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Propostas aos gurus Elaborar um resumo de cada texto contendo no máximo duas laudas cada resumo Dos arquivos que enviei Copyright 2004 by Éditions Flammarion Copyright da tradução 2005 by Editora Globo SA Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma seja mecânico ou eletrônico fotocópia gravação etc nem apropriada ou estocada em sistema de bancos de dados sem a expressa autorização da editora Texto fixado conforme as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa Decreto Legislativo nº 54 de 1995 Título original La civilization féodale de lan mil à la colonization de lAmerique Preparação Beatriz de Freitas Moreira Revisão Valquíria Della Pozza Maria Sylvia Corrêa Índice remissivo Luciano Marchiori Capa Ettore Bottini sobre iluminuras de Les très riches heures du Duc de Berry 141016 dos irmãos Limbourg Musée Condé Château de Chantilly 3ª reimpressão 2011 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Baschet Jérôme A civilização feudal do ano 1000 à colonização da América Jérôme Baschet tradução Marcelo Rede prefácio Jacques Le Goff São Paulo Globo 2006 Título original La civilization féodale de lan mil à la colonization de lAmerique ISBN 9788525041395 1 Civilização medieval 2 Europa História medieval 3 Idade Média I Le Goff Jacques II Título 061863 CDD9401 Índice para catálogo sistemático 1 Civilização medieval História 9401 Direitos de edição em língua portuguesa para o Brasil adquiridos por Editora Globo SA Av Jaguaré 1485 05346902 São Paulo SP wwwglobolivroscombr que a oposição tradicional se desfaça assim em sua Apologética Las Casas afirma que a intenção dos que honram ídolos não é de honrar pedras mas de venerar pela religião entendamos aqui pela devoção nelas como nas virtudes divinas este ordenador do mundo seja qual for Destruindo a argumentação tradicional contra a idolatria ele afirma que esta não é somente suscitada pela perversão do diabo mas também pelo desejo natural de procurar Deus Resulta disso uma situação paradoxal pois Las Casas denuncia a idolatria dos índios que ignoram o verdadeiro Deus ao mesmo tempo que reconhece existir em seus atos uma devoção tão autêntica se não maior que a dos cristãos O fato de que para ele a palavra idolatria possa ser associada a termos positivos tais como veneração e devoção ou seu sinônimo religião transgride o sistema de valores estabelecido durante a Idade Média Mas a obra de Las Casas é excepcional e de pouco efeito sobre a atitude da Igreja colonial Ainda no século XVII os bispos das Índias tomam consciência dos limites da evangelização e engajamse em uma luta para extirpar a idolatria da qual descobrem os traços persistentes por exemplo Nuñez de la Vega sucessor de Las Casas em Chiapas Tratavase então fundamentalmente para bem conduzir a obra de conquista de destruir os ídolos dos índios e impor por todo lado as imagens cristãs aproveitandose das similitudes de seu funcionamento evitando no entanto as ambiguidades excessivamente flagrantes É verdade que existem diferenças importantes especialmente porque a noção indígena de ixtapla em língua nahuatl designa tanto a estátua do deus como seus representantes humanos o sacerdote o homemdeus ou o sacrifício que se torna o deus mas também porque ao lado das estátuas que dão forma às divindades outros objetos sagrados os bultos asseguram sua presença sem possuir a menor dimensão mimética o que explica que os espanhóis não lhes tenham absolutamente dado atenção embora sua sacralidade fosse maior do que a das estátuas que eles destruíam com fúria Também no mundo ameríndio as imagens eram formas de presença do divino sem ser o próprio deus As imagens dos deuses devem ser consideradas objetos sagrados capazes de servir de traço de união entre os homens e as divindades Alfredo López Austin OS MECANISMOS DA REPRESENTAÇÃO Após ter evocado a diversificação qualitativa e a expansão quantitativa das imagens convém analisar o alcance desse desenvolvimento das imagens na sociedade medieval Lugares de imagens lugares de culto Se toda imagem na Idade Média adere a um objeto ou a um lugar um aspecto determinante de seu funcionamento diz respeito ao fato de que ela constitui sua decoração e visa celebrar a importância funcional e simbólica dos objetos ou dos lugares onde ela aparece JeanClaude Bonne Assim a riqueza da decoração do Palácio dos Papas de Avignon e em particular o cuidado de Clemente VI para que todos os seus muros ou quase todos fossem ornados de pinturas correspondia a uma intenção muito consciente que fazia do fausto uma arma poderosa Pode ser que o conteúdo das imagens não seja percebido aqui para que o poderio do pontífice seja manifesto é suficiente que se seja atingido pela riqueza e pela profusão da decoração este poder impõese mesmo àqueles que sem penetrar no palácio sabem por ouvir dizer qual é o seu luxo e tentam imaginálo Habitando o palácio mais imponente da cristandade o papa reforça que ele é seu chefe supremo Mais genericamente as imagens ou aquilo que é melhor chamar aqui de decoração é uma espécie de honra prestada ao objetosuporte que indica ao mesmo tempo a posição e o prestígio da pessoa ou da instituição que as utilizam Nesse sentido o ornamental noção da qual JeanClaude Bonne mostrou o caráter operatório é um instrumento de hierarquização dos indivíduos e dos poderes tanto terrestres como celestes Ele elucida as justas relações e as proporções que convêm à ordem harmoniosa do universo que os clérigos pensam na sequência de Agostinho como uma musica No Ocidente medieval sobretudo a partir do século XI os objetos e os lugares que são os mais faustosamente honrados pelas imagens são as igrejas e seu mobiliário que é nomeado de resto os ornamenti ecclesiae Essas imagens devem convir a seu suporte celebrálo em sua justa medida e corresponderlhe qualitativamente Já foram mencionadas numerosas situações nas quais a representação ecoa o rito que enquadra mas é preciso pensar igualmente que as imagens enquanto decoração se acordam de maneira global ao funcionamento litúrgico do lugar de culto Como sugere Honorius Augustodunensis o valor estético das imagens é aqui determinante independentemente mesmo de seu conteúdo iconográfico Do mesmo modo que a beleza dos objetos contribui para seu prestígio e reforça sua eficácia o brilho da decoração torna o edifício digno do serviço divino Assim a Igreja pode ser definida como um lugar de imagens do qual se percebem imediatamente o caráter luxuriante das cores o rutilar das luzes e por vezes o brilho dos ouros Ela é uma totalidade colorida e luminosa em que a multiplicidade das formas sugere sem que nem ao menos se procure decifrálas uma saturação de significações Operase assim uma separação do mundo profano que manifesta e acentua a sacralidade do edifício cultual e dos ritos que ali se desenrolam De resto é isso que indicam os clérigos a começar por Suger quando evocam o processo anagógico de estabelecimento de contato com o divino que se realiza de modo indissociável através da liturgia e pelo efeito contemplativo induzido pela riqueza da decoração Mas a igreja não é um espaço sagrado unitário A decoração torna sensíveis também suas hierarquias internas distinções entre a parte esquerda e a parte direita mais valorizada gradação desde as zonas inferiores até as partes altas especialmente as abóbadas assimiladas por sua decoração ao céu oposição entre o oeste ligado à morte e ao diabo e o leste associado a Cristo a Jerusalém e à ressurreição polaridade indo da porta limiar ambivalent marcado pelo contato com o mundo profano e por isso muitas vezes associado a temas de partilha como o Juízo Final até a abside lugar privilegiado de uma plena presença teofânica e de representações da glória divina A oposição que estrutura mais vigorosamente a igreja e à qual a disposição das imagens em geral faz eco é aquela entre a nave destinada aos laicos e o coro acessível unicamente aos clérigos Marcada por uma cancela ou uma tribuna que a partir do século XII separam cada vez mais hermeticamente as duas partes da igreja a ponto de muitas vezes ocultar dos laicos a visão do altar maior essa disposição espacial não é nada mais que a materialização da divisão da sociedade em dois grupos de cristãos reafirmada então com um vigor novo A igreja é portanto uma totalidade sagrada globalmente separada do mundo ativando assim a oposição entre interior valorizado e exterior negativo sendo ao mesmo tempo dotada de uma estrutura interna diversificada que reproduz os eixos do mundo e as divisões fundamentais da sociedade Nesse sentido ela constitui referência espacial que ordena a visão do universo e a torna sensível na experiência social comum A sacralidade do lugar ligase ao fato de que se trata de um microcosmo onde por contraste com a desordem do mundo exterior Deus dá a cada coisa seu justo lugar Mas não se poderia analisar a relação entre a igreja e sua decoração sem ter em conta a liturgia que é a razão de ser essencial do edifício cultual Um aspecto importante dos ritos tem a ver com o fato de que eles comemoram e repetem eventos fundadores o sacrifício de Cristo sua vida as vidas da Virgem e dos santos Ora a imagem representa de uma outra maneira esses mesmos personagens que a liturgia evoca celebra ou em se tratando da eucaristia torna presentes Uma e outra estabelecem uma junção paralela embora de natureza diferente que põe o homem em contato com uma presença divina ou santa A imagem constitui assim uma reduplicação sensível da manifestação litúrgica das potências celestes a menos que ela seja uma forma de substituição dela compensando para os laicos sua crescente exclusão da liturgia eucarística inclusive no plano visual em razão da presença da cancela ou da tribuna A decoração participa assim da transferência de realidade realizada pela liturgia que promove um deslocamento da esfera terrestre para a esfera celeste da ecclesia materialis para a ecclesia spiritualis Guilherme Durand afirma que a igreja material significa a igreja espiritual E é por isso que penetrando no edifício sagrado os fiéis devem sentir que eles entram no Reino de Deus ou pelo menos em uma ordem de realidade que é uma figura da Jerusalém celeste É no coração da missa que esse movimento é mais intenso As preces do cânone suplicam então que a oferenda consagrada pelo sacerdote seja levada pelos anjos sobre o altar celeste na presença da majestade divina No céu uma liturgia permanente é celebrada pelos anjos diante da Trindade e no início da missa pedese que a voz dos homens seja admitida a juntarse às louvações dos coros angélicos O sacramento supremo da Igreja não poderia se desenvolver somente entre simples paredes de pedra em meio às sombras figurais do mundo aqui embaixo Ao contrário ele elevase até o altar divino e realiza a fusão entre as liturgias terrestre e celeste Pelo sacrifício as coisas terrestres e as coisas celestes encontramse diz Gregório o Grande É na relação com tal processo que é preciso perceber a decoração das igrejas em particular as figurações teofânicas da abside que materializam a presença da majestade divina e a saturação de figuras angélicas muitas vezes dotadas de instrumentos angélicos ou associadas ao canto do Sanctus que os anjos entoam para o céu Mais genericamente a profusão e a beleza da decoração contribuem para afirmar a igreja como único quadro legítimo do culto já que é ela a única digna de uma liturgia transposta no céu As imagens acompanham a suprema realização da liturgia talvez multipliquem seu efeito ou ao menos tornem visível seu alcance e prolonguem sua memória Se a igreja material é a figura da Igreja celeste unida a ela pela liturgia é também a imagem da Igreja espiritual simultaneamente comunidade e instituição A decoração de imagens contribui para essa dupla correspondência no coração da qual é preciso inscrever a mediação clerical É pelos gestos e pelas palavras do sacerdote que a liturgia terrestre se une à liturgia celeste ao passo que a separação marcada pela cancela e pela tribuna consagra a hierarquia estabelecida entre os clérigos e os laicos As igrejas que são renovadas com apuro ou reconstruídas com audácia a partir do século XI e as imagens incessantemente mais abundantes que honram sua sacralidade contam entre as marcas mais visíveis do poderio da instituição clerical Não é então surpreendente que esse desenvolvimento da decoração signo ostentatório do caráter central do lugar de culto na nova organização social se produza no momento em que as dissidências resistentes à afirmação do poder sacerdotal questionam a utilidade dos lugares de culto here ticos de Arras Pedro de Bruis e também das imagens cátaros hussitas Do mesmo modo a Reforma que deitará por terra os fundamentos da Igreja relançará em grande escala a prática da iconoclastia Aos olhos de todos é evidente que as imagens estão intimamente ligadas ao poder dos clérigos Mediações entre os homens e as potências celestes elas são ao mesmo tempo um instrumento privilegiado da mediação clerical a qual se encara principalmente nos lugares de culto É verdade que nos últimos séculos da Idade Média a expansão das imagens as faz penetrar nas habitações laicas e algumas podem orientar para uma experiência mística um contato pessoal direto com Deus Mas a menos que se trate de beguinas ou de outros laicos que se esforçam para adotar um modo de vida quase clerical esses fenômenos concernem com mais frequência aos meios monásticos e no essencial aos ramos femininos das ordens mendicantes Quanto ao comum dos fiéis as imagens lhes oferecem um suporte de devoção para suas preces ou eventualmente para uma meditação à qual podem se entregar ainda mais intensamente uma vez que tenham integrado os modelos clericais No entanto existe nisso apenas um complemento das práticas sacramentais para as quais o recurso ao clero e a frequência dos lugares sagrados permanecem indispensáveis De maneira geral o desenvolvimento das imagens contribui ao bom funcionamento da instituição eclesial e ao reforço de sua dominação Materializando eficazmente esses pontos de passagem em que o mundo terrestre e o mundo celeste entram em contato e exaltando pela sua beleza e pela sua crescente riqueza a sacralidade das igrejas as imagens manifestam e ativam o papel decisivo que os edifícios cultuais exercem na polarização do espaço feudal reforçada ainda mais pelo encelulamento das populações Se de início as relíquias assumiram o essencial dessa função as imagens associaramse a elas a partir do século XI e logo depois substituíramnas multiplicando assim os pontos de ancoragem do culto dos santos O edifício cultual e sua indispensável decoração que o transforma em um lugar fora do comum constituem então a forma privilegiada assumida pelos polos sagrados que ordenam e hierarquizam o espaço social Cultura da imago e lógica figural do sentido A despeito dos inconvenientes assinalados a palavra imagem possui forte legitimidade no Ocidente medieval a tal ponto que JeanClaude Schmitt pôde definilo como uma cultura da imago Além das obras visuais as quais ele serve para designar este termo abre no pensamento medieval uma rica constelação de sentido Ele está no centro da antropologia cristã pois segundo o Gênese Deus criou o homem à sua imagem e semelhança ad imaginem et similitudinem nostram Gen 1 26 como visto na figura 39 na p 414 Essa relação interpretada pelos teólogos em um sentido essencialmente espiritual é a alma racional que faz do homem a imagem da divindade explica que o Criador possa ser qualificado por exemplo por Guiberto de Nogent de bom realizador de imagem bonus imaginarius Mas essa relação de imagem entre Deus e sua criatura é ao mesmo tempo imperfeita e submetida ao devir Ela não é uma situação adquirida mas deverá realizarse no tempo JeanClaude Schmitt Com efeito o pecado original fez com que o homem perdesse uma parte importante de sua semelhança divina e é por isso que o mundo terrestre onde se desenrola a vida dos homens é concebido como uma região de dessemelhança marcada pelo afastamento e pela intransponível distância entre o humano e o divino A plena restituição da imagem divina instituída na origem do mundo é então um projeto uma promessa cuja realização é adiada para o fim dos tempos quando os corpos gloriosos dos eleitos serão reunidos às almas e a Deus A encarnação é entretanto uma etapa decisiva na história da relação de imagem O Filho é com efeito a imago perfeita do Pai divino e os teólogos sublinham que essa relação supera em dignidade aquela que existe entre o Criador e o homem que é apenas ad imaginem Dei e não imago Dei Permanece o fato de que a Encarnação de Cristo relativiza a dessemelhança aberta pela Queda e permite aos homens reconquistar a imagem divina perdida Uma vez que Deus consentiu em tornarse carne e a transitar por uma vida terrestre a rejeição radical do mundo sensível tornase impossível É possível conferir ás coisas materiais reabilitadas pela condescendência divina um valor positivo sob a condição todavia de que elas não sejam um fim em si mesmas A região de dessemelhança é então parcialmente iluminada pela vinda da imago perfeita de Deus e pelas manifestações repetidas de sua presença da qual a eucaristia é a principal De resto a Encarnação de Cristo é uma das principais justificativas da imagem material que permite contrabalançar a proibição do Decálogo se Deus tomou forma humana como se poderia renunciar a reproduzir a sua humanidade e a apoiarse nela para elevarse até sua divindade Existe assim uma poderosa afinidade entre a mediação que institui a Encarnação e aquela que as imagens estabelecem entre o mundo terrestre e o mundo celeste como é confirmado de resto pela coincidência cronológica a partir do século IX e sobretudo do século XI entre o desenvolvimento das imagens e a ênfase nas temáticas da Encarnação Existe igualmente uma conexão explícita entre a imagem e a esfera da imaginatio tal como é definida pelos clérigos na sequência de Agostinho Como já foi dito este distingue três gêneros de visão segunda parte capítulo IV Não sendo nem visão corporal nem visão intelectual a visão espiritual que engloba o conjunto de atividades da imaginação e muito particularmente as imagens de sonho e as visões é um elemento intermediário uma potência mediadora JeanClaude Schmitt Ela pode ser submetida ao peso dos corpos de modo que o sonho por muito tempo foi objeto de grande desconfiança especialmente na cultura monástica suas imagens pareciam perigosamente ligadas às pulsações da carne na ausência de todo controle da vontade ou então eram interpretadas como tentações diabólicas Mas o sonho como a visão desperta pode também ser instrumento de uma comunicação com as potências celestes e a este título ele é valorizado sobretudo a partir do século XII A imaginação tornase assim o meio assumido da experiência de devoção ou mística As interações entre a imagem material e a imagem mental multiplicamse se o sonho justifica a novidade das estátuasrelicários do século XI é em geral a imagem material que sobretudo a partir do século XII desencadeia a visão espiritual já foram mencionados o caso de Bernardo Francisco e Liutgarda igualmente no fim da Idade Média certas místicas fazem representar imagens em conformidade com as sugestões de suas visões Imagem material e imaginação reforçamse mutuamente para estabelecer uma relação privilegiada com as pessoas celestes É preciso enfim considerar a questão da imagem de maneira mais global A imagem é com efeito um caso particular de signo ou seja segundo a definição de Agostinho uma coisa que através da impressão que ela produz sobre os sentidos faz chegar uma outra ao conhecimento Ora o mundo inteiro é para o pensamento medieval uma vasta rede de signos que é preciso se esforçar para decifrar como indícios da vontade divina A Criação é um livro escrito pela mão de Deus Hugo de SaintVictor tudo aí são metáforas símbolos imagens Podese então perguntar se as imagens materiais signos dentre outros em um mundo de signos não têm o mesmo estatuto que o conjunto das realidades sensíveis presentes no universo Em todo caso a natureza prestase à interpretação exatamente à maneira das Sagradas Escrituras Que se interroque a natureza ou que se consultem as Escrituras elas exprimem um único e mesmo sentido de um modo equivalente e coincidente Ricardo de SaintVictor Em consequência as técnicas exegéticas empregadas para a compreensão da Bíblia podem também ser aplicadas ao menos em parte ao universo Desde Agostinho e Gregório o Grande os clérigos insistem sobre a pluralidade das significações das Escrituras e em particular sobre a distinção entre sentido literal e sentido alegórico O segundo é o mais importante mesmo se o sentido literal é objeto de uma atenção reforçada a partir do século XII como testemunha o sucesso da Historia Scholastica de Pedro o Cantor explicação literal das narrativas bíblicas Ao mesmo tempo a importância do sentido alegórico é tal que ele se subdivide em dois sobretudo no século XII ou em três dando lugar à concepção clássica a partir do século XII da quádrupla significação das Escrituras literal alegórica o que é preciso crer tropológica a lição moral que indica como agir e anagógica ou mística relativa à salvação e às verdades escatológicas É verdade que o esquema dos quatro sentidos é mais um modelo de referência do que um método prático de exegese e de fato a oposição dual entre a letra e o espírito refinada por diversas subdivisões conserva uma força considerável De todo modo o texto sagrado é caracterizado então por uma estratificação de significações que longe de ser tida por uma falta de coerência faz ao contrário seu pleno valor Ocorre o mesmo com todas as coisas sensíveis que existem no mundo terrestre Suas significações são múltiplas e por vezes mesmo contraditórias sem que isso choque absolutamente a lógica medieval Por exemplo os Bestiários indicam que o leão pode significar tanto Cristo porque se conta que os seus filhotes nascem mortos e são ressuscitados três dias depois pela sua mãe como o diabo sob a forma das potências desencadeadas da natureza ou dos inimigos da Igreja segundo a interpretação do episódio de Daniel no fosso dos leões Assim como as realidades sensíveis as imagens materiais participam dessa lógica Ora uma das especificidades da linguagem figurada é de não se submeter às regras de um sentido idealmente unívoco O pensamento figurativo caracterizase ao contrário por sua capacidade em condensar significações múltiplas e abertas Uma mesma figura pode combinar em si várias identidades por exemplo Judite e Salomé Abraão e Deus o Pai ou ainda Moisés Paulo e João Evangelista Uma mesma imagem pode associar significações contraditórias tal como o Cristo do tímpano da catedral de Autun que está ao mesmo tempo de pé e sentado levantandose e sentandose a fim de significar o laço entre sua Ascensão e seu retorno no fim dos tempos JeanClaude Bonne Longe de ser uma deficiência tal ambivalência e por vezes também uma capacidade de jogar com a ambiguidade mantendo significações flutuantes vacilantes entre as quais a incerteza impede de decidir permite que a imagem assuma aspectos importantes do modo de pensar medieval Além da estratificação das significações das Escrituras é preciso sublinhar a importância da exegese dita tipológica que põe em relação o Antigo e o Novo Testamento buscando no primeiro a prefiguração das verdades das quais o segundo é a plena realização Esta é uma outra modalidade de associação dos níveis de sentido que a imagem assume perfeitamente por exemplo multiplicando os indícios visuais que fazem do sacrifício de Isaac a prefiguração do sacrifício de Cristo como visto na figura 52 na p 513 Além disso como pensamento da ambiva lência a imagem muitas vezes joga com os paradoxos fundamentais do cristianismo e muito particularmente a junção do humano e do divino realizada pela Encarnação notadamente nas imagens que combinam o sofrimento de Cristo e sua vitória sobre a morte tais como a imago vietatis que mostra o busto de Cristo acima de sua tumba paradoxalmente morto e vivo ao mesmo tempo como mostrou Hans Belting Habituados pela exegese a multiplicar os sentidos aceitáveis para um dado texto os clérigos podem ser facilmente levados a praticar com as imagens o mesmo tipo de encadeamento de significações Existem então afinidades profundas entre o funcionamento das imagens e a intensa produção exegética Nos dois casos tratase de operar uma sobreposição de significações permitindo articular diferentes níveis de realidade de modo a elevarse das aparências sensíveis até as verdades mais espirituais e mais próximas da Unidade divina Em tal contexto a questão do verdadeiro e do falso é posta de uma maneira que desconcerta um pouco nossos hábitos modernos Para nós que sofremos os efeitos da dissociação platônica entre o ser e o parecer quer dizer a expulsão da imagem para fora do domínio do autenticamente real seu banimento para o campo do fictício e do ilusório sua desqualificação do ponto de vista do conhecimento JeanPierre Vernant a verdade está no real enquanto a imagem diz respeito à ilusão Isso se dá de modo muito diferente no mundo medieval no qual o universo sensível é ele próprio concebido como uma imagem um signo uma sombra segundo a expressão de Boaventura de onde a estranheza da concepção medieval do real sobre a qual Eric Auerbach judiciosamente chamou a atenção O verdadeiro é em última instância a vontade divina mas também tudo o que no mundo sensível é interpretado de forma suficientemente correta para aproximarse dele O falso é a ilusão diabólica e tudo o que no mundo sensível dá ensejo a esta Cidade de Deus cidade do Diabo É assim que se pode compreender o estatuto do teatro medieval longe de ser o reino da ilusão ele é útil revelação das verdades anunciadas pelas Escrituras E é conforme a essa lógica que é enunciada a conclusão de uma representação do Juízo Final no México em 1539 bastante comparável àquelas que são conhecidas no Ocidente no século XV Vós vistes esta coisa abominável terrível Tudo é verdadeiro como vós o vistes pois está escrito nos livros sagrados Serge Gruzinski Podese então falar baseandose nos estudos de Eric Auerbach de uma lógica figural do sentido ou de uma interpretação figural da realidade Em virtude dessa lógica é o além que é a verdadeira realidade enquanto este mundo é somente a sombra das coisas futuras Tudo aqui embaixo é apenas figura cuja realização é eternamente presente no olho de Deus e no além onde existe então permanentemente a realidade verdadeira e revelada No entanto se toda a criação é uma linguagem figurada em que Deus se manifesta isso não significa que sua realidade sensível deva se abolir no ato de interpretação que atinge sua significação profunda Eric Auerbach insiste sobre a especificidade da interpretação figural que considera a vida na terra como totalmente real e no entanto ela não é apesar de toda a sua realidade senão uma umbra e uma figura da verdade autêntica futura e derradeira a verdadeira realidade que revelará e manterá a figura É por isso que notadamente um personagem tornase ainda mais real à medida que é mais interpretado e mais intimamente associado ao plano eterno da salvação Assim nas concepções medievais a verdade está na interpretação que alcança o sentido divino através de suas figuras bem mais do que na realidade imediatamente perceptível E é de acordo com essa lógica figural que se pode dizer que a imagem medieval é verdadeira porque ela contribui para tornar presentes ou ao menos acessíveis as pessoas divinas ou santas Plenamente admitidas e legitimadas durante a Idade Média Central as imagens não são vãs aparências Elas são figuras em um mundo que é inteiramente figura e como as demais figuras permitem elevarse até as verdades celestes Mesmo se as imagens nos mostram apenas o aspecto exterior da coisa Tomás de Aquino precisa ainda que graças à sua mediação o intelecto penetra o interior da coisa de modo que como sublinha Jean Wirth as imagens mentais mas também as imagens em geral contribuem para o conhecimento abstrato Figurar Deus olhar a Criação A expansão das imagens é acompanhada de profundas transformações dos modos de figuração No entanto mais do que analisar essas evoluções como a passagem de uma arte simbólica para uma arte realista como se diz comumente convém reparar aí uma alteração de equilíbrio no seio das tensões constitutivas de toda figuração medieval Entre essas tensões serão evocadas aquelas que articulam ornamentação e representação superfície e volume essência e singularidade A arte medieval concede um lugar considerável e uma posição eminente à ornamentação a ponto de proceder sobretudo durante a Alta Idade Média e ainda até o século XII a uma ampla ornamentalização das próprias representaçõees inclusive das figuras humanas e animais figura 1 na p 36 JeanClaude Bonne sugere falar de ornamentalização quando as figuras mesmo guardando uma silhueta ou formas identificáveis expõem a literalidade dos traços ou das cores de que são feitas sem preocupação de ilusionismo Longe de manifestar um déficit de conhecimento técnico tais procedimentos correspondem à sacralidade dos objetos decorados e das figuras representadas que convida a subtráilas tanto quanto possível da ordem das aparências sensíveis É assim por exemplo que o ornamental enriquece a representação cristã do sagrado exaltando a divindade sob formas que contrabalançam ou sublimam sem negálo o antropomorfismo do Deus da Encarnação JeanClaude Bonne Mais tarde a partir do século XII e sobretudo do século XIII um processo tende a separar a representação e a ornamentação esta sendo notadamente remetida para as margens da imagem Mas por estarem menos intimamente imbricadas representação e ornamentação não cessam de entreter suas relações no mais das vezes à distância mas também no interior mesmo da figuração em que as vestimentas continuam sendo um dos lugares privilegiados de expressão do ornamental A oposição entre a superfície e o espaço herdada do historiador da arte Heinrich Wölfflin conduz geralmente a depreciar a arte medieval considerada incapaz de sugerir a tridimensionalidade e faz da história da arte um processo teleológico que tende para a conquista da perspectiva única representação correta do espaço Se quisermos ao contrário pensar a especificidade das representações medievais e os valores positivos que as animam é preciso admitir a existência ao longo de toda a Idade Média de uma tensão entre planitude e espessura JeanClaude Bonne Se a arte medieval pode ser considerada a arte do plano é antes de tudo porque a imagem destinada à celebração do lugar ou do objeto em que ela se inscreve deve dar mostra de respeito em relação a seu suporte página do manuscrito parede da igreja outros Isso é particularmente verdadeiro a respeito da iluminura tendo em conta o caráter sagrado dos livros em que são pintadas como indica judiciosamente Otto Pächt o cristianismo não fazia diferença entre o livro instrumento de comunicação e a mensagem que ele transmitia O livro não era apenas aquilo que continha o Evangelho ele era o Evangelho Compreendese então que a planitude do suporte seja assumida positivamente como um componente imediato da imagem e que o fundo das imagens medievais não se deixe negar ou atravessar por nenhum procedimento ilusionista qualquer que seja ele Não é raro ao contrário que o suporte material da imagem mostrese diretamente figura 1 na p 36 ou que ele exiba sua presença incontornável através de largos aplats40 de cores desprovidos de todo alcance mimético ou do brilho espelhado de um plano dourado figura 35 na p 384 Quanto às próprias figuras elas são caracterizadas por uma estreita relação com o fundo sobre o qual se erguem e a reverência devida a seu suporte as submete a uma forte lógica de planitude figura 30 na p 330 Por isso as imagens medievais contribuem para uma certa criação de volume das figuras Muitas vezes notase também uma sobreposição de planos distintos figura 4 na p 39 assim como a presença de planos oblíquos e de efeitos locais de relevo no tratamento de corpos e de objetos Mas todos esses procedimentos que tiram a imagem de uma estrita planitude bidimensional não criam entretanto um espaço tridimensional que negaria todo o respeito ao plano do suporte e produziria uma unificação espacial da representação Eles apenas articulam espessura e lógica do plano Essa dinâmica ampliase notadamente a partir do século XII e sobretudo do século XIII O volume dos corpos e a maleabilidade das dobras das vestimentas que caracterizam o classiscismo da estatuária românica tardia e sobretudo gótica figura 3 na p 38 são imitados pela pintura que utiliza os dégradés cromáticos e as sombras para sugerir a plenitude das formas Há igualmente uma maior preocupação em exprimir a textura dos materiais representados enquanto o dinamismo dos corpos é sugerido com mais frequência em oposição a dimensão comumente hierática das obras da Alta Idade Média era plenamente justificada pois principalmente Estrabão no século IX julgava a impressão de movimento dada por uma figura como um signo negativo de instabilidade Enfim enquanto não ocorrem primeiros esboços de paisagem no século XIV figura 32 na p 368 a representação dos animais e dos vegetais tornase mais cuidadosa com suas aparências Se a esse propósito devese excluir o termo realismo que pressupõe uma concepção do real que não tem nenhum sentido antes do século XIX podese utilizar com prudência o de naturalismo que designa uma atenção às realidades sensíveis do mundo natural criado por Deus Seria entretanto errôneo interpretar esse fenômeno que progride do século XII ao século XV como um avanço dos valores profanos ou uma laicização do mundo Sigamos de preferência a análise de Jean Wirth enquanto até o século XII o universo era dividido em uma parte visível e outra invisível o século XIII faz prevalecer uma oposição entre natural e sobrenatural À noção de natureza reinterpretada pelos teólogos desde o século XII corresponde a de sobrenatural formalizada por Tomás de Aquino Portanto existe doravante um sobrenatural visível cuja representação é justamente um dos objetos maiores do desenvolvimento das imagens Assim a nova estética gótica não é determinada pela vontade de reproduzir um real exterior à arte Sua função é antes conferir uma 40 Técnica conhecida em italiano como tinta piatta que consiste em aplicar uma camada uniforme de tinta em uma superfície N T 516 Jérôme Baschet A civilização feudal 517 presença real visível e mesmo palpável a algo de novo o sobrenatural Jean Wirth O que chamamos de naturalismo não tem por objetivo último a representação da natureza mas a manifestação visível do sobrenatural e das verdades divinas que o mundo criado permite apreender É preciso não esquecer que o que é representado então sob as aparências do mundo natural são figuras através das quais o homem pode se aproximar de Deus De resto tal fenômeno apenas é acentuado ao longo dos séculos e Erwin Panofsky o analisou corretamente como o pretenso realismo da arte flamenga do século XV cuja virtuosidade torna escrupulosa a atenção ao detalhe da aparência das coisas e das criaturas e é de fato saturado de um simbolismo complexo e por vezes oculto que incita a um paciente trabalho de decifração figura 6 na p 41 Ocorre ainda o mesmo no apogeu do Renascimento e mesmo a arte de Michelangelo campeão da perfeição atlética dos corpos não significa absolutamente a afirmação do homem e do mundo terrestre como valores autônomos para ele o corpo humano é a mais alta metáfora da ordem divina É preciso prolongar ainda esta análise Assim até o século XII as imagens evitam levar em conta a dimensão acidental dos fenômenos ou das figuras elas privilegiam formas genéricas pouco particularizadas e encarregadas de exprimir essências Tratandose por exemplo da imagem de um rei ou de um imperador julgase sem pertinência ou mesmo nocivo ao alcance da representação conferirlhe caracteres singulares e a fortiori traços que evocassem a individualidade do soberano reinante importa apenas prover a figura de insígnias e traços que sejam os mais aptos para exprimir a essência do poder real ou imperial figura 7 na p 87 No entanto a evolução já mencionada reduz o caráter genérico das formas e as impregna ao contrário da existência concreta e palpável do mundo sensível e do sobrenatural Já no século XIII e mais ainda depois os rostos e os corpos diversificamse para levar em conta sempre com maior precisão as particularidades da idade do sexo da compleição e até mesmo da personalidade individual É assim que nasce o que se convencionou chamar de retrato no sentido moderno do termo quer dizer uma imitação das singularidades físicas de um indivíduo permitindo que se o reconheça pelo aspecto figura 6 na p 41 Entre os exemplos mais precoces um dos mais bem atestados é o do cardeal Jacopo Stefaneschi no início do século XIV que se fez representar em três idades diferentes em um manuscrito em um retábulo de Giotto e em uma pintura mural de Simone Martini em Avignon Essa evolução que desloca a ênfase das essências genéricas para as singularidades individuais foi muitas vezes posta em relação ao desenvolvimento do nominalismo Isso tem alguma aparência de credibilidade já que Guilherme de Occam afirma que só existem seres singulares e que neles não há nenhuma generalidade primeira parte capítulo IV Estabelecer tal laço cria entretanto muitas dificuldades pois se trata de dar conta de uma dinâmica das formas de representação que é anterior ao occanismo e que se afirma progressivamente do século XII ao XV Essa evolução deveria então ser vinculada a tendências mais gerais e não é certo que o nominalismo mesmo tomado em seu conjunto desde suas primeiras formulações no século XII possa ter esse papel É verdade que nos séculos XII e XIII numerosos autores considerados realistas admitem princípios de tipo nominalistas e afastam a ideia de que os universais sejam coisas É o caso de Tomás de Aquino para quem os universais só existem no intelecto e a universalidade só é apropriada à essência na medida em que ela é pensada pelo homem Mas devese então notar que muitos outros aspectos do tomismo podem ser postos em relação à evolução das imagens Assim para Tomás a imagem permite um movimento que une o sensível ao inteligível de modo que ela permite um conhecimento ao mesmo tempo da essência das coisas compreendida pelo intelecto e de suas particularidades individuais percebidas pelos sentidos Um pouco mais tarde Gilles de Roma e outros tomistas admitem que a imagem permite conhecer o indivíduo em sua própria individualidade o que sugere uma evolução bastante paralela àquela que as obras visuais exibem Invenção da perspectiva e dinâmica feudal A representação em perspectiva afinada pela geração dos anos 1420 condensa a maior parte das evoluções evocados aqui Após as tentativas parciais que são observadas em certos quadros de meados do século XIV Pietro Lorenzetti a experiência fundadora é a do arquiteto Brunelleschi que observando uma tabela representando o batistério de Florença através de um buraco feito na porta da catedral estabelece que existe uma coincidência necessária entre o ponto de vista do espectador e o ponto de fuga da representação ele demonstra assim que uma pintura construída em perspectiva só pode ser olhada corretamente de um único lugar Hubert Damisch No mesmo momento os afrescos de Masaccio na igreja de Santa Maria del Carmine em Florença constituem uma