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J J t t l I r t esto de interpretação se dá porque o espaço simbólico é marcado pela incompletude pela refação com o silêncio A interpretação é o vesígio do possível ISl3N 8571 131880 1 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Cãmara Brasileira do Livro SP Brasil Orlandi Eni P Interpretação autoria leitura e efeitos do trabalho simbólico I Eni P Orlandi 5 Edição Campinas SP Pontes Editores 2007 Bibliografia ISBN 978 8571131880 1 Análise do discurso literário 2 Ciência Filosofia 3 Ciências Sociais Filosofia 4 Hermenêutica 5 Linguagem Filosofia 1 Titulo U Autora CDD 12168 Índice para catálogo sistemático 1 Interpretação Epistemologia Filosofia 12168 Copyright Eni P Orlandi Cedidos para a Pontes Editores para esta S3 edição Coordenação Editorial Ernesto Guimarães CapaEckelVayne Revisão Equipe de revisores da Pontes Editores PONTES EDITORES Av Dr Arlindo Joaquim de Lemos 1333 Jardim Proença 13100451 Campinas SP Brasil Fone 19 32526011 fax 19 32530769 ponteseditoresponteseditorescom br wwwponteseditorescombr 2007 Impresso no Brasil Ao Thiago 1 SIJHÁRIO 1 Apresentação 9 1 O Trabalho da interpretação 11 2 Entremeio e discurso 23 3 Discurso fato dado exterioridade 36 4 Ordem e organização na língua 45 5 Texto e discurso 52 6 Autoria e interpretação 63 7 Dispositivos da interpretação 79 8 Análise 99 9 Fé e opressão 101 1 O O teatro da identidade 114 11 Leitura e discurso científico 132 Conclusão Por uma nova noção de ideologia 144 Posfácio Interpretação e ideologia 148 Bibliografia 154 APRESENTAÇÃO A I A noção de interpretação passa por ser transparente quando na realidade são muitas e diferentes suas defini ções Na maior parte das vezes os teóricos a utilizam como se ela fosse evidente A sua importância no entanto a coloca como objeto de atenção e estudo pois embora ela seja mais relevante para as ciências da linguagem ela está presente no exercício das ciências humanas em particular e de qualquer ciência em geral A maneira como procuro situála neste livro leva em conta esse seu caráter geral servindo tanto à prática do analista da linguagem quanto à do cientista em geral Para isto explicito o que é interpretação não só para o analista mas para o sujeito da linguagem como tal A interpretação está presente em toda e qualquer manifestação da linguagem Não há sentido sem interpre tação Mais interessante ainda é pensar os diferentes gestos de interpretação uma vez que as diferentes linguagens ou as diferentes formas de linguagem com suas diferentes materialidades significam de modos distintos Como a linguagem tem uma relação necessária com os sentidos e pois com a interpretação ela é sempre passível de equívoco Dito de outro modo os sentidos não se fecham não são evidentes embora pareçam ser Além disso eles jogam com a ausência com os sentidos do nãosentido 9 O homem não pode assim evitar a interpretação ou ser indiferente a ela Mesmo que ele nem perceba que está interpretando e como está interpretando é esse um trabalho contínuo na sua relação com o simbólico A vida é função da significação e de gestos de interpre tação cotidianos ainda que não sentidos como tal Daí o interesse da interpretação para o estudioso da linguagem Transformando esse interesse em trabalho de com preensão pela análise de discurso procurei elaborar con ceitos e formular um dizer sobre a interpretação que pudesse mostrar não só ao especialista de linguagem mas ao estudioso em geral a como a interpretação está em qualquer um b as maneiras como as instituições regulam os gestos de interpretação dispondo sobre o que se interpreta como se interpreta quem interpreta em que condições e c a necessidade de trabalhar a interpretação como parte necessária e dotada de uma singularidade para cada especialista em particular Fica posta a questão Em aberto Pois como sabemos a questão dos sentidos é uma questão que não se fecha 10 1 O TRABALHO DA INTERPRETAÇÃO I A reflexão sobre o silêncio Orlandi 1992 abre pers pectiva para uma nova forma de conceber a questão discursiva Particularmente do ponto de vista teórico per mite compreender melhor a questão da incompletude como constitutiva da linguagem Minhas pesquisas atuais visam levar em Gonta e trabalhar as conseqüências teóricas e metodológicas que derivam daí Em termos conceptuais gostaria de relembrar aqui alguns aspectos que são relevantes do ponto de vista do que tenho trabalhado como incompletude da linguagem uma vez que há uma relação importante entre o silêncio a incompletude e a interpretação sendo esta última o tema da minha presente reflexão Devo aqui realçar o fato de que esta incompletude não deve ser pensada em relação a algo que seria ou não inteiro mas antes em relação a algo que não se fecha Consideremos o fato de que o dizer é aberto É só por ilusão que se pensa poder dar a palavra final O dizer também não tem um começo verificável o sentido está sempre em curso Isso já temos dito de várias maneiras em nossos textos O que ficou melhor estabelecido em meu estudo sobre silêncio Orlandi ibidem é que o silêncio é fundante não há sentido sem silêncio e esta incompletude é função do fato de que a linguagem é categorização dos sentidos do silêncio modo de procurar domesticálos O silêncio é sentido contínuo indistinto 11 horizonte possível da significação A linguagem mesmo em sua vocação à unicidade à discrição ao completo não tem como suturar o possível porque não tem como não conviver com a falta não tem como não trabalhar com o silêncio Isto justamente porque a linguagem é estrutura e acontecimento tendo assim de existir na relação necessária com a história e com o equívoco Do ponto de vista da significação não há uma relação direta do homem com o mundo ou melhor a relação do homem com o pensamento com a linguagem e com o mundo não é direta assim como a relação entre linguagem e pensamento e linguagem e mundo tem também suas mediações Daí a necessidade da noção de discurso para pensar essas relações mediadas Mais ainda é pelo discurso que melhor se compreende a relação entre linguagempen samento mundo porque o discurso é uma das instâncias materiais concretas dessa relação A esta abertura da linguagem isto é não há linguagem em si somase o que temos concebido como a abertura do simbólico Antes de tudo porque a questão do sentido é uma questão aberta pois como afirma P Henry 1993 é uma questão filosófica que não se pode decidir categorica mente Por outro lado não há um sistema de signos só mas muitos Porque há muitos modos de significar e a matéria significante tem plasticidade é plural Como os sentidos não são indiferentes à matéria significante a relação do homem com os sentidos se exerce em diferentes materiali dades em processos de significação diversos pintura ima gem música escultura escrita etc A matéria significante eou a sua percepção afeta o gesto de interpretação dá uma forma a ele Uma outra manifestação dessa abertura do simbólico está na dispersão necessária das ciências sociais e humanas e na tentativa equivocada de se tentar transpor essa incom 12 pletude pela interdisciplinaridade como tentativa de se construir o objeto total e a metodologia de eficácia onipotente Essa dispersão ao contrário é constitutiva dada a necessidade das ciências humanas e sociais se assentarem sobre uma noção discursiva de sujeito e de linguagem tal como os estamos caracterizando Em meu trabalho essa abertura do simbólico tem sido tratada nos limites indecisos e muitas vezes tensos e indefiníveis entre polissemia e paráfrase dois eixos que constituem o movimento da significação entre a repetição e a diferença Não nos iludamos no entanto com esse fato não é porque é aberto que o processo de significação não é regido não é administrado Ao contrário é por esta aber tura que há determinação O lugar mesmo do movimento é o lugar do trabalho da estabilização e viceversa Um exemplo para ilustrar esta questão é meu estudo das notas de rodapé cf E Orlandi 1990 p 106s Os lugares em que surgem as notas de rodapé nas reedições de textos do século XVII ao século XIX são justamente os pontos em que há a possibilidade de fuga dos sentidos onde a alteridade ameaça a estabilidade dos sentidos onde a história trabalha seus equívocos onde o discurso deriva para outros discursos possíveis Daí a necessidade das notas como um aparato de controle de administração da polissemia do governo da historicidade lá onde o silêncio afronta a gregariedade da linguagem e a domesticação dos sentidos irrompe a nota de rodapé procurando inutilmen te completar o que não se completa e resta como horizonte do possível Por isso nossa conclusão naquela análise d E Orlandi idem é a de que as notas mais do que o fechamento são a cicatriz o traço do outro sentido a marca inexorável da incompletude de sentidos postos em silêncio 13 Estas considerações nos levam a uma outra questão fundamental na análise de discurso a de que o texto exemplar de discurso é multidimensional enquanto es paço simbólico Pensando sua materialidade podemos dizer que o texto não é uma superfície plana nem tampouco uma chapa linear que se complica em sua extensão como fazem crer os que falàm em progressão textual em geral Se o observamos na perspectiva discursiva o texto é um bólido de sentidos Ele parte em inúmeras direções em múltiplos planos significantes Diferentes versões de um texto diferentes formulações constituem novos produtos significativos Nossa questão é então o que muda nas diferentes versões É só uma explicitação do que lá já estava São os seus possíveis O que é uma outra formula ção O que é colocarse um final outro Ou outra direção Em nossa perspectiva qualquer modificação na mate rialidade do texto corresponde a diferentes gestos de inter pretação compromisso com diferentes posições do sujeito com diferentes formações discursivas distintos recortes de memória distintas relações com a exterioridade Este é um aspecto crucial a ligação da materialidade do texto e sua exterioridade memória É só no imaginário que todas estas versões digressões formulações partiriam de um texto original Nesse senti do o texto original é uma ficção ou melhor é uma função da historicidade num processo retroativo São sem pre vários desde sua origem os textos possíveis num mesmo texto Por isso temos proposto que se considere o texto em sua materialidade como uma peça com suas articulações todas elas relevantes para a construção do ou dos sentidos É isto que estamos dizendo quando falamos que um texto é um bólido de sentidos sintoma de um sítio significante 14 Nas diferentes direções significativas que um texto pode tomar há no entanto um regime de necessidade que ele obedece Não é verdade que o texto possa se desen volver em qualquer direção há uma necessidade que rege um texto e que vem da relação com a exterioridade Isto só pode ser compreendido se não pensamos o texto em sua organização mas o texto em sua ordem significante O espaço de interpretação no qual o autor se insere com seu gesto e que o constitui enquanto autor deriva da sua relação com a memória saber discursivo interdis curso O texto é essa peça significativa que por um gesto de autoria resulta da relação do sítio significante com a exterioridade Nesse sentido o autor é carregado pela força da materialidade do texto materialidade essa que é função do gesto de interpretação do trabalho de autoria na sua relação determinada historicamente com a exterioridade pelo interdiscurso O sujeito podemos dizer é interpretado pela história O autor é aqui uma posição na filiação de sentidos nas relações de sentidos que vão se constituindo historicamente e que vão formando redes que constituem a possibilidade de interpretação Sem esquecer que filiarse é também produzir deslocamentos nessas redes M Pê cheux 1933 Para melhor situar essa questão da multidirecionalidade do texto e de sua materialidade vamos lançar mão da distinção entre o que chamamos de memória histórica o interdiscurso e a memória metálica a informatização dos arquivos Um texto produzido em computador e um texto pro duzido a mão são distintos em sua ordem porque as memórias que os enformam são distintas em suas materia lidades uma é histórica e a outra é formal A memória metálica formal lineariza por assim dizer o interdiscur 15 so reduzindo o saber discursivo a um pacote de informa ções ideologicamente equivalentes sem distinguir posi ções O que produz o efeito da onipotência do autor e o deslimite dos seus meios a memória metálica a infinidade de informações A nossa posição é de que tanto a informatização corno a mídia produzem realmente a multiplicação diversifia ção dos meios mas ao mesmo tempo homogeneizam os efeitos Daí uma idéia de criatividade caracterizada pela deslimitada produção a enorme variação do mesmo Não esqueçamos que a mídia é um lugar de interpretação e que funciona pelo ibope que se rege pelo predomínio da audiência Ao mesmo tempo em que a mídia produz esse esvazia mento pela estabilização dos percursos por essa imobili zação censura pelo ibope nela também o político não tem lugar próprio Há atualmente um silenciamento do discurso político que desliza para o discurso empresarial neoliberal em que tudo é igual a tudo o político o empresarial o jurídico etc Nesse sentido se se pode dizer que a mídia é lugar de interpretação ela rege a interpretação para imobilizála Voltemos à questão da informatização Com ela a exterioridade se afigura como exterioridade absoluta de um conhecimento mítico descolada de qualquer memória histórica ou cultural e encontrando uma formulação ade quada em uma língua universal lógicomatemática ela também sem memória M Pêcheux e F Gadet 1981 A língua com falha a da memória histórica embora limitada em seus meios não o é em seu funcionamento produzindo o possível A metálica a que não falha e que se apresenta como ilimitada em sua extensão só produz o mesmo em sua variação em suas combinatórias Ora as formas lingüís ticas não são estruturas segundo a ordem do lógicomate 16 m1tlco Elas são caazes de deslocamento de transgres 110 s de reorganizaçrÕes Por isso são capazes de política O gesto de interçxetação fora da história não é formu httr o é fórmula n3o é resignificação é rearranjo Isto thlO quer dizer que rl ão haja produção de autoria Há Mas clr1 outra qualidade de outra natureza Porque a natureza cl1 materialidade da memória é outra E como sabemos 1111 discurso distints materialidades sempre determinam tll renças nos processos de significação A textualidade certamente tem a ver com essas diferen h I qualidades de rn emória E se assim é a própria forma d1 autoria difere Co m efeito consideramos que há formas lllRtóricas da funçãoautor diferentes umas das outras Não porque a cronologia seja constitutiva mas porque a relação do sujeito com a lirlguagem pode se transformar Nessas e ondições que acalJamos de descrever a da memória hl tórica interdiscur siva e a da memória metálica informa ll1oda isso se dá A informatização a prática da escrita d textos no compvtador transforma efetivamente a rela t o do autor com sua escrita em função da mudança da materialidade da memória discursiva algoritmizada nesse 1 l SO j Creio estar nessa questão da informatização e da memória metálica sem Oterior um dos pontoô de dificuldade do projeto da AAD 69 proposto por M Pêcheux a impossilJilidade de se construir um dispositivo informatizado que pudesse especificar propriedades discursivas lingüísticohistóricas ideo 16glcas a partir de umJ totalidade de textos e que levassem a uma análise fechada representando uma memória Na análise de discurso é outra a relação da análise corri o fato discursivo e uma das suas particularidades é poder trabalhar a dispersão e o equívoco como veremos no capítulo Dispo sitivos da interpretação mais adiante O trabalho com a dispersão e o equívoco não prescinde da relação com a exterioridade Desse modo como pela informatização se representar a memória de um discurso sem esvaziar o acontecimento Eis a questão 17 Assim também com relação à textualização podemos dizer que há uma incompletude Não porque o texto como dissemos constituído pelas relações de sentidos sempre deriva de outros e aponta para outros mas porque pode ser efeito de diferentes naturezas de memória No caso que estivemos considerando os textos possíveis quando se trata da memória histórica e aqueles possíveis quando se trata da memória mtálica certamente não são os mesmos Uns se ligam à exposição à história os outros à competên cia técnica A funçãoautor também não é a mesma nos dois casos e acreditamos que atualmente estamos num processo agudo de mudança na forma da autoria tendo isto tudo a ver com a distinta materialidade das memórias E com os modos de interpretação Todas essas considerações apontam para a incomple tude porque são várias as linguagens possíveis porque a linguagem se liga necessariamente ao silêncio porque o sentido é uma questão aberta porque o texto é multidire cional enquanto espaço simbólico No início falamos da importância da ligação entre silêncio incompletude e interpretação Falemos agora des ta última Comecemos por afirmar que a interpretação é um gesto ou seja é um ato no nível simbólico Pêcheux 1969 Sem esquecer que a palavra gesto na perspectiva discursiva serve justamente para deslocar a noção de ato da perspectiva pragmática sem no entanto desconsiderála O gesto da interpretação se dá porque o espaço sim bólico é marcado pela incompletude pela relação com o silêncio A interpretação é o vestígio do possível É o lugar próprio da ideologia e é materializada pela história Esta finalmente é uma característica importante da interpretação Ela sempre se dá de algum lugar da história 18 e da sociedade e tem uma direção que é o que chamamos de política Desse modo sempre é possível apreender a textualização do político no gesto de interpretação Uma via de acesso a questões importantes da interpre tação foi para mim a reflexão sobre a leitura A partir de um conjunto de trabalhos em que eu explorava noções como a de leitor a de autor a de texto e sobretudo a de discurso a de sujeito a de história e a de ideologia pude formular pontos básicos sobre a relação do sujeito com os sentidos e também estabelecer mais claramente a contri buição da análise de discurso para a compreensão dessa relação Alguns textos de M Pêcheux Ler o arquivo hoje 1994 Discurso Estrutura ou acontecimento 1991 Re flexões para uma teoria geral da ideologia 1995 foram pontos de partida para que eu elaborasse de forma mais conseqüente a noção de interpretação Mais do que isso a partir dessa noção estabeleci para a análise de discurso à qual me filio um quadro de referência teórica em que tanto os procedimentos analíticos como a metodologia de análise sofrem um deslocamento fundamental É esse des locamento que procuro mostrar neste livro Oi ecos desse deslocamento podem ser vistos em vários resultados Para ilustrar essas conseqüências citarei o trabalho final de uma aluna apresentado por ela em um curso que ministrei sobre interpretação Trabalhando no campo da fonoaudiologia Andrea B Sobrino 1994 ins creve seu trabalho na perspectiva discursiva que proponho e critica a maneira como a conduta clínica em fonoaudio logia assentase sobre um paradoxo tanto o discurso patológico em situação com o próprio paciente como o discurso sobre a doença em situação de entrevista já estavam preestabelecidos pelo clínico trabalhase com a linguagem ao mesmo tempo em que tudo já parece 19 estar dito Uma vez transparente dizer o fato significava o próprio fato e muito pouco restava ao clínico senão o papel de constatar sua história Constituíase dessa forma uma interdição à interpretação Sem dúvida a concepção de linguagem em ação que deriva da pragmática apaga o espaço da interpretação o dizer é o próprio fato Filiandose ao quàdro teórico e metodológico que te nho procurado estabelecer com meu trabalho sobre a interpretação Andrea idem faz considerações sobre o que seria um outro papel do clínico ouvindo o pacien te seu posto de observação é deslocado do lugar comum para um outro lugar a leitura da cena clínica se modifica Esta outra leitura filiase a uma concepção onde a lingua gem é necessariamente opaca e incompleta porque não há sentido em si A linguagem é um sistema de relações de sentidos onde a princípio todos os sentidos são possíveis ao mesmo tempo em que sua materialidade impede que o sentido seja qualquer um Nesta proposta de um outro papel para o clínico a este é conferido um papel de fato o papel de interpretar isto é dizer o dito De interdição a interpretação passa a ser exigência interpretação en quanto gesto élínico que desloca sentidos que vai através da materialidade discursiva desconstruindo os efeitos do já dito em direção a uma outra significação ainda inédita ao olhar do clínico Poderíamos dizer o mesmo do professor na escola dos pais com os filhos e assim por diante Efetivamente no momento em que se assume a incom pletude da linguagem sua materialidade discursiva o gesto de interpretação passa a ser visto como uma relação necessária embora na maior parte das vezes negada pelo sujeito e que intervém decisivamente na relação do sujeito com o mundo natural e social mesmo que ele não saiba 20 Este livro procura tratar disso ou seja da necessidade da interpretação em não importa que relação significativa em qualquer forma de discurso os lugares da interpretação sua forma sua natureza seu funcionamento Partimos do princípio de que há sempre interpretação Não há sentido sem interpretação Estabilizada ou não mas sempre interpretação Essa afirmação é a negação do princípio da literalidade Vejamos como isso pode ser compreendido Segundo M Pêcheux 1975 a metáfora está na base da significação Metáfora aqui é entendida como efeito de uma relação significante Lacan 1966 uma palavra por outra Desse modo dirá Pêcheux uma palavra uma proposição não têm um sentido que lhes é próprio preso à sua literalidade e nem sentidos deriváveis a partir dessa literalidade O senti do é sempre uma palavra uma proposição por outra e essa superposição essa transferência metaphora pela qual elementos significantes passam a se confrontar de modo que se revestem de um sentido não poderia ser predeter minada por propriedades intrínsecas eu diria da língua Isso seria admitir continua Pêcheux idem que os elemen tos significantes já estão enquanto tais dotados de sentido Ora os sentidos só existem nas relações de metáfora dos quais crta formação discursiva vem a ser o lugar mais ou menos provisório as palavras expressões proposições recebem seus sentidos das formações discursivas nas quais se inscrevem A formação discursiva se constitui na relação com o interdiscurso a memória do dizer representando no dizer as formações ideológicas Ou seja o lugar do sentido lugar da metáfora é função da interpretação espaço da ideologia Seria interessante observar aqui que nessa conjuntura teórica em que estou considerando essa questão o político é o fato de que o sentido é sempre dividido tendo uma 21 direção que se especifica na história pelo mecanismo ideológico de sua constituição Aí estão ligadas três noções o político o histórico e o ideológico não definidos tal como o fazem as ciências sociais e humanas mas discursi vamente Se como tenho dito com insistência ao significar o sujeito se significa o gesto de interpretação é o que perceptível ou não para o sujeito e ou para seus interlocu tores decide a direção dos sentidos decidindo assim sobre sua do sujeito direção Certamente a vida aí se põe em questão Porque o espaço da interpretação é o espaço do possível da falha do efeito metafórico do equívoco em suma do trabalho da história e do significante em outras palavras do trabalho do sujeito A partir dessas reflexões podemos compreender me lhor a análise de discurso da Escola Francesa cuja filiação teórica principal se inicia nos anos 70 com M Pêcheux como ocupandose da questão do sentido instituindo as sim o que em nossos dias se tem chamado semântica discursiva teoria do discurso a que se ocupa da determi nação histórica dos processos de significação 22 2 ENTREMEIO E DISCURSO l Se as ciências se constituem pressupondo uma certa noção de linguagem e de sujeito é na transformação dessas noções que também está o deslocamento de seus delas limites e conseqüentemente de suas relações No caso específico da análise de discurso AD que tratamos como uma disciplina que se faz no entremeio esse deslocamento resulta sobretudo do trabalho produzi do sobre a noção de ideologia Uma disciplina de entremeio é uma disciplina não positiva ou seja ela não acumula conhecimentos mera mente pois discute seus pressupostos continuamente Essas são disciplinas que se configuram em sua especi ficidade nos anos 60 fundamentalmente Ao falarmos da análise de discurso e de seu modo de constituição estare mos ar representando o processo de construção dessas disciplinas em geral O fato delas não acumularem positi vamente é parte da forma de sua estruturação elas se fazem no espaço indistinto das relações entre disciplinas relações estas que não são quaisquer umas mas que têm sua especificidade como veremos a seguir Tomamos a análise de discurso para falar desta questão porque a noção de discurso tal como ela se especifica nos anos 60 é crucial para este estado de coisas nas ciências humanas e sociais A AD se faz na contradição da relação entre as outras De início entre no interior das ciências 23 da linguagem as tendências formalista gerativismo so ciologista sócio etnolingüística e da fala teorias da enun ciação conversacional Ela não se apresenta no entanto como uma quarta tendência mas se constitui no lugar produzido pela relação contraditória entre as três existentes Da mesma forma se pensamos a relação entre discipli nas como a língüística as ciências das formações sociais e a análise de discurso é essa mesma configuração teórica de que estamos falando que vemos se apresentar a análise de discurso se faz na contradição da relação entre as outras Deste modo não se especifica claramente um lugar no reconhecimento das disciplinas Essas formas de disciplinas que chamo de entremeio não são a meu ver interdisciplinares Elas não se formam entre disciplinas mas nas suas contradições E aí está sua particularidade A interdisciplinaridade dá idéia de instrumentalização de uma disciplina pela outra ainda que na bidirecionalida de Não é o caso das disciplias de entremeio como a análise de discurso Não é na instrumentalização mas como dissemos em um campo de contradição que ela se forma aproveitando diria eu a outra disciplina ao revés Considero inadequado falar da AD como interdiscipli na Essa inadequação já vem do modo como a partir da lingüística se concebem as disciplinas auxiliares essas dis ciplinas se definiriam como acréscimos Ou na melhor das hipóteses disciplinas que se definiriam na relação por exemplo da lingüística com as ciências sociais Não é assim A AD produz um outro lugar de conhecimento com sua especificidade Não é mera aplicação da lingüística sobre as ciências sociais ou viceversa A AD se forma no lugar em que a linguagem tem de ser referida necessaria mente à sua exterioridade para que se apreenda seu funcionamento enquanto processo significativo Nessa re 24 m1ssao o conhecimento da linguagem fica a cargo da lingüística e o da exterioridade a cargo das ciências sociais Como se a AD ficasse no meio como uma interdisciplina beneficiada pela relação da lingüística com as ciências sociais Não é assim Eu diria antes que a AD é uma espécie de antidisciplina uma desdisciplina que vai colo car questões da lingüística no campo de sua constituição interpelandoa pela historicidade que ela apaga do mesmo modo que coloca questões para as ciências sociais em seus fundamentos interrogando a transparência da linguagem sobre a qual elas se assentam A AD trabalha no entremeio fazendo uma ligação mostrando que não há separação estanque entre a lingua gem e sua exterioridade constitutiva Levando a sua crítica até o limite de mostrar que o recorte de constituição dessas disciplinas que constituem essa separação necessária e se constituem nela é o recorte que nega a existência desse outro objeto o discurso e que coloca como base a noção de materialidade seja lingüística seja histórica fazendo aparecer uma outra noção de ideologia possível de expli citação a partir da noção mesma de discurso e que não separa linguagem e sociedade na história Falar em interdisciplinaridade nesse caso seria negar a existência de umaforma de conhecimento específico com um outro objeto que não seria simplesmente o resul tado da relação de um objeto de uma disciplina com outro de outra disciplina Cada forma de conhecimento tem seu objeto Colocar a AD na confluência dos dois objetos seria não reconhecer o que lhe é próprio e desconhecer com isso o sentido da dispersão disciplinar significada aí Sua caracterização como interdisciplinar poderia assim ser sua própria nega ção assim como é a negação da necessidade histórica da reorganização do campo das relações entre as diferentes regiões do saber 25 Procuraremos mostrar como ao trabalhar nesse entre meio de disciplinas a AD coloca uma relação crítica intrín seca por trabalhar justamente a sua contradição Se a lingüística deixa para fora a exterioridade que é objeto das ciências sociais e as ciências sociais deixam para fora a linguagem que é objeto da lingüística a AD coloca em questionamento justamente essa relação excludente trans formando por isso mesmo a própria noção de linguagem em sua autonomia absoluta e a de exterioridade históri coempírica Inscrevendose no campo da reflexão sobre a lingua gem o que a AD questiona é o que é deixado para fora no campo da lingüística o sujeito e a situação A AD vai redefinir isso em função da constituição de seu objeto Por que redefinir Porque a situação tal como ela é trabalhada nas ciências sociais é incompatível com a concepção de linguagem em sua ordem própria Por seu lado a noção de sujeito reaparece sob duas formas o sujeito empírico e o sujeito psicológico formas essas que o colocam na ori gem enquanto onipotente e determinado pelas suas inten ções ora tendo o controle do sistema ora plenamente identificado a ele Em nenhum caso entretanto é pensado em sua relação contraditória com o sistema Um outro ponto em que se condensam as contradições é aquele que se constitui com o que chamamos de a redução da noção de lingüístico isto é o recobrimento produzido por esta noção sobre outras duas da lingua gem e da lingüística É nesse espaço de reduão que a AD trabalha ou seja nesse entremeio o que significa dizer que ela trabalha contra a redução Pensando um lingüístico que não é da lingüística embora pressuponha sua existência Ser crítico a essa redução significa contrariar a reflexão sobre o sujeito nas duas formas de que falamos acima e que assim se representam na lingüística nem o idealismo 26 subjetivista da teoria da enunciação sujeito individual nem o do objetivismo abstrato sujeito universal dos for malistas Recusar esse sujeito ascético o da mente o biológico sujeito falanteouvinte ideal sem história como também não se iludir com o individualismo subjetivista que exclui igualmente o histórico Nessa mesma direção e agora pensando a contrapar tida do sujeito ou seja o sentido estão os que defendem que o sentido pode ser qualquer um ou os que propõem o sentido literal Ambas as posições se inscrevem no mes mo lugar como a contraparte da mesma coisa a negação da história O sentido para a AD não está já fixado a priori como essência das palavras nem tampouco pode ser qualquer um há a determinação histórica Ainda um entre meio Por seu lado as teorias do texto se nutrem do subpro duto dessas reduções assim como a sociolingüística se coloca na correlação da linguagem e da sociedade admi nistrando o social sujeito e situação no interior dessa redução do lingüístico O social para a AD não é correlato ele é constitutivo Isto é não há uma correlação entre a estrutura da língua e a da sociedade pois o que há é uma construção conjunta do social e do lingüístico Melhor ainda definese o discurso como um objeto social cuja especificidade está em que sua materialidade é lingüística A autonomia do lingüístico é para o analista de discurso apenas relativa produto de contradição e não absoluta como para o lingüista Ao introduzir a noção de sujeito e de situação a AD as transforma porque trabalha o descentramento do sujeito como origem As teorias que mencionamos acima ao invés de lidarem com as teorias do sujeito são vítimas delas e da ilusão do sujeito como centro um sujeito como origem já lá já produzido 27 Com efeito ao mesmo tempo em que introduz estas noções a AD as transforma tal como elas existem nas ciências sociais que desconhecem por seu lado a relação constitutiva da linguagem com o social É nessa relação com a exterioridade que esta ganha existência para a AD Sem esquecer o entremeio e a contradição o mundo existe mas no discurso ele é apreen dido trabalhado pela linguagem Destacase aqui a cons trução discursiva do referente tratase então do mundo para e não do mundo em si A AD se interessa pela linguagem tomada como práti ca mediação trabalho simbólico e não instrumento de comunicação É ação que transforma que constitui identi dades Ao falar ao significar eu me significo Aí retorna a noção de ideologia junto à idéia de movimento Do ponto de vista discursivo sujeito e sentido não podem ser tratados como já existentes em si como a priori pois é pelo efeito ideológico elementar que funciona como se eles já estives sem sempre lá É a AD que vai arregimentar através da noção de discurso essa forma de conhecimento em que se inscreve na relação do mundo com a linguagem a noção de ideoTo gia constitutiva dessa relação ou melhor como condição para essa relação Não há relação termoatermo entre as coisas e a linguagem São ordens diferentes a do mundo e a da linguagem Incompatíveis em suas naturezas próprias A possibilidade mesma da relação mundolinguagem se assenta na ideologia Por outro lado pela noção de ideolo gia pela idéia de prática e de mediação introduzse a idéia da incompletude da linguagem da falha E por aí o lugar do possível Se linguagem e ideologia fossem estruturas fechadas acabadas não haveria sujeito não haveria sentido A nível da língua como sistema absolutamente autô nomo o funcionamento só nos permitiria atingir o repetível 28 formal ou seja nesse nível só poderíamos explicitar as regularidades que comandam formalmente o funciona mento da linguagem as sistematicidades sintáticas morfo fonológicas Para compreendermos o funcionamento do discurso isto é para explicitarmos as suas regularidades é preciso fazer intervir a relação com a exterioridade ou seja com preendermos a sua historicidade pois o repetível a nível do discurso é histórico e não formal A questão do sujeito e do sentido na linguagem é uma questão que faz intervir a filosofia e as ciências das forma ções sociais sendo a questão do simbólico uma questão aberta uma questão de interpretação Em suma podemos dizer que a regularidade na AD é função da relação contraditória da linguagem com a exte rioridade Não partimos como na análise de conteúdo da exterioridade para o texto ao contrário procuramos conhe cer esta exterioridade pela maneira como os sentidos se trabalham no texto em sua discursividade É afinal esta noção de exterioridade que ao se especificar na AD transforma a noção de linguagem pensando sua forma material deslocando também a própria noção de social de históricp de ideológico tal como estas noções estão defi nidas no domínio das ciências humanas e sociais 2 Vejamos esses deslocamentos produzidos pela pers pectiva discursiva uma vez que essas noções não são aí tomadas como tal como se se fizesse apenas uma transfe rência Mais do que isso ao serem referidas à AD elas 2 o estabelecimento histórico de diferentes regiões disciplinares e sobretudo a necessidade de sua reorganização manifesta justamente a abertura do sim bólico mesmo porque a questão inscrita nesses objetos do saber de qualquer uma das ciências humanas e sociais é a questão da interpretação 29 mudam de terreno de configuração transformandose substancialmente em suas concepções e nas conseqüên cias que a partir daí produzem Quanto ao social não são os traços sociológicos empí ricos classe social idade sexo profissão mas as forma ções imaginárias que se constituem a partir das relações sociais que funcionam no discurso a imagem que se faz de um operário de um presidente de um pai etc Há em toda língua mecanismos de projeção para que se constitua essa relação entre a situação sociologicamente descritível e a posição dos sujeitos discursivamente significativa Q uanto ao ideológico é aí que melhor podemos apre ciar a diferença entre a AD e a análise de conteúdo método clássico de análise de linguagem que trata dos conteúdos da linguagem dos conteúdos da ideologia Na AD se trabalha com os processos de constituição da lingua gem e da ideologia e não com seus conteúdos Na pers pectiva da AD a ideologia não é x mas o mecanismo de produzir x No espaço que vai da constituição dos senti dos o interdiscurso à sua formulação intradiscurso inter vêm a ideologia e os efeitos imaginários Expliquemonos Há uma injunção à interpretação Diante de qualquer objeto simbólico x somos instados a interpretar o que x quer dizer Nesse movimento da interpretação aparecenos como conteúdo já lá como evidência o sentido desse x Ao se dizer se interpreta e a interpretação tem sua espes sura sua máterialidade mas negase no entanto a interpre tação e suas condições no momento mesmo em que ela se dá e se tem a impressão do sentido que se reconhece já lá A significância é no entanto um movimento contínuo determinado pela materialidade da língua e da história Necessariamente determinado por sua exterioridade todo discurso remete a um outro discurso presente nele por sua ausência necessária Há o primado do interdiscurso 30 a memória do dizer de tal modo que os sentidos são sempre referidos a outros sentidos e é daí que eles tiram sua identidade A interpretação é sempre regida por condições de produção específicas que no entanto aparecem como universais e eternas É a ideologia que produz o efeito de evidência e da unidade sustentando sobre o já dito os sentidos institucionalizados admitidos como naturais Há uma parte do dizer inacessível ao sujeito e que fala em sua fala Mais ainda o sujeito toma como suas as palavras da voz anônima produzida pelo interdiscurso a memória discursiva Pela ideologia se naturaliza assim o que é produzido pela história há transposição de certas formas materiais em outras isto é há simulação e não ocultação de conteú dos em que são construídas transparências como se a linguagem não tivesse sua materialidade sua opacidade para serem interpretadas por determinações históricas que aparecem como evidências empíricas Redefinindo assim a ideologia discursivamente pode mos dizer que não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia A ideologia por sua vez é interpretação de sentido em certa direção direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginá rios A ideologia não é pois ocultação mas função da relaçãÓ necessária entre a linguagem e o mundo Linguagem e mundo se refletem no sentido da refração do efeito imaginário necessário de um sobre o outro Na verdade é o efeito da separação e da relação necessária mostrada nesse mesmo lugar Há uma contradição entre mundo e linguagem e a ideologia é trabalho desta contradição Daí a necessidade de distinguirmos entre a forma abstrata com sua transparên cia e o efeito de literalidade e a forma material que é histórica com sua opacidade e seus equívocos Resta pois observar o deslocamento que propomos para não separar forma e conteúdo Trabalhamos a forma 31 material em que o conteúdo se inscreve e não a forma abstrata a que perpetuava a divisão forma lingüística e conteúdo ciências sociais A AD desloca a análise de conteúdo como instrumento clássico de estudo da lingua gem para as ciências sociais colocandose em seu lugar com a noção de discurso definido como efeito de sentidos entre locutores Essa definição traz para a linguagem a questão da sua forma material que é lingüística e histórica3 A noção de imaginário ganha também sua especifici dade em AD Como dissemos não há relação direta entre mundo e linguagem entre palavra e coisa A relação não é direta mas funciona como se fosse por causa do imaginário Ou como diz Sercovich 1977 a dimensão imaginária de um discurso é sua capacidade para a remissão de forma direta à realidade Daí seu efeito de evidência sua ilusão referen cial Por outro lado a transformação do signo em imagem resulta justamente da perda do seu significado ou seja do seu apagamento enquanto unidade cultural ou histórica o que produz sua transparênciaDito de outra forma se se tira a história a palavra vira imagem pura Essa relação com a história mostra a eficácia do imaginário capaz de deter minar transformações nas relações sociais e de constituir práticas No entanto em seu funcionamento ideológico as palavras se apresentam com sua transparência que pode ríamos atravessar para atingir os conteúdos J Não se está negando aqui o corte saussureano necessário produzido pela fundação da lingüística e que produz o lingüístico para o lingüista Nem se está propondo que se some simplesmente o lingüístico ao histórico ao socal produzindose um objeto total Ao contrário reconhecendose a 1mposs1b1 lídade dessa soma a proposta é uma mudança de terreno teórico que não pretenda justamente tapar a falta transpor o impossível da língua e o impos sível da história mas trabalhar essa impossibilidade 32 É essa transparência que a AD põe em causa ao considerar o imaginário como produtor desse efeito e restituir como diz M Pêcheux 1982 a opacidade do texto ao olhar do leitor Trabalhar então a ilusão do sujeito como origem e a da transparência da linguagem e dos sentidos Repor assim como trabalho a própria interpretação o que resulta em compreender de outra maneira também a histó ria não como sucessão de fatos com sentidos já dados dispostos em seqüência cronológica mas como fatos que reclamam sentidos P Henry 1994 cuja materialidade não é possível de ser apreendida em si mas no discurso Quan do afirmamos que há uma determinação histórica dos sentidos não estamos pensando a história como evolução e cronologia o que interessa não são as datas mas os modos como os sentidos são produzidos e circulam Tudo isso que acabamos de dizer se inscreve na crítica que a perspectiva discursiva permite em relação ao que temos chamado conteudismo 1990 consideraremse os conteúdos das palavras e não como deve ser o funciona mento do discurso na produção dos sentidos podendose assim explicitar o mecanismo ideológico que o sustenta A isto chamamos compreensão ou seja a explicitação do modo como o discurso produz sentidos No século XIX as ciências humanas se constituem na ilusão da transparência da linguagem e na do sujeito como origem 4 Já não é assim Mas a fala da interdisciplinaridade 4 Cf Orlandi 1990 onde reíletimos sobre a etimologia da palavra rapport em francês que até o século XVIII se distingue mal de relation podendo assim o relato ser tanto científico rapport como ficção relato narrativa Mais tarde haverá separação estrita entre ambos sendo o relatório destinado à ciência e o relato narrativa à literatura mantendo rigorosamente separados os dizeres da verdade e os da imaginação A reorganização das disciplinas mostra a meu ver a necessidade de se rediscutir esses limites já que na relação com os sentidos não há transparência e intervêm o imaginário e a opacidade 33 embora reconheça um outro estado de coisas uma outra territorialização para o exercício desse saber mantém essa ilusão procurando ultrapassála meramente pelo exercício da relação entre as disciplinas Uma noção como a de discurso que devolve à linguagem sua espessura material e ao sujeito sua contradição colocase como historicamen te necessária para o deslocamento dessas relações e apon ta para uma nova organização novos recortes novos desenhos de formas de conhecimento se não se pensam mais essas regiões disciplinares com seus conteúdos mas um novo jogo de relações do saber sem esses cen tros que o determinem Isto está silenciado no discurso da interdisciplinaridade O silenciamento no entanto sempre se acompanha de um movimento de sentidos Assim a noção de interdisci plinaridade podese apresentar como o sintoma da disper são do saber como necessidade histórica Esta é mais uma manifestação da abertura do simbólico A descontinuidade do saber as ciências segmentam recortam seus objetos se confronta com a continuidade empírica do mundo A relação entre a descontinuidade do saber e a continuidade do mundo se faz pelo simbólico isto é pela linguagem e esta é sempre sujeita à interpreta ção Daí a dispersão necessária do conhecimento Esta dispersão corresponde por sua vez à forma histórica de nossa sociedade dividida e de nosso sujeito disperso Faz parte da constituição da linguagem e do saber aspirar à unidade Essa é uma nossa necessidade mas que se confronta com nossa dispersão real Daí que há duas posições que se configuram em relação à questão da interdisciplinaridade em nosso con texto histórico atual a a dos que reconhecem a necessida de de se pensar os recortes como não estanques nem naturais e procuram praticar a transformação do desenho 34 das disciplinas aprofundando as contradições que derivam desses seus recortes e b a dos que se iludem com a possibilidade do objeto integral e do saber total como se a fala da interdisciplinaridade pudesse por si ultrapassar a história e não fosse ao contrário parte dela5 5 Desse modo preferimos também deixar em aberto os sentidos possíveis para as propostas da institucionalização da interdisciplinaridade ou seja projetos de cursos interdisciplinares a nível de pósgraduação Porque como todo fato este também reclama sentidos já que como todo acontecimento ele é perfeitamente transparente e profundamente opaco M Pêcheux 1990 35 3 DISCURSO FATO DADO EXTERIORIDADE Um deslocamento fundamental no estudo da lingua gem permite passar do dado para o fato Este deslocamen to por sua vez nos coloca no campo do acontecimento lingüístico e do funcionamento discursivo Sem comentar mais extensamente esta distinção tal como ela se explicita para Milner 1989 podemos dizer que para a análise de discurso este deslocamento significa a possibilidade de se trabalhar o processo de produção da linguagem e não apenas seus produtos Se pensamos agora a importância desse modo de se considerarem os procedimentos da análise discursiva de vemos lembrar que a epistemologia que interessa à análise de discurso não se alinha no paradigma da epistemologia positivista mas no da histórica e em relação a esta no da descontinuidade suprimindo com efeito a separação en tre objetosujeito exterioridadeinterioridade concre toabstrato origemfiliação evoluçãoprodução etc E desse modo que a concepção de fato de linguagem na análise de discurso traz para a reflexão a questão da historicidade É no domínio desta questão da historicidade que vamos inscrever esta rápida reflexão sobre a questão dos dados Restanos lembrar que a análise de discurso trabalha com a materialidade da linguagem considerandoa em seu 36 duplo aspecto o lingüístico e o histórico enquanto indis sociáveis no processo de produção do sujeito do discurso e dos sentidos que o significam O que me permite dizer que o sujeito é um lugar de significação historicamente constituído Na realidade estou trabalhando aqui sem explicitar uma distinção saussureana a que distingue formasubstân cia distinção esta que compõe o quadro de referência de L Hjelmslev 1971 que vai desenvolver esta separação dotandoa de atribuições teóricas particularizantes o que nos permite passar para uma outra relação desta vez entre forma abstrata forma material e substância Não se trata no entanto da mera utilização mas da leitura dessa distinção em um domínio conceptual outro o do materialismo histórico ao qual se filia a análise de discurso da Escola Francesa Como diz D Lecourt 1978 em relação a Bachelard tratase de um tipo de leitura a leitura materialista e é preciso saber que esta leitura tem a vantagem de dar atualidade à epistemologia bachelardia na e de preservála de todos esses vampiros espiritualis tas e positivistas contra os quais ela se constituiu laboriosamente É desse neopositivismo que queremos preservar a forma lingüística quando a lemos na análise de discurso sob o modo da forma material Percorrendo o caminho que vai redefinir o político pela sua dimensão linguageira a aná li s de discurso adquire seu sentido pleno concebendo por outro lado a própria língua no processo históricosocial e colocando o sujeito e o sentido como partes desse processo Mas há um certo sentido em que se pode dizer que existem dados em análise de discurso O que seriam eles São os objetos de explicitação de que se serve a teoria discursiva para se construir como tal os dados são os discursos Os discursos por sua vez não são objetos 37 empíricos são efeitos de sentidos entre locutores sendo análise e teoria inseparáveis Como diz D Maldidier 1989 a máquina discursiva M Pêcheux utilizou esta expressão para designar seu dispositivo de 1969 estabelecia a teoria de um objeto novo a relação discursocorpus contribuía para instituir um objeto novo irredutível ao enunciado longo ou seguido dos lingüistas assim como também não redutível ao texto literário ou não da tradição O discurso sempre construído a partir de hipóteses históricosociais não pode se confun dir nem com a evidência dos dados empíricos nem com o texto Quanto ao fechamento do corpus discursivo ela a máquina discursiva não reproduz o fechamento estrutural do texto senão para tentar apreender a relação com um exterior Este discurso representava no campo da lingüísti ca um verdadeiro deslocamento Este objeto novo constrói uma nova disciplina a análise de discurso que vai constituir um acontecimento na his tória das práticas da lingüística e da história dos questiona mentos dos marxistas sobre a linguagem D Maldidier idem É assim que o objeto discurso é pensado ao mesmo tempo que o dispositivo para a análise dirá ainda D Maldidier ibidem Com efeito para a análise de discurso não existem dados enquanto tal uma vez que eles resultam já de uma construção de um gesto teórico Aí entra a questão da interpretação o que torna esta discussão mais interessante A questão da interpretação por sua vez leva à questão do real e da exterioridade Começo por dizer que a exterioridade não tem a objetividade empírica do fora da linguagem pois na análise de discurso a exterioridade é suprimida para intervir como tal na textualidade É isto que chamamos discursivi dadeTratase portanto de pensar a exterioridade discursi 38 va É no discurso que o homem produz a realidade com a qual ele está em relação A noção que trabalha a exterioridade discursiva ou exterioridade constitutiva é a de interdiscurso O que define o interdiscurso é a sua objetividade material contra ditória objetividade material essa que como diz M Pê cheux 1988 reside no fato de que algo fala sempre antes em outro lugar e independentemente isto é sob a domi nação do complexo das formações ideológicas É isto que fornece a cada sujeito a sua realidade enquanto sistema de evidências e de significações percebidasaceitasexperi mentadas Aí se explicita o processo de constituição do discurso a memória o domínio do saber os outros dizeres já ditos ou possíveis que garantem a formulação presenti ficação do dizer sua sustentação Garantia de legibilidade e de interpretação para que nossas palavras façam um sentido é preciso que já signifiquem Essa impessoalidade do sentido sua impressão referencial resulta do efeito de exterioridade o sentido lá A objetividade material contra ditória O efeito de exterioridade por sua vez é que compõe ou torna possível a nosso ver a relação discursiva realrea lidade Sendo o real função das determinações históricas que constituem as condições de produção materiais e a realidade a relação imaginária dos sujeitos com essas de terminações tal como elas se apresentam no discurso ou seja num processo de significação para o sujeito constituí do ideologicamente pelos esquecimentos a o esqueci mento número 1 o que resulta na sensação do sujeito como origem e b o esquecimento número 2 o que produz a impressão da realidade do pensamento cf Pêcheux 1975 Por aí é que entendemos numa noção discursiva de ideologia o fato de que ela não é consciente ela é efeito 39 1 I da relação do sujeito com a língua e com a história na sua necessidade conjunta na sua materialidade Ou seja só podemos ter língua e história conjugadas pelo efeito ideo lógico pela consideração de sua materialidade específica ou seja pela referência ao interdiscurso Em outras pala vras o discurso é essa conjugação necessária da língua com a história produzindo a impressão de realidade O gesto da formulação é o gesto ideológico mínimo o que consu ma o imaginário no sujeito a sua relação imaginária com a realidade em que o assujeitamento se realiza precisa mente no sujeito sob a forma da autonomia M Pêcheux 1988 A necessidade de compreender isto cientificamente produz nos anos sessenta um movimento de reflexão em torno da noção de leiturainterpretação Para compreender este movimento é preciso com preender o que passa a significar o gesto de leitura ou em outras palavras o que é ler nessa conjuntura teórica A leitura ganha sentidos que apontam para a formação de um novo espaço disciplinar particular no conjunto das disciplinas praticadas no domínio das ciências humanas e sociais Este espaço a nosso ver antecipa a necessidade e a localização da análise de discurso na confluência do que não é da lingüística e do que não é específico às ciências das formações sociais embora na necessidade de sua interrelação No interior do estruturalismo as reflexões para um conjunto de autores se sustentam na elaboração da expli citação da natureza da leitura São autores que ao colocar em suspenso a noção de leitura estão ao mesmo tempo produzindo um deslocamento em relação aos paradigmas científicos e uma refração na sua filiação aos autores que lêem Vejamos alguns deles 40 Althusser na retomada de Marx ler O capitaD ou Lacan na leitura de Freud mostram que a leitura é na realidade a construção de um dispositivo teórico uma teoria que tem como efeito aprofundar radicalizar numa postura que separa revisionistas e nãorevisionistas o dito no texto resignificado interpretado Em Barthes a leitura aparece fundamentalmente como uma reescritura E em Foucault a leitura é a arqueologia passagem do documento a monumento Esses movimentos da ciência que recolocam a questão da leitura mostrando a sua nãotransparência mostram também que a relação intertextualidade entre os diferen tes autores que vão constituindo a ciência produz a neces sidade de uma resignificação apresentandose a leitura como aparato teórico Isto traz à consideração uma reavaliação da noção de interpretação Daí decorrem as implicações disciplinares variadas da ordem da interpretação na delimitação das disciplinas científicas na história nova na psicologia na filosofia na epistemologia história da ciência além de uma nova necessidade de compreender a própria noção de arquivo que torna complexa a relação com o cor pus Daí também aparece um espaço determinado que mostra a necessidade de uma região específica para uma disciplina da interpretação que se definisse nessa nova base Esta disciplina é a análise de discurso A análise de discurso confrontase com a noção tradi cional hermenêutica da interpretação e produz um deslo camento no que é ler o arquivo hoje M Pêcheux 1982 Ela vai recusar o conteudismo a separação formaconteú do e insistindo sobre o fato de que o sentido é produzido vai restituir a opacidade a espessura semântica aos objetos simbólicos a compreensão na análise de discurso é polí 41 tica Ou como diz M Pêcheux 1982b a análise de discurso se confronta com a necessidade de abrir conjun tamente a problemática do simbólico e do político Ela desterritorializa assim a noção de leitura pela noção mes ma de discurso como efeito de sentidos entre locutores Ao mesmo tempo a análise de discurso desloca a noção de instrumento para a ciência e para a linguagem o que resulta em outra compreensão do que se tem tratado como interdisciplinaridade referida à análise de discurso Entre o espaço da lingüística ciência positiva da linguagem e o das ciências das formações sociais ciências positivas da sociedade como vimos não há uma relação comple mentar mas contraditória A análise de discurso se constitui assim nesse espaço nesse entremeio como diria Pêcheux trabalhando suas contradições Com efeito a análise de discurso não vem completar a relação entre a lingüística e as ciências das formações sociais ela não costura o entremeio entre língua e história ela trabalha isso sim as contradições emergentes da pró pria constituição desses dois espaços disciplinares ela trabalha a necessidade que relaciona essas disciplinas a lingüística e asciências sociais enquanto territórios distin tos Por isso como dissemos não se pode inscrever a análise de discurso no campo da interdisciplinaridade tal como esta vem sendo definida Desse modo porque estabelece essa relação no espa ço das contradições a análise de discurso não herda dessas ciências positivas a noção de dado Ao contrário a própria existência da análise de discurso nesse entremeio atesta mais essa contradição a que regula a relação entre proces sos e produtos criando a ilusão de que é possível separálos e trabalhar apenas os produtos os dados em si autono mamente Ela vai contestar que pela observação dos dados empíricos se possa atingir diretamente a interpretação de 42 seus sentidos somandose o lingüístico ao social ao histó rico etc Finalmente é importante lembrar que a noção de dado além das determinações teóricas e disciplinares que a configuram tal como acabamos de expor também sofre no campo específico da análise de linguagem uma deter minação histórica que deriva do próprio modo como se pratica a atividade científica Refirome aqui à importância fundamental do Natura lismo no século XIX na construção das formas da científi cidade na observação e classificação de dados sobretudo na atividade de pesquisa de campo no domínio da lingua gem O discurso naturalista principalmente no século XIX tendo no centro a noção de determinação contribui para a produção de uma aparente estabilidade sem equívocos e unívoca sobre a realidade brasileira seja ela natural social ou política d Orlandi 1992 Entre os mecanismos de produção dessa estabilidade estão os responsáveis pela observação científica da nossa fauna da nossa flora de nosso relevo e da nossa língua Entre os efeitos de determinação que constroem a objetividade do nosso país estão os que descrevem as línguas indígenas aqui encontradas e constroem uma fei ção para a língua portuguesa do Brasil O trabalho dos naturalistas é que vai instituir os mode los da coleta dos dados elemento de verificação colhem se os dados da língua como os das plantas e das espécies animais ou seja naturalmente Como resultado dessa atividade constroemse os inventários os bancos de dados Essa é uma marca que fica e que tem administrado a pesquisa de campo da língua no Brasil desde então a sistematicidade é um acervo sem história As línguas brasi 43 leiras e elas são muitas são espécies naturais Como os índios A noção de dado como objeto encontrado natural mente na língua se reforça cientificamente pela sustenta ção em um quadro teórico de referência o do Naturalismo que é universal mas que ganha contornos específicos na nossa história de país colonizado São essas em geral as considerações que temos a fazer sobre a noção de dado Como pudemos ver essa noção não tem um valor operatório positivo porque em análise de discurso não se trabalha com as evidências mas com o processo de produção das evidências O que em última instância significa dizer que a noção de dado é ela própria um efeito ideológico do qual a análise de discurso procura desconstruir a evidência explicitando seus modos de pro dução Para tal como vimos é a própria noção de real e a de interpretação que são colocadas em questão Redefinindo a relação do analista com o dado com a interpretação com o real com a realidade a noção de discurso promove confrontos teóricos que resultam na redefinição do político do histórico da ideologia do social e do lingüístico É finalmente isso que define a necessidade de uma nova disciplina e a instituição de um novo objeto É a noção de discurso afinal que vai tornar possível na análise da linguagem qualquer que seja seu domínio as reflexões sobre o sujeito e a situação Na abertura produzida pela análise de discurso e em especial pela