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httpsdoiorg10141951984249X267 1 AS ORIGENS DO PENSAMENTO OCIDENTAL THE ORIGINS OF WESTERN THOUGHT ARTIGO I ARTICLE Reminiscência e metafísica em Platão Recollection and Metaphysics in Plato Franco Trabattoni i httpsorcidorg0000000169193339 francotrabattoniunimiit i Università degli Studi di Milano Milano Italia TRABATTONI F 2019 Reminiscência e metafísica em Platão Archai 26 e02607 Resumo Nos mais recentes debates críticos acerca da filosofia de Platão a doutrina da reminiscência tem suscitado um interesse comparativamente menor em relação aos outros temas tratados na obra do pensador ateniense Grande parte dos estudiosos modernos tende a considerar a reminiscência um método de pesquisa bem como a marginalizar a referência a dois mundos e o trânsito da alma entre eles O que pretendo demonstrar neste artigo é que não só a 2 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 teoria da reminiscência é a condição de possibilidade necessária das nossas operações cognitivas e não um método de pesquisa como também o é apenas e só em virtude da sua valência metafísica Palavraschave Platão reminiscência condição de possibilidade conhecimento Abstract In recent scholarship the doctrine of recollection has been studied to a much lesser extent than the other main themes of Platos philosophy Most of the modern scholars seem to consider the doctrine of recollection as a research method They also seem to marginalize the reference to two worlds and the souls movement between these worlds This article intends to show that the doctrine of recollection not only is the necessary condition of possibility of our cognitive operations not a research method but also it is so only because of its metaphysical dimension Keywords Plato recollection condition of possibility knowledge Nos mais recentes debates críticos acerca da filosofia de Platão a doutrina platônica da reminiscência tem suscitado um interesse comparativamente menor em relação aos outros temas tratados na obra do pensador ateniense A razão de isto acontecer não é difícil de rastrear De fato a doutrina da reminiscência parece estar comprometida com pesados pressupostos metafísicos e até mítico religiosos os quais já não constituem moeda de troca entre os estudiosos atualmente em larga maioria que demonstram interesse nos filósofos antigos apenas na medida em que estes tratam de problemas idênticos ou similares aos discutidos pelos filósofos contemporâneos Como notou N Smith1 é por este motivo que a doutrina das Ideias já não é mais estudada enquanto teoria metafísica mas sim enquanto teoria epistemológica Por conseguinte resulta também reduzida a dimensão metafísica da reminiscência que está diretamente ligada à doutrina das Ideias seja considerando a reminiscência como um método de pesquisa o representante mais 1 Smith 2000 p 163 REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 3 autorizado desta tendência é Dominic Scott seja marginalizando de várias formas a referência a dois mundos e a passagem da alma de um para o outro2 O que hoje aqui pretendo demonstrar é que estas operações são impossíveis pelo menos na medida em que têm por objetivo a correta interpretação do pensamento platônico Na verdade para Platão não só a teoria da reminiscência é a condição de possibilidade necessária das nossas operações cognitivas como também o é apenas e só em virtude da sua valência metafísica Tentarei demonstrar esta tese sobretudo a partir do Fédon Uma vez esgotado o primeiro argumento pela imortalidade da alma o chamado argumento da antapodosis Cebes tenta corroborar as posições defendidas por Sócrates Para tal ele convoca uma doutrina frequentemente exposta por Sócrates a chamada doutrina da reminiscência anamnesis Segundo esta doutrina conhecer é uma espécie de rememoração por isso de acordo com Cebes isso implica que a alma tenha aprendido alguma coisa antes do nascimento e além disso que ela de algum modo existia antes de ter entrado no corpo 72e73a Então em reposta à questão de Símias sobre quais seriam as evidências para suportar tal tese Cebes tinha dito se for verdade Cebes oferece uma das poucas autocitações de que dispomos ao longo dos diálogos ele relembra o exemplo do Ménon onde um escravo sem nunca ter estudado geometria resolve um problema de geometria apenas respondendo às perguntas que Sócrates lhe faz 73ab No entanto Sócrates que tem sempre o cuidado de persuadir os seus interlocutores do melhor modo possível desta vez oferece uma demonstração teórica em vez de uma prática como tinha acontecido no caso do escravo Isto marca o início de uma das seções mais tortuosas e amplamente discutidas em toda a obra de Platão Na minha opinião uma grande parte dos problemas detectados no texto depende do pressuposto errôneo de que a teoria da reminiscência é uma espécie de doutrina epistemológica ou um método ou caminho através do qual se torna possível atingir o conhecimento particularmente das 2 Um exemplo é Gonzalez 2007 que vê na anamnese uma expressão do eros 4 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 Ideias3 Esta abordagem tem inspirado a hipótese agora amplamente debatida de que a reminiscência é uma faculdade que Platão atribui não a todos os homens mas apenas aos filósofos4 os únicos capazes de atingir algum conhecimento da realidade ideal Um corolário possível desta tese é que Platão acabou por abandonar a reminiscência como método cognitivo em favor da dialética do mesmo modo que mudou o papel do filósofo metafísico e especulativo para o de um analítico e especulativo Uma primeira razão pela qual esta interpretação não pode estar correta pode ser encontrada na comparação desta passagem com aquelas um pouco anteriores 66e67a em que Sócrates declara peremptoriamente o seguinte se algum conhecimento do mundo 3 Vide esp Franklin 2005 p 289 que começa o texto com a peremptória e injustificada afirmação de que a reminiscência é uma teoria da aprendizagem Vide Dimas 2003 para uma crítica apurada A interpretação de Dimas sobre a doutrina da reminiscência do Fédon é a que mais se aproxima da que proponho neste texto 4 Scott 1995 que já tinha apresentado esta tese a qual diz respeito particularmente à interpretação da reminiscência no Ménon em vários estudos anteriores uma rápida discussão das duas alternativas já se encontrava em Gallop 1975 p 119 121 Um panorama recente do estado da questão é providenciado por Franklin 2005 p 289291 Franklin chama interpretação comum defendida por Hackforth 1972 Gosling 1965 Ackrill 1974 e Bostock 1986 entre outros e interpretação sofisticada aquela subscrita por Scott No seguimento da publicação dos estudos de Scott a interpretação comum foi defendida com diversas nuanças por Kelsey 2000 Osey 2001 e Dimas 2003 uma posição intermédia foi privilegiada por BeduAddo 1991 e Williams 2002 A este respeito Franklin 2005 tende a aceitar a interpretação comum ao mesmo tempo que faz várias concessões à interpretação rival na sua leitura há um aspeto da reminiscência que é acessível apenas aos filósofos a mesma leitura é partilhada por Williams 2002 Notese todavia que a posição dos oponentes de Scott fica consideravelmente enfraquecida pelo fato de eles partilharem do seu pressuposto nomeadamente a ideia de que a reminiscência é um método de cognição um método que argumentam estes estudiosos explica a formação de conceitos abstratos ou universais vide eg Williams 2002 p 131 Se fosse este o caso posto que o método em questão reconduz em última instância às Ideias teríamos então que ou negar que a reminiscência diz respeito a todos os homens ou fazer uma distinção entre reminiscência generalis e reminiscência specialis Mas logo que percebermos que a reminiscência não é nem um método de investigação nem um modo de explicar como os conceitos são formados como eu tentarei demonstrar neste texto nenhum destes problemas se coloca REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 5 ideal é de fato possível ele só pode ser obtido após a morte Ora tendo em conta que a teoria da reminiscência se circunscreve ao fato de a alma necessariamente possuir conhecimento na sua forma não encarnada ie antes da sua união com um corpo é altamente improvável que o objetivo desta teoria seja preencher a lacuna entre o conhecimento imperfeito que distingue o compósito corpoalma e o conhecimento perfeito que caracteriza a alma nãoencarnada Esta ideia inicial se torna praticamente uma certeza se examinarmos como e para que finalidade a teoria da reminiscência é introduzida no Fédon Não devemos esquecer que a razão pela qual ela é introduzida é para demonstrar que a alma é imortal ou pelo menos que ela deve necessariamente existir antes da sua encarnação De modo a demonstrálo é necessário provar que a alma necessariamente teve conhecimento de determinados objetos antes do nascimento Seguramente que isto não exclui a possibilidade de que a alma possa conhecer tais objetos mesmo depois da encarnação Poderíamos conjecturar o cenário o homem na sua condição mortal pode conhecer tanto os particulares ie coisas sensíveis iguais quanto os universais ie a igualdade em si No entanto visto que o conhecimento destes não pode ser derivado do conhecimento daqueles pois nada que possua uma natureza universal se oferece aos sentidos devemos concluir que a alma conhecia as Ideias antes da sua encarnação e que depois de encarnada colheu o conhecimento dos universais através do método da reminiscência No entanto é fácil de ver que este argumento não funciona Porque se fosse verdade que os homens têm um conhecimento pleno das Ideias mesmo na sua condição mortal o problema levantado pelo Fédon poderia ser explicado de um modo alternativo invocando simplesmente o fato de que o homem dispõe de duas faculdades