das primeiras obras rigorosamente construídas segundo as regras da perspectiva 1427 Essa inovação que se pode incluir na lista das mais notáveis invenções da Idade Média transforma os princípios figurativos analisados até aqui Pensando o contexto da imagem como uma janela que se abre sobre a história representada segundo a metáfora do humanista florentino Leon Alberti a representação em perspectiva reivindica a denegação do plano em que se inscreve e que as obras anteriores tinham vocação de respeitar Compreendese 518 Jérôme Baschet A civilização feudal 519 então por oposição ao ponto de vista do olho humano que assume a perspectiva que as imagens anteriores indiquem pela reverência devida à superfície que as suporta a dependência das figuras em relação a uma inscrição de uma outra ordem que a delas quer dizer de um princípio de autoridade transcendente JeanClaude Bonne De maneira um pouco metafórica poderseia dizer que o único ponto de vista que então merece ser posto na imagem é o de Deus mas Deus evidentemente não vê através dos olhos do corpo nem a partir de um lugar particular de modo que seu olhar engloba todos os pontos de vista possíveis e não poderia se preocupar com aparências humanamente perceptíveis Em tal lógica importam apenas a essência das coisas sua integridade e seu valor simbólico É por isso que a arte medieval recorre com insistência a procedimentos de mostração que asseguram a melhor visibilidade dos objetos e das figuras assim embora pousados sobre um altar um pão ou uma hóstia deverão aparecer frontalmente a fim de respeitar sua perfeita circularidade Pela mesma razão o bispo Lucas de Tuy protesta contra a representação de perfil ou de três quartos da Virgem que é a seus olhos mutiladora e que por afetar uma figura de santidade eminente afronta ainda mais gravemente os princípios de mostração e de integridade Ao contrário a representação em perspectiva é uma visão em primeira pessoa que assume um ponto de vista individual e subjetivo Ou ao menos realiza uma objetivação do subjetivo Erwin Panofsky que confere espaço ao ponto de vista do olho humano Transitase assim do reconhecimento da superfície de inscrição como referência assumida para sua negação e de uma visão transubjetiva e universalizante para uma percepção subjetiva e individualizante Esse deslocamento é profundo mas não mais do que aquele que faz passar da concepção memorial da missa à doutrina da transubstanciação É então decisivo sublinhar que a perspectiva não rompe com as concepções medievais do espaço Notando o menosprezo de Erwin Panofsky Hubert Damisch sublinhou que a perspectiva não supõe absolutamente um espaço geométrico homogêneo contínuo e infinito tal como Descartes o concebe dois séculos mais tarde com efeito a perspectiva ocupavase menos do espaço do que dos corpos e das figuras dos quais ele era o receptáculo ao mesmo tempo que se conformava à regra aristotélica de uma extensão finita e descontínua A perspectiva não tem por objeto o espaço mas as figuras que não mais do que durante os séculos precedentes não poderiam ser pensadas independentemente do lugar que elas ocupam Ela é então uma maneira de conformação em que cada coisa se inscreve no lugar que lhe corresponde A perspectiva não rompe com a problemática medieval do locus mesmo se ela produz uma modalidade nova de articulação dos lugares ocupados pelos diversos objetos figurados Com efeito estes são doravante mais integrados em uma ordem unificada pois são relacionados a um referente único e específico ao mesmo tempo ponto de fuga e ponto de vista As evoluções dos modos de representação na Idade Média são um dos aspectos da grande dinâmica do sistema feudal O desenvolvimento do naturalismo como legitimação das manifestações visíveis das verdades divinas a singularização que não exclui o cuidado com as essências e com a hierarquização das criaturas e a afirmação da espessura em tensão com o princípio de planitude podem ser tidos como modificações da maneira de articular o mundo terrestre e o mundo celeste o humano e o divino Não é absolutamente questão aqui de uma separação radical que consagre o triunfo de um pensamento laico ou o aparecimento de um humanismo que exclui toda referência à Providência e à Graça Se as aparências sensíveis são cada vez mais abertamente assumidas pela representação isso é em virtude do processo já evocado de espiritualização do carnal o fenômeno avança ao mesmo passo que o desenvolvimento da lógica da Encarnação e que o reforço do poderio da Igreja instituição material fundada sobre valores espirituais Se o mundo criado pode chegar à representação de uma maneira que sugere com deleitamento seus aspectos mais palpáveis e seus detalhes mais encarnados é porque mais do que antes ele é concebido como carregado de valores espirituais e como um meio legítimo de chegar ao conhecimento de Deus através do conhecimento do mundo criado conforme sua vontade Até mesmo a perspectiva pode aparecer como um dos avanços extremos da dinâmica do sistema feudal Este é caracterizado pela articulação no seio de um espaço descontínuo e polarizado entre um forte encelulamento local e a manifestação da unidade da cristandade Sua dinâmica tende a reforçar seus aspectos unificadores sob a tripla forma do desenvolvimento das trocas da recuperação monárquica e da centralização pontifícia sem com isso romper com a organização celular da sociedade Mais ainda do que a ampliação desses laços intercelulares é preciso sublinhar a importância das representações unificadoras que aí atuam a Igreja como corpo de Cristo do qual a eucaristia permite participar A perspectiva poderia encontrar aí sua lógica pois ela diz respeito a essas ilusões unificadoras sem por isso romper com a lógica do locus nem fundar uma concepção do espaço homogêneo e unificado Podese então sustentar como propôs Hubert Damisch que o trabalho dos pintores preparou sem absolutamente pressupôlo o advento da geometria descritiva Esta é uma outra questão mas isso não é no fundo mais improvável do que supor que o tempo escatológico cristão prepara a concepção moderna de história ao mesmo tempo que está separado dela por uma ruptura radical 520 Jérôme Baschet A civilização feudal 521 CONCLUSÃO IMAGEMOBJETO MEDIEVAL IMAGEMTELA CONTEMPORÂNEA Após haver tocado de perto a tentação iconoclasta e aterse durante séculos a uma iconicidade restrita e desconfi ante a cristandade ocidental conheceu a partir do século IX e sobretudo do século XI uma expansão crescente das imagens a tal ponto que elas se tornaram um dos elementos constitutivos do sistema eclesial Ornamentos indispensáveis do culto à Virgem e dos santos ecos sensíveis da presença real e da reiteração eucarística da Encarnação emblemas da Igreja e signos de alinhamento das múltiplas instituições que a compõem anúncios das verdades escatológicas ao mesmo tempo que suportes de práticas de devoção cada vez mais difundidas tais são alguns dos papéis que as imagens assumem na sociedade cristã Seu poder de beleza e de resplendor cromático orquestra de maneira sensível a sacralidade dos lugares de culto de modo que as imagens contribuem para o contato privilegiado que se estabelece ali entre os homens e as potências santas ou divinas ativam a junção entre a igreja material e a igreja triunfante e a fusão das liturgias terrestre e celeste Mas essa mediação das imagens não é dissociável daquela assumida pelos clérigos de resto são no mais das vezes vinculadas a objetos e a lugares destinados a ritos que manifestam o poder sagrado dos sacerdotes O desenvolvimento das imagens acompanha com uma bela simultaneidade o reforço da instituição eclesial e pouco a pouco elas se tornam ornamentos indispensáveis do poderio da Igreja e os adjuvantes emblemáticos da mediação sacerdotal É por isso que elas são tão estreitamente associadas à função dos lugares sagrados que polarizam o espaço feudal ao passo que a evolução de suas formas corresponde à dinâmica geral da articulação entre o carnal e o espiritual que anima a cristandade A despeito desse desenvolvimento considerável da iconicidade evitarseá fazer da Idade Média a origem de nossa civilização dita da imagem A cultura medieval da imago é sem dúvida o exato contrário disso sem falar do fato de que um homem da Idade Média via menos imagens durante toda a sua vida do que nós vemos hoje em um só dia Vinculada a um objeto ou a um lugar que possui função própria no mais das vezes cultual ou de devoção a imagemobjeto só tem sentido na Idade Média pelo seu caráter localizado Ela também é um objeto imaginário um objeto imaginado cujo funcionamento põe em jogo interferências entre visão corporal e visão espiritual entre visio e imaginatio Enfim a representação é também presença meio de uma manifestação eficaz das potências celestes Ora à imagemobjeto podese opor a imagemtela contemporânea Ou mais ainda podese considerar a televisão e o computador como modos extremos de imagemobjeto que asseguram um completo triunfo da imagem sobre o objeto pois este se torna o receptáculo de todas as imagens possíveis a tela em que se projeta a sombra do universo e que através da supere presença do real que ele permite transforma e perverte a relação com o mundo À necessidade de localização da imagemobjeto medieval contrapõese o advento ubíquo da imagemtela capaz de reproduzirse identicamente em todos os lugares negando assim a particularidade dos lugares e contribuindo à deslocalização generalizada que caracteriza o mundo contemporâneo À presença eficaz quer dizer ao mesmo tempo real e imaginada da imagem medieval contrapõese uma superabundância de imagens que se anulam mutuamente e que são no mais das vezes desprovidas de efeito porque não controladas e não simbolizadas É verdade que a presença que a imagemobjeto permite só tem verdade uma vez que nos coloquemos no campo da crença cristã de modo que se a imagem medieval participa de uma relação com a ilusão realmente vivida a imagem contemporânea induz a uma relação com a realidade vivida ilusoriamente O estatuto e as práticas da imagem são indissociáveis da organização de conjunto da sociedade e é por isso que também em matéria de imagens e a despeito de certas similitudes aparentes a Idade Média é nosso antimundo 11 a desqualificação dos fi lhos ilegítimos limitavam o número dos herdeiros potenciais e facilitavam uma melhor gestão dos patrimônios assim como em consequência uma maior solidez das topolinlangens Essas regras sem dúvida incómodas enquanto a aristocracia ainda não se encontrava inteiramente desligada de suas formas anteriores de organização mesmo sendo individualmente fastidiosas favoreciam em uma época de desenvolvimento produtivo e demográfi co as novas estruturas de dominação fundadas no encelulamento dos dominados e na territorialização dos dominantes No geral a intervenção da Igreja é bem mais constritiva e decisiva no que concerne às regras de aliança enquanto o sistema de fi liação parece uma questão menos relevante mesmo se ele é afetado pelo contragolpe da generalização do modelo clerical do casamento Dessa maneira o clero pretende controlar a reprodução física da sociedade ao mesmo tempo que se impõe de modo determinante sobre a organização da classe aristocrática sua rival e sua cúmplice na obra de dominação social Mas se o clero regula a prática de laços dos quais ele próprio se subtrai o parentesco espiritual é mais essencial ainda para defi nir seu próprio lugar e a preeminência que reivindica A SOCIEDADE CRISTÃ COMO REDE DE PARENTESCO ESPIRITUAL Não seria possível estudar as estruturas medievais do parentesco sem insistir seguindo Anita GuerreauJalabert sobre a importância dos laços de parentesco espiritual que constituem um de seus aspectos mais originais Parentesco batismal paternidade de Deus e maternidade da Igreja Uma parte essencial desses laços é urdida pelo batismo Além de sua função de purificação indispensável para alcançar a salvação pessoal esse rito fundamental marca o verdadeiro nascimento social do indivíduo É o momento em que ele recebe seu nome e se torna membro da comunidade dos fi éis Sem batismo nada de identidade nada de existência aqui embaixo e nada de salvação no além É então que se instituem os mais ativos laços de parentesco espiritual que são o apadrinhamento e o compadrio que une os pais carnais e os pais espirituais Tendo a responsabilidade do nascimento físico da criança em virtude do qual o pecado original lhe é transmitido os pais carnais são na Idade Média e contrariamente ao ritual ainda praticado até o século V antes da instituição do apadrinhamento rigorosamente excluídos do rito batismal que assegura seu nascimento social e sua regeneração na graça Nessa ocasião eles devem ceder lugar aos pais espirituais padrinhos e madrinhas que seguram a criança sobre a pia batismal pronunciando no lugar dela as palavras rituais dandolhe seu nome e apresentandose como garantia de sua educação cristã Essa substituição dos pais carnais pelos pais espirituais no momento do batismo que manifesta a indignidade dos primeiros de participarem da parte mais nobre da reprodução dos membros da comunidade torna sensível a todos a preeminência do parentesco espiritual e a desvalorização do parentesco carnal O papel do padrinho na educação religiosa da criança é na maior parte do tempo teórico de acordo com os princípios que prescrevem sua intervenção unicamente no caso de os pais faltarem De resto em certos meios os pais parecem procurar menos padrinhos para seus fi lhos do que compadres para si mesmos como se depreende dos estudos de Christiane KlapischZuber O compadrio permite com efeito estabelecer uma relação horizontal pensada em termos de amizade e de fraternidade que alarga o círculo dos aliados e é suscetível de apaziguar tensões sociais ou políticas No século VI os reis merovíngios já utilizam o compadrio para pôr fi m a suas lutas fratricidas e restaurar entre eles relações pacífi cas Em outros contextos o compadrio conserva uma dimensão mais vertical e sobrepõese às relações de clientelismo por exemplo na Florença do fi m da Idade Média ter como compadre um rico comerciante signifi ca benefi ciarse de sua proteção e ao mesmo tempo integrarse à sua clientela política e econômica Num caso como noutro é sem dúvida porque ele permita multiplicar os laços de solidariedade e reforçálos por um caráter sacralizado que o parentesco espiritual gozou de tamanho favor entre os laicos Não se poderia portanto subestimar a importância do apadrinhamento em razão de seu papel no ritual batismal e de seu lugar eminente na economia geral do sistema de parentesco É o que confi rma o desenvolvimento das interdições matrimoniais por causa do parentesco espiritual Se as proibições principais entre padrinho e afi lhada madrinha e afi lhado compadre e comadre são estabelecidas desde o Código Justiniano em 530 ou pouco depois outras são acrescentadas no Ocidente no século XII por exemplo entre o afi lhado e a fi lha ou entre a afi lhada e o fi lho de uma mesma pessoa entre os cônjuges daqueles que são unidos pelo compadrio Assim como para o parentesco carnal esta é a época em que a Igreja enuncia as regras mais constritivas a fi m de reforçar sua posição de árbitro das práticas matrimoniais É também pelo batismo que se estabelece a fi liaç ão dos homens em relação a Deus A criança nascida de seus pais no pecado original renasce da água 12 lustral como um filho de Deus Ela tornase então um filho de Deus o que não era em virtude de seu nascimento o batismo é uma adoção divina Com efeito as concepções medievais fazem da paternidade de Deus não uma característica de todos os homens mas um privilégio somente dos batizados É verdade que Deus criou todos os homens à sua imagem e semelhança Gen 1 26 mas não é em virtude dessa relação que eles são seus fi lhos de modo que essa semelhança pervertida pelo pecado original só pode ser restaurada pelo batismo Assim a paternidade de Deus não defi ne toda a humanidade historicamente inaugurada pela Encarnação do Filho e transmitida a cada um pelo batismo ela marca o estatuto específi co dos cristãos e os distingue dos outros homens excluídos da graça e da salvação Através do batismo o cristão tornase também filho da MãeIgreja Esta fi gura que não tem nenhum papel no Novo Testamento vê sua importância ampliarse à medida que se afi rma a instituição eclesial Ela não para de jogar com a ambiguidade que lhe confere a noção de ecclesia situada entre sua acepção original de comunidade de todos os cristãos e a tendência ulterior que a identifi ca com seus membros clericais primeira parte capítulo III Mesmo se a segunda acepção se impõe a partir do século IX e mais ainda do século XI a primeira jamais desaparece totalmente Na época que nos ocupa aqui a MãeIgreja é a personificação da instituição ou da comunidade jogando com essa indefinição em benefi cio da primeira A maternidade da Igreja aparece então como a contrapartida da paternidade de Deus tão importante como esta última Agostinho já afi rmava A Igreja é uma mãe para nós É dela e do Pai que nascemos espiritualmente e sublinhando ainda mais seu caráter indissociável Ninguém poderá encontrar junto a Deus uma acolhida paternal se menospreza sua mãe a Igreja Assim como Deus é Pai a Igreja é verdadeiramente Mãe pois ela faz nascer o cristão no batismo As pias batismais são o órgão desse nascimento e Agostinho seguido pela tradição patrística e litúrgica qualifi caas de matriz da MãeIgreja A inscrição do batistério de Latrão de cerca de 440 precisa que suas águas são fecundadas pelo Espírito Santo de modo que a MãeIgreja concebe nestas águas o fruto virginal que ela concebeu pelo sopro de Deus Tais enunciados decalcam a procriação carnal a fi m de melhor espiritualizála é que o batismo deve ser concebido como um verdadeiro parto espiritual Atribuise também à Igreja uma função nutridora que reforça seu estatuto maternal Como indica Clemente de Alexandria a Igreja atrai para si os seus fi lhos e aleitaos com um leite sagrado o Logos dos lactentes E se por vezes as imagens fi guram essa relação mostrando a Igreja oferecendo seus seios aos fi éis fi gura 45 na p 458 é porque ela os nutre transmitindo o princípio divino que permite crescer na fé através da palavra e do dom da eucaristia alimen 45 A MãeIgreja aleitando os fi éis 115070 desenho segundo os Comentários dos Evangelhos de são Jerônimo Stiftsbibliothek Engelsberg ms 48 fl 103v A Igreja é a mãe de todos os fi éis a quem concebe nas águas do batismo e a quem nutre com a palavra divina e com o pão da vida Não há então nada de deslocado para um espírito impregnado do discurso clerical em mostrar a personifi cação da Igreja oferecendo seus seios aos fi éis pois tal imagem apenas exalta sua generosa maternidade to espiritual e pão da vida Enfim a função maternal da Igreja declinase em múltiplos temas que a descrevem como uma mãe que cobre seus filhos de cuidados e amor Segundo são Bernardo por exemplo a Igreja embala os fiéis e os protege sob suas asas A paternidade dos clérigos um princípio hierárquico Definir a posição do clero nessa rede não é fácil em virtude da diversidade dos estatutos em seu seio posições hierárquicas ordens menores maiores secularesregulares tradicionaisnovos e das situações que se inscrevem na fronteira que separa clérigos e laicos clérigos tonsurados mas não ordenados conversos ofertados e membros das ordens terceiras Mas como se viu a divisão entre clérigos e laicos asperamente defendida permanece socialmente determinante Portanto as análises seguintes serão concentradas nos indivíduos cujo fato de pertencer ao clero é manifestado pela realização de um ritual ordenação aquisição do hábito ou votos e por um modo de vida discriminante essencialmente o celibato de resto é a aparição no século III de um rito de ordenação conferindo um papel exclusivo na celebração da eucaristia que constitui a origem da separação entre clérigos e laicos Como os demais cristãos os clérigos são filhos de Deus e da Igreja Sua função confere entretanto uma posição específica na rede de parentesco eles também são pais É através do sacramento batismal que o estatuto paternal do pai se manifesta mais claramente Ele exerce então o papel de representante de Deus na terra ou melhor ele permite a realização do ato de parir por Deus e pela Igreja em virtude de seu estatuto de lugartenente de Deus e de membro da Igrejainstituição É verdade que a paternidade dos sacerdotes não poderia pretender a mesma dignidade que a de Deus entretanto ela é o agente indispensável à sua propagação o papel eminentemente ativo do sacerdote é sublinhado pela evolução da liturgia batismal pois no Ocidente a fórmula eu te batizo supera o gesto passivo mantido em Bizâncio pelo qual o celebrante anuncia que o fiel é batizado em nome de Deus Na sociedade medieval os sacerdotes únicos habilitados a conferir os sacramentos são os mediadores obrigatórios do parentesco divino É através deles que se instaura para os cristãos a paternidade de Deus e a maternidade da Igreja Os títulos empunhados dos clérigos manifestam claramente essa paternidade abade de abbas pai e sobretudo papa papa papatus termos utilizados por todos os bispos e depois reservados somente ao pontífice romano a partir do século XI É onipresente esse modo de tratamento dos clérigos pater meu padre Além disso a relação de paternidade não exprime somente a dualidade entre clérigos e laicos mas também as hierarquias no seio do clero como lembram as posições de abade à frente de seu monastério e de papa no cume da instituição eclesial Do mesmo modo os laços de dependência entre estabelecimentos monásticos podem ser concebidos como relações de filiação espiritual por exemplo quando se evoca a descendência de Claraval ou de outras abadias cistercienses São igualmente os laços de parentesco espiritual que são mostrados no século XV pelas árvores monásticas que crescem a partir do ventre de um fundador de ordem como são Bento ou são Domingo e cujos ramos abrigam a multidão de seus discípulos embora essas representações se pareçam fortemente com a árvore de Jessé e com as primeiras imagens de genealogia familiar sob forma de árvore que aparecem então é claro que elas não mostram absolutamente o parentesco carnal do santo mas exprimem a amplitude de sua fecundidade espiritual através da exuberância da árvore que ele faz nascer de resto esse tipo de figuração atravessa o Atlântico na época colonial e aparece particularmente em Santo Domingo de Oaxaca no México Enfim se a posição paternal dos clérigos é contestada pelas heresias e por vezes pela pressão dos laicos ela conhece uma evolução no próprio interior da Igreja Assim os membros das ordens mendicantes fazemse chamar frades 33 frater fratello fray inclusive pelos laicos sinal de uma inflexão menos hierárquica embora rapidamente retomada e atenuada Mas a despeito dessas nuances e dessas evoluções a dualidade paisfilhos equivale no essencial à dualidade clérigos laicos Não apenas exprime a hierarquia estabelecida entre eles mas também constitui uma justificativa desta A paternidade espiritual dos clérigos é o enunciado e a garantia de sua autoridade ainda mais porque ela se articula à prática do celibato Como foi visto o clérigo subtraise aos laços do parentesco carnal e é através dessa renúncia que ele adquire a faculdade de tornarse espiritualmente pai Agostinho apresentando um novo bispo ao povo já afirmava Ele não quis ter filhos segundo a carne a fim de têlos mais ainda segundo o espírito Tal configuração retração do parentesco carnalposição de pai espiritual funda a dominação social do clero sobre uma dupla hierarquia espiritualcarnal paifilho A posição do clero parece igualmente caracterizada por um outro elemento específico uma união matrimonial espiritual Assim as monjas são as noivas de Cristo e o bispo esposa a sua igreja quer dizer sua diocese em um ritual marcado pela entrega do anel Como o bispo é também filho da Igreja ao mesmo título que todos os batizados a conjunção de uma relação de filiação e 33 Frères no original francês que corresponde tanto a irmãos como a frades N T A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 461 460 Jérôme Baschet de uma aliança matrimonial permitiu que se falasse aqui de incesto simbólico e que se definisse essa infração como um diferencial que sacraliza que justifica a posição dominante do clero Anita GuerreauJalabert Entretanto o casamento com a Igreja concerne apenas aos bispos e sobretudo ao papa que é o único a esposar a Igreja universal Além do mais esse ritual que se esboça a partir do século IX e se afirma no século XII não é o fundamento do poder espiritual do bispo recebido pela imposição das mãos ou pela unção símbolos da infusão do Espírito Santo Essa relação de aliança não parece então exercer um papel determinante na definição do estatuto do clero mas constitui antes um caráter suplementar próprio ao topo da hierarquia eclesiástica O essencial para definir o clero como grupo dominante no seio de uma sociedade dual seria muito mais o caráter duplo do celibato e da paternidade espiritual É aí que se encontra o diferencial que sacraliza e que distingue os clérigos associando renúncia e poder simbólico Irmandade de todos os cristãos e desenvolvimento das confrarias Uma outra relação de parentesco espiritual concerne a todos os batizados sendo filhos de Deus e da Igreja os cristãos são irmãos entre si Essa irmandade generalizada é também ela instituída pelo batismo de modo que caracteriza os membros da cristandade e traça uma linha de separação que exclui os outros homens Poderoso vetor de unidade da cristandade e de concórdia social essa relação é muitas vezes evocada pelos clérigos em particular quando é necessário apaziguar os conflitos e pregar a reconciliação É verdade que na terra esse laço permanece largamente virtual ineficaz Ele se apaga impotente na maior parte do tempo diante da lógica das dominações sociais e das regras familiares A irmandade generalizada dos cristãos é um horizonte parcialmente inacessível aqui embaixo cuja plena realização é adiada para o além Certos laços sociais são entretanto suscetíveis de ativar essa irmandade latente O fato de os clérigos pertencerem à Igreja a despeito das hierarquias que a estruturam torna mais ativo esse laço muito particularmente no seio de uma comunidade monástica Ele pode ser estendido aos laicos que através de suas doações notadamente a Cluny são integrados à família monástica ou ao menos são associados a ela em suas preces O compadrio é igualmente uma maneira de tornar eficaz a irmandade de todos os batizados A prática das esmolas aos pobres direta ou por intermédio da Igreja é uma outra manifestação sua eminentemente característica da sociedade medieval Enfim o desenvolvimento das confrarias a partir do século XII e sobretudo do século XIII permite alargar a consciência prática dessa fraternidade Tratase de um fenômeno de grande amplitude na escala da cristandade tanto nos campos como nas cidades e que está destinado a prolongarse no Novo Mundo sob formas parcialmente originais Segundo os lugares e as épocas as confrarias podem tomar formas diferentes privilegiando tanto o aspecto devocional como a organização corporativa de um ofício ou de um grupo profissional Todas têm entretanto importantes pontos em comum São associações de ajuda mútua e de devoção livremente estabelecidas que se empenham para tornar ativos os laços de amor fraternal entre seus membros Seu próprio nome confraternitas em latim hermandad em castelhano como o de compadres dado a seus participantes indica bem que elas se baseiam na noção de irmandade espiritual alargada característica das concepções cristãs do parentesco A unidade das confrarias manifestase pela devoção comum ao protetor do grupo um santo padroeiro ou a Virgem figura 25 na p 249 por formas de solidariedade concreta notadamente a responsabilidade dos funerais e a prece coletiva para os membros defuntos ou ainda por atividades ritualizadas como o banquete anual em que em torno do alimento partilhado se realiza simbolicamente a unidade da corporação A instituição das confrarias permitiu assim uma organização parcialmente autônoma dos laicos embora sempre sob o olhar vigilante dos clérigos Ela é sobretudo um instrumento eficaz de integração dos laicos no seio das estruturas sociais e ideológicas desenhadas pela Igreja Poderosos meios de integração as confrarias com frequência reduplicam as estruturas paroquiais e são inteiramente fundadas sobre as regras do parentesco espiritual cuja elaboração e controle cabem à Igreja No geral a irmandade generalizada dos cristãos aparece como uma forma ideal e não realizada do parentesco espiritual A comunidade ritual do batismo lhe confere uma existência objetiva que reitera a participação no sacramento eucarístico mas o laço de amor espiritual que deveria caracterizála não chega a se manifestar plenamente Em revanche o fato de pertencer a uma confraria cria um círculo de parentesco espiritual tornado efetivo por ritos apropriados e por formas de ajuda mútua A confraria é para retomar uma noção de Pierre Bourdieu a parte prática mantida em funcionamento da irmandade espiritual de todos os batizados Se se considera agora o conjunto das relações espirituais mencionadas aqui vêse que a conjunção do parentesco carnal e do parentesco espiritual engendra alguns paradoxos aparentes Agostinho nota que o filho que chega ao episcopado tornase pai de seu pai enunciado paradoxal que se liga ao fato de que o laço espiritual inverte o laço carnal Ilustrando um outro caso Agostinho sublinha que seus próprios pais carnais se tornaram irmãos espirituais Eles que foram meus pais e A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 463 462 Jérôme Baschet meus irmãos em vós nosso Pai e na Igreja católica nossa mãe Dessa vez o laço espiritual não inverte o laço carnal mas iguala uma relação hierárquica O parentesco espiritual projeta na horizontal um laço de natureza vertical Assim a superposição dos laços espirituais aos laços carnais através de contorção ou reversão aparece como um instrumento eficaz de manipulação do parentesco Enfim a abrangência simbólica desses laços é considerável pois eles contribuem para definir a armação ideológica da sociedade A irmandade de todos os cristãos enuncia a unidade da cristandade enquanto a paternidade espiritual dos clérigos funda a dualidade hierárquica que no seio desse conjunto unificado os separa dos laicos O PARENTESCO DIVINO PONTO FOCAL DO SISTEMA No coração mesmo do dogma quer dizer das representações que fundam a visão de mundo e a organização da sociedade cristã urdese um novel particularmente denso de relações de parentesco Um laço de parentesco inscrevese com efeito entre as duas primeiras pessoas da Trindade o Pai e o Filho A questão do parentesco situase então no centro da definição do Deus cristão mesmo se o estatuto do Espírito Santo incita a sublinhar que nem tudo nesse sistema é pensado em termos de parentesco assimilado à efusão da graça e da inspiração divinas o Espírito Santo é o agente de uma expansão do amor entre os homens e Deus e entre eles próprios ele é uma potência de conjunção e de concórdia tanto entre as criaturas como no seio da Trindade da qual ele assegura a coesão pois Tomás de Aquino qualifica explicitamente o Espírito de nó entre o Pai e o Filho O Filho igual ao Pai os paradoxos da Trindade A natureza da filiação entre Pai e Filho constitui uma das principais questões das controvérsias trinitárias Enquanto Árius 256336 sacerdote em Alexandria no início do século IV nega a plena divindade de Cristo e reconhece o Pai como único Deus verdadeiro a ortodoxia que se forma em reação ao arianismo deve conceber um laço entre o Pai e o Filho que seja uma verdadeira filiação e que todavia assegure sua igualdade divina Decisivo a esse propósito o Concílio de Niceia em 325 seguido por outros concílios ecumênicos do século IV proclama o Credo trinitário em virtude do qual o Filho é dito verdadeiro Deus de verdadeiro Deus consubstancial ao Pai engendrado e não criado enquanto o anátema é lançado sobre aqueles que afirmam que antes de ser engendrado ele não existia ou que o filho de Deus nasceu O Filho deve com efeito ser engendrado pois do contrário não seria filho mas ele não pode ser criado pois seria uma criatura e não divino ao mesmo título que o Criador A diferença entre criação e engendramento é então decisiva para manter junto o que os contestadores arianos como também os pagãos e os judeus consideram inconciliável a possibilidade de conceber Cristo como Filho e ao mesmo tempo totalmente igual ao Pai Uma relação de paternidade fundada sobre o engendramento inscrevese assim no seio do núcleo divino entre as figuras da Trindade diferentes em suas pessoas mas iguais em sua essência a ponto de que nenhuma pode se vangloriar de preeminência qualquer que seja ela Entre o Pai e o Filho existem a um só tempo verdadeira filiação e perfeita igualdade Ou seja uma equação Pai Filho na qual a igualdade é ao mesmo tempo hierárquica e essencial mas que nem por isso supõe uma identidade entre as pessoas O dogma trinitário produz assim o modelo de uma relação paradoxal em total contradição com os elementos da filiação na ordem carnal pois ele iguala uma relação que normalmente é hierárquica Mais precisamente esse modelo nega o que a filiação define aqui embaixo quer dizer seu caráter ordenado Na espécie humana composta de seres mortais essa relação supõe uma ordem uma sucessão das gerações Ao contrário o parentesco trinitário unindo pessoas divinas eternas caracterizase por um modelo de filiação sem relação de gerações e sem subordinação O dogma trinitário é um paradoxo insustentável tanto no que concerne à junção da filiação e da igualdade como pela delicada conciliação do um e do três Desde cedo foi diante de dois perigos opostos que a ortodoxia teve de se definir de um lado o arianismo que só admite a divindade do Pai e nega a do Filho de outro o sabelianismo ou o priscilianismo dos séculos III e IV acusados de confundir o Pai o Filho e o Espírito Santo em uma só pessoa Por caminhos inversos tendese nos dois casos à retomada de um monoteísmo estrito enquanto a ortodoxia procura sua via entre os perigos para fundar o paradoxo de um Deus único em três pessoas uno em sua essência e trino na diversidade das pessoas Como se viu as acusações de heresia não demoram a reaparecer apesar das decisões do Concílio de Niceia o nestorianismo desafia na sequência do arianismo a lógica da Encarnação separando radicalmente as duas naturezas divina e humana de Cristo no outro extremo o monofisismo afirma a natureza única de Cristo indissociavelmente divino e humano A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 465 464 Jérôme Baschet Seminários 8 O parentesco carnal e seu controle pela igreja BACHET Jerôme A civilização feudal do ano 1000 à colonização da América São Paulo 2006 pp 446455 Grupo 8 V O PARENTESCO REPRODUÇÃO FÍSICA E SIMBÓLICA DA CRISTANDADE NA CRISTANDADE MEDIEVAL as relações entre os homens sejam ou não parentes mas também as relações entre os homens e as figuras divinas ou entre as próprias figuras sobrenaturais são em grande parte definidas como laços de parentesco Além das regras que como em todas as sociedades definem a filiação e regem as práticas de aliança constatase a onipresença do parentesco espiritual e divino Mesmo se a rede dessas relações de parentesco não permite dar conta da totalidade dos laços existentes no seio da sociedade medieval ela tem um papel considerável na definição das relações sociais assim como na representação das relações entre os homens e as forças que regem o universo O fundamento desse sistema de representações é a instituição evangélica de uma paternidade centrada em Deus No Evangelho é Cristo que estabelece a existência de um Pai nos céus do qual ele próprio é o filho e que através dele se torna pai daqueles que o seguem Tal é o sentido do Pater Noster Mat 6 913 que Jesus ensina a seus discípulos e que lembra no coração de toda prece cristã esse laço filial entre o homem e Deus A afirmação de uma paternidade celeste tem no próprio Evangelho dois corolários explícitos Em primeiro lugar nele o parentesco carnal encontrase desvalorizado O ato de fé é posto em concorrência com os laços do sangue e deve sobreporse a estes Aquele que vem a mim se ele não odeia seu pai e sua mãe não pode ser meu discípulo Luc 14 26 O próprio Jesus dá o exemplo recusando reconhecer sua mãe e seus parentes que vêm a seu encontro Quem é minha mãe e quem são meus irmãos diz ele Depois designando seus discípulos Eis minha mãe e meus irmãos pois qualquer um que faça a vontade de meu Pai que está nos céus este é para mim um irmão uma irmã e uma mãe Mat 12 4650 O segundo corolário é expresso aqui como em muitas outras passagens sendo todos filhos de Deus os discípulos de Cristo são unidos entre eles por um laço de fraternidade É isso que se chamará de irmandade generalizada de todos os cristãos Esses dois pontos que permanecem fundamentais ao longo de toda a Idade Média são expressos nos Evangelhos com uma violência tão radical que a Igreja medieval não poderá assumilos totalmente no mínimo pelo fato de que a rejeição de Maria por seu filho não mais é conveniente em uma sociedade em que o culto à Virgem adquiriu lugar central Um revoltado como Pasolini será finalmente mais adequado para reencontrar nas imagens ardentes de seu Evangelho segundo Mateus toda a carga subversiva desse episódio Como a época dos primeiros Padres da Igreja é aquela das conversões do paganismo ao cristianismo ela continua a opor radicalmente o parentesco celeste e o parentesco terrestre Tertuliano afirma que os cristãos são os mais livres dos homens somente eles não são adstritos à determinação da filiação carnal e podem escolher seu pai entendamos que eles podem escolher o Pai divino contra o pai humano É ainda assim nas Confissões de Agostinho que indica no contexto de um batismo desejado mas diferenciado Assim então eu acreditava minha mãe acreditava e toda a casa com a única exceção de meu pai Minha mãe desejava fervorosamente que vós fósseis mais do que ele um pai para mim meu Deus Tratase então de passar da paternidade carnal para a paternidade divina por uma verdadeira substituição do pai terrestre pelo Pai celeste A partir de então tal é o modelo de toda conversão do paganismo ao cristianismo e a seguir no seio do cristianismo desviarse do pai carnal para ir na direção ao Pai divino Até Francisco de Assis e mesmo após toda mudança de estado religioso é pensada como uma conversão de parentesco figura 19 na p 206 Embora a configuração descrita possa parecer consubstancial ao cristianismo e a seus Evangelhos ela não forma em absoluto um sistema estático Com base nos fundamentos espirituais elaborase na Idade Média uma construção complexa e ramificada que permite o afloramento de uma profusão de práticas de discursos e de representações por vezes até abundantes A importância e a complexidade crescentes das representações de parentesco ao longo da Idade Média sinalizam questões sociais tornadas particularmente intensas Para dar conta disso os trabalhos de Anita GuerreauJalabert que sublinha o papel estruturante da oposição entre parentesco carnal e parentesco espiritual constituem uma contribuição maior Por parentesco carnal serão designados os laços de consanguinidade e de aliança matrimonial classicamente estudados pela antropologia Qualificálos de carnal não quer absolutamente dar a entender que esses laços concernem a