga as paredes de tabuas O José Carlos e o João estavam jogando bola A bola do Tonico A bola caiu no quintal do Vitor E a mulher do Vitor furou a bola do menino E os meninos começaram a chingar Ela pegou um revolver e correu atrás dos meninos E se o revolver disparasse Eu não vou deitar Quero ouvir a corrida de São Silvestre Eu fui na casa de um cigano que reside aqui Condoeume vêlos dormindo no solo Disse lhe para vir no meu barracão a noite que eu ia darlhe duas camas Se ele fosse durante o dia as mulheres iam transmitindo a novidade porque aqui tudo é novidade Quando a noite surgiu ele veio Disse que quer estabelecer porque quer por os filhos na escola Que ele é viuvo e gosta muito de mim Se eu quero viver ou casar com ele Abraçoume e beijoume Contemplei a sua boca adornada de ouro e platina Trocamos presentes Eu deilhe doces e roupas para os seus filhos e ele deume pimenta e perfumes A nossa palestra foi sobre arte e musica Disseme que se eu casar com ele que retirame da favela Disselhe que não me adapto a andar nas caravanas Ele disseme que é poética a existência andarilha Ele disseme que o amor de cigano é imenso igual o mar É quente igual o sol Era só o que me faltava Depois de velha virar cigana Entre eu e o cigano existe uma atração espiritual Ele não queria sair do meu barraco E se eu pudesse não lhe deixava sair Convideilhe para vir ouvir o radio Ele perguntou me se sou sozinha Respondilhe que eu tenho uma vida confusa igual um quebracabeça Ele gosta de ler Deilhe livros para ele ler Fui ver o aspecto do barracão Ficou mais agradavel depois que ele armou as camas O João foi chamarme dizendo que eu estava demorando A favela está agitada Os favelados demonstram júbilo porque findaram um ano de vida Hoje uma nortista foi para o hospital ter filhos e a criança nasceu morta Ela está tomando soro A sua mãe está chorando porque ela é filha unica Tem baile na casa do Vitor 1 DE JANEIRO DE 1959 Deixei o leito as 4 horas e fui carregar agua Fui lavar as roupas Não fiz almoço Não tem arroz A tarde vou fazer feijão com macarrão Os filhos não comeram nada Eu vou deitar porque estou com sono Era 9 horas o João despertoume para abrir a porta Hoje eu estou triste 4 DE JANEIRO Antigamente eu cantava Agora deixei de cantar porque a alegria afastouse para dar lugar a tristeza que envelhece o coração Todos os dias aparece um pobre coitado aqui na favela encosta num parente e vão vivendo O Ireno é um coitado que está com anemia Procura a esposa A esposa não lhe quer Ele disseme que a sua sogra instiga a esposa contra ele Agora ele está na casa do irmão Ele foi passar uns dias na casa da irmã Retornouse Disseme que lhe jogavam indiretas por causa da comida O Ireno disse que já está descontente da vida Porque a vida com saude já é tão pungente 5 DE JANEIRO Está chovendo Fiquei quase louca com as goteiras nas camas porque o telhado é coberto com papelões e os papelões já apodreceram As aguas estão aumentando e invadindo os quintais dos favelados 6 DE JANEIRO Deixei o leito as 4 horas liguei o radio e fui carregar agua Que suplicio entrar na agua de manhã E eu que sou frienta Mas a vida é assim mesmo Os homens estão saindo para o trabalho Levam as meias e os sapatos nas mãos As mães prendem as crianças em casa Elas ficam ansiosas para ir brincar na agua As pessoas de espirito jocoso dizem que a favela é a cidade nautica Outros dizem que é a Veneza Paulista Eu estava escrevendo quando o filho do cigano veio dizerme que o seu pai estava chamandome Fui ver o que ele queria Começou queixarse que encontra dificuldades para viver aqui em São Paulo Sai para procurar emprego e não encontra Disse que vai voltar para o Rio porque lá é melhor para viver Eu disse lhe que aqui ganhase mais dinheiro No Rio ganha mais afirmou Lá eu benzia crianças vendia carne e ganhava muito dinheiro Percebi que o cigano quando conversa com uma pessoa fala horas e horas Até a pessoa oferecer dinheiro Não é vantagem ter amisade com cigano Quando eu ia sair ele disseme para eu ficar Saí e fui no emporio Comprei arroz café e sabão Depois fui no Açougue Bom Jardim comprar carne Cheguei no açougue a caixa olhou me com um olhar descontente Tem banha Não tem Tem carne Não tem Entrou um japonês e perguntou Tem banha Ela esperou eu sair para dizerlhe Tem Voltei para a favela furiosa Então o dinheiro do favelado não tem valor Pensei hoje eu vou escrever e vou chingar a caixa desgraçada do Açougue Bom Jardim Ordinaria 7 DE JANEIRO Hoje eu fiz arroz e feijão e fritei ovos Que alegria Ao escrever isto vão pensar que no Brasil não há o que comer Nós temos Só que os preços nos impossibilita de adquirir Temos bacalhau nas vendas que ficam anos e anos a espera de compradores As moscas sujam o bacalhau Então o bacalhau apodrece e os atacadistas jogam no lixo e jogam creolina para o pobre não catar e comer Os meus filhos nunca comeu bacalhau Eles pedem Compra mamãe Mas comprar como a 180 o quilo Espero se Deus ajudarme antes deu morrer hei de comprar bacalhau para eles 8 DE JANEIRO Encontrei com o motorista que veio despejar a serragem aqui na favela Convidoume para entrar no caminhão O motorista loiro perguntoume se aqui na favela é facil arranjar mulher E se ele podia ir no meu barracão O motorista disseme que ele ainda estava em forma O ajudante dizia que o motorista já havia aposentado Despedi do motorista e voltei para a favela Acendi o fogo lavei as mãos e comecei fazer comida para os filhos 10 DE JANEIRO O senhor Manoel veio Era 8 horas Perguntoume se eu ainda converso com o cigano Respondi que sim Que ele tem terreno em Osasco e que se acabar a favela e eu não tiver onde ir poderei ir para o seu terreno Que ele admira a minha disposição e se pudesse vivia ao meu lado O senhor Manoel zangouse e disseme que não retorna mais Que eu posso ficar com o cigano O que eu admiro no cigano é a calma e a compreensão Coisa que o senhor Manoel não possue O senhor Manoel disseme que não mais aparece Vamos ver 11 DE JANEIRO Não estou gostando do meu estado espiritual Não gosto da minha mente inquieta O cigano está perturbandome Mas eu vou dominar esta simpatia Já percebi que ele quando me vê fica alegre E eu também Eu tenho a impressão que eu sou um pé de sapato e que só agora é que encontrei o outro pé Ouvi falar varias coisas dos ciganos E ele não tem as más qualidades que propalam Parece que este cigano quer hospedarse no meu coração No inicio receei a sua amisade E agora se ela medrar para mim será um prazer Se regridir eu vou sofrer Se eu pudesse ligarme a ele Ele tem dois filhos O menino acompanhame sempre Se eu vou lavar roupas ele vai comigo senta ao meu lado Os meninos da favela tem inveja quando me vê agradando o menino Agradando o filho hei de conseguir o pai O nome do cigano é Raimundo Nasceu na capital da Bahia Mas não usa peixeira Ele parece o Castro Alves Suas sobrancelhas unemse 12 DE JANEIRO Fiz a janta E dei jantar as crianças A Rosalina surgiu Veio buscar um pouco de feijão Eu dei O senhor Raimundo chegou Veio chamar os filhos Olhou as crianças jantando Eu lhe ofereci jantar Ele não quiz Pegou uma sardinha e perguntou se tinha pimenta Não ponho pimenta na comida por causa das crianças Pensei se eu estivesse sozinha davalhe um abraço Que emoção que eu sentia vendoo ao meu lado Pensei se algum dia eu for exilada e este homem indo na minha companhia ele há de suavizar o castigo Mandei a Rosalina comer sardinha Deilhe o feijão O Raimundo disse me que vai embora para a sua casa E que se um dia a favela acabar para eu procurálo Fez o mesmo convite a Rosalina Eu não apreciei Não foi egoismo Foi ciume Ele saiu e eu fiquei pensando Ele não estaciona É o seu sangue cigano Pensei se algum dia este homem for meu hei de prendêlo ao meu lado Quero apresentarlhe o mundo de outra forma 14 DE JANEIRO Circulei pelas ruas Fui na Dona Julita Fui na Cruz Azul receber o dinheiro das latas Cheguei em casa antes da chuva O senhor Raimundo mandou sua filha chamarme Troqueime e fui atendêlo Ele disse me que vai para Volta Redonda Creio que vou sentir saudades Despedime dele dizendo que precisava escrever e que não podia demorar 15 DE JANEIRO Deixei o leito as 4 horas e fui carregar agua Liguei o radio para ouvir o programa de tango O senhor Manoel disse que não vinha mais e apareceu Ele penetrou na agua para chegar até o meu barracão Resfriouse Hoje eu estou contente Ganhei dinheiro Contei até 300 Hoje eu vou comprar carne Atualmente quando o pobre come carne fica rindo atoa 16 DE JANEIRO Fui no Correio retirar os cadernos que retornaram dos Estados Unidos Cheguei na favela Triste como se tivessem mutilado os meus membros O The Reader Digest devolvia os originais A pior bofetada para quem escreve é a devolução de sua obra Para dissipar a tristeza que estava arroxeando a minha alma eu fui falar com o cigano Peguei os cadernos e o tinteiro e fui lá Disselhe que tinha retirado os originais do Correio e estava com vontade de queimar os cadernos Ele começou citar as suas aventuras Disse que vai para Volta Redonda E vai ficar na casa da jovem de 14 anos que está com ele Se a menina saía para brincar ele ia procurála olhandolhe com cuidados Eu não apreciava os seus olhares com a jovem Pensei o que será que ele quer com