diferentes para conhecer os sentidos e o intelecto as quais dizem respeito a dois tipos de objetos diferentes sensíveis particulares e inteligíveis universais E se fosse este o caso de modo a obter conhecimento dos universais o homem teria apenas que exercitar o pensamento puro em vez dos sentidos sem ter de pressupor que os 6 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 inteligíveis existem em uma dimensão separada5 Mas este não é claramente o caso O problema desaparece todavia se tomarmos em conta que a reminiscência não é um método para obter conhecimento das Ideias Mas onde então reside a sua significância Uma leitura mais apurada torna manifesto que ambos Ménon e Fédon convocam a reminiscência pela mesma razão nomeadamente para encontrar uma justificativa suficiente no sentido kantiano tomado lato sensu de condição de possibilidade para os fenômenos reais tais como a aprendizagem e o estado de conhecimento que desta deriva6 No Ménon tratase de ultrapassar o paradoxo erístico segundo o qual não podemos aprender nem o que já sabemos pois isto seria inconsequente nem o que não sabemos pois isto seria impossível7 No entanto visto que aprender é um fato real é necessário postular um ponto intermédio entre conhecimento e ignorância E é precisamente este o estado ilustrado pela reminiscência a qual explica a aprendizagem não como uma transição da ignorância para o conhecimento mas sim como uma transição de conhecimento virtual ie esquecido para conhecimento atual 5 Dimas 2003 p 193 nota oportunamente se independentemente da doutrina da reminiscência Platão acreditasse que as Ideias existem e que podem ser conhecidas pelas almas humana que vantagem filosófica derivaria de evidenciar o fato de que a percepção recupera um conhecimento que a alma possuía antes do nascimento 6 A diferença entre os dois diálogos é por outro lado evidenciada por Lafrance 2007 É claro que existem algumas diferenças mas elas não são tão significantes quanto os estudiosos muitas vezes sugerem em todo o caso elas não são suficientemente fortes para sugerir que Platão não acreditava nesta doutrina como argumenta Weiss 2000 Do mesmo modo as tentativas no sentido de reduzir a doutrina da reminiscência a uma dimensão estritamente epistemológica não podem estar totalmente corretas mesmo que contenham algumas sugestões interessantes vide eg Nakagawa 2000 7 Ménon 80de Contra a objeção de que a reminiscência não resolveria o problema da aprendizagem o qual reapareceria nos mesmos termos em relação ao estado pré natal da alma eg Bostock 1986 p 109 vide Gallop 1975 p 133 e Trabattoni 2006 p 704707 o conhecimento adquirido neste estado deve ser de natureza imediata e direta REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 7 Apesar de o Ménon incluir uma alusão à sobrevivência da alma depois da morte 81ac não faz nenhuma menção às Ideias Em contraste no Fédon as Ideias são o elemento central de todo o argumento a condição de possibilidade para aprender e adquirir conhecimento é precisamente a existência de Ideias no hyperuranion e por conseguinte a existência de uma alma que teve a capacidade de as conhecer nessa dimensão anterior à sua encarnação em um corpo Esta é na verdade a razão pela qual Platão introduz a doutrina da reminiscência no Fédon não para descrever um determinado método de investigação mas sim para demonstrar a natureza necessariamente metafísica da alma Se for este o caso poderemos compreender facilmente por que é impossível Platão ter substituído a reminiscência pela dialética são duas coisas completamente diferentes Enquanto que a reminiscência é a condição de possibilidade metafísica para o conhecimento a qual não corresponde a nenhum método concreto 8 é enunciada no Fédon apenas para demonstrar que a alma existe antes do corpo a dialética é precisamente o método de cognição que o homem deve utilizar na sua condição presente Por esta altura se torna evidente que a doutrina da reminiscência só poderá ser adequadamente entendida se tivermos em conta o dualismo metafísico em que assenta o qual por sua vez está ligado à imortalidade da alma 9 Poderemos adiantar que os complexos 8 Na minha leitura também o tratamento da reminiscência adiantado no Ménon é deste tipo o experimento com o escravo é apenas destinado a demonstrar que todos os homens se se aplica a um jovem escravo ignorante mais ainda aos outros conseguem levar a cabo certos atos de conhecimento que não conseguiriam se as suas almas não possuíssem algum conhecimento que fora adquirido antes da encarnação no corpo Em ambos os diálogos portanto o raciocínio é sempre o mesmo Platão parte de operações que todos os homens conseguem fazer em um caso resolver um problema geométrico no outro perceber a diferença entre o que é o mesmo aproximadamente e a forma perfeita do Mesmo e depois identifica condições de possibilidade suficientes para tais operações ie o conhecimento pré natal da alma Entre estas condições as Ideias são referidas apenas no Fédon porque é apenas neste caso que a condição de partida o conhecimento implícito da forma perfeita do Mesmo o exige 9 Este requisito é corretamente evidenciado por Kelsey 2000 p 9193 8 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 problemas identificados pelos estudiosos de tendência analítica se devem ao erro de eles não terem em conta este background Quem sustenta por exemplo que a doutrina da reminiscência pressupõe a existência de Ideias como uma dada condição prévia 10 está claramente misturando Ideias platônicas com universais genéricos11 enquanto que a separação da realidade sensível é uma característica distintiva das Ideias como Aristóteles claramente notou Dada esta separação o objetivo da reminiscência não é rememorar o conhecimento esquecido das Ideias mas sim provar que os universais que reconhecemos na experiência sensível são cópias dos modelos perfeitos que existem no hyperuranion ie que são Ideias platônicas A doutrina da reminiscência tal como exposta no Fédon permite traçar o seguinte cenário 1 todos os homens no momento em que nascem têm um conhecimento prévio mas agora esquecido dos universais 2 assim sendo Sócrates pode recorrer a argumentos complexos acessíveis apenas aos filósofos de modo a demonstrar que no hyperuranion existem objetos a saber as Ideias ie os modelos perfeitos dos universais imperfeitos que encontramos na realidade mundana e por conseguinte que a alma já existia antes de ser encarnada em um corpo 3 se por ora deixarmos de lado a exposição do Fédon que se dirige à imortalidade da alma e 10 Vide Scott 1995 mas é uma tese bastante disseminada vide eg Burnet 1911 passim Hackforth 1972 p 73 Decleva Caizzi 1986 p 33 e Kelsey 2000 p 99 101 A perspectiva oposta é sustentada entre outros por Woolf 2000 p 123125 e Dimas 2003 p 184185 194 n 25 Vide também Trabattoni 2006 p 706 n 16 dada a existência das Ideias a reminiscência seria o método que possibilita recuperar um conhecimento objetivo delas De fato na minha leitura a interpretação correta da doutrina da reminiscência sugere exatamente o contrário o propósito da reminiscência não é habilitar o conhecimento das Ideias uma vez estabelecida a sua existência mas sim assegurar a existência das Ideias no hyperuranion mesmo que não seja possível atingir nenhum conhecimento objetivo delas o que resulta óbvio dado que tal doutrina serve para demonstrar que as Ideias estão no hyperuranion 11 Isto resolve um dos problemas que inspirou a interpretação sofisticada nomeadamente a hipótese de que a reminiscência se aplica apenas àqueles que já conhecem as Ideias o que seguramente inclui aqueles que ainda não são filósofos vide Franklin 2005 p 290 REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 9 seguirmos uma via hipotética na direção do conhecimento das Ideias poderemos retirar duas conclusões 3a as Ideias nunca poderão ser conhecidas de um modo total e completo as versões originais dos objetos terrenos existem apenas no hyperuranion 3b o conhecimento aproximado das Ideias é atingível por aqueles que exercitam a dialética como questionamento da alma No meu entendimento a justeza desta interpretação é claramente confirmada pela sua capacidade de resolver muitos dos problemas que os estudiosos contemporâneos vêm há muito debater sem nunca terem chegado a uma solução aceitável Como vimos muito se tem dito tanto a favor quanto contra a tese de Scott de que a reminiscência está disponível apenas para os filósofos Uma objeção contra esta tese foi lançada primeiro pelo próprio Scott que procurava respondê la12 e depois por muitos dos seus críticos13 se a reminiscência estivesse disponível apenas para os filósofos apenas a alma do filósofo existiria antes do corpo Esta inferência claramente pressupõe que o inverso também é verdadeiro de modo a provar que a alma do indivíduo X existe antes do corpo é necessário demonstrar que o indivíduo em questão é capaz de praticar a reminiscência em teoria pelo menos E se quisermos demonstrar que as almas de todos os homens existiam antes dos seus corpos teremos que demonstrar que em princípio todos os homens podem praticar a reminiscência14 Mas será de fato plausível concluir que segundo Platão todos os homens possuem esta capacidade Claramente não Então se a préexistência da alma se deve aplicar a todos não poderá de modo algum estar condicionada pela possibilidade de recuperar ou de conhecer Ideias no presente Na verdade a reminiscência opera de modo diferente ela prova que a alma existe antes do corpo na medida em que mostra que todos os homens são capazes de executar determinadas operações de aquisição de conhecimento operações 12 Scott 1995 p 6971 13 Vide eg Franklin 2005 p 290 e já anteriormente Bostock 1986 p 67 14 Vide Sedley 2007 p 69 10 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 