dados puramente biológicos pois o parentesco é sempre um fato socialmente elaborado O parentesco carnal diz respeito a laços definidos a um só tempo por normas instituídas e pela existência postula da de um laço carnal tratase de laços que derivam de um exercício socialmente regulamentado da reprodução sexuada Chamáloei carnal apenas para dar conta das concepções medievais que o opõem a uma outra forma de parentesco dito espiritual Por parentesco espiritual serão designadas as relações entre indivíduos ou entre homens e figuras sobrenaturais que são pensadas a partir do modelo do parentesco aliança filiação irmandade embora reivindiquem expressamente a ausência de todo laço carnal entre as pessoas concernidas Essa forma de parentesco é chamada espiritual porque transmite a vida não do corpo mas da alma e dá direito a uma herança não material mas espiritual a beatitude celeste Enfim acrescentarseá um terceiro grau distinto emboára próximo do parentesco espiritual assim como este o parentesco divino exclui toda referência ao exercício da reprodução sexuada mas une por sua vez figuras divinas ou sobrenaturais O PARENTESCO CARNAL E SEU CONTROLE PELA IGREJA A imposição de um modelo clerical do casamento Desde muito cedo a Igreja se interessa pelas instituições familiares para introduzir nelas alterações consideráveis postas em evidência por Jack Goody Duas fases testemunham tensões particularmente vivas Nos séculos IV e V enquanto a Igreja passa da perseguição à posição de instituição e o Império Romano se desagrega a maior parte dos elementoschave das estruturas antigas do parentesco está periclitante ou desaparece no Ocidente notadamente a adoção a concubinagem o divórcio e o levirato Ao contrário novas práticas desenvolvemse em particular o apadrinhamento a partir do século VI assim como o conjunto de relações associadas ao parentesco batismal A concepção do casamento é também profundamente transformada É preciso lembrar que nos primeiros séculos do cristianismo a ruptura evangélica com a moral judaica da fecundidade e sobretudo com a exigência de natalidade que impunha ao cidadão romano um dever de dar filhos à Cidade conduz a desvalorizar radicalmente o casamento ligado ao contato sexual e portanto ao pecado somente a continência e a virgindade parecem ser então dignas de exaltação Não pode haver salvação senão na fuga para fora do mundo e da sociedade quer dizer para fora da família Depois assumindo as consequências da mudança de estatuto da Igreja Agostinho inaugura um processo fundamental que prossegue na longa duração do milênio medieval Com efeito ele engaja o cristianismo em uma prudente reabilitação do casamento em particular afirmando que este foi instituído por Deus no paraíso terrestre entre Adão e Eva quer dizer antes do pecado original no estado de inocência e de perfeição da humanidade desejado pelo Criador Tal evolução se inicia de maneira bem compreensível a partir do momento em que se impõe a necessidade de compor com a organização terrestre da sociedade e em primeiro lugar reproduzila fisicamente Resulta disso uma concepção ambígua na qual o casamento e a reprodução sexuada são ao mesmo tempo depreciados em relação a castidade e todavia aceitos sob condição de serem controlados e associados a um laço espiritual Isso leva a desenvolver um modelo do casamento que impõe a um só tempo a monogamia a indissolubilidade já afirmada em Mat 19 46 e uma exogamia muito mais forte do que em Roma mas que só se impõe progressivamente na prática Tal combinação conduz a um modelo da aliança de casamento inédito e extraordinariamente constritivo que constitui provavelmente uma exceção histórica Alain Guerreau Ele está associado a uma primeira afirmação da posição da Igreja no mínimo porque essas construções têm por efeito multiplicar o número de casais sem descendência Junto com os obstáculos postos ao casamento das viúvas em oposição ao levirato antigo que criava uma obrigação de novo casamento com o irmão do defunto elas transformam as modalidades de transmissão das heranças e favorecem sua concentração em benefício da Igreja Jack Goody Mas além das vantagens materiais que a Igreja pode tirar dessas alterações sua intervenção no domínio do parentesco lhe fornece uma poderosa alavanca na obra de conversão e de controle da sociedade Nos séculos XI e XII a reestruturação da sociedade produz outro momento de tensão máxima As regras da aliança de casamento são objeto de numerosos conflitos muitas vezes uma ocasião para a Igreja manifestar sua força diante dos laicos importantes como por exemplo a excomunhão do rei da França Filipe I em 1094 e 1095 acusado por Urbano II de bigamia e incesto Georges Duby Tais termos apenas nomeiam e condenam de um ponto de vista eclesiástico as práticas aristocráticas do concubinato do repúdio da esposa e do segundo casamento assim como a união entre parentes próximos notadamente entre primos germânicos Tais costumes eram correntes durante a Alta Idade Média e não encontram nenhuma oposição Como outros povos germânicos ou escandinavos os francos praticavam ao lado da aliança principal um casamento secundário sem transferência de bens mas formalizado além do concubinato Eginhardo o biógrafo de Carlos Magno enumera sem se inquietar as quatro esposas e as cinco concubinas do imperador e contabiliza os filhos nascidos de cada uma delas Mesmo se a situação evolui do século IX ao século XI notadamente no que concerne à exigência monogâmica ou ao menos suas aparências os costumes que a aristocracia considera lícitos perante suas próprias normas chocamse frontalmente com o modelo clerical do casamento que defende a indissolubilidade e atinge então o seu maior grau de exigência exogâmica Com efeito Pedro Damião e o papa Alexandre II em uma decretal de 1065 relançam vigorosamente a interdição de aliança de casamento até o sétimo grau canônico quer dizer segundo o modo de cálculo mais exigente que conta as gerações e o ancestral comum das duas pessoas implicadas e não segundo o cómputo romano que acrescenta as gerações indo de uma pessoa a outra passando pelo ancestral comum o que dobra o número de graus Durante um século e meio a Igreja brande essa regra a despeito de seu caráter impraticável Ou melhor diante de imperativos ao mesmo tempo tão rígidos e tão impraticáveis as estratégias do clero são eminentemente seletivas em decorrência de seus interesses Seja interditando seja negociando dispensas a Igreja se põe como censor da legitimidade dos casamentos no seio da aristocracia aspecto fundamental da organização da classe dominante pois ele determina a transmissão dos bens e do poder sobre os homens Nesse sentido não é exagerado dizer que o casamento é a chave de abóbada do edifício social Georges Duby e cujo controle a Igreja conseguiu assegurar ao final dos conflitos dos séculos XI e XII Quanto aos dominados a prática do casamento no quadro estreito do universo do conhecimento a comunidade e as aldeias não parece confrontar as regras fixadas pela Igreja graças sem dúvida a uma estratégia coletiva tácita de esquecimento dos laços genealógicos que permite evitar o bloqueio das trocas matrimoniais Mais tarde o Concílio de Latrão IV desloca os limites da interdição matrimonial para o quarto grau canônico Mas essa medida é sem dúvida menos uma marca de fraqueza da Igreja do que o sinal de seu triunfo uma vez que o modelo clerical do casamento impôsse no essencial é possível dar mostra de mais moderação abandonar uma arma de combate concebida para um período de conflito aberto e adotar uma norma mais moderada e mais realista Ao longo desse período os clérigos empenhamse em reforçar e impor na prática o modelo de casamento já delineado pelos teólogos carolíngios quer dizer uma concepção espiritualizada do laço matrimonial que limita o exercício da sexualidade ao único objetivo de procriação e faz do casal casto o ideal supremo O enquadramento da sexualidade matrimonial sempre percebida como ambivalente como uma realidade ao mesmo tempo necessária e perigosa é assegurado principalmente pelo número elevado de dias festivos durante os quais a atividade sexual é proscrita e mesmo pela insistência sobre as atitudes e as diversas posturas sexuais proibidas Esse papel repressivo da Igreja é entretanto contrabalançado pela reabilitação crescente do casamento que conduz por exemplo Tomás de Aquino a considerar legítimo o prazer sexual Mesmo se a condição é que ele se manifeste no quadro de uma união legítima e seja associado à preocupação de procriar tratase de uma novidade notável em relação à condenação inapelável do prazer físico nos autores anteriores Um aspecto decisivo da reabilitação do casamento intervém no século XII quando este concebido como imagem da união mística de Cristo com a Igreja ganha lugar entre os sete sacramentos É o resultado de um longo processo e finalmente de uma reviravolta completa em relação à atitude dos primeiros cristãos diante do casamento No mesmo momento enquanto antes o casamento constituía um ato privado que dizia respeito à exclusiva competência das famílias o desenvolvimento da liturgia nupcial manifesta o esforço dos clérigos para intervir no ritual da aliança através das bênçãos especialmente do quarto dos esposos ou pela celebração do casamento diante da porta da igreja na presença de um padre Mas o sucesso dessas intervenções é muito variável segundo as regiões e em todo caso elas não são absolutamente necessárias segundo a norma canônica insistentemente lembrada desde o século IX é essencialmente o consentimento dos esposos que confere validade à união A intervenção do sacerdote no ritual matrimonial só se tornará obrigatória após o Concílio de Trento O processo de enquadramento do casamento dos laicos ocorre paralelamente a uma reafirmação do celibato dos sacerdotes que é uma das questões da reforma da Igreja É verdade que o celibato clerical enquanto norma constitutiva de um estado social e não como simples ideal pessoal começa a afirmarse no fim do século VI mas sua realização efetiva ainda está longe de ser garantida no início do século XI Além de sua intenção moral ele permite então traçar uma delimitação radical entre clérigos e laicos o que é o objeto central da reorganização da sociedade engajada pela Igreja De um lado os laicos são destinados ao casamento e à reprodução corporal da cristandade de outro os clérigos caracterizados pelo celibato e pelo abandono dos laços desvalorizados da carne tornamse aptos a uma tarefa mais nobre a reprodução espiritual da sociedade Através do prestígio conferido pela renúncia à carne eles afirmamse como especialistas do sagrado como os intermediários que reivindicam a exclusividade nas relações com o mundo divino o liturgista Guilherme Durand em fins do século XIII qualificaos explicitamente de mediadores entre os homens e Deus Transmissão dos patrimônios e reprodução feudal Em numerosas sociedades o laço de filiação ou de descendência é transmiti do por somente um dos dois sexos cada indivíduo pertence então seja ao grupo de parentesco de seu pai e de seus ascendentes em linha masculina sistema patrilinear seja ao de sua mãe e de seus ascendentes em linha feminina matrilinear Assim o mundo romano antigo apresenta traços notáveis de patrilinea ridade Estes desaparecem desde a Alta Idade Média em benefício de um sis tema indiferenciado no qual o laço de descendência é transmitido igualmente pelos dois sexos Cada indivíduo possui então sua própria parentela que engloba todos os consanguíneos de seu pai e de sua mãe sem contar os afins parentes do cônjuge Este sistema indiferenciado ou cognático que perdura até nossos dias é característico do conjunto da Idade Média mesmo se ele conhece algumas adaptações A principal está ligada à reorganização da aristo cracia e da sociedade feudal ao longo dos séculos XI e XII A historiografia com frequên cia caracterizou esse movimento como um nascimento da linhagem aristocrática mas o termo é pouco adaptado pois ele designa no vocabulário dos antropologos o grupo de descendentes de um ancestral comum o que supõe um sistema patrilinear ou matrilinear evocase também a passagem de uma organização horizontal tal como a Sippe germâ nica da Alta Idade Média grupo familiar alargado que mobiliza principalmente as solidariedades entre irmãos e primos para uma organização vertical que restringe o grupo familiar e põe o acento sobre uma linha de transmissão genealó gica de geração em geração De fato Anita GuerreauJalabert demonstrou que não se trata de uma mudança das regras que definem a filiação quer dizer que de termina para cada indivíduo as pessoas socialmente consideradas parentes mas de uma adaptação das representações e dos costumes do parentesco à ter ritorialização da nobreza que se generaliza na Idade Média Central A partir daí o que define a aristocracia é o enraizamento em uma terra no mínimo um senhorio na qual se exerce seu poder e que funda sua posição social A estra tégia ideal de reprodução social consiste então em transmitir em herança de maneira indivisa essa terra e o poder sobre os homens que lhe é associado Formamse assim topolinagens cadeias de transmissão de geração em gera ção de um mesmo poder territorial Dito de outro modo linhagens de herdeiros de uma mesma terra e da função de cominação que lhe é vinculada A noção de topolinhagem visa exprimir a dependência das estruturas de parentesco em rela ção à organização espacial da sociedade feudal e indica que a linhagem aristo crática só recebe sua substância sua coerência e sua continuidade através da forma pela qual se insere em um território Anita GuerreauJalabert É nesse contexto que é necessário reinterpretar os traços que são muitas vezes associados ao desenvolvimento de uma consciência dinástica O mais explícito deles é a difusão nos meios aristocráticos de uma literatura dita genealógica a partir de meados do século XI e sobretudo durante os dois séculos seguintes De fato esses textos estão menos preocupados em construir uma ver dadeira genealogia do que estabelecer com fins de legitimação as modalidades de transmissão do poder detido por uma família condal ou senhorial e em par ticular do castelo que é seu coração São portanto principalmente topolinha gens que são postas em cena por essa literatura na qual no mais se faz men ção a parentes em linha paternal tanto quanto maternal cada família nobre se esforça para vincularse a um ancestral tão distante e prestigioso quanto possí vel considerado o fundador do castelo e das possessões que se encontram no coração de seu poder Para tanto se ele privilegia essa topolinhagem o autor ou o inspirador de uma genealogia nobre faz menção de seus parentes tanto em linha paternal como em linha maternal ainda mais porque em razão da hiper gamia dominante casamento com uma mulher de posição superior a linha maternal é em geral a mais prestigiada Em segundo lugar ao longo do século XI emerge um novo sistema antroponímico um nome individual segui do de um nome que exprime o vínculo familiar Para os aristocratas este últi mo nome designa sobretudo o lugar ou até mesmo o castelo no qual se enraí za o seu poder como um modo muito claro e forte de tornar manifesto a ligação entre estatuto social e inscrição espacial Enfim os brasões que de início apa recem nos estandartes para identificar os combatentes se generalizam a partir de meados do século XII sem jamais se tornarem exclusivos da aristocracia Comumente associados ao princípio genealógico eles podem é verdade expri mir um laço de descendência mas de igual modo através do jogo de combina ções múltiplas dão lugar a relações horizontais fundadas no casamento na vas salidade e outras formas de aliança Uma transformação importante que não deixa de estar relacionada com a emergência das topolinhagens diz respeito às regras de transmissão dos bens Enquanto a partilha igualitária das heranças prevalece durante a Alta Idade Média a espacialização do poder aristocrático incita a transmitir a um só her deiro a entidade territorial na qual se enraíza o status de uma linhagem Embora de maneira muito lenta e muito parcial para frear a fragmentação dos poderes senhoriais a indivisão sucessoral desenvolvese pouco a pouco sob diferentes formas das quais o direito de primogenitura é a mais utilizada Seu desenvolvi mento ao longo dos séculos XI e XII é visível e mesmo se numerosas regiões do Ocidente não recorrem a ele o direito de primogenitura foi suficientemente assimilado ao sistema feudal para ser violentamente posto em causa quando do A civilização feudal 453 20 desmoronamento deste o que é sancionado pelo Código Napoleônico A trans missão privilegiada da herança tende a criar vários grupos de excluídos entre os descendentes as filhas os cadetes e os filhos ilegítimos Suas situações são entretanto bastante distintas As filhas são muito menos excluídas da herança do que se crê comunem te Como a preferência recai sobre a transmissão em linha direta mais do que lateral na ausência de um descendente masculino a sucessão era feita mais facilmente em benefício de uma filha do que de um irmão ou de um sobrinho Não é raro então que uma mulher assuma o encargo de um senhorio de um condado ou até mesmo de um reino que se pense em Isabel de Castela É ver dade que a hierarquia dos sexos e a importância dos valores guerreiros no seio da aristocra cia são tais que sempre se valoriza mais a possibilidade de um her deiro masculino tendência que se reforça ao longo da Idade Média no caso do reino da França a regra de transmissão da coroa em linhagem exclusivamente masculina é forjada de maneira circunstancial a partir de 1328 para afastar as pretensões inglesas Além disso desde a Alta Idade Média as filhas recebem um dote de seus pais no momento do casamento É verdade que o dote exclui o direito de herança e nesse sentido sua generalização contribui à concentra ção da parte principal do patrimônio nas mãos de um só herdeiro Entretanto mesmo quando o dote é entregue em dinheiro ele está longe de ser desprezível ele pode atingir uma parte importante dos bens familiares sobretudo a partir do século XIII Do mesmo modo podemos seguir os antropólogos que conside ram o dote uma participação antecipada das filhas na herança O dote pode assim ser tido por uma das modalidades da devolução divergente instituição capital no conjunto das sociedades da Eurásia por oposição à África em vir tude da qual as transferências se efetuam em benefício tanto das filhas como dos filhos Jack Goody E assim como indica o mesmo autor a devolução divergente dos bens tanto para as mulheres como para os homens é acompanha da de uma série de mecanismos de continuidade que visam garantir a coerên cia no uso dos recursos familiares é o que ilustra perfeitamente a formação feu dal das topolinhagense À medida que a primogenitura ganha terreno a situação dos cadetes torna se menos invejável do que a da filhas Mesmo se muitas vezes uma compensa ção monetária lhes é acordada e se sua exclusão da herança é relaxada em certos períodos os cadetes são na maior parte das vezes separados do tronco familiar Isso é bastante claro quando eles são desde a infância oferecidos como oblatos a um monastério ou quando mais tarde entram na carreira eclesiástica É pro vável que a situação desvantajosa dos cadetes afastados dos interesses materiais de sua parentela prepara e dá ainda mais força à conversão e à ruptura com a parentela carnal suposta pela integração ao clero Junto com os efeitos da redis tribuição dos postos episcopais em benefício da pequena e da média aristocra cia isso ajuda a compreender por que a despeito de uma mesma origem social as solidariedades e as convivências entre o alto clero e a aristocracia são finalmen te menos marcadas do que a afirmação em face desta última dos interesses e dos valores próprios da Igreja Quanto aos cadetes que permanecem laicos eles se lançam em busca de aventura Roberto Guiscardo e o rei Rogério da Sicília que retomam dos muçulmanos a Itália do Sul e a Sicília são os exemplos típicos de cadetes privados de bens próprios e que chegam à mais alta glória De modo mais genérico Robert Moore pôde sublinhar o papel decisivo dos cadetes nos empreendimentos que caracterizam a expansão da Europa na Península Ibérica e na Terra Santa e deveríamos acrescentar até na conquista da América Desvantagem individual a exclusão dos cadetes parece então um fator de dina mismo social pela proeza combativa e pela audácia de conquista às quais ela impele aquele que deve adquirir por si mesmo a alta posição social que seu nas cimento lhe atribui ao mesmo tempo que lhe nega ou ainda porque ela garante à Igreja recrutas numerosos saídos da elite da sociedade e no entanto predis postos a abraçar os interesses de um outro tipo de parentesco Enfim durante a Alta Idade Média os filhos ilegítimos notadamente fru tos de uniões com concubinas são em geral associados à herança ao mesmo título que os filhos legítimos Carlos Martel é um bastardo assim como Bernardo neto de Carlos Magno e rei da Itália em 811 ainda em meados do século XI a mesma situação não cria nenhum obstáculo a Guilherme o Con quistador quando ele ascende ao trono da Inglaterra Entretanto a partir do século XII e mais ainda do século XIII a situação dos filhos ilegítimos degradase sensivelmente Mesmo se encontramos muitas exceções à regra eles geralmen te são excluídos da herança e submetidos de maneira crescente ao menosprezo e a regras discriminatórias notadamente a interdição de chegar ao sacerdócio É uma consequência lógica da imposição do modelo clerical do casamento que condena com virulência o adultério e o concubinato só reconhecendo união legí tima no quadro da união matrimonial Mas aqui as normas clericais vêm con fortar os interesses aristocráticos excluindo uma categoria possível de herdei ros de certa maneira a estigmatização crescente dos bastardos acompanha a territorialização da aristocracia Robert Moore Mais genericamente podese perguntar se o modelo clerical do casamento por mais contrário aos costumes da aristocracia que tenha podido parecer em um primeiro tempo não acabou servindo aos interesses desta como classe A firme oposição à endogamia ao concubinato e ao repúdio contrariava sem dúvida a preocupação de não ficar sem descendência mas a afirmação do casamento monogâmico e indissolúvel e A civilização feudal 455 21 to espiritual e pão da vida Enfim a função maternal da Igreja declinase em múltiplos temas que a descrevem como uma mãe que cobre seus filhos de cui dados e amor Segundo são Bernardo por exemplo a Igreja embala os fiéis e os protege sob suas asas A paternidade dos clérigos um princípio hierárquico Definir a posição do clero nessa rede não é fácil em virtude da diversidade dos estatutos em seu seio posições hierárquicas ordens menoresmaiores secula resregulares tradicionaisnovos e das situações que se inscrevem na fronteira que separa clérigos e laicos clérigos tonsurados mas não ordenados conversos ofertados e membros das ordens terceiras Mas como se viu a divisão entre clérigos e laicos asperamente defendida permanece socialmente determinan te Portanto as análises seguintes serão concentradas nos indivíduos cujo fato de pertencer ao clero é manifestado pela realização de um ritual ordenação aquisição do hábito ou votos e por um modo de vida discriminante essen cialmente o celibato de resto é a aparição no século III de um rito de orde nação conferindo um papel exclusivo na celebração da eucaristia que consti tui a origem da separação entre clérigos e laicos Como os demais cristãos os clérigos são filhos de Deus e da Igreja Sua função confere entretanto uma posição específica na rede de parentesco eles também são pais É através do sacramento batismal que o estatuto paternal do pai se manifesta mais claramente Ele exerce então o papel de representante de Deus na terra ou melhor ele permite a realização do ato de parir por Deus e pela Igreja em virtude de seu estatuto de lugartenente de Deus e de mem bro da Igrejainstituição É verdade que a paternidade dos sacerdotes não pode ria pretender a mesma dignidade que a de Deus entretanto ela é o agente indis pensável à sua propagação o papel eminentemente ativo do sacerdote é sublinhado pela evolução da liturgia batismal pois no Ocidente a fórmula eu te batizo supera o gesto passivo mantido em Bizâncio pelo qual o celebrante anuncia que o fiel é batizado em nome de Deus Na sociedade medieval os sacerdotes únicos habilitados a conferir os sacramentos são os mediadores obrigatórios do parentesco divino É através deles que se instaura para os cris tãos a paternidade de Deus e a maternidade da Igreja Os títulos empunhados dos clérigos manifestam claramente essa paterni dade abade de abbas pai e sobretudo papa papa papatus termos utiliza dos por todos os bispos e depois reservados somente ao pontífice romano a par tir do século XI É onipresente esse modo de tratamento dos clérigos pater meu padre Além disso a relação de paternidade não exprime somente a dua lidade entre clérigos e laicos mas também as hierarquias no seio do clero como lembram as posições de abade à frente de seu monastério e de papa no cume da instituição eclesial Do mesmo modo os laços de dependência entre estabe lecimentos monásticos podem ser concebidos como relações de filiação espiri tual por exemplo quando se evoca a descendência de Claraval ou de outras abadias cistercienses São igualmente os laços de parentesco espiritual que são mostrados no século XV pelas árvores monásticas que crescem a partir do ven tre de um fundador de ordem como são Bento ou são Domingo e cujos ramos abrigam a multidão de seus discípulos embora essas representações se pareçam fortemente com a árvore de Jessé e com as primeiras imagens de genealogia familiar sob forma de árvore que aparecem então é claro que elas não mostram absolutamente o parentesco carnal do santo mas exprimem a amplitude de sua fecundidade espiritual através da exuberância da árvore que ele faz nascer de resto esse tipo de figuração atravessa o Atlântico na época colonial e aparece particularmente em Santo Domingo de Oaxaca no México Enfim se a posi ção paternal dos clérigos é contestada pelas heresias e por vezes pela pressão dos laicos ela conhece uma evolução no próprio interior da Igreja Assim os membros das ordens mendicantes fazemse chamar frades33 frater fratello fray inclusive pelos laicos sinal de uma inflexão menos hierárquica embora rapidamente retomada e atenuada Mas a despeito dessas nuances e dessas evoluções a dualidade paisfilhos equivale no essencial à dualidade clérigos laicos Não apenas exprime a hierarquia estabelecida entre eles mas também constitui uma justificativa desta A paternidade espiritual dos clérigos é o enun ciado e a garantia de sua autoridade ainda mais porque ela se articula à prática do celibato Como foi visto o clérigo subtraise aos laços do parentesco carnal e é através dessa renúncia que ele adquire a faculdade de tornarse espiritual mente pai Agostinho apresentando um novo bispo ao povo já afirmava Ele não quis ter filhos segundo a carne a fim de têlos mais ainda segundo o espí rito Tal configuração retração do parentesco carnalposição de pai espiritual funda a dominação social do clero sobre uma dupla hierarquia espiritualcar nal paifilho A posição do clero parece igualmente caracterizada por um outro elemen to específico uma união matrimonial espiritual Assim as monjas são as noi vas de Cristo e o bispo esposa a sua igreja quer dizer sua diocese em um ritual marcado pela entrega do anel Como o bispo é também filho da Igreja ao mesmo título que todos os batizados a conjugação de uma relação de filiação e 33 Frères no original francês que corresponde tanto a irmãos como a frades N T A civilização feudal 461 de uma aliança matrimonial permitiu que se falasse aqui de incesto simbólico e que se definisse essa infração como um diferencial que sacraliza que justifica a posição dominante do clero Anita GuerreauJalabert Entretanto o casamento com a Igreja concerne apenas aos bispos e sobretudo ao papa que é o único a esposar a Igreja universal Além do mais esse ritual que se esboça a partir do século IX e se afirma no século XII não é o fundamento do poder espiritual do bispo recebido pela imposição das mãos ou pela unção símbolos da infusão do Espírito Santo Essa relação de aliança não parece então exercer um papel determinante na definição do estatuto do clero mas constitui antes um caráter suplementar próprio ao topo da hierarquia eclesiástica O essencial para definir o clero como grupo dominante no seio de uma sociedade dual seria muito mais o caráter duplo do celibato e da paternidade espiritual É aí que se encontra o diferencial que sacraliza e que distingue os clérigos associando renúncia e poder simbólico Irmandade de todos os cristãos e desenvolvimento das confrarias Uma outra relação de parentesco espiritual concerne a todos os batizados sendo filhos de Deus e da Igreja os cristãos são irmãos entre si Essa irmandade generalizada é também ela instituída pelo batismo de modo que caracteriza os membros da cristandade e traça uma linha de separação que exclui os outros homens Poderoso vetor de unidade da cristandade e de concórdia social essa relação é muitas vezes evocada pelos clérigos em particular quando é necessário apaziguar os conflitos e pregar a reconciliação É verdade que na terra esse laço permanece largamente virtual ineficaz Ele se apaga impotente na maior parte do tempo diante da lógica das dominações sociais e das regras familiares A irmandade generalizada dos cristãos é um horizonte parcialmente inacessível aqui embaixo cuja plena realização é adiada para o além Certos laços sociais são entretanto suscetíveis de ativar essa irmandade latente O fato de os clérigos pertencerem à Igreja a despeito das hierarquias que a estruturam torna mais ativo esse laço muito particularmente no seio de uma comunidade monástica Ele pode ser estendido aos laicos que através de suas doações notadamente a Cluny são integrados à família monástica ou ao menos são associados a ela em suas preces O compadrio é igualmente uma maneira de tornar eficaz a irmandade de todos os batizados A prática das esmolas aos pobres direta ou por intermédio da Igreja é uma outra manifestação sua eminentemente característica da sociedade medieval Enfim o desenvolvimento das confrarias a partir do século XII e sobretudo do século XIII permite alargar a consciência prática dessa fraternidade Tratase de um fenômeno de grande amplitude na escala da cristandade tanto nos campos como nas cidades e que está destinado a prolongarse no Novo Mundo sob formas parcialmente originais Segundo os lugares e as épocas as confrarias podem tomar formas diferentes privilegiando tanto o aspecto devocional como a organização corporativa de um ofício ou de um grupo profissional Todas têm entretanto importantes pontos em comum São associações de ajuda mútua e de devoção livremente estabelecidas que se empenham para tornar ativos os laços de amor fraternal entre seus membros Seu próprio nome confraternitas em latim hermandad em castelhano como o de compadres dado a seus participantes indica bem que elas se baseiam na noção de irmandade espiritual alargada característica das concepções cristãs do parentesco A unidade das confrarias manifestase pela devoção comum ao protetor do grupo um santo padroeiro ou a Virgem figura 25 na p 249 por formas de solidariedade concreta notadamente a responsabilidade dos funerais e a prece coletiva para os membros defuntos ou ainda por atividades ritualizadas como o banquete anual em que em torno do alimento partilhado se realiza simbolicamente a unidade da corporação A instituição das confrarias permitiu assim uma organização parcialmente autônoma dos laicos embora sempre sob o olhar vigilante dos clérigos Ela é sobretudo um instrumento eficaz de integração dos laicos no seio das estruturas sociais e ideológicas desenhadas pela Igreja Poderosos meios de integração as confrarias com frequência reduplicam as estruturas paroquiais e são inteiramente fundadas sobre as regras do parentesco espiritual cuja elaboração e controle cabem à Igreja No geral a irmandade generalizada dos cristãos aparece como uma forma ideal e não realizada do parentesco espiritual A comunidade ritual do batismo lhe confere uma existência objetiva que reitera a participação no sacramento eucarístico mas o laço de amor espiritual que deveria caracterizála não chega a se manifestar plenamente Em revanche o fato de pertencer a uma confraria cria um círculo de parentesco espiritual tornando efetivo por ritos apropriados e por formas de ajuda mútua A confraria é para retomar uma noção de Pierre Bourdieu a parte prática mantida em funcionamento da irmandade espiritual de todos os batizados Se se considera agora o conjunto das relações espirituais mencionadas aqui vêse que a conjunção do parentesco carnal e do parentesco espiritual engendra alguns paradoxos aparentes Agostinho nota que o filho que chega ao episcopado tornase pai de seu pai enunciado paradoxal que se liga ao fato de que o laço espiritual inverte o laço carnal Ilustrando um outro caso Agostinho sublinha que seus próprios pais carnais se tornaram irmãos espirituais Eles que foram meus pais e A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 463 Copyright 2004 by Éditions Flammarion Copyright da tradução 2005 by Editora Globo SA Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma seja mecânico ou eletrônico fotocópia gravação etc nem apropriada ou estocada em sistema de bancos de dados sem a expressa autorização da editora Texto fixado conforme as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa Decreto Legislativo n 54 de 1995 Título original La civilization féodale de lan mil à la colonization de lAmerique Preparação Beatriz de Freitas Moreira Revisão Valquíria Della Pozza Maria Sylvia Corrêa Índice remissivo Luciano Marchiori Capa Ettore Bottini sobre iluminuras de Les très riches heures du Duc de Berry 141016 dos irmãos Limbourg Musée Condé Château de Chantilly 3a reimpressão 2011 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Baschet Jérôme A civilização feudal do ano 1000 a colonização da América Jérôme Baschet tradução Marcelo Rede prefácio Jacques Le Goff São Paulo Globo 2006 Título original La civilization féodale de lan mil à la colonization de lAmerique ISBN 9788525041395 1 Civilização medieval 2 Europa História medieval 3 Idade Média I Le Goff Jacques II Título 061863 CDD9401 Índice para catálogo sistemático 1 Civilização medieval História 9401 Direitos de edição em língua portuguesa para o Brasil adquiridos por Editora Globo S A Av Jaguaré 1485 05346902 São Paulo SP wwwglobolivroscombr 7 A máquina de espititualizar entre desvíos e afirmações DACHET Jérôme A máquina de espiritualizar do 1000 a colonização das Américas São Paulo2006 pp 434444 Guipo7 Quer dizer que o limite entre a articulação legítima do corporal e do espiritual e sua confusão indigna é ténue instável e sujeita a contestações O que a instituição valoriza como equilíbrio positivo é sempre suscetível de ser denunciado seja pela crítica anticlerical dos laicos seja por grupos clericais que fundam seu prestígio sobre uma exigência mais ascética como um compromisso degradante com o mundo e com a matéria A justa articulação entre o corporal e o espiritual é então objeto de conflitos incessantemente relançados isso não tem nada de surpreendente pois é a ordem legítima da sociedade que é aí definida Uma precisão de vocabulário pode entretanto ajudar a esclarecer esse ponto importante A oposição de base é aquela entre o corporal corpus caro e o espiritual spiritus anima mas é somente seu modo de articulação ou de separação que produz valores positivos ou negativos se o corpo é entregue a si mesmo ou se ele domina o espírito o mal vence e afundamos no carnal carnalis se o espírito impõese ao corpo o bem triunfa e estamos diante de realidades espirituais eventualmente de corpos espirituais corpus spirituale Parte integrante deste último conjunto as spiritualia designam tudo o que concerne à Igreja aos seus poderes sacramentais à sua jurisdição assim como aos seus bens materiais Elas opõemse às temporalia poderes e bens passíveis de ser assumidos pelos laicos mesmo se estes podem também ser controlados por uma autoridade eclesiástica as quais não são necessariamente condenáveis mas em todo caso incapazes de atingir por si mesmas um fim espiritual e devem então aceitar a preeminência das spiritualia O ponto determinante é então a orientação dada à articulação entre o espiritual e o corporal a submissão da alma ao corpo e a intrusão dos laicos nas spiritualia provocam uma mácula infamante enquanto a intervenção dos clérigos nos negócios dos laicos por exemplo o casamento é condutora de purificação e de espiritualização É por isso que podem existir bens materiais qualificados de spiritualia e mais genericamente corpos espirituais a começar pela própria Igreja Esta justa articulação do corporal e do espiritual supõe em primeiro lugar sua clara separação Toda ideia de mistura entre esses polos opostos cria então um obstáculo Ora notamse os indícios disso em certas concepções da alma A ideia de que esta ao invés de ser inteiramente espiritual seja dotada de certa corporeidade não é totalmente estranha ao pensamento da Igreja Ela foi claramente professada por Tertuliano no século II e depois por certos clérigos dos séculos V a VII até ser desmentida pelos teólogos posteriores Além do argumento de que apenas Deus é totalmente imaterial a questão já evocada do castigo infernal é uma boa ocasião para desenvolver tais concepções com efeito como admitir que a alma separada do corpo possa sofrer sob o efeito do fogo do inferno sem considerála dotada de uma forma de corporeidade No entanto como se viu no capitulo precedente essa dificuldade põe ser resolvida suprimindo assim a necessidade de recorrer à idéia de uma corporeidade da alma São sobretudo as concepções laicas que tendem a se afastar da doutrina da Igreja sem por isso lhe parecer necessariamente inaceitáveis De fato elas tendem a fazer da alma um duplo dotado de uma realidade parcialmente física Nesse universo por vezes qualificado de folclórico o que concerne à alma deve encarnarse nos gestos ou nos fatos materialmente constatáveis como ocorre no momento em que se retira uma telha do teto da casa de um moribundo para facilitar a partida de sua alma ou ainda quando a aparição de um morto que retorna do além deixa uma marca física sobre o corpo do visionário De resto tais testemunhos não são exclusivos dos laicos e abundam nos relatos transmitidos pelos clérigos Por exemplo Jacques de Vitry e Estevão de Bourbon contam como uma gota de suor que emana de uma alma danada que ressurge do inferno perfura a mão do visionário Mesmo se outros elementos devem ser levados em conta vêse aqui como a necessidade de dar força aos rituais e às crenças incita a conferir certa corporeidade aos seres espirituais Os habitantes de Montaillou que partilham da idéia de uma presença errante das almas em meio aos vivos recomendam a estes últimos que não andem com os braços separados do corpo a fim de não jogar no chão algum espírito penado Emmanuel Le Roy Ladurie Aqui falta uma dupla separação as almas não se encontram em um lugar especial separado dos vivos como quer a doutrina da Igreja em conseqüência o espiritual inscrevese no campo material a tal ponto que as almas são suscetíveis de ser afetadas fisicamente pelos atos dos homens de carne e osso Este é um