reflexão de M Pêcheux o discurso é uma noção fundadora 44 4 ORDEI E ORGANIZAÇÃO NA LÍNGUA 1 Há uma diferença necessária entre ordem e organiza ção quando se passa a um campo de estudos da linguagem que reconhece a contribuição específica da noção de discurso Essa diferença basicamente separa uma tomada logicista ou sociologista da linguagem ou em outros ter mos empiricista ou idealista de uma perspectiva discursi va ou seja aquela em que se reconhece a materialidade da língua e a da história Começaríamos então por dizer que a ordem para nós não é o ordenamento imposto nem a organização enquan to tal mas a forma material Interessa ao analista não a classificação mas o funcionamento Em nosso caso especialmente no estudo da semântica discursiva o que nos interessa é a ordem da língua enquan to sistema significante material e a da história enquanto materialidade simbólica Reconhecemos desse modo uma refação entre duas ordens a da língua tal como a enuncia mos e a do mundo para o homem sob o modo da ordem institucional social tomada pela história O lugar de obser vação é a ordem do discurso Partese do princípio de que há um real da língua e um real da história e o trabalho do analista é justamente com preender a relação entre essas duas ordens de real Em nossos estudos bem cedo nos ficou claro na medida em que o analista de discurso tem uma postura crítica em relação ao empirismo e a sua contraparte que é o formalismo que não era a organização da língua que nos interessava pensada na lingüística sob o modo da oposição ou da regra mas a sua ordem ordem simbólica ordem do discurso Na análise não é a relação entre por exemplo sujeito e predicado SN e SV que é relevante mas o que essa organização sintática pode nos fazer compreender dos mecanismos de produção de sentidos lingüísticohistóri cos que aí estão funcionando em termos da ordem signi ficante Para nos instalarmos nesse campo da reflexão dois deslocamentos se impõem a a passagem para a forma material b a necessidade de se considerar que a língua significa porque a história intervém o que resulta em pensar que o sentido é uma relação determinada do sujeito com a história Assim o gesto de interpretação é o lugar em que se tem a relação do sujeito com a língua Esta é a marca da subjetivação o traço da relação da língua com a exterio ridade Se a noÇão de estrutura nos permite transpor o limiar do conteudismo ela não nos basta pois nos faz estaciona na idéia de organização de arranjo de combinatória E preciso uma outra noção Esta noção a de materialidade nos leva às fronteiras da língua e nos faz chegar à conside ração da ordem simbólica incluindo nela a história e a ideologia Foi sem dúvida a crítica feita ao conteudismo en quanto perspectiva teórica filosófica que mantinha ape sar do estruturalismo ou justamente por ele a separação estanque entre forma conteúdo que nos abriu a possibi lidade de a de um lado transpor a noção sociologista de ideologia e b pensar não a oposição entre forma e con 46 teúdo mas trabalhar com a noção de forma material que se distingue da forma abstrata e considera ao mesmo tempo forma e conteúdo enquanto materialidade Em termos analíticos isso resulta em dizer que a instân cia de constituição da linguagem precede a da formulação a dos processos de produção determina a dos produtos o fato de linguagem preside a consideração dos dados Mais do que isso a relação entre estrutura e aconteci mento colocando a interpretação como parte irrecusável da relação do homem com a língua e com a história M Pêcheux 1983 não a inscreve no entanto no campo da manipulação da intenção da mera vontade Algo que está aquém e além do homem essa relação não se dá no âmbito de seu controle Essa é uma relação que o constitui enquan to tal Ao dizer que o inconsciente e a ideologia estão mate rialmente ligados M Pêcheux 1975 coloca a necessidade de uma noção o discurso em que isto possa ser considerado instituindo ao mesmo tempo a especificidade do campo teórico estabelecido pela noção de materialida de Se em Milner 1976 a materialidade da língua é a garantia de se ter acesso à sua ordem Pêcheux mostrará a insufiéiência desta postura se não se tiver em conta a materialidade da história para Milner apenas um efeito ideológico Assim procedendo Pêcheux abre um espaço entre o formalismo e o sociologismo duas reduções a meu ver que incidem sobre a língua sobre a sociedade e conseqüentemente sobre o sujeito e o sentido Ultrapas sando desse modo a organização regra e sistematicidade podemos chegar à ordem funcionamento falha da língua e da história equívoco interpretação ao mesmo tempo em que não pensamos a unidade em relação à variedade organização mas como referida à posição do sujeito des centramento Se algo pode nos esclarecer esta postura 47 basta dizermos que ao contrário da completude do sistema abstrato a ordem significante é capaz de equívoco de deslize de falha sem perder seu caráter de unidade de totalidade A ideologia aqui não se define como conjunto de representações nem muito menos como ocultação da realidade Ela é uma prática significativa Necessidade da interpretação a ideologia não é consciente ela é efeito da relação do sujeito com a língua e com a história em sua relação necessária para que se signifique O sujeito por sua vez é lugar historicamente interdiscurso constituído de significação Se a relação com o inconsciente é uma das dimensões do equívoco que constituem o sujeito sua contraparte está em que o equívoco que toca a história a necessidade de interpretação é o que constitui a ideologia O acesso a esse modo do equívoco que é a ideologia pode ser traba lhado pela noção de interpelação constitutiva do sujeito Faz parte do mecanismo elementar da ideologia que é a interpelação do indivíduo em sujeito o apagamento dessa opacidade que é a inscrição da língua na história para que ela signifique o sujeito tem de inserir seu dizer no repetível interdiscurso memória discursiva para que seja interpre tável Esse é também um dos aspectos da incompletude e da abertura do simbólico esse dizer que é uma coisa aberta mas dentro da história No efeito da transparência o sentido aparece como estando lá evidente Nesse domínio discursivo não se está no sujeito psico lógico empiricamente coincidente consigo mesmo O su jeito é uma posição entre outras O modo pelo qual ele se constitui em sujeito ou seja o modo pelo qual ele se constitui enquanto posição não lhe é acessível Esse é o efeito ideológico elementar Correlatamente a linguagem também não é transparente nem o sentido evidente 48 Se de um lado na língua temse a forma empmca pata a forma abstrata pb e a forma material lingüístico histórica ou seja discursiva em relação ao sujeito temse em contrapartida o sujeito empírico sociológico o sujeito abs trato ideal e o que chamamos de a posição sujeito Ao se passar da instância da organização para a da ordem se passa da oposição empíricoabstrato para a instância da forma material em que o sentido não é con teúdo a história não é contexto e o sujeito não é origem de si Expliquemonos o que interessa ao analista de discur so não é a organização forma empírica ou abstrata mas a ordem do discurso forma material em que o sujeito se define pela sua relação com um sistema significante inves tido de sentidos sua corporeidade sua espessura material sua historicidade É o sujeito significante o sujeito histórico material Esse sujeito que se define como posição é um sujeito que se produz entre diferentes discursos numa relação regrada com a memória do dizer o interdiscurso definindose em função de uma formação discursiva na relação com as demais Nessa perspectiva o analista de discurso vai então trabalhar com os movimentos gestos de interpretação do sujeit sua posição na determinação da história tomando o discurso como efeito de sentidos entre locutores São como dissemos duas ordens que lhe interessam a da língua e a da história em sua relação Que constituem em seu conjunto e funcionamento a ordem do discurso Em sua materialidade Para ilustrar essa relação entre organização e ordem e o que isto acarreta para a consideração do sujeito face à linguagem vamos tomar a argumentação Começaríamos por dizer que a argumentação em análi se de discurso é vista no processo histórico em que as posições dos sujeitos são constituídas Desse modo a 49 instância da formulação em que entram as intenções já está determinada pelo jogo das diferentes posições do sujeito em relação às formações discursivas jogo ao qual ele não tem acesso direto Ou seja as filiações ideológicas já estão definidas e o jogo da argumentação não afeta as posições dos sujeitos Em outros termos podemos dizer que no nível da formulação o sujeito já tem sua posição determinada e ele já está sob o efeito da ilusão subjetiva funcionando ao nível imaginário afetado pela vontade da verdade pelas suas intenções pelas evidências do sentido e pela ilusão refe rencial a da literalidade Além disso também os argumentos por exemplo falar a favor dos pobres são produzidos pelos discursos vigen tes em suas relações historicamente politicamente ideo logicamente determinadas Os argumentos derivam das relações de discursos As intenções do sujeito não mudam nada em relação a isso Elas terão no entanto um papel determinante a nível da formulação que funciona pelas projeções imaginárias Em suma nesse nível o analista trabalha com a organi zação Paraatingir o que constitui a ordem significante ele tem que considerar o que esta organização indica em relação ao real seja da língua seja da história Só assim atravessará a instância do imaginário para apreender no funcionamento discursivo o modo de constituição do sujeito e dos sentidos Esta passagem da organização para a ordem nem é direta nem automática e se faz a partir de princípios teóricos fundamentais como a da dispersão do sujeito o da não evidência dos sentidos Daí nossa proposta de se trabalhar com os gestos de interpretação A questão seria então a de compreender que relações de sentidos estão determinando a necessidade desses ges 50 tos de interpretação Que formações discursivas estão aí em jogo Mesmo sem o saber por que o sujeito imprime esta e não aquela direção à argumentação De que natu reza são seus argumentos Essas questões podem constituir um percurso para a análise tomandose então a organização da língua a des crição dessa organização como lugar de passagem possí vel para explicitar mecanismos de funcionamento discursivos que nos levam a compreender fatos da ordem do discurso Nas análises que apresentaremos mais adiante ficará mais clara essa distinção entre ordem e organização De todo modo é pela consideração da forma material em que o simbólico e o histórico se articulam os sentidos se produzindo com ou sem o controle do sujeito que se pode atingir a ordem do discurso 51 l 5 TEXTO E DISCURSO Eu começaria por dizer que o texto é uma peça6 de linguagem uma peça que representa uma unidade signifi cativa Não hesitaria em começar a reflexão partindo de M AK Halliday na enfatização de ser o texto a unidade primeira Para ser texto diz ele 1976 é preciso ter textua lidade A textualidade por sua vez é função da relação do texto consigo mesmo e com a exterioridade Mas embora as inversões que ele propõe o texto precede as sentenças o sentido precede o dizer etc sejam muito a meu gosto a exterioridade não tem em Halliday nem a mesma nature za nem o mesmo estatuto que tem na análise de discurso E Orlandi 1992 Passando pois para a minha filiação teórica específica eu diria que as palavras não significam em si É o texto que significa Quando uma palavra significa é porque ela tem textua lidade ou seja porque a sua interpretação deriva de um discurso que a sustenta que a provê de realidade significa tiva 6 Peça aqui estã mais para peça de teatro que para engenhoca embora a ambigüidade seja produtiva 52 É assim que na compreensão do que é texto podemos entender a relação com o interdiscurso a relação com os sentidos os mesmos e os outros Mas posso chegar mais perto daquilo que é minha proposta na análise da linguagem o texto é um objeto histórico Histórico aí não tem o sentido de ser o texto um documento mas discurso Assim melhor seria dizer o texto é um objeto lingüísticohistórico A partir dessa definição tenho procurado entender o que é o texto para a análise de discurso francesa Acho interessante aproveitar esta oportunidade para explicitar melhor o que é o lingüístico histórico para o analista de discurso Afirmando que seria um erro considerar a análise de discurso tal como ele a concebe simplesmente como o exercício de uma nova lingüística livre dos preconceitos da lingüística tradicional M Pêcheux 1975 dirá que o discurso introduz um descentramento na própria lingüísti ca Esta mudança portanto não reside como ele diz idem num outro modo de abordar seu objeto dentro de novas necessidades impostas pela pesquisa etc A especi ficidade da análise de discurso está em que o objeto a propósito do qual ela produz seu resultado não é um objeto lingüístico mas um objeto sóciohistórico onde o lingüístico intervém como pressuposto Há pois diz ainda ele ibidem um efeito de separaçãoclivagem entre a prática lingüística e a análise de discurso Segundo Pêcheux é pois abuso de linguagem o uso do termo lingüística do discurso para designar de fato uma lingüística dos textos quando ela ultrapassa o domínio da análise da frase muitas vezes recoberta por outro lado pela expressão lingüística da fala A análise concreta de uma situação concreta pressupõe que a materialidade discursiva em uma forma ção ideológica seja concebida como uma articulação de 53 processos Pêcheux ibidem A este respeito Pêcheux remete à observação de P Fiala e C Ridoux 1973 p 45 o texto diríamos o discurso não é um conjunto de enunciados portadores de uma e até mesmo várias signifi cações É antes um processo que se desenvolve de múlti plas formas em determinadas situações sociais Se estas considerações nos colocam já em situação de compreender a natureza do social que é levado em conta na análise de discurso outras observações se impõem a fim de tornar mais preciso esse campo de distinções Essas observações dizem respeito ao fato de que na análise de discurso da Escola Francesa tenho preferido falar não em história mas em historicidade do texto Ao longo de meu trabalho tenho colocado já repetidas vezes que um texto do ponto de vista de sua apresentação empírica é um objeto com começo meio e fim mas que se o considerarmos como discurso reinstalase imediata mente sua incompletude Dito de outra forma o texto visto na perspectiva do discurso não é uma unidade fechada embora como unidade de análise ele possa ser considera do uma unidade inteira pois ele tem relação com outros textos existentes possíveis ou imaginários com suas con dições de produção os sujeitos e a situação com o que chamamos sua exterioridade constitutiva o interdiscurso a memória do dizer História e historicidade A AD é um marco na história das idéias lingüísticas em uma mudança que toca essa distinção entre história e historicidade que estamos propondo para a reflexão No século XIX a noção de história relacionada à língua a atomizava vendo nessa relação uma dimensão temporal expressa na forma da cronologia e da evolução 54 A fundação da lingüística com a noção de língua como sistema já não pode acolher esta concepção de história e tampouco a de língua como seu produto São várias as tentativas de ajuste de adaptação através da elaboração de noções como a pancronia a relação temporal entre diferentes estados do sistema etc mas elas acabam sempre por colocar a história como algo exterior complementar ou em relação de causa e efeito com o sistema lingüístico Com a AD e isto que estamos chamando historicida de a relação passa a ser entendida como constitutiva Desse modo se se pode pensar uma temporalidade essa é uma temporalidade interna ou melhor uma relação com a exterioridade tal como ela se inscreve no próprio texto e não como algo lá fora refletido nele Não se parte da história para o texto avatar da análise de conteúdo se parte do texto enquanto materialidade histórica A tempo ralidade na relação sujeito sentido é a temporalidade do texto Não se trata assim de trabalhar a historicidade refleti da no texto mas a historicidade do texto isto é tratase de compreender como a matéria textual produz sentidos São pois os meandros do texto o seu acontecimento como discurso a sua miseenoeuvre como dizem os franceses ou como podemos dizer o trabalho dos senti dos nele que chamamos historicidade Claro que há uma ligação entre a história lá fora e a historicidade do texto a trama de sentidos nele mas ela não é nem direta nem automática nem de causa e efeito e nem se dá termoatermo É pois preciso admitir que esta relação é mais complexa do que pretendem as teorias da literalidade e que deixam pensar que a análise de discurso que a análise de discurso francesa pratica vê nos textos os conteúdos da história 55 Nesse sentido é que tenho afirmado que entre a evidência empírica e a certeza do cálculo formal há uma região menos visível menos óbvia mas igualmente relevan te que é a da materialidade histórica da linguagem O texto pode ser um bom lugar para se refletir sobre isso Pela análise da historicidade do texto isto é do seu modo de produzir sentidos podemos falar que um texto pode ser e na maioria das vezes o é efetivamente atravessado por várias formações discursivas É nesse sen tido que falei mesmo antes de conhecer os trabalhos de J Authier 1984 em heterogeneidade do discurso E Orlandi e E Guimarães 1988 Nesse trabalho já propúnha mos que se considerasse a relação proporcional texto discurso autor sujeito como uma relação que se fazia da unidade para a dispersão e viceversa7 no sentido de produzir uma relação consistente entre linguagem e história Também em minha distinção entre inteligibilidade interpretabilidade e compreensão E Orlandi 1988 p 1O1 está dito que a compreenso é a apreensão das várias possibilidades de um texto Para compreender o leitor deve se relacionar com os diferentes processos de significação que acontecem no texto Esses processos por sua vez são função da historicidade ou seja da história dos sujeitos e dos sentidos do texto enquanto discurso Sem esque cer que o discurso é estrutura e acontecimento M Pê cheux 1983 o objetivo da AD é compreender como um texto funciona como ele produz sentidos sendo ele con cebido enquanto objeto lingüísticohistórico Eis outra via possível de se pensar a historicidade na perspectiva em que a estamos colocando história do sujeito e do sentido Inseparáveis ao produzir sentido o 7 Em termos formais devese ler estápara e assim como assim o sujei10 estápara o autor assim como o discurso estápara o 1ex10 56 sujeito se produz ou melhor o sujeito se produz produzin do sentido É esta a dimensão histórica do sujeito seu acontecimento simbólico já que não há sentido possível sem história pois é a história que provê a linguagem de sentido ou melhor de sentidos8 Daí o equívoco como condição do significar sendo o mais importante deles o que cria a ilusão referencial a da literalidade Não se pode falar em anterioridade de sentido seja na estrutura seja no acontecimento O sentido se dá no encontro dos dois na sua relação Daí uma das muitas maneiras de se entender a afirmação de Canguilhen 1980 de que o sentido é relação a Pois bem podemos assim dizer que a historicidade é função da necessidade do sentido no universo simbólico O texto é justamente esse objeto lingüístico histórico se o pensamos como essa unidade que se estabelece pela historicidade enquanto unidade de sentido Da análise Não nos interessa nessa perspectiva discursiva a orga nização do texto O que nos interessa é o que o texto organiza em sua discursividade em relação à ordem da língua e a das coisas a sua materialidade Quando dizemos que o texto é uma unidade significa tiva estamos afirmando a presença da ordem da língua enquanto sistema significante Mas não apenas isso Referimos mais acima que a história afeta a linguagem de sentidos Desse encontro resulta o texto logo textuali dade que é história que faz sentido 8 Tendo que traduzir isto para o inglês para uma comunicação em Lancaster alarguei minha compreensão desse processo já que a tradução exigia precisão The history provides language oí senses 57 1 111 Nossa proposta é a de trabalhar nesse lugar particular em que se encontram a ordem da língua e a ordem da história A noção que resulta mais clara na observação do encon tro dessas ordens na análise da linguagem é a noção de fato que por sua vez deriva de um deslocamento produ zido sobre a noção de dado O dado tem sua organização o fato se produz como um objeto da ordem do discurso lingüísticohistórico Na perspectiva dessa relação dado fato quando afirmo que um texto não é um documento mas um discurso estou produzindo algo mais fundamental estou instalando na consideração dos elementos submetidos à análise no movimento contínuo entre descrição e interpretação a memória Em outras palavras os dados não têm memória são os fatos que nos conduzem à memória lingüística Nos fatos temos a historicidade Observar os fatos de lingua gem vem a ser considerálos em sua historicidade enquan to eles representam um lugar de entrada na memória da linguagem sua sistematicidade seu modo de funcionamen to Em suma olharmos o texto como fato e não como um dado é observarmos como ele enquanto objeto simbólico funciona Como o texto é o fato de linguagem por excelência os estudos que não tratam da textualidade discursividade não alcançam a relação com a memória da língua Essas considerações nos permitem afirmar que o texto é uma unidade complexa um todo que resulta de uma articulação representando assim um conjunto de rela ções significativas individualizadas9 em uma unidade dis 9 Individualização deve ser entendida aqui no sentido em que Foucault diz que há diferentes formas de individualização dos sujeitos nas diferences formações sociais 58 I cursiva A individualização dessas relações é que pode ser apreciada através da noção de heterogeneidade diferen ça tal como a definimos mais acima Isto é fundamental para a análise do texto O texto é heterogêneo 1 Quanto à natureza dos diferentes materiais simbóli cos imagem grafia som etc 2 Quanto à natureza das linguagens oral escrita científica literária narrativa descrição etc 3 Quanto às posições do sujeito 4 Além disso podemos trabalhar essas diferenças em termos de formações discursivas FD Nesse caso temos um princípio importante que é o de que u texto não corresponde a uma só FD dada a heterogeneidade que o constitui lembrando que toda FD é heterogênea em rela ção a si mesma Courtine 1982 Suponhamos que o analista esteja trabalhando com o discurso feminista e que ele o caracterize como a FDx com sua configuração própria onde x feminista Na análise ele disporá de uma multiplicidade de textos que ele pode onsiderar no conjunto de textos que dizem respeito a FDx o texto 1 o texto 2 o texto 3 Estes textos por sua vez estarão atravessados por diferentes FD FDx mas também FDz FDn FDa FDb FDy já que os textos são heterogêneos em relação às FD que os constituem Podemos ter a seguinte configuração gráfica pensando a heterogeneidade de cada texto no conjunto dos textos submetidos à análise A heterogeneidade do discurso feminista resulta assim do fato de que no texto 1 a FDx convive com FDz e FOy no texto 2 convive com FDa e FDb e no texto 3 com FDz e FDn Essas diferentes relações produzem efeitos de sen 59 tidos diferentes o que terá de ser levado em conta neste discurso Portanto na dispersão de textos que constituem um discurso a relação com as FD em suas diferenças é elemen to fundamental que constitui o que estamos chamando de historicidade do texto São vários os procedimentos de análise como relação de paráfrases observação dos diferentes enunciados de ocorrência relação com diferentes discursos etc mas qualquer que seja o procedimento o ponto de partida é sempre o mesmo na relação entre unidade e dispersão o postulado de que o sentido sempre pode ser outro e o sujeito com suas intenções e objetivos não tem o controle daquilo que está dizendo Isto nos leva a duas ordens de conclusões também muito importantes 1 Um sujeito não produz só um discurso 2 Um discurso não é igual a um texto Daí que a relação proposta na AD é a Remeter o texto ao discurso b Esclarecer as relações deste com as FD pensando as relações destas com a ideologia A AD está assim interessada no texto não como objeto final de sua explicação mas como unidade que lhe permite ter acesso ao discurso O trabalho do analista é percorrer a via pela qual a ordem do discurso se materializa na estruturação do texto O texto dissemos inúmeras vezes é a unidade de análise afetada pelas condições de produção O texto é para o analista de discurso o lugar da relação com a repre sentação física da linguagem onde ela é som letra espaço dimensão direcionada tamanho É o material bruto M as é 60 também espaço significante E não é das questões menos interessantes a de procurar saber como se põe um discurso em texto Dos resultados Na perspectiva do discurso o texto é lugar de jogo de sentidos de trabalho da linguagem de funcionamento da discursividade d E Orlandi 1983 p 204205 Como toda peça de linguagem como todo objeto simbólico o texto é objeto de interpretação Para a AD esta sua qualidade é crucial É sua tarefa compreender como ele produz sentido e isto implica compreender tanto como os sentidos estão nele quanto como ele pode ser lido Esta dimensão eu diria ambígua da historicidade do texto mostra que o analista não toma o texto como o ponto de partida absoluto dada a relação de sentidos nem como ponto de chegada Quando se trata de discurso não temos origem e não temos unidade definitiva Um texto é uma peça de lingua gem de um processo discursivo muito mais abrangente Feita a análise não é sobre o texto que falará o analista mas sobre o discurso Uma vez atingido o processo discur sivo que é o que faz o texto significar o texto ou os textos particulares analisados desaparecem como referências es pecíficas para dar lugar à compreensão de todo um proces so discursivo do qual eles e outros que nem mesmo conhecemos são parte Sem esquecer que todo dizer discursivamente é um deslocamento nas redes de filiações históricas de sentidos Pêcheux 1983 Não são pois só aqueles textos os responsáveis pelos processos de significação que se atinge Eles tampouco estão relacionados só aos processos que eram objeto de sua análise Desse modo não só não existe relação termo 61 atermo entre a linguagem e o mundo como também não existe relação termoatermo entre os textos que são os materiais de análise e os resultados dela A mediação da própria análise da teoria e dos objetivos do analista são parte da construção do texto como unidade da análise Isto é também parte da historicidade É nesse sentido que dizemos que o corpus não é nunca inaugural em AD Ele já é uma construção fato Esta talvez seja a melhor maneira de argumentar contra as posições positivistas Não pela referência à ilusão da evidência das marcas mas pela lembrança de que esses objetos que são nossos materiais de análise só o são em sua provisoriedade A duração dos textos é trabalho do arquivoº 10 Arquivo aqui está sendo usado no sentido da AD Para compreender esta noção confira Cestos de leiwra E Orlandi et alii Ed Unicamp 1994 62 6 AUTORIA E INTERPRETAÇÃO 1 Tenho procurado compreender a questão ideológica inscrita na interpretação Esta questão nos toca particularmente pois M Pêcheux trata a significação pensando a relação da língua de um lado com a aangue o inconsciente e de outro com o interdiscurso a ideologia Segundo Pêcheux inconsciente e ideologia estão materialmente ligados Esta ligação material se faz pela relação comum com a língua Em outras palavras a compreensão do lugar da interpretação nos esclarece a relação entre ideologia e inconsciente tendo a língua como lugar em que isso se dá materialmente 1 A ordem simbólica configurada pelo real da língua e pelo real da história faz com que tudo não possa ser dito e por outro lado haja em todo dizer uma parte inacessível ao próprio sujeito Estaremos falando da interpretação em duas instâncias a tanto como parte da atividade do analista como b enquanto parte da atividade linguageira do sujeito Inicialmente devo dizer que a análise de discurso AD distinguese da hermenêutica em vários aspectos a pela 11 Para a compreensão da noção de forma material confira outros textos neste volume 63 natureza do sujeito interpretante nãopsicológico b pelo fato de que na AD a interpretação é precedida pela descrição descrição e interpretação se colocam como um batimento diz Pêcheux 1990 ou seja a linguagem na AD não é transparente Em suma interpretar para o ana lista de discurso não é atribuir sentidos mas exporse à opacidade do texto ainda Pêcheux ou como tenho proposto Orlandi 1987 é compreender ou seja explici tar o modo como um objeto simbólico produz sentidos o que resulta em saber que o sentido sempre pode ser outro Vejamos nessa perspectiva como podemos considerar o estatuto discursivo da interpretação refletindo sobre seu modo de existência no sujeito Começaremos por dizer que a interpretação é uma injunção Face a qualquer objeto simbólico o sujeito se encontra na necessidade de dar sentido O que é dar sentido Para o sujeito que fala é construir sítios de signifi cância delimitar domínios é tornar possíveis gestos de interpretação Orlandi 1993 Se encaramos este processo na perspectiva ideológica como estamos propondo podemos dizer que é nessa instân cia de constituição imaginária dos processos de produção dos sentidos que intervém o que temos criticado como conteudismo Orlandi 1992 Este supõe uma relação ter moatermo entre pensamentolinguagemmundo como se a relação entre palavras e coisas fosse uma relação natural e não lingüísticohistórica Daí a ilusão de se defini rem os sentidos pela pergunta ingênua o que x quer dizer Sem dúvida é do conteudismo que resulta o que temos chamado de perfídia da interpretação ou seja o fato que consiste em considerar o conteúdo suposto das palavras e não como deveria ser o funcionamento do discurso na produção dos sentidos 64 O modo como as ciências humanas e sociais conce bem a ideologia é ancilar à perfídia interpretativa conside rando que a linguagem é transparente essas ciências visam os conteúdos ideológicos concebendo a ideologia como ocultação Assim elas deixam pensar que pela busca dos conteúdos o que ele quis dizer se podem descobrir os verdadeiros sentidos do discurso que estariam escondidos Se não nos ativermos aos conteúdos da linguagem pode mos procurar entender o modo como os textos produzem sentidos e a ideologia será então percebida como o pro cesso de produção de um imaginário isto é produção de uma interpretação particular que apareceria no entanto como a interpretação necessária e que atribui sentidos fixos às palavras em um contexto histórico dado A ideologia não é um conteúdo x mas o mecanismo de produzilo Uma concepção discursiva de ideologia estabelece que como os sujeitos estão condenados a significar a interpretação é sempre regida por condições de produção específicas que no entanto aparecem como universais e eternas Disso resulta a impressão do sentido único e verdadeiro Um dos efeitos ideológicos está justamente no fato de que no momento mesmo em que ela se dá a interpretação se nega como tal Quando o sujeito fala ele está em plena atividade de interpretação ele está atribuindo sentido às suas próprias palavras em condições específicas Mas ele o faz como se os sentidos estivessem nas palavras apagam se suas condições de produção desaparece o modo pelo qual a exterioridade o constitui Em suma a interpretação aparece para o sujeito como transparência como o sentido lá Estas considerações nos levam a afirmar que não se pode excluir do fato lingüístico o equívoco como fato estrutural implicado pela ordem do simbólico Há como 65 diz Pêcheux 1990 um trabalho do sentido sobre o sentido tomado no relançar indefinido das interpretações Se é assim que se faz presente a ideologia também aí é que intervém a história O processo ideológico não se liga à falta mas ao excesso A ideologia representa a saturação o efeito de completude que por sua vez produz o efeito de evidên cia sustentandose sobre o já dito os sentidos institucio nalizados admitidos por todos como naturais Pela ideologia há transposição de certas formas materiais em outras isto é há simulação Assim na ideologia não há ocultação de sentidos conteúdos mas apagamento do processo de sua constituição Uma outra forma de ver a questão da interpretação é a que se vincula ao arquivo Refletindose sobre esta ques tão na perspectiva do arquivo tal como o faz Pêcheux 1981 podese chegar ao fato de que há uma divisão social do trabalho da leitura de tal modo que ela tem suas diferentes formas na história embora basicamente se possam distinguir a o modo literário e b o modo científico da relação com os sentidos sendo essa relação sobredeter minada pela divisão entre o corpo social dos que têm direito à interpretação distinto daqueles que fazem o trabalho cotidiano de sustentação da interpretação que deve ser a que se estabiliza Distinção entre intérpretes e escreventes Seria o que no meu entender se pode pensar como a administração sóciohistórica da apreensão dos sentidos na produção necessária inevitável da literalida de Jogo histórico que administra a equivalência entre o um necessário na sua relação com o equívoco a vocação da unidade o real da língua a sua ordem significante e o um universal o imaginário a organização sintática o efeito de literalidade o apagamento da inscrição da língua na história para fazer sentido Pela divisão social da leitura os gestos de interpretação são já determinados os sítios de 66 significância são previstos A ordem necessária se apre senta como organização imaginária dos sentidos12 Na lingüística as teorias da sintaxe são um modo de dar conta da organização da língua mas se pode reconhe cer na sintaxe um lugar de acesso à ordem da língua É nesse sentido que a sintaxe pode interessar ao analista de discurso Para ele ela é um efeito da ordem significante Por essa via chegamos a algumas considerações deci sivas sobre a determinação ideológica da interpretação Com efeito pela noção discursiva de arquivo podemos apreender o gesto que na história separa divide o direito à interpretação e trabalha os modos de gerenciála Isto nos indica que contrariamente aos que alocam os sentidos nas palavras para nós os sentidos são como diz Canguilhen 1980 relação a Para que a língua faça sentido é preciso que a história intervenha E com ela o equívoco a ambigüi dade a opacidade a espessura material do significante Daí a necessidade de administrála de regular as suas possibili dades as suas condições A interpretação portanto não é mero gesto de decodificação de apreensão do sentido Também não é livre de determinações Ela não pode ser qualquer uma e não é igualmente distribuída na formação social P que a garante é a memória sob dois aspectos a a memória institucionalizada ou seja o arquivo o trabalho social da interpretação em que se distingue quem tem e quem não tem direito a ela e b a memória constitutiva ou 12 Referimos aqui à já tematizdda distinção entre ordem e organização Que haja uma ordem do discurso que os sentidos tenham sua ordem nos parece necessário no quadro teórico com o qual trabalhamos No entanto a organi zação já íaz intervir o imaginário Do mesmo modo não falamos na análise da organização da linguagem qual seria ela mas do seu funcionamento reconhecendo na língua assim como no discurso sua ordem própria 67 seja o interdiscurso o trabalho histórico da constituição da interpretação o dizível o repetível o saber discursivo A interpretação se faz assim entre a memória institu cional arquivo e os efeitos da memória interdiscurso Se no âmbito da primeira a repetição congela no da segunda a repetição é a possibilidade mesma do sentido vir a ser outro em que presença e ausência se trabalham paráfrase e polissemia se delimitam no movimento da contradição entre o mesmo e o diferente O dizer só faz sentido se a formulação se inscrever na ordem do repetível no domínio do interdiscurso 13 Vejamos agora algumas reflexões que nos situam a questão da autoria na perspectiva discursiva Em um trabalho anterior Orlandi Guimarães 1988 e Orlandi 1987 tomamos a reflexão de Foucault sobre a questão da autoria tal como ele a define em seu texto A ordem do discurso 1975 o autor é o princípio de agrupa mento do discurso unidade e origem de suas significações O que o coloca como responsável pelo texto que produz Passamos assim da noção de sujeito para a de autor Se a noção de sujeito recobre não uma forma de subjetividade mas um lugar uma posição discursiva marcada pela sua 13 Em seu texto Independência e morte 1993 Eduardo Guimarães define o interdiscurso em sua relação com a língua Ele dirá podemos dizer que o interdiscurso é a relação de um discurso com outros discursos No sentido de que esta relação não se dá a partir dos discursos já particularizados É ela própria a relação entre discursos que dá a particularidade ou seja são as relações entre discursos que particularizam cada discurso Não é um locutor que coloca a língua em funcionamento por dela se apropriar A língua funciona na medida em que um indivíduo ocupa uma posição de sujeito no discurso e isso por si só põe a língua em funcionamento por afetála pelo interdiscurso Produzindo assim efeitos de sentido Em nossas palavras isso significa que sempre já há discurso e que o dizível é exterior ao sujeito cf Orlandi 1992 68 descontinuidade nas dissenções múltiplas do texto a no ção de autor é já uma função da noção de sujeito respon sável pela organização do sentido e pela unidade do texto produzindo o efeito de continuidade do sujeito A partir daí à diferença de Foucault que guarda a noção de autor para situações enunciativas especiais em que o texto original de autor se opõe ao comentário procuramos estender a noção de autoria para o uso corrente enquanto função enunciativa do sujeito distinta da de enunciador e de locutor Orlandi 1987 Com isto a funçãoautor para nós não se limita como em Foucault 1983 a um quadro restrito e privilegiado de produtores originais de lingua gem que se definiriam em relação a uma obra 14 Para nós a funçãoautor se realiza toda vez que o produtor da linguagem se representa na origem produzindo um texto com unidade coerência progressão nãocontradição e fim Em outras palavras ela se aplica ao corriqueiro da fabricação da unidade do dizer comum afetada pela res ponsabilidade social Orlandi 1993 o autor responde pelo que diz ou escreve pois é suposto estar em sua origem Assim estabelecemos uma correlação entre sujeitoautor e discursotexto entre dispersão unidade etc A nosso ver a função de autor é tocada de modo particular pela história o autor consegue formular no interior do formulável e se constituir com seu enunciado numa história de formulações O que significa que embora ele se constitua pela repetição esta é parte da história e não mero exercício mnemônico Ou seja o autor embora 14 Essa função de autoria distinta da que estamos aqui referindo em Foucault 1983 fala sobre a instauração da discursividade quando os autores não são apenas autores de suas obras mas quando produzem alguma coisa a mais a possibilidade e a regra de formação de outros textos A isto preferimos chamar discursos fundadores cf Orlandi et alii 1983 69 não instaure discursividade como o autor original de Foucault produz no entanto um lugar de interpretação no meio dos outros Esta é sua particularidade O sujeito só se faz autor se o que ele produz for interpretável Ele inscreve sua formulação no interdiscurso ele historiciza seu dizer15 Porque assume sua posição de autor se representa nesse lugar ele produz assim um evento interpretativo O que só repete exercício mnemônico não o faz O que nos leva a distinguir a a repetição empírica exercício mnemônico que não historiciza de b a repetição formal técnica de produzir frases exercício gramatical que também não historiciza de c a repetição histórica a que inscreve o dizer no repetível enquanto memória constitutiva saber discursivo em uma palavra interdiscurso Este a memória rede de filiações que faz a língua significar É assim que sentido memória e história se intrincam na noção de interdiscurso É porque a história se inscreve na língua que esta significa Daí o equívoco necessariamente constitutivo da significação que é ao mesmo tempo sistema e aconteci mento A inscrição do dizer no repetível histórico interdiscur so é que traz para a questão do autor a relação com a interpretação pois o sentido que não se historiciza é ininteligível ininterpretável incompreensível cf Orlandi 1987 Isto nos leva a afirmar que a constituição do autor supõe a repetição logo como estamos procurando mos trar a interpretação Mais extensamente podemos mesmo 15 Em um trabalho chamado Final feliz Maria Angélica L Carneiro tem um conjunto de dados expressivos a este respeito 70 afirmar que o dizível é o repetível ou melhor tem como condição a repetição Não porque é o mesmo mas é o que é passível de interpretação o que é passível de ser repetido efeito de préconstruído já dito na relação com o interdis curso Se insistimos em falar dessa funçãoautor é porque nela aparece de forma mais visível o efeito da historicidade inscrita na linguagem e torna conseqüentemente mais claros certos aspectos da interpretação Por outro lado o aspecto histórico da noção de sujeito formasujeito em análise de discurso pode ser melhor compreendido em sua função de autoria através da con sideração do que temos tratado como silenciamento É também nesse lugar entre tantos outros que podemos falar da incompletude da linguagem tal como a temos considerado O incompleto na linguagem é o lugar do possível é condição do movimento dos sentidos e dos sujeitos É na incompletude que inscrevemos a questão do silêncio e por esta via a da interpretação como movimen to Há certas condições as que são chamadas de plágio em que há estancamento desse movimento da interpre tação lugar em que há silenciamento da autoria E Orlandi 1992 Para que uma palavra faça sentido é preciso que ela já tenha sentido Essa impressão do significar deriva do inter discurso o domínio da memória discursiva aquele que sustenta o dizer na estratificação de formulações já feitas mas esquecidas e que vão construindo uma história dos sentidos Toda fala resulta assim de um efeito de sustenta ção no já dito que por sua vez só funciona quando as vozes que se poderiam identificar em cada formulação particular se apagam e trazem o sentido para o regime do 71 anonimato e da universalidade 16 Ilusão de que o sentido nasce ali não tem história Esse é um silenciamento neces sário inconsciente constitutivo para que o sujeito estabe leça sua posição o lugar de seu dizer possível Dessa ilusão resulta o movimento da identidade e o movimento dos sentidos eles não retornam apenas eles se transformam eles deslocam seu lugar na rede de filiações históricas eles se projetam em novos sentidos Desse silêncio que é um silêncio constitutivo sobre a interpretação ela se apaga no momento mesmo em que se dá resulta a ilusão que permite ao sujeito experimentar os seus sentidos Esta seria a censura original radical a que torna possível o discurso do no sujeito O plágio por seu lado é um subproduto desse silen ciamento necessário Mas ele tem suas particularidades ao se dar no nível da autoria o plagiador silencia seu trajeto ele cala a voz do outro que ele retoma Não é um silencia mento necessário mas imposto uma forma de censura o enunciador que repete e apaga toma o lugar do autor indevidamente intervém no movimento que faz a história a trajetória dos sentidos nega o percurso já feito e nos processos de identificação nega a identidade ao outro e em conseqüência trapaceia com a própria Estanca assim o fluir histórico do sentido Esquece que o dizer é sempre heterogêneo e que é nesse percurso que vai entre o já dito e o futuro discursivo que o sentido e o sujeito podem ou não ganhar novas determinações produzir ou não des locamentos Porque entre o dito e o nãodito é irremediável que haja um espaço de interpretação que não se fecha Lugar de equívocos de deslocamentos de debates de 16 Neste ponto podemos aproximar as reAexões de Courtine sd quando fala do anonimato da voz do interdiscurso e Bakhtine 1976 quando refere à conversão da palavra alheia em palavra própria 72 possíveis O plagiador na verdade nega essa possibilidade pois ao reduzir o movimento dos sentidos acentua a impres são de realidade do pensamento ilusão referencial que produz o sentimento de que há uma relação natural entre as palavras e as coisas e a do sujeito como origem de seu dizer ilusão de que os sentidos nascem nele Ao censurar o plagiador se fecha narcisicamente na vontade que o dizer comece e acabe nele mesmo e não se deixa atravessar nem atravessa outros discursos O que resulta na asfixia do sujeito e na rarefação dos sentidos Iludese com a existên cia da idéia absoluta e esquece que todo dizer é neces sariamente incompleto assim como o sujeito Mas há também outra maneira de compreender este fato Ele poderia ser considerado como o sintoma de uma mudança na função da autoria Estaria então havendo um deslocamento na forma da funçãoautor que mostraria exibiria o giro interpretativo da dispersão a desnecessida de de um marco de origem do dizer e de um sujeito na origem como responsável pelo dito pela sua coerência nãocontradição e unidade Estarseia então devolvendo o texto à sua dispersão e o sujeito à sua descontinuidade Estaria assim se produzindo uma forma de dizer que deixa ria passar a fragmentariedade a dispersão e a nãounidade do sujeito e dos sentidos Essa seria então uma outra relação do sujeito com a interpretação que teria suas conseqüên cias na produção da unidade do texto e continuidade do sujeito Haveria uma reorganização dessa relação uma outra forma histórica da autoria Como o autor é função da formasujeito e dos modos de individuação sóciohistoricamente determinados se este for um deslocamento efetivo da relação com a inter pretação deve ser acompanhado de transformações no tecido da formação social Não se pode descartar o fato de que esteja havendo uma transformação na relação sujeitoautor 73 Tendo feito esta digressão pelo trabalho histórico da própria noção da autoria para compreender suas formas históricas e o fato de que ela se transforma voltemos à nossa reflexão sobre a relação autor interpretação Tratando dos modos de assunção da autoria pelo aluno no discurso escrito S Gallo 1992 mostra que o fecho arbitrário mas necessário de um texto tornase fim por um efeito da posiçãoautor o efeito de sua unidade e de sua coerência A textualidade no discurso escrito resulta desse processo Podemos também tratar esta questão pensada em relação à interpretação através da distinção proposta por J Authier 1984 entre heterogeneidade mostrada e hete rogeneidade constitutiva que em relação à alteridade no domínio simbólico coloca a relação com o outro mostra da e o Outro constitutiva Em seu trabalho J Authier idem faz intervir o campo da psicanálise o da lingüística e o da análise de discurso Em nosso caso embora pressupondo o campo da psicanálise e o da lingüística trataremos especificamente do campo discursivo Nesse campo o outro é o interlocutor efetivo ou virtual e o Outro é a historicidade concebida sob a forma do interdiscurso Por outro lado não nos interessa a questão da relação da autoria com a escritaora lidade mas como dissemos no início o estatuto ideológi co da interpretação no discurso Esses dois deslocamentos produzidos em relação aos trabalhos citados acima nos colocam em um outro domínio de questões e de elabora ção dos conceitos discursivos Com efeito podemos dizer que a posiçãoautor se faz na relação com a constituição de um lugar de interpretação definido pela relação com o Outro o interdiscurso e o outro interlocutor O que em análise de discurso está subsumido pelo chamado efeitoleitor Assim se configura 74 a determinação ideológica da autoria O autor se produz pela possibilidade de um gesto de interpretação que lhe corresponde e que vem de fora 17 O lugar do autor é determinado pelo lugar da interpretação O efeitoleitor representa para o autor sua exterioridade constitutiva memória do dizer repetição histórica Procedendo à distinção entre o outro e o Outro como ela pode ser concebida em análise de discurso podemos dizer que o autor relativamente à injunção à interpretação fica determinado a de um lado pelo fato de que não pode dizer coisas que não têm sentido a sua relação com o Outro a memória do dizer e b deve dizer coisas que tenham um sentido para um interlocutor determinado o outro seja ele efetivo ou virtual Desse modo a historicida de se atualiza na funçãoautor através da interpretação De um lado a historicidade como relação às condições de produção do dizer no processo de sua formulação que define o quem o para quem o onde etc sob o modo das formações imaginárias Aí se confrontam a história do dizer do autor e a história de leituras do leitor De outro a historicidade aparece enquanto interdiscurso enquanto constituição e não formulação do dizer ou melhor como o conjunto do dizível e do interpretável Nesse caso o Outro não é o interlocutor mas o lugar da alteridade constitutiva presença do outro sentido no sentido presen ça da ideologia Com efeito a autoria ao mesmo tempo constrói e é construída pela interpretação 17 Tanto a lingüística como as teorias pragmáticas pensam a exterioridade como algo que está fora no exterior da linguagem No caso da análise de discurso que se alinha com as teorias nãopositivistas mas históricas em que não há separação estanque entre sujeitoobjeto exterioridadeinterioridade etc temos procurado mostrar cf Orlandi 1993a 1993b que não se trata do fora enquanto tal mas da exterioridade constitutiva aquela que não é do domínio empírico mas simbólico 75 O fechamento do texto que aparece como respon sabilidade do autor necessário mas ao mesmo tempo arbitrário resulta dessa dupla e dúbia determinação da inter pretação A formulação do autor está determinada pelo interpretável referido às condições de produção e pelo interpretável referido ao dizível O fechamento do texto é também em si um efeito Ele deriva da ilusão interpretativa que no nosso imaginário tem a forma da dominância da história da situação o dizer remetido ao contexto de situação quando na realidade é a história da filiação o dizer remetido ao interdiscurso que ao determinar a relação com o contexto de situação determina nesse movimento a interpretação É isso que estamos afirmando quando dizemos que a relação com os sentidos é indireta Como não temos acesso direto ao interdiscurso ele se simula por seus efeitos na formulação intradiscurso O que é tangível ainda que projetadas nas formações imaginárias são as suas condições de produção pensadas como situação no sentido estrito o da circuns tância da enunciação É a esta historicidade que temos acesso No entanto a constituição do sentido se dá fora de nosso alcance direto na relação com o interdiscurso Este se apresenta como uma história que não se situa Ele não está alocado em lugar nenhum É uma trama de sentidos Por isso a instância da formulação não nos leva imedia tamente ao interdiscurso Passa pela opacidade pela espes sura semântica pelo corpo da linguagem que na análise de discurso chamamos sua materialidade sua discursivida de sua historicidade Em uma palavra pela ideologia Daí que se o fecho tem sua eficácia na produção do efeito de unidade de coerência e de nãocontradição porém pela incompletude da linguagem todo texto tem a ver com outros textos existentes possíveis ou imaginá rios pois ele tem sobretudo uma relação necessária com a exterioridade estabelecendo assim suas relações de senti 76 do e pela dispersão do sujeito que aparece em sua descontinuidade no texto o autor não realiza jamais o fechamento completo do texto aparecendo como diz Pêcheux ao longo do texto pontos de deriva possíveis oferecendo lugar à interpretação ao equívoco ao trabalho da história na língua Em relação à análise dizemos que em todo gesto interpretativo ou em todo sítio significante há pontos de fuga que se descolam da descrição Ainda uma vez com a noção de discurso se trabalha a incompletude da linguagem não como algo negativo mas como o lugar do possível Para concluirmos diríamos que os retornos movimen tos interpretativos que hoje se fazem a Saussure não podem prescindir de desenvolvimentos teóricos como os da análise de discurso que procuraram estender a noção de funcionamento para outros objetos simbólicos como a textualidade não se restringindo só ao sistema da língua Isso só foi possível porque se propôs uma prática analítica que não dividiu língua e fala como quem separa o social e o histórico mas se deslocou a distinção para língua e discurso sendo que a noção de discurso acolhe o histórico e o social conjuntamente sob o modo da ideologia Para tal a própria teoria do discurso teve de resignificar as noçoes de história e de social 18 Esta necessidade deriva da maneira como a noção de discurso vaise configurando em seus sentidos e em sua capacidade teórica Isto certa 18 O social se apresentando não como traços sociológicos empíricos dasse social idade sexo profissão mas como formações imaginárias que se consti tuem a partir de relações tal como elas funcionam no discurso havendo em toda língua mecanismos de projeção para que se constitua essa relação entre a situação sociologicamente descritível e a posição dos sujeitos discursi vamente significativa O histórico por sua vez é definido não como fatos e datas como evolução e cronologia mas como significância ou seja como trama de sentidos pelos modos como eles são produzidos 77 mente tem a ver com a maneira como esta noção trabalhou noções como estrutura descrição interpretação 19 e so bretudo como ela trabalhou suas relações com duas outras formas de conhecimento que lhe estão pressupostas a da psicanálise para a noç2o de sujeito e a do marxismo para a noção de história não como aplicação mas em suas relações contraditórias e muitas vezes indistintas 19 O que significa o retorno a Saussure enunciado em tantos temas de encontros atualmente Pode significar pelo menos duas coisas a de um lado um desconhecimento dos deslocamentos produzidos por teorias como a psica nálise ou a análise de discurso que aqui destaco por ser meu domínio de interesse e em que enfatizo a contribuição trazida sobretudo pela própria noção de discurso agora trabalhada em sua especificidade teórica e analítica Isto significa para mim a esterilização do pensamento de Saussure pois é ilusório pensar que os sentidos dos textos de Saussure estão fechados nos textos de Saussure e b de outro uma releitura ou seja uma forma de resigniíicações que agora podem significar de outras maneiras já que pela consideração dos processos discursivos sabemos que é isso mesmo a leitura saber que os sentidos podem ser outros ou melhor são outros c menos generoso mas também possível é o retomo ao nome de Saussure para legitimaremse grupos de influência e favoreceremse do prestígio do fundador pessoas que na verdade em sua formação ignoraram Saussure Para esses na realidade esse não é um retorno 78 7 DISPOSITIVOS DA INTERPRETAÇÃO L A questão O contexto intelectual em que aparece a análise de discurso anos 60 é marcado por uma transformação na noção de leitura Ela é posta em questão Este fato como dissemos pode ser pensado a partir de trabalhos como os de Althusser ler Marx de Lacan ler Freud de Foucault a Arqueologia de R Barthes leitu raescritura No trabalho intelectual a leitura aparece como construção de um dispositivo teórico Dispositivo aqui tem a ver com o reconhecimento da materialidade dos fatos No caso da materialidade da linguagem da sua não transparência e da necessidade conseqüentemente de um dispositivo para ter acesso a ela para trabalhar sua espessura lingüística e histórica sua discursividade A teoria e o dispositivo analítico A região teórica específica em que trabalho entre outros contribui para a pesquisa sobre leitura consideran do a opacidade do texto a não transparência da linguagem Essa região teórica tem como característica a passagem da noção de funcionamento da língua para o discurso e a construção de um dispositivo analítico fundado na noção de efeito metafórico 79 A noção de funcionamento estendida para o discurso faz com que não trabalhemos apenas com o que as partes significam mas que procuremos quais são as regras que tornam possível qualquer parte Nessa perspectiva que introduz o discurso no campo das ciências da linguagem a proposta é então explicitar os mecanismos de funcio namento do discurso cf E Orlandi A linguagem e seu funcionamento 1983 O trabalho do analista de discurso é mostrar como um objeto simbólico produz sentidos como os processos de significação trabalham um texto qualquer texto Por seu lado a definição de efeito metafórico situa a questão do funcionamento na relação do discurso com a língua M Pêcheux 1969 vai chamar efeito metafórico o fenômeno semântico produzido por uma substituição con textual lembrando que esse deslizamento de sentido entre x e y é constitutivo do sentido designado por x e y Como esse efeito é característico das línguas naturais por oposição aos códigos e às línguas artificiais podemos considerar que não há sentido sem essa possibilidade de deslize e pois sem interpretação O que nos leva a colocar a interpretação como constitutiva da própria língua natural Em conseqüência quando se trata da língua natural não há metalinguagem Toda descrição está intrinsecamen te exposta ao equívoco da língua Todo enunciado é intrin secamente suscetível de tornarse outro diferente de si mesmo se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para um outro M Pêcheux 1991 A não ser que haja proibição explícita de interpretação A metáfora não vista como desvio mas como transferência Pêcheux 1975 é assim constitutiva do sentido Na figura proposta para ilustrar o efeito metafórico podemos observar os desliza mentos de sentido Também fica exposta a relação língua e historicidade no discurso através da metáfora 80 a b c d e f g b c d e f g h c d e f g h i d e f g h i j e f g h i j k f g h i j k 1 O ponto de partida a b c d e f e o ponto de chegada g h i j k 1 através de deslizamentos de sentidos de próximo em próximo são totalmente distintos No entanto algo do mesmo está nesse diferente pelo processo de produção de sentidos necessariamente sujeito ao deslize há sempre um possível outro mas que constitui o mesmo o deslize de sentido de a para g faz parte do sentido de a também Ou seja o mesmo já é produção da história já é parte do efeito metafórico A historicidade está aí repre sentada justamente pelos deslizes paráfrases que instalam o dizer no jogo das diferentes formações discursivas Falase a mesma língua mas se fala diferente Pelo efeito metafóri co Esse deslize próprio da ordem do simbólico é o lugar da interpretação da ideologia da historicidade É assim que podemos compreender a relação entre língua e discurso a língua pensada como sistema sintático intrinsecamente passível de jogo e a discursividade como inscrição de efeitos lingüísticos materiais na história M Pêcheux 1980 Esta forma de conceber o deslize o efeito metafórico como constitutivo do funcionamento discursivo ligase ao modo de se conceber a ideologia Em termos de inter pretação isso nos aponta para o discurso duplo e uno Segundo Althusser a leitura sintomática falando de ideo logia é a que revela o irrevelado no próprio texto que lê e o remete a um outro texto presente no primeiro por uma ausência necessária Essa duplicidade que faz referir um 81 discurso a um discurso outro para que ele faça sentido na psicanálise envolve a questão do inconsciente Na análise de discurso essa duplicidade esse equívoco é trabalhado como a questão ideológica fundamental pensando a rela ção material do discurso à língua e a da ideologia ao incons ciente Isto que está presente em Pêcheux 1969 na conside ração do efeito metafórico e de sua especificidade em relação a um dispositivo de análise será formulado mais precisamente no que este autor diz em Discurso Estrutura e acontecimento 1991 Todo enunciado toda seqüência de enunciados é pois lingüisticamente descritível como uma série léxicosintaticamente determinada de pontos de deriva possíveis para nós deslizes efeitos metafóricos oferecendo lugar à interpretação É nesse espaço que preten de trabalhar a análise de discurso Daí a inclusão desse aspecto no dispositivo teórico Eu acrescentaria que é nesse lugar em que se produz o deslize de sentidos enquanto