diferentes da aquisição do conhecimento das Ideias 15 as quais todavia não poderiam executar se os objetos como as Ideias não existissem e se as suas almas não as tivessem conhecido antes da sua encarnação em um corpo 16 Pelo menos neste caso portanto a diferença entre filósofos e nãofilósofos não tem que ver com o grau de conhecimento que têm do mundo Em vez disso diz respeito à capacidade ou à falta dela respectivamente de interpretar corretamente este conhecimento apenas os filósofos se apercebem do fato de que aprender é rememorar17 bem como tudo o que se segue daqui Por isso apenas os filósofos percebem que a alma de todos os homens contemplaram as Ideias antes da encarnação e que por conseguinte existiam antes do corpo18 Tudo isto é confirmado pelo fato de que no seu argumento Sócrates nunca explica como o suposto método de reminiscência deve ser aplicado o que seria bastante estranho se a reminiscência fosse de fato um método 19 O argumento é deveras longo e 15 Uma excelente definição é fornecida por Dimas 2003 p 186 o qual refere simplesmente pensamento conceitual 16 Isto foi corretamente notado por Kelsey 2000 p 9495 114115 17 76a67 18 A observação de que a doutrina da reminiscência é algo demasiado complexo para as pessoas comuns e que por isso diz respeito apenas aos filósofos como defende Scott resulta assim facilmente refutada Ainda que tal doutrina seja deveras complexa isso não coloca nenhum obstáculo visto que o seu objetivo não é demonstrar às pessoas como atingir conhecimento Uma boa metáfora para o raciocínio de Scott seria a seguinte já que só os médicos conseguem compreender as causas da digestão em toda a sua complexidade só os médicos digerem comida 19 Vide Frede 2001 p 255 cf Frede 1998 parece que Platão nunca chega a explicar nem a aplicar com clareza o método da reminiscência sendo o caso particular do Ménon a única exceção No entanto a interpretação de Frede fornece uma ilustração exemplar de como é possível retirar conclusões errôneas deste fato Frede que considera tal situação insatisfatória esforçase por identificar no Fédon um possível modo em que o suposto método de reminiscência poderia funcionar que é o seguinte termos a capacidade de retirar inferências em relação a conexões nãoempíricas e por isso não óbvias a partir de dados empíricos p 258 No entanto esta interpretação distorce por completo as intenções de Platão Se Platão nunca explica no Fédon como funciona a reminiscência não temos o direito de ficar insatisfeitos Em vez disso temos o dever de descobrir por que ele não explica isso E a razão é precisamente o fato de a reminiscência não ser um método de pesquisa mas apenas um modo de demonstrar que as Ideias existem no REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 11 complicado mas o núcleo da prova está contido na sua quase totalidade numa passagem bastante curta a qual merece ser analisada 74d75a Imaginemos que eu estou vendo duas coisas que me parecem as mesmas As minhas faculdades cognitivas claramente me permitem executar as duas seguintes operações 1 ver que estas coisas são aproximadamente as mesmas 2 perceber que elas não são incondicionalmente as mesmas Podemos então perguntar o que me faz perceber que uma determinada coisa é a aproximadamente a mesma mas não incondicionalmente a mesma De modo a consegui lo parece que isso se deve a pelo menos um certo conhecimento do que é incondicionalmente igual porque de outro modo eu não conseguiria perceber que algo é aproximadamente igual mas não incondicionalmente igual Mas visto que neste mundo não há exemplos de coisas incondicionalmente as mesmas ou incondicionalmente belas é necessário que eu tenha adquirido este conhecimento em outra dimensão anterior à minha vida presente20 E visto que aquilo que é o mesmo de modo perfeito é claramente a Ideia de Mesmo a totalidade do argumento se resume ao seguinte 1 há alguns atos reais de cognição disponíveis para todos que implicam um conhecimento prévio das Ideias 2 tal conhecimento das Ideias não pode ter sido adquirido nesta vida 3 por isso é necessário que tenha havido uma vida da alma o sujeito responsável pelos atos em causa anterior à vida presente 4 por conseguinte a alma já existia antes da sua encarnação em um corpo21 hyperuranion o que por sua vez serve para demonstrar que a alma é imortal é apenas isto que o texto atesta que basta para Platão e que deve bastar também para nós Além disso continua sendo válido que a reminiscência é também o pressuposto metafísico que tal como um fio condutor implícito orienta a dialética no caminho para chegar à verdade vide Trabattoni 2010 p 310313 mas ela é apenas uma condição metafísica que torna possível o conhecimento e não um método de investigação por conseguinte tornase é absolutamente errôneo perguntar como funciona 20 Vide Thein 2001 p 270 21 A estreita conexão entre a doutrina das Ideias e a imortalidade da alma é perfeitamente evidente no Fédon como os estudiosos têm notado Vejase por exemplo Gallop 1975 p 97 que no entanto está errado em defender que esta teoria nunca é demonstrada no diálogo já que Platão dá provas da existência das 12 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 Se a reminiscência fosse mesmo um método de investigação dirigido ao conhecimento das Ideias seria exigido um cenário completamente diferente 1 os homens esquecem as Ideias do mesmo modo em que por exemplo neste momento não lembro da aparência de um determinado amigo 2 o objetivo da reminiscência é justamente recuperar da minha mente a aparência do amigo que esqueci 3 para fazêlo eu emprego os mesmos procedimentos mnemotécnicos que uso quando estou tentando recuperar a imagem do amigo que tinha perdido associação autoconcentração ajuda de uma pessoa que teve a mesma experiência que eu e está em condições de relembrar etc 4 se estes procedimentos atingirem o seu propósito o resultado é que não só eu consigo lembrar o que tinha esquecido como também eu fico com a impressão de que já sabia no passado aquilo que agora estou relembrando Vejamos o exemplo de Símias e do seu retrato a pessoa que vê o retrato e relembra o próprio Símias estabelece um contato com a experiência realmente vivida bem como se apercebe desta experiência passada como algo que de fato ocorreu na sua vida No entanto é claro que o mesmo não se aplica à reminiscência de que Platão fala a saber o caso de alguém que vê coisas sensíveis como as mesmas e rememora o Mesmo em si Esta experiência não inclui reconhecimento de nenhuma experiência anterior ie do momento em que a alma contemplou o Mesmo em si antes da sua encarnação em um corpo22 Se o contrário fosse verdade a reminiscência de Platão seria parecida à experiência extática que se diz que Pitágoras teve e que lhe permitiu relembrar as suas vidas passadas Na verdade a reminiscência platônica é reminiscência apenas na medida em que é o conhecimento de algo que necessariamente deve ter sido de fato conhecido anteriormente sem implicações subjetivas A reminiscência seria um método de Ideias pelo menos por duas vezes nesta passagem durante a discussão sobre a reminiscência e mais adiante na resposta a Cebes Sobre a natureza metafísica e transcendental das Ideias vide Gerson 1999 Kelsey 2000 e Dimas 2003 esp p 214 22 Como bem notou Bostock 1986 p 62 a ideia de que não relembramos verdadeiramente aquilo que sabíamos anteriormente não está de fato em jogo neste argumento REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 13 investigação especial apenas se tais implicações subjetivas estivessem em causa Visto que não estão o método de reminiscência acaba sendo nada mais que o método socrático normal o qual consiste em perguntas e respostas ou seja a dialética Este é de fato o caso do experimento com o jovem escravo no Ménon Sócrates apenas formula perguntas que lhe são familiares sem nunca tentar estimular a memória do jovem escravo com procedimentos mnemotécnicos especiais Mas são precisamente estes procedimentos especiais que constituem a característica distintiva da reminiscência como método 23 No entanto visto que estes procedimentos não existem se a reminiscência é um método de investigação este método é a dialética Assim reminiscência e dialética acabam sendo a mesma coisa Se pelo contrário reminiscência e dialética são duas coisas diferentes então a reminiscência não pode ser um método de investigação24 Bibliografia ACKRILL J 1973 Anamnesis in the Phaedo Remarks on 73c 75c In LEE E N MOURELATOS A P D RORTY R M eds Exegesis and argument Studies in Greek Philosophy Presented to Gregory Vlastos Assen van Gorcum p 177195 BEDUADDO J 1991 Senseexperience and the argument for recollection in Platos Phaedo Phronesis 36 p 2760 23 Vide Fédon 74c1342 a condição necessária e suficiente para falar sobre reminiscência é esta e apenas esta a visão de uma coisa lembranos de outra A hipótese de que a reminiscência é um método de aprendizagem pode ter sido inspirada precisamente pelos referidos exemplos nos quais a reminiscência parece implicar um ato genuíno de rememoração Mas mesmo que tomássemos estes exemplos de um modo literal o tipo de atividade estimulado pela anamnesis coincidiria não com o exercício da dialética mas sim com as formas comuns de introspeção a que recorremos quando procuramos relembrar experiências esquecidas Cumpre notar que não se encontra em Platão nenhuma sugestão de que tais práticas possam constituir um método para conhecer as Ideias 24 Tradução para o português de Rodolfo Lopes Revisão de Rosane Maia 14 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 BOSTOCK D 1986 Platos Phaedo Oxford Oxford University Press BURNET J 1911 Platos Phaedo Oxford Oxford University Press DECLEVA CAIZZI F 1986 Lettura del Fedone Milano Cusl DIMAS P 2003 Recollecting Forms in the Phaedo Phronesis 