exemplo particularmente claro de mistura de não separação entre o espiritual e o material Se tais infrações são limitadas a crenças ou costumes pontuais elas podem ser toleradas pela Igreja mas o caso de Montaillou refúgio recuado onde os restos da heresia cátara misturamse a concepções folclóricas imperfeitamente submetidas ao molde clerical mostra que elas ameaçam afetar aspectos importantes da organização social no caso o monopólio da mediação entre os vivos e os mortos pretendido pela Igreja com efeito os aldeões reconhecem a certos laicos qualificados de armeiros a capacidade de estabelecer uma comunicação com os defuntos Encarnação do espiritual e espiritualização do corporal No mais a Igreja deve lutar contra as más interpretações das representações que ela mesma difunde e em particular contra uma tendência a interpretar corporalmente realidades que são de fato espirituais O paradigma dessa percep A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 435 434 Jérôme Baschet ção laica é a reação de Francisco de Assis quando ainda no limiar de sua conversão o Cristo de San Damiano o intima a reconstruir sua igreja O entusiasta visionário põese então a reconstruir a capela até compreender que a mensagem de Cristo se referia a um sentido eminentemente mais espiritual de Igreja exemplar representação do olhar erudito sobre a ingenuidade laica que se limita a uma leitura em primeiro grau ao passo que a ciência clerical reivindica a arte de decifrar os símbolos e de descobrir através das aparências sensíveis as significações mais espirituais É contra uma tendência do mesmo tipo aplicada dessa vez à natureza da alma que se eleva Guiberto de Nogent quando ironiza aqueles que creem que a alma possui um corpo sob o pretexto de que as imagens a representam como uma criancinha nua Entretanto é necessário reconhecer que a Igreja favorece tais desvios ao optar sem reservas pela imagem somatomórfica da alma à qual confere todas as aparências de um corpo É verdade que propriamente falando a imagem não diz nada da natureza substancial da alma e podese admitir que ela mostra conforme a definição agostiniana uma realidade espiritual dotada de uma similitude corporal Resta o fato de que a imagem se presta facilmente a uma leitura que tende a corporificar o espiritual A arte dos séculos XIV e XV acentua ainda a dificuldade ao figurar muitas vezes um verdadeiro retrato da alma duplo perfeitamente individualizado do corpo que ela habita No caso de Judas o retrato não é nada lisonjeiro o nariz aquilino indica incontestavelmente uma alma judaica e a exibição de seu sexo sublinha a baixeza carnal do traidor figura 43 na p 437 Mesmo a alma de um santo tão glorioso como Tomás de Aquino pode apresentar na imagem uma surpreendente corporeidade a tal ponto que longe de se levantar por si mesma como um corpo aéreo ela precisa do apoio bastante físico de são Pedro e de são Paulo para se subtrair ao peso e chegar ao paraíso celeste figura 44 na p 438 Por que então a imagem insiste tanto sobre a corporeidade aparente da alma em oposição aos esforços teológicos daquele que é nomeado o doutor angélico Não é impossível explicálo no quadro da lógica eclesial que se esforça para estabelecer um jogo de correspondências entre o espiritual e o corporal e até se revela perfeitamente capaz de exprimir o espiritual através do material desde que esse rebaixamento seja finalmente justificado por uma dinâmica de ascensão Mas é preciso também notar que essa representação aparece em uma região da Itália central dominada então pelos condes de Aquino descendentes dos pais de Tomás que se apoderam de seu culto como de um negócio de família Aqui Tomás de Aquino é menos um sábio da Igreja universal do que um ser próximo familiar enraizado em sua terra natal Não se pode então excluir que o peso dos interesses de sua parentela e de uma apropriação laica do santo tenha contribuído para corporificara alma 43 A morte ignominiosa de Judas fim do século XV afresco de Giovanni Canavesio NotreDame des Fontaines La Brigue O Novo Testamento relata que Judas se esforça após a traição e que seu ventre explode Mas é a imagem que julga sua alma indigna de sair pela boca em um contexto completamente diferente o poeta Rutebeuf no século XIII em sua sátira das classes populares diz que a alma de um vilão parte não pela boca mas pelo ânus como um peido fedido que faz até mesmo o demônio fugir Aqui a alma de Judas é arrancada de suas vísceras sanguinolentas por um diabo que tem como é comum na iconografia do século XV uma segunda face no baixo ventre O traidor Judas oferece a ocasião de um ataque contra os judeus ele é representado com o longo nariz aquilino que lhes é atribuído e mesmo sua alma reproduz seus traços nefastos O fato de que uma alma seja sexuada é excepcional e está com toda a certeza associado ao caráter maléfico do personagem 436 Jérôme Baschet 44 A alma de são Tomás de Aquino elevada ao céu por Pedro e Paulo c 1420 afrescos de Santa Maria em Piano Loreto Aprutino Abruzzo Em um amplo ciclo consagrado a são Tomás morto em 1274 e encomendado por seu parente o conde Francisco de Aquino a ascensão da alma ocorre entre a celebração dos funerais e a descida à tumba Ela acumula as singularidades iconográficas Com efeito a alma é dotada de uma corporeidade notavelmente saliente e que em vez de elevarse ela mesma como um corpo aéreo é objeto de uma surpreendente manipulação física é preciso que ela seja ajudada por são Pedro e são Paulo que lhe fazem uma escadinha e a empurram pelas nàdegas para que ela possa superar seu peso e seja alçada até o abraço de Cristo que sai de sua mandorla celeste para acolhêla de Tomás A tendência a encarnar o espiritual aparece então ao mesmo tempo como uma das componentes da lógica do sistema eclesial e como o resultado de uma conciliação com os interesses e as representações dos laicos De uma maneira mais geral a posição da aristocracia laica introduz um notável fator de tensão É verdade que uma vez passado o período de conflitos violentos envolvendo muito particularmente as regras de casamento a ideologia clerical penetra e informa em grande parte o grupo nobiliário primeira parte capítulo 11 A afirmação do finamors é um exemplo disso sobre o qual já se evocou a análise proposta por Anita GuerreauJalabert Reivindicação de uma arte refinada do amor ela é um meio de se distinguir dos plebeus condenados a amar vulgarmente Mas promovendo a sublimação do desejo e a suspensão ao menos temporária da consumação sexual o finamors reproduz à sua maneira os valores clericais Com efeito é por seu caráter mais elevado e mais espiritual que pode constituir um meio de distinção e de legitimação da aristocracia Reencontramos então em funcionamento na literatura e na cultura cortês a lógica de articulação do espiritual e do corporal e sobretudo o princípio de espiritualização das realidades corporais próprias à ideologia clerical Mas se o finamors é uma espiritualização do amor e se o ciclo do Graal confere um ideal espiritual à cavalaria nem por isso toda a tensão com o clero desaparece Com efeito a aristocracia retoma a regra de superioridade do espiritual sobre o carnal mas a desvia em seu benefício e se afirma como sendo ela própria uma encarnação de valores espirituais independentemente da mediação dos clérigos Observações similares podem ser feitas a propósito das fadas que aparecem na literatura cortês Anita GuerreauJalabert Associadas às florestas e aos espaços exteriores elas são caracterizadas por sua extraordinária beleza e seus poderes mágicos que as subtraem das constrições espaçiotemporais Elas são ao mesmo tempo boas cristãs que assistem à missa e perfeitas damas corteses amigas e parentes dos prestimosos cavaleiros Tratase então de personagens eminentemente positivas que exprimem o ideal da aristocracia laica ao mesmo tempo que empregam os preceitos eclesiais Aqui também reencontramos a lógica da articulação do espiritual principalmente as virtudes e os poderes sobrenaturais e do corporal principalmente a beleza física No geral a cultura cortês não nega a superioridade dos valores espirituais proclamados pela Igreja e inscrevese então no quadro das estruturas fundamentais da sociedade cristã Mas ela contesta o poder eclesiástico reformulando estes mesmos valores em seu benefício e pondo em cena um espiritual que não é encarnado pelos clérigos mas pelos próprios aristocratas ou pelas figuras imaginárias que a representam Através da espiritualização de seus objetivos e da constituição de uma forma própria de sobrenatural a aristocracia promove a legitimidade de sua dominação e reivindica uma autonomia em relação ao clero No geral a instituição eclesial afirmase em meio a fortes tensões que a expõem às críticas de duas vertentes De um lado ela afrontase periodicamente às correntes mais espirituais do que ela mesma chega a ser Ela deve então combater aqueles que empurra para a heresia e reconduzir a uma maior moderação aqueles que pode manter em seu seio Mas constantemente deve desconfiar dos que reivindicam um estado espiritual perfeitamente puro e que logo com John Wyclif pretendem fazer prevalecer a Igreja dos predestinados sobre a Igreja institucionalizada encarnação do Anticristo para não mencionar os que pretendem falar em nome do Espírito Santo tal como os discípulos radicais de Joaquim de Fiore Se o devoto é inspirado diretamente pelo Espírito A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 439 438 Jérôme Baschet Santo e se ele alcança sozinho o estado espiritual para que serve então a Igreja A instituição baseiase em valores espirituais mas excesso de espírito ameaça a instituição Digamos mais uma vez esta se pensa como um corpo espiritual quer dizer também como uma encarnação de valores espirituais O risco inverso é o de uma atenuação ou de um desvio da dualidade espiritualcorporal Ele traz em germe um questionamento da posição separada pretendida pelos clérigos assim como de seu monopólio da mediação entre os homens e Deus Tratase então com dois ataques inversos mas que se juntam em sua contestação comum da instituição eclesial Não se poderia demonstrar melhor que a Igrejainstuição fundase sobre uma delicada conjunçao do corporal e do espiritual e mais ainda sobre uma dupla dinâmica corretamente ordenada da encarnação do espiritual e da espiritualização do corporal Uma eficácia crescente mas cada vez mais forçada A evolução das modalidades de articulação entre o espiritual e o corporal deve agora ser reconstituída com maior clareza Com efeito o modelo antopossocial fundado na articulação hierarquizada de entidades separadas é dotado de uma grande flexibilidade e de uma notável capacidade dinâmica De fato convêm precisar que vinculando as concepções medievais da pessoa ao princípio de uma dualidade não dualista não se procura absolutamente fechálos em uma doutrina única esta formulação abre ao contrário uma ampla gama de possibilidades e toda a história da antropologia medieval é a dos deslocamentos operados no interior desse vasto campo Esse processo traça seu caminho através de vários desvios e contradições Nos primeiros séculos do cristianismo as ênfases dualistas mais rudes bastante apoiadas em são Paulo são conduzidas por uma lógica de ruptura com a sociedade romana Depois junto com outros Agostinho promove uma transformação doutrinária radical que impõe a mudança de estatuto do cristianismo de uma mensagem de ruptura para uma estreita associação com o Império Essa mutação é realizada em um duplo movimento A nova teologia do pecado reduz o alcance do livrearbítrio e rebaixa a natureza humana fazendo da instituição eclesial a mediação indispensável para se beneficiar da graça divina e obter a salvação Ao mesmo tempo a rejeição total da ordem carnal sucede não sua reabilitação é verdade mas ao menos sua integração na ordem legítima do mundo A interpretação carnal da ressurreição dos corpos imposta por Agostinho é um indício notável disso assim como sua leitura da vida no Éden que admite o exercício de uma sexualidade paradisíaca antes da Queda e contribui assim para dar um esboço de legitimidade ao casamento humano Esse contorno mais corporal assumido pela teologia ocidental responde às necessidades de uma Igreja que se encarna e se engaja na organização da sociedade terrestre Com efeito legitimar a existência da Igreja como instituição supõe fundar teologicamente o lugar dos corpos na obra divina Toda a força do pensamento de Agostinho é a de conseguir oferecer um espaço de legitimidade aos corpos contrariamente aos maniqueístas acentuando paralelamente o peso do pecado e tornando mais árduo o esforço a ser feito contra as ameaças da carne contrariamente aos pelagianos Sustentar os termos dessa contradição não deixava de apresentar dificuldades sobretudo porque deixava Agostinho sob o fogo cruzado de adversários com posições opostas os maniqueístas acusamno de pelagianismo e viceversa Ao menos é com Agostinho que se engata com tanto estrondo quanto dificuldade a lógica que permite salvar o corporal espiritualizandoo Mesmo se esta lógica não é renegada observase durante a Alta Idade Média e parcialmente ainda no século XII uma presença maciça de concepções ascéticas e monásticas que valorizam a fuga do mundo As ênfases dualistas de inspiração neoplatônica e paulina podem pesar imensamente como em Gregório o Grande mesmo se elas são sempre bloqueadas por um movimento anti dualista cujo vigor parece tender a se reforçar Se os teólogos carolíngios fazem frutificar ainda mais a herança agostiniana e preparam muitos outros desenvolvimentos ulteriores as transformações dos séculos XIa XIII permitem dar todo o seu relevo à dinâmica da articulação do espiritual e do corporal A reformulação eclesial esforçase por uma franca distinção entre o espiritual e o carnal com a preocupação de liberar o primeiro do controle invasivo dos laicos Mas ela se empenha sobretudo em articulálos hierarquicamente de onde uma superação do dualismo em geral obtido ao preço de um corpo a corpo textual ou figurativo com os enunciados paulinos Já iniciado anteriormente esse processo é confirmado nos séculos XII e XIII alcançando sua expressão final com Tomás de Aquino Se a igreja desse período trava ásperos combates para separar o espiritual e o carnal desde que esses dois princípios estão claramente distintos e corretamente hierarquizados tornase possível aceitar e valorizar o princípio corporal de onde uma atenção nova ao Cristo encarnado e ao mundo criado No início do século XIII o Cântico do irmão Sol e de todas as criaturas exalta a beleza dos astros e dos quatro elementos Louvado sejas tu Senhor com todas as criaturas especialmente o senhor irmão Sol através de quem tu nos das o dia a luz ele é belo radiante de um grande esplendor e de ti o TodoPoderoso ele nos oferece o símbolo Como se vê a louvação da Criação permanece indissociável daquela do Criador e a natureza só é valorizada na medida em que ela permite chegar a Deus lembramos também que a singular alegria de Francisco é inseparável da escolha da penitência mais extrema A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 441 440 Jérôme Baschet Tal dinâmica permite assumir até o amor terrestre Helóis e Abelardo já o haviam tentado após terem conhecido deploráveis desventuras Por volta de 1130 a amante agora abadessa escreve a seu amado de sempre tornado monge depois de sua castração que ele é seu único depois de Cristo seu único em Cristo O amor divino deve primar mas uma vez feito esse reconhecimento o amor de um homem pode ser assumido não sem dificuldades até confundirse com aquele de Deus Mais de um século e meio depois Dante dá uma outra amplitude a essa espiritualização do amor Na Divina comédia Beatriz a mulher de carne e osso que ele amou tornase uma figura ou uma encarnação da revelação que o guia no paraíso em direção à visão de Deus Eric Auerbach De resto é notável que Virgílio lhe sirva no início de guia através do inferno e do purgatório Poeta admirado ele é a realização da plenitude das perfeições deste mundo que conhecem através dele uma notável valorização Entretanto esta esbarra em um limite Virgílio que continua pagão apesar de suas premonições deve abandonar Dante no limiar do reino celeste e cede então o lugar à beleza de Beatriz Todos esses elementos não são o sinal de uma suposta laicização ou de uma autonomização da cultura profana fazendo recuar o controle dos valores cristãos Eles marcam ao contrário uma etapa suplementar na dinâmica de articulação entre o espiritual e o corporal capaz de assumir ainda mais do que antes as realidades do mundo material Assim enquanto a igreja românica se apresenta como a imagem de uma Jerusalém celeste fortificada protegendose do mundo o gótico tende pela dinâmica ascendente das abóbadas e pela onipresença da luz a uma espiritualização da arquitetura e ao mesmo tempo testemunha um maior reconhecimento do mundo e das aparências sensíveis dos corpos e da natureza Se se quer considerar o modelo antropossocial analisado anteriormente ilustração XIII na p 432 uma espécie de elevador simbólico podese sugerir que dá mostras de sua eficácia na medida em que é capaz de levantar as cargas mais pesadas É assim que ele permite uma melhor consideração do mundo terrestre suscetível de satisfazer os laicos e que por vezes responde à sua pressão sem por isso questionar a preeminência dos valores espirituais afirmada pelos clérigos Esta lógica testemunhada notadamente pela concepção dos corpos gloriosos demonstra que uma realidade material pode estar ao lado do espiritual é o caso em primeiro lugar da própria Igreja cujas posses são spiritualia A oposição entre o carnal e o espiritual é então dissociada da dualidade do corpo e da alma pois ela é fundamentalmente relacional e dinâmica é espiritual toda armação no seio da qual o princípio espiritual exerce um governo firme sobre os corpos é carnal toda articulação na qual esta dominação do espiritual não é respeitada É assim com toda ordem espiritual como com a Encarnação que é sua matriz fundamental a materialidade dos corpos não poderia ser negada mas deve ser engajada em um processo de espiritualização e de elevação que a torna positiva Tal é a justificativa da Igreja instituição ostensivamente encarnada que só poderia entretanto reivindicar uma vocação espiritual É assim que a Igreja pode ser definida como uma vasta máquina de espiritualizar o corporal assumindo ainda mais o mundano e as realidades terrestres graças ao fato de estender sobre eles o império do princípio espiritual ela demonstra que sua mecânica redentora tem mais eficácia do que nunca Como já foi dito isso não acontece sem contestações notadamente da parte de tendências intransigentes presentes no seio da Igreja ou rejeitadas como heréticas E quanto mais se acentua a dinâmica de integração do corporal mais se amplia o risco de crítica Assim a Igreja dos séculos XIV a XVI reforça seu controle sobre a sociedade mas ao custo de tensões crescentes que aumentam sua fragilidade e podem conduzir a rupturas violentas como é a Reforma protestante Depois para além do período tratado aqui parece que as disjunções entre o carnal e o espiritual sobrepõemse pouco a pouco até o momento em que o dualismo encontra com Descartes uma formulação radical que pesou fortemente sobre a consciência ocidental Assim é sem dúvida durante a Idade Média Central época da Igreja triunfante que terá ocorrido o período menos dualista da história do cristianismo aquele que esteve em melhor medida para experimentar a unidade da pessoa que as concepções modernas nos restituem de uma outra maneira e isso porque esse modelo era então o mais pertinente para pensar o corpo social e eclesial e ao mesmo tempo suas marcadas hierarquias e sua utopia comunitária CONCLUSÃO AS AMBIVALÊNCIAS DA PESSOA CRISTÃ Mostrar que as representações medievais da pessoa são menos simples e menos dualistas do que em geral se crê não ameniza absolutamente sua diferença em relação às concepções não cristãs Se nas religiões politeístas em geral e também nas concepções tradicionais dos maias teztalts a representação da pessoa dá testemunho de uma relação recíproca com o mundo e de um destino partilhado com outros seres Pedro Pitarch essa dupla interrelação com o meio e com o grupo é eclipsada no cristianismo em proveito de um laço privilegiado entre a alma e Deus Não é então surpreendente que a concepção cristã da 8 O PARENTESCO REPRODUÇÃO FÍSICA E SIMBÓLICA DA CRISTANDADE Na Cristandade medieval as relações humanas também são mediadas simbolicamente por percepções humanas e divinas Dentro das relações sociais medievais como todo é possível perceber a presença de símbolos que representam parentescos espirituais e divinos O fundamento desse sistema de representações é a instituição religiosa centrada em uma paternidade em Deus sendo Cristo como o principal estabelecedor dessa construção já que ele é o próprio filho de um Pai que está nos céus Logo essas construções de percepção tem sempre a centralização na dicotomia parentesco terreno e parentes celeste Somado a isso a uma concepção de que os critão são os sujeitos mais livres dos homens sendo aqueles que possuem uma filiação carnal mas podem escolher seu pai nesse caso o pai celestial Esse é o modelo de toda conversão Importante pontuar que as filiações carnais não são apenas a laços consanguíneos mas são laços definidos a um só tempo por normas instituídas socialmente regulamentadas pela reprodução sexuada 81 O PARENTESCO CARNAL E SEU CONTROLE PELA IGREJA 811 A imposição de um modelo clerical do casamento A percepção do casamento pelo viés religioso também é marcada por transformações Nos primeiros séculos do cristianismo havia exigência pela natalidade impor ao cidadão acabava por desvalorizar o casamento A continência e a virgindade são dignas de exaltação com isso a salvação estava na contramão da construção de famílias já que ali havia atividade sexual Posteriormente há uma reabilitação do significado de casamento marcado pela monogamia e indissolubilidade e uma exogamia Essa mudança de análise se torna uma alavanca de conversão e controle da sociedade Com isso é possível concluir como as estratégias do clero são eminentemente seletivas dependendo do interesse Com a disseminação desse pensamento é disseminado a constituição do sexo apenas para a procriação com isso a atividade sexual está diretamente vinculada com o laço matrimonial Proibindo diversas expressões de comportamento sexual inclusive construindo uma perspectiva de moralidade como dicotomia Esse construto está vinculado com a reafirmação do celibato pelo sacerdotes que perpetua a divisão clérigos e laicos 812 Transmissão dos patrimônios e a reprodução feudal O laço de filiação isto é a concepção de descendência parentesco Todos possuem a filiação que vem da família do pai e a filiação que vem da família materna Esses laços têm diversas simbologias dentro do contexto feudal inclusive de poder tornando se uma variável importante Além disso as regras referente a transmissão de bens também um produto desses construtos acerca do parentesco Nesse viés a posse do terreno da família era herança do primogênito da família 10 OS MECANISMOS DA REPRESENTAÇÃO Após ter compreendido a diversidade simbólica e quantitativa das imagens e concepções cristãs dentro da sociedade medieval é possível analisar os mecanismos que influenciam nos processos de representação 101 LUGARES DE IMAGENS LUGARES DE CULTO Se toda imagem se constrói como uma representação de um objeto ou um lugar essa imagem acaba por assumir um papel dentro dos centros religiosos O valor estético acaba por não ser o papel central das imagens o seu papel iconográfico tem um papel mais central dentro desse contexto Assim a igreja pode ser considerada um local de imagens que também agregam mesmo não sendo papel central efeitos estéticos com o caráter luxuriante das cores rutilar das luzes e o brilho dos outros A forma como essa estética está unida e organizada também passa as hierarquias internas assim como os valores ali disseminados Para analisar os significados da igreja é necessário utilizar a liturgia como base de significação Se as imagens e a igreja como formação especial é natural é a representação dessa igreja espiritual divina celeste e unida ao espaço material por meio da liturgia A utilização das imagens e da construção espacial como uma expansão das ideias representações e valores divinos espirituais acaba por contribuir com a orientação de uma experiência mística Além disso as imagens materializadas contribuem para o bom funcionamento da instituição eclesial e o reforço da dominação cristã 102 CULTURA DA IMAGO E LÓGICA FIGURAL DO SENTIDO A ideia por meio da concepção de que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança também retoma a concepção de materialização do divino em homem a relação da imagem de Deus e Deus é comum aos santos e as imagens desses santos Essa imagem possui o papel nesse contexto de signo representar por meio de convenções as imagens cristãs A encarnação é uma etapa crucial nessa concepção o Filho é o imago perfeito representação perfeita da imagem divina 103 FIGURAR DEUS OLHAR A CRIAÇÃO A expansão da utilização de imagens aparece vinculada de mudanças nas concepções e no construto em relação aos modos de figuração Nesse viés é possível considerar a passagem de uma construção simbólica representativa para uma arte realista típica da Alta Idade Média 104 INVENÇÃO DA PERSPECTIVA E DINÂMICA FEUDAL A construção de imagens do objeto por meio de viés em perspectiva considerando que a percepção é subjetiva logo é necessário considerar o ponto de vista do espectador e o da representação Dá um caráter transcendental aos signos ali dispostos 105 CONCLUSÃO IMAGEMOBJETO MEDIEVAL IMAGEM TELA CONTEMPORÂNEA Na prática cristã é possível ver diversos produtos de signos símbolos e ícones que representam tendo uma relação direta com concepções espirituais Análogo a essa valorização da imagemobjeto dentro da idade média a supervalorização das imagens na tela na contemporaneidade se constituem também com um caráter transcendental de valores a determinada representação 7 A MÁQUINA DE ESPIRITUALIZAR ENTRE DESVIOS E AFIRMAÇÕES 71 PERIGOS NOS EXTREMOS SEPARAÇÃO DUALISTA E MISTURA IMPRÓPRIAS A articulação hierárquica de organização e atuação dentro da igreja é regida baseada na lógica eclesial Dentro do viés da separação dualista é possível perceber essa dicotomia entre o espiritual e o material Sob essa ótica há vários comportamentos práticas condenadas a igreja assim como o culto às imagens e o próprio casamento já que estão associadas ao material carnal Só o espiritual que salva sendo a ligação com a carne potencialmente corruptiva 72 ENCARNAÇÃO DO ESPIRITUAL E ESPIRITUALIZAÇÃO DO CORPORAL O paradigma dessa percepção está na tentativa de compreender a representação do olhar erudito em relação a ingenuidade laica As imagens acabam sendo compostas na função de corporificar os espíritos as almas 73 UMA EFICÁCIA CRESCENTE MAS CADA VEZ MAIS FORÇADA O modelo antropossocial é fundado na articulação das entidades hierárquicas dinâmicas dentro da igreja Esse processo retomando ao título traz diversos desvios Entre eles a construção de uma concepção de que o pecado reduz a expressividade do livrearbítrio rebaixando algumas dimensões da natureza humana 9 A SOCIEDADE CRISTÃ COMO UMA REDE DE PARENTESCO ESPIRITUAL 91 PARENTESCO BATISMAL PATERNIDADE DE DEUS E MATERNIDADE DA IGREJA Dentro da relação de parentesco a partir da religião o batismo é uma parte primordial desse laço relacional marcando dentro da comunidade cristã um verdadeiro nascimento dentro da sociedade religiosa Considerando que na Idade Média ao nascer a criança herda os pecados parentais ao ser batizada ocorre uma regeneração na graça da criança Nesta ocasião ocorre a entrada dos pais espirituais por meio do padrinho e da madrinha sendo responsável pela educação cristã da criança Já a relação de compadrinhamento na Idade Média era uma relação que podia proporcionar benefícios sociais econômicos e em relação à segurança marcado pela amizade e fraternidade Após o batismo a criança tornase então um filho de Deus representando uma doação divina logo essa relação parental com Deus não é privilégio de todos apenas daqueles que são batizados Além disso a cristão tornase também filho da Mãeigreja já que ela faz nascer o cristão por meio do batismo 92 A PATERNIDADE DOS CLÉRIGOS UM PRINCÍPIO HIERÁRQUICO A concepção de clero dentro dessa rede não é simples pois há muitos cargos com muitas hierarquias presentes Mas a divisão entre clérigos e laicos pode ser percebida considerando clero como sujeitos que passaram por um ritual Diferente dos demais cristãos os clérigos também possuem a função dentro desse contexto de pai sendo o representante de Deus na terra Além da dualidade entre clérigos e leigos na relação de paternidade mas também na hierarquia no seio do clero a relação espiritualcarnal paifilho A posição do clero é caracterizada por meio de uma união matrimonial espiritual onde os clérigos possuem a igreja como esposa Logo o celibato junto a paternidade espiritual aparecem como caráter dominantes do clero como um grupo dominante dentro do viés critão 93 IRMANDADE DE TODOS OS CRITÃOS E DESENVOLVIMENTO DAS CONFRARIAS Outra laço que existe dentro da rede cristã é a relação de parentesco espiritual se todos os batizados são filhos de Deus logo são irmãos Mas essa irmandade é parcialmente inacessível tendo sua realização plena adiada a vida após a morte Mas existem ações que retornam a esse laço primordial de irmandade como a prática de esmolas aos pobres de forma direta ou por intermédio da igreja Inclusive a própria construção de laços entre compadres também de baseia na irmandade espiritual alargada A partir dessas concepções é possível perceber a dualidade entre os laos na rede cristã o parentesco carnal e o parentesco espiritual compostos por paradoxos aparentes 7 A MÁQUINA DE ESPIRITUALIZAR ENTRE DESVIOS E AFIRMAÇÕES 71 PERIGOS NOS EXTREMOS SEPARAÇÃO DUALISTA E MISTURA IMPRÓPRIAS A articulação hierárquica de organização e atuação dentro da igreja é regida baseada na lógica eclesial Dentro do viés da separação dualista é possível perceber essa dicotomia entre o espiritual e o material Sob essa ótica há vários comportamentos práticas condenadas a igreja assim como o culto às imagens e o próprio casamento já que estão associadas ao material carnal Só o espiritual que salva sendo a ligação com a carne potencialmente corruptiva 72 ENCARNAÇÃO DO ESPIRITUAL E ESPIRITUALIZAÇÃO DO CORPORAL O paradigma dessa percepção está na tentativa de compreender a representação do olhar erudito em relação a ingenuidade laica As imagens acabam sendo compostas na função de corporificar os espíritos as almas 73 UMA EFICÁCIA CRESCENTE MAS CADA VEZ MAIS FORÇADA O modelo antropossocial é fundado na articulação das entidades hierárquicas dinâmicas dentro da igreja Esse processo retomando ao título traz diversos desvios Entre eles a construção de uma concepção de que o pecado reduz a expressividade do livrearbítrio rebaixando algumas dimensões da natureza humana 8 O PARENTESCO REPRODUÇÃO FÍSICA E SIMBÓLICA DA CRISTANDADE Na Cristandade medieval as relações humanas também são mediadas simbolicamente por percepções humanas e divinas Dentro das relações sociais medievais como todo é possível perceber a presença de símbolos que representam parentescos espirituais e divinos O fundamento desse sistema de representações é a instituição religiosa centrada em uma paternidade em Deus sendo Cristo como o principal estabelecedor dessa construção já que ele é o próprio filho de um Pai que está nos céus Logo essas construções de percepção tem sempre a centralização na dicotomia parentesco terreno e parentes celeste Somado a isso a uma concepção de que os critão são os sujeitos mais livres dos homens sendo aqueles que possuem uma filiação carnal mas podem escolher seu pai nesse caso o pai celestial Esse é o modelo de toda conversão Importante pontuar que as filiações carnais não são apenas a laços consanguíneos mas são laços definidos a um só tempo por normas instituídas socialmente regulamentadas pela reprodução sexuada 81 O PARENTESCO CARNAL E SEU CONTROLE PELA IGREJA 811 A imposição de um modelo clerical do casamento A percepção do casamento pelo viés religioso também é marcada por transformações Nos primeiros séculos do cristianismo havia exigência pela natalidade impor ao cidadão acabava por desvalorizar o casamento A continência e a virgindade são dignas de exaltação com isso a salvação estava na contramão da construção de famílias já que ali havia atividade sexual Posteriormente há uma reabilitação do significado de casamento marcado pela monogamia e indissolubilidade e uma exogamia Essa mudança de análise se torna uma alavanca de conversão e controle da sociedade Com isso é possível concluir como as estratégias do clero são eminentemente seletivas dependendo do interesse Com a disseminação desse pensamento é disseminado a constituição do sexo apenas para a procriação com isso a atividade sexual está diretamente vinculada com o laço matrimonial Proibindo diversas expressões de comportamento sexual inclusive construindo uma perspectiva de moralidade como dicotomia Esse construto está vinculado com a reafirmação do celibato pelo sacerdotes que perpetua a divisão clérigos e laicos 812 Transmissão dos patrimônios e a reprodução feudal O laço de filiação isto é a concepção de descendência parentesco Todos possuem a filiação que vem da família do pai e a filiação que vem da família materna Esses laços têm diversas simbologias dentro do contexto feudal inclusive de poder tornando se uma variável importante Além disso as regras referente a transmissão de bens também um produto desses construtos acerca do parentesco Nesse viés a posse do terreno da família era herança do primogênito da família 9 A SOCIEDADE CRISTÃ COMO UMA REDE DE PARENTESCO ESPIRITUAL 91 PARENTESCO BATISMAL PATERNIDADE DE DEUS E MATERNIDADE DA IGREJA Dentro da relação de parentesco a partir da religião o batismo é uma parte primordial desse laço relacional marcando dentro da comunidade cristã um verdadeiro nascimento dentro da sociedade religiosa Considerando que na Idade Média ao nascer a criança herda os pecados parentais ao ser batizada ocorre uma regeneração na graça da criança Nesta ocasião ocorre a entrada dos pais espirituais por meio do padrinho e da madrinha sendo responsável pela educação cristã da criança Já a relação de compadrinhamento na Idade Média era uma relação que podia proporcionar benefícios sociais econômicos e em relação à segurança marcado pela amizade e fraternidade Após o batismo a criança tornase então um filho de Deus representando uma doação divina logo essa relação parental com Deus não é privilégio de todos apenas daqueles que são batizados Além disso a cristão tornase também filho da Mãeigreja já que ela faz nascer o cristão por meio do batismo 92 A PATERNIDADE DOS CLÉRIGOS UM PRINCÍPIO HIERÁRQUICO A concepção de clero dentro dessa rede não é simples pois há muitos cargos com muitas hierarquias presentes Mas a divisão entre clérigos e laicos pode ser percebida considerando clero como sujeitos que passaram por um ritual Diferente dos demais cristãos os clérigos também possuem a função dentro desse contexto de pai sendo o representante de Deus na terra Além da dualidade entre clérigos e leigos na relação de paternidade mas também na hierarquia no seio do clero a relação espiritualcarnal paifilho A posição do clero é caracterizada por meio de uma união matrimonial espiritual onde os clérigos possuem a igreja como esposa Logo o celibato junto a paternidade espiritual aparecem como caráter dominantes do clero como um grupo dominante dentro do viés critão 93 IRMANDADE DE TODOS OS CRITÃOS E DESENVOLVIMENTO DAS CONFRARIAS Outra laço que existe dentro da rede cristã é a relação de parentesco espiritual se todos os batizados são filhos de Deus logo são irmãos Mas essa irmandade é parcialmente inacessível tendo sua realização plena adiada a vida após a morte Mas existem ações que retornam a esse laço primordial de irmandade como a prática de esmolas aos pobres de forma direta ou por intermédio da igreja Inclusive a própria construção de laços entre compadres também de baseia na irmandade espiritual alargada A partir dessas concepções é possível perceber a dualidade entre os laços na rede cristã o parentesco carnal e o parentesco espiritual compostos por paradoxos aparentes 10 OS MECANISMOS DA REPRESENTAÇÃO Após ter compreendido a diversidade simbólica e quantitativa das imagens e concepções cristãs dentro da sociedade medieval é possível analisar os mecanismos que influenciam nos processos de representação 101 LUGARES DE IMAGENS LUGARES DE CULTO Se toda imagem se constrói como uma representação de um objeto ou um lugar essa imagem acaba por assumir um papel dentro dos centros religiosos O valor estético acaba por não ser o papel central das imagens o seu papel iconográfico tem um papel mais central dentro desse contexto Assim a igreja pode ser considerada um local de imagens que também agregam mesmo não sendo papel central efeitos estéticos com o caráter luxuriante das cores rutilar das luzes e o brilho dos outros A forma como essa estética está unida e organizada também passa as hierarquias internas assim como os valores ali disseminados Para analisar os significados da igreja é necessário utilizar a liturgia como base de significação Se as imagens e a igreja como formação especial é natural é a representação dessa igreja espiritual divina celeste e unida ao espaço material por meio da liturgia A utilização das imagens e da construção espacial como uma expansão das ideias representações e valores divinos espirituais acaba por contribuir com a orientação de uma experiência mística Além disso as imagens materializadas contribuem para o bom funcionamento da instituição eclesial e o reforço da dominação cristã 102 CULTURA DA IMAGO E LÓGICA FIGURAL DO SENTIDO A ideia por meio da concepção de que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança também retoma a concepção de materialização do divino em homem a relação da imagem de Deus e Deus é comum aos santos e as imagens desses santos Essa imagem possui o papel nesse contexto de signo representar por meio de convenções as imagens cristãs A encarnação é uma etapa crucial nessa concepção o Filho é o imago perfeito representação perfeita da imagem divina 103 FIGURAR DEUS OLHAR A CRIAÇÃO A expansão da utilização de imagens aparece vinculada de mudanças nas concepções e no construto em relação aos modos de figuração Nesse viés é possível considerar a passagem de uma construção simbólica representativa para uma arte realista típica da Alta Idade Média 104 INVENÇÃO DA PERSPECTIVA E DINÂMICA FEUDAL A construção de imagens do objeto por meio de viés em perspectiva considerando que a percepção é subjetiva logo é necessário considerar o ponto de vista do espectador e o da representação Dá um caráter transcendental aos signos ali dispostos 105 CONCLUSÃO IMAGEMOBJETO MEDIEVAL IMAGEM TELA CONTEMPORÂNEA Na prática cristã é possível ver diversos produtos de signos símbolos e ícones que representam tendo uma relação direta com concepções espirituais Análogo a essa valorização da imagemobjeto dentro da idade média a supervalorização das imagens na tela na contemporaneidade se constituem também com um caráter transcendental de valores a determinada representação