efeito metafórico onde língua e história se ligam pelo equívoco materialmente determinado que se define o trabalho ideológico em outras palavras o trabalho da interpretação Como parale lamente este efeito ao constituir o sentido constitui o sujeito podemos dizer que a metáfora também está na base da constituição do sujeito na perspectiva do histórico do equívoco da relação línguadiscurso O equívoco que na instância do sujeito nos permite compreender a relação com o inconsciente na instância da história nos põe em contato com o como funciona da ideologia o que está presente por uma ausência necessá ria Esta qualidade discursiva do sujeito e do sentido deve constituir o dispositivo do analista De tal modo que o deslocamento produzido pelo dispositivo no olhar leitor a exposição do olhar leitor à opacidade trabalha a interpre 82 tação enquanto exposição do sujeito à historicidade ao equívoco à ideologia na sua relação com o simbólico Se dissemos mais acima que a interpretação é consti tutiva da língua não havendo metalinguagem aqui junta mos que a interpretação é constitutiva do sujeito e do sentido Não estamos dizendo com isso que o sujeito é interpretável ou o sentido é interpretável estamos dizendo que a interpretação os constitui ou seja que a interpreta ção faz sujeito a interpretação faz sentido Resulta então que a construção desse dispositivo alte ra a posição do leitor para outra posição enquanto lugar construído pelo analista Esse deslocamento posição do sujeitoposição do analista mostra a alteridade do ientis ta ou seja a leitura outra que ele pode produ1r elo dispositivo Leitura esta que trabalha o efeito da ob1et1v1da de levando em conta o deslize o equívoco a ideologia Esse deslocamento por sua vez mostra um outro a interpretação que só é levada em conta em relação aos métodos passa a ser considerada como um movimento no objeto u seja a interpretação do analista metodológica tem de levar em conta o movimento da interpretação inscrita no próprio sujeito do discurso O trabalho do analist1 é em grande medida situar compreender e não refletir o gesto de interpretação do sujeito e expor seus efeitos de sentido Assim podemos dizer que a análise de discurso procu ra desfazer dois modos de existência do apagamento da interpretação a o da possibilidade de leitura do próprio analista e b o do sujeito que não percebe o gesto de interpretação pensando apenas reconhecer o sentido já lá Nesse capítulo vamos falar disso Antes porém e dado o fato de que temos utilizado freqüentemente a palavra gesto em análise do discurso 83 gostaríamos de explicitar como a estamos utilizando M Pêcheux 1969 diz que gestos são atos no nível do simbó lico São exemplos assobios aplausos vaias atirar uma bomba em uma assembléia etc Ao utilizarmos a expressão gestos de leitura como é próprio à análise de discurso e no meu caso específico gestos de interpretação estamos pois fazendo da leitura e da interpretação um ato simbó lico dessa mesma natureza de intervenção no mundo Uma prática discursiva Lingüísticohistórica Ideológica Com suas conseqüências Com efeito podese considerar que a interpretação é um gesto ou seja ela intervém no real do sentido O leitor e o analista dois efeitos de interpretação A primeira distinção que estamos propondo separa a o gesto de interpretação do analista que se dá no apoio de um dispositivo teórico e b o gesto de interpretação do sujeito comum que se dá ell um dispositivo ideológico com seu efeito de evidência Esse efeito é o que nega a interpretação no momento mesmo em que ela se dá Mais adiante falaremos disso O gesto do analista é determinado pelo dispositivo teórico enquanto o gesto do sujeito comum é determinado pelo dispositivo ideológico Sem esquecer que determinar significa ser constitutivo e não relação de causaefeito muito menos mecânica Nos dois gestos temos mediação Mas a mediação da posição construída pelo analista não reflete ao contrário trabalha a questão da alteridade Na mediação do dispositivo ideológico o sujeito está sob o efeito do apagamento da alteridade exterioridade histori cidade daí a ilusão do sentido lá de sua evidência O que se espera da mediação instalada pelo dispositi vo teórico é que ela produza como dissemos um deslo 84 camento que permita que o analista trabalhe as fronteiras das formações discursivas Em outras palavras que ele não se inscreva em uma formação discursiva mas entre em uma relação crítica com o conjunto complexo das formações Com isso não pretendemos estar supondo uma posição neutra do analista em relação aos sentidos Não só ele está sempre afetado pela interpretação como um dispositivo analítico marca uma posição em relação a outras Em nosso caso por exemplo o dispositivo que estamos propondo é uma posição diferente do da hermenêutica O que estamos afirmando sim é que o dispositivo é capaz de deslocar a posição do analista trabalhando a opacidade da lingua gem a sua nãoevidência e com isso relativizando me diando a relação do sujeito com a interpretação Pelo processo de identificação como sabemos o sujei to se inscreve em uma formação e não em outra para que as suas palavras tenham sentido e isto lhe aparece como natural como o sentido lá transparente Ele não reconhe ce o movimento da interpretação ao contrário ele se reconhece nele Ou melhor ele se reconhece nos sentidos que produz É no entanto a possibilidade de contemplar o movimento da interpretação de compreendêlo que caracteriza a posição do analista Nem acima nem além do disurso ou da história mas deslocado Numa posição que entremeia a descrição com a interpretação e que pode tornar visíveis as relações entre diferentes sentidos Desse modo ficamos sensíveis ao fato de que a descrição está exposta ao equívoco e o sentido é suscetível de tornarse outro A análise de discurso elabora seu dispositivo aliando estas questões da deriva do deslize do efeito metafórico à própria ordem da língua Mas é preciso ressaltar que ao falar do lingüístico Pêcheux coloca oportunamente a necessidade de não se pensar apenas esse outro língua 85 jeiro mas o outro nas sociedades e na história É só pela referência às sociedades e à história que aí pode haver ligação identificação ou transferência isto é existência de uma relação abrindo a possibilidade de interpretar A língua não se reduz pois ao jogo significante abstra to Para significar ela é afetada pela história É também nesse ponto que este autor mostra o risco de uma reflexão estruturalista que veria aí uma máquina discursiva de assu jeitamento dotada de uma estrutura semiótica interna e por isso mesmo voltada à repetição no limite esta concepção estrutural da discursividade desembocaria em um apaga mento do acontecimento através de sua absorção em uma sobreinterpretação antecipadora Ou como ele mesmo diz corre sempre o risco de absorver o acontecimento desse discurso na estrutura da série na medida em que tende a funcionar como transcendental histórico grade de leitura ou memória antecipadora do discurso em questão O risco da estagnação está em se deshistoricizar Não se trata pois de um retorno ao estruturalismo pura e simples mente Já no dispositivo inicial 1969 as noções mais produtivas analiticamente eram a de efeito metafórico e de paráfrase Pêcheux 1969 noções comprometidas com a história com o funcionamento do sistema com o equí voco a ideologia Com efeito estas noções permitem conce ber o jogo significante como materialidade lingüística e histórica As filiações históricas dirá ainda Pêcheux são sempre tomadas em redes de memória dando lugar a filiações identificadoras e não a aprendizagens por interação a transferência não é uma interação e as filiações históricas nas quais se inscrevem os indivíduos não são máquinas de aprender 1991 Nem apenas o jogo descarnado onde estaríamos ao sabor só dos significantes nem a coerção do social empírico Mas a historicidade 86 A descrição não é um cálculo dos deslocamentos de filiação como pareceria ao olhar do lingüista ela abre sobre a interpretação Há um trabalho do sentido sobre o sentido Conceber assim a interpretação como constitutiva é entender os gestos enquanto atos ao nível do simbólico como diz Pêcheux de um modo particular Estar na língua com os gestos de interpretação significa estar sendo traba lhado pela língua em uma perspectiva discursiva aquela em que a língua faz sentido em que ela é afetada pela história Essas considerações nos levam a compreender que o gesto da interpretação é feito de uma sobrecarga Ele é carregado de uma relação da língua sobre a língua interpretar é dizer o dito que no entanto aparece como grau zero o sentido lá Por outro lado isso não significa tampouco que a interpretação abre sobre não importa o quê a descrição de um enunciado ou de uma seqüência coloca necessaria mente em jogo o discursooutro como espaço virtual de leitura desse enunciado ou dessa seqüência M Pê cheux idem Portanto longe de dar um procedimento de análise estrutUfal do texto em seus pontos de fechamento e de deriva o que me proponho enquanto analista de discurso é mostrar a relação da posição do analista com os gestos de interpretação do sujeito Isto é descrever montagens discursivas detectando os momentos de interpretações enquanto atos que surgem como tomadas de posição reconhecidas como tais isto é como efeitos de identifica ção assumidos e não negados Pareceme importante esclarecer aqui que leitura e interpretação não se recobrem A noção de interpretação é mais ampla sendo a leitura função da interpretação com 87 1 suas características particulares20 Os gestos de inter pretação são constitutivos tanto da leitura quanto da pro dução do sujeito falante Isto porque quando fala o sujeito também interpreta Para dizer ele tem de inscreverse no interdiscurso tem de se filiar a um saber discursivo uma memória A tarefa do analista de discurso não é a nem inter pretar o texto como o faz o hermeneuta b nem descrever o texto Tenho dito Orlandi 1988 que o objetivo é compreender ou seja é explicitar os processos de signifi cação que trabalham o texto compreender como o texto produz sentidos através de seus mecanismos de funcio namento Hoje gostaria de ir mais além o analista não só procura compreender como o texto produz sentidos ele procura determinar que gestos de interpretação trabalham aquela discursividade que é objeto de sua compreensão Em outras palavras ele procura distinguir que gestos de interpretação estão constituindo os sentidos e os sujeitos em suas posições Entramos assim nas considerações que formam a se gunda parte da reflexão sobre os dispositivos Vamos nos deter no que constitui o dispositivo ideológico da inter pretação 20 Nesse sentido creio que haja uma afinidade entre distinções do campo discursivo tais como texto discurso autor sujeito escrita oral leitura interpretação Sendo uma função enundatJVa da interpretação a leitura tem sua especificidade que se deve ao fato de ter uma formalidade uma inserção mais direta no social com suas normas e sua forma histórica Resta entender o que significa o estápara tal como o enunciamos para todas as relações acima Certamente não são termos em oposição Fica por estudar mais detidamente a natureza dessa relação Nesse passo o que queríamos firmar é que leitura e interpretação não se recobrem e partilham o campo de distinções citado acima 88 A divisão do trabalho social da interpretação Temos dito que há injunção à interpretação Diante de qualquer objeto simbólico somos instados a dar sentido a significar Além disso a interpretação se apaga como tal na medida em que os sentidos são uns e não outros dadas as condições de produção e no entanto eles nos aparecem como naturais Este é um dos aspectos da ideologia Por isso dissemos que há um dispositivo ideológico de inter pretação em todo sujeito falante Os sentidos nunca estão soltos Há sempre na injunção a significar condições para que eles sejam x e não y para que eles tenham uma direção que constituam uma posição do sujeito Há pois mecanis mos de controle dos sentidos A injunção à interpretação tem sua forma e suas condições A forma dessa injunção é que faz com que a relação com a interpretação para o sujeito não seja a mesma hoje e por exemplo na Idade Média As formassujeito históri cas são diferentes porque a relação com a interpretação é diferente É nesse sentido que podemos dizer que o assu jeitamento para o sujeito medieval se dá pela determi nação enquanto o assujeitamento para o sujeito moderno se dá pela interpelação Isto porque a forma de assujeita mento é histórica e se dá diferentemente na Idade Média e na Modernidade A determinação se exerce de fora para dentro e é religiosa a interpelação faz intervir o direito a lógica a identificação na interpelação não há separação entre exterioridade e interioridade embora para o sujeito essa separação continue a ser uma evidência sobre a qual ele constrói duplamente sua ilusão a de que ele é origem do dizer e logo ele diz o que quer e a da literalidade ou seja a de que há uma relação direta termoatermo entre linguagem pensamento e mundo aquilo que ele diz só podia ser aquilo e não outra coisa Daí o sujeito moderno ser ao mesmo tempo livre e submisso A interpelação se 89 1 constitui de uma dupla determinação contraditória o su jeito é determinado pela exterioridade e determina inter namente É assim que compreendemos o equívoco constitutivo da ideologia pelo modo como o sujeito é interpelado o que lhe parece sua definição é justamente o que o submete Quanto mais centrado o sujeito mais ideologicamente determinado É preciso se pensar a relação do sujeito com a lingua gem como parte da relação do sujeito com o mundo em termos sociais e políticos Nessa perspectiva a transforma ção do estatuto do sujeito em relação ao saber e à lingua gem corresponde à transformação das formas de assujeitamento do indivíduo à religião e ao Estado A reflexão que articula o sentido a linguagem e a ideologia visa compreender a ambigüidade inscrita na noção moder na de sujeito que como dissemos ao mesmo tempo acolhe o individualismo como possibilidade de resistência e revol ta e o mecanismo coercitivo de individuação de isolamen to imposto pelo Estado ao indivíduo O Estado funda sua legitimidade e sua autoridade sobre o cidadão levandoo a interiorizar a idéia de coerção ao mesmo tempo em que faz com que ele tome consciência de sua autonomia de sua responsabilidade portanto Em relação ao que dissemos mais acima sobre a determinação do sujeito religioso e a interpelação do sujeito moderno podemos afirmar que a submissão do homem a Deus à letra cede lugar à sua submissão ao Estado às letras ao jurídico A subordinação fica menos visível porque se sustenta na idéia de um sujeito livre e não determinado quanto a suas escolhas cf Haroche 1992 Isto tudo tem a ver com a relação do homem com a linguagem e com os sentidos Em uma palavra com a interpretação A submissão à religião se pensamos a 90 Idade Média se faz sobre a interdição à interpretação o sujeito religioso não interpreta ele repete a interpretação que lhe é dada Não há um espaço de interpretação para ele não há espaço entre ele e o dizer Ele está colado à letra Nessas condições não há resistência há heresia É interessante observar a história de certas palavras para se compreender a relação do sujeito à interpretação A palavra texto no século XII significa livro do Evangelho no século XIV perde seu caráter estritamente sagrado e significa qualquer texto sagrado ou profano distinguindose no entanto o texto autêntico sagrado do comentário profa no Ainda não há espaço para o intérprete As palavras interpretação e interpretar datam do meio do século XII mesmo que a interpretação seja única e dada pelo mestre na determinatio A palavra intérprete data do século XIV Este estado de coisas muda de forma extremamente lenta até que se passa para a idéia de debate de interpretação de conflito e até que a ambigüidade passe a ser considera da entre o homem e a língua e não mais entre o homem e Deus momento em que começa a se desenvolver uma separação entre objetividade e subjetividade que é já outra maneira de distinguir o poder da linguagem e de gerir a circulação dos sentidos e dos sujeitos Em relação à questão da determinação do sentido e logo ao espaço da interpretação o sujeito que na determi nação religiosa dependia de Deus o lugar da Verdade no século XVII passa a depender da transparência literalidade objetividade da língua A interpretação continua a ser uma falta que habita o homem mas o poder que determina já não é Deus é a língua Na Modernidade a responsabi lidade do sujeito encontra parâmetro na precisão clareza da língua No século XVIII novo deslocamento marca essa rela ção do homem com os sentidos pois é o sujeito que detém a determinação o texto é vago e ele é seu intérprete Aqui 91 temos então o alargamento do espaço da interpretação A subjetividade tornase a preocupação central ao mesmo tempo em que o formalismo a serviço do direito se então tornase cada vez mais importante A obscuridade a vaguidade é atribuída não a um poder divino nem à língua mas ao sujeito Obscuridade que deve ser regulada Se no sujeito religioso o amor a Deus dá forma à sua relação com os sentidos no sujeito jurídico o amor ao Estado se diz na necessidade de nãocontradição A fé em um a nãocontradição em outro regulam a relação do sujeito com a interpretação De seu lado a crença na literalidade sutura essa impressão de realidade ligada à exigência da nãocontradição o sentido só pode ser este Em suma na transparência da linguagem é a ideologia que fornece as evidências que apagam o caráter material do sentido sua historicidade evitando o corpo das palavras e o do sujeito cf E Orlandi 1987 regrando a relação com a interpretação ao mesmo tempo em que faz o sujeito responsável fonte de seus sentidos Na relação com a história e o equívoco constitutivo do simbólico este é o efeito ideológico elementar Daí que na posição de analista do discurso o que fazemos é justamen te não negar o equívoco mas considerálo em sua relação com a linguagem não apagálo mas trabalhálo O apaga mento do equívoco é que produz a ilusão da evidência Este é o apagamento característico do dispositivo ideológi co do sujeitointérprete comum Resumiríamos o que estamos dizendo a propósito do que seja o dispositivo ideológico da interpretação afirman do que o gesto de interpretação vem carregado de uma memória de uma filiação que no entanto aparece nega da como se o sentido surgisse ali mesmo É preciso lembrar que todo discurso é um deslocamen to na rede de filiações mas este deslocamento é justamente 92 deslocamento em relação a uma filiação memória que sustenta a possibilidade mesma de se produzir sentido O movimento é o de ao inscreverse deslocar Cada aconte cimento discursivo é inédito e o retorno da memória não é simples reprodução No entanto isto não significa por si que haja transformação do sentido sentido novo ruptu ra A própria mudança em análise de discurso resulta de uma relação com o mesmo já que a noção de repetição empírica formal e histórica supõe tanto o fechamento quanto a possibilidade de deslocamento embora ambos sejam retorno interpretação No entremeio entre o mundo e a linguagem o sujeito e o sentido ao se constituírem o fazem necessa riamente na conjunção dessa relação Estão expostos ao acaso mundo e ao jogo linguagem mas também à memória mundo e à regra linguagem Onde está o mesmo está o diferente A separação entre paráfrase e polissemia não é clara nem permanente O investimento da regra e da memória sobre o sujeito discursivo pode ser visto em termos gerais como o fato de que face à imprevisibilidade da relação do sujeito com o sentido toda formação social tem formas de controle da interpretação que são historicamente determinadas Este controle pode ser mais ou menos marcado institu cionalmente mas sempre se estará exercendo A forma histórica do sujeito discursivo em nossa formação social como dissemos é a que se apresenta sob o modo da autonomia e da submissão da liberdade e da respon sabilidade Citando Jurandir Freire Folha de São Paulo Mais 131194 eu diria que também quanto à ideologia somos uma teia de acasos e contingências incontrolável no princípio e no fim e no entanto temos de prestar contas pelo que não sabemos de onde veio e para onde vai Mas eu diria acreditamos saber E é no espaço dessa ilusão que sujeitos e sentidos se movem Ainda que para serem os 93 1 mesmos já que a diferença é freqüentemente insuportável para o sujeito para a sociedade para a história Com efeito o dispositivo ideológico da interpretação impregna o sujeitointérprete desse equívoco a interpela ção do indivíduo em sujeito pela ideologia ou seja o de ter de despossuirse para possuir Por outro lado este dispositivo ideológico não se faz do nada Ele se produz no espaço da relação lingua gemmundo sóciohistoricamente determinada A relação com a interpretação é também e sobretudo a relação com os sentidos do semsentido Veremos como a necessidade para o sujeito de domesticar o semsentido e para a sociedade a de administrar essa relação se conjugam no que com Pêcheux 1980 podemos chamar de a divisão social do trabalho da interpretação21 Uma primeira divisão caracteriza o trabalho social da leitura M Pêcheux ibidem é a que separa o que é literal do que é sujeito à interpretação Essa divisão por sua vez ressoa em relação a outras a Há os que têm direito à interpretação e os que não têm direito a ela Eu diria que este é um recorte sobre os agentes b Há os textos que são instáveis e os que têm estabili dade de sentidos Esta divisão é a que separa o literário instável do científico estável 21 Pêcheux chama diVlsàO do trabalho da leitura Aqui estamos propositalmente tal como fizemos para a noção de autor a partir de Foucault alargando a questão para a noção de interpretação Sem dúvida o fato de se considerar a leitura em seu aspecto mais formal reflete sobre o processo do controle da interpretação Não nos estenderemos sobre os efeitos dessa relação leiturain terpretação No momento interessanos apenas alargar o alcance do que diz Pêcheux sobre a leitura de arquivo para o domínio mais abrangente da noção de interpretação 94 Por isso mesmo é que o dizer tem um peso ideológi co porque o gesto de interpretação materializa a inscrição do sujeito em uma formação discursiva isto é constituise em uma posição O sentido é sempre sentido para e não sentido em si A ambigüidade inscrita na própria noção de assujeitamento sujeito a e sujeito de tem relação com a produção dos sentidos no jogo entre formações discursi vas que repartem o sentido que trabalham a divisão da interpretação O fato da interpretação é sintoma dessas diferenças dessa contradição sujeito asujeito de A ideo logia então é o apagamento para o sujeito de seu movi mento de interpretação na ilusão de dar sentido Interpretando a interpretação A ligação entre o que faz de um homem um ser simbólico e o homem como ser histórico está na interpre tação Se de um lado os fatos reclamam sentidos P Henry 1989 e por outro o homem está condenado a significar E Orlandi 1990 é esta relação entre essas duas necessi dades a dos fatos e a do homem em relação ao significar que constitui o cerne do gesto da interpretação e sua eficácia ideológica Esses gestos por sua vez não se dão no vazio A noção de arqivo é aqui esclarecedora O arquivo ou o discurso textual diz Pêcheux 1980 é o campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão Há gestos de leitura que constroem o arquivo que dão acesso aos docu mentos e que dão o modo de apreendêlos nas práticas silenciosas da leitura espontânea Essas leituras são organiza das e elas dispõem sobre a relação do literal e do interpretativo Podemos expandir a noção de arquivo se pensamos que todo dizer se liga a uma memória Para dizer de certo modo todo sujeito recorre a um arquivo aos discursos disponíveis Todo sujeito tem seu discurso textual 95 Os aparelhos de poder de nossa sociedade gerem a memória coletiva Dividem os que estão autorizados a ler a falar e a escrever os que são intérpretes e autores com obra própria dos outros os que fazem os gestos repetidos que impõem aos sujeitos seu apagamento atrás da institui ção Seja essa instituição a Igreja o Estado a empresa o partido a escola etc Em todo discurso podemos encontrar a divisão do trabalho da interpretação distribuído pelas diferentes posições dos sujeitos o padre o professor o gerente o líder sindical o líder partidário etc E há uma enorme produção de textos falados ou escritos que traba lham esta divisão regimentos constituições panfletos li vros didáticos programas partidários estatutos etc Os sentidos não estão soltos eles são administrados Por outro lado o modo de circulação das interpretações também tem sua forma específica A mídia é um grande evento discursivo do modo de circulação da linguagem Enquanto tal ela é um acontecimento de linguagem que impõe sua forma de gerenciamento dos gestos de inter pretação sempre na distinção do que se deve apreender como sentido unívoco literal e o que admite plurivocidade interpretativa Com a mídia há uma reorganização do trabalho intelectual e uma nova divisão do trabalho da leitura Não vamos aqui discutir as diferentes modalidades de administração da interpretação e o investimento tecnológi co na estabilização dos sentidos e dos sujeitos Mais importante é compreender que este trabalho da leitura supõe uma certa concepção de língua em que não se reconhece que a língua tem sua materialidade O que se pretende então é que a sintaxe a língua clara e distinta domestique o sentido a história o sujeito Exceção feita aos poetas e psicanalistas que reconhecem essa materialidade como o incontornável do pensamen to ou se apaga essa materialidade ou mesmo quando se a reconhece se a considera como objeto de cálculo Na 96 perspectiva do discurso que é a nossa para fora do cálculo fica o mais importante o que caracteriza mais fundamente as línguas naturais o deslize a falha a ambigüidade que fazem da língua natural como diz Courtine 1984 a melhor das línguas É por aí que o sentido irrompe na sintaxe Contrariando a arrogância dos literatos que se protegem em seu arquivo particular e a mordaz modéstia dos cientistas de arquivo que não se perguntam quem os utiliza a análise de discurso se coloca no espaço polêmico das maneiras de ler criticando o que sustenta o divórcio entre a cultura científica e a literária No que diz respeito ao que estamos desenvolvendo a respeito da interpretação reconhecer a materialidade da língua na discursividade do arquivo é reconhecer tam bém a interpretação ou melhor é reconhecer que os fatos estão sujeitos à interpretação e que a língua na medida em que é constituída pelo deslize pela falha pela ambigüida de faz lugar para a interpretação Esta talvez seja a melhor forma de compreender junto com Milner 1978 que a língua é capaz de poesia e com Pêcheux que o incons ciente não é o domingo do pensamento e eu acrescenta ria que a ideologia não é um defeito dos que não têm consciência Falha deslize interpretação inconsciente ideologia são o impossível de que não seja assim Não dá pois pára regulamentar o uso dos sentidos Mas se tenta Finalmente toda essa questão tem a ver com a maneira como se concebe a autoria É a noção de autor que está em questão nas formas de interpretação O que caracteriza a autoria é a produção de um gesto de interpretação ou seja na funçãoautor o sujeito é responsável pelo sentido do que diz em outras palavras ele é responsável por uma formulação que faz sentido O modo como ele faz isso é que caracteriza sua autoria Como naquilo que lhe faz sentido ele faz sentido Como ele interpreta o que o interpreta 97 Dada a forma de administração da interpretação a autoria é afetada por ela Temos dito com certa insistência Orlandi 1992 que a autoria está em franco processo de transformação já que a relação com a historicidade do dizer e os modos de relação com a presença da alteridade tem sofrido mudanças quer pelos modos como funciona a censura quer pelo modo como se gere a relação com a originalidade na formação social burguesa que tempera de forma particular a relação entre determinação e auto nomia Tudo isso é enfim sobredeterminado pela forma como a linguagem circula e uma vez que a mídia impõe seu modo de relação com a interpretação a funçãoautor é certamente afetada por essa sobredeterminação O analista não pode estar indiferente a todos esses aspectos do funcionamento da interpretação A vantagem que vejo em um dispositivo analítico como o que temos proposto no campo teórico da análise de discurso é que como não trabalhamos só com a estrutura mas também com o acontecimento da linguagem esses aspectos que tocam o acaso o equívoco e a forma histórica da interpre tação são levados em conta na compreensão de cada gesto de interpretação22 E o que talvez seja mais importante com a noção de ideologia se evita pretender chegar à verdade do sentido estando no entanto atentos às suas diferenças 22 A maneira como estou propondo considerar o gesto de interpretação na análise de discurso deslocando o lugar da observação da produção dos processos de significação no texto para o fato mesmo da interpretação que os constitui desloca também o campo conceituai ligado ao histórico e ao social de uma perspectiva mais dependente de uma produção teórica das ciências sociais para uma perspectiva mais diretamente ligada à linguagem É este sem dúvida o grande mérito teórico do deslocamento discursivo o de compreen der o homem antes de tudo enquanto ser simbólico histórico ideológico etc 98 8 ANÁLISE Embora a interpretação pareça se fazer por um sujeito que apreende um sentido que está nas palavras esta relação como vimos é ao mesmo tempo mais indireta e mais determinada por processos que fogem ao controle do sujeito e que mostram que os sentidos não emanam das palavras A análise de discurso trata a questão da interpretação restituindo a espessura à linguagem e a opacidade aos sentidos Ela propõe então uma distância uma desauto matização da relação do sujeito com os sentidos Na perspectiva formalista a proposta para se fazer ciência é tornar estranho o que é familiar Porque o que nos é familiar não conhecemos só reconhecemos Na perspectiva da historicidade que é a da análise de discurso também se critica a familiaridade mas com outros meios e com outros objetivos Nesse caso se procura desfazer as evidências ou melhor se procura não ficar na familiaridade conquanto esta representa efeitos de evidên cia produzidos por processos de significação bem menos transparentes e mais indiretos Os sentidos não brotam das palavras Por outro lado o objetivo desta crítica à familiaridade à evidência embora se ligue à questão do conhecimen toreconhecimento recusa a transparência da linguagem e faz intervir não a vontade do saber da verdade no analista mas o inconsciente e a ideologia na consideração do sujeito 99 Nesse sentido é interessante observarse que a ideolo gia não é como se sabe consciente Ela é efeito da relação do sujeito com a língua e com a história em sua necessidade conjunta Assim a singularidade não é um efeito da vonta de do sujeito ela resulta do modo singular com que a ideologia o afeta São essas as determinações a que nos referimos quando falamos que a relação com o sentido é mais indireta e mais determinada pela história pela ideo logia Se assim é a interpretação enquanto dispositivo do analista e gesto do sujeito que diz nos oferece um lugar extremamente expressivo de observação dos processos de produção dos sentidos e de constituição dos sujeitos Os trabalhos de análise que apresentaremos a seguir servem para mostrar essa relação com a interpretação O primeiro sobre a Teologia da Libertação expõe a proposta de uma hermenêutica da libertação em que o gesto mesmo de interpretar é em si o óbice do político No momento em que atribui sentido o religioso desliza sem perder seus sentidos para os sentidos do político Desliteralização Transferência Metáfora Coisas signifi cando a fé é função da libertação O segundo exemplar de análise sobre a paródia e os processos de identificação a nível da língua e da nacio nalidade é uma exposição de procedimentos analíticos que tomam em conta o próprio gesto da interpretação No caso analisado este gesto se instaura como paródia Mais geralmente todo gesto de interpretação é carac terizado pela inscrição do sujeito e de seu dizer em uma posição ideológica configurando uma região particular no interdiscurso na memória do dizer Nossas análises preten dem mostrar como isso se faz e que efeitos de sentidos aí se produzem 100 9 FÉ E OPRESSÃO Allllllllll A questão da Teologia da Libertação TL na América Latina toca de modo particular o sentido do político e o trabalho histórico do estatuto da fé Eis a conjunção dos três elementos cruciais para a n o político a história e a fé A definição que é dada comumente é função de sua complexidade e de sua inscrição em um domínio plural refletir a partir de uma prática no interior de um enorme esforço dos pobres com seus aliados procurando inspira ção na fé e no Evangelho para o engajamento contra a pobreza e a favor da libertação integral de todo homem e do homem em seu todo C e L Boff 1986 Com efeito a TL se apresenta ao mesmo tempo como movimento social forma de pensamento e doutrina Os cruzamentos múltiplos desses modos de apresentação com os três elementos cruciais enunciados mais acima nos instalam no domínio dos sentidos que constituem a TL Enquanto movimento socia l ela existe inde pendentemente de sua formulação específica mesmo an tes de ser nomeada Desse ponto de vista a TL segundo L Boff é ao mesmo tempo o reflexo de uma práxis anterior e uma reflexão sobre esta práxis Ela é a expressãolegiti mação de um vasto movimento social que apareceu nos anos 60 na América Latina f aliás nesse ponto que M Lowy 1988 situa a influência francesa os socialistas cris tãos dos anos 30 os padres operários dos anos 40 a CFTC nos anos 50 e a ação dos cristãos de esquerda brasileiros 101 por exemplo na JUC Juventude Universitária Cristã funda da nos anos 50 assim como mais tarde durante a ditadura saída do golpe de Estado de 1964 a solidaridade da Igreja com os revolucionários sobretudo da parte dos dominica nos É segundo Lowy idem na prática desse movimento social de que fazem parte grupos religiosos laicos asso ciações de base popular setores significativos da Igreja e comunidades eclesiais de base as CEBs23 que é preciso procurar os elementos que permitem compreender fenô menos históricosociais importantes como são a ascensão da revolução na América Central ou no Brasil o surgimento do movimento operário nos anos 6024 Pela realização de um conjunto de escritos concebidos como um produto espiritual esse movimento social se legitimou e se refor çou com uma doutrina religiosa coerente que o sustentou e lhe permitiu estenderse Definida neste contexto a TL é um fenômeno eclesiás tico e cultural muito rico e muito complexo para interessar apenas os teólogos de profissão25 Tratase na realidade dizem L e C Boff idem de um tipo de pensamento que 23 As Comunidades Eclesiais de Base CEBs são grupos organizados em torno da paróquia urbana ou rural pelos padres bispos ou leigos Elas são compos tas por operários desempregados jovens camponeses pequenos proprietá rios rurais e mesmo comunidades de índios de mulheres etc Elas são muito importanles para o descnvolvimenlo dos movimentos sociais dada sua força de organiziçao popular 24 M Lowy idem procura moslrar como os esludos de Bloch e de Goldman inovaram o mélodo de aprendizagem da religião em sua relação com o marxismo é preciso inlegrar nesta reflexão o polencial retórico da lradição judaic0ristã Por esla via Lowy moslra a importãncia da n para o marxismo e do marxismo para a TI na América Latina 25 É no mesmo solo desses movimentos sociais que surgem discursos como o da TL o do PT o dos movimentos sindicais ele Esses diferenles discursos já são em si diferentes modos de interpretar esses movimenlos sociais Isso nos dá uma idéia de como os sentidos são muitos e como derivam efeito metafórico cm muilas e variadas direções Que não são indiferentes ao político ao ideológico ao histórico 102 atravessa em boa parte todo o corpo eclesiástico espe cialmente no Terceiro Mundo o teólogo nível professio nal o padre nível pastoral os leigos nível popular É por isso que se assiste a uma integração e não a uma fragmen tação entre uma teologia canônica oficial uma teologia crítica contestatária e uma teologia selvagem à margem da Igreja A partir daí podese definir mais geralmente a TL como toda forma de pensar a fé face à opressão ibidem Resulta daí um alargamento da definição do próprio teólogo de certo modo é teólogo toda pessoa que crê e que pensa sua fé Há desde então coincidência entre teólogo e cristão não somente o sujeito da fé é teólogo mas faz irrupção uma teologia popular que é um pensa mento da fé praticada coletivamente De um ponto de vista discursivo aparece então um traço essencial da TL esta teologia popular é antes de tudo uma teologia oral A escrita escritura só funciona como esquema script ou como resíduo isto é como a coleta do que foi discutido e que se quer guardar Mesmo se não tem o nome de teologia porque ela é anônima e coletiva ela é teologia do fato e de fato Dar ela tira seu caráter crítico ela é lúcida e profética segundo a expressão dos teólogos da libertação o que significa que ela vai às causas propondose atingilas É daí também que provém seu caráter sacramental pois ela se faz por gestos e símbolos que já são um pensamento religioso A TL não é uma teoria abstrata ela é antes de tudo uma prática no seio das comunidades concretas Ela deve então saber articular o discurso da sociedade o dos oprimidos que pertencem ao universo das significações popular simbólica e sacramental o da fé e enfim o da grande Tradição 103 Ela aparece assim no texto de L e C Boff 1986 que a resumem como segue enfim ao teólogo da libertação não cabe outra palavra senão a do Senhor nós somos todos servos porque só fizemos o que tínhamos de fazer Lc 17 1 O Este tipo de recurso ao Texto Sagrado mostra o teólogo da libertação em pleno trabalho de interpretação e de articulação entre as exigências do Evangelho e os signos dos tempos que emergem nos meios populares Para bem compreender o sentido e a natureza desse discurso nós analisaremos diferentes materiais de cada um dos domínios discursivos que se trata de articular a textos sobre a TL b textos da TL c textos de grandes reuniões que constituíram a TL Documento de Medellín Documen to de Puebla Documento de Santo Domingo d artigos da imprensa essencialmente entrevistas com teólogos da li bertação e e um filme Magnificat produzido com fim didático a partir de uma reunião geral das CEBs 1988 Limitarnosemos a mostrar como funcionam no discur so da TL noções como o político a conversão os pobres em suas relações com o modo particular de definir a fé e fazer intervir a história na religião Os pobres A questão aberta pela TL podese exprimir assim como ser cristão em um mundo de miseráveis e de pobres que reclamam justiça A solução proposta repousa sobre a solida riedade aos pobres e sobre o evangelho da libertação Os laços semânticos entre pobres e libertação organizam o domínio de significação da TL e as relações da Igreja com os movimentos sociais A libertação é condição de fé pois no Terceiro Mundo a fé se confronta com a pobreza como opressão A 104 teologia não é primeira ela segue a prática libertadora a fé que opera pela caridade GI 56 É no interior de uma didática maior da teoria da fé e da práxis da caridade que age a TL segundo seus teólogos com efeito a raiz da TL é a prática concreta Mesmo se o objeto primeiro da teologia é Deus o conhecimento de Deus não dispensa o conhecimento do mundo real Segundo o adágio de Santo Tomás Um erro a propósito do mundo é um erro a propósito de Deus Para que a fé seja eficaz ela deve trabalhar os processos históricosociais concretos ela deve ter os olhos abertos para a realidade histórica que queremos criar TL O conhecimento do mundo do oprimido é a base material do processo teológico global a opção pelos pobres é um critério de universalidade e de credibilidade para o cristia nismo Esta posição da TL leva a uma prática crítica do assis tencialismo que faz do pobre um objeto de caridade e do reformismo que para não transformar as relações sociais desenvolve a sociedade sem tocar na pobreza Daí deriva uma crítica tanto da visão empirista a pobreza como um vício quanto de uma visão funcionalista a pobreza como atraso no desenvolvimento social A TL defende uma visão dialética a pobreza é uma opressão e a revolução é a única solução Mesmo se o marxismo faz aí sua entrada triunfal ele será no entanto domesticado e só tem na TL um valor instrumental O pobre aparece como desfigurado e desnaturado em uma palavra crucificado Para tornar homem o homem que não é mais homem a TL propõe a hermenêutica da libertação Se o marxismo serve como metodologia para a compreensão do universo dos oprimidos a visão cristã vê no pobre a imagem de Deus na cruz Colocando o acento 105 sobre os fatos econômicos a luta de classes e o poder mistificador das ideologias aí compreendida a religião o marxismo só apresentaria o homem em sua dimensão utilitária O pobre diz a TL não é somente um ser que tem necessidades ele é sobretudo o portador de um poder evangelizador e uma pessoa que tem a vocação para a vida eterna Em suma segundo a expressão dos teólogos da TL o marxismo é submetido ao julgamento dos pobres O pobre enquanto oprimido em sua existência tempo ral é o móvel de uma nova leitura da Bíblia a hermenêutica da libertação A historicização e a politização não se fazem diretamente sobre o Texto Sagrado mas sobre o pobre É a mudança da pessoa conversão e da história revolução que visa a hermenêutica da libertação A conversão A conversão é função da hermenêutica da libertação e seu sentido está centrado nas noções de pobre e de opressão a realidade da miséria é um atentado à fé Desse ponto de vista o pecado não é o luxo mas a miséria Isto adquire um sentido forte nas palavras do bispo Casaldáliga na Amazônia quando diz Há muito tempo que eu sinto o desaparecimento dos povos como um mistério de iniqüidade histórica que converte minha fé em abatimento A conversão é conversão do pobre Não é uma conver são do pobre em rico mas do nãohomem em homem pleno em homem novo sendo o nãohomem definido como aquele a quem se nega dignidade e direitos funda mentais Nesse sentido mesmo se fala de novidade e de moder nidade a conversão implica que na TL se siga o mesmo caminho proposto pelos missionários durante a coloniza 106 ção do Brasil nos séculos XVII e XVIII Para os missionários Martin de Nantes por exemplo conferir E Orlandi 1990 era preciso antes transformar o índio em ser polido e civil para em seguida tornálo cristão Quer dizer a civilidade dignidade era uma condição da catequese Essa aproximação que proponho coloca em jogo uma profundidade histórica que me parece ainda opaca De todo modo o processo da conversão apresenta nos dois casos pontos de contato Durante a colonização a conversão era uma conversão da cultura aculturação agora ela é social revolução A miséria extrema não permite a convivialidade a sociabili dade com seres sociais e civis do mesmo modo que o estado selvagem do índio não permitia nos dois casos os excluídos são nãohomens É preciso ser homem para ser cristão A noção de homem ainda que ela provenha do marxismo quando se trata de compreender o sentido dialético da pobreza é ilustrada a partir de Cristo A opressão encontra sua representação na metáfora da cru cifixão Deus é crucificado nos crucificados da história No entanto é possível compreender a conversão em um sentido mais amplo no discurso da TL Voltaremos a isso erri nossa conclusão O político A necessidade de optar pelos pobres e o processo de conversão compreendido como libertação do oprimido dão à TL sua especificidade política Do ponto de vista dos pobres a libertação aparece como a estratégia daqueles que têm confiança em si e em seus instrumentos de luta sindicatos organizações campo nesas partidos populares CEBs A TL só tem sentido na prática concreta Ela é uma teologia que leva ao fórum da 107 história Hoje a forma da fé é o amor político ou a macro caridade No Terceiro Mundo a fé é antes de tudo política Ao mesmo tempo em que os teólogos da libertação afirmam o caráter político da fé eles acrescentam sempre que a Igreja não tem fim político A hermenêutica da libertação promove uma nova leitura da Bíblia mas é a Palavra de Deus que traz a luz e a inspiração A inter pretação se efetua na abertura à Revelação sempre nova e sempre surpreendente de Deus à mensagem inaudita que pode salvar ou condenar Para compreender bem essa relação entre a fé Deus e o político é preciso fazer intervir um outro componente da TL a história Segundo a TL a releitura teológicopolítica da Bíblia acentua sem reduzir o contexto social da mensagem Ela coloca cada texto em seu contexto histórico para fazer uma tradução adequada e não literal em seu próprio contexto histórico No entanto esta leitura é feita na chave cristológica ou seja Na ótica do pobre é tomada no interior de uma ótica maior a do Senhor da história Nessa perspectiva a Teologia Patrística século li a IX é retomada com sua concepção unitária da história da salva ção da dimensão profética da missão da Igreja e da atenção aos pobres Em suma a leitura da Bíblia finaliza na conduta de hoje o sentido de ontem Esta dupla inscrição temporal dá seu sentido histórico à TL e modaliza suas cores políticas Como vimos é na própria concepção de pobreza que a TL faz intervir a história o pobre não é somente visto no presente mas ele o é também em um processo de opres são A situação dos oprimidos é definida sobretudo pelo modo como resistem pela sua luta de libertação A TL vê o pobre enquanto sujeito social do processo histórico É nessas definições que encontramos o discurso marxista 108 A oscilação políticoreligiosa das palavras na TL é con tínua Às vezes falase da fé transformadora da história às vezes preferese falar da história concreta pensada a partir do grão da fé Mas se esse discurso tem suas duplicidades e seus compromissos o que os teólogos propõem quando integram a história é universalizar a n Ela deve permanecer a mesma tanto nos grandes teólogos eruditos quanto nos teólogos populares Conseqüentemen te é porque ela se enraíza na vida cotidiana que ela se concebe como uma teoria da ação É por esta via que ela penetra na política A transformação histórica faz parte da substância da TL É finalmente nisto que reside sua dimensão política Nem por isso ela perde sua originalidade teológica O que é proposto não é que se liberte de mas que se liberte para para os outros para o Deus oculto em nós etc Na prática chegase de qualquer modo à libertação dos opri midos à salvação eterna que passa pelas libertações histó ricas que dignificam o Filho de Deus Antes de passar à nossa conclusão parecenos impor tante ilustrar nosso propósito citando mais diretamente dois textos que permitem ver como o discurso da TL opera as relações muito particulares que ela estabelece entre a religiãÓ o político e a historicidade a O político Frei Beto um dos criadores das CEBs no Brasil em uma reunião de operários da grande São Paulo e que desempenhou um papel muito importante durante a dita dura militar no Brasil coloca como segue a questão da relação entre o político e a religião Qual é a imagem que os fariseus tinham de Jesus De alguém que não respeitava as leis Qual é a imagem que os discípulos e o povo tinham de Jesus De alguém que trazia a vida e a vida em 109 abundância Então podemos ter muitas imagens de Jesus Ora hoje na realidade da América Latina e do Brasil foi dito que Jesus aparece em sua dimensão política Isto não quer dizer que Jesus foi um homem político no sentido de homem de partido mas quer dizer que a morte de Jesus foi uma morte política Jesus foi morto como foi morta Margarida Alves como foi morto o padre Jovino como foi morto o índio Marçal não é Jesus foi morto como prisio neiro político Hoje as CEBs completam seu percurso de semear movimentos populares semear o movimento sindical semear movimentos indígenas de negros de mu lheres mas também de uma nova maneira de fazer política nesse país Magnificat 1988 Aqui o político aparece francamente no discurso da TL É preciso observar que a referência aos mortos políticos não inverte o tempo não se refere as mortes de hoje ao passado à morte de Jesus Ao contrário referese a morte de Jesus aos mortos políticos de hoje Está aí o traço político mais importante do discurso da TL Vejamos o texto seguinte que fala da ligação com a história b A historicidade Em uma árvore no vizinho a Igreja está aí porque aí está a Palavra de Deus A Igreja é acontecimento não há uma estrutura maior É a verdadeira Igreja E há uma questão importante uma questão de cultura A palavra humana da Bíblia que contém a palavra divina foi escrita em uma cultura patriarcal Então nós devemos ler a Bíblia nós devemos interpretar a Bíblia nós devemos despatriarcalizar a Bíblia L Boff Magnificat 1988 Há aí uma distância sintomática entre a palavra e a escrita a palavra é eterna mas a escrita tem uma cultura histórica circunscrita Aí está o móvel da interpretação 110 Em outras palavras a interpretação proposta é uma interpretação na história sendo a relação com a Bíblia a relação entre palavra humana escrita e palavra divina mas desta vez no sentido inverso a palavra divina está contida na palavra humana escrita sendo que a primeira não é transparente transhistórica Eis outra característica muito interessante da TL como o texto da Bíblia não é transparente não há leitura literal Dêixis e política O discurso da TL na América Latina produz um deslo camento nos sentidos do político Na história recente do Terceiro Mundo todos os dis cursos políticos são obrigados a falar dos pobres O discur so da TL não toma o pobre somente como argumento ela o institui corno tema A relação da religião com o político conduz a não colocar o pobre no lugar da resignação e na esperança de uma vida melhor no além Os militantes da TL exigem urna mudança das condições de vida para hoje e nesse mundo aqui As citações da Bíblia em sua relação ao político não funcionam como simples epígrafes Elas não apagam tampouco o sentido do político Elas estabelecem nesse discurso um movimento de interpretação no qual a confrÓntação da fé com a opressão é acentuada Sabese que o lugar do político como tal está conside ravelmente restrito atualmente As propriedades discursivas da TL são um sintoma da permanência da questão do político no Terceiro Mundo A TL é um lugar de fala no qual o político resiste como tal Um lugar no qual falar de revolução de resistência ou simplesmente do político não está fora do discurso No entanto em sua especificidade a característica mais importante do discurso da TL reside no fato dela operar uma conversão da dêixis do discurso religioso 111 A dêixis define as coordenadas espaçotemporais impli cadas no ato de enunciação Distinguese na dêixis discur siva o locutor e o destinatário discursivos a cronografia e a topografia Maingueneau 1987 É pelo estabelecimento de uma cena e não por um espaço objetivamente deter minado do exterior que os enunciados se inscrevem nas formações discursivas A dêixis fundadora deve ser com preendida como a situação de enunciação anterior que a dêixis atual utiliza para a repetição de onde ela tira em grande medida sua legitimidade A Bíblia possui uma dêixis discursiva própria com seus espaços sua geografia sua cronologia e seu conteúdo cultural o discurso religioso se esforça ordinariamente em reatualizar esta dêixis originária em fazer como se todo sujeito tivesse de se situar em relação a esta cena de antigamente A hermenêutica proposta pela TL situa a dêixis bíblica em relação ao universo cotidiano dos pobres do Terceiro Mundo Há uma verdadeira conversão das condições de significação do discurso religioso É pois nesse movimento de repetição e de atualização da dêixis discursiva que se produz a conversão do discurso bíblico de que falo Nessa conversão irrompe o político que no discurso da TL adquire novas determinações de sentido O político permite a desliteralização do discurso reli gioso bíblico na leitura produzida pela hermenêutica da libertação Esta desliteralização é uma textualização dis cursivização historicização pelo político Ela permite a conversão temporal do discurso bíblico liberandoo do anacronismo que impede qualquer movimento do sentido Todo discurso ou melhor todo enunciado é suscetível de tornarse outro diz Pêcheux 1988 diferente de si mesmo todo enunciado é suscetível de se deslocar de seu espaço para derivar para um outro se não há interdição explícita de interpretação Esta possibilidade é essencial 112 para que o enunciado continue a significar Ela é garantida na TL pelo político sendo que é este a condição para que o sentido do discurso da Bíblia faça sentido hoje No entanto as reações da Igreja são fortes A TL é combatida no Brasil de várias maneiras Manipulase a hierarquia eclesiástica de forma a descartar das posições chave os adeptos da TL Punese L Boff foi condenado ao silêncio e à exclusão Fora da Igreja chegase mesmo ao assassinato brutal de líderes da TL O discurso da TL testemunha esses confrontos Podese ver isto no abrandamento dos slogans caminhar juntos ao invés de lutar ou nas modalizações liberdade soli dária onde liberdade ganha um adjetivo que a contém em seus limites Mas a Igreja na América Latina não pode mais desco nhecer que a questão da fé tem de levar em conta o que pode significar a opressão 113 1 O O TEATRO DA IDENTIDADE A paródia como traço de mistura lingüística italiano português São duas línguas no mesmo sujeito A convivência dessa ambivalência simbólica é o assunto desta reflexão Mas vamos começar pelo fato de que o texto central de nossa análise é uma paródia Migna terra Em grego parodía quer dizer canto ao lado de outro Toda nossa questão está em compreender o que significa ao lado de outro assim como em explicitar que sentidos são modos de interpretação desse outro Para tal mos traremos pelo funcionamento discursivo os mecanismos ideológicos que aí estão envolvidos No caso presente como se trata de trabalhar a relação línguanação é nesse contexto teórico que situo a com preensão da expressão ao lado de outro Tratase de apreender os efeitos de sentidos da paródia na constituição do jogo identitário que refere o sujeito à língua nacional Nesse caso específico o sujeito é o brasileiro afetado em sua identidade pela imigração italiana que no fim do século XIX e começo do século XX constitui o contingente mais decisivo na formação da população de São Paulo O corpus de nossa análise é constituído pela paródia Migna terra 1924 de Juó Bananére codinome de Alexan dre Marcondes Machado referida ao seu original Can ção do exílio de Gonçalves Dias 1850 tendo ainda como contraponto para reflexão outra paródia o Canto do regres so à pátria de Oswald de Andrade 1924 114 O texto de Juó Bananére Migna terra que vamos analisar é parte de uma obra maior La divina increnca escrita em seu dialeto macarrônico que como diz Mário Leite do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo em seu prefácio de 1966 nele inscreve a sátira e a pilhéria a que não se acostumam furtar personagens pree minentes principalmente do mundo político Um outro enunciado de Mário Leite é mais instigante para esse nosso trabalho Segundo ele se Alexandre Marcondes Machado tivesse encontrado como Afonso DE Taunay encontrou conselheiros como Capistrano de Abreu e Was hington Luís que o levaram a voltarse para os fastos do bandeirismo que o tornaram o maior historiador de São Paulo Alexandre M Machado possivelmente de par com a literatura a que se atirara sob a divisa ridendo castigat mores tivesse se voltado para a que enquadrada na pureza sic e sobriedade da língua é a criadora de imortais idem Por que a paródia de uma língua pois é assim que consideramos o português macarrônico não pode fazer imortais Por que não está enquadrada na pureza sic e sobriedade da língua E não fazendo imortais pode ela fazer cidadãos Que estatuto dar a essas línguas que são paródias no sentido em que elas se inscrevem em uma língua outra ou melhor que elas passam ao lado de uma língua outra São estes gestos de interpretação produzidos por Juó Bananére o centro de nossa atenção Todo sujeito ao dizer produz o que chamo um gesto mínimo de interpretação que é a inscrição de seu dizer no interdiscurso no dizível para que ele faça sentido Aí trabalha um efeito ideológico elementar que está no fato de que todo discurso se liga a um discurso outro por sua ausência necessária As diferentes versões do poema que analiso ou mais precisamente a paródia que é objeto desse estudo se 115 presta muito propriamente para se observar esse trabalho da interpretação e da ideologia Em cada uma das versões podemos observar nos pontos de deriva os chamados efeitos metafóricos desli zarrientos de sentidos que são a produção de gestos de interpretação dos diferentes autores Onde está abóbo da em uma versão desliza para abóbora na outra Estas duas palavras estão ligadas por um gesto de interpretação por um efeito metafórico do qual procuramos compreen der os sentidos retraçar o processo de produção É assim que podemos compreender a nível do discur so ideologicamente constituído o que na teoria da enun ciação seriam as marcas da subjetividade Dito de outro modo o gesto de interpretação como lugar da relação do sujeito com a língua é depositário das marcas de subjeti vidade Vejamos os textos que submeteremos à nossa observa ção Dois deles o de G Dias e o de O de Andrade são paródias que tocam a forma material dos poemas e o outro de Juó Bananére como dissemos toca sobretudo a questão do sistema da língua sua ordem simbólica O português macarrônico é uma paródia da língua portuguesa Paródia que reflete a imagem que o brasileiro tem do português falado por imigrantes italianos no Brasil O corpus Canção do exílio Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá 116 Gonçalves Dias 1850 Nosso céu tem mais estrelas Minha terra tem primores Nossas várzeas têm mais flores Que tais não encontro eu cá Nossas flores têm mais vida Em cismar sozinho à noite Nossa vida mais amores Mais prazer encontro eu lá Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá Em cismar sozinho à noite Mais prazer encontro eu lá Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá Migna terra J Bananére 1924 Migna terra tê parmeras Che gania inzima o sabiá As aves che stó aqui També tuttos sabi gorgeá A abobora celestia tambê Che tê lá na mia terra Tê moltos millió di strella Che non tê na lngraterra Os rios lá sô maise grandi Dus rio di tuttas naçó 1 os matto si perdi di vista Nu meio da imensidó Não permita Deus que eu morra Sem que eu volte para lá Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá Sem quinda aviste as palmeiras Onde canta o sabiá Coimbra julho 1843 Canto do regresso à pátria O de Andrade 1924 Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá Na migna terra tê parmeras Não permita Deus que eu morra Dove ganta a galligna dangola Sem que volte pra São Paulo Na migna terra tê o Vaprelli Sem que veja a Rua 15 Chi só anda di gartolla E o progresso de São Paulo 11 7 Estes são os textos que constituem o corpus de nossa análise Os materiais efetivos da relação paródica que nos interessam são os de G Dias e Juó Bananére O de O de Andrade entrará apenas como termo de referência Passemos pois à análise A análise Indícios da mistura das línguas Do ponto de vista formal há alguns pontos que são pistas para o processo de significação e que resultam em efeitos significativos para a questão de identidade que nos propomos compreender Esses pontos são os que seguem 1 A origem rural dos imigrantes italianos de São Paulo é na verdade 11mencionada em diferentes traços a na necessidade de especificação concreta uma sobredeterminação como em che ganta inzima das palmeiras ao nível morfossintático esta sobredetermina ção pode ser compreendida tanto como um gesto de interpretação que adapta a língua italiana ao português como a que pensa a necessidade de gestos de referências palpáveis na relação do imigrante com seu mundo estran geiro b na confusão entre abóboda celeste e abóbora celeste ao nível lexical c o uso dangola como adjetivo ao invés de dan gola ligada ao país Angola referindose à galinha tam bém uma ave típica do interior de São Paulo e das fazendas de italianos no Brasil 2 Um dos estigmas dos imigrantes italianos em geral analfabetos está justamente na relação com a escrita Aparecem assim 118 a formas que são consideradas erros mignaminha têtem parmeraspalmeiras maisemais inzimaem cima