48 p 175214 FRANKLIN L 2005 Recollection and Philosophical reflection in Platos Phaedo Phronesis 50 p 289314 FREDE D 2001 Not in the Book How Does Recollection Work In HAVLICEK A KARFÍK F eds Platos Phaedo Proceedings of the Second Symposium Platonicum Pragense Prague Oikoumenh p 241265 GALLOP D 1975 Plato Phaedo Oxford Clarendon Press GERSON L P 1999 The Recollection Argument revisited Apeiron 34 p 115 GONZALEZ F J 2007 How is the Truth of Beings in the soul Interpreting Anamneisis in Plato Elenchos 28 p 275302 GOSLING J 1965 Similarity in the Phaedo 73f sqq Phronesis 10 p 151161 HACKFORTH R 1972 Platos Phaedo 2ed Cambridge Cambridge University Press 1ed 1955 KELSEY S 2000 Recollection in the Phaedo Proceedings of the Boston Area Colloquium in Ancient Philosophy 16 p 91121 LAFRANCE Y 2007 Les puissances cognitives de lâme la réminiscence et les Formes 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Commons Attribution que permite uso irrestrito distribuição e reprodução em qualquer meio desde que o trabalho original seja citado de modo apropriado RESENHA CRÍTICA REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO O artigo intitulado Reminiscência e metafísica em Platão escrito por Franco Trabattoni traz um estudo sobre a filosofia de Platão e a reminiscência presente em sua doutrina além de destacar como está matéria se relaciona com o chamado Fédon Ainda aborda questões sobre as condições de possibilidades para as formações cognitivas dentro de métodos de pesquisas que utilizam da metafísica para sua formação Por isso o artigo visa ainda transmitir ao leitor o entendimento quanto ao tema que se faz de grande complexidade e relevância na sociedade contemporânea e meio acadêmico A presente resenha critica tem como foco central apresentar o pensamento do autor quanto aos preceitos e demais argumentos contidos dentro da aplicação dessa doutrina para a formação de uma compreensão mais abrangente quanto aos métodos de pesquisas e de conhecimentos epistemológicos As argumentações do autor podem ser enfatizadas seguindo os prismas das inovações filosóficas quanto a temática Trabattoni acredita na forma que a reminiscência pode ser crucial para a metafísica dentro da natureza da alma e sua relação com as teorias e desafios contidos nessa área Além disso a resenha também busca analisar a perspectiva do autor sobre as principais implementações dentro do caminho do conhecimento abrangendo questões que permeio o estudo da natureza humana afim de examinar os desafios práticos e teóricos dos conflitos neste âmbito e sua interação com o mundo ao redor A estrutura do artigo de Trabattoni onde o autor argumentar de maneira prática e objetiva sobre a complexidade do tema contribuindo para as percepções dos leitores e para construção da abordagem da obra Assim o artigo do autor deve ser analisado de maneira abrangente uma vez que colabora para o entendimento quanto a utilização da metafísica nos estudos de Platão Longo em sua introdução a obra aborda a apresentação do tema e a problemática que permeia sobre a doutrina e reminiscência do filósofo Contextualizando a funcionalidade e importância da temática para a filosofia platônica A discussão do artigo traz também debates contemporâneos que se relacionam com arbitragem atuais e também sobre a filosofia de Platão Assim inicialmente o artigo começa aplicando demonstrando aspectos gerais sobre as considerações do tendo em vista que a identificação da reminiscência contribui para a percepção de fatores epistemológicos como este contém ditames necessários a serem seguidos não somente pela sociedade mas também através dos meios acadêmicos Ademais o autor também apresenta pensamentos de outros filósofos como Sócrates e Cebes cada um com sua perspectiva sobre a imortalidade da alma e interpretações sobre os pensamentos platônicos Assim a obra traz um entendimento detalhado sobre o conceito e reminiscência em Platão e como o diálogo em torno do Mênon e Fédon é construído ao longo das interpretações contemporâneas e dos métodos de pesquisas utilizados para a recordação sobre o conhecimento e recapitula a importância das questões que abrangem a metafísica na filosofia platônica Deste modo destacase a necessidade de uma abordagem mais complexa quanto a temática dentro da pesquisa filosófica e como está pode ser fundamental para evitar confusões sobre aspectos que são relacionados sobre o ser e sobre a natureza da alma O autor enfatiza um problemático presente nos textos estudados para a fundamentação da obra sendo eles a maneira como a teoria da reminiscência na doutrina epistemológica são usados como um método ineficiente para apontar o conhecimento real neste sentido muito se fala de que a construção de Platão sobre a reminiscência é ficada somente aos filósofos e não aos homens como um todo A obra ainda destaca como uma interpretação contemporânea sobre o estudo de Platão pode ser um fator necessário desmistificar a marginalização de aspectos metafísicos O autor argumenta como o processo de formação do conhecimento não é simples como muitos acreditam dependendo até mesmo na cognição dos indivíduos Assim a reminiscência não é defina como um método mas sim uma confirmação da existência da alma humana e dos conhecimentos obtidos através dela nas formas e ideias segundo os dados relatados e apresentados pelo autor a temática é uma das principais demandantes de interpelações sobre a imortalidade e de processos analíticos e especulativos A abordagem do autor é baseada em fatos que colaboram para as mudanças frente a entendimentos relacionados a teoria da reminiscência é introduzida no Fédon Assim é imprescindível tal elemento pra a compreensão mínima sobre a entender que a alma é imortal Nesse intuito a obra apresenta o entendimento de que a reincidência não é apenas um método utilizado para compreensão sobre a existência da alma mas sim fatores definidos em ideias da própria cognição humana O autor traz uma análise sobre a reminiscência e como ela é empregada dentro de diversos acontecimentos e diálogos dentro do estudo de Platão Desse modo o autor também destaca a importância dentro das análises e argumentações de Platão sobre a alma e imortalidade trazendo assim um entendimento de como a reincidência é uma base da metafísica para esta compreensão Adiante a pesquisa apresenta ainda reflexões do autor quanto ao chamado Fédon que liga o estudo da alma a imortalidade Para o autor a reminiscência é um método de pesquisa e investigações sobre a condições existentes dentro da alma podendo ser classificada como a existência da alma e do seu conhecimento assim a obra também apresenta uma análise crítica interpretativa sobre a reminiscência e suas implicações quanto as ideias retiradas em contextos sensoriais e de experiências de Platão portanto para o autor resistência não pode ser associada a uma questão que envolve recordação mas sim sobre uma dimensão analítica quanto a metafísica superior onde a alma se encontra em contextos e formas dentro do conhecimento Franco Trabattoni dentro da construção do artigo adota uma abordagem ampla para apresentar suas perspectivas onde a interpretação da obra de Platão é considerada de suma importância para a construção de um entendimento claro dos leitores sobre a reminiscência e metafísica sobre temas que vão além de meras teorias Além disso pontos como o ser imortalidade alma e morte são os mais citados na abordagem crítica do autor O artigo proporciona indicações claras sobre a temática embora sua falta de exemplificações praticas possa dificultar a argumentação e compreensão do leitor sobre sua crítica e interpretações sobre a obra de Platão ao inserir exemplificações a demonstração prática dos argumentos do autor permite que os leitores tenham uma base de raciocínio ainda mais eficiente também seria um ponto de suma importância que em sua consideração final o artigo recapitulasse alguns dos pontos mais importantes construídos ao longo da argumentação no mais embora o artigo tenha sido construído com cuidado e com linguagem focada na construção metódica da temática seria interessante que o autor trouxesse uma escrita que abrangesse o entendimento de todos sem muitas complexidades e variações de conceitos filosóficos Dado o exposto o autor proporciona ao leitor uma concepção e análise pertinente sobre a doutrina de reminiscência abordada por Platão onde a metafísica é atribuída como um aspecto de suma importância para concepções e relações da filosofia platônica além disso a imortalidade e ideias são tratadas pelo autor como uma construção do aspecto cognitivo da humanidade No geral o artigo proporciona e oferece uma análise perspicaz sobre a reminiscência de Platão REFERÊNCIAS TRABATTONI Reminiscência e metafísica em Platão Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607