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Propostas aos gurus Elaborar um resumo de cada texto contendo no máximo duas laudas cada resumo Dos arquivos que enviei Copyright 2004 by Éditions Flammarion Copyright da tradução 2005 by Editora Globo SA Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma seja mecânico ou eletrônico fotocópia gravação etc nem apropriada ou estocada em sistema de bancos de dados sem a expressa autorização da editora Texto fixado conforme as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa Decreto Legislativo nº 54 de 1995 Título original La civilization féodale de lan mil à la colonization de lAmerique Preparação Beatriz de Freitas Moreira Revisão Valquíria Della Pozza Maria Sylvia Corrêa Índice remissivo Luciano Marchiori Capa Ettore Bottini sobre iluminuras de Les très riches heures du Duc de Berry 141016 dos irmãos Limbourg Musée Condé Château de Chantilly 3ª reimpressão 2011 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Baschet Jérôme A civilização feudal do ano 1000 à colonização da América Jérôme Baschet tradução Marcelo Rede prefácio Jacques Le Goff São Paulo Globo 2006 Título original La civilization féodale de lan mil à la colonization de lAmerique ISBN 9788525041395 1 Civilização medieval 2 Europa História medieval 3 Idade Média I Le Goff Jacques II Título 061863 CDD9401 Índice para catálogo sistemático 1 Civilização medieval História 9401 Direitos de edição em língua portuguesa para o Brasil adquiridos por Editora Globo SA Av Jaguaré 1485 05346902 São Paulo SP wwwglobolivroscombr que a oposição tradicional se desfaça assim em sua Apologética Las Casas afirma que a intenção dos que honram ídolos não é de honrar pedras mas de venerar pela religião entendamos aqui pela devoção nelas como nas virtudes divinas este ordenador do mundo seja qual for Destruindo a argumentação tradicional contra a idolatria ele afirma que esta não é somente suscitada pela perversão do diabo mas também pelo desejo natural de procurar Deus Resulta disso uma situação paradoxal pois Las Casas denuncia a idolatria dos índios que ignoram o verdadeiro Deus ao mesmo tempo que reconhece existir em seus atos uma devoção tão autêntica se não maior que a dos cristãos O fato de que para ele a palavra idolatria possa ser associada a termos positivos tais como veneração e devoção ou seu sinônimo religião transgride o sistema de valores estabelecido durante a Idade Média Mas a obra de Las Casas é excepcional e de pouco efeito sobre a atitude da Igreja colonial Ainda no século XVII os bispos das Índias tomam consciência dos limites da evangelização e engajamse em uma luta para extirpar a idolatria da qual descobrem os traços persistentes por exemplo Nuñez de la Vega sucessor de Las Casas em Chiapas Tratavase então fundamentalmente para bem conduzir a obra de conquista de destruir os ídolos dos índios e impor por todo lado as imagens cristãs aproveitandose das similitudes de seu funcionamento evitando no entanto as ambiguidades excessivamente flagrantes É verdade que existem diferenças importantes especialmente porque a noção indígena de ixtapla em língua nahuatl designa tanto a estátua do deus como seus representantes humanos o sacerdote o homemdeus ou o sacrifício que se torna o deus mas também porque ao lado das estátuas que dão forma às divindades outros objetos sagrados os bultos asseguram sua presença sem possuir a menor dimensão mimética o que explica que os espanhóis não lhes tenham absolutamente dado atenção embora sua sacralidade fosse maior do que a das estátuas que eles destruíam com fúria Também no mundo ameríndio as imagens eram formas de presença do divino sem ser o próprio deus As imagens dos deuses devem ser consideradas objetos sagrados capazes de servir de traço de união entre os homens e as divindades Alfredo López Austin OS MECANISMOS DA REPRESENTAÇÃO Após ter evocado a diversificação qualitativa e a expansão quantitativa das imagens convém analisar o alcance desse desenvolvimento das imagens na sociedade medieval Lugares de imagens lugares de culto Se toda imagem na Idade Média adere a um objeto ou a um lugar um aspecto determinante de seu funcionamento diz respeito ao fato de que ela constitui sua decoração e visa celebrar a importância funcional e simbólica dos objetos ou dos lugares onde ela aparece JeanClaude Bonne Assim a riqueza da decoração do Palácio dos Papas de Avignon e em particular o cuidado de Clemente VI para que todos os seus muros ou quase todos fossem ornados de pinturas correspondia a uma intenção muito consciente que fazia do fausto uma arma poderosa Pode ser que o conteúdo das imagens não seja percebido aqui para que o poderio do pontífice seja manifesto é suficiente que se seja atingido pela riqueza e pela profusão da decoração este poder impõese mesmo àqueles que sem penetrar no palácio sabem por ouvir dizer qual é o seu luxo e tentam imaginálo Habitando o palácio mais imponente da cristandade o papa reforça que ele é seu chefe supremo Mais genericamente as imagens ou aquilo que é melhor chamar aqui de decoração é uma espécie de honra prestada ao objetosuporte que indica ao mesmo tempo a posição e o prestígio da pessoa ou da instituição que as utilizam Nesse sentido o ornamental noção da qual JeanClaude Bonne mostrou o caráter operatório é um instrumento de hierarquização dos indivíduos e dos poderes tanto terrestres como celestes Ele elucida as justas relações e as proporções que convêm à ordem harmoniosa do universo que os clérigos pensam na sequência de Agostinho como uma musica No Ocidente medieval sobretudo a partir do século XI os objetos e os lugares que são os mais faustosamente honrados pelas imagens são as igrejas e seu mobiliário que é nomeado de resto os ornamenti ecclesiae Essas imagens devem convir a seu suporte celebrálo em sua justa medida e corresponderlhe qualitativamente Já foram mencionadas numerosas situações nas quais a representação ecoa o rito que enquadra mas é preciso pensar igualmente que as imagens enquanto decoração se acordam de maneira global ao funcionamento litúrgico do lugar de culto Como sugere Honorius Augustodunensis o valor estético das imagens é aqui determinante independentemente mesmo de seu conteúdo iconográfico Do mesmo modo que a beleza dos objetos contribui para seu prestígio e reforça sua eficácia o brilho da decoração torna o edifício digno do serviço divino Assim a Igreja pode ser definida como um lugar de imagens do qual se percebem imediatamente o caráter luxuriante das cores o rutilar das luzes e por vezes o brilho dos ouros Ela é uma totalidade colorida e luminosa em que a multiplicidade das formas sugere sem que nem ao menos se procure decifrálas uma saturação de significações Operase assim uma separação do mundo profano que manifesta e acentua a sacralidade do edifício cultual e dos ritos que ali se desenrolam De resto é isso que indicam os clérigos a começar por Suger quando evocam o processo anagógico de estabelecimento de contato com o divino que se realiza de modo indissociável através da liturgia e pelo efeito contemplativo induzido pela riqueza da decoração Mas a igreja não é um espaço sagrado unitário A decoração torna sensíveis também suas hierarquias internas distinções entre a parte esquerda e a parte direita mais valorizada gradação desde as zonas inferiores até as partes altas especialmente as abóbadas assimiladas por sua decoração ao céu oposição entre o oeste ligado à morte e ao diabo e o leste associado a Cristo a Jerusalém e à ressurreição polaridade indo da porta limiar ambivalent marcado pelo contato com o mundo profano e por isso muitas vezes associado a temas de partilha como o Juízo Final até a abside lugar privilegiado de uma plena presença teofânica e de representações da glória divina A oposição que estrutura mais vigorosamente a igreja e à qual a disposição das imagens em geral faz eco é aquela entre a nave destinada aos laicos e o coro acessível unicamente aos clérigos Marcada por uma cancela ou uma tribuna que a partir do século XII separam cada vez mais hermeticamente as duas partes da igreja a ponto de muitas vezes ocultar dos laicos a visão do altar maior essa disposição espacial não é nada mais que a materialização da divisão da sociedade em dois grupos de cristãos reafirmada então com um vigor novo A igreja é portanto uma totalidade sagrada globalmente separada do mundo ativando assim a oposição entre interior valorizado e exterior negativo sendo ao mesmo tempo dotada de uma estrutura interna diversificada que reproduz os eixos do mundo e as divisões fundamentais da sociedade Nesse sentido ela constitui referência espacial que ordena a visão do universo e a torna sensível na experiência social comum A sacralidade do lugar ligase ao fato de que se trata de um microcosmo onde por contraste com a desordem do mundo exterior Deus dá a cada coisa seu justo lugar Mas não se poderia analisar a relação entre a igreja e sua decoração sem ter em conta a liturgia que é a razão de ser essencial do edifício cultual Um aspecto importante dos ritos tem a ver com o fato de que eles comemoram e repetem eventos fundadores o sacrifício de Cristo sua vida as vidas da Virgem e dos santos Ora a imagem representa de uma outra maneira esses mesmos personagens que a liturgia evoca celebra ou em se tratando da eucaristia torna presentes Uma e outra estabelecem uma junção paralela embora de natureza diferente que põe o homem em contato com uma presença divina ou santa A imagem constitui assim uma reduplicação sensível da manifestação litúrgica das potências celestes a menos que ela seja uma forma de substituição dela compensando para os laicos sua crescente exclusão da liturgia eucarística inclusive no plano visual em razão da presença da cancela ou da tribuna A decoração participa assim da transferência de realidade realizada pela liturgia que promove um deslocamento da esfera terrestre para a esfera celeste da ecclesia materialis para a ecclesia spiritualis Guilherme Durand afirma que a igreja material significa a igreja espiritual E é por isso que penetrando no edifício sagrado os fiéis devem sentir que eles entram no Reino de Deus ou pelo menos em uma ordem de realidade que é uma figura da Jerusalém celeste É no coração da missa que esse movimento é mais intenso As preces do cânone suplicam então que a oferenda consagrada pelo sacerdote seja levada pelos anjos sobre o altar celeste na presença da majestade divina No céu uma liturgia permanente é celebrada pelos anjos diante da Trindade e no início da missa pedese que a voz dos homens seja admitida a juntarse às louvações dos coros angélicos O sacramento supremo da Igreja não poderia se desenvolver somente entre simples paredes de pedra em meio às sombras figurais do mundo aqui embaixo Ao contrário ele elevase até o altar divino e realiza a fusão entre as liturgias terrestre e celeste Pelo sacrifício as coisas terrestres e as coisas celestes encontramse diz Gregório o Grande É na relação com tal processo que é preciso perceber a decoração das igrejas em particular as figurações teofânicas da abside que materializam a presença da majestade divina e a saturação de figuras angélicas muitas vezes dotadas de instrumentos angélicos ou associadas ao canto do Sanctus que os anjos entoam para o céu Mais genericamente a profusão e a beleza da decoração contribuem para afirmar a igreja como único quadro legítimo do culto já que é ela a única digna de uma liturgia transposta no céu As imagens acompanham a suprema realização da liturgia talvez multipliquem seu efeito ou ao menos tornem visível seu alcance e prolonguem sua memória Se a igreja material é a figura da Igreja celeste unida a ela pela liturgia é também a imagem da Igreja espiritual simultaneamente comunidade e instituição A decoração de imagens contribui para essa dupla correspondência no coração da qual é preciso inscrever a mediação clerical É pelos gestos e pelas palavras do sacerdote que a liturgia terrestre se une à liturgia celeste ao passo que a separação marcada pela cancela e pela tribuna consagra a hierarquia estabelecida entre os clérigos e os laicos As igrejas que são renovadas com apuro ou reconstruídas com audácia a partir do século XI e as imagens incessantemente mais abundantes que honram sua sacralidade contam entre as marcas mais visíveis do poderio da instituição clerical Não é então surpreendente que esse desenvolvimento da decoração signo ostentatório do caráter central do lugar de culto na nova organização social se produza no momento em que as dissidências resistentes à afirmação do poder sacerdotal questionam a utilidade dos lugares de culto here ticos de Arras Pedro de Bruis e também das imagens cátaros hussitas Do mesmo modo a Reforma que deitará por terra os fundamentos da Igreja relançará em grande escala a prática da iconoclastia Aos olhos de todos é evidente que as imagens estão intimamente ligadas ao poder dos clérigos Mediações entre os homens e as potências celestes elas são ao mesmo tempo um instrumento privilegiado da mediação clerical a qual se encara principalmente nos lugares de culto É verdade que nos últimos séculos da Idade Média a expansão das imagens as faz penetrar nas habitações laicas e algumas podem orientar para uma experiência mística um contato pessoal direto com Deus Mas a menos que se trate de beguinas ou de outros laicos que se esforçam para adotar um modo de vida quase clerical esses fenômenos concernem com mais frequência aos meios monásticos e no essencial aos ramos femininos das ordens mendicantes Quanto ao comum dos fiéis as imagens lhes oferecem um suporte de devoção para suas preces ou eventualmente para uma meditação à qual podem se entregar ainda mais intensamente uma vez que tenham integrado os modelos clericais No entanto existe nisso apenas um complemento das práticas sacramentais para as quais o recurso ao clero e a frequência dos lugares sagrados permanecem indispensáveis De maneira geral o desenvolvimento das imagens contribui ao bom funcionamento da instituição eclesial e ao reforço de sua dominação Materializando eficazmente esses pontos de passagem em que o mundo terrestre e o mundo celeste entram em contato e exaltando pela sua beleza e pela sua crescente riqueza a sacralidade das igrejas as imagens manifestam e ativam o papel decisivo que os edifícios cultuais exercem na polarização do espaço feudal reforçada ainda mais pelo encelulamento das populações Se de início as relíquias assumiram o essencial dessa função as imagens associaramse a elas a partir do século XI e logo depois substituíramnas multiplicando assim os pontos de ancoragem do culto dos santos O edifício cultual e sua indispensável decoração que o transforma em um lugar fora do comum constituem então a forma privilegiada assumida pelos polos sagrados que ordenam e hierarquizam o espaço social Cultura da imago e lógica figural do sentido A despeito dos inconvenientes assinalados a palavra imagem possui forte legitimidade no Ocidente medieval a tal ponto que JeanClaude Schmitt pôde definilo como uma cultura da imago Além das obras visuais as quais ele serve para designar este termo abre no pensamento medieval uma rica constelação de sentido Ele está no centro da antropologia cristã pois segundo o Gênese Deus criou o homem à sua imagem e semelhança ad imaginem et similitudinem nostram Gen 1 26 como visto na figura 39 na p 414 Essa relação interpretada pelos teólogos em um sentido essencialmente espiritual é a alma racional que faz do homem a imagem da divindade explica que o Criador possa ser qualificado por exemplo por Guiberto de Nogent de bom realizador de imagem bonus imaginarius Mas essa relação de imagem entre Deus e sua criatura é ao mesmo tempo imperfeita e submetida ao devir Ela não é uma situação adquirida mas deverá realizarse no tempo JeanClaude Schmitt Com efeito o pecado original fez com que o homem perdesse uma parte importante de sua semelhança divina e é por isso que o mundo terrestre onde se desenrola a vida dos homens é concebido como uma região de dessemelhança marcada pelo afastamento e pela intransponível distância entre o humano e o divino A plena restituição da imagem divina instituída na origem do mundo é então um projeto uma promessa cuja realização é adiada para o fim dos tempos quando os corpos gloriosos dos eleitos serão reunidos às almas e a Deus A encarnação é entretanto uma etapa decisiva na história da relação de imagem O Filho é com efeito a imago perfeita do Pai divino e os teólogos sublinham que essa relação supera em dignidade aquela que existe entre o Criador e o homem que é apenas ad imaginem Dei e não imago Dei Permanece o fato de que a Encarnação de Cristo relativiza a dessemelhança aberta pela Queda e permite aos homens reconquistar a imagem divina perdida Uma vez que Deus consentiu em tornarse carne e a transitar por uma vida terrestre a rejeição radical do mundo sensível tornase impossível É possível conferir ás coisas materiais reabilitadas pela condescendência divina um valor positivo sob a condição todavia de que elas não sejam um fim em si mesmas A região de dessemelhança é então parcialmente iluminada pela vinda da imago perfeita de Deus e pelas manifestações repetidas de sua presença da qual a eucaristia é a principal De resto a Encarnação de Cristo é uma das principais justificativas da imagem material que permite contrabalançar a proibição do Decálogo se Deus tomou forma humana como se poderia renunciar a reproduzir a sua humanidade e a apoiarse nela para elevarse até sua divindade Existe assim uma poderosa afinidade entre a mediação que institui a Encarnação e aquela que as imagens estabelecem entre o mundo terrestre e o mundo celeste como é confirmado de resto pela coincidência cronológica a partir do século IX e sobretudo do século XI entre o desenvolvimento das imagens e a ênfase nas temáticas da Encarnação Existe igualmente uma conexão explícita entre a imagem e a esfera da imaginatio tal como é definida pelos clérigos na sequência de Agostinho Como já foi dito este distingue três gêneros de visão segunda parte capítulo IV Não sendo nem visão corporal nem visão intelectual a visão espiritual que engloba o conjunto de atividades da imaginação e muito particularmente as imagens de sonho e as visões é um elemento intermediário uma potência mediadora JeanClaude Schmitt Ela pode ser submetida ao peso dos corpos de modo que o sonho por muito tempo foi objeto de grande desconfiança especialmente na cultura monástica suas imagens pareciam perigosamente ligadas às pulsações da carne na ausência de todo controle da vontade ou então eram interpretadas como tentações diabólicas Mas o sonho como a visão desperta pode também ser instrumento de uma comunicação com as potências celestes e a este título ele é valorizado sobretudo a partir do século XII A imaginação tornase assim o meio assumido da experiência de devoção ou mística As interações entre a imagem material e a imagem mental multiplicamse se o sonho justifica a novidade das estátuasrelicários do século XI é em geral a imagem material que sobretudo a partir do século XII desencadeia a visão espiritual já foram mencionados o caso de Bernardo Francisco e Liutgarda igualmente no fim da Idade Média certas místicas fazem representar imagens em conformidade com as sugestões de suas visões Imagem material e imaginação reforçamse mutuamente para estabelecer uma relação privilegiada com as pessoas celestes É preciso enfim considerar a questão da imagem de maneira mais global A imagem é com efeito um caso particular de signo ou seja segundo a definição de Agostinho uma coisa que através da impressão que ela produz sobre os sentidos faz chegar uma outra ao conhecimento Ora o mundo inteiro é para o pensamento medieval uma vasta rede de signos que é preciso se esforçar para decifrar como indícios da vontade divina A Criação é um livro escrito pela mão de Deus Hugo de SaintVictor tudo aí são metáforas símbolos imagens Podese então perguntar se as imagens materiais signos dentre outros em um mundo de signos não têm o mesmo estatuto que o conjunto das realidades sensíveis presentes no universo Em todo caso a natureza prestase à interpretação exatamente à maneira das Sagradas Escrituras Que se interroque a natureza ou que se consultem as Escrituras elas exprimem um único e mesmo sentido de um modo equivalente e coincidente Ricardo de SaintVictor Em consequência as técnicas exegéticas empregadas para a compreensão da Bíblia podem também ser aplicadas ao menos em parte ao universo Desde Agostinho e Gregório o Grande os clérigos insistem sobre a pluralidade das significações das Escrituras e em particular sobre a distinção entre sentido literal e sentido alegórico O segundo é o mais importante mesmo se o sentido literal é objeto de uma atenção reforçada a partir do século XII como testemunha o sucesso da Historia Scholastica de Pedro o Cantor explicação literal das narrativas bíblicas Ao mesmo tempo a importância do sentido alegórico é tal que ele se subdivide em dois sobretudo no século XII ou em três dando lugar à concepção clássica a partir do século XII da quádrupla significação das Escrituras literal alegórica o que é preciso crer tropológica a lição moral que indica como agir e anagógica ou mística relativa à salvação e às verdades escatológicas É verdade que o esquema dos quatro sentidos é mais um modelo de referência do que um método prático de exegese e de fato a oposição dual entre a letra e o espírito refinada por diversas subdivisões conserva uma força considerável De todo modo o texto sagrado é caracterizado então por uma estratificação de significações que longe de ser tida por uma falta de coerência faz ao contrário seu pleno valor Ocorre o mesmo com todas as coisas sensíveis que existem no mundo terrestre Suas significações são múltiplas e por vezes mesmo contraditórias sem que isso choque absolutamente a lógica medieval Por exemplo os Bestiários indicam que o leão pode significar tanto Cristo porque se conta que os seus filhotes nascem mortos e são ressuscitados três dias depois pela sua mãe como o diabo sob a forma das potências desencadeadas da natureza ou dos inimigos da Igreja segundo a interpretação do episódio de Daniel no fosso dos leões Assim como as realidades sensíveis as imagens materiais participam dessa lógica Ora uma das especificidades da linguagem figurada é de não se submeter às regras de um sentido idealmente unívoco O pensamento figurativo caracterizase ao contrário por sua capacidade em condensar significações múltiplas e abertas Uma mesma figura pode combinar em si várias identidades por exemplo Judite e Salomé Abraão e Deus o Pai ou ainda Moisés Paulo e João Evangelista Uma mesma imagem pode associar significações contraditórias tal como o Cristo do tímpano da catedral de Autun que está ao mesmo tempo de pé e sentado levantandose e sentandose a fim de significar o laço entre sua Ascensão e seu retorno no fim dos tempos JeanClaude Bonne Longe de ser uma deficiência tal ambivalência e por vezes também uma capacidade de jogar com a ambiguidade mantendo significações flutuantes vacilantes entre as quais a incerteza impede de decidir permite que a imagem assuma aspectos importantes do modo de pensar medieval Além da estratificação das significações das Escrituras é preciso sublinhar a importância da exegese dita tipológica que põe em relação o Antigo e o Novo Testamento buscando no primeiro a prefiguração das verdades das quais o segundo é a plena realização Esta é uma outra modalidade de associação dos níveis de sentido que a imagem assume perfeitamente por exemplo multiplicando os indícios visuais que fazem do sacrifício de Isaac a prefiguração do sacrifício de Cristo como visto na figura 52 na p 513 Além disso como pensamento da ambiva lência a imagem muitas vezes joga com os paradoxos fundamentais do cristianismo e muito particularmente a junção do humano e do divino realizada pela Encarnação notadamente nas imagens que combinam o sofrimento de Cristo e sua vitória sobre a morte tais como a imago vietatis que mostra o busto de Cristo acima de sua tumba paradoxalmente morto e vivo ao mesmo tempo como mostrou Hans Belting Habituados pela exegese a multiplicar os sentidos aceitáveis para um dado texto os clérigos podem ser facilmente levados a praticar com as imagens o mesmo tipo de encadeamento de significações Existem então afinidades profundas entre o funcionamento das imagens e a intensa produção exegética Nos dois casos tratase de operar uma sobreposição de significações permitindo articular diferentes níveis de realidade de modo a elevarse das aparências sensíveis até as verdades mais espirituais e mais próximas da Unidade divina Em tal contexto a questão do verdadeiro e do falso é posta de uma maneira que desconcerta um pouco nossos hábitos modernos Para nós que sofremos os efeitos da dissociação platônica entre o ser e o parecer quer dizer a expulsão da imagem para fora do domínio do autenticamente real seu banimento para o campo do fictício e do ilusório sua desqualificação do ponto de vista do conhecimento JeanPierre Vernant a verdade está no real enquanto a imagem diz respeito à ilusão Isso se dá de modo muito diferente no mundo medieval no qual o universo sensível é ele próprio concebido como uma imagem um signo uma sombra segundo a expressão de Boaventura de onde a estranheza da concepção medieval do real sobre a qual Eric Auerbach judiciosamente chamou a atenção O verdadeiro é em última instância a vontade divina mas também tudo o que no mundo sensível é interpretado de forma suficientemente correta para aproximarse dele O falso é a ilusão diabólica e tudo o que no mundo sensível dá ensejo a esta Cidade de Deus cidade do Diabo É assim que se pode compreender o estatuto do teatro medieval longe de ser o reino da ilusão ele é útil revelação das verdades anunciadas pelas Escrituras E é conforme a essa lógica que é enunciada a conclusão de uma representação do Juízo Final no México em 1539 bastante comparável àquelas que são conhecidas no Ocidente no século XV Vós vistes esta coisa abominável terrível Tudo é verdadeiro como vós o vistes pois está escrito nos livros sagrados Serge Gruzinski Podese então falar baseandose nos estudos de Eric Auerbach de uma lógica figural do sentido ou de uma interpretação figural da realidade Em virtude dessa lógica é o além que é a verdadeira realidade enquanto este mundo é somente a sombra das coisas futuras Tudo aqui embaixo é apenas figura cuja realização é eternamente presente no olho de Deus e no além onde existe então permanentemente a realidade verdadeira e revelada No entanto se toda a criação é uma linguagem figurada em que Deus se manifesta isso não significa que sua realidade sensível deva se abolir no ato de interpretação que atinge sua significação profunda Eric Auerbach insiste sobre a especificidade da interpretação figural que considera a vida na terra como totalmente real e no entanto ela não é apesar de toda a sua realidade senão uma umbra e uma figura da verdade autêntica futura e derradeira a verdadeira realidade que revelará e manterá a figura É por isso que notadamente um personagem tornase ainda mais real à medida que é mais interpretado e mais intimamente associado ao plano eterno da salvação Assim nas concepções medievais a verdade está na interpretação que alcança o sentido divino através de suas figuras bem mais do que na realidade imediatamente perceptível E é de acordo com essa lógica figural que se pode dizer que a imagem medieval é verdadeira porque ela contribui para tornar presentes ou ao menos acessíveis as pessoas divinas ou santas Plenamente admitidas e legitimadas durante a Idade Média Central as imagens não são vãs aparências Elas são figuras em um mundo que é inteiramente figura e como as demais figuras permitem elevarse até as verdades celestes Mesmo se as imagens nos mostram apenas o aspecto exterior da coisa Tomás de Aquino precisa ainda que graças à sua mediação o intelecto penetra o interior da coisa de modo que como sublinha Jean Wirth as imagens mentais mas também as imagens em geral contribuem para o conhecimento abstrato Figurar Deus olhar a Criação A expansão das imagens é acompanhada de profundas transformações dos modos de figuração No entanto mais do que analisar essas evoluções como a passagem de uma arte simbólica para uma arte realista como se diz comumente convém reparar aí uma alteração de equilíbrio no seio das tensões constitutivas de toda figuração medieval Entre essas tensões serão evocadas aquelas que articulam ornamentação e representação superfície e volume essência e singularidade A arte medieval concede um lugar considerável e uma posição eminente à ornamentação a ponto de proceder sobretudo durante a Alta Idade Média e ainda até o século XII a uma ampla ornamentalização das próprias representaçõees inclusive das figuras humanas e animais figura 1 na p 36 JeanClaude Bonne sugere falar de ornamentalização quando as figuras mesmo guardando uma silhueta ou formas identificáveis expõem a literalidade dos traços ou das cores de que são feitas sem preocupação de ilusionismo Longe de manifestar um déficit de conhecimento técnico tais procedimentos correspondem à sacralidade dos objetos decorados e das figuras representadas que convida a subtráilas tanto quanto possível da ordem das aparências sensíveis É assim por exemplo que o ornamental enriquece a representação cristã do sagrado exaltando a divindade sob formas que contrabalançam ou sublimam sem negálo o antropomorfismo do Deus da Encarnação JeanClaude Bonne Mais tarde a partir do século XII e sobretudo do século XIII um processo tende a separar a representação e a ornamentação esta sendo notadamente remetida para as margens da imagem Mas por estarem menos intimamente imbricadas representação e ornamentação não cessam de entreter suas relações no mais das vezes à distância mas também no interior mesmo da figuração em que as vestimentas continuam sendo um dos lugares privilegiados de expressão do ornamental A oposição entre a superfície e o espaço herdada do historiador da arte Heinrich Wölfflin conduz geralmente a depreciar a arte medieval considerada incapaz de sugerir a tridimensionalidade e faz da história da arte um processo teleológico que tende para a conquista da perspectiva única representação correta do espaço Se quisermos ao contrário pensar a especificidade das representações medievais e os valores positivos que as animam é preciso admitir a existência ao longo de toda a Idade Média de uma tensão entre planitude e espessura JeanClaude Bonne Se a arte medieval pode ser considerada a arte do plano é antes de tudo porque a imagem destinada à celebração do lugar ou do objeto em que ela se inscreve deve dar mostra de respeito em relação a seu suporte página do manuscrito parede da igreja outros Isso é particularmente verdadeiro a respeito da iluminura tendo em conta o caráter sagrado dos livros em que são pintadas como indica judiciosamente Otto Pächt o cristianismo não fazia diferença entre o livro instrumento de comunicação e a mensagem que ele transmitia O livro não era apenas aquilo que continha o Evangelho ele era o Evangelho Compreendese então que a planitude do suporte seja assumida positivamente como um componente imediato da imagem e que o fundo das imagens medievais não se deixe negar ou atravessar por nenhum procedimento ilusionista qualquer que seja ele Não é raro ao contrário que o suporte material da imagem mostrese diretamente figura 1 na p 36 ou que ele exiba sua presença incontornável através de largos aplats40 de cores desprovidos de todo alcance mimético ou do brilho espelhado de um plano dourado figura 35 na p 384 Quanto às próprias figuras elas são caracterizadas por uma estreita relação com o fundo sobre o qual se erguem e a reverência devida a seu suporte as submete a uma forte lógica de planitude figura 30 na p 330 Por isso as imagens medievais contribuem para uma certa criação de volume das figuras Muitas vezes notase também uma sobreposição de planos distintos figura 4 na p 39 assim como a presença de planos oblíquos e de efeitos locais de relevo no tratamento de corpos e de objetos Mas todos esses procedimentos que tiram a imagem de uma estrita planitude bidimensional não criam entretanto um espaço tridimensional que negaria todo o respeito ao plano do suporte e produziria uma unificação espacial da representação Eles apenas articulam espessura e lógica do plano Essa dinâmica ampliase notadamente a partir do século XII e sobretudo do século XIII O volume dos corpos e a maleabilidade das dobras das vestimentas que caracterizam o classiscismo da estatuária românica tardia e sobretudo gótica figura 3 na p 38 são imitados pela pintura que utiliza os dégradés cromáticos e as sombras para sugerir a plenitude das formas Há igualmente uma maior preocupação em exprimir a textura dos materiais representados enquanto o dinamismo dos corpos é sugerido com mais frequência em oposição a dimensão comumente hierática das obras da Alta Idade Média era plenamente justificada pois principalmente Estrabão no século IX julgava a impressão de movimento dada por uma figura como um signo negativo de instabilidade Enfim enquanto não ocorrem primeiros esboços de paisagem no século XIV figura 32 na p 368 a representação dos animais e dos vegetais tornase mais cuidadosa com suas aparências Se a esse propósito devese excluir o termo realismo que pressupõe uma concepção do real que não tem nenhum sentido antes do século XIX podese utilizar com prudência o de naturalismo que designa uma atenção às realidades sensíveis do mundo natural criado por Deus Seria entretanto errôneo interpretar esse fenômeno que progride do século XII ao século XV como um avanço dos valores profanos ou uma laicização do mundo Sigamos de preferência a análise de Jean Wirth enquanto até o século XII o universo era dividido em uma parte visível e outra invisível o século XIII faz prevalecer uma oposição entre natural e sobrenatural À noção de natureza reinterpretada pelos teólogos desde o século XII corresponde a de sobrenatural formalizada por Tomás de Aquino Portanto existe doravante um sobrenatural visível cuja representação é justamente um dos objetos maiores do desenvolvimento das imagens Assim a nova estética gótica não é determinada pela vontade de reproduzir um real exterior à arte Sua função é antes conferir uma 40 Técnica conhecida em italiano como tinta piatta que consiste em aplicar uma camada uniforme de tinta em uma superfície N T 516 Jérôme Baschet A civilização feudal 517 presença real visível e mesmo palpável a algo de novo o sobrenatural Jean Wirth O que chamamos de naturalismo não tem por objetivo último a representação da natureza mas a manifestação visível do sobrenatural e das verdades divinas que o mundo criado permite apreender É preciso não esquecer que o que é representado então sob as aparências do mundo natural são figuras através das quais o homem pode se aproximar de Deus De resto tal fenômeno apenas é acentuado ao longo dos séculos e Erwin Panofsky o analisou corretamente como o pretenso realismo da arte flamenga do século XV cuja virtuosidade torna escrupulosa a atenção ao detalhe da aparência das coisas e das criaturas e é de fato saturado de um simbolismo complexo e por vezes oculto que incita a um paciente trabalho de decifração figura 6 na p 41 Ocorre ainda o mesmo no apogeu do Renascimento e mesmo a arte de Michelangelo campeão da perfeição atlética dos corpos não significa absolutamente a afirmação do homem e do mundo terrestre como valores autônomos para ele o corpo humano é a mais alta metáfora da ordem divina É preciso prolongar ainda esta análise Assim até o século XII as imagens evitam levar em conta a dimensão acidental dos fenômenos ou das figuras elas privilegiam formas genéricas pouco particularizadas e encarregadas de exprimir essências Tratandose por exemplo da imagem de um rei ou de um imperador julgase sem pertinência ou mesmo nocivo ao alcance da representação conferirlhe caracteres singulares e a fortiori traços que evocassem a individualidade do soberano reinante importa apenas prover a figura de insígnias e traços que sejam os mais aptos para exprimir a essência do poder real ou imperial figura 7 na p 87 No entanto a evolução já mencionada reduz o caráter genérico das formas e as impregna ao contrário da existência concreta e palpável do mundo sensível e do sobrenatural Já no século XIII e mais ainda depois os rostos e os corpos diversificamse para levar em conta sempre com maior precisão as particularidades da idade do sexo da compleição e até mesmo da personalidade individual É assim que nasce o que se convencionou chamar de retrato no sentido moderno do termo quer dizer uma imitação das singularidades físicas de um indivíduo permitindo que se o reconheça pelo aspecto figura 6 na p 41 Entre os exemplos mais precoces um dos mais bem atestados é o do cardeal Jacopo Stefaneschi no início do século XIV que se fez representar em três idades diferentes em um manuscrito em um retábulo de Giotto e em uma pintura mural de Simone Martini em Avignon Essa evolução que desloca a ênfase das essências genéricas para as singularidades individuais foi muitas vezes posta em relação ao desenvolvimento do nominalismo Isso tem alguma aparência de credibilidade já que Guilherme de Occam afirma que só existem seres singulares e que neles não há nenhuma generalidade primeira parte capítulo IV Estabelecer tal laço cria entretanto muitas dificuldades pois se trata de dar conta de uma dinâmica das formas de representação que é anterior ao occanismo e que se afirma progressivamente do século XII ao XV Essa evolução deveria então ser vinculada a tendências mais gerais e não é certo que o nominalismo mesmo tomado em seu conjunto desde suas primeiras formulações no século XII possa ter esse papel É verdade que nos séculos XII e XIII numerosos autores considerados realistas admitem princípios de tipo nominalistas e afastam a ideia de que os universais sejam coisas É o caso de Tomás de Aquino para quem os universais só existem no intelecto e a universalidade só é apropriada à essência na medida em que ela é pensada pelo homem Mas devese então notar que muitos outros aspectos do tomismo podem ser postos em relação à evolução das imagens Assim para Tomás a imagem permite um movimento que une o sensível ao inteligível de modo que ela permite um conhecimento ao mesmo tempo da essência das coisas compreendida pelo intelecto e de suas particularidades individuais percebidas pelos sentidos Um pouco mais tarde Gilles de Roma e outros tomistas admitem que a imagem permite conhecer o indivíduo em sua própria individualidade o que sugere uma evolução bastante paralela àquela que as obras visuais exibem Invenção da perspectiva e dinâmica feudal A representação em perspectiva afinada pela geração dos anos 1420 condensa a maior parte das evoluções evocados aqui Após as tentativas parciais que são observadas em certos quadros de meados do século XIV Pietro Lorenzetti a experiência fundadora é a do arquiteto Brunelleschi que observando uma tabela representando o batistério de Florença através de um buraco feito na porta da catedral estabelece que existe uma coincidência necessária entre o ponto de vista do espectador e o ponto de fuga da representação ele demonstra assim que uma pintura construída em perspectiva só pode ser olhada corretamente de um único lugar Hubert Damisch No mesmo momento os afrescos de Masaccio na igreja de Santa Maria del Carmine em Florença constituem uma das