sósão stóestão imensidóimensidão perdiperde Este últi mo considerado erro na escrita é no entanto um dos fatos marcantes da influência do italiano no falar paulista e final i com palatalização da consoante anterior se for t ou d b formas que são sintomas de italianidade cheque tuttostodos moltosmuitos E entre estes merece realce a mais popular destas marcas gantacanta gartolacartola a passagem de e a g A própria escrita enquanto lugar em que se produzem gestos de interpretação no trabalho de identificação tem aqui importância fundamental 3 O uso da dêixis É especialmente revelador o uso da dêixis Tratase de um lugar que marcaria uma oposição aquilá que é apagada Onde na poesia de G Dias há oposição As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá em Bananére esta se dilui As aves che stó aqui tambê tuttos sabi gorgeá O todo aqui refere ao universo de pássaros e não aos lugares aqui e lá É assim que intervém a interpretação de Bananére Este apagamento do campo de validade da dêixis é tão forte que ficam absolutamente ambíguas as indicações de espaço se as referimos à indicação do país migna terra onde é esta terra Tanto o lá como o aqui é o Brasil O espaço é o da memória o imaginário Não se sai 11 desse lugar 11 ainda que o espaço físico tenha mudado Voltaremos a falar da questão da dêixis de forma mais abrangente Nesse passo bastanos ligar seu funcionamen to ao modo como se nomeia o poema em G Dias Canção do exílio em Bananére Migna terra em O de Andrade Canto do regresso à pátria em que a pátria é nomeada São Paulo Na paródia de Bananére a idéia de exílio desapa 119 rece n se deixou um país pelo outro O Brasil não pode ser s1gnif1cado como terra de exílio a Itália fica silenciada Do ponto de vista do assunto também é interessante se observar algumas características 1 apagamento da oposição de espaço BrasilItália pelo uso da Inglaterra como termo de referência mia terra lngraterra 2 comparandose os dois poemas percebese que só as co1sas da natureza é que são retomadas na paródia de Bananere Desaparecem as alusões ao espírito ao desejo ao prazer etc há mesmo redução de 5 estrofes a 4 obram s reerências aos rios que são mais grandes as palmeiras as galinhas aos pássaros etc ic tambn1 a reerência a um personagem o Vap relh que e sintomaticamente um nome terminado em elli sufixo este indicador de origem italiana entre os imigrantes brasileiros 3 apagamse termos de comparação colocando a comparação entre seres daquí e daqui mesmo as aves che stó aqui tambê tuttos sabi gorgeá 4 não fala da volta e não fala da morte O refrão Não nnita Deus que eu morra sem que eu volte para lá repetido 1numeras vezes no poema de G Dias desaparece na paródia sta indicação mais a questão da indistinção da dêixis nos intrdzem no aspecto mais importante trazido por esta parodia e sobre o qual falaremos a seguir 11 Equívoco apagamento indistinção Estas carcterísticas da língua nos levam a sentidos que migram se dispersam se indistinguem É assim que na análise de discurso vemos a relação entre a ordem da língua e os seus efeitos que se inscrevem na história visíveis na discursividade 120 Diríamos que o que se produz aí é um discurso do imigrante O português macarrônico não seria nesta pers pectiva uma língua mas um discurso em que aparece a maneira como estando em outra língua o italiano trabalha sua inscrição no portuguêsbrasileiro A indistinção em Migna terra Brasil ou Itália o lá que é o Brasil aqui a escrita com formas misturadas gn nh gc o não falarse em volta são a própria defini ção do imigrante é o que vem e fica Mas fica como Aí entra a necessidade de sentidos migrantes ou me lhor de sentidos mutantes em um espaço sem muita definição entre a Itália e o Brasil Desse ponto de vista há uma especificidade do imi grante em relação ao colonizador O colonizador por definição é o que em termos de memória exerce sua memória tradicional impondoa e impondose ao coloni zado O imigrante não se define assim Ele não tem o poder nem o direito de impor sua memória Embora toda prática de linguagem seja transformadora ele fica mais afetado pela memória local A senzala no Brasil cede lugar às colônias Mas aí também o sentido é indistinto e opaco os que viem nas colônias no Brasil são os colonos e não os colonizadores mas também não são subalternos como eram considerados os escravos A passagem para o sistema do trabalho assalariado garante uma relação de produção outra que a escravagista embora submeta o colono ao proprietário rural A diferença fundamental é que muitos desses colonos serão em pouco tempo os novos proprie tários rurais Deixando de lado a diferença entre colono e coloniza dor nossa questão recai sobre o estatuto produzido pelo português macarrônico E a questão seria que sujeito é este Que sentidos produz Em que língua 121 A nossa posição é a de que este sujeito que assim se mostra na paródia é um sujeito indistinto que produz sentidos cujo gesto de interpretação não delimita espaços precisos nem geográficos nem em termos de nação e de Estado sentidos estes que também se dão em uma língua indistinta A indistinção é lugar de dois em um Presença de dois no espaço de um seja do sentido seja do sujeito seja da língua A identidade é um movimento na história e na relação com o social A situação lingüística que estamos analisan do nos apresenta isto de modo agudo um movimento dos sentidos e dos sujeitos pego em um trajeto em que não há estabilidade não há legitimidade já construída Espaço da sátira da paródia Do sujeito e do sentido ao lado do outro sujeito e do outro sentido Paralelos Que não se identifi cam não se recobrem não coincidem E que jogam entre si É o sentido mesmo de pátria terra de cidadão e de língua nacional que está em jogo Esses poemas são três versões relacionadas entre si por paródia Podemos então considerar a existência de um sítio de significância sobre o qual se produzem distintos gestos de interpretação por diferentes autores as três versões que constituem os três poemas com seus deslizamentos de sentidos de que são ilustração os traços que analisamos mais acima São eles pontos de deriva Efeitos metafóricos onde o sentido e o sujeito se deslocam para um outro sem atingilo escorregando pelos sentidos Este sítio significante comum submetido ao efeito me tafórico é o que refere o sujeito a uma sua pátriaou terra Esta ligação entre o sujeito e sua pátriaou terra é o objeto dos deslizamentos de nossa análise Quais são os sentidos dessa ligação Como veremos eles estão ditos elaborados pela relação do sujeito com os sentidos e mais especifica 122 mente no caso de J Bananére pela relação do sujeito com suas línguas Esses diferentes gestos de interpretação constituem indícios da inscrição do sujeito em diferentes formações discursivas Pelas características que acabamos de analisar já podemos dizer que essa inscrição longe de ser alg preciso e bem delimitado ao contrário é tensa contradi tória e mostra que é sobretudo a mistura e a sobrecarga que a pontuam Podemos dizer que nestas diferentes versões os traços que as distinguem são vários mas alguns são bstante elo qüentes Na relação de O de Andrade com G Dias atase de associações tais como palmeiraspalmares Zumbi ou a que desloca o sentido de pátria para São Pauloe não Brail falando do progresso ou ainda a que fala em regressoe nao exílio Na relação de G Dias e Bananére aparece acentuada mente a diferença posta pela indistinção do lá enquanto se fala em terra e a pátria não é mencionada ou a que não fala em volta assim como as marcas da diferença de línguas como cg ttd mignaminha etc Em última instância é a noção de pátria que está em questão Ili A pródia da língua o próximo e o distante A diferença fundamental entre de um lado G Dias e o de Andrade e de outro Bananére é que entre os dois primeiros a paródia é uma paródia interna ao sentido de pátria estrelas vida amores flores fem G Dias ouro terra amor rosas em O de Andrade Na paródia de Bananére cartolagartolla abóboraabóboda tuttos to dos a paródia é sobretudo uma paródia da língua e a questão da pátria é uma questão da relação entre ínguas diferentes No caso específico que estamos analisando essa diferença é trabalhada como sátira 123 Vejamos os deslocamentos que isto produz 1 Um primeiro deslocamento que daí decorre é da instância da relação entre análise de discurso e sociolingüís tica A sociolingüística trabalhando com a correlação entre o lingüístico e o social trataria esta questão sob a rubrica dos dialetos falares gírias etc Na análise de discurso tratandose a questão pela noção de discurso efeito d sentidos entre locutores e pensando a forma material como sendo aquela em que o lingüístico e o histórico não são correlatos mas constitutivos entre si essa questão adquire outros matizes Se as características que apontamos acima autorizam a sociolingüística a tratar esse fato sob a rubrica do dialeto caipira de influência italiana em nosso caso não se trata do dialeto caipira mas da indistinção no discurso dos efeitos de sentidos produzidos pelo sujeito da imigração São sentidos que como dissemos migram e perturbam a relação desse sujeito com o simbólico As ordens das diferentes línguas sofrem aí uma aproxi mação necessária pela história e são atingidas em sua capacidade de jogo Abremse os espaços do equívoco rompemse tecidos da formalidade estruturantes É o su jeito se trabalhando e sendo trabalhado na sua exposição aos efeitos do simbólico aí representado por duas línguas Nessa perspectiva o sujeito não está precisamente definido por sua relação com uma ou outra língua Aí há um espaço de indistinção em que ele trabalha e é traba lhado por ordens diferentes Este não é um sujeito claro e distinto Sabemos que línguas diferentes produzem discursos diferentes ou seja diferentes ordens simbólicas estruturam se diferentemente em diferentes discursos A nossa paródia 124 Migna terra é um exemplar inequívoco desse fato O sujeito que aí se constitui se mostra em sua descontinuidade seus pontos de subjetivação ambíguos e indecisos Os pontos de diferenças são pontos de deriva 26 lugares em que os sentidos podem ser outros Em que o sujeito se descola de sentidos que o repetem e se desloca por onde o semsentido pode fazer sentido A sátira é a forma de relação com o imigrante O que é satirizado na relação do brasileiro com o imigrante são justamente os gestos de interpretação enquanto momentos em que o sujeito se identifica gestos assumidos como tal pelo sujeito gartolla tutto maise 2 Um segundo deslocamento que podemos conside rar é o que nos indica que o gesto da escrita cg gn nh ttd uo é o sintoma da vontade de uma língua nacional Nessa vontade a sátira aparece como forma de relação ao falar imigrante que é uma posição de crítica e afastamento mas também uma possibilidade de interpretação da dife rença integrandoa Também aqui a ambigüidade o equí voco a indistinção trabalham seus efeitos A origem précientífica da lingüística se produz no mo mento da formação das línguas nacionais e se desenvolve segundo o eixo do direito unidade e da vida diversidade como dupla estratégia de apropriação antropológica das linguagens M Pêcheux 1981 26 Esta questão da deriva tem sido trabalhada em outras perspectivas teóricas inspiradas em M Pêcheux Em nosso caso a diferença básica está em pensarmos os deslizamentos em relação ao que Pêcheux diz do efeito metafórico remetido à interpretação tal como a temos estabelecido em nosso trabalho e à ideologia Nesse passo entra toda a especificidade de uma abordagem discursiva no modo como concebe a ordem da língua como relativamente autônoma Em que tal como estabelecemos em nossa pesquisa a interpretação é constitutiva ou seja não há sentido sem interpretação Este é o fato teórico fundamental 125 Esta conjuntura é marcada pelo fio subterrâneo das loucuras linguajeiras em que os segredos da língua afloram na forma paródica do delírio M Pêcheux idem Podemos pensar esse processo em que os segredos da língua afloram na forma paródica do delírio não como um ponto na história cronológica das idéias lingüísticas mas como processo que se dá quando sempre que a vontade da língua nacional se apresenta nessas loucuras linguajeiras Sabemos como o sujeito moderno é constituído pelos seus direitos e deveres e pelo seu direito de ir e vir No jogo contraditório entre a universalização do histó rico absorção das diferenças pela universalização das relações jurídicas no momento em que se universaliza a circulação das mercadorias do dinheiro dos trabalhadores e a historicização do universal modalização da igualda de em condições de produção diversas para se tornar cidadãos os sujeitos têm de se libertar dos particularismos históricos que os entravam seus costumes locais suas concepções ancestrais seus preconceitos e sua língua materna Pêcheux ibidem A igualdade Uuridicamente autorizada e a absorção politicamente negociada da diversidade são bem os pres supostos dessa loucura linguajeira que se expressa pela paródia da língua que estamos analisando 3 E chegamos assim ao deslocamento que incide sobre o próprio fato da paródia da língua a paródia é aqui sintoma da impossibilidade da construção de uma unidade imaginária desse estado de língua itinerante que é a língua do imigrante Daí o regime da dêixis não ter atuali dade não vigorar Com a paródia a língua não é usada ela é mencionada em relação à outra Em nosso caso tanto o português como o italiano são mencionados 126 O delírio é escrever nessa língua o português macar rônico justamente porque para que uma língua seja uma língua nacional ela deve ser capaz de unidade de gea riedade de distinção Não é o caso do falar brasileiro italianada ou o italiano abrasileirado Essa não é pois uma língua Porque nela não é possível ao mesm tempo a unidade e o jogo Ela não representa uma relaçao caa e articular a ordem do simbólico capaz de jogo e a historia sem que o equívoco que constitui necessariament essa relação se rompa e se mostre apenas como equivoco como contradição como incoerência como falha como inconsistência lingüística Porque do ponto de vista discursivo o equívoco a contradição a falha é o que é constitutivo mas que pelo trabalho do imaginário não se mostram como tal Esta possibilidade se rompe num estado de língua em que há a migração a dispersão e a indistinção que obser vamos no português macarrônico No entanto na dispersão e na indistinção reais se é a necessidade imaginária da unidade que define a língua nacional não podemos dizer que este estado de língua que analisamos seja uma língua Daí dizermos que é um discurso que mostra o trabalho simbólico da relação entre a língu do imigrante e a língua nacional Disso resulta que o sujeito que fala o macarrônico não pode por ele se constituir em cidadão Ele fala assim mas no imaginário é só enquanto falante ideal da hngua nacional que ele é cidadão Daí um dos lugares de interpre tação que separam fortemente a escrita da oralidade Essa separação imaginária constitui critério para a exitênc1a da língua nacional podese falar o português macarnico mas não se pode escrevêlo A não ser como parodia Como uma língua que passa ao lado de outra Esta sim co foros de legitimidade e parte da constituição da cidadania com sua escrita 127 Desse modo também na literatura é difícil reconhecer o mérito literário da grande literatura em um autor como J Bananére Ele fica como um autor que passa ao lado da língua literatura brasileira língua e nação a interpretação e a metáfora Algumas considerações podem ser úteis quanto à ob servação de fatos discursivos na relação sujeitolíngua quando se trata da questão nacional 1 A relação da língua enquanto ordem simbólica com a história tem sua visibilidade nos processos discursivos O discurso é assim lugar singular para se observarem aspec tos que tocam a configuração da identidade quando o fato alia língua e história como no presente caso em que se procuram compreender características da nacionalidade produzidas no simbólico 2 Paródia sátira são formas de elaboração de resignificação dessas identidades São também lugares de visibilização dos processós de identificação sociais políti cos e históricos ideologicamente constituídos Nesse sentido eles devem ser trabalhados não apenas como formas lingüísticas ou literárias mas sobretudo como trabalho de processos de identificação dos sujeitos 3 A relação línguanação não é nem direta nem auto evidente No caso brasileiro específico há situações particu larmente interessantes que atestam a complexidade desta questão 1 línguas indígenas que desapareceram dada a relação de contato com os brancos mais ou menos violenta fazemnos rever critérios como o da língua para atestarem a indianidade Há assim povos que não falam mais a língua mas nem por isso deixam de ser índios cf E Orlandi 1990 128 Há migração dos sentidos postos aí em relação à sua identidade que se deslocam para outros objetos simbólicos como a música por exemplo ou o xamanismo etc ou para um discurso em que os traços da relação com a língua irrompem na discursividade transformandoa Esses lugares onde irrompe a historicidade lingüística são pontos onde gestos de interpretação trabalham a deriva o deslocamento o equívoco constitutivos dos outros sentidos e dos outros sujeitos 2 Índios que falam línguas totalmente produzidas por missionários que se apropriam das línguas indígenas para o trabalho de catequese e mesmo por lingüistas e antropólogos que pretendem revitalizar a cultura indígena ensinando lín gua indígena para o índio e que não correspondem mais a uma história autóctone mas mediada por uma intervenção Ainda aí há um trabalho de refuncionalização histórica desses artefatos que pretendem reconstituir a língua e conseqüentemente há um trabalho de resignificação da identidade pelos índios 3 Há ainda resíduos de uma língua geral falada maci çamente nos séculos XVII e XVIII no Brasil todo e que ainda sobrevive mesmo que invisível na língua nacional ou em falares de regiões mais densamente habitadas por popula ções indígenas no norte do Brasil Aí a memória se incum be de reatar o fio da história 4 Não podemos deixar de mencionar ainda que co nheçamos menos a situação dos resíduos dos dialetos africanos incorporados pela língua nacional S Os indícios de línguas de imigrantes de que tratamos nesse trabalho apenas como uma pequena manifestação ligada ao italiano 6 Finalmente e não menos importante temos a rela ção entre o português do Brasil afetado por todos esses processos identitários nessas configurações históricas da 129 língua e o português de Portugal língua de colonização d E Orlandi 1993 A língua brasileira Toda essa complexidade resulta assim da relação de uma língua imposta pelo colonizador e a história que vai expondo o brasileiro a essas diferentes ordens simbólicas sem no entanto deixar de representar a necessidade da unidade seja ela qual for Não há língua nacional que não se constitua nesse movimento de confrontos alianças oposições ambigüida des tensões com outras línguas A relação línguanação é pois matizada por muitos processos e é só na relação de uma consistência histórica singular entre a língua e seus falantes que podemos compreendêla avaliála Um sujeito pode não estar incisivamente inscrito em uma ordem determinada de língua e nem por isso deixa de ter sua identidade configurada justamente por essa mobi lidade essa plasticidade que o faz passageiro de várias ordens do símbolo Esse é o próprio do sujeito a sua itinerância o próprio do sentido o trabalho do equívoco no próprio da língua que é capaz de jogo Até aqui falamos em língua nacional pensando sobre tudo o sujeito em seus gestos de interpretação preso pelo jogo simbólico e significando na história pela deriva pelo deslocamento pela falha pelas ilusões Resta falar da pró pria idéia de nação Faz parte do imaginário do sujeito em sua diferença pehsar a unidade para identificarse assim como também faz parte desse mesmo sujeito o da Modernidade e o da Contemporaneidade ter de referirse a uma pátria para ter uma identidade nacional Se pela teoria sabemos que a unidade é uma ilusão constitutiva e necessária mas uma ilusão produzida pela relação imaginária do sujeito com suas condições de exis 130 tência assim também a necessidade de uma referência inequívoca a uma nacionalidade é uma ilusão Mas esta tem um caráter eminentemente político importante de se realçar Mais do que isso é essa ilusão que sustenta em grande medida as nossas formas do social Com as transformações das relações sociais nas relações entre países a globalização nas relações econômicas não é a mesma idéia de nação que é vigente hoje No entanto há uma exacerbação de lutas pela nacionalidade A nosso ver há aí um equívoco As lutas exacerbadas que assim se apresentam sob o modo da luta pela identi dade são um deslocamento uma migração de sentidos dado o silenciamento imposto ao político Na falta do político como mediador nos confrontos de sentidos é isto o político na análise de discurso o fato de que os sentidos são sempre divididos não se recobrem esses lugares que correspondem a gestos de interpretação do político nação Estado governo etc são catalisadores desses sentidos Ficam sobrecarregados E produzem catástrofes guerras nacionalistas racisrro xenofobia explosões de mi norias movimentos místicos Que são antes de tudo metá foras no sentido de transferências malsucedidas Isto certamente nos leva a refletir dado o silenciamento do político por que é na língua que se explicitam as confron tações Porque a língua pertence a todos e é ao mesmo tempo o que temos de mais propriamente nosso Lugar de relação à história e ao social e lugar de singularidade Questão final como esses sujeitos se definem nas relações como as que acabo de descrever Como eles se expõem a efeitos de sentidos que não são capazes de trabalhar sem violência Eis uma questão que devemos enfrentar não só em relação à nacionalidade para entender a formasujeito atual e os desafios de violência às vezes simbólica e às vezes nem tanto que fazem parte de nosso cotidiano 131 11 LEITURA B DISCURSO CIENTIFICO Equívoco Para a AD a que me filio o equívoco tem lugar preeminente Tomamos a discursividade por definição como o lugar que nos permite observar os efeitos materiais da língua enquanto sistema passível de jogo na história Resulta desse jogo que a produção ie sentidos é marcada neces sariamente pelo equívoco Este fato para Pêcheux 1981 constitui o ponto crucial do trabalho de leitura do arquivo Arquivo aqui entendido como já tivemos a ocasião de referir como o campo de documentos pertinentes e disponíveis as coisas a saber sobre uma questão Por seu lado a memória funciona com versões enun ciativas imagens do dizer É desse modo que se pode pensar o arquivo a memória inscreve o discurso em filia ções e o sentido que as representa está sempre sujeito a deslocamento As diferentes versões são efeitos das rela ções de sentido relação de um discurso com outros das rlaçõe s de força relação de um discurso com o lugar de que é falado Nesta perspectiva como vemos o equívoco é fato estrutural implicado pela ordem do simbólico 132 Com efeito Pêcheux idem propõe que se marque e se reconheçam evidências práticas que organizam as leitu ras mergulhando a leitura literal enquanto apreensão do documento numa leitura interpretativa Desse modo se constituiria um espaço polêmico das maneiras de ler uma descrição do trabalho de arquivo enquanto relação com ele mesmo em uma série de conjunturas trabalho da memória histórica em perpétuo confronto consigo mesma O estatuto da interpretação tal como a estamos traba lhando na análise de discurso pode nos esclarecer certos aspectos disso que estou dizendo A relação com o simbólico como tenho proposto é uma relação com a interpretação Ela está na base da própria constituição do sentido já que diante de qualquer objeto simbólico o sujeito é instado a interpretar a dar sentido determinado pela história pela natureza do fato simbólico pela língua Aí está o princípio mesmo da ideo logia não há sentido sem interpretação mas este processo de constituição de sntido sua historicidade não é trans parente para o sujeito Ao contrário é através de um processo imaginário que o sentido se produz no sujeito na relação que interliga linguagempensamentomundo A interretação assim como a ideologia é igualmente neces sária Por outro lado e não menos importante está o geren ciamento da memória coletiva A divisão que separa os que estão autorizados a ler escrever e falar em seus nomes e todos os outros que na cópia na transcrição na classifica ção na indexação na codificação repetem incansavelmen te gestos de interpretação que os apagam por detrás da instituição Nesse sentido houve um grande desenvolvimento dos métodos de tratamento em massa dos arquivos textuais 133 supondose tornálos facilmente comunicáveis reproduzí veis O investimento na objetividade desses procedimentos leva à referência da ciência da estatística da lógica e da matemática como evidência Uma outra divisão organiza esta a que separa o literá rio do científico enquanto leituras e leitores diferentes Um como universo de significações estabilizadas o outro sujeito a equívocos a interpretação No entanto cresce o interesse do cientista pelos mate riais discursivos textuais assim como também cresce o interesse dos poderes pelas ciências do tratamento dos textos A isso corresponde uma nova divisão do trabalho da leitura uma reorganização social do trabalho intelectual que repercute sobre a relação de nossa sociedade com sua memória A apreensão de um sentido unívoco aparece vinculada ao trabalho sobre a plurivocidade do sentido enquanto condição de um desenvolvimento interpretativo do pensa mento Essa ambigüidade aparece ligada à informática expan são dos privilégios literários da leitura interpretativa e poli ciamento dos enunciados normalização asséptica da leitu ra e do pensamento Produzse assim um apagamento seletivo da memória histórica Para contornar esse apagamento é preciso ocupar um lugar teórico o de considerar a língua como uma materia lidade específica não transparente nem para o literato e nem para o cientista A proposta é então a de construir procedimentos que mostrem a pluralidade de gestos de leitura que possam ser marcados e reconhecidos no espaço polêmico da leitura Daí a importância de uma abordagem discursiva já que essa abordagem permite observar como a língua produz 134 sentidos justamente pela inscrição de seus efeitos materiais na história Permite apreender o acontecimento da lingua gem isto é o encontro entre uma atualidade e uma memó ria É isto que vamos procurar compreender o sentido como acontecimento Rodrigues 1994 faz um paralelo entre o pensamento religioso e o natural mostrando que ele tem em comum o fato de considerarem que a interpretação está fora da constituição do sentido No primeiro os sentidos são dados por Deus através da Revelação a sujeitos autorizados papa clero etc que devem representar fielmente a pala vra divina A Igreja administra os sentidos e estabelece dogmas aos quais os sujeitos devemse assujeitar A inter pretação dar um sentido outro é heresia No pensamento natural os sentidos são dados pela natureza através da experimentação a sujeitos autorizados os cientistas Estes devem ser objetivos traduzir objetiva mente esses dados naturais A ciência formaliza esses dados e estabelece leis às quais os sujeitos devemse assujeitar A submissão a Deus Orlandi 1987 dá lugar a uma crença menos visível a crença nas cifras na precisão rnterpretar se não se trata de encontrar os sentidos já dados é então sinônimo de ideologia entendida como o que oculta o verdadeiro sentido natural A essas formas de pensamento a análise de discurso opõe a que leva em conta a história não há sentidos já dados estes são constituídos por sujeitos inscritos na histó ria num processo simbólico Este processo simbólico diz Rodrigues idem é duplamente descentrado pelo incons ciente e pela ideologia Os sujeitos têm um papel ativo determinante na constituição dos sentidos mas este processo escapa ao seu controle consciente e às suas intenções 135 lnterdiscurso a O estável e o sujeito a equívoco Ao lado de enunciados que significam de acordo com quem os fala e em determinadas condições há em certas circunstâncias independência do objeto face a qualquer discurso feito a seu respeito pois há real Além disso há espaços discursivos estabilizados ou seja há técnicas materiais há técnicas de gestão social dos indivíduos há espaços que repousam quanto a seu funcio namento discursivo interno sobre uma proibição de inter pretação não se pode dizer em certo sentido se po demos dizer etc Há portanto estabilidade que resulta de interdição à interpretação M Pêcheux 1983 nos mostra que essa homogeneida de lógica que condiciona o logicamente representável como conjunto de proposições suscetíveis de serem verda deiras ou falsas é atravessado por uma série de equívocos em particular termos como lei rigor ordem princípio etc que cobrem o domínio das ciências exatas mas também o das tecnologias e o das administrações Daí sempre have rem vários sentidos nesse caso por haverem vários domí nios que se recobrem e que têm diferentes regimes de atualização da relação entre verdadeiro e falso Para dar um exemplo útil na reflexão sobre ciência vamos trazer a questão da determinação tal como a trabalhamos E Orlandi 1994 em relação ao Naturalismo no século XIX Determinar em análise de discurso é preci sar tornar legível visível Já em relação à subjetividade e à individualização determinar significa colocar o sujeito sob controle e em relação às ciências humanas determinar significa fazer do homem uma entidade homogênea trans parente passível de análise Do ponto de vista da formação de um país como é o caso do discurso naturalista sobre o 136 Brasil significa transferir a transparência realizada pela ciência para o próprio país Desse modo ao descrever e classificar as coisas a saber do Brasil sua fauna flora população etc no mesmo gesto se torna o Brasil visível no plano da ciência classificável no plano das tecnolo gias e governável do ponto de vista da administração Constroemse bancos de dados disponibilidade do país para o mundo mercantil e a industrialização Não haveria no entanto possibilidade de estabilização desses espaços apenas a partir do exterior coerção produ zida pelo cientista pelo especialista pelo administrador O próprio sujeito tem necessidade dessa homogenei dade lógica dessa necessidade de fronteiras de um mundo semanticamente normal necessidade essa que por sua vez tem a ver com a sua dependência das coisasasaber para produzir sua própria vida Também a distinção entre diferentes ordens de discurso encontra seu eco no sujeito A incompletude a diferença o possível indicam uma mesma coisa a abertura do sim bólico e a divisão a falta como constitutiva do sujeito E no sujeito a vontade do um do completo do todo É pois nesse campo tenso de ambigüidades que situa mos Rosso assunto A homogeneidade o estabilizado a divisão entre o que é e o que não é interpretável em termos de linguagem é o imaginário necessário é o que não pode não ser assim Do outro lado o jogo a historicidade garantem o movimento tanto do sujeito como do sentido b Discurso da ciência e exterioridade Podemos afirmar que não há sentido que não seja discursivo isto é que não seja sujeito à interpretação O modo como as palavras fazem sentido tem a ver com a língua com o sujeito com a história Não há discurso 137 sentido sem sujeito e não há sujeito sem ideologia Nada escapa aos princípios da significação nem as definições nem a metalinguagem formal A última das línguas é sem pre e ainda a linguagem natural ou seja a língua materna para pôr a metalinguagem em funcionamento o homem se serve da língua natural Diante de um sinal como 4 há um gesto mínimo de interpretação que é o de reconhecêlo como um sinal que significa algo em uma memória discur siva num discurso específico não em outros por isso Caetano pode dizer que 2 2 5 Ler como temos dito é saber que o sentido pode ser outro Mesmo porque entender o funcionamento do texto enquanto objeto simbólico é entender o funcionamento da ideologia vendo em todo texto a presença de um outro texto necessariamente excluído dele mas que o constitui Não havendo univocidade entre pensamento mundo e linguagem haverá sempre o espaço da interpretação e do equívoco Certamente há diferentes ordens de discurso cientí fico religioso jurídico etc havendo assim diferentes modos de interpretação Mas há sempre interpretação Ainda quando há interdição de interpretação há espaço de trabalho do sujeito e da história na relação com os sentidos Dito de outra maneira há sempre exterioridade consti tutiva o interdiscurso a memória um já dito anterior e exterior à existência de qualquer dizer Mesmo que o efeito seja o de representar a nãorelação com a exterioridade como no discurso da matemática Esta para evitar o para doxo apela para a interdição Por exemplo postulando que a coleção de todos os conjuntos não pode ser considerada como um conjunto Desse modo internamente funciona como um automatismo sem exterioridade contanto que se especifique o que não se pode dizer Mas mesmo assim para distinguir o que é matemático do que não é já se 138 produz um gesto de interpretação mínimo e fundamental para entrar em seu discurso Como se sabe o real das ciências da natureza é diferente do real das ciências humanas Mas também essa diferença não impede que haja interpretação Não porque o discurso é polissêmico e os sentidos são muitos Mas porque o sentido pode sempre ser outro No caso que estamos analisando podemos dizer que há várias posições do sujeito cientista A opção por uma linha teórica cientí fica ou outra distingueas Aqui poderíamos lembrar o que diz Dias 1995 o centro organizador da enunciação estaria não no meio social que envolve o indivíduo mas no fato do indivíduo ocupar uma posição de sujeito em relação aos fatos de discurso É esta posição relativa do sujeito aos fatos do discurso que apontamos como sendo a inscrição do senti do na história a injunção à interpretação Também no discurso científico Na análise de discurso o interdiscurso é a memória do dizer o saber discursivo a filiação de sentidos Há coisas que fazem sentido e há as que não fazem O cientista está submetido à memória de seu saber O que tem de ser atingido é justamente essa relação com o interdiscurso com a memória para poder significar outra coisa Transfor marse desenvolverse Transferir produzir novas versões efeitos metafóricos27 deslizamentos de sentidos que per mitam o avanço científico Que permitam outras leituras 27 Os efeilos metafóricos d o capítulo Dispositivos da interpretação são a base da conslituição do significar já que este movimento de transferência permite que o sujeito no deslizamento próprio dos sentidos inscrevase nos processos discursivos filiandose a redes de memória ao mesmo tempo em que se desloca 139 dos fatos de discurso Não se trata como dissemos de polissemia mas de outros sentidos Deslocamentos na memória trabalho no espaço da interpretação mesmo no discurso científico28 Além disso as formas de leitura são históricas referidas às diferentes ordens de discursos Como era lido o discur so científico na Idade Média Como é hoje Certamente é diferente Isso nos leva a um último ponto a ser tematizado o da autoria Autoria discurso científico e leitura O que viemos dizendo a respeito da interpretação e do discurso científico nos mostra que a questão para nós não está entre a palavra científica e a coisa mas entre a palavra científica e o discurso sobre a coisa O que em AD dizemos ser a construção discursiva dos referentes Nesse espaço trabalha a interpretação O autor científico na ldacie Média tinha singularidade a credibilidade de sua produção estava diretamente vincu lada a seu nome Hoje a ciência se faz em laboratórios em 28 Como já dissemos há a a repetição empírica mnemônica b a repetição formal e c a repetição histórica Orlandi 1994 Na repetição empírica só há retomada mecânica do dizer É o efeito papagaio Na escola isso se dá quando o aluno repete sem entender sem formular o que é dito pelo mestre A repetição formal por sua vez já põe em jogo a formulação da forma lingüística Mas pára aí Há até bons alunos que na prática da repetição formal ganham o reconhecimento do mestre A repetição histórica é a que produz realmente conhecimento É aquela em que o aluno mergulha o dizer em sua memória o significa elaborando sentidos que não só respondem a uma situação imediata mas lhes permite formulações outras em outras situações de linguagem e conhecimento Nesse caso não só há transformação do estado de saber do aluno como ele pode mesmo deslocar o saber na memória da ciência produzir deslocamento no arquivo Aí ele estará produzindo ciência e não apenas decorandoH devolvendoH o que lhe foi dito 140 equipes O autor não é singular Em que isto afeta a interpretação Se o analista de linguagem tem de construir um aparato um dispositivo teórico de interpretação por seu lado o sujeito falante comum também interpreta já que não há sentido sem interpretação Mas o falante não dispõe de um dispositivo teórico ele tem o que chamamos um dispositivo ideológico de interpretação E Orlandi 1995 Para enten dermos o que seja este dispositivo basta lembrarmos que o gesto de interpretação vem carregado de uma memória que no entanto aparece negada como se o sentido surgisse ali mesmo O sujeito e o sentido ao se constituírem o fazem na relação entre o mundo e a língua expostos ao acaso e ao jogo mas também à memória e à regra Vimos como face à imprevisibilidade da relação do sujeito com o sentido toda formação social tem meios de gerir esta relação através de um trabalho social da leitura quem tem e quem não tem direito à interpretação que textos são interpretáveis e quais não são etc Vale lembrar um outro fato relativo à interpretação qual seja o de que a relação com a interpretação é também uma relação com o que não tem sentido e o sujeito tem necessidade de domesticar o semsentido Daí chegarmos à questão da autoria e suas formas A interpretação em certo momento da história é vista como a falta que habita o homem sendo que o poder que o determina é na Idade Média Deus e na Modernidade o Estado sendo a língua o lugar de seu discernimento lugar de direitos e deveres A obscuridade o asaber na Idade Média uma questão divina na Modernidade passa a ser uma questão da língua e mais contemporaneamente a partir do século XIX se algo existe de obscuro asaber é no sujeito que esta obscuridade se aloja 141 Há nas diferentes formas da sociedade diferentes maneiras de se constituir a autoria A forma própria de nossa formação social é a que vê no autor o responsável pelo texto garantindo sua coerência nãocontradição uni dade progressão e fecho Ou seja a obscuridade o asa ber deslocase de Deus para a língua e desta para o homem sujeito A leitura em seu movimento histórico reflete esses deslocamentos Quando pensamos o autor de um texto científico certamente estas exigências ganham especificidade e insti tuem formas de leitura Gostaríamos de lembrar que há dois acontecimentos de linguagem fundamentais contemporaneamente a o fato da mídia que impõe sua forma de gerenciamento dos gestos de interpretação pelo modo como circula pelo seu ritmo sua natureza etc e b a informatização que pratica uma certa forma de linguagem Esses acontecimentos pro duzem efeitos sobre a autoria Expressamos isto dizendo que a noção de autor está em franco processo de transfor mação O que fica afetado é a relação com a exterioridade memória metálica os modos de presença da exteriorida de a repetição quer pelo modo como funciona a censura quer pelo modo como se administra a relação com a originalidade determinação e autonomia se misturam in distintamente no sujeito Se esses movimentos produzem efeitos sobre a autoria certamente também se refletem sobre o leitor seu estatuto seus modos de leitura Como nosso foco de interesse nessa exposição é o discurso científico fica como pergunta o como essa transformação na autoria afeta o discurso cien tífico Reconhecendose que os fatos são sujeitos à interpre tação e que a língua na medida em que é constituída pela falha pelo deslize pela ambigüidade faz lugar para a 142 interpretação podese perceber que não há como regula mentar o uso dos sentidos embora não se deixe nunca de tentálo Assim talvez fosse melhor acatar essa impossibili dade e ao mesmo tempo reconhecer a necessidade desse controle vendo no processo das diferentes leituras uma reorganização do trabalho intelectual e a propensão a novas divisões no trabalho social da leitura O que não descaracteriza a especificidade do discurso científico mas repõe o conhecimento produzido como parte de um pro cesso Inacabado Ou como dizemos em linguagem in completo E por isso mesmo possível Porque é isso mesmo que nos ensina o discurso o lugar da falha da incompletude é também o lugar do possível da transforma ção 143 CONCLUSÃO Por uma nova noção de ideologia O percurso que fizemos levanos a compreender melhor a definição de discurso efeito de sentido entre locutores Outras questões que aí foram tocadas não são menos importantes e ficam à espera de um desenvolvimento mais amplo embora já possamos avançar certas perspectivas É o caso da relação da linguagem com a informatiza ção Como vimos isso produz um deslocamento importan te na noção de autoria Porque há necessariamente uma resignificação da memória que pela informatização é tornada visível ou armazenável se assim podemos dizer ou em outras palavras representada Nesse processo de representação o que se perde dela O que muda em sua natureza Há várias instâncias em que ecoa o fato da informatiza ção Exploramos no curso de nossa reflexão algumas delas Gostaríamos de referir ainda a alguns aspectos desse fato Na medida em que pela informatização a escrita se apresenta sem exterioridade histórica a autoria se desloca de um sujeito histórico para um sujeito técnico Ao mesmo tempo como movimento conjuntural a prática dessa escrita passa a ser a mais valorizada mesmo 144 quando se trata da escrita não informatizada ela reflete já essa relação com a informatização e outros domínios refletem isso Em nosso caso gostaríamos de referir ao domínio da ciência Nessa conjuntura em detrimento de outras defini ções se define a língua como sistema formal privilegian dose então o percurso psíquico da mesma a relação linguagempensamento é representada pela mente limi tandose o psíquico ao cérebro à cognição de onde se exclui o inconsciente e a ideologia Ao colocarmos no plano da exclusão a ideologia junto com o inconsciente o fazemos para afirmar um princípio teórico fundamental na análise de discurso e que tem sido mal formulado a relação necessária da ideologia com o inconsciente Temos já um modo de definir essa relação a ideologia é solidária da noção de inconsciente Se mais não fosse pela natureza do sujeito do discurso que é um sujeito afetado pelo inconsciente Quando dizemos que inconsciente e ideologia são noções solidárias estamos afirmando essa relação neces sária sem no entanto reduzir a ideologia ao inconsciente Isso implica em compreender a língua como sistema mas não como sistema abstrato a língua como ordem signifi cante que se inscreve na história para fazer sentido E implica também em considerar o sujeito discursivo enquan to sujeito histórico Ou seja sujeito e sentido são constituí dos pela ordem significante na história E o mecanismo de sua constituição é ideológico Pela noção de interpretação tal como a desenvolve mos neste trabalho ficam mais visíveis essas relações entre sujeito sentido língua história inconsciente e ideologia Chegamos então a uma noção de ideologia definida pelo processo históricodiscursivo portanto enquanto lin 145 guagem Essa forma de definila torna mais acessíveis os seus modos de existência Além disso para os que trabalham a linguagem a noção de ideologia assim concebida explica melhor a questão do equívoco Estamos aqui falando do equívoco não ao nível do formulado nível que coloca um problema na relação das palavras com as coisas mas o equívoco enquanto constitu tivo da relação do sujeito com o simbólico qual seja sua relação com a ideologia e com o inconsciente Equívoco que faz com que quem fala acredite separar aquilo que é sujeito à interpretação daquilo que não o é quando na realidade há sempre interpretação Dito de outra maneira há sempre interpretação e faz parte da ilusão imaginária do sujeito acreditar ser a origem do sentido projetandose sobre a literalidade e imaginando que só alguns sentidos são sujeitos à interpretação Os outros seriam evidentes naturais à própria língua literais Pela noção de interpretação que aqui desenvolvemos a ideologia aparece com mais precisão em seu lugar na relação com a língua e com o sujeito na produção dos sentidos A relação entre si do marxismo com a psicanálise e com a lingüística marcam a análise de discurso de forma particular e sobretudo dão um tom particular à noção de ideologia demarcando a semântica discursiva da filoso fia marxista da linguagem A interpretação por seu lado se mostra discursivamen te como necessidade da relação da língua com a história ideologicamente constituída O discursivo pode ser definido como um processo social cuja especificidade está no tipo de materialidade de sua base a materialidade lingüística já que a língua consti tui o lugar material em que se realizam os efeitos de sentido Daí decorre que a forma da interpretação leiase 146 da relação dos sujeitos com os sentidos é historicamente modalizada pela formação social em que se dá e ideologi camente constituída Em outras palavras o sujeito é sujeito à interpretação e sujeito da interpretação Concluindo não há sentido sem interpretação e a interpretação é um excelente observatório para se trabalhar a relação historicamente determinada do sujeito com os sentidos em um processo em que intervém o imaginário e que se desenvolve em determinadas situações sociais É assim que entendemos a ideologia nesse percurso que fizemos para entender também o que é interpretação 147 POSFACIO lnferprrtação r ideologia A noção de interpretação está presente em pelo menos três modos de operar com a linguagem na análise de con teúdo na hermenêutica e na análise de discurso Que tra tam diretamente com ela De início já podemos fazer uma diferença entre as três a análise de conteúdo considera a linguagem transparente e bus ca atrás de suas formas um conteúdo a ser extraído É a forma tradicional de interpretar textos e está muito presente nas ciên cias humanas e sociais tendo muitas utilidades para trabalhar com entrevistas para ler documentos etc Em geral parte de pressupostos teóricos de suas disciplinas específicas e encon tra nos textos comprovação do que diz através da análise do seu conteúdo O texto serve de ilustração de apoio argumenta tivo etc Com esse procedimento separa forma e conteúdo Atravessase a forma em busca de um conteúdo A análise de conteúdo se caracteriza assim apenas como um instrumento prático que não considera a ordem da linguagem em si Já a hermenêutica de base filosófica busca um sentido verdadeiro Constrói através de elaborados instrumentos teóricos chaves para chegar até ele E seu modo de fazêlo coloca a interpreta ção no confronto com várias possibilidades de teorização A questão semântica faz efeito na hermenêutica e ela não trata a interpretação apenas como um instrumento prático nem a usa com um objetivo apenas imediato Ela produz teoria em sua relação com a interpretação Mas o faz em uma filiação em que se apresentam a filosofia muito pouco a lingüística e mais a retórica Ou seja se pensamos na tradição gramáticaretórica dialética a questão do sentido posta pela hermenêutica fica circunscrito na relação retóricadialética A língua em si não é uma sua preocupação primordial 148 Chegamos enfim na análise de discurso A questão da inter pretação para a análise de discurso é uma questão fulcral É uma questão da língua e do sentido Se na maior parte das vezes se fala pouco em interpretação e mais em sentido e em leitura no entanto é a questão da interpretação que está sendo questionada E é esta minha posição que procuro explorar nes te livro a de que análise de discurso teoriza a interpretação no sentido forte ou seja ela interroga a interpretação Considera além disso fundamental pensar a relação da língua e da ideolo gia pois para a análise de discurso a língua enquanto sistema sujeito a falhas se inscreve na história para significar E são os efeitos dessa inscrição que encontramos na discursividade Daí ser o discurso o lugar próprio para compreendermos como os sentidos se produzem Como aí joga a interpretação Retomemos a distinção que estabeleço em meu livro Discur so e Leitura 1988 entre inteligibilidade interpretação e com preensão Como proponho a inteligibilidade é um fato da lín gua Desde que saibamos uma língua o que é dito segundo sua ordem é inteligível Um exemplo pode ser Ele disse isso que desde que sejamos falantes de português nos é inteligível Já não se pode dizer que seja interpretável não sabemos o que é isso e quem é ele Para que seja interpretável é preciso que se domi nem as circunstâncias de enunciação aí incluído o cotexto Por exempo Maria conversa com Paulo que lhe diz que vai ao cine ma Conversando com Luiza Maria diz Paulo vai ao cinema Luiza lhe pergunta como você sabe Ao que retruca Maria ele disse isso Sabemos então que ele é Paulo e isso é ir ao cine ma A Ínterpretação então está posta Indo mais além a com preensão exige um apelo à teoria e à análise E é a compreensão o objetivo do analista de discurso Ele não fica na interpretação ele procura compreendêla ou seja ele procura compreender como um objeto simbólico significa como ele é sujeito e produz gestos de interpretação Em suma ele procura por uma aproxi mação analítica em que faz efeito a descrição saber como a interpretação está lá como ela funciona uma vez que o sentido é relação a Canguilhen A compreensão de um enunciado como este Ele disse isso pode ir muito longe por exemplo fa zendo intervir as condições de produção sujeito situação imedi ata contexto sóciohistórico a memória discursiva e levando em conta a ideologia podese concluir que o que Maria está 149 dizendo pode ser uma fofoca uma forma de afastar Luiza de Paulo te dependendo entre outras coisas da posiçãosujeito de Mana Com efeito o sujeito analista de discurso não fica ao sabr da interpretação ali posta para que ele nela embarque ele interroga o modo como ela se apresenta evidenciando sentdos E como sa9emos a evidência em liguagem é cons truça da 1deolo1a E a ideologia que passa por evidente aquilo qe e ob1eto de interpretação ou seja só é assim para aquele su1e1to naquela situação com aquela memória tomado pelos efeitos do imaginário que o convoca Por isso é que se concede ms que a análie de discurso é uma disciplina interpretativa ela o e em um sentido muito particular Dito isso o que procuramos fazer neste livro é justamen te mostrar o que a análise de discurso propõe desde seus princíis a linguagem ão é transparente a língua não é um od1ª0 nem apenas111strumento de informação de co mun1caçao Na lingua nao se separam forma e conteúdo E sobretudo procuramos mostrar como a interpretação inte gra a análise de discurso na medida em que é parte da rela ção línguaideologia Tratamos pois da interpretação como parte de nossa refle xão obre a articulaç língua sujeito e história Nessa direção consideramos necessano trabalhar o que tenho designado como a forna material lingüísticohistórica em sua espessura se mant1ca E trablhar est espessura não significa pensar que há ocultçao pela 1deolog1a Ao contrário o efeito produzido pela me1ra como as fr21as materiais funcionam na relação do su1e1to com as cond1çoes de produção e a memória atravessa d ela ideologia é a forma da evidência Ou seja parece ao su1e1to no efeito da interpretação que o sentido para ele só pode ser aquele No entanto o analista que tem como objeti vo compreender o dizer construir uma escuta para relacionar se com os discursos sabe que o sentido pode ser outro ou é d I como e por certas eterminações históricas que é preciso co nhecer Daí sua tarefa ser a de a partir da teoria pelo método e pela construção de procedimentos analíticos fazer mediar sua relação com a interpretação pela descrição Para poder des crever no moimento da interpretação é que é preciso pensar a forma material e seu modo de funcionamento 150 A interpretação tem um estatuto duplo que se articula do ponto de vista do intérprete comum e do analista Do ponto de vista do locutor comum é a interpretação que se coloca em primeira instância sendo ela um passo anterior à compreensão que é o objetivo do analista Desse ponto de vista qualquer sujeito desde que esteja diante de um objeto simbólico inter preta A compreensão que se dá no batimento da relação decriçãointerpretação inclui a reflexão do analista sobre a forma material em que são indissociáveis formaconteúdo e daí resulta uma relação regulada atravessada pela teoria mas não estática nem fechada com a interpretação O intérprete comum nós em nossa prática discursiva estaciona na inter pretação não atingindo o movimento da compreensão Por seu lado o analista uma vez realizado seu movimento analítico descriçãointerpretação compreende e aí sim interpreta o re sultado de sua análise à luz da teoria e do método que pratica Como temos dito isto não o coloca na neutralidade 11 de um sentido puro ou verdadeiro 11 Só o leva a deslocarse com sua escuta apreendendo gestos de interpretação possíveis Finalmente a noção de interpretação tal como a tenho tra balhado temme permitido explorar outros modos de pensar a ideologia Por que outros Porque a noção de ideologia sofreu um enorme desgaste em sua área de origem a das ciências humanas e sociais Muitas vezes banalizouse esvaziandose e identificouse com uma geral e inespecífica visão de mundo endureceuse no sentido de ser ocultação da realidade e foi substitLúda mais recentemente pelo termo de cultura Ora na perspectiva em que trabalhamos a ideologia em sua relação com a linguagem a materialidade específica da ideologia é o discurso e a materialidade específica do discurso é a língua há uma observação de características da ideologia que não só não se banalizaram nem se endureceram em um sentido inócuo cientificamente mas que sobretudo podem nos fazer refletir de maneira profícua sobre a relação linguagempensamentomun do assim como sobre a relação sujeitosentido Sobre essas re lações temos alguns capítulos deste livro que abordam estas questões Gostaria ainda de chamar a atenção para o fato de que não há relação direta entre a palavra e a coisa Há sempre o espaço da interpretação e a ideologia funciona napela in terpretação O mecanismo da interpretação é pois parte do 151 funcionamento ideológico da linguagem É pela interpretação que relacionamos linguagempensamentomundo O gesto de interpretação tal como o designo e elaboro em minha proposta passa a ter um lugar fundamental tanto para o su jeito falante não só quem ouve mas quem fala interpreta como para o analista que tem no gesto de interpretação o seu objeto o seu ponto de observação que organiza a análi se em termos de compreensão O que me interessa trazer para este posfácio é uma pontua ção sobre a relação da interpretação com a ideologia Eu resu miria meu ponto de vista dizendo que só há ideologia porque há interpretação Se a relação entre pensamentomundo e lin guagem fosse unívoca termoatermo não haveria necessida de de interpretação e tampouco haveria o jogo da ideologia em que os sujeitos se constituem em suas diferentes posições e em que os efeitos de sentidos são diferentes em diferentes recortes de memória do saber discursivo A interpretação sin toma de que as palavras não estão coladas às coisas traz para a frente da cena o fato de que o simbólico e o político se articu lam e que isto se dá por um mecanismo que é ideológico Tomemos um exemplo rápido Solicitaramme a escrita de um artigo cujo tema era O futuro dos recursos Imedia tamente num gesto de interpretação que era meu e que vinha informado pela minha relação com a noção de discur so propus uma inversão Os recursos do futuro Nesse breve gesto interpretativo atravessado pela observação da forma material da língua e da história está toda a diferença em se considerarem os aspectos sociais não corno agregados mas como constitutivos da questão Quando se diz O futuro dos recursos supomos que os recursos já estão dados e que nos cabe pensar o seu futuro manter implementar excluir etc Na formulação Os recursos do futuro fica em aberto que recursos são estes podem aparecer novos e o ponto de enunciação a posição sujeito que enuncia é a de um sujeito social e histórico que se pergunta sobre seu futuro antes de tudo Ou seja nessa interpretação o sujeito é um recurso recursos humanos dos mais importantes nesse cálculo Poderia parafrasear essa segunda formulação por Os recursos do nosso futuro Pois bem houve entre as 152 duas formulações O futuro dos recursos e Os recursos do futuro o giro de um gesto de interpretação e isto só é pos sível porque ideologicamente estes dois enunciados são dis tintos Daí significarem de modos diferentes Portanto é im possível pensar a ideologia sem a interpretação e viceversa na perspectiva discursiva Ao mesmo tempo ao ligar a ques tão da ideologia à questão da interpretação estamos deslo cando a maneira automatizada e empobrecida com que se tem pensado a ideologia de um lado e de outro a transpa rência dizer o dito que supomos na noção de interpreta ção Resignificase a ideologia a partir da linguagem pela interpretação E refletese sobre a interpretação como um gesto que intervém na produção do sentido O lugar teórico em que se trabalhava a ideologia não está vazio É a noção que lhe corresponde e o representava que enfraqueceuse Assim ao mudar de terreno pensandoo pela interpretação ao resignificar esse lugar não só não perde mos o que aí está enquanto parte do real atando língua e história como também podemos refletir sobre o modo como a própria ciência enquanto discurso funciona Aparecenos então a importância de nosso objeto de conhecimento o discurso E aí ganha especificidade o que dissemos acima sobre materialidade a materialidade específica do discurso é a língua e o fato de que a língua funciona como funciona resulta de que o discurso é a materialidade específica da ideologia E essas formas materiais são como são porque há o gesto de interpretação que trabalha na contradição que articula língua e ideologia produzindo realidade Realida de que é sustentada em nosso imaginário já que a ideologia é a relação imaginária dos sujeitos com suas condições de existência Relação essa sujeita a interpretação e só significa da pela inscrição da língua sujeita a falhas na história Podemos em suma dizer que a interpretação é a atesta ção çiiscursivamente tangível do funcionamento da ideolo gia E isso que procuramos mostrar aos leitores Eni P Orlandi Campinas Outubro de 2003 153 BIBLIOGRAFIA AUTHIER J 1984 Hétérogénéités Enonciatives Langa ges Paris Larousse BITTO Frei 1981 O que é comunidade eclesial de base São Paulo Brasiliense BOFF L e BOFF C 1986 Como fazer Teologia da Liber tação 2íl ed Petrópolis Vozeslbase BOFF L 1981 Igreja carisma e poder Petrópolis Vozes CANGUILHEN L 1980 Le Cerveau et la Pensée Paris MURS CAPELA CES 1994 Representações de migrantes e imigrantes O caso de Juó Bananére ln Revista da Biblioteca Mário de Andrade 52 São Paulo COURTINE JJ 1982 La Toque de Clementis xerox 1984 La Meilleure des Langues ln Linguistique Fantastique Paris Denoel S Auroux org DIAS LF 1995 A noção de língua nacional Tese de doutorado Campinas IEL Unicamp FERNANDES DL 1987 Como se faz uma comunidade eclesial de base Petrópolis Vozeslbase FOUCAULT M 1971 LOrdre du Discours Paris Gallimard 1983 Qu estce quun auteur Littoral Paris GALLO S 1992 Discurso da escrita e ensino Campinas Ed da Unicamp 154 GUIMARÃES E 1993 Independência ou morte ln Orlandi org GUTI ÉRREZ G 1981 Teologia de la Liberación Lima CEP HALLIDAY MAK e Hazan 1976 Cohesion in English Londres Longman HENRY P 1989 Sens sujet origine ln Linx tradução brasileira E Orlandi org 1993 HJELMSLEV L 1971 Prolegomenos a una Teoria dei Lenguaje Madrid Credos LACAN J 1966 Ecrits Paris Seuil LECOURT D 1978 Pour Une Critique de lEpistemologie Paris Maspero LOWY M 1991 Marxismo e Teologia da Libertação São Paulo Cortez Magnificat 1988 Vídeo sobre as CEBs Rio de Janeiro Verbo MAINGUENEAU D 1987 Nouvelles Tendances en Ana lyse de Discours Paris Hachette MILNER J 1989 lntroduction a une Science du Langage Paris 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Société dHistoir et Epistemologie des Scien ces du Langage tradução brasileira Gestos de Leitura E Orlandi org Campinas Ed Unicamp 1994 1982b Problemes danalyse du discours lordinaire du sens Inédito cedido por A Pêcheux sobre um coló quio previsto para o fim de 1983 em Paris 1983 Discours Structure ou Evennement Illinois University Press tradução brasileira Campinas Ed Pontes Discurso Estrutura ou acontecimento 1991 PCH EUX M e GADET F 1981 La Langue lntrouvable Paris Maspero RODRIGUES C 1994 Leitura história interpretação ln Que leitor E Orlandi org SANTO DOMINGO 1992 Texto oficial 21 edição São Paulo Paulinas 156