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httpsdoiorg10141951984249X267 1 AS ORIGENS DO PENSAMENTO OCIDENTAL THE ORIGINS OF WESTERN THOUGHT ARTIGO I ARTICLE Reminiscência e metafísica em Platão Recollection and Metaphysics in Plato Franco Trabattoni i httpsorcidorg0000000169193339 francotrabattoniunimiit i Università degli Studi di Milano Milano Italia TRABATTONI F 2019 Reminiscência e metafísica em Platão Archai 26 e02607 Resumo Nos mais recentes debates críticos acerca da filosofia de Platão a doutrina da reminiscência tem suscitado um interesse comparativamente menor em relação aos outros temas tratados na obra do pensador ateniense Grande parte dos estudiosos modernos tende a considerar a reminiscência um método de pesquisa bem como a marginalizar a referência a dois mundos e o trânsito da alma entre eles O que pretendo demonstrar neste artigo é que não só a 2 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 teoria da reminiscência é a condição de possibilidade necessária das nossas operações cognitivas e não um método de pesquisa como também o é apenas e só em virtude da sua valência metafísica Palavraschave Platão reminiscência condição de possibilidade conhecimento Abstract In recent scholarship the doctrine of recollection has been studied to a much lesser extent than the other main themes of Platos philosophy Most of the modern scholars seem to consider the doctrine of recollection as a research method They also seem to marginalize the reference to two worlds and the souls movement between these worlds This article intends to show that the doctrine of recollection not only is the necessary condition of possibility of our cognitive operations not a research method but also it is so only because of its metaphysical dimension Keywords Plato recollection condition of possibility knowledge Nos mais recentes debates críticos acerca da filosofia de Platão a doutrina platônica da reminiscência tem suscitado um interesse comparativamente menor em relação aos outros temas tratados na obra do pensador ateniense A razão de isto acontecer não é difícil de rastrear De fato a doutrina da reminiscência parece estar comprometida com pesados pressupostos metafísicos e até mítico religiosos os quais já não constituem moeda de troca entre os estudiosos atualmente em larga maioria que demonstram interesse nos filósofos antigos apenas na medida em que estes tratam de problemas idênticos ou similares aos discutidos pelos filósofos contemporâneos Como notou N Smith1 é por este motivo que a doutrina das Ideias já não é mais estudada enquanto teoria metafísica mas sim enquanto teoria epistemológica Por conseguinte resulta também reduzida a dimensão metafísica da reminiscência que está diretamente ligada à doutrina das Ideias seja considerando a reminiscência como um método de pesquisa o representante mais 1 Smith 2000 p 163 REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 3 autorizado desta tendência é Dominic Scott seja marginalizando de várias formas a referência a dois mundos e a passagem da alma de um para o outro2 O que hoje aqui pretendo demonstrar é que estas operações são impossíveis pelo menos na medida em que têm por objetivo a correta interpretação do pensamento platônico Na verdade para Platão não só a teoria da reminiscência é a condição de possibilidade necessária das nossas operações cognitivas como também o é apenas e só em virtude da sua valência metafísica Tentarei demonstrar esta tese sobretudo a partir do Fédon Uma vez esgotado o primeiro argumento pela imortalidade da alma o chamado argumento da antapodosis Cebes tenta corroborar as posições defendidas por Sócrates Para tal ele convoca uma doutrina frequentemente exposta por Sócrates a chamada doutrina da reminiscência anamnesis Segundo esta doutrina conhecer é uma espécie de rememoração por isso de acordo com Cebes isso implica que a alma tenha aprendido alguma coisa antes do nascimento e além disso que ela de algum modo existia antes de ter entrado no corpo 72e73a Então em reposta à questão de Símias sobre quais seriam as evidências para suportar tal tese Cebes tinha dito se for verdade Cebes oferece uma das poucas autocitações de que dispomos ao longo dos diálogos ele relembra o exemplo do Ménon onde um escravo sem nunca ter estudado geometria resolve um problema de geometria apenas respondendo às perguntas que Sócrates lhe faz 73ab No entanto Sócrates que tem sempre o cuidado de persuadir os seus interlocutores do melhor modo possível desta vez oferece uma demonstração teórica em vez de uma prática como tinha acontecido no caso do escravo Isto marca o início de uma das seções mais tortuosas e amplamente discutidas em toda a obra de Platão Na minha opinião uma grande parte dos problemas detectados no texto depende do pressuposto errôneo de que a teoria da reminiscência é uma espécie de doutrina epistemológica ou um método ou caminho através do qual se torna possível atingir o conhecimento particularmente das 2 Um exemplo é Gonzalez 2007 que vê na anamnese uma expressão do eros 4 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 Ideias3 Esta abordagem tem inspirado a hipótese agora amplamente debatida de que a reminiscência é uma faculdade que Platão atribui não a todos os homens mas apenas aos filósofos4 os únicos capazes de atingir algum conhecimento da realidade ideal Um corolário possível desta tese é que Platão acabou por abandonar a reminiscência como método cognitivo em favor da dialética do mesmo modo que mudou o papel do filósofo metafísico e especulativo para o de um analítico e especulativo Uma primeira razão pela qual esta interpretação não pode estar correta pode ser encontrada na comparação desta passagem com aquelas um pouco anteriores 66e67a em que Sócrates declara peremptoriamente o seguinte se algum conhecimento do mundo 3 Vide esp Franklin 2005 p 289 que começa o texto com a peremptória e injustificada afirmação de que a reminiscência é uma teoria da aprendizagem Vide Dimas 2003 para uma crítica apurada A interpretação de Dimas sobre a doutrina da reminiscência do Fédon é a que mais se aproxima da que proponho neste texto 4 Scott 1995 que já tinha apresentado esta tese a qual diz respeito particularmente à interpretação da reminiscência no Ménon em vários estudos anteriores uma rápida discussão das duas alternativas já se encontrava em Gallop 1975 p 119 121 Um panorama recente do estado da questão é providenciado por Franklin 2005 p 289291 Franklin chama interpretação comum defendida por Hackforth 1972 Gosling 1965 Ackrill 1974 e Bostock 1986 entre outros e interpretação sofisticada aquela subscrita por Scott No seguimento da publicação dos estudos de Scott a interpretação comum foi defendida com diversas nuanças por Kelsey 2000 Osey 2001 e Dimas 2003 uma posição intermédia foi privilegiada por BeduAddo 1991 e Williams 2002 A este respeito Franklin 2005 tende a aceitar a interpretação comum ao mesmo tempo que faz várias concessões à interpretação rival na sua leitura há um aspeto da reminiscência que é acessível apenas aos filósofos a mesma leitura é partilhada por Williams 2002 Notese todavia que a posição dos oponentes de Scott fica consideravelmente enfraquecida pelo fato de eles partilharem do seu pressuposto nomeadamente a ideia de que a reminiscência é um método de cognição um método que argumentam estes estudiosos explica a formação de conceitos abstratos ou universais vide eg Williams 2002 p 131 Se fosse este o caso posto que o método em questão reconduz em última instância às Ideias teríamos então que ou negar que a reminiscência diz respeito a todos os homens ou fazer uma distinção entre reminiscência generalis e reminiscência specialis Mas logo que percebermos que a reminiscência não é nem um método de investigação nem um modo de explicar como os conceitos são formados como eu tentarei demonstrar neste texto nenhum destes problemas se coloca REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 5 ideal é de fato possível ele só pode ser obtido após a morte Ora tendo em conta que a teoria da reminiscência se circunscreve ao fato de a alma necessariamente possuir conhecimento na sua forma não encarnada ie antes da sua união com um corpo é altamente improvável que o objetivo desta teoria seja preencher a lacuna entre o conhecimento imperfeito que distingue o compósito corpoalma e o conhecimento perfeito que caracteriza a alma nãoencarnada Esta ideia inicial se torna praticamente uma certeza se examinarmos como e para que finalidade a teoria da reminiscência é introduzida no Fédon Não devemos esquecer que a razão pela qual ela é introduzida é para demonstrar que a alma é imortal ou pelo menos que ela deve necessariamente existir antes da sua encarnação De modo a demonstrálo é necessário provar que a alma necessariamente teve conhecimento de determinados objetos antes do nascimento Seguramente que isto não exclui a possibilidade de que a alma possa conhecer tais objetos mesmo depois da encarnação Poderíamos conjecturar o cenário o homem na sua condição mortal pode conhecer tanto os particulares ie coisas sensíveis iguais quanto os universais ie a igualdade em si No entanto visto que o conhecimento destes não pode ser derivado do conhecimento daqueles pois nada que possua uma natureza universal se oferece aos sentidos devemos concluir que a alma conhecia as Ideias antes da sua encarnação e que depois de encarnada colheu o conhecimento dos universais através do método da reminiscência No entanto é fácil de ver que este argumento não funciona Porque se fosse verdade que os homens têm um conhecimento pleno das Ideias mesmo na sua condição mortal o problema levantado pelo Fédon poderia ser explicado de um modo alternativo invocando simplesmente o fato de que o homem dispõe de duas faculdades diferentes para conhecer os sentidos e o intelecto as quais dizem respeito a dois tipos de objetos diferentes sensíveis particulares e inteligíveis universais E se fosse este o caso de modo a obter conhecimento dos universais o homem teria apenas que exercitar o pensamento puro em vez dos sentidos sem ter de pressupor que os 6 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 inteligíveis existem em uma dimensão separada5 Mas este não é claramente o caso O problema desaparece todavia se tomarmos em conta que a reminiscência não é um método para obter conhecimento das Ideias Mas onde então reside a sua significância Uma leitura mais apurada torna manifesto que ambos Ménon e Fédon convocam a reminiscência pela mesma razão nomeadamente para encontrar uma justificativa suficiente no sentido kantiano tomado lato sensu de condição de possibilidade para os fenômenos reais tais como a aprendizagem e o estado de conhecimento que desta deriva6 No Ménon tratase de