primeiras obras rigorosamente construídas segundo as regras da perspectiva 1427 Essa inovação que se pode incluir na lista das mais notáveis invenções da Idade Média transforma os princípios figurativos analisados até aqui Pensando o contexto da imagem como uma janela que se abre sobre a história representada segundo a metáfora do humanista florentino Leon Alberti a representação em perspectiva reivindica a denegação do plano em que se inscreve e que as obras anteriores tinham vocação de respeitar Compreendese 518 Jérôme Baschet A civilização feudal 519 então por oposição ao ponto de vista do olho humano que assume a perspectiva que as imagens anteriores indiquem pela reverência devida à superfície que as suporta a dependência das figuras em relação a uma inscrição de uma outra ordem que a delas quer dizer de um princípio de autoridade transcendente JeanClaude Bonne De maneira um pouco metafórica poderseia dizer que o único ponto de vista que então merece ser posto na imagem é o de Deus mas Deus evidentemente não vê através dos olhos do corpo nem a partir de um lugar particular de modo que seu olhar engloba todos os pontos de vista possíveis e não poderia se preocupar com aparências humanamente perceptíveis Em tal lógica importam apenas a essência das coisas sua integridade e seu valor simbólico É por isso que a arte medieval recorre com insistência a procedimentos de mostração que asseguram a melhor visibilidade dos objetos e das figuras assim embora pousados sobre um altar um pão ou uma hóstia deverão aparecer frontalmente a fim de respeitar sua perfeita circularidade Pela mesma razão o bispo Lucas de Tuy protesta contra a representação de perfil ou de três quartos da Virgem que é a seus olhos mutiladora e que por afetar uma figura de santidade eminente afronta ainda mais gravemente os princípios de mostração e de integridade Ao contrário a representação em perspectiva é uma visão em primeira pessoa que assume um ponto de vista individual e subjetivo Ou ao menos realiza uma objetivação do subjetivo Erwin Panofsky que confere espaço ao ponto de vista do olho humano Transitase assim do reconhecimento da superfície de inscrição como referência assumida para sua negação e de uma visão transubjetiva e universalizante para uma percepção subjetiva e individualizante Esse deslocamento é profundo mas não mais do que aquele que faz passar da concepção memorial da missa à doutrina da transubstanciação É então decisivo sublinhar que a perspectiva não rompe com as concepções medievais do espaço Notando o menosprezo de Erwin Panofsky Hubert Damisch sublinhou que a perspectiva não supõe absolutamente um espaço geométrico homogêneo contínuo e infinito tal como Descartes o concebe dois séculos mais tarde com efeito a perspectiva ocupavase menos do espaço do que dos corpos e das figuras dos quais ele era o receptáculo ao mesmo tempo que se conformava à regra aristotélica de uma extensão finita e descontínua A perspectiva não tem por objeto o espaço mas as figuras que não mais do que durante os séculos precedentes não poderiam ser pensadas independentemente do lugar que elas ocupam Ela é então uma maneira de conformação em que cada coisa se inscreve no lugar que lhe corresponde A perspectiva não rompe com a problemática medieval do locus mesmo se ela produz uma modalidade nova de articulação dos lugares ocupados pelos diversos objetos figurados Com efeito estes são doravante mais integrados em uma ordem unificada pois são relacionados a um referente único e específico ao mesmo tempo ponto de fuga e ponto de vista As evoluções dos modos de representação na Idade Média são um dos aspectos da grande dinâmica do sistema feudal O desenvolvimento do naturalismo como legitimação das manifestações visíveis das verdades divinas a singularização que não exclui o cuidado com as essências e com a hierarquização das criaturas e a afirmação da espessura em tensão com o princípio de planitude podem ser tidos como modificações da maneira de articular o mundo terrestre e o mundo celeste o humano e o divino Não é absolutamente questão aqui de uma separação radical que consagre o triunfo de um pensamento laico ou o aparecimento de um humanismo que exclui toda referência à Providência e à Graça Se as aparências sensíveis são cada vez mais abertamente assumidas pela representação isso é em virtude do processo já evocado de espiritualização do carnal o fenômeno avança ao mesmo passo que o desenvolvimento da lógica da Encarnação e que o reforço do poderio da Igreja instituição material fundada sobre valores espirituais Se o mundo criado pode chegar à representação de uma maneira que sugere com deleitamento seus aspectos mais palpáveis e seus detalhes mais encarnados é porque mais do que antes ele é concebido como carregado de valores espirituais e como um meio legítimo de chegar ao conhecimento de Deus através do conhecimento do mundo criado conforme sua vontade Até mesmo a perspectiva pode aparecer como um dos avanços extremos da dinâmica do sistema feudal Este é caracterizado pela articulação no seio de um espaço descontínuo e polarizado entre um forte encelulamento local e a manifestação da unidade da cristandade Sua dinâmica tende a reforçar seus aspectos unificadores sob a tripla forma do desenvolvimento das trocas da recuperação monárquica e da centralização pontifícia sem com isso romper com a organização celular da sociedade Mais ainda do que a ampliação desses laços intercelulares é preciso sublinhar a importância das representações unificadoras que aí atuam a Igreja como corpo de Cristo do qual a eucaristia permite participar A perspectiva poderia encontrar aí sua lógica pois ela diz respeito a essas ilusões unificadoras sem por isso romper com a lógica do locus nem fundar uma concepção do espaço homogêneo e unificado Podese então sustentar como propôs Hubert Damisch que o trabalho dos pintores preparou sem absolutamente pressupôlo o advento da geometria descritiva Esta é uma outra questão mas isso não é no fundo mais improvável do que supor que o tempo escatológico cristão prepara a concepção moderna de história ao mesmo tempo que está separado dela por uma ruptura radical 520 Jérôme Baschet A civilização feudal 521 CONCLUSÃO IMAGEMOBJETO MEDIEVAL IMAGEMTELA CONTEMPORÂNEA Após haver tocado de perto a tentação iconoclasta e aterse durante séculos a uma iconicidade restrita e desconfi ante a cristandade ocidental conheceu a partir do século IX e sobretudo do século XI uma expansão crescente das imagens a tal ponto que elas se tornaram um dos elementos constitutivos do sistema eclesial Ornamentos indispensáveis do culto à Virgem e dos santos ecos sensíveis da presença real e da reiteração eucarística da Encarnação emblemas da Igreja e signos de alinhamento das múltiplas instituições que a compõem anúncios das verdades escatológicas ao mesmo tempo que suportes de práticas de devoção cada vez mais difundidas tais são alguns dos papéis que as imagens assumem na sociedade cristã Seu poder de beleza e de resplendor cromático orquestra de maneira sensível a sacralidade dos lugares de culto de modo que as imagens contribuem para o contato privilegiado que se estabelece ali entre os homens e as potências santas ou divinas ativam a junção entre a igreja material e a igreja triunfante e a fusão das liturgias terrestre e celeste Mas essa mediação das imagens não é dissociável daquela assumida pelos clérigos de resto são no mais das vezes vinculadas a objetos e a lugares destinados a ritos que manifestam o poder sagrado dos sacerdotes O desenvolvimento das imagens acompanha com uma bela simultaneidade o reforço da instituição eclesial e pouco a pouco elas se tornam ornamentos indispensáveis do poderio da Igreja e os adjuvantes emblemáticos da mediação sacerdotal É por isso que elas são tão estreitamente associadas à função dos lugares sagrados que polarizam o espaço feudal ao passo que a evolução de suas formas corresponde à dinâmica geral da articulação entre o carnal e o espiritual que anima a cristandade A despeito desse desenvolvimento considerável da iconicidade evitarseá fazer da Idade Média a origem de nossa civilização dita da imagem A cultura medieval da imago é sem dúvida o exato contrário disso sem falar do fato de que um homem da Idade Média via menos imagens durante toda a sua vida do que nós vemos hoje em um só dia Vinculada a um objeto ou a um lugar que possui função própria no mais das vezes cultual ou de devoção a imagemobjeto só tem sentido na Idade Média pelo seu caráter localizado Ela também é um objeto imaginário um objeto imaginado cujo funcionamento põe em jogo interferências entre visão corporal e visão espiritual entre visio e imaginatio Enfim a representação é também presença meio de uma manifestação eficaz das potências celestes Ora à imagemobjeto podese opor a imagemtela contemporânea Ou mais ainda podese considerar a televisão e o computador como modos extremos de imagemobjeto que asseguram um completo triunfo da imagem sobre o objeto pois este se torna o receptáculo de todas as imagens possíveis a tela em que se projeta a sombra do universo e que através da supere presença do real que ele permite transforma e perverte a relação com o mundo À necessidade de localização da imagemobjeto medieval contrapõese o advento ubíquo da imagemtela capaz de reproduzirse identicamente em todos os lugares negando assim a particularidade dos lugares e contribuindo à deslocalização generalizada que caracteriza o mundo contemporâneo À presença eficaz quer dizer ao mesmo tempo real e imaginada da imagem medieval contrapõese uma superabundância de imagens que se anulam mutuamente e que são no mais das vezes desprovidas de efeito porque não controladas e não simbolizadas É verdade que a presença que a imagemobjeto permite só tem verdade uma vez que nos coloquemos no campo da crença cristã de modo que se a imagem medieval participa de uma relação com a ilusão realmente vivida a imagem contemporânea induz a uma relação com a realidade vivida ilusoriamente O estatuto e as práticas da imagem são indissociáveis da organização de conjunto da sociedade e é por isso que também em matéria de imagens e a despeito de certas similitudes aparentes a Idade Média é nosso antimundo 11 a desqualificação dos fi lhos ilegítimos limitavam o número dos herdeiros potenciais e facilitavam uma melhor gestão dos patrimônios assim como em consequência uma maior solidez das topolinlangens Essas regras sem dúvida incómodas enquanto a aristocracia ainda não se encontrava inteiramente desligada de suas formas anteriores de organização mesmo sendo individualmente fastidiosas favoreciam em uma época de desenvolvimento produtivo e demográfi co as novas estruturas de dominação fundadas no encelulamento dos dominados e na territorialização dos dominantes No geral a intervenção da Igreja é bem mais constritiva e decisiva no que concerne às regras de aliança enquanto o sistema de fi liação parece uma questão menos relevante mesmo se ele é afetado pelo contragolpe da generalização do modelo clerical do casamento Dessa maneira o clero pretende controlar a reprodução física da sociedade ao mesmo tempo que se impõe de modo determinante sobre a organização da classe aristocrática sua rival e sua cúmplice na obra de dominação social Mas se o clero regula a prática de laços dos quais ele próprio se subtrai o parentesco espiritual é mais essencial ainda para defi nir seu próprio lugar e a preeminência que reivindica A SOCIEDADE CRISTÃ COMO REDE DE PARENTESCO ESPIRITUAL Não seria possível estudar as estruturas medievais do parentesco sem insistir seguindo Anita GuerreauJalabert sobre a importância dos laços de parentesco espiritual que constituem um de seus aspectos mais originais Parentesco batismal paternidade de Deus e maternidade da Igreja Uma parte essencial desses laços é urdida pelo batismo Além de sua função de purificação indispensável para alcançar a salvação pessoal esse rito fundamental marca o verdadeiro nascimento social do indivíduo É o momento em que ele recebe seu nome e se torna membro da comunidade dos fi éis Sem batismo nada de identidade nada de existência aqui embaixo e nada de salvação no além É então que se instituem os mais ativos laços de parentesco espiritual que são o apadrinhamento e o compadrio que une os pais carnais e os pais espirituais Tendo a responsabilidade do nascimento físico da criança em virtude do qual o pecado original lhe é transmitido os pais carnais são na Idade Média e contrariamente ao ritual ainda praticado até o século V antes da instituição do apadrinhamento rigorosamente excluídos do rito batismal que assegura seu nascimento social e sua regeneração na graça Nessa ocasião eles devem ceder lugar aos pais espirituais padrinhos e madrinhas que seguram a criança sobre a pia batismal pronunciando no lugar dela as palavras rituais dandolhe seu nome e apresentandose como garantia de sua educação cristã Essa substituição dos pais carnais pelos pais espirituais no momento do batismo que manifesta a indignidade dos primeiros de participarem da parte mais nobre da reprodução dos membros da comunidade torna sensível a todos a preeminência do parentesco espiritual e a desvalorização do parentesco carnal O papel do padrinho na educação religiosa da criança é na maior parte do tempo teórico de acordo com os princípios que prescrevem sua intervenção unicamente no caso de os pais faltarem De resto em certos meios os pais parecem procurar menos padrinhos para seus fi lhos do que compadres para si mesmos como se depreende dos estudos de Christiane KlapischZuber O compadrio permite com efeito estabelecer uma relação horizontal pensada em termos de amizade e de fraternidade que alarga o círculo dos aliados e é suscetível de apaziguar tensões sociais ou políticas No século VI os reis merovíngios já utilizam o compadrio para pôr fi m a suas lutas fratricidas e restaurar entre eles relações pacífi cas Em outros contextos o compadrio conserva uma dimensão mais vertical e sobrepõese às relações de clientelismo por exemplo na Florença do fi m da Idade Média ter como compadre um rico comerciante signifi ca benefi ciarse de sua proteção e ao mesmo tempo integrarse à sua clientela política e econômica Num caso como noutro é sem dúvida porque ele permita multiplicar os laços de solidariedade e reforçálos por um caráter sacralizado que o parentesco espiritual gozou de tamanho favor entre os laicos Não se poderia portanto subestimar a importância do apadrinhamento em razão de seu papel no ritual batismal e de seu lugar eminente na economia geral do sistema de parentesco É o que confi rma o desenvolvimento das interdições matrimoniais por causa do parentesco espiritual Se as proibições principais entre padrinho e afi lhada madrinha e afi lhado compadre e comadre são estabelecidas desde o Código Justiniano em 530 ou pouco depois outras são acrescentadas no Ocidente no século XII por exemplo entre o afi lhado e a fi lha ou entre a afi lhada e o fi lho de uma mesma pessoa entre os cônjuges daqueles que são unidos pelo compadrio Assim como para o parentesco carnal esta é a época em que a Igreja enuncia as regras mais constritivas a fi m de reforçar sua posição de árbitro das práticas matrimoniais É também pelo batismo que se estabelece a fi liaç ão dos homens em relação a Deus A criança nascida de seus pais no pecado original renasce da água 12 lustral como um filho de Deus Ela tornase então um filho de Deus o que não era em virtude de seu nascimento o batismo é uma adoção divina Com efeito as concepções medievais fazem da paternidade de Deus não uma característica de todos os homens mas um privilégio somente dos batizados É verdade que Deus criou todos os homens à sua imagem e semelhança Gen 1 26 mas não é em virtude dessa relação que eles são seus fi lhos de modo que essa semelhança pervertida pelo pecado original só pode ser restaurada pelo batismo Assim a paternidade de Deus não defi ne toda a humanidade historicamente inaugurada pela Encarnação do Filho e transmitida a cada um pelo batismo ela marca o estatuto específi co dos cristãos e os distingue dos outros homens excluídos da graça e da salvação Através do batismo o cristão tornase também filho da MãeIgreja Esta fi gura que não tem nenhum papel no Novo Testamento vê sua importância ampliarse à medida que se afi rma a instituição eclesial Ela não para de jogar com a ambiguidade que lhe confere a noção de ecclesia situada entre sua acepção original de comunidade de todos os cristãos e a tendência ulterior que a identifi ca com seus membros clericais primeira parte capítulo III Mesmo se a segunda acepção se impõe a partir do século IX e mais ainda do século XI a primeira jamais desaparece totalmente Na época que nos ocupa aqui a MãeIgreja é a personificação da instituição ou da comunidade jogando com essa indefinição em benefi cio da primeira A maternidade da Igreja aparece então como a contrapartida da paternidade de Deus tão importante como esta última Agostinho já afi rmava A Igreja é uma mãe para nós É dela e do Pai que nascemos espiritualmente e sublinhando ainda mais seu caráter indissociável Ninguém poderá encontrar junto a Deus uma acolhida paternal se menospreza sua mãe a Igreja Assim como Deus é Pai a Igreja é verdadeiramente Mãe pois ela faz nascer o cristão no batismo As pias batismais são o órgão desse nascimento e Agostinho seguido pela tradição patrística e litúrgica qualifi caas de matriz da MãeIgreja A inscrição do batistério de Latrão de cerca de 440 precisa que suas águas são fecundadas pelo Espírito Santo de modo que a MãeIgreja concebe nestas águas o fruto virginal que ela concebeu pelo sopro de Deus Tais enunciados decalcam a procriação carnal a fi m de melhor espiritualizála é que o batismo deve ser concebido como um verdadeiro parto espiritual Atribuise também à Igreja uma função nutridora que reforça seu estatuto maternal Como indica Clemente de Alexandria a Igreja atrai para si os seus fi lhos e aleitaos com um leite sagrado o Logos dos lactentes E se por vezes as imagens fi guram essa relação mostrando a Igreja oferecendo seus seios aos fi éis fi gura 45 na p 458 é porque ela os nutre transmitindo o princípio divino que permite crescer na fé através da palavra e do dom da eucaristia alimen 45 A MãeIgreja aleitando os fi éis 115070 desenho segundo os Comentários dos Evangelhos de são Jerônimo Stiftsbibliothek Engelsberg ms 48 fl 103v A Igreja é a mãe de todos os fi éis a quem concebe nas águas do batismo e a quem nutre com a palavra divina e com o pão da vida Não há então nada de deslocado para um espírito impregnado do discurso clerical em mostrar a personifi cação da Igreja oferecendo seus seios aos fi éis pois tal imagem apenas exalta sua generosa maternidade to espiritual e pão da vida Enfim a função maternal da Igreja declinase em múltiplos temas que a descrevem como uma mãe que cobre seus filhos de cuidados e amor Segundo são Bernardo por exemplo a Igreja embala os fiéis e os protege sob suas asas A paternidade dos clérigos um princípio hierárquico Definir a posição do clero nessa rede não é fácil em virtude da diversidade dos estatutos em seu seio posições hierárquicas ordens menores maiores secularesregulares tradicionaisnovos e das situações que se inscrevem na fronteira que separa clérigos e laicos clérigos tonsurados mas não ordenados conversos ofertados e membros das ordens terceiras Mas como se viu a divisão entre clérigos e laicos asperamente defendida permanece socialmente determinante Portanto as análises seguintes serão concentradas nos indivíduos cujo fato de pertencer ao clero é manifestado pela realização de um ritual ordenação aquisição do hábito ou votos e por um modo de vida discriminante essencialmente o celibato de resto é a aparição no século III de um rito de ordenação conferindo um papel exclusivo na celebração da eucaristia que constitui a origem da separação entre clérigos e laicos Como os demais cristãos os clérigos são filhos de Deus e da Igreja Sua função confere entretanto uma posição específica na rede de parentesco eles também são pais É através do sacramento batismal que o estatuto paternal do pai se manifesta mais claramente Ele exerce então o papel de representante de Deus na terra ou melhor ele permite a realização do ato de parir por Deus e pela Igreja em virtude de seu estatuto de lugartenente de Deus e de membro da Igrejainstituição É verdade que a paternidade dos sacerdotes não poderia pretender a mesma dignidade que a de Deus entretanto ela é o agente indispensável à sua propagação o papel eminentemente ativo do sacerdote é sublinhado pela evolução da liturgia batismal pois no Ocidente a fórmula eu te batizo supera o gesto passivo mantido em Bizâncio pelo qual o celebrante anuncia que o fiel é batizado em nome de Deus Na sociedade medieval os sacerdotes únicos habilitados a conferir os sacramentos são os mediadores obrigatórios do parentesco divino É através deles que se instaura para os cristãos a paternidade de Deus e a maternidade da Igreja Os títulos empunhados dos clérigos manifestam claramente essa paternidade abade de abbas pai e sobretudo papa papa papatus termos utilizados por todos os bispos e depois reservados somente ao pontífice romano a partir do século XI É onipresente esse modo de tratamento dos clérigos pater meu padre Além disso a relação de paternidade não exprime somente a dualidade entre clérigos e laicos mas também as hierarquias no seio do clero como lembram as posições de abade à frente de seu monastério e de papa no cume da instituição eclesial Do mesmo modo os laços de dependência entre estabelecimentos monásticos podem ser concebidos como relações de filiação espiritual por exemplo quando se evoca a descendência de Claraval ou de outras abadias cistercienses São igualmente os laços de parentesco espiritual que são mostrados no século XV pelas árvores monásticas que crescem a partir do ventre de um fundador de ordem como são Bento ou são Domingo e cujos ramos abrigam a multidão de seus discípulos embora essas representações se pareçam fortemente com a árvore de Jessé e com as primeiras imagens de genealogia familiar sob forma de árvore que aparecem então é claro que elas não mostram absolutamente o parentesco carnal do santo mas exprimem a amplitude de sua fecundidade espiritual através da exuberância da árvore que ele faz nascer de resto esse tipo de figuração atravessa o Atlântico na época colonial e aparece particularmente em Santo Domingo de Oaxaca no México Enfim se a posição paternal dos clérigos é contestada pelas heresias e por vezes pela pressão dos laicos ela conhece uma evolução no próprio interior da Igreja Assim os membros das ordens mendicantes fazemse chamar frades 33 frater fratello fray inclusive pelos laicos sinal de uma inflexão menos hierárquica embora rapidamente retomada e atenuada Mas a despeito dessas nuances e dessas evoluções a dualidade paisfilhos equivale no essencial à dualidade clérigos laicos Não apenas exprime a hierarquia estabelecida entre eles mas também constitui uma justificativa desta A paternidade espiritual dos clérigos é o enunciado e a garantia de sua autoridade ainda mais porque ela se articula à prática do celibato Como foi visto o clérigo subtraise aos laços do parentesco carnal e é através dessa renúncia que ele adquire a faculdade de tornarse espiritualmente pai Agostinho apresentando um novo bispo ao povo já afirmava Ele não quis ter filhos segundo a carne a fim de têlos mais ainda segundo o espírito Tal configuração retração do parentesco carnalposição de pai espiritual funda a dominação social do clero sobre uma dupla hierarquia espiritualcarnal paifilho A posição do clero parece igualmente caracterizada por um outro elemento específico uma união matrimonial espiritual Assim as monjas são as noivas de Cristo e o bispo esposa a sua igreja quer dizer sua diocese em um ritual marcado pela entrega do anel Como o bispo é também filho da Igreja ao mesmo título que todos os batizados a conjunção de uma relação de filiação e 33 Frères no original francês que corresponde tanto a irmãos como a frades N T A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 461 460 Jérôme Baschet de uma aliança matrimonial permitiu que se falasse aqui de incesto simbólico e que se definisse essa infração como um diferencial que sacraliza que justifica a posição dominante do clero Anita GuerreauJalabert Entretanto o casamento com a Igreja concerne apenas aos bispos e sobretudo ao papa que é o único a esposar a Igreja universal Além do mais esse ritual que se esboça a partir do século IX e se afirma no século XII não é o fundamento do poder espiritual do bispo recebido pela imposição das mãos ou pela unção símbolos da infusão do Espírito Santo Essa relação de aliança não parece então exercer um papel determinante na definição do estatuto do clero mas constitui antes um caráter suplementar próprio ao topo da hierarquia eclesiástica O essencial para definir o clero como grupo dominante no seio de uma sociedade dual seria muito mais o caráter duplo do celibato e da paternidade espiritual É aí que se encontra o diferencial que sacraliza e que distingue os clérigos associando renúncia e poder simbólico Irmandade de todos os cristãos e desenvolvimento das confrarias Uma outra relação de parentesco espiritual concerne a todos os batizados sendo filhos de Deus e da Igreja os cristãos são irmãos entre si Essa irmandade generalizada é também ela instituída pelo batismo de modo que caracteriza os membros da cristandade e traça uma linha de separação que exclui os outros homens Poderoso vetor de unidade da cristandade e de concórdia social essa relação é muitas vezes evocada pelos clérigos em particular quando é necessário apaziguar os conflitos e pregar a reconciliação É verdade que na terra esse laço permanece largamente virtual ineficaz Ele se apaga impotente na maior parte do tempo diante da lógica das dominações sociais e das regras familiares A irmandade generalizada dos cristãos é um horizonte parcialmente inacessível aqui embaixo cuja plena realização é adiada para o além Certos laços sociais são entretanto suscetíveis de ativar essa irmandade latente O fato de os clérigos pertencerem à Igreja a despeito das hierarquias que a estruturam torna mais ativo esse laço muito particularmente no seio de uma comunidade monástica Ele pode ser estendido aos laicos que através de suas doações notadamente a Cluny são integrados à família monástica ou ao menos são associados a ela em suas preces O compadrio é igualmente uma maneira de tornar eficaz a irmandade de todos os batizados A prática das esmolas aos pobres direta ou por intermédio da Igreja é uma outra manifestação sua eminentemente característica da sociedade medieval Enfim o desenvolvimento das confrarias a partir do século XII e sobretudo do século XIII permite alargar a consciência prática dessa fraternidade Tratase de um fenômeno de grande amplitude na escala da cristandade tanto nos campos como nas cidades e que está destinado a prolongarse no Novo Mundo sob formas parcialmente originais Segundo os lugares e as épocas as confrarias podem tomar formas diferentes privilegiando tanto o aspecto devocional como a organização corporativa de um ofício ou de um grupo profissional Todas têm entretanto importantes pontos em comum São associações de ajuda mútua e de devoção livremente estabelecidas que se empenham para tornar ativos os laços de amor fraternal entre seus membros Seu próprio nome confraternitas em latim hermandad em castelhano como o de compadres dado a seus participantes indica bem que elas se baseiam na noção de irmandade espiritual alargada característica das concepções cristãs do parentesco A unidade das confrarias manifestase pela devoção comum ao protetor do grupo um santo padroeiro ou a Virgem figura 25 na p 249 por formas de solidariedade concreta notadamente a responsabilidade dos funerais e a prece coletiva para os membros defuntos ou ainda por atividades ritualizadas como o banquete anual em que em torno do alimento partilhado se realiza simbolicamente a unidade da corporação A instituição das confrarias permitiu assim uma organização parcialmente autônoma dos laicos embora sempre sob o olhar vigilante dos clérigos Ela é sobretudo um instrumento eficaz de integração dos laicos no seio das estruturas sociais e ideológicas desenhadas pela Igreja Poderosos meios de integração as confrarias com frequência reduplicam as estruturas paroquiais e são inteiramente fundadas sobre as regras do parentesco espiritual cuja elaboração e controle cabem à Igreja No geral a irmandade generalizada dos cristãos aparece como uma forma ideal e não realizada do parentesco espiritual A comunidade ritual do batismo lhe confere uma existência objetiva que reitera a participação no sacramento eucarístico mas o laço de amor espiritual que deveria caracterizála não chega a se manifestar plenamente Em revanche o fato de pertencer a uma confraria cria um círculo de parentesco espiritual tornado efetivo por ritos apropriados e por formas de ajuda mútua A confraria é para retomar uma noção de Pierre Bourdieu a parte prática mantida em funcionamento da irmandade espiritual de todos os batizados Se se considera agora o conjunto das relações espirituais mencionadas aqui vêse que a conjunção do parentesco carnal e do parentesco espiritual engendra alguns paradoxos aparentes Agostinho nota que o filho que chega ao episcopado tornase pai de seu pai enunciado paradoxal que se liga ao fato de que o laço espiritual inverte o laço carnal Ilustrando um outro caso Agostinho sublinha que seus próprios pais carnais se tornaram irmãos espirituais Eles que foram meus pais e A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 463 462 Jérôme Baschet meus irmãos em vós nosso Pai e na Igreja católica nossa mãe Dessa vez o laço espiritual não inverte o laço carnal mas iguala uma relação hierárquica O parentesco espiritual projeta na horizontal um laço de natureza vertical Assim a superposição dos laços espirituais aos laços carnais através de contorção ou reversão aparece como um instrumento eficaz de manipulação do parentesco Enfim a abrangência simbólica desses laços é considerável pois eles contribuem para definir a armação ideológica da sociedade A irmandade de todos os cristãos enuncia a unidade da cristandade enquanto a paternidade espiritual dos clérigos funda a dualidade hierárquica que no seio desse conjunto unificado os separa dos laicos O PARENTESCO DIVINO PONTO FOCAL DO SISTEMA No coração mesmo do dogma quer dizer das representações que fundam a visão de mundo e a organização da sociedade cristã urdese um novel particularmente denso de relações de parentesco Um laço de parentesco inscrevese com efeito entre as duas primeiras pessoas da Trindade o Pai e o Filho A questão do parentesco situase então no centro da definição do Deus cristão mesmo se o estatuto do Espírito Santo incita a sublinhar que nem tudo nesse sistema é pensado em termos de parentesco assimilado à efusão da graça e da inspiração divinas o Espírito Santo é o agente de uma expansão do amor entre os homens e Deus e entre eles próprios ele é uma potência de conjunção e de concórdia tanto entre as criaturas como no seio da Trindade da qual ele assegura a coesão pois Tomás de Aquino qualifica explicitamente o Espírito de nó entre o Pai e o Filho O Filho igual ao Pai os paradoxos da Trindade A natureza da filiação entre Pai e Filho constitui uma das principais questões das controvérsias trinitárias Enquanto Árius 256336 sacerdote em Alexandria no início do século IV nega a plena divindade de Cristo e reconhece o Pai como único Deus verdadeiro a ortodoxia que se forma em reação ao arianismo deve conceber um laço entre o Pai e o Filho que seja uma verdadeira filiação e que todavia assegure sua igualdade divina Decisivo a esse propósito o Concílio de Niceia em 325 seguido por outros concílios ecumênicos do século IV proclama o Credo trinitário em virtude do qual o Filho é dito verdadeiro Deus de verdadeiro Deus consubstancial ao Pai engendrado e não criado enquanto o anátema é lançado sobre aqueles que afirmam que antes de ser engendrado ele não existia ou que o filho de Deus nasceu O Filho deve com efeito ser engendrado pois do contrário não seria filho mas ele não pode ser criado pois seria uma criatura e não divino ao mesmo título que o Criador A diferença entre criação e engendramento é então decisiva para manter junto o que os contestadores arianos como também os pagãos e os judeus consideram inconciliável a possibilidade de conceber Cristo como Filho e ao mesmo tempo totalmente igual ao Pai Uma relação de paternidade fundada sobre o engendramento inscrevese assim no seio do núcleo divino entre as figuras da Trindade diferentes em suas pessoas mas iguais em sua essência a ponto de que nenhuma pode se vangloriar de preeminência qualquer que seja ela Entre o Pai e o Filho existem a um só tempo verdadeira filiação e perfeita igualdade Ou seja uma equação Pai Filho na qual a igualdade é ao mesmo tempo hierárquica e essencial mas que nem por isso supõe uma identidade entre as pessoas O dogma trinitário produz assim o modelo de uma relação paradoxal em total contradição com os elementos da filiação na ordem carnal pois ele iguala uma relação que normalmente é hierárquica Mais precisamente esse modelo nega o que a filiação define aqui embaixo quer dizer seu caráter ordenado Na espécie humana composta de seres mortais essa relação supõe uma ordem uma sucessão das gerações Ao contrário o parentesco trinitário unindo pessoas divinas eternas caracterizase por um modelo de filiação sem relação de gerações e sem subordinação O dogma trinitário é um paradoxo insustentável tanto no que concerne à junção da filiação e da igualdade como pela delicada conciliação do um e do três Desde cedo foi diante de dois perigos opostos que a ortodoxia teve de se definir de um lado o arianismo que só admite a divindade do Pai e nega a do Filho de outro o sabelianismo ou o priscilianismo dos séculos III e IV acusados de confundir o Pai o Filho e o Espírito Santo em uma só pessoa Por caminhos inversos tendese nos dois casos à retomada de um monoteísmo estrito enquanto a ortodoxia procura sua via entre os perigos para fundar o paradoxo de um Deus único em três pessoas uno em sua essência e trino na diversidade das pessoas Como se viu as acusações de heresia não demoram a reaparecer apesar das decisões do Concílio de Niceia o nestorianismo desafia na sequência do arianismo a lógica da Encarnação separando radicalmente as duas naturezas divina e humana de Cristo no outro extremo o monofisismo afirma a natureza única de Cristo indissociavelmente divino e humano A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 465 464 Jérôme Baschet Seminários 8 O parentesco carnal e seu controle pela igreja BACHET Jerôme A civilização feudal do ano 1000 à colonização da América São Paulo 2006 pp 446455 Grupo 8 V O PARENTESCO REPRODUÇÃO FÍSICA E SIMBÓLICA DA CRISTANDADE NA CRISTANDADE MEDIEVAL as relações entre os homens sejam ou não parentes mas também as relações entre os homens e as figuras divinas ou entre as próprias figuras sobrenaturais são em grande parte definidas como laços de parentesco Além das regras que como em todas as sociedades definem a filiação e regem as práticas de aliança constatase a onipresença do parentesco espiritual e divino Mesmo se a rede dessas relações de parentesco não permite dar conta da totalidade dos laços existentes no seio da sociedade medieval ela tem um papel considerável na definição das relações sociais assim como na representação das relações entre os homens e as forças que regem o universo O fundamento desse sistema de representações é a instituição evangélica de uma paternidade centrada em Deus No Evangelho é Cristo que estabelece a existência de um Pai nos céus do qual ele próprio é o filho e que através dele se torna pai daqueles que o seguem Tal é o sentido do Pater Noster Mat 6 913 que Jesus ensina a seus discípulos e que lembra no coração de toda prece cristã esse laço filial entre o homem e Deus A afirmação de uma paternidade celeste tem no próprio Evangelho dois corolários explícitos Em primeiro lugar nele o parentesco carnal encontrase desvalorizado O ato de fé é posto em concorrência com os laços do sangue e deve sobreporse a estes Aquele que vem a mim se ele não odeia seu pai e sua mãe não pode ser meu discípulo Luc 14 26 O próprio Jesus dá o exemplo recusando reconhecer sua mãe e seus parentes que vêm a seu encontro Quem é minha mãe e quem são meus irmãos diz ele Depois designando seus discípulos Eis minha mãe e meus irmãos pois qualquer um que faça a vontade de meu Pai que está nos céus este é para mim um irmão uma irmã e uma mãe Mat 12 4650 O segundo corolário é expresso aqui como em muitas outras passagens sendo todos filhos de Deus os discípulos de Cristo são unidos entre eles por um laço de fraternidade É isso que se chamará de irmandade generalizada de todos os cristãos Esses dois pontos que permanecem fundamentais ao longo de toda a Idade Média são expressos nos Evangelhos com uma violência tão radical que a Igreja medieval não poderá assumilos totalmente no mínimo pelo fato de que a rejeição de Maria por seu filho não mais é conveniente em uma sociedade em que o culto à Virgem adquiriu lugar central Um revoltado como Pasolini será finalmente mais adequado para reencontrar nas imagens ardentes de seu Evangelho segundo Mateus toda a carga subversiva desse episódio Como a época dos primeiros Padres da Igreja é aquela das conversões do paganismo ao cristianismo ela continua a opor radicalmente o parentesco celeste e o parentesco terrestre Tertuliano afirma que os cristãos são os mais livres dos homens somente eles não são adstritos à determinação da filiação carnal e podem escolher seu pai entendamos que eles podem escolher o Pai divino contra o pai humano É ainda assim nas Confissões de Agostinho que indica no contexto de um batismo desejado mas diferenciado Assim então eu acreditava minha mãe acreditava e toda a casa com a única exceção de meu pai Minha mãe desejava fervorosamente que vós fósseis mais do que ele um pai para mim meu Deus Tratase então de passar da paternidade carnal para a paternidade divina por uma verdadeira substituição do pai terrestre pelo Pai celeste A partir de então tal é o modelo de toda conversão do paganismo ao cristianismo e a seguir no seio do cristianismo desviarse do pai carnal para ir na direção ao Pai divino Até Francisco de Assis e mesmo após toda mudança de estado religioso é pensada como uma conversão de parentesco figura 19 na p 206 Embora a configuração descrita possa parecer consubstancial ao cristianismo e a seus Evangelhos ela não forma em absoluto um sistema estático Com base nos fundamentos espirituais elaborase na Idade Média uma construção complexa e ramificada que permite o afloramento de uma profusão de práticas de discursos e de representações por vezes até abundantes A importância e a complexidade crescentes das representações de parentesco ao longo da Idade Média sinalizam questões sociais tornadas particularmente intensas Para dar conta disso os trabalhos de Anita GuerreauJalabert que sublinha o papel estruturante da oposição entre parentesco carnal e parentesco espiritual constituem uma contribuição maior Por parentesco carnal serão designados os laços de consanguinidade e de aliança matrimonial classicamente estudados pela antropologia Qualificálos de carnal não quer absolutamente dar a entender que esses laços concernem a