esta jovem Os meus filhos entravam dentro do barracão Ele estava deitado no assoalho Eu pergunteilhe se usava peixeira Não Prefiro um bom revolver como este Mostroume um revolver 32 Eu não simpatiso com revolver Deu o revolver ao João para segurar Disselhe Você é homem E o homem precisa aprender lidar com essas coisas Recomendoulhe para não dizer nada a ninguém que ele não quer que o povo da favela saiba que ele tem revolver Eu mostro para a sua mãe porque ela gosta de mim E mulher quando gosta de um homem não lhe denuncia Quando eu era soldado eu comprei este revolver O senhor já foi soldado Já Na Bahia Deixei a farda porque ganhava muito pouco Mostroume o seu retrato fardado Quando eu ia levantandome para sair ele dizia É cedo Ele mandou fazer café A mocinha disse que não tinha açúcar Eu mandei o João buscar o açúcar e manteiga Ele mandou o seu filho comprar 6 cruzeiros de pão Disse Eu nunca comi sem carne Nunca comi pão sem manteiga E aqui neste barracão eu comi Este barracão deume peso O seu filho retornouse com o pão O José Carlos entrou e começou a brigar com o seu filho Ele disse para eles não brigar que todos somos irmãos O José Carlos protestouse Eu não sou irmão dele não Vocês são irmãos por parte de Adão e Eva Ele segurou o José Carlos nos braços obrigando a deitarse ao seu lado no assoalho O José Carlos desvencilhouse e saiu para a rua Eu puis o olhar no caderno e comecei a escrever Quando ergui a cabeça o seu olhar estava pousado no rosto da mocinha Não gostei do seu olhar histérico O meu pensamento começou a desvendar a sordidez do cigano Ele tira proveito da sua beleza Sabe que as mulheres se ilude com rostos bonitos Ele atrai as mocinhas dizendo que casa com elas Satisfaz seus desejos e depois manda elas ir embora Agora eu compreendia os seus olhares com a mocinha Isto me serve de advertência Nunca hei de deixar a Vera na casa de quem quer que seja Olhei o rosto do cigano O rosto bonito Mas fiquei com nojo Era um rosto de anjo com alma de diabo Vim para o meu barraco Eu estava pondo os cadernos em cima da mesa quando senti que alguém me pegava pelas costas Era o cigano que me abraçava Beijoume na boca Os seus braços me apertavam tanto Disseme Eu voume embora Deixo as minhas roupas Você laveas para mim Quando eu voltar doute uma maquina de costura Eu não faço conta de dinheiro Sei que você vai pensar em mim e sei que você vai sentir falta de mim Sei que vou ser hospede do teu coração E você ainda vai ter oportunidade de dormir nos meus braços Enquanto ele me abraçava eu pensava este diabo devia estar era na cadeia Eu sentei na cama ele sentouse ao meu lado Eu fechei a janela e continuamos beijandonos O meu carinho representava interesse para descobrir suas atividades Ele disseme Eu venho dormir aqui Nós dois dormimos nesta cama e a minha irmã dorme no quartinho Eu não durmo com ninguém perto dos meus filhos Ele olhoume e disseme Você é boba As crianças quando deitam dormem logo Ele saiu Estava preocupado com a mocinha que ele dizia que era sua irmã não querendo perdêla de vista Percebi que ele já está habituado a seduzir as mocinhas Ele vivia mechendo com elas Estava interessado na Dirce Ele não conseguio a Dirce porque ela não lhe viu de perto Porque a sua beleza é igual o mel atraindo as abelhas Ele prometeu voltar Quero apresentálo a Dona Lei Eu fui chamar o José Carlos O cigano estava na janela A Pitita aproximouse e disselhe Você é muito bonito mas parece que não gosta disso Ela ergueu o vestido Ela estava sem calça As crianças olharam e ficaram serias O unico que sorriu foi o cigano Fiz a janta e fui procurar a Vera Ela estava lá no emporio com o cigano que comprou doces e mortadela para os seus filhos e os meus filhos Mandou o José Carlos dizer que não vinha dormir aqui Fiquei contente O senhor Manoel chegou Percebeu que eu estava nervosa Foise embora Eu deitei nervosa com o José Carlos que ainda estava na rua Dormi até meianoite Despertei pensei no filho que ainda estava na rua Hoje eu estou descontente O José Carlos chegou Eu disselhe que não ia abrirlhe a porta Que dormisse na rua Ele sentouse nos degraus Depois começou a chorar Resolvi abrirlhe a porta Era 2 horas Deilhe banho esquentei comida para ele ele foi deitarse Eu não adormeci porque estava supernervosa Estou decidida quando o cigano voltar hei de apresentálo a Dona Lei Dizem que cigano não pode ficar parado Mas a Dona Lei há de fazer ele estacionar uma temporada atrás das grades Ele há de ter tempo para pensar e repensar no que disseme Você é boba Ele prometeu trazerme um presente E eu prometo darlhe um a masmorra 17 DE JANEIRO Deixei o leito as 4 horas quando ouvi o radio do visinho tocando Comecei escrever Liguei o radio para ouvir o amanhecer do tango Despertei pensando no cigano que é pior do que o negro Não aconselho ninguém a fazer amizade com eles Acendi o fogo lavei as louças e fui carregar agua Encontrei com o senhor Adelino perguntei pelo cigano Ele brigou com o meu cunhado Ele dizia que é baiano e o meu cunhado respondia Quem é baiano sou eu Eu fui na Dona Julita Ela deume comida eu esquentei e comi Acabei de comer fiquei triste E que a comida de lá é muito forte Sopa carne e outras iguarias Quando o pobre come uma comida forte dá tontura A Dona Julita me disse que eu estava triste por causado cigano 20 DE JANEIRO Passei o dia na cama Vomitei bilis e melhorei um pouco Fui carregar agua O João ficou contente Perguntoume se eu estou melhor Fiquei com tontura deitei novamente Os filhos estão com receio de eu morrer Não me deixam sozinha Quando um sai outro vem vigiarme Dizem Eu quero ficar perto da senhora porque quando a morte chegar eu dou uma porretada nela Eles estão tão comportados Ficam confabulando Se ela morrer nós vamos para o Juiz42 O José Carlos perguntoume se a gente vê a morte chegar A Vera me mandou cantar O José Carlos foi na feira catar qualquer coisa Catou milho tomate e beringelas Eu almocei fiquei mais disposta Quando eu dou um gemido os filhos choram com medo do Juiz O José Carlos disseme Sabe mamãe quando a morte chegar eu vou pedir para ela deixar nós crescer e depois ela leva a senhora Para tranquilizálos eu disse que não ia morrer mais Ficaram alegres e foram brincar O senhor Manoel chegou Veio ver se eu melhorei Fiquei contente com a visita 3 DE FEVEREIRO Tenho de dizer que eu não escrevi nos dias que decorreram porque eu fiquei doente Vou recapitular o que ocorreu comigo nestes dias A Fernanda veio e perguntoume se eu sei onde está o cigano E a mesma coisa que ela perguntarme onde é a casa do vento Disse que ele é muito bonito e que ela ia lá comprar pimenta só para vê lo Durante os dias que eu estive doente o senhor Manoel não me deixou sem dinheiro O senhor Manoel disseme que o cigano faz muito bem em seduzir as mocinhas de 14 anos Elas dá confiança Estes dias eu fiz umas poesias Não pensas que vais conseguir o meu afeto novamente o meu odio vai evoluir criar raizes e dar semente 15 DE FEVEREIRO Hoje eu estou mais animada Estou rindo Achando graça do sururu que houve aqui na favela Esta noite a Leila começou insultar o baiano senhor Valdomiro Chingou até as 2 horas Ele resolveu espancála Foi no seu barracão arrebentou a porta Quando a Leila foi saltar prendeu um pé no peitoril da janela Hoje o tal Orlando Lopes veio cobrar a luz Quer cobrar ferro 25 cruzeiros Eu disselhe que não passo roupas Ele disseme que sabe que eu tenho ferro Que vai ligar o fio de chumbo na luz e se eu ligar o ferro a luz queima e ele não liga mais Disse que ligou a luz para mim e não cobrou deposito Mas o deposito já foi abolido desde 1948 Ele disse que pode cobrar deposito porque a Light deulhe plenos poderes Que ele pode cobrar o que quiser dos favelados 16 DE FEVEREIRO Quando eu dirigiame para casa vi varias pessoas olhando na mesma direção Pensei é briga Corri para ver o que era Era o Arnaldo e o baiano O Arnaldo apanhava igual uma criança Interferi e procurei separálos A Juana do Binidito Onça veio auxiliarme Vários homens olhavam e ninguém interferia O baiano deu duas cacetadas no Arnaldo Surgiu o Armim que disse que ia matar o baiano Tentei impedilo segurandolhe o braço Ele deume um empurrão Eu deixei ele ir mas gritava Não vai que o baiano te mata Resolvi chamar a Policia Saí correndo Creio que corria mais depressa do que o Manoel Faria43 Cheguei na 12ª Delegacia gritando Briga na favela Estão brigando a foice Eu estava com nojo de retomar a favela Mas precisava voltar porque havia deixado os meus filhos Quando eu descia para o Inferno as mulheres dizia A Policia já desceu Quando cheguei na favela o povo me olhava A Dona Sebastiana chingava Estava embriagada Dizia que ela degolava o baiano Eu dizia para ela não chegar que ela ia morrer Ela começou a chingarme Negra ordinaria Você não é advogada não é repórter e se mete em tudo O povo gritava O baiano fugiu Surgiu o Antonio vulgo Bonitão Pediume se eu tinha uma calça para emprestarlhe porque ele havia molhado quando saiu correndo atrás do baiano Comecei a procurar a calça para o Bonitão Deilhe a calça e saí Fui no barraco do Arnaldo perguntar se ele havia retornado da Central porque ele e o Armim havia ido na Assistência 23 DE FEVEREIRO Na rua o povo perguntava o que houve na favela