ultrapassar o paradoxo erístico segundo o qual não podemos aprender nem o que já sabemos pois isto seria inconsequente nem o que não sabemos pois isto seria impossível7 No entanto visto que aprender é um fato real é necessário postular um ponto intermédio entre conhecimento e ignorância E é precisamente este o estado ilustrado pela reminiscência a qual explica a aprendizagem não como uma transição da ignorância para o conhecimento mas sim como uma transição de conhecimento virtual ie esquecido para conhecimento atual 5 Dimas 2003 p 193 nota oportunamente se independentemente da doutrina da reminiscência Platão acreditasse que as Ideias existem e que podem ser conhecidas pelas almas humana que vantagem filosófica derivaria de evidenciar o fato de que a percepção recupera um conhecimento que a alma possuía antes do nascimento 6 A diferença entre os dois diálogos é por outro lado evidenciada por Lafrance 2007 É claro que existem algumas diferenças mas elas não são tão significantes quanto os estudiosos muitas vezes sugerem em todo o caso elas não são suficientemente fortes para sugerir que Platão não acreditava nesta doutrina como argumenta Weiss 2000 Do mesmo modo as tentativas no sentido de reduzir a doutrina da reminiscência a uma dimensão estritamente epistemológica não podem estar totalmente corretas mesmo que contenham algumas sugestões interessantes vide eg Nakagawa 2000 7 Ménon 80de Contra a objeção de que a reminiscência não resolveria o problema da aprendizagem o qual reapareceria nos mesmos termos em relação ao estado pré natal da alma eg Bostock 1986 p 109 vide Gallop 1975 p 133 e Trabattoni 2006 p 704707 o conhecimento adquirido neste estado deve ser de natureza imediata e direta REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 7 Apesar de o Ménon incluir uma alusão à sobrevivência da alma depois da morte 81ac não faz nenhuma menção às Ideias Em contraste no Fédon as Ideias são o elemento central de todo o argumento a condição de possibilidade para aprender e adquirir conhecimento é precisamente a existência de Ideias no hyperuranion e por conseguinte a existência de uma alma que teve a capacidade de as conhecer nessa dimensão anterior à sua encarnação em um corpo Esta é na verdade a razão pela qual Platão introduz a doutrina da reminiscência no Fédon não para descrever um determinado método de investigação mas sim para demonstrar a natureza necessariamente metafísica da alma Se for este o caso poderemos compreender facilmente por que é impossível Platão ter substituído a reminiscência pela dialética são duas coisas completamente diferentes Enquanto que a reminiscência é a condição de possibilidade metafísica para o conhecimento a qual não corresponde a nenhum método concreto 8 é enunciada no Fédon apenas para demonstrar que a alma existe antes do corpo a dialética é precisamente o método de cognição que o homem deve utilizar na sua condição presente Por esta altura se torna evidente que a doutrina da reminiscência só poderá ser adequadamente entendida se tivermos em conta o dualismo metafísico em que assenta o qual por sua vez está ligado à imortalidade da alma 9 Poderemos adiantar que os complexos 8 Na minha leitura também o tratamento da reminiscência adiantado no Ménon é deste tipo o experimento com o escravo é apenas destinado a demonstrar que todos os homens se se aplica a um jovem escravo ignorante mais ainda aos outros conseguem levar a cabo certos atos de conhecimento que não conseguiriam se as suas almas não possuíssem algum conhecimento que fora adquirido antes da encarnação no corpo Em ambos os diálogos portanto o raciocínio é sempre o mesmo Platão parte de operações que todos os homens conseguem fazer em um caso resolver um problema geométrico no outro perceber a diferença entre o que é o mesmo aproximadamente e a forma perfeita do Mesmo e depois identifica condições de possibilidade suficientes para tais operações ie o conhecimento pré natal da alma Entre estas condições as Ideias são referidas apenas no Fédon porque é apenas neste caso que a condição de partida o conhecimento implícito da forma perfeita do Mesmo o exige 9 Este requisito é corretamente evidenciado por Kelsey 2000 p 9193 8 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 problemas identificados pelos estudiosos de tendência analítica se devem ao erro de eles não terem em conta este background Quem sustenta por exemplo que a doutrina da reminiscência pressupõe a existência de Ideias como uma dada condição prévia 10 está claramente misturando Ideias platônicas com universais genéricos11 enquanto que a separação da realidade sensível é uma característica distintiva das Ideias como Aristóteles claramente notou Dada esta separação o objetivo da reminiscência não é rememorar o conhecimento esquecido das Ideias mas sim provar que os universais que reconhecemos na experiência sensível são cópias dos modelos perfeitos que existem no hyperuranion ie que são Ideias platônicas A doutrina da reminiscência tal como exposta no Fédon permite traçar o seguinte cenário 1 todos os homens no momento em que nascem têm um conhecimento prévio mas agora esquecido dos universais 2 assim sendo Sócrates pode recorrer a argumentos complexos acessíveis apenas aos filósofos de modo a demonstrar que no hyperuranion existem objetos a saber as Ideias ie os modelos perfeitos dos universais imperfeitos que encontramos na realidade mundana e por conseguinte que a alma já existia antes de ser encarnada em um corpo 3 se por ora deixarmos de lado a exposição do Fédon que se dirige à imortalidade da alma e 10 Vide Scott 1995 mas é uma tese bastante disseminada vide eg Burnet 1911 passim Hackforth 1972 p 73 Decleva Caizzi 1986 p 33 e Kelsey 2000 p 99 101 A perspectiva oposta é sustentada entre outros por Woolf 2000 p 123125 e Dimas 2003 p 184185 194 n 25 Vide também Trabattoni 2006 p 706 n 16 dada a existência das Ideias a reminiscência seria o método que possibilita recuperar um conhecimento objetivo delas De fato na minha leitura a interpretação correta da doutrina da reminiscência sugere exatamente o contrário o propósito da reminiscência não é habilitar o conhecimento das Ideias uma vez estabelecida a sua existência mas sim assegurar a existência das Ideias no hyperuranion mesmo que não seja possível atingir nenhum conhecimento objetivo delas o que resulta óbvio dado que tal doutrina serve para demonstrar que as Ideias estão no hyperuranion 11 Isto resolve um dos problemas que inspirou a interpretação sofisticada nomeadamente a hipótese de que a reminiscência se aplica apenas àqueles que já conhecem as Ideias o que seguramente inclui aqueles que ainda não são filósofos vide Franklin 2005 p 290 REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 9 seguirmos uma via hipotética na direção do conhecimento das Ideias poderemos retirar duas conclusões 3a as Ideias nunca poderão ser conhecidas de um modo total e completo as versões originais dos objetos terrenos existem apenas no hyperuranion 3b o conhecimento aproximado das Ideias é atingível por aqueles que exercitam a dialética como questionamento da alma No meu entendimento a justeza desta interpretação é claramente confirmada pela sua capacidade de resolver muitos dos problemas que os estudiosos contemporâneos vêm há muito debater sem nunca terem chegado a uma solução aceitável Como vimos muito se tem dito tanto a favor quanto contra a tese de Scott de que a reminiscência está disponível apenas para os filósofos Uma objeção contra esta tese foi lançada primeiro pelo próprio Scott que procurava respondê la12 e depois por muitos dos seus críticos13 se a reminiscência estivesse disponível apenas para os filósofos apenas a alma do filósofo existiria antes do corpo Esta inferência claramente pressupõe que o inverso também é verdadeiro de modo a provar que a alma do indivíduo X existe antes do corpo é necessário demonstrar que o indivíduo em questão é capaz de praticar a reminiscência em teoria pelo menos E se quisermos demonstrar que as almas de todos os homens existiam antes dos seus corpos teremos que demonstrar que em princípio todos os homens podem praticar a reminiscência14 Mas será de fato plausível concluir que segundo Platão todos os homens possuem esta capacidade Claramente não Então se a préexistência da alma se deve aplicar a todos não poderá de modo algum estar condicionada pela possibilidade de recuperar ou de conhecer Ideias no presente Na verdade a reminiscência opera de modo diferente ela prova que a alma existe antes do corpo na medida em que mostra que todos os homens são capazes de executar determinadas operações de aquisição de conhecimento operações 12 Scott 1995 p 6971 13 Vide eg Franklin 2005 p 290 e já anteriormente Bostock 1986 p 67 14 Vide Sedley 2007 p 69 10 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 diferentes da aquisição do conhecimento das Ideias 15 as quais todavia não poderiam executar se os objetos como as Ideias não existissem e se as suas almas não as tivessem conhecido antes da sua encarnação em um corpo 16 Pelo menos neste caso portanto a diferença entre filósofos e nãofilósofos não tem que ver com o grau de conhecimento que têm do mundo Em vez disso diz respeito à capacidade ou à falta dela respectivamente de interpretar corretamente este conhecimento apenas os filósofos se apercebem do fato de que aprender é rememorar17 bem como tudo o que se segue daqui Por isso apenas os filósofos percebem que a alma de todos os homens contemplaram as Ideias antes da encarnação e que por conseguinte existiam antes do corpo18 Tudo isto é confirmado pelo fato de que no seu argumento Sócrates nunca explica como o suposto método de reminiscência deve ser aplicado o que seria bastante estranho se a reminiscência fosse de fato um método 19 O argumento é