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J J t t l I r t esto de interpretação se dá porque o espaço simbólico é marcado pela incompletude pela refação com o silêncio A interpretação é o vesígio do possível ISl3N 8571 131880 1 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Cãmara Brasileira do Livro SP Brasil Orlandi Eni P Interpretação autoria leitura e efeitos do trabalho simbólico I Eni P Orlandi 5 Edição Campinas SP Pontes Editores 2007 Bibliografia ISBN 978 8571131880 1 Análise do discurso literário 2 Ciência Filosofia 3 Ciências Sociais Filosofia 4 Hermenêutica 5 Linguagem Filosofia 1 Titulo U Autora CDD 12168 Índice para catálogo sistemático 1 Interpretação Epistemologia Filosofia 12168 Copyright Eni P Orlandi Cedidos para a Pontes Editores para esta S3 edição Coordenação Editorial Ernesto Guimarães CapaEckelVayne Revisão Equipe de revisores da Pontes Editores PONTES EDITORES Av Dr Arlindo Joaquim de Lemos 1333 Jardim Proença 13100451 Campinas SP Brasil Fone 19 32526011 fax 19 32530769 ponteseditoresponteseditorescom br wwwponteseditorescombr 2007 Impresso no Brasil Ao Thiago 1 SIJHÁRIO 1 Apresentação 9 1 O Trabalho da interpretação 11 2 Entremeio e discurso 23 3 Discurso fato dado exterioridade 36 4 Ordem e organização na língua 45 5 Texto e discurso 52 6 Autoria e interpretação 63 7 Dispositivos da interpretação 79 8 Análise 99 9 Fé e opressão 101 1 O O teatro da identidade 114 11 Leitura e discurso científico 132 Conclusão Por uma nova noção de ideologia 144 Posfácio Interpretação e ideologia 148 Bibliografia 154 APRESENTAÇÃO A I A noção de interpretação passa por ser transparente quando na realidade são muitas e diferentes suas defini ções Na maior parte das vezes os teóricos a utilizam como se ela fosse evidente A sua importância no entanto a coloca como objeto de atenção e estudo pois embora ela seja mais relevante para as ciências da linguagem ela está presente no exercício das ciências humanas em particular e de qualquer ciência em geral A maneira como procuro situála neste livro leva em conta esse seu caráter geral servindo tanto à prática do analista da linguagem quanto à do cientista em geral Para isto explicito o que é interpretação não só para o analista mas para o sujeito da linguagem como tal A interpretação está presente em toda e qualquer manifestação da linguagem Não há sentido sem interpre tação Mais interessante ainda é pensar os diferentes gestos de interpretação uma vez que as diferentes linguagens ou as diferentes formas de linguagem com suas diferentes materialidades significam de modos distintos Como a linguagem tem uma relação necessária com os sentidos e pois com a interpretação ela é sempre passível de equívoco Dito de outro modo os sentidos não se fecham não são evidentes embora pareçam ser Além disso eles jogam com a ausência com os sentidos do nãosentido 9 O homem não pode assim evitar a interpretação ou ser indiferente a ela Mesmo que ele nem perceba que está interpretando e como está interpretando é esse um trabalho contínuo na sua relação com o simbólico A vida é função da significação e de gestos de interpre tação cotidianos ainda que não sentidos como tal Daí o interesse da interpretação para o estudioso da linguagem Transformando esse interesse em trabalho de com preensão pela análise de discurso procurei elaborar con ceitos e formular um dizer sobre a interpretação que pudesse mostrar não só ao especialista de linguagem mas ao estudioso em geral a como a interpretação está em qualquer um b as maneiras como as instituições regulam os gestos de interpretação dispondo sobre o que se interpreta como se interpreta quem interpreta em que condições e c a necessidade de trabalhar a interpretação como parte necessária e dotada de uma singularidade para cada especialista em particular Fica posta a questão Em aberto Pois como sabemos a questão dos sentidos é uma questão que não se fecha 10 1 O TRABALHO DA INTERPRETAÇÃO I A reflexão sobre o silêncio Orlandi 1992 abre pers pectiva para uma nova forma de conceber a questão discursiva Particularmente do ponto de vista teórico per mite compreender melhor a questão da incompletude como constitutiva da linguagem Minhas pesquisas atuais visam levar em Gonta e trabalhar as conseqüências teóricas e metodológicas que derivam daí Em termos conceptuais gostaria de relembrar aqui alguns aspectos que são relevantes do ponto de vista do que tenho trabalhado como incompletude da linguagem uma vez que há uma relação importante entre o silêncio a incompletude e a interpretação sendo esta última o tema da minha presente reflexão Devo aqui realçar o fato de que esta incompletude não deve ser pensada em relação a algo que seria ou não inteiro mas antes em relação a algo que não se fecha Consideremos o fato de que o dizer é aberto É só por ilusão que se pensa poder dar a palavra final O dizer também não tem um começo verificável o sentido está sempre em curso Isso já temos dito de várias maneiras em nossos textos O que ficou melhor estabelecido em meu estudo sobre silêncio Orlandi ibidem é que o silêncio é fundante não há sentido sem silêncio e esta incompletude é função do fato de que a linguagem é categorização dos sentidos do silêncio modo de procurar domesticálos O silêncio é sentido contínuo indistinto 11 horizonte possível da significação A linguagem mesmo em sua vocação à unicidade à discrição ao completo não tem como suturar o possível porque não tem como não conviver com a falta não tem como não trabalhar com o silêncio Isto justamente porque a linguagem é estrutura e acontecimento tendo assim de existir na relação necessária com a história e com o equívoco Do ponto de vista da significação não há uma relação direta do homem com o mundo ou melhor a relação do homem com o pensamento com a linguagem e com o mundo não é direta assim como a relação entre linguagem e pensamento e linguagem e mundo tem também suas mediações Daí a necessidade da noção de discurso para pensar essas relações mediadas Mais ainda é pelo discurso que melhor se compreende a relação entre linguagempen samento mundo porque o discurso é uma das instâncias materiais concretas dessa relação A esta abertura da linguagem isto é não há linguagem em si somase o que temos concebido como a abertura do simbólico Antes de tudo porque a questão do sentido é uma questão aberta pois como afirma P Henry 1993 é uma questão filosófica que não se pode decidir categorica mente Por outro lado não há um sistema de signos só mas muitos Porque há muitos modos de significar e a matéria significante tem plasticidade é plural Como os sentidos não são indiferentes à matéria significante a relação do homem com os sentidos se exerce em diferentes materiali dades em processos de significação diversos pintura ima gem música escultura escrita etc A matéria significante eou a sua percepção afeta o gesto de interpretação dá uma forma a ele Uma outra manifestação dessa abertura do simbólico está na dispersão necessária das ciências sociais e humanas e na tentativa equivocada de se tentar transpor essa incom 12 pletude pela interdisciplinaridade como tentativa de se construir o objeto total e a metodologia de eficácia onipotente Essa dispersão ao contrário é constitutiva dada a necessidade das ciências humanas e sociais se assentarem sobre uma noção discursiva de sujeito e de linguagem tal como os estamos caracterizando Em meu trabalho essa abertura do simbólico tem sido tratada nos limites indecisos e muitas vezes tensos e indefiníveis entre polissemia e paráfrase dois eixos que constituem o movimento da significação entre a repetição e a diferença Não nos iludamos no entanto com esse fato não é porque é aberto que o processo de significação não é regido não é administrado Ao contrário é por esta aber tura que há determinação O lugar mesmo do movimento é o lugar do trabalho da estabilização e viceversa Um exemplo para ilustrar esta questão é meu estudo das notas de rodapé cf E Orlandi 1990 p 106s Os lugares em que surgem as notas de rodapé nas reedições de textos do século XVII ao século XIX são justamente os pontos em que há a possibilidade de fuga dos sentidos onde a alteridade ameaça a estabilidade dos sentidos onde a história trabalha seus equívocos onde o discurso deriva para outros discursos possíveis Daí a necessidade das notas como um aparato de controle de administração da polissemia do governo da historicidade lá onde o silêncio afronta a gregariedade da linguagem e a domesticação dos sentidos irrompe a nota de rodapé procurando inutilmen te completar o que não se completa e resta como horizonte do possível Por isso nossa conclusão naquela análise d E Orlandi idem é a de que as notas mais do que o fechamento são a cicatriz o traço do outro sentido a marca inexorável da incompletude de sentidos postos em silêncio 13 Estas considerações nos levam a uma outra questão fundamental na análise de discurso a de que o texto exemplar de discurso é multidimensional enquanto es paço simbólico Pensando sua materialidade podemos dizer que o texto não é uma superfície plana nem tampouco uma chapa linear que se complica em sua extensão como fazem crer os que falàm em progressão textual em geral Se o observamos na perspectiva discursiva o texto é um bólido de sentidos Ele parte em inúmeras direções em múltiplos planos significantes Diferentes versões de um texto diferentes formulações constituem novos produtos significativos Nossa questão é então o que muda nas diferentes versões É só uma explicitação do que lá já estava São os seus possíveis O que é uma outra formula ção O que é colocarse um final outro Ou outra direção Em nossa perspectiva qualquer modificação na mate rialidade do texto corresponde a diferentes gestos de inter pretação compromisso com diferentes posições do sujeito com diferentes formações discursivas distintos recortes de memória distintas relações com a exterioridade Este é um aspecto crucial a ligação da materialidade do texto e sua exterioridade memória É só no imaginário que todas estas versões digressões formulações partiriam de um texto original Nesse senti do o texto original é uma ficção ou melhor é uma função da historicidade num processo retroativo São sem pre vários desde sua origem os textos possíveis num mesmo texto Por isso temos proposto que se considere o texto em sua materialidade como uma peça com suas articulações todas elas relevantes para a construção do ou dos sentidos É isto que estamos dizendo quando falamos que um texto é um bólido de sentidos sintoma de um sítio significante 14 Nas diferentes direções significativas que um texto pode tomar há no entanto um regime de necessidade que ele obedece Não é verdade que o texto possa se desen volver em qualquer direção há uma necessidade que rege um texto e que vem da relação com a exterioridade Isto só pode ser compreendido se não pensamos o texto em sua organização mas o texto em sua ordem significante O espaço de interpretação no qual o autor se insere com seu gesto e que o constitui enquanto autor deriva da sua relação com a memória saber discursivo interdis curso O texto é essa peça significativa que por um gesto de autoria resulta da relação do sítio significante com a exterioridade Nesse sentido o autor é carregado pela força da materialidade do texto materialidade essa que é função do gesto de interpretação do trabalho de autoria na sua relação determinada historicamente com a exterioridade pelo interdiscurso O sujeito podemos dizer é interpretado pela história O autor é aqui uma posição na filiação de sentidos nas relações de sentidos que vão se constituindo historicamente e que vão formando redes que constituem a possibilidade de interpretação Sem esquecer que filiarse é também produzir deslocamentos nessas redes M Pê cheux 1933 Para melhor situar essa questão da multidirecionalidade do texto e de sua materialidade vamos lançar mão da distinção entre o que chamamos de memória histórica o interdiscurso e a memória metálica a informatização dos arquivos Um texto produzido em computador e um texto pro duzido a mão são distintos em sua ordem porque as memórias que os enformam são distintas em suas materia lidades uma é histórica e a outra é formal A memória metálica formal lineariza por assim dizer o interdiscur 15 so reduzindo o saber discursivo a um pacote de informa ções ideologicamente equivalentes sem distinguir posi ções O que produz o efeito da onipotência do autor e o deslimite dos seus meios a memória metálica a infinidade de informações A nossa posição é de que tanto a informatização corno a mídia produzem realmente a multiplicação diversifia ção dos meios mas ao mesmo tempo homogeneizam os efeitos Daí uma idéia de criatividade caracterizada pela deslimitada produção a enorme variação do mesmo Não esqueçamos que a mídia é um lugar de interpretação e que funciona pelo ibope que se rege pelo predomínio da audiência Ao mesmo tempo em que a mídia produz esse esvazia mento pela estabilização dos percursos por essa imobili zação censura pelo ibope nela também o político não tem lugar próprio Há atualmente um silenciamento do discurso político que desliza para o discurso empresarial neoliberal em que tudo é igual a tudo o político o empresarial o jurídico etc Nesse sentido se se pode dizer que a mídia é lugar de interpretação ela rege a interpretação para imobilizála Voltemos à questão da informatização Com ela a exterioridade se afigura como exterioridade absoluta de um conhecimento mítico descolada de qualquer memória histórica ou cultural e encontrando uma formulação ade quada em uma língua universal lógicomatemática ela também sem memória M Pêcheux e F Gadet 1981 A língua com falha a da memória histórica embora limitada em seus meios não o é em seu funcionamento produzindo o possível A metálica a que não falha e que se apresenta como ilimitada em sua extensão só produz o mesmo em sua variação em suas combinatórias Ora as formas lingüís ticas não são estruturas segundo a ordem do lógicomate 16 m1tlco Elas são caazes de deslocamento de transgres 110 s de reorganizaçrÕes Por isso são capazes de política O gesto de interçxetação fora da história não é formu httr o é fórmula n3o é resignificação é rearranjo Isto thlO quer dizer que rl ão haja produção de autoria Há Mas clr1 outra qualidade de outra natureza Porque a natureza cl1 materialidade da memória é outra E como sabemos 1111 discurso distints materialidades sempre determinam tll renças nos processos de significação A textualidade certamente tem a ver com essas diferen h I qualidades de rn emória E se assim é a própria forma d1 autoria difere Co m efeito consideramos que há formas lllRtóricas da funçãoautor diferentes umas das outras Não porque a cronologia seja constitutiva mas porque a relação do sujeito com a lirlguagem pode se transformar Nessas e ondições que acalJamos de descrever a da memória hl tórica interdiscur siva e a da memória metálica informa ll1oda isso se dá A informatização a prática da escrita d textos no compvtador transforma efetivamente a rela t o do autor com sua escrita em função da mudança da materialidade da memória discursiva algoritmizada nesse 1 l SO j Creio estar nessa questão da informatização e da memória metálica sem Oterior um dos pontoô de dificuldade do projeto da AAD 69 proposto por M Pêcheux a impossilJilidade de se construir um dispositivo informatizado que pudesse especificar propriedades discursivas lingüísticohistóricas ideo 16glcas a partir de umJ totalidade de textos e que levassem a uma análise fechada representando uma memória Na análise de discurso é outra a relação da análise corri o fato discursivo e uma das suas particularidades é poder trabalhar a dispersão e o equívoco como veremos no capítulo Dispo sitivos da interpretação mais adiante O trabalho com a dispersão e o equívoco não prescinde da relação com a exterioridade Desse modo como pela informatização se representar a memória de um discurso sem esvaziar o acontecimento Eis a questão 17 Assim também com relação à textualização podemos dizer que há uma incompletude Não porque o texto como dissemos constituído pelas relações de sentidos sempre deriva de outros e aponta para outros mas porque pode ser efeito de diferentes naturezas de memória No caso que estivemos considerando os textos possíveis quando se trata da memória histórica e aqueles possíveis quando se trata da memória mtálica certamente não são os mesmos Uns se ligam à exposição à história os outros à competên cia técnica A funçãoautor também não é a mesma nos dois casos e acreditamos que atualmente estamos num processo agudo de mudança na forma da autoria tendo isto tudo a ver com a distinta materialidade das memórias E com os modos de interpretação Todas essas considerações apontam para a incomple tude porque são várias as linguagens possíveis porque a linguagem se liga necessariamente ao silêncio porque o sentido é uma questão aberta porque o texto é multidire cional enquanto espaço simbólico No início falamos da importância da ligação entre silêncio incompletude e interpretação Falemos agora des ta última Comecemos por afirmar que a interpretação é um gesto ou seja é um ato no nível simbólico Pêcheux 1969 Sem esquecer que a palavra gesto na perspectiva discursiva serve justamente para deslocar a noção de ato da perspectiva pragmática sem no entanto desconsiderála O gesto da interpretação se dá porque o espaço sim bólico é marcado pela incompletude pela relação com o silêncio A interpretação é o vestígio do possível É o lugar próprio da ideologia e é materializada pela história Esta finalmente é uma característica importante da interpretação Ela sempre se dá de algum lugar da história 18 e da sociedade e tem uma direção que é o que chamamos de política Desse modo sempre é possível apreender a textualização do político no gesto de interpretação Uma via de acesso a questões importantes da interpre tação foi para mim a reflexão sobre a leitura A partir de um conjunto de trabalhos em que eu explorava noções como a de leitor a de autor a de texto e sobretudo a de discurso a de sujeito a de história e a de ideologia pude formular pontos básicos sobre a relação do sujeito com os sentidos e também estabelecer mais claramente a contri buição da análise de discurso para a compreensão dessa relação Alguns textos de M Pêcheux Ler o arquivo hoje 1994 Discurso Estrutura ou acontecimento 1991 Re flexões para uma teoria geral da ideologia 1995 foram pontos de partida para que eu elaborasse de forma mais conseqüente a noção de interpretação Mais do que isso a partir dessa noção estabeleci para a análise de discurso à qual me filio um quadro de referência teórica em que tanto os procedimentos analíticos como a metodologia de análise sofrem um deslocamento fundamental É esse des locamento que procuro mostrar neste livro Oi ecos desse deslocamento podem ser vistos em vários resultados Para ilustrar essas conseqüências citarei o trabalho final de uma aluna apresentado por ela em um curso que ministrei sobre interpretação Trabalhando no campo da fonoaudiologia Andrea B Sobrino 1994 ins creve seu trabalho na perspectiva discursiva que proponho e critica a maneira como a conduta clínica em fonoaudio logia assentase sobre um paradoxo tanto o discurso patológico em situação com o próprio paciente como o discurso sobre a doença em situação de entrevista já estavam preestabelecidos pelo clínico trabalhase com a linguagem ao mesmo tempo em que tudo já parece 19 estar dito Uma vez transparente dizer o fato significava o próprio fato e muito pouco restava ao clínico senão o papel de constatar sua história Constituíase dessa forma uma interdição à interpretação Sem dúvida a concepção de linguagem em ação que deriva da pragmática apaga o espaço da interpretação o dizer é o próprio fato Filiandose ao quàdro teórico e metodológico que te nho procurado estabelecer com meu trabalho sobre a interpretação Andrea idem faz considerações sobre o que seria um outro papel do clínico ouvindo o pacien te seu posto de observação é deslocado do lugar comum para um outro lugar a leitura da cena clínica se modifica Esta outra leitura filiase a uma concepção onde a lingua gem é necessariamente opaca e incompleta porque não há sentido em si A linguagem é um sistema de relações de sentidos onde a princípio todos os sentidos são possíveis ao mesmo tempo em que sua materialidade impede que o sentido seja qualquer um Nesta proposta de um outro papel para o clínico a este é conferido um papel de fato o papel de interpretar isto é dizer o dito De interdição a interpretação passa a ser exigência interpretação en quanto gesto élínico que desloca sentidos que vai através da materialidade discursiva desconstruindo os efeitos do já dito em direção a uma outra significação ainda inédita ao olhar do clínico Poderíamos dizer o mesmo do professor na escola dos pais com os filhos e assim por diante Efetivamente no momento em que se assume a incom pletude da linguagem sua materialidade discursiva o gesto de interpretação passa a ser visto como uma relação necessária embora na maior parte das vezes negada pelo sujeito e que intervém decisivamente na relação do sujeito com o mundo natural e social mesmo que ele não saiba 20 Este livro procura tratar disso ou seja da necessidade da interpretação em não importa que relação significativa em qualquer forma de discurso os lugares da interpretação sua forma sua natureza seu funcionamento Partimos do princípio de que há sempre interpretação Não há sentido sem interpretação Estabilizada ou não mas sempre interpretação Essa afirmação é a negação do princípio da literalidade Vejamos como isso pode ser compreendido Segundo M Pêcheux 1975 a metáfora está na base da significação Metáfora aqui é entendida como efeito de uma relação significante Lacan 1966 uma palavra por outra Desse modo dirá Pêcheux uma palavra uma proposição não têm um sentido que lhes é próprio preso à sua literalidade e nem sentidos deriváveis a partir dessa literalidade O senti do é sempre uma palavra uma proposição por outra e essa superposição essa transferência metaphora pela qual elementos significantes passam a se confrontar de modo que se revestem de um sentido não poderia ser predeter minada por propriedades intrínsecas eu diria da língua Isso seria admitir continua Pêcheux idem que os elemen tos significantes já estão enquanto tais dotados de sentido Ora os sentidos só existem nas relações de metáfora dos quais crta formação discursiva vem a ser o lugar mais ou menos provisório as palavras expressões proposições recebem seus sentidos das formações discursivas nas quais se inscrevem A formação discursiva se constitui na relação com o interdiscurso a memória do dizer representando no dizer as formações ideológicas Ou seja o lugar do sentido lugar da metáfora é função da interpretação espaço da ideologia Seria interessante observar aqui que nessa conjuntura teórica em que estou considerando essa questão o político é o fato de que o sentido é sempre dividido tendo uma 21 direção que se especifica na história pelo mecanismo ideológico de sua constituição Aí estão ligadas três noções o político o histórico e o ideológico não definidos tal como o fazem as ciências sociais e humanas mas discursi vamente Se como tenho dito com insistência ao significar o sujeito se significa o gesto de interpretação é o que perceptível ou não para o sujeito e ou para seus interlocu tores decide a direção dos sentidos decidindo assim sobre sua do sujeito direção Certamente a vida aí se põe em questão Porque o espaço da interpretação é o espaço do possível da falha do efeito metafórico do equívoco em suma do trabalho da história e do significante em outras palavras do trabalho do sujeito A partir dessas reflexões podemos compreender me lhor a análise de discurso da Escola Francesa cuja filiação teórica principal se inicia nos anos 70 com M Pêcheux como ocupandose da questão do sentido instituindo as sim o que em nossos dias se tem chamado semântica discursiva teoria do discurso a que se ocupa da determi nação histórica dos processos de significação 22 2 ENTREMEIO E DISCURSO l Se as ciências se constituem pressupondo uma certa noção de linguagem e de sujeito é na transformação dessas noções que também está o deslocamento de seus delas limites e conseqüentemente de suas relações No caso específico da análise de discurso AD que tratamos como uma disciplina que se faz no entremeio esse deslocamento resulta sobretudo do trabalho produzi do sobre a noção de ideologia Uma disciplina de entremeio é uma disciplina não positiva ou seja ela não acumula conhecimentos mera mente pois discute seus pressupostos continuamente Essas são disciplinas que se configuram em sua especi ficidade nos anos 60 fundamentalmente Ao falarmos da análise de discurso e de seu modo de constituição estare mos ar representando o processo de construção dessas disciplinas em geral O fato delas não acumularem positi vamente é parte da forma de sua estruturação elas se fazem no espaço indistinto das relações entre disciplinas relações estas que não são quaisquer umas mas que têm sua especificidade como veremos a seguir Tomamos a análise de discurso para falar desta questão porque a noção de discurso tal como ela se especifica nos anos 60 é crucial para este estado de coisas nas ciências humanas e sociais A AD se faz na contradição da relação entre as outras De início entre no interior das ciências 23 da linguagem as tendências formalista gerativismo so ciologista sócio etnolingüística e da fala teorias da enun ciação conversacional Ela não se apresenta no entanto como uma quarta tendência mas se constitui no lugar produzido pela relação contraditória entre as três existentes Da mesma forma se pensamos a relação entre discipli nas como a língüística as ciências das formações sociais e a análise de discurso é essa mesma configuração teórica de que estamos falando que vemos se apresentar a análise de discurso se faz na contradição da relação entre as outras Deste modo não se especifica claramente um lugar no reconhecimento das disciplinas Essas formas de disciplinas que chamo de entremeio não são a meu ver interdisciplinares Elas não se formam entre disciplinas mas nas suas contradições E aí está sua particularidade A interdisciplinaridade dá idéia de instrumentalização de uma disciplina pela outra ainda que na bidirecionalida de Não é o caso das disciplias de entremeio como a análise de discurso Não é na instrumentalização mas como dissemos em um campo de contradição que ela se forma aproveitando diria eu a outra disciplina ao revés Considero inadequado falar da AD como interdiscipli na Essa inadequação já vem do modo como a partir da lingüística se concebem as disciplinas auxiliares essas dis ciplinas se definiriam como acréscimos Ou na melhor das hipóteses disciplinas que se definiriam na relação por exemplo da lingüística com as ciências sociais Não é assim A AD produz um outro lugar de conhecimento com sua especificidade Não é mera aplicação da lingüística sobre as ciências sociais ou viceversa A AD se forma no lugar em que a linguagem tem de ser referida necessaria mente à sua exterioridade para que se apreenda seu funcionamento enquanto processo significativo Nessa re 24 m1ssao o conhecimento da linguagem fica a cargo da lingüística e o da exterioridade a cargo das ciências sociais Como se a AD ficasse no meio como uma interdisciplina beneficiada pela relação da lingüística com as ciências sociais Não é assim Eu diria antes que a AD é uma espécie de antidisciplina uma desdisciplina que vai colo car questões da lingüística no campo de sua constituição interpelandoa pela historicidade que ela apaga do mesmo modo que coloca questões para as ciências sociais em seus fundamentos interrogando a transparência da linguagem sobre a qual elas se assentam A AD trabalha no entremeio fazendo uma ligação mostrando que não há separação estanque entre a lingua gem e sua exterioridade constitutiva Levando a sua crítica até o limite de mostrar que o recorte de constituição dessas disciplinas que constituem essa separação necessária e se constituem nela é o recorte que nega a existência desse outro objeto o discurso e que coloca como base a noção de materialidade seja lingüística seja histórica fazendo aparecer uma outra noção de ideologia possível de expli citação a partir da noção mesma de discurso e que não separa linguagem e sociedade na história Falar em interdisciplinaridade nesse caso seria negar a existência de umaforma de conhecimento específico com um outro objeto que não seria simplesmente o resul tado da relação de um objeto de uma disciplina com outro de outra disciplina Cada forma de conhecimento tem seu objeto Colocar a AD na confluência dos dois objetos seria não reconhecer o que lhe é próprio e desconhecer com isso o sentido da dispersão disciplinar significada aí Sua caracterização como interdisciplinar poderia assim ser sua própria nega ção assim como é a negação da necessidade histórica da reorganização do campo das relações entre as diferentes regiões do saber 25 Procuraremos mostrar como ao trabalhar nesse entre meio de disciplinas a AD coloca uma relação crítica intrín seca por trabalhar justamente a sua contradição Se a lingüística deixa para fora a exterioridade que é objeto das ciências sociais e as ciências sociais deixam para fora a linguagem que é objeto da lingüística a AD coloca em questionamento justamente essa relação excludente trans formando por isso mesmo a própria noção de linguagem em sua autonomia absoluta e a de exterioridade históri coempírica Inscrevendose no campo da reflexão sobre a lingua gem o que a AD questiona é o que é deixado para fora no campo da lingüística o sujeito e a situação A AD vai redefinir isso em função da constituição de seu objeto Por que redefinir Porque a situação tal como ela é trabalhada nas ciências sociais é incompatível com a concepção de linguagem em sua ordem própria Por seu lado a noção de sujeito reaparece sob duas formas o sujeito empírico e o sujeito psicológico formas essas que o colocam na ori gem enquanto onipotente e determinado pelas suas inten ções ora tendo o controle do sistema ora plenamente identificado a ele Em nenhum caso entretanto é pensado em sua relação contraditória com o sistema Um outro ponto em que se condensam as contradições é aquele que se constitui com o que chamamos de a redução da noção de lingüístico isto é o recobrimento produzido por esta noção sobre outras duas da lingua gem e da lingüística É nesse espaço de reduão que a AD trabalha ou seja nesse entremeio o que significa dizer que ela trabalha contra a redução Pensando um lingüístico que não é da lingüística embora pressuponha sua existência Ser crítico a essa redução significa contrariar a reflexão sobre o sujeito nas duas formas de que falamos acima e que assim se representam na lingüística nem o idealismo 26 subjetivista da teoria da enunciação sujeito individual nem o do objetivismo abstrato sujeito universal dos for malistas Recusar esse sujeito ascético o da mente o biológico sujeito falanteouvinte ideal sem história como também não se iludir com o individualismo subjetivista que exclui igualmente o histórico Nessa mesma direção e agora pensando a contrapar tida do sujeito ou seja o sentido estão os que defendem que o sentido pode ser qualquer um ou os que propõem o sentido literal Ambas as posições se inscrevem no mes mo lugar como a contraparte da mesma coisa a negação da história O sentido para a AD não está já fixado a priori como essência das palavras nem tampouco pode ser qualquer um há a determinação histórica Ainda um entre meio Por seu lado as teorias do texto se nutrem do subpro duto dessas reduções assim como a sociolingüística se coloca na correlação da linguagem e da sociedade admi nistrando o social sujeito e situação no interior dessa redução do lingüístico O social para a AD não é correlato ele é constitutivo Isto é não há uma correlação entre a estrutura da língua e a da sociedade pois o que há é uma construção conjunta do social e do lingüístico Melhor ainda definese o discurso como um objeto social cuja especificidade está em que sua materialidade é lingüística A autonomia do lingüístico é para o analista de discurso apenas relativa produto de contradição e não absoluta como para o lingüista Ao introduzir a noção de sujeito e de situação a AD as transforma porque trabalha o descentramento do sujeito como origem As teorias que mencionamos acima ao invés de lidarem com as teorias do sujeito são vítimas delas e da ilusão do sujeito como centro um sujeito como origem já lá já produzido 27 Com efeito ao mesmo tempo em que introduz estas noções a AD as transforma tal como elas existem nas ciências sociais que desconhecem por seu lado a relação constitutiva da linguagem com o social É nessa relação com a exterioridade que esta ganha existência para a AD Sem esquecer o entremeio e a contradição o mundo existe mas no discurso ele é apreen dido trabalhado pela linguagem Destacase aqui a cons trução discursiva do referente tratase então do mundo para e não do mundo em si A AD se interessa pela linguagem tomada como práti ca mediação trabalho simbólico e não instrumento de comunicação É ação que transforma que constitui identi dades Ao falar ao significar eu me significo Aí retorna a noção de ideologia junto à idéia de movimento Do ponto de vista discursivo sujeito e sentido não podem ser tratados como já existentes em si como a priori pois é pelo efeito ideológico elementar que funciona como se eles já estives sem sempre lá É a AD que vai arregimentar através da noção de discurso essa forma de conhecimento em que se inscreve na relação do mundo com a linguagem a noção de ideoTo gia constitutiva dessa relação ou melhor como condição para essa relação Não há relação termoatermo entre as coisas e a linguagem São ordens diferentes a do mundo e a da linguagem Incompatíveis em suas naturezas próprias A possibilidade mesma da relação mundolinguagem se assenta na ideologia Por outro lado pela noção de ideolo gia pela idéia de prática e de mediação introduzse a idéia da incompletude da linguagem da falha E por aí o lugar do possível Se linguagem e ideologia fossem estruturas fechadas acabadas não haveria sujeito não haveria sentido A nível da língua como sistema absolutamente autô nomo o funcionamento só nos permitiria atingir o repetível 28 formal ou seja nesse nível só poderíamos explicitar as regularidades que comandam formalmente o funciona mento da linguagem as sistematicidades sintáticas morfo fonológicas Para compreendermos o funcionamento do discurso isto é para explicitarmos as suas regularidades é preciso fazer intervir a relação com a exterioridade ou seja com preendermos a sua historicidade pois o repetível a nível do discurso é histórico e não formal A questão do sujeito e do sentido na linguagem é uma questão que faz intervir a filosofia e as ciências das forma ções sociais sendo a questão do simbólico uma questão aberta uma questão de interpretação Em suma podemos dizer que a regularidade na AD é função da relação contraditória da linguagem com a exte rioridade Não partimos como na análise de conteúdo da exterioridade para o texto ao contrário procuramos conhe cer esta exterioridade pela maneira como os sentidos se trabalham no texto em sua discursividade É afinal esta noção de exterioridade que ao se especificar na AD transforma a noção de linguagem pensando sua forma material deslocando também a própria noção de social de históricp de ideológico tal como estas noções estão defi nidas no domínio das ciências humanas e sociais 2 Vejamos esses deslocamentos produzidos pela pers pectiva discursiva uma vez que essas noções não são aí tomadas como tal como se se fizesse apenas uma transfe rência Mais do que isso ao serem referidas à AD elas 2 o estabelecimento histórico de diferentes regiões disciplinares e sobretudo a necessidade de sua reorganização manifesta justamente a abertura do sim bólico mesmo porque a questão inscrita nesses objetos do saber de qualquer uma das ciências humanas e sociais é a questão da interpretação 29 mudam de terreno de configuração transformandose substancialmente em suas concepções e nas conseqüên cias que a partir daí produzem Quanto ao social não são os traços sociológicos empí ricos classe social idade sexo profissão mas as forma ções imaginárias que se constituem a partir das relações sociais que funcionam no discurso a imagem que se faz de um operário de um presidente de um pai etc Há em toda língua mecanismos de projeção para que se constitua essa relação entre a situação sociologicamente descritível e a posição dos sujeitos discursivamente significativa Q uanto ao ideológico é aí que melhor podemos apre ciar a diferença entre a AD e a análise de conteúdo método clássico de análise de linguagem que trata dos conteúdos da linguagem dos conteúdos da ideologia Na AD se trabalha com os processos de constituição da lingua gem e da ideologia e não com seus conteúdos Na pers pectiva da AD a ideologia não é x mas o mecanismo de produzir x No espaço que vai da constituição dos senti dos o interdiscurso à sua formulação intradiscurso inter vêm a ideologia e os efeitos imaginários Expliquemonos Há uma injunção à interpretação Diante de qualquer objeto simbólico x somos instados a interpretar o que x quer dizer Nesse movimento da interpretação aparecenos como conteúdo já lá como evidência o sentido desse x Ao se dizer se interpreta e a interpretação tem sua espes sura sua máterialidade mas negase no entanto a interpre tação e suas condições no momento mesmo em que ela se dá e se tem a impressão do sentido que se reconhece já lá A significância é no entanto um movimento contínuo determinado pela materialidade da língua e da história Necessariamente determinado por sua exterioridade todo discurso remete a um outro discurso presente nele por sua ausência necessária Há o primado do interdiscurso 30 a memória do dizer de tal modo que os sentidos são sempre referidos a outros sentidos e é daí que eles tiram sua identidade A interpretação é sempre regida por condições de produção específicas que no entanto aparecem como universais e eternas É a ideologia que produz o efeito de evidência e da unidade sustentando sobre o já dito os sentidos institucionalizados admitidos como naturais Há uma parte do dizer inacessível ao sujeito e que fala em sua fala Mais ainda o sujeito toma como suas as palavras da voz anônima produzida pelo interdiscurso a memória discursiva Pela ideologia se naturaliza assim o que é produzido pela história há transposição de certas formas materiais em outras isto é há simulação e não ocultação de conteú dos em que são construídas transparências como se a linguagem não tivesse sua materialidade sua opacidade para serem interpretadas por determinações históricas que aparecem como evidências empíricas Redefinindo assim a ideologia discursivamente pode mos dizer que não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia A ideologia por sua vez é interpretação de sentido em certa direção direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginá rios A ideologia não é pois ocultação mas função da relaçãÓ necessária entre a linguagem e o mundo Linguagem e mundo se refletem no sentido da refração do efeito imaginário necessário de um sobre o outro Na verdade é o efeito da separação e da relação necessária mostrada nesse mesmo lugar Há uma contradição entre mundo e linguagem e a ideologia é trabalho desta contradição Daí a necessidade de distinguirmos entre a forma abstrata com sua transparên cia e o efeito de literalidade e a forma material que é histórica com sua opacidade e seus equívocos Resta pois observar o deslocamento que propomos para não separar forma e conteúdo Trabalhamos a forma 31 material em que o conteúdo se inscreve e não a forma abstrata a que perpetuava a divisão forma lingüística e conteúdo ciências sociais A AD desloca a análise de conteúdo como instrumento clássico de estudo da lingua gem para as ciências sociais colocandose em seu lugar com a noção de discurso definido como efeito de sentidos entre locutores Essa definição traz para a linguagem a questão da sua forma material que é lingüística e histórica3 A noção de imaginário ganha também sua especifici dade em AD Como dissemos não há relação direta entre mundo e linguagem entre palavra e coisa A relação não é direta mas funciona como se fosse por causa do imaginário Ou como diz Sercovich 1977 a dimensão imaginária de um discurso é sua capacidade para a remissão de forma direta à realidade Daí seu efeito de evidência sua ilusão referen cial Por outro lado a transformação do signo em imagem resulta justamente da perda do seu significado ou seja do seu apagamento enquanto unidade cultural ou histórica o que produz sua transparênciaDito de outra forma se se tira a história a palavra vira imagem pura Essa relação com a história mostra a eficácia do imaginário capaz de deter minar transformações nas relações sociais e de constituir práticas No entanto em seu funcionamento ideológico as palavras se apresentam com sua transparência que pode ríamos atravessar para atingir os conteúdos J Não se está negando aqui o corte saussureano necessário produzido pela fundação da lingüística e que produz o lingüístico para o lingüista Nem se está propondo que se some simplesmente o lingüístico ao histórico ao socal produzindose um objeto total Ao contrário reconhecendose a 1mposs1b1 lídade dessa soma a proposta é uma mudança de terreno teórico que não pretenda justamente tapar a falta transpor o impossível da língua e o impos sível da história mas trabalhar essa impossibilidade 32 É essa transparência que a AD põe em causa ao considerar o imaginário como produtor desse efeito e restituir como diz M Pêcheux 1982 a opacidade do texto ao olhar do leitor Trabalhar então a ilusão do sujeito como origem e a da transparência da linguagem e dos sentidos Repor assim como trabalho a própria interpretação o que resulta em compreender de outra maneira também a histó ria não como sucessão de fatos com sentidos já dados dispostos em seqüência cronológica mas como fatos que reclamam sentidos P Henry 1994 cuja materialidade não é possível de ser apreendida em si mas no discurso Quan do afirmamos que há uma determinação histórica dos sentidos não estamos pensando a história como evolução e cronologia o que interessa não são as datas mas os modos como os sentidos são produzidos e circulam Tudo isso que acabamos de dizer se inscreve na crítica que a perspectiva discursiva permite em relação ao que temos chamado conteudismo 1990 consideraremse os conteúdos das palavras e não como deve ser o funciona mento do discurso na produção dos sentidos podendose assim explicitar o mecanismo ideológico que o sustenta A isto chamamos compreensão ou seja a explicitação do modo como o discurso produz sentidos No século XIX as ciências humanas se constituem na ilusão da transparência da linguagem e na do sujeito como origem 4 Já não é assim Mas a fala da interdisciplinaridade 4 Cf Orlandi 1990 onde reíletimos sobre a etimologia da palavra rapport em francês que até o século XVIII se distingue mal de relation podendo assim o relato ser tanto científico rapport como ficção relato narrativa Mais tarde haverá separação estrita entre ambos sendo o relatório destinado à ciência e o relato narrativa à literatura mantendo rigorosamente separados os dizeres da verdade e os da imaginação A reorganização das disciplinas mostra a meu ver a necessidade de se rediscutir esses limites já que na relação com os sentidos não há transparência e intervêm o imaginário e a opacidade 33 embora reconheça um outro estado de coisas uma outra territorialização para o exercício desse saber mantém essa ilusão procurando ultrapassála meramente pelo exercício da relação entre as disciplinas Uma noção como a de discurso que devolve à linguagem sua espessura material e ao sujeito sua contradição colocase como historicamen te necessária para o deslocamento dessas relações e apon ta para uma nova organização novos recortes novos desenhos de formas de conhecimento se não se pensam mais essas regiões disciplinares com seus conteúdos mas um novo jogo de relações do saber sem esses cen tros que o determinem Isto está silenciado no discurso da interdisciplinaridade O silenciamento no entanto sempre se acompanha de um movimento de sentidos Assim a noção de interdisci plinaridade podese apresentar como o sintoma da disper são do saber como necessidade histórica Esta é mais uma manifestação da abertura do simbólico A descontinuidade do saber as ciências segmentam recortam seus objetos se confronta com a continuidade empírica do mundo A relação entre a descontinuidade do saber e a continuidade do mundo se faz pelo simbólico isto é pela linguagem e esta é sempre sujeita à interpreta ção Daí a dispersão necessária do conhecimento Esta dispersão corresponde por sua vez à forma histórica de nossa sociedade dividida e de nosso sujeito disperso Faz parte da constituição da linguagem e do saber aspirar à unidade Essa é uma nossa necessidade mas que se confronta com nossa dispersão real Daí que há duas posições que se configuram em relação à questão da interdisciplinaridade em nosso con texto histórico atual a a dos que reconhecem a necessida de de se pensar os recortes como não estanques nem naturais e procuram praticar a transformação do desenho 34 das disciplinas aprofundando as contradições que derivam desses seus recortes e b a dos que se iludem com a possibilidade do objeto integral e do saber total como se a fala da interdisciplinaridade pudesse por si ultrapassar a história e não fosse ao contrário parte dela5 5 Desse modo preferimos também deixar em aberto os sentidos possíveis para as propostas da institucionalização da interdisciplinaridade ou seja projetos de cursos interdisciplinares a nível de pósgraduação Porque como todo fato este também reclama sentidos já que como todo acontecimento ele é perfeitamente transparente e profundamente opaco M Pêcheux 1990 35 3 DISCURSO FATO DADO EXTERIORIDADE Um deslocamento fundamental no estudo da lingua gem permite passar do dado para o fato Este deslocamen to por sua vez nos coloca no campo do acontecimento lingüístico e do funcionamento discursivo Sem comentar mais extensamente esta distinção tal como ela se explicita para Milner 1989 podemos dizer que para a análise de discurso este deslocamento significa a possibilidade de se trabalhar o processo de produção da linguagem e não apenas seus produtos Se pensamos agora a importância desse modo de se considerarem os procedimentos da análise discursiva de vemos lembrar que a epistemologia que interessa à análise de discurso não se alinha no paradigma da epistemologia positivista mas no da histórica e em relação a esta no da descontinuidade suprimindo com efeito a separação en tre objetosujeito exterioridadeinterioridade concre toabstrato origemfiliação evoluçãoprodução etc E desse modo que a concepção de fato de linguagem na análise de discurso traz para a reflexão a questão da historicidade É no domínio desta questão da historicidade que vamos inscrever esta rápida reflexão sobre a questão dos dados Restanos lembrar que a análise de discurso trabalha com a materialidade da linguagem considerandoa em seu 36 duplo aspecto o lingüístico e o histórico enquanto indis sociáveis no processo de produção do sujeito do discurso e dos sentidos que o significam O que me permite dizer que o sujeito é um lugar de significação historicamente constituído Na realidade estou trabalhando aqui sem explicitar uma distinção saussureana a que distingue formasubstân cia distinção esta que compõe o quadro de referência de L Hjelmslev 1971 que vai desenvolver esta separação dotandoa de atribuições teóricas particularizantes o que nos permite passar para uma outra relação desta vez entre forma abstrata forma material e substância Não se trata no entanto da mera utilização mas da leitura dessa distinção em um domínio conceptual outro o do materialismo histórico ao qual se filia a análise de discurso da Escola Francesa Como diz D Lecourt 1978 em relação a Bachelard tratase de um tipo de leitura a leitura materialista e é preciso saber que esta leitura tem a vantagem de dar atualidade à epistemologia bachelardia na e de preservála de todos esses vampiros espiritualis tas e positivistas contra os quais ela se constituiu laboriosamente É desse neopositivismo que queremos preservar a forma lingüística quando a lemos na análise de discurso sob o modo da forma material Percorrendo o caminho que vai redefinir o político pela sua dimensão linguageira a aná li s de discurso adquire seu sentido pleno concebendo por outro lado a própria língua no processo históricosocial e colocando o sujeito e o sentido como partes desse processo Mas há um certo sentido em que se pode dizer que existem dados em análise de discurso O que seriam eles São os objetos de explicitação de que se serve a teoria discursiva para se construir como tal os dados são os discursos Os discursos por sua vez não são objetos 37 empíricos são efeitos de sentidos entre locutores sendo análise e teoria inseparáveis Como diz D Maldidier 1989 a máquina discursiva M Pêcheux utilizou esta expressão para designar seu dispositivo de 1969 estabelecia a teoria de um objeto novo a relação discursocorpus contribuía para instituir um objeto novo irredutível ao enunciado longo ou seguido dos lingüistas assim como também não redutível ao texto literário ou não da tradição O discurso sempre construído a partir de hipóteses históricosociais não pode se confun dir nem com a evidência dos dados empíricos nem com o texto Quanto ao fechamento do corpus discursivo ela a máquina discursiva não reproduz o fechamento estrutural do texto senão para tentar apreender a relação com um exterior Este discurso representava no campo da lingüísti ca um verdadeiro deslocamento Este objeto novo constrói uma nova disciplina a análise de discurso que vai constituir um acontecimento na his tória das práticas da lingüística e da história dos questiona mentos dos marxistas sobre a linguagem D Maldidier idem É assim que o objeto discurso é pensado ao mesmo tempo que o dispositivo para a análise dirá ainda D Maldidier ibidem Com efeito para a análise de discurso não existem dados enquanto tal uma vez que eles resultam já de uma construção de um gesto teórico Aí entra a questão da interpretação o que torna esta discussão mais interessante A questão da interpretação por sua vez leva à questão do real e da exterioridade Começo por dizer que a exterioridade não tem a objetividade empírica do fora da linguagem pois na análise de discurso a exterioridade é suprimida para intervir como tal na textualidade É isto que chamamos discursivi dadeTratase portanto de pensar a exterioridade discursi 38 va É no discurso que o homem produz a realidade com a qual ele está em relação A noção que trabalha a exterioridade discursiva ou exterioridade constitutiva é a de interdiscurso O que define o interdiscurso é a sua objetividade material contra ditória objetividade material essa que como diz M Pê cheux 1988 reside no fato de que algo fala sempre antes em outro lugar e independentemente isto é sob a domi nação do complexo das formações ideológicas É isto que fornece a cada sujeito a sua realidade enquanto sistema de evidências e de significações percebidasaceitasexperi mentadas Aí se explicita o processo de constituição do discurso a memória o domínio do saber os outros dizeres já ditos ou possíveis que garantem a formulação presenti ficação do dizer sua sustentação Garantia de legibilidade e de interpretação para que nossas palavras façam um sentido é preciso que já signifiquem Essa impessoalidade do sentido sua impressão referencial resulta do efeito de exterioridade o sentido lá A objetividade material contra ditória O efeito de exterioridade por sua vez é que compõe ou torna possível a nosso ver a relação discursiva realrea lidade Sendo o real função das determinações históricas que constituem as condições de produção materiais e a realidade a relação imaginária dos sujeitos com essas de terminações tal como elas se apresentam no discurso ou seja num processo de significação para o sujeito constituí do ideologicamente pelos esquecimentos a o esqueci mento número 1 o que resulta na sensação do sujeito como origem e b o esquecimento número 2 o que produz a impressão da realidade do pensamento cf Pêcheux 1975 Por aí é que entendemos numa noção discursiva de ideologia o fato de que ela não é consciente ela é efeito 39 1 I da relação do sujeito com a língua e com a história na sua necessidade conjunta na sua materialidade Ou seja só podemos ter língua e história conjugadas pelo efeito ideo lógico pela consideração de sua materialidade específica ou seja pela referência ao interdiscurso Em outras pala vras o discurso é essa conjugação necessária da língua com a história produzindo a impressão de realidade O gesto da formulação é o gesto ideológico mínimo o que consu ma o imaginário no sujeito a sua relação imaginária com a realidade em que o assujeitamento se realiza precisa mente no sujeito sob a forma da autonomia M Pêcheux 1988 A necessidade de compreender isto cientificamente produz nos anos sessenta um movimento de reflexão em torno da noção de leiturainterpretação Para compreender este movimento é preciso com preender o que passa a significar o gesto de leitura ou em outras palavras o que é ler nessa conjuntura teórica A leitura ganha sentidos que apontam para a formação de um novo espaço disciplinar particular no conjunto das disciplinas praticadas no domínio das ciências humanas e sociais Este espaço a nosso ver antecipa a necessidade e a localização da análise de discurso na confluência do que não é da lingüística e do que não é específico às ciências das formações sociais embora na necessidade de sua interrelação No interior do estruturalismo as reflexões para um conjunto de autores se sustentam na elaboração da expli citação da natureza da leitura São autores que ao colocar em suspenso a noção de leitura estão ao mesmo tempo produzindo um deslocamento em relação aos paradigmas científicos e uma refração na sua filiação aos autores que lêem Vejamos alguns deles 40 Althusser na retomada de Marx ler O capitaD ou Lacan na leitura de Freud mostram que a leitura é na realidade a construção de um dispositivo teórico uma teoria que tem como efeito aprofundar radicalizar numa postura que separa revisionistas e nãorevisionistas o dito no texto resignificado interpretado Em Barthes a leitura aparece fundamentalmente como uma reescritura E em Foucault a leitura é a arqueologia passagem do documento a monumento Esses movimentos da ciência que recolocam a questão da leitura mostrando a sua nãotransparência mostram também que a relação intertextualidade entre os diferen tes autores que vão constituindo a ciência produz a neces sidade de uma resignificação apresentandose a leitura como aparato teórico Isto traz à consideração uma reavaliação da noção de interpretação Daí decorrem as implicações disciplinares variadas da ordem da interpretação na delimitação das disciplinas científicas na história nova na psicologia na filosofia na epistemologia história da ciência além de uma nova necessidade de compreender a própria noção de arquivo que torna complexa a relação com o cor pus Daí também aparece um espaço determinado que mostra a necessidade de uma região específica para uma disciplina da interpretação que se definisse nessa nova base Esta disciplina é a análise de discurso A análise de discurso confrontase com a noção tradi cional hermenêutica da interpretação e produz um deslo camento no que é ler o arquivo hoje M Pêcheux 1982 Ela vai recusar o conteudismo a separação formaconteú do e insistindo sobre o fato de que o sentido é produzido vai restituir a opacidade a espessura semântica aos objetos simbólicos a compreensão na análise de discurso é polí 41 tica Ou como diz M Pêcheux 1982b a análise de discurso se confronta com a necessidade de abrir conjun tamente a problemática do simbólico e do político Ela desterritorializa assim a noção de leitura pela noção mes ma de discurso como efeito de sentidos entre locutores Ao mesmo tempo a análise de discurso desloca a noção de instrumento para a ciência e para a linguagem o que resulta em outra compreensão do que se tem tratado como interdisciplinaridade referida à análise de discurso Entre o espaço da lingüística ciência positiva da linguagem e o das ciências das formações sociais ciências positivas da sociedade como vimos não há uma relação comple mentar mas contraditória A análise de discurso se constitui assim nesse espaço nesse entremeio como diria Pêcheux trabalhando suas contradições Com efeito a análise de discurso não vem completar a relação entre a lingüística e as ciências das formações sociais ela não costura o entremeio entre língua e história ela trabalha isso sim as contradições emergentes da pró pria constituição desses dois espaços disciplinares ela trabalha a necessidade que relaciona essas disciplinas a lingüística e asciências sociais enquanto territórios distin tos Por isso como dissemos não se pode inscrever a análise de discurso no campo da interdisciplinaridade tal como esta vem sendo definida Desse modo porque estabelece essa relação no espa ço das contradições a análise de discurso não herda dessas ciências positivas a noção de dado Ao contrário a própria existência da análise de discurso nesse entremeio atesta mais essa contradição a que regula a relação entre proces sos e produtos criando a ilusão de que é possível separálos e trabalhar apenas os produtos os dados em si autono mamente Ela vai contestar que pela observação dos dados empíricos se possa atingir diretamente a interpretação de 42 seus sentidos somandose o lingüístico ao social ao histó rico etc Finalmente é importante lembrar que a noção de dado além das determinações teóricas e disciplinares que a configuram tal como acabamos de expor também sofre no campo específico da análise de linguagem uma deter minação histórica que deriva do próprio modo como se pratica a atividade científica Refirome aqui à importância fundamental do Natura lismo no século XIX na construção das formas da científi cidade na observação e classificação de dados sobretudo na atividade de pesquisa de campo no domínio da lingua gem O discurso naturalista principalmente no século XIX tendo no centro a noção de determinação contribui para a produção de uma aparente estabilidade sem equívocos e unívoca sobre a realidade brasileira seja ela natural social ou política d Orlandi 1992 Entre os mecanismos de produção dessa estabilidade estão os responsáveis pela observação científica da nossa fauna da nossa flora de nosso relevo e da nossa língua Entre os efeitos de determinação que constroem a objetividade do nosso país estão os que descrevem as línguas indígenas aqui encontradas e constroem uma fei ção para a língua portuguesa do Brasil O trabalho dos naturalistas é que vai instituir os mode los da coleta dos dados elemento de verificação colhem se os dados da língua como os das plantas e das espécies animais ou seja naturalmente Como resultado dessa atividade constroemse os inventários os bancos de dados Essa é uma marca que fica e que tem administrado a pesquisa de campo da língua no Brasil desde então a sistematicidade é um acervo sem história As línguas brasi 43 leiras e elas são muitas são espécies naturais Como os índios A noção de dado como objeto encontrado natural mente na língua se reforça cientificamente pela sustenta ção em um quadro teórico de referência o do Naturalismo que é universal mas que ganha contornos específicos na nossa história de país colonizado São essas em geral as considerações que temos a fazer sobre a noção de dado Como pudemos ver essa noção não tem um valor operatório positivo porque em análise de discurso não se trabalha com as evidências mas com o processo de produção das evidências O que em última instância significa dizer que a noção de dado é ela própria um efeito ideológico do qual a análise de discurso procura desconstruir a evidência explicitando seus modos de pro dução Para tal como vimos é a própria noção de real e a de interpretação que são colocadas em questão Redefinindo a relação do analista com o dado com a interpretação com o real com