Eu explicava Eu estava impaciente porque não sabia o paradeiro do baiano Eu queria que ele se entregasse a Policia Quando cheguei na favela os comentários ferviam O povo dizia que o Armim tinha morrido Fui na Estação do Norte O baiano surgiu Perguntoume pela sua esposa disselhe que estava comigo Que ele podia ir para a favela que ninguém ia lhe fazer mal Ele disseme que estava sem comer Deilhe 25 cruzeiros Perguntou se o Armim tinha morrido Não Está em Pirituba Ele disse pesaroso Ah Eu não presto Está se vendo que eu não faço o serviço completo Esta historia de machucar só e não matar logo só serve para arranjar inimigo Eu não conheço o homem que eu dei a foiçada Eu não quero ficar lá porque ele há de querer me matar e a Policia há de querer me prender Mas você tem que prestar declarações na Policia Se você for preso e eu estiver perto hei de favorecerte 29 DE ABRIL Hoje eu estou disposta O que me entristece é o suicidio do senhor Tomás Coitado Suicidouse porque cansou de sofrer com o custo da vida Quando eu encontro algo no lixo que eu posso comer eu como Eu não tenho coragem de suicidarme E não posso morrer de fome Eu parei de escrever o Diário porque fíquei desiludida E por falta de tempo 1 DE MAIO Deixei o leito as 4 horas Lavei as louças e fui carregar agua Não havia fila Não tenho radio não vou ouvir o desfile Hoje é o Dia do Trabalho 2 DE MAIO Ontem eu comprei açúcar e bananas Os meus filhos comeram banana com açúcar porque não tinha gordura para fazer comida Pensei no senhor Tomás que suicidouse Mas se os pobres do Brasil resolver suicidarse porque estão passando fome não ficaria nenhum vivo 3 DE MAIO Hoje é domingo Eu vou passar o dia em casa Não tenho nada para comer Hoje eu estou nervosa desorientada e triste Tem um purtuguês que quer morar comigo Mas eu não preciso de homem Eu já lhe supliquei para não vir aborrecerme Hoje o Frei veio rezar a missa na favela Ele pois nome na favela de Bairro do Rosário Vem varias pessoas ouvir a missa No sermão o padre pede ao povo para não roubar O senhor Manoel chegou e começamos a conversar Falei de uma menina de um ano e meio que não pode ver ninguém mover a boca que pergunta O que é que você está comendo E a ultima filha do Binidito Onça Percebi que a menina vai ser inteligente 4 DE MAIO Deixei o leito as 6 horas porque o senhor Manoel quando dorme aqui não deixa eu levantar cedo Eu não nasci ambiciosa Recordei este trecho da Biblia Não acumules tesouros porque lá estará o teu coração Sempre ouvi dizer que o rico não tem tranquilidade de espirito Mas o pobre também não tem porque luta para arranjar dinheiro para comer 5 DE MAIO Escrevi até as 2 horas Depois fui carregar agua Enchi a barrica e as latas Fiz uma trempe de tropeiro e puis agua a ferver para pelar o porco Comecei pensar no que ia preparar chouriço lombo assado e couro de porco no feijão Fiquei contente Eu ia comer carne na realidade Comecei cantar cantei Fiquei pensando quanto tempo que eu não como carne de porco Fui ver se o senhor Manoel estava em casa para matar o porco Não estava Fiquei nervosa Chegou o irmão do senhor Manoel dono do porco Vinha buscar a sua parte Eu engordei o porco a meia Encontrei com o Orlando Lopes Pedi se ele podia matar o porco para mim Disse que sim Eu voltei alegre O Orlando surgiu Foi até o chiqueiro olhou o porco Assim que o porco lhe viu deu um ronco Ficou agitado Comecei a agradálo mas ele estava agitado O Orlando amarroulhe uma corda no pé Retiraram o porco para fora O Orlando deulhe uma punhalada Vendo o sangue correr peguei uma bacia para aproveitálo para fazer chouriço Contemplava o extertor do porco que não queria exalar o último suspiro O Orlando deulhe outra facada Esperamos ele morrer Os minutos passavam Eles pelaram e quando abriram o porco eu fiquei contente A criançada invadiu o quintal As mulheres surgiram dizendo que queriam um pedaço O Chiclé queria as tripas Eu não vou vender nem dar Eu engordei este porco para os meus filhos Eles protestavam Surgiu a Maria mãe da Analia pediu se eu podia vender um pedaço de toucinho Não vou vender Quando você engordou e matou o teu porco eu não fui aborrecerte Ela começou dizer que queria só o toucinho Perpassei o olhar no povo que fitava o toucinho igual a raposa quando fita uma galinha Pensei e se eles invadir o quintal Resolvi levar o toucinho para dentro de casa o mais depressa possível Fitei as tabuas do barraco que já estão podres Se eles invadir adeus barraco Juro que fiquei com medo dos favelados A Vera não foi no parque porque queria ver matar o porco Os filhos retornaram da escola e perguntaram Mamãe a senhora matou o porco Matei O Ninho disse que foi 3 facadas e 2 pauladas Os meus sorriam Eu também Dei uns pedaços para o Orlando e para o senhor Antonio Sapateiro Fiz bifes para os filhos A carne estava em cima da mesa Cobri com um pano O João disse Parece uma pessoa morta Eu disse Eu vou lavar a barrigada e você não sai daqui por causa dos gatos A Vera acompanhoume Eu fui lavar na lagoa O José Carlos surgiu ensineilhe a virar as tripas A Vera sorria vendo a agua circular dentro da tripa do porco O José Carlos perguntava se o nosso corpo é igual o corpo do porco Afirmei que o interior do porco é igual ao do homem Então o porco já foi homem Não sei Voltei para casa porque estava cançada Percebi que a Maria estava com inveja por eu ter matado o porco A Vera queria jantar fiz arroz e ela comeu com carne O João moeu o toucinho Eu puis para fritar O João adormeceu Fiquei olhando seus pés sujos que estavam pendendo da cama Lavei os meus braços e o meu rosto que estava gorduroso Escovei 05 dentes e fui deitar Era 2 horas da manhã 6 DE MAIO As 9 e meia o repórter surgiu Bradei O senhor disse que estaria aqui as 9 e meia e não atrasouse Disselhe que varias pessoas queriam vêlo porque apreciam as suas reportagens Entramos num taxi A Vera estava contente porque estava de carro Descemos no Largo do Arouche e o repórter começou fotografarme Levoume no prédio da Academia Paulista de Letras Eu sentei na porta e puis o saco de papel a esquerda O porteiro apareceu e disse para eu sair da porta O porteiro pegou o meu saco de catar papel o saco que para mim tem um valor inestimável porque é por seu intermédio que eu ganho o pão de cada dia O repórter surgiu e disse que foi ele quem me mandou eu sentar no degrau O porteiro disse que não tinha permissão para deixar que quem quer que fosse sentarse na porta do prédio Fomos na Rua 7 de Abril e o repórter comprou uma boneca para a Vera Eu disse aos balconistas que escrevi um diário que vai ser divulgado no O Cruzeiro44 7 DE MAIO Lavei todas as roupas Jurei nunca mais matar porco na favela Eu estou tão nervosa que recordei o meu provérbio não há coisa pior na vida do que a própria vida Favela sucursal do Inferno ou o proprio Inferno Para o jantar fiz feijão arroz e carne A Vera está tão contente porque temos carne Quando as crianças me vê pedem Carolina me dá carne Cães e gatos rondam o meu barracão Eu estou cançada Vou deitar Adormeci Despertei com o Adalberto que está ebrio Batia no barraco e pedia Carolina me dá um pedaço de carne de porco Que odio E eu com tanto sono Fiquei ouvindo ele cantar Depois adormeci novamente Despertei com algo que passeava por cima das cobertas Acendi a luz Era um gato Não mais deitei Fiquei escrevendo até o raiar do dia Quando ouvi aquele homem que passa dizendo Olha o pão doce 8 DE MAIO Fiz arroz e lombo de porco porque não tenho feijão Tomei banho e trocavame para ir na cidade Quando eu ia saindo a Vera penetrouse e disse que não tinha expediente no Parque Antes de sair recordei que devia dar comida para a cachorrinha Olhei ela que estava deitada Deilhe um pedaço de carne e tentei despertála Ela estava morta Morreu de tanto comer carne Fui no Juiz Receber o dinheiro que o pai da Vera me dá por intermédio do Juizado O advogado não quiz me dar a Ficha Sem a ficha eu não atendo E bateu a porta no meu rosto Fui falar com o advogado que o Dr Walter não queria atenderme sem a ficha Ele mandou um guarda acompanharme e disseme Muito bem Carolina Põe todo o mundo no Diário Acompanhei o guarda que disse para o Dr Walter Aymberê que devia atenderme sem a ficha Não atendo Se não trazer a ficha vou falar com o advogado chefe A Vera assustouse e disse Que homem Porque é que a gente precisa de advogado mamãe Eu disse para o guarda deixar Eu vou embora O Dr Walter já está no meu Diário Ele é muito grosseiro Fui na Tesouraria para receber o dinheiro Quando chegou a minha vez não encontrei o dinheiro A Vera queria comprar um vestido Eu disselhe que o seu pai não havia levado o dinheiro Ela ficou triste e disse Mamãe o meu pai não presta 10 DE MAIO Eu não dormi porque o visinho tocou o radio toda a noite E a L fez um fuá dos diabos Ela estava dormindo com o Valdemar quando o Arnaldo chegou Era 2 horas O Arnaldo dizia Vai embora Valdemar A negra é minha O Valdemar respondia A negra é nossa Eu cheguei primeiro 12 DE MAIO Eu fui na Dona Julita e ela deume café e arroz Quando eu retornava encontrei com a Dona Maria aquela que cata papel na fabrica de pudim Ela disseme que roubaramlhe um saco de papel Fiquei com dó Encontrei com o Capitão Pergunteilhe porque havia abandonado o seu lar Ele disseme