deveras longo e 15 Uma excelente definição é fornecida por Dimas 2003 p 186 o qual refere simplesmente pensamento conceitual 16 Isto foi corretamente notado por Kelsey 2000 p 9495 114115 17 76a67 18 A observação de que a doutrina da reminiscência é algo demasiado complexo para as pessoas comuns e que por isso diz respeito apenas aos filósofos como defende Scott resulta assim facilmente refutada Ainda que tal doutrina seja deveras complexa isso não coloca nenhum obstáculo visto que o seu objetivo não é demonstrar às pessoas como atingir conhecimento Uma boa metáfora para o raciocínio de Scott seria a seguinte já que só os médicos conseguem compreender as causas da digestão em toda a sua complexidade só os médicos digerem comida 19 Vide Frede 2001 p 255 cf Frede 1998 parece que Platão nunca chega a explicar nem a aplicar com clareza o método da reminiscência sendo o caso particular do Ménon a única exceção No entanto a interpretação de Frede fornece uma ilustração exemplar de como é possível retirar conclusões errôneas deste fato Frede que considera tal situação insatisfatória esforçase por identificar no Fédon um possível modo em que o suposto método de reminiscência poderia funcionar que é o seguinte termos a capacidade de retirar inferências em relação a conexões nãoempíricas e por isso não óbvias a partir de dados empíricos p 258 No entanto esta interpretação distorce por completo as intenções de Platão Se Platão nunca explica no Fédon como funciona a reminiscência não temos o direito de ficar insatisfeitos Em vez disso temos o dever de descobrir por que ele não explica isso E a razão é precisamente o fato de a reminiscência não ser um método de pesquisa mas apenas um modo de demonstrar que as Ideias existem no REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 11 complicado mas o núcleo da prova está contido na sua quase totalidade numa passagem bastante curta a qual merece ser analisada 74d75a Imaginemos que eu estou vendo duas coisas que me parecem as mesmas As minhas faculdades cognitivas claramente me permitem executar as duas seguintes operações 1 ver que estas coisas são aproximadamente as mesmas 2 perceber que elas não são incondicionalmente as mesmas Podemos então perguntar o que me faz perceber que uma determinada coisa é a aproximadamente a mesma mas não incondicionalmente a mesma De modo a consegui lo parece que isso se deve a pelo menos um certo conhecimento do que é incondicionalmente igual porque de outro modo eu não conseguiria perceber que algo é aproximadamente igual mas não incondicionalmente igual Mas visto que neste mundo não há exemplos de coisas incondicionalmente as mesmas ou incondicionalmente belas é necessário que eu tenha adquirido este conhecimento em outra dimensão anterior à minha vida presente20 E visto que aquilo que é o mesmo de modo perfeito é claramente a Ideia de Mesmo a totalidade do argumento se resume ao seguinte 1 há alguns atos reais de cognição disponíveis para todos que implicam um conhecimento prévio das Ideias 2 tal conhecimento das Ideias não pode ter sido adquirido nesta vida 3 por isso é necessário que tenha havido uma vida da alma o sujeito responsável pelos atos em causa anterior à vida presente 4 por conseguinte a alma já existia antes da sua encarnação em um corpo21 hyperuranion o que por sua vez serve para demonstrar que a alma é imortal é apenas isto que o texto atesta que basta para Platão e que deve bastar também para nós Além disso continua sendo válido que a reminiscência é também o pressuposto metafísico que tal como um fio condutor implícito orienta a dialética no caminho para chegar à verdade vide Trabattoni 2010 p 310313 mas ela é apenas uma condição metafísica que torna possível o conhecimento e não um método de investigação por conseguinte tornase é absolutamente errôneo perguntar como funciona 20 Vide Thein 2001 p 270 21 A estreita conexão entre a doutrina das Ideias e a imortalidade da alma é perfeitamente evidente no Fédon como os estudiosos têm notado Vejase por exemplo Gallop 1975 p 97 que no entanto está errado em defender que esta teoria nunca é demonstrada no diálogo já que Platão dá provas da existência das 12 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 Se a reminiscência fosse mesmo um método de investigação dirigido ao conhecimento das Ideias seria exigido um cenário completamente diferente 1 os homens esquecem as Ideias do mesmo modo em que por exemplo neste momento não lembro da aparência de um determinado amigo 2 o objetivo da reminiscência é justamente recuperar da minha mente a aparência do amigo que esqueci 3 para fazêlo eu emprego os mesmos procedimentos mnemotécnicos que uso quando estou tentando recuperar a imagem do amigo que tinha perdido associação autoconcentração ajuda de uma pessoa que teve a mesma experiência que eu e está em condições de relembrar etc 4 se estes procedimentos atingirem o seu propósito o resultado é que não só eu consigo lembrar o que tinha esquecido como também eu fico com a impressão de que já sabia no passado aquilo que agora estou relembrando Vejamos o exemplo de Símias e do seu retrato a pessoa que vê o retrato e relembra o próprio Símias estabelece um contato com a experiência realmente vivida bem como se apercebe desta experiência passada como algo que de fato ocorreu na sua vida No entanto é claro que o mesmo não se aplica à reminiscência de que Platão fala a saber o caso de alguém que vê coisas sensíveis como as mesmas e rememora o Mesmo em si Esta experiência não inclui reconhecimento de nenhuma experiência anterior ie do momento em que a alma contemplou o Mesmo em si antes da sua encarnação em um corpo22 Se o contrário fosse verdade a reminiscência de Platão seria parecida à experiência extática que se diz que Pitágoras teve e que lhe permitiu relembrar as suas vidas passadas Na verdade a reminiscência platônica é reminiscência apenas na medida em que é o conhecimento de algo que necessariamente deve ter sido de fato conhecido anteriormente sem implicações subjetivas A reminiscência seria um método de Ideias pelo menos por duas vezes nesta passagem durante a discussão sobre a reminiscência e mais adiante na resposta a Cebes Sobre a natureza metafísica e transcendental das Ideias vide Gerson 1999 Kelsey 2000 e Dimas 2003 esp p 214 22 Como bem notou Bostock 1986 p 62 a ideia de que não relembramos verdadeiramente aquilo que sabíamos anteriormente não está de fato em jogo neste argumento REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 13 investigação especial apenas se tais implicações subjetivas estivessem em causa Visto que não estão o método de reminiscência acaba sendo nada mais que o método socrático normal o qual consiste em perguntas e respostas ou seja a dialética Este é de fato o caso do experimento com o jovem escravo no Ménon Sócrates apenas formula perguntas que lhe são familiares sem nunca tentar estimular a memória do jovem escravo com procedimentos mnemotécnicos especiais Mas são precisamente estes procedimentos especiais que constituem a característica distintiva da reminiscência como método 23 No entanto visto que estes procedimentos não existem se a reminiscência é um método de investigação este método é a dialética Assim reminiscência e dialética acabam sendo a mesma coisa Se pelo contrário reminiscência e dialética são duas coisas diferentes então a reminiscência não pode ser um método de investigação24 Bibliografia ACKRILL J 1973 Anamnesis in the Phaedo Remarks on 73c 75c In LEE E N MOURELATOS A P D RORTY R M eds Exegesis and argument Studies in Greek Philosophy Presented to Gregory Vlastos Assen van Gorcum p 177195 BEDUADDO J 1991 Senseexperience and the argument for recollection in Platos Phaedo Phronesis 36 p 2760 23 Vide Fédon 74c1342 a condição necessária e suficiente para falar sobre reminiscência é esta e apenas esta a visão de uma coisa lembranos de outra A hipótese de que a reminiscência é um método de aprendizagem pode ter sido inspirada precisamente pelos referidos exemplos nos quais a reminiscência parece implicar um ato genuíno de rememoração Mas mesmo que tomássemos estes exemplos de um modo literal o tipo de atividade estimulado pela anamnesis coincidiria não com o exercício da dialética mas sim com as formas comuns de introspeção a que recorremos quando procuramos relembrar experiências esquecidas Cumpre notar que não se encontra em Platão nenhuma sugestão de que tais práticas possam constituir um método para conhecer as Ideias 24 Tradução para o português de Rodolfo Lopes Revisão de Rosane Maia 14 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 BOSTOCK D 1986 Platos Phaedo Oxford Oxford University Press BURNET J 1911 Platos Phaedo Oxford Oxford University Press DECLEVA CAIZZI F 1986 Lettura del Fedone Milano Cusl DIMAS P 2003 Recollecting Forms in the Phaedo Phronesis 48 p 175214 FRANKLIN L 2005 Recollection and Philosophical reflection in Platos Phaedo Phronesis 50 p 289314 FREDE D 2001 Not in the Book How Does Recollection Work In HAVLICEK A KARFÍK F eds Platos Phaedo Proceedings of the Second Symposium Platonicum Pragense Prague Oikoumenh p 241265 GALLOP D 1975 Plato Phaedo Oxford Clarendon Press GERSON L P 1999 The Recollection Argument revisited Apeiron 34 p 115 GONZALEZ F J 2007 How is the Truth of Beings in the soul Interpreting Anamneisis in Plato Elenchos 28 p 275302 GOSLING J 1965 Similarity in the Phaedo 73f sqq Phronesis 10 p 151161 HACKFORTH R 1972 Platos Phaedo 2ed Cambridge Cambridge University Press 1ed 1955 KELSEY S 2000 Recollection in the Phaedo Proceedings of the Boston Area Colloquium in Ancient Philosophy 16 p 91121 LAFRANCE Y 2007 Les puissances cognitives de lâme la réminiscence et les Formes intelligibles dans le Ménon 80a86d et le Phédon 72e77a Études Platoniciennes 4 p 239252 NAKAGAWA S 2000 