a realidade a noção de discurso promove confrontos teóricos que resultam na redefinição do político do histórico da ideologia do social e do lingüístico É finalmente isso que define a necessidade de uma nova disciplina e a instituição de um novo objeto É a noção de discurso afinal que vai tornar possível na análise da linguagem qualquer que seja seu domínio as reflexões sobre o sujeito e a situação Na abertura produzida pela análise de discurso e em especial pela reflexão de M Pêcheux o discurso é uma noção fundadora 44 4 ORDEI E ORGANIZAÇÃO NA LÍNGUA 1 Há uma diferença necessária entre ordem e organiza ção quando se passa a um campo de estudos da linguagem que reconhece a contribuição específica da noção de discurso Essa diferença basicamente separa uma tomada logicista ou sociologista da linguagem ou em outros ter mos empiricista ou idealista de uma perspectiva discursi va ou seja aquela em que se reconhece a materialidade da língua e a da história Começaríamos então por dizer que a ordem para nós não é o ordenamento imposto nem a organização enquan to tal mas a forma material Interessa ao analista não a classificação mas o funcionamento Em nosso caso especialmente no estudo da semântica discursiva o que nos interessa é a ordem da língua enquan to sistema significante material e a da história enquanto materialidade simbólica Reconhecemos desse modo uma refação entre duas ordens a da língua tal como a enuncia mos e a do mundo para o homem sob o modo da ordem institucional social tomada pela história O lugar de obser vação é a ordem do discurso Partese do princípio de que há um real da língua e um real da história e o trabalho do analista é justamente com preender a relação entre essas duas ordens de real Em nossos estudos bem cedo nos ficou claro na medida em que o analista de discurso tem uma postura crítica em relação ao empirismo e a sua contraparte que é o formalismo que não era a organização da língua que nos interessava pensada na lingüística sob o modo da oposição ou da regra mas a sua ordem ordem simbólica ordem do discurso Na análise não é a relação entre por exemplo sujeito e predicado SN e SV que é relevante mas o que essa organização sintática pode nos fazer compreender dos mecanismos de produção de sentidos lingüísticohistóri cos que aí estão funcionando em termos da ordem signi ficante Para nos instalarmos nesse campo da reflexão dois deslocamentos se impõem a a passagem para a forma material b a necessidade de se considerar que a língua significa porque a história intervém o que resulta em pensar que o sentido é uma relação determinada do sujeito com a história Assim o gesto de interpretação é o lugar em que se tem a relação do sujeito com a língua Esta é a marca da subjetivação o traço da relação da língua com a exterio ridade Se a noÇão de estrutura nos permite transpor o limiar do conteudismo ela não nos basta pois nos faz estaciona na idéia de organização de arranjo de combinatória E preciso uma outra noção Esta noção a de materialidade nos leva às fronteiras da língua e nos faz chegar à conside ração da ordem simbólica incluindo nela a história e a ideologia Foi sem dúvida a crítica feita ao conteudismo en quanto perspectiva teórica filosófica que mantinha ape sar do estruturalismo ou justamente por ele a separação estanque entre forma conteúdo que nos abriu a possibi lidade de a de um lado transpor a noção sociologista de ideologia e b pensar não a oposição entre forma e con 46 teúdo mas trabalhar com a noção de forma material que se distingue da forma abstrata e considera ao mesmo tempo forma e conteúdo enquanto materialidade Em termos analíticos isso resulta em dizer que a instân cia de constituição da linguagem precede a da formulação a dos processos de produção determina a dos produtos o fato de linguagem preside a consideração dos dados Mais do que isso a relação entre estrutura e aconteci mento colocando a interpretação como parte irrecusável da relação do homem com a língua e com a história M Pêcheux 1983 não a inscreve no entanto no campo da manipulação da intenção da mera vontade Algo que está aquém e além do homem essa relação não se dá no âmbito de seu controle Essa é uma relação que o constitui enquan to tal Ao dizer que o inconsciente e a ideologia estão mate rialmente ligados M Pêcheux 1975 coloca a necessidade de uma noção o discurso em que isto possa ser considerado instituindo ao mesmo tempo a especificidade do campo teórico estabelecido pela noção de materialida de Se em Milner 1976 a materialidade da língua é a garantia de se ter acesso à sua ordem Pêcheux mostrará a insufiéiência desta postura se não se tiver em conta a materialidade da história para Milner apenas um efeito ideológico Assim procedendo Pêcheux abre um espaço entre o formalismo e o sociologismo duas reduções a meu ver que incidem sobre a língua sobre a sociedade e conseqüentemente sobre o sujeito e o sentido Ultrapas sando desse modo a organização regra e sistematicidade podemos chegar à ordem funcionamento falha da língua e da história equívoco interpretação ao mesmo tempo em que não pensamos a unidade em relação à variedade organização mas como referida à posição do sujeito des centramento Se algo pode nos esclarecer esta postura 47 basta dizermos que ao contrário da completude do sistema abstrato a ordem significante é capaz de equívoco de deslize de falha sem perder seu caráter de unidade de totalidade A ideologia aqui não se define como conjunto de representações nem muito menos como ocultação da realidade Ela é uma prática significativa Necessidade da interpretação a ideologia não é consciente ela é efeito da relação do sujeito com a língua e com a história em sua relação necessária para que se signifique O sujeito por sua vez é lugar historicamente interdiscurso constituído de significação Se a relação com o inconsciente é uma das dimensões do equívoco que constituem o sujeito sua contraparte está em que o equívoco que toca a história a necessidade de interpretação é o que constitui a ideologia O acesso a esse modo do equívoco que é a ideologia pode ser traba lhado pela noção de interpelação constitutiva do sujeito Faz parte do mecanismo elementar da ideologia que é a interpelação do indivíduo em sujeito o apagamento dessa opacidade que é a inscrição da língua na história para que ela signifique o sujeito tem de inserir seu dizer no repetível interdiscurso memória discursiva para que seja interpre tável Esse é também um dos aspectos da incompletude e da abertura do simbólico esse dizer que é uma coisa aberta mas dentro da história No efeito da transparência o sentido aparece como estando lá evidente Nesse domínio discursivo não se está no sujeito psico lógico empiricamente coincidente consigo mesmo O su jeito é uma posição entre outras O modo pelo qual ele se constitui em sujeito ou seja o modo pelo qual ele se constitui enquanto posição não lhe é acessível Esse é o efeito ideológico elementar Correlatamente a linguagem também não é transparente nem o sentido evidente 48 Se de um lado na língua temse a forma empmca pata a forma abstrata pb e a forma material lingüístico histórica ou seja discursiva em relação ao sujeito temse em contrapartida o sujeito empírico sociológico o sujeito abs trato ideal e o que chamamos de a posição sujeito Ao se passar da instância da organização para a da ordem se passa da oposição empíricoabstrato para a instância da forma material em que o sentido não é con teúdo a história não é contexto e o sujeito não é origem de si Expliquemonos o que interessa ao analista de discur so não é a organização forma empírica ou abstrata mas a ordem do discurso forma material em que o sujeito se define pela sua relação com um sistema significante inves tido de sentidos sua corporeidade sua espessura material sua historicidade É o sujeito significante o sujeito histórico material Esse sujeito que se define como posição é um sujeito que se produz entre diferentes discursos numa relação regrada com a memória do dizer o interdiscurso definindose em função de uma formação discursiva na relação com as demais Nessa perspectiva o analista de discurso vai então trabalhar com os movimentos gestos de interpretação do sujeit sua posição na determinação da história tomando o discurso como efeito de sentidos entre locutores São como dissemos duas ordens que lhe interessam a da língua e a da história em sua relação Que constituem em seu conjunto e funcionamento a ordem do discurso Em sua materialidade Para ilustrar essa relação entre organização e ordem e o que isto acarreta para a consideração do sujeito face à linguagem vamos tomar a argumentação Começaríamos por dizer que a argumentação em análi se de discurso é vista no processo histórico em que as posições dos sujeitos são constituídas Desse modo a 49 instância da formulação em que entram as intenções já está determinada pelo jogo das diferentes posições do sujeito em relação às formações discursivas jogo ao qual ele não tem acesso direto Ou seja as filiações ideológicas já estão definidas e o jogo da argumentação não afeta as posições dos sujeitos Em outros termos podemos dizer que no nível da formulação o sujeito já tem sua posição determinada e ele já está sob o efeito da ilusão subjetiva funcionando ao nível imaginário afetado pela vontade da verdade pelas suas intenções pelas evidências do sentido e pela ilusão refe rencial a da literalidade Além disso também os argumentos por exemplo falar a favor dos pobres são produzidos pelos discursos vigen tes em suas relações historicamente politicamente ideo logicamente determinadas Os argumentos derivam das relações de discursos As intenções do sujeito não mudam nada em relação a isso Elas terão no entanto um papel determinante a nível da formulação que funciona pelas projeções imaginárias Em suma nesse nível o analista trabalha com a organi zação Paraatingir o que constitui a ordem significante ele tem que considerar o que esta organização indica em relação ao real seja da língua seja da história Só assim atravessará a instância do imaginário para apreender no funcionamento discursivo o modo de constituição do sujeito e dos sentidos Esta passagem da organização para a ordem nem é direta nem automática e se faz a partir de princípios teóricos fundamentais como a da dispersão do sujeito o da não evidência dos sentidos Daí nossa proposta de se trabalhar com os gestos de interpretação A questão seria então a de compreender que relações de sentidos estão determinando a necessidade desses ges 50 tos de interpretação Que formações discursivas estão aí em jogo Mesmo sem o saber por que o sujeito imprime esta e não aquela direção à argumentação De que natu reza são seus argumentos Essas questões podem constituir um percurso para a análise tomandose então a organização da língua a des crição dessa organização como lugar de passagem possí vel para explicitar mecanismos de funcionamento discursivos que nos levam a compreender fatos da ordem do discurso Nas análises que apresentaremos mais adiante ficará mais clara essa distinção entre ordem e organização De todo modo é pela consideração da forma material em que o simbólico e o histórico se articulam os sentidos se produzindo com ou sem o controle do sujeito que se pode atingir a ordem do discurso 51 l 5 TEXTO E DISCURSO Eu começaria por dizer que o texto é uma peça6 de linguagem uma peça que representa uma unidade signifi cativa Não hesitaria em começar a reflexão partindo de M AK Halliday na enfatização de ser o texto a unidade primeira Para ser texto diz ele 1976 é preciso ter textua lidade A textualidade por sua vez é função da relação do texto consigo mesmo e com a exterioridade Mas embora as inversões que ele propõe o texto precede as sentenças o sentido precede o dizer etc sejam muito a meu gosto a exterioridade não tem em Halliday nem a mesma nature za nem o mesmo estatuto que tem na análise de discurso E Orlandi 1992 Passando pois para a minha filiação teórica específica eu diria que as palavras não significam em si É o texto que significa Quando uma palavra significa é porque ela tem textua lidade ou seja porque a sua interpretação deriva de um discurso que a sustenta que a provê de realidade significa tiva 6 Peça aqui estã mais para peça de teatro que para engenhoca embora a ambigüidade seja produtiva 52 É assim que na compreensão do que é texto podemos entender a relação com o interdiscurso a relação com os sentidos os mesmos e os outros Mas posso chegar mais perto daquilo que é minha proposta na análise da linguagem o texto é um objeto histórico Histórico aí não tem o sentido de ser o texto um documento mas discurso Assim melhor seria dizer o texto é um objeto lingüísticohistórico A partir dessa definição tenho procurado entender o que é o texto para a análise de discurso francesa Acho interessante aproveitar esta oportunidade para explicitar melhor o que é o lingüístico histórico para o analista de discurso Afirmando que seria um erro considerar a análise de discurso tal como ele a concebe simplesmente como o exercício de uma nova lingüística livre dos preconceitos da lingüística tradicional M Pêcheux 1975 dirá que o discurso introduz um descentramento na própria lingüísti ca Esta mudança portanto não reside como ele diz idem num outro modo de abordar seu objeto dentro de novas necessidades impostas pela pesquisa etc A especi ficidade da análise de discurso está em que o objeto a propósito do qual ela produz seu resultado não é um objeto lingüístico mas um objeto sóciohistórico onde o lingüístico intervém como pressuposto Há pois diz ainda ele ibidem um efeito de separaçãoclivagem entre a prática lingüística e a análise de discurso Segundo Pêcheux é pois abuso de linguagem o uso do termo lingüística do discurso para designar de fato uma lingüística dos textos quando ela ultrapassa o domínio da análise da frase muitas vezes recoberta por outro lado pela expressão lingüística da fala A análise concreta de uma situação concreta pressupõe que a materialidade discursiva em uma forma ção ideológica seja concebida como uma articulação de 53 processos Pêcheux ibidem A este respeito Pêcheux remete à observação de P Fiala e C Ridoux 1973 p 45 o texto diríamos o discurso não é um conjunto de enunciados portadores de uma e até mesmo várias signifi cações É antes um processo que se desenvolve de múlti plas formas em determinadas situações sociais Se estas considerações nos colocam já em situação de compreender a natureza do social que é levado em conta na análise de discurso outras observações se impõem a fim de tornar mais preciso esse campo de distinções Essas observações dizem respeito ao fato de que na análise de discurso da Escola Francesa tenho preferido falar não em história mas em historicidade do texto Ao longo de meu trabalho tenho colocado já repetidas vezes que um texto do ponto de vista de sua apresentação empírica é um objeto com começo meio e fim mas que se o considerarmos como discurso reinstalase imediata mente sua incompletude Dito de outra forma o texto visto na perspectiva do discurso não é uma unidade fechada embora como unidade de análise ele possa ser considera do uma unidade inteira pois ele tem relação com outros textos existentes possíveis ou imaginários com suas con dições de produção os sujeitos e a situação com o que chamamos sua exterioridade constitutiva o interdiscurso a memória do dizer História e historicidade A AD é um marco na história das idéias lingüísticas em uma mudança que toca essa distinção entre história e historicidade que estamos propondo para a reflexão No século XIX a noção de história relacionada à língua a atomizava vendo nessa relação uma dimensão temporal expressa na forma da cronologia e da evolução 54 A fundação da lingüística com a noção de língua como sistema já não pode acolher esta concepção de história e tampouco a de língua como seu produto São várias as tentativas de ajuste de adaptação através da elaboração de noções como a pancronia a relação temporal entre diferentes estados do sistema etc mas elas acabam sempre por colocar a história como algo exterior complementar ou em relação de causa e efeito com o sistema lingüístico Com a AD e isto que estamos chamando historicida de a relação passa a ser entendida como constitutiva Desse modo se se pode pensar uma temporalidade essa é uma temporalidade interna ou melhor uma relação com a exterioridade tal como ela se inscreve no próprio texto e não como algo lá fora refletido nele Não se parte da história para o texto avatar da análise de conteúdo se parte do texto enquanto materialidade histórica A tempo ralidade na relação sujeito sentido é a temporalidade do texto Não se trata assim de trabalhar a historicidade refleti da no texto mas a historicidade do texto isto é tratase de compreender como a matéria textual produz sentidos São pois os meandros do texto o seu acontecimento como discurso a sua miseenoeuvre como dizem os franceses ou como podemos dizer o trabalho dos senti dos nele que chamamos historicidade Claro que há uma ligação entre a história lá fora e a historicidade do texto a trama de sentidos nele mas ela não é nem direta nem automática nem de causa e efeito e nem se dá termoatermo É pois preciso admitir que esta relação é mais complexa do que pretendem as teorias da literalidade e que deixam pensar que a análise de discurso que a análise de discurso francesa pratica vê nos textos os conteúdos da história 55 Nesse sentido é que tenho afirmado que entre a evidência empírica e a certeza do cálculo formal há uma região menos visível menos óbvia mas igualmente relevan te que é a da materialidade histórica da linguagem O texto pode ser um bom lugar para se refletir sobre isso Pela análise da historicidade do texto isto é do seu modo de produzir sentidos podemos falar que um texto pode ser e na maioria das vezes o é efetivamente atravessado por várias formações discursivas É nesse sen tido que falei mesmo antes de conhecer os trabalhos de J Authier 1984 em heterogeneidade do discurso E Orlandi e E Guimarães 1988 Nesse trabalho já propúnha mos que se considerasse a relação proporcional texto discurso autor sujeito como uma relação que se fazia da unidade para a dispersão e viceversa7 no sentido de produzir uma relação consistente entre linguagem e história Também em minha distinção entre inteligibilidade interpretabilidade e compreensão E Orlandi 1988 p 1O1 está dito que a compreenso é a apreensão das várias possibilidades de um texto Para compreender o leitor deve se relacionar com os diferentes processos de significação que acontecem no texto Esses processos por sua vez são função da historicidade ou seja da história dos sujeitos e dos sentidos do texto enquanto discurso Sem esque cer que o discurso é estrutura e acontecimento M Pê cheux 1983 o objetivo da AD é compreender como um texto funciona como ele produz sentidos sendo ele con cebido enquanto objeto lingüísticohistórico Eis outra via possível de se pensar a historicidade na perspectiva em que a estamos colocando história do sujeito e do sentido Inseparáveis ao produzir sentido o 7 Em termos formais devese ler estápara e assim como assim o sujei10 estápara o autor assim como o discurso estápara o 1ex10 56 sujeito se produz ou melhor o sujeito se produz produzin do sentido É esta a dimensão histórica do sujeito seu acontecimento simbólico já que não há sentido possível sem história pois é a história que provê a linguagem de sentido ou melhor de sentidos8 Daí o equívoco como condição do significar sendo o mais importante deles o que cria a ilusão referencial a da literalidade Não se pode falar em anterioridade de sentido seja na estrutura seja no acontecimento O sentido se dá no encontro dos dois na sua relação Daí uma das muitas maneiras de se entender a afirmação de Canguilhen 1980 de que o sentido é relação a Pois bem podemos assim dizer que a historicidade é função da necessidade do sentido no universo simbólico O texto é justamente esse objeto lingüístico histórico se o pensamos como essa unidade que se estabelece pela historicidade enquanto unidade de sentido Da análise Não nos interessa nessa perspectiva discursiva a orga nização do texto O que nos interessa é o que o texto organiza em sua discursividade em relação à ordem da língua e a das coisas a sua materialidade Quando dizemos que o texto é uma unidade significa tiva estamos afirmando a presença da ordem da língua enquanto sistema significante Mas não apenas isso Referimos mais acima que a história afeta a linguagem de sentidos Desse encontro resulta o texto logo textuali dade que é história que faz sentido 8 Tendo que traduzir isto para o inglês para uma comunicação em Lancaster alarguei minha compreensão desse processo já que a tradução exigia precisão The history provides language oí senses 57 1 111 Nossa proposta é a de trabalhar nesse lugar particular em que se encontram a ordem da língua e a ordem da história A noção que resulta mais clara na observação do encon tro dessas ordens na análise da linguagem é a noção de fato que por sua vez deriva de um deslocamento produ zido sobre a noção de dado O dado tem sua organização o fato se produz como um objeto da ordem do discurso lingüísticohistórico Na perspectiva dessa relação dado fato quando afirmo que um texto não é um documento mas um discurso estou produzindo algo mais fundamental estou instalando na consideração dos elementos submetidos à análise no movimento contínuo entre descrição e interpretação a memória Em outras palavras os dados não têm memória são os fatos que nos conduzem à memória lingüística Nos fatos temos a historicidade Observar os fatos de lingua gem vem a ser considerálos em sua historicidade enquan to eles representam um lugar de entrada na memória da linguagem sua sistematicidade seu modo de funcionamen to Em suma olharmos o texto como fato e não como um dado é observarmos como ele enquanto objeto simbólico funciona Como o texto é o fato de linguagem por excelência os estudos que não tratam da textualidade discursividade não alcançam a relação com a memória da língua Essas considerações nos permitem afirmar que o texto é uma unidade complexa um todo que resulta de uma articulação representando assim um conjunto de rela ções significativas individualizadas9 em uma unidade dis 9 Individualização deve ser entendida aqui no sentido em que Foucault diz que há diferentes formas de individualização dos sujeitos nas diferences formações sociais 58 I cursiva A individualização dessas relações é que pode ser apreciada através da noção de heterogeneidade diferen ça tal como a definimos mais acima Isto é fundamental para a análise do texto O texto é heterogêneo 1 Quanto à natureza dos diferentes materiais simbóli cos imagem grafia som etc 2 Quanto à natureza das linguagens oral escrita científica literária narrativa descrição etc 3 Quanto às posições do sujeito 4 Além disso podemos trabalhar essas diferenças em termos de formações discursivas FD Nesse caso temos um princípio importante que é o de que u texto não corresponde a uma só FD dada a heterogeneidade que o constitui lembrando que toda FD é heterogênea em rela ção a si mesma Courtine 1982 Suponhamos que o analista esteja trabalhando com o discurso feminista e que ele o caracterize como a FDx com sua configuração própria onde x feminista Na análise ele disporá de uma multiplicidade de textos que ele pode onsiderar no conjunto de textos que dizem respeito a FDx o texto 1 o texto 2 o texto 3 Estes textos por sua vez estarão atravessados por diferentes FD FDx mas também FDz FDn FDa FDb FDy já que os textos são heterogêneos em relação às FD que os constituem Podemos ter a seguinte configuração gráfica pensando a heterogeneidade de cada texto no conjunto dos textos submetidos à análise A heterogeneidade do discurso feminista resulta assim do fato de que no texto 1 a FDx convive com FDz e FOy no texto 2 convive com FDa e FDb e no texto 3 com FDz e FDn Essas diferentes relações produzem efeitos de sen 59 tidos diferentes o que terá de ser levado em conta neste discurso Portanto na dispersão de textos que constituem um discurso a relação com as FD em suas diferenças é elemen to fundamental que constitui o que estamos chamando de historicidade do texto São vários os procedimentos de análise como relação de paráfrases observação dos diferentes enunciados de ocorrência relação com diferentes discursos etc mas qualquer que seja o procedimento o ponto de partida é sempre o mesmo na relação entre unidade e dispersão o postulado de que o sentido sempre pode ser outro e o sujeito com suas intenções e objetivos não tem o controle daquilo que está dizendo Isto nos leva a duas ordens de conclusões também muito importantes 1 Um sujeito não produz só um discurso 2 Um discurso não é igual a um texto Daí que a relação proposta na AD é a Remeter o texto ao discurso b Esclarecer as relações deste com as FD pensando as relações destas com a ideologia A AD está assim interessada no texto não como objeto final de sua explicação mas como unidade que lhe permite ter acesso ao discurso O trabalho do analista é percorrer a via pela qual a ordem do discurso se materializa na estruturação do texto O texto dissemos inúmeras vezes é a unidade de análise afetada pelas condições de produção O texto é para o analista de discurso o lugar da relação com a repre sentação física da linguagem onde ela é som letra espaço dimensão direcionada tamanho É o material bruto M as é 60 também espaço significante E não é das questões menos interessantes a de procurar saber como se põe um discurso em texto Dos resultados Na perspectiva do discurso o texto é lugar de jogo de sentidos de trabalho da linguagem de funcionamento da discursividade d E Orlandi 1983 p 204205 Como toda peça de linguagem como todo objeto simbólico o texto é objeto de interpretação Para a AD esta sua qualidade é crucial É sua tarefa compreender como ele produz sentido e isto implica compreender tanto como os sentidos estão nele quanto como ele pode ser lido Esta dimensão eu diria ambígua da historicidade do texto mostra que o analista não toma o texto como o ponto de partida absoluto dada a relação de sentidos nem como ponto de chegada Quando se trata de discurso não temos origem e não temos unidade definitiva Um texto é uma peça de lingua gem de um processo discursivo muito mais abrangente Feita a análise não é sobre o texto que falará o analista mas sobre o discurso Uma vez atingido o processo discur sivo que é o que faz o texto significar o texto ou os textos particulares analisados desaparecem como referências es pecíficas para dar lugar à compreensão de todo um proces so discursivo do qual eles e outros que nem mesmo conhecemos são parte Sem esquecer que todo dizer discursivamente é um deslocamento nas redes de filiações históricas de sentidos Pêcheux 1983 Não são pois só aqueles textos os responsáveis pelos processos de significação que se atinge Eles tampouco estão relacionados só aos processos que eram objeto de sua análise Desse modo não só não existe relação termo 61 atermo entre a linguagem e o mundo como também não existe relação termoatermo entre os textos que são os materiais de análise e os resultados dela A mediação da própria análise da teoria e dos objetivos do analista são parte da construção do texto como unidade da análise Isto é também parte da historicidade É nesse sentido que dizemos que o corpus não é nunca inaugural em AD Ele já é uma construção fato Esta talvez seja a melhor maneira de argumentar contra as posições positivistas Não pela referência à ilusão da evidência das marcas mas pela lembrança de que esses objetos que são nossos materiais de análise só o são em sua provisoriedade A duração dos textos é trabalho do arquivoº 10 Arquivo aqui está sendo usado no sentido da AD Para compreender esta noção confira Cestos de leiwra E Orlandi et alii Ed Unicamp 1994 62 6 AUTORIA E INTERPRETAÇÃO 1 Tenho procurado compreender a questão ideológica inscrita na interpretação Esta questão nos toca particularmente pois M Pêcheux trata a significação pensando a relação da língua de um lado com a aangue o inconsciente e de outro com o interdiscurso a ideologia Segundo Pêcheux inconsciente e ideologia estão materialmente ligados Esta ligação material se faz pela relação comum com a língua Em outras palavras a compreensão do lugar da interpretação nos esclarece a relação entre ideologia e inconsciente tendo a língua como lugar em que isso se dá materialmente 1 A ordem simbólica configurada pelo real da língua e pelo real da história faz com que tudo não possa ser dito e por outro lado haja em todo dizer uma parte inacessível ao próprio sujeito Estaremos falando da interpretação em duas instâncias a tanto como parte da atividade do analista como b enquanto parte da atividade linguageira do sujeito Inicialmente devo dizer que a análise de discurso AD distinguese da hermenêutica em vários aspectos a pela 11 Para a compreensão da noção de forma material confira outros textos neste volume 63 natureza do sujeito interpretante nãopsicológico b pelo fato de que na AD a interpretação é precedida pela descrição descrição e interpretação se colocam como um batimento diz Pêcheux 1990 ou seja a linguagem na AD não é transparente Em suma interpretar para o ana lista de discurso não é atribuir sentidos mas exporse à opacidade do texto ainda Pêcheux ou como tenho proposto Orlandi 1987 é compreender ou seja explici tar o modo como um objeto simbólico produz sentidos o que resulta em saber que o sentido sempre pode ser outro Vejamos nessa perspectiva como podemos considerar o estatuto discursivo da interpretação refletindo sobre seu modo de existência no sujeito Começaremos por dizer que a interpretação é uma injunção Face a qualquer objeto simbólico o sujeito se encontra na necessidade de dar sentido O que é dar sentido Para o sujeito que fala é construir sítios de signifi cância delimitar domínios é tornar possíveis gestos de interpretação Orlandi 1993 Se encaramos este processo na perspectiva ideológica como estamos propondo podemos dizer que é nessa instân cia de constituição imaginária dos processos de produção dos sentidos que intervém o que temos criticado como conteudismo Orlandi 1992 Este supõe uma relação ter moatermo entre pensamentolinguagemmundo como se a relação entre palavras e coisas fosse uma relação natural e não lingüísticohistórica Daí a ilusão de se defini rem os sentidos pela pergunta ingênua o que x quer dizer Sem dúvida é do conteudismo que resulta o que temos chamado de perfídia da interpretação ou seja o fato que consiste em considerar o conteúdo suposto das palavras e não como deveria ser o funcionamento do discurso na produção dos sentidos 64 O modo como as ciências humanas e sociais conce bem a ideologia é ancilar à perfídia interpretativa conside rando que a linguagem é transparente essas ciências visam os conteúdos ideológicos concebendo a ideologia como ocultação Assim elas deixam pensar que pela busca dos conteúdos o que ele quis dizer se podem descobrir os verdadeiros sentidos do discurso que estariam escondidos Se não nos ativermos aos conteúdos da linguagem pode mos procurar entender o modo como os textos produzem sentidos e a ideologia será então percebida como o pro cesso de produção de um imaginário isto é produção de uma interpretação particular que apareceria no entanto como a interpretação necessária e que atribui sentidos fixos às palavras em um contexto histórico dado A ideologia não é um conteúdo x mas o mecanismo de produzilo Uma concepção discursiva de ideologia estabelece que como os sujeitos estão condenados a significar a interpretação é sempre regida por condições de produção específicas que no entanto aparecem como universais e eternas Disso resulta a impressão do sentido único e verdadeiro Um dos efeitos ideológicos está justamente no fato de que no momento mesmo em que ela se dá a interpretação se nega como tal Quando o sujeito fala ele está em plena atividade de interpretação ele está atribuindo sentido às suas próprias palavras em condições específicas Mas ele o faz como se os sentidos estivessem nas palavras apagam se suas condições de produção desaparece o modo pelo qual a exterioridade o constitui Em suma a interpretação aparece para o sujeito como transparência como o sentido lá Estas considerações nos levam a afirmar que não se pode excluir do fato lingüístico o equívoco como fato estrutural implicado pela ordem do simbólico Há como 65 diz Pêcheux 1990 um trabalho do sentido sobre o sentido tomado no relançar indefinido das interpretações Se é assim que se faz presente a ideologia também aí é que intervém a história O processo ideológico não se liga à falta mas ao excesso A ideologia representa a saturação o efeito de completude que por sua vez produz o efeito de evidên cia sustentandose sobre o já dito os sentidos institucio nalizados admitidos por todos como naturais Pela ideologia há transposição de certas formas materiais em outras isto é há simulação Assim na ideologia não há ocultação de sentidos conteúdos mas apagamento do processo de sua constituição Uma outra forma de ver a questão da interpretação é a que se vincula ao arquivo Refletindose sobre esta ques tão na perspectiva do arquivo tal como o faz Pêcheux 1981 podese chegar ao fato de que há uma divisão social do trabalho da leitura de tal modo que ela tem suas diferentes formas na história embora basicamente se possam distinguir a o modo literário e b o modo científico da relação com os sentidos sendo essa relação sobredeter minada pela divisão entre o corpo social dos que têm direito à interpretação distinto daqueles que fazem o trabalho cotidiano de sustentação da interpretação que deve ser a que se estabiliza Distinção entre intérpretes e escreventes Seria o que no meu entender se pode pensar como a administração sóciohistórica da apreensão dos sentidos na produção necessária inevitável da literalida de Jogo histórico que administra a equivalência entre o um necessário na sua relação com o equívoco a vocação da unidade o real da língua a sua ordem significante e o um universal o imaginário a organização sintática o efeito de literalidade o apagamento da inscrição da língua na história para fazer sentido Pela divisão social da leitura os gestos de interpretação são já determinados os sítios de 66 significância são previstos A ordem necessária se apre senta como organização imaginária dos sentidos12 Na lingüística as teorias da sintaxe são um modo de dar conta da organização da língua mas se pode reconhe cer na sintaxe um lugar de acesso à ordem da língua É nesse sentido que a sintaxe pode interessar ao analista de discurso Para ele ela é um efeito da ordem significante Por essa via chegamos a algumas considerações deci sivas sobre a determinação ideológica da interpretação Com efeito pela noção discursiva de arquivo podemos apreender o gesto que na história separa divide o direito à interpretação e trabalha os modos de gerenciála Isto nos indica que contrariamente aos que alocam os sentidos nas palavras para nós os sentidos são como diz Canguilhen 1980 relação a Para que a língua faça sentido é preciso que a história intervenha E com ela o equívoco a ambigüi dade a opacidade a espessura material do significante Daí a necessidade de administrála de regular as suas possibili dades as suas condições A interpretação portanto não é mero gesto de decodificação de apreensão do sentido Também não é livre de determinações Ela não pode ser qualquer uma e não é igualmente distribuída na formação social P que a garante é a memória sob dois aspectos a a memória institucionalizada ou seja o arquivo o trabalho social da interpretação em que se distingue quem tem e quem não tem direito a ela e b a memória constitutiva ou 12 Referimos aqui à já tematizdda distinção entre ordem e organização Que haja uma ordem do discurso que os sentidos tenham sua ordem nos parece necessário no quadro teórico com o qual trabalhamos No entanto a organi zação já íaz intervir o imaginário Do mesmo modo não falamos na análise da organização da linguagem qual seria ela mas do seu funcionamento reconhecendo na língua assim como no discurso sua ordem própria 67 seja o interdiscurso o trabalho histórico da constituição da interpretação o dizível o repetível o saber discursivo A interpretação se faz assim entre a memória institu cional arquivo e os efeitos da memória interdiscurso Se no âmbito da primeira a repetição congela no da segunda a repetição é a possibilidade mesma do sentido vir a ser outro em que presença e ausência se trabalham paráfrase e polissemia se delimitam no movimento da contradição entre o mesmo e o diferente O dizer só faz sentido se a formulação se inscrever na ordem do repetível no domínio do interdiscurso 13 Vejamos agora algumas reflexões que nos situam a questão da autoria na perspectiva discursiva Em um trabalho anterior Orlandi Guimarães 1988 e Orlandi 1987 tomamos a reflexão de Foucault sobre a questão da autoria tal como ele a define em seu texto A ordem do discurso 1975 o autor é o princípio de agrupa mento do discurso unidade e origem de suas significações O que o coloca como responsável pelo texto que produz Passamos assim da noção de sujeito para a de autor Se a noção de sujeito recobre não uma forma de subjetividade mas um lugar uma posição discursiva marcada pela sua 13 Em seu texto Independência e morte 1993 Eduardo Guimarães define o interdiscurso em sua relação com a língua Ele dirá podemos dizer que o interdiscurso é a relação de um discurso com outros discursos No sentido de que esta relação não se dá a partir dos discursos já particularizados É ela própria a relação entre discursos que dá a particularidade ou seja são as relações entre discursos que particularizam cada discurso Não é um locutor que coloca a língua em funcionamento por dela se apropriar A língua funciona na medida em que um indivíduo ocupa uma posição de sujeito no discurso e isso por si só põe a língua em funcionamento por afetála pelo interdiscurso Produzindo assim efeitos de sentido Em nossas palavras isso significa que sempre já há discurso e que o dizível é exterior ao sujeito cf Orlandi 1992 68 descontinuidade nas dissenções múltiplas do texto a no ção de autor é já uma função da noção de sujeito respon sável pela organização do sentido e pela unidade do texto produzindo o efeito de continuidade do sujeito A partir daí à diferença de Foucault que guarda a noção de autor para situações enunciativas especiais em que o texto original de autor se opõe ao comentário procuramos estender a noção de autoria para o uso corrente enquanto função enunciativa do sujeito distinta da de enunciador e de locutor Orlandi 1987 Com isto a funçãoautor para nós não se limita como em Foucault 1983 a um quadro restrito e privilegiado de produtores originais de lingua gem que se definiriam em relação a uma obra 14 Para nós a funçãoautor se realiza toda vez que o produtor da linguagem se representa na origem produzindo um texto com unidade coerência progressão nãocontradição e fim Em outras palavras ela se aplica ao corriqueiro da fabricação da unidade do dizer comum afetada pela res ponsabilidade social Orlandi 1993 o autor responde pelo que diz ou escreve pois é suposto estar em sua origem Assim estabelecemos uma correlação entre sujeitoautor e discursotexto entre dispersão unidade etc A nosso ver a função de autor é tocada de modo particular pela história o autor consegue formular no interior do formulável e se constituir com seu enunciado numa história de formulações O que significa que embora ele se constitua pela repetição esta é parte da história e não mero exercício mnemônico Ou seja o autor embora 14 Essa função de autoria distinta da que estamos aqui referindo em Foucault 1983 fala sobre a instauração da discursividade quando os autores não são apenas autores de suas obras mas quando produzem alguma coisa a mais a possibilidade e a regra de formação de outros textos A isto preferimos chamar discursos fundadores cf Orlandi et alii 1983 69 não instaure discursividade como o autor original de Foucault produz no entanto um lugar de interpretação no meio dos outros Esta é sua particularidade O sujeito só se faz autor se o que ele produz for interpretável Ele inscreve sua formulação no interdiscurso ele historiciza seu dizer15 Porque assume sua posição de autor se representa nesse lugar ele produz assim um evento interpretativo O que só repete exercício mnemônico não o faz O que nos leva a distinguir a a repetição empírica exercício mnemônico que não historiciza de b a repetição formal técnica de produzir frases exercício gramatical que também não historiciza de c a repetição histórica a que inscreve o dizer no repetível enquanto memória constitutiva saber discursivo em uma palavra interdiscurso Este a memória rede de filiações que faz a língua significar É assim que sentido memória e história se intrincam na noção de interdiscurso É porque a história se inscreve na língua que esta significa Daí o equívoco necessariamente constitutivo da significação que é ao mesmo tempo sistema e aconteci mento A inscrição do dizer no repetível histórico interdiscur so é que traz para a questão do autor a relação com a interpretação pois o sentido que não se historiciza é ininteligível ininterpretável incompreensível cf Orlandi 1987 Isto nos leva a afirmar que a constituição do autor supõe a repetição logo como estamos procurando mos trar a interpretação Mais extensamente podemos mesmo 15 Em um trabalho chamado Final feliz Maria Angélica L Carneiro tem um conjunto de dados expressivos a este respeito 70 afirmar que o dizível é o repetível ou melhor tem como condição a repetição Não porque é o mesmo mas é o que é passível de interpretação o que é passível de ser repetido efeito de préconstruído já dito na relação com o interdis curso Se insistimos em falar dessa funçãoautor é porque nela aparece de forma mais visível o efeito da historicidade inscrita na linguagem e torna conseqüentemente mais claros certos aspectos da interpretação Por outro lado o aspecto histórico da noção de sujeito formasujeito em análise de discurso pode ser melhor compreendido em sua função de autoria através da con sideração do que temos tratado como silenciamento É também nesse lugar entre tantos outros que podemos falar da incompletude da linguagem tal como a temos considerado O incompleto na linguagem é o lugar do possível é condição do movimento dos sentidos e dos sujeitos É na incompletude que inscrevemos a questão do silêncio e por esta via a da interpretação como movimen to Há certas condições as que são chamadas de plágio em que há estancamento desse movimento da interpre tação lugar em que há silenciamento da autoria E Orlandi 1992 Para que uma palavra faça sentido é preciso que ela já tenha sentido Essa impressão do significar deriva do inter discurso o domínio da memória discursiva aquele que sustenta o dizer na estratificação de formulações já feitas mas esquecidas e que vão construindo uma história dos sentidos Toda fala resulta assim de um efeito de sustenta ção no já dito que por sua vez só funciona quando as vozes que se poderiam identificar em cada formulação particular se apagam e trazem o sentido para o regime do 71 anonimato e da universalidade 16 Ilusão de que o sentido nasce ali não tem história Esse é um silenciamento neces sário inconsciente constitutivo para que o sujeito estabe leça sua posição o lugar de seu dizer possível Dessa ilusão resulta o movimento da identidade e o movimento dos sentidos eles não retornam apenas eles se transformam eles deslocam seu lugar na rede de filiações históricas eles se projetam em novos sentidos Desse silêncio que é um silêncio constitutivo sobre a interpretação ela se apaga no momento mesmo em que se dá resulta a ilusão que permite ao sujeito experimentar os seus sentidos Esta seria a censura original radical a que torna possível o discurso do no sujeito O plágio por seu lado é um subproduto desse silen ciamento necessário Mas ele tem suas particularidades ao se dar no nível da autoria o plagiador silencia seu trajeto ele cala a voz do outro que ele retoma Não é um silencia mento necessário mas imposto uma forma de censura o enunciador que repete e apaga toma o lugar do autor indevidamente intervém no movimento que faz a história a trajetória dos sentidos nega o percurso já feito e nos processos de identificação nega a identidade ao outro e em conseqüência trapaceia com a própria Estanca assim o fluir histórico do sentido Esquece que o dizer é sempre heterogêneo e que é nesse percurso que vai entre o já dito e o futuro discursivo que o sentido e o sujeito podem ou não ganhar novas determinações produzir ou não des locamentos Porque entre o dito e o nãodito é irremediável que haja um espaço de interpretação que não se fecha Lugar de equívocos de deslocamentos de debates de 16 Neste ponto podemos aproximar as reAexões de Courtine sd quando fala do anonimato da voz do interdiscurso e Bakhtine 1976 quando refere à conversão da palavra alheia em palavra própria 72 possíveis O plagiador na verdade nega essa possibilidade pois ao reduzir o movimento dos sentidos acentua a impres são de realidade do pensamento ilusão referencial que produz o sentimento de que há uma relação natural entre as palavras e as coisas e a do sujeito como origem de seu dizer ilusão de que os sentidos nascem nele Ao censurar o plagiador se fecha narcisicamente na vontade que o dizer comece e acabe nele mesmo e não se deixa atravessar nem atravessa outros discursos O que resulta na asfixia do sujeito e na rarefação dos sentidos Iludese com a existên cia da idéia absoluta e esquece que todo dizer é neces sariamente incompleto assim como o sujeito Mas há também outra maneira de compreender este fato Ele poderia ser considerado como o sintoma de uma mudança na função da autoria Estaria então havendo um deslocamento na forma da funçãoautor que mostraria exibiria o giro interpretativo da dispersão a desnecessida de de um marco de origem do dizer e de um sujeito na origem como responsável pelo dito pela sua coerência nãocontradição e unidade Estarseia então devolvendo o texto à sua dispersão e o sujeito à sua descontinuidade Estaria assim se produzindo uma forma de dizer que deixa ria passar a fragmentariedade a dispersão e a nãounidade do sujeito e dos sentidos Essa seria então uma outra relação do sujeito com a interpretação que teria suas conseqüên cias na produção da unidade do texto e continuidade do sujeito Haveria uma reorganização dessa relação uma outra forma histórica da autoria Como o autor é função da formasujeito e dos modos de individuação sóciohistoricamente determinados se este for um deslocamento efetivo da relação com a inter pretação deve ser acompanhado de transformações no tecido da formação social Não se pode descartar o fato de que esteja havendo uma transformação na relação sujeitoautor 73 Tendo feito esta digressão pelo trabalho histórico da própria noção da autoria para compreender suas formas históricas e o fato de que ela se transforma voltemos à nossa reflexão sobre a relação autor interpretação Tratando dos modos de assunção da autoria pelo aluno no discurso escrito S Gallo 1992 mostra que o fecho arbitrário mas necessário de um texto tornase fim por um efeito da posiçãoautor o efeito de sua unidade e de sua coerência A textualidade no discurso escrito resulta desse processo Podemos também tratar esta questão pensada em relação à interpretação através da distinção proposta por J Authier 1984 entre heterogeneidade mostrada e hete rogeneidade constitutiva que em relação à alteridade no domínio simbólico coloca a relação com o outro mostra da e o Outro constitutiva Em seu trabalho J Authier idem faz intervir o campo da psicanálise o da lingüística e o da análise de discurso Em nosso caso embora pressupondo o campo da psicanálise e o da lingüística trataremos especificamente do campo discursivo Nesse campo o outro é o interlocutor efetivo ou virtual e o Outro é a historicidade concebida sob a forma do interdiscurso Por outro lado não nos interessa a questão da relação da autoria com a escritaora lidade mas como dissemos no início o estatuto ideológi co da interpretação no discurso Esses dois deslocamentos produzidos em relação aos trabalhos citados acima nos colocam em um outro domínio de questões e de elabora ção dos conceitos discursivos Com efeito podemos dizer que a posiçãoautor se faz na relação com a constituição de um lugar de interpretação definido pela relação com o Outro o interdiscurso e o outro interlocutor O que em análise de discurso está subsumido pelo chamado efeitoleitor Assim se configura 74 a determinação ideológica da autoria O autor se produz pela possibilidade de um gesto de interpretação que lhe corresponde e que vem de fora 17 O lugar do autor é determinado pelo lugar da interpretação O efeitoleitor representa para o autor sua exterioridade constitutiva memória do dizer repetição histórica Procedendo à distinção entre o outro e o Outro como ela pode ser concebida em análise de discurso podemos dizer que o autor relativamente à injunção à interpretação fica determinado a de um lado pelo fato de que não pode dizer coisas que não têm sentido a sua relação com o Outro a memória do dizer e b deve dizer coisas que tenham um sentido para um interlocutor determinado o outro seja ele efetivo ou virtual Desse modo a historicida de se atualiza na funçãoautor através da interpretação De um lado a historicidade como relação às condições de produção do dizer no processo de sua formulação que define o quem o para quem o onde etc sob o modo das formações imaginárias Aí se confrontam a história do dizer do autor e a história de leituras do leitor De outro a historicidade aparece enquanto interdiscurso enquanto constituição e não formulação do dizer ou melhor como o conjunto do dizível e do interpretável Nesse caso o Outro não é o interlocutor mas o lugar da alteridade constitutiva presença do outro sentido no sentido presen ça da ideologia Com efeito a autoria ao mesmo tempo constrói e é construída pela interpretação 17 Tanto a lingüística como as teorias pragmáticas pensam a exterioridade como algo que está fora no exterior da linguagem No caso da análise de discurso que se alinha com as teorias nãopositivistas mas históricas em que não há separação estanque entre sujeitoobjeto exterioridadeinterioridade etc temos procurado mostrar cf Orlandi 1993a 1993b que não se trata do fora enquanto tal mas da exterioridade constitutiva aquela que não é do domínio empírico mas simbólico 75 O fechamento do texto que aparece como respon sabilidade do autor necessário mas ao mesmo tempo arbitrário resulta dessa dupla e dúbia determinação da inter pretação A formulação do autor está determinada pelo interpretável referido às condições de produção e pelo interpretável referido ao dizível O fechamento do texto é também em si um efeito Ele deriva da ilusão interpretativa que no nosso imaginário tem a forma da dominância da história da situação o dizer remetido ao contexto de situação quando na realidade é a história da filiação o dizer remetido ao interdiscurso que ao determinar a relação com o contexto de situação determina nesse movimento a interpretação É isso que estamos afirmando quando dizemos que a relação com os sentidos é indireta Como não temos acesso direto ao interdiscurso ele se simula por seus efeitos na formulação intradiscurso O que é tangível ainda que projetadas nas formações imaginárias são as suas condições de produção pensadas como situação no sentido estrito o da circuns tância da enunciação É a esta historicidade que temos acesso No entanto a constituição do sentido se dá fora de nosso alcance direto na relação com o interdiscurso Este se apresenta como uma história que não se situa Ele não está alocado em lugar nenhum É uma trama de sentidos Por isso a instância da formulação não nos leva imedia tamente ao interdiscurso Passa pela opacidade pela espes sura semântica pelo corpo da linguagem que na análise de discurso chamamos sua materialidade sua discursivida de sua historicidade Em uma palavra pela ideologia Daí que se o fecho tem sua eficácia na produção do efeito de unidade de coerência e de nãocontradição porém pela incompletude da linguagem todo texto tem a ver com outros textos existentes possíveis ou imaginá rios pois ele tem sobretudo uma relação necessária com a exterioridade estabelecendo assim suas relações de senti 76 do e pela dispersão do sujeito que aparece em sua descontinuidade no texto o autor não realiza jamais o fechamento completo do texto aparecendo como diz Pêcheux ao longo do texto pontos de deriva possíveis oferecendo lugar à interpretação ao equívoco ao trabalho da história na língua Em relação à análise dizemos que em todo gesto interpretativo ou em todo sítio significante há pontos de fuga que se descolam da descrição Ainda uma vez com a noção de discurso se trabalha a incompletude da linguagem não como algo negativo mas como o lugar do possível Para concluirmos diríamos que os retornos movimen tos interpretativos que hoje se fazem a Saussure não podem prescindir de desenvolvimentos teóricos como os da análise de discurso que procuraram estender a noção de funcionamento para outros objetos simbólicos como a textualidade não se restringindo só ao sistema da língua Isso só foi possível porque se propôs uma prática analítica que não dividiu língua e fala como quem separa o social e o histórico mas se deslocou a distinção para língua e discurso sendo que a noção de discurso acolhe o histórico e o social conjuntamente sob o modo da ideologia Para tal a própria teoria do discurso teve de resignificar as noçoes de história e de social 18 Esta necessidade deriva da maneira como a noção de discurso vaise configurando em seus sentidos e em sua capacidade teórica Isto certa 18 O social se apresentando não como traços sociológicos empíricos dasse social idade sexo profissão mas como formações imaginárias que se consti tuem a partir de relações tal como elas funcionam no discurso havendo em toda língua mecanismos de projeção para que se constitua essa relação entre a situação sociologicamente descritível e a posição dos sujeitos discursi vamente significativa O histórico por sua vez é definido não como fatos e datas como evolução e cronologia mas como significância ou seja como trama de sentidos pelos modos como eles são produzidos 77 mente tem a ver com a maneira como esta noção trabalhou noções como estrutura descrição interpretação 19 e so bretudo como ela trabalhou suas relações com duas outras formas de conhecimento que lhe estão pressupostas a da psicanálise para a noç2o de sujeito e a do marxismo para a noção de história não como aplicação mas em suas relações contraditórias e muitas vezes indistintas 19 O que significa o retorno a Saussure enunciado em tantos temas de encontros atualmente Pode significar pelo menos duas coisas a de um lado um desconhecimento dos deslocamentos produzidos por teorias como a psica nálise ou a análise de discurso que aqui destaco por ser meu domínio de interesse e em que enfatizo a contribuição trazida sobretudo pela própria noção de discurso agora trabalhada em sua especificidade teórica e analítica Isto significa para mim a esterilização do pensamento de Saussure pois é ilusório pensar que os sentidos dos textos de Saussure estão fechados nos textos de Saussure e b de outro uma releitura ou seja uma forma de resigniíicações que agora podem significar de outras maneiras já que pela consideração dos processos discursivos sabemos que é isso mesmo a leitura saber que os sentidos podem ser outros ou melhor são outros c menos generoso mas também possível é o retomo ao nome de Saussure para legitimaremse grupos de influência e favoreceremse do prestígio do fundador pessoas que na verdade em sua formação ignoraram Saussure Para esses na realidade esse não é um retorno 78 7 DISPOSITIVOS DA INTERPRETAÇÃO L A questão O contexto intelectual em que aparece a análise de discurso anos 60 é marcado por uma transformação na noção de leitura Ela é posta em questão Este fato como dissemos pode ser pensado a partir de trabalhos como os de Althusser ler Marx de Lacan ler Freud de Foucault a Arqueologia de R Barthes leitu raescritura No trabalho intelectual a leitura aparece como construção de um dispositivo teórico Dispositivo aqui tem a ver com o reconhecimento da materialidade dos fatos No caso da materialidade da linguagem da sua não transparência e da necessidade conseqüentemente de um dispositivo para ter acesso a ela para trabalhar sua espessura lingüística e histórica sua discursividade A teoria e o dispositivo analítico A região teórica específica em que trabalho entre outros contribui para a pesquisa sobre leitura consideran do a opacidade do texto a não transparência da linguagem Essa região teórica tem como característica a passagem da noção de funcionamento da língua para o discurso e a construção de um dispositivo analítico fundado na noção de efeito metafórico 79 A noção de funcionamento estendida para o discurso faz com que não trabalhemos apenas com o que as partes significam mas que procuremos quais são as regras que tornam possível qualquer parte Nessa perspectiva que introduz o discurso no campo das ciências da linguagem a proposta é então explicitar os mecanismos de funcio namento do discurso cf E Orlandi A linguagem e seu funcionamento 1983 O trabalho do analista de discurso é mostrar como um objeto simbólico produz sentidos como os processos de significação trabalham um texto qualquer texto Por seu lado a definição de efeito metafórico situa a questão do funcionamento na relação do discurso com a língua M Pêcheux 1969 vai chamar efeito metafórico o fenômeno semântico produzido por uma substituição con textual lembrando que esse deslizamento de sentido entre x e y é constitutivo do sentido designado por x e y Como esse efeito é característico das línguas naturais por oposição aos códigos e às línguas artificiais podemos considerar que não há sentido sem essa possibilidade de deslize e pois sem interpretação O que nos leva a colocar a interpretação como constitutiva da própria língua natural Em conseqüência quando se trata da língua natural não há metalinguagem Toda descrição está intrinsecamen te exposta ao equívoco da língua Todo enunciado é intrin secamente suscetível de tornarse outro diferente de si mesmo se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para um outro M Pêcheux 1991 A não ser que haja proibição explícita de interpretação A metáfora não vista como desvio mas como transferência Pêcheux 1975 é assim constitutiva do sentido Na figura proposta para ilustrar o efeito metafórico podemos observar os desliza mentos de sentido Também fica exposta a relação língua e historicidade no discurso através da metáfora 80 a b c d e f g b c d e f g h c d e f g h i d e f g h i j e f g h i j k f g h i j k 1 O ponto de partida a b c d e f e o ponto de chegada g h i j k 1 através de deslizamentos de sentidos de próximo em próximo são totalmente distintos No entanto algo do mesmo está nesse diferente pelo processo de produção de sentidos necessariamente sujeito ao deslize há sempre um possível outro mas que constitui o mesmo o deslize de sentido de a para g faz parte do sentido de a também Ou seja o mesmo já é produção da história já é parte do efeito metafórico A historicidade está aí repre sentada justamente pelos deslizes paráfrases que instalam o dizer no jogo das diferentes formações discursivas Falase a mesma língua mas se fala diferente Pelo efeito metafóri co Esse deslize próprio da ordem do simbólico é o lugar da interpretação da ideologia da historicidade É assim que podemos compreender a relação entre língua e discurso a língua pensada como sistema sintático intrinsecamente passível de jogo e a discursividade como inscrição de efeitos lingüísticos materiais na história M Pêcheux 1980 Esta forma de conceber o deslize o efeito metafórico como constitutivo do funcionamento discursivo ligase ao modo de se conceber a ideologia Em termos de inter pretação isso nos aponta para o discurso duplo e uno Segundo Althusser a leitura sintomática falando de ideo logia é a que revela o irrevelado no próprio texto que lê e o remete a um outro texto presente no primeiro por uma ausência necessária Essa duplicidade que faz referir um 81 discurso a um discurso outro para que ele faça sentido na psicanálise envolve a questão do inconsciente Na análise de discurso essa duplicidade esse equívoco é trabalhado como a questão ideológica fundamental pensando a rela ção material do discurso à língua e a da ideologia ao incons ciente Isto que está presente em Pêcheux 1969 na conside ração do efeito metafórico e de sua especificidade em relação a um dispositivo de análise será formulado mais precisamente no que este autor diz