com a voz triste Sabe Carolina eu não pretendia deixar o meu lar Mas a ingratidão da minha esposa obrigoume a tomar esta decisão E contoume o motivo Eu disselhe Ela não fez bom negocio trocandote por outro Ele disseme Se eu continuasse no meu lar um dia ou outro eu tinha que matar aquele canalha Eu acho que aquele homem que interferiuse no lar do Capitão para destruilo não presta 28 DE MAIO A vida é igual um livro Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu A minha até aqui tem sido preta Preta é a minha pele Preto é o lugar onde eu moro 29 DE MAIO O Adalberto errou o quarto Em vez de entrar no dele entrou no quartinho da Aparecida E os favelados queriam retirálo de lá porque se o Negrão chegasse havia de espancálo Eu fui retirálo de lá porque ele me obedece Resolveu sair Quando eu fui deitálo ele disse Sabe Carolina eu sou um homem infeliz Depois que morreu Marina nunca mais ninguém me quiz Eu dei uma risada porque percebi que ele havia falado e formado uma quadrinha Parei de rir porque a tristeza de sua voz comoveume Marina foi uma mulher negra que viveu com ele Bebia muito E morreu tuberculosa com 21 anos 1 DE JUNHO Hoje eu não fui trabalhar porque a Vera e o José Carlos estão doentes Eu fui vender uns ferros e um pouco de estopa Ganhei só 31 cruzeiros 2 DE JUNHO Hoje eu não vou sair porque os filhos ainda estão doentes As quatro da manhã a Vera começou tussir Levantei e fiz um mingau de fubá para ela 3 DE JUNHO De manhã eu carreguei só um caldeirão com agua Fiz café Mandei o João comprar um tinteiro e duas agulhas O José Carlos está melhor e vai para a escola Eu deixei a Vera Vou sair porque eu tenho só um pouquinho de feijão sal e meio quilo de açúcar 4 DE JUNHO O senhor Manoel chegou Agora eu estou lhe tratando bem porque percebi que gosto dele Passei vários dias sem vêlo e senti saudades A saudade é amostra do afeto A Dona Adelaide veio trazer a minha blusa de lã e ficou admirada vendo o senhor Manoel dentro de casa Ele é quieto Fala baixinho e anda muito bem vestido Ela me olhava e olhava ele Ele com seus sapatos reluzentes E eu suja parecendo um marginal de rua Ela ficou horrorizada porque eu durmo com ele Ela me olhou com repugnância quando eu disse que ele vai me dar uma maquina de costura e um radio O senhor é solteiro Sou Para a senhora ele está bem porque ele é solteiro e a senhora também Percebi que a sua intenção era diminuirme aos olhos dele Mas ela chegou tarde demais porque a nossa amizade é igual uma raiz que segura uma planta na terra Já está firme Dormi com ele E a noite foi deliciosa 5 DE JUNHO Quando cheguei em casa fiz sopa de aveia A Vera chorou Não queria comer aveia Dizia Eu não gosto Deilhe uma surra e ela comeu Fomos deitar As 10 da noite começou o espetáculo na favela Aparecida a nova visinha bebeu muito e começou a brigar com a Leila Os homens da Leila queriam invadir o barracão dela Ela foi chamar a cavalaria O Adalberto levantouse para socorrer a Leila Começou falar Quando ouviram o tropel da cavalaria silenciaram O Euclides o negro preto que mora com a Aparecida é horrivel quando bebe Fala por cem Eu dou tiro Eu mato Quando ele parou de falar era 3 horas da manhã O visinho ligou o radio Eu não dormi com o sururu da favela Até as crianças despertaram Ouvi no radio o desastre da Central De manhã o José Carlos disse que tinha vontade de ver um encontro de trens Eu disselhe Não pense nisso Coitados dos operários 8 DE JUNHO Quando cheguei e abri a porta vi um bilhete Conheci a letra do repórter Perguntei a Dona Nena se ele esteve aqui Disse que sim O bilhete dizia que a reportagem vai sair no dia 10 no Cruzeiro Que o livro vai ser editado Fiquei emocionada O senhor Manoel chegou Disselhe que a reportagem vai sair 4ª feira e que o repórter quer levar o livro para imprimir Eles ganham dinheiro nas tuas costas e não te pagam Eles estão te embrulhando Você não deve entregarlhe o livro Eu não imprecionei com as ironias do senhor Manoel 9 DE JUNHO Eu disse para a Mulata e a Circe que a reportagem vai sair amanhã Eu vou gastar 15 cruzeiros para comprar o Cruzeiro e se eu não encontrar a reportagem você me paga Eu disse para a Dona Celestina que a mulher do CocaCola disse que tudo que eu escrevo ela escreve também A Dona Celestina disse que não sabe se ela escreve Que eu ela sabe que escrevo Eu estava ensinando contas para os filhos quando bateram na janela O João disse Mamãe atende o homem de oculos Fui ver Era o pai da Vera Entra Por onde entra aqui Dá a volta Ele entrou E perpassou o olhar pelo barracão Perguntou Você não sente frio aqui Isto aqui não chove Chove mas eu vou tolerando Você me escreveu que a menina estava doente eu vim visitála Obrigado pelas cartas Te agradeço porque você me protege e não revela o meu nome no teu diário Ele deu dinheiro aos filhos e eles foram comprar balas Nós ficamos sozinhos Quando os meninos voltaram a Vera disse que quer ser pianista Ele sorriu Então você quer ser granfina Ele sorriu porque os filhos dele são músicos A Vera pediu um radio Ele disse que dá um no Natal Quando ele saiu eu fiquei nervosa Depois cantei e fui comprar pão para os filhos Eles comeram E fomos deitar Eu disse para o pai da Vera que ia sair no Cruzeiro Ele deu 100 cruzeiros O José Carlos achou pouco porque ele estava com notas de 1000 10 DE JUNHO Hoje eu não vou sair porque o barraco está muito sujo Eu vou limpálo Varri o assoalho e as teias de aranha Pentiei os meus cabelos Os filhos foram na escola Quando os filhos chegaram almoçaram O João foi levar almoço para a Vera Eu disse para ele olhar se a reportagem havia saido no Cruzeiro Eu estava com medo da reportagem não ter saido e as pessoas que eu avisei para comprar o Cruzeiro dizer que eu sou pernóstica O João quando retornouse disse que a reportagem havia saido Vasculhei os bolsos procurando dinheiro Tinha 13 cruzeiros Faltava 2 O senhor Luis emprestoume E o João foi buscar O meu coração ficou oscilando igual as molas de um relogio O que será que eles escreveram a meu respeito Quando o João voltou com a revista li Retrato da favela no Diário da Carolina Li o artigo e sorri Pensei no repórter e pretendo agradecêlo Troquei roupas e fui na cidade receber o dinheiro da Vera Na cidade eu disse para os jornaleiros que a reportagem do O Cruzeiro era minha Fui receber o dinheiro e avisei o tesoureiro que eu estava no O Cruzeiro Eu estava impaciente porque havia deixado os meus filhos e na favela atualmente tem um espirito de porco Tomei o ônibus e quando cheguei no ponto final a jornaleira disse que as negrinhas da favela havia me chingado que eu estava desmoralizando a favela Fui no parque buscar a Vera E mostreilhe a revista Eu fui comprar meio quilo de carne Quando voltei para a favela passei no Emporio do senhor Eduardo Mostrei a revista para os operários do Erigorifico O João disseme que o Orlando Lopes o atual encarregado da luz havia me chingado Disse que eu fiquei devendo 4 meses Fui falar com o Orlando Ele disseme que eu puis na revista que ele não trabalha Que historia é esta que eu fíquei devendo 4 meses de luz e agua Ficou sim sua nojenta Sua vagabunda Eu escrevo porque preciso mostrar aos políticos as péssimas qualidades de vocês E eu vou contar ao repórter Eu não tenho medo daquele puto daquele fresco Que nojo que eu senti do tal Orlando Lopes Vim para o meu barraco Fiz uns bifes e os filhos comeram Eu jantei Depois cantei a valsa Rio Grande do Sul 11 DE JUNHO Levantei e fui carregar agua Depois fui fazer compras Troquei os filhos eles foram para a escola Eu não queria sair mas estou com pouco dinheiro Precisei sair Quando circulava pelas ruas o povo abordavame para dizer que havia me visto no O Cruzeiro Eu fui na banca e comprei uma revista Mostrei para o farmacêutico Eu comprei outra revista e fui levar para o José do Bar dos Esportes Ele comprou a revista Eu passei na banca e comprei outra Mostrei para o sapateiro Ele sorriu Passei no emporio do José Martins e falei se ele queria ler a revista Deixa aí Depois vamos ler Dei jantar para os filhos e sentei na cama para escrever Bateram na porta Mandei o João ver quem era e disse Entra negra Ela não é negra mamãe E uma mulher branquinha e está com 0 Cruzeiro na mão Ela entrou Uma loira muito bonita Disseme que havia lido a reportagem no O Cruzeiro e queria levarme no Diáriopara conseguir auxilio para mim Na redação eu fiquei emocionada O senhor Antonio fica no terceiro andar na sala do Dr Assis Chatobriand45 Ele deume revista para eu ler Depois foi buscar uma refeição para mim Bife batatas e saladas Eu comendo o que sonhei Estou na sala bonita A realidade é muito mais bonita do que o sonho Depois fomos na redação e fotografaramme Prometeramme que eu vou sair no Diário da Noite amanhã Eu estou tão alegre Parece que a minha vida estava suja e agora estão lavando 13 DE JUNHO Eu saí Fui catar um pouco de papel Ouço varias pessoas dizer E aquela que está no O Cruzeirol Mas como está suja Conversei com os operários Desfiz as caixas de papelão ensaquei outros papéis Ganhei 100 cruzeiros As moças do deposito começaram a cantar Carolina hum hum hum O Leon disse Ela saiu no O Cruzeiro Com ela agora é mais cruzeiro Eles te pagaram Vão darme uma casa Vai esperando Fiquei pensando num preto