dados puramente biológicos pois o parentesco é sempre um fato socialmente elaborado O parentesco carnal diz respeito a laços definidos a um só tempo por normas instituídas e pela existência postula da de um laço carnal tratase de laços que derivam de um exercício socialmente regulamentado da reprodução sexuada Chamáloei carnal apenas para dar conta das concepções medievais que o opõem a uma outra forma de parentesco dito espiritual Por parentesco espiritual serão designadas as relações entre indivíduos ou entre homens e figuras sobrenaturais que são pensadas a partir do modelo do parentesco aliança filiação irmandade embora reivindiquem expressamente a ausência de todo laço carnal entre as pessoas concernidas Essa forma de parentesco é chamada espiritual porque transmite a vida não do corpo mas da alma e dá direito a uma herança não material mas espiritual a beatitude celeste Enfim acrescentarseá um terceiro grau distinto emboára próximo do parentesco espiritual assim como este o parentesco divino exclui toda referência ao exercício da reprodução sexuada mas une por sua vez figuras divinas ou sobrenaturais O PARENTESCO CARNAL E SEU CONTROLE PELA IGREJA A imposição de um modelo clerical do casamento Desde muito cedo a Igreja se interessa pelas instituições familiares para introduzir nelas alterações consideráveis postas em evidência por Jack Goody Duas fases testemunham tensões particularmente vivas Nos séculos IV e V enquanto a Igreja passa da perseguição à posição de instituição e o Império Romano se desagrega a maior parte dos elementoschave das estruturas antigas do parentesco está periclitante ou desaparece no Ocidente notadamente a adoção a concubinagem o divórcio e o levirato Ao contrário novas práticas desenvolvemse em particular o apadrinhamento a partir do século VI assim como o conjunto de relações associadas ao parentesco batismal A concepção do casamento é também profundamente transformada É preciso lembrar que nos primeiros séculos do cristianismo a ruptura evangélica com a moral judaica da fecundidade e sobretudo com a exigência de natalidade que impunha ao cidadão romano um dever de dar filhos à Cidade conduz a desvalorizar radicalmente o casamento ligado ao contato sexual e portanto ao pecado somente a continência e a virgindade parecem ser então dignas de exaltação Não pode haver salvação senão na fuga para fora do mundo e da sociedade quer dizer para fora da família Depois assumindo as consequências da mudança de estatuto da Igreja Agostinho inaugura um processo fundamental que prossegue na longa duração do milênio medieval Com efeito ele engaja o cristianismo em uma prudente reabilitação do casamento em particular afirmando que este foi instituído por Deus no paraíso terrestre entre Adão e Eva quer dizer antes do pecado original no estado de inocência e de perfeição da humanidade desejado pelo Criador Tal evolução se inicia de maneira bem compreensível a partir do momento em que se impõe a necessidade de compor com a organização terrestre da sociedade e em primeiro lugar reproduzila fisicamente Resulta disso uma concepção ambígua na qual o casamento e a reprodução sexuada são ao mesmo tempo depreciados em relação a castidade e todavia aceitos sob condição de serem controlados e associados a um laço espiritual Isso leva a desenvolver um modelo do casamento que impõe a um só tempo a monogamia a indissolubilidade já afirmada em Mat 19 46 e uma exogamia muito mais forte do que em Roma mas que só se impõe progressivamente na prática Tal combinação conduz a um modelo da aliança de casamento inédito e extraordinariamente constritivo que constitui provavelmente uma exceção histórica Alain Guerreau Ele está associado a uma primeira afirmação da posição da Igreja no mínimo porque essas construções têm por efeito multiplicar o número de casais sem descendência Junto com os obstáculos postos ao casamento das viúvas em oposição ao levirato antigo que criava uma obrigação de novo casamento com o irmão do defunto elas transformam as modalidades de transmissão das heranças e favorecem sua concentração em benefício da Igreja Jack Goody Mas além das vantagens materiais que a Igreja pode tirar dessas alterações sua intervenção no domínio do parentesco lhe fornece uma poderosa alavanca na obra de conversão e de controle da sociedade Nos séculos XI e XII a reestruturação da sociedade produz outro momento de tensão máxima As regras da aliança de casamento são objeto de numerosos conflitos muitas vezes uma ocasião para a Igreja manifestar sua força diante dos laicos importantes como por exemplo a excomunhão do rei da França Filipe I em 1094 e 1095 acusado por Urbano II de bigamia e incesto Georges Duby Tais termos apenas nomeiam e condenam de um ponto de vista eclesiástico as práticas aristocráticas do concubinato do repúdio da esposa e do segundo casamento assim como a união entre parentes próximos notadamente entre primos germânicos Tais costumes eram correntes durante a Alta Idade Média e não encontram nenhuma oposição Como outros povos germânicos ou escandinavos os francos praticavam ao lado da aliança principal um casamento secundário sem transferência de bens mas formalizado além do concubinato Eginhardo o biógrafo de Carlos Magno enumera sem se inquietar as quatro esposas e as cinco concubinas do imperador e contabiliza os filhos nascidos de cada uma delas Mesmo se a situação evolui do século IX ao século XI notadamente no que concerne à exigência monogâmica ou ao menos suas aparências os costumes que a aristocracia considera lícitos perante suas próprias normas chocamse frontalmente com o modelo clerical do casamento que defende a indissolubilidade e atinge então o seu maior grau de exigência exogâmica Com efeito Pedro Damião e o papa Alexandre II em uma decretal de 1065 relançam vigorosamente a interdição de aliança de casamento até o sétimo grau canônico quer dizer segundo o modo de cálculo mais exigente que conta as gerações e o ancestral comum das duas pessoas implicadas e não segundo o cómputo romano que acrescenta as gerações indo de uma pessoa a outra passando pelo ancestral comum o que dobra o número de graus Durante um século e meio a Igreja brande essa regra a despeito de seu caráter impraticável Ou melhor diante de imperativos ao mesmo tempo tão rígidos e tão impraticáveis as estratégias do clero são eminentemente seletivas em decorrência de seus interesses Seja interditando seja negociando dispensas a Igreja se põe como censor da legitimidade dos casamentos no seio da aristocracia aspecto fundamental da organização da classe dominante pois ele determina a transmissão dos bens e do poder sobre os homens Nesse sentido não é exagerado dizer que o casamento é a chave de abóbada do edifício social Georges Duby e cujo controle a Igreja conseguiu assegurar ao final dos conflitos dos séculos XI e XII Quanto aos dominados a prática do casamento no quadro estreito do universo do conhecimento a comunidade e as aldeias não parece confrontar as regras fixadas pela Igreja graças sem dúvida a uma estratégia coletiva tácita de esquecimento dos laços genealógicos que permite evitar o bloqueio das trocas matrimoniais Mais tarde o Concílio de Latrão IV desloca os limites da interdição matrimonial para o quarto grau canônico Mas essa medida é sem dúvida menos uma marca de fraqueza da Igreja do que o sinal de seu triunfo uma vez que o modelo clerical do casamento impôsse no essencial é possível dar mostra de mais moderação abandonar uma arma de combate concebida para um período de conflito aberto e adotar uma norma mais moderada e mais realista Ao longo desse período os clérigos empenhamse em reforçar e impor na prática o modelo de casamento já delineado pelos teólogos carolíngios quer dizer uma concepção espiritualizada do laço matrimonial que limita o exercício da sexualidade ao único objetivo de procriação e faz do casal casto o ideal supremo O enquadramento da sexualidade matrimonial sempre percebida como ambivalente como uma realidade ao mesmo tempo necessária e perigosa é assegurado principalmente pelo número elevado de dias festivos durante os quais a atividade sexual é proscrita e mesmo pela insistência sobre as atitudes e as diversas posturas sexuais proibidas Esse papel repressivo da Igreja é entretanto contrabalançado pela reabilitação crescente do casamento que conduz por exemplo Tomás de Aquino a considerar legítimo o prazer sexual Mesmo se a condição é que ele se manifeste no quadro de uma união legítima e seja associado à preocupação de procriar tratase de uma novidade notável em relação à condenação inapelável do prazer físico nos autores anteriores Um aspecto decisivo da reabilitação do casamento intervém no século XII quando este concebido como imagem da união mística de Cristo com a Igreja ganha lugar entre os sete sacramentos É o resultado de um longo processo e finalmente de uma reviravolta completa em relação à atitude dos primeiros cristãos diante do casamento No mesmo momento enquanto antes o casamento constituía um ato privado que dizia respeito à exclusiva competência das famílias o desenvolvimento da liturgia nupcial manifesta o esforço dos clérigos para intervir no ritual da aliança através das bênçãos especialmente do quarto dos esposos ou pela celebração do casamento diante da porta da igreja na presença de um padre Mas o sucesso dessas intervenções é muito variável segundo as regiões e em todo caso elas não são absolutamente necessárias segundo a norma canônica insistentemente lembrada desde o século IX é essencialmente o consentimento dos esposos que confere validade à união A intervenção do sacerdote no ritual matrimonial só se tornará obrigatória após o Concílio de Trento O processo de enquadramento do casamento dos laicos ocorre paralelamente a uma reafirmação do celibato dos sacerdotes que é uma das questões da reforma da Igreja É verdade que o celibato clerical enquanto norma constitutiva de um estado social e não como simples ideal pessoal começa a afirmarse no fim do século VI mas sua realização efetiva ainda está longe de ser garantida no início do século XI Além de sua intenção moral ele permite então traçar uma delimitação radical entre clérigos e laicos o que é o objeto central da reorganização da sociedade engajada pela Igreja De um lado os laicos são destinados ao casamento e à reprodução corporal da cristandade de outro os clérigos caracterizados pelo celibato e pelo abandono dos laços desvalorizados da carne tornamse aptos a uma tarefa mais nobre a reprodução espiritual da sociedade Através do prestígio conferido pela renúncia à carne eles afirmamse como especialistas do sagrado como os intermediários que reivindicam a exclusividade nas relações com o mundo divino o liturgista Guilherme Durand em fins do século XIII qualificaos explicitamente de mediadores entre os homens e Deus Transmissão dos patrimônios e reprodução feudal Em numerosas sociedades o laço de filiação ou de descendência é transmiti do por somente um dos dois sexos cada indivíduo pertence então seja ao grupo de parentesco de seu pai e de seus ascendentes em linha masculina sistema patrilinear seja ao de sua mãe e de seus ascendentes em linha feminina matrilinear Assim o mundo romano antigo apresenta traços notáveis de patrilinea ridade Estes desaparecem desde a Alta Idade Média em benefício de um sis tema indiferenciado no qual o laço de descendência é transmitido igualmente pelos dois sexos Cada indivíduo possui então sua própria parentela que engloba todos os consanguíneos de seu pai e de sua mãe sem contar os afins parentes do cônjuge Este sistema indiferenciado ou cognático que perdura até nossos dias é característico do conjunto da Idade Média mesmo se ele conhece algumas adaptações A principal está ligada à reorganização da aristo cracia e da sociedade feudal ao longo dos séculos XI e XII A historiografia com frequên cia caracterizou esse movimento como um nascimento da linhagem aristocrática mas o termo é pouco adaptado pois ele designa no vocabulário dos antropologos o grupo de descendentes de um ancestral comum o que supõe um sistema patrilinear ou matrilinear evocase também a passagem de uma organização horizontal tal como a Sippe germâ nica da Alta Idade Média grupo familiar alargado que mobiliza principalmente as solidariedades entre irmãos e primos para uma organização vertical que restringe o grupo familiar e põe o acento sobre uma linha de transmissão genealó gica de geração em geração De fato Anita GuerreauJalabert demonstrou que não se trata de uma mudança das regras que definem a filiação quer dizer que de termina para cada indivíduo as pessoas socialmente consideradas parentes mas de uma adaptação das representações e dos costumes do parentesco à ter ritorialização da nobreza que se generaliza na Idade Média Central A partir daí o que define a aristocracia é o enraizamento em uma terra no mínimo um senhorio na qual se exerce seu poder e que funda sua posição social A estra tégia ideal de reprodução social consiste então em transmitir em herança de maneira indivisa essa terra e o poder sobre os homens que lhe é associado Formamse assim topolinagens cadeias de transmissão de geração em gera ção de um mesmo poder territorial Dito de outro modo linhagens de herdeiros de uma mesma terra e da função de cominação que lhe é vinculada A noção de topolinhagem visa exprimir a dependência das estruturas de parentesco em rela ção à organização espacial da sociedade feudal e indica que a linhagem aristo crática só recebe sua substância sua coerência e sua continuidade através da forma pela qual se insere em um território Anita GuerreauJalabert É nesse contexto que é necessário reinterpretar os traços que são muitas vezes associados ao desenvolvimento de uma consciência dinástica O mais explícito deles é a difusão nos meios aristocráticos de uma literatura dita genealógica a partir de meados do século XI e sobretudo durante os dois séculos seguintes De fato esses textos estão menos preocupados em construir uma ver dadeira genealogia do que estabelecer com fins de legitimação as modalidades de transmissão do poder detido por uma família condal ou senhorial e em par ticular do castelo que é seu coração São portanto principalmente topolinha gens que são postas em cena por essa literatura na qual no mais se faz men ção a parentes em linha paternal tanto quanto maternal cada família nobre se esforça para vincularse a um ancestral tão distante e prestigioso quanto possí vel considerado o fundador do castelo e das possessões que se encontram no coração de seu poder Para tanto se ele privilegia essa topolinhagem o autor ou o inspirador de uma genealogia nobre faz menção de seus parentes tanto em linha paternal como em linha maternal ainda mais porque em razão da hiper gamia dominante casamento com uma mulher de posição superior a linha maternal é em geral a mais prestigiada Em segundo lugar ao longo do século XI emerge um novo sistema antroponímico um nome individual segui do de um nome que exprime o vínculo familiar Para os aristocratas este últi mo nome designa sobretudo o lugar ou até mesmo o castelo no qual se enraí za o seu poder como um modo muito claro e forte de tornar manifesto a ligação entre estatuto social e inscrição espacial Enfim os brasões que de início apa recem nos estandartes para identificar os combatentes se generalizam a partir de meados do século XII sem jamais se tornarem exclusivos da aristocracia Comumente associados ao princípio genealógico eles podem é verdade expri mir um laço de descendência mas de igual modo através do jogo de combina ções múltiplas dão lugar a relações horizontais fundadas no casamento na vas salidade e outras formas de aliança Uma transformação importante que não deixa de estar relacionada com a emergência das topolinhagens diz respeito às regras de transmissão dos bens Enquanto a partilha igualitária das heranças prevalece durante a Alta Idade Média a espacialização do poder aristocrático incita a transmitir a um só her deiro a entidade territorial na qual se enraíza o status de uma linhagem Embora de maneira muito lenta e muito parcial para frear a fragmentação dos poderes senhoriais a indivisão sucessoral desenvolvese pouco a pouco sob diferentes formas das quais o direito de primogenitura é a mais utilizada Seu desenvolvi mento ao longo dos séculos XI e XII é visível e mesmo se numerosas regiões do Ocidente não recorrem a ele o direito de primogenitura foi suficientemente assimilado ao sistema feudal para ser violentamente posto em causa quando do A civilização feudal 453 20 desmoronamento deste o que é sancionado pelo Código Napoleônico A trans missão privilegiada da herança tende a criar vários grupos de excluídos entre os descendentes as filhas os cadetes e os filhos ilegítimos Suas situações são entretanto bastante distintas As filhas são muito menos excluídas da herança do que se crê comunem te Como a preferência recai sobre a transmissão em linha direta mais do que lateral na ausência de um descendente masculino a sucessão era feita mais facilmente em benefício de uma filha do que de um irmão ou de um sobrinho Não é raro então que uma mulher assuma o encargo de um senhorio de um condado ou até mesmo de um reino que se pense em Isabel de Castela É ver dade que a hierarquia dos sexos e a importância dos valores guerreiros no seio da aristocra cia são tais que sempre se valoriza mais a possibilidade de um her deiro masculino tendência que se reforça ao longo da Idade Média no caso do reino da França a regra de transmissão da coroa em linhagem exclusivamente masculina é forjada de maneira circunstancial a partir de 1328 para afastar as pretensões inglesas Além disso desde a Alta Idade Média as filhas recebem um dote de seus pais no momento do casamento É verdade que o dote exclui o direito de herança e nesse sentido sua generalização contribui à concentra ção da parte principal do patrimônio nas mãos de um só herdeiro Entretanto mesmo quando o dote é entregue em dinheiro ele está longe de ser desprezível ele pode atingir uma parte importante dos bens familiares sobretudo a partir do século XIII Do mesmo modo podemos seguir os antropólogos que conside ram o dote uma participação antecipada das filhas na herança O dote pode assim ser tido por uma das modalidades da devolução divergente instituição capital no conjunto das sociedades da Eurásia por oposição à África em vir tude da qual as transferências se efetuam em benefício tanto das filhas como dos filhos Jack Goody E assim como indica o mesmo autor a devolução divergente dos bens tanto para as mulheres como para os homens é acompanha da de uma série de mecanismos de continuidade que visam garantir a coerên cia no uso dos recursos familiares é o que ilustra perfeitamente a formação feu dal das topolinhagense À medida que a primogenitura ganha terreno a situação dos cadetes torna se menos invejável do que a da filhas Mesmo se muitas vezes uma compensa ção monetária lhes é acordada e se sua exclusão da herança é relaxada em certos períodos os cadetes são na maior parte das vezes separados do tronco familiar Isso é bastante claro quando eles são desde a infância oferecidos como oblatos a um monastério ou quando mais tarde entram na carreira eclesiástica É pro vável que a situação desvantajosa dos cadetes afastados dos interesses materiais de sua parentela prepara e dá ainda mais força à conversão e à ruptura com a parentela carnal suposta pela integração ao clero Junto com os efeitos da redis tribuição dos postos episcopais em benefício da pequena e da média aristocra cia isso ajuda a compreender por que a despeito de uma mesma origem social as solidariedades e as convivências entre o alto clero e a aristocracia são finalmen te menos marcadas do que a afirmação em face desta última dos interesses e dos valores próprios da Igreja Quanto aos cadetes que permanecem laicos eles se lançam em busca de aventura Roberto Guiscardo e o rei Rogério da Sicília que retomam dos muçulmanos a Itália do Sul e a Sicília são os exemplos típicos de cadetes privados de bens próprios e que chegam à mais alta glória De modo mais genérico Robert Moore pôde sublinhar o papel decisivo dos cadetes nos empreendimentos que caracterizam a expansão da Europa na Península Ibérica e na Terra Santa e deveríamos acrescentar até na conquista da América Desvantagem individual a exclusão dos cadetes parece então um fator de dina mismo social pela proeza combativa e pela audácia de conquista às quais ela impele aquele que deve adquirir por si mesmo a alta posição social que seu nas cimento lhe atribui ao mesmo tempo que lhe nega ou ainda porque ela garante à Igreja recrutas numerosos saídos da elite da sociedade e no entanto predis postos a abraçar os interesses de um outro tipo de parentesco Enfim durante a Alta Idade Média os filhos ilegítimos notadamente fru tos de uniões com concubinas são em geral associados à herança ao mesmo título que os filhos legítimos Carlos Martel é um bastardo assim como Bernardo neto de Carlos Magno e rei da Itália em 811 ainda em meados do século XI a mesma situação não cria nenhum obstáculo a Guilherme o Con quistador quando ele ascende ao trono da Inglaterra Entretanto a partir do século XII e mais ainda do século XIII a situação dos filhos ilegítimos degradase sensivelmente Mesmo se encontramos muitas exceções à regra eles geralmen te são excluídos da herança e submetidos de maneira crescente ao menosprezo e a regras discriminatórias notadamente a interdição de chegar ao sacerdócio É uma consequência lógica da imposição do modelo clerical do casamento que condena com virulência o adultério e o concubinato só reconhecendo união legí tima no quadro da união matrimonial Mas aqui as normas clericais vêm con fortar os interesses aristocráticos excluindo uma categoria possível de herdei ros de certa maneira a estigmatização crescente dos bastardos acompanha a territorialização da aristocracia Robert Moore Mais genericamente podese perguntar se o modelo clerical do casamento por mais contrário aos costumes da aristocracia que tenha podido parecer em um primeiro tempo não acabou servindo aos interesses desta como classe A firme oposição à endogamia ao concubinato e ao repúdio contrariava sem dúvida a preocupação de não ficar sem descendência mas a afirmação do casamento monogâmico e indissolúvel e A civilização feudal 455 21 to espiritual e pão da vida Enfim a função maternal da Igreja declinase em múltiplos temas que a descrevem como uma mãe que cobre seus filhos de cui dados e amor Segundo são Bernardo por exemplo a Igreja embala os fiéis e os protege sob suas asas A paternidade dos clérigos um princípio hierárquico Definir a posição do clero nessa rede não é fácil em virtude da diversidade dos estatutos em seu seio posições hierárquicas ordens menoresmaiores secula resregulares tradicionaisnovos e das situações que se inscrevem na fronteira que separa clérigos e laicos clérigos tonsurados mas não ordenados conversos ofertados e membros das ordens terceiras Mas como se viu a divisão entre clérigos e laicos asperamente defendida permanece socialmente determinan te Portanto as análises seguintes serão concentradas nos indivíduos cujo fato de pertencer ao clero é manifestado pela realização de um ritual ordenação aquisição do hábito ou votos e por um modo de vida discriminante essen cialmente o celibato de resto é a aparição no século III de um rito de orde nação conferindo um papel exclusivo na celebração da eucaristia que consti tui a origem da separação entre clérigos e laicos Como os demais cristãos os clérigos são filhos de Deus e da Igreja Sua função confere entretanto uma posição específica na rede de parentesco eles também são pais É através do sacramento batismal que o estatuto paternal do pai se manifesta mais claramente Ele exerce então o papel de representante de Deus na terra ou melhor ele permite a realização do ato de parir por Deus e pela Igreja em virtude de seu estatuto de lugartenente de Deus e de mem bro da Igrejainstituição É verdade que a paternidade dos sacerdotes não pode ria pretender a mesma dignidade que a de Deus entretanto ela é o agente indis pensável à sua propagação o papel eminentemente ativo do sacerdote é sublinhado pela evolução da liturgia batismal pois no Ocidente a fórmula eu te batizo supera o gesto passivo mantido em Bizâncio pelo qual o celebrante anuncia que o fiel é batizado em nome de Deus Na sociedade medieval os sacerdotes únicos habilitados a conferir os sacramentos são os mediadores obrigatórios do parentesco divino É através deles que se instaura para os cris tãos a paternidade de Deus e a maternidade da Igreja Os títulos empunhados dos clérigos manifestam claramente essa paterni dade abade de abbas pai e sobretudo papa papa papatus termos utiliza dos por todos os bispos e depois reservados somente ao pontífice romano a par tir do século XI É onipresente esse modo de tratamento dos clérigos pater meu padre Além disso a relação de paternidade não exprime somente a dua lidade entre clérigos e laicos mas também as hierarquias no seio do clero como lembram as posições de abade à frente de seu monastério e de papa no cume da instituição eclesial Do mesmo modo os laços de dependência entre estabe lecimentos monásticos podem ser concebidos como relações de filiação espiri tual por exemplo quando se evoca a descendência de Claraval ou de outras abadias cistercienses São igualmente os laços de parentesco espiritual que são mostrados no século XV pelas árvores monásticas que crescem a partir do ven tre de um fundador de ordem como são Bento ou são Domingo e cujos ramos abrigam a multidão de seus discípulos embora essas representações se pareçam fortemente com a árvore de Jessé e com as primeiras imagens de genealogia familiar sob forma de árvore que aparecem então é claro que elas não mostram absolutamente o parentesco carnal do santo mas exprimem a amplitude de sua fecundidade espiritual através da exuberância da árvore que ele faz nascer de resto esse tipo de figuração atravessa o Atlântico na época colonial e aparece particularmente em Santo Domingo de Oaxaca no México Enfim se a posi ção paternal dos clérigos é contestada pelas heresias e por vezes pela pressão dos laicos ela conhece uma evolução no próprio interior da Igreja Assim os membros das ordens mendicantes fazemse chamar frades33 frater fratello fray inclusive pelos laicos sinal de uma inflexão menos hierárquica embora rapidamente retomada e atenuada Mas a despeito dessas nuances e dessas evoluções a dualidade paisfilhos equivale no essencial à dualidade clérigos laicos Não apenas exprime a hierarquia estabelecida entre eles mas também constitui uma justificativa desta A paternidade espiritual dos clérigos é o enun ciado e a garantia de sua autoridade ainda mais porque ela se articula à prática do celibato Como foi visto o clérigo subtraise aos laços do parentesco carnal e é através dessa renúncia que ele adquire a faculdade de tornarse espiritual mente pai Agostinho apresentando um novo bispo ao povo já afirmava Ele não quis ter filhos segundo a carne a fim de têlos mais ainda segundo o espí rito Tal configuração retração do parentesco carnalposição de pai espiritual funda a dominação social do clero sobre uma dupla hierarquia espiritualcar nal paifilho A posição do clero parece igualmente caracterizada por um outro elemen to específico uma união matrimonial espiritual Assim as monjas são as noi vas de Cristo e o bispo esposa a sua igreja quer dizer sua diocese em um ritual marcado pela entrega do anel Como o bispo é também filho da Igreja ao mesmo título que todos os batizados a conjugação de uma relação de filiação e 33 Frères no original francês que corresponde tanto a irmãos como a frades N T A civilização feudal 461 de uma aliança matrimonial permitiu que se falasse aqui de incesto simbólico e que se definisse essa infração como um diferencial que sacraliza que justifica a posição dominante do clero Anita GuerreauJalabert Entretanto o casamento com a Igreja concerne apenas aos bispos e sobretudo ao papa que é o único a esposar a Igreja universal Além do mais esse ritual que se esboça a partir do século IX e se afirma no século XII não é o fundamento do poder espiritual do bispo recebido pela imposição das mãos ou pela unção símbolos da infusão do Espírito Santo Essa relação de aliança não parece então exercer um papel determinante na definição do estatuto do clero mas constitui antes um caráter suplementar próprio ao topo da hierarquia eclesiástica O essencial para definir o clero como grupo dominante no seio de uma sociedade dual seria muito mais o caráter duplo do celibato e da paternidade espiritual É aí que se encontra o diferencial que sacraliza e que distingue os clérigos associando renúncia e poder simbólico Irmandade de todos os cristãos e desenvolvimento das confrarias Uma outra relação de parentesco espiritual concerne a todos os batizados sendo filhos de Deus e da Igreja os cristãos são irmãos entre si Essa irmandade generalizada é também ela instituída pelo batismo de modo que caracteriza os membros da cristandade e traça uma linha de separação que exclui os outros homens Poderoso vetor de unidade da cristandade e de concórdia social essa relação é muitas vezes evocada pelos clérigos em particular quando é necessário apaziguar os conflitos e pregar a reconciliação É verdade que na terra esse laço permanece largamente virtual ineficaz Ele se apaga impotente na maior parte do tempo diante da lógica das dominações sociais e das regras familiares A irmandade generalizada dos cristãos é um horizonte parcialmente inacessível aqui embaixo cuja plena realização é adiada para o além Certos laços sociais são entretanto suscetíveis de ativar essa irmandade latente O fato de os clérigos pertencerem à Igreja a despeito das hierarquias que a estruturam torna mais ativo esse laço muito particularmente no seio de uma comunidade monástica Ele pode ser estendido aos laicos que através de suas doações notadamente a Cluny são integrados à família monástica ou ao menos são associados a ela em suas preces O compadrio é igualmente uma maneira de tornar eficaz a irmandade de todos os batizados A prática das esmolas aos pobres direta ou por intermédio da Igreja é uma outra manifestação sua eminentemente característica da sociedade medieval Enfim o desenvolvimento das confrarias a partir do século XII e sobretudo do século XIII permite alargar a consciência prática dessa fraternidade Tratase de um fenômeno de grande amplitude na escala da cristandade tanto nos campos como nas cidades e que está destinado a prolongarse no Novo Mundo sob formas parcialmente originais Segundo os lugares e as épocas as confrarias podem tomar formas diferentes privilegiando tanto o aspecto devocional como a organização corporativa de um ofício ou de um grupo profissional Todas têm entretanto importantes pontos em comum São associações de ajuda mútua e de devoção livremente estabelecidas que se empenham para tornar ativos os laços de amor fraternal entre seus membros Seu próprio nome confraternitas em latim hermandad em castelhano como o de compadres dado a seus participantes indica bem que elas se baseiam na noção de irmandade espiritual alargada característica das concepções cristãs do parentesco A unidade das confrarias manifestase pela devoção comum ao protetor do grupo um santo padroeiro ou a Virgem figura 25 na p 249 por formas de solidariedade concreta notadamente a responsabilidade dos funerais e a prece coletiva para os membros defuntos ou ainda por atividades ritualizadas como o banquete anual em que em torno do alimento partilhado se realiza simbolicamente a unidade da corporação A instituição das confrarias permitiu assim uma organização parcialmente autônoma dos laicos embora sempre sob o olhar vigilante dos clérigos Ela é sobretudo um instrumento eficaz de integração dos laicos no seio das estruturas sociais e ideológicas desenhadas pela Igreja Poderosos meios de integração as confrarias com frequência reduplicam as estruturas paroquiais e são inteiramente fundadas sobre as regras do parentesco espiritual cuja elaboração e controle cabem à Igreja No geral a irmandade generalizada dos cristãos aparece como uma forma ideal e não realizada do parentesco espiritual A comunidade ritual do batismo lhe confere uma existência objetiva que reitera a participação no sacramento eucarístico mas o laço de amor espiritual que deveria caracterizála não chega a se manifestar plenamente Em revanche o fato de pertencer a uma confraria cria um círculo de parentesco espiritual tornando efetivo por ritos apropriados e por formas de ajuda mútua A confraria é para retomar uma noção de Pierre Bourdieu a parte prática mantida em funcionamento da irmandade espiritual de todos os batizados Se se considera agora o conjunto das relações espirituais mencionadas aqui vêse que a conjunção do parentesco carnal e do parentesco espiritual engendra alguns paradoxos aparentes Agostinho nota que o filho que chega ao episcopado tornase pai de seu pai enunciado paradoxal que se liga ao fato de que o laço espiritual inverte o laço carnal Ilustrando um outro caso Agostinho sublinha que seus próprios pais carnais se tornaram irmãos espirituais Eles que foram meus pais e A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 463 Copyright 2004 by Éditions Flammarion Copyright da tradução 2005 by Editora Globo SA Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma seja mecânico ou eletrônico fotocópia gravação etc nem apropriada ou estocada em sistema de bancos de dados sem a expressa autorização da editora Texto fixado conforme as regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa Decreto Legislativo n 54 de 1995 Título original La civilization féodale de lan mil à la colonization de lAmerique Preparação Beatriz de Freitas Moreira Revisão Valquíria Della Pozza Maria Sylvia Corrêa Índice remissivo Luciano Marchiori Capa Ettore Bottini sobre iluminuras de Les très riches heures du Duc de Berry 141016 dos irmãos Limbourg Musée Condé Château de Chantilly 3a reimpressão 2011 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Baschet Jérôme A civilização feudal do ano 1000 a colonização da América Jérôme Baschet tradução Marcelo Rede prefácio Jacques Le Goff São Paulo Globo 2006 Título original La civilization féodale de lan mil à la colonization de lAmerique ISBN 9788525041395 1 Civilização medieval 2 Europa História medieval 3 Idade Média I Le Goff Jacques II Título 061863 CDD9401 Índice para catálogo sistemático 1 Civilização medieval História 9401 Direitos de edição em língua portuguesa para o Brasil adquiridos por Editora Globo S A Av Jaguaré 1485 05346902 São Paulo SP wwwglobolivroscombr 7 A máquina de espititualizar entre desvíos e afirmações DACHET Jérôme A máquina de espiritualizar do 1000 a colonização das Américas São Paulo2006 pp 434444 Guipo7 Quer dizer que o limite entre a articulação legítima do corporal e do espiritual e sua confusão indigna é ténue instável e sujeita a contestações O que a instituição valoriza como equilíbrio positivo é sempre suscetível de ser denunciado seja pela crítica anticlerical dos laicos seja por grupos clericais que fundam seu prestígio sobre uma exigência mais ascética como um compromisso degradante com o mundo e com a matéria A justa articulação entre o corporal e o espiritual é então objeto de conflitos incessantemente relançados isso não tem nada de surpreendente pois é a ordem legítima da sociedade que é aí definida Uma precisão de vocabulário pode entretanto ajudar a esclarecer esse ponto importante A oposição de base é aquela entre o corporal corpus caro e o espiritual spiritus anima mas é somente seu modo de articulação ou de separação que produz valores positivos ou negativos se o corpo é entregue a si mesmo ou se ele domina o espírito o mal vence e afundamos no carnal carnalis se o espírito impõese ao corpo o bem triunfa e estamos diante de realidades espirituais eventualmente de corpos espirituais corpus spirituale Parte integrante deste último conjunto as spiritualia designam tudo o que concerne à Igreja aos seus poderes sacramentais à sua jurisdição assim como aos seus bens materiais Elas opõemse às temporalia poderes e bens passíveis de ser assumidos pelos laicos mesmo se estes podem também ser controlados por uma autoridade eclesiástica as quais não são necessariamente condenáveis mas em todo caso incapazes de atingir por si mesmas um fim espiritual e devem então aceitar a preeminência das spiritualia O ponto determinante é então a orientação dada à articulação entre o espiritual e o corporal a submissão da alma ao corpo e a intrusão dos laicos nas spiritualia provocam uma mácula infamante enquanto a intervenção dos clérigos nos negócios dos laicos por exemplo o casamento é condutora de purificação e de espiritualização É por isso que podem existir bens materiais qualificados de spiritualia e mais genericamente corpos espirituais a começar pela própria Igreja Esta justa articulação do corporal e do espiritual supõe em primeiro lugar sua clara separação Toda ideia de mistura entre esses polos opostos cria então um obstáculo Ora notamse os indícios disso em certas concepções da alma A ideia de que esta ao invés de ser inteiramente espiritual seja dotada de certa corporeidade não é totalmente estranha ao pensamento da Igreja Ela foi claramente professada por Tertuliano no século II e depois por certos clérigos dos séculos V a VII até ser desmentida pelos teólogos posteriores Além do argumento de que apenas Deus é totalmente imaterial a questão já evocada do castigo infernal é uma boa ocasião para desenvolver tais concepções com efeito como admitir que a alma separada do corpo possa sofrer sob o efeito do fogo do inferno sem considerála dotada de uma forma de corporeidade No entanto como se viu no capitulo precedente essa dificuldade põe ser resolvida suprimindo assim a necessidade de recorrer à idéia de uma corporeidade da alma São sobretudo as concepções laicas que tendem a se afastar da doutrina da Igreja sem por isso lhe parecer necessariamente inaceitáveis De fato elas tendem a fazer da alma um duplo dotado de uma realidade parcialmente física Nesse universo por vezes qualificado de folclórico o que concerne à alma deve encarnarse nos gestos ou nos fatos materialmente constatáveis como ocorre no momento em que se retira uma telha do teto da casa de um moribundo para facilitar a partida de sua alma ou ainda quando a aparição de um morto que retorna do além deixa uma marca física sobre o corpo do visionário De resto tais testemunhos não são exclusivos dos laicos e abundam nos relatos transmitidos pelos clérigos Por exemplo Jacques de Vitry e Estevão de Bourbon contam como uma gota de suor que emana de uma alma danada que ressurge do inferno perfura a mão do visionário Mesmo se outros elementos devem ser levados em conta vêse aqui como a necessidade de dar força aos rituais e às crenças incita a conferir certa corporeidade aos seres espirituais Os habitantes de Montaillou que partilham da idéia de uma presença errante das almas em meio aos vivos recomendam a estes últimos que não andem com os braços separados do corpo a fim de não jogar no chão algum espírito penado Emmanuel Le Roy Ladurie Aqui falta uma dupla separação as almas não se encontram em um lugar especial separado dos vivos como quer a doutrina da Igreja em conseqüência o espiritual inscrevese no campo material a tal ponto que as almas são suscetíveis de ser afetadas fisicamente pelos atos dos homens de carne e osso Este é um