em Discurso Estrutura e acontecimento 1991 Todo enunciado toda seqüência de enunciados é pois lingüisticamente descritível como uma série léxicosintaticamente determinada de pontos de deriva possíveis para nós deslizes efeitos metafóricos oferecendo lugar à interpretação É nesse espaço que preten de trabalhar a análise de discurso Daí a inclusão desse aspecto no dispositivo teórico Eu acrescentaria que é nesse lugar em que se produz o deslize de sentidos enquanto efeito metafórico onde língua e história se ligam pelo equívoco materialmente determinado que se define o trabalho ideológico em outras palavras o trabalho da interpretação Como parale lamente este efeito ao constituir o sentido constitui o sujeito podemos dizer que a metáfora também está na base da constituição do sujeito na perspectiva do histórico do equívoco da relação línguadiscurso O equívoco que na instância do sujeito nos permite compreender a relação com o inconsciente na instância da história nos põe em contato com o como funciona da ideologia o que está presente por uma ausência necessá ria Esta qualidade discursiva do sujeito e do sentido deve constituir o dispositivo do analista De tal modo que o deslocamento produzido pelo dispositivo no olhar leitor a exposição do olhar leitor à opacidade trabalha a interpre 82 tação enquanto exposição do sujeito à historicidade ao equívoco à ideologia na sua relação com o simbólico Se dissemos mais acima que a interpretação é consti tutiva da língua não havendo metalinguagem aqui junta mos que a interpretação é constitutiva do sujeito e do sentido Não estamos dizendo com isso que o sujeito é interpretável ou o sentido é interpretável estamos dizendo que a interpretação os constitui ou seja que a interpreta ção faz sujeito a interpretação faz sentido Resulta então que a construção desse dispositivo alte ra a posição do leitor para outra posição enquanto lugar construído pelo analista Esse deslocamento posição do sujeitoposição do analista mostra a alteridade do ientis ta ou seja a leitura outra que ele pode produ1r elo dispositivo Leitura esta que trabalha o efeito da ob1et1v1da de levando em conta o deslize o equívoco a ideologia Esse deslocamento por sua vez mostra um outro a interpretação que só é levada em conta em relação aos métodos passa a ser considerada como um movimento no objeto u seja a interpretação do analista metodológica tem de levar em conta o movimento da interpretação inscrita no próprio sujeito do discurso O trabalho do analist1 é em grande medida situar compreender e não refletir o gesto de interpretação do sujeito e expor seus efeitos de sentido Assim podemos dizer que a análise de discurso procu ra desfazer dois modos de existência do apagamento da interpretação a o da possibilidade de leitura do próprio analista e b o do sujeito que não percebe o gesto de interpretação pensando apenas reconhecer o sentido já lá Nesse capítulo vamos falar disso Antes porém e dado o fato de que temos utilizado freqüentemente a palavra gesto em análise do discurso 83 gostaríamos de explicitar como a estamos utilizando M Pêcheux 1969 diz que gestos são atos no nível do simbó lico São exemplos assobios aplausos vaias atirar uma bomba em uma assembléia etc Ao utilizarmos a expressão gestos de leitura como é próprio à análise de discurso e no meu caso específico gestos de interpretação estamos pois fazendo da leitura e da interpretação um ato simbó lico dessa mesma natureza de intervenção no mundo Uma prática discursiva Lingüísticohistórica Ideológica Com suas conseqüências Com efeito podese considerar que a interpretação é um gesto ou seja ela intervém no real do sentido O leitor e o analista dois efeitos de interpretação A primeira distinção que estamos propondo separa a o gesto de interpretação do analista que se dá no apoio de um dispositivo teórico e b o gesto de interpretação do sujeito comum que se dá ell um dispositivo ideológico com seu efeito de evidência Esse efeito é o que nega a interpretação no momento mesmo em que ela se dá Mais adiante falaremos disso O gesto do analista é determinado pelo dispositivo teórico enquanto o gesto do sujeito comum é determinado pelo dispositivo ideológico Sem esquecer que determinar significa ser constitutivo e não relação de causaefeito muito menos mecânica Nos dois gestos temos mediação Mas a mediação da posição construída pelo analista não reflete ao contrário trabalha a questão da alteridade Na mediação do dispositivo ideológico o sujeito está sob o efeito do apagamento da alteridade exterioridade histori cidade daí a ilusão do sentido lá de sua evidência O que se espera da mediação instalada pelo dispositi vo teórico é que ela produza como dissemos um deslo 84 camento que permita que o analista trabalhe as fronteiras das formações discursivas Em outras palavras que ele não se inscreva em uma formação discursiva mas entre em uma relação crítica com o conjunto complexo das formações Com isso não pretendemos estar supondo uma posição neutra do analista em relação aos sentidos Não só ele está sempre afetado pela interpretação como um dispositivo analítico marca uma posição em relação a outras Em nosso caso por exemplo o dispositivo que estamos propondo é uma posição diferente do da hermenêutica O que estamos afirmando sim é que o dispositivo é capaz de deslocar a posição do analista trabalhando a opacidade da lingua gem a sua nãoevidência e com isso relativizando me diando a relação do sujeito com a interpretação Pelo processo de identificação como sabemos o sujei to se inscreve em uma formação e não em outra para que as suas palavras tenham sentido e isto lhe aparece como natural como o sentido lá transparente Ele não reconhe ce o movimento da interpretação ao contrário ele se reconhece nele Ou melhor ele se reconhece nos sentidos que produz É no entanto a possibilidade de contemplar o movimento da interpretação de compreendêlo que caracteriza a posição do analista Nem acima nem além do disurso ou da história mas deslocado Numa posição que entremeia a descrição com a interpretação e que pode tornar visíveis as relações entre diferentes sentidos Desse modo ficamos sensíveis ao fato de que a descrição está exposta ao equívoco e o sentido é suscetível de tornarse outro A análise de discurso elabora seu dispositivo aliando estas questões da deriva do deslize do efeito metafórico à própria ordem da língua Mas é preciso ressaltar que ao falar do lingüístico Pêcheux coloca oportunamente a necessidade de não se pensar apenas esse outro língua 85 jeiro mas o outro nas sociedades e na história É só pela referência às sociedades e à história que aí pode haver ligação identificação ou transferência isto é existência de uma relação abrindo a possibilidade de interpretar A língua não se reduz pois ao jogo significante abstra to Para significar ela é afetada pela história É também nesse ponto que este autor mostra o risco de uma reflexão estruturalista que veria aí uma máquina discursiva de assu jeitamento dotada de uma estrutura semiótica interna e por isso mesmo voltada à repetição no limite esta concepção estrutural da discursividade desembocaria em um apaga mento do acontecimento através de sua absorção em uma sobreinterpretação antecipadora Ou como ele mesmo diz corre sempre o risco de absorver o acontecimento desse discurso na estrutura da série na medida em que tende a funcionar como transcendental histórico grade de leitura ou memória antecipadora do discurso em questão O risco da estagnação está em se deshistoricizar Não se trata pois de um retorno ao estruturalismo pura e simples mente Já no dispositivo inicial 1969 as noções mais produtivas analiticamente eram a de efeito metafórico e de paráfrase Pêcheux 1969 noções comprometidas com a história com o funcionamento do sistema com o equí voco a ideologia Com efeito estas noções permitem conce ber o jogo significante como materialidade lingüística e histórica As filiações históricas dirá ainda Pêcheux são sempre tomadas em redes de memória dando lugar a filiações identificadoras e não a aprendizagens por interação a transferência não é uma interação e as filiações históricas nas quais se inscrevem os indivíduos não são máquinas de aprender 1991 Nem apenas o jogo descarnado onde estaríamos ao sabor só dos significantes nem a coerção do social empírico Mas a historicidade 86 A descrição não é um cálculo dos deslocamentos de filiação como pareceria ao olhar do lingüista ela abre sobre a interpretação Há um trabalho do sentido sobre o sentido Conceber assim a interpretação como constitutiva é entender os gestos enquanto atos ao nível do simbólico como diz Pêcheux de um modo particular Estar na língua com os gestos de interpretação significa estar sendo traba lhado pela língua em uma perspectiva discursiva aquela em que a língua faz sentido em que ela é afetada pela história Essas considerações nos levam a compreender que o gesto da interpretação é feito de uma sobrecarga Ele é carregado de uma relação da língua sobre a língua interpretar é dizer o dito que no entanto aparece como grau zero o sentido lá Por outro lado isso não significa tampouco que a interpretação abre sobre não importa o quê a descrição de um enunciado ou de uma seqüência coloca necessaria mente em jogo o discursooutro como espaço virtual de leitura desse enunciado ou dessa seqüência M Pê cheux idem Portanto longe de dar um procedimento de análise estrutUfal do texto em seus pontos de fechamento e de deriva o que me proponho enquanto analista de discurso é mostrar a relação da posição do analista com os gestos de interpretação do sujeito Isto é descrever montagens discursivas detectando os momentos de interpretações enquanto atos que surgem como tomadas de posição reconhecidas como tais isto é como efeitos de identifica ção assumidos e não negados Pareceme importante esclarecer aqui que leitura e interpretação não se recobrem A noção de interpretação é mais ampla sendo a leitura função da interpretação com 87 1 suas características particulares20 Os gestos de inter pretação são constitutivos tanto da leitura quanto da pro dução do sujeito falante Isto porque quando fala o sujeito também interpreta Para dizer ele tem de inscreverse no interdiscurso tem de se filiar a um saber discursivo uma memória A tarefa do analista de discurso não é a nem inter pretar o texto como o faz o hermeneuta b nem descrever o texto Tenho dito Orlandi 1988 que o objetivo é compreender ou seja é explicitar os processos de signifi cação que trabalham o texto compreender como o texto produz sentidos através de seus mecanismos de funcio namento Hoje gostaria de ir mais além o analista não só procura compreender como o texto produz sentidos ele procura determinar que gestos de interpretação trabalham aquela discursividade que é objeto de sua compreensão Em outras palavras ele procura distinguir que gestos de interpretação estão constituindo os sentidos e os sujeitos em suas posições Entramos assim nas considerações que formam a se gunda parte da reflexão sobre os dispositivos Vamos nos deter no que constitui o dispositivo ideológico da inter pretação 20 Nesse sentido creio que haja uma afinidade entre distinções do campo discursivo tais como texto discurso autor sujeito escrita oral leitura interpretação Sendo uma função enundatJVa da interpretação a leitura tem sua especificidade que se deve ao fato de ter uma formalidade uma inserção mais direta no social com suas normas e sua forma histórica Resta entender o que significa o estápara tal como o enunciamos para todas as relações acima Certamente não são termos em oposição Fica por estudar mais detidamente a natureza dessa relação Nesse passo o que queríamos firmar é que leitura e interpretação não se recobrem e partilham o campo de distinções citado acima 88 A divisão do trabalho social da interpretação Temos dito que há injunção à interpretação Diante de qualquer objeto simbólico somos instados a dar sentido a significar Além disso a interpretação se apaga como tal na medida em que os sentidos são uns e não outros dadas as condições de produção e no entanto eles nos aparecem como naturais Este é um dos aspectos da ideologia Por isso dissemos que há um dispositivo ideológico de inter pretação em todo sujeito falante Os sentidos nunca estão soltos Há sempre na injunção a significar condições para que eles sejam x e não y para que eles tenham uma direção que constituam uma posição do sujeito Há pois mecanis mos de controle dos sentidos A injunção à interpretação tem sua forma e suas condições A forma dessa injunção é que faz com que a relação com a interpretação para o sujeito não seja a mesma hoje e por exemplo na Idade Média As formassujeito históri cas são diferentes porque a relação com a interpretação é diferente É nesse sentido que podemos dizer que o assu jeitamento para o sujeito medieval se dá pela determi nação enquanto o assujeitamento para o sujeito moderno se dá pela interpelação Isto porque a forma de assujeita mento é histórica e se dá diferentemente na Idade Média e na Modernidade A determinação se exerce de fora para dentro e é religiosa a interpelação faz intervir o direito a lógica a identificação na interpelação não há separação entre exterioridade e interioridade embora para o sujeito essa separação continue a ser uma evidência sobre a qual ele constrói duplamente sua ilusão a de que ele é origem do dizer e logo ele diz o que quer e a da literalidade ou seja a de que há uma relação direta termoatermo entre linguagem pensamento e mundo aquilo que ele diz só podia ser aquilo e não outra coisa Daí o sujeito moderno ser ao mesmo tempo livre e submisso A interpelação se 89 1 constitui de uma dupla determinação contraditória o su jeito é determinado pela exterioridade e determina inter namente É assim que compreendemos o equívoco constitutivo da ideologia pelo modo como o sujeito é interpelado o que lhe parece sua definição é justamente o que o submete Quanto mais centrado o sujeito mais ideologicamente determinado É preciso se pensar a relação do sujeito com a lingua gem como parte da relação do sujeito com o mundo em termos sociais e políticos Nessa perspectiva a transforma ção do estatuto do sujeito em relação ao saber e à lingua gem corresponde à transformação das formas de assujeitamento do indivíduo à religião e ao Estado A reflexão que articula o sentido a linguagem e a ideologia visa compreender a ambigüidade inscrita na noção moder na de sujeito que como dissemos ao mesmo tempo acolhe o individualismo como possibilidade de resistência e revol ta e o mecanismo coercitivo de individuação de isolamen to imposto pelo Estado ao indivíduo O Estado funda sua legitimidade e sua autoridade sobre o cidadão levandoo a interiorizar a idéia de coerção ao mesmo tempo em que faz com que ele tome consciência de sua autonomia de sua responsabilidade portanto Em relação ao que dissemos mais acima sobre a determinação do sujeito religioso e a interpelação do sujeito moderno podemos afirmar que a submissão do homem a Deus à letra cede lugar à sua submissão ao Estado às letras ao jurídico A subordinação fica menos visível porque se sustenta na idéia de um sujeito livre e não determinado quanto a suas escolhas cf Haroche 1992 Isto tudo tem a ver com a relação do homem com a linguagem e com os sentidos Em uma palavra com a interpretação A submissão à religião se pensamos a 90 Idade Média se faz sobre a interdição à interpretação o sujeito religioso não interpreta ele repete a interpretação que lhe é dada Não há um espaço de interpretação para ele não há espaço entre ele e o dizer Ele está colado à letra Nessas condições não há resistência há heresia É interessante observar a história de certas palavras para se compreender a relação do sujeito à interpretação A palavra texto no século XII significa livro do Evangelho no século XIV perde seu caráter estritamente sagrado e significa qualquer texto sagrado ou profano distinguindose no entanto o texto autêntico sagrado do comentário profa no Ainda não há espaço para o intérprete As palavras interpretação e interpretar datam do meio do século XII mesmo que a interpretação seja única e dada pelo mestre na determinatio A palavra intérprete data do século XIV Este estado de coisas muda de forma extremamente lenta até que se passa para a idéia de debate de interpretação de conflito e até que a ambigüidade passe a ser considera da entre o homem e a língua e não mais entre o homem e Deus momento em que começa a se desenvolver uma separação entre objetividade e subjetividade que é já outra maneira de distinguir o poder da linguagem e de gerir a circulação dos sentidos e dos sujeitos Em relação à questão da determinação do sentido e logo ao espaço da interpretação o sujeito que na determi nação religiosa dependia de Deus o lugar da Verdade no século XVII passa a depender da transparência literalidade objetividade da língua A interpretação continua a ser uma falta que habita o homem mas o poder que determina já não é Deus é a língua Na Modernidade a responsabi lidade do sujeito encontra parâmetro na precisão clareza da língua No século XVIII novo deslocamento marca essa rela ção do homem com os sentidos pois é o sujeito que detém a determinação o texto é vago e ele é seu intérprete Aqui 91 temos então o alargamento do espaço da interpretação A subjetividade tornase a preocupação central ao mesmo tempo em que o formalismo a serviço do direito se então tornase cada vez mais importante A obscuridade a vaguidade é atribuída não a um poder divino nem à língua mas ao sujeito Obscuridade que deve ser regulada Se no sujeito religioso o amor a Deus dá forma à sua relação com os sentidos no sujeito jurídico o amor ao Estado se diz na necessidade de nãocontradição A fé em um a nãocontradição em outro regulam a relação do sujeito com a interpretação De seu lado a crença na literalidade sutura essa impressão de realidade ligada à exigência da nãocontradição o sentido só pode ser este Em suma na transparência da linguagem é a ideologia que fornece as evidências que apagam o caráter material do sentido sua historicidade evitando o corpo das palavras e o do sujeito cf E Orlandi 1987 regrando a relação com a interpretação ao mesmo tempo em que faz o sujeito responsável fonte de seus sentidos Na relação com a história e o equívoco constitutivo do simbólico este é o efeito ideológico elementar Daí que na posição de analista do discurso o que fazemos é justamen te não negar o equívoco mas considerálo em sua relação com a linguagem não apagálo mas trabalhálo O apaga mento do equívoco é que produz a ilusão da evidência Este é o apagamento característico do dispositivo ideológi co do sujeitointérprete comum Resumiríamos o que estamos dizendo a propósito do que seja o dispositivo ideológico da interpretação afirman do que o gesto de interpretação vem carregado de uma memória de uma filiação que no entanto aparece nega da como se o sentido surgisse ali mesmo É preciso lembrar que todo discurso é um deslocamen to na rede de filiações mas este deslocamento é justamente 92 deslocamento em relação a uma filiação memória que sustenta a possibilidade mesma de se produzir sentido O movimento é o de ao inscreverse deslocar Cada aconte cimento discursivo é inédito e o retorno da memória não é simples reprodução No entanto isto não significa por si que haja transformação do sentido sentido novo ruptu ra A própria mudança em análise de discurso resulta de uma relação com o mesmo já que a noção de repetição empírica formal e histórica supõe tanto o fechamento quanto a possibilidade de deslocamento embora ambos sejam retorno interpretação No entremeio entre o mundo e a linguagem o sujeito e o sentido ao se constituírem o fazem necessa riamente na conjunção dessa relação Estão expostos ao acaso mundo e ao jogo linguagem mas também à memória mundo e à regra linguagem Onde está o mesmo está o diferente A separação entre paráfrase e polissemia não é clara nem permanente O investimento da regra e da memória sobre o sujeito discursivo pode ser visto em termos gerais como o fato de que face à imprevisibilidade da relação do sujeito com o sentido toda formação social tem formas de controle da interpretação que são historicamente determinadas Este controle pode ser mais ou menos marcado institu cionalmente mas sempre se estará exercendo A forma histórica do sujeito discursivo em nossa formação social como dissemos é a que se apresenta sob o modo da autonomia e da submissão da liberdade e da respon sabilidade Citando Jurandir Freire Folha de São Paulo Mais 131194 eu diria que também quanto à ideologia somos uma teia de acasos e contingências incontrolável no princípio e no fim e no entanto temos de prestar contas pelo que não sabemos de onde veio e para onde vai Mas eu diria acreditamos saber E é no espaço dessa ilusão que sujeitos e sentidos se movem Ainda que para serem os 93 1 mesmos já que a diferença é freqüentemente insuportável para o sujeito para a sociedade para a história Com efeito o dispositivo ideológico da interpretação impregna o sujeitointérprete desse equívoco a interpela ção do indivíduo em sujeito pela ideologia ou seja o de ter de despossuirse para possuir Por outro lado este dispositivo ideológico não se faz do nada Ele se produz no espaço da relação lingua gemmundo sóciohistoricamente determinada A relação com a interpretação é também e sobretudo a relação com os sentidos do semsentido Veremos como a necessidade para o sujeito de domesticar o semsentido e para a sociedade a de administrar essa relação se conjugam no que com Pêcheux 1980 podemos chamar de a divisão social do trabalho da interpretação21 Uma primeira divisão caracteriza o trabalho social da leitura M Pêcheux ibidem é a que separa o que é literal do que é sujeito à interpretação Essa divisão por sua vez ressoa em relação a outras a Há os que têm direito à interpretação e os que não têm direito a ela Eu diria que este é um recorte sobre os agentes b Há os textos que são instáveis e os que têm estabili dade de sentidos Esta divisão é a que separa o literário instável do científico estável 21 Pêcheux chama diVlsàO do trabalho da leitura Aqui estamos propositalmente tal como fizemos para a noção de autor a partir de Foucault alargando a questão para a noção de interpretação Sem dúvida o fato de se considerar a leitura em seu aspecto mais formal reflete sobre o processo do controle da interpretação Não nos estenderemos sobre os efeitos dessa relação leiturain terpretação No momento interessanos apenas alargar o alcance do que diz Pêcheux sobre a leitura de arquivo para o domínio mais abrangente da noção de interpretação 94 Por isso mesmo é que o dizer tem um peso ideológi co porque o gesto de interpretação materializa a inscrição do sujeito em uma formação discursiva isto é constituise em uma posição O sentido é sempre sentido para e não sentido em si A ambigüidade inscrita na própria noção de assujeitamento sujeito a e sujeito de tem relação com a produção dos sentidos no jogo entre formações discursi vas que repartem o sentido que trabalham a divisão da interpretação O fato da interpretação é sintoma dessas diferenças dessa contradição sujeito asujeito de A ideo logia então é o apagamento para o sujeito de seu movi mento de interpretação na ilusão de dar sentido Interpretando a interpretação A ligação entre o que faz de um homem um ser simbólico e o homem como ser histórico está na interpre tação Se de um lado os fatos reclamam sentidos P Henry 1989 e por outro o homem está condenado a significar E Orlandi 1990 é esta relação entre essas duas necessi dades a dos fatos e a do homem em relação ao significar que constitui o cerne do gesto da interpretação e sua eficácia ideológica Esses gestos por sua vez não se dão no vazio A noção de arqivo é aqui esclarecedora O arquivo ou o discurso textual diz Pêcheux 1980 é o campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão Há gestos de leitura que constroem o arquivo que dão acesso aos docu mentos e que dão o modo de apreendêlos nas práticas silenciosas da leitura espontânea Essas leituras são organiza das e elas dispõem sobre a relação do literal e do interpretativo Podemos expandir a noção de arquivo se pensamos que todo dizer se liga a uma memória Para dizer de certo modo todo sujeito recorre a um arquivo aos discursos disponíveis Todo sujeito tem seu discurso textual 95 Os aparelhos de poder de nossa sociedade gerem a memória coletiva Dividem os que estão autorizados a ler a falar e a escrever os que são intérpretes e autores com obra própria dos outros os que fazem os gestos repetidos que impõem aos sujeitos seu apagamento atrás da institui ção Seja essa instituição a Igreja o Estado a empresa o partido a escola etc Em todo discurso podemos encontrar a divisão do trabalho da interpretação distribuído pelas diferentes posições dos sujeitos o padre o professor o gerente o líder sindical o líder partidário etc E há uma enorme produção de textos falados ou escritos que traba lham esta divisão regimentos constituições panfletos li vros didáticos programas partidários estatutos etc Os sentidos não estão soltos eles são administrados Por outro lado o modo de circulação das interpretações também tem sua forma específica A mídia é um grande evento discursivo do modo de circulação da linguagem Enquanto tal ela é um acontecimento de linguagem que impõe sua forma de gerenciamento dos gestos de inter pretação sempre na distinção do que se deve apreender como sentido unívoco literal e o que admite plurivocidade interpretativa Com a mídia há uma reorganização do trabalho intelectual e uma nova divisão do trabalho da leitura Não vamos aqui discutir as diferentes modalidades de administração da interpretação e o investimento tecnológi co na estabilização dos sentidos e dos sujeitos Mais importante é compreender que este trabalho da leitura supõe uma certa concepção de língua em que não se reconhece que a língua tem sua materialidade O que se pretende então é que a sintaxe a língua clara e distinta domestique o sentido a história o sujeito Exceção feita aos poetas e psicanalistas que reconhecem essa materialidade como o incontornável do pensamen to ou se apaga essa materialidade ou mesmo quando se a reconhece se a considera como objeto de cálculo Na 96 perspectiva do discurso que é a nossa para fora do cálculo fica o mais importante o que caracteriza mais fundamente as línguas naturais o deslize a falha a ambigüidade que fazem da língua natural como diz Courtine 1984 a melhor das línguas É por aí que o sentido irrompe na sintaxe Contrariando a arrogância dos literatos que se protegem em seu arquivo particular e a mordaz modéstia dos cientistas de arquivo que não se perguntam quem os utiliza a análise de discurso se coloca no espaço polêmico das maneiras de ler criticando o que sustenta o divórcio entre a cultura científica e a literária No que diz respeito ao que estamos desenvolvendo a respeito da interpretação reconhecer a materialidade da língua na discursividade do arquivo é reconhecer tam bém a interpretação ou melhor é reconhecer que os fatos estão sujeitos à interpretação e que a língua na medida em que é constituída pelo deslize pela falha pela ambigüida de faz lugar para a interpretação Esta talvez seja a melhor forma de compreender junto com Milner 1978 que a língua é capaz de poesia e com Pêcheux que o incons ciente não é o domingo do pensamento e eu acrescenta ria que a ideologia não é um defeito dos que não têm consciência Falha deslize interpretação inconsciente ideologia são o impossível de que não seja assim Não dá pois pára regulamentar o uso dos sentidos Mas se tenta Finalmente toda essa questão tem a ver com a maneira como se concebe a autoria É a noção de autor que está em questão nas formas de interpretação O que caracteriza a autoria é a produção de um gesto de interpretação ou seja na funçãoautor o sujeito é responsável pelo sentido do que diz em outras palavras ele é responsável por uma formulação que faz sentido O modo como ele faz isso é que caracteriza sua autoria Como naquilo que lhe faz sentido ele faz sentido Como ele interpreta o que o interpreta 97 Dada a forma de administração da interpretação a autoria é afetada por ela Temos dito com certa insistência Orlandi 1992 que a autoria está em franco processo de transformação já que a relação com a historicidade do dizer e os modos de relação com a presença da alteridade tem sofrido mudanças quer pelos modos como funciona a censura quer pelo modo como se gere a relação com a originalidade na formação social burguesa que tempera de forma particular a relação entre determinação e auto nomia Tudo isso é enfim sobredeterminado pela forma como a linguagem circula e uma vez que a mídia impõe seu modo de relação com a interpretação a funçãoautor é certamente afetada por essa sobredeterminação O analista não pode estar indiferente a todos esses aspectos do funcionamento da interpretação A vantagem que vejo em um dispositivo analítico como o que temos proposto no campo teórico da análise de discurso é que como não trabalhamos só com a estrutura mas também com o acontecimento da linguagem esses aspectos que tocam o acaso o equívoco e a forma histórica da interpre tação são levados em conta na compreensão de cada gesto de interpretação22 E o que talvez seja mais importante com a noção de ideologia se evita pretender chegar à verdade do sentido estando no entanto atentos às suas diferenças 22 A maneira como estou propondo considerar o gesto de interpretação na análise de discurso deslocando o lugar da observação da produção dos processos de significação no texto para o fato mesmo da interpretação que os constitui desloca também o campo conceituai ligado ao histórico e ao social de uma perspectiva mais dependente de uma produção teórica das ciências sociais para uma perspectiva mais diretamente ligada à linguagem É este sem dúvida o grande mérito teórico do deslocamento discursivo o de compreen der o homem antes de tudo enquanto ser simbólico histórico ideológico etc 98 8 ANÁLISE Embora a interpretação pareça se fazer por um sujeito que apreende um sentido que está nas palavras esta relação como vimos é ao mesmo tempo mais indireta e mais determinada por processos que fogem ao controle do sujeito e que mostram que os sentidos não emanam das palavras A análise de discurso trata a questão da interpretação restituindo a espessura à linguagem e a opacidade aos sentidos Ela propõe então uma distância uma desauto matização da relação do sujeito com os sentidos Na perspectiva formalista a proposta para se fazer ciência é tornar estranho o que é familiar Porque o que nos é familiar não conhecemos só reconhecemos Na perspectiva da historicidade que é a da análise de discurso também se critica a familiaridade mas com outros meios e com outros objetivos Nesse caso se procura desfazer as evidências ou melhor se procura não ficar na familiaridade conquanto esta representa efeitos de evidên cia produzidos por processos de significação bem menos transparentes e mais indiretos Os sentidos não brotam das palavras Por outro lado o objetivo desta crítica à familiaridade à evidência embora se ligue à questão do conhecimen toreconhecimento recusa a transparência da linguagem e faz intervir não a vontade do saber da verdade no analista mas o inconsciente e a ideologia na consideração do sujeito 99 Nesse sentido é interessante observarse que a ideolo gia não é como se sabe consciente Ela é efeito da relação do sujeito com a língua e com a história em sua necessidade conjunta Assim a singularidade não é um efeito da vonta de do sujeito ela resulta do modo singular com que a ideologia o afeta São essas as determinações a que nos referimos quando falamos que a relação com o sentido é mais indireta e mais determinada pela história pela ideo logia Se assim é a interpretação enquanto dispositivo do analista e gesto do sujeito que diz nos oferece um lugar extremamente expressivo de observação dos processos de produção dos sentidos e de constituição dos sujeitos Os trabalhos de análise que apresentaremos a seguir servem para mostrar essa relação com a interpretação O primeiro sobre a Teologia da Libertação expõe a proposta de uma hermenêutica da libertação em que o gesto mesmo de interpretar é em si o óbice do político No momento em que atribui sentido o religioso desliza sem perder seus sentidos para os sentidos do político Desliteralização Transferência Metáfora Coisas signifi cando a fé é função da libertação O segundo exemplar de análise sobre a paródia e os processos de identificação a nível da língua e da nacio nalidade é uma exposição de procedimentos analíticos que tomam em conta o próprio gesto da interpretação No caso analisado este gesto se instaura como paródia Mais geralmente todo gesto de interpretação é carac terizado pela inscrição do sujeito e de seu dizer em uma posição ideológica configurando uma região particular no interdiscurso na memória do dizer Nossas análises preten dem mostrar como isso se faz e que efeitos de sentidos aí se produzem 100 9 FÉ E OPRESSÃO Allllllllll A questão da Teologia da Libertação TL na América Latina toca de modo particular o sentido do político e o trabalho histórico do estatuto da fé Eis a conjunção dos três elementos cruciais para a n o político a história e a fé A definição que é dada comumente é função de sua complexidade e de sua inscrição em um domínio plural refletir a partir de uma prática no interior de um enorme esforço dos pobres com seus aliados procurando inspira ção na fé e no Evangelho para o engajamento contra a pobreza e a favor da libertação integral de todo homem e do homem em seu todo C e L Boff 1986 Com efeito a TL se apresenta ao mesmo tempo como movimento social forma de pensamento e doutrina Os cruzamentos múltiplos desses modos de apresentação com os três elementos cruciais enunciados mais acima nos instalam no domínio dos sentidos que constituem a TL Enquanto movimento socia l ela existe inde pendentemente de sua formulação específica mesmo an tes de ser nomeada Desse ponto de vista a TL segundo L Boff é ao mesmo tempo o reflexo de uma práxis anterior e uma reflexão sobre esta práxis Ela é a expressãolegiti mação de um vasto movimento social que apareceu nos anos 60 na América Latina f aliás nesse ponto que M Lowy 1988 situa a influência francesa os socialistas cris tãos dos anos 30 os padres operários dos anos 40 a CFTC nos anos 50 e a ação dos cristãos de esquerda brasileiros 101 por exemplo na JUC Juventude Universitária Cristã funda da nos anos 50 assim como mais tarde durante a ditadura saída do golpe de Estado de 1964 a solidaridade da Igreja com os revolucionários sobretudo da parte dos dominica nos É segundo Lowy idem na prática desse movimento social de que fazem parte grupos religiosos laicos asso ciações de base popular setores significativos da Igreja e comunidades eclesiais de base as CEBs23 que é preciso procurar os elementos que permitem compreender fenô menos históricosociais importantes como são a ascensão da revolução na América Central ou no Brasil o surgimento do movimento operário nos anos 6024 Pela realização de um conjunto de escritos concebidos como um produto espiritual esse movimento social se legitimou e se refor çou com uma doutrina religiosa coerente que o sustentou e lhe permitiu estenderse Definida neste contexto a TL é um fenômeno eclesiás tico e cultural muito rico e muito complexo para interessar apenas os teólogos de profissão25 Tratase na realidade dizem L e C Boff idem de um tipo de pensamento que 23 As Comunidades Eclesiais de Base CEBs são grupos organizados em torno da paróquia urbana ou rural pelos padres bispos ou leigos Elas são compos tas por operários desempregados jovens camponeses pequenos proprietá rios rurais e mesmo comunidades de índios de mulheres etc Elas são muito importanles para o descnvolvimenlo dos movimentos sociais dada sua força de organiziçao popular 24 M Lowy idem procura moslrar como os esludos de Bloch e de Goldman inovaram o mélodo de aprendizagem da religião em sua relação com o marxismo é preciso inlegrar nesta reflexão o polencial retórico da lradição judaic0ristã Por esla via Lowy moslra a importãncia da n para o marxismo e do marxismo para a TI na América Latina 25 É no mesmo solo desses movimentos sociais que surgem discursos como o da TL o do PT o dos movimentos sindicais ele Esses diferenles discursos já são em si diferentes modos de interpretar esses movimenlos sociais Isso nos dá uma idéia de como os sentidos são muitos e como derivam efeito metafórico cm muilas e variadas direções Que não são indiferentes ao político ao ideológico ao histórico 102 atravessa em boa parte todo o corpo eclesiástico espe cialmente no Terceiro Mundo o teólogo nível professio nal o padre nível pastoral os leigos nível popular É por isso que se assiste a uma integração e não a uma fragmen tação entre uma teologia canônica oficial uma teologia crítica contestatária e uma teologia selvagem à margem da Igreja A partir daí podese definir mais geralmente a TL como toda forma de pensar a fé face à opressão ibidem Resulta daí um alargamento da definição do próprio teólogo de certo modo é teólogo toda pessoa que crê e que pensa sua fé Há desde então coincidência entre teólogo e cristão não somente o sujeito da fé é teólogo mas faz irrupção uma teologia popular que é um pensa mento da fé praticada coletivamente De um ponto de vista discursivo aparece então um traço essencial da TL esta teologia popular é antes de tudo uma teologia oral A escrita escritura só funciona como esquema script ou como resíduo isto é como a coleta do que foi discutido e que se quer guardar Mesmo se não tem o nome de teologia porque ela é anônima e coletiva ela é teologia do fato e de fato Dar ela tira seu caráter crítico ela é lúcida e profética segundo a expressão dos teólogos da libertação o que significa que ela vai às causas propondose atingilas É daí também que provém seu caráter sacramental pois ela se faz por gestos e símbolos que já são um pensamento religioso A TL não é uma teoria abstrata ela é antes de tudo uma prática no seio das comunidades concretas Ela deve então saber articular o discurso da sociedade o dos oprimidos que pertencem ao universo das significações popular simbólica e sacramental o da fé e enfim o da grande Tradição 103 Ela aparece assim no texto de L e C Boff 1986 que a resumem como segue enfim ao teólogo da libertação não cabe outra palavra senão a do Senhor nós somos todos servos porque só fizemos o que tínhamos de fazer Lc 17 1 O Este tipo de recurso ao Texto Sagrado mostra o teólogo da libertação em pleno trabalho de interpretação e de articulação entre as exigências do Evangelho e os signos dos tempos que emergem nos meios populares Para bem compreender o sentido e a natureza desse discurso nós analisaremos diferentes materiais de cada um dos domínios discursivos que se trata de articular a textos sobre a TL b textos da TL c textos de grandes reuniões que constituíram a TL Documento de Medellín Documen to de Puebla Documento de Santo Domingo d artigos da imprensa essencialmente entrevistas com teólogos da li bertação e e um filme Magnificat produzido com fim didático a partir de uma reunião geral das CEBs 1988 Limitarnosemos a mostrar como funcionam no discur so da TL noções como o político a conversão os pobres em suas relações com o modo particular de definir a fé e fazer intervir a história na religião Os pobres A questão aberta pela TL podese exprimir assim como ser cristão em um mundo de miseráveis e de pobres que reclamam justiça A solução proposta repousa sobre a solida riedade aos pobres e sobre o evangelho da libertação Os laços semânticos entre pobres e libertação organizam o domínio de significação da TL e as relações da Igreja com os movimentos sociais A libertação é condição de fé pois no Terceiro Mundo a fé se confronta com a pobreza como opressão A 104 teologia não é primeira ela segue a prática libertadora a fé que opera pela caridade GI 56 É no interior de uma didática maior da teoria da fé e da práxis da caridade que age a TL segundo seus teólogos com efeito a raiz da TL é a prática concreta Mesmo se o objeto primeiro da teologia é Deus o conhecimento de Deus não dispensa o conhecimento do mundo real Segundo o adágio de Santo Tomás Um erro a propósito do mundo é um erro a propósito de Deus Para que a fé seja eficaz ela deve trabalhar os processos históricosociais concretos ela deve ter os olhos abertos para a realidade histórica que queremos criar TL O conhecimento do mundo do oprimido é a base material do processo teológico global a opção pelos pobres é um critério de universalidade e de credibilidade para o cristia nismo Esta posição da TL leva a uma prática crítica do assis tencialismo que faz do pobre um objeto de caridade e do reformismo que para não transformar as relações sociais desenvolve a sociedade sem tocar na pobreza Daí deriva uma crítica tanto da visão empirista a pobreza como um vício quanto de uma visão funcionalista a pobreza como atraso no desenvolvimento social A TL defende uma visão dialética a pobreza é uma opressão e a revolução é a única solução Mesmo se o marxismo faz aí sua entrada triunfal ele será no entanto domesticado e só tem na TL um valor instrumental O pobre aparece como desfigurado e desnaturado em uma palavra crucificado Para tornar homem o homem que não é mais homem a TL propõe a hermenêutica da libertação Se o marxismo serve como metodologia para a compreensão do universo dos oprimidos a visão cristã vê no pobre a imagem de Deus na cruz Colocando o acento 105 sobre os fatos econômicos a luta de classes e o poder mistificador das ideologias aí compreendida a religião o marxismo só apresentaria o homem em sua dimensão utilitária O pobre diz a TL não é somente um ser que tem necessidades ele é sobretudo o portador de um poder evangelizador e uma pessoa que tem a vocação para a vida eterna Em suma segundo a expressão dos teólogos da TL o marxismo é submetido ao julgamento dos pobres O pobre enquanto oprimido em sua existência tempo ral é o móvel de uma nova leitura da Bíblia a hermenêutica da libertação A historicização e a politização não se fazem diretamente sobre o Texto Sagrado mas sobre o pobre É a mudança da pessoa conversão e da história revolução que visa a hermenêutica da libertação A conversão A conversão é função da hermenêutica da libertação e seu sentido está centrado nas noções de pobre e de opressão a realidade da miséria é um atentado à fé Desse ponto de vista o pecado não é o luxo mas a miséria Isto adquire um sentido forte nas palavras do bispo Casaldáliga na Amazônia quando diz Há muito tempo que eu sinto o desaparecimento dos povos como um mistério de iniqüidade histórica que converte minha fé em abatimento A conversão é conversão do pobre Não é uma conver são do pobre em rico mas do nãohomem em homem pleno em homem novo sendo o nãohomem definido como aquele a quem se nega dignidade e direitos funda mentais Nesse sentido mesmo se fala de novidade e de moder nidade a conversão implica que na TL se siga o mesmo caminho proposto pelos missionários durante a coloniza 106 ção do Brasil nos séculos XVII e XVIII Para os missionários Martin de Nantes por exemplo conferir E Orlandi 1990 era preciso antes transformar o índio em ser polido e civil para em seguida tornálo cristão Quer dizer a civilidade dignidade era uma condição da catequese Essa aproximação que proponho coloca em jogo uma profundidade histórica que me parece ainda opaca De todo modo o processo da conversão apresenta nos dois casos pontos de contato Durante a colonização a conversão era uma conversão da cultura aculturação agora ela é social revolução A miséria extrema não permite a convivialidade a sociabili dade com seres sociais e civis do mesmo modo que o estado selvagem do índio não permitia nos dois casos os excluídos são nãohomens É preciso ser homem para ser cristão A noção de homem ainda que ela provenha do marxismo quando se trata de compreender o sentido dialético da pobreza é ilustrada a partir de Cristo A opressão encontra sua representação na metáfora da cru cifixão Deus é crucificado nos crucificados da história No entanto é possível compreender a conversão em um sentido mais amplo no discurso da TL Voltaremos a isso erri nossa conclusão O político A necessidade de optar pelos pobres e o processo de conversão compreendido como libertação do oprimido dão à TL sua especificidade política Do ponto de vista dos pobres a libertação aparece como a estratégia daqueles que têm confiança em si e em seus instrumentos de luta sindicatos organizações campo nesas partidos populares CEBs A TL só tem sentido na prática concreta Ela é uma teologia que leva ao fórum da 107 história Hoje a forma da fé é o amor político ou a macro caridade No Terceiro Mundo a fé é antes de tudo política Ao mesmo tempo em que os teólogos da libertação afirmam o caráter político da fé eles acrescentam sempre que a Igreja não tem fim político A hermenêutica da libertação promove uma nova leitura da Bíblia mas é a Palavra de Deus que traz a luz e a inspiração A inter pretação se efetua na abertura à Revelação sempre nova e sempre surpreendente de Deus à mensagem inaudita que pode salvar ou condenar Para compreender bem essa relação entre a fé Deus e o político é preciso fazer intervir um outro componente da TL a história Segundo a TL a releitura teológicopolítica da Bíblia acentua sem reduzir o contexto social da mensagem Ela coloca cada texto em seu contexto histórico para fazer uma tradução adequada e não literal em seu próprio contexto histórico No entanto esta leitura é feita na chave cristológica ou seja Na ótica do pobre é tomada no interior de uma ótica maior a do Senhor da história Nessa perspectiva a Teologia Patrística século li a IX é retomada com sua concepção unitária da história da salva ção da dimensão profética da missão da Igreja e da atenção aos pobres Em suma a leitura da Bíblia finaliza na conduta de hoje o sentido de ontem Esta dupla inscrição temporal dá seu sentido histórico à TL e modaliza suas cores políticas Como vimos é na própria concepção de pobreza que a TL faz intervir a história o pobre não é somente visto no presente mas ele o é também em um processo de opres são A situação dos oprimidos é definida sobretudo pelo modo como resistem pela sua luta de libertação A TL vê o pobre enquanto sujeito social do processo histórico É nessas definições que encontramos o discurso marxista 108 A oscilação políticoreligiosa das palavras na TL é con tínua Às vezes falase da fé transformadora da história às vezes preferese falar da história concreta pensada a partir do grão da fé Mas se esse discurso tem suas duplicidades e seus compromissos o que os teólogos propõem quando integram a história é universalizar a n Ela deve permanecer a mesma tanto nos grandes teólogos eruditos quanto nos teólogos populares Conseqüentemen te é porque ela se enraíza na vida cotidiana que ela se concebe como uma teoria da ação É por esta via que ela penetra na política A transformação histórica faz parte da substância da TL É finalmente nisto que reside sua dimensão política Nem por isso ela perde sua originalidade teológica O que é proposto não é que se liberte de mas que se liberte para para os outros para o Deus oculto em nós etc Na prática chegase de qualquer modo à libertação dos opri midos à salvação eterna que passa pelas libertações histó ricas que dignificam o Filho de Deus Antes de passar à nossa conclusão parecenos impor tante ilustrar nosso propósito citando mais diretamente dois textos que permitem ver como o discurso da TL opera as relações muito particulares que ela estabelece entre a religiãÓ o político e a historicidade a O político Frei Beto um dos criadores das CEBs no Brasil em uma reunião de operários da grande São Paulo e que desempenhou um papel muito importante durante a dita dura militar no Brasil coloca como segue a questão da relação entre o político e a religião Qual é a imagem que os fariseus tinham de Jesus De alguém que não respeitava as leis Qual é a imagem que os discípulos e o povo tinham de Jesus De alguém que trazia a vida e a vida em 109 abundância Então podemos ter muitas imagens de Jesus Ora hoje na realidade da América Latina e do Brasil foi dito que Jesus aparece em sua dimensão política Isto não quer dizer que Jesus foi um homem político no sentido de homem de partido mas quer dizer que a morte de Jesus foi uma morte política Jesus foi morto como foi morta Margarida Alves como foi morto o padre Jovino como foi morto o índio Marçal não é Jesus foi morto como prisio neiro político Hoje as CEBs completam seu percurso de semear movimentos populares semear o movimento sindical semear movimentos indígenas de negros de mu lheres mas também de uma nova maneira de fazer política nesse país Magnificat 1988 Aqui o político aparece francamente no discurso da TL É preciso observar que a referência aos mortos políticos não inverte o tempo não se refere as mortes de hoje ao passado à morte de Jesus Ao contrário referese a morte de Jesus aos mortos políticos de hoje Está aí o traço político mais importante do discurso da TL Vejamos o texto seguinte que fala da ligação com a história b A historicidade Em uma árvore no vizinho a Igreja está aí porque aí está a Palavra de Deus A Igreja é acontecimento não há uma estrutura maior É a verdadeira Igreja E há uma questão importante uma questão de cultura A palavra humana da Bíblia que contém a palavra divina foi escrita em uma cultura patriarcal Então nós devemos ler a Bíblia nós devemos interpretar a Bíblia nós devemos despatriarcalizar a Bíblia L Boff Magnificat 1988 Há aí uma distância sintomática entre a palavra e a escrita a palavra é eterna mas a escrita tem uma cultura histórica circunscrita Aí está o móvel da interpretação 110 Em outras palavras a interpretação proposta é uma interpretação na história sendo a relação com a Bíblia a relação entre palavra humana escrita e palavra divina mas desta vez no sentido inverso a palavra divina está contida na palavra humana escrita sendo que a primeira não é transparente transhistórica Eis outra característica muito interessante da TL como o texto da Bíblia não é transparente não há leitura literal Dêixis e política O discurso da TL na América Latina produz um deslo camento nos sentidos do político Na história recente do Terceiro Mundo todos os dis cursos políticos são obrigados a falar dos pobres O discur so da TL não toma o pobre somente como argumento ela o institui corno tema A relação da religião com o político conduz a não colocar o pobre no lugar da resignação e na esperança de uma vida melhor no além Os militantes da TL exigem urna mudança das condições de vida para hoje e nesse mundo aqui As citações da Bíblia em sua relação ao político não funcionam como simples epígrafes Elas não apagam tampouco o sentido do político Elas estabelecem nesse discurso um movimento de interpretação no qual a confrÓntação da fé com a opressão é acentuada Sabese que o lugar do político como tal está conside ravelmente restrito atualmente As propriedades discursivas da TL são um sintoma da permanência da questão do político no Terceiro Mundo A TL é um lugar de fala no qual o político resiste como tal Um lugar no qual falar de revolução de resistência ou simplesmente do político não está fora do discurso No entanto em sua especificidade a característica mais importante do discurso da TL reside no fato dela operar uma conversão da dêixis do discurso religioso 111 A dêixis define as coordenadas espaçotemporais impli cadas no ato de enunciação Distinguese na dêixis discur siva o locutor e o destinatário discursivos a cronografia e a topografia Maingueneau 1987 É pelo estabelecimento de uma cena e não por um espaço objetivamente deter minado do exterior que os enunciados se inscrevem nas formações discursivas A dêixis fundadora deve ser com preendida como a situação de enunciação anterior que a dêixis atual utiliza para a repetição de onde ela tira em grande medida sua legitimidade A Bíblia possui uma dêixis discursiva própria com seus espaços sua geografia sua cronologia e seu conteúdo cultural o discurso religioso se esforça ordinariamente em reatualizar esta dêixis originária em fazer como se todo sujeito tivesse de se situar em relação a esta cena de antigamente A hermenêutica proposta pela TL situa a dêixis bíblica em relação ao universo cotidiano dos pobres do Terceiro Mundo Há uma verdadeira conversão das condições de significação do discurso religioso É pois nesse movimento de repetição e de atualização da dêixis discursiva que se produz a conversão do discurso bíblico de que falo Nessa conversão irrompe o político que no discurso da TL adquire novas determinações de sentido O político permite a desliteralização do discurso reli gioso bíblico na leitura produzida pela hermenêutica da libertação Esta desliteralização é uma textualização dis cursivização historicização pelo político Ela permite a conversão temporal do discurso bíblico liberandoo do anacronismo que impede qualquer movimento do sentido Todo discurso ou melhor todo enunciado é suscetível de tornarse outro diz Pêcheux 1988 diferente de si mesmo todo enunciado é suscetível de se deslocar de seu espaço para derivar para um outro se não há interdição explícita de interpretação Esta possibilidade é essencial 112 para que o enunciado continue a significar Ela é garantida na TL pelo político sendo que é este a condição para que o sentido do discurso da Bíblia faça sentido hoje No entanto as reações da Igreja são fortes A TL é combatida no Brasil de várias maneiras Manipulase a hierarquia eclesiástica de forma a descartar das posições chave os adeptos da TL Punese L Boff foi condenado ao silêncio e à exclusão Fora da Igreja chegase mesmo ao assassinato brutal de líderes da TL O discurso da TL testemunha esses confrontos Podese ver isto no abrandamento dos slogans caminhar juntos ao invés de lutar ou nas modalizações liberdade soli dária onde liberdade ganha um adjetivo que a contém em seus limites Mas a Igreja na América Latina não pode mais desco nhecer que a questão da fé tem de levar em conta o que pode significar a opressão 113 1 O O TEATRO DA IDENTIDADE A paródia como traço de mistura lingüística italiano português São duas línguas no mesmo sujeito A convivência dessa ambivalência simbólica é o assunto desta reflexão Mas vamos começar pelo fato de que o texto central de nossa análise é uma paródia Migna terra Em grego parodía quer dizer canto ao lado de outro Toda nossa questão está em compreender o que significa ao lado de outro assim como em explicitar que sentidos são modos de interpretação desse outro Para tal mos traremos pelo funcionamento discursivo os mecanismos ideológicos que aí estão envolvidos No caso presente como se trata de trabalhar a relação línguanação é nesse contexto teórico que situo a com preensão da expressão ao lado de outro Tratase de apreender os efeitos de sentidos da paródia na constituição do jogo identitário que refere o sujeito à língua nacional Nesse caso específico o sujeito é o brasileiro afetado em sua identidade pela imigração italiana que no fim do século XIX e começo do século XX constitui o contingente mais decisivo na formação da população de São Paulo O corpus de nossa análise é constituído pela paródia Migna terra 1924 de Juó Bananére codinome de Alexan dre Marcondes Machado referida ao seu original Can ção do exílio de Gonçalves Dias 1850 tendo ainda como contraponto para reflexão outra paródia o Canto do regres so à pátria de Oswald de Andrade 1924 114 O texto de Juó Bananére Migna terra que vamos analisar é parte de uma obra maior La divina increnca escrita em seu dialeto macarrônico que como diz Mário Leite do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo em seu prefácio de 1966 nele inscreve a sátira e a pilhéria a que não se acostumam furtar personagens pree minentes principalmente do mundo político Um outro enunciado de Mário Leite é mais instigante para esse nosso trabalho Segundo ele se Alexandre Marcondes Machado tivesse encontrado como Afonso DE Taunay encontrou conselheiros como Capistrano de Abreu e Was hington Luís que o levaram a voltarse para os fastos do bandeirismo que o tornaram o maior historiador de São Paulo Alexandre M Machado possivelmente de par com a literatura a que se atirara sob a divisa ridendo castigat mores tivesse se voltado para a que enquadrada na pureza sic e sobriedade da língua é a criadora de imortais idem Por que a paródia de uma língua pois é assim que consideramos o português macarrônico não pode fazer imortais Por que não está enquadrada na pureza sic e sobriedade da língua E não fazendo imortais pode ela fazer cidadãos Que estatuto dar a essas línguas que são paródias no sentido em que elas se inscrevem em uma língua outra ou melhor que elas passam ao lado de uma língua outra São estes gestos de interpretação produzidos por Juó Bananére o centro de nossa atenção Todo sujeito ao dizer produz o que chamo um gesto mínimo de interpretação que é a inscrição de seu dizer no interdiscurso no dizível para que ele faça sentido Aí trabalha um efeito ideológico elementar que está no fato de que todo discurso se liga a um discurso outro por sua ausência necessária As diferentes versões do poema que analiso ou mais precisamente a paródia que é objeto desse estudo se 115 presta muito propriamente para se observar esse trabalho da interpretação e da ideologia Em cada uma das versões podemos observar nos pontos de deriva os chamados efeitos metafóricos desli zarrientos de sentidos que são a produção de gestos de interpretação dos diferentes autores Onde está abóbo da em uma versão desliza para abóbora na outra Estas duas palavras estão ligadas por um gesto de interpretação por um efeito metafórico do qual procuramos compreen der os sentidos retraçar o processo de produção É assim que podemos compreender a nível do discur so ideologicamente constituído o que na teoria da enun ciação seriam as marcas da subjetividade Dito de outro modo o gesto de interpretação como lugar da relação do sujeito com a língua é depositário das marcas de subjeti vidade Vejamos os textos que submeteremos à nossa observa ção Dois deles o de G Dias e o de O de Andrade são paródias que tocam a forma material dos poemas e o outro de Juó Bananére como dissemos toca sobretudo a questão do sistema da língua sua ordem simbólica O português macarrônico é uma paródia da língua portuguesa Paródia que reflete a imagem que o brasileiro tem do português falado por imigrantes italianos no Brasil O corpus Canção do exílio Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá 116 Gonçalves Dias 1850 Nosso céu tem mais estrelas Minha terra tem primores Nossas várzeas têm mais flores Que tais não encontro eu cá Nossas flores têm mais vida Em cismar sozinho à noite Nossa vida mais amores Mais prazer encontro eu lá Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá Em cismar sozinho à noite Mais prazer encontro eu lá Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá Migna terra J Bananére 1924 Migna terra tê parmeras Che gania inzima o sabiá As aves che stó aqui També tuttos sabi gorgeá A abobora celestia tambê Che tê lá na mia terra Tê moltos millió di strella Che non tê na lngraterra Os rios lá sô maise grandi Dus rio di tuttas naçó 1 os matto si perdi di vista Nu meio da imensidó Não permita Deus que eu morra Sem que eu volte para lá Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá Sem quinda aviste as palmeiras Onde canta o sabiá Coimbra julho 1843 Canto do regresso à pátria O de Andrade 1924 Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá Na migna terra tê parmeras Não permita Deus que eu morra Dove ganta a galligna dangola Sem que volte pra São Paulo Na migna terra tê o Vaprelli Sem que veja a Rua 15 Chi só anda di gartolla E o progresso de São Paulo 11 7 Estes são os textos que constituem o corpus de nossa análise Os materiais efetivos da relação paródica que nos interessam são os de G Dias e Juó Bananére O de O de Andrade entrará apenas como termo de referência Passemos pois à análise A análise Indícios da mistura das línguas Do ponto de vista formal há alguns pontos que são pistas para o processo de significação e que resultam em efeitos significativos para a questão de identidade que nos propomos compreender Esses pontos são os que seguem 1 A origem rural dos imigrantes italianos de São Paulo é na verdade 11mencionada em diferentes traços a na necessidade de especificação concreta uma sobredeterminação como em che ganta inzima das palmeiras ao nível morfossintático esta sobredetermina ção pode ser compreendida tanto como um gesto de interpretação que adapta a língua italiana ao português como a que pensa a necessidade de gestos de referências palpáveis na relação do imigrante com seu mundo estran geiro