Recollection and forms in Platos Phaedo Hermathena 169 p 5768 OSEY R 2001 The argument for recollection in the Phaedo a defense of the standard interpretation Scolia new series 10 p 22 37 REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO 15 POLITIS V 2010 Explanation ad Essence in Platos Phaedo In CHARLES D ed Definition in Greek Philosophy Oxford Oxford University Press p 62114 SCOTT D 1995 Recollection and Experience Cambridge Cambridge University Press SEDLEY D 2007 Equal Sticks and Stones In SCOTT D ed Maieusis Essays in Ancient Philosophy in Honour of Myles Burnyeat OxfordNew York Oxford University Press p 6885 SMITH N 2000 Plato on Knowledge as a Power Journal of the History of Philosophy 38 p 145168 THEIN K 2001 Ἀνάμνησις and φρόνησις in the Phaedo In HAVLICEK A KARFÍK F eds Platos Phaedo Proceedings of the Second Symposium Platonicum Pragense Prague Oikoumenh p 266274 TRABATTONI F 1998 Platone Roma Carocci TRABATTONI F 2003 Sui caratteri distintivi della metafisica di Platone a partire dal Parmenide Methexis 16 p 4363 TRABATTONI F 2006 Lintuizione intellettuale in Platone In margine ad alcune recenti pubblicazioni Rivista di Storia della filosofia 61 p 701719 TRABATTONI F 2010 Fondazionalismo o coerentismo In margine alla terza definizione di ἐπιστήμη nel Teeteto Ιn MAZZARA G NAPOLI V ed Platone la teoria del sogno nel Teeteto Atti del Convegno Internazionale Palermo 2008 Sankt Augustin Academia p 295317 WEISS R 2000 The Phaedos rejection of the Menos theory of recollection Scripta Classica Israelica 19 p 5170 WILLIAMS T 2002 Two aspects of Platonic recollection Apeiron 35 p 131152 WOOLF R 2000 Commentary on Kelsey Proceedings of the Boston Area Colloquium in Ancient Philosophy 16 p 121131 Submetido em 23102018 e aprovado para publicação em 24102018 16 Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607 Este é um artigo de acesso livre distribuído nos termos da licença Creative Commons Attribution que permite uso irrestrito distribuição e reprodução em qualquer meio desde que o trabalho original seja citado de modo apropriado RESENHA CRÍTICA REMINISCÊNCIA E METAFÍSICA EM PLATÃO O artigo intitulado Reminiscência e metafísica em Platão escrito por Franco Trabattoni traz um estudo sobre a filosofia de Platão e a reminiscência presente em sua doutrina além de destacar como está matéria se relaciona com o chamado Fédon Ainda aborda questões sobre as condições de possibilidades para as formações cognitivas dentro de métodos de pesquisas que utilizam da metafísica para sua formação Por isso o artigo visa ainda transmitir ao leitor o entendimento quanto ao tema que se faz de grande complexidade e relevância na sociedade contemporânea e meio acadêmico A presente resenha critica tem como foco central apresentar o pensamento do autor quanto aos preceitos e demais argumentos contidos dentro da aplicação dessa doutrina para a formação de uma compreensão mais abrangente quanto aos métodos de pesquisas e de conhecimentos epistemológicos As argumentações do autor podem ser enfatizadas seguindo os prismas das inovações filosóficas quanto a temática Trabattoni acredita na forma que a reminiscência pode ser crucial para a metafísica dentro da natureza da alma e sua relação com as teorias e desafios contidos nessa área Além disso a resenha também busca analisar a perspectiva do autor sobre as principais implementações dentro do caminho do conhecimento abrangendo questões que permeio o estudo da natureza humana afim de examinar os desafios práticos e teóricos dos conflitos neste âmbito e sua interação com o mundo ao redor A estrutura do artigo de Trabattoni onde o autor argumentar de maneira prática e objetiva sobre a complexidade do tema contribuindo para as percepções dos leitores e para construção da abordagem da obra Assim o artigo do autor deve ser analisado de maneira abrangente uma vez que colabora para o entendimento quanto a utilização da metafísica nos estudos de Platão Longo em sua introdução a obra aborda a apresentação do tema e a problemática que permeia sobre a doutrina e reminiscência do filósofo Contextualizando a funcionalidade e importância da temática para a filosofia platônica A discussão do artigo traz também debates contemporâneos que se relacionam com arbitragem atuais e também sobre a filosofia de Platão Assim inicialmente o artigo começa aplicando demonstrando aspectos gerais sobre as considerações do tendo em vista que a identificação da reminiscência contribui para a percepção de fatores epistemológicos como este contém ditames necessários a serem seguidos não somente pela sociedade mas também através dos meios acadêmicos Ademais o autor também apresenta pensamentos de outros filósofos como Sócrates e Cebes cada um com sua perspectiva sobre a imortalidade da alma e interpretações sobre os pensamentos platônicos Assim a obra traz um entendimento detalhado sobre o conceito e reminiscência em Platão e como o diálogo em torno do Mênon e Fédon é construído ao longo das interpretações contemporâneas e dos métodos de pesquisas utilizados para a recordação sobre o conhecimento e recapitula a importância das questões que abrangem a metafísica na filosofia platônica Deste modo destacase a necessidade de uma abordagem mais complexa quanto a temática dentro da pesquisa filosófica e como está pode ser fundamental para evitar confusões sobre aspectos que são relacionados sobre o ser e sobre a natureza da alma O autor enfatiza um problemático presente nos textos estudados para a fundamentação da obra sendo eles a maneira como a teoria da reminiscência na doutrina epistemológica são usados como um método ineficiente para apontar o conhecimento real neste sentido muito se fala de que a construção de Platão sobre a reminiscência é ficada somente aos filósofos e não aos homens como um todo A obra ainda destaca como uma interpretação contemporânea sobre o estudo de Platão pode ser um fator necessário desmistificar a marginalização de aspectos metafísicos O autor argumenta como o processo de formação do conhecimento não é simples como muitos acreditam dependendo até mesmo na cognição dos indivíduos Assim a reminiscência não é defina como um método mas sim uma confirmação da existência da alma humana e dos conhecimentos obtidos através dela nas formas e ideias segundo os dados relatados e apresentados pelo autor a temática é uma das principais demandantes de interpelações sobre a imortalidade e de processos analíticos e especulativos A abordagem do autor é baseada em fatos que colaboram para as mudanças frente a entendimentos relacionados a teoria da reminiscência é introduzida no Fédon Assim é imprescindível tal elemento pra a compreensão mínima sobre a entender que a alma é imortal Nesse intuito a obra apresenta o entendimento de que a reincidência não é apenas um método utilizado para compreensão sobre a existência da alma mas sim fatores definidos em ideias da própria cognição humana O autor traz uma análise sobre a reminiscência e como ela é empregada dentro de diversos acontecimentos e diálogos dentro do estudo de Platão Desse modo o autor também destaca a importância dentro das análises e argumentações de Platão sobre a alma e imortalidade trazendo assim um entendimento de como a reincidência é uma base da metafísica para esta compreensão Adiante a pesquisa apresenta ainda reflexões do autor quanto ao chamado Fédon que liga o estudo da alma a imortalidade Para o autor a reminiscência é um método de pesquisa e investigações sobre a condições existentes dentro da alma podendo ser classificada como a existência da alma e do seu conhecimento assim a obra também apresenta uma análise crítica interpretativa sobre a reminiscência e suas implicações quanto as ideias retiradas em contextos sensoriais e de experiências de Platão portanto para o autor resistência não pode ser associada a uma questão que envolve recordação mas sim sobre uma dimensão analítica quanto a metafísica superior onde a alma se encontra em contextos e formas dentro do conhecimento Franco Trabattoni dentro da construção do artigo adota uma abordagem ampla para apresentar suas perspectivas onde a interpretação da obra de Platão é considerada de suma importância para a construção de um entendimento claro dos leitores sobre a reminiscência e metafísica sobre temas que vão além de meras teorias Além disso pontos como o ser imortalidade alma e morte são os mais citados na abordagem crítica do autor O artigo proporciona indicações claras sobre a temática embora sua falta de exemplificações praticas possa dificultar a argumentação e compreensão do leitor sobre sua crítica e interpretações sobre a obra de Platão ao inserir exemplificações a demonstração prática dos argumentos do autor permite que os leitores tenham uma base de raciocínio ainda mais eficiente também seria um ponto de suma importância que em sua consideração final o artigo recapitulasse alguns dos pontos mais importantes construídos ao longo da argumentação no mais embora o artigo tenha sido construído com cuidado e com linguagem focada na construção metódica da temática seria interessante que o autor trouxesse uma escrita que abrangesse o entendimento de todos sem muitas complexidades e variações de conceitos filosóficos Dado o exposto o autor proporciona ao leitor uma concepção e análise pertinente sobre a doutrina de reminiscência abordada por Platão onde a metafísica é atribuída como um aspecto de suma importância para concepções e relações da filosofia platônica além disso a imortalidade e ideias são tratadas pelo autor como uma construção do aspecto cognitivo da humanidade No geral o artigo proporciona e oferece uma análise perspicaz sobre a reminiscência de Platão REFERÊNCIAS TRABATTONI Reminiscência e metafísica em Platão Rev Archai n 26 Brasília 2019 e02607