que é meu visinho O senhor Euclides Ele disseme Dona Carolina eu gosto muito da senhora A senhora quer escrever muitos livros Oh se quero Mas a senhora não tem quem te dê nada Precisa trabalhar Eu preciso trabalhar e escrevo nas horas vagas Eu vejo que a sua vida é muito sacrificada Eu já estou habituada Se a senhora quizer ficar comigo eu peço esmolas e te sustento E de dinheiro que as mulheres gostam E dinheiro eu arranjo para você Eu não tenho ninguém que gosta de mim Eu sou aleijado Eu gosto muito da senhora A senhora tá dentro da minha cabeça Tá dentro do meu coração Quando ele ia me dar um abraço afastei 16 DE JUNHO Hoje não temos nada para comer Queria convidar os filhos para suicidarnos Desisti Olhei meus filhos e fiquei com dó Eles estão cheios de vida Quem vive precisa comer Fiquei nervosa pensando será que Deus esqueceume Será que ele ficou de mal comigo 18 DE JUNHO O barraco da Aparecida é o ponto para reunir os pinguços Beberam e depois brigaram O Lalau disse que eu ponho varias pessoas no jornal mas ele eu não ponho Se você me por no jornal eu te quebro toda vagabunda Esta negra precisa sair daqui da favela A Aparecida veio dizer que o João mandou ela tomar no Eu disse Vocês são as professoras Quando bebem falam coisas horríveis 19 DE JUNHO O senhor Manoel apareceu Disse que comprou a revista para ver o meu retrato Quiz saber se o repórter deume algo Não mas vai dar Eu não acredito Só creio quando eu ver Eu disselhe que só depois que o livro circular é que o escritor recebe 22 DE JUNHO Saí triste porque não tinha nada em casa para comer Olhei o céu Graças a Deus não vai chover Hoje é segundafeira Tem muitos papéis nas ruas No ponto do bonde eu me separei da Vera Ela disse Faz comida que eu vou chegar com fome A frase comida ficou eclodindo dentro do meu cerebro Parece que o meu pensamento repetia Comida Comida Comida Dizem que o Brasil já foi bom Mas eu não sou da epoca do Brasil bom Hoje eu fui me olhar no espelho Fiquei horrorizada O meu rosto é quase igual ao de minha saudosa mãe E estou sem dente Magra Pudera O medo de morrer de fome 25 DE JUNHO Voltei para o meu barraco imundo Olhava o meu barraco envelhecido As tabuas negras e podres Pensei está igual a minha vida Quando eu preparava para escrever o tal Orlando surgiu e disse que queria o dinheiro Deilhe 100 cruzeiros Eu quero 250 Quero o deposito Eu não pago deposito porque já foi abolido pela Light Então eu corto a luz E desligoua 27 DE JUNHO O tal Orlando Lopes passava de bicicleta Os meus filhos falaram Olha o Orlando Eu disselhes Eu não vou olhar este nojento Ele ouviu e respondeu Nojento é a puta que te pariu Eu disselhe que ia escrever e não podia perder tempo com vagabundos Fechei a porta 29 DE JUNHO Hoje eu amanheci rouca Era 4 horas quando eu fui pegar agua porque o tal Orlando Lopes disse que não deixa eu pegar agua Puis agua para fazer café Estou só com 18 cruzeiros Estou tão triste Se eu pudesse mudar desta favela Isto é obra do Diabo Aqui já morou homens malvados mas este tal de Orlando suplantaos Hoje eu passei o dia escrevendo Contei quantos barracões tem na favela para ver quanto este tal Orlando Lopes vai arrecadar se os favelados pagarlhe os 150 cruzeiros de deposito Contei 119 barracões com luz O céu está maravilhoso Azul claro e com nuvens brancas esparsas Os balões tom suas cores variadas percorrem o espaço As crianças ficam agitadas quando um balão vem desprendendose Como é lindo o dia de São Pedro Porque será que os santos juninos são homenageados com fogos O tal Orlando Lopes passou na minha rua Ele disse que tudo que eu falo dele as mulheres lhe conta São umas idiotas Eu quero defendêlas porque há ladrões de toda especie Mas elas não compreendem 30 DE JUNHO Aquele preto que cata verdura no Mercado veio venderme umas batatas murchas e brotadas Olhandoas vi que ninguém ia comprar Pensei este pobre deve ter vagado inutilmente sem conseguir dinheiro para a refeição Pergunteilhe se queria comida Quero Dirigiume um olhar tão terno como se estivesse olhando uma santa Esquentei macarrão bofe e torresmo para ele 1 DE JULHO Eu estou cançada e enojada da favela Eu disse para o senhor Manoel que eu estou passando tantos apuros O pai da Vera é rico podia ajudarme um pouco Ele pede para eu não divulgarlhe o nome no Diário não divulgo Podia reconhecer o meu silêncio E se eu fosse uma destas pretas escandalosas e chegasse lá na oficina e fizesse um escandalo Dá dinheiro para a tua filha 2 DE JULHO Levantei acendi o fogo e mandei o João comprar 10 de açúcar Bateram no barracão Os filhos falaram E o pai da Vera É o papai ela sorria para ele Eu é que não fiquei com a tal visita Ele disseme que não levou o dinheiro lá no Juiz porque não teve tempo Mostreilhe os sapatos da Vera que estão furados e a agua penetra Quanto pagou isto 240 É caro Ele deume 120 cruzeiros e 20 para cada filho Ele mandou os filhos comprar doces para nós ficarmos sozinhos Tem hora que eu tenho desgosto de ser mulher Dei graças a Deus quando ele despediuse 3 DE JULHO Não tem gordura Hoje acabouse a gordura do porco E agora tenho que comprar gordura Tomei banho e fui deitar Que noite horrivel A tal Terezinha e o companheiro não nos deixou dormir Eu não sei onde eles arranjaram uma galinha E discutiam Vai Euclides depenar a galinha Vai você E ficaram nesta lengalenga até as 2 da madrugada 6 DE JULHO O senhor Manoel saiu E eu fiquei deitada Depois levantei e fui carregar agua Que nojo Ficar ouvindo as mulheres falar Falaram da D que ela namora qualquer um Que a R irmã do B pertence aos homens Falamos do J P que quer amasiarse com a sua filha I Ele mostra para a filha e convida Vem minha filha Dá para o seu papaizinho Dá só um pouquinho Eu já estou cançada de ouvir isto porque infelizmente eu sou visinha do J P É um homem que não pode ser admitido numa casa onde tem crianças Eu disse E por isso que eu digo que a favela é o chiqueiro de São Paulo Enchi minha lata e zarpei dando graças a Deus por sair da torneira A C disse que pediu dinheiro ao seu pai para comprar um par de sapatos e ele disse Se você me dar a eu te dou 100 Ela deu E ele deulhe só 50 Ela rasgou o dinheiro e a I catou os pedaços e colou Por isso que eu digo que a favela é o Gabinete do Diabo Fiz o almoço depois fui escrever Estou nervosa O mundo está tão insipido que eu tenho vontade de morrer Fiquei sentada no sol para aquecer Com as agruras da vida somos uns infelizes perambulando aqui neste mundo Sentindo frio interior e exterior Percebi que estava me reanimando Quando anoiteceu eu fiquei alegre Cantei O João e o José Carlos tomaram parte Os visinhos ebrios interferiram com suas vozes desafinadas Cantamos a Jardineira 7 DE JULHO A Dona Angelina Preta estava dizendo que vai vender o seu barraco e vai mudar para Guaianazes Que não suporta mais morar na rua A Fiquei contente ouvindo ela dizer que vai mudar Até eu o dia que me mudar hei de queimar incenso para agradecer a Deus Hei de fazer jejum mental pensar só nas coisas boas que agradam a Deus 11 DE JULHO Era 7 horas da noite Os filhos estavam na rua O João penetrou veloz como se estivesse sendo impelido pelo foguete russo46 Disse Mamãe o José Carlos vai para o Juiz de Menores Porque Ele jogou uma pedra na vidraça da fabrica de peças de automovel e quebrou E o nortista que toma conta da fabrica disse que vai mandalo para o Juiz Pensei uma vidraça qualquer mãe pode pagar Levantei vesti o casaco peguei o dinheiro e puis no bolso Peguei a revista com a minha reportagem e saí Fui ver a vidraça Estava quebrada E a pedra foi arremessada com estilingue E o furo na vidraça ficou oval O vigia da fabrica abriu a janela e viu o João e perguntou O que é que você está fazendo aqui Sou eu que vim ver o furo da vidraça O nortista começou a falar Eu dizia para o José Carlos o que ele foi fazer lá que anda atoa e arranja encrenca Perguntei ao nortista se havia batido nele Respondeume que não O José Carlos dizia que ele havia lhe apertado o braço Eu acreditei no meu filho Em geral as mães acreditam nos filhos 12 DE JULHO Minha luta hoje foi para fazer almoço Não tenho gordura Deixei a carne cosinhar e puis linguiça junto para fritar e apurar gordura para fazer o arroz e o feijão Temperei a salada com caldo de carne Os filhos gostaram Quando a Vera come carne fica alegre e canta 13 DE JULHO Comprei 30 cruzeiros de carne e fiquei nervosa porque os 30 que sobrou não vai dar para comprar gordura e arroz Estava apreensiva receando que meus filhos brigassem com os visinhos Quando cheguei eles estavam sentados dentro do chiqueiro lendo gibi Ouvi a voz da Dona Adelaide Dizia aos meus filhos Vocês pararam de brigar Perguntei a Vera o que havia e com quem brigaram Ela relatou que o João e o José Carlos brigaram Que deixaram o violão cair no chão e puseram perfume no fogo para acender Quebraram a escova de lavar o assoalho e abriram um pacote de tinta verde que eu estou guardando Não sei pra que mas estou guardando Puis brasas no ferro passei a minha saia verde lavei a blusa de renda que eu achei no lixo tomei banho e troqueime Troquei a Vera e fomos para a cidade Eu estava só com 6 cruzeiros Pensava e se o pai da Vera não levou o dinheiro como é que eu vou voltar Fui receber o dinheiro da Vera Que fila