b na confusão entre abóboda celeste e abóbora celeste ao nível lexical c o uso dangola como adjetivo ao invés de dan gola ligada ao país Angola referindose à galinha tam bém uma ave típica do interior de São Paulo e das fazendas de italianos no Brasil 2 Um dos estigmas dos imigrantes italianos em geral analfabetos está justamente na relação com a escrita Aparecem assim 118 a formas que são consideradas erros mignaminha têtem parmeraspalmeiras maisemais inzimaem cima sósão stóestão imensidóimensidão perdiperde Este últi mo considerado erro na escrita é no entanto um dos fatos marcantes da influência do italiano no falar paulista e final i com palatalização da consoante anterior se for t ou d b formas que são sintomas de italianidade cheque tuttostodos moltosmuitos E entre estes merece realce a mais popular destas marcas gantacanta gartolacartola a passagem de e a g A própria escrita enquanto lugar em que se produzem gestos de interpretação no trabalho de identificação tem aqui importância fundamental 3 O uso da dêixis É especialmente revelador o uso da dêixis Tratase de um lugar que marcaria uma oposição aquilá que é apagada Onde na poesia de G Dias há oposição As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá em Bananére esta se dilui As aves che stó aqui tambê tuttos sabi gorgeá O todo aqui refere ao universo de pássaros e não aos lugares aqui e lá É assim que intervém a interpretação de Bananére Este apagamento do campo de validade da dêixis é tão forte que ficam absolutamente ambíguas as indicações de espaço se as referimos à indicação do país migna terra onde é esta terra Tanto o lá como o aqui é o Brasil O espaço é o da memória o imaginário Não se sai 11 desse lugar 11 ainda que o espaço físico tenha mudado Voltaremos a falar da questão da dêixis de forma mais abrangente Nesse passo bastanos ligar seu funcionamen to ao modo como se nomeia o poema em G Dias Canção do exílio em Bananére Migna terra em O de Andrade Canto do regresso à pátria em que a pátria é nomeada São Paulo Na paródia de Bananére a idéia de exílio desapa 119 rece n se deixou um país pelo outro O Brasil não pode ser s1gnif1cado como terra de exílio a Itália fica silenciada Do ponto de vista do assunto também é interessante se observar algumas características 1 apagamento da oposição de espaço BrasilItália pelo uso da Inglaterra como termo de referência mia terra lngraterra 2 comparandose os dois poemas percebese que só as co1sas da natureza é que são retomadas na paródia de Bananere Desaparecem as alusões ao espírito ao desejo ao prazer etc há mesmo redução de 5 estrofes a 4 obram s reerências aos rios que são mais grandes as palmeiras as galinhas aos pássaros etc ic tambn1 a reerência a um personagem o Vap relh que e sintomaticamente um nome terminado em elli sufixo este indicador de origem italiana entre os imigrantes brasileiros 3 apagamse termos de comparação colocando a comparação entre seres daquí e daqui mesmo as aves che stó aqui tambê tuttos sabi gorgeá 4 não fala da volta e não fala da morte O refrão Não nnita Deus que eu morra sem que eu volte para lá repetido 1numeras vezes no poema de G Dias desaparece na paródia sta indicação mais a questão da indistinção da dêixis nos intrdzem no aspecto mais importante trazido por esta parodia e sobre o qual falaremos a seguir 11 Equívoco apagamento indistinção Estas carcterísticas da língua nos levam a sentidos que migram se dispersam se indistinguem É assim que na análise de discurso vemos a relação entre a ordem da língua e os seus efeitos que se inscrevem na história visíveis na discursividade 120 Diríamos que o que se produz aí é um discurso do imigrante O português macarrônico não seria nesta pers pectiva uma língua mas um discurso em que aparece a maneira como estando em outra língua o italiano trabalha sua inscrição no portuguêsbrasileiro A indistinção em Migna terra Brasil ou Itália o lá que é o Brasil aqui a escrita com formas misturadas gn nh gc o não falarse em volta são a própria defini ção do imigrante é o que vem e fica Mas fica como Aí entra a necessidade de sentidos migrantes ou me lhor de sentidos mutantes em um espaço sem muita definição entre a Itália e o Brasil Desse ponto de vista há uma especificidade do imi grante em relação ao colonizador O colonizador por definição é o que em termos de memória exerce sua memória tradicional impondoa e impondose ao coloni zado O imigrante não se define assim Ele não tem o poder nem o direito de impor sua memória Embora toda prática de linguagem seja transformadora ele fica mais afetado pela memória local A senzala no Brasil cede lugar às colônias Mas aí também o sentido é indistinto e opaco os que viem nas colônias no Brasil são os colonos e não os colonizadores mas também não são subalternos como eram considerados os escravos A passagem para o sistema do trabalho assalariado garante uma relação de produção outra que a escravagista embora submeta o colono ao proprietário rural A diferença fundamental é que muitos desses colonos serão em pouco tempo os novos proprie tários rurais Deixando de lado a diferença entre colono e coloniza dor nossa questão recai sobre o estatuto produzido pelo português macarrônico E a questão seria que sujeito é este Que sentidos produz Em que língua 121 A nossa posição é a de que este sujeito que assim se mostra na paródia é um sujeito indistinto que produz sentidos cujo gesto de interpretação não delimita espaços precisos nem geográficos nem em termos de nação e de Estado sentidos estes que também se dão em uma língua indistinta A indistinção é lugar de dois em um Presença de dois no espaço de um seja do sentido seja do sujeito seja da língua A identidade é um movimento na história e na relação com o social A situação lingüística que estamos analisan do nos apresenta isto de modo agudo um movimento dos sentidos e dos sujeitos pego em um trajeto em que não há estabilidade não há legitimidade já construída Espaço da sátira da paródia Do sujeito e do sentido ao lado do outro sujeito e do outro sentido Paralelos Que não se identifi cam não se recobrem não coincidem E que jogam entre si É o sentido mesmo de pátria terra de cidadão e de língua nacional que está em jogo Esses poemas são três versões relacionadas entre si por paródia Podemos então considerar a existência de um sítio de significância sobre o qual se produzem distintos gestos de interpretação por diferentes autores as três versões que constituem os três poemas com seus deslizamentos de sentidos de que são ilustração os traços que analisamos mais acima São eles pontos de deriva Efeitos metafóricos onde o sentido e o sujeito se deslocam para um outro sem atingilo escorregando pelos sentidos Este sítio significante comum submetido ao efeito me tafórico é o que refere o sujeito a uma sua pátriaou terra Esta ligação entre o sujeito e sua pátriaou terra é o objeto dos deslizamentos de nossa análise Quais são os sentidos dessa ligação Como veremos eles estão ditos elaborados pela relação do sujeito com os sentidos e mais especifica 122 mente no caso de J Bananére pela relação do sujeito com suas línguas Esses diferentes gestos de interpretação constituem indícios da inscrição do sujeito em diferentes formações discursivas Pelas características que acabamos de analisar já podemos dizer que essa inscrição longe de ser alg preciso e bem delimitado ao contrário é tensa contradi tória e mostra que é sobretudo a mistura e a sobrecarga que a pontuam Podemos dizer que nestas diferentes versões os traços que as distinguem são vários mas alguns são bstante elo qüentes Na relação de O de Andrade com G Dias atase de associações tais como palmeiraspalmares Zumbi ou a que desloca o sentido de pátria para São Pauloe não Brail falando do progresso ou ainda a que fala em regressoe nao exílio Na relação de G Dias e Bananére aparece acentuada mente a diferença posta pela indistinção do lá enquanto se fala em terra e a pátria não é mencionada ou a que não fala em volta assim como as marcas da diferença de línguas como cg ttd mignaminha etc Em última instância é a noção de pátria que está em questão Ili A pródia da língua o próximo e o distante A diferença fundamental entre de um lado G Dias e o de Andrade e de outro Bananére é que entre os dois primeiros a paródia é uma paródia interna ao sentido de pátria estrelas vida amores flores fem G Dias ouro terra amor rosas em O de Andrade Na paródia de Bananére cartolagartolla abóboraabóboda tuttos to dos a paródia é sobretudo uma paródia da língua e a questão da pátria é uma questão da relação entre ínguas diferentes No caso específico que estamos analisando essa diferença é trabalhada como sátira 123 Vejamos os deslocamentos que isto produz 1 Um primeiro deslocamento que daí decorre é da instância da relação entre análise de discurso e sociolingüís tica A sociolingüística trabalhando com a correlação entre o lingüístico e o social trataria esta questão sob a rubrica dos dialetos falares gírias etc Na análise de discurso tratandose a questão pela noção de discurso efeito d sentidos entre locutores e pensando a forma material como sendo aquela em que o lingüístico e o histórico não são correlatos mas constitutivos entre si essa questão adquire outros matizes Se as características que apontamos acima autorizam a sociolingüística a tratar esse fato sob a rubrica do dialeto caipira de influência italiana em nosso caso não se trata do dialeto caipira mas da indistinção no discurso dos efeitos de sentidos produzidos pelo sujeito da imigração São sentidos que como dissemos migram e perturbam a relação desse sujeito com o simbólico As ordens das diferentes línguas sofrem aí uma aproxi mação necessária pela história e são atingidas em sua capacidade de jogo Abremse os espaços do equívoco rompemse tecidos da formalidade estruturantes É o su jeito se trabalhando e sendo trabalhado na sua exposição aos efeitos do simbólico aí representado por duas línguas Nessa perspectiva o sujeito não está precisamente definido por sua relação com uma ou outra língua Aí há um espaço de indistinção em que ele trabalha e é traba lhado por ordens diferentes Este não é um sujeito claro e distinto Sabemos que línguas diferentes produzem discursos diferentes ou seja diferentes ordens simbólicas estruturam se diferentemente em diferentes discursos A nossa paródia 124 Migna terra é um exemplar inequívoco desse fato O sujeito que aí se constitui se mostra em sua descontinuidade seus pontos de subjetivação ambíguos e indecisos Os pontos de diferenças são pontos de deriva 26 lugares em que os sentidos podem ser outros Em que o sujeito se descola de sentidos que o repetem e se desloca por onde o semsentido pode fazer sentido A sátira é a forma de relação com o imigrante O que é satirizado na relação do brasileiro com o imigrante são justamente os gestos de interpretação enquanto momentos em que o sujeito se identifica gestos assumidos como tal pelo sujeito gartolla tutto maise 2 Um segundo deslocamento que podemos conside rar é o que nos indica que o gesto da escrita cg gn nh ttd uo é o sintoma da vontade de uma língua nacional Nessa vontade a sátira aparece como forma de relação ao falar imigrante que é uma posição de crítica e afastamento mas também uma possibilidade de interpretação da dife rença integrandoa Também aqui a ambigüidade o equí voco a indistinção trabalham seus efeitos A origem précientífica da lingüística se produz no mo mento da formação das línguas nacionais e se desenvolve segundo o eixo do direito unidade e da vida diversidade como dupla estratégia de apropriação antropológica das linguagens M Pêcheux 1981 26 Esta questão da deriva tem sido trabalhada em outras perspectivas teóricas inspiradas em M Pêcheux Em nosso caso a diferença básica está em pensarmos os deslizamentos em relação ao que Pêcheux diz do efeito metafórico remetido à interpretação tal como a temos estabelecido em nosso trabalho e à ideologia Nesse passo entra toda a especificidade de uma abordagem discursiva no modo como concebe a ordem da língua como relativamente autônoma Em que tal como estabelecemos em nossa pesquisa a interpretação é constitutiva ou seja não há sentido sem interpretação Este é o fato teórico fundamental 125 Esta conjuntura é marcada pelo fio subterrâneo das loucuras linguajeiras em que os segredos da língua afloram na forma paródica do delírio M Pêcheux idem Podemos pensar esse processo em que os segredos da língua afloram na forma paródica do delírio não como um ponto na história cronológica das idéias lingüísticas mas como processo que se dá quando sempre que a vontade da língua nacional se apresenta nessas loucuras linguajeiras Sabemos como o sujeito moderno é constituído pelos seus direitos e deveres e pelo seu direito de ir e vir No jogo contraditório entre a universalização do histó rico absorção das diferenças pela universalização das relações jurídicas no momento em que se universaliza a circulação das mercadorias do dinheiro dos trabalhadores e a historicização do universal modalização da igualda de em condições de produção diversas para se tornar cidadãos os sujeitos têm de se libertar dos particularismos históricos que os entravam seus costumes locais suas concepções ancestrais seus preconceitos e sua língua materna Pêcheux ibidem A igualdade Uuridicamente autorizada e a absorção politicamente negociada da diversidade são bem os pres supostos dessa loucura linguajeira que se expressa pela paródia da língua que estamos analisando 3 E chegamos assim ao deslocamento que incide sobre o próprio fato da paródia da língua a paródia é aqui sintoma da impossibilidade da construção de uma unidade imaginária desse estado de língua itinerante que é a língua do imigrante Daí o regime da dêixis não ter atuali dade não vigorar Com a paródia a língua não é usada ela é mencionada em relação à outra Em nosso caso tanto o português como o italiano são mencionados 126 O delírio é escrever nessa língua o português macar rônico justamente porque para que uma língua seja uma língua nacional ela deve ser capaz de unidade de gea riedade de distinção Não é o caso do falar brasileiro italianada ou o italiano abrasileirado Essa não é pois uma língua Porque nela não é possível ao mesm tempo a unidade e o jogo Ela não representa uma relaçao caa e articular a ordem do simbólico capaz de jogo e a historia sem que o equívoco que constitui necessariament essa relação se rompa e se mostre apenas como equivoco como contradição como incoerência como falha como inconsistência lingüística Porque do ponto de vista discursivo o equívoco a contradição a falha é o que é constitutivo mas que pelo trabalho do imaginário não se mostram como tal Esta possibilidade se rompe num estado de língua em que há a migração a dispersão e a indistinção que obser vamos no português macarrônico No entanto na dispersão e na indistinção reais se é a necessidade imaginária da unidade que define a língua nacional não podemos dizer que este estado de língua que analisamos seja uma língua Daí dizermos que é um discurso que mostra o trabalho simbólico da relação entre a língu do imigrante e a língua nacional Disso resulta que o sujeito que fala o macarrônico não pode por ele se constituir em cidadão Ele fala assim mas no imaginário é só enquanto falante ideal da hngua nacional que ele é cidadão Daí um dos lugares de interpre tação que separam fortemente a escrita da oralidade Essa separação imaginária constitui critério para a exitênc1a da língua nacional podese falar o português macarnico mas não se pode escrevêlo A não ser como parodia Como uma língua que passa ao lado de outra Esta sim co foros de legitimidade e parte da constituição da cidadania com sua escrita 127 Desse modo também na literatura é difícil reconhecer o mérito literário da grande literatura em um autor como J Bananére Ele fica como um autor que passa ao lado da língua literatura brasileira língua e nação a interpretação e a metáfora Algumas considerações podem ser úteis quanto à ob servação de fatos discursivos na relação sujeitolíngua quando se trata da questão nacional 1 A relação da língua enquanto ordem simbólica com a história tem sua visibilidade nos processos discursivos O discurso é assim lugar singular para se observarem aspec tos que tocam a configuração da identidade quando o fato alia língua e história como no presente caso em que se procuram compreender características da nacionalidade produzidas no simbólico 2 Paródia sátira são formas de elaboração de resignificação dessas identidades São também lugares de visibilização dos processós de identificação sociais políti cos e históricos ideologicamente constituídos Nesse sentido eles devem ser trabalhados não apenas como formas lingüísticas ou literárias mas sobretudo como trabalho de processos de identificação dos sujeitos 3 A relação línguanação não é nem direta nem auto evidente No caso brasileiro específico há situações particu larmente interessantes que atestam a complexidade desta questão 1 línguas indígenas que desapareceram dada a relação de contato com os brancos mais ou menos violenta fazemnos rever critérios como o da língua para atestarem a indianidade Há assim povos que não falam mais a língua mas nem por isso deixam de ser índios cf E Orlandi 1990 128 Há migração dos sentidos postos aí em relação à sua identidade que se deslocam para outros objetos simbólicos como a música por exemplo ou o xamanismo etc ou para um discurso em que os traços da relação com a língua irrompem na discursividade transformandoa Esses lugares onde irrompe a historicidade lingüística são pontos onde gestos de interpretação trabalham a deriva o deslocamento o equívoco constitutivos dos outros sentidos e dos outros sujeitos 2 Índios que falam línguas totalmente produzidas por missionários que se apropriam das línguas indígenas para o trabalho de catequese e mesmo por lingüistas e antropólogos que pretendem revitalizar a cultura indígena ensinando lín gua indígena para o índio e que não correspondem mais a uma história autóctone mas mediada por uma intervenção Ainda aí há um trabalho de refuncionalização histórica desses artefatos que pretendem reconstituir a língua e conseqüentemente há um trabalho de resignificação da identidade pelos índios 3 Há ainda resíduos de uma língua geral falada maci çamente nos séculos XVII e XVIII no Brasil todo e que ainda sobrevive mesmo que invisível na língua nacional ou em falares de regiões mais densamente habitadas por popula ções indígenas no norte do Brasil Aí a memória se incum be de reatar o fio da história 4 Não podemos deixar de mencionar ainda que co nheçamos menos a situação dos resíduos dos dialetos africanos incorporados pela língua nacional S Os indícios de línguas de imigrantes de que tratamos nesse trabalho apenas como uma pequena manifestação ligada ao italiano 6 Finalmente e não menos importante temos a rela ção entre o português do Brasil afetado por todos esses processos identitários nessas configurações históricas da 129 língua e o português de Portugal língua de colonização d E Orlandi 1993 A língua brasileira Toda essa complexidade resulta assim da relação de uma língua imposta pelo colonizador e a história que vai expondo o brasileiro a essas diferentes ordens simbólicas sem no entanto deixar de representar a necessidade da unidade seja ela qual for Não há língua nacional que não se constitua nesse movimento de confrontos alianças oposições ambigüida des tensões com outras línguas A relação línguanação é pois matizada por muitos processos e é só na relação de uma consistência histórica singular entre a língua e seus falantes que podemos compreendêla avaliála Um sujeito pode não estar incisivamente inscrito em uma ordem determinada de língua e nem por isso deixa de ter sua identidade configurada justamente por essa mobi lidade essa plasticidade que o faz passageiro de várias ordens do símbolo Esse é o próprio do sujeito a sua itinerância o próprio do sentido o trabalho do equívoco no próprio da língua que é capaz de jogo Até aqui falamos em língua nacional pensando sobre tudo o sujeito em seus gestos de interpretação preso pelo jogo simbólico e significando na história pela deriva pelo deslocamento pela falha pelas ilusões Resta falar da pró pria idéia de nação Faz parte do imaginário do sujeito em sua diferença pehsar a unidade para identificarse assim como também faz parte desse mesmo sujeito o da Modernidade e o da Contemporaneidade ter de referirse a uma pátria para ter uma identidade nacional Se pela teoria sabemos que a unidade é uma ilusão constitutiva e necessária mas uma ilusão produzida pela relação imaginária do sujeito com suas condições de exis 130 tência assim também a necessidade de uma referência inequívoca a uma nacionalidade é uma ilusão Mas esta tem um caráter eminentemente político importante de se realçar Mais do que isso é essa ilusão que sustenta em grande medida as nossas formas do social Com as transformações das relações sociais nas relações entre países a globalização nas relações econômicas não é a mesma idéia de nação que é vigente hoje No entanto há uma exacerbação de lutas pela nacionalidade A nosso ver há aí um equívoco As lutas exacerbadas que assim se apresentam sob o modo da luta pela identi dade são um deslocamento uma migração de sentidos dado o silenciamento imposto ao político Na falta do político como mediador nos confrontos de sentidos é isto o político na análise de discurso o fato de que os sentidos são sempre divididos não se recobrem esses lugares que correspondem a gestos de interpretação do político nação Estado governo etc são catalisadores desses sentidos Ficam sobrecarregados E produzem catástrofes guerras nacionalistas racisrro xenofobia explosões de mi norias movimentos místicos Que são antes de tudo metá foras no sentido de transferências malsucedidas Isto certamente nos leva a refletir dado o silenciamento do político por que é na língua que se explicitam as confron tações Porque a língua pertence a todos e é ao mesmo tempo o que temos de mais propriamente nosso Lugar de relação à história e ao social e lugar de singularidade Questão final como esses sujeitos se definem nas relações como as que acabo de descrever Como eles se expõem a efeitos de sentidos que não são capazes de trabalhar sem violência Eis uma questão que devemos enfrentar não só em relação à nacionalidade para entender a formasujeito atual e os desafios de violência às vezes simbólica e às vezes nem tanto que fazem parte de nosso cotidiano 131 11 LEITURA B DISCURSO CIENTIFICO Equívoco Para a AD a que me filio o equívoco tem lugar preeminente Tomamos a discursividade por definição como o lugar que nos permite observar os efeitos materiais da língua enquanto sistema passível de jogo na história Resulta desse jogo que a produção ie sentidos é marcada neces sariamente pelo equívoco Este fato para Pêcheux 1981 constitui o ponto crucial do trabalho de leitura do arquivo Arquivo aqui entendido como já tivemos a ocasião de referir como o campo de documentos pertinentes e disponíveis as coisas a saber sobre uma questão Por seu lado a memória funciona com versões enun ciativas imagens do dizer É desse modo que se pode pensar o arquivo a memória inscreve o discurso em filia ções e o sentido que as representa está sempre sujeito a deslocamento As diferentes versões são efeitos das rela ções de sentido relação de um discurso com outros das rlaçõe s de força relação de um discurso com o lugar de que é falado Nesta perspectiva como vemos o equívoco é fato estrutural implicado pela ordem do simbólico 132 Com efeito Pêcheux idem propõe que se marque e se reconheçam evidências práticas que organizam as leitu ras mergulhando a leitura literal enquanto apreensão do documento numa leitura interpretativa Desse modo se constituiria um espaço polêmico das maneiras de ler uma descrição do trabalho de arquivo enquanto relação com ele mesmo em uma série de conjunturas trabalho da memória histórica em perpétuo confronto consigo mesma O estatuto da interpretação tal como a estamos traba lhando na análise de discurso pode nos esclarecer certos aspectos disso que estou dizendo A relação com o simbólico como tenho proposto é uma relação com a interpretação Ela está na base da própria constituição do sentido já que diante de qualquer objeto simbólico o sujeito é instado a interpretar a dar sentido determinado pela história pela natureza do fato simbólico pela língua Aí está o princípio mesmo da ideo logia não há sentido sem interpretação mas este processo de constituição de sntido sua historicidade não é trans parente para o sujeito Ao contrário é através de um processo imaginário que o sentido se produz no sujeito na relação que interliga linguagempensamentomundo A interretação assim como a ideologia é igualmente neces sária Por outro lado e não menos importante está o geren ciamento da memória coletiva A divisão que separa os que estão autorizados a ler escrever e falar em seus nomes e todos os outros que na cópia na transcrição na classifica ção na indexação na codificação repetem incansavelmen te gestos de interpretação que os apagam por detrás da instituição Nesse sentido houve um grande desenvolvimento dos métodos de tratamento em massa dos arquivos textuais 133 supondose tornálos facilmente comunicáveis reproduzí veis O investimento na objetividade desses procedimentos leva à referência da ciência da estatística da lógica e da matemática como evidência Uma outra divisão organiza esta a que separa o literá rio do científico enquanto leituras e leitores diferentes Um como universo de significações estabilizadas o outro sujeito a equívocos a interpretação No entanto cresce o interesse do cientista pelos mate riais discursivos textuais assim como também cresce o interesse dos poderes pelas ciências do tratamento dos textos A isso corresponde uma nova divisão do trabalho da leitura uma reorganização social do trabalho intelectual que repercute sobre a relação de nossa sociedade com sua memória A apreensão de um sentido unívoco aparece vinculada ao trabalho sobre a plurivocidade do sentido enquanto condição de um desenvolvimento interpretativo do pensa mento Essa ambigüidade aparece ligada à informática expan são dos privilégios literários da leitura interpretativa e poli ciamento dos enunciados normalização asséptica da leitu ra e do pensamento Produzse assim um apagamento seletivo da memória histórica Para contornar esse apagamento é preciso ocupar um lugar teórico o de considerar a língua como uma materia lidade específica não transparente nem para o literato e nem para o cientista A proposta é então a de construir procedimentos que mostrem a pluralidade de gestos de leitura que possam ser marcados e reconhecidos no espaço polêmico da leitura Daí a importância de uma abordagem discursiva já que essa abordagem permite observar como a língua produz 134 sentidos justamente pela inscrição de seus efeitos materiais na história Permite apreender o acontecimento da lingua gem isto é o encontro entre uma atualidade e uma memó ria É isto que vamos procurar compreender o sentido como acontecimento Rodrigues 1994 faz um paralelo entre o pensamento religioso e o natural mostrando que ele tem em comum o fato de considerarem que a interpretação está fora da constituição do sentido No primeiro os sentidos são dados por Deus através da Revelação a sujeitos autorizados papa clero etc que devem representar fielmente a pala vra divina A Igreja administra os sentidos e estabelece dogmas aos quais os sujeitos devemse assujeitar A inter pretação dar um sentido outro é heresia No pensamento natural os sentidos são dados pela natureza através da experimentação a sujeitos autorizados os cientistas Estes devem ser objetivos traduzir objetiva mente esses dados naturais A ciência formaliza esses dados e estabelece leis às quais os sujeitos devemse assujeitar A submissão a Deus Orlandi 1987 dá lugar a uma crença menos visível a crença nas cifras na precisão rnterpretar se não se trata de encontrar os sentidos já dados é então sinônimo de ideologia entendida como o que oculta o verdadeiro sentido natural A essas formas de pensamento a análise de discurso opõe a que leva em conta a história não há sentidos já dados estes são constituídos por sujeitos inscritos na histó ria num processo simbólico Este processo simbólico diz Rodrigues idem é duplamente descentrado pelo incons ciente e pela ideologia Os sujeitos têm um papel ativo determinante na constituição dos sentidos mas este processo escapa ao seu controle consciente e às suas intenções 135 lnterdiscurso a O estável e o sujeito a equívoco Ao lado de enunciados que significam de acordo com quem os fala e em determinadas condições há em certas circunstâncias independência do objeto face a qualquer discurso feito a seu respeito pois há real Além disso há espaços discursivos estabilizados ou seja há técnicas materiais há técnicas de gestão social dos indivíduos há espaços que repousam quanto a seu funcio namento discursivo interno sobre uma proibição de inter pretação não se pode dizer em certo sentido se po demos dizer etc Há portanto estabilidade que resulta de interdição à interpretação M Pêcheux 1983 nos mostra que essa homogeneida de lógica que condiciona o logicamente representável como conjunto de proposições suscetíveis de serem verda deiras ou falsas é atravessado por uma série de equívocos em particular termos como lei rigor ordem princípio etc que cobrem o domínio das ciências exatas mas também o das tecnologias e o das administrações Daí sempre have rem vários sentidos nesse caso por haverem vários domí nios que se recobrem e que têm diferentes regimes de atualização da relação entre verdadeiro e falso Para dar um exemplo útil na reflexão sobre ciência vamos trazer a questão da determinação tal como a trabalhamos E Orlandi 1994 em relação ao Naturalismo no século XIX Determinar em análise de discurso é preci sar tornar legível visível Já em relação à subjetividade e à individualização determinar significa colocar o sujeito sob controle e em relação às ciências humanas determinar significa fazer do homem uma entidade homogênea trans parente passível de análise Do ponto de vista da formação de um país como é o caso do discurso naturalista sobre o 136 Brasil significa transferir a transparência realizada pela ciência para o próprio país Desse modo ao descrever e classificar as coisas a saber do Brasil sua fauna flora população etc no mesmo gesto se torna o Brasil visível no plano da ciência classificável no plano das tecnolo gias e governável do ponto de vista da administração Constroemse bancos de dados disponibilidade do país para o mundo mercantil e a industrialização Não haveria no entanto possibilidade de estabilização desses espaços apenas a partir do exterior coerção produ zida pelo cientista pelo especialista pelo administrador O próprio sujeito tem necessidade dessa homogenei dade lógica dessa necessidade de fronteiras de um mundo semanticamente normal necessidade essa que por sua vez tem a ver com a sua dependência das coisasasaber para produzir sua própria vida Também a distinção entre diferentes ordens de discurso encontra seu eco no sujeito A incompletude a diferença o possível indicam uma mesma coisa a abertura do sim bólico e a divisão a falta como constitutiva do sujeito E no sujeito a vontade do um do completo do todo É pois nesse campo tenso de ambigüidades que situa mos Rosso assunto A homogeneidade o estabilizado a divisão entre o que é e o que não é interpretável em termos de linguagem é o imaginário necessário é o que não pode não ser assim Do outro lado o jogo a historicidade garantem o movimento tanto do sujeito como do sentido b Discurso da ciência e exterioridade Podemos afirmar que não há sentido que não seja discursivo isto é que não seja sujeito à interpretação O modo como as palavras fazem sentido tem a ver com a língua com o sujeito com a história Não há discurso 137 sentido sem sujeito e não há sujeito sem ideologia Nada escapa aos princípios da significação nem as definições nem a metalinguagem formal A última das línguas é sem pre e ainda a linguagem natural ou seja a língua materna para pôr a metalinguagem em funcionamento o homem se serve da língua natural Diante de um sinal como 4 há um gesto mínimo de interpretação que é o de reconhecêlo como um sinal que significa algo em uma memória discur siva num discurso específico não em outros por isso Caetano pode dizer que 2 2 5 Ler como temos dito é saber que o sentido pode ser outro Mesmo porque entender o funcionamento do texto enquanto objeto simbólico é entender o funcionamento da ideologia vendo em todo texto a presença de um outro texto necessariamente excluído dele mas que o constitui Não havendo univocidade entre pensamento mundo e linguagem haverá sempre o espaço da interpretação e do equívoco Certamente há diferentes ordens de discurso cientí fico religioso jurídico etc havendo assim diferentes modos de interpretação Mas há sempre interpretação Ainda quando há interdição de interpretação há espaço de trabalho do sujeito e da história na relação com os sentidos Dito de outra maneira há sempre exterioridade consti tutiva o interdiscurso a memória um já dito anterior e exterior à existência de qualquer dizer Mesmo que o efeito seja o de representar a nãorelação com a exterioridade como no discurso da matemática Esta para evitar o para doxo apela para a interdição Por exemplo postulando que a coleção de todos os conjuntos não pode ser considerada como um conjunto Desse modo internamente funciona como um automatismo sem exterioridade contanto que se especifique o que não se pode dizer Mas mesmo assim para distinguir o que é matemático do que não é já se 138 produz um gesto de interpretação mínimo e fundamental para entrar em seu discurso Como se sabe o real das ciências da natureza é diferente do real das ciências humanas Mas também essa diferença não impede que haja interpretação Não porque o discurso é polissêmico e os sentidos são muitos Mas porque o sentido pode sempre ser outro No caso que estamos analisando podemos dizer que há várias posições do sujeito cientista A opção por uma linha teórica cientí fica ou outra distingueas Aqui poderíamos lembrar o que diz Dias 1995 o centro organizador da enunciação estaria não no meio social que envolve o indivíduo mas no fato do indivíduo ocupar uma posição de sujeito em relação aos fatos de discurso É esta posição relativa do sujeito aos fatos do discurso que apontamos como sendo a inscrição do senti do na história a injunção à interpretação Também no discurso científico Na análise de discurso o interdiscurso é a memória do dizer o saber discursivo a filiação de sentidos Há coisas que fazem sentido e há as que não fazem O cientista está submetido à memória de seu saber O que tem de ser atingido é justamente essa relação com o interdiscurso com a memória para poder significar outra coisa Transfor marse desenvolverse Transferir produzir novas versões efeitos metafóricos27 deslizamentos de sentidos que per mitam o avanço científico Que permitam outras leituras 27 Os efeilos metafóricos d o capítulo Dispositivos da interpretação são a base da conslituição do significar já que este movimento de transferência permite que o sujeito no deslizamento próprio dos sentidos inscrevase nos processos discursivos filiandose a redes de memória ao mesmo tempo em que se desloca 139 dos fatos de discurso Não se trata como dissemos de polissemia mas de outros sentidos Deslocamentos na memória trabalho no espaço da interpretação mesmo no discurso científico28 Além disso as formas de leitura são históricas referidas às diferentes ordens de discursos Como era lido o discur so científico na Idade Média Como é hoje Certamente é diferente Isso nos leva a um último ponto a ser tematizado o da autoria Autoria discurso científico e leitura O que viemos dizendo a respeito da interpretação e do discurso científico nos mostra que a questão para nós não está entre a palavra científica e a coisa mas entre a palavra científica e o discurso sobre a coisa O que em AD dizemos ser a construção discursiva dos referentes Nesse espaço trabalha a interpretação O autor científico na ldacie Média tinha singularidade a credibilidade de sua produção estava diretamente vincu lada a seu nome Hoje a ciência se faz em laboratórios em 28 Como já dissemos há a a repetição empírica mnemônica b a repetição formal e c a repetição histórica Orlandi 1994 Na repetição empírica só há retomada mecânica do dizer É o efeito papagaio Na escola isso se dá quando o aluno repete sem entender sem formular o que é dito pelo mestre A repetição formal por sua vez já põe em jogo a formulação da forma lingüística Mas pára aí Há até bons alunos que na prática da repetição formal ganham o reconhecimento do mestre A repetição histórica é a que produz realmente conhecimento É aquela em que o aluno mergulha o dizer em sua memória o significa elaborando sentidos que não só respondem a uma situação imediata mas lhes permite formulações outras em outras situações de linguagem e conhecimento Nesse caso não só há transformação do estado de saber do aluno como ele pode mesmo deslocar o saber na memória da ciência produzir deslocamento no arquivo Aí ele estará produzindo ciência e não apenas decorandoH devolvendoH o que lhe foi dito 140 equipes O autor não é singular Em que isto afeta a interpretação Se o analista de linguagem tem de construir um aparato um dispositivo teórico de interpretação por seu lado o sujeito falante comum também interpreta já que não há sentido sem interpretação Mas o falante não dispõe de um dispositivo teórico ele tem o que chamamos um dispositivo ideológico de interpretação E Orlandi 1995 Para enten dermos o que seja este dispositivo basta lembrarmos que o gesto de interpretação vem carregado de uma memória que no entanto aparece negada como se o sentido surgisse ali mesmo O sujeito e o sentido ao se constituírem o fazem na relação entre o mundo e a língua expostos ao acaso e ao jogo mas também à memória e à regra Vimos como face à imprevisibilidade da relação do sujeito com o sentido toda formação social tem meios de gerir esta relação através de um trabalho social da leitura quem tem e quem não tem direito à interpretação que textos são interpretáveis e quais não são etc Vale lembrar um outro fato relativo à interpretação qual seja o de que a relação com a interpretação é também uma relação com o que não tem sentido e o sujeito tem necessidade de domesticar o semsentido Daí chegarmos à questão da autoria e suas formas A interpretação em certo momento da história é vista como a falta que habita o homem sendo que o poder que o determina é na Idade Média Deus e na Modernidade o Estado sendo a língua o lugar de seu discernimento lugar de direitos e deveres A obscuridade o asaber na Idade Média uma questão divina na Modernidade passa a ser uma questão da língua e mais contemporaneamente a partir do século XIX se algo existe de obscuro asaber é no sujeito que esta obscuridade se aloja 141 Há nas diferentes formas da sociedade diferentes maneiras de se constituir a autoria A forma própria de nossa formação social é a que vê no autor o responsável pelo texto garantindo sua coerência nãocontradição uni dade progressão e fecho Ou seja a obscuridade o asa ber deslocase de Deus para a língua e desta para o homem sujeito A leitura em seu movimento histórico reflete esses deslocamentos Quando pensamos o autor de um texto científico certamente estas exigências ganham especificidade e insti tuem formas de leitura Gostaríamos de lembrar que há dois acontecimentos de linguagem fundamentais contemporaneamente a o fato da mídia que impõe sua forma de gerenciamento dos gestos de interpretação pelo modo como circula pelo seu ritmo sua natureza etc e b a informatização que pratica uma certa forma de linguagem Esses acontecimentos pro duzem efeitos sobre a autoria Expressamos isto dizendo que a noção de autor está em franco processo de transfor mação O que fica afetado é a relação com a exterioridade memória metálica os modos de presença da exteriorida de a repetição quer pelo modo como funciona a censura quer pelo modo como se administra a relação com a originalidade determinação e autonomia se misturam in distintamente no sujeito Se esses movimentos produzem efeitos sobre a autoria certamente também se refletem sobre o leitor seu estatuto seus modos de leitura Como nosso foco de interesse nessa exposição é o discurso científico fica como pergunta o como essa transformação na autoria afeta o discurso cien tífico Reconhecendose que os fatos são sujeitos à interpre tação e que a língua na medida em que é constituída pela falha pelo deslize pela ambigüidade faz lugar para a 142 interpretação podese perceber que não há como regula mentar o uso dos sentidos embora não se deixe nunca de tentálo Assim talvez fosse melhor acatar essa impossibili dade e ao mesmo tempo reconhecer a necessidade desse controle vendo no processo das diferentes leituras uma reorganização do trabalho intelectual e a propensão a novas divisões no trabalho social da leitura O que não descaracteriza a especificidade do discurso científico mas repõe o conhecimento produzido como parte de um pro cesso Inacabado Ou como dizemos em linguagem in completo E por isso mesmo possível Porque é isso mesmo que nos ensina o discurso o lugar da falha da incompletude é também o lugar do possível da transforma ção 143 CONCLUSÃO Por uma nova noção de ideologia O percurso que fizemos levanos a compreender melhor a definição de discurso efeito de sentido entre locutores Outras questões que aí foram tocadas não são menos importantes e ficam à espera de um desenvolvimento mais amplo embora já possamos avançar certas perspectivas É o caso da relação da linguagem com a informatiza ção Como vimos isso produz um deslocamento importan te na noção de autoria Porque há necessariamente uma resignificação da memória que pela informatização é tornada visível ou armazenável se assim podemos dizer ou em outras palavras representada Nesse processo de representação o que se perde dela O que muda em sua natureza Há várias instâncias em que ecoa o fato da informatiza ção Exploramos no curso de nossa reflexão algumas delas Gostaríamos de referir ainda a alguns aspectos desse fato Na medida em que pela informatização a escrita se apresenta sem exterioridade histórica a autoria se desloca de um sujeito histórico para um sujeito técnico Ao mesmo tempo como movimento conjuntural a prática dessa escrita passa a ser a mais valorizada mesmo 144 quando se trata da escrita não informatizada ela reflete já essa relação com a informatização e outros domínios refletem isso Em nosso caso gostaríamos de referir ao domínio da ciência Nessa conjuntura em detrimento de outras defini ções se define a língua como sistema formal privilegian dose então o percurso psíquico da mesma a relação linguagempensamento é representada pela mente limi tandose o psíquico ao cérebro à cognição de onde se exclui o inconsciente e a ideologia Ao colocarmos no plano da exclusão a ideologia junto com o inconsciente o fazemos para afirmar um princípio teórico fundamental na análise de discurso e que tem sido mal formulado a relação necessária da ideologia com o inconsciente Temos já um modo de definir essa relação a ideologia é solidária da noção de inconsciente Se mais não fosse pela natureza do sujeito do discurso que é um sujeito afetado pelo inconsciente Quando dizemos que inconsciente e ideologia são noções solidárias estamos afirmando essa relação neces sária sem no entanto reduzir a ideologia ao inconsciente Isso implica em compreender a língua como sistema mas não como sistema abstrato a língua como ordem signifi cante que se inscreve na história para fazer sentido E implica também em considerar o sujeito discursivo enquan to sujeito histórico Ou seja sujeito e sentido são constituí dos pela ordem significante na história E o mecanismo de sua constituição é ideológico Pela noção de interpretação tal como a desenvolve mos neste trabalho ficam mais visíveis essas relações entre sujeito sentido língua história inconsciente e ideologia Chegamos então a uma noção de ideologia definida pelo processo históricodiscursivo portanto enquanto lin 145 guagem Essa forma de definila torna mais acessíveis os seus modos de existência Além disso para os que trabalham a linguagem a noção de ideologia assim concebida explica melhor a questão do equívoco Estamos aqui falando do equívoco não ao nível do formulado nível que coloca um problema na relação das palavras com as coisas mas o equívoco enquanto constitu tivo da relação do sujeito com o simbólico qual seja sua relação com a ideologia e com o inconsciente Equívoco que faz com que quem fala acredite separar aquilo que é sujeito à interpretação daquilo que não o é quando na realidade há sempre interpretação Dito de outra maneira há sempre interpretação e faz parte da ilusão imaginária do sujeito acreditar ser a origem do sentido projetandose sobre a literalidade e imaginando que só alguns sentidos são sujeitos à interpretação Os outros seriam evidentes naturais à própria língua literais Pela noção de interpretação que aqui desenvolvemos a ideologia aparece com mais precisão em seu lugar na relação com a língua e com o sujeito na produção dos sentidos A relação entre si do marxismo com a psicanálise e com a lingüística marcam a análise de discurso de forma particular e sobretudo dão um tom particular à noção de ideologia demarcando a semântica discursiva da filoso fia marxista da linguagem A interpretação por seu lado se mostra discursivamen te como necessidade da relação da língua com a história ideologicamente constituída O discursivo pode ser definido como um processo social cuja especificidade está no tipo de materialidade de sua base a materialidade lingüística já que a língua consti tui o lugar material em que se realizam os efeitos de sentido Daí decorre que a forma da interpretação leiase 146 da relação dos sujeitos com os sentidos é historicamente modalizada pela formação social em que se dá e ideologi camente constituída Em outras palavras o sujeito é sujeito à interpretação e sujeito da interpretação Concluindo não há sentido sem interpretação e a interpretação é um excelente observatório para se trabalhar a relação historicamente determinada do sujeito com os sentidos em um processo em que intervém o imaginário e que se desenvolve em determinadas situações sociais É assim que entendemos a ideologia nesse percurso que fizemos para entender também o que é interpretação 147 POSFACIO lnferprrtação r ideologia A noção de interpretação está presente em pelo menos três modos de operar com a linguagem na análise de con teúdo na hermenêutica e na análise de discurso Que tra tam diretamente com ela De início já podemos fazer uma diferença entre as três a análise de conteúdo considera a linguagem transparente e bus ca atrás de suas formas um conteúdo a ser extraído É a forma tradicional de interpretar textos e está muito presente nas ciên cias humanas e sociais tendo muitas utilidades para trabalhar com entrevistas para ler documentos etc Em geral parte de pressupostos teóricos de suas disciplinas específicas e encon tra nos textos comprovação do que diz através da análise do seu conteúdo O texto serve de ilustração de apoio argumenta tivo etc Com esse procedimento separa forma e conteúdo Atravessase a forma em busca de um conteúdo A análise de conteúdo se caracteriza assim apenas como um instrumento prático que não considera a ordem da linguagem em si Já a hermenêutica de base filosófica busca um sentido verdadeiro Constrói através de elaborados instrumentos teóricos chaves para chegar até ele E seu modo de fazêlo coloca a interpreta ção no confronto com várias possibilidades de teorização A questão semântica faz efeito na hermenêutica e ela não trata a interpretação apenas como um instrumento prático nem a usa com um objetivo apenas imediato Ela produz teoria em sua relação com a interpretação Mas o faz em uma filiação em que se apresentam a filosofia muito pouco a lingüística e mais a retórica Ou seja se pensamos na tradição gramáticaretórica dialética a questão do sentido posta pela hermenêutica fica circunscrito na relação retóricadialética A língua em si não é uma sua preocupação primordial 148 Chegamos enfim na análise de discurso A questão da inter pretação para a análise de discurso é uma questão fulcral É uma questão da língua e do sentido Se na maior parte das vezes se fala pouco em interpretação e mais em sentido e em leitura no entanto é a questão da interpretação que está sendo questionada E é esta minha posição que procuro explorar nes te livro a de que análise de discurso teoriza a interpretação no sentido forte ou seja ela interroga a interpretação Considera além disso fundamental pensar a relação da língua e da ideolo gia pois para a análise de discurso a língua enquanto sistema sujeito a falhas se inscreve na história para significar E são os efeitos dessa inscrição que encontramos na discursividade Daí ser o discurso o lugar próprio para compreendermos como os sentidos se produzem Como aí joga a interpretação Retomemos a distinção que estabeleço em meu livro Discur so e Leitura 1988 entre inteligibilidade interpretação e com preensão Como proponho a inteligibilidade é um fato da lín gua Desde que saibamos uma língua o que é dito segundo sua ordem é inteligível Um exemplo pode ser Ele disse isso que desde que sejamos falantes de português nos é inteligível Já não se pode dizer que seja interpretável não sabemos o que é isso e quem é ele Para que seja interpretável é preciso que se domi nem as circunstâncias de enunciação aí incluído o cotexto Por exempo Maria conversa com Paulo que lhe diz que vai ao cine ma Conversando com Luiza Maria diz Paulo vai ao cinema Luiza lhe pergunta como você sabe Ao que retruca Maria ele disse isso Sabemos então que ele é Paulo e isso é ir ao cine ma A Ínterpretação então está posta Indo mais além a com preensão exige um apelo à teoria e à análise E é a compreensão o objetivo do analista de discurso Ele não fica na interpretação ele procura compreendêla ou seja ele procura compreender como um objeto simbólico significa como ele é sujeito e produz gestos de interpretação Em suma ele procura por uma aproxi mação analítica em que faz efeito a descrição saber como a interpretação está lá como ela funciona uma vez que o sentido é relação a Canguilhen A compreensão de um enunciado como este Ele disse isso pode ir muito longe por exemplo fa zendo intervir as condições de produção sujeito situação imedi ata contexto sóciohistórico a memória discursiva e levando em conta a ideologia podese concluir que o que Maria está 149 dizendo pode ser uma fofoca uma forma de afastar Luiza de Paulo te dependendo entre outras coisas da posiçãosujeito de Mana Com efeito o sujeito analista de discurso não fica ao sabr da interpretação ali posta para que ele nela embarque ele interroga o modo como ela se apresenta evidenciando sentdos E como sa9emos a evidência em liguagem é cons truça da 1deolo1a E a ideologia que passa por evidente aquilo qe e ob1eto de interpretação ou seja só é assim para aquele su1e1to naquela situação com aquela memória tomado pelos efeitos do imaginário que o convoca Por isso é que se concede ms que a análie de discurso é uma disciplina interpretativa ela o e em um sentido muito particular Dito isso o que procuramos fazer neste livro é justamen te mostrar o que a análise de discurso propõe desde seus princíis a linguagem ão é transparente a língua não é um od1ª0 nem apenas111strumento de informação de co mun1caçao Na lingua nao se separam forma e conteúdo E sobretudo procuramos mostrar como a interpretação inte gra a análise de discurso na medida em que é parte da rela ção línguaideologia Tratamos pois da interpretação como parte de nossa refle xão obre a articulaç língua sujeito e história Nessa direção consideramos necessano trabalhar o que tenho designado como a forna material lingüísticohistórica em sua espessura se mant1ca E trablhar est espessura não significa pensar que há ocultçao pela 1deolog1a Ao contrário o efeito produzido pela me1ra como as fr21as materiais funcionam na relação do su1e1to com as cond1çoes de produção e a memória atravessa d ela ideologia é a forma da evidência Ou seja parece ao su1e1to no efeito da interpretação que o sentido para ele só pode ser aquele No entanto o analista que tem como objeti vo compreender o dizer construir uma escuta para relacionar se com os discursos sabe que o sentido pode ser outro ou é d I como e por certas eterminações históricas que é preciso co nhecer Daí sua tarefa ser a de a partir da teoria pelo método e pela construção de procedimentos analíticos fazer mediar sua relação com a interpretação pela descrição Para poder des crever no moimento da interpretação é que é preciso pensar a forma material e seu modo de funcionamento 150 A interpretação tem um estatuto duplo que se articula do ponto de vista do intérprete comum e do analista Do ponto de vista do locutor comum é a interpretação que se coloca em primeira instância sendo ela um passo anterior à compreensão que é o objetivo do analista Desse ponto de vista qualquer sujeito desde que esteja diante de um objeto simbólico inter preta A compreensão que se dá no batimento da relação decriçãointerpretação inclui a reflexão do analista sobre a forma material em que são indissociáveis formaconteúdo e daí resulta uma relação regulada atravessada pela teoria mas não estática nem fechada com a interpretação O intérprete comum nós em nossa prática discursiva estaciona na inter pretação não atingindo o movimento da compreensão Por seu lado o analista uma vez realizado seu movimento analítico descriçãointerpretação compreende e aí sim interpreta o re sultado de sua análise à luz da teoria e do método que pratica Como temos dito isto não o coloca na neutralidade 11 de um sentido puro ou verdadeiro 11 Só o leva a deslocarse com sua escuta apreendendo gestos de interpretação possíveis Finalmente a noção de interpretação tal como a tenho tra balhado temme permitido explorar outros modos de pensar a ideologia Por que outros Porque a noção de ideologia sofreu um enorme desgaste em sua área de origem a das ciências humanas e sociais Muitas vezes banalizouse esvaziandose e identificouse com uma geral e inespecífica visão de mundo endureceuse no sentido de ser ocultação da realidade e foi substitLúda mais recentemente pelo termo de cultura Ora na perspectiva em que trabalhamos a ideologia em sua relação com a linguagem a materialidade específica da ideologia é o discurso e a materialidade específica do discurso é a língua há uma observação de características da ideologia que não só não se banalizaram nem se endureceram em um sentido inócuo cientificamente mas que sobretudo podem nos fazer refletir de maneira profícua sobre a relação linguagempensamentomun do assim como sobre a relação sujeitosentido Sobre essas re lações temos alguns capítulos deste livro que abordam estas questões Gostaria ainda de chamar a atenção para o fato de que não há relação direta entre a palavra e a coisa Há sempre o espaço da interpretação e a ideologia funciona napela in terpretação O mecanismo da interpretação é pois parte do 151 funcionamento ideológico da linguagem É pela interpretação que relacionamos linguagempensamentomundo O gesto de interpretação tal como o designo e elaboro em minha proposta passa a ter um lugar fundamental tanto para o su jeito falante não só quem ouve mas quem fala interpreta como para o analista que tem no gesto de interpretação o seu objeto o seu ponto de observação que organiza a análi se em termos de compreensão O que me interessa trazer para este posfácio é uma pontua ção sobre a relação da interpretação com a ideologia Eu resu miria meu ponto de vista dizendo que só há ideologia porque há interpretação Se a relação entre pensamentomundo e lin guagem fosse unívoca termoatermo não haveria necessida de de interpretação e tampouco haveria o jogo da ideologia em que os sujeitos se constituem em suas diferentes posições e em que os efeitos de sentidos são diferentes em diferentes recortes de memória do saber discursivo A interpretação sin toma de que as palavras não estão coladas às coisas traz para a frente da cena o fato de que o simbólico e o político se articu lam e que isto se dá por um mecanismo que é ideológico Tomemos um exemplo rápido Solicitaramme a escrita de um artigo cujo tema era O futuro dos recursos Imedia tamente num gesto de interpretação que era meu e que vinha informado pela minha relação com a noção de discur so propus uma inversão Os recursos do futuro Nesse breve gesto interpretativo atravessado pela observação da forma material da língua e da história está toda a diferença em se considerarem os aspectos sociais não corno agregados mas como constitutivos da questão Quando se diz O futuro dos recursos supomos que os recursos já estão dados e que nos cabe pensar o seu futuro manter implementar excluir etc Na formulação Os recursos do futuro fica em aberto que recursos são estes podem aparecer novos e o ponto de enunciação a posição sujeito que enuncia é a de um sujeito social e histórico que se pergunta sobre seu futuro antes de tudo Ou seja nessa interpretação o sujeito é um recurso recursos humanos dos mais importantes nesse cálculo Poderia parafrasear essa segunda formulação por Os recursos do nosso futuro Pois bem houve entre as 152 duas formulações O futuro dos recursos e Os recursos do futuro o giro de um gesto de interpretação e isto só é pos sível porque ideologicamente estes dois enunciados são dis tintos Daí significarem de modos diferentes Portanto é im possível pensar a ideologia sem a interpretação e viceversa na perspectiva discursiva Ao mesmo tempo ao ligar a ques tão da ideologia à questão da interpretação estamos deslo cando a maneira automatizada e empobrecida com que se tem pensado a ideologia de um lado e de outro a transpa rência dizer o dito que supomos na noção de interpreta ção Resignificase a ideologia a partir da linguagem pela interpretação E refletese sobre a interpretação como um gesto que intervém na produção do sentido O lugar teórico em que se trabalhava a ideologia não está vazio É a noção que lhe corresponde e o representava que enfraqueceuse Assim ao mudar de terreno pensandoo pela interpretação ao resignificar esse lugar não só não perde mos o que aí está enquanto parte do real atando língua e história como também podemos refletir sobre o modo como a própria ciência enquanto discurso funciona Aparecenos então a importância de nosso objeto de conhecimento o discurso E aí ganha especificidade o que dissemos acima sobre materialidade a materialidade específica do discurso é a língua e o fato de que a língua funciona como funciona resulta de que o discurso é a materialidade específica da ideologia E essas formas materiais são como são porque há o gesto de interpretação que trabalha na contradição que articula língua e ideologia produzindo realidade Realida de que é sustentada em nosso imaginário já que a ideologia é a relação imaginária dos sujeitos com suas condições de existência Relação essa sujeita a interpretação e só significa da pela inscrição da língua sujeita a falhas na história Podemos em suma dizer que a interpretação é a atesta ção çiiscursivamente tangível do funcionamento da ideolo gia E isso que procuramos mostrar aos leitores Eni P Orlandi Campinas Outubro de 2003 153 BIBLIOGRAFIA AUTHIER J 1984 Hétérogénéités Enonciatives Langa ges Paris Larousse BITTO Frei 1981 O que é comunidade eclesial de base São Paulo Brasiliense BOFF L e BOFF C 1986 Como fazer Teologia da Liber tação 2íl ed Petrópolis Vozeslbase BOFF L 1981 Igreja carisma e poder Petrópolis Vozes CANGUILHEN L 1980 Le Cerveau et la Pensée Paris MURS CAPELA CES 1994 Representações de migrantes e imigrantes O caso de Juó Bananére ln Revista da Biblioteca Mário de Andrade 52 São Paulo COURTINE JJ 1982 La Toque de Clementis xerox 1984 La Meilleure des Langues ln Linguistique Fantastique Paris Denoel S Auroux org 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Société dHistoir et Epistemologie des Scien ces du Langage tradução brasileira Gestos de Leitura E Orlandi org Campinas Ed Unicamp 1994 1982b Problemes danalyse du discours lordinaire du sens Inédito cedido por A Pêcheux sobre um coló quio previsto para o fim de 1983 em Paris 1983 Discours Structure ou Evennement Illinois University Press tradução brasileira Campinas Ed Pontes Discurso Estrutura ou acontecimento 1991 PCH EUX M e GADET F 1981 La Langue lntrouvable Paris Maspero RODRIGUES C 1994 Leitura história interpretação ln Que leitor E Orlandi org SANTO DOMINGO 1992 Texto oficial 21 edição São Paulo Paulinas 156

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