exemplo particularmente claro de mistura de não separação entre o espiritual e o material Se tais infrações são limitadas a crenças ou costumes pontuais elas podem ser toleradas pela Igreja mas o caso de Montaillou refúgio recuado onde os restos da heresia cátara misturamse a concepções folclóricas imperfeitamente submetidas ao molde clerical mostra que elas ameaçam afetar aspectos importantes da organização social no caso o monopólio da mediação entre os vivos e os mortos pretendido pela Igreja com efeito os aldeões reconhecem a certos laicos qualificados de armeiros a capacidade de estabelecer uma comunicação com os defuntos Encarnação do espiritual e espiritualização do corporal No mais a Igreja deve lutar contra as más interpretações das representações que ela mesma difunde e em particular contra uma tendência a interpretar corporalmente realidades que são de fato espirituais O paradigma dessa percep A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 435 434 Jérôme Baschet ção laica é a reação de Francisco de Assis quando ainda no limiar de sua conversão o Cristo de San Damiano o intima a reconstruir sua igreja O entusiasta visionário põese então a reconstruir a capela até compreender que a mensagem de Cristo se referia a um sentido eminentemente mais espiritual de Igreja exemplar representação do olhar erudito sobre a ingenuidade laica que se limita a uma leitura em primeiro grau ao passo que a ciência clerical reivindica a arte de decifrar os símbolos e de descobrir através das aparências sensíveis as significações mais espirituais É contra uma tendência do mesmo tipo aplicada dessa vez à natureza da alma que se eleva Guiberto de Nogent quando ironiza aqueles que creem que a alma possui um corpo sob o pretexto de que as imagens a representam como uma criancinha nua Entretanto é necessário reconhecer que a Igreja favorece tais desvios ao optar sem reservas pela imagem somatomórfica da alma à qual confere todas as aparências de um corpo É verdade que propriamente falando a imagem não diz nada da natureza substancial da alma e podese admitir que ela mostra conforme a definição agostiniana uma realidade espiritual dotada de uma similitude corporal Resta o fato de que a imagem se presta facilmente a uma leitura que tende a corporificar o espiritual A arte dos séculos XIV e XV acentua ainda a dificuldade ao figurar muitas vezes um verdadeiro retrato da alma duplo perfeitamente individualizado do corpo que ela habita No caso de Judas o retrato não é nada lisonjeiro o nariz aquilino indica incontestavelmente uma alma judaica e a exibição de seu sexo sublinha a baixeza carnal do traidor figura 43 na p 437 Mesmo a alma de um santo tão glorioso como Tomás de Aquino pode apresentar na imagem uma surpreendente corporeidade a tal ponto que longe de se levantar por si mesma como um corpo aéreo ela precisa do apoio bastante físico de são Pedro e de são Paulo para se subtrair ao peso e chegar ao paraíso celeste figura 44 na p 438 Por que então a imagem insiste tanto sobre a corporeidade aparente da alma em oposição aos esforços teológicos daquele que é nomeado o doutor angélico Não é impossível explicálo no quadro da lógica eclesial que se esforça para estabelecer um jogo de correspondências entre o espiritual e o corporal e até se revela perfeitamente capaz de exprimir o espiritual através do material desde que esse rebaixamento seja finalmente justificado por uma dinâmica de ascensão Mas é preciso também notar que essa representação aparece em uma região da Itália central dominada então pelos condes de Aquino descendentes dos pais de Tomás que se apoderam de seu culto como de um negócio de família Aqui Tomás de Aquino é menos um sábio da Igreja universal do que um ser próximo familiar enraizado em sua terra natal Não se pode então excluir que o peso dos interesses de sua parentela e de uma apropriação laica do santo tenha contribuído para corporificara alma 43 A morte ignominiosa de Judas fim do século XV afresco de Giovanni Canavesio NotreDame des Fontaines La Brigue O Novo Testamento relata que Judas se esforça após a traição e que seu ventre explode Mas é a imagem que julga sua alma indigna de sair pela boca em um contexto completamente diferente o poeta Rutebeuf no século XIII em sua sátira das classes populares diz que a alma de um vilão parte não pela boca mas pelo ânus como um peido fedido que faz até mesmo o demônio fugir Aqui a alma de Judas é arrancada de suas vísceras sanguinolentas por um diabo que tem como é comum na iconografia do século XV uma segunda face no baixo ventre O traidor Judas oferece a ocasião de um ataque contra os judeus ele é representado com o longo nariz aquilino que lhes é atribuído e mesmo sua alma reproduz seus traços nefastos O fato de que uma alma seja sexuada é excepcional e está com toda a certeza associado ao caráter maléfico do personagem 436 Jérôme Baschet 44 A alma de são Tomás de Aquino elevada ao céu por Pedro e Paulo c 1420 afrescos de Santa Maria em Piano Loreto Aprutino Abruzzo Em um amplo ciclo consagrado a são Tomás morto em 1274 e encomendado por seu parente o conde Francisco de Aquino a ascensão da alma ocorre entre a celebração dos funerais e a descida à tumba Ela acumula as singularidades iconográficas Com efeito a alma é dotada de uma corporeidade notavelmente saliente e que em vez de elevarse ela mesma como um corpo aéreo é objeto de uma surpreendente manipulação física é preciso que ela seja ajudada por são Pedro e são Paulo que lhe fazem uma escadinha e a empurram pelas nàdegas para que ela possa superar seu peso e seja alçada até o abraço de Cristo que sai de sua mandorla celeste para acolhêla de Tomás A tendência a encarnar o espiritual aparece então ao mesmo tempo como uma das componentes da lógica do sistema eclesial e como o resultado de uma conciliação com os interesses e as representações dos laicos De uma maneira mais geral a posição da aristocracia laica introduz um notável fator de tensão É verdade que uma vez passado o período de conflitos violentos envolvendo muito particularmente as regras de casamento a ideologia clerical penetra e informa em grande parte o grupo nobiliário primeira parte capítulo 11 A afirmação do finamors é um exemplo disso sobre o qual já se evocou a análise proposta por Anita GuerreauJalabert Reivindicação de uma arte refinada do amor ela é um meio de se distinguir dos plebeus condenados a amar vulgarmente Mas promovendo a sublimação do desejo e a suspensão ao menos temporária da consumação sexual o finamors reproduz à sua maneira os valores clericais Com efeito é por seu caráter mais elevado e mais espiritual que pode constituir um meio de distinção e de legitimação da aristocracia Reencontramos então em funcionamento na literatura e na cultura cortês a lógica de articulação do espiritual e do corporal e sobretudo o princípio de espiritualização das realidades corporais próprias à ideologia clerical Mas se o finamors é uma espiritualização do amor e se o ciclo do Graal confere um ideal espiritual à cavalaria nem por isso toda a tensão com o clero desaparece Com efeito a aristocracia retoma a regra de superioridade do espiritual sobre o carnal mas a desvia em seu benefício e se afirma como sendo ela própria uma encarnação de valores espirituais independentemente da mediação dos clérigos Observações similares podem ser feitas a propósito das fadas que aparecem na literatura cortês Anita GuerreauJalabert Associadas às florestas e aos espaços exteriores elas são caracterizadas por sua extraordinária beleza e seus poderes mágicos que as subtraem das constrições espaçiotemporais Elas são ao mesmo tempo boas cristãs que assistem à missa e perfeitas damas corteses amigas e parentes dos prestimosos cavaleiros Tratase então de personagens eminentemente positivas que exprimem o ideal da aristocracia laica ao mesmo tempo que empregam os preceitos eclesiais Aqui também reencontramos a lógica da articulação do espiritual principalmente as virtudes e os poderes sobrenaturais e do corporal principalmente a beleza física No geral a cultura cortês não nega a superioridade dos valores espirituais proclamados pela Igreja e inscrevese então no quadro das estruturas fundamentais da sociedade cristã Mas ela contesta o poder eclesiástico reformulando estes mesmos valores em seu benefício e pondo em cena um espiritual que não é encarnado pelos clérigos mas pelos próprios aristocratas ou pelas figuras imaginárias que a representam Através da espiritualização de seus objetivos e da constituição de uma forma própria de sobrenatural a aristocracia promove a legitimidade de sua dominação e reivindica uma autonomia em relação ao clero No geral a instituição eclesial afirmase em meio a fortes tensões que a expõem às críticas de duas vertentes De um lado ela afrontase periodicamente às correntes mais espirituais do que ela mesma chega a ser Ela deve então combater aqueles que empurra para a heresia e reconduzir a uma maior moderação aqueles que pode manter em seu seio Mas constantemente deve desconfiar dos que reivindicam um estado espiritual perfeitamente puro e que logo com John Wyclif pretendem fazer prevalecer a Igreja dos predestinados sobre a Igreja institucionalizada encarnação do Anticristo para não mencionar os que pretendem falar em nome do Espírito Santo tal como os discípulos radicais de Joaquim de Fiore Se o devoto é inspirado diretamente pelo Espírito A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 439 438 Jérôme Baschet Santo e se ele alcança sozinho o estado espiritual para que serve então a Igreja A instituição baseiase em valores espirituais mas excesso de espírito ameaça a instituição Digamos mais uma vez esta se pensa como um corpo espiritual quer dizer também como uma encarnação de valores espirituais O risco inverso é o de uma atenuação ou de um desvio da dualidade espiritualcorporal Ele traz em germe um questionamento da posição separada pretendida pelos clérigos assim como de seu monopólio da mediação entre os homens e Deus Tratase então com dois ataques inversos mas que se juntam em sua contestação comum da instituição eclesial Não se poderia demonstrar melhor que a Igrejainstuição fundase sobre uma delicada conjunçao do corporal e do espiritual e mais ainda sobre uma dupla dinâmica corretamente ordenada da encarnação do espiritual e da espiritualização do corporal Uma eficácia crescente mas cada vez mais forçada A evolução das modalidades de articulação entre o espiritual e o corporal deve agora ser reconstituída com maior clareza Com efeito o modelo antopossocial fundado na articulação hierarquizada de entidades separadas é dotado de uma grande flexibilidade e de uma notável capacidade dinâmica De fato convêm precisar que vinculando as concepções medievais da pessoa ao princípio de uma dualidade não dualista não se procura absolutamente fechálos em uma doutrina única esta formulação abre ao contrário uma ampla gama de possibilidades e toda a história da antropologia medieval é a dos deslocamentos operados no interior desse vasto campo Esse processo traça seu caminho através de vários desvios e contradições Nos primeiros séculos do cristianismo as ênfases dualistas mais rudes bastante apoiadas em são Paulo são conduzidas por uma lógica de ruptura com a sociedade romana Depois junto com outros Agostinho promove uma transformação doutrinária radical que impõe a mudança de estatuto do cristianismo de uma mensagem de ruptura para uma estreita associação com o Império Essa mutação é realizada em um duplo movimento A nova teologia do pecado reduz o alcance do livrearbítrio e rebaixa a natureza humana fazendo da instituição eclesial a mediação indispensável para se beneficiar da graça divina e obter a salvação Ao mesmo tempo a rejeição total da ordem carnal sucede não sua reabilitação é verdade mas ao menos sua integração na ordem legítima do mundo A interpretação carnal da ressurreição dos corpos imposta por Agostinho é um indício notável disso assim como sua leitura da vida no Éden que admite o exercício de uma sexualidade paradisíaca antes da Queda e contribui assim para dar um esboço de legitimidade ao casamento humano Esse contorno mais corporal assumido pela teologia ocidental responde às necessidades de uma Igreja que se encarna e se engaja na organização da sociedade terrestre Com efeito legitimar a existência da Igreja como instituição supõe fundar teologicamente o lugar dos corpos na obra divina Toda a força do pensamento de Agostinho é a de conseguir oferecer um espaço de legitimidade aos corpos contrariamente aos maniqueístas acentuando paralelamente o peso do pecado e tornando mais árduo o esforço a ser feito contra as ameaças da carne contrariamente aos pelagianos Sustentar os termos dessa contradição não deixava de apresentar dificuldades sobretudo porque deixava Agostinho sob o fogo cruzado de adversários com posições opostas os maniqueístas acusamno de pelagianismo e viceversa Ao menos é com Agostinho que se engata com tanto estrondo quanto dificuldade a lógica que permite salvar o corporal espiritualizandoo Mesmo se esta lógica não é renegada observase durante a Alta Idade Média e parcialmente ainda no século XII uma presença maciça de concepções ascéticas e monásticas que valorizam a fuga do mundo As ênfases dualistas de inspiração neoplatônica e paulina podem pesar imensamente como em Gregório o Grande mesmo se elas são sempre bloqueadas por um movimento anti dualista cujo vigor parece tender a se reforçar Se os teólogos carolíngios fazem frutificar ainda mais a herança agostiniana e preparam muitos outros desenvolvimentos ulteriores as transformações dos séculos XIa XIII permitem dar todo o seu relevo à dinâmica da articulação do espiritual e do corporal A reformulação eclesial esforçase por uma franca distinção entre o espiritual e o carnal com a preocupação de liberar o primeiro do controle invasivo dos laicos Mas ela se empenha sobretudo em articulálos hierarquicamente de onde uma superação do dualismo em geral obtido ao preço de um corpo a corpo textual ou figurativo com os enunciados paulinos Já iniciado anteriormente esse processo é confirmado nos séculos XII e XIII alcançando sua expressão final com Tomás de Aquino Se a igreja desse período trava ásperos combates para separar o espiritual e o carnal desde que esses dois princípios estão claramente distintos e corretamente hierarquizados tornase possível aceitar e valorizar o princípio corporal de onde uma atenção nova ao Cristo encarnado e ao mundo criado No início do século XIII o Cântico do irmão Sol e de todas as criaturas exalta a beleza dos astros e dos quatro elementos Louvado sejas tu Senhor com todas as criaturas especialmente o senhor irmão Sol através de quem tu nos das o dia a luz ele é belo radiante de um grande esplendor e de ti o TodoPoderoso ele nos oferece o símbolo Como se vê a louvação da Criação permanece indissociável daquela do Criador e a natureza só é valorizada na medida em que ela permite chegar a Deus lembramos também que a singular alegria de Francisco é inseparável da escolha da penitência mais extrema A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 441 440 Jérôme Baschet Tal dinâmica permite assumir até o amor terrestre Helóis e Abelardo já o haviam tentado após terem conhecido deploráveis desventuras Por volta de 1130 a amante agora abadessa escreve a seu amado de sempre tornado monge depois de sua castração que ele é seu único depois de Cristo seu único em Cristo O amor divino deve primar mas uma vez feito esse reconhecimento o amor de um homem pode ser assumido não sem dificuldades até confundirse com aquele de Deus Mais de um século e meio depois Dante dá uma outra amplitude a essa espiritualização do amor Na Divina comédia Beatriz a mulher de carne e osso que ele amou tornase uma figura ou uma encarnação da revelação que o guia no paraíso em direção à visão de Deus Eric Auerbach De resto é notável que Virgílio lhe sirva no início de guia através do inferno e do purgatório Poeta admirado ele é a realização da plenitude das perfeições deste mundo que conhecem através dele uma notável valorização Entretanto esta esbarra em um limite Virgílio que continua pagão apesar de suas premonições deve abandonar Dante no limiar do reino celeste e cede então o lugar à beleza de Beatriz Todos esses elementos não são o sinal de uma suposta laicização ou de uma autonomização da cultura profana fazendo recuar o controle dos valores cristãos Eles marcam ao contrário uma etapa suplementar na dinâmica de articulação entre o espiritual e o corporal capaz de assumir ainda mais do que antes as realidades do mundo material Assim enquanto a igreja românica se apresenta como a imagem de uma Jerusalém celeste fortificada protegendose do mundo o gótico tende pela dinâmica ascendente das abóbadas e pela onipresença da luz a uma espiritualização da arquitetura e ao mesmo tempo testemunha um maior reconhecimento do mundo e das aparências sensíveis dos corpos e da natureza Se se quer considerar o modelo antropossocial analisado anteriormente ilustração XIII na p 432 uma espécie de elevador simbólico podese sugerir que dá mostras de sua eficácia na medida em que é capaz de levantar as cargas mais pesadas É assim que ele permite uma melhor consideração do mundo terrestre suscetível de satisfazer os laicos e que por vezes responde à sua pressão sem por isso questionar a preeminência dos valores espirituais afirmada pelos clérigos Esta lógica testemunhada notadamente pela concepção dos corpos gloriosos demonstra que uma realidade material pode estar ao lado do espiritual é o caso em primeiro lugar da própria Igreja cujas posses são spiritualia A oposição entre o carnal e o espiritual é então dissociada da dualidade do corpo e da alma pois ela é fundamentalmente relacional e dinâmica é espiritual toda armação no seio da qual o princípio espiritual exerce um governo firme sobre os corpos é carnal toda articulação na qual esta dominação do espiritual não é respeitada É assim com toda ordem espiritual como com a Encarnação que é sua matriz fundamental a materialidade dos corpos não poderia ser negada mas deve ser engajada em um processo de espiritualização e de elevação que a torna positiva Tal é a justificativa da Igreja instituição ostensivamente encarnada que só poderia entretanto reivindicar uma vocação espiritual É assim que a Igreja pode ser definida como uma vasta máquina de espiritualizar o corporal assumindo ainda mais o mundano e as realidades terrestres graças ao fato de estender sobre eles o império do princípio espiritual ela demonstra que sua mecânica redentora tem mais eficácia do que nunca Como já foi dito isso não acontece sem contestações notadamente da parte de tendências intransigentes presentes no seio da Igreja ou rejeitadas como heréticas E quanto mais se acentua a dinâmica de integração do corporal mais se amplia o risco de crítica Assim a Igreja dos séculos XIV a XVI reforça seu controle sobre a sociedade mas ao custo de tensões crescentes que aumentam sua fragilidade e podem conduzir a rupturas violentas como é a Reforma protestante Depois para além do período tratado aqui parece que as disjunções entre o carnal e o espiritual sobrepõemse pouco a pouco até o momento em que o dualismo encontra com Descartes uma formulação radical que pesou fortemente sobre a consciência ocidental Assim é sem dúvida durante a Idade Média Central época da Igreja triunfante que terá ocorrido o período menos dualista da história do cristianismo aquele que esteve em melhor medida para experimentar a unidade da pessoa que as concepções modernas nos restituem de uma outra maneira e isso porque esse modelo era então o mais pertinente para pensar o corpo social e eclesial e ao mesmo tempo suas marcadas hierarquias e sua utopia comunitária CONCLUSÃO AS AMBIVALÊNCIAS DA PESSOA CRISTÃ Mostrar que as representações medievais da pessoa são menos simples e menos dualistas do que em geral se crê não ameniza absolutamente sua diferença em relação às concepções não cristãs Se nas religiões politeístas em geral e também nas concepções tradicionais dos maias teztalts a representação da pessoa dá testemunho de uma relação recíproca com o mundo e de um destino partilhado com outros seres Pedro Pitarch essa dupla interrelação com o meio e com o grupo é eclipsada no cristianismo em proveito de um laço privilegiado entre a alma e Deus Não é então surpreendente que a concepção cristã da 8 O PARENTESCO REPRODUÇÃO FÍSICA E SIMBÓLICA DA CRISTANDADE Na Cristandade medieval as relações humanas também são mediadas simbolicamente por percepções humanas e divinas Dentro das relações sociais medievais como todo é possível perceber a presença de símbolos que representam parentescos espirituais e divinos O fundamento desse sistema de representações é a instituição religiosa centrada em uma paternidade em Deus sendo Cristo como o principal estabelecedor dessa construção já que ele é o próprio filho de um Pai que está nos céus Logo essas construções de percepção tem sempre a centralização na dicotomia parentesco terreno e parentes celeste Somado a isso a uma concepção de que os critão são os sujeitos mais livres dos homens sendo aqueles que possuem uma filiação carnal mas podem escolher seu pai nesse caso o pai celestial Esse é o modelo de toda conversão Importante pontuar que as filiações carnais não são apenas a laços consanguíneos mas são laços definidos a um só tempo por normas instituídas socialmente regulamentadas pela reprodução sexuada 81 O PARENTESCO CARNAL E SEU CONTROLE PELA IGREJA 811 A imposição de um modelo clerical do casamento A percepção do casamento pelo viés religioso também é marcada por transformações Nos primeiros séculos do cristianismo havia exigência pela natalidade impor ao cidadão acabava por desvalorizar o casamento A continência e a virgindade são dignas de exaltação com isso a salvação estava na contramão da construção de famílias já que ali havia atividade sexual Posteriormente há uma reabilitação do significado de casamento marcado pela monogamia e indissolubilidade e uma exogamia Essa mudança de análise se torna uma alavanca de conversão e controle da sociedade Com isso é possível concluir como as estratégias do clero são eminentemente seletivas dependendo do interesse Com a disseminação desse pensamento é disseminado a constituição do sexo apenas para a procriação com isso a atividade sexual está diretamente vinculada com o laço matrimonial Proibindo diversas expressões de comportamento sexual inclusive construindo uma perspectiva de moralidade como dicotomia Esse construto está vinculado com a reafirmação do celibato pelo sacerdotes que perpetua a divisão clérigos e laicos 812 Transmissão dos patrimônios e a reprodução feudal O laço de filiação isto é a concepção de descendência parentesco Todos possuem a filiação que vem da família do pai e a filiação que vem da família materna Esses laços têm diversas simbologias dentro do contexto feudal inclusive de poder tornando se uma variável importante Além disso as regras referente a transmissão de bens também um produto desses construtos acerca do parentesco Nesse viés a posse do terreno da família era herança do primogênito da família 10 OS MECANISMOS DA REPRESENTAÇÃO Após ter compreendido a diversidade simbólica e quantitativa das imagens e concepções cristãs dentro da sociedade medieval é possível analisar os mecanismos que influenciam nos processos de representação 101 LUGARES DE IMAGENS LUGARES DE CULTO Se toda imagem se constrói como uma representação de um objeto ou um lugar essa imagem acaba por assumir um papel dentro dos centros religiosos O valor estético acaba por não ser o papel central das imagens o seu papel iconográfico tem um papel mais central dentro desse contexto Assim a igreja pode ser considerada um local de imagens que também agregam mesmo não sendo papel central efeitos estéticos com o caráter luxuriante das cores rutilar das luzes e o brilho dos outros A forma como essa estética está unida e organizada também passa as hierarquias internas assim como os valores ali disseminados Para analisar os significados da igreja é necessário utilizar a liturgia como base de significação Se as imagens e a igreja como formação especial é natural é a representação dessa igreja espiritual divina celeste e unida ao espaço material por meio da liturgia A utilização das imagens e da construção espacial como uma expansão das ideias representações e valores divinos espirituais acaba por contribuir com a orientação de uma experiência mística Além disso as imagens materializadas contribuem para o bom funcionamento da instituição eclesial e o reforço da dominação cristã 102 CULTURA DA IMAGO E LÓGICA FIGURAL DO SENTIDO A ideia por meio da concepção de que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança também retoma a concepção de materialização do divino em homem a relação da imagem de Deus e Deus é comum aos santos e as imagens desses santos Essa imagem possui o papel nesse contexto de signo representar por meio de convenções as imagens cristãs A encarnação é uma etapa crucial nessa concepção o Filho é o imago perfeito representação perfeita da imagem divina 103 FIGURAR DEUS OLHAR A CRIAÇÃO A expansão da utilização de imagens aparece vinculada de mudanças nas concepções e no construto em relação aos modos de figuração Nesse viés é possível considerar a passagem de uma construção simbólica representativa para uma arte realista típica da Alta Idade Média 104 INVENÇÃO DA PERSPECTIVA E DINÂMICA FEUDAL A construção de imagens do objeto por meio de viés em perspectiva considerando que a percepção é subjetiva logo é necessário considerar o ponto de vista do espectador e o da representação Dá um caráter transcendental aos signos ali dispostos 105 CONCLUSÃO IMAGEMOBJETO MEDIEVAL IMAGEM TELA CONTEMPORÂNEA Na prática cristã é possível ver diversos produtos de signos símbolos e ícones que representam tendo uma relação direta com concepções espirituais Análogo a essa valorização da imagemobjeto dentro da idade média a supervalorização das imagens na tela na contemporaneidade se constituem também com um caráter transcendental de valores a determinada representação 7 A MÁQUINA DE ESPIRITUALIZAR ENTRE DESVIOS E AFIRMAÇÕES 71 PERIGOS NOS EXTREMOS SEPARAÇÃO DUALISTA E MISTURA IMPRÓPRIAS A articulação hierárquica de organização e atuação dentro da igreja é regida baseada na lógica eclesial Dentro do viés da separação dualista é possível perceber essa dicotomia entre o espiritual e o material Sob essa ótica há vários comportamentos práticas condenadas a igreja assim como o culto às imagens e o próprio casamento já que estão associadas ao material carnal Só o espiritual que salva sendo a ligação com a carne potencialmente corruptiva 72 ENCARNAÇÃO DO ESPIRITUAL E ESPIRITUALIZAÇÃO DO CORPORAL O paradigma dessa percepção está na tentativa de compreender a representação do olhar erudito em relação a ingenuidade laica As imagens acabam sendo compostas na função de corporificar os espíritos as almas 73 UMA EFICÁCIA CRESCENTE MAS CADA VEZ MAIS FORÇADA O modelo antropossocial é fundado na articulação das entidades hierárquicas dinâmicas dentro da igreja Esse processo retomando ao título traz diversos desvios Entre eles a construção de uma concepção de que o pecado reduz a expressividade do livrearbítrio rebaixando algumas dimensões da natureza humana 9 A SOCIEDADE CRISTÃ COMO UMA REDE DE PARENTESCO ESPIRITUAL 91 PARENTESCO BATISMAL PATERNIDADE DE DEUS E MATERNIDADE DA IGREJA Dentro da relação de parentesco a partir da religião o batismo é uma parte primordial desse laço relacional marcando dentro da comunidade cristã um verdadeiro nascimento dentro da sociedade religiosa Considerando que na Idade Média ao nascer a criança herda os pecados parentais ao ser batizada ocorre uma regeneração na graça da criança Nesta ocasião ocorre a entrada dos pais espirituais por meio do padrinho e da madrinha sendo responsável pela educação cristã da criança Já a relação de compadrinhamento na Idade Média era uma relação que podia proporcionar benefícios sociais econômicos e em relação à segurança marcado pela amizade e fraternidade Após o batismo a criança tornase então um filho de Deus representando uma doação divina logo essa relação parental com Deus não é privilégio de todos apenas daqueles que são batizados Além disso a cristão tornase também filho da Mãeigreja já que ela faz nascer o cristão por meio do batismo 92 A PATERNIDADE DOS CLÉRIGOS UM PRINCÍPIO HIERÁRQUICO A concepção de clero dentro dessa rede não é simples pois há muitos cargos com muitas hierarquias presentes Mas a divisão entre clérigos e laicos pode ser percebida considerando clero como sujeitos que passaram por um ritual Diferente dos demais cristãos os clérigos também possuem a função dentro desse contexto de pai sendo o representante de Deus na terra Além da dualidade entre clérigos e leigos na relação de paternidade mas também na hierarquia no seio do clero a relação espiritualcarnal paifilho A posição do clero é caracterizada por meio de uma união matrimonial espiritual onde os clérigos possuem a igreja como esposa Logo o celibato junto a paternidade espiritual aparecem como caráter dominantes do clero como um grupo dominante dentro do viés critão 93 IRMANDADE DE TODOS OS CRITÃOS E DESENVOLVIMENTO DAS CONFRARIAS Outra laço que existe dentro da rede cristã é a relação de parentesco espiritual se todos os batizados são filhos de Deus logo são irmãos Mas essa irmandade é parcialmente inacessível tendo sua realização plena adiada a vida após a morte Mas existem ações que retornam a esse laço primordial de irmandade como a prática de esmolas aos pobres de forma direta ou por intermédio da igreja Inclusive a própria construção de laços entre compadres também de baseia na irmandade espiritual alargada A partir dessas concepções é possível perceber a dualidade entre os laos na rede cristã o parentesco carnal e o parentesco espiritual compostos por paradoxos aparentes 7 A MÁQUINA DE ESPIRITUALIZAR ENTRE DESVIOS E AFIRMAÇÕES 71 PERIGOS NOS EXTREMOS SEPARAÇÃO DUALISTA E MISTURA IMPRÓPRIAS A articulação hierárquica de organização e atuação dentro da igreja é regida baseada na lógica eclesial Dentro do viés da separação dualista é possível perceber essa dicotomia entre o espiritual e o material Sob essa ótica há vários comportamentos práticas condenadas a igreja assim como o culto às imagens e o próprio casamento já que estão associadas ao material carnal Só o espiritual que salva sendo a ligação com a carne potencialmente corruptiva 72 ENCARNAÇÃO DO ESPIRITUAL E ESPIRITUALIZAÇÃO DO CORPORAL O paradigma dessa percepção está na tentativa de compreender a representação do olhar erudito em relação a ingenuidade laica As imagens acabam sendo compostas na função de corporificar os espíritos as almas 73 UMA EFICÁCIA CRESCENTE MAS CADA VEZ MAIS FORÇADA O modelo antropossocial é fundado na articulação das entidades hierárquicas dinâmicas dentro da igreja Esse processo retomando ao título traz diversos desvios Entre eles a construção de uma concepção de que o pecado reduz a expressividade do livrearbítrio rebaixando algumas dimensões da natureza humana 8 O PARENTESCO REPRODUÇÃO FÍSICA E SIMBÓLICA DA CRISTANDADE Na Cristandade medieval as relações humanas também são mediadas simbolicamente por percepções humanas e divinas Dentro das relações sociais medievais como todo é possível perceber a presença de símbolos que representam parentescos espirituais e divinos O fundamento desse sistema de representações é a instituição religiosa centrada em uma paternidade em Deus sendo Cristo como o principal estabelecedor dessa construção já que ele é o próprio filho de um Pai que está nos céus Logo essas construções de percepção tem sempre a centralização na dicotomia parentesco terreno e parentes celeste Somado a isso a uma concepção de que os critão são os sujeitos mais livres dos homens sendo aqueles que possuem uma filiação carnal mas podem escolher seu pai nesse caso o pai celestial Esse é o modelo de toda conversão Importante pontuar que as filiações carnais não são apenas a laços consanguíneos mas são laços definidos a um só tempo por normas instituídas socialmente regulamentadas pela reprodução sexuada 81 O PARENTESCO CARNAL E SEU CONTROLE PELA IGREJA 811 A imposição de um modelo clerical do casamento A percepção do casamento pelo viés religioso também é marcada por transformações Nos primeiros séculos do cristianismo havia exigência pela natalidade impor ao cidadão acabava por desvalorizar o casamento A continência e a virgindade são dignas de exaltação com isso a salvação estava na contramão da construção de famílias já que ali havia atividade sexual Posteriormente há uma reabilitação do significado de casamento marcado pela monogamia e indissolubilidade e uma exogamia Essa mudança de análise se torna uma alavanca de conversão e controle da sociedade Com isso é possível concluir como as estratégias do clero são eminentemente seletivas dependendo do interesse Com a disseminação desse pensamento é disseminado a constituição do sexo apenas para a procriação com isso a atividade sexual está diretamente vinculada com o laço matrimonial Proibindo diversas expressões de comportamento sexual inclusive construindo uma perspectiva de moralidade como dicotomia Esse construto está vinculado com a reafirmação do celibato pelo sacerdotes que perpetua a divisão clérigos e laicos 812 Transmissão dos patrimônios e a reprodução feudal O laço de filiação isto é a concepção de descendência parentesco Todos possuem a filiação que vem da família do pai e a filiação que vem da família materna Esses laços têm diversas simbologias dentro do contexto feudal inclusive de poder tornando se uma variável importante Além disso as regras referente a transmissão de bens também um produto desses construtos acerca do parentesco Nesse viés a posse do terreno da família era herança do primogênito da família 9 A SOCIEDADE CRISTÃ COMO UMA REDE DE PARENTESCO ESPIRITUAL 91 PARENTESCO BATISMAL PATERNIDADE DE DEUS E MATERNIDADE DA IGREJA Dentro da relação de parentesco a partir da religião o batismo é uma parte primordial desse laço relacional marcando dentro da comunidade cristã um verdadeiro nascimento dentro da sociedade religiosa Considerando que na Idade Média ao nascer a criança herda os pecados parentais ao ser batizada ocorre uma regeneração na graça da criança Nesta ocasião ocorre a entrada dos pais espirituais por meio do padrinho e da madrinha sendo responsável pela educação cristã da criança Já a relação de compadrinhamento na Idade Média era uma relação que podia proporcionar benefícios sociais econômicos e em relação à segurança marcado pela amizade e fraternidade Após o batismo a criança tornase então um filho de Deus representando uma doação divina logo essa relação parental com Deus não é privilégio de todos apenas daqueles que são batizados Além disso a cristão tornase também filho da Mãeigreja já que ela faz nascer o cristão por meio do batismo 92 A PATERNIDADE DOS CLÉRIGOS UM PRINCÍPIO HIERÁRQUICO A concepção de clero dentro dessa rede não é simples pois há muitos cargos com muitas hierarquias presentes Mas a divisão entre clérigos e laicos pode ser percebida considerando clero como sujeitos que passaram por um ritual Diferente dos demais cristãos os clérigos também possuem a função dentro desse contexto de pai sendo o representante de Deus na terra Além da dualidade entre clérigos e leigos na relação de paternidade mas também na hierarquia no seio do clero a relação espiritualcarnal paifilho A posição do clero é caracterizada por meio de uma união matrimonial espiritual onde os clérigos possuem a igreja como esposa Logo o celibato junto a paternidade espiritual aparecem como caráter dominantes do clero como um grupo dominante dentro do viés critão 93 IRMANDADE DE TODOS OS CRITÃOS E DESENVOLVIMENTO DAS CONFRARIAS Outra laço que existe dentro da rede cristã é a relação de parentesco espiritual se todos os batizados são filhos de Deus logo são irmãos Mas essa irmandade é parcialmente inacessível tendo sua realização plena adiada a vida após a morte Mas existem ações que retornam a esse laço primordial de irmandade como a prática de esmolas aos pobres de forma direta ou por intermédio da igreja Inclusive a própria construção de laços entre compadres também de baseia na irmandade espiritual alargada A partir dessas concepções é possível perceber a dualidade entre os laços na rede cristã o parentesco carnal e o parentesco espiritual compostos por paradoxos aparentes 10 OS MECANISMOS DA REPRESENTAÇÃO Após ter compreendido a diversidade simbólica e quantitativa das imagens e concepções cristãs dentro da sociedade medieval é possível analisar os mecanismos que influenciam nos processos de representação 101 LUGARES DE IMAGENS LUGARES DE CULTO Se toda imagem se constrói como uma representação de um objeto ou um lugar essa imagem acaba por assumir um papel dentro dos centros religiosos O valor estético acaba por não ser o papel central das imagens o seu papel iconográfico tem um papel mais central dentro desse contexto Assim a igreja pode ser considerada um local de imagens que também agregam mesmo não sendo papel central efeitos estéticos com o caráter luxuriante das cores rutilar das luzes e o brilho dos outros A forma como essa estética está unida e organizada também passa as hierarquias internas assim como os valores ali disseminados Para analisar os significados da igreja é necessário utilizar a liturgia como base de significação Se as imagens e a igreja como formação especial é natural é a representação dessa igreja espiritual divina celeste e unida ao espaço material por meio da liturgia A utilização das imagens e da construção espacial como uma expansão das ideias representações e valores divinos espirituais acaba por contribuir com a orientação de uma experiência mística Além disso as imagens materializadas contribuem para o bom funcionamento da instituição eclesial e o reforço da dominação cristã 102 CULTURA DA IMAGO E LÓGICA FIGURAL DO SENTIDO A ideia por meio da concepção de que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança também retoma a concepção de materialização do divino em homem a relação da imagem de Deus e Deus é comum aos santos e as imagens desses santos Essa imagem possui o papel nesse contexto de signo representar por meio de convenções as imagens cristãs A encarnação é uma etapa crucial nessa concepção o Filho é o imago perfeito representação perfeita da imagem divina 103 FIGURAR DEUS OLHAR A CRIAÇÃO A expansão da utilização de imagens aparece vinculada de mudanças nas concepções e no construto em relação aos modos de figuração Nesse viés é possível considerar a passagem de uma construção simbólica representativa para uma arte realista típica da Alta Idade Média 104 INVENÇÃO DA PERSPECTIVA E DINÂMICA FEUDAL A construção de imagens do objeto por meio de viés em perspectiva considerando que a percepção é subjetiva logo é necessário considerar o ponto de vista do espectador e o da representação Dá um caráter transcendental aos signos ali dispostos 105 CONCLUSÃO IMAGEMOBJETO MEDIEVAL IMAGEM TELA CONTEMPORÂNEA Na prática cristã é possível ver diversos produtos de signos símbolos e ícones que representam tendo uma relação direta com concepções espirituais Análogo a essa valorização da imagemobjeto dentro da idade média a supervalorização das imagens na tela na contemporaneidade se constituem também com um caráter transcendental de valores a determinada representação