Era as mulheres que iam receber as mensalidades dos esposos e dos pais de seus filhos Eu tenho que dizer nossos filhos porque eu também estava no núcleo Dizem que quem entra na restea vira cebola As mulheres falavam dos esposos E lá que os homens tomam nomes de animaes O meu é um cavalo bruto e ordinário E o meu é um burro Aquele desgraçado Outro dia ele viajou na Central e eu pedi a Deus para acontecer um desastre e ele morrer e ir pro Inferno Perguntei a uma mulher que estava atrás de mim Quem é o seu advogado Dr Walter Aymberê Ele é o meu também Mas eu não gosto dele Eu recebi o grande dinheiro 250 cruzeiros A Vera sorria e dizia Agora eu gosto do meu pai Passei na sapataria e comprei um par de sapatos para a Vera Quando o senhor Manoel um nortista lhe experimentava os sapatos ela dizia Sapato não acaba porque depois a mamãe custa a comprar outro E eu não gosto de andar descalça Passei no emporio do senhor Eduardo e comprei um quilo de arroz Sobrou só 7 cruzeiros Só na cidade eu gastei 25 A cidade é um morcego que chupa o nosso sangue 15 DE JULHO Quando eu deixava o leito a Vera já estava acordada e perguntoume Mamãe é hoje que eu faço anos É E meus parabéns Desejote felicidades A senhora vai fazer um bolo para mim Não sei Se eu arranjar dinheiro Acendi o fogo e fui carregar agua As mulheres reclamavam que a agua é pouca Os lixeiros já haviam passado Catei pouco papel Passei na fabrica para catar estopas Comecei sentir tontura Resolvi ir na casa da Dona Angelina pedir um pouco de café A Dona Angelina deume Quando eu saí disselhe que já estava melhor É fome Você precisa comer Mas o que se ganha não dá Já emagreci 8 quilos Eu não tenho carne e o pouco que tenho desaparece Peguei os papéis e saí Quando passei diante de uma vitrine vi o meu reflexo Desviei o olhar porque tinha a impressão de estar vendo um fantasma Eu fritei peixe e fiz polenta para os filhos comer com peixe Quando a Vera chegou viu a polenta dentro da marmita e perguntou E o bolo Hoje eu faço anos Não é bolo E polenta Polenta eu não gosto Ela trouxe leite Eu deilhe leite com polenta Ela comeu chorando Quem sou eu para fazer bolo 18 DE JULHO Quando eu ia catar papel encontrei a Dona Binidita mãe da Nena preta Eu digo Nena preta porque nós temos aqui na favela a Nena branca Começamos a falar do menino que morreu nos fios da Light Ela disseme que foi o filho da Laura do Vicentão Oh exclamei Porque conhecia o menino e a sua historia de filho engeitado Aí vai a historia do infausto Miguel Colona Quando a Laura foi para a maternidade ter filho o seu nasceu e morreu Ela ficou triste porque queria criar o filho E chorava Ao seu lado uma mulher jovem teve um filho E chorava com inveja da Laura Ela é que desejava que o seu filho nascesse e morresse Mas o seu filho estava vivo Aquelas lagrimas preocupou a Laura que interrogoulhe Porque chora se o teu filho está vivo e é bonito A mulher disse que veio do Norte Virgem Chegou em São Paulo arranjou aquele filho E o pai da criança não queria casarse com ela Que seus pais queriam que ela voltasse para o Norte E ela ia voltar para o Norte mas não queria levar o filho Se a Laura queria o menino ela davao A Laura aceitou Ficou tão contente como se tivesse ganho todo o ouro que existe no mundo Quando ela saiu da maternidade revelou que o seu filho morreu e ela ganhou aquele Ela era boa para ele Comprou televisão porque ele insistiu Ele estava com 9 anos e no 2º primário E agora foi arrebatado tragicamente pela morte Temos só um geito de nascer e muitos de morrer Hoje tem muito papel no lixo Tem tantos catadores de papéis nas ruas Tem os que catam e deitamse embriagados Conversei com um catador de papel Porque é que não guarda o dinheiro que ganha Ele olhoume com o seu olhar de tristeza A senhora me faz rir Já foi o tempo que a gente podia guardar dinheiro Eu sou um infeliz Com a vida que levo não posso ter aspiração Não posso ter um lar porque um lar inicia com dois depois vai multiplicando Ele olhoume e disseme Porque falamos disso O nosso mundo é a margem Sabe onde estou dormindo Debaixo das pontes Eu estou doido Eu quero morrer Quantos anos tem 24 Mas já enjoei da vida Segui pensando quem escreve gosta de coisas bonitas Eu só encontro tristezas e lamentos 22 DE JULHO Eu estava deitada Era 5 horas quando a Teresinha e o Euclides começaram a falar Adalberto Levanta e vai comprar pinga O Euclides disse Você não vai escrever Não vai catar papel Levanta para você escrever a vida dos outros Eu levantei peguei um pau de vassoura e fui falarlhe para não aborrecerme que eu estou cançada de tanto trabalhar E dei umas cacetadas no barraco Ele calou e não disse mais nada 26 DE JULHO Era 19 horas quando o senhor Alexandre começou a brigar com a sua esposa Dizia que ela havia deixado seu relogio cair no chão e quebrarse Foi alterando a voz e começou a espancála Ela pedia socorro Eu não imprecionei porque já estou acostumada com os espetáculos que ele representa A Dona Rosa correu para socorrer Em um minuto a noticia circulou que um homem estava matando a mulher Ele deulhe com um ferro na cabeça O sangue jorrava Fiquei nervosa O meu coração parecia a mola de um trem em movimento Deume dor de cabeça Os homens pularam a cerca para impedilo de bater na pobre mulher Abriram a porta da frente e as mulheres e as crianças invadiram O Alexandre saiu lá de dentro enfurecido e disse Vão embora cambada Estão pensando que isso aqui é a casa da sogra Todos correram Era uns 20 querendo passar na porta As crianças ele chutou A Vera recebeu um chute e caiu de quatro Os filhos da Juana foram chutados Os favelados começaram a rir A cena não era para rir Não era comedia Era drama 28 DE JULHO Eu fui escrever Ninguém aborreceume hoje Quando o crepúsculo vinha surgindo eu fui procurar a Vera Os favelados estavam reunidos na rua apreciando a briga da Leila e da Pitita com uma negrinha que apareceu por aqui Mas eu já estou enfastiada de brigas E tantas brigas na favela A luz da favela estava acesa E a porta do barracão da Leila estava fechada Vi varias crianças olhando pela fresta Queria ir ver Mas há certas coisas que desabonam o adulto Quando o José Carlos entrou disse Eu tenho uma coisa para contar O que é Eu vi o Chico fazendo bobagem com a P Não dei margem ao assunto Ele prosseguia O Chico fazia bobagem com a P e a Vanilda estava perto olhando A Vanilda tem 2 anos 30 DE JULHO Escrevi até tarde porque estou sem sono Quando deitei adormeci logo e sonhei que estava noutra casa E eu tinha tudo Sacos de feijão Eu olhava os sacos e sorria Eu dizia para o João Agora podemos dar um pontapé na miséria E gritei Vai embora miséria A Vera despertouse e perguntou Quem é que a senhora está mandando irse embora 31 DE JULHO Comprei 20 de carne gorda porque eu não tenho gordura Passei no emporio do senhor Eduardo para comprar 1 quilo de arroz Deixei os sacos na calçada A Vera pois a carne em cima do saco o cachorro pegou Chinguei a Vera Ordinaria preguiçosa Hoje você vai comer m Ela dizia Deixa mamãe Quando eu encontrar o cachorro eu bato nele Quando cheguei em casa estava com tanta fome Surgiu um gato miando Olhei e pensei eu nunca comi gato mas se este estivesse numa panela ensopado com cebola tomate juro que comia Porque a fome é a pior coisa do mundo Eu disse para os filhos que hoje nós não vamos comer Eles ficaram tristes 1 DE AGOSTO Eu deitei mas não dormi Estava tão cançada Ouvi um ruido dentro do barraco Levantei para ver o que era Era um gato Eu ri porque eu não tenho nada para comer Fiquei com dó do gato 4 DE AGOSTO Amanheceu chovendo Eu fiz café e mandei o João comprar 15 cruzeiros de pão Emprestei 15 para o Adalberto Não carreguei agua Já enjoei de ficar naquela fila desgraçada Deixei a Vera deitada Estava chovendo uma chuva miudinha e fria Eu achei um par de sapatos no lixo e estou usando Quando eu ia catar papel a Dona Esmeralda pediume 20 emprestado Deilhe 30 cruzeiros porque ela tem 7 filhos e o esposo está no Juqueri47 Saí e fui no roteiro habitual Fui catando papel ferros e estopas Encontrei um cego Há quantos anos perdeste a vista 10 anos Achou ruim Não Porque tudo que Deus faz é bom Qual foi a causa da perda visual Fraqueza E não teve possibilidade de cura Não Só se fizer transplantação Mas é preciso encontrar quem me dê os olhos Então o senhor já viu o sol as flores e o céu cheio de estrelas Já vi Graças a Deus 6 DE AGOSTO Hoje é o aniversário do José Carlos 9 anos Ele é de 1950 Tempo bom Mas ele quer ter 10 anos porque quer namorar a Clarinda Eu saí Levei a Vera Catei papéis achei um par de sapatos no lixo Vendi por 20 cruzeiros Voltei para a favela Comprei meio quilo de carne Fiz bife Almocei 7 DE AGOSTO Catei 2 sacos de papel e ganhei 45 cruzeiros Fiquei desesperada O que é que eu vou fazer com 45 cruzeiros Catei um pouco de estopa e voltei Eu fui no ferro velho vender as estopas Ganhei 33 cruzeiros Estava indecisa pensando o que ia fazer para comer Eu estava lavando as louças quando bateram na porta O José Carlos disse E a Dona Teresinha Becker Ela deume 500 cruzeiros Eu disselhe que ia comprar sapatos para o José Carlos e agradeci Lhe acompanhei até o automóvel Eu fui conversar com a Chica e mostreilhe os 500 cruzeiros e disselhe que a Dona Teresinha é a minha mãe branca 8 DE AGOSTO Morreu um menino aqui na favela O sepultamento foi 9 horas Os negros que iam acompanhar o extinto alugaram um caminhão e levaram violão pandeiro e pinga O Zirico dizia Japonês quando morre os vivos cantam Então vamos cantar também A pior praga da favela atualmente são os ladrões Roubam a noite e dormem durante o dia Se eu fosse homem não deixava os meus filhos residir nesta espelunca Se Deus auxiliarme hei de sair daqui e não hei de olhar para trás 12 DE AGOSTO Troqueime e fui receber o dinheiro da Vera O senhor Luiz emprestoume 3 cruzeiros Achei 1 no bolso ficou 4 cruzeiros Eu queria ir de ônibus encontrei com um favelado muito bom pedi 1 cruzeiro emprestado Ele deume 2 cruzeiros Fui de ônibus Fui na chuva porque eu não tenho guardachuva Na cidade eu ouvia o povo reclamar contra a falta de feijão Que os atacadistas estão sonegando o produto ao povo E os preços atuais Isto não é mundo para o pobre viver Quando cheguei no Juizado o senhor J A M V o pai da Vera não levou o dinheiro O pai da Vera sempre me pede para eu não por o nome dele no jornal Que ele tem vários empregados e não quer ver o nome propalado Mas ele não contribui para eu ocultar o seu nome Ele está bem de vida e dá só 230 cruzeiros para a Vera Ele só aparece quando eu saio nos jornais Vem saber quanto eu ganhei 13 DE AGOSTO Levantei as 6 horas Estava furiosa com a vida Com vontade de chorar porque eu não tenho dinheiro para comprar pão Os filhos foram na escola Eu saí sozinha Deixei a Vera porque vai chover Fui catar estopas e fui catar papelões Ganhei 30 cruzeiros Fiquei triste pensando o que hei de fazer com 30 cruzeiros Estava com fome Tomei uma media com pão doce Voltei para a favela Quando eu cheguei a Vera estava na janela olhando as maquinas da Vera Cruz48que vieram filmar o Promessinha Vi varias pessoas olhando as cenas Fui ver Quando eu ia chegando os vagabundos disseram Olha a Elisabety Thaylor Vão criticar o Diabo Voltei e fui esquentar comida para os filhos Arroz e peixe O arroz e o peixe era pouco Os filhos comeram e ficaram com fome Pensei Se Jesus Cristo pudesse multiplicar estes peixes O senhor Manoel apareceu Quando eu voltava do deposito de papel ele vinha acompanhandome Deume 200 cruzeiros eu não quiz aceitar Você não me quer mais Eu tenho muito serviço Não posso preocupar com homens Meu ideal é comprar uma casa decente para os meus filhos Eu nunca tive sorte com homens Por isso não amei ninguém Os homens que passaram na minha vida só arranjaram complicações para mim Filhos para eu criálos Ele despediuse e pegou os 200 cruzeiros e saiu Lavei as louças Depois fui no deposito de ferro velho vender estopas e ferros Ganhei 21 cruzeiros Fui ver a filmagem do documentário do Promessinha Pedi os nomes dos diretores do filme para por no meu diário As mulheres da favela perguntavamme Carolina é verdade que vão acabar a favela Não Eles estão fazendo uma fita de cinema O que se nota é que ninguém gosta da favela mas precisa dela Eu olhava o pavor estampado nos rostos dos favelados Eles estão filmando as proezas do Promessinha Mas o Promessinha não é da nossa favela Quando os artistas foram almoçar os favelados queriam invadir e tomar as comidas dos artistas Pudera Frangos empadinhas carne assada cervejas Admirei a polidez dos artistas da Vera Cruz E uma companhia cinematográfica nacional Merece deferencia especial Permaneceram o dia todo na favela A favela superlotouse E os visinhos de alvenaria ficaram comentando que os intelectuais dão preferencia aos favelados As pessoas que olhavam a filmagem faziam tanto barulho O Bonito veio ver a filmagem Pergunteilhe se já foi filmado porque ele é cantor Não porque não sou popular 15 DE AGOSTO As mulheres chingavam os artistas Estes vagabundos vieram sujar a nossa porta As pessoas que passavam na via Dutra e viam os bombeiros vinham ver se era incêndio ou se era alguém que havia morrido afogado O povo dizia Estão filmando o Promessinha Mas o titulo do filme é Cidade Ameaçada49 16 DE AGOSTO Passei a tarde escrevendo Lavei todas as roupas Hoje eu estou alegre Tem festa no barraco de um nortista E a favela está superlotada de nortistas O Orlando Lopes está girando pela favela Quer dinheiro Ele cobra a luz no cambio negro E tem pessoas aqui na favela que estão passando fome 26 DE AGOSTO A pior coisa do mundo é a fome 31 DE DEZEMBRO Levantei as 3 e meia e fui carregar agua Despertei os filhos eles tomaram café Saimos O João foi catando papel porque quer dinheiro para ir no cinema Que suplicio carregar 3 sacos de papéis Ganhamos 80 cruzeiros Dei 30 ao João Eu fui fazer compras porque amanhã é dia de Ano Comprei arroz sabão querosene e açúcar O João e a Vera deitaramse Eu fiquei escrevendo O sono surgiu eu adormeci Despertei com o apito da Gazetaanunciando o Ano Novo Pensei nas corridas e no Manoel de Faria Pedi a Deus para ele ganhar a corrida Pedi para abençoar o Brasil Espero que 1960 seja melhor do que 1959 Sofremos tanto no 1959 que dá para a gente dizer Vai vai mesmo Eu não quero você mais Nunca mais 1 DE JANEIRO DE 1960 Levantei as 5 horas e fui carregar agua O CAROLINA DE JESUS QUARTO DE DESPEJO MUITOS PRESENTES E UM NATAL CLÁUDIA É comum a expressão voz do povo Também se popularizou a expressão voz do morro uma referência à musicalidade nem sempre carnavalesca dos sambistas favelados do Rio de Janeiro Não seria injusto que se falasse em portavoz da favela se se quisesse explicar em poucas palavras quem é a autora de Quarto de despejo Ao escrever um diário um gênero de texto em princípio pessoal e intransferível Carolina Maria de Jesus ultrapassou os limites individuais e deu voz à coletividade miserável e anônima que habita os barracos e os vãos das pontes nas grandes cidades brasileiras A partir da narração de seu diaadia acabou por traçar um painel variado da vida dos favelados e de sua luta pela sobrevivência Mais do que isso com sua linguagem simples e objetiva a que os erros gramaticais apenas conferem maior realismo atingiu momentos de grande lirismo e força expressiva inscrevendose sem sombra de dúvida na literatura brasileira Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais por volta de 1915 Foi empregada doméstica em São Paulo onde mais tarde passou a catar papel e outros tipos de lixo reaproveitáveis para sobreviver Em reportagem sobre a favela do Canindé onde vivia Carolina o repórter Audálio Dantas a conheceu e descobriu que a favelada escrevia um diário Surpreso com a força do texto o jornalista apresentouo a um editor Uma vez publicado o livro trouxe fama e algum dinheiro para Carolina O suficiente para deixar a favela mas não o bastante para escapar à pobreza Quase esquecida pelo público e a imprensa a escritora morreu num pequeno sítio na periferia de São Paulo em 14 de agosto de 1977 A entrevista que segue foi organizada a partir de depoimentos e textos da autora e reproduz fielmente a linguagem dos originais Por que a senhora começou a escrever Quando eu não tinha nada o que comer em vez de xingar eu escrevia Tem pessoas que quando estão nervosas xingam ou pensam na morte como solução Eu escrevia o meu diário Como surgiu seu interesse pela literatura Seria uma deslealdade de minha parte não revelar que o meu amor pela literatura foime incutido por minha professora dona Lanita Salvina que aconselhavame para eu ler e escrever tudo que surgisse na minha mente E consultasse o dicionário quando ignorasse a origem de uma palavra Que as pessoas instruídas vivem com mais facilidade O que significou a literatura para sua vida A transição de minha vida foi impulsionada pelos livros Tive uma infância atribulada É por intermédio dos livros que adquirimos boas maneiras e formamos nosso caráter Se não fosse por intermédio dos livros que deume boa formação eu teria me transviado porque passei 23 anos mesclada com os marginais QUANDO EU NÃO TINHA NADA O QUE COMER EM VEZ DE XINGAR EU ESCREVIA Como é que uma pessoa que não teve educação escolar consegue compreender e expressar tão bem a realidade dos pobres e dos miseráveis Não é preciso ser letrado para compreender que o custo de vida está nos oprimindo A senhora pensava em publicar o que escrevia Como é que a senhora fazia e como foi que conseguiu a publicação afinai Cansei de suplicar às editoras do país e pedi à editora Seleções do Readers Digest nos Estados Unidos se queria publicar meus livros em troca de casa e comida e enviei uns manuscritos para eles ler Devolveramme Depois que conheci o repórter Audálio Dantas tudo transformouse E eu enalteço o repórter por gratidão A FAVELA É O QUARTO DE DESPEJO DE UMA CIDADE NÓS OS POBRES SOMOS OS TRASTES VELHOS O que a senhora sentiu quando viu o livro Quarto de despejo pronto encadernado com seu texto em letras de imprensa Fiquei alegre olhando o livro e disse o que eu sempre invejei nos livros foi o nome do autor E li o meu nome na capa do livro Carolina Maria de Jesus Diário de uma favelada Quarto de despejo Fiquei emocionada É preciso gostar de livros para sentir o que eu senti De onde veio a idéia para o titulo de seu livro E que em 1948 quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios nós os pobres que residíamos nas habitações coletivas fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes É porisso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade Nós os pobres somos os trastes velhos Ao que a senhora atribui o sucesso de público do seu Quarto de despejo Eu não sei o que eles acham no meu diário Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados Fico pensando o que será Quarto de despejo umas coisas que eu escrevia há tanto tempo para desafogar as misérias que enlaçavamme igual o cipó quando enlaça as árvores unindo todas Depois da publicação a senhora ficou famosa Passou a frequentar ambientes diferentes do da favela Conheceu intelectuais políticos gente rica Foi difícil seu contato com esse outro tipo de gente Não Conversamos e eu fui perdendo o acanhamento e tinha a impressão de estar no céu A minha cor preta não foi obstáculo para mim E nem os meus trajes humildes Chegavam repórteres entrevistavam me fotografavamme ficavam lendo trechos do meu diário E o seu relacionamento com o pessoal da favela mudou depois da fama Muita gente passou a achar que eu fiquei rica Procuravamme como se eu fosse dona de uma fortuna Queriam propor negócios malucos Queriam pedir empréstimos pedir auxílios descabidos O que me dói é que se aproximam fantasiados de honestos Pedem exigem quase como se eu não fosse apenas mãe da Vera do João e do José Carlos mas a mãe de todos Pedem e depois não pagam A atriz Ruth de Souza à esquerda interpretou Carolina de Jesus na versão teatral de O quarto de despejo ESCREVO A MISÉRIA E A VIDA INFAUSTA DOS FAVELADOS Mas foi bom mudar de vida escapar da miséria e conhecer um mundo diferente daquele da favela Decepção Pensei que houvesse mais idealismo menos inveja Mas aqui há não só muita ambição mas também o desejo de vencer a qualquer preço Mesmo que os meios empregados sejam podres Quando matei um porco lá na favela do Canindé alguns vizinhos exigiram um pedaço de carne Rondavam meu barraco feito bicho que fareja presa Lá na favela era o porco aqui é o dinheiro No fundo é a mesma coisa Lembrei do meu provérbio Não há coisa pior na vida do que a própria vida Em seu livro a senhora além de mostrar a realidade dos favelados falo mal dos políticos dos poderosos A senhora sendo pobre e desprotegida não tinha medo de fazer essas denúncias e acusações Eu era revoltada não acreditava em ninguém Odiava os políticos e os patrões porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre Eu sabia que ia angariar inimigos porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura Seja o que Deus quiser Eu escrevi a realidade Casa de alvenaria Rio de Janeiro Francisco Alves 1961 Provérbios São Paulo Átila 1963 Pedaços da fome São Paulo Átila 1963 Diário de Bitita Rio de Janeiro Nova Fronteira sd Notas 1 Na época o campo do São Paulo Futebol Clube localizavase no bairro do Canindé onde hoje é o estádio da Portuguesa de Desportos NE 2 Carlos Lacerda 19141977 político carioca opositor ferrenho do segundo governo de Getúlio Vargas Em 1954 sofreu um atentado em que morreu o major Rubens Vaz fato que desencadeou grave crise política no país NE 3 Na verdade Partido Socialista Brasileiro que tinha apoiado Jânio Quadros ao governo do estado no ano anterior e que agora apoiava Juarez Távora à Presidência da República NE 4 Jânio Quadros 191719921 vereador e deputado estadual por São Paulo foi prefeito da capital e governador do estado antes de chegar à Presidência da República em 1961 renunciando sete meses depois de assumir o cargo N E 5 Ademar de Barros 19011969 político paulista foi por duas vezes governador do estado NE 6 Companhia Fabricadora de Papel fundada por Maurício Klabin um dos pioneiros da industrialização no país NE 7 Medicamento indicado como laxante ou purgante NE 8 Referência às radionovelas dramas radiofônicos de grande popularidade no Brasil no período do pósguerra até meados da década de 50 NE 9 Juscelino Kubitschek 19021976 presidente da República entre 1956 e 1961 No seu governo buscou o desenvolvimento do país peta abertura aos investimentos estrangeiros e transferiu o Distrito Federa para Brasília NE 10 Campos do Jordão estância climática paulista tradicionalmente procurada para tratamento de tuberculose NE 11 Referência ao palácio do Catete situado no Rio de Janeiro e na época residência oficial do presidente da República NE 12 Na rua Asdrúbal do Nascimento funcionava na época o Juizado de Menores NE 13 O correto é salsa o mesmo que salgada NE 14 Referência ao famoso cangaceiro que com seu bando dominou várias cidades nordestinas saqueando o comércio e atacando fazendas no início do século NE 15 O termo baianos referese aqui aos nordestinos em geral Com esse mesmo sentido a autora usa também a palavra nortista NE 16 Referência à esquistossomose doença parasitária que provoca diarréias e aumento do fígado e do baço NE 17 Referência ao incidente ocorrido no cais de Santa Rita PE envolvendo o deputado Ney Maranhão que durante uma discussão acabou matando um homem NE 18 Tratase do príncipe Míkasa irmão mais novo do então imperador Hirohito que visitou o país por ocasião dos 50 anos da imigração japonesa no Brasil NE 19 Companhia Municipal de Transportes Coletivos NE 20 Na verdade a Copa do Mundo de Futebol de 1958 que acabou sendo vencida pelo Brasil realizouse na Suécia A Suíça sediou a copa de 1954 NE 21 A brincadeira se justifica Baltazar era o apelido do centroavante do Corinthians e Pelé ainda em início de carreira no Santos já se destacava como um grande jogador NE 22 Comissão de Abastecimento e Preços órgão governamental que distribuía produtos a preços abaixo do mercado N E 23 Até 1971 os quatro primeiros anos do atuai curso de 1 grau constituíam o curso primário a que se seguia o ginasial também com a duração de quatro anos NE 24 Referência ao padre Donizetti que com fama de milagroso atraía muitos fieis até a cidade paulista de Tambaú onde morava N E 25 O atleta paulista Ademar Ferreira da Silva foi medalha de ouro nas olimpíadas de 1952 e 1956 e estabeleceu por três vezes o recorde mundial do salto triplo NE 26 O General Teixeira Lott era o Ministro da Guerra do Brasil em 1958 quando o Oriente Médio vivia sérios conflitos provocados pela queda do rei do Iraque Tropas estrangeiras eram enviadas à região NE 27 A princesa Margareth irmã mais nova da rainha escandalizou a sociedade britânica com seus casos amorosos e quebras de protocolo Casouse com um plebeu de quem logo se divorciou N E 28 O mesmo que ambulância NE 29 Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes de Carga hoje extinto NE 30 Nelson Eddy 19011978 cantor e ator de cinema americano formou com Jeanette MacDonald uma popular dupla em operetas e comédias musicais N E 31 A autora referese ao playground instalado pela prefeitura na favela do Canindé NE 32 Tratase de Giovanni Gronchi presidente da Itália de 1955 a 1962 NE 33 O jornalista Audálio Dantas na época repórter da Folha da Manhã e da revista O Cruzeiro foi quem descobriu os manuscritos da autora e encaminhouos para publicação NE 34 Carlos Alberto de Carvalho Pinto 19101987 foi efetivamente eleito governador de São Paulo em 1958 Seria ainda Ministro da Fazenda e senador N E 35 Auro Soares de Moura Andrade 19151982 deputado federal e senador por São Paulo NE 36 Na época o Gabinete do prefeito de São Paulo NE 37 O cálculo se refere ao gasto mensal com ônibus NE 38 Segundo a fábula a rã avista um boi e inveja seu grande tamanho começa a inchar a pele rugosa enquanto pergunta a seus filhos se já está maior do que o boi De tanto se esforçar a rã acaba morrendo NE 39 Departamento de Ordem Política e Social encarregado de reprimir manifestações políticas NE 40 Referência ao grupo de jornais Folhas formado por Folha da Noite Folha da Manhã e Folha da Tarde NE 41 O imigrante italiano Francisco Matarazzo foi um dos pioneiros da Industrialização no país e criador de um dos maiores complexos fabris to América Latina NE 42 Juizado de Menores N E 43 O atleta português Manoel de Faria venceu por duas vezes a Corrida Internacional de São Silvestre realizada nas ruas de São Paulo no último dia do ano NE 44 A revista O Cruzeiro criada em 1928 foi por muito tempo o mais importante semanário do Brasil contando com a colaboração dos maiores escritores do país NE 45 Assis Chateaubriand fundou em 1924 a cadeia jornalística Diários Associados que chegou a reunir mais de 34 jornais em todo o pais atém de diversas estações de rádio emissoras de televisão e revistas Foi o fundador do Museu de Arte de São Paulo NE 46 Em fins de 1957 a URSS lançou o primeiro satélite artificial da Terra e fogo em seguida mandou ao espaço uma cadela fatos que marcaram o inicio da corrida espacial N E 47 Famoso hospital psiquiátrico paulista localizado no bairro do Juqueri na cidade de Franco da Rocha N E 48 A companhia cinematográfica Vera Cruz foi fundada em 1949 na cidade de São Bernardo do Campo SP Vítima de grave crise financeira veio a encerrar suas atividades em 1955 Assim a informação da aurora é equivocada NE 49 Esse filme grande fracasso de bilheteria serviu para lançar no mercado o diretor Roberto Farias considerado precursor do Cinema Novo entre nós NE Table of Contents 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49

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